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OS SETE MINUTOS - p.3 / Irving Wallace
OS SETE MINUTOS - p.3 / Irving Wallace

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

OS SETE MINUTOS

Terceira Parte

 

ERA segunda-feira de manhã, dia 22 de Junho deste ano de Nosso Senhor, finalmente, e Mike Barrett, sentado à cabeceira da mesa do conselho de defesa, nervoso de impaciência, aguardava ansiosamente o início do julgamento.

Olhando por cima do ombro para o relógio redondo na parede, muito acima da entrada da Sala 803 do Tribunal da Comarca de Los Angeles, Mike Barrett verificou que o ponteiro pequeno marcava nove horas e o grande recém-passara das quatro. Eram nove e vinte e dois da manhã.

Dentro de oito minutos, o oficial de justiça daria o aviso formal e depois, por fim, travar-se-ia a batalha.

Os olhos de Barrett desviaram-se do relógio para o espaço reservado ao público, aglomerado de espectadores, logo abaixo. Não só estavam ocupadas todas as poltronas castanhas de assento móvel, como filas de cadeiras desmontáveis de madeira tinham sido trazidas do corredor e encostadas às paredes, defronte às cortinas cor de chocolate que cobriam as janelas de cada lado dos aparelhos de ar condicionado, todas tomadas por parte da multidão. Com excepção de um ou outro rosto conhecido que identificava aqui e ali - Philip Sanford, Irwin Blair, Maggie Russell (cujo olhar não logrou surpreender) - era uma massa de estranhos, aqueles membros da plateia, os curiosos, os preocupados, os implicados, a espécie de Homo Sapiens que o Promotor Público precisava de proteger da depravação, que ele próprio precisava salvar de uma sentença que prometia mudez, surdez e cegueira.

Ficou a pensar, por um momento, na quantidade de gente que queria entrar na sala do tribunal e não conseguira.

Quando ele, em companhia de Zelkin, Kimura, Sanford, Fremont e Donna, haviam chegado ao oitavo andar do Palácio da Justiça quarenta e cinco minutos antes - Kimura e Donna tinham vindo para ajudar a trazer as enormes pastas e a caixa de papelão contendo o sumário da defesa, os instrumentos de prova, livros de consulta, notas de pesquisa - Barrett espantara-se com a agitada turba que se comprimia e atulhava por todo o corredor que conduzia ao Tribunal Superior no outro lado do prédio. Calculava que trezentas pessoas, no mínimo, lutavam para entrar na sala. E apenas um terço conseguira.

Lembrava-se do momento em que cruzara a barreira de luzes ofuscantes que acompanhava as câmaras de televisão logo do lado de fora da entrada. Um comentarista havia reconhecido Ben Fremont e tentara arrastá-lo para uma entrevista em frente da objectiva, mas o livreiro não esquecera as instruções da véspera e recusara-se. Diversos jornalistas tentaram encurralar Zelkin e Barrett, crivando-os de perguntas absurdas, mas Zelkin respondera rudemente que tudo o que a defesa tinha para dizer estava reservado para os anais do tribunal.

Detidos brevemente, enquanto os guardas procuravam abrir-lhes caminho, Barrett observara e escutara o que dizia o famoso comentarista Merle Reid, que já encontrara inúmeras vezes em casa dos Osborn. Reid estava parado diante de uma câmara, segurando um maço de notas e descrevendo a cena.

É incrível o espectáculo que estamos a presenciar no oitavo andar do Palácio de Justiça - dizia Reid ao microfone pendurado no pescoço, encarando a objectiva -, uma cena para a qual as autoridades se encontravam totalmente desprevenidas. Certos julgamentos atraem a atenção internacional porque focalizam grandes nomes e celebridades, e que abrangem desde o processo de dois dias de Mary Stuart, Rainha da Escócia, no Castelo de Fotheringay em 1586, ao julgamento de Bruno Hauptmann, em Flemington, Nova-Jérsia, pelo rapto e assassinato de Charles A. Lindbergh Jr., em 1935. Outros processos despertam a atenção internacional porque se referem a escândalos. Por exemplo, o adultério do Reverendo Henry Ward Beecher, no Tribunal Municipal de Brooklyn em 1875, sob a acusação de alienação de afecto. E, por exemplo, o de Oscar Wilde, em Old Bailey, em 1895, sob a acusação de homossexualidade. Alguns despertaram a atenção mundial por focarem controvérsias políticas. Já houve julgamento desse tipo na América... o de Mary Surratt e seu companheiro de conspiração, processados no velho prédio da Penitenciária de Washington pelo assassínio do Presidente Lincoln, e Nicola Sacco e Bartolomeo Vanzetti, processados no Tribunal de Dedham, Massachusetts, como anarquistas que cometeram um crime. Houve julgamentos desse tipo na Europa... Émile Zola sendo processado em Paris por caluniar o Ministério da Guerra na defesa que fez do capitão Alfred Dreyfus, e o cardeal Joseph Míndszenty, processado pelo Tribunal Popular de Budapeste por tentativa de derrubar o Governo comunista húngaro.

“E depois há julgamentos que despertam a atenção internacional, por se relacionarem com o direito humano à liberdade de expressão e à liberdade da imprensa. Como, por exemplo, o de John Peter Zenger, editor do New-York Weekly Journal, que foi acusado de difamar o tirânico Governador real em seus artigos e que enfrentou julgamento na Prefeitura de Nova Iorque em 1735. Zenger tinha escrito: "A perda da liberdade geral viria logo após a supressão da liberdade da imprensa... nenhuma nação, antiga ou moderna, jamais perdeu o privilégio de falar, escrever ou divulgar com franqueza os seus sentimentos sem imediatamente perder a liberdade geral e tornar-se escrava." No entanto, só a defesa heróica do seuidoso advogado, Andrew Hamilton, conseguiu a absolvição de Zenger... obtendo para a liberdade de expressão americana uma importante, porém efémera, vitória.

“Desde o memorável processo de John Peter Zenger nenhum outro julgamento relacionado com a liberdade de expressão ou imprensa foi considerado tão importante como esta acção penal instaurada pelo Estado da Califórnia contra um livreiro desconhecido, chamado Ben Fremont, acusado de distribuir obscenidades sob a forma de um pequeno romance clandestino, Os Sete Minutos, escrito por um expatriado americano morto há mais de três décadas.

“Porque este julgamento, que poderia ter sido relegado para a obscuridade de um debate provinciano em torno de apenas mais um livro pornográfico, em que as autoridades ameaçariam o réu com uma mera acusação de crime... porque este processo despertou a atenção de gente de toda a parte, não só dos Estados Unidos mas também da Grã-Bretanha, Escandinávia, França, Alemanha, Itália, Espanha, México, América do Sul, Japão e outros países?

“A explicação que este repórter lhes pode dar não é simples. Nenhuma pessoa com quem comentei o fenómeno foi capaz de explicá-lo. No máximo, podem-se conjecturar várias respostas. O julgamento principia num momento decisivo da história da civilização, quando o futuro da moralidade humana se encontra em jogo. Por intermédio de livros, jornais, televisão, teatro, filmes, a liberdade de expressão ultrapassou todas as velhas fronteiras de decência aceitáveis, numa tentativa de encontrar os últimos limites da arte ou de assaltar e destruir a integridade do lar, da família e da sociedade, na forma em que as pessoas de todas as terras civilizadas preferiram que existisse. Ao mesmíssimo tempo, a autoridade religiosa das nações do mundo inteiro tem sido desafiada e enfraquecida por aqueles que põem à prova os limites externos da liberdade e as definições estreitas do que está certo e errado, do que é moral e imoral.

“Talvez seja que neste momento o Estado e a Igreja prevejam a sua possível ruína, se não se unirem para conter os destruidores da moralidade estabelecida, se não punirem os que avançaram longe de mais, e se não criarem novos limites para reprimir os abusos e excessos da liberdade anárquica.

“E como derradeiro campo de batalha, escolheram este tribunal desta vasta cidade do sul do Estado da Califórnia. O objecto causador deste ajuste de contas é um que possui raro atractivo internacional e estímulo idêntico. Apesar de escrito por um homem, o romance que levantou toda a tempestade é inteiramente feminino, girando em torno das atitudes e sensações de uma única mulher fictícia em relação à sua psique e à sua vida sexual. Uma vez que as mulheres de todos os países são mulheres em primeiro lugar e cidadãs em segundo, o seu interesse pelo destino de Cathleen nesse livro ultrapassa as fronteiras nacionais. Além do mais, a explícita sexualidade que ele descreve, insistindo que é dominante no espírito feminino, parece preocupar e perturbar as mulheres de tudo quanto é parte, e preocupar e inquietar os homens de tudo quanto é parte. Acima de tudo, devido a certos trechos que expoentes das religiões ocidentais consideram perigosos... não só personalidades católicas da França, Itália e Espanha, mas também líderes protestantes dos Estados Unidos, Grã-Bretanha e Alemanha... trechos que mostram figuras sagradas de cada religião envolvidas em actos sexuais... as Igrejas do mundo aliaram-se discretamente às autoridades seculares numa tentativa para banir Os Sete Minutos e, com esse exemplo, estabelecer novas limitações à liberdade de expressão e moralidade vigente.

“Além dessas razões, talvez haja outras menos práticas, mais românticas, para a atracção que vem despertando...”

Mas Mike Barrett, embora fascinado, não prestou mais atenção. Zelkin fizera-lhe sinal e ele apressou-se a seguir os demais sala adentro, para ajudar a abrir as pastas e a caixa de papelão, aprontando-se para a batalha iminente.

Agora, mais uma vez, examinando o público da sala do tribunal nas suas costas, finalmente surpreendeu o olhar de Maggie Russell. Acenou-lhe com a cabeça. Bem séria, ela retribuiu o cumprimento da mesma maneira.

Depois Barrett passou rapidamente em revista os elementos da imprensa. Ocupavam cadeiras desmontáveis -sem lugar para mesas - de um lado a outro da sala, atrás da grade, nas suas costas, que separava os espectadores do tribunal propriamente dito. O rosto e a roupa dos jornalistas confirmavam o que o comentarista da televisão dissera à porta de entrada: que aquilo se convertera num julgamento não apenas de interesse local ou nacional, mas numa verdadeira atracção internacional. Ali estavam os periodistas evidentemente americanos, conversando, rabiscando em seus blocos, revisando material anterior, mas também havia jornalistas cujos diários ou sindicatos se localizavam em Londres, Paris, Milão, Munique, Genebra, Cidade do México, Barcelona e Tóquio.

Do sector da imprensa, a atenção de Barrett passou para a mesa do conselho, dupla e rectangular, de mogno, reservada à acusação, e que naquele espaço exíguo quase parecia uma extensão da sua. Olhando por cima da cabeça de Zelkin, podia ver o promotor público Duncan, ora correndo os dedos pelo sedoso cabelo louro, ora esfregando a covinha do queixo, enquanto prestava atenção a qualquer coisa dita pelos seus assistentes, o moreno Victor Rodriguez e o bronzeado Pete Lucas.

Barrett notou que a sua mesa de mogno também tinha três participantes, mas dos quais apenas dois eram advogados da defesa: o próprio Barrett, na cadeira da ponta, vizinha do compartimento de jurados, usando camisa branca de colarinho abotoado, gravata azul e fato de Dracon azul-marinho. A seu lado, ainda esvaziando uma pasta, achava-se o atarracado Abel Zelkin. Na extremidade oposta, o réu, Ben Fremont, com o seu melhor fato domingueiro, espremia os olhos no fundo dos óculos de aro metálico para as seis lâmpadas fluorescentes/embutidas, dependuradas no tecto pomposo.

Pela última vez, Barrett inspeccionou o campo de batalha que se estendia imediatamente à sua frente. A extrema direita, um pouco além da mesa da acusação, via-se o oficial de justiça, grisalho e espadaúdo, homem que valia por uma equipa de defensores da ordem, encarregado do decoro do recinto, e que servia de ama-seca masculina aos doze jurados. Ele havia ficado de pé, escutando vários representantes da imprensa, mas agora ocupava a sua posição atrás de uma pequena escrivaninha.

Do oficial de justiça, Barrett passou a sua atenção, além das cabeças da oposição, para a escrivaninha de tampa corrediça, que escondia parcialmente o magro escrivão do tribunal, alto como uma girafa, debruçado sobre as suas minutas. No fim da sexta-feira, na presença do juiz e de alguns curiosos, recebera o compromisso dos jurados, advertindo-os de que deviam “julgar a causa com justiça e serenidade”, e dentro em breve, como secretário do juiz em questões atinentes ao tribunal, iria redigir os seus apontamentos dos trâmites, assim como receber e juntar todos os instrumentos de prova.

No centro da sala, imponente e temível, erguia-se o assento do juiz, austero, mal-grado o microfone sobre a escrivaninha, os lápis, o bloco de anotações, a garrafa de água, o martelo e uma colecção do Código Penal da Califórnia em oito volumes. Atrás, a poltrona da justiça, de couro, de alto espaldar, colocada diante de uma porta coberta por cortina e ladeada pelas bandeiras nacional e estadual.

Logo abaixo, entre Barrett e o banco das testemunhas, apenso ao assento, estavam a cadeira giratória, a máquina de estenotipia, em cima de uma mesa trípode, e a escrivaninha pertencentes a Alvin Cohen, o relator forense incumbido de registar os trâmites e depoimentos do processo a ser instaurado. Naquele momento, Cohen, apoiado a um joelho, regulava a mesa trípode à máquina de estenotipia, parecendo o jovem assistente de um catedrático à procura da abotoadura perdida.

Acima do relator via-se o banco das testemunhas, o lado aberto a formar um acesso de degraus que conduzem à cadeira forrada e ao microfone. Barrett olhou tristemente Para esse banco, lembrando-se como ele e Zelkin estavam mal preparados para enfrentá-lo, e logo impeliu a sua própria cadeira giratória para o canto oposto, a fim de contemplar a parede baixa do compartimento alongado do júri a apenas poucos passos de distância do seu cotovelo.

Os lugares dos jurados continuavam vazios.

A memória de Barrett retrocedeu à manhã da véspera, quando Abe Zelkin se esforçara em preencher-lhe aqueles lugares, descrevendo biografias e traçando o retrato das personalidades dos doze jurados escolhidos.

Zelkin provara astúcia ao seleccionar entre os sobreviventes das impugnações e recusas fundamentais pelo Promotor Público. Não eram unicamente a ocupação e o género de vida de cada um que tinham influenciado a selecção, mas os maneirismos, o uso da linguagem e inflexões de voz ao responder a perguntas, até mesmo o jornal ou revista que traziam debaixo do braço. Aqui tratava-se de um caso de censura, e o conhecimento da experiência pessoal, grau de instrução e interesses literários de um jurado exerciam extrema importância.

Zelkin achava que no grupo de doze, pelo menos cinco demonstravam indícios positivos de empatia pela causa, e somente torcia para que os outros sete se mostrassem honestamente imparciais em relação à matéria em julgamento. Zelkin era de opinião que o júri era bom. Mas nesse sentido, pensou Barrett, não havia dúvida de que Duncan se sentia igualmente satisfeito com a sua própria aprovação desses jurados.

Reflectindo sobre os preparativos da última hora da véspera, a atenção de Barrett voltou a fixar-se no banco das testemunhas, e lembrou-se de que tinham passado toda a tarde de sábado a entrevistá-las no escritório, discutindo em particular o depoimento que iriam prestar, fazendo sugestões e tomando notas. Pensou no desastre suplementar que ocorrera. Kimura, no sábado, entregara-lhes, vinda directamente do Aeroporto Internacional, uma testemunha em quem depositavam considerável esperança: Da Vecchi, o pintor florentino que conhecera Jadway em Paris em 1935 e pretendia tê-lo retratado certa vez em Montparnasse. Era um italiano raquítico e idoso, com olhos inquietos de carteirista romano. Para aparecer no banco das testemunhas, Barrett sonhara com um modelo de Ticiano ou Carpaccio, e em vez disso dispunha de alguém que lembrava um gárrulo sapateiro do Velho Mundo, que sempre se esquecia de dar o troco certo.

Da Vecchi, conforme se apurou, tinha visto Jadway apenas três vezes - mas, embora a sua memória estivesse anuviada, lembrava-se efectivamente de vários comentários feitos pelo escritor enquanto escrevia o romance, que atestavam a integridade de Jadway - e numa delas pintara o retrato de Jadway. No escritório de Zelkin, Da Vecchi prontificou-se a exibí-lo. Para Barrett fora um momento de suspense: ia ver pela primeira vez o verdadeiro réu do processo. Da Vecchi levantara a serapilheira para mostrar o óleo e o entusiasmo de Barrett ruiu por terra. O quadro não passava de uma pintura abstracta, cubista, um quebra-cabeças ridículo de cones, quadrados, linhas perpendiculares e horizontais, salpicadas de azul, amarelo, vermelho e castanho. Se a tela representava qualquer espécie de rosto, era a de uma cabeça de centauro predominante, construída com blocos de jardim-de-infância. A pintura não possuía o mínimo valor, o mesmo, a rigor, podendo-se dizer de Da Vecchi. Barrett soltou outro suspiro - quem recebe esmola, não tem direito de reclamar. Da Vecchi ocuparia o banco das testemunhas na ocasião aprazada.

Preocupado, lançou mais um olhar de soslaio ao adversário. O Promotor Público examinava a plateia e acenava para alguém. Barrett pôs-se a imaginar de que modo Duncan passara o domingo. Sem dúvida em companhia de Christian Leroux, o difamador de Jadway, e provavelmente com Jerry Griffith. Depois pensou se Jerry Griffith realmente falara com Duncan. Maggie, naturalmente, devia saber, mas não queria perguntar-lhe. Olhou fixamente para o rival, invejando-lhe, a riqueza de testemunhas, e por fim virou-se novamente para ver a hora.

O relógio da parede marcava nove e meia.

Duas campainhas tocaram na sala e Barrett viu o corpulento oficial de justiça pôr-se de pé num salto e apressar-se a subir os degraus que levavam à sala dos jurados. Logo percebeu que tanto a imprensa como os espectadores tinham compreendido, porque as conversas diminuíram de volume e toda a gente ficou alerta.

De repente os doze jurados, oito homens e quatro mulheres, entraram em fila no tribunal, começando a ocupar os seus lugares no compartimento que lhes era reservado. Enquanto isto, Abel Zelkin puxou Barrett pela manga, pondo-Lhe a mão em concha no ouvido.

- Tire uma nota dos cinco de que eu lhe falei, os que me dão esperanças - cochichou. Zelkin havia seguido, certa vez, um curso de memorização, numa tentativa de ficar à altura dos dons naturais de Barrett, e agora punha em prática um dos seus exercícios para fixar os cinco da lembrança do sócio. - O jurado número dois, a mulher que parece Mao Tsé-tung é óptima. O número três, o banqueiro que tem cara de Tio Sam, também dá para apostar. A número sete, a moça com ar de Greta Garbo, é tiro e queda. Número dez. O tipo de Joe Louis. É professor. Doze. O presidente do júri. Gémeo de Albert Schweitzer. Chama-se Richardson. Arquitecto famoso. Apanhou todos?

- Apanhei - respondeu Barrett.

Os seus olhos seguiam o júri e formulavam, em silêncio, a velha pergunta de Shakespeare: “Serão vocês homens probos e honestos?”

Os jurados tomaram os seus lugares e, da sua escrivaninha, o oficial de justiça dirigiu-se aos espectadores reunidos na sala.

- Queiram ter a bondade de levantar-se-'pediu - e fitar a bandeira da nossa pátria, reconhecendo os princípios que ela defende... liberdade e justiça para todos.

Barrett, como todos os presentes, também se pôs de pé, permanecendo nessa posição enquanto as cortinas atrás do assento elevado se abriam e o juiz Nathaniel Upshaw dava entrada no tribunal. Franzindo parte da toga preta com a mão, o magistrado aproximou-se e assumiu o posto da presidência. Tinha figura majestosa: cabelo branco hirto, olhos atentos amortecidos por olheiras, longo rosto macilento enrugado, enérgico e sereno. Levemente parecido com a figura clássica de um juiz inglês numa caneca de cerveja. De ombros caídos, os nós dos dedos apertando o assento, esperou que o oficial de justiça terminasse.

- A Divisão 101 do Tribunal Superior do Estado da Califórnia, Comarca de Los Angeles, declara aberta a audiência'-entoou o oficial.'-O Meritíssimo Juiz Nathaniel Upshaw presidirá à sessão. Sentem-se, por favor.

Ouviu-se um arrastar de pés por toda a sala e o público, a imprensa e os representantes legais ocuparam os seus respectivos lugares. Barrett entrelaçou os dedos, sentindo um aperto nervoso no peito e na garganta.

O juiz Upshaw já se instalara. Empunhando o martelo, bateu uma vez.

Olhou para o relator forense, logo abaixo, cujos dedos pairavam sobre a máquina de estenotipia. E dirigiu-se-lhe pelo microfone da escrivaninha.

- A acção proposta pelo Povo do Estado da Califórnia contra Ben Fremont está pronta para julgamento. - A voz do magistrado, ressonante e grave, retumbava em cada canto da sala. - Registe-se nos anais que o Povo é representado por Mr. Elmo Duncan, e o réu pelo seu advogado, Mr. Michael Barrett, e que o júri se acha presente.

O juiz Upshaw virou-se para a mesa da acusação e analisou-a. Finalmente tornou a erguer a voz:

- O senhor deseja fazer alguma exposição inicial, Mr-Duncan?

- Sim, Meritíssimo. Gostaria de fazer uma exposição de motivos.

- Prossiga, por favor.

Elmo Duncan atravessou a sala com passo ágil. Passando pela mesa da defesa, não desviou os olhos da sua frente. Ao chegar perto dos jurados, segurou-se à balaustrada, fazendo-lhes um aceno de boas-vindas com um sorriso discreto. Depois, soltando-se, recuou e cruzou os braços, começando a falar com voz tensa e empostada.

- Senhoras e senhores jurados - disse Elmo Duncan -, como sabem, ao instaurar-se o julgamento de acção penal, tanto o Promotor Público como o advogado do réu têm o privilégio de fazer uma exposição inicial. A finalidade dessa exposição é apenas fornecer-lhes as linhas gerais do que cada um de nós pretende provar na nossa apresentação dos factos. O que podemos dizer fica limitado por um único preceito. As nossas exposições iniciais têm de restringir-se aos factos que tencionamos deduzir por meio de provas. Em nenhuma ocasião temos permissão para defender o caso. Em suma, como disse certo magistrado, a exposição inicial pode ser comparada ao “sumário de um livro, para que se possa localizar o capítulo e saber do que trata”.

“De maneira que, neste breve intróito, não apresentarei provas. Mais adiante, hoje, e durante a duração do processo, as provas serão dadas dali...”

Duncan apontou para o banco das testemunhas.

- ... do banco onde as testemunhas, sob o juramento solene de observar completa fidelidade à verdade, plenamente cientes que se expõem à acusação penal de perjúrio, caso se desviem da verdade, testemunharão sobre factos, exclusivamente sobre factos. Em geral, o depoimento de testemunhas num processo penal deve limitar-se ao que Presenciaram com os próprios olhos, escutaram com os Próprios ouvidos, ou cheiraram, tocaram e sentiram através dos seus sentidos físicos. Só muito raramente recebem Permissão para apresentar testemunho de outiva... ou seja, boatos ou notícias de segunda-mão, relacionados com os litigantes da acção. Normalmente, num processo penal, as Testemunhas não são encorajadas a emitir opiniões ou tirar conclusões. Entretanto, num caso de obscenidade, como o presente, estou certo de que o tribunal há-de concordar que podemos abrir excepção à regra. Ao julgar se uma obra é imoral ou não, as opiniões abalizadas de pessoas qualificadas a emiti-las são, em virtude de precedentes, geralmente admitidas como prova de factos concretos.

“Tendo isso em mente, senhoras e senhores jurados, peço-lhes a indulgência de acompanhar o esboço que farei do que se convencionou chamar resumo do pleito do Povo.”

A voz do Promotor Público tinha começado a libertar-se dos efeitos estranguladores da tensão inicial. Era como se houvesse usado esses instantes preliminares não tanto para informar os jurados acerca dos procedimentos básicos mas para convencer-se de que se mostrariam receptivos à acusação e de que dali por diante tudo correria bem.

Quando recomeçou, estava calmo, seguro, confiante.

- Estamos reunidos aqui porque nós, os advogados do Povo, acusamos o réu, Ben Fremont, livreiro, de violar o Artigo 311, parágrafo 2º, do Código Penal do Estado da Califórnia. O referido parágrafo estabelece o seguinte, que será repetido muitas vezes no decorrer deste processo... estabelece que... “Toda a pessoa que conscientemente remete ou fornece os meios de remessa, ou traz ou proporciona o transporte, para este Estado, com intuito de venda ou distribuição, ou neste Estado prepara, publica, imprime, exibe, distribui ou se oferece para distribuir, ou tem em seu poder com intenção de distribuir ou exibir ou se oferece para distribuir, qualquer material obsceno, torna-se Culpado de contravenção."

“E cumpre acrescentar que, se uma pessoa é considerada culpada de fornecimento de material obsceno... e "material" vem definido no nosso Código Penal como sendo "livro, revista, jornal, ou outro material impresso ou escrito"... se essa pessoa é considerada culpada de reincidência no fornecimento de material obsceno, torna-se culpada não de contravenção, mas do crime mais grave de delito culposo.”

Enquanto Duncan martelava nessa tecla, Barrett viu Ben Fremont retorcer-se contrafeito, o que sublinhava a sua própria reacção instintiva à referência injustificada de Duncan a respeito de reincidências.

Barrett pôs-se de pé.

- Protesto, Meritíssimo. Protesto pelo motivo de que o nobre colega da acusação não está a limitar-se a expor o que tenciona provar, e sim a entrar no mérito da acção que promove contra o réu.

O juiz Upshaw sacudiu a cabeça em aprovação.

- Protesto aceite. Dirigiu-se ao Promotor Público.

- Mr. Duncan, creio que o senhor está a ultrapassar o escopo da sua exposição inicial.

Duncan sorriu à guisa de desculpas para o juiz.

- Obrigado, Meritíssimo. Desculpe-me - voltou o sorriso para os jurados. - Tenho a impressão de que me deixei empolgar.

Tornando a sentar-se, Barrett ouviu Zelkin murmurar:

- Não há que negar que o nosso irresistível Promotor acertou em cheio no alvo... reincidente, delito culposo. Espero que você retribua na mesma moeda.

- Não se preocupe - retorquiu Barrett baixinho, sempre com o olhar fixo no Promotor Público.

Duncan continuou a exposição inicial.

- O ponto crucial do parágrafo do Código Penal em que acusamos o réu de violar resume-se numa única palavra do mesmo parágrafo... a palavra “obsceno”. E quanto a ela, o Código Penal é expresso. No Artigo 311 encontramos a seguinte definição: “Por obsceno entende-se que para a pessoa comum, segundo o critério contemporâneo, o principal atractivo do material, considerado em conjunto, é o interesse libidinoso, isto é, um interesse vergonhoso ou mórbido por nudez, sexo ou excreção, que ultrapasse substancialmente os limites habituais de franqueza na descrição ou representação de tais materiais e constitui matéria totalmente destituída de importância social compensatória."

“Ora, as palavras "obsceno" e "libidinoso" serão ouvidas com frequência no decurso deste julgamento. Os senhores acabaram de ouvir as suas definições legais. É útil tomar conhecimento dos seus conceitos nos dicionários^No Dicionário Inglês de Oxford, assim como em outros, "obsceno vem descrito como algo que significa repulsivo, imundo, indecente. E material de interesse "libidinoso" é o que contém ideias lúbricas, lascivas ou malévolas, que dá aos leitores um prurido impuro pelo que é sórdido.

O Estado acusa uma obra de ficção que tem por título Os Sete Minutos, da autoria de um certo J J Jadway, de apelar para o interesse predominantemente libidinoso, sendo por conseguinte, criminalmente obscena e que. por tal motivo, o réu, Ben Fremont, ao distribuir conscientemente essa obra obscena, torna-se culpado de crime perante a lei.

 “Nesta acção, provaremos, irrefutavelmente, três aspectos da transgressão legal do réu.

“Em primeiro lugar, provaremos que Ben Fremont, na qualidade de livreiro desta comarca, expôs e distribuiu o livro chamado Os Sete Minutos.

“Segundo, provaremos que estava ciente. Ou, por outra, que o réu, Ben Fremont, distribuiu esse livro obsceno, apesar de estar perfeitamente cônscio do seu conteúdo. A fim de estabelecer isso, forneceremos o testemunho de funcionários ligados à Divisão de Costumes do Município de Los Angeles que, agindo como polícia secreta, compraram um exemplar da obra das mãos do réu. Reforçaremos esse testemunho com a apresentação de gravações em fita magnética das vozes da conversa dos investigadores e apreensores da Polícia com o réu, Ben Fremont, o que demonstrará amplamente que o réu tinha plena consciência do conteúdo do livro, reconhecendo que era obsceno.

“Terceiro, provaremos sem sombra de dúvida que, para o homem ou para a mulher comuns, segundo os critérios comunitários contemporâneos, Os Sete Minutos é obsceno dentro da definição legal da palavra e que é obra totalmente destituída de qualquer importância social compensatória. A fim de estabelecer estes factos, apresentaremos testemunhas numa série de categorias. Uma delas, consistente de especialistas literários ou pessoas que travaram relações com o autor do livro, testemunhará que a obra em questão é obscenidade escrita com essa mesma intenção e destituída de qualquer mérito literário ou valor social. Os referidos especialistas também revelarão que o autor criou a obra com a única finalidade de explorar o interesse libidinoso de leitores susceptíveis em proveito do seu lucro pessoal. A segunda categoria de testemunhas, formada por respeitáveis cidadãos da comarca de Los Angeles, testemunhará que a pessoa comum na nossa comunidade concordaria que o livro explora vergonhosamente o interesse mórbido do leitor pela nudez, sexo ou excreção. A última categoria de testemunhas virá depor, à base de conhecimento pessoal, que o livro é obsceno e que o seu estímulo de interesses libidinosos entre os imaturos causou desequilíbrio emocional que resultou em violência.

“Permitam-me acrescentar que nunca será de mais sublinhar a importância da relação entre causa e efeito da pornografia com a violência. As maiores autoridades jurídicas do país não se cansam de repetir que caso se possa comprovar que um livro carregado de sexo incita uma conduta anti-social, esse livro tem tanto direito de circular livremente no seio de uma sociedade civilizada como um louco ou um assassino. O Estado propõe-se fornecer essa comprovação. Apresentaremos especialistas psiquiátricos...” Barret levantou-se no mesmo instante.

- Protesto, Meritíssimo. O representante do Povo está-se a exceder na sua exposição inicial.

