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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


OS LIBERTINOS / Harold Robbins
OS LIBERTINOS / Harold Robbins

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Se é possível fazer tal julgamento em obra tão complexa, tão vasta e ainda em desenvolvimento e plenitude, aqui está a obra-prima de Harold Robbins. As qualidades, as vivências, os interesses demonstrados com tanto vigor em Os Insaciáveis, Escândalo na Sociedade, Os Implacáveis, 79 Park Avenue e outros livros seus, se precisam, acentuam e requintam em Os Libertinos, numa intensidade que não é apenas de grau, mas também de natureza, como se o escritor houvesse adquirido uma visão mais aguda e clinica das coisas e das pessoas.

        Isso acontece a tal ponto que não hesitamos em afirmar que este livro, embora autenticamente de Robbins, é diferente de todos os outros que já publicou.

        Em primeiro lugar, pelo cenário no qual se desenrola a ação. Se, nos outros livros, Robbins escolheu um território determinado e mais ou menos restrito para servir de palco à ação dos seus livros, estendeu neste os olhos pelo mundo e fez tudo desenvolver-se simultaneamente numa república da América do Sul, nos Estados Unidos, na França, na Riviera, na Inglaterra, em Macau, numa pitoresca multiplicidade de ambientes, impregnados de veracidade, aumentando assim o interesse e o dinamismo da ação.

        Segundo, pela variedade quase infinita de tipos. Há naturalmente um personagem central, que é Dax, o impetuoso Dax, diante de quem os homens tremiam e as mulheres deliravam. Mas, em torno dele e era contato com ele, desfila uma variedade interminável de pessoas — homens e mulheres, principalmente mulheres — todas levadas, tangidas e batidas pelas forças mais vigorosas da existência humana — o amor e o interesse.

        Dissemos amor e seria melhor dizer desejo, porque é o desejo, a volúpia, a embriaguez fundamental da sensualidade que joga dezenas de mulheres nos braços de Dax e dos outros personagens masculinos num ulular constante de luxúria.

        E este livro é ainda diferente de todos os outros de Harold Robbins pela intensa movimentação da sua ação, que nos faz penetrar na intimidade de vários meios cheios de interesse e vibração — das selvas fervilhantes de bandoleros à Paris ocupada pelos nazistas, dos gabinetes dos banqueiros aos meandros das casas de prazer — em cenas inesquecíveis desde a inicial com o seu excesso transbordante de violência e crueldade até à sobriedade trágica daquele duelo final.

        Leiam, pois, neste livro, a história de Dax e do seu mundo. De um Dax ardoroso, valente, generoso, sentimental, contraditório, desiludido e cínico e de um mundo que não era melhor do que ele.

 

 

 

 

                         EPILOGO COMO PRÓLOGO

        Era dez anos depois da violência em que ele morreu. E o seu tempo na terra terminara. O contrato que ele tinha sobre este último cubículo de refúgio havia expirado. O processo ia ser completado, e ele voltaria às cinzas e ao pó da terra de que tinha vindo.

        O sol dos trópicos desfechava ondas de candente umidade sobre as cruzes pretas pintadas nas paredes caiadas do cemitério quando o jornalista americano saltou do táxi diante dos portões enferrujados. Ele deu ao chofer uma nota de cinco pesos e se afastou antes que o homem tivesse tempo de dizer gracias.

        As barraquinhas de flores já estavam movimentadas. Mulheres de preto compravam pequenos apanhados de flores, com os seus pesados véus negros, que pareciam protegê-las do calor, e ao mundo, da sua dor. Os mendigos também estavam presentes e as crianças, com os grandes olhos escuros sumidos no fundo das olheiras e as barrigas estofadas de fome. Estenderam à sua passagem as mãos sujas para pegar as moedas que ele negligentemente nelas deixou cair.

        Depois que transpôs o portão, houve silêncio. Era como se alguma chave geral houvesse desligado o mundo exterior. Um homem fardado estava sentado numa barraca aberta. Ele dirigiu-se para lá.

        — Xenos, por favor.

        — Calle 6, apartamiento veinte — disse o homem, em cujo rosto ele julgou ver uma leve expressão de surpresa.

        O jornalista americano prosseguiu com um sorriso. Até na morte apegavam-se à rotina da vida. As aléias do cemitério eram chamadas de ruas, e as construções dentro de cujas paredes os mortos descansavam tinham o nome de apartamentos. Mas ele não compreendia a surpresa no rosto do homem.

        Estava ele na portaria do hotel folheando os jornais locais, como sempre fazia quando chegava a uma cidade e encontrara por fim a noticia que procurava. Eram apenas quatro linhas sumidas nas últimas páginas, entre uma porção de noticias maiores.

        Seguiu por uma aléia de custosos mausoléus. Foi lendo displicentemente os nomes. Ramirez, Santos, Oberón, López. Apesar do calor do sol, caia dos mármores brancos uma perceptível frieza. Sentiu no colarinho a transpiração úmida e fresca.

        O caminho se alargou. À esquerda, havia terrenos abertos, nos quais se viam covas pequenas, abandonadas, esquecidas. Eram as sepulturas dos pobres, jogadas na terra em frágeis caixões de madeira para que se desintegrassem à lei da natureza, sem cuidados nem saudades. À direita, estavam os apartados, as casas de cômodos dos mortos.

        Eram grandes construções, com telhados espanhóis vermelhos e cinzentos, de seis metros de altura e uns doze de largura por vinte e cinco de comprimento, feitas de blocos de cimento branco de um metro de altura e que tinham um pouco menos do que isso de cada lado para que mais ocupantes pudessem encher-lhes as paredes. Cada quadrado trazia o nome do ocupante, com uma cruzinha gravada no cimento acima do nome e a data da morte embaixo.

        Na primeira construção havia uma placa de metal que dizia: Calle 3, apartamiento 1. Tinha ainda muito que andar. Sentia terrivelmente o calor. Afrouxou o colarinho e apressou o passo. Estava quase na hora, e ele não queria chegar tarde.

        Julgou a principio que se houvesse enganado com o local. Não havia pessoa alguma ali. Verificou a chapa de metal do edifício e a hora do seu relógio. Estavam ambas corretas. Abriu o jornal para ver se havia feito confusão com a data, mas viu que ela também conferia. Deu então um suspiro e acendeu um cigarro. Estava na América Latina. Não havia tanta pontualidade ali quanto em sua terra.

        Começou a caminhar lentamente em volta da construção, lendo os nomes nos quadrados. Encontrou afinal o que procurava, num canto cheio de sombra. Instintivamente, jogou fora o cigarro e tirou o chapéu. Lá estava a inscrição:

 

        †

        DAX

        10 mayo

        1955

 

        Ouviu o barulho rangedor de um carro nas pedras da calçada às suas costas. Era um carro aberto, puxado por um burro cansado, que estava de orelhas murchas, talvez em sinal de protesto contra o fato de se ver forçado a trabalhar com aquele calor. O carro era guiado por um homem com roupas cáqui desbotadas. Ao lado dele, no banco, vinha um homem de roupa preta e chapéu preto, com o colarinho engomado já amarelado pelo suor e pela poeira. Ao lado do carro, caminhava outro homem, com uma picareta ao ombro.

        O carro parou, e o homem de preto desceu. Tirou uma folha de papel do bolso do paletó, olhou-a e começou a procurar pelas paredes, olhando os nomes nos carneiros. Foi só quando eles pararam que o jornalista compreendeu que ali estavam para proceder à exumação.•

        O homem fez um gesto, e o coveiro com a picareta se aproximou. Olhou para cima e disse alguma coisa em espanhol. O outro coveiro tirou do carro uma pequena escada, e o primeiro encostou-a à parede e subiu.

        — Dax — disse ele, e sua voz ressoou no cemitério em silêncio.

        — Dax — repetiu o homem de preto.

        O coveiro na escada estendeu a mão.

        — El pico.

        O outro entregou-lhe a picareta. Com um golpe experimentado, o homem bateu com a picareta no centro do bloco de cimento. O cimento se fendeu em linhas irregulares, que se irradiaram do centro no momento em que o sol, passando sobre a aba do telhado, iluminou aquele canto. O coveiro resmungou e puxou o chapéu por sobre os olhos para proteger-se da luz. Vibrou outra pancada no cimento. Quebrou-o dessa vez, e os pedaços rolaram nas pedras do chão.

        O jornalista olhou para o homem de preto. Ele observava os coveiros, mas era evidente que não tinha muito interesse pelo que faziam. Tudo aquilo parecia aborrecê-lo, e afinal não passava de um serviço como outro qualquer.

        — Donde están los otros? — perguntou o jornalista no seu espanhol hesitante.

        — No están los otros — disse o homem, encolhendo os ombros.

        — Pero la prensa... murmurou o jornalista e parou, chegando aos limites do seu espanhol. — Habla inglés?

        — Si. Yes, — disse o homem com um sorriso de orgulho. — As suas ordens.

        — Li a noticia no jornal e pensei que viessem outras pessoas — disse o jornalista.

        — Não há outras pessoas disse o homem.

        — Quem publicou então a noticia? Deve ter sido alguém.

        Ele era um homem famoso, muy famoso.

        — Foi a administração do cemitério que publicou a noticia. É da lei. Precisamos desse espaço para outros. A cidade está crescendo, e nós estamos superlotados, como vê...

        — Compreendo. Mas não havia ninguém? Parentes? Amigos? Ele tinha muitos amigos.

        — Os mortos são sozinhos — disse o homem, com uma sombra no olhar.

        O coveiro que estava na escada soltou uma exclamação. Olharam-no. Ele já havia removido todo o cimento da tampa, e avistava-se lá dentro a ponta do caixão descorada e meio destruída pelos cupins. Usando a ponta da picareta como uma alavanca, o coveiro tirou os pedaços de cimento que restavam e começou a puxar o caixão para fora.

        O jornalista voltou-se para o homem da administração do cemitério.

        — Que é que vão fazer agora com ele?

        — Será incinerado. É coisa rápida. Agora, só restam os ossos.

        — E depois?

        — Desde que não apareceu ninguém para reclamá-las, as cinzas serão jogadas nas terras pantanosas aqui ao lado. São terras que estamos procurando recuperar.

        O caixão estava sobre o estreito passeio em torno do edifício. O homem se aproximou, limpou com a mão uma pequena placa de metal na tampa, conferiu-a com o papel que tinha na mão e disse:

        — Verificado.

        Voltou-se para o jornalista e perguntou:

        — Quer olhar o caixão?

        — Não — disse o outro, sacudindo a cabeça.

        — Não se importa então? Quando não há família para pagar, os homens têm permissão de...

        — Compreendo, — disse o jornalista, afastando-se enquanto os coveiros abriam o caixão. Acendeu um cigarro. Ouviu as vozes dos homens, que discutiam sobre o que haviam encontrado. Depois, ouviu pregarem de novo a tampa do caixão.

        — Os homens ficaram decepcionados disse o homem da administração, indo para onde ele estava. — Só encontraram algumas obturações de ouro nos dentes e este anel.

        O jornalista olhou para o anel sujo que estava na mão do homem.

        — Fiquei com o anel e deixei que ficassem com as obturações. O anel tem algum valor, não tem?

        Tirou um lenço do bolso, limpou-o e mostrou-o ao jornalista, que o apanhou. Era um anel de formatura da Universidade de Harvard, da turma de 1939, de ouro, com uma pedra vermelha.

        — Tem valor, sim.

        — Dez dólares? perguntou o homem.

        O jornalista levou algum tempo para compreender que o homem lhe estava oferecendo o anel.

        — Dez dólares, — disse afinal, tirando o dinheiro do bolso.

        — Gracias.

        O jornalista guardou o anel no bolso. Os coveiros já haviam colocado o caixão no carro.

        O homem de preto olhou-o e disse:

        — Vámonos? Vai ser incinerado agora.

        Subiu ao carro e indicou ao jornalista um lugar no banco ao seu lado.

        O sol estava bem mais quente, e o jornalista tinha a camisa empapada de suor. Seguiram em silêncio pelo cemitério, e vinte minutos depois chegaram ao crematório.

        Havia no ar um leve cheiro de fumaça quando o jornalista desceu do carro e seguiu o homem de preto e os dois coveiros, que levavam o caixão pela porta do crematório.

        Lá dentro, teve a surpresa de ver que não havia teto; no alto, só o céu e o sol ardente. Nas paredes havia seis fornalhas de pedra abertas no alto e colocadas em circulo. Sobre cada uma delas o ar tremia com o calor que vinha de dentro. Um homem com um avental coberto de cinzas se aproximou.

        — Verificado? — perguntou ele.

        — Verificado — disse o homem de preto, entregando-lhe o papel.

        — A la uno, — disse o homem de avental aos coveiros.

        Estes empurraram o caixão para dentro da fornalha mais próxima. Em seguida, saíram.

        O homem de preto pegou o jornalista pelo braço e levou-o até perto da fornalha. O caixão descansava sobre barras de aço enegrecidas pela fuligem. Embaixo, havia uma rede metálica de malhas finas e o homem explicou:

        — Para as cinzas.

        O homem de avental os olhava. O outro puxou a manga do paletó do jornalista e disse:

        — Ele espera dez pesos pelo seu trabalho. É de praxe.

        O jornalista meteu a mão no bolso e tirou uma nota.

        — Gracias, — disse o homem, com um sorriso no rosto moreno.

        Fez então um gesto para que os outros se afastassem e começou a acionar um fole.

        Houve a principio um rumor dentro da fornalha, que de repente se transformou num barulho como de trovoada. Mas não havia chamas visíveis. O caixão parecia apenas tremer sob as ondas de ar quente. Mas o homem puxou de repente uma alavanca, e num momento pareceu que todas as fogueiras do inferno estavam acesas.

        O jornalista sentiu o intenso calor, mas logo as chamas baixaram e o caixão pareceu desintegrar-se num pó cinzento dentro da fornalha.

        O homem de preto disse-lhe então:

        — Vamos fumar um cigarro lá fora. Daqui a pouco, ele levará as cinzas.

        O sol parecia fresco em comparação com o calor que haviam sentido lá dentro. O jornalista ofereceu um cigarro ao homem de preto, que o aceitou com as maneiras delicadas que alguns latino-americanos têm e acendeu o cigarro do jornalista e, depois, o seu. Fumaram em silêncio.

        Antes de acabarem o cigarro, o homem saiu com uma pequena urna de cerâmica cinzenta. Olhou para o homem de preto, que disse, como se pedisse desculpas:

        — A uma custa cinco pesos.

        O jornalista achou uma moeda de cinco pesos no bolso e a urna foi entregue ao homem de preto.

        Este levou o jornalista para os fundos do crematório, onde havia uma carroça, à qual estava atrelado um burro que parecia dormir. A carroça estava cheia de lixo, sobre o qual as moscas enxameavam.

        — É aqui que despejamos as cinzas que depois são levadas para o pântano.

        — Não há outro lugar? perguntou o jornalista, sentindo uma ponta de revolta.

        — Bem, há uma fazenda do outro lado da estrada. Por cinco pesos, o dono nos deixará jogar as cinzas lá.

        — Vamos até lá, então.

        Chegaram do outro lado da estrada a um campo de batatas e o fazendeiro pareceu surgir do chão, mas desapareceu prontamente logo que recebeu a moeda de cinco pesos.

        — Señor, — disse o homem de preto, estendendo-lhe a urna.

        O jornalista sacudiu a cabeça.

        — Conheceu-o, señor? — perguntou o homem.

        — Sim, conheci-o.

        O homem destampou a urna e com um gesto experimentado, jogou as cinzas ao vento. Ficaram olhando enquanto as mesmas iam pousando no solo.

        — Não está certo! — exclamou de repente o jornalista. — Não está certo!

        — Por qué, señor?

        — Ele era um homem forte, sabe? A terra tremia à sua passagem, os homens amavam-no e temiam-no, as mulheres tremiam ante o poder dos seus abraços e todos solicitavam-lhe os favores. E agora não há quem se lembre dele. Tem razão, os mortos são sozinhos.

        O jornalista estava triste e cansado. Queria quanto antes voltar ao bar do hotel e beber alguma coisa bem gelada. Seria melhor que não houvesse lido a noticia no jornal, que não tivesse ido àquele lugar horrível, sob o tremendo sol, para encontrar um mundo desmemoriado.

        — Não, señor, — disse o homem de preto. — Eu estava errado. Esse morto não estava sozinho. O senhor estava aqui.

 

                               VIOLÊNCIA e PODER

        Eu estava brincando sob o sol quente no terreno em frente à casa quando ouvi o primeiro grito fino na estrada que levava à vila. Meu cachorro ouviu também, porque parou de repente de pular em volta de mim e da casinha que eu estava tentando construir com a terra endurecida. Olhou para mim com olhos amedrontados e encolhendo o rabo amarelo protetoramente por baixo dos testículos. Ficou parado e começou a tremer.

        — Quien es? perguntei, estendendo a mão para fazer-lhe uma festa e acalmá-lo. Via que ele estava com medo, mas não sabia por quê. O grito fora estranho e curiosamente alarmante, mas eu não estava com medo. Medo é coisa que tem de ser aprendida, e eu era muito menino ainda. Tinha seis anos de idade.

        Houve ao longe um barulho de tiros. Cessou pouco depois, e então ouviu-se outro grito, dessa vez mais alto e mais aterrador do que o primeiro.

        O cachorro pendeu a cabeça e saiu correndo para o canavial, com as orelhas murchas. Fui atrás dele, gritando:

        — Perro! Perro! Venga aqui!

        Quando cheguei ao canavial, não o vi mais. Fiquei ali parado, procurando ver se o descobria pelo barulho entre as touceiras.

        — Perro! — gritei.

        Ele não voltou. O canavial sussurrava levemente ao vento quente. Desprendia-se dele um pungente cheiro adocicado. Chovera na noite anterior e o açúcar estava umedecido nos caules. Percebi de repente que estava sozinho.

        Os trabalhadores, que estavam ali havia ainda cinco minutos, tinham desaparecido também. Meu pai iria ficar muito zangado com eles. Pagava-lhes dez centavos por hora e decerto esperava que dessem em troca todo o trabalho que pudessem.

        — Dax!

        O grito vinha da casa. Virei-me. Minha irmã mais velha e uma das empregadas da cozinha estavam na varanda da frente da casa.

        — Dax! Dax! gritou minha irmã, agitando os braços.

        — O cachorro fugiu pelo canavial, — gritei eu para ela.

        Um momento depois, ouvi-lhe os passos atrás de mim. Tomou-me nos braços e me levou carregado para casa, correndo. Murmurava roucamente:

        — Dios! Dios!

        Minha mãe apareceu à porta antes de chegarmos à varanda.

        — Depressa! A la bodega! — disse ela. — Para a adega!

        Entramos na casa. La Perla, a gorda cozinheira índia, estava atrás de minha mãe. Tomou-me dos braços de minha irmã e começou a correr para a despensa, atrás da cozinha. Ouvi o barulho da tranca da porta da frente que se fechava.

        — Que é que há, La Perla? — perguntei. — Donde está Papá?

        Ela me apertou com mais força de encontro ao seio farto.

        — Psiu, niño.

        A porta da despensa estava aberta, e descemos os degraus da adega. As outras empregadas já estavam ali, com os rostos escurecidos é apavorados, sumidos nas sombras lançadas pela pequena vela que ardia em cima de um barril de vinho.

        La Perla me deixou num banquinho.

        — Fique sentadinho ai e não se mexa.

        Achava aquilo tudo muito engraçado, mais engraçado do que brincar lá fora. Era uma nova espécie de brinquedo.

        La Perla subiu de novo as escadas, e eu ouvi sua voz rouca lá em cima. Um instante depois, minha irmã desceu com o rosto banhado em lágrimas. Correu para onde eu estava e me abraçou com força.

        Afastei-me, zangado. O seio dela me machucava porque era muito ossudo, muito diferente do seio confortável, quente e macio de La Perla.

        — Largue-me — disse eu.

        Minha mãe desceu as escadas, com o rosto abatido e triste. Ouvi a pesada porta da adega ser batida e trancada, e, pouco depois, La Perla descia também, com o rosto vermelho do esforço. Tinha na mão um facão de cozinha, com o qual costumava cortar a cabeça das galinhas.

        Mamãe me olhou e perguntou:

        — Você está bem?

        — Si, mamá. Mas Perro fugiu. Correu para o canavial e não o vi mais.

        Mas ela não me ouvia. Estava procurando escutar algum som do lado de fora. Era tempo perdido. Nenhum som podia chegar ali, tão debaixo da terra.

        Uma das empregadas prorrompeu num choro nervoso.

        — Cale essa boca! — exclamou La Perla, com um gesto ameaçador. — Quer que nos ouçam e nos matem a todos?

        A empregada se calou. Gostei de La Perla fazer isso porque minha irmã deixou de chorar também. Eu não gostava dela quando chorava. O rosto ficava muito feio e vermelho.

        Prendi a respiração e tentei escutar. Não ouvia nada.

        — Mamá...

        — Silêncio, Dax! — disse ela, severamente.

        Mas eu tinha uma pergunta a fazer.

        — Onde está Papá?

        Ao ouvir isso, minha irmã recomeçou a chorar.

        — Fique calada! — disse minha mãe. — Papá chegará daqui a pouco, Dax. Mas temos de ficar muito quietos até ele chegar, compreende?

        Bati com a cabeça. Voltei-me para minha irmã. Soluçava, mas contendo a respiração para não fazer barulho. Estava amedrontada, mas eu não via motivo para isso. Cheguei perto dela e disse-lhe ao ouvido:

        — No tengas miedo. Eu estou aqui.

        Um sorriso apareceu por entre as lágrimas. Abraçou-me e murmurou:

        — Meu heroizinho! Meu protetor!

        Ouviu-se lá em cima um tropel de botas pesadas, que de repente pareceu encher toda a casa.

        — Los bandoleros! — gritou uma das empregadas. — Vão matar todo mundo!

        — Cale-se!

        Dessa vez, La Perla não se limitou a falar. Levantou a mão, e a empregada rolou no chão, gemendo. O tropel de passos parecia estar na cozinha.

        — A vela! — sussurrou nervosamente minha mãe. A luzinha apagou-se abruptamente, e ficamos ali na escuridão.

        — Não estou vendo nada, Mamá — disse eu.

        Ela me tapou a boca com a mão. Procurei ver alguma coisa na escuridão, mas só ouvia as respirações agitadas. Os passos ressoavam acima de nós. Deviam estar na cozinha.

        Ouvi o barulho de uma mesa sendo virada, e as vozes e as risadas dos homens. Uma porta rangeu e eles chegaram à despensa. A porta da adega estremeceu. Ouvia-se com mais clareza a voz deles.

        — As galinhas devem estar escondidas ai embaixo, — disse um deles por entre gargalhadas.

        — Cocoricô! — gritou outro. — O galo está aqui.

        Deram um pontapé na porta.

        — Abre la puerta!

        Eu podia sentir as mulheres se encolhendo pelas paredes. Minha irmã a meu lado tremia desesperadamente.

        — Estão apenas querendo as galinhas, — disse eu. — Digam que estão no galinheiro, lá nos fundos.

        Ninguém disse nada. Parecia que não se importavam mais de que eu falasse ou não. La Perla passou por mim na escuridão e ficou à espera no pé da escada. Uma pancada forte na porta ressoou por toda a adega.

        Uma das empregadas caiu de joelhos e começou a rezar nervosamente. Deram outra pancada na porta. A porta por fim cedeu e ficou escancarada, ao mesmo tempo que a luz entrava por ela e mostrava La Perla resolutamente de pé, com a faca de cozinha refletindo a luz como um espelho de prata.

        Três homens desceram logo a escada. Dos outros que vinham atrás eu só podia ver as pernas.

        O primeiro parou quando viu La Perla.

        — Uma galinha gorda e velha. Não vale a pena. Mas há outras aqui, bem novinhas. A galinha velha está guardando o galinheiro.

        — Bastardos! — gritou La Perla por entre os dentes.

        O homem se virou quase com displicência, e a espingarda de cano curto que tinha na mão explodiu com um clarão ofuscante.

        Senti o cheiro acre da pólvora, e, quando pude olhar, vi La Perla cambalear, encostada à parede perto da escada. Pareceu ficar ali imóvel um instante, e, depois, seu corpo começou a escorregar pela parede. Parecia haver perdido metade do rosto e do pescoço. São se via ali senão uma massa ensanguentada de carne.

        — La Perla!

        Minha mãe gritou e correu para ela. Quase sem esforço, o homem virou a espingarda e deu uma coronhada na cabeça de minha mãe quando ela passou por ele. Ela caiu, e o homem lhe empurrou o corpo para o lado com o pé. Os outros desceram a escada logo depois. Eram onze.

        O primeiro viu a vela em cima do barril e disse:

        — La candela!

        Um dos homens riscou um fósforo, e a luz amarela brilhou na adega.

        — Ah! — disse o chefe, olhando para nós. — Quatro franguinhas e um franguinho!

        Ouvi então a voz de minha irmã. Parecia muito mais firme e equilibrada do que até então a ouvira.

        — Que é que querem aqui? Peguem o que quiserem e vão-se embora!

        O homem olhou-a por um momento, com os olhos brilhando como brasas.

        — Esta é minha, disse ele. — Podem tomar conta das outras.

        Uma das moças tentou correr pela escada, mas um deles a agarrou pelos compridos cabelos soltos. Puxou-a, e ela caiu no chão de joelhos.

        — O homem se virou para ela, puxando-lhe a cabeça para trás até que o rosto ficou inteiramente voltado para ele, com a boca aberta, no desesperado esforço de respirar. Com a outra mão, o homem tentou rasgar-lhe o vestido, mas a fazenda de algodão grosso era forte e resistiu.

        Com um palavrão, ele a deixou cair no chão e tirou a faca da cinta. Passou a lâmina rapidamente pela frente do vestido. A roupa grossa se desprendeu do corpo dela como a casca de uma espiga de milho. Um traço fino que parecia de lápis começava no pescoço, descendo entre os seios e pela barriga morena de índia, começando logo a avermelhar-se de sangue. Ela gritou e tentou fugir de novo, mas ele riu e tornou a pegá-la pelos cabelos.

        Ela ainda se debatia, e ele, raivosamente, forçou-lhe as pernas com o cabo da faca. Dessa vez, a moça gritou de dor.

        Caiu no chão aos pés dele, contorcendo-se. A lâmina da faca refletia a luz da vela. O homem plantou a bota na barriga da moça para fazê-la ficar quieta e começou a tirar a corda que lhe prendia os pantalones.

        Os outros estavam ocupados com as outras empregadas. Niella, que era a criada de quarto de minha mãe, já fora despida e estava estendida sobre um barril de vinho, segura por dois bandoleros, enquanto um terceiro começava a subir em cima dela. Sara, a moça índia que La Perla trouxera das montanhas para ajudá-la na cozinha, estava estendida no chão, atrás de uns caixões.

        — Faça o garoto sumir-se — disse o chefe à minha irmã, — senão vou matá-lo.

        Minha irmã começou a empurrar-me para o canto.

        Virei-me para olhar-lhe o rosto. Estava apático e parado. Os olhos pareciam haver perdido toda a vida.

        — Não! Não! — gritei.

        — Vá para trás daquelas caixas ali no canto e não olhe, — disse ela. Mas aquela voz não era a dela. Era a voz fria e distante de uma estranha, uma voz que eu nunca tinha ouvido.

        — Não!

        Senti no rosto a dor aguda de uma bofetada.

        — Vaya! Faça o que estou mandando!

        Não era só a dor. Era a nota de autoridade em sua voz. Comecei a chorar.

        — Vá!

        Esfregando os olhos, virei-me e fui estender-me, todo encolhido, atrás das caixas. Ainda estava chorando. De repente, comecei a molhar as calças. Como se aprende depressa o que quer dizer medo!

 

        Foi o grito penetrante de minha irmã que me estancou as lágrimas. Pareceram secar-se dentro de mim ao mesmo tempo que uma onda de ódio intenso e cego correu-me pelo corpo. Prendi a respiração e levantei a cabeça para olhar por cima das caixas.

        Minha irmã estava de costas para mim, e suas nádegas nuas se torciam violentamente enquanto o bandolero a forçava a cair de costas sobre uma caixa. As unhas dela se cravaram no rosto do homem, deixando-o sulcado de arranhões vermelhos, mas ele começou a dar-lhe terríveis bofetadas e ela caiu em cima da caixa.

        A boca estava aberta, e ela gritava, mas não se ouvia som algum. Os olhos desvairados encaravam-me sem nada ver. As suas pequenas tetas estavam caídas sobre o peito ossudo e a barriga era quase uma cova funda.

        Compreendi de repente o que era que o homem ia fazer. Eu já tinha visto muitos touros quando as vacas eram levadas para eles. Olhei para o bandolero quando os pantalones lhe caíram pelas pernas.

        Ela tentou levantar-se e fugir, mas ele fincou um cotovelo cabeludo bem na boca do estômago dela e com a mão aberta em torno do pescoço de minha irmã, prendeu-a de encontro à caixa, quase sufocando-a. Ela tornou a gritar e empinou o corpo, tentando desvencilhar-se, mas ele proferiu uma praga e aumentou a pressão contra o seu pescoço. Ela continuou a contorcer-se e ele deu-lhe um soco no rosto com toda a força, fazendo a cabeça dela bater violentamente na caixa.

        Por uma fração de segundo ele ficou parado, meio suspenso no ar acima dela, parecendo equilibrar-se em si mesmo. Então ela tornou a gritar e estremeceu. Pouco a pouco, ele foi desaparecendo nela enquanto seus gritos de minha irmã se dissolviam num longo gemido agoniado.

        Ele tornou a mover-se nela. Duas vezes mais pareceu rasgá-la e então uma agonia particular como que o dominou, e ele soltou um curioso rugido que parecia de animal.

        Nesse exato momento, levantou os olhos, e eu lhe vi o rosto. Os olhos estavam vidrados e torturados, e a boca se mostrava ansiosamente aberta como se lhe faltasse o ar. Então, minha irmã gritou de novo, e eu vi o sangue que corria dela. Senti o ódio crescer dentro de mim. Comecei a tremer e tive vontade de matá-lo.

        Ouvi o tilintar de alguma coisa no chão de madeira e olhei. A faca havia caído do cinto do homem. Sem refletir, pulei sobre as caixas para pegá-la. Lentamente, como que com um grande esforço, ele se virou para mim.

        — Bastardo! — gritei, brandindo a faca com as duas mãos na direção do pescoço dele.

        Ele estendeu o braço, e a faca me voou das mãos, caindo entre nós. Atirei-me a ele, tentando atingi-lo com os punhos fechados e ele quase displicentemente bateu em mim com a mão aberta.

        Rodei pelas paredes e fui cair violentamente no meio das caixas. Não sentia dor alguma. Havia somente ódio e uma vontade de matar que eu nunca até então conhecera. Não sei se compreendi o que poderia acontecer. Sabia apenas que nada mais importava. Eu tinha de destruir aquele homem.

        Minha irmã havia virado a cabeça e me olhava. De repente, seus olhos se desanuviaram.

        — Dax! — gritou ela, agarrando a mão do homem, já então armada com a faca.

        Ele tentou raivosamente soltar o braço, quase empurrando-a para o lado.

        — Fuja! Dax! Corra! Por Dios! — gritou ela. — Fuja!

        Fiquei ali, imóvel.

        Ele fez menção de levantar-se para me pegar.

        — Corra, Dax!

        O homem ia se levantando, mas de repente ela pareceu cruzar as pernas, juntando os joelhos. O homem deu um grito de dor.

        — Corra, Dax! Vá para onde está Papá!

        Isso eu compreendi. Isso me chegou ao sentido. Rodei o corpo e subi na carreira a escada da adega. Ouvi outro grito atrás de mim. Parei quase no meio e ouvi o homem gritar roucamente:

        — El niño!

        Sai pela escada e atravessei a casa. Quando cheguei lá fora, senti-me por um instante ofuscado pela claridade do sol. Depois, comecei a correr para os canaviais por onde Perro tinha ido.

        — Papá! Papá!

        Alguns homens vinham chegando pela estrada. Não sabia quem eram, mas corri para eles. Já estava além da cerca quando o primeiro bandolero saiu de dentro da casa. Corri pela estrada, gritando como um louco, e ouvi então a voz de meu pai.

        — Dax! Dax! Gracias a Dios!

        — Papá! — exclamei, e joguei-me nos braços dele, chorando. — Papá! Papá! Tengo miedo! Não deixe me pegarem!

        O rosto moreno de meu pai brilhava ao calor. Abraçou-me com força e murmurou:

        — Não tenha medo! Ninguém lhe fará nada!

        — Maltrataram Mamá e minha irmã, — gritei nervosamente. — La Perla está morta, e minha irmã está ensanguentada.

        Vi meu pai empalidecer e dizer em voz rudemente sarcástica:

        — É esse então o seu exército, General? Um exército que faz guerra às mulheres e crianças?

        O homem magro que estava ao lado de meu pai olhou para ele e depois virou para mim seus frios olhos cinzentos. Sua boca se apertou numa linha fina.

        — Se meus homens cometeram algum erro, morrerão por ele, señor.

        Encaminhou-se para a casa, e os bandoleros que tinham corrido atrás de mim pararam ao vê-lo.

        — El jefe!

        Encolheram-se junto às paredes quando passamos. O general parou à porta e, voltando-se, perguntou:

        — Onde é que estão?

        — En la bodega, — disse eu.

        De repente, meu pai saiu na carreira. Levando-me ainda nos braços, entrou à frente do general, atravessou a cozinha e desceu a escada da adega.

        Ficou ali um momento, olhando a confusão. Depositou-me então lentamente no chão.

        — Dios mio! — murmurou baixinho, caindo de joelhos e levantando para o seu colo a cabeça de minha mãe. — Dios mio!

        O rosto de minha mãe estava branco e muito parado. A cabeça estava inclinada num ângulo esquisito. Olhei minha irmã do outro lado da adega. Ainda estava estendida em cima da caixa, com a cabeça virada para trás. Corri para ela, gritando:

        — Tudo está bem agora! Papá está aqui!

        Mas ela não me ouvia. Nunca mais me ouviria. Ainda tinha no pescoço a faca ali cravada pelo bandolero. Olhei-a sem poder acreditar, e então dei um grito.

        Compreendia afinal o que havia acontecido. Estavam mortas. Todas estavam mortas. Mamá, minha irmã, La Perla. Mortas. Gritei, gritei, gritei.

        Mais tarde, depois que meu pai me pegou e me levou daquele lugar de sangue para a luz do sol, estávamos no pátio. Era no fim da tarde, e havia mais homens ali do que dantes. Devia haver mais de cem. Estavam todos ali, de pé, olhando em silêncio.

        Onze estavam separados dos outros, amarrados juntos, cada qual preso por cordas aos dois homens que o ladeavam. Estavam encostados ao muro em silêncio, olhando para os seus companheiros.

        O general estava sentado numa cadeira ao lado da mesa na galeria. Olhou para os onze homens e para os outros bandoleros. Falou calmamente, como se essa voz fria pudesse ir mais longe e ser mais bem compreendida.

        — Olhem bem e procurem guardar tudo na cabeça. O castigo que eles vão sofrer, vocês poderão sofrer também se se esquecerem de que são libertadores e não bandoleros. Estamos lutando pela liberdade e pelos nossos patrícios, e não pelo nosso interesse e pelo nosso prazer. Somos soldados a serviço da pátria, e não saqueadores e estupradores de mulheres!

        Levantou-se e virou-se para um ajudante, que lhe entregou uma metralhadora portátil. Virou-se para meu pai, estendendo-lhe a arma.

        — Señor?

        Meu pai respirou profundamente e correu os olhos pelos homens alinhados de encontro ao muro.

        — Não, General — disse ele mansamente. — Sou um homem da lei e não da guerra. A mim me cabe a dor, mas não a vingança.

        O general acenou gravemente com a cabeça e desceu os degraus da galeria para a terra dura e cozida pelo sol do pátio. Levando a metralhadora na mão, dirigiu-se para onde estavam os onze homens. Parou diante do primeiro da fila, o homem que havia violentado e assassinado minha irmã.

        — Você, Garcia — disse ele calmamente. — Fiz de você sargento. Devia saber como comportar-se.

        O homem nada disse. Encarou o general com olhos em que não havia medo. Sabia que não haveria piedade e não a esperava.

        Uma faca brilhou nas mãos do general enquanto ele passava diante da fila. Quando chegou ao fim, vimos o que ele havia feito. Os cintos e as cordas que prendiam os pantalones dos homens tinham sido cortados, e as calças haviam caído, mostrando os corpos e as pernas brancas. O general foi recuando lentamente até ficar a dez passos de distância. Começou então a levantar a metralhadora.

        Eu estava olhando para Garcia. A lembrança dele por cima de minha irmã explodiu-me na cabeça. Dei um grito e sai correndo da galeria.

        — Deixe-me matá-lo, general! Quero matá-lo!

        O general voltou-se, surpreso.

        — Dax! Volte para cá, Dax! — gritou meu pai.

        Mas eu não o ouvia. Voltei-me para o general.

        — Deixe.

        — Dax! — gritava meu pai.

        O general olhou para meu pai na galeria e disse:

        — É de justiça.

        — É uma criança — replicou meu pai. — Que pode ele saber de justiça?

        — No dia de hoje, ele soube de morte — disse o general. — Aprendeu a odiar, aprendeu a ter medo. É justo que agora aprenda a matar ou isso lhe roerá a alma para sempre como um câncer.

        Meu pai não insistiu mais. Voltou o rosto e murmurou tristemente:

        — Está na massa do sangue. A crueldade dos conquistadores.

        Eu sabia o que ele queria dizer. Já naquela época eu sabia. O sangue era de minha mãe, cuja família descendia comprovadamente dos espanhóis que haviam chegado com Cortés.

        O general ajoelhou-se.

        — Venha cá, menino.

        Aproximei-me dele. Ele pousou a arma no braço e guiou-me a mão até o meu dedo ficar no gatilho. O cano do retrocesso ficou seguro na curva do seu braço.

        — Agora — disse ele —, olhe para o alto do cano. Quando vir que está apontando para os cojones, puxe o gatilho. Deixe o resto comigo.

        Mirei com um olho apenas pelo cano de metal azul. Apontei a arma para Garcia. Vi-lhe as pernas brancas e a barriga peluda pouco abaixo da ponta do cano de metal. Apertei o gatilho.

        O barulho me explodiu nos ouvidos e o corpo branco se despedaçou numa porção de fragmentos ensanguentados. Senti o general ir empurrando o cano pela fila abaixo. E em todo lugar para onde ele era apontado, a carne branca se dissolvia em carne despedaçada e sangrenta. Sentia o gatilho esquentar debaixo do meu dedo, mas havia em mim tal exultação e tal febre, que eu não seria capaz de largá-lo ainda que me queimasse os dedos.

        De súbito o pente de munições se esgotou e a arma parou. Olhei para o general, perplexo.

        — Já acabou, niño.

        Olhei então para os onze homens. Estavam estendidos no chão, com o rosto contorcido na última agonia, os olhos sem vida abertos para o sol.

        Comecei a tremer e perguntei:

        — Estão mortos?

        — Sim, estão mortos respondeu o general.

        Estremeci como se tudo houvesse ficado de repente gelado. Desatei então a chorar e fui correndo para onde estava meu pai.

        — Papá! Papá! Eles estão mortos! Mamá e a mana poderão viver agora?

 

        Diógenes Alejandro Xenos. Era um nome muito comprido para um garotinho. A principio, minha mãe me chamava de Dio. Mas meu pai se zangou. Achava que era sacrilégio. Em dado momento, passou a ser Dax. Acho que foi La Perla quem primeiro me chamou assim. O som grego de Diógenes era difícil demais para a sua língua índia.

        Meu pai nascera na cidade litorânea de Caratu, filho de um marinheiro grego e de uma negra que tinha um pequeno restaurante perto do cais, onde os marinheiros costumavam comer quando iam a terra. Lembro-me de ter visto um daguerreótipo de meus avós, que meu pai me mostrou.

        Mesmo sentada, minha avó era evidentemente mais alta do que meu avô, que estava de pé ao lado e um pouco atrás da cadeira dela. O rosto de minha avó parecia muito escuro, e ela olhava para a objetiva com uma atitude que indicava grande energia interior e deliberação. Meu avô tinha olhos de sonhador e poeta, o que na verdade tinha sido antes de ir para o mar.

        Meu pai tinha a cor de minha avó e os olhos suaves de meu avô. Amara muito os pais. Disse-me cheio de orgulho que a mãe dele era descendente de príncipes bantos que tinham sido levados para lá como escravos.

        Jaime Xenos. Meu pai recebera o mesmo nome de seu avô materno. Quando a gravidez de minha avó já estava tão adiantada que ela não pôde tomar conta do pequeno restaurante, meu avô tomou-lhe o lugar. Mas não era homem para aquilo. Antes que meu pai tivesse um mês de idade, o pequeno restaurante teve de ser vendido com tudo o que minha avó acumulara com o seu trabalho.

        Meu avô, que tinha uma bela caligrafia, passou a ser então escrevente do alcalde do distrito do cais e se mudou com a família para uma casinha a cerca de dois quilômetros do porto, onde criava algumas galinhas e podia ver o Caribe azul e olhar os navios que chegavam e partiam.

        O dinheiro não era muito, mas meus avós viviam muito felizes. Meu pai era filho único, e ambos tinham grandes planos para ele. Meu avô ensinou-lhe a ler e a escrever desde os seis anos de idade, e, por intermédio do alcalde, conseguiu matriculá-lo no colégio dos jesuítas, que era frequentado pelos filhos dos funcionários e dos aristocratas.

        Em troca dessa honra, meu pai tinha de começar a trabalhar desde as quatro e meia da manhã. Tinha de fazer a limpeza de todas as salas antes que as aulas começassem. As suas tarefas se prolongavam depois que as aulas terminavam, às seis da tarde e ainda abrangiam outras que os professores ou o diretor desejassem.

        Quando completou dezesseis anos, meu pai havia aprendido tudo o que a escola tinha a ensinar. Herdara a estatura da família da mãe e o espirito cheio de curiosidade do pai. Era sem dúvida alguma o melhor aluno da escola.

        Houve uma longa conferência entre os jesuítas que dirigiam o colégio e meu avô, ao final da qual ficou decidido que meu pai seria mandado para a universidade a fim de estudar Direito. Como os vencimentos de escrevente de meu avô eram minguados demais para custear isso, ficou decidido também que eles seriam financiados pelos jesuítas com o limitado fundo de bolsas do colégio. Mas ainda assim não haveria o suficiente para os estudos de meu pai se o alcalde, para quem meu pai trabalhava, não tivesse se prontificado a entrar com a diferença em troca do compromisso de meu pai de servi-lo durante cinco anos depois de formado.

        Foi assim que ele começou sua carreira sem ganhar nada, trabalhando no escritório do alcalde onde meu avô era escrevente, trabalhando na úmida e sombria sala externa, sentado num tamborete alto, a copiar com a sua bela letra as primeiras petições e minutas que meu avô preparava para o seu patrão. Estava trabalhando ali, aos vinte e três anos de idade, no terceiro ano de seu compromisso, quando Curatu foi assolada pela peste.

        A epidemia chegou a bordo de um navio de velas brancas que venceu galhardamente as ondas que encrespavam as águas azuis do porto. Estava escondida na escuridão dos porões do navio, e dai a três dias quase toda a cidade de três mil almas estava morta ou para morrer.

        Naquela primeira manhã, quando o alcalde chegou, meu pai estava trabalhando na sua mesa do outro lado da sala. O alcalde estava visivelmente agitado, mas meu pai não perguntou o que era. Não se podia proceder assim com Sua Excelência. Baixou a cabeça para os seus livros e fingiu que nada havia notado.

        O alcalde veio por trás dele. Olhou por cima do ombro de meu pai para ver o que ele estava fazendo. Ao fim de um instante, falou:

        — Jaime?

        Meu pai levantou a vista.

        — Si, Excelencia?

        — Já esteve em Bandaya?

        — No, Excelencia.

        — Há um caso ali, uma questão de terras. Meu amigo Rafael Campos está em litigio com as autoridades do lugar.

        Meu pai esperou pacientemente.

        — Eu gostaria de ir pessoalmente — disse o alcalde —, mas há assuntos urgentes aqui, e eu...

        Meu pai não respondeu. Estava a par de tudo o que acontecia no escritório e sabia que não havia assuntos urgentes. Mas Bandaya ficava a seiscentos quilômetros de distância, no alto das montanhas, e a viagem até lá era difícil. Além disso, havia rumores de que um grupo de bandoleros infestava a estrada, atacando viajantes.

        — O caso é muito importante, — continuou o alcalde, —, e Campos é um velho amigo meu. Quero que ele tenha toda a ajuda possível. Acho que é melhor você partir ainda hoje. Providenciei para que lhe preparassem um dos meus cavalos.

        — Si, Excelencia, — disse meu pai, levantando-se. — Irei até a casa para pegar umas coisas minhas e estarei pronto para partir dentro de uma hora.

        — Sabe de que é que se trata?

        — Seguramente, Excelencia. Escrevi a petição por ordem sua há dois meses.

        — É verdade — disse o alcalde com um suspiro. — Havia-me esquecido. — Não tinha esquecido. Sabia perfeitamente que todos os papéis que tinham saído do seu escritório naqueles últimos anos tinham sido escritos por meu pai. — Quer dizer a Campos que sinto muito não poder ir pessoalmente?

        — Seguramente, Excelencia — disse meu pai. Passou então para a outra sala, onde meu avô estava sentado no seu tamborete copiando uma sentença.

        — Qué pasa? — perguntou o pai dele.

        — Voy a Bandaya, Papá.

        Meu avô sorriu.

        — Bueno. É uma grande oportunidade. Señor Campos é um homem muito importante. Fico muito orgulhoso com isso.

        — Gracias, Papá. Já vou. Adios.

        — Vaya con Dios, Jaime, — disse meu avô, voltando ao seu trabalho.

        Meu pai passou pela cocheira do alcalde e ali pegou o cavalo para passar por casa e apanhar a roupa. Não teria assim de caminhar de volta os dois quilômetros até a cidade.

        A mãe dele estava no quintal, pendurando a roupa lavada, e viu-o amarrar o cavalo na cerca. Ele explicou o que ia fazer, e ela, como o marido, ficou muito feliz e orgulhosa com aquela oportunidade. Ajudou-o pressurosamente a escolher as duas melhores camisas, que arrumou cuidadosamente com o melhor terno dele numa velha maleta de viagem.

        Voltaram ao quintal no momento em que um navio de velas brancas passava pelo quebra-mar, entrando no porto. Ela o olhou por um momento, encantada, e disse para o filho:

        — Mira!

        Jaime sorriu. A mãe lhe havia falado sobre os navios, dizendo que quando era menina o pai dela costumava levá-la para o morro, de onde ficavam olhando os navios que entravam no porto. E ele dizia que algum dia um grande navio de velas brancas chegaria para levá-los de volta à sua terra, onde se vivia em liberdade e onde um homem não tinha de dobrar os joelhos para ganhar o pão de cada dia.

        O pai dela havia morrido há muito tempo, mas lhe deixara o sonho. E o sonho se transferira agora para o filho. Era ele que os levaria para a liberdade com a sua força e o seu conhecimento.

        — Você teria gostado daquele navio, — disse o filho.

        Ela sorriu enquanto se encaminhavam para o cavalo, que comia o capim macio perto da cerca.

        — Você é o meu navio de velas brancas, Jaime.

        Meu pai beijou-a e montou, saindo para a estrada que passava pelos fundos da casa. Do alto da ladeira, voltou-se e olhou. A mãe ainda estava no quintal, olhando-o. Ele deu adeus. Ela respondeu e ele sentiu mais do que viu o sorriso, os cintilantes dentes alvos. Seguiu então o seu caminho.

