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PRAZER DE MATAR - P.2 / Tami Hoag
PRAZER DE MATAR - P.2 / Tami Hoag

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PRAZER DE MATAR

2º Parte

 

Se tivermos de divulgar outro retrato-robô vamos fazer figuras de urso queixava-se Sabin, numa atitude agitada por detrás da sua mesa de trabalho. O lábio inferior projectava-se para fora do queixo como o de uma criancinha de dois anos a fazer beicinho, um contraste acentuado com a sofisticação da sua postura. Sempre preparado para enfrentar a imprensa a qualquer altura, usava um fato de um cinzento em tons de estanho com uma gravata de dois tons mais carregados e camisa de um azul-marinho. Muito janota.

 

Não estou a ver como é que isso se reflectirá negativamente no seu gabinete, Ted retorquiu Kate. O comandante Greer é que se precipitou.

 

Sabin acentuou o franzir de sobrolhos lançando-lhe um olhar cheio de significado.

 

Sei muito bem de quem é a culpa de tudo isto.

 

Não pode culpabilizar a testemunha atalhou Kate sabendo de antemão que a censura era dirigida a si própria.

 

Disseram-me que ela não se tem mostrado muito cooperante interveio Edwyn Noble denotando preocupação e metendo-se na conversa. Estava sentado num dos cadeirões destinados aos visitantes, embora o seu corpo fosse demasiado comprido para o assento, com as dobras da bainha das calças acima dos tornozelos ossudos, deixando ver as meias de nylon.

 

Kate fitou-o com um olhar intenso, tendo-lhe ocorrido à ponta da língua meia dúzia de comentários, em que o menos contundente talvez fosse: «O que raio é que você está a fazer aqui?» É claro que ela sabia por que razão o homem estava ali. A sua presença ia bastante contra o que era próprio e adequado, mas ela já tinha revisto a controvérsia na sua mente sabendo antecipadamente qual seria o desfecho. O gabinete do promotor público tinha sob a sua alçada a gestão dos serviços que defendiam os interesses de vítimas e testemunhas. Peter Bondurant era o familiar mais chegado da vítima caso se viesse a comprovar que a mulher morta era a sua filha e, por conseguinte, tinha o direito de ser mantido ao corrente da evolução do caso. Edwyn Noble era o representante legal de Bondurant. E etc., etc...

 

Kate lançou um olhar a Noble em que se adivinhava que na sua opinião ele era o ser mais desprezível à face da terra.

 

Sim, temos de contar sempre com uma reacção desse género.

 

A inferência acertou em cheio. Noble sentou-se mais a direito no cadeirão, demasiado pequeno para o acomodar, olhando-a com uma expressão de frieza.

 

Rob Marshall deslocava-se entre os dois, qual mentor da paz, ao que aliava a sua atitude de lambe-botas com um sorriso untuoso de orelha a orelha.

 

O que Kate pretende dizer é que não existe nada de invulgar no facto de uma testemunha que presenciou um crime tão brutal agir com alguma relutância.

 

Mas não se mostra relutante em receber o dinheiro da recompensa ripostou Sabin, bufando de irritação.

 

A recompensa só será paga aquando da condenação

 

recordou-lhes Noble, como se o seu cliente precisasse desse tempo de espera para conseguir reunir o dinheiro necessário. Poder-se-ia inferir que Peter Bondurant tinha esperanças de não ser chamado a cumprir o prometido.

 

Este gabinete não compra os serviços de testemunhas

 

afirmou enfaticamente Sabin. Eu já lhe disse que se encarregasse dela, Kate. A sua entoação de voz assemelhava-se a uma ordem dada a um assassino contratado.

 

Estou a encarregar-me dela.

 

Sendo assim, por que razão é que ela não passou a noite de segunda-feira na cadeia? Eu tinha dito ao Kovac que a tratasse como se ela fosse uma suspeita. Disse-lhe que a assustasse um pouco.

 

Mas você... começou Kate a dizer mostrando-se confusa.

 

Rob lançou-lhe um olhar de advertência.

 

Continuamos a ter essa opção ao nosso dispor, Ted. Mas pensámos que se tentássemos primeiro colocá-la na casa Phoenix isso talvez a amansasse, dando à rapariga a impressão de que a Kate está do seu lado. Tenho a certeza de que foi isso que teve em mente, não é verdade, Kate? A interpelada ficou a olhar boquiaberta para o seu chefe.

 

E agora temos o fiasco deste retrato-robô replicou Sabin fazendo beicinho de novo.

 

Não é um fiasco. Em princípio, ontem ninguém deveria ter visto esse retrato argumentou Kate, voltando costas a Rob antes que cedesse ao impulso de se atirar à garganta do homem. Ted, se fizermos pressão sobre a miúda, ela vai acabar por se pôr ao fresco. Se formos duros com ela, pode crer que ela passará a sofrer de um caso de amnésia profunda. O que lhe posso garantir. Tanto você como eu sabemos que não temos nada por que lhe possamos pegar em relação ao assassínio. Nem sequer conseguimos que ela fosse indiciada. Qualquer juiz anularia a fase preliminar de um inquérito com tanta rapidez que você ficaria a chuchar no dedo sem nenhuma testemunha que pudesse apresentar em tribunal.

 

Sabin esfregou as mãos como se já sentisse o dedo molhado de saliva.

 

Ela anda por aí na vagabundagem. O que é contra a lei.

 

Sim, sim... e essa é uma bela notícia para os jornais. «Adolescente Testemunha de Assassínio e Acusada de Vagabundagem-». Da próxima vez que for a eleições pode concorrer como candidato do Simon Legree’.

 

A minha vida política não é uma questão que deva ser discutida aqui, Miss Conlan ripostou ele desabrido, assumindo repentinamente uma expressão rígida e implacável. A maneira como tem lidado com esta testemunha é que está em questão.

 

Rob fitou Kate mostrando um semblante que questionava o grau de sanidade mental desta. Por seu turno, ela olhou para Edwyn Noble como se pensasse: «O tanas é que não é uma questão em jogo!»

 

Naquele momento, ela poderia ter aproveitado para forçar Sabin um pouco, fazendo com que lhe dessem outra tarefa. Poderia ter admitido incapacidade total para lidar com aquela testemunha, libertando-se assim do fardo que Angie

 

1 Alusão ao negociante de escravos, um homem brutal, uma das personagens no livro de Harnel Beecher-Stowe A Cabana do Pai Tomás (N da T)

 

DiMarco representava para si. Mas no mesmo instante em que aquele pensamento lhe ocorreu, Kate viu-se a abandonar a rapariga à mercê dos lobos ali reunidos, o que não foi capaz de fazer. A recordação de Angie de pé, no desconfortável escritório da Casa Phoenix, ainda estava demasiado fresca na sua memória, a ocasião em que a garota tivera uma crise repentina de lágrimas ao perguntar-lhe por que motivo é que não podia ir para sua casa.

 

Discretamente, levantou-se passando a mão pela frente da saia para a desenrugar.

 

Estou a fazer o meu melhor para conseguir obter a verdade desta rapariga. Sei que esse é o objectivo de todos nós. Dê-me a oportunidade de a trabalhar à minha maneira, Ted. Por favor. Kate não se encontrava longe de o mimosear com um olhar arregalado de candura esperançosa se isso servisse para lhe amansar o mau humor. Tal como ele não era obrigado a cair caso não quisesse. A palavra mercenária passou pelo pensamento de Kate, deixando na sua esteira um pequeno rasto viscoso.

 

Ela não é uma miúda como qualquer outra prosseguiu Kate. Tem tido uma vida muito difícil que a transformou numa pessoa endurecida, mas estou em crer que neste caso quer agir da forma mais correcta. Nesta fase do jogo, não aproveita a ninguém mostrar-se impaciente. Se quiser que a minha opinião seja corroborada, pergunte ao Quinn. Ele sabe tanto sobre o modo como lidar com testemunhas de casos como este quanto eu própria acrescentou Kate, convicta de que uma mudança de atitude seria uma jogada justa. John estava em dívida para com ela. Finalmente.

 

E quanto à hipótese de hipnose? perguntou Noble cortesmente depois de ter pigarreado. Parece-lhe que valha a pena tentar?

 

Ela nunca concordará com isso replicou Kate com um abanar de cabeça. A hipnose requer um certo grau de confiança. Esta miúda não tem nenhuma e o Oscar foi bastante paciente com ela.

 

Detesto desempenhar o papel de advogado do diabo

- disse Noble, levantando-se lentamente do cadeirão, mas como é que vamos saber o que a rapariga viu, se é que viu alguma coisa? A impressão que eu tenho é de que ela é capaz de fazer qualquer coisa por dinheiro. É possível que a recompensa seja o único fito que ela tenha em mente.

 

Isso quer dizer que ela ficou de olho nesse objectivo antes mesmo de saber que ele existia? perguntou Kate.

 

Se for esse o caso, então ela tem mais valor para este caso do que anteriormente, uma vez que teria de possuir dotes psíquicos para conseguir uma façanha dessas. Não foi oferecida nenhuma recompensa depois dos dois primeiros crimes.

 

Lançou um olhar de relance ao relógio de pulso praguejando entre dentes. Meus senhores, vão ter de me desculpar, mas dentro de alguns minutos tenho de estar numa audiência de testemunhas, e o mais certo é a minha vítima já ter entrado em pânico por eu não estar presente.

 

Entretanto, Sabin tinha contornado a secretária a que se encostou com os braços cruzados e expressão inflexível. Kate reconheceu a pose, a mesma com que posara para a fotografia que o Minnesota Monthly publicara havia um ano, juntamente com um artigo em que o seu perfil era analisado, Não que ela pusesse de parte o poder ou a vontade dele em utilizar aquele tipo de postura. Ted Sabin não chegara onde chegara por ser o menino bonito, ou o bobo, de alguém.

 

Vou dar-lhe mais tempo com essa rapariga, Kate disse ele com uma entoação que dava a impressão de o fazer com relutância, apesar de toda aquela situação ter sido ideia sua. Mas precisamos de resultados e o mais depressa possível. Pensei que você, de todos os que trabalham consigo, compreenderia esta necessidade.

 

Ainda esta tarde, ela estará outra vez com o Oscar informou Kate dirigindo-se para a porta.

 

Sabin afastou-se da secretária, começando a caminhar ao lado dela pousando-lhe uma mão entre as omoplatas.

 

Quando terminar o que tem a fazer no tribunal, ainda terá tempo para ir ter com ela?

 

Sim respondeu Kate.

 

Caso contrário, tenho a certeza de que o Rob conseguirá arranjar as coisas de maneira a que seja outra pessoa a ir a essa audiência de testemunhas.

 

Não, senhor. A audiência não se prolongará por muito tempo garantiu ela com um sorriso de pesar. Além do mais, não quero impor esta vítima em particular a nenhum dos meus colegas. Eles sabem onde moro.

 

Talvez não fosse má ideia pedir ao agente especial Quinn que estivesse presente nessa sessão com o Oscar e a rapariga sugeriu Sabin.

 

De súbito, a mão que Kate sentia nas costas deu-lhe a sensação de se ter transformado numa faca

 

Não estou a ver onde é que isso poderia contribuir para o desenvolvimento do caso

 

Não, tem toda a razão, Kate admitiu ele. Esta testemunha foge muito ao normal Mas tal como você mesma disse, o Quinn tem muita experiência. É possível que ele acabasse por apanhar alguma coisa, sugerindo uma estratégia. Eu telefono-lhe

 

Kate transpôs a ombreira do gabinete detendo-se enquanto a porta se fechava atrás de si

 

Eu e a minha boca desregrada

 

Kate começou Rob Marshall em voz baixa. Kate dirigiu-se para ele logo que entrou no corredor.

 

És um fuinha ripostou ela num murmúrio cheio de rispidez. O único desabafo que se permitiu para evitar agarrá-lo pelas orelhas, sacudindo-o até se cansar. Foste tu que me deste autorização para levar a Angie para a Casa Phoenix. Mas ali dentro assumiste uma atitude que deu ao Sabin a impressão de que eu é que fui responsável por isso. Pensei que tinhas discutido o assunto com ele. Foi o que eu disse ao Kovac E cheguei ao ponto de acusar o Kovac de ser um paranóico por não acreditar no que eu lhe disse

 

Abordei o assunto da Phoenix com ele alegou Rob Marshall

 

Mas ele não esteve pelos ajustes

 

Também não disse que não

 

Pois bem, não resta a mínima dúvida de que não disse que sim

 

Estava a pensar noutros assuntos Mas eu sabia que tu querias que ela fosse para lá, Kate

 

Não tentes assacar-me as culpas por isto Para variar, foste capaz de tomar uma iniciativa No mínimo, não és capaz de a assumir?

 

O homem respirava pesadamente através do seu nariz demasiado pequeno, o esforço fazia com que o rosto adquirisse um tom vermelho carregado

 

Kate, alguma vez te passa pela cabeça que eu sou o teu superior hierárquico?

 

Ela fechou a boca contendo a resposta que lhe ocorreu à mente tentando reunir o pouco respeito que ainda sentia pelo homem

 

Peço desculpa, mas estou extremamente irritada.

 

Não te esqueças de que sou o teu chefe. Sou o responsável acrescentou ele.

 

Não te invejo o cargo redarguiu ela secamente adivinhando a frustração no tom de voz dele. Na verdade, eu até devia estar contra ti. Devias tirar-me deste barril de pólvora. Mas eu não quero que isso aconteça admitiu Kate. Devem ser as minhas raízes de masochismo sueco em acção.

 

Tu és precisamente a pessoa que quero junto desta testemunha, Kate reconheceu ele. Empurrou os óculos mais para os olhos, sorrindo como se sentisse uma dor de dentes. E agora, quem é o masochista?

 

Lamento muito. Não gosto de me sentir como se fosse um peão num tabuleiro de xadrez, mais nada.

 

Concentra-te na evolução da situação. Temos o que queríamos.

 

O relacionamento que mantinha com Sabin continuava intacto. O facto de, aparentemente, ela ter ultrapassado os seus limites poderia ser atribuído à sua bem conhecida arrogância. Sabin não hesitaria em lhe perdoar porque tinha um fraquinho por ela, enquanto Rob sairia daquela situação como um verdadeiro diplomata, talvez mesmo um dirigente nato. Uma vez mais, os meios justificavam os fins. Nada ficava ferido além do orgulho de Kate.

 

Sabes bem que eu não sou adversa a manobras de conspiração prosseguiu ela continuando a mostrar-se agastada. Tinha toda a intenção de furtar Angie às garras de Sabin, e nem num milhão de anos estaria disposta a partilhar os seus intuitos com Rob Marshall. Era isso que estava a moê-la por dentro... o facto de Rob lhe ter levado a melhor. Kate detestava pensar que ele poderia ser mais esperto do que ela, ou mais sagaz, superior a si fosse de que maneira fosse. Uma atitude pouco conveniente para assumir perante um superior hierárquico.

 

Os teus amigos do Wisconsin já disseram alguma coisa? perguntou Kate.

 

Ainda não deram notícias.

 

Seria simpático saber qual a identidade verdadeira desta miúda. Sinto-me como se estivesse a trabalhar com os olhos vendados.

 

Tenho o filme em vídeo dos interrogatórios da Angie respondeu Rob levando as mãos à cintura. Pensei que seria proveitoso se nos sentássemos a rever essas imagens. Talvez não fosse má ideia se o Quinn estivesse presente. Gostaria de conhecer a opinião dele

 

Sim, e porque não? anuiu Kate com uma expressão de resignação. Quando combinares isso não te esqueças de me dizer. Agora tenho de ir ao tribunal

 

Kate pensava que havia dias em que era melhor não sair de casa optando pela punição física. Pelo menos assim sentiria dores de que poderia recompor-se facilmente. Mas John Quinn era uma questão inteiramente diferente

 

Já estava com medo que você não aparecesse disse David Willis numa atitude inequívoca de censura. Correu imediatamente para Kate que contornava os grupos de advogados reunidos diante das portas das salas de julgamento do tribunal criminal

 

Peço desculpa por chegar atrasada, Mister Willis. Estive numa reunião com o promotor

 

Sobre o meu caso?

 

Não. Está tudo a postos para que o seu caso avance

 

Não vou ter de testemunhar, pois não?

 

Hoje não será preciso, Mister Willis replicou Kate conduzindo a vitima cujos interesses defendia para a sala de audiências. Isto é só uma audiência preliminar de testemunhas. O promotor de justiça, o doutor Merced, apresentara apenas as provas suficientes para se proceder ao indicia mento de Mister Zubek com vista ao julgamento

 

Mas ele não me chamará como testemunha surpresa ou qualquer coisa do género pois não? Aquela perspectiva parecia aterrorizá-lo e inspirar lhe esperança em partes iguais

 

Sem saber como, Kate ficou com a certeza de que aquela teria sido a expressão no rosto de David Willis na fotografia do livro de final do curso liceal na década de setenta. Um corte de cabelo quase à escovinha, fora de moda, e óculos de sabichão da turma, usava um par de calças de um verde esquisito com a cintura subida uns bons dois centímetros a mais. Ao longo de toda a sua vida, era muito provável que as pessoas o tivessem atacado com regularidade

 

Para a audiência preliminar, ele usava uns óculos com armação negra que haviam ficado quebrados aquando do assalto. Mantinham-se unidos em dois sítios por um bocado de adesivo. Tinha o pulso esquerdo em gesso e usava uma gola cervical como se fosse a gola alta de uma camisola de lã grossa

 

As testemunhas surpresa só aparecem em Matlock disse Kate

 

Acontece que não estou preparado para isso. Sabe bem que vou ter de me preparar para uma situação dessas

 

Sim, estou em crer que estamos todos bem cientes disso, Mister Willis E isso porque o homem lhes tinha telefonado todos os dias não permitindo que se esquecessem desse aspecto. A Kate, a Ken Merced, à secretária de Ken, à recepcionista dos serviços jurídicos

 

Não correrei nenhum risco quanto à minha integridade física, pois não? Ele estará algemado e com grilhões nos tornozelos, certo,

 

O senhor não correrá o mínimo perigo sossegou-o Kate

 

Porque, não sei se sabe, mas as tensões momentâneas podem levar as pessoas a actos de loucura. Tenho andado a ler sobre esse assunto Além de ter participado religiosamente em todas as reuniões do grupo de vitimas que me arranjou, Miss Conlan, e também tenho lido tudo o que me aparece acerca da mente criminosa e psicologia de vitimas, assim como sobre a tensão que tem origem num estado pós-traumático tal como me disse para fazer

 

Era frequente que Kate recomendasse tanto às vitimas como às testemunhas, por cujos interesses velava, que se inteirassem sobre o que deviam esperar das suas próprias reacções e emoções na sequência de um acto criminoso. Esse conhecimento instilava-lhes algum sentido de compreensão, a par de uma certa medida de controlo. No entanto, não recomendava essa prática desde que assumisse as características de um passatempo que consumisse as pessoas

 

Sabendo que Willis desejaria estar perto dos acontecimentos, Kate optou por se sentar na primeira fila da galeria por detrás da mesa da acusação, onde Ken Merced revia alguns dos seus apontamentos. Willis chocou com Kate quando esta parou para lhe indicar a fila, após o que tropeçou nos seus próprios pés ao tentar afastar-se para o lado, num gesto de cavalheirismo, para que Kate passasse à sua frente

 

Esta abanou a cabeça quando começou a percorrer a fila para ocupar o seu assento. Willis remexia no interior da pasta de má qualidade que trouxera consigo. Estava cheia de recortes de jornais que relatavam o seu caso, polaroides tiradas nas urgências depois de ter sido agredido, brochuras sobre grupos de vitimas e terapeutas, e um livro de capa dura com o título Coping After the Crime. De dentro da pasta tirou um bloco de apontamentos de folhas amarelas com linhas preparando-se para tomar notas da audiência à semelhança do que fizera aquando de todas as reuniões que Kate tivera com ele

 

Merced virou-se para os dois com um sorriso na sua habitual cara de pau

 

Já estamos a postos, Mister Willis. Isto não levará muito tempo

 

Tem a certeza de que não precisa do meu testemunho?

 

Por hoje não é necessário

 

Porque não estou preparado para isso retorquiu Willis soltando um suspiro estremecido

 

Não, concordou Merced voltando-se de frente para a mesa. Nenhum de nós está.

 

Kate encostou-se toda para trás tentando afastar a tensão que lhe contraia os maxilares, enquanto Willis se embrenhava nos apontamentos preliminares que já começara a escrever

 

Tu sempre tiveste uma parte fraca secreta

 

O sussurro numa voz que mal se ouvia chegou-lhe por cima do ombro, uma respiração que lhe acariciava a pele sensível do pescoço. Kate virou-se bruscamente para trás com uma expressão de reprovação. Quinn inclinava-se para a frente no seu lugar, com os braços em redor dos joelhos, olhos escuros e cintilantes, com um sorriso nos lábios, qual garotinho que tivesse sido apanhado com a mão na lata dos biscoitos, um sorriso firme e calculado

 

Preciso de falar contigo murmurou o agente especial

 

Tens o número de telefone do meu gabinete

 

Pois tenho admitiu Quinn No entanto, ao que

 

Literalmente, «Como Lidar com a Situação depois do crime (N da T)

 

tudo indica, não estás inclinada a responder às mensagens que te deixei

 

Sou uma pessoa extremamente ocupada

 

Estou a ver isso

 

Não gozes comigo ripostou ela, irritada. David Wilhs agarrou-a pelo antebraço, obrigando-a a virar-se para a frente. A porta lateral da sala de audiências fora aberta, dando passagem a O. T. Zubek acompanhado do seu advogado, logo atrás dos dois vinha um assistente. Zubek era como uma boca de incêndio sob a forma de um ser humano, atarracado, com membros sólidos e uma barriga saliente. Usava um fato de má qualidade de um azul-marinho que tinha uma camada de caspa sobre os ombros, por baixo do casaco usava uma camisa de malha de seda azul-celeste por fora das calças e demasiado apertada na barriga. Olhou directamente para Wilhs franzindo-lhe o cenho; o seu rosto adquiriu a expressão frouxa da caricatura de um sujeito de banda desenhada, de cara dura e com uma barba azulada no queixo

 

Com uns olhos esbugalhados, Wilhs ficou a olhar para o homem por uma fracção de segundos, após o que se voltou para Kate

 

Viu aquilo? Ele ameaçou-me. Lançou-me um olhar ameaçador. Para mim, isso é uma ameaça. Porque é que ele não está algemado?

 

Tente acalmar-se, Mister Willis, caso contrário, o juiz ordenará que se retire da sala

 

O criminoso aqui não Sou eu.

 

Todos nós estamos a par desse pormenor retorquiu Kate

 

Entretanto, o juiz saiu da sua câmara entrando na sala de tribunal, todos os presentes se levantaram, sentando-se logo de seguida. Depois de ter sido lido o número do processo, as acusações começaram a ser enunciadas, após o que os advogados de defesa e acusação anunciaram os respectivos nomes para que constasse da acta, cumpridas estas formalidades, deu-se início à audiência preliminar de presunção de culpa

 

Merced chamou a sua primeira testemunha, um homem com um rosto semelhante a uma pêra, o qual prestava assistência a máquinas Sluipee nas lojas da 7-Eleven na área metropolitana das Twin Cities e arredores Testemunhou que tinha ouvido Willis a discutir com Zubek sobre as condições de uma entrega de Hostess Twinkies, e um sortido de biscoitos, no estabelecimento de que Willis era gerente, tendo visto os dois homens engalfinhados no corredor das batatas fritas, onde Zubek socava Willis repetidamente.

 

E teve ocasião de se aperceber de quem é que começou essa alegada discussão? perguntou o advogado de defesa quando chegou a sua vez de questionar a testemunha.

 

Não.

 

Por conseguinte, tanto quanto o senhor sabe, é possível que tenha sido Mister Willis a provocar essa disputa?

 

A defesa objecta. A pergunta é especulativa.

 

A acusação retira a pergunta. Viu quem é que deu o primeiro murro neste alegado ataque?

 

Não respondeu a testemunha.

 

É possível que tenha sido Mister Willis?

 

Não fui eu! afirmou Willis numa voz segredada contorcendo-se a tremer ao lado de Kate.

 

Chiu!

 

Meritíssimo... começou Merced com um suspiro. O juiz arqueou o sobrolho na direcção do advogado de defesa, o qual se apresentara vestido como um mau vendedor de carros em segunda mão. Tinha um aspecto suficientemente seboso para poder ser tomado por primo de Zubek.

 

Mister Krupke, estamos numa audiência preliminar e não num julgamento. O tribunal está mais interessado em saber o que as testemunhas viram do que com aquilo que não viram.

 

Não se trata exactamente do caso do estrangulador de Richmond, não te parece? murmurou Quinn ao ouvido de Kate. Por cima do ombro, ela deitou-lhe um olhar de poucos amigos. A rigidez que se via no queixo dela começou a irradiar para o interior.

 

A segunda testemunha de Merced corroborou o testemunho prestado pelo mecânico da Slurpee. Krupke passou pelo mesmo calvário, com Merced a expressar o mesmo tipo de objecções, e o juiz a mostrar-se cada vez mais carrancudo. Entretanto, Willis agitava-se no seu lugar sem parar de tomar apontamentos copiosos numa letra de imprensa que mal se conseguia ler, a qual revelava aspectos deveras assustadores acerca do funcionamento mais íntimo do seu raciocínio. Merced apresentou como prova o filme em vídeo que a câmara de segurança registara, em que se via a maior parte do confronto físico, após o que deu a exposição do caso por en cerrada

 

Krupke não tinha nenhuma testemunha tal como não apresentou nenhuma defesa

 

Nós não estamos a pôr em causa que houve uma altercação, Meritissimo

 

Nesse caso, porque é que me está a fazer perder tempo com esta audiência preliminar, doutor Krupke?

 

Só pretendemos estabelecer que os eventos talvez não tenham tido lugar exactamente como Mister Wilhs afirma

 

Isso é uma mentira’ gritou Wilhs fora de si

 

O juiz bateu com o martelo, enquanto o oficial de diligências franzia o cenho a Wilhs, embora não tivesse arredado pé do seu lugar

 

Kate apertou o braço da sua vitima com toda a força

 

Mister Wilhs, faça o favor de se manter calado, segredou ela furiosa

 

Sugiro que dê ouvidos à sua advogada, Mister Wilhs advertiu o juiz. A sua vez de falar há-de chegar.

 

Hoje?

 

Não. ripostou o juiz mal-humorado, fazendo de Merced o alvo de um olhar furibundo, o qual abriu os braços com um encolher de ombros numa atitude de impotência. Voltou-se para a mesa da defesa

 

Doutor Krupke, passe-me um cheque no valor de du zentos dólares por ter feito com que eu perdesse o meu tempo. Se não tinha intenção de pôr as acusações em questão devia ter prescindido desse direito, pedindo que fosse marcada uma data para o julgamento aquando do processo de indiciação

 

A data do julgamento acabou por ser marcada e a au diência preliminar foi encerrada. Kate soltou um suspiro de alívio. Merced levantou-se da mesa reunindo os seus papeis. Kate debruçou-se por cima do corrimão da galeria murmurando

 

Não é capaz de fazer com que este tipo se comporte com maneiras, Ken? Antes quero arrancar os olhos do que ser obrigada a sentar-me ao lado dele durante um julgamento

 

Jesus, se ele não fizesse com que eu fosse expulso da Ordem dos Advogados, eu até era capaz de pagar ao Zubec para que ele consentisse em chegar a um acordo

 

Entretanto Krupke pediu a alguém que lhe emprestasse uma caneta para poder passar o cheque exigido por desrespeito ao tribunal. Willis olhava em derredor como se tivesse acabado de despertar de uma sesta, sem fazer a mais pequena ideia do local onde se encontrava.

 

É só isto?

 

É só isto, Mister Willis confirmou Kate, pondo-se de pé. Eu já lhe tinha dito que não duraria muito tempo.

 

Mas... mas... titubeou apontando o braço com o gesso coberto pela manga azul na direcção de Zubek. Eles chamaram-me mentiroso! Não tenho direito a defender o meu bom nome?

 

Zubek inclinou-se por cima do corrimão, mostrando uma expressão desdenhosa.

 

Todos podem ver a merda que fizeste disse, Willis.

 

Está na hora de nos irmos embora sugeriu Kate pegando na pasta de Willis que dava a sensação de pesar uma tonelada.

 

Por seu lado, ele parecia não saber o que fazer com a caneta, bloco de apontamentos e pasta que ela lhe entregara, enquanto o conduzia até à coxia. Estava mais preocupada com o que fazer em relação a Quinn. Este já se encontrava na coxia, retrocedendo na direcção da porta com os olhos presos em Kate, tentando forçá-la a olhar para si. Decerto Sabin ter-lhe-ia telefonado logo depois de ela ter saído do seu gabinete

 

Mas não estou a perceber dizia Willis numa voz gemida. Isto não devia ter acabado tão depressa. Ele bateu-me! Ele bateu-me e chamou-me mentiroso!

 

Zubek imprimiu um movimento de pugilista aos ombros, fazendo cara de Pluto.

 

Seu mariquinhas.

 

Kate apercebeu-se da reacção de Quinn no mesmo instante em que um grito de guerra foi emitido por David Willis. Deu meia volta quando este já se atirava a Zubek de pasta em riste, atingindo Zubek na região lateral da cabeça como se lhe batesse com uma frigideira. O impacte da agressão fez com que o homem ficasse estatelado de costas em cima da mesa da defesa. Os fechos abriram-se com um estalido seco e tudo o que a pasta continha ficou espalhado pelo chão.

 

Kate arremessou-se para cima de Willis, quando este já recuara o braço preparando-se para desferir outro golpe. Agarrou-o pelos ombros e os dois tombaram de cabeça por cima do corrimão mergulhando num mar de pernas de mesas e cadeiras, por entre gente que se apressava a dispersar. Zubek guinchava como um porco a ser sangrado. O juiz gritava ao oficial de diligências, que por sua vez gritava a Krupke que berrava com Willis enquanto tentava atingi-lo com um pontapé. A biqueira do sapato foi bater na coxa de Kate que começou a praguejar, retribuindo com outro pontapé e imobilizando Willis.

 

Parecia que a ordem não voltaria a ser restaurada, permitindo que Willis fosse afastado dela. Lentamente, Kate sentou-se, começando a proferir entre dentes um chorrilho de obscenidades.

 

Quinn agachou-se à frente dela e com a mão afastou-lhe do rosto uma madeixa de cabelos de um ruivo dourado que ajeitou por trás da orelha.

 

Na verdade, Kate, tu devias regressar ao FBI. Este emprego vai ser a tua morte.

 

Não te atrevas a estar com brincadeiras à minha custa

 

ripostou Kate, inspeccionando os estragos que a sua pessoa e o vestuário tinham sofrido. Quinn encostou-se à secretária, observando-a a repuxar um buraco que tinha nas meias de vidro por onde cabia um punho fechado.

 

Este é o meu segundo par de meias boas numa só semana. Acabou-se. Vou desistir de usar saias.

 

Os homens que trabalham no prédio vão ter de usar braçadeiras negras disse Quinn bem-humorado. Ergueu as mãos num gesto de rendição quando ela o brindou com outro olhar que não augurava nada de bom. Ei, sabes bem que sempre tiveste um belo par de mocas, Kate. Não podes negar.

 

O assunto é irrelevante e inapropriado.

 

O politicamente correcto impede um velho amigo de cumprimentar outro? perguntou ele com uma expressão de inocência.

 

Devagar, Kate endireitou-se na cadeira esquecendo-se das meias completamente arruinadas.

 

É isso que nós somos? perguntou numa voz suave.

 

Velhos amigos?

 

Ao ouvir aquilo, Quinn assumiu uma expressão de seriedade.

 

Não era capaz de a olhar de frente enquanto lhe falava desembaraçadamente sobre um passado que ambos haviam partilhado, bem presente entre os dois. O mal-estar era uma entidade palpável.

 

Não foi exactamente assim que nos separámos acrescentou Kate.

 

Não concordou Quinn afastando-se da secretária, enfiando as mãos nas algibeiras das calças e fingindo um interesse que não sentia nos avisos e caricaturas que ela afixara no seu quadro. Isso já foi há muito tempo.

 

O que é que ele pretenderia dizer com aquilo, perguntou-se Kate. Que tudo o que existira entre os dois tinha passado à história? Conquanto parte dela desejasse dizer sim, havia outra parte que não abdicava das recordações amargas que se recusava a largar. No que lhe dizia respeito, nada estava esquecido. A ideia de que ele talvez conseguisse perturbá-la de uma maneira que ela não desejava, fazia com que se sentisse enfraquecida, uma palavra que jamais queria ver associada à sua pessoa.

 

Cinco anos é muito tempo para qualquer pessoa guardar ressentimentos acrescentou Quinn olhando-a pelo canto do olho.

 

Não te guardo qualquer ressentimento.

 

O tanas é que não guardas! retorquiu ele rindo-se. Não retribuis os meus telefonemas e não queres falar comigo. Ficas toda eriçada de cada vez que te cruzas comigo.

 

Já te vi... o quê, duas vezes desde que chegaste? Na primeira ocasião serviste-te de mim para levar a tua avante, enquanto na segunda troçaste do meu trabalho...

 

Não trocei do teu trabalho protestou Quinn. Limitei-me a fazer troça da tua vítima.

 

Estou a ver... e isso faz uma grande diferença replicou ela com sarcasmo, esquecendo-se muito convenientemente que toda a gente fazia pouco de David Willis, incluindo ela própria. Kate levantou-se da cadeira, não querendo que ele a olhasse mais de cima do que a diferença de alturas obrigava. O trabalho que eu faço aqui é importante, John. Talvez não nos mesmos moldes daquilo que tu fazes, mas não deixa de ser importante.

 

Não discordo, Kate.

 

Não? Se a memória não me atraiçoa, quando decidi abandonar o FBI, tu disseste-me que estava a desperdiçar a minha vida.

 

Aquela chamada de atenção acertou em cheio fazendo com que aos olhos escuros de Quinn assomassem as frustrações de outrora.

 

Deitaste fora uma carreira sólida. Já tinhas o quê...? Catorze, quinze anos de profissão? Eras um elemento muito importante na Unidade de Ciências Comportamentais. Eras uma boa agente, Kate, e...

 

E sou uma defensora dos direitos dos outros ainda mais competente. Tenho a oportunidade de lidar com pessoas enquanto continuam vivas. Posso fazer a diferença na vida delas, frente a frente, ajudá-las a atravessar períodos difíceis das suas vidas, auxiliando-as a adquirir confiança em si próprias, a tomar medidas que farão diferença na sua vida. Como é que isso não é importante?

 

Eu não tenho nada contra o exerceres essa profissão contrapôs Quinn. Aquilo a que me opus foi a que deixasses o FBI. O que são duas questões inteiramente diversas. Permitiste que o Steven te empurrasse para fora...

 

Isso não é verdade!

 

Uma ova é que não é verdade! Ele quis castigar-te e..,

 

E eu não lhe permiti.

 

Não, optaste por fugir. Permitiste que ele saisse a ganhar. Ele não ganhou retrucou Kate obstinada. A vitória dele teria sido a destruição da minha carreira, tirando-lhe todo o significado, uma gota de sangue de cada vez. Era melhor eu ter-me deixado ficar impávida e serena, só para lhe mostrar até que ponto é que era uma mulher dura? O que é que esperavas que eu fizesse? Pedir transferências sucessivas de secção para secção até que ele esgotasse todos os compinchas da sua rede de bons rapazes? Até que eu acabasse por ser transferida a título permanente para os escritórios de Gallup, no Novo México, com mais nada para fazer além de contar as cobras e tarântulas que atravessassem a estrada?

 

Podias ter-lhe dado luta, Kate insistiu Quinn. Sabias que podias contar com a minha ajuda.

 

Ah, de verdade? perguntou ela arqueando as sobrancelhas e cruzando os braços. Tanto quanto me recordo, não mostraste querer ter muito a ver comigo depois do breve encontro que tiveste com o Gabinete de Responsabilidade Profissional.

 

Isso não teve nada a ver com a questão replicou ele com irritação. Eles nunca me meteram medo. O Steven e os seus pequenos jogos de merda burocrática, bastante mesquinhos, não me assustaram. Eu estava de mãos atadas Nesse momento, encontrava-me envolvido em cerca de setenta e cinco casos, incluindo o do canibal de Cleveland

 

Sim, eu estou bem a par de tudo isso, John atalhou ela cáustica. O todo-poderoso Quinn que carrega sobre os ombros todo o fardo do mundo criminal

 

O que é que pretendes dizer com isso? perguntou Quinn num timbre de exigência. Tenho um trabalho a fazer que executo da melhor maneira que me é possível

 

«E o resto do mundo que se vá lixar», pensou Kate, «incluindo eu. Mas não deu voz aos seus pensamentos. De que é que isso serviria naquele momento? Nada iria alterar o passado na forma como se recordava dele. Também não valia a pena argumentar que ele se interessava, e muito, com aquilo que o Gabinete de Responsabilidade Profissional acrescentasse aos seus antecedentes profissionais. Não lhe serviria de nada argumentar com Quinn, dizendo-lhe que para ele o trabalho era tudo

 

Para encurtar uma história longa ela tivera uma relação amorosa que desferira os últimos golpes de morte num casamento que, já de si, se encontrava nas ultimas. A retaliação por parte do marido forçara-a a abandonar a sua carreira. Quanto a Quinn afastara-se dos destroços, embrenhando-se no seu primeiro amor o seu trabalho. Quando a situação se tornou insustentável, ele retrocedeu permitindo que ela caísse Quando Kate se virou para partir, ele não fizera nada para tentar dissuadi-la.

 

Em cinco anos, ele nem sequer se dera ao trabalho de lhe telefonar uma única vêz.

 

Não que ela tivesse desejado que lhe ligasse. Aquela troca acalorada de palavras fizera com que se fossem aproximando mais um do outro. Quinn encontrava-se suficientemente perto para ela poder cheirar a fragrância ténue de uma loção para a barba. Sentia a tensão que percorria o corpo do homem. À superfície surgiram fragmentos de um milhar de recordações que ela fechara a sete chaves no seu subconsciente. A força dos braços dele, o calor do seu corpo, o conforto que lhe proporcionara e que ela absorvera qual esponja ressequida.

 

O seu erro tinha tido origem nas suas carências afectivas. Pois bem, naquele momento não precisava dele.

 

Kate afastou-se de Quinn voltando a sentar-se à sua secretária, tentando convencer-se a si própria de que o facto de ambos se terem deixado arrastar, tão prontamente, para uma discussão daquelas não tinha o mínimo significado.

 

Eu também tenho um trabalho a fazer acrescentou ela olhando ostensivamente para o seu relógio de pulso. Suponho que tenha sido por isso que apareceste. Foi o Sabin quem te telefonou?

 

Quinn soltou o ar que retivera nos pulmões. Os ombros descaíram-lhe uns sete centímetros. Não tinha esperado que as emoções pudessem extravasar-se com tanta facilidade. Não estava na sua maneira de ser permitir que isso acontecesse. Tal como não era seu costume abandonar um confronto até ter vencido. O alívio que sentia por proceder desse modo foi tão forte que lhe suscitou algum constrangimento.

 

Ele quer que eu me reúna contigo e com a tua testemunha quando ela voltar para trabalhar no retrato-robô disse Quinn retrocedendo um passo.

 

O que ele quer não me interessa redarguiu Kate obstinadamente. Recuso-me a que estejas presente. A ligação que eu mantenho com a rapariga está presa por um fio. Se alguém lhe segredar as letras FBI ela desaparecerá como se levasse fogo no rabo.

 

Sendo assim, teremos o cuidado de não articular essas letras.

 

Ela é capaz de cheirar uma mentira a quilómetros de distância.

 

Não é preciso que ela saiba que eu estou presente. Portar-me-ei como um ratinho escondido a um canto.

 

Kate esteve quase a desatar a rir. Sim, quem é que repararia na presença de Quinn? Mais de um metro e oitenta de masculinidade de tez trigueira, um homem bem-parecido num fato de corte italiano. Não... uma rapariga como Angie não haveria de reparar nele.

 

Gostaria de poder avaliar essa rapariga acrescentou ele. Qual é a opinião que formaste dela? Parece-te que é uma testemunha credível?

 

Ela tem uma língua porca, é mentirosa e matreira que nem uma raposa respondeu Kate sem estar com rodeios

 

Muito provavelmente terá fugido de casa. Deve ter uns dezasseis anos a caminho dos quarenta e dois. É uma garota detrato extremamente difícil, sente-se muito sozinha e anda acagaçada de tanto medo que sente.

 

A imagem chapada da criança norte-americana comentou Quinn com secura. Portanto, ela viu ou não o Joe «Fumacento»?

 

Kate ficou pensativa por uns momentos, sopesando tudo o que Angie era e não era. Fosse o que fosse que a rapariga [esperava vir a receber em termos de recompensa, quaisquer que fossem as mentiras que tivesse dito, era inegável que ela tivera oportunidade de ver a face do diabo. Kate sentia a verdade nessa realidade. A tensão que adivinhava na garota, de cada vez que era obrigada a recordar o que lhe acontecera, era algo virtualmente impossível de fingir convincentemente. Sim, estou em crer que viu.

 

Mas ela mostra-se retraída? perguntou Quinn com um acenar de cabeça.

 

Tem medo de qualquer atitude retaliatória por parte do assassino... ao que talvez se deva acrescentar também os [polícias. Ela recusa-se a dizer-nos o que é que estava a fazer [no parque à meia-noite.

Tens algum palpite?

Talvez a tentar arranjar drogas. Ou talvez tenha ido com um cliente ocasional a qualquer lugar por perto, tendo atalhado pelo parque para regressar à viela onde teria andado a dormir.

 

Mas ela não tem registo criminal?

 

Nenhum que alguém tenha sido capaz de descobrir. Temos andado a divulgar a fotografia dela pelas brigadas de narcóticos, de costumes e de delinquência juvenil. Até agora, nada.

 

Uma mulher envolta em mistério.

 

Uma autêntica santinha é que ela não é acrescentou Kate.

 

É uma pena que não lhe possas tirar as impressões digitais.

 

Não teríamos o mínimo problema em as obter se eu deixasse o Sabin fazer o que pretende retorquiu Kate fazendo cara de poucos amigos. Ele queria que o Kovac a tivesse prendido na segunda-feira, deixando-a encafuada na cadeia durante a noite, o que, supostamente, serviria para lhe meter medo.

 

Talvez tivesse dado resultado.

 

Só se for por cima do meu cadáver.

 

Quinn não foi capaz de reprimir um sorriso perante a entoação de inflexibilidade na voz dela. a paixão que se lhe reflectia nos olhos. Era por de mais evidente que Kate sentia a obrigação de proteger a sua testemunha, ainda que ela fosse um estuporzinho, matreira e mentirosa. Kovac comentara com ele que, embora Kate fosse uma profissional consumada, tinha o hábito de proteger as suas vítimas e testemunhas como se fossem seus familiares. Uma escolha de palavras deveras interessante.

 

Em cinco anos ela não voltara a casar. Nas prateleiras sobre a sua mesa de trabalho não se via nenhuma fotografia de um possível namorado. Mas dentro de uma moldura delicada de filigrana de prata via-se uma pequeníssima fotografia da filha que perdera. Colocada perto de uma esquina, bem afastada da papelada do trabalho, oculta dos olhares casuais de quem fosse ao seu gabinete, quase escondida do seu próprio olhar, o rosto de feições angélicas da criança cuja morte lhe pesava na consciência como se fosse uma pedra.

 

O desgosto pela morte de Emily estivera prestes a destruí-la. Kate Conlan, uma mulher resoluta e cheia de bom senso. A mágoa e os sentimentos de culpa tinham dado cabo dela, destroçando-a, deixando-a absolutamente atordoada. Não fizera a mais pequena ideia de como lidar com a situação. Procurar apoio no marido não fora uma opção, uma vez que Steven Waterston não hesitara em sobrecarregá-la com os seus próprios sentimentos de culpa e recriminações. Vira-se forçada a recorrer a um amigo...

 

E se disseres ao Sabin que talvez dê resultado continuou Kate, o cadáver em questão irá parar-te às mãos. Eu disse-lhe que tu corroborarias a minha opinião em relação a este assunto. John. e acho melhor que o faças. Estás em dívida para comigo.

 

Sim reconheceu ele em voz baixa; as recordações de outros tempos continuavam muito à superfície. No mínimo.

 

 

Localizado na área de Lovviy Hill, logo a sul da rede de auto-estradas interestaduais que se entrecruzavam num aparente emaranhado circundando a baixa de Mineapolis, o D’Cup era o género de café suficientemente boémio para ser frequentado pela clientela com pendor para as artes plásticas, embora essa característica não fosse tão acentuada ao ponto de afastar a gente do Teatro Guthne e do Centro de Arte Walker situados nas proximidades. Liska entrou tendo-lhe chegado imediatamente às narinas o aroma rico dos grãos exóticos de café importado

 

Ela e Moss tinham dividido as tarefas daquele dia, uma vez que deviam cobrir tanto terreno quanto lhes fosse possível  «Madre Mary», com os vinte e alguns anos de experiência maternal, tinha chamado a si a tarefa pouco invejável de falar com as famílias das duas primeiras vitimas. Iria reabrir as fendas ainda por sarar tão suavemente quanto estivesse ao seu alcance. Por seu lado, Liska aceitara com prazer falar com uma das pessoas que se sabia serem amigas de Jilhan Bondurant Michele Fine

 

Fine trabalhava no D’Cup como empregada de mesa, por vezes, subia até ao pequeno palco, apertado entre um canto e a janela da fachada, onde entoava umas canções que acompanhava com uma viola que ela própria dedilhava. Os três clientes que na altura se encontravam no café sentavam-se a pequenas mesas perto da janela, absorvendo os raios Alares que se filtravam através do vidro depois de três dias de° tempo tristonho próprio de Novembro. Dois homens de mais idade um alto e magro com uma pêra em forma de mosca de pelos grisalhos, o outro mais baixo e corpulento com uma boina preta bebiam café enquanto discutiam os méritos da Fundação Nacional para as Artes. Um homem mais jovem, de cabelo louro, com uns óculos de lentes muito espessas que lhe reduziam os olhos a contas pequeninas, vestindo uma camisola de lã preta de gola alta, tinha defronte de si uma qualquer bebida dupla enquanto se entretinha a fazer as palavras cruzadas de um jornal. No cinzeiro ao lado da bebida ardia um cigarro. Tinha a aparência magra e um tanto desleixada de um actor à procura de trabalho.

 

Liska dirigiu-se ao balcão, onde um belo pedaço de homem de feições italianas, cabelos pretos e encaracolados presos num rabo-de-cavalo, deitava café moído para dentro do recipiente estreito de forma cónica da máquina de café. Lançou-lhe um olhar com os seus olhos da cor escura dos chocolates Godiva. Ela resistiu à tentação de desfalecer. A muito custo. Não teve tanto êxito quando tentou resistir à contagem automática das semanas que haviam decorrido desde a última vez em que tivera relações sexuais. Tivesse Moss estado presente, ter-lhe-ia dito que as mães de garotos com nove e sete anos, em princípio, não deviam pensar nesse género de assunto.

 

Queria falar com a Michele.

 

Ele acenou que sim, preparando-se para tirar um café.

 

Chell!

 

Chell saiu de uma passagem em arco que dava para uma sala nas traseiras, trazendo consigo um tabuleiro com chávenas de café Fiestaware, tipo almoçadeiras, acabadas de lavar. Era uma rapariga alta e magra com umas feições estreitas e ossudas; tinha várias cicatrizes antigas que levaram Liska a deduzir que deveria ter tido um acidente de viação havia bastante tempo. Uma delas curvava para baixo junto da comissura da boca larga. Havia outra que lhe atravessava a maçã do rosto como se fosse uma minhoca pequena e achatada. O seu cabelo negro tinha um brilho acastanhado que não era natural, e que penteava todo para trás colado ao couro cabeludo, prendendo-o num nó de onde saíam uns cabelos frisados mais bastos do que a cauda de uma raposa.

 

Discretamente, Liska apresentou-lhe o seu crachá.

 

Obrigada por se ter prontificado a falar comigo, Michele. Podemos sentar-nos?

 

Fine pousou o tabuleiro tirando a mala de mão que guardava debaixo do tampo do balcão.

 

Importa-se que eu fume?

 

Não, à vontade.

 

Tenho a impressão de que nunca paro queixou-se ela numa voz tão enrouquecida que mais parecia a dobradiça ferrugenta de um portão a precisar de arranjo. Indicou uma mesa na secção reservada aos fumadores, tão longe quanto possível do homem louro. Esse assunto em relação à Jillie... Tenho os nervos em franja.

 

A mão tremia-lhe ligeiramente quando retirou um cigarro comprido e fino de uma cigarreira verde de um material sintético ordinário. Na pele descolorada das costas da mão direita viam-se algumas estrias que a desfeavam. Tinha uma tatuagem em redor da cicatriz no pulso, o desenho intricado de uma serpente de traços elegantemente sinuosos, cuja cabeça se alongava até às costas da mão.

 

Isso tem todo o aspecto de ter sido uma queimadura muito grave comentou Liska apontando para a cicatriz com a caneta enquanto abria o bloco de apontamentos.

 

Fine estendeu a mão como se estivesse a admirar a cicatriz.

 

Queimei-me com óleo a ferver - explicou sem qualquer traço de emoção. Quando era miúda. Acendeu o isqueiro ficando a olhar fixamente para a chama, enrugando as sobrancelhas por uns instantes. Pensei que morria de dores.

 

Aposto que sim.

 

Portanto... começou ela como se afugentasse aquelas recordações de outros tempos. O que é que se passa? Ninguém parece ter a certeza absoluta de que a Jillie esteja morta, mas a verdade é que está, não é? Todas as notícias falam de «especulações» e «plausivelmente», mas o Peter Bondurant já se decidiu a oferecer uma recompensa. Por que razão é que ele faria isso se não se tratasse da Jillie? Porque será que ninguém tem coragem para dizer que é ela?

 

’ Receio não poder fazer qualquer comentário quanto a esse assunto. Há quanto tempo é que conhece a Jillian?

 

mais ou menos um ano. Costumava vir aqui todas as sextas-feiras, antes ou depois da consulta no psiquiatra. Com o tempo, começámos a travar conhecimento

 

Inspirou uma grande baforada do cigarro exalando o fumo por entre dentes bem separados. Tinha uns olhos cor de avelã demasiado estreitos que maquilhava com um traço negro excessivamente carregado, enquanto as pestanas eram curtas e estavam empasteladas tanto o rímel que ela lhes aplicara. Vanlees dissera que ela tinha uma expressão de pessoa má. Nikki pensou que dura seria o termo mais adequado.

 

Quando é que viu a Jillian pela última vez?

 

Na sexta-feira passada. Passou por aqui a caminho do vampiro psíquico.

 

Isso significa que o doutor Brandt não merece a sua aprovação? Conhece-o?

 

Michele pestanejou por entre uma baforada de fumo

 

Sei que ele é uma sanguessuga que só se interessa por dinheiro, que se está nas tintas para todos além dele próprio. Fartei-me de dizer à Jillian que o mandasse dar uma volta e que arranjasse uma psiquiatra. Ele era a última coisa de que ela precisava. O homem só estava interessado em meter a mão nas algibeiras do papá.

 

Sabe por que razão é que ela ia ao consultório dele? Michele olhou por cima do ombro de Liska fixando-se na janela.

 

Depressão. Problemas por resolver por causa do divórcio dos pais, a par de outros devido à mãe e ao padrasto. As merdas do costume com a família, percebe?

 

É com prazer que lhe digo que não faço a mínima ideia. Ela explicou-lhe mais especificamente o que é que a afligia?

 

Não.

 

«Mentirosa», pensou Liska.

 

Sabe se ela alguma vez se drogou?

 

Nada de muito sério.

 

O que é que quer dizer com isso?

 

Um bocado de erva de vez em quando se se sentia mais tensa.

 

A quem é que ela costumava comprá-la?

 

A uma amiga respondeu Fine com a fisionomia contraída, o que fez com que as cicatrizes no rosto parecessem mais escuras e luzidias.

 

Liska deduziu que a rapariga estaria a referir-se a si própria. Abriu as mãos num gesto conciliatório.

 

Ei, eu não estou aqui para levar ninguém de cana por causa de um bocado de erva. Só pretendo saber se é possível que a Jillian tivesse algum inimigo que estivesse relacionado com esse hábito.

 

Não. Para já, era muito raro que ela fizesse isso. Nada que se parecesse como quando viveu na Europa. Aí é que ela andava metida em tudo... sexo, drogas e álcool. Mas quando veio para cá desabituou-se de tudo isso.

 

Assim, sem mais nem menos? Ela volta para cá e começa a viver que nem uma freira, é isso?

 

Ela tentou matar-se replicou Fine sacudindo a cinza do cigarro. Calculo que isso seja suficiente para mudar qualquer pessoa.

 

Isso aconteceu em França? Quando tentou matar-se?

 

Pelo menos foi o que ela me disse. O padrasto internou-a num hospital psiquiátrico durante algum tempo. O que não deixa de ser irónico, uma vez que ela era louca por ele.

 

O que é que quer dizer com isso? perguntou Liska sem entender.

 

Ele andava a fodê-la. Na verdade, durante algum tempo a Jillie acreditava que estava apaixonado por ela. Queria que se divorciasse da mãe e que casasse com ela. Michele dava aquelas explicações como se fossem a coisa mais banal do mundo, como se aquele tipo de comportamento fosse a norma no seu mundo. Acabou por tomar uma data de comprimidos. E o bom do padrasto internou-a. Quando teve alta, a Jillie decidiu vir para cá.

 

Liska tomava nota daquelas informações num tipo de estenografia muito pessoal que ninguém conseguia ler além de ela própria. O entusiasmo que sentia tornava a escrita ainda mais ilegível. Sem dúvida que lhe saíra a sorte grande ao decidir falar com aquela rapariga. Kovac iria adorar.

