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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PAPILLON / Henri Charrière
PAPILLON / Henri Charrière

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

P A P I L L O N

O Homem que Fugiu do Inferno

Primeira Parte

 

                                                         O CAMINHO DA PODRIDÃO

 

                           NO TRIBUNAL DO JÚRI

Foi um trompaço tão forte, que só me levantei da queda treze anos mais tarde. Com efeito, não foi um bofetão comum. Para desfechá-lo foi preciso se juntar muita gente

É o dia 26 de outubro de 1932. Tiraram-me às 8 da manhã da cela que ocupo faz um ano na prisão da Conciergerie. Estou barbea­do, com boa cara, vestindo meu terno cortado por um bom alfaiate. Camisa branca e gravata borboleta azul-pálido dão o último toque de elegância à minha roupa.

Tenho 25 anos, mas aparento apenas vinte. Os guardas, um tan­to impressionados pela minha figura de gentleman, tratam-me cor­tesmente. Tiraram-me até as algemas. Estamos todos os seis, cinco guardas mais eu, sentados em dois bancos numa sala nua. À nossa frente, uma porta que deve comunicar com a sala do tribunal do júri, pois estamos no Palácio da Justiça do Departamento do Sena, em Paris.

Dentro de alguns instantes, serei julgado por homicídio. Meu advogado, Raymond Hubert, veio cumprimentar-me: “Não há qualquer prova contra você, tenho confiança, seremos absolvidos”. Acho graça nesse “seremos”. Como se ele, o Dr. Hubert, fosse comparecer perante o tribunal como culpado e, se houvesse condenação, também tivesse que sofrê-la.

Um porteiro abre a porta e nos faz passar. Pelos dois batentes es­cancarados, enquadrado pelos quatro guardas e o sargento, penetro numa sala imensa. Para me aplicar a bofetada, eles cobriram tudo de pano vermelho-sangue: tapetes, cortinas nas altas janelas e até mesmo os magistrados que logo mais vão-me julgar.

— Senhores, a corte!

De uma porta à direita surgem, um após outro, seis homens: o presidente, acompanhado de cinco magistrados. Na poltrona central fica o presidente, à direita e à esquerda estão seus assessores.

Silêncio impressionante na sala. Todos estão de pé. Os juizes se sentam e todo mundo faz o mesmo.

O presidente, sujeito bochechudo e corado, aparência austera, me fixa os olhos sem deixar transparecer qualquer sentimento. Chama-se Bevin. A seguir, ele vai começar a dirigir os debates com impar­cialidade e, pela sua atitude, fará todos compreenderem que ele, ma­gistrado de carreira, não está muito convencido da sinceridade das testemunhas e dos policiais. Não, ele não terá responsabilidade algu­ma no bofetão; será apenas o encarregado de desfechá-lo.

O promotor é o Dr. Pradel, um promotor muito temido por todos os advogados da Vara Criminal. Goza da triste fama de ser o maior fornecedor de carne humana para a guilhotina e as penitenciárias da França e do Ultramar.

Pradel representa a vindita pública. É o acusador oficial e nada tem de humano. Simboliza a Lei; é ele quem maneja a Balança e faz sempre o possível para que ela se incline para o seu lado. Com seus olhos de abutre e abaixando um pouco as pálpebras, olha intensa­mente para mim, de todas as suas alturas. Primeiro, a altura da pol­trona, que o coloca mais alto que eu; depois, a da sua própria esta­tura, 1 metro e 80 pelo menos, ostentada com arrogância. Não tira seu manto vermelho, mas coloca o chapéu sobre a mesa, na qual apóia as duas mãos enormes como pás de bater roupa. Uma aliança indica que é casado e, no dedinho, à guisa de anel, traz um cravo de ferradura polido e brilhante.

Inclina-se um pouco sobre mim para melhor me dominar. Parece estar dizendo:

“Meu velho, se você pensa que pode escapar, está muito engana­do. Não percebe que as minhas mãos são garras e as unhas que vão despedaçá-lo estão muito bem implantadas em minha alma. E, se sou temido por todos os advogados e cotado na magistratura como promotor perigoso, é porque jamais deixo escapar minha presa.

“Não quero saber se você é culpado ou inocente, quero apenas utilizar tudo o que existe contra você: sua vida boêmia em Montmartre, os testemunhos forçados pela polícia e as declarações dos pró­prios policiais. Com esse monte de sujeiras acumulado pelo juiz de instrução, tenho que pintar seu retrato tão repelente, que os jura­dos o farão desaparecer da sociedade.”

Parece que o estou ouvindo falar nitidamente, salvo se eu estiver sonhando, pois sinto-me verdadeiramente impressionado por esse devorador de homens:

“Deixe que eu o conduza, acusado, e sobretudo não procure se defender: eu o levarei pelo ‘caminho da podridão’.

“E espero que não acredite na benevolência dos jurados. Não se iluda, esses doze homens nada conhecem da vida.

“Olhe para eles, alinhados à sua frente. Olhe para esses doze pa­tetas que Paris importou de afastadas vilas da província. São pequenos-burgueses, aposentados, comerciantes. Não adianta descrevê-los melhor. Não vai querer que eles compreendam os 25 anos que você tem e a vida que você leva em Montmartre. Para eles, Pigalle e a Place Blanche são o inferno e todas as pessoas que vivem à noite são inimigas da sociedade. Estão orgulhosos por serem jurados no tri­bunal do Sena. Além disso, garanto que se sentem frustrados pela vida que levam como pequenos burgueses.

“E você aí, jovem e bonito, pode ficar sabendo que não vou ter escrúpulos em pintá-lo como um Don Juan noturno de Montmartre. Assim, logo de saída, transformarei esses jurados em inimigos seus. Você está muito bem vestido, deveria ter vindo com roupas esfarra­padas. Foi um grande erro de tática. Não vê que eles têm inveja da sua roupa? Eles sempre usaram roupas feitas e jamais se viram ves­tidos por um alfaiate, nem mesmo em sonhos”.

São 10 horas e os debates se abrem. Na minha frente, seis magis­trados, entre eles um promotor agressivo, que utilizará todo o seu poder maquiavélico, toda a sua inteligência, para convencer aqueles doze palhaços de que sou culpado e que o veredicto só pode ser a prisão perpétua ou a guilhotina.

Vou ser julgado pela morte de um protetor de batotas, rufião e dedo-duro da boca do lixo de Montmartre. Não há prova alguma, mas os policiais — promovidos a cada vez que descobrem o autor de um delito — vão sustentar que sou eu o culpado. Não tendo pro­vas, vão jurar que possuem informações “confidenciais”, que não deixam qualquer dúvida. Uma testemunha preparada por eles, ver­dadeiro disco gravado na Chefatura de Polícia, um homem chamado Polein, será a peça mais eficiente da acusação. Como sustento que não o conheço, o presidente, em dado momento, me pergunta, mui­to imparcialmente:

— Você diz que a testemunha está mentindo. Muito bem. Mas por que estaria mentindo?

— Senhor presidente, se eu passo noites sem dormir desde que fui preso, não é de remorso pelo assassínio de Roland le Petit, pois não fui eu. É justamente porque eu procuro saber o motivo que le­vou essa testemunha a ficar tão encarniçadamente contra mim. Cada vez que a acusação fraquejava, ele vinha com novos elementos para reforçá-la. Cheguei à conclusão, senhor presidente, de que a polícia o pegou num flagrante muito sério e que fez um acordo com ele: “Vamos esquecer o caso, mas você tem que acusar o Papillon”.

Nem eu podia imaginar como estava certo, pois Polein, apresenta­do no tribunal como homem honesto e de folha limpa, foi preso e condenado alguns anos mais tarde por tráfico de cocaína.

O advogado Hubert procura defender-me mas não está à altura do promotor. Somente o Dr. Bouffay consegue, graças à sua calorosa indignação, manter em xeque por alguns instantes o promotor. Infe­lizmente, isso dura pouco e a habilidade de Pradel leva a melhor nesse duelo. Além disso, ele adula os jurados, já cheios de orgulho por estarem sendo tratados, por aquele impressionante personagem, como iguais e colaboradores.

Às 11 horas da noite termina a partida de xadrez. Meus defen­sores estão em xeque-mate. Eu, inocente, sou condenado.

A sociedade francesa, representada pelo promotor geral Pradel, acaba de eliminar, por toda a vida, um moço de 25 anos. E sem qual­quer constrangimento. O prato bem cheio me é apresentado pela voz fria do presidente Bevin.

— Acusado, levante-se.

Levanto-me. Silêncio total no recinto, respirações suspensas. Meu coração bate um pouco mais depressa. Os jurados olham para mim ou abaixam a cabeça; parecem estar envergonhados.

— Acusado, já que os jurados responderam “sim” a todas as per­guntas menos uma, a da premeditação, você está condenado à pena de prisão perpétua com trabalhos forçados. Tem alguma coisa a dizer?

Mantenho-me calmo, minha atitude é normal, apenas aperto com mais força a barra do banco dos réus.

— Sim, senhor presidente, tenho a dizer que sou inocente e que sou vítima de uma trama policial.

Do canto das senhoras elegantes, convidadas, de categoria, senta­das atrás da corte, chega um murmúrio aos meus ouvidos. Exclamo, em voz controlada:

— Silêncio, mulheres cheias de jóias que vêm aqui para gozar emoções mórbidas. A farsa terminou. Um homicídio foi solucionado pela sua polícia e sua Justiça; vocês, então, devem estar satisfeitas!

— Guardas — diz o presidente —, levem o condenado.

Antes de sumir, ouço uma voz que grita:

— Não ligue, meu homem, eu irei lá buscar você.

É a minha Nénette, boa e valente, que reafirma o seu amor.

Os homens do meu ambiente que estão na sala aplaudem. Eles co­nhecem muito bem a história desse caso e assim demonstram que estão orgulhosos de mim por eu não ter “dado o serviço” nem de­nunciado ninguém.

De volta à sala onde nos achávamos antes do início dos debates, os guardas colocam-me as algemas e um deles ajusta uma corrente entre o meu pulso direito e o seu pulso esquerdo. Nem uma palavra. Peço um cigarro. O sargento me dá um. Cada vez que o ponho ou tiro da boca, o guarda tem de levantar ou abaixar o braço, para acompanhar o movimento.

Fumo, de pé, mais ou menos os três quartos do cigarro. Ninguém diz nada. Eu é que olho para o sargento e digo: “Vamos”.

Descendo as escadas, escoltado por uns doze guardas, chego ao pátio interno do Palácio. A “viúva alegre” lá está à nossa espera. Não tem divisões internas. Todos se sentam juntos nós bancos, mais ou menos dez pessoas. O sargento dá a ordem: “Conciergerie”.

 

                            A CONCIERGERIE

Quando chegamos ao último castelo, que foi de Maria Antonieta, os guardas me entregam ao chefe da guarda, que passa recibo. Vão embora sem dizer nada, mas antes, para minha surpresa, o sar­gento me aperta as duas mãos algemadas.

O guarda-chefe pergunta:

— Quanto te lascaram?

— Prisão perpétua.

— Não é possível!

Olha para os guardas e compreende que é verdade. Esse carcereiro de cinqüenta anos, que viu tantas coisas e conhece muito bem o meu caso, me diz estas boas palavras:

— Olhe, que sujos! Mas eles estão loucos!

Com bons modos, tira-me as algemas e tem a gentileza de levar-me pessoalmente a uma cela de paredes estofadas, especialmente preparada para os condenados à morte, os loucos, os muito perigosos ou os condenados à prisão perpétua.

— Coragem, Papillon —, diz ele, fechando a porta atrás de mim. — Vou mandar algumas roupas e a comida que você tinha na outra cela. Coragem!

— Obrigado, chefe. Creia, tenho coragem e acho que minha prisão perpétua ficará atravessada na garganta deles.

Alguns minutos depois, ouço um arranhado na porta.

— O que é?

Uma voz responde:

— Não é nada. Estou só pendurando um cartão.

— Por quê? O que está escrito nele?

— “Trabalhos forçados perpétuos. Vigiar atentamente.”

Eu penso: “Eles são mesmo loucos. Acreditam, por acaso, que o choque da avalancha que caiu sobre minha cabeça pode me perturbar e me levar ao suicídio? Sou e serei corajoso. Lutarei contra tudo e contra todos. A partir de amanhã começarei a agir”.

Na manhã seguinte, tomando meu café, perguntei a mim mes­mo: “Vou apelar? Por quê? Terei mais sorte diante de outro tribu­nal? E quanto tempo vou perder com isso? Um ano, talvez dezoito meses... e para quê? Para receber vinte anos em vez da perpétua?”

Como estou bem decidido a escapar, o prazo não importa. Lem­bro-me da frase de um condenado que perguntou ao presidente do tribunal: “Doutor, quanto tempo dura a prisão perpétua na França?”

Caminho sem parar em volta da minha cela. Mandei um telegra­ma à minha mulher para consolá-la, e outro a uma irmã que procurou defender-me, sozinha, contra todos.

Cai o pano, é o fim da peça. Os meus devem estar sofrendo mais do que eu, e meu pobre pai, no fundo da sua província, deve sofrer muito para carregar uma cruz tão pesada.

Tenho um sobressalto: mas afinal, eu sou inocente! Sou, mas para quem? Sim, para quem sou inocente? Digo para mim mesmo: “Sobre­tudo, nunca se divirta contando que é inocente, todo mundo iria dar risada. Pegar prisão perpétua por causa de um rufião e, ainda por cima dizer que foi outro quem o matou, seria muito gozado! O melhor é calar a boca”.

Como jamais durante a minha prisão preventiva, tanto na Santé como na Conciergerie, eu tinha imaginado receber uma condenação tão pesada, nunca tinha me preocupado em saber o que poderia ser o “caminho da podridão”.

Muito bem. A primeira coisa a fazer: entrar em contato com ho­mens já condenados, capazes, no futuro, de serem companheiros de fuga.

Escolhi um sujeito de Marselha, chamado Dega. Iria certamente encontrá-lo no barbeiro. Ele vai todo dia fazer a barba. Peço licença para ir lá também. De fato, quando chego, eu o encontro, encostado na parede. Vejo-o justamente quando ele, disfarçadamente, faz pas­sar um outro à sua frente, a fim de poder ficar mais tempo esperan­do. Coloco-me ao seu lado, afastando um outro sujeito. Murmuro rapidamente:

— Então, Dega, como vão as coisas?

— Vão indo, Papi. Peguei quinze anos, e você? Me disseram que te salgaram direitinho.

— Sim. Peguei a perpétua.

— Você vai apelar?

— Não. O que é preciso é comer bem e fazer cultura física. Conserve as forças, Dega, porque certamente precisaremos ter bons músculos. Você está “carregado”?

— Sim, tenho dez “sacos” (*) em libras esterlinas. E você?

 

(*) 10 000 francos de 1932 ou seja, cerca de 5 000 de 1969 (mais ou menos NCr$ 3 800,00).

 

— Um bom conselho: “carrega” logo. Teu advogado é o Hubert? É uma besta, ele nunca lhe vai entregar o “canudo”. Manda a sua mulher com o “canudo” carregado procurar o Dante. Ela que o en­tregue a Domingos, o Rico, e eu garanto que ele chegará até você.

— Cuidado, o guarda está olhando.

— Então, aproveitando para conversar? — diz o guarda.

— Não é nada — responde Dega. — Ele está me dizendo que está doente.

— Que é que ele tem? Uma indigestão de grades? — O gordo carcereiro cai na gargalhada.

Essa é a vida. Já estou no “caminho da podridão”. Eles morrem de rir, gozando da desgraça de um moço de 25 anos condenado por toda a vida.

E recebi o “canudo”. É um tubo de alumínio, cuidadosamente po­lido, que se abre desenroscando-se pelo meio. Tem uma rosca ma­cho e uma fêmea. Contém 5 600 francos em notas novas. Quando me é entregue, beijo esse tubo de 6 centímetros de comprimento, da espessura do polegar; sim, beijo-o antes de colocá-lo no ânus. Res­piro forte para fazê-lo subir ao cólon. É o meu cofre. Podem me deixar pelado, me abrir as pernas, me fazer tossir, dobrar em dois, ninguém descobrirá se tenho alguma coisa escondida. Ele subiu bem para cima, entrou no intestino grosso. Faz parte de mim mesmo. É a minha vida, a minha liberdade que trago comigo... é o caminho da vingança, pois eu penso sempre em me vingar! Aliás, só penso nisso.

Já é noite. Estou só em minha cela. Uma forte lâmpada no teto permite que o guarda me vigie por um orifício na porta. A luz pos­sante ofusca meus olhos. Coloco o lenço dobrado sobre os olhos, pois a claridade é realmente insuportável. Estendido no colchão so­bre a cama de ferro, sem travesseiro, evoco todos os detalhes do des­graçado processo.

Chegado a este ponto, para que se possa compreender a continua­ção desta longa narrativa, para que se percebam as bases que me serviram de sustentáculo em minha luta, precisarei talvez me alongar bastante para contar tudo que passou pela minha mente nos primeiros dias em que me tornei um enterrado vivo.

O que hei de fazer quando conseguir escapar? Pois agora estou com o canudo e não duvido um só instante de que um dia hei de fugir.

Em primeiro lugar, voltarei a Paris o mais depressa possível. O primeiro a liquidar é Polein, a falsa testemunha. Depois, os dois tiras. Mas dois policiais não bastam, tenho que matar todos os agen­tes da polícia. Pelo menos, o maior número possível. Ah, já sei! Uma vez livre, volto a Paris. Encho uma mala de explosivos. Quan­tos quilos, não sei; dez, quinze ou vinte. E procuro calcular quantos explosivos seriam necessários para fazer o maior número de vítimas.

Dinamite? Não, é preferível cheddite. E por que não nitrogliceri­na? Bom, não tem importância; pedirei instruções àqueles que sabem mais do que eu. Mas os policiais que me dêem um crédito de con­fiança, hei de fazer as contas e eles serão bem servidos.

Continuo de olhos fechados e com o lenço sobre as pálpebras. Vejo nitidamente a mala, de aparência inofensiva, carregada de ex­plosivos, e o despertador, bem regulado, que acionará o detonador. Atenção, ela tem que explodir às 10 horas da manhã, na sala de re­latórios da Polícia Judiciária, no Quai des Orfèvres n.° 36, primeiro andar. Nessa hora, lá estarão pelo menos 150 investigadores, reunidos para receber ordens e ouvir os relatórios. Quantos degraus para su­bir? Não posso me enganar.

Será preciso calcular rigorosamente o tempo necessário para que a mala chegue da rua ao destino no segundo exato em que deve ex­plodir. E quem carregará a mala? Bem, aí é que tenho de bancar o corajoso. Chego de táxi, bem diante da porta da Polícia Judiciária, e digo aos dois guardas de serviço, com voz imperativa: “Me subam esta mala na sala dos relatórios, eu já os acompanho. Digam ao co­missário Dupont que essa mala foi enviada pelo inspetor-chefe Dubois e que eu já vou subir”.

Mas será que obedecem? E se, por acaso, nesse monte de imbecis, eu caio sobre os dois únicos inteligentes da corporação? Então esta­rá tudo perdido. Será preciso encontrar outra coisa. Procuro, procuro, não podendo admitir que não consiga encontrar um meio cem por cento garantido.

Levanto-me para beber um pouco de água. De tanto pensar, estou com dor de cabeça.

Torno a me deitar sem o lenço, os minutos se escoam lentamente. E esta luz, esta luz na minha cara, Deus do céu! Molho o lenço e tor­no a colocá-lo. A água fresca me faz bem e, com o peso da água, o lenço adere melhor às pálpebras. Daqui por diante empregarei sem­pre este meio.

Essas longas horas em que arquiteto minha futura vingança são tão intensas, que eu me vejo agindo exatamente como se o projeto estivesse em vias de execução. Toda a noite e mesmo durante uma parte do dia, estou vagando por Paris, como se a minha fuga já fos­se fato consumado. Tenho certeza, hei de escapar e de voltar a Paris. Bem entendido, a primeira coisa a fazer será apresentar a conta a Polein e, em seguida, aos policiais. E os jurados? Esses calhordas vão continuar a viver tranqüilos? Decerto voltaram para casa, esses nojentos, satisfeitíssimos por haverem cumprido o seu Dever, com D maiúsculo, arrotando importância, inchados de orgulho, bancando os heróis junto aos vizinhos e às respectivas patroas, que os esperam, despenteadas, para papar a sopa.

Muito bem. Que fazer, então, com os jurados? Nada. São uns po­bres cretinos. Não estão preparados para serem juizes. Se um cara for guarda-civil ou alfandegário aposentado, ele reage como guarda-civil ou alfandegário. Se for leiteiro, como um labrego qualquer. Eles ficaram embasbacados pela oratória do promotor, que não teve dificuldade em pô-los no saco. Eles são verdadeiramente irresponsá­veis. Então está decidido, julgado e acertado: não lhes farei mal nenhum.

Ao descrever todos esses pensamentos, que realmente passaram pela minha cabeça já faz tantos anos e que agora voltam em tropel com uma terrível nitidez, penso até que ponto o silêncio absoluto, o isolamento completo, total, infligido a um homem moço, fechado nu­ma solitária, podem provocar, antes de causarem a loucura, uma verdadeira vida imaginativa. Tão intensa, tão viva, que o homem li­teralmente se desdobra. Ele sai voando e vai passear onde melhor lhe parece. Rememora sua casa, seu pai, sua mãe, sua família, sua infância, as diversas etapas da sua vida. E, além de tudo isso, viaja pelos castelos da Espanha que o seu espírito fecundo inventa, com imaginação tão incrivelmente aguda, que, nesse desdobramento fa­buloso, chega a crer que vive tudo aquilo que está sonhando.

Trinta e seis anos já se passaram, mas é sem o menor esforço de memória que a minha caneta corre para relembrar o que realmente pensei naquele momento da minha vida.

Pois bem, não vou fazer mal aos jurados. Mas, o promotor pú­blico? Ah, esse não me escapa! Aliás, tenho para ele uma receita já pronta, dada por Alexandre Dumas em O Conde de Monte Cristo: aquele sujeito metido no calabouço e que deixavam morrer de fome.

É ele o grande responsável. Abutre vestido de vermelho, merece ser executado da maneira mais horrível. Logo depois de liquidar Polein e os tiras, tratarei exclusivamente dessa ave de rapina. Alu­garei uma casa isolada. Deverá ter uma adega muito profunda, com paredes espessas e uma porta pesada. Se a porta não for bastante grossa, eu a forrarei com um colchão e estopa. Quando tiver a casa, localizarei e raptarei o homem. Como já terei pregado anéis de ferro na parede, amarro-o com uma corrente logo que chegar. Então co­meço a degustar a boa sopa!

Estou em frente dele, vejo-o com extraordinária precisão através das minhas pálpebras fechadas. Sim, olho-o da mesma maneira que ele me olhava no tribunal. A cena é tão clara e nítida, que sinto o calor do seu hálito no meu rosto, pois estou perto dele, face a face, quase que nos tocamos.

Seus olhos de gavião estão deslumbrados e apavorados pelo fa­cho de uma lanterna muito forte que projeto sobre ele. Grossas gotas de suor escorrem em seu rosto congestionado. Sim, ouço minhas perguntas, escuto suas respostas. Vivo intensamente esse momento.

“Seu grandessíssimo porco, você me reconhece? Sou eu, Papillon, que você despachou tão alegremente para os ‘duros’ (*). Você acha que valeu a pena ter estudado tantos anos para chegar a ser um ho­mem muito instruído, ter passado noites em claro debruçado sobre os códigos romanos e outros, ter aprendido o latim e o grego, sacrifica­do anos de juventude, para ser um grande orador? Para chegar a quê, seu corno? A criar uma nova e boa lei social? A convencer os povos de que a paz é a melhor coisa do mundo? A pregar a filosofia de uma maravilhosa religião? Ou simplesmente a influenciar os ou­tros, graças à superioridade do seu preparo universitário, para que se tornem melhores e deixem de ser malvados? Diga, você empregou o seu saber para salvar os homens ou para afogá-los?

“Nada disso, uma só aspiração faz você agir: subir, subir sempre. Escalar todos os degraus da sua carreira nojenta. A glória para você consiste em ser o melhor fornecedor das penitenciárias, o provedor desenfreado do carrasco e da guilhotina.

“Se Deibler (**) fosse um pouco agradecido mandaria a cada fim de ano para você uma caixa do melhor champanha. Não foi graças a você, espécie de porco, que ele conseguiu cortar cinco ou seis cabe­ças a mais neste ano? De qualquer maneira, sou eu quem prende vo­cê agora, acorrentado solidamente nessa parede. Lembro-me do seu sorriso, lembro-me do seu ar triunfante, quando leram minha conde­nação depois do requisitório. Parece-me que foi ontem e contudo já se passaram tantos anos. Quantos anos, dez, vinte?”

 

(*) Condenados a trabalhos forçados, em degredo, na colônia penal.

(**) Carrasco oficial da França em 1932.

 

Mas o que se passa comigo? Por que dez anos? Por que vinte anos? Apalpe-se bem, Papillon, você é forte, jovem e na barriga tem 5 600 francos. Dois anos, sim, farei dois anos de perpétua, na­da mais do que isso — é um juramento que faço a mim mesmo.

Ora, está ficando bobo, Papillon. Esta célula, este silêncio deixam você louco. Estou sem cigarros. Acabo de fumar o último. Vou andar pela cela. Afinal, não preciso ter os olhos fechados, nem cobertos com o lenço para continuar a ver o que se vai passar. Muito bem, levanto-me. A célula tem 4 metros de comprimento, ou seja, cinco passos pequenos, desde a porta até o muro. Começo a caminhar, com as mãos nas costas. E continuo o meu monólogo:

“Bem. Como já lhe disse, revejo muito claramente seu sorriso triunfante. Pois bem, vou transformá-lo numa careta horrorosa. Assim mesmo, você tem uma vantagem que eu não tinha: eu não podia gritar, mas você pode. Que vou fazer com você? A receita de Dumas? Deixar você morrer de fome? Não, isso não basta. Primeiro, eu furo os seus olhos. Assim, você não poderá mais me ver, mas, por outro lado, eu não terei o prazer de ler as suas reações em suas pupilas. Sim, tem razão, não vou furá-los agora. Fica para mais tarde.

“Vou cortar a sua língua, essa língua tão terrível, que corta como uma faca — mais do que como uma faca, como uma navalha! Essa língua que você prostituiu à sua gloriosa carreira. A mesma língua com que você fala gostoso à sua mulher, aos seus filhos e à sua amante. Mas, que amante! Uma amante, você? Nada disso, acho que você deve ter um macho, isso sim! Você só pode ser um inverti­do sem-vergonha. De fato, preciso começar cortando sua língua, por­que ela é, depois do cérebro, o maior instrumento das suas malvadezas. Graças a ela, que você sabe manejar tão bem, conseguiu con­vencer o júri a responder ‘sim’ às perguntas formuladas.

“Graças a ela, você apresentou os policiais como homens corretos, que se sacrificam pelo dever; graças a ela, a história falsa da teste­munha conseguiu manter-se de pé. Graças a ela, eu aparecia aos doze patetas dos jurados como o homem mais perigoso de Paris. Se não fosse essa sua língua tão pérfida, tão hábil, tão convincente, tão bem treinada em deformar a gente, os fatos e as coisas, eu estaria ainda sentado no terraço do Grand Café da Place Blanche, de onde nunca teria de sair. Então está entendido, vou arrancar essa língua. Mas com que instrumento?”

Caminho pela cela sem parar, minha cabeça está girando, mas estou sempre face a face com ele... quando, de repente, a lâmpada se apaga e a luz do dia consegue infiltrar-se, muito fraca, pelas fres­tas da tábua da janela.

Como? Já é dia? Passei a noite toda me vingando? Que belas horas acabo de passar! Essa noite tão longa, como foi curta!

Fico escutando, sentado na cama. Nada se ouve. Silêncio total. De vez em quando, ouço um ligeiro clique na minha porta. É o guarda que, de chinelos para não fazer barulho, faz correr o pequeno tampo de ferro, a fim de espiar pelo visor minúsculo que lhe permite vigiar-me sem que eu o perceba.

A máquina concebida pela República Francesa chegou à segunda etapa. Funciona maravilhosamente, pois na primeira eliminou um homem que lhe podia causar aborrecimentos. Mas isso não basta. Ê preciso que esse homem não morra depressa demais, é preciso que não escape pelo suicídio. Precisam dele. Que aconteceria com a administração da penitenciária se não houvesse prisioneiros? Esta­riam bem arranjados. Então, é preciso vigiar o preso. Ele tem que seguir para a colônia penitenciária, onde servirá para fazer viver outros funcionários. Volto a ouvir o clique na porta da cela, e isso me faz sorrir.

Não se preocupe, carcereiro vagabundo, não vou escapar. Pelo menos, não da maneira que você receia: o suicídio.

Só peço uma coisa: continuar a viver no melhor estado de saúde possível e partir logo para essa Guiana Francesa, para onde, graças a Deus, vocês fazem a besteira de me enviar.

Eu sei que os seus colegas, meu velho carcereiro que produz o clique a todo momento, não são inocentes coroinhas. Você é um bom velho, comparado com os guardas da colônia penal. Já sei disso há muito tempo, pois Napoleão, quando criou a colônia penal e lhe perguntaram: “Quem irá guardar esses bandidos?”, respondeu: “Outros mais bandidos que eles”. Mais tarde pude verificar que o fundador não havia mentido.

Clique-claque, uma portinhola de 20 centímetros por 20 se abre no meio da porta. Passam o café e uma bola de pão de 750 gramas. Já estando condenado, não tenho mais o direito de freqüentar o restaurante, mas, sempre pagando, posso comprar cigarros e algu­ma comida numa modesta cantina. Mais alguns dias e não haverá mais nada. A Conciergerie é a antecâmara da reclusão. Fumo com delícia um Lucky Strike, cada pacote custa 6,60 francos. Comprei dois. Gasto meu pecúlio, porque será confiscado para pagamento das custas judiciárias.

Dega me manda dizer para ir à desinfecção, por meio de um bilhetinho que encontrei dentro do pão: “Na caixa de fósforos estão três piolhos”. Tiro os fósforos e encontro os piolhos, gordos e bem vivos. Sei o que isso significa. Vou mostrá-los ao vigilante e amanhã ele vai me mandar, com todas as minhas roupas, colchão inclusive, para a câmara de vapor, para matar todos os parasitas — menos nós, é claro. De fato, no dia seguinte, lá me encontro com Dega. Nenhum guarda na câmara de vapor. Estamos sós.

— Obrigado, Dega. Graças a você, recebi o canudo.

— Não te incomoda?

— Não.

— Cada vez que você for à privada, lave bem antes de tornar a colocá-lo.

— Sim. Creio que ele veda bem, pois as notas dobradas em san­fona estão em perfeito estado. No entanto, já estou com ele faz sete dias.

— Então é que é bom mesmo.

— O que você pensa fazer, Dega?

— Vou me fingir de louco. Não quero seguir para a colônia. Aqui na França cumprirei talvez oito ou dez anos. Tenho conhecidos e poderei conseguir pelo menos cinco anos de indulto.

— Quantos anos você tem?

— Quarenta e dois.

— Você está louco! Se você apanhar dez ou quinze anos, sai daqui velho. Você tem medo de ir para os “duros”?

— Sim, tenho medo da colônia penal, não tenho vergonha de dizer, Papillon. Veja, é terrível na Guiana. Cada ano há uma perda de noventa por cento. Um comboio substitui outro e os comboios são de 1 800 a 2 000 homens. Se você não pega a lepra, apanha a febre amarela, ou a disenteria (que não perdoa), ou a tuberculose, o paludismo, a malária infecciosa. Se você escapa de tudo isso, tem uma grande chance de ser assassinado para lhe roubarem o canu­do ou então de morrer durante uma evasão. Acredite, Papillon, não é para lhe tirar a coragem que digo isso, mas conheci vários forçados que voltaram à França depois de terem cumprido pequenas penas, de cinco ou sete anos, e sei o que estou dizendo. São verdadeiros farra­pos humanos. Passam nove meses por ano no hospital e, no que se refere às fugas, dizem que não é sopa, como muita gente acredita.

— Acredito em você, Dega, mas tenho confiança em mim e lá não hei de esquentar lugar durante muito tempo, fique certo. Sou marinheiro, conheço o mar e você pode estar certo de que não demoro a dar o fora. E você? Já pensou no que é cumprir dez anos de reclusão? Se descontarem cinco, o que não é certo, pensa que poderá agüentar, sem ficar louco, no isolamento completo? Neste momento, nesta cela, onde estou sozinho, sem livros, sem sair, sem poder falar com ninguém, as 24 horas de cada dia não devem ser multiplicadas por sessenta minutos, mas por seiscentos, e ainda assim estará longe da verdade.

— É possível, mas você é moço e eu tenho 42 anos.

— Escuta, Dega, francamente, de quem você tem mais medo? Não é dos outros sentenciados?

— Sim, francamente, Papi. Todo mundo sabe que sou milionário, e daí a me assassinarem pensando que eu carrego cinqüenta ou cem mil “pacotes” é só um passo.

— Escuta, vamos fazer um pacto? Você me promete não bancar o louco e eu prometo estar sempre perto de você. Cada um se en­costa no outro. Eu, nem precisa que diga, sou forte e rápido, aprendi a lutar muito moço e sei muito bem manejar a faca. Portanto, quan­to aos outros forçados, pode ficar sossegado: seremos não só res­peitados, mas temidos. Para a fuga, não precisamos de ninguém. Você tem grana, eu tenho grana, sei usar uma bússola e dirigir um barco. Que é que você quer mais?

Ele me olha bem firme nos olhos... nos abraçamos. O pacto está assinado.

A porta se abre dentro de alguns instantes. Ele parte para um lado com seus troços e eu sigo para o meu. Não ficamos muito longe um do outro e vamos poder às vezes conversar no barbeiro, no médico ou na capela aos domingos.

Dega se estrepou no negócio dos bônus falsos da Defesa Nacio­nal. Eram fabricados por um falsário, de modo muito original. Ele clareava os bônus de 500 francos e tornava a imprimir em cima, com toda a perfeição, títulos de 10 000 francos. O papel permanecia o mesmo, eles eram aceitos com toda a confiança pelos comerciantes e pelos bancos. A coisa durava havia muitos anos e a seção de fraudes financeiras do Departamento de Investigações não sabia mais onde dar com a cabeça, até que um dia um tal de Brioulet foi preso em flagrante. Louis Dega estava bem sossegado à frente do seu bar em Marselha, onde se reunia todas as noites a fina flor do submundo do sul da França e que servia de ponto de encontro internacional para os grandes traficantes do vício de todo o mundo.

Era milionário em 1929. Um dia, uma mulher bem vestida, moça e bonita, aparece no bar. Quer falar com Monsieur Louis Dega.

— Sou eu, minha senhora, que deseja? Entre na sala ao lado, por favor.

— Acontece que eu sou a mulher de Brioulet — disse ela. — Ele está preso em Paris, por haver passado bônus falsos. Estive com ele no parlatório da prisão da Santé e ele me mandou pedir ao senhor 20 000 francos para pagar o advogado.

É então que um dos grandes reis do vício da França, Dega, diante do perigo de uma mulher que estava a par do seu papel no negócio, só encontra a única resposta que não deveria dar:

— Minha senhora, não conheço o seu homem e, se você precisa de dinheiro, vá fazer a vida. Ganhará mais dinheiro do que precisa, bonita como é.

A coitada da mulher, muito ofendida, sai correndo, em lágrimas, e vai contar toda a cena ao seu marido. Indignado, Brioulet, no dia seguinte, conta tudo o que sabia ao juiz de instrução, acusando for­malmente Dega de ser o homem que fornecia os bônus falsos. Um mês mais tarde, Dega, o falsário, o gravador e onze cúmplices eram presos na mesma hora em diferentes lugares e logo trancafiados. Compareceram ao tribunal do Sena e o processo durou catorze dias. Cada acusado foi defendido por um grande advogado. Brioulet nunca se retratou. Conclusão: por causa de uns desgraçados 20 000 fran­cos e uma palavra idiota, o maior líder do vício na França, arruina­do, envelhecido de um decênio, pegou quinze anos de trabalhos forçados. Esse era o homem com quem eu acabava de assinar um pacto de vida e de morte.

O Dr. Raymond Hubert me veio visitar. Não estava muito ani­mado. Não lhe fiz qualquer recriminação.

Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta... Um, dois, três, qua­tro, cinco, meia volta. Há várias horas que faço essas idas e vindas da janela à porta da minha cela. Fumo, sinto-me consciente, equili­brado e capaz de agüentar qualquer coisa. Prometo a mim mesmo não pensar mais na vingança, por enquanto.

Deixemos o promotor no ponto em que ficou, amarrado às argo­las do muro, à minha frente, sem que eu tenha decidido ainda de que maneira acabar com ele.

De repente, um grito, um grito desesperado, agudo, horrivelmente angustiado, consegue atravessar a porta da minha cela. Que será isso? Parece que estão torturando um homem; contudo, aqui não estamos na polícia judiciária. Não há meio de saber o que se passa. Esses gritos na noite me perturbam. Talvez seja um louco. É tão fácil ficar louco nestas celas onde nada chega até nós. Falo sozinho, em voz alta, pergunto a mim mesmo: “E o que é que você tem com isso? Pense em você, só em você e em Dega, seu novo sócio”. Abaixo, levanto, finalmente dou um soco no peito. Doeu muito, portanto tudo vai bem. Os músculos dos meus braços funcionam perfeitamente. E as pernas? Felicitações, pois há mais de dezesseis horas que estou andando e não sinto nenhum cansaço.

Os chineses inventaram a gota de água que cai sobre a cabeça do prisioneiro. Os franceses, por sua vez, inventaram o silêncio. Suprimem qualquer meio de distração. Nem livros, nem papel, nem lápis, a janela fortemente gradeada está completamente tapada por tábuas, com alguns buraquinhos para deixar passar um pouco de luz muito filtrada.

Muito impressionado pelo grito dilacerante, volto-me como um animal preso numa gaiola. Tenho realmente a sensação de estar abandonado por todos e estar literalmente enterrado vivo. Sim, estou completamente só e tudo o que chegar até mim não será mais que um grito.

Abrem a porta. Aparece um velho padre. Você não está sozinho, há um padre aí, na sua frente.

— Meu filho, boa noite. Desculpe não ter vindo antes, mas esta­va de férias. Como vai você? — E o bom velho padre entra sem cerimônia na cela e senta-se sem hesitação no meu catre.

— De onde você é?

— Do departamento de Ardèche.

— Seus pais?

— Mamãe morreu quando eu tinha onze anos. Meu pai gostava muito de mim.

— Que fazia ele?

— Era professor primário.

— Ainda é vivo?

— Sim.

— Por que você fala no passado, se ele está vivo?

— Porque ele está vivo, mas eu estou morto.

— Oh, não diga isso! Que foi que você fez?

Como num relâmpago, passa pela minha cabeça a idéia de que seria ridículo dizer que sou inocente. Respondo logo:

— A polícia diz que matei um homem e, se ela diz isso, deve ser verdade.

— Era um comerciante?

— Não, era um rufião.

— E é por causa de uma história de submundo que condenaram você aos trabalhos forçados perpétuos? Não compreendo, Foi um assassinato?

— Não, um homicídio.

— É inacreditável, meu pobre filho. Que posso fazer por você? Quer rezar comigo?

— Seu padre, me perdoe, não recebi nenhuma educação religio­sa, não sei rezar.

— Não tem importância, meu filho, vou rezar por você. O bom Deus ama todos os seus filhos, batizados ou não. Repita cada pa­lavra que eu digo, você quer?

Seus olhos são tão suaves, sua cara redonda mostra tanta luminosa bondade, que tenho vergonha de recusar e, tendo-se ajoelhado, faço como ele: “Pai nosso, que estais no céu...” As lágrimas me vêm aos olhos e o bom padre, vendo isso, recolhe na minha cara, com seu dedo gordo, uma grossa lágrima, que leva aos lábios e bebe.

— Suas lágrimas, meu filho, são para mim a maior recompensa que Deus podia me enviar hoje através de você. Obrigado.

E, levantando-se, ele me beija na testa.

Estamos novamente sentados no catre, lado a lado.

— Há quanto tempo que você não chorava?

— Catorze anos.

— Catorze anos, por quê?

— No dia da morte da minha mãe.

Pega a minha mão e diz:

— Perdoa aos que tanto te fizeram sofrer.

Arranco a minha mão da sua e, de um pulo, estou novamente de pé no meio da cela.

— Ah, não! Isso não! Nunca hei de perdoar. E o senhor quer que lhe diga uma coisa, padre? Pois bem, cada dia, cada noite, cada hora, cada minuto, passo meu tempo a imaginar quando, como, de que maneira poderei matar todos aqueles que me enviaram para cá.

— Você diz e acredita nisso, meu filho. Você é moço, muito moço. Quando tiver mais idade, renunciará às idéias de castigo e de vingança.

Agora, 34 anos mais tarde, penso como ele.

— Que posso fazer por você? — repete o padre.

— Um delito, padre.

— Qual?

— Ir à cela 37 para dizer a Dega que mande fazer pelo seu advo­gado um pedido para ser transferido à Central de Caen; diga a ele que já fiz meu pedido hoje. Precisamos sair logo da Conciergerie para uma das centrais onde se formam os comboios para a Guiana, porque, se a gente perde o primeiro navio, tem que esperar mais dois anos na reclusão até que tenha outro. Depois de ver meu amigo, senhor padre, precisa voltar aqui.

— Que motivo vou dar?

— Diga, por exemplo, que esqueceu o breviário. Eu espero a resposta.

— E por que está com tanta pressa de ir para aquela coisa horrí­vel que é a colônia penal?

Olho para esse padre, verdadeiro caixeiro-viajante do bom Deus, e digo, certo de que não me vai trair:

— Para escapar mais depressa, padre.

— Deus há de ajudá-lo, meu filho, tenho certeza e sinto que você poderá reconstruir a sua vida. Vejo nos seus olhos que você é um bom rapaz e que a sua alma é nobre. Vou ao número 37. Espere a resposta.

Voltou bem depressa. Dega está de acordo. O padre me deixou o seu breviário até o dia seguinte.

Foi como se eu recebesse hoje um raio de sol, minha cela ficou toda iluminada. Graças àquele santo homem.

Por que, se Deus existe, ele permite que haja sobre a Terra seres humanos tão diferentes? O promotor, os policiais, os Polein e depois o padre, o padre da Conciergerie?

A visita desse santo homem me fez muito bem e também me prestou um bom serviço.

O resultado dos pedidos não demorou. Uma semana depois, lá estávamos, sete homens, às 4 da manhã, alinhados no corredor da Conciergerie. Os guardas estão todos presentes.

— Todos em pêlo!

Tiramos a roupa lentamente. Faz frio, estou arrepiado.

— Deixem suas roupas em frente de vocês. Meia volta, um passo para trás!

E cada um encontra um pacote.

— Vistam-se!

A camisa de linho que eu estava usando há poucos instantes é substituída por uma grossa camisa de pano cru, rijo, e meu belo terno por um blusão e uma calça de baeta. Meus sapatos desaparecem e enfio os pés num par de tamancos. Até hoje, tínhamos aspecto de homens normais. Olho para os meus seis companheiros: que horror! Acabou-se a personalidade de cada um: em dois minu­tos, nos transformamos em forçados.

“À direita, em fila! Avante, marche!” Escoltados por uns vinte guardas, chegamos ao pátio onde, um por um, somos introduzidos ‘numa espécie de armário estreito dentro de um carro celular. Esta­mos a caminho de Beaulieu, nome da Central de Caen.

 

                                   A CENTRAL DE CAEN

Mal chegamos, somos introduzidos no escritório do diretor. Ele está sentado como num trono, atrás de uma mesa estilo império, sobre um estrado de 1 metro de altura.

— Sentido! O diretor vai-lhes falar.

— Condenados, vocês estão aqui em custódia, aguardando trans­porte para a colônia penal. Isto é uma casa de força. Silêncio obri­gatório a todo momento, nenhuma visita a esperar ou cartas de qualquer pessoa. Aqui, ou vocês dobram, ou quebram. Há duas portas à sua disposição: uma para a colônia penal, se vocês se com­portam bem, outra para o cemitério. Em caso de má conduta, eis o que os espera: a menor falta será punida com sessenta dias de solitária, a pão e água. Ninguém resistiu a duas penas consecutivas de solitária. A bom entendedor, meia palavra basta.

Dirige-se então a Pierrot le Fou, extraditado da Espanha:

— Qual era sua profissão na vida?

— Toureiro, senhor diretor.

Enfurecido pela resposta, o diretor grita:

— Carreguem este homem, militarmente!

Em menos de dois segundos, o toureiro é espancado a porretadas por quatro ou cinco guardas, arrastado às pressas para longe de nós. “Cambada de frescos, vocês são cinco contra um e ainda por cima com cacetes, seus bastardos!” Ouve-se um “ah!”, como de um animal ferido de morte, e mais nada. Apenas o roçar de alguma coisa arrastada sobre o chão de cimento.

Depois dessa cena, quem não entendeu nunca mais entenderá. Dega está a meu lado. Ele mexe um dedo, um só, para tocar a minha calça. Compreendi o que ele quer me dizer: “Agüente firme se quer chegar vivo à colônia penal”. Dez minutos depois, cada um de nós se acha numa cela do setor disciplinar da Central, exceto Pierrot le Fou, que foi descido para o porão e metido num infame calabouço.

A sorte quis que Dega ficasse na cela pegada à minha. Antes fo­mos apresentados a uma espécie de monstro ruivo de 1 metro e 90 ou mais, caolho, com um nervo de boi novinho na mão direita. É um vigilante, um prisioneiro com função de torturador, às ordens dos guardas. É o terror dos condenados. Os guardas têm, com ele, a vantagem de poder espancar os homens sem se cansar; além disso, em caso de morte, não haverá responsabilidade para a administra­ção do presídio.

Mais tarde, por ocasião de uma curta passagem pela enfermaria, vim a conhecer a história dessa besta humana. Merece felicitações o diretor da Central por ter sabido escolher tão bem esse carrasco. O gajo em questão era canteiro de profissão. Um belo dia, na pe­quena cidade do norte onde morava, resolveu suicidar-se, liquidando ao mesmo tempo sua mulher. Para isso utilizou uma banana de di­namite bastante grossa. Deitou-se ao lado da mulher, que repousava no segundo andar de um prédio de seis. A mulher estava dormindo. Ele acendeu um cigarro e usou-o para pôr fogo no pavio do cartucho de dinamite que segurava com a mão esquerda, entre a sua cabeça e a da mulher. Deu-se uma explosão espantosa. Resultado: foi pre­ciso recolher o corpo da mulher às colheradas, pois estava total­mente reduzido a migalhas. O prédio desmoronou em parte, três crianças morreram esmagadas nos escombros, bem como uma velha de setenta anos. Os outros moradores receberam ferimentos de maior ou menor gravidade.

Ele, Tribouillard, perdeu uma parte da mão esquerda, da qual sobraram apenas o dedinho e a metade do polegar, perdeu a orelha e o olho esquerdos. Tem na cabeça uma ferida grave, que exigiu uma trepanação. Depois de condenado, tornou-se vigilante das células disciplinares da Central. Esse semilouco pode dispor como quer dos desgraçados que caem sob seu domínio.

Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta... um, dois, três, qua­tro, cinco, meia volta... começa o vaivém interminável do muro à porta da cela.

Não temos o direito de nos deitar durante o dia. Às 5 horas da manhã, um apito estridente acorda todo mundo. É preciso levantar, arrumar a cama, lavar a cara e andar, ou sentar num tamborete preso à parede. Já disseram, não podemos usar a cama durante o dia. Cúmulo do refinamento do sistema penitenciário, a cama tem que ser dobrada contra o muro e ficar enganchada o dia todo. Assim, o prisioneiro não pode esticar-se e é mais fácil vigiá-lo.

Um, dois, três, quatro, cinco... catorze horas de marcha. Para bem adquirir o automatismo desse movimento contínuo, é preciso aprender a baixar a cabeça, as mãos atrás das costas, não andar nem muito depressa nem muito devagar, dar passos do mesmo tamanho e virar automaticamente numa ponta da cela, sobre o pé esquerdo, e na outra ponta, sobre o direito.

Um, dois, três, quatro, cinco... As celas são mais bem ilumina­das que na Conciergerie e se podem ouvir os ruídos exteriores, os do setor disciplinar e também alguns que chegam do campo. À noite ouvem-se os assobios ou as canções dos camponeses que voltam para casa, satisfeitos por terem bebido um bom copo de cidra.

Tive meu presente de Natal: por uma fenda nas tábuas que vedam a janela, posso perceber o campo todo branco de neve e algumas árvores negras iluminadas pela lua cheia. Parece um daqueles car­tões-postais típicos do Natal. Sacudidas pelo vento, as árvores des­piram seu manto de neve e, por isso, podem ser vistas bem distin­tamente. Destacam-se como grandes manchas escuras sobre o fundo branco. É Natal para toda gente, até mesmo para uma parte do presídio. Para os sentenciados em custódia, a administração fez um esforço: tivemos o direito de comprar duas barras de chocolate. Digo bem, duas barras e não dois tabletes. Esses dois pedaços de chocolate de Aiguebelle foram meu réveillon de 1931.

Um, dois, três, quatro, cinco... A repressão judicial me transformou num pêndulo, a ida e a vinda numa cela compõem todo o meu universo. É matematicamente calculado. Nada, absolutamente nada, deve ser deixado na cela. É preciso impedir a qualquer custo que o condenado possa ter uma distração. Se eu for surpreendido olhando pela fenda da tábua da janela, sofrerei severo castigo. Aliás, acho que eles têm razão, pois não é verdade que sou para eles ape­nas um morto-vivo? Que direito me poderia arrogar para gozar de uma visão da natureza?

Voa uma borboleta azul-claro com uma pequena risca negra; zumbe uma abelha um pouco adiante, perto da janela. Que será que esses bichos vêm buscar neste lugar? Parecem estar enlouqueci­dos por este sol de inverno, ou estão com frio e querem abrigar-se na prisão. Uma borboleta, no inverno, é uma ressuscitada. Como não morreu? E essa abelha, por que saiu da sua colméia? Para se apro­ximar de uma prisão é preciso ser muito caradura. Felizmente, o vigilante não tem asas, do contrário os bichinhos não viveriam muito tempo.

Esse Tribouillard é um sádico horroroso e percebo que alguma coisa vai me acontecer com ele. Infelizmente não me enganei. Um dia depois da visita daqueles encantadores insetos, dou parte de doente. Não agüento mais, me abafo na minha solidão, preciso ver uma cara, ouvir uma voz, mesmo desagradável, mas sempre uma voz, preciso ouvir alguma coisa.

Nu em pêlo no frio glacial do corredor, frente ao muro, meu nariz a quatro dedos de distância, eu era o penúltimo de uma fila de oito, aguardando minha vez de ser atendido pelo médico. Eu queria ver gente... pois bem, consegui! Fomos surpreendidos pelo vigilante no momento em que murmurava algumas palavras ao ouvi­do de Julot, alcunhado “o homem do martelo”. A reação do ruivo selvagem foi terrível. Com um murro atrás do pescoço, quase me matou e, como eu não havia visto de onde vinha o golpe, bati o nariz contra o muro. O sangue jorra e, depois de me levantar, pois eu havia caído, me sacudo todo e procuro compreender o que me aconteceu. Esboço um gesto de protesto, mas o brutamontes, que só esperava isso, joga-me novamente ao chão com um pontapé na barriga e começa a me chicotear com seu nervo de boi. Julot não pode suportar isso. Pula em cima do vigilante, inicia-se uma luta terrível e, como Julot está por baixo, os guardas assistem impassíveis à batalha. Acabo de me levantar e ninguém presta atenção em mim. Olho em volta, para ver se encontro algo utilizável como arma. De repente, avisto o médico inclinado sobre a sua poltrona, pro­curando observar, da sala de consulta, o que se passa no corredor, e ao mesmo tempo vejo a tampa de uma marmita que se levanta sob a pressão do vapor. Essa grossa marmita esmaltada está colo­cada sobre o fogareiro a carvão que aquece a sala do médico. O vapor deve servir certamente para purificar o ar.

Então, num reflexo rápido, agarro a marmita pelas alças, queimo as mãos mas não largo e, de uma só vez, atiro a água fervente na cara do vigilante, que não me havia visto, tão ocupado estava em espancar Julot. Um grito espantoso sai da garganta do puto. Foi atingido em cheio. Ele se rola no chão. Como está vestido com três pulôveres de lã, é obrigado a tirá-los com dificuldade, um depois do outro. Quando arranca o terceiro, a pele vem junto. A gola da malha é estreita e, no esforço de fazê-la passar, a pele do peito, parte da do pescoço e toda a das faces se despregam e vêm coladas à malha. Também ficou queimado o seu único olho; está cego. Por fim, levanta-se, hediondo, sanguinolento, em carne viva, e Julot aproveita para lhe dar um tremendo pontapé nos testículos. O gigante desmorona, põe-se a vomitar e a babar. Ganhou o que merecia. Quanto a nós, não perdemos nada por esperar.

Os dois outros vigilantes que assistiram à cena não têm peito bastante para nos atacar. Tocam o alarma para chamar reforços. Chegam guardas por todos os lados e as porretadas caem sobre nós como chuva de pedras. Tenho a sorte de perder logo a consciência, o que não me deixa sentir os golpes.

Quando acordo, estou no segundo subsolo, completamente pelado, numa cafua inundada de água. Recobro lentamente os sentidos. Minha mão percorre meu corpo dolorido. Tenho pelo menos doze ou quinze galos na cabeça. Que horas são? Não sei. Aqui não há nem dia nem noite, não há luz nenhuma. Ouço batidas contra o muro, vindas de longe.

Pã, pã, pã... Esses golpes são a campainha do “telefone”. Tenho de bater duas pancadas na parede, se quiser receber a comunicação. Mas bater com quê? Na escuridão, não vejo nada que me possa ser­vir. Com os punhos é impossível, os golpes não repercutiriam bas­tante. Aproximo-me do lado onde presumo que se encontre a porta, porque lá está um pouco menos escuro. Dou de cara numas grades que eu não havia visto. Às apalpadelas, percebo que a cafua está fechada por uma porta distante de mim mais de 1 metro, porta essa que a grade em que estou encostado me impede de atingir. Assim, quando alguém entra na cela de um preso perigoso, está livre de ser tocado por ele, que se encontra como numa gaiola. Pode-se então falar com o prisioneiro, molhá-lo, atirar-lhe comida ou insultá-lo sem risco. Mas a vantagem é que não se pode bater nele sem correr perigo, pois para isso seria preciso abrir a grade.

As batidas na parede se repetem de vez em quando. Quem será que me quer falar? Esse camarada merece uma resposta, pois ele corre risco se for descoberto. Andando pela cela, quase que quebro a cabeça tropeçando numa coisa dura e redonda. É uma colher de pau. Lanço mão dela e me preparo para responder. Espero, com a orelha encostada à parede. Pã, pã, pã, pã, pã-stop, pã, pã. Eu respondo: pã, pã. Estes dois golpes querem dizer àquele que está chamando: pode ir, peguei a comunicação. Os golpes começam: pã, pã, pã... as letras do alfabeto desfilam rapidamente... a b c d e f g h i j k l m n o p, stop. Ele pára na letra p. Dou um golpe com força: pã. Assim, ele sabe que anotei a letra p. Depois vêm um a, um p, um i, etc. Ele me diz: “Papi, como vai? Você está muito ma­chucado? Eu estou com um braço quebrado”. É Julot.

Telefonamos durante mais de duas horas, sem nos preocuparmos que nos descubram. Ficamos alucinados pela vontade de trocar fra­ses. Digo a ele que nada tenho quebrado, que minha cabeça está cheia de galos, mas que não tenho ferimentos.

Ele me viu sendo arrastado, puxado por um pé, e me diz que em cada degrau minha cabeça batia, caindo do precedente. Ele não chegou a perder os sentidos. Acredita que Tribouillard ficou grave­mente queimado, que, em virtude da lã, os ferimentos são profun­dos e ele vai sofrer algum tempo.

Três golpes muito rápidos e repetidos me avisam que há perigo. Paro de bater. De fato, dentro de alguns instantes, a porta se abre e alguém grita:

— No fundo da cela, seu bastardo. Em posição de sentido! — é o novo vigilante quem fala. — Eu me chamo Batton (Porre­te); é o meu próprio nome. Você vê que é o nome certo.

Com uma grande lanterna da marinha, ele ilumina o calabouço e o meu corpo nu.

— Tome lá roupa para vestir. Não se mexa daí. Aqui tem pão e água. Não coma tudo de uma vez, porque você não vai receber mais nada antes de 24 horas. (*)

 

(*) Quatrocentos e cinqüenta gramas de pão e 1 litro de água.

 

Ele berra como um selvagem, depois levanta a lanterna à altura da minha cara. Vejo que sorri sem maldade. Coloca um dedo sobre a boca e indica as roupas que deixou. No corredor deve estar outro guarda e ele me quis fazer compreender que não é um inimigo.

De fato, na bola de pão encontro um pedaço de carne cozida e no bolso da calça — que sorte! — um maço de cigarros e um isquei­ro rústico. Aqui, tais presentes valem um milhão. Duas camisas em vez de uma e uma ceroula de lã que me desce até os tornozelos. Sempre hei de me lembrar desse Batton. Tudo isso significa que me está recompensando por haver eliminado Tribouillard. Antes do inci­dente, ele era apenas ajudante de vigilante. Agora, graças a mim, ele passou a chefe titular. Em suma, ele deve a mim a sua promoção e está demonstrando a sua gratidão.

Como é necessária uma paciência de pele-vermelha para localizar a proveniência dos golpes telefônicos e só o vigilante-chefe pode fa­zer isso, pois os outros guardas são muito preguiçosos, eu e Julot temos o campo livre, nada temendo do lado de Batton. O dia todo trocamos telefonemas. Por intermédio dele fico sabendo que está pró­xima a partida para a colônia penal: será dentro de três ou quatro meses.

Dois dias depois, somos tirados da solitária e, cada um enquadrado por dois guardas, levados ao escritório do diretor. Na frente da en­trada acham-se três pessoas sentadas atrás da mesa. É uma espécie de tribunal. O diretor faz o papel de presidente; o subdiretor e o ins­petor-chefe, de assessores.

— Ah, ah, seus malandros! Estão aí? Que têm a dizer?

Julot está muito pálido, os olhos inchados, certamente com febre. Há três dias com o braço quebrado, deve sofrer horrivelmente.

Com muita calma, Julot responde:

— Estou com um braço quebrado.

— Mas foi você quem quis que lhe quebrassem o braço. Isso lhe ensinará a não atacar as pessoas. Você será examinado pelo médico quando ele vier. Espero que demore uma semana. Essa espera será salutar, pois a dor servirá para lhe ensinar alguma coisa. Você não pensa que vou mandar vir um médico especialmente para um indi­víduo da sua espécie? Aguarde que o médico da Central tenha tempo de vir e ele tratará de você. Isso não impede que eu condene vocês dois a ficarem na cafua até nova ordem.

Julot olha para mim, bem nos olhos. “Esse senhor bem vestido dispõe bem facilmente da vida de seres humanos”, é o que parece querer dizer.

Viro a cabeça de novo para o diretor e olho para ele. Ele pensa que lhe quero falar, e me diz:

— E você, a decisão não lhe agrada? Que tem a reclamar?

Eu respondo:

— Nada, senhor diretor. Apenas sinto a necessidade de lhe cuspir na cara, mas não o faço de medo de sujar minha saliva.

Fica tão espantado, que enrubesce e não compreende imediata­mente. Mas o inspetor-chefe logo reage. Grita aos vigilantes:

— Agarrem-no e tratem bem dele! Quero vê-lo dentro de uma hora pedindo perdão de rastos. Vamos ensiná-lo! Vou fazê-lo limpar meus sapatos com a língua, por cima e por baixo. Não o tratem com bons modos, isso fica a cargo de vocês.

Dois guardas me torcem o braço direito, dois outros o esquerdo. Estou achatado no chão, as mãos levantadas à altura das omoplatas. Eles me põem as algemas, com umas argolas especiais que me ligam o indicador esquerdo com o polegar direito. O inspetor-chefe me levanta do chão como a um animal, puxando-me pelos cabelos.

Nem é preciso contar tudo o que me fizeram. Basta dizer que fiquei com as mãos algemadas atrás das costas durante onze dias. Devo a vida ao guarda Batton. Cada dia, ele jogava no meu calabouço a bola de pão regulamentar, mas, privado das minhas mãos, eu não podia comer. Mesmo empurrando o pão com a cabeça contra a grade, eu não conseguia tirar uma migalha com os dentes. Mas Batton jogava também, em quantidade suficiente para me manter vivo, pedaços de pão da grossura de um bocado. Com o pé, eu fazia montinhos, depois deitava-me de bruços e comia como se fosse um cachorro. Mastigava bem cada pedaço, para não perder nada.

No 12.° dia, quando me tiraram as algemas, o aço havia penetrado na pele e o ferro estava, em alguns lugares, recoberto de carne tumefata. O guarda-chefe ficou com medo, ainda mais porque desmaiei de dor. Depois que me fizeram recuperar os sentidos, levaram-me à enfermaria, onde me limparam com água oxigenada. O enfermeiro exigiu que me dessem urna injeção antitetânica. Meus braços estavam anquilosados e não podiam voltar à posição normal. Depois de mais de meia hora de fricção com óleo canforado, consegui baixá-los ao longo do meu corpo.

Voltei ao calabouço e o vigilante-chefe, vendo as onze bolas de pão, ainda disse:

— Você vai tirar a barriga da miséria! É gozado, você não está tão magro, depois de onze dias de jejum...

— Bebi muita água, chefe.

— Ah! é por isso, compreendo. Agora coma bastante para se refazer.

E foi embora.

Pobre imbecil! Ele me diz isso porque acredita que nada comi durante onze dias e que, se eu me encher demais de uma só vez, vou morrer de indigestão. Desse susto você não morre. À noite, Batton me passa tabaco e papel. Fumo, fumo, soprando a fumaça pelo cano de aquecimento, que naturalmente nunca funciona. Desta vez, pelo menos, serviu para alguma coisa.

Mais tarde chamo Julot. Ele pensa que nada comi durante onze dias e me aconselha a ir devagar. Tenho medo de lhe contar a ver­dade, temendo que algum desgraçado possa decifrar o telegrama na transmissão. Mot está com o braço engessado, o seu moral é bom e ele se congratula pela minha resistência.

Segundo ele, a partida do comboio está próxima. O enfermeiro lhe disse que já chegaram as ampolas de vacina destinadas aos pri­sioneiros antes do embarque. Geralmente, elas chegam um mês antes da partida. Julot é bastante imprudente, porque me pergunta também se eu salvei meu canudo.

Sim, eu salvei, mas o que fiz para guardar essa fortuna nem posso descrever. Estou com feridas cruéis no ânus.

Três semanas mais tarde, tiram-nos do calabouço. Que está acon­tecendo? Fazem-nos passar por uma ducha sensacional, com sabão e água quente. Sinto-me reviver. Julot ri como uma criança e Pierrot le Fou irradia a alegria de viver.

Como estamos saindo da solitária, nada sabemos do que se passa. O barbeiro não quis responder à minha rápida pergunta, murmura­da em voz baixa:

— Que se passa?

Um desconhecido de mau aspecto me diz:

— Creio que estamos anistiados do calabouço. Eles talvez este­jam com medo de um inspetor que virá fazer uma visita. O essencial é que estamos vivos.

Cada um de nós é levado para uma cela normal. Ao meio-dia, na primeira sopa quente depois de 43 dias, encontro um pedaço de madeira, onde está escrito: “Partida, oito dias. Amanhã, vacina”.

Quem é que me enviou isso?

Nunca soube. Certamente um recluso que teve a gentileza de nos avisar, sabendo que, se um de nós recebe a notícia, todos os outros serão avisados. A mensagem não deve ter chegado às minhas mãos por puro acaso.

Logo advirto Julot pelo telefone: “Passe adiante”.

Ouvi telefonemas a noite toda. Mas eu, depois de transmitida a mensagem, não quis fazer mais nada.

Estou muito bem na minha cama. Não quero aborrecimentos. E não me agrada voltar ao calabouço. Hoje, menos do que nunca.

 

                                                             A CAMINHO DO DEGREDO

 

                                 SAINT-MARTIN-DE-RÉ

De tarde, Batton me passa três cigarros Gauloise e um pedaço de papel onde leio: “Papillon, sei que você vai embora levando boa recordação de mim. Colaboro na vigilância, mas procuro fazer o menor mal possível aos presos. Peguei este cargo porque tenho nove filhos e tenho pressa de ser indultado. Vou tentar, sem fazer muito mal, ganhar o meu indulto. Adeus. Boa sorte. O comboio sai amanhã de manhã”.

Com efeito, no dia seguinte estamos reunidos em grupos de trinta no corredor do quartel disciplinar. Enfermeiros vindos de Caen nos vacinam contra as doenças tropicais. Para cada um, três vacinas e 2 litros de leite. Dega está junto comigo, pensativo. Não respeitamos mais nenhuma ordem de silêncio, porque sabemos que não nos podem botar no calabouço logo depois de vacinados. Batemos papo em voz baixa, juntinho dos guardas, que não ousam dizer nada, por causa dos enfermeiros da cidade. Dega me diz:

— Será que eles vão ter bastantes carros de presos para levar a gente de uma só vez?

— Acho que não.

— Saint-Martin-de-Ré é longe e, se levarem sessenta por dia, isso vai durar dez dias, porque, só aqui, há quase seiscentos.

— O essencial é estar vacinado. Isso quer dizer que estamos na lista e que daqui a pouco estaremos no degredo de forçados. Cora­gem, Dega, uma outra etapa vai começar. Conte comigo, como eu conto com você.

Ele me fita com seus olhos brilhantes de satisfação, põe sua mão em meu braço e diz:

— Para a vida ou para a morte, Papi.

Quanto ao comboio, foram poucos os incidentes dignos de narra­ção, exceto que a gente morria asfixiado, cada um no seu pequeno espaço do furgão de presos. Os guardas se recusaram a entreabrir as portas, para que tivéssemos um pouco mais de ar. Na chegada em La Rochelle, dois dos nossos companheiros de furgão haviam morrido por asfixia.

Os bobalhões reunidos no cais, porque Saint-Martin-de-Ré é uma ilha e teríamos de tomar um barco para atravessar o braço de mar, assistiram à retirada dos dois pobres-diabos. Sem, por sinal, mani­festarem qualquer sentimento em relação a nós. E, como os policiais deviam entregar-nos à Cidadela, mortos ou vivos, carregaram os cadáveres conosco para o barco.

A travessia não é longa, mas podemos respirar um bom bocado de ar marítimo. Falo a Dega: “Isto cheira a fuga”. Ele sorri. E Julot, que está ao lado, nos diz:

— Sim. Isto cheira a fuga. Estou de volta pra lá, de onde fugi há cinco anos. Fui em cana como uma besta, no momento em que ia apagar meu receptador, que me delatou no meu processo, há dez anos. Procuremos ficar uns ao lado dos outros, porque em Saint-Martin eles nos botam ao acaso, em grupos de dez, em cada cela.

Julot estava enganado. Quando chegamos ali, ele e dois outros são chamados e colocados à parte. Eram três evadidos do degredo, recapturados na França e mandados para lá pela segunda vez.

Nas celas, em grupos de dez, começa para nós uma vida de expec­tativa. A gente tem o direito de falar, de fumar, a alimentação é muito boa. Esse período não è perigoso, a não ser para o plano. Sem que saibamos por que, somos chamados de repente, desnudados e minuciosamente revistados. Em primeiro lugar, os esconderijos do corpo, até a planta dos pés, depois as roupas. “Vistam-se!” E volta­mos para o lugar de onde viemos.

A cela, o refeitório, o pátio onde passamos longas horas marchando em fila. Um, dois! Um, dois! Um, dois!... Marchamos em grupos de 150 detidos. A cauda do salsichão é comprida, os taman­cos ressoam. Silêncio absoluto obrigatório. Depois vem o “Desfazer as fileiras!” Cada um se senta no chão, grupos se formam, por cate­gorias sociais. Em primeiro lugar, os homens do autêntico submundo, entre os quais a origem tem pouca importância: corsos, marselheses, toulousanos, bretões, parisienses, etc. Tem até um de Ardèche, sou eu. E devo dizer, em favor de Ardèche, que só há dois de seus filhos neste comboio de 1 900 homens: um guarda campestre que matou sua mulher e eu. Conclusão: os naturais de Ardèche são boa gente. Os outros grupos se formam de qualquer maneira, uma vez que há mais otários do que malandros a caminho do degredo. Esses dias de expectativa se chamam dias de observação. E é verdade que somos observados sob todos os ângulos.

Numa tarde, eu estou sentado ao sol, quando um homem se aproxima de mim. Usa óculos, é miúdo, magro. Tento adivinhar que tipo de gente é; porém, com o nosso uniforme, é difícil.

— Você que é o Papillon? — pergunta, com um sotaque corso muito forte.

— Sim, sou eu. Quer alguma coisa de mim?

— Venha às privadas — diz ele e se afasta.

— É um prisioneiro corso — fala Dega. — Com certeza, um ban­dido das montanhas. Que é que ele vai querer com você?

— Vou saber.

Caminho para as privadas, instaladas no meio do pátio, e finjo estar mijando. O homem está ao meu lado, na mesma posição. Ele me diz, sem me olhar:

— Sou cunhado de Pascal Matra. Ele me disse, no parlatório, que, se precisasse de ajuda, procurasse você, da parte dele.

— Sim, Pascal é meu amigo. Que é que você quer?

— Não posso guardar o canudo: estou com diarréia. Não sei em quem confiar e tenho medo de que seja roubado ou que os guardas o encontrem. Eu lhe imploro, Papillon, fique com o meu canudo alguns dias.

E ele me mostra um canudo muito mais grosso do que o meu. Fico com receio de que esteja armando uma cilada e pedindo isso para saber se carrego um canudo: se disser que não tenho certeza de poder guardar dois, ele ficará sabendo. Então, friamente, pergunto:

— Quanto tem aí dentro?

— Vinte e cinco mil francos.

Sem mais nada, pego o canudo, aliás muito limpo, e, na frente dele, o introduzo no ânus, perguntando a mim mesmo se um homem é capaz de carregar dois tubos ali. Não sei se pode. Levanto, visto minhas calças... tudo vai bem, não me sinto incomodado.

— Meu nome é Ignace Galgani — diz ele, antes de ir embora. — Obrigado, Papillon.

Volto para junto de Dega e lhe conto o caso, à parte.

— Não é pesado demais?

— Não.

— Então, deixa pra lá.

Procuramos entrar em contato com os que fugiram, se possível Julot ou Guittou. Temos sede de informações: como é a coisa por lá; como a gente é tratado; como fazer para ficar junto com um boa gente, etc. O acaso faz com que encontremos um tipo curioso, um caso à parte. É um corso que nasceu na prisão de forçados. Seu pai era vigilante e vivia com sua mãe nas Ilhas da Salvação. Ele nasceu na Ilha Royale, uma das três ilhas, sendo as outras a Saint-Joseph e a do Diabo. Que destino! Agora voltava para lá, não como filho de guarda, porém como forçado.

Ele tinha sido presenteado com doze anos de trabalhos forçados por crime de roubo com arrombamento. Rapaz de dezenove anos, um tipo camarada, olhos claros e honestos. Tal como Dega, vê-se logo que ele não está por dentro. Tem pouca noção dos macetes do submundo, mas vai ser útil nos fornecendo todas as informações possíveis sobre o que está à nossa frente. Ele nos conta a vida nas ilhas, onde viveu catorze anos. E nos informa, por exemplo, que, nas ilhas, fora criado por um forçado, um famoso durão capturado num caso de duelo a faca em Butte, pelos belos olhos de uma certa Casque d’Or.

Ele nos dá conselhos preciosos: é preciso começar a fuga na Terra Grande, porque das ilhas é impossível; em seguida, não ser cata­logado como perigoso, porque, com essa anotação, assim que se desembarca em Saint-Laurent-du-Maroni, porto de chegada, somos internados por um certo prazo ou para toda a vida, conforme o grau da anotação. As ilhas são sadias, mas a Terra Grande, conforme tinha contado Dega, é uma imundície que pouco a pouco vai des­truindo o preso por meio de toda espécie de doenças, de mortes diversas, assassinatos, etc.

Como Dega, espero não ser internado nas ilhas. Mas um nó se forma em minha garganta: e se fui anotado como perigoso? Com minha prisão perpétua, o caso de Tribouillard e o do diretor, estou frito!

Um dia, corre depressa um boato: não devemos ir à enfermaria, sob pretexto nenhum, porque os que estão muito fracos ou muito doentes para suportar a viagem são ali envenenados. Só pode ser boato. De fato, um parisiense, Francis la Passe, nos confirma que é conversa fiada. Houve, na verdade, um envenenado, mas o irmão dele, empregado na enfermaria, explicou-nos o que aconteceu.

O cara que morreu, grande especialista em cofres-fortes, tinha, segundo se dizia, arrombado a embaixada da Alemanha, em Gene­bra ou em Lausanne, durante a guerra, por conta dos serviços se­cretos franceses. Apanhou ali documentos muito importantes, que passou aos agentes franceses. Em troca dessa operação, os tiras o libertaram da prisão, onde cumpria uma pena de cinco anos. E, a partir de 1920, com uma ou duas operações por ano, vivia tranqüilo. Toda vez que ia em cana, fazia uma chantagem com a Segunda Seção, que se apressava em intervir. Mas, desta vez, não deu certo. Pegou vinte anos e devia partir conosco. Para não ir no comboio, fingiu estar doente e foi introduzido na enfermaria. Uma pastilha de cianureto — sempre segundo o irmão de Francis la Passe — liquidou o assunto. Os cofres-fortes e a Segunda Seção já podiam dormir sossegados.