        Enquanto isso, olhou o navio que se aproximava do cais, com os marinheiros correndo pelos mastros como formiguinhas. A vela grande foi a primeira a ser descida, e quando, ao fim de algum tempo, olhou o navio, todas as velas estavam arriadas e o barco se aproximava mostrando uma floresta de mastros altíssimos.

        Quando voltou a Curatu, dois meses depois, o navio ainda estava junto ao cais, mas aquela estrutura que outrora singrara vigorosamente os oceanos e que levara a peste para a cidade fora reduzida a um montão de madeira queimada. Do pai e da mãe, não pôde encontrar nem vestígios.

 

        Quando um empregado lhe foi dizer que um estranho vinha descendo da montanha para a hacienda, Rafael Campos pegou o binóculo e saiu para a galeria. Viu um homem moreno, metido em roupas da cidade empoeiradas, montado num cavalo preto que descia cuidadosamente a ladeira. Teve um sorriso de satisfação. Os empregados estavam vigilantes. Todo o cuidado era pouco quando a qualquer momento os bandoleros poderiam descer impetuosamente das montanhas.

        Tornou a observar pelo binóculo, e viu que o desconhecido vinha devagar. Olhou para o relógio de ouro. Eram dez e meia da manhã. Naquele passo, o homem levaria hora e meia para chegar à hacienda. Seria então a hora do almoço. Bateu palmas.

        — Mande botar mais um prato na mesa, — disse ele ao empregado, e entrou para completar a sua toalete.

        Meu pai levou quase duas horas para chegar à hacienda. Dom Rafael estava sentado à sombra, na galeria. Estava vestido com o imaculado terno branco do aristócrata, e os folhos de sua camisa de seda branca e a gravata preta que ondulava ao vento só serviam para acentuar-lhe a delicada estrutura do rosto. O bigode era fino e bem aparado à última moda espanhola, e os cabelos e sobrancelhas mal se tingiam de cinza.

        Dom Rafael levantou-se logo que meu pai apeou. Notou com satisfação que o terno de meu pai estava limpo e escovado, e que suas botas estavam bem engraxadas. Meu pai, percebendo o seu olhar, deu-se por bem pago de ter demorado um pouco à beira de um rio antes de chegar, para fazer-se mais apresentável.

        Dom Rafael chegou ao alto da escada quando meu pai começou a subi-la.

        — Bienvenido, señor, — disse ele polidamente, de acordo com o costume das montanhas.

        — Mil gracias, señor, — respondeu meu pai. — Tenho a honra de falar com Sua Excelência Dom Rafael Campos?

        O outro assentiu, e meu pai fez uma reverência.

        — Jaime Xenos, de la oficina del alcalde, a su servicio.

        — Entre, — disse Dom Rafael, estendendo-lhe a mão com um sorriso. — É um hóspede de honra em minha casa.

        — A honra é toda minha.

        Dom Rafael bateu palmas e disse ao empregado, que chegou correndo:

        — Traga uma bebida fresca para o nosso hóspede. Cuide do cavalo dele.

        Levou meu pai para a sombra da galeria e convidou-o a sentar-se. Quando meu pai se sentou ao lado de uma mesinha, viu de relance a espingarda e as duas pistolas no chão ao lado do dono da casa.

        — Nas montanhas, todo o cuidado é pouco, — disse o fazendeiro, percebendo-lhe o olhar.

        — Compreendo — disse meu pai.

        O empregado chegou com as bebidas, e os dois homens trocaram brindes, depois do que, meu pai apresentou desculpas em nome do alcalde. Mas Rafael Campos não deu muita atenção a essas desculpas. Disse que estava mais do que satisfeito com meu pai e que tinha certeza de que o caso seria resolvido satisfatoriamente. Foram então almoçar e, depois, Dom Rafael sugeriu que meu pai fosse para o seu quarto descansar, pois teriam tempo de sobra no dia seguinte para tratar de negócios. Naquele dia, o seu hóspede devia apenas descansar e sentir-se em sua casa. E assim, foi só na hora do jantar que meu pai conheceu minha mãe.

        Mas, da janela acima da galeria, Maria Elisabeth Campos vira o cavaleiro chegar ao pórtico. O murmúrio da conversa chegava-lhe claramente no sossego do principio da tarde.

        — É um homem muito alto e bonito, não acha? — perguntou uma voz atrás dela.

        Maria Elisabeth voltou-se. Dona Margaretha, irmã de sua mãe, que tinha sido a dona da casa desde a morte da irmã, estava atrás dela.

        Maria Elisabeth ficou vermelha.

        — Mas é moreno demais.

        — Tiene sangre negra, — disse a tia. — Mas isso não tem importância. Dizem que são bons maridos e muito amorosos. — Olhou pela janela e acrescentou: — Mucho hombre.

        Ouviram a voz de dom Rafael quando sugeriu que o hóspede fosse descansar até a hora do jantar.

        — Você também deve ir para a cama e descansar toda a tarde — disse dona Margaretha à sobrinha. — Não adiantaria nada deixar o hóspede vê-la toda vermelha e cansada do calor do dia.

        Maria Elisabeth protestou, mas obedeceu. Ficara também muito impressionada com o estranho alto e moreno e queria aparecer a ele da melhor maneira possível.

        As cortinas foram fechadas, e ela se deitou sozinha na fresca penumbra do quarto. Não dormiu. Ouvira-o dizer que era advogado. Isso queria dizer que tinha cultura e maneiras. Não era como os filhos de fazendeiros que andavam em torno da hacienda. Eram todos bem rudes e comuns, mais interessados em armas e em cavalos do que em conversas refinadas de sociedade.

        Apesar disso, teria em breve de tomar uma decisão. Já fizera dezessete anos, e o pai vivia a fazer pressão sobre ela. Mais um ano e ela começaria a ser considerada solteirona, condenada a uma vida como a da tia Margaretha. E talvez nem isso pudesse ter, pois era filha única e não tinha irmãs ou irmãos de cujos filhos pudesse cuidar. Seria bom casar-se com um advogado, pensou vagamente quando já ia adormecendo, e viver numa cidade onde se conheciam todas as espécies de pessoas interessantes e diferentes.

        Meu pai ficou muito impressionado com a moça esbelta e viva que desceu para o jantar com um gracioso vestido branco que lhe acentuava os grandes olhos negros e os lábios vermelhos. Sentiu mais do que viu o corpo ágil e os seios plenos debaixo do vestido.

        Maria Elisabeth, por sua vez, quase não falou durante o jantar. Escutou meio distraidamente a voz do pai e se encantou com os suaves subtons da voz do hóspede. A maneira de falar da costa era muito mais distinta do que a das montanhas.

        Depois do jantar, os homens foram para a biblioteca fumar os seus charutos e tomar conhaque. Mais tarde, apareceram na sala de música, onde Maria Elisabeth tocou para eles algumas melodias simples no piano. Depois de cerca de meia hora, sentiu a inquietação do hóspede e começou de repente a tocar Chopin.

        Meu pai ficou a escutar atentamente. A profunda paixão da música dominou-o e ele olhou, admirado para a mocinha que parecia tão pequena e frágil diante do grande piano. Quando ela acabou de tocar, ele bateu palmas.

        Dom Rafael bateu palmas também, mas por simples delicadeza, sem qualquer entusiasmo. Julgava Chopin muito arrojado, e talvez até imoral. Preferia uma música mais cerimoniosa e pesada. Não dava a menor atenção aos ritmos indisciplinados do povo.

        Maria Elisabeth levantou-se do piano, corada e linda.

        — Está muito quente aqui dentro disse ela, abrindo o pequeno leque de rendas. — Acho que vou dar um passeio no jardim.

        Meu pai levantou-se no mesmo instante. Inclinou a cabeça para dom Rafael.

        — Con su permiso, Excelencia?

        Dom Rafael concordou cortesmente.

        Meu pai ofereceu o braço à moça. Ela o aceitou graciosamente e os dois saíram passeando pelo jardim. Dona Margaretha seguiu-os discretamente a alguns passos de distância.

        — Toca muito bem — disse meu pai.

        — Nem tanto assim, — replicou ela, rindo. — Não tenho muito tempo para estudar. E ninguém que me ensine.

        — Tenho a impressão de que não lhe falta muito para aprender.

        — Em música, há sempre muito o que aprender. Ouvi dizer que em direito é a mesma coisa. Nunca se deixa de estudar e de aprender.

        — De fato, — murmurou meu pai. — O Direito é muito exigente. Está sempre em transformação. Novas interpretações, novas revisões, e até novas leis quase todos os dias.

        Maria Elisabeth deu um suave suspiro de admiração.

        — Não sei como pode guardar tudo isso na cabeça.

        Olhou-a e viu a admiração nos olhos dela. Naquele exato momento, embora não soubesse disso, ficou perdido.

        Só se casaram quase um ano depois, quando meu pai voltou de Curatu com a noticia da morte de seus pais. Foi meu avô, dom Rafael, quem lhe sugeriu a ideia de que ele ficasse em Bandaya, advogando ali. Havia já dois advogados, mas um deles era muito velho e estava pensando em deixar de trabalhar. Foi um ano quase exato depois disso que minha irmã nasceu.

        Houve ainda duas crianças depois dela e antes de mim, mas ambas foram natimortas. Por essa época, meu pai estava muito interessado no estudo do grego. O pai havia lhe deixado uma biblioteca regular, e ele levara tudo da casinha de Curatu para Bandaya.

        Foi a tia Margaretha quem me contou a história de meu nascimento e do meu batismo. Quando as parteiras e o médico desceram e deram a meu pai a boa noticia, ele se ajoelhou e agradeceu a Deus. Primeiro, porque eu era um menino (antes só tinha havido meninas) e, depois, porque eu era forte, sadio e sobreviveria.

        As discussões em torno do meu nome começaram logo depois. Dom Rafael, meu avô, fazia questão de que eu tivesse o nome do pai dele. Meu pai queria naturalmente dar-me o nome do pai. Nenhum deles cedia um centímetro.

        Foi minha mãe quem resolveu a questão ameaçadora.

        — Vamos dar-lhe um nome que se volte mais para o amanhã do que para o passado — disse ela. — Vamos dar-lhe um nome que encarne as nossas esperanças para o futuro e tenha um sentido para todos os que o ouvirem.

        Isso agradou à erudição e ao romantismo de meu pai e aos impulsos dinásticos de meu avô. Foi assim que meu pai escolheu esse nome:

        Diógenes Alejandro Xenos.

        Diógenes, em honra do lendário homem que buscava a verdade; Alejandro, em homenagem ao conquistador do mundo. A explicação era simples, como proclamou meu pai ao levar-me à pia batismal.

        — Com a verdade, ele conquistará o mundo!

 

        Acordei quando a primeira claridade do dia entrou no quarto. Fiquei ainda um instante na cama, depois rolei o corpo, levantei-me e fui até a janela.

        O sol estava na fimbria do horizonte, começando a aparecer por trás das montanhas. O vento soprava fracamente do lado do ocidente, e eu estremeci quando um resto de frialdade da noite me entrou pela camisa de dormir. De repente, deu-me vontade de urinar.

        Voltei para junto da cama e peguei o pequeno urinol que estava embaixo dela. Enquanto fazia a minha necessidade, pensei que o Papá bem me poderia dar um urinol maior, agora que éramos as únicas pessoas que estavam na casa. Senti-me um pouco mais aquecido depois que acabei, botei o urinol no lugar e voltei para a janela.

        Via do outro lado da estrada, em frente à casa, a fumaça das pequenas fogueiras em torno das quais, embrulhados nas suas mantas sujas, os bandoleros estavam dormindo. Não se ouvia entre eles nem movimento, nem som. Tirei a camisa de dormir, vesti os pantalones e calcei os sapatos. Vesti a minha quente camisa de lã índia que La Perla fizera para o meu aniversário e desci. Estava com fome, e era hora de comer.

        Sara, que tinha sido ajudante de La Perla, estava acendendo o fogo na cozinha. Levantou a cabeça quando entrei, mas o seu rosto de índia continuou impassível.

        — Estou com fome, Sara. — você que vai ser a cozinheira agora?

        Ela fez um sinal com a cabeça, mas não falou. Sara nunca fora de falar muito.

        Fui para a mesa e sentei-me.

        — Quero uma tortilla con jamón.

        Ainda sem falar, ela pegou uma grande frigideira preta. Jogou lá dentro dois dedos de banha e colocou a frigideira em cima de uma das bocas do fogão. Um momento depois, cortou duas ou três fatias de presunto em pedaços e jogou-os, com três ovos, dentro da frigideira.

        Observei-a, satisfeito. Ela era melhor do que La Perla, que não me teria dado uma tortilla, mas me faria comer um pratarraz de mingau. Resolvi fazer a suprema experiência.

        — Café con leche, — disse eu. La Perla e minha mãe só me davam chocolate.

        Sara colocou a xicara de café diante de mim sem uma palavra. Bebi-a em quatro ou cinco ruidosos goles, depois de ter colocado dentro três colheres bem cheias de açúcar mascavo. O açúcar disfarçou o gosto. Eu na verdade nunca havia gostado do café, mas tomá-lo fazia com que eu me sentisse uma pessoa crescida.

        Colocou a tortilla à minha frente. Estava meio amorenada e quente de sair fumaça e durinha, como as que La Perla fazia. Esperei um pouco que esfriasse, e então peguei-a com os dedos e comecei a comê-la, olhando Sara pelo canto dos olhos.

        Não dissera uma palavra sobre a necessidade de eu comer com o garfo e a faca, que estavam ao lado do prato. Ficou apenas ali a olhar-me com uma expressão curiosa. Quando acabei, levantei-me e fui até a pia para lavar as mãos, que enxuguei depois na toalha pendurada ao lado.

        — Estava tudo muito bom, — disse com satisfação.

        Vi nos olhos dela alguma coisa que me recordou a hora em que os bandoleros se haviam aproximado dela na adega. Os seus olhos tinham a mesma insondável resignação.

        Levantei-lhe a saia num impulso. As coxas não tinham nenhuma marca, e os cabelos pareciam intactos.

        Deixei cair a saia e olhei-a no rosto.

        — Machucaram muito você, Sara?

        Ela sacudiu a cabeça em silêncio.

        — Fico muito satisfeito com isso.

        Notei então um leve sinal de lágrimas em torno de seus olhos pretos. Tomei-lhe a mão e disse:

        — Não chore, Sara. Não deixarei que façam mais nada com você. Se tentarem fazer, vão morrer.

        De repente, ela abriu os braços e me abraçou com força. Senti-lhe os peitos quentes no rosto e ouvi o bater acelerado do seu coração. Ela soluçava convulsivamente, mas sem fazer o menor ruído.

        Fiquei muito tempo parado nos braços dela. A única coisa que podia pensar para dizer era:

        — Não chore, Sara. Por favor, não chore.

        Ela me largou de repente. Quase escorreguei para o chão, mas ela já se afastara e estava colocando mais lenha no fogão.

        Não havia mais nada a dizer e eu sai da cozinha.

        A casa estava em silêncio quando atravessei a sala de jantar e a sala de visitas, indo sair na galeria.

        Já havia movimento do outro lado da estrada. Os bandoleiros estavam começando a acordar. O sol surgia por trás dos galpões e os seus raios já inundavam o pátio na direção da casa. Ouvi um rumor no fundo da galeria e virei-me.

        Aquela parte ainda estava mergulhada em sombras, mas eu vi a brasa acesa de um charuto e o vulto de um homem sentado na cadeira de meu pai. Sabia que não era meu pai. Ele nunca fumava charutos tão cedo assim.

        Vi o rosto melhor quando passei da luz para a sombra. Os olhos cinzentos me miravam fixamente.

        — Buenos dias, Señor General, — disse eu, cortesmente.

        Ele respondeu com igual cortesia.

        — Buenos dias, soldadito. — Tirou uma baforada do charuto e colocou-o cuidadosamente na borda da mesa. — Como está esta manhã?

        — Muito bem, obrigado. Acordei cedo.

        — Eu sei. Já o tinha visto na janela em cima.

        — Já estava levantado? — perguntei surpreso, pois não havia ouvido ninguém.

        Os seus pequenos dentes brancos se mostraram num leve sorriso.

        — Os generais, como os meninos, têm de levantar-se cedo para ver o que é que o dia lhes reserva.

        Olhei para o acampamento do outro lado da estrada e disse:

        — Eles ainda estavam dormindo.

        Houve uma leve nota de desprezo em sua voz.

        — Campesinos. Só pensam é no que vão comer durante o dia. E dormem bem sabendo que a comida não lhes vai faltar. — Tornou a pegar o charuto. — Já comeu?

        — Já. Sara me deu desayuno. Ela estava chorando.

        — As mulheres sempre choram. Ela vai esquecer.

        — Eu não choro.

        Ele me olhou um instante antes de dizer:

        — Não, você é um homem. Os homens não têm tempo de derramar lágrimas pelo que já aconteceu.

        — Papá chorou ontem no cemitério, — disse eu e senti um nó na garganta ao lembrar-me. O sol poente lançando longas sombras no pequeno cemitério nos fundos da casa. O portão enferrujado que rangia. O som cavo da terra negra, úmida, caindo sobre os caixões, e o murmúrio untuoso do latim do padre ecoando surdamente no ar. Engoli o nó na garganta e disse: — Chorei também.

        — Isso é compreensível, — replicou o general gravemente. — Até eu chorei. Mas isso foi ontem. Hoje, voltamos a ser homens e não temos tempo para lágrimas.

        Fiz em silêncio um sinal de assentimento.

        — Você é um menino corajoso. Faz lembrar meus filhos.

        Continuei calado.

        — Um deles é poucos anos mais velho do que você. O outro é um ano mais moço. Tenho também uma meninazinha de quatro anos. — Sorriu, puxou-me e sentou-me no seu colo. — Vivem nas montanhas.

        Olhou para as montanhas distantes.

        — Estão em segurança lá em cima. Quem sabe se você não gostaria de ir fazer-lhes uma visita? Há muito o que fazer nas montanhas.

        — Haveria um cavalinho para mim?

        Ele me olhou pensativamente.

        — Já, não. Quando você crescer mais um pouco, talvez. Mas você poderia ter um burro de passo seguro.

        — E será meu, mas de verdade?

        — É claro, — respondeu o general. — Ninguém poderá montar nele senão você.

        — Seria muito bom. Penso que vou gostar muito! Mas... Papá talvez não deixe. Ele só tem a mim agora.

        — Acho que seu pai deixará, — disse ele. — Vai ter muito trabalho todo este ano e não terá tempo de parar aqui. Estará comigo.

        Nessa ocasião, o sol já estava todo de fora. Inundava toda a galeria, e o calor do dia já começava a fazer-se sentir. Ouvi um leve barulho de coisa arranhada sob os nossos pés, como se alguém estivesse escondido embaixo do tabuado da galeria. Quase antes que eu me pudesse mover, o general levantou-se, e uma pistola lhe apareceu de repente na mão.

        — Quién es? — perguntou com voz áspera.

        Houve mais barulho de coisa arranhada, e então ouvi um latido muito meu conhecido. Saltei da galeria e olhei por um buraco que havia na base de pedra. Um focinho frio e uma língua amiga me tocaram o rosto. Puxei o cachorro para fora e levantei-me com ele a debater-se nos meus braços.

        — Perro! — gritei, muito contente. — Perro voltou!

 

        Manuelo levantou a mão para fazer-nos parar, e em seguida, levou o dedo rapidamente aos lábios. Montado no cavalinho, eu não tinha coragem de respirar. Olhei para Roberto. Ele também estava muito atento.

        Roberto era o filho mais velho do general Diablo Rojo. Tinha quase onze anos, sendo dois anos mais velho do que eu. Eu tinha nove anos, mas era mais alto do que ele quase uns oito centímetros. Ele mostrava muita inveja de mim, principalmente porque desde o ano anterior era claro que eu estava crescendo mais depressa.

        Os outros continuaram em silêncio nos seus cavalos. Estavam escutando também. Fiz o possível, mas só pude ouvir o barulho da folhagem agitada pelo vento na floresta onde estávamos.

        — Não estão longe, — disse Manuelo. — Teremos de andar sem fazer barulho.

        — Seria melhor se soubéssemos quantos são, — murmurou Gato Gordo.

        Manuelo fez um sinal afirmativo. Gato Gordo sempre dizia coisas acertadas. Era um homem que pensava, talvez porque fosse muito pesado. Não podia mover-se com facilidade e pensava muito.

        — Vou fazer um reconhecimento — disse Manuelo, descendo do cavalo.

        — Não, — replicou prontamente Gato Gordo. — Você seria logo denunciado pelas folhas secas e pelos galhos. Eles saberiam logo que estamos aqui.

        Gato Gordo apontou para cima.

        — Pelas árvores, como os macacos. Nunca pensarão em olhar para cima.

        — Mas nós somos muito pesados — replicou Manuelo. — Um galho poderia quebrar-se com o nosso peso e — puf! estaríamos mortos!

        — Mas eles não são pesados — disse Gato Gordo, olhando para Roberto e para mim.

        — Não! — exclamou Manuelo, com tal violência que quase deu um berro. — O general nos matará se acontecer alguma coisa ao filho dele!

        — Dax pode ir, — disse mansamente Gato Gordo.

        Manuelo olhou para mim, com a dúvida estampada no rosto, e disse, hesitantemente;

        — Não sei...

        Antes que ele dissesse mais alguma coisa, estendi os braços acima da cabeça e agarrei-me a um galho. Levantei-me na sela e trepei na árvore.

        — Eu vou, — disse lá de cima, olhando para eles.

        Roberto estava de cara fechada. Seus olhos fuzilavam. Eu sabia que era porque eu ia e ele, não. Mas as regras do pai dele eram muito severas e tinham sempre de ser obedecidas. Roberto não se moveu.

        — Não faça barulho, — disse-me Manuelo. — Basta apurar quantos são e como estão armados. Depois, volte e venha nos dizer.

        Bati com a cabeça e subi pela árvore. A cerca de cinco metros do chão, quando os galhos já estavam ficando finos demais para aguentar o meu peso, comecei a passar de uma árvore para outra.

        Eu era muito rápido, pois sempre gostara muito, como todos os garotos, de trepar em árvores, mas levei quase uma hora para chegar ao acampamento deles, a meio quilômetro de distância. E, se não tivesse sentido o cheiro da fumaça, poderia ter passado sem vê-los. Quando parei, estava bem acima das cabeças deles.

        Agarrei-me com força a um galho, com o coração batendo, certo de que eles poderiam ouvir o barulho, ainda que estivessem conversando em voz alta. Recuei lentamente até ficar bem escondido dentro da folhagem.

        Como falavam tão alto, era evidente que não desconfiavam de que houvesse alguém por perto. Contei-os cuidadosamente. Havia catorze homens, com os uniformes vermelhos e azuis desbotados e sujos. Já haviam preparado a fogueira para a noite e de vez em quando um deles se levantava, ia apanhar uma acha de lenha e jogava-a na fogueira. Estranhei que nenhum deles estivesse preparando a comida da noite, mas essa dúvida foi logo resolvida.

        Uma mulher apareceu na pequena clareira. Um dos homens sentado mais perto do fogo, levantou-se e foi falar com ela. As divisas da manga mostravam que era sargento. A voz dele era mais ríspida naquele tranquilo entardecer.

        — Donde está la comida?

        — Já vem, — respondeu a mulher em voz baixa.

        Um instante depois, apareceram duas mulheres carregando uma grande panela de ferro. O cheiro de um ensopado de carne chegou-me ao nariz, e eu senti água na boca.

        As mulheres colocaram a panela perto dos homens e começaram a servir a comida em pratos de metal. Depois que todos foram servidos, as mulheres levaram o que sobrara e afastaram-se para comer num canto.

        Aproveitei-me desta preocupação com a comida para tomar o caminho de volta. Dei volta à clareira pelas árvores até ver onde as mulheres tinham preparado a comida. A uns seis metros de distância, havia os restos de outro fogo. Havia também alguns cobertores estendidos no chão, que mostravam onde as mulheres dormiam. Voltei.

        O sol estava quase desaparecendo quando cheguei. Embora os outros estivessem atentos, à espera da minha volta, consegui descer no meio deles sem fazer o menor barulho. Fiquei muito orgulhoso quando vi suas caras espantadas.

        — Quatorze homens sob o comando de um sargento, — disse eu. — Já fizeram acampamento para passar a noite.

        — Quais são as armas que eles têm? — perguntou Gato Gordo.

        — Vi fuzis e duas metralhadoras portáteis.

        — Só duas?

        — Foi só o que eu vi.

        — Que será que estão fazendo por aqui? — murmurou Gato Gordo.

        — Deve ser uma patrulha, — disse Manuelo. — Estão sempre mandando patrulhas para descobrir onde é que estamos. — Riu. — E nunca descobriram.

        — Quatorze homens e duas metralhadoras — murmurou Gato Gordo, pensativamente. — Somos apenas cinco, sem contar os dois garotos. Talvez seja melhor deixá-los.

        — Não pode haver ocasião melhor para atacá-los, — disse eu, impetuosamente. — As mulheres acabaram de dar comida para eles. Estão tão ocupados em encher a barriga que nem nos ouvirão chegar.

        — Há mulheres com eles? — perguntou Manuelo, surpreso.

        — Há, sim.

        — Quantas?

        — Três.

        — Desertores! exclamou Gato Gordo. — Fugiram para as montanhas com as mulheres.

        — Talvez seja verdade então, — disse outro. — O general está forçando o exército a debandar. A guerra acabará dentro em breve.

        — O exército ainda está de posse dos portos, — replicou Gato Gordo. — Não poderemos vencer enquanto o general não tomar Curatu. Quando cortarmos o caminho deles para o mar, os imperialistas ianques não poderão mais ajudá-los. E então tudo acabará.

        — Soube que estamos marchando para Curatu, — disse Manuelo.

        — Que é que vamos fazer com esses soldados? — perguntou Gato Gordo, fazendo a conversa voltar ao que interessava.

        — Não sei, — murmurou Manuelo. — Eles têm duas metralhadoras.

        — Têm também três mulheres disse Gato Gordo, signifi-cativamente.

        — Desertores não têm espirito de luta, — disse Diego Gonzáles. — E já faz muito tempo que eu...

        Gato Gordo interrompeu-o com um olhar de advertência para Roberto e para mim.

        — Poderíamos, aproveitar as metralhadoras. O general nos agradeceria. Há sentinelas por lá, Dax?

        — Não. Estão espalhados, comendo. Eu poderia ter mijado dentro da panela e eles nem notariam.

        Manuelo tomou uma decisão.

        — Vamos atacá-los de surpresa. Pouco antes do amanhecer, quando eles estiverem no melhor do sono.

        Rolei o corpo, puxando bem o cobertor para proteger-me da friagem da noite. Ouvi Roberto mover-se ao meu lado.

        — Está acordado? perguntei.

        — Si.

        — Não consigo dormir.

        — Nem eu.

        — Está com medo?

        — Não, — respondeu com voz desdenhosa. — Claro que não.

        — Eu também não.

        — Estou ansioso para que chegue a hora. Vou matar um daqueles soldados. Vamos matá-los todos.

        — As mulheres também? perguntei.

        — Claro que não.

        — Que é que faremos então com elas?

        — Não sei. — Ele pensou um momento. — Violentá-las, eu acho.

        — Creio que não gostaria disso, — murmurei. — Foi o que fizeram com minha irmã. — É uma coisa que maltrata as mulheres.

        — Isso é porque você ainda é garotinho disse ele. — Você não poderia violentar uma mulher ainda que quisesse.

        — Por quê?

        — Você ainda é muito pequeno. Não tem tamanho para isso.

        — Tenho, sim! exclamei, indignado. — Eu sou maior do que você!

        — Mas a sua coisa não é!

        Fiquei calado, porque era verdade. Eu tinha visto a coisa dele mais de uma vez. Costumava brincar com ela no campo nos fundos da casa, e ai ela ficava duas vezes maior que a minha.

        — Seja como for, vou violentar uma, — disse eu, num desafio.

        Ele riu ironicamente.

        — Não vai poder. Ela não vai ficar dura. — Embrulhou-se no cobertor, cobrindo a cabeça. — Agora, vamos dormir. Preciso descansar um pouco.

        Fiquei sossegadamente ali deitado. Olhei para as estrelas. Pareciam às vezes tão baixas no céu, que eu poderia estender a mão e tocá-las. Fiquei tentando descobrir qual seria minha mãe e qual seria minha irmã. Meu pai me dissera que elas haviam ido para o céu e tinham passado a ser estrelas de Deus. Estariam me vendo naquela noite? Afinal, fechei os olhos e peguei no sono.

        Foi Manuelo quem me acordou, tocando-me. Levantei-me no mesmo instante.

        — Estou pronto, — disse eu. — Vou mostrar onde é que eles estão.

        — Não, Dax. Você vai ficar aqui com os cavalos. Alguém tem de tomar conta dos cavalos, senão eles podem fugir.

        — Mas...

        — Você e Roberto vão ficar com os cavalos. É a ordem que estou dando, — disse Manuelo com voz firme.

        Olhei para Roberto, mas ele desviou os olhos sem querer encarar-me. Não era afinal de contas tão grande assim, dissesse o que dissesse. Se fosse, não o deixariam ficar ali.

        — Está ficando tarde! — disse Gato Gordo.

        — Fiquem aqui e esperem até voltarmos, — disse-nos Manuelo. — Se até ao meio-dia não tivermos voltado, peguem os cavalos e voltem com eles para casa, estão entendendo?

        Assentimos, em silêncio e vimos os homens desaparecerem na floresta. Ouvimos durante algum tempo o chiar das folhas secas e o estalar dos galhos, depois tudo ficou em silêncio.

        — Vamos olhar os cavalos, disse-me Roberto.

        Fui com ele até o lugar onde os animais estavam amarrados. Estavam pastando calmamente como se estivessem na fazenda.

        — Não sei por que não podemos nos divertir também, — disse eu. — Os cavalos estão peados e não poderiam ir muito longe.

        — Manuelo disse que tínhamos de ficar, — murmurou Roberto.

        Senti-me de repente cheio de coragem.

        — Se você quiser, fique. Eu é que não vou ficar!

        — Manuelo vai se zangar.

        — Ele nem vai saber — respondi. — Posso ir mais depressa pelas árvores do que eles a pé.

        Comecei a trepar pela árvore mais próxima. Parei no primeiro galho e disse:

        — Depois eu lhe conto tudo o que aconteceu!

        Roberto me olhou um momento e depois gritou, correndo para a árvore.

        — Espere por mim que eu vou com você!

 

        Não levei para chegar lá tanto tempo como na véspera, pois já sabia exatamente para onde ia. Ficamos escondidos nas árvores até que senti Roberto puxar-me a manga. Ele apontou, e vi Manuelo e Gato Gordo quase à beira da clareira. Depois, desapareceram na folhagem.

        De onde estávamos vimos os nossos homens tomarem posição em volta dos soldados que dormiam. No acampamento, nenhum deles se mexia. Estavam encolhidos debaixo dos cobertores, em torno da fogueira que morria. Comecei a contar.

        A luz ainda fraca do amanhecer, contei apenas doze. Por mais que procurasse, não conseguia ver os outros dois. Compreendi então. Estavam com as mulheres. Fiquei sem saber se Manuelo havia percebido isso.

        Vi um movimento na borda da clareira. Gato Gordo estava fazendo sinal para alguém do outro lado. Virei a cabeça e vi Manuelo aparecer, com o largo machete na mão, logo seguido de Diego.

        Dois outros se mostravam ao lado de Gato Gordo. Manuelo fez um gesto com o machete, e todos correram em silêncio através da clareira. Vi os machetes descerem, e cinco soldados estavam mortos antes que os outros tivessem ao menos aberto os olhos.

        O ataque foi ferozmente eficiente. Mais dois foram abatidos enquanto tentavam fugir. Um morreu quando se sentava, e outro já estava de joelhos quando Gato Gordo, com vigorosa cutilada, quase lhe cortou a cabeça fora.

        Até então, não tinha havido barulho, além dos movimentos dos homens que se debatiam no agoniado frenesi da morte. Então, um dos soldados virou o corpo de repente e começou a correr de quatro pés para o mato num esforço desesperado de fuga. Um tiro de pistola ecoou pela floresta, e os passarinhos deixaram• de cantar. O soldado que fugia caiu de bruços no chão.

        Houve silêncio por um momento, enquanto os nossos homens recuperavam o fôlego. Por fim, Manuelo levantou-se.

        — Estão todos mortos?

        — Si, — respondeu Gato Gordo.

        — Todos eles?

        Começaram em silêncio a verificar os corpos. Diego levantou a cabeça e disse, de um que estava aos seus pés:

        — Acho que este aqui ainda está vivo.

        — Que está esperando então? — perguntou Manuelo.

        O machete de Diego se levantou, e a cabeça do homem rolou a meio metro do corpo. Diego nem parou para olhar. Passou a outro corpo e cutucou-o com o pé. Em seguida, voltou para onde estavam Manuelo e Gato Gordo, tomando posição um pouco atrás deles.

        — Só estou vendo doze, — disse Gato Gordo.

        — Eu também, — confirmou Manuelo. — Onde estarão os outros dois? O garoto disse que eram quatorze.

        — E três mulheres, — acrescentou Diego.

        — Ele podia ter-se enganado, — disse Gato Gordo. — É ainda uma criança.

        — Acho que não — disse Manuelo. — Dois devem ter fugido com as mulheres.

        — Não podem estar muito longe. Vamos persegui-los?

        — Não — disse Manuelo. — Eles já nos ouviram. Nunca os encontraremos dentro desse mato. Juntem as armas e as munições.

        Tirou do bolso um cigarrillo e acendeu-o, encostando-se a uma árvore.

        Os outros estavam começando a juntar as armas quando ouvi um barulho bem embaixo da árvore em que estávamos escondidos. Olhei. Era o sargento inimigo. Empunhava uma metralhadora e estava colocando-se em posição para varrer a clareira, apontando-a para Gato Gordo.

        Gritei sem refletir:

        — Cuidado, Gato Gordo!

        As reações de Gato Gordo foram perfeitas. Jogou-se dentro da folhagem num pulo de lado, como o do animal de que tinha o nome. Mas Diego não. Olhou para cima, para a árvore onde eu estava escondido, com um ar de surpresa no rosto. Uma rajada de metralhadora pareceu levantá-lo no ar e jogá-lo violentamente para trás.

        O sargento levantou a arma para o alto da árvore.

        — Volte, Roberto! Volte! — gritei, saltando para outro galho.

        Ouvi o matraquear da metralhadora, que cessou quase tão depressa quanto havia começado. O sargento estava puxando desesperadamente a alavanca. A metralhadora havia engasgado. Não esperei para ver mais nada.

        Roberto deu um grito atrás de mim. Olhei por cima do ombro. Embora fosse mais baixo do que eu, pesava muito mais e um galho se havia quebrado com o seu peso. Desceu por entre os galhos e foi estatelar-se no chão, quase aos pés do sargento.

        Este jogou a metralhadora para o lado e jogou-se sobre Roberto. Rolou pelo chão e quando se levantou estava com o rapaz à frente dele, com a faca no pescoço de Roberto. Olhou para os nossos homens por cima da cabeça de Roberto. A arma de Manuelo estava apontada para ele, e o machete de Gato Gordo lhe pendia ao lado. Os outros dois se aproximavam em silêncio por trás deles.

        Não era preciso dizer ao sargento que ele estava com os trunfos na mão.

        — Não se movam, senão o garoto morre!

        Manuelo e Gato Gordo trocaram olhares embaraçados. Eu sabia perfeitamente o que eles estavam pensando. O general não ia gostar daquilo. Se acontecesse alguma coisa a Roberto, seria bem melhor que não voltassem. A morte na selva seria uma bênção em comparação com o que o general faria com eles. Não se moveram.

        Foi Gato Gordo quem falou primeiro, com o machete voltado para o chão.

        — Largue o garoto, — disse ele maciamente. — Em troca disso, deixaremos você fugir para a floresta em paz.

        O sargento deu uma risada nervosa e cuspiu para o lado.

        — Pensa que sou idiota? Vi o que fizeram com os outros.

        — Isto agora é diferente, — replicou Gato Gordo.

        Manuelo deu um passo curto à frente, e o sargento moveu a mão com a faca. Uma lista de sangue apareceu no rosto de Roberto.

        — Não se movam! — gritou o sargento.

        Manuelo ficou imóvel.

        — Jogue o fuzil no chão!

        Manuelo olhou para Gato Gordo, hesitante. Gato Gordo fez um sinal quase imperceptível e Manuelo deixou o fuzil cair.

        — Agora, os outros, — ordenou o sargento.

        Gato Gordo deixou cair o machete, e os outros dois largaram os fuzis. O sargento olhou um momento para as armas, e então decidiu que seria perigoso ele mesmo recolhê-las.

        — Varga! Venga aqui, Varga!

        A sua voz ressoou pela floresta. Não houve resposta.

        — Varga! Varga! gritou ele de novo.

        Nenhuma resposta.

        — O seu companheiro fugiu, — disse Gato Gordo maciamente. — Será melhor para você fazer o que lhe estamos dizendo.

        — Não! — O sargento começou a dirigir-se cautelosamente para as armas, levando Roberto à sua frente.

        — Para trás — gritou ele. — Afastem-se das armas!

        Todos recuaram pouco a pouco, e o sargento foi avançando. Já estava quase embaixo da árvore onde eu estava escondido, quando tive a ideia instantaneamente, como se eu soubesse todo o tempo o que era preciso fazer. Uma estranha raiva me dominou, como se um demônio tivesse tomado posse de mim. Tirei a faca do cinto e segurei-a com a lâmina projetada para fora, como uma espada.

        Ele estava bem embaixo de mim. Um grito feroz escapou da minha garganta, ao mesmo tempo que me atirei.

        — Toma, bandido!

        Vi o rosto branco voltado para cima quando me choquei com ele. Senti no braço uma dor penetrante, enquanto os dois rolávamos pelo chão. Dois braços então me agarraram e me empurraram. Rolei um pouco pelo chão, até que pude levantar-me e vi Gato Gordo curvado sobre o corpo do sargento.

        Havia no rosto dele um olhar de espanto ao observar o sargento.

        — Está morto! — exclamou afinal. — O garoto matou-o!

        Olhei para o sargento. Estava com a boca aberta, com os olhos sem vida, esbugalhados. Bem abaixo do queixo, saia-lhe do pescoço o cabo da minha faca.

        Olhei para Roberto. Estava estendido no chão, lutando para recobrar o fôlego. Quando virou o rosto para mim, vi o sangue que lhe corria pela face.

        — Está bem, Roberto? — perguntei.

        Ele acenou afirmativamente, sem falar. Havia nos olhos dele um brilho estranho, quase como se estivesse zangado.

        Encaminhava-me para onde ele estava quando ouvi um grito às minhas costas. Senti uma dor aguda na nuca, e, quando virei a cabeça, senti unhas arranharem-me o rosto. Cai para trás.

        Sacudi a cabeça para ver melhor e levantei a vista. Uma mulher se debatia, bem segura por Gato Gordo. Ela cuspiu em mim.

        — Assassino! Você o matou! Você não é uma criança, é um monstro! Uma peste foi o que saiu da barriga de sua mãe!

        Gato Gordo bateu nela com força com o cabo do machete, e ela desabou em silêncio no chão. Havia um leve traço de satisfação na voz de Gato Gordo quando olhou em torno e viu as outras duas mulheres imobilizadas pelo fuzil de Manuelo.

        — Ah! — exclamou ele. — Encontramos las mujeres!

 

        O índio Santiago tirou algumas folhas de uma moita de loureiro e esmagou-as, esfregando-as nas mãos. Depois, curvou-se e apanhou um pouco de lama da borda do poço.

        — Botem isto no rosto, — disse ele. — Fará passar a dor.

        Roberto e eu fizemos o que ele mandava. A lama fria era agradável.

        — Dói? — perguntei-lhe respeitosamente.

        — Muito não.

        — Eu nunca fui cortado, — disse eu.

        Ele aprumou o corpo com uma espécie de orgulho e passou os dedos pelo pequeno talhe.

        — Acho que vai deixar uma cicatriz — disse ele, com ar de importância. Olhou-me com um jeito critico. — Mas acho que você não vai ficar com cicatriz alguma. Um arranhão nunca é tão fundo quanto um ferimento de faca.

        Fiquei desapontado. Mas não tinha resposta para dar.

        Olhei para Manuelo e Gato Gordo. Estavam encolhidos debaixo de uma árvore, conversando em voz baixa. De vez em quando, olhavam para as mulheres, que estavam sentadas no chão, na borda da clareira. Os irmãos Santiago estavam montando guarda a elas.

        — De que é que eles estão falando? — perguntei.

        — Não sei, — respondeu Roberto, que não estava olhando para Manuelo e Gato Gordo e, sim, para as duas mulheres. — A mais moça até que não é ruim.

        — Acha que se zangaram conosco? — perguntei.

        — Quem? — perguntou Roberto com espanto. Mas viu logo o que eu queria dizer e sacudiu a cabeça. — Acho que não. Afinal de contas, todos estariam mortos se nós não os avisássemos.

        — Si.

        — A verdade é que eu pulei em cima do sargento para atrapalhá-lo.

        Olhei para Roberto. Pensava que ele houvesse caído.

        — Você é muito corajoso.

        — Você também é. — Olhou de novo para as mulheres. — Gostaria que eles parassem logo com essa conversa. Estou com uma vontade louca de cair em cima de uma delas agora mesmo.

        — Está?

        — Você ainda pergunta?

        Manuelo e Gato Gordo acabaram a conversa, e Gato Gordo veio para onde nós estávamos, passando por entre os cadáveres. Quando chegou junto ao corpo de Diego, parou. Santiago chegou perto e murmurou:

        — Pobre Diego!

        — Pobre Diego, uma ova! — replicou Gato Gordo. — Morreu por ser burro. Quantas vezes eu lhe disse que não ficasse de boca aberta para tudo! Bem feito!

        Santiago encolheu os ombros, e Gato Gordo continuou em nossa direção.

        — Estão bem, garotos?

        — Estamos, — respondeu Roberto por nós dois.

        — Bueno, — disse ele. — Acham que podem ir buscar os cavalos e trazê-los para cá? Temos muito o que carregar.

        Roberto falou antes que eu pudesse dizer alguma coisa.

        — Que é que vão fazer com as mulheres?

        — Vamos guardá-las até vocês voltarem.

        — Eu ficarei aqui para guardá-las — disse Roberto. — Mande um dos outros com Dax.

        Gato Gordo olhou-o por um momento e voltou para onde estava Manuelo. Voltaram a conversar em sussurros. Uma vez, Gato Gordo levantou a voz, mas Manuelo o fez falar baixo. Por fim, Gato Gordo voltou.

        — Se deixarmos vocês ficarem, não vão dizer nada em casa?

        Roberto prometeu.

        Eu não sabia o que ele estava querendo dizer, mas, se Roberto ia ficar, eu também ficaria.

        — Prometo também que não vou dizer nada.

        Gato Gordo me olhou um momento e disse:

        — Você não vai ficar. Temos um serviço muito mais importante para você do que ir buscar os cavalos. Gostaríamos que você servisse de sentinela. Não queremos que o soldado que fugiu volte e nos colha de surpresa como aquele sargento. Volte pelo caminho uns quinhentos metros e fique com os olhos bem abertos!

        — Não sei — disse eu, hesitante. Olhei para Roberto, mas este ficou calado.

        Gato Gordo tirou a pistola do cinto.

        — Fique com isto. Se avistar o homem, dê um tiro para o ar para avisar-nos.

        Isso me convenceu. Era a primeira vez que alguém me confiava uma pistola.

        — Tenha cuidado, — disse Gato Gordo. — Não vá ferir-se com a pistola.

        — Fique descansado, — disse eu, convicto da minha importância. Corri os olhos em volta para ver se os outros estavam olhando. — Se houver alguma coisa, darei um aviso.

        Ia a cerca de cem metros de distância pelo caminho quando ouvi as risadas. Não consegui imaginar por que estavam rindo. Já estavam fora das minhas vistas, mas o som ainda me seguia. Por fim, não ouvi mais nada. Quando calculei que já estivesse a uns quinhentos metros de distância, subi a uma árvore de onde podia ver tudo em volta.

        Cerca de quinze minutos depois, comecei a ficar inquieto. Se o soldado estava nas vizinhanças, eu não vira nem sinal dele. Quanto tempo eu teria de ficar ali? Gato Gordo nada dissera a esse respeito. Esperei mais alguns minutos e, então, resolvi voltar e perguntar.

        Estava quase chegando lá quando ouvi de novo as risadas. Subi instintivamente para as árvores. Alguma coisa me dizia que eles ficariam muito zangados comigo se eu voltasse naquele momento, mas a curiosidade foi mais forte do que eu.

        Estavam todos reunidos na borda da clareira. A principio, não pude ver bem o que faziam, porque estavam à sombra de uma grande árvore. Dirigi-me sem fazer barulho para o outro lado da clareira. Mas só pude ver uma mistura de corpos. De repente, compreendi o que estavam fazendo.

        Contudo, não era exatamente como da outra vez. Aquelas mulheres não estavam gritando, não estavam com medo. Estavam era rindo, como se pouco se importassem com aquilo.

        Santiago, o velho, estava sentado, encostado a uma árvore com um cigarrillo no canto dos lábios. Havia no seu rosto um curioso sorriso de satisfação. Onde estaria Roberto? De repente, eu o vi sair de dentro do mato com as calças na mão.

        Olhei para ele. Concordei a contragosto que tinha razão. Era maior do que a minha. Ficava em frente dele como um pequeno cabo de punhal.

        Santiago, o moço, disse uma coisa aos outros pelo canto da boca. Quase que no mesmo instante houve silêncio e todos se voltaram para olhar para Roberto.

        Gato Gordo sentou-se, mostrando a barriga branca. Falou e eu ouvir perfeitamente a voz dele do outro lado da clareira.

        — Já era tempo. O general vai ficar satisfeito. Estão vendo? Já é um homem.

        A mulher com quem Gato Gordo tinha estado estendeu um braço para puxá-lo de novo para ela. Ele bateu-lhe raivosamente na mão.

        — Puta! — exclamou, empurrando-a, e levantou-se.

        Manuelo e Santiago, o moço, também se levantaram lentamente. Manuelo pegou um cantil, derramou um pouco de água na barriga e se enxugou depois com um lenço. Virou-se para Roberto e disse:

        — É como nós combinamos. Pode escolher.

        Roberto olhou para as mulheres. Estavam ali estendidas, nuas, com os corpos reluzentes de suor, olhando-o com certa indiferença.

        — Quero esta, — disse ele, apontando.

        A que ele tinha escolhido parecia pouco mais do que uma menina. Eu teria escolhido uma das outras, que tinham peitos maiores, mas aquela é que Roberto me tinha dito que queria. Vi que as pernas dele tremiam quando ele marchava para ela. Ele caiu de joelhos diante da moça. Com um riso, ela o agarrou e o puxou para cima dela, levantando as pernas e fechando-as em torno dele.

        As nádegas e as coxas gordas e brancas da mulher davam quase uma volta em torno do corpo dele. Olhei para os outros. Todos observavam a cena com grande interesse. Um momento depois, Manuelo virou-se e jogou-se em cima da mulher que estava mais perto. Ouvi-a gemer quando fechou as pernas em torno dele. Houve outro grito, e Gato Gordo se jogou em cima da outra mulher.

        Tornei a olhar para Roberto. Ele e a mulher moviam-se numa dança furiosa e estranhamente sem ritmo. Comecei a sentir uma exaltação dentro de mim. O coração batia com força e uma dor muito esquisita começou a espalhar-se pelas minhas virilhas. Senti a boca de repente seca e fiquei sem poder respirar.

