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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


PRESSÁGIO DE FOGO / Marion Zimmer Bradley
PRESSÁGIO DE FOGO / Marion Zimmer Bradley

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

PRESSÁGIO DE FOGO

Primeira Parte

 

A chuva caíra o dia inteiro; ora densa, ora em finos aguaceiros, mas nunca cessando por completo. As mulheres levaram os seus fusos para dentro, para junto da lareira, e as crianças amontoaram-se sob as sacadas do pátio, aventu­rando-se a sair por breves minutos, entre dois aguaceiros, para chapinhar nas poças rodeadas por fiadas de tijolo e patinhar de lama o caminho até à lareira. Ao fim da tarde, a mais velha das mulheres que se encontravam junto ao fogo julgava enlouquecer com o som dos gritos e do chafurdar, das cargas dos pequenos exér­citos, do embate das espadas de pau nos escudos de madeira, com o som dos estilhaços e das brigas causadas pelos brinquedos quebrados, as lealdades deslo­cadas de chefe para chefe, os gritos de «morto» e «ferido» quando alguém era excluído da brincadeira.

A chuva que caía pela chaminé era ainda demasiada para permitir cozinhar em condições na lareira; com o escurecer do dia de Inverno, ia-se acendendo o lume nos braseiros. À medida que o cheiro bom da carne e do pão a cozer se ia espalhando, as crianças vinham uma após outra acocorar-se como cachorros famintos, inspirando ruidosamente e discutindo ainda, a meia voz. Pouco antes do jantar uma visita apareceu à porta: um menestrel, um caminhante cuja lira, suspensa do ombro, lhe garantia o bom acolhimento e o alojamento onde quer que fosse. Depois de lhe terem oferecido comida, um banho e roupas secas, o menestrel veio e tomou o lugar destinado aos convidados mais bem-vindos, perto do fogo. Começou a afinar o seu instrumento, encostando o ouvido às cravelhas de tartaruga e testando o som com o dedo. Em seguida, sem pedir licença - já nesse tempo um bardo fazia o que entendia - dedilhou um único e sonante acorde e declamou:

Cantarei as batalhas e os grandes homens que nelas combateram; Os homens que permaneceram por dez anos defronte das muralhas de Tróia, erigidas por gigantes;

E os deuses que derrubaram, por fim, essas muralhas: Apolo, Senhor do Sol, e Posídon, O que Faz Tremer a Terra.

Cantarei a lenda da ird do poderoso Aquiles,

Nascido de uma deusa, tão forte que arma alguma o poderia destruir. E mesmo a história do seu orgulho e arrogância e aquela batalha Em que ele e o grande ,Heitor lutaram ao longo de três dias nas planícies, frente às altas muralhas de Tróia;

O orgulhoso Heitor e o galante Aquiles, os Centauros e as Amazo­nas, deuses e heróis,

Odisseu e Eneias, todos os que combateram e foram mortos nas planícies, diante de Tróia...

- Não! - exclamou a velha bruscamente, deixando cair o fuso e levan­tando-se. - Não o permitirei! Não quero ouvir esses disparates contados na minha sala!

O menestrel deixou a mão esquerda tombar sobre as cordas, num tanger dissonante; o seu ar era de desalento e surpresa, mas o tom de voz foi cortês. - Senhora?

- Digo que não permitirei que essas estúpidas mentiras sejam contadas junto à minha lareira! - disse ela veementemente.

As crianças soltaram sons de desapontamento; ela silenciou-as com um gesto imperioso.

- Menestrel, és bem-vindo a tomar a tua refeição e a sentar-te ao pé do meu fogo; mas não permitirei que enchas os ouvidos das crianças com essas mentiras sem sentido. Isso não foi, de todo, assim.

- Verdade? - inquiriu o tocador de harpa. - Como o sabes, senhora? Eu canto a lenda como me foi ensinada pelo meu mestre, tal como é cantada em todos os lugares desde Creta a Cálcis...

- Pode ser cantada dessa forma desde aqui até à ponta do mundo - disse a velha -, mas não foi, de todo, assim que aconteceu.

- Como sabes? - perguntou o menestrel.

- Porque estava lá e assisti a tudo - replicou a velha. As crianças murmuraram e gritaram.

- Nunca nos contaste isso, avó. Conheceste Aquiles, e Heitor, e Príamo, e os heróis todos?

- Heróis! - disse ela com desdém. - Sim, conheci-os; Heitor era meu irmão.

O menestrel inclinou-se para diante e olhou-a insistentemente. - Sei agora quem és - disse ele por fim.

Ela assentiu inclinando a cabeça branca.

- Então talvez tu, senhora, devesses contar a história; eu, que sirvo o Deus da verdade, não mais cantaria mentiras para serem escutadas por todos os homens.

A velha ficou por longo tempo em silêncio. Por fim, disse: - Não, não consigo viver tudo aquilo de novo.

As crianças lamentaram-se, desapontadas. - Não tens outra lenda para cantar?

- Muitas - disse o tocador de harpa -, mas não queria contar uma história da qual escarnecesses como de uma mentira. Porque não contas a ver­dade para que eu possa cantá-la em outros lugares?

Ela sacudiu energicamente a cabeça. - A verdade não é uma boa história.

- Não podes ao menos dizer-me quais são os desvios da minha história, para que eu a possa emendar?

Ela suspirou.

- Houve um tempo em que eu teria tentado - disse -, mas nenhum homem quer acreditar na verdade. Porque a tua história fala de heróis e reis, não de rainhas; e de deuses, não de deusas.

- Não é bem assim - disse o tocador de harpa -, pois grande parte da história fala da bela Helena, raptada por Páris; e de Leda, a mãe de Helena, e sua irmã Clitemnestra, seduzida pelo grande Zeus, o qual tomou a forma de seu marido, o rei...

- Sabia que não poderias compreender - disse a velha mulher -, já que, para começar, nesta terra, a princípio, não existiam reis mas somente rainhas, as filhas das deusas; e estas escolhiam os seus consortes onde queriam. Mas, depois, os adoradores dos deuses do Céu, a tribo dos cavaleiros, os utilizadores do ferro, desceram à nossa terra; e quando as rainhas os tomaram como consortes, eles intitularam-se reis e exigiram o direito de governar. E assim os deuses e deusas se tornaram rivais; e chegou o tempo em que Tróia foi palco das suas disputas... ­deteve-se abruptamente. - Basta - disse ela. - O mundo mudou. Vejo que me julgas uma velha cujo espírito divaga. Este foi sempre o meu destino: falar verdade e nunca ser acreditada. Sempre foi assim e sempre assim será. Canta o que quiseres; mas não zombes da minha verdade junto à minha lareira. Há muitas lendas. Conta-nos a de Medeia, Senhora de Cálcis, e do tosão dourado que Jasão roubou do seu santuário, se é que o fez. Ousaria dizer que também para essa lenda existe outra verdade, mas eu não a conheço nem me interessa saber qual será; há muitos e longos anos que não ponho pé em Cálcis. - Apanhou o seu fuso e, calmamente, começou a fiar.

O tocador de harpa baixou a cabeça.

- Seja como queres, Cassandra - disse ele. - Todos pensámos que morreras em Tróia ou, pouco depois, em Micenas.

- Então isso devia provar-te que, pelo menos em certos detalhes, a lenda não diz a verdade - disse ela, mas em voz baixa.

«Mantém-se a minha sina: falar sempre a verdade e ser apenas julgada louca. Até hoje, o Senhor do Sol não me perdoou...»

 

O CHAMAMENTO DE APOLO ­

Nessa altura do ano, a luz durava até tarde; mas o último reflexo do pôr do Sol tinha-se já dissipado a ocidente e a bruma começara a avançar a partir do mar.

Leda, Senhora de Esparta, levantou-se da cama onde o seu consorte, Tín­daro, permanecia imóvel. Como de costume, depois de manterem relações, ele caíra num sono pesado. Não deu por nada quando ela abandonou a cama e, lançando um agasalho leve sobre os ombros, saiu para o pátio dos aposentos das mulheres.

«Aposentos das mulheres», pensou a rainha, zangada, «tratando-se do meu próprio castelo; poderia pensar-se que eu, e não ele, era a intrusa aqui; que ele, e não eu, detém o direito às terras de Esparta. A Mãe Terra nem o nome dele conhece.»

Ela mostrara-se bastante agradada quando ele viera e pedira a sua mão, embora se tratasse de um dos invasores vindos do Norte, adoradores do trovão e do carvalho e dos deuses do Céu, um homem grosseiro e peludo, exibindo o odiado ferro negro nas lanças e na armadura. E no entanto, agora, os seus semelhantes estavam por todo o lado e exigiam o casamento segundo as suas novas leis, como se o Deus deles tivesse derrubado, do seu trono celestial, a Deusa possuidora da terra e das colheitas e das gentes. A mulher desposada por esses homens cobertos de ferro devia juntar-se-lhe na adoração dos seus deuses e entregar o seu corpo a esse homem apenas.

Um dia, pensou Leda, a Deusa castigaria esses homens por proibirem as mulheres de prestar a devida homenagem às forças da Vida. Eles diziam que as deusas estavam subordinadas aos deuses; tal coisa afigurava-se a Leda como uma horrível blasfémia e uma inversão demente da ordem natural das coisas. Os homens não possuíam qualquer poder divino; não amamentavam nem pariam; porém, achavam-se, de qualquer modo, detentores de um direito natural ao fruto dos corpos das suas mulheres, como se o facto de acasalar com elas lhes conferisse o direito de propriedade, como se as crianças não pertencessem naturalmente à mulher cujo corpo as abrigou e alimentou.

Porém, Tíndaro era seu marido e ela amava-o; e porque o amava estava disposta até a mostrar-se indulgente face à sua loucura e ciúme, e a arriscar-se a enfurecer a Mãe Terra por se deitar somente com ele.

Mas, no entanto, desejava fazê-lo entender que era errado fechá-la nos aposentos das mulheres; que, como sacerdotisa, ela tinha de sair e percorrer os campos para se assegurar de que à Deusa eram prestados os cultos devidos; que os seus dons de fertilidade deveriam contemplar todos os homens e não apenas o seu consorte; que a Deusa não podia limitar a concessão dos Seus dons a um qualquer homem, mesmo que esse homem se dissesse rei.

O ressoar distante de um trovão vibrou, vindo do fundo, como se se erguesse do mar, ou como se a Grande Serpente que de tempos a tempos fazia tremer a terra se agitasse nos seus domínios profundos.

Uma rajada de vento agitou o fino agasalho sobre os ombros de Leda e o cabelo dela esvoaçou em liberdade, como um pássaro solitário em voo. Um relâmpago pálido iluminou subitamente o pátio e, recortado no quadrado lumi­noso da moldura da porta, avistou o seu marido que vinha procurá-la. Leda retraiu-se interiormente; iria ele censurá-la por ter abandonado os aposentos das mulheres, mesmo àquela hora da noite?

Mas ele nada disse. Avançou em direcção a ela e algo nos seus passos, na forma decidida como se movia, lhe disse que, apesar da figura e das feições familiares - e agora claramente visíveis à luz do luar - aquele não era o seu marido. Não sabia dizer como tal era possível, mas havia uma réstia errante de luz que parecia brincar em torno dos ombros dele e, à medida que caminhava, os seus pés batiam nas lajes com o som abafado de um trovão distante. Parecia mais alto, a cabeça lançada para trás contra o clarão luminoso que lhe faiscava no cabelo. Leda percebeu, num estremecimento que encrespou cada pêlo do seu corpo, que um dos deuses estrangeiros se movia dentro da imagem do seu marido, caval­gando-o do mesmo modo que ele próprio montaria um dos seus cavalos. A au­réola luminosa disse-lhe que aquele era o Zeus do Olimpo, domador dos trovões, Senhor dos Relâmpagos.

Nada disto era novo para ela; conhecia a sensação provocada pela Deusa ao preencher e percorrer o seu corpo, enquanto abençoava as colheitas ou se deitava nos campos, transfundindo às sementes o poder divino do crescimento. Recor­dou a sensação de se apartar do seu eu familiar e de ser a Deusa que se movia durante os ritos, dominando todos os outros com o poder que encerrava dentro Dela.

Sabia que Tíndaro deveria estar nesse momento a observá-la do seu íntimo, enquanto Zeus, dono do seu corpo, avançava para a sua mulher. Sabia, porque Tíndaro lhe tinha uma vez dito que, de entre todos os seus deuses, era pelo Senhor dos Trovões que ele sentia maior devoção.

Encolheu-se; talvez Ele não reparasse nela e se pudesse manter sem ser vista até o Deus abandonar o corpo do marido. A cabeça que era agora a do Deus moveu-se, com aquela réstia de luz perseguindo o movimento solto e esvoaçante dos cabelos. Ela soube que Ele a tinha visto; mas não foi a voz de Tíndaro que falou, mas uma voz mais cava, mais suave, num ecoar grave e profundo impreg­nado do som de trovões distantes.

- Leda - disse o Zeus dos Trovões -, chega-te a mim.

Estendeu a Sua mão para receber a dela e ela, obedientemente, dominando um súbito e íntimo pavor - se este Deus trazia consigo os relâmpagos, atingi-la­-ia o Seu toque com a força de um trovão? -, pousou a mão na Dele. A Sua pele era fria e a mão dela tremeu ligeiramente ao tocar-lhe. Erguendo o olhar, pressentiu a sombra de um sorriso no Seu rosto, em tudo diferente do severo e inflexível rosto de Tíndaro, como se o Deus estivesse a rir - não, não dela, mas com ela. Ele puxou-a para debaixo do Seu braço, lançando-lhe por cima a ponta do manto para que ela sentisse o calor do Seu corpo. Não voltou a falar, mas arrastou-a consigo para a sala que ela deixara havia apenas alguns momentos.

Depois puxou-a e encostou-a a Si, dentro do manto, para que sentisse o sexo Dele erguer-se contra o seu corpo.

: «Será que as leis contra o dormir com qualquer outro homem interditam um deus com o mesmo aspecto e forma do meu marido?», interrogou-se ela ansiosa­mente. O verdadeiro Tíndaro, algures no seu íntimo, estaria certamente a vê-la: enciumado ou satisfeito por a sua mulher ter recebido os favores do seu Deus? Não tinha forma de o saber; pela força com que Ele a abraçou, sabia que seria impossível protestar.

De início; o Seu corpo desconhecido parecera-lhe frio; agora sentia-o agradavelmente quente, como que febril.

Ele ergueu-a do chão e deitou-a; um único e rápido toque e, sem saber como, o seu corpo abriu-se, latejante e ansioso. De repente, Ele estava sobre e dentro dela, os relâmpagos brincando em torno da Sua silhueta e do Seu rosto, ecoando fundo nos golpes ritmados do Seu corpo. Por momentos pareceu-lhe não se tratar de um homem, não ser de facto nada de humano, mas sim que estava sozinha num lugar altíssimo varrido pelo vento, rodeada pelo bater de asas ou cercada por um enorme anel de fogo; ou que alguma besta a rondava e violentava confusa e arrebatada - asas batendo, um trovão; e, ao mesmo tempo, uma boca quente e imperiosa apossou-se da sua.

Subitamente, chegou o fim, e era como algo acontecido há muito tempo, uma memória esbatida ou um sonho; e ela estava sozinha na cama sentindo-se muito pequena, gelada e abandonada e só, enquanto o Deus se erguia acima dela - até, parecia-lhe, ao céu. Ele curvou-se e beijou-a com enorme ternura. Ela fechou os olhos e quando acordou Tíndaro dormia profundamente a seu lado; e ela não tinha a certeza de alguma vez ter saído da cama. Era Tíndaro; quando estendeu a mão para se certificar, a pele dele estava morna - ou fresca - e não havia o menor traço do brilho dos relâmpagos no cabelo pousado sobre a almofada a seu lado.

Teria, então, apenas sonhado? Enquanto este pensamento lhe cruzava o espírito ouviu ao longe, no exterior da casa, o murmúrio do trovão; para onde quer que tivesse partido, o Deus não a tinha abandonado por completo.

Sabia agora que, por mais tempo que vivesse com Tíndaro como sua mulher, não mais olharia para o rosto do marido sem nele procurar algum sinal do Deus que a tinha visitado sob a sua forma.

 

Sempre que Hécuba, a rainha, saía as muralhas de Tróia, olhava para trás, com enorme orgulho, para a cidade-fortaleza erguendo-se, socalco a socalco, sobre a planície fértil do verde rio Escamandro, por trás do qual se estendia o mar. Sentia-se sempre maravilhada com a acção dos deuses que lhe haviam dado a soberania de Tróia. Ela, a rainha; e Príamo como seu marido e consorte.

Era ela a mãe do príncipe Heitor, o herdeiro de Príamo. Um dia os seus filhos e filhas herdariam aquela cidade e as terras para além dela, até onde o olhar alcança.

Mesmo que a criança que em breve teria fosse uma filha, Príamo não teria razões de queixa suas. Heitor tinha agora sete anos, idade suficiente para aprender a manejar as armas. A sua primeira armadura havia já sido encomendada ao ferreiro que servia a casa real. A filha, Políxena, tinha quatro anos, e um dia seria bonita, com um longo cabelo avermelhado como o de Hécuba. Viria a ter tanto valor como qualquer filho, pois uma filha podia casar-se com um dos reis rivais de Príamo e cimentar uma sólida aliança. A casa de um rei deve ser rica em filhos e filhas; e as mulheres do palácio tinham-lhe dado muitos filhos e poucas filhas. Mas Hécuba, como sua rainha, tinha a cargo os filhos do rei, e era seu dever - não, seu privilégio - decidir como todos eles deveriam ser educados, tivessem nascido dela ou de qualquer outra mulher.

A rainha Hécuba era uma mulher atraente, alta, de ombros largos, o cabelo castanho-avermelhado alisado para trás, descobrindo-lhe a testa, e penteado em longos caracóis à altura do pescoço. Caminhava como a Deusa Hera, com a criança (pesada e prestes a nascer) orgulhosamente na sua frente. Envergava o corpete decotado e a saia de folhos com riscas brilhantes que eram o vestuário habitual das mulheres nobres de Tróia. Um colar de ouro, da largura da palma da sua mão, brilhava-lhe em torno da garganta.

Quando percorria uma rua sossegada perto do mercado, uma mulher do povo, baixa, morena e grosseiramente vestida de linho cor de terra, correu a tocar o seu ventre murmurando, como que assustada com a sua própria temeridade, «A tua bênção, ó rainha».

- Não sou eu - respondeu Hécuba -, mas sim a Deusa quem te abençoa.

Ao mesmo tempo que estendia as mãos, Hécuba sentiu a sombra da Deusa sobre ela, como um formigueiro no alto da cabeça; e era visível no rosto da mulher o infalível reflexo do respeito e admiração face à súbita mudança.

- Que tu possas gerar muitos filhos e filhas para a nossa cidade. Peço-te que me abençoes também, filha - disse Hécuba gravemente.

A mulher levantou os olhos para a rainha - ou será que viu somente a Deusa? - e murmurou:

- Senhora, que a fama do príncipe que vais dar à luz ofusque a própria fama do príncipe Heitor.

- Assim seja - murmurou a rainha, e perguntou-se porque teria sentido um pequeno estremecimento premonitório como se, de algum modo, entre os lábios da mulher e os seus ouvidos, a bênção se tivesse transformado em maldição.

Deve também ter sido visível no seu rosto, pensou ela, pois a sua camareira aproximou-se e disse-lhe ao ouvido:

- Senhora, estás pálida; será o princípio do trabalho de parto?

A confusão da rainha era tal que por momentos se chegou a perguntar se o estranho suor frio que a envolveu não seria de facto o primeiro sinal do processo do nascimento. Ou seria apenas o resultado do seu breve ensombra­mento pela Deusa? Não se lembrava de nada de semelhante aquando do nascimento de Heitor, mas, na altura, ela era uma rapariguinha pouco cons­ciente do processo que se desenrolava dentro de si.

- Não sei - disse ela. - É possível.

- Então tens de voltar para o palácio e o rei deve ser avisado - disse a mulher.

Hécuba hesitou. Não tinha a menor vontade de voltar para dentro de casa, mas se estava realmente em trabalho de parto era seu dever (não só para com a criança e o marido, como também para com o rei e todo o povo de Tróia) salvaguardar o príncipe ou princesa que ia nascer.

- Muito bem, voltemos para o palácio - disse ela, virando-se em sentido contrário.

Uma das coisas que a perturbavam quando percorria a cidade era a multidão de mulheres e crianças que sempre a seguiam pedindo bênçãos. Desde que a sua gravidez se tornara visível elas imploravam a bênção da fertilidade como se ela pudesse, tal como a Deusa, conceder o dom da maternidade.

Acompanhada da sua camareira passou sob as leoas gémeas, guardiãs das portas do palácio de Príamo, atravessando o enorme pátio que se estendia

para além delas e onde os soldados se reuniam para se exercitarem nas armas. A sentinela do portão ergueu a lança, saudando-a.

Hécuba observou os soldados lutando, dois a dois, com armas embota­das. Sabia tanto de armas como qualquer um deles, pois tinha nascido e i crescido nas planícies, filha de uma tribo nómada cujas mulheres montavam a cavalo e se treinavam com a espada e a lança como os homens das cidades.

A sua mão ansiava por uma espada, mas esse não era o costume em Tróia, e embora, a princípio, Príamo lhe permitisse manejar armas e praticar com os seus soldados, quando ficara grávida de Heitor ele tinha-o proibido. Em vão lhe dissera que as mulheres da sua tribo andavam a cavalo e faziam uso de armas até poucos dias antes de terem as suas crianças; ele não lhe dera ouvidos.

, As parteiras reais disseram-lhe que o simples facto de tocar em armas de gume causaria dano à criança e talvez mesmo aos homens possuidores das armas. A mão de uma mulher, diziam, especialmente de uma mulher no seu estado, inutilizaria a arma para a batalha. Aos ouvidos de Hécuba isto soava como uma refinada idiotice, como se os homens receassem a ideia de que uma mulher pudesse ser suficientemente forte para se proteger a si própria.

- Mas tu não tens necessidade de te proteger, meu amor adorado - dissera Príamo. - Que espécie de homem seria eu, se não fosse capaz de proteger a minha mulher e o meu filho?

Isto tinha dado o assunto por encerrado e, desde então, Hécuba não tinha sequer tocado o punho de uma arma. Ao imaginar o peso de uma arma na sua mão esboçou um esgar, apercebendo-se de que estava enfraquecida devido ao trabalho doméstico destinado às mulheres e amolecida pela falta de exercício. Príamo não chegava ao extremo dos reis argivos, que mantinham as mulheres confinadas no interior das suas casas, mas não ficava satisfeito quando ela se afastava muito do palácio. Ele tinha crescido entre mulheres que viviam sempre dentro de casa e um dos seus comentários mais cáusticos acerca de uma mulher era «tisnada de tanto vadiar».

A rainha atravessou a pequena porta, penetrando nas sombras frescas do palácio, e percorreu as salas de chão de mármore. O leve som das suas saias arrastando pelo chão e, atrás de si, os passos leves da sua camareira, ouviam--se no silêncio.

Nos seus aposentos ensolarados, com todas as cortinas afastadas - como ela gostava de os manter -, as criadas expunham as roupas ao sol e ao ar; quando ela entrou pararam para a saudar. A camareira anunciou:

- A rainha vai dar à luz; mandem chamar a parteira real.

- Não, espera! - A voz suave mas decidida de Hécuba cortou os gritos de excitação. - Não há assim tanta pressa; não temos a certeza. Senti-me esquisita e não percebia o que me estava a incomodar; mas não quer dizer, de modo algum, que seja isso.