Este pátio é cheio de casos, uns verdadeiros, outros falsos. De todo jeito, a gente vai ouvindo, com isso o tempo passa.

Quando vou à privada, no pátio ou na cela, é preciso que Dega me acompanhe, por causa dos canudos. Ele fica na minha frente, en­quanto faço o serviço, e me dá cobertura contra olhares muito abe­lhudos. Um canudo já é toda uma história, mas eu estou com dois, porque Galgani está cada dia mais doente. E aí há um mistério: o canudo que introduzo por último é sempre o último que sai, enquan­to o que foi introduzido antes sai sempre primeiro. Como eles vira­vam na minha barriga, não sei, mas era assim.

Ontem, no barbeiro, tentaram assassinar Clousiot, enquanto fazia a barba. Duas facadas perto do coração. Não morreu por milagre. Soube do caso por um dos seus amigos. É uma história curiosa, que contarei um dia. Esse assassinato era um ajuste de contas. O autor da tentativa fracassada morreu seis anos mais tarde, em Caiena, en­golindo bicromato de potássio num prato de lentilhas. Morreu com dores pavorosas. O enfermeiro, que ajudou o médico na autópsia, trouxe um pedaço de tripa de uns 10 centímetros. Tinha dezessete buracos. Dois meses mais tarde, seu assassino era encontrado estran­gulado na sua cama de doente. Nunca se soube por quem.

Agora, já são onze dias que estamos em Saint-Martin-de-Ré. A fortaleza está superlotada. Dia e noite, as sentinelas dão guarda no caminho de ronda.

Uma briga explodiu no banheiro, entre dois irmãos. Brigaram como cães e um deles é colocado dentro de nossa cela. Chama-se André Baillard. Ele me diz que não pode ser punido, porque a culpa é da administração: os guardas têm ordem de não deixar que os dois irmãos se encontrem, sob pretexto algum. Quando a gente fica sa­bendo do caso deles, a coisa se esclarece.

André tinha assassinado uma mulher que vivia de rendas e o irmão dele, Émile, escondia o dinheiro roubado. Émile caiu por causa de um roubo e pegou três anos. Um dia, no calabouço com outros puni­dos, furioso contra seu irmão, que não lhe mandava dinheiro para comprar cigarros, soltou a língua e disse que André ia ver: porque foi André, explicou ele, quem matou a velha, ao passo que ele, Émile, escondeu o dinheiro. Também, quando saísse, não lhe daria nada. Um preso se apressou em ir contar o que ouvira ao diretor da prisão. A coisa não ficou nisso. André é detido e os dois irmãos são condena­dos à morte. No quarteirão dos condenados à morte, na Santé, os dois têm celas vizinhas. Cada um deles apresenta um recurso de graça. O de Émile é aceito no 43.° dia, mas o de André é recusado. Entre­tanto, por medida de humanidade para com André, Émile é mantido no quarteirão dos condenados à morte e os dois irmãos fazem, todos os dias, seu passeio, um em seguida ao outro, com as correntes nos pés.

No 46.° dia, a porta de André vai ser aberta às 4 horas e meia. Já estão todos ali: o diretor, o escrivão, o promotor que pediu a cabeça dele. É a execução. Mas, no momento em que o diretor se adianta para falar, seu advogado chega correndo, seguido de uma outra pessoa, que entrega um papel ao procurador. Todo mundo se retira para o corredor. A garganta de André fica tão apertada, que ele não consegue engolir a saliva. Não é possível, nunca, interrom­per uma execução encaminhada. Mas e o que acontece. Foi só no dia seguinte, depois de horas de angústia e de interrogação, que ele soube por seu advogado que, na véspera de sua execução, o Pre­sidente Doumer foi assassinado por Gorguloff. Mas Doumer não mor­reu na hora. Toda a noite, o advogado ficou de guarda diante da clínica, após ter informado à Guarda dos Selos que, se o presidente morresse antes da hora da execução (das 4 horas e meia às 5), ele solicitaria o adiamento da execução, por vacância do cargo de chefe do Executivo. Doumer morreu às 4 horas e 2 minutos. Foi o tempo de prevenir a Chancelaria, tomar um táxi seguido pelo portador da ordem de suspensão e chegar em três minutos, para impedir que se abrisse a porta da cela de André. A pena dos dois irmãos foi co­mutada para prisão perpétua com trabalhos forçados. De fato, no dia da eleição do novo presidente, o advogado foi a Versalhes e, assim que Albert Lebrun foi eleito, o advogado lhe apresentou seu pedido de graça. Jamais um presidente recusou o primeiro pedido de graça que lhe solicitam: “Lebrun assinou”, conclui André, “e cá estou, meu chapa, vivinho e bem arranjado, a caminho da Guiana”. Olho para este salvado da guilhotina e digo para mim mesmo que tudo o que sofri não pode ser comparado ao calvário que ele sofreu.

No entanto, nunca fiz amizade com o cara. Saber que matou uma pobre velhinha para roubar me dá nojo. Ele, aliás, terá sempre sorte. Mais tarde, na Ilha de Saint-Joseph, assassinará seu irmão. O fato foi visto por vários forçados. Émile pescava com linha, em pé sobre um rochedo, só pensando em sua pescaria. O ruído das ondas, muito forte, amortecia qualquer outro ruído. André se aproximou do irmão por trás, com um grosso bambu de 3 metros de comprimento na mão, e, com um único empurrão nas costas, fez que ele perdesse o equilí­brio. O lugar estava infestado de tubarões e Émile não demorou em ser o prato do dia deles. Ausente na chamada da noite, foi dado como desaparecido durante uma tentativa de evasão. Não se falou mais no assunto. Somente quatro ou cinco forçados, que empilhavam cocos no alto da ilha, assistiram à cena. Está claro, todo mundo ficou sa­bendo, com exceção dos guardas. André nunca foi incomodado.

Foi desinternado por “boa conduta” e, em Saint-Laurent-du-Maroni, gozava de um regime de favor. Tinha uma pequena cela só para ele. Um dia, tendo um caso com outro forçado, convidou este, perversamente, para entrar em sua cela e o matou com uma facada no coração. Reconhecido que agiu em legítima defesa, foi absolvido. Por ocasião do término do degredo, sempre por motivo da sua “boa conduta”, foi agraciado.

Saint-Martin-de-Ré está repleta de prisioneiros. Duas categorias bem diferentes: oitocentos ou mil forçados e novecentos desterrados. Para ser forçado é preciso ter feito alguma coisa grave ou, no mínimo, ter sido acusado de um crime sério. A pena mais fraca é sete anos de trabalhos forçados, o restante indo, por escalas, até a prisão per­pétua. Com os desterrados, o caso é diferente. Três a sete condena­ções e um homem pode ser desterrado. É verdade que são todos ladrões incorrigíveis e se compreende que a sociedade tem o dever de se defender. No entanto, é vergonhoso que um povo civilizado tenha a pena acessória do desterro. Há pequenos gatunos, desastrados, já que são presos com freqüência, que são desterrados — o que, no meu tempo, dava no mesmo que ser condenado à prisão perpétua —, e, em toda a sua vida, não roubaram nem 10 000 francos. Nisso está o maior absurdo da civilização francesa. Um povo não tem o direito de se vingar, nem de eliminar de modo tão sumário as pessoas que dão aborrecimentos à sociedade. Essas pessoas merecem mais ser curadas do que punidas de modo tão desumano.

Há dezessete dias que estamos em Saint-Martin-de-Ré. Já sabemos o nome do barco que nos levará ao degredo, é o La Martinière. Vai transportar 1870 condenados. Os oitocentos ou novecentos forçados são reunidos nesta manhã, no pátio da fortaleza. Desde há uma hora, aproximadamente, estamos em pé em fileira de dez, enchendo o retângulo do pátio. Uma porta se abre e vemos aparecerem homens vestidos de jeito diferente do dos guardas, que conhecemos. Trazem uma roupa de corte militar azul-celeste e estão bem vestidos. É uma roupa diferente da de um policial e também da de um soldado. Todos trazem um cinturão do qual pende um coldre de revólver. São quase uns oitenta. Alguns usam galões. Todos têm a pele queimada de sol, são de todas as idades, de 35 aos cinqüenta. Os velhos são mais sim­páticos do que os jovens, que enchem o peito com um ar importante. O estado-maior destes homens vem acompanhado pelo diretor de Saint-Martin-de-Ré, por um coronel de polícia, por três ou quatro médicos em roupa colonial e por dois padres de batinas brancas. O co­ronel de polícia toma um megafone nas mãos e o leva à boca. Ficamos à espera de uma ordem de “posição de sentido!” e não vem nada disso. Ele grita:

— Todos vocês, ouçam atentamente. A partir deste instante, pas­sam para a responsabilidade das autoridades do Ministério da Justiça, representando a Administração Penitenciária da Guiana Francesa, cujo centro administrativo é a cidade de Caiena. Senhor Comandante Barrot, eu lhe entrego os 816 condenados aqui presentes, constantes desta lista. Peço-lhe verificar se estão todos presentes.

Imediatamente começa a chamada: “Fulano, presente; sicrano, etc.” Isso dura duas horas e tudo está em ordem. A seguir, a gente assiste às trocas de assinaturas entre as duas administrações, sobre uma me­sinha trazida para o ato.

O Comandante Barrot, que possui tantos galões quanto o coronel, mas de cor dourada e não prateada, como na polícia, pega, por sua vez, o alto-falante:

— Deportados, daqui por diante é a palavra pela qual vocês serão sempre designados: deportado fulano ou deportado matrícula tal, conforme ela lhes for atribuída. Desde agora, encontram-se sob as leis especiais do degredo de forçados, seus regulamentos, seus tribunais internos, que adotarão, quando preciso, as decisões necessárias a res­peito de vocês. Esses tribunais autônomos podem condená-los, pelos diferentes delitos cometidos no degredo, desde a simples prisão até a pena de morte. Está claro, as penas disciplinares, prisão e reclusão, são efetuadas nos diferentes locais que pertencem à administração. Os policiais, que vocês vêem à sua frente, se chamam vigilantes. Quando se dirigirem a eles, vocês dirão: “Senhor vigilante” ou “Senhor guarda”. Após a sopa, cada um de vocês receberá um saco de viagem com as roupas para o degredo. Tudo está previsto, não deverão ter outras roupas além destas aí. Amanhã embarcarão no La Martinière. Viajaremos juntos. Não se desesperem por partir, vocês ficarão melhor no degredo do que numa reclusão na França. Poderão falar, jogar, cantar e fumar, não devem temer violências, se se comportarem bem. Peço-lhes aguardar a chegada ao degredo para acertar as diferenças pessoais entre vocês. A disciplina durante a viagem deve ser muito severa, espero que compreendam isso. Se, entre vocês, há homens que não se sentem em condições físicas para fazer a viagem, que se apresentem na enfermaria, onde serão exami­nados pelos capitães médicos que acompanham o comboio. Eu lhes desejo uma boa viagem.

A cerimônia está terminada.

— Então, Dega, que é que acha disso?

— Papillon, meu velho, vejo que eu tinha razão quando lhe dizia que o maior perigo para a gente são os outros forçados. Isso que ele disse: “Esperem a chegada ao degredo para acertar suas dife­renças” — diz tudo. Como deve haver assassinatos por aí!

— Não se preocupe com isso, vá por mim.

Procuro Francis la Passe e lhe falo:

— Seu irmão ainda é enfermeiro?

— Sim, ele não é um forçado, é um desterrado.

— Entre em contato com ele o mais depressa possível, peça para lhe dar um bisturi. Se ele quiser que a gente pague, você me diz quanto é, eu pago o que ele pedir.

Duas horas depois, eu estava de posse de um bisturi com um cabo de aço muito forte. Seu único defeito era ser um pouco grande, mas era uma arma de meter medo.

Sentei-me muito perto das privadas do centro do pátio e mandei procurar Galgani, para lhe entregar seu canudo, mas deve ser difí­cil encontrar o homem nessa barafunda movimentada que é o imenso pátio, abarrotado com oitocentos homens. Nem Julot, nem Guittou, nem Suzini foram vistos desde a nossa chegada.

A vantagem da vida em comum é que a gente vive, fala, pertence a uma sociedade, se é que isso pode ser chamado de sociedade. Há tanta coisa para falar, ouvir e fazer, que não se tem mais tempo para pensar. Ao constatar o quanto o passado vai-se apagando e passa a segundo plano com relação à vida do dia-a-dia, penso que, chegando ao degredo, a gente deve quase esquecer quem foi, por que foi parar ali e de que maneira, para só se ocupar com uma coisa: como cair fora. Eu me enganava, porque a coisa absorvente e mais impor­tante é sobretudo se conservar vivo. Onde estão os tiras, os jurados, as sessões do tribunal, os magistrados, minha mulher, meu pai, meus amigos? Estão aqui, bem vivos, cada um com seu lugar no meu coração, mas a gente diria que — por causa da febre da partida, do grande salto no desconhecido, destas novas amizades e destes diferentes conhecimentos — eles não têm mais a importância de antes. Mas isso não é mais do que uma simples impressão. Quando eu quiser, no momento em que meu cérebro quiser abrir a gaveta que corresponde a cada um, eles estarão todos de novo presentes.

Aí vem Galgani, está sendo trazido para junto de mim porque, mesmo com seus óculos de grossas lentes, quase não enxerga. Parece melhor de saúde. Ele se aproxima de mim e, sem abrir a boca, me aperta a mão. Eu lhe digo:

— Gostaria de lhe devolver seu canudo. Você agora está bem, pode carregar e guardar o canudo. É uma responsabilidade grande demais para mim durante a viagem e não se sabe se a gente vai conseguir ficar um perto do outro e também se, no degredo, vamos nos ver. É melhor, então, que você leve o canudo de volta.

Galgani me olha com um ar infeliz.

— Vamos à privada, que lhe dou seu canudo.

— Não quero isso, guarde para você, dou de presente, é seu.

— Que é que há?

— Não quero ser assassinado por causa de meu canudo. Pre­firo viver sem dinheiro a esticar a canela por causa dele. Dou para você porque, no final de contas, não há razão para que você arris­que a vida para guardar minha gaita. Pelo menos, se você arrisca, tira alguma vantagem.

— Está com medo, Galgani. Alguém ameaçou você? Tem gente desconfiando de que você anda carregado?

— Sim, sou constantemente acompanhado por três árabes. É por isso que nunca vim vê-lo, para que eles não desconfiem de que esta­mos ligados. Toda vez que vou à privada, seja de noite ou de dia, um dos três cabras vem se meter junto de mim. Como quem não quer nada, já mostrei a eles, às claras, que não estou carregado, mas eles não arredam pé. Estão pensando que um outro tem meu canudo, não sabem quem é e ficam na minha pista para ver em que momento o canudo voltará às minhas mãos.

Olho para Galgani e vejo que está aterrorizado, verdadeiramente aflito. Eu lhe digo:

— Qual é o lugar do pátio que eles freqüentam?

Ele me responde:

— Perto da cozinha e da lavanderia.

— Bem, fique aí, eu vou. Não, venha comigo também.

Vou com ele para o lado dos cabras. Tiro o bisturi de meu boné e o seguro com a lâmina por dentro de minha manga direita e o cabo em minha mão. Efetivamente, chegando ao lugar, eu os vejo. São quatro: três árabes e um corso, um chamado Girando. Compreendo tudo de um só golpe: foi o corso quem, deixado de lado pelos homens do submundo, soprou a história para os cabras. Ele deve saber que Galgani é o cunhado de Pascal Matra e que não é possível que não tenha o canudo.

— Então, Mokrane, vai levando?

— Sim, Papillon. E você, vai levando?

— Não, o negócio vai mal. Vim ver vocês para dizer que Galgani é meu amigo. O que acontecer a ele, o primeiro a pagar é você, Girando; depois, os outros. Entendam como quiserem.

Mokrane se levanta. É do mesmo tamanho que eu, 1 metro e 74 mais ou menos, e também é forte. A provocação desagrada-o e ele já vai fazer um gesto para começar a luta quando, rapidamente, tiro o bisturi reluzente e novinho em folha e, com ele na mão, digo:

— Dê um passo e morre que nem cachorro.

Desorientado por me ver armado num lugar onde a gente está sendo constantemente revistado, impressionado pela minha atitude e pelo comprimento da arma, ele diz:

— Eu me levantei para discutir, não para brigar.

Sei que não é verdade, mas é de meu interesse que ele não saia humilhado na frente de seus amigos. Ofereço uma saída elegante.

— Bem, já que você se levantou para discutir...

— Não sabia que Galgani era seu amigo. Pensava que era um otário e você deve compreender, Papillon, que, se a gente está depenado, o jeito é achar uma gaita para fugir daqui.

— Vá lá, isso é normal. Você tem o direito, Mokrane, de se de­fender. Só que já sabe que deste lado não dá pé. Vá se virar em outra banda.

Ele me estende a mão e eu aceito. Ufa! Livrei-me de uma boa, porque, se matasse o cara, não viajava amanhã. Um pouco mais tarde, percebi que tinha cometido um erro. Galgani volta comigo. Eu lhe digo:

— Não fale a ninguém sobre este incidente. Não quero ouvir bronca do tio Dega.

Procuro convencer Galgani a aceitar o canudo e ele me diz: “Amanhã, antes da partida”. Mas, no dia seguinte, ele deu sumiço tal, que embarquei para o degredo com dois canudos no rabo

Nesta noite, nesta cela onde somos uns onze homens, ninguém fala. É que todos pensam que é o último dia passado sobre a terra francesa. Cada um de nós fica um tanto dominado pela saudade de deixar a França para sempre, tendo por destino uma terra desco­nhecida, onde vamos viver num regime desconhecido.

Dega não fala. Está sentado ao meu lado, junto da porta gradeada que dá para o corredor e por onde chega um pouco mais de ar do que em outros lugares. Eu me sinto completamente desorientado. Temos informações tão desencontradas sobre o que nos aguarda, que não sei se devo estar contente, triste ou desesperado.

Os tipos que me cercam nesta cela são todos do submundo. Só não é do submundo o pequeno corso, que nasceu no degredo. Todos estes homens se encontram num estado amorfo. A gravidade e a im­portância do momento tornaram-nos quase mudos. A fumaça dos cigarros percorre a cela como uma nuvem, levada pela corrente de ar do corredor, e, se a gente não quiser irritar os olhos, o jeito é se sentar mais baixo do que as nuvens de fumaça. Ninguém dorme, com exceção de André Baillard, o que se justifica, pois já havia perdido a vida. Para ele, o que vier não deixará de ser um paraíso inesperado.

O filme de minha vida se desenrola rapidamente à minha frente: minha infância numa família cheia de amor, de educação, de boas maneiras e de nobreza; as flores do campo, o murmúrio dos riachos, o gosto das nozes, dos pêssegos e das ameixas, que o nosso pomar nos oferecia copiosamente; o perfume de mimosa que, a toda primavera, florescia diante de nossa porta; o exterior de nossa casa e o interior, com as atitudes da minha gente. Tudo isto desfila rapidamente diante dos meus olhos. Este filme sonoro em que ouço a voz da minha pobre mãe, que tanto me amou, e, depois, a do meu pai, sempre cheia de ter­nura e carícia, e os latidos de Clara, a cadela de caça de papai, que me chama do jardim para brincar, as meninas e os meninos de minha infância, companheiros de folguedo dos melhores momentos de minha vida; este filme, ao qual assisto sem querer, esta projeção de uma lanterna mágica iluminada contra minha vontade pelo meu subconsciente, enche de doce emoção esta noite de expectativa para o salto em direção ao grande desconhecido do futuro.

É hora de fazer o balanço. Vejamos: tenho 26 anos, estou com ótima saúde, tenho na barriga 5 600 francos, que são meus, e 25 000 francos de Galgani. Dega, ao meu lado, tem 10 000. Acho que posso contar com 40 000 francos, porque, se Galgani é incapaz de defender esta bolada aqui, ainda menos capaz será a bordo do navio e na Guiana. Ele sabe disso, aliás, e foi por isso que não veio bus­car seu canudo. Logo, posso contar com este dinheiro, levando, está claro, Galgani comigo: é preciso que ele tire vantagem deste dinheiro, que é dele e não meu. Vou empregá-lo para o bem dele, mas também saio ganhando. Quarenta mil francos é um dinheirão e, portanto, vou poder comprar facilmente cúmplices, forçados cum­prindo pena, libertos e vigilantes.

O balanço é positivo. Assim que chegar, devo fugir em companhia de Dega e Galgani, é só isso que importa. Apalpo o bisturi, satisfeito por sentir o frio de seu cabo de aço. Ter comigo uma arma tão temí­vel me dá segurança. Já vi sua utilidade no incidente com os árabes. Por volta das 3 horas da manhã, reclusos alinham à frente da guarda da cela onze sacos de viagem de tecido grosso, cheios de arrebentar, cada um com uma grande etiqueta. Posso ver um que pende para o in­terior da grade. Leio: C... Pierre, 30 anos, 1,73 m, tamanho 42, sapa­tos 41, matrícula X... Este Pierre C... é Pierrot le Fou, um bordelês condenado em Paris, por crime de homicídio, a vinte anos de traba­lhos forçados.

É um homem do nosso meio, bom rapaz, direito e correto, eu o conheço bem. Esta ficha me mostra como é minuciosa e bem orga­nizada a administração que dirige a prisão de forçados. É melhor que a da caserna, onde fazem uma prova sumária das roupas. Aqui, tudo é registrado e cada um receberá, portanto, roupas sob medida. Por uma abertura na boca do saco, vejo que a roupa é branca com listras verticais de cor vermelha. Com este traje, ninguém passa des­percebido.

Faço força para que meu cérebro avive as imagens dos jurados, do promotor, etc. Ele se recusa categoricamente a me obedecer e não consigo obter senão pálidas imagens. Compreendo que, para viver intensamente, como vivi, as cenas da Conciergerie ou de Beaulieu, é preciso estar só, completamente só. Sinto um alívio ao consta­tar isso e compreendo que a vida coletiva, que me aguarda, provo­cará outras necessidades, outras reações, outros projetos.

Pierrot le Fou se aproxima da grade e me diz:

— Como vai, Papi?

— Bem. E você?

— Ora, bem, sempre sonhei viajar para a América, mas, como sou jogador, nunca pude fazer economia para comprar a passagem. Os tiras acharam de me oferecer esta viagem gratuita. Legal, não reclamo, é ou não é, Papi?

Ele fala com naturalidade, não há nenhuma fanfarronada nas suas palavras. A gente sente que ele está muito seguro de si:

— Esta viagem gratuita oferecida pelos tiras para ir à América tem mesmo suas vantagens. Prefiro ir ao degredo do que apanhar quinze anos de reclusão na França.

— Falta saber o resultado final, Pierrot. Não acha? Ficar biruta numa cela ou morrer de miséria fisiológica num calabouço de uma reclusão qualquer na França é pior ainda do que se apagar com lepra ou febre amarela. É a minha opinião.

— Também é a minha.

— Olhe, Pierrot, esta ficha é sua.

Ele se inclina, olha muito atentamente para ler e fala devagar:

— Estou com pressa de botar esta roupa, estou com vontade de abrir o saco e me vestir, ninguém vai dizer nada. Afinal de contas, estes troços são para mim.

— Tenha calma, espere a hora. Não é o momento de arranjar trapalhadas, Pierrot. Precisamos de tranqüilidade.

Ele compreende e se afasta da grade.

Louis Dega me olha e diz:

— Garotão, é a última noite. Amanhã, a gente se afastará de nosso belo país.

— Nosso país tão belo não tem uma bela justiça, Dega. Talvez venhamos a conhecer outros países, que não sejam bonitos como o nosso, porém que tenham uma maneira mais humana de tratar os que erraram.

Não acreditava muito no que dizia, mas o futuro me confirmaria que tinha razão. De novo, o silêncio.

 

                                   PARTIDA PARA O DEGREDO

Às 6 horas, rebuliço. Reclusos vêm nos dar café, depois chegam quatro vigilantes. Hoje estão de branco, o revólver sempre na ilharga. Os botões de suas túnicas impecavelmente brancas são dourados. Um deles tem três galões dourados em V na manga esquerda, nada nos ombros.

— Deportados, vocês vão sair dois a dois para o corredor. Cada um procurará o saco que lhe corresponde, tem o nome de vocês na etiqueta. Peguem o saco e se coloquem de costas para a parede do corredor, o saco na frente de vocês.

São precisos vinte minutos para que todos nos alinhemos com o saco à nossa frente.

— Tirem a roupa, juntem os troços de vocês, façam uma trouxa com a camisa e amarrem com as mangas... muito bem. Você aí, junte as trouxas e bote tudo na cela... Vistam-se, botem uma cueca, uma camisa de meia, uma calça listrada, um blusão destes, sapatos e meias... Todos já estão vestidos?

— Sim, senhor vigilante.

— Bem. Guardem a blusa de lã fora do saco, para o caso de chu­va e para se protegerem do frio. Sacos em cima do ombro esquerdo! Em fila, dois a dois, sigam-me.

O agaloado na frente, dois dos lados, o quarto vigilante atrás, nossa pequena coluna se dirige para o pátio. Em menos de duas horas, oito­centos forçados são alinhados. São chamados quarenta homens, entre os quais estou eu com Louis Dega e com os três fugitivos recambiados: Julot, Galgani e Santini. Estes quarenta homens são alinhados de dez em dez. Na cabeça da coluna que se forma, cada fileira tem um vi­gilante ao lado. Nada de correntes, nem de algemas. À nossa frente, a 3 metros, marcham de costas dez policiais. Estão com o rosto virado para nós, mosquetão na mão, marcharão desse jeito durante todo o trajeto, cada um deles guiado por um outro policial, que o puxa pelo seu talabarte.

A grande porta da Cidadela se abre e lentamente a coluna se põe em marcha. Na medida em que a gente vai saindo da fortaleza, po­liciais, de fuzil ou metralhadora na mão, juntam-se ao comboio, a 2 metros aproximadamente dele, e o acompanham assim. Uma mul­tidão de curiosos é mantida afastada pelos policiais: vieram assistir à partida para o degredo. No meio do percurso, das janelas de uma casa assobiam suavemente entre os dentes. Levanto a cabeça e vejo numa janela minha mulher Nénette e Antoine D..., meu amigo; Paula, a mulher de Dega e Antoine Giletti em outra janela. Dega também os viu e nós marchamos com os olhos fixos nessa janela, durante todo o tempo que podemos. Será a última vez que verei minha mu­lher e também meu amigo Antoine, que morrerá, mais tarde, num bombardeio, em Marselha. Como ninguém fala, o silêncio é absoluto. Nem prisioneiro, nem vigilante, nem policial, nem público, ninguém perturba este momento verdadeiramente pungente em que todo mun­do compreende que estes 1 800 homens vão desaparecer para sempre da vida normal

Subimos a bordo. Nós, os quarenta primeiros, somos dirigidos para o fundo do porão, para dentro de um cárcere cercado de barras gros­sas. Um cartão está afixado aí. Leio: “Sala n.° 1, 40 homens, categoria muito especial. Vigilância contínua e estrita”. Cada um recebe uma rede enrolada. Há anéis em quantidade para pendurar as redes. Al­guém me abraça, é Julot. Ele está por dentro, porque já fez, há dez anos, a viagem. Sabe como se virar. Ele me diz:

— Depressa, venha por aqui. Dependure seu saco onde dependurar sua rede. Este lugar fica junto de duas vigias fechadas, mas, no mar, serão abertas e a gente vai respirar sempre melhor aqui do que em qualquer outro lugar do cárcere.

Eu lhe apresento Dega. Vamos começar a conversar, quando um homem se aproxima. Julot barra sua passagem com o braço e lhe diz:

— Não se meta nunca por aqui, se quer chegar vivo ao degredo. Manjou?

— Sim, diz o outro.

— Entende por quê?

— Sim.

— Então, cai fora.

O cara desguia. Dega fica feliz com esta demonstração de força e não o esconde:

— Com vocês dois, posso dormir sossegado.

Julot responde:

— Conosco, você está aqui mais em segurança do que numa casa de beira-mar que tenha uma janela aberta.

A viagem dura dezoito dias. Um único incidente: uma noite, um grande grito desperta todo mundo. Um cara é encontrado morto, com um facão plantado entre os ombros. A faca furou de baixo para cima e atravessou a rede, antes de atingi-lo. É uma arma de meter medo, tinha mais de 20 centímetros de comprimento. Imediatamente, 25 ou trinta vigilantes apontam para nós seus revólveres ou mosquetões, gritando:

— Todo mundo nu, e rápido!

Todo mundo fica nu. Compreendo que vai ser feita a revista. Boto o bisturi debaixo de meu pé direito desnudo, apoiando-me com mais força sobre minha perna esquerda do que sobre a direita, porque o metal me fere. Mas meu pé cobre o bisturi. Quatro vigilantes passam para dentro e começam a revistar os sapatos e as roupas. Antes de entrar, eles deixam de lado suas armas e os outros fecham atrás deles a porta da cela; mas, do lado de fora, estamos sempre sob vigilância, as armas apontadas para nós.

— O primeiro que se mexer morre — diz a voz de um chefe.

Na revista descobrem três facas, dois pregos de carpinteiro aguça­dos, um saca-rolhas e um canudo de ouro. Seis homens são levados para o corredor, sempre nus. O chefe do comboio; Comandante Barrot, chega acompanhado por dois médicos e pelo comandante do navio. Quando os guardas saem de nossa jaula, todo mundo torna a se vestir, sem aguardar ordem. Conservei o meu bisturi.

Os vigilantes se retiram para o fundo do corredor. No meio, Barrot, os outros junto da escada. Na frente deles, em linha, os seis homens nus, todos em posição de sentido.

— Isto é deste aqui — diz o guarda que fez a revista, apanhando uma faca e indicando o proprietário.

— É verdade, é minha.

— Bem — diz Barrot —, ele fará a viagem na cela que fica em cima das máquinas.

Cada um é indicado, seja pelos pregos, seja pelo saca-rolhas, seja pelas facas, e reconhece ser o proprietário do objeto encontrado. Sem­pre nus, sobem as escadas, acompanhados por dois guardas. Ficam no chão uma faca e o canudo de ouro: um único homem para os dois. É jovem, 23 ou 25 anos, bem constituído, 1 metro e 80 de al­tura pelo menos, um físico de atleta, olhos azuis.

— É seu, não é? — diz o guarda e lhe estende o canudo de ouro.

— Sim, é meu.

— Que é que contém? — pergunta o Comandante Barrot, que o pega entre as mãos.

— Trezentas libras inglesas, 200 dólares e dois diamantes de 5 quilates.

— Está bem, vamos ver.

Ele o abre. Como o comandante está cercado pelos outros, a gente não vê nada, mas se ouve dizer:

— Está certo. Seu nome?

— Salvidia Romeo.

— Você é italiano?

— Sim, senhor.

— Você não vai ser punido pelo canudo, mas pela faca, sim.

— Mas a faca não é minha.

— Não diga isso. Vejamos, eu a encontrei no seu sapato — diz o guarda.

— A faca não é minha, já disse.

— Então eu sou mentiroso?

— Não, o senhor se engana.

— Nesse caso, de quem é a faca? — pergunta o Comandante Barrot. — Se não é sua, deve ser de alguém, não é verdade?

— Não sei.

— Você quer me gozar? A gente acha uma faca no seu sapato e você não sabe de quem é? Acha que sou um imbecil? Ou é sua ou você sabe quem pôs lá. Responda.

— A faca não é minha e não me cabe dizer de quem é. Não sou delator. Será que tenho cara de tira?

— Vigilante, algeme este sujeito. Você vai pagar caro por esta manifestação de indisciplina.

Os dois comandantes falam entre si, o do navio e o do comboio. O comandante do navio dá uma ordem a um imediato, que sobe. Alguns instantes depois, chega um marinheiro bretão, verdadeiro co­losso, com um balde de madeira, cheio de água do mar, sem dúvida, e uma corda grande, da grossura do punho. O homem é amarrado ao último degrau da escada, de joelhos. O marinheiro molha sua corda balde e depois bate pausadamente, com toda força, sobre as náde­gas os rins e o dorso do pobre-diabo. Nem um grito sai dos seus lábios, o sangue corre das nádegas e das costas. Neste silêncio de cemitério, parte um grito de protesto de nosso cárcere:

— Bando de miseráveis!

Era só o que faltava para desencadear os gritos de todo mundo: “Assassinos! Porcos! Sujos!” Mais ameaçam atirar em nós se não nos calarmos, mais a gente berra, quando, de repente, o comandante grita:

— Mandem o vapor!

Dois marujos giram umas rodas e jatos de vapor caem sobre nós com uma potência tal, que, em menos de segundos, todo mundo está com a barriga no chão. Os jatos de vapor são projetados à altura do peito. Um pavor coletivo se apossa de todos. Os queimados não ousam se queixar; isso não dura mais de um minuto, mas aterroriza todo mundo.

— Espero que tenham compreendido, não é, seus cabeças-duras? Ao menor incidente, mando vapor. Entendido? Levantem-se!

Só três homens ficaram realmente queimados. São conduzidos à enfermaria. O flagelado é recolocado junto conosco. Seis anos de­pois, morreria numa tentativa de fuga comigo.

Durante estes dezoito dias de viagem, temos tempo para nos in­formar ou para tentar formar uma visão do degredo. Nada será como imaginamos, apesar de Julot ter procurado informar-nos o melhor possível. Por exemplo, já sabemos que Saint-Laurent-du-Maroni é um povoado a 120 quilômetros do mar, à margem de um rio chama­do Maroni. Julot nos explica:

— É neste povoado que está a penitenciária, o centro do degredo de forçados. Neste centro é feita a triagem por categoria. Os dester­rados vão diretamente para 50 quilômetros dali, uma penitenciária chamada Saint-Jean. Os forçados são imediatamente classificados em três grupos:

— Os muito perigosos, que serão chamados na hora da chegada e colocados nas celas do quartel disciplinar, na espera de sua trans­ferência para as Ilhas da Salvação. Ficam aí internados para o resto da vida. Estas ilhas estão a 500 quilômetros de Saint-Laurent e a 100 quilômetros de Caiena. Elas se chamam: 1) Ilha Royale; 2) a maior, que é a Ilha de Saint-Joseph, onde está a reclusão do degre­do; e 3) a Ilha do Diabo, a menor de todas. Os forçados não vão pa­ra a Ilha do Diabo, salvo exceções muito raras. Os homens da Ilha do Diabo são forçados políticos, em geral.

Vêm a seguir os perigosos de segunda categoria: ficarão no campo de Saint-Laurent e serão obrigados a fazer trabalhos de jardi­nagem e cultivar a terra. Toda vez que houver necessidade, são enviados para campos muito duros: Campo Florestal, Charvin, Cascata, En­seada Vermelha, Quilômetro 42, chamado “o campo da morte”.

— Enfim, a categoria normal: são empregados na administração, nas cozinhas, na limpeza do povoado e do campo ou em diversos trabalhos: oficina, marcenaria, pintura, forja, eletricidade, colchoaria, alfaiataria, lavanderia, etc.

— Portanto, a hora H é a da chegada: se a gente é chamado e levado para a cela, é porque vai ser internado nas ilhas, o que tira toda esperança de evasão. Só há uma chance: ferir-se depressa, abrir os joelhos ou a barriga, para ir ao hospital e dali se evadir. É preciso evitar, a qualquer preço, ir para as ilhas. Outra esperança: se o barco que deve levar os internados para as ilhas não estiver pronto para fa­zer a viagem, então é preciso largar a gaita e oferecer alguma coisa ao enfermeiro. Este nos aplicará uma injeção de essência de terebin­tina numa articulação ou passará um cabelo molhado em urina na pele, para que ela se infeccione. Ou nos dará enxofre para respirar e depois dirá ao médico que estamos com 40 graus de febre. Durante estes poucos dias de expectativa, é preciso ir para o hospital, seja de que maneira for.

— Se a gente não é chamada e é deixada com os outros nos bar­racões, no campo, então há tempo para agir. Neste caso, não se deve procurar um trabalho no interior do campo. É preciso pagar ao admi­nistrador para arranjar no povoado um lugar de limpador de privadas, de varredor, ou ser empregado na serraria de uma empresa civil. Sain­do para trabalhar fora da penitenciária e voltando a cada tarde ao campo, a gente tem tempo para entrar em contato com forçados liber­tos, que vivem no povoado, ou com chineses, para que eles preparem a fuga. É preciso evitar os campos em torno do povoado: todo mundo morre ali depressa; há campos onde ninguém resistiu três meses. Em pleno mato, os homens são obrigados a cortar 1 metro cúbico de madeira por dia.

Julot ruminou para nós todas essas informações preciosas, ao lon­go da viagem. Quanto a ele, está preparado. Sabe que vai diretamente para o calabouço, por ter tentado fugir. Por isso, tem uma faquinha, quase um canivete, dentro do seu canudo. Na chegada, vai tirar a faquinha e abrir o joelho. Ao descer do navio, cairá da escada na frente de todo mundo. Acha que será transportado diretamente do cais para o hospital. Exatamente isso, aliás, é o que acontecerá.

 

                                 SAINT-LAURENT-DU-MARONI

Os vigilantes se revezaram para ir trocar de roupa. Voltam, cada um por sua vez, vestidos de branco, com um capacete colonial no lugar do quépi. Julot diz: “Estamos chegando”. Faz um calor de matar, porque fecharam as vigias. Através delas, a gente vê o mato. Estamos, portanto, em Maroni. A água é lamacenta. Esta floresta virgem é verde e impressionante. Pássaros alçam vôo, perturbados pelo apito do navio. Vamos muito devagar, o que permite observar cal­mamente a vegetação escura, exuberante e densa. Vemos as primeiras casas de madeira, com seu teto de folha de zinco. Negros e negras estão na frente das portas, espiando o navio passar. Já se acostuma­ram a vê-lo descarregar seu carregamento humano e é por isso que não fazem nenhum gesto de boas-vindas à sua passagem. Três toques de apito e ruídos de hélice nos informam que estamos chegando; de­pois cessa todo o ruído da máquina. Seria possível ouvir o vôo de uma mosca.

Ninguém fala. Julot tem sua faca aberta e corta sua calça no joe­lho, rasgando as bordas das costuras. Só daqui a pouco que ele deverá cortar seu joelho — para não deixar um rastro de sangue. Os vigilan­tes abrem a porta da cela e somos enfileirados três a três. Estamos na quarta fileira, Julot entre Dega e mim. Subimos para a coberta. São 14 horas. Um sol de fogo surpreende meu crânio raspado e meus olhos. Alinhados sobre a coberta, somos dirigidos para a passa­rela. Em uma parada da coluna, provocada pela entrada dos primeiros na passarela, sustento o saco de Julot em suas costas e ele, com as duas mãos, arranha a pele de seu joelho, afunda a faca e corta, com um só golpe, 7 a 8 centímetros de carne. Passa a faca pra mim e agüen­ta sozinho seu saco. No momento em que entramos na passarela, cai de propósito e rola até embaixo, É levantado pela gente que está per­to e, sendo visto ferido, chamam padioleiros. O roteiro se desenvolve como ele tinha previsto: vai embora carregado numa padiola por dois homens.

Uma multidão variada nos olha, curiosa. Pretos, mulatos, índios, chineses, brancos na miséria (que devem ser forçados libertos) exa­minam cada um dos que chegam à terra e se enfileiram atrás dos outros. Do outro lado, vigilantes, civis bem vestidos, mulheres na mo­da de verão, rapazes com o capacete colonial na cabeça. Também eles olham os recém-chegados. Quando já somos duzentos, o comboio se move. Marchamos durante quase dez minutos e chegamos diante de uma porta de tábuas, muito alta, onde está escrito: “Penitenciá­ria de Saint-Laurent-du-Maroni. Capacidade: 3 000 homens”. A por­ta se abre e a gente entra por fileiras de dez. “Um, dois; um, dois, marche!” Numerosos forçados assistem à nossa chegada. Estão empoleirados nas janelas ou sobre grandes pedras, para ver melhor.

Chegando ao meio do pátio, ouvimos a ordem gritada:

— Alto! Coloquem seus sacos na frente de vocês. Distribuam os chapéus, vocês aí!

Dão a cada um de nós um chapéu de palha, muito necessário: ou três já caíram de insolação. Dega e eu nos olhamos, porque um guarda agaloado pegou uma lista entre as mãos. Pensamos no que disse Julot. Chamam Guittou: “Por aqui!” Ele é enquadrado por dois vigilantes e vai embora. Suzini, a mesma coisa; Girassol, igual­mente.

— Jules Pignard!

— Jules Pignard (é Julot) se feriu, foi para o hospital.

— Está bem.

Estes são os internados nas ilhas, depois o vigilante prossegue:

— Escutem atentamente. Cada pessoa que eu chamar sairá da fila com seu saco em cima do ombro e irá se enfileirar diante desse barra­cão amarelo, o n.° 1.

Fulano, presente, etc. Dega, Garrier e eu logo nos encontramos com os outros, alinhados na frente do barracão. Abrem a porta para nós e entramos numa sala retangular, com o comprimento aproxima­do de 20 metros. No meio, um corredor de 2 metros de largura; à direita e à esquerda, uma barra de ferro, que vai de uma ponta à outra da sala. Lonas, que servem de rede para dormir, estão estendi­das entre a barra e a parede, cada lona com uma cobertura. Cada um se instala onde quiser. Dega, Pierrot le Fou, Santori, Grandet e eu nos arrumamos uns pertos dos outros e imediatamente as curriolas se formam. Vou ao fundo da sala: à direita, o banheiro; à esquerda, as privadas, mas sem água corrente. Dependurados nas barras das ja­nelas, assistimos à distribuição dos outros, que chegaram depois de nós. Louis Dega, Pierrot le Fou e eu estamos radiantes: não fomos internados, por isso estamos juntos num barracão. Se não fosse assim, já estaríamos numa cela, conforme explicou Julot. Todo mundo está contente, até o momento em que, quando tudo acaba, por volta das 5 horas da tarde, Grandet diz:

— É esquisito, neste comboio não chamaram um só internado. É estranho. Por mim, tanto melhor.

Grandet é o cara que roubou o cofre-forte de uma central, caso que fez rir toda a França.

Nos trópicos, a noite e o dia chegam sem crepúsculo nem aurora. Passa-se de uma ao outro de uma vez, o ano inteiro, na mesma hora. A noite cai bruscamente às 6 e meia da tarde. E, às 6 e meia, dois ve­lhos forçados trazem dois lampiões de petróleo, que são pendurados em um gancho no teto e dão muito pouca luz. Três quartos da sala ficam em plena escuridão. Às 9 horas, todo mundo dorme, porque, passada a excitação da chegada, a gente morre de calor. Nem sinal de vento, todo mundo fica de cueca. Deito entre Dega e Pierrot le Fou, conversamos baixinho e depois dormimos.

Na manhã seguinte, é ainda noite quando toca o clarim. Todos se levantam, se lavam e se vestem. Dão-nos café e pão. Uma tábua está pregada à parede e serve para a gente botar o pão, o prato e o resto das coisas. Às 9 horas entram dois vigilantes e um forçado, jovem vestido de branco sem listras. Os dois guardas são corsos e fa­lam em corso com forçados conterrâneos. Durante este tempo, o en­fermeiro passeia pela sala. Chegando junto de mim, diz:

— Como vai isso, Papi? Não me reconhece?

— Não.

— Eu sou Sierra, de Argel, conheci você na casa de Dante, em Paris.

— Ah, sim, agora me lembro. Mas você viajou em 29, já estamos em 33 e você continua sempre por aqui?

— Sim, a gente não se livra desta situação tão depressa. Finja que está doente. E ele, quem é?

— Dega? É meu amigo.

— Inscrevo ele também na consulta. Você, Papi, tem diarréia. E você, velhinho, está com crises de asma. A gente se vê na consulta das 11 horas, tenho coisas a falar com vocês.

Ele vai aos que levantam o dedo e os inscreve. Quando torna a passar à nossa frente, está acompanhado por um dos vigilantes, quei­mado de sol e muito velho.

— Papillon, apresento-lhe meu chefe, o vigilante enfermeiro Bartiloni. Senhor Bartiloni, estes dois são os meus amigos, de quem falei ao senhor.

— Está bem, Sierra, a gente arranja tudo na consulta, conte co­migo.

Às 11 horas chegam para nos buscar. Somos nove doentes. Vamos a pé, entre os barracões. Chegando diante de um barracão mais novo e o único pintado de branco com uma cruz vermelha, entramos numa sala de espera, onde se acham uns sessenta homens. A cada canto da sala, dois vigilantes. Sierra aparece, vestido com uma blusa imacula­da de médico. Ele diz: “Você, você e você, venham”. Entramos numa sala e logo vemos que é o gabinete do médico. Ele fala aos três ve­lhos em espanhol. Reconheço imediatamente um espanhol: é Fernán­dez, que matou três argentinos no café Madrid, em Paris. Depois que conversam um pouco, Sierra o faz passar para uma privada, que dá para a sala, e vem até nós:

— Papi, deixe que eu abrace você. Estou contente de poder pres­tar um grande serviço, a você e ao seu amigo: os dois estão interna­dos... Ah! Esperem eu falar! Você, Papillon, perpétua, e você, Dega, cinco anos. Têm gaita?

— Sim.

— Então me dêem 500 francos cada um e, amanhã pela manhã, estarão hospitalizados, você por diarréia. E você, Dega, de noite, ba­ta à porta, ou, melhor ainda, algum de vocês chama o guarda e pede o enfermeiro, dizendo que Dega está morrendo de falta de ar. Do res­to, eu me encarrego. Papillon, peço-lhe só uma coisa: se houver Problema, avise a tempo, que irei ao seu encontro. No hospital, por 100 francos semanais cada um, vocês vão poder ficar durante um mês. A coisa tem de ser feita depressa.

Fernández sai da privada e entrega, na nossa frente, 500 francos a Sierra. Eu entro também na privada e, quando saio, entrego-lhe não 1 000, mas 1 500 francos. Ele recusa os 500 francos. Não quero insistir. Ele me diz:

— Estes cobres, que você me dá, são para o guarda. Não levo nada para mim. Somos amigos ou não?

No dia seguinte, Dega, eu e Fernández estamos numa cela imensa, dentro do hospital. Dega foi hospitalizado no meio da noite. O enfer­meiro da sala é um tipo de 35 anos, que a gente chama Chatal. Tem todas as instruções de Sierra para nós três. Quando o médico passar, apresentará um exame de fezes onde eu aparecerei podre de amebas. Para Dega, dez minutos antes da consulta, ele queima um pouco de enxofre, que lhe forneceram, e manda ele respirar o gás com um pano na cabeça. Fernández sente enorme alegria: ele cortou a pele no inte­rior da bochecha e soprou o mais possível durante uma hora. Fez isso tão conscientemente, que a inchação cresceu ao ponto de tapar um olho. A cela fica no primeiro andar de um edifício, onde estão uns setenta doentes, muitos de diarréia. Pergunto ao enfermeiro onde está Julot. Ele me diz:

— Justamente no edifício defronte. Quer que lhe diga alguma coisa?

— Sim. Diga-lhe que Papillon e Dega estão aqui, que ele apareça na janela.

O enfermeiro entra e sai da sala quando quer. Para isso, não pre­cisa mais do que bater à porta e um árabe abre. É um guarda-chaves, um forçado que serve de auxiliar aos vigilantes. Nas cadeiras, à direi­ta e à esquerda, ficam sentados três vigilantes, mosquetão nos joelhos. As grades da janela são trilhos de estrada de ferro e eu me pergunto como é que se faz para cortar isso. Sento-me junto à janela.

Entre o nosso edifício e o de Julot há um jardim cheio de flores alegres. Julot aparece na janela, uma lousa na mão, sobre a qual escreve com giz: “VIVA”. Uma hora depois, o enfermeiro me traz uma carta de Julot. Ele me escreveu: “Estou procurando dar um pulo à sua sala. Se fracassar, tentem vir à minha. O motivo é que vocês têm inimigos na sua sala. Como é, estão internados? Ânimo, dará tudo certo”. O incidente da Central de Beaulieu, onde sofremos jun­tos, ligou-nos muito um ao outro. Julot era o especialista do bastão de madeira e por isso foi apelidado de “homem do martelo”. Ele che­gava num carro diante de uma joalheria, em pleno dia, no momento em que as mais belas jóias estavam em exposição nos seus estojos. O carro, guiado por um outro, parava, deixando o motor ligado. Julot descia rapidamente, munido de um grosso bastão de madeira, punha abaixo a vitrina com um só golpe, apanhava a maior quantidade possível de estojos e voltava ao carro, que disparava a toda velo­cidade. Depois de ter sido bem sucedido em Lyon, Angers, Tours, Le Havre, deu o golpe numa grande joalheria de Paris, às 3 da tarde, levando quase 1 milhão em jóias. Nunca me contou por que e como foi identificado. Foi condenado a vinte anos e se evadiu ao fim de quatro. E foi ao regressar a Paris, conforme nos contou, que de novo o prenderam: estava atrás de seu receptador, para assassiná-lo, porque este não entregou à sua irmã uma grande soma de dinheiro que lhe devia. O receptor o viu vagando na rua onde morava, e avisou a polícia. Julot acabou em cana e regressou ao degredo conosco.

Já há uma semana que estamos no hospital. Ontem entreguei 200 francos a Chatal, é o preço por semana para nos manter, nós dois, no hospital. Para conquistar amizades, damos fumo a todos que não têm. Um forçado de sessenta anos, um marselhês chamado Carora, se fez muito amigo de Dega. Ele é seu conselheiro. Diz várias vezes por dia que, se tiver muito dinheiro e isso for sabido no povoado (pe­los jornais chegados da França, sabe-se dos casos grandes), é melhor que ele não se evada, porque os libertos irão matá-lo para roubar seu canudo. Dega me conta estas conversas com o velho Carora. Sou obrigado a lhe dizer que o velho é certamente um galinha-morta, pois já está aqui há vinte anos, mas ele não me dá atenção. Dega está muito impressionado com a conversa fiada do velho e eu tenho de me esforçar para sustentar seu ânimo e o meu.

Mandei passar um bilhete a Sierra, para que traga Galgani. A coisa não demora. No dia seguinte, Galgani está no hospital, mas fora das grades. Como fazer para lhe entregar seu canudo? Digo a Chatal que tenho necessidade imperiosa de falar com Galgani, dou a enten­der que é uma preparação de fuga. Ele me diz que pode trazer Galga­ni precisamente cinco minutos antes do meio-dia. Na hora da mu­dança da guarda, ele o fará subir para a varanda e falar comigo na janela, e isso sem cobrar nada. Galgani é trazido à janela ao meio-dia, eu boto o canudo diretamente em suas mãos. Ele introduz o canudo no rabo, em pé, na minha frente, e chora. Dois dias depois, eu recebi uma revista enviada por ele, com cinco notas de 1 000 francos e uma única palavra: “Obrigado”.

Chatal, que me entregou a revista, viu o dinheiro. Ele não me fala nisso, mas eu insisto em lhe oferecer alguma coisa. Ele recusa. Eu lhe digo:

— Nós queremos cair fora. Quer ir conosco?

— Não, Papillon, tenho outro compromisso, só vou tentar a eva­são dentro de cinco meses, quando meu parceiro estiver libertado. A fuga vai ser mais bem preparada e será mais segura. Você, como está internado, compreendo que esteja com pressa, mas sair daqui, com estas grades, vai ser duro. Não conte comigo para lhe dar uma mão, não quero arriscar meu lugar. Aqui, espero que meu amigo saia.

— Muito bem, Chatal. É preciso ser franco na vida, nunca vou-lhe dizer nada que possa comprometê-lo.

— Assim mesmo, levarei seus bilhetes e tratarei de suas enco­mendas.

— Obrigado, Chatal.

Nesta noite, ouvimos rajadas de metralhadora. Soubemos, no dia seguinte, que foi o “homem do martelo” que se evadiu. Que Deus o ajude, era um bom amigo. Deve ter surgido uma oportunidade e aproveitou. Tanto melhor para ele.

Quinze anos depois, em 1948, estava eu no Haiti, onde acompa­nhado por um milionário venezuelano, tinha vindo fazer com o pro­prietário de um cassino um contrato para explorar o jogo. Uma noite, quando saí de um cabaré, onde bebemos champanha, uma das mu­lheres que nos acompanha, preta como carvão, mas educada como uma provinciana de boa família francesa, me diz:

— Minha avó, que é mãe-de-santo, vive com um velho francês. É um evadido de Caiena, há vinte anos que está com ela, bebe o tempo todo, chama-se Jules Marteau.

Fico imediatamente bom da bebida;

— Garota, me leve logo, logo para a casa de sua avó.

Em dialeto haitiano, ela fala ao chofer, que toca a toda velocidade. Passamos por um bar noturno brilhante de luzes: “Pare”. Entro no bar e compro uma garrafa de Pernod, duas garrafas de champanha, duas garrafas de rum nacional. “Toca.” Chegamos à beira do mar, diante de uma encantadora casinha branca com telhas vermelhas. A água do mar chega quase à escada. A mulher bate, bate, e sai pri­meiro uma preta corpulenta, os cabelos branquinhos. Está vestida com uma camisola, que vem até os tornozelos. As duas mulheres falam em dialeto, ela me diz:

— Entre, senhor, esta casa é sua.

Uma lâmpada de carbureto ilumina uma sala muito limpa, cheia de pássaros e peixes.

— O senhor quer ver o Julot? Espere, ele vem aí. Jules, Jules! Tem alguém que quer ver você.

Vestindo um pijama listrado de azul, que me faz lembrar a roupa do degredo, chega um velho descalço.

— E então, Bola de Neve, quem é que vem me ver numa hora dessas? Papillon! Não é possível!

Pega-me os braços e continua falando.

— Chega para cá a lâmpada, Bola de Neve, para que eu veja a cara de meu chapa. Mas é você mesmo, homem! É você, sem dúvida! Então, seja bem-vindo. O barraco, o pouco dinheiro que tenho, a neta de minha mulher, tudo é seu. É só falar.

Bebemos o Pernod, o champanha, o rum e, de vez em quando, Julot canta.

— A gente conseguiu, apesar de tudo, hein, meu chapa? Está vendo, nada como a aventura. Passei pela Colômbia, Panamá, Cos­ta Rica, Jamaica e depois, faz quase vinte anos, vim parar aqui e sou feliz com Bola de Neve, que é a melhor mulher que um homem pode encontrar. Quando vai embora? Demora aqui muito tempo?

— Não, uma semana.

— Que veio fazer?

— Explorar o jogo do cassino, assinei um contrato diretamente com o proprietário.

— Meu chapa, gostaria que você ficasse toda a vida junto comigo, nesta terra miserável de carvoeiros, mas se você fez contrato com o proprietário não deve ficar vivendo perto dele, o cara mandará assas­sinar você, quando souber que o seu business vai bem.

— Obrigado pelo conselho.

— Você, Bola de Neve, prepare a festa de candomblé não para turista. Um candomblé de verdade para o meu amigo!

Em outra ocasião, contarei para vocês o que foi este famoso can­domblé “não para turista”.

Portanto, Julot se evadiu e eu, Dega e Fernández continuamos na expectativa. De tempos em tempos, olho, como quem não quer nada, as grades das janelas. São verdadeiros trilhos de estrada de ferro, não dá pé. Resta, agora, a porta. Dia e noite, três vigilantes armados estão ali de guarda. Depois da evasão de Julot, a vigilância se acen­tuou. As rondas se sucedem mais próximas umas das outras, o médi­co é menos amável. Chata! só vem duas vezes por dia à sala, para as injeções e para tirar a temperatura. Passa uma segunda semana, pago, mais uma vez, 200 francos. Dega fala de tudo, menos de eva­são. Ontem viu meu bisturi e me disse:

— Continua com isso? Por quê?

Respondi, de mau humor:

— Para defender minha pele e a sua, se for necessário.

Fernández não é espanhol, é argentino. É homem mesmo, um ver­dadeiro aventureiro, mas também ficou impressionado pela conversa mole do velho Carora. Um dia ouço ele dizer a Dega:

— Parece que nas ilhas é muito sadio, não é como aqui e não faz calor. Nesta sala, a gente pode apanhar ameba, é só ir à privada para pegar os micróbios.

Todos os dias, um ou dois homens, nesta sala de setenta, morrem de disenteria. Coisa curiosa a notar, todos morrem na maré vazante da tarde ou da noite. Nunca ninguém morre de manhã. Por quê? Mistério da natureza.

Nesta noite, tive uma discussão com Dega. Eu lhe disse que, às vezes, de noite, o guarda-chaves árabe comete a imprudência de entrar na sala e de levantar os lençóis dos doentes mais graves, que têm o rosto coberto. A gente poderia dar uma pancada nele e se vestir com sua roupa (estamos todos só de camisa e sandália). Uma vez vestido, saio e arranco de surpresa um mosquetão de um dos guardas, aponto para os outros e os faço entrar na cela, cuja porta fecho. A seguir, a gente salta o muro do hospital do lado do Maroni, cai na água e deixa que a corrente nos carregue, à deriva. Depois, veremos. Como a gente tem dinheiro, compra um barco e comida para partir pelo mar. Ambos recusam categoricamente este projeto e até o criticam. Sinto, então, que eles estão de crista caída, fico muito decepcionado e os dias passam.

Já há três semanas menos dois dias que a gente está aqui. Só res­tam de dez a quinze dias, no máximo, para tentar a fuga. Hoje, dia memorável, 21 de novembro de 1933, entra na sala Joanes Clousiot, o homem que tentaram assassinar em Saint-Martin, no barbeiro. Tem as vistas fechadas e está quase cego, os olhos cheios de pus. Depois que Chatal se retira, vou para perto dele. Rapidamente, ele me diz que os outros internados partiram para as ilhas há mais de quinze dias, porém que se esqueceram dele. Há três dias, um admi­nistrador o avisou. Ele botou um grão de mamona nos olhos e, com os olhos purulentos, pode vir para o hospital. Está seco para cair fora. Diz que está pronto para tudo, mesmo para matar, se for pre­ciso, mas quer fugir. Tem 3 000 francos. Os olhos são lavados com água quente e logo ele pode ver melhor. Eu lhe explico meu plano para a evasão, ele acha bom, mas diz que, para surpreender os vigi­lantes, é preciso sair em dois, se possível em três. A gente poderia desmontar as pernas da cama e, cada um com uma perna de ferro na mão, cair em cima dos guardas. Na sua opinião, mesmo que te­nhamos um mosquetão na mão, eles não acreditarão que vamos atirar e podem chamar os guardas de serviço no outro pavilhão, de onde Julot escapou e que fica a menos de 20 metros.

 

                                                             PRIMEIRA EVASÃO

 

                               A EVASÃO DO HOSPITAL

Hoje à noite discuti com Dega e Fernández. Dega diz que não con­fia no plano, que paga um bom dinheiro, se for preciso, para sair da cadeia. Pede para eu escrever a Sierra a respeito dessa possibilidade. No mesmo dia, Chatal traz o bilhete e a resposta: “Não pague nada a ninguém para sair. São ordens que vêm da França, e ninguém, nem o diretor da penitenciária, pode nos soltar. Se vocês estão de­sesperados no hospital, tentem sair um dia depois que o navio cha­mado Mana zarpar para as ilhas”.

Vamos ficar oito dias nas celas, antes de ir para as ilhas, e talvez para fugir seja melhor do que da enfermaria onde nos colocaram, no hospital. No mesmo bilhete, Sierra diz ainda que, se eu concordar, vai mandar um condenado liberto falar comigo, para deixar o barco atrás do hospital. É um sujeito de Toulon, de nome Jesus; foi ele quem preparou a fuga do Dr. Bougrat dois anos atrás. Para encon­trá-lo tenho que tirar uma radiografia num pavilhão que tem equipa­mento especial. O pavilhão fica dentro do recinto do hospital, mas os condenados em liberdade podem ser admitidos com uma autorização falsificada, para tirar uma radiografia. Ele diz para eu tirar o ca­nudo antes de ir para a radiografia, porque o médico pode vê-la, se olhar mais abaixo do pulmão. Mando um recado a Sierra, pedindo para mandar Jesus à radiografia e combinar com Chatal para eu ser mandado lá também. Na mesma noite, Sierra avisa que vai ser de­pois de amanhã, às 9 horas.

No dia seguinte, Dega pede alta e Fernández também. O Mana zarpou de manhã. Pretendem fugir das celas do presídio, desejo-lhes boa sorte, eu não mudo meus planos.

Encontrei Jesus. É um velho condenado liberto, seco como um bacalhau, rosto moreno, marcado por duas horríveis cicatrizes. Tem um olho que fica lacrimejando o tempo todo, quando olha a gente. Cara feia, olhar perigoso. Não me inspira a menor confiança, o fu­turo vai provar que eu tenho razão. Entramos logo no assunto:

— Posso arranjar um barco para quatro homens, no máximo cin­co. Um tonel de água, comida, café e fumo; três remos, uns sacos va­zios, agulha e linha para você mesmo fazer a vela e o cutelo, a vela menor; uma bússola, um machado, uma faca, 5 litros de tafiá (rum da Guiana), tudo por 2 500 francos. A lua some daqui a três dias. Se você aceitar, daqui a quatro dias vou ficar esperando no barco todas as noites, das 11 às 3 da manhã, durante oito dias. No primei­ro quarto de lua não vou esperar mais. O barco estará exatamente no canto do muro, atrás do hospital. Vá andando pelo muro, porque enquanto você não estiver em cima do bote não vai conseguir enxer­gá-lo, nem a 2 metros.

Não confio nele, mas aceito assim mesmo.

— E a gaita? — pergunta Jesus.

— Mando por Sierra.

Despedimo-nos sem apertar as mãos. Nada elegante.

Às 3, Chatal vai até o presídio levar o dinheiro para Sierra, 2 500 francos. Penso comigo: “Jogo esse dinheiro por Galgani, porque é arriscado. Espero que ele não beba essas 2 500 pratas!”

Clousiot está radiante, cheio de confiança em si, em mim e no nosso plano. Só uma coisa o preocupa: quase todas as noites, o car­cereiro árabe volta para a enfermaria e, além disso, não muito tarde. Outro problema: quem mais, poderíamos escolher para fazer a pro­posta? Há um corso do baixo mundo de Nice, chamado Biaggi. Está na colônia desde 1929, encontra-se de prisão preventiva na enferma­ria, sob forte vigilância, porque matou um sujeito. Clousiot e eu discutimos se vamos falar com ele e quando. Enquanto conversamos em voz baixa, aproxima-se um rapazinho de uns dezoito anos, bonito como uma mulher. Chama-se Maturette e foi condenado à morte pe­lo assassinato de um chofer de táxi e mais tarde agraciado por causa da sua idade: dezessete anos. Eram dois rapazes os acusados, de de­zesseis e dezessete anos; no tribunal, em vez de se acusarem recipro­camente, esses dois garotos declararam-se ambos autores do crime. O chofer foi morto por um único tiro. Por essa atitude, na época do cesso, os meninos ganharam a simpatia de todos os condenados.

Maturette, completamente efeminado, aproxima-se e pede um fós­foro com uma voz de mulher. Acendo seu cigarro e dou-lhe ainda, de presente, quatro cigarros e uma caixa de fósforos. Agradece com um sorriso insinuante, deixamos que se afaste. De repente, Clousiot diz:

— Papi, estamos salvos. O árabe vai voltar quando a gente quiser e à hora que a gente quiser, está no papo.

— Como?

— É muito simples: pedimos a Maturette que se deixe seduzir por ele Você sabe, os árabes adoram os rapazinhos. Daí a entrar de noite para visitar o menino, é um pulo. Maturette vai fazer onda, dizendo que tem medo de ser visto, e o árabe entrará à hora que for melhor para a gente.

— Deixe comigo.

Vou até Maturette, ele me recebe com um sorriso convidativo. Pensa que me conquistou com o seu primeiro sorriso insinuante. Vou logo dizendo:

— Está enganado, vá até as latrinas.

Chegando lá, começo:

— Se falar uma palavra do que vou dizer, você é um homem morto. Está disposto a fazer isso, isso e isso para ganhar uns cobres? Quanto? Prefere fazer o serviço ou quer ir com a gente?

— Quero ir com vocês, está certo?

Prometido. Apertamos as mãos.

Ele vai deitar-se e, depois de trocar algumas palavras com Clousiot, eu também me deito. De noite, lá pelas 8 horas, Maturette senta na janela. Nem precisa chamar o árabe, ele vem sozinho e começam a conversar em voz baixa. Às 10, Maturette se deita. Nós estamos deitados desde as 9 horas, com um olho aberto. O árabe entra na en­fermaria, dá duas voltas, encontra um homem morto. Bate na porta e pouco depois entram dois padioleiros com uma maca e levam o morto. Esse morto vai servir para justificar as rondas do árabe a qualquer hora da noite. No dia seguinte, por sugestão nossa, Maturette marca encontro com ele às 11 da noite. O carcereiro chega na hora, passa pela cama do menino, puxa-o pelos pés para acordá-lo, depois dirige-se para as latrinas. Maturette segue-o. Quinze minutos depois aparece o carcereiro, que vai direto para a porta e sai. Imediatamente, Maturette vai deitar-se na sua cama, sem falar com a gente. Na noite seguinte, é a mesma coisa, desta vez à meia-noite. Tudo está dando certo, o árabe vem à hora que o menino indica.

Dia 27 de novembro de 1933. Dois pés da cama vão ser arranca­dos para servir de arma. Às 4 da tarde, espero um aviso de Sierra. Chata!, o enfermeiro, chega sem bilhete. Ele diz apenas:

— François Sierra falou para avisar que Jesus vai esperar no lu­gar que foi previamente combinado. Boa sorte.

Às 8 da noite, Maturette diz ao árabe:

— Venha depois da meia-noite; a essa hora, a gente vai poder ficar junto mais tempo.

O árabe diz que virá depois da meia-noite. À meia-noite em pon­to estamos prontos. O árabe entra lá pela meia-noite e quinze, vai direto para a cama de Maturette, puxa os pés dele e segue para as la­trinas. Maturette entra com ele. Arranco o pé da minha cama, que faz um pouco de barulho ao cair. Do lado de Clousiot nada se ouve. Tenho que ficar atrás da porta dos banheiros e Clousiot vai-se apro­ximar para chamar sua atenção. Depois de vinte minutos de espera, tudo acontece muito rápido. O árabe sai dos banheiros e, surpreso de ver Clousiot, diz:

— O que é que você está fazendo aí, de pé no meio da sala a esta hora? Vá dormir.

Na mesma hora leva uma pancada em plena nuca e cai sem um ruído. Rápido, visto suas roupas, calço seus sapatos, arrasto-o para debaixo de uma cama e, antes de escondê-lo completamente, dou-lhe outra pancada na cabeça. É a conta.

Nenhum dos oitenta homens da enfermaria se mexeu. Dirijo-me rapidamente para a porta, seguido de Clousiot e Maturette, vestidos apenas com a camisa, e bato. O vigia abre, eu pego o ferro e tac!, na cabeça dele. O outro, da frente, deixa cair o fuzil, com certeza está dormindo. Antes que reaja, dou-lhe uma pancada. Os meus dois não gritaram, o de Clousiot diz “ha!” antes de desmoronar. Os meus dois ficam sentados em suas cadeiras, o terceiro fica esticado no chão em todo o seu comprimento. A gente prende a respiração. Para nós, todos escutaram esse “há!”. Foi muito alto mesmo e, no entanto, nin­guém se mexe. Não os levamos para a sala, partimos com os três fuzis. Clousiot primeiro, o rapazinho no meio e eu atrás, descemos pelas escadas mal iluminadas por uma lanterna. Clousiot largou seu pedaço de ferro, eu tenho o meu na mão esquerda e o fuzil na direi­ta. Embaixo, nada. À nossa volta, a noite está escura como breu. Precisamos olhar bem para enxergar o muro, perto do rio; dirigi­mo-nos rapidamente para lá. Chegando ao muro, faço escadinha. Clousiot sobe, fica escarranchado, puxa Maturette, depois eu. Escorregamos na escuridão do outro lado do muro. Clousiot cai de mau jeito dentro de um buraco e machuca o pé; eu e Maturette chegamos bem. Levantamos, abandonamos os fuzis antes de saltar. Quando Clousiot vai levantar, não consegue, diz que está com a perna que­brada. Deixo Maturette com Clousiot e corro até o canto do muro, segurando com a mão na parede. Está tão escuro, que não percebo quando chego ao fim do muro, minha mão cai e bato com o queixo. Do lado do rio ouço uma voz que diz:

— São vocês?

— Sim. É Jesus?

— É.

Ele acende um fósforo por um instante. Vejo onde ele está. Entro na água, chego até ele. São dois.

— Suba o primeiro. Quem é?

— Papillon.

— Bom.

— Jesus, precisa voltar um pouco mais para cima, meu amigo quebrou a perna caindo do muro.

— Então pegue essa pá e reme.

Os três remos afundam na água e o barco faz depressa os 100 metros que nos separam do lugar onde os outros dois devem estar. Não se enxerga nada. Chamo:

— Clousiot!

— Não fale, diabo! — diz Jesus. — Enflé, rode a pedra do isquei­ro. Brilham algumas faíscas, eles perceberam. Clousiot assobia entre os dentes: é um assobio que não faz barulho, mas a gente escuta perfeitamente. Parece o silvo de uma cobra. Assobia sem parar, conduzindo-nos perto dele. Enflé desce, carrega Clousiot nos braços e o coloca na barca. Maturette sobe também, depois Enflé. Somos cinco e a água chega a dois dedos da borda do barco,

— Não façam nenhum movimento sem avisar — diz Jesus. — Papillon, pare de remar, coloque a pá sobre os joelhos. Força, Enflé!

E rapidamente, com a ajuda da correnteza, a barca entra noite adentro.

Quando passamos, depois de 1 quilômetro, diante da penitenciá­ria escassamente iluminada por um velho gerador, estamos no meio do rio, navegando a uma velocidade incrível, levados pela correnteza. Enflé levantou o remo. Somente Jesus, com o cabo do seu colado à coxa, mantém o equilíbrio do barco. Não rema, só dirige.

Jesus diz:

— Agora, a gente pode falar e fumar. Deu tudo certo, acho. Tem certeza de que não matou ninguém?

— Acho que não.

— Diabo! Você me tapeou, Jesus! — diz Enflé. — Você disse que era uma fuga sem problema nenhum, no entanto é uma evasão de condenados, pelo que consegui entender.

— Pois é, são condenados, Enflé. Não quis falar para você, senão você não me ajudava e eu precisava de um homem: Não tem nada. Se eles pegarem a gente, eu fico com toda a responsabilidade.

— Certo, Jesus. Pelas 100 pratas que você me deu, não quero arriscar o meu pescoço se tiver um morto, nem a prisão perpétua se tiver algum ferido.

Então eu digo:

Enflé, vou dar de presente 1 000 francos para vocês dois.

— Tá certo, então, chefe. Regular. Obrigado, a gente morre de fome na aldeia, é pior estar livre do que preso. Pelo menos, preso, a gente tem comida todos os dias e roupa.

— Chefe — diz Jesus a Clousiot —, está sofrendo muito?

— Vai indo — diz Clousiot. — Mas como é que vamos fazer com minha perna quebrada, Papillon?

— Vamos ver. Para onde a gente vai, Jesus?

— Vou esconder vocês numa enseada a 30 quilômetros da saída do mar. Vocês vão ficar lá oito dias, para deixar esfriar o negócio da perseguição dos guardas e dos caçadores de homens. Precisa dar a impressão de que vocês saíram nesta mesma noite do Maroni e entraram no mar. Os caçadores de homens têm umas canoas sem motor, essas canoas são o maior perigo. Fogo, falar, tossir podem ser fatais se eles estiverem por perto, escutando. Os guardas têm uns barcos a motor muito grandes para entrar na enseada, podem tocar o fundo.

A noite fica clara. São quase 4 horas da manhã quando, depois de ter procurado bastante tempo, damos finalmente com o local que só Jesus conhece e entramos na mata. O barco achata os pequenos arbustos, que, após passarmos, tornam a se endireitar atrás de nós, formando uma cortina protetora bem fechada. Precisaria ser um adivinho para saber que ali há água suficiente para dar passagem a um barco. Entramos, penetramos na floresta durante mais de uma hora, afastando os galhos que barram a nossa passagem. De repente encontramo-nos numa espécie de canal e paramos. A margem está verde de grama limpa, as árvores são imensas e a claridade (são 6 horas) não chega a penetrar no meio da folhagem. Debaixo dessa abóbada imponente, os gritos de milhares de animais desconhecidos. Jesus diz:

— É aqui que vocês vão ter que esperar oito dias. Volto no sétimo dia, para trazer mantimentos.

Ele tira de baixo de uma vegetação cerrada uma pequena canoa de uns 2 metros. Dentro dela há dois remos. Ê com esse barco que ele vai voltar, com a maré montante, para Saint-Laurent.

Só então vamos ocupar-nos de Clousiot, que está deitado na mar­gem. Veste ainda a camisa, mas tem as pernas nuas. Com o machado, arranjamos uns galhos secos do formato de ripas. Enflé puxa então o pé de Clousiot, que, suando gotas enormes, num certo momento diz: “Pare! Nessa posição dói menos, o osso deve estar no lugar”. Colocamos as ripas e as amarramos com a corda de cânhamo nova que está dentro da canoa. Ele fica aliviado. Jesus tinha comprado quatro calças, quatro camisas e quatro malhas de lã dos deportados. Maturette e Clousiot se vestem, eu fico com as roupas do árabe. Tomamos um pouco de rum. É a segunda garrafa que esvaziamos desde a partida: esquenta, felizmente. Os mosquitos atacam a gente parar: precisamos sacrificar um pacote de fumo. Colocamos o de molho numa cabaça e passamos o caldo da nicotina no rosto, mãos e nos pés. As malhas são de lã e esquentam, apesar dessa umidade que penetra na gente.

Enflé diz:

— Vamos embora. E as pratas que você prometeu?

Afasto-me um pouco e volto com uma nota de 1 000 novinha em folha.