        Roberto começou a gritar, debatendo-se ferozmente como se quisesse livrar-se da mulher. Atordoado, deixei-me escorregar. Estendi a mão para pegar um galho, mas era tarde demais. Cai da árvore quase aos pés deles.

        Manuelo rolou pelo chão e me olhou, exclamando:

        — Sem-vergonha!

        Levantei-me e gritei:

        — Vocês mentiram para mim!

        Gato Gordo virou a cabeça.

        — Você devia estar de sentinela no caminho!

        — Mentirosos! — gritei. Atirei-me à mulher mais próxima, contorcendo o corpo como vira Roberto fazer. — Também quero violar uma mulher!

        Senti Gato Gordo pegar-me e esperneei.

        — Largue-me! Largue-me!

        Eu ainda me contorcia furiosamente quando Gato Gordo me levantou do chão. Alucinado de raiva, dei-lhe uma dentada no rosto. Depois, comecei a chorar.

        — Se tenho idade para matar um homem, também tenho idade para ficar em cima de uma mulher! Sou tão bom como Roberto!

        Mas os braços de Gato Gordo prendiam-me de encontro ao seu peito suado. Senti o seu cheiro forte, e de repente toda a revolta e todo o calor me abandonaram.

        Ele me afagou a cabeça delicadamente e disse com voz muito branda:

        — Calma, meu galinho, calma. Tudo tem sua hora. Não tarda muito e você já é um homem também!

 

        As mulheres ficaram nervosas depois que os homens se vestiram. Falaram em voz baixa entre si, e a mais velha, a que me havia arranhado, atravessou a clareira.

        — Vão nos deixar aqui no meio do mato?

        Manuelo acabou de afivelar o cinto.

        — Não fomos nós que trouxemos vocês para cá.

        — Mas, se ficarmos aqui, vamos morrer. Não haverá ninguém para proteger-nos, para dar-nos comida.

        Manuelo não respondeu. Tirou a pistola e substituiu as cápsulas detonadas.

        Ela interpretou o silêncio como um principio de aquiescência e procurou reforçar a sua posição.

        — Não fomos boazinhas para vocês? Não recebemos todos quantas vezes quiseram? Não nos queixamos, não foi?

        Manuelo virou-se e olhou para nós.

        — Já pegaram todas as armas?

        — Já, — respondeu Gato Gordo.

        — Então vamos, — disse Manuelo, dando alguns passos pelo caminho.

        A mulher correu para ele e agarrou-lhe o braço com o rosto contorcido de raiva.

        — Bandoleros! Vocês todos são uns animais sem um pingo de sentimento! Serviram-se de nós como se fôssemos vasilhas para receber as suas imundícies. Qualquer de nós pode estar com um filho de vocês!

        Manuelo deu-lhe um empurrão, e ela caiu a alguns passos de distância.

        — Cão! — gritou ela. — Quer mesmo que a gente morra aqui?

        — Quero, — disse ele displicentemente e, voltando-se, levantou a pistola e atirou.

        A bala atirou a mulher de encontro a uma árvore. Ela caiu para a frente de joelhos e afinal se encurvou numa posição fetal junto ao tronco da árvore. A mão ainda se agitou alguns instantes pelo chão antes de ficar imóvel.

        Manuelo levantou a pistola ainda fumegante.

        — As outras duas fugiram, — disse Gato Gordo.

        Corri os olhos pela clareira. Apenas uma onda entre as folhas ficara como um sinal da presença delas.

        — Vamos atrás delas?

        — Não, — disse Manuelo, guardando a pistola. — Já perdemos tempo demais com essas putas. Ainda temos um dia de viagem até o vale para pegar a carne. Começarão a passar fome lá em casa se não andarmos depressa.

        — Isso servirá de lição a essas mulheres, — disse Gato Gordo, sorrindo. — Elas não são donas de um homem só porque abriram as pernas para ele!

        Só fomos chegar ao vale de Bandaya no dia seguinte, bem cedo. Começamos a descer a encosta da montanha ainda dentro da névoa da madrugada. De repente, o sol rompeu as nuvens, e o vale apareceu estendido abaixo de nós, verde e belo como um espesso tapete. Aprumei-me na sela e olhei, procurando avistar a minha casa. Fazia mais de dois anos que eu não a via.

        Lembrei-me da tarde em que fora tomada a decisão. Meu pai e o general conversavam sossegadamente na galeria. De vez em quando, meu pai olhava para mim. Eu estava brincando no pátio com Perro. Havia-lhe ensinado um novo truque. Pegava um pedaço de cana e jogava-o o mais longe possível. Ele saia correndo, latindo sem parar. Pegava então a cana e vinha trazê-la de volta para mim contente da vida.

        — Dax?

        Parei com a mão levantada, pronta para jogar ainda uma vez o pedaço de cana. Olhei para meu pai.

        — Si, Papá?

        — Venha cá.

        Joguei o pedaço de cana no chão e fui para a galeria. Perro agarrou prontamente a cana e veio com ela para os meus pés, quase me derrubando. Quando comecei a subir a escada, ele ficou a olhar-me com uma expressão curiosa de expectativa. Sorri ao vê-lo parado ali. Ele sabia que não podia entrar na galeria.

        — Espere por mim ai, — disse eu.

        Perro se sentou no chão e começou a brincar com o pedaço de cana como se fosse um osso, abanando devagar a cauda.

        Olhei para meu pai quando me aproximei dele. Tinha no rosto rugas que eu nunca havia notado, e sua pele normalmente escura havia adquirido um tom cinzento. Parei diante dele.

        — O general me disse que lhe falou de ir para a casa dele nas montanhas.

        — Si, Papá.

        — Quer mesmo ir?

        — Ele disse que eu podia ter um burro. E, depois, quando crescer mais, um cavalo.

        Meu pai ficou em silêncio.

        — Ele também me disse que o senhor iria com ele. Se não vai, prefiro ficar aqui com o senhor.

        Meu pai e o general se olharam.

        — Não me agrada deixá-lo, meu filho. Mas é preciso.

        — Por quê?

        — É importante. O general e eu fizemos uma aliança.

        Eu ainda não compreendia. Meu pai continuou:

        — O povo está oprimido. Há injustiça e fome na terra. Temos de fazer o que for possível para ajudá-lo.

        — Por que não traz todos para cá? — perguntei. — Aqui há comida de sobra para todo o mundo.

        Meu pai e o general tornaram a se olhar. Meu pai me pegou ao colo e disse pacientemente:

        — Não podemos fazer isso, meu filho. É gente demais.

        Eu conhecia todos os campesinos do vale. Não eram tantos assim, e foi o que eu disse.

        Meu pai sorriu.

        — Há muito mais campesinos do outro lado das montanhas.

        — Quantos? Duas vezes mais?

        — Muito mais. Milhares e milhares. Se viessem todos para cá, não haveria lugar nem para se estenderem no chão e dormirem.

        Tentei imaginar o que meu pai dizia, mas não pude. Tive outra ideia.

        — Vai com o general porque é prisioneiro dele?

        — Não, meu filho. O general e eu somos amigos. Acreditamos que o povo deve ser ajudado.

        — Vai ser então um bandolero como ele?

        — Não, Dax, o general não é um bandolero.

        — Mas os homens dele são.

        — Não são mais, — explicou meu pai. — Todos os bandoleiros entraram para o seu exército. Esses homens são guerrilleros.

        — O exército tem farda azul e vermelha. Esses não têm farda. Parecem bandoleros.

        — Terão farda um dia — disse o general.

        Olhei-o, vi que o rosto dele estava impassível e disse:

        — Então ai vai ser diferente. Parecerão de fato um exército.

        Ouvi um tropel de cavalo que se aproximava e olhei para a estrada. Era meu avô, dom Rafael.

        — É Vovô! gritei, saltando do colo de meu pai e correndo para a cerca. — Holá, Papá Grande! Holá, Abuelo!

        Em geral, quando eu corria assim para a cerca e gritava, meu avô me respondia alegremente. Mas dessa vez ele ficou em silêncio. Quando desceu do cavalo, vi que ele estava muito zangado, pois tinha a boca franzida e o rosto muito pálido.

        Meu pai levantou-se quando o velho começou a subir a escada da galeria.

        — Bienvenido, Dom Rafael!

        Vovô não respondeu à saudação. Olhou-o friamente e disse:

        — Vim buscar meu neto.

        Fiz menção de correr para ele, mas alguma coisa no seu tom de voz me fez parar. Fiquei a olhar para ele e para meu pai.

        O rosto de meu pai estava ainda mais cinzento quando ele estendeu a mão e me puxou para ele. Podia sentir-lhe a mão trêmula no meu ombro.

        — Não creio que seja seguro para meu filho continuar neste vale depois que eu sair daqui.

        — Perdeu o direito a ele, — replicou Papá Grande com a mesma voz fria. — Aliando-se aos assassinos da mãe dele, deixou de proceder como pai. Quem se junta à ralé passa a ser ralé.

        Senti a pressão mais forte dos dedos de meu pai no meu ombro. Mas a voz não mudou.

        — O que aconteceu foi um acidente. Os homens que cometeram o crime já pagaram por ele.

        A voz de Papá Grande se alteou.

        — E isso fará viver de novo minha filha, sua mulher? Ou sua filha? Estão mortas e, logo no dia seguinte, você se dispõe a juntar-se aos assassinos delas. Entregaria seu filho aos cuidados dessa gente?

        Meu pai não respondeu.

        — Não ficará satisfeito enquanto ele não for o que eles são! Assassinos! Terroristas! Bandidos!

        Papá Grande estendeu as mãos para pegar-me, mas meu pai me afastou do alcance dele.

        — Ele é meu filho, — continuou ele, com a mesma voz calma, — e ficará sendo meu filho. Não o deixarei aqui. Será retido como refém contra mim se o exército chegar. Estará em mais segurança nas montanhas.

        — Sangre negra! — gritou meu avô com todo o desprezo. — Sangue de preto! Filho de escravos! Não pode haver nada mais baixo! Pensei que fosse um homem, pois do contrário não teria permitido que se casasse com minha filha. Vejo agora que estava errado. Não há baixeza a que não seja capaz de descer diante dos conquistadores, como seus antepassados fizeram diante dos seus senhores!

        Nesse momento, o general levantou-se da cadeira e gritou:

        — Basta, velho!

        Papá Grande olhou-o como se ele fosse lixo.

        — Bandolero! — Meu avô proferiu a palavra como se fosse a coisa mais obscena que eu já ouvira.

        O rosto do general ficou vermelho de raiva.

        — Pare! Não basta termos poupado a sua pessoa e os seus bens? Ou já está tão velho que procura a morte como um alivio aos seus achaques?

        Papá Grande nem lhe deu resposta. Voltou-se para meu pai como se o general nem estivesse ali.

        — Se tem algum amor por seu filho, deixe-o ficar comigo antes que seja tarde demais!

        Meu pai sacudiu a cabeça.

        — Vá embora! — gritou o general. — Vá antes que eu perca a paciência e cancele os favores que seu genro obteve para a sua pessoa!

        Papá Grande olhou-o furiosamente.

        — Não preciso da sua paciência nem dos seus favores. Já conheci durante a minha vida muita gente da sua laia. Espero ter vida para ainda ver sua cabeça espetada na ponta de uma lança como vi as dos outros!

        Deu as costas e desceu a escada da galeria até chegar ao seu cavalo, com o corpo empertigado e altivo, vestido com o terno branco como a neve no alto das montanhas. Montou e disse da sela:

        — Quando o exército chegar é que iremos ver a sua bravura!

        Olhou depois para mim, e sua voz se abrandou.

        — Adeus, meu neto — disse ele tristemente. — Já estou lamentando o que lhe vai acontecer.

        Dito isso, esporeou o cavalo e afastou-se a galope. Fiquei a olhá-lo. Os cascos do cavalo arrancavam pequenas nuvens de poeira da terra batida da estrada. Olhei-o até desaparecer. Voltei-me então para meu pai, em cujos olhos havia uma tristeza tão grande quanto a que eu vira nos olhos de meu avô. De repente, tomou-me nos braços e me apertou de encontro ao peito.

        — Meu filho, meu filho, — sussurrou ele. — Só peço a Deus que eu esteja fazendo por você o que é certo!

        O general bateu palmas vivamente, e um homem veio correndo do outro lado da estrada. Era um homem grande, o mais gordo que eu já conhecera, mas havia corrido com graça, leveza e agilidade. Lembrou-me os cabritos que eu vira saltar de pedra em pedra na montanha. Trazia o chapéu na mão.

        — Si, Excelencia?

        — Gato Gordo, — disse o general, — arrume-se e leve esse menino para as montanhas. Fica sob os seus cuidados e para mim você será o único responsável se alguma coisa acontecer a ele.

        — Si, Excelencia, — disse o homem com uma reverência. Voltou-se depois para mim. — O menino está pronto para viajar?

        Meu pai olhou para o general.

        — Agora?

        — O perigo aumenta de instante a instante.

        — Vá dizer a Sara para arrumar as suas roupas, — disse meu pai, colocando-me no chão.

        — Está bem, Papá, — disse eu, obedientemente e sai da galeria.

        — Depressa, niño, — disse-me Gato Gordo. — É melhor já estarmos nas montanhas quando a noite cair.

        Eu era muito tímido para dizer alguma coisa naquele momento, mas, naquela noite, quando o movimento de um animal me acordou, arrastei-me tremendo para onde ele estava, pelo chão gelado das montanhas.

        — Tengo miedo, Gato Gordo, — sussurrei.

        Ele me deu a mão.

        — Segure a minha mão, garoto, e eu o levarei sem perigo por estas montanhas.

        Tranquilizado, fechei os olhos e adormeci de novo.

        Havia mais de dois anos que isso acontecera, e naquele momento o sol iluminava o vale e eu podia abarcá-lo quase todo com a vista. Firmei-me nos estribos e senti uma onda de contentamento invadir-me. Havia muito tempo que não ia a casa. Papá Grande ficaria contente de saber que afinal de contas não teria de lamentar o que me havia acontecido.

 

        Havia apenas poucos minutos que descíamos a estrada da montanha quando Manuelo de repente levantou a mão. Paramos, e ele desceu do cavalo para encostar o ouvido no chão duro da estrada. Escutou um momento e então chamou Gato Gordo para escutar também.

        Pouco depois, estavam ambos montados de novo.

        — Temos de sair da estrada e esconder-nos, — disse Manuelo. — Há muitos cavalos subindo por esta estrada.

        Gato Gordo correu os olhos em torno.

        — Esconder-nos onde, nesta montanha sem árvores?

        — Temos de voltar então, — disse Manuelo prontamente, virando o cavalo.

        Eu havia brincado naquelas montanhas desde que era garotinho.

        — Mais abaixo na estrada, logo depois da curva, há algumas árvores. Logo depois das árvores, há uma caverna onde podemos esconder-nos.

        — Dá para escondermos também os cavalos?

        — Ouvi Papá dizer uma vez que dava até para um exército.

        — Então vá na frente, depressa — disse Manuelo. — Nós acompanharemos você.

        Afrouxei a rédea do meu cavalo, e galopamos para a curva da estrada. As árvores estavam no mesmo lugar de que eu me lembrava delas. Sai da estrada e passei por entre as árvores até chegar à entrada da caverna.

        — Chegamos! — disse eu.

        Manuelo saltou do cavalo num segundo.

        — Você e Roberto, levem os cavalos para dentro da caverna, — ordenou ele. — Os outros, venham comigo. Temos de apagar o nosso rastro na estrada.

        Saltaram todos e eu e Roberto seguramos as rédeas e levamos os cavalos para dentro da caverna. A principio, os animais relincharam e recuaram da escuridão, mas nós falamos brandamente com eles e pouco depois se aquietaram. Roberto fez um nó das rédeas e amarrou tudo a uma pedra. Depois disso, corremos para a entrada.

        Gato Gordo e Santiago, o velho, andavam de costas para nós, varrendo com galhos o leito da estrada. Manuelo e Santiago, o moço, estavam armando uma das metralhadoras. Quando acabaram, pegaram-na e correram para a entrada da caverna.

        Quando Gato Gordo e Santiago terminaram, olharam com satisfação para a metralhadora. Gato Gordo tomou posição atrás da arma e fechou o olho sobre a mira, muito contente.

        Manuelo ordenou a Santiago, o moço:

        — Vá para as árvores. Cubra-nos com o seu fuzil se houver alguma dificuldade.

        Quase antes que ele acabasse de falar, Santiago já estava empoleirado entre os galhos. As folhas tremeram um momento e ele não foi mais visível.

        Manuelo olhou para os garotos.

        — Para a caverna, vocês dois!

        Antes que pudéssemos protestar, Gato Gordo levantou a mão. Ficamos parados, escutando. Já era bem claro o pesado tropel dos cavalos.

        — São mais de vinte, — disse ele, fazendo um gesto para que nos deitássemos.

        Manuelo rastejou na direção da estrada. Avistei a cabeça dele perto das árvores, erguendo-se para olhar a estrada. Tentei olhar para a estrada além dele, mas a curva da encosta da montanha a escondia.

        O tropel era mais alto, e a cabeça de Manuelo desapareceu. O barulho vinha diretamente da estrada à nossa frente, depois passou e começou a diminuir.

        Manuelo voltou correndo.

        — Cavalaria! Toda uma tropa! Contei trinta e quatro homens.

        — Que estarão fazendo aqui? — murmurou Gato Gordo. — Não havia noticia de militares em Bandaya.

        — O fato é que estão aqui, — disse Manuelo, encolhendo os ombros.

        Ouviu-se ao longe o som de um clarim e, depois, silêncio. Manuelo escutou um momento mais e, então, sentou-se atrás da metralhadora e acendeu um cigarrillo. Estava muito pensativo.

        — Olá, moço! — disse ele em voz baixa, mas penetrante. — Que está vendo dai?

        — Nada, — disse Santiago com a voz abafada pela folhagem. — A estrada está desimpedida.

        — Não é da estrada que estou falando! É do vale!

        Houve silêncio, e ele voltou a falar:

        — Há muita fumaça, mas está muito longe para se saber o que é que está queimando.

        — Não está vendo mais nada?

        — Não. Posso descer agora?

        — Fique ai!

        — Estou com os cojones machucados de me sentar neste galho. Gato Gordo riu.

        — Não é o galho que lhe está fazendo os cojones doerem. — Voltou-se para Manuelo. — Que é que acha?

        — Não sei. Pode ser apenas um grupo de passagem pelo vale.

        — E agora? Vamos voltar para casa?

        — Levando armas em lugar de carne? Não adianta.

        — Mas se houver soldados no vale...

        — Não sabemos se há. Os que vimos estavam se afastando.

        Gato Gordo nada disse. Santiago, o velho, foi sentar-se defronte dele. Ficaram em silêncio, olhando um para o outro.

        Senti a pressão nos rins.

        — Vou urinar.

        Fui até uma árvore e comecei a urinar. Um instante depois, Roberto estava ao meu lado. Ficamos ali, com os dois pequenos rios amarelos a correr, dourados sob a luz do sol. Fiquei satisfeito. Ele podia ser mais velho e tudo o mais, mas eu urinava mais longe do que ele. Roberto não havia notado isso, e eu já ia chamar-lhe a atenção quando de repente tive de parar. Abotoei as calças e voltei para a entrada da caverna.

        Os três homens ainda estavam sentados em silêncio em torno da metralhadora. Manuelo apagou o cigarrillo e guardou cuidadosamente a ponta no bolso.

        — Só há um meio de descobrir. Um de nós tem de ir até o vale.

        — Se houver mais militares, será perigoso.

        — Será mais perigoso se voltarmos para casa sem carne e sem fazer nenhum esforço para consegui-la, — replicou Manuelo.

        — É verdade, — murmurou Gato Gordo. — Não irão gostar disso.

        — De jeito nenhum — disse Santiago, o velho. — Vão passar fome.

        Ambos olharam-no com surpresa. Era muito raro o índio falar.

        Manuelo perguntou a Gato Gordo:

        — Você irá?

        — Eu? Por que eu?

        — Porque você de nós todos é o único que já esteve no vale. É lógico, portanto, que vá você.

        — Mas só estive lá um dia. Logo depois, o general me mandou levar aquele garoto ali para as montanhas.

        Manuelo olhou para mim.

        — Lembra-se do vale?

        — Si.

        — A sua hacienda fica muito longe daqui?

        — Uma hora e meia a cavalo.

        — E a pé? Um cavalo chamaria muito a atenção.

        — Três, talvez quatro horas.

        Manuelo pensou um pouco e disse:

        — Leve o garoto com você como guia.

        Gato Gordo resmungou:

        — Devíamos ao menos levar os cavalos. Você sabe quanto é difícil para mim caminhar. Além disso, tenho a impressão de que é muito perigoso. Podemos ser mortos.

        — Nesse caso, você não precisará dos cavalos, — disse Manuelo com decisão. — Vaya!

        Gato Gordo levantou-se e pegou o fuzil.

        — Deixe isso ai! — ordenou Manuelo. — E esconda a pistola dentro da camisa. Se alguém passar por vocês na estrada, não verá senão um pobre campesino que vai para Bandaya com o filho. Se você estiver com um fuzil, atirarão primeiro e farão perguntas depois.

        Gato Gordo não parecia nada feliz.

        — Quanto tempo você esperará por nós?

        Manuelo olhou para o sol e disse:

        — Devem ser oito horas. Segundo disse o garoto, chegarão à hacienda ao meio-dia. Esperaremos até o anoitecer. Se até então não tiverem voltado, iremos para casa.

        Gato Gordo olhou-o sem queixas. Cada um sabia o que o outro estava pensando. Se a situação fosse ao inverso, Manuelo reagiria da mesma maneira. Era uma das condições da vida.

        Gato Gordo virou-se para mim.

        — Vamos, garoto. Parece que o trouxe de casa e tenho de levá-lo de novo para lá.

        — Meus cojones não aguentam mais! — disse Santiago, o moço, de uma das árvores.

        — Que pena! — disse Gato Gordo, sorrindo. — Quem sabe se você não prefere dar o passeiozinho que nós vamos dar?

 

        O sol estava quase no meio do céu quando nos escondemos no canavial e olhamos para o outro lado da estrada. O paiol e a cozinha tinham sido completamente queimados. O calor das madeiras carbonizadas me chegava até o rosto. Sentia no estômago um começo de náusea.

        Levantei-me. Gato Gordo me fez voltar para o chão.

        — Fique quieto! Pode ser que haja alguns deles por ai!

        Olhei-o como se fosse alguém que eu não conhecesse e murmurei surdamente:

        — Tentaram queimar minha casa!

        — Foi por isso que seu pai mandou você para as montanhas.

        — Se ele soubesse, teria deixado que eu ficasse. Eu não deixaria tocarem fogo na fazenda.

        — Teriam tocado fogo em você junto com ela, — disse Gato Gordo. Olhou atentamente os arredores e disse: — Vamos. Talvez a gente possa saber alguma coisa.

        Atravessei a estrada com ele. No meio do caminho, entre a estrada e a casa, encontramos um morto, caído de bruços no chão. Gato Gordo virou-o e disse com desprezo:

        — Campesino!

        Reconheci-o. Era o velho Sordes, o jardineiro. Disse isso a Gato Gordo.

        — Foi melhor para ele, — disse, com o mesmo desprezo. — De qualquer maneira, iria perder o emprego.

        Continuamos para a casa. A galeria fora também queimada. Parecia ter caído dentro da adega. A quentura era bem mais intensa. Gato Gordo bateu com o pé numa tábua, que se desprendeu e foi cair na adega. Quase imediatamente, uma língua de chama se elevou lá debaixo.

        Demos volta pela casa até chegar aos fundos.

        — Talvez ainda haja alguém na adega, — disse eu a Gato Gordo.

        — Se houver, já deve estar assado.

        Foi só quando chegamos às árvores que ficavam entre a casa e o paiol que vimos as duas mulheres. Estavam amarradas, costas com costas, ao tronco de uma árvore, e olhavam-nos com os olhos parados. Uma delas eu reconheci. Era Sara, a cozinheira. A outra eu não sabia quem era.

        Estavam nuas e tinham o corpo coberto de pequenos cortes nos quais o sangue se havia coagulado. As formigas já começavam a subir por elas.

        — Esta é Sara, — disse eu, — a que arrumou a minha mala.

        — La índia?

        — Sim.

        Fechei os olhos e lembrei-me de como ela havia preparado o meu café na última manhã que passei em casa. Abri os olhos e perguntei:

        — Por que não fizeram o que queriam com ela e não a mataram depois? Por que tiveram ainda de torturá-la?

        — Soldados! — exclamou Gato Gordo. — São piores do que nós.

        — Mas por quê?

        — Com certeza, pensaram que ela soubesse de alguma coisa e queriam que ela contasse. Bem, aqui não há mais nada. Podemos ir tratando de voltar.

        Estávamos quase na estrada quando ele me fez parar de repente e me disse nervosamente.

        — Você se chama Juan. Não fale! Deixe que eu falo tudo por você!

        Só compreendi o que ele me estava dizendo quando vi de repente os seis soldados aparecerem com as suas fardas vermelhas e azuis e as carabinas apontadas para nós.

 

        Gato Gordo tirou o chapéu com um sorriso servil no rosto.

        — Somos pobres campesinos que viemos para Bandaya procurar trabalho, Excelência. Meu filho e eu...

        O jovem tenente encarou-o.

        — Que é que estão fazendo aqui neste lugar?

        — Nada. Vimos a fumaça e pensamos que...

        — Pensaram que podiam roubar alguma coisa!

        — Não, Excelência, — protestou Gato Gordo com voz ofendida. — Pensamos que poderíamos ajudar em alguma coisa. A gente não sabia que era um caso militar.

        O tenente olhou para mim e perguntou:

        — Que idade tem o garoto?

        — Meu filho Juan tem quase doze anos, Excelência.

        — Estamos à procura de um garoto de oito anos, filho do bandolero Xenos.

        — Não sabemos quem é, — disse prontamente Gato Gordo.

        O tenente voltou a olhar para mim e disse:

        — Não sei... O garoto que procuramos é escuro como seu filho.

        — Levante o corpo, Juan! — disse Gato Gordo e voltou-se para o tenente: — Está vendo como meu Juan é alto? Qual é o garoto de oito anos que é desse tamanho?

        — Quantos anos você tem, menino? — perguntou-me de repente o tenente.

        — Tengo once anos, señor.

        — Por que é que você é tão escuro?

        Olhei para Gato Gordo. Não compreendia o que ele queria dizer.

        — A mãe dele é...

        O tenente interrompeu Gato Gordo.

        — Perguntei foi ao menino!

        Tomei fôlego.

        — Mi mamá es negrita.

        Ouvi Gato Gordo dar um suspiro quase silencioso de alivio. O soldado me fez outra pergunta.

        — Donde vives?

        — Lá em cima, — disse eu, apontando para as montanhas.

        — O menino se expressa muito bem para um campesino.

        — É a Igreja, Excelência, — disse prontamente Gato Gordo. — A mãe dele é muito religiosa. Por isso, conseguiu que ele frequentasse a escola dos padres jesuítas lá nas montanhas.

        O tenente olhou-o alguns momentos e disse:

        — Venha comigo.

        — Por quê, Excelência? — perguntou Gato Gordo. — Não pode querer nada mais de nós. E nós queremos voltar para casa.

        — Voltarão depois. O coronel quer interrogar pessoalmente todas as pessoas suspeitas. Marche!

        Os soldados tomaram rapidamente posição em torno de nós.

        — Para onde vai levar a gente? — perguntou Gato Gordo.

        — A la hacienda de dom Rafael Campos. Vamos!

        Seguiu pela estrada, e nós o acompanhamos, entre os soldados. Senti a mão de Gato Gordo no meu ombro, ao mesmo tempo que ele me dizia em voz baixa:

        — Não pode reconhecer seu avô!

        — E se ele me reconhecer?

        — Vamos deixar isso para quando acontecer. Há tempos que ele não vê você, que cresceu muito. É possível que não o conheça.

        — Que é que vocês dois estão conversando? — perguntou o tenente.

        — Nada, Excelência, — respondeu Gato Gordo. — Estávamos dizendo apenas que estamos muito cansados e com fome.

        Uma tropa de cavalaria apareceu na estrada, e tivemos de ficar parados de lado para deixar os cavalarianos passarem. O tenente perguntou a um dos oficiais:

        — Encontraram alguma coisa?

        O outro sacudiu a cabeça.

        — Nada.

        O tenente ficou olhando a tropa enquanto esta galopava para o acampamento.

        Havia homens, mulheres e crianças na hacienda de meu avô. Olharam-nos sem curiosidade, preocupados com as suas próprias desgraças. Gato Gordo levou-me para um canto.

        — Conhece alguma dessas pessoas?

        — Não. Ainda não vi ninguém conhecido.

        — Bueno, — murmurou ele, correndo os olhos em torno. — Bem que eu gostaria de ter alguma coisa para comer. Estou com o estômago dando cambalhotas.

        O sol estava quente, e eu me sentia cansado e com sede.

        — Há um poço nos fundos da casa.

        — Nem pense nisso, murmurou Gato Gordo. — Eles haviam de ver logo que você já sabia onde é o poço. E ai estava tudo perdido. — Notou a expressão do meu rosto, e sua voz se suavizou. — Venha, niño. Temos de achar um lugar com sombra para você se deitar e descansar.

        Achamos um lugar perto de um carro no pátio da frente. Gato Gordo se agachou e descansou as costas numa das rodas. Deitei-me embaixo do carro e dai a alguns minutos estava dormindo.

        Não sei quanto tempo havia dormido, quando Gato Gordo me sacudiu e disse:

        — Abra os olhos, niño.

        Sentei-me e esfreguei os olhos. O sol ainda estava alto no céu. Eu não podia ter dormido mais de meia hora.

        Os soldados estavam levando todo mundo para a galeria da casa. Tivemos de levantar-nos e ir com os outros.

        Um soldado subiu a escada, olhou para nós e disse:

        — Formem em fila de dois.

        Havia talvez cinquenta pessoas ali no pátio, entre elas alguns garotos da minha idade, mas a maioria eram adultos. Encaminhei-me para a frente da fila, mas Gato Gordo me puxou para trás de uma mulher gorda bem no meio do grupo.

        A porta da frente foi aberta, e dois soldados saíram da casa. Levavam um velho que se apoiava neles. Quase dei um grito e corri para ele, mas Gato Gordo me segurou com um punho de aço.

        Era Papá Grande, mas não o Papá Grande de que eu me lembrava. A camisa branca e o terno dantes sempre bem-passados e imaculados estavam amarfanhados e sujos. Havia sinais de sangue nos cantos da boca, na barba e no colarinho. Seus olhos estavam quase exaustos de dor, e seu queixo tremia enquanto ele procurava aprumar o corpo.

        Pararam na balaustrada da galeria, e um oficial saiu da casa e ficou atrás deles. Tinha na farda galões de coronel. Olhou para nós todos e depois para Papá Grande. Tinha um bigode muito fino, como que traçado a lápis, e um sorriso cruel no rosto.

        — Dom Rafael, — disse ele com voz ríspida, — essa gente que está ai diz que são campesinos do vale. Dizem que os conhece e que falará a favor deles. Quer olhar um por um e dizer-nos se há algum ai que não conheça? Compreendeu?

        — Compreendo, sim? — disse Papá Grande com dificuldade. — Mas já lhe disse tudo o que sei.

        — Isso é o que vamos ver, — replicou o coronel com impaciência. Fez um sinal para o soldado na escada. — Faça a fila passar bem devagar.

        A fila dupla começou a passar pela galeria, enquanto Papá Grande olhava com o olhar parado. Gato Gordo e eu estávamos quase diante dele quando o coronel gritou:

        — Você, ai, garoto! Venha para a frente, onde se possa ver você!

        Fiquei um momento sem saber que era comigo que ele estava falando. Mas senti alguma coisa fria nas costas, e Gato Gordo me empurrou para a frente. Fiquei com os olhos voltados para a galeria no alto, sentindo ainda aquela pressão no meio da espinha. Não pude saber o que era.

        Encarei diretamente os olhos de Papá Grande. Houve neles por um instante um súbito brilho de reconhecimento, mas logo as pálpebras desceram. Quando reabriu os olhos, estava com o mesmo olhar vazio.

        O coronel nos estava observando atentamente.

        — Está bem, — disse ele. — Continuem.

        A fila recomeçou a andar. Senti cessar a pressão fria na espinha enquanto Gato Gordo se movia. Vi então o tenente que nos prendera dizer alguma coisa ao ouvido do coronel.

        O coronel bateu com a cabeça e gritou:

        — Alto!

        A fila parou.

        — Você ai! — disse ele, apontando para mim. — Saia!

        Olhei para Gato Gordo. O rosto dele estava impassível, mas os olhos brilhavam. Segurou-me o braço e demos um passo à frente. Ele se curvou, todo atencioso.

        — Si, Excelencia.

        O coronel já se havia voltado para meu avô.

        — O tenente está me dizendo que prendeu aqueles dois perto da hacienda de seu genro. Dizem que são campesinos das montanhas que estão procurando trabalho. Conhece esses dois?

        Papá Grande olhou para nós com um ar curiosamente distante.

        — Parece que já os vi alguma vez, — disse ele sem qualquer expressão na voz.

        Mais uma vez, Gato Gordo se aproximou de mim, e eu senti de novo a fria pressão na espinha. Quis virar-me, mas ele me forçou com a outra mão a permanecer na frente.

        — Quem são eles? — perguntou o coronel.

        Meu avô levou muito tempo para responder. Afinal, passou a língua pelos lábios e disse com voz trêmula:

        — Sou um homem velho. Não me lembro de nomes. Mas já os vi muitas vezes aqui pelo vale procurando trabalho.

        O coronel olhou-me.

        — O garoto é bem escuro. Seu genro também é.

        — Há muita gente por aqui com sangue negro, — replicou calmamente o velho. — Nunca soube que isso era considerado um crime.

        O coronel ficou um instante em silêncio. Depois, tirou a pistola e apontou-a para mim.

        — Pouco lhe interessa então que o garoto viva ou morra?

        Havia tristeza nos olhos de meu avô, mas ela desapareceu quando ele se voltou para o coronel.

        — Pouco me interessa.

        O coronel engatilhou lentamente a pistola. Papá Grande virou o rosto. O coronel não olhava para mim; olhava para meu avô.

        Senti de repente Gato Gordo empurrar-me para o lado.

        — Excelência, — gritou ele, — tenha piedade! Não mate meu filho! Não mate meu filho, pelo amor de Deus, Excelência!

        O coronel virou o cano da pistola de mim para Gato Gordo.

        — É capaz de morrer no lugar dele? — perguntou com voz fria.

        Gato Gordo se rojou pelo chão.

        — Piedade, Excelência, piedade! Por Dios!

        Meu avô virou-se e cuspiu na direção de Gato Gordo.

        — Mate logo os dois e acabe com isso! — disse ele ao coronel, com desprezo na voz. — Acabe com essa covardia chorosa. Isso me está enojando!

        O coronel olhou-o e então guardou lentamente a pistola na capa do cinto.

        Gato Gordo levantou-se prontamente.

        — Mil gracias! Deus o abençoe!

        O coronel fez um gesto.

        Vão andando.

        Gato Gordo me levou para a fila. Fomos lentamente caminhando. Afinal, passamos todos por diante da galeria e ficamos ali em silêncio.

        — Ele não me conheceu, — disse eu em voz baixa a Gato Gordo.

        Conheceu, sim!

        — Mas...

        A mão de Gato Gordo apertou-me o ombro. O coronel vinha caminhando para onde nós estávamos. Parou à nossa frente.

        — Como se llama? — perguntou-me.

        — Juan.

        — Venha comigo.

        Virou-se e Gato Gordo ficou ao meu lado enquanto o seguíamos para a galeria.

        O coronel chamou um dos soldados.

        — Vá buscar o velho e mande os outros embora.

        O soldado passou os braços por debaixo dos ombros de meu avô e começou a ajudá-lo a descer as escadas. Houve um leve murmúrio abafado do lado da estrada. Voltei-me para olhar. Era o clamor dos campesinos ao verem meu avô arrastado assim da galeria. Havia uma nota de protesto e de ódio naquele murmúrio.

        — Diga a essa gente que saia daqui! — gritou o coronel. — Se for preciso, abra fogo contra eles.

        — Fuera! Fuera! — disse o tenente, correndo para eles, de pistola em punho.

        Todos ficaram onde estavam a olhá-lo. Ele deu um tiro para o ar e os campesinos começaram lentamente a afastar-se.

        Quando a estrada estava vazia, o coronel voltou-se para mim.

        — O velho disse que pouco lhe interessava você viver ou morrer. Vamos ver agora se você é da mesma opinião a respeito dele!

 

        Já eram quase três horas e o sol estava derramando fogo sobre a terra. O suor secava no corpo e a saliva se evaporava na boca, deixando um leve gosto enjoativo de sal. Apesar do calor, eu se dentro de mim um tremor incontrolável enquanto faziam Papá Grande descer a escada da galeria.

        — Leve-o para o carro, — ordenou o coronel.

        O velho soltou o corpo e disse altivamente:

        — Posso caminhar.

        O soldado olhou para o coronel, que fez um sinal de assentimento, e nós seguimos o velho que se encaminhava para o centro do esbraseado pátio. Quando chegou ao carro, virou-se e ficou de frente para eles. Havia linhas de abatimento e exaustão no rosto, mas os olhos se mostravam claros e firmes.

        — Tirem-lhe a roupa! — ordenou o coronel!

        Os soldados avançaram para ele. O velho levantou a mão como se quisesse detê-los, mas eles já haviam começado a rasgar-lhe as roupas. O corpo magro era quase tão alvo quanto as roupas que havia usado. Sem elas, parecia pequeno, mirrado e frágil, com todas costelas à mostra. As nádegas e os quadris estavam flácidos e bambos pela ação do tempo.

        — Amarrem-no à roda!

        Os dois soldados encostaram-no à roda e lhe amarraram ao aro da roda os braços e as pernas estendidos. O eixo da roda lhe forçava as costas para a frente, fazendo o velho encurvar-se numa posição quase obscena. O rosto se contorcia de dor, pois as juntas duras se rebelavam contra aquela tensão. Fechou os olhos e virou a cabeça para evitar o sol.

        — O coronel fez um gesto. Não era preciso dizer aos soldados o que tinham de fazer. Um deles encostou a cabeça do velho ao aro da roda e passou uma correia de couro pela sua fronte a fim de impedir a cabeça de mover-se.

        Dom Rafael, — disse o coronel em voz tão baixa que a principio não percebi que era ele que falava. — Dom Rafael!

        Meu avô olhou-o.

        — Não há necessidade de nada disso, — murmurou o coronel, quase respeitosamente.

        Papá Grande não respondeu.

        — Deve saber onde o garoto está escondido.

        Os olhos de meu avô não vacilaram.

        — Já lhe disse que não sei. Ele foi levado por Diablo Rojo e não sei para onde.

        — É difícil de acreditar, Dom Rafael, — disse o coronel com voz ainda branda.

        — Mas é verdade.

        O coronel sacudiu a cabeça com aparente tristeza.

        — Seu genro, Jaime Xenos, aliou-se aos bandoleros, aos assassinos de sua filha. Sabemos que ele tem ambições politicas. Podemos deixar de crer que simpatiza com essas ambições?

        — Se fosse esse o caso, seria tão louco ao ponto de ficar aqui na minha hacienda onde me encontrassem?

        — Deve ter pensado que a idade o protegeria.

        O velho respondeu com uma voz cheia de dignidade.

        — Nunca fui traidor.

        O coronel olhou-o em silêncio durante alguns momentos. Depois, virou-se para mim.

        — Onde é que mora?

        — Nas montanhas, señor.

        — Que veio fazer no vale?

        Olhei para Papá Grande e vi que os olhos dele me observavam.

        — Vim trabalhar, señor.

        — Não tem o que fazer em casa?

        Gato Gordo respondeu prontamente.

        — Não, Excelência. A seca...

        — Perguntei ao menino! — exclamou asperamente o coronel.

        — Não temos nada o que comer, — disse eu. Isso ao menos era verdade.

        — Conhece este homem? — perguntou ele, apontando para meu avô.

        — Si, señor. É Dom Rafael, o fazendeiro.

        — É Dom Rafael, o traidor! — gritou o coronel.

        Não respondi.

        De repente, ele me agarrou pelo pulso, puxando-me o braço e forçando-o para cima. Gritei de dor.

        — Ele é seu avô! — exclamou o coronel. — Nega que é?

        Tornei a gritar quando ele fez mais pressão sobre o meu braço. Senti-me tonto e vi que ia cair. Levei então uma pancada na cabeça e fui ao chão. Fiquei ali tão fraco que não me podia mover, soluçando com o rosto na terra.

        Ouvi a voz de meu avô, como se viesse de muito longe. Era fria e completamente destituída de sentimento.

        — Creio que isso basta para convencê-lo, coronel. Ninguém do meu sangue iria dar-lhe a satisfação de ouvi-lo chorar. Estaria abaixo da nossa dignidade.

        Ouvi uma praga e depois uma pancada surda. Levantei a cabeça e olhei. O coronel estava saindo de junto de meu avô com a pistola ainda na mão. O sangue corria pela face do velho e a barba já estava empapada de vermelho. Mas os lábios estavam firmemente apertados.

        O coronel voltou-se para um dos soldados.

        — Molhe a correia em tomo da cabeça dele. Vamos ver se o sol o convence a dizer a verdade.

        Encaminhou-se para a galeria e Gato Gordo me ajudou a levantar. O ombro me doeu quando procurei mover o braço. Fiquei um instante parado a fim de recuperar o fôlego.

        Papá Grande me olhava em silêncio. Um momento depois, fechou os olhos e eu percebi a dor que sentia. Estendi a mão instintivamente, mas Gato Gordo me agarrou instantaneamente o braço e me forçou a recuar. Da galeria, o coronel tudo observava.

        Um soldado passou carregando um balde de água. Jogou a água com a mão no rosto de meu avô. O velho estremeceu e respirou forte quase sufocado pela água. Tentou sacudir a cabeça para tirar a água dos olhos, mas a correia de couro só lhe permitiu movê-la uma fração de centímetro. O sol batia em cheio nele. Já o corpo estava ficando vermelho sob a ação dos raios abrasadores. Eu sentia a dor da queimadura e da tira de couro que lhe apertava a cabeça e que eu via quase diante dos meus olhos secar e encolher-se. Abriu a boca e tentou tomar o ar.

        Ouvi passos atrás de mim. Era o coronel que se aproximara com um grande copo na mão, cheio de gelo. Parou diante de Papá Grande.

        Levou o copo à boca e tomou um gole.

        — Então, Dom Rafael, não gostaria de tomar comigo um ponche bem geladinho?

        Meu avô não respondeu. Só não podia deixar de olhar para o copo e de passar a língua pelos lábios ressequidos.

        — Uma palavra, — disse o coronel. — Basta uma palavra. Nada mais do que isso.

        Com esforço, o velho afastou os olhos do copo. Olhou firmemente para o coronel e disse-lhe com um desprezo tal como eu nunca havia sentido na voz de alguém:

        — E pensar que eu podia ter defendido vocês. Vocês são piores do que os bandoleros, que, ao menos, têm a desculpa da ignorância. Mas vocês, que desculpa irão apresentar diante de Deus?

        O copo se despedaçou quebrado pelo coronel de encontro à roda do carro. Encostou o caco na barriga nua de meu avô.

        — Você vai falar, velho! Vai falar!

        Meu avô tomou fôlego e cuspiu diretamente na cara do coronel. Deu então um grito involuntário, que logo lhe morreu na garganta, enquanto baixava os olhos, cheio de horror. O coronel afastou-se e nós vimos por que o velho havia gritado. O caco do copo, com parte dos órgãos genitais dentro, estava cravado na sua carne.

        Comecei a gritar, mas Gato Gordo apertou-me o rosto contra a sua grande barriga e abafou a minha voz.

        — Deixe o garoto olhar!

        Gato Gordo largou-me. Mas conservou em meu ombro a mão que era uma advertência. Olhei para o coronel. Os olhos dele estavam frios. Virei-me para olhar meu avô. O corpo lhe pendia molemente das cordas que o prendiam. O sangue escorria lentamente do caco de vidro para o chão.

        Pisquei os olhos para conter as lágrimas. O coronel não me devia ver chorar. Papá Grande não queria que isso acontecesse. Os olhos do velho como que se suavizaram e eu vi que ele compreendia. Depois, fechou lentamente os olhos e o corpo amoleceu.

        — Está morto! — exclamou um dos soldados.

        O coronel se aproximou prontamente e levantou rudemente uma das pálpebras do velho.

        —Ainda não! — disse ele, com satisfação na voz. — Quem chega a ser tão velho quanto ele não morre com tanta facilidade. Ficam querendo viver para sempre. Chamem-me quando ele voltar a si. Ainda não almocei.

        Subiu, a escada da galeria e entrou na casa.

        — Estamos com fome também, — disse Gato Gordo a um dos soldados.

        — Dê-se por muito contente de não estar ali junto com ele, — disse o soldado, olhando para meu avô.

        Gato Gordo olhou para mim e voltou-se para o soldado.

        —Tenha ao menos pena do garoto. Deixe-me levá-lo para a sombra.

        Os soldados se olharam e um deles encolheu os ombros.

        — Bem, isso não é proibido. Mas não vá tentar nenhum truque, veja lá!

        Gato Gordo me levou para perto da casa. Jogou-se no chão à sombra da galeria e eu me deitei ao lado dele. Ficamos deitados de bruços, com a cabeça voltada para a casa e as costas para os soldados.

        — O ombro inda está doendo? — perguntou Gato Gordo.

        — Não, — respondi, embora ainda estivesse doendo um pouco.

        Olhou para o céu.

        — O sol vai desaparecer daqui a algumas horas. Manuelo e os outros terão de ir-se embora deixando a gente.

        — Que é que o coronel vai fazer conosco?

        Gato Gordo encolheu os ombros.

        — Ou nos matará ou nos deixará em liberdade. Tudo depende do velho. Se ele falar, nós morreremos. Se não falar, ainda temos uma chance.

        De repente, lembrei-me do metal frio em minhas costas quando o coronel nos mandara sair da fila.

        — Mas eles não me matariam. Você me mataria antes!

        — Si.

        — Mas neste caso eles matariam você.

        Ele fez que sim com a cabeça e eu lhe disse que não estava zangado, mas não compreendia.

        — Para salvá-lo de sofrer como o velho está sofrendo.

        Nada disse.

        — Forçariam você a trair seu pai, a dizer onde é o nosso esconderijo. Você não resistiria. E, no fim, não adiantaria nada, pois eles o matariam de qualquer maneira.

        Começava a compreender. Assim é que tinha de ser. Aquilo era o centro das nossas vidas, a única coisa que tinha importância. Olhei por cima do ombro. O velho estava lá, imóvel, com o sol queimando- lhe a pele.

        — Seria bom se pudéssemos matá-lo, — murmurei tristemente.

        Gato Gordo olhou-me, concordando. Disse então:

        Não vai tardar muito a morrer. Vamos rezar para que morra sem falar.

        Ouvimos uma voz atrás de nós.

        — Levantem-se! O velho já acordou. Vou chamar o coronel.

        O coronel aproximou-se, limpando elegantemente a boca com um guardanapo.

        — Dom Rafael!

        Meu avô não olhou para ele.

        — Dom Rafael! — tomou a dizer o coronel. — Está-me conhecendo?

        O velho rolou vagamente os olhos.

        — Selem o meu cavalo! — gritou de repente em delírio. — Vou para as montanhas matar eu mesmo os bastardos!

        O coronel afastou-se, com a cara aborrecida.

        — Tirem-no dai e acabem de matá-lo. Não nos serve para mais nada.

        Já se ia afastando, quando me viu.

        — Um momento. Continua a dizer que o velho não é seu avô?

        Não respondi. Ele tirou a pistola do cinto. Rodou o tambor e deixou cinco balas caírem na palma da mão.