- De qualquer modo, senhora, se não tens a certeza, devias permitir que ela viesse para junto de ti - insistiu a mulher, e a rainha acabou por concordar. Com certeza que não havia motivo para aflições. Se estivesse em trabalho de parto, em breve teriam a confirmação; mas se não estivesse, também não lhe faria mal nenhum falar com a mulher. A sensação estranha tinha desaparecido e não voltara; era como se nunca tivesse existido.

O Sol foi baixando e Hécuba passou o dia ajudando as mulheres a dobrar e arrumar as roupas postas a arejar. À hora do pôr do Sol, Príamo mandou dizer que passaria o serão com os seus homens; ela comeria com as mulheres e deveria deitar-se sem esperar por ele.

Cinco anos atrás, isto tê-la-ia desapontado; não conseguiria dormir sem que ele a envolvesse nos seus braços fortes e carinhosos. Agora, e especialmente naquele estado avançado de gravidez, agradava-lhe a ideia de ter a cama só para si. Mesmo quando a hipótese de que talvez ele estivesse partilhando o leito de outra mulher da corte, quem sabe o de uma das mães dos seus outros filhos, não ficou perturbada; sabia que um rei tem de ter muitos filhos e ele tinha pelo seu filho Heitor uma nítida preferência.

Não entraria em trabalho de parto - pelo menos nessa noite; por isso chamou as suas aias para que a viessem ajudar a deitar com a cerimónia prevista. Por qualquer razão, a última imagem no seu espírito, antes de adormecer, foi a da mulher que, nesse dia, lhe pedira a bênção na rua.

Um pouco antes da meia-noite, o guarda que vigiava os aposentos da rainha, tendo-se deixado adormecer, foi acordado por um grito lancinante de desespero e horror que pareceu vibrar por todo o palácio. Completamente acordado pelo susto, o guarda entrou nos aposentos chamando até que uma das aias aparecesse.

- Que aconteceu? A rainha está a dar à luz? A casa está a arder? ­perguntou ele.

- Um mau presságio - gritou a mulher -, o pior dos sonhos... - e nesse momento a própria rainha apareceu à entrada da porta.

- Fogo! - berrou, e o guarda olhou assombrado para a figura geralmente majestosa da rainha, com o seu longo cabelo avermelhado solto, caindo descuida­damente até às ancas, a túnica desatada no ombro e descomposta, deixando-a seminua da cintura para cima. Ele nunca havia reparado que a rainha era bela.

- Senhora, que posso fazer por ti? - perguntou. - Onde é o fogo?

E então presenciou algo de espantoso: num abrir e fechar de olhos a rainha alterou-se, deixando de ser aquela estranha perturbada para se tornar na senhora real que ele conhecia. A sua voz tremia de medo, embora tenha conseguido dizer calmamente:

- Deve ter sido um sonho. Um sonho com o fogo, nada mais.

- Diz-nos, senhora - insistiu a camareira, aproximando-se da rainha, os seus olhos atentos e cautelosos enquanto se movia em direcção ao guarda. - Vai-te. Não devias estar aqui.

- É meu dever certificar-me de que tudo está bem com as mulheres do rei ­disse ele firmemente, com os olhos no rosto, agora calmo, da rainha.

- Deixa-o estar; ele não faz mais do que a sua obrigação - disse Hécuba à mulher, com a voz ainda trémula. - Asseguro-te de que não passou de um sonho mau, guarda; as mulheres verificaram todas as divisões. Não há fogo.

- Temos de mandar buscar uma sacerdotisa ao templo - advertiu uma mulher que se encontrava ao lado de Hécuba. - Temos de saber que perigo é anunciado por tão terrível sonho!

Um passo enérgico soou e a porta abriu-se bruscamente; o rei de Tróia parou na soleira - um homem alto e forte rondando os trinta anos, solidamente musculado e de ombros largos, mesmo sem a armadura, de cabelo escuro e encaracolado e com uma barba crespa e escura cuidadosamente aparada ­exigindo que lhe dissessem, em nome de todos os deuses e deusas, que agitação era aquela em sua casa.

- Senhor... - as criadas recuaram quando Príamo avançou, cruzando a porta.

- Senhor meu marido, lamento esta agitação. Tive um sonho terrível. Príamo acenou às mulheres.

- Vão certificar-se de que tudo está bem nos quartos das crianças reais ­ordenou, e as mulheres saíram correndo. Príamo era um homem amável, mas não era aconselhável irritá-lo nas raras ocasiões em que se descontrolava. - E tu - disse ele para o guarda -, ouviste o que disse a rainha: vai imediatamente ao Templo da Grande Mãe. Diz que a rainha teve um sonho de mau augúrio e necessita de uma sacerdotisa que lho interprete. Já!

O guarda apressou-se a descer as escadas e Hécuba estendeu a mão para o marido.

- Não passou então, realmente, de um sonho? - perguntou ele.

- Nada mais que um sonho - disse ela, mas a sua simples recordação continuava a fazê-la tremer.

- Diz-me, meu amor - disse ele, conduzindo-a de volta ao leito, sentando­-se a seu lado e inclinando-se para a frente para segurar os dedos dela, pouco mais pequenos que os seus, entre as suas palmas calosas.

- Sinto-me tão idiota por ter incomodado toda a gente por causa de um pesadelo - disse ela.

- Não, tinhas toda a razão - disse ele. - Quem sabe? O sonho pode ter sido enviado por um deus teu inimigo... ou meu. Ou por um deus amigável, como aviso de catástrofe. Conta-me, meu amor.

- Sonhei... Sonhei... - Hécuba engoliu em seco, tentando libertar-se da sensação de pavor que a sufocava. - Sonhei que a criança tinha nascido (um rapaz) e eu estava deitada a olhá-lo enquanto lhe punham as fraldas, quando de repente um deus apareceu no quarto...

- Que Deus? - interrompeu Príamo abruptamente. - Com que forma? - Como hei-de saber? - respondeu Hécuba justificadamente. - Sei muito pouco dos Olímpicos. Mas tenho a certeza de que não ofendi qualquer deles nem cometi desonra alguma.

- Fala-me da sua forma e aspecto - insistiu Príamo.

- Era jovem e imberbe; apenas seis ou sete anos mais velho do que o nosso Heitor - disse Hécuba.

- Então deve ter sido Hermes, o Mensageiro dos Deuses - disse Príamo. Hécuba gritou:

- Mas porque havia um deus dos Argivos de vir até mim?

- Não nos compete questionar os actos dos deuses - disse Príamo. - O que posso dizer? Continua.

Hécuba falou, a voz ainda insegura:

- Hermes então, ou fosse que deus fosse, debruçou-se sobre o berço e pegou no bebé... - Hécuba estava branca, com a testa coberta de gotas de suor - ...não era um bebé, mas... uma criança... uma criança nua, a arder... quero dizer, estava toda em chamas, ardendo como um archote. E à medida que se movia, o fogo vinha e invadia o castelo, queimando tudo e invadindo a cidade... - não aguentou e começou a soluçar. - Oh, o que quereria isto dizer?

- Só os deuses o sabem ao certo - disse Príamo, e segurou a mão dela na sua, com firmeza.

- No meu sonho - balbuciou Hécuba - o bebé corria à frente do Deus... um recém-nascido correndo, em chamas, pelo palácio fora, e, logo após a sua passagem, os quartos pegavam fogo. Depois desceu e correu através da cidade; eu fiquei no terraço que dá sobre a cidade; e o fogo, ao mesmo tempo que ele corria, ia-se ateando atrás de si; Tróia estava a arder, toda em chamas, desde o alto da cidade até à praia e até o mar estava todo incendiado na sua frente...

- Por Posídon - murmurou Príamo entredentes - que terrível pressá­gio... para Tróia e para todos nós!

Ficou sentado em silêncio, afagando a mão dela, até que um leve som fora do quarto anunciou a chegada da sacerdotisa.

Ela penetrou no quarto e disse em voz calma e amistosa:

- Paz para todos nesta casa. Rejubilem, ó Senhor e Senhora de Tróia! O meu nome é Sarmático. Trago-vos a bênção da Mãe Sagrada. Que serviço poderei prestar à rainha?

Era uma mulher alta e robusta, provavelmente ainda em idade de ter filhos, embora o seu cabelo escuro exibisse já alguns fios cinzentos. Sorrindo, disse para Hécuba:

- Vejo que a grande deusa já te abençoou, rainha. Estás doente ou para dar à luz?

- Nem uma coisa nem outra - disse Hécuba. - Não te contaram nada, sacerdotisa? Um deus qualquer enviou-me um sonho mau.

- Conta-mo - disse Sarmático -, e não tenhas medo. Os deuses querem o nosso bem, disso estou certa. Por isso fala e nada receies.

Hécuba contou de novo o seu sonho, começando a achar, ao mesmo tempo que o contava, agora completamente desperta, que este, mais do que horrível, era absurdo. Ainda assim, tremia com o terror que sentira no sonho.

A sacerdotisa escutava com as sobrancelhas levemente franzidas. Quando Hécuba terminou, perguntou-lhe:

- Tens a certeza de que não houve mais nada? - Não que eu me lembre, senhora.

A sacerdotisa franziu a testa e, de uma bolsa atada à cintura, retirou uma pequena mão-cheia de seixos; ajoelhou-se no chão e lançou-os como se jogasse às pedrinhas, estudando-os e murmurando sobre a sua disposição, dispondo-os uma vez e outra e ainda uma terceira, para finalmente os recolher e voltar a colocá-los na bolsa.

Ergueu então os olhos para Hécuba.

- Eis o que te disse o mensageiro dos deuses do Olimpo. Tu geras um filho, um filho que há-de destruir a cidade de Tróia.

Hécuba susteve a respiração, consternada, mas sentiu os dedos do marido apertarem os seus, fortes, quentes e transmitindo-lhe segurança.

- Poder-se-á fazer alguma coisa para evitar essa maldição? - perguntou Príamo.

A sacerdotisa encolheu os ombros.

- Ao procurar evitar o destino, os homens muitas vezes o precipitam. Os deuses enviaram-te um aviso, mas não quiseram dizer-te o que fazer para evitar essa maldição. Talvez seja mais seguro não fazer nada.

Príamo franziu o sobrolho e disse:

- Então a criança deve ser exposta à nascença - e Hécuba soltou um grito horrorizado.

- Não! Não! Foi apenas um sonho, um sonho...

- Um aviso de Hermes -disse Príamo severamente. -Expõe o rapaz logo que ele nasça; já disse! - E acrescentou, daquele modo inflexível que dava às , palavras a força de leis gravadas na pedra: - Disse o que tinha a dizer; que assim seja feito!

Hécuba tombou a chorar sobre as almofadas e Príamo disse, com ternura: - Nem em troca de Tróia inteira te daria este desgosto, minha querida, mas os deuses não podem ser ignorados.

- Deuses! - gritou Hécuba desvairada. - Que espécie de deus é esse, que envia pesadelos enganadores para destruir uma criancinha inocente, um recém­-nascido ainda no berço? Entre o meu povo - acrescentou indignada - uma criança pertence à sua mãe e ninguém, para além dela, que o carregou perto de um ano e o trouxe a este mundo, pode decidir do seu destino; se ela se recusar a amamentá-lo e a criá-lo, a escolha é sua. Que direitos sobre uma criança pode ter um homem?

Ela não disse um simples homem, mas o tom da sua voz tornava-o óbvio.

- O direito de um pai - disse Príamo secamente. - Sou o dono desta casa, e tal como eu ordenei assim será feito. Está dito, mulher!

- Não me chames mulher nesse tom - gritou Hécuba. - Sou uma cidadã livre, uma rainha, e não úma das tuas escravas ou concubinas!

Porém, apesar de tudo, ela sabia que Príamo levaria a melhor; quando escolhera casar-se com um desses homens que habitavam as cidades e assumiam direitos sobre as suas mulheres, havia consentido naquilo. Príamo levantou-se do pé dela e deu à sacerdotisa uma moeda de ouro; ela fez uma vénia e partiu.

Três dias mais tarde, Hécuba entrou em trabalho de parto e deu à luz dois gémeos: primeiro um filho, depois uma filha, tão parecidos como dois botões de rosa nascidos do mesmo pé. Eram ambos saudáveis e perfeitos, e gritavam energicamente, embora fossem tão pequeninos que a cabeça do rapaz cabia na palma da mão de Hécuba e a rapariga era ainda mais pequena.

- Olha para ele, meu senhor - disse ela furiosa para Príamo, quando ele chegou. - Não é maior do que um gatinho! E receias tu que isto tenha sido enviado por um deus para trazer a desgraça à nossa cidade?

- Tens alguma razão naquilo que dizes - admitiu Príamo. - Afinal, sangue real é sangue real, e é sagrado; ele é o filho do rei de Tróia... - Ponderou por momentos. - Sem dúvida será suficiente entregá-lo a alguém que o adopte, longe da cidade; tenho um velho servidor da minha confiança, um pastor das encostas do monte Ida, e ele criará a criança. Ficas satisfeita deste modo, minha esposa?

Hécuba sabia que a alternativa era abandonar o filho nas montanhas, e ele era tão pequeno e frágil que não tardaria a morrer.

- Assim seja então, em nome da Deusa - disse resignada, entregando o rapaz a Príamo, que o segurou desajeitadamente, como é próprio de quem não está habituado a lidar com bebés.

Príamo olhou para o filho: - Salve, meu filho.

Hécuba suspirou de alívio; depois de ter reconhecido formalmente uma criança, um pai não poderia mandá-la matar, nem abandoná-la para que mor­resse.

Heitor e Políxena tinham sido autorizados a ir falar com a mãe.

- Vais dar ao meu irmão um nome real, pai? - perguntou Heitor. Príamo franziu o sobrolho, pensativo. Depois disse:

- Alexandre. E que a rapariga se chame Alexandra, então.

Saiu levando consigo Heitor. Hécuba ficou deitada, com a menina de cabelos escuros na curva do seu braço, pensando que encontraria conforto no facto de saber que o filho estava vivo, mesmo não podendo ser ela a criá-lo, enquanto pudesse ficar com a sua filha. «Alexandra», pensou, «chamar-lhe-ia Cassandra.»

A princesa ficara no quarto com as mulheres e viera encostar-se ao corpo de Hécuba.

- Gostas da tua irmãzinha, minha querida?

- Não. É vermelha e feia; nem consegue ser tão bonita como a minha boneca - disse Políxena.

- Todos os bebés são assim, à nascença - disse Hécuba. - Tu eras tão vermelha e feia como ela; em breve, será tão bonita como tu.

A criança fez um ar amuado.

- Para que queres outra filha se já me tens a mim, mãe?

- Porque, minha querida, se uma filha é uma coisa boa, duas filhas são uma dupla bênção.

- Mas o pai não achou que dois filhos era melhor do que um - contrapôs Políxena, e Hécuba recordou a profecia feita pela mulher, na rua. A sua tribo considerava os gémeos um mau presságio e invariavelmente executava-os. Se ela tivesse ficado com os seus teria tido de aceitar o sacrifício de ambas as crianças.

Hécuba sentia ainda restos desse medo supersticioso: o que poderia ter acontecido de errado para lhe serem dadas duas crianças no mesmo parto, como as ninhadas dos animais? As mulheres da sua tribo acreditavam que o sacrifício dos gémeos era necessário; no entanto, tinham-lhe dito que a única razão desse sacrifício era a impossibilidade de uma mulher amamentar dois filhos ao mesmo tempo. Os seus gémeos, pelo menos, não tinham sido sacrificados à pobreza da tribo. Em Tróia havia muitas amas de leite; poderia ter ficado com ambas as crianças. Não tinha sido, porém, essa a decisão de Príamo. Perdera uma criança - mas, pelas graças da Deusa, só uma e não as duas.

Uma das suas camareiras murmurou, quase imperceptivelmente:

- Príamo está louco! Rejeitar um filho e ficar com uma filha para criar?! «Entre os meus», recordou Hécuba, «uma filha não tem menos valor do que um filho; se esta pequenina tivesse nascido na minha tribo, poderia educá-la para ser uma mulher guerreira! Mas se tivesse nascido na minha tribo não teria sobrevivido. Aqui só será apreciada pelo dote que possuir quando casar, como eu me casei, com um rei qualquer.»

Mas o que seria do seu filho? Viveria ele na sombra. como pastor, a vida inteira? Era, provavelmente, melhor do que a morte, e o Deus que enviara o sonho, tornando-se assim responsável pela sua sina, poderia ainda protegê-lo.

 

A luz reflectia-se no mar e nas pedras, branca com um brilho que feria os olhos. Cassandra semicerrou os seus para os defender da claridade e puxou devagarinho pela manga de Hécuba.

- Porque vamos hoje ao templo, mãe? - perguntou ela.

Que isso não lhe interessava, ela mantinha em segredo. Ser-lhe permitido sair dos alojamentos das mulheres era, para ela, uma aventura invulgar e mais invulgar ainda sair do próprio palácio. Qualquer que fosse o destino, a excursão era bem-vinda.

- Vamos rezar para que a criança que vou ter este Inverno seja um filho - disse Hécuba baixinho.

- Porquê, mãe? Já tens um filho. Pensei que preferisses ter outra filha; só ,. tens duas raparigas: Eu antes queria ter outra irmã.

- Estou certa que sim - disse a rainha, sorrindo -, mas o teu pai quer outro filho. Os homens querem sempre filhos para, quando crescerem, poderem lutar nos seus exércitos e defender a cidade.

- Há alguma guerra?

- Não, agora não; mas há sempre guerras quando uma cidade é tão rica como Tróia.

- Mas se eu tivesse outra irmã ela podia ser uma mulher guerreira, tal como tu quando eras rapariga, e aprender a usar armas e defender a cidade tão bem como qualquer filho. - Fez então uma pausa para reflectir. - Não creio que a Políxena pudesse ser um soldado: é demasiado delicada e tímida. Mas eu gostava de ser uma mulher guerreira. Como tu.

- Estou certa que gostarias, Cassandra; mas isso não é costume entre as mulheres de Tróia.

- Porque não?

- O que é que queres dizer com «porque não?» Os costumes são. Não existe qualquer razão para eles.

Cassandra dirigiu à mãe um olhar céptico, mas tinha aprendido já a não a questionar quando ela falava naquele tom. Secretamente considerava a mãe a mulher mais bela e majestosa do Mundo - alta e forte, com o seu corpete decotado e a sua saia de folhos -, mas já não a julgava omnisciente como a Deusa. Ao longo dos seus seis anos de existência tinha ouvido coisas semelhantes quase todos os dias, e a cada ano que passava menos acreditava que assim fosse; mas quando Hécuba falava assim, Cassandra sabia que não conseguiria obter mais nenhuma explicação.

- Fala-me dos teus tempos de guerreira, mãe.

- Sou da tribo nómada das mulheres cavaleiras - começou Hécuba. Estava quase sempre disposta a falar sobre a sua juventude; mais ainda, pensou Cassandra, desde esta última gravidez. - Os nossos pais e irmãos são também cavaleiros e muito corajosos.

- São guerreiros?

- Não, criança. Entre as tribos de cavaleiros as mulheres é que são as guerreiras. Os homens são curandeiros e mágicos e possuem todo o género de sabedoria; conhecem a arte das árvores e das ervas.

- Quando for mais velha posso ir viver para lá?

- Com os Centauros? Claro que não; as mulheres não podem ser adoptadas por uma tribo de homens.

- Não, eu queria dizer com a tua tribo, das mulheres cavaleiras.

- Não creio que o teu pai gostasse - disse Hécuba, pensando que aquela sua filha, pequena e sisuda, poderia muito bem crescer para se tornar numa chefe entre a sua gente nómada -, mas talvez isso se possa arranjar um dia. Na minha tribo um pai só tem autoridade sobre os filhos; é a mãe que decide o destino de uma filha. Terias de aprender a montar e a usar armas.

Tomou entre as suas a mão pequena e macia, pensando que aquela dificilmente seria a mão de uma mulher guerreira.

- Que templo é aquele... ali em cima? - perguntou Cassandra, apon­tando para o cimo do mais alto dos socalcos que se erguiam sobre elas, indicando um edifício que brilhava ofuscante sob o sol. Do ponto em que se encontravam, Cassandra, debruçando-se no muro que protegia a escada sinuosa que subia, podia olhar para baixo e ver os telhados do palácio e as pequenas figuras das mulheres pondo a roupa a enxugar, pequenas árvores em canteiros, as vestimentas coloridas das mulheres e os colchões onde se dei­tavam para descansar ao sol; e, muito mais abaixo, os muros da cidade vigiando a planície.

- É o Templo de Palas Atena, a mais ilustre das deusas do povo do teu pai. ~

- É a mesma que a Grande Deusa, aquela a que tu chamas Terra Mãe? - Todas as deusas são uma, assim como todos os deuses são um; mas mostram-se à humanidade com diferentes rostos, em cidades diferentes e em tempos diferentes. Aqui, em Tróia, Palas Atena é a Deusa enquanto virgem, porque no seu templo, sob o cuidado das suas virgens, está guardado o objecto mais sagrado da nossa cidade. Chama-se Paládio.

Hécuba fez uma pausa, mas Cassandra, pressentindo uma história, estava calada que nem um rato e Hécuba continuou como quem recorda.

- Dizem que quando a Deusa Atena era jovem tinha um mortal por companheira de folguedos, Palas, uma virgem libanesa; e quando Palas morreu Atena chorou tanto a sua morte que juntou o nome dela ao seu e passou a ser conhecida por Palas Atena. Modelou uma imagem da sua amiga e colocou-a no Templo de Zeus no Olimpo. Naquela época, Erecteu, que era rei de Creta (um antepassado do teu pai do tempo em que a sua gente ainda não tinha vindo para esta parte do mundo), tinha uma manada de um milhar de belas cabeças de gado, e Bóreas, o filho do Vento Norte, gostava delas e visitava-as sob a forma de um grande touro branco; e estas reses sagradas transformaram-se nos deuses-touros de Creta.

- Não sabia que os reis de Creta eram nossos antepassados - disse Cassandra.

- Há muitas coisas que não sabes - disse Hécuba reprovadora, e Cassan­dra susteve a respiração; teria a sua mãe ficado demasiado irritada para acabar a história? Mas as rugas na testa franzida de Hécuba depressa desapareceram e ela continuou.

- Ilo, o filho de Erecteu, veio a estas paragens e aqui tomou parte nos Jogos Sagrados. Foi ele o vencedor dos jogos e recebeu, como prémio, cinquenta rapazes e cinquenta virgens. Eem vez de os fazer seus escravos disse: «Vou libertá-los e com eles fundar uma cidade.» E assim partiu num barco ao sabor da vontade dos deuses; e sacrificou ao Vento Norte para que este o levasse até ao sítio certo para a sua cidade a que ele tencionava chamar Ílion, que é outro nome dado à cidade de Tróia.

- E o Vento Norte empurrou-o até aqui? - perguntou Cassandra.

