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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PERSEGUINDO O SEU PECADO / Elizabeth George
PERSEGUINDO O SEU PECADO / Elizabeth George

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

  

David King-Ryder sentia uma espécie de angústia, de morte secundária. Invadia-o uma tristeza e um desespero que contrastavam em absoluto com a situação em que se encontrava.

A seus pés, no palco do Agincourt Theatre, Horácio repetia a fala de Hamlet, Divindade que nos dá forma, enquanto Fortinbras contrapunha com "Oh, morte orgulhosa", Três dos quatro corpos que jaziam no palco eram arrastados para fora de cena, deixando ficar Hamlet nos braços de Horácio. Os actores - trinta homens valentes - avançavam. ao encontro uns dos outros, soldados noruegueses à esquerda, cortesãos dinamarqueses à direita, juntando-se depois atrás de Horácio. Quando começaram a entoar o refrão, a música recrudesceu e a artilharia - a que ele inicialmente se opusera, não fosse vir a ser objecto de com parações com 1812 - ribombou nos bastidores. Foi nesse momento que a plateia começou a crescer por baixo do camarote de David. Seguiu-se o primeiro balcão. Depois as galerias. E, então, sobrepondo-se à música, ao canto e ao ribombar dos canhões, ouviu-se um ensurdecedor coro de aplausos.

Ansiava por aquilo havia mais de uma década: a justificação inequívoca do seu talento prodigioso. E agora tinha-a diante de si. Aos seus pés e à sua volta. Três anos de árduo e extenuante trabalho físico e mental culminavam naquele momento, na ovação que lhe fora negada no final das duas últimas produções que apresentara no West End. No que a estes dois sumptuosos espectáculos dizia respeito, a natureza dos aplausos e o que a eles se seguira não tinham deixado margem para equívocos. O agradecimento cortês e sem convicção do elenco antecedera o abandono apressado do teatro. Seguira-se a habitual festa comemorativa, cuja atmosfera pouco diferira de um velório. Depois, os críticos londrinos tinham concluído o que o passa- palavra da noite de estreia iniciara. Dois espectáculos caríssimos afundavam-se como dois couraçados de betão. David King-Ryder teve, assim, oportunidade de desfrutar do prazer ambíguo de ler análises infindáveis sobre o seu declínio criativo. A Vida depois de Chandler. Títulos como este tinham encabeçado os artigos de um ou outro crítico de teatro imbuído de uma emoção próxima da indulgência. Os outros, porém - os tipos que forjavam metáforas vituperadoras enquanto comiam os cereais matinais e que passavam meses à espera da oportunidade ideal para as encaixar num comentário mais notado pela mordacidade do que pela informação que continha -, tinham sido implacáveis. Tivera direito a todos os epítetos, desde charlatão artístico a navio ancorado em velhas glórias, glórias estas que frutificavam ostensivamente de um único tronco: Michael Chandler.

David King-Ryder perguntava-se se outras parcerias musicais teriam sido submetidas ao mesmo escrutínio meticuloso a que a sua colaboração com Michael Chandler fora sujeita. Duvidava que tal tivesse acontecido. Tinha a impressão de que músicos e letristas, desde Gilbert e Sullivan a Rice e Lloyd-Weber tinham florescido, esmorecido, desabrochado, fracassado, derrotado críticos, tropeçado e conquistado a glória sem serem perseguidos pelo uivar constante dos chacais.

O romance da sua associação com Michael Chandler dera azo a análises como esta, naturalmente. Quando um dos elementos de uma parceria que montara doze dos mais bem- sucedidos espectáculos do West End morria de uma forma tão horrível e estúpida, o mais certo era que dessa morte nascesse uma lenda. E Michael sofrera exactamente esse tipo de morte. Perdera-se numa gruta subaquática da Florida que já roubara a vida a cerca de trezentos mergulhadores, violando todas as regras de segurança ao mergulhar à noite, sozinho e ébrio, deixando apenas um barco de quatro metros e meio a assinalar o local onde entrara na água. Para trás tinham ficado a mulher, a amante, quatro filhos, seis cães e um sócio com quem partilhara a sua sede de fama, fortuna e sucessos teatrais desde a infância em Oxford, onde os pais de ambos trabalhavam como operários na linha de montagem da fábrica da Austin-Rover.

Não fora, por isso, despropositada a atenção que a comunicação social dedicara à reabilitação emocional e artística de David King-Ryder, na sequência da morte trágica e prematura de Michael. E embora os críticos o tivessem maltratado quando da sua primeira tentativa de realizar uma ópera pop a solo, cinco anos mais tarde, tinham-no feito com luvas de pelica, como se acreditassem que um homem que perdera um sócio de longa data e um amigo de toda a vida de uma só vez merecia, pelo menos, a oportunidade de falhar sem ser publicamente humilhado, no seu esforço para descobrir a musa sozinho. Estes mesmos críticos não se revelaram tão misericordiosos quando ele fracassara pela segunda vez.

Tudo isso acabara, no entanto. Fazia parte do passado.

A seu lado, no camarote, Ginn exclamou, Conseguimos. David. Conseguimos mesmo! enquanto, sem dúvida, tomava consciência - que se danassem todos os que o acusavam de nepotismo por ter escolhido a mulher para sua directora de produção - de que acabava de ascender ao mesmo patamar de sucesso ocupado por artistas como Hands, Nun e Hall.

Matthew, o filho de David - demasiado consciente, enquanto director da companhia de seu pai, do quanto estava em jogo naquele espectáculo, apertou a mão de David com força e disse com vivacidade, Caramba! Parabéns, pai. David queria deixar-se contagiar pelo entusiasmo daquelas palavras e pelo que estava implícito nelas: o abandono definitivo das dúvidas iniciais que Matthew expressara quando o pai o informara de que tencionava transformar a maior das tragédias de Shakespeare no seu triunfo musical. Tens a certeza de que queres fazer isto? perguntara, abstendo-se de fazer perguntas como Não achas que estás a precipitar-te para um último e definitivofracasso?

Tinha, de facto, confirmara David, na época, ainda que apenas para si mesmo. Todavia, que outra opção lhe restava, a não ser tentar reabilitar-se como artista?

E fora precisamente isso que conseguira fazer. Não só tinha o público a seus pés, não só tinha todo o elenco a aplaudi-lo, extaticamente, no palco, como também os críticos - cujas cadeiras memorizara, para melhor as fazer explodir, fora o comentário sardónico de Matthew - estavam de pé, sem traírem o menor desejo de quererem abandonar o teatro, associando-se ao coro de aplausos que David receara ter perdido, tal como perdera Michael Chandler.

Os louvores aumentaram ainda mais nas horas que se seguiram. Na festa de estreia, no Dorchester, num salão de baile criativamente convertido no Castelo de Elsinore, David ficou de pé, ao lado da mulher, no extremo de uma fila de anfitriões onde estavam também os actores protagonistas. Diante desta fila desfilaram as principais celebridades de Londres. Estrelas do palco e do ecrã desfaziam-se em cumprimentos junto dos colegas, cerrando discretamente os dentes a fim de dissimular a inveja; personalidades de todos os quadrantes decretavam o Hamlet das Produções King-Ryder. "fantástico e simplesmente fabuloso, querido", deixou-me literalmente colada à cadeira,; modelos e meninas-família - trajadas com vestidos ondulantes e exibindo uma profusão de decotes espantosamente pronunciados, criaturas que deviam a sua fama ao facto de serem famosas ou à circunstância de terem pais famosos - declaravam, "finalmente, alguém transformou Shakespeare numa coisa divertida", representantes desse notável sorvedouro da imagi nação e economia da nação - a Família Real - expressavam os seus votos sinceros de sucesso. E, embora todos gostassem de sentir o toque da pele de Hamlet e dos seus companheiros de arte dramática, embora todos se sentissem satisfeitos por poderem felicitar Virginia Elliott pela sua magistral direcção da ópera pop composta pelo marido, todos se sentiam particularmente ansiosos por falar ao homem que vinha sendo difamado e condenado há mais de uma década.

O triunfo era avassalador, portanto, e David King-Ryder queria senti-lo. Estava sequioso por uma sensação que lhe dissesse que a vida se abria diante dele e não o contrário. Esta, no entanto, era uma sensação a que não podia furtar-se. Acabou. A palavra ribombava nos seus ouvidos como os tiros de um canhão.

Se fosse capaz de falar com Ginny sobre os sentimentos que o assaltavam desde o cair do pano, David sabia que ela lhe diria que a depressão, a ansiedade e o desespero eram sentimentos normais.

"É o vazio natural depois da noite de estreia", diria ela. Teria argumentado que ela própria tinha mais razões para se sentir vazia do que ele. O seu trabalho como directora de produção terminara. Havia ainda que corrigir vários aspectos, claro - Seria simpático se o responsável pelo desenho de luz se decidisse a colaborar e acertasse com a última cena, não achas? -, mas em geral, tinha de se libertar, de reiniciar o processo de produção de outra peça. No caso dele, a manhã do dia seguinte traria uma enchente de telefonemas de parabéns, pedidos de entrevistas e convites para encenar a ópera no mundo inteiro. Por isso, ou ele se embrenhava em mais uma encenação de Hamlet ou se decidia a fazer outra coisa. Ela não tinha essa opção.

Se lhe tivesse confessado que, muito simplesmente, já não tinha ânimo para começar fosse o que fosse, ela teria dito algo como: É claro que neste momento não tens. É normal, David. Como é que podias sentir ânimo neste preciso momento? Tens de dar a ti mesmo algum tempo para recuperar, não é verdade? Precisas de tempo para tornar a encher o poço.

O poço era a fonte da criatividade, e se por acaso tivesse chamado a atenção da mulher para o facto de ela, aparentemente, nunca precisar de recarregar as suas próprias baterias, ela teria alegado que dirigir uma produção não era o mesmo que criar o produto. Ela, ao menos, tinha matéria-prima com que trabalhar - sem esquecer um exército de colegas-artistas com quem podia debater ideias à medida que a produção ia ganhando forma. Ele tinha apenas a sala de música, o piano, uma solidão sem fim e a sua imaginação.

E as expectativas do mundo inteiro, pensou ele, sombriamente. Essas nunca deixariam de estar presentes enquanto preço do sucesso.

 

 

 

 

Ele e Ginny saíram do Dorchester mal conseguiram esgueirar-se discretamente. Ela protestara quando ele manifestara o desejo de deixar a festa

- tal como Matthew, que, incansável no seu papel de representante de seu pai, comentara que não pareceria bem se David King-Ryder abandonasse a festa antes de ela estar terminada. David, no entanto, dissera que se sentia exausto e que tinha os nervos em franja, um autodiagnóstico que Matthew e Virginia tinham acabado por aceitar. Afinal, a sua tez adquirira uma tonalidade doentia, e o seu comportamento durante o espectáculo - ora de pé, ora sentado, ora passeando de um lado para o outro dentro do camarote - era a prova inequívoca de que os seus recursos pessoais se encontravam, final mente, esgotados.

Fizeram a viagem até casa em silêncio. Segurando um vodca na palma da mão, David pressionava as sobrancelhas com o polegar e o indicador, enquanto Ginny tentava fazer conversa com ele. Sugeriu que tirassem umas férias como prémio pelos anos de trabalho árduo. Rodes, sugeriu ela, Capri e Creta.

O tom jovial e entusiástico da sua voz comunicou a David que o fracasso das suas tentativas para entrar em diálogo com ele estavam a deixá-la cada vez mais apreensiva. E tendo em conta a história de ambos - fora a sua décima segunda amante antes de ele a transformar na sua quinta mulher - ela tinha fortes motivos para suspeitar que o seu estado de espírito nada tinha a ver com a tensão e os nervos próprios da noite de estreia, com a descompressão após o triunfo, ou com ansiedade em relação às reacções da crítica ao seu trabalho. Nos últimos meses, o casamento deles fora sujeito a duras provas, e ela conhecia muito bem o remédio que ele encontrara para se curar da situação de impotência que vivera com a sua última mulher: iniciara uma relação com Ginny. Por isso, quando ela finalmente dissera, Querido, são coisas que acontecem. São os nervos, nada mais. Tudo vai acabar bem, quisera tranquilizá-la, mas não encontrara as palavras certas para o fazer.

Ainda estava a tentar encontrá-las quando o automóvel entrou no túnel de áceres prateados que caracterizava a região arborizada onde viviam. Ali, a menos de uma hora de Londres, a paisagem era povoada por árvores e atravessada por veredas escondidas sob um denso tapete de fetos, calcorreadas por gerações de guardas-florestais e agricultores.

O carro descreveu uma curva e passou entre os dois carvalhos que assinalavam a alameda de casa deles. Dezoito metros mais à frente, abria-se um portão de ferro forjado. A alameda continuaVa para além dele, serpenteando sob os amieiros, os choupos e as faias, contornando um lago em cuja superfície o reflexo das estrelas formava um segundo firmamento. Em seguida, eleava-se suavemente, circundando uma fieira de bangalós silenciosos e desaguando no leque aluvial formado pela entrada da mansão King-Ryder.

A governanta preparara-Lhes uma ceia composta por uma selecção dos pratos preferidos de David.

- Mr. Matthew telefonou - explicou Portia na sua voz baixa e grave. Fugira do Sudão aos quinze anos e havia já dez que trabalhava para Virginia. O seu rosto tinha a expressão melancólica de uma bela e triste Madonna negra.

- Os meus mais sinceros parabéns para os dois - acrescentou.

David agradeceu-Lhe. Estavam na sala de jantar, e as suas silhuetas reflectiam-se nas vidraças das janelas que se prolongavam do chão até ao tecto. Admirou o centro de mesa de onde brotavam rosas brancas envoltas em ramos de hera entrançados. Passou o dedo por um dos finos garfos de prata. Com o polegar, amparou uma gota de cera de uma das velas. E teve a certeza de que seria incapaz de fazer passar uma só migalha pela garganta apertada.

Por isso disse à mulher que precisava de algum tempo a sós para descontrair, depois da tensão da noite. Iria ter com ela mais tarde. Precisava apenas de tempo para descomprimir.

De um artista esperava-se sempre que recolhesse ao conforto da sua arte. Por isso, David dirigiu-se à sua sala de música. Acendeu as luzes. Serviu-se de mais um vodca e colocou o copo sobre a tampa do piano de cauda.

Nesse momento, tomou consciência de que Michael nunca faria tal coisa. Michael fora cuidadoso nesse aspecto. Compreendera o valor de um instrumento musical, respeitara as suas fronteiras, as suas dimensões, as suas possibilidades. Fora igualmente cuidadoso no que se referia à maioria dos aspectos relacionados com a sua própria vida. Apenas se descuidara numa única noite louca na Florida.

David sentou-se ao piano. Inadvertidamente, os seus dedos procuraram uma ária de que gostava. Era uma melodia retirada da partitura do mais auspicioso dos seus fracassos - Mercy -, que ia trauteando à medida que tocava, tentando sem sucesso evocar as palavras de uma canção que outrora encerrara a chave do seu futuro.

Enquanto tocava, deixou que o seu olhar deambulasse pelas paredes da sala, quatro monumentos ao seu sucesso. Prateleiras cheias de prémios. Certificados emoldurados. Posters e cartazes anunciando espectáculos que até àquele dia continuavam a ser encenados nos quatro cantos do mundo. E ao lado da partitura protegida por uma moldura prateada, um conjunto de fotografias que documentavam a sua vida.

A de Michael estava entre elas. E quando os olhos de David fitaram o rosto do seu velho amigo, os seus dedos deixaram - por vontade própria - de tocar a ária que executavam e passaram à canção que, conforme sabia, estava destinada a ser o êxito de Hamlet. What Dreams May Come, era como se intitulava e fora retirada do mais famoso dos solilóquios do príncipe.

Tocou metade da canção e depois viu- se forçado a parar. Apercebeu-se de um cansaço enorme que fazia com que as mãos lhe caíssem das teclas e os olhos se fechassem. Mesmo assim, conseguia ver o rosto de Michael.

- Não devias ter morrido - disse ao amigo. - Pensei que um sucesso tornaria tudo diferente, mas ele apenas torna a perspectiva de fracasso mais terrível ainda.

Voltou a pegar na bebida e saiu da sala. Acabou de beber o vodca e pousou o copo junto a uma urna de travertino que estava colocada numa reentrância sem se aperceber que, não tendo conseguido empurrar o copo bem para dentro, este caía no chão alcatifado.

Vindo de cima, de uma das divisões da casa enorme, conseguia ouvir o som característico de água a correr. Era Ginny, que devia estar a afogar

num banho quente a tensão da noite e a pressão dos meses que a tinham antecedido. Oxalá pudesse fazer o mesmo. Parecia-lhe que tinha muito mais motivos para isso.

Por momentos, reviveu os gloriosos momentos de triunfo uma última vez: o público em pé antes do cair do pano, os aplausos, os bravos guturais.

Tudo aquilo devia ser suficiente para David. Mas não era. Não podia ser. Caía, se não em ouvidos surdos, pelo menos em ouvidos que escutavam uma voz completamente diferente.

- Petersham Mews e Elvaston Place. Dez horas.

- Mas onde... Onde é que estão?

- Ora, vais perceber.

E, naquele momento, em que se esforçava por ouvir os elogios, as conversas animadas, os ditirambos que deveriam constituir o ar, a luz, o alimento e a bebida de que precisava, tudo o que David conseguia ouvir eram aquelas últimas duas palavras: vais perceber.

E eis que chegara o momento.

Subiu as escadas e foi até ao quarto. No extremo oposto, do outro lado da porta da casa de banho, que se encontrava fechada, a mulher desfrutava o seu banho. Cantarolava com uma felicidade resoluta que lhe revelava o quão preocupada estava, de facto. Em relação a tudo, desde o estado dos seus nervos ao estado da sua alma.

Era uma boa mulher, Virginia Elliott, pensou David. A melhor das suas mulheres. Tencionara manter-se casado até ao fim dos seus dias. Simplesmente, não se apercebera de como esse tempo viria a revelar-se curto.

Três movimentos rápidos completaram a tarefa com simplicidade. Tirou a arma de dentro de uma gaveta da mesa-de-cabeceira. Ergueu-a. Puxou o gatilho.

 

                       CAPÍTULO 1

Julian Britton era um homem que sabia que até ao momento a sua vida não tivera qualquer significado. Criava os seus cães, geria o monte de ruínas em que se transformara a propriedade da família e, dia após dia, tentava persuadir o pai a manter-se longe do álcool. E era tudo. Nunca fora bem-sucedido em nada, a não ser em entornar gin pelo cano abaixo e agora, aos vinte e sete anos de idade, sentia o ferrete do fracasso. Fosse como fosse, não podia deixar que isso o afectasse esta noite. Esta noite tinha de levar o seu barco a bom porto.

Começou pela sua aparência, examinando-se com um olhar impiedoso no espelho alto do quarto. Endireitou o colarinho da camisa e sacudiu um fio de linho do ombro. Olhou o rosto fixamente e disciplinou os seus traços por forma a que adquirissem a expressão que desejava. Devia parecer absolutamente sério, decidiu. Apreensivo, sim, porque era admissível que sentisse apreensão. Mas não devia deixar transparecer conflito. E, decididamente, não devia trair o menor vestígio de sofrimento interior, nem a mais ligeira perplexidade perante a situação em que se encontrava naquele preciso momento, em que o seu mundo estava um caos.

Quanto ao que iria dizer, duas noites de insónia e dois dias intermináveis tinham dado a Julian tempo suficiente para ensaiar o que devia dizer quando soasse a hora certa. Com efeito, imerso em elaborados ainda que silenciosos diálogos imaginários - perpassados pela dose de preocupação suficiente para sugerir que não havia qualquer sentimento pessoal envolvido no caso -, fora assim que Julian passara a maior parte das duas noites e dos dois dias que se tinham sucedido à inacreditável novidade que lhe dera Nicola Maiden. Agora, depois de mais de quarenta e oito horas enredado em diálogos sem fim com o seu próprio cérebro, Julian estava ansioso por resolver o assunto, ainda que não tivesse quaisquer garantias de que as suas palavras surtiriam o efeito que pretendia.

Afastou-se do espelho e pegou na chave do carro que estava sobre a cómoda. A fina camada de pó que habitualmente cobria a superfície de nogueira desaparecera. Julian concluiu que a prima sucumbira mais uma vez à influência das Fúrias da limpeza, a prova inquestionável del que fora novamente derrotada na sua determinação para manter o tio sóbrio.

Samantha viera para Derbyshire com essa intenção oito meses antes, um anjo misericordioso que chegara a Broughton Manor com a missão de reunir uma família dividida havia mais de três décadas. Não fizera muitos progressos nesse sentido, no entanto, e Julian perguntava-se quanto tempo mais ela iria suportar o apego que o seu pai sentia pela garrafa.

- Temos de o afastar da bebida, Julie - dissera-lhe Samantha, ainda na manhã daquele dia. - É impossível que não percebas como isso é fundamental nesta altura.

Nicola, pelo contrário, conhecendo o pai há oito anos e não apenas há oito meses, há muito que adoptara uma atitude tolerante. Se o teu pai escoLheu beber até cair morto, não há nada que tu possas fazer para o impedir, Jules. E também não há nada que Sam possa fazer, dissera ela mais de uma vez. A verdade, no entanto, é que Nicola não sabia o que era ver um pai afundar-se de forma cada vez mais inexorável numa vida de devassidão, imerso em alucinações intensamente inebriantes acerca do seu passado romanceado. Ela, afinal, crescera numa casa onde as aparências eram idênticas ao modo como as coisas eram, de facto. Os pais estavam unidos por um amor inabalável, e ela nunca sofrera o abandono de uma mãe filha das flores que partira a fim de ir estudar, com um guru envolto numa espécie de tapeçaria, na noite anterior ao décimo segundo aniversário do filho, e de um pai cuja devoção pela garrafa excedia largamente qualquer afecto que pudesse ter manifestado em relação aos seus três filhos. De facto, se Nicola se tivesse dado ao trabalho de, ao menos uma vez, examinar as diferenças que marcavam o tipo de educação que ambos tinham tido, pensou Julian, teria percebido que cada uma das suas malditas decisões...

Neste ponto interrompeu o fio dos seus pensamentos. Recusava-se a seguir essa linha de raciocínio. Não podia dar-se ao luxo de seguir essa linha de raciocínio. Não podia dar-se ao luxo de deixar que a sua mente se desviasse da tarefa que tinha em mãos.

- Ouve o que te digo - pegou na carteira que estava sobre a cómoda e enfiou-a no bolso. - És suficientemente bom para qualquer pessoa. Ela ficou borrada de medo. Tomou a decisão errada. Só isso. Lembra-te disso. E lembra-te também que toda a gente sabe que vocês dois sempre funcionaram bem juntos.

Tinha fé neste facto. Nicola Maiden e Julian Britton faziam parte da vida um do outro havia anos. Todos os que os conheciam há muito que tinham concluído que eles pertenciam um ao outro. Ao que parecia, Nicola era a única que nunca aceitara esse facto.

- Sei muito bem que nunca tivemos nenhum compromisso - dissera-lhe ele há duas noites atrás, quando ela Lhe anunciara que iria deixar os Peaks definitivamente e que, daí em diante, apenas voltaria para visitas curtas. - Mas sempre existiu um certo entendimento entre nós, não existiu? Eu não dormiria contigo, se não encarasse seriamente... Vá lá, Nick. Bolas, tu conheces-me.

Não planeara pedi-la em casamento, e não fora essa a interpretação que ela dera às suas palavras. Limitara-se a dizer sem rodeios:

- Jules, gosto imenso de ti. És sensacional e tens sido um amigo a valer. E nós entendemo-nos melhor do que eu alguma vez me entendi com qualquer outro tipo.

- Estás a ver, então...

- Mas não te amo - prosseguiu. - Sexo não é igual a amor. Isso só acontece nos filmes e nos livros.

De início ficara demasiado atónito para conseguir falar. Era como se o seu cérebro se tivesse transformado num quadro preto e alguém tivesse passado um pano molhado antes que ele tivesse tido hipótese de tirar notas. Por isso, ela continuara a falar.

Não ia deixar de ser a namorada dele no Peak District, dissera, se ele assim o desejasse. Viria visitar os pais de vez em quando e nunca deixaria de ter tempo - nem de se sentir feliz por isso, dissera - para estar com Julian. Podiam até continuar a ser amantes, sempre que ela estivesse de passagem, se ele quisesse. Não via qualquer problema nisso. Mas quanto a casamento... Existiam demasiadas diferenças entre eles, enquanto pessoas, explicara.

- Eu sei o quanto tu queres salvar Broughton Manor - afirmara. - É o teu sonho e hás-de torná-lo realidade. Mas eu não partilho desse sonho, e não vou magoar-te nem a ti nem a mim fingindo o contrário. Não seria justo para nenhum de nós.

Fora nesse momento que ele finalmente caíra em si e retorquira, com azedume:

- É o maldito dinheiro. E o facto de eu não ter um tostão, ou de pelo menos não ter o suficiente para satisfazer os teus gostos.

- Não é nada disso, Julian. Não exactamente - afastara-se dele mo mentaneamente, soltando um longo suspiro. - Deixa-me explicar-te.

Ele ouvira-a durante o que lhe parecera uma hora, embora ela provavelmente não tivesse falado mais de dez minutos, ou menos. No fim, quando tudo ficou esclarecido entre eles e depois de ela ter saído do Rover e ter desaparecido na entrada escura de Maiden Hall, voltara para casa, entorpecido, num estado de choque causado pela dor, pela confusão e pela surpresa, dizendo para si mesmo: Não, ela não podia... ela não pode estar... Não. Ao fim da Noite de Insónia Número Um, conseguira perceber - uma vez sarada a sua própria mágoa - que tinha uma imensa necessidade de agir. Telefonara e ela concordara em encontrar-se com ele. Estaria sempre disponível para se encontrar com ele, dissera.

Olhou-se ao espelho uma última vez antes de sair do quarto e brindou-se a si mesmo com uma derradeira declaração: Ficámos sempre bem um ao lado do outro. Não te esqueças disso.

Atravessou a passagem sombria do andar superior do solar e espreitou para dentro da pequena divisão que o pai usava como saleta. A situação financeira cada vez mais difícil da família provocara uma retirada generalizada das divisões maiores, situadas no andar inferior, que a pouco e pouco se fora tornando inabitável à medida que as diversas antiguidades, quadros e objets d'art iam sendo vendidos para fazer face às necessidades. Os Britton viviam agora permanentemente no andar superior da casa. Divisões não faltavam, mas eram escuras e acanhadas.

Jeremy Britton estava na saleta. Dado que eram dez e meia, estava totalmente embriagado, cabeça descaída sobre o peito e um cigarro ardendo entre os dedos. Julian atravessou a divisão e tirou o cigarro da mão do pai. Jeremy permaneceu imóvel.

Julian soltou uma imprecação em voz baixa, enquanto o observava: uma inteligência, vigor e orgulho promissores completamente arruinados pelo vício. Um dia, o pai acabaria por incendiar a casa, e em certas ocasiões - como aquela - Julian achava que um incêndio podia ser a solução ideal. Apagou o cigarro de Jeremy e enfiou a mão no bolso da camisa dele à procura do maço de Dunhills. Tirou-o e fez o mesmo com o isqueiro do pai. Pegou na garrafa de gin e saiu da saleta.

Despejava o gin, os cigarros e o isqueiro nos caixotes de lixo nas traseiras da casa quando ouviu a voz dela.

- Apanhaste-o em flagrante outra vez, Julie?

Sobressaltado, olhou em volta, mas não conseguiu distingui-la no escuro. Foi então que ela se levantou e ele viu que estivera sentada no topo de um muro de pedra que separava a entrada das traseiras da casa senhorial do primeiro dos seus jardins cobertos de vegetação. Uma glicínia por podar - que começava a perder as folhas devido à aproximação do Outono - ocultara-a. Sacudiu os fundilhos dos calções de caqui e saltou do muro para vir ter com ele.

- Começo a achar que ele se quer matar - disse Samantha, no tom despachado que a caracterizava. - Ainda não consegui foi perceber porquê.

- Ele não precisa de razões para o fazer - retorquiu Julian, laconicamente. - Só precisa dos meios.

- Eu bem tento mantê-lo longe da bebida, mas ele tem garrafas escondidas por todo o lado - olhou de soslaio para a casa envolta na escuridão, que se erguia diante deles como uma fortaleza no meio da paisagem. - Eu tento, Julian, a sério. Sei que é importante - tornou a olhar para ele e reparou na forma como estava vestido. - Estás muito elegante. Não pensei em aperaltar-me. Devia tê-lo feito?

Julian retribuiu o olhar dela com uma expressão confusa, levando as mãos ao peito para afagar a camisa, à procura de algo que sabia não estar lá.

- Esqueceste-te, não foi? - perguntou Samantha.

A intuição era um dos seus inúmeros talentos.

julian ficou à espera que ela o elucidasse.

- O eclipse - disse ela.

- O eclipse?

Reflectiu um pouco. Ergueu uma das mãos e deu uma palmada na testa.

- Meu Deus. O eclipse. Sam. Bolas. Esqueci-me. É esta noite, o eclipse. Vais vê-lo a algum sítio em especial?

Inclinou a cabeça na direcção do sítio onde estivera sentada.

- Preparei um lanche para nós. Queijo e fruta, um naco de pão, umas salsichas. Vinho. Lembrei-me que podia apetecer-nos comer qualquer coisa, se tivéssemos de esperar mais tempo do que o previsto.

- Esperar... Oh, bolas, Samantha...

Não sabia ao certo o que havia de dizer. Não fora sua intenção levá-la a pensar que tencionava assistir ao eclipse na sua companhia. Nem sequer tencionara levá-la a pensar que queria ver o eclipse.

- Percebi mal a data?

O tom da voz dela reflectia a sua desilusão. já sabia que acertara na data e que se quisesse ver o eclipse em Eyam Moor, teria de caminhar até lá sozinha.

A referência ao eclipse lunar fora um comentário casual. Pelo menos, fora assim que ele quisera que a mesma fosse entendida. Limitara- se a dizer, em tom de conversa, Consegue-se ver bastante bem de Eyam Moor. Está marcado para as onze e meia. Gostas de astronomia, Sam?

Era óbvio que Samantha interpretara estas palavras como um convite e, por momentos, a suposição da prima deixou julian irritado. Todavia, esforçou-se o melhor que pôde para dissimular os seus sentimentos, pois estava em dívida para com ela. Era a pensar na reconciliação entre a mãe e o tio

- o pai de Julian - que, desde há oito meses, ela se deslocava de Winchester a Broughton Manor para estadas prolongadas. Cada visita fora- se tornando progressivamente mais longa, à medida que ela ia descobrindo novas incumbências na propriedade, fosse nos trabalhos de renovação do próprio solar, fosse na gestão tranquila e serena dos torneios, festas, celebrações e reconstituições que Julian organizava nos terrenos da propriedade como forma de aumentar os rendimentos dos Britton. A sua presença solícita fora uma verdadeira bênção, já que os irmãos de Julian há muito que tinham fugido do lar familiar e Jeremy não mexera um dedo desde que herdara a propriedade - e tratara de a povoar com os seus companheiros filhos das flores, arruinando-a até à última pedra -, pouco tempo depois do seu vigésimo quinto aniversário.

No entanto, por mais agradecido que Julian se sentisse em relação a Sam pela ajuda que ela lhe dava, teria preferido que a prima não tivesse feito tais suposições. Sentira-se culpado pelo volume de trabalho que ela realizava, movida unicamente pela bondade do seu coração, e procurara uma forma de retribuição. Não tinha dinheiro para Lhe oferecer, não que ela precisasse ou tivesse aceite algum se ele lho tivesse proposto. Os cães eram tudo o que tinha, de facto, bem como o seu conhecimento de Derbyshire e a sua paixão pelo condado. E desejoso que ela se sentisse bem recebida em Broughton Manor durante o maior período de tempo possível, oferecera-lhe a única coisa que possuía: actividades ocasionais com os lebreiros e momentos de con versa. E fora uma conversa sobre o eclipse que ela interpretara mal.

- Nunca pensei... - deu um pontapé num pedaço de saibro ressequido onde despontava o caule peludo de um dente-de-leão. - Desculpa. Vou até Maiden Hall.

- Ah.

Curioso, pensou, como uma única sílaba podia comunicar todo o tipo de mensagens, desde uma condenação ao deleite.

- Que parva que eu fui - disse ela. - Não consigo perceber de onde é que tirei a ideia de que tu querias... Bom, seja como for...

- Hei-de arranjar maneira de te compensar - esperava que as suas palavras soassem sinceras. - Se já não tivesse combinado... Sabes como é.

- Claro - tornou ela. - Não podes desapontar a tua Nicola, Julian. Brindou-o com um sorriso frio e breve e baixou-se para passar por baixo da glicínia. Levava um cesto debaixo do braço.

- Fica para outra vez? - perguntou Julian.

- Como queiras.

Sem olhar para Julian, passou por ele, atravessou o portão e desapareceu no pátio interior de Broughton Manor.

Apercebeu-se de que soltava um suspiro irritado. Nem sequer tivera consciência de que estava a conter a respiração.

- Desculpa - disse em voz baixa, depois de ela ter desaparecido. - Mas é que isto é importante. Se tu soubesses como é importante, irias compreender.

Fez o percurso de carro até Padley Gorge, seguindo para noroeste na direcção de Bakewell. Aí, atravessou a velha ponte medieval que ligava as duas margens do rio Wye. Aproveitou a viagem de carro para um último ensaio do que iria dizer e quando alcançou a alameda íngreme que conduzia a Maiden Hall, estava praticamente convencido de que antes que a noite chegasse ao fim, os seus planos produziriám os resultados desejados.

Maiden Hall ficava a meio de uma encosta arborizada. Nesta zona, o terreno era densamente povoado por carvalhos sésseis e o declive que ia dar ao Hall era coberto por uma abóbada de tílias e castanheiro. Julian percorreu a alameda, executou as curvas sinuosas com a perícia adquirida ao fim

de muita prática e estacionou ao lado de um Mercedes, modelo desportivo, que se encontrava no parque de saibro reservado aos hóspedes.

Evitou a entrada principal e entrou pela cozinha, onde Andy Maiden observava o chefe de cozinha que queimava a superfície de um tabuleiro de crème brúlée. O chefe - um tal Christian-Louis Ferrer - viera de França cinco anos antes com a missão de engrandecer a sólida, ainda que pouco inspirada, reputação culinária de Maiden Hall. Naquele momento, porém, segurando o ferro de queimar numa das mãos, Ferrer fazia lembrar mais um incendiário do que un grand artiste de la cuisine. A expressão do rosto de Andy sugeria que ele partilhava os pensamentos de Julian. Foi só quando Christian-Louis conseguiu transformar a cobertura numa fina e perfeita camada reluzente, com um, Et la voilà, Andee", e esboçando aquele género de sorriso condescendente que reservamos a um S. Tomé descrente, que Andy levantou a cabeça e viu Julian, que observava a cena.

- Nunca gostei de brincadeiras com fogo na cozinha - admitiu com um sorriso embaraçado. - Olá, Julian. Que há de novo para os lados de Broughton e regiões adjacentes?

Era a sua saudação habitual, e Julian retorquiu com a resposta do costume.

- Tudo está bem no reino dos justos. Quanto ao resto da humanidade... Um caso perdido.

Andy cofiou o bigode grisalho e fitou o jovem com um olhar amigável. Enquanto isso, Christian-Louis empurrava o tabuleiro de leite- creme através da abertura que comunicava com a sala de jantar. Maintenant, on en a fini pour ce soir, disse, tirando o avental manchado de nódoas deixadas pelos molhos do jantar. Quando o francês desapareceu no interior do pequeno vestiário, Andy deixou escapar um Vive la France, acompanhado de um revirar de olhos. Em seguida perguntou a Julian:

- Tomas um café connosco? Temos um último grupo na sala de jantar mas os restantes já passaram ao salão para os digestivos.

- Algum hóspede, hoje? - perguntou Julian.

Maiden Hall, uma antiga construção vitoriana que outrora fora utilizada como pavilhão de caça por um ramo da família Saxe-Coburgo, tinha dez quartos. Todos eles tinham sido decorados pessoalmente pela mulher de Andy, quando o casal se mudara de Londres para ali, dez anos antes. Oito estavam ocupados por viajantes perspicazes, que procuravam combinar a privacidade com a intimidade de um lar.

- Estamos completamente cheios - informou Andy. - Tivemos um Verão fantástico, graças ao bom tempo. Que vai ser, então? Café? Brandy? Como está o teu pai, por falar nisso?

Julian estremeceu interiormente perante a associação mental implícita nas palavras de Andy. Era inegável que para o país inteiro o pai dele permanecia associado a um ou outro tipo de bebida.

- Nada, obrigado - agradeceu. - Vim buscar Nicola.

- Nicola? Mas ela não está em casa, Julian.

- Não está? Ela ainda não se foi embora de Derbyshire, pois não? É que ela disse-me que...

- Não, não...

Andy começou a arrumar as facas da cozinha num suporte de madeira, enfiando-as nas respectivas ranhuras com um estalido sonoro, enquanto continuava a falar.

- Ela foi acampar. Ela não te disse? Saiu ontem, a meio da manhã.

- Mas eu falei com ela... - Julian reflectiu por momentos. - Ontem de manhã cedo. Ela não pode ter-se esquecido tão depressa.

- Mas parece que foi isso mesmo que aconteceu. Sabes como são as mulheres. Tinham combinado o quê, vocês dois?

Julian furtou-se à pergunta.

- Ela foi sozinha?

- Como sempre - replicou Andy. - Já conheces Nicola. E como conhecia.

- Para onde é que ela foi? Foi bem equipada?

Andy parou de arrumar as facas e virou-se. Era óbvio que se apercebera da preocupação no tom de voz de Julian.

- Ela nunca teria saído sem levar o equipamento. Sabe perfeitamente que lá em cima o tempo pode mudar de um momento para o outro. Aliás, eu próprio a ajudei a metê-lo no carro. Porquê? O que é que se passa? Discutiram, foi?

Julian podia responder a esta pergunta sem mentir. Não tinham dis cutido, pelo menos Julian não lhe teria chamado assim.

- Ela já devia ter voltado, Andy - disse. - Tínhamos combinado ir até Sheffield. Ela queria ver um filme...

- A esta hora da noite?

- É uma sessão especial.

Julian sentiu um intenso rubor invadir-lhe o rosto enquanto explicava a tradição subjacente a The Roclcy Horror Picture Show. Todavia, os anos em que Andy trabalhara como agente secreto, e a que ele sempre se referia como a sua Outra Vida, obrigara-o a cruzar-se com o filme muitos anos antes, pelo que dispensou a explicação com um gesto eloquente. Desta vez franziu o sobrolho enquanto passava a mão pelo bigode, cofiando-o com uma expressão pensativa.

- Tens a certeza de que não te enganaste na noite? Achas que ela pode ter pensado que te referias à noite de amanhã?

- Eu preferia ter estado com ela ontem à noite - disse Julian. - Foi Nicola quem marcou para hoje à noite. E tenho a certeza que ela disse que estaria de volta esta tarde. Tenho a certeza absoluta disso.

Andy baixou a mão. Os seus olhos estavam sérios. Olhou para trás de Julian, na direcção da janela de batentes que ficava por cima do lava-loiça. Nada, a não ser o reflexo deles próprios. Julian, no entanto, leu no rosto de Andy que ele estava a pensar sobre o que se encontrava do outro lado da vidraça, em plena escuridão.

A charneca imensa, habitada apenas por ovelhas, pedreiras abandonadas e já reclamadas pela natureza, penhascos de rocha calcária que davam lugar a declives de pedras soltas, fortalezas pré-históricas à beira da ruína. Existia uma confusão de grutas calcárias onde qualquer pessoa podia ficar encarcerada, minas de cobre, cujos tectos e paredes podiam ruir a qualquer momento, dólmens cuja miscelânea de pedras podia magoar o tornozelo de um caminheiro incauto, cumes de arenito onde um montanhista podia cair e esperar dias ou semanas até ser encontrado. A região estendia-se de Manchester a Sheffield, de Stroke-on-Trent a Derby, e todos os anos a Equipa de Busca e Salvamento era chamada mais de uma dezena de vezes para resgatar alguém que partira um braço ou uma perna - ou pior -, nos Peaks. Se a filha de Andy Maiden estivesse perdida ou ferida, algures naquelas paragens, iria ser necessário mobi lizar mais esforços para a encontrar do que os dos dois homens que se encontravam na cozinha.

- Vamos avisar a polícia, Julian - disse Andy.

O impulso inicial de Julian também fora telefonar à polícia. Depois de reflectir um pouco, no entanto, sentira receio do que podia estar implicado num telefonema dessa natureza. Nesse breve instante de hesitação, Andy tomara a iniciativa. Dirigiu-se à recepção a fim de fazer a chamada.

Julian apressou-se a segui-lo. Encontrou Andy debruçado sobre o telefone, como se quisesse proteger-se de ouvidos indiscretos. Todavia, ele e Julian eram as únicas pessoas que se encontravam na Recepção, já que os hóspedes do Hall saboreavam preguiçosamente cafés e brandies no salão, ao fundo do corredor.

Nan Maiden aproximou-se, vinda desse lado da casa, no exacto momento em que a polícia de Buxton atendia a chamada telefónica de Andy. Saiu do salão trazendo um tabuleiro com um bule de café vazio e as chávenas e pires usados de um serviço de café para duas pessoas. Sorriu e disse:

- Olá, Julian! Por aqui? Não esperávamos...

Mas as palavras morreram-lhe nos lábios quando se apercebeu da figura sub-reptícia do marido - curvado sobre o telefone como um visitante anónimo - e da expressão cúmplice de Julian.

- O que é que se passa?

Ao ouvir a pergunta, Julian teve a impressão de que tinha a palavra culpado tatuada na testa. Quando Nan perguntou, O que é que aconteceu?

não disse nada e esperou que Andy tomasse a iniciativa de responder. O pai de Nicola, no entanto, falava ao telefone em voz baixa, dizendo Vinte e cinco, e ignorando por completo a pergunta da mulher.

Ao ouvir o número Vinte e cinco, Nan percebeu o que Julian não se atrevia a traduzir por palavras e Andy evitava. Nicola, deixou escapar num murmúrio e juntou-se a eles na Recepção, pousando o tabuleiro sobre o balcão e empurrando um cesto de verga cheio de brochuras turísticas, que caiu no chão. Ninguém se preocupou em apanhá-lo.

- Aconteceu alguma coisa com Nicola?

A resposta de Andy soou calma.

- Julian e Nick tinham um encontro esta noite, e ao que parece ela esqueceu-se - disse ele à mulher, tapando o bocal do telefone com a mão esquerda. - Estamos a tentar localizá-la.

Mentiu com a habilidade de um homem que, em tempos, fizera da falsidade o seu ofício.

- Estava a pensar que ela pode ter passado pela casa de Will Upman no regresso, para tentar garantir o emprego para o próximo Verão. Está tudo bem com os hóspedes, querida?

Os vivos olhos cinzentos de Nan fitaram o marido, fixando-se depois em Julian.

- Com quem é que estás a falar exactamente, Andy?

- Nancy...

- Diz-me.

Não o fez. No outro extremo da linha alguém falou, e Andy olhou para o relógio.

- Infelizmente, não estamos absolutamente certos... - disse ele. Não... Obrigado. Está bem. Agradeço.

Desligou e pegou no tabuleiro que a mulher pousara sobre o balcão. Encaminhou-se para a cozinha. Nan e Julian seguiram-no.

Christian-Louis preparava-se para sair, depois de ter trocado o uniforme branco de cozinheiro por um par de calças de ganga, uns ténis e uma camisola da Universidade de Oxford com as mangas rasgadas. Agarrou o guiador da bicicleta que estava encostada à parede e depois de medir a tensão que se instalara entre os outros três ocupantes da cozinha, despediu-se com um Bonsoir, à demain, afastando-se sem demora. Através da janela, viram a luz branca do farol da bicicleta desaparecer à medida que ele se afastava, pedalando.

- Diz-me a verdade, Andy.

A mulher colocou-se na frente dele. Era baixa, tinha quase dois centímetros e meio a menos do que o marido. Possuía, no entanto, uma constituição sólida e musculada, o físico de uma mulher de setenta anos, mas que parecia vinte anos mais nova.

- Já te disse a verdade - respondeu Andy, em tom calmo. - Julian e Nicola tinham um encontro. Nick esqueceu-se. Julian ficou preocupado e gostaria de a localizar. Estou a ajudá-lo.

- Mas não era com Will Upman que estavas a falar ao telefone, pois não? - perguntou Nan. - Por que razão haveria Nicola de passar pela casa de Will Upman, em...

Lançou um olhar rápido ao relógio da cozinha, um objecto funcional e institucional que estava pendurado por cima de uma prateleira destinada à loiça de jantar. Onze e vinte. Todos eles sabiam que aquela era uma hora pouco conveniente para fazer uma visita de cortesia ao patrão, que era o que Will Upman representara para Nicola nos últimos três meses.

- Ela disse que ia acampar. Não me digas que achas que ela passou pela casa de Will Upman para dois dedos de conversa, precisamente no dia em que foi acampar. E por que motivo é que Nicola havia de faltar a um encontro com Julian? Ela nunca fez isso. - Nan desviou o seu olhar perspicaz. - Vocês discutiram? - perguntou a Julian.

A sensação de desconforto que de imediato se apoderou dele tinha duas razões de ser. Por um lado, o facto de ter de responder mais uma vez àquela pergunta e a confirmação de que Nicola ainda não comunicara aos pais a sua intenção de deixar o Derbyshire de vez. Dificilmente teria tentado assegurar um emprego para o Verão seguinte, quando estava a pensar em deixar de viver na região.

- Para ser franco, falámos de casamento - Julian decidiu-se a dizer. Estivemos a conversar sobre o futuro.

Os olhos de Nan dilataram-se. Uma sensação próxima do alívio apagou do seu rosto os sinais de apreensão.

- Casamento? Nicola aceitou casar contigo? Quando? Isto é, quando é que tudo isso aconteceu? Ela nunca disse uma palavra sobre o assunto. Mas isso são excelentes notícias. Que maravilha. Santo Deus, Julian, até me sinto estonteada. Já contaste ao teu pai?

Julian não queria mentir descaradamente. No entanto, também não con seguia arranjar maneira de contar toda a verdade. Optou por uma precária atitude intermédia.

- Para ser franco, ainda só estamos na fase de discutir a ideia. Aliás, era suposto tornarmos a conversar sobre o assunto esta noite.

Andy Maiden estivera a observar Julian com curiosidade, como se estivesse certo de que as probabilidades de um casamento entre a filha e Julian Britton eram tão remotas como uma discussão sobre a melhor maneira de criar ovelhas.

- Espera lá, então - disse ele. - Julgava que vocês iam até Sheffield.

- E íamos. Mas tínhamos combinado que conversávamos pelo caminho.

- Bem, Nicola nunca iria esquecer-se disso - afirmou Nan. - É pouco provável que uma mulher se esqueça que tem um encontro para discutir planos de casamento.

E, virando-se para o marido, continuou:

- Algo que tu devias saber muito bem.

Calou-se por instantes, reflectindo - ao que parecia - sobre aquele último pensamento, enquanto Julian meditava sobre a incómoda circunstância de Andy não ter ainda dado resposta às perguntas da mulher acerca do telefonema que fizera. Nan tirou as suas próprias conclusões acerca do assunto.

- Meu Deus! Estiveste a falar com a polícia. Achas que lhe aconteceu alguma coisa. E não querias que eu ficasse a saber, não era?

Nem Andy nem Julian responderam. O que, só por si, dizia tudo.

- E que haveria eu de pensar quando a polícia chegasse? - quis saber Nan. - Ou deveria limitar-me a continuar a servir o café?

- Já sabia que ias ficar preocupada - disse o marido. - Pode não haver razões para isso.

- Nicola pode muito bem estar lá fora, no escuro, ferida ou presa nalgum sítio, ou sabe Deus onde, e tu - vocês dois - acharam que não havia razão nenhuma para que eu ficasse a saber? Porque podia ficar preocupada?

- Já estás a ficar agitada. Era por isso que não te queria falar em nada, a não ser que fosse obrigado a fazê-lo. Pode não ser nada. Provavelmente não é nada. Julian e eu estamos de acordo quanto a isso. Dentro de uma hora ou duas já tudo estará esclarecido.

Nan tentou prender algumas madeixas de cabelo atrás da orelha. Tinha um corte bizarro que ela chamava boina - comprido no alto da cabeça e cortado aos lados -, estava demasiado curto para fazer outra coisa que não fosse ajeitá-lo.

- Vamos procurá-la - decidiu ela. - Um de nós pode começar a procurá-la imediatamente.

- O facto de um de nós sair à procura de Nicola não vai servir de muito - sublinhou Julian. - Ninguém sabe para onde ela foi.

- Mas nós conhecemos todos os seus lugares favoritos. Arbor Low. Thor's Cave. Peveril Castle.

Nan mencionou outros sítios, todos eles contribuindo para sublinhar a ideia que Julian estava a tentar fazer passar: não havia qualquer correlação entre os lugares favoritos de Nicola e a sua localização no Peak District. Ficam bem a norte como os arredores de Holmfirth, tão a sul como Ashbourne e a zona mais baixa de Tissington Trail. Ia ser necessário reunir uma equipa para descobrir o seu paradeiro.

Andy tirou uma garrafa e três copos de dentro de um armário. Serviu uma dose de brandy em cada um deles e passou-os, dizendo:

- Bebam!

As mãos de Nan rodearam o copo, mas ela não bebeu.

- Aconteceu-lhe alguma coisa.

- Não sabemos nada. É por isso que a polícia vem a caminho.

A polícia, na pessoa de um guarda já idoso chamado Price, chegou menos de trinta minutos depois. Fez-lhes as perguntas esperadas: em que dia é que ela tinha saído? Que tipo de equipamento levara? Se tinha ido sozinha? Qual, segundo eles, era o seu estado de espírito? Estava deprimida? Infeliz? Preocupada? Quais eram as suas intenções? Se tinha, de facto, indicado uma data precisa para o seu regresso? Quem fora a última pessoa a falar com ela? Tinha recebido a visita de alguém? Cartas? Telefonemas? Haveria algum acontecimento recente que pudesse tê- la levado a fugir?

Julian juntou-se a Andy e a Nan Maiden num esforço para tentar fazer com que o guarda Price percebesse quão grave era o facto de Nicola não ter regressado a Maiden Hall. Price, no entanto, parecia determinado em seguir o rumo que traçara, e fazia-o com um zelo enlouquecedor. Escrevendo a um ritmo lento, tomou nota da descrição de Nicola no seu caderno de apontamentos. Fez perguntas sobre o equipamento que ela levara. Obrigou-os a recordar os movimentos dela durante as últimas duas semanas. E parecia desesperadamente fascinado pelo facto de, na manhã anterior à sua partida para a charneca, ela ter recebido três chamadas telefónicas de três pessoas diferentes que não tinham querido identificar-se, de maneira que Nan não pudera informar Nicola de quem se tratava antes que esta atendesse o telefone.

- Um homem e duas mulheres? - Price perguntou quatro vezes.

- Não sei, não sei. E que importância tem isso para o caso? - contrapôs Nan, num tom irritado. - A mesma mulher pode ter telefonado duas vezes. Que diferença faz? O que é que isso tem que ver com Nicola?

- Mas apenas um homem, certo? - insistiu o guarda Price.

- Santo Deus, quantas vezes vou ter de...

- Um homem - interpôs Andy.

Nan cerrou os lábios, comprimindo-os numa linha que denotava irritação. Os olhos dela perfuraram o crânio de Price.

- Um homem - repetiu.

- Não foi o senhor que telefonou? - perguntou a Julian.

- Eu conheço a voz de Julian - disse Nan. - Não foi ele.

- Mas o senhor mantém uma relação com a jovem, não é verdade, Mr. Britton?

- Estão noivos - adiantou Nan.

- Não exactamente - Julian apressou-se a esclarecer, soltando um protesto silencioso quando começou a sentir uma odiosa onda de calor que, subindo do colarinho da camisa, se espalhava pelas faces.

- Tiveram um arrufo, foi? - perguntou Price, num tom sagaz. - Outro homem na jogada, cujas intenções não eram do seu agrado?

Meu Deus, pensou Julian. Porque seria que toda a gente deduzia que eles tinham discutido? Não tinham trocado uma só palavra azeda. Não tinham tido tempo para tal.

Não tinham discutido, informou Julian numa voz firme. E ele não tinha conhecimento da existência de outro homem. Ninguém, em absoluto, asseverou ele.

- Tinham combinado um encontro para conversarem sobre os planos de casamento - disse Nan.

- Bom, na verdade...

- Agora, diga-me com sinceridade: conhece alguma mulher que faltasse a um encontro deste género?

- E tem mesmo a certeza de que ela fazia tenções de regressar esta noite? - o guarda Price perguntou a Andy. Desviou o olhar para as notas que tirara e continuou: - A avaliar pelo equipamento que levou, tudo indica que tencionava ficar fora mais tempo.

- Não tinha pensado muito no caso até Julian ter passado por cá para irem a Sheffield - admitiu Andy.

- Ah!

O guarda lançou a Julian um olhar mais desconfiado do que este julgou legítimo. Em seguida fechou o caderno de apontamentos. O rádio que usava preso ao ombro deu sinal, emitindo uma torrente de ruídos incompreensíveis. Ergueu uma das mãos e baixou o volume. Enfiando o caderno de apontamentos no bolso, disse:

- Ora bem. Ela já fugiu antes, e esta é mais uma dessas ocasiões, julgo eu. Vamos esperar umas horas até...

- De que é que está a falar? - interrompeu-o Nan. - Não estamos a falar de uma adolescente em fuga. Ela tem vinte e cinco anos de idade, pelo amor de Deus. É uma pessoa adulta e responsável. Tem um emprego. Um namorado. Uma família. Ela não fugiu. Desapareceu.

- De momento, talvez - concordou o guarda. - Mas dado que já se escapuliu antes - e os nossos ficheiros assim o indicam, minha senhora -, até termos a certeza de que não se trata de mais uma fuga não podemos enviar uma equipa à procura dela.

- Ela tinha dezassete anos quando fugiu pela última vez - contrapôs Nan. - Tínhamos acabado de chegar de Londres. Ela sentia-se sozinha, infeliz. Estávamos concentrados nas obras do hotel e não lhe prestámos a devida atenção. Ela precisava apenas de alguma orientação para...

- Nancy - delicadamente, Andy pousou a mão na nuca da mulher.

- Não podemos, simplesmente, ficar aqui sem fazer nada.

- Não têm outra alternativa - disse o guarda, implacável. - Temos os nossos procedimentos e temos de cumpri-los. Vou escrever o meu relatório e se amanhã por esta hora ela ainda não tiver aparecido, voltaremos a examinar o caso.

Nan virou-se para o marido.

- Faz alguma coisa. Telefona para a Equipa de Busca e Salvamento. Julian interveio.

- Nan, a equipa de Busca e Salvamento não pode iniciar nenhuma busca sem ter uma ideia... - fez um gesto na direcção das janelas, esperando que ela fosse capaz de ler nas entrelinhas. Enquanto elemento da Equipa, já participara em dezenas de casos. De todas as vezes, porém, tinham sempre tido uma ideia genérica do local por onde deviam iniciar as buscas. Uma vez que nem ele, Julian, nem os pais de Nicola pareciam estar em condições de indicar o local exacto de onde partira Nicola, não lhes restava outra alternativa que não fosse esperar até às primeiras luzes da manhã, altura em que a polícia poderia requisitar um helicóptero à RAF.

Em virtude da hora e da escassez de informações que possuíam, Julian sabia que a única atitude que, na verdade, poderia ter resultado da conversa com o guarda Price, à meia-noite, teria sido um telefonema preliminar para o destacamento mais próximo da Equipa de Busca e Salvamento, pedindo-lhe que convocassem os voluntários na madrugada do dia seguinte. Era óbvio, porém, que não tinham conseguido convencer o guarda da gravidade da situação. A Equipa de Busca e Salvamento reportava apenas à polícia, e esta - pelo menos naquele momento e na pessoa do Guarda Price - não estava a revelar-se sensível aos pedidos deles.

A conversa com o homem era uma perda de tempo. Julian percebeu, a partir da expressão de Andy, que este havia chegado à mesma conclusão.

- Obrigado por ter vindo até aqui, senhor guarda - disse ele.

E quando a mulher se apressava a protestar, Andy continuou:

- Amanhã à noite, telefonamos-lhe, se Nicola ainda não tiver aparecido.

- Andy!

Pôs o braço em volta dos ombros da mulher, que escondeu o rosto no peito dele. Ele permaneceu em silêncio, enquanto o guarda saía pela porta da cozinha, entrava na viatura, punha o motor a trabalhar e ligava os faróis. Foi então que se dirigiu a Julian e não a Nan.

- Ela gosta de acampar no White Peak, Julian. Há alguns mapas na Recepção. Não te importas de mos trazer, por favor? Assim, ambos saberemos onde cada um de nós se encontra.

 

                         CAPÍTULO 2

Pouco passava das sete horas da manhã do dia seguinte quando Julian regressou a Maiden Hall. Se não tinha vasculhado todos os sítios possíveis, desde Consall Wood até Alport Height, o certo era que se sentia como se o tivesse feito. Lanterna numa mão, megafone na outra, agira maquinalmente. Seguira pelo trilho arborizado e coberto por um tapete de folhas, que começava em Wettonmill e continuava depois ao longo da encosta íngreme até Thor's Cave. Percorrera as margens do rio Manifold. Com a ajuda da lanterna, inspeccionara a encosta de Thorpe Cloud. Caminhara para sul, ao longo do rio Dove, até ao velho solar medieval de Norbury. Chegado à aldeia de Alton, fizera a pé uma parte do Caminho de Staffordshire. De carro, percorrera as estradas secundárias preferidas de Nicola, todas elas vias de sentido único. Passara em revista tantas quantas pudera, parando de vez em quando para chamar o nome dela através do megafone. Assinalando, deliberadamente, a sua presença em todos os lugares por onde passara, acordara ovelhas, fazendeiros e campistas durante as oito horas em que durara a sua busca. No seu íntimo, sabia que não tinha a mais pequena hipótese de a encontrar, mas pelo menos agia, em vez de ficar em casa, à espera, junto do telefone. Agora, que chegara ao fim das suas buscas, sentia-se ansioso e vazio.

E sentia fome, também. Teria comido uma perna de carneiro, se lha tivessem oferecido. Estranho, pensou. Ainda na noite anterior - arrasado pela ansiedade e pelos nervos - mal conseguira tocar no jantar. De facto, Samantha sentira-se algo aborrecida pela forma como ele apenas debicara o delicioso linguado amandine que ela preparara. Culpabilizara-se pela sua falta de apetite, e enquanto o pai o olhava de soslaio e comentava que um homem tinha outros apetites com que se preocupar, e que o nosso Julie ia de certeza fazer-o-que-todos- sabíamos-que-ia-fazer-e-com-quem-ia-fazê-lo precisamente naquela noite, Samantha contraíra os lábios e levantara a mesa.

Naquele momento, ter-se-ia banqueteado com um dos seus deliciosos pequenos-almoços, pensou Julian. Todavia... Bom, não parecia correcto pensar em comida - muito menos pedi-la - ainda que dentro de meia hora os hóspedes de Maiden Hall estivessem prontos para saborear tudo, desde cornflakes a arenques defumados.

Nas circunstâncias presentes, todavia, não precisava de se ter preocupado em saber se o desejo de comida era, ou não, correcto. Quando entrou na cozinha de Maiden Hall, viu um prato com ovos mexidos, cogumelos e salsichas ainda intacto em frente a Nan Maiden. Ela ofereceu-lho mal o viu, dizendo:

- Eles querem que eu coma, mas não sou capaz. Come tu, por favor. Deves estar a precisar de comer alguma coisa.

Eles eram o pessoal que fazia o primeiro turno da cozinha: duas mulheres naturais de Grindleford, a aldeia vizinha, que cozinhavam de manhã, período em que os sofisticados esforços culinários de Christian- Louis eram tão desnecessários quanto indesejáveis.

- Traz o prato, Julian.

Nan colocou um bule de café num tabuleiro, juntamente com canecas, leite e açúcar, e encaminhou-se para a sala de jantar.

Apenas uma mesa estava ocupada. Com um aceno de cabeça, Nan cumprimentou o casal que se sentara junto à janela envidraçada que dava para o jardim. Depois de lhes perguntar delicadamente se tinham tido uma boa noite e de ficar a saber quais eram os seus planos para aquele dia, veio juntar-se a julian na mesa que ele escolhera, perto da porta da cozinha.

O facto de nunca usar maquilhagem deixava Nan em desvantagem. Os seus olhos estavam aureolados por uma massa de carne azul-acinzentada. A pele, ligeiramente sardenta devido ao tempo que passava montada na bicicleta de montanha sempre que tinha uma hora livre para praticar algum exercício físico, evidenciava, pelo contrário, uma palidez extrema. Os lábios

- que há muito tinham perdido a coloração natural da juventude - estavam sulcados por linhas finas, sinistramente brancas, que começavam por baixo do nariz. Não tinha dormido. Quanto a isso não restavam dúvidas.

Mudara de roupa, todavia, aparentemente consciente de que a pro prietária de Maiden Hall jamais poderia descer para cumprimentar os seus hóspedes de manhã vestindo a mesma roupa com que os acolhera no jantar da véspera. Assim, o vestido elegante do dia anterior fora substituído por umas calças de montar e por uma blusa de bom corte.

Serviu uma chávena de café a ambos e ficou a ver Julian comer os ovos e os cogumelos.

- Fala-me do noivado - disse ela. - Preciso de alguma coisa que me impeça de pensar no pior.

Quando falou, as lágrimas tornaram os seus olhos mais brilhantes, mas ela não chorou.

Julian obrigou-se a imitar o controlo dela.

- Teve notícias de Andy?

- Ainda não voltou - rodeou a caneca com as mãos. A força com que rodeava a caneca era tal que os dedos - com as unhas roídas até ao sabugo, como de costume - estavam lívidos. - Fala-me sobre vocês dois, Julian. Por favor.

- Vai correr tudo bem.

A última coisa que Julian queria era ver-se obrigado a inventar um enredo em que ele e Nicola se apaixonavam como seres humanos comuns, tomavam consciência desse amor e com base nele construíam uma vida em conjunto. Seria incapaz de considerar a possibilidade de inventar uma mentira como aquela naquele momento.

- Ela está habituada a fazer caminhadas. E não saiu sem protecção.

- Eu sei disso. Mas não quero pensar no que significa o facto de não ter voltado para casa. Por isso fala-me sobre o noivado. Onde estavam quando a pediste em casamento? O que é que disseste? Que tipo de casamento vai ser? E quando?

Julian sentiu um arrepio quando percebeu o rumo bipartido dos pensamentos de Nan. Qualquer uma das alternativas tocava em assuntos em que ele não queria pensar. Uma empurrava-o para um caminho impensável. A outra apenas encorajava o aparecimento de novas mentiras.

Decidiu-se por um tema que ambos conheciam.

- Nicola tem feito caminhadas por esses montes fora desde que vocês vieram de Londres. Mesmo que esteja magoada, sabe o que tem de fazer enquanto não chegam socorros. - Espetou o garfo numa porção de ovo e cogumelos. - Ainda bem que tínhamos um encontro. Se não, só Deus sabe quando é que teríamos decidido sair para a procurar.

Nan desviou a vista, mas os seus olhos continuavam húmidos. Baixou a cabeça.

- Temos de ter esperança - continuou julie. - Ela está bem equipada. E não costuma entrar em pânico em situações complicadas ou de risco. Todos nós sabemos isso.

- Mas se ela caiu... ou se se perdeu numa das grutas... São coisas que acontecem, Julian. Sabes isso. Por mais bem preparada que uma pessoa esteja, às vezes o pior pode acontecer.

- Não temos provas de que tenha acontecido alguma coisa. Procurei apenas na zona sul do White Peak. Um homem sozinho é incapaz de percorrer toda aquela extensão numa só noite, no meio da mais completa escuridão. Ela pode estar em qualquer lado. Pode inclusivamente ter ido para o Dark Peak sem nos ter dito nada.

Não mencionou o pesadelo que representava para a Equipa de Busca e Salvamento sair em socorro de alguém que fosse, de facto, dado como desaparecido no Dark Peak. Afinal, não havia qualquer vantagem em destruir o precário equilíbrio emocional de Nan. Fosse como fosse, ela conhecia a realidade de Dark Peak, e não precisava que ele lhe lembrasse que enquanto uma rede de estradas facultava o acesso ao White Peak, a sua congénere situada a norte apenas podia ser atravessada a cavalo, a pé ou por helicóptero. Se alguém se perdesse ou ficasse ferido naquelas paragens, era costume recorrer à ajuda de cães de caça para o encontrar.

- Mas ela disse que casava contigo - declarou Nan, aparentemente falando mais para si própria do que para julian. - Não disse, Julian?

A pobre mulher parecia ansiosa por ouvir uma mentira e Julian descobriu que ele próprio estava igualmente desejoso de lhe fazer a vontade.

- Ainda não tinhamos chegado à fase do sim ou não. Era para isso que nos íamos encontrar ontem à noite.

- Ela... Ela estava contente? Só estou a perguntar, porque ela parecia ter... bom, ela parecia ter projectos e não estou muito certa de que...

Com cuidado, Julian espetou o garfo num cogumelo.

- Projectos?

- Julguei... Sim, era o que me parecia.

Ele olhou para Nan, que lhe devolveu o olhar. Foi ele quem acabou por pestanejar.

- Tanto quanto sei, Nicola não tinha quaisquer projectos - disse ele com voz firme.

A porta da cozinha entreabriu-se. O rosto de uma das mulheres de Grindleford surgiu por entre a fresta.

- Mrs. Maiden, Mr. Britton - cumprimentou, num sussurro. E inclinou a cabeça na direcção da cozinha. Estão a chamar-vos, parecia querer dizer.

Andy estava de frente para uma das bancadas da cozinha, cabeça baixa e o peso do corpo apoiado nas mãos. Quando a mulher pronunciou o seu nome, levantou a cabeça.

O seu rosto estava desfigurado pela exaustão, e as patilhas grisalhas prolongavam o bigode, projectando sombras sobre as faces. O cabelo grisalho estava despenteado, como se tivesse sido atingido por uma rajada de vento, ainda que naquela manhã não houvesse o mais pequeno vestígio de vento. Os seus olhos pousaram em Nan e depois desviaram-se. Julian preparou-se para ouvir o pior.

- O carro dela está estacionado à entrada de Calder Moor - disse Andy. A mulher cerrou os punhos e levou-os ao peito.

- Graças a Deus - desabafou ela.

Andy, no entanto, não olhou para ela. A expressão do seu rosto indicava que qualquer agradecimento era prematuro. Sabia o que Julian também sabia e o que a própria Nan poderia muito bem ter inferido se tivesse parado para avaliar as implicações sugeridas pela localização do Saab de Nicola. Calder Moor estendia-se ao longo de uma área imensa. Começava logo a oeste da estrada que ligava Blackwell a Brough e englobava extensões infindáveis de urze e giesta, quatro grutas, inúmeros dólmenes, fortes e túmulos que remontavam a uma época que ia do Paleolítico à Idade do Ferro, formações de arenito, grutas calcárias e fendas por entre as quais mais de um incauto caminheiro se tinha já esgueirado em busca de aventuras, acabando por ficar irremediavelmente preso. Julian sabia que era nisto que Andy estava a pensar ali, de pé, na cozinha, depois de uma noite inteira em busca de Nicola. Andy, no entanto, pensava em algo mais. Andy sabia algo mais, na verdade. E isso transpareceu inequivocamente na forma como se endireitou e começou a bater com os nós dos dedos de uma mão na palma da outra.

- Andy - pediu Julian. - Por amor de Deus, diga-nos. Andy olhou fixamente para a mulher.

- O carro não está na berma da estrada, como seria de esperar.

- Então, onde...

- Está escondido atrás de um muro, na estrada que vem de Sparrowpit.

- Mas isso é bom, não é? - perguntou Nan, ansiosa. - Se ela foi acampar, não terá querido deixar o Saab parado na estrada. Pelo menos, não num sítio onde alguém pudesse vê-lo e tentasse arrombá-lo.

- É verdade - assentiu ele. - Mas o carro não está sozinho.

E, lançando um olhar na direcção de Julian como se quisesse pedir desculpa por alguma coisa, continuou.

- Está ao lado de uma mota.

- Pode ser de alguém que tenha ido dar um passeio - sugeriu Julian.

- A uma hora destas? - Andy abanou a cabeça. - Estava húmida do orvalho da noite. Tal como o carro dela. Está lá há tanto tempo quanto o carro.

- Nesse caso, ela não foi para a charneca sozinha? - perguntou Nan. - Encontrou-se com alguém lá?

- Ou foi seguida - acrescentou Julian, em voz baixa.

- Vou chamar a polícia - disse Andy. - Eles hão-de querer chamar a Equipa de Busca e Salvamento agora.

Sempre que um paciente morria, Phoebe Neill tinha por hábito procurar conforto na terra. Geralmente, fazia-o sozinha. Vivera sozinha durante a maior parte da sua vida e não tinha medo da solidão. E ao conjugar a solidão com um regresso à terra encontrava consolo. Quando se encontrava em plena Natureza, nada que tivesse sido feito pelo homem se interpunha entre ela e o Criador Supremo. A terra permitia-lhe entrar em sintonia com o fim de uma vida e com a vontade de Deus, ciente de que o corpo que habitamos é apenas uma concha que nos une durante um período de existência temporal anterior à nossa entrada no mundo dos espíritos, onde iniciamos a etapa seguinte do nosso desenvolvimento.

Naquela quinta-feira de manhã, tudo era diferente. Sim, um dos seus pacientes morrera na véspera. Sim, Phoebe Neill virou-se para a terra em búsca de conforto. Nesta ocasião, porém, não viera sozinha. Trouxera consigo um cão de raça cruzada e linhagem duvidosa, o animal de estimação, agora órfão, do jovem cuja vida acabava de expirar.

Fora ela quem convencera Stephen Fairbrook a arranjar um cão como companhia durante o último ano da sua doença. Por isso, quando se tornara evidente que a vida de Stephen se aproximava rapidamente do seu fim, soube que conseguiria atenuar o sofrimento causado pela sua morte, se o tranquilizasse em relação à sorte do cão.