 

O padrasto veio alguma vez aos Estados Unidos para a ver?

 

Não. Essa coisa da tentativa de suicídio acagaçou-o, calculo eu. A Jillie disse-me que ele nem sequer a foi ver ao hospital de malucos acrescentou Michele com um suspiro acompanhado de uma nuvem de fumo, olhando para um ponto atrás do fulano louro. Aquilo que passa por ser amor é muito triste, não acha?

 

Qual era o estado de espírito dela na sexta-feira? continuou Liska.

 

Não sei bem respondeu a rapariga soerguendo, para logo deixar descair, os ombros ossudos. Eu diria que a modos que tensa. Quando cá veio isto estava cheio de clientes. Não tivemos tempo para conversar. Eu disse-lhe que lhe ligaria no sábado.

 

E telefonou?

 

Sim. Mas respondeu-me o atendedor de chamadas, Deixei uma mensagem, mas nunca chegou a telefonar-me.

 

Uma vez mais, ficou a olhar pela janela, se bem que não visse nada do que se passava na rua. Com os olhos em alvo, como se visse o fim-de-semana passado. Perguntando a si mesma se poderia ter feito alguma coisa de maneira diferente que talvez tivesse impedido a tragédia.

 

Nikki tivera ocasião de ver a mesma expressão muitas vezes.

 

Michele Fine ficou com os olhos marejados de lágrimas, apesar da expressão endurecida; cerrou os lábios com cicatrizes formando uma linha apertada.

 

Deduzi que ela teria dormido em casa do pai acrescentou a rapariga com palavras que se estrangulavam na garganta. Ainda pensei em ir a casa dela no domingo, mas depois... acabei por não ir...

 

O que é que fez nesse domingo?

 

Nada replicou, inclinando a cabeça ligeiramente.

 

Dormi até tarde. Depois dei um passeio pelos lagos. Nada de especial. Levou uma mão à boca mantendo-a sobre os lábios, fechando os olhos com força num esforço para recuperar a compostura. As faces pálidas ficaram avermelhadas quando conteve a respiração, opondo resistência à vontade de chorar.

 

Liska esperou que ela se recompusesse. Os dois fulanos mais velhos tinham começado a discutir o conceito de performance.

 

Como é que mijar para dentro de uma garrafa cheia de crucifixos pode ser considerado uma forma de arte? perguntava o homem da boina num tom autoritário.

 

É uma forma de afirmação argumentou o da mosca no queixo. A arte em si é uma forma de afirmação.

 

O fulano louro folheou o jornal até à secção dos anúncios de emprego, observando Michele pelo canto do olho. Liska lançou-lhe o seu olhar de polícia; achou por bem retomar a sua leitura.

 

E quanto ao resto do fim-de-semana? perguntou a detective voltando a concentrar a sua atenção em Fine. Na sexta à noite, o que é que fez depois de ter saido do trabalho?

 

Porquê? A desconfiança foi imediata, aliada a um sentimento de afronta e um tudo-nada de pânico

 

. Nada de especial, simples rotina. Precisamos de saber onde é que os familiares e amigos da Jillian se encontravam na hipótese de ela ter tentado entrar em contacto com eles

 

. O que não aconteceu comigo retorquiu Michele

 

Isso quer dizer que ficou em casa?

 

Fui ao cinema já bastante tarde, mas tenho um atendedor de chamadas. Se ela tivesse ligado, teria deixado uma mensagem

 

Alguma vez dormiu em casa da Jillian?

 

Fine fungou, limpando os olhos e o nariz com a mão continuando a fumar o cigarro quase no fim. A mão tremia-lhe

 

Sim, às vezes Nós costumávamos compor música. A Jillie recusa-se a cantar, embora cante muito bem

 

Falava alternadamente no presente e no passado quando se referia à amiga. Era sempre uma transição difícil por que as pessoas eram forçadas a passar depois da morte de alguém que conheciam

 

Encontrámos algumas peças de roupa na cómoda do quarto de hóspedes que pensamos não serem dela

 

São coisas minhas. Ela vive longe, junto do rio. Havia ocasiões em que ficávamos a compor música até tarde e nessas noites eu dormia em casa dela

 

Tem alguma chave da porta?

 

Não. Por que é que havia de ter? Não vivo em casa dela

 

Como é que ela era em relação a arrumação e limpeza da casa?

 

Que diferença é que isso faz?

 

Era arrumada? Desmazelada?

 

Desmazelada respondeu Fine, denotando irritação e impaciência por algo que não compreendia. Costumava deixar tudo por todo o lado, roupas, louça, cinzeiros. Mas que diferença é que isso faz? Ela está morta insistiu Michele baixando a cabeça. Aquelas palavras provocaram lhe outra vaga de emoção tão forte que ficou com as faces vermelhas tentando conter as lágrimas. Ela morreu. Ele queimou-lhe o corpo. Oh, meu Deus. Por entre as pestanas deslizaram duas lágrimas que caíram em cima do toalhete de papel

 

Michele, ainda não temos a certeza absoluta de que lhe tenha acontecido alguma coisa de mal.

 

Fine largou a ponta do cigarro no cinzeiro, ocultando o rosto nas mãos. Não chorava, mas fazia todos os esforços para não dar largas a uma crise de choro.

 

Talvez ela tenha ido uns dias para fora sugeriu Liska. Não sabemos ao certo. E você, sabe?

 

Não.

 

Tem conhecimento de alguém que quisesse fazer mal a Jillian?

 

Michele Fine respondeu com um abanar de cabeça.

 

Ela tem namorado? Algum ex-namorado? Algum tipo que andasse interessado nela?

 

Não.

 

E quanto a si? Tem algum namorado?

 

Não respondeu Michele baixando o olhar para a beata que continuava a arder no cinzeiro. Para que é que eu haveria de querer um namorado?

 

A Jillian alguma vez lhe falou de algum homem que a assediasse? Que a observasse, talvez? Que se atirasse a ela?

 

Você sabe como é que os homens são replicou ela e, desta feita, riu-se com azedume. Todos olham. Todos pensam que têm uma oportunidade. Quem é que presta atenção aos falhados? Fungou, respirando fundo; soltou o ar dos pulmões estendendo a mão para outro cigarro. Tinha as unhas roídas até ao sabugo.

 

Como é que era o relacionamento dela com o pai? Davam-se bem?

 

Ela adora o pai retorquiu Fine imprimindo um trejeito aos lábios. Não percebo por que razão.

 

Isso significa que você não gosta dele?

 

Nunca me foi apresentado. Mas a verdade é que ela está sob o controlo dele, não acha? A casa na cidade é dele. também é ele quem paga as propinas, as contas do psiquiatra que, aliás, foi escolhido por ele. Jantar com a filha todas as sextas-feiras. Sem esquecer o automóvel.

 

Na perspectiva de Liska, não podia haver melhor. Talvez conseguisse convencer Bondurant a adoptá-la. Deixou que o assunto morresse. Começava a dar a impressão de que tinha um pénis, o que não agradava a Michele.

 

Michele, sabe se a Jillian tinha alguma marca especial no corpo: verrugas, cicatrizes, tatuagens?

 

Como raio é que eu havia de saber isso? ripostou Michele olhando-a de través. Não éramos amantes

 

Portanto, não tinha nada que se distinguisse à primeira vista. Não tinha nenhuma cicatriz nos braços. Também não tinha a tatuagem de uma serpente à volta do pulso

 

Que eu tenha reparado, não

 

Se passasse uma vista de olhos pelo apartamento da Jilhan, dar-se-ia conta, caso faltasse alguma coisa’ Como por exemplo, se ela tivesse emalado algumas roupas indo para qualquer sítio?

 

Imagino que sim respondeu Michele com um encolher de ombros

 

Óptimo. Vamos ver se podemos ir dar um passeio

 

Enquanto Michele Fine combinava com o patrão, o machão italiano, uma forma de ele poder dispensá-la por uma hora, Liska saiu do café, tirou o telemóvel de um dos bolsos e ligou o número de Kovac

 

O ar estava límpido e soprava uma brisa fria, um clima habitual em Novembro Mas o dia não estava mau. Uma imitação mais pálida do tempo glorioso que costumava fazer em finais de Setembro, princípios de Outubro, que levava o Minnesota a poder rivalizar com qualquer outro estado. Terminadas as aulas, os rapazes de Liska teriam pegado nas suas bicicletas, tentando não perder uma única pedalada antes que a neve começasse a cair, altura em que seria a vez de os trenós saírem do local onde estavam guardados. Tinham muita sorte por isso ainda não ter acontecido

 

Cabana do Alce rosnou-lhe ao ouvido uma voz roufenha

 

Posso falar com o Bullwinkle? Ouvi dizer que ele tem uma pixa do tamanho do meu braço

 

Jesus, Liska. Só consegues pensar nisso?

 

Nisso e no saldo da minha conta bancária. Não sou capaz de me saciar, quer com uma quer com o outro.

 

Estás a pregar para os peixinhos. O que é que tens Para mim?

 

Alem de tusa? Uma pergunta. Quando passaste revista à casa da Jilhan, na segunda-feira, tiraste a cassete do gravador de chamadas?

 

O aparelho é digital. Não havia nenhuma mensagem

 

Há uma amiga dela que diz que lhe telefonou no

 

Sábado e que deixou uma mensagem. Portanto, quem é que a apagou?

 

Hummm... temos mistério. Detesto mistérios. Tens mais alguma coisa?

 

Tenho, sim respondeu Liska olhando pela janela para o interior do café. Uma fábula capaz de rivalizar com o Shakespeare.

 

Ela tentava recomeçar uma vida nova insistia a mãe de Lila White. A expressão de dureza no seu rosto deixava adivinhar alguém cuja obstinação constante lhe advinha da insistência com que repetia uma mentira. Uma mentira em que desejava crer desesperadamente, mas em que bem no fundo do seu coração, não era capaz de acreditar.

 

Mary Moss sentiu uma profunda tristeza por aquela mulher.

 

A família White residia numa pequena comunidade agrícola, em Glencoe. O tipo de localidade onde as coscuvilhices eram um passatempo comum, em que os rumores dilaceravam como vidros quebrados. Mr. White era mecânico num concessionário de alfaias agrícolas. Viviam na linha limítrofe da pequena cidade, numa vivenda muito bem cuidada ao estilo das casas dos ranchos, com uma família de veados de cimento dispostos pelo relvado da frente e um balouço duplo no jardim das traseiras. Os balouços eram para a neta que estavam a criar: a filha de Lila, Kylie. uma criança de quatro anos de cabelos revoltos, abençoadamente imunizada contra os factos que rodeavam a morte da mãe. De momento.

 

Ela telefonou-nos nessa quinta-feira à noite. Bem vê, tinha-se deixado de drogas. Eram as drogas que a arrastavam para o fundo. As feições de Mrs. White enrugaram-se num semblante encrespado, como se a amargura que lhe permeava os sentimentos lhe deixasse um sabor amargo na boca. É tudo culpa desse rapaz, o Ostertag. Ele é o culpado por ela ter começado a consumir drogas.

 

Deixa-te disso, Jeannie disse Mr. White apaziguador, acusando o cansaço por ter de ouvir a repetição de acusações que não levavam a nada. Era um homem de estatura elevada e magro, com uns olhos de um azul de ganga deslavada. Tinha a pele curtida pelo sol, com as rugas de desgaste características dos agricultores, o que se devia ao ter passado muitos anos sob um sol intenso.

 

- Não me venhas com conversas dessas ripostou a mulher. Toda a gente na cidade sabe que ele se dedica ao tráfico de drogas, mas os pais andam por aí como se a merda que cagam não cheirasse mal. Mete-me nojo

 

Allan Ostertag? perguntou Moss, consultando os seus apontamentos. A vossa filha andou no liceu com ele, não é verdade?

 

Mr White suspirou acenando que sim, preparado para suportar de novo todo aquele processo, esperando que terminasse para que pudessem recomeçar uma vez mais a sarar feridas antigas, na esperança de que aquela fosse a ultima vez em que as feridas tivessem de ser reabertas. A mulher continuou a arengar a respeito dos Ostertag. Moss aguardava pacientemente, sabendo de antemão que Allan Ostertag não era, nem nunca fora, um suspeito plausível a que se pudesse imputar o assassínio de Lila White, pelo que, consequentemente, para ela era irrelevante Mas para os White, o assunto não era assim tão irrelevante

 

Ela aludiu a algum homem em especial com quem tivesse andado no Verão passado? perguntou ela quando a arenga chegou ao fim. Um namorado certo? Alguém que talvez lhe tenha criado uma situação problemática.

 

Já respondemos a todas essas perguntas atalhou Jeanme com mostras de impaciência. É como se vocês não se dessem ao trabalho de tomar apontamento seja do que for. É claro que isso não tinha importância quando foi só a nossa rapariga a morrer acrescentou com um sarcasmo agudo que nem a ponta de uma agulha Não vimos nenhum grupo de trabalho nos noticiários quando só a Lila é que tinha sido assassinada. A polícia nunca se interessou

 

Isso não é verdade, Mistress White

 

Também não se importaram quando esse traficante de drogas a espancou no Outono passado. Nem sequer se deram ao incómodo de o levar a tribunal. É como se a nossa filha não contasse. Os olhos da mulher ficaram cheios de lágrimas e a garganta embargada. Ela não era importante Para ninguém, alem de nós.

 

Moss apresentou as suas desculpas, sabendo bem que não seriam aceites. Não havia nenhuma explicação que pudesse penetrar o desgosto, os insultos que eram fruto da imaginação, a cólera, o sofrimento Na perspectiva dos White.

 

era-lhes indiferente que um assassínio isolado fosse, necessariamente, investigado em moldes diversos dos que se verificariam numa situação de homicídios em série que se relacionassem entre si. Para eles, o importante era uma filha que haviam amado ter começado a trilhar uma das veredas da vida mais tenebrosas. Importava-lhes que ela tivesse morrido quando se dedicava à prostituição. Era com esse estigma que seria recordada pelo mundo, isto é, se porventura houvesse alguém que continuasse a recordar-se dela. A vítima número um, uma mulher sentenciada por prostituição e uso de estupefacientes.

 

Muito provavelmente, quando adormeciam, os White viam mentalmente esses cabeçalhos nos jornais. As esperanças que haviam acalentado de que a filha mudasse de vida tinham morrido sem terem sido preenchidas, e mais ninguém no mundo estava interessado no facto de Lila ter desejado vir a ser uma terapeuta, ou que tivesse sido uma estudante acima da média durante os estudos do ensino secundário, ou por ter, muito frequentemente, chorado de desespero porque não possuía meios suficientes para criar a sua própria filha.

 

Na pasta que Moss colocara sobre o assento do passageiro da frente havia várias fotografias de Lila e Kylie no jardim das traseiras da casa dos White. Sorridente e radiante, com um chapelinho próprio para festas aquando do quarto aniversário da filha. Fotografias de mãe e filha a chapinharem numa pequena piscina de plástico verde. Três semanas mais tarde, houvera alguém que ceifara a vida de Lila White tantas as torturas a que a tinha sujeitado, tendo profanado o corpo, a que posteriormente deitara fogo como se fosse um monte de lixo.

 

A vítima número um, uma mulher sentenciada por prostituição e uso de estupefacientes.

 

Em pensamento, Moss reviu os mecanismos que poderiam sossegar-lhe a consciência. A Polícia não podia formar um grupo de trabalho por cada homicídio que era cometido na cidade. O assassínio de Lila White fora investigado exaustivamente. Sam Kovac havia sido incumbido do caso; era um homem que gozava da reputação de dar o seu melhor em relação a todas as vítimas, independentemente do que cada uma tivesse sido em vida.

 

Mesmo assim, era incapaz de evitar algumas dúvidas.., tal como Jeannie White: se a vítima número um tivesse sido Jillian Bondurant, até que ponto é que as coisas teriam sido diferentes?

 

As fechaduras já haviam sido mudadas na casa onde Jillian Bondurant vivera, em Edgewater; um conjunto dessas chaves fora entregue no departamento de polícia da cidade. Liska inseriu a chave novinha em folha na ranhura da fechadura, abrindo a porta. Acompanhada de Michele Fine dirigiu-se para os quartos, observando Fine que começou a revistar os roupeiros, detendo-se de vez em quando por breves momentos quando via algo que lhe trazia recordações à memória.

 

Jesus, isto é um tanto fantasmagórico disse ela olhando em redor. Ver este lugar tão limpo.

 

A Jillian não tinha nenhum serviço de limpeza?

 

Não. Houve uma ocasião em que o pai tentou arranjar-lhe uma mulher-a-dias, como se fosse um presente. Ele é o homem mais doentiamente meticuloso à face do planeta. Mas a Jillie disse-lhe que não queria. Não queria que as pessoas bisbilhotassem as suas coisas. Passado algum tempo acrescentou: Que eu tenha dado por isso, não falta nada. Em frente do toucador de Jillian, com o olhar percorreu os poucos objectos que ali estavam: um guarda-jóias de mogno, umas velas com fragrâncias exóticas em castiçais desirmanados, a figurinha de porcelana de uma mulher elegante que usava um vestido azul bastante rodado. Com muito cuidado, tocou na figurinha; no seu rosto espelhava-se uma expressão sonhadora.

 

Enquanto Michele Fine reunia as poucas coisas que deixara no quarto de hóspedes, Liska desceu ao piso térreo dirigindo-se para a sala de estar que abarcou num breve olhar, vendo aquele espaço de uma maneira diferente daquela com que o tinha observado antes de conhecer a amiga de Jillian. Devia estar numa grande desarrumação, mas a verdade é que não estava. Nunca tivera conhecimento de nenhum assassino que oferecesse serviço de limpeza como parte do pacote, mas tinha havido alguém que se dera ao trabalho de limpar e arrumar aquela casa. E não se limitara a limpar tudo para que não restassem impressões digitais. Quem quer que fosse, fizera uma limpeza geral, dobrando e arrumando as roupas espalhadas, além de ter lavado a louça.

 

Os pensamentos de Liska regressaram a Michele Fine e a Jillian, à amizade que ambas tinham partilhado. Certamente que teriam formado um par extravagante: a filha de um multimilionário e a empregada de mesa de um café. Caso alguém tivesse exigido um resgate a Peter Bondurant, com certeza que aquela amizade teria sido automaticamente examinada a pente fino. Até mesmo na ausência de tal pedido. pela força do hábito, as suspeitas ocorreram fugazmente ao pensamento de Liska.

 

Consideradas e postas de parte. Michele Fine estava a cooperar em toda a linha. Nada na sua atitude nem nas suas palavras parecia desenquadrado. O desgosto que a rapariga manifestava dava a impressão de ser genuíno, e nesse sentimento adivinhavam-se traços de cólera e alívio, bem como culpabilização, como os que Liska encontrara vezes sem conta nas pessoas que alguém que tivesse sido vítima de assassínio deixava atrás de si.

 

Mesmo assim, tencionava dar entrada do nome de Michele Fine no computador, só para ver se encontraria alguma coisa a respeito dela.

 

Atravessou a sala de estar encaminhando-se para o teclado electrónico. Jillian Bondurant compusera música, apesar de ser demasiado tímida para cantar as suas canções. Era o tipo de pormenor que a transformava numa pessoa a sério, dando uma impressão com que não se ficava quando se sabia apenas que era filha de Peter Bondurant. A pauta de música impecavelmente colocada acima do teclado era uma peça clássica. Outra contradição na imagem de Jillian. Liska ergueu o assento acolchoado dando uma vista de olhos pela colecção de músicas no interior: música popular, rock, alternativa e dos anos sessenta...

 

Alto, não se mexa!

 

O primeiro impulso que Liska sentiu foi sacar da arma, mas manteve-se inclinada sobre o banco do piano, respirando pela boca. Em movimentos lentos, começou a virar a cabeça; sentiu-se invadida por um alívio enorme, sensação que deu lugar ao mau humor.

 

Sou eu, Mister Vanlees. A detective Liska esclareceu endireitando-se. Por favor, baixe a sua arma.

 

Vanlees mantinha-se junto da ombreira da porta pelo lado de dentro; usava o seu uniforme de segurança e empunhava uma Colt Pethon com as duas mãos. Liska sentiu uma vontade quase irresistível de lhe retirar a arma das mãos, batendo-lhe na cabeça com a coronha.

 

O homem pestanejou, baixando o revólver e esboçando um sorriso acanhado que mal era perceptível, parecendo-se mais com um arreganho de lábios.

 

Credo, detective, peço desculpa. Não sabia que tencionava vir até cá. Quando vi que havia alguém dentro de casa, pensei logo no pior... Sabe como é... os repórteres dos pasquins que têm andado a farejar por aqui. Ouvi dizer que roubam tudo o que não esteja pregado.

 

Está a dizer-me que não reconheceu o meu carro? perguntou Liska um tudo-nada irritada de mais.

 

Hum, calculo que não. Lamento muito.

 

«O tanas é que não reconheceste!», pensou Liska. Os aspirantes a polícias da igualha de Vanlees tinham o costume de anotar tudo o que encontravam no mundo a sério. A detective estava pronta a apostar que ele tivera o cuidado de tomar apontamento do número da chapa de matrícula. Sem dúvida que teria reconhecido a marca e o modelo. Toda aquela encenação era para a impressionar. Gil Vanlees: «O Homem de Acção». Sempre de olho em tudo. Sempre a trabalhar. Sempre muito diligente. «Que Deus nos valha a todos», pensou Liska abanando a cabeça.

 

Essa é uma arma e pêras, Gil comentou ela aproximando-se do homem. Suponho que não seja necessário perguntar-lhe se tem licença de porte de arma?

 

Os olhos dele adquiriram uma expressão que deixava adivinhar alguma frieza, enquanto o sorriso lhe esmorecia nos lábios. Não lhe agradava que ela o repreendesse. Não desejava que ninguém lhe recordasse que o seu uniforme não era o mesmo que o de um polícia a sério. Enfiou o cano da Python por dentro do cinto das calças, acomodando a arma junto da barriga.

 

Sim, tenho licença de porte de arma.

 

Isso é uma ferramenta e tanto! acrescentou ela com um sorriso forçado. Não é muito boa ideia apanhar & pessoas de surpresa pelas costas com uma arma dessas, Gil. Nunca se sabe o que é que poderá suceder. Uns reflexos um pouco menos controlados nesse dia, e você corre o risco de mandar alguém desta para melhor. O que, tal como sabe, seria um caso muito sério para todas as pessoas envolvidas num incidente desses.

 

Ele mantinha os olhos afastados dos dela, qual criança a quem admoestassem por ter mexido sem autorização nas ferramentas do pai.

 

Você disse que os repórteres têm andado a bisbilhotar por aqui? No entanto, ninguém entrou na casa, pois não?

 

A atenção dele desviou-se ainda mais, carregando o sobrolho mais acentuadamente. Liska lançou um rápido olhar por cima do ombro. Michele Fine encontrava-se ao fundo das escadas, com uma pilha de roupas negras por dobrar que apertava contra o corpo. Mostrava-se ofendida com a presença de Vanlees.

 

Mister Vanlees? insistiu Liska, voltando a concentrar-se no homem enquanto Michele ia para a cozinha. Tanto quanto o senhor sabe, ninguém esteve dentro desta casa, não é verdade?

 

Precisamente confirmou ele retrocedendo um passo para a entrada, com a mão pousada na coronha da Python. Mantinha o olhar preso em Michele, observando-a a largar as peças de vestuário em cima da bancada que separava a zona da cozinha da área de estar. Tenho de ir acrescentou, carrancudo. Eu limito-me a ficar de olho na casa, mais nada.

 

Liska seguiu-o até aos degraus do alpendre.

 

Ei, Gil, peço desculpa se fui um pouco brusca consigo ali dentro. Mas você apanhou-me de surpresa. Não sei se sabe, mas pregou-me um grande susto.

 

Desta feita, Vanlees não mordeu o anzol. Ela pusera a sua honra em questão, impugnando o seu estatuto de igual e magoando o seu orgulho. As afinidades que haviam sido estabelecidas dois dias antes ruíram pela base. Liska esperara que se tivessem aguentado melhor, concluindo que aquela fragilidade era indicadora de qualquer coisa. Outro aspecto que teria de ser abordado quando falasse com Quinn: a imagem que Vanlees tinha de si próprio.

 

Não tem importância, já passou replicou ele finalmente olhando para ela e fazendo beicinho.

 

Fico satisfeita por saber que fica de olho na casa acrescentou Liska. Com certeza que já ouviu falar da reunião que terá lugar esta noite com os membros da comunidade? Se tiver uma oportunidade, talvez não fosse má ideia você passar por lá. Liska ficou a observá-lo enquanto ele se afastava, interrogando-se. À distância, Vanlees tinha a aparência de um polícia da cidade, com o seu uniforme azul-escuro. Seria fácil a um fulano qualquer de uniforme fazer com que uma mulher parasse para falar com ele. As três vítimas de Joe «Fumacento» tinham levado sumiço sem que ninguém ouvisse um grito sequer, tal como não existira notícia de qualquer actividade suspeita nas áreas onde tinham desaparecido. Por outro lado, ninguém mencionara ter visto um uniforme por perto.

 

Estou pronta.

 

Liska ficou sobressaltada ao ouvir a voz da pequena Michele Fine, virando-se e deparando-se-lhe ela à entrada da casa, com as suas roupas dentro de um saco de plástico do Supermercado Rainbow Foods.

 

Muito bem. Óptimo. Eu levo-a de automóvel até ao café ofereceu-se Liska, fechando a porta à chave enquanto Fine esperava por si ao fundo dos degraus do alpendre. Vanlees já desaparecera por um caminho sinuoso, embora continuasse no pensamento da detective.

 

Você conhece aquele tipo? perguntou quando se instalaram no carro.

 

Pessoalmente não conheço replicou Michele com os braços à volta do seu saco do Rainbow, como se agarrasse uma criança. Tal como eu lhe disse há pouco, quem é que presta alguma atenção aos falhados?

 

Ninguém, reflectiu Liska enquanto engrenava a mudança na caixa de velocidades. Mas enquanto ninguém lhes prestaa a mínima atenção, permitia-se aos falhados que remoessem as suas fantasias, entregando-se a devaneios em que se vimgariam de todas as mulheres que os tivessem rejeitado e que jamais sentiriam amor por eles.

 

 

Portanto, o que é que lhe parece, John? perguntou Sabin. A rapariga está a tentar esconder-nos alguma coisa?

 

Estavam sentados na sala de reuniões no escritório do promotor público: Quinn, Sabin, Kate e Marshall. Quinn fitava Kate sentada à sua frente, de queixo firme e fogo nos olhos; era por de mais evidente que ela lhe dedicaria pensamentos violentos, caso ele tomasse o partido errado naquela questão. Apenas outro campo minado que ele teria de atravessar. Manteve o olhar preso ao dela.

 

Sim. As chamas ficaram mais ardentes. Mas porque tem medo. O mais provável é ela sentir que, de uma maneira qualquer, o assassino sabe o que anda a fazer, como se ele a observasse quando fala com a polícia ou descreve as suas feições ao vosso retratista. O que é um fenómeno bastante comum. Não é verdade, Kate?

 

É. Agora o seu olhar reflectia a acumulação do fogo. Reservava-se o direito de o queimar mais tarde. A Quran agradava sobremaneira que ela continuasse a sentir emoções tão fortes em relação à sua pessoa. As emoções negativas não deixavam de o ser por causa do adjectivo. A indiferença é que era o sentimento a temer.

 

O sentido de um mal omnisciente - - disse Marshall, acenando com uma expressão de sabedoria. Já tive oportunidade de ver isso em muitas ocasiões. É absolutamente fascinante. Até mesmo as vítimas mais sensatas e de raciocínio lógico o experimentam. Serviu-se do comando à distância do aparelho de vídeo para rebobinar a fita até ao início da gravação em filme do primeiro interrogatório de Angie DiMarco, a qual tivera lugar uma hora depois de ter sido detida por um agente policial. Já tinham assistido à projecção daquela cassete. Imobilizavam as imagens nos pontos mais importantes, alturas em que Marshall e Sabin concentravam a sua atenção em Quinn, esperando uma revelação inspiradora, quais discípulos sentados aos pés de Cristo.

 

É óbvio nesta imagem que ela está aterrorizada continuou Marshall, repetindo num timbre autoritário o que Quinn já dissera na primeira vez em que haviam projectado a cassete. Até se pode ver que ela está a tremer, o que também se detecta na maneira de falar. Você tem toda a razão, John.

 

John, meu amigo, meu compincha, meu colega. Aquela familiaridade surtiu o efeito contrário em Quinn, se bem que fosse algo que ele cultivasse premeditadamente. Estava cansado de gente que fingia conhecê-lo por dentro, e ainda mais farto dos que se mostravam desmesuradamente impressionados perante a sua pessoa. Perguntou a si mesmo até que ponto é que Rob Marshall se mostraria impressionado, se soubesse que ele despertava a meio de quase todas as noites, a tremer e quase doente, por se sentir incapaz de suportar aquela situação por muito mais tempo.

 

Marshall aumentou o volume no ponto em que a rapariga perdera as estribeiras gritando numa voz descontrolada: «Eu não o conheço! Ele deitou fogo à merda do cadáver! Ele é um cabrão, um tarado qualquer!»

 

É óbvio que ela não está a fingir disse Quinn em voz baixa, semicerrando os olhos para ver melhor as imagens no ecrã do televisor, como se isso melhorasse o seu grau de visão, permitindo-lhe perscrutar o interior da mente da rapariga.

 

Sabin mostrava-se desagradado, como se estivesse à espera de encontrar uma justificação que lhe permitisse meter a rapariga na choça.

 

Talvez ela se sentisse mais em segurança atrás das grades.

 

A Angie não fez nada contra a lei ripostou Kate. Nem sequer era obrigada a admitir ter visto esse bandalho. Precisa da nossa ajuda e não das nossas ameaças.

 

O rubor começou a subir furtivamente por dentro do colarinho da camisa do promotor público.

 

Ted, não pretendemos criar aqui uma situação de antagonismo interveio Quinn com muita calma. A imagem perfeita da paciência infinita e do controlo absoluto.

 

A rapariga encenou esta explosão de raiva argumentou Sabin. No preciso momento em que lhe pus a vista em cima, tive o pressentimento de que havia qualquer coisa que não batia certo. Devíamos ter-lhe posto o jogo a descoberto nessa ocasião. Para que ela não ficasse com dúvidas de que não estamos para brincadeiras.

 

Na minha opinião, acho que você agiu da forma mais adequada contrapôs Quinn. Os miúdos como a Angie não confiam no sistema. Era imprescindível que puséssemos alguém a trabalhar com ela que lhe demonstrasse amizade e a Kate foi a escolha ideal. É uma pessoa franca e genuína que não está cheia de tretas nem de falsa simpatia. Deixe que seja a Kate a lidar com ela. Com ameaças ninguém conseguirá obter nada da rapariga. A Angie já está à espera que a ameacem com isto e aquilo; as ameaças mais não farão do que ricochete na carapaça em que ela se envolveu.

 

Caso não nos forneça qualquer coisa que nos possa ser útil, não haverá nada com que lidar retrucou Sabin, pouco cordato. Se ela não puder dar-nos nenhuma informação, então não vale a pena estar a desperdiçar nela os recursos financeiros do concelho.

 

Não é um desperdício insistiu Kate.

 

Qual é a sua opinião quanto a este assunto, John? perguntou Marshall, apontando com o comando à distância para o televisor. Voltara a rebobinar a cassete. A utilização que ela faz dos pronomes pessoais «Eu não o conheço. «Ele é um tarado qualquer.» Parece-lhe que possa ter algum significado?

 

Quinn bufou numa manifestação de impaciência que ameaçava o seu estado de espírito.

 

Como é que queria que ela se referisse ao tipo... por a coisa?

 

Um dos cantos da boca de Kate contorceu-se.

 

Eu tirei cursos de psicolinguística retorquiu Marshall manifestamente amuado. A escolha da linguagem pode ser muito reveladora.

 

Estou de acordo contemporizou Quinn retomando o seu modo diplomático. No entanto, há que não esquecer que podemos correr o risco de empregar um excesso de análise. Acho que o melhor que se tem a fazer em relação a esta rapariga é mantermo-nos de parte, permitindo que seja a Kate a lidar com ela.

 

Que diabo! Necessitamos de qualquer coisa que nos permita avançar insistiu Sabin como se falasse consigo próprio. Hoje mesmo, ela quase não acrescentou nada ao retrato-robô. Mas a verdade é que ela esteve presente e viu o fulano; no entanto, a pessoa que ela nos descreveu aplica-se a qualquer indivíduo.

 

É possível que seja tudo o que o seu subconsciente lhe permite ver adiantou Kate. O que quer que ela faça, Ted? Que invente qualquer coisa só para que você acredite que está a esforçar-se?

 

Tenho a certeza de que Mister Sabin não estava a sugerir nada disso, Kate atalhou Marshall com uma entoação que denotava reprovação.

 

Eu só pretendi dizer uma brincadeira para ilustrar um ponto, Rob.

 

Apesar de tudo, ela é um elemento valioso na investigação criminal interveio Quinn. Podemos utilizá-la como uma espécie de ameaça. Podemos fingir uma fuga de informações para a imprensa. Dando a entender que ela nos disse mais do que na realidade disse. Podemos usá-la de numerosas maneiras. Neste ponto da situação, não é necessário que ela dê a imagem de uma menina bem-comportada, tal como não é obrigatório que se apresente como um caso perdido.

 

O meu receio é que ela nos tenha andado a mentir sobre tudo e mais alguma coisa admitiu Sabin; o cepticismo de Edwyn Noble já lançara as suas raízes.

 

Já discutimos esse assunto disse Kate tentando não revirar os olhos. Não faz o mínimo sentido. Se ela só andasse atrás do dinheiro, com certeza que se teria posto ao fresco na noite de domingo no parque, ficando muito caladinha até ao dia em que a recompensa fosse oferecida.

 

E se a única coisa que ela tivesse em mente fosse o dinheiro acrescentou Quinn, já teria avançado a dar-nos todos os pormenores. A minha experiência diz-me que a ganância leva a melhor ao medo.

 

E se ela estiver envolvida de algum modo? alvitrou Marshall. Se anda a tentar despistar-nos ou quer obter informações sobre o que se passa na investigação...

 

Não sejas absurdo atalhou Kate, lançando-lhe um olhar furibundo. Se fosse cúmplice desse estupor, nesta altura já nos teria dado uma descrição minuciosa de um fantasma que andaríamos a perseguir. Além do mais, ela não tem acesso a nenhuma informação de que o Cremador não se possa inteirar em qualquer jornal.

 

Marshall baixou o olhar fitando o tampo da mesa. Tinha a extremidade das orelhas avermelhadas.

 

Ela é uma miúda receosa com uma vida muito lixada acrescentou Kate levantando-se da cadeira. Tenho de voltar para junto dela antes que pegue fogo ao meu gabinete.

 

Já acabámos o que tínhamos a fazer aqui? perguntou Marshall incisivo. Calculo que sim. A Kate já disse o que tinha a dizer.

 

A visada mimoseou-o com um olhar de desagrado saindo da sala.

 

Sabin ficou a observá-la os olhos presos no traseiro dela, pensou Quinn e depois de Kate ter transposto a porta, disse:

 

Ela era assim tão teimosa quando trabalhava no FBI.

 

No mínimo respondeu Quinn seguindo o exemplo de Kate, abandonando a sala.

 

Também estás a desertar? perguntou Kate quando Quinn a alcançou. Não quiseste ficar para que o Rob te lambesse as botas? É o que ele sabe fazer melhor.

 

Não tens o teu chefe em grande opinião retorquiu Quinn com uma careta risonha. Não que isso seja alguma coisa de novo.

 

Tu também não pensas grande coisa dele replicou Kate, lançando um olhar cauteloso por cima do ombro. O Rob Marshall é um lambe-botas obsequioso que não sabe o que fazer quando anda a engraxar alguém. Mas para ser justa, tenho de admitir que ele se interessa genuinamente pelo seu trabalho, tentando agir com justiça.

 

Sim, sim. Ora bem, acrescente-se que ele tem formação em psicolinguística.

 

Ele leu o teu livro.

 

Mas existirá alguém que não o tenha lido? perguntou Quinn, arqueando as sobrancelhas.

 

A área da recepção fora dos limites dos elementos da segurança do gabinete do promotor público estava deserta. A recepcionista saíra do seu posto por detrás de uma vidraça à prova de bala. Do lado de fora da porta alguém deixara várias pilhas das Páginas Amarelas mais recentes. A última edição da Truth & Justice encontrava-se sobre uma mesinha de apoio juntamente com meia dúzia de revistas de actualidades já antigas.

 

Estou-te muito grata por me teres apoiado disse Kate voltando-se para Quinn e respirando fundo.

 

Custou-te assim tanto teres de dizer isso? - perguntou Quinn retraindo-se. Meu Deus, Kate!

 

Desculpa. Eu não sou como tu, John. Detesto as jogadas que existem sempre num caso como este. Não foi do meu agrado ver-me forçada a pedir a tua ajuda. Mas imagino que o mínimo que eu posso fazer é expressar-te a minha gratidão, que é genuína.

 

Isso não é necessário. Limitei-me a dizer a verdade. O Sabin queria uma segunda opinião, que eu lhe dei. A razão estava do teu lado. Isso devia deixar-te feliz disse Quinn com secura.

 

Não preciso que me digas que tinha razão. E quanto ao que me faria feliz, devo dizer-te que não se trata de nada que tenha muito a ver com este caso.

 

No que se inclui o eu estar aqui.

 

Recuso-me a continuar este tipo de conversa contigo retorquiu Kate, peremptória. Saiu porta fora, dirigindo-se para o terraço do átrio. Não se via vivalma. Mais de vinte andares cheios de pessoas e nenhuma a jeito em quem pudesse descarregar. Sabia que Quinn vinha logo atrás de si. Pouco depois, colocou-se ao seu lado, pousando a mão no braço dela como se lhe assistisse algum direito de lhe tocar.

 

Kate, lamento muito disse ele, contrito, em voz baixa. Não estou a tentar arranjar uma discussão. A sério que não.

 

Ele encontrava-se tão perto dela, com aqueles olhos demasiado grandes, de pestanas espessas e bonitas: uma expressão quase feminina nas suas feições elevadas à quinta-essência da masculinidade. O tipo de rosto que fazia com que a mulher média sentisse um baque no coração. Kate apercebeu-se de um aperto no peito quando respirava. O nó do polegar de Quinn fazia pressão contra o arredondado lateral do seu seio. Em simultâneo, ambos ficaram conscientes daquele contacto físico.

 

Kate, eu... Mas nesse momento o pager de Quinn começou a tocar; praguejou, soltando-lhe o braço. Kate afastou-se, encostando a anca ao gradeamento do terraço e cruzando os braços à frente do peito enquanto tentava ignorar os sentimentos que aquele contacto físico haviam despertado. Observava-o enquanto ele lia o mostrador, praguejava de novo, substituindo o pager por um telemóvel muito achatado que tirou do bolso do casaco.

 

A luz natural, que se filtrava através do extremo sul do átrio, acentuava os cabelos grisalhos e curtos de Quinn Contra a sua vontade, Kate perguntou-se se na Virgínia teria ficado alguma mulher que se preocupasse com a saúde dele e com os níveis de tensão a que ele se via sujeito dia após dia.

 

Raios partam isto, McCleary! Não és capaz de tratar desse caso durante duas horas sem que haja a porra de uma crise? rosnou ele ao telefone ficando a ouvir durante um minuto o que o outro tinha para lhe dizer. Há um advogado que está envolvido. Merda... Agora não podes fazer nada quanto a isso. A entrevista deu para o torto... Afasta-te e volta a rever as provas que tens em teu poder. Vê se encontras alguma coisa que possas empolar. E quanto aos testes laboratoriais que foram feitos aos papéis... Bem, ele não sabe que temos isso. Por amor de Deus, serve-te disso. Não... não regresso tão cedo. Não posso sair daqui. Tens de ser tu a tratar do assunto.

 

Com brusquidão, desligou o telefone, suspirou e sem ter consciência do que fazia passou a mão pelo estômago.

 

Pensei que por esta altura já serias chefe de departamento disse Kate.

 

Ofereceram-me o cargo, mas não aceitei. Não sou nenhum administrador.

 

Mesmo assim, de facto ele era o dirigente nato da Brigada para o Sequestro Infantil e Assassínio Múltiplo. Quinn era o perito do FBI a que o resto da equipa recorria por sistema. Era o fanático do controlo que acreditava que nenhuma tarefa poderia ser levada a cabo com tanta eficácia sem que ele fosse o responsável pelo andamento da situação. Não, Quinn jamais abdicaria das suas funções em relação ao trabalho de campo, a troco do cargo de chefe de departamento. Ao invés, acabava por, essencialmente, preencher as duas funções. A resposta perfeita para o homem obcecado pelo seu trabalho, o qual sentia uma necessidade premente de salvar a humanidade do seu lado mais sombrio.

 

Até que ponto é que estás assoberbado com trabalho? perguntou Kate.

 

O habitual respondeu Quinn, tentando retirar importância ao assunto.

 

O que, ela sabia, seria mais do que qualquer outra pessoa no departamento. Estava mais assoberbado do que seria humanamente possível ao comum dos mortais, a menos que não tivesse vida pessoal. Tinham existido ocasiões em que ela rotulara a obsessão de Quinn de ambição, enquanto noutras alturas conseguira ver além do que era óbvio, vislumbrando-o de fugida à beira de um precipício muito fundo, interior e sombrio. Uma linha de pensamento perigosa, porque a sua resposta instintiva era querer afastá-lo da beira desse abismo. Mas a vida de Quinn só a ele pertencia. Kate nem sequer desejava que ele estivesse ali.

 

Tenho de voltar para junto da Angie disse ela. Não deve estar nada satisfeita, pensando que a abandonei. Não percebo por que razão é que me interesso tanto por ela - acrescentou num resmungo.

 

Nunca te furtaste a nenhum desafio retorquiu ele, brindando-a com o esboço de um sorriso.

 

Eu devia ir a um psiquiatra para que me analisasse a cabeça.

 

Quanto a isso não te posso ajudar, mas que tal se jantássemos juntos?

 

Kate ficou tão incrédula que esteve quase a rir-se, um riso que não teria nada a ver com bom humor. Assim, sem mais nem menos: E que tal se jantássemos juntos! Apenas dez minutos antes tinham-se agredido verbalmente. Entre os dois existiam cinco anos de separação e uma grande carga emocional, e... «E o quê? Será que ele conseguiu ultrapassar o que existiu entre nós e eu não?»

 

Não me parece boa ideia. Mas agradeço de qualquer maneira recusou Kate.

 

Podíamos aproveitar para rever o caso insistiu Quinn, determinado. Tenho algumas ideias que gostaria de discutir contigo.

 

Isso não faz parte das minhas funções. Eu já não faço parte da Unidade de Ciências Comportamentais argunentou ela, dirigindo-se para a porta que dava acesso às instalações dos serviços de vítimas e testemunhas. A necessidade que sentia em escapar-se era tão forte que quase chegava a ser constrangedora. O Departamento de Perícia Criminal tem um agente que recebeu formação profissional em análise comportamental e...

 

... ele encontra-se presentemente em Quântico, onde frequentará a Academia Nacional por um período de oito semanas.

 

Podes pedir outro agente se quiseres. Podes recorrer á totalidade do pessoal da BSIAM que te dará todo o apoio, para já não mencionar todos os peritos e pioneiros neste tipo de actividade. Não precisas de mim. Com dedos velozes, Kate marcou o número de código no painel ao lado da ombreira da porta.

 

Tu foste uma perita na matéria recordou-lhe Quinn.

 

Estamos a falar de análise em termos de «vitimação»...

 

Obrigada por me teres dado o teu apoio em relação ao Sabin atalhou ela quando a fechadura se abriu permitindo-lhe girar a maçaneta da porta. Tenho de regressar ao meu gabinete antes que a minha testemunha me roube todas as canetas boas.

 

Angie percorria o gabinete de Kate numa atitude de desassossego, sobressaltada e curiosa. Kate estava extremamente aborrecida com ela por causa do retrato-robô. Ela mal lhe dirigira a palavra no caminho de regresso depois de terem saído das instalações da polícia.

 

A sensação de culpa aguilhoava Angie como um número infinito de agulhas ínfimas. Kate tentava ajudá-la, mas ela própria é que tinha de zelar pelos seus interesses. Nada obrigava a que as duas se dessem como Deus com os anjos. Como havia de saber o que fazer? Como poderia saber o que é que estava certo?

 

Não és nada além de uma aberração da natureza! Nunca fazes nada como deve ser

 

Estou a tentar disse Angie numa voz segredada. Tu és uma cabra insignificante e estúpida. Nunca ouves o que te dizem.

 

Mas estou a tentar.

 

Angie era apenas uma miúda assustada, embora jamais articulasse essa palavra, nem sequer em pensamento. A Voz alimentar-se-ia dos seus medos. Por seu turno, estes saciar-se-iam com a Voz. Sentia que as duas forças se fortaleciam dentro de si.

 

Eu dou-te uma coisa que te assustará de verdade.

 

Com as mãos, Angie tapou as orelhas, como se conseguisse afastar aquela voz que ecoava apenas dentro de si. Durante um minuto embalou-se, mantendo os olhos muito abertos porque se os fechasse começaria a ver coisas que não desejava ver de novo. O seu passado era como um filme de má qualidade projectado continuamente na sua mente, sempre presente, pronto a trazer à superfície emoções que estariam melhor bem enterradas no fundo. Ódio e amor, cólera violenta, carências violentas. Ódio e amor, ódio e amor... ódio-e-amor... para ela, palavras que formavam uma só. Sentimentos de tal maneira entrelaçados que eram inseparáveis, como se fossem os membros emaranhados de dois animais que se atacassem.

 

O medo expandiu-se mais um pouco. A Zona apertava o cerco.

 

Tu tens medo de tudo, não é verdade, meu esteporzinho paranóico?

 

A tremer, Angie ficou a olhar fixamente para as brochuras pregadas no quadro de Kate. Começou a ler os títulos, numa tentativa para se concentrar em qualquer coisa antes que a Zona se apoderasse de si, sufocando-a. Recursos Comunitários para as Vítimas de Crimes. Centro de Crise para os Crimes de Estupro, A Phoenix: Mulheres que se Erguem para Um Novo Começo. Pouco depois os títulos ficaram desfocados e ela sentou-se, respirando com enorme dificuldade.

 

Por que diabo Kate estaria a demorar-se tanto? Tinha saído sem dar qualquer explicação, dizendo apenas que estaria de volta dentro de alguns minutos, o que fora... Há quantos minutos? Angie olhou em redor, procurando um relógio, que encontrou, apercebendo-se de imediato que se tinha esquecido da hora a que Kate a deixara sozinha. Nessa altura não tinha olhado para o relógio? Por que razão não conseguia recordar-se das horas?

 

Porque és estúpida, essa é a razão. Estúpida e tarada.

 

Angie começou a tremer de frio. Sentia que a garganta se lhe fechava. Naquela sala pequena e estúpida não havia ar As paredes fechavam-se à sua volta. Tentou engolir quando as lágrimas lhe assomaram aos olhos. A Zona acercava-se cada vez mais. Sentia a sua aproximação, apercebia-se da alteração na pressão do ar que a envolvia. Só desejava poder fugir, mas não conseguiria correr mais do que, a Zona ou a Voz.

 

Então faz qualquer coisa. Faz com que pare, Anjo. Sabes como é que podes obrigar isto a parar.

 

Possuída de um grande frenesim, Angie arregaçou as mangas do blusão e da camisola e começou a arranhar com a unha roída do polegar as estrias finas e esbranquiçadas das cicatrizes, fazendo com que ficassem de uma tonalidade rosada. Queria chegar ao corte que fizera no dia anterior, fazer com que recomeçasse a sangrar, mas não conseguia arregaçar a manga a essa altura, não se atrevendo a despir o blusão com receio de que alguém pudesse chegar inesperadamente e a apanhasse a fazer aquilo. Kate dissera-lhe que esperasse no seu gabinete, que voltaria dentro de alguns minutos. Mas os minutos continuavam a passar.

 

Nessa altura ela verá até que ponto és louca, Anjo

 

A Zona aproximava-se cada vez mais...

 

Sabes o que tens a fazer.

 

Kate devia chegar a qualquer instante.

 

Fá-lo.

 

Os tremores começaram.

 

Fá-lo.

 

A Zona cada vez mais perto.

 

Fá-lo.

 

Angie não se atrevia a tirar a caixa da mochila. Como é que poderia explicar os seus actos? Podia pô-la dentro da algibeira...

 

O pânico apossava-se dela. Sentia a mente começar a fracturar-se quando o seu olhar desesperado se pousou numa pequena taça em cima da secretária onde Kate guardava os clipes.

 

Sem hesitar, pegou num que endireitou, experimentando a extremidade com a ponta do dedo. Não era tão aguçado como uma lâmina. Far-lhe-ia doer mais.

 

Cobarde. Fá-lo.

 

Odeio-te murmurou Angie, esforçando-se por conter as lágrimas. Odeio-te. Odeio-te.

 

Fá-lo! Fá-lo!

 

Cala a boca! Cala a boca! Cala a boca! murmurou ela com veemência sentindo a pressão a acumular-se na sua cabeça, até julgar que estava prestes a explodir.

 

Com a ponta da peça de metal começou a percorrer uma cicatriz antiga que tinha num dos pulsos, onde a pele estava tão fina e esbranquiçada como papel. Fez um corte paralelo a uma veia fina e azulada, aguardando que a visão desfocada pelas lágrimas se enchesse de sangue. Uma linha líquida e fina de um vermelho carregado.

 

A dor era intensa e doce. O alívio foi imediato. Sentiu que a pressão começava a abrandar. Voltava a poder respirar com normalidade. Estava capaz de pensar.

 

Por uns momentos, ficou a olhar com fixidez para o traço vermelho-escuro; havia uma qualquer parte de si perdida no seu íntimo que queria chorar. Mas a sensação que se sobrepunha a todas as outras era de alívio. Colocou o clipe de lado, limpando o sangue com o cós da camisola. O golpe voltou a ficar ensanguentado, ao mesmo tempo que ela sentia outra vaga de calma.

 

Com a ponta do polegar, Angie começou a delinear a extensão do corte, após o que se pôs a examinar a forma como a mancha de sangue se espalhava pelas espirais e estrias que se estendiam pela ponta do dedo. A sua impressão digital, o seu sangue, o seu crime. Ficou a olhar para o sangue durante muito tempo, antes de levar o polegar à boca e começar a lambê-lo com lentidão. Sentiu uma espécie de alívio que era quase de natureza sexual. Conquistara o demónio, consumindo-o. Com a ponta da língua percorreu o corte, absorvendo as últimas gotículas de sangue.

 

Continuando a sentir alguma fraqueza nos joelhos e a cabeÇa ligeiramente entontecida, baixou a manga levantando-se da cadeira e começando a percorrer o gabinete. Registou todos os pormenores na sua mente, memorizando-os cuidadosamente.

 

O casaco comprido de Kate, de fazenda espessa, estava pendurado no bengaleiro com um curioso chapéu preto de veludo. Kate tinha bom gosto na escolha das suas roupas, para uma mulher da sua idade. A Angie apetecia experimentar o chapéu, mas não viu nenhum espelho onde pudesse ver como lhe ficava.

 

No quadro de Kate avistou um pequeno recorte de banda desenhada que mostrava um advogado submetendo uma testemunha, uma marmota a um interrogatório cerrado. Com que então, Senhora Marmota», a senhora afirma ter visto a sua sombra nesse dia. Mas não é verdade que tem um problema com a bebida?»

 


As gavetas da secretária estavam fechadas à chave. Angie não viu nenhuma mala de mão. Tentou o armário de arquivo, pensando que talvez encontrasse o seu próprio processo, mas também estava fechado à chave.

 

Enquanto lançava uma vista de olhos aos papéis que Kate deixara sobre a secretária, surpreendeu-se consigo mesma por ter experimentado um tão grande pânico apenas alguns minutos antes, situação que dera lugar a um estado de controlo e poder, como quando saíra furtivamente da Casa Phoenix, tendo voltado a entrar sem que ninguém desse pela sua ausência. Odiava aquela parte de si que permitia que a Zona dominasse as suas emoções. Detestava a fraqueza que essa parte de si mostrava. Sabia que podia ser uma pessoa forte.

 

Eu farei com que sejas forte, Anjo. Tu precisas de mim! Tu amas-me. Tu odeias-me.

 

Aquela força recém readquirida permitiu-lhe ignorar a Voz.

 

Folheou as fichas do Rolodex, detendo-se ao ver o nome Conlan. Frank e Ingrid, um casal que residia em Las Vegas. Calculou que seriam os pais de Kate. Claro que estes seriam gente normal. Um pai que iria para o trabalho usando um fato completo. Uma mãe que cozinhava pratos tradicionais e que fazia biscoitos caseiros. Não seria o género de mãe que consumisse estupefacientes e que se deitasse com este e aquele. Nunca o tipo de pai que se estava positivamente nas tintas para os filhos, os quais teria abandonado, deixando-os à mercê dos mentecaptos que a mãe levava para casa. Os pais de Kate Conlan amavam a filha como qualquer casal normal gostava dos filhos. Kate Conlan nunca fora fechada dentro de uma despensa, nem espancada com um cabide de arame, nem sequer obrigada a fazer broches ao padrasto

 

Angie retirou essa ficha do Rolodex, rasgando-a em pedaços ínfimos que colocou dentro de um dos bolsos do seu blusão.

 

Num dos tabuleiros para papéis havia uma pilha de correspondência por abrir. Angie pegou nos sobrescritos passando-lhes uma vista de olhos. Três cartas oficiais em sobrescritos com o timbre do Centro Governamental de Hennepin County. Outro de um amarelo-vivo endereçado à mão a alguém que dava pelo nome de Maggie Hartman, em que o remetente era indicado numa etiqueta dourada colada no canto superior esquerdo: Kate Conlan.