        — Só resta uma bala. Você vai matá-lo.

        Olhei para Gato Gordo. O rosto dele estava sombrio e impassível. Hesitei.

        — Mate-o! — gritou o coronel, entregando-me a arma.

        Olhei para a pistola em minha mão. Era pesada, bem mais pesada do que a de Gato Gordo. Olhei para o coronel. Tinha os olhos arregalados e o rosto vermelho. Bastaria uma bala. Mas depois eles me matariam. E a Gato Gordo também. Virei-me.

        Meu avô estava em silêncio quando me aproximei dele. O sangue ainda lhe escorria da boca, mas os olhos pareceram de repente ficar mais claros.

        — Que é, menino?

        Não falei.

        — Que é que você quer, menino? — tomou a perguntar.

        Senti um bolo no estômago quando levantei a pistola. Meu avô viu-a. Não se moveu. Pareceu-me ver um leve sorriso antes de puxar o gatilho.

        O coice da arma me fez vacilar um pouco, ao mesmo tempo que o grande revólver me caia das mãos. Olhei para o velho. Estava caído pela roda, com os olhos abertos que nada mais viam.

        Ouvi a voz do coronel atrás de mim.

        — Bueno!

        Depois, virou-se e voltou para casa.

        Olhei para meu avô. Senti as lágrimas correrem-me para os olhos e contive-as. Vivo ou morto, ele não queria que eu chorasse. Gato Gordo me pegou pelo braço e me levou para a estrada. Os soldados nos viram passar impassivelmente. Afinal, quando já estávamos a alguma distância, as lágrimas jorraram-me dos olhos.

        — Matei meu avô! — exclamei em soluços. — Não queria, mas matei!

        Gato Gordo disse sem diminuir o passo rápido e sem olhar para mim.

        — Qual foi o mal? Ele já estava quase morto! O que vale é estarmos ainda vivos!

 

        Só fomos chegar de volta à caverna três horas depois do escu- recer. Os outros já haviam partido. Eu estava tão cansado que mal podia ficar com os olhos abertos. Joguei-me no chão.

        — Estou com fome.

        — Vá-se acostumando, — disse Gato Gordo. Entrou na caverna e começou a procurar alguma coisa.

        — Estou com sede também.

        Ele não respondeu. Ao fim de algum tempo, tive curiosidade de saber o que ele estava procurando.

        — Que é que está fazendo?

        — Estou vendo se descubro há quanto tempo eles saíram.

        — Oh!

        Teve uma exclamação e apanhou no chão alguma coisa que logo jogou fora.

        — Levante-se! — disse ele de repente. — Saíram há apenas uma hora. Talvez ainda os alcancemos.

        — Como é que sabe? Que foi que encontrou? — perguntei, levantando-me.

        — Bosta de cavalo, — disse ele, saindo da caverna. — Ainda estava quente no centro.

        Tive de correr para acompanhá-lo. Nunca pensei que Gato Gordo pudesse ser tão rápido. Mas a respiração dele estava ofegante quando subíamos para o alto da montanha. A estrada estava quase tão clara quanto de dia, pois a lua brilhava no céu. A noite estava esfriando. Corri para impedir os dentes de baterem.

        — Ainda... ainda falta muito?

        — Eles não vão parar enquanto não estiverem do outro lado da montanha.

        Olhei para o alto da montanha. Ainda faltavam bem uns três quilômetros para lá chegarmos. Atirei-me ao lado da estrada. Fiquei ali deitado, tentando recuperar o fôlego. Gato Gordo andou mais um pouco, mas não me ouviu e parou.

        — Que é que há?

        — Não posso mais andar, — disse eu, começando a chorar. — Estou com frio, estou com fome.

        Ele me olhou um instante e disse asperamente:

        — Pensei que você fosse um homem.

        — Não sou homem, — murmurei, num gemido. — Estou com frio e cansado.

        Ele se sentou ao meu lado.

        — Está bem. Vamos descansar.

        Meteu a mão no bolso e tirou uma ponta de cigarrillo. Acendeu-a cuidadosamente com a mão em concha sobre o fósforo por causa do vento. Aspirou avidamente a fumaça.

        Olhei-a, tremendo de frio.

        — Tome, — disse ele, — tire uma fumaça. Isso o esquentará um pouco.

        Fiz o que ele sugeriu e comecei logo a tossir e a sentir-me sufocado. Quando acabei, senti-me estranhamente mais quente. Ele tirou a blusa e passou-a pelos meus ombros. Depois, puxou-me para junto dele.

        Acomodei-me para aproveitar o calor que vinha dele. Senti-me confortável e seguro, e, antes de saber como, adormeci.

        Acordei com a primeira claridade do sol nos olhos. Rolei o corpo no chão, tateando à procura dele. Levantei-me de um salto. Não o vi.

        — Gato Gordo!

        Ouvi barulho dentro do mato. Virei-me e Gato Gordo apareceu, trazendo um coelho morto espetado na ponta de um pau.

        — Ah, já acordou!

        — Pensei que...

        — Pensou que eu o havia abandonado? — perguntou, rindo. — Estava procurando alguma coisa para comermos. Agora, junte uns gravetos para fazer um fogo enquanto eu esfolo esse bichinho.

        O coelho estava um pouco duro, mas foi uma das coisas mais deliciosas que já provei na vida. Quando acabamos, só restava um pequeno montão de ossos. Limpei a gordura do rosto com os dedos e limpei-os, lambendo-os.

        — Estava bom.

        Gato Gordo sorriu e levantou-se.

        — Guarde os ossos no bolso. Teremos ao menos alguma coisa para roer durante o dia. — Apagou o fogo com os pés e, quando acabou, disse: — Vamos.

        Acabei de guardar os ossos no bolso e segui-o pela estrada.

        — Desculpe o que houve ontem à noite.

        — Nem pense nisso.

        — Se não fosse eu, teríamos alcançado os outros.

        — E se não fosse você, os meus ossos já estariam apodrecendo lá embaixo no vale. Além disso, acho que de qualquer maneira não íamos alcançar os outros.

        — Que faremos agora? Como é que vamos voltar para casa?

        — Caminhando, — disse Gato Gordo. — O homem caminhava muito antes de aprender a montar em cavalos.

        Eu sabia que Gato Gordo detestava andar a pé. A cavalo, ia-se de Bandaya ao nosso refúgio nas montanhas em dois dias e meio. A pé, seria mais de uma semana.

        — Escute, — disse Gato Gordo. — Fique com os ouvidos bem abertos. Qualquer coisa que ouvirmos, sairemos da estrada. Não podemos facilitar. Compreende?

        — Si. Compreendo.

        Chegamos afinal ao alto da montanha, e pouco mais de um quilômetro adiante vimos um pequeno rio.

        — Vamos parar aqui para descansar disse Gato Gordo.

        Corri para a beira do rio, joguei-me à margem e comecei a beber avidamente a água. Pouco depois, Gato Gordo me puxou.

        — Chega. Descanse um pouco. Depois, pode beber mais.

        Recostei-me numa árvore. Os pés me doíam muito. Tirei as botas, esfreguei os pés e, depois, mergulhei-os na água, sentindo a deliciosa frescura que me subia pelas pernas. Em contraste, sentia o corpo seco e pegajoso com o suor acumulado daqueles últimos dias.

        — Posso tomar um banho? — perguntei.

        Ele me olhou como se eu estivesse louco. A gente das montanhas não tinha muito entusiasmo por banhos.

        — Está bem, — disse ele, — mas não demore muito, para não tirar a proteção da pele.

        Tirei a roupa e joguei-me dentro da água. Foi um prazer o contato da água fresca, e comecei a pular e bater os pés, muito feliz. Um peixinho prateado passou por mim e mergulhei para pegá-lo. Escorregou-me entre as mãos quando levantei a cabeça. Ouvi então uma risada na margem.

        Duas meninas estavam ali me olhando, e eu não via Gato Gordo. Sentei-me prontamente no rio raso.

        A menina menor voltou a rir. A maior voltou-se e chamou:

        — Papá! Diego! Venham depressa! Há um menino dentro do rio!

        Um instante depois, apareceram dois homens com as espingardas apontadas para mim.

        — Que é que está fazendo ai?

        — Estou tomando banho.

        — Vem, vá saindo.

        Comecei a levantar-me e voltei para dentro da água.

        — Jogue meus pantalones, — disse eu, apontando a roupa.

        O homem mais velho disse às duas meninas:

        — Virem-se de costas.

        A menorzinha riu outra vez, enquanto as duas se viravam. Levantei-me e fui até a margem.

        — Está sozinho? — perguntou o homem mais moço.

        — Não, señor, — respondi pegando os pantalones que ele me estendia. — Estou com meu pai.

        — Onde está ele?

        — Palavra que não sei, señor. Estava aqui ainda há pouco...

        — E ainda está, — disse Gato Gordo, saindo do mato com o rosto gordo aberto num sorriso. Tirou o chapéu e fez uma reverência. — José Hernández, a su servicio, señores. Este es mi hijo, Juan. O maluco gosta muito da água.

        O mais velho virou a espingarda para ele e perguntou, desconfiado:

        — Que é que está fazendo aqui?

        Gato Gordo aproximou-se, como se nem tivesse visto a espingarda.

        — Meu filho e eu estamos voltando do vale para casa. Há muita confusão em Bandaya. Os soldados estão lá. Não servia para um homem pacifico que está com o filho à procura de trabalho.

        O cano da espingarda estava quase encostado à barriga de Gato Gordo.

        — Onde é que você mora?

        — A uma semana de viagem daqui, — respondeu Gato Gordo. — E para onde vão os senhores?

        — Estanza.

        Estanza ficava a alguns dias de viagem de Bandaya, no caminho da costa. A estrada virava para o sul duas serras adiante. Naquele ponto teríamos de deixá-la e tomar os caminhos que atravessavam as florestas e as montanhas.

        — Talvez nos permitam acompanhá-los, — disse Gato Gordo. — Ouvimos dizer que há bandoleros por ai.

        Os dois homens se olharam.

        — É verdade, — disse o mais moço. — O coronel Gutiérrez nos disse que há muitos bandidos. Onde estão os seus cavalos?

        — Cavalos? — disse Gato Gordo, rindo. — Podemos lá ter cavalos, señor? Somos apenas pobres campesinos. Seriamos muito felizes se tivéssemos um burrinho.

        O mais velho baixou a espingarda.

        — Está bem. Iremos até Estanza juntos.

        — Mas, Excelência... protestou o mais moço.

        — Não tem importância, Diego, — disse o outro com voz levemente aborrecida. — Que mal podem fazer um homem e um menino?

 

        Sentei-me na porta de trás do carro, de costas para as duas meninas. Gato Gordo ia sentado na boléia com o Señor Moncada. Diego viajava ao lado num cavalo preto, com a espingarda atravessada no arção da sela. Moncada era um fazendeiro que havia ido buscar as filhas, que tinham passado uns tempos com os avós.

        Espreguicei-me e agarrei-me ao lado do carro para não cair se cochilasse. Olhei para o céu. Já estava quase escuro. Teríamos de parar dai a pouco, porque a estrada era muito perigosa para se viajar à noite.

        — Há um bosque depois da primeira curva, — ouvi Diego dizer. — Podemos passar a noite lá.

        O carro saiu da estrada e parou na relva entre as árvores. Gato Gordo pulou da boléia antes mesmo que o carro parasse.

        — Depressa! — disse ele. — Vamos apanhar lenha para o fogo, antes que as mocinhas sintam frio!

        Olhei-o, surpreso. Gato Gordo nunca se preocupava com os outros.

        — Vamos depressa! — disse ele.

        Comecei a juntar lenha. Vi Gato Gordo ajudar as duas meninas a descerem do carro. Quando cheguei com o primeiro punhado de lenha, os cavalos já estavam amarrados, já haviam bebido água e estavam pastando.

        — Onde deixo isso? — perguntei.

        O Sr. Moncada apontou para o chão diante dele.

        Comecei a jogar a lenha, mas Gato Gordo me fez parar.

        — Acho que está muito perto da estrada, señor. Podemos ser facilmente vistos, e isso talvez sirva de atração para convidados que ninguém chamou.

        O Sr.Moncada olhou para Diego, que fez um sinal de assentimento. Gato Gordo foi mais para dentro do bosque e afinal disse:

        — Acho que aqui será bem melhor.

        Joguei a lenha onde ele mostrou. Quando voltei com nova braçada de lenha, o fogo já estava aceso. Joguei a lenha no chão e senti-me muito cansado.

        — Mais, — ordenou Gato Gordo. Cortou alguns dos galhos maiores, aparou-os e formou uma tripeça com eles. Quando voltei, uma pesada panela de ferro estava suspensa da tripeça e já o cheiro de um bom ensopado de carne começava a encher o ar.

        — Chega? — perguntei.

        Gato Gordo olhou para mim, com o rosto brilhando ao lado do fogo.

        — Por enquanto, chega. Há um rio a cem metros daqui, ladeira abaixo. Pegue outra panela e vá buscar água.

        Fui até o carro. Vera, a mais moça, olhou para mim e riu. Fiquei aborrecido. Aquela menina vivia rindo.

        — Que é que você quer? — perguntou Marta, a mais velha.

        — Uma panela para ir buscar água.

        Vera tornou a rir.

        — Por que é que você está sempre rindo?

        Ela redobrou as gargalhadas, e as lágrimas começaram a correr-me pelo rosto.

        — Qual é a graça? — perguntei, zangado de verdade.

        — Você é tão engraçado, — disse ela, parando de rir.

        Olhei para mim mesmo.

        — Agora, não, — disse ela prontamente. — Hoje à tarde, quando estava dentro da água. É tão magro.

        Fiz uma careta.

        — É melhor do que ser gorda como você.

        — Aqui está a panela — disse Marta, abruptamente. Julguei perceber uma ponta de irritação na voz dela.

        — Gracias, — disse eu, pegando a panela.

        — No hay de qué.

        Vera riu de novo.

        — Que é que há com ela? — perguntei.

        Marta encolheu os ombros.

        — Ora, Vera é uma criança. Tem apenas doze anos. Nunca viu um menino nu.

        — Você também nunca viu! — replicou Vera.

        — Mas eu tenho quatorze anos e não procedo mais como uma criança.

        Diego apareceu ao meu lado.

        — Já pegou a panela? — perguntou, desconfiado.

        — Si, señor.

        — Que é que está esperando então? Vá buscar a água, como seu pai mandou.

        Afastei-me em silêncio. Ouvi a voz dele.

        — Que foi que ele disse?

        — Nada, — respondeu Marta.

        — Bem, trate de ficar longe dele.

        Não pude ouvir mais, pois entrei no bosque e desci até o rio. Gato Gordo estava à minha espera lá.

        — Depressa! Quanto mais depressa eles comerem, mais depressa vão dormir.

        — Que é que vai fazer?

        — Roubar os cavalos. Estaremos em casa daqui a dois dias. Além disso, gostei daquele cavalo preto.

        — Não vai ser fácil. Diego não confia em nós.

        — Vou matá-lo disse Gato Gordo, sorrindo.

        Houve um barulho no mato às nossas costas, e Gato Gordo levantou-se no momento em que Diego apareceu, de espingarda em punho. Será que ela nunca lhe sai das mãos?

        Gato Gordo enxugou as mãos nas calças.

        — Estava lavando as mãos.

 

        Um barulho me acordou no meio da noite. Virei-me embaixo do cobertor que o Sr. Moncada me havia emprestado e olhei para Gato Gordo. Estava ali dormindo e até roncando levemente. Olhei para o lugar de Diego. Ele não estava debaixo do seu cobertor.

        Olhei para o carro onde o Sr. Moncada e as filhas estavam dormindo. Dali não vinha barulho algum. Esperei mais um pouco. Talvez Diego tivesse ido fazer alguma necessidade no mato.

        Ouvi um cavalo resfolegar e virei a cabeça. Foi então que vi Diego que se dirigia para o carro, de espingarda na mão e em posição de tiro.

        — Psst!

        Gato Gordo acordou no mesmo instante. Fiz um gesto com as mãos e apontei.

        — Ele vai matá-los!

        Gato Gordo não se moveu.

        — Deixe-o — disse ele. — Isso nos poupará o trabalho.

        Diego rastejou até a frente do carro. Firmou então os pés e levantou o corpo, com a espingarda no ombro. Nesse momento, um grito fino cortou o ar da noite.

        Diego atirou desesperadamente quando o Sr. Moncada desceu do carro. Tentou atingi-lo com a coronha da espingarda, e quando ambos rolaram, atracados, para o chão ao lado do carro, Gato Gordo levantou-se e correu para eles.

        — A espingarda! — gritou ele para mim. — A espingarda!

        Parou perto dos dois homens que rolavam pelo chão e eu vi Gato Gordo levantar a faca. Esperou um momento e, então, a faca desceu. Houve um grito, e Diego levantou-se, com as mãos estendidas para o pescoço de Gato Gordo.

        Dando um passo atrás, Gato Gordo esperou. Diego avançou, e a faca se moveu. Diego se dobrou ao meio e caiu para a frente. Gato Gordo meteu-lhe o joelho por baixo do peito e jogou-o para o lado, levantou-se em seguida prontamente, com a faca já preparada na mão. O Sr. Moncada estava de costas para ele. Gato Gordo já ia levantando a faca quando o outro se voltou, empunhando a espingarda.

        Gato Gordo abaixou a mão.

        — Está bem, señor? — perguntou, com fingido interesse.

        O Sr. Moncada olhou para ele e depois para Diego, estendido no chão.

        — Era um bandolero! Tentou matar-me!

        — Foi uma sorte eu ter acordado, señor.

        O Sr. Moncada sorriu.

        — Sou seu devedor, meu amigo. Salvou-me a vida.

        Gato Gordo baixou os olhos, sem ter o que dizer. Mas, um instante depois, conseguiu falar.

        — Não foi nada, señor. Nem assim lhe poderia pagar a sua bondade comigo.

        Foi até onde estava Diego e empurrou-o com o pé.

        — Está morto. Onde foi que contratou esse homem?

        — Em Bandaya. Disseram-nos que havia bandoleros na estrada e que não seria bom eu viajar sozinho com as duas meninas. Esse homem me foi recomendado pelo coronel Gutiérrez. Estava trabalhando como guia para o exército.

        — Não passava de um bandoleiro, — disse hipocritamente Gato Gordo. — Ia matá-lo e roubar os seus cavalos. Devia estar de olho principalmente no cavalo preto.

        — O cavalo preto? Mas não é meu. Era dele mesmo.

        — Era? — perguntou Gato Gordo, arregalando os olhos.

        — Pela lei, o cavalo agora é seu.

        Gato Gordo me olhou sorrindo. Pela primeira vez, uma lei era a seu favor. O que pertencia a um bandolero passava automaticamente a ser de quem lhe tirava a vida.

        — Está bem, Papá? perguntou dentro do carro uma voz assustada.

        Eu me havia esquecido das meninas. Olhei para o carro e vi surgir cautelosamente a cabeça de Marta.

        — Estamos salvos! — exclamou dramaticamente o Sr. Moncada.

        — Pela graça de Deus, fomos salvos da morte! Este bom homem, arriscando a vida, protegeu-nos daquele assassino!

        Um momento depois, as duas meninas saltaram do carro, abraçaram o pai e começaram todos a beijar-se, a chorar e a rir. Afinal, o Sr. Moncada voltou-se para nós, com o rosto radiante.

        — Foi uma sorte para nós termos encontrado vocês hoje à tarde. Agora é que compreendo por que Diego não queria que vocês viessem conosco!

        — Foi uma felicidade para todos nós, señor, — disse Gato Gordo. Depois, virou-se para mim e falou com a voz de um proprietário: — Vá ver se o nosso cavalo está bem amarrado!

 

        Eu havia acabado de jogar o último saco de sal no barril de carne quando percebi de repente que as duas meninas estavam no galpão, olhando-me. Peguei a tampa do barril e comecei a pregá-la.

        — Vai para a sua casa amanhã? — perguntou Marta, ao fim de algum tempo.

        Era mais uma afirmação, do que uma pergunta. Bati com a cabeça. Já fazia uma semana que estávamos na hacienda. O Sr. Moncada não tinha querido fazer o resto da viagem sozinho, e Gato Gordo, sem mais aquela, resolveu acompanhá-lo, especialmente depois que o fazendeiro lhe dissera que tinha muito gado e que estava disposto a dar-nos como compensação quatro barris de carne salgada e um carro para levá-los.

        É claro que Gato Gordo teria de deixar o cavalo preto em segurança, mas só até que devolvermos o carro. Assim, o trato foi fechado, e nós continuamos pela estrada para Estanza.

        Trabalhamos dia e noite para salgar a carne e prepará-la para a viagem. Bati o último prego na tampa e me virei.

        — É verdade, — respondi afinal. — Iremos amanhã.

        — Que idade tem você? — perguntou Vera.

        — Treze anos, — respondi, sabendo que ela tinha doze.

        — Tem nada, — disse Marta, zombando. — Ouvi seu pai dizer que você tinha só dez.

        — Meu pai? — Por um momento, eu havia esquecido Gato Gordo, que devia estar naquele momento na cozinha, entendendo-se com a cozinheira e provavelmente enchendo a barriga.

        — Você tem irmãos? — perguntou Vera.

        Disse que não. Comecei a sentir frio ali no galpão, depois de haver parado de trabalhar, e vesti a camisa.

        — Você é tão magro, — disse Vera, rindo de novo. — Tem os ossos todos de fora.

        Olhei-a com raiva. Era só do que ela sabia falar, da minha magreza.

        — Não ligue para ela — disse Marta. — Está sempre procurando ver o que é que os homens têm.

        — Você também! — exclamou Vera. — Foi você que seguiu Diego quando ele foi urinar.

        — Mas foi você que me disse para onde ele tinha ido, — replicou Marta, e estremeceu, dizendo: — Aquele homem terrível!

        — Você não pensou isso naquela hora. Disse que ele era maior do que Papá!

        Compreendi então.

        Marta baixou a voz e me disse em tom de confidência.

        — Ele viu que nós estávamos olhando. Sabe o que foi que ele fez?

        Sacudi a cabeça.

        — Veio para o lugar onde estávamos escondidas. Ficamos assustadas, mas Diego riu e começou a brincar. Num minuto, ficou três vezes maior! Parecia o cavalo preto!

        — O cavalo preto? — perguntei, sem perceber a ligação.

        Marta acenou impacientemente com a cabeça.

        — Sim! Papá disse que fará o cavalo preto cobrir seis éguas antes que seu pai traga de novo o carro!

        — Oh! — O señor Moncada não era bobo. Um só potro valia quatro barris de carne.

        — Ele continuou a brincar e foi ficando cada vez maior — murmurou Vera.

        — Quem? — perguntei. Havia-me esquecido por um momento do que elas estavam dizendo.

        — Diego, — respondeu Marta. — Ficou com uma cara esquisita.

        Comecei a ficar interessado.

        — Que foi que aconteceu depois?

        — Nada, — respondeu Marta, com um tom de desapontamento. — Ouvimos Papá, que ia chegando, e voltamos correndo para o carro.

        Fiquei também desapontado. Estava tão ansioso quanto ela para saber o que ia acontecer.

        — De qualquer modo, eu não gostava de Diego, — apressou-se em dizer Vera. — Ele nos mataria depois que matasse Papá.

        — Antes disso, violentaria vocês, — disse eu, com um acento de autoridade.

        O meu tom as impressionou.

        — Como é que sabe?

        — Ora, sempre se violentam as mulheres antes de mata-las.

        — Por quê? — perguntou Marta.

        Encolhi os ombros.

        — Porque é assim que se faz.

        Vera me olhou com curiosidade.

        — Sabe muita coisa, não sabe?

        — Bastante, — respondi, cheio de importância.

        — Pode ficar igual a Diego?

        — É claro que posso. É muito fácil. Qualquer homem pode fazer isso.

        — Aposto que você não pode, — disse Marta. — Você é muito pequeno.

        — Não sou não! — repliquei irritado.

        As irmãs se olharam, cheias de interesse.

        — Prove então! — disse Marta.

        — Para quê? Talvez eu não esteja com vontade.

        — Você é muito pequeno e tem medo de não poder fazer isso! — disse Marta.

        — Posso, sim! Vou provar!

        Senti os olhos delas seguirem a minha mão quando desabotoei as calças e comecei a brincar, como vira Roberto fazer. Um minuto depois, olhei. Nada estava acontecendo.

        — Talvez você esteja fazendo isso muito depressa, — sussurrou Marta. — Diego fazia muito mais devagar.

        Olhei-a, confuso. Talvez ela soubesse mais daquelas coisas da que eu.

        — Deixe-lhe mostrar como é, — disse ela, estendendo a mão.

        A mão dela estava quente e úmida. Comecei a sentir o seu calor e uma pressão subir-me pelo meio do corpo. Olhei para elas. Não tiravam os olhos de cima de mim. Vera passava a língua pelos lábios secos e nem pensava mais em rir.

        Comecei a sentir um tremor espasmódico no corpo. Olhei para meu corpo e senti um orgulho que me envolveu com o calor do sol pela manhã.

        — Não disse a vocês que podia? Agora, parem senão eu ataco vocês!

        — Você não tem coragem! — exclamou Marta.

        — Não? É melhor vocês fugirem e bem depressa!

        Elas não se moveram. Dei um passo para elas. Olhavam para minha coisa e eu a senti vibrar.

        Fujam! Fujam!

        — Qual é a que você vai atacar primeiro?

        — Qualquer das duas serve. Mas é melhor irem-se embora, As duas irmãs se olharam e Vera disse:

        Você, que é a mais velha.

        Eu não sabia o que fazer. Não tinha esperado aquilo.

        — Como é? Vão fugir ou não vão?

        Marta me olhou.

        — Está bem. Vou ser a primeira.

        — Não vai gostar. É melhor ir-se embora.

        Marta levantou a saia.

        Vai ou não vai? — perguntou com impaciência.

        Olhei para a leve penugem preta entre as pernas dela. Havia um brilho de desafio nos seus olhos.

        Mas não se esqueça de que foi

        — Está bem, — disse eu. Mas não se esqueça de que foi você quem quis.

        Fui para ela como me lembrava de Roberto ter feito com as mulheres na floresta. Caímos no chão. Abri-lhe as pernas e montei sobre ela e comecei a sacudir-me num movimento que parecia vir de dentro de mim. Mas sentia que estava em toda a parte menos onde eu queria. Senti então a mão dela pegar-me e guiar-me para onde ela queria que eu fosse O cabelo ali era fino, mas me espetava como uma porção de agulhas.

        — Pare de dançar, — disse ela. — Empurre!

        Mas eu não podia. Havia por dentro de mim uma dor feroz e excitante que não me deixava. Por mais que eu fizesse, não conseguia passar das bordas da carne dela. Ouvi-a gemer com o esforço de fazer-me entrar nela.

        — Qué pasa?

        Virei-me e vi Gato Gordo na porta, com um ar de incredulidade no rosto. Vera havia desaparecido. Ele chegou perto de mim e me levantou zangado. Bateu-me com a mão no rosto.

        — É assim então que você paga a hospitalidade do Sr. Moncada?

        Eu estava muito sem fôlego para responder. Procurei Marta. Ela já se havia levantado e corria pela porta a fora. Virei-me para Gato Gordo.

        Ele não estava mais zangado, porque até ria.

        — É melhor abotoar as calças.

        Comecei embaraçadamente a abotoar-me.

        Ele me passou afetuosamente a mão pela cabeça.

        — Eu sabia que essas duas descaradinhas iam dar em cima de você. Ande dai. Vamos preparar o carro para a viagem.

        Foi saindo do galpão, mas, chegando à porta, virou-se para mim.

        — Não fique tão surpreso. Eu disse que você não demoraria muito a ser um homem!

 

        Ouvi um tiro e, antes mesmo que o som tivesse parado de ecoar-me aos ouvidos, já me havia jogado ao comprido dentro do carro. Outro tiro, e Gato Gordo já estava deitado de bruços na vala ao lado da estrada. Um momento depois, ele se levantou, com a lama e a água a escorrerem-lhe do corpo, gesticulando iradamente para a encosta e gritando com toda a força dos pulmões:

        — Santiago! Filho de uma hiena, idiota e cego! Você já saiu zurrando como um burro da barriga de sua mãe! Não está vendo que sou eu, seu companheiro?

        Ping! Uma bala caiu na terra a menos de um metro de distância, e Gato Gordo se jogou de novo na vala. Dessa vez, não se levantou. Ficou deitado dentro da água, gritando:

        — Merda! Índio de merda! Sou eu, Gato Gordo!

        — Gato Gordo? — exclamou Santiago, o velho, cuja voz ecoou pela montanha.

        — Sim, Gato Gordo, imbecil, cego, maluco! Gato Gordo!

        Houve um movimento no mato, e Santiago apareceu à beira da vala.

        — Gato Gordo! Por que não disse logo que era você?

        Gato Gordo se levantou da vala ainda mais sujo e molhado que da primeira vez. A água lhe escorria da aba do chapéu para o rosto, e ele resfolegava sem poder falar.

        — Gato Gordo, é você mesmo? exclamou Santiago, exultante, largando o fuzil para abraçá-lo. — Está vivo!

        — Claro que estou! — gritou Gato Gordo, ainda zangado. — Mas você fez o possível para que eu não estivesse!

        — Todos nós pensávamos que você tivesse morrido! — exclamou Santiago. — E aqui está você, são e salvo e sem uma marca!

        Gato Gordo olhou-se. A camisa e os pantalones novos que o Sr. Moncada lhe dera estavam imundos de lama.

        — Sem uma marca! — berrou ele, avançando com os punhos fechados para o índio.

        O soco atingiu bem em cheio o rosto de Santiago e o fez cair para trás na estrada. Olhou para Gato Gordo com uma expressão magoada no rosto impassível de índio.

        — Está zangado comigo, Gato Gordo? Que foi que eu fiz?

        — Que foi que você fez? Olhe para a minha camisa nova, para as minhas calças novas! Tudo estragado! Está ai o que você fez!

        Quis dar um pontapé na cabeça do índio e Santiago se esquivou com a maior facilidade. Com o pé suspenso, Gato Gordo perdeu o equilíbrio e caiu novamente dentro da vala. Ficou ali ofegante, esgotando o seu repertório de pragas.

        Ouvi que alguém vinha por dentro do mato, e então Manuelo apareceu. Olhou para o índio ainda caído na estrada e viu Gato Gordo dentro da vala. Disse então com voz calma:

        — Quando acabarem com essas brincadeiras de crianças, posso saber o que trouxeram nesse carro?

        Já fazia doze dias que tínhamos partido das montanhas para Bandaya, embora parecesse que fazia quase um ano. Fomos para o acampamento, onde todos se aglomeraram em torno de nós e nos trataram como heróis. Quase não puderam esperar até que o primeiro barril foi aberto e as mulheres levaram a carne para a cozinha. Durante todo o tempo da nossa ausência, tinham-se sustentado de caça e raízes. E bem mais de raízes, porque a caça tinha fugido das montanhas devido à seca.

        Havia oito homens, quatro mulheres e quatro crianças naquele pequeno acampamento nas montanhas que servia a Diablo Rojo de quartel-general e esconderijo. Três das mulheres eram dele; e três crianças. A outra mulher e a outra criança eram de Manuelo.

        Cada um dos três filhos do general havia nascido de mãe dife-rente. Roberto, o mais velho e meu companheiro, era escuro. Tinha feições de índio, o que não era de espantar, pois a mãe dele era uma prima distante dos Santiagos. Eduardo, mais moço, era o que mais se parecia com o general, mas mostrava também a marca da mestiçagem nas feições grosseiras. Só Amparo, a caçula, era clara e loura. O corpo era esbelto e ágil, os olhos, luminosos e vivos, sempre cintilantes de alguma exaltação intima. E não havia dúvida de que era a favorita do pai, como o era a mãe. Esta era elegante e loura, bem diferente das outras duas mulheres, escuras e corpulentas. As duas não gostavam dela, mas não se atreviam a dizer coisa alguma contra ela. Viera da costa, e dizia-se que o general a conhecera numa casa de mulheres, embora ela dissesse que era filha de um fidalgo castelhano arruinado e de uma refugiada alemã. De qualquer modo, procedia como grande dama, e as outras tinham de cozinhar para ela e de servi-la como se fossem criadas.

        Quando o general estava ausente, ela passava a maior parte do tempo com Amparo, brincando com ela ou vestindo-a e despindo-a como se fosse uma boneca. Isso e o tratamento extremoso que a menina recebia do general e, por isso mesmo, de todos os homens do acampamento, faziam-na perdida de mimos. Embora tivesse apenas sete anos, era imperiosa e de uma arrogância pronta e enorme quando não faziam o que ela queria. Isso raramente acontecia, e todo mundo vivia banhado no radioso calor do seu sorriso.

        Amparo estava ao lado do carro, com um belo vestido branco, quando desci da boléia.

        — Disseram que você estava morto disse ela, com voz um pouco decepcionada.

        — Mas não estou.

        — Já rezei uma novena por você, e mamãe me prometeu que na primeira vez em que formos a uma igreja mandará celebrar uma missa.

        Olhei-a. Tínhamos sido crianças juntos, e eu percebia de repente que ela ainda não deixara de ser criança.

        — Desculpe. Se eu soubesse, teria deixado que me matassem. Um sorriso lhe encheu o rosto.

        — Sério, Dax? Você teria feito isso por mim?

        — Claro!

        Ela me jogou os braços pelo pescoço e me beijou o rosto.

        — Oh! Dax! Você é o meu favorito! Estou muito contente de não terem matado vocês! Palavra que estou!

        Afastei-a delicadamente, mas ela olhou para mim com os olhos brilhantes.

        — Já tomei uma decisão, sabe?

        — Qual é, Amparo?

        — Vou me casar com você quando crescer. Vou dizer a mamãe, para ela ficar sabendo agora mesmo!

        E saiu correndo. Fiquei olhando-a até ela entrar na casa, com um sorriso nos lábios. Pouco antes da nossa partida, ela tivera um verdadeiro acesso de raiva porque resolvera casar-se com Manuelo e a mãe lhe havia dito que isso não era possível, porque Manuelo já era casado. E antes de Manuelo, tinha sido um jovem mensageiro que o general mandara com noticias. Virei-me para o carro e comecei a desatrelar os cavalos.

        Do outro lado, Gato Gordo estava contando aos outros as qualidades do cavalo preto. Foi então que vi Roberto e Eduardo.

        Olhei para eles e disse:

        — Alô!

        Eduardo respondeu imediatamente. Era apenas alguns meses mais moço que eu, mas muito menor e mais magro. Roberto limitou-se a olhar-me, carrancudo. Estava pálido, com os olhos amarelados e parecia doente.

        — Que é que há com você? — perguntei-lhe.

        Eduardo respondeu antes que o irmão pudesse abrir a boca.

        — Está com uma carga.

        — Uma carga? O que é isso?

        Roberto continuou calado; e Eduardo respondeu:

        — Não sei. Mas os Santiagos e Manuelo também estão com isso. A mulher de Manuelo está louca da vida com ele.

        — Eduardo! — chamou de dentro da casa a mãe dele.

        — Tenho de ir.

        Acabei de desatrelar os cavalos em silêncio. Roberto continuou a olhar-me, e eu lhe passei as rédeas de um dos animais.

        — Ajude-me a levá-los para o pasto.

        Levamos os cavalos. Abri a porteira, tiramos os arreios e soltamos os animais lá dentro. Os outros que estavam no pasto olhavam os recém-chegados.

        — Veja só, — disse eu. — Estão fingindo que nem vêem os dois. Amanhã, estão todos amigos, correndo por ai. Cavalo é como gente.

        — Mas não pegam esquentamento disse Roberto, surdamente.

        — Não? E você, como foi que pegou?

        — Das mulheres na floresta. Todos nós pegamos. A mulher de Manuelo está furiosa com ele.

        — E é ruim?

        — Muito, não. Mas quando se urina dói muito.

        — Que é que tem uma coisa com outra?

        — Mas como você é burro! É ai que se pega a doença. Você vai ter também. Manuelo diz que não se é homem enquanto não se pega uma doença.

        — Eu estive com uma mulher.

        — Foi mesmo? perguntou Roberto, com a voz cheia de incredulidade.

        — Foi. Marta, a filha do Sr. Moncada, da fazenda onde nós pegamos a carne. Cai em cima dela no galpão.

        — Enfiou mesmo?

        Não sabia bem o que ele queria dizer.

        — Acho que sim. De qualquer maneira, não tive tempo de notar isso. Estava muito ocupado. Eu ainda estaria violentando a menina se Gato Gordo não me tivesse tirado de cima dela.

        — Qual era a idade dela?

        — Quatorze anos.

        — Então era uma menina.

        — E você acha que eu pegarei uma carga?

        — Não, ela é uma menina. É preciso ser uma mulher de verdade para pegar doença na gente. E Gato Gordo pegou também?

        — Não sei. Não me disse nada.

        — Talvez ele tenha tido sorte e não tenha pegado.

        Voltamos para a casa, e eu fui pensando. Não podia compreender. Como era que só se era homem quando se pegava a doença e se tinha sorte quando não se pegava?

 

        Gato Gordo resmungou quando eu o segui em direção ao posto de vigia.

        — Aonde é que pensa que vai? — perguntou ele.

        — Vou dar um passeio por ai respondi inocentemente.

        — Dê então seu passeio, mas precisa estar atrás de mim toda vez que vou a algum lugar? Assim, vou acabar tropeçando em você. Acabará esmagado como uma lagarta.

        Não respondi, e ele continuou pelo caminho, dando de vez em quando irados pontapés nas pedras. Segui-o a uma distância prudente, não querendo ser esmagado como uma lagarta. Gato Gordo havia passado a semana toda assim, desde que Manuelo não o deixara voltar para pegar o cavalo preto. Manuelo dissera que tínhamos pouca gente e não era possível dispensar ninguém.

        Havia em geral dez homens de guarda ao esconderijo. Mas dois deles tinham morrido. Um fora morto pelo sargento na floresta e o outro morrera pouco antes da nossa partida. Ficara bêbado e tentara violentar uma das mulheres do general. Acho que foi a mãe de Amparo, mas não tenho certeza. Sei que ouvi um grito, e depois dois tiros. Quando cheguei lá, o homem já estava morto.

        O Santiago moço é que estava de vigia.

        — Chegou na hora. Estou quase morto de fome, — disse ele.

        — O melhor remédio para esquentamento é estômago vazio, — disse maliciosamente Gato Gordo.

        — Nesse caso, aconselho você a pegar um. Se continuar a comer como está comendo, daqui a pouco não haverá mais cavalo que aguente.

        — Conversa! — replicou Gato Gordo. — O meu cavalo preto poderia aguentar-me ainda que eu fosse cinco vezes mais gordo.

        — Sabe que não acredito nesse cavalo seu? — disse Santiago, rindo e tomando o caminho do acampamento.

        — É inveja sua! Dax estava comigo e viu, não viu, Dax?

        — Vi, sim.

        Mas Santiago já ia longe. Voltei-me para Gato Gordo. Estava olhando pelas montanhas na direção de Estanza.

        — Um grande cavalo, hem, Dax?

        — Un caballo magnifico!

        Gato Gordo sentou-se, encostou-se numa pedra com o fuzil nos joelhos e murmurou:

        — Manuelo não pode saber o que é ser dono de um animal daqueles. Nunca teve um e não pode saber!

        Não respondi.

        — Até parecia que eu estava pedindo a mulher dele emprestada. Disse que tenho de ficar aqui porque temos muito pouca gente.

        Encolheu os ombros.

        — E se não tivéssemos voltado? Eu não estaria aqui para Manuelo me negar uma coisa tão simples, e eles estariam passando fome, só tendo para comer rato e raiz de pau.

        Continuei calado, mas Gato Gordo não parecia importar-se de que eu falasse ou não.

        — E depois de tudo o que fiz por eles, ainda têm a coragem de duvidar de que eu tenha o cavalo. — Largou o fuzil e acendeu um cigarrillo. — É mais do que um homem pode tolerar!

        Vi-o tirar uma fumaça e correr os olhos pelos arredores. Tudo estava em calma nas montanhas. Dai a uma hora tudo estaria escuro.

        — Boa noite, Gato Gordo disse eu, e tomei o caminho de volta para o acampamento.

        No meio do caminho, ouvi o grito de um peru selvagem. Quase imediatamente, pensei em pegá-lo. Seria bom comê-lo. Eu já estava cansado de carne salgada todos os dias.

        — Glu, — glu, — glu! — gritei, chamando-o.

        O bicho respondeu, mas o som parecia vir muito da esquerda.

        Entrei pelo mato e chamei de novo. Ele respondeu, mas ainda estava se afastando de mim. Já era escuro quando consegui chegar perto dele.

        Não sei quem ficou mais surpreso quando a cabeça do peru apareceu de repente no mato à minha frente, se ele ou eu. Ficamos um momento ali parados, e então a grande ave levantou a cabeça para protestar, mas eu no mesmo instante ataquei-o com a faca e cortei-lhe a cabeça.

        Senti o sangue bater-me quente na camisa quando a ave sem cabeça passou por mim e foi cair mais adiante, debatendo-se deses-peradamente. Só uns dez minutos depois foi que o sangue correu todo e o peru ficou imóvel. Já estava quase escuro quando o peguei pelas patas e levei-o no ombro, com o longo pescoço pendente às minhas costas.

        Manuelo estava perto do cercado do pasto quando cheguei.

        — Onde estava? — perguntou-me, zangado. — Sabe muito bem que tem de voltar para casa antes de escurecer.

        Joguei o peru aos pés dele.

        — Deus do céu! — exclamou ele, admirado. — Onde foi que conseguiu isso?

        — Ouvi-o chamar quando voltava do posto de vigia.

        Manuelo pegou o peru.

        — Deve ter bem uns quinze quilos! Estrella, venha ver o que Dax trouxe! Vamos ter banquete amanhã!

        Mas não houve banquete, porque os soldados chegaram naquela noite.

        Deve ter sido poucas horas antes do amanhecer que ouvi o primeiro tiro. Pulei da cama e peguei os sapatos. Eu estava quase vestido, porque tinha dado para dormir como os outros desde a nossa volta. Passei a mão na faca debaixo do travesseiro.

        Ouvi no interior da casa um grito de mulher. Não sai pela porta. Pulei da janela para o telhado dos fundos e rolei por ele enquanto as chamas se erguiam da casa.

        Vi clarões de tiros e gritos de homens quando sai engatinhando na direção do mato. Saltei por cima de algumas moitas e joguei-me dentro da vala. Prendi o fôlego, e então levantei cautelosamente a cabeça.

        Só podia ver à luz do incêndio uniformes vermelhos e azuis por toda parte. Manuelo e Santiago, o velho, chegaram correndo do oitão da casa. Vi os clarões dos fuzis deles. Um soldado caiu e outro gritou, levando a mão à barriga. Outro soldado atirou então em Manuelo alguma coisa que saiu rodando pelo ar.

        Não pude deixar de gritar.

        — Cuidado, Manuelo!

        Mas ninguém me ouviu. Num momento, Manuelo estava ali de pé e no instante seguinte pareceu explodir em mil pedaços. Dois soldados atacaram então Santiago. O fuzil dele estava sem balas, mas Santiago começou a defender-se dos soldados, usando-o como se fosse um cacete. Os soldados conseguiram avançar, e eu ouvi o grito dele quando uma baioneta lhe entrou pelo pescoço e outra pela barriga.

        Baixei a cabeça e corri por dentro da vala para a frente da casa. Quando cheguei ao caminho do posto de vigia, que estava escondido pelo mato, ouvi um grito e vi Amparo, que fugia, com a camisola branca levantada pelo vento. Agarrei-a pela perna, e ela foi ao chão. Tapei-lhe a boca com a mão e arrastei-a para a vala.

        Os olhos dela se voltaram para mim, arregalados, cheios de terror.

        — Silêncio! — disse eu num sussurro. — Sou eu, Dax!

        Ela ficou mais calma, e eu tirei a mão.

        — Fique deitada bem quietinha ai. Vou olhar de novo.

        Levantei a cabeça. Santiago moço, estava morto a poucos metros de mim. Havia outros mortos caídos mais perto da casa.

        Os soldados ainda estavam ali. Uma mulher saiu correndo da casa com as roupas em fogo. Atrás dela, apareceu Eduardo, gritando:

        — Mamá! Mamá!

        Houve uma breve fuzilaria, e a mulher se estendeu no chão. Eduardo, que vinha logo atrás, caiu sobre ela, e um soldado correu para os dois e desceu a baioneta repetidas vezes.

        Outra figura saiu da casa, brandindo um machete com as duas mãos. Era Roberto, e o general teria sentido orgulho dele. Não havia medo no seu rosto, mas apenas ódio quando ele correu gritando para o soldado.

        Tomado completamente de surpresa, o soldado virou-se e correu. Mas era tarde. O machete desceu, e o braço do soldado pareceu desprender-se do seu corpo. Deu um grito de agonia e caiu, ao mesmo tempo que uma rajada de fogo partiu de trás dele. Roberto pareceu ficar suspenso no ar e foi cair ao chão, perto do corpo do irmão e da mãe deste.

        Depois disso, só houve o crepitar do fogo. Ouvi o choro de uma mulher. Três mulheres foram levadas para um canto da casa por alguns soldados. No meio ia a mãe de Amparo. Parecia estar confortando a mãe de Roberto. A mulher de Manuelo estava de rosto fechado, parecendo insensível.

        Um oficial aproximou-se. Não podia ver-lhe o rosto, mas não era necessário. Conheci-o no momento em que abriu a boca. Nunca mais esqueceria aquela voz até o dia de minha morte.

        — Estão todos mortos?

        — Estão, coronel respondeu o sargento. — Menos estas mulheres aqui.

        — Bueno. Façam o que quiserem com elas. Mas lembrem-se de que devem morrer antes de partirmos. Jurei que não deixaria um só traidor vivo!

        — Si, coronel!

        O coronel deu as costas e afastou-se para o outro lado da casa, desaparecendo.

        As mulheres já estavam despidas e estendidas no chão, e os soldados faziam fila em frente de cada uma. Senti alguém mover-se ao meu lado. Era Amparo, com os olhos arregalados.

        — Que é que vão fazer?

        Eu sabia o que iam fazer. Mas não adiantava nada ela ver. Era apenas uma menina. Como podia compreender o que os homens faziam quando lutavam?

        Empurrei-a para dentro da vala. Vi que ela tremia de medo.

        Tomei-a pela mão e corri com ela para o caminho do posto de vigia. Mas, quando chegamos lá, não encontrei Gato Gordo. Sabia para onde ele tinha ido. Fora buscar o cavalo preto em Estanza.

        Olhei para o caminho que descia do outro lado para o sul. Não se via ninguém. Se andássemos depressa, poderíamos alcançá-lo. A primeira claridade do dia já estava começando a aparecer muito pálida no horizonte.

        — Estou com frio disse Amparo, tremendo na sua camisola

        de dormir.

        Gato Gordo me ensinara o que se devia fazer num momento

        assim. Tirei a minha pesada camisa índia e coloquei-a nos ombros de Amparo. A camisa chegou-lhe quase às pernas. Depois, tirei os sapatos e calcei-os nos seus pezinhos nus.

        — Agora, — disse eu calmamente e procurando dar à minha voz o máximo de segurança e certeza, — vamos caminhar um pouco. Descansaremos quando o sol começar a esquentar.

 

        Estávamos no máximo a um quarto do caminho pelas montanhas abaixo quando ouvimos vozes de homens atrás de nós. Peguei no braço de Amparo e corri com ela para dentro do mato, até um lugar onde as moitas eram mais espessas. Escondemo-nos bem na hora.

        Ouvi um pesado tropel de botas, e quatro soldados apareceram diante de nós com os fuzis em posição de atirar.