- Stevie, quando chegar a tua hora, não me importo nada de ficar com Benbow - dissera-lhe, uma manhã enquanto lavava o seu corpo esquelético e massajava os seus membros enfezados com a ajuda de uma loção. - Não quero que te preocupes com ele. Está bem?

Podes morrer neste preciso momento, foram as palavras que ficaram por dizer. Não porque palavras como morrer ou morte fossem impronunciáveis na presença de Stephen Fairbrook, mas sim porque desde que fora informado da doença que o afectava, desde que se submetera a incontáveis tratamentos e medicamentos num esforço para se manter vivo o tempo suficiente até que fosse descoberta uma cura, desde que vira o seu peso declinar, o cabelo cair e a pele cobrir-se do tom arroxeado das equimoses que se transformavam em feridas, palavras como morte e morrer haviam-se tornado velhas companheiras para ele. Não precisava de ser formalmente apresentado a convidados que já tinham entrado em sua casa.

Na última tarde de vida do seu dono, Benbow pressentira que Stephen estava a morrer. E hora após hora, o animal permanecera deitado em silêncio ao seu lado, mexendo-se apenas quando Stephen se mexia, o focinho pousado na mão de Stephen até ele os deixar. Na verdade, Benbow apercebera-se da morte de Stephen antes de Phoebe. Levantara-se, ganira, soltara um único uivo e depois calara-se. Em seguida procurara o conforto do seu cesto, e aí ficara até Phoebe ir buscá-lo.

Agora equilibrava-se nas patas traseiras, agitando vigorosamente a cauda felpuda enquanto Phoebe estacionava o carro numa área recolhida perto de um muro de pedra e pegava na sua trela. Ladrou uma vez. Phoebe sorriu.

- Pois é. Um passeio vai pôr-nos como novos, companheiro. Apeou-se. Benbow seguiu-a, saltando com agilidade para fora do Opel e farejando ansiosamente, focinho colado ao solo arenoso como um Hoover canino. Guiou Phoebe directamente até ao muro de pedra e farejou-o até encontrar uma passagem que lhe permitia ganhar acesso à charneca que se estendia do outro lado. Saltou-a sem dificuldade e quando estava no lado oposto parou para dar uma sacudidela. As orelhas espetaram-se e ele inclinou a cabeça. Soltou um latido sonoro, avisando Phoebe de que o que tinha realmente em mente era uma corrida solitária e não um passeio controlado pela trela.

- Não pode ser, meu velho - disse-lhe Phoebe. - Antes disso temos de tirar bem as medidas à charneca, combinado?

Era uma mulher prudente e superprotectora, o que resultava em qualidades excelentes quando se tinha de prestar cuidados de enfermagem ao domicílio a doentes que enfrentavam os seus últimos dias de vida, sobretudo aqueles cujo estado exigia uma vigilância redobrada. No entanto, quando se tratava de crianças ou de cães, Phoebe sabia intuitivamente que o seu desvelo natural, nascido de uma natureza prudente, teria gerado um animal temeroso ou uma criança rebelde. Por isso nunca tivera filhos - embora tivesse tido oportunidades para tal - nem cães.

- Espero cuidar bem de ti, Benbow - disse ela ao rafeiro. O cão levantou a cabeça para olhar para ela através do tufo de pêlo farfalhudo cor de cinza que lhe caía em desordem sobre os olhos. Tornou a virar-se na direcção da vasta charneca que se estendia diante deles, numa sucessão de campos de urze que se prolongavam por quilómetros e formavam um manto violeta que cobria o ondulado do terreno.

Se a urze fosse a única vegetação que cobria a charneca, Phoebe nem teria pensado duas vezes antes de deixar Benbow correr livremente. No entanto, a extensão de urze, aparentemente infinita, era ilusória para os mais inexperientes. Ancestrais pedreiras de calcário formavam lacunas inesperadas na paisagem, dentro das quais o cão poderia cair, e as cavernas, minas de chumbo e grutas, onde ele se poderia precipitar - sem que ela tivesse possibilidades de segui-lo -, constituíam um atractivo para qualquer animal, um atractivo com que Phoebe Neill não estava interessada em competir. Não se importava, no entanto, de permitir que Benbow farejasse livremente no meio de uma das muitas matas de vidoeiros, que cresciam irregularmente pela charneca, elevando-se como plumas em direcção ao céu. Assim, segurando a trela com firmeza começou a dirigir-se para noroeste, onde se encontravam as matas mais extensas.

Embora a manhã estivesse bonita, não se avistavam ainda outros caminheiros. A Oriente, o Sol ainda vinha baixo e a sombra de Phoebe estirava-se bem para a sua esquerda, como se desejasse seguir no encalço de um horizonte de cobalto saturado de nuvens tão brancas que passariam bem por cisnes gigantes adormecidos. O vento soprava fraco, era apenas uma brisa leve que agitava o corta-vento de Phoebe e afastava o pêlo emaranhado que escondia os olhos de Benbow. Phoebe não conseguia discernir nenhum cheiro impregnando a brisa, e os únicos sons consistiam nos ruídos ásperos produzidos por um bando de corvos, algures na charneca, e nos balidos longínquos de um rebanho de ovelhas.

Benbow continuou a farejar, procedendo a uma investigação nasal de cada centímetro do caminho e dos tufos de urze que cresciam nas bermas. Era um companheiro cooperante, tal como Phoebe descobrira ao longo dos três passeios diários que ambos costumavam dar depois de Stephen ter ficado totalmente confinado à cama. E uma vez que não tinha de o puxar nem travar a sua marcha, nem tão-pouco transmitir-lhe nenhum tipo de encorajamento, esta ida de ambos à charneca deixava-lhe tempo para rezar.

Não rezou por Stephen Fairbrook. Sabia que ele estava em paz, agora, muito para além da necessidade de uma intervenção - divina ou outra qualquer - no processo do inevitável. Rezou, sim, por uma maior compreensão. Queria saber por que razão uma calamidade se instalara no meio deles, ceifando a vida aos melhores, aos mais inteligentes e, muitasvezes, aos que mais tinham a oferecer. Queria saber que conclusão devia tirar das mortes de homens jovens que não eram culpados de nada, das mortes de crianças cujo único crime era terem nascido de mães infectadas, e das mortes dessas mães desafortunadas.

De início, Phoebe acreditara na existência obrigatória de uma mensagem na sinfonia de mortes em que colaborava nos últimos anos. Todavia, começava a descobrir que este tipo de morte possuía demasiados tentáculos e que estes procuravam enroscar-se tenazmente em torno de vítimas demasiado diferentes entre si para que fosse possível definir um padrão de incidência. Os anos de experiência tinham-lhe ensinado que a morte era perfeitamente imparcial, reclamando grandes e pequenos, seres importantes ou absolutamente insignificantes, ricos e pobres, fortes ou fracos. Fosse qual fosse o poder, o prestígio ou o potencial de um indivíduo, era impossível escapar à sombra da morte. Esta morte, no entanto, este fim em particular, durante o qual os médicos-bombeiros apagavam um incêndio apenas para serem confrontados com outro... Esta era a pior de todas.

Por isso caminhou e rezou. E quando Benbow quis apressar o passo, ela não ofereceu resistência. Caminharam, então, até ao coração da charneca, ora seguindo sem pressas por um trilho, ora mudando de direcção. Phoebe não estava preocupada com a possibilidade de se perder. Sabia que tinham iniciado a caminhada a sudeste de uma elevação calcária chamada Trono de Agrícola. Esta incluía as ruínas de uma grande fortaleza romana, uma visão varrida pelo vento cuja configuração fazia lembrar uma enorme cadeira que assinalava os limites da charneca. Quem avistasse o trono durante um passeio tinha poucas probabilidades de se perder.

Caminhavam há uma hora quando as orelhas de Benbow se arrebitaram e o seu comportamento se alterou. Parou de avançar alegremente e estacou de repente. Estirou o corpo e as patas traseiras. A cauda peluda imo bilizou-se, formando uma pluma imóvel, e da sua garganta saiu um latido baixo:

Phoebe examinou a paisagem que se estendia diante deles: a pequena mata de vidoeiros onde ela tencionava deixar que Benbow se divertisse.

- Esta agora - murmurou -, que espertalhão tu me saíste, Bennie. Estava profundamente surpreendida e de igual modo impressionada pela forma como o rafeiro fora capaz de ler as suas intenções. Em silêncio, prometera-lhe liberdade quando alcançassem a mata. E ali estava ela. O cão conhecia as intenções dela e estava ansioso por se libertar da trela.

- Não te censuro nem um bocadinho - disse Phoebe, enquanto se ajoelhava para desprender a trela presa à coleira. Enrolou a tira de cabedal entrançado na mão e pôs-se de pé com esforço enquanto o cão se lançava a toda a velocidade para o meio das árvores.

Phoebe seguiu-o, sorrindo ao ver o seu corpo compacto saltitando ao longo do trilho. Usava as patas como molas à medida que corria, elevando-se no solo com as quatro patas em simultâneo, como se quisesse levantar voo. Esquivou-se a uma imensa coluna de pedra calcária toscamente talhada que se encontrava nos limites da mata e desapareceu por entre os vidoeiros.

Era a entrada para Nine Sisters Henge, um monumento neolítico formado por taludes de terra que rodeavam nove pedras verticais de alturas diferentes. Reunidas cerca de 3500 a. C. o recinto e as pedras assinalavam um local destinado à celebração de rituais do homem pré-histórico. Nos tempos em que era utilizado, o monumento estava situado em terreno aberto, numa área desprovida dos carvalhos e amieiros que aí cresciam naturalmente. Agora, porém, estava escondido, envolto numa densa mata de vidoeiros, uma usurpação moderna da charneca que entretanto se formara.

Phoebe parou e olhou em volta. Para leste, o céu - liberto das nuvens que se acumulavam a Ocidente - deixava que o sol penetrasse livremente através das árvores. A casca que cobria os troncos estava branca como a neve, embora ornamentada por brechas em forma de diamante e da cor do café. A folhagem formava uma cortina verde cintilante agitada pela brisa matinal, que ocultava o ancestral círculo de pedras situado no centro da mata do olhar de um caminheiro inexperiente que desconhecesse a sua existência. Erecta, em frente aos vidoeiros, a pedra-sentinela era iluminada pela luz que incidia sobre ela obliquamente. O ângulo da luz obscurecia as suas marcas naturais, e à distância as sombras combinavam-se para desenhar um rosto, um austero guardião de segredos demasiado ancestrais para que pudessem sequer ser imaginados.

Enquanto examinava a pedra, um arrepio inusitado fez estremecer o corpo de Phoebe. Apesar da brisa, reinava o silêncio. O cão não emitia um único ruído, não se ouvia sequer o balido de uma ovelha perdida por entre as pedras, ou um chamamento de outros caminheiros atravessando a charneca. Tudo estava demasiado silencioso, pensou Phoebe. E deu consigo olhando em volta, incomodada por uma forte sensação de estar a ser observada.

Phoebe considerava-se uma mulher extremamente prática, nada dada a fantasias casuais ou a arroubos de imaginação. Sentiu, no entanto, uma necessidade súbita de se afastar daquele lugar e, por isso, chamou pelo cão. Não obteve resposta.

- Benbow! - chamou pela segunda vez. - Aqui. Vamos. Nada. O silêncio intensificou-se. A brisa sossegou. E Phoebe sentiu um arrepio na nuca.

Não queria aproximar-se da mata, mas não sabia porquê. Já tinha passeado em Nine Sisters em ocasiões anteriores. Fizera até um tranquilo piquenique naquele mesmo lugar, num bonito dia de Primavera. Naquela manhã, todavia, algo se passava naquele sítio.

Benbow soltou um latido sonoro e, subitamente, centenas de corvos elevaram-se nos ares, formando uma nuvem de ébano. Durante alguns instantes, bloquearam totalmente o céu, e a sombra que projectaram fez lembrar um punho colossal ondulando sobre a cabeça de Phoebe. Estremeceu ao ter a sensação nítida de que tinha sido marcada de alguma forma, tal como Caim antes de ter sido enviado para o Oriente.

Engoliu em seco e virou-se para a mata. Não tornara a ouvir Benbow, nem obtivera qualquer resposta ao seu chamamento. Apreensiva, Phoebe percorreu o trilho em passo rápido, passou pela pedra de calcário que guardava aquele lugar sagrado e entrou no meio das árvores.

Eram frondosas, mas com o passar dos anos os visitantes que ali acorriam tinham aberto um trilho entre elas. A erva, que crescia naturalmente na charneca, tinha sido aqui e ali achatada e esmagada contra o solo. Nas bermas, no entanto, parte da vegetação era formada por arbustos de arando, e a última orquídea silvestre de cor púrpura exalava o seu característico odor a gato, que perpassava a espessa e resistente erva que cobria a charneca. Foi aqui, debaixo das árvores, que Phoebe procurou Benbow, aproximando-se das pedras ancestrais. À sua volta, o silêncio era tão profundo que a sua presença parecia ser em si mesma um augúrio, mudo mas eloquente.

Então, à medida que se foi aproximando dos limites do círculo, Phoebe conseguiu finalmente tornar a ouvir o cão. Ele ganiu algures, depois emitiu um som que parecia ser algo entre um gemido e um rugido. Decididamente assustador.

Preocupada com a hipótese de ele poder ter encontrado alguém pouco receptivo aos seus avanços caninos, Phoebe caminhou apressadamente na direcção do som, atravessando as últimas árvores e entrando no círculo. Reparou de imediato num monte azul-vivo na base de uma das pedras verticais. Era para este monte que Benbow ladrava, recuando agora, pêlo eriçado e orelhas baixas, coladas ao crânio.

- O que é que se passa? - perguntou Phoebe, sobrepondo a sua voz ao ruído. - Que descobriste, companheiro?

Inquieta, passou as palmas das mãos pela saia e olhou em volta. A resposta à sua pergunta estava ao seu redor. Aquilo que o cão descobrira fora uma cena caótica. O centro do círculo de pedras estava juncado de penas brancas, e por todo o lado eram visíveis os detritos deixados por campistas irresponsáveis. Havia de tudo, desde uma tenda a um tacho e a uma mochila aberta, cujo conteúdo se encontrava espalhado pelo solo.

Phoebe aproximou-se do cão, atravessando toda aquela desordem. Queria tornar a prender Benbow e abandonar aquele lugar imediatamente.

- Benbow, aqui - chamou, e o cão soltou um latido ainda mais estridente. Jamais o tinha ouvido proferir um som idêntico.

Reparou que ele estava nitidamente perturbado pelo monte azul, que era a fonte das penas brancas que cobriam a clareira como asas de borboletas sacrificadas.

Era um saco-cama. E era do seu interior que tinham saído as penas, pois um rasgão no nylon que lhe servia de cobertura cuspiu mais penas brancas quando Phoebe tocou o saco-cama com o dedo do pé. De facto, quase todas as penas que formavam o forro tinham desaparecido. O que restava assemelhava-se a um encerado. O fecho estava completamente corrido e cobria alguma coisa, algo que estava a deixar o pobre cão aterrado.

Phoebe sentiu os joelhos trémulos, mas forçou-se a si mesma a continuar. Levantou a parte superior do saco- cama. Benbow recuou, permitindo que ela visse com clareza a cena medonha que se escondia sob o saco-cama.

Sangue. Mais do que ela jamais vira até então. Não era vermelho-vivo, pois era óbvio que estava em contacto com o ar havia já algumas horas. Phoebe, no entanto, não precisava de olhar para a cor para perceber o que tinha diante dos olhos.

- Meu Deus - e sentiu a cabeça a andar à roda.

Já tinha contemplado a morte nas suas múltiplas facetas, mas nunca vira nada tão macabro. Aos seus pés, estava um jovem, encolhido na posição fetal, vestido de preto da cabeça aos pés, a mesma cor que lhe tingia um dos lados do rosto, desde o olho até ao queixo. O cabelo cortado bem curto também era preto, tal como o rabo de cavalo que sobressaía do seu crânio. Tinha uma barbicha preta. As unhas das mãos eram pretas. Usava um anel de ónix e um brinco preto. A única cor que emprestava algum alívio a todo aquele preto - para além do saco-cama azul - era o magenta do sangue, visível por todo o lado: no chão, por baixo do corpo dele, jorrando de dezenas de feridas que lhe cobriam o tronco e lhe ensopavam as roupas.

Phoebe largou o saco-cama e afastou-se do corpo. Sentia-se quente. Sabia que estava prestes a desmaiar. Censurou- se a si própria pela sua falta de coragem.

- Benbow? - chamou, ouvindo o ladrar do cão sobrepor-se ao som da sua voz.

Ele nunca se calara. Quanto a ela, no entanto, quatro dos seus cinco sentidos tinham ficado dormentes pelo choque, aguçando e acentuando o desempenho do quinto: a visão.

Agarrou o cão e afastou-se, aos tropeções, de todo aquele horror.

O dia sofrera uma alteração radical com a chegada da polícia... Muito ao jeito do tempo que costumava fazer nos Peaks, uma manhã que despontara inundada de sol e coberta por um céu imaculado alcançara a maturidade imersa em nevoeiro. A bruma descia em vagas ondulantes sobre os cumes distantes de Kinder Scout, avançando lentamente através da charneca, vinda de noroeste. Quando os agentes da polícia de Buxton desenrolaram a fita que delimitaria a cena do crime, a neblina roçava já os seus ombros, como se fosse um espírito de visita àquelas paragens.

Antes de ir juntar-se à equipa que examinava o local do crime, o inspector Peter Hanken trocou algumas impressões com a mulher que descobrira o corpo. Estava sentada no assento traseiro de um veículo da polícia e tinha um cão sobre os joelhos. Habitualmente, Hanken gostava muito de cães. Ele próprio tinha dois setters irlandeses que o enchiam de orgulho e alegria quase tanto como os seus três filhos. Todavia, aquele rafeiro de aspecto patético, com o seu pêlo sarnento e desleixado e olhos cor de lama parecia um provável candidato ao matadouro para cães. E cheirava como um caixote de lixo abandonado ao sol.

Não que fizesse sol, o que apenas contribuía para o mau humor de Hanken. À sua volta tudo era cinzento - o céu, a paisagem e o cabelo grisalho da mulher idosa que tinha diante de si -, e cinzento era a cor que há muito tinha o poder de o deprimir mais depressa do que a suspeita das consequências que uma investigação de homicídio iriam ter nos seus planos para o fim-de-semana.

Falando por cima do tejadilho do carro, Hanken perguntou a Patty Stewart - uma agente com rosto em forma de coração e seios que alimen tavam desde há muito as fantasias de meia-dúzia de agentes mais jovens:

- Nome?

Stewart preencheu todos os espaços em branco com a sua competência habitual.

- Phoebe Neill. É enfermeira domiciliária. Vive em Sheffield.

- Que diabo andava ela a fazer por aqui?

- O doente que tinha a seu cargo morreu ontem à noite. Foi um golpe duro para ela. Trouxe o cão dele para um passeio pela zona. Ajuda, diz ela.

Hanken olhara a morte de frente inúmeras vezes desde que estava na polícia. E nada havia que ajudasse, dizia-lhe a experiência. Deu uma palmada no tejadilho do carro e abriu a porta, dizendo para Stewart, antes de entrar na viatura:

- Continue lá, então.

- Miss ou Mrs, como devo tratá-la? - perguntou depois de se apresentar à enfermeira.

O cão retorcia-se, tentando chegar-se à frente e fazendo pressão sobre as mãos dela que agarravam o peito do animal. Ela manteve-o naquela posição com mãos firmes.

- Ele não faz mal a ninguém - disse ela. - Se o deixar cheirar a sua mão... - e quando Hanken lhe fez a vontade, acrescentou: - Miss.

Inteirou-se dos pormenores, tentando ignorar o cheiro nauseabundo que o cão exalava. Quando se certificou de que ela não vira nenhum outro sinal de vida para além dos corvos que tinham abandonado o local como os verdadeiros saqueadores que eram, disse:

- Não tocou em nada, pois não? - e semicerrou os olhos quando ela corou.

- Sei qual é o procedimento correcto numa situação como esta. De vez em quando, acabamos por ver uma ou outra série policial na televisão. Só que, eu não sabia que havia um corpo debaixo do cobertor... mas não era nenhum cobertor, pois não? Era um saco-cama que tinha sido rasgado em mil pedaços. E havia lixo por todo o lado, suponho que...

- Lixo? - Hanken interrompeu-a, impaciente.

- Papéis. Material de campismo. Muitas penas brancas. Fragmentos e bocados por todo o lado.

A mulher sorriu, ansiosa por agradar, o que a tornava digna de pena.

- Não tocou em nada, pois não? - tornou a perguntar Hanken. Não. Claro que não tinha feito nada do género. À excepção do cobertor, no qual mexera. Só que não era um cobertor, pois não, mas sim um saco-cama. E era aí que estava o corpo. Por baixo do saco-cama. Tal como acabara de dizer.

Pois, pois, pois, pensou Hanken. Uma verdadeira estrela, era o que ela era... Estava, provavelmente, a viver o momento mais excitante de toda a sua vida e estava decidida a prolongar a experiência.

- E quando o vi... a ele... - pestanejou como se tivesse receio de chorar, reconhecendo, correctamente, o pouco crédito que Hanken atribuía a mulheres que se desfaziam em lágrimas. - Acredito em Deus, sabe, acredito que há um desígnio maior por detrás de tudo o que acontece. Mas quando uma pessoa morre de determinada maneira, considero que é um teste à minha fé. Não há dúvida que é.

Baixou o rosto aproximando-o da cabeça de Benbow. O cão contorceu-se e lambeu- lhe o nariz.

Hanken quis saber se ela precisava de alguma coisa, se desejava que a agente a acompanhasse até casa. Disse-lhe que, provavelmente, iriam querer

fazer-lhe mais perguntas. Não devia sair do país. Se viajasse para fora de Sheffield, deveria informá-lo do sítio onde poderia ser contactada. Não que pensasse que fosse precisar dela novamente. Mas o seu trabalho tinha certos requisitos que ele executava mecanicamente.

O local do crime era irritantemente remoto e apenas era possível lá chegar a pé, de bicicleta de montanha ou helicóptero. Perante as opções que se lhe apresentavam, Hanken decidira cobrar alguns dos favores que a Equipa de Busca e Salvamento estava a dever-lhe e conseguira desviar um helicóptero da RAF, que concluía as buscas a dois caminheiros perdidos no Dark Peak. Recorreu, depois, ao helicóptero em espera, para chegar a Nine Sisters Henge.

O nevoeiro não era denso - apenas húmido como o demónio - e no momento em que iniciaram a aproximação, conseguiu discernir o clarão de umflash à medida que o fotógrafo da polícia ia documentando o local do crime. A sudeste do arvoredo, juntara-se uma pequena multidão. O patologista e os biólogos forenses, alguns agentes uniformizados e as equipas de recolha de provas equipadas com as suas maletas, todos eles esperavam que o fotógrafo concluísse o seu trabalho. Aguardavam também a chegada de Hanken.

O inspector pediu ao piloto do helicóptero que sobrevoasse a mata de vidoeiros durante um minuto antes de aterrar. Sete metros e meio acima do solo - distância suficiente para não interferir com as provas -, viu o acampamento que tinha sido montado no interior da circunferência formada pelo antigo círculo de pedras. Uma pequena tenda azul formava uma cúpula junto do lado norte de uma das pedras, e, no centro do círculo, via-se uma fogueira negra como a pupila de um olho. No solo, havia um cobertor de emergência prateado e, perto dele, um tapete quadrado amarelo-vivo. O conteúdo de uma mochila preta e vermelha estava espalhado pelo chão e um pequeno fogão de campismo estava tombado de lado. Vista do ar, a cena não parecia tão terrível como realmente era, pensou Hanken. Era o efeito da distância, no entanto, que produzia uma falsa certeza de que tudo estava bem.

O helicóptero deixou-o a cerca de quarenta e cinco metros a sudeste do local do crime. Baixou-se para passar por baixo das asas e caminhou ao encontro da sua equipa, que o esperava em terra, no momento em que o fotógrafo da polícia saía da mata.

- Grande balbúrdia.

- Pois é. Esperem aqui - disse Hanken à equipa.

Bateu com a palma da mão na pedra calcária que assinalava a entrada da mata e, sozinho, começou a descer o trilho no meio das árvores, onde o nevoeiro se dissolvia em gotas que pingavam das folhas e caíam sobre os seus ombros.

À entrada de Nine Sisters, Hanken parou e deixou que o seu olhar vagueasse livremente. Agora que se encontrava em terra, viu que a tenda tinha tamanho suficiente para albergar uma pessoa, um facto que estava em consonância com os restantes artigos espalhados no interior do círculo: um saco-cama, uma mochila, um cobertor de emergência, um único tapete. Tudo o que não conseguira avistar do ar apresentava-se agora diante dos seus olhos. Uma pasta para mapas entreaberta, o conteúdo ligeiramente rasgado. Um único tapete amarrotado, junto à mochila solitária. Uma bota de montanha de tamanho pequeno tombara sobre os restos carbonizados da fogueira, no centro do círculo de pedras, enquanto a outra jazia algures nas proximidades. Humedecidas pelo orvalho, penas brancas colavam-se a todo o tipo de objectos.

Quando, por fim, se afastou da entrada, Hanken iniciou a sua habitual observação preliminar da cena do crime. Viu de perto cada artigo visível, examinando-os sem pensar em nenhuma explicação possível. Sabia que a maioria dos detectives começava por se ocupar imediatamente da vítima. Hanken, no entanto, acreditava que um corpo - morto de forma brutal - era uma visão suficientemente traumática para anestesiar não só os sentidos, mas também o intelecto, deixando as pessoas incapazes de ver a verdade, quando esta se apresentava abertamente diante dos seus olhos. Por isso, percorreu os objectos um a um, estudando-os sem os tocar. E assim procedeu ao seu exame inicial à tenda, à mochila, ao tapete, à pasta dos mapas e ao resto do equipamento - das peúgas ao sabão - disperso no interior do círculo de pedras. Deteve-se mais longamente numa camisa de flanela e nas botas. E quando se deu por satisfeito, concentrou-se no corpo.

Era um cadáver hediondo, de um rapaz que não teria mais de dezanove ou vinte anos. Era magro, quase esquelético, pulsos delicados e orelhas bem delineadas, pele tingida pela palidez macilenta da morte. Embora um dos lados do seu rosto estivesse muito queimado, Hanken conseguia ver que o rapaz tinha um nariz bem desenhado e uma boca bem delineada. Havia nele uma certa feminilidade que, aparentemente, tentara alterar deixando crescer uma barbicha negra e rala. Estava ensopado em sangue, que jorrava de inúmeros ferimentos, e por baixo de todo aquele caos usava apenas uma T-shirt preta e não tinha nenhuma camisola ou blusão. Os jeans, debotados, tinham passado do preto ao cinzento nos sítios onde as marcas de uso eram mais evidentes: ao longo das costuras, nos joelhos e fundilhos. Os pés, excessivamente grandes, estavam enfiados num par de botas pesadas. Doc Martens pelo aspecto delas.

Sob as botas, agora meio escondidas pelo saco-cama, que fora cuidadosamente afastado pelo fotógrafo da polícia para que pudesse fotografar o corpo, viam-se algumas folhas de papel manchadas de sangue e amolecidas pela neblina. Hanken baixou-se para examiná-las, separando-as cuidadosamente com a ponta de um lápis que tirara do bolso. Eram cartas anónimas, toscamente escritas, soletradas de forma criativa e formadas por letras e palavras recortadas de jornais e revistas. Tematicamente, eram todas do mesmo género: ameaças de morte, embora os meios sugeridos diferissem.

Hanken desviou o olhar dos papéis e pousou-o sobre o rapaz caído no chão. Interrogou-se sobre se seria razoável concluir que o destinatário destas cartas tivera o fim prenunciado nos bilhetes abandonados na cena do crime. A dedução teria parecido razoável, se o interior do velho círculo de pedras não contasse uma história diferente.

Hanken deixou o círculo e percorreu o trilho coberto por uma abóbada de vidoeiros.

- Façam uma busca ao perímetro - disse à sua equipa. - Estamos à procura de um segundo corpo.

 

                           CAPÍTULO 3

Barbara Havers, funcionária da New Scotland Yard, entrou no elevador e subiu até ao décimo segundo piso de Tower Block. Ali ficava a extensa biblioteca da Metropolitan Police, e ela sabia que aí estaria em segurança, rodeada por dezenas de obras de referência e relatórios de polícia. Precisava muito de segurança naquele momento. De privacidade também, e de tempo para se recompor.

Além de uma quantidade de volumes que ninguém seria capaz de contabilizar - e muito menos consultar - a biblioteca proporcionava a melhor vista de Londres, que não era possível desfrutar de nenhum outro ponto do edifício. A paisagem estendia-se para leste, envolvendo tudo, desde as torres neogóticas do edifício do Parlamento à margem sul do Tamisa. Para norte, a cúpula da Catedral de S. Paulo destacava-se no perfil da City. E num dia como aquele, em que o quente e resplandecente sol de Verão se transformava, finalmente, na luminosidade subtil do Outono, a amplitude da paisagem só por si adquiria uma importância secundária quando comparada com a beleza de tudo o que era tocado por essa luminosidade.

Ali, no décimo segundo piso, Barbara pensou que se se concentrasse na tarefa de identificar o maior número possível dos edifícios que se sucediam a seus pés, conseguiria acalmar- se e esquecer a humilhação por que acabara de passar.

Ao fim de três meses de suspensão, recebera, finalmente, um telefonema enigmático por volta das 7h30 daquela manhã. Era uma ordem, apresentada em forma de pedido. Pedia-se ao sargento Barbara Havers que se apresentasse no gabinete do comissário-adjunto Sir David Hillier, pelas 10h00. A voz soara escrupulosamente educada, procurando, de forma ainda mais escrupulosa, não trair nenhum conhecimento das razões subjacentes ao convite.

Barbara, no entanto, alimentava poucas dúvidas acerca da finalidade do encontro. Fora objecto de um inquérito levado a cabo pela Police Complaints Authority ao longo das últimas doze semanas, e quando o Crown Prosecution Service se recusara a aconselhar a interposição de qualquer procedimento legal contra ela, a engrenagem da divisão de assuntos internos da Metropolitan Police fora posta em marcha. Ouviram-se testemunhos sobre o seu comportamento. Registaram-se os depoimentos desses testemunhos. Examinaram-se e avaliaram-se provas: o motor potente de um barco, uma carabina MP5, e uma pistola semiautomática Glock. E há muito que o destino de Barbara estava para ser anunciado.

Por isso, quando o telefone finalmente soara, interrompendo-lhe o sono, cada vez mais irregular, já devia estar preparada. Afinal, ao longo de todo o Verão estivera ciente de que dois aspectos do seu comportamento estavam a ser examinados. Acusada de agressão e tentativa de homicídio e de insubordinação, acusações que iam desde o abuso de autoridade à não obediência a uma ordem, ela devia ter começado a pôr ordem na sua vida profissional antes que alguém, dotado de um mínimo de bom senso, tivesse precipitado a sua queda inelutável. Barbara, no entanto, trabalhava na polícia há quinze anos, e não conseguia imaginar- se a fazer outra coisa. Por isso, passara o período de tempo em que estivera suspensa a tentar convencer-se de que cada dia que passava sem que tivesse recebido notícias do seu despedimento aumentava as possibilidades de sair incólume da investigação. Não fora o caso, obviamente, e um agente mais realista teria percebido o que o esperava ao entrar no gabinete do comissário-adjunto.

Vestira-se com cuidado, trocando as habituais calças com cós de elástico por um saia-casaco. Era um caso perdido em matéria de roupa, pelo que a cor do fato que escolhera não a favorecia e o colar de pérolas falsas emprestava um toque grotesco que apenas sublinhava a grossura do seu pescoço. Os sapatos, ao menos, estavam engraxados. Todavia, ao sair do seu velho Mini, no parque de estacionamento subterrâneo da Yard, roçara a perna numa saliência metálica da porta do carro e o resultado fora um longo fio puxado nas meias.

Não que um par de meias intacto, uma jóia decente e um fato numa tonalidade que favorecesse mais o tom da sua pele pudesse alterar o inevitável. Com efeito, assim que entrara no gabinete do Comissário Hillier, com as suas quatro janelas atestando os cumes olímpicos a que ele lograra ascender, vira as palavras escritas na parede.

Todavia, não esperara que a punição fosse tão aviltante. O comissário-adjunto Hillier era um porco - sempre fora e assim continuaria até ao fim dos seus dias -, mas nunca até àquele momento Barbara se encontrara na posição de destinatário do seu particular conceito de disciplina. Aparentemente, ele era de opinião que uma severa repreensão não era suficiente para expressar o seu desagrado em relação à conduta dela. Tal como não era suficiente o envio de uma carta onde eram utilizadas expressões tão cáusticas como manchando a reputação de toda a Metropolitan Police, e desprestigiando o trabalho de milhares de profissionais e uma atitude de insubordinação vergonhosa sem precedentes na história da força, que seria colocada no seu processo permanente e que, ano após ano, poderia ser consultada por todos os superiores hierárquicos de Barbara. O comissário-adjunto Hillier sentira também necessidade de tecer os seus comentários pessoais sobre as actividades que tinham conduzido à sua suspensão. E sabendo que, na ausência de testemunhas, tinha toda a liberdade para repreender Barbara com a linguagem que muito bem lhe aprouvesse, Hillier incluíra nesses comentários o tipo de invectivas e insinuações perigosas e temerárias que outro agente subordinado - que tivesse menos a perder - podia perfeitamente ter interpretado como uma violação da fronteira que separava a vertente profissional da esfera pessoal. O comissário-adjunto, todavia, não era parvo. Sabia muito bem que, reconhecida pelo facto de a sua punição não implicar despedimento, Barbara adoptaria a atitude mais sensata e sujeitar-se-ia a tudo o que ele decidisse descarregar sobre ela.

Não era, no entanto, obrigada a gostar de ouvi-lo referir-se a ela como uma badalhoca estúpida e imbecil, e como uma anormalóide sem qualquer utilidade, Nem tinha de fingir que não se sentia afectada pelo facto de a sua aparência física, as suas inclinações sexuais e o seu potencial como mulher serem temas do desagradável monólogo de Hillier.

Por isso, ficara abalada. E enquanto permanecia de pé, junto à janela da biblioteca, contemplando os edifícios que se erguiam entre a New Scotland Yard e a Abadia de Westminster; tentava controlar o tremor que se apoderara das suas mãos. Tentava igualmente fazer desaparecer os acessos de náusea que a obrigavam a inspirar de forma ofegante, como se estivesse a afogar-se.

Um cigarro teria vindo a calhar, mas ao encaminhar-se para a biblioteca, onde ninguém conseguiria encontrá-la, dirigira-se também para um dos muitos locais da New Scotland Yard onde era proibido fumar. Noutros tempos teria acendido um cigarro sem se importar com as consequências. Agora, porém, não o faria.

- Mais uma desobediência e é o seu fim - gritara Hillier em jeito de conclusão, o rosto tingido de uma tonalidade castanho-avermelhada, igual ao tom da gravata que usava com o fato feito à medida.

O facto de a sua carreira na polícia não estar ainda acabada - tendo em conta o nível de animosidade demonstrado por Hillier - era um mistério para Barbara. Enquanto ele discursava, ela preparara-se para a inevitabilidade do seu despedimento. Este, porém, não acontecera. Fora repreendida, insultada e vilipendiada. Todavia, ao concluir o seu monólogo, Hillier não mencionara a sua saída. Que Hillier queria despedi-la tanto quanto queria insultá-la, era claro como água. O facto de não o ter feito significava que alguém com influência saíra em sua defesa.

Barbara queria sentir-se agradecida. Na verdade, sabia que devia estar agradecida. Naquele momento, porém, tudo o que era capaz de sentir era uma sensação avassaladora de traição, pelo facto de os seus superiores hierárquicos, o tribunal disciplinar e a Police Complaints Authority não terem visto a situação como ela a vira. Quando todos os factos estiverem reunidos, pensara, todos irão compreender que ela não tivera outra alternativa a não ser agarrar na arma que estava mais próxima e dispará- la para salvar uma vida. Mas não fora assim que as suas acções tinham sido interpretadas por quem detinha o poder. À excepção de uma pessoa. E ela quase que adivinhava de quem se tratava.

O inspector Thomas Lynley encontrava-se em lua-de-mel quando os problemas de Barbara começaram. Seu colega de longa data, regressara a casa depois de dez dias em Corfu na companhia da sua jovem mulher, e descobrira que Barbara fora suspensa e estava a ser alvo de uma investigação. Compreensivelmente perplexo, atravessara a cidade nessa mesma noite esperando ouvir uma explicação da boca da própria Barbara. Embora o início da conversa entre ambos tivesse decorrido com a calma e tranquilidade que ela desejava, Barbara nunca deixara de estar consciente de que, no final, o inspector Lynley jamais se deixaria ficar de braços cruzados e permitir que se cometesse uma injustiça.

Devia estar no seu gabinete naquele momento, à espera que ela fosse contar-lhe como correra o encontro com Hillier. Logo que estivesse recomposta, iria ter com ele.

Alguém entrou na biblioteca silenciosa.

- Estou a dizer-Lhe que ele nasceu em Glasgow, Bob - dizia uma mulher. - Lembro-me do caso, porque estava na escola e costumávamos fazer relatórios sobre assuntos da actualidade.

- És doida - replicou Bob. - Ele nasceu em Edimburgo.

- Em Glasgow - insistiu a mulher. - E vou prová-lo. Prová-lo significava fazer uma consulta na biblioteca. Prová-lo significava que a solidão de Barbara chegara ao fim.

Deixou a biblioteca e desceu pelas escadas, tentando ganhar um pouco mais de tempo para se recompor e encontrar as palavras certas para agradecer ao inspector Lynley o facto de ter intercedido a seu favor. Não conseguia imaginar como ele o fizera. Ele e Hillier mantinham uma relação conflituosa, por isso ele devia ter pedido um favor a alguém hierarquicamente superior a Hillier. Sabia que esta atitude devia ter constituído um rude golpe para o seu orgulho profissional. Um homem como Lynley não estava habituado a dirigir-se a quem quer que fosse de mão estendida. E apresentar-se de mão estendida perante aqueles que, abertamente, lhe invejavam a ascendência aristocrática devia ter sido particularmente difícil.

Encontrou-o no seu gabinete no Victoria Block. Estava ao telefone, de costas voltadas para a porta e cadeira virada de frente para a janela.

- Querida - dizia, num tom jovial -, se a tia Augusta decretou que a visita é obrigatória, não estou a ver de que maneira poderemos evitá- la.

É o mesmo que tentar deter um tufão... Hum, sim. Mas nós devemos con seguir impedi-la de mudar os móveis, já que a mãe concordou em vir com ela, não achas?

Ouviu e, em seguida, riu-se de algo que a mulher disse no outro lado do telefone.

- Bom, está bem. Anunciamos antecipadamente que o guarda-vestidos está fora de questão... Obrigada, Helen... Sim. As intenções dela são, de facto, as melhores.

Desligou e fez girar a cadeira, a fim de ficar de frente para a secretária. Viu Barbara junto à porta.

- Havers - disse num tom de surpresa. - Olá. Que faz por aqui, esta manhã?

Ela entrou, dizendo:

- Recebi notícias de Hillier.

- E?

- Uma carta no meu processo e um discurso de um quarto de hora que gostaria de esquecer. Basta pensar na propensão de Hillier para escolher a ocasião certa e tirar o máximo partido dela para ficar com uma ideia bastante exacta da forma como as coisas correram. Um autêntico vulcão, o nosso Dave.

- Lamento - retorquiu Lynley. - Nada mais, então? Um sermão e uma carta no seu processo?

- Não. Fui despromovida.

- Ah.

Lynley agarrou num recipiente magnético para clips, que estava em cima da secretária. Os seus dedos inquietos percorreram a superfície dos clips enquanto ele parecia recuperar a concentração.

- Podia ter sido pior. Podia ter-lhe custado tudo.

- Pois podia. Sim, eu sei. - Barbara esforçou-se por parecer alegre. Bem, Hillier divertiu-se. Não tenho dúvidas que irá reproduzir o discurso para os galifões durante o almoço com o comissário. A dada altura, pensei em mandá-lo à merda, mas contive-me. Ter-se-ia sentido orgulhoso de mim, inspector.

Ao ouvir as últimas palavras, Lynley afastou a cadeira da secretária e ficou de pé junto da janela, contemplando a vista desinteressante de Tower Block. Barbara viu um músculo latejar-lhe no maxilar. Preparava-se para se aventurar nos terrenos da gratidão - a incaracterística reserva dele indiciava o preço que tinha pago para interceder a seu favor - quando ele próprio introduziu o tema:

- Barbara, pergunto-me se você saberá o que terá sido necessário para impedir que fosse despedida. As reuniões, os telefonemas, os acordos, os compromissos.

- Foi o que imaginei. E era por isso que eu queria dizer...

- Tudo isso para impedir que você não tivesse o fim que metade da Scotland Yard acha que você bem merece.

Barbara mexeu-se, desconfortável.

- Senhor, eu sei que saiu em minha defesa. Sei que teria sido despedida se não tivesse intercedido por mim. E só queria dizer que lhe estou muito grata por ter reconhecido os meus actos exactamente pelo que eles foram. Queria dizer-lhe que não terá nenhuma razão para lamentar o facto de ter tomado o meu partido. Eu não Lhe darei razões para isso. A mais ninguém, aliás. Não darei razões a ninguém.

- Não fui eu - disse Lynley, virando-Lhe as costas.

Barbara fitou-o com um olhar inexpressivo.

- O senhor... O quê?

- Eu não tomei o seu partido, Barbara.

Depois da confissão, manteve os olhos fixos nos dela, o que só abonou em seu favor. Mais tarde, lembrar-se-ia deste pormenor e haveria de o admirar, por entre protestos. Aqueles olhos castanhos - tão gentis e tão contrastantes com a sua cabeleira loira - pousaram nela e assim ficaram, sem hesitações.

Barbara franziu as sobrancelhas, tentando assimilar o que ele dissera.

- Mas o senhor... conhece todos os factos. Eu contei-lhe a história. O senhor leu o relatório. Julguei... Acabou agora mesmo de falar das reuniões e dos telefonemas...

- Não fui eu que os fiz - atalhou ele. - A minha consciência não me permite deixar que você fique a pensar que fui eu.

Tirara, então, uma conclusão precipitada. Partira do princípio que os anos de trabalho conjunto significavam que Lynley tomaria, automaticamente, o seu partido.

- Está do lado deles, então? - perguntou ela.

- Eles? Quem são eles?

- Metade da Yard, que pensa que eu tive o que merecia. Só pergunto, porque suponho que ambos devemos saber o que cada um de nós pensa exactamente. Isto é, se vamos trabalhar...

As palavras começavam a sair em catadupa, por isso obrigou-se a falar mais devagar, a fim de soar decidida.

- Então, está ou não? Do lado deles? Dessa metade? Inspector?

Lynley tornou a aproximar-se da secretária e sentou-se. Observou- a. Ela não tinha qualquer dificuldade em ler a comiseração estampada no rosto dele. Só não conseguia descobrir qual era o seu destinatário. E isso assustava-a. Porque ele era o seu colega. Era o seu colega.

- Inspector? - insistiu.

- Não sei se estou do lado deles - respondeu ele.

Sentiu-se esvaziar. Dela, nada mais restava senão um pedaço de pele encarquilhada, jazendo tranquilamente no chão do gabinete.

Lynley deve tê-lo percebido, porque continuou num tom de voz que não deixava de ser amistoso.

- Analisei a situação de todos os ângulos possíveis. Durante todo o Verão, Barbara.

- Isso não faz parte do seu trabalho - retorquiu ela, inexpressivamente. - O senhor investiga homicídios, não... não aquilo que eu fiz.

- Eu queria compreender. Ainda quero. Pensei que se analisasse os factos sozinho, seria capaz de ver como tudo aconteceu, através dos seus olhos.

- Mas não conseguiu - Barbara tentou apagar a desilusão da sua voz. - Não conseguiu ver que estava em jogo uma vida. Não conseguiu entender que eu não era capaz de deixar que uma criança de oito anos morresse afogada.

- Não é essa a questão - disse Lynley. - Entendi isso e entendo-o agora. O que não fui capaz de perceber foi o facto de você estar fora da sua esfera de competências e de, tendo-lhe sido dada ordem para...

- Ela também - interrompeu Barbara. - Toda a gente estava. A polícia de Essex não patrulha o mar do Norte. E foi lá que tudo aconteceu. O senhor sabe isso. No mar.

- Sei isso, sim. Sei tudo. Acredite em mim. Eu sei. Que estava a perseguir um suspeito, que esse suspeito atirou uma criança borda fora, conheço também as ordens que lhe foram dadas no momento em que ele tomou essa atitude e a sua reacção quando ouviu a ordem.

- Não podia muito simplesmente atirar- lhe um colete salva-vidas, inspector. Ela não o teria agarrado. Teria morrido afogada.

- Barbara, ouça-me, por favor. Você não estava em posição - nem era responsabilidade sua - nem de tomar decisões, nem de tirar conclusões. É para isso que temos uma cadeia de comando. Discutir a ordem que lhe tinha sido dada já teria sido mau. Mas disparar uma arma de fogo contra um oficial superior...

- Suponho que esteja com medo que eu vá fazer-lhe o mesmo a seguir, se me apanhar numa situação idêntica - replicou, com azedume.

Lynley deixou que as palavras pairassem entre eles. No silêncio que se seguiu, Barbara deu consigo desejando estender a mão e apagar o que dissera, sabendo perfeitamente que não falara verdade.

- Lamento - disse, sentindo que a sua voz rouca a traía mais do que qualquer uma das atitudes que tinha tomado no início do Verão.

- Eu sei - retorquiu ele. - Eu sei que lamenta. Eu também lamento.

- Inspector Lynley?

A interrupção calma vinha da porta. Lynley e Barbara viraram-se na direcção da voz. Era Dorothea Harriman, secretária do superintendente da divisão. Bem penteada, o cabelo cor de mel armado num capacete, vestia um elegante fato às riscas que parecia saído de um anúncio de moda. Barbara sentiu imediatamente o que sempre sentia quando se encontrava na presença de Dorothea Harriman: um pesadelo em matéria de guarda-roupa.

- O que é que se passa, Dee? - Lynley perguntou à jovem.

- O superintendente Webberly - replicou Harriman - quer vê-lo. Logo que possível. Recebeu uma chamada das Operações Criminais. Passa-se qualquer coisa.

E saiu com uma olhadela e um aceno de cabeça na direcção de Barbara. Barbara aguardou. Apercebeu-se de que o seu pulso tinha começado a latejar dolorosamente. A convocatória de Webberly não podia ter acontecido em pior altura.

Passa-se qualquer coisa, fora a forma abreviada que Harriman utilizara para dizer que iam entrar novamente em acção. E, no passado, uma convocatória de Webberly precedia, em geral, um convite por parte do inspector para que ela o acompanhasse na descoberta do que se passava.

Barbara permaneceu em silêncio. Observava Lynley e aguardava. Sabia perfeitamente que os instantes que se seguiam determinariam a forma como ele encarava a parceria entre ambos.

Fora do gabinete, a actividade diária prosseguia sem alterações. O som de vozes ecoava ao longo do corredor, cujo chão era forrado a linóleo. Telefones soavam pelos vários departamentos. Iniciavam-se reuniões. Ali dentro, porém, Barbara tinha a sensação de que tanto ela como Lynley tinham passado para outra dimensão, uma dimensão em que estava em jogo muito mais do que o seu mero futuro profissional.

Ele levantou-se, por fim.

- Preciso de saber o que Webberly tem para me dizer.

- Quer que eu... - perguntou ela, apesar de a utilização da forma singular do pronome ter já dito tudo.

Descobriu, no entanto, que era incapaz de completar a pergunta, pois não conseguia enfrentar a resposta naquele momento. Por isso, fez outra pergunta.

- Que deseja que eu faça, senhor?

Ele reflectiu sobre a pergunta, desviando os olhos dos dela, e concentrando-se, aparentemente, na fotografia que estava dependurada ao lado da porta. Nela aparecia um jovem sorridente com um bastão de críquete na mão e um longo rasgão nas calças sujas de relva. Barbara sabia por que razão Lynley mantinha a fotografia no gabinete. Era uma forma de recordar diariamente o homem retratado e aquilo que Lynley lhe fizera numa viagem de carro, numa longínqua noite de farra. A maioria das pessoas esquece os acontecimentos desagradáveis, mas o inspector Lynley não era como a maioria das pessoas.

- Acho que é melhor adoptar uma atitude discreta durante algum tempo, Barbara - disse. - Deixar que a poeira assente. Deixar que as pessoas ultrapassem este assunto. Que o esqueçam.

Mas o senhor não o fará, pois não? perguntou ela em silêncio. A sua resposta, no entanto, foi um soturno:

- Sim, senhor.

- Sei que não é fácil para si - disse ele, e a sua voz soou tão afectuosa que ela teve vontade de gritar. - Mas de momento não tenho outra resposta para lhe dar. Oxalá tivesse.

E, uma vez mais, as únicas palavras que conseguiu articular foram:

- Inspector. Compreendo. Sim, senhor.

- Uma despromoção - disse Lynley quando entrou no gabinete do superintendente Malcolm Webberly. - Por consideração a si, não é verdade?

Webberly estava sentado atrás da secretária, fumando um charuto. Afortunadamente, mantivera a porta do gabinete fechada, poupando os restantes agentes, secretárias e funcionários ao contacto com o fumo que se libertava do tóxico cilindro de tabaco. Este gesto de consideração, todavia, em quase nada impedia quem quer que entrasse no gabinete de sentir e respirar a espiral de fumo. Lynley tentou inalar o menos possível. Com um movimento dos lábios e da língua, Webberly empurrou o charuto de um para o outro canto da boca. Esta foi a sua única resposta.

- Posso saber porquê? - perguntou Lynley. - Já arriscou a pele por outros colegas em ocasiões anteriores. Ninguém sabe isso melhor do que eu. Mas porquê fazê-lo neste caso, quando ele parece tão claro e inequívoco? E que preço terá de pagar por tê-la salvo?

- Todos conhecemos pessoas que nos devem favores - disse o superintendente. - Eu cobrei alguns deles. Havers procedeu mal, mas o seu coração estava certo.

Lynley franziu o sobrolho. Tentava chegar a esta conclusão desde que tomara conhecimento do infortúnio de Barbara Havers, mas fora incapaz disso. Sempre que se sentira perto de uma conclusão, os factos sucediam-se diante dos seus olhos exigindo confirmação. Ele próprio reunira alguns desses factos após uma deslocação a Essex, onde conversara com a pessoa envolvida. Depois de ter falado com ela, não conseguia compreender como - e menos ainda porquê - Webberly podia aceitar as razões apresentadas por Barbara Havers para justificar o facto de ter apontado uma arma contra a inspectora Emily Barlow. Pondo de parte a amizade pessoal que o unia a Havers, esquecendo até a questão elementar da existência de uma cadeia de comando, não teriam eles a responsabilidade de se interrogarem sobre o tipo de caos profissional que estariam a incentivar se prescindissem de punir um membro da corporação que protagonizara um acto tão eloquente?

- Mas disparar contra um elemento da polícia... Só o gesto de empunhar uma arma de fogo, quando não tinha qualquer autoridade...

Webberly suspirou.

- Estas coisas nunca são assim tão simples, Tommy. Oxalá fossem. Mas nunca são, de facto. A criança envolvida...

- A inspectora ordenou que Lhe fosse lançado um colete salva- vidas.

- Mas não havia a certeza de que a criança soubesse nadar. E além disso... - Webberly tirou o charuto da boca e, fitando a extremidade do mesmo, continuou: - Ela é a única filha de alguém. E Havers sabia-o, como é óbvio.

E Lynley sabia o que este facto significava para o seu superintendente. O próprio Webberly tinha uma só luz na sua vida: Miranda, a sua única filha.

- Barbara fica em dívida para consigo, senhor - disse.

- Hei-de fazer com que ma pague.

Webberly fez sinal para o bloco amarelo que tinha à sua frente. Um rápido olhar bastou para que Lynley visse os rabiscos de Webberly escritos a caneta de feltro preta.

- Andrew Maiden. Lembra-se dele? - perguntou Webberly. Ao ouvir a pergunta - o nome - Lynley sentou-se numa cadeira, perto da secretária de Webberly.

- Andy? - repetiu. - Claro que me lembro. Dificilmente poderia esquecer-me dele.

- Foi o que pensei.

- Uma única operação no 5010 e eu estraguei tudo. Um verdadeiro pesadelo.

5010 era a designação abreviada do Grupo de Operações Criminais, o mais secreto e reservado grupo de agentes da Met. Estes elementos eram responsáveis por negociações de reféns, protecção a testemunhas e jurados, organização de informadores e operações clandestinas. Em tempos, Lynley ambicionara fazer parte deste grupo. Aos vinte e seis anos, porém, não possuía nem o sangue-frio nem o talento necessários para adoptar outra personalidade que não a sua.

- Meses de preparação deitados à rua - recordou. - Julguei que Andy ia dar cabo de mim.

Mas Andy Maiden não o fizera. Não era o seu estilo. O agente do 5010 era um homem que sabia lidar com o fracasso e fora isso que fizera, não atribuindo culpas a quem as merecia, antes adaptando a sua actuação às necessidades do momento. Rapidamente, mandara retirar os seus homens da operação secreta e aguardara nova oportunidade para tornar a colocá- los, meses mais tarde, num momento em que poderia acompanhá-los e certificar-se de que nenhum indigno faux pas como o de Lynley poderia voltar a comprometer os seus esforços.

Chamavam-lhe Dominó - a Andy Maiden -, devido à enorme facilidade com que assumia qualquer personalidade, desde assassinos contratados a apoiantes americanos do IRA. Ao fim de algum tempo, a sua principal área de actuação passara a ser as operações de narcóticos. Antes disso, porém, fizera igualmente nome no submundo do crime organizado.

- Costumava cruzar-me com ele de tempos a tempos, no quarto andar - Lynley disse a Webberly. - Mas perdi o seu contacto desde que deixou a Met. Isso foi... quando? Dez anos?

- Há pouco mais de nove.

Maiden, disse Webberly, optara pela reforma antecipada e mudara-se para Derbyshire com a família. Aplicara as energias e as poupanças de uma vida inteira de trabalho na zona dos Peaks. Recuperara um velho pavilhão de caça e transformara-o num hotel rural chamado Maiden Hall. O sítio ideal para caminheiros, gente em férias, ciclistas de montanha, ou para aqueles que apenas procurassem passar uma noite agradável fora de casa e comer uma refeição decente.

Webberly indicou o bloco amarelo.

- Andy Maiden prendeu mais palhaços do que qualquer outro agente do 5010, Tommy.

- Não me surpreende que assim seja, inspector.

- Pois é. Bom, ele pediu que o ajudássemos e nós estamos em dívida para com ele.

- O que é que aconteceu?

- A filha dele foi assassinada nos Peaks. Tinha vinte e cinco anos e um sacana qualquer deixou-a no meio de nenhures, num sítio chamado Calder Moor.

- Meu Deus. Duro, isso. Lamento muito.

- Encontraram um segundo corpo. De um rapaz. E ninguém sabe quem diabo ele é. Não tinha identificação. A rapariga - Nicola - tinha ido acampar e estava devidamente equipada contra todas as eventualidades: chuva, nevoeiro, sol, o que quer que fosse. Mas o rapaz que foi encontrado no local não tinha nenhum tipo de equipamento com ele.

- Sabe-se como é que eles morreram?

- Nem uma palavra sobre isso.

E quando Lynley franziu o sobrolho numa expressão de surpresa, Webberly disse:

- Isto chegou às nossas mãos via 5010. Consegue lembrar-se de alguma vez em que estes sacanas se tenham mostrado rápidos e generosos no que toca a partilhar informações?

Lynley não conseguiu lembrar-se de nenhuma. Webberly continuou:

- Tudo o que sei é isto: o caso foi entregue ao CID de Buxton, mas Andy pede mais, e nós vamos dar-lhe o que ele está a pedir. Ele quer que seja você a conduzir a investigação.

- Eu?

- Exactamente. Você pode ter perdido o contacto dele ao longo dos anos, mas ao que parece ele não o perdeu de vista a si.

Webberly levou o charuto aos lábios, prendeu-o num dos cantos da boca e consultou o bloco.

- Uma patologista do Ministério do Interior está a caminho do local, a fim de proceder a uma investigação como mandam as regras, com bisturi e gravador. A autópsia deverá ser feita durante o dia de hoje. Você vai entrar na coutada de um tipo chamado Peter Hanken. Foi informado de que Andy é um dos nossos, mas nada mais.

Tornou a tirar o charuto da boca e fitou-o enquanto concluía, em vez de olhar para Lynley.

- Tommy, não vou estar com rodeios. O caso pode tornar-se feio. O facto de Maiden ter referido o seu nome especificamente... - Webberly hesitou antes de terminar. - Fique de olhos abertos e actue com precaução.

Lynley concordou. A situação era irregular. Não conseguia lembrar- se de outra ocasião em que o familiar de uma vítima de um crime tivesse sido autorizado a designar o agente que devia conduzir a investigação. O facto de tal procedimento ter sido permitido a Andy Maiden apontava para a existência de esferas de influência que facilmente poderiam vir a interferir com os esforços de Lynley para conduzir uma investigação sem sobressaltos.

Lynley não podia ocupar-se do caso sozinho e sabia que Webberly não esperaria que o fizesse. Era capaz de adivinhar, todavia, quem é que o superintendente nomearia, se tal lhe fosse permitido, para seu companheiro de equipa. Tratou de anular a possibilidade dessa nomeação. Ela ainda não estava preparada. E ele também não, pensando bem.

- Gostaria de verificar quem está de serviço e escolher alguém para me acompanhar - comunicou a Webberly. - Dado que Andy é um antigo agente do 5010, vamos precisar de alguém dotado de muita subtileza.

O superintendente olhou-o fixamente. Quinze segundos escoaram-se antes que ele falasse.

- Você melhor do que ninguém sabe com quem pode trabalhar, Tommy - disse, por fim.

- Sei sim, senhor. Obrigado.

Barbara Havers encaminhou-se para o refeitório que ficava no quarto piso do edifício. Comprou uma tigela de sopa de legumes, sentou- se a uma mesa e esforçou-se por comer, incapaz de deixar de imaginar a palavra pária pesando-lhe sobre os ombros, suspensa numa tabuleta que lhe cobria as costas. Comeu sozinha. Todos os cumprimentos que recebia de outros colegas pareciam imbuídos de uma silenciosa mensagem de desprezo. E embora se esforçasse por se animar à custa de um monólogo interior que comunicava ao seu ego diminuído que era impossível que alguém tivesse conhecimento da sua despromoção, da sua desgraça e da desagregação da sua equipa de trabalho, todas as conversas à sua volta - sobretudo as que eram agitadas por um coro de gargalhadas descontraídas - eram entendidas como conversas que zombavam dela.

Desistiu de comer a sopa. Desistiu de continuar na Yard. Assinou a folha de saída - uma ausência por doença era um argumento que seria inquestionavelmente bem recebido por aqueles que a viam como uma forma clara de contágio - e dirigiu-se para o Mini. Uma parte dela atribuía os seus actos a um misto de paranóia e estupidez. A outra estava enredada na repetição infindável do seu último encontro com Lynley, jogando o jogo do que-podia-queria-e-devia-ter- dito, depois de se ter inteirado do desfecho da reunião entre ele e Webberly.

Animada por este estado de espírito, deu consigo a conduzir ao longo de Millbank sem ter consciência do que fazia e sem tomar o caminho de casa. Com o corpo funcionando em piloto automático chegou a Grosvenor Road e Battersea Power Station embrenhada num exercício mental de punição do inspector Lynley. Sentia-se como um espelho estilhaçado, inútil mas perigoso devido às suas arestas afiadas. Como ele se tinha livrado dela facilmente, pensou com amargura. E como ela fora idiota, acreditando ao longo de semanas que ele estava do seu lado.

Obviamente, Lynley não achara suficiente que ela tivesse sido despromovida e humilhada por um homem que ambos odiavam havia anos. Parecia-lhe agora que ele também precisara de uma oportunidade para executar uma pequena acção de disciplina por conta própria. Na opinião dela, ele estava errado, errado, mil vezes errado, em relação à posição que assumira. E ela precisava, sem demoras, de um aliado que concordasse com o seu ponto de vista.

Rolando ao longo do Tamisa no meio do trânsito pouco congestionado do meio-dia, fazia uma ideia razoavelmente precisa do local onde poderia encontrar o aliado de que necessitava. Vivia em Chelsea, a pouco mais de um quilómetro de distância do sítio onde ela se encontrava naquele momento.

Simon St. James era o mais antigo dos amigos de Lynley, seu colega de escola dos tempos de Eton. Cientista forense e testemunha pericial, era regularmente chamado a depor, tanto pelos advogados de defesa como pelos advogados da Coroa para secundar uma ou outra parte de um caso criminal em que a condenação dependesse mais do conjunto de provas apresentadas do que de testemunhas oculares. Ao contrário de Lynley, era um homem sensato. Possuía a capacidade de se distanciar e observar de forma desinteressada e desapaixonada, sem se envolver pessoalmente nas situações que o rodeavam, por mais exasperantes que elas fossem. Era a pessoa com quem precisava de conversar naquele momento. Ele analisaria o comportamento de Lynley pelo que ele era exactamente.

O que Barbara não levou em consideração, envolvida como estava numa turbulenta ginástica mental, foi a possibilidade de St. James não estar sozinho na sua casa de Cheyne Row, em Chelsea. Todavia, o facto de a mulher também estar em casa - trabalhando na câmara escura contígua ao laboratório dele, no último andar da casa - não tornava a situação tão delicada quanto a presença da assistente habitual de St. James. E Barbara só se apercebeu de que a assistente habitual de St. James se encontrava presente no momento em que subia as escadas atrás de Joseph Cotter, sogro, mordomo, cozinheiro e faz-tudo do cientista.

- tão a trabalhar todos três, mas já tá na hora de fazerem um intervalo para almoçar e Lady Helen, pelo menos, vai ficar contente com a distracção. Ela gosta de comer a horas certas, sempre gostou. Casada ou não, nisso é que ela não muda.

Barbara hesitou no patamar do segundo andar.

- Helen está cá?

- tá, sim senhora - Cotter confirmou com um sorriso. - Dá gosto saber que algumas coisas nunca mudam, não é?

- Bolas - murmurou Barbara.

Com efeito, Helen era também condessa de Asherton, ela própria oriunda de uma família brasonada, mas mulher de Thomas Lynley que - embora não escondesse que preferia que assim não fosse - era a outra metade da equação Asherton: o conde oficial, cintado e trajado de veludo e arminho. Dificilmente Barbara podia esperar que St. James e a mulher fizessem coro com ela num rosário de críticas e lamentos quando a mulher do alvo de crítica se encontrava presente. Percebeu que era altura de se ir embora.

Preparava-se para sair apressadamente quando Helen apareceu no patamar do último andar, na direcção do laboratório, dizendo bem-humorada:

- Está bem, está bem. Vou buscar um rolo novo. Mas se te pusesses em sintonia com a década actual e substituísses a máquina por qualquer coisa mais moderna, nunca ficaríamos sem papel para faxe. Pensava que uma vez por outra reparasses nestas coisas, Simon.

Afastou-se da porta, começou a descer as escadas e viu Barbara no patamar do andar inferior. O seu rosto iluminou-se. Era um rosto encantador, não era bonito no sentido convencional do termo, mas tranquilo e radiante, emoldurado por uma sedosa cabeleira cor de avelã.

- Ora! Que surpresa maravilhosa! Simon. Deborah. Temos uma visita, por isso agora vão ter mesmo de parar para o almoço. Como está, Barbara? Porque não veio visitar-nos ao longo destas semanas?

Não havia alternativa a não ser juntar-se a ela. Barbara agradeceu a Cotter com um aceno de cabeça.

- Vou pôr mais um lugar na mesa, nesse caso - disse Cotter na direcção do laboratório, apressando-se a fazer o caminho de volta.

Barbara subiu as escadas e apertou a mão que Helen lhe estendia. O aperto de mão transformou-se num rápido beijo na face, uma recepção tão calorosa que levou Barbara a concluir que Lynley ainda não informara a mulher sobre o que se passara na Scotland Yard, naquele dia.

- Mas esta é uma coincidência fantástica - disse Helen. - Acaba de me salvar de uma estafa ao longo de King's Road em busca de papel para faxe. Estou esfomeada, mas a Barbara já conhece Simon. Porquê fazer uma interrupção por causa de uma coisa tão insignificante como uma refeição quando se tem oportunidade para mais umas horas de trabalho de escravo? Simon, importas-te de te afastar do microscópio, por favor? Está cá alguém muito mais interessante do que uma porção de fragmentos de unha.

Barbara seguiu Helen até ao laboratório onde St. James costumava analisar as provas, preparar relatórios e outros documentos profissionais e organizar os materiais de que necessitava para as suas recentes funções como docente no Royal College of Science. Naquele dia, parecia incarnar o papel de testemunha pericial, pois estava empoleirado num banco junto de uma das mesas de trabalho, reunindo diapositivos que retirava de dentro de um sobrescrito que tinha aberto previamente. Os mencionados fragmentos de unhas, concluiu Barbara.

St. James era um homem muito pouco atraente. Já não era o jogador de críquete sorridente, mas um homem afectado por uma deficiência e limitado por uma prótese na perna que lhe tolhia os movimentos. Os seus melhores traços fisionómicos eram o cabelo, que usava sempre mais comprido do que o normal e completamente alheio às tendências do momento, e os olhos, que variavam entre o cinzento e o azul em função das roupas que usava, em si mesmas inclassificáveis. Levantou os olhos do microscópio quando Barbara entrou no laboratório. O sorriso humanizava um rosto marcado e anguloso.

- Barbara! Olá.

Desceu do banco e atravessou a divisão para vir cumprimentá-la, avisando a mulher da chegada de Barbara. Uma porta abriu-se no extremo mais recuado do laboratório. Vestida com umas calças de ganga azuis, rasgadas aqui e ali, e uma T-shirt verde- azeitona, a mulher de St. James surgiu sob uma fileira de ampliações fotográficas suspensas numa corda esticada a todo o comprimento da câmara escura. A água pingava ainda das fotografias, molhando o chão forrado com um tapete de borracha.

Deborah estava com muito bom aspecto, reparou Barbara. O retomar da sua arte - em vez de passar o tempo a lamentar-se e a ruminar sobre os abortos sucessivos que tinham atormentado o seu casamento - estava, obviamente, a fazer-lhe bem. Era bom pensar que alguma coisa estava a correr bem a alguém.

- Olá - cumprimentou Barbara. - Estava aqui perto e... - olhou para o pulso e viu que se tinha esquecido do relógio em casa naquela manhã, com a pressa de chegar à Yard para a entrevista com Hillier. Baixou o braço.

- Na verdade, nem pensei nas horas. O almoço e tudo mais. Desculpem.

- Estávamos a preparar-nos para fazer uma pausa - disse St. James.

- Pode fazer-nos companhia.

Helen riu.

- A preparar-nos para fazer uma pausa? Que ultrajante casuística. Há pelo menos noventa minutos que estou a implorar por comida e tu nem ligaste.

Deborah olhou para ela, inexpressiva.

- Que horas são, Helen?

- És igual a Simon - Helen respondeu secamente.

- Almoça connosco, não é verdade? - St. James perguntou a Barbara.

- Acabei de comer qualquer coisa - respondeu ela. - Na Yard. Os três sabiam o que esta última frase significava. Barbara conseguia ver a conotação subjacente inscrita nos rostos deles. Foi Deborah quem falou.

- Então teve notícias, finalmente - disse, enquanto passava um conjunto de químicos dos tabuleiros onde se encontravam para dentro de grandes garrafas de plástico, que ia tirando da prateleira por baixo do ampliador fotográfico. - Foi por isso que veio até cá, não foi? O que é que aconteceu? Não. Nada de explicações ainda. Algo me diz que precisa de uma boa bebida. Vão descendo vocês três, está bem? Dêem-me dez minutos para arrumar as coisas aqui em cima e já vou ter convosco.

Descer significava ir para o escritório de Simon, e foi para lá que St. James conduziu Barbara e Helen, a primeira desejosa de que tivesse sido Helen e não Deborah que tivesse continuado a trabalhar no andar superior da casa. Pensou em negar que a sua passagem por Chelsea estava de algum modo relacionada com a Yard, mas percebeu que o tom da sua voz a tinha, provavelmente, denunciado. Era claro que ele nada tinha de efusivo.

Sob a janela que dava para Cheyne Row encontrava-se um velho carrinho de bebidas, e St. James serviu um xerez a ambas, enquanto Barbara se demorava na contemplação da parede onde Deborah tinha sempre pen durada uma colecção das suas fotografias, que ia mudando com regulari dade. Naquele dia, eram sobretudo exemplares da série em que trabalhara nos últimos nove meses: enormes ampliações de retratos em polaróide tirados em sítios como Covent Garden, Lincoln's Inn Fields, St. Botolph's Church e Spitalfields Market.

- Deborah vai expô-las? - perguntou Barbara, segurando no xerez que ele lhe tinha servido e tentando ganhar algum tempo.

Indicou as fotografias com um movimento de cabeça.

- Em Dezembro.

St. James entregou o xerez a Helen. Esta descalçou os sapatos e sentou-se num dos dois cadeirões de pele junto à lareira, escondendo as longas pernas debaixo do corpo. Barbara reparou que ela a olhava fixamente. Helen lia as pessoas como outras pessoas liam livros.

- O que é que se passou, então? - perguntou St. James, enquanto Barbara se afastava da parede onde estavam as fotografias e se encaminhava para a janela de onde observou a rua estreita. Nada havia ali que prendesse a sua atenção. Apenas uma árvore, uma fila de carros estacionados e uma fieira de casas, duas delas com a fachada tapada por andaimes. Barbara desejou ter seguido aquela actividade. Tendo em conta a frequência com que era utilizada em tudo o que fossem projectos de reconversão urbana e lavagem de janelas, fazer da montagem de andaimes uma carreira tê-la-ia mantido ocupada, longe de sarilhos e com uma carteira extremamente bem recheada de notas.

- Barbara? - chamou St. James. - Teve notícias da Yard esta manhã? Ela afastou-se da janela.