- Protesto aceite - disse o juiz Upshaw. Dirigindo-se ao Promotor Público:

- Mr. Duncan, queira restringir-se a factos de que tenciona aduzir provas, abstendo-se de comentários que pertencem à esfera das suas considerações finais.

Duncan recebeu, aparentemente, a repreensão de bom grado.

- Obrigado, Meritíssimo - tornou a dedicar atenção aos jurados. - Deixem-me dizer-lhes que as nossas testemunhas especializadas incluirão psiquiatras familiarizados com os efeitos dos materiais pornográficos sobre a mentalidade da juventude. As nossas testemunhas também incluirão, talvez pela primeira vez em tribunal americano, uma vítima concreta dessa literatura de sarjeta.

“Ao provar o referido ponto... na realidade, todos os três pontos que acabo de lhes apresentar... não só provaremos que o réu transgrediu a lei e merece ser considerado culpado das acusações, como também provaremos, como se deve, que a obra de ficção obscena que o réu distribuiu era igualmente culpada e precisa, por conseguinte, de ser banida das vistas do público.

- Sim, senhoras e senhores, banida! Para vencer a nossa causa, comprometemo-nos a provar, e provaremos, que invocar a censura de obras imorais priva tanto os direitos e liberdades humanos como invocar a prisão e confinamento para indivíduos que causaram danos às nossas comunidades por actos de violência. Mostraremos porque, ao condenar uma obra de obscenidade, não transgredimos nem cerceamos os direitos individuais protegidos pela Primeira Emenda da Constituição, que promete que o Congresso não homologará nenhuma lei "privando da liberdade de expressão ou da imprensa".

“Senhoras e senhores do júri, nos dias vindouros procuraremos demonstrar que este livro, Os Sete Minutos, é totalmente obsceno e destituído de qualquer importância social compensatória, encontrando-se, portanto, fora da protecção garantida pela Primeira Emenda da nossa Constituição. Provaremos que esse livro merece ser censurado.

Tentaremos provar a premissa expressa com tanta clareza por Norman Thomas, candidato socialista à Presidência dos Estados Unidos... sim, por Norman Thomas, um radical na luta constante para preservar as nossas liberdades... que declarou a uma subcomissão do Senado dos Estados Unidos em 1955: "Não estou nada impressionado pelo grau com que os defensores de pornografia... pura e simples, querem forçar a Primeira Emenda. Não creio que a Primeira Emenda ofereça qualquer garantia aos homens para seduzir inocentes, explorar o tipo de mentalidade imatura e as emoções inexperientes de crianças e adolescentes... Não creio que para proteger as liberdades fundamentais da imprensa tenhamos de submeter os nossos filhos, que são, em certo sentido, a custódia de toda a nossa sociedade, ao género de exploração visual de baixas emoções, e ao incitamento dessas baixas emoções, para os quais, evidentemente, essa literatura pornográfica... e todo o resto se dirigem".”

Enquanto escutava, Mike Barrett sentiu que Zelkin o acotovelava.

- Pelo amor de Deus, Mike -cochichou Zelkin, veemente -, ele está a antecipar-se e a refutá-lo a você. Você não vai...?

Durante os últimos comentários de Elmo Duncan, Barrett havia-se preparado instintivamente para o interromper com um protesto. O Promotor Público estava de facto a apresentar dados sem cabimento numa exposição inicial. O que dissuadira Barrett de intervir fora o desejo de limitar os seus protestos a observações totalmente desvantajosas. Sabia que um número excessivo de protestos muitas vezes aliena a simpatia dos jurados. Contudo Zelkin tinha razão. Duncan estava a ultrapassar as medidas.

Barrett levantou o braço e pôs-se de pé.

- Protesto, Meritíssimo. O Promotor Público está a entrar no mérito da questão e a apresentar provas na sua declaração inicial.

- Protesto aceite - replicou logo o juiz Upshaw. Olhou irritado para o Promotor.

- Mr. Duncan, o senhor conhece perfeitamente os limites de uma exposição inicial. Torno a adverti-lo para que se contenha dentro deles.

- Obrigado, Meritíssimo- disse Duncan. - Desculpe. Para Barrett, porém, observando o seu rival da mesa de defesa, Elmo Duncan parecia tudo menos arrependido. Pelo contrário, mantinha-se num comportamento satisfeito e descontraído. Era como se soubesse que, apesar das censuras do magistrado, conquistara os jurados e estava agora para as observações finais.

- Senhoras e senhores do júri – continuou Duncan - na apresentação das nossas testemunhas e provas, provaremos que é o homem comum e o meio em que ele vive que se sentem ultrajados e prejudicados pelos ingredientes deste livro. Afirmaremos que é o homem comum, e não o excepcional, o erudito, o liberal, o intelectual, que deve interpretar as nossas leis sobre a censura. Pois, tal como um juiz so Supremo Tribunal de Nova Iorque, ao considerar "O Trópico de Câncer", de Henry Miller, como obra obscena, explicou... isso não implica “que só porque uma pretensa obra literária não desperta interesse libidinoso num reduzido grupo de intelectuais, não seja obscena sob o ponto de vista interesse libidinoso ou mesmo de qualquer outro teste legal de obscenidade. Isso redundaria na substituição das opiniões de autores e críticos por aquelas da pessoa média na comunidade contemporânea.” Não, é o homem comum...

Barrett já aguentara o suficiente. Aquilo era nocivo à defesa. Meio levantado, ergueu o braço para o juiz Upshaw.

- Vejo-me forçado a protestar, Meritíssimo. Mr. Duncan não só está a entrar no mérito da questão, em vez de apresentá-la em linhas gerais, como passou agora a debater com as testemunhas de defesa antes que lhes fosse dada oportunidade para depor. O meu protesto fundamenta-se no facto de que o Promotor Público está a aduzir as suas considerações finais em lugar de fazer uma exposição inicial.

- Protesto aceite! -afirmou o juiz Upshaw enfaticamente.

E dirigindo-se ao Promotor:

- Mr. Duncan, o senhor ultrapassou os limites da exposição inicial não apenas uma mas diversas vezes. Apresentou provas, entrou no mérito da questão, desrespeitou a regra processual. Advirto-o energicamente que se abstenha de usar no início factos que pertencem propriamente ao seu resumo final.

Duncan parecia genuinamente contrito.

- Peço-lhe desculpas, Meritíssimo. Espero que me perdoe o excesso de entusiasmo. Senti-me ansioso por desenvolver, tanto quanto possível, os pontos legais que tentaremos provar.

O juiz Upshaw não se aplacou.

- Mr. Duncan, em relação ao protesto a que acabo de dar acolhida, o senhor não estava a tentar provar um ponto legal... o senhor estava a tentar advogar em causa própria. Isso eu não posso permitir. Queira continuar.

Momentaneamente desalentado, Duncan fez visível esforço para recobrar a firmeza enquanto tornava a virar-se para o júri.

- Senhoras e senhores jurados, direi simplesmente que procuraremos substanciar, através da apresentação de depoimentos e provas, o facto de que o conteúdo de Os Sete Minutos seria considerado como aliciador de interesse libidinoso pela pessoa média da comunidade.

“Sustentaremos a afirmativa de que o livreiro e réu sob julgamento, Ben Fremont, distribuiu esse romance nocivo perfeitamente ciente de que grande número de leitores o compraria, não porque seja uma obra literária, mas sobretudo porque é uma obra da mais reles pornografia... forjada, como também provaremos, por um autor dotado do olho lúbrico do pornógrafo e comerciante profissional, que jamais teve qualquer intenção de imprimir a essa obra a mínima importância social.

“Se me permitem concluir com uma nota de frivolidade, lembro-me da ocasião em que O Amante de Lady Chatterley foi defendido como obra de pura arte, sem nenhum atractivo para o interesse libidinoso, o que fez com que um juiz da corte de recursos, o juiz Leonard P. Moore, comentasse com certo sarcasmo: "Quanto ao interesse libidinoso, ninguém pode dar-se ao luxo de ser tão ingénuo a ponto de acreditar que a avalancha de vendas foi consequência de uma súbita curiosidade por parte do público americano em conhecer os problemas administrativos de um guarda florestal profissional de uma herdade inglesa".”

Os jurados acharam graça e Duncan notou-o com um sorriso de satisfação. Depois, passando a mão pelo cabelo, fez uma massagem na nuca e preparou-se para continuar.

Na mesa de defesa, Barrett tinha pensado em protestar contra essa irrelevância, mas, legal ou não, os jurados tinham-se divertido, e levantar um protesto contra o que lhes dera prazer talvez os hostilizasse, deixando-os surdos para a defesa. Toda a vantagem legal nesse terreno, decidiu Barrett, implicava numa possibilidade de perda. Com dificuldade, conservou-se em silêncio.

Duncan já recomeçara.

- Como Promotor Público -dizia -, pretendo dedicar-me, neste julgamento, à proposição de que os Sete Minutos, de J J Jadway, não foi escrito, editado, vendido e comprado, porque o público leitor americano quisesse saber como uma moça pode ficar deitada na cama durante sete minutos sem camisola e não morrer de frio... ou imaginar o que ela se põe a pensar durante sete longos minutos, quando não consegue contar ovelhas para vencer a insónia. Não, eu não creio que tenha sido por causa disso.

Vários jurados abafaram perceptivelmente o riso, mas Duncan fingiu não notar. O sorriso desaparecera do seu rosto. Estava intensamente sério.

- A Promotoria afirma que este livro não foi escrito, editado, vendido e se destinava a ser comprado exclusivamente como obra obscena, apelando para um interesse vergonhoso ou mórbido por nudez, sexo e excreção. Isto é o que eu, o que nós, afirmamos, e isto, senhoras e senhores jurados, é o que provaremos neste tribunal de justiça. Muito obrigado.

Elmo Duncan afastou-se do compartimento dos jurados e por um instante o seu olhar cruzou-se com o de Barrett, e os seus lábios viraram-se ligeiramente para cima - de pena, julgou Barrett - encaminhando-se depois para a sua mesa na extremidade oposta da sala.

- Mr. Barrett... - a cabeça de Barrett ergueu-se, percebendo que o juiz Pshaw se lhe dirigia -, ... o senhor está pronto a fazer a exposição inicial agora ou deseja adiá-la?

Barrett levantou-se logo.

- Gostaria de fazê-la agora, Meritíssimo.

- Queira prosseguir.

Com rápido olhar para Zelkin e Ben Fremont, Barrett empurrou a cadeira para o lado, abandonou a segurança da mesa de defesa e aproximou-se dos jurados. Pôde verificar que muitos deles o examinavam ou avaliavam com curiosidade, e conjecturou sobre o que estariam a pensar. Ainda sob a influência da exposição - discussão, mais propriamente- inicial de Duncan, decerto se diziam que tudo o que poderia ser dito já o fora, tentando adivinhar o que restava para este desconhecido lhes revelar.

Barrett consolou-se com a ideia de que é sempre isso Que acontece quando o adversário toma a precedência da Palavra e que a situação se agrava ainda mais se o primeiro orador causou algum impacto. Os ouvintes, então, sofrem uma lavagem cerebral, sentindo-se saciados e conquistados, e renitentes, incrédulos ou desatentos a tudo que for novo ou se quiser acrescentar. Como segundo colocado, tem de se fazer duro esforço até alcançá-lo. É preciso lutar e suar a despertar-lhes o interesse, e, depois de consegui-lo, proceder a uma nova lavagem cerebral, só então lhes fornecendo imagens inéditas, na esperança de que tenham a capacidade de as aceitar.

Esfregando despreocupadamente a lapela com a mão, Barrett lembrou-se de que existia um meio de lhes conquistar a atenção imediata. Assombrá-los. Surpreendê-los, sem insultar nem hostilizar. Não era fácil. Porque não se achava ainda empenhado em debate, o toma-lá-dá-cá trocado entre a acusação e a defesa durante a inquirição de uma testemunha específica. Por enquanto, não convinha chocar o espírito dos jurados, opondo-se ou refutando alguma coisa que Duncan ou as suas testemunhas tivessem metido nas cabeças deles. Era-lhe impossível argumentar contra as afirmativas da acusação, a fim de as demolir para abrir caminho às suas. Podia apenas declarar que havia um segundo aspecto sobre essa questão de censura, um aspecto vital e coercitivo. Não seria tão eficaz como debate, e portanto não se tornaria fácil deslocar os preconceitos já arreigados do júri ou erradicar essas opiniões.

Ali estavam eles, todos os doze, à espera das suas palavras. Aquelas fisionomias gordas, magras, abertas, fechadas, carnudas, ossudas não ofereciam amizade, além de uma cortesia formal, não ofereciam nada, excepto branda curiosidade e desafios à sua habilidade. Mas tentaria.

Muito bem. Exposição inicial. Sem entrar no mérito da questão.

- Senhoras e senhores jurados - começou Barrett -, o nobre colega sentado a meu lado à mesa mais próxima, Mr. Abraham Zelkin, e eu representamos a defesa neste complexo caso de censura. Uma vez que Mr. Duncan, o ilustre representante do Estado, apresentou com tanta competência a lei sobre obscenidade criminosa do Código Penal da Califórnia, assim como definições legais das palavras “obsceno” e “libidinoso”, não vejo razão para sobrecarregá-los com repetições do que ele já disse.

“Entretanto, ao definir essa lei, ao interpretá-la, ao examiná-la para verificar se ela é aplicável ao réu, Mr. Ben Fremont, ou a Mr. Jadway, autor do livro em julgamento, ou ao próprio livro, deparamos com um problema. Mr. Duncan deixou bem claro que só procura a verdade neste caso. Acredito. Estou certo de que os senhores também. Posso afiançar-lhes que o meu colega e eu, igualmente, procuramos unicamente a verdade neste caso. Tenho a certeza de que Mr. Duncan acredita em mim, e espero que os senhores também. Em suma, ambas as partes procuram a verdade, e acreditam tê-la encontrado. Mas, por estranho que pareça, essas verdades não são idênticas. Existem duas, e no entanto os senhores e eu fomos criados na crença de que só pode existir uma. Avaliar ambas, sem resolver qual a autêntica e qual a impostora, já que as duas são autênticas, é esse o problema, o problema dos senhores... descobrir qual a verdade mais aplicável a este caso que diz respeito à venda que Mr. Fremont fez de exemplares de Os Sete Minutos, de J J Jadway.

“Eu simpatizo com o problema dos senhores. Afinal de contas, o mais americano de todos os ensaístas e filósofos americanos, Ralph Waldo Emerson, já advertiu no século passado que a verdade é um artigo tão leviano, tão velhaco, e tão impossível de se transportar e guardar em qualquer recipiente, que fica mais difícil de apanhar do que a própria luz. Contudo, ao expor-lhes o plano e certos pormenores das nossas alegações de defesa, permitam-me que tente apanhar a luz, a fim de lançar um pouco da sua claridade sobre a nossa própria imagem do que constitui a verdade final deste caso.

“Já sabem o que diz a lei do Estado no que toca à obscenidade. Ouviram Mr. Duncan afirmar que ela corrobora a verdade e as alegações da acusação. Agora permitam-me definir a nossa verdade em nome da defesa.

“O ponto primordial em que a defesa se apoiará, durante todo este julgamento, é que a palavra "obsceno" e a palavra "sexo" não são sinónimas, nem se confundem.”

Barrett escutou o arrastar de uma cadeira do outro lado do tribunal, e virou-se para ver Elmo Duncan pôr-se de pé.

- Protesto, Meritíssimo - disse Duncan. - O nobre colega da defesa está indubitavelmente a entrar no mérito da questão.

Barrett olhou para o juiz Upshaw, que tinha a testa franzida.

- Não creio que ele esteja a fazer isso, Mr. Duncan. Ele está definindo. Uma definição pode originar-se numa premissa negativa. Devo indeferir o protesto, permitindo que. o advogado de defesa desenvolva a definição... Mr. Barrett, queira prosseguir nessa linha, mas com prudência. Tome cuidado para não ultrapassar os limites de uma exposição inicial.

Por um instante, as esperanças de Barrett haviam quedado em suspenso, ameaçadas, prestes a ficarem fora do seu alcance. Agora quase desfalecia de alívio, agarrando-se novamente a elas. Virou-se cheio de optimismo para o júri. - Senhoras e senhores - disse com serena insistência -, no decurso deste julgamento, a defesa tentará provar que só porque o livro Os Sete Minutos desenrola o seu drama dentro da estrutura do acto sexual, isso não o torna automaticamente uma obra de obscenidade. Um estudante de censura, Robert W. Haney, escreveu: “A lei, tal como é concebida na Declaração de Independência, não é expediente social para propagar a causa da virtude. Ela é um expediente protector que assegura a liberdade e as oportunidades de que os homens necessitam para a sua felicidade e evolução. A liberdade não é o direito de ser virtuoso; é o direito de fazer o que se quiser... limitado apenas quando o seu exercício individual arrisca a liberdade alheia, ou quando resulta em acções públicas que a sociedade considera ruinosas para os seus próprios objectivos."

“Senhoras e senhores jurados, nunca será de mais sublinhar essa interpretação da nossa lei. Nenhuma legislação federal ou do estado da Califórnia foi promulgada no intuito de promover a virtude, e sim de proteger a liberdade. A lei de obscenidade que instigou este julgamento não foi colocada no Código Penal, a fim de inibir a escritura e leitura a respeito de sexo ou fomentar o puritanismo. Ela está no Código Penal apenas para proteger os cidadãos contra a distorção inescrupulosa e a deturpação de actos sexuais puros e sadios.

“O método da defesa neste caso será orientado pela sabedoria de alguns dos espíritos legais mais eminentes da nossa época. Foi o juiz Jerome Frank que uma vez incluiu o seguinte numa sentença: "Creio que nenhum homem sensato julga socialmente perigoso o incitamento de desejos sexuais normais. Consequentemente, se a leitura de livros obscenos tem esse mero resultado, o Congresso, ao que tudo indica, tanto pode, constitucionalmente, proibir livros como poderia impedir a remessa postal de muitos outros objectos, como perfumes, por exemplo, que produzem sabidamente o mesmo resultado."

“Sim, com efeito, se um livro deve ser censurado por despertar o desejo, quando submeteremos Arpège a julgamento?”

Apesar de vários jurados sorrirem, e alguns até soltarem gargalhadas, Barrett pôde ouvir o protesto retumbante do Promotor Público nas suas costas.

Barrett virou-se a tempo de ouvir o juiz Upshaw concordar com Duncan.

- Protesto aceite... Mr. Barrett, o senhor está-se a exceder. Devo adverti-lo... o senhor ultrapassou os limites da exposição inicial.

Barrett curvou ligeiramente a cabeça.

- Desculpe, Meritíssimo - lembrou-se das palavras anteriores de Duncan e repetiu-as. - Espero que me perdoe o excesso de entusiasmo.

Pôde ver a carranca de Duncan, depois o largo sorriso de Zelkin, e mais uma vez enfrentou o júri. O seu adversário tinha aberto a porta para entrar no mérito da questão. Ele tirara partido disso para invadir as ideias do júri. Certificava-se, finalmente, de que o aceitavam em termos de igualdade com o Promotor Público. Ainda bem.

- Senhoras e senhores jurados - prosseguiu Barrett. - O ilustre Promotor Público disse-nos que em casos de censura, concentrados no mérito ou falta de mérito social de uma obra literária, o testemunho não pode consistir inteiramente de factos mas deve, por necessidade, incluir também a opinião de especialistas. Sobre isso concordamos. Sempre que pudermos, apresentar-lhes-emos factos em defesa de Os Sete Minutos e do direito de Mr. Fremont vendê-lo. Com maior frequência, uma vez que a importância social do livro... uma vez a história de sexo que ele retraía... uma vez que o seu valor... dependem da opinião humana, apresentaremos como prova do seu valor especialistas típicos que prestarão depoimento sobre os motivos do autor e do significado da sua obra criadora, e também apresentaremos a suposta pessoa média em cuja sociedade contemporânea o livro está a ser vendido.

- O primeiro precedente para admitir a opinião de especialistas num julgamento ocorreu no passado ano de 1917, durante um processo de censura em Nova Iorque em torno do clássico francês Mademoiselle de Maupin, de Gautier. Nesse julgamento os juizes aceitaram, em apoio ao clássico, testemunhos literários com citações de Henry James e outras famosas personalidades da literatura. Depois, em 1938, quando a revista Life foi levada aos tribunais por publicar um artigo ilustrado com o título O Nascimento de Uma Criança, que uma organização religiosa condenou e os servidores da lei em Nova Iorque acusaram de obsceno, indecente, lascivo e nojento - o nascimento de uma criança lascivo e nojento - só então é que a opinião de especialistas Que compareceram para prestar depoimento se transformou em factor decisivo para resolver um processo penal de obscenidade. Disse o juiz, ao pronunciar o veredicto de absolvição, que a defesa havia apresentado como testemunhas autoridades responsáveis pela saúde pública, funcionários da assistência social e educadores que atestaram a sinceridade, honestidade e valor educativo do artigo ilustrado, objecto da queixa. Embora a acusação protestasse contra o depoimento dessas testemunhas, e o tribunal concordasse que a acusação tinha razão de registar tal protesto, o juiz acrescentou: “Uma prova desse género é, entretanto, racionalmente útil e nos últimos anos os tribunais têm acolhido opiniões de pessoas qualificadas."

“E assim a defesa se apoiará decididamente na opinião de pessoas qualificadas. Através delas, provaremos que Os Sete Minutos foi concebido com integridade artística, sendo aceite em muitos sectores como obra-prima literária e tendo sobrevivido para se tornar um marco de ilustração na nossa compreensão das relações entre os sexos e do sexo propriamente dito. Por intermédio dessas pessoas qualificadas, provaremos que os critérios da comunidade contemporânea não são estáveis, não sendo hoje os mesmos de uma década, meio século ou um século atrás, e que J J Jadway foi profeta quando produziu há mais de trinta anos uma obra que está em sintonia com a mudança e o progresso de critérios contemporâneos tal como os conhecemos actualmente. E haveremos de provar que, ainda mesmo que parte do livro esteja adiantada para a nossa época, merece contudo ser conhecida.”

Sentia-se seriamente tentado a elaborar.

Ganhando tempo para determinar se valeria a pena correr o risco de ultrapassar as restrições da sua exposição inicial, Barrett afastou-se dos jurados e tomou um demorado gole de água do copo em cima da mesa da defesa.

Pensou em tentar incluir uma citação do ministro Douglas do Supremo Tribunal: “O Governo devia preocupar-se com a conduta anti-social e não com declarações públicas-Desse modo, se a garantia da liberdade de expressão e de imprensa da Primeira Emenda pretende significar algo nesse sector, deve permitir protestos até contra o código moral que o critério da época estabelece para a comunidade. Em outras palavras, a literatura não deve ser proibida apenas por ofender o código moral do censor.”

Isto, naturalmente, constituía prova inadequada, mas ele podia encontrar um modo de incluí-la antes de ser detido por algum protesto, tal como Duncan havia conseguido fazer durante a sua própria exposição.

Ponderou sobre o que deveria talvez dizer logo em seguida. Quem sabe: “Também será nosso argumento, apoiado pelo depoimento de testemunhas, que Os Sete Minutos precisa de ser julgado exclusivamente pelas manifestações do autor. Qualquer prova que alegue que a leitura desse livro provocou uma conduta anti-social, afirmaremos que é legalmente inadmissível e, se por acaso for considerada de maneira contrária, provaremos que não se baseia em factos. Segundo uma definição do Código Penal da Califórnia, fundamentada na acção de Roth contra os Estados Unidos em 1957: “A punição por obscenidade não depende de demonstrar que o material obsceno cria perigo nítido e iminente de conduta anti-social ou probabilidade de que induza os seus portadores a semelhante conduta.” Sustentaremos, até ficarmos convencidos do contrário, que a conduta resultante da leitura de um livro não recebe apoio legal neste julgamento de censura. Se o Meritíssimo decidir que de facto recebe, então provaremos, pela introdução de autoridade especializada, que... nas palavras de um ministro do Supremo Tribunal... a matéria escrita não representa factor significativo, em comparação com outros factores, para influenciar um desvio individual dos critérios da comunidade.”

Se essa declaração não fosse contestada, Barrett achou que poderia tentar esclarecê-la ainda mais: “Em caso de necessidade, provaremos que a leitura erótica não gera violência. O Dr. Wardell B. Pomeroy, quando associado com o Instituto Kinsey de Pesquisa Sexual, participou de entrevistas colectivas que abrangiam mais de dezoito mil pessoas. Ele descobriu que as obras pornográficas representavam estímulos sexuais insignificantes. Neste julgamento, estamos preparados para substanciar essa descoberta com o depoimento das nossas próprias testemunhas. E onde as obras pornográficas de facto produzem, no leitor, fantasias sexuais, estamos preparados para provar não só que isso é inofensivo como até, geralmente, possui efeito salutar. Segundo o Dr. Sol Gordon, de Nova Iorque: “Em treze anos de prática de psicologia clínica, nunca encontrei um único adolescente que ficasse prejudicado, em qualquer sentido, Pela leitura de pornografia. A minha convicção pessoal, baseada na experiência, é que as pessoas que organizam cruzadas contra a pornografia são, via de regra, as mesmas que se opõem à educação sexual e que espalham a noção neurótica de que um pensamento pode ser nocivo. Se essas pessoas pudessem ao menos compreender que os Pensamentos, devaneios, fantasias e desejos em si não são crimináveis, obter-se-ia uma grande vitória para a saúde mental.” Efectivamente, anos atrás. Havelock Ellis sugeriu que assim como as crianças encontram refúgio nos contos de fadas, os adultos encontram alívio semelhante na leitura de ficção sexual. Mais recentemente, dois psicanalistas eminentes, os Drs. Phyllis e Eberhard Kronhausen, chegaram à conclusão de que tanto a leitura do realismo erótico como da obscena constitui prática aconselhável, porque proporciona uma válvula de segurança aos sentimentos anti-sociais, desviando-os para actos de mera fantasia.”

Elaborar ou não elaborar, eis o dilema íntimo de Barrett. O que podia ser tentado passara-lhe pela ideia em questão de segundos. Agora procurava resolver mentalmente o dilema. O juiz Upshaw havia tolerado o empenho de Duncan, e o seu, em incluir considerações finais na exposição inicial, e a essa altura o magistrado provavelmente não toleraria mais. Uma repreensão severa ou cáustica do juiz anularia tudo o que Barrett conquistara para a defesa. Era inútil. Precisava de ater-se às regras.

O olhar de Barrett deteve-se em Zelkin. Parecia que o sócio entendera o que lhe passava pela cabeça, porque lhe fez um aceno quase imperceptível. Tranquilizado, Barrett largou o copo e virou-se para os jurados.

- O ilustre Promotor Público - prosseguiu - vê neste caso um composto de três problemas. Como advogado da defesa, vejo nele apenas um... nem três, nem dois, mas apenas um. O primeiro apresentado pelo Estado, a saber, se Ben Fremont distribuiu ou não um livro chamado Os Sete Minutos, não representa problema para a defesa. Nós admitimos que Mr. Fremont expôs e vendeu tal livro. O seu negócio é vender livros. Ele não é um árbitro da literatura. É o proprietário de uma livraria na comunidade de Oakwood, e a sua actividade e sustento são a venda de livros durante o ano inteiro. É membro daquela nobre profissão que Thomas Jefferson defendeu em 1814 ao escrever a um livreiro perseguido em Filadélfia: “Sinto-me realmente mortificado por saber que nos Estados Unidos da América... uma questão referente a um livro pode ser levada perante o magistrado civil."

“Quanto ao segundo problema apresentado pelo Estado, de que Mr. Fremont vendeu conscientemente um livro obsceno, achamos que esse pretenso problema não constitui um problema propriamente dito, mas apenas parte do problema maior que reconhecemos como fundamental para este julgamento. Porque, para a defesa, o único problema que resta é determinar se Os Sete Minutos de J J Jadway é legalmente obsceno. Toda a questão, no nosso entender, se resume no que é e no que não é obsceno.”

Mais uma vez, Barrett ficou tentado a pisar areia movediça, num esforço de frisar o seu ponto.

Estava doido por contar uma anedota que talvez obtivesse efeito seguro. Queria dizer: “Pode alguém ditar preferências, quando os gostos e tabus diferem tanto? Diferem de estado para estado desta União, e em cada país deste mundo. Basta lembrar a história de Sir Richard Burton sobre um grupo de ingleses que foi visitar um sultão muçulmano no deserto. Sob os olhos da comitiva em peso, a esposa do muçulmano caiu do camelo que montava. Na queda, o vestido abriu-se e as suas partes íntimas ficaram expostas a todos. O Sultão perturbou-se com aquilo? Muito pelo contrário, achou óptimo... porque a esposa manteve o rosto coberto durante o acidente.”

Barrett tinha a certeza de que os jurados gostariam da anedota e que teria provado o que queria dizer. Entretanto sabia que a esposa do sultão não teria tempo de cair do camelo. O protesto de Duncan antecipar-se-ia à queda. Não havia vantagem nenhuma em desperdiçar a mulher do sultão nessa altura.

Com imperceptível suspiro, Barrett resolveu seguir pelo caminho recto e estreito da prática forense.

- Senhoras e senhores jurados, se pudermos provar, como é nosso intuito, que esse livro foi escrito com honestidade, que o seu conteúdo não ultrapassa os limites de franqueza, segundo os critérios da comunidade contemporânea, que a história que narra é artística e de ampla importância social, então teremos provado que essa obra não transgrediu o Artigo 311, parágrafo 2º do Código Penal da Califórnia. E se não é, por conseguinte, obsceno, então Mr. Fremont, forçosamente, não pode ser acusado de haver distribuído conscientemente uma obra obscena. Por outras palavras, se pudermos provar satisfatoriamente aos excelentíssimos membros do júri que Os Sete Minutos não é obsceno, então tornar-se-á evidente que teremos provado que Ben Fremont está inocente de qualquer crime.

Mike Barrett hesitou. Antes tinha planeado terminar com uma observação diferente. Com uma figura de retórica, mesmo. De facto, chegara a ensaiar de manhã, antes de vir Para o tribunal:

“Certa vez. da suprema magistratura do país, o ministro Frankfurter emitiu a seguinte opinião ao votar contra um recurso a favor da censura. “O Estado”, disse ele,  “insiste em que, pondo assim de quarentena o público leitor em geral contra livros não excessivamente escabrosos para homens e mulheres adultos, com o fito de resguardar a inocência juvenil, está a exercer o seu poder para promover o bem-estar geral. Não há dúvida que isso equivale a queimar a casa para assar o porco."

“Senhoras e senhores jurados, nesta homilia a defesa encontrou o lema para colocar na bandeira que será levantada bem alta durante todo este julgamento, e é ela que nos levará aonde precisamos de ir.

“Recusamo-nos a queimar a nossa casa... a nossa e a sua... apenas para assar um porco.”