— Até logo, não saiam daí durante oito dias — diz Jesus. A gente volta daqui a sete dias. No oitavo dia, vocês embarcam. Nesse Tempo todo façam as velas e arrumem o barco, cada coisa no seu lugar, coloquem os gonzos do leme, que não está montado. Se passarem dez dias e a gente não voltar, é porque fomos agarrados na aldeia. Como o negócio engrossou com o ataque ao guarda, vai ter uma encrenca danada.

Por outro lado, Clousiot informa que ele não deixou o fuzil perto do muro. Jogou-o por cima do muro e o rio fica tão perto (ele não sabia disso), que certamente o fuzil caiu na água. Jesus diz que é bom isso, porque, se ele não foi encontrado, os caçadores de homens vão pensar que estamos armados. Eles são os mais perigosos, mas não devemos ter medo: só estão armados com um revólver e um facão e, pensando que temos fuzis, não vão aventurar-se. Até logo, até logo. Se nos descobrirem e precisarmos abandonar a canoa, vamos ter que subir o riacho até a floresta; com a bússola, iremos para o norte. Há muitas chances de a gente encontrar, depois de dois ou três dias de marcha, o presídio da morte chamado Charvein. Lá vamos ter que pagar a alguém para avisar Jesus de que estamos na­quele lugar. Vão embora os dois velhos condenados. Alguns minu­tos depois, sua canoa já desapareceu, não se ouve nada e não se vê nada.

A claridade do dia penetra na floresta de uma maneira toda parti­cular. Parece que estamos embaixo de uma abóbada que recebe o sol pelo alto e não deixa passar nenhum raio. Começa a esquentar. Então, Maturette, Clousiot e eu nos sentimos sós. Primeiro reflexo: damos risada. Tudo correu com a maior facilidade. O único incon­veniente é a perna de Clousiot. Ele diz que agora, que ela está presa nas ripas, vai bem. A gente pode esquentar um café. É rápido; acende­mos o fogo e tomamos uma bela caneca de café preto cada um, ado­çado com açúcar mascavo. Está delicioso. Gastamos tanta energia desde ontem à noite, que não temos coragem de olhar as coisas nem de inspecionar o barco. A gente vê depois. Estamos livres, livres, livres. Faz exatamente 37 dias que chegamos à colônia. Se a fuga der certo, minha prisão perpétua não foi muito longa. Eu falo: Senhor presidente, quanto tempo duram os trabalhos forçados na Prisão perpétua, na França?” E damos uma gargalhada. Maturette também tem prisão perpétua. Clousiot diz: “Não vamos cantar vitó­ria, ainda. A Colômbia está longe, e esse barco feito com uma árvo­re queimada me parece bem pouca coisa para entrar no mar”.

Não respondo nada porque eu, francamente, até o último mo­mento, pensei que a canoa fosse levar-nos ao lugar onde estaria o barco apropriado para entrar no mar. Descobrindo que estava enga­nado, não tive a coragem de dizer nada, para não influenciar mal os meus amigos logo no começo. Por outro lado, como Jesus pare­cia achar tudo aquilo muito natural, não queria dar a impressão de não conhecer os barcos habitualmente utilizados para fugas.

Passamos este primeiro dia falando e tomando contato com essa mata tão desconhecida. Os macacos e pequenas espécies de esquilos fazem terríveis cabriolas em cima das nossas cabeças. Um bando de pequenos porcos selvagens veio beber água e tomar banho. Havia pelo menos 2 000. Entram na enseada e nadam, arrancando as raízes que estão penduradas. Um jacaré sai de não sei onde e agarra a pata de um porco, que começa a se esgoelar como um louco; então, os porcos atacam o jacaré, sobem em cima dele, tentando mordê-lo na junção de sua enorme boca. A cada golpe de rabo, o jacaré faz dançar um porco à direita ou à esquerda. Um deles morre e bóia com o ventre para o ar. Imediatamente, seus companheiros o comem. A enseada está cheia de sangue. O espetáculo dura vinte minutos, o jacaré foge debaixo da água. Não o vimos mais.

Dormimos bem e de manhã fazemos café. Tiro minha malha, para me lavar com um sabonete grande de Marselha que foi encontrado no barco. Com minha navalha, Maturette corta como pode minha barba, depois barbeia Clousiot. Ele, Maturette, não tem barba. Quando pego a malha para vestir, dela cai uma aranha enorme, aveludada e de uma cor negro-violeta. Os pêlos são muito compri­dos e acabam, na ponta, com uma bolinha platinada. Deve pesar pelo menos uns 500 gramas, é enorme e eu a esmago com nojo. Tiramos todas as coisas do barco, inclusive o pequeno tonel de água. A água está violeta, acho que Jesus colocou permanganato demais dentro dela, para impedir que apodreça. Numas garrafas bem fe­chadas estão fósforos e lixas. A bússola é daquelas de crianças: marca somente norte, sul, leste e oeste, e não tem graduação. O mastro tem só 2 metros e 50 de altura. Cortamos os sacos de farinha em trapé­zio e colocamos uma corda na volta toda, para reforçar a vela. Faço uma pequena vela triangular, o cutelo, cortada em forma de triân­gulo isósceles: ajudará a levantar o nariz do barco na onda.

Quando colocamos o mastro, percebo que o fundo do barco não é sólido: o buraco onde se fixa o mastro está comido e perigosamente gasto. Ao colocarmos as dobradiças que segurarão o leme, os para­fusos entram como se a madeira fosse manteiga. Este barco está podre. Aquele porco do Jesus está querendo matar a gente. Contrariado, mostro isso tudo aos dois, não tenho o direito de esconder deles a situação. O que é que vamos fazer? Quando Jesus vier, vamos obrigá-lo a encontrar um barco mais seguro para a gente. Para isso vamos desarmá-lo e eu, armado com faca e machado, vou partir com ele para procurar outro barco na aldeia. É um grande risco, mas é um risco menor do que entrar no mar com um caixão de defunto. Os mantimentos estão em ordem: há um garrafão de óleo e umas caixas cheias de farinha de mandioca. Com isso, a gente vai longe.

Hoje de manhã assistimos a um curioso espetáculo: um bando de macacos de focinho cinzento brigou com uns macacos de focinho preto e aveludado. Maturette, no meio da baderna, levou um pedaço de galho na cabeça e está com um galo grande como uma noz.

Há cinco dias e quatro noites que estamos aqui. Nesta noite cho­veu torrencialmente. Abrigamo-nos com folhas de bananeiras selva­gens. A água escorria em cima de seu verniz, mas não nos molhamos muito, só os pés. Hoje de manhã, tomando café, penso como Jesus é um criminoso. Ter-se aproveitado de nossa inexperiência para empurrar para a gente este barco podre! Para economizar 500 ou 1 000 francos, ele manda três homens à morte certa. Pergunto a mim mesmo se, depois de obrigá-lo a me fornecer um outro barco, não vou matá-lo.

Gritos de gaios alvoroçam todo o nosso pequeno mundo, gritos tão agudos e irritantes, que digo a Maturette para pegar o facão e ir ver o que é. Ele volta depois de cinco minutos e me faz sinal para segui-lo. Chegamos a um local a uns 150 metros do barco e vejo, pendurado no ar, um maravilhoso faisão (ou uma ave parecida com um faisão), duas vezes maior que um galo grande. Está preso num laço e pendurado pela perna num galho. Com um golpe de facão, corto seu pescoço, para acabar com aqueles gritos horripilantes. Suspendo-o, para calcular seu peso, tem pelo menos 5 quilos. Seus esporões são como os dos galos. Decidimos comê-lo, mas, refletindo, achamos que o laço foi colocado lá por alguém e que deve haver outros. Vamos ver. Voltamos para o lugar e encontramos uma coisa curiosa: é uma verdadeira barreira de 30 centímetros de altura, feita de folhas e cipós entrelaçados, a uns 10 metros da enseada. Essa barreira corre paralelamente à água. De vez em quando, uma porta, e na porta, disfarçado por uns galhos pequenos, um laço de arame preso por uma extremidade a um galho de árvore dobrado. Logo imagino que o animal deve chocar com a barreira e percorrê-la até encontrar uma passagem. Quando encontra a porta, passa, mas seu pé fica preso no arame, soltando o galho. Fica então pendurado no ar, até que o proprietário das armadilhas venha buscá-lo.

Essa descoberta nos preocupa. A barreira parece bem conservada e não é velha; corremos o perigo de ser descobertos. Não podemos acender fogo de dia, mas de noite o caçador não vai aparecer. De­cidimos fazer um turno de guarda para vigiar, olhando sempre na di­reção das armadilhas. O barco está escondido embaixo dos galhos e todo o material está na floresta.

Estou de guarda no dia seguinte, às 10 horas. De noite comemos o faisão ou galo, não sabemos bem. O caldo nos fez um bem enorme e a carne, mesmo cozida, era deliciosa. Cada um comeu duas tigelas. Agora estou de guarda. Mas, intrigado com umas formigas-de-mandioca enormes, pretas, cada uma carregando grandes pedaços de fo­lhas, que levam para um enorme formigueiro, esqueço minha guarda. Essas formigas têm mais ou menos 1 centímetro e meio de compri­mento e ficam erguidas sobre as patas. Cada uma delas carrega peda­ços enormes de folhas. Sigo-as até a árvore que estão descascando e vejo toda uma organização. Antes de tudo, há as cortadeiras, que só preparam os pedaços. Rapidamente cortam com suas tesouras uma enorme folha de uma espécie de bananeira, recortam uns peda­ços, todos do mesmo tamanho, com uma habilidade incrível, e os pedaços caem no chão. Embaixo há uma fileira de formigas da mesma espécie, mas um pouco diferentes. Tem do lado da mandíbula uma risca cinzenta e estão em semicírculo, fiscalizando as carrega­deiras. Estas chegam pela direita, em fila, e vão para o formigueiro pela esquerda. Rápidas, elas apanham sua carga antes de entrar na fila, mas, de vez em quando, na pressa de se carregarem e entrarem na fila, criam um atravancamento. Então intervêm as formigas policiais e empurram cada uma das operárias para o lugar que elas devem ocupar. Não consigo compreender que falta grave cometeu uma ope­rária, mas ela é retirada da fileira por duas formigas policiais: uma arranca-lhe a cabeça; a outra corta-lhe o corpo em dois, na altura da cintura. Duas operárias são obrigadas a parar pelos guardas; co­locam no chão seu pedaço de folha, fazem um buraco com suas patas, e as três partes da formiga, cabeça, peito e o resto do corpo, são enterradas e depois cobertas de terra.

 

                                   A ILHA DOS POMBOS

Estava tão absorvido, olhando esse pequeno mundo e seguindo os soldados, para ver se sua vigilância ia até a entrada do formi­gueiro, que fiquei totalmente surpreso quando uma voz disse:

— Não se mova, ou você é um homem morto. Vire.

É um homem de peito nu, short cáqui, calçado com um par de botas de couro vermelho. Segura na mão um fuzil de dois canos. É de estatura média, atarracado, queimado pelo sol. É careca e seus olhos e seu nariz estão cobertos por uma máscara azul forte, tatuada. Bem no meio da testa, está tatuada também uma barata.

— Você está armado?

— Não.

— Está sozinho?

— Não.

— Quantos vocês são?

— Três.

— Leve-me até os seus amigos.

— Não posso, porque um deles está com um fuzil e não quero que você seja morto antes de saber suas intenções.

— Ah! Então não se mova e fale delicadamente. São vocês os três caras que fugiram do hospital?

— Somos.

— Quem é Papillon?

— Sou eu.

— Muito bem, você pode dizer que fez uma revolução na aldeia com sua fuga! A metade dos libertos está presa no quartel de polícia.

Ele se aproxima de mim e, abaixando o cano do fuzil para o chão, estende a mão para mim e diz:

— Sou o bretão mascarado, já ouviu falar de mim?

— Não, mas estou vendo que você não é um caçador de homens.

— Você tem razão, coloco armadilhas aqui para apanhar aves. O tigre deve ter comido uma, a não ser que tenham sido vocês.

— Fomos nós.

— Você quer café?

Num saco que ele carrega nas costas há uma garrafa térmica; ele me dá um pouco de café e toma também. Digo-lhe:

— Venha ver meus amigos.

Ele vem e se senta com a gente. Ri calmamente da história do fuzil e diz:

— Eu acreditei mesmo porque nenhum dos caçadores de homens quis vir procurar vocês; todo mundo acha que estão com um fuzil.

Explica que vive na Guiana há vinte anos e está livre há cinco. Tem 45 anos. Por causa dessa besteira que ele fez, de tatuar aquela máscara no rosto, a vida na França não lhe interessa. Adora a flo­resta e vive exclusivamente dela: pele de cobra, pele de tigre, coleção de borboletas e sobretudo a caça ao hocco vivo, o pássaro que nós comemos. Ele os vende a 200 ou 250 francos. Eu me ofereço para pagar, ele recusa, indignado. Conta-nos o seguinte:

— Esse pássaro selvagem é um galo do mato. Claro que ele nunca viu nem galinha, nem galo, nem homens. Bom, eu apanho um, levo até a aldeia e o vendo logo para alguém que tenha um galinheiro, porque ele é muito procurado. Bom. Sem cortar as asas, sem fazer nada, você o coloca à tardinha, no princípio da noite, dentro do gali­nheiro e de manhã, quando a gente abre a porta, ele fica plantado na frente e parece que conta as galinhas e os galos que vão saindo. Ele os segue e, comendo com eles, olha com os olhos bem abertos para todos os lados, para baixo, para cima, nos arbustos em volta. É um cão de guarda sem igual. De noite, fica na porta e não se entende como sabe quando falta uma galinha ou duas, mas sabe, e vai procurá-las. E, galo ou galinha, ele os bota para dentro a grandes golpes de bico, para ensiná-los a chegar na hora. Mata ratos, cobras, aranhas, musaranhos, centopeias e, assim que uma ave de rapina aparece no céu, manda todo mundo se esconder no meio do capim, enquanto ele a enfrenta. Nunca mais sai do galinheiro. Esse pássaro extraordinário, nós o comemos como um galo vulgar. O bretão mascarado diz que Jesus, Enflé e mais uns trinta libertos estão na cadeia, no posto de polícia de Saint-Laurent, onde iam olhar os libertos para ver se reconheciam alguém que rondava em volta do prédio de onde nós saímos. O árabe está na masmorra do posto, incomunicável, acusado de cumplicidade. As duas pancadas que levou não provocaram ferimento algum, enquanto os guardas têm um ligeiro inchaço na cabeça. “Eu não fui incomodado porque todo mundo sabe que nunca me preocupei em preparar uma fuga.” Diz que Jesus é um grandessíssimo porco. Quando falo do barco, ele quer vê-lo. Depois de examiná-lo, exclama:

— Mas ele ia matar vocês, esse cara! Nunca essa canoa agüentaria mais de uma hora no mar. Com a primeira onda um pouco forte, quando bater o fundo na água, vai se partir em dois. Jamais embar­quem nisso aí, é um suicídio.

— E então, o que é que vamos fazer?

— Você tem um pouco de grana?

— Tenho.

— Vou-lhe dizer o que é que você deve fazer, e mais do que isso, vou ajudar você, você merece. Vou ajudar você e seus amigos a saírem dessa e não quero nada.

“Não devem chegar perto da aldeia de jeito nenhum. Para arranjar uma boa embarcação, precisam ir até a Ilha dos Pombos. Nessa ilha se encontram uns duzentos leprosos. Não existem guardas e nenhuma pessoa sadia vai até lá, nem o médico. Todos” os dias, uma barca leva os mantimentos para 24 horas, crus. O enfermeiro do hospital manda uma caixa de medicamentos aos dois enfermeiros, também leprosos, que tomam conta dos doentes. Ninguém, nem guarda, nem caçadores de homens, nem padre, desce na ilha. Os leprosos vivem numas palhoças pequenininhas construídas por eles mesmos. Têm um salão onde se reúnem. Criam galinhas e patos que servem para melhorar o trivial. Oficialmente, não podem vender nada fora da ilha, mas traficam clandestinamente com Saint-Laurent, Saint-Jean e os chineses de Albina, na Guiana Holandesa. São todos assassinos perigosos. Raramente se matam entre si, mas praticam inúmeras malvadezas quando saem clandestinamente da ilha, aonde voltam para não serem presos pelos crimes cometidos. Para essas excursões têm al­guns barcos, roubados na aldeia vizinha. O crime maior é ter um bar­co. Os guardas atiram em todo barco que entra ou sai da Ilha dos Pombos. Os leprosos afundam seus barcos, enchendo-os de pedras: quando precisam de uma embarcação, mergulham para tirar as pedras e a barca vem à tona. Tem de tudo na ilha, de todas as raças e de todas as regiões da França. Conclusão: sua canoa só serve dentro do Maroni e, ainda assim, pouco carregada. Para entrar no mar, precisa encontrar outro barco, e o melhor é ir até a Ilha dos Pombos.

— Como é que a gente faz?

— Olhe. Eu vou acompanhar você pelo rio até avistar a ilha. Você não a encontraria ou poderia errar. Ela fica a mais ou menos 150 quilômetros da embocadura; é preciso, então, voltar para trás. Essa ilha fica longe de Saint-Laurent, a mais de 50 quilômetros. Vou deixá-lo o mais próximo possível; depois, passo para a minha canoa, que vamos rebocar, e você se vira na ilha.

— Por que é que você não vem até a ilha com a gente?

— Barbaridade — diz o bretão —, só botei o pé um dia no pontão onde oficialmente atraca o barco da administração. Era dia claro e, portanto, o que vi foi bastante para mim. Desculpe, Papi, mas nunca mais na minha vida vou botar os pés naquela ilha. Inclusive, seria incapaz de vencer minha repulsão perto deles, falando e tra­tando com eles. Eu seria mais prejudicial do que útil.

— Quando vamos partir?

— À noitinha.

— Que horas são, bretão?

— Três horas.

— Bom, vou dormir um pouco.

— Não, você precisa carregar tudo e arrumar na canoa.

— Não, eu vou com a canoa vazia e volto para procurar Clousiot, que vai ficar aqui para vigiar as coisas.

— Impossível, você nunca poderá encontrar o lugar, mesmo em pleno dia. E, de dia, de maneira nenhuma você deve ficar no rio. A caça contra vocês não acabou. O rio ainda é muito perigoso.

Chega a noite. Ele vai buscar sua canoa, que amarramos atrás da nossa. Clousiot fica perto do bretão, manejando a pá do leme, Maturette no meio, eu na frente. Saímos com dificuldade da enseada e, quando desembocamos no rio, a noite vai caindo. Um sol imenso, de um vermelho pardacenta, incendeia o horizonte no mar. Mil fagulhas, como as de um enorme fogo de artifício, lutam entre si para serem as mais intensas, as mais vermelhas entre as vermelhas, as mais amarelas entre as amarelas, as mais matizadas nas partes onde as cores se misturam. Vemos claramente, a 20 quilômetros na nossa frente, o estuário desse rio majestoso que se precipita todo cintilante de lantejoulas rosadas dentro do mar. O bretão diz:

— É o fim da vazante. Dentro de uma hora teremos a maré mon­tante; vamos aproveitá-la para subir o Maroni e assim, sem esforço, empurrados por ela, iremos bem rápido até a ilha.

A noite cai de repente.

— Para frente — diz o bretão. — Vamos remar com força, para pegar o meio do rio. Não fumem mais.

As pás dos remos entram na água e nós voamos, cortando a cor­renteza rapidamente, chuá, chuá, chuá. Bem cadenciados, eu e o bretão puxamos sincronizadamente os remos. Maturette faz o que pode. Quanto mais avançamos para o meio do rio, mais sentimos que a maré nos empurra. Deslizamos rapidamente, percebe-se a mudança a cada meia hora. A maré aumenta de força e nos arrasta sempre mais depressa. Depois de seis horas, estamos bastante perto da ilha. Vamos direto para cima: uma grande mancha, quase no meio do rio, levemente para a direita. “É lá”, diz em voz baixa o bretão. A noite não está muito negra, mas deve ser difícil nos enxergarem de longe, por causa da neblina na superfície do rio. Vamos chegando. Quando distinguimos melhor a silhueta das rochas, o bretão passa para a sua canoa, desamarra-a rapidamente da nossa e diz sim­plesmente, em voz baixa:

— Boa sorte, amigos!

— Obrigado.

— Não tem de quê.

O barco, não mais dirigido pelo bretão, é empurrado na direção da ilha, mas vai atravessado. Tento endireitá-lo, fazer meia volta, mas sou mal sucedido e, levados pela corrente, entramos até três quartos da vegetação que invade a água. Chegamos com tanta velo­cidade que, mesmo freando com meu remo, se tivéssemos encontrado uma rocha, em vez de galhos e folhas de árvores, teríamos quebrado a canoa; então estaria tudo perdido, mantimentos, material, etc. Maturette pula dentro da água e puxa a canoa. Estamos debaixo de um enorme tufo de plantas. Ele puxa mais um pouco e amarramos nele a canoa. Tomamos um gole de rum e eu desço sozinho para a margem, deixando meus dois amigos no barco.

Com a bússola na mão, vou andando, depois de partir vários ga­lhos e prender em diferentes lugares tiras de sacos de farinha que preparei antes de partir. Vejo um clarão e escuto de repente vozes, vindas de três palhoças. Aproximo-me e, como não sei de que forma me apresentar, decido deixar que me descubram. Acendo um cigarro. No instante em que a luz brilha, um cachorrinho precipita-se em minha direção latindo e dá pulos para morder minhas pernas. “Será que o cachorro é leproso?”, penso. “Idiota, os cachorros não têm lepra.”

— Quem está aí? Quem é? É você, Marcel?

— É um foragido.

— O que é que você vem fazer aqui? Roubar a gente? Acha que temos alguma coisa pra ser roubada?

— Não, preciso de ajuda.

— Grátis ou paga?

— Cale a boca, Chouette!

Quatro sombras saem das palhoças.

— Venha devagar, amigo, aposto que é você o sujeito do fuzil. Se está com ele, ponha-o no chão; aqui, você não tem nada a temer.

— Sou eu, mas o fuzil não está comigo.

Vou para a frente, estou perto deles, é noite e não posso distin­guir os traços. Bestamente estendo a mão, ninguém toca nela. Com­preendo tarde demais que é um gesto que aqui não se faz: eles não me querem contaminar.

— Vamos para a cabana — diz Chouette.

A palhoça é iluminada por um lampião a óleo colocado em cima da mesa.

— Sente-se.

Sento-me numa cadeira de palha, sem encosto, Chouette acende três outros lampiões a óleo e coloca um sobre a mesa, bem à minha frente. A fumaça que solta o pavio deste lampião de óleo de coco tem um cheiro enjoativo. Estou sentado, eles cinco de pé, não enxer­go seus rostos. A luz ilumina o meu porque estou bem na altura do lampião, como eles queriam. A voz que mandou Chouette calar a boca diz:

— Anguille, vá perguntar à casa comum se querem que a gente o leve para lá. Traga logo a resposta e pergunte se Toussaint está de acordo. Aqui não lhe podemos oferecer nada para beber, meu amigo, a não ser que você queira chupar uns ovos.

Coloca na minha frente um cesto trançado cheio de ovos.

— Não, obrigado.

À minha direita, bem perto de mim, um deles se senta e é então que vejo o primeiro rosto de um leproso. É horrível e faço um esforço enorme para não virar a cara nem exteriorizar minha impres­são. O nariz está completamente corroído, osso e carne, um buraco bem rente no meio do rosto. Tenho certeza: não são dois buracos, mas um só, grande como uma moeda de 2 francos. O lábio inferior, à direita, está comido e deixa aparecerem, descarnados, três dentes muito compridos e amarelos que se encravam no osso do maxilar superior a nu. Só tem uma orelha. Coloca a mão em cima da mesa, enrolada num curativo. É a direita. Com os dois dedos que restam na mão esquerda, segura um charuto grosso e comprido, feito na certa Por ele mesmo, com folha de fumo meio maduro, porque o charuto está esverdeado. Só tem pálpebras no olho esquerdo; no direito, não. Uma ferida profunda sai do olho para o alto da testa, perdendo-se nos cabelos grisalhos abundantes.

Com uma voz muito rouca, ele me diz:

— Vamos ajudar você, amigo; você levaria muito tempo para ficar como eu, e não quero isso.

— Obrigado.

— Meu nome é Jean Sans Peur, sou dos subúrbios de Paris. Eu era mais bonito, mais sadio e mais forte do que você, quando cheguei à colônia. Em dez anos, olhe aqui o que eu fiquei.

— Não cuidam de você?

— Cuidam. Melhoro depois que tomo umas injeções de óleo de choumogra. Olhe.

Vira a cabeça e me apresenta o lado esquerdo:

— Secou desse lado.

Uma imensa piedade me invade e faço um gesto para tocar sua face esquerda, como demonstração de amizade. Ele se joga para trás e me diz:

— Obrigado por querer me tocar, mas nunca toque um doente, nem coma, nem beba na sua tigela.

Só pude ver o rosto de um dos leprosos: aquele que teve a coragem de suportar que eu o olhasse.

— Onde está o cara?

Na porta, uma sombra de um homenzinho do tamanho de um anão:

— Toussaint e os outros querem vê-lo. Leve-o para o centro. Jean Sans Peur levanta e me diz: “Siga-me”. Saímos todos na noite, quatro ou cinco na frente, eu ao lado de Jean Sans Peur, outros atrás. Quando chegamos, depois de três minutos, em cima de uma esplanada, um pouco de lua ilumina o lugar. É o topo plano da ilha. No meio, uma casa. Sai luz de duas janelas. Na frente da porta, uns vinte homens esperam a gente, vamos na direção deles. Quando chegamos diante da porta, eles se afastam para dar passa­gem. É uma sala retangular de 10 metros de comprimento por apro­ximadamente 4 de largura, com uma espécie de fogão onde queima lenha, cercado por quatro enormes pedras, todas da mesma altura. A sala está iluminada por dois grandes lampiões a petróleo. Sentado num banquinho, um homem sem idade, branco de rosto. Atrás dele, num banco, cinco ou seis homens. Ele tem olhos negros e me diz:

— Sou Toussaint, o corso, e você deve ser Papillon.

— Sou.

— As notícias correm rapidamente na colônia, tão rapidamente quanto você. Onde você botou o fuzil?

— Jogamos no rio.

— Em que lugar?

— Em frente ao muro do hospital, exatamente onde pulamos.

— Então, será que pode ser recuperado?

— Acho que sim, porque a água não é funda naquele lugar.

— Como é que você sabe?

— Tivemos que entrar na água para carregar meu amigo ferido e colocá-lo dentro da canoa.

— O que ele tem?

— Uma perna quebrada.

— O que você fez com ele?

— Coloquei em volta da perna uns galhos quebrados pela metade e fiz uma espécie de tala.

— Ele está sentindo dor?

— Está.

— Onde ficou?

— Na canoa.

— Você disse que veio procurar ajuda. Que tipo de ajuda?

— Um barco.

— Você quer que a gente dê um barco para você?

— Quero, tenho dinheiro para pagar.

— Bom. Vou-lhe vender o meu, é formidável e novo em folha, roubei na semana passada, em Albina. Não é um barco, é um tran­satlântico. Só falta uma coisa, uma quilha. Não está quilhado, mas, em duas horas, a gente vai colocar uma boa quilha. Tem tudo que precisa: um leme com a cana completa, um mastro de 4 metros de madeira de lei e uma vela novinha de tela de linho. Quanto é que você oferece?

— Diga seu preço, eu não sei quanto valem essas coisas.

— Três mil francos, se você puder pagar; se não puder, vá buscar o fuzil amanhã à noite e, em troca, eu dou o barco.

— Não, eu prefiro pagar.

— Está certo, negócio feito. La Puce, dá café.

La Puce, o quase anão que me foi buscar, vai até uma prateleira presa na parede em cima do fogo, pega uma tigela brilhante de nova e de limpeza, despeja nela o café de uma garrafa e a coloca no fogo. Um minuto depois retira a tigela e despeja um pouco de café numas canecas, que estão perto das pedras. Toussaint se debruça e passa as canecas para os homens atrás dele. La Puce estende a tigela para mim e diz:

— Beba sem medo, porque esta tigela é só para as visitas. Nenhum doente bebe nela.

Pego a tigela e bebo; depois coloco-a em cima do joelho. Nesse momento, percebo que colado na tigela tem um dedo. Enquanto o observo, La Puce diz:

— Olhe, perdi outro dedo! Onde será que caiu?

— Está aí — digo, mostrando para ele a tigela. Ele desgruda O dedo e joga-o no fogo; devolve a tigela e diz:

— Pode beber, eu tenho a lepra seca. Vou acabando aos pedaços, mas não apodreço, não sou contagioso.

Um cheiro de carne grelhada chega até mim. Raciocino comigo mesmo: “Isso deve ser aquele dedo”. Toussaint diz:

— Vai ter que passar o dia todo aqui, até a noite, quando vier a vazante. Você precisa avisar seus amigos. Traga o ferido para dentro de uma palhoça, tirem tudo o que tiver dentro da canoa e deixe que vá. Nenhum de nós pode ajudá-los, você compreende por quê.

Rapidamente vou até os outros dois, pegamos Clousiot e depois o levamos até uma palhoça. Uma hora depois, já tiramos tudo e o material da canoa está cuidadosamente arrumado. La Puce pede que lhe dê de presente a canoa com um remo. Dou e ele vai levá-la até um lugar que conhece. A noite passou depressa. Estamos os três dentro da palhoça, deitados em cima de cobertas novas que Toussaint mandou. Chegaram embrulhadas num papel forte de embalagem. Esticado em cima dessas cobertas, conto a Clousiot e a Maturette os detalhes daquilo que se passou depois da minha chegada na ilha e do negócio concluído com Toussaint. Clousiot fala uma coisa besta, sem refletir:

— A fuga custa então 6 500 francos. Vou dar a metade, Papillon, isto é, os 3 000 francos que tenho.

— Não estamos aqui para fazer contas de mascate. Enquanto tiver dinheiro, eu pago. Depois, a gente vê.

Nenhum leproso entra na palhoça. Amanhece, Toussaint chega:

— Bom dia. Podem sair sossegados. Aqui, ninguém vem incomo­dar. Em cima de um coqueiro, no alto da ilha, tem um sujeito para ver se há embarcações de guardas no rio. Não se vê nada. Enquanto o trapo branco ficar agitando é porque não tem nada à vista. Se ele vê alguma coisa, desce para dizer. Podem pegar uns mamões e comer, se quiserem.

— Toussaint, e a quilha? — digo eu.

— Vamos fazer a quilha com uma tábua da porta da enfermaria. É madeira pesada. Com duas tábuas, podemos fazer a quilha. Já carregamos o barco até o alto, aproveitando a noite. Venha ver.

Vamos. É um barco magnífico de 5 metros de comprimento, novo em folha, dois assentos, um deles furado para deixar passar o mastro. É pesado e eu e Maturette custamos para virá-lo. A vela e as cordas são novas. Do lado, estão pregados umas argolas, para amarrar a carga e o tonel da água. Começamos a trabalhar. Ao meio-dia, uma quilha, que se vai alinhando da parte traseira até a frente, é solidamente fixada com porcas largas e os quatro parafusos que eu tinha.

Em círculo, à volta da gente, os leprosos nos olham trabalhar sem dizer uma palavra. Toussaint diz como se deve fazer e nós obedece­mos. Nenhuma chaga existe no rosto de Toussaint, que parece nor­mal; mas, quando ele fala, percebe-se que só um lado do rosto se mexe, o esquerdo. Ele me falou que também sofre de lepra seca. Seu peito e seu braço direito estão igualmente paralisados e ele sabe que daqui a pouco a perna direita vai ficar paralisada. O olho direito é fixo como um olho de vidro, enxerga mas não se mexe. Não dou aqui o nome de nenhum dos leprosos. Talvez nunca aqueles que os amaram ou conheceram cheguem a saber de que maneira horrível eles ficaram se decompondo ainda vivos.

Sempre trabalhando, converso com Toussaint. Ninguém mais fala. Só uma vez, quando ia buscar algumas dobradiças que eles tinham arrancado de um móvel da enfermaria para reforçar o assentamento da quilha, um deles disse:

— Não pegue nelas ainda, deixe onde estão. Eu me cortei arran­cando uma e tem sangue; o sangue ficou, por mais que eu tenha enxugado.

Um leproso derramou um pouco de rum em cima e botou fogo duas vezes.

— Agora — disse o homem —, você pode usá-las.

Enquanto trabalhamos, Toussaint diz a um leproso:

— Você, que fugiu muitas vezes, explique bem a Papillon como é que precisa fazer, porque nenhum dos três tem experiência.

Imediatamente ele explica:

— Daqui a pouquinho vai anoitecer e virá o refluxo. A maré vazante começa às 3 horas. Assim que escurecer, lá pelas 6 horas, você tem pela frente uma correnteza muito forte que vai levar você em menos de três horas a uns 100 quilômetros da embocadura. Quando você tiver que parar, serão 9 horas. Vai ter que esperar, bem amarrado a uma árvore da floresta, as seis horas da montante, até as 3 da manhã. Não saia a essa hora, porque a correnteza não cessa logo. Siga pelo meio do rio, às 4 e meia da manhã. Você tem uma hora e meia antes do amanhecer para fazer 50 quilômetros. Essa hora e meia é toda a chance que você tem. Às 6 horas, ao amanhecer, você precisa entrar no mar. Mesmo que os guardas vejam você, não podem persegui-lo, porque chegariam na barra da embocadura justo quando começa a montante. Eles não vão poder passar e você já terá passado a barra. Desse quilômetro de vantagem que você precisará ter quando eles o enxergarem é que vai depender sua vida. Aqui só há uma vela, o que é que você tinha na canoa?

— Uma vela e um cutelo.

— Este barco é pesado, pode agüentar dois cutelos: um a traquete, da ponta do barco à parte de baixo do mastro; o outro enfunado, saindo para fora da ponta da embarcação, para poder levantar bem a proa. Solte todas as velas, direto em cima das ondas do mar, que está sempre agitado no estuário. Mande seus amigos se deitarem no fundo do barco, para dar maior estabilidade, e segure firme o leme na mão. Não amarre a corda que segura a vela na sua perna, enfie-a na argola que existe para isso dentro do barco e prenda-a no seu pulso com uma volta só. Quando notar que a torça do vento está formando um vagalhão e você poderá cair na água, com risco de virar, solte tudo e imediatamente verá que seu barco vai readquirir equilíbrio. Se acontecer isso, não pare, deixe a vela esvoaçar e vá sempre para a frente a todo pano, com o traquete e o cutelo. Só em alto-mar você vai ter tempo de descer a vela pelo pequeno, trazê-la a bordo e partir de novo, depois de tornar a colocá-la. Você conhece a rota?

— Não. Sei somente que a Venezuela e a Colômbia ficam a no­roeste.

— É isso, mas cuidado para não se deixar atirar na costa. A Guiana Holandesa, em frente, devolve os fugitivos; a Guiana Inglesa também. Trinidad não devolve, mas obriga-os a ir embora depois de quinze dias. A Venezuela devolve, depois de obrigar a gente a tra­balhar nas estradas por um ano ou dois.

Escuto com os ouvidos bem atentos. Ele diz que foge de tempos em tempos, mas, como é leproso, é mandado de volta imediatamente. Confessa que nunca foi mais longe do que a Guiana Inglesa, Georgetown. Só tem lepra visível nos pés, onde todos os dedos desapare­ceram. Está descalço. Toussaint pede para eu repetir todos os conse­lhos que acabaram de me dar e eu repito sem me enganar. Nessa hora, Jean Sans Peur diz:

— Quanto tempo ele vai levar em alto-mar?

Respondo logo, antes de qualquer outra pessoa:

— Vou fazer três dias nor-nordeste. Com a deriva, norte-norte e no quarto dia vou tocar para noroeste, que vai dar oeste pleno.

— Ótimo — diz o leproso. — Eu, a última vez, só fiz dois dias para nordeste; assim, fui cair na Guiana Inglesa. Com três dias para norte, você vai passar ao norte de Trinidad ou de Barbados, e de uma vez só você passará a Venezuela sem perceber; vai dar em cima de Curaçau ou na Colômbia.

Jean Sans Peur diz:

— Toussaint, por quanto você vendeu o barco?

— Três mil — diz Toussaint. — É caro?

— Não, não estou falando por causa disso. Para saber, só. Você pode pagar, Papillon?

— Posso.

— Vai sobrar algum dinheiro para vocês?

— Não, é tudo o que temos, exatamente 3 000, que são do meu amigo Clousiot.

— Toussaint, dou meu revólver para você — diz Jean Sans Peur.

— Vou ajudar esses caras. Por quanto você fica com o revólver?

— Mil francos — diz Toussaint. — Eu também quero ajudá-los.

— Obrigado por tudo — diz Maturette a- Jean Sans Peur.

— Obrigado — diz Clousiot.

Eu nessa hora fico com muita vergonha por ter mentido a eles e digo:

— Não, não posso aceitar isso de você, não há razão nenhuma.

Ele olha para mim e diz:

— Há, há uma razão. Três mil francos é muito dinheiro e, no entanto, por esse preço, Toussaint perde pelo menos 2 000 porque é um barco excelente que ele dá para vocês. Não há razão para que eu não faça alguma coisa também para vocês.

Acontece então uma coisa emocionante: Chouette coloca no chão um chapéu e os leprosos vão jogando dentro dele notas ou moedas. Aparecem leprosos de todas as partes e todos põem alguma coisa. Fico cheio de vergonha. E, no entanto, não posso dizer que ainda tenho dinheiro. Que fazer, meu Deus, é uma infâmia que estou come­tendo contra tanta nobreza: “Por favor, não façam esse sacrifício!” Um negro do Sudão, completamente mutilado — tem dois cotos no lugar das mãos, e nem um dedo —, diz:

— O dinheiro não serve para a gente viver. Pode aceitar sem se envergonhar. O dinheiro só serve para a gente jogar ou trepar com as leprosas que vêm de vez em quando de Albina.

Estas palavras me consolam e me impedem de confessar que tenho mais dinheiro.

Os leprosos cozinharam duzentos ovos. Eles os trazem dentro de uma caixa marcada com uma cruz vermelha. É o caixote que rece­beram pela manhã, com os remédios do dia. Trazem também duas tartarugas vivas de pelo menos 30 quilos cada uma, fumo em folhas, duas garrafas cheias de fósforos e de lixas, um saco de pelo menos 50 quilos de arroz, dois sacos de carvão de lenha, um fogareiro, o da enfermaria, e um botijão de querosene. Toda essa miserável comu­nidade comove-se com nosso caso e querem todos contribuir para o nosso bom êxito. Parece que são eles que vão fugir. Puxamos a barca para perto do lugar onde chegamos. Contaram o dinheiro do chapéu: 810 francos. Tenho que dar só 1 200 francos a Toussaint. Clousiot me dá o seu canudo, eu o abro na frente de todo mundo. Contém uma nota de 1 000 e quatro notas de 500 francos. Dou a Toussaint 1 500 francos, ele me devolve 300 e depois diz:

— Tome, pegue o revólver, dou de presente. Você jogou tudo por tudo, não quero que na última hora falte uma arma, esta serve. Espero que você não vá precisar dela.

Não sei como agradecer, antes de tudo a ele e depois a todos os outros. O enfermeiro preparou uma caixinha com algodão, álcool, aspirina, ataduras, iodo, uma tesoura e esparadrapo. Um leproso traz umas ripas bem aplainadas e finas e duas ataduras Velpeau dentro de uma embalagem nova em folha. Ele as oferece, para que eu troque as ripas de Clousiot.

Lá pelas 5 horas começa a chover. Jean Sans Peur diz:

— Vocês têm todas as chances. Não há perigo de vocês serem vistos, podem partir imediatamente e ganhar uma boa meia hora. Assim, vocês vão estar mais perto da embocadura para sair às 4 e meia da manhã.

— Como é que vou saber a hora? — digo-lhe.

— A maré vai-lhe dizer quando sobe e quando desce.

Colocamos o barco na água. Não é como a canoa. Fica para cima da água mais de 40 centímetros, carregado com todo o material e nós três. O mastro, com a vela enrolada, está deitado porque só vamos colocá-lo na saída. Colocamos o leme com seu varão de segu­rança e a cana, mais uma almofada de cipós para eu sentar. Com as cobertas, arranjamos um canto no fundo do barco para Clousiot, que não quis trocar o curativo. Ele está junto aos meus pés, entre mim e o tonel de água. Maturette fica no fundo, mais para a frente. Tenho imediatamente uma impressão de segurança que nunca tive com a canoa.

Chove sempre, eu tenho que descer o rio pelo centro, mas um pouco à esquerda do lado da costa holandesa. Jean Sans Peur diz:

— Adeus, desapareçam logo!

— Boa sorte! — diz Toussaint e dá um empurrão no barco com o pé.

— Obrigado, Toussaint, obrigado, Jean, mil vezes obrigado a todos!

E nós desaparecemos logo, levados pelo refluxo que já começou há duas horas e meia, navegando com uma rapidez incrível.

Continua chovendo, não enxergamos 2 metros à nossa frente. Como há duas pequenas ilhas mais para baixo, Maturette se debruça para a frente, os olhos fixos adiante, para não irmos em cima das pedras. Anoiteceu. Uma árvore enorme que desce o rio conosco, felizmente mais lentamente, nos atrapalha um instante com seus galhos. Livramo-nos rapidamente e continuamos, a 30 por hora pelo menos. Fumamos, tomamos rum. Os leprosos nos deram seis garra­fas de chianti com guarnição de palha, cheias de rum. Coisa gozada, nenhum de nós fala das feridas horrorosas que vimos nos leprosos. O único assunto da conversa: a bondade, a generosidade, a honesti­dade deles, nossa sorte de ter encontrado o bretão mascarado que nos conduziu até a Ilha dos Pombos. Chove cada vez mais forte, estou ensopado até a alma, mas as malhas de lã são tão boas, que, mesmo ensopadas, esquentam. Não estamos com frio. Só a mão que maneja o leme se endurece debaixo da chuva.

— Agora — diz Maturette — estamos descendo a mais de 40 por hora. Há quanto tempo você acha que a gente saiu?

— Vou-lhe dizer — diz Clousiot. — Espere um pouco: três horas e quinze minutos.

— Está louco? Como é que você sabe?

— Depois da saída contei trezentos segundos e a cada vez cortei um pedaço de papelão. Tenho 39 pedaços. A cinco minutos cada um são a três horas e um quarto que estamos descendo. Se não estiver enganado, daqui quinze a vinte minutos não vamos mais descer, vamos voltar para onde viemos.

Puxo o leme à direita, para pegar o rio em diagonal, e me aproxi­mar da margem, do lado da Guiana Holandesa. Antes de a gente chocar com a vegetação, a correnteza pára. Não descemos mais, nem subimos. Chove sempre. Não fumamos mais, não falamos mais, mur­muramos: “Pegue o remo e puxe para cima”. Eu mesmo remo, pren­dendo o leme embaixo da minha coxa direita. Suavemente encostamos na vegetação, puxamos os galhos e nos abrigamos debaixo deles. Estamos sob a sombra formada pela vegetação. O rio está cinzento, cheio de neblina. Seria impossível dizer, sem se basear no fluxo e refluxo, onde está o mar e onde está o rio.

 

                                 A GRANDE PARTIDA

A maré montante vai durar seis horas. Além delas, durante mais uma hora e meia temos que esperar o refluxo. Posso dormir sete horas, portanto, apesar de estar excitadíssimo. Preciso dormir, porque, depois de entrarmos no mar, quando vou poder? Estico-me entre o tonel e o mastro, Maturette coloca uma coberta como abrigo entre o banco e o tonel; bem protegido, durmo, durmo. Absolutamente nada vem perturbar meu sono de chumbo, nem sonhos, nem chuva, nem má posição. Durmo, durmo, até o momento em que Maturette me acorda:

— Papi, achamos que está na hora, ou quase. O refluxo começou faz tempo.

O barco está seguindo para o mar e a correnteza embaixo dos meus pés corre depressa, depressa. Não chove mais, um quarto de lua permite enxergar claramente o rio 100 metros adiante, que arrasta capim, árvores, formas negras. Procuro ver a divisão entre o rio e o mar. Onde nós estamos não tem vento. Será que tem no meio do rio? É forte? Saímos de baixo dos arbustos, o barco sempre preso a uma raiz grande com um nó corredio. É olhando para o céu que descubro a costa, o fim do rio, o começo do mar. Descemos muito mais do que pensávamos e tenho a impressão de que não estamos a 10 quilômetros da embocadura. Tomamos um bom gole de rum. Pergunto: “Colocamos o mastro agora?” Colocamos. Endireitamos o mastro e ele fica bem encaixado no seu soquete, no buraco do banco. Iço a vela sem soltá-la, ela fica enrolada em volta do mastro. O traquete e o cutelo vão ser imediatamente içados por Maturette quando eu achar necessário. Para fazer funcionar a vela, basta soltar a corda que a mantém colada ao mastro; e eu, do meu lugar farei a manobra. Na frente, Maturette com um remo, eu atrás com outro. A gente precisa se afastar com um impulso muito forte e muito rápido da margem para onde a correnteza nos empurra.

— Atenção. Para a frente, com a graça de Deus!

— Com a graça de Deus — repete Clousiot.

— Em tuas mãos eu me entrego — diz Maturette.

E arrancamos. Ao mesmo tempo, puxamos a água com os remos; eu afundo bastante e puxo, Maturette também. Afastamo-nos facil­mente. Não estamos nem 20 metros da margem e já descemos 100 com a correnteza. De repente, o vento se faz sentir e nos carrega para o meio do rio.

— Ice o traquete e o cutelo, bem amarrados os dois!

O vento os enche, o barco empina como um cavalo e voa como uma flecha. Deve ser mais tarde que a hora combinada porque, de uma hora para outra, o rio se ilumina como em pleno dia. Distinguem-se facilmente, a uns 2 quilômetros, a costa francesa à nossa direita, e a 1 quilômetro, à esquerda, a costa holandesa. Na nossa frente, bem visíveis, os carneiros brancos da crista das ondas.

— Diabo! Erramos a hora — diz Clousiot. — Você acha que vai dar tempo de a gente sair?

— Não sei.

— Olhe como as ondas do mar são altas e as cristas brancas! Será que o refluxo já começou?

— Impossível, vejo coisas descendo.

Maturette diz:

— Não vamos conseguir sair, não vamos chegar a tempo.

— Cale a boca e fique sentado do lado das cordas do cutelo e do traquete. Você também, Clousiot, cala a boca!

Pan-inh... Pan-inh... Tiros de carabina são disparados contra a gente. O segundo, localizei claramente. Não são dos guardas, vêm da Guiana Holandesa. Iço a vela, que incha com tanta força, que por pouco não me arrasta, puxando-me pelo pulso. O barco está incli­nado a mais de 45 graus. Pego vento o mais possível, não é difícil, tem vento demais. Pan-inh, pan-inh, pan-inh, depois mais nada. So­mos carregados mais para o lado francês que para o holandês, certa­mente por isso que os tiros pararam.

Navegamos a uma velocidade vertiginosa, com um vento desen­freado. Vamos tão depressa, que me vejo lançado no meio do estuá­rio, de tal forma que em poucos minutos vou tocar a margem fran­cesa. Enxergam-se claramente uns homens correndo em direção à margem. Viro suavemente de bordo, o mais suavemente possível, pu­xando com todas as minhas forças a corda da vela. Ela está reta à minha frente, o cutelo mudou sozinho de bordo e o traquete tam­bém. O barco vira de três quartos, solto a vela e saímos do estuário com todo o vento por trás. Ufa! aí está! Dez minutos depois, a primeira onda do mar tenta barrar-nos a passagem; passamos facilmente por cima dela e o chua-chuá que o barco fazia no rio transforma-se em tac-i-tac-i-tac. Atravessamos mesmo ondas altas com a facilidade de um garoto que pula barreira. Tac-i-tac, o barco sobe e desce as ondas sem vibrar nem sacudir. Só o tac do casco, que bate no mar, caindo da onda.

— Hurra! Hurra! Saímos — grita Clousiot a plenos pulmões.

E, para iluminar a vitória da nossa energia sobre os elementos, o bom Deus nos manda um nascer do sol deslumbrante. As ondas se sucedem, todas com o mesmo ritmo. Diminuem de altura à medida que penetramos no mar. A água é suja, lamacenta. Na frente, ao norte, ela está negra, mais tarde vai ficar azul. Não preciso olhar mi­nha bússola: com o sol no meu ombro direito, sigo reto, com todo o vento, mas o barco menos inclinado, porque deixei a corda da vela correr e ela se enfunou pela metade, sem ficar completamente esten­dida. Começamos a grande aventura.

Clousiot se levanta. Quer pôr a cabeça e o corpo para fora, a fim de ver melhor. Maturette vai ajudá-lo a se ajeitar, coloca-o sentado na minha frente, as costas apoiadas no tonel; faz um cigarro para mim, acende-o, passa-o e fumamos os três.

— Passe para cá a garrafa, para comemorarmos a partida — diz Clousiot.

Maturette põe um bom gole em três canecas de lata e bebemos. Maturette está sentado ao meu lado, à minha esquerda. Nós nos olhamos: seus rostos estão iluminados de felicidade, o meu deve estar também. Então, Clousiot diz:

— Capitão, aonde o senhor vai, por favor?

— Para a Colômbia, se Deus quiser.

— Deus vai querer, que diabo! — diz Clousiot.

O sol vai subindo rapidamente e não demora a nos secar. A ca­misa do hospital se transforma num capuz à maneira árabe. Mo­lhada, ela refresca a cabeça e evita que soframos uma insolação. O mar está de um azul cor de opala, as ondas são de 3 metros e muito longas, o que ajuda a viajar confortavelmente. O vento se man­tém forte e nos afasta depressa da costa, que, de vez em quando, vejo, esboçada no horizonte. Essa massa verde, quanto mais nos afastamos, mais nos revela os segredos de seu rendilhado. Viro-me para olhar atrás de mim, mas uma onda mal cortada chama-me à obrigação e também à responsabilidade de resguardar a vida dos meus compa­nheiros e a minha.

— Vou cozinhar um pouco de arroz — diz Maturette.

— Eu seguro o fogareiro — diz Clousiot — e você a panela.

O botijão de querosene está colocado bem na frente, para evitar a fumaça. O arroz feito na gordura tem um gosto muito bom. Comemos o arroz bem quente, misturado com duas latas de sardinhas. Em cima disso, um bom café. “Um gole de rum?” Eu recuso, faz muito calor. Além disso, não sou um bebedor. Clousiot, a cada instante, faz cigarros para mim e os acende. A primeira refeição a bordo foi bem. Pela posição do sol, imaginamos que são 10 da manhã. Temos apenas cinco horas de alto-mar, mas percebemos que aqui a água já é muito profunda. As ondas diminuíram de altura e vamos cortando-as sem o barco bater. O dia é maravilhoso. Percebo que durante o dia não preciso da bússola constantemente. De vez em quando, comparo a posição do sol em relação à da agulha e me guio por ele; é facílimo. A reverberação do sol cansa os olhos. Sinto não ter pensado em arranjar uns óculos escuros. De repente, Clousiot diz:

— Que sorte eu tive de encontrar você no hospital.

— Não é só você, eu também tive sorte em que você viesse. Pensa em Dega, em Fernández... se eles tivessem concordado, esta­riam aqui conosco.

— Quem sabe? — diz Clousiot. — Você poderia ter complicações para conseguir que o árabe viesse na hora exata à enfermaria.

— É, Maturette foi muito útil e eu me felicito por tê-lo trazido, porque ele é muito dedicado, corajoso e esperto.

— Obrigado — diz Maturette — e obrigado a vocês dois por te­rem confiança em mim, apesar da minha pouca idade e daquilo que eu sou. Vou fazer de tudo para estar sempre à altura.

Depois eu digo:

— E François Sierra, gostaria tanto que ele estivesse aqui, e tam­bém Galgani...

— Do jeito que as coisas mudaram, Papillon, não era possível. Se Jesus fosse um homem correto e tivesse arranjado um bom barco, a gente poderia esperar por eles num lugar certo. Jesus os ajudaria a fugir e nós os levaríamos. Enfim, eles conhecem você e sabem que, se você não mandou buscá-los, é porque era impossível.

— A propósito, Maturette, como é que você estava naquela en­fermaria especial, no hospital?

— Eu não sabia que estava internado. Fui ao exame médico por­que estava com dor de garganta e também para passear; e o médico, quando me viu, disse: “Vejo, pela sua ficha, que você está internado nas ilhas. Por quê?” — “Eu não sei, doutor. O que é ‘internado’?” — “Bom, nada. Vá para o hospital.” E eu me encontrei hospitalizado, só isso.

— Queria agradar você — diz Clousiot.

— Não sei por que motivo o doutor fez isso. Deve estar dizendo: “Meu protegido, com sua garganta de menino de coro, não era tão besta assim, pois conseguiu fugir”.

Falamos de bobagens. Digo: “Quem sabe, a gente vai-se encontrar de novo com Julot, o ‘homem do martelo’? Deve estar longe, a não ser que continue escondido na floresta”. Clousiot diz: “Eu, antes de sair, deixei um bilhete debaixo do meu travesseiro: Mudou-se sem deixar endereço”. Explodimos numa gargalhada.

Navegamos cinco dias sem problemas. De dia, o sol, com sua tra­jetória leste-oeste, me serve de bússola. De noite, uso a bússola. No sexto dia, de manhã, um sol brilhante nos saúda, o mar acalmou-se de repente, peixes-voadores passam não muito longe de nós. Estou arrebentado de cansaço. Durante a noite, para me impedir de dormir, Maturette passava no meu rosto um pano molhado de água do mar mas, mesmo assim, eu pegava no sono. Então Clousiot me queimava com seu cigarro. Como está tudo calmo, resolvo dormir. Baixamos a vela e o cutelo, conservamos somente o traquete e eu durmo como uma pedra no fundo do barco, bem protegido contra o sol pela vela que fica estendida por cima de mim. Acordo sacudido por Maturette, que diz:

— É meio-dia ou 1 hora, mas estou acordando você porque o vento está esfriando e no horizonte, do lado de onde vem o vento, ficou tudo preto.

Levanto-me e tomo meu lugar. O cutelo, o único que colocamos, nos faz deslizar sobre o mar sem rugas. Atrás de mim, a leste, está tudo preto, o vento vai esfriando cada vez mais. O traquete e o cutelo são suficientes para puxar o barco rapidamente. Fiz bem em deixar a vela enrolada no mastro.

— Segurem-se firmes, porque o que vem chegando aí é uma tem­pestade.

Gotas grandes começam a cair na gente. A escuridão se aproxima com uma rapidez vertiginosa, em menos de um quarto de hora veio do horizonte até bem perto de nós, Agora, um vento de violência nunca vista nos ataca. As ondas, como por encanto, se formam com rapidez incrível, todas cobertas de espuma; o sol está completamente aniquilado, chove torrencialmente, não se enxerga nada e as ondas, batendo contra o barco, lançam fortes jatos de água em nosso rosto. É tempestade, minha primeira tempestade, com toda a fanfarra da natureza desencadeada, o trovão, os relâmpagos, a chuva, as ondas, os uivos do vento que ruge em cima de nós, em volta de nós.

O barco, carregado como uma palha, sobe e desce a alturas incrí­veis e a abismos tão profundos, que a gente tem a impressão de não poder mais sair deles. No entanto, apesar desses mergulhos fan­tásticos, o barco torna a subir, vence mais uma crista de onda e passa e torna a passar. Seguro a barra do leme com as duas mãos, pensando como enfrentar um vagalhão um pouco mais alto que vem vin­do mas, na hora em que aponto o barco para cortá-lo, faço-o rápi­do demais e deixo entrar grande quantidade de água. O barco todo fica inundado. Deve haver mais de 75 centímetros de água. Nervosa­mente, sem querer, fico enviesado diante de uma onda, o que é ex­tremamente perigoso, e o barco fica tão inclinado, prestes a virar, que devolve uma enorme quantidade da água que tinha entrado.

— Grande! — grita Clousiot. — Você entende um bocado, Papillon! Você foi rápido para esvaziar o barco.

— Pois é, você viu? — digo-lhe.

Se ele soubesse que, pela minha falta de experiência, quase a gente afundava, virando em alto-mar... Desisto de lutar contra o curso das ondas, não me preocupo mais com a direção a seguir, sim­plesmente mantenho o barco em equilíbrio, na medida do possível. Pego as ondas a três quartos, desço voluntariamente ao fundo com elas e subo novamente, junto com o próprio mar. Logo me dou conta de que minha descoberta é importante e que assim eu eliminei noventa por cento do perigo. A chuva pára, o vento sopra sempre com fúria, mas agora posso enxergar bem a frente e atrás de mim. Atrás está claro; na frente, preto, e nós estamos no meio desses dois extremos.

Lá pelas 5 horas, tudo já passou. O sol brilha de novo em cima de nós, o vento é normal, as ondas menos altas; iço a vela e partimos novamente, satisfeitos. Com umas panelas, meus companheiros tiraram a água que restava dentro do barco. Tiramos as cobertas: amarradas ao mastro, com o vento vão secar-se logo. Arroz, farinha, óleo e café duplo, um bom gole de rum. O sol desce, iluminando com todos os seus fogos este mar azul, num quadro inesquecível: o céu está todo vermelho-pardacento; o sol, em parte afundado no mar, projeta longas línguas amarelas, tanto em direção ao céu e a algu­mas nuvens brancas, quanto em direção ao mar; as ondas, subindo, são azuis no fundo, depois verdes, e a crista vermelha, rosa ou ama­relai de acordo com a cor tio raio que a toca.

Uma paz me invade com uma doçura pouco comum e, com a paz, a sensação de que posso ter. confiança em mim. Havia perdido bas­tante dessa confiança e a pequena tempestade foi muito útil para mim. Sozinho, aprendi como manobrar nesses maus momentos. Vou en­frentar a noite com uma serenidade completa.

— Então, Clousiot, você viu aquela manobra para esvaziar o barco?

— Amigo, se você não fizesse isso e se uma outra onda nos apa­nhasse naquela situação, a gente afundava. Você é um campeão.

— Você aprendeu tudo isso na marinha? — pergunta Maturette.

— Aprendi, você vê como servem para alguma coisa as lições da marinha de guerra?

Fomos bastante à deriva. Com um vento e umas ondas como aque­las, quanto a gente não deve ter ido à deriva em quatro horas? Vou dirigir para noroeste e corrigir isso. A noite cai de repente, depois que o sol desaparece no mar, enviando as últimas faíscas, agora de cor violeta, como fogo de artifício.

Durante seis dias. ainda, navegamos sem incidentes, a não ser algumas chuvas fortes que nunca ultrapassam três horas de duração, nem têm a eternidade da primeira tempestade. São 10 horas da manhã. Nenhum sinal de vento, uma calmaria total. Durmo umas quatro horas. Quando acordo, meus lábios ardem. Não têm mais pele, e nem meu nariz. Minha mão direita também está sem pele, em carne viva. Com Maturette se passa a mesma coisa, e também Clousiot. Passamos óleo duas vezes por dia no rosto e nas mãos, mas não basta: o sol dos trópicos o seca logo.

Devem ser 2 horas da tarde, de acordo com o sol. Comemos e depois, como está tudo calmo, tratamos de fazer um pouco de som­bra com a vela. Alguns peixes acompanham o barco à direita, onde Maturette lavou a louça. Pego o facão e digo a Maturette para jogar uns grãos de arroz que, depois de molhados, já começam a fermentar. Os peixes se juntam onde cai o arroz, à tona da água, e, como um deles tem quase toda a cabeça fora, dou-lhe uma bela facada; na mesma hora, ele fica de barriga para cima. É um peixe de uns 10 quilos. Limpamos o bruto e cozinhamos em água e sal. Comemo-lo de noite, com a farinha de mandioca.

Há onze dias que estamos no mar. Vimos só um navio, nesse tempo todo, muito longe no horizonte. Começo a me perguntar: onde esta­mos, que diabo? Em alto-mar, certo, mas em que posição em relação a Trinidad ou a qualquer uma das ilhas inglesas? Quando se fala no diabo... De fato, à frente e em nossa direção surge um ponto preto que vai aumentando pouco a pouco. Será um navio ou uma chalupa de alto-mar? Mas há um engano: não vem em nossa direção. Agora, de lado, distingue-se bem: é um navio. Aproxima-se, é verdade, mas em diagonal, sua rota não vai levá-lo até nós. Como há vento, nossas velas pendem lamentavelmente, o navio certamente não nos viu. De repente, o apito de uma sereia, depois três tiros, em seguida ele muda de rota e vem direto sobre a gente.

— Espero que não se aproxime demais — diz Clousiot.

— Não há perigo, o mar está uma pintura.

É um petroleiro. Quanto mais ele se aproxima, melhor distinguimos as pessoas na ponte. É claro que eles se devem perguntar o que essas pessoas fazem nessa casquinha de noz aqui, em alto-mar. Suave­mente, ele se aproxima de nós, distinguem-se bem agora os oficiais de bordo e outros homens da tripulação, inclusive o cozinheiro; depois vemos chegarem na ponte mulheres com vestidos de cores vivas e homens com camisas coloridas. Percebe-se que são passageiros. Pas­sageiros num petroleiro parece coisa pouco comum. Mansamente, o petroleiro se aproxima e o capitão fala em inglês com a gente:

— Where are you coming from?

— French Guyane.

— Falam francês? — diz uma mulher.

— Sim, senhora.

— O que fazem em alto-mar?

— Vamos aonde Deus nos levar.

A dama fala com o capitão e diz:

— O capitão pede para subirem a bordo, vai içar a barca.

— Diga-lhe que agradecemos mas estamos muito bem na nossa barca.

— Por que não querem ajuda?

— Porque somos foragidos e não vamos na sua direção.

— Aonde é que vocês vão?

— Para a Martinica. Para além da Martinica, aliás. Onde estamos?

— Em alto-mar.

— Qual é a rota para chegar às Antilhas?

— Sabe ler um mapa marítimo com legendas em inglês?

— Sei.

Pouco depois, descem por uma corda um mapa inglês, pacotes de cigarros, pão, um pernil assado.

— Olhe o mapa!

Olho e digo:

— Preciso fazer oeste, um quarto sul, para encontrar as Antilhas inglesas, é isso?

— Sim.

— Quantas milhas aproximadamente?

— Em dois dias, vocês estarão lá — diz o capitão.

— Até logo, obrigado a todos!

— O comandante do navio cumprimenta-os por sua coragem de marinheiros!

— Obrigado, adeus!

E o petroleiro vai embora suavemente, quase raspando na gente. Eu me afasto depressa, com medo dos redemoinhos das hélices; nesse momento, um marinheiro joga para mim um boné de marinheiro. Cai no meio do barco e com esse boné (com um galão dourado e uma âncora) na cabeça, dois dias depois, sem incidentes, chegamos a Trinidad.

 

                               TRINIDAD

Os pássaros, muito antes que os víssemos, nos anunciaram a terra. São 7 horas e meia da manhã quando eles vêm dar voltas em torno da gente. “Chegamos, chefe! Chegamos! Conseguimos a primeira par­te da fuga, a mais difícil. Viva a liberdade!” Cada um de nós exterioriza sua alegria com exclamações infantis. Nosso rosto está coberto de manteiga de cacau que o navio encontrado nos deu de presente, para aliviar as queimaduras. Lá pelas 9 horas vemos terra. Um vento fresco e suave leva a gente a uma boa velocidade, sobre um mar pouco agitado. Somente por volta das 4 horas da tarde é que percebemos os detalhes de uma ilha comprida, cercada por pequenos gru­pos de casas brancas e com o cume coberto de coqueiros. Ainda não se consegue distinguir se é mesmo uma ilha ou a ponta de uma penín­sula, nem saber se as casas são habitadas. Foi necessária mais uma hora ainda, para distinguirmos as pessoas que correm para a praia aonde estamos chegando. Em menos de vinte minutos, uma multidão colorida está reunida. Essa pequena aldeia veio receber-nos à beira do mar. Mais tarde ficamos sabendo que a ilha se chama San Fernando.

A 300 metros da costa jogo a âncora, que se fixa imediatamente. Faço isso porque quero ver a reação dessas pessoas e também para não arrebentar o meu barco quando encostar, se o fundo for de coral. Recolhemos as velas e esperamos. Uma pequena canoa vem em nossa direção. A bordo, dois negros que remam e um branco com um capacete colonial.

— Bem-vindos a Trinidad — diz em francês castiço o branco. Os negros riem com todos os dentes.

— Obrigado, senhor, pelas suas boas palavras. O fundo da praia é de coral ou de areia?

— É de areia, pode chegar sem perigo até a praia.

Levantamos a âncora e as ondas nos empurram mansamente até a praia. Assim que tocamos, dez homens entram dentro da água e, com um puxão só, arrastam o barco para o terreno seco. Olham para a gente, tocam a gente com gestos acariciantes, as mulheres, pre­tas ou índias, ou chinesas, nos convidam com gestos. Todos querem levar-nos a casa deles, é o que explica em francês o branco. Maturette pega um punhado de areia e a leva até a boca, para beijá-la. É um delírio. O branco, com quem já falei do estado de Clousiot, faz que o transportem para sua casa, bem perto da praia. Diz que podemos deixar tudo até amanhã no barco, que ninguém vai mexer em nada. Todos me chamam de “captain”, dou risada com esse apelido. Todos me dizem: “Good captain, long ride on small boat!” (Bom capitão, viagem longa em barco pequeno!)

Desce a noite e, depois de pedir para empurrarem o barco pouco mais longe do mar e amarrá-lo a outro muito maior que está sobre a areia, sigo o inglês até a casa dele. É um bangalô como os que se costuma ver por toda parte, em terra inglesa; alguns degraus de ma­deira, uma porta com tela metálica. Entro atrás do inglês, Maturette me segue. Ao entrar, vejo Clousiot, sentado numa poltrona, com a perna ferida em cima de uma cadeira, se pavoneando entre uma se­nhora e uma jovem.

— Minha esposa e minha filha — diz o senhor. — Tenho um filho que está estudando na Inglaterra.

— Sejam bem-vindos a esta casa — diz a senhora em francês.

— Sentem-se, senhores — diz a jovem, que puxa duas poltronas de vime para a frente.

— Obrigado, senhoras, não se incomodem conosco.

— Por quê? Sabemos de onde vocês vêm, fiquem tranqüilos. Bem-vindos a esta casa!

O homem é advogado, chama-se Dr. Bowen, tem seu escritório na capital, a 40 quilômetros, em Port-of-Spain, capital de Trinidad. Trazem chá com leite, torradas, manteiga, geléia. Foi nossa primeira noite de homens livres, nunca mais vou esquecer. Nem uma palavra sobre o passado, nenhuma pergunta indiscreta, somente há quantos dias estávamos no mar e como foi a viagem; se Clousiot sofria muito e se nós queríamos avisar a polícia amanhã ou esperar mais um dia antes de avisá-la; se tínhamos parentes vivos, mulheres, filhos. Se queríamos escrever para eles, as cartas seriam colocadas no correio. O que quer dizer: uma recepção excepcional, tanto do povo na praia quanto dessa família cheia de atenções incríveis para com três foragidos

O Dr. Bowen consulta pelo telefone um médico, que diz para le­varmos o ferido à sua clínica amanhã de tarde, para ele tirar uma radiografia e ver o que precisa fazer. O Dr. Bowen telefona para Port-of-Spain, ao comandante do Exército da Salvação. Ele diz que vai providenciar para nós um quarto na hospedaria do Exército da Salvação, que poderemos ir quando quisermos, e que devemos dei­xar o barco bem guardado, se for bom, porque vamos precisar dele para ir embora. Pergunta se somos forçados ou exilados: responde­mos que somos forçados. O advogado parece gostar do fato de ser­mos forçados.

— Querem tomar banho e fazer a barba? — pergunta a jovem. — Por favor, não recusem, isso não nos incomoda nem um pouco. No banheiro vão encontrar umas roupas, espero que sirvam.

Vou ao banheiro, tomo um banho, faço a barba e saio bem pentea­do e com uma calça cinzenta, uma camisa branca, sapatos de tênis e meias brancas.

Um índio bate à porta com um pacote debaixo do braço e o dá para Maturette, dizendo que o médico falou que eu era mais ou me­nos do mesmo tamanho do doutor e que não precisava de nada para me vestir, mas que ele, o pequeno Maturette, não conseguiria encon­trar roupas para seu uso porque ninguém na casa do advogado tinha seu tamanho. Faz uma mesura na frente da gente, como os muçulma­nos, e se retira. Diante de tanta bondade, o que dizer? A emoção que enche meu coração é indescritível. Clousiot vai deitar-se primeiro e nós cinco ficamos trocando idéias sobre coisas diferentes. O que mais intrigava as encantadoras senhoras era o que pensávamos fazer para reconstruir nossa existência. Nada do passado, tudo a respeito do presente e do futuro. O Dr. Bowen lastimava que Trinidad não permitisse que os foragidos se instalassem na ilha. Ele explica que, por várias vezes, havia solicitado essa medida para alguns, mas nunca fora aceita.

A jovem fala um francês castiço, como o pai, sem sotaque nem erros de pronúncia. É loira, cheia de pintinhas e deve ter entre de­zessete e vinte anos. prefiro não perguntar sua idade. Ela diz:

— Vocês são muito jovens e a vida espera por vocês; não sei o que fizeram para ser condenados e não quero saber, mas o fato de terem a coragem de se lançar no mar num barco tão pequeno, para fazer uma viagem tão longa e tão perigosa, demonstra que vocês estão dispostos a pagar qualquer preço para serem livres, e isso tem muito mérito.

Dormimos até as 8 da manhã. Ao levantar, encontramos a mesa posta. As duas senhoras falam muito naturalmente que o Dr. Bowen partiu para Port-of-Spain e só vai voltar à tarde com as informações necessárias para agir em nosso favor.

Esse homem que abandona a casa com três forçados foragidos dá uma lição sem igual para nós, querendo dizer: “Vocês são pessoas normais; julguem se tenho ou não confiança em vocês; doze horas depois de conhecer vocês, deixo-os sozinhos na minha casa, com minha esposa e minha filha”. É uma maneira muda de nos dizer tam­bém: “Depois de conversar com vocês três, vi seres perfeitamente dignos de confiança ao ponto de me sentir seguro de que nem por gestos nem por palavras vão se portar mal dentro de minha casa; por isso vou deixá-los no meu lar, como se fossem velhos amigos”. Essa manifestação nos emocionou muito.

Não sou um intelectual para pintar, caro leitor — se um dia esse livro tiver leitores —, com a intensidade necessária, com inspira­ção bastante forte, a emoção, a formidável impressão de respeito por nos mesmos; sentimos que éramos capazes de uma reabilitação, senão de uma nova vida. Esse batismo imaginário, esse banho de pureza, essa elevação do meu ser acima do lodo onde eu estava atolado, essa maneira de me colocar diante de uma responsabilidade real da noite para o dia acabam de fazer de mim um outro homem de uma maneira tão simples, que o complexo do forçado que mesmo livre traz con­sigo seus grilhões e acredita que alguém sempre o vigia, que tudo que vi, passei e suportei, tudo que agüentei, tudo que me levava a ser um homem tarado, podre, perigoso, passivamente obediente por fora e terrivelmente insidioso em sua revolta, tudo isso desapareceu como por encanto. Obrigado, Dr. Bowen, advogado de Sua Majestade, obrigado por ter feito de mim um outro homem em tão pouco tempo!

A loiríssima jovem dos olhos azuis corno o mar está sentada comigo, embaixo dos coqueiros da casa de seu pai. Buganvílias vermelhas, amarelas e malva, todas floridas, dão ao jardim o toque de poesia que é necessário neste instante.

— Senhor Henri (ela diz “Senhor”; há quanto tempo não me chamam de “Senhor”!), como papai disse ontem, uma incompreensão injusta das autoridades inglesas faz com que infelizmente vocês não possam ficar aqui. Eles dão apenas quinze dias para que vocês des­cansem e tornem a partir por mar. De manhã cedo fui ver seu barco, é muito leve e pequeno para a viagem tão longa que os aguarda. Espero que vocês cheguem a uma nação mais hospitaleira que a nossa e mais compreensiva. Todas as ilhas inglesas têm a mesma ati­tude nesses casos. Peço ao senhor que, se na futura viagem sofrer muito, não guarde rancor do povo que vive nessas ilhas; ele não é res­ponsável por essa maneira de ver as coisas, são ordens da Inglaterra, emanadas de pessoas que não conhecem vocês. O endereço de papai é 101 Queen Street, Port-of-Spain, Trinidad. Peço-lhe, se Deus quiser que isso seja possível, que nos escreva algumas palavras para saber­mos do seu destino.

Fico tão emocionado, que não sei o que responder. A Sra. Bowen aproxima-se de nós. É uma mulher muito bonita; tem uns quarenta anos, cabelos de um loiro-escuro, olhos verdes. Usa um vestido bran­co muito simples, preso por um cordão branco, e umas sandálias verde-claro.

— Senhor, meu marido só vai voltar às 5 horas. Está tentando conseguir que vocês possam ir no seu carro, sem escolta policial, até a capital. Quer evitar também que vocês passem a primeira noite na Estação de Polícia de Port-of-Spain. O seu amigo ferido irá dire­tamente para a clínica de um medico amigo, e vocês dois irão para a hospedaria do Exercito da Salvação.

Maturette vem encontrar-se com a gente no jardim, foi ver o bar­co que está cercado, ele diz, de curiosos. Não mexeram em nada. Examinando o barco, os curiosos encontraram uma bala encravada na parte de baixo do leme, alguém pediu licença para tirá-la como lem­brança. Ele respondeu: “Captain, captain”. O índio compreendeu que precisava perguntar ao capitão. Lá pelas tantas, o índio quer saber por que não soltamos as tartarugas.

— Vocês têm tartarugas? — pergunta a jovem. — Vamos ver.