- Uma carta no meu processo e uma despromoção - replicou. St. James fez uma careta.

- Está de novo na rua, então?

Algo que já lhe tinha acontecido uma vez durante os últimos três anos de trabalho com Lynley, no que lhe parecera ser uma outra vida.

- Não exactamente - disse ela e passou a explicar, deixando de fora os pormenores mais desagradáveis da entrevista com Hillier e sem mencionar Lynley uma única vez.

Helen fê-lo por ela.

- E Tommy, já sabe disso? Esteve com ele, Barbara?

Ora, essa é que era a questão, pensou Barbara, soturnamente.

- Bom, sim - retorquiu. - O inspector está ao corrente. Uma linha fina formou-se entre os olhos de Helen. Pousou o copo na mesa ao lado da cadeira.

- Tenho um péssimo pressentimento acerca do que se passou. Barbara ficou surpreendida com a sua própria reacção à solidariedade discreta patente na voz de Helen. Sentiu um nó na garganta. Sentiu que estava a ter a reacção que podia ter tido no gabinete de Lynley na manhã daquele dia, se não tivesse ficado tão estupefacta quando, ao regressar da reunião com Webberly, ele lhe explicara que ia começar a trabalhar num caso. Não fora, no entanto, a nomeação dele para o caso que a deixara estupefacta e, momentaneamente, sem palavras. Fora o colega de trabalho que ele esco lhera para o acompanhar. Um colega que não era ela.

- É a melhor solução, Barbara - dissera ele, juntando uma série de documentos espalhados sobre a secretária.

E ela sufocara os protestos que gostaria de ter expresso, olhando-o fixamente, consciente de que nunca até àquele momento o conhecera realmente.

- Ele parece não estar de acordo com as conclusões da investigação interna - concluiu Barbara. - Com a despromoção e tudo o resto. Acho que ele pensa que eu não fui suficientemente castigada.

- Lamento muito - disse Helen. - Deve sentir-se como se tivesse perdido o seu melhor amigo.

Barbara sentiu um ardor nas pálpebras ao comprovar a autenticidade do sentimento de compaixão de Helen. De todos eles, Helen era a última pessoa de quem esperaria tal coisa. A solidariedade da mulher de Lynley deixou-a de tal modo comovida que deu consigo a gaguejar.

- É só que a decisão dele... de me substituir por... o que quero dizer é que... - procurou as palavras certas mas, em vez delas, encontrou apenas a mesma mágoa. - Foi como se me tivessem dado uma bofetada.

Tudo o que Lynley fizera fora claramente proceder a uma selecção entre os agentes que estavam disponíveis para trabalhar com ele no caso. O facto de a sua escolha constituir em si mesma um golpe para Barbara não era necessariamente um problema para ele.

O detective Winston Nkata realizara um bom trabalho nos dois casos passados na cidade em que trabalhara com Barbara e Lynley. Não era de estranhar que lhe fosse concedida uma oportunidade para exibir os seus dotes fora de Londres num tipo de missão especial que, anteriormente, fora atribuída a Barbara. Era impossível, no entanto, que Lynley ignorasse que Barbara via Nkata como a incarnação da rivalidade dentro da Yard. Oito anos mais novo do que ela, doze anos mais jovem do que o inspector, era mais ambicioso do que Lynley ou Barbara alguma vez tinham sido. Era um indivíduo motivado e cheio de iniciativa, um homem que antecipava as ordens antes de estas serem verbalizadas, parecendo cumpri-las com uma mão atada atrás das costas. Durante muito tempo, Barbara suspeitara que ele tentava sobressair aos olhos de Lynley, procurando superar os esforços que ela própria desenvolvia, a fim de a substituir junto do inspector.

Lynley sabia disto. Tinha de saber. Daí que a escolha de Nkata parecesse menos uma escolha lógica feita por um homem que avaliava os dotes de cada um dos seus subordinados, usando-os de acordo com as necessidades de um caso, e mais um caso de clara e evidente crueldade.

- Será que estamos perante mais um dos ataques de mau génio de Tommy? - perguntou St. James.

Mas não fora a raiva que estivera subjacente às acções de Lynley e, por mais desolada que se sentisse, Barbara jamais poderia acusá-lo disso.

- O que é que se passa?

Deborah veio ter com eles. Beijou carinhosamente o marido quando passou junto dele e foi servir-se de uma pequena dose de xerez.

A cena repetiu-se. Barbara contou-a, St. James foi acrescentando alguns pormenores e Helen ouviu silenciosa e pensativa. Tal como Lynley, o grupo estava ao corrente dos factos relacionados com a insubordinação de Barbara e a sua agressão a um superior. Ao contrário de Lynley, no entanto, pareciam capazes de ver a situação tal como Barbara a vira: inevitável, lamentável, mas amplamente justificada, a única via possível para uma mulher que, além de ter razão, se encontrava sob pressão.

St. James chegou até a dizer:

- Não tenho dúvidas de que Tommy acabará por aceitar o seu ponto de vista, Barbara. Mas é duro que tenha de passar por tudo isto.

As outras duas mulheres concordaram num murmúrio. Tudo isto devia ter sido intensamente gratificante. Afinal, a razão que levara Barbara a Chelsea fora a solidariedade deles. Descobriu, todavia, que esta reacção intensificava a sua mágoa e o sentimento de traição que desde logo a conduzira até Chelsea.

- Acho que tudo se resume a isto - disse: - O inspector quer alguém em quem ele saiba que pode confiar.

E apesar dos protestos que se seguiram por parte da mulher e dos amigos de Lynley, Barbara sabia que, naquele momento, ela estava longe de ser essa pessoa.

 

                         CAPÍTULO 4

Julian Britton conseguia imaginar com exactidão o que a prima estava a fazer no outro extremo da linha telefónica. Podia ouvir uma pancada ritmada pontuando-lhe as frases, e este som comunicou-lhe que ela se encontrava na velha e mal iluminada cozinha de Broughton Manor, cortando alguns dos legumes que plantara ao fundo de um dos jardins.

- Não disse que não estava disposta a ajudar-te, Julian. O comentário de Samantha foi acompanhado por nova pancada que soou mais enérgica do que as anteriores.

- Apenas perguntei o que se passava. Não há nada de mal nisso, pois não?

Não queria responder. Não queria dizer-Lhe o que se estava a passar. Samantha, afinal, nunca escondera a aversão que sentia por Nicola Maiden.

Que podia ele dizer, então? Pouco. Quando a polícia de Buxton concluíra que seria do interesse deles telefonar para o quartel- general da polícia em Ripley, depois de Ripley ter enviado duas unidades móveis para examinar o local em que o Saab de Nicola e a velha motocicleta Triumph estavam estacionados, e depois de Ripley e Buxton terem ambos chegado à conclusão óbvia de que era necessário chamar a Equipa de Busca e Salvamento, uma velhota que saíra para um passeio matinal com o cão chegara em alvoroço ao vilarejo de Peak Forest, batera a uma porta e contara uma história sobre um corpo que encontrara em Nine Sisters Henge. A polícia dirigira-se de imediato para o local, mantendo a equipa em alerta, aguardando instruções no local de encontro. Quando estas chegaram, eram suficientemente nefastas: a intervenção da Equipa não seria necessária.

Julian sabia de tudo isto, porque como membro da Equipa de Busca e Salvamento, também ele se dirigira para o local de encontro habitual, mal tivera conhecimento da convocatória transmitida nessa manhã por Samantha, que atendera o telefonema enquanto ele estivera ausente de Broughton Manor. Rodeado pelos companheiros da equipa, verificava o equipamento enquanto o chefe lia uma lista de controlo, quando soara o telemóvel. A verificação de equipamento fora primeiramente interrompida e depois cancelada. O chefe de equipa transmitira a informação recebida: a velhota, o cão, o passeio matinal de ambos, o corpo, Nine Sisters Henge.

Julian regressara imediatamente a Maiden Hall, desejoso de ser ele a dar a notícia a Andy e a Nan antes que eles se inteirassem de tudo pela polícia. Tencionava dizer que se tratava apenas de um corpo. Nada havia que indicasse que esse corpo era o de Nicola.

Ao chegar, no entanto, vira um carro estacionado em frente do hotel. E quando se precipitara para o interior, encontrara Andy e Nan no salão, num canto onde as vidraças em forma de losango de uma enorme janela saliente projectavam um arco-íris em miniatura na parede. Junto deles estava um polícia uniformizado. Os seus rostos estavam pálidos. Nan agarrava o braço de Andy, os dedos abrindo sulcos fundos na manga da camisa de flanela axadrezada do marido. Andy olhava fixamente para a mesinha que estava entre eles e o polícia.

Os três ergueram os olhos quando Julian entrara.

- Peço desculpa, senhor - dissera o polícia. - Não se importa de conceder a Mr. e a Mrs. Maiden alguns minutos...

Julian percebeu que o agente o tomara por um dos hóspedes de Maiden Hall. Nan explicara a sua ligação à família, identificando-o como o noivo da minha filha".

- Acabaram de ficar noivos. Entra, Julian.

Estendera a mão na direcção dele e puxara-o para o sofá, de modo que ficaram os três sentados, juntos, como a família que não eram e nunca poderiam vir a ser.

O polícia chegava, naquele momento, à parte inquietante da história. O corpo de uma mulher fora encontrado na charneca. Podia ser a filha dos Maiden, que se encontrava desaparecida. Tinha muita pena, mas um deles teria de o acompanhar até Buxton para uma identificação do corpo.

- Deixem-me ir a mim - dissera Julian, impulsivamente. Parecia inconcebível que qualquer um dos pais de Nicola tivesse de se submeter a uma tarefa tão dolorosa. Na verdade, parecia inconcebível que a identificação do corpo de Nicola pudesse ser feita por outra pessoa que não ele próprio: o homem que a amava, que a desejava e que tentara mudar a vida dela.

O agente informara que, infelizmente, tinha de ser um dos membros da família. Quando Julian se oferecera para acompanhar Andy, este hesitara. Era preciso que alguém ficasse com Nan, disse. E, dirigindo-se à mulher:

- Eu telefono de Buxton, se... se...

Fora fiel à sua palavra. O telefonema só chegara passadas algumas horas, em virtude do tempo necessário para trazer o corpo da charneca para o hospital, onde seria realizada a autópsia. No entanto, depois de ter visto o corpo da jovem, telefonara.

Nan não se deixara abater como Julian pensara.

- Oh, não - dissera, passando o telefone a Julian e saindo de casa a correr.

Julian falara com Andy apenas o tempo suficiente para ouvir de viva voz a verdade que já conhecia. Em seguida saíra à procura da mãe de Nicola. Encontrara-a de joelhos no herbário de Christian-Louis, nas traseiras da cozinha de Maiden Hall. Juntava mãos-cheias de terra recentemente regada, amontoando-as à sua volta como se desejasse enterrar-se a si própria.

- Não, não - dizia.

Mas não chorava.

Debatera-se quando Julian colocara as mãos sobre os ombros dela e tentara pô-la de pé. Nunca imaginara que uma mulher tão pequena como ela pudesse ser tão forte, pelo que teve de gritar por ajuda. As duas mulheres de Grindleford saíram da cozinha a correr. Juntamente com Julian conseguiram levar Nan para dentro de casa e conduzi-la até ao andar superior, subindo pelas escadas de serviço. Com a ajuda de ambas, Julian conseguira fazê-la beber duas doses de brandy. E fora nesse momento que ela começara a chorar.

- Tenho de... - gritara. - Dêem-me alguma coisa para fazer. Esta última palavra soara como um lamento arrepiante. Julian sentira-se ultrapassado pela situação. Ela precisava de um médico. Dirigira-se ao telefone para chamar um. Podia ter deixado isso a cargo do par de Grindleford. A decisão de telefonar ao médico, no entanto, fora uma maneira de o afastar de Nan e do quarto de dormir de Andy, um espaço subitamente exíguo e confinado que Julian sentira que se deixasse passar mais um minuto que fosse seria incapaz de respirar.

Descera, então, as escadas e pegara no telefone. Ligara para um médico. Depois, telefonara finalmente para Broughton Manor e falara com a prima.

Adequadas ou não, as perguntas de Samantha eram lógicas. Ele não voltara a casa na noite anterior, como a prima obviamente concluíra pela sua ausência, nada habitual, à mesa do pequeno-almoço. Era meio-dia. Ele estava a pedir-lhe que se encarregasse de uma das tarefas que eram da sua exclusiva responsabilidade. Era natural que ela quisesse saber o que desencadeara um comportamento tão incaracterístico quanto misterioso da parte dele.

Todavia, não queria dizer-lhe nada. Falar-lhe sobre a morte de Nicola era algo que não era capaz de fazer naquele momento. Por isso, disse:

- Houve uma emergência em Maiden Hall, Sam. Tenho de ficar por aqui. Tratas, então, dos cachorros?

- Que tipo de emergência?

- Sam... vá lá. Fazes-me esse favor?

Cass, a sua lebreira premiada tinha parido recentemente, e tanto os cachorros como a sua progenitora precisavam de vigilância.

Sam conhecia a rotina. Vira-o executá-la vezes suficientes. Chegara até a ajudá-lo em determinadas ocasiões. Não estava, por isso, a pedir-Lhe que fizesse o impossível ou até mesmo algo inusitado ou desconhecido. Começava a tornar-se claro, no entanto, que ela não lhe iria fazer a vontade sem que ele lhe revelasse as razões por que estava a pedir-lhe que o fizesse.

- Nicola desapareceu - revelou, por fim. - A mãe e o pai estão desesperados. Tenho de ficar por aqui.

- O que é que queres dizer com desapareceu"?

A pancada funcionou como sinal de pontuação. Estaria, provavelmente, junto da bancada de madeira que ficava sob a única janela da cozinha, que chegava até ao tecto, onde gerações de facas tinham cortado legumes, abrindo um veio pouco fundo na superfície de carvalho.

- Desapareceu. Saiu para uma caminhada na terça-feira. Devia ter voltado ontem à noite e não apareceu.

- O mais provável é que tenha encontrado alguém - declarou Samantha, dando mostras do espírito prático que lhe era característico. O Verão ainda não acabou. Ainda há milhares de pessoas nos Peaks. Mas, afinal, como é que ela pode ter desaparecido? Vocês não tinham combinado um encontro?

- É precisamente por causa disso - disse Julian. - Tínhamos, de facto, um encontro combinado, e ela não estava cá quando vim buscá-la.

- O que não é de admirar - referiu Samantha.

O comentário fê-lo desejar que ela estivesse na sua frente para que ele pudesse esbofetear-lhe o rosto sardento.

- Que diabo, Sam.

Ela deve ter percebido que ele estava à beira da ruptura.

- Desculpa - disse ela. - Vou fazer o que me pediste. Qual é o cão?

- O único que teve cachorros há pouco tempo. Cass.

- Está bem - nova pancada. - O que é que eu digo ao teu pai?

- Não precisas de lhe dizer nada - disse Julian.

A última coisa que ele queria ouvir eram as opiniões de Jeremy Britton sobre o assunto.

- Bom, deduzo então que não vens almoçar, não é verdade? A pergunta estava impregnada daquele tom particular que roçava a acusação: um misto de impaciência, desilusão e raiva.

- O mais certo é que o teu pai queira saber as razões da tua ausência, Julie.

- Diz-lhe que fui convocado para uma operação de busca e salvamento.

- A meio da noite? Uma operação de busca e salvamento nas montanhas dificilmente será razão suficiente para explicar a tua ausência à mesa do pequeno-almoço.

- Se o pai estava com ressaca - o que, como já reparaste, é hábito - duvido que a minha ausência ao pequeno-almoço tenha sido notada. Se ele estiver em estado de se aperceber de que não estou presente à hora de almoço, diz-lhe que fui chamado a meio da manhã.

- Como? Se não estavas cá para atender a chamada...

- Que diabo, Samantha, queres parar com isso? Estou-me nas tintas para o que lhe vais dizer. Trata-me é dos cães, está bem?

As pancadas cessaram. A voz de Samantha alterou-se. A aspereza suavizou-se, deixando no seu lugar apologia, dissimulação e mágoa.

- Só estou a tentar fazer o que é melhor para a família.

- Eu sei. Desculpa-me. És um amor. E nós nunca nos safaríamos sem ti. Eu não me safaria.

- Fico sempre contente por fazer o que posso.

Então, faz o que te estou a pedir sem fazer disto um maldito caso de tribunal, pensou ele. Tudo o que disse, no entanto, foi:

- O livro de registos dos cães está na primeira gaveta da minha secretária. A que está no meu escritório, não a da biblioteca.

- A secretária da biblioteca foi vendida em leilão - lembrou ela. Desta vez, percebeu a mensagem subjacente: a situação financeira da família Britton era periclitante. Estaria Julian realmente interessado em pô-la ainda mais em risco, empenhando o seu tempo e energia noutra tarefa que não fosse a reabilitação de Broughton Manor?

- Sim, claro. Como queiras - respondeu Julian. - Tem paciência com Cass. Ela vai reagir protectoramente em relação às crias.

- Acho que a esta altura ela já me conhece bem.

Será que alguma vez chegamos a conhecer alguém? interrogou-se Julian. Desligou. Pouco depois, chegou o médico. Ele quis dar um sedativo a Nan Maiden, mas ela não deixou. Não, desde que isso significasse deixar que Andy enfrentasse sozinho as primeiras e terríveis horas de perda. O médico deixou, então, uma receita, que uma das mulheres de Grindleford se apressou a aviar em Hathersage, onde ficava a farmácia mais próxima. Julian e a segunda mulher de Grindleford ficaram a tomar conta de Maiden Hall.

Foi, na melhor das hipóteses, um esforço precário. Havia alguns hóspedes que queriam almoçar, bem como pessoas que, não estando ali hospedadas, tinham visto a indicação do restaurante na estrada que atravessava o vale profundo e, inocentemente, tinham feito o percurso pela estrada serpenteante na esperança de comer uma boa refeição. As empregadas de mesa não tinham experiência de cozinha e o pessoal de limpeza tinha de se ocupar dos quartos. Assim, coube a Julian e à sua companheira de Grindleford desempenhar as tarefas que habitualmente estavam a cargo de Andy e Nan Maiden: sanduíches, sopa, fruta fresca, salmão defumado, pâté, saladas... Ao fim de cinco minutos, Julian sentia-se completamente perdido, e foi só

quando alguém sugeriu que se chamasse Christian-Louis, no preciso momento em que Julian quase deixava cair um prato de salmão defumado, que ele compreendeu que havia uma alternativa para a opção de tentar comandar o navio sozinho.

Christian-Louis chegou envolto numa grande agitação e precedido de uma torrente de francês ininteligível. Sem qualquer cerimónia, expulsou todos da sua cozinha. Um quarto de hora mais tarde, Andy Maiden regressou. A sua palidez era marcante, mais acentuada do que antes.

- Nan? - perguntou a Julian.

- Está lá em cima.

Julian tentou ler a resposta antes de fazer a pergunta. Mas fê-la, de qualquer maneira.

- O que é que aconteceu?

Em resposta, Andy virou-lhe as costas e começou a subir as escadas, em passo pesado. Julian seguiu-o.

O homem mais velho não se dirigiu ao quarto que partilhava com a mulher. Em vez disso, entrou no cubículo ao lado do quarto, uma parte do sótão que tinha sido transformada num pequeno escritório. Sentou-se em frente a um móvel antigo de mogno. Tinha uma gaveta encaixada, que ele puxou e baixou para formar um tampo de mesa. Tirava um rolo de papel de dentro de um dos três cubículos quando Nan entrou.

Ninguém conseguira persuadi-la a tomar banho ou a mudar de roupa, por isso tinha as mãos sujas e as joelheiras das calças manchadas de terra. O cabelo estava desgrenhado, como se tivesse estado a repuxá-lo.

- O quê? - perguntou. - Conta-me, Andy. O que é que aconteceu? Andy alisou o papel sobre a superfície plana formada pela gaveta da secretária. Prendeu o cabeçalho da folha com uma Bíblia e a parte de baixo com o seu braço esquerdo.

- Andy? - insistiu Nan. - Conta-me. Diz qualquer coisa. Pegou numa borracha. Era achatada e exibia as marcas escuras de centenas de apagadelas. Inclinou-se e começou a trabalhar. E quando ele se mexeu, Julian conseguiu ver o conteúdo do papel.

Era uma árvore genealógica. No topo estavam impressos os nomes Maiden e Lleruelyn e a data 1722. Em baixo, apareciam os nomes Andrew, Josephine, Mark e Philip. Juntamente com estes, os nomes das respectivas mulheres e, por baixo, a descendência de cada um. Havia um único nome por baixo de Andrew e Nancy Maiden, embora tivesse sido deixado um espaço em branco para o marido de Nicola, enquanto três pequenas linhas sob o nome da filha testemunhavam as esperanças que Andy depositava no futuro da sua família mais próxima.

Andy pigarreou. Pareceu olhar fixamente para a genealogia que tinha diante dos olhos. Ou talvez estivesse apenas a reunir coragem.

com efeito, apagou as marcas de consanguinidade reservadas a uma geração futura. E depois de o ter feito pegou numa caneta de aparo, molhou-a no tinteiro e começou a escrever por baixo do nome da filha. Formou dois parênteses bem desenhados. No seu interior, escreveu a letra e, em seguida, o ano.

Nan começou a chorar.

Julian descobriu que não conseguia respirar.

- Fractura craniana - foram as únicas palavras de Andy.

O inspector Peter Hanken não se sentira nada satisfeito quando o seu comandante o informara que a New Scotland Yard ia enviar uma equipa para auxiliar na investigação das mortes de Calder Moor. Natural do Peak District, alimentava uma intrínseca desconfiança em relação a todos os que estivessem a sul dos Peninos ou a norte do Deer Hill Reservoir. Filho primogénito de um operário de uma pedreira de Wirksworth, sentia uma antipatia igualmente intrínseca em relação a todos os que a sociedade de classes em que viviam ditava que devia considerar como socialmente superiores. Os dois agentes da equipa da Scotland Yard conquistaram, assim, a sua dupla animosidade.

Um era um inspector chamado Lynley, um tipo bronzeado, bem constituído e com uma cabeleira tão loura que só podia ser o resultado de um frasco de lixívia. Tinha ombros de remador e voz de quem frequentara uma escola privada. Vestia-se na Savile Row, Jermyn Street e o perfume a dinheiro antigo assentava-Lhe como uma segunda pele. Que diabo faria ele numa força policial? interrogava-se Hanken.

O outro era um negro, um detective chamado Winston Nkata. Era tão alto como o seu superior hierárquico, mas com uma força mais tênsil do que muscular. Tinha uma longa cicatriz facial que fez Hanken lembrar-se dos ritos de iniciação por que passavam os jovens africanos. De facto, à excepção da voz, que soava como uma curiosa mistura de sonoridades africanas, antilhanas e da margem sul do Tamisa, ele evocava a figura de um guerreiro tribal. O seu ar confiante deixava entrever que passara por rituais de fogo e não deixara os seus créditos por mãos alheias.

Além dos seus sentimentos pessoais em relação ao caso, Hanken não gostava particularmente do efeito que a invasão do seu território pela New Scotland Yard produzia no resto da equipa. Se alguma dúvida houvesse quanto à sua competência ou da sua equipa, teria preferido de longe que lho dissessem directamente. E pouco importava que a chegada de mais dois agentes se traduzisse num acréscimo de tempo para montar o baloiço-sur presa para Bella antes do seu quarto aniversário, na semana seguinte. Não pedira ajuda ao seu comandante e sentia-se um pouco aborrecido pelo facto de lhe estarem a impor essa ajuda.

O inspector Lynley apercebeu-se da irritação de Hanken trinta segundos depois de o conhecer, o que, de certa forma, contribuíra para elevar a opinião deste sobre o colega, apesar do seu sotaque de alta sociedade.

- Andy Maiden pediu a nossa ajuda. É por isso que estamos aqui, inspector Hanken. O seu comandante disse-lhe que o pai da rapariga era um agente da Met já reformado, não disse?

Sim, dissera. Todavia, a relação entre o facto de alguém ter trabalhado para a Met durante os seus verdes anos e a sua capacidade para solucionar um crime sem ajuda de ninguém era algo que continuava por esclarecer.

- Eu sei - disse. - Um cigarro?

Ofereceu o maço de Marlboro aos outros dois. Ambos hesitaram. O negro reagiu como se lhe tivessem oferecido estricnina.

- Os meus homens não vão achar muita graça ao facto de terem de andar a mando de alguém vindo de Londres.

- Acho que acabarão por habituar-se - disse Lynley.

- É muito pouco provável.

Hanken acendeu o cigarro. Inalou profundamente e observou os dois agentes por cima do cigarro.

- Seguirão o seu exemplo.

- Pois é. Exactamente o que eu disse.

Lynley e o negro trocaram olhares. Ambos sabiam que tinham de agir com cautela. O que não sabiam era se ao tratarem o caso com luvas de pelica, de seda ou de couro iriam conseguir alterar a forma como estavam a ser recebidos no gabinete de Hanken.

- Andy Maiden foi agente do 5010 - disse Lynley. - O seu comandante informou-o disso?

Aquilo, sim, era novidade. E a ligeira animosidade que Hanken sentira em relação aos agentes de Londres transferiu-se, de imediato, para os seus superiores, que, aparente e deliberadamente, lhe tinham ocultado aquela informação.

- Não sabia, pois não? - perguntou Lynley.

Falando num tom de voz seco, Hanken dirigiu o comentário seguinte a Nkata.

- Política como sempre, suponho.

O agente concordou com um aceno de cabeça - e uma expressão de desagrado - e cruzou os braços. Embora Hanken tivesse convidado os dois homens a sentarem-se, o agente negro preferira manter-se de pé. Recostara-se preguiçosamente na janela, de onde tinha uma perspectiva desoladora do campo de futebol, do outro lado de Silverlands Street. Era um estádio encimado por arame farpado. O panorama não podia ser menos agradável.

- Lamento - disse Lynley a Hanken -,não consigo explicar por que razão ocultam informações ao agente responsável. Suponho que seja uma

espécie de jogo de poder. Já passei pelo mesmo vezes de mais e não gostei.

Em seguida,passou a fornecer as informações necessárias. Andy Maiden trabalhara como agente secreto em operações clandestinas. Fora altamente respeitado e alcançara uma taxa de sucesso exemplar ao longo de trinta anos de carreira.

- É por esse motivo que a Yard se sente na obrigação de ajudar um dos seus - concluiu Lynley. - Estamos aqui para cumprir essa obrigação.

Gostaríamos de trabalhar consigo e fazer parte da equipa,mas tanto eu como Winston faremos o possível para não interferir no vosso trabalho se assim o preferirem. O caso é vosso e estamos no vosso território. Todos nós temos consciência de que os intrusos aqui somos nós.

Cada palavra foi dita num tom amável e Hanken sentiu que a sua atitude em relação ao outro inspector estava a tornar-se menos inflexível. Não que quisesse muito gostar dele,mas duas mortes e um corpo não identificado não eram situações comuns naquelas paragens. Além disso,Hanken sabia que só um maluco se recusaria a contar com mais dois cérebros para examinar os factos da investigação,sobretudo quando os dois cérebros em questão não tinham quaisquer dúvidas sobre quem dava as ordens e distribuía as tarefas inerentes ao caso. Além disso,o pormenor do 5010era um dado intrigante e Hanken sentia-se agradecido por ter sido posto ao corrente.

Precisava de meditar sobre ele quando tivesse um minuto livre.

Esmagou o cigarro num cinzeiro imaculado,que esvaziou em seguida e limpou muito bem com um pano,como era seu hábito.

- Venham comigo,então - disse,conduzindo os londrinos até à sala de operações,onde duas agentes uniformizadas estavam sentadas em frente a terminais de computadores,nada fazendo,aparentemente,a não ser tagarelar uma com a outra,e um terceiro agente, que escrevia qualquer coisa num quadro de parede,onde horas antes Hanken inscrevera em letra bem legível uma lista de tarefas a cumprir. O agente cumprimentou os recém-chegados com um aceno de cabeça e saiu da sala no momento em que Hanken conduzia os dois agentes da Scotland Yard até junto do quadro de parede.

Ao lado deste,estava um enorme diagrama do local do crime,junto de duas fotografias da filha dos Maiden - uma em vida e outra depois de morta -, bem como algumas fotografias do segundo corpo - ainda por identificar e uma série de fotografias da cena do crime.

Lynley pôs os óculos para examinar as fotografias,enquanto Hanken o apresentava a ele e a Nkata às agentes presentes na sala.

- Os computadores ainda estão bloqueados? - perguntou Hanken a uma das mulheres.

- E como não haviam de estar? - foi a resposta lacónica dela.

- Maldita invenção - resmungou Hanken.

Dirigiu a atenção dos londrinos para o diagrama que representava Nine Sisters Henge. Indicou o local onde o corpo do rapaz fora encontrado, no interior do círculo. Apontou depois para uma segunda zona, situada a noroeste, a alguma distância das pedras.

- A rapariga estava aqui - disse. - A cento e cinquenta e três metros e meio da mata de vidoeiros onde se encontravam as pedras. Cabeça esmagada por um bloco de calcário.

- E o rapaz? - perguntou Lynley.

- Feridas múltiplas provocadas por esfaqueamento. Da arma, nem rasto. Passámos o local a pente fino, mas não encontrámos nada. Tenho uma equipa a esquadrinhar a charneca neste preciso momento.

- Tinham ido acampar juntos?

- Não - respondeu Hanken.

Segundo dizem os pais, a rapariga foi para Calder Moor sozinha, e os elementos recolhidos na cena do crime comprovavam-no. Ao que parece, eram os pertences dela - e nesta altura indicou a fotografia que documentava as suas palavras - que estavam espalhados no interior do círculo de pedras. Quanto ao rapaz, parecia não ter levado nada com ele à excepção das roupas que tinha vestidas. Donde, era possível concluir que, independentemente do sítio de onde viera, não fazia tenções de se juntar a ela para uma bela noite ao relento.

- Não tinha nenhum tipo de identificação? - perguntou Lynley. O meu chefe disse-me que ninguém consegue localizá-lo.

- Estamos a tentar uma identificação da matrícula da moto, uma Triumph encontrada perto do carro da rapariga, escondida atrás de um muro na estrada que vai dar a Sparrowpit.

Indicou o sítio numa carta militar que se encontrava aberta sobre uma secretária, que estava encostada à parede contígua àquela onde estava suspenso o quadro.

- Apreendemos a moto logo que os corpos foram descobertos, mas ninguém apareceu para reclamá-la. O mais provável é que pertença ao rapaz. Logo que os nossos computadores voltem a funcionar...

- O que pode acontecer a qualquer momento, segundo nos disseram - informou uma das agentes.

- Pois - comentou Hanken, trocista, antes de prosseguir: - A DVLA há-de fornecer-nos dados sobre o registo do veículo.

- A moto pode ser roubada - murmurou Nkata.

- Nesse caso, essa informação estará também no computador - Hanken tirou os cigarros do bolso e acendeu um.

- Tenha fé, Pete - disse uma das agentes. - Vamos cá ficar todo o dia. Um encorajamento que Hanken decidiu ignorar.

- Qual é a sua opinião até agora? - perguntou Lynley, depois de concluir o exame às fotografias.

Hanken enfiou a mão por baixo da carta militar à procura de um grande sobrescrito. No seu interior encontravam-se algumas cartas anónimas encontradas junto do corpo do rapaz. Tirou uma delas e disse, entregando o sobrescrito a Lynley:

- Vejam isto.

Nkata aproximou-se do seu superior no momento em que Lynley começou a examinar as cartas.

Eram oito textos ao todo, cada um deles composto em caracteres e palavras de grandes dimensões, recortados de jornais e revistas e colados em folhas de papel branco liso. A mensagem era semelhante em todos os

textos, comeÇando com um VAIS MORRER MAIS CEDO DO QUE JULGAS e con tinuando com QUAL É A SENSAÇÃO DE SABERES QUE TENS OS DIAS CONTADOS? para concluir com TEM CUIDADO, PORQUE QUANDO MENOS ESPERARES, EU ESTAREI LÁ E TU VAIS MORRER. NÃO TENS PARA ONDE FUGIR NEM ONDE TE ESCONDER.

Lynley leu as oito cartas uma por uma. Finalmente, ergueu a cabeça e, tirando os óculos, disse:

- As mensagens estavam junto de algum dos corpos?

- No interior do círculo de pedras. Perto do rapaz, mas não sobre o corpo dele.

- Nesse caso, podiam ter sido endereçadas a qualquer pessoa, certo? Podem até nem estar relacionadas com o caso.

Hanken concordou com um aceno de cabeça.

- Inicialmente também pensei nisso. Só que elas parecem ter sido tiradas de dentro de um sobrescrito grande que também foi encontrado no local. Com o nome Nikki bem visível, escrito a lápis. E continham vestígios de sangue. Estas manchas escuras, aliás, são marcas de sangue, nos sítios onde a nossa fotocopiadora não conseguiu reproduzir a cor vermelha.

- Impressões digitais?

Hanken encolheu os ombros.

- O laboratório está à procura delas neste momento.

Lynley assentiu com um movimento de cabeça e tornou a concentrar a sua atenção nas cartas.

- São suficientemente ameaçadoras. Mas terão sido enviadas à rapariga? Porquê?

- O porquê é o nosso motivo para o crime.

- Acha que o rapaz está envolvido?

- O que eu acho é que este pobre diabo estava no sítio errado no pior momento possível. Ele complicou as coisas, nada mais do que isso.

Lynley tornou a guardar as cartas dentro do sobrescrito e devolveu-o a Hanken.

- Complicou as coisas? De que modo?

- Tornando necessária a presença de reforços.

Hanken tivera o dia todo para examinar a cena do crime, estudar as fotografias, analisar as provas e desenvolver um raciocínio acerca dos acontecimentos. Explicou a sua teoria.

- Temos um assassino que conhece bem a charneca e que sabe exactamente onde pode encontrar a rapariga. Quando lá chega, no entanto, vê o que não estava à espera de encontrar: ela está acompanhada. Ele tem uma única arma...

- A faca que está desaparecida - observou Nkata.

- Exacto. Restam-lhe, por isso, duas hipóteses. Ou arranjar uma forma de separar o rapaz da rapariga, ou apunhalar um de cada vez...

- Ou recorrer a um segundo assassino - concluiu Lynley. - É nisso que está a pensar?

Era, confirmou Hanken. O outro assassino estaria, provavelmente, à espera no carro. Era possível que ele - ou ela - tivesse ido até Nine Sisters Henge juntamente com o outro. Fosse como fosse, quando se tornara evidente de que seria necessário despachar duas vítimas fortes e robustas em vez de uma, e que apenas existia uma faca para executar a tarefa, o segundo assassino fora chamado a intervir. Nessa altura, surgira o bloco de calcário, a segunda arma.

Lynley tornou a examinar as fotografias e o mapa do local do crime.

- Mas por que razão escolhe a rapariga como a principal vítima? Porque não o rapaz?

- Por isto.

Hanken entregou-lhe a única folha de papel que separara do conjunto de cartas anónimas, antecipando a pergunta de Lynley. Era uma fotocópia, tal como as restantes, e tratava-se de um bilhete. Este, no entanto, fora escrito

à mão. A toda a largura da folha, lia-se: ESTA CABRA ESTÁ ARRUMADA, com a última palavra sublinhada três vezes.

- Este também foi encontrado juntamente com os outros? - perguntou Lynley.

- Estava no corpo dela - informou Hanken. - Dentro de um dos bolsos, bem dobradinho.

- Mas porquê deixar as cartas depois de cometidos os crimes? E qual a explicação para este bilhete?

- Uma mensagem para alguém. É para isso que servem os bilhetes, normalmente.

- Aceito essa justificação no caso do bilhete encontrado no corpo. E quanto às cartas feitas com letras recortadas e coladas? Por que razão alguém as teria deixado ficar para trás?

- Lembre-se do estado em que ficou a cena do crime. Lixo por todos os cantos. E tenho quase a certeza de que estava escuro quando os assassinos atacaram. - Hanken fez uma pausa para apagar o cigarro. - Nem sequer se teriam apercebido da existência das cartas no meio da confusão. Cometeram um erro.

No outro extremo da sala, os computadores regressaram finalmente à vida.

- já não era sem tempo - disse uma das agentes, começando a inserir dados e ficando depois a aguardar a resposta.

A colega fez o mesmo, trabalhando com as folhas de serviço e com os relatórios já entregues pela equipa de investigação.

Hanken prosseguiu.

- Pensem no estado de espírito do assassino, do assassino principal, quero eu dizer. Ele segue a nossa menina até ao círculo de pedras, preparado para executar o trabalhinho, e encontra-a acompanhada. Tem de ir buscar ajuda, o que o deixa desconcentrado. A rapariga consegue fugir, e isso desconcentra-o ainda mais. Em seguida, o rapaz oferece uma luta dos diabos, e o acampamento fica num reboliço. A sua única preocupação, do assassino, não do rapaz, é despachar as duas vítimas. Quando o plano não lhe corre de feição, a última coisa que lhe passa pela cabeça é saber se a rapariga tinha, ou não, levado as cartas com ela.

- E por que razão o teria ela feito?

Tal como o seu superior hierárquico, Nkata examinava novamente as fotografias da cena do crime.

- Para as mostrar ao rapaz? - sugeriu, desviando os olhos delas.

- Não há nada que indique que ela conhecia o rapaz antes de terem morrido juntos - alegou Hanken. - O pai da rapariga viu o corpo do rapaz, mas não o reconheceu. Nunca o tinha visto, disse. E ele conhece os amigos dela.

- Será possível que o rapaz a tenha morto? - perguntou Lynley. E que depois, inadvertidamente, se tenha transformado também numa vítima?

- Não, a menos que o meu patologista se tenha enganado na hora das mortes. Segundo ele, morreram com uma hora de intervalo entre ambos. Qual é a probabilidade de duas mortes completamente desligadas uma da outra acontecerem num único local, numa terça-feira à noite, em Setembro?

- E, no entanto, é precisamente isso que parece ter acontecido, não é? - comentou Lynley.

Quis saber, em seguida, qual era a localização do carro de Nicola em relação ao círculo de pedras. Se tinham sido feitos moldes das marcas de pneus encontradas no local. E quanto a impressões digitais no interior do círculo propriamente dito? E o rosto do rapaz?... Que tinha Hanken a dizer sobre as queimaduras?

Hanken respondeu às perguntas com o auxílio do mapa e dos relatórios que os seus homens tinham redigido sobre o caso até ao momento. No extremo oposto da sala, a agente Peggy Hammer - cujo aspecto levava sempre Hanken a pensar numa pá com sardas - anunciou:

- Já está, Pete. Já temos o registo.

Copiou algo que estava no monitor do seu terminal.

- A Triumph? - perguntou Hanken.

- Exactamente. Conseguimos. Entregou- lhe uma tira de papel.

Hanken leu o nome e a morada do proprietário da motocicleta e depois de o fazer percebeu que, afinal, os detectives de Londres iam revelar-se uma bênção divina. Com efeito, a morada que tinha diante dos olhos era em Londres, e se Lynley ou Nkata se encarregassem de desenvolver a investigação em Londres, sempre poderia economizar em termos de recursos humanos. Em tempos de cortes orçamentais, a austeridade e toda a parafrenália de responsabilidades fiscais que o faziam gritar a plenos pulmões que não era um maldito contabilista, destacar um elemento para operar no terreno era uma manobra que tinha de ser defendida praticamente até às portas da Câmara dos Lordes. Hanken não tinha tempo para esses disparates. Os colegas de Londres tornavam esses disparates desnecessários.

- A moto - disse-lhes - está registada em nome de um tal Terence Cole. Segundo os Serviços de Swansea, este Terence Cole vivia em Chart Street, Shoreditch. Se um dos detectives da Scotland Yard não se importasse de tomar conta desse lado do caso, ele enviá-lo-ia de imediato a Londres a fim de tentar encontrar na morada fornecida alguém que pudesse identificar o segundo corpo encontrado em Nine Sisters Henge.

Lynley olhou para Nkata.

- Vai ter de regressar imediatamente - disse. - Eu fico. Quero falar com Andy Maiden.

Nkata pareceu ficar surpreendido.

- Não quer ocupar-se de Londres, pessoalmente? Ia ter que me compensar à grande para que eu ficasse aqui, se estivesse no seu lugar.

Hanken olhou para um e depois para outro. Viu que Lynley corava ligeiramente, o que o deixou surpreendido. Até àquele momento, o homem fora de uma impassibilidade a toda a prova.

- Helen pode perfeitamente sobreviver sem mim durante alguns dias - disse Lynley.

- Nenhuma mulher recém-casada devia ser obrigada a uma coisa semelhante - replicou Nkata.

Explicou a Hanken que o inspector estava casado há três meses. Acabou praticamente de desembarcar da lua-de-mel.

- Já chega, Winston - disse Lynley.

- Com que então, recém-casado - comentou Hanken com um aceno de cabeça. - Felicidades, nesse caso.

- Receio bem que esse seja um sentimento discutível - replicou Lynley, enigmático.

Não teria dito o mesmo vinte e quatro horas antes. Nessa altura, tudo era maravilhoso. Embora existissem inúmeras arestas a limar e múltiplos ajustes a fazer à medida que ele e Helen iam definindo a sua vida em conjunto, nenhum dos obstáculos com que se tinham deparado até ao presente parecera tão inultrapassável que não pudesse ser resolvido com uma troca de ideias, uma negociação e um compromisso. Até que surgira o caso de Havers.

Desde que regressara da lua-de-mel, havia já alguns meses, Helen mantivera uma distância discreta em relação à vida profissional de Lynley, e quando, após a única visita que fizera a Barbara Havers, ele lhe contara os factos que tinham ditado a sua suspensão, o seu único comentário fora: Tem de haver uma explicação, Tommy. Depois disso, Helen guardara as suas opiniões só para si, transmitindo-lhe as mensagens telefónicas de Havers e de outros interessados na situação, mas permanecendo sempre como uma presença objectiva, cuja lealdade para com o marido era inquestionável. Pelo menos fora assim que Lynley o entendera.

A mulher, no entanto, desfizera todas as suas ilusões quando regressara da casa de St. James, naquela manhã. Ele estava ocupado com os preparativos para a viagem ao Derbyshire, atirando algumas camisas para dentro de uma mala juntamente com um velho casaco encerado e um par de botas de montanha que usaria para caminhar na charneca, quando Helen fora ter com ele. Contrariamente ao que sempre fazia quando abordava um assunto delicado, pegara o touro directamente pelos cornos, dizendo:

- Tommy, porque é que escolheste Winston Nkata e não Barbara Havers para trabalhar contigo neste caso?

- Ah - replicou ele - Pelo que estou a ver, estiveste com Barbara.

- E ela praticamente saiu em tua defesa - ripostou ela, sem demora -, embora o coração da pobre desgraçada estivesse claramente destroçado.

- Queres que fale em minha defesa também? - perguntou ele, em tom calmo. - Barbara precisa de agir com uma certa discrição na Yard durante algum tempo. Levá-la comigo para o Derbyshire não seria, de facto, a melhor maneira de o conseguir. Winston é a escolha lógica, já que Barbara está indisponível.

- Mas, Tommy, ela adora-te. Ora, não olhes para mim dessa maneira. Sabes do que estou a falar. Aos olhos de Barbara, nada do que tu faças está errado.

Colocara a última camisa dentro da mala, arrumara o estojo de barbear no meio das peúgas, fechara a mála e colocara o casaco por cima desta. Olhara, então, para a mulher.

- Estás aqui como sua intermediária, é isso?

- Por favor, Tommy, não sejas condescendente. Odeio isso. Ele suspirara. Não queria discutir com a mulher e pensara fugazmente nos compromissos que se faziam quando a vida de duas pessoas se uniam. Encontramo-nos, disse para consigo, desejamos, perseguimos e conquistamos. Interrogava-se, no entanto, se já teria nascido o homem que, assaltado pelo fogo do desejo, conseguia ainda meditar sobre se seria capaz de viver com o objecto da sua paixão antes de passar, de facto, a fazê-lo. Tinha sérias dúvidas.

- Helen - dissera -, o facto de Barbara ter conservado o emprego é um milagre, tendo em conta as acusações que lhe foram feitas. Webberly saiu em sua defesa e só Deus sabe que promessas, que cedências e que acordos foi obrigado a fazer para conseguir que ela ficasse no CID. Neste momento, ela devia estar agradecida ao seu anjo da guarda pelo facto de não ter sido despedida. Aquilo que não devia estar a fazer era procurar consolo para a mágoa que sente em relação a mim. E, para ser franco, a última pessoa que ela devia estar a tentar virar contra mim é a minha própria mulher.

- Não é isso que ela está a fazer!

- Ai não?

- Ela foi visitar Simon, não a mim. Nem sequer sabia que eu lá estava. Quando me viu, o que quis foi dar meia volta e desatar a correr dali para fora. E tê-lo-ia feito, se eu não a tivesse impedido. Precisava de alguém com quem falar. Sentia-se pessimamente e precisava de um amigo, que era aquilo que tu costumavas ser na vida dela. O que eu quero saber é a razão pela qual não estás a ser amigo dela agora.

- Helen, não se trata aqui de amizade. Não há lugar para amizade numa situação em que tudo depende do facto de um agente obedecer, ou não, a uma ordem. Barbara não o fez. E, pior do que isso, por pouco não matava uma pessoa.

- Mas tu sabes o que se passou. Como é que é possível que não vejas...

- O que eu vejo é que há um propósito numa cadeia de comando.

- Ela salvou uma vida.

- E não era a ela que competia decidir que essa vida se encontrava em perigo.

Ela aproximara-se dele nessa altura, agarrando uma das colunas da cama deles.

- Não entendo isto - dissera ela. - Como é que podes ser tão implacável? Ela seria a primeira a perdoar-te fosse o que fosse.

- Em circunstâncias idênticas não esperaria que ela o fizesse. E ela não devia ter esperado que eu fizesse.

- Já quebraste as regras antes. Tu próprio mo disseste.

- Não acredito que aches que uma tentativa de homicídio seja quebrar as regras, Helen. É um acto criminoso. Pelo qual, aliás, a maior parte das pessoas acaba na prisão.

- E em relação ao qual, neste caso, decidiste ser o juiz, o júri e o carrasco. Percebo.

- Ai percebes?

Começava a sentir-se zangado e devia ter-se contido. Por que razão, interrogava-se, é que Helen conseguia provocá-lo de uma maneira que mais ninguém conseguia?

- Nesse caso, peço-te que consideres este aspecto também. Barbara Havers não é um assunto que te diga respeito. O comportamento dela em Essex, a investigação que se seguiu e qualquer que seja a pastilha que ela tem de engolir em consequência do seu comportamento e da investigação subsequente não te dizem qualquer respeito. Se achas que a tua vida é hoje tão limitada ao ponto de sentires necessidade de encontrar uma causa que te mantenha ocupada, podias considerar a possibilidade de tomares o meu partido. Para ser franco, gostaria de sentir que ao voltar para casa vou encontrar apoio e não subversão.

Ela era capaz de se enfurecer tão rapidamente quanto ele e igualmente capaz de o expressar.

- Não sou esse tipo de pessoa. Não sou esse tipo de mulher. Se o que querias era casar com uma aduladora obsequiosa...

- Isso não passa de uma tautologia - reagiu ele.

E aquele comentário seco pusera fim à discussão entre ambos.

- Grande porco - ripostara Helen, deixando-o entregue aos últimos preparativos para a viagem.

Quando terminara de arrumar tudo e fora despedir-se dela, não a encontrara. Soltara uma série de imprecações. Contra ela, contra si próprio e contra Barbara Havers, por ser uma fonte de discórdia entre ele e Helen. Todavia, a viagem de carro até ao Derbyshire dera-lhe tempo para se acalmar e para reflectir sobre a frequência com que desferia golpes baixos. Este contratempo com Helen era uma dessas ocasiões e tinha de admiti-lo.

Agora, em frente à esquadra de polícia de Buxton na companhia de Winston Nkata, Lynley percebia que havia uma maneira de se reconciliar com a mulher. Nkata esperaria que ele designasse outro agente para o acompanhar nas diligências que teria de fazer em Londres, e ambos sabiam qual seria a escolha lógica. E, no entanto, Lynley deu consigo a tentar ganhar tempo emprestando o Bentley ao seu subordinado. Não podia requisitar um carro na esquadra de Buxton para que ele pudesse efectuar a viagem até Londres, explicou a Nkata, pelo que a única alternativa que Lhes restava, para além de lhe ceder o Bentley, seria deslocar-se até Manchester e apanhar um avião ou um comboio de regresso à capital. Todavia, o tempo que demoraria a chegar ao aeroporto e a conseguir voo ou as horas que perderia à espera de comboio e a mudar de linha sabe-se lá em quantas cidades entre Buxton e Londres excedia o que levaria a chegar ao destino de carro.

Lynley esperava que Nkata tivesse mais delicadeza ao volante do que Barbara Havers demonstrara na última ocasião em que, alegremente, derrubara um marco quilométrico e destruíra a suspensão dianteira do carro. Informou o homem mais jovem que devia conduzir o Bentley como se levasse um litro de nitroglicerina no porta- bagagens.

Nkata sorriu.

- Acha que eu não sei como se deve tratar um motor tão bom como este?

- Preferia apenas que ele sobrevivesse incólume à aventura. Lynley desactivou o alarme do carro e entregou as chaves do carro a Nkata.

Este inclinou a cabeça na direcção da esquadra.

- Acha que ele vai alinhar no nosso jogo? Ou vamos nós jogar o dele?

- É demasiado cedo para saber isso. Não está satisfeito por nos ter cá, mas eu também não estaria, se estivesse no lugar dele. Vamos ter de avançar com cuidado.

Lynley consultou o relógio. Eram quase cinco horas. As autópsias estavam marcadas para o início da tarde. Com sorte, já estariam concluídas e a patologista estaria em condições de comunicar os resultados preliminares.

- O que é que acha do raciocínio dele?

Nkata meteu a mão no bolso do casaco e tirou dois Opal Fruits, o seu vício de eleição. Fitou o papel envolvente, escolheu o sabor que queria e ofereceu outro a Lynley.

- Da forma como Hanken vê o caso? - Lynley desembrulhou o rebuçado. - Está disposto a falar. É um bom sinal. Parece-me ter uma boa capacidade de adaptação. Isso é bom também.

- Mas parece-me um bocado crispado - comentou Nkata. - Faz-me pensar no que estará a preocupá-lo.

- Todos nós temos preocupações pessoais, Winnie. Compete-nos a nós não deixar que elas interfiram no nosso caminho.

Habilmente, Nkata colocou uma última questão a Lynley.

- Quer que eu trabalhe com alguém em Londres?

E Lynley continuou a esquivar-se ao assunto.

- Pode pedir ajuda, se achar necessário.

- Escolho eu, ou quer indicar alguém em particular? Lynley olhou para o outro homem. Nkata fizera as perguntas num tom de tal modo casual que era impossível querer dar-lhes outra interpretação que não fosse a de um simples pedido de orientações. O que era perfeitamente sensato, tendo em conta o facto de Nkata poder ser obrigado a regressar a Derbyshire pouco depois da sua chegada a Londres, acompanhado por alguém capaz de identificar o segundo corpo. Se tal acontecesse, seria necessário que houvesse alguém em Londres encarregue de investigar o passado de Terence Cole e as actividades em que ele estaria envolvido.

Chegara o momento, então. Lynley tinha diante de si uma oportunidade de tomar a decisão que Helen aprovaria. Não o fez, no entanto. Em vez disso, disse:

- Não sei quem é que está disponível. Deixo isso ao seu cuidado.

Nos primeiros tempos da sua prolongada estada em Broughton Manor, Samantha McCallin percebera que o seu tio Jeremy não fazia distinções

quando se tratava de bebida. Absorvia tudo o que pudesse obliterar as suas susceptibilidades rapidamente. A sua preferência parecia recair sobre o gin Bombay, mas num momento crítico,em que o estabelecimento mais próximo estivesse fechado, não era dado a esquisitices.

Tanto quanto Samantha sabia,o tio bebia com regularidade desde a adolescência,tendo feito um breve interregno por volta dos vinte anos,altura em que optara pelos estupefacientes. Segundo rezavam as crónicas da família, jeremy Britton fora,em tempos,a estrela cintilante do clã Britton.

Todavia,o seu casamento com uma filha das flores,como ele,marcada por aquilo a que a mãe de Samantha designava eufemística e arcaicamente,Um Passado,levara-o a cair em desgraça aos olhos do pai. As leis da primogenitura, no entanto,permitiram que,após a morte do pai,Jeremy herdasse Broughton

Manor è todo o seu recheio. A descoberta de que durante toda a vida fora a boa filha a troco de nada - enquanto Jeremy vivia à grande rodeado pelos seus companheiros consumidores de substâncias alucinogéneas - fizera nascer no coração da mãe de Samantha ainda mais sementes de discórdia entre ela e o irmão. A desarmonia não parara de aumentar com o passar dos anos, ao longo dos quais Jeremy e a mulher geraram três filhos num curto espaço de tempo e afogaram Broughton Manor num cocktail de álcool e drogas. Enquanto isso,em Winchester,Sophie,a única irmã de Jeremy contratava investigadores que lhe forneciam relatórios periódicos sobre a vida dissoluta do irmão,chorando,lamentando-se e cerrando os dentes sempre que os recebia.

- Alguém tem de fazer alguma coisa em relação a eles - clamava -, antes que ele destrua a história da família. Com a vida que leva,não há-de restar nada para ninguém.

Não que Sophie Britton McCallin precisasse do dinheiro do irmão, que ele há muito dissipara, aliás. Dinheiro era coisa que a ela não Lhe faltava, o marido trabalhava até à exaustão para manter o nível de vida a que ela estava habituada.

Enquanto o pai de Samantha tivera saúde suficiente para trabalhar na fábrica da família, cumprindo um horário que teria feito sucumbir um simples trabalhador, Samantha ignorara os solilóquios maternos sobre o irmão Jeremy. alteraram-se em tom e conteúdo, todavia, quando Douglas McCallin foi derrotado por um cancro na próstata. Confrontada com a sinistra realidade da mortalidade do ser humano, a mulher sentira renascer dentro de si uma crença férrea na importância dos laços familiares.

- Quero o meu irmão aqui - pedira, chorosa, no velório. - O meu único parente vivo. O meu irmão. Quero-o.

Era tão típico de Sophie esquecer-se que ela própria tinha dois filhos - não esquecendo a descendência do irmão - que estavam igualmente ligados a ela por laços de sangue. Em vez disso, empenhou-se numa aproximação em relação a Jeremy como o único consolo possível para a dor que a afligia naquele momento.

De facto, o seu sofrimento tornou-se de tal modo presente que em pouco tempo se tornou evidente que Sophie decidira que iria superar o luto da rainha Vitória pelo príncipe Alberto. E quando, finalmente, se apercebeu disto, Samantha decidiu que a única forma de restaurar a tranquilidade em Winchester passava por tomar uma atitude decisiva. Por isso fora até Derbyshire decidida a trazer o tio com ela, tendo deduzido, ao fim de algumas conversas telefónicas incoerentes, que ele não estava em condições de viajar para sul sem ajuda. E mal chegara e vira com os seus próprios olhos o estado em que ele se encontrava, Samantha percebera que se o levasse para casa da irmã tal como estava, isso constituiria provavelmente um choque fatal para Sophie.

Por outro lado, Samantha descobriu que era um alívio estar longe de Sophie. O drama da morte do marido dera-lhe amplos motivos para se lamentar, e ela começara a usá-los com um prazer que há muito deixara Samantha exausta.

Não que Samantha não chorasse a morte do pai. Chorava. Mas havia muito que percebera que o primeiro amor de Douglas McCallin era a fábrica de biscoitos da família - não a família em si mesma -, pelo que a sua morte se afigurava mais como um prolongamento do seu horário de trabalho normal do que uma partida definitiva. A vida dele sempre estivera centrada no trabalho e ele retribuíra com a dedicação de alguém que tivera a sorte de conhecer o seu verdadeiro amor aos vinte anos de idade.

Jeremy, por seu turno, escolhera a bebida como companheira de vida. Naquele dia em particular, começara com um xerez seco às dez horas da manhã. Ao almoço, esvaziara uma garrafa de um líquido qualquer chamado Sangue de Júpiter, que Samantha tomara por vinho tinto devido à sua coloração. E passara a tarde a ingerir gins tónicos uns atrás dos outros. Era extraordinário que ele ainda se conseguisse manter de pé, pensou Samanta.

Costumava passar os dias na saleta. Corria os cortinados, ligava o retroprojector de 8 mm e perdia-se nos intermináveis meandros da memória. Desde que Samantha chegara a Broughton Manor, havia já alguns meses, já percorrera toda a história cinematográfica da família Britton pelo menos três vezes. O procedimento era sempre o mesmo: começava pelos filmes antigos, realizados por um ou outro Britton em 1924 e passava-os por ordem cronológica até à altura em que deixara de haver um Britton suficientemente interessado na família para registar as suas façanhas. Era por isso que o registo cinematográfico de caçadas à raposa, expedições de pesca, férias, caça aos faisões, aniversários e casamentos terminavam por altura do 15. o aniversário de Julian, o que, segundo os cálculos de Samantha devia ter coincidido com a época em que Jeremy Britton caíra do cavalo e fracturara três vértebras. Por causa dessa lesão, contraída muitos anos antes, afogava-se religiosamente em analgésicos e álcool.

- Se não o vigiarmos, ele vai acabar por matar-se à custa de tanto misturar comprimidos com álcool - dissera-lhe Julian, pouco depois da sua chegada. - Queres ajudar-me, Sam? Contigo cá, tomando conta dele, tenho mais tempo para trabalhar na quinta. Posso até pôr alguns planos de pé... se me ajudares, claro.

E escassos dias depois de o conhecer, Samantha ficara a saber que faria qualquer coisa para ajudar o primo Julian.

Algo que, obviamente, Jeremy Britton também sabia. Porque, ao ouvi- la bater com as botas no chão enquanto atravessava o pátio para fazer sair a terra, quando regressava da horta no final da tarde, saíra da saleta e fora ter com ela à cozinha. Samantha começava a preparar o jantar.

- Ah. Estás aqui, minha flor.

Inclinou-se para a frente, adoptando aquela postura que desafiava as leis da gravidade e parecia ser uma característica inata em todos os bêbedos. Tinha um copo na mão. Dois pequenos cubos de gelo e uma rodela de limão era tudo o que restava do último gin tónico. Como sempre, estava irrepreensivelmente vestido, a personificação perfeita do proprietário rural. Apesar do tempo característico de final de Verão, usava um casaco de tweed, gravata e umas calças de golfe em lã grossa que devia ter descoberto no guarda-roupa de algum antepassado. Podia perfeitamente fazer-se passar por um proprietário excêntrico, mas próspero, com um copo a mais.

Apoiou-se na velha bancada de madeira, precisamente no sítio onde gostaria de estar. Fez tilintar o gelo dentro do copo e bebeu os restos de líquido que conseguiu extrair dos cubos de gelo que tinham começado já a derreter. Em seguida, pousou o copo junto à enorme faca de cozinheiro que ela tirara do respectivo suporte. Os seus olhos vaguearam entre ela e a faca, fixando-se novamente em Samantha. E o rosto iluminou-se num sorriso lento e feliz próprio do estado de embriaguez.

- Onde está o nosso rapaz? - perguntou em tom afável, embora a pergunta tenha soado como ndstá o noss' r'paz?

Os seus olhos eram de um cinzento tão claro que as íris podiam até não existir. O branco há muito se tornara amarelo, uma coloração que começava a alastrar-se a quase toda a epiderme.

- Não dei por Julie ter andado por aí sorrateiramente, sabes? A verdade é que não creio que o nosso Julie tenha sequer voltado para casa ontem, já que não me lembro de ter visto a caneca dele ao pequeno-almoço.

Só que as palavras soaram como necadelepequen'Imoço. Dito isto, Jeremy ficou à espera que ela reagisse às suas palavras.

Samantha começou a esvaziar o cesto dos legumes. Colocou uma alface, um pepino, dois pimentos verdes e uma couve-flor dentro do lava-loiça. Lavou-os para retirar a terra que os envolvia. Prestou especial atenção à alface, inclinando-se sobre ela como uma mãe que observa cuidadosamente o seu bebé.

- Bem - Jeremy prosseguiu, suspirando -, acho que ambos sabemos onde é que Julie esteve enfiado, não sabemos, Sam? - Nã-shabemos-Sham? Não há maneira de aquele rapaz enxergar o que tem diante dos olhos. Não sei o que é que vamos fazer com ele.

- Não andou a tomar nenhum dos seus comprimidos, pois não, tio Jeremy? - perguntou Samantha. - Se os misturar com álcool, pode ver-se metido em sarilhos.

- Eu nasci para me meter em sarilhos - retorquiu Jeremy. Asci pr'a m'meter emsharilhos. Samantha tentou perceber se as palavras soavam mais entarameladas do que era hábito, um indício de que algo tocara a consciência dele. Pouco passava das cinco horas, por isso era natural que o seu discurso saísse entaramelado. Todavia, a última coisa de que Julian precisava era que o estado de torpor em que o pai normalmente se encontrava evoluísse para uma situação de coma. Jeremy contornou a bancada até se aproximar do lava- loiça, onde se encontrava Samantha.

- És uma mulher bonita - disse. O seu hálito era um verdadeiro tratado em matéria de mistura de bebidas. - Não julgues que estou sempre tão para além desta dimensão que não sou capaz de ver que és uma verdadeira brasa. Temos é de fazer com que o nosso Julie repare nisso também. Qual é o interesse de andares a exibir essas pernas se o único que as vê é este pobre idiota. Não que eu não aprecie a visão, repara. Uma coisinha jovem como tu cirandando pela casa nesses calções justos e curtos é precisamente o tipo de...

- Isto são calções de montanha - interrompeu Samantha. - Uso-os, porque tem feito calor, tio Jeremy, coisa de que já se teria apercebido, se saísse de casa durante o dia. E não são justos.

- Era apenas um elogio, rapariga - protestou Jeremy. - Tens de aprender a aceitar um elogio. E quem melhor para te ensinar do que o teu próprio tio, sangue do teu sangue? Caramba, é bom conhecer-te, miúda. Já te tinha dito isso?

Não se preocupou em esperar pela resposta. Inclinou-se ainda mais para sussurrar uma confidência.

- Ora bem, vejamos o que vamos fazer em relação a Julie?

jamos o qu'vamosh fazer mrelação Julie.

- O que quer dizer com isso? - perguntou Samantha.

- Ambos sabemos do que estamos a falar, não sabemos? Ele tem andado a saltar para cima da miúda dos Maiden como um tolinho desde os vinte anos...

- Por favor, tio Jeremy - Samantha sentiu um formigueiro na nuca.

- Por favor tio Jeremy, uma ova. Temos de encarar os factos, para sabermos o que havemos de fazer com eles. E o facto número Um é que julie tem andado a montar a égua de Padley Gorge sempre que pode. Ou, melhor dizendo, sempre que ela deixa.

Para um bêbedo, ele era extraordinariamente perspicaz, pensou Sa mantha. No entanto, disse, num tom mais afectado do que desejava:

- Não estou mesmo interessada em falar sobre a vida sexual de Julian, tio Jeremy. Isso é lá com ele e nós não temos nada que ver com o assunto.

- Ah - exclamou o tio. - Um assunto demasiado desagradável para Sammy McCallin? Porque será que eu não acredito nisso, Sam?

- Não disse que era desagradável - replicou ela. - O que disse foi que não tínhamos nada que ver com o assunto. E não temos, de facto. Por isso não vou discuti-lo.

Não se sentia incomodada em relação ao sexo, nem embaraçada, nem intimidada, nem nada do género. Longe disso. Fazia sexo sempre que tinha oportunidade desde que ultrapassara o incómodo obstáculo da virgindade, recorrendo a um dos amigos do irmão quando era adolescente. Mas isto... falar sobre a vida sexual do primo... Não podia permitir-se isso e correr o risco de se denunciar.

- Ouve o que te digo, minha menina - disse Jeremy. - Eu vejo como olhas para ele e sei o que queres. Estou do teu lado. Que diabo, manter a família para a família no seio da família, é essa a minha divisa. Julgas que quero vê-lo agarrado àquela galdéria quando tenho uma mulher como tu à mão, à espera do dia em que o homem dela ganhe juízo?

- Está enganado - disse ela, embora o latejar que sentia à flor da pele lhe dissesse que o sangue que lhe corria nas veias tornava óbvia a mentira escondida atrás das suas palavras. - Gosto de Julian. Quem não gostaria? É um homem maravilhoso...

- Pois é. E achas mesmo - sorriu - que aquela rapariga olha para o nosso Julie dessa maneira? Nem por sombras. O que ela vê é um diverti mento, uma oportunidade para rolar na palha e para umas carícias incon sequentes.

- Mas - Samantha manteve-se firme, como se ele não tivesse dito nada -, não estou apaixonada por ele e não consigo sequer imaginar que isso venha a acontecer um dia. Por amor de Deus, tio Jeremy. Somos primos direitos. julian é como um irmão para mim.

Jeremy ficou calado durante alguns instantes. Samantha aproveitou para se afastar dele, levando consigo a couve-flor e os pimentos. Colocou-os no cortador, onde os legumes da casa eram cortados há quatrocentos anos.

Começou a partir a couve-flor.

- Ah! - exclamou Jeremy, lentamente.

O tom da sua voz, no entanto, revelava astúcia e, pela primeira vez, Samantha percebeu que ele não estava tão embriagado quanto parecia.

- Como um irmão. Percebo. Sim, percebo. Sendo assim, não terias nenhum outro tipo de interesse nele. Onde terei eu ido buscar essa ideia... Mas isso não interessa. Nesse caso, dá uma opiniãozinha ao teu tio Jer.

- Sobre quê.

Agarrou num recipiente e deitou a couve- flor lá para dentro. Centrou as suas atenções nos pimentos.

- Sobre como havemos de curá-lo.

- De quê?

- Dela. Da gata. Da égua. Da porca. Como queiras chamá-la.

- Julian - Samantha fez um derradeiro esforço para desviar as atenções do tio daquele assunto - não precisa que o curem de coisa nenhuma. É uma pessoa adulta, tio Jeremy.

- Isso são tretas. É um homem agarrado, e ambos sabemos a que é que ele está agarrado. Ela tem-no bem preso e, por isso, ele não vê um palmo à frente do nariz.

- Isso é pouco provável.

- Aí é que te enganas. O tesão dele dura há tanto tempo que tem o cérebro completamente ligado à pila.

- Tio Jeremy...

- A única coisa em que pensa é em enfiar a cabeça nas lindas mamas dela. E quando enfia o coiso dentro dela e a faz gemer como uma.

- Chega - Samantha enfiou a faca de cozinha no pimentão como se manejasse um cutelo. - Já percebemos claramente onde quer chegar, tio Jeremy. Agora gostava que me deixasse fazer o jantar.

Jeremy sorriu lentamente, aquele sorriso característico de um ébrio.

- Foste feita para ele, Sammy. Sabes isso tão bem quanto eu. - disse ele. - Sendo assim, o que é que vamos fazer para que isso aconteça.

Subitamente, olhou para ela com firmeza, como se não estivesse bêbedo. Como se chamava aquela criatura mitológica que consegue prender-nos no seu olhar e matar-nos? Basilisco? O tio era um basilisco.

- Não sei do que está a falar - disse ela, mas até aos ouvidos dela a sua voz soava muito menos firme e infinitamente mais assustada.

- Não? Sorriu e ao sair da cozinha, o seu andar não era, nem por sombras, andar de um homem embriagado.

Samantha continuou a cortar os pimentos com gestos decididos até ouvir os passos dele nas escadas, até ouvir o trinco da porta da cozinha fechar-se nas costas dele. Nesse momento pousou a faca, dando mostras de um autocontrolo que, nas circunstâncias presentes, a enchia de orgulho. Colocou as mãos no rebordo da bancada. Inclinou-se sobre os legumes, inalou o seu odor, orientou os seus pensamentos para um mantra que ela própria criara - o amor enche-me, abraça-me. O amor torna-me una, - e tentou recuperar a serenidade. Não que tivesse tido um momento sequer de serenidade desde a noite anterior, quando se apercebera do erro que cometera sob a influência do eclipse da Lua. Não que tivesse vivido um só instante de serenidade desde que percebera o que Nicola Maiden representava para o primo. Todavia, obrigar-se a si própria a murmurar o mantra era um hábito. Recorreu a ele naquele momento, embora o amor fosse o último dos sentimentos

de que se imaginava capaz naquele instante.

Tentava, ainda, a meditação quando ouviu os lebreiros ladrando nos canis, no bloco de estábulos remodelado que ficava a oeste da casa senhorial. O seu ladrar agudo e excitado confirmava que Julian estava com eles.

Samantha olhou para o relógio. Era altura de alimentar os cães adultos, de verificar os cachorros recém-nascidos e de acertar os tempos das brincadeiras através das quais os cachorros mais velhos iniciavam agora o respectivo processo de socialização. julian ficaria junto deles durante mais uma hora, pelo menos. Samantha tinha tempo para se preparar. Interrogava-se sobre o que havia de dizer ao primo. Interrogava-se sobre o que ele lhe diria. E interrogava-se sobre a importância de tudo isso, quando havia que pensar em Nicola Maiden.

Samantha não gostara de Nicola, desde o momento em que a conhecera. O sentimento não se baseava no que a jovem representava para ela, enquanto sua principal rival pelo afecto de Julian. Radicava, sim, no que Nicola era e de forma tão evidente. Os seus modos negligentes eram irritantes, indiciando uma autoconfiança que estava em total oposição com as suas péssimas origens. Filha de alguém que era pouco mais do que um proprietário de hospedaria, frequentara uma escola secundária de Londres e uma universidade de terceira categoria que pouco mais era do que um instituto politécnico, quem era ela para circular tão livremente e com tanto à-vontade pelos salões de Broughton Manor? Embora decrépitos, estavam na posse da família Britton há quatrocentos anos. E aquela era uma linhagem que Nicola Maiden dificilmente podia reclamar para si própria.

O facto não parecia desconcertá-la minimamente. Com efeito, agia sempre como se não tivesse qualquer consciência disso. E havia uma única boa razão para tal: o poder que decorria da sua aparência de Rosa Inglesa. O cabelo da cor do de Guinevere - ainda que de coloração artificial -, a pele perfeita, os olhos emoldurados por pestanas escuras, a estrutura física delicada, as orelhas em forma de concha... Fora presenteada com todos os atributos físicos com que uma mulher podia ser presenteada. E cinco minutos de convivência tinham sido suficientes para que Samantha concluísse que ela estava perfeitamente ciente disso.