 

Angie memorizou aquele endereço, colocando os sobrescritos no seu lugar; pouco depois, a sua atenção foi atraída por uma colecção de pequeníssimas estatuetas de anjos de que se apercebera na primeira vez em que entrara naquele gabinete. Haviam sido dispostas sobre o módulo com prateleiras numa das extremidades da secretária. As figurinhas eram todas diferentes: vidro, latão, prata, estanho e pintadas. nenhuma tinha mais de dois centímetros e meio de altura. Angie escolheu a que era de cerâmica pintada. Tinha cabelos negros e bolinhas de uma tonalidade turquesa no vestido. As orlas das asas eram pintadas a dourado formando um halo em redor da cabeça.

 

Angie olhou a estatueta mais de perto examinando a sua face arredondada, com uns olhos que eram pontinhos negros; os lábios esboçavam um pequeno sorriso ligeiramente torto. Tinha uma expressão feliz e inocente, de simplicidade e doçura.

 

Tudo o que tu não és, Anjo.

 

Sabendo que não deveria reconhecer a presença daquela tristeza tão profunda que pairava no interior do seu coração, Angie afastou-se da secretária, surripiando o anjo que meteu dentro da algibeira do blusão no preciso momento em que ouviu o rodar da maçaneta da porta. Instantes depois, Kate entrava no gabinete.

 

Onde diabo é que você tem estado? perguntou Angie num tom autoritário.

 

Kate ficou a olhar para a rapariga, contendo a resposta imediata antes de lhe chegar à ponta da língua.

 

Controlo de danos foi a resposta mais diplomática que lhe ocorreu dar. Peço desculpa por me ter demorado tanto tempo.

 

Imediatamente, a atitude de bravata de Angie desapareceu.

 

Eu fiz o melhor que me foi possível!

 

Kate duvidava muito que aquela afirmação correspondesse à verdade, mas não tinha nada a ganhar se expressasse essas dúvidas. O que precisava de fazer era descobrir uma maneira de conseguir obter toda a verdade daquela miúda. Deixou-se cair na sua cadeira, abriu as gavetas da secretária, retirando da gaveta dos lápis um frasco de Aleve. Tomou dois comprimidos que engoliu com café frio, exibindo uma careta, e só depois é que fez uma pausa considerando a hipótese de aquela encantadora rapariga à sua responsabilidade poder tentar envenená-la.

 

Não te preocupes com o retrato-robô disse ela, massajando a nuca para se libertar da tensão que sentia. Os tendões estavam retesados que nem varetas de aço. Com um olhar discreto, percorreu tudo o que se encontrava sobre o tampo da secretária. Uma verificação automática que era como que uma segunda natureza sempre que deixava uma das suas testemunhas, ou vítimas, sozinha no seu gabinete. Deu pela falta de uma das figurinhas de anjos.

 

Manifestando algum mal-estar, Angie instalou-se na cadeira reservada aos visitantes, debruçando-se e colocando os braços em cima do tampo da secretária.

 

E agora, o que é que vai acontecer?

 

Nada. O Sabin está muito frustrado. Precisa de alguma coisa de grande impacto e tinha esperanças de que fosses tu. Falou em deixar-te ir em paz, mas eu consegui convencê-lo a não fazer isso. Por agora. Se ele chegar à conclusão de que és uma impostora que só anda atrás do dinheiro da recompensa, não hesitará em te deixar ir e, nesse caso, não poderei ajudar-te. Caso tentes ir a um pasquim qualquer, dando mais informações do que deste aos xuis. o Sabin põe-te na choça num abrir e fechar de olhos, e aí é que ninguém poderá fazer nada por ti.

 

«Estás entre a espada e a parede, Angie. Compreendo que o teu primeiro instinto seja quereres guardar tudo dentro de ti, fechando-te completamente ao resto do mundo, mas não te podes esquecer de uma coisa: esse segredo que guardas dentro de ti é partilhado por outra pessoa... e ele não terá qualquer relutância em matar-te por isso.

 

Não preciso que você esteja para aí a assustar-me

 

Meu Deus, longe de mim tal ideia. O homem que tu viste tortura mulheres, mata-as e pega fogo aos corpos. Espero que isso te assuste mais do que qualquer coisa que eu te possa dizer.

 

Você não sabe o que é uma pessoa sentir-se assustada replicou Angie num tom acusatório, numa voz amargurada pelas recordações. Com um gesto brusco, levantou-se da cadeira, começando a andar de um lado para o outro e roendo ferozmente a unha do polegar.

 

Se é isso que pensas, por que razão não te abres comigo, Angie? Conta-me o que viste. Qualquer coisa comque eu possa acenar ao Sabin e aos polícias para que eles te deixem em paz. Nessa noite, o que é que andavas a fazer pelo parque?

 

Eu já lhe disse.

 

Já sei, cortaste por um atalho. Vinda de onde? Do quê? Se estiveste com alguém, não percebes que essa pessoa talvez tenha visto esse fulano, tal como tu viste? Pode ter visto de fugida um automóvel. No mínimo dos mínimos, estará em posição de poder confirmar a tua versão das coisas e, na melhor das hipóteses, poderia ajudar-nos a apanhar este monstro.

 

O que é que você está para aí a pensar? perguntou Angie, exigente. Pensa que eu sou alguma puta? Pensa que eu estava no parque a foder com um cliente para arranjar umas massas? Eu já lhe disse o que é que estava a fazer lá. Portanto, isso significa que pensa que eu sou uma puta e uma mentirosa. Vá-se foder!

 

Com uma rapidez incrível, Angie saiu porta fora com Kate logo atrás dela.

 

Ei! Não me venhas com essas merdas! ripostou Kate num tom autoritário, agarrando a rapariga por um braço, cuja magreza quase a sobressaltou.

 

A expressão de Angie era um misto de surpresa e ira. Não era suposto que as coisas acontecessem daquele modo. Aquela não era a maneira como as inúmeras assistentes sociais com quem se cruzara ao longo da sua jovem vida haviam reagido.

 

O quê? insistiu Kate num tom decidido. Pensaste que eu me mostraria contrita e me desfizesse em desculpas? «Oh, que coisa, eu ofendi a Angie! O mais certo é ela nunca ter feito nada de mal enquanto tentava manter-se viva pelas ruas da cidade!» Kate fingiu uma expressão de choque, arregalando os olhos, após o que num segundo desistiu de toda aquela encenação. Pensarás tu que eu acabei de chegar das berças? Sei muito bem como é que as coisas se passam neste mundo enorme que é o nosso, Angie. Estou bem ciente de tudo o que as mulheres sem casa e sem trabalho são obrigadas a fazer para conseguir sobreviver.

 

«Sim, francamente, penso que estavas no parque a foder um moço qualquer para ganhares uns dinheiritos. E também que és uma porra de uma mentirosa. A tudo isto, acrescente-se que também és uma ladra. O que te vou dizer é isto: Estou-me nas tintas. Não estou aqui para te julgar. Não posso fazer nada quanto ao que te aconteceu antes de entrares na minha vida, Angie. Só te posso ajudar com respeito ao que te possa suceder agora e a partir daqui. Estás a afogar-te nesta coisa e eu quero ajudar-te. És capaz de meter isto nessa cabeça dura e parar de te bateres contra mim!? Durante uma fracção de segundos o silêncio foi absoluto; as duas mantinham-se no corredor dos serviços jurídicos. fitando-se uma à outra uma encolerizada e a outra desconfiada. Foi então que num gabinete qualquer começou a ouvir-se o tocar de um telefone, altura em que Kate se apercebeu da presença de Rob Marshall, que as observava da porta do seu gabinete, ao fundo do corredor. Kate manteve-se concentrada em Angie, suplicando a Deus que Rob não metesse o nariz naquele assunto. A profunda tristeza que se reflectia no olhar da rapariga era suficiente para despedaçar o coração de Kate.

 

Por que é que você havia de se importar com o que me possa acontecer? perguntou Angie em voz baixa

 

Porque mais ninguém se interessa por ti respondeu Kate com simplicidade.

 

Os olhos azul-escuros da garota ficaram marejados de lágrimas. A verdade do que Kate dissera estava bem patente. Nunca ninguém se tinha interessado com o bem-estar de Angie DiMarco, pelo que ela nem se atrevia a confiarem que alguém pudesse começar a interessar-se a partir de agora.

 

Tudo o que tenho a ganhar do Ted Sabin é uma palmada de parabéns no traseiro acrescentou Kate, tentando dizer uma chalaça que desanuviasse todo aquele emaranhado de emoções. Acredita em mim; essa não é a minha motivação.

 

Angie ficou a olhá-la fixamente por mais alguns momentos, reflectindo sobre as suas opções, avaliando o peso dessas mesmas opções que pareciam abater-se sobre si. Uma única lágrima começou a rolar-lhe pela face abaixo. Soltou um suspiro entrecortado.

 

Não me agrada ser obrigada a fazer isto sussurrou ela numa voz infantil, com o lábio inferior a tremer.

 

Devagar e cuidadosamente, Kate rodeou os ombros de Angie com um braço, chegando a rapariga a si, impelida por uma necessidade tão grande de dar conforto que se sentiu assustada. Houvera alguém que trouxera aquela criança ao mundo sem a desejar por qualquer outra razão que não fosse puni-la pelos seus próprios erros. Aquela injustiça como que queimava Kate por dentro. É por esta razão que não quero encarregar-me de casos de miúdos», pensou ela. «Eles mexem de mais com as minhas emoções ”

 

O corpo de Angie estremecia, manifestando mais um pouco da emoção que ameaçava avassalá-la

 

Lamento muito murmurou ela. Estou tão arrependida

 

Eu sei miúda, murmurou Kate numa voz emocionada batendo nas costas de Angie num gesto de amizade

 

Tambem eu lamento muito. Vamos sentar-nos e falar sobre o assunto. Malditos saltos. Estes pés estão a matar-me

 

 

Vocês nem são capazes de imaginar o tipo de coisas que as pessoas têm dito através da linha especial disse Gary Yurek, levando uma pasta de cartolina bastante grossa e um bloco de apontamentos para a mesa de reuniões no gabinete de crise do antigo Toque Amoroso da Morte. Até receberam o telefonema de uma mulher que ligou para nos dizer que acha que um dos vizinhos é o Cremador porque o cão dela não gosta do homem!

 

De que raça é o cão? perguntou Tippen.

 

É um saco de merda de orelhas compridas de raça norte-americana adiantou Elwood puxando uma cadeira. Uma raça alegre e cheia de garra conhecida por desenterrar cadáveres e por cabriolar alegremente com os órgãos desses mesmos cadáveres. Até pareces tu, Elwood interveio Liska dando uma cotovelada amigável no braço do colega quando passou por ele. Ei, os meus pensamentos só a mim dizem respeito

 

Houve mais alguém que tenha dito ter visto a Jillian Bondurant? perguntou Hamill.

 

Sim confirmou Yurek com uma expressão enojada, recebemos um telefonema de uma das garagens Jitre Lube, no Parque Brooklen; em cada três palavras que a pessoa dizia uma era recompensa.

 

Quinn sentou-se à mesa, sentindo a cabeça a latejar, os seus pensamentos tentavam seguir em muitas direcções ao mesmo tempo. Kate. A testemunha de Kate. Bondurant. O perfil psicológico que se esforçava por elaborar. O caso de Atlanta. A investigação de Blacksburg. Os telefonemas» acumulavam-se no seu serviço de voice mail sobre uma dúzia de outros casos. Kate. Kate...

 

O seu cérebro ansiava por uma chávena de café, mas o seu estômago contrariava esse desejo com uma linguagem forte e dolorosa. De dentro do bolso tirou um Tagamet tomando-o com uma Coca-Cola

 

Mary Moss entregou-lhe um maço de fotografias

 

Os pais da Lila White deram-me estas fotografias. Não estou a ver como é que nos poderão ajudar, mas para eles são muito importantes. Foram tiradas apenas alguns dias antes de ela ter sido assassinada

 

Relatórios da situação gritou Kovac, sacudindo os ombros para despir o sobretudo, ao mesmo tempo que pegava em três processos encaminhando-se para a cabeceira da mesa. Descobriu-se alguma coisa em relação aos funcionários dos parques municipais?

 

Descobrimos um pedófilo que já foi condenado e que mentiu sobre o cadastro criminal quando se candidatou ao lugar, informou Tippen. Além disso, nada de bandeiras vermelhas no pessoal efectivo. No entanto, o serviço de parques costuma contratar equipas de delinquentes de pequenos crimes que cumprem as sentenças a que foram condenados trabalhando para a comunidade. Estamos a tentar obter uma lista com o nome deles

 

As contas de telefone da Jilhan não mostram nada de anormal disse Elwood. Só chamadas para o pai, para o psiquiatra e para essa amiga com quem a Tinks foi falar. Nada fora do vulgar ao longo das duas últimas semanas. Também já pedi os registos da companhia do serviço de telemóvel que ela utilizava, mas a rede de computadores deles estava avariada, portanto, ainda não consegui que me enviassem ISSO

 

Também já temos uma listagem que contém o nome dos funcionários da Paragon que foram despedidos durante os últimos dezoito meses acrescentou Adler. Mas nenhum deles se destacou dos demais parecendo ser especialmente vingativo em relação a Peter Bondurant. Introduzimos os nomes deles no sistema, mas só descobrimos umas merdas que não valem nada

 

Um fulano condenado por ter solicitado os serviços de uma prostituta adiantou Hamill Mas isso só aconteceu numa ocasião, aquando de uma festa de despedida de solteiro. Nesta altura já o homem está casado. Passou o último fim-de-semana em casa dos sogros

 

Isso, por si só, seria capaz de me levar a cometer um assassínio atalhou Tippen na brincadeira.

 

Outro fulano que foi acusado de agressão não agravada. Atacou o gerente quando soube que a Paragon se preparava para o pôr no olho da rua acrescentou Ádler. Isso passou-se há nove meses. Entretanto mudou-se para outra cidade. Vive em Cannon Falis e trabalha em Rochester

 

A que distância é que isso fica? perguntou Quinn

 

Cannon Falis? Meia hora... quarenta e cinco minutos.

 

Uma viagem pequena. Não podemos pô-lo de parte por agora.

 

O nosso agente de campo em Rochester já começou a investigá-lo acrescentou Hamill.

 

De uma maneira geral prosseguiu Adler, nenhuma das pessoas que trabalham para o Bondurant parece gostar particularmente do homem, embora também ninguém tivesse nada a dizer de mal a respeito dele... com uma excepção notável. O Bondurant fundou a Paragon em finais dos anos setenta juntamente com um sócio... um tal Donald Thorton. Mas ele comprou a parte do Thorton em mil novecentos e oitenta e seis.

 

Mais ou menos na altura do divórcio adiantou Kovac.

 

Exactamente na altura do divórcio. Teve de pagar bom dinheiro ao Thorton... mais do que, de acordo como que alguns dizem, o valor da parte deste. Mas o homem começou a ter sérios problemas com o jogo e o álcool, tendo chegado ao ponto de espetar com o Cadillac no lago Minetonka em mil novecentos e oitenta e nove. A patrulha do lago conseguiu pescá-lo antes de se ter afogado, mas não antes de ter sofrido graves lesões cerebrais, assim como uma lesão na medula espinal. A mulher dele culpa o Bondurant por esse acidente.

 

Como é isso?

 

Ela recusou-se a ser mais explícita ao telefone. Quer falar connosco frente a frente.

 

Eu trato disso ofereceu-se Kovac. Qualquer pessoa que tenha alguma coisa de mal a dizer acerca do nosso querido multimilionário pode considerar-se minha amiga.

 

Walsh ergueu uma mão cobrindo a boca com a outra enquanto parecia querer tossir uma parte de um dos pulmões

 

Quando finalmente conseguiu encher os pulmões com ar suficiente para poder falar, o seu rosto ficou de uma cor purpurina.

 

Tenho falado ao telefone com o adido jurídico dos nossos escritórios em Paris informou numa voz fininha e muito esforçada. Já começaram a investigar o padrasto... Um tal Serge LeBlanc, juntamente com a Interpol e com as autoridades francesas. Mas eu diria que ele é um beco sem saída. Quer dizer... ter feito a viagem até aqui para matar duas mulheres da vida e depois a enteada? Não me parece.

 

Podia ter contratado alguém para lhe fazer esse servicinho sugeriu Tippen. Não contradisse Quinn. Isto é o tipo de homicídio clássico de natureza sádica e sexual. O assassino tinha a «própria agenda a cumprir. Não comete os assassínios por dinheiro. Fá-lo porque é assim que se vem.

 

Entretanto, Walsh tirou do bolso um lenço de assoar de limpeza um tanto duvidosa, ficando a olhar para ele, pensando se deveria ou não espirrar.

 

O LeBlanc está mais do que lixado por causa das averiguações, além de não se mostrar muito cooperante. Diz que nos entregará os registos dentários da Jillian... o que, como é evidente, não nos servirá de nada. Também disse que está disposto a entregar-nos as radiografias dela que tenha em seu poder, mas mais nada. Não permite que fiquemos em poder de todo o historial clinico da rapariga.

 

E o que é que o leva a recusar-nos isso? perguntou Kovac cujo rosto se iluminou. O que é que ele está a tentar esconder?

 

Talvez o facto de ter tido relações sexuais com ela, tendo-a levado a tentar suicidar-se, após o que a internou numa clínica psiquiátrica informou Liska, mostrando-se toda satisfeita por ter conseguido adiantar-se aos rapazes. Pô-los ao corrente de tudo o que soubera através de Michele Fine. Também pedi à Fine que passasse por cá para lhe tirarmos as impressões digitais, de forma a que possamos eliminá-las das outras que foram encontradas no apartamento da Jillian. E, a propósito, não resta dúvida nenhuma que houve alguém que limpou e arrumou a casa durante o fín-de-semana. A Fine afirmou que a Jillian era uma desmazelada. E a casa está demasiado limpa e arrumada, além de que a amiga me disse que ela não tinha nenhum serviço de limpeza.

 

Talvez o assassino tenha estado em casa dela nessa mesma noite alvitrou Adler. E não tenha querido deixar nenhum vestígio da sua presença.

 

Sou capaz de entender que se tenha dado ao cuidado de limpar todas as impressões digitais disse Elwood. Mas proceder a uma arrumação? Isso não faz o mínimo sentido.

 

Não concordou Quinn com um abanar de cabeça,

 

Se de facto esteve lá, não teria arrumado nada. Se fizesse alguma coisa, teria era contribuído para a desarrumação habitual, em sinal de desrespeito para com a vítima. Teria virado a casa do avesso, talvez chegando ao ponto de urinar e defecar num sítio onde isso não passasse despercebido.

 

Por conseguinte, estamos a braços com outro mistério racionalizou Kovac. Voltou-se de novo para Liska. Já introduziste o nome dessa Fine no banco de dados?

 

Não há nada contra ela, mandados nem nada no registo criminal. Ela afirma que não tem namorado, no que não me custa a acreditar. Também me disse que ela e a Jillian não eram amantes. Mas nessa relação de amizade há drogas pelo meio. Eu diria que é coisa de pouca monta.

 

Mas talvez valha a pena aprofundar aventou Moss. A Lila White também tinha algumas ligações a esse mundo. Um deles deu-lhe uma tareia no Outono passado,

 

Willy Parrish disse Kovac. Era um «convidado» da prisão na altura do assassínio da White. Não tinha nenhuma ligação com a Fawn Pierce.

 

Também investiguei o sujeito que os pais da White dizem ser o culpado por ela ter começado a consumir drogas - disse Moss. Um tipo de Glencoe de nome Allan Ostertag. Nunca foi condenado. Dedica-se estritamente a pequenos delitos. Trabalha como vendedor de automóveis no estabelecimento do pai. Conhecemos todos os passos que deu durante o último fim-de-semana.

 

A Jillian e a Fine costumavam compor canções juntas

 

informou Quinn rabiscando um apontamento para si próprio. Mas que tipo de música?

 

Popular... baladas... adiantou Liska. Tipo mulheres que odeiam homens, angústias que falam de tretas de merda, o que eu deduziria da impressão com que fiquei dessa Fine. É uma bela peça. A Alanis Morissette a sofrer da síndroma pré-menstrual.

 

E então, onde é que está essa música? perguntou Quinn. Gostaria de a ver.

 

Super-homem e caçador de talentos como actividade secundária comentou Tippen com sarcasmo.

 

A música é uma coisa muito pessoal, íntima ripostou Quinn lançando-lhe um olhar de poucos amigos. Revela muito sobre a pessoa que a compôs.

 

Pensativa, Liska franziu as sobrancelhas.

 

Vi uma pauta de música, daquelas que se compram nas lojas. Mas não vi nada escrito à mão.

 

Tenta descobrir se a amiga tem algumas cópias sugeriu Kovac.

 

Vou tratar disso, mas estou em crer que é em direcção do Vanlees que devíamos andar a farejar. O fulano tem um parafuso a menos, além de que se ajusta bastante bem

 

O perfil psicológico preliminar que o John elaborou. Antecedentes criminais?

 

Nada de importante. Um rol enorme de multas por estacionamento proibido e um ou dois pequenos delitos de uns três ou quatro anos. Acusação de violação de propriedade alheia e por conduzir sob a influência do álcool...

 

tudo isto ao longo de um período de mais ou menos dezoito meses.

 

Violação de propriedade alheia? Aquela transgressão despertava um alerta na mente de Quinn. Qual é que foi a acusação primária, ou isso deve-se ao facto de ele ter chegado a um acordo para redução de pena por outro crime mais grave?

 

Não, a acusação foi essa e foi condenado à pena correspondente.

 

Investigue mais a fundo. Há muitos tipos que gostam de espreitar o que se passa em casa alheia que chegam a acordos aquando das duas primeiras transgressões. Aparentemente, são demasiado patéticos para que valha a pena indiciá-los sob a acusação de crimes menores de natureza sexual. Veja também o que é que se passa com as transgressões de trânsito. Verifique os locais onde essas infracções ocorreram em relação ao endereço da acusação de violação de domicílio.

 

Até é possível que tenhamos em mãos um choninhas mal desmamado em série brincou Tippen inclinando-se para Adler.

 

Eles começam todos por algum lado, Tippen disse Quinn. O estrangulador de Boston começou por espreitar através de janelas enquanto batia punhetas, e houve um xui artolas que também não ligou a isso.

 

O detective começou a levantar-se da cadeira com uma expressão ameaçadora.

 

Ó, seu fi...

 

Ei, meus meninos, vamos lá a guardar os tomates dentro das calças ordenou Kovac. Não temos tempo para estar com merdas destas. Tinks, averigua se este mentecapto cumpriu a pena em serviços prestados à comunidade nos parques municipais.

 

E descubra também que tipo de carro é que conduz acrescentou Quinn.

 

Vou já tratar disso. Falei-lhe de propósito na reunião desta noite. Aposto que ele tenciona aparecer por lá.

 

Por falar nisso interveio Kovac. Quero ver todos no recinto às dezanove e trinta. Vamos destacar brigadas de vigilância do Departamento de Perícia Criminal e dos Narcóticos; encarregar-se-ão de tirar o número das chapas de matrícula dos automóveis que estiverem no parque de estacionamento. O Yurek será o nosso mestre-de-cerinónias. Quero que o resto se posicione entre a multidão e por amor de Deus, tentem não dar a entender que são da polícia.

 

Excepto aqui o nosso rapaz de capa de revista disse Tippen erguendo um exemplar do Star Tribune daquele dia, cujo cabeçalho dizia em grandes parangonas: «O MELHOR PERITO EM PERFIS PSICOLÓGICOS DO FBI A TRATAR DO CASO»,

 

É possível que mereças duas linhas seguidas, seu falinhas mansas.

 

Quinn franziu o cenho contendo a ira prestes a explodir, lutando contra a vontade de dar um murro em cheio na boca de Tippen. Sabia bem que não podia permitir que idiotas como Tippen o levassem a perder a cabeça. Só no ano anterior, fora obrigado a lidar com uma centena deles.

 

Não quero constar do cabeçalho de nenhum jornal. Tenciono limitar-me a dizer apenas algumas palavras, mas serão breves e vagas.

 

Tal como tem feito connosco?

 

O que é que você quer que eu lhe diga, Tippen? Que o assassino calçará um sapato vermelho?

 

Já era alguma coisa. O que diabo é que você nos deu até agora que valha o dinheiro dos nossos impostos? Uma faixa etária, a descrição provável de dois veículos que o fulano talvez tenha, ou não, conduzido. Que dormiu com a mãe e que batia punhetas enquanto via revistas pornográficas? Grande coisa!

 

Será uma grande coisa se apanharmos um suspeito. E nãome recordo de ter dito nada a respeito de ele ir para a cama com a mãe.

 

É o Tippen a reviver a sua meninice.

 

Vai-te foder, Chunk.

 

-Talvez - continuou Quinn observando o detective do gabinete do xerife a contorcer-se todo. São apenas teorias sobre o nosso «sujeito desconhecido». É muito provável que tenha havido um comportamento sexual inapropriado quer no seio da família de uma maneira geral, quer dirigido especificamente a este homem durante a sua infância. Possivelmente, a mãe era uma mulher promíscua, talvez até mesmo uma prostituta. O pai era uma figura fraca ou ausente. A disciplina deve ter sido inconsistente, variando de inexistente ao extremo oposto.

 

«Deve ter sido um miúdo com um intelecto brilhante, mas que tinha muitos problemas na escola. Não era capaz de se dar com os outros miúdos. A sua mente estaria repleta de pensamentos de domínio que o levariam a querer controlar os colegas. Certamente que seria cruel para com os animais e as outras crianças. Atearia fogos sem mais nem menos e plausivelmente furtava coisas. Desde os primeiros anos de vida que terá mostrado ser um mentiroso patológico.

 

«No liceu teria dificuldade em se concentrar devido ao vício que o prendia às suas fantasias sexuais, as quais nessa altura já manifestavam violência. Terá tido problemas com figuras que fossem símbolos de autoridade, talvez tenha tido mesmo alguns encontros com a Polícia. A mãe resolvia, até certo ponto, esses problemas, apresentando justificações para o comportamento do filho, safando-o sempre das alhadas em que se metia, pelo que, consequentemente, estaria a reforçar um padrão comportamental em que ele nunca era responsabilizado pelas suas acções destrutivas na pessoa dos outros. Isto deu-lhe força, além de o ter encorajado a tentar comportamentos ainda mais extremados. Também serviu para reforçar a falta de respeito que tinha pela mãe.

 


Tippen interrompeu Quinn levantando as mãos.:

 

Então, a menos que o tipo que se sentar ao meu lado esta noite se vire para mim e me diga: «Olá, o meu nome é! Harry. A minha mãe tinha relações sexuais comigo quando eu era miúdo», tudo isso não passa de uma treta da merda.

 

Eu acho que tu é que estás cheio de merda, Tippen, ripostou Liska. Quando eu começar a espiolhar a vida; do Vanlees, se descobrir alguma coisa que me alerte, posso vir a utilizá-la.

 

O processo de análise é uma ferramenta acrescentou Quinn. Podemos servir-nos dele ou deixá-lo na caixa de ferramentas.

 

«Quando hoje à noite estiverem entre a multidão, mantenham-se atentos a qualquer pessoa que vos pareça estar excessivamente estimulada... excitada ou enervada, ou demasiado consciente das pessoas que a rodeiam. Tentem ouvir alguém que vos pareça invulgarmente familiarizado como trabalho da Polícia. Também podem adoptar a abordagem do detective Tippen, esperando calmamente que alguém vos diga que fodeu a mãe.

 

E sabe o que é que pode fazer com essa sua boca porca? ripostou Tippen voltando a pôr-se de pé.

 

Tippen interrompeu Kovac interpondo-se entre os dois homens, guarda os tomates e vai até ao Patrick’s para os arrefeceres. Sai imediatamente antes que me chateie a sério e te diga para não voltares aqui.

 

Ora bem, quero que tudo isto se vá foder resmungou Tippen com uma expressão de amuo que lhe contorcia as feições, pegando no sobretudo e saindo porta fora.

 

Kovac lançou um olhar de esguelha a Quinn. Numa das salas mais ao fundo do corredor ouvia-se a campainha de um telefone. Os outros membros do grupo de trabalho começaram a dispersar; todos queriam comer ou beber qualquer coisa antes do grande acontecimento.

 

Ser um bom polícia e um cara de cu não é exclusivo de ninguém disse Liska agasalhando-se no casaco comprido.

 

Está a falar de mim ou dele? perguntou Quinn com algum pesar.

 

Ei, Sam! chamou Elwood. Vem aqui para veres uma coisa.

 

O Tippen é um idiota, mas é um bom detectivereplicou Liska.

 

Não tem importância disse Quinn esboçando um sorriso abstracto enquanto vestia a gabardina. O cepticismo contribui para que se seja um bom investigador.

 

Acha que sim? perguntou ela semicerrando os olhos e fitando-o de través, para depois se rir dando-lhe uma cotovelada cúmplice num braço. É apenas uma brincadeira de xui. Portanto, você tem mais alguma coisa sobre o passado da Jillian e das duas prostitutas. E que tal se discutíssemos esse assunto enquanto jantamos? Ou talvez esta noite, depois da reunião, podíamos ir a qualquer lado tomar um copo...

 

Ei, Tinks chamou Kovac numa voz grunhida, entrando na sala com uma mancheia de folhas de fax. Não te atires ao federal.

 

Vai-te foder, Kovak retorquiu Liska, corando.

 

E tu pagarias para ver.

 

Até atirava tostões ao teu cu feio.

 

Kovac dobrou um polegar na direcção de Liska, que entretanto começara a afastar-se, lançando a Quinn um olhar de esguelha.

 

Ela é doida por mim.

 

Liska fez-lhe um gesto insolente por cima do ombro. Kovac encolheu os ombros, readquirindo uma expressão de seriedade.

 

Quer uma boleia, chefe? Preciso de um martelo a mais na minha caixa de ferramentas.

 

O que é que há?

 

O registo das chamadas do telemóvel da Jillian Bondurant respondeu Kovac com os olhos brilhantes de um fanático erguendo um fax. Ela fez dois telefonemas depois da meia-noite, na madrugada de sábado... depois de ter saído da residência paterna. Um para o psiquiatra e outro para o bem-amado papá.

 

Ele deu conta da chegada deles. Estava de pé na sua sala de música escrupulosamente limpa, ao lado de um piano de cauda de dimensões reduzidas; em cima do tampo via-se uma galeria em miniatura de retratos emoldurados de Jillian em criança; foi nessa altura que avistou o automóvel que se [aproximava dos portões. Um calhambeque de uma marca nacional num tom sujo de castanho. Kovac. Ouviu-se o zunido do intercomunicador. Helen ainda não tinha saído. Estava na cozinha a preparar o jantar. Ela abriria a porta a Kovac porque ele era da polícia, e, à semelhança do que acontecia com todas as mulheres de meia-idade da classe média norte-americana, por todo o país, não se atreveria a desafiar a autoridade policial.

 

Reflectiu, o que não fazia pela primeira vez, que deveria ter chamado o seu assistente pessoal da Paragon, o qual ficaria de guarda aos portões de sua casa, tanto em sentido figurado como literal, mas naquele momento não desejava ter outra pessoa tão perto de si. Já era suficientemente mau ter Edwyn Noble que parecia não lhe largar os calcanhares sempre que dava meia volta. Incumbira deliberadamente o seu coordenador de relações públicas junto dos meios de comunicação social de falar com os que procuravam notícias sensacionalistas, os quais, não obstante, persistiam em amontoar-se junto dos portões de sua casa.

 

O bater de portas de um carro. Quinn contornou a viatura depois de ter saído pela porta do passageiro da frente um homem de figura elegante, de cabeça erguida e ombros direitos. Por seu lado, Kovac vinha todo desalinhado, com os cabelos espetados na nuca, acabando de fumar um cigarro que apagou com a ponta do sapato no caminho particular de acesso à casa. O vento fazia com que a gabardina desabotoada adejasse contra as pernas do detective.

 

Peter ficou a olhar para as fotografias por mais alguns momentos. Jillian com uma expressão muito séria, sentada ao piano. Nos seus olhos reflectia-se sempre qualquer coisa sombria e turbulenta, além de tristeza. Aquando do seu primeiro recital E durante o segundo e o terceiro Vestida com vestidos cheios de folhos e rendas que nunca lhe tinham ficado bem demasiado inocentes e recatados, próprios de uma meninice feminina e despreocupada que a filha nunca tivera

 

Quando escutou a campainha da porta, Peter Bondurant saiu da sala, fechando a porta àquela área das suas mágoas ao ouvir vozes no vestíbulo da frente

 

Ele está em casa? perguntou Quinn

 

Vou ver se pode recebê-lo respondeu Helen. Há alguma novidade em relação ao caso?

 

Temos estado a trabalhar algumas informações adiantou Kovac

 

Conhecia bem a Jilhan? continuou Quinn

 

Ora bem...

 

Você recebeu instruções no sentido de me contactar apenas através do meu advogado interrompeu Peter à guisa de saudação.

 

Lamento muito, Mister Bondurant disse Kovac, sendo notório que não lamentava rigorosamente nada. Mas o John e eu íamos a caminho da reunião que organizámos com os membros da comunidade, esperando alguma ajuda no intuito de apanhar o assassino da sua filha, e decidimos, num impulso momentâneo, passar por cá para discutir umas coisas consigo. Esperamos não o ter apanhado em má altura.

 

Bondurant brindou-o com um olhar carregado, após o que se virou para a sua governanta.

 

Obrigado, Helen. Se já acabou o que tinha a fazer na cozinha, porque é que não vai para casa?

 

A governanta mostrou-se preocupada, pensando que talvez tivesse feito alguma coisa de mal. Quinn observava Bondurant enquanto a mulher se encaminhava para a cozinha. A tensão provocada pelos últimos dias era bem visível no homem. Tinha o aspecto de quem não comia nem dormia comvenientemente. Todo ele era olheiras e faces chupadas, com uma palidez característica das pessoas que se encontravam sob uma pressão tremenda.

 

Não tenho nada de útil a dizer-vos declarou com mostras de impaciência. A minha filha morreu. Não há nada que eu possa fazer para alterar essa realidade. Nem sequer me é permitido sepultá-la. Nem sequer posso começar a tratar dos preparativos para um funeral. O gabinete do promotor público recusa-se a entregar-me o corpo.

 

Não podem entregar-lhe o corpo sem que este seja previamente identificado, Mister Bondurant explicou Quinn. Certamente que não quererá sepultar uma estranha por engano, não é verdade?

 

Para mim, a minha filha era uma estranha retorquiu Bondurant com uma expressão enigmática onde se adivinhava cansaço.

 

De verdade? perguntou Kovac percorrendo o vestíbulo em passos vagarosos, qual tubarão que circulasse em redor da sua presa. E eu para aqui a pensar que ela talvez se tivesse aberto consigo, mostrando-se a pessoa que realmente era, quando lhe telefonou naquela noite... depois de ter saído daqui. Depois de o senhor nos ter dito que nunca mais tinha tido notícias dela.

 

Bondurant olhou-o com fixidez. Não negou as palavras do outro. Tão-pouco se justificou.

 

O que é que lhe parece? continuou Kovac num tom autoritário. Pensou que eu não acabaria por descobrir isso? Pensa que sou algum idiota? Passar-lhe-á pela cabeça que preciso da porra de um crachá do FBI a fim deter um cérebro?

 

Não me ocorreu que esse pormenor pudesse ser relevante.

 

Não pensou que fosse relevante? ripostou Kovac mostrando-se estupefacto. É possível que tenha dado qualquer indicação sobre o local onde se encontrava quando fez esse telefonema. O que nos indicaria um sítio que poderíamos ter passado a pente fino à procura de possíveis testemunhas. Talvez tenha ouvido qualquer voz em segundo plano, ou um som distinto. Talvez essa chamada tenha sido interrompida abruptamente.

 

A resposta é não a todas essas hipóteses.

 

Porque é que ela lhe ligou?

 

Para me dar as boas-noites.

 

E foi por essa mesma razão que ela telefonou ao psiquiatra a meio da noite? Nenhuma reacção. Quer de surpresa quer de cólera. Não faço a mínima ideia da razão que a terá levado a ligar ao Lucas. A relação que eles tinham de médico-paciente era uma coisa que não me dizia respeito.

 

Mas ela era sua filha prosseguiu Kovac, andando de um lado para o outro numa manifestação de nervosismo, sentindo um acumular de frustração. Também pensou que não tinha nada a ver com o assunto quando o padrasto andava a fodê-la?

 

Um golpe directo e certeiro, pensava Quinn, que observava a ira que se espelhava no rosto de feições magras de Peter Bondurant.

 

Não quero mais nada de si, sargento.

 

A sério? Imagina que foi isso o que o LeBlanc disse à Jillian, e cujo resultado foi ela ter atentado contra a própria vida quando vivia em França? perguntou Kovac, provocador, numa atitude de irresponsabilidade como se patinasse sobre gelo fino.

 

Grande sacana! invectivou Bondurant mas sem fazer menção de se aproximar de Kovac, mantendo uma postura rígida. Quinn deu conta de que todo ele tremia.

 

Eu é que sou um sacana? perguntou Kovac, rindo-se. É muito possível que a sua filha esteja morta, mas nem por isso você se dá ao trabalho de nos dizer seja o que fora seu respeito, e eu é que sou o sacana? Isso é uma verdadeira maravilha. John, você é capaz de acreditar nas merdas que este fulano nos quer impingir?

 

Quinn soltou um fundo suspiro de decepção.

 

Mister Bondurant, nós não fazemos este tipo de perguntas de ânimo leve. A nossa intenção não é magoá-lo, nem tão-pouco temos o intuito de ofender a memória da sua filha. Só fazemos estas perguntas porque necessitamos de ter uma imagem de tudo o que se relacione com a Jillian.

 

Mas eu já lhe disse retorquiu Bondurant numa voz baixa e tensa; nos seus olhos reflectia-se frieza e raiva. O passado da Jillian não tem nada a ver com isto.

 

Receio ver-me forçado a contradizê-lo. As coisas relacionam-se, de uma maneira ou de outra. O passado da sua filha era parte integrante daquilo que ela foi... ou que ainda é.

 

O Lucas já me tinha advertido de que você insistiria nisso. É absurdo pensar que a Jillian, não se sabe bem como, seja responsável pelo que lhe sucedeu. Ela estava a ir tão bem...

 

Não lhe cabe a si tentar dissecar esta situação, Peter -acrescentou Quinn, adoptando a atitude pessoal. Eu sou seu amigo. Pode abrir-se comigo. Permitindo ao outro que voluntária e lentamente abdicasse do domínio que exercia sobre si próprio.

 

Quinn apercebia-se da faceta lógica da mente de Bondurant que argumentava com as emoções que mantinha firmemente encerradas. O homem estava tão tenso que, se Kovac o pressionasse o bastante, ele cederia; seria o mesmo que soltar de repente uma corda excessivamente tensa: todo o controlo deixaria de existir. Bondurant possuía inteligência bastante para se aperceber disso e capacidade analítica que lhe chegasse para temer essa possibilidade.

 

Não estamos a dizer que a culpa seja da Jillian, Peter. Ela não pediu que isto acontecesse. Ela não merecia uma morte destas.

 

Um véu de lágrimas toldou o olhar de Bondurant.

 

- Compreendo que isto lhe seja difícil - acrescentou Quinn numa voz suave. - Quando a sua mulher o deixou, ela levou a sua filha, que passou a viver junto de um homem que abusou dela sexualmente. Imagino a raiva que sentiu quando tomou conhecimento disso. - Não, não conseguirá imaginar - redarguiu Bondurant, afastando-se à procura de uma fuga qualquer, embora não quisesse sair do vestíbulo. - A Jillian vivia à distância de um oceano, cheia de problemas e a sofrer - continuou Quinn. - No entanto, estava tudo acabado quando você veio a ter conhecimento do que se estava a passar, portanto, o que é que poderia fazer? Nada. Calculo a frustração, a cólera, a sensação de impotência. Um grande sentimento de culpa.

 

- Não me foi possível fazer nada - murmurou Bondurant. Colocara-se junto de uma mesa com tampo de mármore, olhando atentamente para uma escultura, lírios em bronze, de linhas irregulares, revivendo um passado que teria preferido manter encerrado. - Eu não sabia. Só depois de se ter mudado para cá é que ela me contou. Só tarde de mais é que tive conhecimento do sucedido. - Com uma mão que tremia, tocou num dos lírios fechando os olhos.

Quinn colocou-se ao seu lado, insinuando-se no espaço pessoal de Bondurant. Uma proximidade que podia suscitar uma atitude confiante, sugerindo mais apoio do que intimidação.

 

-Não é tarde de mais, Peter. Ainda pode fazer alguma coisa, Peter. Ambos temos o mesmo objectivo... encontrar e pôr cobro aos actos do assassino da Jillian. o que é que aconteceu nessa noite?

 

Bondurant abanou a cabeça. Negar o quê? Havia uma sensação de qualquer coisa... Culpa? Vergonha? Algo que irradiava da sua pessoa quase como se fosse um odor.

 

-Nada - respondeu. - Nada. Jantaram juntos. Ela ficou em sua casa até à meia-noite. o que é que se passou que a fez telefonar ao Brandt? Deve ter ficado perturbada com qualquer coisa. Continuou a abanar a cabeça. Estaria a negar o quê?

 

o estado emocional da filha ou recusava-se a responder? Estaria a ignorar as perguntas por considerá-las inaceitáveis, uma vez que as respostas abririam uma porta que ele não queria transpor? A filha que regressara para junto de si decorridos tantos anos, não tendo voltado a menina inocente que fora em tempos. Jillian regressara diferente, como mercadoria estragada. Como é que qualquer pai se sentiria? Magoado, decepcionado, envergonhado. Sentimentos de culpa porque não estivera presente para impedir o que tinha levado a filha a tentar acabar com a própria vida. Culpabilizando-se por causa da vergonha que sentia quando pensava nela como algo estragado, longe da perfeição. Um emaranhado de emoções sombrias, enredadas num nó que exigiria a perícia de um cirurgião para desenredar. Quinn pensou numa fotografia que vira no escritório de Bondurant: Jillian, com uma expressão de grande infelicidade, usando um vestido que teria ficado bem noutro género de rapariga.

 

O nosso intuito não é prejudicar a Jillian insistiu Kovac, que se colocara à direita de Bondurant. Nem prejudicá-lo a si, Mister Bondurant. Só queremos apurar a verdade.

 

Quinn susteve a respiração sem afastar os olhos de Bondurant. Passaram uns momentos. Fora tomada uma decisão. O prato da balança não pendera a favor deles. Foi o que viram no rosto de Peter Bondurant quando a sua mão se afastou do lírio de bronze de formas irregulares, reunindo tudo no seu interior e fechando-se ao mundo, cerrando a porta interior que acidentalmente estivera entreaberta.

 

Não declarou Bondurant, peremptório, com um semblante vazio na máscara ossuda, estendendo a mão para o telefone preto de linhas elegantes ao lado da escultura. Não terá essa oportunidade, rccuso-me a ver a memória da minha filha arrastada pela lama. Se eu ler uma só palavra que seja em qualquer jornal sobre o que aconteceu à Jillian em França, não hesitarei em arruinar a vossa vida.

 

Eu só pretendo resolver estes assassínios, Mister Bondurant disse Kovac respirando fundo e afastando-se da mesa. É o que estou a tentar fazer. Sou um homem simples com necessidades simples... como por exemplo, de reconhecer a verdade. O senhor tem poder para me arruinar enquanto o diabo esfrega um olho. Bolas, tudo aquilo a que alguma vez chamei meu foi parar às mãos de uma ou outra das minhas ex-mulheres. Pode esborrachar-me como se eu fosse um insecto. E sabe que mais? Não será isso que me impedirá de querer continuar a apurar a verdade, porque essa é a minha maneira de ser. Seria mais fácil para todos nós se o senhor me falasse com essa verdade, de preferência mais cedo do que mais tarde.

 

Bondurant limitou-se a fitá-lo afivelando uma expressão empedernida. Kovac abanou a cabeça e afastou-se do homem.

 

Durante uns momentos, Quinn não se mexeu, observando Bondurant enquanto tentava ler-lhe a expressão, avaliá-lo. Tinham estado tão perto de fazer com que ele se abrisse

 

Você fez-me vir a esta cidade por um motivo começou Quinn a dizer em voz baixa, expressando-se com uma entoação de homem para homem, taco a taco. Tirou do bolso um cartão-de-visita do FBI que colocou em cima da mesa. Telefone-me quando achar que está pronto.

 

Bondurant premiu o botão do telefone chamando um número pré-registado e esperou.

 

Uma última pergunta acrescentou Quinn. A Jillian gostava de compor música. Alguma vez a viu interpretar a sua própria música? Conhece alguns dos poemas das canções que ela compôs?

 

Não. Ela não partilhava esse passatempo comigo. Desviou o olhar quando alguém atendeu do outro lado da linha. Fala Peter Bondurant. Ligue-me ao doutor Edwyn Noble.

 

Deixou-se ficar no vestíbulo aguardando durante bastante tempo, até começar a ouvir o barulho irregular do motor do carro de Kovac à distância. Mantinha-se ali em silêncio e na obscuridade. O tempo passava. Não soube dizer quanto, Pouco depois percorria o corredor em direcção ao seu escritório; aparentemente, o seu corpo e a sua mente funcionavam alheados um do outro.

 

Um dos cantos da sala era iluminado por um candeeiro de pé alto. Não ligou mais luzes. Furtivamente, a noite apoderava-se do final de tarde, furtando a luminosidade límpida que se filtrara até então através das portas corrediças de vidro. Na sala reinava uma atmosfera tristonha que se coadunava com o seu estado de espírito.

 

Abriu a secretária fechada à chave e de uma das gavetas tirou uma pauta de música, abeirando-se da janela para poder lê-la, como se... quanto mais afastadas as palavras estivessem da luz do candeeiro, menos dura seria a sua realidade.

 

Criança do Amor

 

Eu sou a criança do teu amor

 

Pequenina

 

Quero-te mais do que todo o mundo

 

Leva-me a esse lugar que conheço

 

Leva-me para onde quiseres ir

 

Tenho de conquistar o teu amor

 

Só existe uma maneira de fazê-lo

 

Paizinho; dá-me o teu amor

 

Ama-me agora.

 

Paizinho, eu sou a filha do teu amor Possui-me agora.

 

 

Por assim dizer, a reunião é em sua honra. Senta-se entre a multidão, observando e ouvindo tudo em seu redor. fascinado e divertido. As pessoas à sua volta seriam pelas suas estimativas aproximadamente umas cento e cinquenta, muitas delas dos meios de comunicação social, foram ali porque o receiam ou porque se sentem fascinadas por ele. Não fazem a mais pequena ideia de que o monstro se encontra sentado entre elas, abanando a cabeça enquanto essa gente comenta o estado aterrador em que o mundo se encontra, tecendo considerações quanto à mentalidade macabra do Cremador.

 

No fundo, ele acredita que alguns deles invejam genuinamente o Cremador, a sua ousadia, se bem que jamais o admitiriam. Nenhum deles tem a coragem, ou a clareza de visão, para actuar movido pelas suas fantasias, libertando os poderes tenebrosos que habitam dentro de si.

 

A reunião está prestes a começar, o porta-voz do grupo de trabalho especifica o alegado objectivo da reunião, o que é uma mentira. É uma reunião que não se destina a informar, nem sequer a proporcionar à comunidade uma demonstração de acção. O objectivo da reunião centra-se em Quinn,

 

«O mais importante neste ciclo de assassínios que ainda não chegou ao fim, de acordo com o que eu lhes disse, é começar a agir de forma ”proactiva”, recorrendo aos esforços da Polícia e dos meios de comunicação social para tentarmos atrair o indivíduo a uma cilada. Por exemplo, sugeri que as autoridades policiais poderiam organizar uma série de reuniões comunitárias onde se ”discutiriam ” os crimes

 

Sentia-me razoavelmente certo de que o assassino acabaria por assistir a uma ou mais destas reuniões.» John Douglas, Mindhunter.

 

A finalidade da reunião é encurralá-lo, e, contudo, ali está ele, calmo e de cabeça fria. É apenas mais um cidadão preocupado. Quinn observa atentamente a multidão, à procura dele, tentando encontrar algo que passará despercebido à maior parte das pessoas: o rosto do mal.

 

«As pessoas esperam que o demónio mostre um rosto feio com um par de chifres. Mas o demónio pode ser bem-parecido. O demónio pode ser vulgar. A fealdade é interior, uma podridão negra e cancerosa que consome a consciência e a fibra moral, que destrói os mecanismos que definem um comportamento civilizado, deixando em seu lugar uma besta que se oculta por detrás de uma fachada de normalidade.» John Quinn, numa entrevista que deu à revista People, em Janeiro de 1997.

 

No seu fato cinzento de bom corte, Quinn está, obviamente, acima dos machões locais. Mostra a expressão entediada e de superioridade de um dos modelos da GQ. Uma atitude que lhe suscita irritação o facto de Quinn, finalmente, se ter dignado reconhecer em público a sua existência, embora Quinn se mostre de uma indiferença levada ao extremo.

 

«Porque estás convencido de que me conheces, Quinn. Pensas que sou apenas um caso como os outros. Nada de especial. Mas não conheces o Cremador. O Anjo do Mal. E eu conheço-te tão bem.»

 

Conhece bem o historial profissional de Quinn, a sua reputação, as suas teorias, os seus métodos. No fim, acabará por merecer o respeito de Quinn, o que terá mais significado para este do que para si próprio. O seu verdadeiro eu, sombrio, encontra-se acima da necessidade de aprovação. Procurar a aprovação dos outros é um sinal de fraqueza, é reactivo, induz a um estado de vulnerabilidade, convidando ao ridículo e à desilusão. Não é aceitável. Não é permitido no lado sombrio.

 

Começa a recitar mentalmente o seu credo: «Dominação. Manipulação. Comando.»

 

Vêem-se os clarões das máquinas fotográficas, o ruído monocórdico do motor das câmaras quando Quinn sobe ao estrado. A mulher sentada ao lado dele começa a tossir. Oferece-lhe uma pastilha de mentol, considerando a ideia de lhe cortar a garganta por ela estar a perturbar a sua concentração.

 

Chega a pensar em fazê-lo ali, naquele momento agarrando um punhado de cabelos louros, puxando-lhe a cabeça para trás e, num gesto célere, esfaquear-lhe a laringe, cortando a jugular e a carótida perfurando-a até à espinha dorsal. O sangue começará a jorrar do seu corpo em golfadas abundantes, enquanto ele desaparecerá por entre a multidão histérica, conseguindo escapar-se dali para fora. O pensamento fá-lo sorrir; leva uma pastilha à boca. Sabor a cereja o seu preferido.

 

Quinn garante à assistência que todos os serviços do FBI serão postos à disposição do grupo de trabalho. Começa a falar do sistema computorizado de todos os serviços de investigação, apoio e perícia criminal, referindo-se a cada um pelas iniciais respectivas. Garantias através da confusão. O comum dos mortais não é capaz de fazer a leitura à sopa de letras que são as agências e serviços modernos de implementação da lei. A maior parte das pessoas não sabe distinguir a diferença entre um departamento de polícia e o gabinete do xerife. Sabem apenas que os acrónimos têm um som importante e oficial. As pessoas ali reunidas ouvem com toda a atenção, lançando olhares de fugida aos que se encontram sentados ao seu lado.

 

Quinn revela apenas os pormenores mais insignificantes a respeito do perfil psicológico que tem vindo a elaborar; a experiência permite-lhe imprimir à mais pequena informação a impressão de ter descoberto um filão de ouro. Disserta sobre o homicida comum que assassina prostitutas: um falhado desajustado que odeia todas as mulheres, escolhendo as que do seu ponto de vista são as mais devassas do sexo feminino, exercendo sobre elas a sua vingança pelos pecados da mãe. Quinn entrega-se a especulações, dizendo que esse tipo de perfil não corresponde inteiramente ao do Cremador, acrescentando que aquele assassino é especial, possui um elevado grau de inteligência, é extraordinariamente organizado, esperto, pelo que será necessário não só a diligência das forças da lei, mas também os esforços da própria comunidade para que venha a ser detido.

 

Quinn tem razão num aspecto o Cremador não tem nada de comum. Ao invés de desajustado, ele é um ser superior. Interessa-se tão pouco pela mulher que o pariu que jamais se sentiria inspirado a vingar-se dela na sua memória.

 

E contudo, no seu subconsciente, ele ouve a voz materna a amesquinhá-lo, a criticá-lo, a atormentá-lo, a cólera acumulada começa a ficar ao rubro. O estupor do Quinn mais as suas merdas freudianas. Ele não tem a mais pequena noção sobre a sensação de poder e euforia que tirar a vida a alguém propicia. Nunca pensou na musicalidade requintada da dor e do medo, no modo como essa música eleva o seu intérprete. As mortes não têm nada a ver com quaisquer sentimentos de desajustamento do ser comum que ele é; têm, isso sim, tudo a ver com poder.

 

No extremo mais afastado do recinto, o contingente vindo da Casa Phoenix começa a entoar a sua lengalenga: «As nossas vidas também são importantes!»

 

Antes de começar, Toni Urskine apresenta-se, após o que explica quem é e por que motivo está ali.

 

A Lila White e a Fawn Pierce foram obrigadas, por força das circunstâncias, a entregar-se a uma vida de prostituição. Está a tentar dizer-nos que elas mereceram o destino que tiveram?

 

Jamais sugeriria uma coisa dessas replicou Quinn. -Mas é um facto inegável que a prostituição é uma profissão de risco elevado, se a compararmos ao exercício da advocacia ou à actividade de uma professora do ensino primário.

 

Por conseguinte, pode considerar-se que as suas vidas são dispensáveis? O assassínio da Lila White não deu origem à criação de um grupo de trabalho. A Lila White foi uma das residentes da Casa Phoenix em dado período da sua vida. Ninguém do Departamento da Polícia de Minneapolis se deu ao trabalho de reabrir as investigações da sua morte. O FBI também não enviou ninguém a Minneapolis por causa da Fawn Pierce. Uma das residentes que temos presentemente na nossa casa foi uma amiga chegada de Miss Pierce. Nunca ninguém do Departamento da Polícia de Minneapolis se deu ao incómodo de a interrogar. No entanto, quando a filha do Peter Bondurant é dada como desaparecida, subitamente, todos os meios de comunicação social e a comunidade em geral começam a organizar reuniões.