- Não; ele foi desviado da sua rota por um furacão, e quando veio descan­sar no estuário do nosso sagrado Escamandro, os deuses enviaram-lhe uma vaca, uma bela vitela, uma filha do Vento Norte, e Ilo ouviu uma voz que gritava: «Segue a vaca! Segue a vaca! No local onde a vaca se deitar, ergue a tua cidade!» E dizem que a vaca vagueou até à curva do rio Escamandro e lá se deitou; aí, Ilo construiu a cidade de Tróia. E uma noite acordou ouvindo uma outra voz dos Céus que lhe dizia: «Preserva a imagem que te ofereço; pois enquanto Palas habitar a tua cidade, a tua cidade nunca cairá. » E ele acordou e contemplou a imagem de Palas com uma roca numa mão e uma lança na outra, como a própria Atena. Assim, quando a cidade foi erigida, ele construiu primeiro este templo no lugar mais alto, aqui em cima, e dedicou-o a Atena. Ela era então a nova face da Deusa, uma das grandes do Olimpo, adorada mesmo pelos que honram os deuses do Céu e o Senhor do Trovão; ele fê-la patrona da cidade. E ela trouxe-nos a arte da tecelagem e as dádivas da vinha e da oliveira, o vinho e o azeite.

- Mas nós hoje não vamos ao templo Dela, mãe?

- Não, meu amor, embora a Deusa Virgem seja também a patrona dos nascimentos e eu devesse sacrificar também a ela. Hoje procuramos Apolo, Senhor do Sol. Ele é também o Senhor dos Oráculos; matou a Grande Píton, a Deusa do Mundo Subterrâneo, e tornou-se Senhor do Mundo Subterrâneo também.

- Diz-me, se a Píton era uma deusa, como é que ele a pode ter morto? - Oh, suponho que é porque o Senhor do Sol é mais forte que qualquer deusa - respondeu a mãe, quando começavam a subir a colina no centro da cidade. Os degraus eram íngremes e as pernas de Cassandra iam ficando fatigadas à medida que se esforçava para os subir. Olhou uma vez para trás; estavam tão alto, tão perto da casa do Deus, que ela conseguia ver para lá da muralha da cidade até aos grandes rios que corriam através das planícies e até onde eles se juntavam numa grande massa prateada correndo na direcção do mar.

Então, por um momento, pareceu-lhe que a superf~icie do mar se ensom­brava e que avistava navios manchando o brilho das ondas. Esfregou os olhos e disse:

- Aqueles são os navios do meu pai? Hécuba olhou para trás e perguntou:

- Que navios? Não vejo navios nenhuns... Estás a brincar comigo?

- Não; estou mesmo a vê-los. Olha ali, um tem uma vela cinzenta... Não, era só o sol nos olhos; agora já não consigo vê-los.

Os olhos doíam-lhe e os navios tinham desaparecido - ou nunca teriam passado de reflexos na água?

O ar parecia-lhe tão claro, cheio de pequenas bolhas como se fosse um véu muito fino que de um momento para o outro se pudesse rasgar ou abrir, descobrindo uma passagem para outro mundo para além deste. Não se lembrava de alguma vez ter visto uma coisa assim. Sentiu, sem saber como, que os navios que ela vira estavam naquele outro mundo. Talvez ela os viesse a ver, um dia. Era suficientemente pequena para não considerar aquilo, de forma alguma, estranho. A mãe continuou a subir, e Cassandra achou que a rainha ficaria perturbada se ela voltasse a falar nos navios que tinha visto e agora já não via. Apressou-se a ir atrás da mãe, com as pernas doendo ao mesmo tempo que galgava os degraus.

O Templo de Apolo Hélio, o Senhor do Sol, situava-se a mais de meio caminho do cume do monte sobre o qual se erguia a cidade de Tróia. Era apenas dominado pela grande altura do Templo da Virgem Atena, muito mais acima; mas era o mais belo dos templos da cidade. Construído em mármore branco e brilhante, com altas colunas de ambos os lados, sobre fundações de alvenaria erigidas - como haviam dito a Cassandra mais do que uma vez -por titãs, antes mesmo do nascimento dos homens mais velhos da cidade. A luz era tão crua, que Cassandra protegeu os olhos com as mãos. Bem, se aquela era realmente a morada do Deus Sol, qual poderia ser a sua essência senão a luz intensa e eterna?

No pátio exterior, onde os mercadores vendiam todo o tipo de coisas - animais para sacrifícios, pequenas estátuas do Deus, em barro, comidas e bebidas diversas -, a mãe comprou-lhe uma fatia de melão doce. Sentiu-a deslizar deliciosamente pela garganta que a longa e poeirenta subida deixara seca. o espaço sob o pórtico do pátio seguinte era fresco e sombrio; aí, alguns sacer­dotes e funcionários, reconhecendo a rainha, fizeram-lhe sinal para que avan­çasse.

- Bem-vinda, senhora - disse um deles -, e a princezinha também. Não quererás sentar-te aqui a descansar por alguns momentos até que a sacerdotisa te possa receber?

A rainha e a princesa foram conduzidas a um banco de mármore, à sombra. Cassandra sentou-se calmamente ao lado da mãe, por alguns momentos, contente por se abrigar do calor; acabou de comer o melão e limpou as mãos ao saiote, olhando depois em volta à procura de um sítio para deitar a casca; não lhe parecia correcto atirá-la para o chão debaixo do olhar de sacerdotes e sacerdo­tisas. Deslizou de cima do banco e descobriu um cesto onde se encontrava uma quantidade de peles e cascas de frutos; pôs a sua junto com as outras.

Depois passeou-se calmamente em volta das salas, perguntando a si própria o que iria ver e se a casa de um deus seria muito diferente da casa de um rei. Aquela, é claro, era apenas a sua antecâmara, onde as pessoas esperavam audiência; havia uma sala como aquela no palácio, onde os peticionários aguar­davam quando queriam pedir um favor ao rei ou oferecer-lhe um presente. Indagava-se sobre se ele teria um quarto ou se dormiria e tomaria banho noutro sítio. Cassandra espreitou para o interior da sala principal, a qual, pensou, deveria ser a sala de audiências do Deus.

Ele estava lá. As cores com que fora pintado eram tão naturais que Cassan­dra não percebeu que estava a olhar para uma estátua. Parecia lógico que um deus fosse um pouco maior do que um ser normal, aprumado e austero, com um sorriso distante mas acolhedor. Cassandra penetrou sub-repticiamente na sala até ficar mesmo junto ao pé de Deus e, de repente, pareceu-lhe que o ouvira falar; depois apercebeu-se de que era apenas uma voz dentro da sua cabeça.

«- Cassandra», disse ele, e ela achou perfeitamente natural que um deus soubesse o seu nome sem que ninguém lho tivesse dito, «queres ser Minha sacerdotisa?»

Ela murmurou, sem saber nem se importar se teria realmente falado: - Queres---me, meu Senhor Apolo?

«- Sim. Fui Eu quem te chamou aqui», disse ele. A voz era intensa e esplendorosa, exactamente como ela imaginara que devia ser a voz de um deus; e tinham-lhe dito que o Senhor do Sol era também o deus da música e das canções.

- Mas eu ainda sou só uma menina, nem sequer tenho idade para deixar a casa do meu pai - sussurrou ela.

«- Mesmo assim ordeno-te que, quando esse dia chegar, te lembres de que és Minha», disse a voz, e, por instantes, os grãos de poeira dourada sobre os fios oblíquos de sol fundiram-se num único e enorme raio de luz através do qual o Deus parecia chegar até ela, num toque abrasador... subitamente, o brilho desapareceu e ela compreendeu que era apenas uma estátua fria e imóvel, em nada semelhante ao Apolo que falara com ela. A sacerdotisa tinha chegado para conduzir a sua mãe até junto da estátua, mas Cassandra puxou pela mão da mãe.

- Está tudo bem - segredou-lhe repetidamente. - O Deus disse-me que te daria o que pediste.

Não fazia ideia de quando ouvira tal coisa; sabia simplesmente que a criança da mãe era um rapaz, e se ela o sabia agora e não sabia antes, então devia ter sido o Deus que lho tinha dito. Por isso, apesar de não ter ouvido a voz do Deus, ela sabia que o que dizia era verdadeiro.

Hécuba olhou para ela com cepticismo, soltou-lhe a mão e entrou com a sacerdotisa para a sala de dentro. Cassandra foi dar uma volta pela sala.

Ao lado do altar estava um pequeno cesto de junco e, quando Cassandra espreitou para dentro dele, captou indícios de movimento. A princípio pensou que eram gatinhos e perguntou-se porquê, já que os gatos não eram sacrificados aos deuses. Olhando mais de perto viu que eram duas pequenas cobras enroladas. Sem parar para pensar, estendeu os braços e agarrou uma em cada mão, puxando-as até junto do rosto. Eram macias, quentes e secas, levemente esca­mosas entre os seus dedos e não conseguiu resistir a beijá-las. Sentiu-se estranha­mente eufórica e ligeiramente indisposta, o seu pequeno corpo tremendo da cabeça aos pés.

Nunca soube por quanto tempo ficou ali agachada, segurando as serpentes; nem tão-pouco saberia contar o que lhe disseram. Sabia apenas que as escutaria atentamente o tempo todo.

Ouviu então a voz da sua mãe, num grito de horror e desaprovação. Levantou os olhos, sorrindo.

- Não faz mal - disse ela, olhando para além da mãe, para o rosto perturbado da sacerdotisa que se encontrava atrás de Hécuba. - O Deus disse­-me que eu podia.

- Larga-as depressa - disse a sacerdotisa. - Não estás habituada a lidar com elas; podiam muito bem ter-te mordido.

Cassandra fez uma última carícia a cada uma das serpentes e colocou-as de novo no cesto de junco. Parecia-lhe que sentiam relutância em deixá-la e ela, debruçando-se, prometeu que voltaria para brincar com elas.

- Menina má e desobediente! - gritou Hécuba quando ela se levantou, agarrando-a por um braço e apertando com força. Cassandra recuou, perturbada; não se lembrava de alguma vez a sua mãe se ter zangado com ela daquela maneira, e não conseguia imaginar por que razão ela estaria a fazer tanto espalhafato por uma coisa assim.

- Não sabes que as cobras têm veneno e são perigosas?

- Mas elas pertencem ao Deus - argumentou Cassandra. - Ele não deixaria que elas me mordessem.

- Tiveste muita sorte - disse a sacerdotisa gravemente.

- Tu pegas-lhes e não tens medo - disse Cassandra.

- Mas eu sou sacerdotisa e fui ensinada a lidar com elas.

- Apolo disse que eu iria ser sua sacerdotisa e disse-me que eu podia tocar-lhes - retorquiu, e a sacerdotisa olhou-a, franzindo o sobrolho.

- Isso é verdade, criança?

- Claro que não é verdade - disse Hécuba rispidamente. - Ela está a inventar uma história! Passa a vida a imaginar coisas.

Aquilo era tão injusto e sem razão que Cassandra começou a chorar. A mãe agarrou-a pelo braço com firmeza e arrastou-a para fora, empurrando-a na sua frente pelos íngremes degraus abaixo com tal rudeza que ela tropeçou e quase caiu. O dia parecia ter perdido todo o seu brilho dourado. O Deus desaparecera; já não conseguia sentir a sua presença e isso dava-lhe ainda mais vontade de chorar do que a dor provocada pela mão da sua mãe na parte superior do braço.

- Porque é que foste fazer uma coisa destas? - ralhou Hécuba de novo. - Será que és tão bebé que eu não possa deixar-te sozinha vinte minutos sem que arranjes sarilhos? Brincar com as serpentes do templo! Não sabes como elas te podiam ter magoado?

- Mas o Deus disse-me que não deixaria que elas me fizessem mal ­afirmou Cassandra, teimosamente, e a mãe beliscou-a de novo, deixando-lhe uma marca no braço.

- Não deves dizer tal coisa!

- Mas é verdade - insistiu a rapariga.

- Disparates! Se voltares a dizer uma coisa dessas -disse a mãe irritada ­eu bato-te.

Cassandra ficou silenciosa. O que acontecera, acontecera; não tinha vontade nenhuma de apanhar, mas sabia a verdade e não podia negá-la. Porque não havia a mãe de confiar nela? Ela dizia sempre a verdade.

Não suportava que a sacerdotisa e a mãe pensassem que ela estava a mentir e enquanto seguia calada, já sem protestar, pela longa escadaria abaixo, com a mão apertada dentro da mão da rainha, apegava-se à imagem do rosto de Apolo ­a sua voz suave na memória. Sem que disso tivesse consciência, alguma coisa lá bem no fundo, dentro de si, esperava já por esse som.

 

Por altura da lua cheia seguinte, Hécuba deu à luz um filho, o qual seria a sua última criança. Deram-lhe o nome de Troilo. Cassandra, de pé junto à cama da mãe, na sala do parto, olhando o rosto do seu pequeno irmão, não se sentia surpreendida. Mas quando recordou à mãe que sempre soubera, desde o dia da sua visita ao templo, que a criança seria um rapaz, Hécuba pareceu contrariada.

- Pois sabias, e isso que tem? - disse ela zangada. - Mas estás realmente convencida que um deus falou contigo? Estás apenas a querer armar-te em importante - ralhou ela -, mas eu não vou dar-te ouvidos. Não és assim tão pequena. Parecem coisas de um bebé.

Mas isso, pensou Cassandra zangada, era o mais importante; ela soubera; o Deus tinha-lhe falado. Falaria Ele com bebés, então? E porque é que isso faria zangar a sua mãe? Ela sabia que a Deusa falava com a mãe; tinha visto a Senhora descer sobre Hécuba quando ela A invocava, no tempo das colheitas e nas bênçãos.

- Escuta, Cassandra - disse a rainha gravemente -, o maior crime de todos é dizer algo de não verdadeiro acerca de um deus. Apolo é o Senhor da Verdade; se pronunciares o Seu nome em vão Ele punir-te-á e a Sua ira é terrível.

- Mas eu estou a dizer a verdade; o Deus falou realmente comigo ­disse Cassandra com veemência, coisa que não era invulgar nela e que fez a mãe suspirar, desesperada.

- Bom, suponho então que tenho de te deixar nas Suas mãos. Mas, aviso-te, não fales disto a mais ninguém.

Agora que havia outro príncipe no palácio, outro filho de Príamo e da sua rainha, toda a cidade rejubilava. Cassandra era deixada, grande parte do tempo, entregue a si própria e perguntava-se por que razão um príncipe seria tão mais importante que uma princesa. Não valia a pena perguntar à mãe porque é que isso acontecia. Poderia ter perguntado à sua irmã mais velha, mas Políxena parecia não se interessar por nada para além da tagarelice com as camareiras acerca de roupas bonitas e jóias e casamentos. Para Cassandra estas coisas afiguravam-se enfadonhas, mas elas garantiam-lhe que, quando fosse mais velha, iria interessar-se pelas coisas importantes da vida de uma mulher. Ela tentava perceber por que razão seriam essas coisas assim tão importantes. Não se importava nada de ver roupas bonitas e jóias, mas não sentia o mínimo desejo de as usar; preferia vê-las em Políxena ou na sua mãe. As camareiras da mãe achavam-na tão estranha como Cassandra as achava a elas. Uma vez tinha-se recusado, obstinadamente, a entrar numa sala, gritando: « O tecto vai cair!» Três dias depois houve um pequeno tremor de terra e o tecto caiu, de facto.

À medida que o tempo foi passando e a uma estação se sucedia outra estação, Troilo começou a gatinhar e depois a andar e a falar. Mais depressa do que Cassandra pensara ser possível, ele estava quase tão alto como ela. Entretanto, Políxena tornou-se mais alta do que Hécuba e foi iniciada nos Mistérios das mulheres.

Cassandra desejava ardentemente a chegada do tempo em que também ela seria reconhecida como mulher, embora não achasse que isso tivesse tornado Políxena mais sensata. Voltaria o Deus a falar-lhe quando ela tivesse sido iniciada nos Mistérios? Durante todos aqueles anos não voltara a ouvir a voz Dele; talvez a sua mãe tivesse razão e ela tivesse apenas imaginado tudo. Ansiava por ouvir a Sua voz, mesmo que fosse só para lhe devolver a certeza de que tinha sido verdade. Porém, a sua ansiedade continha um misto de relutância: ser mulher, segundo parecia, era mudar tão irreversivelmente que seria como perder aquilo que a fazia ser ela. Políxena estava agora limitada à vida nos aposentos das mulheres e dava a impressão de estar bastante satisfeita com isso; já nem parecia ressentir-se da perda da sua liberdade e deixara de planear com Cassandra as escapadelas até à cidade.

Em pouco tempo, Troilo ficou suficientemente crescido para passar a dormir nos alojamentos dos homens, e ela própria tinha já doze anos. Nesse ano cresceu mais e, devido a certas modificações no seu corpo, soube que também ela iria, em breve, ser considerada como uma das mulheres do palácio e não lhe seria permitido correr por onde lhe apetecia.

Obedientemente, Cassandra permitiu que a velha ama da sua mãe lhe ensinasse a fiar e a tecer. Com a ajuda de Hesíona, a irmã solteira do seu pai, deixou-se convencer a preparar o fio e a tecer uma túnica para a sua boneca de barro, da qual continuava a gostar. Detestava aquela labuta que lhe fazia doer os dedos, mas sentiu-se orgulhosa do seu trabalho quando ficou pronto.

Ocupava agora um quarto nos alojamentos das mulhéres com Políxena - já com dezasseis anos e idade suficiente para se casar - e Hesíona, uma mulher jovem e alegre na casa dos vinte anos, de cabelo escuro e encaracolado como o de Príamo e olhos verdes e brilhantes. Segundo as normas de conduta, aparentemente sem sentido, estabelecidas por sua mãe e por Hesíona, Cassandra deveria ficar em casa e ignorar todas as coisas interessantes que pudessem acontecer no palácio ou na cidade. Mas havia dias em que ela conseguia iludir a vigilância das mulheres e fugir, sozinha, para um dos seus lugares secretos.

Um dia, de manhã, escapuliu-se para fora do palácio e seguiu pelas ruas que subiam em direcção ao Templo de Apolo.

Não sentia qualquer desejo de subir até ao templo em si ou qualquer sensação de ter sido convocada pelo Deus. Dizia a si mesma que, quando esse dia chegasse, ela sabê-lo-ia. Quando subia, a meio do caminho voltou-se para olhar o porto e viu os navios. Estavam tal e qual como os tinha visto no dia em que o Deus falara com ela; mas agora sabia que eram navios do Sul, dos reinos insulares dos Aqueus e de Creta. Tinham vindo negociar com os países hiperbóreos, e Cassandra pensou, numa excitação quase física, que iriam chegar às terras do Vento Norte, de cujo sopro tinham nascido os deuses­-touros de Creta. Desejou poder navegar para norte com os navios; mas isso jamais seria possível. Nunca era permitido às mulheres viajar em qualquer desses grandes navios de comércio que, para navegar através dos estreitos, eram obrigados a pagar tributo ao rei Príamo e a Tróia. E enquanto fixava os navios, um estremecimento, uma sensação física diferente de qualquer outra que antes experimentara percorreu-lhe o corpo...

« Estava deitada a um canto de um barco, flutuando para cima e para baixo ao sabor das ondas; nauseada, doente, exausta e aterrorizada, ferida e magoada; porém, quando olhava para cima, para o céu sobre a grande vela reluzente, este era azul e brilhante à luz do Sol de Apolo. O rosto de um homem olhava-a de cima com um sorriso triunfante, odiento e feroz. Num momento de terror, aquela imagem ficou para sempre impressa na sua mente. Cassandra nunca tinha, em toda a sua vida, conhecido verdadeiramente o medo ou a humilhação mas apenas o constrangimento momentâneo face às brandas reprimendas do seu pai ou da sua mãe. Agora conhecia o limite máximo de ambos. Uma parte do seu cérebro sabia nunca ter visto aquele homem e, no entanto, sabia também que nunca mais, na sua vida, esqueceria aquele rosto, com o seu grande nariz adunco como o bico predador de uma ave de rapina, os olhos brilhantes como os de um falcão, o sorriso feroz e cruel e o queixo áspero e proeminente; um rosto de barbas negras que a enchia de medo e horror.»

Breve como o ritmo da respiração, a visão desvaneceu-se; estava nova­mente de pé nas escadas, os navios distantes no porto por baixo de si. No entanto, ela sabia que, há um minuto atrás, estivera deitada num daqueles barcos, cativa - o duro convés sob o seu corpo, o vento salgado a envolvê-la, o som do bater da vela e o ranger das pranchas de madeira do navio. Sentiu de novo o terror e a estranha euforia que não conseguia entender.

Não tinha, de momento, forma de saber o que lhe acontecera ou porquê.

Voltou-se e olhou para cima, para o ponto onde o Templo de Palas Atena se erguia, branco e sobranceiro ao porto, e pediu à Deusa Virgem que tudo aquilo que vira e sentira não fosse mais que um pesadelo, um sonho acordado. Ou iria tudo, realmente, acontecer um dia... e ela seria aquela prisioneira ferida no navio, a presa daquele homem feroz com cara de falcão? Não se assemelhava a nenhum troiano que tivesse visto:

Afastando deliberadamente aquele horror paralisante do seu pesadelo - visão? -, Cassandra voltou-se para terra e olhou para o alto cume do sagrado monte Ida. Algures, nas encostas daquela montanha... não, tinha sonhado. Nunca pisara as encostas do Ida. Lá no cimo viam-se as neves eternas e, mais abaixo, as verdes pastagens onde, segundo lhe haviam dito, pastavam as muitas manadas do seu pai, sob os cuidados dos pastores. Esfregou os olhos com as mãos, impaciente. «Se ao menos pudesse ver o que se escondia para além do olhar...»

Nem mesmo anos mais tarde, quando tudo o que se relacionava com profecia e com visão era para ela como uma segunda natureza, Cassandra teve a certeza de onde lhe viera o súbito conhecimento do que deveria fazer em seguida. Nunca pensou ou afirmou ter ouvido a voz do Deus; isso ela teria sabido e reconhecido imediatamente. Estava simplesmente ali, era parte do seu ser. Virou­-se e correu rapidamente de volta ao palácio. Ao passar por uma rua conhecida olhou, quase com ansiedade, para uma fonte; não, a água não estava suficiente­mente imóvel para isso.

No pátio exterior avistou uma das camareiras da mãe e escondeu-se atrás de uma estátua, temendo que a mulher tivesse sido enviada à sua procura. Agora havia sempre um grande alarido cada vez que ela saía dos alojamentos das mulheres.

«Que tolice! Ficar dentro de casa não serviu de nada a Hesíona», pensou ela sem saber o que queria dizer com aquilo. Pensar em Hesíona fê-la, sem saber porquê, sentir um súbito pavor e ocorreu-lhe que a devia avisar. «Avisá-la? De quê? Porquê? Não, não serviria de nada. O que tivesse de ser assim seria.» Algo dentro de si a fez desejar correr para junto de Hesíona (ou da sua mãe, ou de Políxena, ou da sua ama, ou para junto de quem quer que fosse que pudesse acalmar aquele terror indescritível que lhe fazia tremer os joelhos e revolvia o estômago). Mas, fosse qual fosse, a sua missão era para ela mais importante do que quaisquer perigos, previstos ou imaginados, que pudessem ameaçar quem quer que fosse. Mantinha-se ainda agachada, escondida atrás do pilar; mas a mulher já não estava visível. «Estava com medo que ela me visse.»

«Medo? Não! Eu não conhecia o significado da palavra!» Depois do horror da visão no porto, Cassandra sabia que somente algo de semelhante alguma vez a faria sentir medo. Apesar disso não queria que a vissem naquela ansiedade; alguém poderia impedi-la de fazer o que tinha de ser feito. Correu para os alojamentos das mulheres e encontrou uma taça de barro; encheu-a com água fresca da cisterna e ajoelhou-se na sua frente.