Vamos até o barco. No caminho, um indiozinho encantador pega sem cerimônias a minha mão. “Good afternoon”, boa tarde, dizia toda essa gente colorida. Tiro as duas tartarugas;

— O que é que a gente vai fazer? Vamos jogá-las no mar? Ou a senhora quer ficar com elas para pôr no seu jardim?

— O tanque do quintal é de água do mar. Vamos colocá-las nesse tanque, assim terei uma lembrança sua.

— Isso mesmo — respondo.

Distribuo entre as pessoas que lá estão tudo que há dentro do barco, menos a bússola, o fumo, o tonel, a faca, o facão, o machado, as cobertas e o revólver, que escondo entre as cobertas (e que nin­guém viu). Às 5 horas chega o Dr. Bowen:

— Senhores, está tudo arranjado. Eu mesmo vou levá-los até a capital. Antes disso vamos deixar o ferido na clínica e depois vamos imediatamente para a hospedaria.

Instalamos Clousiot no assento traseiro do carro. Vou agradecer à filha, quando sua mãe chega com uma mala na mão, dizendo:

— Queiram aceitar algumas coisas de meu marido, nós as ofere­cemos de todo o coração.

Que dizer diante de tanta bondade humana? “Obrigado, infinita­mente-obrigado.” E partimos no carro, que tem a direção à direita. Às 15 para as 6 chegamos à clínica. Chama-se Saint-George. Uns en­fermeiros colocam Clousiot em cima de uma maca, numa enfermaria onde há um índio sentado na cama. O médico chega, aperta a mão de Bowen e depois a nossa, não fala francês mas pede a Bowen para nos dizer que Clousiot será bem atendido e que nós poderemos vir vê-lo sempre que quisermos. Com o carro de Bowen atravessamos a cidade. Ficamos maravilhados de ver que é iluminada, com seus carros, suas bicicletas. Brancos, negros, amarelos, índios, chineses andam juntos pelas calçadas desta cidade toda de madeira que é Port-of-Spain. Chegamos ao Exército da Salvação, uma hospedaria na qual somente o andar térreo é de pedra e o restante é de madeira, casa bem situada numa praça iluminada onde consegui ler “Fish Market” (Mercado de Peixe); o capitão do Exército da Salvação nos recebe em companhia de todo o seu estado-maior, mulheres e homens. Fala um pouco de francês, todos nos dirigem palavras em inglês, que não entendemos, mas os rostos são tão sorridentes, os olhares tão acolhedores, que sabemos que eles dizem coisas delicadas.

Levam-nos para um quarto no segundo andar, com três camas — a terceira reservada para Clousiot —, um banheiro pegado ao quarto, com sabonete e toalha à nossa disposição. Depois de nos ter indicado o quarto, o capitão diz:

— Se quiserem comer, o jantar é em comum, às 7 horas, portanto daqui a meia hora.

— Não, não temos fome.

— Se quiserem passear pela cidade, aqui estão dois dólares antilhanos para tomarem um café, um chá, ou um sorvete. Por favor, não se percam. Quando quiserem voltar, perguntem o caminho com estas palavras: “Salvation Army, please?”

Dois minutos depois, estamos na rua, andamos na calçada, acotovelamo-nos com as pessoas, ninguém olha para nós, ninguém presta atenção em nós; respiramos profundamente, gozando com emoção esses primeiros passos livres numa cidade. Essa confiança contínua em nós, presente no fato de nos deixarem livres numa cidade bastante grande, nos anima e dá não apenas confiança em nós mesmos, mas também a perfeita consciência de que é impossível trair essa fé depo­sitada em nós. Maturette e eu andamos lentamente no meio da multidão. Sentimos necessidade de nos aproximar das pessoas, de ser em­purrados, de nos assimilar a elas para fazer parte do povo. Entramos num bar e pedimos cerveja. Parece que não é nada dizer: “Two beers, please”. É tão natural! Bom e além do mais parece-nos fantástico que uma índia com sua conchinha de ouro no nariz diga, depois de servir a gente: “Half a dollar, sir”. Seu sorriso de dentes de pérola, seus grandes olhos de um negro violeta, um pouquinho fechados nos cantos, os cabelos de azeviche que caem sobre seus ombros, o vestido meio aberto no princípio dos seios, deixando perceber a grande beleza deles, essas coisas fúteis, tão naturais para todo mundo, parecem para nós fantasticamente feéricas. Escute, Papi, não é verdade, não pode ser verdade que tão rapidamente, de morto-vivo, de forçado perpétuo, você esteja se transformando num homem livre!

Maturette paga, fica só com meio dólar. A cerveja é deliciosamente fresca e ele diz: “Tomamos outra?” A segunda rodada que ele gosta­ria de beber me parece uma coisa que não devemos fazer.

— Escute, não faz nem uma hora que você está em verdadeira liberdade e já pensa em se encher de bebida.

— Oh! por favor, Papi, não exagere! Entre tomar duas cervejas e se encher de bebidas há muita diferença.

— Pode ser que você tenha razão, mas eu acho que decentemente não devemos cair em cima dos prazeres que o momento oferece para a gente. Acho que precisamos saboreá-los pouco a pouco e não como um glutão. Para começar, esse dinheiro não é nosso.

— É, é verdade, você tem razão. Vamos aprender a ser livres com conta-gotas, está mais de acordo.

Saímos e descemos a grande Walters Street, avenida principal, que atravessa a cidade de um lado ao outro, e, sem perceber, espan­tados, maravilhados com os bondes que passam, com os burros com suas charretinhas, com os carros, os anúncios resplandecentes dos ci­nemas e das boates, com os olhos das jovens negras e índias que olham para a gente rindo, encontramo-nos no porto. Chegamos ali sem que­rer. Na nossa frente, os navios todos iluminados, navios de turistas com nomes fascinantes: Panamá, Los Angeles, Boston, Quebec; na­vios cargueiros: Hamburgo, Amsterdam, Londres, etc. E, estendendo-se ao longo do cais, colados uns aos outros, bares, cabarés, restau­rantes, todos cheios de homens e de mulheres que bebem, cantam, discutem em voz alta. De repente, uma necessidade irresistível me im­pele a me misturar com essa multidão, vulgar talvez, mas tão cheia de vida. No terraço de um bar, enfileirados no gelo, ostras, ouriços-do-mar, caranguejos, mexilhões, facas-do-mar, toda uma ex­posição de frutas do mar que provoca os transeuntes. As mesas com toalhas xadrezes vermelhas e brancas, a maior parte ocupadas, convi­dam a sentar. Moças de pele morena clara, o perfil fino, mulatas sem nenhum traço negróide, modeladas dentro de blusas coloridas, amplamente decotadas, nos aconselham implicitamente a aproveitar tudo aquilo. Aproximo-me de uma delas e digo: “French money good?”, apresentando uma nota de 1 000 francos. “Yes, change for you.” “OK.” Ela pega a nota e desaparece na sala repleta de gente. Volta. “Come here”, e me leva até a caixa onde está um chinês.

— Você francês?

— Sim.

— Trocar 1 000 francos?

— Sim.

— Passaporte?

— Não tenho.

— Carteira de marinheiro?

— Não tenho.

— Documento de imigração?

— Não tenho.

— Bom.

Diz duas palavras para a moça, ela olha para a sala, vai até um sujeito, um tipo de marinheiro, que tem um boné como o meu, um galão dourado e uma âncora, e leva até a caixa. O chinês diz:

— Sua carteira de identidade?

— Aqui está.

O sujeito apresenta a carteira e o chinês faz uma ficha de câmbio de 1 000 francos em nome do desconhecido, manda que ele assine, a mulher o pega pelo braço e o leva. O outro não sabe certamente o que se está passando, eu recebo 250 dólares antilhanos, sendo 50 em notas de 1 e 2 dólares. Dou 1 dólar para a moça, saímos e, sentados numa mesa, fazemos uma orgia de frutos do mar, acompanhados de um vinho branco seco delicioso.

 

                                         PRIMEIRA EVASÃO (Continuação)

 

                             TRINIDAD

Lembro-me, como se fosse ontem, da primeira noite de liberdade nessa cidade inglesa. Nós íamos a toda parte, embriagados de luz e de calor em nossos corações, namorando a alma desse povo feliz e risonho, que transborda de felicidade. Chegamos a um bar cheio de marinheiros e dessas mulheres dos trópicos que os aguardam para depená-los. Mas essas mulheres não têm nada de sórdido, nada que se compare às suas colegas das bocas do lixo de Paris, do Havre ou de Marselha. É outra coisa, algo muito diferente. Em vez das caras muito maquiladas, marcadas pelo vício, iluminadas por olhos febris cheios de astúcia, o que se vê em Trinidad são moças de todas as cores de pele, desde a chinesa até a negra africana, passando pela chocolate-claro de cabelos lisos, pela hindu ou a javanesa cujos pais se juntaram nos campos de cacau ou de cana-de-açúcar, ou a coolie mestiça de chinês e de hindu, ostentando uma conchinha de ouro numa venta do nariz, ou a cafusa de perfil romano, de rosto bronzeado iluminado por dois olhos enormes, negros, brilhantes, de longos cílios, e projetando uns seios quase inteiramente nus, como que dizendo: “Olhe meus seios, como são perfeitos”; todas essas mulheres, cada uma com flores de cor diferente nos cabelos, exteriorizam o amor, provocam o gosto pelo sexo, sem nada de sujo ou de comercial; não dão a impressão de serem profissionais. Elas se animam de verdade e a gente tem a impressão de que para elas o dinheiro não é a princi­pal motivação da vida.

Como dois besouros atraídos pelas lâmpadas, vamos nós dois, Maturette e eu, tropeçando de botequim em botequim. Ao desem­bocar numa pequena praça inundada de luz, vejo a hora, no relógio de uma igreja ou de um templo: 2 horas. São 2 horas da manhã! Depressa, vamos para casa! Já abusamos da situação. A capitoa do Exército da Salvação vai ter de nós uma opinião muito esquisita. Vamos voltar depressa. Pego um táxi para nos levar, two dollars. Pago e entramos muito envergonhados na hospedaria. No hall, uma soldada do Exército da Salvação, loira, jovem, dos seus 25 a trinta anos, nos acolhe gentilmente. Não parece espantada nem cho­cada por voltarmos tão tarde. Depois de algumas palavras em inglês que adivinhamos serem amáveis e acolhedoras, ela nos dá a chave do quarto e nos deseja boa noite. Deitamos. Na valise encontrei um pijama. Antes de apagar a luz, Maturette me diz:

— Acho que a gente podia agradecer ao bom Deus por tudo que nos deu em tão pouco tempo. Que é que você diz, Papi?

— Agradece por mim ao teu bom Deus, é um grande sujeito. Como você diz muito bem, ele foi bárbaro de generosidade conosco. Boa noite — e apago a luz.

Essa ressurreição, essa volta do túmulo, essa saída do cemitério onde eu estava enterrado, todas essas emoções sucessivas e o banho desta noite, que me reintegrou na vida ao lado de outras criaturas, me excitaram tanto, que não consigo dormir. No calidoscópio dos meus olhos fechados, as imagens, as coisas, toda essa mistura de sen­sações chegam ao meu espírito sem ordem cronológica e se apresen­tam com precisão, mas de modo completamente desordenado: o tribu­nal, a Conciergerie, a seguir os leprosos, depois Saint-Martin-de-Ré, Tribouillard, Jesus, a tempestade... Numa dança fantasmagórica, parece que tudo o que vivi neste último ano está querendo se apre­sentar ao mesmo tempo na galeria das minhas recordações. Por mais que procure espantar essas imagens, não consigo. E o mais engraçado é que elas estão misturadas aos gritos dos porcos, do hocco, ao ulular do vento, ao marulho das ondas, tudo revestido pela música dos violões de uma corda só que os hindus tocavam há poucos instantes nos diversos bares por onde passamos.

Por fim, adormeço ao despontar do dia. Pelas 10 horas, batem à porta. É o Dr. Bowen, sorridente:

— Bom dia, amigos. Ainda deitados? Vocês voltaram tarde. Di­vertiram-se bastante?

— Bom dia. Sim, voltamos tarde, desculpe.

— De nada, ora essa! É muito natural, depois de tudo que sofreram. Vocês tinham de aproveitar a primeira noite de homens li­vres Estou aqui para acompanhá-los à Delegacia de Polícia. Vocês têm que se apresentar à polícia para declarar oficialmente que entra­ram no país clandestinamente. Depois dessa formalidade, iremos ver o seu amigo. Ele fez radiografia hoje muito cedo. Saberemos o resul­tado mais tarde.

Depois de nos lavarmos rapidamente, descemos para o vestíbulo, onde encontramos Bowen à nossa espera, ao lado do capitão.

— Bom dia, amigos — diz em mau francês o capitão.

— Bom dia para todos, tudo vai bem? — uma graduada do Exér­cito da Salvação nos diz. — Vocês gostaram de Port-of-Spain?

— Oh, sim, senhora! Ficamos encantados.

Tomamos uma xicrinha de café e seguimos para a delegacia. Va­mos a pé, pois dista apenas 200 metros. Todos os policiais nos saú­dam e nos olham sem qualquer curiosidade especial. Entramos num escritório austero e imponente, depois de passar por duas sentinelas cor de ébano, de uniforme cáqui. Um oficial dos seus cinqüenta anos, camisa e gravata cáquis, coberto de insígnias e de medalhas, levan­ta-se. Está de short e nos diz em francês:

— Bom dia. Sentem-se. Antes de registrar oficialmente as suas de­clarações, quero conversar um pouco com vocês. Quantos anos vo­cês têm?

— Vinte e seis anos e dezenove anos.

— Por que foram condenados?

— Por homicídio.

— Quais são as suas penas?

— Trabalhos forçados perpétuos.

— Então não foi homicídio simples, foi homicídio qualificado?

— Não, senhor. O meu foi um homicídio simples.

— Comigo foi um homicídio qualificado — diz Maturette. — Eu tinha dezessete anos.

— Aos dezessete anos, a gente já sabe o que faz — diz o oficial. — Na Inglaterra, se o fato fosse provado, você teria sido enforcado. Muito bem, as autoridades inglesas não têm que julgar a justiça francesa. Mas não estamos de acordo é com o desterro dos condena­dos na Guiana Francesa. Sabemos que é um castigo desumano e in­digno de uma nação civilizada como a França. Mas, infelizmente, vocês não podem ficar em Trinidad ou em qualquer outra ilha britâ­nica. É impossível. Por isso, peço-lhes que procedam honestamente e não procurem escapatória, doença ou qualquer outro pretexto, para retardar sua saída. Vocês podem descansar livremente em Port-of-Spain de quinze a dezoito dias. O seu barco é bom, ao que dizem. Vou dar ordem para que o tragam aqui ao porto. Se houver repara­ções a fazer, os carpinteiros da Marinha Real se encarregarão disso. Antes de partir, vocês receberão uma boa bússola e uma carta marítima. Espero que os países sul-americanos recebam bem vocês, mas não procurem a Venezuela, pois ali vocês serão presos e obrigados a trabalhar nas estradas até serem entregues às autoridades francesas. Depois de um grande erro, um homem não é obrigado a ficar perdido para sempre. Vocês são jovens e têm saúde, têm um jeito simpático e espero que, depois de tudo que sofreram, nunca mais se darão por vencidos. O simples fato de terem vindo para este país demonstra o contrário. Sinto-me feliz em poder ajudá-los a se tornarem homens bons e responsáveis. Boa sorte. Se vocês tiverem algum problema, telefonem para este número, que serão atendidos em francês.

Ele toca uma campainha e um funcionário civil nos vem buscar. Numa saia onde vários policiais e civis estão batendo a máquina, outro funcionário à paisana toma as nossas declarações.

— Por que vieram a Trinidad?

— Para descansar.

— De onde vocês vêm?

— Da Guiana Francesa.

— Para fugir, vocês cometeram algum delito, provocaram lesões ou morte em outras pessoas?

— Não ferimos ninguém gravemente.

— Como é que vocês sabem?

— Soubemos antes de partir.

— Quais são suas idades, suas situações penais em relação à jus­tiça francesa? (etc). Senhores, vocês têm de quinze a dezoito dias para descansar aqui. Estão completamente livres para fazer o que quiserem durante esse tempo. Se mudarem de moradia, avisem-nos. Eu sou o sargento Willy. Aqui está o meu cartão, com dois telefones: um é o meu número oficial na polícia; o outro, meu número parti­cular. Seja o que for que lhes aconteça, se precisarem de minha aju­da, me chamem imediatamente. Temos confiança em vocês. Estou certo que se comportarão corretamente.

Alguns instantes depois, o Dr. Bowen nos acompanha à clínica. Clousiot está contente de nos ver. Nada lhe contamos da noite que passamos nos divertindo na cidade. Apenas lhe dizemos que estamos autorizados a passear à vontade. Ele fica tão surpreendido, que nos diz:

— Sem escolta?

— Sim, sem escolta.

— Ora essa, então os rosbifes (os ingleses) são uns caras muito gozados!

Bowen, que tinha ido à procura do médico, volta com ele. Per­gunta a Clousiot:

— Quem foi que reduziu a fratura, antes de entalar a perna?

— Fui eu mesmo e mais um camarada que não está aqui.

— Vocês trabalharam tão bem, que não é preciso quebrar novamente a perna. O perônio fraturado foi bem reajustado. Vamos simplesmente engessar e colocar um estribo, para que você possa andar um pouco. Prefere ficar aqui ou ir com seus companheiros?

— Prefiro ir com eles.

— Muito bem, amanhã cedo você poderá sair.

Agradecemos efusivamente. O Dr. Bowen e o médico se retiram e nós passamos o fim da manhã e parte da tarde com nosso amigo. Estamos jubilosos quando, no dia seguinte, nos encontramos os três reunidos em nosso quarto de hotel, a janela toda aberta e os ventila­dores funcionando para refrescar o ar. Congratulamo-nos uns com os outros pela nossa cara saudável e pela boa aparência que nos dão as roupas novas. Quando vejo que a conversa volta para o passado, digo aos meus companheiros:

— Agora, vamos tentar ao máximo esquecer o passado. Vamos tratar do presente e do futuro. Para onde vamos? Colômbia? Pana­má? Costa Rica? Precisamos consultar Bowen para saber quais os países onde temos alguma chance de ser admitidos.

Chamo Bowen em seu escritório, ele não está. Ligo para a casa dele, em San Fernando. É a sua filha quem atende. Depois de uma troca de palavras amáveis, ela me diz:

— Sr. Henri, perto do hotel, no Fish Market, há ônibus que vêm para San Fernando. Por que vocês não vêm passar a tarde em nossa casa? Podem vir, eu espero.

E lá vamos os três para San Fernando. Clousiot está magnífico em sua roupa meio militar, cor de tabaco.

A volta a essa casa que nos acolheu com tanta bondade nos deixa comovidos. Parece que essas mulheres compreendem nossa emoção, porque elas dizem ao mesmo tempo: “Vocês estão de volta à sua ca­sa, caros amigos. Sentem-se e estejam à vontade”. E em vez de di­zer “o senhor” cada vez que se dirigem a nós, elas nos chamam pelo nosso nome: “Henri, passe o açúcar; André (é o nome de Maturette), quer mais pudim?”

Senhora e senhorita Bowen, espero que Deus as terá recompensa­do por tanta bondade que tiveram para conosco e que suas belas al­mas, que nos prodigalizaram tão finas alegrias, tenham desfrutado pelo resto da vida uma felicidade inefável.

Discutimos com elas e estendemos um mapa sobre a mesa. As dis­tâncias são grandes: 1 200 quilômetros para chegar a Santa Marta, porto colombiano mais próximo; 2 100 quilômetros para o Panamá; 2 500 para Costa Rica. Chega o Dr. Bowen:

— Telefonei a todos os consulados e tenho uma boa notícia: vo­cês podem fazer escala de alguns dias em Curaçau para descansar. A Colômbia não tem nada estabelecido a respeito dos evadidos. Pelo que sabe o cônsul, nunca um evadido chegou pelo mar à Colômbia. Ao Panamá e a outros lugares também não.

— Conheço um lugar seguro para vocês — diz Margaret, à filha do Dr. Bowen. Mas é bem longe, 3 00Q quilômetros pelo menos.

— Onde é? — pergunta o pai.

— Honduras britânica. O governador é meu padrinho.

Olho para os meus amigos e digo:

— Destino: Honduras britânica. É uma possessão inglesa limitada ao sul pela República de Honduras e ao norte pelo México.

Ajudados por Margaret e sua mãe, passamos a tarde toda a traçar o caminho. Primeira etapa: Trinidad — Curaçau, 1000 quilômetros. Segunda etapa: de Curaçau a uma ilha qualquer em nosso caminho. Terceira etapa: Honduras britânica.

Como nunca se sabe o que pode acontecer no mar, decidimos que, além dos víveres que nos dará a polícia, levaremos uma reserva de conservas: carnes, legumes, doces, peixe, etc. Margaret nos diz que o supermercado Salvattori nos dará com muito prazer essas conservas de presente. “Se eles não derem”, acrescenta simplesmente, “mamãe e eu compraremos para vocês.”‘

— Isso não, senhorita.

— Cale-se, Henri.

— Mas não, não é possível, pois nós temos dinheiro e não ficaria bem abusar da sua bondade quando podemos muito bem comprar nós mesmos essas provisões.

O barco está em Port-of-Spain, na água, sob um abrigo da marinha de guerra. Despedimo-nos, prometendo mais urna visita antes da nos­sa partida. Todas as noites, saímos religiosamente às 11 horas. Clousiot senta-se num banco da praça mais animada e um de nós dois — eu ou Maturette — lhe faz companhia, enquanto o outro peram­bula pela cidade. Já estamos aqui há dez dias. Clousiot anda sem muita dificuldade graças ao ferro fixado no gesso. Aprendemos a ir ao porto de bonde. Vamos lá muitas vezes à tarde e sempre à noite. Já somos conhecidos e fomos adotados em alguns bares do porto. Os policiais de guarda nos cumprimentam, toda a gente sabe quem nós somos e donde viemos, mas ninguém jamais toca em qualquer assunto que diga respeito ao nosso passado. Reparamos que os bares onde somos conhecidos nos fazem pagar menos que os marinheiros pelo que comemos ou bebemos. A mesma coisa com as mulheres. De costume, quando elas se sentam às mesas dos marinheiros, dos oficiais ou dos turistas, elas bebem sem parar e procuram fazê-los gastar o mais possível. Nos bares onde se dança, elas nunca dançam com alguém antes que lhes ofereçam vários copos. Mas, conosco, to­das se comportam de modo diferente. Sentam-se bastante tempo e precisamos insistir para que tomem um drinque. Se elas aceitam, não é para tomar aquele famoso copo minúsculo, mas uma cerveja ou um verdadeiro whisky and soda. Tudo isso nos dá grande prazer, pois é um modo indireto de nos dizer que conhecem nossa situação e que estão conosco de coração.

O barco foi pintado de novo e acrescentaram uma borda de 10 centímetros de altura. A quilha foi reforçada. Nenhuma parte do cavername sofreu com a viagem, o barco está intato. O mastro foi tro­cado por outro mais alto, porém mais leve; a bujarrona e o traquete, feitos de sacos de farinha, por outras velas de bom pano cor de ocre. Na capitania, um capitão-de-mar-e-guerra me entregou uma bússola com rosa-dos-ventos (que eles chamam de compasso) e me explicou de que maneira, ajudado pelo mapa, posso saber aproximadamente a minha posição. A rota já está traçada, “oeste um quarto norte”, para chegar a Curaçau.

O capitão-de-mar-e-guerra me apresenta a um oficial de marinha, comandante do navio-escola Tarpon, que me pede o favor de sair para o mar lá pelas 8 horas da manhã seguinte e navegar um pouco fora do porto. Não compreendo por que, mas assim mesmo prometo fazer o que ele pede. No dia seguinte, estou na capitania na hora combinada, com Maturette. Um marinheiro sobe conosco e saímos do porto com bom vento. Duas horas depois, enquanto estamos bordejando para dentro e para fora do porto, chega um navio de guerra e se aproxima de nós. No convés, alinhados, estão os oficiais e os ma­rinheiros, todos de branco. Passam perto e dão a volta em torno do nosso barco, gritando “Hurra!”, e abaixam duas vezes a bandeira. É uma saudação oficial, cujo significado não entendo. Voltamos para a capitania, onde o navio de guerra já está atracado. Também amarram nosso barco no cais. Um marinheiro nos faz sinal para segui-lo e subimos a bordo, onde o comandante nos recebe no alto da escada. Um apito modulado saúda nossa chegada e, após nos haver apresen­tado aos oficiais, ele nos faz passar diante dos alunos e dos suboficiais, alinhados em posição de sentido. O comandante pronuncia algumas palavras em inglês e, a seguir, ordena o “fora de forma”. Um jovem oficial me explica que o comandante acaba de dizer aos alunos quan­to merecemos o respeito dos marinheiros por havermos feito, nessa pequena embarcação, uma viagem tão longa, e que íamos fazer outra ainda maior e mais perigosa. Agradecemos ao oficial por tanta honra. Ele nos presenteia com três capotes de oleado, que nos serão muito úteis mais tarde. São impermeáveis pretos, com um grosso fecho fran­cês e o respectivo capuz.

Dois dias antes da partida, o Dr. Bowen nos procura para nos pe­dir, por parte do superintendente da polícia, que levemos conosco três degredados que chegaram aqui faz uma semana. Foram desem­barcados na ilha e seus companheiros voltaram para a Venezuela, se­gundo dizem. Não estou gostando disso, mas fomos tratados com demasiada nobreza para podermos recusar receber esses três homens a bordo. Peço para falar com eles antes de dar minha resposta. Um carro da polícia vem me buscar. Sou levado para falar com o supe­rintendente, o oficial cheio de galões que nos interrogou quando da nossa chegada. O sargento Willy serve de intérprete.

— Como vai o senhor?

— Bem, obrigado. Estamos precisando que vocês nos prestem um serviço.

— Se for possível, com muito prazer.

— Temos, na cadeia, três franceses degredados. Eles vêm vivendo clandestinamente há algumas semanas na ilha e alegam que seus companheiros os desembarcaram e foram embora. Achamos que afun­daram o barco, mas eles dizem que nem sabem dirigir uma embar­cação. Talvez seja uma manobra para que lhes forneçamos um barco. Precisamos mandá-los embora: seria lamentável, se eu me visse obri­gado a entregá-los ao comissário do primeiro navio francês de passa­gem.

— Senhor superintendente, vou fazer o impossível para atendê-lo, mas antes quero falar com eles. O senhor deve compreender que é perigoso acolher a bordo três desconhecidos.

— Compreendo. Willy, dê ordem para os três franceses saírem ao pátio.

Quero conversar sozinho com eles e peço ao sargento que se re­tire.

— Vocês são degredados?

— Não, somos “duros” (forçados).

— Por que disseram que eram degredados?

— A gente pensava que eles preferem um homem que cometeu alguns pequenos delitos do que um cara que cometeu algum crime muito grave. Vê-se que estávamos enganados. E você, quem é?

— Um “duro”.

— Não te conhecemos.

— Eu sou do último comboio; e vocês?

— Do comboio de 1929.

— E eu de 27 — diz o terceiro.

— O negócio é o seguinte: o superintendente me chamou para me pedir que levássemos vocês a bordo, onde já somos três. Ele diz que, se eu não aceitar, como nenhum de vocês sabe manejar um barco, ele será obrigado a entregá-los ao primeiro navio francês que passar. Que é que vocês acham?

— Por motivos que são só da nossa conta, não queremos voltar para o mar. Poderíamos fingir que partimos com vocês, você nos deixa na ponta da ilha e continua a sua fuga.

— Não posso fazer isso.

— Por quê?

— Porque não quero pagar com uma sujeira as atenções que ti­veram conosco.

— Mas eu acho, companheiro, que, antes dos rosbifes, você deve ajudar os duros.

— Por quê?

— Porque você também é um duro.

— Sim, mas há tantas espécies de duros, que talvez haja mais diferença entre mim e vocês do que entre mim e os rosbifes, depende do ponto de vista.

— Então você vai deixar que nos entreguem às autoridades fran­cesas?

— Não, mas também não vou desembarcar vocês antes de Curaçau.

— Não tenho coragem de recomeçar — diz um deles.

— Escutem, vejam primeiro o meu barco. Talvez aquele com que vocês vieram fosse ruim.

— Bem, vamos experimentar — dizem os dois outros.

— Muito bem. Vou pedir ao superintendente licença para vocês verem o barco.

Acompanhados pelo sargento Willy, vamos para o porto. Os três sujeitos parecem ter mais confiança depois que vêem o barco.

 

                                   NOVA PARTIDA

Partimos dois dias depois, nós três e mais os três desconhecidos. Não sei como souberam da notícia, mas uma dúzia das mulheres dos bares assistem à partida, bem como a família Bowen e o capitão do Exército da Salvação. Como uma das mulheres me abraça, Margaret me diz, rindo:

— Henri, como você ficou noivo tão depressa? Isso não está di­reito!

— Até logo para todos. Não, adeus! Mas fiquem sabendo que vo­cês deixaram em nossos corações uma marca tão grande, que nunca se apagará.

E às 4 horas da tarde partimos, puxados por um rebocador. Fomos muito rápidos ao sair da barra, não deixando de enxugar uma lágrima e de olhar até o último momento o grupo que veio nos dizer adeus e que agita grandes lenços brancos. Logo que é desamarrado o cabo que nos liga ao rebocador, todas as velas se inflam e enfrentamos as primeiras dos milhões de ondas que teremos de furar antes de chegar ao destino.

Há duas facas a bordo, uma comigo, outra com Maturette.

O machado está perto de Clousiot, bem como o facão. Temos cer­teza de que nenhum dos outros está armado, mas combinamos que nunca nós três vamos dormir ao mesmo tempo durante a viagem. Ao pôr do sol, o navio-escola nos acompanha perto de meia hora, saúda-nos e vai embora.

— Como é que você se chama?

— Leblond.

— Que comboio?

— Vinte e sete.

— Qual é a pena?

— Vinte anos.

— E você?

— Kergueret. Comboio 29, quinze anos, sou bretão.

— Você é bretão e não sabe dirigir um barco?

— Não.

— Eu me chamo Dufils e sou de Angers. Peguei a perpétua por causa de uma palavra cretina que eu disse no tribunal, do contrário teria tido dez anos no máximo. Comboio 29.

— Que palavra foi essa?

— Vou explicar. Matei minha mulher com o ferro de passar rou­pa. Durante os debates, um jurado me perguntou por que tinha usa­do um ferro de passar roupa para matar. Não sei por que, respondi que a tinha matado com um ferro de passar roupa porque ela estava desrespeitando o vinco das minhas calças. E foi por causa dessa frase idiota que eles me salgaram tanto, disse o meu advogado.

— De onde vocês fugiram?

— De um campo de trabalho florestal chamado Cascade, a 80 quilômetros de Saint-Laurent. Não foi difícil partir porque gozáva­mos de muita liberdade. Éramos cinco, foi tudo facílimo.

— Como, cinco? E onde estão os outros dois?

Criou-se um silêncio embaraçoso. Clousiot então disse:

— Camarada, aqui somos todos homens; como estamos juntos, nós precisamos saber. Desembuche.

— Eu vou contar tudo — disse o bretão. — De fato, éramos cinco na saída, mas os dois sujeitos de Cannes que estão faltando nos dis­seram que eram pescadores da costa. Eles não tinham pago nem um tostão para a fuga e diziam que o trabalho deles a bordo valia mais que dinheiro. Ora, logo percebemos que nem um nem outro conhe­ciam coisa alguma de navegação. Corremos vinte vezes o risco de morrer afogados. A gente ia acompanhando a costa bem de perto, primeiro a Guiana Holandesa, depois a Inglesa e por fim Trinidad. Entre Georgetown e Trinidad, eu matei aquele que tinha dito que po­dia ser o capitão da fuga. Aquele cara merecia a morte, porque para viajar grátis ele enganou todo mundo quanto à sua capacidade de ma­rinheiro. E o outro pensou que iam matá-lo também e num dia de tem­poral ele se jogou no mar por sua própria vontade, largando o leme do barco. Tivemos que nos arranjar como pudemos. A embarcação ficou várias vezes cheia de água, finalmente nos arrebentamos contra um rochedo e nos salvamos por milagre. Dou minha palavra de honra de que tudo o que disse é a pura verdade.

— É verdade — dizem os outros dois. — A coisa se passou exa­tamente assim e nós três estávamos de acordo em matar aquele tipo. Que é que você acha, Papillon?

— Não estou em condições de ser juiz.

— Mas — insiste o bretão — o que você teria feito em nosso caso?

— É um caso para pensar. Para ser justo nessa história, é preciso ter vivido o momento, sem isso não se sabe onde está a verdade.

Clousiot acrescenta:

— Eu também o teria matado, porque é uma mentira que pode custar a vida a todo mundo.

— Bem, não falemos mais nisso. Mas tenho a impressão de que vocês tiveram muito medo, que vocês ainda estão com medo e que estão no mar porque foram obrigados, não é verdade?

— Pois é isso mesmo! — respondem em coro.

— Pois bem, aqui, nada de pânico, aconteça o que acontecer. Ninguém pode, em nenhum caso, mostrar o seu medo. Quem estiver com medo, que cale a boca. Este barco deu provas de que é bom. Agora estamos mais carregados que da outra vez, mas ele está mais alto 10 centímetros, o que compensa, largamente, a sobrecarga.

Fumamos e tomamos café. Comemos muito bem antes de partir e por isso decidimos só comer na manhã seguinte.

Estamos a 9 de dezembro de 1933. Faz quarenta dias que a fuga começou, na saía blindada do hospital de Saint-Laurent. É Clousiot, o “contador” da nossa turma, quem informa isso. Tenho agora três coisas preciosas que não possuía na partida: um relógio de aço à prova de água, comprado em Trinidad; uma bússola autêntica com dupla caixa de suspensão, com rosa-dos-ventos exata; e um par de óculos pretos de celulóide. Clousiot e Maturette têm cada um o seu boné.

Três dias se passam sem incidentes, a não ser termos topado duas vezes com bandos de golfinhos. Fizeram-nos suar frio, quando um grupo de oito se pôs a brincar com o barco. Eles passavam de com­prido por baixo, vindos da popa, e emergiam justo diante da proa. Às vezes podíamos tocar algum com a mão. Mas o que mais nos im­pressionou foi o jogo seguinte: três golfinhos em triângulo, um na frente e dois atrás, em linhas paralelas, investem numa velocidade louca, firmes, contra a nossa proa. No momento em que estão quase chocando com o barco, mergulham e voltam à tona, à direita e à es­querda da embarcação. Embora estejamos navegando com vento forte e com as velas desfraldadas, os bichos correm mais depressa do que nós. É um brinquedo que dura horas, é alucinante. O menor erro em seus cálculos e eles nos farão virar! Os três novos companheiros nada dizem, mas suas caras estão descompostas!

No meio da noite do quarto dia desencadeou-se uma tempestade horrorosa. Foi realmente uma coisa espantosa. O pior é que as ondas não seguiam o mesmo sentido. Muitas vezes chocavam umas com as outras. Algumas eram profundas, outras curtas, não se compreendia nada. Ninguém abria a boca a não ser Clousiot, que me gritava de vez em quando: “Agüenta firme, meu chapa! Pula nessa como pulou nas outras!” ou “Cuidado com a que vem atrás!” Coisa rara, os vagalhões chegavam às vezes de três quartos, rugindo e espumejando. Eu calcu­lava a velocidade deles e previa muito bem o ângulo de ataque. E sem qualquer lógica chegava de repente, de um só golpe, um vagalhão que batia no rabo do barco, completamente de pé. Várias vezes essas ondas desabaram sobre as minhas costas e, naturalmente, uma boa parte entrava na embarcação. Os cinco homens, armados de panelas e latas, tiravam a água sem interrupção. Apesar de tudo, nunca encheu mais de um quarto do barco e portanto nunca corremos o ris­co de afundar. Esse parque de diversões durou metade da noite, qua­se sete horas. Por causa da chuva, só avistamos o sol às 8 horas.

Acalmada a tempestade, o sol novinho do começo do dia, brilhan­do com toda a sua plenitude, foi aclamado por todos com alegria. Antes de mais nada, o café. Um café com leite Nestlé quente, bola­chas de marinheiro, duras como ferro, mas que, molhadas no café, são deliciosas. A luta noturna contra a tempestade me arrebentou to­do, não agüento mais e, embora o vento ainda sopre fortemente e as ondas continuem altas e indisciplinadas, peço a Maturette para me substituir um pouco. Quero dormir. Não faz nem dez minutos que es­tou deitado, quando Maturette se deixa pegar de banda por uma onda, que alaga três quartos do barco. Tudo está flutuando: latas, fogareiro, cobertores... Chego até o leme com a água pela barriga, justo em tempo para agarrá-lo e evitar um vagalhão quebrado que avança di­reto sobre nós. Com uma virada do leme, consigo receber a onda pela popa; não entra água, mas somos projetados com força a mais de 10 metros do impacto.

Todo mundo tira água do barco. Um grande caldeirão, manejado por Maturette, retira 15 litros de cada vez. Ninguém se preocupa em salvar coisa alguma, todos só têm uma idéia fixa: botar para fora o mais depressa possível essa água que torna o barco tão pesado e o impede de se defender bem. das ondas. Devo reconhecer que os três novos se comportaram bem; o bretão, vendo a sua caixa levada pelo mar, tomou sozinho sem hesitar a decisão de desprender a barrica de água potável e atirá-la para fora do barco. Duas horas depois, tudo está seco, mas perdemos os cobertores, o fogareiro, o fogão, os sacos de carvão, o garrafão de querosene e a barrica de água, esta volunta­riamente.

Ao meio-dia, querendo trocar de calça, percebo que a minha ma­leta também foi carregada pelo mar, bem como dois dos três oleados. Bem no fundo do barco, encontramos duas garrafas de rum. Todo o tabaco foi perdido ou molhado e o papel para enrolar cigarros desa­pareceu com a lata à prova de água.

— Companheiros, primeiro uma talagada de rum, uma boa dose; depois abram a caixa de reserva, para ver com que recursos ainda podemos contar. Ainda tem suco de frutas, muito bem, vamos racio­nar a bebida. Esvaziem uma das latas de biscoitos petit-beurre e fa­çam um fogareiro com ela. Vamos pôr as latas de conserva no fundo do barco e fazer fogo com as tábuas da caixa. Estivemos todos com medo, mas agora o perigo passou. Cada um precisa se recuperar e en­frentar a realidade. A partir deste momento, ninguém deve dizer: estou com sede, estou com fome, ou tenho vontade de fumar. Estão de acordo?

— Sim, Papi, estamos.

Todo mundo se comportou bem e a Providência fez amainar o vento, para que pudéssemos fazer uma sopa na base do corned-beef. Com uma tigela cheia dessa sopa, na qual mergulhamos as bola­chas de soldado, enchemos a barriga com um grude gostoso e quente, suficiente para nos manter até o próximo dia. Fizemos um pouqui­nho de chá verde para cada um. Na caixa intata, encontramos um pa­cote de cigarros. São 24 macinhos de oito cigarros. Os cinco outros decidem que somente eu devo fumar, para me ajudar a ficar acorda­do; para evitar invejosos, Clousiot não acende mais os cigarros para mim, dando a primeira tragada, mas só me dá fogo. Graças a essa compreensão, não surge nenhum incidente desagradável entre nós.

Já faz seis dias que partimos e ainda não pude dormir. Como esta noite o mar está feito um lago, aproveito para dormir, durmo quase cinco horas a sono solto. Continua a calmaria. Eles comeram sem mim e eu encontro, ao acordar, uma espécie de polenta, muito bem feita, com farinha de milho de lata, que devoro com algumas lingüi­ças defumadas. E delicioso. O chá está quase frio, não tem importân­cia. Fumo e espero que o vento nos faça o favor de reaparecer.

A noite está maravilhosamente estrelada. A estrela Polar brilha com toda a sua luz e somente o Cruzeiro do Sul ganha dela em maté­ria de luminosidade. Vêem-se nitidamente a Ursa Maior e a Ursa Me­nor. Não há uma nuvem e a lua cheia já está bem alta no céu estre­lado. O bretão está tremendo de frio; perdeu sua malha e está em mangas de camisa. Empresto-lhe o meu oleado. E assim enfrentamos o sétimo dia.

— Gente, não podemos estar muito longe de Curaçau. Tenho a impressão de ter subido um pouco demais para o norte. Agora vou virar em cheio para oeste, porque não podemos perder as Antilhas holandesas. Seria um caso sério, pois já estamos sem água doce e sem víveres, só com a reserva.

— Temos confiança em você, Papillon — diz o bretão.

— Sim, temos confiança — repetem os outros, em coro. — Faça como você quiser.

— Obrigado.

Creio que falei bem. O vento se faz esperar toda a noite e é so­mente às 4 da manhã que começa a empurrar o barco. Esse vento, que aumenta bastante durante a manhã, dura mais de 36 horas, com uma força suficiente para imprimir boa velocidade à embarcação, e com vagas tão pequenas que a quilha não bate.

 

                                 CURAÇAU

Gaivotas. Primeiro só se ouvem os gritos, porque é noite, a seguir se vêem as próprias aves, voando em volta do barco. Uma delas pou­sa no mastro, parte e volta novamente. O manejo dura mais de três horas, até que se levante o dia, com sol radioso. Nada no horizonte a indicar a terra. Que diabo! De onde vêm essas gaivotas, grandes e pe­quenas? Nossos olhos observam o horizonte o dia todo. Nenhum indí­cio de terra próxima. A lua cheia se levanta no momento em que o sol se deita, essa lua tropical é tão brilhante, que a reverberação me incomoda. Já não tenho os óculos, que se foram com o famoso vagalhão, que levou também todos os bonés. Lá pelas 8 da noite, perce­be-se no horizonte, muito distante, iluminada pelo luar, uma linha ne­gra.

— Dessa vez deve ser a terra: — diz o primeiro.

— Sim, com certeza.

Logo, todos nós percebemos que há realmente uma linha escura, que deve ser a terra. Durante o resto da noite fico com a minha proa dirigida para essa sombra, que aos poucos vai adquirindo contornos mais precisos. Estamos chegando. Empurrados por um forte vento sem névoa e por uma onda alta mas longa e calma, chegamos à terra com boa velocidade. A massa negra não é muito alta e nada indica se a costa é constituída de falésias, rochedos ou praias. A Lua, que está se deitando do outro lado dessa terra, projeta uma sombra que não me deixa ver nada, a não ser, na superfície da água, uma fileira lumi­nosa, primeiro unida e depois fragmentada. Vou chegando para perto e, a cerca de 1 quilômetro, lanço a âncora. O vento é forte, o barco vira sobre si mesmo e enfrenta as ondas, que o pegam bem de frente a cada vez que passam. O balanço do barco é grande e, portanto, mui­to incômodo. Naturalmente, as velas estão abaixadas e dobradas. Poderíamos ter esperado até o nascer do dia nessa posição desagradável porém segura; mas por desgraça a âncora se afrouxa de repente. Pre­paramos a bujarrona s o traquete. É estranho, a âncora não dá sinal de si. Meus camaradas puxam o cabo, ele volta sem a âncora, ela está perdida. Apesar de todos os meus esforços, as ondas nos aproximam tão perigosamente dos rochedos que resolvo armar as velas e dirigir-me para a terra, voluntariamente, a toda força. A manobra é tão bem sucedida, que de repente nos encontramos encravados entre dois rochedos, o barco inteiramente desconjuntado. Ninguém grita “salve-se quem puder”, mas, quando chega a onda seguinte, lança­mo-nos todos à água para chegar à terra, rolando, batendo, mas vivos. Somente Clousiot, com a perna engessada, sofreu mais que os outros. Está com o braço, o rosto e as mãos ensangüentados, cheio de arranhões. Os outros apenas sofreram algumas pancadas nos joelhos, nas mãos e nos tornozelos. Estou sangrando de uma orelha, que bateu fortemente contra uma rocha.

De qualquer maneira, estamos todos vivos, a salvo das ondas, na terra seca. Quando o dia nasce, recuperamos um oleado e volto para o barco, que começa a se desmanchar. Consigo arrancar a bússola, pregada no banco traseiro. Não há viva alma em toda a região. Olha­mos para o lugar em que se encontravam aquelas luzes: é uma fileira de lâmpadas que, segundo soubemos mais tarde, serve para indicar aos pescadores que o lugar é perigoso. Caminhamos a pé para o inte­rior da terra. Só se vêem cactos, enormes cactos e uma porção de bur­ricos. Chegamos a um poço, muito cansados, pois, nos revezando, dois de cada vez, somos obrigados a fazer “cadeirinha” para carregar Clousiot. Em volta do poço, carcaças ressequidas de burros e de ca­bras. O poço está seco, as pás do moinho que o faziam funcionar gi­ram à toa, sem puxar água. Não se avista uma pessoa viva, apenas burros e cabras.

Caminhamos até uma pequena casa, cujas portas abertas nos con­vidam a entrar. Gritamos: “Ó de casa!” Ninguém aparece. Sobre o fogão está uma bolsa de pano, fechada por um barbante. Passo a mão nela e abro o nó. Nisso, o barbante se rompe; a bolsa está cheia de florins, moeda holandesa. Estamos, portanto, em território holandês: Bonaire, Curaçau ou Aruba. Tornamos a colocar a bolsa no lugar sem tirar nada, encontramos uma talha de água e bebemos com uma concha. Ninguém na casa, ninguém nas vizinhanças. Recomeçamos a caminhar, muito lentamente por causa de Clousiot, quando um velho Ford surge em nosso caminho.

— Vocês são franceses?

— Sim, senhor.

— Podem subir no meu carro.

Instalamos Clousiot sobre os joelhos dos três, que se sentam atrás. Fico junto do motorista, Maturette ao meu lado.

— Vocês naufragaram?

— Sim.

— Alguém se afogou?

— Não.

— De onde vocês vêm?

— De Trinidad.

— E antes disso?

— Da Guiana Francesa.

— Sentenciados?

— Sentenciados.

— Eu sou o Dr. Naal, proprietário desta faixa de terra, uma pe­nínsula pegada a Curaçau. Esta península é chamada Ilha dos Bur­ros. Os burros e as cabras vivem aqui comendo cactos espinhosos. Esses espinhos são chamados pelo povo “as senhoritas de Curaçau”. Para mim, isso não é muito gentil para as verdadeiras senhoritas de Curaçau.

O doutor, grande e gordo, ri ruidosamente. O Ford, sem fôlego, chiando como um asmático, pára por si mesmo. Mostrando então alguns burros, digo:

— Se o carro não quer andar, pode facilmente ser rebocado.

— Tenho uma espécie de arreio no porta-mala, mas o problema é pegar dois burros e arreá-los. Não é nada fácil!

O gordo motorista levanta a capota e logo verifica que um solavan­co mais forte desligou um fio que vai para as velas. Antes de tornar a subir no carro, olha para todos os lados, com ar inquieto. Partimos novamente e, após haver passado por caminhos desbarrancados, che­gamos a uma barreira branca, que interrompe a passagem. Ao lado se ergue uma casinha branca. Nosso condutor conversa em holandês com um mulato bem vestido, que diz, a todo instante: “Ya master, ya master”. Em seguida, ele nos diz:

— Dei ordem a esse homem para que lhes faça companhia e lhes dê água para beber, se estiverem com sede, até que eu volte. Podem descer do carro.

Descemos e nos sentamos ao lado do carro, sobre o capim e na sombra. O Ford asmático vai embora. Está a 50 metros, quando o mulato nos diz, em papiamento — dialeto holandês das Antilhas, mistura de palavras inglesas, holandesas, francesas, espanholas e por­tuguesas —, que seu patrão, o Dr. Naal, foi buscar a polícia, porque está com muito medo de nós é que lhe disse para tomar cuidado, por­que somos ladrões foragidos. E o coitado do mulato não sabe o que fazer para nos agradar. Prepara um café muito ralo, mas que nos faz bem, com esse calor. Esperamos mais de uma hora, até que chega uma camioneta, espécie de carro de presos, com seis policiais vestidos à moda alemã, mais um carro conversível com motorista de uniforme policial e três senhores sentados no banco de trás, sendo um deles o Dr. Naal.

Descem todos e um deles, o menor, com uma cara de padre, muito escanhoada, nos diz:

— Sou o chefe de segurança da ilha de Curaçau. Pela minha própria obrigação, vejo-me constrangido a prendê-los. Vocês cometeram algum delito depois da sua chegada à ilha? Qual delito? E qual de vocês?

— Meu senhor, nós somos sentenciados evadidos. Viemos de Trinidad e faz poucas horas que o nosso barco se arrebentou contra os rochedos da ilha. Sou o chefe deste pequeno grupo e posso afirmar que nenhum de nós cometeu o menor delito.

O comissário vira-se para o Dr. Naal e lhe fala em holandês.

Enquanto discutem, chega um sujeito de bicicleta. Fala alto e depressa, dirigindo-se tanto ao Dr. Naal quanto ao comissário.

— Sr. Naal, por que disse a esse senhor que nós éramos ladrões?

— Por que este homem que chegou agora me avisou, antes que eu me encontrasse com vocês, que, escondido atrás de um cacto, ele os vira entrar e sair da sua casa. Este homem é um empregado meu que trata de uma parte dos burros.

— Então, só porque entramos na casa, somos ladrões? O senhor está dizendo uma bobagem, nós só bebemos água. Acha que isso é roubo?

— E a bolsa de florins?

— A bolsa eu abri, é verdade, e até quebrei o cordão. Mas não fiz nada senão espiar que espécie de dinheiro era, para saber em que país tínhamos chegado. Tornei a colocar escrupulosamente o dinheiro e a bolsa onde eles estavam, sobre a beirada do fogão.

O comissário me encara fixamente nos olhos e, voltando-se brus­camente para o homem da bicicleta, fala duro com ele. O Dr. Naal faz um gesto e quer falar. Secamente, à moda alemã, o comissário não o deixa intervir. O comissário faz subir o homem da bicicleta ao lado do motorista do seu carro, sobe atrás, acompanhado de dois policiais, e vai embora.

— Devo explicar a vocês — diz ele — que esse homem me disse que a bolsa havia desaparecido. Antes de mandar revistá-los, o co­missário interrogou o homem, suspeitando de que ele mentia. Se vocês são inocentes, lamento muito o incidente, mas não tenho culpa.

Em cerca de um quarto de hora o carro está de volta e o comissá­rio me diz:

— Você disse a verdade, esse homem é um infame mentiroso. Ele será punido por tentar prejudicar vocês gravemente.

Enquanto isso, o sujeito é embarcado na “viúva alegre”, meus cinco companheiros também sobem e eu vou embarcar também, mas o comissário me segura, dizendo:

— Venha no meu carro, ao lado do chofer.

Partimos à frente da camioneta e logo a perdemos de vista. Seguimos por estradas muito bem asfaltadas e penetramos na cidade, cujas casas são de estilo holandês. Tudo é muito limpo e toda a gente anda de bicicleta. Centenas de pessoas so­bre duas rodas, assim, vão e vêm pela cidade. Entramos na Central de Polícia. Atravessando uma grande sala, onde vários oficiais da polícia, todos vestidos de branco, tem as suas escri­vaninhas, entramos noutra sala, com ar condicionado. Aí, a tempera­tura é bem fresca. Um homem alto e forte, louro, de seus quarenta anos, está sentado numa poltrona. Levanta-se e fala em holandês. Terminados os cumprimentos, o comissário diz, em francês:

— Apresento-lhe o primeiro-comandante da polícia de Curaçau. Senhor comandante, este homem é um francês, chefe do grupo de seis homens que detivemos.

— Muito bem, comissário.

E, dirigindo-se a mim:

— Seja bem-vindo a Curaçau, em sua qualidade de náufrago. Qual é seu nome?

— Henri.

— Pois bem, Henri, você passou um mau quarto de hora por causa do incidente da bolsa, mas esse incidente também foi favorável para você, porque demonstrou que é mesmo honesto. Vou mandar pôr à sua disposição uma sala bem iluminada, com beliches, para que vocês descansem. O seu caso será submetido ao governador, que tomará as providências necessárias. Tanto o comissário quanto eu faremos todo o possível para ajudar vocês.

Apertou-me a mão e saímos. No pátio, o Dr. Naal pede desculpas pelo acontecido e promete interessar-se pelo nosso caso. Duas horas depois, estamos todos trancados numa sala muito grande, retangular, com umas doze camas, uma mesa comprida com bancos no centro. Com os dólares de Trinidad, pedimos a um guarda, pela janela gradea­da, que nos compre fumo, papel e fósforos. Ele não apanha o nosso dinheiro.

— Esse negro de ébano — diz Clousiot — está com cara de cum­pridor fanático do regulamento. Parece que não vamos ter esse fumo tão cedo.

Passo então a bater na porta, que se abre no mesmo momento. Um homenzinho, com aparência de coolie, com uma roupa cinzenta típica de preso e ainda por cima um número no peito, para que nin­guém se engane, diz para mim:

— Dinheiro, cigarros.

— Não. Tabaco, fósforos e papel.

Ele volta dentro de poucos minutos, com tudo o que pedimos e mais um bule fumegante de chocolate. Nós todos bebemos, em grandes vasilhas trazidas pelo prisioneiro.

À tarde, eles vêm me procurar. Volto à sala do comandante.

— O governador me deu ordem de deixar vocês livres no pátio da cadeia. Diga aos seus companheiros que não procurem fugir, pois as conseqüências seriam graves para todos nós. Você, como chefe do grupo, pode ir à cidade todos os dias de manhã, das 10 ao meio-dia, e todas as tardes, das 3 às 5. Você tem dinheiro?

— Sim. Moeda inglesa e francesa.

— Um policial à paisana acompanhará você aonde queira ir, du­rante as suas saídas.

— Que vão fazer com a gente?

— Pelo que me parece, vamos procurar embarcá-los, um de cada vez, nos petroleiros de várias nações. Como Curaçau tem uma das maiores refinarias do mundo, que processa o petróleo da Venezuela, entram e saem por dia uns vinte a 25 petroleiros de todos os países. Seria a solução ideal para vocês, porque chegariam em outros países sem problema algum.

— Que outros países, por exemplo? Panamá, Costa Rica, Guate­mala, Nicarágua, México, Canadá, Cuba, Estados Unidos e os países de lei inglesa?

— Impossível. A Europa também é impossível. Fiquem tranqüilos, tenham confiança, deixem-nos trabalhar para ajudá-los a pôr o pé no estribo, no caminho de uma vida nova.

— Obrigado, comandante.

Conto tudo fielmente aos meus companheiros. Clousiot, o mais desconfiado do bando, pergunta:

— Qual é a sua opinião, Papillon?

— Não sei ainda. Acredito que estão nos levando na conversa, para ficarmos quietos e não fugirmos,

— Pois olhe — diz ele —, acho que você tem razão.

Já o bretão acredita naquele plano maravilhoso. O sujeito do ferro de engomar demonstra também seu júbilo, dizendo:

— Acabaram-se as canoas e as aventuras, agora estamos garantidos. Chegaremos a um país qualquer num grande petroleiro e ficaremos oficialmente lá; acabou tudo.

Leroux tem a mesma opinião.

— E você, Maturette?

E o menino de dezenove anos, esse pequeno-burguês acidental­mente transformado em presidiário, esse garoto de traços mais finos que uma mulher, diz, com sua voz suave:

— E vocês acreditam que esses policiais de cabeças quadradas vão fabricar para cada um de nós carteiras de identidade duvidosas ou falsas? Eu, não. O mais que podem fazer é fechar os olhos para que a gente, clandestinamente, embarque um por um num petroleiro de partida, e nada mais. Aliás, eles fariam isso para se livrar de nós sem dor de cabeça. Esta é a minha opinião. Não acredito na história.

Saio poucas vezes, de manhã, para fazer algumas compras. Já estamos aqui há uma semana e nada de novo aconteceu. Estamos ficando nervosos. Certa tarde, aparecem três padres, acompanhados de policiais, visitando uma por uma todas as salas e todas as ceias. Ficam muito tempo na cela mais próxima de nós, onde está um negro acusado de estupro. Supondo que eles virão nos ver, entramos todos em nossa sala e nos sentamos nas camas. De fato, chegam os três padres, acompanhados pelo Dr. Naal, pelo comandante da polícia e por um sujeito cheio de galões e vestido de branco, que deve ser oficial de marinha.

— Monsenhor, aqui estão os franceses — diz em francês o chefe de polícia. — Tiveram conduta exemplar.

— Congratulo-me com vocês, meus filhos. Vamos sentar nos ban­cos em volta da mesa, aí estaremos melhor para conversar.

Todo mundo senta, inclusive os que acompanham o bispo. Trazem um tamborete que se encontrava diante da porta, no pátio, e o colocam na cabeceira da mesa. Desta maneira, o bispo poderá ver bem todos nós.

— Os franceses são quase todos católicos, qual de vocês não é?

Ninguém levanta a mão. Penso que o padre da Conciergerie quase me batizou e que posso me considerar católico, eu também.

— Meus amigos, eu sou descendente de franceses e me chamo Irénée de Bruyne. Meus antepassados eram protestantes huguenotes refugiados na Holanda, na época em que Catarina de Médicis os per­seguia para matar. Sou, portanto, de sangue francês, bispo de Curaçau, cidade onde há mais protestantes que católicos, mas onde os católicos são todos crentes e praticantes. Em que situação vocês se acham?

— Estamos esperando para ser embarcados nos petroleiros, um por um.

— Quantos já partiram dessa maneira?

— Até agora, nenhum.

— Hum! Que diz a isso, comandante? Responda em francês, por favor, o senhor fala francês tão bem.

— Monsenhor, o governador, sinceramente, tem a idéia de ajudar esses homens empregando essa fórmula, mas devo dizer, com toda a sinceridade, que até hoje nenhum capitão de navio aceitou levar qualquer um deles, principalmente porque eles não têm passaporte.

— É por aí que devíamos começar. O governador não poderia dar a cada um deles um passaporte excepcional?

— Não sei. Nunca falou nisso.

— Depois de amanhã, vou rezar uma missa por vocês. Querem vir se confessar, amanhã à tarde? Eu os ouvirei pessoalmente, a fim de ajudá-los, para que o bom Deus perdoe os seus pecados. Será possí­vel o senhor enviá-los à catedral às 3 horas?

— Sim.

— Gostaria que eles viessem de táxi ou em carro particular.

— Eu mesmo os acompanharei, monsenhor — diz o Dr. Naal.

— Obrigado, meu filho. Meus filhos, não posso lhes prometer na­da. Apenas posso lhes dizer uma palavra verdadeira: a partir deste momento, vou me esforçar para lhes ser o mais útil possível.

Vendo que Naal lhe beija o anel e que o bretão faz o mesmo, nós também beijamos de leve o anel episcopal e o acompanhamos até o seu carro, estacionado no pátio.

No dia seguinte, todos se confessam com o bispo. Eu sou o último.

— Vamos, meu filho. Comece primeiro pelo maior pecado.

— Meu padre, em primeiro lugar não sou batizado, mas um pa­dre da prisão na França me disse que, batizados ou não, somos todos filhos do bom Deus.

— Ele tinha razão. Pois bem, vamos sair do confessionário e você vai me contar tudo.

Conto a minha vida, com todos os episódios. Demorada e pacien­temente, com a maior atenção, o príncipe da Igreja me escuta sem me interromper. Pega minhas mãos entre as suas e me fita muitas vezes nos olhos; às vezes, nas passagens difíceis de confessar, ele baixa os olhos para me ajudar. Esse padre de sessenta anos tem o olhar e o rosto tão puros, que refletem qualquer coisa de infantil. Sua alma lím­pida e certamente repleta de infinita bondade se irradia em todos os seus traços, e seu olhar cinza-claro penetra em mim como um bál­samo sobre uma ferida. Calmamente, muito devagar, sempre com as minhas mãos entre as suas, ele me fala numa voz tão suave que é quase um murmúrio:

— Deus concede às vezes aos seus filhos a graça de suportar a maldade humana, para que aquele que escolheu como vítima saia da prova mais forte e mais nobre do que nunca. Veja, meu filho, se você não tivesse tido esse calvário para subir, jamais poderia ter-se elevado tão alto e se aproximado tão intensamente da verdade de Deus. Digo melhor: as pessoas, os sistemas, as engrenagens dessa máquina horrí­vel que esmagou você, os seres fundamentalmente maus que de várias maneiras torturaram e prejudicaram você prestaram-lhe o maior ser­viço que poderiam prestar. Provocaram em você o aparecimento de um novo ser, superior ao primeiro e, hoje, se você tem o sentido da honra, da bondade, da caridade e a energia necessária para vencer todos os obstáculos e tornar-se um indivíduo superior, deve tudo isso a eles. Essas idéias de vingança, de punir cada um proporcionalmen­te à importância do mal que lhe fez, não podem ir adiante numa criatura como você. Você deve ser um salvador de homens e não viver para fazer o mal, mesmo acreditando que isso seria justificado. Deus foi generoso com você, ele disse: “Ajuda-te, eu te ajudarei”. Ele ajudou você em tudo e até lhe permitiu salvar outros homens e levá-los à liberdade. Sobretudo, não creia que são muito graves todos esses pecados que você cometeu. Há muita gente de alta posição social que se tornou culpada de pecados bem mais graves que os seus. Só que eles não tiveram, no castigo imposto pela justiça dos homens, a oportunidade de elevar-se, como você o fez.

— Obrigado, padre. O senhor me fez um bem enorme, para toda a minha vida. Nunca hei de esquecer.

E lhe beijo as mãos.

— Você vai partir novamente, meu filho, e enfrentar outros peri­gos. Eu queria batizá-lo antes que partisse. Que acha?

— Padre, deixe-me ficar como estou, por enquanto. Meu pai me criou sem religião. Ele tem um coração de ouro. Quando minha mãe morreu, ele soube encontrar, para me amar ainda mais, gestos, pala­vras e atenções de mãe. Me parece que, se eu me deixasse batizar, estaria cometendo uma espécie de traição para com ele. Me deixe ficar completamente livre, com uma identidade estabelecida, um modo de viver normal e então, quando escrever a ele, perguntarei se posso, sem magoá-lo, abandonar a sua filosofia e me fazer batizar.

— Compreendo, meu filho, e tenho certeza de que Deus está com você. Dou-lhe a minha bênção e peço a Deus que o proteja.

— É assim. Dom Irénée de Bruyne se espelha por inteiro nesse sermão — me diz o Dr. Naal.

— Exatamente. E o que o senhor pensa fazer agora?

— Vou pedir ao governador que dê ordem à alfândega para que me conceda preferência na primeira venda de barcos apreendidos aos contrabandistas. Você virá comigo, para dar sua opinião e escolher aquele que mais lhe convém. Quanto ao resto, alimentos e roupas, será fácil.

Desde o dia do sermão do bispo, temos constantemente visitas, especialmente às 6 horas da tarde. Essa gente quer nos conhecer. Sentam-se nos bancos junto à mesa, cada um traz alguma coisa, que deposita discretamente sobre uma cama, sem mesmo dizer: “Olhem, eu trouxe isso para vocês”. Lá pelas 2 horas da tarde, sempre apare­cem algumas Irmãzinhas dos Pobres, acompanhadas da superiora e falando muito bem o francês. A sua cesta está sempre cheia de boas coisas preparadas por elas. A superiora é ainda moça, menos de quarenta anos. Não se vêem seus cabelos, presos na coifa branca, mas ela tem os olhos azuis e as sobrancelhas loiras. Pertence a uma im­portante família e — segundo nos disse o Dr. Naal — escreveu para a Holanda, a fim de que se encontre outro meio que não seja o de nos obrigar a partir novamente pelo mar. Passamos juntos uns bons mo­mentos e ela nos pede várias vezes para narrar a nossa evasão. Às vezes me pede para contar diretamente a umas freiras que a acompa­nham e que falam francês. E, se eu esqueço ou omito um detalhe, ela me chama docemente à ordem:

— Henri, não conte tão depressa. Você está pulando a história do hocco... E por que está esquecendo hoje as formigas? São muito importantes as formigas, pois foi por causa delas que você foi sur­preendido pelo bretão mascarado.

Estou contando tudo isso porque são momentos tão doces, tão completamente opostos a tudo o que temos vivido, que uma luz ce­lestial parece iluminar de modo irreal esse caminho da podridão, que está em vias de desaparecer.

Fui ver o barco, magnífica embarcação de 8 metros de compri­mento, com uma bela quilha, um mastro muito alto e velas imensas. É realmente adequado para o contrabando. Está completamente equi­pado, mas todo lacrado pela alfândega. No leilão, um senhor começa com um lance de 6 000 florins, mais ou menos 1 000 dólares; mas o barco fica sendo nosso por 6 001 florins, depois que o Dr. Naal mur­mura algumas palavras ao ouvido daquele cavalheiro.

Em cinco dias estamos prontos. Pintado de novo, repleto de víveres, bem ajeitados no porão, esse barco com meio convés é um presente de rei. Seis maletas, uma para cada um de nós, com roupas novas, sapatos, tudo que é necessário para a gente se vestir, são protegidas por um pano impermeável e colocadas na coberta do barco.

 

                           A PRISÃO DO RIO HACHA

Partimos ao raiar do dia. O doutor e as Irmãzinhas dos Pobres vieram nos dizer adeus. Largamos facilmente do cais, o vento logo nos pega e vogamos normalmente. O sol se levanta radioso, temos pela frente um dia sem histórias. Logo percebo que o navio tem velas demais e não há lastro suficiente. Tenho que ser prudente. Desliza­mos a toda velocidade. Este navio é um verdadeiro puro-sangue, quan­to à velocidade, mas também é ciumento e irritável. Tomo a direção pleno oeste. Ficou decidido que desembarcaríamos clandestinamente na costa colombiana os três homens que se juntaram a nós em Trinidad. Eles não querem saber de uma longa travessia, dizem que têm confiança em mim, mas não no tempo. Com efeito, segundo os boletins meteorológicos dos jornais lidos na prisão, prevê-se mau tempo e até mesmo furacão.

Reconheço os seus direitos e fica combinado que eles desembar­carão numa península desolada e desabitada, chamada La Guajira. Quanto a nós, do grupo inicial, dali zarparemos os três para a Hondu­ras britânica. O tempo está esplêndido e a noite estrelada que sucede ao dia radioso facilita, por meio de uma meia-lua muito brilhante, esse projeto de desembarque. Vamos direto para a costa colombiana, lanço a âncora e começamos a sondar, devagar, para ver se eles podem desembarcar. Infelizmente, a água é muito profunda e temos de nos aproximar perigosamente de um costão rochoso, para chegarmos a ter menos de 1 metro e 50 de água. Apertamos as mãos, cada um deles desce, toma pé e, com a mala na cabeça, avança para a terra firme. Observamos a manobra com interesse e um pouco de tristeza. Esses camaradas se comportaram bem conosco, estiveram à altura, das necessidades em todas as circunstâncias. É uma pena que aban­donem o navio. Enquanto eles se aproximam da costa, o vento desa­parece completamente. Merda! Tomara que não nos vejam da aldeia marcada no mapa e que se chama Rio Hacha. É o primeiro porto onde se acham autoridades policiais. Esperemos que a desgraça não aconteça. Acho que estamos bem em frente daquele ponto, por causa do pequeno farol que se encontra na ponta que acabamos de passar.

Temos de esperar, esperar... Os três desapareceram, depois de nos dizer adeus com lenços brancos. Vento, por Deus do céu! Vento para nos despregarmos dessa terra colombiana, que constitui para nós um ponto de interrogação. Com efeito, não se sabe se eles devolvem ou não os fugitivos. Nós três preferimos, naturalmente, a certeza da Hon­duras britânica ao desconhecido da Colômbia. Somente às 3 da tarde é que reaparece o vento e podemos partir. Armamos todas as velas e, talvez um pouco inclinado demais, o barco desliza suavemente durante mais de duas horas; mas eis que surge uma lancha a motor, carregada de homens, e aproa para nós, atirando para cima, a fim de nos fazer parar. Tento desobedecer e fugir, procurando o alto-mar, para sair das águas territoriais. Nada feito. A possante lancha chega perto de nós em menos de hora e meia de perseguição e, sob a mira de dez homens de fuzil na mão, somos obrigados a nos entregar.

Esses soldados ou policiais que nos prenderam têm um aspecto muito esquisito: calças sujas que já foram brancas, malhas de lã esburacadas que certamente nunca foram lavadas. Estão todos des­calços, menos o “comandante”, este mais bem vestido e mais. limpo. Se estão mal vestidos, em compensação estão armados até os dentes: um cinturão cheio de balas, fuzis de guerra bem engraxados e, como complemento, um grande punhal embainhado, com o cabo ao alcance da mão. O sujeito que eles chamam de “comandante” tem uma cara de mestiço assassino. Carrega um grande revólver, numa cartucheira também cheia de balas. Como só falam espanhol, mal compreende­mos o que dizem, mas, nem o olhar, nem os gestos, nem o tom da voz são simpáticos; tudo é hostil.

Vamos a pé do porto até a prisão, atravessando a aldeia, que é mesmo Rio Hacha, escoltados por seis soldados esfarrapados e mais três na retaguarda, com as armas apontadas para nós. É uma recepção nada simpática.

Chegamos ao pátio de uma cadeia cercada por um pequeno muro. Uns vinte presos, barbudos e sujos, ali se encontram de pé ou senta­dos, Olhando-nos em atitude hostil. “Vamos, vamos”, mas é difícil an­dar mais depressa porque Clousiot, embora esteja bem melhor, cami­nha ainda sobre o estribo da sua perca engessada e não pode ir mais depressa. O “comandante”, que ficou para trás, nos alcança, carre­gando a bússola e o oleado. Está comendo nossos biscoitos e nossos chocolates e compreendemos perfeitamente que vamos ser despojados de todos os nossos pertences. Não nos enganamos. Ficamos fechados numa sala nojenta, com uma janela de grossas grades. No chão, umas tábuas, tendo numa extremidade uma espécie de travesseiro de ma­deira: são as camas.

— Franceses, franceses — grita perto da janela um prisioneiro, quando os policiais partem, após nos haverem trancafiado.

— Que é que você quer?

— Franceses, mau, mau!

— Mau, o quê?

— A polícia.

— A polícia?

— Sim, polícia mau.

E se afasta. Caiu a noite, uma lâmpada elétrica de fraca voltagem ilumina mal a sala. Mosquitos em quantidade assobiam em nossos ouvidos e nos entram pelo nariz.

— Muito bem, estamos fritos! Vai nos custar caro ter concordado em desembarcar aqueles três cretinos.

— Que é que você quer, a gente não sabia. O pior é que não tivemos vento.

— Você se aproximou demais — diz Clousiot.

— Ora, cale essa boca, Não é a hora de se acusar ou de acusar os outros, é hora de cerrar fileiras. Precisamos estar mais unidos do que nunca.

— Você tem razão, Papi, perdão. Não é culpa de ninguém.

Que merda! Seria muito injusto que, depois de tanta luta, a fuga terminasse aqui, desse jeito, tão lamentavelmente. Não fomos revis­tados. Estou com meu canudo e trato logo de enfiá-lo naquele lugar. Clousiot introduz também o seu. Tivemos razão em não nos desfa­zermos deles. São “carteiras” impermeáveis e pouco volumosas, fá­ceis de guardar em nosso corpo. No meu relógio são 8 horas da noite. Trazem-nos um pedaço de rapadura para cada um, do tamanho de um punho fechado, e três bolas de massa de arroz, cozidos com água e sal. “Buenas noches!” — “Deve ser: boa noite” — diz Maturette. No dia seguinte, às 7 horas da manhã, servem no pátio um café muito gostoso, em copos de madeira. Lá pelas 8 horas, aparece o “coman­dante”. Peço licença para ir ao barco pegar as nossas coisas. Ou ele não compreende, ou faz de conta que não entende. Quanto mais olho para ele, mais acho que tem cara de assassino. Traz na cinta, à esquerda, uma garrafinha dentro de um estojo de couro: tira para fora, destampa, bebe um trago, cospe e me estende o frasco. Diante desse primeiro gesto amável, pego a garrafa e bebo. Felizmente só tomo um traguinho, é puro fogo, com gosto de álcool para queimar, Engulo rapidamente e o desgraçado índio mestiço de preto se põe a rir desbragadamente!

Às 10 horas chegam vários civis, vestidos de branco e engravatados. São seis ou sete e entram num edifício que parece ser a diretoria da prisão. Somos chamados. Estão todos sentados em cadeiras dis­postas em semicírculo, debaixo de um grande quadro representando um oficial branco coberto de condecorações: “Presidente Alfonso López de Colombia”. Um desses senhores dá uma cadeira para Clousiot, falando com ele em francês, os outros presos ficam de pé. O sujeito que está no centro, magro, nariz adunco, óculos de vidros cor­tados, começa a me interrogar. O intérprete não traduz coisa nenhuma e conversa comigo:

— O senhor que acaba de falar e que vai interrogá-lo é o juiz da cidade de Rio Hacha, os outros são pessoas importantes, amigos dele. Eu, que estou aqui como tradutor, sou haitiano e encarregado das obras elétricas deste departamento. Creio que alguns deles, em­bora não queiram dizer, compreendem um pouco o francês, talvez o próprio juiz.

O juiz se impacienta com esse preâmbulo e começa o interroga­tório em espanhol. O haitiano vai traduzindo as perguntas e as res­postas.

— Vocês são franceses?

— Sim, senhor.

— De onde vêm?

— De Curaçau.

— E antes?

— Trinidad.

— E antes?

— Martinica.

— É mentira. O nosso cônsul em Curaçau avisou, há mais de uma semana, para vigiarmos a costa, porque seis evadidos da peni­tenciária francesa estavam para desembarcar em nosso país.

— Muito bem, somos fugitivos da penitenciária.

— Caieneiros, portanto?

— Sim, senhor.

— Se um país tão nobre como a França puniu-os tão severamente e deportou vocês para tão longe, quer dizer que vocês são bandidos muito perigosos?

— Talvez.

— Ladrões ou assassinos?

— Homicidas.