 

Comandante Greer, tendo em vista estes factos, é capaz de nos dizer, com toda a honestidade, que a cidade de Min- neapolis se interessa pelas circunstâncias difíceis em que estas mulheres vivem?

 

Greer aproxima-se do estrado, mostrando uma postura inflexível de força.

 

Mistress Úrskine, posso assegurar-lhe que todas as medidas possíveis foram tomadas com vista à resolução do homicídio das duas primeiras vítimas. Estamos a redobrar os nossos esforços, tentando descobrir o paradeiro deste monstro que desejamos apanhar. Garanto-lhe que não descansaremos até que o monstro seja apanhado.

 

Gostaria de chamar a vossa atenção para o facto de o comandante Greer não estar a utilizar literalmente o termo monstro interveio Quinn. Não andamos à procura de um lunático tarado que deite espuma pela boca. Para todos os efeitos, aparentemente, ele é um indivíduo normal. O monstro encontra-se na sua mente acrescentou Quinn.

 

Monstro. Uma palavra que o cidadão comum aplicava incorrectamente às criaturas que não compreendia. Os tubarões eram apelidados de monstros quando de facto eram simplesmente criaturas eficientes e com um objectivo, puros na sua forma de pensar e na força que possuíam. O que tamb~em se aplicava ao Cremador. É um indivíduo eficiente e com um propósito em mente, de raciocínio puro e com poder. Quando em acção, nunca vacila. Não põe em questão a compulsão que o move. Entrega-se de corpo e alma às necessidades do seu eu Sombrio, e, nessa rendição total, eleva-se acima do seu ser comum.

 

«Nesse instante, quando as vítimas morriam às suas mãos, muitos assassinos em série relatam ter sentido um discernimento interior de tal modo intenso que se assemelha a um quasar emocional, que cega na revelação da verdade.» Joel Norris, Serial Killers.

 

Agente especial Quinn, quais são as suas teorias em relação à incineração dos corpos?

 

A pergunta veio de um repórter. O perigo naquelas reuniões abertas da comunidade era o risco de se transformarem em conferências de imprensa, a última coisa em que Quinn desejava participar. Necessitava de uma situação sob controlo quer por causa da investigação quer por si próprio. Precisava de partilhar apenas o número de informações suficientes sem nunca pecar por excesso. Um pouco de especulação, mas nada que pudesse ser considerado como arrogância por parte do homicida. Precisava de condenar o assassino, embora tivesse de se certificar de que deixaria subjacente algum respeito nessa condenação.

 

Um desafio directo poderia vir a traduzir-se em mais cadáveres. Por outro lado, se adoptasse uma atitude mais complacente, talvez Joe «Fumacento» sentisse a necessidade de se afirmar mediante as suas acções. Mais corpos. Uma palavra errada, uma inflexão descuidada... e outra morte. O peso daquela responsabilidade era um peso que tinha no peito, qual pedra gigantesca.

 

Agente Quinn.

 

A voz atingiu-o como se fosse um aguilhão, despertando-o dos seus devaneios.

 

A incineração é a assinatura do assassino respondeu por fim passando a mão pela testa. Sentia calor. Não havia ar suficiente na sala. Sentia a cabeça a latejar como se fosse um martelo que malhasse contra uma bigorna. O buraco que sentia nas paredes interiores do estômago estava cada vez maior, como que alargado por uma fogueira. É algo que ele se sente compelido a levar a cabo para satisfazer uma qualquer necessidade interior. Quanto à natureza dessa necessidade, só ele é que saberá dizer.

 

«Escolhe um rosto, qualquer rosto», pensava ele enquanto abarcava a multidão num só olhar. Depois de tantos anos, tantos casos e de tantos assassinos, por vezes, Quinn pensava que tinha a obrigação de ser capaz de detectar a compulsão de matar, reconhecendo-a como a aura profana que era, mas as coisas não se passavam com essa simplicidade. As pessoas davam demasiada importância à expressão no olhar dos homicidas em série, o ar inflexível, o olhar vazio que dava a impressão de fitar a extensão de um longo túnel envolto em escuridão onde deveria ter estado uma alma. Mas um assassino com aquelas características era arguto e adaptável, e ninguém, à excepção das suas vítimas, devia ver esse olhar até que fosse fotografado para o retrato que constaria dos registos da Polícia.

 

Qualquer rosto entre a multidão poderia ser a máscara do criminoso, era possível que houvesse alguém entre os presentes que estaria a ouvir a descrição dos assassínios, a cheirar o ambiente de temor que pairava no recinto, sentindo-se em êxtase, sexualmente estimulado. Na verdade, Quinn tivera a oportunidade de ver assassinos que sentiam erecções penianas enquanto as suas experiências monstruosas eram relatadas a um júri abismado e cheio de repulsa

 

O assassino estaria ali com os seus objectivos pessoais em mente. Para avaliar, para julgar, para planear o passo seguinte. Para desfrutar de toda aquela agitação a que ele próprio dera origem. Talvez se apresentasse como um cidadão preocupado. Talvez quisesse sentir o empolgamento de saber que, embora estivesse ao alcance das autoridades, podia afastar-se com toda a tranquilidade. Ou talvez seleccionasse a próxima vítima de entre as mulheres ali presentes.

 

Automaticamente, o olhar de Quinn dirigiu-se para Kate, enquanto ela entrava despercebida por uma porta dos fundos. Perscrutou-lhe a fisionomia tendo o cuidado de não dar muito nas vistas, apesar da vontade que sentia em olhá-la demoradamente. O que desejava com intensidade, embora ela não quisesse nada com ele. Em tempos, já aceitara essa indicação. Com certeza que conseguiria ter a sensatez suficiente para voltar a acatar os desejos dela, bem patentes naquele momento. Além do mais, tinha em mãos uma investigação criminal que requeria todo o seu poder de concentração.

 

E quanto aos aspectos religiosos?

 

Tanto quanto me é dado saber, é muito possível que não existam. Só podemos especular. Talvez ele quisesse dizer-nos: «Pecadores, ardei no fogo do inferno.» Também é plausível que se tratasse de uma cerimónia de purificação destinada a salvar a alma das vítimas. Também não devemos pôr de parte a hipótese de ele poder considerar que a incineração dos cadáveres é o desrespeito e a degradação levados ao extremo.

 

Não faz parte das suas funções reduzir as possibilidades ao mínimo? perguntou outro repórter.

 

Quinn esteve quase a tentar descobrir a presença de Tippen entre a multidão.

 

O perfil psicológico ainda não está completado disse Quinn. «E não me diga como fazer o meu trabalho Grande cara de cu, sei muito bem quais são as minhas funções.»

 

É verdade que foi retirado das investigações do rapto do filho dos Bennet, da Virgínia, para poder tratar deste caso?

 

E quanto ao assassínio dos maricas em South Beach?

 

Tenho sempre em mãos um determinado número de casos pendentes.

 

Mas a verdade é que está aqui por vontade do Peter Bondurant afirmou um outro. Não lhe parece que isso cheira a elitismo?

 

Eu vou para onde me mandam respondeu Quinn num tom de voz neutro. Costumo focar-me no caso que investigo e não de onde emanaram as ordens, ou o porquê dessas ordens.

 

Por que razão o Peter Bondurant ainda não foi formalmente interrogado?

 

Entretanto, o comandante Greer subiu para o estrado, com a intenção de dar aquela linha de perguntas por oficialmente encerrada, passando a expor as virtudes de Peter Bondurant na presença do advogado deste, Edwyn Noble, e do porta-voz da Paragon, o qual se encontrava ali em representação de Peter Bondurant.

 

Quinn, ao lado de Kovac, retrocedeu uns passos, tentando recomeçar a respirar com normalidade. Kovac afivelara o seu semblante de polícia, um olhar velado que não deixava adivinhar nada, registando no pensamento muito mais do que qualquer pessoa presente pudesse ter imaginado.

 

Está a ver o badameco da Liska sentado ao lado dela? perguntou entre dentes. Por amor de Deus, o homem até veio de uniforme!

 

O que daria muito jeito para fazer com que as vítimas o acompanhassem sem relutância retorquiu Quinn. Ele tem um cadastro criminal por ofensas menores que poderá ser mais revelador do que aparenta ser.

 

Ele mantinha contactos ocasionais com a Jillian Bondurant disse Kovac.

 

Peça à Liska que o convoque para um interrogatório. Quinn desejava sentir aquele instinto nato que lhe indicaria que aquele talvez fosse o fulano que procurava, mas esse instinto tinha-o abandonado, deixando-o sem sentir nada. Ela que lhe dê a entender que quer apenas trocar algumas opiniões com ele. Dando-lhe a impressão de que queremos a sua ajuda, que estamos interessados em saber o que pensa sobre o assunto, que queremos a avaliação dele como observador experimentado. Qualquer coisa desse género.

 

Lamber as botas desse aspirante a polícia. Credo! O bigode de Kovac agitou-se num trejeito de desdém. Não sei se sabe, mas ele não anda muito longe da merda desse retrato-robô que nos veio parar às mãos.

 

- Tal como você não está. Quando ele for à esquadra veja se consegue fotografá-lo. Trate de reunir uma colecção de fotografias para a nossa testemunha. Talvez ela o reconheça.

 

Greer terminou a sua dissertação com um pedido final cheio de dramatismo dirigido ao público, a que pedia ajuda na resolução do caso, indicando que os detectives Liska e Yurek estavam à disposição para receber qualquer informação no final da reunião. Assim que esta foi dada por encerrada, os repórteres começaram a acercar-se como se fossem uma matilha de cães a latir. Imediatamente a multidão se transformou numa massa humana em movimento, em que alguns se dirigiam para a porta, enquanto outros se aproximavam do fundo do recinto, onde Toni Urskíne tentava arranjar apoios para a sua causa.

 

A custo, Kate tentava chegar à frente da matilha, com a atenção fixa em Kovac. Quando este já se aproximava dela, Edwyn Noble abeirou-se de Quinn, qual espectro da morte, com a boca larga firmemente fechada formando uma linha dura. Lucas Brandt encontrava-se ao seu lado com as mãos nas algibeiras do sobretudo de pêlo de camelo.

 

Agente Quinn, podemos dar-lhe uma palavrinha em particular?

 

Claro que sim.

 

Conduziu os dois homens para fora do estrado, afastando-os dos jornalistas e levando-os para a cozinha do centro comunitário, onde as cafeteiras de café, de tamanho industrial, se alinhavam em cima do tampo de fórmica vermelha de uma bancada, e onde num aviso escrito à mão colocado por cima do lava-louça se lia: «POR FAVOR, LAVE A SUA CHÁVENA

 

O Peter ficou muito perturbado com a visita que lhe fez ao fim desta tarde começou Noble a dizer.

 

Sim, eu sei redarguiu Quinn, arqueando o sobrolho. Estive presente. - - Meteu as mãos nos bolsos encostando-se à bancada, numa imagem perfeita de descontração.

 


Dispunha de todo o tempo do mundo. Esboçou um pequeno sorriso. Vocês dois assistiram a esta reunião com o fito de me dizerem isso? E eu a pensar que eram apenas um par de cidadãos preocupados.

 

Eu estou aqui em representação dos interesses do Peter Bondurant declarou Noble. Pareceu-me que devia informá-lo de que ele pensa telefonar ao Bob Brewster. Não está nada satisfeito consigo. À primeira vista, deu-lhe a impressão de estar a perder um tempo precioso...

 

Peço desculpa, doutor Noble, mas do meu trabalho percebo eu atalhou Quinn com serenidade. Não é obrigatório que o Peter goste da maneira como o executo. Eu não trabalho para o Peter. Mas se ele não está satisfeito com a minha actuação, então, tem toda a liberdade de ligar ao meu director. Não é isso que irá alterar o facto de a Jilhan Bondurant ter feito dois telefonemas depois de ter saído de casa do pai na noite em que desapareceu, ou o facto de nem o Peter Bondurant nem você, doutor Brandt, se terem dado ao incómodo de mencionar isso à Polícia. Nessa noite, passou-se alguma coisa com a Jillian Bondurant e agora é muito possível que ela esteja morta. De uma maneira ou de outra, existem determinadas perguntas a que é preciso dar resposta.

 

A Jillian tinha problemas retorquiu Brandt flexionando os músculos do queixo rectilíneo. O Peter ama a filha. Sentir-se-ia magoado de morte, caso visse o passado e os problemas da filha escarrapachados nos jornais sensacionalistas, ou apresentados aos cidadãos dos Estados Unidos nos noticiários da noite.

 

Num movimento abrupto, Quinn endireitou-se desencostando-se da bancada, invadindo o espaço de Brandt e franzindo o cenho mesmo diante da cara do psiquiatra.

 

Não faz parte das minhas funções vender informações relativas aos meus casos aos meios de comunicação social

 

Noble estendeu as mãos num gesto conciliatório. O eterno fazedor da paz, o diplomata.

 

Claro que não. Muito simplesmente, estamos apenas a tentar agir com tanta discrição quanto nos for possível. Éporisso que estamos aqui a falar consigo em vez de falarmos com a Polícia. O Peter, o Lucas e eu discutimos este assunto, tendo chegado à conclusão de que você talvez possa manobrar o leme, por assim dizer, deste caso. Estamos a partir do princípio de que, se pudéssemos satisfazê-lo com respeito aos telefonemas que a Jillian fez nessa noite, o assunto poderia ser posto de parte de uma vez por todas.

 

E o que é que faz à sua ética deontológica? perguntou Quinn continuando de olhar fixo em Brandt.

 

Apenas um pequeno sacrifício em nome de um bem maior.

 

«O dele», desconfiava Quinn.

 

Sou todo ouvidos.

 

Brandt respirou fundo, preparando-se para a quebra de confiança que a sua cliente depositara em si. Sem saber como, Quinn não achava que a sua consciência o afligisse tanto como o desafiar a vontade de Peter Bondurant, o que, a ser o caso, o afectaria em moldes sociais e financeiros,

 

O padrasto da Jillian contactou-a em várias ocasiões durante as últimas semanas, dando a entender que queria reatar o relacionamento entre os dois. A Jillian nutria por ele sentimentos muito problemáticos e confusos.

 

Teria ela a intenção de retomar qualquer tipo de relação amorosa com ele? perguntou Quinn. Nas palavras da amiga está implícito que ela esteve apaixonada por ele, tendo chegado ao ponto de querer que ele se divorciasse da mãe para poder casar com ela.

 

A Jillian era uma rapariga muito infeliz e confusa quando se envolveu afectivamente com o padrasto. A mãe sempre sentiu ciúmes dela, o que se verificou desde a infância da filha. Era uma mulher esfomeada por amor. Com certeza que saberá que as pessoas farão tudo e mais alguma coisa para serem amadas... ou, antes, para alcançarem aquilo que na sua perspectiva é o amor.

 

Sim. Já vi o resultado em fotografias que foram tiradas em locais que serviram de cenário a vários crimes. Por que razão o padrasto nunca foi acusado?

 

Porque nunca foram apresentadas queixas formais. O LeBlanc fez-lhe uma lavagem ao cérebro replicou Noble com uma expressão de repulsa. A Jillian até se recusou a falar com a Polícia.

 

O Peter tinha esperanças de que a mudança para o Minnesota, onde ela teria apoio psiquiátrico, conseguisse pôr esse assunto para trás das costas acrescentou Brandt,

 

E isso aconteceu?

 

A psicoterapia é um processo longo que se arrasta por muito tempo.

 

Mas foi então que o LeBlanc começou a telefonar-lhe de novo.

 

Ela decidiu contar tudo ao Peter. Como é natural, ficou preocupado. Sentia medo pela Jillie. Ela tinha andado tão bem. Outro suspiro colocado estrategicamente. O Peter tinha dificuldades em expressar as suas emoções. A preocupação que sentia traduzia-se em cólera. Acabaram por discutir. A Jillie estava enervada quando saiu de casa do pai. Telefonou-me do carro.

 

Onde é que ela estava?

 

Num parque de estacionamento algures. Não chegou a dizer-me onde. Eu disse-lhe que voltasse a casa do Peter e que discutisse o assunto com ele, mas ela sentia-se constrangida e magoada, pelo que acabou apenas por lhe telefonar explicou Brandt. E esta é a história toda. Tão simples quanto isto.

 

Quinn duvidava dele, não acreditando em nenhuma das duas afirmações. O que Lucas Brandt acabara de lhe dizer não correspondia inteiramente à verdade do que acontecera, e nada na vida ou morte de Jillian Bondurant provaria ser simples,

 

E o Peter não podia ter contado esta história ao sargento Kovac, e a mim, há quatro horas atrás, quando estivemos a falar com ele no vestíbulo da sua casa?

 

Noble olhou por cima do ombro, denotando nervosismo, em direcção à porta fechada no outro extremo da cozinha, como se esperasse que os repórteres entrassem de rompante, colocando os microfones na cara deles como se viessem de baionetas em riste.

 

O Peter sente dificuldade em abordar este tipo de assunto, agente Quinn. Estamos a falar de um homem profundamente reservado.

 

Eu compreendo isso, doutor Noble retorquiu Quinn, procurando casualmente uma pastilha de hortelãpimenta que devia ter no bolso. Enquanto a desembrulhava retomou a conversa. O problema com essa particularidade é o facto de este assunto ter a ver com uma investigação criminal. Quando estamos a falar de um homicídio, esse aspecto da privacidade não tem cabimento. Colocou o invólucro da pastilha em cima da bancada, metendo-a na boca.

 

Nem sequer se o nome da pessoa em questão for Peter Bondurant, uma pessoa que pode chegar sempre que queira ao director do FBI... o que não acontecerá desde que o caso seja meu.

 

Pois bem disse Edwyn Noble retrocedendo; o seu rosto de feições afiladas mostrava uma expressão de frieza e dureza. É possível que o caso não seja seu por muito mais tempo.

 

Os dois homens viraram costas como duas crianças mimadas que fossem imediatamente a correr para casa fazer queixa dele. Contariam a Bondurant tudo o que se tinha passado. Por seu turno, este telefonaria logo a Brewster. Possivelmente, o director do FBI ligar-lhe-ia para o repreender, supôs Quinn. Ou, em alternativa, talvez se limitasse a dar instruções ao assessor do agente especial administrativo para que Quinn fosse afastado do caso, enviando-o para outra pilha de corpos num outro lugar qualquer. Havia sempre outro caso. E outro... e mais outro... E que mais é que ele poderia fazer com a sua vida?

 

Ficou a observar Noble e Brandt que passavam pelas pessoas que tinham assistido à reunião a caminho da saída, com os repórteres que não lhes largavam os calcanhares

 

O que é que foi essa conversa toda? perguntou Kovac.

 

Acho que estão a tentar passar-nos a perna.

 

A Kate diz que a nossa testemunha se abriu finalmente. O nosso pequeno «raio de sol» disse que nessa noite estava no parque para sacar umas massas a um falhado qualquer com quem deu uma cambalhota.

 

E esse falhado tem nome?

 

Hubert Humphrey, disse-lhe ele respondeu Kovac com sarcasmo. Vá-se lá saber quem era! Talvez o cara de cu de um republicano com mau sentido de humor.

 

Com certeza que isso reduz as hipóteses redarguiu Quinn com secura.

 

As equipas de filmagem das estações de televisão já tinham começado a guardar os projectores e as câmaras. As últimas pessoas também iam saindo a pouco e pouco. A festa tinha acabado, e com ela também se extinguira a adrenalina que lhe acelerara a pulsação, fazendo com que ficasse com os nervos à flor da pele. Na verdade, Quinn preferia sentir-se tenso porque mantinha a depressão afastada de si, assim como a sensação de avassalamento, exaustão e confusão. Quinn preferia a acção, uma vez que a alternativa seria ficar sozinho no seu quarto de hotel sem nada, além do medo, por companhia. O receio de não estar a fazer o suficiente, pensando que podia haver qualquer coisa que escapava à sua atenção; que, apesar dos conhecimentos acumulados com base num milhar ou mais de casos, tivesse perdido a percepção que lhe permitia efectuar um trabalho eficaz, andando a tropeçar de um lado para o outro como um homem que tivesse acabado de cegar.

 

- É evidente que ela não tomou nota do número de nenhuma chapa de matrícula prosseguiu Kovac. Tãopouco de qualquer endereço. Também não existem recibos de cartões de crédito.

 

Ao menos ela é capaz de o descrever? Perguntou Quinn.

 

Sem dúvida. O comprimento era de cerca de onze centímetros e fazia um barulho como se fosse uma máquina de picar carne quando se veio.

 

Isso proporcionar-nos-á uma linha de identificação muito interessante.

 

Sim, sim. Mais outro executivo patético com o seu veículo utilitário, casado com uma mulher que se recusa a fazer-lhe uma mamada.

 

O quê? perguntou Quinn, fitando-o com um olhar intenso.

 

Uma mulher que...

 

A outra parte. Ele conduzia o quê?

 

Um veículo utilitário... Os olhos de Kovac ficaram arregalados arremessando ao chão o cigarro que estivera prestes a acender. Oh, Jesus nos valha!

 

Ele desloca-se acompanhando o resto da multidão, transpondo as portas do centro comunitário enquanto apanha aqui e ali pedaços de conversas cujo tema é ele próprio.

 

Quem me dera que eles tivessem dado mais pormenores sobre a incineração do corpo.

 

Quer dizer, o tipo do FBI diz que este fulano tem a aparência de qualquer pessoa normal, agindo como um de nÓS, mas como é que isso é possível? O tipo deita fogo aos corpos, não é? Só um tarado é que faria uma coisa dessas.

 

Tem de ser doido varrido.

 

Ou então muito esperto. O fogo destrói qualquer prova incriminatória que possa ter deixado.

 

Sim, mas decapitar alguém só de uma pessoa con pletamente tarada.

 

Não lhe parece que o fogo é simbólico? pergunta ele. Eu acho que o tipo deve ter uma mania qualquer de carácter religioso. Está a ver: Do pó vieste e ao pó hás-de voltar, qualquer coisa deste género.

 

Talvez...

 

Aposto que, quando o apanharem, os xuis hão-de vir a descobrir que ele tinha um padrasto que era um fanático religioso, ou coisa assim. Talvez até mesmo um cangalheiro acrescenta ele, pensando no homem que tivera uma relação amorosa com a mãe ao longo de grande parte da sua juventude. O homem que acreditava ter sido incumbido por Deus da redenção dela mediante a submissão sexual e espancamentos.

 

Um sacana doente da cabeça. A andar por aí a torturar e a matar mulheres por causa dos seus desajustes psíquicos. Devia ter sido metido numa saca e afogado à nascença.

 

E estes bandalhos culpabilizam sempre as mães por tudo e mais alguma coisa. Como se não fossem capazes de raciocinar por si próprios.

 

Só lhe apetece agarrar as duas mulheres que travam aquele diálogo. Agarrá-las pela garganta, gritando-lhes nas caras apoplécticas o seu nome, esmagando-lhes a traqueia com as suas próprias mãos. Naquele momento, a ira que se apoderou dele é uma chama ardente, incandescente e com línguas de azul.

 

Eu já li coisas sobre esse tal Quinn. O homem é brilhante. Foi ele quem apanhou aquele assassino de crianças no Colorado.

 

Dou-lhe autorização para me interrogar quando quiser disse a outra mulher. Não fica atrás em nada ao George Clonney.

 

Ambas desatam a rir, e a ele só apetece pegar num martelo, que tiraria do ar, e desfazer-lhes o crânio com ele. Sente o calor do fogo a arder dentro do seu peito, e a cabeça a latejar. A necessidade é como uma febre logo abaixo da superfície da pele.

 

No exterior do centro comunitário, a confusão instalou-se no parque de estacionamento. Ele dirige-se para a viatura a que se encosta de braços cruzados.

 

Nem vale a pena tentar sair daqui! grita a um dos polícias de uniforme que se esforça por orientar ordeiramente o tráfego de automóveis.

 

Mais vale esperar que a enchente saia.

 

O idiota. Quem é que naquela imagem é o desajustado? Certamente que não será o Cremador, mas sim os que se dedicam a procurá-lo, olhando-o e vendo apenas um cidadão como todos os outros.

 

Observa os que continuam a sair do edifício parando no passeio. A luz de um branco-amarelado dos projectores envolve-os. Alguns são cidadãos comuns, enquanto outros são agentes policiais que fazem parte do grupo de trabalho. Reconhece algumas daquelas pessoas.

 

Avista Quinn que sai por uma porta lateral dirigindo-se para as traseiras do centro, uma área que os jornalistas haviam optado por ignorar. Corre sem sequer ter vestido o sobretudo e pespega-se numa entrada, num ponto que não está protegido pelas sombras, com as mãos nas ilhargas, ombros direitos e com a respiração que forma nuvens de vapor enquanto olha em seu redor.

 

Anda à minha procura, agente Quinn? O falhado desajustado que sofre de um complexo materno? O monstro mental. Está prestes a descobrir o que é realmente um monstro.

 

O Cremador tem um plano. O Cremador passará a ser uma lenda. O assassino que vergou John Quinn. O supremo triunfo para o assassino supremo sobre o supremo caçador do seu género.

 

Senta-se por detrás do volante do veículo que o levou ali. liga a ignição, ajusta a temperatura ambiente e amaldiçoa o frio. Precisa de um terreno de caça mais ameno. Recua a viatura saindo do seu lugar de estacionamento e segue um Toyota 4Runner que se afasta do parque de estacionamento, entrando no pavimento alcatroado da rua.

 

 

Kate manobra cuidadosamente o 4Runner entrando na garagem estreita, e já bastante antiga, que se situa ao fundo do beco nas traseiras de sua casa. É frequente sonhar durante os meses de Inverno com uma casa que tenha garagem, mas, quando chega a Primavera, o jardim das traseiras com os seus canteiros enche-se de flores, fazendo com que se esqueça do incómodo que é ter de andar pela neve, e do perigo de caminhar por um beco escuro numa cidade onde era cometido um número assustador de crimes.

 

O vento soprava espalhando as folhas mortas que voam contra a parede lateral da garagem vizinha. Kate sentiu um pequeno arrepio percorrer-lhe a espinha; deteve-se e deu meia volta, tentando descortinar a escuridão atrás de si... não fosse o diabo tecê-las. Mas a sua atitude devia-se à paranóia natural que sentia, ao que se acrescia o conhecimento de que a reunião a que acabara de assistir fora organizada com o único objectivo de lançar o anzol a um assassino em série.

 

Pressentimentos de outros tempos que lhe haviam ficado do seu trabalho na Unidade de Ciências Comportamentais e que naquele momento vieram à superfície.

 

Recordações de crimes inqualificáveis que serviam de tópico às conversas ocasionais que se travavam junto dos bebedouros pelos corredores. Os assassínios múltiplos haviam estado de tal maneira arreigados no seu mundo que aquele género de conversa trivial nunca lhe parecera estranha até finais da sua outra carreira... depois da morte de Emily. Nessa altura, para Kate, a morte assumira aspectos mais personalizados, dando origem a que perdesse o verniz da indiferença que tão necessário era às pessoas que trabalhavam nas forças da lei. Finalmente, ela acabara por chegar ao fim dos seus limites.

 

Perguntava a si mesma como é que John conseguia suportar aquele tipo de vida... se é que o conseguia. Naquela noite ele parecera-lhe pálido, com as faces encovadas sob a luminosidade crua da luz artificial. Noutros tempos, a sua estratégia tinha sido assoberbar-se de trabalho. Se estivesse demasiado ocupado não tinha tempo para se preocupar com as suas emoções. Provavelmente, essa particularidade não teria sofrido alteração. E, de uma maneira ou de outra, em que é que isso poderia interessar Kate?

 

Inseriu a chave na ranhura da fechadura da porta das traseiras, detendo-se de novo antes de rodar a maçaneta; sentia os pelos eriçados na nuca. Vagarosamente, virou-se, esforçando-se por ver para lá do detector luminoso de movimentos, perscrutando os cantos mais escuros do jardim. Foi então que lhe ocorreu que tinha deixado o telemóvel no jipe. No jipe estacionado no lado oposto das traseiras, na garagem que lhe causava arrepios.

 

Que se lixasse. Podia sempre receber quaisquer mensagens no telefone de casa. Se Deus existisse, nenhum dos seus clientes teria uma crise essa noite. Tencionava desfrutar da oportunidade de poder instalar-se na banheira cheia de água quente, tendo por companhia um copo do seu método preferido de combater a tensão. Aquele caso ainda era capaz de a matar, mas pelo menos morreria de corpo lavado e agradavelmente entorpecida.

 

Não houve nenhum maníaco que tivesse irrompido pela porta atrás de si, tal como não era aguardada por nenhum louco que estivesse na cozinha de faca de açougueiro em punho. Thor aproximou-se a correr para reclamar da hora tardia do jantar. Kate atirou a bolsa para cima da bancada e ligou o televisor para ouvir o último noticiário da noite. Com uma mão começou a desabotoar o casaco comprido, enquanto com a outra abria a porta do frigorífico de onde tirou primeiro a comida para o gato e depois a garrafa de Supphire.

 

A notícia de abertura do noticiário das vinte e duas horas era a reunião comunitária. Passaram algumas imagens rápidas da multidão. Toni Urskine e as suas mulheres da Casa Phoenix tinham honras de destaque; o comandante Greer a subir pesadamente para o estrado, e John com um semblante circunspecto enquanto falava do papel que o FBI desempenhava naquelas investigações.

 

Circunspecto e bem-parecido. As câmaras tinham tido sempre um fraquinho pelo seu rosto. Envelhecido de uma maneira dura, mas até mesmo isso lhe ficava bem. As rugas finas que formavam um leque ao canto dos olhos, os fios grisalhos nos cabelos com um corte quase à escovinha. A atracção física e sexual que emanava dele atingiu-a a um nível básico que era incapaz de bloquear, restando-lhe somente fingir que ignorava essa sensação.

 

As imagens televisivas voltaram a mostrar o apresentador que recordava os factos relativos aos casos de homicídio, dando-lhes outra apresentação, enquanto as fotografias de Peter e Jillian Bondurant eram mostradas num dos cantos do ecrã. Seguiram-se as informações relativas à recompensa e à linha telefónica especial, antes de abordarem o tópico seguinte de natureza escaldante: os polícias de giro que se aqueciam nas noites frias nos clubes nocturnos da baixa da cidade.

 

Kate deixou as notícias para Thor indo para a sala de jantar, onde deu um piparote no lustre antigo, ao estilo dos que se viam nas missões religiosas de outros tempos, que ela própria restaurara tendo-o elcctrificado, enquanto pensava nos acontecimentos associados a Bondurant e na forma como Jillian se enquadrava, ou não, no perfil da vítima.

 

Raios te partam, John! resmungou Kate.

 

«Temos de falar sobre o caso. Tenho algumas ideias que gostaria de discutir contigo.»

 

«Isso não faz parte das minhas funções. Já não trabalho na Unidade de Ciências Comportamentais.»

 

«Mas eras uma perita neste campo...’»

 

E Quinn tinha acesso a todos os peritos naquele tipo de assunto. Não necessitava dela.

 

Kate pendurou o casaco nas costas de uma cadeira sentando-se à mesa de carvalho que restaurara no primeiro Verão depois de ter saído do FBI. Nessa altura, sentira-se extremamente tensa no turbilhão emocional derivado da morte de Emily, a par do casamento desfeito e do rompimento da relação que mantivera com Quinn. A vida que conhecera até então tinha chegado ao fim, vendo-se forçada a começar tudo de novo. Sozinha, além da companhia dos seus fantasmas.

 


Nunca falara de Quinn com ninguém que lhe fosse chegado, no que se incluíam a irmã e os pais. Tão-pouco sabiam que a sua demissão do FBI estivera envolvida num escândalo. Não fora capaz de justificar adequadamente a relação que mantivera com ele, altura em que Steven tinha começado a afastar-se dela, mergulhando num misto de desgosto e cólera. Até mesmo depois de terminada essa ligação, fora demasiado importante para ser partilhada com pessoas que não a compreenderiam. Os pais não teriam sido capazes de entender melhor do que qualquer das suas colegas em Quântico.

 

Kate mantivera uma relação amorosa, enganara o marido. Era a má da fita. Pelo menos, era aquilo em que as pessoas tinham querido acreditar o pior e o mais sórdido. Ninguém queria saber até que ponto é que ela se sentira sozinha, como estivera carenciada de conforto e apoio. Ninguém quisera ouvir falar da poderosa existência de algo muito para além de uma mera atracção física que a arrastara para John Quinn e ele para ela. As pessoas preferiam acreditar no pior porque lhes parecia ser menos plausível que viesse a afectar as suas próprias vidas.

 

E fora assim que Kate guardara aquele segredo dentro de si juntamente com os sentimentos de culpa, os remorsos e um coração despedaçado que eram parte integrante do assunto. Depois disso, começara a reconstruir a sua vida, bloco a bloco, tendo o cuidado de lhe dar alicerces sólidos e equilíbrio. O emprego ocupava-a das oito às dezassete na maior parte dos dias. As pessoas por cujos interesses zelava iam e vinham. Ela conseguia ajudá-las sob certos aspectos específicos, após o que as suas vidas continuavam fora da sua. O seu envolvimento era finito e manejável.

 

Enquanto reflectia naquelas coisas, Kate via o rosto de Angie nos seus pensamentos; bebeu um generoso gole de Sapphire. Recordava-se das lágrimas da rapariga, a miúda dura, a miúda de rua, dobrada sobre si mesma a chorar como a criança que jamais admitiria ser. Atemorizada, constrangida e envergonhada o que ela também nunca admitiria.

 

Kate ajoelhara-se aos pés de Angie, mantendo contacto físico com ela tocando-lhe numa mão ou num joelho, afagando-lhe os cabelos quando ela se dobrava sobre si mesma numa tentativa para ocultar as lágrimas. E durante todo esse tempo, o mesmo círculo de emoções, a mesma cadeia de pensamentos desfilou pela mente de Kate, ciente de que não era mãe de ninguém, que a ligação que estabelecia com aquela rapariga era mais do que desejava, embora fosse menos do que Angie necessitava.

 

Mas a verdade nua e crua era que Kate constituía tudo o que ela tinha. A bola estava no seu campo e não havia ninguém a quem a pudesse passar. Não havia outro advogado no departamento que se atrevesse a fazer frente a Ted Sabin. Também não eram muitos os que seriam capazes de enfrentar Angie.

 

A história que a rapariga contava era curta, sórdida e triste. Fora abordada na Lake Street e largada no parque, um brinquedo sexual absolutamente descartável para um homem que nem sequer quisera saber o seu nome. Pagara-lhe vinte dólares quando o preço habitual por aquele tipo de serviços era de trinta e cinco, dizendo-lhe que chamasse a Polícia quando ela se queixou, empurrando-a para fora do veículo e pondo-se a andar sem cerimónias. Deixara-a abandonada a meio da noite como se fosse um gato vadio.

 

A imagem dela, sozinha no parque, com as roupas desalinhadas e ainda a cheirar a sexo, com uma nota amachucada de vinte dólares no bolso, não saía da mente de Kate. Abandonada. Sozinha. Com a vida diante de si, como se fossem sessenta quilómetros de estrada de piso mau. Angie não podia ter mais de quinze ou dezasseis anos. Não seria muito mais velha do que Emily teria sido se estivesse viva.

 

Sem se anunciarem, as lágrimas assomaram-lhe aos olhos. Kate bebeu outro gole de gim tentando engolir com a bebida o nó que lhe estrangulava a garganta. Não havia tempo para prantos, além de que as lágrimas não serviam para nada. Emily estava morta e Angie não poderia substituí-la. Kate nem sequer desejava uma substituta. Aquela sensação repentina de vazio podia ser evitada ou atenuada. Ela era experiente nesse tipo de manobras. Voltar a guardar as mágoas dentro da sua caixa. Manter sempre as muralhas bem altas. Deus não permitisse que alguém visse por cima delas... incluindo ela própria.

 

Os efeitos da fadiga e do álcool fizeram-se sentir quando Kate saiu da banheira, dirigindo-se para o seu pequeno escritório. Tinha de ouvir as mensagens telefónicas. Além de querer ligar para a Casa Phoenix estabelecendo assim um ultimo contacto com Angie naquela noite com a intenção de fortalecer a ligação que se estabelecera entre as duas durante a tarde.

 

Recusou permitir-se pensar na garota sozinha no seu quarto na Phoenix, em que se sentiria vulnerável, receosa e desiludida consigo mesma por ter aberto a sua alma a alguém. Recusou-se a pensar que devia ter tentado mais esforçadamente aprofundar essa ligação emocional.

 

O vestíbulo era iluminado pela luz de um candeeiro de rua a meio quarteirão de distância, luminosidade que se filtrava suavemente em matizes prateados através de dois painéis de vidro que ladeavam a porta e que já há algum tempo Kate tencionava eliminar. Não custaria nada quebrar os vidros e entrar em casa. Sem nunca falhar, aquele pensamento ocorria-lhe à noite quando se preparava para subir as escadas para se deitar.

 

Kate deixou uma luz de fraca intensidade ligada na combinação de biblioteca e escritório, uma sala que ela deixara ficar mais ou menos como se recordava da sua infância, quando o pai ocupara um cargo de administração a um nível intermédio na Honeywell. Era um espaço bastante atravancado com uma atmosfera essencialmente masculina, uma mesa de carvalho de aspecto sólido e umas duas centenas de livros distribuídos por estantes. Cheirava a couro e no ar continuava a pairar um aroma muito ténue a charutos de boa qualidade. A pequena luz no atendedor de chamadas acendia e apagava intermitente como uma chama, mas o telefone começou a tocar antes de conseguir chegar ao botão que lhe permitiria ouvir as mensagens

 

Kate Conlan.

 

Fala o Kovac. Ruiva, alça-me esse rabo e vai até à Casa Phoenix. A nossa testemunha desapareceu. Encontramo-nos lá.

 

Eu devia ter ficado com ela dizia Kate andando de um lado para o outro no escritório de mobiliário de má qualidade da Phoenix, mantendo as mãos nas ancas. Raios partam isto, eu devia ter ficado!

 

Não podes estar presente vinte e quatro horas por dia todos os dias da semana, Ruiva disse Kovac, acendendo um cigarro.

 

Não resmungou ela, lançando um olhar furioso ao idiota dos narcóticos que Kovac pedira emprestado para ficar de olho em Angie enquanto ela estivesse hospedada na Casa Phoenix: um fulano lingrinhas de aspecto encardido que usava um blusão do exército e cujo nome, Iverson, estava escrito a tinta indelével por cima da algibeira. Essa tarefa cabia-lhe a si.

 

Ei! retorquiu ele estendendo as mãos como se quisesse mantê-la à distância. Eu estive aqui, mas disseram-me que você não queria que eu me aproximasse de mais, Ela deve ter escapado pela porta das traseiras.

 

Não me diga! Por onde é que pensa que ela «se escaparia?» Por definição, isso elimina logo à partida a porta da frente, não lhe parece?

 

O indivíduo inclinou a cabeça para trás e, com um ar gingão, aproximou-se de Kate exibindo uma expressão arrogante, atitude que resultava quando lidava com traficantes de drogas e toxicodependentes.

 

Não fui eu quem pediu a merda deste trabalho, e não estou disposto a aturar uma data de merda da porra de uma assistente social!

 

Ei! grunhiu Quinn.

 

Foi a própria Kate que com um olhar travou os passos de Iverson, encurtando a distância entre os dois.

 

Você permitiu que a única testemunha que tínhamos escapasse, seu grande cara de cu! E não está disposto a prestar-me contas? Óptimo. E que tal se falar com o comandante? Ou até com o promotor público. Porque é que não conta à presidente da Câmara como é que perdeu a única testemunha que assistiu à incineração do corpo da filha do Peter Bondurant, e isso porque está convencido de que é um merdas muito importante dos narcóticos, pelo que fazer de ama-seca é uma coisa que o inferioriza?

 

As faces de Iverson estavam de um vermelho-púrpura. cor que se estendia até à extremidade das orelhas.

 

Foda-se para tudo isto! vociferou o homem, recuando. Vou-me pôr a andar daqui para fora.

 

Kovac deixou que ele se fosse embora. Ouviu-se o ranger da porta da frente a abrir-se, após o que bateu com estrondo, um som que ecoou pelo corredor.

 

Todos os superiores na escala hierárquica tratar-lhe-ão da saúde previu Kovac com um suspiro. O destino dele é acabar a manobrar um dos veículos de limpeza das ruas, o que será já amanhã.

 

Ela saiu de livre vontade ou foi levada? perguntou Kate, continuando a percorrer o escritório de um lado para o outro numa atitude de nervosismo.

 

O Iverson disse que as coisas dela não estão no quarto e que não há sinais de alguém ter forçado a porta das traseiras. Houve outra residente da casa que esteve sempre cá com ela. Disse ao tipo que não ouviu nem viu nada de especial. O Quinn e eu chegámos momentos antes de ti. Ainda não tivemos tempo de passar uma vista de olhos pela casa.

 

E eu a pensar que tinha feito progressos no contacto com ela comentou Kate abanando a cabeça perante a sua própria estupidez. Eu devia ter ficado junto dela.

 

A que horas é que a deixaste?

 

Não sei bem. Já devia passar das oito da noite. Ao fim da tarde, ela contou-me como é que as coisas se passaram com o cliente do parque, mas vi que ela estava envergonhada e perturbada, pelo que não quis forçar a nota. Levei-a ao centro da cidade para comer qualquer coisa e deixei-a fazer algumas compras.

 

O tenente Fowler descoseu-se com algum cacau para ela?

 

Kate fez uma careta sem responder à pergunta. O dinheiro saíra da sua própria algibeira, mas isso não tinha importância.

 

E depois trouxe-a para aqui acrescentou. Recordava-se de Angie cada vez mais calada à medida que se iam aproximando da Phoenix. Fechando-se dentro da sua carapaça. «E eu permiti que tal acontecesse», pensou Kate.

 

Deixei-a aqui e fui logo para a reunião para te pôr ao corrente do que ela me contou... Oh, que merda, eu devia ter

 

Quando a deixaste, quem mais é que estava em casa?

 

O Gregg Urskine... mas ele também ia à reunião, e uma outra mulher. Não sei quem é. Não cheguei a vê-la. Foi o Gregg que me disse que ela estava em casa. Eu não queria que a Angie ficasse sozinha.

 

Era muito fácil imaginar Angie naquela casa enorme e antiga, sozinha. Se Joe «Fumacento» tivesse alguma maneira de saber onde ela estava... As três vítimas que haviam morrido às suas mãos tinham desaparecido sem sinais de terem oferecido resistência. Num momento estavam presentes, para no seguinte terem desaparecido, simplesmente, com a maior das facilidades.

 

E Angie DiMarco afirmava ser capaz de o identificar Com a mesma velocidade e facilidade, a rapariga tinha levado sumiço. Uma decisão pouco sensata...

 

Meti a pata na poça e agora perdi-a. Kate reconhecia que as emoções que repentinamente ameaçavam apoderar-se de si eram desproporcionadas, mas parecia não ser capaz de readquirir o domínio sobre si mesma. Sentia-se vagamente entontecida, um certo mal-estar físico. O sabor retardado a gim deixara-lhe um sabor metálico na sua boca

 

Sentiu que Quinn se aproximava por detrás de si; dera pela sua presença sem ter olhado. O seu corpo continuava em sintonia com o dele. Ocorreu-lhe um pensamento deveras desconcertante: aquele magnetismo físico não se atenuara com a passagem do tempo.

 

A culpa não foi tua, Kate disse ele com suavidade, Pousou uma mão no ombro dela; o polegar certeiro encontrou o nó de tensão no trapézio, começando a dar-lhe uma massagem da mesma maneira familiar de outros tempos. Demasiado familiar. Reconfortante de mais.

 

Isso agora não interessa retorquiu Kate, virando-se com o corpo rígido. O que importa é encontrá-la. Não podemos perder mais tempo, vamos procurá-la.

 

Subiram as escadas encaminhando-se para o quarto que Angie partilhara com outra residente da Casa Phoenix. As paredes do quarto estavam pintadas de um tom amarelado bastante desagradável, e as madeiras tinham escurecido com o tempo e devido às muitas camadas de verniz. A exemplo do que acontecia com tudo o que havia naquela casa, as peças de mobiliário não condiziam umas com as outras, contribuindo para a desarmonia generalizada em termos de mobiliário.

 

A cama de Angie era um amontoado de roupa de cama desalinhada. O saco das compras que trouxera da ida de ambas ao centro da cidade encontrava-se no meio da desarrumação; do seu interior saíam pedaços de papel de seda, mas não se viam vestígios da camisola e calças de ganga que Kate lhe comprara. A mochila suja estava manifestamente ausente, sugerindo que a rapariga se tinha escapulido de livre e espontânea vontade.

 

Em cima da mesa-de-cabeceira, ao lado de um candeeiro ordinário de vidro, via-se a estatueta ínfima de um anjo.

 

Kate pegou-lhe, ficando a olhar para a figurinha: uma peça de cerâmica com a altura de dois centímetros e meio que ela comprara por cinco dólares a uma índia navajo na Plaza de Santa Fé. Disfarçadamente, tinha metido na mão da neta da mulher, uma garotinha de cinco anos, uma nota de dólar por ter embrulhado tão cuidadosamente a estatueta em papel de seda; dera tanta importância à sua tarefa que a executara de testa franzida, tal a concentração. Ao observar a criança recordara-se de Emily e, para seu grande embaraço, estivera à beira das lágrimas.

 

Sabes alguma coisa relacionada com isso? perguntou Quinn numa voz suave; uma vez mais, aproximara-se demasiado dela.

 

Sei. Ela roubou-o hoje da minha secretária. Tocou no halo pintado de dourado na cabeça escura do pequeno anjo. Tenho uma colecção de anjos da guarda. Irónico, não achas? Na realidade, não acredito nisso. Se de facto existissem anjos da guarda, então, tu e eu não teríamos emprego e eu não teria perdido a minha filha, tal como não teríamos crianças que levam vidas como a de Angie. Estúpidas acrescentou Kate acariciando suavemente as asas do anjo entre os seus dedos. Quem me dera que ela o tivesse levado consigo.

 

A estatueta caiu-lhe das mãos tombando em cima do tapete muito puído ao lado da cama. Kate baixou-se para o apanhar, firmando-se com uma mão no soalho para não perder o equilíbrio. Sentiu que o coração parecia querer saltar-lhe do peito, sentando-se sobre os calcanhares enquanto erguia a mesma mão com a palma virada para cima.

 

Oh, meu Deus murmurou aflita olhando para a mão manchada de sangue.

 

Quinn praguejou, agarrando-a pela mão, que chegou mais à luz.

 

Kate afastou-se dele contorcendo o corpo e virando-se para trás, agachando-se o mais que lhe era possível enquanto se esforçava para ver algo no soalho escurecido e antigo... O ângulo tinha de ser perfeito. A luz tinha de incidir no ângulo exacto... Havia passado despercebido a Iverson porque ele não olhara com a atenção necessária.

 

Não disse entre dentes quando descobriu outra gotícula e depois uma mancha onde alguém tentara limpar apressadamente o sangue. «Eu devia ter ficado com ela.» O rastro estendia-se até ao corredor que por seu lado dava para a casa de banho. O pânico era como um pedregulho no estômago de Kate.

 

Oh, meu Deus, não.

 

«Eu devia ter ficado com ela.»

 

Começou a percorrer o corredor tropeçando nos seus próprios pés; todos os seus sentidos estavam à flor da pele, sentindo o bater do coração a ressoar-lhe aos ouvidos, como se fosse um martelo-pilão.

 

Não toques em nada! gritou Kovac que seguia atrás dela.

 

Já próximo da casa de banho, Kate deteve-se. A porta estava ligeiramente entreaberta; Kovac meteu-lhe um ombro abrindo-a para trás sem lhe tocar com as mãos. Do bolso do casaco tirou uma esferográfica com que ligou o interruptor da luz.

 

O interior estava revestido com um papel de folha dourada, capaz de afectar o cérebro, de tons quentes de rosa, laranja e prateado, um horror em voga durante os anos setenta. Os acessórios de casa de banho eram ainda mais antigos, enquanto os mosaicos de cinco centímetros que cobriam o chão há muito que tinham deixado de ser brancos. Estavam salpicados de sangue. Uma gota ali, uma mancha acolá

 

«Porque é que eu não fiquei junto dela’?»

 

Vem para o corredor, querida disse Quinn agarrando Kate suavemente pelos ombros, enquanto Kovac se aproximava da cortina de plástico da banheira.

 

Não. Kate mantinha-se firme, embora tremesse e contivesse a respiração. Quinn passou-lhe um braço pelos ombros, preparando-se para puxá-la quando Kovac corresse a cortina para o lado.

 

Não viram nenhum corpo. Angie não estava caída, morta, na banheira. Mesmo assim, o estômago de Kate agitou-se, sentindo-se invadida por um arrepio de frio. O braço de Quinn apertou-se mais em redor dos seus ombros; Kate fraquejou encostando-se a ele.

 

Os azulejos da parede estavam todos manchados de sangue aguado, com impressões digitais pouco nítidas. Via-se um fio de água de uma cor ferruginosa diluída em sangue que corria dentro da banheira até ao ralo.

 

Kate premiu uma mão contra a boca, manchando o queixo com o sangue que ainda tinha na palma.

 

Merda! exclamou Kovac num murmúrio, afastando-se da banheira.

 

Abeirou-se do cesto de plástico da roupa suja ao lado do lavatório e, servindo-se da mesma esferográfica com que ligara a luz, levantou a tampa com todas as precauções.

 

- Ei, Kovak chamou Elwood metendo a grande cabeça pela abertura da porta. O que é que se passa?

 

Chama os tipos da perícia criminal. De dentro do cesto tirou duas toalhas molhadas e manchadas de sangue.

 

- Está a parecer-me que temos aqui o local onde foi cometido um crime.

 

 

Toni Urskine entrou na sala da frente vestida para impressionar; usava umas calças pretas muito justas e um casaco vermelho por cima de uma blusa branca com uma laçada intricada na gola. O ardor de uma indignação, a que julgava ter todo o direito, reflectia-se no seu olhar.

 

Não me agrada nada ver os carros da polícia estacionados à frente de casa. Ao menos podiam desligar as luzes. Estamos numa área residencial, sargento, e os nossos vizinhos já não se sentem muito satisfeitos por terem uma casa deste género perto de si.

 

Peço desculpa pelo inconveniente, Miss Urskine disse Kovac secamente. Eu até compreendo que os raptos e os assassínios sejam uma grande chatice.

 

Entretanto, surgiu uma ruiva, com o olhar toldado de viciada em crack, que se aproximou por detrás de Tom Urskine, seguida por Gregg Urskine, o qual parecia um modelo de Eddie Bauer, com umas botas grosseiras de trabalho, calças de ganga e uma camisa de flanela axadrezada aberta no colarinho, mostrando uma T-shirt branca. Colocou a mão nas costas da ruiva, incentivando-a a avançar.

 

Esta é a Rita Renner. Ficou em casa com a Angie depois de eu ter saído esta noite.

 

Eu não estive verdadeiramente com ela corrigiu Renner numa vozinha de medo. Estive a ver televisão Mas vi quando ela subiu as escadas. Ficou na casa de banho durante muito tempo... ouvi a água a correr. Não podemos tomar duches muito demorados...

 

E a que horas é que deu conta que a água do chuveiro foi fechada?

 

Não dei conta. Adormeci no sofá. Só despertei quando começou a dar o noticiário.

 


E durante o tempo em que esteve acordada, ouviu mais alguém dentro de casa... além da Angie?

 

Depois de o Gregg se ter ido embora, não vi mais nada de especial.

 

Também não ouviu o barulho de portas que se abrissem ou fechassem? Nem passos? Qualquer coisa?

 

Renner limitou-se a responder com um abanar de cabeça, olhando fixamente para os pés.

 

Ela já lhe disse que não viu nem ouviu nada atalhou Toni Urskine com sinais de impaciência.

 

Porque é que não foste à reunião com as tuas colegas? prosseguiu Kovac ignorando as palavras da outra.

 

A Rita é suspeita de alguma coisa, sargento? perguntou Toni Urskine adquirindo uma postura rígida.

 

Só pergunto por curiosidade.

 

Com mostras de nervosismo, Renner fitou Urskine e depois os outros, como se procurasse alguma espécie de sinal invisível que lhe desse autorização para falar.

 

Não gosto de multidões disse ela como se pedisse desculpa. Além do mais, para mim essas situações são difíceis. Por causa do que sucedeu à Fawn.

 

A Rita e a Fawn Pierce... ou como vocês lhe chamam, a vítima número dois, eram boas amigas explicou Toni colocando um braço protector em redor dos ombros ossudos de Renner. Não que alguma pessoa da vossa investigação ligue importância a esse pormenor.

 

Peço desculpa por esse deslize replicou Kovac, reprimindo a irritação que o comentário lhe suscitara. Amanhã mesmo destacarei um detective para vir cá falar com a Rita. Mas, esta noite, a minha grande prioridade é a Angie DiMarco. É necessário encontrá-la.

 

Com certeza que não estará a pensar que esse assassino entrou aqui para a levar, pois não? perguntou Toni, que subitamente se mostrou alarmada.

 

Não sejas ridícula interveio Gregg tentando apagar com um sorriso a tensão no seu timbre de voz. Ninguém entrou aqui sem autorização.

 

Não sou ridícula ripostou-lhe a mulher com um olhar venenoso. Qualquer pessoa podia ter entrado aqui. Há meses que te ando a pedir para instalares fechaduras novas e para que seles o alçapão da cave.

 

O alçapão da cave fecha-se por dentro retorquiu Urskine, restringindo o embaraço a uma ligeira vermelhidão no rosto.

 

Inspecciona esse alçapão instruiu Kovac dirigindo-se a Elwood.