Com os olhos fixos na água, a princípio viu apenas o seu próprio rosto que a olhava, como num espelho. Depois, à medida que as sombras na superfície da água se alteravam, apercebeu-se de que estava a olhar para o rosto de um rapaz muito parecido consigo: o mesmo cabelo liso, espesso e escuro, os mesmos olhos fundos protegidos por pestanas longas e grossas. Ele olhava para o longe, fixando algo que ela não conseguia ver...

«A preocupação dele pelas ovelhas, o nome de cada uma delas aprendido de cor, o enorme cuidado dispensado a cada passo; o conhecimento íntimo de onde se encontravam e do que era necessário fazer por cada uma delas como se fosse guiado por qualquer secreta sabedoria.» Cassandra deu por si desejando ardente­mente que lhe pudesse ser confiado um trabalho com tanta responsabilidade e significado como aquele. Por algum tempo se manteve de joelhos junto da bacia, tentando entender porquê lhe teria sido dado vê-lo e o que poderia isso significar. Não se apercebeu de que o seu corpo estava a ficar entorpecido e frio, nem de que os joelhos lhe doíam devido à sua postura imóvel; vigiava com ele, partilhando do seu aborrecimento quando um dos animais tropeçava, partilhando do prazer que encontrava na luz do Sol, a sua mente aflorando à superfície os medos ocasionais - dos lobos ou de bichos maiores e mais perigosos... ela era o rapaz desconhe­cido cujo rosto era como um reflexo de si própria. Perdida nesta identificação apaixonada, foi despertada por um súbito alarido.

«Ei! Socorro! Eh, fogo, assassínio, violação! Socorro!» Por um instante pensou ter sido ele quem gritara. Mas não. Era um tipo de som algo diferente, captado pelos seus ouvidos reais, que a arrancou ao seu transe.

«Outra visão, mas esta isenta de dor ou de medo. Serão enviadas por um deus?» Num sobressalto doloroso recuperou a consciência de onde se encontrava: no pátio dos alojamentos das mulheres.

E de repente cheirou-Lhe a fumo; a taça na.qual o seu olhar permanecia fixo turvou-se, tombou para o lado e a água espalhou-se pelo chão. Com ela desapare­ceu também a imobilidade visionária e Cassandra apercebeu-se de que se podia mover.

Passos estranhos soaram no pavimento; ouviu a mãe gritar e precipitou-se para o corredor. Estava vazio, preenchido apenas pelos gritos das mulheres. Viu então dois homens com armaduras e capacetes adornados por grandes cristas. Eram altos, mais altos do que seu pai ou que o jovem Heitor; homens grandes, peludos, de aspecto selvagem, ambos com cabelos louros e compridos a aparecer por debaixo dos elmos; um deles segurava uma mulher aos gritos. Com estupefac­ção e horror, Cassandra reconheceu a mulher: a sua tia Hesíona.

Cassandra não fazia ideia do que estava a acontecer nem porquê; encon­trava-se ainda sob o efeito do distanciamento causado pela visão que tivera. Os soldados passaram por ela a correr, tão veloz e impetuosamente que um deles quase a deitava ao chão. Ela deitou a correr atrás deles com a vaga sensação de que talvez pudesse, de alguma forma, ajudar Hesíona; mas eles já tinham desaparecido, descendo rapidamente as escadas do palácio; como se a sua visão interior os seguisse, ela viu Hesíona ser levada, ainda a gritar, pelas escadas abaixo e através da cidade. As pessoas escondiam-se à passagem dos intrusos. Era como se o olhar daqueles homens possuísse, como a cabeça da Górgone, o dom de transformar as pessoas em pedra - não só tinham de evitar olhar os Aqueus, como também fugir a serem olhados por eles.

Havia uma tremenda gritaria vinda da baixa da cidade e parecia que todas as mulheres do palácio tinham sido contagiadas pelos gritos.

A gritaria continuou por algum tempo, esbatendo-se depois num lamento carregado de dor. Cassandra correu em busca da mãe - subitamente receosa e sentindo remorsos por não ter pensado antes que também Hécuba podia ter sido levada. Conseguia ouvir, sumidos na distância, os sons do embate das armas; conseguia distinguir os gritos de guerra dos homens de seu pai, combatendo os intrusos no regresso aos navios. Sem saber como, Cassandra teve a noção de que aquela luta era vã.

« Aquilo que eu vi, o que senti, seria o mesmo que vai acontecer a Hesíona? Aquele homem terrível, com cara de falcão - fá-la-á sua prisioneira? Terei visto - e, pior, terei sentido - o que vai acontecer-lhe?»

Não sabia se deveria ter esperança de não ter de sofrer tudo aquilo, ou envergonhar-se de desejar que tal coisa se abatesse sobre a sua jovem e ado­rada tia.

Entrou no quarto da mãe. Hécuba estava sentada, branca como a morte, segurando no seu colo o pequeno Troilo.

- Até que enfim que apareces, malandra! - disse uma das guardiãs. - Estávamos com medo que os atacantes aqueus te tivessem apanhado também. Cassandra correu para a mãe e caiu de joelhos a seu lado.

- Vi-os levarem a tia Hesíona - murmurou. - O que vai acontecer-lhe? - Vão levá-la para a terra deles e mantê-la-ão lá até que o teu pai pague um resgate por ela - disse Hécuba, limpando as lágrimas.

Junto da porta ouviu-se aquele passo sonante que Cassandra sempre asso­ciava ao seu pai, e Príamo entrou no quarto, vestido para a batalha mas com algumas das tiras da sua couraça meio desapertadas, como se se tivesse equipado à pressa.

Hécuba ergueu os olhos e viu, atrás de Príamo, a figura de Heitor, de armadura, um esbelto guerreiro de dezanove anos.

- Está tudo bem contigo e com as crianças, meu amor? - perguntou o rei. - Hoje, o teu filho mais velho combateu a meu lado como um autêntico guerreiro.

- E Hesíona? - perguntou Hécuba.

- Levaram-na. Eles eram demasiado numerosos para nós e conseguiram chegar aos navios antes que pudéssemos alcançá-la - disse Príamo. - Sabes perfeitamente que eles não têm qualquer interesse na mulher; foi apenas por ela ser minha irmã e eles acharem que podiam pedir concessões e isenção dos tributos de aportagem; só isso. - Afastou a lança para o lado, numa expressão de repulsa.

Hécuba chamou Heitor e acariciou-o ansiosamente, até que ele se afastou e disse num tom irritado:

- Basta, mãe! Já não sou nenhum miudinho, agarrado às tuas saias!

- Queres que peça para trazerem vinho, meu senhor? - perguntou Hécuba, pousando a criança no chão e levantando-se respeitosamente; mas Príamo abanou a cabeça.

- Não te incomodes - disse ele. - Não teria vindo perturbar-te se não achasse que gostarias de saber que o teu filho regressou honrado e ileso da sua primeira batalha.

Saiu do quarto e Hécuba disse, entredentes:

- Grande batalha! Está ansioso por ir ter com a sua nova mulher, é o que é. E ela dar-lhe-á vinho não diluído e ele vai ficar doente! Quanto a Hesíona... bem se importa ele! Desde que não incomodem a sua preciosa frota, os Aqueus podem levar-nos a todos e serão bem-vindos!

Cassandra não se atreveu a fazer mais perguntas à sua mãe naquele momento; mas nessa noite, quando se reuniram na grande sala de jantar do palácio (Príamo mantinha ainda o velho costume pelo qual homens e mulheres comiam juntos, em vez da nova moda em que as mulheres tomavam as refeições separadamente, nos seus aposentos - «para que as mulheres não tivessem de se mostrar aos homens de fora», como diziam os escravos aqueus), esperou que Príamo se mostrasse de bom humor - partilhando o seu melhor vinho com Hécuba e acenando a Políxena para que se aproximasse e se sentasse junto dele. Depois Cassandra avançou e Príamo, indulgentemente, virou-se para ela.

- Que queres tu, Olhos Brilhantes?

- Fazer-te uma pergunta pai, sobre uma coisa que vi hoje. - Se é acerca da tia Hesíona... - começou ele.

- Não, senhor; mas achas que os Aqueus vão pedir um resgate por ela? - Provavelmente não - disse Príamo. - Provavelmente um deles vai casar com ela e tentará reclamar direitos sobre Tróia por causa disso.

- Que horrível para ela! - murmurou Cassandra.

- Não é assim tão mau, afinal; terá um bom marido aqueu e isso talvez acabe, por este ano, com as guerras por causa dos direitos comerciais - disse Príamo. - Antigamente, muitos casamentos eram feitos assim.

- Que horror! - disse timidamente Políxena. - Eu não queria ter de ir para tão longe de casa para me casar. E preferia ter um casamento como deve ser e não ser levada daquela maneira!

- Bem, tenho a certeza que isso se arranjará, mais cedo ou mais tarde ­disse Príamo indulgentemente. - Há o jovem Aquiles, parente da tua mãe; dizem que dá mostras de ser um valoroso guerreiro...

Hécuba abanou a cabeça:

- Aquiles foi prometido à sua prima Deidamia, filha de Licomedes; e eu preferia que a minha filha nunca entrasse naquela família.

- Mesmo assim, se ele está destinado à fama e à glória.., ouvi dizer que o rapaz é já um magnífico caçador de leões e javalis - retorquiu Príamo. - De boa vontade o receberia como genro. - Suspirou. - Bom, temos muito tempo para pensar em casamentos e maridos para as raparigas. O que foi que viste hoje, minha pequena Cassandra, que me querias perguntar?

Ao mesmo tempo que as palavras lhe cruzavam os lábios, Cassandra sentiu que talvez devesse ter ficado calada, que aquilo que vira na taça-das-visões não pudesse ser contado; mas a sua confusão e á sua sede de conhecimento eram tão grandes que não conseguiu deter-se. As palavras precipitaram-se-lhe:

- Pai, diz-me, quem é o rapaz que eu vi hoje com uma cara tão igual à minha?

Príamo olhou-a com tal ferocidade que ela estremeceu de terror. Por cima da sua cabeça ele fixou Hécuba e disse, com uma voz terrível:

- Onde é que tens andado a levá-la?

Hécuba olhou Príamo com uma expressão ausente:

- Não a levei a lado nenhum. Não faço a mínima ideia de que é que ela está a falar.

- Vem cá, Cassandra - disse Príamo, franzindo ameaçadoramente o sobrolho e afastando Políxena dos seus joelhos. - Fala-me mais acerca disso; onde é que viste o rapaz? Estava na cidade?

- Não, pai, eu só o vi na taça-das-visões. Ele guarda as ovelhas no monte Ida e é igualzinho a mim.

Assustou-se com a súbita mudança no rosto do seu pai. Ele rugiu:

- E o que estavas tu a fazer com uma taça-das-visões, minha malvada? Voltou-se para Hécuba com um gesto de fúria; por instantes, Cassandra pensou que ele ia bater na rainha.

- Isto, senhora, é obra tua! Entrego-te a educação das raparigas e eis uma das minhas filhas envolvida com visões, feitiços, oráculos e quejandos...

- Mas quem é ele? - insistiu Cassandra. A sua necessidade de uma resposta era maior que o medo. - E porque se parece tanto comigo?

Como resposta, o seu pai soltou um brado e atingiu-a no rosto com tal força que ela perdeu o equilíbrio e tombou pelos degraus junto do seu trono, estatelando-se e batendo com a cabeça.

Hécuba gritou indignada, correndo a levantá-la. - Que fizeste à minha filha, grande bruto?

Príamo olhou duramente para a mulher e pôs-se de pé, furioso. Ergueu a mão para lhe bater e Cassandra gritou por entre soluços:

- Não! Não batas na mãe; ela não fez nada!

Pelo canto do olho via Políxena olhando-os com os olhos muito abertos mas demasiado assustada para falar, e pensou, com mais desprezo do que raiva: «Irá ela ficar ali parada e deixar o rei bater na nossa inãe?»

- Não foi culpa da mãe - gritou -, ela nem sequer sabia! Foi o Deus que me disse que eu podia; Ele disse que quando eu fosse grande iria ser Sua sacerdotisa, e foi Ele quem me mostrou como se usava a taça-das-visões...

- Silêncio! - ordenou Príamo, lançando por cima da cabeça dela um olhar a Hécuba. Ela não conseguia perceber porque estava ele tão furioso.

- Não permitirei bruxedos no meu palácio, senhora. Ouviste-me? - disse Príamo. - Manda-a embora e trata da sua adopção antes que ela espalhe estes disparates entre as outras raparigas, as realmente puras... - Olhou em volta e o seu cenho suavizou-se quando os seus olhos pousaram na tímida Políxena. Depois deitou novamente um olhar a Cassandra, que se encontrava encolhida no mesmo lugar, agarrada à cabeça que sangrava. Agora ela tinha a certeza que existia realmente um segredo qualquer relacionado com o rapaz cujo rosto tinha visto.

Príamo não queria falar de Hesíona. «Ele não quer saber. Para ele basta que ela se case com um dos invasores que a levaram.» A ideia, junto com o medo e a vergonha da visão - se era realmente disso que se tratava -, fé-la sentir um súbito pavor. «O pai não vai dizer-me. Bom, então perguntarei ao meu Senhor Apolo.»

«Ele sabe ainda mais do que o pai. E disse-me que eu estava destinada a ser Sua; se tivesse sido eu e não Hesíona, Ele não teria permitido que eu fosse levada por aquele homem. Para o pai basta que ela se case; se aquele homem tivesse fugido comigo, deixar-me-ia ele ter um casamento assim?» A visão daquele homem com rosto de águia nunca a abandonaria. Mas, para a impedir, ela fechou os olhos e tentou alcançar a voz do Senhor do Sol, dizendo «Tu és Minha».

 

As equimoses de Cassandra tinham ainda um aspecto amarelo-es ver­deado; a Lua tinha-se reduzido a um pálido crescente matinal. Cassandra estava de pé junto da mãe, que colocava algumas das suas túnicas, bem como umas sandálias novas e uma capa quente de Inverno, dentro de um saco de couro.

- Mas ainda não é Inverno - protestou ela.

- Nas planícies faz mais frio - disse-lhe Hécuba. - Acredita que vais precisar dela para andar a cavalo, meu amor.

Cassandra encostou-se à mãe, à beira das lágrimas: - Não quero ir para longe de ti.

- Eu também vou sentir saudades tuas, mas creio que vais ser feliz ­disse Hécuba. - Quem me dera ir contigo.

- Então porque não vens, mãe? - O teu pai precisa de mim.

- Não, não precisa - protestou Cassandra. - Ele tem as suas outras mulheres; podia muito bem passar sem ti.

- Estou certa que sim - disse Hécuba, esboçando um esgar. - Mas eu não o quero deixar nas mãos delas; elas não têm tanto cuidado com a sua saúde e a sua honra como eu. Para além disso, há o teu irmão mais pequeno que precisa de mim.

Para Cassandra isto não fazia sentido; Troilo tinha sido mandado para os alojamentos dos homens no Ano Novo. Mas se a sua mãe não queria partir, não havia nada que ela pudesse dizer. Cassandra desejou nunca vir a ter filhos, se isso significava nunca se fazer aquilo de que se tinha vontade.

Hécuba ergueu a cabeça ao ouvir ruído no pátio.

- Acho que vêm aí - e agarrou na mão de Cassandra. Juntas apres­saram-se a descer o longo lanço de escadas.

Muito do pessoal da casa estava reunido olhando as mulheres que tinham entrado com os seus cavalos, um negro, um branco e um baio, mesmo para o meio do pátio. A sua chefe, uma mulher de rosto escuro e sardento, saltou do dorso da sua montada e correu a apertar Hécuba nos braços.

- Irmã! Que alegria ver-te - gritou ela. Hécuba abraçou-a e Cassandra sentiu-se maravilhada ao ver a sua austera mãe rindo e chorando ao mesmo tempo. Alguns instantes depois a alta desconhecida largou-a e disse:

- Tornaste-te gorda e frágil com a vida doméstica; e a tua pele está tão branca e pálida que mais pareces um fantasma!

- E isso é assim tão mau? A mulher fez-lhe uma careta.

- São estas as tuas filhas? - perguntou. - Também são ratos domés­ticos?

- Isso terás de ser tu a decidir - disse Hécuba, empurrando as raparigas para a frente. - Esta é Políxena. Já tem dezasseis anos.

- Parece-me demasiado frágil para uma vida ao ar livre como a que nós levamos, Hécuba. Acho que a mantiveste demasiado tempo dentro de casa; mas faremos dela o que pudermos e havemos de a devolver saudável e forte.

Políxena escondeu-se, encolhendo-se por trás da mãe; a alta amazona deu uma gargalhada.

- Não?

- Não; vais levar a mais pequena, a Cassandra - disse Hécuba. - A mais pequena? Que idade tem ela?

- Doze anos - respondeu Hécuba. - Cassandra, filha, vem saudar a tua parente Pentesileia, a chefe da nossa tribo.

Cassandra olhou a mulher mais velha atentamente. Era alguns dedos mais alta que Hécuba, embora esta já fosse uma mulher alta. Usava um chapéu pontiagudo - e Cassandra conseguia ver, presos debaixo dele, os cachos de cabelo de um tom de gengibre muito claro - e uma túnica curta e justa; tinha pernas longas e secas dentro de uns calções de cabedal que lhe chegavam abaixo do joelho. O seu rosto era magro e marcado; a pele, para além de escura e bronzeada pelo sol, era salpicada por milhares de sardas castanhas. Parecia mais um guerreiro que uma mulher, pensou Cassandra; mas o seu rosto era suficientemente parecido com o de Hécuba para que não restassem dúvidas a Cassandra de que era sua parente. Ela sorriu amigavel­mente a Cassandra.

- Achas então que vais gostar de vir connosco? Não tens medo? Acho que a tua irmã tem medo dos nossos cavalos - acrescentou.

- Políxena tem medo de tudo - disse Cassandra. - Ela quer ser aquilo a que o meu pai chama uma rapariga como deve ser.

- E tu não queres?

- Não, se isso significar ficar fechada em casa o tempo todo - disse Cassandra, e Pentesileia sorriu. - Como se chama o teu cavalo? Ele morde?

- Chama-se Racer* e, até hoje, ela nunca me mordeu - disse Pente­sileia. - Podes fazer amizade com ela, se fores capaz.

Cassandra avançou corajosamente e ergueu a mão com a palma virada para cima como lhe tinham ensinado a fazer com os cães desconhecidos para que eles pudessem cheirá-la. O cavalo baixou a sua grande cabeça e resfole­gou; Cassandra acariciou-lhe o nariz sedoso e olhou os seus olhos grandes e meigos. Sentiu, nesse olhar, que já tinha feito uma amiga entre as desconhe­cidas.

- Estás então pronta para vir connosco? - perguntou-lhe Pentesileia. - Oh, sim ! - disse Cassandra fervorosamente. O rosto magro e severo de Pentesileia tinha um ar mais amigável quando sorria.

- Achas que consegues aprender a montar?

Amigável ou não, o cavalo parecia muito grande e muito alto; mas Cassandra disse corajosamente:

- Se tu conseguiste aprender e a minha mãe conseguiu aprender, não vejo por que razão eu não hei-de conseguir.

- Não querem subir aos alojamentos das mulheres e tomar um refresco connosco antes de partirem? - perguntou Hécuba.

- Sim, claro, se mandares alguém tomar conta dos nossos cavalos ­respondeu Pentesileia. Hécuba chamou um dos criados e deu ordens para que os cavalos de Pentesileia e das suas companheiras fossem levados para os estábulos. A chefe das Amazonas apresentou as duas mulheres que a acom­panhavam; estavam vestidas como ela, uma chamava-se Cáris, a outra Melissa. Cáris era pálida e magra, quase tão sardenta como a rainha, mas o seu cabelo era cor de latão; Melissa tinha cabelos castanhos encaracolados, um corpo roliço e faces rosadas. Cassandra calculou que elas deviam ter quinze ou dezasseis anos. Pensou que talvez fossem filhas de Pentesileia, mas não se atreveu a perguntar.

Enquanto subiam para os alojamentos das mulheres, Cassandra per­guntava-se por que razão nunca teria reparado que o interior da casa era tão escuro. Hécuba chamara as criadas para que trouxessem vinho e doces, e, enquanto as convidadas comiam, Pentesileia chamou Cassandra para junto de si.

- Se vens connosco tens de te vestir de forma adequada, minha querida. Trouxemos uns calções para ti. Cáris vai ajudar-te a vesti-los. E tens de ter uma capa quente para andar a cavalo; quando o Sol se põe, o tempo arrefece muito rapidamente.

A mãe fez-me uma capa quente - disse Cassandra, e foi com Cáris ao quarto buscar o saco com os seus haveres. Os calções de couroestavam-lhe um bocadinho grandes; Cassandra perguntou-se quem os teria usado antes, pois tinham o traseiro polido pelo uso intenso. Mas, uma vez habituada à sua dureza contra as pernas, eram espantosamente confortáveis. Pensou que agora podia ser corredora. Correr veloz como o vento sem tropeçar nas saias. Estava a passar o cinto de couro pelas presilhas quando ouviu os passos do pai e a sua voz tempestuosa.

- Bom, cunhada, vieste aqui para conduzir os meus exércitos até Micenas e recuperar Hesíona? E que cavalos esplêndidos... vi-os nos estábulos. São como os cavalos imortais da manada de Posídon! Onde os foste descobrir?

- Negociámo-los com Idomeneu, o rei de Creta - disse Pentesileia. - Não soubemos nada de Hesíona; que aconteceu?

- Os homens de Agamémnon de Micenas, ou pelo menos assim pensá­mos - disse Príamo. - Aqueus, em todo o caso; atacaram de surpresa. Dizem os boatos que Agamémnon é um rei perverso e cruel. Nem os seus próprios homens gostam dele; mas temem-no.

- É um guerreiro poderoso - disse Pentesileia. - Espero defrontá-lo um dia, numa batalha. Se tu próprio não quiseres conduzir os teus exércitos até Micenas para recuperar Hesíona, espera só até que eu reúna as minhas mulheres. Terias de nos fornecer os navios, mas eu podia trazer-te Hesíona de volta na próxima lua nova.

- Se fosse viável lutar contra os Aqueus neste momento, não precisaria que mulher alguma conduzisse o meu exército - disse Príamo mal-humorado. - Prefiro esperar para ver que exigências ele irá fazer-me.

- E o que será de Hesíona, nas mãos de Agamémnon? - perguntou Pentesileia. - Vais abandoná-la? Sabes bem o que lhe acontecerá entre os Aqueus!

- De qualquer forma, eu teria de arranjar-lhe um marido - disse Príamo. - Assim, ao menos poupo o dote, pois uma vez que foi Agamémnon quem a levou, não vai ter a insolência de pedir um dote por uma presa de guerra.

Pentesileia franziu o sobrolho; Cassandra também ficou chocada. Príamo era rico; porque havia de regatear um dote?

- Príamo, Agamémnon já tem mulher - disse Pentesileia -, Clitemnes­tra, filha de Leda e do seu rei, Tíndaro. Ela deu a Agamémnon uma filha que deve ter agora sete ou oito anos. Não acredito que eles tenham tanta falta de mulheres em Acaia, que tenham de recorrer a roubá-las... nem que Agamémnon esteja necessitado de uma concubina a ponto de roubar uma, assim, quando podia ter a filha de qualquer um dos chefes do seu reino.

- Então ele casou-se com a filha de Leda? - Príamo franziu a testa por momentos e disse: - Será aquela que, segundo dizem, era tão bonita que faria inveja a Afrodite e obrigou o pai a ter de escolher entre os seus quase quarenta pretendentes?