        — Alto! — disse um deles, jogando-se no chão a uns três metros, se tanto, de nós. — Não aguento mais. Não posso dar mais um passo.

        Os outros ficaram parados a olhá-lo.

        — Sentem-se também, — disse ele. — Vocês estão tão cansados quanto eu.

        — Mas o coronel mandou que patrulhássemos a estrada até o fim.

        — E o coronel está vendo a gente? Está lá embaixo, enchendo-se de boa bebida, enquanto nós estamos aqui, nos esfalfando nestas malditas montanhas. Quero que o coronel vá à merda.

        Outro soldado sentou-se ao lado dele.

        — Um momento de descanso. Quem é que vai saber?

        Os outros se estenderam no chão. Um momento depois, um deles se encostou a uma árvore.

        — Qual foi a que você pegou?

        O primeiro soldado respondeu:

        — Peguei todas. Logo que acabava numa, eu me levantava e entrava em outra fila.

        O segundo soldado sacudiu a cabeça.

        — Não admira que você esteja tão cansado.

        — Qual foi a sua?

        — A que estava gritando. Não sei por que fazia aquele barulho todo. Era tão grande que podia caber um cavalo lá dentro. Quase não senti nada.

        — Aquela não prestava, — disse um dos outros.

        — A loura era a melhor — disse o primeiro soldado, rindo. — A gente podia ver que tinha escola. Era tão boa que eu nem demorei, Se a fila atrás de mim não fosse tão grande, eu teria repetido. E, dessa vez, garanto que teria demorado mais. — Tirou o cantil. — Preciso beber um pouco. Estou todo seco por dentro.

        Levou o cantil à boca, e a água lhe escorreu pelo canto da boca.

        — Estou com sede também, — murmurou Amparo.

        — Psiu!

        Ela torceu o corpo e bateu com a mão no rosto.

        — Mosquitos!

        Senti então as picadas dos mosquitos nas costas. Antes disso, estivera muito ocupado, observando os soldados. Com movimentos muito cautelosos para não agitar o mato e chamar a atenção, puxei a camisola dela por baixo da minha camisa e cobri-lhe o rosto.

        — Fique bem quietinha ai e não se mova. Os mosquitos não vão mais morder seu rosto.

        Mas a mim podiam morder. Eu estava nu da cintura para cima.

        Quase de segundo a segundo, sentia uma picada, mas nada podia fazer. Pelo menos, enquanto os soldados estivessem ali.

        Por fim, um deles se levantou.

        — Acho bom irmos andando.

        — Para quê? — perguntou outro. — Não há ninguém lá embaixo.

        — Mas o coronel mandou patrulhar o caminho todo.

        O primeiro soldado riu.

        — Isso quer dizer que teremos de ir até o pé da montanha e depois subir tudo de novo. — Olhou para o sol. — Podemos ficar aqui até o meio-dia e depois voltar e dizer que não encontramos nada. Quem é que vai saber?

        — Mas não é direito...

        — Está bem, vá você sozinho, já que faz tanta questão. Ficaremos aqui descansando até você voltar.

        O que estava de pé olhou para os outros, mas nenhum fez menção de acompanhá-lo. Ele então jogou-se no chão de novo.

        — Nisso tem razão. Quem é que vai saber?

        Virei a cabeça. O rosto de Amparo estava escondido pela cami-sola, e sua respiração era quieta e igual. Levantei cuidadosamente a camisola. Estava ferrada no sono.

        Cobri-lhe de novo o rosto e olhei para os soldados. Um deles estava deitado de costas, com os braços abertos, e roncava ruidosa-mente, com a boca aberta. Os outros se haviam acomodado à sua maneira e estavam começando a fechar os olhos.

        Seria bom se eu pudesse descansar também. Mas seria muito perigoso. Lutei para conservar os olhos abertos. O sol subia pelo céu, e o dia estava ficando cada vez mais quente. As costas me ardiam com as picadas dos insetos, mas eu não tinha coragem de coçá-las.

        Apesar de todos os meus esforços, minha cabeça de vez em quando caia para a frente num cochilo. Reagi ao máximo, mas devo ter dormido também. Quando ouvi um barulho, acordei de repente.

        Os soldados estavam todos de pé. No momento em que os olhei, tinham ido urinar do outro lado da estrada. Um momento depois, um deles disse para os outros:

        — Já é bem tarde. Podemos voltar.

        Vi-os afastarem-se pelo caminho até desaparecerem além da curva. Dai a pouco, não pude ouvir-lhes nem as vozes. Amparo ainda estava dormindo. Acordei-a delicadamente.

        Ela levantou a cabeça e tirou a camisola do rosto. Os olhos ainda estavam cheios de sono.

        — Estou com fome, — disse ela, esfregando-os.

        — Vamos comer daqui a pouco.

        — Vamos voltar para casa. Mamá me prometeu que hoje a gente ia comer no almoço o peru que você matou.

        — Não podemos ir. Os soldados ainda estão lá.

        O sono lhe desapareceu dos olhos, e a lembrança do que havia acontecido a invadiu. Começou de repente a chorar.

        — Mamá! Mamá! Mamá!

        — Pare com isso! — disse eu com alguma rudeza.

        — Vou ver Mamá depois?

        — Claro! — exclamei, não sabendo como poderia dizer à pobre menina que nunca mais iria ver a mãe. — Como foi que você fugiu da casa, Amparo?

        — Quando os soldados levaram Mamá, eu estava escondida embaixo da cama. Logo que eles saíram, pulei pela janela e comecei a correr.

        — Foi uma coisa muito inteligente o que você fez.

        — Você acha? — perguntou ela, com os olhos brilhantes.

        A coisa de que Amparo mais gostava era de elogios. Nunca se contentava com eles.

        — Sou bem inteligente, não sou?

        — Muito.

        Toda risonha e satisfeita, ela olhou para o caminho.

        — Já foram? — perguntou.

        — Já, — disse eu, levantando-me. — E nós temos de ir também.

        — Para onde é que vamos?

        Pensei um instante. Não podíamos mais alcançar Gato Gordo, mas eu sabia para onde ele tinha ido.

        — Vamos para Estanza.

        — Estanza? Onde é isso, Dax?

        — É muito longe daqui. Teremos de caminhar.

        — Eu gosto de caminhar.

        — Mas é preciso termos cuidado. Não podemos deixar ninguém ver a gente. Se ouvirmos que alguém vem vindo, teremos de nos esconder.

        — Poderão ser os soldados, não é?

        — Ainda que não sejam os soldados, teremos de nos esconder. Quem visse a gente poderia ir contar aos soldados.

        — Vou ter cuidado disse ela. — Mas estou com fome e com sede.

        — Há um riacho ali adiante.

        — Também tenho de fazer xixi.

        Para isso não era preciso esperar.

        — Faça ai mesmo.

        Amparo se agachou e levantou as roupas.

        — Não posso fazer xixi se você ficar ai assim me olhando.

        Dei-lhe as costas, sorrindo. As meninas eram mesmo engraça-das. Que diferença fazia eu estar olhando ou não?

        Chegamos ao riacho dai a uma meia hora. Lembrei-me do que Gato Gordo me havia dito e recomendei-lhe que não bebesse a água com muita sofreguidão. Só um pouquinho. Estendi-me na margem e baixei a cabeça para a água. As costas me coçavam terrivelmente. O sol quente agravara as picadas dos mosquitos. Comecei a coçá-las e senti que tinha bolhas nas costas. Joguei um pouco de água por cima do ombro.

        Amparo estava me olhando.

        — Você está com as costas todas mordidas. Mamá sempre me bota folhas de louro quando os mosquitos me mordem.

        — Como são essas folhas?

        — Estou vendo um bando delas ali.

        Apanhei um punhado do mato que ela me mostrara e tentei botar as folhas nas costas, mas elas caiam.

        — Você não sabe nada, hem? — exclamou Amparo, exasperada. — Deixe que eu faço isso para você.

        Entreguei-lhe em silêncio as folhas. Ela molhou-as um instante na água.

        — Vire para rá.

        Virei-me. Senti as folhas úmidas e a água que me escorria pelas costas. Ela estava certa. Alguns minutos depois, a sensação de ardência e de coceira havia desaparecido. Fiquei olhando para o riacho. Vi algum coisa mover-se lá dentro. Era um pequeno cardume de peixes que passava.

        Lembrei-me de que Santiago, o moço, costumava pescar arpoando os peixes com uma flecha. Procurei um galho reto e com a grossura necessária. Com a faca, tirei as folhas e fiz uma ponta bem fina com uma farpa. Depois, fui para a beira do riacho e agachei-me.

        Os peixes reapareceram. Procurei fisgá-los com a vara, mas eles foram mais ligeiros do que eu. O máximo que consegui foi quase cair dentro da água. Tentei de novo. Depois da terceira tentativa, comecei a ter uma ideia do que devia fazer. Os peixes se dispersavam, indo cada qual para o seu lado. Era preciso apenas calcular o que viria na minha direção.

        Resolvi que seria o que vinha mais atrás. Deixei-o passar a primeira vez porque não achei que pudesse chegar muito perto de mim. Da segunda vez, porém, ele chegou bem perto. Brandi a vara e senti a ponta fisgá-lo.

        Voltei-me exultante, com o peixe que se debatia espetado na ponta da vara.

        — Vamos comer!

        Uma expressão de nojo apareceu no rosto de Amparo.

        — Cru? Como é que você vai assar isso?

        A minha exultação morreu. Deixei-me cair numa grande pedra chata. Dei um grito e um pulo. A pedra estava quente como uma grelha devido ao calor do sol. E se ela tinha quentura para queimar meu traseiro, devia ter também para assar um peixe.

 

        O peixe estava gostoso, ainda que um pouquinho cru. Peguei mais dois até matarmos a fome, e de cada vez tive de raspá-los com a faca de cima da pedra. Foi muito bom comermos tanto então porque nos dois dias seguintes só encontramos algumas frutinhas do mato. Na manhã do terceiro dia, topamos com uma mangueira e chupamos mangas com tanta avidez que tivemos dores no estômago e passamos o resto do dia ali, sem coragem de andar.

        Quando a noite caiu, Amparo começou a chorar.

        — Quero voltar para casa.

        Olhei-a em silêncio. Nada havia que eu pudesse dizer-lhe. Fiquei ali, desarvorado, como fica qualquer homem diante das lágrimas de uma mulher. O rostinho lindo de Amparo estava magro e abatido em consequência da diarréia.

        — Estou com o bumbum doendo, — disse ela.

        Eu também estava. Devia ter juízo para não comer tantas mangas meio verdes.

        — Durma. Amanhã você estará melhor.

        — Não quero! — gritou ela, batendo o pé. — Já estou cansada de dormir no chão, de passar fome e frio e de sentir os bichos andarem pelo meu corpo. Quero voltar para casa e dormir na minha cama!

        — Mas não pode ser.

        — Quero! Quero! Quero! — gritou ela, sapateando no chão.

        Eu sabia que ela estava iniciando um dos seus famosos acessos. Mas eu não estava disposto a aguentar isso. Mandei a mão e bati-lhe em cheio no rosto. Por um momento, ela ficou parada e atônita. Depois, as lágrimas lhe rolaram pelo rosto.

        — Você me bateu!

        — E bato de novo se não calar a boca! — disse rudemente.

        — Tenho raiva de você!

        Fiquei calado.

        — Estou falando sério! Não vou mais me casar com você!

        Deitei-me na relva e fechei os olhos.

        Por um momento, houve silêncio. Senti que ela se chegava para perto de mim. Finalmente, ela aconchegou-se ao meu lado.

        — Estou com frio, Dax.

        Os lábios dela estavam realmente brancos de frio. Compreendi que não podíamos dormir ali no descampado. Teria de procurar um lugar mais abrigado do vento frio que soprava da montanha para a planície.

        — Levante-se, — disse eu, segurando-a.

        — Mas está escuro e eu estou cansada. Não posso mais caminhar.

        — Mas é preciso. Temos de procurar um lugar mais quente para dormir.

        Começamos a caminhar. Olhei para o céu. Não gostava do jeito dele. As nuvens estavam baixas e ameaçadoras, escondendo a lua e as estrelas. O vento era frio e úmido, e eu sabia que a chuva não tardaria.

        Caiu uma terrível pancada, açoitando-nos as costas com a força do vento.

        Lembrei-me de que na manhã daquele dia avistara ao longe uma pequena floresta. Estaríamos lá se não nos tivéssemos enchido tanto de mangas. Tentei avistá-la através da escuridão, mas não adiantou. Tínhamos de continuar caminhando e esperar que não demorássemos muito a chegar lá.

        Estávamos ensopados da cabeça aos pés. Levava Amparo pela mão, sentindo os pantalones molhados colados às pernas. A terra ficou mole e lamacenta sob os meus pés descalços.

        Amparo estava chorando de novo. Houve um momento em que ela caiu e eu levantei-a num repelão. Começamos a correr. Chegamos à floresta de repente. Parei debaixo de uma grande árvore. Estava relativamente seco ali. A chuva não havia penetrado ainda a espessa cúpula das folhas. Ficamos ali, tentando recuperar o fôlego.

        Percebi de repente que ela estava tremendo demais. Os olhos pareciam estranhamente brilhantes.

        — Dax, estou ouvindo vozes.

        Apertei-a bem contra mim, tentando aquecê-la com o calor do meu corpo.

        — Ainda estou ouvindo vozes, — disse ela, com a voz difícil e fina.

        Toquei-lhe a fronte. Estava bem quente. Devia estar com febre.

        — Fique caladinha. Agora podemos descansar.

        Ela me empurrou, zangada, e disse:

        — Estou ouvindo vozes, sim. Escute.

        Mais para fazer-lhe a vontade do que por acreditar, escutei. A principio, nada percebi, mas depois pareceu-me ouvir um fraco murmúrio de vozes.

        — Espere aqui que eu vou ver.

        Entrei pela floresta. Havia andado talvez um cem metros quando os vi. Eram três carroças que tinham sido levadas da estrada para o meio da floresta. Três homens estavam sentados numa delas, jogando cartas à luz de uma pequena lanterna. Mais três estavam deitados do lado de fora das carroças. Estavam todos com os uniformes vermelhos e azuis do exército. Os fuzis estavam ensarilhados diante da primeira carroça.

        Não sabia se havia mais soldados. Trepei um pouco por uma árvore e olhei cuidadosamente as outras carroças. Estavam vazias, mas vi vários cobertores numa delas. Olhei para a carroça onde estavam os jogadores e fiquei pensando em apanhar um cobertor.

        Pensei na febre de Amparo, e vi que não tinha outra coisa a fazer. Ela estava sob a minha responsabilidade, como eu tinha estado sob a de Gato Gordo. Desci da árvore e me esgueirei em silêncio para a carroça que estava mais atrás. Com movimentos rápidos, agarrei um cobertor e enrolei. Corri os olhos em torno para ver se havia mais alguma coisa que eu pudesse levar. Vi uma caixa de fósforos, e meti-a no bolso. Havia um pedaço de pele de toucinho seca no chão da carroça, e peguei-a também.

        Levei apenas alguns minutos para orientar-me quando voltei para a floresta, e então foi fácil voltar para onde estava Amparo. Encontrei-a deitada quietamente.

        — Dax? — perguntou ela, batendo o queixo.

        — Sou eu, sim. Tire logo essas roupas molhadas.

        Tirei o cobertor e embrulhei-a nele. Depois cortei com a faca um pedaço de pele de toucinho.

        — Tome. Chupe isso.

        Deitei-me ao lado dela e cortei um pedacinho para mim. Estava áspero e salgado, mas o gosto na boca não deixava de ser agradável. Senti que os tremores de Amparo iam pouco a pouco diminuindo, e dai a alguns minutos sua respiração regular me mostrou que ela estava dormindo. Também com sono, pensei sorrindo que Amparo era uma menina bem bonitinha.

        Um passarinho que cantava numa árvore me acordou. Abri os olhos e olhei para cima. Através das folhas, vi o céu azul e claro. Olhei para Amparo. Estava toda enrolada no cobertor.

        As roupas dela estavam juntas num monte molhado aos seus pés. Apanhei-as e estendi-as numa moita, onde o sol se encarregaria de secá-las. Quando ela acordou, levei um dedo aos lábios, recomendando-lhe silêncio.

        Cortei-lhe outro pedaço de pele de toucinho e disse em voz baixa:

        — Espere aqui que eu já volto.

        Dai a poucos minutos, estava de novo no lugar onde os soldados haviam acampado. Soldados e carroças não estavam mais lá.

        Os restos de uma pequena fogueira ainda ardiam no centro do acampamento deserto. Joguei alguns galhos nela e voltei para buscar Amparo.

        O calor do fogo foi muito agradável depois daquela noite fria.

        Tentei calcular a hora pelo sol. Deviam ser quase nove horas. Tínhamos de continuar a viagem. Enrolei o cobertor, joguei-o sobre os ombros e nos encaminhamos para a estrada.

        Três vezes naquela manhã tivemos de sair da estrada para esconder-nos. Uma vez, foram vários homens a pé, de outra, um homem numa carroça e, finalmente, um homem e uma mulher numa carroça. Fiquei tentado a fazer parar as carroças, mas desisti. Não adiantava arriscar-me, porque a frequência de carroças indicava que devíamos estar perto de alguma vila.

        Quando viramos a primeira curva, vi casas e a fumaça de uma chaminé. Sai com Amparo da estrada para dentro do campo.

        — Temos de dar volta à cidade sem passar por ela.

        Amparo concordou, e seguimos por dentro dos campos. O caminho seria mais longo, e já era quase noite quando deixamos a cidade para trás.

        — Estou com fome disse Amparo. — A pele de toucinho não me enche a barriga.

        — Conseguiremos alguma coisa para comer esta noite.

        Eu havia visto alguns galinheiros, e, logo que encontrei um bom lugar para passarmos a noite, voltei. Mas voltei com Amparo porque ela se negou a ficar sozinha.

        Estava escuro como breu quando nos aproximamos de um galinheiro. Era nos fundos de uma casa, e tivemos de esperar até ter a certeza de que todos tinham ido dormir.

        — Espere aqui e não se mova! — disse eu a Amparo.

        Avancei em silêncio, na ponta dos pés, com a faca nas mãos, e abri a porta do galinheiro.

        No mesmo instante, as galinhas começaram a fazer um barulho que podia ser ouvido a quilômetros de distância. Uma galinha bem gorda passou perto de mim, e eu a agarrei e no mesmo instante cortei-lhe a cabeça. Não consegui agarrar outra, que passava, mas segurei firmemente um franguinho branco cujo pescoço cortei logo. Guardei a faca. Peguei as galinhas pelos pés e corri para onde estava Amparo, atirando-me ao chão junto dela no momento em que o dono da casa aparecia com a camisa de dormir batendo ao vento. Estava com uma espingarda, e quando viu a porta do galinheiro aberta correu para fechá-la. Depois, saiu andando em direção a nós.

        — Que é? — perguntou uma mulher dentro da casa.

        — Deve ter sido a raposa de novo nas minhas galinhas! Algum dia ainda vou meter-lhe uma bala no corpo, maldita!

        Ficou ainda um momento ali e voltou para o galinheiro. Abriu a porta e entrou.

        Toquei no braço de Amparo e fiz-lhe sinal para irmos saindo. No instante em que ele encontrasse duas cabeças de galinha dentro do galinheiro saberia logo que não tinha sido nenhuma raposa. Corremos a toda até ao nosso esconderijo e sentimos de repente que não estávamos mais cansados. Até Amparo estava sorridente e feliz de ver as galinhas suspensas sobre o fogo, com os piolhos pulando precipitadamente das pernas para não serem carbonizados.

 

        Os dias tornaram-se noites e as noites viraram dias. Tínhamos perdido toda a noção do tempo, quando descemos a última montanha e chegamos ao deserto. Calculava vagamente que já havíamos partido do esconderijo umas três semanas antes, mas não tinha certeza.

        Eram mais ou menos duas horas da tarde quando ficamos ali olhando através do deserto a serra além da qual ficava o vale fértil e verde em torno de Estanza. Havia algumas carroças na estrada, e eu sabia que não podia atravessá-la com dia claro. Seriamos facilmente vistos, pois não havia onde nos pudéssemos esconder naquele areal.

        Procurei calcular a distância com os olhos. Havia levado três horas para atravessar aquele trecho na carroça com Gato Gordo. Isso devia corresponder a uns trinta quilômetros. Poderíamos cobrir essa distância caminhando a noite inteira. Voltei-me para Amparo.

        O rosto estava muito queimado de sol e os cabelos louros, descorados. As sobrancelhas e as pestanas de tão brancas pareciam quase invisíveis. As faces se mostravam magras e abatidas, e eu lhe podia ver os ossos sob a pele e o cansaço que lhe repuxava os cantos da boca. Tirei um osso de galinha do bolso. Amparo começou a chupar o osso devagar, deixando-o umedecer-se bem com a saliva. Ela também havia aprendido muito naquelas semanas.

        Várias vezes por dia tínhamos tido de sair da estrada e escon- der-nos. Mais de uma vez tínhamos quase dado de cara com patrulhas de soldados, mas havia-se desenvolvido em nós uma espécie de sexto sentido que nos avisava da proximidade do perigo.

        — Temos de atravessar esse areal à noite, Amparo. Ficaremos descansando até escurecer.

        Ela não fez comentário algum. Sabia por quê, sem que fosse necessário eu explicar-lhe.

        — Temos alguma coisa para comer? — perguntou ela, ainda com o osso na boca.

        — Não.

        Olhei em torno. Aquilo ali não era lugar de caça. Havia algumas árvores, mas dessas árvores mirradas que só se encontram nos desertos. Isso mostrava que também não devia haver muita água.

        — Mas não estamos longe de Estanza, Amparo. Lá teremos muito para comer e beber!

        Ela olhou as carroças que passavam na estrada e perguntou:

        — Todos eles nos odeiam? Todos querem nos matar?

        — Não sei, — respondi, surpreso com a pergunta.

        — Por que é então que temos de ficar sempre escondidos?

        — Porque não sabemos quais são os amigos e quais os inimigos.

        Ela ficou em silêncio por algum tempo e disse de repente:

        — Mamá está morta. Roberto, Eduardo e os outros, também. É por isso que não podemos voltar, não é?

        Não respondi.

        — Pode-me dizer que eu não vou chorar.

        — É, sim, Amparo.

        — Papá está morto também?

        — Não.

        Ela se virou e olhou para o deserto. Ficou calada durante muito tempo. Afinal, voltou-se e olhou para mim.

        — Se Papá estiver morto também, você promete casar-se comigo e tomar conta de mim?

        Ela me parecia tão magra e indefesa, como Perro quando não sabia que eu queria fazer-lhe uma festa. Peguei-lhe a mão, que estava quente e confiante, na minha.

        — Você bem sabe que sim. Isso já está combinado há muito tempo.

        Ela sorriu.

        — Ainda tem algum osso?

        Tirei o último do bolso e dei a ela.

        — Vamos procurar alguma sombra e tentar dormir, disse eu.

        O vento chegou bem forte naquela noite, quando começamos a atravessar o deserto pela estrada. Tremíamos ao seu impacto gelado.

        — Está bem, Amparo?

        Ela fez um sinal afirmativo e, fechando mais a camisa em torno do corpo, baixou a cabeça por causa do vento.

        — Espere, — disse eu, e, desenrolando o cobertor, cortei-o ao meio com a faca. Não iriamos mais precisar dele na fazenda do Sr. Moncada.

        — Tome. Use isso como uma ruana, um capote.

        Ela enrolou sobre o corpo o seu pedaço de cobertor, e eu fiz o mesmo. O vento parecia mais forte. De vez em quando, levantava a areia, que nos vinha bater no rosto como uma porção de agulhas. Depois de algumas horas de caminhada pela superfície compacta do leito da estrada, estávamos com a pele do rosto dolorida e cobertos de uma leve camada de poeira.

        Saímos várias vezes no escuro do leito da estrada e nos enterramos na areia até os tornozelos. Era tão forte o vento, que eu tinha dificuldade em ver para onde íamos. Tentei olhar para as estrelas a fim de orientar-me, mas estavam encobertas pelas nuvens. Mais de uma vez fomos arrastados e tivemos de lutar para voltar à estrada.

        — Não enxergo nada, — disse em certo momento Amparo. — A areia está me entrando pelos olhos.

        — Faça um capuz, — disse eu, cobrindo-lhe a cabeça com o cobertor e só deixando uma pequena abertura na frente para ela olhar. — Está melhor assim?

        — Está.

        Fiz o mesmo e deu resultado. Continuamos a andar e, dentro em pouco, tornamos a não ver mais a estrada. Levamos quase uma hora para encontrá-la de novo.

        — Não posso mais andar, Dax, — disse Amparo. — Os sapatos estão cheios de areia.

        Fi-la sentar-se e esvaziei-lhe os sapatos. Depois, levantei-a.

        — É só mais um pouco.

        Continuamos. Eu senti a garganta dolorida e seca. Dentro do peito, a respiração era estertorosa. De repente, o céu começou a clarear. Por um momento, foi um cinza muito leve, até que o sol surgiu nas montanhas atrás de nós. Fiquei sem poder acreditar no que via! O sol estava nascendo do lado oeste!

        Mas compreendi logo o que havia acontecido. No meio da noite, havíamos perdido o rumo e passamos a caminhar em sentido inverso. Estávamos bem no meio do deserto, em plena luz do dia. Virei-me e olhei para a estrada no rumo de Estanza. Avistei uma carroça ao longe.

        Peguei a mão de Amparo e corri para fora da estrada. Tudo era plano. Não havia absolutamente onde nos pudéssemos esconder. Disse a Amparo que se deitasse, e deitei-me na areia ao lado dela. Cobrimos a cabeça com os cobertores. Eu esperava que nos confundíssemos com a areia a ponto de enganarmos quem passasse.

        Ouvi o barulho das rodas da carroça. Levantei uma ponta do cobertor e olhei. A carroça havia passado. Já estava me levantando quando vi outra carroça que se aproximava. Cai prontamente no chão.

        — Que é?

        — Outra carroça.

        O sol estava começando a esquentar a areia. O calor começava a ficar insuportável.

        — Nada podemos fazer, Amparo. Teremos de esperar outra vez a noite. Há muita gente na estrada.

        — Estou morta de sede.

        — Fique quieta e procure não pensar nisso.

        Sentia o suor correr-me pelas costas e entre as pernas. Passei a língua nos lábios. Estavam secos e salgados. Levantei o cobertor. A estrada estava deserta em toda a sua extensão.

        — Está bem — disse eu. — Vamos andar um pouco. Mas cubra a cabeça com o cobertor por causa do sol.

        O calor que subia da estrada desenhava coisas diante dos meus olhos. Meus pés começaram a queimar.

        — Estou com sede, Dax.

        — Vamos andar mais um pouco. Depois, a gente pára e descansa.

        Conseguimos andar cerca de meia hora. A areia estava tão quente que, quando saímos da estrada e tocávamos nela, tínhamos de tirar o pé como de um ferro em brasa. Eu sentia a língua seca e grossa. Procurava fazer a saliva correr por ela a fim de refrescá-la, mas a saliva logo secava.

        — Está doendo, Dax. Minha boca está doendo.

        Amparo estava soluçando mansamente. Seus ombros tremiam.

        Eu sabia que ela tinha de molhar os lábios fosse como fosse.

        Tirei a faca e fiz um talho na ponta de um dedo. O sangue apareceu logo.

        — Diabo!

        — Que foi? perguntou Amparo.

        — Cortei-me, — disse eu, estendendo o dedo para ela. — Quer chupar um pouco para sarar?

        Ela levou o dedo até à boca. Um instante depois, perguntou.

        — Chega?

        Olhei o dedo. Apertei-o fazendo sair mais um pouco de sangue.

        — Chupe mais um pouco, para não haver dúvidas.

        Ela obedeceu. Dessa vez, as bordas do talho ficaram brancas.

        — Agora está bem.

        — Ótimo. — Ela levantou a ponta do cobertor e disse: — Está começando a escurecer.

        E estava mesmo. O dia terrível havia quase passado e a noite vinha chegando. Já não era tanto o calor que subia da areia. Olhei para a estrada que passava entre as montanhas. Do outro lado, ficava Estanza.

        — Se caminharmos a noite toda, estaremos lá ao amanhecer.

        — Não podemos beber um pouco de água, Dax?

        — Daqui até Estanza não há água.

        Ela foi até o lado da estrada e sentou-se.

        — Estou cansada.

        — Eu sei, Amparo, — disse, cobrindo-a com o meu cobertor. — Veja se dorme um pouco. Amanhã, tudo isso estará acabado.

        Ela se estendeu no chão e fechou os olhos. Um instante depois, estava dormindo. Tentei dormir também, mas uma dor indefinida não me deixou. Para onde quer que me virasse, o corpo parecia doer. Deixei Amparo dormir cerca de duas horas.

        Foi mais ou menos uma hora depois do nascer do sol que chegamos afinal à fazenda do Sr. Moncada. Havia na frente da casa II muitos cavalos amarrados, mas eu não vi ninguém. Fiz sinal a Amparo para não fazer barulho enquanto passávamos para o fundo.

        A fumaça estava saindo da chaminé da cozinha. Senti tão forte o seu cheiro que quase cai com uma vertigem de fome. Chegamos à porta da cozinha. Abri-a, segurando ainda a mão de Amparo.

        Estava escuro, e não pude ver logo as coisas com clareza. Uma mulher gritou, e então eu vi. A cozinheira estava de pé à beira do fogão e três homens estavam sentados à mesa da cozinha, dois deles de frente para mim. Percebi logo que estavam fardados de vermelho e de azul.

        Virei-me e empurrei Amparo pela porta afora.

        — Corra!

        Ela saiu como um coelhinho pelo pátio. Fui atrás dela. De repente, ouvi um grito às minhas costas, e, quando me virei para olhar, tropecei num pedaço de pau e cai. Quando tentei levantar-me, um soldado passou correndo por mim.

        — Corra, Amparo! Corra!

        Outro soldado correu para mim. Virei-me para enfrentá-lo, puxando a faca. Mas tonteei. O cansaço e a noite sem sono tiraram-me as forças. Mas vi bem a cara do soldado e nada mais houve em mim senão raiva e ódio. O desejo de matar me fazia tremer.

        — Gato Gordo! — exclamei e atirei-me contra ele, de faca em punho.

        Ele nos traíra. Por isso é que os soldados haviam encontrado o nosso esconderijo. Por culpa dele é que tanta gente fora morta, e tudo porque ele estava ansioso por vir buscar um miserável cavalo.

        Quando tentava feri-lo com a faca, ouvi Amparo gritar. Olhei e vi que um soldado a havia agarrado. Arrastava-a para onde estávamos, enquanto ela gritava e esperneava. Senti-me de novo tonto.

        Gato Gordo estava olhando para mim, com o rosto muito pálido.

        — Dax!

        — Sim, é Dax mesmo! — exclamei, como um alucinado. — Não morri como os outros. E vou matá-lo! Vou cortar seus cojones e fazer você engoli-los por essa garganta imunda!

        — Não, Dax! Não!

        — Traidor! — Avancei para ele, mas havia alguma coisa esquisita com o chão. Ondulava como se fosse o mar em Curatu, aonde eu tinha ido uma vez com meu pai. — Traidor.

        — Dax!

        Mas era outra voz que me chamava, uma voz que eu não havia esquecido, embora não a ouvisse havia mais de dois anos. Tirei os olhos de Gato Gordo e olhei para a porta da cozinha, onde estava meu pai. Mas havia alguma coisa estranha, e eu pensei que estivesse maluco. Meu pai estava também com uma farda do exército.

        — Papá! — exclamei. Dei um passo na direção dele, mas me lembrei de Gato Gordo e de novo senti-me dominado pela raiva. — Vou matar você! Matar!

        Armei o braço para enfiar-lhe a faca no pescoço, mas a luz do sol me cegou. Pisquei os olhos, e de repente tudo começou a ficar escuro. A faca me caiu das mãos. Senti que ia caindo para o chão, quando os braços de alguém me seguraram.

        A escuridão continuou, e eu me lembro de ter pensado: Como pode estar tão escuro se o sol nasceu ainda agora? Então do meio da escuridão, ouvi a voz de meu pai. Havia nela amor. E dor. E tristeza também.

        — Meu filho! Meu filho, que foi que eu fiz com você?

        E, então, a noite caiu misericordiosamente sobre mim e me cobriu.

 

        O velho de batina recostou-se na cadeira e juntou os dedos enquanto esperava pela minha resposta. Seus olhos pretos dele brilhavam atrás dos vidros dos óculos.

        — Tentarei melhorar, monsenhor disse eu.

        — É o que espero, Diógenes, — disse ele com uma voz em que havia tanta convicção quanto na minha.

        A escola não fora feita para mim. A rotina e a monotonia da sala de aula eram para mim coisa pior do que uma prisão. De algumas coisas eu gostava, e nelas me saía bem. Línguas. Inglês, francês. Até alemão. Latim era uma língua morta, e só os padres a usavam nas suas cerimônias. Não podia interessar-me menos por ela. Já estava ali havia dois anos e tinha sido reprovado duas vezes em latim. Era por isso que estava diante do diretor da escola.

        — O seu ilustre pai foi um dos nossos melhores alunos, — disse-me pontificalmente o diretor. — Sempre foi o primeiro em latim. Se quer seguir o caminho dele como advogado, precisa aprender latim.

        Parecia esperar uma resposta, e eu murmurei:

        — Si, Monseñor.

        — Tem de melhorar também as notas nas outras matérias, — disse ele, olhando para o meu boletim em cima da mesa. — Há muitas em que não conseguiu senão a nota mínima de aprovação. Linguagem, literatura, história, geografia...

        Olhei pela janela enquanto ele falava com a sua voz grossa. Via dali Gato Gordo à minha espera no portão da escola. Era uma figura imponente com a sua farda vermelha e azul, e, como sempre, era o centro da admiração de um grupo de empregadas e governantas que esperavam também outros alunos. Mas eu nunca me havia habituado a vê-lo de farda. Ainda que o exército fosse nosso e o general tivesse passado a ser o presidente.

        A revolução já estava terminada havia quase três semanas quando eu e Amparo chegamos a Estanza. Tínhamos levado quase cinco semanas na viagem, e durante todo esse tempo não tínhamos tido coragem de falar com qualquer pessoa.

        Ainda me lembro de quando o general entrou no meu quarto na hacienda do Sr. Moncada alguns dias depois. Estava deitado na cama, ainda fraco da febre que me havia abalado o organismo. Ouvi o bater das suas botas diante da minha porta e virei a cabeça para cumprimentá-lo. Não era muito alto, mas com o uniforme de comandante-em-chefe do exército parecia um gigante.

        O rosto ainda era magro e anguloso e os lábios, finos e cruéis sob os olhos cinzentos, tão firmes como sempre. Colocou afetuosamente a mão sobre a minha na colcha branca.

        — Soldadito.

        — Señor General.

        — Vim agradecer-lhe ter trazido minha filha.

        Não respondi. Não sabia o que ele tinha de me agradecer. Eu não poderia ter feito outra coisa.

        — Viu... murmurou ele com a voz estranhamente hesitante, — viu o que aconteceu aos outros?

        Bati com a cabeça.

        — Roberto e Eduardo? Poderiam estar ainda nas montanhas? Os corpos deles não foram encontrados.

        — Morreram, señor, — disse eu, olhando para o lado para não ver a dor nos seus olhos. — Eu os vi morrer.

        — Foi... foi rápido?

        — Foi, sim, Excelência. E morreram como homens em combate, não como meninos. Eu mesmo vi Roberto matar dois.

        Ele explodiu de repente.

        — Maldito Gutiérrez!

        — O coronel? — perguntei.

        — Sim, Gutiérrez, o carniceiro de Bandaya! O miserável sabia da rendição do governo e do armistício antes de subir para as montanhas!

        — Armistício, Excelência?

        — Sim, soldadito, uma trégua. Toda a luta foi suspensa enquanto se discutia a rendição.

        Voltou-se e foi até a janela, falando de costas para mim.

        — A guerra já havia acabado quando ele atacou o esconderijo.

        Fechei os olhos. Tudo tinha sido à toa. Todos haviam morrido sem necessidade. E meu avô também. Tudo por culpa do coronel. Senti o ódio crescer violentamente dentro de mim.

        Ouvi alguém à porta e voltei a cabeça. Gato Gordo me trazia a comida numa bandeja. Ainda tinha no braço o curativo do ferimento que eu lhe fizera com a faca.

        — Vejo que já está acordado, meu galinho de briga, — disse ele.

        Nisso, a voz do general explodiu.

        — Que aconteceu ao vigia? Por que os outros não foram avisados a tempo de fugir? Que foi que houve?

        Gato Gordo ficou de repente muito pálido, e sua testa se cobriu de suor. Havia nos seus olhos um medo que eu nunca havia visto, nem mesmo quando enfrentáramos a morte juntos.

        Tornei a fechar os olhos. Eu sabia o que havia acontecido e por quê. Gato Gordo havia abandonado o seu posto. Mas eu não era mais uma criança. Sabia que uma morte a mais não iria fazer ressuscitar os que já estavam mortos. E, se Gato Gordo estivesse no posto de vigia, teria sido apenas um cadáver a mais.

        Abri os olhos e disse ao general:

        — Não sei, Excelência. Acordei quando ouvi os primeiros tiros. Logo que vi que a casa estava se incendiando, sai pela janela e fui esconder-me na vala. Lá encontrei Amparo. Peguei a mão dela e fugimos.

        — Fez muito bem disse ele, tocando-me na mão com extremo carinho. — Meus filhos morreram, mas o espirito e a coragem deles continuam vivos em você. Hei de considerá-lo sempre como meu filho.

        Notei com surpresa que havia um principio de lágrimas naqueles olhos cinzentos. Mas o general não podia estar chorando. Ele mesmo me dissera que os homens não choram.

        — Obrigado, Excelência.

        Ele levantou o corpo, encaminhou-se para a porta e disse:

        — Vou deixá-lo almoçar.

        — Amparo como está? — perguntei-lhe.

        Ele sorriu.

        — Já está boa. Não sente mais nada. Vou levá-la para Curatu comigo. Fique bom logo e vá ficar conosco.

        Os seus passos se afastaram pelo corredor, e eu me virei para Gato Gordo, que ainda estava pálido, mas sorridente.

        — Você me devolveu a minha camisa disse ele.

        — O que lhe dei foi a sua cabeça! — exclamei, cheio de raiva. Empurrei a bandeja. — Pode levar isso que não estou com fome!

        Ele deixou o quarto em silêncio, e eu olhei pela janela. Mas não vi o sol, nem o céu azul, e não ouvi o canto dos pássaros. Só via o coronel e só ouvia a sua detestada voz. O ódio me dominou de novo, deixando-me um gosto amargo na boca. Se ele ainda estava vivo, eu iria um dia procurá-lo e matá-lo.

        Poucas semanas depois, estava em Curatu. Meu pai havia encontrado uma casa no alto de um morro sobre o mar, não muito longe da casa onde os pais dele tinham vivido. Logo depois, fui matriculado no colégio dos jesuítas onde ele havia estudado, e o mesmo monseñor que fora seu professor estava comentando as minhas falhas como estudante.

        Voltei a prestar atenção ao que ele dizia.

        — Há promessa em você, — dizia ele, — mas tem de esforçar-se muito para alcançar uma posição em que possa ser um orgulho para seu pai.

        — Está bem, monseñor. Vou esforçar-me.

        — Bueno, — disse ele, sorrindo. — Vá em paz, meu filho.

        — Gracias, monseñor.

        Sai da salinha que lhe servia de gabinete e corri para o portão. Gato Gordo se destacou do meio das suas admiradoras.

        — O carro está esperando, excelencito.

        Desde que saíramos de Estanza, ele não me chamara mais pelo nome. Era só excelencito. Eu não podia ir a lugar algum nem fazer o que fosse, sem ele estar perto. Uma vez ele me disse que o general e meu pai tinham-no designado para ser meu guarda-costas. Ora, eu não precisava de guarda-costas. Podia cuidar de mim mesmo. Mas isso não havia adiantado nada. Gato Gordo estava sempre ao meu lado.

        Olhei para a limusine Hudson preta com o chofer fardado e entreguei os livros a Gato Gordo.

        — Não quero ir de carro. Estou com vontade de andar um pouco.

        Virei-me e comecei a descer a ladeira que ia para a cidade. Um instante depois, ouvi o barulho do motor. Olhei para trás: O carro vinha em marcha lenta atrás de mim, com o chofer e Gato Gordo sentados no banco da frente. Sorri. Nisso ao menos Gato Gordo não havia mudado. Preferia em qualquer hipótese não andar a pé.

        Sentei-me depois numa pilha de tábuas no cais do porto e fiquei olhando a descarga de um navio. Ouvi os marinheiros insultando os estivadores em francês e estes responderam em espanhol. Meu professor de francês ficaria surpreso com os meus conhecimentos se me ouvisse dizer algumas das obscenidades que eles proferiam.

        Olhei para a bandeira azul, branca e vermelha, pendente do mastro. O vento desfraldava-a orgulhosamente. Corri os olhos pelo cais. Havia mais dois navios atracados. Um tinha a bandeira do Panamá e o outro era grego.

        Tinham-me dito que antes da revolução nunca havia menos de vinte navios no porto, na maioria ingleses e norte-americanos. Mas os Estados Unidos e a Inglaterra haviam proibido os nossos portos aos seus navios. Meu pai dizia que era porque tinham aliança com o governo anterior e ainda não haviam reconhecido o novo governo. Fiquei sem compreender por que isso tinha de ser assim, enquanto as nossas bananas apodreciam nos cais, canaviais inteiros eram queimados e o café era atacado pelos bichos nos armazéns.

        Ouvi passos atrás de mim e voltei-me. Dois garotos vinham na minha direção. Estavam com as roupas esfarrapadas e sujas que pareciam ser uma espécie de uniforme naquela parte da cidade. Pararam diante de mim, e um deles tirou o boné e me falou respeitosamente:

        — Alguns centavos para matar a fome, Excelência?

        Fiquei embaraçado. Não tinha dinheiro. Não precisava de dinheiro. Sempre que queria alguma coisa, Gato Gordo a comprava para mim.

        — Não tenho dinheiro, — disse rispidamente, para dissimular a minha confusão.

        — Um centavo chega, señor. Pelo amor de Deus.

        Desci das tábuas e disse:

        — Desculpem, mas não tenho nem um centavo comigo.

        Os dois trocaram olhares incrédulos. Senti-me mal. Não eram muito mais velhos do que eu, mas me haviam tratado de uma maneira subserviente, quase vergonhosa. Estavam bem à minha frente, na estreita passagem entre os montes de tábuas, e eu não tinha por onde passar.

        — Com licença, — disse eu.

        Vi as caras deles se fecharem. Não se moveram.

        — Que é que vocês querem? Já disse que não tenho dinheiro!

        Ficaram calados.

        — Deixem-me passar! — exclamei, começando a ficar zangado. Não sabiam aqueles idiotas que se eu tivesse dinheiro já lhes teria dado?

        — Ele quer passar, — disse zombeteiramente o maior deles. O menor sorriu e me arremedou numa voz de falsete.

        Para mim não era preciso mais nada. A raiva me subiu pela cabeça. Um momento depois, o menor era atirado dentro da água e o maior deu um grito quando meu pontapé o atingiu nos cojones. Caiu de joelhos, com as mãos nas virilhas, rolou pelo chão do cais com a dor e, quando eu o empurrei com o pé, caiu também dentro da água.

        Estava olhando para eles quando ouvi passos atrás de mim.

        — Que foi que houve? — perguntou Gato Gordo.

        — Não queriam me deixar passar.

        — Campesinos! — exclamou Gato Gordo, cuspindo para eles dentro da água.

        Voltei para a limusine preta que nos esperava fora do portão das docas. Perguntei a Gato Gordo antes de entrar no carro:

        — Por que é que estão pedindo esmola?

        — Quem?

        — Aqueles dois, — disse eu, mostrando os dois garotos que estavam saindo da água.

        — Mendigos há sempre, — disse Gato Gordo, encolhendo os ombros.

        — Disseram que estavam com fome.

        — Há sempre quem tenha fome.

        — Mas por quê? Não disseram que para isso é que estavam fazendo a revolução, para acabar com isso?

        Gato Gordo me olhou com um brilho estranho nos olhos.

        — Já tomei parte em três revoluções, sabe? Ainda não vi nenhuma que enchesse a barriga dos campesinos. Quem é campesino nasce para passar fome.

        — Por que foi então que brigamos?

        Gato Gordo sorriu.

        — Para que não ficássemos como eles e tivéssemos de pedir esmola para comer.

        Olhei-o por um momento, e então, tirei o pé do estribo da limusine.

        — Tem algum trocado ai, Gato Gordo?

        Estendi a mão, e ele deixou cair nela algumas moedas. Voltei para o cais. Os dois garotos me olharam, desconfiados, manifestamente com medo, mas o menor cuspiu nos meus pés.

        — Campesinos!

        Joguei-lhes as moedas e, dando-lhes as costas, afastei-me.

 

        O palácio presidencial ficava no centro da cidade. Ocupava dois quarteirões e era cercado por um muro de tijolos e cimento de mais de cinco metros de altura, que realmente separava das ruas o edifício do palácio. Só havia duas entradas, uma do lado norte, voltada para as montanhas, e outra no sul; de frente para o mar. Era uma verdadeira fortaleza. Havia sempre guardas em quantidade nos dois portões e sentinelas patrulhavam à noite os altos muros.

        Em virtude de um decreto de um dos presidentes anteriores, em quem haviam atirado de um edifício próximo quando ele passava pelos jardins da residência para o salão de despachos, todos os edifícios situados nos dois quarteirões em torno do palácio tinham sido demolidos. Não havia assim quaisquer janelas de onde se avistasse o interior da fortaleza presidencial. Mas isso não impedira que aquele mesmo presidente fosse assassinado. Depois de vários meses de humilhação com o fato de ele andar em público com a amante, a mulher o havia assassinado.

        Os soldados do Portão Sul ficaram em posição de sentido quando a limusine preta passou. Olhei-os displicentemente de dentro do carro. Este virou para a direita e tomou o caminho da Residência, um edifício branco de pedra no canto sudeste. Quando a limusine parou em frente e eu saltei, os soldados ali postados me olharam sem curiosidade porque já sabiam da minha visita semanal a Amparo.

        O apartamento de Amparo ficava na ala direita. A esquerda era do pai dela. No centro, ficavam as salas de audiência. Fui levado para a grande sala do canto do seu apartamento. Como sempre, tive de esperar. A Princesa, como agora a chamavam, estava sempre atrasada.

        Estava olhando pela janela, quando ela chegou em companhia da dueña. Estava com um elegante vestido branco, e os cabelos louros lhe caiam pelos ombros. Estendeu-me a mão imperiosamente.

        Beijei-a, de acordo com o costume.

        — Amparo, — disse eu muito sério.

        — Dax! — exclamou ela, sorrindo. — Gostei muito de ter vindo.

        Dizíamos as mesmas coisas todas as semanas e ficávamos à espera das palavras habituais da dueña. Vieram na hora exata.

        — Bem, vou deixar vocês dois à vontade, crianças.

        Esperamos a velha sair e fechar a porta e olhamo-nos, sorrindo. Corremos logo para a janela, a fim de olhar.

        A dueña estava saindo de fato pela porta do lado. Gato Gordo esperava ali, de quepe na mão, e os dois se dirigiram juntos para o pequeno apartamento da dueña, no edifício dos empregados.

        — Ela espera todas as semanas pela sua visita, — disse Amparo, rindo.

        — Pela minha, não.

        — Vamos olhá-los? — disse ela, rindo ainda.