Bonito. Positivo. E agora, nesta atmosfera cada vez mais intolerante, totalmente inadmissível.

Maldição.

O que era que acabava de dizer ao júri? Ah, sim. Se pudermos provar que Os Sete Minutos não é obsceno, teremos provado que Ben Fremont está isento de qualquer crime.

Convinha mais terminar com esse acorde perfeito do que com a dissonância de um protesto de Duncan.

Barrett fixou o olhar nos jurados.

- Os senhores ouviram a nossa promessa - disse. - Em breve ouvirão as nossas provas - fez uma pausa. - Senhoras e senhores jurados, muito obrigado.

Voltando à sua cadeira atrás da mesa da defesa, Barrett sentiu que tinha esgotado cada músculo, filamento e tecido nervoso do seu organismo. Parecia-lhe que se havia reduzido a um mero feixe de ossos. Observando, porém, as expressões fisionómicas de Abel Zelkin e Ben Fremont, percebeu que o esforço valera a pena.

Ben Fremont, limpando os óculos, entusiasmado, curvou-se para ele.

^O senhor fez-me sentir muito melhor, Mr. Barrett.

- Óptimo, óptimo - Barrett olhou para Zelkin. - Como foi que eu me saí, Abe?

- Magnificamente. Conseguiu afinal que prestassem atenção. Acho que você se pôs à altura de Duncan. Eu diria que o primeiro assalto terminou empatado. O que a meu ver é para lá de bom.

- Para mim também é - concordou Barrett. Sacudiu a cabeça. - Daqui para a frente, a não ser que caia algum maná do céu. creio que nos vamos enrascar e rolar até ao fundo da ladeira.

- Não coloque o carro à frente dos bois - preveniu Zelkin.

Barrett notou que uma cortina de silêncio envolvia a sala.

O juiz Upshaw tinha terminado de tomar algumas anotações e dirigia-se agora ao Promotor Público.

- Queira chamar a sua primeira testemunha - ordenou.

- Obrigado, Meritíssimo - disse Duncan, já de pé. Olhou rapidamente para o público. - O Povo chama o guarda Otto Kellog, por favor.

Em poucos segundos, Kellog, corpulento polícia à paisana, de fato escuro, apressou-se a cruzar a grade, atravessando o tribunal e colocando-se em posição de sentido diante da cadeira das testemunhas. O altíssimo escrivão galopou feito girafa ao seu encontro, estendendo-lhe logo a Bíblia encadernada de couro preto.

- Ponha por favor a mão esquerda sobre a Bíblia e depois levante a direita.

O guarda Kellog pôs a manápula sobre a Bíblia. A voz esganiçada do escrivão matraqueou como metralhadora.

- Jura por Deus que o testemunho que irá prestar na acção em julgamento perante este tribunal corresponderá à verdade, a toda a verdade e nada mais que a verdade?

- Juro.

- Declare o seu nome, por favor.

- Otto C. Kellog. K-e-l-l-o-g.

- Pode sentar-se.

Kellog sentou-se com toda a calma e ficou na expectativa, como alguém já acostumado àquele papel. O escrivão do tribunal desaparecera silenciosamente com a Bíblia e o seu lugar agora estava tomado pelo Promotor Público.

- Agente Kellog, o senhor quer ter a gentileza de nos informar qual é a sua ocupação? - perguntou Duncan.

- Sou agente policial. Sargento destacado para a Divisão de Costumes da Delegacia Municipal de Los Angeles.

- Sargento, no seu trabalho na Divisão de Costumes, costuma andar sempre à paisana?

- Costumo.

- Agora diga-me, na data de dezanove de Maio do corrente ano, o senhor tinha motivo para visitar as dependências situadas no número 1301 da Rua Três Norte em Oakwood, no município de Los Angeles, Califórnia?

- Tinha, sim senhor.

- E nessa ocasião, vestia o seu habitual fato à paisana? -Sim, senhor Promotor.

- Pode dizer-me exactamente o tipo de construção situada no número 1301 da Rua Três Norte em Oakwood?

- É uma loja. Alugada por Ben Fremont, dono do Empório de Livros.

- E o senhor visitou essas dependências. Chegou sozinho ao local?

- Não senhor. Cheguei com os meus companheiros, o agente Izaac Iverson e o agente Anthony Eubank. O senhor perguntou se entrei sozinho na livraria?

- Não, o senhor já respondeu ao que eu queria saber. Quero saber agora se os seus companheiros o acompanharam ao interior da loja.

- A primeira vez entrei sozinho, Sr. Promotor.

- Estava sozinho da primeira vez. Que pretendia fazer lá dentro?

- Dar a impressão de que era um comprador comum, que desejava comprar um livro prà esposa.

- E comprou?

- Comprei. Mr. Ben Fremont, o proprietário, vendeu-me um exemplar de um livro chamado Os Sete Minutos, de J J Jadway.

- Mas isso foi da primeira vez. O senhor entrou na livraria segunda vez?

- Sim, logo depois que comprei o livro. Fui lá fora, conversei um pouco com o meu companheiro, o agente Iverson, e depois voltámos juntos para a livraria.

- E qual foi a finalidade dessa segunda visita?

- Prender Mr. Fremont, Sr, Promotor, por transgressão do Artigo 311, parágrafo 2º do Código Penal da Califórnia.

À mesa da defesa, Mike Barrett escutava conscienciosamente o depoimento da primeira testemunha, mas agora o seu interesse começava a diminuir. Tudo aquilo lhe era familiar, já ouvira e lera antes a respeito. Ficou meio distraído, desenhando caricaturas dos jurados numa folha de bloco, poupando a concentração para a caça mais suculenta que ainda estava por vir.

Só uma vez, vinte minutos depois, Barrett se tornou totalmente alerta.

Duncan tínha perguntado à testemunha se Ben Fremont admitira que o livro de Jadway posto à venda era obsceno. O agente Kellog, referindo-se à sua gravação em fita da conversa, insistia em que o livreiro confessara que o romance de facto o era.

- Ele disse-me que era o livro mais proibido de todos os tempos - afirmou o agente Kellog. - Ele disse: “Foi proibido em todos os países do mundo porque foi considerado obsceno”. Essas foram as próprias palavras de Mr. Fremont.

Aquilo marcara um tento com os jurados, observou Barrett, começando imediatamente a rabiscar numa folha nova de rascunho, no mesmo instante em que Zelkin se pôs a procurar a cópia que tinham do traslado que fora feito da fita gravada pela Polícia no Fargo F-600 portátil que o agente Kellog levara escondido debaixo do braço.

Depois, fechando os ouvidos à interrogação contínua da testemunha, Barrett concentrou-se no único ponto chave que precisava refutar na sua inquirição. Acompanhou o dedo indicador de Zelkin à medida que avançava pelo traslado da gravação e sublinhava cada palavra da conversa de Ben Fremont com o agente Kellog antes da voz de prisão.

A pressa, Barrett tomou as suas anotações. Fremont realmente tinha dito ao agente naquela manhã de Maio: “É literatura”. Mais tarde o livreiro dissera: “Seja qual for o epíteto que lhe deram, obsceno ou sei lá o quê, não impede que seja uma obra-prima.” E quando o agente lançara a isca a Fremont, perguntando-lhe se ele considerava Os Sete Minutos obsceno, Fremont recusara-se - graças a Deus - a classificar o livro assim. “Quem sou eu para opinar? Trata-se apenas de um termo como outro qualquer. O que para muita gente é palavrão, outros acham bonito. Vá-se lá entender. Certas pessoas, a maioria talvez, dirão que é imoral... mas haverá uma porção que achará que vale a pena.” E depois: “Que se estão lixando prà imoralidade se no fim for uma leitura óptima, que lhes dê novos esclarecimentos e compreensão da natureza humana.”

Sorrindo consigo mesmo, Barrett largou finalmente o lápis.

Levantou os olhos. Sob a orientação de Duncan, o agente Kellog continuava a demonstrar as suas qualidades, dirigindo-se ao microfone e ao tribunal com segurança cada vez maior.

Você não perde por esperar, agente Kellog. Vai ver quando chegar a sua hora, pensou Barrett.

A hora de Kellog chegou trinta minutos depois.

Barrett tinha realmente pouca coisa a perguntar à testemunha durante a inquirição. Ressaltou o fingimento "O polícia em passar por freguês. Ressaltou o gravador de fita magnética que levara escondido. E as tentativas para apanhar no laço um pobre livreiro com perguntas capciosas.

Mas explorou ao máximo o facto de que a conversa de Ben Fremont, quando ouvida na íntegra, provava que o livreiro considerava o romance uma obra-prima literária, não o chamando obsceno em nenhuma ocasião.

Vitória modesta. Um simples equilíbrio dos pratos da balança da justiça. E do outro lado da verdade. Deixando tudo em seus devidos lugares, mais nada.

Aqueles eram meros figurantes, um coro grego, preparando a cena. Os intérpretes principais, as estrelas luminosas, não tardariam a fazer a sua entrada. Aí então nenhuma vitória seria modesta. E nenhuma derrota tão-pouco. Cada testemunha significaria, para a defesa, para a acusação, vida ou morte.

Mike Barrett tinha terminado com o agente Kellog. Duncan tornou a levantar-se para uma reinquirição, num esforço para proteger o depoimento enfraquecido pelas perguntas do antagonista. Essa tentativa foi curta e redundante. Barrett resolveu abrir mão do mesmo privilégio. Poupar-se-ia para o momento oportuno. E agora, aliás, estava com fome, o que era bom sinal.

O promotor público Duncan completara a reinquirição.

O juiz Upshaw girou a cadeira e pôs-se de frente para o banco das testemunhas.

- Sr. Agente, o senhor já está dispensado. Pode passar defronte do júri.

Enquanto a primeira testemunha deixava o banco, o juiz Upshaw expôs minuciosamente as suas instruções aos doze jurados.

- Agora suspendemos a audiência para o almoço, senhoras e senhores. Durante este intervalo, previno-os de que não podem conversar entre si, nem com outras pessoas, sobre qualquer assunto referente a esta acção. Tão-pouco exprimir ou formar opinião a seu respeito enquanto a questão lhes não for submetida in totó.

Bateu de leve com o martelo.

- Suspensão até às duas horas.

Depois do almoço, o juiz Upshaw, os jurados, os funcionários do tribunal ocupavam os seus lugares, e mais uma vez a imprensa e os espectadores apinhavam cada polegada disponível da sala.

Pondo-se de pé, o oficial de justiça declarou:

- Queiram permanecer sentados. O tribunal acha-se novamente em sessão.

O juiz Upshaw separou alguns papéis à sua frente e falou pelo microfone da escrivaninha.

A testemunha seguinte era o agente Izaac (“Ike”) Iverson, que estivera presente no Empório de Livros de Ben Fremont quando Kellog tinha prendido o livreiro. O Promotor Público orientou-o rapidamente durante o depoimento, que pouco mais fez do que corroborar o que o seu colega já mencionara sobre a prisão propriamente dita e o diálogo trocado com Fremont.

Na inquirição, percebendo que não havia quase nada no depoimento de Iverson que a defesa pudesse utilizar, Mike Barrett reduziu as perguntas ao mínimo. Abordou os antecedentes do agente Iverson como polícia e o tipo de missões que empreendera anteriormente para a Divisão de Costumes. A táctica de Barrett consistiu numa tentativa de mostrar ao júri como a lei era injusta em sujeitar um livreiro respeitável ao mesmo tratamento imposto a alcaiotes e prostitutas.

Com a apresentação da terceira testemunha do Povo, Barrett viu maiores possibilidades.

A terceira testemunha era o agente Anthony Eubank, que havia ficado no despercebido carro da Polícia do lado de fora da livraria, durante a compra do romance por Kellog e da prisão, subsequente. A tarefa do agente Eubank resumira-se em operar o aparelho Fargo F-600 que recebera e gravara as conversas no interior da loja. Interrogando-o, Duncan esforçou-se apenas em obter confirmação de que o emprego de gravadores em prisões desse género era rotineiro, e que o receptor e a fita magnética tinham registado com exactidão e correcção tudo o que fora dito por Ben Fremont e pelos dois agentes policiais.

Na sua inquirição, Barrett demonstrou pertinaz curiosidade sobre certos aspectos do aparelho Fargo F-600: os meios usados para dissimulá-lo, a maneira de apanhar o diálogo, o receptor com Kellog na loja e o gravador com Eubank no banco de trás. A determinada altura, Barrett sugeriu que trouxessem o equipamento ao tribunal, a fim de elucidar o júri sobre o modo de utilizá-lo. E, apesar de Duncan protestar debilmente que tal demonstração era irrelevante ao julgamento, o juiz Upshaw achou boa ideia.

Ao terminar a inquirição, Barrett notou que não fizera nenhum progresso. Tentara dar aos Jurados a impressão de que um cidadão ingénuo e desamparado fora vítima de uma conspiração policialesca. Tentara insinuar, sem jamais declarar, que Ben Fremont, comerciante sem malícia e pai de família comum como tantos membros do júri, se vira acossado por forças sinistras -agentes policiais disfarçados de compradores de livros, dissimulando equipamento de recepção e gravação, um técnico electrónico escondido num automóvel que parecia tudo menos um carro da Polícia. Fracassara em influenciar os jurados porque a testemunha não se achava talhada para o papel que Barrett lhe reservara. O agente Eubank mostrou-se cheio de entusiasmo por tudo o que se referisse à electrónica. Tinha tanto orgulho no seu aparelho Fargo F-600 como uma criança ao ganhar um novo jogo de construção na véspera de Natal. Foi franco, ardente, cativante: a última pessoa sobre a face da terra que se poderia associar a uma conspiração sinistra. Barrett chegou à conclusão de que, para a defesa, ele não servia para nada.

Bem, paciência, pensou Barrett, ao voltar para a sua mesa, por enquanto não se perdeu nem ganhou coisa nenhuma. O agente Eubank, como Kellog e Iverson que o tinham precedido, não possuía importância. Estes agentes eram apenas a carta preliminar. O principal ainda estava por vir.

Ou será que não? Elmo Duncan não se abraçaria logo ao problema fundamental, começando imediatamente a grande luta? Barrett olhou o relógio. Quatro e pouco. Resolveu que era improvável que a acusação fosse desfechar uma cartada de vulto a esta hora. A eficácia de uma testemunha-chave ficaria enfraquecida pelo intervalo iminente. No entanto, sabe-se lá.

- Mr. Duncan - dizia o juiz -, pode chamar a sua próxima testemunha.

Elmo Duncan tinha-se levantado e segurava um exemplar de Os Sete Minutos na edição da Sanford House.

- O Meritíssimo permite que nos aproximemos?

O juiz Upshaw concordou com um aceno de cabeça.

- Pois não, certamente... Mr. Barrett... Sr. Escrivão. Barrett reuniu-se rapidamente a Duncan e ao escrivão do tribunal, Alvin Cohen, perante o assento do magistrado. Barrett e Duncan estavam lado a lado, e o juiz Upshaw curvou-se ao máximo para a frente, de modo que os jurados não escutassem nada daquela conferência íntima.

- Meritíssimo - começou Duncan em voz baixa -. longe, da presença do júri, eu gostaria de propor que o Instrumento de Prova número Três... o número Três do povo... que é este exemplar de Os Sete Minutos comprado pelo agente Kellog, fosse acolhido como prova, mas com uma modificação. Não concordamos que a capa do livro seja incluída como instrumento.

- Um momento, Meritíssimo... - começou Barrett a protestar.

O juiz Upshaw ergueu a mão nodosa.

- Mr. Barrett, queira permitir que o Promotor Público termine o que está a dizer. Mr. Duncan, o senhor já terminou?

- Ainda não - respondeu Duncan. - Achamos que o livro deve entrar como prova sem a capa, porque estamos a tratar aqui do conteúdo do livro e não da publicidade que a capa contém, que não representa o que Jadway escreveu.

Virou o livro para mostrar o dorso da capa branca.

- Como o Meritíssimo pode ver, a contracapa contém, além de breve biografia do autor, uma série de citações a respeito do conteúdo do romance, extraídas de vários periódicos internacionais. Sustentamos que, já que essas citações representam, com efeito, declarações de outiva de inúmeros escritores, críticos e editores, e já que não temos oportunidade de intimar essas pessoas e trazê-las perante o tribunal para serem inquiridas, os seus supostos comentários na capa do livro não são admissíveis num julgamento que determinará se Os Sete Minutos é ou não obsceno.

- O senhor terminou?-perguntou o juiz Upshaw. - Muito bem. Agora deixe-me ver se entendi direito, Mr. Duncan. O senhor propõe que o tribunal aceite como Instrumento de Prova número Três do Povo um exemplar do livro Os Sete Minutos, sem a sobrecapa, que é como creio que é chamada. Confere?

- Perfeitamente, Meritíssimo.

O olhar do juiz Upshaw passou para Barrett.

- Agora dou-lhe a palavra, Mr. Barrett. Tem algum Protesto a fazer contra essa proposição?

_-^Sim, tenho. Protesto veementemente contra a proposição de Mr. Duncan - disse Barrett. -A acusação de Mr. Duncan baseia-se na compra de um romance supostamente.. obsceno. Concordamos em que Mr. Fremont vendeu um livro ao agente Kellog. Concordamos em que o agente Kellog comprou e pagou pelo livro em moeda corrente. Concordamos em que o livro, tal como Mr. Duncan o tem agora na sua mão direita, com a sobrecapa é a compra em litígio nesta acção. Os Sete Minutos saiu da oficina de encadernação no Leste com essa capa por cima. O livro e a capa constituem uma só unidade. O livro foi despachado do depósito para os revendedores e livrarias como a de Mr. Fremont nessa mesma embalagem, e Mr. Fremont pô-lo à venda dessa maneira. Foi assim que o agente Kellog o adquiriu. Acredito piamente que o tribunal e o júri têm todo o direito de considerar como prova qualquer parte da compra. Não acredito que só porque uma determinada porção da compra não convém ao Promotor Público, ele disponha de licença para removê-la, como tão-pouco acredito que ele possua o direito de tirar aqueles trechos do texto do livro que não têm interesse para ele porque não reforçam a sua acusação de imoralidade. O tribunal permitir-lhe-ia arrancar páginas...?

- Isso é ridículo - interrompeu Duncan irritado. - O nobre colega sabe perfeitamente que...

- Espere, Mr. Duncan - atalhou o juiz Upshaw. - Permita que Mr. Barrett complete o seu argumento. Prossiga, Mr. Barrett.

- Quanto a saber se as referências na capa são irrelevantes- disse Barrett -, há cinco citações escritas por cinco pessoas na década de trinta. Três são atribuídas aos periódicos em que foram publicadas, mas os escritores eram evidentemente membros da redacção das referidas publicações. Gostaria que tivéssemos tempo e dinheiro para identificar e intimar esses redactores mas não temos. Possuímos, contudo, cópias fotostáticas das publicações originais, para provar que as citações da capa do livro são autênticas. Com respeito às duas citações atribuídas a críticos, um deles já morreu há muito tempo, mas o outro continua vivo: é Sir Esmond Ingram, da Inglaterra, e a seu devido tempo ele se apresentará a este tribunal para submeter-se à inquirição. Quanto à natureza parcialista das citações, se o Meritíssimo as examinar, há-de certificar-se de que não são meros exageros, que algumas são favoráveis ao livro e outras não descontentariam totalmente a acusação. A do jornal do Vaticano, por exemplo, classificando-o como o livro mais proibido de todos os tempos. E também a do jornal francês, que diz que, embora brilhante, também é a obra mais obscena que se conhece. Em suma, tanto prós como contras. Se a defesa não se importa com os contras, porque há-de a acusação importar-se com os prós? Sustentamos que, a instigações de Duncan, um agente da Polícia comprou um objecto que estava à venda, objecto que o seu superior considerava obsceno, e se esse objecto é aceite como prova, insistimos em que deve ser aceite na sua totalidade, não em partes, mas como um todo.

O juiz Upshaw olhou para Duncan.

- Muito bem, Mr. Duncan, o senhor tem alguma coisa a acrescentar?

- Sim, Meritíssimo. Eu comparo o livro, se for aceite como prova junto com a capa, ao aparelho Fargo F-600, se for aceite como prova junto com a etiqueta de preço ainda colada nele, com o seu certificado de garantia ainda preso com fita durex, com a sua brochura de propaganda incluída, onde talvez se leia: “O conjunto de transmissor e receptor de maior aceitação no mundo inteiro, na opinião de cem destacados comerciantes.” Mr. Barrett estava interessado no aparelho Fargo F-600 propriamente dito, e não nos acessórios e adornos de vitrina extrínsecos. Repito, Meritíssimo, que essas declarações de cinco escritores, três dos quais anónimos, no dorso da capa representam provas de outiva, sendo inadmissíveis e prejudiciais ao caso da acusação, não possuindo nenhuma relevância objectiva para o problema fundamental, que é, em resumo, apurar se o livro de Jadway é ou não obsceno.

O juiz Upshaw espalmou as mãos em cima da escrivaninha.

- Está bem, senhores. Permitam-me decidir sobre o assunto. Ora, confesso que é um tanto insólito para o Promotor Público oferecer um instrumento de prova do qual ele quer que apenas uma parte seja aceite como tal. Ao mesmo tempo, não existe nenhuma lei inflexível que exija que materiais adquiridos numa única compra tenham de ser aceites em conjunto como prova. Estamos neste tribunal para julgar se o conteúdo de um livro inteiro... neste caso com páginas numeradas de uma até cento e setenta e uma... é ou não obsceno, considerada a narrativa como um todo. Sob esse ponto de vista, à luz do que J J Jadway escreveu, poderia parecer que o desenho na frente da capa, as citações e nota no dorso, nenhum dos quais é de Jadway e nenhum dos quais faz parte integrante da narrativa do romance, não necessitam de ser levados em conta ao julgar-se se o livro é ou não obsceno. Por conseguinte, decido que o pedido do Povo para que a capa seja removida deste exemplar de Os Sete Minutos é válido, e ordeno que ela seja agora removida do Instrumento de Prova do Povo número Três e que o livro destituído de capa seja aceite como prova pelo tribunal.

- Meritíssimo, eu gostaria que o meu protesto ficasse registado nos autos - pediu Barrett.

- Já o foi - disse o juiz Upshaw calmamente. Desviou a atenção para o Promotor Público. - Agora, Mr. Duncan, o senhor já está pronto para a sua próxima testemunha?

Tirando a capa do romance, Duncan respondeu:

- Obrigado, Meritíssimo. Para ser franco, por assim dizer, a minha próxima testemunha será o próprio livro. Já estamos preparados para que ele seja lido em voz alta para os membros do júri, de modo a, pela primeira vez, torná-los familiarizados com o texto integral. Tenho um leitor disponível, um rapaz neutro, imparcial, chamado Mr. Charles Wynter, que nos foi recomendado. Não o conheço pessoalmente... foi recomendado por uma amiga de minha esposa. É assistente de um professor secundário local, e nas horas vagas grava fitas magnéticas para cegos, assim como está acostumado a ler em voz alta sem dramatizar excessivamente ou emprestar ênfase indevida a certos trechos, como seria talvez o caso de um actor profissional. Embora eu já tenha esse rapaz disponível, concordaria de bom grado com qualquer outra pessoa que Mr. Barrett escolhesse para ler o livro ao júri. Mas essa é a nossa próxima testemunha, Meritíssimo; um leitor que procederá à leitura do livro em voz alta.

- Perfeitamente, Mr. Duncan - disse o juiz. - Agora ouçamos o que Mr. Barrett tem para dizer. Deseja fazer algum comentário sobre esse procedimento, Mr. Barrett?

- Desejo sim, Meritíssimo - respondeu Barrett. - Com a mesma porfia com que protestei contra a aceitação do livro incompleto como prova, protesto agora quanto à sua apresentação oral ao júri. O Código Penal é explícito ao definir a matéria impressa como uma coisa e as interpretações públicas como outra. Os Sete Minutos é matéria impressa. Foi escrito por J J Jadway não como peça para ser representada ou lida em voz alta, mas como romance escrito em papel para ser lido em silêncio e intimamente por um só leitor. Jadway escreveu essa obra a fim de se comunicar directamente com o cérebro de um leitor e agitar as suas emoções. Indubitavelmente, a intenção do autor foi que o leitor pudesse adicionar ou subtrair mentalmente da narrativa, saltando ou demorando-se onde lhe interessasse, permitindo que enfaticizasse pessoalmente certas palavras ou frases, negligenciando outras. Em suma, como alguém já disse, a leitura é essencialmente, como o casamento, um acto do qual participam duas pessoas, o leitor e o escritor, e não três, uma das quais seria o actor. Se três pessoas participassem de uma leitura, o mesmo sendo válido para o casamento, uma estaria de sobra, seria de mais. Inevitavelmente, o amador que servirá de intérprete, orientará a atenção da plateia para determinados trechos por meio de inflexões conscientes ou involuntárias de expressão, por meio de fraseado, ritmo, pausas, pronúncias e não sei que mais.

“Meritíssimo, no momento em que Os Sete Minutos for lido em voz alta, para uma plateia heterogénea, a própria franqueza e linguagem da narrativa, agradável e aceitável na intimidade de um quarto particular, pode tornar-se motivo de constrangimento. O que será julgado, neste sistema cansativo, incómodo e que exige tanta perda de tempo, não será apenas o livro, propriamente dito, mas também a pessoa que o ler e o transmitir à plateia. Meritíssimo, eu tenho doze exemplares de Os Sete Minutos, cedidos pelo editor, e sugiro que seria mais apropriado ao nosso caso se me desse a sua permissão para entregá-los aos jurados, deixando que cada um leia sozinho o seu exemplar. Do ponto de vista da defesa, esse seria o único procedimento razoável.

O juiz Upshaw olhou por cima dos dois advogados, perdido em cogitações. Por fim, fitou-os e disse:

- Meus senhores, o livro foi recebido como prova e é instrumento de prova. Pertence ao âmbito do tribunal decidir como esse instrumento deve ser apresentado ao júri. Pela experiência que tenho da magistratura, deliberei sobre o julgamento de diversos processos em que livros oram lidos em voz alta, sempre em cauteloso tom monocórdico, e houve um caso em que os jurados leram exemplares individuais em silêncio, sozinhos numa sala vazia do tribunal. Descobri que geralmente um júri escuta melhor do que lê. O acto de escutar e compreender é mais simples e comum do que a da leitura. Os membros deste júri passaram o dia inteiro escutando. Estão habituados a escutar. Ler sozinhos talvez lhes fosse mais difícil. Alguns sabem ler depressa. Outros são lentos. Alguns estão acostumados a ler livros. Outros não. Meus senhores, estou convencido de que a maneira mais simples e mais justa de apresentar Instrumento de Prova número Três do Povo, o método mais rápido de transmitir o conteúdo do livro ao júri, seria fazer o que Mr. Duncan sugeriu. Aceito, portanto, a sugestão do Promotor Público. Quanto à pessoa designada para a leitura em voz alta, o advogado de defesa faz qualquer objecção a Mr. Wynter?

Apreensivo com a recusa do juiz, a segunda resolução desfavorável à defesa, Barrett precisou esforçar-se para não trair ressentimento na voz.

- Meritíssimo, pouco se me dá quem leia o livro em voz alta. O que me preocupa é que ele seja lido dessa maneira, quando um romance não é escrito com a intenção de ser apresentado assim aos leitores - fez uma pausa. - Essa é a minha única objecção.

- Bom, Mr. Barrett, sobre a sua objecção eu já decidi - retrucou o juiz Upshaw. - Os Sete Minutos será lido do modo que indiquei... Mr. Duncan, se o senhor apresentar Mr. Wynter, poderá continuar com esta acção. Colocaremos Mr. Wynter no banco das testemunhas e mandaremos que leia o livro em voz alta até ao fim, recomendando que o faça com clareza, articuladamente, em tom monocórdico que coibirá inflexões ou dramaticidade. Agora podemos recomeçar.

Durante o resto deste primeiro dia no tribunal e toda a manhã e tarde do dia seguinte, Mr. Charles Wynter, professor substituto,, homem magro e bastante severo, fleumático, de pouco mais de trinta anos, com voz simpática de baixo, ocupou o banco das testemunhas para ler em voz alta aos jurados o texto de Os Sete Minutos, de J J Jadway.

Para Mike Barrett, foi um pequeno calvário, uma experiência excruciante e penosa, ouvir a bela história arrancada da intimidade da página impressa e irradiada por uma voz indiferente, em lugar público. Era como se Cathleen, a heroína, cuja nudez, amor e emoções, tão pungentes na alcova de duas capas encadernadas, fosse brutalmente arrastada para o ar livre, diante dos olhos lúbricos de um circo sexual, para que humilhada e rebaixada, assumisse um aspecto indecente.

Durante toda a leitura, Barrett não parou de se retorcer. E sabia que Abe Zelkin estava a sentir a mesma coisa a seu lado. Mas muito embora notasse as palavras salteadas ou mal pronunciadas, absteve-se de protestar. Queria que aquilo acabasse de uma vez, o mais depressa possível. Apenas uma ocasião, na terça-feira à tarde, segundo dia do julgamento, logo após o intervalo para o almoço.

foi que Mike Barrett levantou um protesto, e isso aproximando-se do juiz, longe dos ouvidos do júri.

- Meritíssimo - disse -, quero registar a minha preocupação com um hábito que o leitor, Mr. Wynter, possui, que pode ser nocivo à defesa.

- Qual é, Mr. Barrett?

- Quando lê, concentra totalmente a atenção nas páginas que tem diante dos olhos. Mas toda a vez que chega a um trecho que poderia ser classificado de sexualmente realista, ou que emprega palavras ou linguagem que são francas, ele tem o hábito de levantar a cabeça e olhar para o júri, antes de prosseguir, como se lhes dissesse: “Esperem só para ver o que vem agora”, ou: -Olhem, aqui há uma coisa picante para vocês, mas a culpa não é minha, estou só a ler, não fui eu que escrevi.” Aí então, depois desse pequeno gesto visual, dessa advertência aos jurados, ele concentra-se de novo na leitura. Ora, eu observei-o a fazer uma dúzia de vezes. Tenho a certeza de que é inconsciente da parte dele. No entanto, serve como uma espécie de risadinha, um comentário prejudicial a certos trechos da narrativa. Eu ficaria bem mais satisfeito se o Meritíssimo ressaltasse isso a Mr. Wynter. prevenindo-o de que pare de erguer os olhos, ou pelo menos pare de erguer os olhos como prelúdio às partes mais realistas.

O juiz Upshaw virou a cabeça.

- Mr. Duncan?

- Meritíssimo, eu também estive a observar o leitor e notei que ele olha para o júri de vez em quando, mas isso é normal numa pessoa que lê em voz alta, e não me parece que ele levante os olhos apenas quando aborda trechos imorais... ou, digamos, maliciosos... trechos maliciosos. Ele também faz o mesmo ao ler outras passagens. Acho que não posso concordar com Mr. Barrett. Tenho a impressão de que ele não tem motivo para se preocupar.