— Matadores. Então vocês são matadores. Onde estão os três outros?

— Ficaram em Curaçau.

— Você está mentindo mais uma vez. Desembarcaram a 60 qui­lômetros daqui, num lugar chamado Castillette. Já foram presos, felizmente, e estarão aqui dentro de poucas horas. Vocês roubaram aquele barco?

— Não, foi dado de presente pelo bispo de Curaçau.

— Bem. Vocês vão ficar presos aqui até que o governo decida o que fazer com vocês. Pelo delito de ter feito desembarcar três dos seus cúmplices em território colombiano, procurando em seguida voltar ao mar, condeno você, o capitão do navio, a três meses de prisão, e a um mês os dois outros. Comportem-se bem, se não quise­rem ser castigados fisicamente pelos guardas, que são homens muito duros. Têm algo a dizer?

— Não. Apenas quero recolher as roupas e os víveres que ficaram a bordo da embarcação.

— Tudo isso foi confiscado pela alfândega, menos uma calça, uma camisa, um paletó e um par de sapatos para cada um de vocês. O resto é confiscado e não adianta insistir: não há nada a fazer, é a lei.

Voltamos para o pátio. O juiz é cercado pelos desgraçados prisio­neiros do país: “Doutor, doutor!” Ele passa no meio deles, cheio de importância, sem responder e sem parar. Sai da prisão com a comitiva e desaparece.

À 1 hora chegam os três outros nossos companheiros, num cami­nhão com sete ou oito homens armados. Descem cabisbaixos, com as suas maletas. Entramos com eles na sala.

— Que bruta besteira fizemos, prejudicando também vocês. Não merecemos perdão, Papi — diz o bretão. — Se você quiser nos matar, pode agir, eu nem me defendo. Nós não somos homens, somos uns putos. Fizemos isso porque tínhamos medo do mar; pois bem, pelo que vi da Colômbia e dos colombianos, o perigo do mar é café pequeno, comparado com o perigo de estar nas mãos desses caras. Foi por causa da falta de vento que vocês se estreparam?

— Sim, bretão. Não tenho que matar ninguém, todos nós erramos. Eu não devia ter deixado vocês descerem, e nada teria acontecido.

— Você é muito bom, Papi.

— Não, sou apenas justo — digo, e conto para eles o interroga­tório. — Enfim, talvez o governador nos ponha em liberdade.

— Pois sim... Como diz o provérbio: esperemos, a esperança faz viver.

A meu ver, as autoridades deste fim de mundo semibárbaro não podem tomar nenhuma decisão a nosso respeito. Somente as altas autoridades poderão resolver se podemos ficar na Colômbia, se vamos voltar à França, ou vamos ser recolocados em nosso barco, para prosseguir a viagem. Seria o diabo se essa gente, à qual não causamos nenhum prejuízo, adotasse a decisão pior, pois, afinal de contas, não cometemos nenhum delito na terra deles.

Faz uma semana que estamos aqui. Não houve qualquer mudança, a não ser que estão falando agora de nos transferir com uma boa escol­ta para uma cidade mais importante, Santa Marta, a 200 quilômetros daqui. Esses policiais com cara de bucaneiros ou de corsários não melhoraram de atitude. Ontem, quase levei um tiro de fuzil de um deles, porque lhe reclamei a restituição do meu sabão no tanque. Continuamos nesta sala podre, cheia de mosquitos, agora um pouco mais limpa graças a Maturette e ao bretão, que a lavam todos os dias. Começo a ficar desesperado, perco a confiança. Essa raça de colombianos, mistura de índios e de pretos, esses mestiços de índios e de espanhóis que foram no passado os donos do país não me ins­piram confiança. Um preso colombiano nos emprestou um velho jor­nal de Santa Marta. Na primeira página estão os nossos seis retratos e, embaixo, a cara do comandante da polícia, com seu enorme chapéu de feltro, de charuto na boca, acompanhado de uns dez policiais, empunhando seus paus-furados. Percebo que a captura foi roman­ceada e valorizado o papel desempenhado por eles. Parece que toda a Colômbia foi salva de um terrível perigo, graças à nossa detenção. Contudo, o retrato dos bandidos é muito mais simpático que o dos policiais. Os bandidos têm até cara de gente honesta, enquanto os policiais, Deus que me perdoe!, começando pelo comandante, é só dar uma olhada e estamos conversados! Que fazer? Já sei algumas palavras de espanhol: dar o fora, fugarse; prisioneiro, preso; matar, matar; corrente, cadena; algemas, esposas; homem, hombre; mulher, mujer.

 

                                   FUGA DE RIO HACHA

Há um cara no pátio que está constantemente algemado e com o qual fiz amizade. Fumamos o mesmo charuto comprido e fino, muito forte, mas enfim fumamos. Compreendi que é contrabandista e ope­rava entre a Venezuela e a ilha de Aruba. Está sendo acusado de ter morto uns guardas de fronteira e aguarda o processo. Certos dias, mostra-se extraordinariamente calmo; nos outros, nervoso e excitado. Percebo que ele fica calmo depois que recebe visitas e mastiga folhas que lhe trazem. Um dia, ele me dá a metade de uma e logo com­preendo. Minha língua, o céu da boca e os lábios, tudo ficou insen­sível. São folhas de coca. Esse homem de 35 anos, de braços peludos e com o peito recoberto de pêlos encaracolados muito negros, deve ser dotado de força descomunal. Seus pés descalços têm, na sola, um casco tão espesso, que muitas vezes ele tira um pedaço de vidro ou um prego que ali penetraram, mas sem atingir a carne.

“Fuga, você e eu”, digo uma noite ao contrabandista. Numa visita do haitiano eu lhe havia pedido um dicionário francês-espanhol. O cara compreende e me deixa entender que gostaria de fugir, mas, e as algemas? São algemas americanas. Têm uma fenda para a chave, que com certeza deve ser chata. Com um fio de arame achatado na ponta, o bretão me fabrica um gancho. Depois de várias tentativas, consigo abrir as algemas do meu novo amigo, à vontade. À noite, ele fica sozinho num calabouço, cujas grades são bastante grossas. Em nosso quarto, as grades são finas e podem certamente ser torcidas, portanto, só teremos que serrar uma grade, a de Antonio (é o nome do colombiano). “Como é que se pode conseguir uma serra?” — “Plata (dinheiro).” “Quanto?” — “Cem pesos”. — “Dólares?” — “Dez”. Finalmente, com 10 dólares que eu lhe dou, ele consegue duas serras para metais. Explico para ele, desenhando sobre a terra do pátio, que, a cada vez que ele serrar um pouco, deve misturar a serragem de ferro com um pouco de massa dos bolinhos de arroz que nos dão, e tapar bem as fendas. No último momento, antes de entrarmos nos alojamentos para passar a noite, abro a sua algema, deixando-a pen­durada num dos punhos. No caso de uma inspeção, é só colocar no outro pulso e apertar, para que ela se feche automaticamente. Leva três noites para serrar a barra. Ele me explica que em menos de um minuto terminará de cortar e que está certo de poder dar uma torcida final com as mãos. Então, virá me procurar.

Chove muito por aqui; então, ele me diz que na “primem noche de lluvia” ele virá me chamar. Esta noite, começa a chover torrencial­mente. Meus companheiros estão a par dos meus projetos, ninguém quer me acompanhar, acreditam que o lugar para onde quero fugir fica muito longe. Quero ir para a ponta da península colombiana, na fronteira da Venezuela. O mapa que possuímos diz que esse território se chama Guajira e que é uma região contestada, nem colombiana nem venezuelana. O colombiano diz que “eso es la tierra de los índios” e que não há qualquer polícia, nem colombiana, nem vene­zuelana. Alguns contrabandistas costumam passar por ali. É perigoso, porque os índios guajiros não permitem que um civilizado penetre em seu território. Mas Antonio se comprometeu a me levar até muito perto de Guajira: dali por diante, terei que continuar sozinho. Tudo isso, é inútil que o diga, foi muito difícil de combinar entre nós, por­que ele emprega palavras que não estão no dicionário. Esta noite chove a cântaros. Estou perto da janela. Uma tábua foi despregada há muito tempo do batente. Com ela faremos uma alavanca para afastar as barras. Há duas noites, fizemos um ensaio e vimos que elas cedem fácil.

— Listo (pronto).

Aparece a cara de Antonio, colada às grades, do lado de fora. Com a ajuda de Maturette e do bretão, consigo, num único movimen­to, não somente afastar uma barra, mas desprendê-la por baixo. Sou empurrado para a frente e o pessoal me dá umas palmadas na bunda, antes de eu pular. As palmadas são como o aperto de mão dos meus amigos. Antonio me pega pela mão e me arrasta para o muro. Pular o muro não é difícil, ele só tem 2 metros, mas assim mesmo corto a mão num dos cacos de vidro que o recobrem; não faz mal, vamos em frente. O danado do Antonio consegue descobrir o caminho no meio dessa chuva que não deixa enxergar 3 metros à frente. Aproveita para atravessar bem pelo centro da aldeia, depois tomamos um ca­minho entre o mato e a costa. Já bem adiantada a noite, percebemos uma luz. Temos que fazer um longo desvio pelo mato, felizmente pou­co espesso, até retornarmos ao caminho. Prosseguimos sob a chuva até o despontar do dia. Na saída, Antonio me deu uma folha de coca, que eu mastigo da mesma maneira que o vi fazer na prisão. Quando o sol desponta, não me sinto cansado. Será efeito da coca? Com certeza. Apesar do dia já estar claro, continuamos a andar. De vez em quando, Antonio se deita no chão e coloca o ouvido contra o solo empapado de água. E vamos adiante.

Antonio tem um modo curioso de caminhar. Ele não corre nem anda, dá uma espécie de sucessivos pulinhos, todos do mesmo com­primento, enquanto seus braços balançam como se estivessem reman­do no ar. Parece que ouviu algum ruído, porque me arrasta para o mato. Continua chovendo. De fato, vemos passar um rolo compres­sor, puxado por um trator, certamente para comprimir a terra da estrada.

Dez e meia da manhã. A chuva parou, o sol se levantou. Entramos no mato, depois de havermos caminhado mais de 1 quilômetro sobre o capim e não na estrada. Deitados sob uma árvore muito copada, es­condidos por uma vegetação espessa e cheia de espinhos, acredito que nada temos a temer, contudo Antonio não me deixa fumar nem mes­mo falar baixo. Ele não pára de engolir o suco das folhas, faço como ele, mas com mais moderação. Tem um saquinho com mais de vinte folhas dentro, que me mostra. Seus dentes magníficos brilham na es­curidão quando ri sem fazer barulho. Como estamos numa verdadeira nuvem de mosquitos, ele mastiga um charuto e, com a saliva cheia de nicotina, lambuzamos a cara e as mãos. Assim ficamos sossegados. Sete horas da noite. A noite desceu, mas a lua ilumina demais o ca­minho. Coloca o dedo sobre as 9 horas e diz: “lluvia (chuva)”. Com­preendo que às 9 horas vai chover. Com efeito, às 9 e 20 recomeça a chover e nos pomos novamente a caminho. Para me manter à altura do meu companheiro, aprendi a andar pulando e a remar com os meus braços. Não é difícil, avança-se mais rápido do que andando depressa e, no entanto, não se corre. Durante a noite, tivemos que entrar três vezes no mato, para deixar passar um automóvel, um caminhão e uma carroça puxada por dois burros. Graças às folhas, não sinto canseira quando o dia se levanta. A chuva pára às 8 horas e então, como fizemos na véspera, caminhamos pelo capim mais de 1 quilômetro e entramos no mato, para nos esconder. O inconveniente dessas folhas é que tiram completamente o sono. Não fecha­mos o olho desde que partimos. As pupilas de Antonio estão tão dilatadas, que não se vê mais a íris. As minhas devem estar iguais.

Nove horas da noite. Chove. Parece que a chuva espera exatamen­te essa hora para recomeçar a cair. Mais tarde, eu iria saber que nos trópicos, quando a chuva começa a cair a tal hora, durante todo o quarto de lua ela cairá à mesma hora todo dia, parando também mais ou menos à mesma hora. Esta noite, no início da marcha, ouvem-se vozes e luzes. “Castillette”, diz Antonio. O diabo do homem me pega pela mão sem hesitar, entramos no mato e, depois de um desvio de mais de duas horas, nos encontramos novamente na estrada. Cami­nhamos, ou melhor, andamos aos saltos durante toda a noite e grande parte da manhã. O sol secou as nossas roupas no corpo. Fazia três dias que estávamos molhados, três dias em que só comemos um pedaço de rapadura na partida. Antonio parece estar quase certo de que agora estamos livres de encontros perigosos. Caminha despreocupadamente e já há várias horas que não encosta o ouvido no chão. O caminho segue pela praia e Antonio corta uma vara. Caminhamos agora sobre a areia úmida. Afastamo-nos do caminho. Antonio pára a fim de examinar uma longa faixa de areia pisada, de 50 centímetros de lar­gura, que sai do mar e chega até a parte seca. Acompanhamos as pe­gadas e, chegando a um lugar em que a risca se alarga em forma de círculo, Antonio enfia a vara na terra fofa. Quando a retira, a ponta está suja de um líquido amarelo como gema de ovo. De fato, cavamos um buraco na areia com as mãos e logo aparecem uns ovos, trezentos ou quatrocentos, mais ou menos, nem sei dizer. São ovos de tartaru­ga do mar. Esses ovos não têm casca, somente uma pele. Enchemos de ovos a camisa que Antonio tirou do corpo, cabem talvez uns cem. Saímos da praia e atravessamos a estrada, para penetrar no mato. Abrigados dos olhares estranhos, começamos a comer, mas somente a gema, me explica Antonio. Com um golpe de seus dentes de lobo, ele corta a pele que envolve o ovo, deixa escorrer a clara e chupa a gema, um ovo para ele, outro para mim. Abre uma quantidade enorme sempre dividindo comigo. Logo estamos cheios a ponto de quase estourar. Deitamo-nos no chão, fazendo do nosso paletó tra­vesseiro. Diz Antonio:

— Mañana tu sigues solo dos dias más. De mañana en adelante no hay policias.

Esta noite, às 10 horas, chegamos às vizinhanças do último posto de fronteira. Nós o reconhecemos pelos latidos dos cães e pela farta iluminação da casinha. Tudo isso é contornado de modo magistral por Antonio. Daí por diante, andamos a noite inteira sem tomar precauções. O caminho não é largo, apenas um vereda, que a gente Percebe ser bastante freqüentada, pois está sem capim. Tem mais ou menos 50 centímetros de largura e contorna o mato, dominando a praia de uma altura de cerca de 2 metros. Percebem-se também, em certos lugares, umas pegadas de ferraduras de cavalos e de burri­cos. Antonio senta-se numa grossa raiz de árvore e me faz sinal para fazer o mesmo. O sol bate firme. No meu relógio são 11 horas, pelo sol deve ser meio-dia: um pauzinho fincado na terra não projeta nenhuma sombra, portanto é meio-dia e eu acerto meu relógio. An­tonio esvazia o saquinho de folhas de coca: ainda tem sete. Ele me da quatro e guarda três. Afasto-me um pouco, entro no mato, volto com 150 dólares de Trinidad e 60 florins e os estendo a Antonio. Ele me olha espantado, apalpa as notas, não compreende por que estão novas em folha e como não estão molhadas, pois ele nunca me viu secá-las. Ele me agradece, com as notas na mão, reflete demoradamente, depois pega seis de 5 florins (portanto 30 florins) e me devolve o resto. Ape­sar da minha insistência, não quer receber mais nada. Nesse momen­to, parece que algo muda em sua atitude. Havíamos decidido nos se­parar ali mesmo, mas agora ele parece querer me acompanhar por mais um dia. Ele me faz compreender que depois dará meia volta. Pois bem, partimos após engolir algumas gemas de ovo. Fumamos um charuto, depois de muito pelejar para fazer fogo, esfregando mais de meia hora duas pedras uma contra a outra, até saltar uma faísca sobre um pouco de musgo seco.

Faz três horas que estamos andando e eis que surge um homem a cavalo, aproximando-se diretamente de nós. O homem traz um imenso chapéu de palha, botas e em vez de calças veste uma espécie de cal­ção de couro; usa camisa verde e um blusão desbotado, também ver­de, tipo militar. Como armas, uma belíssima carabina e um revólver na cinta.

— Caramba! Antonio, hijo mio (meu filho)!

De muito longe, Antonio havia reconhecido o cavaleiro; nada dis­se, mas é certo que sabia quem estava chegando. É um belo tipo, de seus quarenta anos, pele bronzeada. Desce do cavalo e os dois se dão mutuamente grandes pancadas nas costas. Esse modo de se abraçar, eu observei mais tarde em toda a parte.

— E quem é esse aí?

— Compañero de fuga, un francés.

— Aonde vai?

— O mais perto possível dos pescadores índios. Ele quer passar pelo território dos índios, entrar na Venezuela e ali buscar um meio para voltar a Aruba ou a Curaçau.

— Índio guajiro é mau — diz o homem. — Você não está armado, tome lá — e me entrega um punhal de cabo de chifre, dentro de sua bainha de couro.

Sentamo-nos à beira da vereda. Tiro os sapatos, meus pés estão ensangüentados. Antonio e o cavaleiro falam rapidamente; vê-se cla­ramente que não lhes agrada a minha idéia de atravessar Guajira. Antonio, com um gesto, me manda subir na garupa; com meus sa­patos amarrados no ombro, vou ficar descalço para secar minhas feridas. Compreendo tudo isso por gestos. O cavaleiro monta no cavalo. Antonio me ajuda e, sem entender muito bem, sou levado a galope, escanchado atrás daquele amigo. Trotamos o dia inteiro e a noite toda. Paramos de vez em quando e ele me passa uma garrafa de anis; bebo um pouco de cada vez. Ao despontar do dia, ele pára. O sol se levanta; ele me dá um pedaço de queijo duro como pedra, duas bolachas, seis folhas de coca e um saco especial para carregá-las impermeável, para pendurar no cinto. Aperta-me nos braços, batendo nas minhas costas, como fez com Antonio, torna a montar a cavalo e parte a toda brida.

 

                               OS ÍNDIOS

Caminho até 1 hora da tarde. Não há mais nenhuma árvore, ne­nhum mato, no horizonte. O mar está brilhando, prateado, e acima dele o sol queima. Caminho descalço, meus sapatos estão sempre dependurados, um de cada lado do ombro esquerdo. No momento em que resolvo me deitar, parece-me que estou vendo ao longe, bem afastadas da praia, cinco ou seis arvores ou pedras grandes. Procuro calcular a distância: 10 quilômetros, talvez. Apanho metade de uma folha grande de coca e, mastigando-a, recomeço minha caminhada em um passo bastante rápido. Uma hora depois, identifico as cinco ou seis coisas: são cabanas com teto de bambu, ou de palha, ou de folhas marrom-claro. De uma delas está saindo fumaça. Em seguida, vejo pessoas e elas já me viram. Percebo que um grupo grita e faz gestos na direção da praia. Vejo, então, quatro barcos que se apro­ximam rapidamente da praia e desembarcam umas dez pessoas. To­dos estão reunidos diante das casas e olham para mim.. Vejo nitida­mente que tanto os homens como as mulheres estão nus, têm somen­te alguma coisa presa na frente para esconder o sexo. Caminho devagar na direção deles. Três estão segurando arcos, com flechas na mão. Não fazem gestos, nem de hostilidade, nem de amizade. Um cachorro começa a latir e, irritado, se lança sobre mim. Acaba me mordendo na parte de baixo da barriga da perna e arranca um pedaço da calça... Quando torna a investir, é atingido no traseiro por uma pequena flecha, saída não sei de onde (depois fiquei saben­do: de uma zarabatana), foge ganindo e parece entrar numa casa. Aproximo-me mancando, pois a mordida foi realmente séria. Paro a apenas 10 metros do grupo. Nenhum deles se mexe nem diz nada, as crianças ficam atrás das mães. Os corpos, cor de cobre, nus, musculosos, são esplêndidos. As mulheres têm seios empinados, du­ros e firmes, com bicos enormes. Só uma delas tem seios grandes e caídos.

A aparência de um deles é tão nobre, seus traços são tão finos, sua raça é de uma nobreza que se manifesta tão claramente, que caminho diretamente em sua direção. Ele não tem arco nem flecha. É tão alto como eu, seus cabelos estão bem cortados, com uma fran­ja comprida que se detém na altura das sobrancelhas. Suas orelhas estão escondidas pelos cabelos, que, na parte de trás, chegam à altura do lóbulo das orelhas e são negros como azeviche, quase violeta. Seus olhos são cinzentos como ferro. Não tem um só pêlo, quer no peito, quer nos braços, quer nas pernas. As coxas, cor de cobre, são musculosas, as pernas são bem torneadas e esbeltas. Está descalço. A 3 metros dele, paro. Ele, então, dá dois passos e me olha fixamente nos olhos. Esse exame dura dois minutos. O rosto, onde nada se move, parece o de uma estátua de cobre de olhar severo. Depois, ele sorri e me toca o ombro. Em seguida, todos me tocam e uma jovem índia me segura pela mão e me leva à sombra de uma das cabanas. Lá, ela ajeita a perna da minha calça. Todo mundo está em volta, sentado em círculo. Um homem me estende um cigarro aceso, acei­to-o e começo a fumar. Todos riem da minha maneira de fumar, pois eles — tanto os homens como as mulheres — fumam com a brasa dentro da boca. A ferida não está mais sangrando, mas falta um pedaço mais ou menos do tamanho da metade de uma moeda de 5 francos. A mulher arranca os pêlos e, quando tudo já está bem depilado, lava a ferida com a água do mar que uma indiazinha fora buscar. Com a água, ela pressiona, para fazer o sangue correr outra vez. Ainda não satisfeita, espeta cada lesão com um ferro pontudo. Como todo mundo está me olhando, esforço-me para não me agitar. Outra índia jovem quer ajudá-la, mas ela a repele com dureza. Todos riem desse gesto. Compreendo que ela quisera mostrar à outra que eu lhe pertencia com exclusividade e que foi por isso que todos riram. Depois, ela corta as duas pernas da minha calça logo acima dos joelhos. Sobre uma pedra, prepara algas do mar que lhe trouxe­ram, coloca-as sobre a ferida e prende-as com o pano tirado da cal­ça. Contente com seu trabalho, faz-me sinal para que eu me levante.

Levanto-me, começo a tirar a roupa. Neste momento, ela vê logo abaixo do colarinho uma borboleta que me fiz tatuar perto da base do pescoço. Olhando-a e descobrindo outras tatuagens, dispõe-se a me tirar a camisa ela mesma, para ver melhor. Todos, homens e mu­lheres, estão muito interessados nas tatuagens de meu peito: à direita, algemas de Calvi; à esquerda, uma cabeça de mulher; sobre o estô­mago, o focinho de um tigre; sobre a coluna vertebral, um grande marinheiro crucificado e sobre toda a largura dos rins uma cena de caça com caçadores, palmeiras, elefantes e tigres. Ao perceberem essas tatuagens, os homens afastam as mulheres e se põem a exami­nar longamente, minuciosamente, cada tatuagem, tocando-a. Cada um dá a sua opinião e, antes de todos, o chefe. A partir desse mo­mento, estou aceito pelos homens. As mulheres me haviam aceita­do desde o início, quando o chefe sorrira e me tocara o ombro.

Entramos na maior das cabanas e lá eu me sinto completamente desconcertado. O chão é de terra batida, vermelha, cor de tijolo. A cabana tem oito portas, é redonda, as vigas suportam redes de cores vivas, feitas de pura lã. No centro, uma pedra redonda e achatada, castanha e polida, cercada de outras pedras chatas para servirem de assento. Nas paredes, vários fuzis de cano duplo e um sabre militar. Espalhados por toda parte, arcos de variadas dimensões. Noto tam­bém uma carapaça de tartaruga na qual um homem, poderia se deitar, um fogão de pedras secas bem dispostas umas sobre as outras, sem qualquer indício de cimento. Sobre a mesa, metade de uma cabaça contendo no fundo uns dois ou três punhados de pérolas. Num chi­fre de boi, dão-me para beber um suco de fruta fermentado, agridoce, muito bom; em seguida, sobre uma folha de bananeira, trazem-me um peixe grande de pelo menos 2 quilos, assado sobre a brasa. Con­vidam-me a comer e eu como lentamente. Quando acabo o peixe, que estava delicioso, a mulher me toma pela mão e me leva à praia, onde lavo as mãos e a boca com a água do mar. Depois, voltamos. Com os outros sentados em círculos e a jovem índia a meu lado, a mão na minha coxa, tentamos trocar algumas informações a nosso respeito por meio de gestos e palavras.

Num movimento único, o chefe se levanta, vai até o fundo da ca­bana, volta com um pedaço de pedra branca e faz desenhos sobre a mesa. Começa por desenhar índios nus, a aldeia deles e depois o mar. À direita do povoado indígena, casas com janelas, homens e mulhe­res vestidos. Os homens aparecem com um fuzil na mão ou com um pedaço de pau. À esquerda, outro povoado, homens com fuzil e cha­péu, caras antipáticas, mulheres vestidas. Depois de eu ter observado bastante os desenhos, ele percebe que esquecera qualquer coisa e de­senha um caminho que vai da aldeia indígena ao povoado da direita e outro que segue pela esquerda, na direção do outro povoado. Para me indicar como eles estão colocados em relação à aldeia, ele dese­nha na costa venezuelana, à direita, um sol, representado por um círculo do qual saem raios em todas as direções e, na costa colom­biana, do lado da outra aldeia, um sol cortado no horizonte por urna linha sinuosa. Não havia como se enganar: de um lado, o sol nascia; do outro, se punha. O jovem chefe olha com orgulho para sua obra. Todos a olham, cada um por sua vez. Quando percebe que compreendi mesmo o que ele queria dizer, empunha novamente o giz e cobre de traços os povoados de ambos os lados, deixando in­tata somente a sua aldeia. Compreendo que ele quer me dizer que as pessoas daqueles lugares são más, que ele não quer nada com elas e só a sua aldeia é boa. A quem o diz!

Limpam a mesa com um pedaço de lã molhada. Depois que ela secou, ele me dá o giz e cabe a mim contar a minha história em de­senhos. É mais complicada do que a dele. Desenho um homem com as mãos amarradas, com dois homens armados que o vigiam; depois, faço o mesmo homem correr, perseguido pelos dois com os fuzis. Faço três vezes a mesma cena e a cada vez me distancio mais dos meus perseguidores; na última, os policiais param e eu continuo a correr, na direção da aldeia, que desenho com os índios, com o cão e, adiante deles, o chefe de braços abertos para mim.

Meu desenho não deve ter saído tão ruim. pois, em seguida a umas conversas bastante longas entre os homens, o chefe abre os braços, tal como no meu desenho. Eles tinham compreendido.

Nessa mesma noite, a índia me leva para a cabana dela, onde vi­vem seis índias e quatro índios. Instala uma magnífica rede de lã, muito larga, onde duas pessoas podem facilmente dormir atravessa­das. Eu me deito na rede, mas ao comprido; ela então se deita numa outra rede, no sentido da largura. Faço a mesma coisa e ela vem se deitar a meu lado. Toca o meu corpo, as orelhas, os olhos, a boca, com seus dedos longos e finos mas muito nodosos, cheios de cicatrizes pequenas e estriadas. São as feridas feitas nas conchas, quando ela mergulha para apanhar ostras com pérolas. Quando acaricio seu ros­to, ela me pega a mão, espantada de vê-la fina e sem marcas. Depois desse momento na rede, a gente se levanta e vai para a cabana grande do chefe. Dão-me os fuzis para examinar: são de calibre 12 e 16, de Saint-Étienne. Há seis caixas cheias de cartuchos de chum­bo tipo zero-zero.

A índia é de estatura mediana, tem os olhos cinzentos cor de ferro como os do chefe, seu perfil é muito puro, os cabelos trançados lhe chegam até os quadris e são repartidos ao meio. Seus seios são admi­ravelmente bem feitos, altos e em forma de pêra. Os bicos são mais escuros do que a pele cor de cobre e são grandes. Quando beija, ela morde, não sabe beijar. Rapidamente eu lhe ensino a beijar à ma­neira civilizada. Quando caminhamos, não quer andar do meu lado e não é possível fazer nada, pois ela vem andando atrás de mim. Uma das cabanas não tem moradores e está em mau estado. Auxiliada pelas outras mulheres, ela ajeita o teto com folhas e endireita o muro com aplicações de uma terra vermelha cheia de argila. Os índios possuem todos os tipos de ferramentas cortantes; facas, facões, sabres, machados, enxadas e um ancinho com dentes de ferro. Há utensílios de cobre e de alumínio, regadores, panelas, uma mó de esmeril, um forno, tonéis de ferro e de madeira. Redes desmesuradamente gran­des, de pura lã, enfeitadas com franjas trançadas e desenhos de cores muito violentas, vermelho-sangue, azul-da-prússia, negro tom de aze­viche, amarelo-canário. Logo a casa está pronta e ela começa a trazer coisas recebidas das outras índias (até um arreio de burro), um tripé de ferro para colocar sobre o fogo, uma rede onde quatro adultos poderiam dormir atravessados, vidros, latas, panelas, etc.

Há quinze dias que cheguei, nós nos acariciamos mutuamente, mas ela se recusa violentamente a ir até o fim. Não compreendo, pois foi ela quem me provocou e, quando chega a hora, não quer Não se cobre nunca com pano algum, a única roupa que usa é o cache-sexe, preso à sua cintura estreita por uma cordinha bastante fina; as nádegas permanecem inteiramente nuas. Instalamo-nos sem cerimônia alguma na cabana, que tem três portas, a da entrada prin­cipal e duas outras em posições opostas. Na circunferência da cabana, que é redonda, essas três portas formam um triângulo isósceles. Ca­da uma das portas tem sua própria razão de ser. Eu, por exemplo, devo entrar e sair pela porta do norte. Ela deve sempre entrar e sair pela porta do sul. Não devo entrar ou sair pela sua porta e nem ela deve utilizar a minha. Os amigos entram pela porta principal e tanto eu como ela só a devemos usar quando acompanhados de visitas.

Foi só depois que nos instalamos na casa que ela se entregou a mim. Não quero entrar em pormenores, mas era uma amorosa ar­dente e hábil por intuição, que se enrolava em mim como um cipó. Escondidos de todos, sem exceção, eu a penteio e lhe faço as tranças nos cabelos. Ela fica feliz quando a penteio, uma felicidade indescri­tível pode ser vista em seu rosto juntamente com o medo de que nos surpreendam, pois percebo que um homem não deve pentear sua mulher, nem polir-lhe as mãos com uma pedra semelhante à pedra-pomes, nem beijar-lhe de determinada maneira a boca e os seios.

Lali (é o nome dela) e eu nos instalamos, portanto, na casa. Há uma coisa que me surpreende: ela nunca usa as frigideiras ou as pa­nelas de ferro ou de alumínio, nunca bebe num copo de vidro, faz tudo nos recipientes de barro fabricados por eles próprios.

O regador serve para nos lavarmos, com a pedra. As necessidades são feitas no mar.

Vou observar o trabalho de abertura de ostras e busca de pérolas. São as mulheres mais velhas que o fazem. Cada mulher jovem que pesca pérolas tem a sua sacola. As pérolas encontradas nas ostras são repartidas da seguinte maneira: uma parte para o chefe, que re­presenta a comunidade; uma parte para o pescador; meia parte para a mulher que abre as ostras; e uma parte e meia para a mergulhadora. Quando vive com a família, ela dá as pérolas a seu tio, irmão de seu pai. Nunca compreendi por que é o tio também quem entra em pri­meiro lugar na casa dos noivos que estão em vias de se casar, coloca o braço da mulher em volta da cintura do marido e põe o braço direi­to do homem em torno da cintura da mulher, de maneira que o dedo indicador entre no umbigo. Depois de fazer isso, vai embora.

Vejo, pois, a abertura das ostras, mas não vejo a pesca, já que não me convidaram a entrar na canoa. Eles pescam bem longe da costa, a cerca de 500 metros. Há dias em que Lali volta toda arranhada nas coxas ou nos flancos pelo coral. Às vezes sai sangue das feridas. Então, ela prepara uma pasta de algas marinhas e a aplica sobre os ferimentos. Não faço coisa alguma sem que me tenham feito sinais convidando-me a fazê-la. Nunca entro na cabana do chefe sem que alguém ou ele próprio me pegue pela mão e me leve lá. Lali está desconfiada de que três moças índias da idade dela se deitam no ca­pim o mais perto possível da porta da nossa casa. para tentarem ver ou ouvir o que fazemos quando ficamos sozinhos.

Ontem vi o índio que faz a ligação entre a aldeia dos índios e o primeiro povoado colombiano, situado a 2 quilômetros do posto da fronteira. Esse povoado se chama La Vela. O índio tem dois jumentos e uma carabina Winchester de repetição; não usa roupa alguma, li­mitando-se, como todos, ao cache-sexe. Não fala uma única palavra em espanhol. Como, então, faz o seu comércio? Com a ajuda do di­cionário, escrevo num papel: agujas (agulhas), tinta nanquim azul e vermelha e linha de costura, pois o chefe me pede constantemente pa­ra tatuá-lo. O índio da ligação é pequeno e magro. Tem uma horrí­vel ferida que começa no flanco esquerdo, atravessa todo o tórax e acaba na espádua direita. Essa ferida cicatrizou, fazendo uma marca empolada da grossura de um dedo. Numa caixa de charutos são guardadas as pérolas. A caixa está dividida em compartimentos e as pérolas são postas nos diversos compartimentos, de acordo com o ta­manho delas. Quando o índio parte, o chefe me autoriza a acompa­nhá-lo um pouco. Para me obrigar a voltar, ele tem o Simplismo de me emprestar um fuzil de cano duplo e seis cartuchos: está seguro de que assim serei obrigado a regressar, pois não poderia levar comigo uma coisa que não é minha. Como os jumentos não estão com muita carga, o índio monta em um deles e eu no outro. Durante o dia todo percorremos a mesma rota que eu segui para chegar até a aldeia, mas, a uns 3 ou 4 quilômetros do posto da fronteira, o índio dá as costas ao mar e entra na direção do interior do país.

Lá pelas 5 horas, chegamos às margens de um riacho onde estão cinco casas de índios. Todos vêm me ver. O índio fala, fala, fala, até o momento em que chega um tipo que tem os olhos, os cabelos, o nariz, todos os traços de um índio, exceto a cor. É branco, pálido e tem os olhos vermelhos como os de um albino. Está vestindo calças cáquis. Compreendo, então, que o índio da minha aldeia nunca ultra­passa esse lugar aqui. O índio branco me diz:

— Buenos dias. Tu eres el matador que se fué con Antonio? Antonio es compadre mio de sangre. (Para se ligarem por um pacto de sangue, dois homens agem da seguinte maneira: colocam seus braços um ao lado do outro, depois cada um deles fere com a faca o braço do amigo; em seguida, juntam os ferimentos para misturar o sangue e, reciprocamente, dão uma lambida nas mãos tingidas pelo sangue de ambos.)

— Que quieres?

— Agujas, tinta china roja y azul. Nada más.

— Tu lo tendrás de aqui a un cuarto de luna.

Ele fala o espanhol melhor do que eu e se percebe que sabe entrar em contato com os civilizados, organizando o comércio de maneira a defender encarniçadamente os interesses de sua raça. Na hora da partida, me dá um colar feito com peças de prata colombiana, muito brancas. Diz que é para Lali.

— Vuelva a verme — fala o índio branco. E, para assegurar-se de que voltarei, me dá um arco.

Torno a partir, sozinho, e ainda não havia percorrido a metade do caminho quando vejo Lali, na companhia de uma de suas irmãs, mui­to jovem, que teria talvez doze ou treze anos. Lali tem, com certeza, uma idade entre dezesseis e dezoito anos. Lançando-se sobre mim como uma louca, ela me arranha o peito — pois protejo o rosto — e depois me morde cruelmente no pescoço. Custo a controlá-la, em­pregando todas as minhas forças. De repente, ela se acalma. Ponho a menina índia montada no jumento e vou caminhando atrás, abraça­do com Lali. Voltamos devagar à aldeia. Durante o retorno, mato uma coruja. Atirei nela sem saber o que era, apenas porque vira os olhos brilhando no meio da noite. Lali quer levá-la de qualquer ma­neira conosco e resolve amarrá-la na sela do burrico. Chegamos de madrugada. Estou tão cansado, que quero tomar um banho. Lali me lava e, em seguida, na minha frente, tira o cache-sexe da irmã, lava-a e depois toma um banho ela própria.

Quando as duas voltam, estou sentado, esperando que a água posta por mim no fogo esquente, para bebê-la com limão e açúcar. Então acontece uma coisa que eu só pude entender direito depois: Lali colo­ca sua irmã entre as minhas pernas e põe os meus braços em torno da cintura dela. Percebo que a garota está sem o cache-sexe e com o colar que eu dera de presente a Lali. Não sei como sair de uma si­tuação tão estranha. Com jeito, retiro a menina do lugar, pego-a no colo e levo-a para a rede, onde a deito. Tiro-lhe o colar e o coloco no pescoço de Lali. Lali se deita ao lado da irmã e eu ao lado de Lali. Mais tarde percebi que Lali tinha pensado que eu estava co­lhendo informações para ir embora, que eu não estava satisfeito com ela e que talvez sua irmã me agradasse e me fizesse ficar. Acordei com a mão de Lali tapando meus olhos: era tarde, 11 horas da manhã. A garota não estava mais lá. Lali me olha com amor com seus grandes olhos cinzentos e me morde suavemente os lábios. Está feliz Por compreender que é a ela que eu amo e que não parti porque estaria desinteressado dela.

Diante da casa está sentado o índio que costuma guiar a canoa onde vai Lali. Percebo que está esperando por ela. Ele sorri para mim e fecha os olhos, com uma expressão simpática que significa que sabe que Lali está dormindo. Sento-me a seu lado e ele me fala de coisas que não entendo. É excepcionalmente musculoso, jovem, robusto como um atleta. Observa minhas tatuagens, examina-as longamente e depois me faz sinais de que gostaria que eu o tatuasse. Respondo-lhe que sim com um gesto de cabeça, mas parece que ele pensa que não o compreendi. Chega Lali. Ela untou o corpo todo com óleo. Como sabe que eu não gosto disso, me faz compreender que, com o tempo nublado, a água deve estar muito fria. A mímica, feita meio a sério e meio na brincadeira, é tão graciosa que, fingindo que não a compreendi, faço com que ela a repita várias vezes. Quando lhe faço sinal para recomeçar uma vez mais, ela franze a boca de uma maneira que claramente significa; “Será que você é,. burro ou será que eu sou incapaz para explicar por que passei óleo?”

O chefe passa diante de nós com duas índias. Elas carregam um enorme lagarto verde de pelo menos 4 ou 6 quilos e ele leva um arco e algumas flechas. Acabou de caçá-lo e me convida a ir comê-lo mais tarde. Lali lhe fala e ele me toca o ombro e aponta para o mar. Compreendo que posso ir com Lali, se eu quiser. Vamos os três: Lali, seu habitual companheiro de pesca e eu. A pequena canoa, feita de madeira muito leve, é facilmente posta na água. Eles a levam no ombro e entram na água. O início da navegação é curioso: o índio é o primeiro que sobe e se instala na popa, com um grande remo na mão. Lali, com a água pela altura do busto, equilibra a canoa e a impede de recuar na direção da praia. Subo e coloco-me no meio. Em seguida, num único movimento rápido, Lali sobe e, ao mesmo tempo, com uma remada, o índio nos faz avançar mar adentro. As ondas vão aumentando de tamanho na medida em que a gente pro­gride. A 500 ou 600 metros da praia, encontramos uma espécie de canal, onde já estão dois barcos pescando. Lali prende as tranças no alto da cabeça por meio de cinco tiras de couro vermelho, três atravessadas, duas ao comprido, presas ao pescoço. Empunhando um facão, segue a haste de ferro de cerca de 15 quilos que serve de âncora e que o índio baixou até o fundo. O barco está ancorado, mas não fica quieto, pois a cada onda sobe e desce.

Durante mais de três horas, Lali desce ao fundo do mar e torna a subir. Não se vê o fundo, mas, pelo tempo que ela leva, deve estar a uns 15 a 18 metros. Cada vez que ela sobe, traz o saco com ostras e o índio o esvazia na canoa. Durante essas três horas, nem uma vez Lali subiu para cima do bote. Para descansar, ela fica cinco ou dez minutos agarrada a ele sem sair da água. Mudamos duas vezes de lugar sem que Lali tenha entrado na canoa. No segundo lugar da nossa pesca, o saco vem com ostras mais numerosas e maiores. Dirigimo-nos para a terra. Lali sobe à canoa e as ondas nos levam rapidamente à praia. Uma índia velha nos espera. Lali e eu a deixa­mos transportar as ostras para a areia seca, juntamente com o índio. Quando todas as ostras estão secas, Lali impede a velha de abri-las, pois faz questão de começar ela própria. Depressa, com a faca, ela abre umas trinta até encontrar uma pérola. Não preciso dizer que comi pelo menos umas duas dúzias de ostras. A água do fundo do mar deve ser fria, pois elas também estavam bastante frias. Delica­damente, Lali extrai a pérola de dentro da ostra: é do tamanho de uma ervilha pequena. Uma pérola grande, maior, provavelmente, que as pérolas médias. E como brilha! A natureza lhe deu tons que mudam, embora discretos. Lali segura a pérola com os dedos, colo­ca-a na boca e fica com ela aí durante um momento; depois retira-a e coloca-a na minha. Por meio de uma série de gestos e movimentos do queixo, explica-me que quer que eu a esmague com os dentes e a engula. Diante da minha recusa inicial, sua súplica é tão bela, que eu faço aquilo que ela quer: trituro a pérola com os dentes e engulo os fragmentos. Ela abre quatro ou cinco ostras e me faz comê-las, para ajudar a engolir a pérola. Parece uma criança: abre minha boca, me faz deitar na areia e verifica se não ficou nem um pedaci­nho preso entre os dentes. Deixamos os outros continuarem a tra­balhar e nos vamos.

Há um mês que estou ali. Não há engano possível, pois vou mar­cando os dias num papel. Faz tempo que as agulhas chegaram, com tinta nanquim vermelha, azul, violeta. Na cabana do chefe descobri três navalhas de barbear Solingen. Ele nunca as usa para se bar­bear, já que os índios são imberbes. Uma das navalhas serve para o corte gradual dos cabelos. Fiz uma tatuagem no braço de Zato, o chefe: um índio com plumas de todas as cores na cabeça. Ele ficou encantado e me fez compreender que não queria que eu fizesse tatuagem alguma nos outros antes de lhe fazer uma grande tatuagem no peito. Quer a mesma carantonha de tigre que eu tenho, com dentes igualmente grandes. Acho graça, não sei desenhar a ponto de fazer uma cabeça tão bonita. Lali me depilou o corpo todo. Logo que vê um pêlo em mim, arranca-o e esfrega no lugar uma pasta feita de alga do mar e cinza. Parece-me que há maior dificuldade, depois, para eles tornarem a crescer.

Essa comunidade índia se chama Guajira. Eles vivem tanto na costa como na planície interior que se estende até o pé das monta­nhas. Nas montanhas vivem outras comunidades, chamadas Moti­lones. Nos anos seguintes, eu haveria de lidar com eles. Por inter­médio do comércio, conforme já expliquei, os guajiros têm contato com a civilização. Os índios da costa mandam ao índio branco péro­las e também tartarugas. As tartarugas são fornecidas vivas e chegam a pesar até por volta de 150 quilos. Nunca, entretanto, elas chegam ao peso e ao tamanho das do Orinoco ou do Maroni, que atingem 400 quilos e cuja carapaça às vezes vai além de 2 metros de com­primento e 1 metro no ponto de maior largura. Depois de viradas de barriga para cima, as tartarugas não conseguem mais se desvirar. Vi algumas serem levadas depois de terem ficado três semanas de costas no chão, sem comer e sem beber, e elas ainda estavam vivas. Os grandes lagartos verdes, por sua vez, são ótimos para comer. A carne deles é deliciosa, branca e mole; os ovos cozinhados na areia ao sol também são muito saborosos. Só o aspecto deles não anima muito a comê-los.

Cada vez que Lali volta da pesca, traz para casa as pérolas que lhe cabem e as dá para mim. Coloco-as num recipiente de madeira sem separar as grandes, as médias e as pequenas; ficam todas mistu­radas. Numa caixa de fósforos guardo separadas somente duas péro­las cor-de-rosa, três negras e sete cinzentas de aspecto metálico, fan­tasticamente belas. Guardo também uma pérola barroca (*) grande que tem o formato e o tamanho de um grão de feijão branco. Essa pérola barroca tem três cores superpostas e, conforme o tempo, uma delas sobressai em relação às outras: a parte negra, a parte cor de aço ou a parte prateada com reflexos cor-de-rosa. Graças às péro­las e a algumas tartarugas, nada falta à tribo. Só que eles têm coisas que não servem para nada e deixam de ter coisas que lhes poderiam ser úteis. Por exemplo: em toda a tribo não há um único espelho. Para poder me barbear e me olhar, precisei encontrar — sem dúvi­da, proveniente de um naufrágio — uma placa de 40 centímetros, niquelada de um dos lados.

 

(*) Pérola de superfície irregular.

 

Minha política em relação aos meus amigos é simples: não faço coisa alguma que possa diminuir a autoridade e o saber do chefe e menos ainda a reputação de um índio muito velho que vive a apenas 4 quilômetros, no interior daquelas terras, cercado de cobras, duas cabras e uma dúzia de carneiros e ovelhas. É o feiticeiro das diferentes aldeias de guajiros. Minha atitude faz com que ninguém me inveje e me olhe com má vontade. Ao fim de dois meses, estou completamente adotado por todos. O feiticeiro tem também umas vinte galinhas. Nas duas aldeias que conheço não há cabras, nem galinhas, nem ovelhas, nem carneiros; concluo, portanto, que a posse de animais domésticos deve ser um privilégio do feiticeiro. Todo dia de manhã, uma índia (elas fazem rodízio) lhe leva peixe e ostras fres­cas num cesto posto sobre a cabeça. Leva-lhe também broinhas de milho, feitas no mesmo dia e assadas sobre pedras cercadas de fogo. Às vezes — mas não sempre —, elas voltam com ovos e leite coa­lhado. Quando o feiticeiro quer que eu vá vê-lo, me manda pessoal­mente três ovos e uma faca de madeira bem polida. Lali me acom­panha até a metade do caminho e me espera à sombra de enormes cactos. Da primeira vez, ela pôs a faca de madeira na minha mão e me fez sinal de ir adiante, na direção de seu braço.

O índio velho vive no meio de uma sujeira enorme, numa tenda feita de couros de boi estendidos, com o lado peludo voltado para dentro. No interior da tenda há três pedras com um fogo que está sempre aceso, a gente percebe. Ele não dorme numa rede e sim numa espécie de cama feita com galhos de árvores e a mais de 1 metro do chão. A tenda é bastante grande, deve ter uns 20 metros quadrados. Não tem paredes: do lado por onde vem o vento há alguns arbustos. Vi duas cobras, uma de cerca de 3 metros, da gros­sura de um braço; a outra, com mais ou menos 1 metro, tinha um V amarelo na cabeça. Pensei: “Devem comer as galinhas e os ovos”. Não compreendo como podem conviver dentro dessa tenda com as cabras, as galinhas, as ovelhas e também um jumento. O índio velho me examina de cima a baixo, me faz tirar as calças transformadas num short por Lali e, quando estou nu como um verme, faz com que me sente sobre uma pedra perto do fogo. Põe no fogo umas folhas verdes que fazem muita fumaça e cheiram a hortelã. A fumaça me envolve a ponto de sufocar, mas quase não tusso e durante uns dez minutos espero que isso passe. Depois, ele queima as minhas calças e me dá dois cache-sexe de índio, um de couro de carneiro e outro de cobra, mole como uma luva. Coloca no meu braço um bracelete feito com tiras de couro trançado de cabra, de carneiro e de cobra. É um bracelete com 10 centímetros de largura e se prende por inter­médio de uma tira de couro de cobra que a gente aperta ou afrouxa à vontade.

No tornozelo esquerdo, o feiticeiro tem uma ferida do tamanho de uma moeda de 2 francos, coberta de moscas. De vez em quando, ele as enxota e, nas horas em que elas insistem demais, espalha cinza em cima da chaga. Aceito pelo feiticeiro, disponho-me a partir, quando ele me dá uma faca de madeira menor do que aquela que me envia quando quer me ver. Em poucos minutos, Lali me expli­caria que, quando quisesse ver o feiticeiro, de agora em diante, eu deveria lhe mandar essa faca pequena e, se ele concordasse em me receber, me mandaria a grande. Antes de deixá-lo, observei como seu rosto magro e seu pescoço são cheios de rugas. Sua boca tem apenas cinco dentes: três embaixo e dois em cima, na frente. Os olhos, amendoados como os de todos os índios, possuem nas pálpe­bras tanta pelanca, que, quando elas se fecham, formam duas bolo­tas. Não tem cílios nem sobrancelhas. Os cabelos são lisos e negros, caídos, aparados na altura dos ombros, com uma franja igual à de todos os demais índios, à altura das sobrancelhas.

Vou-me embora e me desagrada ficar com a bunda de fora. Sinto-me gaiato. Mas, afinal, vai por conta da fuga! É preciso levar os índios a sério e a liberdade compensa alguns inconvenientes. Lali vê o cache-sexe e, rindo, mostra todos os dentes, que aliás são tão bonitos como as pérolas que ela pesca. Examina o bracelete e a outra tanguinha de cobra. Para ver se fui submetido à fumaça, ela me cheira. Os índios, diga-se de passagem, têm o olfato muito desen­volvido.

Acostumei-me a essa vida e percebi que era preciso não continuar nela por muito tempo mais, pois podia acontecer que eu perdesse a vontade de ir embora. Lali me observa sempre, ela gostaria de me ver participando mais ativamente da vida em comum. Por exemplo, ela me viu sair na pesca de peixes, sabe que eu remo bem e sou ca­paz de dirigir a canoa pequena e leve. Daí a querer que eu dirija o barco em que ela sai não há muita distância. No entanto, isso não me convém. Lali é a melhor mergulhadora da aldeia, o barco dela é sempre aquele que traz as ostras maiores e em maior quantidade, pescadas mais no fundo. Sei também que o jovem pescador que a le­va no barco é o irmão do chefe. Indo com Lali, eu o prejudicaria; portanto, é uma coisa que não devo fazer. Quando Lali me vê pen­sativo, ela chama outra vez a irmã, que vem correndo, alegre, e en­tra na casa pela minha porta. Isso deve ter uma significação impor­tante. Por exemplo, elas chegam juntas diante da porta maior, que dá para o mar; ali, elas se separam, Lali faz uma volta e entra pela por­ta dela, enquanto Zoraima, a garota, vai passar pela minha porta. Os seios de Zoraima não são maiores do que tangerinas e seus cabelos não são compridos: são cortados na altura do queixo e a franja que cobre a testa desce além das sobrancelhas, chega quase ao começo das pálpebras. Cada vez que ela vem, chamada pela irmã, as duas to­mam banho e, ao entrarem, tiram o cache-sexe, que fica pendurado na rede. A garota vai embora sempre triste, pelo fato de eu não a ter possuído. Outro dia, nós estávamos os três deitados na rede, Lali no meio; ela se levantou e me deixou colado ao corpo nu de Zoraima.

O índio que pesca com Lali se feriu no joelho, um ferimento grande e profundo. Os outros o levaram ao feiticeiro e ele voltou com um emplastro de argila branco. Nessa manhã, portanto, tive de ir pescar com Lali. Entramos na água com o barco da maneira usual e nos saímos bem. Levei-a um pouco mais longe do que costumava. Ela está radiante de me ver ali, com ela, na canoa. Antes de mer­gulhar, passa óleo no corpo. Imagino que no fundo negro do mar, que estou observando, a água deve ser um bocado fria. Três barba­tanas de tubarão passam bastante perto de nós, eu as aponto, mas ela não lhes dá nenhuma importância. São 10 horas da manhã, o sol brilha. Com a sacola presa ao braço esquerdo, com o facão embainhado preso à cintura, ela mergulha; e, ao mergulhar, não em­purra a canoa com os pés, como faria normalmente outra pessoa qualquer. Com incrível rapidez, desaparece no fundo escuro da água. Seu primeiro mergulho deve ter sido de exploração, pois a sacola volta com poucas ostras. Vem-me uma idéia. A bordo há um rolo de corda de couro. Amarro a ponta na sacola, entrego-a a Lali e desenrolo a corda na medida em que Lali vai descendo, levando a sacola e a corda. Ela deve ter compreendido a manobra, pois retorna sem a sacola, após um demorado mergulho. Segura ao barco para descansar, ela me faz sinal para puxar a sacola. Puxo-a, mas, num dado momento, ela parece ter ficado presa em algum coral. Ela mergulha e a desprende, de modo que a sacola acaba chegando, cheia pela metade. Esvazio-a no barco. Em oito mergulhos de 15 metros, nessa manhã, a canoa fica quase cheia. Quando Lali sobe, ficam faltando só dois dedos para que a água entre no bote. Ele está tão cheio de ostras, que, quando vou puxar a âncora, verifico que corre­mos o risco de afundar. Então deixamos a âncora presa pela corda a um remo, que fica flutuando e assinalando o lugar para voltar­mos. Chegamos à terra sem incidentes.

A velha nos espera e o índio que acompanha Lali está na areia seca, no lugar onde, após a pesca, eles costumam abrir as ostras. Está contente com o fato de nós termos trazido tantas ostras. Lali parece explicar-lhe o que eu fiz, amarrando a sacola na corda, aliviando-lhe o esforço da subida e permitindo que ela ponha mais ostras dentro dela. Ele examina o nó que eu dei na corda para pren­dê-la ao saco. Experimenta desfazê-lo e, logo na primeira tentativa, consegue refazê-lo com muita perícia. Então me olha, muito orgu­lhoso.

Abrindo as ostras, a velha encontra treze pérolas. Lali, que ha­bitualmente não fica nunca para essa operação e espera em casa que lhe levem a parte dela, permaneceu até que abrissem a última ostra- Comi pelo menos três dúzias. Lali comeu cinco ou seis. A velha separa as pérolas, que são mais ou menos do mesmo tamanho, do tamanho de urna ervilha. Três pérolas para o chefe, três para mim, duas para a velha, cinco para Lali. Lali recebe as três pérolas que me cabem e as entrega a mim. Eu as recebo e as entrego ao índio machucado. Ele não quer recebê-las, mas eu lhe abro a mão, ponho as pérolas dentro dela e torno a fechá-la. Então aceita. Sua mulher e sua filha observam a cena um tanto afastadas do nosso grupo e estavam em silêncio, mas agora começam a rir e se aproximam. Ajudo o pescador a se deslocar até a cabana dele.

Esta cena se repete durante cerca de duas semanas. Todos os dias, entrego as pérolas ao pescador. Ontem, das seis que nos coube­ram, guardei uma. Chegando em casa, obriguei Lali a comê-la. Ela ficou touquinha de alegria e cantou a tarde toda. De vez em quando, vou ver o índio branco. Ele me disse que se chama Zorrillo, que em espanhol quer dizer raposinha. Falou que o chefe lhe pedira para me Perguntar por que eu não fazia a tatuagem do focinho de tigre que fora pedida. Expliquei-lhe que não sei desenhar bem. Com a ajuda do dicionário, peço-lhe para me trazer um espelho retangular com a superfície do meu peito, papel transparente, um pincel fino, um tinteiro e papel-carbono (ou, se ele não o encontrar, um crayon grande e grosso). Digo-lhe também para trazer roupas do meu tama­nho e guardá-las na casa dele com três camisas cáquis. Fico sabendo que a polícia lhe fez perguntas sobre Antonio e sobre mim. Ele lhes respondeu que eu tinha passado para a Venezuela pelas montanhas e que Antonio tinha sido mordido por uma cobra e estava morto. Disse-me também que os franceses estão na prisão em Santa Marta.

Na casa de Zorrillo há exatamente as mesmas coisas heterogêneas que na casa do chefe: muitos vasos decorados com desenhos de que os índios gostam, cerâmicas de muita arte, tanto pelo formato como pelos desenhos e pelas cores; redes de pura lã, magníficas, umas brancas, outras coloridas, com franjas; couros curtidos de cobras, lagartos e enormes sapos; cestos trançados, brancos e em cores. Segundo ele me falou, todos esses objetos são feitos por índios da mesma raça dos da minha tribo, mas que vivem em uma região de vegetação espessa, a 25 dias de viagem a pé, na direção do interior. Desse lugar é que vêm as folhas de coca e ele me dá mais de vinte delas. Quando estiver deprimido, mastigarei uma. Despeço-me de Zorrillo, pedindo-lhe que, além de todos os meus pedidos anotados, me trouxesse alguns jornais ou revistas em espanhol, pois com meu dicionário consegui aprender bastante em dois meses. Não há no­tícias de Antonio; ele sabe apenas que houve um novo choque entre guardas-costeiros e contrabandistas. Cinco guardas e um contraban­dista morreram, o barco não foi capturado. Jamais vi na aldeia uma gota sequer de álcool, a não ser a bebida fermentada que é preparada com frutas. Enxergando uma garrafa de anis, peço-a, mas ele recusa. Se quiser, posso bebê-la aqui, mas não posso levá-la. Esse albino é um sábio.

Deixo Zorrillo e me vou em um burrico que ele me emprestou e que amanhã voltará sozinho à sua casa. Levo apenas um pacote de bombons de várias cores, enrolados um por um em papel fino, e sessenta maços de cigarro. Lali está me esperando a mais de 3 qui­lômetros da aldeia, com a irmã; ela não faz nenhuma cena e con­corda em vir andando ao meu lado, abraçada. De vez em quando, ela pára e me beija à maneira civilizada, na boca. Quando chegamos, vou ver o chefe e lhe ofereço os bombons e os cigarros. Sentamos à porta, diante do mar. Tomamos a bebida fermentada, que, para ficar fresca, é guardada em moringas. Lali se senta à minha direita, com os braços em volta da minha coxa; sua irmã se senta à minha esquerda, na mesma posição. Elas comem os bombons. O pacote fica aberto diante de nós e as mulheres e as crianças se servem com discrição. O chefe empurra a cabeça de Zoraima para perto da minha e me faz compreender que ela quer ser minha mulher, como Lali. Lali faz gestos, segura seus próprios seios com as mãos e depois mostra que Zoraima tem seios pequenos e que é por isso que não a quero. Levanto os ombros e todo mundo ri. Percebo que Zoraima parece muito infeliz. Seguro-a nos meus braços e então envolvo seu pescoço e lhe acaricio os seios; ela fica radiante de felicidade. Fumo alguns cigarros; os índios experimentam e logo os rejeitam, preferem o cigarro deles, com a brasa dentro da boca. Cumprimento todos e pego Lali pelo braço para ir embora. Lali vem atrás de mim e Zoraima a segue. Peixes grandes estão sendo assados na brasa, é sempre uma delícia. Coloquei no fogo uma lagosta de pelo menos 2 quilos. Comemos com prazer essa carne delicada.

Recebi o espelho, o papel fino, o papel para decalcar, um tubo de cola que eu não tinha pedido, mas pode vir a ser útil, vários crayons grandes meio duros, o tinteiro e o pincel. Penduro o espelho em um fio, deixando-o à altura do meu peito, ficando eu sentado. No espelho aparece claramente, com todos os pormenores e do mes­mo tamanho, a cabeça do tigre. Lali e Zoraima, curiosas e interessa­das, me observam. Faço os traços com o pincel; como a tinta escorre, uso a cola, misturando-a com a tinta e, a partir de então, vai tudo bem. Depois de três sessões de uma hora de trabalho cada, consigo ter no espelho a réplica perfeita da cabeça do tigre.

Lali foi buscar o chefe, Zoraima pega minhas mãos e as coloca em seus seios, ela exprime tanta tristeza e desejo no rosto, seus olhos exprimem tanta volúpia e amor, que, sem saber bem o que faço, acabo por possuí-la ali, no chão, no meio da cabana. Ela geme um pouco, mas seu corpo, tenso de prazer, me envolve e não quer me largar. Com suavidade, me desprendo e vou tomar banho no mar, pois estou cheio de terra; ela vem atrás de mim e nós nos lavamos juntos. Esfrego-lhe as costas, ela me esfrega as pernas e os braços, voltamos para casa. Lali está sentada no lugar onde nós nos deitamos e, quando entramos, ela percebe tudo. Levanta-se, põe os braços em volta do meu pescoço e me beija com ternura. Depois pega a irmã pelo braço, faz com que ela saia pela minha porta, enquanto a pró­pria Lali sai pela dela. Ouço barulho fora, saio e vejo Lali, Zoraima e outras duas mulheres esforçando-se por furar a parede com um ferro. Percebo que elas vão fazer uma quarta porta. Para que a parede se abra sem rachar, elas a molham com o regador. Em pouco tempo, a porta está feita. Zoraima remove os escombros da parte derrubada. De agora em diante, ela entrará e sairá sempre por esta porta e nunca mais utilizará a minha.

Chega o chefe com três índios e com o irmão, cuja perna já está quase cicatrizada. O chefe olha o desenho no espelho e se mira. Está encantado de ver o tigre tão bem desenhado e de ver seu rosto. Não compreende o que estou querendo fazer. O desenho está seco: ponho o espelho deitado em cima da mesa, o papel transparente por cima, e começo a copiar. É coisa muito fácil e anda bastante depressa. O crayon meio duro acompanha os traços com fidelidade. Em menos de meia hora, diante dos olhos interessados de todos, aparece um desenho tão perfeito como o original. Cada um dos índios segura a folha e a examina, comparando o tigre do meu peito com o do desenho. Faço Lali se deitar em cima da mesa, passo um pano ligeiramente úmido em seu ventre, ponho a folha para decalcar e, por cima, a folha do desenho que acabei de fazer. Faço alguns traços e o deslumbramento de todos chega ao auge quando surge na barriga de Lali uma pequena parte do desenho. É só neste momento que o chefe compreende que todo o trabalho que estou tendo é por ele.

Os seres que não têm a hipocrisia de uma educação de civilizados reagem com naturalidade na medida em que vão percebendo as coisas. É de imediato que ficam contentes ou descontentes, alegres ou tristes, interessados ou indiferentes. É espantosa a superioridade de índios puros como estes guajiros. Eles são muito superiores a nós, pois, quando acolhem uma pessoa, dão-lhe tudo o que possuem; e, por sua vez, quando recebem dela qualquer atenção, por menor que seja, estas criaturas supersensíveis ficam profundamente emociona­das. Resolvi fazer as linhas gerais maiores do desenho com a navalha, de maneira que logo na primeira aplicação o contorno da tatuagem estará definitivamente fixado. Depois completarei com três. agulhas presas numa vareta. Na manhã seguinte, começo a trabalhar.

Zato está deitado sobre a mesa. Transportei o desenho do papel fino para um outro papel branco mais resistente e, com um crayon duro, passo-o decalcando, para sua pele, já preparada com um leite de argila branca que deixei secar. O traço fixa melhor na superfície coberta pelo pó. O chefe fica estendido na mesa, duro, imóvel, sem mexer sequer a cabeça, com medo de prejudicar o desenho, que lhe faço ver através do espelho. Faço os traços com a navalha. Sai um pouquinho de sangue e, a cada vez que isso acontece, enxugo-o. Quando todas as linhas foram coitadas e um traço vermelho fino substituiu o traço do desenho, passo tinta nanquim azul por todo o peito. A tinta é rejeitada pelo sangue e só se fixa bem nos lugares onde o corte foi um pouco mais fundo, mas o desenho está maravi­lhosamente nítido. Oito dias mais tarde, Zato pode exibir sua cabeça de tigre, a goela à mostra, a língua vermelha, os dentes brancos, as narinas, o bigode negro, os olhos. Estou satisfeito com a minha obra: a cabeça desse tigre está mais bela do que a do meu, seus tons estão mais vivos. Quando cai a casca da ferida, retoco alguns lugares com as agulhas. Zato está tão contente, que pediu seis espelhos a Zorrillo, um para cada cabana e dois para a dele.

Passam os dias, passam as semanas e os meses. Estamos em abril e há quatro meses que me encontro aqui. Minha saúde é excelente. Estou forte e os pés, acostumados a andar descalços, me permitem longas caminhadas sem cansaço algum, caçando lagartos grandes. Esqueci-me de dizer que, depois da minha primeira visita ao feiti­ceiro, tinha pedido a Zorrillo que me trouxesse tintura de iodo, água oxigenada, algodão, gaze, tabletes de quinino e Stovarsol. Tinha visto um preso no hospital com uma ferida grande como a do feiticeiro e Chatal, o enfermeiro, amassava uma pílula de Stovarsol e a aplicava no ferimento. Recebi tudo o que pedira e mais uma pomada que Zorrillo trouxera por sua conta. Mandei a faca pequena de madeira ao feiticeiro e ele me respondeu mandando a dele. Levei muito tem­po e tive muita dificuldade em convencê-lo a deixar-me tratar dele, mas, depois de algumas visitas, a chaga estava reduzida à metade; em seguida, ele continuou o tratamento sozinho e, um belo dia, me enviou a faca grande de madeira para que eu fosse vê-lo completa­mente curado. Ninguém soube jamais que tinha sido eu quem o curara.

Minhas mulheres não me deixam. Quando Lali está pescando, Zoraima fica comigo. Quando Zoraima vai mergulhar, Lali me faz companhia.

Nasceu um filho de Zato. No momento em que sentiu as dores do parto, sua mulher foi para a praia, escondeu-se atrás de uma rocha que a protegia do olhar de todos e uma outra mulher de Zato lhe levou um cesto grande com broas, água doce e açúcar escuro não refinado. O nascimento deve ter ocorrido por volta das 4 horas da tarde, pois, no pôr do sol, ela apareceu caminhando em direção à aldeia, gritando e levantando os braços com o nenen. Antes de ela chegar, Zato já sabe que é um homem. Percebo que, se fosse uma menina, ela teria chegado sem gritar alegremente e não levantaria a criança nos braços, como estava fazendo. É Lali quem me explica isso, por mímica. A índia vem vindo, de repente pára e levanta o garoto. Zato estende os braços e grita, sem se mexer. Ela torna a andar alguns metros, levanta outra vez o garoto e volta a parar. Zato grita e estende novamente os braços. Nos últimos 30 ou 40 metros da caminhada da mulher, a cena se repete cinco ou seis vezes. Zato não sai dos umbrais da sua cabana: permanece diante da porta maior de sua casa e todos estão colocados à sua direita ou à sua es­querda. Quando chega a apenas cinco ou seis passos, a mãe ergue o filho, pára e grita. Então Zato avança, pega a criança, levanta-a em seus braços, volta-se para o oriente e grita três vezes, levantando três vezes o bebê. Senta-se, coloca a criança deitada atravessada sobre seu peito, sob o braço direito, com a cabeça sob a axila es­querda. Depois entra, sem se voltar, pela porta grande da casa. Todos o seguem e a mãe é quem entra por último. Bebemos todo o vinho fermentado que havia.

De manhã e de tarde, durante toda a semana, a terra diante da cabana de Zato é regada e os homens e as mulheres a pisam depois de ela ter sido regada. Fazem, assim, um círculo grande de argila vermelha bem batida. Armam uma grande tenda de couro de boi e eu adivinho que ali vai ser realizada uma festa. Grandes recipientes de barro, pelo menos umas vinte jarras enormes, são guardados nessa tenda com a bebida preferida dos índios. Dispõem-se diversas pedras e, em torno delas, vão sendo acumulados galhos secos e verdes, cuja quantidade aumenta a cada dia. Alguns desses galhos foram trazidos há muito tempo pelo mar, estão secos, brancos e polidos. Também há imensos troncos de árvores, chegados de longe, ninguém sabe como nem quando. Por cima das pedras foram instaladas duas for­quilhas de madeira do mesmo tamanho: são as bases para uma enorme churrasqueira. Quatro tartarugas de barriga para cima, mais de trinta lagartos, uns maiores do que os outros, vivos, com as pernas amarra­das umas às outras, para não poderem fugir, dois carneiros: toda essa carne espera o momento de ser sacrificada e devorada. Há pelo menos 2 000 ovos de tartaruga.

Um dia de manhã, chegam uns quinze homens a cavalo, todos índios, com colares à volta do pescoço, imensos chapéus de palha, cache-sexe, as coxas, as pernas e os pés nus, a bunda de fora, as costas cobertas por belas peles de carneiro. Todos com facões na cintura, dois com fuzis de cano duplo para caça, o chefe com uma carabina de repetição e uma magnífica blusa de couro negro, além de um cinturão cheio de balas. Os cavalos são excelentes, pequenos, mas muito fortes, todos cinzentos. Na garupa, cada um deles traz plantas secas. Desde quando ainda estavam longe, anunciaram a che­gada com tiros de fuzil; porém vinham galopando tão depressa, que logo chegaram até nós. O chefe dos recém-chegados é estranhamente parecido com Zato e seu irmão, embora mais velho. Descendo de seu puro-sangue, ele se dirige a Zato e os dois se tocam nos ombros. Entra sozinho na casa e volta com a índia atrás dele e o bebê em seus braços. Ergue-o e apresenta-o a todos. Depois faz o mesmo gesto que Zato fizera: volta-o para o oriente, onde o sol nasce, coloca-o atravessado no peito, com a cabeça debaixo do braço esquerdo, e torna a entrar na casa. Então, todos os cavaleiros desmontam, pren­dem os cavalos um pouco afastados, com as plantas em fardos pen­durados no pescoço de cada um. Por volta de meio-dia chegam as índias, numa charrete enorme puxada por quatro cavalos, guiada por Zorrillo. Na charrete estão pelo menos vinte índias, todas jovens, e sete ou oito crianças, todas do sexo feminino.

Antes da chegada de Zorrillo, eu tinha sido apresentado a todos os cavaleiros, a começar pelo chefe. Zato me chama a atenção para o fato de que o dedo menor de seu pé esquerdo é torto e fica por cima do outro. Com seu irmão e com o chefe que acabara de chegar é a mesma coisa. Depois, mostra-me que no braço de cada um dos três está uma idêntica mancha negra, uma espécie de sinal de dis­tinção. Compreendo que o recém-chegado é seu pai. As tatuagens de Zato são muito admiradas por todos, sobretudo a da cabeça de tigre. Todas as índias que acabam de chegar têm desenhos coloridos no corpo e no rosto. Lali coloca, no pescoço de algumas, colares d pedaços de coral e, no pescoço de outras, colares de conchas. Noto uma índia admirável, mais alta do que as outras, que são de estatura média. Tem um perfil de italiana, parece uma figura de ca­mafeu. Os cabelos dela são negro-violeta, os olhos são completamen­te verde-jade, imensos, com cílios longos e sobrancelhas bem arquea­das. Os cabelos estão cortados à maneira índia, repartidos ao meio, com franja, caídos à esquerda e à direita, cobrindo as orelhas. As pontas estão cortadas à altura da metade do pescoço. Os seios de mármore são próximos no tronco e se abrem harmoniosamente.

Lali me apresenta a ela e leva-a à nossa casa com Zoraima e uma outra índia muito jovem, que traz umas canecas e uma espécie de pincéis. De fato, as visitantes vão pintar as índias da aldeia. Vejo a índia bonita pintar obras-primas em Lali e Zoraima. Os pincéis são feitos com pedacinhos de lã atados em varetas. Ela os molha em tin­tas de cores diferentes, para desenhar. Então pego o meu pincel e, começando pelo umbigo de Lali, desenho uma planta com dois galhos, cada um dos quais vai até a base de um dos seios; depois pinto pétalas cor-de-rosa e o bico do seio em amarelo. Dir-se-ia uma flor semi-aberta, com seu pistilo. As três outras querem que eu lhes faça a mesma coisa. Preciso perguntar a Zorrillo. Ele me diz que posso pin­tá-las como quiser, desde que elas estejam de acordo. Vocês podem imaginar o que fiz. Durante mais de duas horas, pintei os seios das jovens índias, tanto das visitantes como das outras. Zoraima exigiu uma pintura exatamente igual à de Lali. Enquanto isso, os índios assavam os carneiros e duas tartarugas. A carne delas é vermelha e bonita, parece carne de vaca.

Sento-me perto de Zato e do pai dele, na tenda. Os homens comem de um lado, as mulheres do outro, exceto as que nos servem. A festa termina com uma espécie de dança, noite alta. Para a música, há um índio que toca uma flauta de madeira de som rude e bate em dois tambores de pele de carneiro. Muitos índios, homens e mulheres, estão bêbados, porém não há nenhum incidente desagradável. O feiti­ceiro veio, montado num burrico. Todos olham a cicatriz cor-de-rosa que ficou no lugar da ferida, aquela ferida que todos conheciam: ficam espantados de vê-la fechada. Só Zorrillo e eu sabemos como foi a coisa. Zorrillo me explica que o chefe que veio à nossa aldeia é o Pai de Zato e se chama Justo: é ele quem ajuda as controvérsias sur­gidas entre as pessoas de sua tribo e entre as diversas tribos de guajiros. Zorrillo me diz também que, quando há incidentes com outra raça de índios, os lapus, eles se reúnem para discutir e ver se fazem a guerra ou resolvem amigavelmente as coisas. Quando um índio é assassinado por outro índio de outra tribo, faz-se um acordo segundo o qual, para evitar a guerra, o assassino pague pelo morto à tribo deste. O preço às vezes chega a duzentas cabeças de gado, pois, nas montanhas e ao pé delas, todas as tribos tem muitas vacas e muitos bois. Infelizmente, os índios nunca vacinam o gado contra a febre aftosa e as epidemias matam grande quantidade de animais. Em certo sentido — diz Zorrillo —, isso é bom, pois sem essas epide­mias haveria gado demais. Esse gado não pode ser oficialmente ven­dido nem na Colômbia nem na Venezuela: deve ficar sempre em ter­ritório indígena, pois as autoridades têm medo de que ele leve a fe­bre aftosa para outras regiões de ambos os países. Zorrillo me infor­ma, entretanto, que há muito contrabando de gado pelas montanhas.