 

Eu mostro-lhe onde fica ofereceu-se Urskine encaminhando-se para a porta, ansioso por poder afastar-se da mulher.

 

Gregg, a Angie disse-lhe alguma coisa antes de você ter ido para a reunião? perguntou Kate detendo-o.

 

Ele soltou uma risada nervosa que fez com que ela pensasse que aquele era um hábito irritante, tal como o era o sorriso de lambe-botas de Rob Marshall.

 

A Angie nunca tem nada a dizer-me. Evita-me como se eu fosse a peste.

 

A que horas é que foi para a reunião? perguntou Kovac.

 

Estarei eu sob suspeita de alguma coisa? perguntou Urskine, fingindo que a situação o divertia. Os seus sobrolhos soergueram-se acima das armações dos óculos.

 

Estamos a ser castigados, Gregg interveio Tom lançando um olhar furioso a Kovac. Não és capaz de ver isso? A Polícia não gosta que se lhes chame a atenção para os seus defeitos.

 

Só estou a tentar pôr a claro a sequência dos acontecimentos em função do tempo, minha senhora ripostou Kovac brindando-a com o seu olhar de polícia. Mais nada.

 

Saí pouco depois de a Kate se ter ido embora respondeu Gregg. Devo ter chegado à reunião por volta das... Que horas seriam, querida?, oito e meia, um quarto para as nove...?

 

Mais ou menos isso corroborou a mulher fazendo beicinho. Chegaste atrasado.

 

Estive a trabalhar na caldeira justificou-se Urskine retraindo um músculo do queixo e virando-se para Elwood. Se quiser, podemos ir agora ver o alçapão da cave.

 

Podemos ir, sargento? perguntou Toni Urskine. A noite já vai bastante adiantada.

 

A quem o diz resmungou Kovac indicando-lhe com um gesto da mão que podiam ir.

 

Kate seguiu-os acompanhando-os quando saíram da sala mas depois de transpor a ombreira virou à direita e dirigiu-se para a porta da frente, deixando Toni Urskine a arengar perante o seu público cativo de residentes: as mulheres reunidas na sala de estar.

 

AS NOSSAS VIDAS TAMBÉM SÃO IMPORTANTES. A faixa estendia-se à largura do alpendre da frente da Casa Phoenix; o oleado estalava à medida que as rajadas de vento se intensificavam.

 

Vai nevar disse ela, metendo as mãos nos bolsos do casaco comprido e dobrando os ombros para a frente. Não para se defender das condições atmosféricas, mas contra o frio que sentia dentro de si. Dirigiu-se para o extremo mais afastado do alpendre, quase fora do raio de iluminação da luz amarelada que se destinava a atrair os insectos e que não fora mudada no fim do Verão, evitando o movimento de pessoas que entravam e saíam pela porta da frente.

 

Se Toni Urskine se sentia pouco satisfeita com a presença dos dois carros-patrulha estacionados junto do passeio, dentro em pouco ficaria lívida, pensava Kate ao ver a equipa de peritos criminais que estacionavam a carrinha sobre o relvado da frente. Os polícias de uniforme já tinham começado a cumprir as suas funções batendo às portas, tentando encontrar qualquer vizinho que tivesse dado pela presença de um automóvel estranho, ou que tivesse visto um homem a pé, ou qualquer indivíduo que transportasse qualquer coisa, ou ainda um homem acompanhado de uma mulher jovem qualquer coisa que lhes permitisse estabelecer uma hora, ou que lhes indicasse uma pista sobre o desaparecimento de Angie. Apesar do adiantado da noite, as casas da vizinhança estavam todas bem iluminadas, vendo-se aqui ou ali um vulto à janela, que corria os cortinados para poder ver melhor o que se passava na rua.

 

Kate, não sabemos o que sucedeu dizia Quinn numa voz insistente.

 

Ora bem, acho que não estaremos muito enganados se dissermos que a Angie não se cortou enquanto rapava as pernas. O corpo de Kate foi percorrido por um tremor quando viu de novo, em pensamento, o sangue nos azulejos da casa de banho, no soalho do quarto, as toalhas ensanguentadas. Tentou fortalecer-se contra a fraqueza que ameaçava entrar furtivamente nos seus músculos.

 

Tens de ser forte, Kate. Guarda esses sentimentos dentro de uma caixa. Coloca a caixa dentro do seu cubículo. Mantém as muralhas intactas.

 

Quanto a mim, as coisas passaram-se da seguinte maneira disse ela, tentando desfazer o nó que sentia na garganta. Ele entrou furtivamente em casa pela porta das traseiras. Subiu as escadas até ao andar de cima onde a agarrou. Ela opôs-lhe resistência, o que podemos deduzir com base nas impressões digitais deixadas no sangue da banheira... Estou a partir do princípio de que pertencem à Angie. Talvez ele a tenha assassinado, mas também é possível que tenha apenas começado o trabalhinho... provavelmente. a primeira hipótese. Deixa que ela sangre dentro da banheira, caso contrário haveria mais sangue noutra parte qualquer da casa. Quer que as pessoas fiquem com a impressão de que ela acabou de sair, por isso, tenta limpar tudo, mas como está com pressa não consegue limpar muito bem. Mesmo assim, teria o factor tempo a seu favor, se nós não tivéssemos ido à casa de banho esta noite.

 

Como é que ele saberia que ela estava alojada na casa?

 

Não sei. Mas ela tinha a sensação de que a observava. Talvez isso seja verdade.

 

E como é que tudo isso aconteceu sem que ninguém tenha ouvido, ou visto, nada?

 

É preciso não esquecer que ele já conseguira apoderar-se, torturar e assassinar três mulheres sem que ninguém ouvisse ou visse fosse o que fosse. A Rita Renner dormia no piso térreo com o televisor ligado. A casa é grande.

 

Há aí qualquer coisa que não bate certo disse Quinn abanando a cabeça numa manifestação de dúvida.

 

E porque não? Porque tu querias que ele tivesse assistido à reunião?

 

Quinn encostou-se ao gradeamento; via-se que, por baixo da gabardina, tinha os ombros inclinados para a frente.

 

É possível que mesmo assim ele tenha estado presente na reunião. O local fica apenas a alguns quarteirões de distância, além de que a reunião acabou meia hora antes de o Kovac e eu termos vindo para cá. A minha dúvida é não saber por que razão é que ele se arriscaria? A rapariga ainda não tinha dito nada aos xuis que pudesse incriminar alguém... não lhes deu nenhum nome, nem sequer uma descrição minimamente decente para um retrato-robô, também não identificou nenhuma das fotografias dos álbuns da polícia. Por que razão se teria arriscado?

 

Para nos mostrar que pode retorquiu Kate. É uma autêntica bofetada sem mão. Na noite em que se realiza a reunião que se destina atraí-lo, entra furtivamente dentro de casa e sequestra a única testemunha que temos dos seus crimes. Uma acção destas e ele terá ficado com um tesão capaz de fazer inveja a qualquer machão assumido. Sabes bem como é.

 

A atenção de Quinn foi despertada por um indivíduo da equipa que recolhia pistas, o qual levava um aspirador para dentro de casa.

 

Porque é que vieste aqui esta noite? perguntou Kate. O Kovac não me chegou a dizer.

 

Quando tu lhe contaste o que se passou com a Angie e o cliente no parque, no domingo de madrugada, mencionaste que o tipo conduzia um veículo utilitário. Acredito que existe uma boa probabilidade de o Joe «Fumacento» transportar os seus cadáveres para o parque num veículo com as mesmas características. Qualquer coisa similar aos utilitários do serviço dos parques. Possivelmente uma viatura como essa que ela descreveu.

 

Kate sentiu o estômago às voltas. Um calafrio que fez com que ficasse com pele de galinha dos pés à cabeça.

 

Oh, meu Deus, John. Não pensas que ele tenha sido o cliente dela?

 

Isso seria acertar em cheio. Ele odeia as mulheres, muito em particular as que têm um comportamento sexual promíscuo. Tem uma delas morta no porta-bagagens da sua viatura. Engata outra que leva para a área onde tenciona descartar-se do cadáver, a fim de fornicar com ela. Isto deixa-o excitado. Essa excitação recorda-lhe o empolgamento e o estímulo da matança. Em simultâneo, e mentalmente, isso reforça-lhe o sentido de domínio e controlo sobre a mulher com quem está. Numa parte secreta do seu íntimo, sabe que poderia fazer com a companheira do momento o que já tinha feito à vítima, embora opte por não concretizar tal feito, o que lhe proporciona uma sensação de domínio tanto sobre ela como sobre a compulsão que o leva a matar.

 

Essa decisão de não matar reforça-lhe o sentido de poder... E tudo converge em direcção à cerimónia da incineração... o completar de um círculo concluiu Kate.

 

Em teoria parece muito credível.

 

A Angie disse-me que o fulano a tinha empurrado para fora do veículo, tendo-o visto a afastar-se. Tomando como referência o ponto onde ele a largou, o homem teria de ter efectuado uma inversão de marcha muito rápida entre o arvoredo, para que ela o tivesse visto a queimar esse corpo.

 

Continua a ser apenas uma teoria atalhou Quinn, encolhendo os ombros.

 

Uma teoria perfilhada por um homem que sabia mais sobre assassinos de natureza sádica, em termos de sexualidade, do que talvez qualquer outra pessoa do país. Kate ficou a olhar fixamente para as trevas, observando a nuvem de vapor da sua respiração a pairar no ar para logo se dissipar

 

Mas, caso se trate do mesmo fulano, por que motivo é que ela não me teria dito? E por que razão é que não nos fez uma descrição mais apurada para o retrato-robô? Ela teve oportunidade de olhar bem para o cliente, uma vez que teve um contacto íntimo com ele.

 

Isso são perguntas a que só ela poderá dar resposta

 

E neste momento não pode responder-nos observou Kate em voz baixa. Foi-lhe tão difícil partilhar esse episódio comigo esta tarde. Desde o princípio de toda esta confusão, ela mostrou-se tão dura, com uma atitude de tal maneira antagónica, mas quando por fim decidiu abrir-se comigo, falando-me desse cliente, foi como se estivesse envergonhada. Não se cansou de me dizer que não gostava de fazer aquilo, que lamentava muito ver-se obrigada a isso Fartou-se de chorar.

 

As suas próprias emoções ameaçavam manifestar-se perante essa recordação, tal como acontecera com Angie nessa mesma tarde.

 

Tu gostas dessa rapariga afirmou Quinn.

 

O que é que há para se gostar? perguntou Kate reprimindo a irritação. Ela é uma ladra, uma aldrabona, uma língua porca e uma prostituta.

 

E precisa de ti replicou ele com simplicidade

 

Sim, sim, e vê onde é que isso a levou.

 

Não tens motivo para te culpabilizares, Kate.

 

Mas o certo é que eu devia ter ficado com ela.

 

Não podias prever o que veio a acontecer.

 

Ela estava num estado extremamente vulnerável racionalizou Kate. Era minha obrigação ter ficado junto dela, e, se outra razão não houvesse, para tentar saber mais alguma coisa dela. Mas não foi isso que fiz porque... Kate conteve-se, sentindo que estava prestes a ceder às lágrimas. Ali não. Nunca diante de Quinn. Ele conhecia-a demasiado bem... ou conhecera no passado. Conhecia todos os pontos nevrálgicos da sua alma. Tivera-a nos seus braços mais vezes do que as que era capaz de contar, em alturas em que se sentira tão avassalada pelo sofrimento e culpa por causa da morte de Emily que a angústia não era capaz de se expressar verbalmente. Ele proporcionara-lhe conforto, oferecendo-lhe a sua força de carácter, tranquilizando-a com as suas carícias. Mas, naquele momento, Kate não podia permitir-lhe isso, além de não querer vir a descobrir que ele talvez não tentasse.

 

Ela não é a Emily, Kate.

 

Kate prendeu a respiração como se ele a tivesse esbofeteado, lançando-lhe um olhar de fúria.

 

Não preciso que me digas isso. Sei muito bem que a minha filha morreu.

 

Mas continuas a recriminar-te por essa morte. Decorridos tantos anos.

 

Tanto quanto me é dado saber, os sentimentos de culpa não têm prazo de prescrição.

 

Não aconteceu por tua culpa, tal como não és culpada por esta situação.

 

A Emily era a minha filha, a responsabilidade pelo seu bem-estar era minha. O caso da Angie veio parar às minhas mãos, e, como tal, sou responsável por ela argumentou Kate obstinadamente.

 

Das pessoas que defendes, quantas é que levas para tua casa? perguntou Quinn num tom autoritário, afastando-se do corrimão para se aproximar mais dela.

 

Nenhuma, mas...

 

Com quantas é que ficas durante as vinte e quatro horas do dia?

 

Nenhuma, mas...

 

Nesse caso, não existe qualquer razão para pensares que devias ter estado junto dela.

 

Mas o certo é que ela precisou de mim e eu não estava presente.

 

Kate, tu não perdes uma única oportunidade para te punires, por Deus, não falhas uma replicou Quinn sentindo raivas antigas que vinham à superfície na sua forma mais pura. Ainda se recordava bem da frustração que sentira ao tentar afastar Kate do seu sentimento de culpa em relação à morte de Emily. Lembrava-se demasiado bem da vontade que sentira em sacudi-la e abraçá-la ao mesmo tempo, o misto de sentimentos que experimentava naquele preciso momento.

 

Ali estava ela defronte de si, indómita, irada e na defensiva. E lindíssima. E também muito vulnerável. Queria poder protegê-la do sofrimento que infligia a si própria. Mas ela resistir-lhe-ia com unhas e dentes a cada passo do caminho.

 

Eu assumo a responsabilidade... Como se não soubesses nada a este respeito acrescentou Kate com amargura, mesmo em frente dele. O todo-poderoso Quinn, a curar o cancro da sociedade moderna. Sem a ajuda de ninguém a cortar os nossos males pela raiz. Tu carregas o mundo sobre os ombros, como se fosses o único guardião, e tens a lata de estares a criticar-me? Meu Deus, tu és espantoso! Abanando a cabeça, Kate passou por ele dirigindo-se num passo apressado para os degraus da frente.

 

Onde é que vais? perguntou Quinn, estendendo-lhe a mão como se continuasse a ter algum direito de lhe tocar.

 

Kate afastou-se para o lado, lançando-lhe um olhar capaz de congelar água a cinquenta passos de distância.

 

Vou fazer qualquer coisa. Não tenciono ficar aqui a roer as unhas durante toda a noite. Na esperança, ainda que muito ténue, de que a Angie tenha saído daqui de sua livre e espontânea vontade, o mínimo que posso fazer é ajudar a procurá-la.

 

Com as mãos nas algibeiras do casaco comprido, à procura das chaves, desceu os degraus dirigindo-se para o seu jipe. Quinn olhou de fugida para a porta da frente da Casa Phoenix. Não estava a fazer nada ali. E a imagem de Kate a afastar-se desencadeou uma crise de pânico. Um pensamento disparatado. Ela não o queria ali, não queria estar com ele e ponto final. Não lhe restava qualquer dúvida de que ficaria muito melhor sem ele. Se fosse um homem mais forte, teria deixado as coisas naquele pé.

 

Quinn, porém, não estava a sentir-se forte, para não mencionar que não ficaria na cidade por muitos mais dias, no máximo, talvez uma semana. Onde poderia residir o mal em aproveitar a oportunidade de estar com ela, se esse era o seu desejo. Uma recordação nova a acrescentar às antigas, para a ir buscar quando a solidão da sua vida ameaçasse tragá-lo inteiramente

 

Kate, chamou, correndo atrás dela. Espera! Vou contigo

 

Por acaso convidei-te a acompanhar-me? perguntou ela arqueando as sobrancelhas numa expressão imperiosa

 

Dois pares de olhos à procura vêem mais do que um argumentou ele

 

Kate disse a si mesma que devia dizer não. Para que precisava de Quinn a aguilhoá-la com mágoas antigas? Por si só, ela já o fazia com grande afinco. Depois, recordou a maneira como ele a rodeara com os braços no primeiro andar, pronto a afastá-la do horror que afinal não tinham encontrado no outro lado da cortina da banheira, mas disposto a apoiá-la caso ela precisasse, oferecendo-lhe a robustez do seu próprio corpo para a amparar. Kate pensou na facilidade com que lhe permitira essa atitude protectora, concluindo ser seu dever impedi-lo de a acompanhar

 

Quinn observava-a com os seus olhos escuros cheios de ardor de feições circunspectas nesse momento, desencantou algures um pequeno sorriso que a desarmou, fazendo com que ela sentisse um aperto no coração, tal como sentira havia já tantos anos

 

Prometo não me portar como um idiota E até te deixo conduzir

 

Kate suspirou e encaminhou-se para o 4Runner carregando no botão de controlo à distância

 

Muito bem, só acredito em metade do que acabaste de dizer

 

Deram uma volta pelos estabelecimentos situados na Lake Street onde as criaturas da noite passavam as suas horas entre o lusco-fusco e o amanhecer. Salões de bilhar, bares e restaurantes abertos durante toda a noite. Uma casa para os sem-abrigo cheia de mulheres com filhos. Passaram por uma Laundromat onde um bêbedo com uma cabeleira suja e

 

Cadeia de estabelecimentos que estão apetrechados com máquinas de lavar e secar roupa onde mediante a inserção de algumas moedas qualquer pessoa pode lavar a sua roupa (N da T)

 

espessa, em tons grisalhos estava sentado numa das cadeiras de plástico, olhando com uma expressão abstracta pelas janelas, até que o empregado do turno da noite, cuja sorte não era muito superior à sua, correu com ele pondo-o na rua. Ninguém tinha visto Angie. Metade das pessoas que interpelaram mal olhou para a fotografia. Kate recusava-se a pensar na falta de resultados. Não esperava grande coisa; tentava apenas que o tempo passasse mais depressa. Não sabia qual seria para si o maior castigo: passar a noite a calcorrear as ruas daquela zona degradada da cidade, ou ficar sentada em casa a emborcar gim, até que as manchas de sangue se tivessem apagado da sua mente.

 

Estou a precisar de tomar um copo disse Kate quando se dirigiram para um bar de nome Eight Ball’s, O interior estava mergulhado numa semiobscuridade, o que se devia a um espesso manto de fumo de cigarros. Ao entrechocar das bolas de bilhar sobrepunha-se a voz de Jonny Lang entoando bines na juke box: o nome da canção era Lie to Me.

 

Faltaste à última chamada de há pouco, miúda disse o empregado do bar. Tinha a corpulência de uma furgoneta e a cabeça rapada, ostentando um farfalhudo bigode à Fu-Manchu. Chamo-me Tiny Marvin. E que tal qualquer coisa forte e preta como eu?

 

Quinn sacou da sua identificação, arvorando um olhar feroz que não admitia frivolidades.

 

Maldição! É a Scully e o Mulder acrescentou Tiny Marvin sem se mostrar impressionado, tirando uma cafeteira com café do prato quente.

 

Café para mim, por favor pediu Kate, instalando o traseiro em cima de um banco alto.

 

Entre os clientes viam-se, talvez, uns doze jogadores de bilhar, que levavam o jogo muito a sério, em redor das mesas. Um par de pegas servia de ornamentação, exibindo uma expressão de tédio e impaciência pela pausa no seu comércio. Uma delas olhou Quinn de alto a baixo dando uma pequena cotovelada a outra, mas nenhuma fez menção de se aproximar mais.

 

Ei, meu, não foi você que apareceu na televisão? perguntou Tiny Marvin fitando Quinn com os olhos semicerrados. Era mesmo você?

 

Andamos à procura de uma rapariga disse Quinn.

 

Kate passou a polaróide para as mãos do empregado do bar, esperando que Marvin prestasse tanta atenção àquilo como os demais empregados de outros bares por onde passara. Ele pegou-lhe com uns dedos tão grossos e curtos como salsichas, examinando-a atentamente.

 

Sim, ela esteve aqui.

 

Esta noite? Kate sentou-se mais a direito.

 

Não, no domingo à noite, por volta das dez e meia, onze horas. Disse que vinha aquecer-se um pouco. Mas ela era de menor idade. Corri logo com ela; saiu daqui com o rabo escanzelado e branquinho entre as pernas. Quer dizer, gente adulta é uma coisa, meu... percebe, não é verdade? Essa miúda cheira a complicações. Não quero nenhuma merda dessas por este bar.

 

Ela saiu daqui com alguém? perguntou Quinn.

 

Não, saiu sozinha. Ficou na rua durante algum tempo, a andar para cima e para baixo. Mas depois comecei a sentir-me mal... Pensei: e se ela fosse minha sobrinha ou qualquer coisa assim, e eu viesse a saber que um estupor qualquer a tinha posto no olho da rua. Pode acreditar que eu partia-lhe logo o canastro. Portanto, fui ter com ela com a intenção de lhe dizer que se quisesse podia tomar um café, mas entretanto já tinha engatado um tipo e foi com ele no automóvel.

 

Qual era o tipo de carro? perguntou Kate.

 

Era uma espécie de carrinha. O coração de Kate começou a bater mais depressa; olhou para Quinn, mas a atenção deste continuava centrada em Tiny Marvin.

 

Suponho que não se lembre do número da matrícula?

 

Ei, meu, pensa que eu sou o guarda-nocturno da vizinhança?

 

Não se sentiu incomodado por esse fulano estar a infringir a lei? comentou Kate.

 

Olhe uma coisa, eu trato de ficar de olho em tudo o que se passa aqui, Scully ripostou Tiny Marvin franzindo-lhe o cenho. O resto dos problemas que vão pelo mundo não me diz respeito. A rapariga só estava a fazer o que todas as tipas da vida fazem. Não tenho nada com isso.

 

E se tivesse sido a sua sobrinha? perguntou ela. Quinn lançou-lhe um olhar de advertência, continuando a falar com o empregado de bar.

 

Viu o condutor?

 

Não olhei. Só pensei que devia ser um pobre coitado para ter de engatar uma miúda daquelas. O mundo é um lugar frio, doente... percebe onde quero chegar?

 

Claro que percebemos resmungou Kate, pegando na fotografia de Angie que ficara em cima do balcão e observando a cara bonita de feições exóticas, a boca de lábios franzidos, os olhos zangados que já tinham visto muita coisa. Entendo muito bem o que você quer dizer. Guardou a fotografia dentro da mala de mão, colocou uma nota de dólar sobre o balcão para pagar o café em que não tocara e dirigiu-se para a rua. Já tinham começado a cair alguns flocos de neve aqui e ali, mas de vez em quando as nuvens enviavam mancheias de neve sopradas pelas rajadas de vento gélido. A rua estava deserta, não se vendo vivalma nos passeios; as montras das lojas de aspecto lúgubre, com a excepção do escritório do outro lado da rua onde se financiavam termos de fiança.

 

Kate encostou-se ao prédio desejando que o vento varresse as emoções que se acumulavam dentro de si. Estavam quase a chegar-lhe ao coração e ela nem sequer era capaz de um esforço para as recalcar.

 

Era demasiado conhecedora do mundo para permitir que as injustiças e crueldades a afectassem sem mais nem menos. Era evidente que o empregado do bar de um salão de bilhar na Lake Street não se sentiria excessivamente preocupado com a vida de uma mera prostituta, fosse esta demasiado jovem ou não. Todos os dias passavam pelo seu bar várias raparigas como ela, e ele nunca as olhava muito de perto. Tinha a sua própria vida com que se preocupar.

 

Aquela situação só a afectava tanto porque Kate sabia qual seria o capítulo seguinte da história. O condutor que abordara Angie DiMarco à porta do Eight BalTs levara-a até ao local do crime; muito plausivelmente, esse condutor de um utilitário sem nada que o distinguisse dos outros talvez fosse um assassino. Um patético falhado entre muitos, disposto a pagar por favores sexuais, que a conduzira a um encontro com o destino que possivelmente seria a morte da jovem.

 

Entretanto, Quinn saiu do salão de bilhar, semicerrando os olhos para se proteger do vento enquanto levantava a gola da gabardina.

 

O Kovac pediu-me que te dissesse: «Belo trabalho policial. Ruiva» Se alguma vez quiseres desistir dessa vida fácil, ele dirá uma palavra a teu favor.

 

Ah, sim?! Foi sempre o que eu desejei... Trabalhar à noite, durante os fins-de-semana e feriados, atolada de cadáveres até ao pescoço... Esta é a minha grande oportunidade.

 

Ele tenciona enviar uma equipa para falar com o empregado do bar e com qualquer pessoa que descubram que tenha visto alguma coisa. Se encontrarem alguém que se recorde de mais alguma coisa em relação ao veículo, ou que nessa noite tenha visto o condutor, teremos uma pista que nos permita prosseguir com as investigações.

 

Kate apertou mais o casaco à volta da garganta, começando a atravessar a rua em direcção ao escritório de fianças. Do outro lado da montra com barras via-se uma tabuleta de tubos de néon que dizia: DESCONTAM-SE CHEQUES.

 

O tempo é da maior importância disse ela. Se a Angie não tivesse estado nesta rua no preciso momento em que esse utilitário se abeirou do passeio, a esta hora eu já estaria em casa, na cama, e tu andarias a desenterrar esqueletos de outra pessoa no cemitério. Riu-se de si mesma abanando a cabeça; o vento soprou-lhe uma madeixa de cabelo para a cara. Desde sempre que eu faço frente ao destino. Até que ponto é que esta atitude é uma estupidez?

 

Tu sempre foste merecedora do primeiro prémio por teimosia retorquiu Quinn que, num gesto automático, estendeu a mão para lhe afastar os cabelos, com a ponta dos dedos a aflorar-lhe a face. Sabes que uma pessoa cínica é um idealista decepcionado.

 

Foi isso que se passou contigo? atirou-lhe ela.

 

Nunca considerei que a vida fosse ideal.

 

Claro que Kate conhecia a sua história. Conhecia a vida dele, sabia da existência do pai alcoólico que o maltratara em criança, assim como estava a par dos anos difíceis em que crescera no seio da classe trabalhadora de Cincinnati. Kate era uma das raras pessoas que ele permitira que olhasse por essa janela da sua vida.

 

Mas isso nunca te poupou às desilusões atalhou ela em voz baixa.

 

A única coisa que nos pode salvar das desilusões é a falta de esperança. Quando não se tem esperança, não vale a pena continuar a viver.

 

E qual é a diferença entre a esperança e a falta de esperança? perguntou Kate com o pensamento em Angie, perguntando-se se a rapariga se atreveria a ter esperanças

 

Tempo respondeu Quinn.

 

O que talvez já se tivesse acabado para Angie DiMarco, tal como se acabara para eles havia alguns anos. Kate sentia um sentimento de desilusão começar a invadi-la. Apetecia-lhe encostar a cabeça ao ombro de Quinn, sentindo os braços dele a abraçarem-na. Em vez disso, afastou-se da janela encaminhando-se para o 4Runner estacionado à frente da Laundromat. O sem-abrigo olhava pelo vidro traseiro, como se estivesse a considerar o interior do veículo como seu alojamento para aquela noite.

 

Eu deixo-te ficar no hotel ofereceu-se Kate.

 

Não. Vou contigo até tua casa e depois telefono para chamar um táxi. Apesar de seres uma mulher muito determinada, não quero que vás sozinha para casa a esta hora da noite, Kate. Não é aconselhável. Pelo menos, esta noite.

 

Se ela se sentisse mais forte teria objectado, quanto mais não fosse por uma questão de princípio, mas a verdade é que não se sentia forte, e a recordação de olhos fantasmagóricos a observarem-na quando entrara em casa pela porta das traseiras, não havia muitas horas, ainda estava muito fresca na sua mente.

 

De acordo. Accionou o comando para destrancar as portas automaticamente. O sistema de alarme do jipe começou a soar estridentemente, fazendo com que o sem-abrigo desatasse a correr para o saguão do Suds-0-Rama Mas não estejas com ideias esquisitas, ou atiço-te o meu gato.

 

 

O bater de porta em porta deu algum resultado positivo? perguntou Kovac acendendo um cigarro.

 

Há muita gente chateada por terem polícias a bater-lhes à porta a meio da noite adiantou Tippen inclinando os ombros ossudos para a frente.

 

Encontravam-se no alpendre da frente da Casa Phoenix, reunidos por baixo de uma luz repulsora de insectos de um amarelado de icterícia. A carrinha da perícia criminal ainda se encontrava no relvado que fora interdito por um cordão, a fim de impedir o acesso dos meios de comunicação social. A imprensa tinha chegado como se fosse um bando de abutres, todos ao mesmo tempo, farejando. Kovac olhava de esguelha através do fumo e da neve que caía, tentando [vislumbrar o que se passava ao fundo do passeio onde Toni Urskine era entrevistada sob as luzes espectrais dos projectores portáteis.

 

Quanto é que querem apostar que se eu investigar os ’registos telefónicos desta espelunca, referentes a esta noite,

 

hei-de descobrir que foram feitos telefonemas para as estações de televisão WCCO, KSTP e KARE? perguntou entre dentes.

 

Conseguir notoriedade pública através do crime e da ’tragédia começou Elwood a dizer, puxando a aba do chapéu de feltro de aspecto patusco mais para a testa é a maneira de ser dos Norte-Americanos. Conseguir o mais possível de notoriedade nos meios de comunicação social, e é mais que certo que os donativos não tardarão a chegar em catadupa.

 

Se ela der a entender que o que se está a passar aqui se relaciona com a nossa testemunha, o melhor é eu arrumar as botas resmungou Kovac. Os manda-chuvas de nariz empinado não me darão descanso.

 

É melhor seres simpático com ela, Sam aconselhou Liska, apoiando-se ora num ora no outro calcanhar para não arrefecer. Ou também te posso emprestar um tubo de K-Y Jelly.

 

Credo, Tinks. A repugnância espelhou-se no rosto de Kovac. Voltou-se para Elwood. O que é que descobriram na cave? O que é que se passa com o alçapão?

 

Fecha-se pelo lado de dentro. Encontrámos o que, àprimeira vista, parecem ser manchas de sangue no chão. Não em grande quantidade. O Urskine diz que não é nada, afirma que se cortou quando estava a reparar a caldeira Há umas noites atrás.

 

Kovac emitiu um som rosnado e enrouquecido que lhe saiu do fundo da garganta, olhando novamente para Liska

 

E quanto ao teu badameco, o Vanlees?

 

Não sei do seu paradeiro. Quis ir atrás dele depois da reunião, mas por causa da multidão e dos carros, todos a tentarem sair ao mesmo tempo, perdi-o de vista.

 

Ele não foi trabalhar esta noite? Até foi à reunião de uniforme, todo inchado!

 

Aposto que até dorme de uniforme replicou a detective. Sempre a postos para salvar o público dos candongueiros de bilhetes e dos arruaceiros fanáticos dos jogos de basquetebol. Mora num apartamento decrépito em Lyndale, mas não está em casa. Finalmente, consegui falar com a que está prestes a ser a sua ex-mulher. Disse-me que ele está a tomar conta da casa de alguém. Mas não sabe quem é essa pessoa, e está-se absolutamente nas tintas.

 

Ei, o homem quer ser polícia à força, portanto, pode muito bem começar com um divórcio no bucho comentou Tippen jocoso.

 

Ela deu alguma indicação de ele andar metido em qualquer coisa sexualmente esquisita? perguntou Kovac

 

Oh, vocês vão adorar isto respondeu com os olhos brilhantes. Fiz-lhe perguntas sobre a transgressão menor de violação de propriedade alheia de há dezoito meses, por que ele foi condenado. O Quinn tinha razão. O nosso velho Gil andava com cio por causa de uma tipa que era colega da mulher. Foi apanhado a espreitá-la numa altura em que a fulana estava só de cuecas.

 

E mesmo assim continua a trabalhar como segurança? perguntou Kovac admirado.

 

Ele abafou o caso, chegou a um acordo com a acusação e ninguém prestou muita atenção ao assunto. Afirma que, em qualquer dos casos, tudo isso não passou de um grande equívoco.

 

Sim, sim disse Tippen, sardónico. Foi tudo um grande equívoco, Meritíssimo. Eu ia apenas a conduzir o meu carro, sem me meter na vida de ninguém, quando me senti avassalado por uma ânsia incontrolável de bater uma punheta.

 

Gosto desse tipo, Sam - atalhou Liska. A mulher só sente desprezo por ele. Deu a entender que a actividade sexual entre os dois era inexistente sempre que iam para a cama. Se isso for verdade, é possível que se enquadre ainda melhor no perfil psicológico do Quinn. Muitos destes fulanos são uns desajustados nas relações com as parceiras sexuais.

 

Isso é a voz da experiência a falar? perguntou Tippen, irónico.

 

Bem, a verdade é que ultimamente não me tenho deitado muito contigo, por isso, diria que não respondeu-lhe Liska.

 

Vai-te foder Tinker Bell

 

O que é que na palavra «não» és incapaz de compreender?

 

Vou enviar um carro-patrulha para a entrada do prédio onde ele vive disse Kovac. Quero que venha à esquadra o mais depressa possível. Vejam se conseguem descobrir essa casa que ele está a guardar. Tem de haver alguém que saiba onde é que ele está. Telefonem ao patrão dele, voltem a ligar para a mulher. Ainda esta noite. Descubram o nome dos amigos. Telefonem-lhes.

 

Eu ajudo a fazer isso ofereceu-se a detective Moss.

 

Chateiem toda a gente que ele conhece acrescentou Kovac. Isso acabará por lhe chegar aos ouvidos; podem apostar que vai ficar lixado. Já sabem o que é que ele tem como automóvel?

 

Um GMC Jimmy castanho.

 

Kovac sentiu-se como se alguém lhe tivesse dado um murro em cheio no diafragma.

 

Há um empregado de um bar na Lakc Street que viu a nossa testemunha na noite de domingo a entrar numa carrinha ou num veículo utilitário. Era o mesmo com quem ela deu a cambalhota no parque, antes de encontrar a vítima número três.

 

Ela disse o nome desse cliente? perguntou Adler.

 

Não.

 

O Vanlees teria alguma maneira de saber que a rapariga estava alojada nesta casa? perguntou Moss.

 

Não estou a ver como respondeu Liska com um abanar de cabeça, a menos que ele, sem nós sabermos, tenha vindo atrás dela até cá desde a baixa. O que não me parece muito provável.

 

Quem é que sabia que a testemunha estava aqui? perguntou Adler.

 

Nós, o Sabin, o a gente dos serviços de apoio às vítimas e testemunhas, ali a mandona, um docinho de mulher... Kovac interrompeu-se apontando com o polegar na direcção de Toni Urskine.... é o marido. A presidente da Câmara, a gente do Bondurant...

 

Mais o cão e o gato concluiu Elwood.

 

Uma das outras testemunhas tinha ligações com esta casa salientou Moss.

 

E quando o corpo dela foi encontrado, depois de alguém a ter mandado para os anjinhos, interrogámos toda a gente que na altura vivia na casa, verificámos todos os álibis, averiguámos todos os registos criminais, pessoas conhecidas, e sabe Deus que mais disse Kovac. Ainda me lembro de que o cadáver foi encontrado numa sexta-feira. Ela já tinha abandonado a casa havia seis meses ou mais. Vim cá no domingo seguinte para averiguar se ela continuava a manter contacto com alguém daqui. Os Urskine tinham ido para uma cabana qualquer nas montanhas, para o Norte, por isso, não consegui falar com eles. Na manhã da segunda-feira seguinte, às oito horas, a Toni Urskine ligou ao tenente exigindo que ele me desse cabo do canastro porque ainda não a tinha contactado.

 

Agora, temos a oportunidade de repetir todo esse processo por causa de uma nova fornada de pegas gemeu Tippen. Como se estivéssemos a precisar de mais merda de papelada que teremos de preencher.

 

Ei, é por isso que eles te pagam uma miséria e te tratam como se fosses um monte de merda atalhou Kovac,

 

E eu a pensar que era alguma coisa de pessoal contra mim.

 

Muito bem. Quem é que quer ir até à Lake Street? perguntou Kovac. Ver se descobrem alguém que tenha visto a DiMarco a entrar no utilitário no domingo à noite? Se conseguirem que alguém vos indique o número da chapa de matrícula da viatura, dou um beijo em cheio na boca dessa pessoa.

 

Isso não é nenhum incentivo, Kovak retrucou Adler.

 

Deixem que seja o Tippen a descobrir apressou-se Liska a dizer. É possível que venha a encontrar uma namorada.

 

Mandem o Charm sugeriu Tippen. As putas até estarão dispostas a pagar-lhe.

 

Vocês dois continuou Kovac apontando para Yurek e Tippen fazem um par perfeito.

 

A «benesse de Deus» e a «toda misericordiosa» comentou Liska numa voz casquinada.

 

Um dia destes vais ver o que te acontece, Liska disse Tippen puxando a ponta do lenço que ela tinha à volta da garganta.

 

Não se eu estiver a mais de sete centímetros de distância de ti.

 

Mãos à obra ordenou Kovac. Estamos a perder tempo e este caso está a começar a aquecer. Sem segundo sentido nenhum. Vamos apanhar esse bandalho antes que ele deite fogo a outra pessoa qualquer.

 

Tens aqui um gato e pêras comentou Quinn olhando para Thor que lhe retribuía o olhar de cima da mesinha do vestíbulo da frente. Mas acho que seria capaz de me haver com ele.

 

O gato em questão devia pesar, pelo menos, uns dez quilos. Tinha uns tufos fantásticos de pelos que lhe saíam das orelhas, e uns bigodes que davam a impressão de medir uns trinta centímetros. Com a queixada dentro da sua farta pelagem, emitia um ronronar que lhe saía do fundo da garganta. Erguia uma das patas traseiras por detrás da orelha, num movimento de ioga, enquanto lambia o rabo.

 

Estou a imaginar o que ele pensa de mim disse Quinn com uma careta.

 

Não leves isso a peito replicou Kate. O Thor está muito acima das mesquinhices de meros seres humanos. Pendurou o casaco no roupeiro do vestíbulo e esteve quase a procurar um segundo cabide, mas deteve-se. Obrigada pela tua ajuda esta noite disse enquanto fechava a porta e se encostava ao roupeiro. Não me mostrei nada simpática quando te ofereceste para me acompanhar, mas sei que o trabalho de investigação não faz parte das tuas funções.

 

Nem tão-pouco das tuas.

 

Verdade, mas eu estava a precisar de fazer qualquer coisa que fosse «proactiva». Sabes bem que não suporto ficar sem fazer nada enquanto as coisas acontecem sem mim E quanto a ti? Também não te cabia ir à Casa Phoenix com o Kovac; o que é que foste lá fazer?

 

Até agora, este caso tem sido tudo menos um caso com os parâmetros normais.

 

Por causa do Peter Bondurant. Eu sei anuiu Kate passando a mão pelo pêlo de Thor. O gato lançou-lhe um olhar de quem se sentia insultado, desceu para o chão e num passo a trote começou a afastar-se, com a barriga quase a roçar pelo soalho. O dinheiro altera todas as regras acrescentou Kate. Não existe um único político nas Twin Cities que não faria tudo e mais alguma coisa para poder beijar o cu do Peter Bondurant, para depois dizer que cheirava a rosas. Porque o homem tem muito dinheiro e eles querem que ele o invista aqui. Por causa desse pormenor, o advogado dele tem licença para assistir às reuniões como Sabin, para além de ter toda a atenção da presidente da Câmara Municipal, e de nada mais nada menos do que a atenção do director do FBI. Aposto contigo que os pais da Lila White nem sequer conseguiriam passar da secretária do director Brewster. Ainda que lhes ocorresse tentar falar com ele.

 

Agora até pareces a Toni Urskine a falar, afirmando que não existe igualdade de justiça ao abrigo da lei.

 

Trata-se de um ideal magnífico que ambos sabemos não existir no mundo verdadeiro. O dinheiro consegue e compra justiça... assim como a injustiça, o que acontece todos os dias.

 

«Mesmo assim, acho que não posso censurar o Bondurant. Quem é o pai que não faria tudo o que estivesse ao seu alcance para poder reaver um filho? perguntou ela com uma expressão acabrunhada. Eu até teria feito qualquer pacto com o próprio diabo quando a Em adoeceu. De facto, estou em crer que tentei fazê-lo confessou Kate, forçando o esboço de um sorriso. Não obtive resposta. Abalou a minha fé no demónio.

 

O sofrimento de Kate era bastante palpável; Quinn sentia vontade de tomá-la nos braços, encorajando-a a dividir aquela mágoa pelos dois, tal como costumavam fazer em tempos passados.

 

Mas o certo é que o dinheiro do Bondurant não impediu a morte da filha disse Quinn. Isto é, se o corpo for realmente da Jillian. E ele está convencido de que é.

 

Por que razão é que ele estará tão pronto a acreditar nisso? perguntou Kate, perplexa perante aquela realidade. Ela mostrara uma oposição tão veemente à notícia da morte de Emily, que até mesmo depois de a enfermeira a ter levado ao quarto para ver o corpo da filha, e de lhe ter tocado namãozinha já fria, verificando por si própria que não tinha pulsação nem respirava, insistira em que não era verdade. Que homem tão estranho comentou ela. Fiquei surpreendida quando o vi esta noite na reunião. Ele tem sido tão discreto até agora.

 

Aquela observação inesperada atingiu Quinn como se fosse um punho invisível.

 

Tu viste o Bondurant na reunião? Tens a certeza?

 

Pareceu-me que era ele confirmou Kate. Avistei-o quando já ia a sair. Pensei que era estranho não o ver com a comitiva habitual, mas era evidente que não queria despertar a atenção de ninguém. Estava vestido como qualquer cidadão comum, com um blusão com capuz e um chapéu um pouco amachucado, a tentar passar despercebido, saindo sem dar nas vistas pelas traseiras com o resto das pessoas.

 

Não sou capaz de classificar a atitude dele retorquiu Quinn franzindo o sobrolho. Eu diria que ele não está a cooperar, apesar de ser o responsável pela minha presença aqui, mas recusando-se depois a responder às perguntas que lhe faço. O homem é uma sucessão de contradições. Meu Deus, nem quero acreditar que me tenha passado despercebido na reunião.

 

Não estavas à espera de o ver retorquiu Kate, demonstrando sensatez. Estavas à procura de um assassino.

 

«Será que também me passou despercebido?», interrogava-se Quinn esfregando o estômago devido a uma dor intensa que o acometera repentinamente. De que mais é que não se dera conta? Um indício qualquer quase imperceptível: um olhar, um pestanejar, o esboço de um sorriso. E se ele tivesse visto esse sinal, naquele momento, estaria Angie DiMarco na sua cama na Casa Phoenix? Logicamente, pensava que não. Mas apanhar um assassino como aquele requeria algo mais do que lógica. Era necessário instinto, e ultimamente parecia que ele andava a apalpar no escuro através de um cobertor.

 

Não sou capaz de afastar o pressentimento de que a filha do Bondurant é a chave de toda esta situação acrescentou Quinn. Caso a terceira vítima seja de facto ela. O Joe «Fumacento» desviou-se do seu padrão de comportamento em relação a essa. E porquê? No caso das duas primeiras vítimas, ele queimou os corpos mas não tentou torná-los irreconhecíveis por outros meios. Contudo, no respeitante à vítima número três, eliminou as impressões digitais e a planta dos pés. Decapitou-a e levou a cabeça. Dificultou a identificação do cadáver tanto quanto lhe foi possível.

 

Mas deixou a carta de condução junto do corpo.

 

Qual o motivo desta contradição aparente?

 

Talvez a primeira tenha a ver com o aspecto da tortura alvitrou Kate. Parte do processo de despersonalização. Ele reduziu-a à expressão mínima. É-lhe indiferente que conheçamos a sua identidade depois de morta; por conseguinte, deixou a carta de condução como se nos quisesse dizer: «Ei, vejam só quem eu matei!» Mas talvez a sua intenção tivesse sido fazer com que a vítima sentisse que era um zero nos últimos instantes da sua vida, deixando que ela morresse a pensar que ninguém seria capaz de a identificar, ou tratar do seu funeral, ou chorar a sua morte.

 

Talvez sim admitiu Quinn. E talvez essa despersonalização, levada ao extremo, tenha sido um desvio nos seus padrões comportamentais porque conhecia a Jilhan. Se, por exemplo, conseguirmos descobrir alguma coisa de incriminatório que possamos atribuir a esse segurança que vivia no complexo residencial da Jillian, isso permitir-nos-á começar a especular, considerando que ele matou as duas prostitutas para adquirir prática, projectando nelas o que sentia pela Jillian. Mas isso não satisfez as suas carências, portanto, ele perde a cabeça, e aniquila a Jillian, guarda a cabeça porque quer que ela lhe pertença.

 

«Por outro lado, talvez o assassino tenha ficado com a cabeça porque o corpo não é o da Jillian Bondurant, embora ele queira que acreditemos que é. Mas não nos restam dúvidas de que a carta de condução é dela, e se de facto o corpo não é o dela, então como é que o Joe «Fumacento» se apoderou desse documento? perguntou Quinn. Sabemos que não estamos perante um rapto. Já passaram vários dias e ainda não houve nenhum telefonema a exigir o pagamento de um resgate... pelo menos de que tenhamos conhecimento. O Bondurant não autoriza que se instale um dispositivo de escuta no seu telefone... outro aspecto estranho no seu comportamento.

 

E se a Jillian estiver viva? continuou Kate. Então, onde é que ela estará e de que modo é que se enquadra no meio desta confusão?

 

Não sei. E, ao que tudo indica, ninguém que tenha conhecido a Jillian está disposto, ou está capaz, de nos dizer. Este caso inspira-me um mau pressentimento, Kate.

 

Do tipo em que se deve consultar um médico? perguntou ela com um olhar directo à mão com que ele esfregava o estômago. Ainda não paraste de fazer isso.

 

Não é nada de importante retorquiu Quinn afastando a mão.

 

É muito possível que tenhas uma perfuração nas paredes do estômago suficientemente grande para um Buick poder passar redarguiu Kate abanando a cabeça. Mas Deus nos valha, é coisa que tu nunca admitirás. Pensa no que isso poderia fazer à imagem mística do grande Quinn. Arrastar-te-ia até ao nível do Super-Homem com a sua fraqueza por criptonite. Kate queria perguntar-lhe se já tinha falado com alguém dos Serviços Psicoterapêuticos, mas sabia que seria uma perda de saliva. Todos os outros agentes do FBI podiam fazer fila à porta do consultório do psiquiatra que ninguém pestanejaria sequer. As perturbações devido ao stress eram a norma naquele tipo de trabalho. Todos compreendiam. Eram gente que via de mais, que entrava muito profundamente nos mecanismos psíquicos das vítimas e dos assassinos caso após caso, cada um mais horrendo do que o outro. Não havia um único dia em que não testemunhassem o pior que o mundo tinha a oferecer, sendo obrigados a tomar decisões de vida ou de morte com base numa ciência que pecava pela inexactidão: os conhecimentos que haviam adquirido sobre o comportamento humano. Todavia, John Quinn jamais admitiria que sofria os efeitos do stress que esses factores lhe provocavam. A vulnerabilidade não era uma faceta que assentasse bem numa lenda viva.

 

As balas não fazem verdadeiramente ricochete em ti, John disse ela com serenidade.

 

Quinn sorriu, como se ela o tivesse divertido de uma maneira terna quase imperceptível, apesar de se recusar a olhá-la de frente.

 

Não é nada.

 

Óptimo. Se decidisse não olhar por si próprio, esse problema só a ele diria respeito... ou seria problema de uma mulher qualquer, que ela não conhecia, que talvez tivesse ficado na Virgínia e não dela. Acho que finalmente vou tomar essa bebida que me apeteceu há pouco. Queres alguma coisa para o estômago antes de te ires embora? Um Maaloxl Mylanta! Uma embalagem de Toms para chupares no táxi a caminho do hotel? perguntou Kate antes de ir para a cozinha, sentindo vontade de bater em si própria por lhe ter dado a oportunidade de ficar durante mais algum tempo; depois, porém, reflectiu, achando que estava em dívida para com ele pelo seu comportamento à saída da Casa Phoenix. Além do mais, ele tinha o aspecto de quem estava a precisar de tomar qualquer coisa.

 

Como é evidente, Kate sabia de antemão que ele não se permitiria tomar nada que fosse alcoólico. Estava bem consciente do consumo desregrado de álcool tanto na sua família como por parte dos seus colegas de trabalho. Por muito que Quinn tivesse sentido necessidade de entorpecer as frustrações e a tensão induzidas pela profissão, o risco de vir a soçobrar era demasiado elevado para se deixar tentar.

 

Tens aqui uma bela casa comentou ele seguindo atrás de Kate até à cozinha.

 

Comprei-a aos meus pais quando eles perderam a cabeça e decidiram mudar-se para Las Vegas.

 

Isso quer dizer que na verdadeira acepção do termo regressaste a casa.

 

Vinda dos destroços em que a sua vida na Virgínia se transformara para uma casa cheia de recordações acolhedoras que lhe inspiravam um sentimento de segurança. A casa teria substituído o seu próprio conforto pelo conforto da sua família... e ele duvidava muito que ela alguma vez tivesse contado a história completa. Quando tudo se tinha desmoronado em Quântico, Kate sentira-se demasiado envergonhada e constrangida. Quando pensava nessa época, Quinn continuava a sentir-se magoado. O que eles haviam partilhado fora uma ligação mais profunda do que qualquer outra que ele tivera até então, apesar de não ter sido suficientemente profunda ou forte para sobreviver à tensão que a revelação e reprovação haviam suscitado, ao que se aliara a predisposição de Kate para assacar as culpas à sua própria pessoa. Naquele momento, observava todos os seus gestos enquanto ela andava de um lado para o outro na cozinha, indo buscar uma chávena ao armário e uma caixa com saqueias de chá de ervas medicinais; os cabelos compridos caíam-lhe pelas costas num ondulado vermelho-dourado. Queria afagá-los, acariciar-lhe a cova do pescoço. Quinn sempre tivera uma intensa percepção da sua feminilidade, da sua vulnerabilidade. Duvidava que houvesse muita gente que olhasse para Kate pensando que ela talvez precisasse de ser protegida. A força e a tenacidade que emanavam dela constituíam uma fachada que os outros viam. Mas por detrás dessa muralha estava uma mulher que nem sempre se sentia tão segura quanto parecia.

 

Como é que te sentes, Kate?

 

Hum? O quê? perguntou ela, virando costas ao microondas, a testa franzida numa manifestação de confusão. Estou cansada. Ando preocupada. Perdi uma testemunha...

 

Abeirando-se mais, Quinn colocou um dedo nos lábios dela.

 

Não estou a referir-me a este caso. Passaram cinco anos. Como é que tens passado, de verdade?

 

O coração de Kate começou a bater mais depressa no peito. As respostas atropelaram-se-lhe na garganta. Cinco anos. A recordação que tinha do primeiro era de uma mágoa tão aguda que lhe cortava a respiração. O segundo fora como se tentasse reaprender a caminhar e a falar depois de ter sofrido uma trombose. Depois seguiram-se o terceiro e o quarto e um outro depois desses. Ao longo desse tempo construíra uma carreira, tornando confortável a casa onde vivia sozinha, fizera algumas viagens, instalando-se numa rotina agradável e segura. Mas as respostas que lhe ocorriam em catadupa à mente eram outras palavras.

 

Como é que estás? Vazia. Sozinha. Como que emparedada.

 

Deixemo-nos destes jogos disse ela com suavidade. Se estivesses realmente interessado em saber, não terias levado cinco anos a perguntar. Kate apercebeu-se da mágoa que transparecia das suas palavras, desejando poder retirá-las. De que valia a pena estar com aquilo agora, quando só dispunham de alguns dias juntos. Era preferível fingir que nunca houvera nenhum fogo, em vez de tentar fazer reviver o braseiro das recordações cobertas de cinzas mortas. Entretanto, o relógio do microondas começou a tocar. Kate virou-lhe costas atarefando-se a preparar uma chávena de chá.

 

Tu é que me disseste que querias assim justificou-se ele. Quiseste acabar com tudo. Quiseste cortar pela raiz. Quiseste partir, começar tudo de novo. O que é que querias que eu fizesse, Kate?

 

Que me tivesses pedido para não partir. Que tivesses vindo comigo. As respostas estavam ali, na ponta da língua, tão recentes como ontem e da mesma maneira fúteis. Quando chegou o dia de partir da Virgínia, a cólera e a dor tinham-nos levado para lá do ponto em que ele lhe poderia ter pedido que não partisse. Além do mais, ela sabia, sem ter de lhe perguntar, que Quinn nunca deixaria a Unidade de Apoio à Investigação para a acompanhar. O trabalho era tudo para John Quinn. Estava ligado a ele de um modo como jamais estaria ligado a uma mulher. E só Deus sabia o quanto ainda lhe custava pensar naquilo.

 

O que é que havias de ter feito? Nada murmurou Kate. Procedeste bem.

 

Quinn aproximou-se mais por trás dela, desejando tocar-lhe, como se as suas carícias pudessem, como que por artes mágicas, apagar o tempo e os problemas por que ambos tinham passado. Quinn queria dizer-lhe que o telefone poderia ter sido utilizado em ambos os lados de uma linha telefónica, mas sabia que ela nunca abriria mão do seu orgulho, admitindo a insegurança que este encapotava. Em parte, sentira-se aliviado por ela nunca lhe ter telefonado, pois ter-se-ia visto forçado a olhar-se no grande espelho da vida e obrigado a responder a uma pergunta: teria ele dentro de si o suficiente para estabelecer uma relação a dois que fosse duradoura? O receio que sentia em relação à resposta àquela pergunta havia-o mantido afastado por muito, mesmo muito tempo.

 

E agora, ali estava ele, a escassos centímetros do melhor que havia em si, sabendo que devia deixar as coisas como estavam. Se não possuíra dentro de si o que era preciso dar a uma relação cinco anos antes, sem sombra de dúvida que naquele momento também não teria. Ergueu a mão para lhe tocar nos cabelos; a recordação que guardava da sua textura ia ao encontro sedoso da realidade. Colocou a mão no seu ombro onde o polegar encontrou o nó de tensão que tão familiar lhe era.