O juiz Upsaw sacudiu afirmativamente a cabeça e dirigiu-se a Barrett.

- Mr. Barrett, eu concordo com o Promotor Público. Estou sentado bem perto do leitor. Observei-o cuidadosamente. Verifico com satisfação que ele se está desempenhando de uma maneira tão mecânica e objectiva quanto é Possível a um ser humano. Sinto simpatia pelo seu desejo de proteger os interesses do réu e procurar fazer justiça neste caso, e prestarei toda a atenção a quaisquer Protestos futuros que se creia obrigado a fazer. Mas desta vez não vejo nada errado na actuação do leitor. Em consequência disso, sou obrigado a recusar a sua sugestão.

- Obrigado, Meritíssimo.

A partir de então, Barrett não protestou mais.

Foi no fim da tarde de terça-feira que Mr. Wynter acabou a leitura em voz alta do parágrafo final do livro. Fez uma pausa, pronunciou “Fim” e ergueu a cabeça, como se esperasse aplausos.

O leitor viu-se imediatamente dispensado, o tribunal interrompeu os trabalhos até às nove e meia de quarta-feira de manhã, e Mike Barrett, como alguém que escapasse finalmente da Donzela de Ferro (*), sentiu-se revigorado depois do duro transe.

Quando ele e Zelkin começaram a encher as suas pastas, disse:

- Bem, agora só nos resta juntar os escombros. Pelo menos teremos oportunidade de contestar o ataque amanhã. Quem é que você acha que Duncan chamará primeiro?

- Alguém importante, um dos dois maiores trunfos dele - respondeu Zelkin. - Hoje foi a calmaria que precede a tempestade. Amanhã ele vai disparar todos os canhões, procurando demolir Jadway, arrasando o livro e a defesa com um único tipo atordoante.

- Refere-se a Leroux?

- Evidentemente.

- Você tem a certeza ou está a supor?

- Mike, quando vai chover, eu sinto cãibras nas pernas. Quando se arma um terremoto, doem-me os ossos. E quando o tecto está prestes a desabar, fico com o rabo dolorido - fechou a pasta com um estalido. - Neste momento, meu caro, estou de rabo dolorido.

é difícil imaginar como é que as pessoas pressentem que algo importante está para acontecer, pensou Barrett. Deve estar no ar. Ondas psíquicas no ar. Uma espécie de sexto sentido em massa. Ou sei lá mais o quê. Porque se a sala do Supremo Tribunal da Comarca de Los Angeles tinha estado lotada nos dois primeiros dias do julgamento, nesta manhã de quarta-feira parecia que ia romper as paredes.

 

(*) A Donzela de Ferro de Nurembergue, famoso instrumento de tortura medieval alemão, que consistia num molde de ferro do corpo humano, com dobradiças para permitir a entrada da vítima que, quando o molde se fechava, era empalada nas pontas que revestiam a parte interna.

 

E agora, dois minutos depois que o juiz Nathaniel Upshaw se instalara no seu assento, o recinto estava silencioso, com excepção do monótono matraquear do juramento do escrivão à primeira testemunha do dia.

- ...toda a verdade e nada mais que a verdade, com a ajuda de Deus?

- Juro - disse a testemunha.

- O seu nome, por favor.

- Christian Leroux.

- Soletre o sobrenome.

- L-e-r-o-u-x.

Do seu assento, o juiz Upshaw declarou:

- Queira sentar-se, Mr. Leroux.

Durante a prestação do juramento, Mike Barrett pôs-se a analisar o outro astro da elaborada produção da acusação. Ainda influenciado pela descrição que Quandt fizera do editor francês, Barrett esperava uma pessoa andrajosa e acabada, mas agarrada a um fiapo de dignidade de melhores dias, como um nobre exilado qzarista reduzido a criado ou porteiro. Entretanto não havia nenhum ar de decadência, nenhum traço visível de pobreza, no porte e vestuário de Leroux. Era tão elegante como qualquer aristocrata saído das páginas de Proust. A sua recente volta à opulência estava bem aparente.

Excepto por algo furtivo e astuto no seu comportamento, cicatrizes de combate comuns a muitos homens que passaram por dificuldades e sobreviveram até aos sessenta e tantos anos, Christian Leroux possuía tipo impressionante. Outrora devia ter sido mais alto, imaginou Barrett, mas o porte ainda era imponente, dando a ilusão de elevada estatura. O cabelo, pintado e ondulado, estava impecavelmente penteado. Os olhos eram pequenos, de um azul desbotado, penetrantes. O nariz aquilino, com a idade, tornara-se um bico riscado de veias. O queixo fraco mostrava um corte de navalha. Usava fato azul-marinho de listas brancas com bolsos de abas, e paletó curto e justo, à moda francesa. Trazia uma elegante gravata borboleta, abotoaduras de jade e sapatos de borlas. Ao responder ao escrivão, o seu inglês tinha um toque de Mayfair entrecortado pelo sibilante sotaque francês, leve, mas suficiente para lembrar que se tratava de um visitante de Paris.

Observando-o enquanto tomava assento no banco das testemunhas, Barrett percebeu nele uma característica ao mesmo tempo untuosa e arrogante, qualquer coisa de insincero, talvez um Pecksniff (2) parisiense. Talvez, supôs Barrett, pudesse descobrir o que era, desmascarando-o na sua inquirição. Se é que existia. Fosse como fosse, desconfiava da honestidade de Leroux, com ou sem juramento. O francês mostrara-se pronto a dizer uma coisa para a defesa e agora concordara em dizer outra para a acusação. Oferecera-se à venda pelo lance mais alto. Isso talvez o tornasse duplamente difícil para dissecar, suspeitou Barrett. Não existe moralidade mais bem-intencionada, nem integridade mais inabalável do que a ostentada por uma prostituta regenerada. Pois bem, decidiu Barrett, ficaria à espera de possíveis brechas e, se pudesse, haveria de abrí-las para revelar o verdadeiro Christian Leroux.

- Okay - cochichou Zelkin. - O assassínio de J J Jadway vai começar.

Elmo Duncan, chegando ao banco das testemunhas, tinha cumprimentado o seu distinto visitante gaulês com respeitosa mesura.

- Mr. Leroux, onde é que o senhor mora ou reside actualmente?

- Sou cidadão francês e sempre residi em Paris. Tenho apartamento num bairro antigo e calmo da Margem Esquerda.

- Qual a sua ocupação hoje em dia?

- Editor de livros.

- Em Paris?

- Sim.

- Tem local de trabalho?

- Tenho. O meu escritório fica na Rue Sébastien Bottin. É perto da famosa casa das Éditions Gallimard.

Na sua mesa, Barrett divertia-se. O velho pornógrafo estava a escorar a sua respeitabilidade por meio de associações. Ficou imaginando se seria assim tão esperto ou se se tratava de obra de Duncan.

- Mr. Leroux, em resumo, que grau de instrução o senhor possui? É bacharel em alguma faculdade?

- Formei-me na Sorbonne, em Paris. Especializei-me na literatura francesa do século XVII, o período de Racine, La Fontaine, La Rochefoucauld, Jean Poquelin... mais conhecido como Molière.

Não só arrogante, pensou Barrett, como ainda por cima esnobe. Excelente, perfeito.

 

Personagem de Martin Chuzzlewitt, de Dickens, equivalente ao Tartufo, de Molière.

 

Pelos vistos, Duncan também se inquietara com essa condescendência, porque se apressou em prosseguir:

- Mas o senhor também estudou escritores mais populares... quero dizer, como...

Barrett pôs-se imediatamente de pé.

- Protesto, Meritíssimo. O Promotor está a orientar a testemunha.

- Protesto aceite - disse o juiz Upshaw.

Duncan lançou a Barrett um olhar irritado. Virou-se outra vez para a testemunha.

- Mr. Leroux, o senhor manteve-se a par da obra dos escritores mais populares?

- Sem dúvida nenhuma. Sempre leio de tudo. Como disse Valéry, só se lê bem quando se lê com um objectivo bem pessoal em vista. Na qualidade de editor, tenho lido muito, porque o meu objectivo tem sido aprender a respeito de literatura, para que possa reconhecer novos autores que merecem ser divulgados e assim ilustrar o público leitor.

- Mr. Leroux, o senhor disse-nos que a sua ocupação actual é ser editor. O senhor já teve outras ocupações?

- Não, sempre estive neste ramo, seja como empregado alheio seja por conta própria, quero dizer, como proprietário.

- Quando foi que se estabeleceu pela primeira vez por conta própria?

- Em 1933. Eu era muito moço. Tinha pouco mais de trinta anos. Meu pai havia morrido e recebi uma herança modesta. Foi assim que fundei a minha própria editora.

- Qual era o nome da firma?

- Étoile Press. Assim chamada porque se localizava no número 18 da Rue de Berri, que é perto dos Champs-Élysées, a curta distância da Étoile e do Arco de Triunfo.

- A Étoile Press - repetiu Duncan. - É essa a mesma editora, a mesma tipografia, que publicou uma obra de ficção em 1935 intitulada Os Sete Minutos de J J Jadway?

- A mesma - confirmou Christian Leroux. Finalmente, disse Barrett consigo mesmo. Inclinou-se sobre a mesa e escutou com toda a atenção.

- Mr. Leroux, eu conheço a sua edição original desse livro. Reparei que estava impressa em inglês. Uma vez que foi publicada em Paris, porque não a publicou em francês?

- O Governo francês não permitiria.

- Porque não?

- O departamento de censura decidiu que era obsceno.

- Obsceno? Ah, compreendo. Mas, como. Os Sete Minutos nunca foi editado em nenhum outro país, em nenhuma outra língua?

- Não. Nenhuma nação da terra quis saber de aprová-lo ou aceitá-lo. Em toda a parte foi considerado obsceno de mais. Muitos críticos, de vários países, o consideraram como o livro mais imoral e depravado publicado até hoje na história da literatura.

- Então como é que o senhor pôde publicar uma edição em inglês, em Paris?

- Ah, justamente porque era em inglês, e o leitor francês comum não poderia ler inglês e ficar perturbado com o livro. Ao mesmo tempo, o Governo francês, até há, bem poucos anos, sempre foi liberal em questão de livros, sobretudo quando editados em idioma alheio à França. Basta lembrar que foi em Paris que o Ulisses, de James Joyce, foi publicado pela primeira vez, embora não pudesse ser impresso na Grã-Bretanha nem na América. Foi em Paris que Radclyffe Hall encontrou editor para o Poço da Solidão e Wallace Smith para Bessie Cotter. As autoridades francesas não se importaram. Fingiram que não viram, uma vez que esses livros estavam escritos em inglês e não podiam corromper os franceses. Podiam corromper somente os turistas, o que não tinha importância, era até engraçado.

- Portanto, nessas circunstâncias - disse Duncan -, o senhor conseguiu iludir os censores e empreender a publicação do livro considerado como o mais imoral na história editorial?

- Protesto, Meritíssimo - atalhou Barrett -, sob a alegação de prova de outiva.

O juiz Upshaw pigarreou e dirigiu-se ao Promotor Público.

- Mr. Duncan: ainda não surgiu fundamento para essa sua pergunta. Protesto aceite.

Duncan pediu desculpas.

- Perfeitamente, Meritíssimo. - Voltou à testemunha.

- Mr. Leroux, o senhor sempre publicou, na maior parte, pornografia?

Christian Leroux mostrou-se levemente ofendido.

- Não, não é bem assim. Durante os primeiros anos, a minha lista consistia principalmente de literatura muito aceitável e erudita. Havia estudos históricos, biografias, livros sobre pintura, ficção clássica.

- Mas a sua lista logo passou a abranger, na maioria, livros cujo conteúdo era obsceno ou pornográfico?

- Sim, lamento dizer.

- Porque se dedicou em grande escala a essa espécie de publicação?

Leroux encolheu os ombros de um modo tipicamente francês.

- Porque somos frequentemente vítimas da vida e do mundo. Deixe-me explicar de outra maneira. Sans argent l'honneur n'est q’une maladie. O senhor compreende? É de Jean-Baptiste Racine. A honestidade é um luxo só acessível aos ricos. Realmente um luxo. Que eu gostaria de me permitir. Mas tem mais ainda. Peço-lhe licença para me alongar...

- Pois não, queira continuar.

- Eu vi-me inspirado a mudar a índole e a linha editorial da Étoile Press pelo sucesso instantâneo de outro editor, o da Obelisk Press em Paris. Aconteceu o seguinte. O dono da Obelisk Press era um cavalheiro chamado Jack Kahane, comerciante de Manchester, pessoa muito extravagante e requintada. Mr. Kahane tinha servido nos Lanceiros da Índia. E também na Legião Estrangeira. Mas não tinha êxito nos negócios. Era um fracasso. Por isso emigrou para a França e em 1931 fundou a Obelisk Press, a fim de editar livros que não podiam ser publicados na Inglaterra. Fez isso não só para recuperar a sua fortuna como também combater a censura e a pudicícia. Mr. Kahane, antes de morrer em 1939, ousou ser o primeiro a editar Minha Vida e meus Amores, de Frank Harris, e Trópico de Câncer, de Henry Miller, do qual Ezra Pound disse: “Enfim um livro impublicável que dá para ler.” Foi o sucesso de Mr. Kahane, repito, que me animou a concentrar-me exclusivamente na pornografia e imoralidade. Os meus motivos foram os mesmos de Mr. Kahane. Em parte, para ganhar a vida. Mas mais importante, talvez, Para divulgar a nata da literatura vítima da repressão.

- Deixe-me verificar se compreendi bem o que o senhor disse, Mr. Leroux. Quer dizer que todos os livros que publicou eram literatura proveitosa e mereciam ser editados?

- Não, não, todos não. Eu publicava talvez uma dúzia de títulos novos por ano, e a metade deles, pelo menos, 30 merecia ser chamada literatura. Devo confessar que muitos eram encomendados por mim, escritos sob medida autores assalariados. Soube que Petrónio havia escrito o Satyricon para excitar o Imperador Nero. Raciocinei que poderia contratar outros escritores para excitar os turistas. Claro que alguns desses livros mais imorais, os totalmente destituídos de mérito, não eram encomendados. Simplesmente chegavam às minhas mãos, à minha escrivaninha. Porém, voilà, os imorais sem mérito literário eram necessários para manter os melhores e garantir o meu sustento.

- Podia citar alguns desses imorais que não tinham mérito literário?

- Deixe ver se me lembro. Havia um chamado As Cem Chicotadas. Outro era A Vida Sexual de Anna Karenina. Depois... naturalmente, é apenas a minha opinião que ele pertence à mesma categoria... havia Os Sete Minutos.

- Os Sete Minutos - repetiu Duncan, virando-se de lado para o júri. - é o mesmo livro, Os Sete Minutos, de J J Jadway, que está sendo acusado de obsceno neste tribunal?

- O mesmo.

- Ele não seria um dos seus livros pornográficos que o senhor classificaria entre a nata da literatura vítima de repressão?

- Não, nunca.

- Ele era... e isso foi mencionado apenas como opinião pessoal sua... um dos seus livros imorais sem mérito literário, publicado unicamente para ganhar dinheiro?

- Sim, exactamente. É verdade. Eu sabia desde o início que se tratava de um livro de péssima qualidade, da mais abjecta, mas há gosto para tudo e achei que talvez encontrasse aceitação. O autor, ademais, precisava de dinheiro, e sempre senti simpatia pelos escritores. De modo que publiquei essa imundície a fim de ganhar o suficiente para editar Ao Pé da Montanha, de Aubrey Beardsley, que era licencioso, porém não pornográfico.

- Mr. Leroux, o senhor acaba de dizer que queria publicar algo que fosse licencioso, porém não pornográfico. Quase todos os dicionários consideram as duas palavras como sinónimas. A pornografia é muitas vezes definida como literatura licenciosa. Neste julgamento estamos a usá-las com o mesmo sentido, alternadamente. No entanto, o senhor está a dizer que, na sua opinião, há uma diferença?

- Positivamente. Ainda que eu tenha empregado as palavras como sinónimas, existe uma ténue diferença entre ambas, no meu entender. Um livro licencioso, geralmente, descreve o sexo de um modo natural, saudável, realista, e embora possa despertar pensamentos e desejos lascivos, a sua finalidade principal é mostrar um quadro completo da natureza e da vida humanas. Já livro pornográfico é um afrodisíaco e nada mais. Descreve apenas o sexo, e nenhum outro aspecto da vida, só sexo e mais sexo, com o único fito de inflamar o interesse mórbido do leitor por meio de fantasias sexuais.

- Bem, então, segundo o seu critério literário, Os Sete Minutos era... espere, deixe-me reformular a frase... O senhor considerava o livro de Jadway como uma obra de licenciosidade honesta?

- Não. As memórias de Casanova, a autobiografia de Frank Harris, mesmo uma obra de Mark Twain são licenciosidades honestas. O livro de Jadway não pertencia a essa classe. Era exclusivamente pornográfico.

- Então o senhor crê que o livro de Jadway seja uma obra exclusivamente pornográfica?

- Sim. Pornográfica. Nada mais. Uma prosa afrodisíaca. Exclusivamente isso. Não tenho a mínima dúvida a esse respeito. O autor sabia. A amante, que lhe servia de agente, também. Era um empreendimento comercial para todos nós, sem nenhuma finalidade atenuante. Hoje, recordando, envergonho-me do que ajudei a perpetuar. Hoje, por meio desta confissão de verdade, talvez possa remediar o que fiz e purificar a minha alma.

- Nós compreendemos e ficamos gratos, Mr. Leroux. Na mesa de defesa, Zelkin chamou a atenção de Barrett,

- A nossa testemunha é um sacana hipócrita - cochichou ele -, e o nosso Promotor Público não fica atrás.

Surpreendido ante a linguagem rude do sócio, que indicava a intensidade da sua indignação, Barrett sacudiu a cabeça, voltando a concentrar-se com pesar no banco das testemunhas.

- Mr. Leroux - dizia Duncan -, o senhor pode agora dizer-nos, com as suas próprias palavras, sem poupar pormenores, como chegou a editar Os Sete Minutos, e o tipo de relação que manteve com o autor e a sua agente?

- Posso. Contarei apenas o que recordo nitidamente e o que é verdade - Leroux esfregou o nariz riscado de veias. relanceou os olhos pelo tecto e depois continuou:

Em fins de 1934, uma moça atraente surgiu no meu escristório na Rue de Berri e identificou-se como Miss Cassie McGraw. Era americana, de descendência irlandesa. Tinha ido do Meio-Oeste americano para Paris muitos anos antes, Para estudar pintura, e desde então morava no bairro de St.-Germain-des-Près, na margem esquerda. Lá, ela conheceu outro expatriado americano e os dois ficaram amigos. Mais tarde ela confessou-me que eram amantes. Esse outro expatriado, o amante, era J J Jadway. Ele rebelara-se contra o pai, católico de projecção, e contra a rigidez da sua educação, típica da Nova Inglaterra, e, abandonando os progenitores e duas irmãs mais jovens, fugira para Paris. Estava resolvido a viver como boémio, a escrever e, como escritor, libertar não apenas a si mesmo, mas toda a literatura. Infelizmente, era um desses escritores que os editores conhecem tão bem, que vivem falando de projectos que nunca realizam. Sendo pusilânime, frustrado, ele bebia e tomava estupefacientes...

- Desculpe-me, Mr. Leroux. O que o senhor está a dizer agora não é boato, não se trata de conhecimento adquirido de segunda mão?

- Soube isto em primeira mão, directamente dos lábios do próprio J J Jadway, na época em que ele andava desesperado, e também por intermédio de Miss McGraw, quando me encontrei com ela depois da morte de Jadway.

- Mr. Leroux, já que tudo o que o senhor possa ter sabido através de Cassie McGraw, que além de ser amante também foi agente de Jadway, seria considerado prova de outiva, e por conseguinte inadmissível neste tribunal, vamo-nos restringir estritamente ao que o senhor soube de J J Jadway pessoalmente. Quantas vezes teve oportunidade de falar com ele?

- Quatro vezes.

- Falou com Jadway quatro vezes? Foram conversas longas? Quero dizer, duraram mais que... bem, digamos, mais que alguns minutos?

- Sempre mais. Uma vez, quando ele estava muito bêbedo... ele mesmo reconheceu que estava... contou-me toda a sua história com Cassie e como o livro chegou a ser escrito. Ele contou-me que depois que passou a viver com Cassie, tornando-se amantes, ela tentou regenerá-lo. Achava que ele tinha grande talento literário. E queria que escrevesse. Porém ele não queria ou não podia. Depois, confessou, quando os dois enfrentaram um Inverno de pobreza, sem ter que comer, mortos de frio, na iminência de serem despejados pelo senhorio, Cassie McGraw disse a Jadway que já que ele não escrevia para comprarem um pouco de pão, então ganhasse dinheiro de outro jeito qualquer, senão a única alternativa seria abandoná-lo. Jadway então respondeu, segundo ela me disse: “Está bem, vou tratar de ganhar um pouco de dinheiro, dinheiro à farta. Farei o que Cleland fez. Hei-de escrever o livro mais imoral jamais escrito, mais imoral do que o dele, o que fará com que seja vendido.” Depois, segundo Jadway me contou, ele sentou-se, levado pelas dificuldades financeiras e ajudado pelo absinto, e escreveu Os Sete Minutos em três semanas. Duncan levantou a mão.

- Um momento, Mr. Leroux. Gostaria que me explicasse uma coisa. O senhor referiu-se ao nome Cleland. Citou Jadway ao observar que ele faria o que Cleland fez, que escreveria o livro mais imoral jamais escrito, mais imoral que o do próprio Cleland. Pode esclarecer quem era esse Cleland?

- John Cleland? - replicou Leroux surpreendido. - Ora, foi o principal escritor de pornografia que existiu, até que Jadway apareceu. Cleland foi...

Barrett pôs-se de pé,

- Meritíssimo, protesto! A pergunta é totalmente irrelevante.

- Meritíssimo - objectou Duncan.

- Mr. Duncan - disse o juiz Upshaw -, o senhor quer fazer algum comentário sobre esse protesto?

- Sim, quero, Meritíssimo.

- Aproxime-se, então.

Imediatamente, a meia-voz, o Promotor Publicou tentou resumir a relevância da sua pergunta a respeito de John Cleland. A testemunha Leroux, frisou ele, tinha conhecido pessoalmente o autor do livro em julgamento. Uma vez que as motivações de um autor eram relevantes para saber se um livro possuía importância social compensatória, valia a pena certificar se o autor alguma vez havia reconhecido que empreendera o trabalho de redigir o livro exclusivamente Por dinheiro, e que pretendera torná-lo mais imoral do que tudo o que Cleland escrevera. Já que muitos jurados talvez não soubessem da existência de Cleland, era vital obter informação a respeito dele, a fim de revelar exactamente o que Jadway tivera em mente ao elaborar Os Sete Minutos.

O juiz Upshaw desejava fazer uma pergunta. Que tipo de informação o Promotor Público esperava obter sobre Cleland? Duncan respondeu que a testemunha, especialista nesse género de literatura, sem dúvida explicaria os antecedentes de John Cleland. Cleland descendia de boa família inglesa e recebera óptima instrução. Depois de completar os estudos, ele serviu primeiro como cônsul inglês em Smyrna. Tinha então sido empregado pela Companhia das Índias Orientais em Bombaim, mas após uma briga com os superiores, regressara a Inglaterra. Falido aos quarenta anos de idade, Cleland viu-se preso por dívidas. Para poder sair da prisão, escrevera Memórias de Uma Mulher de Prazeres... o livro conhecido popularmente por Fanny Hill... para um editor que lhe pagara vinte guinéus por essa obra pornográfica. Quando o livro se tornou um best seller em 1749, Cleland fora levado perante o Conselho Privado em Londres para receber a sua sentença, a sua punição. Felizmente para ele, um parente seu, o conde de Granville, funcionara como presidente do Conselho. Granville suspendeu a punição e concedeu-lhe uma pensão de cem libras por ano, sob a condição de que dedicasse o seu talento a obras mais respeitáveis. Cleland ainda escreveu mais dois livros levemente eróticos e alguns estudos eruditos a respeito da língua inglesa, antes de morrer na França aos oitenta e dois anos de idade. Desde então, o seu nome converteu-se em sinónimo de pornografia. Como produzira Fanny Hill só para sair da prisão, sem nenhum motivo além de salvar o próprio pescoço, seria útil saber que Jadway confessou certa vez a Christian Leroux que pretendia criar um romance pornográfico exactamente como Cleland havia feito.

A contestação de Barrett, em defesa do seu protesto, foi concisa e objectiva. Este julgamento referia-se a um problema, a um único e exclusivo problema, afirmou... Se um livreiro de Oakwood tinha ou não tinha vendido uma obra obscena. Reconhecidamente, os motivos de Jadway, ao elaborar o romance, representavam um factor para julgar a pornografia segundo a lei. Mas toda a discussão sobre os motivos de outro autor redundavam em puro e simples mexerico. Uma informação dessa espécie seria totalmente irrelevante para a questão fundamental do processo.

Sem hesitação, o juiz Upshaw aceitou o protesto de Barrett. Qualquer depoimento a respeito de John Cleland não era relevante para o caso em julgamento.

- Pode continuar com o seu interrogatório, Mr. Duncan, limitando-se a perguntas atinentes ao caso - concluiu o juiz - Terminada a conferência com a magistrado, o escrivão voltou à sua mesa. Barrett dirigiu-se à sua, e um Elmo Duncan mais uma vez moderado confrontou-se com Christian Leroux, que ficara à espera no banco das testemunhas.

- Mr. Leroux - disse o Promotor Público -, examinemos mais um pouco o motivo que levou J J Jadway a escrever Os Sete Minutos. Ele declarou-lhe que escreveria o livro mais imoral de todos os tempos. Mas nunca lhe falou sobre nenhuma outra razão que tivesse para escrever semelhante obra... nenhuma razão ou motivo além do comercial?

- Não, nunca. A musa de Jadway era a caixa registadora.

Estouraram gargalhadas pela sala. Vários jurados sorriram discretamente. Leroux parecia satisfeito. O juiz Upshaw não achou tanta graça e bateu energicamente com o martelo.

- Mr. Leroux - disse Duncan, assim que se restaurou a ordem -, que espécie de sucesso comercial teve Os Sete Minutos depois que o publicou em 1935?

- Menor do que o que eu esperava - respondeu Leroux. - Consta que o editor de Cleland lucrou cerca de dez mil libras. Creio que não cheguei a um vigésimo dessa soma. A princípio houve certo optimismo. A minha edição inicial foi de cinco mil exemplares. Esgotou-se no prazo de um ano. Mandei que fizessem logo outra na mesma quantidade. Mas as vendas diminuíram até cessarem por completo. Acho que em consequência do Vaticano ter incluído o livro no Index. Nunca vendi os últimos exemplares dessa segunda edição.

- Os Sete Minutos recebeu a condenação oficial da Igreja Católica?

- No ano seguinte à publicação. E não só da igreja Católica. Foi também condenado pelo clero protestante em toda a Europa e em proporção menor na América, onde o título não era tão conhecido.

- Mr. Leroux, a morte de Jadway não coincidiu com a condenação da Igreja?

- Não, exactamente. O livro foi condenado em 1936. Jadway morreu no começo de 1937.

- O senhor sabe o que causou a morte dele?

- Sei o que me contou Cassíe McGraw, que esteve Presente. O senhor deseja saber o que a causou? Eu vou...

Com o máximo vigor, Barrett levantou o seu protesto, sob a alegação de que a pergunta era irrelevante e implicava uma resposta baseada em boato.

O juiz Upshaw deu no mesmo instante acolhimento ao Protesto.

De testa franzida, o Promotor Público aceitou a rejeição, afastou-se por um instante da testemunha, fixando o olhar por cima das cabeças dos espectadores.

Imaginando se o adversário estaria perdido em cogitações ou procurando alguém no tribunal, Barrett olhou de relance por cima do ombro. Então enxergou uma mulher imponente levantar-se de uma cadeira da última fila na ponta do corredor e dirigir-se para a saída. Reconheceu-a imediatamente. Era Olivia St. Clair, presidente da Liga da Força da Decência. Observando-a, ficou curioso. Seria a sua partida mera coincidência? Ou teria recebido uma espécie de sinal de Duncan? Depois sentiu uma terrível suspeita. Momentos antes, as circunstâncias da morte de Jadway não haviam sido acolhidas por este tribunal de justiça. Estariam Duncan e Mrs. St. Clair a preparar-se para submeterem esses factos ao tribunal mais tolerante da opinião pública?

Ao ouvir o Promotor Público dirigir-se novamente à testemunha, Barrett voltou a sua atenção para o interrogatório.

- Mr. Leroux-perguntava Duncan -, o senhor ainda possui algum direito sobre Os Sete Minutos?

- Não. Desde o dia do suicídio de Jadway, quis descartar-me do livro. Não consegui encontrar nenhum interessado. Depois, há alguns anos, um americano procurou-me em Paris. Tinha ouvido falar n'Os Sete Minutos. Era editor de material pornográfico em Nova Iorque. Desejava comprar os direitos do livro. Vendi-lhos logo, com prazer. Praticamente dei-os de graça. Fiquei aliviado por me livrar daquele peso. E nunca me arrependi. Livros dessa espécie destroem todos os que os tocam, e nunca mais quero saber deles.

- Muito obrigado, Mr. Leroux - disse Duncan. Levantou os olhos para o juiz. - Não tenho mais perguntas a fazer, Meritíssimo.

Enquanto o Promotor Público, com uma expressão que reflectia ufania, voltava à mesa de acusação, o juiz Upshaw dirigiu-se à defesa.

- O senhor pode proceder à inquirição, Mr. Barrett.

- Obrigado, Meritíssimo - disse Barrett. Reunindo as notas que tinha tomado com Zelkin, preveniu a meia-voz: - Abe, não vai ser fácii. Sei lá se poderei sair desta.

- Tente - murmurou Zelkin.

Erguendo-se com o seu maço de papéis, Barrett passou pelos jurados até chegar ao banco das testemunhas. O editor francês, de braços cruzados complacentemente no peito, abotoaduras de jade a brilharem à luz das lâmpadas fluorescentes do tecto, esperava com toda a calma.

- Mr. Leroux - começou Barrett em tom natural -. permita-me levá-lo de volta à época em que recebeu pela primeira vez o manuscrito de J J Jadway das mãos de Cassie McGraw.

Consultou as anotações.

- O senhor declarou ao Promotor Público que isso foi “em fins de 1934”. Confere?

- Sim, confere.

- Podia ser mais preciso? Não se lembra da data exacta, ou pelo menos da semana em que Miss McGraw apareceu com o manuscrito?