        Sacudi a cabeça. Não tinha vontade naquele dia. Corríamos às vezes para o quarto de Amparo, de onde, por uma janela, podíamos ver o quarto da dueña. Era enfadonho. Faziam sempre a mesma coisa. Eu não sabia como Gato Gordo não ficava enjoado como nós ficávamos só de olhá-los.

        — Que é que você quer fazer então?

        — Não sei, Amparo.

        — Você hoje não está nada divertido, sabe?

        Olhei-a. Amparo aos nove anos era uma menina ainda mais bonita de cada vez que eu a via. E tinha plena consciência disso. Mas vivia muito sozinha. Não podia afastar-se um só instante dos muros do palácio, nem mesmo para ir à escola. Os professores iam dar-lhe aula em casa.

        Todas as tardes, outras crianças rigorosamente selecionadas tinham permissão para visitá-la. As duas filhas do Sr. Moncada, que estavam estudando num colégio particular em Curatu, apareciam uma vez por semana. Outras filhas de aristócratas e políticos locais tinham também a sua vez. Uma vez por mês, havia uma festa, a que todos compareciam.

        Fora daí, Amparo vivia num mundo povoado inteiramente por adultos. Havia ocasiões em que eu sentia que ela era mais velha do que eu. Sabia muito mais sobre tudo o que acontecia no mundo. Contava-me sempre boatos maliciosos sobre as pessoas.

        Foi sentar-se no sofá junto de mim.

        — Que foi que o Monsenhor lhe disse?

        — Como soube que ele me mandou chamar? — perguntei, surpreso.

        — A dueña me disse, — respondeu ela, rindo. — Ela disse que, se não fosse seu pai, você teria sido expulso da escola.

        — Onde foi que ela ouviu isso?

        — Foi um dos ajudantes de Papá que disse. Papá quer sempre saber do seu boletim escolar.

        O presidente devia ter coisas mais importantes em que pensar do que nas minhas notas na escola. Por que aquele interesse por mim?

        — Papá pensa muito em você. Diz que, se meus irmãos não tivessem morrido, seriam como você. Às vezes, gostaria de ter nascido homem. Assim, papai não ficaria tão triste.

        — Ele prefere ter você a qualquer dos outros, Amparo.

        — Acha mesmo?

        — É claro.

        — Vou ser muito esperta, sabe? Vou ser capaz de fazer tanto quanto qualquer homem.

        — Tenho certeza disso.

        Era sempre mais cômodo concordar com Amparo. Era a melhor maneira de evitar discussões.

        — Quando é que você vai para Paris?

        — Paris? — perguntei, realmente surpreso.

        — Você vai para Paris, — disse ela, positivamente. — Ouvi meu pai dizer. Seu pai vai para lá numa missão comercial. Os Estados Unidos e a Inglaterra não querem mandar os seus navios para fazer comerciar conosco. Temos de achar novos mercados para os nossos produtos, senão estaremos perdidos. A França parece o mais lógico.

        — Meu pai pode ir e não me levar.

        — Não. Ele vai passar alguns anos lá. Ouvi Papá dizer que tomará providências para você cursar uma boa escola lá.

        — É engraçado eu não ter sabido de nada.

        — Isso só ficou resolvido hoje de manhã. Ouvi tudo o que os dois discutiram na mesa do café.

        Pensei no cargueiro francês que vira nas docas. Talvez viajássemos nele. Fui até a janela e olhei para o porto. Não vi o navio no cais. Com certeza, já havia partido.

        Amparo veio para junto de mim.

        — Vamos dar um passeio lá fora?

        — Se você quiser.

        Descemos pela sua porta particular, que dava para um jardinzinho. Quando saímos, dois soldados começaram a andar a alguma distância atrás de nós. Passamos um portão de ferro e nos dirigimos para o edifício da administración. Soldados fizeram continência quando passamos.

        Um carro havia parado em frente do "pequeno palácio", como era chamada a casa dos hóspedes. Um homem saltou do carro e entrou apressadamente no edifício. Não pude ver-lhe o rosto.

        — Quem é?

        Amparo encolheu os ombros.

        — Já o tenho visto várias vezes. Creio que é o procurador de La Cora.

        Eu sabia quem era La Cora. Era a mais recente numa série de moradoras do pequeno palácio. O Presidente gostava de ter tudo ao seu alcance.

        — Não creio que ainda tenha de vê-lo muitas vezes, — disse Amparo.

        — Por quê?

        — Acho que Papá já está ficando enjoado de La Cora. Nesta semana, ele jantou comigo quase todas as noites.

        Havia uma nota maliciosa de triunfo em sua voz.

        É claro que eu sabia das mulheres que haviam passado pelo pequeno palácio. Cada qual ficava ali seis semanas em média e depois desaparecia. O presidente era um homem de gosto muito variável. La Cora havia demorado na Residência mais do que a maioria. Já estava ali havia quase dois meses.

        — Como é ela?

        — Não é muito bonita, — disse Amparo desdenhosamente.

        — Ouvi dizer que é.

        — Mas não acho. Tem seios enormes. Assim, veja.

        E estendeu os braços arqueados quase meio metro à frente.

        — Eu gosto de um busto grande.

        Ela se olhou. Os seus seios mal estavam começando a formar-se.

        — Pois eu terei busto grande, maior do que o dela.

        — Tenho certeza disso, — murmurei, para não discutir.

        — Você gostaria de ver La Cora?

        — Acho que sim.

        Amparo virou-se e dirigiu-se para a entrada do pequeno palácio. O soldado de serviço fez continência e abriu a porta. Entramos na casa, e um mordomo veio receber-nos.

        Amparo olhou-o arrogantemente e disse:

        — Quero ver La Cora.

        O homem hesitou. Era evidente que não sabia o que fazer. Mas Amparo estava habituada a ser obedecida.

        — Deve saber que não gosto de esperar!

        — Pois não, Princesa, — disse o mordomo com uma mesura. — Quer ter a gentileza de acompanhar-me?

        Levou-nos para um apartamento da ala esquerda do edifício e parou à porta. Ouvia-se lá dentro um leve rumor de vozes. O mordomo bateu.

        As vozes se calaram. Um momento depois, uma mulher perguntou:

        — Quem é?

        — La Princesa está aqui.

        — La Princesa?

        — Si, señorita. Quer vê-la.

        Houve de novo um rumor de vozes e a porta se abriu. Uma mulher alta de grandes olhos negros e cabelos pretos presos num coque, apareceu. Olhou para Amparo e deu um passo atrás.

        — É uma honra para mim, Princesa.

        Amparo entrou no apartamento como se este lhe pertencesse.

        — Pensei que seria bom tomarmos chá juntas.

        A mulher olhou de relance para um homem que estava à janela. Vi-o fazer um sinal indiferente. Seu rosto era magro e estava coberto por cerrada barba. Os olhos eram muito escuros e brilhantes.

        — Será um prazer para mim, Princesa, — disse La Cora, e bateu palmas. O mordomo chegou à porta. — Chá, sim, Juan?

        Amparo disse:

        — Gostaria de lhe apresentar meu amigo, Diógenes Alejandro Xenos.

        La Cora cumprimentou-me de cabeça, e eu fiz uma reverência.

        — Muito prazer, señorita.

        — Posso apresentar-lhe o meu procurador, señor Guardas?

        O homem cumprimentou, batendo os calcanhares à maneira militar.

        — A su servicio. — Olhou em seguida para La Cora. — Espero que possa convencer Sua Excelência a comparecer. Preparei tudo especialmente para esta noite.

        — Ele comparecerá.

        O Sr. Guardas dirigiu-se para a porta.

        — Peço licença para retirar-me. Tenho uns assuntos urgentes para resolver.

        Amparo bateu com a cabeça e ele tornou a fazer uma reverência e saiu. Fiquei certo de que aquele homem já havia sido militar. Mostrava-o na sua postura, e até na cadência do passo.

        La Cora apertou mais o peignoir em torno do corpo e levou a mão aos cabelos.

        — Se tivesse sabido da sua visita, Princesa, me teria preparado. Pode conceder-me um momento para vestir alguma coisa mais apropriada?

        — Sem dúvida.

        Amparo voltou-se para mim logo que La Cora saiu da sala.

        — O busto é bem grande, não é?

        Ouvi de repente uma voz pela janela aberta. Fui até a janela e olhei. Não pude ver quem estava falando, pois a pessoa estava bem abaixo da janela e escondida das minhas vistas. Mas a voz me parecia estranhamente conhecida.

        — La bomba deve ser colocada na mesa exatamente à meia- noite!

        — É o que será feito, Excelência, — respondeu alguém.

        — Não se esqueça. Não quero falhas!

        Houve um momento de silêncio e então dois homens apareceram. Um era o mordomo; o outro, o señor Guardas. O mordomo levantou a mão como que em continência, e o Sr. Guardas saiu. Não era de admirar que a voz me parecesse conhecida. Ouvira-a momentos antes.

        Amparo estava se olhando ao espelho e me perguntou:

        — Você acha que meu busto vai ficar tão grande quanto o de La Cora?

        — Acho que sim, — respondi secamente.

        Ela viu o meu rosto pelo espelho e perguntou:

        — Que é que o está preocupando?

        — A festa desta noite deve ser bem grande, Amparo. Vai haver até fogos de artificio na mesa.

        — Como foi que soube disso?

        — Soube agora mesmo. Ouvi o procurador de La Cora dar instruções ao mordomo. Quer que a bomba seja colocada na mesa exatamente à meia-noite. Que espécie de festa será essa?

        A voz de La Cora fez-se ouvir da porta.

        — É uma festinha que vamos oferecer ao presidente e a alguns dos seus ministros e auxiliares para comemorar o seu segundo aniversário como nosso chefe e benfeitor.

        — Ah! Essa deve ser a razão para la bomba à meia-noite.

        La Cora riu.

        — Diz isso de uma maneira que até parece haver alguma coisa de sinistro. É uma bomba, sim, mas feita de sorvete.

        — É uma ideia muito interessante, — disse eu. — La bomba de helado.

        La Cora olhou para Amparo.

        — Bem sabe como seu pai gosta de sorvete.

        Nesse momento, o mordomo entrou com a bandeja do chá.

        — Mudei de ideia, — disse Amparo de repente. — Lembrei-me de que tenho de estar agora mesmo na Residência. Vem comigo, Dax?

        Olhei para La Cora como se pedisse desculpas e sai para acompanhar Amparo, que já ia desaparecendo no corredor. Alcancei-a antes que ela chegasse à porta da frente.

        — Por que está tão zangada? — perguntei, abrindo-lhe a porta.

        — Odeio essa mulher!

        Os dois soldados voltaram a seguir-nos quando nos encaminhamos para a Residência.

        — Por quê? Que foi que ela lhe fez?

        Ela me olhou friamente.

        — Não nega que é um homem como os outros. Não vê nada senão peitos grandes.

        — Não é verdade.

        — Claro que é. Vi como você a estava comendo com os olhos.

        — Que é que você queria que eu fizesse? Não havia muito mais o que olhar.

        Amparo parou perto da sua porta particular.

        — Você nunca me olhou assim!

        — Mas prometo que vou olhar quando você crescer.

        — Se fosse um cavalheiro, você me olharia assim desde já!

        Olhei-a e, mesmo sem querer, tive de rir.

        — Está rindo de quê?

        — Mas se não há nada para olhar!

        Vi a mão dela levantar-se e segurei-a antes que me atingisse o rosto.

        — Por que isso, Amparo?

        — Odeio você — disse ela, com os olhos fuzilantes. — Fique sabendo que nunca mais em minha vida quero botar os olhos em você!

        Encolhi os ombros e sai pelo jardim.

        — Dax!

        — Que é?

        Ela estendeu as mãos.

        — Você não me deu um beijo de despedida.

 

        Senti que me sacudiam os ombros. Virei o corpo para o lado e tornei a enfiar-me nas cobertas, quentes e macias. Não queria ir para a escola. Podia até alegar que estava doente.

        — Acorde, Dax! — disse a voz aflita e urgente de Gato Gordo.

        O meu subconsciente registrou aquele tom de voz. Eu já o ouvira antes. Na selva, nas montanhas. Significava perigo. Sentei-me na cama, já bem acordado.

        — Que é?

        — Seu pai quer vê-lo agora mesmo!

        Olhei para as janelas. Estava tudo escuro ainda.

        — Agora?

        — Imediatamente!

        Sai da cama e vesti-me. Olhei para o relógio. Duas horas da madrugada. Senti um frio tremor envolver-me. Acabei de vestir-me, trêmulo.

        — Ele foi ferido! Está morrendo!

        Gato Gordo conservou-se carrancudo e em silêncio.

        Olhei-o quando ele me deu o paletó.

        — La bomba!

        Vi-lhe a surpresa estampada no rosto. Falei antes dele.

        — La bomba de helado! Asesinato!

        Ele se benzeu.

        — Já sabia?

        Segurei-lhe as mãos.

        — Meu pai está vivo? Diga!

        — Está vivo, sim. Mas temos de andar depressa!

        O chofer já estava ao volante da grande Hudson preta com o motor ligado. Entramos em silêncio, e ele partiu imediatamente para o palácio presidencial. Os guardas nos deixaram passar sem a exigência habitual de identificação.

        Saltei do carro e entrei antes mesmo que Gato Gordo se levantasse. O vestíbulo estava cheio de gente. Vi o presidente sentado numa cadeira a um canto. Estava nu da cintura para cima, e um médico lhe prendia ataduras na parte superior do peito. O rosto dele estava pálido e abatido quando se voltou para mim.

        — Onde está meu pai?

        Ele fez um gesto na direção do apartamento de La Cora.

        — No quarto.

        Sem dizer mais nada, corri para o apartamento. Na sala onde Amparo e eu tínhamos estado naquela tarde havia caliça e poeira por toda parte. Metade da parede dos fundos havia ruído. Corri pelo que restava da porta, para a sala de jantar. Todas as janelas e portas tinham sido arrancadas. As mesas e cadeiras estavam em pedaços. Os corpos de dois homens estavam estendidos no chão, mas não perdi tempo em olhar para eles.

        Passei por outra porta e cheguei a um pequeno vestíbulo. Havia do outro lado uma porta fechada, diante da qual dois soldados montavam guarda. Um deles abriu a porta quando me viu.

        Parei logo que entrei. Havia dois padres lá dentro. Um altar portátil tinha sido instalado aos pés da cama, e a luz da vela estendia uma sombra vacilante sobre o crucifixo na parede. Um dos padres estava ajoelhado diante do altar. O outro, curvado sobre a cama, levantava um crucifixo sobre a cabeça de meu pai. Do outro lado da cama, estava um médico com uma seringa de injeção na mão.

        Senti de repente as pernas muito fracas. Tropecei ao entrar no quarto e tive de apoiar-me numa cadeira para não cair.

        — Papá!

        Corri então para junto da cama, com as lágrimas a correr-me pelo rosto. Papai estava cor de cinza, e eu lhe senti o suor frio no rosto quando o beijei. Ele não se moveu.

        Olhei para o médico.

        — Morreu!

        O médico sacudiu a cabeça.

        — Não minta! Sei que ele morreu!

        Coloquei as mãos sob os ombros de meu pai a fim de levantá-lo. Ele gemeu, e eu tirei as mãos como se as tivesse queimado. Havia um espaço vazio do lado esquerdo. Olhei para o médico.

        — Onde está o braço dele?

        — Foi arrancado por uma explosão, — disse o médico.

        Pressenti um brilho sobre a minha cabeça e olhei. O dossel da cama era todo feito de espelhos, que refletiam tudo o que se passava na cama. Corri os olhos pelo quarto. Tudo eram veludos vermelhos e dourados. Nas paredes, grandes quadros com mulheres nuas. E em cada canto do quarto havia estátuas de pares em posições obscenas.

        Meu pai gemeu de novo. Olhei para ele. A fronte estava cheia de suor. O médico enxugou-lhe o suor com um lenço. Levantei-me lentamente e disse:

        — Levem-no daqui!

        — Não, — disse o médico. — É muito perigoso removê-lo!

        — Pouco me importa! Tirem-no daqui! Não quero que ele morra neste quarto de prostituta!

        Senti a mão do padre nos meus ombros.

        — Meu filho.

        Desvencilhei-me dele.

        — Quero meu pai fora daqui! A cama de uma puta não é lugar para um homem morrer!

        O médico principiou a falar, mas calou-se quando uma voz se fez ouvir atrás de mim. Era o presidente. Estava à porta, com as ataduras passadas pelo peito nu.

        — É o filho dele, — disse o presidente. — Façam o que o rapaz está mandando.

        — Mas... protestou o médico.

        — Ele será levado com cama e tudo para o meu quarto na Residência!

        A palavra do presidente era categórica e definitiva. Fez um gesto para os soldados que estavam no corredor atrás dele. Cobriram Papá com mais colchas. Foram precisos dez homens para levantar a pesada cama e carregarem-na até a Residência. Gato Gordo e eu seguimos a cama em silêncio, e só depois que vi meu pai no quarto do presidente foi que me voltei para o padre que viera conosco do apartamento de La Cora.

        — Agora, padre, vou rezar!

        A débil luz da madrugada estava entrando no quarto quando o presidente abriu a porta uma hora depois. Aproximou-se da cama e olhou para meu pai, enquanto eu o olhava em silêncio. Seu rosto não traduzia emoção alguma.

        Depois, voltou-se para mim.

        — Vamos, soldadito. Está na hora do café.

        Sacudi a cabeça.

        — Pode deixá-lo. Está fora de perigo.

        Olhei-o bem nos olhos.

        — Não iria mentir para você. Está fora de perigo.

        Acreditei no presidente. Ele me botou a mão no ombro quando saiamos do quarto. Olhei da porta. Meu pai parecia estar dormindo. Podia ver os cobertores arfarem ao movimento calmo da sua respiração.

        Descemos. Senti o cheiro de comida quente e fiquei de repente com fome. Sentei-me à mesa, e um empregado colocou diante de mim um prato de presunto com ovos. Comecei a comer sofregamente.

        O presidente sentou-se à cabeceira da mesa, e outro empregado levou-lhe uma xicara de café bem quente. Estava com uma camisa folgada, de modo que eu não podia ver se seu peito ainda estava com ataduras, mas seu braço se movia com dificuldade quando ele levantou a xicara.

        — Sente-se melhor agora? — perguntou ele, quando acabei de comer.

        Fiz com a cabeça um sinal afirmativo. Um empregado me deu uma xicara de café com leite. Estava quente e bom. Quando acabei, perguntei:

        — Que aconteceu a La Cora?

        Os olhos do presidente flamejaram.

        — La puta! Fugiu!

        — Como assim?

        — Saiu da sala no momento em que o sorvete foi colocado em cima da mesa. Disse que estava muito abafado lá dentro e que ia tomar um pouco de ar, mas saiu imediatamente do palácio num carro preto. Ela e outro homem, um homem de barba, no banco de trás. O mordomo estava dirigindo. Mas nós a encontraremos, e então...

        — Os guardas não fizeram parar o carro?

        — Não, e já pagaram pela sua negligência.

        — A bomba estava no sorvete?

        — Como sabia? — perguntou ele, surpreso.

        Falei-lhe da conversa que tinha ouvido, na véspera, da janela do apartamento de La Cora. Ele me ouviu em silêncio. Quando acabei, bateram na porta. O presidente fez um sinal a um empregado, que foi abrir a porta.

        Um capitão do exército entrou e fez continência.

        — Encontramos La Cora e o mordomo, Excelência.

        — Bueno, — disse o presidente, levantando-se. — Quero interrogá-los pessoalmente.

        — Mas já estão mortos, Presidente!

        — Eu disse que os queria vivos!

        — Quando os encontramos, já estavam mortos. Estavam no carro preto em que fugiram. Levaram vários tiros, e ainda por cima estavam ambos com o pescoço cortado.

        — Onde encontraram o carro?

        — En la Calle de Paredos, Presidente.

        Eu conhecia a rua. Descia das montanhas para as docas.

        — Em que parte?

        — Perto do porto.

        — E o homem de barba?

        — Nem sinal dele. Procuramos por ali tudo, vasculhamos até as docas. Havia desaparecido.

        O presidente ficou um momento em silêncio e então disse:

        — Obrigado, capitão.

        Virou-se então para mim,

        — Agora, você deve ir descansar. Mandei preparar um quarto de hóspedes para você. Ficará conosco até seu pai restabelecer-se por completo.

        Tive um sono inquieto, entrecortado de sonhos agitados. Num deles, eu estava de novo no pátio da fazenda de meu avô, O sol estava muito quente, e eu ouvi uma voz bem conhecida dizer-me que só havia uma bala no revólver e que eu tinha de matar meu avô.

        Nesse momento, acordei com os olhos arregalados. Sabia afinal onde tinha ouvido aquela voz. O procurador de La Cora, Sr. Guardas, o homem de barba, era o coronel Gutiérrez.

        Pulei da cama e vesti-me às pressas. Não sabia como, mas daquela vez eu o encontraria. Dessa vez, ele não fugiria. Porque eu ia matá-lo.

 

        Gato Gordo veio atrás de mim quando sai do quarto. Desci o corredor e abri a porta do quarto de meu pai.

        — Como está ele?

        — Ainda está dormindo, — respondeu-me o médico.

        Continuei pelo corredor em direção à escada. Amparo estava subindo quando comecei a descer. Ela me fez parar, e, pelo menos daquela vez, não se fazia de princesa.

        — Como vai seu pai, Dax?

        — Está bem. Está dormindo.

        — Foi bom você ter acordado. Venha almoçar comigo.

        — Não posso, — disse eu, continuando a descer a escada. — Tenho muito o que fazer!

        Cheguei à porta da frente e fiz sinal para o carro.

        — Onde é que vamos? — perguntou Gato Gordo.

        — As docas.

        Não esperei que ele abrisse a porta. Entrei de um salto, e ele se acomodou no banco da frente.

        — Que é que vamos fazer, Dax?

        — Vamos procurar o homem de barba que fugiu.

        — Como vai conseguir isso? A polícia e o exército já vasculharam toda a cidade e não acharam nem sombra dele.

        Encolhi os ombros e fiz o carro ir até o ponto onde eu tinha estado na véspera. Os mesmos garotos estavam ali, pescando no cais.

        — Campesinos!

        Eles se voltaram de cara fechada. Entreolharam-se e voltaram a concentrar-se na sua pesca.

        — Campesinos! — continuei. — Vocês me pediram ontem alguns centavos. Trouxe hoje cem pesos para vocês!

        Não desviaram dessa vez o olhar, mas era evidente que não acreditavam em mim.

        — Venham cá. Não quero fazer nenhum mal a vocês.

        Hesitaram um momento. Depois, largaram os caniços e se aproximaram. O mais velho tirou o boné.

        — Que deseja de nós, Excelência?

        — Quero que me descubram um homem. — Fiz-lhes uma breve descrição do procurador de La Cora, com barba e tudo. — Ele esteve por aqui ontem à noite. Quero saber onde está agora.

        Olharam um para o outro.

        — Um homem assim é muito difícil de achar, Excelência.

        — Mais difícil de achar do que cem pesos?

        — A policia já esteve procurando esse homem e não encontrou — disse o maior.

        — E a policia ofereceu cem pesos pela informação? — perguntei, fazendo menção de voltar para o carro.

        — Não queremos encrenca com as autoridades, Excelência.

        — Não haverá encrenca.

        — Bem, vamos ver o que podemos descobrir.

        — Bueno, voltarei dentro de duas horas. Se me trouxerem a informação, ganharão cem pesos.

        Voltei para o carro, Gato Gordo me olhou com um curioso respeito no olhar.

        — Acha que eles vão descobrir alguma coisa?

        — Se estão com tanta fome como dizem, vão descobrir. Agora, vamos voltar para casa que eu tenho de pegar dinheiro.

        Fui diretamente ao escritório de meu pai. Sabia onde ele guardava a pequena caixa de ferro — na última gaveta da mesa. A chave ficava na gaveta do outro lado. Abri a caixa e tirei cem pesos. Depois, como estava com fome, fui à cozinha e pedi à cozinheira que me preparasse alguma coisa para comer.

        Às quatro e meia da tarde, saltei do carro nas docas em companhia de Gato Gordo.

        — Não disse que eles não iriam descobrir nada? — perguntou Gato Gordo. — Veja! Nem estão aqui!

        — Mas virão.

        Voltamos para o carro e ficamos esperando. Chegaram quase vinte minutos depois. Apareceram num beco do outro lado da rua, fizeram sinais para mim, assobiaram e desapareceram. Atravessei a rua seguido de Gato Gordo e entrei no beco, onde não podíamos ser vistos da rua.

        — Trouxe o dinheiro? — perguntou o mais velho.

        Tirei os cem pesos do bolso.

        — Trouxeram a informação?

        — Como podemos saber se você nos dará mesmo o dinheiro?

        — Como posso saber se me dirão a verdade depois de receberem o dinheiro?

        Entreolharam-se e encolheram os ombros.

        — Somos forçados a confiar uns nos outros.

        O mais velho fez um sinal afirmativo.

        — Às três horas da madrugada de hoje, um homem como o que procura embarcou num navio no armazém 7. É o que está com a bandeira do Panamá.

        — Se estão mentindo, vão se arrepender.

        — Não estamos mentindo, Excelência.

        Dei-lhes o dinheiro e sai do beco. No armazém 7, saltei do carro e vi o navio. Aproximei-me e comecei a subir a prancha. Mas o marinheiro de guarda no portaló nos barrou a passagem.

        — Vamos partir daqui a uma hora. Não pode haver mais visitas!

        — Vamos — disse eu a Gato Gordo, e desci a prancha.

        Nem esperei que o carro parasse. Sai correndo, afastei os guardas e entrei no gabinete do presidente. Ele levantou os olhos, surpreso. Havia vários homens com ele, mas não dei oportunidade a ninguém falar.

        — Sei onde está o coronel Gutiérrez!

        — Que tem Gutiérrez a ver com essa interrupção?

        — Ele é também o Sr. Guardas, o homem de barba que fugiu.

        O presidente não perdeu tempo. Pegou o telefone em cima da mesa.

        — Diga ao capitão Borja para preparar imediatamente um destacamento e levá-lo para a porta do edifício dos escritórios.

        Imediatamente!

        Voltou-se para mim.

        — Onde?

        — Num navio panamenho no armazém 7. Temos de ir depressa. Vão sair do porto daqui a menos de uma hora!

        O presidente se encaminhou para a porta.

        — Mas não podemos retardar a partida de um navio, presidente! — disse um dos homens que estavam na sala. — Será uma violação das convenções internacionais!

        O presidente voltou-se para ele, irritado.

        — As convenções internacionais que vão para o diabo! — Em seguida, sorriu. — Além disso, quem se atreveria a protestar contra a visita de um presidente?

        Colocou a mão em meu ombro e me levou pela porta com ele.

        O comandante do navio estava visivelmente aborrecido.

        — Peço a indulgência de Vossa Excelência. Se perdermos esta maré, sofreremos um atraso de meio dia, seguramente.

        Mas a voz do presidente era muito suave.

        — Tenho certeza de que o seu governo, que tanto admiro, ficaria muito mais inquieto do que o senhor, se me fosse recusada uma visita ao seu navio.

        — Mas, Excelência...

        A voz do presidente perdeu de repente a brandura.

        — Tenho de insistir, Capitán. Ou me deixa dar uma busca a bordo ou deterei o seu navio sob a acusação de ter abusado da nossa hospitalidade dando refúgio a um assassino, inimigo da Pátria!

        — Mas não temos passageiros, Excelência. Só temos os tripulantes que estão a bordo desde que saímos do nosso porto de registro há mais de quatro semanas!

        — Neste caso, mande a tripulação apresentar-se para a revista!

        O comandante hesitou.

        — Imediatamente!

        O comandante voltou-se para o primeiro-piloto.

        — Convoque todos os homens para o convés de vante!

        Um momento depois, a tripulação começou a reunir-se. Havia trinta e dois homens, que formaram duas fileiras no centro do convés.

        — Sentido!

        Os homens se perfilaram.

        — Estão todos os tripulantes aqui? — perguntou o presidente.

        — Si, Excelencia — respondeu o comandante.

        O presidente voltou-se para o Capitão Borja.

        — Vá com dois homens dar uma busca completa no navio. Certifique-se de que não há ninguém escondido em canto algum!

        O capitão fez continência e apressou-se em cumprir a ordem.

        Os outros soldados ficaram em posição de sentido, e o presidente voltou-se para mim.

        — Vamos olhar essas caras? Um barbado não será difícil de reconhecer.

        Mas não era fácil. Nenhum dos homens usava barba. Quando passávamos pela segunda vez por entre as filas, o capitão Borja reapareceu e disse que não havia mais ninguém a bordo.

        — Você o viu? — perguntou-me o presidente com voz preocupada.

        Sacudi a cabeça Mas os meus dois informantes não poderiam ter inventado aquilo. Não eram suficientemente espertos para tanto.

        O comandante do navio se aproximou, com um leve sorriso de satisfação.

        — Está satisfeito agora, Excelência?

        O presidente não respondeu. Olhou para mim, e eu exclamei:

        — Não! Ele está aqui! Não pode deixar de estar! Com certeza, raspou a barba!

        — Como é então vai reconhecê-lo?

        Fiz um sinal ao presidente para curvar-se e disse-lhe alguma coisa ao ouvido. Ele sorriu e voltou-se para o primeiro homem da fila:

        — Como se llama usted?

        — Diego Cárdenas, Excelência.

        O presidente passou para o homem ao lado.

        — Y usted?

        — José Maria Luna.

        Chegamos ao terceiro homem da fila. O presidente parou em frente de um homem vestido com as roupas sujas de mecânico. Tinha o rosto besuntado de óleo, e até os cabelos estavam sujos.

        — Como se llama usted?

        O homem hesitou, olhou para mim e disse com voz áspera:

        — Juan Rosario...

        O presidente já havia passado para o homem seguinte, mas eu me voltei.

        — Juan Rosario o quê?

        — Rosario y Guard...

        Interrompeu-se bruscamente e avançou para mim, com as mãos para o meu pescoço.

        — Bastardo negro! Duas vezes eu devia ter matado você! Mas desta vez vou matar...

        Enterrei as unhas nas mãos dele, tentando tirá-las do meu pescoço. Já sentia faltar-me o ar nos pulmões, e meus olhos começarem a esbugalhar-se. Então, Gato Gordo aproximou-se dele por trás e a pressão em meu pescoço cessou de súbito.

        Fiquei ali tentando recuperar o fôlego e olhei para o homem no convés. Ele sacudiu a cabeça, rolou o corpo e me olhou. Os olhos eram os mesmos. Frios, cruéis, implacáveis. Podia mudar a cor dos cabelos, raspar a barba, engrossar a voz, mas não podia modificar aqueles olhos. O único olhar que me lançou o havia denunciado.

        Abri o paletó e peguei a faca que trazia escondida no cinto. Segurei a lâmina e avancei para o pescoço dele como o faria para o pescoço de uma galinha, mas fui agarrado antes que pudesse chegar onde ele estava. Olhei para o presidente. A voz dele era calma, quase suave.

        — Não é preciso matá-lo. Você não está mais na selva.

 

        Dois meses depois, eu estava à amurada de outro navio que se afastava de terra. Olhei para o cais e vi Amparo, que me dava adeus.

        — Adiós, Amparo!

        Ela gritou alguma coisa, mas o barulho era muito, e eu não pude entender. O navio dirigiu-se lentamente para o canal. Quase não se podiam distinguir mais as pessoas no cais. Além, avistava-se a cidade e, depois, as montanhas verdes e lindas ao sol da tarde.

        Senti o braço de meu pai em meu ombro e olhei-o. Seu rosto estava magro, e ele ainda não se habituara à perda do braço, mas os olhos eram claros e tinham um brilho que não conhecia ainda.

        — Olhe bem, meu filho. Estamos a caminho de outro mundo.

        Eu via Gato Gordo pelo canto dos olhos. Meu pai continuou a falar e eu me voltei para a terra.

        — Vamos para um mundo velho, mas que será novo para nós ambos. Por isso, olhe bem, meu filho, e guarde bem na lembrança a cidade, as montanhas e as planícies da sua terra. Quando você voltar, não será mais um garoto! Será um homem!

 

                                         PODER e DINHEIRO

        O médico acabou de dar a injeção e puxou a agulha. Virou-se para o jovem que estava aos pés da cama e disse:

        — Isso o fará dormir, Dax, e lhe conservará as forças para a crise que pode vir esta noite.

        O rapaz nada disse imediatamente. Foi para o lado da cama e delicadamente enxugou o suor da fronte do pai.

        — De qualquer modo, ele morrerá, — disse ele calmamente e sem levantar os olhos.

        — Nunca se sabe, — disse o médico. — Seu pai já nos tem assustado em outras ocasiões. Tudo está nas mãos de Deus.

        Sentiu o impacto dos olhos castanhos do rapaz, que pareciam ler-lhe o fundo da alma.

        — Costuma-se dizer lá na selva, — disse Dax, — que para um homem entregar o seu destino nas mãos de Deus deve ser uma árvore. Só as árvores acreditam em Deus.

        A voz do rapaz era branda, e o médico ainda não pudera habituar-se àquele francês suave, atenuado, quase sem sotaque. Ainda se lembrava da luta que o rapaz tivera com a língua quando o conhecera sete anos antes.

        — Você não acredita?

        — Não. Já vi coisas tão terríveis que não me pode restar muita fé.

        Dax olhou de novo para o pai. Os olhos de Jaime Xenos estavam fechados. Parecia estar descansando. Mas havia uma palidez cinzenta sob a pele escura, e a respiração era pesada e difícil.

        — Vou chamar um padre para dar-lhe os últimos sacramentos, — disse o médico. — Prefere o contrário?

        Dax encolheu os ombros.

        — Não é o que eu prefiro que tem importância e, sim, aquilo em que meu pai acredita.

        O médico fechou a maleta.

        — Voltarei esta noite depois do jantar.

        Depois de um último olhar para o pai, Dax acompanhou o médico pelo corredor.

        Quando a porta do consulado se fechou depois do médico, Dax foi para o gabinete do pai. Gato Gordo e Marcel Campion, jovem secretário francês e tradutor de seu pai, olharam-no com uma pergunta. Dax sacudiu a cabeça em silêncio e foi até a mesa. Tirou um cigarrillo da caixa e acendeu-o.

        — Convém passar um telegrama ao presidente disse ele a Marcel. — "Pai à morte. Mande instruções."

        O secretário deixou imediatamente a sala. Pouco depois, ouviu-se atrás da porta fechada o bater de uma máquina de escrever.

        Gato Gordo exclamou, irritado:

        — Pelo sangue da Virgem! É assim que tudo acaba! E nesta terra fria dos diabos!

        Dax nada disse. Foi até a janela. A noite estava caindo e havia começado a chover. A chuva suavizava os sujos edifícios cinzentos da rua que levava a Montmartre. De algum modo, parecia sempre estar chovendo em Paris.

        Como naquela noite em que ele chegara de Corteguay, havia sete anos. Tinham parecido um grupo de rústicos, com as golas dos paletós levantadas como uma fraca proteção contra a fria chuva e a neve de fevereiro e com as malas empilhadas no passeio onde o chofer do táxi os havia deixado.

        — O portão está fechado disse Gato Gordo. — Não há ninguém em casa.

        — Toque outra vez a campainha. Não pode deixar de haver alguém.

        Gato Gordo puxou o cordão da campainha. O barulho encheu a rua estreita e ressoou de casa em casa, mas ninguém apareceu.

        — Eu posso abrir o portão!

        — Então abra! Que é que está esperando?

        Os movimentos de Gato Gordo foram quase rápidos demais para serem seguidos pela vista. A automática estava fumegante na mão dele, e o barulho dos tiros havia ribombado dentro da noite como se fosse trovoada.

        — Maluco! exclamara zangado, o pai de Dax. — Agora, a polícia virá saber o que foi que houve e o mundo inteiro saberá que nós não pudemos entrar no nosso consulado! Seremos levados ao ridículo. E não adiantou nada, porque o portão continua fechado.

        — Não está, não, — respondeu Gato Gordo, tocando-o com o pé.

        O portão se abriu, rangendo nas dobradiças enferrujadas. Xenos hesitou um instante, mas se dispôs a entrar na casa. Gato Gordo o deteve com o braço.

        — Espere um pouco. Não estou gostando disso. Deixe-me entrar na frente.

        — Ora essa! Que é que pode haver de errado?

        — Já há muita coisa errada, — disse Gato Gordo. — Ramirez devia estar aqui, mas a casa está vazia. Talvez seja uma armadilha. Ramirez pode ter-nos traído.

        — Tolice! Ramirez nunca faria isso. Fui eu mesmo que propus a nomeação dele ao presidente.

        Apesar disso, Jaime Xenos ficou de lado e deixou Gato Gordo entrar primeiro na casa. O caminho estava cheio de mato, que lhes batia nas pernas.

        — Acha que a porta da frente também está trancada? — perguntou Dax.

        — É o que vamos ver.

        Gato Gordo fez sinal para que fossem para o lado da casa, agachou-se e estendeu a mão para torcer a maçaneta da porta.

        A porta se abriu silenciosamente. Olharam para a escuridão lá dentro, mas nada puderam ver. A automática reapareceu nas mãos de Gato Gordo. Murmurou ele baixinho.

        — Lá vou eu com Deus!

        Ouviram-no tropeçar no escuro, praguejar e afinal dizer no mesmo instante em que as luzes se acendiam:

        — Não há ninguém aqui!

        Entraram e ficaram de olhos arregalados. Parecia que um tufão havia passado pela casa. Havia destroços por toda parte, papéis espalhados pelo chão, restos de cadeiras quebradas empilhadas no meio da sala. Uma mesa na cozinha parecia ser o único móvel que restava na casa.

        — Os ladrões andaram por aqui, — disse Gato Gordo.

        O pai de Dax olhava tudo com uma estranha expressão de mágoa, como se não pudesse acreditar no que via. Disse finalmente com tristeza:

        — Ladrões, não. Traidores.

        Gato Gordo acendeu um cigarro e, quando viu o pai de Dax apanhar um papel no chão e examiná-lo, arriscou uma explicação:

        — Talvez a gente tenha errado o endereço.

        O pai de Dax sacudiu a cabeça.

        — Não, é aqui mesmo.

        E mostrou o papel com as armas de Corteguay.

        Dax olhou para o pai e disse:

        — Estou cansado.

        O velho abraçou o filho e disse:

        — Não podemos ficar aqui. Teremos de passar a noite num hotel. Vi o letreiro de uma Pensión lá embaixo na ladeira quando vínhamos para cá. Vamos. Talvez não possamos encontrar comida, mas ao menos descansaremos durante a noite.

        A empregada bem-arrumada fez uma reverência quando abriu a porta.

        — Bon soir, messieurs.

        O pai de Dax limpou cuidadosamente os pés no capacho antes de entrar e tirou o chapéu.

        — Tem três quartos aqui por esta noite?

        Um olhar de espanto apareceu no rosto da empregada. Olhou para Gato Gordo, que estava ao lado do cônsul, com os braços cheios de malas. Depois, olhou para Dax.

        — Marcaram alguma coisa? — perguntou ela polidamente.

        O cônsul ficou confuso.

        — Marcar o quê? Ah, fazer reservas dos quartos! — O seu francês limitado não o ajudava. — C'est nécessaire?

        Aquilo estava acima das forças da empregada. Abriu a porta de uma saleta e disse:

        — Se quiserem ter a bondade de esperar aqui, vou chamar Madame Blanchette.

        — Merci.

        O Pai de Dax foi na frente e depois que todos entraram a empregada fechou a porta. Ouviram no interior da casa uma risada de mulher. A sala era luxuosamente mobiliada com bons tapetes e sofás e poltronas ricamente estofados. Um fogo crepitava na lareira e num aparador havia conhaque e copos.

        Gato Gordo viu a garrafa e disse, indo até o aparador:

        — Assim é que eu gosto! Um pouco de conhaque, Excelência?

        — Não sei se devemos. Afinal de contas, nem sabemos para quem está preparado o conhaque.

        — Para os hóspedes, — disse Gato Gordo, com uma lógica que lhe parecia irrefutável. — Do contrário, por que estaria aqui?

        Serviu um copo para o cônsul e tomou o seu de um gole.

        — Que bom! — exclamou, e serviu-se logo de outro.

        Dax sentou-se numa poltrona diante da lareira. O calor o envolveu, e ele sentiu os olhos pesados de sono.

        A porta se abriu, e a empregada fez entrar na sala uma simpática mulher de meia-idade. Estava irrepreensivelmente vestida com um vestido de veludo preto e usava um duplo colar de pérolas róseas ao pescoço e um grande anel de brilhante no dedo.

        O pai de Dax cumprimentou-a.

        — Jaime Xenos.

        — Monsieur Xenos. — Olhou para Gato Gordo e, depois, para Dax. Se não gostou de Gato Gordo ter-se servido do conhaque, não deu o menor sinal disso. — Em que posso servi-los, cavalheiros?

        — Precisamos de alojamento para esta noite, — disse o pai de Dax. — Somos do consulado de Corteguay aqui mesmo nesta rua, mas parece que houve algum desencontro e lá não há ninguém.

        A voz da mulher foi extremamente delicada.

        — Pode mostrar-me os passaportes, monsieur? Há um regulamento.

        — Está bem, — disse o pai de Dax, entregando-lhe o passaporte de couro vermelho.

        Madame Blanchette examinou-os por um momento e em seguida apontou Dax:

        — Seu filho?

        — Oui e meu attaché militaire.

        Gato Gordo ficou cheio de orgulho e serviu-se de outro conhaque.

        — É o novo cônsul?

        — Oui, Madame.

        Madame Blanchette devolveu os passaportes. Hesitou um instante e então disse:

        — Se me der licença um instante, vou ver se há quartos vagos. Já é tarde e estamos com a casa cheia.

        — Merci, Madame. Sou muito grato à sua gentileza.

        Madame Blanchette saiu fechando a porta e ficou por um momento no fover. Encolheu então os ombros, entrou no corredor e abriu a porta de uma sala mais ricamente mobiliada do que aquela de que havia saído.

        Via-se ao centro uma mesa de jogo, à qual estavam sentados cinco homens que jogavam cartas. Atrás deles, estavam algumas mulheres belas e jovens, vestidas na última moda. Duas delas estavam conversando num sofá junto à lareira.

        — Banca! — exclamou um dos jogadores.

        — Diabo! — disse outro, jogando as cartas em cima da mesa. Depois, levantou os olhos para Madame Blanchette. — Foi alguém que interesse?

        — Não sei, Barão. Foi o novo cônsul de Corteguay.

        — Que era que ele queria? Informações sobre aquele patife do Ramírez?

        — Não. Queria quartos para dormir.

        O jogador que pegara a banca riu.

        — O coitado viu com certeza a sua tabuleta. Bem lhe disse que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.

        — Você naturalmente mandou-o embora, não foi? — perguntou o barão.

        — Não, — respondeu Madame Blanchette. — Era o que eu pretendia fazer. Mas vi depois o rapazinho...

        — Ah, está com o filho?

        — Oui, Barão. Mas acho que nada posso fazer.

        — Un moment, — disse o Barão de Coyne, levantando-se. — Gostaria de vê-los.

        — Que é que há, Barão? — perguntou o jogador à sua esquerda. — Ramírez já não o explorou bastante nesta mesma mesa? Ficou-lhe devendo mais do que a qualquer de nós — cem mil francos no mínimo.

        — É verdade, — disse o que estava com a banca. — Acha que pode arrancar isso do novo cônsul? Todos nós sabemos que o Corteguay está arruinado.

        O Barão de Coyne olhou para os seus amigos e disse:

        — Vocês são um bando de cínicos. Estou apenas com curiosidade de ver que espécie de homem nos mandaram desta vez.

        — Que importância tem isso? Todos eles são iguais. Só querem é o nosso dinheiro.

        — Quer falar com ele, Excelência? — perguntou Madame Blanchette.

        — Não. Quero apenas vê-los.

        O barão acompanhou-a até à parede ao lado e ela levantou um reposteiro. Havia uma abertura fechada por um vidro.

        — Pode vê-los daqui, — disse ela, — mas eles não nos podem ver. Há um espelho do outro lado.

        A primeira coisa que o barão viu quando olhou foi o garoto que dormia na poltrona, com o rosto abatido e cansado.

        — Deve ter a mesma idade de meu filho, — disse ele com surpresa a Madame Blanchette. — A mãe dele deve ter morrido, pois do contrário não o deixaria vir assim com o pai. Alguém sabe para onde o Ramírez foi?

        Madame Blanchette encolheu os ombros.

        — Ouvi dizer que estava na Riviera Italiana, mas ninguém sabe com certeza. Na semana passada, um caminhão encostou à noite ao portão do consulado e levou tudo o que havia lá.

        O barão fechou a cara. Era por isso que tinham ido procurar um quarto. Conhecia bem Ramírez e sabia que ele não devia ter deixado nem uma acha de lenha. Viu então o homem alto aproximar-se da poltrona e colocar uma almofada debaixo da cabeça do rapaz. Havia no seu rosto muito escuro uma expressão curiosa de gentileza.

        O barão deixou cair o reposteiro e voltou-se para Madame Blanchette. Já vira tudo o que queria. O pobre homem ficaria assoberbado de problemas logo que se soubesse que havia em Paris um novo cônsul do Corteguay. Todos os credores de Ramírez iriam bater-lhe à porta.

        Dê-lhes o meu apartamento no terceiro andar. Acho que Zizi não se importará de eu passar a noite no quarto dela.

 

        Parecia ainda o meio da noite mas já eram dez horas da manhã quando Marcel Campion ouviu baterem na sua porta. Rolou na cama e cobriu a cabeça com o travesseiro. Mas ainda assim ouvia a voz estridente da dona da pensão.

        — Está bem, está bem! — gritou ele, sentando-se na cama. — Volte depois. Prometo que vou pagar o seu dinheiro!

        — O telefone está chamando, monsieur.

        — A mim? — disse Marcel Campion, franzindo as sobrancelhas e tentando descobrir quem poderia estar-lhe telefonando. Levantou-se da cama. — Diga a quem for que espere um pouco que eu já vou descer.

        Foi até ao lavatório, encheu a bacia de água e lavou o rosto. Do espelho, os olhos avermelhados o examinavam tristemente. Procurou lembrar-se vagamente da qualidade do vinho que bebera na noite anterior. Fosse qual fosse, era horrível, mas ao menos tinha sido bem barato.

        Enxugou o rosto com a toalha e, vestindo um robe, desceu. A concierge estava sentada à sua mesa e ele pegou o telefone. Ela fingiu que não estava prestando atenção, mas ele sabia que estava.

        — Alô?

        — Monsieur Campion? — perguntou uma voz de mulher.

        — Oui.

        — Um momento que o Barão de Coyne já vai falar.

        A voz do barão fez-se ouvir antes que Marcel tivesse oportunidade de ficar surpreso.

        — Estou falando com Campion empregado do consulado do Corteguay?

        — Sim, Excelência, — respondeu Marcel, com a voz cheia de respeito. — Mas não trabalho mais lá. O consulado foi fechado.

        — Sei disso. Mas o novo cônsul acaba de chegar. Acho que deve voltar.

        — Mas, Excelência, o ex-cônsul ainda me deve três meses de ordenado!

        O barão não era evidentemente homem que gostasse de ver as suas sugestões discutidas.

        — Volte a trabalhar que eu garanto o seu ordenado!

        Desligou, deixando Marcel com o fone no ouvido. Desligou afinal o aparelho. A concierge se aproximou dele, sorrindo.

        — Monsieur vai voltar a trabalhar?

        Marcel não respondeu. Ela sabia tão bem quanto ele. Ouvira tudo. Subiu a escada, meio tonto. O Barão de Coyne era um dos homens mais ricos da França. Por que se interessava por um país pequeno como o Corteguay? Muita gente não sabia nem onde ficava.

        O telefone tomou a tocar e a concierge atendeu. Estendeu o fone para Marcel.