 

Sentes mágoa pelo que podia ter sido e não foi, Kate? Não me refiro à maneira como as coisas terminaram, mas quanto a nós mesmos?

 

Kate fechou as pálpebras com força. Tinha todo um camião cheio de mágoas que era forçada a arredar do seu caminho todos os dias, caso contrário, não seria capaz de dar continuidade à sua vida. No entanto, nunca encontrara em si qualquer remorso por se ter virado para ele naquela altura difícil da sua vida. Lamentava, isso sim, ter desejado mais. Sentia mágoa por ele não ter tido mais que lhe pudesse dar. Apesar de tudo, não era capaz de pensar numa única carícia, num único beijo, de uma única noite passada nos seus braços, lamentando um só segundo que fosse desses momentos. Quinn dera-lhe amor e compreensão, paixão e compaixão, ternura e conforto numa fase da sua vida em que ela precisara tão desesperadamente desse apoio, quando ela sofrera tanto, quando se sentira tão sozinha. Como poderia Kate lamentar isso?

 

Não respondeu, voltando-se com a chávena de chá fumegante na mão, interpondo-se entre os dois. Toma, vais ver que aliviará as dores que sentes no estômago.

 

Quinn pegou na chávena, pousando-a sobre a bancada.

 

Não guardo mágoas disse ele. Houve ocasiões em que pensei que devia lamentar, mas não o fiz e continuo a pensar da mesma maneira. Os dedos de Quinn tocaram-lhe na face, deslizando até ao cabelo, depois inclinou-se para baixo aflorando-lhe os lábios com os seus. De imediato, dentro de Kate surgiu uma carência aguda, amarga e doce.

 

Os lábios dela acolheram os dele levados pelas recordações e pela saudade. Ajustavam-se na perfeição. O equilíbrio perfeito de pressão e paixão. As línguas de ambos entrelaçaram-se procurando, explorando, saboreando, tocando, aprofundando o beijo e as emoções que evocava. O coração de Kate batia violentamente no peito, como se quisesse sair entrando no dele. Imediatamente, teve a percepção da sensibilidade dos seus seios que ansiavam pelas carícias das mãos dele, da sua boca, a necessidade de uma comunhão que ia além daquele acto tão simples. Os braços dele estreitaram-na, enlaçando-lhe o corpo. Sentia-o duro contra o seu ventre quando ele se apertou mais contra ela.

 

O sentido de lógica de Kate recordava-lhe, ainda que vagamente, que ele só ficaria ali durante alguns dias. Tinha vindo por causa de uma investigação criminal e não porque precisasse dela ou sentisse a sua falta, ou ainda porque quisesse resolver aquilo a que ambos haviam virado costas. Toda aquela situação era incidental.

 

Não respondeu Kate num murmúrio erguendo a cabeça. Não lamento nada. Mas isso não significa que queira reviver tudo de novo, John. Não estou aqui para tua conveniência.

 

Pensas que estou à espera disso? perguntou ele mostrando-se magoado. Pensas que estou à espera que vás para a cama comigo porque estás à mão e sabes aquilo de que gosto? Pensei que me conhecias melhor do que isso, Kate. A voz dele esmorecia, baixa e enrouquecida, afagando-lhe o coração como uma mão cheia de calosidades. Meu Deus, tu foste a única pessoa que conheceu a minha maneira de ser.

 

Bem... pelo menos pensei conhecer murmurou Kate. Mas, ao fim e ao cabo, parece que não nos conhecíamos tão bem como pensávamos.

 

Quinn suspirou, recuando uns passos atrás.

 

Digamos apenas que somos bons amigos e fiquemos por aqui, de acordo? sugeriu ela numa voz embargada pela emoção. Tu não vieste cá por minha causa, John. Se tivesses desejado realmente voltar a ver-me, há anos que terias tomado essa iniciativa. E agora vou chamar o táxi

 

 

A casa estava às escuras. A escuridão também envolvia a vizinhança. As pessoas que residiam nas margens do lago das Ilhas observavam horários decentes. Na área onde Kovac morava havia sempre uma luz acesa numa das casas pessoas que recolhiam tarde, outras que iam trabalhar de madrugada ou as que viam os programas de televendas.

 

Kovac estacionou na rua perpendicular à propriedade de Bondurant, contornando todo o perímetro a pé, pisando a neve acabada de cair. Neve fresca, neve molhada. Pesada e esponjosa; os flocos agarravam-se à orla inferior das calças entrando nos sapatos, mas ele ignorou o desconforto, inteiramente concentrado na mansão que parecia agigantar-se, mais portentosa do que quando vista à luz do dia. As luzes de segurança assinalavam as entradas nas traseiras. No interior da casa não se viam luzes nenhumas. Se Peter Bondurant estava a ver televisão, aprendendo como ter nádegas de aço, estaria a fazê-lo numa sala interior sem janelas de sua casa.

 

E que casa! Tinha o aspecto de uma construção da era medieval inglesa, uma habitação que certamente teria uma câmara de tortura no subsolo. Tanto quanto lhe era dado saber, era possível que tivesse.

 

Jesus! Iria o azar bater-lhe à porta? Caber-lhe-ia informar o mundo de que o multimilionário Peter Bondurant, o homem dos grandes negócios era um lunático homicida? A presidente da Câmara ordenaria que lhe cortassem o pescoço, após o que disporia do seu corpo no subterrâneo da nova penitenciária. Os manda-chuvas queriam a detenção imediata de um assassino, do que não restavam dúvidas. E este homicida devia ser, de preferência, um ex-condenado com olhos esbugalhados, que se babasse, oriundo do Wisconsin.

 

Completando o círculo de regresso ao seu automóvel, sacudiu a neve das calças e dos sapatos, sentou-se atrás do volante e ligou o motor, pondo o sistema anémico de aquecimento no máximo. Os ossos dos pés, tornozelos e canelas tinham absorvido a frialdade até ao tutano. Naquele momento, o frio subia-lhe pelas pernas qual mercúrio de um termómetro.

 

Desenterrou o telemóvel sepultado por baixo de um amontoado de tralha em cima do assento e ligou o número de telefone de casa de Peter Bondurant. Quinn já tinha ligado a Kovac para o informar de que Kate avistara Bondurant na reunião, nas filas de trás, escondido entre a multidão anónima. O homem era um dissimulado. Não lhes dizia o que se tinha passado na última noite em que estivera com Jillian, e só Deus sabia que mais é que ele lhes ocultava.

 

O telefone começou a tocar.

 

Kovac sentia-se fulo por Bondurant receber um tratamento especial, tendo acesso a informações que em princípio deviam ser sigilosas, além de não ser forçado a ir às instalações policiais prestar declarações. Era um tratamento errado. A Polícia devia ter podido apertá-lo tal como costumava apertar qualquer pessoa relacionada com um caso de assassínio.

 

Ao quinto toque, o atendedor de chamadas entrou era acção e uma voz desprovida de qualquer expressão deu as instruções necessárias para a gravação de uma mensagem. Kovac deixou o seu número de telefone e nome, pedindo que o seu telefonema fosse retribuído.

 

Engrenou a mudança e arrancou até ao portão onde estava o intercomunicador, carregando no botão da campainha, Ninguém lhe respondeu. Deixou-se ficar à entrada da casa durante cinco minutos, tocando à campainha várias vezes; tinha muita experiência de ser um sacana para chamar a atenção das pessoas com quem queria falar. Mas não obteve qualquer resposta aos toques insistentes.

 

Entretanto, passou um automóvel de uma empresa de segurança que fazia a ronda naquela área; um fulano com aspecto de halterofilista, todo janota no seu uniforme, saiu do carro pedindo a Kovac que se identificasse. Pouco depois, ficou novamente sozinho a olhar para a casa de Peter Bondurant, perguntando a si mesmo que segredos é que ocultaria no seu interior.

 

Havia pessoas que não atendiam o telefone quando este tocava depois da meia-noite. Mas tal não seria o caso de pais cujos filhos houvessem desaparecido. Talvez Peter Bondurant tivesse o hábito de nunca responder quando lhe tocavam à porta, estando naquele momento na sua cama atemorizado à espera de que, a qualquer instante, uma turba de indigentes desesperados irrompesse pela sua casa adentro, determinados a pilhar tudo o que encontrasse pela frente. Contudo, não fora ele quem tinha chamado o carro do serviço de segurança. O halterofilista dissera que se tratava de uma ronda de rotina.

 

Kovac não despregava os olhos da casa, pondo em prática dezassete anos de experiência que lhe diziam não estar ninguém no seu interior. Às primeiras horas daquela madrugada, Peter Bondurant não se encontrava em casa, precisamente na noite em que a testemunha da polícia levara sumiço. Peter Bondurant que tivera uma discussão com a filha na noite em que esta desaparecera, mas que depois mentira a esse respeito. Peter Bondurant, o homem que tinha poder para destruir a carreira de um polícia como se esmagasse uma lata de cerveja vazia.

 

O mais certo é eu ser um idiota chapado por estar aqui», pensou Kovac. Vanlees è que era a cautela que sairia premiada. Vanlees ajustava-se bastante ao perfil que Quinn elaborara. Tinha um passado que não abonava nada a seu favor. Conhecera Jillian, além de ter tido acesso à sua casa na cidade. até era proprietário do tipo de veículo que procuravam.

 

Mas a verdade é que continuava a existir qualquer coisa em Peter Bondurant que não batia certo. Kovac sentia-o debaixo da pele como se fossem ferroadas de abelha, e, desse por onde desse, havia de descobrir o que é que não estava bem.

 

Suspirou de frustração, arranjando outra posição que lhe aliviasse o peso do corpo; instalou-se dentro do automóvel acendendo um cigarro. Em qualquer dos casos, para que diabo é que ele precisava de ter uma reforma?

 

Os cadáveres flutuavam acima dele como troncos de árvore. Corpos despidos e em putrefacção. Esquartejados à força de machadadas, cheios de orifícios. Carne em decomposição que se descarnava, tantos os ferimentos que haviam sofrido. Alimento para os peixes. As enguias nadavam si nuosamente dentro e fora dos cadáveres, passando através dos buracos

 

Abaixo deles, Quinn observava-os esforçando-se por identificar cada um pelo respectivo nome. A luz pouco intensa de um azul aquoso Estava com falta de oxigénio. Sentia os pulmões prestes a rebentarem. Todavia, não podia subir à superfície até ter identificado cada um dos corpos, indicando o nome do assassino que correspondia a cada um

 

Os cadáveres oscilavam mudando de posição, os membros putrefactos separavam-se dos torsos tombando na sua direcção. Abaixo de Quinn, havia um leito de algas de um verde luxuriante que se enredavam nos seus pés, quais tentáculos de um polvo

 

Precisava de se concentrar. Nomes Datas Factos Mas não era capaz de recordar todos os nomes. Também não co nhecia a totalidade dos assassinos. Ocorriam-lhe ao pensa mento alguns factos dispersos. Tinha a impressão de que os corpos se multiplicavam, continuando a flutuar ao sabor da corrente. Estava a ficar com falta de ar

 

Não conseguia respirar, tal como não era capaz de pensar. Começou a esbracejar, tentando agarrar-se a qualquer coisa em que pudesse firmar-se para subir à tona Mas as mãos a que se agarrava estavam mortas, frias, mantendo o abaixo da linha de água. Tinha de se concentrar muito. Era capaz de resolver os quebra cabeças, se ao menos as peças deixassem de se mover, se ao menos os seus pensamentos não lhe desfilassem pela mente com tanta rapidez, se ao menos conseguisse respirar

 

Acima de si, os corpos deslocaram-se uma vez mais. Via o rosto de Kate no outro extremo da superfície, a olhar para baixo, fitando-o Mas então os corpos mexeram-se de novo e ela desapareceu

 

No momento em que sentiu que os pulmões começavam a sangrar, Quinn esperneou com toda a força conseguindo emergir à superfície da água, saindo do sonho, respirando com sofreguidão Levantou-se da cama. Estava encharcado em suor que lhe escorria pela ponta do nariz e ao longo da coluna

 

Num passo cambaleante afastou-se da cama, sentindo que as pernas lhe falhavam, deixando-se cair em cima da cadeira da escrivaninha, a tremer porque o ar lhe arrefecera o corpo. Todo nu, a transpirar e a tremer, sentindo-se doente, com o amargo da bílis e do sangue na boca.

 

Tombou por cima do cesto dos papéis, sem se aperceber inteiramente do terrível ardor que sentia no estômago. Como sempre, ouvia o som daquela voz interior que, sem falhar, não hesitava em apontar-lhe os seus defeitos, sem nunca ter o menor pejo em o agredir quando se sentia mais em baixo. Disse-lhe que não tinha tempo para estar com aquelas merdas. Tinha casos em que trabalhar, gente que dependia de si; caso ele perdesse o seu poder de concentração e lixasse o que tinha em mãos, havia pessoas que podiam vir a morrer. Se lixasse tudo de forma a não ter remédio, se alguém descobrisse a confusão que ia na sua cabeça, se se soubesse que tinha perdido a coragem e o poder de avaliar as situações, acabaria por ficar sem emprego. Se não tivesse um emprego, então, não teria nada, porque não se tratava só do que ele fazia, mas também de tudo o que lhe restava.

 

O sonho não era nada de novo, nada que fosse obrigado a ultrapassar, nada em que valesse a pena perder as suas energias. Dispunha de toda uma gama de variações desse mesmo sonho. Eram todas estupidamente simples de interpretar, e sentia-se sempre vagamente envergonhado por sonhar todas essas versões. Quinn não tinha tempo para aquilo. Conseguia ouvir exactamente o que Kate teria a dizer sobre aquele assunto. Ela dar-lhe-ia a conhecer o gume mais afiado da sua língua, a par de outra prelecção acerca do Super-Homem, após o que tentaria obrigá-lo a beber chá de ervas medicinais. Esforçar-se-ia por dissimular a sua preocupação, bem como os seus instintos maternais, com um qualquer comentário sarcástico, armando-se em espertalhona, atitude que lhe pareceria ser muito mais segura e mais familiar, bastante mais de acordo com a imagem que os outros tinham dela. Kate fingiria não saber que ele a conhecia, conseguindo ver para lá da sua atitude.

 

E depois ela chamar-lhe-ia um táxi empurrando-o porta fora.

 

Acho que devemos deixar que as coisas fiquem por aqui, considerando apenas que somos bons amigos, não te parece? Tu não vieste cá por minha causa, John. Se tivesses desejado realmente voltar a ver-me, há anos que terias telefonado.

 

Era isso que ela pensava, que nunca tinha dado notícias porque não a queria. Talvez ela quisesse acreditar nisso. Tinha sido ela quem acabara a relação. Na sua perspectiva, essa atitude justificava os seus actos, achando que não tinha havido razão nenhuma para ficar junto dele.

 

Continuando a sentir-se fraco, Quinn abeirou-se da janela de onde se via parte da baixa de Minneapolis, um ângulo de visão que lhe permitia avistar uma rua deserta onde a neve se ia acumulando.

 

Aquilo que ele queria. Já nem sequer sabia em que é que isso se traduzia concretamente. Não se permitia querer fosse o que fosse que saísse do âmbito do seu trabalho. Uma pista, qualquer coisa que servisse de prova, uma capacidade de discernimento que sentiria de repente, permitindo-lhe penetrar no que ia na mente de um assassino. Podia desejar que isso se concretizasse. Mas de que lhe valeria querer o que não se encontrava ao seu alcance?

 

O fulcro da questão era saber se se permitiria, ou não, ter esperança.

 

A única coisa que nos pode salvar das desilusões é a falta de esperança. Quando não se tem esperança, não vale a pena continuar a viver.

 

As suas próprias palavras. A sua própria voz. A sua própria sabedoria. Voltando a si qual bumerangue para lhe dar um pontapé no traseiro.

 

Ele não costumava perguntar qual era o seu objectivo de vida. Vivia para o trabalho e trabalhava para viver. Era tão simples e patético quanto isso. Essa era a máquina. Quinn em funcionamento perpétuo. O problema era estar a aperceber-se de que as rodas do mecanismo começavam a soltar-se. O que aconteceria quando uma delas se soltasse completamente?

 

Fechando os olhos, voltou a ver os cadáveres, sentindo-se invadido por uma onda de pânico, como uma chuva ácida e fria que caísse dentro de si. Conseguia ouvir o chefe do seu departamento exigindo-lhe respostas, explicações, como se o aguilhoasse até apresentar resultados. O director atazanou-me o juízo durante meia hora. O Bondurant não é tipo que se possa chatear impunemente, John O que raio é que se está a passar consigo’?

 

As lágrimas ardiam-lhe nos olhos enquanto a resposta chegava vinda do vazio no centro do seu peito: Perdeste o jeito. A coragem, o toque especial, os seus instintos. Quinn sentiu que tudo se fragmentava, dispersando-se por demasiadas partes do país. Não tinha tempo para ir à procura dos bocados. Só lhe restava fingir que continuava inteiro, esperando que não houvesse muita gente que se apercebesse disso.

 

Está a conseguir chegar a algum lado com isto? Já chegaram a alguma conclusão quanto a um suspeito? Sabe do que é que andam à procura, não é verdade? É por de mais evidente, não lhe parece?

 

Claro que era. Caso se considerasse o assassínio das duas prostitutas, ignorando-se o facto de a filha de Peter Bondurant poder ter sido, ou não, a terceira vítima. Se se fingisse que o comportamento de Peter Bondurant era normal. Se não houvesse uma centena de perguntas sem resposta sobre o enigma que era Jillian Bondurant. Se tudo aquilo tivesse muito simplesmente a ver com o assassínio de duas prostitutas, Quinn poderia ter ido ao arquivo buscar um perfil psicológico extraído de um livro, sem nunca ter precisado de sair de Quântico.

 

Porém, se aquela situação tivesse a ver simplesmente com o homicídio de duas prostitutas, nunca ninguém teria contactado o seu gabinete.

 

Desistindo de voltar a adormecer, lavou os dentes, tomou duche e vestiu as calças de um fato de treino e uma camisola com o logotipo da Academia do FBI. Quinn sentou-se à escrivaninha com o processo do assassínio e o frasco de ura antiácido para o estômago de onde bebia o remédio directamente, enquanto passava uma vista de olhos pelos relatórios.

 

Preso entre as folhas, deparou-se-lhe o maço de fotografias que Mary Moss recebera dos pais de Lila White. Fotografias de Lila White bem viva e feliz, rindo-se durante a festa de aniversário da filha de tenra idade. O seu estilo de vida tinha-a envelhecido para além da sua idade, mas não lhe era difícil descortinar a jovem bonita que ela fora antes dos estupefacientes e dos sonhos desfeitos. A filha era uma bonequinha com dois totós louros, que lhe prendiam os cabelos, e uma carinha gaiata. Um dos instantâneos captara mãe e filha em fatos de banho numa pequena piscina de plástico, Lila de joelhos com a garotinha de pé à sua frente abraçando-a; ambas esboçavam o mesmo sorriso meio torto.

 

Os pais de Lila tinham forçosamente de ficar com o coração destroçado ao olhar para aquelas fotografias, pensou Quinn. No rosto da criança veriam sempre as feições da filha, tal como ela fora na altura em que o seu mundo era simples e soalheiro, cheio de promessas de uma vida maravilhosa. Nas feições de Lila veriam os traços de uma aprendizagem dura, um reflexo de decepções e fracassos. E a esperança de vir a alcançar algo melhor. Esperança que fora recompensada com uma morte brutal, pouco tempo depois de aquelas fotografias terem sido tiradas.

 

Quinn suspirou erguendo a fotografia à luz do candeeiro. gravando na memória a imagem de Lila: o modo como penteara o cabelo, o sorriso com um trejeito malicioso, o ligeiro alto na cana do nariz, a linha curva onde o ombro se unia ao pescoço. Certamente que iria juntar-se aos outros que assombravam os seus sonhos.

 

Quando se preparava para guardar a fotografia, houve qualquer coisa que lhe prendeu o olhar, detendo-se. Parcialmente oculta pela alça do fato de banho via-se uma pequena tatuagem na região superior do peito à direita. Quinn foi buscar uma lupa, voltando a aproximar o instantâneo da luz para o examinar melhor.

 

Uma flor. Um lírio, pensou.

 

Com a outra mão folheou o processo que continha a documentação relativa ao crime até chegar às fotografias da autópsia. Nestas, um terço eram da vítima que se acreditava ser Jillian Bondurant. Procurou até encontrar o que procurava: uma fotografia que mostrava uma secção de pele que faltava na região superior do peito à direita. Não viu nenhuma tatuagem.

 

Kate aninhara-se no canto do sofá de couro verde no seu pequeno escritório, com outro copo de Sapphire na mesinha de apoio ao seu lado. Já perdera a conta das bebidas que tinha tomado. O número era-lhe indiferente. A bebida limava as arestas do sofrimento agudo que a atacava em várias frentes. Essa noite, nada mais lhe interessava.

 

Como é que a sua vida, sem mais nem menos, fizera uma viragem tão repentina? As coisas tinham andado a correr tão bem, mas repentinamente PUMBA! Uma inclinação de noventa graus para bombordo, e tudo caiu dos graciosos nichos numa confusão em que ela ficara atolada até ao pescoço. Kate odiava aquela sensação que lhe dizia ter perdido o controlo. Detestava a ideia de o seu passado lhe estar a passar uma rasteira. Andara a sentir-se tão bem. Sempre focada no que tinha pela frente, concentrada no que o novo dia lhe traria, na semana diante de si. Kate tentava não pensar demasiado sobre o passado. Esforçava-se por não pensar em Quinn. Nunca, por nunca ser, permitiria a si mesma a recordação dos lábios dele na sua boca.

 

Levou uma mão aos lábios, pensando que ainda sentia o calor dos lábios dele nos seus.

 

Mas Kate tinha coisas mais importantes em que pensar. Não sabia se Angie continuava viva ou não. Existiria a mínima esperança de conseguirem trazê-la de volta? Kate acabara por ter de fazer o telefonema a Rob Marshall que tanto receara, dando-lhe conta da situação. Era a ele que caberia a tarefa nada invejável de dar a má notícia ao promotor público Sabin passaria o resto da noite a contemplar vários métodos de tortura. Kate imaginava que no dia seguinte seria queimada na praça pública.

 

No entanto, um confronto com Ted Sabin era o mal menor de todas as suas preocupações. Nada do que ele lhe pudesse fazer a puniria mais do que ela própria se punia.

 

Sempre que fechava os olhos via o sangue.

 

Eu devia ter ficado com ela. Se eu tivesse estado lá para a ajudar, ela continuaria viva.

 

Sempre que aquilo lhe ocorria ao pensamento, o rosto de Angie transfigurava-se no de Emily, e a mágoa mordia-lhe mais profundamente mantendo-se por mais tempo. Quinn acusara-a de assumir uma atitude de mártir, mas os mártires sofriam sem nunca terem pecado enquanto ela aceitava inteiramente a culpabilização pelos seus erros. Por Emily. Por Angie.

 

Se ao menos tivesse ficado na casa com a rapariga... Se tivesse feito mais um pouco de pressão para se aproximar um pouco mais... Mas ela tinha-se furtado, porque parte de si não desejava aproximar-se de mais, queria sentir indiferença. Deus do céu!, era precisamente por aquele motivo que ela não queria trabalhar com adolescentes: exigiam muita dedicação e Kate receava o que viria a sofrer, caso decidisse dedicar-se-lhes de corpo e alma.

 

E eu convencida de que estava tudo a correr às mil maravilhas! Levantou-se do sofá só para ver se conseguia manter-se de pé sem se apoiar a qualquer coisa, dirigindo-se para a escrivaninha antiga de carvalho maciço que pertencera ao pai. Pegou no telefone premindo o botão pré-digitado do seu serviço de voice mail, sentindo que o nó começava a formar-se na garganta antes de ouvir as mensagens. Já as tinha ouvido por três vezes. Passou em branco as mensagens de David Willis e da sua professora de culinária, detendo-se na mensagem que queria ouvir.

 

A voz mecânica anunciou que eram vinte e duas horas e cinco minutos. Seguiu-se uma pausa prolongada depois do sinal sonoro.

 

Vinte e duas horas e oito minutos. Outro longo silêncio,

 

Vinte e duas horas e dez minutos. Outra pausa interminável.

 

Kate deixara o telemóvel no jipe. Não quisera voltar a sair de casa para o ir buscar porque tivera medo. Qualquer pessoa que lhe telefonasse poderia deixar uma mensagem Mais tarde, teria oportunidade de as ouvir no serviço de voice mail, recordava-se de ter pensado na altura.

 

Se aqueles telefonemas tivessem sido feitos por Angie...

 

Mas não tinha maneira de saber, nada lhe restando fazer para além de esperar ficando na dúvida.

 

O telefonema chegou ao centro de comunicações de Hennepin County através do 112 às três horas e quarenta e nove minutos. Um automóvel em chamas. Kovac, pela força do hábito, prestava atenção automaticamente a tudo o que ouvia no seu rádiotransmissor. Sentia um frio de rachar. Tinha a impressão de que os seus pés eram blocos de gelo. As rajadas de vento sopravam a neve contra os vidros da janela em que abrira uma pequena fresta para prevenir o risco de envenenamento por monóxido de carbono. Talvez ele devesse deitar fogo àquele carro. O calor poderia liquefazer-lhe o sangue e os poderes que geriam a frota automóvel da polícia poderiam avançá-lo para a escala seguinte, distribuindo-lhe um veículo melhor como por exemplo um Hyundai com uma roda de hámsteres debaixo da capota.

 

Mas foi então que ouviu a morada e, instantaneamente, o fluxo de adrenalina afastou o frio.

 

Não havia dúvida de que tinham conseguido fazer com que Joe «Fumacento» saísse da sua toca graças à reunião, Ligou o motor e manobrou o carro afastando-se do passeio.

 


começando a percorrer meio quarteirão desde a casa deserta de Peter Bondurant.

 

O assassino que procuravam tinha acabado de incinerar a sua quarta vítima... em pleno parque de estacionamento do centro comunitário onde a reunião tivera lugar.

 

 

Num passo apressado, Kate saiu pela porta das traseiras com o casaco meio vestido. Conseguira calçar um par de botas próprias para a neve, mas as solas pesadas pouco a ajudaram quando chegou aos degraus cobertos por uma camada de gelo. Soltou um grito involuntário quando tombou para o relvado coberto com o que lhe pareceu serem cerca de quinze centímetros de neve, que amorteceu a queda. Nem sequer esperou até recuperar a respiração sem dar descanso às pernas, levantando-se de imediato do chão.

 

Já a caminho do centro comunitário, onde não havia muitas horas assistira à reunião, Kovac telefonara-lhe. Tinham encontrado uma viatura incendiada no parque de estacionamento. As informações sobre o incidente diziam que havia alguém no interior.

 

                 Angie.

Claro que ainda ninguém sabia nada quanto a isso, mas o pensamento de que talvez se tratasse de Angie não saía da mente de Kate enquanto corria para a garagem, procurando febrilmente as chaves na algibeira. Quinn já lhe tinha dado a saber sem poupar palavras o que pensava da garagem onde ela guardava o seu automóvel. Um local muito pouco conveniente. Mal iluminado e que a colocava numa situação de vulnerabilidade. Tudo o que ele dissera correspondia à verdade, mas naquele momento ela não tinha tempo para reflectir sobre aquele assunto. Se alguém quisesse assaltá-la ou violá-la teria de esperar. Deus a ajudasse se algum polícia de trânsito a mandasse parar ao longo do caminho, uma vez que tinha bebido, pensou enquanto ligava o interruptor da luz. O mais certo era não dever sentar-se atrás do volante de um automóvel dadas as circunstâncias, mas não estava disposta a esperar que alguém a fosse buscar. Fosse como fosse, àquela hora da madrugada não havia ninguém pelas ruas. De sua casa ao centro comunitário levaria menos de cinco minutos.

 

Já havia coberto metade da distância até ao 4Runner quando se apercebeu de que a luz da garagem não acendera.

 

Aquela percepção deteve os seus passos, uma fracção de segundos em que todos os seus sentidos ficaram em estado de alerta, sentindo um forte baque no coração. Carregou no botão do comando que destrancaria as portas do jipe cujo interior ficou iluminado. «Continua a andar», pensou. Se não parasse seria mais difícil que alguém lhe travasse os movimentos. Uma noção absolutamente absurda, mas agarrou-se a ela e com um gesto brusco abriu a porta do veículo, subindo para o lugar do condutor.

 

Numa rápida sucessão de movimentos, trancou as portas, ligou a ignição e engrenou a mudança na caixa de velocidades do todo-o-terreno. Fez marcha atrás, saindo para o piso coberto de neve, e virou à esquerda. Um dos espelhos laterais escapou por uma unha negra, mas o pára-choques traseiro aflorou a vedação da casa vizinha. Antes de chegar ao alcatroado da rua, imprimiu um elevado número de rotações ao motor; derrapou de lado estando prestes a bater na dianteira de um Lexus preto estacionado junto ao passeio.

 

Era uma estupidez estar com aquela pressa toda, pensou Kate, tentando resistir ao sentimento de desespero, esforçando-se por aliviar a pressão sobre o acelerador. O que quer que estivesse naquele veículo em chamas não iria a parte alguma, mas, apesar da lógica do seu raciocínio, o sentido de urgência era como fogo nas suas veias, queimando-lhe as entranhas. Se houvesse alguma hipótese de descontar o medo que sentia e, consequentemente, absolvendo-se a si própria de uma tonelada de culpa não queria que lhe escapasse.

 

A rua em frente do centro comunitário encontrava-se pejada de veículos de emergência, com as suas luzes intermitentes, brancas, azuis e vermelhas, a acender e a apagar, qual carrocel feérico. Entre as viaturas, as sempre omnipresentes carrinhas dos meios de comunicação social, de onde saíam repórteres e operadores de câmara munidos dos seus equipamentos. Os interrogatórios de casa em casa já tinham começado, levantando os residentes da vizinhança das suas camas. Mais acima via-se um helicóptero das forças policiais que observava os telhados, e cujo holofote banhava os relvados e as janelas de luz, iluminando por breves instantes um par de cães presos pela trela dos agentes que os haviam treinado.

 

Caso Joe «Fumacento» tivesse conduzido o veículo até ao parque de estacionamento com a finalidade de aí lhe deitar fogo, então, poder-se-ia deduzir que se fora embora a pé. Havia boas probabilidades de viver nas proximidades ou mesmo naquela área. A menos de cinco minutos da casa de Kate, apesar de ela, naquele momento, não se permitir pensamentos desses.

 

Aproximou o 4Runner por detrás da carrinha da KMSP, engrenou a mudança em ponto morto e saiu da viatura, que deixou com uma roda em cima do passeio. Não obstante o adiantado da hora, alguns dos residentes tinham saído de suas casas para bisbilhotar o que se passava, aumentando a aglomeração de pessoas na periferia do local do incidente. Um destes podia ter sido o assassino que regressara para carregar baterias, observando o caos a que o seu acto havia dado origem. Não havia maneira de se poder saber, pelo que Kate assestou as suas prioridades noutro assunto. Conseguiu passar pela multidão, empurrando com os ombros e acotovelando quem encontrava pela frente.

 

Mantinha o olhar fixo no pessoal dos serviços de emergência que trabalhavam dentro de um círculo de agentes de uniforme, a alguma distância do veículo incendiado. Os paramédicos amontoavam-se em redor da vítima, trocando palavras na sua linguagem médica.

 

Um dos polícias de uniforme agarrou Kate por um braço quando ela tentou furar o cordão, impedindo-a de continuar.

 

Peço desculpa, minha senhora. Mas só é permitida a presença de pessoas autorizadas.

 

Eu pertenço aos serviços de vítimas. Se quiser, posso identificar-me.

 

Aquele não vai precisar dos seus serviços. Ficou feito num tição.

 

- É um ele?

 

Sei lá! retorquiu o polícia com um encolher de ombros. -- Quem é que poderá dizer?

 

Kate sentiu o estômago às voltas. «Oh, meu bom Jesus, a Angie.»

 

Onde é que está o Kovac?

 

Está ocupado, minha senhora. Se quiser fazer o favor de se afastar para o lado...

 

Não me venha com essa de «minha senhora» ripostou Kate, desabrida. A minha presença aqui justifica-se plenamente.

 

Eu responsabilizo-me por ela, senhor agente disse Quinn, mostrando o seu crachá ao homem. É melhor deixá-la passar antes que fique sem uma mão.

 

O agente de polícia mostrou-se carrancudo perante a identificação do FBI e a ordem do seu portador, mas foi forçado a ceder. Kate apressou-se em direcção aos paramédicos. Depois de ter dado quatro passos, Quinn travou-a por detrás impedindo-a de continuar, sem a largar enquanto ela se debatia para se soltar das mãos dele.

 

Larga-me!

 

Primeiro vamos ver o que é que o Kovac nos pode dizer. Se isto for obra do Joe «Fumacento», então tem de haver por aí qualquer coisa que sirva de identificação.

 

Não. Tenho de ver com os meus próprios olhos!

 

Vais sentir um choque muito grande, Kate.

 

Eu sei. Não será a primeira vez que vejo uma coisa destas. Meu Deus, o que é que eu ainda não vi?

 

Nada. Eram muitos os anos passados a examinar fotografias que retratavam horrores inqualificáveis. Tinha conhecimento de todos os malefícios que um ser humano era capaz de fazer a outro. Mesmo assim, não havia nada como a realidade nua e crua que pairava sempre no local onde fora cometido um acto criminoso. As fotografias não conseguiam captar os sons, a atmosfera electrizante que se sentia no ar, o cheiro da morte.

 

O cheiro de carne queimada era horrendo, atingindo-a na face como se fosse um bastão; a sensação que lhe provocou tinha muitas semelhanças com a dor. O estômago de Kate, já às voltas tanta a ansiedade que sentia, não se aguentou e todo o gim que ingerira subiu-lhe à garganta, tendo estado prestes a vomitar. Sentia os joelhos como se fossem gelatina. Não compreendia por que motivo é que ainda não caíra redonda no chão, quando se apercebeu de que Quinn a tinha agarrado de novo, mantendo-se atrás dela enquanto a enlaçava. Kate encostou-se a ele com o corpo semi-inerte, tomando nota mentalmente para mais tarde ralhar a si própria por se ter permitido aquela fraqueza.

 

Das centenas de vítimas que tivera oportunidade de ver, nunca correra o risco de vir a deparar-se-lhe alguém que conhecesse.

 

Hediondamente carbonizado e meio desfeito, o cadáver estava deitado de lado, com os membros dobrados e fundidos numa posição sentada. O calor das chamas devia ter sido inconcebível. Os cabelos tinham desaparecido por completo, tal como o nariz; os lábios estavam todos calcinados e contorcidos, restando poucos vestígios da sua existência; revelavam os dentes num esgar macabro. O esterno estava exposto, mostrando uma massa óssea luzidia onde a camada fina de tecidos se tinha descarnado. O agente de uniforme tivera toda a razão: à primeira vista era impossível determinar o sexo da vítima, exceptuando os farrapos de tecido que se agarravam às costas do corpo, permitindo deduzir que talvez tivesse sido do vestuário de uma mulher um farrapo de uma camisola cor-de-rosa e o fragmento de uma saia.

 

Um dos paramédicos, um homem corpulento, com o rosto sujo de fuligem, soergueu o olhar abanando a cabeça.

 

Este é para o esmiuçador de ossos. Quando chegámos cá, há muito que ela tinha morrido. Kate sentiu tonturas. Tentava insistentemente pensar no que devia fazer, como é que poderia saber se de facto se tratava de Angie. As ideias davam-lhe a impressão de se duplicarem ao mesmo tempo que se alongavam, passando-lhe de relance pelo cérebro. Os registos dentários estavam fora de questão. Nem sequer sabiam quem diabo fora Angie DiMarco nem de onde é que viera. Não tinham conhecimento de quaisquer pais que lhes pudessem facultar os registos dentários, ou quaisquer outros registos clínicos que pudessem indicar fracturas ósseas antigas que se tentariam detectar através de radiografias ao cadáver. Também não existiam pertences que se pudessem inspeccionar. Brincos. Angie usara um par de brincos.

 

Mas as orelhas do cadáver haviam sido consumidas pélas chamas, ficando reduzidas a um par de pequenas protuberâncias. Anéis. A rapariga usara pelo menos meia dúzia. Mas as mãos do cadáver tinham ficado enegrecidas e dobradas como as patas de um macaco. Ao que tudo indicava, faltavam alguns dedos.

 

Kate sentiu o corpo percorrido por um estremecimento que nada tinha a ver com arrepios de frio. Com um passo de cada vez, Quinn começou a afastá-la do corpo.

 

Não sei tartamudeou Kate, continuando a olhar fixamente para o cadáver. Os dedos dos pés apontavam direitos como os de uma ginasta, uma resultante da contracção dos tendões. Não sei nada. Kate tremia incontrolavelmente. O que Quinn sentia mesmo através do casaco de fazenda espessa. Levou-a para longe do movimento de trânsito, afastando-lhe os cabelos da cara, inclinando-lhe a cabeça para trás de modo a que ela fosse obrigada a olhar para cima. Tinha as faces de uma palidez cerácea sob as lâmpadas dos candeeiros que iluminavam o parque de estacionamento. Kate olhou-o com fixidez, os olhos como que vitrificados tal o choque e terror que sentia. Naquele momento, Quinn não desejava nada além de poder abraçá-la com toda a força, apertando-a contra si.

 

Estás a sentir-te bem, querida? perguntou com ternura. Precisas de te sentar?

 

Kate respondeu-lhe com um abanar de cabeça, desviando o olhar que fixou na equipa que acompanhava a ambulância, passando aos carros dos bombeiros, observando os clarões dos potentes projectores das equipas de filmagem das estações de televisão.

 

Eu... não... oh, meu Deus disse ela titubeante, por entre uma respiração difícil e demasiado acelerada. Os olhos voltaram a cruzar-se com os dele e a boca tremeu-lhe. Oh, meu Deus, John, e se for ela?

 

Se for ela, não foste tu quem a pôs ali, Kate retorquiu Quinn com firmeza.

 

Miúda impossível; resmungou Kate, esforçando-se por conter as lágrimas. É por esta razão que me recuso a trabalhar com miúdos. Só nos arranjam problemas.

 

Quinn observava-a a tentar dominar as emoções, sabendo que ela não era, nem de perto nem de longe, tão dura quanto pretendia aparentar, sabendo que não tinha ninguém na sua vida que pudesse dar-lhe apoio. Sabendo de antemão que se a escolha fosse dela, provavelmente não teria recorrido a ele. Ciente de todos esses aspectos, Quinn murmurou:

 

Ei, chega-te cá. Puxou-a mais para si.

 

Kate não lhe ofereceu resistência a Kate forte e independente. A sua cabeça encostou-se ao ombro dele, ajustando-se-lhe ao corpo como se fosse a metade que lhe faltava. Familiar, confortável, perfeito. O barulho e todo o movimento característicos do local que servia de cenário a um crime pareceram reduzir-se, dando lugar a alguns sons de fundo que ouvia à distância. Quinn afagou-lhe os cabelos beijando-lhe a testa, e, pela primeira vez em cinco anos, sentiu-se um homem de corpo inteiro.

 

Estou aqui para te dar todo o meu apoio, minha querida murmurou. Tenho-te nos meus braços.

 

É ela? perguntou Rob Marshall, dirigindo-se aos dois no passo apressado que as suas pernas curtas lhe permitiam. Mal se via dentro de uma parka que o agasalhava até às orelhas; usava um gorro de lã que lhe cobria a cabeça de formato arredondado.

 

Ao ouvir o som da voz dele, Kate contraiu-se, endireitou-se e deu um passo afastando-se de Quinn. Ele quase conseguia vê-la a dominar fisicamente as suas emoções, reconstruindo apressadamente a muralha que as protegia.

 

Ainda não sabemos respondeu Kate numa voz enrouquecida. Aclarou a garganta e com um dedo enluvado limpou qualquer coisa ao canto do olho. O corpo está irreconhecível. Tanto quanto sabemos, ainda não foi encontrado qualquer documento que permita identificá-lo.

 

Não consigo acreditar que isto esteja a acontecer comentou Rob observando os paramédicos num ponto atrás dela. - Mas achas que é ela, não é verdade? Estás convencida de que se trata da tua testemunha.

 

A tua testemunha. Aquilo não passou despercebido a Kate. Ele já começara a distanciar-se da decisão que permitira que Angie tivesse ficado alojada na Casa Phoenix. O mentecapto execrável. O que é que se passou aqui? perguntou Rob num timbre de voz autoritário. Pensei que te mantinhas de olho nela, Kate. - Lamento muito. Já te disse ao telefone o quanto lamentava esta situação. Eu devia ter ficado junto dela. Custava-lhe ter de admitir aquilo, dado que era uma concessão que fazia ao seu chefe, quando, em circunstâncias normais, a tendência de Kate era estar num desacordo permanente com ele. Foste escolhida para este caso por uma razão. Estou bem consciente disso.

 

O que aconteceu, tendo em atenção o teu historial profissional, pela força da tua personalidade. Para variar, pensei que a tua teimosia habitual, nesta situação, seria uma vantagem a nosso favor...

 

Não sei se sabes, Rob, mas eu já me culpabilizo o suficiente por nós dois disse Kate cortando-lhe a palavra.

 

Portanto, podes parar de me atazanar, pelo que te ficarei muito grata.

 

O Sabin está uma fúria. Não sei o que fazer para conseguir aplacá-lo.

 

Naquelas palavras estava implícito que a ela cabia perder a testemunha, enquanto a ele cabia estabelecer a paz. Kate já estava a ouvi-lo a lamuriar-se e a levar a água ao seu moinho junto de Sabin, invocando o nome dela em vão sempre que a oportunidade se lhe deparasse.

 

Tenho a certeza de que não terás qualquer problema - ripostou ela, encolerizada de mais para seu próprio bem.

 

Só terás de te ajoelhar e bajular como é teu costume. O corpo de Rob estremeceu da cabeça aos pés, como que percorrido por um espasmo. A fúria saiu-lhe pela boca fora.

 

Como é que te atreves a falar-me nesses termos! Como é que tens a ousadia! Tu é que perdeste a testemunha. Talvez tenhas sido a causadora da sua morte...

 

Ainda não sabemos se as coisas se passaram assim interveio Quinn.

 

... mas, mesmo assim, tens a lata de me falar dessa maneira! Nunca mostraste para comigo qualquer resquício de respeito. Até mesmo agora. Até mesmo depois disto. Não acredito no que ouvi. Minha puta de merda!

 

Fareja com isso! ordenou Quinn. Interpôs-se entre os dois, batendo com força no esterno de Rob com o punho. Este cambaleou para trás, escorregou na neve e desequilibrou-se caindo com o traseiro estatelado no chão. Porque é que não vai dar uma vista de olhos ao que a Kate acabou de ver sugeriu-lhe Quinn sem sequer se dar ao trabalho de lhe oferecer a mão para o ajudar a levantar-se.

 

Arranje uma perspectiva actualizada do que é importante aqui neste momento.

 

Atabalhoadamente, Rob levantou-se do chão dando meia volta num movimento brusco e a resmungar, dirigindo-se para a ambulância com uma atitude truculenta, enquanto sacudia a neve do blusão com gestos rápidos que denotavam uma grande irritação.

 

Raios te partam, John, eu é que queria fazer com que ele desse um bate-cu! disse Kate, fula.

 

Sendo assim, o mais certo foi eu ter evitado que perdesses o teu emprego.

 

De súbito, e tardiamente, é que Kate se apercebeu de que o seu emprego podia estar em risco. Nosso Senhor, por que motivo é que Rob não haveria de despedi-la? Ele tinha razão: ela nunca lhe mostrara o mínimo respeito, o que o homem tinha todo o direito de exigir. Independentemente do facto de ele ser, ou não, merecedor desse respeito. Ele era o seu chefe.

 

Kate ficou a observar Rob, que entretanto já se aproximara da ambulância; tinha tapado a boca com uma mão enluvada. Os homens preparavam-se para colocar o cadáver dentro de um saco de plástico próprio para o efeito. Quando regressou para junto deles, as suas faces tinham uma cor que era um misto de palidez e rubor.

 

Aquilo é... aquilo é... horroroso murmurou ele respirando pesadamente apenas através da boca. Tirou os óculos e limpou o rosto com a luva. É inacreditável acrescentou, engolindo em seco umas duas vezes e apoiando o peso do corpo ora num ora no outro pé. O cheiro...

 

Talvez fosse melhor sentares-te sugeriu Kate. Rob abriu parte do fecho de correr do blusão levando a mão ao estômago. Continuava com o olhar fixo na ambulância.

 

Incrível... horrível...

 

O helicóptero que continuava a manter-se vigilante sobrevoou mais baixo, com as pás do rotor a cortarem o ar como as asas de um gigantesco colibri.

 

Ele anda a desafiar-nos, não é verdade? O Cremador adiantou fitando Quinn. Ao sequestrar a rapariga. Ao ter feito o que fez aqui, no mesmo local onde a reunião teve lugar.

 

Sim. Pretende que façamos figura de parvos ao mesmo tempo que dá a impressão de ser invencível.

 

Quanto a mim, diria até que está a sair-se extremamente bem replicou Rob sem afastar os olhos dos paramédicos que colocavam o corpo dentro da ambulância.

 

Qualquer pessoa pode parecer que é um génio quando sabe as respostas antes de todos os outros adiantou Quinn. Mas, mais cedo ou mais tarde, ele acabará por meter água. Acontece com todos. O truque é fazer com que isso aconteça quanto antes, para se poder apanhá-lo pelos tomates no momento em que falhar.

 

Gostaria muito de estar por perto quando isso acontecer disse Rob limpando as faces uma vez mais, após o que apertou a parka. Agora vou telefonar ao Sabin acrescentou dirigindo-se a Kate. Enquanto ainda trabalhamos para ele.

 

Kate não lhe deu resposta. O seu silêncio não tinha nada a ver com o promotor público, nem tão-pouco com a situação bastante precária em que de súbito o seu posto de trabalho se encontrava.

 

Vamos procurar o Kovac sugeriu a Quinn. Talvez eles já tenham encontrado a carta de condução.

 

Entretanto, Kovac discutia questões de jurisdição com uma afro-americana que usava uma parka negra onde se lia à largura das costas FOGO POSTO. O automóvel, bastante pequeno e vermelho, era a peça central num círculo de luzes portáteis. O fogo esventrara-o e o calor das chamas fizera com que o pára-brisas tivesse explodido. A porta do lado do condutor mantinha-se suspensa das dobradiças, com o metal todo retorcido depois de a equipa de bombeiros ter trabalhado nela para a abrir. O interior do veículo era uma confusão de cinzas, plásticos derretidos e espuma, que ainda gotejava, e que servira para retardar a evolução das chamas. O assento do condutor fora destruído pelo incêndio, tendo restado apenas uma carcaça de molas todas retorcidas.

 

Estamos perante um fogo posto, sargento insistia a mulher. É ao meu departamento que cabe determinar as causas do incidente.

 

Trata-se de um homicídio e estou-me absolutamente nas tintas para a causa do incêndio contrapôs Kovac. Quero que a perícia criminal encontre qualquer pista que a sua gente ainda não tenha lixado.

 

Em representação do Comando de Bombeiros de Minneapolis, apresento as minhas desculpas por termos tentado extinguir um incêndio e salvar uma vida. Talvez sejamos capazes de aperfeiçoar a nossa actuação antes que haja alguém que lance fogo ao seu automóvel.

 

Marcell, pode acreditar que eu nunca hei-de ter a sorte de que haja alguém que lance fogo àquela carripana a cair de podre.

 

Tal como era habitual nos locais que serviam de cenário a homicídios, aquele estava um autêntico desastre, o que Kate sabia. Quando chamados para acudirem a um fogo, os bombeiros não se preocupavam por inadvertidamente poderem estar a destruir provas incriminatórias quando faziam o seu trabalho. A função deles era salvar vidas, e não tentar descobrir quem é que talvez as tivesse ceifado. Consequentemente, destruíam portas de automóveis e espalhavam espuma por cima de qualquer pista que pudesse ter ficado no interior do veículo em questão.

 

Aquela coisa já está carbonizada ao máximo disse Kovac, continuando a falar com a inspectora da secção de fogo posto. A que é que se deve a sua pressa? Mas, quanto a mim, continuo a ter de me haver com um tarado qualquer que anda por aí a matar mulheres feito um lança-chamas itinerante.

 

É possível que estejamos perante um acidente retorquiu Marcell. Talvez isto não tenha nada a ver com o seu assassino, mas aqui está você a discutir comigo e a perder o seu tempo para nada.

 

Sam, havemos de conseguir recuperar as chapas de matrícula disse Elwood, que se aproximava pela neve que lhe chegava aos tornozelos. Esperou até estar suficientemente perto para não ser ouvido por mais ninguém além de Kovac, embora soubesse que não havia nenhuma esperança de conseguirem manter por muito tempo a notícia sob sigilo, acrescentando: - - É um Saah de noventa e oito registado em nome de Jillian Bondurant.

 

A inspectora da secção de fogo posto fez continência a Kovac afastando-se do seu caminho.

 

Se estivéssemos num concurso para ver quem é que conseguia mijar mais longe, sargento, eu diria que acabou de escrever o seu nome na neve concluiu ela.

 

A equipa de perícia criminal invadiu o Saab quase completamente carbonizado, quais abutres descarnando a carcaça de um elefante. Kate sentou-se atrás no lugar do condutor do automóvel de Kovac, observando o que se passava em seu redor, sentindo-se exausta e como que entorpecida.

 

O corpo quem quer que a mulher fosse já fora transportado para o Instituto de Medicina Legal. O cadáver de alguém, por enquanto desconhecido, acabara de ser classificado como o número dois no itinerário profissional do dia, prestes a despontar, de Maggie Stone.

 

Quinn abriu a porta do lado do passageiro da frente dando entrada a uma lufada de ar gelado. Os flocos de neve agarravam-se ao cabelo como partículas grandes de caspa. Com a mão enluvada, sacudiu a neve.

 

Tudo indica que o fogo começou no assento do condutor disse ele. Foi onde ardeu mais intensamente e durante mais tempo. Tanto o painel de instrumentos como o volante ficaram derretidos. Portanto, as melhores hipóteses de virmos a encontrar impressões digitais desapareceram.

 

Ele entrou numa escalada de violência comentou Kate.

 

Assim parece.

 

Mudou de modo de operar.

 

Para ilustrar qualquer coisa - retorquiu Quinn.

 

Está a concretizar um plano qualquer.

 

Sim. E eu daria tudo e mais alguma coisa para saber o quê e quando.

 

E porquê atalhou Kate.

 

Eu já nem quero saber o porquê redarguiu Quinn, abanando a cabeça. Não existem quaisquer razões válidas. Existem somente desculpas. Conheces os factores que contribuem para situações destas tão bem como eu, mas também sabes que nem todos os miúdos que tiveram pais que os maltratassem vieram a adquirir as mesmas características em adultos, tal como nem todos os miúdos que foram criados por mães que os mantinham à distância se transformaram em assassinos na idade adulta. A determinada altura da nossa vida faz-se uma opção e, depois de esta ter sido feita, não me interessa descobrir qual o motivo que lhe deu origem, só quero os sacanas fora deste planeta de uma vez por todas.

 

E entretanto nomeaste-te como responsável para os apanhares a todos.

 

É uma tarefa que tresanda a merda, mas que outro objectivo é que posso ter na vida? Esboçou o seu famoso sorriso à Quinn, agora já um pouco estafado, visto que as horas de sono haviam sido muito reduzidas, enquanto a tensão era desmesurada.

 

Não há necessidade nenhuma de continuares aqui disse Kate, sentindo a pressão e a fadiga em todos os músculos do seu corpo. Durante a reunião de actualização da manhã, eles pôr-te-ão ao corrente de tudo o que entretanto tenha acontecido. Pelo teu aspecto, eu diria que estás a precisar de umas horas de sono.

 

Dormir? Há muito que desisti disso. Era um hábito que estava a ameaçar atenuar a minha paranóia.

 

Tem cuidado com isso, John, se não, eles retiram-te da Brigada para o Sequestro Infantil e Assassínio Múltiplo e põem-te nos Ficheiros Secretos.

 

Sou mais bonito do que o David Duchovny.

 

Mas de longe. Engraçado, pensou Kate, o à-vontade com que regressavam à velha maneira de estarem sempre na brincadeira, até mesmo naquele momento, até mesmo depois de tudo o que sucedera naquela noite. No entanto, era uma atitude que lhes era familiar e lhes propiciava bem-estar.

 

Tu também não precisas de ficar aqui, Kate retorquiu Quinn falando mais a sério.

 

Tenho de ficar, sim. Sou o que a Angie DiMarco tem de mais parecido com alguém que se interesse por ela. Caso se venha a descobrir que aquele corpo é o dela, o mínimo que posso fazer é roubar algumas horas de sono ao meu descanso para poder ter a notícia em primeira mão.

 

Estava à espera de ouvir outra prédica da boca de Quinn, que não se cansaria de afirmar que não era culpada de nada, mas este gorou-lhe as expectativas.

 

Achas que existe alguma possibilidade de o cadáver ser o da Jillian Bondurant? perguntou Kate. Que não seja a vítima número três, mas sim que tenha feito isto a si mesma?

 

Não. A auto-imolação é uma coisa muito rara, e quando de facto se concretiza, regra geral, a pessoa que o faz quer ter público. Por que razão é que a Jillian viria até aqui pela calada da noite? Que relação é que poderá ter com este lugar? Nenhuma. Depois da autópsia saberemos de certeza se de facto é a Jillian, e desta feita poderemos comparar os registos dentários; contudo, eu atrevo-me a dizer que as hipóteses de ser ela, e de o fogo ter sido posto por ela própria, são nulas.

 

Sim, compreendo os teus pontos de vista retorquiu Kate soerguendo os cantos da boca num simulacro de sorriso. Acho que a minha atitude se deve à esperança de o corpo poder ser de alguém por quem eu não fosse responsável.