- Mas certamente. Foi na última semana de Novembro de 1934. Uma sexta-feira, uma sexta-feira de manhã.

- Muito bem. Lembra-se do aspecto de Cassie McGraw? Poderia descrever-nos o seu aspecto?

Leroux sorriu.

- Lembro-me perfeitamente. Tinha cerca de um metro e cinquenta e cinco. Usava capa de chuva amarela, do tipo que os americanos chamavam impermeável. O cabelo era escuro, cortado rente, à la garçonne. Olhos cinzentos. Nariz pequeno, arrebitado, um pouco de sardas, bonitinha. Lábios generosos, com uma adorável expressão amuada. Em conjunto, um ar de gamin, esperta, inteligente, espirituosa, engraçada. Mas ficava toda séria quando discutia Jadway.

Barrett sacudiu, compreensivo, a cabeça.

- Muito bem. E o senhor recebeu-a no seu escritório na... onde era? Sei que está impresso no livro...

- O meu escritório ficava no número 18 da Rue de Berri.

- Exacto. Obrigado, Mr. Leroux. Tinha-me esquecido. Hã... Onde é que o senhor morava na época?

Leroux hesitou.

- Estou a procurar lembrar-me. Mudei tantas vezes de endereço, durante e depois da guerra.

- Mas isso aconteceu na última semana de Novembro de 1934, muito antes da guerra ter começado.

- Sim, lógico - disse Leroux -, mas mesmo assim não tenho a certeza. Acho que. era um apartamento em Neuilly, ou possivelmente...

- Bom, se o senhor não se lembra exactamente... Leroux deu de ombros.

- Creio que não.

- ... talvez fosse interessante se procurasse lembrar-se do nome do senhorio ou da zeladora do prédio. Não se recorda de nenhum dos dois?

- Não.

- Talvez saiba o número telefone do seu apartamento?

- Dificilmente. Não, sinto muito.

- Então de certo o do telefone do seu escritório. Deve tê-lo usado a todo o instante. Pode dizer-me o número do escritório?

Leroux começava a ficar levemente exasperado.

- Claro que não. Já há quase quarenta anos. Para ser justo, isso aconteceu há muitos anos, em 1934, e não se pode esperar que alguém se vá lembrar de cada...

A sua voz sumiu-se.

- Concordo com o senhor. Não se pode esperar que alguém se lembre de tudo o que aconteceu há tanto tempo atrás - retorquiu Barrett com suavidade. Fez uma pausa. De repente endureceu o tom de voz. - No entanto, Mr. Leroux, ouvi o senhor declarar daqui deste banco das testemunhas que se lembrava precisamente de cada palavra que JJ Jadway e Cassie McGraw lhe dissera em 1934, quase quarenta anos atrás. Isso não é...?

- Protesto! - bradou Duncan do outro lado da sala. - Protesto, Meritíssimo. O advogado de defesa está a entrar no mérito da questão.

- Protesto aceite - anunciou o juiz Upshaw.

- Sim, Meritíssimo - murmurou Barrett. Estava satisfeito. Desfechara um golpe na veracidade do depoimento da testemunha ao sublinhar a fragilidade da memória. Com protesto ou não, os jurados tinham escutado o diálogo. Resolveu certificar-se se nenhum membro do júri deixara de entender aonde pretendia chegar. - Mr. Leroux, no seu depoimento o senhor afirmou que soube em primeira mão que J J Jadway bebia em excesso, era viciado em estupefacientes, escreveu o livro à pressa para ganhar dinheiro, exclusivamente, e uma porção de coisas desse género. Uma pergunta. Depois de reflectir bem sobre o assunto, tem absoluta certeza de que se recorda de cada palavra e de cada facto suposto que lhe contaram há quase quarenta anos?

- Meritíssimo, devo protestar novamente! - exclamou Duncan. - A testemunha já depôs sobre essas conversas e factos sob juramento. Isso é pura repetição.

- Protesto aceite sob essa alegação - declarou o juiz Upshaw. Fixou o semblante casmurro em Barrett. - O tribunal também adverte o advogado de defesa a não persistir em entrar no mérito da questão com a testemunha.

Barrett fez uma expressão contrita.

- Desculpe, Meritíssimo. Foi sem intenção. - Virou-se para Christian Leroux, que continuava sentado muito teso, os braços já não cruzados com complacência, as mãos agora firmemente plantadas nos joelhos. - Mr. Leroux, voltemos aos anos de 1934 e 1935. O senhor declarou... o senhor recordou... que falou com J J Jadway exactamente quatro vezes. Confere?

- Sim.

- Onde manteve essas conversas com Jadway? Quero dizer, visitou-o no apartamento, recebeu-o no seu escritório ou encontrou-se com ele num restaurante? Onde foi que se encontraram?

Leroux hesitou.

- Eu... eu nunca disse que me encontrei com ele. Eu disse que falei com ele.

Barrett ficou surpreendido e não dissimulou.

- O senhor nunca se encontrou com J J Jadway pessoalmente?

- Não. Falei com ele quatro vezes por telefone.

- Por telefone? Compreendo. Tem a certeza de que era Jadway que estava no outro lado da linha?

- Naturalmente. Cassie McGraw fazia a ligação e depois passava-lhe o auscultador.

- Não é um tanto estranho, Mr. Leroux... um editor que vive na mesma cidade que o autor, limitar-se a contactos por telefone? O senhor nunca fez um esforço para se encontrar pessoalmente com ele?

- Não.

- Não fez nenhum esforço para se encontrarem frente a frente?

- Não, porque não havia motivo para isso - respondeu Leroux, irritado. - Cassie McGraw tinha-me dito que ele era um recluso, retraído, e muitas vezes ficava sob o efeito de bebida ou estupefacientes, e assim julguei que não seria recebido cordialmente. Portanto não fiz o mínimo esforço...

- O senhor sabia com certeza, digamos, o próprio Jadway já lhe havia dito que não seria recebido cordialmente?

- Simplesmente achei. Não podia haver engano sobre o facto de não ser bem recebido.

- Tinha qualquer outro motivo para não tentar encontrar-se pessoalmente com ele?

- Nenhum. Convém esclarecer que os editores não costumam andar a visitar os autores que publicam. Ainda mais autores de má reputação. Além disso, todo o ano eu tinha de tratar com outros novos autores e Jadway era apenas um entre vários e não especialmente promissor.

- Compreendo. O senhor vivia ocupado de mais para dar toda a atenção a cada um deles, sobretudo a um autor menor. Bem...

- Protesto, Meritíssimo! - era Duncan a fazer sinal ao juiz. - O nobre colega está a forçar Uma conclusão a que a testemunha não chegou.

- Protesto aceite.

- Muito bem - disse Barrett. Concentrou-se novamente em Leroux. - Então o seu contacto com J J Jadway era inteiramente por telefone ou através de Cassie McGraw. Confere?

- Exacto.

- E a não ser pelo que Miss McGraw lhe contou, o seu conhecimento dos hábitos de Jadway, as opiniões dele sobre a criação literária, as motivações para escrever o livro, tudo lhe vinha pelo telefone, nunca através de encontros pessoais. Não é certo?

- Não, não é. Acabo de me lembrar de uma coisa.

- Ah...?

- Houve outra fonte. Eu precisava de dados biográficos do autor para incluir no livro. Pedi-lhe que preenchesse um questionário. É processo rotineiro. Jadway não preencheu. Em vez disso, escreveu-me várias cartas sobre ele... primeiro uma, depois outra com reflexões posteriores, e, com o tempo, mais algumas a tratar da revisão. Deste modo, portanto, houve mais dados que vieram do próprio Jadway.

- Exactamente que dados vieram de Jadway nessa correspondência?

- Dados a respeito dos seus antecedentes, da sua família, de modo geral, da sua vontade de escrever.

- Os seus motivos para escrever Os Sete Minutos?

- Não me lembro - respondeu Leroux.

- Essas cartas podem ser-nos muito úteis e talvez prestar informações relevantes a este julgamento. O senhor tem-nas em seu poder?

- Não.

- Sabe que fim levaram?

- Não. Foram provavelmente deitadas ao lixo junto com milhares de outras quando interrompi as edições da Étoile Press.

- Não teria vendido essas cartas quando" cedeu os direitos de Os Sete Minutos a outro editor?

- Eu... - Leroux titubeou e subitamente ficou prudente. - Pode ser. Não sei.

- Foi mera suposição minha - explicou Barrett -, porque algumas cartas de Jadway, notavelmente parecidas com as que o senhor descreveu, foram colocadas recentemente no mercado por um vendedor de autógrafos em Nova Iorque. Ele comprou-as a um ex-editor. E vendeu-as a um desconhecido. Fiquei a imaginar se não seriam as mesmas que o senhor recebeu. Crê que possam ter sido?

Leroux pareceu aliviado, quase risonho.

- Não tenho ideia. Mas duvido.

- Jadway pediu a Cassie McGraw para lhe entregar as cartas que escrevia?

- Creio que me remeteu uma ou duas pelo correio. As outras entregou-mas pessoalmente.

- Pelos modos o senhor viu Cassie McGraw uma porção de vezes. Lembra-se quantas foram?

Antes que Leroux pudesse responder, o Promotor Público levantou um protesto. A pergunta era irrelevante, declarou. Não declarou porém, agora percebia Barrett, que não obtivera licença para trazer Cassie McGraw ao tribunal, e insurgia-se contra a tentativa do advogado de defesa de fazer o mesmo. Barrett ouviu a pronta aceitação que o juiz Upshaw deu ao protesto.

Como Barrett contava com isso, já estava preparado para mudar o rumo ao interrogatório.

- Mr. Leroux, concentremo-nos mais uma vez no livro, n'Os Sete Minutos. O senhor disse que vendeu subsequentemente a outro editor os direitos que tinha sobre ele. Lembra-se do nome desse outro editor?

O protesto do Promotor Público frustrou qualquer resposta. Barrett solicitou uma conferência em particular com o juiz Upshaw. Foi breve. Explicou que a pergunta se destinava a fornecer base para examinar a integridade e sinceridade dessa testemunha-chefe. Depois de ouvir ambas as partes, o juiz indeferiu o protesto de Duncan e pediu que Barrett continuasse.

Confrontando-se mais uma vez com a testemunha, Barrett repetiu a pergunta:

- O senhor vendeu a outro editor os seus direitos sobre Os Sete Minutos. Não se lembra do nome dele?

- Não, não me lembro - respondeu Leroux.

- Talvez eu possa refrescar-lhe a memória. O editor a quem o senhor vendeu os direitos não se chamava Norman C. Quandt. processado em Nova Iorque por vender pornografia barata?

- Quandt? Sim, creio que o nome era esse. Obrigado.

- Porque vendeu a Mr. Quandt todos os direitos de Os Sete Minutos?

- Já depus a respeito do meu motivo. Eu temia que o livro tivesse influência perniciosa. Queria descartar-me dele. Foi um alívio quando o consegui.

- No entanto, Mr. Leroux, o senhor não se preocupou com o facto de, ao vender o livro a outro editor, o senhor manter viva essa suposta influência perniciosa?

- Não. não me preocupei... porque não achei que Quandt jamais recebesse licença para publicá-lo- No fim pensei que lhe serviria apenas para dedução de imposto. Vendi o livro para liquidar com ele... e salvar-me.

- E não tinha absolutamente nenhum outro motivo para vendê-lo?

- Sob hipótese alguma.

- Compreendo. E quando foi que o senhor desistiu da Étoile Press?

- Há quatro anos.

- Qual foi a causa?

- A mesma que me fez desistir de Os Sete Minutos. Finalmente comecei a ver o mal de publicar obscenidades, e queria romper as minhas ligações com aquilo, recomeçar vida nova.

- Foi esse o seu único intuito?

- Foi.

- Bem, nesse caso... - Barrett dirigiu-se à mesa do escrivão, encontrou a pasta que procurava e voltou com ela ao banco das testemunhas. - Tenho aqui uma entrevista marcada Instrumento de Prova H, entrevista que o senhor concedeu a um jornalista do CExpress na época. Há dois exemplares. O senhor pode ficar com um para comparar enquanto traduzo o outro. Se houver algum erro na tradução, interrompa-me, por favor, e corrija.

Entregou um recorte a Leroux e depois pegou no outro à sua frente.

- Nesta entrevista, o repórter pergunta-lhe porque desistiu de editar pornografia. O senhor responde o seguinte: “Pelo mesmo motivo que hoje há menos prostitutas.” Hoje em dia tornou-se extremamente fácil fazer sexo. Para qualquer pessoa, em qualquer lugar. Se existe de graça, para que pagar? Depois, Mr. Leroux, o senhor continua e diz textualmente o seguinte: “Antigamente, havia tanta censura, tanto material proibido, que dispúnhamos de mercado quase que exclusivo. Mas desde que editoras respeitáveis, em todos os países, têm agora licença para publicar o que antes era 'proibido, estão-nos a tirar os leitores e o mercado que outrora pertencia exclusivamente à Obelisk Press, à Olympia Press, à Étoile Press. Eu desisti porque perdi o meu público” - Barrett ergueu a cabeça. - O senhor reconhece que prestou estas declarações?

Os lábios de Leroux estavam franzidos. Por fim falou,

- Reconheço que dei essa entrevista e que foi publicada na revista. Porém nego que tenham sido as palavras que usei.

- O senhor refuta completamente o artigo?

- Completamente não. Eu objecto contra a sua falta de precisão, contra as omissões, a ênfase excessiva num único ponto. Sim, eu posso ter feito o comentário de que um dos factores de somenos importância que me levou a fechar a Étoile Press fosse a nova tolerância social que existe hoje em toda a parte. Mas era um factor secundário. O motivo primordial da minha desistência foi que vi os perigos da licenciosidade invariavelmente pornográfica, e como estava mais velho e tinha maior compreensão disso, não queria causar mais danos aos meus semelhantes.

- Óptimo e louvável - disse Barrett. - Agora, se o senhor reparar nos dois últimos parágrafos deste artigo, encontrará uma referência a Maurice Girodias, o filho de Jack Kahane, o fundador da Obelisk Press. Girodias era também proprietário da Oiympia Press, outra das suas concorrentes. Encontrou?

- Sim.

- O repórter cita Girodias ao senhor. Diz que ele declarou, em defesa da sua carreira editorial, o seguinte: “A pornografia e a licenciosidade são fantasmas terríveis que desaparecerão no dia em que se regenerar o sexo e o erotismo. Devemos aceitar o amor e a luxúria como movimentos complementares, e não como elementos incompatíveis. Deixemos reconhecer o desejo como a fonte de todas' as acções positivas da nossa vida, e cessar de combater cada instinto natural e cada actividade propiciadora de prazer. Esse resultado só pode ser alcançado com uma série de choques mentais.” - Barrett fez uma pausa. - O repórter diz que leu ao senhor as observações de Girodias, perguntando-lhe a sua opinião sobre elas. E cá está a sua resposta: “Concordo. Apoio, sem restrições, as declarações de Mr. Girodias. Quem, como nós, publicou pornografia e licenciosidades, devia ser respeitado. Nós destruímos tabus. Ensinámos que não há diferença entre o amor e a luxúria.

Tornámos o sexo saudável” - Barrett levantou a cabeça. - Então. Mr. Leroux, o senhor fez estes comentários que lhe são atribuídos? Sim ou não?

- O que está impresso aqui é capcioso.

- Pode responder-me sim ou não? O senhor fez estes comentários?

- Sim, mas...

- Obrigado, Mr. Leroux.

- ... mas em defesa de licenciosidade decente que seja literária, não de imundície como Os Sete Minutos

Prestes a apelar para o juiz, a fim de chamar a atenção sobre a explosão de Leroux, Barrett reconsiderou. Para alguns, jurados, qualquer protesto sobre o comportamento da testemunha podia assemelhar-se a uma intimidação. Barrett reflectiu sobre a conveniência de prosseguir com o interrogatório. Marcara alguns tentos, talvez muito poucos. Leroux, possivelmente, marcara mais para a acusação. Contudo, no espírito de três ou quatro jurados, era bem provável que tivessem sido semeadas as primeiras dúvidas. Continuar, com uma testemunha agora tão hostil, tão agressiva, seria capaz de levar ao desastre.

Erguendo a vista do instrumento de prova e das notas que segurava na mão, Barrett olhou para o sócio. Zelkin parecia preocupado.

Sinal vermelho.

Pare.

Encarou a testemunha.

- Obrigado, Mr. Leroux - fitou o juiz. - Creio que é só, Meritíssimo.

Voltou à mesa e caiu exausto na cadeira.

- Fiz o possível, Abe - disse. - Tentei. Eles embrulharam a vida de Jadway de tal modo, pondo em cima um cartaz dizendo: “Proibido entrar”, que é um inferno prà gente descobrir alguma coisa. O que conseguimos?

Zelkin estava a olhar para outro lado.

- Conseguimos um breve intervalo, isso é o que conseguimos.

Durante o intervalo, a terrível suspeita que ocorrera antes a Mike Barrett, de que Duncan e Mrs. St. Clair talvez conseguissem encontrar maneira de continuar o depoimento do editor francês em lugar mais público, ficou confirmada.

Numa sala particular do sexto andar do Palácio de Justiça, acompanhado por Zelkin e Fremont, Barrett reuniu-se a Philip Sanford, que estava com o seu minúsculo aparelho portátil de televisão ligado a todo o volume. Um imenso primeiro-plano de Christian Leroux enchia a tela.

- É uma entrevista colectiva que estão a fazer num recanto qualquer do prédio - explicou logo Sanford. - Mrs. St. Ciair da LFD providenciou tudo. Conseguiu repórteres do mundo inteiro para crivar Leroux de perguntas. Foi ela quem o apresentou. Começou dizendo que já que Leroux havia terminado o seu depoimento no tribunal, estava pronto a responder a perguntas fora do recinto, embora não pudesse comentar as declarações que prestara dentro da sala antes de ser anunciado o veredicto. Agora ele está...

- Deixe que a gente vê... - disse Barrett, puxando uma cadeira.

Os quatro aproximaram-se do pequeno aparelho de televisão, enquanto um Christian Leroux loquaz, refestelando-se com a promoção, respondia a nova pergunta do repórter.

- Não, não me permitiram comentar a morte de J J. Jad-way no tribunal - dizia o editor francês -, mas estou disposto a revelar agora a verdade nos mínimos pormenores. Soube dos factos por intermédio da amante de Jadway, Cassie McGraw. Querem saber o que causou a morte dele? Já lhes conto. Foi Os Sete Minutos que no fim o matou. A família, na Nova Inglaterra, ignorava que ele tivesse escrito esse livro. Quem descobriu tudo primeiro foi a mais velha das duas irmãs de Jadway. Por pura estupidez, ele enviara-Lhe um exemplar. Segundo Miss McGraw, ele não queria que a irmã ficasse para semente, tornando-se uma fria solteirona. Por isso resolveu dar-lhe um exemplo da sua nova liberdade e inspirá-la a também rebelar-se. Os resultados não se fizeram esperar. O livro abalou-a a tal ponto que ela deu em beber e ter casos com homens, até que se transformou numa vagabunda e bêbeda incurável. Não sei o que aconteceu com a outra irmã. Só sei que a mais velha ficou daquela maneira. Ao mesmo tempo, o pai de Jadway soube do livro, porque a sua religião publicou uma circular a condená-lo. O pai dele... especialmente depois que Jadway foi | excomungado... o pai dele sofreu com aquela desgraça, e contraiu uma doença que nunca mais sarou. Também segundo Miss McGraw, a filha de um dos amigos mais íntimos de Jadway pegou num exemplar de Os Sete Minutos quando ainda era adolescente e impressionável, e ficou tão corrompida que passou a imitar a heroína do livro e caiu em maus costumes.

- Caiu em maus costumes? - A voz era evidentemente de um correspondente de sotaque alemão. - Não podia ser mais explícito, Mr. Leroux?

- Tornou-se amante de uma série de homens. E logo se viu reduzida a pouco mais que prostituta.

- JJ Jadway soube o que o seu livro tinha causado à sua família, à filha do seu amigo? - indagou o mesmo correspondente,

- Naturalmente. Comentou tudo com Cassie... com Miss McGraw. Estava cheio de remorso. Bebia cada vez mais. Vivia, remoendo-se. Mergulhou em profunda depressão. Por fim, em Fevereiro de 1937, numa casinha que ele e a amante tinham alugado nos arredores de Paris... na vila de Vaucresson... uma noite ele foi à casa de banho e deu um tiro na cabeça. Deixou um bilhete para Míss McGraw: “Sou obrigado a fazer isto para expiar o meu pecado por ter criado aquele livro monstruoso."

- O senhor viu o bilhete do suicida, Mr. Leroux? - ouviu-se perguntar uma voz de sotaque inglês.

- Se eu vi? Não, não, claro que não. Miss McGraw foi quem me contou, toda de luto, inconsolável, na missa do sétimo dia.

- Não sabe se o bilhete ainda existe?

- Se Miss McGraw estiver viva, é bem possível.

- Eu sou da Associated Press, Mr. Leroux - entrou uma nova voz no coro. - Se não se importa, tenho mais algumas perguntas a respeito de Cassie McGraw. O senhor disse que ela representava J J Jadway nas transacções de Os Sete Minutos?

- Ela entregou o manuscrito em nome dele, negociou tudo comigo, serviu-lhe de agente literário, em suma, e como intermediária durante a revista de provas.

- E depois do suicídio, viu-a mais do que uma vez?

- Depois que Jadway morreu, vi Cassie McGraw duas vezes. Na missa do sétimo dia e vários meses depois, quando foi ao meu escritório para mostrar que havia herdado os direitos do livro, e quis logo vender-me a sua parte por uma soma redonda. A essa altura já estava farta de Paris e precisava de dinheiro para voltar com a filha para a América.

- Filha? - A tela mostrou em close-up a reacção de surpresa de um famoso colunista da United Press International. - O senhor quer dizer que Cassie McGraw tinha uma filha?

- Sim, de Jadway. Será que me esqueci de mencioná-la? Mas é lógico. Ela teve uma filha com ele, nascida dois meses depois que ele morreu.

- Uma filha? Sabe o seu nome?

- Judith.

Barrett teve a atenção desviada por Zelkin, que rabiscava notas rapidamente. Uma nova pista. A filha de Jadway. Noutra parte qualquer do prédio, supunha ele, Duncan ou um dos seus assistentes também estaria escrevendo apressadamente- isto é, presumindo-se que a acusação já não possuísse tal informação. Ia começar uma nova caçada, e corrida, no encalço de uma nova testemunha promissora.

- Mr. Leroux, Cassie McGraw foi procurá-lo só porque precisava de dinheiro para trazer a filha de volta para a América? - perguntou um correspondente italiano.

- Sim. Ela ofereceu-me a sua parte em Os Sete Minutos pelo preço da passagem de regresso. Do ponto de vista comercial, a compra era uma insensatez. O livro não estava a encontrar já aceitação. Mas apesar disso, como eu sentia grande carinho e compaixão por aquela linda moça, paguei-lhe a soma que queria e mandei-a embora.

- E nunca mais viu Cassie McGraw nem a filha? - alguém quis saber.

- Nunca.

- Nem teve notícias delas, directamente ou através de terceiros?

- Nem uma só palavra. Nada. Apenas silêncio em todas estas décadas.

- E nunca mais ouviu falar na família ou amigos de Jadway depois que ele morreu?

- Nunca.

Várias vozes começaram a fazer perguntas simultâneas e a câmara recuou, revelando não só Leroux como também Mrs. St. Clair a seu lado.

- Uma de cada vez, por favor - pediu Mrs. St. Clair à imprensa fora da cena. Apontou para alguém. - O cavalheiro que levantou a mão. Quer identificar-se?

- Pois não. Sou do New York Times. Tenho diversas perguntas para fazer a Mr. Leroux.

O vídeo mostrou um Leroux todo afável.

- Pergunte todas as que quiser - disse ele.

- Eu gostaria de voltar à sua relação com Cassie McGraw. No tribunal, se não me engano, o advogado de defesa teve curiosidade de saber quantas vezes o senhor se tinha encontrado com Miss McGraw durante todo o período em que a conheceu. A pergunta, naquela altura, foi cancelada. O senhor poderia responder agora?

- Com o máximo prazer. Quantas vezes me encontrei com ela? Não sei dizer ao certo. A primeira vez foi em 1934. A última em 1937, depois da morte de Jadway.

- O senhor diria que se encontrou com ela mais do que uma dúzia de vezes? - insistiu o correspondente do New York Times.

- Possivelmente. Mas não muito mais. Pouquíssimas, depois que o livro foi publicado. Eles não passavam o tempo todo em Paris. Acho que uma ocasião viajaram para a Itália. Ela estava a tentar fazê-lo mudar de ambiente para o regenerar. Depois, quando voltaram, mudaram-se para aquela vila nos arredores de Paris.

- O senhor descreveria a sua relação com Cassie McGraw como íntima?

- íntima? Desculpe, mas não compreendi.

- Deixe-me esclarecer a pergunta, Mr. Leroux. O senhor descreveu Jadway como pusilânime, frustrado, com mentalidade comercial, desagradável, o que só pode ser interpretado como significando que sentia apenas desprezo por ele. Ao mesmo tempo, o senhor referiu-se a Cassie McGraw com carinho. Repetiu pormenores íntimos da vida de Jadway que ela lhe contou confidencialmente. O facto de lhe ter revelado pormenores assim tão íntimos deixa-me curioso sobre o tipo de relação que manteve com ela. Restringia-se a negócios? Ou também era social?

- Era estritamente comercial.

Escutando, assistindo, Barrett sorriu. O pertinaz repórter do Times, na opinião de Barrett, daria um excelente advogado criminalista. O repórter absorvia ainda a atenção de Leroux,

- Mesmo assim, as conversas que o senhor teve com ela fizeram vir à tona os seus sentimentos e emoções mais íntimos, não foi?

- Ela não conhecia nenhuma outra pessoa com quem pudesse conversar num país estrangeiro, para comentar as suas desgraças em matéria de amor, preocupações ou problemas. A família, os amigos, não estavam em Paris. Era uma estranha, uma forasteira. Precisava de alguém digno de confiança e compadecido, com quem pudesse... como é que se diz?... desabafar. Sim, ela confiava-me as suas mágoas e eu, cheio de pena, ouvia.

- Alguma vez a levou a um café? Leroux sorriu de leve.

- Nós, os franceses, tratamos de negócios em cafés. Sim, suponho que discutimos negócios no Fouquefs ou no Se/ecf, que já existiam naquele tempo. Sim, acho que sim.

- Nunca recebeu Cassie McGraw na intimidade do seu apartamento?

Os olhos de Leroux pestanejaram.

- O senhor certamente deve saber que os franceses nunca convidam americanos para visitar as suas casas ou apartamentos.

Ouviram-se risos abafados de toda a imprensa reunida, Leroux sorriu e demonstrou a mesma satisfação de um actor a receber aplausos no final de uma peça.

Ainda assim, o inquiridor de Nova Iorque insistiu:

- Mr. Leroux, o senhor não respondeu à minha pergunta. Nunca recebeu Miss McGraw no seu apartamento?

O sorriso de Leroux desfez-se.

- Não, não recebi - respondeu num arroubo de cólera. - Se está a insinuar que eu era hostil a Jadway porque rivalizava com ele na afeição de Miss McGraw, engana-se. Para deixar o assunto bem claro, a minha relação com Miss McGraw era estritamente comercial, uma transacção de negócios entre editor e agente, e nada mais.

Pestanejou para a câmara.

- Há alguma outra pergunta?

Zelkin desligou o aparelho de televisão.

- Este francesinho é safado. Ele não está a ter grande serventia para nós, dentro ou fora do tribunal. Bem, agora temos de voltar. Duncan deve estar pronto com a próxima testemunha. Só queria saber que diabo há-de ser.

A próxima testemunha do Povo, conforme se verificou, era outro visitante de terras longínquas e constituiu, para Barrett e Zelkin, uma completa surpresa.

Tratava-se de uma figura impressionante, usando o hábito negro do clero católico. A Barrett, lembrava o baixo-relevo de um mártir jesuíta, esculpido em pedra, adornando um dos caixões na cripta da basílica de São Pedro, que se tivesse posto de pé e recobrado vida. As austeras feições de Savonarola, os olhos penetrantes, o grande nariz aquilino, o queixo saliente eram uma censura instantânea ao frívolo, ao licencioso, ao blasfemo. Movia-se com a segurança de um mensageiro do Altíssimo. Deixava evidente que não toleraria tolices, nem daria acolhida a trivialidades. Achava-se numa missão. Ao serviço de Nosso Senhor. Quando prestou o juramento com o ar mais displicente deste mundo, dava a impressão de que o tinha inventado.

Esta testemunha era o padre Sarfatti, membro da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé e funcionário da Santa Sé Apostólica de Roma.

Depois que ele surgiu no banco das testemunhas e que o promotor público Duncan começou a orientá-lo na fase inicial do inquérito, estabelecendo os seus antecedentes e qualificações, Barrett e Zelkin empreenderam uma rápida conferência em voz baixa.

A aparição de uma testemunha ligada ao Vaticano apanhara-os desprevenidos. Zelkin havia-se queixado sempre do procedimento das acções penais que, ao contrário das cíveis, não exigiam identificação nem interrogatório prévio das testemunhas. Apesar desse sigilo, nem Barrett nem Zelkin esperavam qualquer surpresa no caso de Fremont. As principais testemunhas do Povo - Christian Leroux de uma parte, Jerry Griffith de outra - tinham recebido ampla publicidade. As testemunhas secundárias numa acção de censura obedeciam na maioria das vezes a um padrão determinado. Haveria psiquiatras, educadores, especialistas literários, líderes da colectividade, e outros semelhantes. O facto de que o Promotor Público fosse recorrer a fontes do Vaticano para um conhecedor do Índex Librorum Expurgatorius era um lance que nem Barrett nem Zelkin podiam prever.

No entanto, instintivamente, Barrett lembrara-se a cada instante de um dos mandamentos da sua profissão: um bom advogado deve estar sempre preparado para o pior.

Felizmente, ao revisar as suas anotações há menos de uma semana, e enquanto se preparava para o pior, Barrett levara em conta que um ano após a publicação de Os Sete Minutos o autor fora condenado pela Igreja Católica e o livro sentenciado à inclusão no Index. Como o Index evocava imagens de um passado já distante, de uma Igreja bem mais dura e implacável, como a sua existência e actividade eram tão remotas em relação à vida da população de Oakwood, Los Angeles e América, Barrett supôs que o Promotor Público talvez se referisse a ele apenas de passagem durante o julgamento. Todavia, por ser meticuloso e por saber que há mais acções penais ganhas na fase de instrução do que nos julgamentos propriamente ditos, Barrett iniciara um plano superficial de pesquisa sobre a aparelhagem histórica de censura do Vaticano e também do Index. Tinha feito algumas leituras e incumbira Kimura de entrevistar vários teólogos. Os resultados obtidos mal deram para encher uma única pasta de arquivo.