        Para o senhor.

        Alô?

        — Campion, — disse a voz que ele logo reconheceu como a do barão. — Quero que vá para lá imediatamente!

        Marcel olhou para o relógio quando chegou à Rua Pelier e começou a subir a ladeira. Onze horas. Andara bem depressa, mesmo para atender às ordens do barão.

        O homem do armazém estava varrendo o passeio em frente à loja e cumprimentou-o.

        — Bonjour, Marcel. Que anda fazendo por estas bandas?

        — Bonjour. Vou ao consulado.

        — Vai trabalhar de novo? Quer dizer que aquele merde do Ramírez voltou? Ele ainda me deve mais de sete mil francos!

        — Três mil francos, — retificou Marcel no mesmo instante.

        Nunca se esquecia de coisas assim.

        — Três mil, sete mil, vem dar na mesma! Ramírez desapareceu e eu perdi o meu dinheiro! Mas, espere! Há alguma novidade? Pode-me dizer.

        — Não sei ainda. Acabo de saber que chegou um novo cônsul e vim ver se volto para o meu emprego.

        — Neste caso, — disse o dono do armazém pensativamente, — talvez o meu dinheiro ainda não esteja perdido. Se conseguir que me paguem, darei a você cinquenta por cento. Mil e quinhentos francos.

        — Três mil e quinhentos — respondeu Marcel no mesmo instante.

        O negociante olhou-o um instante e depois deu um largo sorriso, batendo no braço de Marcel.

        — Ah, Marcel, Marcel! Eu sempre disse que quem lhe quisesse passar a perna teria de ficar de olhos bem abertos! Vá lá! Três mil e quinhentos francos!

        Marcel continuou a subir a ladeira. Quando avistou o consulado, atravessou, num impulso, para o outro lado da rua antes de chegar, lá e ter logo de entrar. A primeira coisa que viu foi que haviam arrebentado a fechadura do portão. Com certeza, tinham tido de fazer isso para poder entrar. O proprietário é que não ia gostar.

        Notou em seguida o rapaz no jardim da frente, limpando o mato. Embora o tempo estivesse frio, ele estava apenas com uma camisa de meia e os músculos dos braços se moviam enquanto ele trabalhava com a larga lâmina, muito atento ao que fazia.

        Marcel olhou para o instrumento que o rapaz tinha na mão. Não podia saber o que era. Lembrou-se então de que já vira aquilo numa fotografia que Ramírez lhe mostrara. Era um machete. Marcel estremeceu. Era uma arma predileta dos selvagens.

        Examinou o rapaz. Com aquela cara, não podia ser francês. Com a firmeza que mostrava no manejo do machete, também não. Fosse quem fosse, havia chegado com o novo cônsul. De repente, o rapaz levantou os olhos e deu com ele.

        Os olhos eram pretos e penetrantes. Marcel podia jurar que o machete estava virado para ele e podia atingi-lo a qualquer momento. O rapaz sorriu, mostrando dentes muito brancos, mas o sorriso nada tinha de amistoso.

        Marcel sentiu um tremor percorrer-lhe o corpo. Em seguida, sem compreender por que, deu meia-volta e começou a correr, ladeira abaixo. Sentia os olhos do rapaz sobre ele até que dobrou a primeira esquina.

        Entrou numa brasserie e pediu:

        — Conhaque.

        Bebeu o conhaque de um gole e pediu café. Sentiu o calor da bebida enquanto engolia o café. Se não fosse o fato de que o Barão de Coyne lhe havia falado pessoalmente, nunca pensaria em voltar a trabalhar ali, entre aqueles selvagens.

        Viu da sua mesa o rapaz entrar na mercearia do outro lado da rua. Pagou a conta apressadamente e atravessou à rua. Olhou da porta e viu o rapaz pegar dois pães, um pedaço de queijo e um rolo de salsichas. Marcel hesitou um instante e entrou na mercearia.

        O rapaz não se voltou para olhá-lo. Estava muito atento ao dono do armazém, que embrulhava as compras.

        — Trezentos francos, — disse o homem.

        O rapaz olhou para o dinheiro que tinha na mão. Marcel viu que eram duas notas de cem francos.

        — Neste caso, terei de não levar alguma coisa, — disse o rapaz num francês horrível.

        O dono do armazém já ia tirando as salsichas quando Marcel disse:

        — Não seja explorador. É dessa maneira que quer receber o seu dinheiro do consulado do Corteguay?

        O rapaz pareceu compreender a referência ao consulado, mas o resto fora tão ligeiro que não entendeu nada. Olhou para Marcel e reconheceu-o.

        — Não sei qual é seu interesse nisso, Marcel, — disse o negociante. Mas empurrou o embrulho por cima do balcão e recebeu os duzentos francos.

        — Merci, — disse o rapaz e saiu.

        Marcel seguiu-o ao passeio.

        — É preciso ter sempre muito cuidado com eles, — disse em espanhol. — Roubam até os olhos da cara quando sabem que estão tratando com um estrangeiro.

        Os olhos do rapaz eram insondáveis. Lembravam a Marcel os olhos de um tigre que vira no jardim zoológico. Havia os mesmos clarões ferozes amortecidos.

        — É o novo cônsul do Corteguay?

        — Sou filho dele. Quem é o senhor?

        — Marcel Campion. Trabalhei no consulado como secretário e tradutor.

        A expressão do rapaz não mudou, mas Marcel julgou notar um leve movimento da mão e adivinhar o volume de uma faca por baixo do paletó.

        — Por que estava me olhando?

        — Pensei que o novo cônsul pudesse querer os meus serviços. Mas...

        Não concluiu a frase. O conhecimento da faca escondida estava fazendo-o nervoso.

        — Mas o quê?

        — O cônsul anterior ficou-me devendo três meses de ordenado.

        — Ramírez?

        — Sim, Ramírez. Vivia prometendo que o dinheiro chegaria na outra semana. Um belo dia, vim trabalhar e encontrei o consulado fechado.

        — Acho que é melhor entrar para falar com meu pai.

        Marcel olhou para a mão do rapaz e viu que estava vazia. Deixou soltar-se o fôlego, que estava contendo e murmurou:

        — Será uma honra para mim.

        Subiram juntos a rua.

        Quando chegaram ao consulado, o novo cônsul estava sentado a uma pequena mesa, no centro da grande sala vazia, tendo à sua frente um grupo de homens enfurecidos que gritavam e gesticulavam.

        — Gato Gordo! — gritou o rapaz, correndo por entre eles para junto do pai.

        Um instante depois, Marcel sentiu-se atirado para o lado por um homem enorme e gordo que passou pela porta. Lutou para não perder o equilíbrio e quando conseguiu firmar-se nos pés viu que o gordo e o rapaz enfrentavam os homens de faca em punho.

        Os homens recuaram. Um súbito silêncio caiu sobre a sala. Marcel viu a palidez do medo no rosto dos homens e compreendeu que não devia estar muito diferente deles. Naquele momento, estavam todos em outro mundo. Um mundo de morte e violência. Paris havia desaparecido.

        Percebeu também que aquela não era a primeira vez que o rapaz e o homem enfrentavam o perigo juntos. Tinha havido muitos outros momentos como aquele. Isso se mostrava na comunicação quase tácita que havia entre eles. Reagiam quase com o mesmo espírito.

        Por fim, um dos homens falou.

        — Mas só queremos o nosso dinheiro.

        Marcel não pôde deixar de sorrir. Era um método de afugentar credores que eles ainda não haviam conhecido. E muito eficiente, por sinal. Gostaria de experimentá-lo com os seus credores, particulares.

        O cônsul levantou-se. Marcel ficou admirado. Era muito mais alto do que parecera quando estava sentado. Mas o rosto mostrava abatimento, um abatimento mais moral do que físico.

        — Se esperarem um pouco na outra sala, examinarei todos os casos — disse ele. — Mas um de cada vez.

        Os credores se voltaram e passaram em silêncio por onde Marcel estava. Quando o último saiu, ouviu a voz do rapaz.

        Feche a porta. Marcel.

        Não era voz de garoto. Era a voz de um guerreiro, habituado a ver as suas ordens obedecidas. Marcel fechou em silêncio a porta. Quando tomou a olhar, as facas haviam desaparecido e o rapaz estava atrás da mesa, junto do pai.

        — Está bem, Papai? — perguntou, com uma voz cheia de solicitude e de amor. Marcel teve a impressão de que tudo era quase como se o rapaz fosse o pai e o pai, o filho.

 

        No escritório de paredes revestidas de lambris e com pesado mobiliário de couro, o barão escutava atentamente, sentado à sua grande mesa lavrada. Embora ouvisse em segundo plano o murmúrio familiar do tráfego na Praça Vendôme, Marcel ainda não podia acreditar inteiramente na realidade de tudo o que lhe vinha acontecendo naquela semana desde que voltaram a trabalhar. A voz do barão se fez ouvir.

        — Qual é o total das contas que Ramírez deixou para pagar?

        — Quase dez milhões de francos — respondeu Marcel. — Oitenta milhões de pesos na moeda deles.

        Como era seu costume, o barão converteu automaticamente a importância em dólares e libras. Cento e sessenta mil dólares. Quarenta mil libras esterlinas.

        — E o cônsul pagou tudo isso do seu bolso?

        — Achou que tinha essa obrigação — disse Marcel. — Ramirez fora recomendado por ele e ele sabe que o tesouro do país não pode arcar ainda com essa despesa.

        — Onde conseguiu dinheiro?

        — Com agiotas. Pagou uma comissão de 20%.

        — Foi depois disso que o cônsul resolveu ir a Ventimiglia para ver se Ramírez podia restituir alguma coisa?

        — Foi, mas já era tarde demais. Cinco dias de trabalho naquela casa úmida e sem aquecimento, dormindo em cima de um lençol estendido no chão frio, deram conta do cônsul. O Sr. Xenos amanheceu naquele dia com febre alta. Chamei o médico à tarde e ele disse logo que o cônsul devia ser internado imediatamente num hospital. O Sr. Xenos protestou, mas perdeu os sentidos de repente e nós o levamos para o hospital no carro do médico.

        O barão sacudiu a cabeça.

        — A honra de um homem é ao mesmo tempo o seu bem mais valioso e o seu luxo mais caro.

        — Compreendo perfeitamente o cônsul, — disse prontamente Marcel. — É um dos homens mais honestos e mais idealistas que já conheci. O que me intriga é o garoto. Não tem nada do pai. O pai é sentimental, o filho é racional; o pai é impulsivo, o filho é controlado. Mas parece um jovem animal da selva, na sua maneira de pensar e de agir. Só tem lealdade para com uma pessoa — o pai.

        — E então o rapaz e o tal ajudante foram para Ventimiglia?

        Marcel bateu com a cabeça. Ainda se lembrava de quando haviam voltado para o frio consulado depois do hospital.

        — Penso que vou devolver as passagens que compramos para Ventimiglia para seu pai e para mim e receber o dinheiro, — disse Marcel a Dax, cujo rosto era uma máscara impenetrável.

        Não, — disse Dax, olhando para Gato Gordo. Marcel suspeitou de que tivesse havido alguma comunicação invisível entre eles, pois Gato Gordo bateu com a cabeça concordando antes mesmo que Dax falasse de novo. — Compre mais uma passagem. Iremos os três fazer uma visita ao nosso amigo Ramírez. Creio que já está bem na hora.

        Horas depois, estavam sentados na encosta de uma colina ao sol da Riviera no ocaso, olhando para a vila embaixo. Três homens estavam sentados a uma mesa no pátio, com uma garrafa de vinho entre eles. No ar tranquilo da tarde, ouvia-se leve rumor das suas vozes.

        — Qual é Ramírez?

        — O magro, que está no meio.

        — E os outros dois?

        — Devem ser guarda-costas. Ramírez nunca anda sem eles.

        — Conheço o grandão — disse Gato Gordo. — Chama-se Sánchez e era da guarda pessoal do Presidente. Sempre desconfiei de que aquele cachorro era um traidor!

        Algumas mulheres apareceram no pátio levando comida. Ramírez deu uma palmada numa delas quando passava.

        — Quem são elas? — perguntou Dax.

        Marcel encolheu os ombros.

        — Não sei. Ramírez sempre teve muitas amantes.

        Dax sorriu, mas Marcel não sentiu calor algum naquele sorriso.

        — Ao menos, sabemos que ele não dorme com os guarda-costas. Isso nos facilitará o trabalho. Temos de saber qual o quarto dele antes de irmos lá esta noite.

        — Como poderemos entrar? — perguntou Marcel. — A porta com certeza estará trancada.

        — Não será problema, — disse Gato Gordo, rindo. — Pularemos o muro.

        — Mas isso é ilegal, — murmurou Marcel. — Poderemos todos acabar na prisão.

        — E Ramírez roubou o dinheiro legalmente? — perguntou Dax com voz seca e cheia de desprezo.

        Marcel não respondeu. Gato Gordo encostou-se a uma árvore e riu satisfeito. Estendeu a mão e desmanchou afetuosamente os cabelos de Dax.

        — Até parece que estamos nos velhos tempos lá em nossa terra, hem, jefecito?

        — Deve ser o quarto do canto, o que tem a sacada, — disse o rapaz.

        Nesse momento, as portas altas se abriram e Ramírez chegou à sacada. Ficou ali debruçado no peitoril fumando um cigarro. Parecia estar olhando para o mar que ficava além da casa. Daí a pouco, apareceu uma mulher que ficou ao lado dele. Ele jogou o cigarro fora e ouviu-se o riso da mulher. Em seguida, Ramírez entrou na casa com ela. As portas que davam para a sacada ficaram abertas.

        — É muita hospitalidade do traidor, — murmurou Gato Gordo. — Agora, teremos de procurar o caminho por dentro da casa.

        As luzes do quarto se apagaram e toda a casa ficou às escuras. Gato Gordo começou a movimentar-se, mas Dax o fez parar com um gesto.

        — Vamos dar-lhe mais dez minutos. Estará então tão ocupado que não ouvirá o barulho nem de mil cavalos.

        Dax foi o primeiro a escalar o muro de pedra. Um instante depois, Gato Gordo estava ao lado dele. Ajudaram Marcel a subir e ele conseguiu a muito custo chegar lá em cima. Um momento depois, deixaram-se cair em silêncio no terreno da casa. Dax e Gato Gordo começaram imediatamente a correr sem fazer barulho e Marcel acompanhou-os como pôde.

        Os dois dobraram o canto da casa e, antes que Marcel os alcançasse, já estavam no teto da varanda. Subindo a balaustrada de pedra e, depois, suspendendo-se com a barriga curvada na borda do telhado, Marcel subiu também. Dax já havia passado do telhado da varanda para a sacada.

        Gato Gordo virou-se e, sem o menor ruído, ajudou Marcel a subir. O francês sentia a sua respiração ofegante soar como uma trovoada aos seus ouvidos. Era um milagre que não o ouvissem da casa.

        — Espere aqui até nós lhe fazermos sinal, — disse Dax ao ouvido de Marcel. — Se aparecer alguém, avise-nos.

        Marcel sentiu a onda gelada do medo espalhar-se pela boca do estômago. Dax e Gato Gordo já estavam colados à parede, cada qual de um lado da porta da sacada. Marcel pensou por um momento que estivessem rezando. De repente, compreendeu o que faziam: estavam acostumando os olhos ao escuro que encontrariam no quarto de Ramírez. As mãos dos dois se moveram quase ao mesmo tempo e Marcel viu o brilho das facas. Fechou os olhos. Pensou que fosse vomitar e lutou para conter a náusea.

        Quando abriu os olhos, os dois haviam desaparecido, embora ele não tivesse ouvido o menor barulho. Escutou muito atento, com o coração a bater desordenadamente. Houve um débil gemido dentro do quarto, o estalar de uma cama e um baque como de alguma coisa jogada no chão. Depois, mais nada.

        Marcel sentia o suor brotar-lhe da testa. Teve vontade de fugir, mas o seu terror do que eles podiam fazer se ele fugisse era maior do que o seu medo do que poderia acontecer se ficasse.

        A voz de Dax a chamá-lo do quarto foi um sussurro apenas.

        — Marcel!

        Parou cheio de horror à porta. Ramírez e a mulher, inteiramente nus, estavam estendidos no chão.

        — Estão mortos? — perguntou em voz baixa.

        — Não, — disse desdenhosamente Dax. — O traidor desmaiou. Tivemos de fazer a mulher desmaiar também para não gritar. Arranje-me alguma coisa para amarrá-los.

        — O quê?

        — Procure no armário, — disse Gato Gordo. — A mulher deve ter meias de seda.

        Marcel abriu febrilmente as gavetas. Quase no mesmo instante, encontrou o que procurava. Gato Gordo já estava metendo uma das meias de Ramírez na boca do traidor.

        — É bom ele provar o seu próprio fedor, — murmurou ele, rindo.

        Marcel entregou as meias sem falar. Com rapidez e perícia, Gato Gordo amarrou-os e amordaçou-os. Quando acabou, levantou-se.

        — Isso deverá aquietá-los por algum tempo. E agora, Dax?

        — Vamos esperar que o traidor volte a si. Depois, descobriremos onde está o dinheiro. Não deve estar longe. Quanto foi que meu pai disse que ele roubou, Marcel?

        — Seis milhões de francos nestes últimos dois anos.

        — A maior parte ainda deve estar aqui. Ele não teve tempo de gastar tudo isso.

        Ramírez foi o primeiro a voltar a si. Abriu os olhos e viu Dax curvado, sobre ele, com uma faca no seu pescoço. Os olhos se arregalaram de terror. Teve-se por um momento a impressão de que ia perder de novo os sentidos, mas se recobrou e olhou para Dax.

        — Está-me ouvindo, traidor?

        Ramírez fez um sinal afirmativo com a cabeça e um som abafado veio de trás da mordaça.

        — Então, escute. Estamos aqui para pegar o dinheiro que você roubou. Se nos der o dinheiro, nada acontecerá nem a você, nem à mulher. Do contrário, você morrerá e não vai ser depressa.

        Outro som abafado veio da mordaça.

        Dax levantou a faca para que Ramírez pudesse vê-la bem.

        — Vou tirar-lhe a mordaça. Basta um movimento seu para ser castrado e começar a morrer com o sangue que vai perder.

        Marcel prendeu a respiração enquanto Dax tirava a mordaça. Felizmente Ramírez não era herói.

        — E agora, onde está o dinheiro? — perguntou Dax.

        — Não tenho mais nada! — murmurou Ramírez com voz rouca. — Perdi tudo no jogo!

        Dax riu e moveu prontamente a faca. Um traço de sangue apareceu na barriga de Ramírez. O homem fez uma cara de horror ao ver o seu sangue. Rolou os olhos e a cabeça caiu desamparada.

        — O covarde desmaiou de novo, — disse Gato Gordo a Dax. Poderemos ficar nisso a noite toda.

        Dax foi até ao lavatório e pegou um jarro. Voltou e despejou-o todo em cima de Ramírez. O homem imediatamente acordou, quase sufocado com a água.

        Ao mesmo tempo, a mulher começou a debater-se.

        — Segure-a! — ordenou Dax. — Assim ela vai acordar a casa toda!

        Gato Gordo curvou-se para a mulher e deu-lhe uma bofetada.

        Embora toda amarrada, ela tentou dar-lhe um pontapé. Gato Gordo riu.

        — Ela ao menos tem a coragem que falta a esse traidor!

        Sentou-se pesadamente em cima dos quadris da mulher e fechou a grande mão no pescoço dela, prendendo-a de fato ao chão.

        — Onde está o dinheiro? — tornou a perguntar Dax.

        Ramírez não respondeu. Estava olhando para Gato Gordo e para a mulher. Mas rodou a cabeça quando Dax bateu nela com o cabo da faca.

        — Já lhe disse que não tenho mais nada!

        Gato Gordo olhou para o traidor.

        — Ela parece boa, mas tem os peitos pequenos demais.

        Ramírez ficou calado.

        Gato Gordo olhou para Dax.

        — Estou que não posso mais. Há três dias que estou virgem de mulher.

        — Está bem, — disse Dax, sem tirar os olhos de cima de Ramírez. — Pode ficar com ela. Quando acabar, Marcel pode andar também, se quiser.

        O protesto que subiu à garganta de Marcel não chegou a ser articulado. Viu aquele olhar de fera da selva no rosto de Dax. A mulher começou a debater-se enquanto Gato Gordo lhe abria as pernas com um joelho. Desabotoou as calças.

        — Fique quieta, menina, que você vai ficar até muito contente. Vai ficar sabendo o que é um homem de verdade em comparação com aquele que está ali.

        As palavras saíram precipitadamente da garganta de Ramírez.

        — Ali! No cofre da parede, atrás da cama!

        — Melhorou muito, — disse Dax, rindo. — Como é que se abre o cofre?

        — A chave está no bolso das minhas calças.

        Dax apanhou as calças jogadas em cima de uma cadeira e tirou uma argola de chaves.

        — São estas?

        — São. Atrás do quadro na parede.

        Dax atravessou o quarto. Tirou o quadro e colocou a chave no cofre de metal preto.

        — Não quer abrir! — disse ele, voltando-se iradamente para Ramírez.

        — Essa é a chave do carro. Deve haver outra, — disse Ramírez, tirando os olhos de cima de Gato Gordo.

        Marcel não podia deixar de olhar. Até então, a violência carnal fora uma coisa de que só tivera notícia pelos jornais. Sentiu-se atordoado com uma estranha agitação. Aquilo não se parecia absolutamente com o que conhecia. Era uma coisa fria, selvagem e brutal. Gato Gordo já havia entrado na mulher. Marcel viu o corpo dela estremecer todo com o impacto.

        — Marcel!

        Ele desviou a vista dos dois e dirigiu-se para onde estava Dax. O cofre estava cheio de maços bem arrumados de notas.

        — Meu Deus! — exclamou ele.

        — Não fique aí de boca aberta, Marcel! Pegue uma fronha e me ajude a embrulhar esse dinheiro!

        Marcel não pôde deixar de olhar por cima do ombro enquanto segurava a fronha para Dax. Olhou para Ramírez. O traidor estava com os olhos fixos em Gato Gordo e na mulher. Foi só depois que ele passou a língua pelos lábios que Marcel percebeu o que ele estava pensando. O dinheiro tinha sido esquecido.

        O mundo todo estava alucinado. Nada fazia mais sentido. Dax, depois de um olhar breve para os dois que se agitavam no chão, não lhe deu maior atenção. Era como se o que estivesse acontecendo fosse uma ocorrência perfeitamente comum. Marcel viu-se dominado por uma excitação sexual toda particular. Sentia as pernas fracas e trêmulas, mais do que da primeira vez em que estivera com uma mulher.

        — Bueno! — exclamou Dax, satisfeito. A fronha estava quase cheia. Amarrou o lado aberto com uma meia de seda. Depois, sentou-se na cama e olhou para Gato Gordo.

        — Veja se não vai passar a noite toda aí. Ainda temos de sair daqui.

        Olhou para a outra chave na argola e já a ia jogar de lado quando perguntou de repente a Marcel:

        — Sabe dirigir?

        Marcel fez um sinal afirmativo.

        — Bueno! Não há nada como uma viagem de automóvel com a fresca da noite.

        — Quanto foi que conseguiram recuperar? — perguntou o barão.

        — Quase quatro milhões e meio de francos, — respondeu Marcel, voltando ao presente.

        — Fico satisfeito com isso. Aquele rapaz é ótimo. Já chegaram a uma decisão sobre a escola que ele vai frequentar?

        — Ouvi o cônsul falar numa escola pública. Mas isso foi antes de recobrar-se o dinheiro.

        — O dinheiro infelizmente não vai ajudar muito. Mal dá para cobrir os empréstimos feitos pelo cônsul para pagar as contas. Quero que você sugira a ida do rapaz para De Roqueville.

        Mas é a escola mais cara de Paris!

        — E é também a melhor. Meu filho está lá. Pagarei as despesas e tomarei todas as providências. Para não dar na vista, será oferecida uma bolsa ao rapaz.

        A nota de dez mil francos que levava no bolso tranquilizava muito Marcel à sua saída do escritório do barão. As suas finanças estavam em franca prosperidade. O dono do armazém não tinha sido o único que lhe pagara uma comissão pela cobrança das contas.

        Mas ainda tinha uma dúvida que o atormentava. Sabia tanto por que o Barão de Coyne estava interessado no cônsul e no filho quanto soubera na manhã em que recebera o primeiro telefonema.

 

        A campainha tocou na mesa de seu pai. Dax saiu da janela e pegou o interfone.

        — Oui, Marcel?

        — Seu amigo Robert está aqui.

        — Merci. Peça-lhe que entre.

        Dax desligou o interfone e voltou-se para a porta.

        Robert apareceu e atravessou a sala com a mão estendida.

        — Vim logo que tive a notícia.

        Apertaram-se as mãos à maneira européia, como sempre faziam quando se viam ou se separavam, ainda que estivessem estado juntos naquela manhã treinando pólo no clube.

        — Muito obrigado. Como foi que soube?

        — Pelo gerente do bar no clube. Ele me falou do telefonema que você recebeu.

        Dax mordeu os lábios. Paris não era de certo modo diferente de qualquer cidadezinha do interior. Dentro em pouco, toda a cidade saberia e os repórteres começariam a aparecer.

        — Há alguma coisa que eu possa fazer?

        — Não há nada que ninguém possa fazer. Só nos resta é esperar.

        — Ele estava doente hoje de manhã quando você saiu de casa?

        — Não. Se estivesse, eu não teria ido treinar.

        — É claro.

        — Papai não é muito forte, como sabe. Desde que chegamos à Europa, ele é de vez em quando atacado de resfriados muito fortes. Era um em cima do outro. Parece que perdeu toda a resistência. Marcel o encontrou caído em cima da mesa. Levou-o lá para cima com a ajuda de Gato Gordo e chamou o médico. Este disse que era o coração e foi então que telefonaram para mim.

        — Isto aqui não é clima para seu pai, Dax. Ele devia ter ficado na Riviera.

        — Meu pai nunca deveria ter vindo para cá de modo algum. As preocupações e as tensões foram demais para ele. Além disso, nunca mais voltou a ser o que era depois que perdeu o braço.

        — Por que não voltou então?

        — O seu senso de responsabilidade é muito grande. Ficou porque a sua presença era necessária. Os primeiros créditos que ele conseguiu com o banco de seu pai salvaram o nosso país da bancarrota.

        — Poderia ter voltado depois disso.

        — Você não conhece meu pai, Robert. Isso foi apenas o começo. Bateu em todas as portas na Europa à procura de ajuda para a nossa terra. As recusas e as humilhações transformaram-no num velho. Mas ele continuou a lutar.

        Dax pegou um cigarro e acendeu-o.

        — Os primeiros anos aqui foram terríveis para ele. O cônsul anterior deixou tudo em situação calamitosa e ele regularizou tudo. Pagou todas as contas do seu bolso, embora com isso tivesse ficado pobre. Até hoje, ele não sabe que eu sei que tudo foi vendido para pagar essas contas — a nossa casa em Curatu, as suas economias, tudo o que ele tinha. Só não tocou foi em nossa hacienda em Bandaya, naturalmente porque quer que um dia ela seja minha.

        — Nunca soube disso.

        — É verdade, — disse Dax, com um sorriso amargo. — Se não me tivesse aparecido por um verdadeiro milagre aquela bolsa na De Roque, eu teria estudado numa escola pública. Ainda assim, meu pai teve de privar-se de coisas necessárias para que eu me vestisse decentemente e houvesse gasolina no carro para Gato Gordo trazer- me para casa nos fins-de-semana.

        Robert de Coyne olhou para Dax. Era estranho que ninguém na escola houvesse jamais suspeitado disso. Havia na escola jovens príncipes reduzidos à pobreza, mas todos sabiam quem eram. Estavam ali estudando porque davam prestígio social ao estabelecimento. Mas Dax era sul-americano e todos pensavam que os sul-americanos eram ricos. Possuíam minas de estanho, poços de petróleo e fazendas de gado. Não se via um só que fosse pobre.

        De repente, muitas coisas que haviam acontecido naqueles primeiros anos da escola se esclareceram. Por exemplo, o caso ocorrido no fim da sua primeira semana de aulas. Era uma tarde de quinta-feira entre a última aula e o jantar. Hora de recreio. Nos fundos do ginásio, haviam formado uma roda em torno de um dos novos alunos.

        Os olhos negros do rapaz fitavam impassivelmente os outros.

        — Por que é que eu tenho de lutar com um de vocês?

        Sergei Nikovitch respondeu com uma expressão de paciente enfado:

        — É porque na semana que vem temos de tirar a sorte para ver em que quarto você ficará enquanto estiver na escola. Se não lutar, como é que vamos saber se queremos você ou não?

        — Não tenho também o direito de escolher?

        — Só se você ganhar. Nesse caso, poderá escolher o seu companheiro de quarto.

        O novato pensou um instante e disse:

        — Parece-me idiota, mas estou disposto a lutar.

        — Muito bem, — disse Sergei. — Seremos honestos. Pode escolher com quem quer lutar para que não tenha de enfrentar um maior do que você. Mas não poderá escolher um menor.

        — Escolho você.

        Sergei fez uma cara de espanto.

        — Mas eu sou bem mais alto do que você. Não seria justo.

        — É por isso mesmo que escolho você.

        Sergei encolheu os ombros com uma cara de quem lava as mãos do caso e começou a tirar o casaco. Nesse momento, Robert de Coyne se aproximou do novato.

        — Mude de ideia disse ele, ansiosamente. — Lute comigo, que sou do seu tamanho. Sergei é o maior e o melhor lutador da turma.

        O novato sorriu.

        — Muito obrigado. Mas já escolhi. Tudo isso é idiota demais. Para que piorar as coisas?

        Robert olhou-o, admirado. Sempre pensara assim, mas era a primeira vez que via alguém ter coragem de dizer aquilo em voz alta. Sentiu uma instintiva simpatia pelo novato.

        — Você pode ganhar ou perder, mas eu ficarei feliz se tiver a sorte de escolher você como meu companheiro de quarto.

        O novato olhou-o com repentina timidez e disse:

        — Muito obrigado.

        — Pronto? — perguntou Sergei.

        O rapaz tirou o casaco e fez um sinal afirmativo.

        — Pode escolher ainda disse Sergei. — La boxe, la savate ou o vale-tudo.

        — Vale-tudo disse o outro, apenas porque não sabia o que eram as outras duas modalidades de luta.

        — Bien. A luta estará acabada quando um de nós bater, desistindo.

        Na verdade, a luta acabou antes disso. E acabou também com aquele costume na Escola De Roqueville. Tudo aconteceu tão depressa que terminou enquanto os outros rapazes ainda estavam à espera de que acontecesse alguma coisa.

        Sergei havia estendido os braços na posição convencional dos lutadores e começou a rodar em torno do novato, que estava com os braços caídos dos lados. Então, Sergei tentou agarrá-lo, e os movimentos do outro foram tão rápidos que se tornou quase impossível acompanhá-los com a vista. Com a mão espalmada, Dax deu uma cutilada no braço estendido de Sergei, e, quando esse braço pendeu, desamparado, para o lado, ele atacou de novo. Torceu o corpo, e isso pareceu dar mais força à cutilada da mão com que atingiu as costelas de Sergei. Mal houve tempo de ver a expressão de surpresa no rosto de Sergei quando seu corpo se dobrou, e o outro, dando a volta, foi atingir-lhe a base do crânio com os nós dos dedos da mão fechada. Sergei desabou no chão.

        O novato fitou-o um instante e voltou-se para os outros, que o olhavam, incrédulos. O novato não estava nem respirando com força. Viram-no voltar e apanhar o casaco, que dobrara cuidadosamente. Já se ia afastando, mas se virou para eles.

        — Escolho você como meu companheiro de quarto, — disse ele a Robert. Olhou para Sergei, que ainda estava estendido no chão. — Vão buscar socorro para ele. Está com o braço quebrado e duas costelas também. Mas vai ficar bom. Não o matei.

        O porteiro do Royale Palace era uma figura imponente. Era bem alto, pois tinha quase dois metros, calçado com as botas. O grande chapéu de cossaco fazia-o ainda mais alto, e o uniforme rosa e azul, com as grandes dragonas e os cordões dourados passados pelo peito davam-lhe a aparência de algum general saído de uma opereta de Franz Lehar.

        Ele exercia suas funções à porta do hotel como um general. As estantes para a bagagem estavam dobradas e guardadas num canto escondido, e ai do boy que se esquecesse de colocá-las daquela maneira exata. Sua voz estentórica de sotaque muito carregado podia chamar um táxi que estivesse até a três quarteirões de distância.

        Dizia-se dele que tinha sido outrora coronel de um regimento de cossacos, mas isso nunca fora provado. Só se sabia ao certo que ele tinha sido conde e parente afastado dos Romannoffs, e que num dia de inverno, em 1920, havia aparecido assim daquele jeito à porta do hotel. Desde então, estava ali.

        O conde Ivan Nikovitch não era homem de fazer confidências ou de manter quaisquer conversas de natureza pessoal. A cicatriz de sabre no rosto, mal oculta pela barba preta espessa e sempre muito bem-tratada, era suficiente para desanimar quem o tentasse.

        Naquele momento, estava sentado numa cadeira muito pequena para ele e olhava o filho meio reclinado na cama. Não havia nele nem cólera, nem compaixão pelo filho, mas apenas aborrecimento.

        — Você foi um idiota, — disse ele. — Nunca se luta com um adversário que não conhece as regras. Pode-se morrer assim. As regras são feitas para a nossa proteção e para a proteção do inimigo. Foi por isso que perdemos para os bolchevistas. Eles também não conheciam as regras.

        Sergei ficou embaraçado. Aquilo era pior que a dor que sentia. A facilidade e a rapidez com que fora derrotado, e por um garoto bem menor do que ele.

        — Eu não sabia que ele não conhecia as regras.

        — Mais uma razão para você explicar as regras a ele, — replicou o pai. — Isso o atrapalharia tanto que você poderia vencê-lo com a maior facilidade.

        Sergei pensou um momento e sacudiu a cabeça.

        — Acho que não, papai. — É bem provável que ele tivesse desrespeitado as regras.

        Ouviu-se um rumor de vozes pela janela aberta. O conde Nikovitch levantou-se e foi olhar.

        — Gostaria de ver esse rapaz disse ele, cheio de curiosidade. — Estará entre esses ai?

        Sergei virou a cabeça e olhou pela janela.

        — É aquele bem moreno, que está ali sozinho.

        O conde viu Dax atravessar o campo para outro prédio da escola, sem ao menos olhar com curiosidade para os outros garotos. Quando ele desapareceu, o Conde Nikovitch voltou-se para o filho.

        — Acho que tem razão. Aquele não respeita as regras e observa regras próprias. — É um rapaz que não tem medo de andar sozinho.

        No ano seguinte, Dax e Robert se mudaram para o andar imediatamente inferior, e passaram assim de ano em ano, de um andar para outro, do último ao primeiro, até completarem seu tempo de estudos na De Roqueville. Eram já "antigos" em comparação com os garotos mais novos, que se alojavam em outro prédio. Era por isso que tinham a companhia de Sergei. Os mais antigos viviam num quarto para três.

        Era um principio da escola, baseado na crença de que três é um número mais produtivo do que dois ou quatro. Quatro num quarto significava em geral a formação de dois grupos de dois, e dois só num quarto não era um arranjo economicamente interessante. Dax e Robert tinham começado a arrumar as suas coisas, quando bateram na porta. Robert foi abrir, e Sergei apareceu, de maleta na mão.

        Era difícil dizer quem ficou mais surpreso. Sergei conferiu o papel com o número do quarto que lhe deram na secretaria e olhou para o número da porta.

        — Não há dúvida. É este mesmo o quarto.

        Colocou a maleta no centro do quarto.

        — Não fui eu que pedi isso, fiquem sabendo, — explicou ele aos outros dois, que o olhavam em silêncio. — Meu companheiro de quarto saiu da escola, e o préfet me designou para este quarto.

        Os outros continuaram em silêncio. Desde a luta, Sergei e Dax tinham evitado ao máximo falar-se.

        De repente, Sergei sorriu, com quente vitalidade.

        — É uma felicidade para mim não ter de lutar por este quarto. Não sei se o meu esqueleto aguentaria.

        Robert e Dax se entreolharam, e o esboço de um sorriso apareceu nos lábios deles.

        — Como está você em literatura? — perguntou Robert.

        — Bem mal.

        — E em matemática, física e química?

        Uma expressão de tristeza se estampou no rosto de Sergei à medida que ele sacudia a cabeça a cada pergunta.

        — Em que é que você é bom então? — perguntou Robert. — São essas matérias em que mais precisamos de quem nos ajude.

        — Não sei, — confessou Sergei. — Também sou fraco nelas.

        — História, geografia, francês? — perguntou Dax.

        — Não sou bom em nada disso.

        Dax olhou para Robert, com um sorriso secreto nos lábios.

        — Precisamos de um companheiro de quarto que nos ajude. Você parece não servir muito para isso.

        — De fato murmurou Sergei tristemente.

        — Não há nada que você possa nos ensinar?

        Sergei pensou um instante e então riu.

        — Sei dezessete maneiras de me masturbar!

        Os outros dois levantaram os braços e fizeram uma reverência: — Seja bem-vindo ao clube!

 

        A limusine Citroën preta parou perto do campo de pólo e Jaime Xenos saltou. Olhou para a confusão de cavalos e cavaleiros no campo e apertou os olhos.

        — Onde está Dax?

        — É um dos que estão com chapéu vermelho e branco, — disse Gato Gordo. — Olhe, ali está ele.

        Um cavalo se separou dos outros e veio correndo pelo lado do campo. O esbelto rapaz que brandia o maço foi levando a bola pelo chão em pequenos golpes cuidadosos, não a deixando fugir ao seu controle.

        Um adversário veio do outro lado do campo, e Dax virou prontamente o seu animal e atirou a bola através do campo num passe para um companheiro. Este, por sua vez, passou a bola, adiantando-a, e Dax, que já se havia colocado para recebê-la, impulsionou-a entre os postes do gol sem que nenhum dos adversários se tivesse aproximado dele. Virou o cavalo e foi juntar-se à sua equipe no centro do campo.

        — Sr. Xenos?

        O cônsul voltou-se. A voz era de um homem mirrado, que cheirava a cocheira.

        — Oui?

        — Sou o treinador de pólo, Ferdinand Arnouil. É um prazer conhecê-lo.

        — O prazer é meu.

        — Fico muito contente de que tenha vindo, Excelência. Já observou seu filho?

        — Um momento apenas. Devo confessar que não conheço o jogo.

        — É compreensível. Nestes últimos anos, o pólo tem perdido muito da sua popularidade. E creio que o sucesso do automóvel foi o que mais contribuiu para esse declínio.

        Xenos fez um gesto polido de assentimento.

        — Os moços não querem mais aprender a montar. Têm mais interesse em aprender a dirigir. É por isso que, quando aparece um jovem como seu filho, é da maior importância desenvolver suas qualidades.

        — Ele é bom, então?

        — Bom? Dá a impressão de que voltamos aos velhos tempos exclamou Arnouil. — Seu filho nasceu para este esporte. Parece que já nasceu com os pés nos estribos.

        — Sua opinião me dá muita satisfação, — murmurou o pai de Dax, olhando para o campo. O jogo havia recomeçado, e Dax ia à frente de todos, guiando o cavalo com os joelhos e procurando reter a bola.

        — Já está vendo que não pode ficar com ela, — disse o treinador. — Veja como vai passá-la para o companheiro de equipe do outro lado.

        Dax se curvou na sela e bateu na bola por entre as patas do seu cavalo. O companheiro prontamente recolheu-a e avançou, ao mesmo tempo que Dax conseguia desviar para o seu lado parte da equipe adversária.

        — Magnifico! — exclamou o treinador. — Quer saber por que lhe pedi que viesse até aqui?

        — Sim?

        — No ano que vem, seu filho terá dezesseis anos e poderá disputar o campeonato escolar.

        — Bien.

        — Mas para poder inscrever-se, terá de possuir cavalos próprios. É uma exigência irredutível.

        — E se não possuir?

        Arnouil encolheu os ombros de maneira tipicamente francesa.

        — Não poderá jogar, por melhor que seja.

        — De quantos cavalos vai precisar?

        — Dois cavalos pelo menos, embora três ou quatro sejam preferíveis. Um cavalo descansado para cada chukker.

        — Quanto custa um cavalo? — perguntou Xenos, sem olhar para o treinador.

        — De trinta a quarenta mil francos.

        — Compreendo.

        O treinador olhou-o atentamente.

        — Poderá ter dificuldade em encontrar cavalos que prestem. Mas conheço uma pessoa que tem alguns animais de sobra e quer desfazer-se deles.

        Xenos sabia o que ele queria e forçou um sorriso.

        — Se acha que vale a pena, meu filho terá cavalos seus.

        — Fico satisfeito de que pense dessa maneira, Excelência. Garanto que não se arrependerá. Seu filho será um dos grandes jogadores desta época.

        Despediram-se, e o cônsul ficou olhando o homenzinho de pernas arqueadas afastar-se. Sabia o que Gato Gordo estava pensando. Voltou cansadamente para o carro e esperou até que Gato Gordo sentar-se ao volante.

        — Que é que acha?

        — Isso é apenas um jogo, — disse Gato Gordo.

        — É mais do que isso. E um jogo reservado para quem têm dinheiro para gastar nele.

        — Isso nos deixa de fora.

        — Não podemos ficar de fora.

        — E não podemos entrar, — replicou Gato Gordo. — Há coisas muito mais necessárias.

        — Dax podia tornar-se de certo modo um símbolo do nosso pais. Os franceses podem ajudar-nos.

        — Mande pedir então ao presidente os cento e sessenta mil francos para os cavalos.

        O cônsul sorriu.

        — Gato Gordo, você é um gênio!

        Gato Gordo ficou sem saber o que dizer. Olhou o cônsul pelo espelhinho do carro.

        — Não vou pedir o dinheiro, mas os cavalos, — disse Xenos. — Aqueles cavalinhos nossos, fortes e ágeis como cabritos monteses, devem ser perfeitos para esse jogo. Tenho certeza de que o presidente terá prazer em mandar-nos alguns.

        O treinador encontrou Dax quando ele saia do vestiário depois do jogo.

        — Acabei de falar com seu pai. Ele me garantiu que você terá os seus cavalos no ano que vem.

        — Foi mesmo?

        O treinador fez um sinal afirmativo:

        — Ele ainda está aqui?

        — Lá no fundo, perto do portão.

        Mas Dax já vira o carro e saiu correndo para lá. O pai saiu do carro e abraçou-o.

        — Por que não me disse que vinha, Papá?

        O pai sorriu. Dax estava crescendo. Já lhe batia no ombro. Mais um ano e poderia olhar de cima para ele.

        — Porque não sabia que poderia vir.

        — Fico muito contente de vê-lo aqui.

        Era a primeira vez que o pai aparecia na escola.

        — Há um lugar onde possamos tomar chá?

        — Na aldeia há uma pâtisserie.

        Entraram no carro.

        — O treinador me disse que o senhor lhe garantiu que terei meus cavalos no ano que vem.

        — Disse, sim.

        — E onde é que vamos conseguir o dinheiro? Não podemos fazer isso, Papá.

        O cônsul sorriu.

        — O presidente nos mandará quatro bons cavalos das montanhas.

        Dax olhou-o em silêncio.

        — Por quê? Há algum mal nisso?

        O rosto do pai ficara tão preocupado que Dax não teve coragem de dizer-lhe que bons cavalos de pólo precisavam de anos de treinamento. Apertou a mão do pai, sorriu e disse:

        — Mal nenhum. É magnifico!

 

        — Não seja bobo, disse Sergei. — Vá passar o verão conosco em Cannes. O pai de Robert tem lá uma vila e um barco.

        — Não. Tenho de trabalhar com os cavalos para que estejam em forma no outono.

        — Está perdendo o seu tempo, — disse Sergei positivamente. — Você nunca transformará aqueles pangarés das montanhas em cavalos de pólo.

        — O treinador acha que tenho uma chance.

        — Não sei por que seu pai não compra cavalos já treinados. Todo mundo sabe que vocês, sul-americanos, nadam em dinheiro.

        Dax sorriu. Sergei nem desconfiava da verdade.

        — Seria bom para o meu pais se os cavalos prestassem. Meu pai diz que isso poderia convencer os europeus de que podemos fazer outras coisas além de plantar café e bananas.

        — Bem, — disse Sergei, levantando-se. — Vou até a aldeia. Há uma garçonete nova na pâtisserie. Quer vir também?

        Dax sacudiu a cabeça. Havia outras coisas que ele poderia fazer com cinco francos.

        — Não. Tenho de estudar um pouco para os exames.

        Sentou-se à sua mesa depois que Sergei saiu. Havia três anos que estava na França. Sentiu-se inquieto, levantou-se e foi até a janela. Olhou para os gramados e os jardins bem-tratados.

        Uma onda de saudade encheu-lhe o peito. Desejou estar nas suas montanhas selvagens e incultas. Tudo na Europa era limpo e bem-arrumado. Não havia emoção em descobrir um novo caminho, uma maneira nova de descer as montanhas. Havia sempre as mesmas estradas.

        Toda a civilização parecia ser assim. Até seu pai, que era naturalmente disposto a observar as regras e as respeitava, nunca pensara que tudo pudesse ser tão fechado e estreito. A cada nova recusa, a cada decepção, ele parecia encolher-se mais para dentro de si mesmo. A traição de Ramirez tinha sido apenas o começo.

        Tinha havido outros incidentes, muito mais sutis e aniquilantes. As promessas feitas ao Corteguay de apoiá-lo na sua luta para libertar-se do domínio econômico dos ingleses e dos americanos não se haviam concretizado. Cada dia surgiam rugas novas no rosto de seu pai. Havia uma incerteza, uma hesitação que marcava sem dúvida o inicio da velhice. Aqueles três anos de insucesso haviam exigido dele um pesado tributo.

        Dax sentia tudo isso, e havia momentos em que queria dizer ao pai que aquela vida não era para eles e que deviam voltar imediatamente para os seus campos e as suas montanhas, para um mundo que compreendiam. Mas esses impulsos ficavam sufocados dentro dele. Sabia que o pai não escutaria, nem poderia escutar.

        Ainda era dominado pela determinação de cumprir a sua missão e a esperança de consegui-lo.

        Nisso bateram à porta do quarto.

        — Entre.

        A porta se abriu, e o barão de Coyne entrou. Era a primeira vez que se encontravam.

        — Sou o pai de Robert. Deve ser Dax.

        — Sim, senhor.

        — Onde está Robert?

        — Não deve demorar, senhor.

        — Posso sentar-me?

        Sem esperar uma resposta, o barão deixou-se cair numa cadeira. Correu os olhos em torno do quarto e disse:

        — As coisas não mudaram muito desde o tempo em que passei por aqui.

        — Acho que não.

        O barão olhou-o de súbito.

        — Já pensou que as coisas raramente mudam, por mais que a gente queira?

        — Não sei, Sr. Barão. — Dax não tinha muita certeza do que o barão estava querendo dizer. — Depende da coisa que queremos que mude.

        — Escute. Robert me disse que você talvez não possa passar o verão conosco.

        — Infelizmente, não. Mas sou-lhe muito grato por ter sido convidado.

        — Por que não vai?

        — Estou treinando alguns cavalos do Corteguay para jogarem pólo, — disse Dax, sentindo quanto a desculpa era esfarrapada.

        — Uma coisa muito louvável. Tenho muito interesse pelos resultados que conseguir. Se tiver êxito, isso poderá ser de muito valor para o seu pais. Mostrará à França que o Corteguay pode fazer outras coisas além de plantar café e bananas.

        Dax olhou para ele. Eram quase as mesmas palavras que seu pai havia dito. Sentiu-se mais animado. Se um homem como o pai de Robert pensava assim, as coisas talvez não fossem tão ruins quanto pareciam. Talvez ainda houvesse esperança para a missão de seu pai.