- É fantástico poder conhecer, finalmente, alguém da família de Jules - confiara a Samantha, quando se tinham conhecido, sete meses antes. Espero que venhamos a ser boas amigas.

Nicola viera passar as férias escolares com os pais. Telefonara a Julian na manhã em que chegara, e mal ele encostara o auscultador ao ouvido, Samantha percebera para que lado soprava o vento e a favor de quem. Todavia, só ficara a conhecer a força desse vento depois de ter visto Nicola em pessoa.

O sorriso luminoso, o olhar franco, a gargalhada sonora e feliz, a conversa sem artifícios... Embora tivesse antipatizado com ela, e não fora pouco, foram necessários vários encontros com Nicola para que Samantha fizesse uma avaliação completa da mulher por quem o primo estava apaixonado. E, nessa altura, as conclusões a que chegara apenas tinham feito aumentar o desconforto de Samantha sempre que as duas se encontravam. E isto, porque via Nicola Maiden como uma jovem completamente satisfeita com a pessoa que era, oferecendo-se ao mundo inteiro sem querer sequer saber se a oferta seria aceite. Dúvidas, medos, inseguranças e crises de confiança próprias de uma mulher em busca de um homem que a definisse, nada disso a afectava. Razões pelas quais, provavelmente, pensava Samantha, ela mantinha Julian Britton tão entusiasmado e empenhado em fazer precisamente isso.

Mais de uma vez, durante o tempo que já passara em Broughton Manor, Samantha surpreendera Julian em situações que testemunhavam a atracção que Nicola Maiden exercia sobre um homem. Debruçado sobre uma carta que estava a escrever-lhe, protegendo o auscultador de ouvidos indesejados enquanto falava com ela, olhando fixamente, por cima do muro do jardim, para a ponte pedonal que atravessava o rio Wye pensando nela, sentado no escritório com a cabeça entre as mãos enquanto meditava sobre ela, o primo de Samantha pouco mais era do que uma presa nas mãos de uma caçadora que ele era incapaz de compreender.

No entanto, não havia meio de Samantha poder fazer com que ele visse a sua apaixonada como ela era verdadeiramente. A única alternativa era deixar que a sua paixão se esgotasse, que culminasse no casamento por qual, ele tão desesperadamente ansiava, ou que a relação terminasse num rompimento permanente entre ele e a mulher que ele desejava.

O facto de ter de aceitar isto como a única saída que se lhe apresentava, levara Samantha a confrontar-se com a sua própria impaciência, e isso perseguira-a em todos os cantos de Broughton Manor. Lutava contra o desejo de convencer o primo da verdade. De tempos a tempos, ignorava deliberadamente a vontade de proferir os juízos depreciativos que sentia crescer dentro dela sempre que Nicola era tema de conversa. Todavia, estes esforços virtuosos de autocontrolo eram penosos. E o preço que começava a pagar traduzia-se em ansiedade, ressentimento, insónia e numa raiva violenta.

O tio Jeremy não ajudava em nada. Samantha era diariamente presen teada com as suas insinuações lúbricas e ataques directos, todos eles relacionados com a vida amorosa de Julian. Se não tivesse percebido rapidamente, logo após a sua chegada, como era necessária a sua presença em Broughton Manor, se não tivesse sentido a necessidade de um interregno das incessantes e lúgubres manifestações de luto por parte da mãe, Samantha sabia que teria partido meses antes. Mantivera a sua posição, no entanto, e não criara desavenças - na maioria das vezes -, porque fora capaz de se concentrar nos objectivos essenciais: a sobriedade de Jeremy, a abençoada distracção que a reconciliação proporcionaria a sua mãe e o despertar gradual de Julian para a forma como Samantha estava a contribuir para o seu bem-estar, o seu futuro e a sua esperança de transformar a casa senhorial em ruínas e a pro priedade que a rodeava num negócio próspero.

- Sam?

Ergueu a cabeça. Embrenhara-se de tal modo na tentativa de libertar a tensão provocada pela conversa com o tio, que não ouvira o filho deste entrar na cozinha.

- Não estás com os cães, Julian? - perguntou, estupidamente.

- Coisa rápida - explicou ele. - Eles precisam de mais, mas agora não posso dar-lhes o que querem.

- Tratei da Cass. Queres que...

- Está morta.

- Meu Deus, Julian. Não é possível. - gritou Samantha. - Saí logo depois de ter falado contigo. Ela estava óptima. Tinha comido, os cachorros estavam a dormir. Tirei notas de tudo e deixei-as no quadro. Não viste? Pendurei-o no suporte.

- Nicola - disse ele, inexpressivo. - Ela morreu, Sam. Em Calder Moor, onde tinha ido acampar. Nicola está morta.

Samantha continuou a olhá-lo fixamente enquanto a palavra morta parecia ecoar pela divisão. Não está a chorar, pensou. O que significa o facto de não estar a chorar?

- Morta - repetiu, pronunciando a palavra com cautela, certa de que se a dissesse com a entoação errada daria uma impressão errada.

Ele continuou a fitá-la, e ela desejou que não o fizesse. Desejou que ele falasse. Ou que gritasse, que chorasse ou fizesse qualquer coisa que indicasse o que se estava a passar dentro dele, para que ela soubesse que tipo de comportamento deveria adoptar em relação a ele. Quando ele finalmente se mexeu foi para caminhar até à bancada onde Samantha tinha estado a cortar os pimentos. Ficou ali, examinando-os como se fossem uma curiosi dade. Depois, ergueu a faca de cozinha e olhou-a de perto. Por fim, pressionou o polegar firmemente sobre a lâmina cortante.

- Julian! - gritou Samantha. - Vais magoar-te!

Uma fina linha encarnada tingiu a pele dele.

- Não consigo definir o que sinto - disse.

Samantha, por seu turno, não tinha esse problema.

 

                           CAPÍTULO 5

Ao que parecia, o inspector Peter Hanken decidia mostrar-se misericordioso quando se tratava de Marlboros. Os seus primeiros gestos, quando seguiam pela estrada que ia de Buxton para Padley Gorge foram inclinar-se, abrir o porta-luvas do Ford e tirar uma embalagem de pastilhas elásticas sem açúcar. Ao vê-lo enfiar uma pastilha na boca, Lynley louvou-o pela boa vontade que demonstrava ao privar-se do tabaco.

O inspector manteve-se em silêncio enquanto a A6 atravessava Wye Dale, tingindo as águas plácidas do rio ao longo de vários quilómetros, antes de mergulhar ligeiramente para sudeste. Foi só depois de passarem pela segunda das duas pedreiras de calcário que feriam a paisagem, que ele teceu o seu primeiro comentário.

- Com que então recém-casado? - perguntou com um sorriso.

Lynley preparou-se para enfrentar o humor irreverente que, sem dúvida, iria seguir-se, o preço que geralmente se pagava quando se legitimava uma relação com uma mulher.

- Sim. Três meses, apenas. Mais tempo do que muitos casamentos em Hollywood, acho.

- São os melhores tempos. Marido e mulher iniciando uma vida nova. Não há nada igual. É o primeiro?

- Casamento? Sim. Para os dois. Começámos tarde.

- Melhor ainda.

Lynley lançou um olhar desconfiado ao colega, perguntando a si próprio se as repercussões da sua discussão com Helen estariam inscritas no seu rosto, inspirando Hanken a embrenhar-se num irónico panegírico sobre as bênçãos da vida conjugal. Todavia, tudo o que conseguiu ler no rosto de Hanken foi a confirmação de que estava diante de um homem aparentemente satisfeito com a sua vida.

- Ela chama-se Kathleen - confidenciou o inspector. - Temos três niúdos: Sarah, Bella e PJ, Peter Júnior, o nosso mais novo. Dê uma olhadela.

Tirou uma carteira do bolso do casaco e passou-lha. Em lugar de honra, estava uma foto de família: duas garotinhas abraçadas a um recém- nascido envolto numa manta azul, deitado sobre uma cama de hospital, enquanto a Mãe e o Pai enlaçavam as duas garotas.

- A família é tudo. Mas você há-de descobrir isso por si mesmo, em breve.

- É bem possível.

Lynley tentou imaginar-se a ele e a Helen rodeados por uma prole encantadora. Era inútil. Quando conseguia lembrar-se da imagem da mulher, via-a como a vira no início daquele dia, tão pálida como quando a deixara.

Mexeu-se desconfortavelmente no assento. Não queria falar sobre casamento naquele momento e, silenciosamente, amaldiçoou Nkata por ter mencionado o assunto.

- São fantásticos - disse, devolvendo a carteira a Hanken.

- O rapaz é a cara chapada do pai - disse Hanken. - É difícil perceber a partir dessa fotografia, claro. Mas aí tem.

- Formam um bonito grupo.

Para alívio de Lynley, o colega ficou satisfeito com este comentário e deu o assunto por encerrado. Tornou a concentrar-se na condução. Prestava à estrada a mesma atenção que parecia dedicar a tudo o que fazia parte do ambiente que o rodeava, uma característica que Lynley não tivera dificuldade em perceber. Afinal, no gabinete dele não havia um único papel fora de sítio, ele geria a mais organizada sala de operações que Lynley jamais se lembrava de ter visto, e as roupas que usava conferiam-lhe a parência de quem se preparava para participar numa sessão fotográfica para a revista GQ.

Estavam a caminho da casa dos pais da rapariga encontrada morta, depois de terem tido uma reunião com a patologista do Ministério do Interior, que viajara de Londres para realizar as autópsias. A reunião realizara-se à entrada da sala de autópsias, onde foram encontrá-la trocando as sapatilhas pelos sapatos de salto alto. Tentava consertar um deles, batendo com o salto na placa de metal da porta. Declarando que os sapatos das mulheres - já para não falar nas malas de mão - eram desenhados por homens para promover a escravização do sexo feminino, olhara com indisfarçada hostilidade para o calçado confortável do inspector e dissera:

- Tenho dez minutos. O relatório estará na sua secretária amanhã de manhã. Qual de vocês é Hanken, aliás? Você? Muito bem. Sei o que pretende encontrar. Uma faca com uma lâmina de sete centímetros e meio. Uma navalha de ponta e mola, um canivete, muito provavelmente, embora possa ser faca pequena de cozinha. O assassino é dextro e forte, bastante forte. Isto, no caso do rapaz. Quanto à rapariga, foi despachada com o bloco de pedra que encontrou na charneca. Três golpes na cabeça. Um assassino dextro também.

- O mesmo? - perguntara Hanken.

A patologista acabou de bater com o sapato na porta enquanto reflectia sobre a pergunta. Em tom brusco, dissera que os corpos apenas revelavam o que tinham revelado: como tinham ficado sem vida, que tipo de armas tinham sido usadas e se a mão que tinha brandido as armas era dextra ou esquerdina. As provas forenses - fibras, cabelos, sangue, saliva, pele e elementos afins - poderiam fornecer mais indicações, uma história mais precisa, mas para isso teriam de esperar que chegassem os relatórios do laboratório. A olho nu pouco se podia concluir e ela já lhes dissera em que consistia esse pouco.

Deixara cair o sapato no chão e apresentara-se como Dra. Sue Myles. Era uma mulher corpulenta com umas mãos de dedos curtos, cabelo grisalho e um peito que fazia lembrar a proa de um navio. Os pés, porém, conforme reparara Lynley quando ela os enfiara nos sapatos, eram tão delgados como os de uma debutante.

- Uma das feridas nas costas do rapaz parecia-se mais com uma ranhura - continuara. - O golpe estilhaçou a omoplata esquerda, por isso se encontrarem uma arma provável, podemos tentar uma identificação a partir da lâmina deixada no osso.

Não morrera em consequência dos ferimentos, quisera saber Hanken.

- O pobre diabo esvaiu-se em sangue. Teria demorado alguns minutos, mas uma vez atingida a artéria femoral - fica na virilha, a propósito -, ficou condenado.

- E a rapariga? - perguntara Lynley.

- O crânio estalou como uma casca de ovo. Houve uma perfuração da artéria pós-cerebral.

E isso significava o quê, exactamente? inquirira Hanken.

- Hematoma epidural. Hemorragia interna, pressão sobre o cérebro. Em menos de uma hora estava morta.

- Mais tempo do que o rapaz?

- Exactamente. Mas o golpe deve tê-la deixado inconsciente.

- Será possível que tenhamos dois assassinos? - perguntara Hanken sem rodeios.

- É possível, sim - confirmara a Dra. Myles.

- O rapaz apresentava algum ferimento defensivo? - quisera saber Lynley.

Nada de óbvio, replicara a Dra. Myles. Enfiara as sapatilhas dentro de um saco de desporto e puxara o fecho com gestos expeditos, antes de tornar a dar atenção aos dois inspectores.

Hanken pedira confirmação quanto à hora das mortes. A Dra. Myles quis saber as horas que a equipa forense lhe tinha fornecido. Entre trinta e seis e quarenta e oito horas antes de os corpos terem sido encontrados, informara Hanken.

- Não tenho nada a opor.

E, dizendo isto, pegara no saco, despedira-se com um cumprimento seco e encaminhara-se para a saída do hospital.

106

Dentro do carro,Lynley reflectia sobre tudo o que sabiam até ao momento: que o rapaz não trouxera nada com ele para o local do acampamento; que algumas cartas de ameaça anónimas tinham sido deixadas no local; que a rapariga permanecera inconsciente durante perto de uma hora; que as duas armas do crime eram completamente diferentes.

Lynley debatia-se com esta ideia quando Hanken guinou o carro para a esquerda e rumaram para Norte,na direcção de uma cidade chamada Tideswell. Ao longo da estrada,acabaram por tornar a cruzar-se com o rio Wye,onde os penhascos íngremes e os bosques que circundavam Miller's

Dale há muito tinham envolto a aldeia na obscuridade. Imediatamente a seguir à última casa,surgiu um caminho estreito que seguia para noroeste. Hanken dirigiu o Ford nessa direcção. Rapidamente ficaram acima dos bosques e do vale e,ao fim de alguns minutos,avançavam ao longo de uma vasta extensão de urze e giesta que parecia ondular indefinidamente na direcção do horizonte.

- Calder Moor - informou Hanken. - A maior charneca de todo o White Peak. Estende-se daqui até Castleton.

Seguiu em silêncio durante mais alguns instantes até chegarem a uma pequena área de estacionamento. Parou e deixou o motor a trabalhar.

- Se ela tivesse ido acampar para Dark Peak,teríamos enviado a Equipa de Busca e Salvamento no seu encalço quando ela não apareceu.

Nenhuma velhota teria levado o cãozinho a passear para aquelas paragens e descoberto os corpos. Mas esta - a sua mão descreveu um arco sobre o painel de instrumentos do veículo - é uma zona acessível,toda ela. Há uma infinidade de quilómetros a percorrer se alguém se perder,mas é uma distância que pode ser feita a pé. Não é um passeio fácil,nem é inteiramente seguro. Mas é mais fácil de abordar do que as turfeiras que existem à volta de Kinder Scout. Se alguém tiver de ser assassinado na área,é preferível que o seja aqui,no planalto de calcário,do que no outro.

- Foi para aqui que se dirigiu Nicola Maiden? - perguntou Lynley.

Dentro do carro não conseguia discernir nenhum trilho. A rapariga teria sido obrigada a abrir caminho por entre tudo,desde fetos a arandos.

Hanken desceu o vidro da sua janela e deitou fora a pastilha elástica, Inclinou-se para Lynley e abriu o porta-luvas à procura de outra.

- Ela saiu do outro lado,a noroeste daqui. Ia fazer uma caminhada até Nine Sisters Henge,que fica mais perto da extremidade oeste da charneca.

Aquele lado tem mais motivos de interesse: túmulos,cavernas,grutas,elevações. Nine Sisters Henge é o ponto culminante.

- Você é natural da região? - perguntou Lynley.

Hanken não respondeu logo. Parecia estar a considerar se havia ou não de responder. Finalmente,tomou uma decisão e disse:

- Sou de Wirksworth - e pareceu querer selar os lábios relativamente ao assunto.

- Tem sorte em poder viver no mesmo sítio onde se encontra a sua história. Oxalá pudesse dizer o mesmo de mim mesmo.

- Depende da história - retorquiu Hanken e, metendo a mudança abruptamente, continuou. - Quer ir até ao local dar uma espreitadela?

Lynley era suficientemente sensato para saber que a forma como reagisse ao convite para inspeccionar a cena do crime seria crucial para o relacionamento que viesse a desenvolver-se com o outro inspector. A verdade é que queria, de facto, visitar o local onde tinham ocorrido os crimes. Independentemente da fase em que se encontrasse a investigação quando passava a fazer parte dela, havia sempre um momento no decurso do inquérito em que sentia necessidade de examinar os elementos com os seus próprios olhos. Não porque não confiasse na competência dos seus colegas, mas sim porque só visionando em primeira mão o maior número possível dos dados relacionados com o caso era capaz de se tornar parte integrante do crime. E era quando se tornava parte integrante do crime que era mais eficiente no seu trabalho. Fotografias, relatórios e provas físicas constituíam inestimáveis fontes de informação. Por vezes, porém, o local onde ocorria um crime podia esconder segredos até ao mais astuto dos observadores. E eram esses segredos que Lynley procurava quando inspeccionava a cena de um crime. Neste caso particular, todavia, a decisão de examinar o local do crime poderia implicar o desnecessário afastamento do inspector Hanken, e nada do que ele tinha dito ou feito até àquele momento deixava adivinhar que tivesse descurado qualquer pormenor.

Haveria de chegar o momento, pensou Lynley, em que ele e o outro não estivessem a trabalhar no caso na presença um do outro. Nessa altura, disporia de amplas oportunidades para inspeccionar o local onde tinham morrido Nicola Maiden e o rapaz.

- Você e a sua equipa já arrumaram essa questão, pelo que pude ver - disse. - Seria uma perda de tempo repetir aquilo que já fizeram. Hanken tornou a fitá-lo demoradamente, mastigando a pastilha elástica a um ritmo regular.

- Decisão sensata - retorquiu com um assentimento de cabeça, en quanto punha o carro em marcha.

Seguiram para norte, ao longo da extremidade leste da charneca. Cerca de um quilómetro e meio depois da pequena cidade mercantil de Tideswell, viraram para leste e foram deixando para trás a urze, o arando e os fetos. Pouco depois, chegaram a um pequeno vale - de encostas suaves salpicadas de árvores, onde mal começava a despontar a folhagem do Outono que se aproximava -, e ao chegarem a um entroncamento onde se podia ler numa tabuleta a curiosa indicação aldeia da peste, tornaram a virar para norte.

Em menos de um quarto de hora estavam em Maiden Hall, que ficava numa encosta próxima de Padley Gorge, protegida por limoeiros e castanheiros.

A estrada conduzia-os através de uma paisagem arborizada que bordejava uma incisão na paisagem aberta por um riacho que irrompia do bosque e desenhava uma linha sinuosa por entre as elevações calcárias, os fetos e as ervas bravias. O desvio para Maiden Hall surgiu inesperadamente diante deles quando entravam noutra zona do arvoredo. Serpenteava colina acima e desembocava num caminho de saibro que circundava a fachada de um edifício vitoriano de pedra e conduzia até um parque de estacionamento situado nas traseiras.

A entrada do hotel ficava, aliás, na parte de trás do edifício. Aí, uma tabuleta discreta, onde se lia apenas a palavra Recepção, guiava-os até uma passagem que conduzia ao interior do edifício. Lá dentro, uma pequena secretária. Atrás desta, abria-se uma sala de estar, que parecia funcionar como o salão do hotel. A entrada original do edifício fora transformada num bar e a divisão fora restaurada e redecorada com painéis de carvalho, papel de parede em suaves tons creme e âmbar e cadeiras estofadas. Dado que era demasiado cedo para que qualquer dos hóspedes se deslocasse até ao salão para um aperitivo antes da refeição, o salão estava deserto. Todavia, nem um minuto se passara desde que Hanken e Lynley tinham entrado na divisão quando surgiu uma mulher rechonchuda - olhos e nariz enrubescidos pelas lágrimas -, vinda do que parecia ser a sala de jantar, que os cumpri mentou com considerável dignidade.

Não havia quartos disponíveis para aquela noite, informou em voz sumida. E, dado que ocorrera uma morte súbita na família, a sala de jantar não funcionaria naquela noite. Todavia, caso os cavalheiros estivessem interessados num restaurante, ela teria muito prazer em recomendar-lhes alguns entre os existentes na região.

Hanken exibiu a sua identificação à mulher e apresentou Lynley.

- Devem querer falar com os Maiden. Vou chamá-los - disse a mulher e, passando pelos dois inspectores, percorreu rapidamente a zona da recepção e começou a subir as escadas.

Lynley caminhou até um dos dois recantos do salão. A luz de fim de tarde atravessava as vidraças das janelas, que davam para o caminho que circundava a fachada da casa. Do outro lado do caminho, estendia-se um relvado que a seca dos meses anteriores reduzira a um tapete de ervas retorcidas e queimadas pelo calor. Atrás de si, sentia os movimentos inquietos de Hanken. Algumas revistas mudaram de posição e caíram sonoramente em cima das mesas. Lynley sorriu ao ouvir os ruídos. O seu colega inspector estava sem dúvida a ceder à sua premente necessidade de pôr ordem nas coisas.

No interior do hotel reinava um silêncio absoluto. As janelas estavam abertas, e só os sons dos pássaros e o ruído de um avião perdido na distância quebravam a quietude. Dentro do edifício, no entanto, o ambiente era tão silencioso quanto o de uma igreja vazia.

Uma porta fechou-se algures e até eles chegou o som característico de passos pisando o saibro. Um instante depois, um homem de cabelo escuro vestido com uns jeans e uma sweatshirt cinzenta sem mangas passou pelas janelas montado numa bicicleta de dez velocidades. Desapareceu por entre as árvores no local onde o caminho de acesso a Maiden Hall iniciava a sua curva descendente ao longo da colina.

Foi nesse momento que os Maiden vieram juntar-se a eles. Lynley virou-se e afastou-se da janela ao ouvi-los entrar e ao escutar as palavras formais de Hanken: Mr. e Mrs. Maiden, por favor aceitem as nossas condolências.

Lynley viu que os anos de aposentação tinham sido brandos para com Andy Maiden. O antigo agente do 5010 e a mulher tinham ambos sessenta e poucos anos, mas aparentavam ter menos dez anos, pelo menos. Andy adquirira a aparência de um homem dedicado às actividades ao ar livre: rosto bronzeado, estômago liso, peito musculoso, todas elas características que se adequavam a um homem que deixara para trás a reputação de alguém capaz de se fundir com o ambiente que o rodeava, como um camaleão. A mulher apresentava uma condição física idêntica. Igualmente bronzeada e de constituição robusta, como se praticasse exercício com frequência. Ambos, no entanto, tinham ar de quem perdera mais do que uma noite de sono. Andy Maiden tinha a barba por fazer e as roupas amarrotadas. Nan tinha um aspecto macilento. Por baixo dos olhos via-se uma massa de pele enrugada, tingida de um tom violáceo.

Maiden conseguiu esboçar um sorriso de agradecimento.

- Tommy. Obrigado por teres vindo.

- Lamento que seja nestas circunstâncias - retorquiu Lynley e apresentou-se à mulher de Maiden. - Todo o pessoal da Yard manda condolências, Andy.

- Scotland Yard?

Nan Maiden parecia confusa.

- Espera um instante,querida - pediu o marido.

Com um gesto indicou o recanto atrás de Lynley,onde estavam colocados dois sofás,de frente um para o outro,em cada um dos lados de uma mesa sobre a qual estavam espalhados alguns exemplares da Country Life.

Ele e a mulher instalaram-se num dos sofás,enquanto Lynley se sentava no outro. Hanken virou uma poltrona e colocou-se a escassos centímetros da zona central que separava os Maiden de Lynley. A atitude indicava que ele ia desempenhar o papel de mediador entre as duas partes. Lynley reparou, no entanto,que o inspector teve o cuidado de aproximar mais a sua cadeira da actual Scotland Yard do que da Scotland Yard do passado.

Se Andy Maiden teve consciência da manobra de Hanken e do que ela significava, não o demonstrou. Em vez disso,sentou-se no sofá,o corpo inclinado para a frente e as mãos entre as pernas. A mão esquerda massajava a direita e a direita massajava a esquerda.

A mulher observava os seus gestos. Entregou- lhe uma pequena bola vermelha que tirara do bolso, dizendo:

- Ainda te dói? Queres que telefone ao médico?

- Estás doente? - perguntou Lynley.

Maiden apertou a bola com a mão direita e olhou fixamente para os dedos esticados da mão esquerda.

- Circulação - disse. - Nada de importante.

- Por favor, deixa-me telefonar ao médico, Andy - pediu a mulher.

- Isso não é importante agora.

- Como é que podes dizer... - os olhos de Nan Maiden tornaram-se subitamente brilhantes. - Meu Deus. Será que me esqueci de tudo?

Apoiou a testa no ombro do marido e começou a chorar. Com um gesto brusco, Maiden passou um braço em volta dela.

Lynley lançou um olhar a Hanken. Você ou eu? perguntou em silêncio. Não vai ser agradável.

Hanken respondeu com um vivo movimento de cabeça. É todo seu, queria ele dizer.

- Nenhum momento será fácil para falar sobre a morte da vossa filha - começou Lynley, delicadamente. - Mas quando se investiga um crime, e eu sei que tu já estás ao corrente disto, Andy, as primeiras horas são cruciais.

Enquanto ele falava, Nan Maiden ergueu a cabeça. Tentou falar, não foi capaz e tentou novamente.

- Quando se investiga um crime - repetiu. - De que é que está a falar. Lynley fitou o marido e depois a mulher. Hanken fez o mesmo. Em seguida, olharam um para o outro.

- Viste o corpo, não viste? - Lynley perguntou a Andy. - Informaram-te sobre o que aconteceu, não?

- Sim - confirmou Maiden. - Informaram- me, sim. Mas eu...

- Crime? - gritou a mulher, horrorizada. - Oh, meu Deus, Andy. Tu nunca disseste que Nicola tinha sido assassinada!

Barbara Havers passara a tarde em Greenford, tendo decidido aproveitar o que restava de uma tarde livre por indisposição física para fazer uma visita à mãe, em Hawthorne Lodge, uma casa geminada construída no pós-guerra, onde Mrs. Havers era hóspede permanente há dez meses. Tal como sucede com a maioria dos que tentam conquistar o apoio de terceiros para uma posição eventualmente insustentável, Barbara descobrira que havia um preço a pagar pelo facto de persistir em cultivar advogados de defesa no seio

do grupo de amigos e familiares do inspector Lynley. E porque já pagara preços suficientes para uma tarde, procurara algo que a distraísse.

Se havia algo em que Mrs. Havers era especialista era, com certeza, em proporcionar formas de fugir à realidade, dado que ela própria já não vivia neste mundo. Barbara fora dar com ela no jardim das traseiras de Hawthorne Lodge entretida com um quebra-cabeças. A tampa da caixa do quebra-cabeças fora encostada a um velho frasco de maionese, cheio de areia colorida onde estavam enterrados os caules de sete cravos de plástico. Na tampa da caixa, um adulador príncipe de banda desenhada - extremamente bem proporcionado e evidenciando a dose suficiente de adoração adequada ao momento - enfiava um sapatinho de salto alto em cristal no pé delgado e curiosamente desprovido de dedos da Cinderela, perante o olhar ciumento das duas pérfidas e rancorosas meias-irmãs da rapariga, duas criaturas dignas de uma firme e merecida lição.

Gentilmente encorajada pela sua enfermeira e guardiã, Mrs. Flo. - como era conhecida Florence Magentry pelas suas três hóspedes idosas e respectivas famílias -, Mrs. Havers conseguira completar a figura de Cinderela, parte das meias-irmãs, o braço do príncipe segurando o sapato, o seu torso másculo e a perna esquerda flectida. No momento em que Barbara se aproximou dela, todavia, a mãe tentava encaixar o rosto do príncipe num dos ombros de uma das meias-irmãs e quando Mrs. Flo gentilmente guiou a mão dela na direcção do sítio onde a peça devia entrar, Mrs. Havers gritou, Não, não, não! e empurrou o quebra-cabeças para o lado, derrubando o frasco, espalhando os cravos de plástico e derramando a areia sobre a mesa.

A intervenção de Barbara não ajudou em nada. O facto de a mãe a reconhecer, ou não, durante as suas visitas era sempre obra do acaso, e naquele dia a consciência toldada de Mrs. Havers associava o rosto de Barbara a alguém chamado Libby O'Rourke, que aparentemente tinha sido o anjo tentador da escola durante a sua infância. Libby O'Rourke, ao que parece, agia na maioria das vezes como uma versão feminina de Georgie Porgie e um dos rapazes que ela beijara não era outro senão o prometido de Mrs. Havers, uma afronta que Mrs. Havers se sentia compelida a vingar precisamente naquele dia, atirando ao ar as peças do quebra-cabeças, gritando invectivas pontuadas pelo tipo de linguagem que Barbara não sonhava que pudesse fazer parte do vocabulário da mãe antes de sucumbir, finalmente, o corpo agitado pelos soluços. A situação exigira algum tacto: convencer a mãe a deixar o jardim, encorajá-la a subir as escadas que levavam até ao quarto dela, persuadi-la a folhear um álbum de família durante o tempo suficiente para se aperceber de que o rosto redondo e achatado aparecia nas páginas do álbum com demasiada frequência para que pudesse pertencer à odiosa Libby.

- Mas eu não tenho uma menina - protestava Mrs. Havers numa voz que soava mais assustada do que confusa, depois de ter sido forçada a concordar que Libby O'Rourke estava a ser promovida a uma posição de proeminência no álbum de família que não fazia qualquer sentido, tendo em conta a ofensa de que ela em tempos fora capaz. - A mãezinha não me deixa ter bebés. Só bonecas.

Barbara não tinha resposta. O cérebro da mãe perdia-se em tortuosas viagens ao passado com demasiada frequência e quase sem aviso, que ela há muito se perdoara a si mesma pela sua incapacidade para lidar com esse facto. Por isso, quando o álbum foi posto de lado, não fez qualquer tentativa para argumentar, persuadir, dissuadir ou apelar. Limitara-se a escolher uma das revistas de viagens que a mãe gostava de folhear e passara noventa minutos sentada na beira da cama, ao lado da mulher que se esquecera até de que dera à luz, contemplando fotografias da Tailândia, Austrália e Grécia.

Foi aí que a sua consciência finalmente ganhou algum domínio sobre a sua resistência, e a voz interior que antes caluniara as atitudes de Lynley foi confrontada com uma voz que sugeria que as suas próprias acções podiam ter deixado algo a desejar. O que se seguiu foi uma discussão não verbal dentro da sua cabeça. Um dos lados insistia em considerar o inspector Lynley como um emproado vingativo. O outro informava-a de que - emproado ou não - ele não merecia a deslealdade dela. E ela fora desleal. Ir até Chelsea com o intuito de o denunciar aos que lhe eram próximos não era um com portamento digno de uma amiga digna de confiança. Por outro lado, ele também fora desleal. Ao chamar a si a missão de intensificar o seu castigo formal não a destacando para um caso, era uma maneira mais do que óbvia de ilustrar em qual dos lados ele se posicionava na batalha que ela travava para salvar a sua carreira profissional, independentemente do que dizia sobre a necessidade de manter uma certa discrição durante algum tempo.

Era esta a discussão que a deixara enfurecida. Começara quando folheava as revistas de viagens, murmurando comentários sobre as férias de sonho que a mãe passara em Creta, Mykonos, Banguecoque e Perth. Mantivera-se firme durante o trajecto de carro desde Greenford até Londres, ao fim do dia. Nem sequer uma cassete antiga dos Fleetwood Mac, volume no máx fora suficiente para calar as facções em litígio dentro da cabeça de Barbar Já que, ao longo do percurso, cantando em sintonia com Stevie Nicks, soa a voz mezzo soprano da consciência de Barbara, numa cantata sentenci que, teimosamente, se recusava a abandonar o seu cérebro.

Ele merecia-o, merecia-o, merecia-o - gritava ela, silenciosamente, em resposta à voz.

E o que é que tu ganhaste, minha querida, em dar-lhe aquilo que merecia? replicava a sua consciência.

Recusava-se ainda a responder a esta pergunta quando parou em St Road e enfiou o Mini num lugar de estacionamento que uma mulher, duas crianças, dois cães e o que parecia ser um violoncelo com pernas deixavam, convenientemente, vago. Fechou o carro e encaminhou-se na direcção de Eton Villas, agradecida por estar a sentir-se cansada, já que cansaço significava sono e sono significava pôr um ponto final naquelas vozes.

Ouviu outras vozes, no entanto, quando dobrou a esquina e se aproximou da casa amarela estilo eduardiano, atrás da qual ficava a sua minúscula morada. As novas vozes provinham da zona coberta por uma laje em frente ao apartamento do rés-do-chão. E uma delas - pertencente a uma criança - soltou um grito de felicidade no momento em que Barbara transpôs o portão ornado com estacas em laranja vivo.

- Barbara! Olá, olá! O pai e eu estamos a fazer bolas de sabão. Vem cá ver. Quando a luz incide sobre elas no sítio certo, parecem arco- íris redondos. Sabias que isso acontecia, Barbara? Anda cá ver, anda.

A garota e o pai estavam sentados no solitário banco de madeira em frente ao apartamento onde moravam, ela iluminada pela luz que decli nava rapidamente, ele imerso nas sombras cada vez mais acentuadas, onde o cigarro cintilava como um foguete cor de carmim. Fez uma carícia na cabeça da filha e levantou-se, com aquela formalidade que fazia parte da sua natureza.

- Faz-nos companhia? - Taymullah Azhar perguntou a Barbara.

- Oh, sim, sim - exclamou a criança. - Depois das bolas de sabão, vamos ver um vídeo. A Pequena Sereia. E temos maçãs caramelizadas. Bem, só temos duas, mas eu divido a minha contigo. De qualquer maneira, não consigo comer uma sozinha.

Saltou do banco e veio cumprimentar Barbara, dançando através do relvado com a varinha das bolas de sabão numa das mãos e deixando atrás de si um rasto de arco-íris circulares.

- Com que então, A Pequena Sereia? - disse Barbara, pensativa. - Não sei, Hadiyyah. Nunca me imaginei como uma miúda que gostasse da Dis ney. Com todas aquelas magrizelas salvas por senhores vestidos com armaduras...

- Mas esta é uma sereia - interrompeu Hadiyyah, em tom didáctico.

- Daí o título. Pois. Tá certo.

- Por isso, ela não pode ser salva por ninguém vestido com uma armadura, porque ele afogava-se no fundo do mar. Além disso, ela não é salva por ninguém. Ela é que salva o príncipe.

- Ora aí está uma reviravolta que eu sou capaz de aceitar.

- Nunca viste, pois não? Pois hoje podes ver. Anda lá. Hadiyyah rodopiou, rodeando-se por um círculo de bolas de sabão. As suas longas e grossas tranças esvoaçaram sobre os ombros, os laços prateados que as apertavam cintilando como pálidas libelinhas.

- A pequena sereia é bonita como tudo. Ela tem cabelo castanho- avermelhado.

- Faz um bom contraste com as escamas.

- E usa umas conchinhas tão amorosas no peito.

Hadiyyah passou a demonstrar, colocando as duas mãos pequenas e escuras em forma de concha sobre dois seios inexistentes.

- Ah, estou a perceber. Estrategicamente colocadas - disse Barbara.

- Não queres ficar a ver o vídeo connosco? Por favor? Como eu disse temos maçãs cara-me-li-za-das - proferiu as últimas duas palavras num tom persuasivo.

- Hadiyyah - disse o pai, em voz baixa -, uma vez feito um convite não há necessidade de o repetir.

Depois, virando-se para Barbara:

- Seja como for, seria para nós um grande prazer se aceitasse fazer-nos companhia.

Barbara considerou a proposta. Um serão com Hadiyyah e o pai desta podia ajudá-la a distrair-se ainda mais, algo que Lhe agradava sobremaneira. Poderia sentar-se na companhia da sua amiguinha, confortavelmente recostada num par de enormes almofadas espalhadas pelo chão, cabeças apoiadas nas palmas das mãos, pés elevados, embaladas pela música. Mais tarde, poderia conversar com o pai da sua pequena amiga, quando Hadiyyah já estivesse deitada. Taymullah Azhar estaria a contar com isso. Era um hábito que ambos tinham criado durante os meses de licença forçada de Barbara, E durante as últimas semanas, sobretudo, as conversas entre os dois tinham evoluído da troca de banalidades próprias de duas pessoas relativamente estranhas e educadas para as primeiras e delicadas confidências entre dois indivíduos que podiam vir a tornar-se amigos.

Todavia, era nessa amizade que residia a maior dificuldade. Ela implicava que Barbara revelasse o teor das suas entrevistas com Hillier e Lynley, Exigia que contasse a verdade sobre a sua despromoção e o seu afastamento do homem que procurava imitar. E porque a filha de Azhar, que tinha oito anos, era precisamente a criança a quem Barbara tinha salvo a vida com o seu comportamento impetuoso no mar do Norte - um comportamento que ela lograra esconder de Azhar nos três meses subsequentes aos acontecimentos -, ele sentir-se-ia indevidamente responsável pelas repercussões que o mesmo teria na sua carreira.

- Hadiyyah - disse Taymullah Azhar quando Barbara não respondeu -, acho que por hoje já tivemos bolas de sabão suficientes. Arruma-as no teu quarto e espera lá por mim, por favor.

Hadiyyah franziu as pequenas sobrancelhas, e os seus olhos assumiram uma expressão consternada.

- Mas, pai, a pequena sereia...

- Vamos vê-la como combinámos, Hadiyyah. Agora, vai arrumar as bolas de sabão no teu quarto.

Ela lançou a Barbara um olhar ansioso.

- Mais de metade de uma maçã caramelizada - disse. - Se quiseres, Barbara.

- Hadiyyah.

Os seus lábios abriram-se num sorriso travesso antes de desatar a correr em direcção à casa.

um maço de cigarros,que ofereceu a Barbara. Ela tirou um,agradeceu e

deixou que ele lhe acendesse o cigarro. Ele observou-a em silêncio até que

a sua inquietação a impeliu a falar.

- Estou estafada, Azhar. Vou ser obrigada a dizer que não esta noite. Obrigada na mesma. Diga a Hadiyyah que terei muito prazer em ver um

filme com ela noutra ocasião. Se possível,um em que a heroína não seja fina

que nem um lápis,nem tenha seios de silicone.

Ele continuou a fitá-la. Estudava-a da mesma forma que algumas pessoas examinam os rótulos das latas nos supermercados. Barbara queria

levantar-se e ir embora,mas conseguiu conter-se.

- Deve ter regressado ao seu trabalho hoje.

- O que é que o leva a pensar...

- As suas roupas. A sua... - procurou uma palavra,um eufemismo, sem dúvida - situação na New Scotland Yard já foi resolvida,Barbara?

Era inútil mentir. Ainda que tivesse conseguido ocultar-lhe todos os factos que a tinham conduzido à situação em que se encontrava,ele sabia que ela fora suspensa. Teria de começar a arrastar-se para fora da cama e a sair para o trabalho todas as manhãs,a começar pelo dia seguinte,para que, mais cedo ou mais tarde,ele não deduzisse que ela já não gastava os seus dias a dar de comer aos patos em Regent's Park.

- Foi,sim - disse. - Ficou resolvida hoje.

E inalou profundamente o fumo do cigarro,o que a obrigou a virar a cabeça para expelir o fumo para longe do rosto dele e a esconder o seu.

- E? Mas que pergunta a minha? Você está vestida com roupa de trabalho,por isso deve ter corrido bem.

- Exactamente - ela brindou-o com um sorriso dissimulado. - Correu mesmo. Do princípio ao fim. Ainda tenho um emprego vantajoso,continuo no CID,a minha reforma ainda está intacta.

Perdera a confiança da única pessoa que considerava importante na Yard,mas não referiu esse facto. Não conseguia vislumbrar o momento certo para o fazer.

- Isso é bom - disse Azhar.

- Pois é. É o melhor que me podia suceder.

- Fico feliz por saber que nada do que sucedeu em Essex a afectou aqui,em Londres.

E de novo, aquele olhar firme, os olhos escuros como rebuçados de chocolate num rosto coberto por uma pele cor de noz, surpreendentemente lisa para um homem de 35 anos de idade.

- Pois é. Bom, e não afectou, de facto - disse. - Tudo resultou às mil maravilhas.

Ele concordou com um aceno de cabeça, desviando os olhos dela, finalmente, para os fixar no céu crepuscular, por cima da cabeça dela. As luzes de Londres escondiam tudo à excepção das estrelas nocturnas mais brilhantes, que em breve despontariam. Mesmo as que cintilavam teriam de rasgar o denso véu de poluição que nem a escuridão crescente conseguia dissipar.

- Quando era criança, a noite proporcionava-me o maior dos confortos - disse ele em voz baixa. - No Paquistão, a minha família dormia como mandava a tradição: os homens todos juntos e as mulheres todas juntas. Por isso, à noite, na presença do meu pai, do meu irmão, dos meus tios, eu tinha sempre a certeza de que estava em perfeita e total segurança. Mas esqueci essa sensação quando cheguei à idade adulta, em Inglaterra. O que antes era seguro tornou-se um incómodo com origem no meu passado. Descobri que tudo o que conseguia recordar eram os sons produzidos pelo ressonar do meu pai e dos meus tios e o odor produzido pela flatulência dos meus irmãos. Durante algum tempo, quando estava sozinho, pensei que era bom estar finalmente longe deles, ter a noite só para mim e para as pessoas com quem me apetecesse partilhá-la. E foi assim que vivi durante algum tempo. Mas agora descubro que de bom grado retomaria os velhos hábitos, ao tempo em que, fossem quais fossem os fardos ou os segredos, havia sempre a consciência, à noite, pelo menos, de nunca ter de suportá-los ou enfrentá-los sozinho.

As palavras dele eram de tal modo reconfortantes que Barbara percebeu que desejava aceitar o convite para uma sessão de confidências que elas encerravam. Reprimiu o impulso, no entanto, e disse:

- Talvez o Paquistão não prepare as suas crianças para a realidad do mundo.

- E que realidade é essa?

- Aquela que nos diz que estamos todos sozinhos.

- Acredita que isso seja verdade, Barbara?

- Não me limito a acreditar. Sei que é verdade. Servimo-nos das nossas horas diurnas para escapar às nossas noites. Trabalhamos, divertimo-nos, mantemo-nos ocupados. Mas quando chega a hora de dormir, verificamos que o nosso reservatório de distracções está esgotado. Mesmo quando estamos na cama com alguém, o facto de essa pessoa adormecer quando nós somos incapazes de o fazer é suficiente para nos dizer que apenas nos temos a nós próprios.

- Essa é a voz da filosofia ou da experiência?

- Nem uma nem outra - respondeu ela. - É apenas o modo como as coisas são.

- Mas não - retorquiu ele - a forma como elas devem ser.

O comentário fez soar o alarme dentro da cabeça de Barbara,que em seguida esmoreceu rapidamente. Dita por qualquer outra pessoa,a observação não teria passado de mera lábia. A história pessoal de Barbara,no

entanto,era a prova de que ela não era o tipo de miúda com quem os homens tentassem jogos de sedução. Além disso,ainda que tivesse passado por momentos ocasionais de atracção afrodisíaca,sabia que este não era um deles. De pé na semiobscuridade,enfiada num fato de linho amarrotado que a fazia parecer um sapo transvestido,estava bem ciente de que dificilmente seria a imagem do desejo. Por isso,com a eloquência de que sabia dar mostras sempre que a ocasião assim o exigia,disse:

- Pois não. Bom,se você o diz.

dito isto,atirou o cigarro ao chão e esmagou-o com a sola do sapato.

- Boa-noite,então - acrescentou. - Divirta-se com a sereia. E obrigada pelo cigarro. Estava mesmo a precisar de um.

- Todos nós precisamos de alguma coisa.

Azhar tornou a levar a mão ao bolso da camisa. Barbara julgou que ele fosse oferecer-lhe os seus cigarros novamente. Em vez disso,porém, estendeu-lhe uma folha de papel dobrada.

- Um cavalheiro veio cá à sua procura,Barbara. Pediu-me que não me esquecesse de lhe entregar este bilhete. Tentou prendê-lo na porta de sua casa,segundo me disse,mas não conseguiu.

- Um cavalheiro?

Barbara conhecia apenas um homem a quem um estranho não hesitaria em aplicar aquela palavra ao fim de um breve diálogo. Pegou no pedaço de

papel,mal se atrevendo a alimentar quaisquer esperanças. E ainda bem, porque a caligrafia do bilhete - uma folha de papel tirada de um pequeno bloco-notas de argolas - não era a de Lynley. Leu as oito palavras escritas:

Contacta-me logo que receberes este bilhete. Seguia-se um número. O bilhete não estava assinado.

Barbara tornou a dobrar o bilhete. Ao fazê-lo,viu o que estava escrito na parte de fora,o que o próprio Azhar devia ter visto,interpretado e entendido no preciso instante em que o bilhete lhe fora entregue. Escrito em letra de imprensa a toda a largura da folha lia-se Detective Havers. Isto queria dizer que Azhar sabia de tudo.

O seu olhar cruzou-se com o dele.

- Pelos vistos,estou novamente em acção - disse,no tom mais sincero de que foi capaz. - Obrigada,Azhar. Este tipo disse onde é que ficaria à espera do meu contacto?

Azhar abanou a cabeça, negativamente.

- Pediu-me apenas para que eu não me esquecesse de lhe entregar este recado.

- Muito bem. Obrigada.

Despediu-se dele com um aceno de cabeça e afastou-se. Ele chamou o nome dela - em tom urgente -, mas quando ela parou e olhou para trás, viu que ele olhava fixamente para a rua.

- Será que me pode dizer... - disse.

Depois a sua voz sumiu-se. Tornou a olhá-la, como se o esforço fosse penoso para ele.

- Dizer-lhe o quê? - perguntou ela, embora ao pronunciar as palavras sentisse um arrepio na espinha.

- Dizer-me... Como está a sua mãe? - perguntou Azhar.

- A minha mãe? Bom... É um desastre completo no que diz respeito a quebra-cabeças, mas fora isso acho que está bem.

Ele sorriu.

- É bom sabê-lo.

E depois de lhe desejar boa noite em voz baixa, entrou em casa. Barbara dirigiu-se para casa, uma minúscula moradia situada ao fundo do jardim. Protegida pelos ramos de uma velha acácia falsa, era pouco maior do que uma arrecadação apetrechada com todos os confortos modernos. Depois de entrar em casa, libertou-se do casaco de linho, atirou o colar de pérolas falsas para cima da mesa que servia propósitos tão distintos como mesa de jantar e tábua de engomar, e encaminhou-se para o telefone. Não havia mensagens no atendedor. Um facto que não a surpreendia. Marcou o número do pager, seguido do seu próprio número e esperou.

Cinco minutos mais tarde, alguém telefonou. Esperou que o telefone tocasse quatro vezes antes de atender. Não havia razões para dar a entender que estava desesperada, decidiu.

Do outro lado, conforme descobriu, estava Winston Nkata. Endireitou-se imediatamente ao ouvir a inconfundível voz melíflua onde se misturavam as sonoridades da Jamaica e da Serra Leoa. Estava no Load of Hay, logo depois da esquina em Chalk Farm Road, disse, terminando uma dose de cordeiro com arroz, que não é, acredita, uma coisa que a minha mãe alguma vez se atrevesse a servir ao seu filho predilecto, mas sempre é melhor que uma refeição do McDonald's, embora por uma margem muito curta. Vem até casa dela imediatamente.

- Estou aí dentro de cinco minutos - disse e desligou antes que tivesse oportunidade de lhe dizer que a última coisa que lhe apetecia ver à porta de sua casa naquele momento era precisamente a carantonha dele. Desligou o telefone, soltou uma imprecação em voz baixa e dirigiu-se ao frigorífico, à procura de uma refeição ligeira.

Os cinco minutos passaram a dez. Os dez minutos transformaram-se em quinze. Ele continuava sem aparecer.

Sacana, pensou Barbara. Grande piada, aquela".

Foi até à casa de banho e ligou o chuveiro.

Lynley tentou digerir rapidamente o facto extraordinário de Andy Maiden não ter revelado à mulher que a filha de ambos tinha sido vítima de um crime. Sendo Calder Moor um local repleto de potenciais cenários de acidentes, o antigo colega de Lynley permitira, aparente e inexplicavelmente, que a mulher acreditasse que a filha fracturara o crânio em consequência de uma queda.

Quando percebeu que não fora isso que acontecera, Nan Maiden dobrou o corpo para a frente, cotovelos enterrados nas coxas e punhos colados à boca. Quer porque estivesse em estado de choque, quer porque se sentisse demasiado abatida pelo desgosto para compreender fosse o que fosse, quer porque compreendesse demasiado bem o que estava a acontecer, não chorou. Murmurou apenas um gutural, Oh, meu Deus, meu Deus, meu Deus.

O inspector Hanken pareceu entender com relativa rapidez as impli cações da sua reacção. Observava Andy Maiden com uma expressão muito pouco amistosa. Todavia, não fez qualquer pergunta na sequência da revelação de Nan. Limitou-se a aguardar, como bom polícia que era.

No rescaldo de tudo isto, Maiden aguardava também. Pareceu aperce ber-se, no entanto, de que devia uma explicação para o seu comportamento incompreensível.

- Desculpa, querida - disse a Nan. - Não fui capaz... Perdoa-me. Nan, eu mal conseguia encarar o facto de ela ter morrido, quanto mais... quanto mais o ter de enfrentar... ter de começar a lidar com...

Demorou alguns instantes até conseguir reunir os recursos interiores que um polícia aprendia a desenvolver a fim de poder sobreviver às piores experiências. A mão direita segurava ainda a bola que a mulher lhe entregara, apertando-a e soltando-a em ritmo espasmódico.

- Desculpa-me, sim? - disse, numa voz entrecortada. - Nan. Nan Maiden ergueu a cabeça. Fitou-o por momentos. Depois estendeu a mão - que tremia - e pousou-a sobre o braço dele.

- Não se importam... - pediu, dirigindo-se aos polícias. Lábios trémulos, continuou apenas quando conseguiu controlar a emoção.

-... de me dizer o que aconteceu.

O inspector Hanken satisfez o pedido dela, reduzindo os pormenores ao mínimo. Explicou onde e como Nicola Maiden morrera, mas não lhes revelou mais nada.

- Ela sofreu? - perguntou Nan depois de Hanken ter concluído as suas breves observações. - Sei que não podem ter a certeza absoluta disso, mas se houver alguma coisa que nos permita deduzir que no final... qualquer coisa...

Lynley repetiu o que a patologista do Ministério do Interior lhes tinha dito.

Nan reflectiu sobre as informações durante alguns momentos. Na divisão silenciosa, a respiração de Andy Maiden soava alta e desagradável.

- Quis saber, porque... - disse Nan - Acham... Será que ela chamou por um de nós... teria tido esperança de que... ou precisado...

Os olhos dela encheram-se de lágrimas. Calou-se.

Ao ouvir aquelas perguntas, Lynley lembrou- se dos velhos crimes da charneca, da monstruosa gravação feita por Myra Hindley e pelo seu cúmplice e da angústia da mãe da vítima no momento da audição da gravação durante o julgamento, ao ouvir a voz aterrorizada da filha gritando pela mãe enquanto era assassinada. Não haveria um certo tipo de informações, pensou ele, que não deviam ser reveladas publicamente, por não poderem ser suportadas em privado?

- Os golpes que a atingiram na cabeça deixaram-na imediatamente inconsciente. E ela assim permaneceu durante todo o tempo.

- E no corpo dela, havia outras... Ela foi... Alguém...

- Não, ela não sofreu qualquer tortura - interveio Hanken, como se também ele sentisse necessidade de demonstrar alguma compaixão pela mãe da rapariga assassinada. - Nem foi violada. Havemos de ter um relatório mais completo dentro de algum tempo, mas por agora os golpes na cabeça parecem ser a única coisa que ela... - fez uma pausa, procurando aparentemente a palavra que conotasse menos sofrimento - a única coisa que lhe aconteceu.

- Parecia que estava a dormir - disse Maiden. - Branca. Como a cal. Mas a dormir.

- Eu quero sentir-me melhor - disse Nan. - Mas não consigo.

E jamais conseguirá,pensou Lynley.

- Temos uma possível identificação do segundo corpo,Andy. Vamos

ter de avançar rapidamente. Pensamos que o rapaz se chamava Terence Cole. Residia em Londres,em Shoreditch. Este nome diz-te alguma coisa?

- Ela não estava sozinha?

O olhar que Nan Maiden lançou ao marido revelou à polícia que ele também escondera esta informação da mulher.

- Não; não estava sozinha - confirmou Maiden.

Hanken explicou a situação a Nan Maiden,revelando que havia apenas equipamento de campismo de uma só pessoa - que ele mais tarde pedira a Maiden que identificasse como tendo pertencido à filha - fora encontrado no interior de Nine Sisters Henge, juntamente com o corpo de um adolescente,que apenas trazia consigo as roupas que tinha vestidas.

- A moto que estava junto do carro dela - Maiden juntou os factos rapidamente. - Era dele?

- Pertencia a alguém chamado Terence Cole - afirmou Hanken. Não foi dada como roubada e até ao momento também não foi reclamada por nenhum residente da charneca. Está registada numa morada de Shoreditch. Um dos nossos homens dirige-se para lá neste momento,a fim de

reunir os elementos necessários,mas o mais provável é que a identificação de que dispomos esteja correcta. O nome diz-vos alguma coisa?

Maiden abanou a cabeça negativamente e disse:

- Cole. A mim não. Nan?

- Não o conheço. E Nicola... Ela teria certamente falado nele,se fosse amigo dela. Tê-lo-ia trazido até cá para nós o conhecermos. Sempre foi assim.

Era... agia sempre dessa maneira.

Foi nessa altura que Andy Maiden deu mostras da sua perspicácia,formulando uma pergunta lógica,fruto dos anos em que trabalhara na polícia.

- Haverá alguma hipótese de Nick... - fez uma pausa e pareceu

preparar a mulher para a pergunta que estava prestes a fazer,descansando ternamente uma mão sobre a coxa dela. - Será possível que ela estivesse apenas no local errado? Será possível que o alvo fosse o rapaz? Tommy?

Olhou para Lynley.

- Esse seria certamente um dado a considerar em qualquer outro caso - admitiu Lynley.

- Mas não neste. Porquê?

- Veja isto - Hanken mostrou uma cópia do bilhete manuscrito que fora encontrado no corpo de Nicola.

Os Maiden leram as cinco palavras escritas - ESTA CABRA TEVE O QUE MERECIA - enquanto Hanken acrescentava que o original fora encontrado dentro do bolso da filha.

Andy Maiden contemplou o bilhete longamente. Passou a bola vermelha da mão direita para a esquerda e apertou-a.

- Santo Deus. Estão a querer dizer-nos que alguémfoi até lá para a matar? Que alguém a seguiu com a intenção de matá Que não se tratou apenas de um encontro com estranhos? De uma discussão estúpida provocada por uma coisa qualquer? Que ela e o rapaz foram mortos por um psicopata por puro divertimento?

- É duvidoso que assim seja - disse Hanken. - Mas você conhece os procedimentos tão bem como nós.

Andy Maiden devia saber que todas as hipóteses possivelmente relacionadas com o assassínio da filha iriam ser exploradas.

- Se alguém se deslocou, de facto, até à charneca com o propósito específico de matar a sua filha, nós temos de analisar as razões que levaram a tal.

- Mas ela não tinha inimigos - declarou Nan Maiden. - Sei muito bem que isto é precisamente o que se espera que uma mãe diga da filha, mas neste caso é a pura verdade. Toda a gente gostava de Nicola. Ela provocava esse tipo de sentimentos.

- Nem toda a gente, ao que parece, Mrs. Maiden - disse Hanken. E mostrou as cópias das cartas anónimas que tinham igualmente sido encontradas no local do crime.

Andy Maiden e a mulher leram-nas em silêncio e sem denunciar qualquer tipo de reacção. Foi ela quem falou, finalmente. E enquanto falava, o olhar do marido continuava fixo nas cartas. Ambos continuaram sentados, imóveis como estátuas.

- É impossível - disse ela. - Nicola não pode ter recebido estas cartas. Estão enganados se acham que ela as recebeu.

- Porquê?

- Porque nós nunca as vimos. E se ela estivesse a receber ameaças - de alguém, fosse de quem fosse - ela teria falado connosco imediatamente.

- E se não quisesse deixar-vos preocupados...

- Por favor. Acreditem no que vos digo. Ela não se comportava dessa maneira. Não pensava assim, sobre se iria deixar-nos preocupados ou não. Pensava apenas em dizer a verdade. Se algo de errado estivesse a passar-se na vida dela, ela ter-nos-ia dito. Era assim que ela agia. Falava sobre tudo. Tudo. É verdade - e lançando um olhar sério ao marido -, Andy?

Com esforço, ele desviou os olhos das cartas. O seu rosto, que anteriormente parecia exangue, estava agora ainda mais pálido.

- Nem quero pensar nessa possibilidade - disse -, mas é a melhor resposta possível, caso alguém a tenha de facto seguido... caso ela já não estivesse acompanhada... caso alguém não se tenha apenas cruzado com ela e a tenha morto e ao rapaz por puro e demente divertimento.

- O quê? - perguntou Lynley.

- 5010 - disse ele lentamente, como se as palavras lhe queimassem os lábios. - Houve tantos casos ao longo dos anos, tantos gatunos que foram presos. Assassinos, traficantes de droga, patrões do crime. Uma infinidade deles, com quem lidei de perto.

- Andy! Não - protestou a mulher, tendo aparentemente compreendido o que ele queria dizer. - Isto não tem nada a ver contigo.

- Alguém que tenha sido posto em liberdade condicional, que tenha descoberto o nosso paradeiro, que nos tenha observado tempo suficiente para conhecer os nossos movimentos... - virou-se para ela. - Estás a perceber como tudo pode ter acontecido, não estás? Alguém que quisesse vingar-se, e que tenha atingido Nick porque sabia que fazer mal à minha filha - à minha menina - é o mesmo que me matar a mim aos poucos... que me condenar a uma morte em vida...

- É uma possibilidade que não podemos excluir. Porque se, como dizem, a vossa filha não tinha inimigos, resta-nos uma única questão: Quem os tinha? Se por acaso prendeste alguém que tenha saído em liberdade condicional, Andy, vamos precisar de um nome.

- Foram dezenas deles, meu Deus.

- A Yard, em Londres, pode recuperar todos os teus antigos processos, mas tu podes ajudar-nos fornecendo-nos algumas indicações. Se te lembrares de alguma investigação em particular, podes poupar-nos muito trabalho fazendo a lista dos intervenientes.

- Tenho os meus diários.

- Diários? - perguntou Hanken.

- Em tempos pensei... - Maiden abanou a cabeça com ironia. - Pen sei em escrever depois de me reformar. Memórias. Ego. Mas depois surgiu o hotel e nunca cheguei a fazê-lo. Conservei os diários, no entanto. Se der uma olhadela, talvez me lembre de um nome... um rosto...

Pareceu sucumbir nesse momento, como se o peso da responsabilidade pela morte da filha lhe pesasse enormemente.

- Tu não tens a certeza disso - disse Nan Maiden. - Andy, por favor. Não faças isso a ti mesmo.

- Seguiremos todas as pistas que apareçam - disse Hanken. - Por isso, se.

- Nesse caso sigam Julian.

Nan Maiden falou como se estivesse decidida a provar que havia outras vias a explorar, para além da que conduzia ao passado do marido.

- Nancy. Não faças isso - disse Maiden.

- Julian? - quis saber Lynley.

Julian Britton, informou Nan. Acabara de ficar noivo de Nicola. Não estava a sugerir que ele fosse suspeito, mas se a polícia andava à procura de pistas, certamente que iria querer falar com Julian. Nicola estivera com ele na véspera de partir. Podia ter dito alguma coisa a Julian - ou ter feito alguma coisa até - que pudesse abrir novas possibilidades à investigação da polícia.

Uma sugestão bastante sensata, pensou Lynley. Anotou o nome e a morada de Julian, que Nan Maiden lhe forneceu.

Hanken, por seu lado, estava pensativo. Não tornou a falar senão depois de terem regressado ao carro.

- Tudo pode não passar de um beco sem saída, sabe. Ligou a ignição, recuou para sair do local de estacionamento e virou o carro de frente para Maiden Hall. Aí, sem desligar o motor, examinou atentamente o velho edifício de pedra calcária.

- O que é? - perguntou Lynley.

- 5010. Esta história de alguém ligado ao passado dele. É demasiado conveniente, não acha?

- Conveniente. Forma curiosa de descrever uma pista e um potencial suspeito - disse Lynley. - A não ser que você próprio suspeite já... desviou os olhos para o Hall. - Quais são exactamente as suas suspeitas, Peter?

- Conhece o White Peak? - perguntou Hanken, abruptamente. Vai desde Buxton até Ashbourne. De Matlock até Castleton. Há vales, charnecas, carreiros, colinas. Isto - indicou as redondezas com um gesto - faz parte dele. Tal como a estrada por onde viemos, aliás.

- E?

Hanken virou-se no assento e ficou de frente para Lynley.

- E em toda esta imensidão, na noite de terça-feira - ou na manhã de

quarta-feira, se quisermos acreditar nele - Andy Maiden conseguiu encon trar o carro da filha, que estava escondido atrás de um muro de pedra. Na sua opinião, quais seriam as hipóteses de isso ser possível?

Lynley olhou para o edifício, para as suas janelas que reflectiam a derradeira claridade diurna, fazendo lembrar fileiras de olhos tapados.

- Porque é que não me disse isso antes? - perguntou ao outro inspector.

- Não pensei no assunto - respondeu Hanken. - Pelo menos até ao...

Até ao momento em que o nosso Andy foi apanhado a esconder a verdade à mulher.

- Queria poupá-la ao máximo de sofrimento possível. Qual o homem que o não desejaria? - perguntou Lynley.

- Um homem que tivesse a consciência tranquila - disse Hanken:

Depois do duche e de ter vestido o mais confortável dos pares de calças que possuía, Barbara petiscava - restos de arroz e de porco frito comprados no pronto a comer que, servido frio, não figuraria certamente na lista dos 10 + da culinária - quando Nkata chegou. Anunciou-se com fortes batidas na porta. Ela abriu-a, recipiente de pronto a comer numa das mãos e um dos pauzinhos apontado na direcção dele.

- O teu relógio parou ou quê? O que é que entendes por cinco mimutos, Winston?

Ele entrou antes de ser convidado e brindou-a com um dos seus ofuscantes sorrisos.

- Peço desculpa. Recebi outra mensagem no pager antes de estar despachado. Era o chefe e tive de lhe telefonar primeiro.

- Claro. Não se pode manter Sua Senhoria à espera.

Nkata ignorou o comentário.

- Ainda bem que o serviço do pub é lento. Já devia ter ido embora há meia hora e nessa altura já estaria demasiado perto de Shoreditch para poder voltar cá. Engraçado, não é? Como a minha mãe costuma dizer, as coisas acabam sempre por acontecer exactamente da forma que têm de acontecer.

Barbara fitou-o, incapaz de proferir uma palavra. Sentia-se perplexa. Tinha vontade de o descompor por causa do bilhete que ele lhe deixara - e pela referência tão proeminente à sua patente -, mas o ar descontraído dele impediu-a de o fazer. Não conseguia explicar a despreocupação que ele evidenciava, tal como se sentia incapaz de justificar a presença dele em sua casa. Podia pelo menos mostrar-se constrangido.

- Temos dois cadáveres em Derbyshire e uma ligação em Londres que precisa de ser investigada - informou Nkata.

Resumiu os pormenores: uma mulher, um jovem, um antigo operacional do 5010, cartas anónimas feitas com letras recortadas de jornais e um bilhete manuscrito contendo ameaças.

- Tenho de ir verificar uma morada em Shoreditch, residência pro vável do tipo que morreu - disse-lhe. - Se houver lá alguém que consiga identificar o corpo, tenho de regressar a Buxton amanhã de manhã. Mas é preciso alguém que se encarregue das investigações na Yard. O inspector pediu-me que tratasse disso. Foi por isso que me contactou para o pager.

- Lynley pediu a minha participação? - perguntou Barbara sem con seguir disfarçar a ansiedade.

Nkata desviou o olhar por breves instantes, mas foi o suficiente. O seu espírito desceu à terra novamente.

- Estou a ver.

Pousou a caixa da comida sobre a bancada da cozinha. O arroz pesava-lhe no estômago, o paladar colava-se-lhe à língua como se fosse pêlo.

- Se ele não sabe que estás a pedir a minha ajuda, Winston, posso recusar sem que ninguém fique a saber seja o que for, não posso? Podes dispensar-me e recorrer a outra pessoa.

- Claro que posso - retorquiu Nkata. - Posso consultar a escala de serviço. Ou posso esperar até amanhã de manhã e deixar que seja o superintendente a fazer a chamada. Mas se fizer isso, fica disponível para trabalhar com Stewart, Hale ou MacPherson, certo? E não acho que esteja muito interessada em ir por aí, a não ser que seja obrigada a tal.

Ele deixara de fora o que era já uma história lendária no CID: o fracasso de Barbara em estabelecer relações de trabalho com os inspectores que ele nomeara e a sua subsequente colocação como polícia de giro, que só abandonara quando começara a trabalhar com Lynley. Barbara virou-se, perplexa perante o que parecia ser um gesto de inexplicável generosidade por parte do colega. Qualquer outro homem que estivesse na posição em que ele se encontrava tê-la-ia deixado no limbo, a fim de tirar ainda mais dividendos para si próprio, pouco se importando com o que ela pudesse ter de enfrentar. O facto de Nkata estar a agir de modo diferente tornava-a duplamente cautelosa.

- O chefe quer trabalho de computador - dizia ele. - No CRIS. Não é o seu departamento, eu sei. Mas pensei que se quisesse vir até Shoreditch comigo - e foi por isso, aliás, que vim aqui para os seus lados - eu podia depois deixá-la na Yard a tempo de atacar logo o Registo Criminal. Se conseguir descobrir alguma coisa importante nos arquivos rapidamente, quem sabe? - Nkata hesitou. A sua atitude descontraída alterou-se ligeiramente quando concluiu: - Podia ajudá-la a voltar ao bom caminho.

Barbara descobriu um maço de cigarros ainda por abrir, encaixado entre a torradeira forrada de migalhas poeirentas e uma caixa de Pop-Tarts de melão. Acendeu um, servindo-se de um dos queimadores do fogão, e tentou fazer sentido de tudo o que acabara de ouvir.

- Não estou a perceber. Esta é a tua oportunidade, Winston. Porque é que não a aproveitas?

- A minha oportunidade para quê? - perguntou ele, surpreendido.

- Tu sabes para quê. Para subir alguns degraus, para escalar a montanha, voar até à Lua. A minha cotação junto de Lynley não podia estar mais baixa. Esta é a tua oportunidade de te destacares do rebanho. Porque é que não a aproveitas? Melhor dizendo, porque é que estás a correr o risco de que eu possa fazer alguma coisa para limpar a minha imagem?

- O inspector disse-me para escolher outro detective - disse Nkata. - E eu pensei em si.

E ali estava ela novamente: a despromoção. Juntamente com a recordação desagradável: daquilo que fora e aquilo em que se tornara. É claro que Nkata se teria lembrado dela. Haveria melhor forma de lhe atirar à cara a perda de posição e autoridade do que escolhê- la para trabalhar num caso como uma igual e não já como seu superior?

- Ah - disse ela. - Outro detective. Quanto a isso... - agarrou no bilhete, que deixara sobre a mesa de jantar ao lado do colar. - Suponho que tenho de te agradecer por isto, não tenho? Tinha pensado em colocar um anúncio no jornal para informar o grande público, mas tu poupaste-me esse trabalho.

As sobrancelhas de Nkata uniram-se.

- Onde é que está a querer chegar?

- O bilhete, Winston. Achaste mesmo que eu poderia esquecerda minha posição? Ou querias apenas lembrar-me que agora somos iguais, peões no mesmo tabuleiro, não fosse eu esquecer-me desse pormenor?

- Espere aí. Está redondamente enganada.

- Ai estou?

- Pois está.

- Não concordo. Que outro motivo terias, então, para te dirigires a mim

como detective Havers? de detective. É mesmo teu.

- O motivo mais óbvio deste mundo - disse Nkata.

- A sério? E qual é?

- Nunca a tratei por Barb.

Ela pestanejou.

- O quê?

- Nunca a tratei por Barb - repetiu ele. - Apenas por Sargento.

Sempre dessa maneira. E depois isto - as suas mãos enormes incluíram a sala num gesto amplo, embora ele quisesse referir-se ao dia que passara, como ela muito bem sabia. - Não sabia o que havia de dizer. O nome e tudo mais.

Fez uma careta e passou a mão pela nuca, o que o obrigou a baixar a cabeça e a desviar os olhos dela.

- É apenas a sua patente - disse. - Não a pessoa que você é.

Barbara ficou muda. Olhou-o fixamente. O seu rosto atraente marcado pela cicatriz funda reflectia alguma insegurança naquele momento, o que era sem dúvida inédito. Pensou um pouco e reviveu por instantes os casos

em que trabalhara com Nkata. E ao fazê-lo comprovou a verdade.

Disfarçou a confusão que sentia com o cigarro, inalando e expelindo o fumo do tabaco, examinando a cinza, atirando-a para dentro do lava-loiça. Quando o silêncio entre eles se tornou demasiado pesado, soltou um suspiro e disse:

- Caramba, Winston. Desculpa. Raios partam.

- Muito bem - replicou ele. - E então? Alinha ou não?

- Alinho - respondeu ela.

- Óptimo - disse ele.

- E, Winnie - acrescentou ela. - Também me chamo Barbara.