O chefe visitante — Justo — me diz através de Zorrillo que eu vá vê-lo em sua aldeia, onde, segundo parece, há mais de cem cabanas. Diz que venha com Lali e Zoraima, que ele nos instalará numa ca­bana, e que eu não leve coisa nenhuma, pois lá terei tudo de que precisarmos. Diz que eu leve apenas o meu material de tatuagem pa­ra fazer nele, também, um tigre. Tira sua pulseira de couro preto e me dá. Segundo Zorrillo, esse é um gesto importante que significa que ele é meu amigo e não será capaz de recusar a satisfação de qualquer desejo meu. Pergunta-me se eu quero um cavalo, respondo-lhe que quero mas não posso aceitar, pois aqui quase não existe ca­pim para alimentá-lo. Diz que Lali ou Zoraima, quando for necessá­rio, podem ir com o cavalo a uma distância de meio dia deste lugar, onde existe capim alto e bom. Aceito o cavalo e ele diz que logo o mandará para mim.

Aproveito esta longa visita de Zorrillo para dizer-lhe que confio nele, que espero que ele não me traia, falando sobre a minha idéia de ir para a Venezuela ou para a Colômbia. Ele me descreve os peri­gos dos primeiros 30 quilômetros de um lado e do outro das fron­teiras. Pelas informações dos contrabandistas, o lado venezuelano é mais perigoso que o colombiano. Entretanto, ele próprio poderia ir co­migo, no lado colombiano, até perto de Santa Marta, acrescentando que já fizera essa caminhada e que a Colômbia era realmente a me­lhor solução. Está de acordo com a minha idéia de comprar outro dicionário, ou melhor, livros que ensinam espanhol e nos quais eu aprenderia frases usuais. Segundo ele, se eu aprendesse a gaguejar bastante, seria uma grande vantagem para mim, pois as pessoas que me escutassem se impacientariam e acabariam as minhas frases, sem prestar muita atenção na pronúncia e no sotaque. Fica resolvido que ele me trará os livros, um mapa (o mais preciso que for possível) e se encarregará de vender as minhas pérolas quando chegar a ocasião e arranjar dinheiro colombiano. Zorrillo me explica que os índios, a começar pelo chefe, só podem me apoiar na minha decisão de partir,, já que a partida é o que eu desejo. Lamentarão que eu vá embora, mas compreenderão que é normal eu querer voltar para junto dos meus. O difícil vai ser com Zoraima e, sobretudo, com Lali. Qualquer uma das duas, mas especialmente Lali, é muito capaz de me derrubar com um tiro de fuzil. Outra coisa: Zorrillo me faz notar algo que eu não sabia, isto é, que Zoraima está grávida. Não tinha percebido. Estou espantado.

A festa acabou, todos foram embora, a tenda de couro foi des­montada, tudo volta a ser como antes, pelo menos na aparência. Recebo o cavalo, um magnífico tordilho, com um rabo comprido que vai quase até o chão e uma crina maravilhosa, cinzenta com reflexos prateados. Lali e Zoraima não estão nada contentes e o feiticeiro manda me chamar para dizer que elas lhe haviam perguntado se podiam dar vidro moído ao cavalo para que este morresse, sem que elas sofressem coisa alguma. Ele lhes respondeu que não fizessem isso, porque eu estava protegido por não sei qual divindade indígena e o vidro podia aparecer dentro da barriga delas. Acrescenta que talvez o perigo tenha sido afastado, mas não é certo. Devo prestar atenção. E contra mim, há perigo? Não, diz ele. Se elas virem que estou me preparando seriamente para ir embora, então, sim, o que elas podem fazer, sobretudo Lali, é me matar com um tiro de fuzil. Posso tentar convencê-las a me deixarem partir, assegurando-lhes que voltarei? De modo nenhum! Nunca devo mostrar que tenho vontade de ir embora.

O feiticeiro pôde me dizer tudo isso graças a Zorrillo, que ele chamou no mesmo dia para servir de intérprete. A situação é muito séria, cumpre tomar todas as precauções, conclui Zorrillo. Volto para casa. Zorrillo chegou à cabana do feiticeiro e saiu dela por um cami­nho completamente diverso do meu. Ninguém na aldeia sabe que o feiticeiro nos chamou ao mesmo tempo.

Agora, seis meses já se passaram e eu estou com pressa de partir. Um dia, entro e vejo Lali e Zoraima debruçadas sobre o mapa. Elas tentam compreender o que representam aqueles desenhos. O que as inquieta é o desenho com as setas indicando os quatro pontos car­deais. Estão confusas, mas adivinham que esse papel tem algo de muito importante a ver com a nossa vida.

O ventre de Zoraima começou a crescer bastante. Lali está com um pouco de ciúme e me força a fazer o amor em qualquer lugar, propício ou não, e a qualquer hora do dia ou da noite. Zoraima também me solicita a fazer o amor, mas, felizmente, só de noite. Fui ver Justo, o pai de Zato. Lali e Zoraima vieram comigo. Por sorte, eu guardara o desenho e utilizei-o para decalcar a cabeça de tigre no peito dele. Em seis dias, a tatuagem ficou pronta, pois a primeira casca caiu depressa, graças a um banho que ele tomou e no qual se lavou com um pedaço de cal viva. Justo está tão contente, que vai se olhar no espelho diversas vezes ao dia. Durante a minha visita, chega Zorrillo. Com minha autorização, ele falou a Justo de meu projeto, pois pretendo trocar o cavalo. Os tordilhos dos guajiros não existem na Colômbia, porém Justo tem três cavalos de pêlo ruço que são colombianos. Assim que toma conhecimento do meu plano, Justo manda buscar os cavalos. Escolho aquele que me parece ser o mais calmo, ele manda colocarem nele sela, estribos e freios de ferro, pois o freio deles é de osso e os cavalos não estavam com sela. Equipado à maneira colombiana, Justo põe as rédeas de couro na minha mão e, diante de mim, entrega a Zorrillo trinta e nove moe­das de ouro de 100 pesos cada uma, que ele deve guardar e me entre­gar no dia da minha partida. Quer me dar sua carabina Winchester de repetição, que não aceito; Zorrillo diz, aliás, que eu não poderia entrar armado na Colômbia. Então Justo me dá duas pequenas setas do comprimento de um dedo, envolvidas em lã e colocadas num pe­queno estojo de couro. Zorrillo me explica que são setas envenena­das com um veneno muito violento e muito raro.

Zorrillo nunca havia visto nem tido setas envenenadas. Cabe-lhe a responsabilidade de guardá-las até a minha partida. Não sei como expressar o meu reconhecimento ante a generosidade de Justo. Ele me diz que soube por Zorrillo um pouco da minha vida e que ima­gina ter sido magnífica a parte que não conhece, pois me considera um homem completo. Diz que pela primeira vez na sua vida conhe­ceu um homem branco e que anteriormente os considerava todos inimigos, mas agora lhes teria amizade e procuraria conhecer outro homem como eu.

— Antes de partir — disse-me —, pense apenas no fato de que vai para uma terra onde você tem muitos inimigos, ao passo que entre nós só tem amigos.

Acrescenta que Zato e ele olharão por Lali e por Zoraima, que o filho de Zoraima (se for um homem, é claro) terá sempre um lugar de honra na tribo.

— Não gostaria de vê-lo partir. Fique. Se ficar, eu lhe darei aquela índia bonita que conheceu na festa. É minha filha; ela o ama. Você poderá ficar aqui comigo. Terá uma cabana grande e todo o gado que desejar.

Despeço-me desse homem magnífico e volto para a minha aldeia. Durante todo o trajeto da volta, Lali não diz uma única palavra. Ela está montada atrás de mim, no cavalo de pêlo ruço. A sela lhe machuca as coxas, porém ela fica o tempo todo em silêncio. Zo­raima vem a cavalo com o índio. Zorrillo foi para a, casa dele por outro caminho. Durante a noite, faz um pouco de frio. Cubro Lali com uma manta de pele de carneiro que Justo me deu e ela se deixa cobrir calada, sem dizer ou exprimir coisa alguma: aceita a roupa sem um gesto. Por mais que o cavalo trote com maior energia, ela não se agarra a mim em busca de segurança. Chegamos à aldeia: vou cum­primentar Zato, ela se afasta com o cavalo, prende-o à casa e põe diante dele algumas ervas, mas não lhe retira nem a sela nem os arreios. Depois de ter passado cerca de uma hora com Zato, volto.

Quando estão tristes, os índios — sobretudo as índias — mantêm o rosto impassível, não movem nem um músculo da face, ficam com os olhos tristíssimos, mas nunca choram. Podem até gemer, mas não choram. Ao me mexer, durante a noite, bati na barriga de Zoraima e a dor fez com que ela gritasse. Com medo de que isso tornasse a acontecer, levanto-me e vou me deitar em outra rede. É uma rede muito baixa. Quando já estou deitado nela, sinto que alguém a está tocando. Finjo que continuo a dormir. Percebo que Lali está sentada num tronco de árvore, imóvel, me olhando. Logo em seguida, sinto que Zoraima também está próxima: ela costuma se perfumar, pas­sando flores de laranjeira na pele. As flores são compradas de uma índia que de vez em quando aparece na aldeia. Quando acordo, elas permanecem imóveis, no mesmo lugar. O sol já nasceu, são quase 8 horas. Vou com elas à praia e me deito na areia seca. Lali e Zorai­ma ficam sentadas. Acaricio os seios e o ventre de Zoraima, porém ela permanece insensível como mármore. Puxo Lali, faço-a deitar-se, beijo-a, mas ela fecha firmemente a boca. O pescador veio buscar Lali: bastou-lhe olhar para ela, ver sua expressão, e ele compreen­deu tudo. Foi-se embora. Estou realmente deprimido, não sei o que fazer: limito-me a acariciá-las e a beijá-las para demonstrar que as amo. Nenhuma das duas fala coisa alguma. A idéia do que será a vida delas depois da minha partida me faz sofrer a ponto de me perturbar. Lali quer, por força, fazer o amor. Com uma espécie de desespero, se entrega a mim. Por quê? Só pode ser por uma razão: ela está querendo engravidar, quer ficar esperando um filho meu.

Pela primeira vez, hoje de manhã, vi um gesto de ciúme dela em relação a Zoraima. Eu estava acariciando o ventre e os seios de Zo­raima e ela estava me mordendo o lóbulo das orelhas. Estávamos deitados na areia fina, num canto escondido da praia. Lali chegou, segurou a irmã pelo braço, passou a mão na barriga arredondada dela e depois em seu próprio ventre, liso e chato. Zoraima se levan­tou e deixou-lhe o lugar a meu lado, como quem dissesse: tens razão.

Todos os dias, as mulheres me dão comida, mas elas próprias não comem. Há três dias que não comem nada. Montei a cavalo e cometi um erro grave, o primeiro em mais de cinco meses: parti para visitar o feiticeiro sem antes ter pedido autorização. No caminho, percebi o que estava fazendo e, em vez de ir diretamente à tenda dele, fiquei dando voltas a cerca de 200 metros dela. Ele me viu e fez sinal para que eu fosse lá vê-lo. Da maneira que me foi possível, consegui fazê-lo entender que Lali e Zoraima não estão se alimentando mais. Ele me dá uma espécie de noz, que devo colocar na água doce da casa. Volto para a cabana e ponho a noz no jarrão. Elas bebem água vá-rias vezes e nem por isso recomeçam a comer. Lali não sai mais para pescar. Depois de quatro dias de absoluto jejum, ela fez hoje uma verdadeira loucura: entrou na água sem barco, nadou uns 200 metros, mergulhou e voltou com trinta ostras para eu comer. O desespero mudo delas me perturba a tal ponto, que também começo a não co­mer mais. Há seis dias que estamos nisso. Lali está deitada, com febre. Nestes seis dias, ela se limitou a chupar alguns limões, e foi só. Zoraima come uma vez por dia apenas, na hora do almoço, Não sei mais o que fazer. Estou sentado ao lado de Lali. Ela está deitada numa rede que estendi no chão, dobrada, para servir de cama, e olha fixamente para o teto, sem se mexer. Olho para ela, olho para Zorai­ma, cujo ventre está cada vez mais arredondado, e — sem saber exa­tamente por que — começo a chorar. Estarei chorando por mim? Por elas, talvez? Quem sabe. Choro, lágrimas grossas me correm pelo rosto. Zoraima as vê e começa a gemer; então, Lali volta a ca­beça e também me vê chorando. Rapidamente ela se levanta, vem sentar-se entre as minhas pernas, gemendo com doçura. Beija-me e me acaricia. Zoraima me abraça e Lali começa a falar, sem parar de gemer, e Zoraima lhe responde. Zoraima parece que censura alguma coisa em Lali. Lali me mostra um pedaço grande de açúcar mascavado, dissolve-o na água e o bebe em dois goles. Depois, ela e Zoraima saem, ouço o barulho delas aparelhando o cavalo e, quando saio, encontro-o já selado e com os arreios. Pego a manta de pele de carneiro para Zoraima e Lali coloca uma rede dobrada sobre a sela. Zoraima monta em primeiro lugar, bem na frente, eu no meio, Lali atrás. Estou tão confuso, que parto sem me despedir dos ou­tros e sem prevenir o chefe.

Pensando que nós íamos à cabana do feiticeiro, voltei o cavalo na direção dela, porém Lali diz que não, puxa as rédeas e diz: “Zorrillo”. Vamos ver Zorrillo. No caminho, segurando firme a minha cintura, por diversas vezes Lali me beija o pescoço. Por minha vez, seguro as rédeas com a mão esquerda e com a direita acaricio minha Zoraima. Chegamos ao povoado de Zorrillo no momento em que ele próprio estava vindo da Colômbia, com três burros e um cavalo carregado. Entramos em sua casa. Lali é a primeira a falar; depois fala Zoraima.

Zorrillo me explica que, até o momento em que eu começara a chorar, Lali estava pensando que eu fosse um branco que não dava importância nenhuma a ela. Sabia que eu ia partir, mas me achava falso como uma cobra, pois nunca o havia dito ou comunicado a ela. Estava profundamente decepcionada, pois se achava uma índia capaz de fazer a felicidade de um homem e um homem feliz não vai em­bora, de modo que a minha ida era um fracasso tão grave, que não valia mais a pena continuar a viver. Zoraima disse mais ou me­nos a mesma coisa, acrescentando que tinha medo de que seu filho saísse ao pai e fosse um homem sem palavra, falso, capaz de pedir a suas mulheres coisas difíceis de serem feitas e, embora elas dessem a própria vida por ele, deixá-las sem condições de entendê-lo. Por que eu estava para fugir delas como se elas fossem o cachorro que tinha me mordido no dia da minha chegada? Respondi:

— Se o seu pai estivesse doente, Lali, o que você faria?

— Andaria até sobre espinhos para ir curá-lo.

— Se perseguissem você como se persegue um animal, se tentas­sem matá-la, se lhe fizessem mal sem dar oportunidade de defesa, o que faria?

— Perseguida o meu inimigo por toda parte, para enterrá-lo tão fundo, que ele não pudesse nem se mexer em sua cova.

— E, depois de fazer essas coisas, se você tivesse duas mulheres maravilhosas esperando?

— Voltaria, montada num cavalo.

— Pois não tenha dúvida de que é o que eu farei.

— E se, quando você voltar, eu estiver velha e feia?

— Voltarei muito antes de você ficar feia e velha.

— Sim. Você deixou a água correr dos seus olhos, jamais pode­ria ter feito isso sem sinceridade. Assim, pode partir quando quiser, porém deve partir em pleno dia, diante de todos, e não como um ladrão. Deve partir como veio, na mesma hora, à tarde, inteiramente vestido. Deve dizer quem vai olhar por nós, dia e noite. Zato é o chefe, mas também deve haver outro homem olhando por nós. Deve dizer que a casa é sempre a sua casa e que nenhum homem, à exce­ção do seu filho (se é homem, a criança que está no ventre de Zoraima), deve entrar nela. Zorrillo precisa vir à nossa aldeia no dia da sua partida, para dizer o que você deve falar.

Dormimos na casa de Zorrillo. Foi uma noite deliciosa de ternura. Os murmúrios e os ruídos da boca dessas duas filhas da natureza tinham sons de amor tão perturbadores, que me abalavam profun­damente. Voltamos os três a cavalo, devagar, por causa da gravidez de Zoraima. Devo partir oito dias depois da primeira lua, porque Lali desconfia de que ela também está grávida, pois na última lua não viu sangue algum e, se nesta nova lua o sangue não aparecer outra vez, terá certeza de que está esperando bebê. Zorrillo trará todas as roupas de que eu preciso: devo me vestir na aldeia, depois de ter falado como guajiro, quer dizer, nu. Na véspera, nós três precisamos ir à cabana do feiticeiro e ele nos dirá se devemos deixar a porta da casa aberta ou fechada. Essa volta à aldeia, lenta, não teve nada de triste. Elas preferem saber das coisas a serem abandonadas em uma situação ridícula ante as outras mulheres e os homens do povoado. Quando Zoraima tiver o filho, ela sairá com um pescador para apa­nhar muitas pérolas, que guardará para mim. Para se manter ocupa­da, Lali também passará mais tempo diariamente pescando. Lamen­to não ter aprendido mais do que uma dúzia de palavras em guajiro: gostaria de lhes dizer tantas coisas que não podem ser ditas através de um intérprete! Chegamos. A primeira coisa que devo fazer é ver Zato, para explicar-lhe que me desculpo por ter saído sem falar com ele. Zato é tão nobre como seu pai. Antes de eu falar, ele põe a mão no meu ombro e me diz: “Uilu”‘ (cala-te). A lua nova será den­tro de doze dias. Com mais oito que devo esperar depois dela, den­tro de vinte dias estarei partindo.

Torno a examinar o mapa, mudando alguns pormenores na pas­sagem pelas cidades. Ao fazê-lo, penso outra vez no que me disse Justo. Onde é que eu seria mais feliz do que aqui, onde todos me querem bem? Decidindo voltar para a civilização, não estou me con­denando à infelicidade? O futuro o dirá.

Essas três semanas passam como por encanto. Lali comprovou que está grávida; portanto, serão duas ou três as crianças que me espe­rarão quando eu voltar. Por que três? Ela me diz que sua mãe teve gêmeos duas vezes. Fomos ao feiticeiro. Não devemos fechar a porta. Devemos somente colocar um galho de árvore atravessado nela. A rede em que dormimos os três deve ficar presa no teto da cabana e elas duas devem sempre dormir juntas, pois são uma pessoa só. Em seguida, ele nos faz sentar perto do fogo, queima folhas verdes e nos rodeia de fumaça durante mais de dez minutos. Voltamos para casa e ficamos à espera de Zorrillo, que chega, de fato, naquela mes­ma noite. Em torno de uma fogueira, diante da minha cabana, passa­mos toda a noite a falar. Por intermédio de Zorrillo, eu dizia a cada um dos índios uma palavra gentil e cada índio, por sua vez, me res­pondia alguma coisa. Quando o sol já começava a nascer, retirei-me com Lali e Zoraima. Passamos o dia inteiro fazendo o amor. Ã tarde, chega o momento da partida. Zorrillo traduz o que eu vou falando:

— Zato, grande chefe desta tribo que me acolheu, que me deu tudo, devo dizer-lhe que é preciso que me autorize a deixar a aldeia por muitas luas.

— Por que quer deixar os seus amigos?

— Porque devo perseguir aqueles que me trataram como um animal. Graças a você, na sua aldeia, estive protegido e pude viver feliz, comer bem, encontrei amigos nobres, mulheres que colocaram o sol dentro do meu peito. Mas isso não pode transformar um ho­mem como eu num animal, capaz de, após encontrar um abrigo quente e bom, permanecer nele a vida toda, por medo do sofrimento que a luta costuma trazer. Vou enfrentar meus inimigos. Parto em busca de meu pai, que precisa de mim. Deixo aqui minha alma, em minhas mulheres, Lali e Zoraima, deixo as crianças que são o fruto dessa união. Minha cabana é delas e das crianças que vão nascer. Se alguém esquecer isso, espero que você, Zato, saiba recordá-lo. Além da sua vigilância pessoal, peço que um homem chamado Usli também proteja dia e noite a minha família. Quero muito bem a todos e sempre hei de querer. Farei o possível para voltar depressa. Se morrer no cumprimento do meu dever, terei morrido pensando em vocês, pensando em Lali, em Zoraima, nos meus filhos e em to­dos os índios guajiros, que são a minha família.

Torno a entrar na minha cabana, seguido por Lali e Zoraima. Vis­to a camisa, as calças cáquis, meias e botas.

Durante muito tempo, olho parte por parte esta aldeia idílica onde acabo de passar seis meses: Essa tribo guajira, tão temida, que inspi­ra medo tanto às outras tribos como aos brancos, foi para mim um porto onde pude respirar, um refúgio insuperável contra a maldade dos homens. Aqui encontrei amor, paz, tranqüilidade e nobreza. Adeus, guajiros, índios selvagens da península colombo-venezuelana. Felizmente, a terra de vocês é grande e está livre da ingerência das duas civilizações existentes ao lado dela. A maneira selvagem de viver de vocês, a maneira como vocês se defendem, me ensinou uma coisa muito importante para o futuro: que é melhor ser um índio selvagem do que um literato transformado em juiz.

Adeus, Lali e Zoraima, mulheres incomparáveis, de reações tão próximas da natureza, sem cálculos, espontâneas, mulheres que, no momento da minha partida, com um gesto simples, colocaram num saquinho de pano todas as pérolas existentes na cabana. Voltarei um dia, não há dúvida. É uma coisa certa. Quando? Como? Não sei. Mas faço a mim mesmo a promessa de voltar.

Lá pelo final da tarde, Zorrillo monta a cavalo e nós partimos na direção da Colômbia. Vou com um chapéu de palha. Controlo com firmeza as rédeas do cavalo. Todos os índios da tribo, sem exceção, cobrem o rosto com o braço esquerdo e estendem o braço direito na minha direção. Com o gesto, eles querem dizer que não me desejam ver partir, que gostariam de me reter com eles. Lali e Zoraima me acompanham durante uns 100 metros. Penso que elas vão me beijar, mas, de repente, com um grito, elas saem correndo na direção da nossa casa, sem olhar para trás.

 

                                                               VOLTA À CIVILIZAÇÃO

 

                                 PRISÃO DE SANTA MARTA

Sair do território da Guajira índia não é difícil e nós atravessamos sem trapalhadas os postos fronteiriços de La Vela. A cavalo, podía­mos percorrer em dois dias o que me custou tanto tempo com Anto­nio. Porém, não só estes postos fronteiriços são extremamente peri­gosos, como também há uma faixa de 120 quilômetros até Rio Hacha, o povoado donde me evadi.

Com Zorrillo junto, fiz minha primeira experiência de conversa­ção com um civil colombiano, numa espécie de albergue onde ven­dem bebida e comida. Não me saí mal e, conforme me diz Zorrillo, gaguejar fortemente ajuda muito a disfarçar o sotaque e a maneira de falar.

Saímos para Santa Marta. Zorrillo deve me deixar na metade do caminho e ir de volta esta manhã.

Zorrillo me deixou sozinho. Decidimos que ele levaria o cavalo. De fato, possuir um cavalo é ter um domicílio, pertencer a um povoa­do determinado e, então, correr o risco de ser obrigado a responder a perguntas aborrecidas: “Conhece fulano? Como se chama o prefei­to? Que faz a senhora X? Quem é o dono do armazém?”

Não, é melhor que eu continue a pé, que viaje de caminhão ou de ônibus e, depois de Santa Marta, de trem. Devo ser para todo mundo um forastero nesta região, que trabalha num lugar qualquer e faz não se sabe o quê.

Zorrillo trocou para mim três moedas de ouro de 100 pesos e me deu 1 000 pesos. Um bom operário ganha de oito a dez pesos por dia; portanto, só com isto, já tenho dinheiro para me sustentar du­rante bastante tempo. Subi num caminhão que vai para muito perto de Santa Marta, um porto bem importante que fica a 120 quilômetros, mais ou menos, do lugar onde me deixou Zorrillo. O caminhão vai à procura de cabras ou de cabritos, sei lá.

A cada 6 ou 10 quilômetros há sempre um botequim. O chofer desce e me convida. Quem convida é ele, mas eu é que pago, e, de cada vez, ele bebe cinco ou seis copos de uma cachaça que arde co­mo fogo. De minha parte, faço de conta que bebo um copo. Depois de percorridos uns 50 quilômetros, ele está bêbado pra burro. Ficou tão alto, que erra a direção e entra num caminho lamacento onde o caminhão se atola e donde não pode mais sair. O colombiano não se inquieta: deita-se no caminhão, atrás, e me diz para dormir na ca­bina. Não sei o que fazer. Ainda devem faltar uns 40 quilômetros até Santa Marta. Ficando com ele, evito ser interrogado pela gente que aparece e, apesar das numerosas paradas, vou mais depressa do que a pé.

Assim, ao amanhecer, resolvo dormir. O dia começou, são quase 7 horas. Chega uma carroça puxada por dois cavalos. O caminhão impede que ela passe. Alguém me acorda, acreditando que o chofer sou eu, uma vez que era eu quem estava na cabina. Gaguejando, finjo estar na situação do cara que, despertado, não sabe bem onde está.

O chofer acorda e discute com o carroceiro. Apesar de várias tenta­tivas, não se consegue tirar o caminhão. Tem lama até os eixos, a coisa não tem jeito. Na carroça estão duas irmãs de caridade vestidas de preto, com suas toucas, e três meninas. Depois de muita discus­são, os dois homens concordam em abrir uma clareira no cerrado para que a carroça, com uma roda na estrada e a outra na parte desmatada, atravesse este pedaço ruim de cerca de 20 metros.

Cada um com um machete (um facão para cortar cana-de-açúcar, instrumento que todos trazem quando viajam), os dois cortam tudo o que poderia atrapalhar, enquanto vou arrumando o mato cortado no caminho, para diminuir a altura e também para proteger a carro­ça, que se arrisca a afundar na lama. Depois de quase duas horas, a passagem ficou aberta. Foi então que as irmãs, depois de me agrade­cerem, me perguntam aonde eu vou. Digo: “Santa Marta”.

— Mas o senhor não está no caminho certo, é preciso ir para trás conosco. Levaremos o senhor para muito perto de Santa Marta. a 8 quilômetros.

Não tenho jeito de recusar, pareceria anormal. Por outro lado, gostaria de dizer que vou ficar com o chofer do caminhão para ajudá-lo mas, diante da dificuldade de falar tanta coisa, prefiro dizer: “Gracias; gracias”.

E aí estou na carroça, com as três meninas. As duas bondosas ir­mãs estão sentadas no banco com o carroceiro.

A gente começa a andar e, na verdade, viajamos bastante depressa ara percorrer os 5 ou 6 quilômetros feitos por engano com o caminhão Uma vez na estrada certa, vamos a bom passo e, por volta do meio-dia, paramos num albergue para comer. As três meninas e o carroceiro numa mesa e as duas boas irmãs e eu numa mesa vizinha. As freiras são jovens, de 25 a trinta anos. A pele muito branca. Uma é espanhola, a outra irlandesa.

— O senhor não é daqui, não é?

— Sim, sou de Barranquilla.

— Não, o senhor não é colombiano, seus cabelos são muito cla­ros e sua pele está escura porque o senhor está queimado de sol. Donde vem?

— De Rio Hacha.

— Que fazia por lá?

— Eletricista.

— Ah! Tenho um amigo na companhia de eletricidade, chama-se Perez, é espanhol. Conhece-o?

— Sim.

— Isto me dá prazer.

No fim do almoço, elas se levantam para ir lavar as mãos e a ir­landesa fica sozinha. Olha-me e, a seguir, diz em francês:

— Não trairei o senhor, mas minha companheira diz que viu sua fotografia num jornal. O senhor é o francês que fugiu da prisão de Rio Hacha, não é?

Negar seria pior ainda.

— Sim, irmã. Peço-lhe, não me denuncie. Não sou o homem mau que andam dizendo. Amo a Deus e o respeito.

A espanhola chega, a outra diz: “É ele, sim”. Ela responde muito depressa uma coisa que não entendo. Ficam com o ar de refletir, levantam-se e vão à privada de novo. Durante os cinco minutos da ausência delas, reajo rapidamente. Devo partir antes que voltem, de­vo ficar? Dá no mesmo, caso elas estejam pensando em me denun­ciar, porque, se dou o fora, me acharão muito depressa. Esta região não é uma “selva” muito espessa e os acessos aos caminhos que le­vam às cidades logo ficarão certamente vigiados. Vou me entregar ao destino que, até hoje, não foi mau comigo.

Elas voltam muito sorridentes e a irlandesa pergunta pelo meu nome.

— Enrique.

— Bem, Enrique, o senhor virá conosco até o convento para onde vamos, que fica a 8 quilômetros de Santa Marta. Conosco na carroça, o senhor nada tem a temer na estrada. Não fale, todo mundo acredi­tará que o senhor é um trabalhador do convento.

As irmãs pagam o almoço de todos. Compro um pacote de doze maços de cigarros e um isqueiro. Saímos. Durante todo o trajeto, as irmãs não me dirigem mais a palavra e eu lhes fico agradecido. Dessa maneira, o carroceiro não percebe que falo mal a língua do país. Lá pelo fim da tarde, paramos num albergue grande. Vejo um ônibus onde leio: “Rio Hacha—Santa Marta”. Tenho vontade de tomá-lo. Aproximo-me da irmã irlandesa e lhe falo da minha intenção de utili­zar este ônibus.

— É muito perigoso — diz ela — porque, antes de chegar a San­ta Marta, há, pelo menos, dois postos de polícia, onde exigem dos passageiros sua cédula (documento de identidade), o que não acon­tecerá com a carroça.

Agradeço a ela vivamente e, então, a angústia que passei a sentir depois que me reconheceram desaparece imediatamente. Foi, pelo contrário, uma sorte enorme para mim ter encontrado estas boas ir­mãs. Efetivamente, ao anoitecer, chegamos a um posto de polícia (em espanhol, alcabale). Um ônibus, que vinha de Santa Marta e ia para Rio Hacha, estava sendo inspecionado pela polícia. Estou dei­tado de costas na carroça, meu chapéu de palha em cima do rosto, fingindo dormir. Uma menina de uns oito anos tem a cabeça apoia­da no meu ombro e dorme de verdade. Quando a carroça passa, o carroceiro pára seus cavalos justamente entre o ônibus e o posto.

— Como están todos por aqui? — diz a irmã espanhola.

— Muy bien, hermana.

— Me alegro, vámonos, muchachos.

E saímos andando, tranqüilamente.

Às 10 horas da noite, um outro posto, muito iluminado. Duas filas de viaturas de toda classe esperam, paradas. Uma vem pela direita, a nossa pela esquerda. As malas dos carros são abertas e os policiais olham dentro. Vejo uma mulher, obrigada a descer, remexendo na sua bolsa. Ela é levada ao posto de polícia. Não tem, provavelmente, a cédula. Neste caso, não há nada a fazer. Os veículos passam, um depois do outro. Como existem duas filas, não se, pode ter uma passagem de favor. Por falta de espaço, é preciso se resignar a esperar. Sinto-me perdido. À nossa frente, está um ônibus pequeno cheio de passageiros. Em cima, sobre o teto, maletas e grandes embrulhos. Atrás, também, uma espécie de rede grossa cheia de embrulhos. Os policiais obrigam os passageiros a descer. Este ônibus não tem mais de uma porta, na frente. Homens e mulheres descem. Mulheres com crianças nos braços. Uma a uma tornam a subir.

— Cédula! Cédula!

E todos saem e mostram um cartão com sua fotografia.

Zorrillo nunca me falou nisso. Se soubesse, teria talvez tentado arranjar uma cédula falsa. Fico pensando que, se passar por este posto, pagarei o que for preciso, mas arranjarei uma cédula antes de viajar de Santa Marta a Barranquilla, cidade muito importante da costa atlântica: 250 000 habitantes, diz o dicionário.

Deus do céu, como é demorada a operação de exame desse ônibus. A irlandesa se volta para mim: “Fique calmo, Enrique”. Tomo ime­diatamente um susto com esta frase imprudente, o condutor certa­mente ouviu.

Chegando nossa vez, a carroça avança nesta luz brilhante. Resolvo me sentar. Ficando deitado, segundo me parece, posso dar a impres­são de que me escondo. Apoiei as costas nas tábuas da carroça e olho para as costas das irmãs. Só posso ser visto de perfil e tenho o chapéu bastante afundado na cabeça, mas sem exagero.

— Como están todos por aqui? — repete a boa irmã espanhola.

— Muy bien, hermanas. Y como viajam tan tarde? (Muito bem, irmãs. E por que viajam tão tarde?)

— Por una urgencia, por eso no me detengo. Somos muy apura­das. (É um caso de urgência, por isso não paro. Estamos muito apres­sadas.)

— Vayanse con Dios, hermanas. (Vão com Deus, irmãs.)

— Gracias, hijos. Que Dios les protege. (Obrigado, meus filhos. Que Deus os proteja.)

— Amén — dizem os policiais.

E nós passamos tranqüilamente, sem que ninguém nos exija coisa alguma. As emoções dos minutos passados devem ter dado dor de barriga nas boas irmãs, porque, a 100 metros dali, fazem parar a via­tura para descer e desaparecer por um instante no mato. Voltamos a andar. Acendo um cigarro. Estou tão emocionado, que, quando a irlandesa sobe, eu lhe digo:

— Obrigado, minha irmã.

Ela me diz:

— Não há de que, mas nós tivemos tanto medo, que isso nos desarranjou os intestinos.

Por volta da meia-noite, chegamos ao convento. Um grande muro, uma grande porta. O carroceiro saiu para ajeitar os cavalos e a car­roça e as três meninas são conduzidas ao interior do convento. Na escadaria do pátio, uma discussão acalorada se trava entre a irmã porteira e as duas irmãs. A irlandesa me diz que não quer acordar a madre superiora para lhe pedir autorização para que eu durma no convento. Aí, fico indeciso. Deveria aproveitar rapidamente este incidente para me retirar e partir para Santa Marta, uma vez que sabia que só faltavam 8 quilômetros.

Este erro me custou, mais tarde, sete anos de cana.

Por fim, a madre superiora foi acordada, e me dão um quarto no segundo andar. Da janela, vejo as luzes da cidade. Distingo o farol e as luzes fixas. Do porto sai um barco grande.

Adormeço e o sol está alto quando batem à minha porta. Tive um sonho atroz. Lali abria a barriga dela em minha presença e nosso fi­lho saía de sua barriga aos pedaços.

Faço a barba e me lavo muito rapidamente. Desço. Ao pé da esca­da está a irmã irlandesa, que me recebe com um ligeiro sorriso:

— Bom dia, Henri. O senhor dormiu bem?

— Sim, minha irmã.

— Venha, por favor, ao escritório de nossa madre superiora, que quer ver o senhor.

Entramos. Uma mulher está sentada atrás de uma escrivaninha. Um rosto extremamente severo, de uma pessoa de cinqüenta e tantos anos talvez, me encara com olhos negros sem brandura.

— Señor, sabe usted hablar español?

— Muy poco.

— Bueno, Ia hermana va a servir de intérprete.

— O senhor é francês, foi o que me disseram.

— Sim, madre.

— O senhor fugiu da prisão de Rio Hacha?

— Sim, madre.

— Há quanto tempo?

— Perto de sete meses.

— Que fez durante este tempo?

— Estive com os índios.

— O quê? O senhor, com os guajiros? Isso não se admite. Esses selvagens nunca permitiram ninguém no seu território. Nenhum mis­sionário conseguiu penetrar ali, imagine. Não admito essa resposta. Onde o senhor esteve? Diga a verdade.

— Madre, estava com os índios e tenho prova.

— Qual?

— Pérolas que eles pescaram.

Desprego o saco que está seguro com alfinetes no meio das costas do meu paletó e o entrego a ela. Ela abre o saco e dele sai um pu­nhado de pérolas.

— Quantas pérolas há aí?                          

— Não sei, talvez quinhentas ou seiscentas. Mais ou menos.

— Isso não é uma prova. O senhor pode ter roubado em outro lugar.

— Madre, para que sua consciência fique em paz, se quiser eu fico aqui o tempo que for preciso para que possa se informar se houve um roubo de pérolas. Prometo à senhora não me mexer de meu quarto até o dia em que a senhora decidir o contrário.

Ela me olha muito fixamente. Suponho que deve dizer a si mesma: “E se você fugir? Já fugiu da prisão, daqui é mais fácil...”

— Deixarei com a senhora o saco de pérolas, que são toda a mi­nha fortuna. Sei que estou em boas mãos.

— Bem, está combinado. Não, o senhor não precisa ficar fechado no seu quarto. De manhã e à tarde, pode descer ao jardim, quando minhas filhas estão na capela. O senhor comerá na cozinha, junto com os empregados.

Saio desta entrevista um pouco tranqüilizado. No momento em que vou subir ao meu quarto, a irmã irlandesa me leva para a cozi­nha. Uma taça grande de café com leite, pão preto muito fresco e manteiga. A irmã me vê comer sem dizer uma palavra e sem se sen­tar, de pé à minha frente. Tem um aspecto preocupado. Digo:

— Obrigado, minha irmã, por tudo que fez em meu favor.

— Gostaria de fazer mais ainda, mas não posso fazer mais nada, meu amigo Henri — e, com estas palavras, sai da cozinha.

Sentado diante da janela, olho a cidade, o porto, o mar. O campo ao redor está bem cultivado. Não consigo me desfazer da impressão de que me encontro em perigo. A tal ponto, que decido escapar na noite próxima. Tanto pior para as pérolas, que fiquem para seu con­vento ou para ela própria, a madre superiora. Ela não confia em mim e, além do mais, não devo me enganar, porque não é possível que não fale francês, uma catalã, madre superiora de um convento, portanto instruída. Isso é bem esquisito. Conclusão: nesta noite caio fora.

Sim, nesta tarde vou descer ao pátio, para ver o lugar por onde posso saltar o muro. Por volta da 1 hora, batem à minha porta:

— Desça, por favor, para comer, Henri.

— Sim, já vou, obrigado.

Sentado à mesa da cozinha, mal começo a me servir da carne com batatas cozidas, quando a porta se abre e aparecem, armados de fuzis, quatro policiais em uniformes brancos, um com galões, de revólver na mão.

— No te mueve o te mato! (Não te mexas ou te mato!)

Ele me põe algemas. A irmã irlandesa dá um grande grito e des­maia. Duas irmãs da cozinha a levantam.

— Vamos — diz o chefe.

Ele sobe comigo ao meu quarto. Minha trouxa é revolvida e en­contram logo as 36 moedas de ouro de 100 pesos que ainda me res­tam, porém não examinam o estojo com as duas flechas. Sem dúvi­da, acreditaram que eram lápis. Com uma satisfação não escondida, o chefe bota nos seus bolsos as moedas de ouro. A gente sai. No pátio, uma viatura comum.

Os cinco policiais e eu nos amontoamos nesta droga de carro e Partimos a toda, conduzidos por um chofer com roupa de policial, negro como carvão. Estou arrasado e não protesto; procuro me manter digno. Não devo pedir compaixão, nem perdão. Seja homem e pense que não deve jamais perder a esperança. Tudo isso passa ra­pidamente pelo meu cérebro. E, quando desço do carro, estou tão decidido a ter o ar de um homem e não de um trapo e o consigo tão bem, que a primeira palavra do oficial que me examina é para dizer: “Este francês é bem calejado, não parece muito emocionado por estar em nossas mãos”. Entro no seu escritório. Tiro meu chapéu e, sem que me mandem, me sento, com a trouxa entre meus pés.

— Tu sabes hablar español? (Falas espanhol?)

— Não.

— Llame el zapatero. (Chame o sapateiro.)

Poucos instantes depois, chega um homenzinho com um avental azul e um martelo de sapateiro na mão.

— Você não tem o polegar da mão esquerda. Sim. Então é você.

— Não, não sou eu, porque eu não fui embora há um ano. Fui embora há sete meses.

— É o mesmo.

— Para você, sim, não para mim.

— Você é o francês que fugiu de Rio Hacha há um ano?

— Não.

— Você está mentindo.

— Não estou mentindo. Não sou o francês que fugiu de Rio Hacha há um ano.

Tirem-lhe as algemas. Tire o paletó e a camisa.

Ele pega um papel e olha. Todas as tatuagens são anotadas.

— Já vi tudo: você é o tipo do matador. Seja francês ou colom­biano, todos os matadores são os mesmos: indomáveis. Sou somente o subcomandante desta prisão. Não sei o que se vai fazer com você. Por enquanto, vou botar você junto com os seus velhos camaradas.

— Que camaradas?

— Os franceses que você trouxe para a Colômbia.

Sigo os policiais, que me levam para um cárcere cujas grades dão para o pátio. Reencontro meus cinco amigos. A gente se abraça. “Pra nós, você estava salvo para sempre, meu camarada”, diz Clou­siot. Maturette chora como rapazola que é. Os três outros também estão consternados. O reencontro me dá forças.

— Vá contando — dizem.

— Mais tarde. E vocês?                                                

— Estamos aqui há três meses.

— São bem tratados?

— Nem bem, nem mal. Aguardamos para ser transferidos a Barranquilla, onde, parece, vão nos entregar às autoridades francesas.

— Aquele bando de miseráveis! E como faremos para fugir?

— Nem bem chegou e já pensa em fugir!

— Não, ora essa! Você pensa que entrego os pontos sem mais nem menos? Vocês são muito vigiados?

— De dia, não muito, mas de noite tem uma guarda especial para nós.

— Quantos?

— Três vigias.

— E sua perna?

— Vai indo, nem estou mancando.

— Vocês estão sempre fechados aqui dentro?

— Não, a gente passeia pelo pátio tomando sol, duas horas de manhã e três horas de tarde.

— Que jeito têm os outros, os prisioneiros colombianos?

— Tem uns caras muito perigosos, tanto os ladrões como os assassinos.

De tarde, estou no pátio, para falar em particular com Clousiot, quando sou chamado. Sigo o policial e entro no mesmo escritório da manhã. Aí encontro o comandante da prisão, acompanhado do que já me interrogou. A cadeira de honra é ocupada por um homem muito escuro, quase preto. Pela cor, puxa mais para o negro do que para o índio. Seus cabelos curtos, encarapinhados, são cabelos de negro. Tem cerca de cinqüenta anos, olhos pretos e maus. Um bigode curtíssimo pende sobre um beiço grosso de uma boca raivosa. Tem a camisa meio aberta, sem gravata. À esquerda, a fita verde e bran­ca de uma condecoração qualquer. O sapateiro também está aqui.

— Francês, você foi apanhado depois de sete meses de fuga. Que é que fez durante este tempo?

— Estava com os índios.

— Não brinque comigo ou mando corrigi-lo.

— Digo a verdade.

— Ninguém nunca viveu com os índios. Só neste ano, houve mais de 25 guardas de fronteira mortos por eles.

— Não, os guardas de fronteira são mortos por contrabandistas.

— Como é que sabe?

— Vivi sete meses por lá. Os guajiros nunca saem de seu terri­tório.

— Bom, talvez seja verdade. Onde roubou as 36 moedas de 100 pesos?

— São minhas. Foi o chefe de uma tribo da montanha, chamado Justo, quem me deu.

— Como é que um índio chegou a ter esta fortuna e depois a deu a você?

— Bem, chefe, será que houve um roubo de moedas de ouro de 100 pesos?

— Não houve, é verdade. Os boletins não falam deste roubo. Isso não impede que a gente se informe.

— Faça isso, será em meu favor.

— Francês, você cometeu uma falta grave ao fugir da prisão de Rio Hacha e uma falta ainda mais grave, ajudando a fuga de um homem como Antonio, que ia ser fuzilado por ter matado vários guar­das de fronteira. A gente sabe, agora, que você é procurado pela França, onde deve cumprir uma pena de prisão perpétua. Você é um assassino perigoso. De modo que não vou correr o risco de ver você fugir daqui, deixando você com os outros franceses. Vai para o cala­bouço até sua partida de Barranquilla. Receberá as moedas de ouro, se não aparecer notícia de roubo.

Saio e sou arrastado até uma escada, que desce para baixo do solo. Depois de descer mais de 25 degraus, a gente chega a um corredor muito pouco iluminado, onde se acham celas de presos à direita e à esquerda. Abrem um calabouço e sou empurrado para dentro. Quando a porta que dá para o corredor se fecha, um cheiro de podridão sobe de um chão de terra viscosa. Sou chamado por todos os lados. Cada buraco gradeado tem um, dois ou três prisioneiros.

— Francês, francês! Que has hecho? Por que estás acá? (Que fez? Por que está aqui?) Você sabe que estes calabouços são os cala­bouços da morte?

— Calem a boca! Deixem que ele fale! — diz uma voz.

— Sim, sou francês. Estou aqui porque fugi da prisão de Rio Hacha.

Meu espanhol atrapalhado é compreendido por eles.

— Escute, francês: no fundo do seu calabouço tem uma tábua. É para dormir. À direita, você tem uma lata com água. Não des­perdice, porque só dão muito pouca de manhã e você não pode pedir mais. À esquerda, tem um balde para fazer as necessidades. Tampe o balde com o paletó. Você aqui não precisa de paletó, faz calor demais, mas tampe o balde para não feder muito. Todos nós cobri­mos nossos baldes com nossas roupas.

Eu me aproximo da grade, tentando distinguir as caras. Só os dois da frente, colados às grades, com as pernas de fora, podem ser distinguidos. Um é uma espécie de índio espanholado, do tipo dos primeiros policiais que me prenderam em Rio Hacha. O outro é um negro claro, rapaz bonito e moço. O negro me avisa que, a cada maré, a água sobe aos calabouços. Não é preciso eu me assustar, porque ela nunca sobe mais alto do que a barriga, Não agarrar os ratos que subirem por cima de mim, mas dar neles um golpe. Nunca agarrá-los, se não quiser ser mordido. Eu lhe pergunto:

— Há quanto tempo você está neste calabouço?

— Dois meses.

— E os outros?

— Nunca mais de três meses. Quem passa três meses e não é tirado, é porque deve morrer aqui.

— Quanto tempo tem o mais antigo aqui?

— Oito meses, mas não vai demorar muito. Já faz quase um mês que ele não se levanta mais, fica só de joelhos. Não consegue ficar em pé. Num dia de maré grande, vai morrer afogado.

— Mas este país de vocês é um país de selvagens?

— Nunca lhe disse que nós éramos civilizados. Também o seu país não é mais civilizado que nós: você não está condenado à prisão perpétua? Cá, na Colômbia, o negócio é assim: ou vinte anos ou a morte. Nunca a prisão para toda a vida.

— Ora, vá, é tudo igual.

— Você matou muita gente?

— Não, só um.

— Não é possível. Ninguém é condenado a tanto tempo por causa de um homem só.

— Eu lhe garanto que é verdade.

— Então já vê que o seu país é tão selvagem como o meu.

— Tá, não vamos brigar por causa dos países da gente. Você tem razão. Em todo mundo, a polícia é uma merda. E você, que andou fazendo?

— Matei um homem, seu filho e sua mulher.

— Por quê?

— Deram meu irmãozinho para ser comido por uma porca.

— Não pode ser. Que horror!

— Meu irmãozinho de cinco anos todos os dias jogava pedras no filho deles e o menino foi ferido na cabeça várias vezes.

— Não era uma razão.

— Foi o que eu disse, quando soube.

— E como soube?

— Meu irmãozinho tinha desaparecido há três dias e, quando procurava o garoto, achei uma sandália dele no estrume. Esse estru­me tinha saído do chiqueiro onde estava a porca. Mexendo no estru­me, achei uma meia branca cheia de sangue. Compreendi. A mulher confessou antes que eu matasse todos. Deixei que rezassem, antes de fuzilar. Com o primeiro tiro do fuzil, quebrei as pernas do pai.

— Você fez bem matando essa gente. O que é que os juizes vão lhe arranjar?

— Vinte anos no máximo.

— Por que está no calabouço?

— Meti o braço num policial que era da família deles. Estava aqui, na prisão. Já foi tirado. Ele não está mais e eu fico sossegado.

A porta do corredor é aberta. Entra um guarda com dois prisio­neiros que carregam um barril de madeira dependurado em duas barras de madeira.

Atrás deles, no fundo, percebemos dois outros guardas de fuzil na mão. Calabouço por calabouço, tiram os baldes que servem de latrina e os esvaziam no barril. Um fedor de mijo, de merda, envenena o ar e deixa a gente sufocada. Quando chegam junto de mim, o cara que pega o meu balde deixa cair um pacotinho no chão. Sem perda de tempo, chuto o pacotinho para mais longe, no escuro. Quan­do vão embora, apanho no embrulho dois maços de cigarro, um isqueiro e um papel escrito em francês. Em primeiro lugar, acendo dois cigarros e os jogo aos dois caras que estão à minha frente. De­pois chamo meu vizinho que, estendendo o braço, apanha os cigarros para fazê-los passar aos outros prisioneiros. Após a distribuição, acendo o meu cigarro e procuro ler à luz do corredor. Mas não con­sigo. Então, com o papel que envolvia o embrulho, faço um rolo afinado e, depois de muito esforço, meu isqueiro consegue botar fogo no papel. Leio depressa:

“Papillon, coragem, conte com a gente. Preste atenção. Amanhã, vamos lhe mandar papel e lápis para que você nos escreva. Estamos com você até a morte”.

Isto me aquece o coração. Estas palavrinhas são para mim tão reconfortantes! Não estou mais sozinho e posso contar com meus amigos.

Ninguém fala. Todo mundo fuma. A distribuição dos cigarros me mostra que somos dezenove nas celas da morte. Estou, então, de novo no caminho da podridão, desta vez enterrado até o pescoço! Estas freirinhas do bom Deus eram irmãs do diabo. No entanto, não pode ter sido a irlandesa quem me denunciou, nem a espanhola. Ah, que besteira a minha de acreditar naquelas freirinhas! Não, não fo­ram elas. Talvez o carroceiro? Duas ou três vezes, fomos impruden­tes, falando em francês. Será que ele ouviu? Você se danou desta vez e de verdade. Irmãs, carroceiro, madre superiora, o resultado é o mesmo.

Estou estrepado, neste calabouço nojento que, parece, é inundado duas vezes por dia. O calor é tão abafado, que tiro primeiro a camisa, depois as calças. Tiro os sapatos e dependuro tudo nas grades.

Dizer que andei 2 500 quilômetros para chegar a isto! Na verda­de, que magnífico resultado! Meu Deus! Será que você vai me aban­donar depois de ter sido tão generoso comigo? É possível que você, meu Deus, esteja aborrecido, porque, afinal, me deu a liberdade, a mais segura, a mais bonita. Me deu uma comunidade que me adotou inteiramente. Me deu, não uma, mas até duas mulheres fabulosas. E o sol e o mar. E uma palhoça onde eu era o chefe incontestado. Esta vida na natureza, esta existência primitiva, como era doce e tranqüila! Este presente único, que você me deu, de ser livre, sem polícia, sem juiz, sem invejosos nem malvados em torno de mim! E eu não soube dar o valor justo a este presente. Este mar tão azul, ora verde e quase negro, estas alvoradas e crepúsculos que banha­vam de paz tão serenamente suave, este modo de viver sem dinheiro, onde não me faltava nada de essencial à vida de um homem, tudo isso eu calquei com os pés, tudo isso desprezei. Para ir aonde? Para sociedades que não querem me aceitar. Para seres que não se dão sequer ao trabalho de saber o que existe em mim de recuperável. Para um mundo que me repele, que me joga longe de toda esperança. Para coletividades que não pensam senão numa coisa: me aniquilar de qualquer maneira.

Quando receberem a notícia de minha captura, bem que vão gozar os doze patetas do júri, o podre do Polein, os tiras e o procurador. Porque certamente vai haver um jornalista para mandar a notícia à França.

E o meu pessoal? Eles que, quando tiveram de receber a visita dos guardas lhes anunciando minha evasão, devem ter ficado tão felizes com o fato de que seu filho ou seu irmão haja escapado dos carrascos! Agora, ao saberem que fui recapturado, vão sofrer outra vez.

Fiz mal em renegar minha tribo. Sim, posso dizer “minha tribo”, porque todos eles me adotaram. Fiz mal e mereço o que me acon­tece. E no entanto... Não fugi da cadeia para aumentar a população de índios da América do Sul. Bom Deus, compreenda que devo viver outra vez numa sociedade normalmente civilizada e demonstrar que posso fazer parte dela sem ser um perigo para ela. É o meu verda­deiro destino, com você ou sem a sua ajuda.

Preciso chegar a provar que posso ser, que sou — e que serei — um ser normal, ou até melhor do que os outros indivíduos de qualquer coletividade de qualquer país.

Estou fumando. A água começa a subir. Já chega aos tornozelos. Chamo:

— Negro, quanto tempo a água fica na cela?

— Isso depende da força da maré. Uma hora, no máximo duas.

Ouço vários prisioneiros gritarem: “Está llegando!” (Está chegando!)

Devagar, bem devagar, a água sobe. Os mestiços e o preto estão empoleirados na grade. As pernas deles pendem para o corredor e seus braços se agarram a duas barras. Ouço ruído na água: é um rato de esgoto, grande como um gato, que vem nadando. Ele procura subir pela grade. Apanho um dos meus sapatos e, quando vem para o meu lado, lhe dou um golpe violento na cabeça. O rato sai guin­chando pelo corredor. O negro me diz:

— Francês, você esta dando murro à toa. Não vai acabar, se quiser matar todos. Suba na grade, agarre-se nas barras e fique sossegado.

Sigo o seu conselho, mas as barras me cortam as coxas, não con­sigo resistir por muito tempo nesta posição. Destampo meu balde-latrina, tirando meu paletó, e o amarro nas barras, escorregando, depois, por cima dele. Tenho, assim, uma espécie de cadeira, que me permite suportar melhor a posição, porque agora estou quase sentado.

Esta invasão da água, de ratos, de centopeias, de caranguejos mi­núsculos, trazidos pela água, é a coisa mais repugnante, mais depri­mente que um ser humano possa ser obrigado a suportar. Quando a água se retira, uma hora depois, fica uma lama viscosa de mais de 1 centímetro de espessura. Calço os sapatos para não chafurdar neste lodo. O negro me joga um pedaço de tábua de 10 centímetros de comprimento e me diz para empurrar a lama para o corredor, come­çando pela tábua, onde devo dormir, e, depois, pegando do fundo de minha cela em direção à entrada. Esta ocupação me toma uma boa meia hora e me obriga a pensar somente nela. Já é alguma coisa. Antes da maré seguinte, não terei água, isto é, durante onze horas exatamente, uma vez que a última hora é a da inundação. Para ter água de novo, é preciso contar as seis horas em que o mar baixa e as cinco horas em que sobe. Faço esta reflexão um pouco ridícula: “Papillon, você está destinado a viver em função das marés. A lua, quer você queira ou não, tem para você muita importância, para você e para a sua vida. Foi graças às marés, enchentes e vazantes, que você pôde sair facilmente do Maroni, quando fugiu da prisão de forçados. Foi calculando a hora da maré que saiu de Trinidad e de Curaçau. Se parou em Rio Hacha, foi porque a maré não estava bastante forte para que você se afastasse mais depressa e, agora, aí está você na dependência permanente desta maré”.

Entre os que lerão estas páginas, se um dia forem publicadas, alguns talvez sintam diante da narração do que tive de suportar nos calabouços colombianos um pouco de piedade por mim. Serão os bons. Os outros, os primos-irmãos dos doze imbecis que me condena­ram, ou os irmãos do procurador, dirão: “Foi bem feito para ele; se ficasse na prisão, isso não lhe aconteceria”. Mas, vá lá, querem que lhes diga uma coisa, tanto a vocês, os bons, quanto a vocês, os idiotas? Não estou desesperado, de maneira nenhuma, e lhes direi ainda melhor: prefiro estar nestes calabouços da velha fortaleza co­lombiana, construída pela inquisição espanhola, do que nas Ilhas da Salvação, onde devia estar agora. Aqui, ainda me resta muita coisa para tentar a fuga; e, neste buraco fedorento, apesar de tudo, estou a 2 500 quilômetros da prisão de forçados. Vai ser preciso tomarem realmente muitas precauções para me obrigarem a fazer o caminho de volta. Só sinto falta de uma coisa: minha tribo guajira, Lali e Zoraima, aquela liberdade na natureza, sem o conforto de um civili­zado, mas também sem polícia, sem prisão, sem calabouços. Penso que nunca passaria pela cabeça dos meus selvagens a idéia de aplicar suplício semelhante a um inimigo e, menos ainda, a um homem como eu, que não cometeu nenhum delito contra os colombianos.

Deito-me sobre a tábua e fumo dois ou três cigarros, no fundo de minha cela, para que os outros não me vejam fumar. Ao entregar a tabuazinha ao negro, joguei-lhe um cigarro aceso e ele, por pudor diante dos demais, fez como eu. Esses detalhes, que parecem um nada, têm, na minha opinião, muito valor. Isso prova que nós, os párias da sociedade, temos, pelo menos, um resto de savoir-vivre e um de­licado respeito humano.

Aqui, não estou como na Conciergerie. Posso sonhar e vagabun­dear pelo espaço, sem ter de botar um lenço para proteger meus olhos de uma luz muito forte.

Quem pode ter avisado a polícia de que eu estava no convento? Ah, se eu souber um dia, a pessoa me pagará! E então digo para mim mesmo: “Deixe de bobagem, Papillon! Com o que você tem a fazer na França para se vingar, esqueça o resto; você não veio a este país perdido para fazer mal! Esta pessoa será certamente punida pela própria vida e, se você tiver de voltar um dia, não será para se vingar, mas para dar felicidade a Lali e Zoraima e, talvez, aos filhos que elas tiverem de você. Se voltar a este buraco, voltará para elas e para todos os guajiros, que lhes deram a honra de acolhê-lo entre eles como se você fosse um deles. Estou ainda no caminho da podridão, mas, em­bora num calabouço submarino, estou, queiram ou não, em plena fuga e no caminho da liberdade. Isso é que é impossível negar”.

Recebi papel, um lápis, dois maços de cigarros. Já lá vão três dias que estou aqui. Deveria dizer três noites, porque aqui faz sem­pre noite. Enquanto acendo um cigarro Piel Roja, não posso deixar de admirar a dedicação mútua dos prisioneiros. O colombiano que me passa o pacote corre um grande risco. Se for surpreendido, terá de passar, sem dúvida, uma temporada nestes mesmos calabouços. Ele sabe disso e, quando topa me ajudar no meu calvário, mostra-se não só corajoso, mas de uma nobreza pouco comum. Sempre pelo mesmo sistema do papel em chamas, leio: “Papillon, a gente sabe que você está agüentando bem. Viva! Mande notícias. De nossa parte, esta­mos sempre na mesma. Uma boa irmã, que fala francês, veio ver você, não deixaram que falasse conosco, mas um colombiano nos disse que teve tempo de lhe dizer que o francês está nos calabouços da morte. Ela disse: voltarei. É tudo. Os amigos o abraçam”.

Não foi fácil responder, mas eu consegui, ainda assim, escrever: “Obrigado por tudo. A coisa vai, eu agüento. Escrevam ao cônsul francês, a gente nunca sabe. Mandem as coisas sempre pelo mesmo cara, para que, em caso de acidente, só um seja punido. Não toquem nas pontas das flechas. Viva a fuga!”

 

                           A FUGA DE SANTA MARTA

Somente 28 dias depois, com a intervenção do cônsul belga (um homem chamado Klausen), foi que saí deste antro imundo. O negro, que se chamava Palacios e tinha saído três semanas após minha chegada, teve a idéia de dizer à sua mãe, por ocasião de uma visita para avisar ao cônsul belga que havia um cidadão belga naqueles calabouços. Esta idéia lhe veio quando viu, num domingo, um pri­sioneiro belga recebendo a visita do cônsul.

Um dia, portanto, me levaram ao escritório do comandante, que me disse:

— O senhor é francês, por que faz reclamações ao cônsul belga?

No escritório, um senhor vestido de branco, de uns cinqüenta anos, os cabelos louros quase brancos por cima de uma cara redonda, fresca e rosada, estava sentado numa poltrona, com uma pasta de couro sobre os joelhos. Imediatamente compreendi a situação:

— É o senhor quem diz que sou francês. Reconheço que fugi da justiça francesa, mas sou belga.

— Ah! O senhor está vendo? — diz o homenzinho com cara de padre.

— Por que o senhor não me disse?

Pensei que isto não tinha importância alguma para o senhor, por­que realmente não cometi nenhum delito sério na sua terra, a não ser o de fugir da prisão, o que é normal para todo prisioneiro.

— Bueno, vou botar o senhor com os seus camaradas. Mas, se­nhor cônsul, eu lhe aviso que, na primeira tentativa de evasão, o remeterei para o lugar donde veio. Levem-no ao barbeiro, depois ponham-no com os seus cúmplices.

— Obrigado, senhor cônsul — digo em francês —, muito obriga­do por se ter incomodado por minha causa.

— Deus do céu! Como o senhor deve ter sofrido nestes horríveis calabouços! Depressa, vá embora. É preciso que ele não mude de opinião, este animal. Voltarei para ver o senhor. Até logo.

O barbeiro não estava e me botaram com meus amigos. Eu devia estar com uma cara dos diabos, porque eles não paravam de falar:

— Mas não é você! Não pode ser! Que é que esses canalhas lhe fizeram para deixar você deste jeito? Fale para a gente, diga alguma coisa. Será que você está cego? Que tem nos olhos? Por que fecha e abre os olhos sem parar?

— É que não consigo me acostumar com esta luz. Ela é luminosa demais para mim, fere meus olhos habituados à escuridão.

Sento-me, olhando o interior da cela.

— Por aqui, a coisa é melhor.

— Você cheira a podre, é incrível! Mesmo seu corpo cheira a podre!

Fiquei nu e eles colocaram meus troços perto da porta. Meus braços, minhas costas, minhas coxas, minhas pernas estavam cheios de picadas vermelhas, como a dos percevejos na França, e de mordi­das de caranguejos minúsculos, que flutuavam com a maré. Eu estava horroroso, não precisava de um espelho para saber disso. Os cinco forçados, que tanta coisa já tinham visto, pararam de falar, comovi­dos por me verem nesse estado. Clousiot chama um policial e lhe diz que, se não tem barbeiro, tem água no pátio. O outro lhe responde para esperar a hora da saída.

Saio nu. Clousiot leva as roupas limpas que vou vestir. Ajudado por Maturette, eu me lavo e torno a me lavar com o sabão preto do país. Quanto mais me lavo, mais imundície sai. Por fim, depois de me ensaboar e enxaguar muitas vezes, sinto que estou limpo. Enxugo-me em cinco minutos no sol e visto minha roupa. Chega o barbeiro. Ele quer pelar minha cabeça, mas eu lhe digo:

— Não. Corte meus cabelos do jeito normal e faça minha barba.

Eu lhe pagarei.

— Quanto?

— Um peso.

— Faça bem o serviço — diz Clousiot — e eu lhe dou 2 pesos.

Banhado, barbeado, os cabelos bem cortados, roupa limpa, sinto que volto a viver. Meus amigos não param de me interrogar:

— E a água, subia a que altura? E os ratos? E as centopeias? E a lama? E os caranguejos? E a merda dos barris? E os mortos que saem? Eram de morte natural ou suicidas enforcados? Ou tinham sido “suicidados” pelos policiais?

As perguntas não paravam e, de tanto falar, acabei com sede. No pátio havia um vendedor de café. Durante as três horas que a gente passou no pátio, bebi, no mínimo, uns dez cafés fortes, adoçados com papelón (açúcar mascavo). Este café me parecia a melhor bebida do mundo. O negro do calabouço da frente veio me dar bom dia. Ele me explica, falando baixinho, a estória do cônsul belga com sua mãe. Eu lhe aperto a mão. Ele está muito orgulhoso de ter sido a origem de minha saída. Sai um bocado feliz, dizendo para mim: “A gente fala amanhã. Por hoje, foi bastante”.

Tenho a impressão de que a cela de meus amigos é um palácio. Clousiot tem uma rede, que lhe pertence, que comprou com dinheiro seu. Ele me obriga a dormir nela. Eu me estico, atravessado. Ele se espanta e eu lhe explico que se deita no sentido do comprimento quem não sabe se servir de uma rede.

Comer, beber, dormir, jogar damas ou baralho, com cartas espa­nholas, falar espanhol uns com os outros ou com os policiais e pri­sioneiros colombianos, para aprender bem a língua do país, todas essas atividades enchiam nosso dia e mesmo uma parte da noite. É duro ficar deitado nove horas por noite. Recordo, então, com muita intensidade, os detalhes da fuga do hospital de Saint-Laurent para Santa Marta; eles chegam, desfilam diante de mim e reclamam uma continuação. O filme não pode parar aí, é preciso que continue e ele continuará, meu caro. Deixe que eu recupere as forças e virão novos episódios, tenha confiança em mim! Achei minhas flechinhas e duas folhas de coca, uma completamente seca, a outra ainda um pouco verde. Fico mascando a folha verde. Todos me olham assombrados. Explico aos meus amigos que são as folhas com as quais se fabrica a cocaína.

— Não brinca!

— Experimente.

— Sim, é verdade, o negócio insensibiliza a língua e os lábios.

— Vendem isto por aqui?

— Não sei. Clousiot, como é que você se arruma para fazer apare­cer a gaita de tempos em tempos?

— Troquei em Rio Hacha e, desde então, tenho sempre dinheiro na vista de todo mundo.

— Tenho trinta e seis moedas de ouro de 100 pesos com o coman­dante. Cada moeda vale 300 pesos. Um dia desses, vou levantar o problema.

— Este pessoal é fominha, é melhor oferecer a ele um negócio qualquer.

— Boa idéia.

Domingo, falei com o cônsul belga e o prisioneiro belga. Este prisioneiro cometeu um abuso de confiança com relação a uma com­panhia bananeira americana. O cônsul se pôs à minha disposição para nos proteger. Preencho uma ficha, onde declaro que sou filho de pais belgas, nascido em Bruxelas. Eu lhe falei das irmãs e das pérolas. Mas ele é protestante e não conhece nem as irmãs, nem os padres. Conhece um pouquinho o bispo. Quanto às moedas, seu conselho é não reclamar. Muito arriscado. Ele deverá ser avisado, com 24 horas de antecedência, a respeito de nossa partida para Barranquilla.

— E o senhor — diz o cônsul — poderá reclamar as moedas em minha presença, uma vez que, se bem compreendi, existem teste­munhas.

— Existem, sim.

— Mas, por enquanto, não reclame nada, ele seria capaz de colo­car o senhor de novo naqueles horríveis calabouços e talvez mesmo de mandar matá-lo. Essas moedas de 100 pesos são uma verdadeira fortuna. Elas não valem 300 pesos, como o senhor pensa, mas 500 cada uma. É um dinheirão. É bom não cutucar o diabo com vara curta. Quanto às pérolas, é outra coisa. O senhor me dê tempo para refletir.

Pergunto ao negro se não gostaria de fugir comigo e como, em sua opinião, a gente deve agir. Sua pele de tom claro ficou cinza quando ele ouviu falar de fuga.

— Pelo amor de Deus, homem. Nem pense nisso. Se fracassa, vai ter a morte lenta mais horrorosa. Você já teve um gostinho. Espere para chegar a outro lugar, a Barranquilla. Aqui seria um suicídio. Quer mesmo morrer? Então fique sossegado. Em toda a Colômbia, não tem um calabouço como este em que esteve. Então, por que nos arriscarmos aqui?

— Sim, mas aqui o muro não é alto demais, isso deve ser relati­vamente fácil.

— Homem, fácil ou não, não conte comigo. Nem para cair fora, nem para lhe ajudar. Nem mesmo para falar nesta coisa.

E, ao me deixar, apavorado, ainda me diz:

— Francês, você não é um homem normal, está louco pensando coisas destas, aqui, em Santa Marta.

Todas as manhãs e todas as tardes, fico olhando os prisioneiros colombianos que estão aqui por causa de complicações grossas. Têm todos caras de assassinos, mas a gente sente que estão dominados. O terror de ser enviado aos calabouços os paralisa completamente. Há uns quatro ou cinco dias, vimos sair do calabouço um diabo granda­lhão, uma cabeça mais alto do que eu, chamado “El Caimán”. Goza da reputação de ser um homem extremamente perigoso. Falo com ele e, depois de três ou quatro passeios, lhe digo:

— Caimán, quieres fugarte conmigo?

Ele me olha como se eu fosse o demônio e me diz:

— Para voltar ao mesmo lugar, se a gente fracassa? Não, obrigado. Prefiro matar minha mãe do que voltar para lá.

Esta foi minha última tentativa. Nunca mais falarei com alguém de fuga,

De tarde, vejo passar o comandante da prisão. Ele pára, me olha, depois me diz:

— Como vai tudo?

— Vai andando, mas iria melhor se eu tivesse minhas moedas de ouro.

— Por quê?

— Porque poderia pagar um advogado para mim.

— Venha comigo.

Ele me leva ao seu escritório. Estamos sozinhos. Ele me estende um charuto — nada mal — e o acende — cada vez melhor.

— Você sabe falar o espanhol bastante para compreender e res­ponder, falando devagar?

— Sim.

— Bem. Você me diz que gostaria de vender as suas 26 moedas.

— Não, minhas 36 moedas.

— Ah! sim, sim! E com este dinheiro pagar um advogado? Mas só nós dois sabemos que você tem estas moedas.

— Não, há o sargento e os cinco homens, que me prenderam, e o subcomandante, que recebeu as moedas antes de entregar ao senhor. E ainda há o meu cônsul.

— Ah! Ah! Bueno. É até melhor que muita gente saiba, porque assim agimos às claras. Você sabe, eu lhe prestei um grande serviço. Fiquei na moita, não passei boletim de pedido de informações às di­versas polícias, por onde você passou, para saber se tinham conheci­mento de um roubo de moedas.

— Mas o senhor devia ter feito isso.

— Não, para o seu bem, era melhor não fazer.

— Eu lhe agradeço, comandante.

— Quer que venda as moedas para você?

— A quanto?

— Bem, ao preço que me disse que lhe pagaram três: 300 pesos. Você me dará 100 pesos por moeda como recompensa pelo serviço. Que é que acha?

— Não. Você me dá as moedas, de dez em dez, e eu lhe darei, não 100, mas 200 pesos por moeda. Isso vale o que fez por mim.

— Francês, você é malandro demais. Sou um pobre oficial colom­biano muito confiante e um pouco besta, mas você é inteligente e, já lhe disse, malandro demais.

— Bem, então, faça uma proposta razoável.

— Amanhã, mando chamar o comprador aqui, no meu escritório. Ele vê as moedas, faz uma oferta, e nós rachamos meio a meio. Isto ou nada. Mando você para Barranquilla com as moedas ou guardo comigo as moedas para o inquérito.

— Não, aí vai minha última proposta: o homem vem aqui, vê as moedas e tudo que for acima de 350 pesos por moeda é seu.

— Está bem, você tem minha palavra. Mas onde vai botar tanto dinheiro?

— No momento de receber o dinheiro, você manda chamar o cônsul belga. Darei a ele o dinheiro para pagar meu advogado.

— Não, não quero testemunha.

— Você não arrisca nada, eu assinarei um papel dizendo que você me devolveu minhas 36 moedas. Aceite e, se você se comportar di­reito comigo, eu lhe proponho um outro negócio.

— Qual?

— Tenha confiança em mim. É um negócio tão bom como o ou­tro e, neste segundo, a gente faz a 50 por cento.

— Qual é? Me diga.                                              

— Arranje-se depressa amanhã, e de tarde, às 5 horas, quando meu dinheiro estiver seguro com meu cônsul, eu lhe falo do outro negócio.

A entrevista foi comprida. Quando voltava muito contente ao pátio, meus amigos já tinham entrado na cela.

— Então, que é que há?

Contei-lhes toda a nossa conversa. Apesar de nossa situação, morremos de rir.

— Que raposa, este cara! Mas você passou a perna nele. Acha que ele caiu nessa?

— Aposto 100 pesos contra 200 que ele está no papo. Alguém aposta?

— Não, eu também acho que ele caiu no laço.

Durante a noite inteira, fico pensando. Quanto ao primeiro ne­gócio, está claro. O segundo — ele vai ficar um bocado contente de recuperar as pérolas — também está claro. Resta o terceiro. O ter­ceiro... seria eu lhe oferecer tudo que me tocou para que me deixe roubar um barco no porto. Vamos ver se ele resiste à tentação. Que é que arrisco? Depois dos dois primeiros negócios, ele não pode mesmo me punir. Veremos. Não venda a pele do urso que ainda nem foi caçado. Você poderia aguardar Barranquilla. Mas por quê? Cidade mais importante, prisão mais importante, portanto mais bem vigiada e com muros mais altos. Precisava voltar a viver com Lali e Zoraima: fujo a toda pressa, espero por lá alguns anos, vou para a montanha com a tribo, que tem os bois, e, então, entro em contato com os venezuelanos. De qualquer jeito, preciso ser bem sucedido nesta evasão. A noite toda, calculo o que deveria fazer para me sair bem com o terceiro negócio.

Na manhã seguinte, a coisa anda. Às 9 horas vêm me procurar para ver um senhor, que me aguarda no escritório do comandante. Quando chego, o policial fica de fora e eu me vejo diante de uma pessoa de uns sessenta anos, vestida de cinza-claro, gravata cinza. Sobre a mesa, um chapelão de feltro, do tipo cowboy. Uma grande pérola cinzenta e azul-prateada se exibe, como num estojo, pregada na gravata. Este homem magro e seco não deixa de apresentar certa elegância.

— Bom dia, senhor.

— Fala francês?

— Sim, senhor, sou de origem libanesa. Vejo que o senhor tem moedas de ouro de 100 pesos, estou interessado. Quer 500 por cada uma?