Mas agora que Duncan assestara um grande canhão do Vaticano contra as posições já enfraquecidas da defesa, Barrett sabia que necessitava desesperadamente de reforços. Mesmo enquanto tentava ouvir" o depoimento do padre Sarfatti, Barrett estava a consultar o sócio sobre o que deviam fazer. Em questão de minutos, combinaram as medidas defensivas. Zelkin telefonaria a Donna no escritório, pedindo-lhe que enviasse, pelo portador de serviço, a pasta marcada “Jadway - Index Católico”. Localizaria Kimura e mandá-lo-ia de novo procurar, correndo, os mencionados teólogos eruditos à cata de maiores dados que pudessem ser úteis à defesa. Se a inquirição de Barrett começasse logo, ele esforçar-se-ia ao máximo, a fim de prolongá-la até à hora do almoço, dando assim a Kimura oportunidade de telefonar qualquer informação de que pudessem tirar partido para assimilar durante o intervalo, antes de recomeçar a inquirição à tarde.

Depois que Zelkin deixou a mesa de defesa e saiu discretamente da sala para os poucos minutos que levaria para telefonar a Donna e Kimura, Barrett tentou concentrar-se no novo depoimento. Foi difícil ficar atento. O seu poder de concentração tinha sofrido rude prova com o interrogatório de Leroux e teve de esforçar-se para acompanhar detidamente cada pergunta e resposta trocadas à sua frente. Confiava, porém, no seu instinto para sintonizar automaticamente o que fosse vital, e depois desligar.

Durante os cinquenta e cinco minutos subsequentes, houve uma meia dúzia de vezes em que um diálogo não só relevante como fundamental foi captado pelas antenas de Barrett, que então sintonizava a todo o volume.

O procedimento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé ao proscrever um livro.

Barrett sintonizou a todo o volume.

. - Padre Sarfatti, para que possamos compreender melhor os motivos que levaram a Igreja a condenar Os Sete Minutos, e para auxiliar-nos em nosso julgamento sobre a imoralidade do livro e em nossa acção contra o livreiro que o vendeu, o senhor podia explicar o procedimento da Igreja numa questão como esta?

- Certamente, Mr. Duncan. Uma vez que vários departamentos da Cúria foram remodelados ou aerodinamizados nestes últimos anos, é preciso descrever como funcionavam em 1935, ano em que Os Sete Minutos foi publicado em Paris. Naquele tempo, todas as obras censuráveis caíam sob a vigilância da Secção de Censura de Livros, que era o departamento da Cúria dirigido pela Suprema Congregação do Santo Ofício. Quando um bispo ou vigário de uma das nossas dioceses, em qualquer país, encontrasse um livro com doutrina contrária à moral e à fé da Igreja, ele submetê-lo-ia à Secção de Censura de Livros na Santa Sé.

- Contrário à moral...?

- À moral e à fé, Mr. Duncan. Serei explícito. Livros que tratam ex professo de temas lascivos ou obscenos sempre foram proibidos. Da mesma maneira, todos os livros que expõem heresias ou cismas têm sido proscritos. Antigamente, quando um livro suspeito era submetido ao Santo Ofício, era entregue a uma ordem religiosa em Roma cujos membros falassem e lessem o idioma em que estivesse impresso. Conhecedores, então, examiná-lo-iam e apresentariam o veredicto, escrito em latim, ao Santo Ofício. Ao mesmo tempo, um padre, representando a Secção da Censura de Livros, podia conduzir uma investigação sobre a vida do autor do livro denunciado e sobre as circunstâncias em que a obra fora criada. A soma desse material via-se, depois, apresentada a uma reunião dos conselheiros do Santo Ofício, onde a obra seria debatida e submetida à votação. Se o resultado do escrutínio fosse uma condenação, procedia-se à entrega de um relatório sobre o livro a uma sessão plenária do Colégio de Cardeais. Finalmente, o Prefeito dos Cardeais passava o veredicto do Colégio, bem como os relatórios anteriores, para as mãos do Sumo Pontífice. Se o Papa confirmasse as decisões e recomendações. Sua Santidade ordenava então que o livro fosse incluído no Index de Livros Proibidos.

- E foi esse o método adoptado para condenar Os Sete Minutos, padre Sarfatti?

- Precisamente.

- Tenho aqui o Instrumento de Prova E, um exemplar do Index publicado em 1940... Cumprimento-o pela sua argúcia e meticulosidade... Obrigado, padre. Agora, esta é a edição mais antiga que pude encontrar em que J J Jadway e Os Sete Minutos estavam relacionados. Entretanto, ao que me consta, o livro foi proibido em 1937, três anos antes. O senhor podia esclarecer isso?

- Muito simples, Mr. Duncan. Novas edições do Índex são publicadas a intervalos regulares. Quando o livro de J J Jadway foi condenado em 1937, o decreto de proibição saiu publicado pela primeira vez no Acta Apostoiicae Sedis, o boletim oficial da Santa Sé, e esse boletim foi remetido aos bispos do mundo inteiro, para os informar da condenação oficial. Subsequentemente, todos os bispos e vigários paroquiais, para proteger as almas confiadas à sua guarda espiritual, anunciaram a proibição aos seus paroquianos. Depois disso, o livro foi relacionado como proibido na edição imediatamente posterior do Index, que saiu três anos mais tarde. Tenho a satisfação de acrescentar que os nossos irmãos protestantes, especialmente os europeus, por iniciativa própria, também se manifestaram contra os perigos desse mesmo livro.

- Padre, a fim de melhor compreender a gravidade dessa condenação, gostaria de fazer-lhe uma série de perguntas a respeito do Index em si e...

Mike Barrett desligou e passou a concentrar-se nas suas anotações.

Dez minutos depois, as suas antenas captaram outra coisa. Curioso a respeito da investigação do próprio J J Jadway.

Barrett sintonizou logo, em alto volume.

- Padre Sarfatti, confiaram-lhe pessoalmente essa investigação sobre o autor de Os Sete Minutos?

- Sim, ou melhor, participei. Eu era um jovem pároco na época. Nos anos que se seguiram, assumi outras funções na Santa Sé. Mas recentemente fui outra vez desigualado para a Cúria, para trabalhar no seu novo departamento conhecido como a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, que agora exerce autoridade sobre o índex. Quando o Sumo Pontífice se interessou pela sua acção, Mr. Duncan, eu fui escolhido para lhe prestar todo o auxílio possível, em virtude da minha familiaridade anterior com o caso Jadway e com os nossos registos desse caso nos arquivos do Vaticano. Antes de vir para a América, retirei e examinei esses documentos nos nossos ficheiros que se relacionavam com a proibição de Os Sete Minutos. A verdadeira investigação extra-oficial do autor Jadway foi efectuada pelo Arcebispo de Paris em 1935 e 1936. Eu funcionei como um dos seus assistentes na investigação.

- E o seu parecer, Padre Sarfatti, foi baseado em informação de segunda mão ou em contacto pessoal concreto com J J Jadway?

- Tudo o que eu submeti para ser usado no tribunal foi obtido em primeira mão. O senhor tem os registos.

Duncan ergueu três folhas de papel, uma delas colada com sinete de cera e fita.

- Tenho estes três registos que recebi do senhor. Reconhece neles os documentos do arquivo do Vaticano?

- Reconheço.

Duncan recuou e dirigiu-se ao juiz,

- Meritíssimo, gostaria de incluir no julgamento material novo que até agora ainda não foi assinalado. Peço-lhe receba estes documentos como instrumentos de prova.

Na mesa da defesa, Barrett trocou um olhar com Zelkin.

- Porcaria - resmungou, levantando-se para se juntar a Duncan e ao escrivão diante do juiz.

Durante os minutos seguintes, o juiz Upshaw examinou os documentos, depois Barrett leu-os à pressa e finalmente foram aprovados. O escrivão numerou-os e agora fariam parte das provas na acção contra Ben Fremont e Os Sete Minutos.

Quando Barrett voltou à mesa da defesa e mergulhou na cadeira, Zelkin parecia ansioso.

- Então? - perguntou.

- A coisa vai mal - respondeu Barrett.

O Promotor Público já estava de novo diante do banco das testemunhas.

- Padre Sarfatti, o senhor pode resumir por suas próprias palavras o conteúdo destes documentos?

- Sim. O primeiro é a cópia de uma conversa telefónica que tive em Paris com J J Jadway. Eu escrevera-lhe de Roma, dizendo que gostaria de ter uma entrevista com ele, mas não obtive resposta. Chegando a Paris, telefonei-Lhe diversas vezes e nunca o encontrei em casa. Finalmente ele ligou para mim, e eu transcrevi o que conversamos. O segundo documento é uma carta que Jadway me escreveu... bastante desafiadora, aliás... e que me foi enviada depois do telefonema anterior. O último documento é um traslado preparado por um funcionário da Cúria, já falecido, relatando uma declaração que Jadway lhe fez durante um encontro na Itália. Essa declaração foi assinada por Jadway, com firma reconhecida em cartório.

- Essa informação de Jadway confirma o depoimento do seu editor francês, Mr. Leroux, a respeito das atitudes e motivos de Jadway em relação ao facto de ter escrito Os Sete Minutos?

- Eu responderia pela afirmativa. Sim, a soma total dos pareceres da Igreja, inclusive esses documentos, tende a confirmar o que Mr. Leroux já revelou. Direi que, além desses documentos, os nossos registos de investigação são um tanto circunscritos e formais. Não possuímos informação sobre a família do autor Jadway ou sobre a sua vida na América. Mas por meio desses documentos sabemos que era católico e renegara a fé. Sabemos que os seus gostos em literatura eram para o imoral e o ateísta. Segundo ele me contou, a sua biblioteca continha as Memórias, de Casanova, assim como obras de Henri Berg-son, Benedetto Croce e Karl Pelz, todas proibidas aos católicos. Ele tinha participado certa vez de uma demonstração anticlerical em frente à Notre-Dame. O seu círculo consistia de livres-pensadores dissolutos que frequentavam os cafés da Margem Esquerda. Convivia com prostitutas antes de levar uma vida pecaminosa com a moça conhecida como Cassie McGraw. Duvido que a condenação da Igreja desempenhasse algum papel no suicídio dele. Suicidou-se em consequência da falta de princípios morais, que se reflecte na sua única obra publicada. Depois que morreu, foi cremado, e consta que Miss McGraw executou a sua última vontade. As suas cinzas foram espalhadas do alto de um balão que sobrevoava Montparnasse. É uma história lamentável.

Durante toda a exposição de factos do padre Sarfatti, especialmente o último trecho, Barrett sentiu o impulso de levantar protesto legal. Tinha motivos - grande parte do depoimento do clérigo era irrelevante, e o final baseava-se em boatos -, porém, Barrett resistiu à vontade de falar. O material, num contexto diferente, já fora ventilado anteriormente por Leroux, tanto no recinto como fora do tribunal. Qualquer protesto, nessas circunstâncias, poderia causar a alguns jurados a impressão de que a defesa estava a tentar amordaçar um mensageiro de Deus. Bem ou mal, Barrett manteve a calma e continuou a escutar atentamente.

- Padre Sarfatti, os seus registos dão alguma prova quanto aos motivos que J J Jadway teve para escrever Os Sete Minutos?

- Só no seu comentário, contido na carta que me foi dirigida, de que todas as religiões e instituições de ensino estavam tentando fingir que o mundo era uma imensa caixa de bombons, ao passo que no livro ele se propunha demonstrar que era... que era um monturo... um monturo que terminaria por adubar a verdade e produzir beleza, se se deixasse de fingir. Além disso, eu poderia lembrar que as palavras do texto, assim como a sua maneira de viver em Paris, indicam os motivos que tinha: Em época alguma manter qualquer ligação legítima em Paris. O senhor pode tirar desse facto as conclusões que quiser.

- Os seus registos dão prova da influência de Cassie McGraw sobre Jadway durante o tempo em que ele escreveu Os Sete Minutos ou mesmo de qualquer coisa a respeito de Cassie Mc...?

- Protesto, Meritíssimo - interrompeu Barrett.

Não podia deixar que aquilo continuasse ou fosse cancelado somente depois de ter sido respondido. Mas Duncan, pelos vistos ia fazer uma tentativa de trazer Cassie McGraw para o julgamento, pois estava a solicitar conferência em particular com o juiz.

Durante a conferência, Duncan procurou forçar a informação que sabia que o padre Sarfatti estava pronto a fornecer, tentando relacioná-la com material pornográfica no romance. Afinal de contas, argumentou Duncan, Cassie McGraw servira de modelo para a heroína. Em sua impaciência, o Promotor Público não forçou apenas depoimento ainda por vir, como terminou partindo-o em dois.

- A Igreja possui uma cópia da certidão de nascimento da filha de Cassie McGraw com Jadway - dizia Duncan. - A criança foi baptizada como Judith Jan Jadway. O padre Sarfatti está preparado para nos dizer que a última e mais recente anotação no arquivo do Vaticano revela que Miss McGraw se casou na cidade de Detroit em 1940 e que o marido morreu em Salerno durante a Segunda Guerra Mundial. Embora não haja registo do nome dele por extenso, nem do seu nome de casada, nem tão-pouco indicação do destino eventual de Miss McGraw ou da filha, ainda creio que o que se souber sobre ela auxiliará o júri... - seguiu por aí fora, e quando terminou, o juiz Upshaw, impaciente, repreendeu-o por tentar introduzir material completamente irrelevante à causa.

- Sobre essa questão, a sua testemunha não pode dizer nada de valor ao júri - concluiu o juiz Upshaw. - Aceito o protesto do advogado de defesa.

De volta à sua mesa, Barrett ouviu Duncan reiniciar o interrogatório.

- Agora, Padre, se pudermos recapitular brevemente o procedimento da...

Mike Barrett desligou.

Quinze minutos depois, a sua antena captou um som. Ofereceu a oportunidade de retratar-se enquanto estava na Itália.

Barrett sintonizou à pressa.

- O senhor quer dizer, padre Sarfatti, que um membro da Igreja se encontrou pessoalmente com Jadway e lhe ofereceu a oportunidade de se retratar dos seus erros?

- Exactamente. Não há nada de insólito, Mr. Duncan. A igreja age devagar, e com considerável tolerância, contra o autor de uma obra denunciada. Em geral o autor recorre ao Vaticano, dizendo que escreveu de boa fé, sem perceber por completo o erro da sua doutrina. Nessas ocasiões, a Congregação do Santo Ofício, depois de tornar público o decreto de condenação, pode então tornar público um aviso que diz: “O autor retratou-se e repudiou a obra.” A primeira condenação permanece válida, mas o seu nome e a obra podem ser excluídos do próprio Index. Basta citar um exemplo. Henry Lasserre, católico ortodoxo que escreveu um livro excelente sobre o milagre em Lourdes, decidiu traduzir os Evangelhos para francês. Não se contentou em seguir o original. Pôs na tradução um pouco da própria fantasia. Essa tradução foi logo condenada e proibida. Felizmente, porém, Lasserre reconheceu o erro cometido e retirou rapidamente o livro da circulação. Retratou-se. E, em consequência, o Santo Ofício retirou a sua proibição e omitiu o nome do autor nas edições subsequentes do Index.

- E J J Jadway... espere, quero ver se entendo, ele quis retratar-se por iniciativa própria ou ofereceram-lhe a oportunidade?

- Ofereceram-lhe uma última oportunidade. Ele tinha chegado com a amante à Itália e visitava Veneza quando um emissário da Igreja o procurou. Ele recebeu a oportunidade... generosa, aliás... de repudiar Os Sete Minutos e retirá-lo da circulação. Mas recusou. O senhor tem o documento assinado por Jadway nesse sentido. A Igreja então não teve alternativa senão condenar a obra por obscenidade e sacrilégio.

Barrett desligou.

No final do impressivo interrogatório de Duncan, o Juiz Upshaw anunciou um intervalo de duas horas para o almoço. Abe Zelkin já tinha a pasta de Donna a respeito do Index e várias páginas de anotações tomadas durante uma conversa telefónica com Kimura minutos antes. Mandando um moço de recados ao átrio do andar térreo do Palácio da Justiça em busca de sanduíches e refrigerantes, Barrett e Zelkin recolheram-se a uma sala vazia do prédio principal e passaram a maior parte das duas horas a examinar os resultados da pesquisa e a traçar a estratégia da inquirição.

Preparando-se para voltar ao tribunal, Barrett sentiu-se ligeiramente tentado a tomar a ofensiva na sua inquirição. A Igreja que o padre Sarfatti representava devia ser considerada sacrossanta. Entretanto Barrett sabia que determinado trecho da sua história, a exemplo de qualquer outra fé no mundo, era extremamente vulnerável a ataques. Na Idade Média, e na mesma época em que o Index estava a ser preparado, a Igreja e o seu rebanho achavam-se obcecados pelo sexo. Santo Agostinho confessou que, antes de abraçar o cristianismo, possuía “um apetite insaciável” por sexo e havia “transbordado de... fornicação-. Embora Agostinho tivesse vencido a fraqueza da carne, os seus sucessores de batina muitas vezes se mostraram menos resolutos. O Bispo de Liège passa à história como pai de sessenta e cinco filhos ilegítimos. Dizia-se que um abade espanhol em San Pelayo, mantivera, em vida, setenta amantes. Na Suíça, os homens casados viram-se forçados a proteger as esposas contra a sedução nos confessionários, requerendo às autoridades que permitissem uma amante a cada padre. Na própria Santa Sé, Marozia, filha de um funcionário papal, havia tido o Papa Sérgio III como amante e fantoche, e em 931 conspirara para que seu filho ilegítimo fosse sagrado Papa João XI. Leão VIII morrera de um ataque durante uma relação sexual. E Alexandre VI, pai confesso dos Borgias, possuíra duas amantes enquanto ocupara o Vaticano, uma delas Giulia Farnese de dezassete anos. E isso pouco mais de cinquenta anos antes que a Santa Sé começasse a condenar autores por imoralidade no primeiro Index.

O que teria pensado Jesus de tudo isso? Será que não diria o que disse aos fariseus, quando lhe trouxeram uma adúltera que achavam que devia ser morta a pedradas? “Quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra”?

Agora, em tribunal aberto, Barrett precisava de contestar um representante da Igreja, protector da moralidade. Ousaria Barrett dizer: “Quem não tiver pecado...”?

Sentia-se fortemente tentado. Depois, afinal, percebeu que um ataque dessa natureza era impossível. Seria mal interpretado. E se de facto o pusesse em prática, já previa o protesto de Elmo Duncan: Irrelevante!

Teria de escolher a solução mais difícil.

Às duas horas, confrontando-se com o temível padre Sarfatti, Mike Barrett viu que não era adversário à altura da testemunha. Em seu conhecimento da história da Igreja em questão de literatura condenada, o prelado sentia-se seguro, ao passo que Barrett pisava em areia movediça. Mesmo assim, estava incumbido da defesa e passou a fazê-la.

Em primeiro lugar, o método do aparelhamento de censura.

- Padre Sarfatti, eu ouvi o senhor comentar... corrija-me se entendi mal... creio que o senhor declarou que os departamentos da Cúria haviam sido remodelados e aerodinamizados depois que o livro de J J Jadway foi publicado em 1935. Poderia explicar melhor esse ponto, uma vez que se relaciona com a censura de livros?

- Para ser breve...

- Desculpe-me, Padre, mas não há necessidade de ser breve. Seria útil ouvir todos os pormenores que o senhor considera relevantes a este julgamento.

- Agradeço-lhe a cortesia, meu senhor. Permita-me dizer que em 1966, de acordo com o espírito do novo Concílio Ecuménico que impregnou a Igreja e toda a cristandade, o Papa Paulo VI aboliu o título da Suprema Congregação do Santo Ofício, que há muito vinha sendo considerado ofensivo por protestantes que o associavam com o que consideravam como perseguições no início da história da Igreja. Com a eliminação do Santo Ofício, a Secção da Censura de Livros também foi abolida.

- Porquê?

- Como já disse, meu senhor, porque estava de acordo com o novo espírito de unidade entre as várias fés cristãs.

- Compreendo. Estou interessado em saber se houve outros motivos. Não é verdade, Padre, que na reunião do Concílio Ecuménico em Roma havia numerosos cléricos católicos romanos que protestaram contra o antigo Santo Ofício, o próprio departamento que condenara Jadway, porque não realizava audiências justas para os autores, e esses clérigos acharam que o Index de Livros Proibidos devia ficar permanentemente abolido?

- Bem, houve uma minoria de clérigos que foi desse parecer. Isso é verdade.

- E, Padre, também não é verdade, como informou a nossa Associated Press na Cidade do Vaticano, que “ao eliminar a Secção da Censura de Livros, o Papa fez um gesto dramático que implicou em importante decréscimo de ênfase na mentalidade do índex do passado?"

- Naturalmente, devemos aceitar o facto de que os serviços noticiosos muitas vezes empregam generalizações violentas e tendem a exagerar. Em essência, eu diria que houve esse esforço no sentido de diminuir a ênfase de qualquer função do Santo Ofício que outrora despertava o antagonismo dos não-católicos.

- Isso não implicaria então, Padre, em vista dessa nova liberalidade da Igreja, que o que ela condenou e proibiu em 1935 hoje talvez não condenasse nem proibisse?

- Meu senhor, essa é uma pergunta hipotética para a qual não possuo as qualidades nem a autoridade de responder. Posso citar certos factos que talvez apontem uma conclusão. Por um lado, a nova Congregação para a Doutrina da Fé, da qual sou membro, continua a revisar e examinar obras publicadas, denunciadas como contrárias às doutrinas da Igreja. Por outro, o Index não foi abolido. Ainda existe. Sua Santidade pode incluir nele qualquer obra que quiser. Finalmente, meu senhor, estou aqui à sua frente como representante do Vaticano porque a Igreja está hoje tão preocupada quanto esteve em 1935 acerca da publicação e circulação de uma obra de ficção imoral e sacrílega intitulada Os Sete Minutos.

Barrett não foi além do sistema de aparelhamento de censura da Igreja. Atrapalhara-se com aquela. Outra linha de acção.

Em segundo lugar, a infalibilidade do Index.

- Padre, tal como o douto Promotor Público, também estive a examinar um exemplar do índex... para ser mais preciso, a edição em que foi incluída pela primeira vez o nome de J J Jadway... assim como outras obras que versam sobre o Index. Gostaria de fazer-lhe uma série de perguntas sobre esse calendário ou enciclopédia de censura. Admirei-me de achar "Decadência e Queda do Império Romano", de Gibbon, os "Pensamentos", de Pascal, os "Princípios de Economia Política", de John Stuart Mill, "Uma Viagem Sentimental pela França e Itália", de Sterne e todas as obras de Zola, ainda relacionadas no Index e portanto ainda proibidas. Porque foram condenadas... por serem pornográficas ou por serem anticlericais?

- Por serem anticlericais.

- Não porque fossem nocivas à moral? - Porque eram nocivas à fé.

- E Os Sete Minutos, padre Sarfatti? Lembro-lhe que este é um julgamento preocupado apenas com a questão do livro ser pornográfico ou não. O facto das obras de Jadway serem contrárias à fé, ou anticlericais, não entra em discussão neste tribunal. Tendo isso em mente, o senhor pode dizer-me oficialmente se Os Sete Minutos foi condenado ao Index porque é pornográfico ou porque é herético?

- Ele foi condenado porque é ambas as coisas... pornográfico e herético.

- Muito bem, Padre. Quanto à questão presente do que vem a ser pornográfico ou não, naturalmente, trata-se de um critério de valores. O senhor crê que pode reconhecer uma obra pornográfica quando a lê ou escuta a sua leitura em voz alta?

- Falando por mim mesmo, sim. Não posso falar pela Igreja.

- Suponhamos que eu lhe lia um trecho de romance. O senhor acha que poderia dizer-me se é imoral, pornográfico, ou nem uma coisa nem outra?

- Posso tentar, mas estaria a falar só em meu nome.

- Porém falando como conhecedor de literatura pornográfica?

- Perfeitamente. Como conhecedor.

- Vou ler-lhe dois trechos de um romance muito conhecido. Apreciaria a sua opinião sobre ambos. Eis o primeiro: “Senti a sua mão em meu seio; e quando o medo me permitiu, estava pronta para morrer; suspirei, gritei e perdi os sentidos.” E o segundo: “Mas ele beijou-me com assustadora veemência; e depois a sua voz desabou sobre mim como um trovão. Agora... disse ele, chegou a terrível hora do ajuste de contas que ameacei... Pus-me aos gritos, de tal modo como jamais se ouviu coisa igual. Mas não havia ninguém para me socorrer: e as minhas duas mãos estavam seguras, como já disse. Sem dúvida nunca uma criatura humana passou pela mesma aflição que eu passei. Malvado! esclamei.,. Oh Deus! meu Deus! por esta vez! só por esta vez! livrai-me do mal!"

- E Deus livrou-a, Mr. Barrett?

- Livrou-a... Padre Sarfatti, o senhor julga esses dois trechos pornográficos?

- Eu considero - os imaturos, sugestivos, mas não pornográficos segundo os critérios modernos. No entanto, o Santo Ofício considerou-os de facto pornográficos em 1755, quando colocou esses trechos, junto com a totalidade de Pamela, de Samuel Richardson, no Index. Lamento estragar o seu jogo, Mr. Barrett, mas não porei em dúvida o critério da Igreja em condenar Pamela, em 1755, exactamente como condenou Os Sete Minutos, em 1937. A tendência actual de tolerar a imoralidade pode zombar desses velhos critérios, mas se eles tivessem sido observados, todos os padrões sociais e morais talvez estivessem melhores hoje em dia.

- O senhor quer dizer, Padre, que os censores do Index carecem de falibilidade humana, nunca cometeram erros de julgamento?

Do outro lado da sala, Duncan levantou o seu protesto. O advogado de defesa estava a examinar o mérito da questão. Protesto aceite.

Barrett procurou reformular a pergunta.

- Padre Sarfatti, existe alguma prova concreta de que os censores incumbidos do Index tenham jamais, em época alguma, admitido erros de julgamento?

- Claro que sim - respondeu o padre Sarfatti calmamente. - Quando os membros do Santo Ofício, após consideração posterior, descobrem que se enganaram acerca de uma obra, nunca deixam de procurar que se faça justiça, admitindo o equívoco e corrigindo-o. As obras de Galileu foram postas no Index. Quando mais tarde se provou que não havia motivo para tal, os nossos censores levantaram a sua proibição contra elas. Mas não posso convencer-me de que a Igreja venha algum dia a mudar de opinião sobre o livro de J J Jadway.

Ensanguentado, Barrett pensou em dispensar a testemunha. Contudo, mais uma tentativa.

Em terceiro lugar, o encontro com J J Jadway em Veneza.

- Padre, antes o senhor declarou que um emissário do Vaticano se tinha encontrado pessoalmente com Jadway em Veneza para lhe pedir que repudiasse o livro. Os seus registos descrevem exactamente onde se efectuou esse encontro?

- No palácio ducal, no Palácio do Doge... na Sala del Consiglio del Dieci, a Sala do Conselho dos Dez.

- Quanto tempo durou o encontro?

- Quinze minutos.

- Na declaração por escrito que ele assinou, deu Jadway motivos para se recusar a repudiar Os Sete Minutos?

- Não há registo dos motivos dele.

- Segundo Mr. Leroux, isso aconteceu numa época ruim da vida de Jadway, uma fase em que afirmam que ele sentiu remorsos por ter escrito o livro, poucos meses antes de se matar por causa disso. Caso fosse verdade, não seria normal que Jadway repudiasse o livro e se retratasse?

- Não possuo nenhuma informação sobre o que seria normal ou anormal para ele naquele tempo. Só posso repetir que ele foi inflexível e não quis retratar-se.

- No relatório do encontro constava alguma descrição de Jadway?

- Não.

Barrett hesitou. Sentou-se, inclinado a encerrar nesse ponto. Mas não pôde resistir a mais uma pergunta.

- Padre Sarfatti, os arquivos do Vaticano não registam se Jadway estava embriagado nesse encontro?

- Não... Por outro lado, meu senhor, tão-pouco afirmei que ele estivesse sóbrio.

Barrett sorriu. Touché. Bem feito. Procurara sarna para se coçar e conseguira. Infringira uma regra fundamental da arte do inquiridor: Nunca, nunca faça uma pergunta importante senão souber o que a testemunha vai responder. Vá até onde quer chegar e depois pare. Jamais faça aquela pergunta suplementar, não dê aquele passo a mais que leva ao desconhecido. Barrett dispensou a testemunha com um reverente aceno de cabeça.

- Obrigado, Padre... Não tenho outras perguntas a fazer, Meritíssimo.

Após o padre italiano, o promotor público Duncan trouxe ao banco de testemunhas um famoso agente literário inglês, recém-chegado de Londres. Vinha como autoridade qualificada para depor sobre a natureza pornográfica do livro de Jadway. O agente, Ilan Ashcroft, que recendia a Zizanie de Fragonard, era amalucado, cómico, muito simpático: uma dessas criaturas que sempre levam a melhor, cujas últimas frases trazem a picada rápida do aguilhão de um rabo de escorpião. O tipo de pessoa com quem Mike Barrett sempre se saía mal numa sala de recepção. Ashcroft seria mais perigoso num tribunal. Barrett decidiu limitar a inquirição a poucos minutos, não mais.

Como jovem agente ao serviço de uma grande agência literária de Londres em 1935, Ashcroft fora encarregado do que se conhece no comércio editorial pelo nome de autorizações, a licença para publicar excertos bem como a isenção de direitos estrangeiros, e recebera a oportunidade de vender os direitos de Os Sete Minutos no exterior. Duncan estava curioso por saber como se saíra. Ashcroft confessou que se saíra mal, pessimamente. Submetera exemplares do romance de Jadway à apreciação de agentes e editores da Grã-Bretanha, Países-Baixos, Escandinávia, Alemanha, França, Itália, Espanha, Portugal. Excepto o rápido interesse demonstrado por um editor alemão (“a moral do país, afinal, andava decadente, com mais bordéis do que casas de família em Hamburgo e Francforte”)- e por fim até mesmo esse editor recusava - o livro não despertara o menor interesse em parte alguma, sendo rejeitado por cada editor estrangeiro a quem fora submetido.

Duncan quis saber porque Os Sete Minutos tinha recebido esse repúdio unânime.

- Acho bastante óbvio - respondeu Ashcroft. - Era um livro horrível, indecente até não poder mais, uma droga. Os editores dos Países-Baixos, Itália e Espanha empregaram frases quase idênticas ao rejeitá-lo. Escreveram, efectivamente: “Mr. Jadway possui a honra duvidosa de ter escrito o livro mais depravado e obsceno na história da literatura.