 

                             CAPÍTULO 6

Já estava escuro quando eles entraram lentamente em Chart Street, em Shoreditch, e começaram à procura de um lugar para estacionar ao longo do passeio onde estavam alinhados Vauxhalls, Opels e Volkswagens. Barbara sentira um inequívoco nó no estômago quando Nkata a conduzira até ao elegante automóvel cinzento metalizado que pertencia a Lynley. A estima do inspector pelo veículo era tal que o simples facto de ter confiado a chave a Nkata era um testemunho eloquente da confiança que Lynley depositava no seu subordinado. Ela própria apenas tivera acesso àquela chave em duas ocasiões apenas. Ambas, porém, tinham ocorrido muito tempo depois de ter começado a trabalhar com o inspector. De facto, ao reflectir sobre a sua parceria com Lynley concluía que ele jamais teria confiado a chave do seu carro à pessoa que ela era na época da primeira investigação em que tinham trabalhado juntos. Que ele tivesse passado a chave para as mãos de Nkata com tanta facilidade era altamente revelador quanto à natureza da relação entre ambos.

Seja, pensou resignada, as coisas são assim mesmo. Observou atentamente a zona por onde passavam naquele momento, procurando descobrir a morada que a DVLA lhes fornecera como pertencente ao proprietário do motociclo encontrado nas proximidades da cena do crime em Derbyshire.

À semelhança de muitos dos outros bairros londrinos do seu género, Shoreditch podia atravessar momentos menos bons de vez em quando, mas nunca poderia ser definitivamente excluída. Era uma área densamente povoada, situada numa estreita língua de terra que se prolongava a partir de Hackney uma extensão mais vasta a nordeste de Londres. Constituindo uma das zonas limítrofes da City, uma parte de Shoreditch fora invadida pelo tipo de instituições financeiras que apenas se esperava encontrar dentro dos limites das muralhas romanas da velha Londres. Outras zonas eram dominadas por construções industriais e comerciais. Todavia, era ainda possível encontrar em Shoreditch vestígios das antigas aldeias de Haggeston e Hoxton, ainda que alguns destes vestígios assumissem a forma de placas comemorativas que assinalavam os lugares onde os Burbage tinham exercido o seu mester e onde estavam sepultados alguns companheiros de William Shakespeare.

A Chart Street parecia representar a história do bairro numa curta via de circulação. Formando um ângulo bem pronunciado, que se estendia desde Pitfield Street até East Road, albergava tanto estabelecimentos comerciais como residências particulares. Alguns dos edifícios eram elegantes, modernos e novos e, em resultado disso, evidenciavam a prosperidade da City. Outros aguardavam esse milagre que atingia as várias áreas de Londres - a reconversão urbana - capaz de pegar numa simples rua de um bairro degradado e de, em poucos anos, a transformar num paraíso yuppie.

A morada fornecida pela DVLA conduziu-os a uma fieira de casas todas iguais que, a avaliar pela aparência, se encontravam a meio caminho entre a desintegração e a renovação. A própria fachada era plana, construída em tijolo e, embora as madeiras da casa em questão necessitassem urgentemente de ser pintadas, as janelas estavam protegidas por cortinas brancas que, pelo menos vistas do exterior, pareciam crespas e limpas.

Nkata descobriu uma vaga de estacionamento em frente ao pub Marie Lloyd. Arrumou o Bentley com o mesmo grau de concentração que, na opi nião de Barbara, um neurocirurgião dedicaria ao cérebro do seu paciente. Abriu a porta e apeou-se enquanto o colega tentava endireitar meticulosamente o carro pela terceira vez. Acendeu um cigarro e disse:

- Winston. Raios te partam. Não estás a picar o ponto e estamos ambos a perder o nosso tempo. Vamos embora.

Nkata soltou uma gargalhada afável.

- Estou a dar-te tempo para alimentares o vício.

- Obrigada, mas não preciso de fumar um maço inteiro. Tendo finalmente conseguido estacionar o carro como desejava, Nkata saiu, trancou-o e ligou o alarme. Certificou-se de que as portas estavam bem fechadas antes de ir ter com Barbara, que o esperava no passeio. Encami nharam-se para a casa, Barbara fumando o seu cigarro e Nkata perdido em pensamentos. Ao chegar junto da porta de entrada amarela, parou. Barbara pensou que ele estava a dar-lhe tempo para terminar o cigarro e lançou uma baforada, aumentando as suas reservas de nicotina como era seu hábito antes de iniciar uma tarefa que podia revelar-se desagradável.

No entanto, quando, finalmente, atirou a beata para o chão, Nkata continuou imóvel.

- E então? - perguntou. - Entramos? O que é que se passa? Ele decidiu-se a responder:

- É a minha estreia.

- A tua estreia em quê? Oh, é a primeira vez que és o portador de más notícias? Ora, para teu consolo, fica a saber que nunca deixa de ser difícil.

Olhou para ela com um sorriso consternado.

- Não deixa de ter a sua piada.

- O quê?

- Pensar nas vezes em que a minha mãe podia ter recebido uma visita destas da bófia. Se eu tivesse continuado com a vida que estava a levar.

- Pois é. Bom... - inclinou a cabeça na direcção da porta e subiu um degrau. - Todos nós temos as nossas nódoas no nosso cadastro, Winnie.

O som de uma criança chorando baixinho atravessou as frestas da porta. Quando Barbara tocou à campainha, o choro tornou-se mais próximo, intensificando-se, enquanto uma voz de mulher repreendia num tom irritado, Calou, agora. Psiu. Já chega, Darryl. Já percebemos o que queres, antes de perguntar do lado de dentro da porta:

- Quem é?

- Polícia - respondeu Barbara. - Podemos falar consigo? Não houve resposta de início, para além do choro de Darryl, que não dava tréguas. Em seguida a porta abriu-se e na frente deles surgiu uma mulher com um bebé apoiado na anca. A criança esfregava o nariz húmido na gola do vestido verde dela. Bordado no lado esquerdo lia-se The Primrose Path e, por baixo, o nome Sal.

Barbara tirara já o distintivo e estava a mostrá-lo a Sal quando surgiu outra mulher, mais jovem, descendo à pressa as escadas estreitas que ficavam a cerca de dois metros da entrada. Usava um robe aveludado que tinha uma manga puída e tinha os cabelos molhados.

- Desculpa, mãe - disse. - Passa-me o bebé. Obrigada pelo intervalo. Estava mesmo a precisar dele. Darryl, o que é que tu tens, querido?

- Pá - soluçou Darryl e esticou uma mão suja na direcção de Nkata.

- Queres o teu papá - comentou Nkata.

- É pouco provável que queira ver esse bandido - murmurou Sal. - Dá um beijo à tua avó, meu querido - disse para Darryl, que, abatido pelo desgosto, não lhe fez a vontade. Cobriu uma das faces da criança de beijos sonoros.

- É a barriguinha dele outra vez. Arranjei uma botija de água quente. Está na cozinha. Não te esqueças de a embrulhar numa toalha primeiro.

- Obrigada, mãe. És um amor - disse Cyn.

Em seguida, com o filho apoiado na anca, desapareceu pelo corredor fora na direcção da parte de trás da casa.

- De que é que se trata, afinal?

Sal olhou para Nkata e depois para Barbara, sem se mover. Não a convidou a entrar e era óbvio que não tinha qualquer intenção de o fazer.

- Já passa das dez. Já devem ter percebido isso, imagino eu.

- Podemos entrar, Mrs... - perguntou Barbara.

- Cole - informou. - Sally Cole. Sal.

Recuou e observou-os atentamente enquanto os dois agentes entravam em sua casa. Cruzou os braços debaixo do peito. Sob a luz mais intensa da entrada, Barbara viu que os cabelos dela - cortados sem cerimónia abaixo das orelhas - tinham madeixas louro-claras de ambos os lados do rosto. Estas acentuavam-lhe os traços irregulares e incongruentes: testa larga, nariz adunco e uma boca minúscula em forma de botão de rosa.

- Não gosto nada de mistérios,por isso é melhor que digam logo o que têm para me dizer.

- Será que podemos...

- É escultor,o meu Terry - Sal informou-a,colocando-se ao lado de Barbara. - E esta é a sua matéria-prima.

- Utensílios de jardinagem?

- Tem uma peça feita com tesouras de podar que me dá até vontade de chorar. Os meus dois filhos são artistas. A Cyn está a fazer um curso numa escola de moda. É por causa do meu Terry que estão aqui? Ele meteu-se nalgum sarilho? Não me escondam nada.

Barbara lançou um olhar rápido a Nkata,tentando descobrir se queria ser ele a tomar a iniciativa. Levou um dedo de uma das mãos à face marcada,como se a cicatriz que a atravessava tivesse começado a latejar.

- Terry não está em casa,Mrs. Cole? - perguntou ela.

- Ele não vive cá - informou Sal,acrescentando que ele dividia um apartamento e um estúdio em Battersea com uma rapariga chamada Cilla Thompson,que era artista como ele. - Não aconteceu nada com Cilla,pois não? Estão à procura de Terry por causa de Cilla,é? São apenas amigos. Por isso,se alguém lhe deu um apertão outra vez,o melhor que têm a fazer é falar com o namorado dela e não com o meu Terry. Terry é incapaz de fazer mal a uma mosca. É bom rapaz,sempre foi.

- Há algum... Bom,há algum Mr. Cole?

Já que estavam prestes a dizer à mulher que o filho estava morto, Barbara queria a presença de outra pessoa - potencialmente mais forte - que a ajudasse a suportar o choque.

Sal deu um assobio.

- Mr. Cole - como se chamava - pregou-nos uma partida digna do Houdini quando Terry tinha cinco anos. Arranjou um palheiro e uma ninhada

de gatinhos simpáticos em Folkestone e era uma vez o Senhor Pai de Família.

Porquê? - A voz dela traía mais ansiedade. - O que é que se passa, afinal de contas?

Barbara fez sinal a Nkata. Afinal, ele viera a Londres para levar a mulher de volta com ele, se necessário. Estava nas mãos dele decidir como iria revelar que o corpo não identificado que tinham em mãos podia perfeitamente ser o filho dela. Começou por falar na Triumph. Sal Cole confirmou que o filho possuía uma moto dessa marca e, ao fazê-lo, concluíra logi camente que se tratava de um acidente de viação. Quis logo saber para que hospital é que ele tinha sido levado, e Barbara deu consigo a desejar que eles fossem portadores de notícias tão simples como um mero acidente na estrada.

Não havia forma fácil de dar a notícia. Barbara viu que Nkata se aproximara de uma prateleira decorada com fotografias, encaixada num vão de parede pouco fundo, no sítio onde em tempos existira uma lareira. Pegou numa das fotografias emolduradas num caixilho de plástico e ao ver a expressão do seu rosto Barbara concluiu que o acto de levar Mrs. Cole até ao Derbyshire provavelmente não passaria de uma mera formalidade. Afinal, Nkata vira fotografias do corpo, se não o próprio corpo. E embora, por vezes, as vítimas de um crime apresentassem poucas semelhanças com a aparência que tinham em vida, restavam habitualmente suficientes traços comuns para que um observador mais astuto fizesse uma identificação provisória a partir de uma fotografia.

A fotografia pareceu dar a Nkata coragem para contar o sucedido, e ele fê-lo com uma simplicidade e compaixão que deixaram Barbara mais impressionada do que teria achado possível.

Tinha havido um duplo homicídio em Derbyshire, revelou Nkata a Mrs. Cole. As vítimas eram um jovem e uma mulher. A moto de Terry fora encontrada nas proximidades do local, e o jovem em questão apresentava algumas parecenças com a fotografia que estava na prateleira. Podia ser apenas uma coincidência, evidentemente, o facto de a moto de Terry ter sido encontrada nas imediações da cena de um crime. Fosse como fosse, a polícia precisava de alguém que fosse até Derbyshire identificar o corpo. Mrs. Cole podia ser a pessoa que a polícia procurava. Ou, se ela achasse que a experiência iria ser demasiado traumática, podia sempre indicar outra pessoa - a irmã de Terry, talvez... A decisão cabia a Mrs. Cole. Com gestos cuidadosos, Nkata tornou a colocar a fotografia no seu lugar.

Sal olhava-o fixamente, estupefacta.

- Derbyshire? - disse. - Não, acho que não. O meu Terry está a trabalhar num projecto em Londres, num projecto que vale muito dinheiro. É uma encomenda que lhe ocupa o tempo todo. Foi por isso que ele não pôde cá vir almoçar no domingo passado, como é costume. Ele adora o nosso pequeno Darryl. Nunca iria perder um almoço de domingo com Darryl. Mas por causa da encomenda... Terry não pôde vir por causa da encomenda. Foi o que ele disse.

A filha juntou-se a eles naquele momento, vestida já com um fato de treino azul e cabelos bem penteados para trás. Parou à porta da sala e pareceu fazer uma avaliação do que se estava a passar. Correu para Sal, dizendo:

- Mãe. O que é que se passa? Estás branca como a cal. Senta-te antes que desmaies.

- Onde está o nosso bebé? Onde está o nosso pequeno Darryl?

- já acalmou. A botija de água quente foi remédio santo. Anda lá, mãe. Senta-te antes que caias redonda no chão.

- Embrulhaste-a numa toalha como eu te disse?

- Ele está óptimo. - Cyn virou-se para Barbara e Nkata. - O que é que aconteceu?

Nkata explicou tudo em poucas palavras. Esta segunda vez pareceu consumir não os seus recursos mas os de Mrs. Cole. Quando ele mencionou o corpo mais uma vez, ela agarrou o cabo da enxada que integrava a estranha escultura em forma de tenda, dizendo, Era suposto ser três vezes maior do que esta, a encomenda. Ele disse-me que ia ser, e dirigiu-se para uma cadeira estofada. Esta estava rodeada de brinquedos de criança e ela pegou num deles: um pássaro amarelo-vivo que apertou de encontro ao peito.

- Derbyshire? - Cyn parecia incrédula. - Que diabo estava o nosso Terry a fazer em Derbyshire? Ele deve ter emprestado a moto a alguém mãe. A Cilla deve saber. Vamos telefonar-lhe.

Apressou-se a fazê-lo, discando os números num telefone que estava sobre uma mesinha ao fundo das escadas. O diálogo travado foi bastante simples.

- É Cilla Thompson que está ao telefone?... Aqui é Cyn Cole, a irmã de Terry... Pois... Claro. É um monstrozinho, é o que ele é. Ao menor barulho tem todos à volta dele. Ouve, Cilla, o Terry está por aí? Oh. E sabes para onde é que ele foi? - Lançou um olhar sombrio na direcção da mãe ao ouvir a resposta de Cilla. - Certo... - continuou Cyn. - Não, não quero deixar nenhum recado. Mas se ele aparecer dentro de uma hora ou assim, diz-lhe que telefone para casa, está bem?

Em seguida desligou.

Sal e Cyn comunicaram em silêncio, como o fazem as mulheres há muito acostumadas à companhia uma da outra.

- Ele está de corpo e alma naquela encomenda - Sal disse, baixinho.

- Vai ser isto que vai criar a Destination Art. Espera e verás, mãe, disse-me ele". Por isso, não estou a perceber por que razão é que ele teria saído de

Londres. - Destination Art? - quis saber Barbara.

- É a galeria dele. É assim que ele a quer chamar: Destination Art - esclareceu Cyn. - Ele sempre quis abrir uma galeria para artistas modernos. Ia ficar - vai ficar - na margem sul, perto de Hayward. É o sonho dele. Mãe, isto pode não ser nada. Pensa nisso. Pode não ser nada.

O tom da sua voz, no entanto, indicava que não havia nada que desejasse com mais fervor do que se convencer a si mesma da veracidade das suas palavras.

- Vamos precisar da morada - disse Barbara.

- A galeria ainda não existe - replicou Cyn.

- Da casa onde vive Terry - explicou Nkata. - E do estúdio que ele partilha.

- Mas acabou agora mesmo de dizer... - Sal não concluiu a frase. Fez-se silêncio. A sua razão de ser era óbvia para todos os presentes: o que podia não ser nada era provavelmente alguma coisa, o pior tipo de coisa que uma família como os Cole alguma vez teria de enfrentar.

Cyn foi procurar as moradas correctas. Enquanto isso, Nkata disse à mãe de Terry Cole:

- Venho buscá-la amanhã logo de manhã, Mrs. Cole. No entanto, se por acaso Terry lhe telefonar esta noite, envie-me uma mensagem para o meu pager, está bem? Seja a que horas for. Contacte- me.

Escreveu o número do pager numa das folhas do seu impecável bloco-notas. Arrancou-a e preparava-se para a dar a Sal Cole quando a irmã de Terry regressou com as informações sobre o irmão. Entregou-as a Barbara. Duas localidades estavam indicadas junto das palavras apartamento e estúdio. Barbara reparou que ambas ficavam em Battersea. Memorizou as moradas - por mera precaução, disse para si própria - e entregou o papel a Nkata. Ele agradeceu com um aceno de cabeça, dobrou-o e guardou-o no bolso. Combinada a hora da partida na manhã seguinte, os dois detectives despediram-se e saíram.

Na rua, soprava uma brisa suave que empurrava um saco de plástico e uma chávena grande do Burger King ao longo do passeio. Nkata desactivou o sistema de segurança do carro, mas não abriu a porta. Em vez disso, olhou para Barbara por cima do tejadilho do carro e depois para o conjunto de habitações sociais de aspecto sombrio situado do outro lado da rua. O seu rosto era a personificação da tristeza.

- O que é? - perguntou Barbara.

- Dei cabo do sono delas - disse ele. - Devia ter esperado até de manhã. Porque é que não pensei nisso? Era impossível fazer a viagem de volta esta noite. Estou demasiado cansado. Por isso, para que é que eu vim para cá a correr, como se tivesse de apagar um incêndio? Elas têm de cuidar daquele bebé e eu acabei de dar cabo do sono delas.

- Não tinhas outra alternativa - disse Barbara. - Se tivesses esperado até de manhã, o mais provável é que ambas já tivessem saído de casa - para o trabalho ou para a escola - e tu terias perdido um dia. Não te massacres por causa disso, Winston. Fizeste o que tinhas de fazer.

- É ele - retorquiu ele. - O tipo da fotografia. É o tipo a quem limparam o sebo.

- Foi o que eu percebi.

- Elas não querem acreditar.

- E quem quereria? - disse Barbara. - É o último adeus sem a oportunidade de o dizer. E não pode haver nada pior do que isso.

Lynley escolheu Tideswell. Uma aldeia de pedra calcária que se erguia ao longo de duas colinas opostas, Tideswell situava-se praticamente a meio caminho entre Buxton e Padley Gorge. O Black Angel Hotel, com a sua agradável vista sobre a igreja paroquial e o jardim circundante, permitir-Lhe-ia ter acesso fácil à esquadra da polícia e a Maiden Hall durante o tempo que durasse a investigação. E a Calder Moor, se tal viesse a revelar-se necessário.

O inspector Hanken acolhera a escolha de Tideswell com agrado. Enviaria um carro para vir buscar Lynley na manhã seguinte, dissera ele, enquanto o subordinado de Lynley não regressasse de Londres.

Hanken estivera extraordinariamente comunicativo durante as horas que tinham passado juntos. No bar do Black Angel Hotel, ambos tinham saboreado um Bushmills antes do jantar, seguido de uma garrafa de vinho à refeição e de um brandy como digestivo, o que também fomentara a sua atitude descontraída.

O uísque e o vinho tinham arrancado a Hanken um rol de histórias do ofício, habituais na maioria dos encontros entre polícias: atritos com superiores, complicações no decurso de investigações, casos difíceis que lhe tinham passado pelas mãos. O brandy dera azo a confissões de natureza pessoal.

O inspector de Buxton puxara da fotografia de família que mostrara a Lynley antes e contemplara-a longamente antes de falar. Com o dedo indicador percorrendo o corpo agasalhado do filho pequeno, pronunciara a palavra crianças e explicara que um homem se transformava para sempre a partir do momento em que alguém lhe colocava um recém- nascido nos braços. Não seria de esperar que tal sucedesse - já que esse tipo de alteração de personalidade era mais típico das mulheres, não era verdade? -, mas assim era, de facto. E o que resultava dessa transformação era um desejo avassalador de proteger, de fechar todas as escotilhas e de garantir segurança em todas as vias de acesso ao coração do lar. Por isso, perder uma criança apesar de todas as precauções... Era um inferno inimaginável.

- Uma situação que Andy Maiden está a viver neste momento - observou Lynley.

Hanken fitou-o, mas não o contrariou. Prosseguiu o seu raciocínio, confidenciando que a sua Kathleen era a luz da sua vida. Soubera, desde o dia em que se tinham conhecido, que queria casar com ela, mas precisara de cinco anos para a convencer. E quanto a Lynley e a sua mulher? Como é que tudo acontecera com eles?

Todavia, casamento, mulher e filhos eram os últimos temas de conversa que Lynley gostaria de abordar. Esquivou-se habilmente, refugiando-se na sua inexperiência.

- Ainda estou muito verde como marido para ter algo de extraordinário a relatar - dissera.

Descobriu que não era capaz de evitar o assunto quando, mais tarde, no quarto de hotel, ficou a sós com os seus pensamentos. Numa última tentativa para escapar-lhes - ou, pelo menos, adiá-los - foi até à janela. Entreabriu-a e tentou ignorar o intenso odor a bolor que parecia permear o ambiente. Este seu esforço, no entanto, foi tão coroado de êxito quanto as suas tentativas para não reparar no colchão côncavo e na colcha rosa coberta por um tecido escorregadio, pseudo-acetinado, que fazia prever uma noite de infindáveis trabalhos para o manter no lugar. Ao menos tinha uma cafeteira eléctrica, concluiu melancolicamente, um cesto de verga recheado de pacotes de chá PG Tips, sete pequenas embalagens de plástico com leite, um pacote de açúcar e dois bolos secos. Havia também uma casa de banho, embora sem janelas e apetrechada com uma banheira cheia de manchas, incrustada no chão forrado a linóleo e iluminada por uma única lâmpada de fraca potência. Podia ser pior, disse para si mesmo. Naquele momento, porém, já não estava tão certo disso.

Quando não conseguiu evitar o assunto por mais tempo, olhou de soslaio para o telefone que estava sobre a mesa de ferro, ao lado da cama. Devia dar um telefonema a Helen, quanto mais não fosse para dizer-lhe onde estava, mas hesitava em marcar os números. Reflectiu sobre as razões da sua hesitação.

Não restavam dúvidas de que Helen tinha menos razão do que ele. Podia ter-se exaltado com ela, mas ela pisara uma linha bem demarcada quando se assumira como defensora de Barbara Havers. Como mulher dele, seria de esperar que o defendesse a ele. Podia ter-lhe perguntado por que razão escolhera Winston Nkata para trabalhar com ele e não Barbara Havers, em vez de tentar convencê-lo a alterar uma decisão que ele se sentira compelido a tomar.

Obviamente que, depois de reflectir sobre o assunto, era capaz de recordar que Helen iniciara a conversa entre ambos perguntando-lhe preferencialmente por que razão escolhera Nkata. Tinham sido as sucessivas reacçõe que os levara a transformar uma troca de impressões razoável numa discussão. Todavia, ele reagira daquela maneira, porque ela provocara nele um sentimento de afronta conjugal, se não moral. As perguntas dela implicavam uma aliança com alguém cuja conduta estava para além de qualquer justificação. O facto de lhe pedirem para justificar as suas próprias acções - que eram sensatas, admissíveis e perfeitamente compreensíveis - era mais do que levemente aborrecido.

A polícia funcionava porque os seus agentes aderiam a uma cadeia de comando definida. Os efectivos mais antigos conquistavam as suas posições provando que eram capazes de trabalhar sob pressão. Numa situação em que havia uma vida humana em jogo e um suspeito em fuga, o superior de Barbara Havers tomara uma decisão num curto espaço de tempo, dando ordens que eram tão claras quanto razoáveis. Que Havers tivesse desobedecido a essas ordens já era em si mesmo mau. Que tivesse decidido tomar o assunto em mãos era muito pior. Mas o facto de ter chamado a si o poder recorrendo a uma arma de fogo constituía uma violação de tudo aquilo a que jurara obedecer como agente da autoridade. Não se tratava apenas de contornar as regras. Era fazer troça de tudo o que eles representavam. Porque é que Helen se mostrava incapaz de compreender tudo aquilo?

HEstas coisas não são assim tão simples, Tommy. O comentário de Malcolm Webberly veio-lhe novamente à memória em jeito de resposta à pergunta que formulara na sua mente.

Lynley, no entanto, via-se obrigado a discordar do seu superintendente. Na sua opinião, algumas delas eram-no, de facto.

E, no entanto, não parecia capaz de se decidir a telefonar à mulher. Não havia razão para prolongar aquela discussão. E ele podia, ao menos, pedir-lhe desculpa por ter perdido a calma.

Em vez de Helen, porém, falou com Charlie Denton, o jovem e frus trado actor que, na vida de Lynley, desempenhava o papel de seu empre gado doméstico, nas horas em que não andava a percorrer as bilheteiras de Leicester Square em busca de bilhetes a preço reduzido. A condessa não estava em casa, informou Denton, e Lynley percebeu o supremo gozo que aquele homem exasperante sentia ao referir-se a Helen pelo seu título aristocrático. Telefonara por volta das sete horas da casa de Mr. St. James, continuou Denton, dizendo que a tinham convidado para ficar para o jantar. Ainda não regressara. Sua Senhoria desejava...

Lynley interrompeu-o num tom cansado.

- Denton - advertiu.

- Peço desculpa - o jovem soltou uma gargalhada e desistiu do pretenso tom servil. - Deseja que lhe deixe algum recado, então?

- Eu telefono para Chelsea - respondeu Lynley.

Apesar disso, deixou a Denton o contacto do Black Angel Hotel.

Quando telefonou para casa de St. James,no entanto,descobriu que Helen e a mulher de St. James tinham saído logo depois de jantar. Conversou um pouco com o seu velho amigo.

- Mencionaram um filme - disse-lhe vagamente St. James. – Tenho a sensação de que era qualquer coisa romântica. Helen disse que lhe apetecia passar uma noite a olhar para um casal de americanos rebolando sobre um colchão,corpos esculturais,cabelo cortado ao último grito da moda e dentes perfeitos. Isto são os americanos,claro,não o colchão,aliás.

- Percebo.

Lynley deu o número de telefone do hotel ao amigo e deixou recado a Helen para que lhe telefonasse,caso regressasse a horas decentes. Não tinham tido oportunidade de conversar calmamente antes de ele ter partido para o Derbyshire,disse a St. James. Mesmo para ele a desculpa soava frouxa.

James disse-lhe que daria o recado a Helen. Depois quis conhecer a opinião de Lynley sobre o que se passara em Derbyshire.

Era uma forma tácita de o convidar a discutir o caso. St. James jamais faria uma pergunta directa. Tinha demasiado respeito pelo código de actuação não escrito que estava subjacente a uma investigação policial.

Lynley descobriu que tinha vontade de conversar com o seu velho amigo.

Resumiu os factos: as duas mortes,as formas diferentes como tinham ocorrido,a ausência de uma das armas,a falta de identificação do rapaz,as cartas anónimas feitas com letras recortadas,a sugestão rabiscada,que dizia: ESTA CABRA TEVE O QUE MERECIA.

- É uma forma de assinar o crime - concluiu Lynley -, embora Hanken julgue que o bilhete pode ser um disfarce.

- Uma tentativa de desviar as atenções da parte do assassino? quem?

- Andy Maiden, se concordarmos com o raciocínio de Hanken.

- O pai? Isso é um bocado excessivo. O que é que leva Hanken a adoptar esse ponto de vista?

- De início tinha uma opinião diferente.

Lynley relatou o encontro com os pais da rapariga: o que fora dito e o que fora inadvertidamente revelado. Terminou, dizendo:

- É por isso que Andy acha que há uma ligação com o 5010.

- E tu, o que é que achas?

- Como tudo o resto, é uma hipótese que precisa de ser verificada, Mas Hanken não confiou numa única palavra do que disse Andy, depois de termos descoberto que ele ocultara informações à mulher.

- Podia apenas estar a tentar protegê-la - sugeriu St. James. Não é uma atitude descabida da parte de um homem em relação à mulher que ama. E se, de facto, quisessem arranjar um disfarce, não teriam tentado desviar as vossas atenções para o rapaz?

Lynley concordou.

- Há uma forte ligação entre ambos, Simon. Parece ser uma relação extraordinariamente próxima.

Do outro lado do fio, St. James manteve-se em silêncio durante alguns momentos. Alguém percorreu o corredor, fora do quarto de Lynley. Uma porta fechou-se com suavidade.

- Nesse caso, há outra forma de entender a atitude protectora de Andy Maiden em relação à mulher, não é verdade, Tommy? - disse St. james, finalmente.

- E qual é?

- Pode estar a agir desse modo por outra razão. A pior possível, aliás.

- Uma Medeia no Derbyshire? - perguntou Lynley. - Meu Deus. Isso é horrível, Simon. E quando as mães matam, os filhos são em geral jovens. Vou ter de arranjar um motivo, se as coisas evoluírem nesse sentido.

- Medeia teria alegado que tinha um.

Enquanto lidava com um dos muitos desaparecimentos de Nicola, antes de a família se ter mudado para o Derbyshire, Nan Maiden teria reagido com incredulidade se alguém lhe tivesse sugerido que haveria de chegar o dia em que ansiaria por algo tão simples como a fuga de uma adoleScente tomada por um acesso de fúria. De todas as vezes em que Nicola desaparecera, no passado, a mãe dela reagira da única forma que sabia: um misto de terror, raiva e desespero. Telefonara às amigas da filha, para a polícia e calcorreara rua atrás de rua à sua procura. Era incapaz de fazer fosse o que fosse até ter a certeza de que a filha estava sã e salva.

O facto de Nicola poder desaparecer nas ruas de Londres redobrava sempre a preocupação de Nan. Tudo podia acontecer nas ruas de Londres. Uma adolescente podia ser violada; atraída para o submundo dos narcóticos, podia ser espancada ou mutilada.

Havia, no entanto, uma possível consequência das fugas de Nicola que antes nunca levara em consideração: a hipótese de a filha ser assassinada. uma possibilidade que, pura e simplesmente, não conseguia contemplar. É que uma rapariga jovem não pudesse ser vítima de assassínio, mas sim que se tal acontecesse a esta em particular, a sua mãe não fazia a mais pequena ideia de como haveria de continuar a viver.

E agora acontecera. Não durante aqueles tempestuosos anos da adolescência em que Nicola persistira, teimosamente, no seu combate pela autoindependência e por aquilo a que chamava o direito à autodeterminação, mãe. já não estamos na Idade Média, sabias?. Não durante aquele período conturbado em que um pedido aos pais - quer se tratasse de algo simples e concreto como um novo CD,quer de algo complexo e nebuloso como a liberdade pessoal - mais não era do que uma ameaça silenciosa de desaparecimento por um dia,uma semana ou um mês,caso o pedido não fosse satisfeito. Acontecera agora,quando ela já era adulta,numa altura em que trancar a porta do quarto dela e prender-lhe a janela com pregos eram não só actos impensáveis como também desnecessários.

E,no entanto,era exactamente o que eu devia ter feito,pensou Nan.

Devia tê-la trancado,devia tê-la amarrado à cama e não devia ter permitido que ela desaparecesse da minha vista.

- Eu sei o que quero - afirmara Nicola,repetidamente,ao longo dos anos. - E é isto.

Nan ouvira aquela determinação na voz da criança de sete anos que queria uma Barbie,a casa da Barbie,o carro da Barbie e todas as peças de vestuário que podiam ser enfiadas na figurinha de plástico que,apesar das suas formas impossíveis,passava por ser a epítome da feminilidade. No pensamento da garota de doze anos que não poderia de modo nenhum continuar a respirar nem mais um minuto que fosse,se não tivesse autorização para usar maquilhagem,collants e saltos de doze centímetros. Nas crises de mau humor dos quinze anos,na época em que queria uma linha telefónica independente, um par de patins em linha,umas férias em Espanha liberta do fardo que representava a presença dos progenitores. Nicola sempre quisera o que Nicola queria no momento em que Nicola queria. E em muitas ocasiões,ao longo dos anos,parecera muito mais fácil ceder do que ter de enfrentar as fugas que podiam durar um dia,uma semana ou uma quinzena.

Naquele momento,porém,Nan desejava ardentemente que a filha tivesse simplesmente optado por fugir de casa mais uma vez. E sentiu-se consumir por uma culpa imensa ao pensar em todas as ocasiões,durante a adolescência de Nicola,em que,ao tentar lidar com mais uma das suas insolentes fugas,acalentara a ideia,ainda que por breves instantes,de que teria sido melhor ter perdido Nicola logo à nascença do que não saber do seu paradeiro e ignorar se alguma vez chegaria a ser encontrada.

Na lavandaria do hotel,Nan Maiden apertava contra o peito uma das camisas de algodão da filha,como se aquela pudesse metamorfosear-se em Nicola. Sem ter consciência do que fazia,aproximou a gola da camisa do nariz e inalou o cheiro da filha,uma mistura de gardénias. Nan descobriu que era capaz de reproduzir mentalmente a última ocasião em que vira Nicola com aquela camisa. Fora num recente passeio de bicicleta com Christian-Louis,uma vez terminados os almoços de domingo.

O chefe de cozinha francês sempre achara Nicola atraente – haveria algum homem que não se tivesse sentido atraído por ela? -,e Nicola,tendo percebido esse interesse nos olhos dele,não o deixara passar em claro. Era esse o seu talento: atrair os homens sem o mínimo esforço. Não o fazia para provar algo a si própria ou a qualquer outra pessoa. Fazia-o, simplesmente. Como se exalasse um odor peculiar que apenas era detectado pelos machos da terra em espécie.

Durante a infância de Nicola,Nan afligira-se com o poder de atracção sexual da filha e com o preço que a garota podia vir a ter de pagar por ele.

Quando Nicola chegara a idade adulta,comprovara que esse preço fora finalmente pago.

- Ser pai é ter por objectivo educar crianças que se tornem adultos autónomos e não clones - dissera Nicola. - Eu sou responsável pelo meu destino,mãe. A minha vida não tem nada a ver com a tua.

Por que razão é que os filhos diziam coisas semelhantes? interrogou-se

Nan. Como podiam eles acreditar que as suas escolhas e a maneira como procediam não afectavam outras vidas para além das deles? A forma como tudo sucedera com Nicola tinha tudo a ver com a mãe dela,muito simplesmente porque era mãe dela. Pois uma pessoa não dava à luz uma criança para depois não alimentar a mais pequena preocupação em relação ao futuro desse filho adorado.

Agora estava morta. Meu Deus,não haveria mais entradas de rompante sempre que Nicola regressasse a casa para as férias escolares,ou

quando voltasse de uma caminhada pela charneca,jamais tornaria a entrar no hotel em passo lento,os braços carregados de sacos de mercearia,nunca mais a sentiriam chegar a casa,depois de mais um encontro com Julian, toda sorrisos enquanto lhes contava tudo o que os dois tinham feito. Meu Deus,pensou Nan Maiden. A sua encantadora,intempestiva e incorrigível filha desaparecera definitivamente. A dor causada pela consciência deste facto era como uma barra de ferro que apertava cada vez mais o coração de Nan.

Não se julgava capaz de a suportar. Por isso fez o que sempre fazia quando os sentimentos se tornavam demasiado difíceis de suportar. Continuou a trabalhar.

Com esforço,afastou a camisa de algodão do rosto e retomou a tarefa que tinha em mãos. Separou a roupa da filha que estava por lavar,como se conservar o cheiro que ela exalava em vida pudesse também antecipar o momento inevitável em que teria de aceitar a morte de Nicola. Juntou pares de peúgas. Dobrou calças de ganga e malhas. Alisou as rugas de cada camisa e dobrou cuecas,que juntou aos respectivos soutiens. Por fim,meteu as roupas dentro de sacos de plástico que trouxera da cozinha. Fechou-os meticulosamente com fita adesiva,selando o cheiro da sua filha. Juntou os sacos e saiu da lavandaria.

No piso superior,Andy passeava de um lado para o outro. Nan conseguia ouvir os passos dele sobre a sua cabeça,enquanto avançava em silêncio ao longo do corredor,já depois da zona reservada aos hóspedes. O marido encontrava-se na arrecadação minúscula, passeando sem descanso entre a pequena janela das águas-furtadas e o aquecedor eléctrico. Refugiara-se lá depois da saída da polícia, dizendo que ia começar a passar em revista os diários e tentar encontrar o nome de alguém que tivesse contas a ajustar com ele. Todavia, a menos que estivesse a ler os diários enquanto passeava de um lado para o outro, não iniciara a busca nas horas que tinham decorrido entretanto.

Nan sabia porquê. A busca era inútil.

Recusava-se a pensar em tal coisa, disse para si própria. Nem ali, nem agora, nem nunca, possivelmente. Tal como não pensaria no significado

- se é que ele existia - das palavras de Julian Britton ao afirmar que estava noivo da sua filha.

Nan parou junto da escada que conduzia à área privada do piso superior da casa, onde ficavam os aposentos da família. Sentiu as mãos deslizarem ao longo dos sacos de plástico, que apertava de encontro ao peito. O seu coração parecia bater em sintonia com os passos do marido. Vai deitar-te, disse-lhe em silêncio. Por favor, Andy. Apaga as luzes.

Ele precisava de dormir. Os seus movimentos começavam a ficar tolhidos novamente, um sinal de quanto ele precisava de dormir. A chegada do detective da Scotland Yard não diminuíra em nada a ansiedade de Andy: Esta apenas aumentara depois da partida desse mesmo detective. A dormência nas mãos começara a atacar-lhe os braços. Uma picadela de alfinete não trazia qualquer vestígio de sangue à superfície da epiderme, como se o seu corpo estivesse a ser desligado. Conseguira manter o controlo na presença dos polícias, mas mal estes tinham saído sucumbira. Fora nessa altura que dissera que queria começar a vasculhar os diários. Se conseguisse manter-se afastado da mulher, escondendo- se no seu refúgio, conseguiria ocultar o pior do que estava a sentir. Ou, pelo menos, ele assim julgava.

Marido e mulher, no entanto, deviam ser capazes de se ajudarem mutuamente em momentos como aquele, contrapôs Nan no corredor silencioso. O que estará a passar-se connosco para que estejamos a enfrentar a situação cada um por si?

Tentara substituir o diálogo pela preocupação no início do serão, mas Andy repudiara a sua solicitude, recusando sem apelo nem agravo o momento em que ela lhe oferecera compressas quentes, uma dose de brandy, chávenas de chá e sopa quente. Evitara igualmente as tentativas que ela fizera para activar-lhe os dedos com uma massagem. Por isso, em última análise, tudo o que podia ter sido dito entre ambos continuava por dizer.

Que haveria de dizer agora? interrogava-se Nan. Que dizer quando o temor fazia parte da paleta de emoções que rugiam dentro de uma pessoa como se fossem batalhões infindáveis de um único exército, descontrolado e digladiando-se mutuamente?

Obrigou-se a subir as escadas,mas em vez de ir ao encontro do marido, dirigiu-se ao quarto de Nicola. Atravessou a alcatifa verde no escuro e abriu o guarda-vestidos,que estava encaixado sob o parapeito da janela. Quando o seu olhar se habituou à obscuridade,conseguiu distinguir os contornos do velho skate arrumado ao fundo de uma prateleira,de uma guitarra eléctrica,há muito fora de uso,apoiada na parede mais recuada,num recanto almofadado por alguns pares de calças.

Tocando-as com a ponta dos dedos e dizendo,estupidamente,tweed,lã,algodão,seda ao apalpar cada peça,Nan apercebeu-se de um som que ecoava pelo quarto,um zumbido proveniente da cómoda que se encontrava atrás de si. Quando se virou,perplexa,o som parou. Quase se convencera de que o tinha imaginado quando tornou a ouvi-lo.

Curiosa,Nan pousou os sacos em cima da cama e atravessou o quarto, dirigindo-se à cómoda. Não havia nada sobre ela que pudesse produzir tal som,apenas um vaso com uma erva-moira e uma beladona já murchas, colhidas durante um passeio a Padley Gorge. Ao lado das flores silvestres havia uma escova de cabelo e um pente,três frascos de perfume e um pequeno boneco de areia em forma de flamingo com umas pernas de tom rosa-vivo e enormes patas amarelas.

O lhando de relance para a porta do quarto que ficara aberta,como se procedesse a uma busca clandestina,Nan abriu a primeira gaveta da cómoda.

Ao fazê-lo,o zumbido soou pela terceira vez. Os seus dedos moveram-se na direcção do barulho e tocaram um pequeno quadrado de plástico que vibrava por baixo de alguns pares de cuecas.

Nan pegou no quadrado de plástico e voltou para junto da cama. Sentou-se e acendeu o candeeiro da mesa-de-cabeceira. Examinou o objecto que

retirara da gaveta. Era o pager de Nicola. Na parte superior estavam dois pequenos botões,um cinzento e outro preto. Em baixo,um ecrã estreito a toda a largura exibia uma única mensagem: uma mensagem.

O zumbido soou novamente,sobressaltando Nan Maiden,que pressionou um dos botões. O ecrã mostrou outra mensagem,desta vez um número de telefone com um indicativo que Nan reconheceu como sendo de Londres.

Engoliu em seco. Olhou fixamente para o número. Apercebeu-se de que quem quer que fosse que tinha contactado a filha não fazia a mais pequena

ideia de que Nicola tinha morrido. Foi este pensamento que a fez dirigir-se maquinalmente para o telefone com o intuito de responder à mensagem.

Outra ordem de pensamentos,todavia,guiou os seus passos até um dos telefones da recepção de Maiden Hall,quando podia perfeitamente ter ligado para Londres a partir do quarto que partilhava com Andy.

Respirou fundo. Perguntava a si mesma se encontraria as palavras certas. Pensou que o facto de encontrar as palavras certas não faria qualquer diferença para ninguém. Mas não queria pensar nisso. Queria apenas telefonar.

Discou os números com gestos rápidos. Esperou que a ligação fosse completada, até se sentir estonteada e perceber que estava a suster a respiração. Finalmente, um estalido indicou-lhe que o telefone de alguém algures em Londres começara a tocar. Nan Maiden contou oito toques duplos. Começava a pensar que talvez tivesse marcado mal o número quando finalmente ouviu uma voz masculina.

Atendeu à maneira antiga, indicadora da geração a que pertencia, referindo os últimos quatro dígitos do número de telefone. E por causa disso e porque a forma como ele atendera o telefone Lhe lembrara intensamente o seu próprio pai, Nan ouviu-se a si própria dizer aquilo de que jamais se julgaria capaz uma hora antes. Fala Nicola, disse num sussurro.

- Oh, com que então esta noite és Nicola? - perguntou ele. - Onde diabo te meteste? Enviei-te uma mensagem há mais de uma hora.

- Desculpa - e no estilo abreviado da filha: - O que é que se passa?

- Nada e sabes muito bem disso. O que é que decidiste? Mudaste de ideias? Podes fazê-lo, sabias? Tudo será perdoado. Quando é que voltas?

- Sim - sussurrou Nan. - A minha decisão é sim.

- Graças a Deus - era uma reacção ardente. - Oh meu Deus. Graças a Deus. Diabos. A situação tornou-se intolerável, Nikki. Sinto demasiado a tua falta. Diz-me imediatamente quando é que voltas.

- Em breve - outro sussurro.

- Quando? Diz-me.

- Eu telefono.

- Não! Por amor de Deus. Estás louca? Margaret e Molly estão cá em casa esta semana. Espera pelo meu contacto.

Ela hesitou.

- Claro.

- Ficaste zangada comigo, querida? Ela não respondeu.

- Ficaste, não foi? Perdoa-me. Não era minha intenção fazer-te zangar.

Silêncio.

Em seguida, a voz alterou-se, assumindo uma súbita e estranha ten ção infantil.

- Oh, Nikki. Minha linda Nikki. Diz-me que não estás zangada. alguma coisa, querida.

Ela continuou calada.

- Bem sei como ficas quando te faço zangar. Sou um menino mau, não sou?

Ela continuou sem dizer nada.

- Sim. Eu sei. Não te mereço. Sou mau e tenho de tomar o remédio. Tú tens o meu remédio, não tens, Nikki? E eu tenho de o tomar. Pois tenho.

Nan sentiu náuseas.

- Quem é você? - gritou. - Diga-me o seu nome. Em resposta ouviu um suspiro abafado. A chamada caiu.

 

                         CAPÍTULO 7

Ao fim de três horas diante do computador, Barbara Havers percebeu que tinha duas alternativas. Podia continuar a pesquisar os ficheiros do 5010 no CRIS e correr o risco de ficar cega, ou fazer uma pausa. Escolheu a última opção. Fechou o bloco- notas, saiu do ficheiro que estava a consultar e tentou descobrir um gabinete nas proximidades onde pudesse alimentar o seu vício.

A Scotland Yard, no entanto, mostrava-se cada vez mais sensível aos apelos das associações de luta antitabágica, pelo que foi informada de que todos os que trabalhavam naquele piso em particular eram abstémios.

- Merda - resmungou.

Não lhe restava outra alternativa a não ser repetir o comportamento dos tempos de escola. Arrastou-se até ao vão de escada mais próximo, deixou cair o corpo atarracado sobre os degraus e acendeu um cigarro. Inalou aqueles maravilhosos gases tóxicos e reteve-os nos pulmões durante tanto tempo que teve a sensação que os olhos iam saltar-lhe das órbitas. Puro deleite, pensou. Não havia nada melhor do que um cigarro, depois de três horas longe do tabaco.

A manhã não lhe trouxera nada de verdadeiramente proveitoso. A pesquisa no CRIS revelara-lhe que o inspector Andrew Maiden estivera ao serviço da força durante trinta anos, tendo passado os últimos dez no 5010, onde só o inspector Javert podia ter feito uma carreira mais brilhante. O seu record de detenções era transcendente e as condenações que se seguiam a estas detenções eram, em si mesmas, um prodígio da jurisprudência britânica. Estes dois factos, porém, representavam um pesadelo para quem investigasse o seu passado como agente infiltrado.

Os indivíduos detidos por Maiden tinham percorrido os meandros do sistema e, obedecendo aos desígnios do reino, tinham sido encarcerados praticamente em todos os estabelecimentos prisionais do Reino Unido de Sua Majestade. E apesar de os ficheiros conterem dados sobre operações diversas - a maioria das quais fora classificada por alguém com uma inegável predilecção por acrónimos apatetados - e relatórios completos sobre investigações, interrogatórios, detenções e acusações, a informação tornava-se indecisa quanto à duração das penas de prisão e ainda mais incompleta no que dizia respeito à liberdade condicional. Se,por acaso,um desses homens estivesse fora da prisão,depois de ter sido agraciado com licença de saída,e andasse à procura do tipo que Lhe colocara as pulseiras de prata nos pulsos, não iria ser fácil descobri-lo.

Barbara suspirou,bocejou e apagou o cigarro na sola do sapato,deixando cair a cinza sobre o degrau. Renegara os ténis vermelhos de pala subida, a sua imagem de marca,em atenção à sua nova posição - aperaltando-se da cabeça aos pés não fosse o comissário-adjunto Hillier passar por ela,ansioso por nova oportunidade para tornar a repreendê-la - e sentiu os pés começarem a latejar-lhe,tão desabituados estavam do calçado formal. Com efeito,enquanto estava sentada no vão de escada apercebeu-se de zonas inteiras do seu corpo que reclamavam o seu desconforto tendo-o feito,sem dúvida durante quase toda a manhã. Usava uma saia que a fazia sentir-se como se tivesse uma anaconda cingindo-lhe as ancas, o casaco parecia devorar-lhe largas porções das axilas e os collants tinham-se colado de tal modo às suas

pernas que se alguma vez estivesse prestes a dar à luz iria certamente ter de fazer uma episiotomia.

Nunca fora adepta da moda durante as horas de serviço,optando por calças de cós largo,T-shirts e malhas em detrimento de qualquer outra peça de vestuário remotamente conotada com alta costura. E,habituados como estavam a vê-la vestida num estilo mais informal várias tinham sido as pessoas que,ao longo daquele dia,tinham olhado para Barbara com um sobrolho levantado ou um riso abafado.

Entre elas encontravam-se os seus vizinhos, com quem Barbara se cruzara a escassos metros da porta de casa. Taymullah Azhar e a filha preparavam-se para entrar no imaculado Fiat de Azhar, quando Barbara aparecera na esquina da casa, nessa manhã, lutando para enfiar o bloco-notas dentro da mala a tiracolo, um cigarro meio consumido balançando-lhe nos lábios. Não os vira, a não ser quando Hadiyyah gritara alegremente:

- Barbara! Olá, olá! Bom dia! Não devias fumar tanto. Os teus pulmões vão ficar todos pretos e doentes se não parares. Aprendemos isto na escola. Vimos fotografias e tudo. Ainda não te tinha contado? Estás muito bonita.

Metade do corpo dentro do carro e a outra metade fora, Azhar acabara por sair do veículo e cumprimentara Barbara com um aceno de cabeça educado. O seu olhar percorrera-a da cabeça aos pés.

- Bom dia - dissera. - Vai sair cedo hoje.

- O pássaro, a minhoca e essas tretas todas - replicara Barbara.

- Conseguiu falar com o seu amigo? - perguntara ele. - Ontem à noite?

- O meu amigo? Oh, está a referir-se a Nkata. Winston. Pois. Isto é Winston Nkata. É assim que ele se chama - estremecera, perguntando a si mesma se soaria sempre tão pouco convincente. - É um colega da Yard. Sim, já falei com ele. Estou de novo em acção. Está a correr. Ou lá como se diz. O que quero dizer é que estou a trabalhar num caso novamente.

- Não está a trabalhar com o inspector Lynley? Tem um novo parceiro, Barbara?

Os olhos escuros examinaram-na.

- Não, não - respondera ela, em parte dizendo a verdade, em parte mentindo. - Estamos todos a trabalhar no mesmo caso. Winston também. Como eu, percebe? O inspector está a tratar de uma ponta do caso. Fora da cidade. E nós estamos aqui.

- Estou a perceber - dissera ele, meditativo.

De mais, pensou ela.

- Só consegui comer metade da minha maçã caramelizada ontem à noite - dissera então Hadiyyah, introduzindo uma providencial mudança de assunto. Começara a balançar-se na porta aberta do Fiat. Dependurada na janela aberta, baloiçava energicamente as pernas e os pés para manter a velocidade. Usava um par de peúgas de um branco angelical. - Se quiseres, podemos comê-la ao lanche, Barbara.

- Era bom, sim.

- Amanhã, tenho a minha aula de costura. Sabias? Estou a fazer uma coisa muito especial, mas agora não posso dizer o que é. Porque... - lançou um olhar significativo ao pai. - Mas tu podes ver o que eu estou a fazer, Barbara. Amanhã, se quiseres. Queres? Eu mostro o que é, se quiseres ver.

- Que maravilha.

- Mas só se conseguires guardar segredo. Consegues?

- Sou um túmulo - prometeu Barbara.

Azhar continuara a observá-la durante esta troca de palavras. Trabalhava na área da microbiologia, e Barbara começava a sentir-se como um dos seus espécimes, tão intenso era o seu escrutínio. Apesar da conversa que ambos tinham tido na noite anterior e da conclusão a que ele chegara ao ver a forma como ela estava vestida, já a vira sair para o trabalho ataviada com a sua farpela habitual vezes suficientes para perceber que a mudança ocorrida na sua aparência tinha outro significado para além de um desejo feminino de mudar de imagem.

- Deve estar muito satisfeita por estar a trabalhar num novo caso - dissera ele. - Depois de semanas de inactividade é sempre estimulante ter algo em que possamos concentrar-nos, não é?

- É mesmo excitante. - Barbara deixou cair o cigarro no chão e esmagou-o com a sola do sapato, empurrando a beata para dentro do canteiro de flores.

- É biodegradável - disse a Hadiyyah, que, como era óbvio, se pre parava para a censurar. - Areja o solo e alimenta as minhocas.

- Bom. Tenho de ir - anunciara, ajeitando a alça da mala. – Mantém essa maçã caramelizada bem fresquinha para mim,está bem?

- Se calhar também vamos poder ver um vídeo.

- Mas sem donzelas em apuros. Vamos ver Os Vingadores. Gosto de uma mulher que seja capaz de exibir as pernas e, ao mesmo tempo,dar pontapés nos traseiros dos senhores.

E Hadiyyah rira-se.

Barbara despedira-se com um aceno de cabeça. Já estava no passeio pronta para se escapulir quando Azhar perguntara:

- A Scotland Yard está a reduzir o seu número de efectivos, Barbara?

Ela parara, perplexa, e respondera sem pensar nas intenções que podiam estar subjacentes à pergunta.

- Credo,não. O que o leva a perguntar uma coisa dessas?

O Outono,talvez - respondera ele. - E as mudanças que ele traz.

Ignorara as implicações da palavra mudanças. Evitara os olhos dele.

Interpretara a frase no seu sentido mais superficial e respondera de acordo com esta interpretação.

como Há sempre mauzões para prender,seja qual for a estação do ano. Sabe...

Nunca descansam - sorrira abertamente e afastara-se.

Desde que ele nunca a confrontasse directamente com a palavra Detective,sabia que nunca teria de lhe explicar como é que ela passara a andar associada ao seu nome. Queria furtar-se a esta explicação o maior tempo possível,para sempre se pudesse,porque se tivesse de explicar a situação a Azhar corria o risco de o magoar. E por razões que ela preferia não explorar,magoar Azhar era algo de impensável para ela.

Agora,no vão de escada da Scotland Yard,Barbara lutava para afastar do pensamento a lembrança dos vizinhos. Afinal,não passavam de um homem e de uma criança que conhecera por acaso.

Consultou o relógio. Eram dez e meia. Resmungou. A ideia de passar mais seis ou oito horas em frente a um monitor era tudo menos excitante.

Tinha de haver uma forma mais económica de investigar a história. Ao percorrer os ficheiros deparara-se com o mesmo nome por diversas

vezes: inspector Dennis Hextell, com quem Maiden trabalhara como agente infiltrado. Se conseguisse localizá-lo, talvez ele pudesse fornecer- lhe uma pista mais proveitosa do que qualquer outro dado que tivesse de inferir a partir da leitura de ficheiros que cobriam um período de vinte anos.

Era isso mesmo: Hextell. Afastou-se das escadas e foi procurá- lo.

A busca acabou por ser mais fácil do que ela antecipara. Um telefonema

para o 5010 informou-a de que o inspector Hextell ainda fazia parte do departamento, embora como director de operações e não já como operacional actuando no terreno.

Barbara encontrou-o sentado a uma mesa pequena na cafetaria do quarto andar. Apresentou-se e perguntou se podia fazer-lhe companhia. O inspector, que observava um conjunto de fotografias, ergueu o rosto para olhá-la. Tinha menos rugas do que sulcos, e os músculos acusavam a pressão da força da gravidade. O tempo não fora, visivelmente, meigo para com ele. O director de operações reuniu as fotografias e não respondeu. - Estou a trabalhar no caso Maiden, o homicídio ocorrido em Derbyshire - adiantou Barbara, solícita. - A filha de Andy Maiden. O senhor fez equipa com ele em tempos, não é verdade?

Isto provocou uma reacção.

- Sente-se.

Indiferente aos monossílabos, que não lhe causavam nenhum tipo de perturbação, Barbara obedeceu-Lhe. Comprara uma Coca- Cola e um donut de chocolate na cafetaria e pousou-os sobre a mesa, à sua frente.

- Dá-lhe cabo dos dentes, isso - comentou Hextell com um aceno de cabeça.

- Sou uma vítima dos meus vícios.

Ele soltou um resmungo.

- É seu, esse avião? - perguntou Barbara, referindo-se à fotografia que estava por cima do monte que ele tinha na sua frente.

Tratava-se de um biplano amarelo do género dos que tinham voado durante a Primeira Guerra Mundial, no tempo em que os aviadores usavam capacetes de couro e longas écharpes esvoaçantes.

- Um deles - respondeu ele. - É o que eu uso nas acrobacias aéreas.

- É piloto de acrobacia, então?

- Consigo fazer voar um avião, sim.

- Claro. Deve ser agradável.

Barbara perguntava a si própria se teriam sido os anos a trabalhar na clandestinidade que teriam tornado o homem tão loquaz. Passou ao assunto que a levara a procurá-lo. Haveria algum caso, alguma operação de vigilância, ou outra que lhe viesse à mente que tivesse assumido uma importância particular no historial da colaboração profissional entre ele e Andy Maiden?

- Estamos a considerar a vingança como um dos possíveis motivos para a morte da rapariga, alguém que o senhor ou o inspector Maiden tivessem detido, alguém interessado num ajuste de contas. O próprio Maiden está a tentar descobrir um nome na casa dele em Derbyshire e eu passei a manhã a passar em revista relatórios atrás de relatórios no computador. Mas não encontrei nada que me pusesse os sentidos em alerta.

Hextell começou a separar as fotografias. Parecia fazê-lo segundo um sistema que Barbara não conseguia decifrar, já que cada imagem representava precisamente o mesmo avião, variando apenas o ângulo de visão. Numa aparecia a fuselagem, noutras os travejamentos, a ponta da asa, o motor e a cauda. Depois de ter dividido as fotografias a seu gosto, pegou numa lupa, que tirara do bolso do casaco, e começou a estudar cada imagem individualmente.

- Todas as hipóteses são possíveis. Nós convivíamos de perto com escória de primeira. Traficantes, viciados, proxenetas, negociantes de armas. Tudo. Qualquer um deles teria atravessado o país inteiro só para nos tratar da saúde.

- Mas não há nenhum nome que lhe ocorra neste momento?

- O que me fez sobreviver foi ter atirado os nomes deles para trás das costas. Andy não conseguiu fazer isso.

- Sobreviver?

- Esquecer.

Hextell separou uma das fotografias das restantes. Nela, via-se o avião de frente, a estrutura truncada pelo ângulo de visão. Examinou cada centímetro através da lente, semicerrando os olhos como fazem os joalheiros quando observam um diamante.

- Foi por isso que ele deixou o departamento? Segundo ouvi dizer, pediu reforma antecipada.

Hextell ergueu os olhos.

- Quem é que está a ser investigado neste caso?

Barbara apressou-se a tranquilizá-lo.

- Estou apenas a tentar conhecer um pouco melhor o homem. Se souber de alguma coisa que possa ajudar...

Fez um gesto que dizia que isso seria óptimo e entregou-se ao donut de chocolate com entusiasmo.

O inspector pousou a lente e cruzou as mãos sobre ela.

- Andy saiu por recomendação médica. Estava a perder os nervos.

- Teve um esgotamento?

Hextell soltou um murmúrio irónico.

- Não era um caso de tensão, mulher. Era uma questão de nervos. Nervos verdadeiros. O olfacto foi a primeira coisa a desaparecer. Depois foi o paladar e o tacto. Ele estava a aguentar-se bem, mas depois a visão foi afectada. E isso foi o fim dele. Foi obrigado a sair.

- Diabos me levem. Ele ficou cego?

- Teria ficado, certamente. Mas depois da reforma recuperou os sen tidos todos: tacto, visão, tudo.

- Mas o que lhe aconteceu, então?

Hextell fitou-a longa e insistentemente antes de responder. Em seguida, ergueu o indicador e o dedo do meio e bateu levemente na cabeça.

- Não conseguia acompanhar o jogo. Trabalhar como infiltrado dá cabo de uma pessoa. Eu perdi quatro mulheres. Ele perdeu os nervos. Há coisas que não podem ser substituídas.

- Ele não tinha problemas conjugais?

- Como eu já disse, era o jogo. Há tipos que conseguem aguentar a pressão enquanto fingem que são uma pessoa que não são. Com Andy, as coisas não funcionaram dessa maneira. As mentiras que tinha de espalhar pelas ruas... A obrigatoriedade de fazer segredo sobre um caso até muito depois de ele ter sido encerrado... Tudo isso deu cabo dele.

- Não houve, então, um caso em especial - um caso grande, por exemplo - que lhe custasse mais do que os outros?

- Não sei - concluiu Hextell. - Como lhe disse, atirei tudo isso para trás das costas. Se por acaso houve um caso desse género, não sou capaz de me lembrar dele.

Com uma memória como aquela, Hextell pouco valor teria tido para os Advogados da Coroa durante os seus verdes anos. Barbara, no entanto, pressentia que o inspector não estava interessado em saber se os Advogados da Coroa o consideravam útil ou não. Enfiou o resto do donut na boca e engoliu-o juntamente com um gole de Cola.

- Obrigada pelo tempo que me dispensou - agradeceu e, numa atitude amigável, acrescentou, referindo-se ao biplano: - Tem ar de ser divertido.

Hextell pegou na fotografia da hélice, virou-a de cabeça para baixo e, segurou-a com as pontas do polegar e do indicador para não a manchar.

- Outra forma de morrer, nada mais - disse.

Com mil diabos, pensou Barbara. O que as pessoas fazem para tirar o emprego da cabeça.

Ignorando ainda o nome que procurava, mas mais consciente dos perigos inerentes a uma longa carreira na polícia, retomou o seu lugar em frente ao computador. Acabara de embrenhar-se novamente na história de Andy Maiden quando foi interrompida por um telefonema.

- É Cole - a voz de Winston Nkata chegou até ela através de linha telefónica carregada de estática. - A mãe olhou para o corpo, É, é o meu Terry, saiu da sala como se fosse à mercearia e caiu redonda no chão. Deu com a cara no chão, literalmente. Pensámos que ela tinha um ataque de coração, mas não, foi só um desmaio. Foi preciso dar-lhe um sedativo quando voltou a si. Está a ser muito duro para ela.

- São momentos difíceis.

- Ela adorava o tipo. Faz-me lembrar a minha mãe.

- Pois é. Bom - Barbara não conseguiu deixar de pensar na própria mãe. Adorar não era certamente o termo que melhor expressava o seu sentimento maternal. - Lamento muito. Vais trazê-la de volta.

- Devo chegar a meio da tarde, espero bem. Parámos para um lanche. Ela foi à casa de banho.

- Ah, claro.

Barbara tentava adivinhar as razões que o tinham levado a telefonar-Lhe. Servir de intermediário entre ela e Lynley, talvez, passando-lhe as informações necessárias para que o inspector contactasse o menos possível com ela, como parecia julgar necessário naquele momento.

- Ainda não consegui descobrir nada acerca das detenções feitas por Maiden. Pelo menos nada que pareça ser útil.

Contou-lhe o que o inspector Hextell lhe tinha dito sobre as deficiências nervosas de Maiden, acrescentando:

- O inspector fará o que entender com isto.

- Eu passo-lhe os elementos - disse Nkata. - Se puderes fazer uma pausa, é preciso dar um salto até Battersea. Poupava-nos tempo. - Battersea?

- À casa de Terry Cole. E ao estúdio dele também. É preciso que um de nós vá até lá falar com a pessoa que dividia o apartamento com ele. Uma tal Cilla Thompson, lembras-te? - Sim, lembro-me. Mas pensei...

Que pensara ela? Obviamente, que Nkata iria chamar a si o maior número de tarefas possível, deixando-lhe o trabalho de nada. O outro agente continuava a deixá-la perplexa com a sua generosidade espontânea.

- Sim, claro que posso fazer uma pausa - disse Barbara. - Lembro-me da morada.

Ouviu a gargalhada de Nkata.

- Ora, ora, e porque será que isso não me surpreende em nada?

Lynley e Hanken tinham passado parte da manhã à espera que Winston Nkata chegasse acompanhado da mãe de Terry Cole, que devia identificar o segundo cadáver descoberto na charneca. Nenhum dos dois alimentava muitas dúvidas acerca do carácter meramente formal daquele procedimento. Uma situação devastadora e angustiante, mas ainda assim uma formalidade. Dado que nenhum habitante da charneca aparecera para reclamar a moto e que mais ninguém participara o seu roubo, parecia relativamente óbvio que o corpo mutilado de um indivíduo do sexo masculino...

o proprietário da moto eram uma e a mesma pessoa.

Nkata chegara cerca das dez horas, e um quarto de hora depois obtiveram a resposta que esperavam. Mrs. Cole confirmara que o rapaz era, de faccto, o seu filho Terry e, em seguida, desmaiara. Fora chamado um médico, que, sedativo na mão, tomara conta da ocorrência. -Quero os pertences dele - soluçara Sal Cole, e eles depreenderam

que ela se referia às roupas do filho. - Quero os pertences dele para dar ao nosso Darryl. Quero levá-los comigo.

E haveria de levar,disseram-lhe,depois que a equipa de técnicos forenses tivesse acabado de os examinar,logo que as calças de ganga,a T- shirt,

O par de Doc Martens e as peúgas já não fossem necessários à descoberta da identidade do autor do crime. Enquanto tal não fosse possível,entregar-lhe-iam um recibo referente a cada uma das peças de vestuário do rapaz e outro para a moto. Não lhe disseram foi que podiam passar-se anos até que as roupas ensanguentadas lhe fossem devolvidas. Ela,por seu turno,também não perguntara para quando estaria prevista a sua devolução. Limitara-se a agarrar com força no sobrescrito contendo os recibos e a limpar os olhos com as costas da mão. Winston Nkata afastara-a daquele pesadelo e levara-a ao encontro do outro,ainda mais prolongado,que se avizinhava.

Lynley e Hanken retiraram-se para o gabinete deste último em silêncio.

Antes da chegada de Nkata,Hanken passara o tempo relendo as notas que

tirara sobre o caso até àquele momento. Lançara ainda uma olhadela ao relatório inicial redigido pelo agente que primeiro falara com os Maiden acerca do desaparecimento da filha de ambos.

- Ela recebeu vários telefonemas na manhã em que saiu para o passeio - disse ele a Lynley. - Dois de uma mulher,um de um homem. Nenhum

deles se identificou a Nan Maiden,antes de ela ter ido chamar Nicola.

- Será possível que o homem tivesse sido Terence Cole? - perguntou Lynley.

Mais água para o nosso moinho,concluiu Hanken.

Aproximou-se da sua secretária. Precisamente ao centro,alguém colocara um maço de papéis enquanto eles tinham estado com Mrs. Cole. Antes de pegar neles,Hanken disse a Lynley que se tratava de um documento relacionado com o caso. Graças aos serviços de uma excelente dactilógrafa, a Dra. Sue Myles conseguira cumprir a sua palavra: diante deles estava o relatório das autópsias.

A Dra. Myles fora tão exaustiva quanto anticonvencional,conforme ambos descobriram. Só as suas conclusões,com base na observação externa dos cadáveres,ocupavam quase dez páginas. Além de uma descrição pormenorizada de cada ferida,contusão,queimadura e lesão encontradas em ambos os corpos,a Dra. Myles acrescentara todas as especificações associadas a uma morte na charneca. Assim,tudo,desde a urze,presa nos cabelos de Nicola Maiden a um espinho enterrado num dos tornozelos de Terry, tudo fora escrupulosamente anotado. Os detectives foram informados dos infinitesimais fragmentos de pedra encontrados no corpo das vítimas,dos vestígios de fezes de aves presentes na pele,das lascas de madeira não identificadas detectadas nas feridas e dos danos provocados nos cadáveres por insectos e pássaros. Concluída a leitura,no entanto,o elemento que faltava aos detectives era exactamente o mesmo de que não dispunham no início: uma ideia clara do número de assassinos que procuravam. Possuíam,no entanto, um pormenor intrigante. Além das sobrancelhas e da massa de cabelos que lhe cobria a cabeça, Nicola Maiden não apresentava qualquer outro vestígio de pêlos. Não porque tivesse nascido sem eles, mas sim porque o seu corpo fora deliberadamente depilado.

Foi este facto interessante que determinou o passo seguinte da investigação.

Chegou talvez o momento, disse Lynley, de falar com Julian Britton, o malogrado noivo da principal vítima. Saíram ao seu encontro.

A casa dos Britton, Broughton Manor, ficava situada a meio de uma elevação calcária, a escassas duas milhas a sudeste da cidade de Bakewell. Virada para oeste, dava para o rio Wye, que nesta zona do vale descrevia uma suave curva através de um prado povoado de carvalhos onde pastava um rebanho de ovelhas. Visto à distância, o edifício não se assemelhava a uma casa senhorial que outrora tivesse sido o centro de uma propriedade florescente, mas sim a uma impressionante fortificação. Construída em pedra calcária, que há muito se tornara cinzenta por acção dos líquenes que sobre ela se tinham desenvolvido, a casa era constituída por torres, ameias e muralhas que se erguiam cerca de quatro metros acima do solo antes de cederem

lugar à primeira de uma fileira de estreitas janelas. Toda a aparência da mansão sugeria longevidade e solidez, combinadas com a vontade e capacidade de sobreviver a tudo, desde as vicissitudes dos elementos aos caprichos dos seus proprietários.

Vista de mais perto, porém, Broughton Manor exibia as marcas de uma história diferente. Algumas das vidraças das janelas losangulares tinham desaparecido. Uma parte do antigo telhado em madeira de carvalho parecia ter cedido. Uma floresta de verdura - desde hera a musgo estava exercer pressão sobre as restantes janelas da ala sudoeste, enquanto muros baixos que demarcavam uma série de jardins que se estendiam na direcção ao rio estavam em ruínas e semeados de buracos, dando às ovelhas que deambulavam nas redondezas acesso ao que em tempos devia ter sido um conjunto de terraços coloridos dispostos em sentido descendente.

- Costumava ser a jóia da região - Hanken disse a Lynley quando atravessavam a ponte de pedra que ligava as duas margens do rio e conduzia à alameda que ia dar à casa. - À parte Chatsworth, claro. Não estou a falar de palácios. No entanto, mal Jeremy Britton lhe pôs as patas em cima destrhuiu-a em menos de dez anos. O filho mais velho - que é o nosso homem, tem tentado fazer ressuscitar a propriedade. Quer torná-la rentável e auto-suficiente como quinta, hotel ou centro de conferências. Ou parque, Ele chega a arrendar a propriedade para comemorações e torneios, o que provavelmente faz com que os antepassados da família dêem voltas no túmulo. O certo é que tem de andar sempre um passo à frente do pai, que na oportunidade dissolve tudo em álcool.

- julian precisa de financiamento?

- É uma maneira educada de colocar a questão. - Há outros filhos? - perguntou Lynley. - Julian é o mais velho? Hanken transpôs uma enorme porta com encastes de ferro - o passar dos anos, a negligência e o mau tempo tinham debotado a madeira de carvalho - e manobrou o carro na direcção das traseiras da casa. Aí havia um portão em forma de arco, suficientemente largo para deixar passar uma carruagem, no qual estava incrustada uma porta do tamanho de um homem. Esta abria-se para um pátio com chão coberto de lajes de pedra, em cujas frestas as ervas daninhas espreitavam como pensamentos inesperados. Desligou o motor.