— Não, 650.

— O senhor está mal informado! O preço máximo por moeda é 550.

— Escute, como o senhor vai comprar todas, vendo a seiscentos.

— Não, 550.

Pouco depois, concordamos com 580. Negócio fechado.

— Qué han dicho? (Que disseram?)

— O negócio está fechado, comandante, a 580. A venda será feita de tarde.

Ele se retira. O comandante se levanta e me diz:

— Muito bem. E, agora, quanto para mim?

— Duzentos e cinquenta por moeda. O senhor vê, eu lhe dou duas vezes e meia o que queria ganhar, 100 pesos por moeda.

Ele sorri e diz:

— E o outro negócio?

— Antes de mais nada, que o cônsul esteja aí, de tarde, para re­ceber o dinheiro. Quando ele tiver ido embora, falo no segundo negócio.

— É certo então que tem outro negócio?

— Você tem minha palavra.

— Bien, ojalá! (tomara!)

Às 2 horas vieram o cônsul e o libanês. Este último me dá 20 880 pesos. Entrego 12 600 ao cônsul e 8 280 ao comandante. Assino um recibo para o comandante, como se ele me tivesse entregue mi­nhas 36 moedas de ouro. Ficamos a sós, o comandante e eu. Eu lhe conto a cena da madre superiora.

— Quantas pérolas?

— Quinhentas a seiscentas.

— Uma ladra, esta madre superiora. Devia ter devolvido logo as pérolas a você ou mandado entregá-las aqui ou, então, ter entregue à polícia. Vou denunciá-la.

— Nada disso, você vai ver a superiora e lhe entregar uma carta de minha parte, em francês. Antes de falar da carta, pedirá para conversar com a freira irlandesa.

— Entendo: é a irlandesa que deve ler a carta escrita em francês e traduzir para ela. Muito bem. Vou.

— Espere a carta.

— Ah, é verdade! José, prepare a viatura com dois policiais! — grita o comandante pela porta entreaberta.

Eu me instalo na escrivaninha do comandante e, no papel com o carimbo da prisão, escrevo a seguinte carta:

“Senhora Superiora do convento.

“Aos bons ofícios da boa e caridosa irmã irlandesa.

“Quando Deus me conduziu ao seu convento, onde acreditava re­ceber a ajuda à qual tem direito todo perseguido segundo a lei cristã, tive o gesto de lhe confiar um saco de pérolas de minha propriedade a fim de lhe dar confiança de que não partiria clandestinamente de sua residência, que é uma casa de Deus. Um ser vil acreditou ser de seu dever me denunciar à polícia, que rapidamente me prendeu em seu convento. Espero que a alma abjeta que cometeu este ato não pertença a uma das filhas de Deus desta casa. Não posso dizer que perdôo esta alma apodrecida, isto seria mentir. Ao contrário, pedirei com fervor que Deus ou um dos seus santos castigue sem misericór­dia a culpada ou o culpado de um pecado tão monstruoso. Eu lhe peço, senhora Madre Superiora, para entregar ao Comandante Cesa­rio o saco de pérolas que lhe confiei. Ele me entregará as pérolas, estou certo. Esta carta servirá de recibo para a senhora.

“Queira, etc.”

Estando o convento a 8 quilômetros de Santa Marta, a viatura vol­tou uma hora e meia depois. O comandante manda me procurar.

— Aqui está. Conte para ver se falta alguma.

Eu conto as pérolas. Não para saber se falta alguma, porque não conheço o número delas, mas para saber quantas pérolas existem agora nas mãos deste rufião: 572.

— Está certo?

— Sim.

— Não falta?

— Não. Agora, diga como foi.

— Quando cheguei ao convento, a superiora estava no pátio. Os dois policiais me enquadraram e eu lhe disse: “Senhora, para uma coisa muito grave de que deve ter idéia, é necessário que eu fale à irmã irlandesa em sua presença”.

— E então?

— Foi tremendo que esta irmã leu a carta à superiora. Esta não disse nada. Baixou a cabeça, abriu a gaveta da sua escrivaninha e me disse: “Eis a bolsa, intata, com suas pérolas. Que Deus perdoe a culpada do crime praticado contra este homem. Diga-lhe que nós rezamos por ele”. E aí está, hombre! — conclui o comandante.

— Quando a gente vende estas pérolas?

— Mañana. Não lhe pergunto donde elas vêm, sei agora que você é um matador perigoso, mas sei também que é um homem de pala­vra, um homem honesto. Tome, leve este presunto, esta garrafa de vinho e este pão francês para festejar com seus amigos este dia me­morável.

— Boa noite.

E eu chego com uma garrafa de 2 litros de chianti, um presunto defumado de 3 quilos e quatro bengalas de pão francês. É uma co­milança festiva. O presunto, o pão e o vinho diminuem rapidamente. Todo mundo come e bebe com bom apetite.

— Acredita que um advogado vai poder fazer alguma coisa por nós?

Estouro de rir. Que coitados, até eles caíram no golpe do advogado!

— Não sei. É preciso estudar e consultar antes de pagar.

— O melhor — diz Clousiot — seria pagar somente em caso de sucesso.

— É isso, preciso encontrar um advogado que aceite essa minha proposta.

E não falo mais no assunto. Tenho um pouco de vergonha.

No dia seguinte, o libanês volta: “É muito complicado”, diz. “É Preciso classificar as pérolas por medidas, depois pela cor, pela dure­za e segundo a forma: ver se são bem redondas ou barrocas.” Em suma, não é só complicado, mas, ainda por cima, o libanês diz que deve trazer um outro comprador possível, mais competente do que ele. Em quatro dias, o negócio está feito. Ele paga 30 000 pesos. Na última hora, retirei uma pérola rosa e duas pérolas negras para dar de presente à mulher do cônsul belga. Como bons comerciantes, eles se aproveitam disso para dizer que estas três pérolas valem, elas somente, 5 000 pesos. Assim mesmo, fico com as pérolas.

O cônsul belga não quer absolutamente aceitar as pérolas. Ele guardará para mim os 15 000 pesos. Logo, estou na posse de 27 000 pesos. Trata-se de levar a bom termo o terceiro negócio.

Como, de que maneira vou me arranjar? Um bom operário ganha na Colômbia de 8 a 10 pesos por dia. Portanto, os 27 000 pesos são um dinheirão. Vou malhar o ferro enquanto está quente. O co­mandante recebeu 23 000 pesos. Com os 27 000 a mais, terá 50 000.

— Comandante, quanto vale uma loja que daria para viver melhor do que o senhor?

— Uma boa loja vale, a dinheiro, de 45 a 60 000 pesos.

— E quanto rende? Três vezes o que o senhor ganha? Quatro vezes?

— Mais. Rende cinco ou seis vezes o que eu ganho.

— E por que o senhor não vira comerciante?

— Precisaria ter duas vezes o que tenho.

— Escute, comandante, tenho um terceiro negócio a lhe propor.

— Não brinque comigo.

— Não, eu lhe garanto. Quer os 27 000 pesos que eu tenho? São seus, quando quiser.

— Como?

— Deixe-me ir embora.

— Escute, francês, sei que não tem confiança em mim. Antes, talvez tivesse razão. Mas agora que, graças a você, saí da miséria ou coisa parecida e que posso comprar uma casa e mandar meus filhos para a escola particular, saiba que sou seu amigo. Não quero lhe roubar, nem que seja morto. Aqui, não posso fazer nada por você, mesmo por uma fortuna. Não posso facilitar sua fuga com chances de êxito.

— E se lhe provo o contrário?

— Então, a gente vê, mas pense bem antes.

— Comandante, tem um amigo pescador?

— Sim.

— Será que ele é capaz de me levar para o mar e de me vender sua canoa?

— Não sei.

— Quanto, mais ou menos, vale seu barco?

— Dois mil pesos.

— Se lhe der 7 000 e 20 000 ao senhor, serve?

— Francês, 10 000 bastam para mim, guarde alguma coisa você.

— Arrume as coisas.

— Irá sozinho?

— Não.

— Quantos?

— Três ao todo.

— Deixe eu falar com meu amigo pescador.

Estou assombrado com a mudança deste sujeito em relação a mim. Com a sua cara de assassino, tem no fundo do seu coração belas coisas escondidas.

No pátio, falo a Clousiot e Maturette. Eles me dizem que eu faça como achar melhor, que estão prontos para me seguir. Este abandono da vida deles em minhas mãos me dá uma satisfação bem grande. Não abusarei disso, serei prudente ao extremo, porque assumi uma grande responsabilidade. Mas devo avisar aos nossos outros compa­nheiros. Acabamos de encerrar um torneio de dominó. São quase 9 horas da noite. É o último momento que temos para tomar café. Grito: “Cafetero!” E a gente se serve de seis cafés bem quentinhos.

— Preciso lhes falar. Aí está. Creio que vou conseguir fugir outra vez. Infelizmente, só três podem partir. Ê normal que vá com Clou­siot e Maturette, que são homens com os quais já fugi do degredo. Se algum de vocês tem alguma coisa a criticar, que fale com fran­queza, eu escutarei.

— Não — diz o bretão —, este é justamente o ponto de vista de todos. Antes de tudo, porque vocês saíram juntos do degredo. Além disso, se vocês estão nesta situação, a culpa é nossa, fomos nós que quisemos desembarcar na Colômbia. Papillon, obrigado, de qualquer maneira, por ter pedido nossa opinião. Que Deus ajude para que dê certo, porque, se vocês forem capturados, é morte certa e em condi­ções horrorosas.

— Nós sabemos disso — dizem juntos Clousiot e Maturette.

O comandante me falou de tarde. Seu amigo está de acordo. Per­gunta o que queremos levar na canoa.

— Um barril de 50 litros de água potável, 25 quilos de farinha de milho e 6 litros de azeite. É tudo.

— Carajo! — exclama o comandante. Você vai se meter no mar com tão pouca coisa?

— Si.

— Você é valente, francês.

Feito. Fica resolvido, vamos fazer o terceiro negócio. Ele acres­centa friamente:

— Faço isto, creia ou não, por meus filhos e, em seguida, por você, que merece pela sua coragem.

Sei que é verdade e agradeço.

— Como fará para não deixar que percebam que estou de combinação com você?

— Sua responsabilidade não será comprometida. Partirei de noite, quando o subcomandante estiver de guarda.

— Qual é o seu plano?

— Comece amanhã a tirar um policial da guarda da noite. Dentro de três dias, tire outro. Quando não houver senão um, mande instalar uma guarita na frente da porta da nossa cela. Na primeira noite de chuva, a sentinela vai se abrigar na guarita e eu saltarei pela janela de trás. Quanto à luz em torno do muro, é preciso que você encontre, pessoalmente, o meio de provocar um curto-circuito. É tudo o que lhe peço. Pode provocar o curto-circuito jogando, você mesmo, um fio de cobre de 1 metro, com duas pedras amarradas, sobre os dois fios que vão até o poste da fileira das lâmpadas que iluminam a parte de cima do muro. Quanto ao pescador, a canoa deve estar amarrada por uma corrente, cujo cadeado ele mesmo deverá abrir, de maneira que eu não perca tempo, as velas devem estar prontas para serem içadas e deve haver três remos grandes para pegar o vento.

— Mas tem um motorzinho — diz o comandante.

— Ah! Nesse caso, melhor ainda: que ele coloque o motor no ponto morto, como se estivesse esquentando, e que vá ao primeiro café beber pinga. Quando vir a gente chegar, deve se colocar junto do barco num encerado preto.

— O dinheiro?

— Vou cortar em dois os 20 000 pesos que vou dar a você, cada nota será cortada na metade. Ao pescador, pago os 7 000 pesos adian­tados. A você, dou adiantada a metade das notas e a outra metade lhe será entregue por um francês que vai ficar, lhe direi qual.

— Então, não acredita em mim? Estamos mal.

— Não, o caso não é este, mas você pode cometer um erro no curto-circuito e, então, não pago, porque sem curto-circuito não posso cair fora.

— Está bem.

Tudo pronto. Por intermédio do comandante, dei os 7 000 pesos ao pescador. Já há cinco dias que só há uma sentinela. A guarita está instalada e aguardamos a chuva que não chega. A grade foi serrada com serras arranjadas pelo comandante, o entalhe bem tapado e, ainda por cima, disfarçado por uma gaiola com um papagaio, que já começa a dizer “merda” em francês. Pisamos sobre carvão em brasa. O comandante está com a metade das notas. Todas as noites, fica­mos de espera. Não chove. O comandante deve, uma hora depois do começo da chuva, provocar o curto circuito sob o muro, do lado de fora. Nada, nada, nenhuma chuva nesta estação, é incrível. A menor nuvem, em boa hora percebida através de nossas grades, nos enche de esperança, mas depois não vem nenhuma chuva. Está ficando um brinquedo besta. Já faz dezesseis dias que tudo está pronto, dezesseis noites de vigília, o coração em sobressalto. Um domingo, pela manhã, o próprio comandante me procura no pátio e me leva ao seu escritório. Ele me passa as metades das notas e 3 000 pesos em notas inteiras.

— Que e que há?

— Francês, meu amigo, você só tem esta noite. Amanhã, às 6, vocês vão para Barranquilla. Não lhe entrego senão 3 000 pesos do pescador, porque o resto ele gastou. Se Deus quiser que chova esta noite, o pescador espera você e, ao pegar o barco, dê a ele o dinheiro. Tenho confiança em você, sei que não tenho nada a temer.

Não choveu.

 

                                FUGA EM BARRANQUILLA

Às 6 da manhã, oito soldados e dois cabos, acompanhados de um tenente, nos botam as algemas e lá vamos para Barranquilla, num caminhão militar. Fazemos os 180 quilômetros em três horas e meia. Às 10 da manhã, estamos na prisão que se chama a “80”, Rua Me­dellin, em Barranquilla. Tanto esforço para não ir a Barranquilla e aí estamos, apesar de tudo! É uma cidade importante. O primeiro porto colombiano no Atlântico, mas situado no interior do estuário de um rio, o Magdalena. Quanto à sua prisão, é importante: quatro­centos prisioneiros e cerca de cem guardas. Está organizada como qualquer prisão da Europa. Dois muros de ronda com mais de 8 metros de altura.

A gente é recebida pelo estado-maior da prisão, tendo à frente Don Gregorio, o diretor. A prisão se compõe de quatro pátios. Dois de um lado, dois de outro. São separados por uma capela comprida, onde se vai à missa e que serve de parlatório. Na revista encontraram os 23 000 pesos e as flechinhas. Creio ser de meu dever avisar ao di­retor que elas estão envenenadas, o que não é absolutamente coisa que me faça passar por bom moço.

— Estes franceses têm até flechas envenenadas!

Esta prisão de Barranquilla é para nós o momento mais perigoso da nossa aventura. É aqui, de fato, que seremos entregues às autori­dades francesas. Sim, Barranquilla, que para nós se reduz à sua enor­me prisão, representa o ponto crucial. É preciso a gente fugir, seja qual for o sacrifício. É preciso arriscar: tudo ou nada.

Nossa cela se acha no meio do pátio. Aliás, não é uma cela, é uma jaula: um teto de cimento repousando em grossas barras de ferro, tendo, nos ângulos, as privadas e os lavatórios. Os outros presos, uns cem, estão distribuídos em celas encravadas nos quatro muros deste pátio de 20 metros por 40, uma grade dando para o pátio. Cada gra­de é encimada por uma espécie de toldo de folha de zinco, para impedir que a chuva entre na cela. Somente nós, os seis franceses, estamos nesta jaula central, expostos, dia e noite, aos olhos dos presos mas principalmente dos guardas. O dia é passado no pátio, das 6 da manhã às 6 da tarde. A gente entra ou sai da cela à vontade. Pode­mos conversar, passear, até comer no pátio.

Dois dias depois de nossa chegada, somos reunidos, os seis, na ca­pela, na presença do diretor, de alguns policiais e de sete ou oito jor­nalistas e fotógrafos.

— Vocês se evadiram da prisão francesa da Guiana?

— Nunca negamos isso.

— Quais os crimes pelos quais cada um de vocês foi condenado com tanto rigor?

— Isso não tem nenhuma importância. O importante é que não cometemos delito algum na terra colombiana e que a nação dos se­nhores não só nos recusa o direito de reconstruirmos a nossa vida, mas ainda se presta ao papel de caçadora de homens, de polícia do governo francês.

— A Colômbia acha que não deve aceitá-los no seu território.

— Mas eu, pessoalmente, e dois outros camaradas estávamos e continuamos bem decididos a não viver neste país. Fomos presos, os três, no mar alto e não estávamos pensando em desembarcar nesta terra. Pelo contrário, fazíamos todos os esforços possíveis para nos afastar dela.

— Os franceses — diz um jornalista de um jornal católico — são quase todos católicos, como nós, os colombianos.

— É possível que os senhores se batizem no catolicismo, mas o seu modo de agir é muito pouco cristão.

— E de que nos censuram?

— De serem os colaboradores dos guarda-forçados, que nos perse­guem. Pior ainda, de fazer o trabalho deles. De nos terem tomado nosso barco, com tudo que nos pertencia e que era só nosso, doação dos católicos da ilha de Curaçau, representados com tanta nobreza pelo Bispo Irénée de Bruyne. Não podemos achar admissível que os senhores não queiram correr o risco de nossa problemática regenera­ção e que, para cúmulo de tudo, nos impeçam de ir mais longe, pelos nossos próprios meios, até um país que, talvez, aceite correr esse ris­co. Isso é inaceitável.

— Então, nos querem mal, a nós, colombianos?

— Não aos colombianos, mas ao seu sistema policial e judiciário.

— Que querem dizer com isso?

— Que todo erro pode ser corrigido, quando se tem boa vontade. Deixem-nos partir por mar para outro país.

— Tentaremos obter isso para os senhores.

Uma vez de volta ao pátio, Maturette me diz:

— E então? Já manjou? Desta vez, nada de ilusão, meu caro! Es­tamos fritos e para saltar da frigideira não vai ser fácil!

— Caros amigos, não sei se, unidos, seríamos mais fortes, mas vou lhes dizer que cada um pode fazer o que bem entenda. Quanto a mim, tenho de fugir desta famosa 80.

Quinta-feira, sou chamado ao parlatório e vejo um homem bem vestido de cerca de 45 anos. Eu o olho. Parece estranhamente com Louis Dega.

— Você é o Papillon?

— Sim.

— Sou Joseph, o irmão de Louis Dega. Li os jornais e vim ver

você.

— Obrigado.

— Viu por lá meu irmão? Você o conhece?

Conto-lhe exatamente a odisséia de Dega até o dia em que a gente se separou no hospital. Ele me informa que seu irmão está nas Ilhas da Salvação, notícia que lhe chegou de Marselha. As visitas têm lugar na capela, às quintas e aos domingos. Ele me diz que, em Barranquilla, vive uma dúzia de franceses, que vieram fazer fortuna com suas mulheres. São todos cafetões. Num bairro especial da cidade, uma dúzia e meia de prostitutas mantém a alta tradição francesa da prostituição requintada e hábil. Sempre os mesmos tipos de homem, os mesmos tipos de mulher, que, do Cairo ao Líbano, da Inglaterra à Austrália, de Buenos Aires a Caracas, de Saigon a Brazzaville, vão levando pela terra sua especialidade, velha como o mundo, a pros­tituição e a maneira de bem vivê-la.

Joseph Dega me conta uma muito boa: os cafetões franceses de Barranquilla estão inquietos. Têm medo que nossa vinda à prisão desta cidade perturbe a tranqüilidade deles e traga prejuízo ao seu florescente comércio. Com efeito, se um ou vários de nós fugirem, a polícia irá procurá-los nas casetas das francesas, mesmo se o eva­dido nunca tiver ido lá pedir ajuda. Donde, indiretamente, o risco da polícia descobrir muita coisa: documentos falsos, autorizações de per­manência que já caducaram ou foram adulteradas. A perseguição a nós provocaria verificações de identidade e de permanência. E há mulheres e mesmo homens que, descobertos, poderiam ter grandes aborrecimentos.

Estou, dessa maneira, bem informado. Ele acrescenta que fica à minha disposição para o que der e vier e que virá me ver nas quintas e domingos. Agradeço a este ótimo rapaz, que me demonstrou, mais tarde, que suas promessas eram sinceras. Ele me informa, igualmente, que, segundo os jornais, nossa extradição foi concedida à França.

— Muito bem, meus senhores! Tenho várias coisas a lhes dizer.

— O quê? exclamam todos a uma só voz.

— Em primeiro lugar, que não há por que alimentar ilusões. A extradição já foi acertada. Um barco especial da Guiana Francesa virá nos buscar aqui, para nos levar ao lugar de onde viemos. Em seguida, nossa presença preocupa os nossos conterrâneos cafetões, bem instalados nesta cidade. Não falo do cara que fez a visita. Ele não liga para as conseqüências, mas os seus colegas de corporação te­mem que, se um de nós se evadir, isto lhes dê aborrecimentos.

Todo mundo ri às gargalhadas. Pensam que estou fazendo goza­ção. Clousiot diz:

— Senhor cafifa fulano, será que posso fugir? O senhor me dá licença?

— Muito engraçado. Se ele vem nos ver da parte das putas, é bom dizer para não vir mais. Entendido?

— Entendido.

No nosso pátio se encontram, como já disse, uns cem presos colom­bianos. Estão bem longe de ser imbecis. Há, na verdade, bons la­drões, falsários refinados, escroques de espírito engenhoso, traficantes de entorpecentes e alguns assassinos especialmente preparados para esta profissão tão banal na América do Sul. Nesta parte do mundo, os ricos, os políticos e os aventureiros de boa situação alugam os servi­ços desses assassinos, que agem por eles.

As peles são de cores variadas. Vão do preto africano dos senegaleses ao bronzeado de nossos crioulos da Martinica; da cor de tijolo índia mongólica, com os cabelos lisos preto-violeta, ao branco puro. Faço contatos, tento me informar sobre a capacidade e a vontade de evasão de alguns indivíduos escolhidos. A maioria deles é como eu: como temem receber ou já receberam uma pena grande para cum­prir, vivem em permanente alerta, prontos para fugir.

Em cima dos quatro muros deste pátio retangular há um caminho de ronda muito iluminado à noite, tendo, a cada ângulo do muro, uma torrezinha onde se abriga uma sentinela. Assim, dia e noite, qua­tro sentinelas estão de serviço, mais uma no pátio, à porta da capela. Esta última, desarmada. A alimentação é suficiente e vários prisio­neiros vendem comida e café ou sucos de frutas do país: laranjas, abacaxi, mamão, etc, que vêm de fora. De tempos em tempos, esses pequenos comerciantes são vítimas de um ataque à mão armada, executado com surpreendente rapidez. Sem tempo de ver quem se aproxima, tem a cara coberta por um guardanapo grande, que os im­pede de gritar, e uma faca encostada nos rins ou no pescoço, pronta a entrar profundamente ao menor movimento. A vítima é despojada da receita antes de poder dar um ai. Um murro na nuca acompanha a retirada do guardanapo. Nunca, aconteça o que acontecer, alguém fala. Às vezes, o comerciante arruma seus troços — maneira de fe­char sua loja — e procura quem podia ter-lhe dado o golpe. Se o descobre, há briga, sempre de faca.

Dois ladrões colombianos vêm me fazer uma proposta. Eu os es­cuto muito atentamente. Existem na cidade, ao que parece, policiais ladrões. Quando estão de serviço num setor, avisam aos cúmplices para que possam ir lá roubar.

Meus dois visitantes conhecem todos eles e me explicam que seria um azar se, durante a semana, não houvesse um desses policiais dan­do guarda na porta da capela. Seria preciso que eu mandasse vir um revólver para mim na visita. O policial ladrão aceitaria, sem esforço, fingir que foi obrigado a bater na porta de saída da capela, que dá para um pequeno posto de guarda que tem no máximo seis homens. Surpreendidos por nós. de revólver na mão, eles não poderiam nos barrar o caminho da rua. E não restaria mais do que desaparecer no tráfego da rua, que aí é muito movimentado.

O plano não me agrada muito. Para poder ficar disfarçado, o re­vólver tem de ser uma arma muito pequena, no máximo um 6,35. Com uma coisa assim, a gente corre o risco de não intimidar sufi­cientemente os guardas. Um deles pode reagir e seremos obrigados a matá-los. Digo não.

O desejo de ação não atormenta só a mim, mas também aos meus amigos. Com a diferença de que, em certos dias de desalento, chegam a admitir que o barco, que virá nos buscar, nos encontre ainda na pri­são. Daí a se verem derrotados não vai muito. Discutem mesmo so­bre quais poderão ser nossas punições por lá e quais os tratamentos que nos aguardam.

— Não posso mesmo escutar vocês, seus calhordas! Quando qui­serem falar desse futuro, discutam na minha ausência, vão para um canto onde eu não esteja. A fatalidade, de que falam, só é aceitável quando a gente está impotente. Vocês estão impotentes? Tem alguém entre nós a quem cortaram os culhões? Se isso aconteceu, me avisem. Porque, seus merdas, vou lhes dizer: quando penso na fuga penso nela para todos. Quando meu cérebro estoura à força de calcular como fazer para a gente se evadir, estou pensando na evasão de to­dos. E não é fácil pensar numa fuga para seis homens. Porque eu, vou lhes dizer, se vejo o dia chegar sem ter feito nada, é fácil: mato um policial colombiano para ganhar tempo. E, então, terei tempo à minha frente. E, como estarei sozinho para fugir, será mais fácil.

Os colombianos preparam outro plano, que não é mal pensado. No dia da missa, domingo de manhã, a capela está sempre cheia de visitantes e de prisioneiros. No começo ouve-se a missa, todo mun­do junto, e depois, terminado o ofício religioso, ficam na capela os presos que têm visita. Os colombianos me pedem para ir domingo à missa, a fim de verificar bem como a coisa se passa e poder coorde­nar a ação para o domingo seguinte. Eles me propõem ser o chefe da revolta. Mas eu recuso esta honra: não conheço bastante os ho­mens que vão agir.

Respondo por quatro franceses. O bretão e o homem do ferro de engomar não querem participar da coisa. Não há problema, basta não irem à capela. Domingo, nós, os quatro que estamos no golpe, assistimos à missa. Esta capela é retangular. No fundo, o coro, no meio, de cada lado, duas portas que dão para os pátios. A porta prin­cipal dá para um posto de guarda. Ela é guarnecida com uma grade, atrás da qual se acham os guardas, uns vinte. Enfim, atrás deles, a porta para a rua. Como a capela está cheia de arrebentar, os guardas deixam a grade aberta e, durante o ofício, ficam de pé em fileira cer­rada. Entre os visitantes, devem vir dois homens e armas. Estas se­rão trazidas por mulheres, entre suas coxas. Elas passarão as armas assim que todo mundo tenha entrado. Serão dois revólveres grandes de calibre 38 ou 45. O chefe do golpe receberá um revólver de gran­de calibre de uma mulher, que imediatamente se retirará. A gente de­ve atacar de uma só vez, ao sinal do segundo toque de sineta do me­nino do coro. Quanto a mim, devo meter uma faca enorme debaixo da garganta do diretor, Don Gregorio, dizendo: “Hay que dar la orden de nos dejar pasar, si no, le inalo”. (Dê ordem para nos dei­xarem passar, senão vou matá-lo.)

Um outro deve fazer o mesmo com o padre. Os três outros, de três ângulos diferentes, apontarão suas armas para os policiais em pé, junto à grade da entrada principal da capela. Comunicarão a or­dem de abater o primeiro que não deixar cair sua arma. Os que não estiverem armados devem ser os primeiros a sair. O padre e o dire­tor servirão de escudos na retaguarda. Se tudo se passar normalmen­te, os policiais colocarão seus fuzis no chão. Os homens com os re­vólveres devem fazer com que eles entrem na capela. Sairemos, fe­chando primeiro a grade e a seguir a porta de madeira. O posto de guarda estará vazio, uma vez que todos os policiais assistem à missa obrigatoriamente em pé. Fora, a 50 metros, estará um caminhão com uma pequena escada suspensa atrás, para podermos subir mais depressa. O caminhão arrancará somente depois que o chefe da revolta tiver subido. Deve ser o último a subir. Depois de ter assistido ao desenvolvimento da missa, concordo. Tudo acontece como Fernan­do me descreveu.

Joseph Dega não virá à visita domingo. Ele sabe por quê. Vai pre­parar um táxi falso para que não precisemos ir no caminhão, e nos levará a um esconderijo, que também vai preparar. Fico muito ex­citado durante toda a semana e aguardo a ação com impaciência. Fernando pôde arranjar um revólver por um outro meio. É um 45 da Guarda Civil colombiana, uma arma verdadeiramente temível. Quinta-feira, uma das mulheres de Joseph veio me ver. É muito gen­til e me diz que o táxi será de cor amarela, a gente não pode se enganar.

— O.K. Obrigado.

— Boa sorte.

Ela me beija amavelmente nas faces e me parece um pouco como­vida”.

— Entre, entre. Que esta capela se encha para escutar a voz de Deus — diz o padre.

Clousiot está completamente preparado. Maturette tem os olhos brilhantes e o outro não se afasta de mim um passo. Muito calmo, ocupo meu lugar. Don Gregorio, o diretor, está aí, sentado numa ca­deira ao lado de uma mulher grandalhona. Estou em pé, encostado na parede. À minha direita, Clousiot, à minha esquerda, os dois outros, vestidos convenientemente, para que não sejamos notados em público, se chegarmos à rua. Tenho a faca toda aberta contra meu antebraço direito. Ela está segura por um elástico grosso e co­berta pela manga de minha camisa cáqui, bem abotoada no punho. É no momento da elevação, quando todo mundo baixa a cabeça, como se procurasse alguma coisa, que o menino do coro, depois de ter tilintado muito depressa sua sineta, deve fazer ouvir três toques distintos. O segundo é o nosso sinal. Cada qual sabe, então, o que deve fazer.

Primeiro toque, segundo... Eu me jogo em cima de Don Grego­rio, o punhal sobre seu grosso pescoço encarquilhado. O padre grita: “Misericordia no me maten”. E, sem os ver, ouço os três outros ordenarem aos guardas para jogar os fuzis no chão. Tudo vai bem. Pego Don Gregorio pela gola de seu bonito terno e lhe digo:

— Sigue y no tengas miedo, no te haré dano. (Siga-me e não tenha medo, não lhe farei mal.)

O padre está seguro, com uma navalha no pescoço, perto de meu grupo. Fernando diz:

— Vamos, francés, vamos a Ia salida. (Vamos, francês, vamos para a saída.)

Com a alegria do triunfo, do êxito, empurro todo o meu pessoal para a porta que dá para a rua, quando estouram dois tiros de fuzil ao mesmo tempo. Fernando cai e também um dos que estão arma­dos. Avanço, assim mesmo, 1 metro, mas os guardas se reergueram e nos barram a passagem com seus fuzis. Por sorte, entre eles e nós estão mulheres. Elas os impedem de atirar. Dois outros tiros de fu­zil, seguidos por um tiro de revólver. Nosso terceiro companheiro ar­mado acaba de ser abatido, depois de ter tempo de dar um tiro, um pouco a esmo, pois feriu uma moça. Pálido como a morte, Don Gre­gorio me diz:

— Me dê a faca.

Eu lhe entrego a arma. Já não adiantava continuar a luta. Em me­nos de trinta segundos, a situação tinha virado.

Mais de uma semana depois, soube que a revolta havia fracassado por causa de um preso de outro pátio, que assistia à missa como curioso, de fora da capela. Desde os primeiros segundos da ação, ele advertiu as sentinelas do muro de ronda. Elas saltaram desse mu­ro de mais de 6 metros para dentro do pátio, uma de um lado da capela, a outra do outro, e, através das barras das portas laterais, atiraram primeiro em cima dos dois que, em pé, sobre um banco, ameaçavam com suas armas os policiais. O terceiro foi abatido al­guns segundos depois, ao passar pelo campo de mira deles. A conse­qüência foi uma bela corrida. Quanto a mim, fiquei ao lado do di­retor, que gritava ordens. Dezesseis dentre nós, incluindo os quatro franceses, nos reencontramos com as barras da justiça num calabou­ço, postos a pão e água.

Don Gregorio recebeu a visita de Joseph. Ele me manda chamar e me explica que, para agradar a Joseph, vai me recolocar no pátio com meus camaradas. Graças a Joseph, dez dias depois da revolta estávamos de novo no pátio, inclusive os colombianos, e na mesma cela. Aí chegando, peço que concedamos a Fernando e aos seus dois amigos mortos na ação alguns minutos de lembrança. Por ocasião de uma visita, Joseph me explicou que havia feito uma subscrição e que, entre todos os cáftens, juntou 5 000 pesos, com os quais pôde convencer Don Gregorio. Esse gesto elevou os cáftens em nosso con­ceito.

Que fazer agora? O que inventar? Seja como for, não vou me re­conhecer vencido e esperar, sem qualquer iniciativa, a chegada do barco!

Deitado no banheiro comum, ao abrigo de um sol de chumbo, posso examinar, sem despertar atenção, o movimento das sentinelas sobre o muro de ronda. De noite, a cada dez minutos, elas gritam, ca­da qual por sua vez. “Sentinelas, posição de sentido!” Dessa manei­ra, o chefe do posto é capaz de verificar se alguma das quatro não está dormindo. Se uma não responde, a outra torna a gritar sua or­dem, até obter resposta.

Acredito ter encontrado uma falha. Com efeito, de cada abrigo, nos quatro cantos do caminho de ronda, pende uma caixa amarrada a uma corda. Quando a sentinela quer café, chama o cafetero, que lhe manda um ou dois cafés pela caixa. O soldado não precisa mais do que puxar a corda. Ora, o abrigo da extrema direita tem uma espécie de torrezinha, que avança, um pouco por cima do pátio. E eu penso que, se fabricasse um gancho grande, amarrado na ponta de uma corda trançada, ele se engancharia com facilidade. Em pou­cos segundos, devo ser capaz de atravessar o muro, que dá para a rua. Único problema: neutralizar a sentinela. Como?

Eu a vejo se erguer e dar alguns passos sobre o muro de ronda. O soldado me dá a impressão de estar incomodado pelo calor e de lutar para não cair no sono. O negócio é este, pelo amor de Deus! É preciso que durma. Vou primeiro confeccionar a corda e, se en­contrar um gancho seguro, adormecê-la e tentar a sorte. Em dois dias, está trançada uma corda de cerca de 7 metros, com todas as camisas de tecido forte que foi possível encontrar, sobretudo as camisas cáquis. O gancho foi relativamente fácil de encontrar. É o su­porte de um dos toldos fixados nas portas das celas, para protegê-las da chuva. Joseph Dega me trouxe uma garrafa com um sonífero mui­to forte. Segundo as indicações, deve ser domado em doses de dez gotas apenas. A garrafa contém aproximadamente seis colheronas de sopa. Vou acostumando a sentinela a que aceite que eu lhe ofereça o café. O soldado manda a caixa e eu lhe envio, de cada vez, três cafés. Como todos os colombianos gostam da cachaça e como o so­nífero tem um pouco o gosto do anis, mando que me tragam de fora uma garrafa de anis. Digo à sentinela:

— Você quer um café à francesa?

— Como é isso?

— Misturado com anis.

— Vá lá, quero primeiro provar.

Vários soldados experimentaram meu café com anis e, agora, quando ofereço café,” me dizem: “Ã francesa!”

— Como queira.

E zás! Boto o anis no café.

Chegou a hora H. Meio-dia, é um sábado. Faz um calor de ra­char. Meus amigos acham que é impossível haver tempo para dois passarem, mas um colombiano de nome árabe, Ali, me diz que su­birá atrás de mim. Aceito. Isso evita que um francês faça papel de cúmplice e seja punido mais tarde. Por outro lado, não posso ter a corda e o gancho comigo, porque a sentinela terá todo tempo para me observar, enquanto lhe dou o café. Em nossa opinião, em cinco mi­nutos ele deve estar dormindo.

Está na hora. Chamo a sentinela.

— Tudo bem?

— Tudo.

— Quer tomar um café?

— Sim, à francesa, é melhor.

— Espere, vou trazer.

Vou ao cafeteiro: “Dois cafés”. Já coloquei na minha garrafa o frasco de sonífero. Se com isso ele não cair duro... Chego debaixo dele e ele me vê derramar o anis bem ostensivamente.

— Você quer forte?

— Sim.

Boto ainda um pouco, deposito tudo na caixa e ele puxa a corda depressa.

Cinco minutos, dez, quinze, vinte minutos passam! O soldado não dorme. Pior ainda, em vez de ficar sentado, dá alguns passos cora o fuzil na mão, indo e vindo. No entanto, bebeu tudo. E a mudança da guarda é à 1 hora.

Como quem pisa sobre brasas, observo seus movimentos. Nada indica que esteja drogado. Ah! Cambaleou. Sentou diante da guarita, o fuzil entre as pernas. A cabeça dele se inclina por cima do ombro. Meus amigos e dois ou três colombianos, por dentro desta estória, acompanham suas reações tão apaixonadamente quanto eu.

— Depressa — digo ao colombiano —, a corda!

Ele se prepara para lançá-la, quando o guarda se levanta, deixa cair o fuzil no chão, se espicha e começa a movimentar suas pernas como se marcasse passo no mesmo lugar. De repente, o colombiano pára. Restam dezoito minutos antes da substituição. É então que co­meço, mentalmente, a invocar o socorro de Deus: “Eu lhe peço, ajude-me ainda uma vez! Eu lhe suplico, não me abandone!” Mas é inútil que invoque este Deus dos cristãos, às vezes tão pouco com­preensivo, sobretudo com relação a mim, um ateu.

— E esta agora! — exclama Clousiot, aproximando-se de mim. — É extraordinário que este cretino não adormeça!

A sentinela torna a agarrar seu fuzil e, no momento em que se abaixa para levantá-lo, cai estatelada no caminho de ronda, como que fulminada. O colombiano joga o gancho, mas este não prende e torna a cair. Joga uma segunda vez. Agora prendeu. Ele puxa um pouco para ver se ficou bem firme. Eu examino e, no momento em que boto o pé no muro para fazer a primeira tração e começar a su­bir, ouço Clousiot:

— Cuidado! Aí vem a mudança.

Só tenho o tempo justo para me retirar antes de ser percebido. Inspirados por esse instinto de defesa e de camaradagem de prisio­neiros, dez colombianos me cercam rapidamente e me misturam no grupo deles. Andamos ao longo do muro, deixando atrás de nós a corda suspensa. Um guarda da turma de mudança nota. de um só golpe de vista, o gancho e a sentinela arriada com seu fuzil. O sol­dado corre 2 ou 3 metros e aperta o botão de alarma, certo de que houve uma evasão.

Chegam para levar o soldado ferrado no sono com uma padiola. Há mais de vinte policiais sobre o caminho de ronda. Don Grego­rio está com eles e manda puxar a corda. Segura o gancho nas mãos. Alguns instantes depois, com os fuzis em riste, os policiais investem pelo pátio. É feita a chamada. A cada nome, o interpelado deve voltar à sua cela. Surpresa! Não está faltando ninguém. Todo mundo é fechado à chave, cada um em sua cela.

Segunda chamada e controle, cela por cela. Não, ninguém desa­pareceu. Lá pelas 3 horas, deixam que a gente saia de novo ao pá­tio. Ficamos sabendo que a sentinela ronca de punhos fechados e que todos os recursos empregados não conseguiram despertá-la. Meu cúm­plice colombiano se acha tão arrasado quanto eu. Ele estava tão con­vencido de que ia dar certo! Xinga os produtos americanos, porque o sonífero era americano.

— Que fazer?

— Hombre, recomeçar!

É tudo o que encontro para lhe dizer. Ele crê que eu quero dizer recomeçar para fazer dormir uma sentinela, ao passo que eu estava pensando em achar outra coisa. Ele me diz:

— Pensa que estes guardas são bastante idiotas para que um deles ainda queira beber um café à francesa?

Apesar do trágico deste instante, não posso deixar de rir.

— Sem dúvida, meu chapa!

O policial dormiu três dias e três noites. Quando, finalmente, acor­dou, compreendeu muito bem que tinha sido eu, certamente, quem o fez dormir com o café à francesa. Don Gregorio me manda cha­mar e me põe frente a ele. O chefe do corpo da guarda vem me bater com seu sabre. Salto para um canto do quarto e o provoco. O outro levanta o sabre, Don Gregorio se mete no meio, recebe o golpe em cheio no ombro e cai. Tem a Clavicula fraturada. Grita alto para que o oficial não se meta com o que não é de sua conta. Ele o reer­gue. Don Gregorio chama por socorro. Dos escritórios vizinhos acorrem todos os funcionários civis. O oficial, dois outros policiais e o soldado de sentinela que eu tinha feito dormir lutam contra uma dezena de civis, que querem vingar o diretor. Nessa “tangana”, vá­rios homens recebem ferimentos leves. O único que não tem nada sou eu. O importante não é mais o meu caso, mas o do diretor com o oficial. O substituto do diretor, que foi transportado para o hos­pital, me reconduz para o pátio:

— Seu caso será visto mais tarde, francês.

No dia seguinte, o diretor, com o ombro engessado, me pede uma declaração escrita contra o oficial. Declaro com prazer tudo que ele quer. A história do sonífero ficou completamente esquecida. Isso não interessa a eles, sorte para mim.

Passados alguns dias, Joseph Dega propõe organizar uma ação do exterior. Como lhe tivesse dito que a evasão de noite era im­possível por causa da iluminação do caminho de ronda, ele procura o meio de cortar a corrente elétrica. E o encontra, graças a um ele­tricista: baixando o interruptor de um transformador situado fora da prisão. Quanto a mim, só me resta subornar a sentinela de guarda do lado da rua, como também a do pátio, na porta da capela. Isso foi mais complicado do que a gente pensava. Antes de mais nada, fui obrigado a convencer Don Gregorio a me devolver 10 000 pesos, alegando que pretendia enviá-los à minha família, mas “obrigando-o”, está claro, a aceitar 2 000 pesos para comprar um presente para sua mulher. A seguir, depois de ter localizado o homem que organiza os turnos e as horas de guarda, também foi preciso comprá-lo. Ele receberá 3 000 pesos, porém não quer intervir nas negociações com as duas outras sentinelas. Fica por minha conta procurá-las e tratar com elas. Depois disso, darei a ele os nomes delas e ele as colocará no turno de guarda que lhe indicarei.

A preparação desta nova fuga me leva mais de um mês. Afinal, tudo está acertado. Como a gente não precisará se preocupar com o policial do pátio, a barra será cortada com uma serra de metais, do­tada de engaste. Tenho três lâminas. O colombiano do gancho ficou avisado. Ele cortará sua grade. Na noite da ação, um dos seus ami­gos, que há algum tempo está se fingindo de louco, baterá na ponta da folha de zinco e cantará a plenos pulmões. O colombiano sabe que a sentinela não quis fazer um trato senão para a evasão de dois franceses e que disse que, se um terceiro homem subisse, atiraria ne­le. O colombiano quer tentar a sorte, mesmo assim, e me diz que, trepando bem colados um ao outro, na escuridão, a sentinela não poderá ver se há um ou dois. Clousiot e Maturette tiraram a sorte, para saber quem vai comigo. Ganhou Clousiot.

Chega a noite sem lua. O sargento e os dois policiais receberam a metade das notas que tocam a cada um deles. Desta vez, não pre­cisei cortar as notas, já estavam cortadas. Eles devem procurar as outras metades no Barrio Chino, com a mulher de Joseph Dega.

A luz se apagou. Enfrentamos o corte da barra. Em menos de dez minutos, está serrada. De calças e camisas escuras, saímos da cela. O colombiano se junta a nós, de passagem. Trepo na grade da porta do calabozo, que fica no muro, contorno o toldo,, jogo o gancho com 3 metros de corda. Em menos de três minutos, estou no caminho de ronda, sem ter feito nenhum barulho. Deitado de barriga no chão, aguardo Clousiot. É uma noite escuríssima. De repente, vejo, ou me­lhor, adivinho uma mão, que se estende: pego nela e puxo. Um ba­rulho horroroso se faz ouvir. E que Clousiot passou entre o toldo e o muro e ficou preso pelo cinto de sua calça na folha de zinco. Está claro, assim que ouvi o barulho, parei de puxar. O zinco se calou. Puxo de novo Clousiot, julgando que já está desembaraçado, e, no meio do alarido que faz esta folha de zinco, eu o arranco e levanto para cima do caminho de ronda.

Tiros de fuzil partem dos outros postos, mas não do meu. Apa­vorados com os tiros, saltamos do lado ruim, na rua que fica a 9 metros abaixo, enquanto que, à direita, há uma outra rua a apenas 5 metros. Resultado: Clousiot volta a fraturar a perna direita. Quan­to a mim, não consigo mais me levantar: quebrei os dois pés. Mais tarde, ficarei sabendo que foram atingidos os calcâneos. O colom­biano desloca um joelho. Os tiros de fuzil fazem a guarda sair à rua. Somos cercados, sob a luz de uma grande lanterna elétrica, fuzis apontados. Ainda por cima, os policiais não querem admitir que eu não seja capaz de me levantar. É de joelhos, rastejando debaixo de centenas de golpes de baioneta, que volto à prisão. Clousiot salta sobre um pé, o colombiano faz o mesmo. Sangro horrivelmente de um ferimento na cabeça, resultado de uma coronhada.

Os tiros despertaram Don Gregorio, que, por sorte, está de plantão nesta noite, e dormia no seu escritório. Sem ele, seríamos li­quidados a golpes de baioneta e coronhadas. O mais encarniçado contra mim é precisamente o sargento que paguei para colocar os dois guardas cúmplices. Don Gregorio detém esse selvagem massa­cre. Ele os ameaça de mandar para os tribunais, se nos ferirem se­riamente. Esta palavra mágica paralisa todo mundo.

No dia seguinte, a perna de Clousiot é engessada no hospital. O colombiano tem seu joelho consertado por um preso, prático em luxações, e anda com uma atadura. Durante a noite, como os meus pés incharam ao ponto de ficarem tão volumosos como minha cabe­ça, rubros e enegrecidos de sangue, intumescidos ao extremo, o mé­dico me manda colocá-los em água morna salgada e depois me aplica sanguessugas três vezes ao dia. Quando ficam fartas de sangue, as sanguessugas se destacam sozinhas e são postas a esvaziar no vina­gre. Seis pontos fecharam a ferida na cabeça.

Um jornalista mal informado publica um artigo a meu respeito. Conta que fui o chefe da revolta da igreja, que “envenenei” uma sen­tinela e que, por último, organizei uma evasão coletiva com cumpli­cidade exterior, uma vez que a luz do quarteirão foi cortada com um desarranjo no transformador. “Esperamos que a França não demore em nos livrar do seu gangster número 1” — conclui ele.

Joseph veio me ver, acompanhado por sua mulher Annie. O sar­gento e os três policiais se apresentaram separadamente para rece­ber a outra metade das notas. Annie veio me perguntar o que deve­ria fazer. Digo-lhe para pagar, porque eles sustentaram seu compro­misso. Se a gente fracassou, não foi por culpa deles.  

Já há uma semana que me carregam pelo pátio dentro de um car­rinho de ferro, que me serve de leito. Fico estendido, os pés levan­tados, repousando sobre um acolchoado desdobrado entre dois pe­daços de madeira, fixados verticalmente nos braços do carrinho. É a única posição possível para não sofrer demais. Meus pés enormes, inchados e congestionados de sangue coagulado, não podem se apoiar sobre coisa alguma, mesmo ficando deitado. Assim arrumado, sofro um pouco menos. Cerca de quinze dias depois de ter fraturado os pés, eles desincharam pela metade, e me levam à radiografia. Tenho os dois calcâneos quebrados. Ficarei por toda a vida com os pés chatos.

O jornal de hoje anuncia para o fim do mês a chegada do barco que nos vem buscar, com uma escolta de policiais franceses. Cha­ma-se Mana, diz o jornal. Estamos a 12 de outubro. Ainda nos res­tam dezoito dias, é preciso jogar a última cartada. Mas qual é a jo­gada possível, com os pés quebrados?

Joseph está desesperado. Na visita, me conta que todos os franceses e todas as mulheres do Barrio Chino estão consternados por te­rem me visto lutar tanto pela minha liberdade e agora me verem a apenas poucos dias da entrega às autoridades francesas. Meu caso provoca rebuliço em toda a colônia. Fico reconfortado de saber que estes homens e suas mulheres estão moralmente solidários comigo. Abandonei o projeto de matar um policial colombiano. De fato, não posso tomar a decisão de suprimir a vida de um homem que não me fez nada. Penso que pode ter um pai ou uma mãe, a quem ajuda, uma mulher, filhos. Sorrio pensando que seria preciso que encontrasse um policial malvado e sem família alguma. Por exemplo, poderia perguntar a ele: “Se o assassinasse, você não faria mesmo falta a ninguém?” Estou aporrinhado, nesta manhã de 13 de outu­bro. Olho um pedaço de pedra de ácido pícrico, que deve, depois de engolida, me dar o amarelão. Se me hospitalizarem, talvez possa ser tirado do hospital por homens pagos por Joseph. No dia seguin­te, 14, estou mais amarelo do que mamão. Don Gregorio vem me ver no pátio; estou na sombra, metade deitado em meu carrinho, os pés no ar. Rapidamente, sem rodeios, sem prudência, ataco:

— Dez mil pesos para o senhor, se mandar me hospitalizar.

— Francês, vou tentar. Não tanto pelos 10 000 pesos, mas por­que dá pena ver você lutar tanto e em vão por sua liberdade. Só que não creio que mantenham você no hospital, por causa do artigo no jornal. Vão ficar com medo.

Uma hora depois, o médico me manda para o hospital. Aí, nem mesmo toquei o chão. Descido de padiola da ambulância, voltei à prisão duas horas depois, após uma observação clínica minuciosa e um exame de urina, sem ter me mexido da padiola.

Estamos a 19, uma quinta-feira. A mulher de Joseph, Annie, veio acompanhada pela mulher de um corso. Elas me trouxeram cigarros e alguns doces. Com suas palavras afetuosas, essas duas mulheres me fizeram um bem imenso. As mais belas coisas, a manifestação da sua pura amizade, verdadeiramente transformaram este dia “amar­go” numa bela tarde ensolarada. Não serei capaz de exprimir jamais o quanto a solidariedade do pessoal da “zona” me fez bem, durante minha permanência na prisão 80. Nem quanto devo a Joseph Dega, que chegou a arriscar sua liberdade e sua situação para me ajudar a fugir.

Mas uma palavra de Annie me deu uma idéia. Conversando, ela me diz:

— Meu querido Papillon, você fez tudo o que era humanamente possível para tentar recuperar a liberdade. O destino foi cruel; só lhe falta mesmo explodir a 80!

— E por que não? Por que não mandaria pelos ares esta velha prisão? Prestaria um serviço a estes colombianos. Se eu fizer explodir a prisão, talvez resolvam construir uma nova, mais higiênica.

Ao abraçar estas encantadoras jovens, de quem me despeço para sempre, digo a Annie:

— Diga a Joseph para me ver no domingo.

No domingo, dia 22, Joseph aparece.

— Escute, faça o impossível para que alguém me traga, na quin­ta uma banana de dinamite, um detonador e um fio Bickford. De minha parte, vou fazer o necessário para ter uma broca e três me­chas de tijolo.

— Que é que vai fazer?

— Vou explodir o muro da prisão em plena luz do dia. Prometa 5 000 pesos ao táxi falso. Que esteja na rua atrás da Rua Medellin todos os dias, de 8 horas da manhã às 6 da tarde. Receberá 500 pe­sos por dia, se não acontecer nada, e 5 000 pesos, se acontecer al­guma coisa. Pelo buraco que a dinamite vai abrir, chegarei, carrega­do por um colombiano forçudo, até o táxi; ao chofer cabe o resto. Se o táxi falso aceitar, mande a dinamite. Sc não, então é o fim, não há mais esperança.

— Conte comigo — diz Joseph.

Às 5 horas faço com que me carreguem nos braços para a capela. Digo que quero rezar sozinho. Sou carregado para lá. Peço que Don Gregorio venha me ver. Ele vem.

— Hombre, só tem oito dias para você se despedir de mim.

— Foi por isso que pedi que o senhor viesse. O senhor tem 15 000 pesos, que me pertencem. Quero entregá-los ao meu amigo, antes de partir, para que os mande à minha família. Queira aceitar 3 000 pe­sos, que lhe ofereço de todo coração, por ter-me sempre protegido da brutalidade dos soldados. O senhor me faria um favor se me desse o dinheiro hoje, com um rolo de papel colante, para que, de hoje até quinta-feira, eu arrume os pesos para entregar ao meu amigo.

— Combinado.

Ele volta e me entrega, sempre cortados em dois, 12 000 pesos. Guarda consigo 3 000.

Regressando ao meu carrinho, chamo ao meu canto solitário o co­lombiano, aquele que foi comigo da última vez. Conto a ele meu pro­jeto e lhe pergunto se é capaz de me carregar nos braços, por uns 20 ou 30 metros, até o táxi. Ele se compromete formalmente. Estou agindo como se Joseph fosse conseguir as coisas. Segunda-feira, de manhãzinha, vou para o banheiro e Maturette, que, com Clousiot, funciona sempre como “chofer” do meu carrinho, vai à procura do sargento, a quem dei 3 000 pesos e que tão barbaramente me es­pancou, por ocasião da última tentativa de evasão.

— Sargento López, preciso lhe falar.

— Que é que o senhor quer?

— Pago 2 000 pesos por uma broca muito forte com três veloci­dades e seis mechas de tijolo. Duas de meio centímetro, duas de 1 centímetro e duas de 2 centímetros e meio de grossura.

— Não tenho dinheiro para comprar isso.

— Tome aí 500 pesos.

— Amanhã, terça-feira, na mudança da guarda, à 1 hora, eu lhe passo a muamba. Prepare os 2 000 pesos.

Na terça-feira recebo tudo à 1 hora, na lata de lixo vazia do pátio, uma lata de papéis que é esvaziada na mudança da guarda. Pablo, o colombiano-fortão, junta tudo e esconde.

Na quinta-feira, 26, por ocasião da visita, nada de Joseph. Lá pe­lo fim da visita, sou chamado. É um velho francês, todo enrugado, que vem da parte de Joseph.

— Neste pão está tudo que pediu.

— Aqui estão 2 000 pesos para o táxi. Cada dia, 500 pesos.

— O chofer do táxi é um velho peruano machão. Por este lado, fique descansado. Tchau.

— Tchau.

Num grande saco de papel, para que o pão não desperte curio­sidade, botaram cigarros, fósforos, salsichas defumadas, um salsichão, um pacote de manteiga e um frasco de azeite escuro. Enquanto faz a revista do meu embrulho, dou ao guarda da porta um maço de ci­garros, fósforos e duas salsichas. Ele me diz:

— Me dá um pedaço de pão.

Só faltava esta!

— Não, o pão você compra. Tome 5 pesos, porque o pão não é suficiente para nós seis.

Ufa! Escapei por um triz. Mas que idéia de oferecer salsichas a este cara! O carrinho se afasta depressa deste policiai chato. Fiquei tão surpreendido com o pedido de pão, que ainda estou todo suado.

— É amanhã o foguetório. Tudo está aí, Pablo. É preciso fazer o buraco exatamente debaixo da saliência da torrezinha. O meganha ali de cima não vai poder ver você.

— Mas ele pode ouvir.

— Já previ isso. De manhã, às 10 horas, este lado do pátio está na sombra. É preciso que um dos trabalhadores que lidam com cobre se ponha a aplainar uma folha de cobre, chapeando na parede, a alguns metros de nós, a descoberto. Se forem dois, ainda melhor. Dou a cada um deles 500 pesos. Encontre os dois homens.

Ele os encontra.

— Dois amigos meus vão martelar o cobre sem parar. A sentine­la não poderá notar o ruído da mecha. Só que é preciso que você, com seu carrinho, fique um pouco de fora da saliência e que arranje um bate-boca com os franceses. Isso me deixará um pouco encober­to para a sentinela da outra esquina.

Em uma hora, está perfurado o buraco. Graças às marteladas no cobre e graças ao azeite, que ajuda a penetração da mecha, a sen­tinela não percebe nada. A banana de dinamite é colocada dentro do buraco, o detonador fixado, 20 centímetros de mecha. A banana é calçada com barro. A gente dá o fora. Se tudo correr bem, um buraco se abrirá com a explosão. O soldado de sentinela cairá com a guarita e eu, através do buraco, carregado por Pablo, chegarei ao táxi. Os outros se arrumarão. Logicamente, Clousiot e Maturette, mesmo saindo depois de nós, chegarão ao táxi mais depressa do que eu.

Exatamente antes de tocar fogo, Pablo avisa um grupo de colom­bianos.

— Se vocês quiserem fugir da prisão, dentro de alguns instantes vai ter um buraco no muro.

— É bom correr, porque os policiais vão atirar nos últimos, que estiverem mais à vista.

A gente toca fogo. Uma explosão infernal estremece o quarteirão. A torrezinha se despencou com o policial. O muro tem grossas ra­chas por todos os lados, tão largas que dá para ver a rua do outro lado, mas nenhuma dessas aberturas tem largura suficiente para que se possa passar por ela. A explosão não produziu nenhuma brecha suficiente e é só neste momento que admito que estou perdido. Meu destino é mesmo o de voltar para lá, para Caiena.

O bafafá que se segue à explosão é indescritível. Há mais de cin­qüenta policiais no pátio. Don Gregorio sabe com quem tem a ver.

— Bueno, francês. Desta vez, penso que é a última.

O chefe da guarnição está louco de raiva. Não pode dar a ordem de espancar um homem ferido, deitado num carrinho, e eu, para evitar aborrecimentos aos outros, declaro bem alto que fui eu mesmo quem fiz tudo sozinho. Seis guardas na frente do muro rachado, seis no pátio da prisão, seis na rua, do lado de fora, ficarão de guarda permanente até que os pedreiros tenham feito os reparos. A sentinela, que caiu do muro de ronda, não sofreu nada, por sorte.

 

                               VOLTA AO DEGREDO

Três dias depois, 30 de outubro, às 11 da manhã, os doze guardas do degredo, vestidos de branco, chegam para tomar posse de nós. Antes de partir, pequena cerimônia oficial: cada um de nós deve ser identificado e reconhecido. Eles trouxeram nossas fichas antropométricas, fotografias, impressões digitais e tudo quanto é troço. Verifi­cadas nossas identidades, o cônsul francês se aproxima para assinar um documento para o juiz do distrito, que é a pessoa encarregada de nossa entrega oficial à França. Todos os presentes se acham admira­dos com a maneira amistosa pela qual os guardas franceses nos tra­tam. Nenhuma animosidade, nenhuma palavra dura. Os três que esti­veram em cana mais tempo do que nós conhecem vários dos guardas e batem papo com eles como velhos amigos. O chefe da escolta, Comandante Boural, se inquieta com o meu estado, olha meus pés e me diz que terei bom tratamento a bordo, que há um bom enfermeiro no grupo que veio nos buscar.

A viagem no fundo do porão, neste barquinho, foi penosa princi­palmente por causa do calor abafado e pelo sofrimento de ficar preso pelos dois pés a estas barras da justiça (*), que datam do degredo de Toulon. Um único incidente a registrar: o barco foi obrigado a se abastecer de carvão em Trinidad. Uma vez no porto, um oficial da marinha inglesa exigiu que nos tirassem as barras de ferro. Ao que parece, é proibido acorrentar homens a bordo de um navio. Apro­veitei o incidente para dar uma bofetada num outro oficial inspetor inglês. Com isso, procurava ser detido e levado para terra. O oficial me diz:

 

(*) Hastes do ferro pelas quais deslizam as correntes colocadas nos pés dos prisio­neiros punidos.

 

— Não vou deter o senhor, nem levá-lo para a terra, pelo grave delito que acaba de cometer. O senhor será punido muito mais severamente no lugar para onde está sendo levado.

Não consegui coisa nenhuma. Não, verdadeiramente, meu desti­no é voltar ao degredo. É uma infelicidade, mas estes onze meses de evasão, de intensas e variadas lutas, terminaram de modo lamen­tável. E, apesar de tudo, apesar do fracasso estrondoso dessas múl­tiplas aventuras, a volta à prisão de forçados, com todas as suas amargas conseqüências, não é capaz de apagar os momentos ines­quecíveis que vivi há pouco.

Perto deste porto de Trinidad, que acabamos de deixar, a pou­cos quilômetros, mora a incomparável família Bowen. Não passa­mos muito longe de Curaçau, terra de um grande homem, Irénée de Bruyne, que é bispo deste país. Certamente, também passamos roçando pelo território dos índios guajiros, onde conheci o amor mais apaixonadamente puro, em sua forma naturalmente espontânea. Toda a limpidez de que são capazes as crianças, a maneira pura de ver as coisas, que distingue essa idade privilegiada, tudo isto encon­trei nessas índias cheias de vontade, ricas de compreensão, de amor simples e de pureza.

E os leprosos da Ilha dos Pombos! Estes miseráveis forçados, atingidos por esta horrível doença, e que, mesmo assim, tiveram a coragem de encontrar em seu coração a nobreza necessária para nos ajudar!

Também o cônsul belga, com sua bondade espontânea, também Joseph Dega, que, mesmo sem me conhecer, se expôs tanto por minha causa! Por esta gente, por estes seres, que conheci, a evasão valeu a pena. Mesmo fracassada, ela é uma vitória, nem que seja por ter enriquecido minha alma com o conhecimento dessas pessoas excepcionais. Não. de modo algum, não lamento tudo o que fiz.

Eis o Maroni e suas águas lamacentas. A gente está em cima da coberta do Mana. O sol dos trópicos já começou a queimar esta terra. São 9 horas da manhã. Revejo o estuário e torno a entrar lentamente por onde saí tão depressa. Meus camaradas não falam. Os guardas estão contentes de chegar. O mar foi ruim durante a viagem e muitos entre eles se sentem agora aliviados.

 

                                   16 DE NOVEMBRO DE 1934

No cais, um mundo louco. A gente sente que são esperados com curiosidade os homens que não tiveram medo de ir tão longe. Como chegamos num domingo, isto constitui uma distração para esta so­ciedade, que dispõe de tão poucas. Ouço dizerem:

— O ferido é Papillon. Aquele ali é Clousiot. O outro lá, Matu­rette... — e assim por diante.

No campo da penitenciária, seiscentos homens se acham reunidos em grupos na frente de seus barracões. Junto de cada grupo, vigi­lantes. O primeiro que reconheço é François Sierra. Chora aberta­mente, sem se esconder dos outros. Está empoleirado numa janela da enfermaria e me olha. A gente sente que seu sofrimento é ver­dadeiro. Paramos no meio do campo. O comandante da peniten­ciária pega um megafone:

— Deportados, vocês puderam constatar a inutilidade das ten­tativas de fuga. Todos os países prendem vocês para entregá-los à França. Ninguém quer vocês. É melhor, portanto, ficar sossegado e se conduzir bem. O que espera estes cinco homens? Uma forte condenação adicional, que deverão cumprir na Reclusão Discipli­nar da Ilha de Saint-Joseph e, quanto ao restante de sua pena, o internamento para toda a vida nas Ilhas da Salvação. Aí está o que lucraram com sua fuga. Espero que tenham compreendido. Vigilan­tes, levem estes homens para o quartel disciplinar.

Alguns minutos depois, estamos numa cela especial no quartel de alta vigilância. Assim que chego, reclamo que tratem dos meus pés, ainda bem intumescidos e muito inflamados. Clousiot diz que o gesso de sua perna lhe faz mal. A gente tenta o golpe... Ah, se «les nos mandassem para o hospital! François Sierra chega com um guarda.

— Aqui está o enfermeiro — diz o guarda.

— Como vai você, Papi?

— Estou doente, quero ir para o hospital.

— Vou tentar mandar você para lá, mas, depois do que fez lá, acho que isto será quase impossível. Clousiot, a mesma coisa.

Ele faz uma massagem nos pés, bota uma pomada, verifica o gesso de Clousiot e vai embora. A gente não pôde falar, porque os guardas estavam aí, mas os olhos dele exprimiam tanta bondade, que fiquei profundamente comovido.

— Não, não resta nada a fazer — me diz ele no dia seguinte, fazendo outra massagem. — Quer que mande você passar para uma sala comum? Será que botam a barra nos seus pés de noite?

— Sim.

— Então é melhor que você vá para a sala comum. Continuará, mesmo assim, com a barra, mas não estará sozinho. Neste momen­to, ficar no isolamento deve ser horrível para você.

— Combinado.

Sim, o isolamento é, neste momento, ainda mais difícil de supor­tar do que antes. Eu me sinto num tal estado de espírito, que não tenho sequer necessidade de fechar os olhos para vagabundear, tanto pelo passado, como pelo presente. E como não posso andar, o ca­labouço é para mim ainda pior do que tinha sido.

Ah! Aí estou eu, de volta ao caminho da podridão. No entanto, consegui me livrar bem rapidamente e vôo sobre o mar, para a li­berdade, para a alegria de poder voltar a ser um homem, para a vingança também. É preciso não esquecer a dívida que o trio tem de me pagar: Polein, os tiras e o promotor. Quanto à mala, não tenho necessidade de entregá-la aos tiras da porta da polícia judiciária. Chegarei vestido como empregado dos carros-leitos Cook, um bo­nito boné da companhia na cabeça. Sobre a mala, uma grande eti­queta: Comissário Divisionário Benoit, 36, Qual des Orfèvres, Pa­ris (Seine). Eu próprio levarei a mala para a sala de informações e, como terei calculado que o despertador só funcionará quando eu tiver saído, a coisa não pode falhar. Fico aliviado de um grande peso, por ter encontrado a solução. Quanto ao promotor, tenho tempo para lhe arrancar a língua. A maneira ainda não está resol­vida, mas é como se estivesse. Eu lhe arrancarei a língua aos peda­ços, esta língua prostituída.

Na situação imediata, primeiro objetivo: tratar dos meus pés. É preciso que eu volte a andar o mais depressa possível. Não vou comparecer ao tribunal antes de três meses e, em três meses, muita coisa acontece. Um mês para andar, um mês para acertar as coisas e “até logo, senhores”. Destino: Honduras britânica. Mas, desta vez, ninguém bota a mão em cima de mim.

Ontem, três dias após o nosso regresso, me levaram para a sala comum. Quarenta homens aguardam aí o conselho de guerra. Uns acusados de roubo, outros de saque, de incêndio premeditado, de homicídio, de tentativa de homicídio, de assassinato, de tentativa de evasão e até de antropofagia. Somos vinte de cada lado do tabi­que de madeira, acorrentados à mesma barra de ferro de mais de 15 metros de comprimento. Às 6 horas da tarde, o pé esquerdo de cada homem é ligado à barra comum por uma argola de ferro. Às 6 horas da manhã, tiram-nos estes grossos anéis e, durante todo o dia, a gente pode se sentar, passear, jogar damas, conversar no que a gente chama de passeio, uma espécie de aléia de 2 metros de lar­gura, que atravessa a sala. Durante o dia, não tenho tempo para me chatear. Todo mundo vem me ver, aos grupinhos, para que eu conte a evasão. Ficam todos gritando como possessos, quando digo que abandonei voluntariamente minha tribo de índios guajiros, Lali e Zoraima.

— Que é que você procurava, meu camarada? — diz um pari­siense, ouvindo a história. — Bondes? Elevadores? Cinemas? A luz elétrica com sua corrente de alta tensão para acionar a cadeira elé­trica? Ou queria tomar banho no tanque da Praça Pigalle? Mas, como é que pode, meu camarada! — continua o garotão. — Você tem duas pequenas, cada uma mais bacana do que a outra, vive nu no meio da natureza com um bando de nudistas do barulho, come, bebe, vai à caça; tem o mar, o sol, a areia quente e até as pérolas das ostras são suas, de graça. . . e você não acha nada melhor do que abandonar tudo isto para ir aonde? Diga? Para ter de atravessar as ruas na correria para não ser atropelado pelos carros, ser obrigado a pagar aluguel, a pagar o alfaiate, a conta da eletricidade e do telefone e, se quiser um carango, ter de quebrar o galho ou traba­lhar como uma besta para um patrão e ganhar salário só para não morrer de fome? Não compreendo, meu chapa! Você estava no céu e voluntariamente volta ao inferno onde, além das preocupações com a vida, tem de estar de olho para escapar de todos os tiras do mundo, que correm atrás de você! É verdade que você ainda está com o sangue fresquinho da França e não teve tempo para ver suas faculdades físicas e morais decaírem. Quanto a mim, com meus dez anos de forçado, nem consigo mais compreender você. Enfim, de todo jeito, seja bem-vindo entre nós e, como certamente você tem a intenção de recomeçar, conte com a gente para ajudar. É ou não é, meus chapas? Estão de acordo?

Os caras concordaram e eu agradeço a todos.

São, bem vejo, homens perigosos. Em virtude de nossa promis­cuidade, é muito difícil que um ou outro não perceba quem está com um canudo. De noite, como todo mundo está preso à barra da justiça comum, não é difícil matar alguém impunemente. Basta que, de dia, em troca de certa quantidade de gaita, o guarda-cha­ves árabe aceite não fechar bem a argola. Assim, de noite, o homem interessado se solta, faz o que decidiu fazer e tranqüilamente volta a se deitar em seu lugar, tomando o cuidado de fechar bem sua argola. Como é indiretamente cúmplice, o árabe fica de boca ca­lada.

Já faz três semanas que voltei. Passaram bem depressa. Começo a andar um pouco, me segurando na barra do corredor, que separa as duas fileiras de tabiques. Faço as primeiras experiências. Na semana passada, na instrução, vi os três guardas do hospital, que a gente moeu de pancada e desarmou. Estão muito contentes com a nossa volta e aguardam que, um dia, a gente caia num lugar onde eles estejam de serviço. Porque, depois da nossa evasão, os três sofreram sanções graves: suspensão de seis meses de licença na Eu­ropa; suspensão do suplemento colonial do ordenado deles durante um ano. Não é preciso dizer que nosso reencontro não foi muito cordial. Contamos estas ameaças na instrução, a fim de que sejam registradas.

O árabe está mais bem comportado. Só disse a verdade, sem exa­gerar e omitindo o papel desempenhado por Maturette. O capitão-juiz de instrução insistiu muito para saber quem nos arranjou o barco. Ficamos em dificuldade para lhe contar estórias inverossí­meis, como, por exemplo, a confecção de jangadas por nossos pró­prios meios, etc.

Por causa da agressão aos vigilantes, ele nos diz que fará tudo que puder para conseguir cinco anos para mim e Clousiot e três para Maturette.

— E, uma vez que o senhor é o conhecido Papillon (borboleta), não perde por esperar, eu lhe cortarei as asas de modo que não possa mais voar.

Fico com medo de que ele tenha razão.

Mais de dois meses esperando para comparecer ao tribunal. La­mento muito não ter colocado no meu canudo uma ou duas pontas de flechinhas envenenadas. Se as tivesse, poderia talvez jogar no tudo ou nada no quartel disciplinar. Agora faço progresso dia a dia. Caminho cada vez melhor. François Sierra não falta nunca: pela manhã e à tarde, vem me fazer massagem com óleo canforado. Estas massagens-visitas me fazem um bem enorme, aos pés e ao mo­ral. É tão bom ter um amigo na vida!

Observei que esta longa evasão nos deu um prestígio indiscutível junto a todos os forçados. Estou certo de que nos encontramos em segurança completa no meio destes homens. Não corremos o risco de ser assassinados por motivo de roubo. A grande maioria não aceitaria isso e é seguro que os culpados seriam liquidados. Todos. sem exceção, nos respeitam e têm mesmo certa admiração por nós. E as porradas que demos nos guardas levam os outros a pensar que estamos dispostos a fazer o diabo. É muito interessante se sentir em segurança.

Dia a dia, caminho um pouco mais e, com freqüência, graças a uma garrafinha que Sierra me deixa, tem gente que se oferece para me fazer massagem não só nos pés, mas também nos músculos das pernas, que esta longa imobilidade atrofiou.

 

                              UM ÁRABE ENTREGUE ÀS FORMIGAS

Nesta sala, há dois homens taciturnos, que não falam com nin­guém. Sempre colados um com o outro, só falam entre si, numa voz tão baixa, que pessoa alguma consegue ouvir. Um dia, ofereço a um deles um cigarro americano de um maço que Sierra me trouxe. Ele me agradece e, a seguir, me diz:

— François Sierra é seu amigo?

— Sim, é meu melhor amigo.

— Talvez um dia, se tudo acabar mal, nós mandemos nossa he­rança para você por intermédio dele.

— Que herança?

— Nós resolvemos, eu e meu amigo, que, se formos guilhotina­dos, a gente passa a você nosso canudo, para que lhe sirva a uma nova evasão. Nós entregaremos a François Sierra, para que você o receba.

— Vocês acham que vão ser condenados à morte?

— É quase certo, a gente tem pouca chance de escapar.

— Se é tão certo que vocês vão ser condenados à morte, por que estão nesta sala comum?

— Creio que eles têm medo de que a gente se suicide, se ficarmos sozinhos numa cela.

— Ah! Sim, é possível. E o que é que vocês fizeram?

— A gente colocou um cabra para ser comido pelas formigas carnívoras. Digo isso a você porque, infelizmente, eles têm provas indiscutíveis. Fomos apanhados em flagrante.

— E onde aconteceu isso?

— No quilômetro 42, no campo da morte, junto à enseada Sparouin.

O companheiro dele se aproxima de nós, é um toulousano. Eu lhe ofereço um cigarro americano. Ele se senta perto de seu amigo, na minha frente.

— Nunca pedimos a opinião de ninguém — diz o recém-chegado —, mas teríamos a curiosidade de saber o que você pensa a respeito de nós.

— Como quer que diga, sem saber coisa alguma, se você teve razão ou não de dar um homem, mesmo um filho da puta, para ser comido pelas formigas? Para dar minha opinião, precisaria co­nhecer toda a história, de A a Z.