 

Kate, fui eu quem convocou a reunião. O Joe «Fumacento» fez isto para me dizer «Vai-te foder, Quinn. Agora posso ficar a interrogar-me sobre o motivo que o terá levado a isto. Devia ter adoptado uma postura mais dura em relação a ele? Devia ter tentado fingir que sinto simpatia por ele? Devia ter acalentado o seu ego, fazendo o passar por um génio? O que é que eu fiz? O que é que não fiz? Por que razão a minha capacidade de discernimento não foi mais apurada? Caso ele tenha assistido à reunião, se esteve sentado mesmo à minha frente, porque é que não dei pela sua presença? Calculo que a tua supervisão de raios X desapareceu, aquela que te permite ver que ser maléfico está emboscado na alma dos homens que tem perturbações

 

Juntamente com a tua faculdade de preveres o futuro

 

Fazemos um par e tanto disse ela com um sorriso que desta vez era inequivocamente genuíno, se bem que um pouco tristonho

 

Costumávamos ser

 

Kate olhou-o fixamente, observando o homem em que ele se transformara com a passagem dos últimos anos. Quinn tinha um aspecto cansado, como que assombrado por qualquer coisa. Kate perguntou-se se ele veria a mesma coisa nela própria. Mostraria humildade da sua parte se admitisse ser isso que ele devia ver. Tinha andado a iludir-se a si mesma convencendo-se de que estava bem Mas essa convicção não passara disso mesmo de uma fachada, uma artimanha. Compreendera essa verdade em toda a sua extensão. havia uma hora quando se encontrara no aconchego cálido dos seus braços. Sentira-se como se repentinamente tivesse recuperado uma parte crucial de si mesma, parte essa que passara anos a recusar aceitar que lhe faltava

 

Amei-te, Kate confessou ele em voz baixa com os olhos escuros presos nos dela. Independentemente do que possas pensar de mim, e da maneira como as coisas se desmoronaram entre nós dois, a verdade é que te amei. Podes duvidar de tudo o mais. Deus sabe que eu o faço Mas nunca duvides do que acabei de te dizer

 

Houve qualquer coisa que se agitou dentro de Kate. Recusava-se a atribuir-lhe um nome. Não podia ser esperança. No que dizia respeito a John, não queria albergar a mínima esperança. Preferia irritar-se, indignar-se e sentir mesmo alguma cólera. Mas nada disso correspondia verdadeiramente aos seus sentimentos, sabia-o... e ele também. Quinn sempre tivera a faculdade de conseguir ler a mais pequena sombra que lhe atravessasse os pensamentos.

 

Raios te partam, John resmungou ela.

 

Tudo o mais que ela poderia ter acrescentado perdeu-se quando o rosto de Kovac assomou subitamente à janela da porta do lado de Quinn. Kate sobressaltou-se, praguejando, mas baixou o vidro carregando no botão do painel instalado na porta do condutor.

 

Ei, rapaziada, nada de marmelada aí dentro disse, trocista. Já passa da hora do recolher obrigatório.

 

Estamos a tentar evitar um estado hipotérmico replicou Quinn. Tenho uma torradeira que dá mais calor do que o aquecimento deste carro.

 

Encontraram a carta de condução? perguntou Kate.

 

Não, mas encontrámos isto respondeu Kovac, mostrando-lhe uma microcassete dentro de uma pequena caixa de plástico transparente. Encontrámo-la no solo a cerca de cinco metros do automóvel. É um autêntico milagre que nenhum dos bombeiros a tenha pisado. O mais provável é que pertença a qualquer repórter que tenha gravado os apontamentos tirados na reunião prosseguiu. Mas nunca se sabe. Muito de longe em longe, deparam-se-nos provas de que Deus existe. Nesse assento, algures, tenho um leitor de cassetes.

 

Sim, sim, isso e o Santo Graal redarguiu Kate enquanto remexia na confusão que se amontoava no assento: relatórios, revistas e papéis que haviam embrulhado hambúrgueres. Por acaso, vives neste automóvel, Sam? Não sei se sabes, mas existem abrigos para pessoas na tua situação. Finalmente, conseguiu desencantar o gravador, entregando-o a Quinn.

 

Este retirou a cassete do interior e, com um cuidado extremo, inseriu a que Kovac lhe entregara servindo-se da ponta de uma esferográfica para lha dar.

 

O que começou a ouvir-se através do altifalante de tamanho ínfimo trespassou Kate como um aguilhão aguçado. Os gritos lancinantes de uma mulher, carregados de desespero, intercalados por súplicas entrecortadas, pedidos de Misericórdia que nunca seriam atendidos. Os gritos de alguém sujeito a torturas excruciantes que implorava que a matassem.

 

Aquilo não era prova da existência de um Deus, pensou Kate. Provava, isso sim, que Deus não existia.

 

 

Exultação. Êxtase. Excitação sexual. Estas são emoções que acompanham o seu triunfo, numa amálgama em que também entram as emoções mais sombrias de cólera, ódio e frustração que ardem constantemente dentro dele.

 

Manipulação. Domínio. Controlo. O seu poder estende-se para lá das suas vítimas, recorda a si mesmo. Exerce os mesmos poderes sobre a Polícia e sobre Quinn.

 

Exultação. Êxtase. Excitação sexual.

 

O resto não interessa. Há que concentrar-se na vitória.

 

A intensidade dos seus sentidos é avassaladora. Ele treme e transpira, tal o empolgamento que sente enquanto conduz a caminho de casa, ao ponto de ter ficado febril. Às narinas chega-lhe o odor do seu próprio corpo. Um cheiro muito peculiar àquele tipo de estimulo forte, almiscarado, quase sexual. Quer limpar os sovacos com as mãos esfregando o suor e o odor do seu corpo nas faces, dentro das narinas, lambê-lo dos seus dedos.

 

Anseia por se despir para que a mulher que habita as suas fantasias lamba essa sensação retirando-a do seu corpo. Da sua barriga, do peito e das costas. Nas suas fantasias, ela acaba por se ajoelhar à sua frente lambendo-lhe os testículos. Sente uma erecção que torna o pénis gigantesco e teso. enquanto ela empurra o órgão para dentro da boca dela fodendo-a na boca, esbofeteando-a de cada vez que ela se engasga. Ejacula na cara dela, e depois obriga-a a colocar-se de quatro, penetrando-a através do ânus. Coloca as mãos em redor da garganta dela, violando-a com uma violência inconcebível, estrangulando-a entre os gritos que ela consegue soltar.

 

São imagens que o excitam, que o estimulam sexualmente

 

Sente o pénis duro e a latejar. Precisa de se libertar. Necessita de ouvir os sons tão agudos e maravilhosos como lâminas finamente afiadas. Precisa de ouvir os gritos, essa qualidade de som, na sua forma mais pura e crua, que expressa terror, fingindo que os gritos vêm da mulher que habita na sua mente. Sente necessidade de ouvir o crescendo constante quando uma vida atinge os seus limites. A energia que definha absorvida gananciosamente pela morte

 

Leva a mão a algibeira do sobretudo à procura da cassete e encontra-a vazia

 

Sente-se percorrido por uma onda de pânico. Encosta ao passeio e começa a procurar em todos os bolsos, vê no assento ao seu lado, verifica no chão da viatura, procura no interior do leitor de cassetes. A cassete desapareceu

 

A cólera provoca-lhe um ardor intenso que lhe atravessa o corpo Enorme e violenta uma parede de raiva. Praguejando e com brusquidão mete a mudança e regressa à rua. Cometeu um erro Inaceitável. Sabe que não lhe será fatal Mesmo que a polícia encontre a cassete, ainda que sejam capazes de retirar qualquer impressão digital que tenha ficado na superfície, não conseguirão descobrir-lhe o rastro. As suas impressões digitais não constam de nenhuma base de dados criminal. Desde os tempos da sua juventude que não é detido pela polícia Mas a noção, por si só, de ter cometido um erro deixa-o enfurecido porque sabe que proporcionará encorajamento ao grupo de trabalho e a John Quinn, quando ele só deseja esmagá-los

 

Agora sente que o seu triunfo ficou diminuído. A celebração ficou arruinada. A erecção do pénis afrouxou, o seu caralho ficou reduzido a uma excrescência patética. No fundo da sua mente consegue ouvir uma voz trocista, sente o desdém quando a mulher nas suas fantasias se levanta do chão afastando-se de si, enfadada e desinteressada

 

Entra no caminho de acesso à sua casa e com o comando à distância abre a porta da garagem. A raiva é como uma serpente que se contorce dentro de si, exsudando veneno. O som do ladrar de um cão diminuto acompanha-o até ao interior da garagem. O estuporado do rafeiro da porta ao lado. A sua noite já estava arruinada e agora só lhe faltava aquilo

 

Sai do carro e aproxima-se do caixote do lixo. A porta automática da garagem já começou a descer. A cadelinha fraldiqueira estabelece contacto visual com ele, a latir continuamente recuando e avançando em direcção à porta que continua a baixar; ele já está a imaginar como agarrar a cadela, desferindo aquele saco improvisado contra a parede de cimento até se cansar.

 

Vem cá, Bitsy, meu grande monte de merda sobre patas murmura ele numa voz cheia de doçura. Porque é que não gostas de mim? Que mal é que eu te fiz?

 

A cadelinha começa a rosnar, emitindo um som tão feroz como o ruído de um apara-lápis eléctrico, mantendo-se firme na sua posição, olhando para trás, observando a porta da garagem que agora está a menos de trinta centímetros do chão, prestes a selar o seu destino.

 

Sabes que já matei fraldiqueiros como tu que só sabem dar caça às ratazanas? pergunta ele com um sorriso, dobrando-se para a frente. Achas que cheiro como o demónio? Estende a mão para o animal. É porque sou ele murmura quando a cadela se atira com a dentuça arreganhada.

 

O ruído do mecanismo automático da porta da garagem deixa de se ouvir.

 

Ouve-se o som surdo da tira de material amortecedor que cobre a base da porta abafando o ganir de surpresa.

 

 

Kate continuava a tremer quando chegaram a sua casa. Pela segunda vez nessa noite, Quinn insistira em acompanhá-la, ao que ela não se opusera. A recordação dos gritos continuava a ecoar-lhe na cabeça. Conseguia ouvi-los, ténues mas constantes; desceu do jipe sem dizer uma única palavra, saindo da garagem enquanto procurava as chaves da porta das traseiras; atravessou a cozinha e foi ao vestíbulo onde elevou a temperatura regulando-a no termostato do aquecimento central.

 

Durante todo este tempo, Quinn manteve-se atrás dela como se fosse a sua sombra. Kate esperara que ele dissesse alguma coisa quanto à lâmpada fundida na garagem, mas, se o fez, ela não o ouviu. Kate escutava apenas o latejar da sua própria pulsação que lhe ecoava nos ouvidos, o tilintar das chaves, ruído que era amplificado, o miar de Thor, o barulho surdo do motor do frigorífico... e sob todos esses barulhos, os gritos de um desespero pungente.

 

Estou cheia de frio disse Kate dirigindo-se para o seu pequeno escritório onde o candeeiro de mesa continuava ligado; no sofá antigo viu uma pequena manta de veludo que ficara amontoada. Lançou um olhar de fugida ao atendedor de chamadas a luzinha vermelha não piscava Pensando nos telefonemas que tinham sido feitos para o número do seu telemóvel, em que a pessoa desligara, às vinte e duas horas e cinco minutos, vinte e duas e oito e vinte e duas e dez.

 

Sobre o mata-borrão deixara um copo meio cheio de Wipphire com água tónica; há muito que os cubos de gelo se tinham derretido. Com uma mão tremente, pegou no copo bebendo um gole. A água tónica ficara choca, no que ela nem reparou dada uma total ausência de paladar. Quinn tirou-lhe o copo da mão pondo-o de lado, após o que a virou suavemente pelos ombros, colocando-a de frente para si.

 

Não tens frio? perguntou ela por perguntar. É preciso uma eternidade para que a caldeira aqueça esta casa. Provavelmente, já devia tê-la substituído... é tão velha quanto Matusalém, mas isso só me ocorre quando o tempo começa a arrefecer. Talvez fosse melhor eu acender a lareira sugeriu Kate para logo ficar sem pinta de sangue. Oh. meu Deus, como é que fui capaz de dizer isso? Tudo o que me chega às narinas é o cheiro a fumo e aquele horrível... Jesus, mas que coisa tão pavorosa... Engoliu com dificuldade olhando para o copo que naquele momento se encontrava fora do alcance da sua mão.

 

Com a mão na face de Kate, Quinn forçou-a a olhar para ele.

 

Acalma-te disse-lhe numa voz cheia de suavidade.

 

Mas...

 

Chiuiiu... Como se ela fosse de um cristal muito frágil, abraçou-a puxando-a mais para junto de si. Outro convite para se encostar a ele, para se abandonar às suas carícias. Mas Kate sabia que não devia permitir-se esse abandono. Se naquele momento cedesse àquela fraqueza, por um segundo que fosse, perder-se-ia. Precisava de continuar a mexer-se, continuar a falar, fazer qualquer coisa. Se ela cedesse, se não opusesse qualquer resistência, se não se ocupasse com qualquer coisa insignificante, em que a mente não fosse necessária, a maré do desespero faria com que soçobrasse, e depois onde é que acabaria?

 

Sem defesa nos braços de um homem por quem continuava a sentir-se apaixonada, mas que não podia pertencer-lhe.

 

Tudo o que aquela resposta abrangia era suficientemente pesado para afectar a pouca força de vontade que ainda lhe restava; ironicamente, aquilo tentava-a ainda mais a aceitar o apoio que Quinn lhe oferecia naquele momento.

 

Kate nunca deixara de o amar. Limitara-se a fechá-lo num cacifo no lugar mais secreto do seu coração, para que nunca mais voltasse a ver a luz do dia. Talvez na esperança de que acabasse por definhar, mas a verdade é que tinha ficado apenas num estado dormente.

 

Sentiu-se percorrida por outro arrepio; deixou que a sua cabeça encontrasse a parte côncava do ombro dele. Com o ouvido contra o peito de Quinn. Kate ouvia o bater do seu coração, o que lhe trouxe à memória todas as ocasiões, Há muito tempo, em que ele a abraçara e reconfortara, alturas em que ela tinha fingido que o que ambos partilhavam num momento furtado ao tempo duraria para todo o sempre

 

Como desejava ser capaz de fingir o mesmo agora. Queria fazer de conta que não tinham acabado de sair do local onde a ultima vitima de um crime fora encontrada, fingir que a sua testemunha não estava desaparecida e que Quinn se encontrava ali única e exclusivamente por ela. e não por imperativos de um trabalho que ele colocara sempre em primeiro lugar

 

Sentir uma tal sensação de segurança junto dele parecia-lhe ser uma injustiça tremenda, mas o contentamento dava a impressão de se encontrar tão perto que ao olhar para a sua vida a partir da posição vantajosa dos braços dele, de súbito, era capaz de ver todos os vazios, as peças que faltavam, as cores desbotadas e os sentidos entorpecidos. Que injustiça tão grande era aperceber-se de tudo aquilo numa altura em que tinha concluído ser preferível não precisar de ninguém e, acima de tudo, não necessitar da presença dele

 

Kate sentiu os lábios que lhe afloravam a testa, a face Indo contra a parte mais fraca da sua força de vontade. Kate virou o rosto para cima, num convite mudo para que os lábios de Quinn fossem ao encontro dos seus. Uma comunhão de sentimentos, cálida, perfeita e firme, os dois ajustavam-se entre si na perfeição. Sentiu-se invadida em partes iguais por um sentimento de mágoa e prazer, amargura e doçura. O beijo foi terno, cauteloso e suave pedido e não roubado E quando Quinn soergueu um pouco a cabeça, a interrogação e a cautela espelhavam-se nos seus olhos, como se todas as carências e dúvidas que a assolavam tivessem passado Para ele através daquele beijo

 

Preciso de me sentar disse Kate num murmúrio,

 

recuando alguns passos. Os braços dele soltaram-na fazendo com que sentisse o retorno do manto de frio que a envolveu qual estola invisível Pegou no copo em cima da secretária.

Quando se encaminhou para o sofá, aninhando-se a um canto e cobrindo as pernas com a manta de veludo. Não posso fazer isto disse numa voz que mal se ouviu, falando mais consigo própria do que com ele. è-me demasiado difícil. É cruel de mais. Não quero ter de apanhar outra vez os cacos da minha vida depois de regressares a Quântico Bebeu um pequeno gole de gim sacudindo a cabeça. Quem me dera que não tivesses vindo, John.

 

Quinn sentou-se ao seu lado, apoiando os antebraços em cima das coxas.

 

É isso que queres realmente, Kate?

 

Não respondeu ela com as lágrimas presas nas pestanas. Mas o que é que isso importa neste momento? Aquilo que eu desejo nunca esteve em consonância com a realidade. Kate acabou de beber o que restava no copo que pousou sobre a mesa, passando uma mão pelo rosto. Desejava que a Emily estivesse viva, mas a verdade é que morreu. Desejei que o Steven não me tivesse culpado pelo que aconteceu, mas ele culpabilizou-me. Desejei que...

 

Kate interrompeu-se. O que tinha ela para dizer naquele momento? Que desejara que Quinn a tivesse amado mais? Que tivessem casado e tido filhos, que tivessem decidido mudar-se para Montana onde teriam criado cavalos e feito amor todas as noites? Meras fantasias que deviam ter pertencido a alguém com um maior grau de ingenuidade. Jesus!, sentia-se uma idiota por alguma vez ter acalentado aquele género de devaneios que, posteriormente, guardara num canto poeirento da sua mente. Nem sequer sob tortura estaria disposta a partilhá-los, arriscando-se a mostrar uma atitude ainda mais patética.

 

Desejei uma data de coisas. Mas o facto de as desejar nunca significou que viessem a realizar-se acrescentou Kate. E agora só desejo poder fechar os olhos e não ver sangue, fechar os ouvidos e não ouvir gritos, encerrar este pesadelo e adormecer. E já agora, também podia desejar a Lua.

 

Quinn pousou uma mão no ombro dela; o seu polegar encontrou o nó de tensão muscular, começando a massajá-lo.

 

Se pudesse, Kate, dar-te-ia a Lua disse. Era uma frase antiga e familiar que costumavam trocar como se fosse uma recordação secreta. Também desejaria soltar as estrelas e trazê-las para a Terra, e com elas faria uma gargantilha que te ofereceria.

 

As emoções faziam com que Kate sentisse um ardor nos olhos, dissipando o último resquício de força de vontade que lhe restava. Sentia-se demasiado cansada e sofrida devido a tudo. O caso criminal, as recordações, os sonhos que se tinham desfeito. Cobriu o rosto com as mãos

 

Quinn envolveu-a nos seus braços e, uma vez mais, guiou a cabeça dela para o seu ombro

 

Está tudo bem sussurrou-lhe ao ouvido

 

Não, não está

 

Deixa que eu te abrace, Kate

 

Não era capaz de se obrigar a dizer não. A ideia de se afastar dele era-lhe insuportável, ter de ficar sozinha. Havia demasiado tempo que estava sozinha. Queria o conforto que ele lhe podia proporcionar. Queria sentir a força dele, o calor humano que irradiava do corpo de Quinn. Nos braços dele, Kate sentia estar onde pertencia pela primeira vez em muito tempo

 

Nunca deixei de te amar segredou-lhe ele

 

Kate abraçou-o com mais força, embora não confiasse nas suas reacções caso se atrevesse a olhá-lo.

 

Sendo assim por que motivo é que permitiste que eu te deixasse? perguntou numa voz trespassada de mágoa. E por que razão te mantiveste afastado durante todo este tempo? Pensei que era o que tu querias que eu fizesse, aquilo de que necessitavas. Pensei que era o melhor para ti. Não se pode dizer que me tenhas implorado, pedindo-me que me mostrasse mais interessado em ti quando acabámos.

 

A tua conduta estava a ser avaliada pelo Gabinete de Responsabilidade Profissional por minha causa

 

Por causa do Steven e não por tua causa corrigiu Quinn

 

Uma questão de semântica. O Steven queria castigar-te por minha causa, por causa de nós.

 

Enquanto tu querias esconder-te por causa de nós. Kate não tentou negar O que ambos haviam partilhado naquele amor secreto que os unira fora algo muito especial O tipo de magia que a maior parte das pessoas desejava, mas que nunca encontrava, o género de magia que nenhum dos dois tinha sentido anteriormente. Porém, quando o segredo Passou a ser do domínio público, ninguém fora capaz de se aPerceber da existência dessa magia Sob a luz crua do exame minucioso da opinião pública, o amor de ambos tinha-se transformado num caso amoroso vulgar e sórdido. Ninguém os compreendera; ninguém se esforçara por tal; ninguém quisera perceber. Ninguém se apercebera do desgosto que lhe ia na alma, das carências afectivas que sentia. Na perspectiva dos outros, ela não fora uma mulher prestes a soçobrar de desgosto, rejeitada por um marido que se tornara distante e amargo. Fora, isso sim, uma desavergonhada que enganara o marido desgostoso pela morte da filha que mal acabara de ser sepultada.

 

Kate não era capaz de negar que o seu próprio sentimento de culpa não tivesse reflectido alguns desses sentimentos, apesar de saber que tal não correspondia à verdade. Mentir nunca estivera na sua maneira de ser, tal como não estava na sua natureza enganar os outros. Tinha sido criada no seio de uma família onde se combinava um misto de sentimentos de culpa inerentes ao catolicismo e uma auto-reprovação muito característica dos Suecos. E a condenação a que ela se sujeitara por parte de si mesma devido à morte de Emily, a par do seu próprio sentido de quebra de princípios morais, haviam-se abatido sobre si qual vaga gigantesca, tendo sido incapaz de vir à superfície muito em especial, quando a única pessoa para quem ela se teria voltado à procura de apoio retrocedera, numa altura em que se debatia com as suas próprias mágoas e cóleras.

 

A recordação daquele turbilhão emocional fez com que Kate voltasse a pôr-se de pé, possuída de um enorme desassossego, irritada com os sentimentos que acompanhavam as suas recordações.

 

Nada te impedia de vires atrás de mim disse ela. Mas entre o Gabinete de Responsabilidade Profissional e o teu emprego, repentinamente, deixaste de estar presente para mim. Convenci-me de que gostavas mais do teu emprego do que de mim admitiu Kate num murmúrio, oferecendo a Quinn o arremedo de um sorriso. Pensei que finalmente tinhas acabado por concluir que eu te trazia mais problemas do que valia a pena.

 

Oh, Kate... Quinn aproximou-se dela, inclinou-lhe a cabeça para trás e fitou-a intensamente, olhos nos olhos. Os seus eram escuros como a noite, brilhantes e ardentes

 

Os dela espelhavam a incerteza que sempre o tocara com tanta profundidade a incerteza que se ocultava por baixo de muitas camadas de uma força feita de obstinação e refinamento.

 

Uma incerteza que ele reconhecia talvez por ser tão semelhante à que ele próprio sentia, uma faceta que ocultava e que tanto receava na sua maneira de ser

 

Deixei que partisses porque pensei que era o que desejavas fazer E atolei-me em trabalho porque era a única coisa capaz de atenuar o sofrimento que sentia. Entreguei-me a este emprego de alma e coração acrescentou Quinn. Já não sei se restará alguma coisa de mim que valha a pena ter. Contudo, sei que nunca amei o meu trabalho qualquer outra coisa ou alguém, como te amo, Kate

 

Esta não lhe deu réplica. Quinn tinha a percepção da passagem do tempo, de uma lágrima que correu pela face de Kate. Começou a pensar na maneira como se haviam apartado, em todo o tempo que ambos tinham perdido, sabendo que a situação era bastante mais complicada do que uma simples falta de comunicação. As emoções, os medos, o orgulho e a mágoa que se instalara sub-repticiamente entre os dois tinham sido sentimentos por de mais genuínos. Tão intensos e verdadeiros que nunca nenhum deles conseguira arranjar coragem para os encarar de frente. Tinha sido mais fácil deixar andar e isso fora a coisa mais difícil que ele tivera de fazer ao longo de toda a sua vida

 

Somos um par e pêras. disse Quinn num sussurro ecoando o que ela dissera no automóvel de Kovac. O que é que sentiste, Kate? Deixaste de precisar de mim? Deixaste de me amar? Achas que tu

 

Kate fechou-lhe a boca com dedos que tremiam, acompanhando o gesto com um abanar de cabeça

 

Nunca respondeu numa voz tão segredada que a palavra pouco mais era do que um pensamento. Nunca

 

Ela sentira ódio por ele. Guardara-lhe rancor. Censurara-o tentando esquecê-lo Mas nunca deixara de o amar. E que verdade tão aterradora que isso era. O facto de ao longo de cinco anos essa necessidade nunca ter definhado, nunca mais ter voltado a sentir uma emoção que se assemelhasse a essa. Naquele momento erguia-se dentro de si como uma chama que se tivesse reacendido das cinzas por entre a exaustão, medo e tudo o mais

 

Kate inclinou a cabeça de forma a que os seus lábios fossem ao encontro dos dele. Saboreou a boca de Quinn e o sabor salino das suas próprias lágrimas Os braços dele enlaçaram-na como se quisessem esmagá-la contra o seu corpo, dobrando-a para trás e ajustando o corpo dela ao seu

 

Oh, meu Deus, Kate, a falta que tu me tens feito. confessou com os lábios a aflorarem-lhe o ouvido. Tenho tido tantas saudades de ti.

 

Kate beijou-o na face, passando a mão pelos cabelos quase à escovinha.

 

Nunca senti tanta necessidade de alguém como senti de ti... Como sinto de ti...

 

Ele apercebeu-se da diferença, afastando-se um pouco para poder olhá-la de frente por uns momentos. Não lhe perguntou se ela tinha a certeza. Talvez receasse o que ela pudesse responder, deduziu Kate. O mesmo se passava com ela. Dentro de si não havia quaisquer certezas. O sentido de lógica deixara de existir, para além daquele momento não pensava em nada; sentia apenas o emaranhado dos seus sentimentos na forma mais pura, a necessidade que sentia em perder-se com Quinn... somente com ele.

 

Agarrou-o pela mão levando-o para o andar de cima. Quinn deteve-a por três vezes para poder beijá-la, tocar-lhe, enterrar o seu rosto nos cabelos dela. Chegados ao quarto, despiram-se mutuamente. Mãos que se atrapalhavam e dedos impacientes. A camisa dele atirada para as costas de uma cadeira, enquanto a saia dela caíra amarfanhada no chão. Sem nunca perderem o contacto físico que mantinham entre os dois. Carícias. Um beijo. Um abraço anelante.

 

Para Kate, o toque das mãos de Quinn era uma recordação que se sobrepunha ao tempo real. As carícias da mão dele na sua pele estavam impressas na sua mente, tal como no seu coração. Trouxeram à superfície o desejo que só sentira por ele. Uma ânsia imediata, num fluxo cálido, como que numa dor cheia de doçura. Como se tivessem estado afastados apenas durante cinco dias em vez de cinco anos.

 

Kate ficou sem respiração quando sentiu a boca dele nos seus seios, o corpo percorrido por um frémito quando a mão dele deslizou entre as suas pernas, e os seus dedos a encontraram húmida e quente. As ancas de Kate arquearam-se automaticamente, encontrando o mesmo ângulo em que se colocara tantas vezes no passado, há tanto, tanto tempo.

 

As mãos dela começaram a percorrer o corpo dele. Um território que lhe era familiar. Regiões planas, salientes e côncavas formadas por músculos e ossos. Uma pele macia e quente. O vale da sua espinha dorsal. A erecção do pénis de Quinn contra o seu corpo, firme como o mármore, suave como veludo. A coxa grossa e bem musculada que em momentos urgentes lhe afastava as pernas cada vez mais

 

Kate guiou-o para dentro de si, entregando-se ao estimulo máximo de ser preenchida por ele, de uma maneira perfeita, sentindo o mesmo que sentira de todas as vezes que ambos haviam feito amor. As sensações, o prodígio daquele acto, nunca se tinham atenuado, pelo contrário, haviam-se intensificado Tanto para ele como para ela. E isso Kate via nos olhos de Quinn que a fitava à luz do candeeiro da mesa-de-cabeceira, o corpo sobre o dela, o prazer intenso, o calor, a surpresa, o baque de desespero que provinha da percepção que ambos tinham de que aquela união de magia só acontecia entre os dois

 

Aquele pensamento fez com que Kate sentisse vontade de chorar. Ele era o único para ela, não existia outro homem. O homem com quem casara, e de quem tivera uma filha, nunca fizera com que ela sentisse, nem de perto nem de longe, o que Quinn lhe provocava apenas com a sua presença numa sala

 

Kate abraçou-o com mais força, como se quisesse fundir o seu corpo no dele, enterrando as unhas nas suas costas. Quinn beijou-a com todo o ardor, possessivamente, com a língua, com os dentes. Movia-se dentro dela com uma força cada vez maior, mas então retrocedeu, aliviando a pressão, evitando que ambos atingissem a plenitude do orgasmo

 

O tempo perdeu toda a sua dimensão. Os segundos deixaram de existir, dando lugar a respirações ofegantes e palavras murmuradas, os minutos diluíram-se, apenas o fluxo e refluxo do prazer Quando o acto foi finalmente consumado, teve lugar numa explosão de emoções que colidiram vindas dos dois extremos do espectro E depois chegou a estranha amalgama de paz e tensão, contentamento e inteireza, a par de prudência, até que a exaustão se sobrepôs a tudo o mais e ambos adormeceram nos braços um do outro

 

Prestem atenção!

 

Kovac inclinava-se pesadamente sobre a cabeceira da mesa no gabinete de crise instalado no antigo Toque Amoroso da Morte. Estivera em casa durante o tempo suficiente para ter adormecido na cadeira da cozinha à espera que o café ficasse pronto. Não tomara duche nem se barbeara, imaginando que estaria com a aparência de um vagabundo, com o fato todo desalinhado e amarrotado que usara no dia anterior. Nem sequer tivera tempo para mudar de camisa.

 

Todos os que formavam o grupo de trabalho tinham a mesma aparência de cansaço. Olheiras fundas e olhos congestionados. As rugas acentuavam-se profundamente nos semblantes pálidos.

 

A sala tresandava ao cheiro a fumo de cigarros, ao que se aliava o odor da transpiração e do café amargo, cheiros que se sobrepunham aos originais a mofo e a ratos. Sobre uma bancada havia um rádio portátil sintonizado na estação WCCO, cujo som competia com o de um televisor com ecrã de vinte e cinco centímetros sintonizado no canal K.STP; os dois aparelhos iam transmitindo os últimos noticiários que os meios de comunicação social tinham para oferecer tanto a ouvintes como a telespectadores. As fotografias do automóvel incendiado e da vítima número quatro haviam sido apressadamente afixadas num dos quadros, saídas há tão pouco tempo dos tabuleiros onde tinham estado mergulhadas em soluções do processo de revelação fotográfica que ainda se encaracolavam nas pontas.

 

Os jornalistas estão a ficar doidos com o que sucedeu ontem à noite disse Kovac. O Joe «Fumacento» deitou fogo à vítima praticamente debaixo dos nossos narizes.

 

e fez com que parecesse que temos estado para aqui sentados a pensar na morte da bezerra. Esta manhã tive de aturar o comandante e o tenente Fowler que me atazanaram o juízo Para encurtar uma longa história. Se não apresentarmos resultados dentro em breve, seremos todos destacados para o serviço nas cadeias a passar buscas às cavidades corporais dos presos

 

Isso será a coisa mais parecida com qualquer actividade sexual que o Tipo tenha tido durante os últimos anos comentou Adler trocista

 

Muito engraçadinho ripostou Tippen que improvisou uma fisga com um elástico lançando-lhe um clipe. Deixa-me começar por ti, Chunk. Importas-te que eu me sirva de um pé-de-cabra? Conseguimos impedir que tivessem conhecimento da existência da microcassete continuou Kovac, ignorando a troca de palavras entre os dois homens

 

Graças a Deus que nenhum repórter sabe da sua existência secundou Walsh examinando o estado do seu lenço de assoar. Nesta altura já seria a notícia principal em todos os meios de comunicação social da cidade

 

Kovac ainda não conseguira afastar da sua cabeça o som daqueles gritos. A perspectiva de aquela gravação poder ser ouvida em todas as casas das Twm Cities era o suficiente para que as suas entranhas andassem às voltas

 

A cassete já foi para o laboratório do Departamento de Perícia Criminal prosseguiu Kovac. Há um sabichão qualquer em tecnologia audio que já começou a trabalhar na gravação, tentando isolar quaisquer ruídos de fundo e coisas no género. Mais tarde, veremos o que é que ele tem para nos dizer. mAs, conseguiste encontrar o Vanlees?

 

Nada feito respondeu a interpelada com um abanar de cabeça. Ao que tudo indica, o único amigo chegado que ele tem é o dono da casa que está a guardar E podes crer que nos tempos mais próximos não fará novas amizades. A Mary e eu conseguimos chatear toda a gente que ele conhece, quando lhes telefonámos a meio da noite. No entanto, um dos fulanos disse que o Vanlees estava com muitas fanfarronadas acerca dessa casa. Ele pensa que deve situar-se na parte alta da cidade ou nas proximidades Perto de um lago

 

Já mandei um carro-patrulha que neste momento está à porta do apartamento onde ele vive em Lyndale acrescentou Kovac. Também destacámos uma -viatura para o Centro Target, e uma outra para o complexo residencial em Edgewater. Todos os polícias da cidade andam à procura da carrinha dele.

 

Não temos nenhum motivo que nos permita dar-lhe voz de prisão acentuou Yurek.

 

Também não precisamos de ter retorquiu Quinn, acabado de chegar e intervindo na conversa. No cabelo tinha flocos de neve que se derretiam. Com um movimento de ombros despiu a gabardina lançando-a para cima da bancada. Não se trata de nenhuma detenção. Só queremos pedir-lhe que coopere connosco. Se este último assassino for o Joe «Fumacento», então estará a sentir-se muito atrevido e cheio de presunção. Ontem à noite fez-nos passar por idiotas. Quando o Vanlees souber que os xuis lhe pedem que os ajude, ficará inchado que nem um pavão.

 

Não queremos que o tipo nos fuja por causa de um pormenor qualquer de ordem técnica, mais nada apontou Yurek.

 

À primeira pessoa que lixe as coisas dessa maneira, eu, pessoalmente, darei um tiro nas rótulas prometeu Kovac.

 

Então, chefe disse Tippen estreitando’ os olhos, acha que este gajo é o que queremos apanhar?

 

Ele ajusta-se muito bem ao perfil. Vamos trazê-lo até cá para termos uma pequena conversa, e depois tenciono sugerir que seja mantido sob vigilância cerrada. Temos de fazer com que sue as estopinhas para vermos até onde é que ele irá. Se conseguirmos abaná-lo, meter-lhe um grande cagaço, as portas começarão a abrir-se. Se as coisas nos correrem de feição, mais cedo ou mais tarde, arranjaremos um motivo que nos permita pedir um mandado de busca.

 

Acho que vou até Edgewater disse Liska. Quero estar à mão para poder acalmá-lo, talvez acabe por baixar as defesas.

 

Como é que ele lhe pareceu durante a reunião ontem à noite? perguntou Quinn.

 

Fascinado, um tanto excitado e cheio de teorias.

 

Por acaso sabe onde é que ele esteve no domingo à noite?

 

No local preferido de todos os suspeitos: em casa sozinho.

 

- Quando vocês o trouxerem para cá, quero estar presente prosseguiu Quinn. Não na sala em que o interrogarem, mas a observá-lo do lado de fora.

 

- Não tenciona interrogá-lo pessoalmente?

 

. Assim sem mais nem menos, não. Você próprio encarregar-se-á disso juntamente com alguém que ele nunca tenha visto. Provavelmente o Sam. Eu entrarei mais tarde.

 

Assim que o encontrarem avisem-me pelo beeper

 

pediu Kovac quando se começou a ouvir o toque de um telefone a alguma distância. Elwood levantou-se da mesa para atender. Tip, Charm, encontraram alguém que tenha visto a rapariga, refiro-me à DiMarco, a entrar no utilitário no domingo à noite?

 

Não respondeu Tippen. E o preço corrente para esse tipo de resposta é de dez dólares. A menos que seja o Charm. Nesse caso, pode conseguir-se uma resposta e em lugar de um sorriso, fazem-nos uma mamada.

 

Como se fosse uma grande coisa ficar com gonorreia de borla atalhou Yurek, lançando-lhe um olhar sinistro.

 

Para o Tip é disse Liska enfaticamente

 

Charm Telefone! chamou Elwood.

 

Mantenham-se em cima do assunto ordenou Kovac. Tratem de arranjar uns folhetos com a fotografia da rapariga e outra de um GMC. Jimmy. Perguntem ao tenente Fowler o que é que há quanto a uma recompensa. Existem boas hipóteses de ter havido alguém que andasse por essa área a essa hora da noite, uma pessoa capaz de denunciar a própria mãe por uns duzentos dólares.

 

De acordo.

 

Um de vocês, que tenha alguma diplomacia, tem de ir à Casa Phoenix para falar com essa pega que conhecia a segunda vítima prosseguiu Kovac.

 

Vou eu ofereceu-se Moss.

 

Pergunte-lhe se a Fawn Pierce tinha alguma tatuagem interveio Quinn sentando-se a contragosto à cabeceira da mesa. Massajou um nó que sentia na parte de trás do pescoÇo. A Lila White tinha uma tatuagem precisamente onde lhe faltava um naco de carne no peito. É possível que o Joe «Fumacento» seja um amante de obras de arte. Ou talvez seja um artista.

 

O que é que lhe deu essa ideia? perguntou Tippen sem ocultar o cepticismo, como se Quinn talvez tivesse acabado de puxar aquela saída do céu.

 

Fiz uma coisa que mais ninguém se deu ao incómodo de fazer: olhei com olhos de ver replicou sem estar com meias-palavras. Observei com atenção as fotografias que os pais da Lila White entregaram à detective Moss. Foram tiradas pouco tempo antes de ela morrer. Caso se verifique que a Fawn Pierce possuía uma tatuagem que tenha sido removida pelo assassino, precisam de descobrir onde é que as duas mulheres as fizeram, averiguando esses estabelecimentos e todos os que estejam associados a eles.

 

Sabemos se a Jillian Bondurant tinha alguma tatuagem? perguntou Hamill.

 

O pai diz que tanto quanto sabia, a filha não tinha nenhuma tatuagem.

 

A amiga dela, a Michele Fine, também afirma que nunca viu nenhuma adiantou Liska. E acho que ela saberia se fosse esse o caso. Ela própria tem o corpo cheio de marcas.

 

Alguma vez ela veio até cá para lhe tirarem as impressões digitais? inquiriu Kovac, remexendo num amontoado desorganizado de apontamentos.

 

Ainda não tive tempo para averiguar isso. Entretanto, começou a ouvir-se o toque de um telemóvel. Quinn praguejou entre dentes, levantando-se da mesa e levando a mão à algibeira do casaco.

 

Adler apontou para o televisor que mostrava imagens do automóvel que fora incendiado.

 

Ei, está ali o Kovak.

 

As luzes dos projectores emprestavam à pele de Kovac uma tonalidade de pergaminho. Mostrava uma expressão carrancuda para as câmaras, cerceando as perguntas dos repórteres com uma interpretação das frases já muito estafadas: «A investigação encontra-se numa fase muito melindrosa. Nesta altura não temos nenhum comentário a fazer.»

 

Precisas de te livrar desse bigode, Sam disse Liska. Pareces o Mister Peabody do Rocky and Bullwinkle.

 

A última vítima foi sujeita a alguma mutilação? perguntou Tippen do lugar onde estava a cafeteira do café.

 

A autópsia está marcada para as oito desta noite informou Kovac olhando para o seu relógio de pulso. Eram dezanove horas e quarenta minutos. Voltou-se para Moss. O Rob Marshall vai dos serviços jurídicos ter contigo à Casa Phoenix. São os manda-chuvas a mostrarem-se muito simpáticos em público com os Urskine, depois de a «rainha das cabras do Norte» ontem à noite ter levantado a merda

 

«Pessoalmente, não me interessa até que ponto é que eles possam sentir-se ofendidos prosseguiu. Só quero alguém que possa ter uma conversa de coração aberto com o consorte da «vampira», ainda esta noite, na esquadra Mary, não te esqueças de lhe pedir que venha até cá, e quando ele quiser saber porquê, mostra-te vaga. Diz-lhe que é um procedimento rotineiro, qualquer coisa nestes moldes. Aproveita para lhes perguntar se têm algum recibo de um cartão de crédito, ou cheque cancelado, referente ao fim-de-semana em que a Lila White foi morta, e que eles dizem ter passado na montanha

 

«O Gregg Urskine foi uma das ultimas pessoas a ver a nossa testemunha ontem à noite. A primeira também residiu na casa de que a mulher é directora Enquanto a segunda era amiga de uma das pegas que lá reside actualmente. Na minha opinião, são coincidências a mais declarou Kovac

 

A Tom Urskine começara imediatamente a telefonar para todos os meios de comunicação social da área metropolitana acautelou Yurek

 

Se nos comportarmos com cortesia, a sua atitude só servirá para que fique malvista contrapôs Kovac. Estamos a proceder com a maior minúcia, sem deixarmos nada ao acaso. Ao fim e ao cabo, era o que a Tom Urskine queria

 

A reunião de ontem à noite deu alguns resultados positivos’ perguntou Hamill

 

Nada que nos seja útil em relação aos carros replicou Elwood. Apenas a cassete de vídeo

 

Vejo-a mais tarde disse Kovac, consultando uma vez mais o relógio. A médica já deve estar a amolar as facas. Vem comigo, chefe?

 

Quinn levantou uma mão dando-lhe a entender que o ouvira e preparando-se para acompanhá-lo. Ambos foram buscar os agasalhos saindo por uma porta das traseiras

 

A neve tapara os detritos espalhados pela viela incluindo a sujidade que cobria o automóvel de Kovac ocultando os danos provocados nos pneus por garrafas de várias marcas de bebidas alcoólicas que costumavam estar espalhadas pelo pavimento daqueles becos da baixa, quais Berrantes folhas mortas. Kovac retirou uma escova que estava por baixo de toda a cangalhada que acumulava no assento de trás e limpou o pára-brisas, o capot e as luzes traseiras.

 

Ontem à noite regressou ao hotel sem dificuldade? perguntou enquanto se acomodava e ligava a ignição. Eu podia muito bem ter-lhe dado boleia. O hotel não fica muito fora do meu caminho.

 

Não. Não tive problema nenhum. Cheguei ao hotel sem dificuldade redarguiu Quinn mantendo os olhos no que tinha à sua frente. Sentia o olhar penetrante de Kovac em si. A Kate ficou muito perturbada por causa da gravação; quis certificar-me de que ela ficava bem.

 

Hum... hum. E ficou? Quer dizer... bem?

 

Não. Está convencida de que esse cadáver é a sua testemunha, e que os gritos que ouvimos na gravação eram dela sob tortura. Culpa-se a si mesma pela morte da rapariga, apesar de não se saber se é realmente ela.

 

Bem, nesse caso, talvez tenha sido boa ideia tê-la levado a casa. E depois como é que fez? Teve de apanhar um táxi na baixa?

 

Sim respondeu Quinn mentindo descaradamente, continuando a ter no pensamento as imagens daquela manhã.

 

Despertara ao lado de Kate na almofada ao lado da dela, à luz pouco intensa da manhã; tocara-lhe, ficando a observar aqueles olhos cinzento-claro, de uma beleza inacreditável, que se abriam deixando ver a incerteza que se reflectia neles. Teria preferido poder dizer que o facto de terem feito amor resolvera todos os problemas que existiam entre os dois, mas, isso não corresponderia à verdade. Aquela união sexual propiciara-lhes algum consolo, permitindo que as duas almas se reencontrassem, mas, para além disso, complicara tudo o mais. Mas, por Deus, tinha sido como que um regresso ao paraíso depois de anos passados no purgatório

 

E agora? A pergunta por formular mantinha-se suspensa entre os dois, provocando algum mal-estar entre ambos enquanto se lavavam e vestiam; já a caminho da porta, cheios de pressa, os dois tinham agarrado qualquer coisa para comer. Não houvera nenhum arrebol de nascer do dia. tão-pouco beijos nem manifestações de paixão que tivessem ficado da noite anterior. Não tinham tido tempo para conversar, duvidando ele até que isso pudesse ter acontecido

 

A primeira tendência dela quando se sentia encurralada era recolher-se em si mesma, fechar a porta e ficar a ferver. Deus sabia que ele não reagia de forma muito mais positiva. Ela tinha-o deixado ficar no Radisson. Quinn barbeara_se com demasiada rapidez, vestira outro fato e saíra porta fora Já bastante atrasado

 

Tentei telefonar-lhe esta manhã continuou Kovac engrenando a marcha atrás embora continuasse a manter o pé no acelerador. Você não atendeu

 

Devia estar no chuveiro replicou Quinn sem deixar adivinhar nada na sua expressão. Deixou alguma mensagem? Não tive tempo de perguntar na recepção

 

Só queria saber como é que a Kate estava a sentir-se

 

Sendo assim, porque não ligou para casa dela? perguntou Quinn sentindo alguma irritação Mas olhou para o rosto de Kovac mudando rapidamente de assunto. Sabe se você tivesse mostrado tanto interesse aquando do assassínio da White, talvez não estivéssemos aqui neste momento

 

Kovac corou Mais por se sentir culpado do que encolerizado, concluiu Quinn, embora a expressão de cólera fosse mais forte

 

Investiguei o caso de acordo com as regras

 

Você tomou pela faixa mais rápida, Sam De que outra maneira é que justifica o facto de a tatuagem lhe ter passado despercebida?

 

Perguntámos, tenho a certeza que sim. é forçoso que tenhamos averiguado isso insistiu Kovac, primeiro seguro, mas depois não tanto, e por fim nada seguro das suas afirmações. Soergueu o pescoço olhando através da janela traseira enquanto tirava o pé do acelerador. Talvez não tenhamos perguntado à pessoa mais indicada. Também é possível que ninguém tenha reparado na porra desse pormenor

 

Os pais dela são um casal como deve ser de uma pequena cidade agrícola. Passa-lhe pela cabeça que lhes tivesSe passado despercebido que a filha tinha a tatuagem de um hrio no peito? Pensa que nenhum dos seus clientes regulares não teria reparado nisso?

 

Kovac aumentou as rotações do motor saindo do estacionamento com velocidade excessiva, após o que travou com brusquidão a mais. O Caprice derrapou na neve molhada bastante escorregadia, e o resultado foi o pára-choqUe traseiro ter batido contra um Dumpster de recolha do lixo com um ruído cavo que não augurava nada de bom.

 

Merda!

 

Quinn encolheu-se, mas pouco depois descontraiu-Se. continuava a manter a sua atenção em Kovac.

 

Você nunca chegou a averiguar a veracidade do álibi dos Urskine em relação ao fím-de-semana em que a Lila White foi assassinada.

 

Não os forcei a apresentar-me um rec’ibo. Que diabo de motivo é que eles teriam para matar a mulher? Nenhum. Acrescente-se ainda que a Toni Urskine andava a levantar uma tal celeuma, afirmando que não nos esforçávamos o necessário...

 

Eu tive oportunidade de ler os relatórios atalhou Quinn. Durante uma semana você dedicou-se efectivamente à resolução do caso, mas depois foi-se: desinteressando cada vez mais. O mesmo aconteceu em rellação ao assassínio da Fawn Pierce.

 

Kovac abriu uma fresta da janela, acendeu um cigarro e soprou para fora do automóvel a primeira baforada de fumo. O Caprice continuava inclinado com a traseira contra o Dumpster. Entretanto, Liska saiu do edifício e, apontando para o colega, abanou a cabeça e entrou no carro.

 

Certamente que já lhe passou pelas mãos um número suficiente de casos como este para saber com© é que as coisas funcionam prosseguiu Kovac. Há uma puta que vai desta para melhor, e o comando policial fica tão preocupado como com o atropelamento de um cão vadio. É identificá-las, embrulhá-las e dar seguimento a uma investigação sumária. Na hipótese de o caso não se resolver com a rapidez desejada, fica em banho-maria, dando lugar aos cidadãos que pagam impostos e que são assassinados por cônjuges ciumentos ou assaltantes de automóveis alucinados pelo consumo de crack. Fiz o que me foi possível acrescentou Kovac observando a neve com um olhar fixo através do pára-brisas.

 

Acredito em si, Sam afirmou Quinn., embora pensasse que Kovac não acreditava inteiramente em si próprio. O pesar lia-se nos vincos profundos que lhe sulcavam o rosto. Mas é uma pena que os vossos esforços não tenham sido suficientes para as três vítimas que se seguiram.

 

quanto tempo é que conhecia a Fawn Pierce?

 

Perguntou Mary Moss. Encontrava-se no escritório da Casa Phoenix sentada num dos extremos de um sofá forrado de um tecido verde cor de ervilha, estendendo um convite silencioso a Rita Renner para que se sentasse junto de si, criando uma atmosfera de uma certa intimidade. Sentia uma mola a espetar-lhe o rabo.

 

Mais ou menos dois anos respondeu Renner numa voz tão baixa que Mary estendeu a mão para o pequeno gravador em cima da mesinha de café, empurrando-o para mais perto da rapariga. Conhecemo-nos na baixa e ficámos amigas

 

Trabalhavam na mesma zona?

 

A jovem ergueu o olhar para Tom Urskine sentada no braço do so´fá, com uma mão pousada no ombro de Renner num gesto que pretendia instilar-lhe segurança. Depois fitou Rob Marshall que se mantinha de pé, no outro lado da mesinha de café, com mostras de um desassossego fruto da impaciência por não se encontrar num outro local qualquer. A sua perna esquerda agitava-se como um motor a trabalhar ao ralenti

 

Sim respondeu ela Trabalhávamos na rua dos clubes nocturnos e no Centro Target. A sua voz dava a impressão de ecoar de uma outra dimensão Tão sossegada e tímida, usava um par de calças de ganga já velhas e uma camisa de flanela axadrezada. As parecenças com uma mulher que vendia o corpo à escumalha com tesão que percorria as ruas de má nota de Minneapolis e que pagava para satisfazer os seus prazeres sexuais eram muito poucas. Mas era preciso não esquecer que aquela rapariga era a Rita Renner «recuperada», e não a mulher que fora presa por posse de estupefacientes, tendo-se descoberto posteriormente que escondia o seu cachimbo de crack na vagina. A diferença que a temperança tinha feito

 

Sabe se ela tinha algum inimigo? Alguma vez viu alguém a assediá-la na rua contra a sua vontade

Todas as noites respondeu Renner mostrando-se confusa. Essa é a maneira de ser dos homens acrescentou lançando um olhar velado por entre as pestanas, e de fugida, a Rob. Não sei se sabe mas houve uma ocasião em que ela foi violada. As pessoas pensam que é impossível violar uma pega, mas isso não é verdade. Os xuis conseguiram apanhar o tipo que foi de cana, mas não por ter violado a Fawn. Ele também se tinha posto em cima de uma contabilista num parque de estacionamento coberto na baixa. Foi por esse crime que veio a ser preso. Nem quiseram que a Fawn testemunhasse em tribunal. Como se o que ele lhe fez não tivesse a mínima importância.

 

O testemunho com referência à alegação de outros crimes da mesma natureza cometidos por um determinado acusado não é admissível em tribunal, Miss Renner. adiantou Rob. O que até certo ponto é uma injustiça, não lhe parece?

 

Mete nojo!

 

Essa particularidade devia ter sido explicada a Miss Fawn. Sabe se ela falou alguma vez com alguém dos serviços de apoio às vítimas e testemunhas?

 

Sim, falou, mas depois disse que isso era uma treta da merda. Devia ter voltado mais algumas vezes, mas faltou sempre. Tudo o que eles queriam era reconstituir o que lhe acontecera.

 

A reconstituição de acontecimentos traumáticos é um aspecto crucial em qualquer processo de terapia psicológica declarou Rob. Esboçou um sorriso um tanto desajeitado que fazia com que os seus olhos pequenos e porcinos quase desaparecessem. Costumo recomendar veementemente esse processo a todas as pessoas cujos casos passam por mim. De facto, até as aconselho a gravarem pessoalmente, durante um determinado período de tempo, o que dizem quando debatem as suas experiências, de maneira a poderem ouvir as alterações que se verificam nas suas emoções e atitudes, à medida que o processo de cura se vai desenrolando. Pode ser bastante catártico.

 

Renner limitou-se a olhá-lo com fixidez, a cabeça ligeiramente inclinada de lado, como se fosse um pássaro pequeno que contemplasse algo estranho e novo.

 

Mary conteve um suspiro de impaciência. O facto de haver alguém que não fizesse parte das forças da lei a «ajudar» durante uma conversa daquele tipo era tão útil como um dedo mindinho suplementar em qualquer pessoa.

 

Sabe de alguém em particular que possa ter querido fazer mal à Fawn, fosse de que maneira fosse?

 

Ela disse-me que havia um tipo que não parava de lhe telefonar. A chateá-la.

 

Quando é que ela lhe disse isso?

 

. Uns dois dias antes de morrer.

 

. Ela disse como é que esse fulano se chamava?

 

. Não me lembro. Eu nessa altura andava muito com a cabeça no ar. Calculo que tivesse sido um dos mecos com quem ela se deitava. Mas podem verificar nos extractos das contas telefónicas, não é verdade?

 

Isso só resultaria se tivesse sido ela a telefonar ao homem.

 

Os telefonemas não ficam registados num computador qualquer? perguntou Renner franzindo a testa.

 

Se você soubesse como é que ele se chama, podíamos ver nos extractos telefónicos dele.

 

Não sei. As lágrimas assomaram aos olhos de Rita que fitava Toni Urskine, a qual, uma vez mais, lhe deu uma palmadinha encorajadora no ombro. A Fawn costumava chamar-lhe «sapo». Recordo-me disso.

 

Infelizmente, não me parece que esse seja o nome que conste dos arquivos da companhia de telefones disse Rob Marshall.