Na inquirição, Barrett tratou o agente londrino com extremo cuidado. Se Mr. Ashcroft tinha uma opinião tão péssima de Os Sete Minutos, porque se sujeitara, afinal de contas, a representá-lo?

- Mr. Barrett, eu era um sujeito moço, corado, atrevido, cheio de ambição, louco por vencer na vida. Naquele tempo eu ficaria encantado em vender até Mein Kampf se me fosse oferecido.

Mr. Ashcroft não concordava em que poucos romances americanos da época, ou mesmo actuais, eram traduzidos e publicados na Europa?

- Já tive alguns romances americanos que vendi a uma dúzia de editores estrangeiros.

Mas um romance de estreia, da autoria de um escritor americano desconhecido? Será que se podia esperar que fosse publicado na Suécia, Alemanha, França, Itália, Espanha?

- Não, Mr. Barrett, eu não esperaria que fosse traduzido e publicado nesses países. Mas seria publicado na Grã-Bretanha. Eu contaria, ao menos, com uma venda na Grã-Bretanha ou noutro lugar qualquer.

- Então porque Mr. Ashcroft achava tão estranho que não pudesse vender o romance de estreia de Jadway, escritor pouco conhecido, a editores estrangeiros?

- Ora, Mr. Barrett, o que essa experiência teve de estranho é que Os Sete Minutos foi o único romance publicado que jamais negociei ou ouvi falar que não encontrou segundo editor... nem um sequer.. - na Grã-Bretanha, ou no Continente, no mundo inteiro, que aceitasse publicá-lo. O senhor há-de reconhecer que é uma espécie de recorde notável, digno de inclusão no Livro Guinness de Recordes Mundiais, junto com a nota de que o jogo de palavras cruzadas foi inventado por um inglês chamado Arthur Wynne para um jornal de Nova Iorque em 1913. Acho até que o nosso exemplo é melhor, não lhe parece?

A meia hora seguinte passou depressa e agora outra testemunha terminava o seu depoimento para o Povo, sob a orientação de Elmo Duncan.

Essa testemunha, macia como veludo, exacta como um computador, era Harvey Underwood, decano dos especialistas em sondagem de opinião pública na América.

A sua aparição, tanto para Barrett como para Zelkin, fora tão inesperada quanto a do padre Sarfatti, e a princípio não pudera compreender que uso a acusação tencionava fazer dele. Logo ficou claro, e até mesmo Barrett resmungou de admiração pela esperteza do Promotor Público.

Harvey Underwood encontrava-se no banco das testemunhas para lançar os alicerces do argumento da acusação de que os Os Sete Minutos atraía o interesse libidinoso, de acordo com o critério da pessoa média. Geralmente, em casos de censura, a acusação frisava esse aspecto, apresentando líderes da colectividade - um presidente da Associação de Pais-e-Alunos, um reitor de faculdade, um pastor protestante - gente que presumivelmente mantinha contrato constante com as pessoas médias da sua comunidade e que podiam falar com autoridade em nome delas sobre as possibilidades corruptoras de determinado livro. Mas Duncan não se contentara em exprimir as opiniões da pessoa média de modo tradicional. Nesta era electrónica do computador, nesta era da sondagem do levantamento científico para apurar a opinião pública, Duncan saíra em busca da maior autoridade do país para descobrir quem era essa pessoa média, a fim de apresentá-la ao tribunal num invólucro plástico, pronta para a consumição do mercado. Era uma loucura, uma coisa desumana, ridícula. Reflectia o triste estado de uma cultura de consumo que vivia de números, levantamentos, comissões e níveis médios.

O júri mostrou-se encantado.

Durante meia hora, com a devoção de um Lutero matemático, o articulado Harvey Underwood descreveu os métodos de exemplos selectivos - como o público era dividido em subpúblicos, como se procediam as entrevistas estratificadas a esmo, como as respostas das perguntas eram supridas ao equipamento da IBM e os resultados avaliados. E para a sua aparição no tribunal, Underwood trouxera os apuramentos de uma sondagem de opinião pública dedicada a questões relacionadas com hábitos pessoais, estatísticas e posses das pessoas entrevistadas.

- É muito intrincado - declarou Harvey Underwood aos jurados. - Junto com a nossa própria sondagem, coordenamos as empreendidas pela Associação de Livreiros Americanos e a United Press International, assim como os dados estatísticos proporcionados pela Agência de Recenseamento dos Estados Unidos durante todo o ano de 1966. Suprimos todos esses dados aos nossos computadores e o que se obteve com exactidão matemática é um perfil do habitante médio dos Estados Unidos. Desse modo, pela primeira vez, conseguimos um retrato completo da pessoa média na comunidade americana típica... e pela primeira vez, Mr. Duncan, o senhor irá dispor de testemunhas, ou de uma testemunha, para exprimir aquele artigo do Código Penal da Califórnia que estatui: “Pornográfico significa que para a pessoa média, segundo os critérios contemporâneos, o atractivo predominante da matéria, considerada em conjunto, é de interesse libidinoso."

- Mr. Underwood, o senhor poderia dar-nos esse perfil científico da pessoa média?

A essa altura, Mike Barrett, já refeito, e agindo perante um júri completamente sucumbido, levantou-se para protestar.

- Protesto, com a devida vénia do tribunal. A pergunta implica em especulação por parte da testemunha.

O juiz Upshaw ergueu ambas as mãos para que Barrett e Duncan se aproximassem e também chamou o estenotipista.

- Queiram aproximar-se, por favor, cavalheiros. Depois pediu que Barrett se alongasse sobre os motivos de seu protesto.

Barrett explicou que era impossível haver um perfil da pessoa média, por mais científico que fosse.

- O termo “médio” geralmente refere-se ao significado aritmético. Só pode ser aplicado com precisão a algarismos. No máximo, um homem médio há de ser apenas um homem ordinário, comum ou conformista, não um “significado” vivo derivado da soma de parcelas díspares. Como Richard Scammon, ex-director da Agência de Recenseamento dos Estados Unidos, e Ben Wattenberg declararam em Estes B. U. A. (This U. S. A.) “Os meeiros do Mississipi e os comutadores de Marin County, Califórnia, não constituem “média” para os operários da indústria de Toledo. Um bacharel em física e um reprovado no curso colegial não podem ser tomados como média de uma instrução universitária para dois. Da mesma forma, um homem que ganhe cem mil dólares por ano e cinco que ganhem quatro mil não significa que seis estejam ganhando vinte mil por ano... o conceito de pessoa média, embora conveniente, é geralmente absurdo.

O juiz esperou pela reacção do Promotor Público.

- Meritíssimo, permita-me citar um pouco mais da mesmíssima fonte a que o advogado da defesa recorreu - disse Duncan. - Scammon e Wattenbergg dizem: “Podemos legitimamente falar do homem “médio”... porque todos os factos dados a seu respeito são válidos para a maioria dos lares americanos... Por exemplo, mais de noventa por cento dos lares americanos possuem, pelo menos, um aparelho de rádio. É exacto, portanto, atribuir um aparelho de rádio a um lar “típico” ou “médio”. Além do mais. Meritíssimo, recolher estatísticas desse tipo já se tornou um empenho científico. As estatísticas realmente existem, e de facto revelam para nós uma pessoa média, e a minha testemunha é um especialista nesse apuramento de factos.

O juiz Upshaw ponderou a questão, e por fim virou-se para Barrett.

- Mr. Barrett, o termo “homem médio” faz parte do código penal nesse caso. O problema é simplesmente de definição. Já dediquei um pouco de estudo pessoal à matéria, e encontrei um conceito que dá algum sentido ao termo - abriu uma pasta de arquivo em cima da mesa e pôs-se a procurar no meio das suas anotações. Achou o que queria. O juiz Vincent A. Carroll, titular do Tribunal de Acções Ordinárias da Comarca de Filadélfia, deu a seguinte definição durante um caso semelhante: “O material será agora julgado segundo o seu efeito sobre a pessoa média na colectividade. A fim de relacionar esse termo com o específico, consideramos que a pessoa média pode muito bem ser um composto dos jurados que observamos durante os nossos quarenta e cinco anos de prática forense e no exercício da magistratura. Uma pessoa dessas não é nenhum santo nem pecador volitivo. Não é crítico literário nem queimador de livros. é, realmente, uma pessoa média, com entusiasmos médios, preconceitos médios, e com propensão normal para a actividade sexual (que felizmente, para a maioria, é dedicada à procriação da espécie), mas que, se dispuser de estímulo erótico suficiente, pode ser desvirtuada para se lançar numa conduta sexualmente anormal ou ilícita. Eis, portanto, a pessoa média, a quem aplicamos o critério contemporâneo da colectividade.” Ora, quase tudo isso, a meu ver, se aplica ao presente caso. E, se o Promotor Público é capaz de ampliar a definição de “pessoa média” por meio de prova científica, creio que se deve permitir que o faça. O seu protesto, Mr. Barrett, fica indeferido. Mr. Duncan poderá continuar o interrogatório e quanto ao senhor, Mr. Barrett, se quiser aprofundar ainda mais a validez da existência de um “homem médio”, sugiro que espere pela sua vez de inquirir a testemunha... Queira prosseguir, Mr. Duncan.

- Obrigado, Meritíssimo.

Exultante com a vitória. Elmo Duncan voltou ao banco das testemunhas. Decepcionado, Barrett dirigiu-se à mesa da defesa e, ao sentar-se, ouviu o Promotor Público recomeçar:

- Mr. Underwood, repetindo a minha pergunta, o senhor poderia dar-nos, baseado nas suas pesquisas científicas, um perfil exacto da pessoa média?

- Pois não.

Sem consultar notas, os dentes tiquetaqueando tal como uma máquina de somar, Harvey Underwood apresentou os resultados dos seus apuramentos.

- Uma vez que estamos a tratar de um romance neste julgamento, fizemos testes e descobrimos que o leitor médio de romances, entre a média de cidadãos em nossas colectividades, é a mulher. Por isso comentarei a mulher média deste país na actualidade. Ela é caucásica, protestante, teve pelo menos doze anos de instrução regular... uma década atrás a mulher média tinha tido apenas dez. Tem vinte e quatro anos de idade, um metro e sessenta de altura e pesa sessenta e dois quilos. Casa-se aos vinte com um homem dois anos mais velho. Possui dois filhos. Ela e o marido compartilham o carro e professam a mesma fé religiosa. Vai à igreja duas vezes por mês. O marido tem um serviço manual ou de escritório e ganha 7114 dólares anuais. A nossa mulher média reside em região urbana, numa cidade com população inferior a cem mil habitantes, o que qualifica Oakwood dentro dessa categoria. Ela mora numa casa de cinco divisões, avaliada em 11900 dólares. Metade desse valor está hipotecada. O apartamento possui casa de banho ou duche, vaso sanitário com descarga, electricidade, telefone, aparelho de televisão e máquina de lavar roupa; não tem ar condicionado, nem secador de roupas, nem congelador. A mulher média passa sete horas por dia ocupada em trabalhos domésticos, três das quais na cozinha. Aí o senhor tem-na num perfil exacto.

- Mr. Underwood, o senhor conhece alguém que preencha, aproximadamente, essa média?

- Conheço várias, e escolhi uma moradora de Oakwood que satisfaz, exactamente, essas estatísticas. Ela prontificou-se a depor nesta causa.

- Obrigado, Mr. Underwood. Agora, voltando por um instante às suas estatísticas...

Barrett deixou de prestar atenção. Estava a escrever diversos lembretes para si mesmo.

Dez minutos depois, Mike Barrett pôs-se de pé para inquirir Harvey Underwood.

- Mr. Underwood, voltemos ao texto legal da secção sobre censura no Código Penal da Califórnia. Aquilo refere-se à "pessoa média”, não é verdade?

- Precisamente.

- E o senhor acha que se pode chegar a essa pessoa média através de estatísticas?

- Acho.

- Bem, nesse caso, Mr. Underwood, o senhor terá de me explicar um pouco mais o que vem a ser essa pessoa média. Quando recorro às suas estatísticas, encontro um resultado estranho. No meu modo de entender, cinquenta e um por cento da população dos Estados Unidos é feminina, ao passo que quarenta e nove por cento é masculina. Segundo o que o senhor disse, isso significa que a média americana é apenas feminina. Pergunto-lhe se isso é verdade.

A carranca de Underwood aumentou.

- Claro que não. Não se pode tirar a média de dois absolutos.

- Ah, não se pode?

- Eu referi-me a conceitos que podem ser convertidos em estatísticas, tais como a idade e a renda... um conceito onde um total pode ser dividido pelo número de pessoas entrevistadas para obter uma média ou meio.

- Bom, eu fico-lhe grato por querer falar a respeito de algarismos, Mr. Underwood, mas eu quero falar a respeito de pessoas... ou, mais explicitamente, da pessoa média mencionada no Código Penal. Deixe-me fazer-lhe esta pergunta. Suponhamos que cinquenta por cento de todos os americanos fossem masculinos e cinquenta por cento femininos. O americano médio não seria um efeminado?

- Protesto, Meritíssimo!

- Retiro a pergunta, Meritíssimo - disse Barrett com falsa seriedade. - Muito bem, Mr. Underwood, continuemos...

Às três e quarenta e cinco da tarde, o promotor público Duncan apresentou a mulher média como sua próxima testemunha.

Chamava-se Anne Lou White e morava numa casa de cinco divisões com o marido (dois anos mais velho) e dois filhos na colectividade de Oakwood, Califórnia, no município de Los Angeles.

Tinha a beleza morta de uma cara insossa de anúncio de colírio e a voz lembrava um pianíssimo de soprano. Olhos arregalados, toda sorridente, e resolvida a ser absolutamente sincera.

Ágil e cativante, Elmo Duncan, extraiu-lhe as respostas ensaiadas. O desempenho foi rigorosamente exacto, rápido e perfeito.

Após vinte minutos de tête-à-tête, estabelecida e dramatizada a tipicidade média de Mrs. White, Duncan fez as perguntas cruciais.

- Mrs. White, a senhora leu um romance chamado Os Sete Minutos de J J Jadway?

- Li. Não foi fácil. Era repugnante. Mas forcei-me a ler do princípio ao fim.

- Como pessoa média da sua colectividade, segundo os critérios contemporâneos, qual foi a sua reacção a esse livro?

- Achei-o revoltante mente pornográfico.

- Pareceu-lhe que ultrapassava os limites habituais de franqueza em matéria de descrições, de nudez, sexo e excreção?

- Ultrapassava todos os limites aceitáveis de franqueza. Estou acostumada a ler obras francas e realistas. Mas Os Sete Minutos faz parte do que se deve lançar na lixeira.

- Ah, ah... mas a mulher média dispõe de lixeira?

- Não, e eu não tenho. Mas se a tivesse lançaria o livro nela.

- Mrs. White, a senhora encontrou alguma coisa no romance que pudesse ser considerada como tendo “importância social compensatória”?

- Era só sexo e sexo, e mais nada. Depois que acabei de ler, senti vontade de lavar as mãos. Nunca vi leitura mais imoral.

- Obrigada, Mrs. White.

Na mesa da defesa, Mike Barrett estava a ferver. Por algum motivo, esse produto das sondagens e computadores de Underwood enfurecia-o mais do que qualquer outra testemunha que escutara durante o dia inteiro. Talvez fosse porque ela fazia lembrar Faye Osborn. Eram diferentes em todos os sentidos, essa criatura criada por computador e Faye. E no entanto pareciam-se. Como Faye, Anne Lou White mantinha uma atitude hipócrita, antiséptica, em relação ao livro. Ainda mais irritante era a sua presunção virtuosa.

Zelkin sacudiu-lhe o braço.

- É a sua vez, Mike.

- Vou fazer uma verdadeira mixôrdia com ela - resmungou Barrett.

- Vá com calma - aconselhou Zelkin. - O júri está a identificar-se com ela. Ela pertence ao meio deles. Não os hostilize.

Levantando-se de mãos nos bolsos das calças, Mike Barrett encaminhou-se para o banco das testemunhas onde Mrs. Anne Lou White exultava de satisfação.

- Mrs. White - disse Barrett -, uma vez que a senhora é a primeira mulher média que tenho o prazer de conhecer, estou ansioso por saber mais coisas sobre as suas preferências. Não em matéria de alimentação ou móveis, mas de livros. Sinto-me curioso em saber se os seus hábitos de leitura são médios.

- São, sim - afirmou ela.

- Como é que a senhora sabe?

- Porque... ora, porque leio muito, todas as coisas populares que recebem na biblioteca e as edições de bolso. Só as coisas mais corriqueiras, nada de coisas profundas que não entendo nunca. Tenho a certeza de que as minhas preferências em matéria de leitura são médias.

- Já leu A Caldeira do Diabo, de Grace Metalious?

- Claro que não!

- Já leu O Pequeno Cemitério de Deus, de Erskine Caldwell?

- Não, não li.

- Já leu O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence?

- Deus me livre.

- Já leu No seu Rastro, de Charles Sheldon?

- Não. Nunca ouvi falar.

- Muito bem, Mrs. White. Então, segundo o critério de Mr. Underwood, os seus hábitos de leitura estão longe da média. Esses quatro romances que mencionei venderam, em edições encadernadas e de bolso, mais de trinta milhões de exemplares só neste país. São quatro dos cinco livros mais vendidos em toda a história editorial americana.

O sorriso de Anne Lou White evaporou-se:

- Bom, isto parece-me escandaloso. Tenho a certeza de que o americano médio não leu esses quatro livros.

- Mrs. White, na sua opinião, o americano médio leria Os Sete Minutos?

- De maneira nenhuma.

- Mas a senhora é média e leu, não leu?

- Eu... eu li porque me pediram que lesse para este julgamento.

- De contrário não teria lido?

- Com toda a certeza. Não perco tempo com leituras pornográficas.

- Mas Mrs. White, como é que a senhora sabe se um livro é pornográfico antes de lê-lo?

- Não se precisa tomar veneno para saber que é perigoso.

O sarcasmo lembrou-lhe que Faye Osborn empregara quase a mesma analogia, antes que se incumbisse do processo. Se essa mulher resultasse noutra fanática da pureza como Faye, ele iria ver-se mal. Resolveu averiguar.

- Bem, eu gostaria de pôr à prova a sua opinião sobre o que é e o que não é pornográfico, se possível.

- Pode perguntar.

Ele voltou à mesa e apanhou as quatro fotocópias que Zelkin lhe entregara. Examinando-as, retornou lentamente até parar defronte da testemunha.

- Mrs. White, permita-me que lhe leia alguns trechos de traduções ou interpretações recentes de quatro livros populares, todos escritos por autores famosos. Quando eu terminar de ler cada um destes trechos, quero que me diga, por favor, se na sua opinião ele é ou não é pornográfico. Pronta?

- Pode começar - disse ela hesitante. Ele deu início à leitura do primeiro.

- “Havia apenas um pormenor esquecido nesse trato: a maneira pela qual a mulher e eu seríamos obrigados a tirar a roupa e ir para a cama...”

Quando acabou, ele levantou a cabeça.

- Mrs. White, isto foi pornográfico ou não?

- Não - respondeu ela, com evidente alívio.

- Muito bem. Agora o segundo trecho. Começou a ler.

- “Ela despiu-se brutalmente, arrancando os frágeis cordões do espartilho com tanta violência que deslizaram pelos quadris com o silvo de uma serpente coleante. De pés descalços, na ponta dos dedos, foi certificar-se outra vez se a porta estava trancada e depois, com um movimento único, deixou cair as roupas no chão; até que afinal, pálida e séria, sem uma só palavra, lançou-se ao peito dele com prolongado frémito.”

Leu ainda o parágrafo seguinte e, por fim, olhou para a testemunha.

- Pornográfico ou não? - perguntou.

- Não.

- Obrigado, Mrs. White. Agora o terceiro. Leu devagar o terceiro trecho.

- “O gerente contemplou a bela prenda, tão linda, tão sedutora, tão difícil de ser obtida, e tomou estranhas resoluções. A sua paixão atingira agora aquela fase em que não podia já raciocinar. Não se preocupou com pequenos obstáculos dessa espécie à vista de tamanha beleza. Aceitaria a situação com todos os seus inconvenientes; não tentaria responder às objecções que a fria realidade lhe lançava no rosto. Prometeria qualquer coisa, tudo, confiante em que a sorte o libertasse. Faria uma experiência com o Paraíso...”

Barrett levantou a cabeça.

- Mrs. White, diga-nos, pornográfico ou não? Ela teve um sorriso adenoidal.

- Não. De maneira alguma.

- Finalmente, o quarto e último trecho. Na verdade, estas passagens são extensas de mais para citar com minúcias. Se a senhora não se importa, tomarei a liberdade de resumi-las um pouco... quando eu terminar, mostro-lhe os parágrafos originais marcados no livro... e lerei também certas palavras e frases desta obra.

Passou os olhos pela folha que tinha na mão.

- Temos aqui um rapaz casado com uma moça, mas que não pode consumar o casamento. Ele morre e a esposa fica viúva. Aí então o irmão do finado aparece diante da viúva, disposto a fecundá-la. Seja antes ou durante o coito, tem tempo de reflectir sobre o que está a fazer. Ele abstém-se de lhe dar o sémen, preferindo masturbar-se. Mais tarde depara-se-nos outra aventura na vida dessa jovem viúva. Ela está irritada com o sogro. Quer denunciar a devassidão dele. Um dia, disfarça-se de prostituta, permitindo que o sogro copule com ela. Guando o sogro descobre que a nora viúva está grávida, quer puni-la, mas é denunciado como autor da gravidez.

A seguir, Barrett começou a ler frases e palavras do livro. Aqui “toda a gente relinchava atrás da mulher do próximo”. Ali havia “prostituição” e “bordeleiros” e a descrição de uma violação. E depois “seios”, “tetas”, “nádegas descobertas”, “esterco”, “urina”, “fornicadores” e “libidinagem”.

Ele parou.

- Acho que basta. Agora, diga-me, Mrs. White, esse livro é pornográfico ou não?

. -É-respondeu ela. - Completa e decididamente pornográfico.

- Talvez a senhora, Mrs. White, queira ver as fotocópias dos quatro livros em questão, cada uma marcada numericamente pela ordem em que foi lida.

Colocou as fotocópias sobre o parapeito do banco das testemunhas, mas ela não lhes tocou. Ficou à espera.

Barrett virou-se um pouco para o júri e depois tornou a confrontar a mulher média.

- Mrs. White, o primeiro trecho que li para a senhora foi a passagem mais sugestiva que pude encontrar em Uma Viagem Sentimental pela França e Itália, de Sterne. A senhora disse que ela não era pornográfica. No entanto em 1819 o livro foi considerado imoral pelo Vaticano e proibido no mundo inteiro. O segundo trecho foi um dos mais controversos de Madame Bovary, de Flaubert. A senhora disse que essa passagem não era pornográfica. Mas em 1856, quando o romance de Flaubert foi publicado na França, levaram-no aos tribunais sob a cusação de imoralidade, e até recentemente, em 1954, viu-se incluído na lista negra por certos grupos puritanos nos Estados Unidos. O terceiro trecho era um dos mais sugestivos de Carolina, de Theo-dore Dreiser. A senhora disse que ele não era pornográfico. No entanto, em 1900, quando o livro saiu, ficou proibido em Boston, e, para evitar novas acusações de obscenidade, retirado da circulação e suprimido. Quanto ao quarto e último livro de que fiz citações, o único trecho que a senhora disse que era pornográfico, totalmente pornográfico, esse trecho foi tirado de uma tradução moderna do Antigo Testamento da Bíblia Sagrada!

Por um instante, Mrs. White ficou em estado de choque. Com um esforço, começou a recuperar-se.

- Is... isso é um truque barato - gaguejou, ainda abalada.

Barrett ignorou a sua aflição.

- Mrs. White, a senhora ainda acha que tem a certeza de que pode reconhecer o que é pornográfico ou não?

Mrs. White começou a atrapalhar-se,

- Não é a mesma coisa... o senhor tirou aquele material da Bíblia... todas aquelas palavras... de uma porção de capítulos diferentes da Bíblia...

O juiz Upshaw interrompeu.

- Mrs. White, a senhora deve responder à pergunta do advogado de defesa... senhor escrivão, a resposta está cancelada por não ser responsiva. Repita a pergunta, por favor.

A pergunta foi repetida.

- Naturalmente que sei o que é pornográfico ou não! - exclamou ela. - Estou tentando dizer que a Bíblia não é pornográfica. Qualquer pessoa sabe disso. Toda a gente sabe que é o Livro Sagrado. Quando não é lido por completo, da maneira mais espiritual, quando se separam palavras ou se modernizam certos costumes, colocando-os em linguagem moderna, evidente que ficam com um aspecto horrível. Como eu disse, é um truque que o senhor...

Barrett olhou para o juiz.

- Meritíssimo, eu não desejo de modo algum entrar no mérito da questão. Mas já que a testemunha impugna os meus motivos, o senhor dá licença de responder e esclarecer esse aspecto da inquirição?

- Prossiga - autorizou o juiz laconicamente. Barrett olhou outra vez para a testemunha.

- Mrs. White, em 1895 um habitante de Clay Center, Kansas, foi preso e considerado culpado por fornecer escritos pornográficos pelo correio... citações imorais... e foi com muito embaraço que a acusação mais tarde descobriu que essas citações eram simplesmente trechos da Bíblia. Como a senhora insinuou, qualquer coisa pode ser considerada pornográfica, se for lida em parte, fora do contexto. Em 1928, Radclyffe Hall publicou uma história triste e delicada sobre duas lésbicas. Esse romance, chamado O Poço da Solidão, não continha linguagem de baixo calão, nem francas descrições sexuais. Era um apelo digno para o público tratar o homossexualismo feminino com tolerância. No entanto, escorada numa definição obsoleta de pornografia estatuída pelo ministro Cockburn, do Supremo Tribunal, em 1868, uma frase isolada do contexto bastou, de facto, para condenar-o livro. A frase encontrada em O Poço da Solidão dizia: -E naquela noite elas não se separaram.” Sete palavras foram suficientes para condenar o livro todo. Mas quando o juiz Woolsey, em sua opinião sobre Ulisses, anunciou que um livro devia ser julgado “na sua totalidade”, um critério novo e melhor ficou estabelecido para orientar normas a respeito de imoralidade.

“Não, Mrs. White, a senhora e eu não divergimos sobre esse ponto. Nenhuma obra deve ser julgada por passagens isoladas do contexto. Todas as obras, inclusive a Bíblia, devem ser examinadas como um todo. Ao recorrer a trechos, tentei meramente mostrar como é difícil para qualquer um, mesmo para a pessoa média justificadamente preocupada, saber o que realmente é pornográfico ou não para terceiros. Lógico que estou de inteiro acordo com a senhora a respeito da Bíblia. Nem por um momento acredito que ela seja pornográfica. Contudo, há quem discorde de nós dois. Havelock-Ellis declarou: “Parece não haver nenhuma definição de pornografia que não condene a Bíblia.” De facto, em estudos que Ellis fez com crianças, descobriu que muitas ficavam sexualmente confusas, possivelmente excitadas, com trechos da Bíblia. Por exemplo, a história que lhe resumi do irmão que vai fornicar com a cunhada e depois se masturba... isso, naturalmente, foi do Capítulo Trinta e Oito do Génesis, onde Onan jorra seu sémen sobre o solo, acrescentando assim a palavra “onanismo”, sinónimo de “masturbação”, ao nosso vocabulário. No entanto nós concordamos em que, considerada em conjunto, a Bíblia é literatura proveitosa, porque reproduz não só a realidade da vida, em toda a sua fúria, violência e perversões, como também a sua maravilha e beleza. Guando a Bíblia trata de sexo, ainda que essa forma de retratá-lo possa evocar imagens lascivas e desejo sexual no leitor, não é considerada nociva, porque é verdadeira. O juiz Jerome Frank observou que nenhuma pessoa equilibrada podia acreditar que fosse socialmente prejudicial que os desejos sexuais conduzissem ao comportamento sexual normal, pois sem esse comportamento a espécie humana logo se extinguiria. É por isso, Mrs. White. que...

Mrs. White começou a ficar furiosa.

- Mas o senhor transformou a Bíblia numa coisa suja, só para me confundir.

- Eu não poderia transformá-la numa coisa suja, porque, repito, ela não o é, Naquele tempo eles também faziam amor. Procriavam e...

Elmo Duncan pôs-se de pé.

- :-Protesto, Meritíssimo! Creio sinceramente que o nobre colega está a exceder-se. Protesto sob a alegação de que ele persiste em entrar no mérito da questão.

- Protesto aceite.

- Desculpe, Meritíssimo - disse Barrett.

Mas Mrs. White ainda não tinha acabado. Segurou alto as fotocópias e começou a ralhar com Barrett.

- E os outros três trechos de Flaubert, Dreiser e... e Sterne. Pouco me interessa o que aconteceu no passado com os livros deles, que uma vez tenham sido chamados pornográficos. Insisto em que hoje em dia eles não o são, porque estamos tratando dos dias actuais, critérios da comunidade de hoje...

- Justamente, e como continuam a mudar. Ora, portanto...

- ... e estamos tratando de Os Sete Minutos, é disso que estamos tratando-prosseguiu Mrs. White. - Que não reproduz a vida como a Bíblia. Que apenas reproduz a mentalidade doentia de um pornógrafo.

Barrett notou que o juiz Upshaw se achava prestes a exortar a testemunha a cessar o debate, desistindo ao perceber que Barrett estava disposto a continuar.

- Mrs. White, voltemos a Os Sete Minutos.

Virou-se e pediu formalmente o Instrumento de Prova número Três da acusação; e assim que recebeu o exemplar do tribunal do livro de Jadway das mãos do escrivão, folheou-o até encontrar um trecho inicial do romance. Assinalou-o com um grampo de papel e depois procurou outra passagem perto do fim, marcando-a com outro grampo. Entregou o volume a Mrs. White.

- A senhora há-de reparar, Mrs. White - disse Bar-rett -, que eu marquei duas cenas em Os Sete Minutos... cada uma não ultrapassa uma página... e agora gostaria que as lesse em voz alta para o tribunal.

Mrs. White manteve o livro aberto no colo. Deu uma olhadela na primeira cena, passou à segunda, depois fechou o livro com estrépito, devolvendo-o a Barrett.

- Recuso-me a ler isto em voz alta. Porque haveria de fazê-lo?

- Simplesmente para esclarecer o júri do assunto de que ele trata - retrucou Barrett -, antes de discutirmos estes trechos.

O juiz Upshaw inclinou-se para a testemunha.

- Mrs. White, o pedido do advogado de defesa não tem nada de absurdo. Claro que a senhora não está obrigada a ler os trechos em voz alta, se não quiser.

- Não quero, não. O advogado de defesa que os leia em voz alta.

Barrett encolheu os ombros.