“Eu vou lhe contar”, diz o toulousano. “O campo do quilômetro 42, a 42 quilômetros de Saint-Laurent, é um campo florestal. Ali, os forçados são obrigados a cortar, todo dia, 1 metro cúbico de madeira dura. Toda noite, a gente deve ficar no mato, junto da madeira que cortou bem arrumada. Os guardas, acompanhados de guarda-chaves árabes, vêm verificar se a gente fez o serviço. Quando é recebido, cada estere (*) de madeira é marcado com tinta ver­melha, verde ou amarela. Isso depende dos dias. Eles só aceitam o trabalho se todos os pedaços forem de madeira dura. Para ter me­lhor resultado, a gente faz uma equipe de dois. Muitas vezes não fomos capazes de cumprir a tarefa. Então botavam a gente, de noite, no calabouço, sem comer, e, de manhã, sempre sem comer, mandavam a gente de volta ao trabalho, com a obrigação de fazer o que faltava da véspera, mais a medida do dia. A gente ia morrer como cachorro.

 

(*) Medida de volume equivalente a 1 metro cúbico.

 

“Mais a coisa ia, mais a gente enfraquecia e menos era capaz de fazer o serviço. Para cúmulo do azar, botaram em cima de nós um guarda especial, que não era um vigilante, mas um árabe. Ele che­gava conosco ao canteiro de obras, se sentava à vontade, o nervo de boi entre as pernas, e não parava de nos insultar. Comia fazendo ruído com as mandíbulas, para que a gente ficasse com água na boca. Em resumo, um tormento contínuo. A gente tinha dois canu­dos com 3 000 francos cada um, para fugir. Um dia, resolvemos comprar o árabe. A situação ficou pior. Por sorte, ele sempre acre­ditou que a gente só tinha um canudo. Seu sistema era fácil: por 50 francos, por exemplo, ele nos deixava ir roubar nos esteres, recebi­dos na véspera, pedaços de madeira que escaparam da pintura e, desse jeito, a gente completava o nosso estere do dia. Assim, hoje 50, amanhã 100 francos, ele nos tirou quase 2 000 francos.

“Como tivéssemos ficado em dia com nosso trabalho, o árabe foi retirado. E então, pensando que ele não nos denunciaria porque nos tinha limpado de tanto dinheiro, procurávamos, no mato, esteres já recebidos para fazer a mesma operação que fazíamos com o árabe. Um dia, o árabe nos seguiu passo a passo, escondido, para ver se a gente roubava madeira. Depois, ele apareceu:

“— Ah! Sempre roubando madeira e nada de pagar! Se não de­rem para mim 500 francos, eu denuncio vocês.

“Pensando que se tratava apenas de uma ameaça, a gente recusou. No dia seguinte, ele voltou.

“— Ou pagam ou nesta noite vão para o calabouço.

“A gente tornou a recusar. De tarde, ele voltou acompanhado dos guardas. Foi horrível, Papillon! Depois de nos botarem nus, le­varam a gente até os esteres de onde nós tínhamos tirado madeira e, perseguidos por estes selvagens, chicoteados com nervo de boi pelo árabe, fomos obrigados a desfazer os nossos esteres e a com­pletar cada um dos que nós tínhamos roubado. Esta “corrida” du­rou dois dias, sem comer, nem beber. Com freqüência, a gente caía. O árabe nos levantava a pontapés ou com chicotadas de nervo de boi No fim, caímos no chão, não agüentávamos mais. E você sabe como ele fez para nos levantar? Pegou uns ninhos, do tipo de ninho de vespas selvagens, que são habitados por moscas de fogo. Cortou o galho, onde o ninho estava pendurado, e boiou em cima da gente. Loucos de dor, nós não só nos levantamos, mas corremos feito malucos.. Não adianta contar o que a gente sofreu. Você sabe como dói urna picada de vespa. Imagine cinqüenta ou 60 picadas. Essas mos­cas de fogo queimam ainda mais horrivelmente do que as vespas.

“Eles deixaram a gente a pão e água num calabouço, durante dez dias, sem fazer curativos. Mesmo passando mijo por cima, as ferroadas arderam três dias sem parar. Perdi o olho esquerdo, que foi atacado por uma dezena de moscas de fogo. Quando nos levaram de volta ao campo, os outros condenados resolveram ajudar a gente. Cada um resolveu dar um pedaço de madeira dura cortada do mes­mo tamanho. Isso nos dava quase 1 estere diário e nos ajudava muito, porque nós dois juntos só tínhamos 1 estere a fazer por dia. Custava um bocado, mas a gente conseguia fazer. Pouco a pouco, recuperamos as forças. A gente comia muito. E foi por acaso que tivemos a idéia de nos vingar do cabra com as formigas. Procurando madeira dura, a gente achou um ninho enorme de formigas car­nívoras num matagal, começando a devorar uma corça grande como uma cabra.

“O sujeito fazia sempre suas rondas pelo trabalho e, um belo dia, com uma porretada do cabo do machado, a gente derrubou o cabra e o arrastou para junto do formigueiro. Tiramos a roupa dele e amarramos o homem à árvore, deitado na terra em arco, os pés e as mãos ligados por cordas grossas, que serviam para amarrar a madeira.

“Com o machado, a gente fez nele algumas feridas em diferentes partes do corpo. Enchemos a boca dele com ervas, para que não gritasse, amarramos uma mordaça e ficamos esperando. As formigas só atacaram quando subiram numa vara que mergulhamos no for­migueiro e depois sacudimos por cima do corpo do cabra.

“A coisa não demorou. Meia hora depois, as formigas atacaram aos milhares. Papillon, já viu formigas carnívoras?”

— Não, nunca. Vi formigas pretas grandes.

— Estas são pequenininhas e vermelhas como sangue. Elas arran­cam pedacinhos microscópicos de carne e levam para o formigueiro. Se nós sofremos com as vespas, imagine o que ele não teve de so­frer, esfolado vivo por milhares de formigas. Sua agonia durou dois dias completos e uma manhã. Vinte e quatro horas depois, ele não tinha mais olhos.

‘Reconheço que fomos impiedosos em nossa vingança, mas é preciso ver o que ele nos fez. Foi por milagre que a gente não morreu. O cabra, está claro, foi procurado por toda parte e os outros guarda-chaves árabes, como também os vigilantes, suspeitavam que a gente tinha alguma coisa a ver com esse desaparecimento.

“Num outro matagal, fomos abrindo, todo dia, pouco a pouco, um buraco para meter aí os restos do árabe. Ainda não tinham des­coberto nada, quando um guarda viu a gente preparando um bura­co. Quando a gente ia para o trabalho, ele seguiu atrás de nós, para ver onde íamos parar. Foi o que nos perdeu.

“Uma manhã, logo quando chegamos ao trabalho, pegamos o árabe ainda cheio de formigas, mas já quase um esqueleto, e, no momento em que íamos arrastar o corpo para a cova (não era pos­sível carregar, sem sofrer mordidas de sangrar das formigas), fomos surpreendidos por três árabes guarda-chaves e por dois vigilantes. Eles esperaram pacientemente, bem escondidos, que a gente fizesse aquilo: enterrar o cabra.

“O negócio é este. Declaramos oficialmente que primeiro mata­mos e, depois, demos para as formigas. A acusação, apoiada pelo laudo do médico legista, diz que não tem nenhuma ferida mortal. Sustenta que nós fizemos o árabe ser devorado vivo.

“Nosso guarda defensor (porque, por lá, há vigilantes que traba­lham como rábulas) disse que, se nossa tese for aceita, a gente pode esperar salvar a cabeça. Em caso contrário, estamos perdidos. Fran­camente, temos pouca esperança. Foi por isso que meu amigo e eu escolhemos você para herdeiro, sem lhe dizer nada.”

— Esperemos que eu não tenha de herdar de vocês, é o que desejo de todo coração.

Acendemos um cigarro e vejo que eles olham com o jeito de quem diz: “E agora, vai falar?”

— Escutem, vejo que estão esperando pelo que me pediram an­tes de contar o caso de vocês: meu modo de julgar o caso, como homem. Uma última pergunta, que não terá nenhuma influência na minha decisão:

— Que pensa a maioria desta sala e por que vocês não falam com ninguém?

— A maioria acha que a gente devia ter matado o homem, mas não botar para ser comido vivo. Quanto ao nosso silêncio, não fala­mos com ninguém porque, um dia, teve uma ocasião para a gente se revoltar e cair fora e eles não fizeram isso.

— Minha opinião, meus chapas, é esta: fizeram bem de devolver com cem vezes mais o que ele fez para vocês: o golpe do ninho de vespas, ou moscas de fogo, é imperdoável. Se forem guilhotinados, no último momento pensem intensamente numa coisa só: “Vão cor­tar minha cabeça, isso vai durar trinta segundos, entre me amarra­rem, me empurrarem para o buraco da guilhotina e fazerem cair o cutelo. A agonia do cabra durou sessenta horas. Saio ganhando”. No que concerne ao pessoal da sala, não sei se vocês têm razão, porque podiam acreditar que uma revolta, naquele dia, permitia urna evasão em comum, enquanto os outros podiam ter opinião dife­rente. Por outro lado, numa revolta, a gente pode sempre acabar matando, sem querer isso antes. Ora, entre todos que estão aqui, acho que os únicos que estão com a cabeça perigando são vocês e os irmãos Graville. Meus chapas, cada situação particular traz rea­ções diferentes, obrigatoriamente.

Satisfeitos com a nossa conversação, os dois pobres-diabos se retiram e recomeçam a viver no silêncio, que romperam para mim.

 

                                     A FUGA DOS ANTROPÓFAGOS

“Eles comeram a perna de pau!” “Um guisado de perna de pau, salta um!” Ou uma voz imitando voz de mulher: “Um pedaço de marmanjo bem grelhado, sem pimenta, traz para mim, mestre!”

Era bem raro, nas noites profundas, não ouvir gritar uma destas frases, quando não eram as três juntas.

Clousiot e eu ficamos intrigados com estas palavras lançadas na noite.

Nesta tarde, consigo a chave do mistério. Quem me conta é um dos protagonistas, chamado Marius de La Ciotat, especialista em cofres-fortes. Quando soube que conheci o pai dele, Titin, não teve medo de falar comigo.

Depois de lhe ter contado uma parte de minha fuga, pergunto, o que é normal:

— E você?

— Ora, eu me meti numa história suja. Estou com receio de pegar cinco anos por causa de uma simples evasão. Estou na fuga que foi apelidada de “fuga dos antropófagos”. O que você ouve, às vezes, gritar de noite: “Eles comeram, etc.” ou “Um guisado, etc”, é para os irmãos Graville.

“Tínhamos saído às 6 do quilômetro 42. Na fuga, estavam Dédé e Jean Graville, dois irmãos de trinta e 35 anos, lioneses, um napoli­tano de Marselha e eu, de La Ciotat, mais um cara de Angers, com uma perna de pau, e um rapaz de 23 anos, que lhe servia de mulher. A saída do Maroni foi boa, mas, no mar, nunca conseguimos acertar as coisas e, dentro de poucas horas, estávamos jogados na costa, na Guiana Holandesa.

“Não pudemos salvar nada do naufrágio, nem comida, nem coisa alguma. Estávamos no mato, por sorte com roupa. É preciso que saiba que este lugar não tem praia e que o mar penetra na floresta virgem. Esta é um emaranhado impossível de atravessar, por causa das árvores abatidas, quebradas em sua base ou desenraizadas pelo mar, cruzadas umas com as outras.

“Depois de caminhar um dia inteiro, a gente encontrou a terra seca. Nós nos dividimos em três grupos: os Graville, eu e Guesepi e o perna de pau com seu amiguinho. Para encurtar a história, tendo partido em direções diferentes, doze dias depois nos reencontráva­mos, quase no lugar de onde saímos, os Graville, Guesepi e eu. O lugar estava cercado de pantanais e nós não encontramos nenhuma passagem. Nem é bom falar na situação do estômago. Passamos treze dias só comendo algumas raízes e brotinhos. Mortos de fome e de cansaço, arrasados, ficou decidido que eu e Guesepi, com o resto de nossas forças, voltaríamos para a beira do mar e amarraría­mos uma camisa numa árvore, o mais alto possível, para ficar visível ao primeiro barco guarda-costa holandês, que não deixaria de passar por aí. Os Graville deviam, depois de descansar algumas horas, pro­curar o rastro dos dois outros.

“Isto devia ser fácil, porque a gente tinha combinado, no começo, que cada grupo deixaria um rastro de sua passagem com os galhos quebrados.

“Ora, algumas horas depois, eles vêem chegar o cara da perna de pau, sozinho.

“— Onde está o garoto?

“— Deixei muito longe, porque ele não podia mais caminhar.

“— É nojento de sua parte abandonar o garoto.

“— Foi ele quem quis que eu viesse de volta.

“A esta altura, Dédé notou que o único pé do perna de pau esta­va calçado com um sapato do rapaz.

“— E você, ainda por cima, deixou o menino descalço para pegar o sapato dele? Meus parabéns. E você parece em forma, não está como a gente. Você comeu, está na cara.

“— Sim, achei um macaco grande ferido.

“— Tanto melhor para você.

“E aí Dédé se levanta, a faca na mão, porque julgou compreender, vendo também seu bornal cheio.

“— Abra seu bornal. Que tem aí dentro?

“Ele abre o bornal e aparece um pedaço de carne.

“— Que é isto aí?

“— Um pedaço de macaco.

“— Canalha, matou o garoto para comê-lo!

“— Não, Dédé, juro. Ele morreu de cansaço e eu comi um peda­cinho do seu corpo. Perdoa.

“Nem teve tempo de acabar de falar e já tinha a faca enfiada na barriga. Foi então, que, revistando-o, Dédé achou uma sacola de couro com fósforos e o respectivo acendedor.

“Imagine a raiva pelo fato de o homem, antes de se separar, não ter partilhado os fósforos! Imagine a fome dos caras. Bem, o fato é que não demorou para acenderem um fogo e digerirem o sujeito.

“Guesepi chega em pleno festim. Eles o convidam. Guesepi re­cusa. Na beira do mar, tinha comido caranguejos e peixes crus. E ele assiste, sem tomar parte, ao espetáculo dos Graville colocando sobre a brasa outros pedaços de carne e mesmo se servindo da perna de pau para alimentar o fogo. Portanto, Guesepi viu naquele dia e no seguinte os Graville comerem o homem e observou tam­bém as partes que devoraram: a barriga da perna, a coxa, as duas nádegas.

“Eu”, prossegue Marius, “estava na borda do mar, quando Gue­sepi veio me procurar. A gente encheu um chapéu com peixinhos e caranguejos e fomos cozinhar no fogo dos Graville. Não vi o cadáver, eles o arrastaram para longe. Mas vi vários bocados de carne ainda à margem do fogo, sobre a cinza.

“Três dias depois, um guarda-costas apanhou a gente e devolveu à penitenciária de Saint-Laurent-du-Maroni.

“Guesepi acabou abrindo o bico. Todo mundo nesta sala sabe do caso, mesmo os guardas. Estou contando a você porque é sabi­do de todos. E, como os Graville são elementos de mau caráter, apa­recem as piadas que você ouve de noite.

“Oficialmente, somos acusados de evasão agravada por antropo­fagia. A desgraça é que, para me defender, precisaria acusar e isso não é possível. Todo mundo, inclusive Guesepi, nega na instrução. A gente diz que eles desapareceram no mato. Essa é minha situa­ção, Papillon.”

— Lamento, meu chapa, porque, de fato, você não pode se de­fender senão acusando os outros.

Um mês depois, Guesepi foi assassinado por uma facada em pleno coração, durante a noite. Não foi sequer preciso perguntar quem deu a facada.

Esta a história autêntica dos antropófagos, que comeram o ho­mem, assando-o com sua própria perna de pau, enquanto este mesmo homem havia deglutido o rapazinho que o acompanhava.

Nesta noite, deito-me num outro lugar da barra da justiça. Tomei o lugar de um homem que foi embora e, pedindo a todo mundo para dar uma chegadinha, Clousiot está junto de mim.

Do lugar onde estou deitado, mesmo com meu pé esquerdo preso à barra por uma argola, posso, ficando sentado, ver o que acontece no pátio.

A vigilância é cerrada; chegou a um ponto em que as rondas não têm ritmo. Sucedem-se sem cessar e outras chegam em sentido con­trário a todo momento.

Meus pés já me agüentam muito bem e somente quando chove eu sinto dor. Logo, estou em condições de empreender uma nova ação, mas como? Esta sala não tem janelas, só uma imensa grade contínua, que cobre toda a largura dela e vai até o teto. Está situada de modo que o vento do nordeste penetra livremente Apesar de uma semana de observação, não consigo achar uma falha na vigi­lância dos guardas. Pela primeira vez, chego quase a admitir que eles conseguirão me botar na reclusão da Ilha de Saint-Joseph.

Disseram-me que ela é terrível. É chamada de “devoradora de homens”. Outra informação: jamais um homem conseguiu se evadir dela, nos 24 anos de sua existência.

Naturalmente, esta meia aceitação de ter perdido a partida me impele a olhar para o futuro. Tenho 28 anos e o capitão instrutor reclama cinco anos de reclusão. Vai ser difícil eu escapar com me­nos. Terei, por conseguinte, 33 anos quando sair da reclusão.

Ainda tenho muito dinheiro no meu canudo. Logo, se não caio fora, o que é provável, pelo que vejo, ao menos precisarei me man­ter com boa saúde. Cinco anos de isolamento completo é coisa difícil de suportar sem enlouquecer. Espero, portanto, me alimentar bem e disciplinar, desde o primeiro dia de minha pena, o meu cé­rebro, segundo um programa bem estabelecido e variado. Evitar o mais possível os sonhos fantasiosos e, sobretudo, os sonhos refe­rentes à minha vingança. Eu me preparo, por conseguinte, desde agora, para atravessar como vencedor a terrível punição que me aguarda. Sim, eles é que acabarão perdendo. Sairei da reclusão fisi­camente forte e sempre na plena posse de minhas faculdades físicas e mentais.

Fez-me bem estabelecer este plano de conduta e aceitar serena­mente o que vem pela frente. A brisa que penetra na sala me acari­cia antes de todos e me faz verdadeiro bem.

Clousiot sabe quando não quero falar. Daí que não tenha per­turbado meu silêncio e tenha ficado fumando muito, simplesmente. Percebem-se algumas estrelas, eu lhe digo:

— Vê as estrelas do seu lugar?

— Sim — diz ele, se inclinando um pouco. — Prefiro não olhar para elas, porque me lembram demais as estrelas da fuga.

— Deixa estar, não se preocupe, a gente reverá milhares de es­trelas numa outra fuga.

— Quando? Daqui a cinco anos?

— Clousiot, o ano que acabamos de viver, todas estas aventuras, que nos aconteceram, as pessoas que conhecemos, será que isso tudo não vale cinco anos de reclusão? Você preferiria não ter fugi­do e ter continuado nas ilhas desde sua chegada? Por causa do que está à nossa frente e que não vai ser mole, você lamenta ter parti­cipado dessa evasão? Responda sinceramente, lamenta ou não?

— Papi, você esquece uma coisa que eu não tive: os sete meses que você passou com os índios. Se tivesse estado com você, pensa­ria do mesmo modo, mas eu estava na prisão.

— Desculpe, esqueci, estou divagando.

— Não, você não divaga, não. E eu, apesar de tudo, estou muito contente com a nossa fuga, porque também tive momentos inesquecíveis. Só que sinto angústia quanto ao que me espera na “de­voradora de homens”. Cinco anos é quase impossível de agüentar.

Eu lhe explico, então, o que decidi fazer e sinto que ele reage de modo muito positivo. Fico satisfeito em ver meu amigo reanimado, junto de mim. Estamos a quinze dias do comparecimento diante do tribunal. Conforme certos boatos, o comandante, que vem presidir o conselho de guerra, é conhecido por ser um homem severo, mas, ao que parece, muito correto. Não aceita com facilidade as invencionices da administração. Aí está uma boa notícia.

Clousiot e eu, porque Maturette está na cela desde a nossa chega­da, recusamos aceitar um vigilante como advogado. A gente resol­veu que eu fale pelos três e vou expor, por mim mesmo, nossa defesa.

 

                                         O JULGAMENTO

Esta manhã, barbeados e com o cabelo cortadinho há pouco, metidos de novo num macacão de listras vermelhas, calçados, es­peramos no pátio o momento de passar pelo tribunal. Já há quinze dias que tiraram o gesso de Clousiot. Caminha normalmente, não ficou manco.

O conselho de guerra começou na segunda-feira. Estamos no sá­bado de manhã. Já houve, portanto, cinco dias de processos diver­sos: o processo dos homens das formigas levou um dia inteiro. Con­denados ambos à morte, nunca mais voltei a vê-los. Os irmãos Graville pegam quatro anos somente (falta de prova do ato de antropo­fagia). O processo deles levou mais dá metade de um dia. O restante dos homicídios pegou cinco ou quatro anos.

Em geral, contando os catorze que compareceram, as penas im­postas são um tanto severas, mas aceitáveis, sem exagero.

Nosso julgamento começa às 7 e meia. Estamos na sala, quando um comandante, em uniforme especial, entra acompanhado de um velho capitão de infantaria e de um tenente, que servirão de asses­sores.

À direita do tribunal, um vigilante cheio de galões, um capitão, representa a administração, a acusação.

— Caso Charrière, Clousiot, Maturette.

Estamos a cerca de 4 metros do tribunal. Disponho de tempo Para estudar a cabeça burilada pelo deserto deste comandante de quarenta a 45 anos, os cabelos embranquecidos nas têmporas. So­brancelhas grossas encimam olhos negros, enormes, que nos fitam direto nos olhos. É um verdadeiro militar. Seu olhar não tem nada de mau. Ele nos examina, nos avalia em poucos segundos. Meus olhos se fixam nos seus e, a seguir, voluntariamente, os desvio.

O capitão da administração ataca de modo exagerado e isso vai fazer com que perca a partida. Chama de tentativa de assassinato o golpe circunstancial nos vigilantes. Quanto ao árabe, afirma que foi um milagre não ter morrido com as nossas numerosas cacetadas. Comete outra falta, dizendo que somos os forçados que, desde que o degredo existe, levaram mais longe, em país estrangeiro, a desonra da França: “Até a Colômbia! Dois mil e quinhentos quilômetros, senhor presidente, percorreram estes homens. Trinidad, Curaçau, Colômbia, todos estes países ouviram certamente as tagarelices mais mentirosas sobre a administração penitenciária francesa.

“Peço duas condenações sem confusão de pena, ou seja, um total de oito anos: cinco anos por tentativa de homicídio, por um lado, e três anos por evasão, por outro lado. Isso, para Charrière e Clou­siot. Para Maturette, peço somente três anos por evasão, uma vez que se infere do inquérito que ele não participou da tentativa de assassinato.”

O presidente: “O tribunal estaria interessado na narração mais breve possível desta muito dilatada odisséia”.

Conto, omitindo a parte do Maroni, nossa viagem por mar até Trinidad. Descrevo a família Bowen e suas bondades. Cito o que disse o chefe de polícia de Trinidad: “Não nos cabe julgar a justiça francesa, mas não concordamos com o envio de seus prisioneiros para a Guiana e é por isso que ajudamos vocês”. Curaçau, o Padre Irénée de Bruyne, o incidente do saco de florins, depois a Colôm­bia, por que e como fomos parar ali. Muito abreviado, uma pequena exposição de minha vida com os índios. O comandante me ouve sem interromper. Só me pede alguns detalhes a mais acerca da mi­nha vida com os índios, passagem que o interessa enormemente. A seguir, as prisões colombianas, particularmente o calabouço sub­marino de Santa Marta.

— Obrigado, sua narrativa esclareceu a corte e, ao mesmo tempo, a interessou. Vamos fazer um intervalo de quinze minutos. Não vejo os defensores dos senhores, onde estão?

— Não os temos. Eu pediria ao senhor para aceitar que eu mesmo apresente a defesa de meus camaradas e a minha.

— O senhor pode fazê-lo, os regulamentos o admitem.

— Obrigado.

Um quarto de hora depois, a sessão recomeça.

O presidente: “Charrière, o tribunal o autoriza a apresentar a de­fesa dos seus camaradas e a sua própria. Não obstante, nós o adver­timos de que este tribunal lhe retirará a palavra se o senhor faltar com o respeito ao representante da administração. O senhor pode se defender com toda a liberdade, porém com expressões convenientes. O senhor tem a palavra”.

“Peço ao tribunal para afastar pura e simplesmente o delito de tentativa de assassinato. Ele é inverossímil e vou prová-lo: eu tinha, no ano passado, 27 anos e Clousiot trinta. Estávamos com força to­tal, recém-chegados da França. Temos 1 metro e 74 e 1 metro e 75 de altura. Batemos no árabe e nos vigilantes com as pernas de ferro de nossa cama. Nenhum dos quatro foi seriamente ferido. Eles fo­ram, portanto, golpeados com muita precaução, tendo em vista o objetivo, que alcançamos, de os pôr fora de combate causando-lhes o menor mal possível. O vigilante acusador esqueceu de dizer, ou o ignora, que as barras de ferro estavam envolvidas com trapos de pano, a fim de evitar o risco de matar alguém. O tribunal, formado de soldados de carreira, sabe muito bem o que um homem forte pode fazer batendo na cabeça de uma pessoa simplesmente com a lâmina de uma baioneta. Imaginem, então, o que não se pode fazer com uma perna de ferro de uma cama. Devo observar ao tribunal que nenhuma das quatro pessoas atacadas foi hospitalizada.

“Num caso de condenação à prisão perpétua, creio que o delito de evasão é menos grave do que para um homem condenado a uma pena mínima. É bem difícil aceitar, em nossa idade, que nunca mais vamos reviver. Peço para nós três a indulgência do tribunal.”

O comandante fala baixinho com os dois assessores, depois bate na mesa com um martelo.

— Acusados, levantem-se!

Nós três, duros como estacas, ficamos na expectativa.

O presidente: “O tribunal, afastando a acusação de tentativa de assassinato, não tem por que ditar uma sentença, mesmo de absol­vição, por este fato.

“Quanto ao delito de evasão, nós reconhecemos os senhores cul­pados em segundo grau. Por este delito, o tribunal os condena a dois anos de reclusão”.

Dizemos a uma voz: “Obrigado, comandante”. Eu acrescento: “Obrigado ao tribunal”.

Na sala, os guardas, que assistiam ao processo, não voltam mais.

Quando tornamos a entrar no edifício onde estão nossos compa­nheiros, todo mundo fica contente com a notícia, ninguém está in­vejoso. Pelo contrário. Mesmo os que sofreram condenações pesa­das nos felicitam sinceramente pela nossa sorte.

François Sierra veio me abraçar. Está louco de alegria.

 

                                                               AS ILHAS DA SALVAÇÃO

 

                                     A CHEGADA ÀS ILHAS

É amanhã que a gente vai embarcar para as Ilhas da Salvação. Apesar da minha luta toda, aqui estou. E, desta vez, a poucas horas de ser internado pelo resto da vida. Primeiro, terei de cumprir dois anos de reclusão na Ilha Saint-Joseph. Espero desmentir a alcunha que os forçados deram a ela, de “devoradora de homens”.

Perdi o round, mas meu espírito não é o de um vencido.

Posso me dar por muito feliz de ter só dois anos a cumprir nessa cadeia de outra cadeia. Conforme prometi a mim mesmo, não vou me deixar levar facilmente pelas divagações a que leva o isolamento com­pleto. Para me livrar disso, tenho um esquema: tenho, acima de tudo, de me imaginar livre, saudável e bem disposto, como um forçado normal das ilhas. Estarei com trinta anos na saída.

Nas ilhas, as evasões são muito raras, bem sei. Mas, mesmo que contados nos dedos de uma mão, alguns homens escaparam. Pois bem, quanto a mim, escaparei, tenho certeza. Daqui a dois anos. escaparei das ilhas vou repetindo eu a Clousiot, que viaja a meu lado.

— Meu velho Papillon, nada consegue abalá-lo, e essa sua fé de um dia ser livre me dá inveja. Há um ano que você não pára de preparar tentativas e nunca desistiu. Mal fracassou uma fuga e você já está preparando outra. Fico até espantado de você não ter tentado nada aqui.

— Aqui, velho, só tem um jeito: fomentar uma revolta. Só que, para mim, não dá tempo de arregimentar todos estes homens. Quase provoquei uma revolta, mas tive medo de ela acabar também comigo. Estes quarenta homens que estão aqui são todos forçados antigos. O caminho da podridão os engoliu, eles reagem diferente da gente. Por exemplo: os antropófagos, os caras das formigas, aquele que botou veneno na sopa e, para matar um homem, não hesitou em envenenar sete outros que nunca lhe tinham feito nada.

— Mas nas ilhas os caras vão ser assim também.

— Certo, mas escaparei das ilhas sem precisar de ninguém. Vou partir sozinho ou, no máximo, com um cara. Está rindo, Clousiot, por quê?

— Estou rindo porque você nunca abandona o jogo. Esse fogo que lhe queima as tripas, de estar em Paris para acertar as contas com seus três amigos, lhe dá uma tal força, que você nem admite que o que mais deseja possa fracassar.

— Tchau, Clousiot. Até amanhã. Pois é, vamos ver essas famosas Ilhas da Salvação. Uma primeira coisa para se perguntar: por que essas ilhas da perdição são chamadas de Ilhas da Salvação?

E, voltando as costas para Clousiot, volto um pouco mais a cara para o vento da noite.

No dia seguinte, bem cedo, embarcamos para as ilhas. Vinte e seis homens num barco de 400 toneladas, o Tanon, embarcação costeira que faz a ligação entre Caiena, as ilhas e São Lourenço. Dois a dois, temos os pés amarrados com uma corrente e estamos algemados. Dois grupos de oito homens na frente, vigiados cada um por quatro guardas de mosquetão na mão. E mais um grupo de dez atrás, com seis guar­das e os dois chefes da escolta. Todo o pessoal está na ponte deste barco e é bem possível que a gente desmaie assim que o tempo en­grossar.

Decidi não pensar durante esta viagem, estou querendo me distrair. Por isso, só para chatear, grito para o vigia perto de mim, com a sua cara de coveiro:

— Com as correntes que vocês nos botaram, é certo que não esca­paremos se este bote podre afundar, o que é bem possível, no estado em que está, se o mar engrossar.

Ainda sonolento, o guarda reage como o previsto.

— Pode se afogar, tanto faz. A ordem é botar as correntes e pronto. A responsabilidade é daqueles que dão as ordens. Nós, que cumprimos, estamos garantidos.

— De qualquer modo, está certo, seu vigia, com correntes ou sem correntes, se este caixão abrir iremos todos para o fundo.

— Sabe, há muito tempo — diz o estúpido — que este barco faz o percurso e nunca aconteceu nada.

— Exato, mas é justamente porque há tempo demais que ele existe que, na certa, agora pode acontecer alguma coisa de um mo­mento para outro.

Tinha conseguido o que queria: abalar o silêncio geral que me irri­tava. Logo o assunto foi retomado por vigilantes e forçados.

— Pois é, este barco é um perigo e, além do mais, estamos acor­rentados. Sem as correntes, a gente tinha uma chance.

— Oh! dá na mesma. A gente, com a farda, as botas e o mos­quetão, também não bóia.

— O mosquetão não importa; se o barco afundar, a gente joga fora — diz outro.

A isca pegou, dou o segundo lance:

— Onde estão os botes salva-vidas? Estou vendo só esse peque­nininho aqui, para oito homens no máximo. Só o comandante e a tri­pulação vão encher ele. Para os outros, banana!

Então o troço pega, papo aceso.

— É mesmo, não tem nada e o barco está num estado tal, que é uma irresponsabilidade inaceitável que pais de família tenham que correr um perigo para acompanhar esses malandros.

Como estou no grupo detrás, é perto da gente que viajam os dois chefes do comboio. Um deles me olha e diz:

— Você é o Papillon, aquele que está voltando da Colômbia?

— Son.

— Não me espanta que você tenha ido tão longe, parece que en­tende de marinha.

Pretensiosamente, respondo:

— Sim, muito.

A resposta gela os caras. Além disso, o comandante desce do passadiço, pois acabamos de sair do estuário do Maroni, e, como é o trecho mais perigoso, ele mesmo pega o timão. Agora, entrega-o para outro. Então, esse comandante, um preto do Sudão, baixote e gordinho, de cara ainda jovem, pergunta onde estão os caras que foram até a Colômbia num pedaço de pau.

— Este, este e aquele lá, ao lado — responde o chefe do comboio.

— Quem era o capitão? — pergunta o anão.

— Eu, senhor.

— Pois olha, meu chapa, como marinheiro, lhe dou os parabéns. Você não é um qualquer. Olhe!

Bota a mão no bolso da japona:

— Pegue este pacote de fumo e o papel. Fume à minha saúde.

— Obrigado, meu comandante. Mas eu também devo dar os pa­rabéns ao senhor pela coragem de navegar com este rabecão, uma ou duas vezes por semana, ao que parece.

Estoura numa gargalhada, para completar a irritação daqueles que eu queria chatear. Diz:

— Ah! está certo! Faz tempo que eles deviam ter jogado esse bote no cemitério, mas a companhia aguarda que ele afunde para rece­ber o seguro.

Aí corto a conversa com uma observação que é como um soco no estômago:

— Ainda bem que tem um bote salva-vidas para o senhor e a tripulação.

— Sim, ainda bem — responde o comandante sem pensar, su­mindo logo em seguida pela escada.

Esta conversa, que eu tinha provocado deliberadamente, distraiu a minha viagem durante mais de quatro horas. Cada um queria acres­centar alguma coisa e o papo se estendeu, não sei como, até a frente do barco.

O mar, hoje, lá pelas 10 da manhã, não está agitado, mas o vento não favorece à viagem. Estamos indo em direção nordeste, isto é, con­tra as ondas e o vento, o que naturalmente faz balançar e jogar o barco mais que de costume. Alguns guardas e forçados estão doentes. Por sorte, aquele que está acorrentado comigo agüenta o balanço, pois não há nada mais desagradável que um sujeito vomitando perto da gente. Este rapaz é um verdadeiro moleque parisiense. Foi para os trabalhos forçados em 1927. Faz, então, sete anos que está nas ilhas. É relativamente jovem, tem 38 anos.

— Me chamam de Titi la Belote, vou te dizer, meu chapa, porque a belote (jogo de cartas) para mim não tem segredos. Aliás, nas ilhas, é disso que vivo. Vou de belote a noite inteira, a 2 francos o ponto. Com as paradas, isso vai longe. Se você ganha com um duzentos de valete, o cara te paga quatrocentos pacotes e umas ninharias para os outros pontos.

— Quer dizer que tem grana às pampas nas ilhas?

— É sim, meu velho Papillon! Nas ilhas está assim de canudos que têm tutu para valer. Alguns sobem com ele, os outros conseguem através de guardas ladinos que recebem 50 por cento. Estou vendo que você é calouro, meu chapa. Parece que você não está por dentro de nada!

— Não, não sei nada de nada sobre as ilhas. Só sei que é muito difícil fugir.

— Fugir? — diz Titi. — Nem vale a pena falar. Faz sete anos que estou aqui, houve duas tentativas, resultado: três mortos e dois presos. Ninguém conseguiu. Por isso, não tem muitos candidatos para tentar a sorte.

— Por que é que você foi ao continente?

— Fui tirar uma chapa para ver se tenho úlcera.

— E não conseguiu fugir do hospital?

— Por sua causa. Foi você, Papillon, que estragou tudo. E, além do mais, tive a falta de sorte de eles me botarem na mesma sala da qual você fugiu. Já viu a vigilância! Cada vez que a gente se aproxi­mava de uma janela para respirar um pouco, os guardas bronqueavam. E, se a gente queria saber por que, eles respondiam: “Você pode estar pensando em imitar o Papillon”.

— Diga, Titi, este sujeito sentado ao lado do chefe do comboio, quem é? Dedo-duro?

— Está louco! Este sujeito é muito estimado pelo pessoal todo. É um gajo bem nascido, mas sabe ter o jeito de um verdadeiro ma­landro: não dá trela aos guardas, não pede favores, fica no seu papel de forçado, com distinção. Sabe dar um bom conselho, é um ótimo colega e não quer saber de intimidade com os tiras. Nem o padre e o médico conseguiram usar ele. Este gajo grã-fino, que tem o jeito de um verdadeiro malandro, é descendente de Luís XV. No duro, meu chapa, é um conde, um conde de verdade, o nome dele é Conde Jean de Berac. Apesar de ser grande praça, quando chegou, levou tempo para conquistar a confiança dos homens. Mandaram ele para a cadeia por causa de um troço nojento.

— Que foi que ele fez?

— Bom, chutou o próprio filho por cima de uma ponte, num rio; e, como o guri caiu num lugar com pouca água, teve a coragem de descer, pegar e jogar ele num lugar mais fundo.

— Não diga! Então é como se tivesse matado duas vezes o pró­prio filho?

— Diz um amigo meu, que é contador e viu o processo, que o sujeito ficou aterrorizado por seu ambiente de nobre. A mãe dele ti­nha botado a mãe do guri no olho da rua, como uma cadela, era uma criadinha do castelo. Conta o meu amigo que o sujeito era dominado por uma mãe orgulhosa, pedante; ela o humilhou tanto, ele, um conde, por ter ido para a cama com uma criadinha, que o cara não sabia mais o que estava fazendo quando jogou o guri no rio, depois de ter dito à mãe que o tinha levado à assistência pública.

— A quanto o condenaram?

— Só a dez anos. Pense bem, Papillon, não é um cara como a gente. A condessa, esteio da família, deve ter explicado aos magis­trados que matar o rebento de uma empregada não é um delito tão grave assim, quando é cometido por um conde que procura salvar o bom nome de sua estirpe.

— Conclusão?

— Pois a minha conclusão (eu, que sou um merda de um jogador Parisiense) é a seguinte: livre e sem problemas, este Conde Jean de Berac era um fidalgo educado de tal modo, que nada importava para ele, só o sangue azul, o resto era insignificante e não merecia a menor preocupação. Talvez os outros não fossem realmente escravos, mas eram pelo menos seres sem maior importância. Esse monstro de egoísmo e pretensão que era a sua mãe o massacrou e aterrorizou a tal ponto, que ele virou um monstro também. Foi na prisão que este grande senhor, que antes pensava ter o direito da primeira noite, se tornou um verdadeiro nobre, na plena significação da palavra. Pa­rece engraçado, mas só agora ele realmente é o Conde Jean de Berac.

As Ilhas da Salvação, um “desconhecido” para mim, vão deixar de sê-lo daqui a poucas horas. Sei que é muito difícil fugir. Mas não é impossível. E, aspirando o delicioso vento do alto-mar, penso: “Quando é que este vento de proa será transformado em vento de popa, numa evasão?”

Chegamos. Aqui estão as ilhas! Desenham um triângulo. Royale e Saint-Joseph formam a base. A Ilha do Diabo, o vértice. O sol, já declinando, ilumina-as com todos os seus raios, que só nos trópicos têm tal intensidade. Assim, dá para vê-las à vontade. Primeiro Royale, com uma borda plana e baixa que faz a volta de um espigão de mais de 200 metros de altura, o cimo é achatado. O conjunto dá a impres­são de um chapéu mexicano colocado sobre o mar e do qual se teria cortado a ponta. Muitos coqueiros altos, bem verdes também. Casinhas de telhado vermelho dão à ilha uma atração enorme e aque­les que não sabem o que é que há lá desejariam viver aí a vida toda. Um farol no planalto deve iluminar à noite, para que, nas tempesta­des, os barcos não venham se espatifar nos rochedos. Agora, que esta­mos mais perto, enxergo cinco edifícios grandes e compridos. Titi me diz que primeiro vêm duas imensas salas onde vivem quatrocentos forçados. Depois é o bloco da repressão, com suas celas e masmorras, cercado por um alto muro branco. O quarto edifício é o hospital dos forçados e o quinto é o dos guardas. E, por toda parte, espa­lhadas pelas encostas, casinhas com telhas cor-de-rosa, onde moram os guardas. Mais longe, mas muito perto da ponta de Royale, Saint-Joseph. Menos coqueiros, menos folhagem e, bem em cima do pla­nalto, um imenso casarão que se enxerga muito bem do mar. En­tendo imediatamente: é a reclusão e Titi la Belote confirma. Ele me mostra, mais abaixo, os prédios onde vivem os forçados que estão cumprindo penas comuns. Estes prédios são perto do mar. As torres de vigilância, com suas ameias, destacam-se com muita nitidez. E mais algumas casinholas, graciosas, com paredes pintadas de branco e telhados vermelhos.

Como o barco pega a entrada da Ilha Royale pelo sul, não dá mais para ver agora a pequena Ilha do Diabo. Pela rápida visão que tive dela, é um enorme rochedo, coberto de coqueiros, sem edificações de importância. Algumas casas à beira-mar, pintadas de amarelo com telhados enegrecidos. Saberei mais tarde que são as casas onde vivem os deportados políticos.

Estamos entrando no porto de Royale, abrigado por um molhe imenso, feito de grandes blocos. Obra cuja construção deve ter custa­do muitas vidas de forçados.

Após três apitos da sirene, o Tanon lança a âncora a mais ou me­nos 250 metros do cais. Este cais, solidamente construído com ci­mento e cascalho grosso, é muito comprido e tem mais de 3 metros de altura. Edifícios pintados de branco, com um certo recuo, são dispostos paralelamente a ele. Leio, em letras pretas sobre fundo branco: “Posto de Guarda” — “Serviço de barcos” — “Padaria” — “Administração do Porto”.

Vemos forçados que olham para o barco. Não estão de uniforme, mas todos de calças e com uma espécie de blusão branco. Titi la Belote me explica que, nas ilhas, os que têm dinheiro encomendam aos alfaiates roupas leves, “sob medida”, feitas com sacos de farinha cujas letras foram apagadas, e que chegam mesmo a ter uma certa elegância. Quase ninguém, diz, está usando o uniforme de forçado.

Uma canoa se aproxima do Tanon. Um guarda no leme, dois guardas armados de mosquetão à esquerda e à direita; atrás, perto do que está no leme, seis forçados em pé, de peito nu, calças brancas, remam com remos imensos. Percorrem rapidamente a distância. Pu­xam atrás deles, rebocada, uma grande canoa, do tipo salva-vidas, vazia. Encostam. Descem primeiro os chefes do comboio, que vão se instalar atrás. Em seguida, dois guardas, com os mosquetões, ficam na frente. Com os pés desamarrados, mas sempre algemados, vamos descendo na canoa, de dois em dois; os dez do meu grupo, depois os oito do grupo da frente. Os remadores dão a partida. Terão que fazer mais uma viagem para o resto. Desembarcamos no cais e, enfileirados diante do edifício da administração do porto, ficamos esperando. Nenhum de nós tem embrulhos. Sem tomar conheci­mento dos guardas, os transportados falam conosco em voz alta, à distância prudente de 5 ou 6 metros. Vários transportados do meu comboio me fazem sinais amistosos. Cesari e Essari, dois bandidos corsos que conheci em Saint-Martin, me dizem que são remadores, no serviço do porto. Neste momento chega Chapar, do caso da Bolsa de Marselha, que conheci em liberdade na França. Sem se preocupar, na frente dos guardas, me diz:

— Tenha calma, Papillon! Pode contar com os amigos, não te faltará nada na reclusão. Qual foi o teu prêmio?

— Dois anos.

— Certo, passa logo e depois você virá para cá com a gente; vai ver, aqui não é ruim.

— Obrigado, Chapar. E Dega?

— É contador lá em cima. Estranho que não esteja aqui. Vai lastimar não ter encontrado você.

Neste momento chega Galgani. Vem na minha direção, o guarda quer impedir que passe, mas ele passa assim mesmo:

— Não vão me impedir de abraçar o meu irmão, não, mas onde já se viu!

Diz, ao me abraçar:

— Conte comigo.

Antes de se retirar, eu digo:

— O que está fazendo?

— Cuido da correspondência.

— E como se sente?

— Estou tranqüilo.

Os últimos desembarcaram e se juntaram à gente. Tiram as nossas algemas. Titi la Belote, Berac e alguns desconhecidos se afastam do grupo. Um guarda diz para eles:

— Agora vamos subir até o campo.

Cada um deles tem um saco de forçado com as suas coisas. Cada um bota o saco nas costas e todos vão seguindo por um caminho que deve levar até o alto da ilha. O comandante das ilhas chega acompa­nhado por seis guardas. Fazem a chamada. Ele recebe o comboio completo. Nossa escolta vai embora.

— Onde está o contador? pergunta o comandante.

— Está chegando, chefe.

Vejo Dega chegar, bem vestido, de branco, com um paletó de bo­tões acompanhado por um guarda; cada um vem trazendo um gran­de livro debaixo do braço. Os dois tiram os homens das fileiras, um por um, com suas novas classificações:

— Você, recluso fulano, matrícula de transportado número X, terá a matrícula de reclusão Z.

— Quanto?

— X anos.

Quando chega a minha vez, Dega me abraça demoradamente. O comandante vem se aproximando.

— Ele é o Papillon?

— Sim, meu comandante responde Dega.

— Comporte-se bem na reclusão. Dois anos passam rápido.

 

                                 A RECLUSÃO

Uma canoa está pronta. Dos dezenove condenados, dez vão na primeira viagem. Sou chamado para partir. Friamente, Dega diz: “Não, esse aqui vai na última viagem”.

Desde que cheguei, estou espantadíssimo de ver a maneira de falar dos presos. Não se sente disciplina alguma, eles parecem não ligar para os guardas. Falo com Dega, que se colocou a meu lado. Ele já conhece toda a minha história, a história da minha fuga. Homens que estiveram comigo em Saint-Laurent vieram para as ilhas e lhe contaram tudo. Não chora por mim, é muito arguto. Comenta, em uma única frase, dita com todo o coração: “Merecias ter conseguido, calhorda. Mas fica para a próxima”. Não chega sequer a me desejar coragem. Sabe que eu a tenho.

— Estou como encarregado geral dos serviços de intendência e me dou muito bem com o comandante. Comporte-se bem lá na re­clusão, mandarei cigarros e comida, não faltará nada.

— Papillon, vamos! — é a minha vez.

— Até a volta, para todos. Obrigado pelo que disseram.

Embarco na canoa. Vinte minutos depois, chegamos a Saint-Joseph. Tive tempo de observar que há somente três guardas armados a bor­do, para seis forçados que remam e dez presos condenados à reclusão. Seria mole comandar a tomada desse barco. Em Saint-Joseph nos espera um comitê de recepção. Somos apresentados a dois comandan­tes: o comandante da penitenciária da ilha e o comandante da re­clusão. A pé, algemados, percorremos o caminho que sobe para a reclusão. Não há nenhum forçado em nosso trajeto. Entramos por uma grande porta de ferro, encimada por duas palavras: “Reclusão disciplinar”. Compreendemos logo o que há de sério naquela casa. A porta e os quatro muros altos que nos circundam ocultam, antes de mais nada, um pequeno prédio onde se lê: “Administração-Direção”. E mais três outros prédios: A, B e C. Somos levados ao prédio da direção e entramos numa sala fria. Dispostos em duas filas, ouvi­mos, os dezenove, o que nos diz o comandante da reclusão:

— Prisioneiros, vocês sabem que essa casa é urna casa de castigo para as faltas cometidas pelos condenados. Aqui, não tentamos cor­rigi-los, porque sabemos que isso seria inútil. Queremos é domar vocês. Aqui há só uma regra: bico calado. Silêncio absoluto. Qual­quer comunicação entre as celas é arriscada: pode dar uma punição bastante dura. Se vocês não estiverem gravemente doentes, não pe­çam médico, pois uma chamada injustificada resulta em castigo. É tudo o que eu tenho para dizer. Ah, e é rigorosamente proibido fumar! Pronto, guardas, revistem bem cada um deles e coloquem cada um em uma cela. Charrière, Clousiot e Maturette não devem ficar num mesmo prédio. O senhor é pessoalmente responsável por isso. Sr. Santori.

Dez minutos depois, estou trancado na minha cela, a 234 do prédio A. Clousiot está no B e Maturette no C. Despedimo-nos com o olhar. Entrando aqui, compreendemos logo, todos, que para sair vivo é preciso obedecer a esse regulamento desumano. Vejo-os serem leva­dos, meus companheiros desta fuga tão longa, camaradas firmes e corajosos, que me acompanharam com valor e nunca chorarão nem lamentarão o que fizeram na minha companhia. Após catorze meses de luta lado a lado, pela conquista da nossa liberdade, meu coração se contrai, pois estamos ligados por uma amizade sem limites.

Examino a cela onde me fizeram entrar. Nunca eu teria podido supor ou imaginar que num país como o meu — a França, mãe da li­berdade no mundo inteiro, terra que deu à luz os direitos do homem e do cidadão — pudesse haver, mesmo na Guiana Francesa, numa ilha perdida do Atlântico, do tamanho de um lenço de bolso, uma insta­lação tão barbaramente repressiva como a da reclusão da Ilha de Saint-Joseph. Imaginem vocês cinqüenta pequenas celas, lado a lado, cada uma delas com os fundos pegados aos fundos de uma outra cela, todas igualmente cercadas por quatro paredes muito espessas com uma única abertura: a de uma pequena porta de ferro, com seu visor. Embaixo de cada visor, a inscrição pintada na porta: “Proibido abrir esta porta sem ordem superior”. À esquerda, uma placa de ma­deira embutida na parede com uma almofada de madeira, abrindo e fechando de acordo com o mesmo sistema de Beaulieu. Um pano para coberta, um bloco de cimento num canto, ao fundo, servindo de banquinho. Uma vassourinha, uma caneca de soldado e uma co­lher de pau. Uma placa vertical de ferro, ocultando uma bacia metá­lica, presa a ela por uma corrente (pode-se puxá-la para fora a fim de usá-la como latrina ou mergulhá-la dentro a fim de esvaziá-la). A 3 metros de altura, à guisa de janela, uma abertura com enormes barras de ferro, grossas como trilhos, cruzadas de tal maneira que não deixam passar volume algum. Mais alto, a cerca de 7 metros do chão, o verdadeiro teto do prédio. Por cima das celas, na linha que junta os fundos de umas aos fundos das outras, um caminho de ronda, com mais ou menos 1 metro de largura e uma rampa de ferro. Dois vigias caminham incessantemente de cada uma das extremidades até a me­tade do caminho, onde se encontram e fazem meia volta. A impressão é horrível. A claridade do dia chega bem até a passarela dos guardas, mas, dentro de cada cela, mesmo em pleno dia, a gente mal consegue enxergar. Começo logo a andar pelo meu cubículo, esperando o apito (ou algo que o valha) para abrir a cama. Para não fazer barulho algum, tanto os prisioneiros como os guardas ficam de meias. Penso imediatamente: “Aqui, na cela 234, Charrière, também chamado Pa­pillon, condenado a uma pena de dois anos, ou melhor, de 730 dias, tentará viver sem ficar maluco. Cabe-lhe desmentir o apelido que de­ram a esta reclusão de ‘devoradora de homens’”.

Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta. Um, dois, três, quatro, cinco, meia volta. O guarda acaba de passar diante do meu cubículo. Não o ouvi passar, mas o vi. Pam! A luz se acende, mas muito alta, suspensa a mais de 6 metros, lá fora, no teto do prédio. A passarela fica iluminada, as celas permanecem no escuro. Começo a andar, o pêndulo está outra vez em movimento. Durmam tranqüilos, doci­nhos do júri que me condenou. Durmam tranqüilos. Se vocês soubes­sem para onde me mandaram, acho que se recusariam com um gesto de repulsa a serem cúmplices da aplicação de um castigo assim. Vai ser muito difícil escapar às vagabundagens da imaginação. Quase impossível. Suponho que talvez seja melhor aceitá-las e orientá-las para temas que não sejam demasiado deprimentes ao invés de tentar suprimi-las completamente.

É um sinal de apito, na verdade, que anuncia que podemos baixar da parede as placas de madeira que nos servirão de cama. Ouço uma voz grossa que diz:

— Os novatos ficam sabendo que, a partir de agora, se quiserem, podem abrir os leitos embutidos e deitar.

Interessam-me somente as palavras “se quiserem”. Continuo, por­tanto, a andar. O momento é crucial demais para dormir. É preciso que eu me habitue a esta jaula aberta no teto. Um, dois, três, qua­tro, cinco, já consegui um ritmo para o meu passeio, com a cabeça baixa, as mãos atrás das costas, a distância dos passos rigorosamente calculada, vou e volto interminavelmente, como um pêndulo, como um sonâmbulo. Chegando ao final dos cinco passos, já nem vejo a parede, apenas roço nela ao fazer meia volta, de passagem, nessa maratona que não tem chegada nem tempo de duração.

Na verdade, Papi, esta “devoradora de homens” não é de brinca­deiras. Quando a sombra do guarda se projeta na parede, o efeito é estranho. Se a gente levanta a cabeça para vê-lo, a situação ainda fica mais deprimente: fica-se com o ar de um leopardo numa fossa, observado, de cima, pelo caçador que acaba de capturá-lo. A impres­são é horrível, precisarei de alguns meses para habituar-me a ela.

Cada ano tem 365 dias. Dois anos são 730 dias, se um deles não for bissexto. Essa idéia me faz sorrir. Saber que 730 dias ou 731 é a mesma coisa. Por que é a mesma coisa? Não é verdade. Um dia a mais são mais 24 horas e 24 horas é um bocado de tempo. Setecentos e trinta dias de 24 horas é muito mais tempo. Quantas horas dá o total? Será que eu consigo calcular de cabeça? Como fazer essa con­ta? É impossível. Por quê? Posso fazê-la. Vejamos um pouco. Cem dias são 2 400 horas. É muito fácil multiplicá-las por sete, dá 16 800 horas. Ficam por somar ainda trinta dias, que dão 720 horas. De­zesseis mil e oitocentas horas mais 720 dão um total geral de 17 520 horas, se não me enganei nas contas. Prezado Sr. Papillon, o senhor tem 17 520 horas para ir morrendo nesta jaula de paredes lisas, especialmente fabricada para feras selvagens. Quantos minutos precisarei passar aqui? Não interessa. As horas, está certo, mas por que calcular os minutos? Não exageremos. Por que não os segundos? Se isso tem importância ou não, o fato é que eu não estou interessa­do. Sozinho comigo mesmo, devo encher com alguma coisa esses dias, essas horas, esses minutos. Quem estará à minha direita? E à minha esquerda? E atrás de mim? Se as celas estão ocupadas, será que esses três homens não deverão estar perguntando também a eles próprios quem acaba de entrar na 234?

Ouço o ruído abafado de uma coisa que acaba de cair atrás de mim, na minha cela. Que será? Será que o meu vizinho teve sufi­ciente habilidade para conseguir me jogar alguma coisa através da grade? Procuro descobrir o que é. Mal consigo avistar um troço comprido e estreito. No momento em que vou apanhá-la, a coisa —. que, no escuro, eu mais adivinho do que vejo — começa a se mexer e se desloca rapidamente na direção da parede. Quando ela se me­xeu, tive um movimento de recuo. Chegando ao muro, ela começa a subir, mas logo cai por terra. A parede é tão lisa, que a coisa não consegue subir por ela. Deixo-a tentar três vezes a subida; quando ela tenta pela quarta vez e cai, esmago-a com o pé. Sinto algo mole sob a meia grossa. O que poderá ser? Ponho-me de joelhos e olho-a o mais de perto que posso. Por fim, consigo distinguir: é uma enorme centopéia de mais de 20 centímetros de comprimento e dois dedos de largura. Sinto-me tão repugnado, que não a apanho para pôr na bacia; empurro-a com o pé para baixo da cama. Amanhã, durante o dia, verei. Aliás, tive ocasião de ver muitas centopeias: elas caem do teto do prédio, lá de fora. Aprendi a deixá-las caminharem sobre o meu corpo nu, quando estou deitado, sem pegá-las e sem fazer-lhes mal. Tive ocasião de aprender quanto sofrimento pode custar um erro tático quando uma centopéia está em cima da gente. Uma picada desse bicho nojento queima horrivelmente durante seis dias e deixa uma febre de cavalo que dura mais de doze dias na pessoa.

De qualquer maneira, será uma distração, um derivativo para os meus pensamentos. Quando eu estiver acordado e cair uma centopéia, torturá-la-ei com a vassoura durante o máximo de tem­po que me for possível, ou então me divertirei com ela, deixando-a esconder-se e tentando encontrá-la depois.

Um, dois, três, quatro, cinco... Um silêncio total. Ninguém ron­ca aqui? Ninguém tosse? É verdade que está fazendo um calor de abafar tudo. E estamos de noite! Como não deve ser de dia. . . Meu destino é o de viver com as centopeias. Quando a água subia no calabouço de Santa Marta, chegava uma grande quantidade delas; eram menores, mas da mesma família destas. Em Santa Marta ha­via inundação todos os dias, é verdade, mas a gente falava, gritava, escutava os cantos, as vozes e as divagações dos loucos temporá­rios ou definitivos. Não é a mesma coisa. Se eu tivesse que esco­lher, escolheria Santa Marta. O que estás dizendo é ilógico, Pa­pillon. A opinião unânime é a de que o máximo que um homem poderia resistir lá embaixo seriam seis meses. Ora, aqui, há muitos que têm penas de quatro, cinco anos, ou até mais, por cumprir. Que eles tenham sido condenados a essas penas é uma coisa; mas que as cumpram é outra. Quantos se suicidam? Não vejo como al­guém possa se suicidar. No entanto, é possível. Não é fácil, porém a gente pode se enforcar. Fabricando uma corda com as calças, utilizando a vassourinha para passar a ponta da corda por uma das barras de ferro da janela, trepado na cama. Fazendo essa operação bem junto ao chão do caminho da ronda, é provável que o guarda não veja a corda. Quando o guarda tiver acabado de passar, você se balança no vazio; e, quando ele voltar, você já está frito. Aliás, ele não terá muita pressa em descer e abrir a cela para soltar da corda o corpo do enforcado. Abrir a cela? Ele não pode. Está escrito na porta: “É proibido abrir essa porta sem ordem superior”. Então, não precisa se preocupar, quem quiser se suicidar tem muito tempo para isso, antes que venham tirá-lo da corda “por ordem superior”.

Toda essa minha descrição talvez não seja muito movimentada e interessante para as pessoas que gostam da ação e dos inciden­tes. Se eu as estiver aborrecendo, essas pessoas podem pular as pá­ginas. No entanto, creio que devo descrever com a maior fidelidade possível essas primeiras impressões, esses primeiros pensamentos, que me apareceram no primeiro contato com a nova cela, essa rea­ção das minhas primeiras horas de enterrado vivo.

Estou caminhando há muito tempo. Ouço um murmúrio no meio da noite, é a mudança da guarda. O guarda anterior era grande e magro, este de agora é gordo e baixo. Arrasta um pouco os pés.

O barulho dos pés se arrastando se percebe duas celas antes e permanece até duas ceias depois. Não é cem por cento silencioso, como o outro. Continuo a andar. Deve ser tarde. Que horas devem ser? Amanhã terei certo controle do tempo. Graças às quatro vezes por dia em que se deve abrir a janelinha da porta, saberei aproxi­madamente as horas. Para a noite, sabendo a hora do começo do primeiro turno da guarda e a duração dele, terei uma boa medida de tempo: primeiro turno, segundo, terceiro, etc.

Um, dois, três, quatro, cinco... Automaticamente, continuo nessa caminhada interminável e, com a ajuda do cansaço, consigo facil­mente sair do presente e mergulhar no passado. Por contraste com a escuridão da cela, com certeza, sinto-me em pleno sol, sentado na praia da minha tribo. O barco em que Lali está pescando oscila a 200 metros de mim, nesse mar verde-opala, incomparável. Mexo na areia com os pés. Zoraima me traz um peixe grande assado na brasa, enrolado carinhosamente numa folha de bananeira, para conservar o calor. Como com a mão, naturalmente; e ela, sentada de pernas cruzadas diante de mim, me observa. Fica feliz de ver como gran­des pedaços vão sendo facilmente suprimidos do peixe e lê no meu rosto a satisfação de saborear uma comida tão deliciosa.

Não estou mais na cela. Nem mesmo sei se existe a reclusão, se existem Saint-Joseph e as ilhas. Rolo na areia, limpando as mãos nestes grãos tão finos, que até parecem de farinha. Depois vou até o mar, para bochechar com essa água tão límpida e também tão salgada. Pego a água com as mãos e passo-a na cara. Esfregando o pescoço, percebo que meus cabelos estão muito compridos. Quando Lali voltar, vou pedir a ela para cortá-los. Passo a noite toda com minha tribo. Tiro o cache-sexe de Zoraima e lá, na areia, em pleno sol, acariciado pelo vento do mar, possuo-a. Ela geme amorosamen­te, como costuma fazer quando goza. Talvez o vento leve até Lali essa música amorosa. De qualquer maneira, Lali está nos vendo, está percebendo que nós estamos abraçados, que estamos fazendo o amor, pois a distância não é grande. Na verdade, ela deve ter nos visto, porque o barco volta logo para a praia. Ela desce, sorrindo. Durante o caminho da volta desfaz as tranças e passa os dedos com­pridos pelos cabelos molhados, que começam a secar, por obra do vento e do sol deste dia maravilhoso. Caminho na direção dela. Com o braço direito, ela me envolve e me puxa na direção da nossa cabana. Enquanto andamos juntos, ela não deixa de me fazer en­tender: “eu também, eu também”. Quando entramos me derruba numa rede que está dobrada no chão e me faz esquecer dentro dela que o mundo existe. Zoraima é muito inteligente e não quis entrar enquanto, segundo seus cálculos, nossos beijos ainda não tinham terminado. Quando ela chega, cansados e nus, nós ainda estamos deitados na rede. Vem sentar-se perto de nós e, dando uns tapinhas nas bochechas da irmã, repete-lhe uma palavra que sem dúvida deve significar qualquer coisa como “gulosa”. Depois, castamente, veste Lali e me cobre com o meu cache-sexe, com gestos de pudica ternura. Passei a noite inteira na aldeia guajira. Não dormi nada. Nem sequer me deitei para ver através das pálpebras fechadas as cenas vividas. Andando sempre, numa espécie de hipnose, sem qualquer esforço da minha vontade, voltei àquele dia tão delicioso, vivido há cerca de seis meses.

A luz se apaga e percebe-se que está chegando o dia, invadindo a escuridão da cela, expulsando essa espécie de neblina negra que me impede de ver o que está por baixo, a meu redor. Um sinal de apito. Escuto o barulho das camas que se recolhem às paredes e o ruído do meu vizinho que ajeita seu leito embutido. Meu vizi­nho tosse e ouço um pouco de água caindo. Como é que a gente se lava aqui?

— Senhor guarda, como é que a gente se lava aqui?

— Prisioneiro, você está perdoado porque não sabia, mas não tem o direito de falar com o guarda, senão pega um castigo duro. Para se lavar, você deve se colocar embaixo da bacia, pegar a água com o canecão, derramá-la com uma das mãos e se lavar com a outra. Você não desdobrou a coberta?

— Não.

— Dentro dela há uma toalha, pode verificar.

Essa agora! Não se pode falar com a sentinela? Por motivo nenhum? E se a gente está sofrendo muito por alguma razão? Se a sente está morrendo? Uma crise cardíaca, uma crise de apendicite ou uma crise de asma muito forte? É proibido gritar por socorro aqui, mesmo em caso de risco de vida? É o cúmulo! Mas não é, não. É normal. Seria muito fácil armar um escândalo quando a resistência acaba e os nervos explodem. Seria fácil fazê-lo para ouvir vozes, para ouvir falarem, ainda que fosse para te dizerem: “Morre, mas fica quieto”. Vinte vezes por dia, duas dezenas destes 250 homens que devem estar aqui provocariam uma discussão qualquer para se desfazer, como se fosse num estrondo, da excessiva pressão do gás existente dentro da cabeça deles.

Quem teve a idéia de construir estas jaulas para leões não pode ter sido um psiquiatra: um médico não se desonraria a esse ponto. Também não há de ter sido um médico quem estabeleceu o regula­mento. As duas pessoas que fizeram o conjunto, no entanto, o arqui­teto e o funcionário que estudou os pormenores da execução da pena, ambos são dois monstros repugnantes, dois psicólogos vicia­dos e cruéis, cheios de ódio sádico pelos condenados.

Dos cárceres da central de Beaulieu, em Caen, por mais fundos que fossem, com dois andares de porões metidos terra adentro, ainda podia se filtrar e um dia chegar ao público o eco das torturas e dos maus-tratos sofridos por alguns dos presos.

A prova é que, quando tiveram de me tirar as algemas e as cor­rentes que prendiam até meus polegares, vi no rosto dos guardas sinais de medo; sem dúvida eles estavam com medo de ter aborre­cimentos.

Aqui, nesta reclusão, onde só entram os funcionários da adminis­tração, eles ficam todos muito tranqüilos, nada lhes pode acontecer.

Clac, clac, clac, todas as janelinhas das portas são abertas. Chego perto da minha, arrisco uma olhada e depois meto uma parte da cabeça e logo toda a cabeça para fora. Olho à esquerda e à direita, vejo uma porção de cabeças no corredor. Compreendo imediata­mente que, assim que as janelinhas se abrem, todas as cabeças se esticam para fora. O vizinho da direita me olha, sem exprimir abso­lutamente nada no olhar. Sem dúvida está embrutecido pela mas­turbação. É pálido e flácido, com uma pobre fisionomia opaca de idiota. O vizinho da esquerda me diz, rapidamente:

— A quanto tempo?

— Dois anos.

— Eu a quatro. Já completei um. Seu nome?

— Papillon.

— O meu é Georges, Jojo de Auvergne. Onde te prenderam?

— Em Paris. E você?

Não teve tempo de responder: o café, com a bolota de pão, estava chegando duas celas antes. Recolheu a cabeça e eu fiz o mesmo. Estendo o canecão, enchem-no de café e depois me dão uma bolota de pão. Como não apanho o pão com suficiente rapidez, fecham a janelinha e o pão rola pelo chão. Dali a menos de quinze minutos, o silêncio já voltou. Deve haver duas distribuições, uma em cada corredor, porque a coisa é feita depressa demais. Meio-dia, chega uma sopa com um pedaço de carne cozida. À noite, um prato de lentilhas. Durante dois anos, esse cardápio só varia de noite: len­tilhas, feijão-mulatinho, ervilhas, creme de ervilhas, feijão branco ou arroz. A refeição do meio-dia é sempre a mesma.

De quinze em quinze dias, também, a gente mete a cabeça pela janelinha e um preso, com uma máquina de cortar cabelo, nos corta a barba.

Há três dias que estou aqui. Há uma coisa que me preocupa. Em Royale, meus amigos disseram que me mandariam algo para comer e cigarros. Não recebi coisa alguma. Gostaria de saber, aliás, como eles poderiam fazer tamanho milagre. Por isso, não me sur­preendo muito de nada ter recebido. Deve ser muito perigoso fumar; e, de qualquer maneira, seria um luxo. Comer, sim, deve ser consi­derado vital, porque a sopa do meio-dia é água quente com dois ou três fiapos de folhas de verdura e um pedaço de mais ou menos 100 gramas de carne cozida. De noite, são os feijões w alguns legu­mes secos que aparecem nadando na água. Para ser franco, descon­fio que não é a administração que deixa de nos dar uma refeição razoável e sim os presos que distribuem ou preparam a comida, Essa idéia me ocorre numa noite em que é um sujeito pequeno de Marselha quem está distribuindo os legumes: a concha vai até o fundo do caldeirão e, quando é ele, recebo mais legumes do que água. Com os outros dá-se o contrário: mexem um pouco a mistura, mas enchem a concha na superfície, com pouco legume e muita água. Essa subalimentação é extremamente perigosa. Para ter fir­meza de vontade moral é necessária certa força física.

Estão varrendo o corredor, acho que estão varrendo tempo de­mais diante da minha cela. A vassoura passa insistentemente na base da porta e percebo um pedaço de papel branco aparecendo. Entendo logo que me passaram algo pela soleira mas não puderam pas­sá-lo direito e estão esperando que eu puxe a coisa antes de ir varrer outros lugares. Puxo o papel, abro-o, é um bilhete escrito com tinta fosforescente. Espero que o guarda passe e leio às pressas:

“Papi, todos os dias, a partir de amanhã, você receberá na bacia cinco cigarros e um coquinho. Quando comer o coquinho, mastigue bem para aproveitar e engula o caroço. Fume de manhã, na hora da limpeza das bacias. Nunca fume após o café da manhã, mas pode fumar logo depois da sopa do meio-dia e de noite, quando acabar os legumes. Junto deste bilhete vai papel sobrando e um lápis; quando você quiser algo, peça por escrito. Quando o var­redor passar diante da porta, arranhe a porta com os dedos; se ele também arranhar, empurre o seu bilhete. Nunca passe o bilhete antes dele ter respondido ao sinal. Guarde o papel na orelha e o pedaço de lápis em algum lugar num canto da cela, para não serem descobertos. Coragem. Nós te abraçamos. Ignace — Louis”.

Eram Galgani e Dega que estavam me mandando a mensagem. Uma onda de calor me subiu ao pescoço: ter amigos tão fiéis e tão dedicados era algo que me aquecia. Foi com mais fé ainda no futuro e mais seguro ainda de sair vivo desta tumba que recomecei minha caminhada, com passo feliz e alerta: um, dois, três, quatro, cinco, meia volta, etc. Caminhando, penso: que nobreza, que desejo de fazer o bem há nesses homens! É claro que eles se arriscam muito, talvez um arrisque perder o lugar na intendência, o outro o lugar de responsável pela correspondência. É, de fato, grandioso o que eles estão fazendo por mim, sem falar no fato de que lhes deve custar um bocado caro. Quantas pessoas eles precisarão subornar para fazer com que alguma coisa venha de Royale até o meu cubículo na “devoradora de homens”!

Leitor, você precisa ter em mente o fato de que um coquinho seco é cheio de óleo. Sua polpa dura e branca tem tanto óleo, que, se a gente ralar seis coquinhos e deixar na água quente, na manhã seguinte encontrará na superfície 1 litro de óleo. Esse óleo, essa gor­dura, cheia de vitaminas, é o que de mais importante nos falta no re­gime alimentar. Um coquinho por dia é quase a saúde assegurada. Pelo menos, não me desidratarei, não morrerei de miséria fisiológica. Hoje completo dois meses nas novas condições, recebendo coquinhos e cigarros. Para fumar, tomo precauções de índio sioux: engulo pro­fundamente a fumaça, depois a ponho para fora aos poucos, aba­nando com a mão direita aberta como um leque, para que a fumaça desapareça.

Ontem sucedeu uma coisa curiosa. Não sei se agi bem ou mal. Um guarda, na passarela, se deteve junto às grades, olhando para dentro da minha cela. Acendeu um cigarro, deu algumas tragadas e depois deixou-o cair cá para baixo. Depois continuou seu caminho. Esperei que ele tornasse a passar para esmagar ostensivamente o ci­garro com meu pé. Ele não se deteve por muito tempo: assim que percebeu meu gesto, prosseguiu sua caminhada. Será que ele teve pena de mim ou vergonha da administração (a qual ele mesmo per­tence)? Ou será que era uma armadilha? Não sei e isso me preocupa. Quando a gente sofre, se torna hipersensível. Se, durante alguns segundos, esse guarda quis ser um homem bom, eu não gostaria de tê-lo magoado com meu gesto de desprezo.

Já estou aqui há mais de dois meses. Essa reclusão, a meu ver, é o único lugar onde não se tem nada a aprender. Porque não se pretende ensinar nada. Recorro, portanto, a mim mesmo. Tenho uma tática infalível. Para vagar com intensidade pelas estrelas e ver facilmente aparecerem diferentes etapas, para construir nas nuvens castelos espantosamente sólidos, preciso antes me cansar bastante, preciso caminhar durante várias horas, sem parar, pensando normal­mente em alguma coisa, não importa qual. Depois, completamente arrasado, deito-me na cama, ponho a cabeça em cima de metade da coberta e cubro-a com a outra metade. O ar da cela — já por si rarefeito — chega com dificuldade à minha boca e ao meu nariz, filtrado pela coberta. Isso deve provocar uma espécie de asfixia nos meus pulmões e minha cabeça começa a queimar. O calor me sufoca, o ar me falta e — de repente — eu decolo. Ah, essas caval­gadas da alma, que sensações indescritíveis elas me deram! Tive noites de amor realmente mais intensas do que quando estava em liberdade, mais perturbadoras, com sensações ainda mais variadas do que as noites de amor autenticamente vividas no passado. Essa faculdade de viajar no espaço me permite sentar junto de mamãe, morta há dezessete anos. Brinco com o vestido dela e ela me acaricia os cachos dos cabelos, que aos cinco anos eram compridos como se eu fosse uma menina. Acaricio seus dedos longos, tão finos, com pele suave como a seda. Ela ri comigo de meu intrépido impulso de mergulhar no rio, tal como eu vira os outros garotos maiores mer­gulharem num dia de passeio. Lembro-me dos menores detalhes do seu penteado, da ternura luminosa de seus olhos claros e vivazes. Torno a ouvir suas palavras, doces e inefáveis: “Meu pequeno Riri, você deve ser muito sensato e muito inteligente para que a sua ma­mãe possa gostar de você durante muito tempo. Mais tarde, você também vai mergulhar no rio de uma altura bem grande. Agora, você ainda é muito pequeno. Espere um pouco, que você não vai demorar a crescer e o dia em que você será grande vai chegar logo, até depressa demais”.

De mãos dadas, caminhando ao longo do rio, voltamos para casa. Vejo-me, de fato, na casa da minha infância. Estou nela de um modo tão concreto, que ponho as minhas duas mãos sobre os olhos de mamãe, para impedi-la de ler a música e de continuar a tocar piano para mim. Não é imaginação, não: estou aqui. Estou trepado numa cadeira, colocada atrás do banquinho onde mamãe está sentada, e escondo resolutamente seus olhos grandes com mi­nhas mãos pequenas. Seus dedos