- Não - disse Pentesileia. - Eram duas gémeas, o que dá sempre má sorte. Uma era Clitemnestra; a outra filha, Helena, era a beldade. Agamémnon conseguiu convencer Leda e Tíndaro (Deus sabe como) a casar Helena com o seu irmão Menelau, enquanto ele casava com Clitemnestra.

- Não invejo Menelau - disse Príamo. - O homem que possui uma mulher bela está amaldiçoado. - Sorriu a Hécuba, distraidamente. - Graças a todos os deuses por nunca me teres trazido esse tipo de problemas, minha querida. E as tuas filhas também não são perigosamente belas.

Hécuba olhou o marido com frieza. Pentesileia disse:

- Isso é uma questão de opinião. Mas pelo que sei de Agamémnon, a menos que os boatos mintam, ele preocupa-se menos com a beleza das mulheres do que com o poder. Através das filhas de Leda, ele planeia reivindicar Micenas inteira, bem como Esparta, e intitular-se rei. Suponho que depois tentará ganhar mais poder para norte... e fará com que tu tenhas de zelar pela tua própria cidade, aqui em Tróia.

- Acho que estão a tentar forçar-me a negociar com eles - disse Príamo ­e a reconhecê-los como reis; coisa que só farei quando Cérbero abrir as suas portas e deixar os mortos saírem do reino de Hades.

- Duvido que o que eles querem seja ouro - disse Pentesileia. - Há ouro suficiente em Micenas, embora os boatos digam que Agamémnon é um homem ganancioso. Se tivesse de adivinhar, apostaria que aquilo que Agamémnon te vai exigir é que lhe dês direitos de comércio e passagem através do estreito mais distante - apontou o mar - sem pagar o tributo que cobras.

- Nunca - disse Príamo. - Um deus trouxe o meu povo até às margens do Escamandro; e seja quem for que pretenda passar para lá delas, para as terras do Vento Norte, terá de pagar tributo aos deuses de Tróia. - Fixou Pentesileia, zangado, e perguntou: - Que tens tu a ver com isso? Que tem uma mulher a ver com o governo de territórios e o pagamento de tributos?

- Também eu vivo em terras onde os guerreiros Aqueus se atrevem a fazer incursões - disse a rainha amazona. - E se eles raptassem uma das minhas mulheres, eu fá-los-ia pagar por isso; e não só em ouro e dotes, mas também com sangue. E visto que não os conseguiste impedir de levar a tua própria irmã, eu repito: as minhas guerreiras estão às tuas ordens, se as quiseres comandar contra aqueles piratas.

Príamo deu uma gargalhada, mas cerrou os dentes ao fazê-lo, e Cassandra percebeu que ele estava furioso, embora não o dissesse a Pentesileia.

- No dia em que eu tiver de pedir auxílio a mulheres, sejam ou não da família, para defender a cidade, Tróia estará em grandes dificuldades, cunhada; que esse dia esteja muito, muito longe. - Virou-se e viu Cassandra a entrar na sala com os seus calções de couro e a capa pesada. - O que é isto, filha? A mostrar as pernas como um rapaz? Decidiste tornar-te amazona, Olhos Brilhantes?

A voz dele soou surpreendentemente bem-disposta; Hécuba apressou-se no entanto a retrucar:

- Ordenaste-me que a enviasse para fora da cidade a fim de que fosse adoptada, marido, e eu achei a tribo da minha irmã tão boa como qualquer outra. - Sempre te considerei a melhor das esposas, apesar de teres vindo de onde

vieste; não tenho dúvidas de que a tua irmã cuidará bem dela - disse Príamo, e curvou-se para Cassandra. Ela encolheu-se temendo outra pancada, mas ele apenas a beijou na testa, com meiguice. - Sê boa rapariga e nunca esqueças que és uma princesa de Tróia.

Hécuba tomou Cassandra nos braços e abraçou-a com força.

- Vou sentir a tua falta, filha; porta-te bem e volta para mim sã e salva, minha querida.

Cassandra agarrou-se à mãe, esquecendo como ela tinha sido severa, cons­ciente apenas de que ia partir com pessoas que lhe eram estranhas. Então Hécuba soltou-a.

- Tenho as minhas próprias armas para te dar, filha - e estendeu-lhe uma espada em forma de folha e uma lança curta com a ponta em metal. Eram tão pesadas que Cassandra quase não as conseguiu erguer, mas fazendo apelo a toda a sua força e orgulho, conseguiu apertar os cintos em torno da cintura. - Eram minhas quando cavalgava com as Amazonas - disse Hécuba. - Usa-as sempre com dignidade e valentia, minha filha.

Cassandra reprimiu as lágrimas que se formavam nos seus olhos. Príamo ficara carrancudo, mas Cassandra estava habituada às desaprovações do pai. Num gesto de desafio, agarrou na mão que Pentesileia lhe estendia. Afinal, a irmã de sua mãe não podia ser muito diferente dela.

Quando as amazonas mandaram trazer os seus cavalos para o pátio inferior, Cassandra ficou desapontada ao ser puxada para o dorso da Racer, atrás de Pentesileia.

- Pensei que ia ter um cavalo só para mim - disse ela, com o lábio a tremer.

- Hás-de tê-lo, quando souberes montar, minha filha; mas não temos tempo para te ensinar neste momento. Queremos já estar longe desta cidade quando anoitecer; não nos agrada dormir entre muros, e não queremos acampar em terras governadas por homens.

Para Cassandra aquilo fazia sentido; os seus braços fecharam-se com força em torno da cintura estreita da mulher e puseram-se a caminho.

Durante os primeiros minutos, precisou de toda a sua força e atenção para se aguentar, sacudida para cima e para baixo pelos solavancos do cavalo sobre as pedras. Depois começou a aprender a deixar o corpo balançar e ajustar-se ao andamento, e pôde então olhar em volta e ver a cidade da sua nova perspectiva. Teve ainda tempo para lançar um rápido olhar para trás, para o templo lá no alto, acima da cidade; pouco depois estavam fora das muralhas e começavam a descer em direcção às águas verdes do Escamandro.

- Como vamos atravessar o rio, senhora? - perguntou ela, chegando a cabeça para a frente, para junto do ouvido de Pentesileia. - Os cavalos sabem nadar?

A mulher rodou ligeiramente a cabeça:

- Podes estar certa que sim, mas hoje não vão precisar de nadar; existe um baixio a uma hora de viagem daqui, subindo o rio.

Tocou ligeiramente com os tacões nos flancos do cavalo e o animal começou a correr, tão velozmente que Cassandra teve de se agarrar com todas as suas forças. As outras mulheres galopavam ao lado dela, e Cassandra sentiu uma espécie de euforia percorrer-lhe todo o corpo. Atrás de Pentesileia estava um tanto abrigada do vento, mas o seu cabelo esvoaçava tão freneticamente que ela chegou a pensar se alguma vez seria capaz de o pentear e alisar de novo. Não importava; a excitação da corrida fê-la esquecer-se disso.

Cavalgavam já havia algum tempo quando Pentesileia fez estacar o cavalo e soltou um assobio, um grito agudo como o de um pássaro estranho.

De uma pequena moita, na sua frente, surgiram três cavalos montados por mulheres amazonas.

- Sejam bem-vindas - saudou uma das recém-chegadas. - Vejo que voltaste sã e salva da casa de Príamo; demoraste tanto tempo que nós já começávamos a ficar admiradas! Como está a nossa irmã?

- Bem, mas está a ficar gorda e velha e cansada de parir crianças para a casa do rei - disse Pentesileia.

- É esta a nossa protegida, a filha de Hécuba? - perguntou uma das recém--chegadas.

- É - disse Pentesileia, voltando a cabeça na direcção de Cassandra -, e se for realmente como a mãe, será mais do que bem-vinda entre nós. Cassandra sorriu timidamente para as desconhecidas, uma das quais esten­

deu os braços e se curvou para a abraçar.

- Eu era a amiga mais chegada da tua mãe, quando éramos raparigas ­disse ela.

Prosseguiram a marcha, ao encontro do reflexo brilhante do rio Esca­mandro. Caía a noite quando detiveram os cavalos junto ao baixio; numa última réstia de luz Cassandra pôde ver o breve cintilar do sol na ondulação do baixio e as pedras cortantes do leito onde o rio corria, rápido e pouco profundo. Sufocou um grito quando o cavalo avançou pela margem íngreme e entrou na água; foi de novo admoestada para que se segurasse com firmeza.

- Se caíres vai ser muito difícil apanhar-te outra vez antes de ficares toda cortada.

Sem vontade nenhuma de cair sobre aquelas pedras pontiagudas, Cassandra segurou-se com toda a força e em breve o cavalo trepava já pela outra margem. Galoparam durante os poucos minutos em que ainda dispunham de luz; pararam então, juntaram os cavalos em círculo e desmontaram.

Cassandra observou fascinada a forma como, sem qualquer discussão, uma das mulheres fez uma fogueira e outra tirou das bolsas da sela uma tenda que começou a desdobrar e a montar.

Passado pouco tempo já a carne seca fervia no caldeirão e espalhava um cheiro delicioso.

Estava tão dorida que, quando tentou aproximar-se do fogo, cocheava como uma velha. Cáris começou a rir-se, mas Pentesileia ralhou com ela.

- Não faças pouco da criança; ela não se queixou e foi uma cavalgada muito longa para quem não está habituada a montar. Tu não fazias melhor figura quando te juntaste a nós. Dá-lhe de comer.

Cáris tirou do panelão uma caneca de guisado e passou-a a Cassandra numa malga de madeira.

- Obrigada - disse ela, mergulhando a colher de osso que lhe deram dentro da comida. - Posso comer uma fatia de pão, por favor?

- Não temos pão - disse Pentesileia. - Não podemos cultivar a terra vivendo como vivemos, nas nossas tendas com as nossas manadas.

Uma das mulheres deitou-lhe uma substância branca e espumosa na caneca; Cassandra provou-a.

- É leite de égua - disse-lhe a mulher que se tinha apresentado como Elaria, a amiga de Hécuba. Cassandra bebeu com curiosidade, não muito certa de gostar quer do sabor, quer da ideia; mas como as outras mulheres também bebiam, concluiu que não lhe faria mal.

Elaria deu uma risada ao ver a expressão cautelosa, de nojo dissimulado, no rosto de Cassandra.

- Bebe-o - disse ela - e tornar-te-ás tão forte e livre como as nossas éguas, e a tua crina ficará tão sedosa como a delas. - Acariciou o longo cabelo escuro de Cassandra. - Vais ser minha filha adoptiva enquanto viveres connosco. Na nossa aldeia viverás na minha tenda; tenho duas filhas que serão tuas amigas.

Cassandra deitou a Pentesileia um olhar um pouco triste; mas supunha que, se a mulher era uma rainha, devia estar demasiado ocupada para tomar conta de uma rapariguinha, mesmo tratando-se da filha da sua irmã. E Elaria parecia ser bondosa e simpática.

Quando acabaram a refeição, as mulheres juntaram-se em torno da fogueira. Pentesileia designou duas delas para ficarem de vigia.

- Porque pomos sentinelas? Não há nenhuma guerra, pois não? - murmu­rou Cassandra.

- Não no sentido em que a palavra é usada em Tróia - respondeu-lhe Elaria, também num murmúrio. - Mas ainda estamos em terras governadas por homens e, nestas terras, as mulheres estão sempre em guerra. Muitos homens... a maioria dos homens tratar-nos-ia como troféus legítimos, e aos nossos cavalos também.

Uma das mulheres tinha começado a cantar e as outras juntaram-se-lhe. Cassandra escutava-as sem conhecer nem a música nem o dialecto, mas ao fim de algum tempo já trauteava o refrão com as outras. Sentia-se cansada e recostou-se para descansar, olhando as grandes estrelas brancas lá no alto; quando deu por isso estava a ser levada ao colo no meio da escuridão. Acordou sobressaltada. - Onde estou?

- Deixaste-te adormecer junto da fogueira; estou a levar-te para a minha tenda para dormires - disse a voz de Elaria baixinho e Cassandra ajeitou-se e adormeceu de novo, para só voltar a acordar quando a luz do dia já entrava na tenda. Alguém lhe tirara os calções de couro e as suas pernas estavam esfoladas e

doridas. Elaria entrou na tenda quando ela estava a acordar. Espalhou-lhe bálsamo nas zonas doridas e deu-lhe um par de ceroulas de linho para vestir por baixo dos calções de couro, o que a fez sentir-se bastante melhor. Depois Elaria pegou num pente talhado em osso e começou a desembaraçar os nós do longo e sedoso cabelo de Cassandra; depois penteou-o em tranças apertadas e prendeu-as em cima, sob um chapéu pontiagudo em couro como o que todas elas usavam. Os olhos de Cassandra encheram-se de lágrimas enquanto o pente desfazia os nós, mas não chorou e Elaria fez-lhe uma festa aprovadora na cabeça.

- Hoje vais montar atrás de mim - disse Elaria - e talvez ainda hoje alcancemos as nossas pastagens e possamos escolher uma égua para ti e ensinar-te a montar. Chegará o tempo, e não está muito distante, em que serás capaz de passar o dia inteiro sobre a sela sem te cansares.

O pequeno-almoço foi um bocado de carne seca dura como cabedal que foi roendo, agarrada à sela, atrás de Elaria. À medida que avançavam, as características das terras mudavam gradualmente; da fertilidade verde das margens do rio para a estéril planície, varrida pelo vento, que se elevava mais e mais a partir das terras baixas. Ao fundo da planície viam-se colinas redondas e nuas, comple­tamente castanhas, com grandes pedregulhos projectando-se das encostas e, por trás delas, erguendo-se a pique, penhascos escarpados. Na encosta de uma das colinas, Cassandra avistou vultos, maiores que ovelhas, que se moviam. Elaria virou-se e apontou.

- Ali pastam as nossas manadas de cavalos - disse ela. - Ao cair da noite estaremos em casa, na nossa própria terra.

Pentesileia cavalgava ao lado delas. Disse muito baixinho:

- Não são as nossas manadas. Olha para ali e repara nos Centauros no meio delas.

Cassandra conseguia agora ver mais claramente; distinguiu os corpos pelu­dos e as cabeças barbudas dos homens erguendo-se acima dos animais. Como todas as crianças da cidade, Cassandra tinha sido criada no meio das histórias de centauros - criaturas selvagens e sem lei, com troncos e cabeças de homem e a parte de baixo do corpo como o dos cavalos. Podia agora ver qual a origem das velhas histórias. Eram homens pequenos, de pele castanha devido à vida ao ar livre; os cabelos longos e despenteados que lhes caíam pelas costas davam a nítida sensação de uma crina de cavalo, e os seus corpos castanhos fundiam-se com os corpos das montadas, as pernas curvas enroladas em torno dos pescoços dos cavalos: tronco de homem, parte de baixo de cavalo. Como a muitas outras meninas, tinha sido dito a Cassandra que eles raptavam as mulheres das cidades e das aldeias e a sua ama costumava admoestá-la, «se não fores uma menina boazinha, os Centauros vêm e levam-te».

Murmurou assustada:

- Eles vão fazer-nos mal, tia?

- Não, não, claro que não; o meu filho vive com eles - disse Pentesileia. - E se esta é a tribo de Quíron, são nossos amigos e aliados.

- Eu pensava que as tribos das Amazonas só tinham mulheres - disse Cassandra, surpreendida. - Tens um filho, tia?

- Tenho, mas vive com o pai; como todos os nossos filhos - disse Pentesileia. - Porquê, minha tonta, ainda acreditas que os Centauros são monstros? Vê, são só homens; cavaleiros como nós.

Apesar de tudo, à medida que os cavaleiros se aproximavam, Cassandra foi-se encolhendo; os homens estavam praticamente nus, e tinham um ar real­mente selvagem e incivilizado; encolheu-se sobre o cavalo, por trás de Elaria, de forma a que eles não pudessem vê-la.

- Salve, Senhora das Mulheres Cavaleiras - gritou o cavaleiro mais adiantado. - Como te deste na cidade de Príamo?

- Bastante bem; como vês, voltámos sãs e salvas - gritou-lhe Pentesileia. - Como estão os teus homens?

- Encontrámos esta manhã uma árvore com abelhas e tirámos um barril de mel - disse o homem, aproximando-se e abraçando Pentesileia de cima do cavalo. - Partilharemos contigo, se quiseres.

Ela afastou-se dele e disse:

- O preço do teu mel é sempre muito alto; o que queres de nós, desta vez? Ele endireitou-se e cavalgou a seu lado, sorrindo bem-disposto.

- Podes fazer-me um favor - disse ele -, se quiseres. Um dos meus homens ficou obcecado por uma rapariga da aldeia há já algumas luas, e trouxe-a sem se dar ao trabalho de a pedir ao pai dela. Mas ela não serve para nada a não ser para a cama dele. Nem sequer sabe mungir uma égua ou fazer um queijo, e passa o tempo a chorar e a lamentar-se; agora ele está farto daquela cabra chorona até aos cabelos e...

- Não me peças para te livrar dela - interrompeu-o Pentesileia. - Tam­bém não serviria para nada nas nossas tendas.

- O que eu quero - disse o homem - é que tu a leves de volta ao pai dela. Pentesileia resfolegou.

- E deixar que sejamos nós a enfrentar a ira dos homens da sua tribo? Nem pensar!

- O problema é que a campónia está grávida - disse o centauro. - Não podem ficar com ela até o bebé nascer? Parece-me que ela era capaz de se sentir mais feliz entre mulheres.

- Se ela vier connosco sem causar problemas - disse Pentesileia -, ficamos com ela até o bebé nascer; se for uma filha, ficamos com as duas. Se for um rapaz, quere-lo?

- Certamente que sim - disse o homem. - Quanto à mulher, depois de o bebé nascer, podes ficar com ela ou mandá-la de volta para a aldeia ou, pelo que me toca, até a podes afogar.

- Tenho de facto um coração demasiado bom - disse Pentesileia. - Por­que hei---de eu ter de vos livrar dos problemas que vocês próprios arranjam? - Por meio barril de mel?

- Por meio barril de mel - disse Elaria -eu própria olharei pela rapariga, ajudá-la--ei a ter a criança e levá-la-ei de volta para a aldeia.

- Todas nós ajudaremos - disse Pentesileia -, mas na próxima vez que um dos teus homens quiser uma mulher, manda-o às nossas tendas, e sem dúvida que uma de nós o satisfará sem todas essas complicações. De cada vez que um dos teus homens anda atrás de uma mulher fora de estação, e vai às aldeias, todas as tribos sofrem as consequências; mais histórias de como vivemos sem lei, homens e mulheres por igual.

- Não me ralhes, senhora - disse o homem, escondendo brevemente o rosto com as mãos. -Todos nós somos apenas humanos. E quem é aquela que se esconde por trás da tua companheira? - Olhou por trás de Elaria e piscou o olho a Cassandra; tinha um ar tão cómico com a sua cara peluda toda franzida sob o cabelo emaranhado, que ela começou a rir-se às gargalhadas. - Roubaste uma criança da cidade de Príamo?

- Nada disso - disse Pentesileia. - É a filha da minha irmã, que vem viver connosco por umas quantas estações.

- Uma coisinha bonita - disse o centauro. - Em breve todos os meus homens mais novos brigarão por causa dela.

Cassandra corou e escondeu-se de novo atrás de Elaria. No palácio de Príamo, até a sua mãe admitia sem problemas que Políxena era «a bonita» e Cassandra «a inteligente». Cassandra tinha decidido que não se importava; de qualquer modo, era agradável pensar que alguém achava que ela era bonita.

- Bom - disse Pentesileia -, deixa-nos ver esse mel e a mulher que querem que vos tiremos das mãos.

- Querem partilhar do nosso banquete? Estamos a assar um cabrito para a refeição da noite - disse o centauro, e Pentesileia lançou um olhar às suas mulheres.

- Esperávamos dormir nas nossas tendas esta noite - contrapôs ela -, mas o cabrito parece estar bem assado e, pelo cheiro, saboroso; seria uma pena não aceitar um pouco. - E Elaria acrescentou: - Porque não descansar aqui por uma ou duas horas? Se não chegarmos hoje a casa, amanhã é outro dia. Pentesileia encolheu os ombros.

- As minhas mulheres responderam por mim; aceitamos a vossa hospitali­dade com prazer; ou talvez apenas por gula.

O centauro acenou e trotou em direcção à fogueira central do acampa­mento; Pentesileia fez sinal às mulheres para que o seguissem. Uma mulher jovem estava ajoelhada junto ao fogo, rodando o espeto onde o carneiro assava. Os pingos de gordura sobre a chama cheiravam maravilhosamente e a pele tostada crepitava.

As mulheres deslizaram de cima dos cavalos e, algum tempo depois, os homens fizeram o mesmo.

Pentesileia dirigiu-se imediatamente para a mulher que rodava o espeto. Cassandra reparou, horrorizada, que os tornozelos dela tinham sido perfurados e que os seus pés estavam presos um ao outro por uma corda que passava através dos ferimentos de forma a não lhe permitir dar passadas largas.

A rainha amazona olhou para ela, sem animosidade, e perguntou: - És tu a prisioneira?

- Sou; roubaram-me de casa do meu pai, no Verão passado. - Queres voltar para lá?

- Ele jurou, quando perfurou os meus pés, que iria amar-me e cuidar de mim para sempre; vai rejeitar-me, agora? Irá o meu pai receber-me de novo em sua casa assim, aleijada e com o filho de um centauro a crescer no meu ventre?

- Ele diz-me que não és feliz aqui - disse Pentesileia. - Se quiseres vir connosco, poderás viver na nossa aldeia até que o teu filho nasça, e depois irás para casa do teu pai ou para onde te aprouver.

O rosto da mulher contorceu-se de pranto.

- Assim? - disse ela, apontando os tornozelos mutilados. Pentesileia voltou-se para o chefe dos Centauros:

- Levá-la-ia de boa vontade se ela estivesse ilesa. Mas não a podemos mandar de volta para a aldeia do pai neste estado. Já não bastava ao teu jovem tê-la raptado e desvirginado?

O centauro abriu as mãos, num gesto de impotência.

- Ele jurou que a queria para sempre, para a sustentar e proteger, e receava apenas que ela conseguisse fugir-lhe.

- Devias saber, depois destes anos todos, quanto tempo dura esse tipo de amor - admoestou-o a rainha das Amazonas. - Raramente dura para além do desfloramento. Um amor eterno resiste, às vezes, meio ano, mas nunca sobrevive à gravidez. Que vamos fazer com ela, agora? Sabes tão bem como eu que não a podemos devolver assim à aldeia do pai. Desta vez meteste-te numa coisa da qual não te podemos safar.

- Nestas circunstâncias, o meu homem pagaria para se ver livre dela ­disse o centauro.

- E tem de o fazer. Que daria ele, então, para se desfazer dela?

- Uma bela potra como indemnização para o pai ou como dote, se ela quiser casar.

- Talvez, em troca disso, nós consigamos ver-nos livres dela logo que possa voltar a andar - disse Pentesileia -, mas garanto-te que esta é a última vez que nós resolvemos os vossos problemas amorosos. Mantém os teus homens afasta­dos das mulheres das aldeias e talvez não nos voltes a forçar a todas estas vergonhas. E é bom que seja mesmo uma boa égua, caso contrário não valerá o trabalho. - Fungou, apreciativamente. - Mas seria uma pena deixar o cabrito queimar-se ou ficar passado de mais enquanto estou para aqui a ralhar--te. Vamos comer uma fatia, ou não?