 

Toni Urskine brindou-o com um olhar de poucos amigos antes de lhe dar resposta.

 

Não há necessidade de estar com sarcasmos. A Rita está a cooperar da melhor maneira que sabe.

 

Claro que sim apressou-se Rob a dizer, tentando remediar o deslize. Não foi minha intenção insinuar o contrário acrescentou com um sorriso, que denotava nervosismo, dirigido a Rita Renner. Está lembrada de alguma conversa que tenha tido com a Fawn acerca desse... sapo! Se for capaz de reconstituir uma conversa na sua mente, é possível que lhe ocorra algum pormenor desses.

 

Não sei! redarguiu Renner numa voz lamurienta arrepanhando uma ponta da saia que enrolou à volta da mão. Nessa altura eu andava sempre pedrada. E... e porque é que havia de me lembrar? Ela não andava assustada por causa dele nem nada do género.

 

Não se preocupe, Rita. Pode ser que se recorde mais tarde atalhou Moss, tentando tranquilizá-la. Sabe dizer-me se a Fawn tinha alguma tatuagem?

 

Renner ficou a olhar para a detective, confundida de novo por aquela súbita mudança de assunto.

 

Claro que tinha; umas duas ou três. Porquê?

 

Pode dizer-me em que parte do corpo é que ela as tinha

 

Tinha uma rosa num tornozelo e um trevo no estômago; também tinha um par de lábios com uma língua que parecia sair-lhe do rabo. Porquê?

 

Moss foi salva, não se vendo obrigada a responder com uma mentira inofensiva, por Gregg Urskine, que escolheu aquele preciso momento para entrar na sala com um tabuleiro onde trazia uma cafeteira e chávenas. Mary tirou o gravador da mesinha de café, levantou-se e esboçou um sorriso de desculpa.

 

Lamento, mas não posso demorar-me mais. Obrigada pela intenção.

 

Não quer tomar qualquer coisa quente antes de sair para o frio, detective? perguntou Urskine exibindo uma expressão de uma vaga afabilidade.

 

Não tenho tempo, mas agradeço na mesma.

 

Suponho que hoje esteja a sentir-se sob uma pressão maior do que habitualmente disse Toni Urskine num tom em que estava implícito um prazer malicioso. Tendo em vista tudo o que sucedeu ontem à noite, não há dúvida de que o grupo de trabalho está a dar uma imagem excepcionalmente inepta.

 

Estamos a fazer tudo o que nos é possível retorquiu Moss. De facto, o sargento Kovac até me pediu que lhe dissesse para passar pela esquadra ainda hoje, Mister Urskine; agradeço-lhe que leve uma fotocópia do recibo da conta da estalagem onde ficou hospedado no fim-de-semana em que a Lila White foi assassinada.

 

O quê?! vociferou Toni Urskine furiosa, levantando-se repentinamente do sofá. Isso é ultrajante!

 

É uma simples formalidade garantiu-lhe Mary Moss. Só estamos a tentar cobrir todas as possibilidades.

 

A isso chama-se importunar as pessoas.

 

É um mero pedido. É claro que nesta fase das investigações não são obrigados a cooperar. O sargento Kovac não achou que houvesse necessidade de eu vir munida de uma intimação, levando em consideração a veemência que vocês mostraram para que esta investigação seja escrupulosamente levada a cabo.

 

Gregg Urskine soltou uma risada nervosa concentrando toda a sua atenção em Toni.

 

Não te preocupes, minha querida. Tenho a certeza de que hei-de encontrar esse recibo sem qualquer dificuldade.

 

Mas isto é um ultraje! ripostou Toni, desabrida.

 

Vou telefonar ao nosso advogado. Em toda esta situação limitámo-nos a agir como cidadãos conscienciosos, mais nada, e este é o tratamento que merecemos por parte da Polícia! Acho que está na hora de se ir embora, Miss Moss. Mister Marshall acrescentou ela incluindo Rob, como se o nome deste lhe tivesse ocorrido no último instante.

 

Está a parecer-me que o que temos aqui é um simples problema de comunicação adiantou Rob com um esgar de nervosismo. Se o meu departamento puder de alguma maneira facilitar...

 

Agradeço-lhe que saia.

 

Vamos lá a ver, Toni... começou Gregg Urskine, estendendo a mão num gesto conciliatório.

 

Ponha-se na rua! berrou ela afastando bruscamente a mão do marido, para quem nem sequer olhou.

 

Só estamos a tentar fazer o melhor que nos é possível em relação às vítimas, Mistress Urskine contemporizou Moss numa voz serena. Pensei que era isso o que a senhora desejava. Ou essa vontade só se manifesta quando as câmaras estão a filmar?

 

Já teve oportunidade de falar com a sua amiga em Milwaukee? inquiriu Kate. Chegou a enviar-lhe uma fotografia por fax, não é verdade?

 

Sim, mandei-o imediatamente respondeu Susan Frye.

 

Kate agradeceu a Deus ter-lhe ocorrido telefonar em vez de ter ido ao gabinete da mulher. Sabia que não seria capaz de ocultar a frustração e impaciência que sentia. A tensão fizera estalar a camada de verniz das suas boas maneiras, pondo à vista os nervos em franja, o que se devia à enorme tensão emocional em que se encontrava. Naquele estado, pensou, qualquer resposta menos adequada faria com que perdesse as estribeiras, passando a comportar-se com o frenesim do tipo armado com quem se confrontara no átrio do prédio.

 

Ela tem andado muito ocupada com um julgamento acrescentou Frye. Mas vou ligar-lhe e se não conseguir falar com ela deixo-lhe uma mensagem.

 

Ainda hoje. Tardiamente, Kate apercebeu-se de que a sua maneira de falar podia ser interpretada como sendo uma ordem, ao invés de um pedido. Por favor, Susan? Estou numa grande aflição por causa da miúda. Não sei o que é que o Rob pensa de tudo isto. Ele devia ter entregue a miúda a alguém do vosso lado da vedação. Eu não costumo trabalhar com miúdos. Não sei como agir com eles. E agora ela desapareceu...

 

Ouvi dizer que ela talvez tenha morrido retorquiu Frye sem estar com rodeios. Eles pensam que a vítima da noite passada é ela, não é verdade?

 

Ainda não temos a certeza absoluta replicou Kate, para depois desenhar com os lábios a palavra cabra. Uma bela amiga, sempre pronta a desferir um golpe baixo. Mas ainda que isso venha a confirmar-se, continuamos a ter de saber quem ela é... ou era, para que possamos entrar em contacto com a família.

 

Posso garantir-lhe desde já, Kate, que não encontrará ninguém que se interesse por ela, caso contrário, ela não teria acabado nesta grande trapalhada. Pobre garota, teria sido melhor se a mãe tivesse abortado durante o primeiro trimestre de gravidez.

 

A insensibilidade daquele comentário atingiu Kate profundamente enquanto agradecia a Susan Frye pela sua ajuda, um tanto ou quanto dúbia, após o que desligou o telefone. Mas aquelas palavras levaram-na a perguntar a si mesma qual o motivo que teria trazido Angie DiMarco a este mundo... O destino? O acaso? O amor? O desejo que alguém tinha de receber mensalmente um cheque da Assistência às Famílias com Crianças Dependentes? Teria a sua vida começado logo a correr mal aquando da concepção, ou teriam os erros surgido posteriormente, como a perda de brilho que pouco a pouco vai alastrando pelos objectos de prata, inicialmente exibindo uma superfície muito brilhante?

 

O seu olhar dirigiu-se para a pequena moldura com a fotografia de Emily colocada na face lateral de uma estante. Uma pequena vida cheia de beleza, radiante, com a promessa de um futuro promissor. Imaginou se Angie alguma vez teria tido uma expressão de tanta inocência como a filha, ou se, pelo contrário, os seus olhos teriam reflectido sempre a amargura de uma existência sem qualquer esperança.

 

Pobre garota, teria sido melhor se a mãe tivesse abortado durante o primeiro trimestre de gravidez.

 

No entanto, Angie DiMarco continuava a a levar a sua triste existência, enquanto a vida de Emily fora ceifada

 

Num movimento súbito, Kate levantou-se da cadeira, começando a percorrer o espaço exíguo do seu gabinete. Caso não desse em doida até ao fim do dia, isso dever-se-ia a um verdadeiro milagre

 

Esperara uma ordem do gabinete de Sabin a qualquer instante ou, no mínimo, uma ordem do gabinete de Rob cuja finalidade seria dar-lhe uma reprimenda formal pelas coisas que dissera no parque de estacionamento na noite anterior Mas, contra as suas expectativas, essa ordem não se concretizara até ao momento. Por conseguinte, tentara afastar da sua mente os pensamentos sobre a possível morte de Angie, optando por tomar medidas «proactivas» com que tentava inteirar-se da vida da jovem. Mas logo que retardava o seu processo de pensamento, começava a ouvir os gritos na gravação

 

E de cada vez que tentava pensar em qualquer coisa inteiramente diversa, os seus pensamentos concentravam-se em Quinn. Sem querer que este lhe invadisse a mente, voltou a sentar-se pegando no auscultador do telefone, começou a ligar outro número. Tinha outros casos em que pensar. Pelo menos, até Rob decidir despedi-la

 

Telefonou a David Willis, que lhe deu uma explicação muito alongada, e excessivamente pormenorizada, de como proceder para deixar uma mensagem no seu atendedor de chamadas. Em seguida, tentou apanhar em casa a sua vitima de crime de estupro, mas teve a mesma sorte, após o que decidiu experimentar o número do emprego da rapariga, mas o gerente da livraria especializada em material pornográfico informou-a de que Melanie Hessler fora despedida

 

Desde quando? perguntou Kate num tom autoritário

 

Desde hoje. Faltou demasiadas vezes ao trabalho

 

Ela sofre de tensão emocional pós-traumática acentuou Kate Devido a um crime que foi cometido no seu estabelecimento, se me permite acrescentar

 

Não aconteceu por nossa culpa

 

O estado de tensão pós-traumática, de acordo com as determinações jurídicas, é abrangido pela lei que rege os acidentes de trabalho. Kate filou pelos dentes aquela demonstração de injustiça, quase satisfeita por lhe ter surgido a oportunidade de descarregar em alguém. Se agir com discriminação contra a Melanie, com base neste acidente de trabalho, ela poderá processá-lo arrancando-lhe até ao último centavo.

 

Ouça, minha senhora ripostou o gerente, talvez deva falar com a Melanie sobre este assunto antes de começar a andar por aí a ameaçar as pessoas, porque não me parece que ela tenha ficado numa grande aflição por causa disto. Nem sequer ouvi um único pio da boca dela durante toda a semana.

 

Pensei que me tinha dito que a despediu.

 

E despedi. Deixei o recado no atendedor de chamadas de casa dela.

 

Você despediu-a através do atendedor de chamadas?’ Que espécie de sacana cobarde é que você é?

 

A espécie que lhe vai desligar o telefone, sua cabra! ripostou o homem, batendo o auscultador com toda a força.

 

Com uma expressão abstraída, Kate desligou o telefone, tentando recordar-se da última vez que falara com Melanie Hessler. Havia uma semana, no máximo, calculou Kate. Antes do caso do Cremador. Desde então que não tivera tempo para lhe ligar. Angie tomara-lhe todo o tempo. Agora que reflectia no assunto, tinha a impressão de que há muito não falava com Melanie. À medida que a data do julgamento se aproximava, os telefonemas tinham-se tornado mais frequentes, na mesma proporção em que os nervos da rapariga iam ficando cada vez mais à flor da pele.

 

Nem sequer ouvi um único pio da boca dela durante toda a semana.

 

Kate imaginou que ela pudesse ter ido para fora, mas. a ser esse o caso, Melanie tê-la-ia informado dessa ausência. O contacto que ela mantinha com Kate era semelhante ao de alguém que estivesse em liberdade condicional com o responsável pelo seu comportamento fora da cadeia. Sentiu que havia ali qualquer coisa que não batia certo. O tribunal, movido pela sua infinita sabedoria, achara por bem permitir que os agressores de Melanie fossem postos em liberdade sob fiança; todavia, os policiais mantinham-nos sob vigilância, o que era feito com eficiência; o detective responsável pelo caso acompanhava a situação muito de perto.

 

«A verdade é que estou receosa e enervada por tudo o que se passou com a Angie» pensou Kate para consigo. Muito provavelmente não haveria razão para tanto alarme. Apesar daquele raciocínio, decidiu seguir os seus instintos, pegando de novo no telefone e começando a marcar o número do detective da Brigada de Atentados ao Pudor

 

No entanto, ele também não tinha notícias da vitima embora soubesse que um dos homens que a violara fora detido pela polícia, durante o fim-de-semana por ter abusado sexualmente de uma ex-namorada. Kate partilhou com ele as suas preocupações pedindo-lhe que passasse por casa de Melanie Hessler, só para se certificar de que não havia nada de anormal

 

Logo depois do almoço irei até lá. Obrigada, Bernie. És um amor. O mais certo é eu estar para aqui com paranóias desnecessárias, mas

 

Só porque estás a sentir-te paranóica não quer dizer que a vida não esteja à coca para te pregar partidas.

 

É verdade, e nesta altura não posso dizer que a minha sorte esteja exactamente no seu melhor

 

Aguenta-te, Kate. As coisas podem alterar-se para o pior a qualquer altura

 

Sentido de humor de polícia. Mas naquele dia não estava com disposição para o apreciar devidamente. Tentou concentrar a sua atenção numa pilha de papeis em que tinha de trabalhar, mas afastou-os para o lado, tirando de uma gaveta o processo de Angie na esperança de que talvez encontrasse alguma coisa que lhe sugerisse qualquer medida a tomar. Sentada naquele gabinete sem fazer nada, à espera, faria com que o seu cérebro corresse o risco de explodir

 

O processo era pouco espesso, o que não augurava nada de bom. Suscitava mais perguntas do que dava respostas. Poderia a rapariga ter decidido abandonar a Casa Phoenix? E, nesse caso, a que se devia o sangue? Mentalmente, viu a cena na casa de banho, a marca de uma mão ensanguentada nos azulejos, o fio de sangue diluído que corria pelo ralo, as toalhas ensanguentadas no cesto da roupa suja. Uma quantidade de sangue maior do que qualquer explicação minimamente razoável pudesse justificar

 

No entanto se Joe «Fumacento» tinha ido a casa com a intenção de a sequestrar, como teria ele descoberto o seu paradeiro? Como era possível que Rita Renner não tivesse dado conta de nada, barulho de portas, alguém a debater-se contra um atacante, absolutamente nada

 

Novamente, mais perguntas do que respostas. O telefone começou a tocar, Kate atendeu meio esperançada e meio receosa com a hipótese de ouvir Kovac do ou tro lado da linha com notícias sobre a autópsia da vitima número quatro

 

             Kate Conlan

 

Miss Conlan? perguntou a voz cheia de cortesia de uma secretária que lhe daria notícias desagradáveis de outra natureza. Mister Sabin gostaria que viesse imediatamente ao seu gabinete

 

 

Então? O sargento Kovac vem ou não vem? Liska viu as horas no seu relógio de pulso voltando a entrar na sala reservada aos interrogatórios. Já era quase meio-dia e a temperatura na sala era desconfortavelmente quente. Havia quase uma hora que Vanlees esperava, o que não lhe estava a agradar nada

 

Ele já vem a caminho. Deve chegar a qualquer momento. Assim que você me disse que concordava em falar connosco, telefonei-lhe imediatamente. Gil Na verdade, ele quer saber qual é a sua opinião em relação á Jilhan. Mas bem vê, está na morgue por causa da autópsia. o cadáver da mulher que foi queimada ontem à noite. É por esse motivo que está atrasado Mas tenho a certeza de que não tardará muito

 

Liska já dissera a mesma coisa ao homem pelo menos três vezes, sendo óbvio que ele estava farto de ouvir a mesma desculpa

 

Sim, sim. Bom, você sabe que estou disposto a cooperar, mas tenho mais que fazer disse Vanlees. Sentava-se à mesa defronte de Liska, vestia a roupa com que fora trabalhar um par de calças de um azul-marinho e camisa Como qualquer zelador de um prédio podia usar, pensou Liska Semelhante ao uniforme de um polícia sem os acessórios próprios da profissão. Ainda tenho de ir trabalhar esta tarde

 

Quanto a isso não terá quaisquer problemas retorquiu ela com um gesto indicando que aquele assunto já fora resolvido. Eu própria falei com o seu patrão. Não quis que viesse a ter problemas por ter procedido como um bom cidadão

 

Vanlees ficou a olhar para ela com uma expressão indicadora de que aquela ideia não lhe agradava por aí além

 

Agitou-se na cadeira. O seu olhar fixou-se no espelho recortado na parede por detrás de Liska.

 

Não sei se sabe, mas temos um desses no Centro Target, nos escritórios. Está alguém do outro lado?

 

Porque é que haveria de estar alguém no outro lado? perguntou Liska muito inocentemente, pestanejando. Você não está sob prisão, longe disso. Encontra-se aqui apenas para nos ajudar.

 

Vanlees ficou a olhar para o vidro espelhado.

 

Liska virou-se para trás seguindo-lhe o exemplo, perguntando a si mesma qual seria o seu aspecto aos olhos de Quinn. Certamente que era semelhante ao de qualquer frequentadora assídua de bares com um ar estafado. Se as olheiras ficassem mais profundas, ela iria precisar de um carrinho de transporte de bagagem para as trazer consigo. A meio de uma investigação criminal, em que se tentasse apanhar um assassino em série, não era exactamente a melhor altura de querer impressionar ninguém com uma aparência física fresca e boa.

 

Isso quer dizer que já ouviu falar da quarta vítima continuou Liska voltando-se de frente para Vanlees. Não há dúvida de que o gajo teve muita coragem, pegando-lhe fogo em pleno parque de estacionamento, não acha?

 

Sim, como se quisesse enviar uma mensagem ou coisa assim.

 

Arrogante. É a opinião do Quinn. O Joe «Fumacento» a fazer de nós gato-sapato.

 

Joe «Fumacento»?! retrucou Vanlees franzindo o sobrolho. Estava convencido de que lhe tinham dado a alcunha de e Cremador.

 

Esse é o nome que a imprensa lhe deu. Para nós ele é o Joe «Fumacento» explicou Liska debruçando-se sobre a mesa, numa atitude que sugeria intimidade. Não diga a ninguém que eu lhe disse isso. Em princípio, deve ser uma coisa só entre polícias... percebe?

 

Vanlees fez que sim com a cabeça, todo inchado por partilhar daquele mundo de polícias. Sentia que estava por dentro das coisas... Um autêntico profissional.

 

Ela é boa reconheceu Quinn observando Liska através do vidro que só permitia visão do seu lado. Havia vinte minutos que ele e Kovac se encontravam ali, não estavam com Pressa. Observavam e esperavam, deixando que os nervos de Gil Vanlees lhe levassem a melhor

 

Sim. Nunca ninguém desconfia que a Tinker Bell lhes está a dar a volta redarguiu Kovac fungando junto da lapela do casaco e fazendo uma careta. Jesus, estou a feder água de autópsia, com um travo de fumo. Afinal, o que é que pensa deste rafeiro?

 

Está enervado. Estou em crer que conseguiremos assustá-lo um pouco enquanto estiver aqui, e logo que se for embora é preciso arranjar alguém que não o largue Para ver o que é que ele faz Se ficar suficientemente acagaçado, até é possível que você tenha justificação para arranjar um mandado de busca adiantou Quinn, o seu olhar mantinha-se preso em Vanlees. Ele ajusta-se de mais de uma maneira, mas mesmo assim não é o melhor suspeito, não acha?

 

Talvez esteja a fingir que é estúpido de forma a que as pessoas exijam dele menos do que poderia dar. Já vi esse tipo de comportamento mais do que uma vez

 

Quinn emitiu um som que não revelava o que pensava. Regra geral, o género de assassino que procuravam tinha por hábito fazer os impossíveis para demonstrar que era muito inteligente. Uma vaidade que muitas vezes levava os criminosos a caírem numa armadilha. Invariavelmente, não eram tão espertos quanto acreditavam ser e o resultado era acabarem por se denunciar ao tentar impressionar a polícia

 

Vamos dar-lhe a saber que temos conhecimento do caso das espreitadelas em casa alheia disse Quinn. Fazer pressão nesse ponto nevrálgico Não lhe vai agradar nada. Não quererá que os xuis pensem que é um pervertido E caso ele se enquadre nos padrões de comportamento habituais, se já espreitou por janelas, o mais certo é já ter tentado o furto de símbolos dos seus fetichismos, como por exemplo, cuecas de mulher. Estes tipos costumam começar a pouco e pouco. Vamos lançar-lhe o anzol nessa direcção. Fazer com que fique desconcertado sugeriu Quinn. Deixá-lo a pensar que você poderá cometer uma loucura, que está a esforçar-se para não perder o domínio sobre si Próprio. Dar-lhe a entender que este caso e a esperteza que O assassino mostra estão a fazer com que você esteja prestes a atingir os limites. Mas deve limitar-se a sugerir sem nunca admitir nada de concreto. Recorra a toda a sua habilidade de representação.

 

Kovac aliviou o nó da gravata e revolveu o cabelo.

 

A representar? Você até vai querer atribuir-me o cabrão de um Oscar!

 

Já conseguiram identificar a vítima? perguntou Vanlees.

 

A vítima.

 

Ouvi dizer que durante a autópsia conseguiram identificá-la respondeu Liska. Mas o Kovac não quis dizer-me nada de concreto, excepto para me dizer que até ficou agoniado. Diz que quer apanhar o filho da puta para lhe enfiar qualquer coisa pelo cu acima.

 

Estava dentro do corpo dela? inquiriu Vanlees com um misto de horror e fascínio. Em tempos, li qualquer coisa a respeito de um caso como esse.

 

Você costuma ler coisas sobre crimes verdadeiros?

 

Às vezes admitiu ele com cautela. Assim vou-me mantendo por dentro das coisas.

 

«Em quê?», perguntou Nikki a si mesma.

 

Sim, eu também. E que história era a desse fulano?

 

A mãe dele era uma prostituta e por causa disso ele odiava todas as mulheres que se dedicavam à prostituição, por isso, matava-as. E espetava sempre qualquer coisa dentro de... interrompeu-se corando até às orelhas. Bom. está a perceber...

 

Na vagina? sugeriu Liska sem sequer um pestanejar.

 

Vanlees desviou o olhar agitando-se na sua cadeira.

 

Aqui dentro está muito calor. Pegou num copo mas estava vazio, tal como o jarro de plástico que se encontrava em cima da mesa.

 

O que é que acha que um assassino sente ao fazer uma coisa dessas? perguntou Liska, observando-o atentamente. Ao meter coisas dentro da vagina de uma mulher. Acha que isso faz com que se sinta machão? Poderoso. O quê? Será uma manifestação de desrespeito a um nível de gente adulta? alvitrou ela. A mim dá-me sempre a impressão de ser uma atitude que um fedelho ranhoso teria. isto é, se soubesse o que é uma vagina. Como se enfiasse feijões dentro das narinas, ou como se quisesse arrancar os olhos a um gato morto que tivesse encontrado na rua. De uma maneira qualquer, parece-me uma infantilidade, mas, neste tipo de trabalho, a verdade é que estão constantemente a deparar-se-me homens adultos que fazem esse tipo de coisas. Qual é a sua opinião a este respeito, Gil?

 

o interpelado carregou o cenho. Uma única gotícula de suor começou a escorrer-lhe pelo extremo da face.

 

-Não tenho nenhuma opinião.

 

- Bom... com certeza que terá uma opinião com base em toda a leitura e estudo que tem vindo a fazer nessas revistas que publicam casos verdadeiros de crime. Ponha-se no lugar do assassino. Por que razão haveria de querer meter um objecto estranho na vagina de uma mulher? Porque não conseguia fazer o trabalhinho com a pixa? Será isso?

 

o rosto de Vanlees adquirira uma tonalidade rosada. Recusava-se olhar para Liska.

 

- Não acha que o Kovac já devia ter chegado? -Deve estar aí a rebentar.

 

- Tenho de ir à casa de banho - tartamudeou Vanlees.

- Talvez seja melhor ir agora.

 

Naquele momento, porém, a porta abriu-se dando entrada a Kovac: tinha o cabelo despenteado e a gravata à banda, o fato todo desalinhado assentando-lhe como se fosse uma saca molhada. Lançou a Liska um olhar de repreensão para logo de seguida se voltar para Vanlees.

 

-É ele?

 

Liska acenou que sim, passando a apresentar os dois homens.

 

- Mister Gil Vanlees, o sargento Kovac.

 

Vanlees fez menção de estender a mão. Kovac olhou-a como se estivesse coberta de merda.

 

- Tenho quatro mulheres retalhadas como se fossem abóboras na Noite das Bruxas, tão queimadas que parecem tições. Não estou com disposição para estar com merdas. Onde é que estava na noite passada entre as vinte e duas e as duas horas da madrugada?

 

- o quê?! - retrucou Vanlees com a expressão de quem tinha levado uma violenta bofetada.

 

- Sam... - interveio Liska com uma expressão irritada.

- Mister Vanlees veio até cá para nos dar a sua opinião sobre...

 

- E eu quero a opinião dele quanto ao local onde se encontrava ontem entre as vinte e duas e as duas horas da manhã. Onde é que esteve?

 

-Em casa.

 

- Em casa, onde? Tanto quanto me é dado saber, a sua mulher correu consigo por ter acenado com a pixa a uma amiga dela.

 

-Isso não passou de um equívoco...

 

- Entre você e o seu instrumento ou entre você e essa gaja que andava a espreitar pelo vidro da janela?

 

-As coisas não se passaram assim.

 

- Nunca se passam assim. Diga-me quanto tempo é que passou a espreitar pelas janelas da Jillian Bondurant?

 

- Eu nunca... - começou ele a responder, vermelho que nem um tomate.

 

-Ora, ora, deixe-se disso. Até que a miúda era boa como o milho, não era? Toda cheia de curvas. Exótica. Vestia-se de uma maneira um pouco provocante... Aqueles vestidinhos quase transparentes e botas da tropa, esse tipo de trampas. Não é difícil que um tipo queira ter nas mãos uma coisinha como essas... especialmente, quando a torneira lá de casa se fechou, por assim dizer. Está a perceber o que quero dizer?

 

- Não estou a gostar nada do que estou a ouvir - ripostou Vanlees, fitando Liska. - Acha que preciso de um advogado? Talvez fosse melhor eu ter um advogado aqui comigo, não é verdade?

 

- Jesus, Sam! - repreendeu Liska mostrando-se enojada. Virou-se para Vanlees. - Lamento muito, Gil. -Não estejas para aí a pedir desculpas por mim! atalhou Kovac com rispidez.

 

Entretanto, o olhar de Vanlees ia de um ao outro com desconfiança.

 

- Mas o que é isto? A cena do polícia mau e do bonzinho? Eu não sou nenhum estúpido. Não sou obrigado a aturar esta merda! - Fez menção de se levantar da sua cadeira, mas Kovac lançou-se na sua direcção, mostrando um olhar desvairado, apontando-lhe uma mão enquanto com a outra dava um violento murro no outro extremo da mesa.

- Sente-se! Por favor!

 

Vanlees voltou a deixar-se cair na cadeira com o rosto branco como a cal. Tentando ostensivamente controlar-se,
Kovac retrocedeu, um passo de cada vez, erguendo as mãos e baixando a cabeça, respirando pesadamente pela boca.

 

Por favor continuou um pouco mais calmo. Queira fazer o favor de se sentar. Lamento o sucedido. Peço desculpa. Durante um minuto, percorreu a distância da mesa à porta, andando agitadamente de um lado para o outro, observando Vanlees pelo canto do olho. Este também o observava, mas da maneira como uma pessoa olharia para um gorila selvagem com quem se encontrasse acidentalmente fechado na mesma jaula no Jardim Zoológico do Parque Como.

 

Preciso da presença de um advogado? perguntou novamente dirigindo-se a Liska.

 

Por que razão havia de precisar de um advogado, Gil? Não fez nada de mal, pelo menos que eu saiba. Não está sob prisão. Mas se lhe parece que necessita de um advogado...

 

Vanlees fitava os dois detectives, ora um ora outro, tentando descortinar se aquilo era algum truque que ambos haviam engendrado.

 

Lamento muito continuou Kovac puxando a cadeira da cabeceira da mesa e sentando-se. Abanava a cabeça enquanto tirava do bolso da camisa um cigarro que acendeu, inspirando o fumo num longo trago. Durante toda a semana não dormi mais de três horas disse por entre uma baforada de fumo. Acabei de chegar de uma das piores autópsias que vi durante os últimos anos. Abanou a cabeça fixando o olhar no tampo da mesa. O que fizeram àquela mulher... interrompeu-se deixando que o silêncio se arrastasse, continuando a fumar o seu cigarro como se os três estivessem numa sala de convívio, durante o intervalo de quinze minutos fora dos seus postos de trabalho.

 

Finalmente, esmagou a ponta do cigarro na sola de um dos sapatos, colocando a beata dentro de uma chávena vazia que contivera café. Passou a mão pelas faces, alisando o bigode com os polegares.

 

Onde é que você está a viver actualmente, Gil? perguntou Kovac.

 

Em Lyndale...

 

Não, estou a referir-me à casa desse seu amigo a que você está de guarda. Onde é que fica?

 

Nas proximidades do lago Harriet.

 

Vamos precisar que nos dê a morada. Deixe-a com a detective Liska antes de se ir embora. Há quanto tempo é que se dedica a isso... a guardar casas?

 

Faço isso de vez em quando. O fulano viaja muito.

 

O que é que ele faz?

 

É importador de equipamento electrónico que vende por intermédio da Internet. Computadores e aparelhagens estereofónicas, coisas desse género.

 

Nesse caso, porque é que não abanca em casa dele de vez e larga o apartamento?

 

Ele tem uma namorada que vive com ele.

 

Ela está lá agora?

 

Não. Ela costuma viajar com ele.

 

Então, e quanto a si, Gil. Anda com alguém neste momento?

 

Não.

 

Não?! Há já algum tempo que você está separado da sua mulher. Um homem tem as suas necessidades.

 

Parece que estás a querer dizer que as mulheres não têm atalhou Liska com uma expressão desdenhosa.

 

Tinks, as tuas necessidades são do conhecimento comum retorquiu Kovac, lançando-lhe um olhar perturbado. Importas-te de fingir por um minuto que não és uma mulher independente para nos ir buscar um jarro de água? Está mais quente aqui do que no inferno.

 

O calor não me incomoda retrucou Liska. Mas o fedor que vem de ti era capaz de dar voltas ao estômago de uma ratazana dos esgotos. Credo, Sam!

 

Limita-te a ir buscar a água disse Kovac despindo o casaco com um movimento dos ombros, deixando-o cair do avesso nas costas da cadeira, enquanto Liska saía da sala a resmungar.

 

Mostrando-se pouco satisfeito com a situação, Vanlees ficou a vê-la sair pela porta.

 

Peço desculpa por causa do fedor acrescentou Kovac. Se alguma vez quis saber a que é que um corpo carbonizado cheira, esta é a sua grande oportunidade. Respire fundo. Vanlees limitou-se a olhar para ele. Ora vamos lá a ver, você não chegou a responder à minha pergunta, Gil. Costuma pagar por isso? Gosta de prostitutas? Não lhe falta ocasião de ver uma data delas no lugar onde trabalha. Se lhes pagar o suficiente, pode fazer com elas o que bem lhe apetecer. Algumas até nem se importam que os homens sejam um bocado duros com elas, dando-lhes uns tabefes, isto é, para quem gosta disso. Deixam-se amarrar, coisas desse tipo.

 

A detective Liska disse-me que você queria falar comigo acerca de Miss Bondurant lembrou Vanlees com uma postura rígida sem lhe dar resposta. Não sei nada a respeito dos outros assassínios.

 

Kovac fez uma pausa, começando a arregaçar as mangas da camisa enquanto o mimoseava com o seu olhar de polícia.

 

Mas sabe alguma coisa a respeito do homicídio da Jilhan, Gil?

 

Não! Não foi isso o que quis dizer.

 

O que é que você sabe acerca da Jillian, Gil?

 

Só a conhecia por viver em Edgewater, mais nada. Posso dizer-lhe o que penso dela. Coisas assim.

 

E que tal era ela? perguntou Kovac com um acenar de cabeça, recostando-se todo para trás. Ela alguma vez se atirou a si?

 

Não! Ela era muito metida consigo mesma, não era pessoa de muitas falas.

 

Ela não falava com todos, de uma maneira geral, ou só consigo é que não falava? Talvez ela não gostasse da maneira como você a observava prosseguiu Kovac tentando espicaçar, uma vez mais, o ponto sensível

 

Eu não costumava observá-la respondeu Vanlees com a testa perlada de suor.

 

Você fazia-lhe olhinhos? Tentou engatá-la?

 

Não.

 

Tinha a chave de casa dela. Alguma vez entrou quando ela não estava em casa?

 

Não! Vanlees negou enfaticamente, embora o seu olhar não se tivesse cruzado com o de Kovac.

 

Este decidiu optar por um dos palpites de Quinn.

 

Alguma vez andou a bisbilhotar na gaveta onde ela guardava a roupa interior, tirou umas cuecas como recordação?

 

Não! Bruscamente, Vanlees arrastou a cadeira afastando-a da mesa e pondo-se de pé. Não estou a gostar disto. Eu vim aqui para vos ajudar. Não mereço que me tratem desta maneira.

 

Então, dê-me a sua ajuda, Gil replicou Kovac com um encolher de ombros que exprimia desinteresse. Dê-me qualquer coisa que me seja útil. Viu algum namorado em casa dela?

 

Não. Só reparei nessa amiga dela... a Michele. E no pai. Às vezes ele aparecia lá. Não sei se sabe, mas a casa é dele.

 

Sim, suponho que sim. O tipo é tão rico como o Rockefeller. Alguma vez lhe ocorreu que este assunto com a Jillian talvez seja um rapto? Alguém que queira esmifrar umas massas ao pai, por assim dizer? Alguma vez viu alguém suspeito a rondar a casa?

 

Não.

 

Mas você passava o tempo suficiente por lá para ter dado por isso, não é verdade?

 

Trabalho lá.

 

Não propriamente, mas que diabo... ao dizer isso está a arrogar-se o direito de andar por lá, passar uma vista de olhos por várias residências, talvez fazer algumas «compras», umas peças de roupa interior.

 

Acabou-se, vou-me embora declarou Vanlees. de rosto vermelho.

 

Mas ainda mal começámos protestou Kovac. Entretanto, a porta voltou a abrir-se, dando entrada a Liska que trazia a água. Quinn, que mantinha a porta aberta para ela passar, entrou logo a seguir. Em contraste com Kovac, tinha uma aparência fresca, bem arranjado, com a excepção das olheiras e das rugas ao canto dos olhos. Afivelara uma fisionomia empedernida que não deixava adivinhara mínima emoção. Liska ofereceu-lhe um copo de cartão que ele encheu de água, bebendo-a lentamente antes de proferir qualquer palavra. Desde que tinha chegado que o olhar de Vanlees não se afastava do seu rosto.

 

Mister Vanlees, eu sou o agente especial John Quinn do FBI apresentou-se, estendendo a mão.

 

Vanlees apressou-se a aceitá-la. Tinha uma mão larga de pele pegajosa e dedos gorduchos.

 

Já li artigos a seu respeito nos jornais. É uma honra ter a oportunidade de o conhecer. Retomou o seu lugar.

 

Quinn sentou-se directamente à sua frente depois de ter despido o casaco, que pendurou cuidadosamente nas costas da cadeira. Enquanto se sentava, endireitou a gravata de seda cinzenta.

 

Com que então sabe alguma coisa a meu respeito, não é, Mister Vanlees’

 

Sim, um pouco

 

Sendo assim, muito possivelmente terá uma noção de como a minha mente raciocina acrescentou Quinn Provavelmente saberá qual a conclusão a que vou chegar ao examinar os antecedentes de um homem que pretendia ser polícia, mas que não possuía os requisitos necessários, um homem com um historial de espreitar às janelas e que cometia furtos relacionados com os seus tetichismos

 

Eu não sou. Não fiz. Vanlees, cabisbaixo, não sabia o que dizer

 

Com rapidez, Liska pegou na maquina Polaroid que estava sobre a mesa e tirou-lhe uma fotografia

 

Ei. exclamou Vanlees surpreendido quando o flash disparou

 

Um homem cuja mulher o pôs na rua e que critica as capacidades sexuais do marido prosseguiu Quinn

 

O quê? O que é que ela disse? perguntou Vanlees, furioso. Naquele momento, o seu semblante era um misto de tormento constrangimento e descrença. Um homem apanhado num pesadelo completamente acordado. Uma vez mais, levantou-se da sua cadeira começando a passear pela sala. Nos sovacos da camisa de uma cor escura viam-se manchas amplas de suor. Não sou capaz de acreditar no que estou a ouvir.

 

Você conhecia a lilhan Bondurant. continuou Quinn sem deixar adivinhar qualquer emoção. Você tinha o costume de a espreitar

 

Vanlees negou novamente aquela afirmação, sacudindo a cabeça e mantendo os olhos no chão enquanto continuava a andar de um lado para o outro

 

Não fiz nada disso. Não me interessa o que essa vaca vos possa ter dito

 

A que vaca é que está a referir-se’ inquiriu Quinn com toda a calma

 

Essa amiga dela respondeu Vanlees fitando Quinn

- Ela falou mal de mim, não é verdade? Essa amiga que você não sabia como se chamava? perguntou Liska. Mantinha-se entre Quinn e Kovac, exibindo uma fisionomia de mulher dura. Você disse-me que não a conhecia Mas ainda não Há cinco minutos disse o nome dela, Gil. A Michele. Michele Fine. Por que razão me terá mentido, dizendo-me que não a conhecia?

 

E não conhecia. Não a conheço. Mas tinha-me esquecido do nome dela, mais nada.

 

Mas a verdade é que, se você não hesitou em mentir-me numa coisa insignificante como essa atalhou Liska, tenho de me perguntar em que mais é que me terá aldrabado, não acha?

 

Com a cara muito vermelha, Vanlees lançava-lhes olhares furiosos; a raiva era tanta que tinha lágrimas nos olhos e os lábios tremiam-lhe.

 

Vão-se foder, todos! Não têm nada por que me pegar. Vou pôr-me a mexer daqui para fora! Vim aqui para vos dar a minha ajuda e vocês tratam-me como se eu fosse um criminoso comum. Vão-se foder!

 

Não se menospreze, Mister Vanlees ripostou Quinn. Se por acaso for o homem que procuramos, não existirá nada de comum em si.

 

Gil Vanlees não disse nada. Ninguém tentou impedi-lo de abrir a porta, o que fez com violência. Saiu de rompante num passo pesado e apressado dirigindo-se para os lavabos dos homens.

 

Kovac encostou-se à ombreira, observando o outro.

 

Um tipo melindroso.

 

Quase como se tivesse alguma culpa no cartório acrescentou Liska fitando Quinn. Qual é a sua opinião?

 

Vanlees abriu violentamente a porta da casa de banho servindo-se do ombro, sob o olhar atento de Quinn; já tinha levado a outra mão à braguilha. Quinn ajustou o nó da gravata alisando o pedaço de seda de cima a baixo.

 

Acho que vou refrescar-me um pouco disse.

 

O fedor nos lavabos dos homens era recente e morno. Vanlees não se encontrava nos urinóis. Através do espaço

existente entre a base da porta e o chão de um dos compartimentos com sanitas via-se um par de sapatos pretos de trabalho. Quinn dirigiu-se para a correnteza de lavatórios, abriu uma torneira e encheu de água as mãos em forma de concha, refrescando o rosto. Pouco depois, ouviu a descarga do autoclismo antes de Vanlees sair todo suado e pálido. Ao deparar-se-lhe Quinn, imobilizou-se.

 

Está tudo bem, Mister Vanlees? perguntou Quinn com indiferença enquanto secava as mãos numa toalha de papel.

 

O senhor está a perseguir-me acusou Vanlees.

 

Só estou a secar as mãos respondeu Quinn arqueando as sobrancelhas.

 

Veio atrás de mim até aqui.

 

Apenas para me certificar de que se está a sentir bem, Gil. Meu compincha, meu amigo. Sei que ficou perturbado. Não o censuro. Mas quero que entenda que isto não tem nada de pessoal. Não ando atrás de si por qualquer motivo pessoal. Ando atrás de um assassino. Tenho de fazer aquilo de que me incumbiram, seja de que maneira for. Estou certo de que compreende isto, não? Só pretendo apurar a verdade com justiça, nada mais, nada menos.

 

Não fiz mal nenhum à Jillian disse Vanlees na defensiva. Jamais lhe faria mal.

 

Quinn avaliou cuidadosamente aquelas afirmações. Nunca esperava que algum assassino em série admitisse prontamente os seus actos criminosos. Muitos deles falavam dos seus crimes na terceira pessoa, mesmo depois de ter sido irrefutavelmente comprovado que eram culpados. Muitos referiam-se à faceta na sua maneira de ser que era capaz de cometer um assassínio como sendo uma entidade diferenciada. A síndroma diabólica da personalidade dupla, como ele lhe chamava. Permitia àqueles que ainda tinham alguns resquícios de consciência a capacidade de racionalização, afastando de si os sentimentos de culpa que relegavam para a sua parte mais sombria.

 

Porém, o Gil Vanlees que tinha à sua frente não teria coragem para matar ninguém. Mas... e quanto ao seu lado sombrio?

 

Conhece alguém que pudesse ter morto a Jillian, Gil? perguntou Quinn.

 

Não respondeu Vanlees franzindo o cenho, observando atentamente os seus sapatos.

 

Bom, caso lhe ocorra o nome de alguém, aqui tem prosseguiu Quinn estendendo-lhe um cartão-de-visita do FBI.

 

Com alguma relutância, o outro aceitou-o, examinando o verso e o reverso, como se procurasse qualquer dispositivo embebido no papel que lhe explodisse nas mãos.

 

É imperativo que travemos este assassino, Gil acrescentou Quinn fitando-o com uma expressão de franqueza. Ele é mau, é um tipo diabólico, e pode crer que farei tudo o que estiver ao meu alcance para o pôr na cadeia. Quem quer que ele seja.

 

Óptimo retorquiu Vanlees num murmúrio. Espero que seja bem sucedido. Guardou o cartão no bolso da camisa e saiu dos lavabos sem lavar as mãos. Quinn franziu a testa voltando-se para o lavatório e examinando-se atentamente no espelho, como se pudesse destrinçar algum indício na sua imagem, alguma certeza secreta que lhe diria que Gil Vanlees era o homem que procurava.

 

As peças estavam todas ali. Se ao menos se ajustassem adequadamente umas às outras... Se a Polícia conseguisse descobrir qualquer prova conclusiva, ainda que uma só...

 

Kovac entrou na casa de banho momentos depois, retrocedendo ao sentir o fedor que pairava no ar.

 

Credo! O que é que esse gajo comeu ao pequeno-almoço... Um animal morto que encontrou na estrada?

 

São os nervos explicou Quinn.

 

Espere até ele descobrir que terá um polícia à coca de cada vez que der um passo.

 

Esperemos que ele se descontrole. Se conseguíssemos vasculhar o interior do veículo dele, é possível que acertássemos na lotaria. Por outro lado, talvez ele seja apenas outro falhado patético sem coragem para tirar a vida fosse a quem fosse. É possível que nesse preciso momento, o verdadeiro Joe «Fumacento» esteja sentadinho em sua casa, a bater uma punheta enquanto ouve uma das suas gravações com os gritos das vítimas que torturou.

 

Por falar nisso, o sabichão do Departamento de Perícia Criminal telefonou adiantou Kovac. Aconselhados a ir até ao laboratório para ouvirmos a cassete que foi encontrada ontem à noite; ele analisou-a e já tem os resultados.

 

Conseguiu isolar a voz do assassino?

 

Assassinos, no plural replicou Kovac, circunspecto. Na opinião dele, são dois. E ouça esta: ele está convencido de que uma das vozes é de uma mulher.

 

Kate entrou no gabinete de Sabin, pensando que haviam decorrido apenas alguns dias desde a reunião que a pusera a tratar daquele caso. Sob certos aspectos, tinha a impressão de que isso acontecera há vários anos. Nesse período de alguns dias, a sua vida transformara-se muito. E essas alterações ainda não haviam acabado. Nem de perto nem de longe,

 

Sabin e Rob levantaram-se das respectivas cadeiras. O primeiro tinha uma expressão abatida. Rob dava mostras de grande nervosismo. Os olhos pequeninos reflectiam um brilho excessivo na sua cabeça de abóbora, dando a impressão de ter alguma febre. A febrilidade própria de uma indignação farisaica.

 

Então, onde é que está o tipo encapuzado de negro com o machado? perguntou Kate parando atrás da cadeira que lhe fora destinada.

 

Sabin carregou o sobrolho como se ela tivesse acabado de lhe estragar a sua deixa de abertura.

 

Está a ver? proferiu Rob fitando o outro com um olhar cheio de significado. É precisamente a isto que tenho estado a referir-me!

 

Kate, esta não é a ocasião mais apropriada para estarmos com brincadeiras de mau gosto repreendeu Sabin.

 

Eu estava a brincar? Consegui perder, não sei como, a única testemunha na maior investigação criminal que é levada a cabo nas Twin Cities em muitos anos. E não me vai mandar para o cadafalso? Depois do que aconteceu a noite passada, só me surpreende que não seja o Rob a empunhar o machado.

 

Não penses que não me agradaria fazê-lo atalhou Rob.

 

Tu és muito atrevida, Kate. Estou farto da tua atitude para comigo. Não me tens o mínimo respeito.

 

Ela voltou-se para Sabin, ignorando o seu chefe, sem lhe dirigir uma só palavra. -Mas...?

 

Mas... decidi intervir, Kate disse Sabin retomando o seu assento. Estamos perante uma situação muitíssimo tensa. O estado de espírito de todos nós anda extremamente agitado.

 

Mas ela trata-me sempre desta maneira!

 

Deixe-se de lamúrias, Rob! ordenou-lhe Sabin. Ela também é a melhor defensora de testemunhas que nós temos. Do que você está bem ciente. Foi você mesmo quem sugeriu o nome dela para esta tarefa, invocando razões muito específicas.

 

É preciso que eu lhe recorde que deixámos de ter uma testemunha?

 

Não, não é necessário que me chame a atenção para isso ripostou Sabin lançando-lhe um olhar furioso.

 

A angie estava sob a minha responsabilidade atalhou Kate. Ninguém lamenta tanto o sucedido como eu. Se estivesse nas minhas mãos fazer alguma coisa... se pudesse voltar atrás no tempo, voltaria a ontem para poder fazer qualquer coisa diferente...

 

Você própria levou a rapariga ontem à noite à Casa Phoenix. Não é verdade? perguntou Sabin na sua voz de promotor público.

 

Sim, é verdade.

 

E, em princípio, a casa estava sob vigilância policial. Não é verdade?

 

Sim, é corroborou Kate.

 

Nesse caso, são eles quem eu culpo por este pesadelo. O que quer que tenha acontecido à rapariga... tenha ela sido sequestrada ou saído de casa de sua livre vontade, é culpa deles e não sua.

 

Kate olhou de fugida para o mostrador do seu relógio, pensando que a autópsia há muito que terminara. Se houvesse alguma prova conclusiva de que o corpo encontrado no carro em chamas na noite anterior era de Angie, Sabin já teria conhecimento.

 

Quero que você continue disposta a trabalhar neste caso, Kate...

 

Já se sabe... interrompeu ela começando a perguntar a medo, sentindo o coração a bater aceleradamente, enquanto se esforçava por encontrar as palavras para terminar: a frase, como se a resposta dependesse da forma como articulasse a pergunta. A vítima encontrada no automóvel. Já sabe alguma coisa quanto à identidade?

 

Ora bem, ainda nenhum dos teus compinchas da polícia te telefonou da morgue?

 

Tenho a certeza de que hoje devem andar um tudo-nada atarefados de mais.

 

A carta de condução da vítima foi encontrada durante a autópsia informou Rob Marshall respirando fundo para poder dar a notícia depressa e de uma só vez, mas depois pareceu ter reconsiderado. Perante aquela hesitação, Kate sentiu os nervos em franja. Talvez fosse melhor sentares-te, Kate acrescentou ele, extremamente solícito. !

 

Não. Kate já sentia o corpo percorrido por calafrios, deixando-lhe pele de galinha à sua passagem. Porquê?

 

A vítima é a Melanie Hessler. A tua vítima de violação disse Rob, finalmente tendo-se deixado de cóleras e arrogâncias. Numa atitude manifestamente defensiva, a sua expressão era uma máscara indecifrável.

 

 

Lamento muito disse Rob pesaroso.

 

A sua voz soava como se viesse de muito longe. Kate sentia-se como se todo o sangue que tinha na cabeça tivesse sido drenado. Os joelhos cederam sob o peso do corpo. Foi-se abaixo ficando ajoelhada apenas sobre um joelho, continuando a firmar-se nas costas da cadeira; cambaleante, apressou-se a pôr-se de pé com a mesma rapidez com que caíra. As emoções passavam por ela como se fossem um ciclone. Choque, horror, constrangimento, confusão. Sabin contornou a mesa aproximando-se por trás dela, pegando-lhe por um braço enquanto Rob olhava como que hipnotizado a pouco mais de um metro, de pé, como se não soubesse o que fazer.

 

Está a sentir-se bem? perguntou Sabin.

 

Kate deixou-se cair em cima de uma cadeira e, ao contrário do habitual, não se sentiu incomodada quando ele lhe pousou uma mão sobre o joelho. Baixou-se ao lado dela, observando-a com uma fisionomia que denotava preocupação.

 

Kate...?

 

Hum... não disse ela sem fazer sentido. Tinha tonturas e sentia-se enfraquecida, adoentada; de súbito, nada em redor lhe parecia real. Eu... ah... não estou a entender

 

Lamento muito, Kate repetiu Rob que, repentinamente, se aproximou dela, dando a impressão de que só agora é que lhe tinha ocorrido que devia fazer qualquer coisa, quando já era tarde de mais. Sei que te esforçaste ao máximo por a proteger.

 

Mas ainda há pouco tentei ligar para casa dela disse Kate numa voz muito esmorecida. Devia ter-lhe telefonado na segunda-feira, mas de repente surgiu a Angie, e tudo o mais passou para segundo plano.

 

As imagens de Melanie Hessler desfilavam-lhe pelo pensamento como que montadas cinematografícamente. Fora uma mulher vulgar, quase tímida e de constituição franzina, com um ambiente familiar que não era dos melhores. Ver-se forçada a trabalhar numa livraria especializada em material pornográfico era algo que a envergonhava, mas precisava do emprego até conseguir juntar dinheiro suficiente para retomar os estudos. Um divórcio tinha-a deixado sem dinheiro e sem habilitações profissionais. A agressão de natureza sexual de que fora vítima havia alguns meses deixara-a num estado de grande fragilidade emocionalmente atingida, tanto em termos físicos como psicológicos. Transformara-se numa pessoa que estava permanentemente num estado crítico de receio e desconfiança, sempre à espera que os seus agressores voltassem a atacá-la um medo muito comum entre as vítimas de crimes de estupro. No entanto, tal como veio a verificar-se posteriormente, não eram os homens que a haviam atacado que Melanie devia recear.

 

Oh, Jesus exclamou Kate num desabafo, apoiando a cabeça nas mãos.

 

Fechou os olhos visualizando o corpo completamente carbonizado, uma imagem de pavor, desfigurado, grotescamente contorcido, mirrado, deitando um fedor insuportável, violado, mutilado. Kate recordava-se da ocasião em que tivera a mão de Melanie na sua, confortando-a enquanto ela lhe narrava os pormenores escabrosos da violação de que fora vítima, o profundo sentimento de vergonha e constrangimento que manifestara, a confusão de quem não conseguia entender como é que lhe poderia ter acontecido uma coisa tão horrível.

 

Melanie Hessler, a mulher que tão assustada se tinha mostrado com receio de voltar a ser atacada. Torturada, brutalizada, e cujo corpo fora carbonizado ao ponto de ter ficado irreconhecível.

 

No seu subconsciente, Kate tinha a impressão de ouvir a voz do gerente do estabelecimento: Nem sequer ouvi um único pio da boca dela durante toda a semana.

 

Para onde é que o grande filho da puta a teria levado? Por quanto tempo é que a mantivera com vida? Durante quantas horas é que ela lhe implorara que a matasse; certamente que durante todo esse tempo teria perguntado a si mesma que espécie de Deus é que teria permitido que sofresse daquela maneira.

 

Raios partam isto tudo! desabafou Kate encolerizada, tentando ir buscar forças à ira que sentia. Raios partam isto!

 

Uma vez mais, a voz de Rob chegou-lhe aos ouvidos através do labirinto que eram os seus pensamentos.

 

Kate, sabes bem que te seria benéfico se neste momento desses voz aos teus sentimentos. Desabafa. Tu conhecias a Melanie. Foste tu quem a ajudou a ultrapassar tanta coisa. Deve ser terrível pensares no estado em que a viste ontem à noite...

 

Porquê? perguntou Kate num tom de exigência. sem se dirigir em particular a nenhum dos dois homens. Por que razão ele a escolheu? Não consigo compreender como é que isto pode ter acontecido.

 

Naturalmente dever-se-á ao facto de ela trabalhar nesse tipo de livraria sugeriu Rob. Estava tão a par dos pormenores do caso quanto ela própria. Assistira a várias das reuniões que Kate tivera com Melanie e, juntamente com Kate, examinara as gravações dessas conversas, tendo sugerido que Melanie integrasse um grupo de apoio à vitima.

 

Gravações.

 

Oh, meu Deus! exclamou Kate num sussurro, sentindo que as forças a abandonavam de novo rapidamente. Essa gravação. Oh, meu Deus repetiu dobrando-se sobre si mesma, colocando a cabeça nas mãos.

 

Que gravação? perguntou Rob sem entender.

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