- Julian tem um irmão que está eternamente na universidade e uma irmã, casada, que vive na Nova Zelândia. É o mais velho e a razão pela qual ainda não seguiu os passos dos outros e se pôs a andar daqui para fora é algo que me transcende. O pai é um osso bem duro de roer, mas você há-de ter oportunidade de comprovar isso com os seus próprios olhos se vier conhecê-lo.

Hanken abriu a porta do carro e guiou-os até à casa. Atrás deles, soaram alguns latidos, provenientes do que pareciam ser as cavalariças. Estas ficavam situadas ao fundo de um caminho de saibro coberto de extensa vegetação que seguia para norte a partir de uma curva na alameda próxima.

- Alguém está a fazer companhia aos lebreiros - Hanken disse a Lynley falando por cima do ombro. - Provavelmente é Julian. Ele faz criação de cães. Mas o melhor é certificarmo-nos primeiro. Por aqui.

Caminharam até chegar a um pátio, um de dois, segundo lhe disse Hanken. De acordo com o inspector, o rectângulo imperfeito em que se encontravam naquele momento era uma ampliação relativamente moderna das quatro alas do edifício, mais antigas, que constituíam a fachada oeste De casa. Relativamente moderna no contexto da história de Broughton Manor, significava, evidentemente, que o pátio tinha apenas pouco menos de duzentos anos de existência e, como tal, era designado por pátio novo. O outro datava sobretudo do século xv, embora apresentasse uma secção cenhorial construída no século xiv que constituía a fronteira partilhada entre os dois pátios. Uma inspecção apressada ao pátio era suficiente para detectar a degradação que Julian Britton se esforçava por contrariar. Havia, no entanto vestígios de ocupação que se misturavam com sinais de decrepitude. Uma corda de roupa improvisada, onde esvoaçavam incongruentes lençóis fora montada num dos cantos da casa e traçava uma linha diagonal. as duas alas da casa, onde fora atada a duas janelas sem vidraças, recorriam aos batentes de ferro enferrujado. Alguns sacos de lixo de plástico aguardavam o momento de serem removidos lado a lado com ferramentas que provavelmente não eram usadas há um século. Uma bengala de alumínio brilhante fora colocada junto a um velho e desprezado relógio de lareira. O passado e o presente encontravam-se a cada esquina da casa, à medida que algo novo se tentava erguer a partir dos detritos do antigo.

- Boa tarde. Posso ajudá-los?

Uma voz feminina soou por cima deles. Olharam na direcção das janelas e a voz disse, rindo:

- Não. Aqui em cima.

Estava no telhado. A saca de lixo que tinha a tiracolo fazia-a parecer-se com um gnomo natalício,decisivamente fora de época e ainda mais de tamanho,surpreendido em plena distribuição de prendas. Ela,no entanto, era um gnomo particularmente descomposto,braços e pernas nus manchados de fuligem.

- Caleiras - disse,alegremente,parecendo referir-se à sua ocupação do momento. - Não se importam de esperar um instante? Desço já.

Nuvens de pó e de folhas em decomposição rodearam-na enquanto trabalhava,a cabeça desviada para que o lixo pior não lhe atingisse o rosto.

- Pronto. Já está - disse a jovem quando alcançou o fundo da caleira.

Descalçou as luvas de jardinagem e atravessou o telhado na direcção de uma escada extensível que estava encostada ao edifício,por detrás da corda com os lençóis rosa. Desceu com movimentos ágeis e atravessou o pátio. Apresentou-se como sendo Samantha McCallin.

Num ambiente tão propício a reflexões históricas,Lynley imaginou a jovem da forma como ela provavelmente teria sido vista num passado distante: desprovida de atractivos mas corajosa,de origem camponesa,o espécime perfeito para gerar filhos e trabalhar a terra. Em termos modernos, era alta e bem constituída e tinha o físico de uma nadadora. Usava roupas simples e despretensiosas adequadas às actividades que executava. Umas calças de ganga usadas convertidas em calções e um par de botas eram completadas por uma T-shirt. Presa no cinto,via-se uma garrafa de água.

Enquanto os observava com um olhar franco,soltou os cabelos castanhos que enrolara e prendera no alto da cabeça,deixando-os cair até à cintura numa trança grossa.

- Sou prima de Julian. E os senhores são da polícia,suponho. E imagino que esta visita esteja relacionada com Nicola Maiden. Estou ou não certa?

A expressão do seu rosto indicava que na maior parte das vezes estava.

- Gostaríamos de conversar com Julian - disse Hanken.

- Espero que não estejam a pensar que ele está envolvido na morte dela - Abriu a garrafa de água e bebeu um gole. - Isso é impossível. Ele adorava Nicola. Era um verdadeiro cavaleiro andante e tudo o mais. Para ele, não havia contratempo que fosse um desafio demasiado difícil. Quando ela chamava,ele vestia a armadura antes que alguém tivesse tempo de pronunciar a palavra Ivanhoe. Em sentido metafórico,claro.

Sorriu. Foi o seu único erro. Frágil, expôs a ansiedade que se escondia por detrás da sua aparência afável.

- Onde está ele? - perguntou Lynley.

- Foi tratar dos cães. Muito adequado ao ambiente que nos rodeia, não acham? Venham comigo. Eu indico-vos o caminho.

Não era necessário que ela os guiasse. Podiam perfeitamente ter seguido o barulho. Todavia, a determinação da jovem em presenciar o encontro entre eles e Julian era uma circunstância intrigante que um investigador sensato não deixaria de explorar. E essa determinação ficou patente na passada larga e segura com que ela passou por eles no pátio.

Seguiram ao longo da alameda coberta de vegetação, guiados por Samantha. Os ramos dos limoeiros por podar cobriam o caminho, permitindo entrever como fora outrora o túnel de folhagem que dava acesso às cavalariças.

Estas tinham sido transformadas em canis, para que Julian pudesse criar os seus lebreiros. Havia um grande número de cães ao longo de um conjunto de pistas com um formato singular. Todos eles desataram a ladrar, num coro cacofónico quando Hanken e Lynley se aproximaram na companhia de Samantha McCallin.

- Quietos, agora - gritou Samantha. - Tu, Cass. Porque é que não estás junto dos cachorros?

Em resposta, a cadela interpelada - que passeava incessantemente numa das pistas separadas dos restantes - recuou até ao edifício e desapareceu através de uma porta com as dimensões de um cão que fora aberta na parede de calcário.

- Assim está melhor - comentou Samantha. Depois, dirigindo-se aos dois homens, informou: - Ela pariu há umas noites atrás. É muito protectora em relação aos cachorros. Julian deve estar com eles, suponho. É já ali dentro.

Os canis, segundo ela lhes disse enquanto abria a porta, consistiam em pistas exteriores e interiores, duas salas de parto e uma dúzia de cubículos destinados aos cachorros.

Em contraste com o estado da casa senhorial, os canis primavam pela limpeza e pela modernidade. No exterior, as pistas tinham sido varridas e os pratos da água reluziam. No interior, os detectives descobriram que as paredes tinham sido caiadas, a iluminação era intensa, o chão de pedra polido e alguém pusera música a tocar. Brahms, ao que parecia. As paredes grossas do edifício impediam que os ruídos produzidos pelos cães fossem ouvidos no exterior. No entanto, dado que também favoreciam a humidade e o frio, tinha sido instalado um sistema de aquecimento central.

Lynley olhou de soslaio para Hanken enquanto Samantha os guiava até uma porta fechada. Era óbvio que o outro inspector estava a pensar o mesmo que ele: os cães viviam melhor do que os seres humanos.

Julian Britton encontrava-se na Sala de Cachorros N. o 1, conforme estava indicado na porta que dava acesso à divisão. Samantha bateu duas Vezes e chamou-o pelo nome.

- A polícia gostaria de conversar contigo - disse. - Podemos entrar? Uma voz masculina respondeu:

- Devagar. Cass está inquieta.

- Vimo-la lá fora - e dirigindo-se a Lynley e a Hanken, pediu: - Ajam com movimentos tranquilizadores, por favor. Em relação ao cão.

Cass lançou a confusão quando eles entraram. Encontrava-se numa pista em forma de L que tinha acesso à pista exterior através da porta aberta na parede. No extremo mais recuado - bem afastada das correntes de ar -, uma caixa albergava a sua recente ninhada de cachorros. Quatro lâmpadas iluminavam esta zona da pista. A caixa propriamente dita estava isolada, os lados protegidos por pele de ovelha e o chão forrado com uma espessa camada de jornais.

Julian Britton estava no interior da pista. Segurava um cachorro na mão esquerda enquanto encostava o dedo indicador direito ao focinho minúsculo do cão. De olhos ainda fechados, o animal mamava avidamente. Passados alguns instantes, Julian libertou-o, tornou a colocá-lo dentro da caixa e fez umas anotações num fichário com argolas. Tentou acalmar a cadela com um Sossega, Cass,. Esta, porém, continuou desconfiada, apenas deixando de ladrar para passar a ganir baixinho.

- Todas as mães deviam ter a mesma dedicação pela sua prole.

Era impossível adivinhar a quem é que Samantha se estava a referir: se ao cão, se a Julian Britton.

Quando Cass se instalou no ninho feito com jornais, Julian ficou a observar a cena. Manteve-se em silêncio até o cachorro que tinha estado a examinar ter encontrado o caminho até uma das tetas. Em seguida, murmurou algumas palavras aos cães enquanto o resto da ninhada se enros cava junto ao corpo da mãe.

Lynley e Hanken apresentaram-se, exibindo os respectivos distinti vos. Julian examinou-os, o que lhes deu tempo para o observarem a ele. Era um homem de estatura elevada, robusto sem ser obeso. O rosto exibia, na zona da testa, o tipo de sardas dispostas irregularmente, reveladoras de uma vida passada ao ar livre mas também sinais precursores do cancro de pele. Nas faces, um outro conjunto de sardas conferia-lhe a aparência de um salteador de cabelo ruivo. Combinadas com a palidez nada natural da sua pele, no entanto, as sardas acentuavam uma aparência combalida.

Depois de ter examinado os distintivos apresentados pelos detectives, tirou um lenço azul do bolso das calças e limpou o rosto, embora não parecesse estar a transpirar.

- Farei tudo o que puder para vos ajudar - disse. - Estava com Andy e com Nan Maiden quando eles receberam a notícia. Ia sair com Nicola nessa noite. Quando ela não apareceu no Hall, telefonámos à polícia.

- Julie saiu à procura dela sozinho - acrescentou Samantha. - A polícia não se mostrou muito disposta a fazer fosse o que fosse.

Hanken não pareceu satisfeito ao ouvir esta crítica indirecta. Lançou um olhar nada amistoso à jovem e perguntou se podiam conversar num local onde a cadela não estivesse sempre a rosnar-lhes. Estava, obviamente, a referir-se ao animal. Samantha, no entanto, não deixou escapar o duplo sentido da frase de Hanken. Olhou intensamente para Hanken e comprimiu os lábios.

Julian fez-lhes a vontade, guiando-os até às pistas dos cachorros, situadas numa zona separada do edifício. Aqui, alguns cachorros mais velhos entretinham-se com brincadeiras. As pistas tinham sido concebidas com inteligência, por forma a proporcionar-lhes desafios e entretenimento. Havia caixas de cartão para rasgar, complicados labirintos com vários níveis por onde os animais podiam deambular, brinquedos e guloseimas escondidas a descobrir. Os cães são animais inteligentes, explicou Julian Britton. Esperar que um animal inteligente crescesse e se desenvolvesse numa pista de betão desprovida de quaisquer formas de distracção, não só era estúpido como era cruel. Conversaria com os detectives enquanto trabalhava, disse. Esperava que eles não se importassem.

Então, este é que era o noivo destroçado pela dor, pensou Lynley.

- De modo algum - respondeu Hanken.

Julian pareceu adivinhar os pensamentos de Lynley.

- O trabalho é um bálsamo neste momento - disse. - Espero que compreendam.

- Precisas de ajuda, Julie? - perguntou Samantha.

A oferta foi dita de modo simpático, o que só abonava em seu favor.

- Obrigado. Podes tratar dos biscoitos se quiseres, Sam. Eu vou dar um novo arranjo ao labirinto.

Entrou na pista enquanto Samantha ia buscar a comida. Os cachorros ficaram deliciados com aquela intrusão de um ser nos seus domínios. Suspenderam as brincadeiras e rodearam Julian, a sossegar por nova distracção. Ele falou-lhes em sussurro, fez-lhes festas na cabeça e atirou quatro bolas e alguns ossos de borracha para o extremo mais afastado do labirinto. Quando os cães se lançaram atrás dos objectos, com Julian a trabalhar no labirinto, que desmontou através de uma série de fendas de madeira.

- Segundo nos disseram, o senhor e Nicola Maiden estavam noivos - disse Hanken. - Também nos disseram que se tratava de um noivado recente.

- Permita-nos que expresse as nossas condolências - acrescentou Lynley.

- Não é, com certeza, um assunto que deseje abordar em particular, mas é possível que possa fornecer-nos elementos - elementos de que nem sequer o senhor terá consciência, talvez - capazes de ajudar a nossa investigação.

Julian concentrou a sua atenção nas paredes do labirinto, empilhando-as cuidadosamente enquanto lhes respondia.

- Eu induzi o Andy e a Nan em erro. Era mais fácil naquele momento, em vez de explicar tudo em pormenor. Não paravam de perguntar se tínha mos discutido. Toda a gente perguntou o mesmo, quando ela continuou sem aparecer.

- Induziu-os em erro? Isso quer dizer que não estavam noivos? Julian lançou um olhar na direcção por onde Samantha seguira, a fim de ir buscar a comida dos cães.

- Não. Eu fiz o pedido. Ela disse que não.

- Os seus sentimentos não eram correspondidos? - perguntou Hanken.

- Suponho que não, já que ela não queria casar comigo. Samantha juntou-se-lhes novamente, arrastando atrás de si uma enorme saca de serapilheira, os bolsos a transbordar de guloseimas para os cachorros. Entrou na pista e apercebendo-se que o primo se debatia com uma parte do labirinto sem conseguir soltá-la, disse:

- Aqui tens, Julie. Deixa-me ajudar-te com isso.

- Eu consigo fazê-lo - replicou ele.

- Não sejas teimoso. Tenho mais força do que tu.

As mãos habilidosas de Samantha desmontaram o labirinto. Julian deixou-se ficar ao lado dela com uma expressão de desconforto.

- E em que data fez o seu pedido, exactamente? - perguntou Lynley. A cabeça de Samantha virou-se rapidamente na direcção do primo, tornando a desviar-se com igual rapidez. Diligentemente, começou a esconder biscoitos para cão ao longo da pista.

- Na segunda-feira à noite - disse-Lhes Julian. - Na noite anterior ao... anterior à partida de Nicola para a charneca.

Retomou o que estava a fazer com gestos bruscos. Falava para o labirinto, não para eles.

- Eu sei o que isso dá a entender. Não sou assim tão idiota que não compreenda as implicações exactas da situação. Eu peço-a em casamento, ela recusa e depois morre. Sim, sei muito bem as malditas implicações de tudo isso. Mas não fui eu quem a matou.

Cabeça baixa, abriu os olhos como se assim pudesse conter as lágri mas e limitou-se a dizer:

- Eu amava-a. Há anos que a amava. Amava-a.

Samantha ficou imóvel no extremo da pista, os cachorros saltitando à sua volta. Parecia querer vir ao encontro do primo, mas continuou sem se mexer.

- Sabia onde ela ia estar naquela noite? - perguntou Hanken. - Na noite em que foi assassinada?

- Telefonei-lhe nessa manhã - na manhã em que ela partiu - e marcámos um encontro para quarta-feira à noite. Mas ela não me disse mais nada.

- Não lhe disse que ia sair para uma caminhada?

- Ela não me disse sequer que ia sair.

- Ela recebeu outras chamadas antes de ter saído, naquele dia - disse Lynley. - De uma mulher, possivelmente duas. E outra de um homem. Nenhuma destas pessoas disse à mãe de Nicola como se chamava. Faz alguma ideia de quem poderia querer falar com ela?

- Nenhuma - Julian não teve qualquer reacção quando ficou a saber que uma das pessoas que tinha telefonado era um homem. - Podia ter sido qualquer pessoa.

- Ela era muito popular - disse Samantha, que continuava no fundo da pista. - Estava sempre rodeada de gente quando cá estava, por isso devia ter dezenas de amigos, também estudantes. Devia receber telefonemas de colegas a toda a hora quando não estava na universidade.

- Universidade? - perguntou Hanken.

Nicola concluíra recentemente o curso na Faculdade de Direito, informou-os Julian. Em Londres", acrescentou quando eles lhe perguntaram onde ela estudara.

- Tinha arranjado um trabalho de Verão com um tipo chamado Upman. Tem uma firma de advogados em Buxton. Foi o pai que lhe arranjou o trabalho, porque Upman é cliente habitual do Hall. E também porque, acho eu, ele tinha esperanças que ela viesse trabalhar para Upman Derbyshire depois de concluir o curso.

- Isso era importante para os pais dela? - perguntou Hanken.

- Era importante para todos - replicou Julian.

Lynley interrogou-se sobre se aquele todos incluiria a prima de Julian. Virou a cabeça na direcção dela. Atarefada, escondia biscoitos para que os cachorros tentassem descobri-los mais tarde. Colocou a pergunta que obviamente se seguia. Como tinham sido as despedidas entre Julian e Nicole na noite em que ele a pedira em casamento? Tinham-se separado zangados? Tinha havido algum azedume? Mal- entendido? Esperança? Não era situação fácil, comentou Lynley, pedir uma mulher em casamento e ver o pedido recusado. Seria compreensível que a recusa dela tivesse dado origem a uma depressão ou um arroubo inesperado de paixão.

Samantha deixou a posição que ocupava, ao fundo da pista.

- É essa a sua maneira inteligente de perguntar se ele a matou?

- Sam - disse Julian. Soou como uma advertência. - Fiquei em baixo, claro. Senti-me triste. Quem não se sentiria?

- Nicola estava envolvida com mais alguém? Foi por isso que ela rejeitou o seu pedido?

julian não respondeu. Lynley e Hanken trocaram olhares.

- Estou a ver onde é que estão a querer chegar - disse Samantha. Estão a pensar que Julie voltou para casa na segunda-feira à noite, telefonou- lhe no dia seguinte para marcar um encontro, descobriu onde ela estaria nessa noite - algo que ele, obviamente, não iria confessar-vos - e depois matou-a. Ora, o que vos posso dizer é que isso é um absurdo.

- Talvez seja. Mas seria útil obter uma resposta à pergunta - observou Lynley.

- Não - disse Julian.

- Não, não estava envolvida com outra pessoa? Ou não, não lhe disse que estava envolvida com outra pessoa?

- Nicola era honesta. Se estivesse envolvida com alguém, romantica mente, ter-me-ia dito.

- Não teria tentado poupá-lo a isso, para não ferir os seus sentimen tos, depois de você ter tornado claro o que sentia por ela?

Julian soltou uma gargalhada triste.

- Nicola não era o tipo de pessoa que evitava ferir os sentimentos das pessoas, acredite. Não fazia parte da maneira de ser dela.

Apesar de todas as suspeitas que pudesse alimentar, a natureza da resposta de Julian pareceu levar Hanken a perguntar:

- Onde é que o senhor se encontrava na terça-feira à noite, Mr. Britton?

- Estava com Cass - respondeu Julian.

- Com a cadela? A cadela?

- Ela estava a parir - disse Samantha. - Ninguém abandona uma cadela que está prestes a parir.

- Também estava presente, Miss McCallin? - perguntou Lynley. Para ajudar ao parto.

Ela mordeu o lábio inferior.

- Aconteceu a meio da noite. Julie não me acordou. Vi os cachorros na manhã do dia seguinte.

- Compreendo.

- Não, não compreende! - gritou ela. - Os senhores pensam que julian está envolvido. Vieram até aqui para o induzir a dizer qualquer coisa que o implique. É assim que os senhores trabalham.

- O nosso trabalho é descobrir a verdade.

- Oh, pois. Digam isso aos Quatro de Bridgewater. Só que agora são três, não são? Porque um daqueles pobres diabos morreu na prisão. Telefona a um advogado, Julie. Não digas nem mais uma palavra. Julian Britton acompanhado de um advogado era exactamente aquilo de que eles não precisavam naquele momento.

- O senhor parece manter registos dos cães, Mr. Britton. Anotou a hora a que a cadela pariu?

- Eles não saltam cá para fora todos ao mesmo tempo, inspector - disse Samantha.

- A Cass entrou em trabalho de parto por volta das nove da noite - disse Julian. - Começou a parir cerca da meia- noite. Nasceram seis crias, um deles nado-morto, por isso, demorou algumas horas. Se quiser saber as horas exactas, tenho-as nos meus registos. Sam pode ir buscar o livro.

Ela foi buscá-lo. Quando regressou, Julian disse-Lhe:

- Obrigado. Estou quase a acabar isto. Deste-me uma grande ajuda. Eu trato do resto, agora.

Era óbvio que estava a mandá-la embora. Ela pareceu comunicar-lhe algo apenas através de contacto visual. Fosse o que fosse, ele ou não podia ou não queria receber a mensagem. Lançou um olhar moderadamente sinistro na direcção de Lynley e de Hanken antes de sair. O som dos cães ladrando no exterior tornou-se mais intenso, baixando logo de seguida, quando ela abriu e fechou a porta atrás de si.

- Ela tem boas intenções - disse Julian depois de ela ter saído. - Não sei o que faria sem ela. Tentar pôr o velho solar novamente de pé... É um trabalho e tanto. Às vezes pergunto- me porque terei começado a fazê-lo.

- E porque foi? - inquiriu Lynley.

- Os Britton vivem aqui há centenas de anos. O meu sonho é mantê-los aqui durante mais algumas centenas.

- Nicola Maiden fazia parte desse sonho?

- Na minha cabeça, sim. Na dela, não. Ela tinha os seus próprios sonhos. Ou planos. Ou lá o que eram. Mas isso é bastante óbvio, não acham?

- Ela falou-lhe neles?

- Tudo o que me disse foi que não partilhava os meus sonhos. Ela sabia que eu não podia oferecer-lhe o que ela queria. Nem agora, nem nunca, provavelmente. Achou que seria mais sensato deixar a nossa relação tal como estava.

- Que era como?

- Éramos amantes, se é isso que pretende saber.

- No sentido habitual do termo? - perguntou Hanken.

- Que quer dizer com isso?

- O corpo da rapariga estava depilado. E isto aponta... para a existência de certos caprichos sexuais na relação que o senhor mantinha com ela.

O rosto de Julian tingiu-se de um rubor intenso.

- Ela era uma pessoa original. Depilava- se com cera. Usava também alguns piercings. Na língua. No umbigo. Nos mamilos. No nariz. Era a sua maneira de ser, nada mais.

Não parecia ser o tipo de mulher capaz de incarnar o papel de futura noiva de uma família de arruinados proprietários rurais. Lynley perguntou a si próprio como é que Julian Britton podia, alguma vez, tê- la imaginado como tal.

Britton, no entanto, pareceu ler o rumo dos pensamentos de Lynley.

- Nada disto tem qualquer significado. Ela era quem era, nada mais. As mulheres são assim, hoje em dia. Pelo menos as da idade dela. O senhor é de Londres, suponho que deve saber muito bem que é assim.

Era verdade que nas ruas de Londres era possível ver de tudo. Só um investigador míope teceria juízos de valor sobre qualquer mulher com menos de trinta anos - ou com mais de trinta, já agora - com base no facto de ela depilar o corpo inteiro com cera quente ou de fazer buracos pelo corpo todo. Em todo o caso, Lynley interrogava-se sobre a natureza dos comentários de julian. Havia neles uma ansiedade que devia ser explorada.

- É tudo o que posso dizer-vos.

Com este comentário, Julian abriu o livro de registos que a prima lhe trouxera. Folheou-o até chegar a uma secção assinalada por um marcador azul e passou várias páginas até encontrar a que procurava. Virou o livro para que Lynley e Hanken pudessem consultá-lo. A página tinha como título Cass, escrito em grandes letras de imprensa. Por baixo do nome, estavam registadas as horas de nascimento de cada um dos cachorros, bem como as horas a que os nascimentos tinham começado e terminado.

Agradeceram-lhe as informações que ele lhes fornecera e deixaram- no entregue às suas tarefas. No exterior, foi Lynley quem falou primeiro.

- As horas estavam escritas a lápis, Peter. Todas elas.

- Eu reparei - Hanken indicou a casa senhorial com um movimento de cabeça e disse: - Formam uma bela parelha, não acha? Julie e a sua prima.

Lynley concordou. A sua única dúvida era saber que tipo de jogo estariam ambos a jogar.

Barbara Havers sentia-se aliviada por poder deixar o ambiente claus trofóbico do quartel-general da Met. Mal Winston Nkata lhe pedira que se deslocasse até à residência de Terry Cole, em Battersea, não perdera muito tempo a chegar ao carro. Escolheu o percurso mais directo, seguindo na direcção do rio, ao longo do Embankment até Albert Bridge. Na margem sul do Tamisa, consultou o seu velho

roteiro até encontrar a rua que procurava, encaixada entre as duas pontes rodoviárias: Battersea e Albert.

A casa de Terry Cole ficava situáda em Anhalt Road, num edifício de tijolo verde-escuro com janelas em sacada, convertido num pequeno bloco de apartamentos perdido no meio de uma série de outras construções idênticas. Uma fila de campainhas indicava que o edifício tinha quatro apartamentos. Barbara premiu o botão onde, inscritas num cartão colado com fita-cola, se podia ler as palavras Cole/Thompson. Enquanto esperava, olhou em volta e observou a vizinhança. Uma fieira de casas iguais, umas em melhor estado de conservação do que outras, ornadas por fachadas ajardinadas. Alguns dos jardins estavam bem cuidados, enquanto outros exibiam uma extensa profusão de ervas daninhas. Um grande número destes espaços, todavia, pareciam estar a ser usados como lixeiras para todo o tipo de desperdícios, desde fogões enferrujados a televisões sem ecrãs.

Dentro do apartamento, ninguém respondeu. De Sobrolho franzido, Barbara desceu os degraus. Soltou um suspiro de desalento e, não querendo passar mais horas em frente ao computador, avaliou as opções que se lhe apresentavam enquanto estudava a casa. Uma operação de assalto e arrombamento não resolveria nada, com certeza. Estava a pensar em dirigir-se até ao restaurante mais próximo e regalar-se com uma dose bem servida de salsichas com bacon quando reparou no oscilar de um cortinado na sacada do apartamento do andar térreo. Decidiu fazer uma tentativa junto dos vizinhos.

O apartamento número um estava identificado com o nome Bad. Barbara premiu a campainha. Uma voz trémula soou quase imediatamente através do intercomunicador, como se a pessoa que se encontrava no apartamento correspondente tivesse estado a preparar-se para receber a visita de um agente da autoridade. Depois de Barbara se ter identificado - erguendo, cooperativamente, o distintivo para que este pudesse ser visto à distância através da janela do andar térreo - a porta foi destrancada. Empurrou-a e entrou num vestíbulo com o tamanho aproximado de um tabuleiro de xadrez. A decoração fazia lembrar igualmente um tabuleiro de xadrez: azulejos vermelhos e pretos manchados por inúmeras pegadas.

O apartamento número um ficava à direita do vestíbulo. Quando Barbara bateu à porta, descobriu que tinha de repetir os procedimentos da entrada. Desta vez, ergueu o distintivo junto ao óculo da porta. Quando o ocupante do apartamento deu por completa a sua observação do mesmo, dois ferrolhos e uma corrente de segurança foram soltos e a porta abriu- se. Diante de si, Barbara viu uma mulher idosa que disse, em tom apologético:

- Receio bem que nos dias que correm todos os cuidados sejam poucos. Apresentou-se como sendo Mrs. Geoffrey Baden e, rapidamente, colocou Barbara ao corrente dos pormenores da sua vida sem que tal lhe tivesse sido pedido. Era viúva há vinte anos, não tinha filhos, restavam-lhe apenas os seus pássaros - tentilhões, cuja enorme gaiola ocupava por inteiro um dos lados da sala de estar - e a sua música, a fonte da qual era, aparentemente, o piano que ocupava o outro lado da divisão. Era um piano de armário antigo, sobre cujo tampo tinham sido colocadas algumas dezenas de molduras com fotografias do falecido Geoffrey. Na estante, um maço de folhas de papel de música escritas à mão indicava que Mrs. Baden dedicava as suas tardes livres a Mozart.

Mrs. Baden sofria de tremores. Estes afectavam-lhe as mãos e a cabeça, que tremeu de forma subtil mas incessante durante todo o tempo que durou a sua entrevista com Barbara.

- Aqui não há lugar para nos sentarmos - disse Mrs. Baden em tom jovial, quando acabou de enumerar os pormenores da sua vida pessoal. Venha até à cozinha. Posso oferecer-lhe uma fatia de bolo de limão acabadinho de fazer.

Teria aceite com muito gosto, disse Barbara. A verdade, porém, é que estava à procura de Cilla Thompson. Mrs. Baden não saberia, por acaso, onde poderia encontrá-la.

- Deve estar a trabalhar no estúdio, julgo eu - replicou Mrs. Baden, confidenciando: - São ambos artistas, Cilla e Terry. Uns jovens adoráveis, se clAro não se fizer caso da sua aparência, como é o meu caso. Os tempos mudam, nãoo é verdade? E uma pessoa tem de acompanhar as mudanças. Parecia ser uma pessoa tão simpática e bondosa que Barbara hesitou em contar-lhe que Terry tinha morrido.

- Deve conhecê-los bem aos dois - decidiu-se a dizer. - A Cilla é muito tímida, mas o Terry é um rapaz muito querido. Aparece muitas vezes com um presentinho ou uma surpresa. Chama-me a sua avó adoptiva. Às vezes faz-me uns arranjos cá em casa quando eu preciso dele. E antes de sair para as compras passa sempre cá por casa para me perguntar se eu preciso de alguma coisa da mercearia. É difícil encontrar vizinhos assim, hoje em dia, não acha?

- Eu também tenho sorte nesse aspecto - disse Barbara, enternecida com a velhota. - Também tenho bons vizinhos.

- Nesse caso, considere-se bafejada pela sorte, minha querida. Que bonita cor têm os seus olhos. Perdoe-me o atrevimento, mas é raro ver um azul tão bonito. Descendência escandinava, suponho. Nos seus antepassados, claro.

Mrs. Baden ligou a cafeteira eléctrica e tirou um pacote de chá de dentro de um armário. Deitou algumas folhas para dentro de um bule de porcelana debotada e colocou duas canecas diferentes sobre a mesa da cozinha.

Tremia tanto que Barbara não conseguia imaginá-la segurando uma cafeteira de água a ferver. Alguns minutos depois, quando a cafeteira se desliGgou, pron tificou-se a preparar o chá. Mrs. Baden agradeceu-lhe educadamente.

- Estamos sempre a ouvir dizer que os jovens de hoje não passam de uns selvagens, mas a minha experiência não me tem mostrado isso. Mexeu as folhas de chá com uma colher de madeira e, erguendo os olhos, disse, como se estivesse à espera da visita da polícia há já algum tempo, apesar do que dissera antes:

- Espero sinceramente que o meu querido Terry não se tenha metido em nenhum tipo de sarilhos.

- Lamento muito ter de o dizer, Mrs. Baden - disse Barbara -, mas Terry morreu. Foi assassinado em Derbyshire há vários dias. É por esse motivo que gostaria de falar com Cilla.

Confusa, Mrs. Baden repetiu a palavra morreu. A estupefacção foi tomando conta da sua expressão à medida que as implicações da palavra ultrapassavam a barreira das suas defesas.

- Oh, meu Deus - disse. - Aquele rapaz tão amoroso. Ora, com certeza não está a pensar que Cilla, ou até o infeliz do namorado dela, tenham tido alguma coisa que ver com isso.

Barbara registou a informação acerca do infeliz namorado para referência futura. Não, disse a Mrs. Baden, na verdade o que queria era que a deixasse entrar no apartamento. Precisava de ver o local e procurar algo que pudesse fornecer alguma pista à polícia acerca das razões porque Terry Cole tinha sido assassinado.

- Morreram duas pessoas e ele era uma delas, está a perceber? - disse-lhe Barbara. - A outra vítima era uma mulher - Nicola Maiden como se chamava - e era bem possível que os crimes tivessem ocorrido por causa dela. Seja como for, estamos a tentar descobrir se Terry e essa mulher se conheciam.

- Claro - concordou Mrs. Baden. - Compreendo perfeitamente. Têm de fazer o vosso trabalho, por mais desagradável que ele possa ser, certamente.

Disse, então, a Barbara que Cilla Thompson devia estar nas arcadas do caminho-de-ferro em frente a Portslade Road. Era aí que ela, Terry e dois outros artistas tinham alugado um estúdio. Mrs. Baden não conseguia dar a morada exacta a Barbara, mas segundo ela, não seria difícil descobrir a localização do estúdio.

- Pode sempre pedir indicações nas ruas em volta das outras arcadas. Os donos deverão saber de quem se trata, suponho eu. Quanto ao apartamento...

Mrs. Baden serviu-se de um par de pinças para chá em prata - já desgastadas em certos sítios - para agarrar num cubo de açúcar. Precisou de três tentativas devido aos tremores, mas sorriu visivelmente satisfeita quando conseguiu prender o cubo e deixá-lo cair dentro da chávena de chá.

- Eu tenho uma chave, evidentemente.

Genial, pensou Barbara, e mentalmente esfregou as mãos de contentamento.

- A casa é minha, percebe?

Mrs. Baden passou, então, a explicar que após o falecimento de Mr. Baden, ela decidira reconverter a casa como uma forma de investimento que lhe proporcionasse algum rendimento durante os anos de velhice.

- Aluguei três apartamentos e vivo no quarto.

Acrescentou que insistia sempre em ter uma chave de cada apartamento. Há muito que descobrira que a possibilidade de uma visita surpresa por parte do senhorio mantinha sempre os inquilinos disciplinados.

- Todavia - concluiu, destruindo as expectativas de Barbara com um sorriso afável -, não posso deixá-la entrar.

- Não pode.

- Receio bem que seria uma traição de confiança, percebe, se a deixasse entrar sem a permissão de Cilla. Espero sinceramente que compreenda.

Diabos, pensou Barbara. Perguntou a que horas costumava chegar Cilla Thompson.

Oh, eles nunca tinham horas certas para chegar, disse Mrs. Baden. O melhor que tinha a fazer era ir até Portslade Road e marcar um encontro com Cilla enquanto ela estivesse a pintar. E já agora, será que não conseguia convencê-la a provar uma fatia de bolo de limão antes de sair? Adorava cozinhar, mas só quando podia partilhar as suas criações com alguém.

Cairia bem sobre o donut de chocolate, decidiu Barbara. E já que lhe estava vedado o acesso imediato ao apartamento de Terry Cole, pensou que o melhor que podia fazer seria continuar a trabalhar para alcançar a meta que se propusera em termos de dieta alimentar: ingerir apenas açúcar e gorduras 24 horas por dia.

Mrs. Baden ficou radiante quando Barbara decidiu aceitar a sua oferta e cortou uma fatia de bolo digna de um guerreiro viking. Enquanto Barbara a saboreava, a velhota embrenhou-se no género de tagarelice agradável em que a sua geração era especialista. Pelo meio iam surgindo os comentários ocasionais acerca de Terry Cole.

Barbara descobriu, assim, que Terry era um sonhador, não inteiramente prático, segundo a maneira de pensar de Mrs. Baden, no que dizia respeito ao seu futuro sucesso como artista. Queria abrir uma galeria. Mas, minha querida, só de pensar que podia haver alguém realmente interessado em comprar as suas peças... ou mesmo as dos colegas... Mas o que é que uma velhota como ela percebia de arte moderna?

- A mãe disse que ele estava a trabalhar numa grande encomenda - observou Barbara. - Ele falou-lhe sobre isso?

- Minha querida, ele realmente falou-me num grande projecto...

- Mas não havia nenhum?

- Não é bem isso que eu quero dizer - Mrs. Baden apressou-se a explicar. - Julgo que na cabeça dele havia de facto um grande projecto.

- Na cabeça dele. Está a dizer que ele tinha a mania das grandezas?

- Talvez fosse... apenas um pouco entusiástico de mais. Com movimentos delicados, Mrs. Baden pressionou o garfo sobre algumas migalhas de bolo e pareceu meditativa. As suas palavras seguintes soaram hesitantes.

- Parece mesmo que estamos a dizer mal dos mortos... Barbara procurou tranquilizá-la.

- A senhora gostava dele. Isso é óbvio. E acho que quer ajudar-nos.

- Ele era tão bom rapaz. Nunca se cansava de ajudar aqueles de que gostava. Terá dificuldade em encontrar alguém que lhe diga o contrário.

- Mas... - Barbara esforçou-se por falar num tom encorajador.

- Mas, por vezes, quando um jovem deseja algo tão desesperadamente, corta caminho, não é verdade? Tenta descobrir uma via mais rápida e mais directa para alcançar o seu destino.

Barbara aproveitou a última palavra.

- Está a referir-se à galeria que ele queria abrir?

- Galeria? Não. Estou a falar de estatuto - replicou Mrs. Baden. queria ser alguém, minha querida. Mais do que dinheiro e posses, queria a sensação de que ocupava um lugar no mundo. Mas todos nós temos que ganhar o nosso lugar no mundo, não acha, Sra. agente? - pousou o bolo junto do prato e apoiou as mãos sobre os joelhos. - Sinto-me muito triste por estar aqui a dizer estas coisas sobre ele. E que ele era tão bom para mim! está a ver? Ofereceu-me três novos tentilhões no meu aniversário. E esta semana mesmo me deu boa música para piano... Flores no Dia da Mãe. Era um rapaz tão atencioso. Tão generoso, realmente. E prestável. Era muito prestável quando eu precisava de alguém que me apertasse um parafuso ou que me mudasse uma lâmpada...

- Compreendo - tranquilizou-a Barbara.

- Só quero que saiba que havia outros traços na personalidade dele. E que essa outra parte - a parte apressada - bem, ele ter-se-ia livrado dela à medida que fosse aprendendo mais sobre a vida, não é verdade?

- Sem dúvida - concordou Barbara.

A não ser, evidentemente, que a sua fome de estatuto estivesse directamente ligada à sua morte na charneca.

Depois de deixarem Broughton Manor, Lynley e Hanken efectuaram uma paragem em Bakewell para uma refeição rápida num pub próximo do centro da pequena cidade. Aí, enquanto saboreavam uma batata recheada (Hanken) e uma sanduíche de queijo com cebola (Lynley), passaram em revista os factos que tinham conseguido reunir. Hanken trouxera consigo um mapa do Peak District, que usou para ilustrar melhor o seu ponto de vista.

- Estamos à procura de um assassino que conhece a região - disse, apontando para o mapa com o garfo. - Ninguém me convence,por isso, que um tipo acabadinho de sair da prisão de Dartmoor tirou um curso intensivo de caminhante só para se poder vingar de Andy Maiden matando-lhe a filha. Não,essa não pega.

Lynley examinou o mapa atentamente. Estudou os carreiros serpenteantes que cobriam todo o distrito e os pontos de interesse devidamente asssinalados. Parecia o paraíso dos caminhantes e campistas,mas um imenso paraíso onde um indivíduo distraído ou inexperiente poderia facilmente perder-se. Reparou ainda que o significado histórico de Broughton Manor era suficientemente grande para que fosse indicado como ponto de interesse a sul de Bakewell e que as terras pertencentes à casa senhorial eram contíguos a uma floresta que em determinado ponto se transformava numa charneca. Tanto a charneca como a floresta eram atravessados por uma série de veredas destinadas aos caminhantes,o que levou Lynley a perguntar:

- A família de julian Britton deve estar cá há umas boas centenas de anos. Ele conhece bem a região,suponho?

- Tal como Andy Maiden - contrapôs Hanken. - E ele tem o aspecto de alguém que passa muito tempo ao ar livre. Não me surpreenderia se me dissessem que a filha tinha herdado dele o gosto pelas caminhadas.

foi ele quem encontrou o carro. Uma noite inteira passando o maldito

te Peak a pente fino e conseguiu encontrar o malfadado carro.

Onde estava ele,exactamente?

Hanken tornou a servir-se do garfo. Entre o vilarejo de Sparrowpit e Winnar Pass havia uma estrada que, a noroeste, fazia fronteira com Calder Moor. O carro estava estacionado atrás de um muro de pedra, a pouca distância do trilho que seguia para sudeste, na direcção de Perryfoot.

- Está bem. Concordo que foi um golpe de sorte... - disse Lynley.

- Ai isso é que foi... - resmungou Hanken.

-... ter encontrado o carro. Mas os golpes de sorte existem. E ele conhecia os sítios por onde ela costumava andar.

- Pois conhecia. Conhecia-os suficientemente bem para a seguir, despachá-la e vir a correr para casa sem que ninguém desse por nada.

- Com que motivo, Peter? Não pode incriminar o homem com base no facto de ele ocultar informações da mulher. Essa também não pega. E se é ele o assassino, quem é o cúmplice?

- Regressemos aos anos em que ele trabalhou no 5010 - disse Hanken, num tom expressivo. - Qual seria o recluso que, acabadinho de sair de Newgate, recusaria a oportunidade de ganhar alguma massa extra, sobretudo se fosse Maiden a fazer-lhe a proposta e a guiá-lo pessoalmente até ao local? - espetou o garfo num bocado de batata e camarões e enfiou-os na boca, dizendo: - Podia ter acontecido assim.

- Só se Andy Maiden tivesse sofrido uma transformação de personalidade desde que se mudou para cá. Ele era um dos melhores, Peter.

- Não gosto lá muito dele - advertiu Hanken. - Pode muito bem ter puxado os cordelinhos para fazer com que o enviassem para cá por uma razão bastante forte.

- Posso considerar esse comentário ofensivo.

- À vontade - Hanken sorriu. - Sinto um prazer especial quando vejo um finório irritado. Tenha cuidado, não sinta grande consideração por este tipo. É uma posição perigosa.

- Tão perigosa como pensar demasiado mal do homem. Em qualquer dos casos, o discernimento vai-se.

- Touché - disse Hanken.

- julian tem um motivo, Peter.

- Desilusão amorosa?

- Algo mais forte, talvez. Uma paixão primária, quem sabe. Quem é este Upman?

- Eu apresento-vos.

Terminaram a refeição e regressaram ao carro. Deixaram Bakew e seguiram para noroeste. Em seguida, subiram e transpuseram a fronteira norte de Taddington Moor.

Em Buxton percorreram a High Street e descobriram um local para estacionar por detrás da câmara municipal. Esta ocupava uma impressionante construção datada do século xIx com vista para The Slopes, uma via de trilhos arborizados, onde aqueles que outrora se deslocavam a Buxton por causa das águas costumavam passar as tardes praticando exercício. O escritório do advogado ficava ainda na High Street, embora um pouco mais abaixo. Situado por cima de um agente imobiliário e de uma galeria de arte onde estavam expostas aguarelas retratando os Peaks, o acesso era feito através de uma porta com os nomes Upman, Smith & Sinclair inscritos no vidro opaco.

Pouco depois de Hanken ter entregue o seu cartão, já dentro do escritório de Upman, a uma secretária de meia-idade vestida com o tradicional conjunto de camisola e casaco sobre saia de tweed, tão próprio da profissão, o advogado veio recebê-los pessoalmente, conduzindo-os aos seus domínios privados. Estava a par da morte de Nicola Maiden, disse-lhes com uma expressão carregada. Telefonara para o Hall, a fim de saber para onde devia enviar os últimos vencimentos de Nicola e uma das mulheres a dias dera-lhe a notícia. A semana anterior fora a sua última semana de trabalho no escritório.

O advogado parecia disposto a colaborar com a polícia. Considerava a morte de Nicola uma horrível tragédia para todos os envolvidos. Ela possuía potencialidades estupendas na área do direito e eu fiquei extremamente satisfeito com o trabalho dela durante o Verão.

Lynley observava atentamente o homem, enquanto Hanken recolhia elementos sobre o relacionamento entre o advogado e a jovem assassinada. Upman parecia um pivot dos jornais informativos da BBC: fotogenia perfeita e aspecto irrepreensivelmente aprumado. O cabelo castanho- escuro começava a ficar grisalho nas têmporas, conferindo-lhe uma aparência de credibilidade que, provavelmente, lhe era muito benéfico em termos profissionais. Esta sensação de confiança era intensificada pela sua voz, profunda e sonora. Teria pouco mais de quarenta anos, mas a sua atitude simples e descontraída sugeriam juventude.

Respondeu às perguntas de Hanken sem o menor sinal de embaraço. Conhecia Nicola Maiden praticamente desde que ela e a família viviam no Peak District, havia cerca de nove anos. Quando os pais dela adquiriram a velha estalagem de Padley Gorge - actualmente conhecida como Maiden Hall - tinham estabelecido contactos com um dos associados de Upman, especialista em compra e venda de imóveis. Fora através dele que Will Upman conhecera os Maiden e a filha deles.

- Segundo nos disseram, foi a pedido de Mr. Maiden que Nicola veio trabalhar consigo este Verão - disse Hanken.

Upman confirmou a informação.

- Não era segredo para ninguém - acrescentou -, que Andy tinha esperanças de que Nicola viesse exercer advocacia no Derbyshire depois de terminar o curso.

Apoiara-se na secretária quando começara a falar, sem ter oferecido uma cadeira a nenhum dos detectives. Pareceu aperceber-se desse facto subitamente e apressou-se a dizer:

- Que falta de educação a minha. Peço- vos imensa desculpa. Sentem-se, por favor. Posso oferecer-vos um café? Ou um chá? Miss Snodgrass.

Virara-se na direcção da porta aberta para chamar a secretária, que apareceu à entrada do gabinete. Colocara, entretanto, um par de óculos enormes que a faziam parecer um insecto tímido.

- Mr. Upman? - esperou as ordens dele.

- Meus senhores? - dirigiu-se a Lynley e a Hanken. Ambos declinaram a oferta dele e Miss Snodgrass foi dispensada. Upman sorriu, radiante, enquanto os detectives se sentavam. Em seguida, deixou-se ficar em pé. Lynley reparou no pormenor, colocando-se imediatamente de sobreaviso. No delicado jogo do poder e do confronto, o advogado acabava de marcar um ponto. E a manobra fora executada com extrema discrição.

- Qual era a sua opinião em relação à possibilidade de Nicola vir a arranjar uma ocupação profissional no Derbyshire? - perguntou a Upman.

O advogado olhou-o com afabilidade.

- Não tinha nenhuma opinião formada sobre o assunto, creio eu.

- É casado?

- Nunca fui. A minha profissão torna- nos cautelosos no que diz respeito a casamento. Sou especialista em divórcios, o que, em geral, mata ideais românticos de qualquer um em muito pouco tempo.

- Terá sido por isso que Nicola Maiden recusou a proposta de casamento de Julian Britton? - perguntou Lynley.

Upman fez um ar surpreendido.

- Não fazia ideia de que ele a tinha pedido em casamento.

- Ela não lhe contou nada?

- Ela trabalhava para mim, inspector. Eu não era seu confessor.

- Era-lhe alguma coisa mais? - perguntou Hanken, claramente incomodado com o teor da última observação feita por Upman. - Para além de patrão, obviamente.

Upman pegou num violino em miniatura que estava sobre a sua secretária e que, aparentemente, servia de pisa-papéis. Os seus dedos desceram ao longo das cordas e puxaram-nas como se testassem a afinação do instrumento.

- Deve estar a querer perguntar se eu e ela mantínhamos um relacionamento pessoal - disse ele.

- Quando um homem e uma mulher trabalham juntos com uma certa regularidade - disse Hanken -, essas coisas acontecem.

- Comigo não acontecem.

- Donde podemos depreender que não estava envolvido com a filha dos Maiden?

- É isso que estou a dizer.

Upman pousou o violino e pegou num suporte para lápis. Começou a retirar os lápis que tinham a ponta demasiado gasta, colocando-os muito direitos ao lado da coxa, que continuava apoiada na secretária.

- Andy Maiden teria ficado contente se eu e Nicola nos tivéssemos envolvido. Deu-o a entender mais de uma vez e sempre que eu ia jantar ao Hall e Nicola estava cá de férias, ele fazia questão de nos empurrar um para o outro. Percebi quais eram as esperanças dele, mas não podia satisfazê-las.

- Porque não? - perguntou Hanken. - Havia algo de errado com a rapariga?

- Não era o meu tipo.

- E qual era o tipo dela? - interveio Lynley.

- Não sei. Oiça, que interesse pode ter isso agora? Estou... bom, estou muito envolvido com outra pessoa.

- Muito envolvido? - insistiu Hanken.

- Temos um compromisso. Isto é, saímos juntos. Eu tratei do divór cio dela há dois anos, e... Qual é o interesse disto, afinal?

Parecia perturbado. Lynley perguntava a si próprio porquê. Hanken pareceu notar o nervosismo do advogado e começou a tirar dividendos.

- Mas o senhor achava a filha dos Maiden uma rapariga atraente, não?

- Claro que sim. Não sou cego. Ela era atraente.

- E a sua divorciada sabia da existência dela?

- Ela não é a minha divorciada. Não me é nada. Saímos juntos, nada mais. E não havia nada que Joyce tivesse que saber...

- Joyce? - inquiriu Lynley.

- A divorciada do senhor - disse Hanken, suavemente.

- E - repetiu Upman -, não havia nada que Joyce tivesse que saber, porque não existia nada entre nós, entre mim e Nicola. Achar que uma mulher é atraente e deixar-se apanhar numa história sem futuro são duas coisas diferentes.

- Porque é que não tinha futuro? - perguntou Lynley.

- Porque estávamos ambos envolvidos com outras pessoas. Eu estou e ela também estava. Por isso, mesmo que eu tivesse pensado em tentar a minha sorte - coisa que não fiz, aliás - estaria a candidatar-me a um mar de frustrações.

- Mas ela tinha recusado o pedido de Julian - interpôs Hanken. Isso leva a crer que não estava tão envolvida como o senhor julgava, que talvez estivesse interessada noutra pessoa.

- Se assim era, eu não era com certeza a pessoa visada. E quanto ao coitado do Britton, aposto que ela recusou o pedido de casamento dele porque os seus rendimentos não se adequavam a ela. A minha opinião é que ela tinha arranjado alguém em Londres com uma conta bancária confortável.

- O que é que o levou a pensar assim? - quis saber Lynley. Upman reflectiu sobre a pergunta, mas pareceu aliviado por ter descartado a suspeita de um envolvimento entre ele e Nicola Maiden.

- Ela tinha um pager que tocava de vez em quando - disse, por fim -, e numa das vezes que começou a tocar, ela perguntou-me se eu me importava que ela fizesse uma chamada para Londres e desse o número do escritório a uma pessoa que iria telefonar-lhe. E foi o que ele passou a fazer depois disso. De vez em quando.

- O que é que o levou a concluir que se tratava de uma pessoa endinheirada? - perguntou Lynley. - Uma ou outra chamada interurbana está ao alcance até de uma pessoa que tenha um orçamento limitado. - Eu sei disso. Mas Nicola tinha gostos caros. Ela jamais poderia ter comprado as roupas que usava todos os dias quando estava no escritório com o ordenado que eu lhe pagava. Acredite. Aposto vinte libras em como, se examinarem o guarda-roupa dela, vão descobrir que foi comprado em Knightsbridge, onde algum pobre diabo andava a pagar fortunas por uma conta que ela podia usar à discrição. E esse pobre diabo não sou eu.

Impecável, pensou Lynley. Upman juntara as peças todas com uma destreza que era uma honra para a sua profissão. Havia, no entanto, um certo calculismo na forma como ele apresentara os factos que deixava Lynley desconfiado. Era como se já soubesse as perguntas que lhe iam fazer e tivesse as respostas planeadas com antecedência, como qualquer bom advogado.

A expressão algo desagradada de Hanken confirmava-Lhe que também chegara às mesmas conclusões acerca do advogado.

Estamos a falar de uma ligação amorosa? - perguntou Hanken. Ou De um tipo casado que faz o que pode para manter a amante satisfeita:

- Não faço ideia. Apenas posso dizer que ela tinha um envolvimento com alguém e que suponho que esse alguém esteja em Londres. - Quando foi a última vez que a viu com vida? - Na sexta- feira à noite. Jantámos juntos.

- O senhor, no entanto, não tinha qualquer tipo de relacionamento pessoal com ela - observou Hanken.

- Levei-a a jantar em jeito de despedida, o que julgo ser um comportamento bastante comum entre patrões e funcionários na sociedade em que vivemos. Porque pergunta? Acha que isto faz de mim um suspeito? E se eu quisesse matá-la - sejam quais forem os motivos que estejam a passar-vos pela cabeça -, por que razão havia de esperar desde sexta até

terça-feira à noite para o fazer?

Hanken não deixou escapar a oportunidade.

- Vejo que o senhor parece saber em que dia ela morreu. Upman não ficou abalado.

- Eu falei, de facto, com uma pessoa quando telefonei para o Hall, i nspector.

- Foi o que o senhor disse - Hanken pôs-se de pé. - As suas declarações foram uma grande ajuda para a nossa investigação. Precisamos apenas que nos diga o nome do restaurante onde jantou na noite de sexta- feira e depois não o incomodaremos mais.

- The Chequers Inn - informou Upman. - Fica em Calver. Mas para que é que precisa do nome, posso saber? Sou considerado suspeito? Porque se sou, insisto em...

- Não há necessidade de recorrer a esse tipo de atitudes nesta fase da investigação - disse Hanken.

Tão-pouco havia necessidade de colocar o advogado ainda mais na defensiva, pensou Lynley.

- Todos os que conheceram a vítima são inicialmente suspeitos, Mr. Upman - interveio. - O inspector Hanken e eu próprio estamos em pleno processo de eliminação de possibilidades. Mesmo como advogado, creio que o senhor encorajaria um cliente a cooperar, se ele quisesse ver o seu nome riscado da lista de suspeitos.

Upman não ficou convencido com a explicação, mas decidiu não pro longar o assunto.

Lynley e Hanken saíram do gabinete do advogado e mal chegaram à rua Hanken disse, enquanto se dirigiam para o carro:

- Que cobra. Sacana viscoso. Acreditou na história que ele contou?

- Em que parte da história?

- Toda ela, sei lá.

- Enquanto advogado, é óbvio que tudo o que ele disse se tornou i mediatamente suspeito.

Perante este comentário, Hanken esboçou um sorriso relutante.

- No entanto, ele forneceu-nos algumas informações úteis. Gostava de falar com os Maiden novamente e tentar descobrir algum elemento que confirme se Nicola tinha alguém em Londres, conforme Upman desconfia. A existência de outro amante algures implica um outro motivo para o crime.

- No caso de Britton - reconheceu Hanken. Indicou o escritório de Upman com uma inclinação de cabeça. - E este tipo? Está a pensar incluí-lo na sua lista de suspeitos?

- Sem sombra de dúvida, enquanto não o investigarmos.

- Acho que começo a gostar de si - disse Hanken, abanando a cabeça.

Cilla Thompson encontrava-se no estúdio quando Barbara Havers conseguiu localizá-lo, três arcos abaixo de Portslade Road, uma via sem saída. Deixara as duas grandes portas da entrada escancaradas e vivia o que parecia ser um momento de fúria criativa, fustigando uma tela com tinta ao som cadenciado do que pareciam ser rufos de tambores africanos provenientes de um leitor de CD coberto de poeira. O volume estava de tal modo alto que Barbara sentia o pulsar da música na pele e no esterno.

- Cilla Thompson? - gritou, lutando para tirar a identificação de dentro da mala a tiracolo. - Podemos conversar?

Cilla examinou o cartão de identificação e colocou o pincel entre os dentes. Premiu um dos botões do leitor de CD, silenciando os tambores, e tornou a concentrar-se no trabalho.

- Cyn Cole contou-me - disse, continuando a inundar a tela de tinta. Barbara aproximou-se para observar melhor a tela: era uma boca aberta de dentro da qual saía uma mulher de aspecto maternal brandindo um bule de chá decorado com serpentes. Lindo, pensou Barbara. Ali estava uma pintora que vinha, de facto, preencher um vazio no mundo da arte.

- A irmã de Terry contou-lhe que ele foi assassinado?

- A mãe telefonou-lhe do Norte, logo depois de ter visto o corpo e depois Cyn telefonou-me. Desconfiei que devia ter acontecido alguma coisa quando ela me telefonou ontem à noite. A voz dela estava esquisita. Percebe o que eu quero dizer, não percebe? Mas nunca me teria passado pela cabeça... Quero dizer, quem é que ia querer apagar Terry Cole? Era um pateta que não fazia mal a uma mosca. Um bocado doido, tendo em conta os trabalhos dele, mas mesmo assim inofensivo.

Estas últimas palavras foram proferidas com uma expressão absolutamente impassível, como se estivesse rodeada por telas de Peter Paul Rubens e não por pinturas representando uma infinidade de bocas que regurgitavam de tudo, desde marés negras a acidentes de viação em cadeia. Os trabalhos dos colegas não eram muito melhores, pelo que Barbara podia ver. Os outros artistas eram escultores, como Terry. Um deles usava caixotes de lixo estragados como matéria-prima, o outro carrinhos de supermercado ferrugentos.

- Pois é - disse Barbara. - Mas é tudo uma questão de gosto, acho eu.

- Não para uma pessoa que tenha uma formação artística - retorquiu Cilla, revirando os olhos.

- E Terry não tinha?

- Sem querer ofender ninguém, Terry era um poseur. Não tinha qualquer tipo de formação, a não ser na arte de mentir. Nisso teve a nota máxima.

- A mãe dele disse que ele estava a trabalhar numa grande encomenda - disse Barbara. - Sabe alguma coisa sobre isso?

- Para o Paul McCartney, sem dúvida - foi a resposta seca dela.

- Dependendo do dia da semana em que nos cruzássemos com ele, estava sempre a trabalhar num projecto que lhe ia render milhões, ou a preparar-se para processar Pete Townshend por não revelar ao mundo que tinha um filho bastardo, que era o próprio Terry, aliás. Ou então tinha encontrado uns documentos secretos que planeava vender aos tablóides, ou ia almoçar com o director da Royal Academy. Ou ia abrir uma galeria de alta categoria onde venderia as suas esculturas por vinte mil libras cada.

- Não havia, então, encomenda nenhuma?

- É o mais certo.

Cilla recuou, afastando-se ligeiramente da tela para estudá-la com atenção. Aplicou um borrão vermelho no lábio inferior. Em seguida, um borrão de tinta branca, acompanhado de um É isto mesmo, referindo-se, aparentemente, ao efeito que acabava de criar.

- Está a aceitar bastante bem a morte de Terry - observou Barbara. Para quem acabou de saber a notícia, claro.

Cilla entendeu o alcance exacto do comentário, ou seja, a crítica que lhe estava subentendida. Pegando noutro pincel, molhou-o numa porção de tinta roxa que tinha na paleta.

- Terry e eu dividíamos um apartamento - disse. - Partilhávamos este estúdio. Às vezes comíamos juntos ou íamos até um pub. Mas não éramos realmente amigos. Éramos duas pessoas que eram úteis uma à outra: dividíamos as despesas para que não tivéssemos de trabalhar no mesmo sítio onde vivíamos, por assim dizer.

Tomando em consideração a dimensão das esculturas de Terry e a natureza dos quadros de Cilla, aquele acordo fazia sentido. E, no entanto, Barbara não pôde deixar de se lembrar de um comentário de Mrs. Baden.

- E o seu namorado? Que pensava ele sobre o vosso acordo?

- Estou a ver que já falou com a Cara-de-Ameixa. Ela está à espera que Dan dê um aperto a alguém desde a primeira vez que o viu. E ainda dizem que o hábito não faz o monge.

- E?

- E o quê?

- E isso aconteceu alguma vez? Ou seja, ele deu um aperto a alguém. A Terry, por exemplo. Não é uma situação muito comum, que a namorada de um tipo esteja a viver com outro, não acha?

- Como eu já disse, nós não estamos, não estávamos, a viver juntos, como quando se vive junto. A maior parte das vezes nem sequer nos vía mos. Nem sequer tínhamos o mesmo grupo de amigos. Terry tinha as suas companhias e eu tenho as minhas.

- Conhecia as companhias dele?

A tinta roxa tingiu o cabelo da mulher de boca aberta que segurava um bule de chá. Aplicou-a, descrevendo uma espessa linha curva e espalhando=a depois com a palma da mão. Quando terminou, limpou a mão na parte da frente do fato-macaco. O efeito produzido na tela foi desconcertante. Era como se a mãe tivesse a cabeça cheia de buracos. Em seguida, Cilla pegou em tinta cinzenta e começou a trabalhar o nariz da mãe. Barbara recuou ligeiramente, recusando-se a ver as intenções da artista.

- Ele não costumava levá-las a casa - disse Cilla. - Falavam quase sempre por telefone e eram sobretudo mulheres. E elas é que lhe telefonavam. Não o contrário.

- Ele tinha namorada? Alguma amiga especial?

- Ele não curtia mulheres. Pelo menos que eu tivesse visto.

- Era homossexual?

- Assexuado. Não curtia nada. A não ser o cinco contra um. E mesmo isto, com um grande ponto de interrogação.

- O mundo dele era a sua arte? - alvitrou Barbara. Cilla soltou uma interjeição.

- Se assim se pode dizer.

Deu um passo atrás e contemplou a tela.

- Isso mesmo - disse, virando-se depois para Barbara. - Voilá. Ora diga lá: é ou não uma história como deve ser?

O nariz da mãe expelia uma substância repugnante. Barbara decidiu que Cilla não poderia de modo nenhum ter escolhido palavras mais verdadeiras para se referir ao seu quadro. Murmurou a sua concordância. Cilla levou

a sua obra-prima até um peitoril ao longo do qual se encontravam apoiados meia-dúzia de outros quadros. Seleccionou uma tela inacabada que se encontrava entre eles e colocou-a no cavalete, a fim de continuar a trabalhar nela.

Arrastou um banco e colocou-o à direita do cavalete. Remexeu numa caixa de cartão e tirou uma ratoeira, que ainda conservava a sua vítima,

Pousou-a num banco e deu-lhe por companheiros um gato taxidérmico roído pelas traças e um frasco de queijo-creme. Ajeitou os objectos até obter a composição que pretendia. Depois concentrou-se na tela por acabar, onde o lábio inferior de uma boca, de onde saía uma língua protuberante, fora perfurado por um gancho.

- Devo concluir que Terry não vendia muitos trabalhos? - perguntou Barbara.

- Ele não vendia nada de nada - replicou Cilla, alegremente. a verdade é que ele nunca estava disposto a empenhar- se muito, não é verdade? E se uma pessoa não se entrega de corpo e alma à sua arte, ela não lhe dá nada em troca. Eu ponho tudo o que tenho na tela e a tela recompensa- Satisfação artística - disse Barbara, séria.

- Ora, eu vendo. Ainda há menos de dois dias, um dos meus trabalhos foi comprado por um cavalheiro a sério. Entrou aqui dentro, deu uma olhadela, disse que tinha de ter um Cilla Thompson só dele e sacou do livro de cheques.

Exacto, pensou Barbara. Imaginação era coisa que não faltava à mulher.

- Nesse caso, se Terry não vendia esculturas, onde é que ele ia buscar o graveto para pagar tudo? O apartamento. Este estúdio...

Isto sem falar nos utensílios de jardinagem que, aparentemente, juntara em grande quantidade, pensou.

- Ele dizia que o dinheiro dele era um presente do pai. E dinheiro não lhe faltava!

- Presente?

Ora ali estava algo que podia dar-Lhes alguma pista.

- Ele estava a chantagear alguém?

- Claro que estava - disse Cilla. - O pai. Pete Townshend, como eu já disse. Desde que o bom do Pete não deixasse de entrar com a massa, Terry não iria para os jornais choramingar, O Papá nada em dinheiro e eu não tenho cheta. Ora. Como se Terry Cole tivesse a mais pequena esperança de convencer fosse quem fosse de que não era o que realmente era: um tipo que vivia de esquemas e que gostava da vida fácil.

Nenhuma destas declarações diferiam muito da descrição que Mrs. Baden fizera de Terry Cole, ainda que as palavras de Cilla soassem muito menos afectuosas. Todavia, em que tipo de sarilhos se teria metido Terry Cole, se é que tal tinha, de facto, acontecido? E quem teria sido a sua vítima?

A prova teria de estar em algum lugar. E, aparentemente, só podia haver uma única possibilidade. Precisava de dar uma espreitadela pelo apartamento, explicou Barbara. Será que Cilla se importaria de a ajudar?

Claro que não, disse Cilla. Estaria em casa por volta das cinco, por isso se Barbara quisesse aparecer por lá a essa hora... Mas que ficasse bem claro que fossem quais fossem as alhadas em que Terry Cole se metera, ela, Cilla Thompson, não tinha nada a ver com o assunto.

- Sou uma artista. Agora e sempre - proclamou Cilla. Tornou a compor o rato morto e colocou a pata de gato embalsamado numa posição ainda mais sinistra e mais predadora.

- Claro, estou a ver que sim - assegurou Barbara.

Lynley e Hanken separaram-se na esquadra de polícia de Buxton, logo que o inspector de Buxton conseguiu disponibilizar um carro para o colega da Scotland Yard. Hanken planeava ir até Calver, decidido a confirmar o alegado jantar entre Will Upman e Nicola Maiden. Lynley, por seu turno, seguiu na direcção de Padley Gorge.

Ao chegar a Maiden Hall, apercebeu-se de que os preparativos para o jantar já tinham começado na cozinha. Esta ficava virada para o parque de estacionamento onde Lynley estacionara o Ford da polícia. O bar do salão estava a ser reabastecido com novo sortido de bebidas espirituosas e a sala de jantar estava a ser preparada para a noite. A casa fervilhava de actividade, o que demonstrava que, tanto quanto era possível, a vida do hotel seguia o seu curso habitual.

A mesma mulher que interceptara os inspectores na tarde do dia anterior,veio ao encontro de Lynley,que se encontrava junto à recepção. Quando ele perguntou por Andy Maiden,ela murmurou Pobre alma" e afastou-se

para ir chamar o antigo operacional da polícia. Enquanto esperava,Lynley aproximou-se da porta da sala de jantar. Uma outra mulher - à primeira vista de idade e aparência semelhantes - colocava finas velas brancas nos candelabros que estavam sobre a mesa. No chão,junto dela,estava um cesto cheio de crisântemos amarelos.

A portinhola de serviço entre a sala de jantar e a cozinha estava aberta, e,vindas desta divisão,chegavam até ele as sonoridades da língua francesa, falada numa cadência rápida e com intensa paixão. Em seguida,num inglês carregado de sotaque,ouviu-se:

- E não,não e não! Eu pedi cebolinhas e quero cebolinhas. Isto são cebolas para cozer na panela.

Seguiu-se uma resposta em voz baixa que Lynley não conseguiu perceber e,depois,uma torrente de palavras em francês de que ele apenas ouviu,Je t'emmerde.

- Tommy?

Lynley virou-se e viu Andy Maiden que entrara já no salão,bloco- notas na mão. Maiden parecia arrasado. O rosto estava desfigurado pelo cansaço e pelo sofrimento,a barba estava por fazer e usava as mesmas roupas da véspera.

- Não consegui esperar pela reforma - disse,e a sua voz soou indiferente. - Vivia para me reformar. Suportei o trabalho sem dizer uma palavra, porque tinha um objectivo. Era o que eu dizia a mim próprio. E a elas. A Nan e a Nicola. Só mais uns aninhos,dizia eu. Nessa altura,já vamos ter o suficiente;

O esforço para se mover e atravessar o salão até junto de Lynley pareceu consumir as forças que lhe restavam.

- E repara bem onde tudo isso nos levou. A minha filha está morta e eu desenterrei os nomes de quinze sacanas que,de bom grado,teriam morto as próprias mães se ganhassem alguma coisa com isso. Como é que eu pude pensar que eles iam cumprir as penas e desaparecer sem querer saber mais de mim,não me dizes?

Lynley olhou de relance para o bloco-notas,compreendendo do que se tratava.

- Tens uma lista para nos dar?

- Passei a noite a ler. Três, quatro vezes. E o que consegui foi... Queres que te diga o que descobri?

- Quero, sim.

- Matei-a. Fui eu que a matei.

Quantas vezes testemunhara aquela mesma necessidade de assumir uma culpa? interrogou-se Lynley. Cem? Mil? Nunca mudava. E se por acaso houvesse uma resposta pronta capaz de atenuar a culpa dos que sobrevi viam a um acto de violência fatal que atingisse um ente querido, ele ainda não a descobrira.

- Andy - começou. Maiden interrompeu-o.

- Lembras-te de como eu era, não te lembras? Mantinha a sociedade a salvo do elemento criminoso", dizia para mim próprio. E era bom no que fazia. Era mesmo bom. Só que nunca me apercebi que enquanto eu me concentrava na nossa sociedade de merda, a minha própria filha... a minha Nick... - a voz dele começou a fraquejar. - Desculpa - disse.

- Não tens de pedir desculpa, Andy. Está tudo bem.

- Nunca vai estar bem.

Maiden abriu o bloco-notas e rasgou a última página, que entregou a Lynley.

Descobre-o.

- É o que vamos fazer.

Lynley sabia o quão insuficientes e desajustadas eram as suas palavras - tal como seria uma detenção - no que dizia respeito a mitigar o sofri mento de Maiden. Todavia, comunicou-Lhe que tinha destacado um agente para examinar os arquivos do 5010 em Londres, embora até ao momento não tivesse recebido quaisquer dados. Por isso, tudo o que Maiden pudesse dizer-lhes - um nome, um crime, uma investigação - podia perfeitamente encurtar para metade, ou mais, o tempo que o agente de Londres passava en frente ao computador e libertá-lo para investigar outros prováveis suspeitos. A polícia ficaria em dívida para com Maiden.

Este abanou a cabeça, apático.

- Que outra ajuda posso eu oferecer? Podes dar-me alguma coisa, Tommy... outra coisa para fazer... porque caso contrário...

Passou a mão enorme pelos cabelos encaracolados e espessos, ainda que bastante grisalhos.

- Sou um caso de antologia. Aqui estou eu a tentar arranjar uma ocupação para não ter de enfrentar tudo isto.

- É uma reacção natural. Todos nós erguemos as nossas defesas para nos protegermos de algo que nos abala até estarmos preparados para lidar com a situação. É próprio do ser humano.