Um dos centauros pegou numa grande faca e começou a cortar grandes nacos de carne e pele tostada do cabrito. As mulheres reuniram-se e sentaram-se sobre a erva enquanto a comida era passada de mão em mão, acompanhada com vinho em odres de couro e pedaços de favo de mel. Cassandra comeu vorazmente; estava cansada da cavalgada e com vontade de se estender na erva depois de ter comido e bebido o vinho. Passado algum tempo sentiu-se tonta e deitou-se para trás, fechando preguiçosamente os olhos. Em casa era-lhe apenas permitido beber vinho muito aguado, e agora ela sentia-se um pouco indisposta. Apesar disso, parecia-lhe que refeição alguma tomada em casa lhe soubera tão bem.

Um dos jovens que cavalgara ao lado do chefe dos Centauros veio encher de novo o copo que ela tinha na mão. Cassandra abanou a cabeça.

- Não quero mais, obrigada.

- O Deus do Vinho ficará zangado contigo se recusares as Suas oferen­das - disse o rapaz. - Bebe, Olhos Brilhantes.

Era o que o pai lhe chamava, nos seus raros momentos de afabilidade. Sorveu mais alguns goles e depois sacudiu a cabeça.

- Já estou tonta de mais para me sentar no cavalo!

- Então descansa - disse o rapaz, e puxou-a para trás, deitando-a de encontro ao seu ombro, os braços em volta dela.

Os olhos de Pentesileia pousaram-se nele e, secamente, disse para o rapaz: - Deixa-a em paz, ela não é para ti. É a filha de Príamo, princesa de Tróia. O chefe dos Centauros riu, dizendo:

- Ele não lhe fica muito atrás, senhora; é filho de um rei.

- Eu conheço as tuas adopções reais - disse Pentesileia. - Lembro-me demasiado bem de quando Teseu nos levou a nossa rainha Antíope, para viver entre paredes e aí morrer. Seja como for, esta virgem está aos meus cuidados, e qualquer um que lhe toque terá de se haver comigo.

O rapaz riu e soltou Cassandra.

- Talvez quando fores crescida, Olhos Brilhantes, o teu pai tenha melhor opinião de mim do que a nossa parente; a tribo dela não gosta dos homens nem de casamentos.

- Nem eu - disse Cassandra, afastando-se dele.

- Bom, talvez quando fores mais velha mudes de ideias - disse o rapaz. Inclinou-se e beijou-a nos lábios. Cassandra afastou-se e limpou vigorosamente a boca, enquanto os centauros riam. Cassandra viu a mulher aleijada da aldeia olhando para ela, com uma expressão sombria.

A rainha amazona chamou as mulheres para os cavalos, ajudando uma delas a colocar o prometido mel sobre o dorso da sua égua. Depois cortou a corda que prendia os tornozelos da mulher aleijada e ajudou-a a subir para cima de um cavalo, falando-lhe suavemente. A mulher já não chorava; de livre vontade foi com elas. O centauro chamou Pentesileia quando esta se montou no cavalo.

- Não vos conseguiremos convencer a passar a noite nas nossas tendas? - Noutra altura, talvez - prometeu Pentesileia, devolvendo-lhe o abraço com sinceridade. - Por agora, até à vista.

Cassandra estava confusa; eram estes homens e rapazes os terríveis Centauros de que falavam as lendas? Pareciam bastante amigáveis. Mas gostaria de saber qual era a sua relação com as Amazonas. Eles não tratavam as mulheres da mesma forma que os soldados de seu pai se dirigiam às mulheres da casa. O rapaz bonito que a tinha beijado aproximou-se a olhar para ela, sorrindo.

- Talvez te veja quando reunirmos o gado!? -disse ele. Cassandra desviou os olhos, corada; não sabia o que havia de lhe dizer. À excepção dos seus irmãos, ele era o primeiro rapaz com quem falava.

Pentesileia fez sinal às mulheres para que a seguissem, e Cassandra viu que se dirigiam para o interior e que as encostas do monte Ida se erguiam na sua frente. Pensou na visão que tivera, do rapaz com a sua cara conduzindo as ovelhas nas encostas.

«Ele pode guardar ovelhas, mas eu vou aprender a montar a cavalo», pensou, ainda tonta devido ao vinho a que não estava acostumada, encostou-se para a frente, equilibrando-se de encontro a Elaria, e adormeceu, embalada pelo passo oscilante do cavalo.

 

O mundo era maior do que alguma vez pensara; embora cavalgassem desde o raiar do dia até a escuridão as impedir de ver, Cassandra tinha a impressão de que se arrastavam, simplesmente, pelas planícies. As colinas de Tróia eram ainda visíveis atrás delas, não muito mais distantes do que anteriormente; a limpidez do ar dava-lhe por vezes a ideia de que lhe era possível esticar-se e tocar o topo brilhante da cidade.

Em poucas semanas Cassandra sentia-se como se a sua vida sempre tivesse sido vivida com as cavaleiras da tribo. Levava o dia, do princípio ao fim, sem assentar pé no solo e, mesmo ainda em jejum, já estava em cima da sela da égua castanha que lhe fora entregue para seu uso, à qual chamara Southwind *. Com as outras raparigas da sua idade montava sentinela contra possíveis invasores e, à noite, mantinha os cavalos agrupados enquanto olhava as estrelas.

Gostava muito de Elaria, que olhava por ela como pelas suas filhas, duas raparigas de onze e dezassete anos; adorava Pentesileia, embora a rainha das Amazonas raramente falasse com ela excepto para se inteirar diariamente sobre a sua saúde e bem-estar. Tornara-se forte, bronzeada e saudável. No eterno sol ardente das planícies, vira a face de Apolo, Senhor do Sol, e parecia-lhe que a sua vida era vivida debaixo do Seu olhar.

Estava a viver com as mulheres-cavaleiras havia mais de uma lua, quando a tribo desmontou um dia, à vista do agora longínquo monte Ida, para tomar a sua frugal refeição do meio-dia, composta por pedaços de queijo forte de égua; Cassandra deu por si a contar a Pentesileia tudo sobre a sua curiosa visão.

- O rosto dele era tão parecido com o meu, como o meu rosto é parecido com o seu próprio reflexo na água - disse ela. - No entanto, quando falei dele o meu pai atirou-me ao chão; e estava zangado com a minha mãe também.

Pentesileia fez uma longa pausa antes de responder, e Cassandra pensou se o silêncio dos seus pais se iria repetir. Depois a mulher disse devagar: - Consigo perceber que a tua mãe, e especialmente o teu pai, não

queiram falar disso; mas não vejo razão,para não te contar o que meia Tróia já sabe. Ele é teu irmão gémeo, Cassandra. Quando nasceste, a Terra Mãe, que é também a Mãe Serpente, enviou a Hécuba um mau presságio: gémeos. Deveriam ter sido ambos mortos - disse ela com rudeza. Cassandra retraiu­-se, os lábios trémulos, e ela estendeu a mão e acariciou-lhe o cabelo. - Estou contente por não terem sido - disse ela. - Sem dúvida que algum deus te protegeu. O teu pai talvez tenha sentido que podia escapar à sua sina se expusesse a criança, mas como seguidor do princípio da paternidade (que é, na verdade, a veneração do poder masculino e do direito do pai aos filhos homens), não se atreveu a renunciar totalmente a um filho, e a criança foi enviada para longe do palácio para que fosse adoptada. O teu pai não queria saber nada sobre ele devido ao mau presságio ligado ao seu nascim~nto; por isso se zangou quando falaste dele.

Cassandra sentiu um tremendo alívio. Parecia-lhe que toda a sua vida tinha andado sozinha quando deveria haver outra pessoa a seu lado, alguém muito semelhante a ela e no entanto muito diferente.

- E não é errado querer vê-lo na taça mágica?

- Tu não precisas da taça mágica - disse Pentesileia. - Se a Deusa te deu a Visão, basta-te olhar para dentro do teu coração e encontrá-lo-ás aí. Não me surpreende que sejas tão dotada; a tua mãe tinha esse dom quando era rapariga e perdeu-o quando casou com um homem da cidade.

- Eu cria que... a Visão... era uma dádiva do Senhor do Sol - disse Cassandra. - A primeira vez que desceu sobre mim foi no seu templo.

- Talvez - disse Pentesileia. - Mas lembra-te, criança: muito antes de Apolo, Senhor do Sol, ter vindo reinar sobre estas terras, já a nossa Mãe Cavalo, a Grande Égua, a Mãe Terra de quem todos nascemos, aqui chegara.

Virou-se e pousou as duas mãos na terra escura; Cassandra imitou o gesto sem o perceber inteiramente. Pareceu-lhe que sentia uma força misteriosa erguendo-se da terra e fluindo através dela; era o mesmo tipo de força inebriante que sentira ao segurar nas mãos as serpentes de Apolo. Perguntou-se se não estaria a ser desleal para com o Deus que a chamara.

- Disseram-me no templo que Apolo, Senhor do Sol, tinha morto a Píton, a Grande Deusa do Mundo Subterrâneo. É essa a Mãe Serpente de quem falas? - Ela, a Grande Deusa, não pode ser morta, pois é imortal; pode decidir

retirar-se por algum tempo, mas Ela é e será para sempre - disse a rainha amazona; e Cassandra, sentindo a força da terra sob as suas mãos, recebeu aquelas palavras como uma verdade absoluta.

- A Mãe Serpente é, então, a mãe do Senhor do Sol? - perguntou.

Pentesileia, numa inspiração profunda, disse:

- Ela é a mãe de deuses e de homens, é a mãe de todas as coisas; portanto Apolo é filho Dela também, como eu e tu.

«Então... se Apolo, Senhor do Sol, a tentou matar, estava a tentar matar a sua própria mãe?» Ao pensar em tal iniquidade, Cassandra susteve a respiração. Mas poderia um deus fazer algo de perverso? Se um dado feito era mau para os homens, sê-lo-ia também para um deus? Se uma deusa era imortal, como poderia, então, ser morta? Todas estas coisas eram mistérios para ela e ela, de alma e coração, tomou a firme resolução de que um dia iria desvendá-los. Apolo, Senhor do Sol, tinha-a chamado; tinha-lhe dado as suas serpentes; um dia ele conduzi­-la-ia também ao conhecimento dos mistérios da Mãe Serpente.

As mulheres acabaram a sua refeição do meio-dia e estenderam-se a descansar na erva verde. Cassandra não tinha sono; não estava acostumada a dormir assim, a meio do dia. Observou as nuvens deslizando no céu e olhou para as encostas do monte Ida erguendo-se, imponentes, sobre a planície.

O seu irmão gémeo. A ideia de que toda a gente sabia da sua existência e que ela, a quem esse facto mais directamente dizia respeito, tinha sido mantida na ignorância, fé-la sentir-se zangada.

Tentou, deliberada e conscientemente, lembrar-se do estado em que se encontrava quando vira pela primeira vez o seu irmão nas águas da taça mágica. Ajoelhou-se imóvel na relva, com os olhos voltados para cima fixando o céu, a mente vazia, procurando o rosto que tinha visto uma única vez e apenas na visão. Por momentos, os seus pensamentos de busca fixaram-se no seu próprio rosto, que vira como um reflexo na água, e no bruxulear dourado que continuava a identificar, na sua mente, com o rosto e a inspiração de Apolo, Senhor do Sol.

Então, as feições alteraram-se e o rosto era o de um rapaz - era o seu rosto e, no entanto, algo de subtil fazia com quenão o fosse -cheio de uma malícia que lhe era totalmente desconhecida, e ela soube que encontrara o seu irmão. Perguntou-se como se chamaria e se conseguiria vê-la.

Vinda de qualquer ponto dessa sua misteriosa ligação, a resposta surgiu: poderia, se o desejasse; mas não tinha razão alguma para a procurar, nem qualquer interesse em especial. «Porque não?», interrogou-se Cassandra, não sabendo ainda que esbarrara com o maior defeito de carácter do seu irmão gémeo: uma total falta de interesse por tudo o que não se relacionasse com ele ou de alguma forma contribuísse para o seu conforto e satisfação.

Isto deixou-a tão perplexa que, por uns momentos, perdeu um fragmento da visão; concentrou-se então para o trazer de volta. Os seus sentidos estavam repletos do odor intoxicante do tomilho das encostas da montanha, onde a luz brilhante e o calor da presença do Senhor do Sol misturavam os óleos perfuma­dos das ervas e concentravam o seu aroma no ar.

Desviando os olhos dos olhos do rapaz, viu na mão dele a escova dura com que escovava o corpo sedoso de um enorme touro, alisando o brilhante pêlo branco dos flancos, e formando desenhos semelhantes a ondas. O animal era maior do que ele; tal como Cassandra, ele era esguio e leve, mais seco do que musculado. Os seus braços estavam castanhos, queimados do sol como os de qualquer pastor, e os dedos calejados e endurecidos pelo trabalho árduo e constante. Ela ficou ali de pé, com ele, fazendo desenhos nos flancos do touro, e quando o pêlo estava adequadamente macio e ondulado, ele largou a escova. Mergulhou outra escova num pote de tinta que tinha ao seu lado, espalhando uma camada dessa tinta fina e dourada nos chifres. Os grandes olhos escuros do touro pousaram-se nos dela com meiguice, confiança e um laivo de espanto que fez com que o animal mudasse de posição, inquieto. Cassandra perguntou-se se, de alguma forma, os instintos do bicho lhe diriam o que o seu irmão ignorava: que não era apenas o seu dono que se encontrava na sua frente.

Terminado o penteado e a pintura, Páris (não perguntou a si mesma como sabia o nome dele, mas sabia-o como se fosse seu) prendeu fitas e uma grinalda de folhas verdes em volta do largo pescoço do animal e afastou-se para apreciar a sua obra, orgulhoso. O touro estava lindo, de facto, mais bonito que todos os que já vira antes. Acompanhava Páris enquanto este pensava que podia, honesta­mente, considerar aquele magnífico animal - cujo aspecto e robustez não lhe poupara esforços ao longo de todo o ano anterior - como o mais belo touro da feira. Atou cuidadosamente uma corda à volta do pescoço do animal e pegou num cajado e numa bolsa de couro contendo um naco de pão, algumas tiras de carne seca e uma mão-cheia de azeitonas maduras.

Depois de ter atado a bolsa à cintura, dobrou-se para enfiar os pés nas sandálias. Deu ao enorme touro enfeitado uma leve bastonada no flanco e partiu pelas encostas do monte Ida abaixo.

Cassandra deu consigo, para sua surpresa, regressada ao seu próprio corpo, ajoelhada na planície, entre as amazonas adormecidas. O Sol começara a baixar um pouco em relação ao seu zénite e ela sabia que a tribo não tardaria a acordar e a estar pronta para partir.

Tinha ouvido dizer que nos reinos insulares do Sul o touro era tido como animal sagrado. Tinha visto no templo pequenas estátuas dos touros sagrados e alguém lhe contara a história da rainha Pasífae de Creta, por quem Zeus se enamorara. Ele visitara-a sob a forma de um grande touro branco e ela, diziam, dera mais tarde à luz um monstro com cabeça de touro e corpo de homem. Tinham-lhe chamado Minotauro e aterrorizara todos os reis das ilhas até ser morto pelo herói Teseu.

Quando Cassandra era pequenina acreditava nessa história; agora pergun­tava-se qual a verdade, se era que existia alguma, que estaria por trás dela. Tendo conhecido a realidade por trás da lenda dos Centauros, acreditava que deveria haver um fundo de verdade, por mais obscuro, em todas as histórias desse tipo.

Existiam homens deformados, animalescos quer no aspecto quer nas atitu­des; perguntava-se se o Minotauro não teria sido um desses homens, marcado, no corpo ou na alma, pelo disfarce animal de seu pai.

Estava ansiosa por ver o que acontecera a Páris e ao seu touro branco. As doridas. Elaria entrou na tenda quando ela estava a acordar. Espalhou-lhe bálsamo nas zonas doridas e deu-lhe um par de ceroulas de linho para vestir por baixo dos calções de couro, o que a fez sentir-se bastante melhor. Depois Elaria pegou num pente talhado em osso e começou a desembaraçar os nós do longo e sedoso cabelo de Cassandra; depois penteou-o em tranças apertadas e prendeu-as em cima, sob um chapéu pontiagudo em couro como o que todas elas usavam. Os olhos de Cassandra encheram-se de lágrimas enquanto o pente desfazia os nós, mas não chorou e Elaria fez-lhe uma festa aprovadora na cabeça.

- Hoje vais montar atrás de mim - disse Elaria - e talvez ainda hoje alcancemos as nossas pastagens e possamos escolher uma égua para ti e ensinar-te a montar. Chegará o tempo, e não está muito distante, em que serás capaz de passar o dia inteiro sobre a sela sem te cansares.

O pequeno-almoço foi um bocado de carne seca dura como cabedal que foi roendo, agarrada à sela, atrás de Elaria. À medida que avançavam, as caracte­rísticas das terras mudavam gradualmente; da fertilidade verde das margens do rio para a estéril planície, varrida pelo vento, que se elevava mais e mais a partir das terras baixas. Ao fundo da planície viam-se colinas redondas e nuas, comple­tamente castanhas, com grandes pedregulhos projectando-se das encostas e, por trás delas, erguendo-se a pique, penhascos escarpados. Na encosta de uma das colinas, Cassandra avistou vultos, maiores que ovelhas, que se moviam. Elaria virou-se e apontou.

- Ali pastam as nossas manadas de cavalos - disse ela. - Ao cair da noite estaremos em casa, na nossa própria terra.

Pentesileia calvagava ao lado delas. Disse muito baixinho:

- Não são as nossas manadas. Olha para ali e repara nos Centauros no meio delas.

Cassandra conseguia agora ver mais claramente; distinguiu os corpos pelu­dos e as cabeças barbudas dos homens erguendo-se acima dos animais. Como todas as crianças da cidade, Cassandra tinha sido criada no meio das histórias de centauros - criaturas selvagens e sem lei, com troncos e cabeças de homem e a parte de baixo do corpo como o dos cavalos. Podia agora ver qual a origem das velhas histórias. Eram homens pequenos, de pele castanha devido à vida ao ar livre; os cabelos longos e despenteados que lhes caíam pelas costas davam a nítida sensação de uma crina de cavalo, e os seus corpos castanhos fundiam-se com os corpos das montadas, as pernas curvas enroladas em torno dos pescoços dos cavalos: tronco de homem, parte de baixo de cavalo. Como a muitas outras meninas, tinha sido dito a Cassandra que eles raptavam as mulheres das cidades e das aldeias e a sua ama costumava admoestá-la, «se não fores uma menina boazinha, os Centauros vêm e levam-te».

Murmurou assustada:

- Eles vão fazer-nos mal, tia?

- Não, não, claro que não; o meu filho vive com eles - disse Pentesileia. - E se esta é a tribo de Quíron, são nossos amigos e aliados.

- Eu pensava que as tribos das Amazonas só tinham mulheres - disse Cassandra, surpreendida. - Tens um filho, tia?

- Tenho, mas vive com o pai; como todos os nossos filhos - disse Pentesileia. - Porquê, minha tonta, ainda acreditas que os Centauros são monstros? Vê, são só homens; cavaleiros como nós.

Apesar de tudo, à medida que os c~valeiros se aproximavam, Cassandra foi-se encolhendo; os homens estavam praticamente nus, e tinham um ar real­mente selvagem e incivilizado; ençolheu-se sobre o cavalo, por trás de Elaria, de forma a que eles não pudessem vê-la.

- Salve, Senhora das Mulheres Cavaleiras - gritou o cavaleiro mais adiantado. - Como te deste na cidade de Príamo?

- Bastante bem; como vês, voltámos sãs e salvas - gritou-lhe Pentesileia. - Como estão os teus homens?

- Encontrámos esta manhã uma árvore com abelhas e tirámos um barril de mel - disse o homem, aproximando-se e abraçando Pentesileia de cima do cavalo. - Partilharemos contigo, se quiseres.

Ela afastou-se dele e disse:

- O preço do teu mel é sempre muito alto; o que queres de nós, desta vez? Ele endireitou-se e cavalgou a seu lado, sorrindo bem-disposto.

- Podes fazer-me um favor - disse ele -, se quiseres. Um dos meus homens ficou obcecado por uma rapariga da aldeia há já algumas luas, e trouxe-a sem se dar ao trabalho de a pedir ao pai dela. Mas ela não serve para nada a não ser para a cama dele. Nem sequer sabe mungir uma égua ou fazer um queijo, e passa o tempo a chorar e a lamentar-se; agora ele está farto daquela cabra chorona até aos cabelos e...

- Não me peças para te livrar dela - interrompeu-o Pentesileia. - Tam­bém não serviria para nada nas nossas tendas.

- O que eu quero - disse o homem - é que tu a leves de volta ao pai dela. Pentesileia resfolegou.

- E deixar que sejamos nós a enfrentar a ira dos homens da sua tribo? Nem pensar!

- O problema é que a campónia está grávida - disse o centauro. - Não podem ficar com ela até o bebé nascer? Parece-me que ela era capaz de se sentir mais feliz entre mulheres.

- Se ela vier connosco sem causar problemas - disse Pentesileia -, ficamos com ela até o bebé nascer; se for uma filha, ficamos com as duas. Se for um rapaz, quere-lo?

- Certamente que sim - disse o homem. - Quanto à mulher, depois de o bebé nascer, podes ficar com ela ou mandá-la de volta para a aldeia ou, pelo que me toca, até a podes afogar.

- Tenho de facto um coração demasiado bom - disse Pentesileia. - Por­que hei-de eu ter de vos livrar dos problemas que vocês próprios arranjam? - Por meio barril dè mel?

- Por meio barril de mel - disse Elaria -eu própria olharei pela rapariga, ajudá-la-ei a ter a criança e levá-la-ei de volta para a aldeia.

- Todas nós ajudaremos - disse Pentesileia -, mas na próxima vez que um dos teus homens quiser uma mulher, manda-o às nossas tendas, e sem dúvida que uma de nós o satisfará sem todas essas complicações. De cada vez que um dos teus homens anda atrás de uma mulher fora de estação, e vai às aldeias, todas as tribos sofrem as consequências; mais histórias de como vivemos sem lei, homens e mulheres por igual.

- Não me ralhes, senhora - disse o homem, escondendo brevemente o rosto com as mãos. -Todos nós somos apenas humanos. E quem é aquela que se esconde por trás da tua companheira? - Olhou por trás de Elaria e piscou o olho a Cassandra; tinha um ar tão cómico com a sua cara peluda toda franzida sob o cabelo emaranhado, que ela começou a rir-se às gargalhadas. - Roubaste uma criança da cidade de Príamo?

- Nada disso - disse Pentesileia. - É a filha da minha irmã, que vem viver connosco por umas quantas estações.

- Uma coisinha bonita - disse o centauro. - Em breve todos os meus homens mais novos brigarão por causa dela.

Cassandra corou e escondeu-se de novo atrás de Elaria. No palácio de Príamo, até a sua mãe admitia sem problemas que Políxena era «a bonita» e Cassandra «a inteligente». Cassandra tinha decidido que não se importava; de qualquer modo, era agradável pensar que alguém achava que ela era bonita.

- Bom - disse Pentesileia -, deixa-nos ver esse mel e a mulher que querem que vos tiremos das mãos.

- Querem partilhar do nosso banquete? Estamos a assar um cabrito para a refeição da noite - disse o centauro, e Pentesileia lançou um olhar às suas mulheres.

- Esperávamos dormir nas nossas tendas esta noite - contrapôs ela -, mas o cabrito parece estar bem assado e, pelo cheiro, saboroso; seria uma pena não aceitar um pouco. - E Elaria acrescentou: - Porque não descansar aqui por uma ou duas horas? Se não chegarmos hoje a casa, amanhã é outro dia. Pentesileia encolheu os ombros.