 

        Sylvie começou a tirar os pratos, e Dax levantou-se da mesa. Um momento depois, saiu. Arnouil e Gato Gordo se recostaram nas cadeiras. Gato Gordo preparou um cigarro.

        Arnouil ficou em silêncio algum tempo e depois colocou uma ponta de charuto na boca. Esperou que Gato Gordo acabasse de enrolar o cigarro e o acendesse.

        — O rapaz vive muito sozinho. Nunca ri.

        Gato Gordo soprou uma baforada de fumaça e não respondeu.

        — Ele não devia ter ficado aqui trabalhando durante o verão, — disse o treinador. — Devia ter ido com os amigos.

        — Os cavalos não estão dando certo?

        — Mais do que isso. Parecem feitos para o jogo de pólo. Será uma verdadeira revolução. Mas o pai dele não pode deixar de ver que um rapaz precisa divertir-se.

        Gato Gordo tirou o cigarro da boca e pensou que para um fumo francês até que aquele não era muito ruim. Só um pouquinho adocicado, talvez.

        — Dax não é como os outros rapazes, — disse ele ao treinador. — Algum dia, ele será uma pessoa importante em nossa terra. Talvez chegue até a ser presidente.

        — Bem, Napoleão também foi garoto. Mas não creio que ele tivesse deixado o seu destino privá-lo da sua mocidade.

        — Napoleão foi soldado porque quis. Ninguém o forçou a ser um guerreiro desde os seis anos de idade.

        — Foi o que aconteceu com Dax?

        — Sim. Dax não tinha ainda sete anos quando o próprio Presidente segurou a metralhadora enquanto Dax puxava o gatilho para fuzilar os assassinos da mãe e da irmã.

        O treinador ficou um momento em silêncio e disse:

        — Não admira então que ele não seja capaz de sorrir.

        A noite estava calma e o ar fresco com as primeiras brisas do oeste quando Dax chegou à cocheira. Os cavalos relincharam ao vê-lo chegar, e ele tirou o açúcar que sempre levava no bolso e deu um pedaço a cada um. Depois, afagou-os gentilmente. Os animais tornaram a relinchar.

        — Vocês devem estar saudosos como eu, murmurou — Dax. Sabia que eles não gostavam da cocheira. Preferiam a liberdade do pasto.

        — Dax? — Era Sylvie que falava da porta.

        — Estou aqui com os cavalos.

        — Que é que está fazendo? — perguntou ela, encaminhando-se para ele.

        — Achei que devia fazer-lhes um pouco de companhia. Devem estar com saudade da nossa terra e sentir-se muito sozinhos.

        — Você também sente saudades, Dax?

        Era a primeira vez que lhe faziam essa pergunta.

        — Às vezes.

        — Deixou alguém por lá?

        Dax pensou um momento em Amparo, a quem há três anos não via. Como estaria ela? Mas ele sacudiu a cabeça.

        — A bem dizer, não. Eu tinha nove anos quando uma garotinha disse que ia casar-se comigo. Mas já deve estar crescida e nem se lembra mais disso.

        — Tenho um namorado, — disse ela. — Está na marinha. Já há seis meses que não o vejo, e ele só deverá aparecer daqui a mais seis meses.

        Era a primeira vez que Dax pensava em Sylvie como uma moça. Até então, ela fora para ele apenas uma pessoa que andava pelas cocheiras, montava nos cavalos e participava das brincadeiras sem qualquer reserva. Tirando os cabelos compridos, não parecia haver nela nada de feminino, nem mesmo saliências arredondadas visíveis sob a camisa de homem com mangas arregaçadas que ela usava com calças de brim justas. De repente, ele percebeu a suavidade feminina de Sylvie.

        — Desculpe, — disse ele, sem saber ao certo por que lhe pedia desculpas. Mas achava que naquele momento ela parecia tão sozinha quanto os cavalos ou quanto ele mesmo.

        Os cavalos relincharam de novo. Dax tirou alguns torrões de açúcar e entregou-os a ela.

        — Querem comer açúcar da sua mão, Sylvie.

        Ela se aproximou das baias e os cavalos chegaram o focinho, ansiosos pelo açúcar. Ela riu quando um deles a empurrou e ela perdeu o equilíbrio, tropeçando para trás e indo bater em Dax. Este fechou involuntariamente os braços em torno do corpo dela.

        Ela voltou o rosto para ele, e os dois ficaram a se olhar por um momento. Depois, Dax a largou, sentindo uma contrição quase dolorosa na boca do estômago.

        — Acho que eles já comeram demais.

        — Já — disse ela.

        Parecia estar esperando.

        Dax sentiu o aperto no corpo, o latejar nas têmporas. Virou-se e começou a sair, passando por entre as baias.

        — Dax!

        Ele se voltou e olhou-a.

        — Também me sinto sozinha.

        Ele não se moveu. Ela foi até onde Dax estava e pousou a mão nele. Com um gemido quase frenético, ele a abraçou, e todas as tensões da mocidade e da solidão explodiram dentro dele.

        Mais tarde, estava deitado em silêncio no seu quarto ouvindo a respiração de Gato Gordo na outra cama. A tensão dentro dele tinha sido aplacada. De repente, ouviu no escuro a voz de Gato Gordo.

        — Andou com ela?

        Ele ficou tão surpreso que nem tentou negar.

        — Como é que sabe?

        — Nós dois só faltamos ver.

        — Nós dois? Você e o pai dela?

        — Claro — disse Gato Gordo, rindo. — Você pensa que ele é cego?

        — Ficou zangado?

        — Não tinha motivo nenhum para isso. O noivo dela está ausente há quase um ano. E nesta época do ano toda a potranca precisa ser bem servida. Além disso, ela tem idade bastante...

        — Como assim? Ela deve ser da minha idade.

        — Tem vinte e dois anos. Foi o pai mesmo que me disse.

        Vinte e dois anos, pensou Dax. Quase sete anos mais velha. Não era de admirar que houvesse tomado a iniciativa. Devia tê-lo julgado um idiota por haver esperado tanto. Sentiu-se de novo excitado ao lembrar-se do que havia acontecido entre eles. De repente, levantou-se da cama.

        — Aonde é que vai?

        Dax chegou à porta e riu. Aquilo era uma nova evasão, uma nova espécie de liberdade. Deveria ter descoberto isso há mais tempo.

        — Não foi você mesmo que me disse que uma vez só não chegava?

 

        Robert entrou na sala a tempo de ouvir o pai dizer:

        — Para que é que você quer uma piscina? Não tem o Mediterrâneo todo à sua disposição?

        Sua irmã Caroline fez uma cara de amuo. E quando o belo rostinho dela ficava assim, não havia quem lhe resistisse, inclusive o barão.

        — Mas é tão gauche, — disse ela, com o lábio inferior tremendo. — Todo mundo vai à praia.

        — Que diferença faz?

        — Papá! — exclamou Caroline, quase em prantos.

        O barão olhou para ela e, depois para o filho. Robert sorriu. Tinha experiência demais para tomar partido. A irmãzinha tinha uma maneira de agir toda pessoal.

        — Está bem, está bem, — disse por fim o pai. — Você terá a sua piscina.

        O rosto de Caroline floriu num sorriso. Ela beijou o pai e saiu correndo alegremente da sala, quase jogando ao chão o mordomo que ia entrando.

        — Monsieur Christopoulos deseja vê-lo, senhor.

        — Desculpe-me, papai. Não sabia que estava ocupado.

        O barão sorriu.

        — Não, Robert. Não saia, que isso não demora.

        Robert sentou-se numa cadeira da biblioteca do outro lado da mesa do pai. Viu o visitante entrar e sentar-se. O nome do homem não lhe parecia de todo desconhecido, mas não se interessou muito por ele. Apanhou uma revista e começou a folheá-la distraidamente, quando alguma coisa que o pai disse lhe chamou a atenção.

        — Já pensou no Corteguay?

        Robert levantou a cabeça.

        — Registrar os seus navios ali seria mais valioso do que registrá-los no Panamá.

        — Não compreendo como, — replicou o visitante com um forte sotaque grego.

        Robert consultou a memória, e o nome lhe surgiu perfeitamente identificado. Christopoulos. Era o jogador que, em Zographos e André, dirigia o sindicato que controlava o vatout em todos os cassinos de Monte Carlo e Biarritz. Que teria um jogador a ver com navios?

        — Em caso de guerra, — disse o pai dele, — o Panamá teria de declarar-se ao lado dos Estados Unidos. O Corteguay não tem laços dessa espécie. Nem com a Inglaterra, nem com os Estados Unidos, nem com ninguém. É o único pais sul-americano que pode manter a sua neutralidade, porque não corre o perigo de perder a ajuda externa ou o apoio financeiro, porque são coisas que já lhe foram negadas.

        — Mas em caso de guerra, os Estados Unidos procurariam naturalmente aproximar-se do Corteguay. Como se pode ter certeza de que lá resistiriam a isso?

        O barão sorriu.

        — Uma frota mercante claramente neutra com base nas Américas, com o direito de transitar em todos os mares livres de ataques de qualquer dos lados, valeria a sua tonelagem em ouro. Deve-se tratar desde já de assegurar essa neutralidade.

        — Isso poderia custar muito caro, — disse o grego pensativamente, olhando as unhas manicuradas. — Não é fácil sustentar um pais.

        — É verdade. Mas é isso exatamente o que deve ser feito, — disse o barão, levantando-se e dando a entender que a conversa havia terminado. — Minha participação no projeto depende disso.

        Christopoulos levantou-se também.

        — Darei essa informação aos meus companheiros. Muito lhe agradeço ter-me dado esses momentos do seu precioso tempo.

        — Não tem o que agradecer, — disse o barão, sorrindo. — Foi um prazer sentar-me a uma mesa em sua companhia sem um baralho entre nós.

        — Sempre tive a impressão de que sem as cartas sou uma criança inocente em suas mãos.

        O barão riu. Christopoulos, considerado o maior tailleur do mundo, não era muito dado a elogios.

        — Pois hoje à noite estarei no cassino para dar-lhe uma oportunidade de recuperar a confiança.

        — A bientôt. — Christopoulos apertou a mão do barão e saiu.

        Quando a porta se fechou, o barão olhou para o filho, e Robert se levantou.

        — Acha mesmo que vai haver guerra, Papai?

        — Infelizmente, acho, mas não já. Daqui a cinco ou seis anos, talvez. Mas é infalível. A Alemanha está ansiosa por uma revanche, e Hitler só se manterá no poder se der essa oportunidade ao povo.

        — Mas deve haver um meio de impedi-la. Se o senhor pode ver isso com tanta antecedência...

        — Mas nem todo mundo concorda comigo. Por que acha que o matriculei em Harvard e sua irmã em Vassar?

        Robert não respondeu.

        — Como está o seu amigo que joga pólo?

        — Dax?

        — Sim. De acordo com os jornais, a maneira de jogar dele foi a sensação esportiva do ano na Europa.

        — Dax está muito bem. Sabia que ele foi convidado para integrar a equipe nacional da França nos encontros internacionais?

        — Mas como reserva. É ainda um pouco moço.

        — Tem dezessete anos. Estão usando a idade dele como pretexto. Têm é medo dele.

        — Talvez, Robert. Não foi sem razão que lhe deram o apelido de Le Sauvage. Costa ainda está no hospital, pois seu amigo o fez cair deliberadamente do cavalo para impedi-lo de fazer um gol.

        — Dax joga para vencer. Diz ele que não há outra razão para o jogo.

        — Sempre ouvi dizer que havia uma coisa chamada espirito esportivo.

        — Para Dax, não. O campo de pólo é para ele como a selva de sua terra natal. Diz ele que perder ali é morrer. Sabia que o pai dele é o cônsul do Corteguay?

        — Ouvi dizer. Que tal é ele?

        — É muito diferente de Dax. Delicado e muito mais moreno. Só tem um braço. Dax diz que ele o perdeu na explosão de uma bomba durante um atentado contra o presidente.

        — Algum dia teremos de convidar os dois, — disse o barão displicentemente. — Gostaria de conhecer mais a terra deles.

        A própria Madame Blanchette abriu a porta.

        — Monsieur Christopoulos está à sua espera.

        Marcel entrou. Aquilo confirmava as suas suspeitas de que o sindicato não se limitava a controlar casas de jogo na França. Acompanhou-a até um pequeno salão. O grego levantou-se.

        — Obrigado por ter vindo, Monsieur Campion. Tenha a bondade de sentar-se.

        — Não estendeu a mão, nem Marcel deu qualquer demonstração de haver notado isso. Sabia o seu lugar. Sentou-se numa poltrona e ficou esperando, curioso por saber por que o jogador mandara chamá-lo. Não teve de esperar muito.

        — Soubemos que o jogo na Flórida vai ser proibido. Temos interesses também em Cuba e no Panamá, mas estamos pensando no Corteguay. Desde que as condições sejam interessantes, é claro.

        Marcel fez um sinal de assentimento, mas nada disse. Na aparência, era coisa legitima, mas na realidade não tinha muito sentido. O Corteguay estava muito longe dos Estados Unidos para atrair os turistas. Cuba, a apenas cento e quarenta quilômetros da costa da Flórida, era realmente o que lhes interessava. Mas, se era nisso que Christopoulos queria que ele acreditasse, não custava nada fazer-lhe a vontade.

        Como que sentindo a franqueza do que dizia, o outro continuou:

        — Nós sabemos sem dúvida que o Corteguay e os Estados Unidos não mantêm no momento relações muito amistosas. Mas estamos pensando no futuro. O tempo costuma alterar as circunstâncias. Daqui a dez anos, tudo poderá ser diferente.

        — De fato, — murmurou Marcel.

        — Temos de olhar muito para a frente no nosso ramo de negócio. Julga que talvez o governo do Corteguay possa ter receptividade?

        — É difícil, — murmurou Marcel.

        — O país é pobre. Não acha que aproveitariam as oportunidades de renda que nós poderíamos proporcionar?

        — Bem, — disse Marcel com um sorriso, —, a questão toda se resume no seguinte: o Corteguay precisa de assistência agora e não de promessas para o futuro.

        — Talvez certas pessoas de posição pudessem exercer influência — sugeriu o jogador. — Conversei sobre o assunto certa vez com o ex-cônsul Ramirez. Ele me pareceu muito interessado.

        Marcel sabia muito bem que Ramirez aceitara cem mil francos do sindicato exatamente a esse titulo. Convenceu-se então de que era naquilo mesmo que Christopoulos estava interessado. Não havia outro motivo para aquele encontro.

        — O Sr. Xenos é uma pessoa muito diferente do cônsul anterior.

        — Mas deveria receber bem alguma assistência financeira. Consta que ainda está pagando dividas bem avultadas.

        — É verdade, — disse Marcel. — Mas o Sr. Xenos é um homem excepcional, pois é honesto e idealista. A simples ideia de tirar algum proveito pessoal do fato de representar seu país é para ele uma coisa repugnante. Além disso, seria francamente contrário a qualquer projeto que pudesse tirar um centavo que fosse da receita dos seus pobres concidadãos.

        — Poderíamos proibir a entrada de naturais do país, como temos feito em alguns lugares.

        — Nesse caso, os benefícios do seu projeto seriam extremamente duvidosos. O cônsul deve saber muito bem que não haverá outra fonte de dinheiro para as mesas de jogo.

        O jogador ficou um momento em silêncio e então perguntou:

        — Que espécie de proposta acha que poderia interessar ao cônsul?

        As respostas vieram prontamente:

        — Indústria, comércio, investimentos, qualquer coisa que ajude o Corteguay a exportar os seus produtos. A economia do país é baseada na agricultura.

        — Acha que uma linha de navegação seria interessante para eles?

        — Sem dúvida. Creio que o transporte barato para os seus produtos de exportação teria para o país extraordinário interesse.

        — Tenho um sobrinho em Macau, — prosseguiu o jogador. — Administra os cassinos ali. Mas tem também uma empresa de navegação, quatro cargueiros de origem japonesa. Não trabalham tanto quanto seria de desejar, e sei que ele anda à procura de novos mercados. Talvez eu possa fazê-lo interessar-se pela ideia.

        — É possível que esteja ai uma solução. Quase com certeza, com isso poriam o pé na porta. O cônsul poderia estudar então a outra proposta, uma vez que isso fosse conseguido.

        — Compreende naturalmente, Monsieur Campion, que, se esta nossa conversa der algum resultado, sua colaboração não será esquecida?

        — Muito obrigado. É extrema generosidade da sua parte.

        — Diz que Christopoulos está querendo estabelecer uma linha de navegação em troca de privilégios de jogo? — perguntou o barão.

        — Marcel fez um sinal afirmativo.

        — E já tocou nessa ideia ao cônsul?

        — Não, Excelência. Achei que primeiro devia vir dizer-lhe.

        — Bien, fez exatamente o que devia. Acho que já está na hora de eu conhecer o cônsul.

        — Oui, monsieur. Quer que fale com ele para marcar uma hora?

        — Não. Ele já tem hora marcada com um dos meus bancos. Creio que é melhor que nos conheçamos nessas circunstâncias.

        — Como quiser, Excelência.

 

        — Caroline é uma cadela! — disse Sylvie, rolando na cama o esbelto corpo de garota, tremendo de raiva. Tirou um cigarro do maço na mesinha de cabeceira e acendeu-o.

        — Parece que está com ciúmes, — disse Dax, levantando a cabeça do travesseiro.

        — Não estou com ciúmes coisa nenhuma. Apenas não gosto daquela cadela, só isso.

        — Por quê?

        — Porque ela pensa que com o dinheiro do pai pode comprar tudo. Vi bem como ela olhou para você, depois do jogo na semana passada. Parecia um gato diante de um pote de creme.

        — Você está com ciúmes, — disse Dax. — Por quê? Eu não tenho ciúmes de Henri.

        — Ele não está presente bastante para você ter ciúmes dele.

        — Nem mesmo quando ele está. Lembre-se de que eu estava no quarto ao lado e ouvi tudo o que aconteceu e, apesar disso, não tive ciúmes!

        — Não e você é um monstro! — Ela se lembrava bem daquela noite. Fizera de propósito todo o barulho que era possível sem acordar a casa toda. E Dax não tinha dado o menor sinal de interesse nem de uma maneira, nem de outra. — Não me liga absolutamente! Para você, eu podia ser uma pedra. E agora vai passar uma semana toda de férias na vila dessa gente em Cannes. Sei muito bem o que é que vai acontecer!

        — Se sabe, me diga, porque eu não sei.

        — Ela vai fazer você perder a cabeça. Conheço bem o tipo.

        — E não conta com a minha pessoa para nada? Afinal de contas, eu só corresponderei se quiser.

        Sylvie olhou para ele.

        — Você nada poderá fazer. Desde já. Olhe para você. Basta falar nela e já está excitado. Você é um animal!

        Dax riu.

        — Não é nada disso. Que é que você pode esperar ficando assim nua diante de mim e com esse cheiro gostoso de pecado?

        Ela olhou um instante para ele, apagou o cigarro no cinzeiro e ajoelhou-se na cama. Tocou-o ternamente.

        — Quelle armure magnifique, — murmurou. — Tão pronta, tão forte. Já é tão grande que não me cabe nas mãos.

        Desceu a cabeça para ele e Dax sentiu na carne o seu calor. Puxou a cabeça dela contra ele.

        Dax sentiu a latejante agulhada da dor correr-lhe pelas virilhas. Deitou-se iradamente de bruços para que a sua angústia não se tornasse visível a todos. Sylvie tinha razão. Que cadela! Provocava, provocava e depois fugia.

        Murmurou uma porção de nomes em inglês. Preferia dizer nomes feios em inglês. Havia um tom rude e direto nas obscenidades anglo-saxônias. Exprimiam exatamente o que queria dizer. O francês era muito evasivo. O espanhol tinha palavras muito compridas. Perdia-se o fôlego antes de se dizer o que se queria. O inglês, sim, é que era uma língua econômica. Dizia-se muito com poucas palavras.

        Ouviu o riso de Caroline e voltou-se para olhá-la. Ela estava de pé à beira da piscina falando com Sergei e com o irmão dela, Robert. A seda úmida do seu pequeno maiô de uma só peça se colava aos seios pequenos e à barriguinha levemente arredondada com uma espécie de despreocupação. Ela tomou a rir e Dax viu que o estava olhando pelo canto dos olhos.

        Deu-lhe as costas. Que fosse para o inferno! Ela sabia exatamente o que estava fazendo com ele. Olhou através do gramado para o lugar onde o pai dele e o barão estavam sentados à sombra de uma glicínia com seu primo inglês.

        Era estranho notar como os dois eram diferentes. Era difícil acreditar que tivessem um antepassado comum, o apavorado negociante polonês que havia fugido do pogrom no gueto de Varsóvia. Viajara à noite através da Europa coberta de neve, levando cosida na roupa uma fortuna em brilhantes. E a previsão do homem fora fantástica. Havia mais de cem anos mandara o filho mais velho para a Inglaterra, enquanto ele e o mais moço ficaram na França, onde se haviam estabelecido como agiotas e donos de casas de penhores. Tinham tratado calmamente dos seus negócios apesar das guerras que ensanguentaram a Europa e tinham prosperado até que os bancos De Coyne na França e o Banco Coyne em Londres se tomaram dos mais sólidos da Europa, chegando a rivalizar com os dos Rotschilds.

        Os dois ramos da família tinham recebido honrarias nos países adotivos. O avô do barão recebera o título de nobreza de Napoleão, e Sir Robert Coyne, de quem o amigo de Dax tinha o nome, fora feito cavaleiro pelo Rei da Inglaterra por serviços prestados durante a Grande Guerra.

        O barão havia acabado de falar e Sir Robert estava respondendo. Era alto e louro e os seus olhos azuis se mostravam muito frios enquanto ele falava com o seu primo baixo, moreno e de olhos castanhos. Só o pai dele parecia calado e pensativo. Que conversa seria aquela?

        Tudo parecia convergir para aquele encontro. As pressões urgentes do Corteguay haviam chegado ao máximo. Se não fosse possível obter financiamento rapidamente, seria extremamente duvidoso que o Presidente conseguisse manter-se no poder em face da fome do povo.

        A água fria caiu em cima de Dax com um choque. Sentou-se no mesmo instante. Caroline estava de pé, olhando para ele e rindo. Ele fez menção de pegá-la e ela correu, mergulhando na piscina. Esquecendo-se de que a água era fria demais para o seu gosto, ele mergulhou atrás dela.

        Ela deu um grito fingido de medo, ao mesmo tempo que se afastava dele em rápidas braçadas. Saiu da piscina pelo outro lado antes que ele pudesse alcançá-la. Dax sabia que não a alcançaria. Ela nadava muito melhor do que ele. Ficou da piscina olhando furiosamente para ela.

        — Covarde! — exclamou ele. — Teve medo de deixar que eu a pegasse! Sabia o que iria acontecer!

        — Que é que iria acontecer? — perguntou ela, erguendo a cabeça num desafio.

        — Você sabe, — disse ele sem poder tirar os olhos dos seios que o maiô revelava perfeitamente.

        — Nada iria acontecer, — disse ela, sorrindo, muito segura de si.

        — Tem certeza?

        Ela fez um sinal afirmativo.

        — Tem coragem de encontrar-se comigo esta noite no vestiário da piscina depois que todos forem dormir e ver se acontece alguma coisa ou não?

        Ela o olhou por um momento e disse:

        — Está bem. Esta noite, no vestiário da piscina.

        Depois de dizer isso, afastou-se. Ele ainda estava dentro da água olhando para ela quando Sergei chegou nadando ao lado dele.

        — É a sua vez, amigo.

        — A minha vez? Que quer dizer com isso?

        Sergei riu.

        — Acabará em jejum e terá de contentar-se com isso, como todos nós.

        Dax não respondeu. Ainda a acompanhava com os olhos quando ela entrou no vestiário da piscina.

        Mais tarde naquela noite, ambos ouviram o ruído. Eram passos no passeio de cimento em tomo da piscina. A voz de Caroline se elevou um pouco na escuridão.

        — Quem pode ser?

        Ele tapou-lhe com força a boca.

        — Silêncio!

        Os passos se aproximaram e depois hesitaram. Os dois ficaram de respiração presa. Por fim, os passos se afastaram e desapareceram dentro da noite.

        — Quase, — murmurou ele com um suspiro que por pouco se transformou num grito porque ela cravara os dentes na mão dele.

        — Por que fez isso?

        Você me machucou a boca e eu resolvi machucá-lo também.

        — Cadelinha! — exclamou Dax, estendendo as mãos para ela.

        Mas Caroline já se havia levantado e, à luz fraca que vinha da janela, ele a viu compor o vestido.

        — Acho bom sairmos daqui.

        — Um barulhinho e você fica apavorada!

        — E você não está?

        — Não. E, além disso, ainda não acabei.

        Ela se aproximou e ele sentiu-lhe a mão nas calças. Ela desabotoou-o rapidamente e ele sentiu a quente umidade da sua mão.

        Caroline!

        — Um estranho sorriso chegou aos lábios dela.

        — Não está com medo, está?

        — De que iria ter medo?

        Dessa vez, ele não pôde deixar de gritar de dor. As unhas compridas de Caroline se enterraram na sua carne e, no mesmo instante, ela correu para a porta e abriu-a.

        — Sinto muito, Dax.

        Ele não respondeu.

        Sentiu de novo um riso secreto na voz dela.

        — Você não podia pensar que eu fosse tão fácil quanto a filha de um cavalariço, não é mesmo?

        Saiu então e ele ficou sozinho. Sentiu um ímpeto de raiva crescer por dentro dele enquanto se encaminhava para a pia e abria a torneira. Sergei morreria de rir se chegasse a saber do que havia acontecido.

        Mais zangado do que nunca, enxugou-se e saiu. Olhou um momento para a vila às escuras e tomou o caminho da estrada. Cannes estava apenas a um quilômetro de distância. Encontraria mulheres por lá. Isso nunca faltava. Ela que fosse para o inferno. Tentasse as suas artes de provocação com Sergei e até com o irmão, se quisesse. Os dois deviam ser civilizados bastante para servir a esses pequenos divertimentos dela.

        Um vulto emergiu de repente da escuridão e começou a andar ao lado dele. Não precisou de olhar para saber quem era.

        — Aonde é que vai?

        — Foi você que andou, por perto do vestiário? — perguntou, irritado.

        — Será que você não me conhece? — perguntou Gato Gordo, rindo, — Se fosse eu, você não me ouviria.

        — Quem foi então?

        — Seu pai.

        — Meu pai? — exclamou Dax, com a sua raiva apavorada. — Ele sabia que eu estava lá dentro?

        — Sabia. É por isso que estou aqui. Ele quer falar imediata- mente com você.

        Dax seguiu em silêncio Gato Gordo até a casa. O pai dele levantou a vista ao vê-lo entrar.

        — Que estava fazendo com aquela moça lá dentro?

        Dax olhou para o pai. Poucas vezes tinha-o visto tão zangado. Não respondeu.

        — Você está louco? Não pensou no que aconteceria se o surpreendessem lá com ela? Acha que o barão ainda iria conceder um empréstimo ao pai do homem que lhe desonrou a filha?

        Dax continuou calado.

        — Tudo estaria perdido. As negociações dariam em nada. Tudo aquilo por que lutamos e sofremos estaria arruinado. E tudo por culpa da sua insensatez!

        Dax olhou para o pai e pela primeira vez notou o tremor das mãos, os sinais de velhice e de exaustão no rosto.

        — Desculpe, Papá, — disse ele, aproximando-se. — Mas não tem motivo nenhum para preocupar-se. Não toquei nela.

        O pai acalmou-se. O que havia de certo na sua vida era a sinceridade existente entre eles. Sabia que o filho não lhe iria mentir.

        Tem toda a razão, Papá. Fui um insensato. Mas isso não tornará a acontecer.

        O pai abraçou-o e murmurou:

        Dax, Dax! Em quantos mundos você tem de aprender a viver por minha causa?

        Dax sentiu a angústia e a fragilidade do pai. De repente, viu-se tomado de uma tristeza e teve uma compreensão que ainda não conhecera. Beijou ternamente o rosto do pai e disse:

        Só quero viver no seu mundo, meu pai. Sou seu filho.

        Era a primeira vez em que Dax compreendia que o pai estava morrendo.

 

        Não havia dor, embora Jaime Xenos soubesse que estava morrendo. Olhou para o padre. Havia tanto que ele queria explicar. Mas as palavras lhe passavam pelo cérebro e não encontravam meio de chegar-lhe à boca.

        Estava cansando. Nunca se sentira tão cansado assim. Virou a cabeça para o travesseiro e fechou os olhos. O murmúrio do padre foi-se amortecendo. Talvez pudesse dizer o que queria depois de descansar um pouco. Não havia medo. Apenas uma grande tristeza. Havia tanto para fazer, tanto que ele ainda poderia fazer. Mas agora tudo isso havia acabado. Não havia mais tempo.

        Dax. A palavra parecia queimar-lhe a cabeça. Dax sozinho. E ainda era tão moço! E tão cheio de vida! Havia tantas coisas que ele ainda não lhe ensinara. Tantas coisas que o rapaz precisava saber. Os problemas do mundo não se resolviam apenas com a simples energia física da mocidade. Queria dizer-lhe isso. E muito mais. Mas era tarde.

        Tarde demais. Adormeceu.

        Dax atravessou o quarto para onde estava o médico.

        — Está dormindo, — disse o médico. — É um bom sinal.

        Dax saiu do quarto com o médico, deixando o pai em companhia do padre. Gato Gordo estava junto à porta.

        — Como vai ele?

        — No mesmo — respondeu Dax e voltou-se para o médico.

        — Quando...

        — Talvez esta noite, talvez amanhã de manhã. Ninguém pode dizer.

        — Não há possibilidade?

        — Há sempre possibilidade.

        Marcel apareceu.

        — Um repórter do Paris Soir está ao telefone.

        — Diga que não há notícias.

        — Não foi por isso que ele telefonou.

        — Por que foi então?

        Marcel não olhou para ele.

        — Querem saber se vai continuar a jogar pólo.

        Dax fechou o rosto e cerrou os punhos.

        — É só nisso que eles pensam. Um grande homem está morrendo e eles só se preocupam com os seus divertimentos imbecis?

        Lembrou-se de que os repórteres lhe haviam dado o nome de “Selvagem”, depois do jogo com a Itália, quando ele fizera dois italianos caírem e um deles, gravemente ferido, tivera de ser internado no hospital.

        Haviam-no cercado depois, fazendo perguntas.

        — Como se sente em relação aos dois homens que se machucaram?

        — Pouca sorte deles, — respondeu displicentemente. — Isso não é esporte para quem não sabe manter-se na sela.

        — Parece que não se importa com o que pode acontecer a eles.

        — E devo me importar? A mesma coisa pode acontecer comigo todas as vezes que entro em campo.

        — Mas não aconteceu com você, — disse um repórter. — Sempre acontece com alguém do outro time.

        — Que quer dizer com isso? — perguntou Dax, friamente.

        — Parece estranho que você sempre se envolva num acidente quando os adversários vão marcar um gol. E são sempre eles que se machucam e não você.

        — Está por acaso sugerindo que eu faço isso de propósito para machucá-los?

        — Não, mas...

        — Jogo para vencer e isso significa não deixar o outro lado fazer gols se estiver em meu poder impedi-lo. Não sou responsável pelo fato de que os outros não saibam montar.

        — Mas deve haver espírito esportivo.

        — Essa         história de espírito esportivo é para quem gosta de perder. A mim só me interessa vencer.

        — Ainda que mate alguém?

        — Ainda que me matem! — retorquiu Dax.

        — Mas o pólo é um esporte e não uma guerra! — exclamou outro repórter.

        — Como é que sabe disso — perguntou Dax. — Já esteve dentro de um campo com meia tonelada de animal e de homem avançando sobre você? Experimente um dia e mudará de opinião.

        Naquela mesma noite, fora chamado ao telefone na hora do jantar. Era um dos repórteres que lhe haviam falado à tarde.

        — Sabia que o italiano acaba de morrer no hospital?

        — Não.

        — É só isso que tem para dizer? Nem ao menos diz que sente o que aconteceu?

        — Dizer isso para quê? Faria o homem voltar à vida?

        E havia batido o telefone.

        Era estranho que se lembrasse de tudo isso naquele momento em que o pai estava morrendo. Nada podia alterar esse fato. Nem a sua volta apressada de Londres depois do jogo entre a França e a Inglaterra. Nem mesmo a notícia do contrato sobre os navios, tinha tido mais importância do que qualquer outra coisa. Tudo isso chegara tarde demais.

        A única modificação resultante da publicidade fora o aumento do público. Todas as localidades para o jogo seguinte tinham sido vendidas e quando os times entraram em campo houve um murmúrio nas arquibancadas. Dax levantou a cabeça surpreso e olhou para Sergei que ia montado ao seu lado.

        O russo sorriu.

        — Você é um astro. Essa gente toda está aqui para vê-lo.

        Dax sentiu um frio correr-lhe pela espinha.

        — Vieram ver-me matar alguém.

        — Ou ser morto por alguém, — acrescentou o russo.

        O público foi quase atendido. Já para o fim do quarto chukker, houve um choque no centro do campo e três cavalos caíram, com Dax entre eles. Fez-se completo silêncio enquanto os outros dois jogadores se levantaram e saíam do campo. Mas houve um murmúrio geral quando Dax se levantou. Olhou um instante para as arquibancadas e então virou-se prontamente para ajudar o seu cavalo a levantar-se.

        O cavalo ficou tremendo, com os flancos arquejantes e Dax carinhosamente lhe afagou o pescoço.

        — Nós os logramos desta vez, hem, amigo?

        Gato Gordo entrou então no campo com outro animal. Houve alguns aplausos quando ele tornou a montar. Quando ele, zombeteiramente, deu adeus, a ovação foi estrondosa.

        — Não compreendo, — disse ele, parando ao lado de Sergei.

        — Nem procure compreender, Dax. Você agora é um herói!

        Até os jornais reconheceram o fato e no fim daquele ano ele foi incorporado como titular à equipe nacional da França. Tomou-se o mais jovem jogador com um handicap de oito gols a entrar num campo. Estava a um mês do seu décimo oitavo aniversário.

        Mas como tudo isso lhe parecia vazio naquele momento em que esperava a morte do pai. Tudo. Todos os planos que lhe tinham parecido tão importantes. Lembrou-se de uma noite na escola, perto do fim do ano escolar. Os três estavam juntos no quarto.

        Tinha-se recostado na cadeira e pusera os pés em cima da mesa.

        — Como se saiu nos exames, Sergei?

        — Não sei, — disse Sergei, franzindo o rosto. — A última prova foi bem difícil para mim.

        Dax olhou para Robert. Quase não havia necessidade de perguntar-lhe. Nos últimos três anos, Robert sempre fora o primeiro da classe. Estava arrumando os livros.

        — Como se sente, Robert?

        Sei lá! Satisfeito e, contudo, um pouco triste. De certo modo, vou sentir saudades disto aqui!

        — Pois eu não! — gritou Sergei. — É com verdadeira alegria que vou dar o fora!

        — E quais são os seus planos, Sergei?

        — Que planos? Não haverá mais escola gratuita para mim. Não conseguirei mais bolsas. Todos agora lá acham que os comunistas não vão sair mais do poder. Quem é então que quer saber de um russo branco?

        — Que é que vai fazer então? — perguntou Robert. — Vai trabalhar?

        — Em quê? Que diabo é que eu posso fazer? Arranjar um emprego como o de meu pai? Ser porteiro de um hotel ou de um cabaré?

        — Mas terá de fazer alguma coisa, — disse Robert.

        — Talvez vá para Harvard como você, — disse Sergei sarcasticamente, — ou acompanhe Dax para a escola militar de Sandhurst. Mas quem conseguirá isso para mim? O general meu pai?

        Robert ficou calado. Sergei olhou-o e pediu desculpas delica-damente.

        — Não tive a intenção de ser grosseiro.

        — Não tem importância, — murmurou Robert.

        — A verdade é que eu já sei o que vou fazer, — disse Sergei.

        — Que é?

        — Vou-me casar com uma americana rica. Parece que elas gostam de príncipes.

        — Mas você não é príncipe, — disse Dax, rindo. — Seu pai é conde.

        A diferença não é muita. Para elas, um título é um título. Lembra-se daquela da festa naquela noite? Quando ficamos sozinhos, ela olhou para mim e disse com uma voz reverente: “É a primeira vez que vejo um príncipe nu”. “E sou diferente dos outros?”, perguntei-lhe. “É, sim”, respondeu ela. “É púrpura, púrpura real!”

        Quando as risadas cessaram, Robert perguntou a Dax:

        — E você?

        — Acho que vou para Sandhurst. Está tudo arranjado e meu pai quer que eu vá.

        — Esses ingleses são assim mesmo! — exclamou Robert, irritado. — Só lhe concederam matrícula porque querem que você jogue pólo para eles!

        — Que diferença faz? — perguntou Sergei. — Eu bem que gostaria de ir pelo mesmo motivo.

        — Meu tio é que deve ter conseguido isso, — disse Robert. — Viu como ele ficou entusiasmado quando esteve aqui no ano passado e viu você jogar.

        Meu pai pensa que isso pode concorrer para melhorar as relações entre a Inglaterra e o Corteguay. Talvez consigamos mesmo a linha de navegação.

        — Julguei que tudo estivesse resolvido quando meu pai organizou a companhia. Gastaram cinco milhões de dólares para obter os direitos.

        — Mas os navios não vieram. Parece que aquele jogador grego havia arrendado os navios aos ingleses antes de saber que o negócio estava fechado com o Corteguay.

        — Alguém saiu logrado.

        Seu pai e o meu. Seu pai, especialmente. O que ele conseguiu com os cinco milhões de dólares foi uma licença de importação e exportação que lhe garante a comissão de 5% sobre todos os fretes. Mas isso pouco vale quando não há navios.

        Ficaram em silêncio durante algum tempo. Embora ambos estivessem pensando a mesma coisa, nenhum disse uma palavra a este respeito. Era evidente demais.

        Foi Sergei que quebrou o silêncio.

        — Ainda temos neste verão dez jogos até começar o outono. Isso significa pelo menos umas quarenta festas e quarenta pequenas diferentes para levarmos para a cama. Tudo pode acontecer.

        — Eu sei o que é que vai acontecer.

        — Que é?

        Dax esboçou um sorriso.

        — Você acabará com uma doença púrpura real!

 

        O cônsul entrou no escritório a passo lento, apoiado na bengala.

        — Bom dia, Marcel.

        Marcel levantou os olhos do jornal que estava dobrando cuidadosamente e colocou no centro da mesa do cônsul.

        — Bom dia, Excelência.

        Jaime olhou para o jornal.

        — Venceram?

        Marcel sorriu.

        — É claro. E Dax voltou a fazer mais pontos. Todos o consideram um herói.

        O cônsul sentou-se à mesa e pegou o jornal. Estava cheio de elogios a seu filho. Sacudiu a cabeça.

        — Isso não me agrada muito. Toda essa atenção. Isso não serve para quem é tão moço.

        — Não fará mal algum a Dax. Apesar da idade, tem muito juízo.

        — Tomara que assim seja, — disse o cônsul e mudou de assunto. — Já chegou alguma resposta de Macau sobre os navios?

        — Ainda não.

        — Não compreendo. Ouvi dizer que os ingleses estavam ansiosos por liberá-los. Os navios estão parados no porto. E até agora, silêncio.

        — Essas coisas demoram.

        — Tanto tempo assim? Já faz um mês que Sir Robert prometeu apressar as coisas em Londres. Para os ingleses, o tempo não quer dizer nada. Para nós, tem uma importância enorme.

        — A última carta de Sir Robert dizia que ele estava-se esforçando ao máximo.

        — E está mesmo?

        — O dinheiro que o barão empregou no contrato dos navios era metade dele.

        — Mas ele é também diretor das linhas inglesas.

        — Dois milhões e meio de dólares são dinheiro demais para se perder.

        — Ele poderia perder muito mais se os ingleses não tivessem mais o direito de embargar os nossos embarques.

        O secretário não respondeu.

        O pai de Dax recostou-se cansadamente na cadeira.

        — Acho às vezes que não sou o homem para este lugar. Tudo é muito complicado. Não há ninguém que diga o que realmente pensa.

        — Ninguém poderia fazer melhor, Excelência. É que essas coisas são mesmo demoradas.

        — Talvez seja verdade, — disse o cônsul com um sorriso triste. — Mas eu não posso esperar muito.

        Marcel sabia o que ele queria dizer. O cônsul ficava dia a dia mais frágil. A estrutura outrora quase gigantesca do homem como que se encolhera e enfraquecera. Passara a só andar de bengala. E não se tratava de uma afetação de diplomata, como o cônsul dissera, brincando. Além disso, estava mais uma vez resfriado e devia estar na cama.

        — Vamos mandar outra carta para o Presidente, — disse o cônsul. — Quero atualizar as informações que ele tem. Talvez ele tenha mudado de ideia acerca da conveniência de mandar Dax para a escola inglesa.

 

        Foi com sentimentos complexos que Dax entrou no campo inglês. Era a última vez que defenderia as cores da França. No ano seguinte, estaria jogando pelos ingleses e por Sandhurst. Olhou para as arquibancadas e viu Sir Robert e suas duas filhas. As moças deram-lhe adeus e ele respondeu.

        Sergei riu.

        — Você está arrumado, hem? Qual é a que vai pegar primeiro?

        — Você está louco? Para mim já chega o que aconteceu com Caroline. Meu pai me mataria.

        — A mais lourinha parece que vale a pena até de se morrer por ela. E parece caidinha por você.

        Ouviu-se o apito soar no campo. O time inglês já estava presente.

        — Vamos, — disse Sergei. — Venha conhecer os seus futuros companheiros de equipe. E ensine-lhes logo como é que se joga.

        A festa naquela noite foi na casa de Sir Robert em Londres. Os ingleses haviam jogado bem mas sem imaginação e perderam. Mas o próprio Dax teve de reconhecer que eram bons esportistas. O capitão inglês parecia completamente sincero quando foi dar parabéns pela vitória aos franceses.

        Dax estava sozinho junto às portas que davam para o jardim, observando as danças. Sergei, que dançava com uma loura alta, piscou-lhe o olho. Dax não pôde deixar de rir. Sergei já havia escolhido a sua presa para aquela noite.

        — Está-se divertindo?

        Dax voltou-se e viu Sir Robert.

        — Muito. Obrigado, senhor.

        Sir Robert sorriu*

        — Creio que gostará disto aqui. Pode ser que não tenhamos estilo como os franceses, mas tentamos compensar isso com um pouco de conforto.

        Dax estava começando a gostar da reserva inglesa. Não conhecia uma casa mais luxuosa do que aquela. Nem a casa do barão em Paris podia comparar-se com ela.

        — Ninguém poderia desejar mais, Sir Robert. Tudo é perfeito.

        — Peço-lhe que considere esta casa como sua enquanto estiver em Sandhurst. Já dei ordens para que lhe preparassem um apartamento e estamos à sua espera para o fim-de-semana no campo.

        — Muito obrigado, senhor. Não sei mesmo o que dizer.

        — Então não diga nada. Considere-se em casa. Recebi uma carta de seu pai esta manhã.

        — Como está ele?

        — Seu pai nunca fala muito de si. A carta só falava de negócios. Mas, a propósito, como vai ele de saúde?

        — Infelizmente, não vai muito bem. Na verdade, não sei se devo deixá-lo desta vez. Talvez eu pudesse aliviar-lhe um pouco o trabalho se ficasse em casa em vez de vir para Sandhurst neste ano.

        Sir Robert olhou-o com alguma hesitação e disse:

        — Posso falar-lhe como uma pessoa mais velha?

        — Por obséquio, Sir Robert. Apreciarei muito a sua opinião.

        — Se eu fosse seu pai, ficaria mais satisfeito com a sua ida para Sandhurst. A impressão que você fará aqui será muito mais útil para ele e para seu país do que a sua permanência ao lado dele.

        Dax ficou em silêncio. Era exatamente o que seu pai teria dito. Apesar disso, talvez nenhum deles tivesse razão, pois ainda havia a questão da saúde de seu pai. Se ele não pegasse outro resfriado e se aqueles malditos navios fossem logo liberados, as tensões do pai talvez se atenuassem e ele não teria tanta inquietação de afastar-se.

        — Muito obrigado, Sir Robert, — disse ele em voz alta. — Creio que é exatamente o que farei.

        Mais tarde, depois da festa, ele rolou na cama e acendeu o abajur da mesinha de cabeceira. Olhou o relógio. Três horas e ainda não tinha podido dormir. Levantou-se e foi até à janela. O tráfego era mínimo e ele ficou olhando a rua. Pensou de repente em Sergei.

        Conseguira um carro emprestado para levar a pequena para casa e só deveria voltar com dia claro, se voltasse. Mas viu em dado momento os faróis de um carro brilharem no pátio. Sergei saltou e um momento depois estava no seu quarto.

        — Por que é que ainda está acordado? — perguntou ele, olhando desconfiadamente para o quarto. — Estava com alguma delas aqui?

        — É só nisso que você pensa, Sergei?

        — E há mais alguma coisa em que valha a pena pensar? Infelizmente, perdi o tempo com a tal que levei para casa.

        — Não se pode ganhar sempre, — disse Dax, rindo.

        — Sabe o que foi que ela me disse? Sir Robert vai dar-lhe este apartamento enquanto você estiver em Sandhurst.

        — Já sabia.

        — E sabe que os quartos das meninas são do outro lado do corredor?

        — E daí? — Dax sabia por que ambas tinham feito questão de pô-lo ao corrente do fato.

        — Você não pode deixar de tomar conhecimento delas, — disse Sergei, tirando a camisa. — Estão ambas no ponto e prontas. E estão ainda acordadas, sabe? Vi luz quando passei pela porta delas.

        — Tem cigarros?

        Sergei entregou-lhe o maço e disse:

        — Devem estar à sua espera.

        — Só quero é que não se cansem de esperar.

        Sergei sacudiu a cabeça com fingida tristeza.

        — Você está cometendo um erro, rapaz. Se não for você, será outro. Com que é que está preocupado? O pai delas está na outra ala da casa e não ouvirá nada. Devemos estar no mínimo a um quilômetro de distância.

        Dax riu.

        — Cale essa boca e vá dormir. Não tenho culpa de que você tivesse ficado em seco esta noite.

        Na realidade, Sir Robert estava no seu escritório, estudando o mais recente relatório sobre a situação do Corteguay. Levá-lo-ia no dia seguinte para a sua casa de campo a fim de guardá-lo juntamente com os anteriores. Havia mais segurança lá, embora aquilo pouco sentido fizesse para os criados, caso eles o lessem. Apertou os lábios. Havia muita pressão sobre ele. Às vezes, não podia deixar de irritar-se com o primo. O barão era muito francês, muito sentimental. Que importância tinha que o cônsul do Corteguay fosse um homem de honra? Além disso, era um homem doente. Não compreendia o barão que, se os navios fossem retidos um pouco mais, o governo poderia cair? Era um idiota, se não compreendesse isso.

        A situação do governo era precária. Os bandoleros já estavam em atividade nas montanhas. Dessa vez com dinheiro inglês e armas inglesas. Os camponeses tinham fome. Por quanto tempo ainda passariam fome pelo presidente, que também não passava de um bandolero?

        Os navios tinham de ser retidos. Um prejuízo de dois milhões e meio de dólares não era nada para impedir que o governo do Corteguay entrasse em acordo com os gregos. Quando o governo afinal caísse, o prejuízo seria mais do que compensado com a volta dos navios ingleses ao Corteguay.

 

        Dax desceu da camioneta da estação à porta da casa de campo de Sir Robert pouco depois das sete horas da noite seguint