- Isto. Até estou a referir-me ao caso como isto. Porque pronunciar a palavra equivaleria a tornar tudo real e acho que não ia ser capaz de o fazer.

- Ninguém está à espera que lides com a situação agora. Tanto tu como a tua mulher têm direito a algum tempo para se furtarem ao que aconteceu. Ou para negar o que se passou. Ou para se entregarem ao desespero juntos. Eu compreendo, acredita. - Compreendes, é?

- Tu sabes que sim, acho eu - não havia uma maneira fácil de apresentar o pedido seguinte. - Preciso de examinar os objectos de uso pessoal da tua filha, Andy. Gostarias de estar presente?

Maiden franziu as sobrancelhas.

- Está tudo no quarto dela. Mas porquê o quarto de Nicola, se estás à procura de uma ligação com o 5010?

- Por nada, talvez - disse Lynley. - Mas nós falámos com Julian Britton e com Will Upman esta manhã. Há alguns pormenores que eu gostaria de examinar melhor.

- Santo Deus - disse Maiden. - Estás a pensar que um deles... E olhou para trás de Lynley, para a janela, parecendo ponderar os horrores implicados na referência a Britton e a Upman.

- Ainda é muito cedo para o que quer que seja, a não ser meras conjecturas, Andy - Lynley apressou-se a dizer.

Maiden virou-se e olhou-o fixamente durante uns longos trinta segundos. Por fim, pareceu aceitar a resposta. Conduziu Lynley ao segundo andar da casa e guiou-o até ao quarto da filha. Deixou-se ficar à porta, enquanto Lynley examinava os pertences de Nicola Maiden. A maioria deles consistia exactamente no tipo de artigos que se

esperaria encontrar no quarto de uma jovem de vinte e cinco anos, e muitos deles coincidiam com as informações fornecidas por julian Britton ou por Will Upman. Um estojo de jóias em madeira encerrava a prova dos piercings corporais com os quais, segundo Julian, Nicola se adornava: um conjunto de argolas douradas desirmanadas e de diversos tamanhos, que a rapariga devia ter usado no umbigo, no lábio e no mamilo, alguns pregos que partiam para o buraco que tinha na língua e outro, minúsculo, de rubis e esmeraldas com as pontas retorcidas que devia usar no nariz.

O guarda-vestidos estava cheio de roupas de marca, cujas etiquetas constituíam um verdadeiro anuário de alta costura. Upman declarara que ela podia ter comprado as roupas que vestia com o que ele lhe pagara durante o Verão, e as roupas dela eram a prova viva disso. Havia, no entanto, sinais de que alguém andaria a satisfazer os caprichos de Nicola Maiden.

O quarto estava repleto de objectos que apenas podiam ser associados, ou a uma fonte de rendimentos considerável e ilimitada ou a um companheiro ansioso por afirmar o seu valor através de presentes. Dentro do armário havia uma guitarra eléctrica, ao lado da qual se encontravam: um leitor de CD, um sintonizador e um conjunto de colunas que teria custado a Nicola mais de um mês de salário. Perto destes, num suporte rotativo em carvalho desenhado especificamente para o efeito, estavam cerca de duzentos ou trezentos CD. Sobre uma televisão a cores, colocada num dos cantos do quarto, descansava um telemóvel. Numa prateleira, por baixo do móvel da televisão, oito malas de mão de pele estavam alinhadas com extrema precisão. Tudo naquele quarto era sinónimo de excesso. Tudo revelava também que, pelo menos num aspecto, o patrão de Nicola tinha, de facto, dito a verdade. Ou isso, ou a rapariga conseguira o dinheiro de uma forma que acabara por ser a causa da sua morte: tráfico de estupefacientes, chantagem, mercado negro, desvio de dinheiro. Ao pensar em Upman, no entanto, Lynley lembrou-se de algo que o advogado dissera.

Dirigiu-se à cómoda e começou a abrir e fechar as gavetas, dentro das quais se acumulavam conjuntos de roupa interior, camisas de noite de seda, lenços de caxemira e meias de marca ainda por estrear. Descobriu outra gaveta inteiramente dedicada à vida ao ar livre, atafulhada de calções de caqui, casacos de malha dobrados, uma pequena mochila, mapas militares e um frasco de prata onde estavam gravadas as iniciais da rapariga.

As duas gavetas do fundo continham os únicos objectos que não pareciam ter sido adquiridos em Knightsbridge. Mas até estas estavam a abarrotar como as outras. Serviam para guardar camisolas de lã de todos os tipos e cores, cada peça ostentando uma etiqueta idêntica cosida no colarinho: Feito à mão com carinho por Nan Maiden. Lynley passou os dedos por uma das etiquetas com uma expressão pensativa.

- O pager dela desapareceu, Andy - disse. - Upman disse que ela tinha um. Sabes onde está?

Maiden abandonou a sua posição à porta do quarto.

- Um pager? Will tem a certeza disso?

- Ele disse-nos que a contactavam por pager para o escritório. Não sabias?

- Nunca vi nenhum. Não está aqui?

Maiden repetiu os gestos de Lynley. Examinou os objectos que estavam sobre a cómoda e depois repetiu a busca em cada uma das gavetas. Foi mais longe do que Lynley, no entanto, quando se dirigiu ao guarda- vestidos e verificou os bolsos dos casacos da filha, bem como os cós das calças e das saias. Sobre a cama encontravam-se alguns sacos de plástico fechados cheios de roupas, que ele também examinou. Não encontrando nada, disse, por fim:

- Deve tê-lo levado com ela. Deve estar num dos sacos das provas.

- E por que razão levaria o pager e deixaria o telemóvel? - pergun tou Lynley. - Um deles seria inútil na charneca sem o outro.

O olhar de Maiden procurou o televisor, sobre o qual estava o telemóvel, tornando depois a pousar em Lynley.

- Nesse caso, tem de estar algures por aqui.

Lynley procurou na mesa-de-cabeceira. Encontrou um frasco de aspirinas, uma caixa de Kleenex, pílulas contraceptivas, uma caixa de velas de aniversário e um tubo de batom anticieiro. Pegou nas malas de pele que estavam por baixo do televisor e abriu-as, verificando cada uma das divisórias. Todas vazias. Tal como um saco, uma mala e um saco de viagem.

- Pode estar no carro dela - sugeriu Maiden.

- Algo me diz que não.

- Porquê?

Lynley não respondeu. De pé, no meio do quarto, observou os pormenores com um sentido de visão apurado pela ausência de um único e simples objecto que tanto podia ter grande significado como não ter nenhum. Ao fazê-lo pôde ver aquilo em que antes não reparara. Tudo o que o rodeava estava impregnado de um carácter museológico. Nada do que estava dentro do quarto apresentava o menor indício de desarrumação.

Alguém mexera nos objectos pessoais da rapariga.

- Onde foi a tua mulher, esta tarde, Andy? - perguntou Lynley.

 

                       CAPÍTULO 9

Andy Maiden não respondeu imediatamente, e Lynley repetiu a pergunta, acrescentando:

- Ela está no hotel? No jardim?

- Não, não - respondeu Maiden. - Ela... Nan saiu. Os seus dedos fecharam-se sobre as palmas das mãos, como se tivessem sido atingidos por um espasmo súbito.

- E para onde foi? Sabes?

- Para a charneca, suponho. Levou a bicicleta e é para lá que costuma ir quando sai com ela.

- Para Calder Moor?

Maiden aproximou-se da cama da filha e deixou-se cair na beira do leito.

- Tu não conhecias Nancy antes disto, pois não, Tommy?

- Que me lembre não.

- Aquela mulher só quer o bem de todos. Ela dá e dá e dá. Mas há situações em que eu já não consigo aceitar mais nada - olhou para as mãos. os dedos. Ergueu as mãos e depois baixou-as, gesticulando, sem parar de falar. - Ela estava preocupada comigo. Acreditas nisto? Queria ajudar. conseguia pensar ou falar em fazer desaparecer esta dormência das minhas mãos. Passou a tarde de ontem atrás de mim por causa delas. E toda a noite.

- Talvez seja a sua forma de enfrentar a situação - disse Lynley.

- Mas é preciso um grande poder de concentração para conseguir afastar os pensamentos que ela está a tentar afastar, percebes? O esforço consome-lhe todo o poder de concentração. E eu apercebi-me de que não era capaz de respirar com ela à minha volta. Pairando por aqui. Trazendo-me chávenas de chá e botijas de água quente e... Comecei a ter a impressão de que nem sequer a minha pele me pertencia, como se ela não descansasse enquanto não tivesse conseguido invadir os meus poros para... - calou-se subitamente, parecendo avaliar o alcance de cada uma das palavras que disia sem pensar, já que desabafou em voz baixa: - Meu Deus. Estás a ouvir o que eu estou a dizer? Sacana egoísta.

- Tu sofreste um rude golpe. Estás a tentar enfrentar a situação.

- Ela também sofreu- o mesmo golpe. Mas está a pensar em mim - massajou uma das mãos com os dedos da outra. - Ela queria massajá-las, nada mais. E eu, que Deus me perdoe, mandei-a embora porque julguei que ia sufocar se ficasse mais um minuto no quarto com ela. E agora... Como é que podemos precisar, amar e odiar, tudo ao mesmo tempo? Que se estará a passar connosco?

São as ondas de choque de um acto brutal, Lynley queria replicar. Em vez disso, tornou a perguntar:

- Ela foi até Calder Moor, Andy?

- Deve estar em Hathersage Moor. É mais perto. Fica apenas a algumas milhas de distância. O outro... Não. Ela não deve ter ido até lá.

- Ela já foi até lá de bicicleta antes?

- A Calder?

- Sim, a Calder Moor. Ela já lá foi alguma vez?

- Claro que sim.

Ainda que odiasse o que ia fazer, Lynley tinha de colocar a pergunta. Na verdade, devia fazê-lo, tanto por si próprio como pelo seu colega.

- Tu também? Ou só a túa mulher?

Ao ouvir a pergunta, Andy Maiden ergueu a cabeça lentamente, como se, finalmente, tivesse percebido o rumo da conversa.

- Julguei que estavas a investigar Londres. O 5010. E tudo o que está relacionado com o 5010.

- Eu estou a investigar o 5010. Mas também estou à procura da verdade, de toda a verdade. Tal como tu, acho eu. Vocês dois costumam ir passear de bicicleta para Calder Moor?

- Nancy não...

- Andy, ajuda-me, por favor. Tu conheces o nosso trabalho. Os factos acabam sempre por vir ao de cima, de uma forma ou de outra. E, por a forma como se revelam torna-se mais intrigante do que os factos em si mesmos. Isso pode, facilmente, desviar o curso de uma investigação que de outra forma seria bem simples e não acredito que tu queiras que isso aconteça.

Maiden compreendia o que ele queria dizer. Qualquer tentativa de ocultação dos factos podia, em última análise, tornar-se mais conspíratória que qualquer informação que alguém tentasse esconder. - Nós dois costumamos ir passear de bicicleta até Calder Moor.

nós, aliás. Mas a distância é demasiado longa, Tommy, para fazer em bicicleta.

- Quantas milhas?

- Não sei ao certo. Mas é longe, demasiado longe. Levamos as bicicletas no Land Rover quando queremos ir até lá. Estacionamos numa área de descanso, ou numa das aldeias. Mas não fazemos o trajecto daqui até Calder de bicicleta - inclinou a cabeça na direcção da janela do quarto, acrescentando: - O Land Rover ainda está ali fora. Ela não deve ter ido até Calder Moor esta tarde.

Esta tarde, não, pensou Lynley.

- Eu vi um Land Rover quando passei pelo parque de estacionamento, de facto.

Trinta anos na polícia tinham, sem dúvida, dado a Maiden a capacidade de algo tão simples como ler os pensamentos de outrem.

- A gestão do hotel é uma actividade exigente que consome todo o nosso tempo. Quando podemos, aproveitamos para praticar algum exercício. Se quiseres ir ter com ela a Hathersage Moor, há um mapa na Recepção onde está indicado o caminho até lá.

Não era necessário, disse Lynley. Se Nancy Maiden saíra de bicicleta em direcção à charneca, era porque, provavelmente, queria passar algum tempo sozinha. E ele não se importava de a deixar à vontade.

Barbara Havers sabia que podia ter comprado uma refeição pré-cozi nhada na Uncle Tom Cabin, uma casa de comidas na esquina da Portslade com a Wandswoth. Pouco maior do que um nicho, ficava junto de um dos extremos mais próximos das arcadas do caminho-de-ferro e parecia ser exactamente o tipo de sítio, nada higiénico, onde se podia adquirir uma refeição saturada de colesterol em doses suficientes para garantir artérias de betão no espaço de uma hora. Resistiu ao impulso, no entanto - virtuosamente, como gostava de pensar -, e, em vez disso, dirigiu-se a um pub situado perto de Vauxhall Station, onde se banqueteou com a dose de salsichas e puré de batata com que sonhara naquela manhã. A comida deslizou facilmente, ajudada por um copo de Scrumpy Jack. Saciada e satisfeita com as informações que reunira durante a manhã passada em Battersea, regressou ao lado norte do Tamisa deslizando ao longo do rio. O trânsito processava-se sem congestionamentos em Horseferry Road. Antes que tivesse tido tempo para fumar o segundo Player, estacionou o carro no parque de estacionamento subterrâneo da Scotland Yard.

Naquele momento dispunha de duas opções profissionais: ou retomava a pesquisa no CRIS no encalço de um hipotético prisioneiro posto em liberdade e desejoso de se vingar de Maiden, ou redigia um relatório com todos os elementos que conseguira reunir até ali. A priméira hipótese - por mais tediante e subserviente que fosse - provaria a sua capacidade de ingerir o remédio que alguns agentes da lei julgavam que ela devia estar a engolir. A segunda, no entanto, parecia ser a que mais probabilidades tinha de lhes formecer algumas respostas para o caso. Optou pelo relatório. Não demoraria muito tempo a redigi-lo e permitir-lhe-ia sistematizar as informações recolhidas de uma forma concreta e produtiva, adiando o momento em que teria de tornar a sentar-se à frente do monitor durante pelo menos mais uma hora. Dirigiu-se ao gabinete de Lynley - não havia mal nenhum em utilizar aquele espaço, dado que estava vago naquele momento, certo? - e atirou- se ao trabalho.

Estava profundamente concentrada e analisava os importantes comentários de Cilla Thompson a propósito da paternidade de Terry Cole e da sua tendência para utilizar meios de sobrevivência duvidosos. - CHANtaGEM? acabara ela de dactilografar - quando Winston Nkata entrou no gabinete. Engoliu o que restava de um Whopper, depois de ter atirado o recipiente vazio para o lixo. Limpou as mãos muito bem com um guardanapo de papel e enfiou um Opal Fruit na boca.

- A comida de plástico vai acabar por te matar - censurou Barbara.

- Mas hei-de morrer com um sorriso nos lábios - respondeu Nkata. Passou uma das suas longas pernas sobre uma cadeira e, enquanto se sentava, tirou o bloco-notas com capa de pele de dentro do bolso. Barbara lançou uma olhadela rápida para o relógio de parede e depois fitou o colega.

- A que velocidade exactamente andas a percorrer a M1. Estás a bater todos os recordes de velocidade em terra desde o Derbyshire, Winston.

Ele esquivou-se a responder, o que já de si era eloquente. Barbara estremeceu só de pensar no que Lynley diria se soubesse que Nkata andava a conduzir o seu adorado Bentley praticamente à velocidade do som.

- Estive na Faculdade de Direito - disse ele. - O chefe pediuque investigasse as actividades da rapariga.

Barbara parou de dactilografar.

- E?

- Desistiu do curso.

- Desistiu do curso de Direito?

- Ao que parece.

Aparentemente,Nicola Maiden deixara a Faculdade de Direito no 1 de Maio,pouco antes do início da época de exames. Fizera-o de forma

responsável,depois de ter marcado entrevistas com todos os monitores e

administradores. Alguns deles tinham tentado demovê-la - estava entre

os melhores alunos da sua turma e eles tinham achado que era um disparate abandonar os estudos quando tinha assegurado um futuro brilhante como advogada -,mas ela mostrara-se inflexível. E desaparecera de circulação.

- Perdeu os exames? - perguntou Barbara.

- Nem sequer chegou a inscrever-se. Saiu antes do seu início. - Estava com medo? Problemas nervosos como o pai? Úlceras? Andava

com dificuldades em dormir? Percebeu que ia ter de trabalhar e não estava preparada

para enfrentar o desafio?

- Decidiu que não gostava de Direito. Foi isso que ela disse ao orientador de estudos.

Trabalhara a tempo parcial durante oito meses numa empresa em Notting Hill chamada MKR Financial Management, prosseguiu Nkata. Era uma prática comum entre a maior parte dos estudantes de Direito. Tinham um emprego a tempo parcial durante o dia para se sustentarem, e iam às aulas ao fim da tarde ou à noite. A empresa de Notting Hill oferecera-Lhe uma posição a tempo inteiro, e como ela gostava do trabalho decidira aceitá-la.

- E é tudo - concluiu Nkata. - Desde essa altura, mais ninguém teve notícias dela na faculdade.

- Nesse caso, que estava ela a fazer em Derbyshire, se decidira aceitar um trabalho a tempo inteiro em Notting Hill? - perguntou Barbara. - Teria decidido fazer férias primeiro?

- Segundo diz o chefe, não. E é aqui que a coisa começa a ficar con fusa. Durante o Verão trabalhou no escritório de um advogado, como preparação para uma carreira futura. Foi por isso que ele me pediu que fosse à Faculdade de Direito.

- Bom, tem um emprego numa financiadora em Londres, mas aceita trabalhar no escritório de um advogado em Derbyshire durante o Verão - clarificou Barbara. - Essa é nova para mim. O inspector já sabe que ela abandonou a faculdade de Direito?

- Não lhe telefonei ainda. Queria conversar contigo primeiro. O comentário deixou Barbara satisfeita. Olhou para Nkata. Como sempre, o seu rosto exibia uma expressão ingénua, afável e absolutamente pro fissional.

- Achas que devemos telefonar-lhe, nesse caso? Ao inspector, quero eu dizer.

- Vamos pensar um pouco sobre tudo isto, primeiro.

- Muito bem. Bom, esqueçamos o que ela estava a fazer em Derbyshire por uns momentos. O emprego na MKR Financial Management devia render-Lhe umas massas razoáveis, certo? Se tivesse optado pelo Direito também não estaria a passar necessidades, por isso não haveria razão para abandonar a faculdade, a não ser que houvesse a possibilidade de ganhar algumas massas facilmente. O que é que achas?

- Parece-me um bom raciocínio para já.

- Continuemos, então. Será que precisava de dinheiro com urgência? E se sim, porquê? Ia fazer alguma compra avultada? Queria pagar uma dívida? Fazer uma viagem? Ter uma vida mais confortável? - Barbara lembrou-se de Terry Cole e acrescentou, fazendo estalar os dedos. - E se estivesse a ser chantageada por alguém? Alguém de Londres que se pôs a ligar de Derbyshire para tentar saber por que razão o pagamento estava a ser feito?

Nkata moveu a mão para a frente e para trás, um gesto habitual nele quando queria expressar dúvida.

- Pode ter-se dado o caso de o trabalho na MKR parecer mais exci tante do que a perspectiva de uma vida inteira passada no Old Bailey. Para não dizer mais lucrativa a longo prazo.

- Que fazia ela na MKR, exactamente?

Nkata consultou as suas notas.

- Estava a estagiar como gestora financeira - disse.

- A estagiar? Ora, Winston. Ela não ia deixar a Faculdade de Direito por causa disso. É impossível.

- Começou como estagiária em Outubro do ano passado, aproximadamente. Não estou a dizer que era isso que ela fazia agora.

- Mas então, que estava ela a fazer em Derbyshire no escritório de um advogado? Teria mudado de ideias acerca do Direito? Estaria a pensar em retomar os estudos.

- Se estava, nunca o comunicou à faculdade.

- Estranho.

Enquanto meditava sobre as aparentes contradições que caracterizavam o comportamento da rapariga assassinada, Barbara procurou o maço de Players, perguntando:

- Importas-te que eu fume um cigarro, Winnie?

- Não no espaço onde eu respiro.

Suspirou e contentou-se com uma pastilha Juicy Fruit, que descobriu dentro do saco a tiracolo, colado ao canhoto de um bilhete de cinema. Retirou o fino invólucro de papel e enfiou a pastilha elástica na boca.

- Certo. Que mais temos, então?

- Ela deixou a casa onde vivia.

- Porque não, se ia passar o Verão em Derbyshire.

- Definitivamente, quero eu dizer. Tal como deixara a faculdade.

- Certo, mas isso não me parece uma grande novidade.

- Espera aí, então.

Nkata enfiou a mão no bolso e tirou outro Opal Fruit. Desembrulhou-o e meteu o rebuçado na boca.

- A faculdade tinha a morada dela, ou seja, a antiga morada. Fui até lá e conversei com a senhoria, Em Islington. Ela morava num quarto alugado.

- E? - incentivou Barbara.

- Mudou de casa - a rapariga, não a senhoria - quando deixou a faculdade. No dia 10 de Maio. Sem aviso. Limitou-se a arrumar as coisas e a deixar uma morada em Fulham para onde o correio devia ser enviado e desapareceu de circulação. A senhoria não ficou satisfeita com o caso. Nem com a discussão. - Nkata sorriu no momento em que revelou esta última informação.

Barbara reconheceu a maneira como o colega revelara as informações que conseguira reunir, apontando-lhe um dedo e dizendo:

- Meu grande estafermo. Conta-me o resto, Winston. Ao ouvi-la, Nkata desatou a rir.

- Entre ela e um tipo qualquer. Pareciam dois gatos assanhados, irlandeses em conversações de paz, segundo disse a senhoria. Isto passou-se no dia 9.

- Um dia antes de ela ter mudado de casa?

- Exactamente.

- Violência.

- Não, só gritos. E alguma linguagem mais forte.

- Alguma coisa que possamos usar?

- O tipo disse: Não vou consentir nisso. Antes prefiro ver-te morta do que permitir que o faças. "

- Ora, aí está um belo naco de informação. Posso ter esperanças em obter uma descrição do tipo? - a expressão no rosto de Nkata forneceu- lhe a resposta. - Merda.

- Mas é um dado a ter em conta - disse ele.

- Talvez sim, talvez não - Barbara pensou no que ele lhe contara. Mas se ela se mudou logo depois da ameaça, por que razão é que o crime só ocorreu muito mais tarde?

- Se ela se mudou para Fulham e depois foi para fora, ele teria de descobrir o paradeiro dela - notou Nkata. - E tu, o que é que conseguiste descobrir?

Barbara contou-lhe o que ficara a saber depois de ter conversado com Mrs. Baden e com Cilla Thompson. Concentrou-se na fonte de rendimento de Terry e nas descrições contrastantes feitas pela companheira de apartamento e pela senhoria.

- Cilla diz que ele nunca vendeu fosse o que fosse e era pouco pro vável que viesse a fazê-lo. Algo com que eu não fui capaz de discordar. Como é que ele se sustentava a si próprio, então?

Nkata reflectiu durante alguns instantes, passeando o rebuçado dentro da boca. Finalmente falou.

- Vamos telefonar ao chefe.

Dirigiu-se, depois, à secretária de Lynley e discou o número. A ligação foi completada rapidamente e, momentos depois, Lynley atendeu o telemóvel.

- Só um instante - pediu ele, premindo outro dos botões do telefone. Através do altifalante, Barbara ouviu a agradável voz de barítono de Lynley.

- O que é que conseguimos até agora, Winnie? - perguntou. Exactamente o mesmo tipo de pergunta que lhe teria feito a ela. Levantou-se e aproximou-se da janela. Não havia nada para ver a não ser Tower Block, evidentemente. Era um mero pretexto para estar ocupada.

Rapidamente, Winston pôs Lynley a par da abrupta saída da Faculdade de Direito, do emprego na MKR Financial Management e da mudança de casa sem aviso prévio. Mencionou ainda a discussão que antecedera a mudança de casa e a ameaça específica feita à vida da rapariga durante a altercação.

- Ao que parece,existe um amante em Londres - replicou Lynley. Upman já nos tinha fornecido essa informação. Mas não disse nem uma palavra sobre o facto de ela ter abandonado o curso de Direito.

- Que razões teria ela para esconder o facto.

- Por causa do amante,talvez.

Barbara percebia,pelo tom de voz de Lynley,que ele estava a reflectir sobre a ideia.

- Talvez tivessem planos específicos.

- Um tipo casado,então?

- Veja o que é que se passa com a financiadora. Ele pode ser de lá.

Lynley resumiu as informações que ele próprio conseguira reunir, concluindo:

- Se o amante de Londres é um tipo casado que montou casa a Nicola Maiden em Fulham,ela não iria querer divulgar o facto em Derbyshire. Os pais não iriam ficar nada satisfeitos com a notícia,julgo eu. E Britton muito menos.

- Mas o que é que ela estava a fazer em Derbyshire? – Barbara sussurrou a Nkata. - O comportamento dela é um poço de contradições. Diz-lhe,Winston.

Nkata abanou a cabeça e ergueu a mão para indicar que ouvira o que ela dissera. Não contrariou os pontos de vista do inspector,todavia. Em vez disso,tomou algumas notas. Quando Lynley concluiu as suas observações, ele comunicou-lhe os dados relativos a Terry Cole. Tendo em conta a extensão dos mesmos e o pouco tempo que transcorrera desde que Nkata regressara à cidade,o comentário do inspector quando o subordinado se calou foi:

- Bolas,Winnie. Como é que conseguiu descobrir tudo isso? Anda a trabalhar por telepatia?

Junto da janela,Barbara virou-se para chamar a atenção de Nkata. Todavia,não conseguiu fazer-lhe sinal antes que ele falasse.

- A Barb ocupou-se do rapaz. Foi até Battersea esta manhã e falou com...

- Havers? - a voz de Lynley endureceu. - Ela está aí consigo,então?

Os ombros de Barbara curvaram-se.

- Está,sim. Está a escrever...

Lynley interrompeu-o.

- Não me tinha dito que ela estava a analisar as detenções feitas por Maiden?

- Estava,sim.

- Já concluiu essa investigação,Havers? - perguntou Lynley.

Barbara soltou um suspiro. Devia mentir ou dizer a verdade? perguntou a si própria. Uma mentira serviria os seus objectivos imediatos, mas a

longo prazo só iria complicar ainda mais a sua situação.

- Winston sugeriu que eu fosse até Battersea - disse a Lynley. - Ia agora mesmo voltar para o CRIS, quando ele chegou com as informações sobre a rapariga. Inspector, eu estava a pensar que o facto de ela trabalhar para Upman não faz sentido, se pensarmos que ela tinha deixado a Faculdade de Direito e tinha outro emprego em Londres que, aparentemente, interrompera por algum motivo. Se é que ela sequer tinha outro emprego, porque ainda temos de confirmar isso. Em todo o caso, partindo do princípio que esse amante existe, como disse, e se ela estava a preparar-se para viver à custa dele, porque diabo iria ela passar um Verão a trabalhar nos Peaks?

- Tem de voltar para o CRIS - foi a resposta de Lynley. - Estive a falar com Maiden e ele deu-nos algumas indicações relativas ao tempo em que trabalhou no 5010. Tome nota dos nomes que lhe vou ditar e veja o que é que se passa com eles, Havers.

Começou a recitar uma lista de nomes, soletrando sempre que necessário. Eram quinze nomes ao todo.

Quando acabou de os escrever, Barbara disse:

- Mas inspector, não acha que esta coisa de Terry Cole... O que ele achava, interrompeu Lynley, era que, ao longo dos anos que passara no 5010, Andrew Maiden devia ter agitado bem as águas turvas do submundo. Podia perfeitamente ter travado conhecimento com alguém durante o tempo em que trabalhara como infiltrado que anos mais tarde se revelara fatal. Sendo assim, logo que concluísse a investigação sobre os vingadores mais óbvios devia reler os ficheiros à procura de uma relação mais subtil. Um informador desiludido, talvez, cujos esforços não tinham sido suficientemente recompensados pela polícia.

- Mas não acha...

- Já lhe disse o que é que acho, Barbara. Dei-lhe uma tarefa. Gostaria que a cumprisse.

Barbara entendeu a mensagem.

- Sim, senhor - respondeu, educadamente. Despediu-se de Nkata com um aceno de cabeça e saiu do gabinete. Todavia, não deu mais de dois passos depois de passar a porta.

- Veja o que se passa com a financiadora - disse Lynley. - Eu vou dar uma olhadela ao carro da rapariga. Se conseguirmos encontrar aquele pager e se o amante tiver telefonado, o número ajudar-nos-á a chegar até ele.

- Certo - retorquiu Winston e desligou.

Barbara tornou a entrar no gabinete de Lynley, caminhando casual mente junto à parede, como se nunca tivesse recebido ordens para cumprir outras tarefas.

- Quem foi, então, que lhe disse a ela, em Islington, que preferia vê-la morta a permitir que ela fizesse o que estava a pensar fazer? O amante? O pai? Britton? Cole? Upman? Ou alguém que ainda não conhecemos. E que estaria ela a pensar fazer, afinal? Transformar-se na querida de um cliente de peso? Sacar alguma massa fazendo chantagem com o amante. Dá sempre jeito, não é verdade? Andar com mais de um homem? O que é que achas?

Nkata levantou os olhos do bloco-notas enquanto ela falava. O olhar dele passou através dela e seguiu na direcção do corredor, onde ela permanecera, desafiando calmamente as instruções que Lynley lhe dera.

- Barb... - disse ele, em tom de advertência.

Tu ouviste as ordens do chefe - foi o que ficou por dizer.

Barbara disse em tom despreocupado:

- A MKR Financial Management pode até esconder outros segredos. Nicola podia ter sido uma miúda que gostava de dar as suas quecas com regularidade quando não podia fazê-lo com o namorado, nos Peaks, e quando o amante de Londres estava ocupado com a mulher. Mas não acho que devamos abordar essa via directamente na MKR, não concordas? Com toda esta polémica à volta do assédio sexual.

Nkata não deixou passar em claro o uso do pronome pessoal no plural.

- Barb, o chefe disse que tinhas de voltar para o CRIS - lembrou ele, um modelo de paciência e delicadeza.

- Quero que o CRIS se dane. Não me digas que acreditas que um tipo qualquer que anda por aí à solta decidiu ajustar contas com Maiden e limpou o sebo à filha. Isso é uma estupidez, Winston. Uma perda de tempo.

- Pode ser. Mas quando o inspector te diz qual o caminho que deves seguir, farias bem em fazer o que ele diz. Certo? - E quando ela não respondeu, insistiu: - Certo, Barb?

- Está bem, está bem - suspirou Barbara.

Ela sabia que o facto de Winston Nkata ter caído nas boas graças de Lynley representava uma segunda oportunidade para ela. Só não queria que essa segunda oportunidade tomasse a forma de uma tarefa morosa em frente a um computador. Tentou uma solução de compromisso.

- Que me dizes a isto, então? Deixa-me ir contigo a Notting Hill. Se deixares que eu vá contigo, resolvo a questão do computador no meu tempo livre. Está prometido. Dou-te a minha palavra de honra.

- O chefe não vai alinhar nisso, Barb. E vai ficar bem fulo quando descobrir o que andas a fazer. E quando isso acontecer, o que é que vais fazer?

- Ele não vai saber. Eu não lhe vou contar nada. Tu não Lhe vais contar nada. Ouve, Winston, tenho um palpite acerca disto. Os elementos que temos neste momento estão todos baralhados e precisam de ser clarificados. E eu sou boa a fazer isso. Tu precisas da minha experiência e vais precisar ainda mais quando tiveres obtido mais dados sobre essa tal MKR. Estou a prometer-te que vou fazer a chatice do computador - estou a jurar. Por isso deixa-me aproveitar um bocadinho mais deste caso?

Nkata franziu o sobrolho. Barbara aguardou. Mastigou a pastilha elástica com vigor redobrado.

- E quando é que vais fazê-lo? - perguntou Nkata. - Amanhã de manhã? À noite? Aos fins-de-semana? Quando?

- Em qualquer altura - replicou ela. - Hei-de conseguir enfiar a tarefa entre os meus compromissos para o chá dançante no Ritz. A minha vida social é um corrupio infernal, como sabes, mas julgo que consigo arranjar uma hora aqui e ali para cumprir uma ordem.

- Ele vai querer certificar-se de que estás a fazer o que ele te mandou - observou Nkata.

- E eu vou estar a fazê-lo. Fazendo soar campainhas, se necessário. Entretanto, não desperdices os meus miolos e a minha experiência aconselhando-me a passar as próximas doze horas em frente a um terminal de computador. Deixa-me participar nisto enquanto o rasto ainda está fresco. Tu sabes como é importante, Winston.

Nkata enfiou o bloco-notas no bolso e olhou-a com firmeza.

- Às vezes és uma verdadeira fera - disse ele, derrotado.

- É uma das minhas melhores qualidades - replicou ela.

 

                             CAPÍTULO 10

ynley estacionou o carro em frente à esquadra de polícia de Buxton.

Libertou o corpo longo e esguio do espaço confinado do veículo policial e contemplou a fachada do edifício,uma construção abaulada em tijolo. Ainda estava estupefacto com o comportamento de Barbara Havers.

Suspeitara que Nkata poderia encarregar Havers de fazer o levantamento via computador das investigações levadas a cabo por Andy Maiden. Sabia que o negro gostava dela. E não o proibira de o fazer,em parte porque estava interessado em saber se,na sequência da sua despromoção e queda em desgraça, ela seria capaz de cumprir até ao fim uma tarefa simples que,certamente,não seria do seu agrado. Fiel a si própria,agira à sua maneira, confirmando uma vez mais as suspeitas do seu superior hierárquico: tinha tanto respeito pela cadeia de comando como um elefante por uma loja de porcelanas. O facto de Winston lhe ter pedido para ir até Battersea era irrelevante. Fora-lhe confiada outra tarefa anteriormente,e ela sabia perfeitamente que devia concluí-la antes de aceitar qualquer outra missão. Céus.

Quando é que aquela mulher iria aprender de uma vez por todas?

Entrou no edifício e pediu para falar com o agente responsável pelas provas encontradas na cena do crime. Depois de deixar Andy Maiden,fora à procura do Saab que pertencera a Nicola e que se encontrava no depósito de carros. Aí passara cinquenta infrutíferos minutos repetindo o que os homens de Hanken já tinham feito com eficiência exemplar: o exame rigoroso do carro,centímetro a centímetro,por dentro e por fora,de um extremo ao outro. O objecto das suas buscas era o pager,mas regressara de mãos vazias.

Assim sendo,se Nicola Maiden o tivesse,de facto,deixado no Saab quando partira para a charneca,havia apenas um sítio onde ele poderia estar,isto é,entre as provas encontradas dentro do carro dela.

O detective Mott era o oficial que tinha a seu cargo as caixas de cartão,os sacos de papel,os recipientes de plástico,as pastas e os livros de registos que constituíam,até ao momento,as provas ligadas ao caso. Acolheu a visita de Lynley ao seu reduto com grande desconfiança. Preparava- se para se banquetear com uma enorme torta de compota sobre a qual acabara de espalhar uma dose generosa de creme de mustarda e, armado de uma colher, não tinha ar de quem quisesse ser incomodado no preciso momento em que se preparava para satisfazer um dos seus vícios. Mastigando alegremente um pedaço de torta, Mott recostou-se na cadeira de dobrar metálica e perguntou a Lynley que vinha ele bisbilhotar, exactamente.

Lynley disse-lhe o que procurava. Em seguida, jogando pelo seguro, acrescentou que embora o pager pudesse ter sido deixado no carro de Nicola Maiden, podia também ter ficado no próprio local do crime, pelo que não queria restringir a sua busca às provas encontradas no interior do Saab. Será que Mott se importava que ele desse uma vista de olhos por todas as provas recolhidas?

- Um pager, foi o que disse? - enquanto falava, Mott conservou a colher colada ao interior da bochecha. - Não vi nada disso, acho eu - e tornou a concentrar-se na torta com dedicação. - O melhor é consultar primeiro os livros de registo, inspector. Não faz sentido nenhum revistar tudo antes de verificar as nossas listagens, pois não?

Perfeitamente ciente do seu grau de interferência em território alheio, Lynley optou pela via mais colaborante. Encostou-se a uma barrica com tampo de metal e consultou as listagens enquanto a colher de Mott ressoava energicamente contra as paredes da tigela.

Nenhum dos elementos que constavam dos livros de registo se assemelhava sequer a um pager, pelo que Lynley perguntou se podia verificar as provas recolhidas. Aproveitando, deliciada e demoradamente, todos os restos de torta e de mustarda - Lynley chegou a pensar que o homem ia lamber as paredes da tigela -, foi com relutância que Mott autorizou Lynley a verificar as provas. Logo que conseguiu que o outro lhe entregasse um par de luvas de látex, iniciou a busca pelos sacos identificados como Saab. Mal chegara ainda ao segundo saco, no entanto, quando o inspector Hanken entrou de rompante na sala.

- Upman mentiu-nos, o safado - anunciou, cumprimentando Mott com um rápido aceno de cabeça. - Não que isso me surpreenda. Sacana bajulador.

Lynley passou ao terceiro saco referente ao Saab. Colocou-o sobre a barrica, mas não o abriu.

- Mentiu sobre quê? - perguntou.

- Sobre a noite de sexta-feira. Sobre o suposto - a palavra foi pronunciada com grande ironia - relacionamento entre chefe-e-subordinado que ele disse manter com a nossa menina.

Hanken remexeu dentro do casaco e tirou o maço de Marlboro. Ao vê- lo, o detective Mott apressou-se a dizer:

- Aqui dentro não, inspector. Perigo de incêndio.

- Raios partam - retorquiu Hanken tornando a guardar os cigarros no bolso.

- Estiveram,de facto,no Chequers - prosseguiu. - Consegui até falar com a empregada que os serviu,uma rapariga chamada Margery,que se lembrou deles imediatamente. Ao que parece,o nosso Upman já terá levado mais de uma boneca a jantar ao Chequers e quando isso acontece pede que seja Margery a atendê-los. Gosta dela,diz a empregada. E deixa gorjetas à americana. Parvalhão.

- E a mentira,qual foi? Pediram um quarto? - perguntou Lynley.

- Não,nada disso. Foram embora,tal como disse Upman. O que ele não nos disse foi o sítio para onde foram a seguir. - Hanken esboçou um sorriso,visivelmente deliciado com o facto de ter apanhado o advogado em falta. - Saíram do Chequers e foram chez Upman - revelou ele -,onde a rapariga parou para uma visita prolongada.

O entusiasmo de Hanken crescia à medida que ia desfiando a sua história. Tendo aprendido que nunca se devia acreditar em nada do que um advogado dissesse,fizera mais algumas averiguações depois de ter conversado com Margery. Uma rápida visita à zona onde residia o advogado fora suficiente para descobrir a verdade. Aparentemente,Upman e Nicola Maiden

tinham chegado a casa do advogado por volta das 23h45,hora a que tinham sido avistados por um vizinho que,nesse momento,saía com o Rover para o último passeio do dia. E o comportamento de ambos fora suficientemente amistoso para indiciar que entre eles existia algo mais do que uma mera relação entre patrão e funcionária descrita por Mr. Upman.

- Beijos à porta - disse Hanken,cruamente. - O nosso Will estava a examinar-Lhe a dentadura bastante de perto.

- Ah - Lynley abriu o saco de provas e derramou o seu conteúdo sobre o tampo da barrica. - E temos a certeza de que era Nicola Maiden quem estava com Upman? E a amiga divorciada? Joyce?

- Era Nicola - confirmou Hanken. - Quando ela saiu,às quatro e meia da madrugada do dia seguinte,o vizinho do lado tinha-se levantado para ir à casa de banho. Ouviu vozes,espreitou pela janela e viu-a nitidamente quando as luzes do carro de Upman se acenderam. Que lhe pareceu então - e nesse momento tornou a tirar o maço de Marlboro de dentro do bolso -,que eles estiveram a fazer durante cinco horas?

- Aqui dentro não,inspector - tornou a dizer Mott.

- Merda - desabafou Hanken,tornando a guardar o maço de cigarros.

- Nesse caso, parece que vamos ter de conversar novamente com Mr. Upman - disse Lynley.

A expressão do rosto de Hanken revelava que ele mal podia esperar por essa oportunidade.

Lynley colocou o colega a par das informações que Nkata e Havers tinham conseguido obter em Londres. Concluiu, afirmando, pensativamente:

- Todavia, ninguém aqui, em Derbyshire, parecia ter conhecimento de que a rapariga não tinha quaisquer intenções de concluir o curso de Direito. Curioso, não acha?

- Ninguém sabia ou alguém está a mentir-nos - afirmou Hanken, sem rodeios.

Pareceu tomar consciência, pela primeira vez, de que Lynley estava a examinar as provas.

- Que está você a fazer, afinal? - perguntou.

- Certifico-me de que o pager de Nicola não se encontra aqui. Importa-se que o faça?

- Certifique-se à vontade.

O conteúdo do terceiro saco parecia consistir em objectos encontrados no interior da mala do Saab. Entre os artigos espalhados sobre o tampo do barril estavam o macaco do carro, uma chave de canhão, e um conjunto de chaves de fendas. Havia também três velas de ignição, que pareciam ter estado guardadas dentro da mala do carro desde que o mesmo saíra da fábrica, e um conjunto de fios de ligação directa enrolados em volta de um pequeno cilindro cromado. Lynley pegou neste último e aproximou-o da luz para observá-lo melhor.

- Que é isso? - perguntou Hanken.

Lynley procurou os óculos e colocou-os. Identificara todos os objectos encontrados no carro, mas não conseguia perceber o que era aquele cilindro. Rodou o objecto que tinha na mão. Com pouco mais de cinco centímetros de comprimento, o cilindro tinha uma superfície perfeitamente lisa, tanto por dentro como por fora. As duas extremidades eram curvas e polidas, o que sugeria que se tratava de uma peça única. Abria-se precisamente na zona central por meio de uma dobradiça e cada uma das metades tinha um orifício onde fora atarrachado um parafuso de asa.

- Parece uma peça de uma máquina - disse Hanken. - Uma porca ou o dente de uma engrenagem. Algo desse género.

Lynley abanou a cabeça.

- Não tem entalhes no interior. E se os tivesse, teria de ser uma máquina do tamanho de uma nave espacial.

- É o quê, então? Deixe-me ver.

- Luvas, inspector - advertiu Mott, sempre vigilante. Em seguida, atirou um par de luvas a Hanken, que as calçou.

Entretanto, Lynley examinou o cilindro mais de perto.

- Há qualquer coisa lá dentro. Um resíduo.

- Óleo de motor?

- Só se, nos dias que correm, o óleo de motor também solidificar disse Lynley.

Hanken pegou no cilindro e observou-o com os seus próprios olhos. Virou-o sobre a palma da mão e perguntou:

- Uma substância? Onde?

Lynley indicou o que tinha visto: uma mancha com a forma de uma pequena folha de ácer no topo - ou no fundo - do cilindro. Algo fora ali depositado e depois de ter secado adquirira a tonalidade do peltre. Hanken examinou o resíduo atentamente indo ao ponto de o cheirar, aspirando ruidosamente. Pediu a Mott um novo saco de provas e disse:

- Manda analisar isto imediatamente.

- Alguma ideia? - inquiriu Lynley.

- Para já, não - replicou. - Pode ser qualquer coisa. Um bocado de molho de salada. Uma mancha de maionese caída de uma sanduíche de camarão.

- Na mala do carro dela?

- Ela saiu para um piquenique. Como diabo quer que eu saiba? É para isso que existem os técnicos forenses.

As palavras do colega eram mais do que acertadas. Todavia, a presença do cilindro deixava Lynley inquieto, sem que ele soubesse exactamente porquê.

- Peter, você importava-se que eu desse uma vista de olhos pela cena do crime? - perguntou, esforçando-se para que o seu pedido soasse delicado, ciente da forma como o mesmo podia ser interpretado.

A sua preocupação era desnecessária. Hanken mal podia esperar para se dedicar a outros assuntos.

- Não, de modo nenhum. Eu encarrego- me de Upman. Descalçou as luvas e tirou o maço de cigarros de dentro do bolso uma última vez, dizendo a Mott:

- Não tenha um ataque, detective. Não vou acendê-lo aqui. E logo que abandonou os domínios do agente, prosseguiu alegremente enquanto acendia um cigarro.

- Você está a ver o quadro, não está? A rapariga na cama com Upman, para além de... quantos temos até agora... mais dois?

- Julian Britton e o amante de Londres - confirmou Lynley.

- E isso só para começo de conversa. E Upman há-de ser o terceiro depois de eu ter falado com ele. - Hanken inalou profundamente e com alguma satisfação. - Como é que você acha que Upman se terá sentido" desejando-a como desejava, indo para a cama com ela e sabendo que ela abria para mais dois tipos com a mesma boa vontade com que se abria para ele?

- Você está a precipitar-se, Peter.

- Eu não diria isso.

- Mais importante do que Upman - assinalou Lynley -, é como se terá sentido Julian Britton. Ele queria casar com ela, não queria partilhá-la com outros. E se, como alega a mãe dela, ela dizia sempre a verdade, qual terá sido a reacção dele quando ficou a saber exactamente o que Nicola andava a fazer?

Hanken reflectiu sobre a pergunta.

- É mais fácil arranjar um cúmplice para Britton, de facto - admitiu ele.

- É, não é? - concordou Lynley.

Samantha McCallin não queria pensar, e quando não queria pensar, trabalhava. Com gestos bruscos, empurrou um carrinho de mão ao longo do soalho de carvalho antigo da Long Gallery, equipada com uma pá, uma vassoura e um espanador. Parou junto à primeira das três lareiras da sala e, com empenho e determinação, começou a remover a sujidade, o pó de carvão, os excrementos de pássaros, os ninhos velhos e os fetos que, ao longo do tempo, tinham entrado pela chaminé. Tentando disciplinar os pensamentos, ia contando os movimentos: um-pá, dois-levantar, três- transportar, quatro-deitar fora. Desta forma, foi esvaziando a lareira, livrando-a do que pareciam ser cinquenta anos de detritos. Descobriu que desde que fosse capaz de manter o ritmo, conseguiria controlar a mente. Foi só quando parou de apanhar o lixo com a pá e começou a varrer que os seus pensamentos a assaltaram em catadupa.

O almoço decorrera calmamente. Reunidos em volta da mesa, os três tinham permanecido num silêncio quase ininterrupto. jeremy Britton fora o único a falar durante a refeição, no momento em que Samantha colocara uma travessa de salmão no centro da mesa. O tio agarrara-lhe uma das mãos inesperadamente e levara-a aos lábios, anunciando:

- Estamos gratos por tudo o que tens feito cá em casa, Sammy. Estamos gratos por tudo.

Depois sorrira-lhe, um lento e demorado sorriso cheio de implicações, como se ambos partilhassem um segredo.

O que não era verdade, disse Samantha para si própria. Por mais óhvia que tivesse sido a forma como o tio revelara a natureza dos sentimentos que nutria por Nicola Maiden, na véspera, ela conseguira ocultar os dela.

Era necessário que o fizesse. Com a polícia a rondar-Lhes a casa, fazendo perguntas e olhando para todos com uma suspeição não dissimulada, era absolutamente crucial que os seus sentimentos em relação a Nicola Maiden não ultrapassassem as fronteiras do seu coração.

Não a odiara. Vira Nicola tal como ela era e por essa razão não gostara dela. Mas não a odiara. Antes, limitara-se a reconhecer nela um obstáculo que a impedia de alcançar rapidamente o que queria.

Numa cultura que lhe exigia que encontrasse um homem que conferisse sentido ao seu mundo, a Samantha não se lhe deparara uma única perspectiva digna de nota nos últimos dois anos. O seu relógio biológico continuava a soar inexoravelmente, o irmão recusava-se a tomar nem que fosse uma simples chávena de café com uma eventual pretendente, não fosse ela pedir- lhe que lhe dedicasse toda a sua vida, e ela começava a sentir que só a ela cabia a responsabilidade de assegurar a continuidade da linha familiar. Todavia, revelara-se incapaz de descobrir um companheiro, apesar das diversas humilhações a que se submetera, que incluíam a resposta a anúncios pessoais, a inscrição em agências de encontros e a participação em actividades que eram tão propiciadoras de casamentos como a adesão ao coro da igreja. Em resultado disso, sentira uma ânsia crescente de Assentar, que significava, obviamente, Reproduzir- se.

Em certo sentido, sabia que era ridícula aquela sua obsessão pelo casamento e pela maternidade. As mulheres modernas tinham carreiras e vidas á margem do marido e dos filhos e por vezes, essas carreiras e essas vidas excluíam até a existência de um marido e filhos. Noutro sentido, porém, acréditava que não poderia evitar um certo sentimento de falhanço se fizesse a sua viagem através da vida eternamente só. Além disso, dizia para si própria, queria ter filhos. E queria que esses filhos tivessem um pai.

Julian parecera-Lhe um candidato tão prometedor. Entenderam-se bem desde o primeiro momento. Tinham-se tornado compinchas. Rapidamente se criara entre ambos um sentimento de intimidade, nascido do interesse que ambos tinham em restaurar Broughton Manor. E se, inicialmente, o interesse dela fora fingido, em pouco tempo se tornara bastante real, desde que entendera a paixão que o primo dedicava ao seu projecto. E ela podia ajudá-lo a concretizar esse projecto, podia alimentá-lo. Não só trabalhando ao seu lado, mas também canalizando para a propriedade a avultada soma em dinheiro que herdara após a morte do pai.

Tudo lhe parecera tão lógico e tão inevitável. Todavia, nem a sua camaradagem com o primo, nem os seus imensos recursos financeiros, nem seus esforços para provar o seu valor aos olhos de Julian tinham sido suficientes para despertar nele o menor vislumbre de interesse, para além do apego afectivo que qualquer pessoa sente por um cão de companhia.

A evocação do animal provocou um estremecimento em Samantha. seguiria essa linha de raciocínio, pensou com firmeza. Ela obrigá-la-ia, inevitavelmente, a reflectir sobre a morte de Nicola Maiden. E pensar na morte dela era tão intolerável quanto pensar sobre a sua vida.

Todavia, ao tentar afastar Nicola dos seus pensamentos, Samanta sentiu-se levada a pensar nela.

- Tu não gostas muito de mim, pois não, Sam? - perguntara Nicola, perscrutando-lhe o rosto à procura de indícios. - Entendo. É por causa de Jules. Eu não o quero, sabes. Não da maneira como as mulheres geralmente querem os homens. É todo teu. Se conseguires conquistá-lo,

Tão franca que ela era. Tão absolutamente frontal em todas as coisas que proferia. Será que alguma vez se teria preocupado com a impressão que causava? Será que alguma vez se teria interrogado sobre se, um dia, essa honestidade implacável lhe poderia exigir um preço mais elevado do que ela estava disposta a pagar?

- Eu posso interceder por ti, se quiseres. Terei muito prazer nisso. Acho que tu e Jules ficariam bem um com o outro. O casalinho perfeito, como se costumava dizer.

E desatara a rir, embora não com malícia. Teria sido tão mais fácil não gostar de Nicola, se ao menos ela tivesse recorrido ao escárnio.

Mas não. Não precisara de o fazer, pois Samantha já sabia quão absurdo era o desejo que sentia por Julian.

- Oxalá pudesse fazer com que ele deixasse de te amar - dissera.

- Se descobrires uma forma de o fazer, vai em frente - replicara Nicola. - Podes ficar com ele, sem ressentimentos e com a minha bênção. Seria o melhor.

E sorrira como sempre sorria, um sorriso aberto, atraente e afável, tão liberta das preocupações próprias de uma mulher ciente da mediocridade da sua aparência e da inutilidade dos seus talentos, que castigá-la parecia ser, aos olhos de Samantha, a única reacção possível. Castigá-la, bater-lhe, abaná-la e gritar: Achas que éfácil ser eu, Nicola? Achas que eu gosto da minha situação?

O contacto de carne com carne, de carne com osso, fora isso que Samantha desejara. Tudo o que fosse necessário para expulsar dos olhos azuis de Nicola a certeza de que numa batalha em que Nicola nem sequer se dava ao trabalho de lutar, Samantha McCallin jamais sairia vitoriosa.

- Sam. Então é aqui que tu estás.

Samantha virou-se rapidamente e viu Julian, que avançava na direcção dela ao longo da galeria, os cabelos iluminados pelo sol vespertino. Os seus movimentos bruscos fizeram com que alguns pedaços de cinza se espalhassem pelo chão, levantando pequenas nuvens de poeira acinzentada.

- Assustaste-me - disse ela. - Como é que consegues caminhar tão silenciosamente sobre um chão de soalho?

Ele olhou para os sapatos, como se neles residisse a explicação.

- Desculpa - trazia um tabuleiro com pratos e chávenas e, gesticulando, continuou: - Pensei que gostarias de fazer uma pausa. Preparei um chá para nós.

Reparou que ele trouxera também duas fatias do bolo de chocolate que fizera para a sobremesa do jantar daquele dia. Sentiu um arroubo de impaciência ao ver isso. Ele certamente reparara que o bolo ainda estava intacto. Certamente que sabia que se destinava a qualquer coisa. Certamente que, ao menos por uma vez, Santo Deus, ele podia ter tirado uma ou duas conclusões a partir dos factos que tinha à frente do nariz. No entanto, limitou-se a esvaziar a pá cheia de lixo dentro do carrinho de mão e a dizer:

- Obrigada, Jules. Vem mesmo a calhar.

Não conseguira comer a maior parte da refeição que preparara para o almoço. Nem ele, conforme reparara. Sabia, por isso, que era tempo de ingerir qualquer tipo de alimento. Só não tinha a certeza de conseguir fazê-lo na presença dele.

Encaminharam-se para junto das janelas. Julian pousou o tabuleiro sobre um armário antigo e, encostados ao parapeito poeirento, cada um pegou na sua caneca de Darjeeling e ficou à espera que o outro falasse.

- Está a acontecer - disse Julian, olhando para a porta por onde entrara, ao fundo da galeria. Durante o que pareceu um lapso de tempo demasiado longo, ele pareceu examinar atentamente o falcão dos Britton, uma escultura de madeira, ornada e coberta de sujidade, colocada sobre a ombreira da porta.

- Nunca teria conseguido nada disto sem ti, Sam. Tem sido muito simpático da tua parte.

- Precisamente as palavras que uma mulher anseia ouvir - replicou Samantha. - Muito obrigada.

- Bolas. Não quis...

- Deixa lá. - Samantha bebericou o chá. Os seus olhos mantiveram-se fixos na superfície leitosa. - Porque é que não me contaste, Julie? Pensava que éramos amigos.

Ao lado dela, ele continuava a beber o seu chá. Samantha tentou dissimular uma expressão de desagrado.

- Não te contei o quê? E nós somos amigos. Eu, pelo menos, assim o espero, ou seja, quero que sejamos amigos. Se não estivesses aqui, já teria desistido de tudo há muito tempo. És praticamente a minha melhor amiga:

- Praticamente - disse ela. - Esse limbo.

- Sabes muito bem o que eu quero dizer.

E o problema é que sabia, de facto. Sabia o que ele estava a dizer, o que queria dizer e como se sentía. Queria agarrá-lo pelos ombros e abaná-lo até que ele entendesse o que significava a existência de uma comunicação silenciosa entre eles. Não conseguindo fazê-lo, no entanto, dispôs-se a descobrir parte da verdadeira história que ocorrera entre o primo e Nicola, ignorando realmente o que iria fazer com os factos quando estivesse na sua posse, se é que alguma vez chegaria a conhecê-los.

- Não fazia a mais pequena ideia de que estavas sequer a pensar pedir Nicola em casamento, Julie. Quando a polícia tocou no assunto, fiquei sem saber o que pensar.

- Sobre o quê?

- Sobre as razões por que não me contaste nada. Primeiro, que o pedido em casamento. E depois que ela tinha recusado.

- Para ser franco, tinha esperanças em que ela reconsiderasse.

- Oxalá me tivesses dito alguma coisa.

- Porquê?

- Teria tornado as coisas... mais fáceis, suponho eu.

Ao ouvir estas palavras, ele virou-se. Ela sentia o olhar dele pousado sobre ela e começou a sentir-se inquieta.

- Mais fáceis? De que maneira é que o facto de saberes que eu tinha pedido Nicola em casamento e que ela tinha recusado teria facilitado alguma coisa? E para quem?

As palavras dele soaram cautelosas, cuidadosas pela primeira vez, o que a fez responder com idêntica cautela.

- Para ti, é claro. Passei o dia de terça-feira com a sensação de que algo estava errado. Se me tivesses dito alguma coisa, eu podia ter- te dado algum apoio. Não deve ter sido fácil com certeza, ficar à espera na terça-feira à noite e depois na quarta. Suponho que não deves ter pregado olho nem por um minuto.

Silêncio durante um momento terrivelmente longo. Depois, em voz baixa:

- Foi, sim. É verdade.

- Pois bem, nós podíamos ter conversado sobre isso. É bom conversar, não achas?

- Conversar teria... Não sei, Sam. Tínhamos estado tão próximos, eu e ela, nas últimas semanas. Foi uma sensação tão boa. E eu...

Samantha sentiu algum alento ao ouvir aquelas palavras.

-... acho que não quis fazer nada que pudesse destruir essa proxi midade, que pudesse afastá-la. Não que isso tivesse acontecido se eu tivesse conversado contigo, porque sei que não irias dizer-Lhe que tínhamos conversado.

- Claro que não - respondeu Samantha com tristeza.

- Eu sabia que as probabilidades de ela reconsiderar eram muito reduzidas. Mesmo assim, tinha esperanças que isso acontecesse. E tinha a impressão que se dissesse alguma coisa sobre o que se estava a passar, seria como fazer rebentar uma bolha. Uma patetice, eu sei. Mas aí tens.

- Traduzir as tuas esperanças em palavras. Sim, compreendo.

- Acho que a verdade é que eu não conseguia enfrentar a realidade. Não conseguia encarar de frente o facto de que ela não me queria da mesma maneira que eu a queria. Como amigo, teria funcionado. E até como amante, quando ela vinha aos Peaks. Mas nada mais do que isso.

Espetou o garfo num pedaço de bolo. Estava a comer tão pouco como ela. Por fim, colocou o prato no parapeito da janela.

- Viste o eclipse? - perguntou.

Ela franziu as sobrancelhas e depois lembrou-se. Parecia que tudo acontecera há muito tempo.

- Não me pareceu que fosse divertido esperar por ele sozinha. Acabei por não ir.

- Ainda bem. Não gostaria que acabasses por te perder na charneca.

- Ora, seria pouco provável que isso acontecesse, não achas? Era só Eyam Moor. E mesmo que tivesse sido noutro lugar, já fui até lá vezes suficientes para saber sempre onde estou... - deteve-se. Olhou para o primo. Ele não estava a olhar para ela, mas o seu rubor natural traiu-o. - Ah, já percebi. É isso que estás a pensar?

- Desculpa - a voz dele soou triste. - Não consigo deixar de pensar no assunto. E a vinda da polícia só tornou tudo ainda pior. Só consigo pensar no que aconteceu com ela. Não consigo tirá-lo da cabeça.

- Experimenta fazer como eu - sugeriu, depois de uma batida cardíaca que ressoou nos seus ouvidos. - Há tantas maneiras de manter a cabeça ocupada. Tenta concentrar-te, por exemplo, no facto de as cadelas terem parido sozinhas durante algumas centenas de milhares de anos. É fantástico, isso. Uma pessoa é capaz de ficar a pensar nisso durante horas. Só essa ideia pode encher a cabeça de uma pessoa até não haver espaço para mais nada.

Julian continuou imóvel. A sua opinião ficara bem clara.

- Onde estavas na terça-feira à noite, Sam? - murmurou. - Diz-me.

- Estava a matar Nicola Maiden - disse Samantha, pondo-se de pé e voltando para junto da lareira. - Gosto sempre de terminar os meus dias com um pequeno crime.

A MKR Financial Management ficava situada num edifício que fazia lembrar uma guloseima em tons de rosa- pálido, na esquina de Lansdowne Road com St. John's Gardens. A cobertura decorativa era constituída por madeiras trabalhadas de tal modo imaculadas que Barbara Havers imaginou um lacaio armado de espanador levantando-se todos os dias às cinco da manhã para esfregar vigorosamente as colunas falsas que ladeavam a entrada e os medalhões de gesso que encimavam o alpendre.

- Ainda bem que ainda temos a máquina do chefe - murmurou Nkata enquanto estacionava junto do passeio do outro lado da rua.

- Porquê? - perguntou Barbara.

- Não destoamos.

Com um movimento de cabeça indicou um carro cuja traseira subia a entrada lateral da guloseima rosa. Era um Jaguar prateado. Podia perfeitamente ser primo direito do Bentley. Um Mercedes preto estava estacionado em frente ao edifício, encaixado entre um Aston-Martin e um Bristol model antigo.

- Estamos decididamente fora do nosso âmbito financeiro - disse Barbara, saindo do carro. - Mas ainda bem. Também não queríamos ser ricos. As pessoas com cacau morrem sempre sufocadas.

- Acreditas nisso, Barbara?

- Não, mas sinto-me mais feliz se fingir que acredito. Anda lá. Estou a precisar de uma gestão financeira à séria e algo me diz que viemos bater a um sítio onde isso pode acontecer.

Tinham de tocar a uma campainha para entrar. Nenhuma voz quis saber quem estava à porta, mas ela tão-pouco era necessária dado que o sistema de segurança altamente sofisticado do edifício incluía uma câmara de vídeo colocada estrategicamente sobre a entrada principal. Não fosse dar-se o caso de alguém estar a observá-los, Barbara sacou o distintivo e exibiu-o diante da câmara. Talvez em resposta, a porta abriu-se com um zumbido.

Um vestíbulo com chão em madeira de carvalho transformava-se num corredor silencioso ladeado por portas fechadas e coberto por uma carpete persa que se prolongava a todo o seu comprimento. Ao fundo, a recepção consistia numa pequena sala profusamente decorada com antiguidades e ainda mais adornada por fotografias emolduradas em caixilhos prateados. Não havia ninguém presente, apenas um sofisticado sistema telefónico que, aparentemente, recebia todas as chamadas automaticamente e as encaminhava depois para o respectivo destinatário. A central telefónica estava colocada numa secretária em forma de rim sobre a qual estava espalhada uma dezena de brochuras com o logótipo da MKR impresso a ouro na primeira página. A aparência era muito tranquilizante, o género de lugar a que uma pessoa não se importaria de ir a fim de discutir um assunto tão delicado como a sua situação financeira.

Barbara aproximou-se das fotografias para examiná-las com mais atenção. Reparou que o mesmo homem e a mesma mulher apareciam em todas elas. Ele era baixo e tinha uma aparência seca e angelical. Os cabelos finos intensificavam ainda mais a sua aura celestial. A companheira era mais alta, loura e magra como uma perturbação alimentar ambulante. A sua beleza assemelhava-se à das manequins: expressão ausente e toda ela maçãs de rosto e lábios. Os fotógrafos eram típicos da Hello! apresentando os temas acompanhados de uma legião de tipos bem-sucedidos, políticos e celebridades. Entre eles figurava um antigo primeiro- ministro, e Barbara não teve dificuldade em identificar cantores líricos, estrelas de cinema e um famoso senador americano.

Uma porta abriu-se e fechou-se algures no corredor. As tábuas do soalho rangeram à medida que alguém caminhava ao longo da carpete persa, na direcção da recepção. Ouviu-se o som de saltos pisando uma zona descoberta do chão de madeira e logo depois uma mulher entrou na sala para cumprimentá-los. Bastou um rápido olhar para que Barbara percebesse que uma das duas personalidades fotografadas viera pessoalmente inteirar-se das razões que levavam a bófia a bater-lhes à porta.

Chamava-se Tricia Reeve e era directora-adjunta da MKR Financial Management. Em que poderia ajudá-los?

Barbara apresentou-se e Nkata imitou-a. Perguntaram à mulher se podiam roubar alguns minutos do seu tempo.

- Claro que sim - respondeu educadamente Tricia Reeve. Barbara, no entanto, não pôde deixar de notar que a directora-adjunta da MKR Financial Management não acolhera as palavras Scotland Yard CID com a devoção de um crente fervoroso. Em vez disso, o seu olhar oscilou entre os dois detectives como mercúrio nervoso, pousando ora num ora noutro como se não estivesse certa do comportamento a adoptar. Os seus olhos pareciam negros, mas uma observação mais atenta revelava que as pupilas estavam de tal modo dilatadas que deixavam apenas visível uma estreita orla de íris. O efeito era desconcertante, mas era também revelador. Drogas, concluiu Barbara. Ora, ora, ora. Não admirava que estivesse com os nervos em franja, com os chuis à porta.

Tricia Reeve consultou o relógio durante alguns instantes. Tinha uma bracelete dourada e cintilava dispendiosamente sob a luz da sala.

- Estava mesmo a preparar-me para sair - disse -, por isso espero que não demorem muito tempo. Tenho de assistir a um chá no Dorchester. É um chá de beneficência, e como sou membro do comité... Espero que compreendam. Há algum problema?

Homicídio era certamente um problema, pensou Barbara. Deixou que fosse Nkata a fazer as honras e ficou a observar as reacções.

Houve só uma: perplexidade. Tricia Reeve olhou para Nkata como se não o tivesse ouvido bem. Passados uns instantes, disse:

- Nicola Maiden? Assassinada?

Em seguida, acrescentou num tom de voz muito estranho:

- Tem a certeza?

- Os pais da rapariga identificaram o corpo.

- O que eu quis dizer foi se tinham a certeza de que ela tinha sido assassinada?

- Não nos parece que ela tenha esmagado o seu próprio crânio, se é isso que está a perguntar - interveio Barbara.

O comentário provocou uma reacção, ainda que limitada. Uma das mãos bem cuidadas de Tricia Reeve apertou o primeiro botão do casaco do saia-casaco. Era um casaco risca de giz que fazia conjunto com uma saia da largura de um lápis que deixava entrever umas pernas intermináveis.

- A questão é a seguinte - disse Barbara: - A Faculdade de Direito informou-nos de que ela veio trabalhar convosco, no Outono passado, inicialmente a tempo parcial e, a partir de Maio, a tempo inteiro. Deduzimos que ela estaria de férias durante o Verão. É assim, ou não?

Tricia olhou de soslaio para uma porta fechada atrás da secretária da recepção.

- O melhor será falarem com Martin.

Dirigiu-se à porta, bateu uma vez e entrou, fechando-a atrás de si sem tornar a proferir palavra.

Barbara olhou para Nkata.

- Mal posso esperar pela tua análise, filho.

- Está atestada como o armário de um farmacêutico - respondeu ele, sucinto.

- Lá a planar está ela. É o quê, na tua opinião?

Ele agitou uma das mãos.

- Seja o que for, ela está a curtir.

Passaram quase cinco minutos antes que Tricia reaparecesse. Durante esse tempo, os telefones não pararam de tocar e as chamadas continuaram a ser encaminhadas. Do outro lado da maciça porta fechada, era possível ouvir um murmúrio de vozes. Quando esta se abriu, por fim, um homem surgiu na frente deles. Era o Cabelo de Anjo que aparecia na fotografia, vestido com um elegante fato completo cinzento-antracite. Suspensa sobre a zona central do colete via-se uma pesada corrente de ouro de um relógio de bolso. Disse que se chamava Martin Reeve. Era o marido de Tricia, disse-lhes, e director da MKR.

Convidou Barbara e Nkata a entrarem no seu gabinete. A mulher estava prestes a sair para o chá, explicou. A polícia iria precisar dela? Porque na qualidade de responsável máxima pela angariação de fundos para a Children in Need, tinha uma obrigação para com o seu comité: a de estar presente no Chá de Outono no Dorchester. Era o primeiro evento da temporada e se Tricia não fosse a presidente, a sua presença não seria tão crucial. Não era o caso, no entanto, e a lista de convidados encontrava-se na mala do carro dela. E sem essa lista, os lugares atribuídos aos convidados para o chá não poderiam ser distribuídos. Reeve esperava que a polícia compreendesse... Exibiu uma fileira de dentes perfeitos na direcção deles: direitos, brancos e cobertos por uma coroa dentária, eram o testemunho do triunfo de um homem sobre as vicissitudes da genética dental.

- Claro que sim - concordou Barbara. - Não podemos permitir que uma Ilustre Plebeia fique sentada ao lado da Fina Flor. Desde que Mrs. Reeve esteja disponível noutra altura, se precisarmos de conversar com ela...

Reeve assegurou-lhes que tanto ele como a mulher compreendiam a gravidade da situação.

- Querida...

Com um aceno de cabeça, fez sinal a Tricia para que saísse. Ela deixara-se ficar de pé, hesitante, junto à secretária dele, um móvel maciço em mogno e latão com uma aplicação de pele cor de vinho no tampo. Logo que o marido lhe fez sinal, preparou-se para sair da sala, mas não antes de ele a obrigar a parar para um beijo de despedida. Ela teve de se dobrar para lhe fazer a vontade. Os saltos deixavam-na uns bons dois centímetros mais alta do que ele.

Isso, no entanto, não lhes causava quaisquer dificuldades. O beijo foi um tudo nada prolongado de mais.

Barbara observou-os, pensando que aquela era uma táctica inteligente da parte deles. Os Reeve não eram amadores quando se tratava de ganhar vantagem. A única dúvida era: por que razão quereriam eles ganhar vantagem?

Apercebeu-se de que Nkata estava a sentir-se tão desconfortável como eles pretendiam com aquela inesperada e prolongada demonstração de afecto. O colega apoiava-se ora num pé ora noutro enquanto, de braços cruzados sobre o peito, tentava decidir para onde devia olhar. Barbara sorriu. Graças à sua estatura impressionante e ao seu guarda-roupa, igualmente impressionante, e apesar de ter passado a adolescência como principal conselheiro de guerra do mais notório dos bandos de delinquentes de Brixton, ela por vezes esquecia-se de que Winston Nkata era, de facto, um miúdo de vinte e cinco anos que ainda vivia em casa dos pais. Pigarreou baixinho, obrigando-o a olhar para ela. Com um movimento de cabeça indicou a parede atrás da secretária, onde estavam pendurados dois diplomas. Ele olhou na direcção que ela lhe indicava.

- O amor é belo - murmuroú em voz baixa. - Temos de mostrar respeito.