- As minhas mulheres responderam por mim; aceitamos a vossa hospitali­dade com prazer; ou talvez apenas por gula.

O centauro acenou e trotou em direcção à fogueira central do acampa­mento; Pentesileia fez sinal às mulheres para que o seguissem. Uma mulher jovem estava ajoelhada junto ao fogo, rodando o espeto onde o carneiro assava. Os pingos de gordura sobre a chama cheiravam maravilhosamente e a pele tostada crepitava.

As mulheres deslizaram de cima dos cavalos e, algum tempo depois, os homens fizeram o mesmo.

Pentesileia dirigiu-se imediatamente para a mulher que rodava o espeto. Cassandra reparou, horrorizada, que os tornozelos dela tinham sido perfurados e que os seus pés estavam presos um ao outro por uma corda que passava através dos ferimentos de forma a não lhe permitir dar passadas largas.

A rainha amazona olhou para ela, sem animosidade, e perguntou: - És tu a prisioneira?

- Sou; roubaram-me de casa do meu pai, no Verão passado. - Queres voltar para lá?

- Ele jurou, quando perfurou os meus pés, que iria amar-me e cuidar de mim para sempre; vai rejeitar-me, agora? Irá o meu pai receber-me de novo em sua casa assim, aleijada e com o filho de um centauro a crescer no meu ventre?

- Ele diz-me que não és feliz aqui - disse Pentesileia. - Se quiseres vir connosco, poderás viver na nossa aldeia até que o teu filho nasça, e depois irás para casa do teu pai ou para onde te aprouver.

O rosto da mulher contorceu-se de pranto.

- Assim? - disse ela, apontando os tornozelos mutilados. Pentesileia voltou-se para o chefe dos Centauros:

- Levá-la-ia de boa vontade se ela estivesse ilesa. Mas não a podemos mandar de volta para a aldeia do pai neste estado. Já não bastava ao teu jovem tê-la raptado e desvirginado?

O centauro abriu as mãos, num gesto de impotência.

- Ele jurou que a queria para sempre, para a sustentar e proteger, e receava apenas que ela conseguisse fugir-Lhe.

- Devias saber, depois destes anos todos, quanto tempo dura esse tipo de amor - admoestou-o a rainha das Amazonas. - Raramente dura para além do desfloramento. Um amor eterno resiste, às vezes, meio ano, mas nunca sobrevive à gravidez. Que vamos fazer com ela, agora? Sabes tão bem como eu que não a podemos devolver assim à aldeia do pai. Desta vez meteste-te numa coisa da qual não te podemos safar.

- Nestas circunstâncias, o meu homem pagaria para se ver livre dela ­disse o centauro.

- E tem de o fazer. Que daria ele, então, para se desfazer dela?

- Uma bela potra como indemnização para o pai ou como dote, se ela quiser cásar.

- Talvez, em troca disso, nós consigamos ver-nos livres dela logo que possa voltar a andar - disse Pentesileia -, mas garanto-te que esta é a última vez que nós resolvemos os vossos problemas amorosos. Mantém os teus homens afasta­dos das mulheres das aldeias e talvez não nos voltes a forçar a todas estas vergonhas. E é bom que seja mesmo uma boa égua, caso contrário não valerá o trabalho. - Fungou, apreciativamente. - Mas seria uma pena deixar o cabrito queimar-se ou ficar passado de mais enquanto estou para aqui a ralhar-te. Vamos comer uma fatia, ou não?

Um dos centauros pegou numa grande faca e começou a cortar grandes nacos de carne e pele tostada do cabrito. As mulheres reuniram-se e sentaram-se sobre a erva enquanto a comida era passada de mão em mão, acompanhada com vinho em odres de couro e pedaços de favo de mel. Cassandra comeu voraz­mente; estava cansada da cavalgada e com vontade de se estender na erva depois de ter comido e bebido o vinho. Passado algum tempo sentiu-se tonta e deitou-se para trás, fechando preguiçosamente os olhos. Em casa era-lhe apenas permitido beber vinho muito aguado, e agora ela sentia-se um pouco indisposta. Apesar disso, parecia-Lhe que refeição alguma tomada em casa lhe soubera tão bem.

Um dos jovens que cavalgara ao lado do chefe dos Centauros veio encher de novo o copo que ela tinha na mão. Cassandra abanou a cabeça.

- Não quero mais, obrigada.

- O Deus do Vinho ficará zangado contigo se recusares as Suas oferen­das - disse o rapaz. - Bebe, Olhos Brilhantes.

Era o que o pai lhe chamava, nos seus raros momentos de afabilidade. Sorveu mais alguns goles e depois sacudiu a cabeça.

- Já estou tonta de mais para me sentar no cavalo!

- Então descansa - disse o rapaz, e puxou-a para trás, deitando-a de encontro ao seu ombro, os braços em volta dela.

Os olhos de Pentesileia pousaram-se nele e, secamente, disse para o rapaz: - Deixa-a em paz, ela não é para ti. É a filha de Príamo, princesa de Tróia. O chefe dos Centauros riu, dizendo:

- Ele não lhe fica muito atrás, senhora; é filho de um rei.

- Eu conheço as tuas adopções reais - disse Pentesileia. - Lembro-me demasiado bem de quando Teseu nos levou a nossa rainha Antíope, para viver entre paredes e aí morrer. Seja como for, esta virgem está aos meus cuidados, e qualquer um que íhe toque terá de se haver comigo.

O rapaz riu e soltou Cassandra.

- Talvez quando fores crescida, Olhos Brilhantes, o teu pai tenha melhor opinião de mim do que a nossa parente; a tribo dela não gosta dos homens nem de casamentos.

- Nem eu - disse Cassandra, afastando-se dele.

- Bom, talvez quando fores mais velha mudes de ideias - disse o rapaz. Inclinou-se e beijou-a nos lábios. Cassandra afastou-se e limpou vigorosamente a boca, enquanto os centauros riam. Cassandra viu a mulher aleijada da aldeia olhando para ela, com uma expressão sombria.

A rainha amazona chamou as mulheres para os cavalos, ajudando uma delas a colocar o prometido mel sobre o dorso da sua égua. Depois cortou a corda que prendia os tornozelos da mulher aleijada e ajudou-a a subir para cima de um cavalo, falando-lhe suavemente. A mulher já não chorava; de livre vontade foi com elas. O centauro chamou Pentesileia quando esta se montou no cavalo.

- Não vos conseguiremos convencer a passar a noite nas nossas tendas? - Noutra altura, talvez - prometeu Pentesileia, devolvendo-lhe o abraço com sinceridade. - Por agora, até à vista.

Cassandra estava confusa; eram estes homens e rapazes os terríveis Centau­ros de que falavam as lendas? Pareciam bastante amigáveis. Mas gostaria de saber qual era a sua relação com as Amazonas. Eles não tratavam as mulheres da mesma forma que os soldados de seu pai se dirigiam às mulheres da casa. O rapaz bonito que a tinha beijado aproximou-se a olhar para ela, sorrindo.

- Talvez te veja quando reunirmos o gado!? -disse ele. Cassandra desviou os olhos, corada; não sabia o que havia de lhe dizer. À excepção dos seus irmãos, ele era o primeiro rapaz com quem falava.

Pentesileia fez sinal às mulheres para que a seguissem, e Cassandra viu que se dirigiam para o interior e que as encostas do monte Ida se erguiam na sua frente. Pensou na visão que tivera, do rapaz com a sua cara conduzindo as ovelhas nas encostas.

«Ele pode guardar ovelhas, mas eu vou aprender a montar a cavalo», pensou, ainda tonta devido ao vinho a que não estava acostumada, encostou-se para a frente, equilibrando-se de encontro a Elaria, e adormeceu, embalada pelo passo oscilante do cavalo.

 

O mundo era maior do que alguma vez pensara; embora cavalgassem desde o raiar do dia até a escuridão as impedir de ver, Cassandra tinha a impressão de que se arrastavam, simplesmente, pelas planícies. As colinas de Tróia eram ainda visíveis atrás delas, não muito mais distantes do que anteriormente; a limpidez do ar dava-lhe por vezes a ideia de que lhe era possível esticar-se e tocar o topo brilhante da cidade.

Em poucas semanas Cassandra sentia-se como se a sua vida sempre tivesse sido vivida com as cavaleiras da tribo. Levava o dia, do princípio ao Cm, sem assentar pé no solo e, mesmo ainda em jejum, já estava em cima da sela da égua castanha que lhe fora entregue para seu uso, à qual chamara Southwind *. Com as outras raparigas da sua idade montava sentinela contra possíveis invasores e, à noite, mantinha os cavalos agrupados enquanto olhava as estrelas.

Gostava muito de Elaria, que olhava por ela como pelas suas filhas, duas raparigas de onze e dezassete anos; adorava Pentesileia, embora a rainha das Amazonas raramente falasse com ela excepto para se inteirar diariamente sobre a sua saúde e bem-estar. Tornara-se forte, bronzeada e saudável. No eterno sol ardente das planícies, vira a face de Apolo, Senhor do Sol, e parecia-lhe que a sua vida era vivida debaixo do Seu olhar.

Estava a viver com as mulheres-cavaleiras havia mais de uma lua, quando a tribo desmontou um dia, à vista do agora longínquo monte Ida, para tomar a sua frugal refeição do meio-dia, composta por pedaços de queijo forte de égua; Cassandra deu por si a contar a Pentesileia tudo sobre a sua curiosa visão.

- O rosto dele era tão parecido com o meu, como o meu rosto é parecido com o seu próprio reflexo na água - disse ela. - No entanto, quando falei

* .Snuthvrind = Vcnto Sul. (N. da T )

dele o meu pai atirou-me ao chão; e estava zangado com a minha mãe também.

Pentesileia fez uma longa pausa antes de responder, e Cassandra pensou se o silêncio dos seus pais se iria repetir. Depois a mulher disse devagar: - Consigo perceber que a tua mãe, e especialmente o teu pai, não

queiram falar disso; mas não vejo razão,para não te contar o que meia Tróia já sabe. Ele é teu irmão gémeo, Cassandra. Quando nasceste, a Terra Mãe, que é também a Mãe Serpente, enviou a Hécuba um mau presságio: gémeos. Deveriam ter sido ambos mortos - disse ela com rudeza. Cassandra retraiu­-se, os lábios trémulos, e ela estendeu a mão e acariciou-lhe o cabelo. - Estou contente por não terem sido - disse ela. - Sem dúvida que algum deus te protegeu. O teu pai talvez tenha sentido que podia escapar à sua sina se expusesse a criança, mas como seguidor do princípio da paternidade (que é, na verdade, a veneração do poder masculino e do direito do pai aos filhos homens), não se atreveu a renunciar totalmente a um filho, e a criança foi enviada para longe do palácio para que fosse adoptada. O teu pai não queria saber nada sobre ele devido ao mau presságio ligado ao seu nascim~nto; por isso se zangou quando falaste dele.

Cassandra sentiu um tremendo alívio. Parecia-lhe que toda a sua vida tinha andado sozinha quando deveria haver outra pessoa a seu lado, alguém muito semelhante a ela e no entanto muito diferente.

- E não é errado querer vê-lo na taça mágica?

- Tu não precisas da taça mágica - disse Pentesileia. - Se a Deusa te deu a Visão, basta-te olhar para dentro do teu coração e encontrá-lo-ás aí. Não me surpreende que sejas tão dotada; a tua mãe tinha esse dom quando era rapariga e perdeu-o quando casou com um homem da cidade.

- Eu cria que... a Visão... era uma dádiva do Senhor do Sol - disse Cassandra. - A primeira vez que desceu sobre mim foi no seu templo.

- Talvez - disse Pentesileia. - Mas lembra-te, criança: muito antes de Apolo, Senhor do Sol, ter vindo reinar sobre estas terras, já a nossa Mãe Cavalo, a Grande Égua, a Mãe Terra de quem todos nascemos, aqui chegara.

Virou-se e pousou as duas mãos na terra escura; Cassandra imitou o gesto sem o perceber inteiramente. Pareeeu-lhe que sentia uma força misteriosa erguendo-se da terra e fluindo através dela; era o mesmo tipo de força inebriante que sentira ao segurar nas mãos as serpentes de Apolo. Perguntou-se se não estaria a ser desleal para com o Deus que a chamara.

- Disseram-me no templo que Apolo, Senhor do Sol, tinha morto a Píton, a Grande Deusa do Mundo Subterrâneo. É essa a Mãe Serpente de quem falas? - Ela, a Grande Deusa, não pode ser morta, pois é imortal; pode decidir

retirar-se por algum tempo, mas Ela é e será para sempre - disse a rainha amazona; e Cassandra, sentindo a força da terra sob as suas mãos, recebeu aquelas palavras como uma verdade absoluta.

- A Mãe Serpente é, então, a mãe do Senhor do Sol? - perguntou.

Pentesileia, numa inspiração profunda, disse:

- Ela é a mãe de deuses e de homens, é a mãe de todas as coisas; portanto Apolo é filho Dela também, como eu e tu.

«Então... se Apolo, Senhor do Sol, a tentou matar, estava a tentar matar a sua própria mãe?» Ao pensar em tal iniquidade, Cassandra susteve a respiração. Mas poderia um deus fazer algo de perverso? Se um dado feito era mau para os homens, sê-lo-ia também para um deus? Se uma deusa era imortal, como poderia, então, ser morta? Todas estas coisas eram mistérios para ela e ela, de alma e coração, tomou a firme resolução de que um dia iria desvendá-los. Apolo, Senhor do Sol, tinha-a chamado; tinha-lhe dado as suas serpentes; um dia ele conduzi­-la-ia também ao conhecimento dos mistérios da Mãe Serpente.

As mulheres acabaram a sua refeição do meio-dia e estenderam-se a descan­sar na erva verde. Cassandra não tinha sono; não estava acostumada a dormir assim, a meio do dia. Observou as nuvens deslizando no céu e olhou para as encostas do monte Ida erguendo-se, imponentes, sobre a planície.

O seu irmão gémeo. A ideia de que toda a gente sabia da sua existência e que ela, a quem esse facto mais directamente dizia respeito, tinha sido mantida na ignorância, fé-la sentir-se zangada.

Tentou, deliberada e conscientemente, lembrar-se do estado em que se encontrava quando vira pela primeira vez o seu irmão nas águas da taça mágica. Ajoelhou-se imóvel na relva, com os olhos voltados para cima fixando o céu, a mente vazia, procurando o rosto que tinha visto uma única vez e apenas na visão. Por momentos, os seus pensamentos de busca fixaram-se no seu próprio rosto, que vira como um reflexo na água, e no bruxulear dourado que continuava a ident~car, na sua mente, com o rosto e a inspiração de Apolo, Senhor do Sol.

Então, as feições alteraram-se e o rosto era o de um rapaz - era o seu rosto e, no entanto, algo de subtil fazia com quenão o fosse -cheio de uma malícia que Lhe era totalmente desconhecida, e ela soube que encontrara o seu irmão. Per­guntou-se como se chamaria e se conseguiria vê-la.

Vinda de qualquer ponto dessa sua misteriosa ligação, a resposta surgiu: poderia, se o desejasse; mas não tinha razão alguma para a procurar, nem qualquer interesse em especial. «Porque não?», interrogou-se Cassandra, não sabendo ainda que esbarrara com o maior defeito de carácter do seu irmão gémeo: uma total falta de interesse por tudo o que não se relacionasse com ele ou de alguma forma contribuísse para o seu conforto e satisfação.

Isto deixou-a tão perplexa que, por uns momentos, perdeu um fragmento da visão; concentrou-se então para o trazer de volta. Os seus sentidos estavam repletos do odor intoxicante do tomilho das encostas da montanha, onde a luz brilhante e o calor da presença do Senhor do Sol misturavam os óleos perfuma­dos das ervas e concentravam o seu aroma no ar.

Desviando os olhos dos olhos do rapaz, viu na mão dele a escova dura com que escovava o corpo sedoso de um enorme touro, alisando o brilhante pêlo branco dos flancos, e formando desenhos semelhantes a ondas. O animal era maior do que ele; tal como Cassandra, ele era esguio e leve, mais seco do que musculado. Os seus braços estavam castanhos, queimados do sol como os de qualquer pastor, e os dedos calejados e endurecidos pelo trabalho árduo e constante. Ela ficou ali de pé, com ele, fazendo desenhos nos flancos do touro, e quando o pêlo estava adequadamente macio e ondulado, ele largou a escova. Mergulhou outra escova num pote de tinta que tinha ao seu lado, espalhando uma camada dessa tinta fina e dourada nos chifres. Os grandes olhos escuros do touro pousaram-se nos dela com meiguice, confiança e um laivo de espanto que fez com que o animal mudasse de posição, inquieto. Cassandra perguntou-se se, de alguma forma, os instintos do bicho lhe diriam o que o seu irmão ignorava: que não era apenas o seu dono que se encontrava na sua frente.

Terminado o penteado e a pintura, Páris (não perguntou a si mesma como sabia o nome dele, mas sabia-o como se fosse seu) prendeu fitas e uma grinalda de folhas verdes em volta do largo pescoço do animal e afastou-se para apreciar a sua obra, orgulhoso. O touro estava lindo, de facto, mais bonito que todos os que já vira antes. Acompanhava Páris enquanto este pensava que podia, honesta­mente, considerar aquele magnífico animal - cujo aspecto e robustez não lhe poupara esforços ao longo de todo o ano anterior - como o mais belo touro da feira. Atou cuidadosamente uma corda à volta do pescoço do animal e pegou num cajado e numa bolsa de couro contendo um naco de pão, algumas tiras de carne seca e uma mão-cheia de azeitonas maduras.

Depois de ter atado a bolsa à cintura, dobrou-se para enfiar os pés nas sandálias. Deu ao enorme touro enfeitado uma leve bastonada no flanco e partiu pelas encostas do monte Ida abaixo.

Cassandra deu consigo, para sua surpresa, regressada ao seu próprio corpo, ajoelhada na planície, entre as amazonas adormecidas. O Sol começara a baixar um pouco em relação ao seu zénite e ela sabia que a tribo não tardaria a acordar e a estar pronta para partir.

Tinha ouvido dizer que nos reinos insulares do Sul o touro era tido como animal sagrado. Tinha visto no templo pequenas estátuas dos touros sagrados e alguém lhe contara a história da rainha Pasífae de Creta, por quem Zeus se enamorara. Ele visitara-a sob a forma de um grande touro branco e ela, diziam, dera mais tarde à luz um monstro com cabeça de touro e corpo de homem. Tinham-lhe chamado Minotauro e aterrorizara todos os reis das ilhas até ser morto pelo herói Teseu.

Quando Cassandra era pequenina acreditava nessa história; agora pergun­tava-se qual a verdade, se era que existia alguma, que estaria por trás dela. Tendo conhecido a realidade por trás da lenda dos Centauros, acreditava que deveria haver um fundo de verdade, por mais obscuro, em todas as histórias desse tipo.

Existiam homens deformados, animalescos quer no aspecto quer nas atitu­des; perguntava-se se o Minotauro não teria sido um desses homens, marcado, no corpo ou na alma, pelo disfarce animal de seu pai.

Estava ansiosa por ver o que acontecera a Páris e ao seu touro branco. As doridas. Elaria entrou na tenda quando ela estava a acordar. Espalhou-lhe bálsamo nas zonas doridas e deu-lhe um par de ceroulas de linho para vestir por baixo dos calções de couro, o que a fez sentir-se bastante melhor. Depois Elaria pegou num pente talhado em osso e começou a desembaraçar os nós do longo e sedoso cabelo de Cassandra; depois penteou-o em tranças apertadas e prendeu-as em cima, sob um chapéu pontiagudo em couro como o que todas elas usavam. Os olhos de Cassandra encheram-se de lágrimas enquanto o pente desfazia os nós, mas não chorou e Elaria fez-lhe uma festa aprovadora na cabeça.

- Hoje vais montar atrás de mim - disse Elaria - e talvez ainda hoje alcancemos as nossas pastagens e possamos escolher uma égua para ti e ensinar-te a montar. Chegará o tempo, e não está muito distante, em que serás capaz de passar o dia inteiro sobre a sela sem te cansares.

O pequeno-almoço foi um bocado de carne seca dura como cabedal que foi roendo, agarrada à sela, atrás de Elaria. À medida que avançavam, as caracte­rísticas das terras mudavam gradualmente; da fertilidade verde das margens do rio para a estéril planície, varrida pelo vento, que se elevava mais e mais a partir das terras baixas. Ao fundo da planície viam-se colinas redondas e nuas, comple­tamente castanhas, com grandes pedregulhos projectando-se das encostas e, por trás delas, erguendo-se a pique, penhascos escarpados. Na encosta de uma das colinas, Cassandra avistou vultos, maiores que ovelhas, que se moviam. Elaria virou-se e apontou.

- Ali pastam as nossas manadas de cavalos - disse ela. - Ao cair da noite estaremos em casa, na nossa própria terra.

Pentesileia calvagava ao lado delas. Disse muito baixinho:

- Não são as nossas manadas. Olha para ali e repara nos Centauros no meio delas.

Cassandra conseguia agora ver mais claramente; distinguiu os corpos pelu­dos e as cabeças barbudas dos homens erguendo-se acima dos animais. Como todas as crianças da cidade, Cassandra tinha sido criada no meio das histórias de centauros - criaturas selvagens e sem lei, com troncos e cabeças de homem e a parte de baixo do corpo como o dos cavalos. Podia agora ver qual a origem das velhas histórias. Eram homens pequenos, de pele castanha devido à vida ao ar livre; os cabelos longos e despenteados que lhes caíam pelas costas davam a nítida sensação de uma crina de cavalo, e os seus corpos castanhos fundiam-se com os corpos das montadas, as pernas curvas enroladas em torno dos pescoços dos cavalos: tronco de homem, parte de baixo de cavalo. Como a muitas outras meninas, tinha sido dito a Cassandra que eles raptavam as mulheres das cidades e das aldeias e a sua ama costumava admoestá-la, «se não fores uma menina boazinha, os Centauros vêm e levam-te».

Murmurou assustada:

- Eles vão fazer-nos mal, tia?

- Não, não, claro que não; o meu filho vive com eles - disse Pentesileia. - E se esta é a tribo de Quíron, são nossos amigos e aliados.

- Eu pensava que as tribos das Amazonas só tinham mulheres - disse Cassandra, surpreendida. - Tens um filho, tia?

- Tenho, mas vive com o pai; como todos os nossos filhos - disse Pentesileia. - Porquê, minha tonta, ainda acreditas que os Centauros são monstros? Vê, são só homens; cavaleiros como nós.

Apesar de tudo, à medida que os c~valeiros se aproximavam, Cassandra foi-se encolhendo; os homens estavam praticamente nus, e tinham um ar real­mente selvagem e incivilizado; ençolheu-se sobre o cavalo, por trás de Elaria, de forma a que eles não pudessem vê-la.

- Salve, Senhora das Mulheres Cavaleiras - gritou o cavaleiro mais adiantado. - Como te deste na cidade de Príamo?

- Bastante bem; como vês, voltámos sãs e salvas - gritou-lhe Pentesileia. - Como estão os teus homens?

- Encontrámos esta manhã uma árvore com abelhas e tirámos um barril de mel - disse o homem, aproximando-se e abraçando Pentesileia de cima do cavalo. - Partilharemos contigo, se quiseres.

Ela afastou-se dele e disse:

- O preço do teu mel é sempre muito alto; o que queres de nós, desta vez? Ele endireitou-se e cavalgou a seu lado, sorrindo bem-disposto.