- Dispenso a leitura, Meritíssimo. O júri talvez já conheça suficientemente bem as cenas em questão. Gostaria de interrogar a testemunha sobre essas duas cenas, se o senhor me permite.

- Prossiga - disse o juiz Upshaw.

Barrett virou-se mais uma vez para a testemunha. A cara de torta de maçã já não parecia bonita.

- Mrs. White, como pessoa média, quais são as objecções que faz a essas passagens?

- Por um lado, a linguagem, as palavras feias.

Barrett hesitou. Ocorreu-lhe a advertência de dois psicanalistas, os Drs. Eberhard e Phyllis Kronhausen: “Se encorajarmos um paciente a usar uma palavra tabu que ele não se atreve a pronunciar, sem ao mesmo tempo lhe arrancar da consciência o torturante sentido de culpa, estaremos a causar-lhe mais mal do que bem. Essas tentativas seriam tão importantes como aconselhar a uma pessoa sexualmente inibida a entregar-se a seus desejos enquanto ainda está atormentada por sensações de remorso e vergonha. Contudo, depois que o paciente se vê liberto de culpa, aí então a livre expressão de ideias e palavras sob outros aspectos inaceitáveis seria muito preferível à sua supressão.” Mas como fazer agora para superar a sensação de vergonha da pessoa média? A linguagem de Os Sete Minutos tinha de ser discutida abertamente e ele precisava levar a testemunha lentamente para esse terreno.

Mrs. White objectava contra a linguagem de Jadway, as palavras feias.

- Mrs. White, o grande filósofo chinês Confúcio escreveu uma vez: “Se a linguagem não for usada com correcção, então o que é dito não é o que se quer dizer. Se o que é dito não é o que se quer dizer, então aquilo que devia ser feito deixa de sê-lo; se fica por fazer, a moral e a arte ficam corrompidas; se a moral e a arte ficam corrompidas, a justiça age mal, e se a justiça age mal, o povo é reduzido a uma irremediável confusão.” A senhora concorda com isto?

Ela mostrou-se cautelosa.

- Concordo em que as pessoas devem ter liberdade de dizer o que pensam.

- A senhora acha que os escritores devem ter liberdade de dizer o que pensam quando escrevem sobre sexo?

- Sim. Mas eles podem fazer isso sem recorrer a palavras indecentes... como as palavras nesse livro.

- A senhora pode ser mais explícita, Mrs. White, quanto às palavras que a ofendem em Os Sete Minutos?

- Ora, o senhor certamente não vai querer que eu as pronuncie.

- Então mostre-me quais são. Quero ver o que a senhora objecta - segurou o livro aberto para ela, que, inclinando-se para a frente, examinou as páginas e apontou as palavras.

- Óptimo, Mrs. White - disse Barrett. - Agradeço-Lhe a cooperação. Agora, uma palavra que temos aqui é a palavra “foda” e a outra é “foder”. Qual é o motivo da sua objecção?

- São absolutamente indecentes.

- A senhora ficaria mais contente, Mrs. White, se o autor tivesse usado eufemismos e circunlóquios semelhantes a “eles dormiram juntos”, “tiveram relações íntimas” ou “fizeram amor”?

- Seria preferível. Eu compreenderia da mesma forma o que ele estava a querer dizer.

- Mas é nisso que a senhora se engana. Se Cathleen e o amante dormissem juntos, tivessem relações íntimas, fizessem amor, eles poderiam estar fazendo muitas outras coisas além de simplesmente foder - fez uma pausa. - Mrs. White, a palavra “foda- é a única palavra exacta para esse determinado acto. Não pode ser confundida. Uma vez que os eufemismos lhe dão a mesma imagem mental, porque é que a senhora considera a palavra exacta como pornográfica?

- Porque nenhuma pessoa decente a usa.

Depois acrescentou triunfante:

- Nem sequer consta dos dicionários:

Barrett queria que o júri ficasse de seu lado, por isso resolveu fazer uma concessão à última observação.

- 'A senhora tem toda a razão quanto aos dicionários, Mrs. White. Desde o Dicionário da Língua Inglesa, do Di Johnson, até o Dicionário de Inglês de Oxford e o Dicionário da Random House a palavra “foda” tem sido considerada tabu e omitida. O Novo Dicionário Webster Internacional também não a incluiu, porque, como os editores admitiram francamente, poderia perturbar certos leitores e provocar controvérsia e prejudicar comercialmente a obra de referência. Contudo, à medida que os homens ficam mais cultos e o ritmo da vida se acelera e as comunicações precisam tornar-se mais exactas, esta palavra está a ganhar aceitação em letras de forma, a exemplo de várias outras semelhantes. Eric Partridge, em seu Dicionário de Gíria e Inglês Anticonvencional usou-a e definiu-a. A senhora conhece a etimologia da palavra “foda”, Mrs. White?

- Não, não conheço.

- Ela tem uma história ilustre. Segundo Partridge, deriva de um termo alemão (*) que significa trepar, traçar, comer, sendo portanto usada como expressão de gíria para “copular”. Segundo Lord Kennet, escrevendo sob o pseudónimo de Wayland Young, o termo, por sua vez, deriva de palavras gregas, latinas e francesas, equivalentes a dar frutos, feto e felicidade. Daí que: “Nós temos prazer mútuo e geramos frutos... damos à luz em felicidade e tornamo-nos fecundos.” Para fazer isso, fodemos. De facto, Mrs. White, se a senhora estivesse familiarizada com Shakespeare ou Burns, Joyce ou D. H. Lawrence, conheceria essa palavra muito antes de encontrá-la em Os Sete Minutos. Tanto assim que, por ocasião do processo movido contra O Amante de Lady Chatterley, de D. H. Lawrence, na Inglaterra, em 1960, o Promotor Público, Mr. Griffith-Jones, descobriu e consequentemente informou o tribunal de que “a palavra foda ou foder ocorre nele nada menos que trinta vezes”. O que não impediu que o tribunal considerasse isso perfeitamente normal e absolvesse o livro. Além do que, ao noticiar o processo, o Guardian e o Observer, de Londres, usaram, com toda a franqueza e

 

(*) Convém lembrar que a palavra, no texto original, é “fuck”.

 

integridade, a palavra “foda” nas suas colunas. E nunca se soube que nenhum dos seus leitores ficasse corrompido por causa disso.

- O interesse desses jornais era aumentar a tiragem, tal como o de Jadway era vender mais exemplares do livro - retrucou Mrs. White com firmeza. - Continuo achando que está errado e que é imoral.

- Quem sabe, Mrs. White, se voltássemos a Os Sete Minutos e a outras expressões que a escandalizaram. A palavra seguinte da lista é “pica”. A senhora considera-a feia?

- Sem remissão.

- Os nossos dicionários etimológicos indicam que “pica” já tece vários sentidos e um é tão remoto que, de acordo com The Oxford English Dictionary, data de 1592, significando o termo de gíria “pénis”. A palavra equivale a tudo o que pica ou fura, possua uma ponta afiada como as esporas ou pontiaguda como um espinho ou um aguilhão ou, realmente, o falo masculino. Ora, William Shakespeare usou-a exactamente como J J Jadway o fez. E a senhora ainda a considera obscena?

- Considero.

- Outra palavra que parece tê-la escandalizado é caralho, que significa “pequeno pau” ou o falo masculino, derivado o termo do latim caraculu. Eu concordaria com a senhora se a chamasse grosseira, mas duvido que pudesse ser chamada obscena.

- Pois eu acho que é.

- E a senhora faz objecção à “camisa de Vénus”?

- Creio que sim. Faço, sim.

- “Camisa de Vénus” é definida como um ténue invólucro de protecção, geralmente feito de borracha, usado em torno do pénis durante a relação sexual ou coito para evitar a gravidez ou o contágio de moléstia venérea. Não posso imaginar o que existe de objectável numa expressão destas, que também tem uma história longa e ilustre. Já nos tempos idos de 1560, o Dr. Fallopia inventou uma camisa de Vénus, mas de forma muito primitiva. Era um invólucro tosco, de linho, que quase ninguém usava. Depois, no século XVIII, um médico inglês chamado Dr. Condon criou um anticoncepcional menos incómodo, feito de bexiga de peixe e pelica. Do nome desse médico veio a palavra moderna (4). Jadway, naturalmente, teve de

 

(') "Condom” no original.

 

recorrer a uma camisa de Vénus no livro, pois em 1934 ainda não havia pílulas nem injecções anticoncepcionais. Os lábios de Mrs. White tinham-se transformado num risco e Barrett, por um instante, hesitou em passar à última palavra que escandalizara a testemunha. Resolveu que devia continuar.

- Finalmente, Mrs. White, chegamos à última palavra que a senhora apontou, a palavra “cona”. Jadway também usou essa expressão chula com dignidade. Ela remonta à linguagem inglesa da Idade Média. Deriva do latim cunnu, que significa fenda. Em 1387 Chaucer recorreu a ela, escrevendo: “Ele pegou-lhe pela cona.” Em A Décima Segunda Noite, Shakespeare usou-a com todas as letras. Piero Aretino, o satirista italiano protegido dos papas romanos, no começo do século XVI, acrescentou exasperado: “Se a gente quiser que entendam o que se fala fora da Universidade de Roma, é preciso que se diga com toda a clareza foda, pica, cona e eu. Você... porque não diz sim quando quer dizer sim, e não quando quer dizer não...?” Mrs. White, a senhora não percebe o mérito literário do escritor de realismo sexual que diz sim quando quer dizer sim?

- Eu digo não quando quero dizer não - replicou ela. Um acesso de gargalhadas sacudiu o tribunal, e

Barrett encarou a testemunha com mais respeito. O pudim não era tão mole como ele pensava.

- Mrs. White, compreenda o contexto da minha linha de interrogatório. Não estou a pretender que palavras chulas ou vulgares devem ser usadas por qualquer pessoa em toda a parte. Não digo que a senhora seja obrigada a usá-las ou ouvi-las. Quanto a mim, pessoalmente, não há dúvida que me sinto inibido de mais para usá-las frequentemente em público. Não porque tenham qualquer coisa de mal, mas porque fui educado num meio que geralmente as repudia. Estou apenas a dizer que os escritores, desde Chaucer até Jadway, deviam ter a liberdade de usar palavras francas, exactas quando escrevem com realismo, dramaticamente, e tentam ser fiéis aos personagens e à época que descrevem. E tudo isso entre as capas de um livro que se pode pegar ou largar, ler ou rejeitar, à vontade. Jadway procurou essa liberdade. Grandes autores que o precederam, possuíram-na. Espero fazê-la concordar, Mrs. White, que J J Jadway, no seu esforço para ser fiel a seu talento, habilidade e enredo, na sua tentativa de escrever francamente e sem pejo, teve precedentes históricos para usar a linguagem directa encontrada em Os Sete Minutos.

- Não estou interessada em precedentes históricos, Mr. Barrett. Estou interessada em proteger a nossa moralidade nos dias de hoje, sobretudo a moralidade dos jovens, para que não decaia e enfraqueça como aconteceu com outras nações.

- Mrs. White, como representante do que é médio, a senhora crê que o estudante médio das nossas escolas secundárias, das nossas universidades, esteja sendo prejudicado, e até arruinado, pela leitura dessa espécie de linguagem?

- Certamente que creio. É terrível o que está acontecendo com a nossa juventude. Eles usam palavras indecentes na linguagem quotidiana, abertamente, rabiscam a mesma coisa nas paredes, em lugares públicos, e naqueles horríveis jornaizinhos semanais que escrevem e distribuem, e por causa disso a próxima geração não terá o mínimo respeito pela decência e rirá da moralidade. E porque estão a fazer isso? De quem é a culpa? Eu posso dizer-lhe. É porque encontraram essas palavras em livros como Os Sete Minutos e andam hipnotizados por profetas malignos como J J Jadway - parou, triunfante, e depois desafiou Barrett:-Que mais os levaria a usar uma linguagem indecente dessas?

- Mrs. White, ainda que em princípio seja eu quem formule as perguntas e a senhora dê as respostas, terei o maior prazer em responder-lhe se tiver licença para tanto - levantou os olhos para o juiz Upshaw, que permaneceu impassível. Esperou o protesto de Duncan, que não veio. Continuou: - Mrs. White, há muitas autoridades eruditas que não acreditam que a juventude de hoje use expressões grosseiras na linguagem quotidiana por ter sido corrompida ou hipnotizada por livros realistas. Em vez disso, elas explicam a profilaxia dessas vulgaridades, com mais frequência, como meio de escândalo e rebeldia contra as instituições, contra os adultos, que lhe impuseram um critério e um modo de vida, muitas vezes repressivos, cínicos e hipócritas, de que eles não gostam. Essa linguagem é uma espécie de toque de reunir para os que querem exterminar as velharias, culpas, temores, vergonhas e inibições, dando lugar ao que eles esperam que seja uma sociedade melhor e mais saudável. As palavras são apenas um pequeno sintoma de uma grande e crescente revolução em matéria de opiniões e atitudes sobre a maneira como as pessoas maduras poderão conviver mais proveitosamente. Eu creio que talvez seja essa vontade de melhorar, e não os livros realistas, que tornou o emprego de palavrões mais comum hoje em dia do que em qualquer outra época desde a licenciosa Era Elizabetana. Isso responde à sua pergunta, Mrs. White?

- Não, não responde. Se não fosse pelos livros imorais, a maioria deles nem sequer conheceria essas palavras.

- Nem sequer conheceria? Ora, mas se muito tempo antes de circularem os primeiros livros impressos, grande parte dessas velhas palavras Já pertenciam à linguagem comum! Não tem importância. Talvez seja melhor prosseguirmos.

Barrett levantou o livro.

- Mrs. White, além das palavras anticonvencionais, consagradas pelo uso, que se encontram nestas páginas, termos empregados por toda a espécie de gente na América, que mais a escandalizou nessas duas cenas?

- O assunto de que tratam. O que aquela mulher está a fazer. O autor... ele não precisava de escrever sobre isso.

- Vejamos o que Cathleen faz nesta primeira cena. Ela lembra-se de quando tinha dezoito anos, desejar um homem e com medo de tê-lo. Mas ela precisa de desabafo sexual. Leamos em voz alta: “Finalmente ela ficou nua, e agora sabia que não eram as roupas que a tinham deixado com calor mas a própria pele, a pele em fogo - e, o mais torturante de tudo, o ardor Implacável no meio das coxas. Aquilo tinha de parar, senão morreria. Balançou-se para a frente e para trás na beira da cama, apertando as coxas para sufocar o ardor, ora abrindo-as, ora aproximando-as cada vez mais, esfregando uma na outra até que a dor ficou insuportável. Continuou assim por vários minutos, de olhos fechados, sacudindo a cabeça, gemendo, até que, finalmente, caiu de costas, retorcendo-se, até ficar toda na cama; depois, permanecendo rígida enquanto passava a mão pela barriga, a fazer massagem, descendo sempre até os dedos trémulos tocarem no sedoso cabelo púbico e finalmente atingirem o minúsculo gomo protuberante; e então, a princípio delicadamente, acariciou-o e fez massagem nele, acelerando cada vez mais e mais...” - Barrett ergueu os olhos para a testemunha. - Ela está simplesmente a masturbar-se, Mrs. White, e do modo que está escrito...

- É obsceno! Não tem outra finalidade senão excitar gente anormal.

- Mas no contexto do livro todo, esta cena tem uma finalidade importante, Mrs. Whíte, como testemunharão os especialistas em literatura, da defesa. E esta segunda cena. Simples carícias que precedem o coito, e o acto sexual com a mulher por cima do homem. A senhora considera isso obsceno?

- Totalmente.

- Considera esses trechos como ultrapassando os critérios contemporâneos de conduta na sua comunidade?

- Considero, sim.

- Como mulher média de Oakwood, Mrs. White, a senhora pode dizer-me o que faz a moça solteira média para obter desabafo sexual, se não tem relações pré-conjugais com um homem... e como se comporta a jovem casada na cama com o marido?

- Protesto, Meritíssimo! - rugiu Duncan. - A testemunha não dispõe de conhecimento em primeira mão sobre o comportamento de outras mulheres solteiras ou casadas.

- Protesto aceite. Barrett curvou a cabeça,

- Muito bem, Mrs. White, então, tomemos a senhora. A senhora é uma pessoa média, conforme já disseram. Talvez esteja disposta a falar a respeito da sua própria experiência sexual...

- Protesto, Meritíssimo, por carecer de importância.

- Aceite.

- Mrs. White, a senhora sabia que a moça média nos Estados Unidos efectivamente se masturba e que a mulher casada média assume frequentemente a posição de cavaleiro sobre o cônjuge durante o coito? Segundo as pesquisas do Dr. Alfred C. Kinsey a respeito do comportamento feminino, em cada dez mulheres seis masturbam-se em determinada época das suas vidas, e quarenta e cinco por cento delas atingem o orgasmo em três minutos ou menos, e em carícias que precedem o coito, noventa e um por cento de todas as mulheres estimulam manualmente o órgão genital masculino e cinquenta e quatro por cento permitem que os homens estimulem oralmente o órgão genital feminino, e cinquenta e dois por cento das mulheres confirmaram que mantinham relações sexuais deitadas por cima do parceiro masculino, e...

- Meritíssimo - bradou Duncan -, protesto por carecer de importância e levantar controvérsia.

- Protesto aceite por carecer de importância. Barrett olhou fixamente para Mrs. White, depois para

Duncan, e finalmente para o juiz.

- Declaro-me satisfeito com a nossa testemunha média, Meritíssimo.

Depois de voltar a ocupar a cadeira ao lado de Zelkin i à mesa da defesa, Barrett sabia que, embora estivesse, satisfeito com a inquirição que fizera a Mrs. White, não granjeara a estima dos jurados. Ignorando o preceito inculcado na faculdade de direito de que ao interrogar uma testemunha o advogado está realmente a dirigir-se ao júri, deixara-se envolver emocionalmente com a testemunha, em vez de se concentrar na impressão que causava aos doze jurados. Entregara-se à indignação pessoal contra o farisaísmo e pudicícia da classe média, e provavelmente ofendera jurados que pertenciam à própria classe média. Falara de certos assuntos que precisavam de ser ventilados, esquecendo, na sua paixão, que se não achava em sala de aula, mas de tribunal, e agora, ao lembrar-se da sua obrigação perante o constituinte, lamentava as suas explosões e a maneira como molestara e atormentara a testemunha. O compromisso que assumira com a causa começava a toldar-lhe a objectividade. Era isso, disse consigo mesmo, isso e esse interminável dia abrasador. Os seus nervos estavam tensos e propensos ao desgaste.

Agora, desanimado, emocionalmente exausto, Barrett tentou prestar atenção ao interrogatório sereno, vivamente compassado, que o Procurador Público fazia à última testemunha do dia.

Com essa testemunha. Paul Van Fleet, a acusação dava início à derradeira fase tradicional da sua acção - apresentando “opiniões abalizadas de pessoas qualificadas a emitir tais opiniões” - opiniões de pessoas que sustentariam a afirmação da acusação de que Os Sete Minutos era uma obra pornográfica sem importância social compensatória.

Às perguntas de Duncan, as respostas da testemunha estabeleceram o facto de que poucos críticos literários americanos estavam mais bem qualificados para discutir o mérito ou a falta de mérito de um livro do que Paul Van Fleet. Embora o jovem crítico, de olhar sonolento e voz anasalada, talvez fosse excessivamente inclinado à hipérbole e erudição para gozar da total compreensão do júri, Barrett teve de reconhecer consigo mesmo que a testemunha estava a mostrar-se eficiente.

O facto de que Van Fleet era obviamente homossexual - corriam boatos persistentes de que certa vez casara com uma viúva com segundas intenções, para poder possuir mais facilmente o belo filho adolescente - não parecia influenciar os jurados. Segundo Barrett, eles tão-pouco compreendiam que Van Fleet se mostraria automaticamente hostil a um romance que era, antes de mais nada, uma ode ao heterossexualismo sadio e vigoroso, com todos os corolários correspondentes. Barrett achou provável que, em vez disso, interpretassem as características divergentes de Van Fleet - como provavelmente interpretariam as idiossincrasias de tantos homossexuais famosos em todos os sectores artísticos - como prova de uma qualidade esotérica especial que atestava cultura e juízo estético superiores. Além disso, as credenciais literárias de Van Fleet eram irrefutáveis: três colecções publicadas de ensaios eruditos consagrados a temas como Ellen Glasgow, Lytton Strachey, a morte do romance freudiano, Hart Crane, Ronald Firbank, polémica e o artista plástico; uma série de artigos críticos na Partisan Review, no New York Heview of Books, Encounter, Commentary, com uma secção ocasional, muito lida e bem paga, no New Yorker; e juiz frequente nos National Books Awards.

- A sua opinião sobre Os Sete Minutos?

- Não há nada de extraordinário, Mr. Duncan, em que o braço da literatura fique de vez em quando desfigurado por imperfeições... pequenos furúnculos ou pápulas de livros que se inflamam em pouco tempo, arrebentam e desaparecem. Os Sete Minutos é um desses furúnculos que incham até assumir proporções perigosas com a publicidade deste julgamento, É meu dever, como um dos protectores do belo braço da literatura, lancetar esse furúnculo nesta oportunidade, a fim de que o pus da sua licenciosidade seja drenado, a imperfeição erradicada, e a boa saúde da literatura recuperada. Em resposta à sua indagação, não tenho apenas o prazer como também o dever, como guardião do bom gosto americano, de confirmar-lhe que o romance do finado Mr. Jadway, Os Sete Minutos, é completamente destituído de mérito literário ou social. Ele está para a literatura assim como um cartão-postal pornográfico francês está para a pintura. É obsceno no sentido mais rematado do termo.

Depois, Mr. Van Fleet achava que J J Jadway procurara dar ao leitor alguma compreensão ou visão do amor?

- Mr. Duncan, o senhor sem dúvida está a troçar de mim. Amor? Jadway não sabia nada de amor. Existe um episódio revelador sobre a atitude dele a respeito do amor. Pelo jeito, a história foi obtida em primeira mão pelo erudito que a divulgou inicialmente. Com a sua licença, citarei directamente da fonte. Num admirável ensaio intitulado A Margem das Tendências Principais, o Dr. Hiram Eberhart, catedrático extremamente respeitado da Universidade de Colúmbia, escreve: “Uma noite, após escutar uma luta de boxe pelo rádio, um prélio em que Joe Louls competiu, no campeonato dos pesos-pesados, com um tal James Braddock, Jadway contou a amigos que se encontravam em sua companhia, escutando a partida, que o amor entre um homem e uma mulher lembrava na maioria das vezes um pugilato: a dança, a simulação, os ataques e contra-ataques, a raiva, a selvageria, a luta pela preponderância e domínio físico. Mas o raro amor verdadeiro, prosseguiu Jadway, não possuía nada de pugilismo. Quando lhe pediram que desse exemplos de livros que descreviam o amor hostil mais comum, Jadway citou O Trópico de Capricórnio, de Henry Miller, que acabava de ler, como um romance que reproduzia perfeitamente a brutalidade do amor. No entanto, por estranho que pareça, embora Jadway parecesse reconhecer vários aspectos de amor, e os seus tratamentos na obra alheia, era cego para qualquer compreensão do que confiara ao papel no seu único livro publicado. Porque em Os Sete Minutos, mal-grado um punhado de fanáticos iludidos que pensam o contrário, o tratamento do amor é, o tempo todo, um acto de ódio contra o sexo feminino. Com a acção, as metáforas, a linguagem que usou para traçar um retrato da sua heroína, acção, metáforas e linguagem ininterruptamente pornográficas e vulgares, Jadway assumiu conscientemente o papel de pugilista empenhado em rebaixar e humilhar o sexo oposto.” Eu concordo plenamente com o Dr. Eberhart.

Durante este depoimento, uma anomalia, uma verdadeira incongruência se apossou da atenção de Barrett, dominando-lhe os pensamentos, animando-o instantaneamente a registar tudo o que acabava de ouvir.

Não tardou muito para que o interrogatório de Paul Van Fleet por Elmo Duncan ficasse concluído e chegasse a vez da defesa.

Levantando-se para inquirir a testemunha, Barrett sentiu-se tentado a evidenciar a estranha incongruência, a aprofundar-se nessa manifestação insólita de incoerência cronológica. Contudo, depois de iniciar o interrogatório, chegado o momento de tocar no ponto que mais lhe interessava, absteve-se de mencioná-lo. Por um lado, não estava absolutamente certo da anomalia que percebera. Caso estivesse enganado, o melindroso Van Fleet pô-lo-ia a ridículo. Caso tivesse razão, talvez dispusesse de um trunfo importante de mais para que a defesa o revelasse à oposição a essa altura.

Barrett arquivou a pergunta num recanto do cérebro. Mais tarde, à noite, iria examiná-la e tentar encontrar a resposta para si mesmo. Se tivesse razão, a defesa dispunha de nova pista, uma possibilidade inédita, uma esperança entusiasmante.

Por volta das nove horas da noite, tendo ao lado a sanduíche de carne enlatada e o café ainda intactos, Mike Barrett fechou repentinamente o almanaque internacional que estivera a analisar com atenção, largando-o sobre a escrivaninha do escritório e chamando exultante pela porta aberta, para que Abe Zelkin viesse reunir-se a ele.

Zelkin entrou apressadamente, empunhando picles kosher (5) e um copo de papel de café.

- Que é, Mike?

- Abe, você é capaz de me definir “anacronismo”?

- Anacronismo? Lógico. É quando você se situa na época errada.

- Ou, como diz no Webster: “Um erro de cronologia em que os acontecimentos estão deslocados uns em relação aos outros”, como “a antedata de uma ocorrência”, ou “qualquer coisa incongruente, em matéria de tempo, com o que a rodeia”. Pois eu, Abe, descobri não um, mas dois anacronismos clamorosos no depoimento de Van Fleet. Desconfiei disso logo, no tribunal, mas precisei de verificar para ter a certeza.

Bateu no almanaque.

- E agora tenho.

- Anacronismos. O que tem isso de tão importante para...?

Barrett deu um pulo.

- Ouça, Abe, não estou a catar piolhos. Talvez haja algo muito importante em tudo isto - esperou que Zelkin se sentasse, e depois, enquanto ele mordia no kosher, Barrett começou a caminhar de um lado para o outro. - Lembra-se daquela parte do depoimento de Van Fleet em que ele citou uma obra literária chamada A Margem das Tendências Principais do Dr. Hiram Eberhart da Universidade de Colúmbia?

- Lembro-me.

- E lembra-se da citação de Eberhart em que ele conta o episódio da noite em que Jadway estava a escutar Louis arrebatar o título de pesos-pesados a Braddock, e depois, mais tarde, o jeito com que Jadway disse, como uma porção de actos sexuais se assemelhava àquela luta de boxe, passando então a dizer que O Trópico de Capricórnio descrevia o acto sexual dessa maneira?

- Sim, estou a lembrar-me...

- Okay, Abe. O primeiro anacronismo, o que me chamou a atenção enquanto estávamos no tribunal. Para estabelecer os factos, quando foi que J J Jadway morreu?

- Em Fevereiro de 1937.

- Exactamente. Jadway matou-se e foi prontamente cremado em Fevereiro de 1937. Mas aqui nós temos o Dr. Eberhart a contar como Jadaway leu e comentou O Trópico de Capricórnio, de Miller. No entanto esse livro não foi publicado pela Obelisk Press antes de 1939. Em suma, Jadway estava a ler e a comentar um livro publicado dois anos depois da morte dele. Que tal lhe parece esta?

Zelkin acabou de comer o kosher.

- Inconsistente - disse ele. - Van Fleet pode ter citado mal o Dr. Eberhart.

- Nada disso. Pedi à minha bibliotecária favorita, Rachel Hoyt, da Biblioteca Municipal de Oakwood, que desse uma olhadela. A citação estava correcta palavra por palavra.

- Ainda inconsistente - persistiu Zelkin. -O Dr. Eberhart cometeu um erro compreensível no seu ensaio. Confundiu O Trópico de Capricórnio, publicado em 1939, com O Trópico de Câncer, de Miller, publicado em 1934, quando Jadway ainda estava bem vivo.

- Estou um passo à sua frente, Abe. Eu também vi que um erro desses seria fácil de cometer. Para falar a verdade, ele deve ter sido cometido, por causa da segunda discrepância. Ouça esta. Nós temos Jadway morto e enterrado em Fevereiro de 1937. Também temos... de acordo com o extremamente prezado Dr. Eberhart... Jadway a escutar Joe Louis a derrotar Braddock para o título de boxe. Sabe quando Louis derrotou Braddock? Foi ao oitavo assalto, em Chicago, em Junho de 1937. Isto quer dizer que Jadway estava a escutar a luta quatro meses depois de ter morrido. Que tal esta?

Zelkin pousou o copo de café.

- Essa já me agrada mais.

- Ora, eu sei que o ilustre Dr. Eberhart pode ter cometido um erro pela segunda vez. Mas duas vezes num só parágrafo, para um ensaísta famoso, com toda aquela experiência de revisão de provas? Talvez. Mas é implausível. Assim, admitamos que o nosso Dr. Eberhart fosse cuidadoso nesta segunda singularidade. O que nos resta? Um Jadway novo e revisado, que não morreu em Fevereiro de 1937, como Cassie McGraw, Christian Leroux e o Padre Sarfatti afirmaram. Um Jadway bem vivo quatro meses mais tarde. E talvez a comentar o livro de Miller dois anos depois. Deixa de pé todos os depoimentos sobre Jadway até agora. E põe-nos de novo em acção.

- Quanto a isso não há dúvida... se o episódio narrado pelo Dr. Eberhart é, pelo menos em parte, verdadeiro. O Dr. Eberhart ainda vive?

- E como! Continua em Colúmbia. Tem um apartamento em Morningside Heights. Só nos falta telefonar-lhe, procurando acordá-lo, presumindo-se que esteja em Nova Iorque e não a viajar de licença ou coisa parecida, para lhe dizer que precisamos de conversar urgentemente com ele a respeito de uma questão relacionada com a integridade da sua cultura.

- Pode ficar certo de que eu acordo o homem.

- Assim, aproximo-me dele e fico mais perto da verdade final. Sei que os dados estão lançados contra nós. Porém estou disposto a lançá-los novamente. O que é que você acha, Abe?

- Que posso achar? Tenho um sócio que gosta de viajar. Digo-lhe: pois então viaje. Quando a gente está a ir ao fundo, até uma palha serve para se agarrar. Okay. Amanhã, tomo o seu lugar no tribunal. Faça apenas o possível para estar de volta, antes que ponham Jerry Griffith no banco das testemunhas. Dele terá você de cuidar.

- Não se preocupe. Obrigado, Abe - Barrett ficou um instante pensativo. - Jadway sem ter morrido em 1937. Meu Deus, não seria fantástico?

 

                                                                                 CONTINUA

 

                      

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