Os Reeve deram por terminado o contacto boca a boca.

- Até logo, querida - sussurrou Martin Reeve.

Barbara olhou para Nkata com uma expressão de impaciência e examinou os dois diplomas que estavam pendurados na parede. Stanford University e London School of Economics. Ambos passados a Martin Reeve. Barbara fitou-o com um interesse renovado e com um pouco mais de respeito. Exibi-los era uma vulgaridade - não que Reeve alguma vez fosse capaz de ceder à vulgaridade -, mas o certo é que o tipo não era nenhum calaceiro em matéria de inteligência.

Reeve despediu-se da mulher. De dentro do bolso tirou um lenço de linho branco como a neve, com o qual limpou os vestígios de batom rosa-pálido que ela lhe deixara no rosto.

- Desculpem-nos - disse ele com um sorriso juvenil. - Vinte anos de casamento e a chama ainda arde com a mesma intensidade. Têm de convir que não é nada mau para duas pessoas de meia-idade com um filho de dezasseis anos. Aqui está ele, aliás. Chama- se William. Parece-se com a mãe, não acham?

A inflexão que ele deu à palavra mãe revelou a Barbara aquilo que o diploma de Stanford, as antiguidades, as molduras de prata e o cuidado sotaque tinham apenas sugerido.

- É americano? - perguntou a Reeve.

- Nasci na América, mas há anos que não vou lá - Reeve indicou a fotografia com um movimento de cabeça. - O que é que acham do nosso William?

Barbara olhou de relance para a fotografia e viu um rapaz com um rosto cheio de sinais, a altura da mãe e o cabelo do pai. Todavia, viu também o que era suposto que visse: o fraque e as calças riscadas típicos dos alunos de Eton. Ora, ora, ora, pensou Barbara e passou a fotografia a Nkata.

- Eton - disse, esforçando-se por denunciar a dose certa de admiração. - Deve ser um cérebro e tanto.

Reeve parecia satisfeito.

- É um génio. Sentem-se, por favor. Posso oferecer-vos um café? Ou uma bebida? Mas suponho que não bebem enquanto estão de serviço não é verdade?

Recusaram tudo o que ele lhes ofereceu e foram direitos ao assunto. Tinham sido informados de que Nicola Maiden era funcionária da MKR Financial Management desde Outubro do ano anterior.

Estava correcto, confirmou Reeve.

Trabalhava como estagiária?

Correcto também, concordou Reeve.

O que era isso exactamente? Estava a estagiar para quê? Gestora de investimentos, disse Reeve. Nicola estava a preparar-se para vir a ser capaz de gerir carteiras financeiras: acções, títulos, fundos de mutualidades, derivativos, holdings offshore... a MKR geria os investimentos de alguns dos principais agentes do mercado. Com total discrição, obviamente.

Óptimo, disse Barbara. Tinham, por isso, deduzido que Nicola continuara a trabalhar para ele até ter pedido uma licença sem vencimento para ir trabalhar com um advogado em Derbyshire durante o Verão. Mr. Reeve gostaria de...

Reeve impediu-a de prosseguir.

- Nicola não pediu nenhuma licença sem vencimento à MKR. Despediu- se no fim de Abril. Ia mudar-se para o Norte, segundo disse.

- Mudar de casa? - repetiu Barbara.

Como explicar, então, a morada que ela deixara à senhoria da casa de Islington e para onde o correio devia ser encaminhado? perguntou a si própria. Um endereço em Fulham dificilmente ficava a norte fosse do que fosse, a não ser do rio.

- Foi o que ela me disse - insistiu Reeve. - Devo concluir que ela deu uma explicação diferente a outras pessoas? - brindou-os com um sorriso exasperado. - Bom, para ser franco, não é algo que me surpreenda. Descobri que, por vezes, Nicola era um pouco negligente com os factos. Não era uma das suas melhores qualidades. Se ela não se tivesse despedido, eu provavelmente tê-la-ia dispensado. Tinha as minhas... - juntou as pontas dos dedos. - Eu tinha as minhas dúvidas quanto à capacidade dela para ser discreta. E a discrição é crucial nesta actividade. Nós representamos algumas personalidades de grande proeminência e, dado que temos acesso a todos os seus dados financeiros, é forçoso que eles dependam da nossa capacidade para ser circunspectos relativamente às informações de que dispomos.

- E Nicola Maiden não era? - perguntou Nkata.

- Não digo que não fosse - apressou-se a dizer Reeve. - Nicola era rápida e viva, que não haja enganos quanto a isso. Mas havia algo nela que precisava ser controlado. E eu controlava. Ela era excelente com os nossos clientes, o que certamente só abonava em favor dela. Mas tinha uma tendência para ser um pouco... bom, talvez impressionável seja a melhor palavra. Ela estava bastante impressionada com o valor de algumas contas. E nunca é boa ideia transformar o quanto-vale-Sir-Qualquer Coisa? no tema de conversa de um almoço com colegas.

- E havia algum cliente a quem ela dedicasse um tratamento especial?

- perguntou Barbara. - Alguém com quem ela trabalhasse fora do horário normal de trabalho?

Os olhos de Reeve semicerraram-se.

- Onde é que pretende chegar?

Nkata mordeu o isco.

- A rapariga tinha um amante aqui na cidade, Mr. Reeve. E nós estamos à procura dele.

- Não sei nada sobre nenhum amante. Mas se Nicola de facto tinha um, o mais provável é que o descubram na Faculdade de Direito.

- Disseram-nos que ela tinha deixado a Faculdade de Direito para vir trabalhar convosco a tempo inteiro.

Reeve pareceu ofendido.

- Espero que não esteja a sugerir que Nicola Maiden e eu...

- Bem, ela era uma mulher atraente.

- Tal como é a minha mulher.

- Será que a sua mulher teve alguma coisa que ver com a saída dela da empresa? É estranho. Nicola Maiden deixa o curso de Direito para trabalhar para si a tempo inteiro, mas entretanto despede-se praticamente na mesma semana. Porque terá ela feito isso, na sua opinião?

- Já vos disse. Ela disse que ia mudar-se para Derbyshire...

-... onde foi trabalhar para um tipo que nos disse que ela tinha um homem em Londres. Sendo assim, a minha dúvida é se esse homem de Londres é ou não o senhor.

Barbara olhou para Nkata com admiração. Agradava-lhe que ele estivesse disposto a ir direito ao assunto.

- Acontece que eu estou apaixonado pela minha mulher - disse Reev num tom cauteloso. - Tricia e eu estamos juntos há vinte anos, e se julgam que eu iria pôr em risco tudo o que temos em troca de uma aventura ocasional com uma universitária, estão enganados.

- Não há nada que sugira que se trata de uma aventura ocasional disse Barbara.

- Ocasional ou todas as noites da semana - contrapôs Reeve. - Não estava interessado em manter uma ligação com Nicola Maiden.

Pareceu ficar tenso à medida que os seus pensamentos seguiram subitamente noutra direcção. Inspirou rapidamente e pegou num abre- cartas de prata que estava pousado no centro da secretária.

- Alguém vos disse o contrário? - quis saber. - O meu bom nome anda a ser difamado por alguém? Insisto em saber. Porque se assim é, falarei com o meu advogado.

Decididamente, era americano, pensou Barbara com lassidão.

- Conhece um rapaz chamado Terry Cole, Mr. Reeve? - perguntou Barbara.

- Terry Cole? C-o-L-e? Percebo - enquanto falava, Reeve pegou numa caneta e num bloco de folhas e rabiscou o nome. - Então, é ele o sacana que disse que...

- Terry Cole está morto - interrompeu Nkata. - Ele não disse nada. Morreu com Nicola Maiden em Derbyshire. O senhor conhecia-o?

- Nunca tinha ouvido falar nele. Quando perguntei quem vos tinha dito... Oiçam, Nicola está morta e eu lamento que assim seja. Mas não a vejo desde o final de Abril. Não falo com ela desde o final de Abril. E se alguém está a manchar o meu bom nome, tenciono tomar todas as medidas necessárias para apanhar o sacana e fazê-lo pagar por isso.

- É assim que costuma reagir quando está zangado? - inquiriu Barbara.

Reeve pousou a caneta.

- A entrevista terminou.

- Mr. Reeve...

- Por favor, saiam. Já vos dispensei um pouco do meu tempo e já vos disse o que sei. Se julgam que vou prestar-me ao papel de lorpa da polícia e ficar aqui sentado enquanto os senhores tentam conduzir-me à via da auto-incriminação.

Apontou para ambos, e Barbara reparou que as suas mãos eram inusi tadamente pequenas, as articulações marcadas por uma miríade de cicatrizes entrecruzadas.

- Os senhores têm de ser menos óbvios - disse. - E agora saiam, por favor: Imediatamente.

Não lhes restava outra alternativa a não ser aceder ao pedido dele. Como bom ianque expatriado que era, o seu passo seguinte seria, certamente, telefonar ao advogado e acusá-los de perseguição. Não fazia sentido forçar mais as coisas nesta fase.

- Bom trabalho, Winston - disse Barbara depois de o colega ter aberto o Bentley e de terem entrado no carro. - Puseste-o na linha num abrir e fechar de olhos.

- Seria um disparate desperdiçar o nosso tempo - contemplou o edifício. - Pergunto a mim próprio se haverá mesmo uma actividade de beneficência a favor do Children in Need no Dorchester, hoje.

- Deve haver alguma coisa nalgum lado. Ela estava bem aperaltada, não achas?

Nkata olhou para Barbara. O olhar dele passeou pelas roupas dela com uma expressão de pesar.

- Com todo o respeito, Barb...

Ela riu.

- Está bem, está bem. Que percebo eu sobre o assunto? Ele deu uma gargalhada e ligou o carro. Quando se afastavam do passeio, disse:

- Cinto de segurança, Barb.

- Oh, claro - retorquiu Barbara e virou- se para agarrar no cinto. E foi nesse momento que viu Tricia Reeve. A directora-adjunta da MKR não se aproximara sequer do Dorchester, segundo parecia. Depois de contornar furtivamente o edifício, subiu apressadamente os degraus da entrada e foi direita à porta principal.

 

                       CAPÍTULO 11

Mal os dois polícias saíram do seu gabinete, Martin Reeve premiu o botão de chamada, encastrado numa das prateleiras onde estava disposta a sua colecção de fotografias de Henley. Do mesmo modo que os falsos diplomas universitários faziam parte da História de Martin Reeve, também as fotografias de Henley eram uma peça fundamental do romance Martin e Tricia Reeve. Faziam parte da história que ambos tinham inventado, segundo a qual os dois se tinham conhecido na Regata. Havia tanto tempo que contava a história apócrifa daquele primeiro encontro que ele próprio começava a acreditar nela.

A resposta à sua chamada chegou em menos de cinco segundos, um recorde. Jaz Burns entrou no gabinete sem bater.

- Uma verdadeira vaca - disse com um sorriso afectado. - Imagina como seria saltar-lhe para cima, Marty. Algo que não esquecerias tão cedo.

No seu gabinete instalado nas traseiras da casa, Jaz tinha o hábito de se armar em Bisbilhoteiro recorrendo ao equipamento de vigilância montado no gabinete de Martin. Tinha uma incómoda tendência para o voyeurismo, que Martin estava disposto a ignorar em troca dos seus outros talentos.

- Segue-os - disse Martin.

- Aos chuis? Ora aí está uma novidade. Que é que se passa?

- Falamos disso mais tarde. Agora faz o que te peço. Perspicaz como era, Jaz sabia ler nas entrelinhas. Com um movimento rápido de cabeça, agarrou na chave do Jaguar e saiu silenciosamente da sala. Todavia, não tinham passado ainda quinze segundos desde que a porta se fechara quando foi aberta novamente.

Martin voltou-se, agitado, soltando um Raios te partam, Jaz, pronto para repreender o subordinado pelo desperdício de tempo que o levaria a perder o rasto dos polícias antes mesmo de estes terem começado a largá-lo. Mas era Tricia e não o duende Burns quem estava à porta. Pela expressão do rosto dela, Martin percebeu que uma Cena se perfilava no horizonte.

Merda, queria ele dizer, agora não. Naquele momento, não tinha forças para acalmar nenhum dos ataques de Nervoseira de Tricia.

- Que estás a fazer aqui? Devias estar num chá de beneficência, Tricia.

- Não fui capaz - fechou a porta atrás de si.

- Não foste capaz como? Há pessoas à tua espera. Este chá está planeado há meses. Puxei meia-dúzia de cordelinhos para que fosses aceite naquele comité, e se fazes parte do comité é suposto que compareças. És tu que tens a maldita lista, Patricia. Como é que aquelas mulheres vão conseguir realizar este evento, e, por falar nisso, como é que nós vamos manter o nosso bom nome, se tu não consegues aparecer a horas com a planta das mesas?

- O que é que lhes contaste acerca de Nicola?

Ele pronunciou a palavra merda por entre um suspiro.

- É por isso que aqui estás? Estou a perceber bem? Não conseguiste cumprir o teu papel de apoiante declarada e inequívoca de uma das mais nobres causas do Reino Unido, porque queres saber o que eu disse aos chuis sobre uma maldita puta que está morta?

- Não gosto desse tipo de linguagem.

- A que parte te referes, exactamente? Maldita? Morta? Puta? Vamos lá esclarecer isto, porque neste preciso momento quinhentas mulheres bem como os fotógrafos de todas as publicações do país estão à espera que tu apareças, e só Deus sabe que tu não vais conseguir aparecer se não esclarecermos que parte da minha linguagem te incomoda.

- O que é que lhes disseste?

- Disse-lhes a verdade.

Estava tão irritado que quase sentiu prazer ao observar a expressão horror estampada no rosto dela.

- O quê? - a voz soou rouca.

- Que Nicola Maiden era uma estagiária na área de gestão financeira e Que foi embora em Abril passado. Que se ela não tivesse saído por sua livre e espontânea vontade, eu próprio a teria despedido.

Tricia relaxou visivelmente. Martin prosseguiu. Preferia de longe que a mulher estivesse tensa.

- Adoraria saber para onde foi aquela cabra depois de ter saído de cá e com alguma sorte jaz há-de trazer-me essa informação dentro de pouco tempo. Não há nada mais previsível do que um chui. Se ela tinha casa em Londres - e o meu dinheiro diz que sim -, os chuis vão levar-nos direitinhos ao sítio certo.

Para grande satisfação de Martin, a tensão tornou a instalar-se no espaço de um instante.

- Para que queres tu saber isso? O que é que vais fazer?

- Nã gosto de faltas de respeito, Patricia. Tu devias ser a primeira a saber disso. Não gosto que me mintam. A confiança é a base de todas as relações, e se eu me deixar ficar de braços cruzados quando alguém quer lixar-me, é o mesmo que deixar a porta aberta para todos os que queiram enganar Martin Reeve. Ora bem, eu não vou permitir que isso aconteça.

- Dormiste com ela, não foi? - o rosto de Tricia estava pálido.

- Não sejas parva.

- Estás convencido que eu não consigo adivinhar. Passas a vida a dizer para ti próprio, A querida Trish passa metade do tempo pedrada até à raiz dos cabelos. Como iria ela reparar nalguma coisa? " Mas reparo, sim. Vi a forma como olhavas para ela. Soube quando aconteceu.

Martin suspirou.

- Precisas de uma dose. Desculpa-me por ser tão grosseiro, minha querida. Sei que preferias evitar o assunto, mas a verdade é que ficas sempre apanhada das ideias quando entras em carência demasiado depressa. Precisas de outra dose.

- Eu sei como tu és.

A voz dela estava a subir de tom, e ele interrogou-se futilmente sobre se conseguiria manejar a seringa sem a colaboração dela. Que doses andaria ela a consumir exactamente? Mesmo que fosse capaz de manusear a agulha e a seringa, a última coisa de que precisava era que a mulher entrasse em coma.

- Sei que gostas muito de ser o chefe, Martin. E que melhor maneira de provares que és tu quem mandas do que pedir a uma estudante qualquer que baixe as cuecas para depois ficar a ver com que rapidez ela está disposta a fazê-lo.

- Tricia, isso é um disparate inimaginável. Tens a noção do que estás a dizer?

- Dormiste com ela, então. E depois ela foi-se embora. Evaporou- se. Desapareceu. - Tricia estalou os dedos. Muito fragilmente, conforme reparou Martin. - E tu não gostaste, pois não? E nós dois sabemos como reages quando não gostas de alguma coisa.

E por falar nisso... Martin estava desejoso de lhe bater. Tê-lo-ia feito se não tivesse a certeza de que, drogada ou não, ela correria de imediato para casa do paizinho e contar-lhe-ia tudo. E se o fizesse, o paizinho faria determinadas exigências. Primeiro, a desintoxicação. Depois, o divórcio. Nenhuma destas opções eram aceitáveis para Martin. O casamento com uma herdeira

- não importava que o dinheiro proviesse de um próspero negócio de anti guidades e não tivesse passado de geração em geração, à melhor maneira aristocrática - granjeara-lhe um grau de aceitação social que ele jamais teria comnquistado enquanto simples imigrante, por mais bem-sucedidos que fossem os seus negócios. E ele não fazia tenções de abdicar dessa aceitação social.

- Podemos discutir este assunto mais tarde - disse ele, consultando rapidamente o relógio de bolso. - Ainda tens hipótese de chegar ao chá, sem que ambos soframos uma humilhação total. Dizes que foi o trânsito que te atrasou. Um peão foi atropelado em Notting Hill Gate, tu paraste para segurar a mão do homem - não, é preferível que seja uma mulher ou uma criança - enquanto a ambulância não chegava. Já agora, se puxares um fio das meias, a história poderá parecer ainda mais verdadeira.

- Não me despaches como se eu fosse uma puta estúpida.

- Então, pára de te comportares como se fosses uma. Respondeu sem pensar e arrependeu-se imediatamente. Que tinha ele a ganhar em transformar uma discussão idiota numa briga violenta?

- Meu amor - disse, tentando uma reconciliação -, vamos parar com este despique. Estamos a deixar-nos perturbar por uma simples e rotineira visita da polícia. E no que diz respeito a Nicola...

- Há meses que não fazemos nada, Martin.

Ele prosseguiu, imperturbável.

-... a morte dela é uma circunstância infeliz, o seu assassínio é uma infelicidade, mas uma vez que não estamos envolvidos em nada do que Lhe aconteceu...

- Nós. Não fazemos. Sexo. Desde. Junho - a voz dela elevou-se. Ouves-me? Estás a ouvir o que te estou a dizer?

- Estou a fazer as duas coisas - replicou ele. - E se tu não estivesses pedrada a maior parte do dia, verias como a tua memória ia melhorar.

Estas palavras silenciaram-na, felizmente. Afinal, ela estava tão interessada como ele em pôr fim ao casamento de ambos. Ele. servia um propósito na vida dela, que lhe era tão necessário como a finalidade que ela tinha na vida de Martin. Ele mantinha-lhe as linhas de abastecimento sempre abertas e garantia que o segredo dela permanecia bem guardado; ela, por sua vez, fazia aumentar a mobilidade social dele e assegurava junto aos seus pares o tipo de deferência que um homem demonstra perante outro, quando esse outro possui uma mulher bonita. Era nisto que ela queria acreditar. E, de acordo com a experiência de Martin, quando as pessoas queriam desesperadamente acreditar, convenciam-se a si próprias a acreditar em tudo. No caso presente, todavia, a crença de Tricia não estava longe da verdade. Com efeito, ele fizera sexo com ela quando ela estava drogada. O que não sabia era que ele preferia que assim fosse.

- Oh - murmurou ela, pestanejando e falando em voz mais

baixa. - Pois é - retorquiu ele. - Oh. Durante os meses de Junho, Julho e Agosto. E a noite passada também.

Ela engoliu em seco.

- A noite passada?

Ele sorriu. Tinha-a na mão.

Aproximou-se dela.

- Não vamos deixar que a polícia destrua o que existe entre nós, Eles estão à procura de um assassino, não vêm atrás de nós - roçou as articulações da mão direita pelos lábios dela. Pousando a mão esquerda sobre as nádegas da mulher, puxou-a para si. - Certo? Não é verdade que não é aqui que a polícia vai encontrar aquilo que procura?

- Tenho de cortar com o pó - sussurrou ela.

Ele encorajou-a com um beijo.

- Uma coisa de cada vez - disse.

No seu quarto, no Black Angel Hotel, Lynley trocou o fato e a gravata por umas calças de ganga, um par de botas de montanha e o velho casaco encerado que costumava usar na Cornualha, na propriedade do pai, falecido havia já muitos anos. Não tirou os olhos do telefone enquanto se vestia, ora ansiando para que ele tocasse ora desejando ser ele a fazer o telefonema.

Helen não deixara nenhuma mensagem. Quando ela não telefonara nessa manhã, atribuíra o seu silêncio à saída nocturna da véspera na companhia de Deborah St. James, que provavelmente a teria levado a permanecer na cama até mais tarde. Todavia, começava a sentir alguma dificuldade em encontrar justificação para um silêncio que, aparentemente, se prolongara pela tarde fora. Chegara a telefonar para a recepção a pedir que tornassem a verificar se alguém lhe deixara alguma mensagem, mas um exame escrupuloso aos compartimentos das chaves e aos caixotes de lixo mais não tinham produzido do que o que ele já sabia: a mulher não telefonara. Ninguém lhe telefonara, aliás. O silêncio do resto do mundo, todavia, era algo que não lhe interessava. O silêncio de Helen, sim.

À maneira das pessoas que acreditam que têm razão, reviu mental mente a conversa da manhã anterior. Procurou ideias subentendidas e implicações, mas por mais que analisasse a troca de palavras entre ambos, acabava sempre por sair em vantagem. Os factos eram a imagem clara da simplicidade. A mulher interferira na sua vida profissional e devia-lhe um pedido de desculpas por isso. Não lhe competia fazer suposições sobre decisões que ele tomava no exercício da sua profissão, do mesmo modo que ele não tinha qualquer direito de lhe dar instruções sobre o momento e a forma como devia assessorar St. James no laboratório deste. Na sua vida privada, ambos tinham como direitos adquiridos conhecer os anseios, resoluções e desejos mútuos. Na vida profissional de cada um, deviam um ao outro benevolência, consideração e apoio. Que a mulher - como ficava claramente demonstrado na sua recusa, inegavelmente perversa, em telefonar-lhe - não desejava aderir a esta forma de coexistência fundamental e sensata constituía para ele uma decepção. Conhecia Helen há dezasseis anos. Como era possível que tivesse passado todo aquele tempo sem a conhecer de facto?

Consultou o relógio. Espreitou pela janela e registou a posição do sol no céu. Ainda restavam umas boas horas de luz, pelo que não havia razão para sair a correr naquele preciso momento. Ciente disto e certo do trabalho que tais circunstâncias lhe permitiriam realizar, demorou-se um pouco mais certificando-se de que tinha uma bússola, uma lanterna e uma carta militar dentro dos diversos bolsos do casaco.

Esgotado o conjunto de tarefas possíveis, soltou um suspiro de derrota. Dirigiu-se ao telefone e marcou o número de casa. Podia sempre deixar-lhe uma mensagem, se ela tivesse saído, pensou. As medições de forças com o companheiro ou companheira têm uma duração limitada.

Ficou à espera de ouvir a voz de Denton. Ou o atendedor de chamadas. O que não esperava - pois se estava em casa, porque diabo não lhe telefonava - era ouvir a voz suave da mulher do outro lado da linha.

Ela perguntou quem estava ao telefone duas vezes. Ao fundo, conseguia ouvir o som de música. Era um dos seus novos CD de Prokofiev. Atendera a chamada na sala de estar.

Ele queria dizer, Olá, querida. Despedimo-nos zangados e estou desejoso de fazer as pazes contigo.

Em vez disso, porém, perguntou a si próprio como diabo conseguiria ela estar sentada em casa, deliciando-se com os discos dele, quando estavam zangados um com o outro? E eles estavam zangados, não estavam? Não era verdade que tinha passado a maiór parte daquele dia de trabalho esquivando-se com sucesso a uma análise obsessiva do desentendimento entre ambos, de tudo o que o provocara, dos indícios que fornecia sobre o passado, do que pressagiava para o futuro, da situação a que podia conduzi-los, se um dos dois não acordasse e tomasse consciência de que...

- Este é um comportamento muito indelicado da sua parte, seja o senhor quem for - disse Helen e desligou.

Lynley ficou agarrado a um auscultador desligado, sentindo-se muito pateta. Se tornasse a ligar-lhe de imediato iria sentir-se ainda mais pateta, concluiu. Estava decidido, então. Pousou o auscultador no descanso, tirou a chave do carro de polícia de dentro do bolso do casaco do fato e saiu do quarto.

Seguiu para nordeste, pela estrada que cavava uma garganta entre colinas calcárias sobre as quais se erguia Tideswell. O terreno formava um sifão natural naquela zona. O vento soprava em rajadas tão poderosas como a corrente impetuosa de um rio, fustigando ramos de árvores e revolteando folhas num prenúncio silencioso das primeiras chuvas da estação.

Ao chegar ao cruzamento, um conjunto de edifícios cor de mel assolavam o vilarejo de Lane Head. Aqui, Lynley virou para oeste, no sítio onde a estrada abria uma incisão escura que atravessava a charneca formando uma linha recta. Muros de pedra impediam que a urze, o arando e os fetos invadissem a estrada, mantendo a vegetação confinada aos limites dos caminhos.

Era uma região bravia. Mal deixou para trás o último vilarejo, os sinais de vida que Lynley conseguia entrever, para além da vegetação próxima, eram as gralhas, pegas e as ocasionais ovelhas que, serenas e formando uma espécie de nuvem, pastavam por entre os rosas e os verdes da paisagem.

O acesso à charneca era feito através de alguns degraus entre as vedações. Placas de sinalização assinalavam a localização de veredas, trilhadas há séculos pelos camponeses e pastores que viajavam entre vilarejos distantes. Trilhos para caminhantes e ciclistas constituíam, no entanto, uma presença mais recente na paisagem. Estes atravessavam a urze e desapareciam na direcção de elevações perdidas na distância e cobertas de líquenes, reminiscências de povoamentos pré-históricos, antigos locais de culto e fortes romanos.

Alguns quilómetros a nordeste do minúsculo vilarejo de Sparrowpit, Lynley encontrou o sítio onde Nicola Maiden deixara o Saab antes de seguir para a charneca. Aí, uma longa e nodosa extensão de muro era interrompida por um portão de ferro pintado de branco, a espessa camada de tinta carcomida em diversos pontos por manchas de ferrugem. À chegada, Lynley fez o que Nicola Maiden fizera: abriu o portão, avançou para um estreito caminho asfaltado que ficava do outro lado da entrada e estacionou o carro numa zona de terra batida, atrás do muro de pedra.

Consultou o mapa antes de sair do carro, abrindo-o sobre o assento do lado e colocando os óculos para ver melhor. Estudou o trajecto que teria de seguir para chegar a Nine Sisters Henge, tomando notas dos pontos de referência que Lhe seriam úteis ao longo do caminho. Hanken colocara um agente à sua disposição, mas ele recusara. Não se teria importado de ter por companhia um caminhante inexperiente, mas preferia não ser acompanhado por um elemento da polícia de Buxton, que muito possivelmente se sentiria ofendido - e comunicaria a Hanken esse sentimento - quando Lynley escrutinasse o local do crime com uma atenção que sugeriria que o CID local não realizara o trabalho que lhe competia.

- É a nossa última possibilidade de encontrar aquele malfadado pager e eu gostaria de a eliminar - dissera Lynley a Hanken.

- Se lá estivesse, os meus homens tê-lo-iam encontrado - replicara Hanken, recordando-lhe que a sua equipa tinha feito uma busca escrupulosa da arma do crime e teria certamente encontrado um pager no local, ainda que não tivesse conseguido descobrir uma faca. - Mas se isso o deixa mais descansado, vá em frente.

Quanto a ele, ia ter com Upman, antecipando com gosto o confronto com o advogado.

Certo do trajecto que devia seguir, Lynley dobrou o mapa e tornou a guardar os óculos no respectivo estojo. Enfiou o mapa e os óculos nos bolsos do casaco e saiu do carro para enfrentar o vento. Seguiu para sudeste, gola do casaco levantada e ombros encolhidos contra as rajadas de vento que sopravam na sua direcção. A faixa de caminho asfaltado prolongava-se na direcção que ele pretendia, e foi por aí que seguiu. Cerca de noventa metros mais à frente, no entanto, o caminho terminava num monte de pedras, formado na sua maioria por cascalho e alcatrão. A partir daí, o percurso tornava-se mais duro, formando um trilho irregular de terra e pedras, cortado por cursos de água, completamente secos depois de um Verão sem chuvas.

Demorou perto de uma hora a realizar o percurso, e fê-lo na mais completa solidão. O trajecto continuava ao longo de veredas cheias de pedras que se entrecruzavam com outras ainda mais cobertos de pedras. Avançou através de urze, tojo e fetos, escalou elevações calcárias e passou por dólmenes em ruínas.

No momento em que alcançava uma inesperada bifurcação, viu um caminhante solitário vindo de sudeste. Praticamente certo de que seguia na direcção de Nine Sisters Henge, Lynley deixou-se ficar onde estava, à espera de ver quem realizara uma visita de fim de tarde ao local do crime. Tanto quanto sabia, Hanken ainda mantinha o círculo de pedras isolado e sob vigilância. Por isso, se o caminhante fosse um jornalista ou um fotojornalista, teria retirado muito pouco prazer do seu longo passeio através da charneca.

Não era um homem, como veio a descobrir. Nem um jornalista ou fotojornalista. Em vez disso, à medida que a figura se aproximava, Lynley descobriu que, por alguma razão, Samantha McCallin decidira oferecer a si própria um passeio vespertino até Nine Sisters Henge.

Aparentemente, ela reconheceu-o no exacto momento em que ele a identificou, já que alterou o ritmo de marcha. Trazia um ramo de vidoeiro na mão, que usava para afastar a urze à medida que avançava ao longo da vereda. Quando viu Lynley, no entanto, atirou o ramo para o lado, endireitou os ombros e avançou direita a ele.

- É um local público - disse de imediato. - Podem isolar o círculo e colocar alguém a guardá-lo, mas não podem impedir as pessoas de caminharem pelo resto da charneca.

- Está a uma distância considerável de Broughton Manor, Miss.

- Não é costume dizer-se que o assassino volta sempre ao local do crime? Eu estou apenas a desempenhar esse papel. Quer prender-me?

- Gostaria que me explicasse o que está a fazer aqui? Olhou por cima do ombro, na direcção de onde viera.

- Ele acha que eu a matei. Tem graça, não tem? Eu defendo-o de

vós, e à tarde ele decide que fui eu quem a matou. Estranha forma de dizer Obrigado por tomares o meu partido, Sam, mas aí tem.

Podia ser o efeito do vento, obviamente, mas Lynley ficou com a impressão de que ela tinha estado a chorar.

- Que está a fazer por aqui, Miss McCallin? - perguntou. - Deve perceber que a sua presença...

- Queria ver o local onde morreu a fantasia dele.

O vento soltara uma parte do cabelo entrançado, e algumas madeixas finas esvoaçavam em torno do rosto dela.

- É claro que ele diria que a fantasia dele morreu na segunda-feira à noite quando a pediu em casamento. Mas eu não concordo. Acho que enquanto Nicola fosse viva, o meu primo julian nunca se teria libertado do desejo obsessivo de ter uma vida a dois com ela. Ia ficar à espera que ela mudasse de ideias. À espera que ela - como ele próprio diria - o visse realmente. E o mais engraçado é que, se ela tivesse estalado os dedos como deve ser - ou como não deve ser, aliás - ele tê-lo-ia interpretado como o sinal de que estava à espera, o sinal que comprovaria que ela o amava apesar de tudo o que tinha dito e feito em contrário.

- Não gostava dela, pois não? - quis saber Lynley.

Ela soltou uma gargalhada breve.

- Que importância tem isso? Ela ia conseguir o que queria, indepen dentemente da minha opinião sobre ela.

- A morte, foi isso que ela conseguiu. E é impossível que o tenha desejado.

- Ela tê-lo-ia destruído. Tê-lo-ia sugado até ao tutano. Era esse tipo de mulher.

- Ai era?

Os olhos de Samantha semicerraram-se quando uma rajada de vento fez esvoaçar alguns pedaços de terra.

- Estou contente por ela ter morrido. Não vou fingir o contrário. Mas o senhor está a cometer um erro se acha que eu sou a única pessoa que dançaria sobre a campa dela, caso tivesse oportunidade para isso.

- E quem mais o faria?

Ela sorriu.

- Não faço tenções de fazer o seu trabalho por si.

Dito isto, passou por ele e começou a descer a vereda em direcção à fronteira norte da charneca, o caminho que ele próprio fizera até ali. Perguntava a si próprio como teria ela vindo parar à charneca, já que não vira nenhum carro estacionado na berma quando abandonara a estrada. Perguntava-se também se ela estacionara o carro algures, quer porque ignorasse a existência da pequena faixa de terreno de terra batida atrás do muro de pedra, quer porque pretendesse ocultar que sabia da existência desse pedaço de terreno.

Ficou a observá-la, mas ela não se voltou para confirmar se ele estava a observá-la. Deve ter querido virar-se - era uma característica da natureza humana - e o facto de não o ter feito dizia muito sobre a sua autodisciplina. Ele retomou a sua caminhada.

Reconheceu Nine Sisters Henge pela pedra isolada - a King Stone, conforme fora informado - que assinalava a sua localização no meio de uma frondosa mata de vidoeiros. Alcançou o monumento vindo do lado oposto, todavia, e só se apercebeu de que tinha chegado quando depois de ter contornado a mata, consultou a bússola e deduziu que o círculo de pedras devia estar próximo. Foi então que se virou e viu o monólito coberto de marcas que se erguia ao lado de uma estreita vereda que desaparecia no meio das árvores.

Mãos enfiadas nos bolsos, reviu o caminho que percorrera. Encontrou o agente colocado pelo inspector Hanken a alguns metros do local, que o autorizou a passar por debaixo da fita que delimitava o local do crime e a aproximar-se da pedra-sentinela sozinho. Lynley parou ao lado dela e observou-a. Desgastada pelo tempo, como seria de esperar, evidenciava também marcas de erosão causadas pela acção humana. Em épocas passadas, alguém abrira veios na parte detrás da enorme coluna. Estes veios formavam suportes para as mãos e os pés e serviam de pontos de apoio a quem desejasse escalar até ao topo.

Que uso teria sido dado à pedra nos tempos antigos? interrogava-se Lynley. Uma forma de convocar a comunidade para reuniões? Como posto de observação de um responsável pela segurança dos xamãs que realizavam rituais no interior do círculo de pedras? Como retábulo de um altar sacrificial? Era impossível dizer.

Bateu ao de leve na pedra e aproximou-se do arvoredo, apercebendo-se de imediato que os vidoeiros - muito juntos - formavam uma barreira natural contra o vento. Quando, finalmente, entrou no círculo de pedras pré-históricas, não soprava nem uma aragem.

O primeiro pensamento que lhe ocorreu era que nada daquilo se parecia com Stonehenge, e foi nessa altura que percebeu quão vívida e firmemente a palavra henge estava enraizada no seu espírito. As pedras estavam dispostas na vertical - eram nove, conforme sugeria a designação por que o lugar era conhecido -, mas eram talhadas de forma muito mais rude do que esperara. Não tinham lintel como em Stonehenge. Além disso, o talude e o fosso que rodeavam as pedras verticais eram muito menos proeminentes.

Entrou no círculo. Reinava uma calma de morte. Enquanto as árvores impediam que o vento penetrasse no círculo, as pedras pareciam evitar também que o restolhar das folhas das árvores se fizesse ouvir no interior do círculo. Não seria, por isso, difícil a alguém aproximar-se do monumento à noite sem ser ouvido. Ele - ou ela, ou eles - teriam apenas de descobrir a localização exacta de Nine Sisters Henge ou seguir um caminhante a distância segura durante o dia, aguardando depois o cair da noite. Não que, em si mesmo, fosse difícil. A charneca era vasta, mas era também plana. Num dia claro conseguia ver-se a quilómetros de distância.

O interior do círculo consistia num conjunto de vegetação típica de charneca, agora moribunda depois de um Verão cheio de visitantes, uma fina camada de rocha na base da pedra vertical situada mais a norte, restos de meia-dúzia de fogueiras outrora ateadas por campistas e adoradores. Lynley iniciou uma busca metódica para encontrar o pager de Nicola Maiden, começando pelo perímetro do círculo. Era um trabalho monótono que implicava um exame minucioso ao talude, ao fosso, à base de cada pedra, à vegetação da charneca e aos restos de antigas fogueiras. Concluiu a inspecção ao local sem nada encontrar e, percebendo que teria de reconstituir o percurso seguido por Nicola até ao local da sua morte, fez uma pausa para descobrir o rasto da sua fuga. Ao fazê-lo, o seu olhar foi atraído para a fogueira que se encontrava no centro do círculo.

Distinguia-se das restantes em três aspectos. Era mais recente, com pedaços de madeira carbonizada que ainda não estavam totalmente desfeitos em cinzas, ostentava os sinais inequívocos da passagem da equipa de peritos que examinara o local do crime, e as pedras que a rodeavam tinham sido bastante revolvidas. Era como se alguém tivesse saltado sobre a fogueira para a apagar e tivesse deslocado a barreira. Ao ver as pedras, Lynley lembrou-se das fotografias de Terry Cole e das queimaduras que tinham destruído uma das faces do jovem.

Baixou-se ao lado dos restos da fogueira e, pela primeira vez, reflectiu sobre aquele rosto e sobre o que a sua pele queimada indicava. Apercebeu-se de que a extensão da queimadura sugeria que o rapaz mantivera um contacto prolongado com o fogo. No entanto, ninguém o imobilizara forçando-o a permanecer sobre as chamas, porque se assim tivesse acontecido, o seu corpo apresentaria lesões defensivas provocadas pela luta oferecida pelo rapaz para se libertar de quem estivesse a prendê-lo. E de acordo com a Dra. Myles, não tinham sido encontrados lesões desse tipo no corpo de Terry Cole: nem equimoses, nem arranhões nas mãos e nas articulações, nem queimaduras visíveis no tronco. E no entanto, pensou Lynley, ele estivera exposto ao fogo tempo suficiente para ficar gravemente queimado, para ficar com a pele enegrecida, de facto. Parecia existir apenas uma resposta razoável. Cole deve ter caído sobre o fogo. Mas como?

Sentado sobre os calcanhares, Lynley passeou o olhar pelo círculo. Viu que um segundo trilho, mais estreito, continuava para fora dos limites da mata - do lado oposto à vereda por onde viera - e na posição em que se encontrava, junto à fogueira apagada, apercebeu-se que o trilho formava uma linha recta à sua frente. Tinha de ser aquele o caminho seguido por Nicola. Imaginou os dois jovens na noite de terça- feira, sentados lado a lado junto à fogueira. Dois assassinos aguardam, invisíveis e silenciosos, fora dos limites do círculo. Esperam o momento certo. Quando ele surge, caem sobre a fogueira, cada um atacando um dos dois jovens e livrando-se de ambos em pouco tempo.

Era uma hipótese plausível, decidiu Lynley. Todavia, se fora isso que de facto acontecera, não conseguia perceber por que razão Nicola Maiden não tinha sido morta rapidamente. Com efeito, não conseguia compreender como é que a jovem fora capaz de percorrer cerca de 137 metros antes de ser sequer atacada. Embora fosse certo que podia ter escapado do círculo e ter-se esgueirado pelo segundo trilho que, como ele próprio via, desaparecia entre as árvores, como teria ela conseguido percorrer uma tal distância sem ser capturada, sobretudo quando os assassinos tinham a seu favor o factor surpresa? Era uma caminhante experiente, claro, mas de que valia a experiência no escuro para uma pessoa tomada de pânico e lutando para salvar a sua própria vida? E mesmo que não estivesse tomada de pânico, como era possível que tivesse tão bons reflexos ou uma percepção tão nítida do que estava a acontecer? Teria, certamente, necessitado de pelo menos cinco segundos até perceber que alguém Lhe queria fazer mal, e esse lapso de tempo ter-lhe-ia sido fatal ainda no interior do círculo, e não a 137 metros de distância.

Lynley franziu o sobrolho. Continuou a visualizar a fotografia do rapaz. As queimaduras eram importantes, eram um elemento fulcral. Aquelas queimaduras, conforme sabia, contavam a verdadeira história do que se passara.

Agarrou um pau - parte da lenha da fogueira - e atirou-o ao acaso para o meio das cinzas enquanto meditava sobre o caso. A pouca distância dali, detectou a primeira das três manchas de sangue seco que tinham jorrado das feridas de Terry Cole. Para além das manchas, a vegetação ressequida estava arrancada e retorcida formando uma linha ziguezagueante que terminava junto de uma das pedras verticais. Lentamente, Lynley seguiu o seu curso. Havia marcas de sangue em toda a sua extensão.

Todavia, não se viam grandes manchas de sangue coagulado, nem o tipo de vestígios que seria de esperar em alguém que, atingido numa das artérias, se tivesse esvaído em sangue. De facto, enquanto o percorria, Lynley apercebeu-se de que o trilho não apresentava o tipo de provas sanguíneas que seria de esperar, tendo em conta os múltiplos ferimentos provocados por arma branca sofridos por Terry Cole. Na base da pedra vertical, no entanto, Lynley viu que o sangue formara uma poça. Na verdade, respingara a própria pedra, deixando minúsculas gotículas a escassos centímetros de altura, que depois tinham escorrido até ao solo.

Lynley deteve-se. O seu olhar oscilou entre a fogueira e o trilho. Mentalmente, reviu a fotografia do jovem tirada pelo fotógrafo da polícia, a sua carne escurecida pela acção das chamas. Considerou todos os elementos, ponto por ponto:

Sangue junto à fogueira em manchas espessas e esguichos. Sangue junto à pedra vertical em poças.

Sangue em gotículas a poucos centímetros de altura. Uma rapariga fugindo no meio da noite.

Um pedaço de calcário esmagando-lhe o crânio.

Lynley semicerrou os olhos e soltou um suspiro lento. Claro, pensou. Como era possível que não tivesse visto logo o que tinha acontecido?

A morada de Fulham levou Barbara Havers e Winston Nkata até um duplex em Rostrevor Road. Esperavam encontrar uma senhoria, um guarda ou uma porteira que lhes permitisse ter acesso à casa de Nicola Maiden. Todavia, quando tocaram à campainha que se encontrava ao lado do número cinco, foi com surpresa que ouviram uma voz feminina pelo intercomunica dor, pedindo-lhes que se identificassem.

Quando Nkata deixòu bem claro que era a Scotland Yard que estava a bater à porta, houve uma pausa. Passados alguns instantes, uma voz impessoal anunciou Desço já, num sotaque educado característico de uma mulher que passava os tempos livres em audições para papéis em produções de época da BBC. Barbara ficou à espera de ver aparecer uma recriação perfeita de Jane Austen: vestido delicado esiilo Regency e rosto emoldurado por caracóis. Cerca de cinco minutos mais tarde - De onde saiu ela, exactamente, perguntou Nkata, lançando uma olhadela rápida para o relógio, Southend-on-Sea? - a porta abriu-se e diante deles surgiu uma garota de doze anos envergando um vestido curto do mais puro estilo Mary Quant.

- Vi Nevin - disse a criança em jeito de apresentação. - Peço desculpa, mas acabei de sair do banho e tive de vestir alguma coisa. Posso ver a vossa identificação, por favor?

A voz era igual à da mulher que falara pelo intercomunicador, e vinda de uma criatura tão semelhante a um duende como a que estava ali à entrada, era bastante desconcertante. Era como se um ventríloquo do sexo feminino estivesse algures à espreita, imitando a voz de uma criança em idade pré-adolescente por puro divertimento. Barbara deu por si a espreitar sorrateiramente pela ombreira da porta tentando ver se havia alguém escondido. A expressão no rosto de Vi Nevin revelava que estava habituada a esse tipo de reacção.

Lançou uma vista de olhos pelos cartões de identificação, devolvendo-os em seguida.

- Muito bem. Que desejam? - perguntou.

E quando eles lhe disseram que a morada dela tinha sido indicada para reenvio de correspondência por uma estudante de Direito que deixara a casa onde vivia em lslington, ela retorquiu:

- Isso nada tem de ilegal, pois não? Parece-me uma atitude responsável. Ela conhecia Nicola Maiden, nesse caso? quis saber Nkata.

- Não tenho por hábito morar com estranhos - respondeu. Depois, olhando alternadamente para Nkata e Barbara. - Mas a Nikki não está. Está fora há semanas. Está em Derbyshire até à próxima quarta-feira à noite.

Barbara viu que Nkata hesitava em tornar a ser o portador de más notícias. Decidiu ter pena dele e disse:

- Há algum sítio onde possamos conversar em privado? Vi Nevin pressentiu que havia algo mais por detrás daquela simples pergunta, conforme podia ler-se nos seus olhos.

- Porquê? Têm um mandado ou um decreto ou qualquer outra coisa? Conheço os meus direitos.

Barbara suspirou interiormente. As últimas revelações sobre infracções policiais tinham realmente abalado a confiança da opinião pública.

- Tenho a certeza que sim - disse. - Mas nós não estamos aqui para conduzir uma busca. Gostaríamos de conversar consigo sobre Nicola Maiden.

- Porquê? Onde é que ela está? O que é que ela fez?

- Podemos entrar?

- Se me disserem o que desejam.

Barbara trocou um olhar com Nkata, que compreendeu as intenções dela. Nada havia a fazer, a não ser dar a terrível notícia à jovem ali mesmo, à porta de sua casa.

- Ela está morta - informou Barbara. - Morreu no Peak District há três noites atrás. E agora, podemos entrar ou quer que continuemos a conversar aqui na rua?

Vi Nevin ficou absolutamente atónita.

- Morta - repetiu. - Nikki está morta? Mas não pode estar. Falei com ela na terça-feira de manhã. Ia sair para uma caminhada. Ela não está morta. Não pode estar.

Olhou atentamente para os rostos deles, como se procurasse os indícios de que se tratava de uma brincadeira ou de uma mentira. Nada descobrindo, aparentemente, afastou-se da porta.

- Entrem, por favor - disse, numa voz abafada e alterada. Subiram um lance de escadas até uma porta entreaberta no primeiro andar. Esta dava acesso a uma sala de estar em L, onde uma série de portas de dois batentes abriam para uma varanda. Por baixo desta, a água jorrava de uma fonte de jardim e um choupo- branco, iluminado pelo sol de fim de tarde, projectava a sua sombra sobre as lajes.

Num dos cantos da sala, um elegante carrinho em vidro e cromado exibia pelo menos uma dúzia de garrafas com diversas bebidas espirituosas. Vi Nevin escolheu uma garrafa de Glenlivet já aberta e serviu-se de uma dose generosa. Tomou-a de um trago, e todas as dúvidas que Barbara ainda alimentasse em relação à idade dela foram dissipadas quando a viu beber o uísque.

Enquanto a jovem se recompunha, Barbara fez uma avaliação das condições em que ela vivia... o que os seus olhos podiam ver, pelo menos. No primeiro andar do duplex ficavam a sala de estar, a cozinha e uma casa de banho. Os quartos de dormir deviam ficar exactamente por cima, sendo o acesso feito por uma escada que se elevava ao longo de uma das paredes. Do sítio onde se encontrava, junto à porta de entrada, conseguia ver o cimo das escadas e o interior da cozinha. Esta estava equipada com uma panóplia de modernos utensílios e electrodomésticos: frigorífico com máquina de gelo, forno microondas, máquina de café expresso, tachos e panelas com cintilantes fundos de cobre. As bancadas eram de granito e os armários e chão eram em carvalho branqueado. Bonito, pensou Barbara. Perguntou a si própria quem estaria a pagar aquilo tudo.

Olhou de soslaio para Nkata. Ele contemplava os sofás baixos amarelo-claros sobre os quais estava espalhada uma profusão de coxins verdes e dourados. O seu olhar concentrou-se em seguida nos fetos luxuriantes junto à janela, fixando-se depois no óleo abstracto suspenso sobre a lareira. Não tinha nada que ver com Loughborough, lia-se no seu rosto. Olhou para Barbara. Pe-dan-te, mimou ela. Ele esboçou um sorriso irónico.

Depois de ter ingerido a bebida, Vi Nevin parecia limitar-se a respirar lentamente. Por fim, virou-se para eles. Puxou o cabelo para trás - louro e à altura dos seios - e prendeu-o com uma fita que a fazia parecer-se com Alice no País das Maravilhas.

- Peço desculpa - disse. - Ninguém me telefonou. Não tenho ligado a televisão. Não fazia ideia, ainda na terça-feira de manhã falei com ela e... o que é que aconteceu, meu Deus?

Revelaram-lhe duas informações. Fractura craniana. A morte dela não fora um acidente.

Vi Nevin não disse nada. Estremeceu, horrorizada.

- Nicola foi assassinada - disse Barbara, finalmente, vendo que Vi não pedia pormenores. - Alguém a atingiu na cabeça com uma pedra.

Os dedos da mão direita de Vi apertaram a bainha do vestido curto.

- Sentem-se - convidou ela, indicando os sofás com um gesto.

Ela própria estava sentada, hirta, na beira de uma poltrona em frente ao sofá, joelhos e tornozelos juntos como uma aluna bem- comportada. Mesmo assim, não fez qualquer pergunta. Estava claramente atónita com as notícias, mas era óbvio que também estava na expectativa.

De quê? gostaria Barbara de saber. Que estaria a passar-se?

- Nós estamos a cobrir o ângulo de Londres - disse a Vi. - O nosso colega, o inspector Lynley, está em Derbyshire.

- O ângulo de Londres - murmurou Vi.

- Um homem foi encontrado morto juntamente com ela - Nkata tirou o bloco-notas de pele do bolso do casaco e rodou a lapiseira até fazer aparecer a ponta da grafite. - Chama-se Terry Cole. Mora em Battersea. Conhece-o?

- Terry Cole? - Vi abanou a cabeça. - Não, não o conheço.

- É artista. Escultor. Tem um estúdio nas arcadas do caminho-de-ferro em Portslade Road. Partilha o estúdio e um apartamento com uma rapariga chamada Cilla Thompson - disse Barbara.

- Cilla Thompson - repetiu ela. E tornou a abanar a cabeça.

- Nicola alguma vez mencionou algum deles? Terry Cole? Cilla Thompson? - perguntou Nkata.

- Terry ou Cilla. Não - disse ela.

Barbara queria enfatizar que não havia nenhum Narciso presente, pelo que ela podia renunciar ao seu papel no drama mítico. Pensando melhor, no entanto, a alusão podia cair em ouvidos insensíveis.

- Miss Nevin, o crânio de Nicola Maiden foi esmagado. Isto pode não a deixar de coração destroçado, mas se quiser colaborar connosco...

- Porfavor - disse ela, como se não conseguisse suportar ouvir a notícia mais uma vez. - Não vejo a Nikki desde o início de Junho. Ela foi para o norte trabalhar durante o Verão e devia regressar na próxima quarta-feira, como já vos disse.

- Para fazer o quê? - perguntou Barbara.

- O quê?

- Ia fazer o quê, quando voltasse?

Vi não respondeu. Olhou para ambos, como se inspeccionasse as águas em que navegavam à procura de piranhas escondidas.

- Vinha trabalhar? Levar uma vida de ócio? Vinha fazer o quê? - perguntou Barbara. - Se ia regressar, devia estar a pensar em fazer algo com o tempo que tinha disponível. Uma vez que morava com ela, suponho que saiba quais eram os planos dela.

Tinha um olhar inteligente, reparou Barbara. Olhos cinzentos e pestanas negras. Estudavam e avaliavam enquanto o seu cérebro pesava todas as possíveis consequências de cada uma das suas respostas. Vi Nevin sabia algo sobre o que acontecera a Nicola e isso era uma certeza.

Se alguma coisa Barbara aprendera em quase quatro anos de trabalho ao lado de Lynley fora a discernir as ocasiões em que se devia jogar duro e feio e aquelas em que se devia mostrar boa vontade. O jogo duro e feio resultava em intimidação. A boa vontade permitia uma troca de informação. Dado que não dispunham de nada que pudessem usar como forma de intimidação junto da outra mulher, a entrevista começava a parecer-se com um desses momentos de boa vontade:

- Sabemos que ela abandonou a Faculdade de Direito por volta de 1 de Maio - disse Barbara -, alegando que tinha aceite um trabalho a tempo inteiro na MKR Financial Management. Mas Mr. Reeve, que é o chefe dela, informou-nos que ela deixou a empresa antes que isso viesse a acontecer, dizendo-lhe que se ia mudar para Derbyshire. Todavia, quando ela mudou de casa, deu esta morada, não a de Derbyshire, à senhoria em Islington.

E, pelas informações que pudemos recolher, ninguém em Derbyshire suspei tava que ela lá estivesse a não ser para passar o Verão. O que é que isto lhe sugere, Miss Nevin?

- Confusão - disse Vi. - Ela ainda não tinha decidido o que ia fazer com a vida dela. Nikki gostava de manter as suas opções em aberto.

- Deixar a faculdade? Abandonar o emprego? Espalhar uma série de histórias não corroboradas pelos factos? As opções dela não estavam em aberto. Eram inventadas. Todas as pessoas com quem falámos têm uma ideia diferente acerca do que ela tencionava fazer.

- Não consigo explicá-lo. Lamento. Não sei o que querem que eu diga.

- Ela tinha algum emprego em vista? - Nkata levantou os olhos do bloco-notas.

- Não sei.

- Tinha alguma fonte de rendimento? - perguntou Barbara.

- Também não sei. Ela pagou a sua parte das despesas antes de ir passar o Verão fora, e...

- Porque é que ela foi para fora?

- E como pagou em dinheiro - continuou Vi -, eu não tinha razões nenhumas para duvidar da sua fonte de rendimento. Lamento muito, a sério, mas é tudo o que posso dizer-vos.

Tretas, pensou Barbara. Ela mentia com quantos dentes tinha.

- Como é que se conheceram? Também frequenta a Faculdade de Direito?

- Conhecemo-nos por razões de trabalho.

- Na MKR Financial? - e quando Vi assentiu, continuou: - Que tra balho faz para eles?

- Já não faço nada. Saí em Abril também.

Trabalhara como assistente pessoal de Tricia Reeves.

- Eu não gostava muito dela - revelou. - Ela é um pouco... peculiar. Entreguei o meu pedido de demissão em Março e saí mal eles arranjaram alguém para me substituir.

- E agora? - perguntou Barbara.

- Agora?

- O que é que faz agora? - esclareceu Nkata. - Onde é que trabalha? Começara a trabalhar como modelo. Há muito que alimentava esse sonho, e Nikki incentivara-a a iniciar uma carreira nessa área. Mostrou um álbum de fotografias profissionais que a retratavam de diversas maneiras. Na maior parte das fotografias, aparecia como uma vagabunda, magra e de olhos muito abertos onde se reflectia o tipo de expressão vaga e ausente que era presença obrigatória em todas as revistas de moda do momento.

Barbara examinou as fotografias, tentando sentir admiração por elas, mas interrogando-se, por escassos instantes, sobre se as figuras rubenescas - como a sua, para ser franca - alguma vez estariam em voga.

- Deve estar a sair-se bem. Um lugar como este... Suponho que não seja barato, pois não? É seu, por falar nisso? Este duplex?

- É alugado.

Vi reuniu as suas fotografias. Juntou- as e tornou a colocá-las no álbum.

- A quem? - Nkata fez a pergunta sem interromper a sua meticulosa tomada de notas.

- E isso interessa?

- Diga-nos quem é e nós decidiremos - disse Barbara.

- À Douglas and Gordon.

- Amigos seus?

- É uma agência imobiliária.

Barbara observou Vi enquanto ela arrumava o álbum numa prateleira por baixo da televisão. Esperou que a jovem se virasse para eles antes de continuar.

- Mr. Reeve disse-nos que Nicola Maiden tinha um problema com a verdade e um problema ainda maior em manter a boca calada relativamente às finanças dos clientes dele. Disse que ia despedi-la quando ela saiu.

- Isso não é verdade - Vi continuou de pé, braços cruzados debaixo dos seios diminutos. - Se fosse despedi-la, coisa que não ia fazer, seria por causa da mulher.

- Porquê?

- Ciúmes. A vontade de Tricia é eliminar todas as mulheres para quem ele olha.

- E ele olhava para Nicola?

- Eu não disse isso.

- Oiça, nós sabemos que ela tinha um amante - disse Barbara. Sabemos que ele vive em Londres. Podia ser Mr. Reeve?

- Tricia não o larga nem por dez minutos.

- Mas é possível?

- Não. Nikki tinha alguém, é verdade. Mas não era cá. Era lá. Em Derbyshire.

Vi foi à cozinha e regressou com um conjunto de postais ilustrados. Retratavam diversas localidades do Peak District: Arbor Low, Peveril Casde, Thor's Cave, as alpondras em Dovedale, Chatsworth House, Magpie Mine; Little John's Grave, Nine Sisters Henge. Cada um deles era dirigido a Vi e todos continham uma mensagem idêntica: Ooooh, la-la, seguido pela inicial N. E era tudo.

Barbara entregou os postais a Nkata.

- Muito bem, vou acreditar nisso - disse a Vi. - Agora, esclareça-nos em relação ao significado disto.

- Esses são os lugares onde ela fez sexo com ele. Sempre que iam a um sítio novo, ela comprava um postal e enviava- mo. Era uma brincadeira.

- Hilariante - concordou Barbara. - Quem é o tipo?

- Ela nunca me disse quem era. Mas suponho que seja casado.

- Porquê?

- Porque além dos postais, ela nunca falou dele quando conversávamos ao telefone. Era assim que eu esperaria que ela reagisse, se tivesse um relacionamento que não era honesto.

- Ela tinha esse hábito, era? - Nkata pousou as fotografias na mesa baixa e fez uma anotação no bloco-notas. - Costumava sair com homens casados?

- Eu não disse isso. Apenas que pensava que este era casado. E não estava em Londres.

Mas alguém estava, pensou Barbara. Alguém tinha de estar. Se Nicola Maiden fizera tenções de regressar a Londres no final do Verão, viria com meios para se sustentar quando chegasse. Com este duplex ultramoderno, recentemente decorado, luxuoso, elegante e agradável, com ar de local de encontros secretos, seria assim tão descabido supor que um cliente cheio de papel estaria a financiá-la em grande estilo a troco da sua total disponibilidade, dia e noite?

Isso implicava perguntar que diabo estaria Vi Nevin a fazer ali. Talvez fizesse parte do acordo. Alguém que fizesse companhia à amante durante as horas mortas em que ela esperava pela visita do seu amo e senhor.

Era puxar muito pela imaginação. Não mais, no entanto, do que seria necessário para visualizar Nicola Maiden percorrendo a charneca, qual Richard Burton, em busca de novos e excitantes lugares onde pudesse fazer sexo com um amante casado.

Que diabo estou eu a fazer na polícia, interrogou-se Barbara zangada, quando o resto do mundo se está a divertir tanto?

Gostariam de dar uma vista de olhos pelo quarto e pelos pertences de Nicola Maiden, disse a Vi Nevin. As provas concretas de que Nicola estava a planear alguma coisa deviam estar algures, e ela estava decidida a encontrá-las.

 

                           CAPÍTULO 12

Ele contorceu-se. O estupor contorceu-se e não foi pouco. O inspector Hanken recostou-se na cadeira e saboreou o momento, braços cruzados sob a cabeça. Um cigarro aceso bailava-lhe nos lábios, e ele falava sem o tirar da boca com a perícia de um homem dotado de uma longa prática nessa arte. Lynley estava de pé, junto de um conjunto de arquivadores, no topo dos quais ia espalhando as fotografias dos dois cadáveres. Estudava-as enquanto fazia o possível por se manter longe do alcance do fumo do tabaco de Hanken. Antiga vítima daquela erva, regozijava-se por descobrir que o fumo finalmente o irritava, quando alguns meses antes teria feito fila só para poder lamber o cinzeiro de Hanken. Não que o outro inspector estivesse a usar o cinzeiro. Quando tinha necessidade de se desfazer do tabaco queimado, limitava-se a virar a cabeça e a deixar que a cinza caísse no chão. Era um gesto que não se coadunava com o carácter obsessivamente aprumado do inspector Hanken. Bem revelador do grau de excitação em que ele se encontrava.

Hanken relatava a sua entrevista com Will Upman. O prazer que demonstrava ao contar o sucedido crescia à medida que ele se ia aproximando do clímax. Metaforicamente falando, ao que parecia. Já que, a avaliar pelas palavras de Hanken, o advogado parecia não ter sido capaz de um desempenho à altura dos seus níveis habituais.

- Mas, segundo ele disse, quando está com uma mulher pouco lhe interessa saber se consegue sacar o amiguinho da jaula ou não - zombou Hanken. - O que interessa, diz ele, é que seja divertido.

- Estou curioso - disse Lynley. - Como é que você conseguiu arrancar-lhe essa confissão?

- Que ele tinha ido para a cama com ela, ou que não conseguiu cortar a meta?

- Uma ou outra. As duas.

Lynley escolheu a fotografia que reproduzia mais claramente o rosto de Terry Cole e colocou-a ao lado da que revelava em maior pormenor os movimentos do seu corpo.

- Suponho que não tenha recorrido a antigos métodos de tortura, Pois não?

Hanken riu-se.

- Não foi preciso chegar a tanto. Disse-Lhe apenas aquilo que os vizinhos dele tinham contado e isso foi o suficiente para que ele içasse a bandeira branca.

- Porque mentiu ele?

- Alega que não o fez. Alega que nos teria contado tudo se lho tivéssemos perguntado directamente.

- Isso é tanga.

- Advogados.

A palavra só por si dizia tudo.

Will Upman, contou Hanken resumidamente, confessou ter tido um caso com Nicola Maiden e que esse caso fora apenas um episódio isolado, na última noite em que ela trabalhara para ele. Sentira-se fortemente atraído por ela durante todo o Verão, mas o facto de ser patrão dela impedira-o de fazer qualquer avanço.

- Porque o facto de estar envolvido com outra pessoa não represen tava qualquer impedimento? - esclareceu Lynley.

De modo nenhum. Porque, como podia ele estar verdadeira, louca e profundamente apaixonado por Joyce - e, em resultado disso, legitima mente envolvido com ela - quando se sentia tão violentamente atraído por Nicola? E sentindo-se violentamente atraído por Nicola, não deveria ele tentar saber o que essa atracção significava exactamente? Joyce andava a pressioná-lo para que formalizassem um compromisso - estava empenhada em que ambos fossem viver juntos -, mas ele não poderia dar o passo seguinte sem primeiro tirar Nicola da cabeça.

- Isso significa que mal tirou a filha dos Maiden da cabeça foi a correr ter com Joyce e pediu-a em casamento? - perguntou Lynley.

Hanken soltou uma gargalhada de prazer. Upman preparara o terreno com aperitivos, jantar e vinho, contou o inspector. Levara-a até casa dele. Aí tomaram mais bebidas. Ouviram um pouco de música. Vários cappuccinos. Ele colocou velas à volta da banheira,...

- Santo Deus - estremeceu Lynley.

O homem era uma vítima dos filmes de Hollywood.

-... despiu-a e meteu-a dentro de água sem problema. E, segundo Upman, ela desejava-o tanto como ele a desejava a ela - disse Hanken.

Ficaram a divertir-se na banheira até ficarem com a pele encarquilhada, altura em que passaram para o quarto de dormir.

- E foi aí - concluiu Hanken -, que o foguetão não descolou.

- E na noite do crime?

- Onde é que ele estava, é isso que quer saber?

Hanken contou o que se passara nesse dia. Na terça-feira, à hora de almoço, Upman tivera outro desentendimento com a namorada acerca do

tema da coabitação. Em vez de ir para casa depois do trabalho e correr o risco de receber um telefonema dela, foi dar uma volta de carro. Acabou por ir ter ao Aeroporto de Manchester, onde passou a noite num hotel, depois de ter requisitado os serviços de um massagista para Lhe aliviar a tensão.

- Até tinha os recibos à mão para me mostrar - informou Hanken. Ao que parece, está a pensar apresentá-los como despesas de representação.

- Vai verificar tudo isso?

- Tão certo como estar aqui - disse Hanken. - E consigo, como é que foi?

E eis-nos chegados a um terreno que temos de pisar com muito cuidado, pensou Lynley. Até ao momento, apesar do seu encontro com Upman, Hanken não parecia defender nenhum cenário em particular. Todavia, a versão que ele se preparava para apresentar estava em total oposição com a principal conjectura do inspector. Queria apresentá-la com cautela, de modo que o colega pudesse estar receptivo à sua lógica.

Não encontrara o pager, disse. No entanto, dera uma longa vista de olhos pelo local e reflectira ainda mais longamente sobre os dois cadáveres. Gostaria de propor uma hipótese completamente diferente daquela em que ambos tinham estado a trabalhar. Hanken estaria interessado em ouvi-lo?

O inspector baixou a cadeira e apagou o cigarro. Misericordiosamente, não acendeu outro. Passou a língua pelos dentes, os olhos especulativamente fixos em Lynley. Por fim, disse, Vamos lá, então e recostou-se como se antecipasse um longo monólogo.

- Acho que temos um único assassino - disse Lynley. - E nenhum cúmplice. Nenhuma chamada telefónica a pedir reforços quando o nosso homem...

- Ou mulher? Ou também está a descartar esta hipótese?

- Ou mulher - replicou Lynley e aproveitou a oportunidade para informar Hanken do seu encontro com Samantha McCallin em Calder Moor.

O outro inspector comentou:

- Eu diria que isso a coloca novamente na corrida.

- Ela nunca esteve fora dela.

- Muito bem. Continue.

- Não houve nenhum telefonema a pedir reforços quando o assassino viu que havia dois alvos em vez de um.

Hanken cruzou as mãos sobre o estômago e disse:

- Continue.

Lynley pegou na fotografia de Terry Cole. As queimaduras no rosto e a a ausência de qualquer ferimento defensivo no corpo, disse Lynley, indicavam que ninguém segurara Cole sobre a fogueira, mas antes que ele caíra sobre ela. As feridas na pele mostravam que o contacto com as chamas fora mais do que breve. Não havia contusões na cabeça que sugerissem que tinha sido agredido com um taco, que tivesse perdido os sentidos e tivesse sido deixado junto à fogueira. Por isso, só podia ter sido ferido ou incapacitado de alguma maneira enquanto estava sentado junto à fogueira.

- Um assassino - disse Lynley -, vai até lá atrás da rapariga. Quando ele chega ao local...

- Ou ela - interrompeu Hanken.

- Sim. Ou ela. Quando ele, ou ela, chega ao local descobre que Nicola não está sozinha. Por isso, Cole tem de ser eliminado. Primeiro, porque é capaz de a proteger se o assassino for atrás dela, e em segundo lugar, porque é uma potencial testemunha. Mas o assassino enfrenta um dilema. Deverá ele - ou ela, sim, já percebi, Peter - matar Cole imediatamente e arriscar-se a perder Nicola, se ela por acaso conseguir escapar enquanto ele estiver a despachar Cole? Ou deverá matar Nicola e correr o risco de ser impedido de o fazer por Cole? Tem o elemento surpresa do seu lado, mas é tudo o que tem para além da arma - Lynley passou em revista as fotografias e escolheu uma onde se podia ver o rasto de sangue com maior nitidez. - Se considerarmos tudo isto e tivermos em conta as marcas de sangue encontradas no local...

Hanken ergueu a mão para interromper a torrente de palavras. Os seus olhos desviaram-se de Lynley para a janela, de onde se avistavam os contornos nada atraentes do estádio de futebol de Buxton, situado do outro lado da rua, uma estrutura que fazia lembrar um campo de concentração. Disse, pensativo:

- O assassino avança armado de um canivete e fere o rapaz instanta neamente. O rapaz cai sobre o fogo e queima-se. A rapariga dá de frosques. O assassino segue-a...

- Mas a arma dele está enterrada no rapaz.

- Hum. Sim, estou a ver como foi. - Hanken desviou os olhos da janela, o olhar turvo como se estivesse a avaliar a cena que passou a descrever. - Está escuro fora dos limites da fogueira. A rapariga põe-se em fuga.

- A questão que se coloca passa, então, a ser: deverá ele perder tempo a arrancar o canivete do corpo do rapaz ou deverá correr atrás da rapariga imediatamente?

- Vai atrás da rapariga. Tem de ir, não é verdade? Despacha-a com três pancadas na cabeça e volta para trás para acabar de matar o rapaz.

- Nessa altura, já Cole conseguiu arrastar-se para longe do fogo e aproximar-se dos limites do círculo de pedras. E é aí que o assassino acaba de vez com ele. O sangue conta a história toda, Peter. Escorre ao longo da pedra vertical e forma uma poça no chão.

- Se você estiver certo - disse Hanken -, temos um assassino coberto de sangue. É noite cerrada e ele está no meio de nenhures, o que o coloca em vantagem. No entanto, terá de encontrar um sítio onde possa esconder as roupas, a não ser que estivesse nu, o que é pouco provável.

- Pode ter trazido alguma roupa com ele - sugeriu Lynley.

- Ou pode ter tirado alguma coisa do local - Hanken deu uma palmada nas coxas e pôs-se de pé. - Vamos pedir aos Maiden que dêem uma vista de olhos pelas coisas da filha - disse.

Exasperada, Barbara golpeava a palma da mão com o punho e passeava incessantemente de um lado para o outro enquanto Winston Nkata telefonava a Lynley no interior do pub Prince of Wales. Encontravam-se na rua em frente a Battersea Park e na esquina a seguir à residência de Terry Cole, e embora tivesse vontade de arrancar o telefone das mãos de Nkata e apresentar alguns elementos com mais veemência do que a que Winston estava a demonstrar, sabia que tinha de ter tento na língua. Nkata estava a transmitir a fonte da sua agitação ao oficial superior de ambos, e era essencial que ela se mantivesse em silêncio não fosse Lynley perceber que ela abandonara o seu posto em frente ao computador.

- Esta noite volto ao CRIS - jurara a Nkata, quando se apercebera que a relutância dele em seguir de Fulham para Battersea estava directamente relacionada com a apreensão que sentia acerca da disposição dela para cumprir as tarefas que lhe tinham sido confiadas. - Winston, juro pela vida da minha mãe que me vou sentar em frente do ecrã até ficar cega, está bem? Mas depois. Depois. Primeiro, vamos a Battersea.

Nkata