- Podes fazer-me um favor - disse ele -, se quiseres. Um dos meus homens ficou obcecado por uma rapariga da aldeia há já algumas luas, e trouxe-a sem se dar ao trabalho de a pedir ao pai dela. Mas ela não serve para nada a não ser para a cama dele. Nem sequer sabe mungir uma égua ou fazer um queijo, e passa o tempo a chorar e a lamentar-se; agora ele está farto daquela cabra chorona até aos cabelos e...

- Não me peças para te livrar dela - interrompeu-o Pentesileia. - Tam­bém não serviria para nada nas nossas tendas.

- O que eu quero - disse o homem - é que tu a leves de volta ao pai dela. Pentesileia resfolegou.

- E deixar que sejamos nós a enfrentar a ira dos homens da sua tribo? Nem pensar!

- O problema é que a campónia está grávida - disse o centauro. - Não podem ficar com ela até o bebé nascer? Parece-me que ela era capaz de se sentir mais feliz entre mulheres.

- Se ela vier connosco sem causar problemas - disse Pentesileia -, ficamos com ela até o bebé nascer; se for uma filha, ficamos com as duas. Se for um rapaz, quere-lo?

- Certamente que sim - disse o homem. - Quanto à mulher, depois de o bebé nascer, podes ficar com ela ou mandá-la de volta para a aldeia ou, pelo que me toca, até a podes afogar.

- Tenho de facto um coração demasiado bom - disse Pentesileia. - Por­que hei-de eu ter de vos livrar dos problemas que vocês próprios arranjam? - Por meio barril dè mel?

- Por meio barril de mel - disse Elaria -eu própria olharei pela rapariga, ajudá-la-ei a ter a criança e levá-la-ei de volta para a aldeia.

- Todas nós ajudaremos - disse Pentesileia -, mas na próxima vez que um dos teus homens quiser uma mulher, manda-o às nossas tendas, e sem dúvida que uma de nós o satisfará sem todas essas complicações. De cada vez que um dos teus homens anda atrás de uma mulher fora de estação, e vai às aldeias, todas as tribos sofrem as consequências; mais histórias de como vivemos sem lei, homens e mulheres por igual.

- Não me ralhes, senhora - disse o homem, escondendo brevemente o rosto com as mãos. -Todos nós somos apenas humanos. E quem é aquela que se esconde por trás da tua companheira? - Olhou por trás de Elaria e piscou o olho a Cassandra; tinha um ar tão cómico com a sua cara peluda toda franzida sob o cabelo emaranhado, que ela começou a rir-se às gargalhadas. - Roubaste uma criança da cidade de Príamo?

- Nada disso - disse Pentesileia. - É a filha da minha irmã, que vem viver connosco por umas quantas estações.

- Uma coisinha bonita - disse o centauro. - Em breve todos os meus homens mais novos brigarão por causa dela.

Cassandra corou e escondeu-se de novo atrás de Elaria. No palácio de Príamo, até a sua mãe admitia sem problemas que Políxena era «a bonita» e Cassandra «a inteligente». Cassandra tinha decidido que não se importava; de qualquer modo, era agradável pensar que alguém achava que ela era bonita.

- Bom - disse Pentesileia -, deixa-nos ver esse mel e a mulher que querem que vos tiremos das mãos.

- Querem partilhar do nosso banquete? Estamos a assar um cabrito para a refeição da noite - disse o centauro, e Pentesileia lançou um olhar às suas mulheres.

- Esperávamos dormir nas nossas tendas esta noite - contrapôs ela -, mas o cabrito parece estar bem assado e, pelo cheiro, saboroso; seria uma pena não aceitar um pouco. - E Elaria acrescentou: - Porque não descansar aqui por uma ou duas horas? Se não chegarmos hoje a casa, amanhã é outro dia. Pentesileia encolheu os ombros.

- As minhas mulheres responderam por mim; aceitamos a vossa hospitali­dade com prazer; ou talvez apenas por gula.

O centauro acenou e trotou em direcção à fogueira central do acampa­mento; Pentesileia fez sinal às mulheres para que o seguissem. Uma mulher jovem estava ajoelhada junto ao fogo, rodando o espeto onde o carneiro assava. Os pingos de gordura sobre a chama cheiravam maravilhosamente e a pele tostada crepitava.

As mulheres deslizaram de cima dos cavalos e, algum tempo depois, os homens fizeram o mesmo.

Pentesileia dirigiu-se imediatamente para a mulher que rodava o espeto. Cassandra reparou, horrorizada, que os tornozelos dela tinham sido perfurados e que os seus pés estavam presos um ao outro por uma corda que passava através dos ferimentos de forma a não lhe permitir dar passadas largas.

A rainha amazona olhou para ela, sem animosidade, e perguntou: - És tu a prisioneira?

- Sou; roubaram-me de casa do meu pai, no Verão passado. - Queres voltar para lá?

- Ele jurou, quando perfurou os meus pés, que iria amar-me e cuidar de mim para sempre; vai rejeitar-me, agora? Irá o meu pai receber-me de novo em sua casa assim, aleijada e com o filho de um centauro a crescer no meu ventre?

- Ele diz-me que não és feliz aqui - disse Pentesileia. - Se quiseres vir connosco, poderás viver na nossa aldeia até que o teu filho nasça, e depois irás para casa do teu pai ou para onde te aprouver.

O rosto da mulher contorceu-se de pranto.

- Assim? - disse ela, apontando os tornozelos mutilados. Pentesileia voltou-se para o chefe dos Centauros:

- Levá-la-ia de boa vontade se ela estivesse ilesa. Mas não a podemos mandar de volta para a aldeia do pai neste estado. Já não bastava ao teu jovem tê-la raptado e desvirginado?

O centauro abriu as mãos, num gesto de impotência.

- Ele jurou que a queria para sempre, para a sustentar e proteger, e receava apenas que ela conseguisse fugir-Lhe.

- Devias saber, depois destes anos todos, quanto tempo dura esse tipo de amor - admoestou-o a rainha das Amazonas. - Raramente dura para além do desfloramento. Um amor eterno resiste, às vezes, meio ano, mas nunca sobrevive à gravidez. Que vamos fazer com ela, agora? Sabes tão bem como eu que não a podemos devolver assim à aldeia do pai. Desta vez meteste-te numa coisa da qual não te podemos safar.

- Nestas circunstâncias, o meu homem pagaria para se ver livre dela ­disse o centauro.

- E tem de o fazer. Que daria ele, então, para se desfazer dela?

- Uma bela potra como indemnização para o pai ou como dote, se ela quiser cásar.

- Talvez, em troca disso, nós consigamos ver-nos livres dela logo que possa voltar a andar - disse Pentesileia -, mas garanto-te que esta é a última vez que nós resolvemos os vossos problemas amorosos. Mantém os teus homens afasta­dos das mulheres das aldeias e talvez não nos voltes a forçar a todas estas vergonhas. E é bom que seja mesmo uma boa égua, caso contrário não valerá o trabalho. - Fungou, apreciativamente. - Mas seria uma pena deixar o cabrito queimar-se ou ficar passado de mais enquanto estou para aqui a ralhar-te. Vamos comer uma fatia, ou não?

Um dos centauros pegou numa grande faca e começou a cortar grandes nacos de carne e pele tostada do cabrito. As mulheres reuniram-se e sentaram-se sobre a erva enquanto a comida era passada de mão em mão, acompanhada com vinho em odres de couro e pedaços de favo de mel. Cassandra comeu voraz­mente; estava cansada da cavalgada e com vontade de se estender na erva depois de ter comido e bebido o vinho. Passado algum tempo sentiu-se tonta e deitou-se para trás, fechando preguiçosamente os olhos. Em casa era-lhe apenas permitido beber vinho muito aguado, e agora ela sentia-se um pouco indisposta. Apesar disso, parecia-Lhe que refeição alguma tomada em casa lhe soubera tão bem.

Um dos jovens que cavalgara ao lado do chefe dos Centauros veio encher de novo o copo que ela tinha na mão. Cassandra abanou a cabeça.

- Não quero mais, obrigada.

- O Deus do Vinho ficará zangado contigo se recusares as Suas oferen­das - disse o rapaz. - Bebe, Olhos Brilhantes.

Era o que o pai lhe chamava, nos seus raros momentos de afabilidade. Sorveu mais alguns goles e depois sacudiu a cabeça.

- Já estou tonta de mais para me sentar no cavalo!

- Então descansa - disse o rapaz, e puxou-a para trás, deitando-a de encontro ao seu ombro, os braços em volta dela.

Os olhos de Pentesileia pousaram-se nele e, secamente, disse para o rapaz: - Deixa-a em paz, ela não é para ti. É a filha de Príamo, princesa de Tróia. O chefe dos Centauros riu, dizendo:

- Ele não lhe fica muito atrás, senhora; é filho de um rei.

- Eu conheço as tuas adopções reais - disse Pentesileia. - Lembro-me demasiado bem de quando Teseu nos levou a nossa rainha Antíope, para viver entre paredes e aí morrer. Seja como for, esta virgem está aos meus cuidados, e qualquer um que íhe toque terá de se haver comigo.

O rapaz riu e soltou Cassandra.

- Talvez quando fores crescida, Olhos Brilhantes, o teu pai tenha melhor opinião de mim do que a nossa parente; a tribo dela não gosta dos homens nem de casamentos.

- Nem eu - disse Cassandra, afastando-se dele.

- Bom, talvez quando fores mais velha mudes de ideias - disse o rapaz. Inclinou-se e beijou-a nos lábios. Cassandra afastou-se e limpou vigorosamente a boca, enquanto os centauros riam. Cassandra viu a mulher aleijada da aldeia olhando para ela, com uma expressão sombria.

A rainha amazona chamou as mulheres para os cavalos, ajudando uma delas a colocar o prometido mel sobre o dorso da sua égua. Depois cortou a corda que prendia os tornozelos da mulher aleijada e ajudou-a a subir para cima de um cavalo, falando-lhe suavemente. A mulher já não chorava; de livre vontade foi com elas. O centauro chamou Pentesileia quando esta se montou no cavalo.

- Não vos conseguiremos convencer a passar a noite nas nossas tendas? - Noutra altura, talvez - prometeu Pentesileia, devolvendo-lhe o abraço com sinceridade. - Por agora, até à vista.

Cassandra estava confusa; eram estes homens e rapazes os terríveis Centau­ros de que falavam as lendas? Pareciam bastante amigáveis. Mas gostaria de saber qual era a sua relação com as Amazonas. Eles não tratavam as mulheres da mesma forma que os soldados de seu pai se dirigiam às mulheres da casa. O rapaz bonito que a tinha beijado aproximou-se a olhar para ela, sorrindo.

- Talvez te veja quando reunirmos o gado!? -disse ele. Cassandra desviou os olhos, corada; não sabia o que havia de lhe dizer. À excepção dos seus irmãos, ele era o primeiro rapaz com quem falava.

Pentesileia fez sinal às mulheres para que a seguissem, e Cassandra viu que se dirigiam para o interior e que as encostas do monte Ida se erguiam na sua frente. Pensou na visão que tivera, do rapaz com a sua cara conduzindo as ovelhas nas encostas.

«Ele pode guardar ovelhas, mas eu vou aprender a montar a cavalo», pensou, ainda tonta devido ao vinho a que não estava acostumada, encostou-se para a frente, equilibrando-se de encontro a Elaria, e adormeceu, embalada pelo passo oscilante do cavalo.

 

O mundo era maior do que alguma vez pensara; embora cavalgassem desde o raiar do dia até a escuridão as impedir de ver, Cassandra tinha a impressão de que se arrastavam, simplesmente, pelas planícies. As colinas de Tróia eram ainda visíveis atrás delas, não muito mais distantes do que anteriormente; a limpidez do ar dava-lhe por vezes a ideia de que lhe era possível esticar-se e tocar o topo brilhante da cidade.

Em poucas semanas Cassandra sentia-se como se a sua vida sempre tivesse sido vivida com as cavaleiras da tribo. Levava o dia, do princípio ao Cm, sem assentar pé no solo e, mesmo ainda em jejum, já estava em cima da sela da égua castanha que lhe fora entregue para seu uso, à qual chamara Southwind *. Com as outras raparigas da sua idade montava sentinela contra possíveis invasores e, à noite, mantinha os cavalos agrupados enquanto olhava as estrelas.

Gostava muito de Elaria, que olhava por ela como pelas suas filhas, duas raparigas de onze e dezassete anos; adorava Pentesileia, embora a rainha das Amazonas raramente falasse com ela excepto para se inteirar diariamente sobre a sua saúde e bem-estar. Tornara-se forte, bronzeada e saudável. No eterno sol ardente das planícies, vira a face de Apolo, Senhor do Sol, e parecia-lhe que a sua vida era vivida debaixo do Seu olhar.

Estava a viver com as mulheres-cavaleiras havia mais de uma lua, quando a tribo desmontou um dia, à vista do agora longínquo monte Ida, para tomar a sua frugal refeição do meio-dia, composta por pedaços de queijo forte de égua; Cassandra deu por si a contar a Pentesileia tudo sobre a sua curiosa visão.

- O rosto dele era tão parecido com o meu, como o meu rosto é parecido com o seu próprio reflexo na água - disse ela. - No entanto, quando falei

* .Snuthvrind = Vcnto Sul. (N. da T )

dele o meu pai atirou-me ao chão; e estava zangado com a minha mãe também.

Pentesileia fez uma longa pausa antes de responder, e Cassandra pensou se o silêncio dos seus pais se iria repetir. Depois a mulher disse devagar: - Consigo perceber que a tua mãe, e especialmente o teu pai, não

queiram falar disso; mas não vejo razão,para não te contar o que meia Tróia já sabe. Ele é teu irmão gémeo, Cassandra. Quando nasceste, a Terra Mãe, que é também a Mãe Serpente, enviou a Hécuba um mau presságio: gémeos. Deveriam ter sido ambos mortos - disse ela com rudeza. Cassandra retraiu­-se, os lábios trémulos, e ela estendeu a mão e acariciou-lhe o cabelo. - Estou contente por não terem sido - disse ela. - Sem dúvida que algum deus te protegeu. O teu pai talvez tenha sentido que podia escapar à sua sina se expusesse a criança, mas como seguidor do princípio da paternidade (que é, na verdade, a veneração do poder masculino e do direito do pai aos filhos homens), não se atreveu a renunciar totalmente a um filho, e a criança foi enviada para longe do palácio para que fosse adoptada. O teu pai não queria saber nada sobre ele devido ao mau presságio ligado ao seu nascimento; por isso se zangou quando falaste dele.

Cassandra sentiu um tremendo alívio. Parecia-lhe que toda a sua vida tinha andado sozinha quando deveria haver outra pessoa a seu lado, alguém muito semelhante a ela e no entanto muito diferente.

- E não é errado querer vê-lo na taça mágica?

- Tu não precisas da taça mágica - disse Pentesileia. - Se a Deusa te deu a Visão, basta-te olhar para dentro do teu coração e encontrá-lo-ás aí. Não me surpreende que sejas tão dotada; a tua mãe tinha esse dom quando era rapariga e perdeu-o quando casou com um homem da cidade.

- Eu cria que... a Visão... era uma dádiva do Senhor do Sol - disse Cassandra. - A primeira vez que desceu sobre mim foi no seu templo.

- Talvez - disse Pentesileia. - Mas lembra-te, criança: muito antes de Apolo, Senhor do Sol, ter vindo reinar sobre estas terras, já a nossa Mãe Cavalo, a Grande Égua, a Mãe Terra de quem todos nascemos, aqui chegara.

Virou-se e pousou as duas mãos na terra escura; Cassandra imitou o gesto sem o perceber inteiramente. Pareeeu-lhe que sentia uma força misteriosa erguendo-se da terra e fluindo através dela; era o mesmo tipo de força inebriante que sentira ao segurar nas mãos as serpentes de Apolo. Perguntou-se se não estaria a ser desleal para com o Deus que a chamara.

- Disseram-me no templo que Apolo, Senhor do Sol, tinha morto a Píton, a Grande Deusa do Mundo Subterrâneo. É essa a Mãe Serpente de quem falas? - Ela, a Grande Deusa, não pode ser morta, pois é imortal; pode decidir

retirar-se por algum tempo, mas Ela é e será para sempre - disse a rainha amazona; e Cassandra, sentindo a força da terra sob as suas mãos, recebeu aquelas palavras como uma verdade absoluta.

- A Mãe Serpente é, então, a mãe do Senhor do Sol? - perguntou.

Pentesileia, numa inspiração profunda, disse:

- Ela é a mãe de deuses e de homens, é a mãe de todas as coisas; portanto Apolo é filho Dela também, como eu e tu.

«Então... se Apolo, Senhor do Sol, a tentou matar, estava a tentar matar a sua própria mãe?» Ao pensar em tal iniquidade, Cassandra susteve a respiração. Mas poderia um deus fazer algo de perverso? Se um dado feito era mau para os homens, sê-lo-ia também para um deus? Se uma deusa era imortal, como poderia, então, ser morta? Todas estas coisas eram mistérios para ela e ela, de alma e coração, tomou a firme resolução de que um dia iria desvendá-los. Apolo, Senhor do Sol, tinha-a chamado; tinha-lhe dado as suas serpentes; um dia ele conduzi­-la-ia também ao conhecimento dos mistérios da Mãe Serpente.

As mulheres acabaram a sua refeição do meio-dia e estenderam-se a descan­sar na erva verde. Cassandra não tinha sono; não estava acostumada a dormir assim, a meio do dia. Observou as nuvens deslizando no céu e olhou para as encostas do monte Ida erguendo-se, imponentes, sobre a planície.

O seu irmão gémeo. A ideia de que toda a gente sabia da sua existência e que ela, a quem esse facto mais directamente dizia respeito, tinha sido mantida na ignorância, fé-la sentir-se zangada.

Tentou, deliberada e conscientemente, lembrar-se do estado em que se encontrava quando vira pela primeira vez o seu irmão nas águas da taça mágica. Ajoelhou-se imóvel na relva, com os olhos voltados para cima fixando o céu, a mente vazia, procurando o rosto que tinha visto uma única vez e apenas na visão. Por momentos, os seus pensamentos de busca fixaram-se no seu próprio rosto, que vira como um reflexo na água, e no bruxulear dourado que continuava a ident~car, na sua mente, com o rosto e a inspiração de Apolo, Senhor do Sol.

Então, as feições alteraram-se e o rosto era o de um rapaz - era o seu rosto e, no entanto, algo de subtil fazia com quenão o fosse -cheio de uma malícia que Lhe era totalmente desconhecida, e ela soube que encontrara o seu irmão. Per­guntou-se como se chamaria e se conseguiria vê-la.

Vinda de qualquer ponto dessa sua misteriosa ligação, a resposta surgiu: poderia, se o desejasse; mas não tinha razão alguma para a procurar, nem qualquer interesse em especial. «Porque não?», interrogou-se Cassandra, não sabendo ainda que esbarrara com o maior defeito de carácter do seu irmão gémeo: uma total falta de interesse por tudo o que não se relacionasse com ele ou de alguma forma contribuísse para o seu conforto e satisfação.

Isto deixou-a tão perplexa que, por uns momentos, perdeu um fragmento da visão; concentrou-se então para o trazer de volta. Os seus sentidos estavam repletos do odor intoxicante do tomilho das encostas da montanha, onde a luz brilhante e o calor da presença do Senhor do Sol misturavam os óleos perfuma­dos das ervas e concentravam o seu aroma no ar.

Desviando os olhos dos olhos do rapaz, viu na mão dele a escova dura com que escovava o corpo sedoso de um enorme touro, alisando o brilhante pêlo branco dos flancos, e formando desenhos semelhantes a ondas. O animal era maior do que ele; tal como Cassandra, ele era esguio e leve, mais seco do que musculado. Os seus braços estavam castanhos, queimados do sol como os de qualquer pastor, e os dedos calejados e endurecidos pelo trabalho árduo e constante. Ela ficou ali de pé, com ele, fazendo desenhos nos flancos do touro, e quando o pêlo estava adequadamente macio e ondulado, ele largou a escova. Mergulhou outra escova num pote de tinta que tinha ao seu lado, espalhando uma camada dessa tinta fina e dourada nos chifres. Os grandes olhos escuros do touro pousaram-se nos dela com meiguice, confiança e um laivo de espanto que fez com que o animal mudasse de posição, inquieto. Cassandra perguntou-se se, de alguma forma, os instintos do bicho lhe diriam o que o seu irmão ignorava: que não era apenas o seu dono que se encontrava na sua frente.

Terminado o penteado e a pintura, Páris (não perguntou a si mesma como sabia o nome dele, mas sabia-o como se fosse seu) prendeu fitas e uma grinalda de folhas verdes em volta do largo pescoço do animal e afastou-se para apreciar a sua obra, orgulhoso. O touro estava lindo, de facto, mais bonito que todos os que já vira antes. Acompanhava Páris enquanto este pensava que podia, honesta­mente, considerar aquele magnífico animal - cujo aspecto e robustez não lhe poupara esforços ao longo de todo o ano anterior - como o mais belo touro da feira. Atou cuidadosamente uma corda à volta do pescoço do animal e pegou num cajado e numa bolsa de couro contendo um naco de pão, algumas tiras de carne seca e uma mão-cheia de azeitonas maduras.

Depois de ter atado a bolsa à cintura, dobrou-se para enfiar os pés nas sandálias. Deu ao enorme touro enfeitado uma leve bastonada no flanco e partiu pelas encostas do monte Ida abaixo.

Cassandra deu consigo, para sua surpresa, regressada ao seu próprio corpo, ajoelhada na planície, entre as amazonas adormecidas. O Sol começara a baixar um pouco em relação ao seu zénite e ela sabia que a tribo não tardaria a acordar e a estar pronta para partir.

Tinha ouvido dizer que nos reinos insulares do Sul o touro era tido como animal sagrado. Tinha visto no templo pequenas estátuas dos touros sagrados e alguém lhe contara a história da rainha Pasífae de Creta, por quem Zeus se enamorara. Ele visitara-a sob a forma de um grande touro branco e ela, diziam, dera mais tarde à luz um monstro com cabeça de touro e corpo de homem. Tinham-lhe chamado Minotauro e aterrorizara todos os reis das ilhas até ser morto pelo herói Teseu.

Quando Cassandra era pequenina acreditava nessa história; agora pergun­tava-se qual a verdade, se era que existia alguma, que estaria por trás dela. Tendo conhecido a realidade por trás da lenda dos Centauros, acreditava que deveria haver um fundo de verdade, por mais obscuro, em todas as histórias desse tipo.

Existiam homens deformados, animalescos quer no aspecto quer nas atitu­des; perguntava-se se o Minotauro não teria sido um desses homens, marcado, no corpo ou na alma, pelo disfarce animal de seu pai.

Estava ansiosa por ver o que acontecera a Páris e ao seu touro branco. As mulheres jovens, especialmente as da casa real, nunca eram autorizadas a assistir às feiras de gado que se realizavam por toda a região, mas ela ouvira falar delas e sentia uma curiosidade intensa.

Mas as mulheres começavam a despertar e, em poucos instantes, as vozes e o movimento à sua volta abalaram a tranquilidade de que necessitava para se manter no estado que lhe permitia segui-lo. Levantou-se, apenas ligeiramente desapontada, e correu a buscar a sua égua.

Nos dois dias seguintes, por uma ou duas vezes conseguiu vislumbrar o seu innão conduzindo o touro engalanado, atravessando um rio (onde estragou as sandálias) e juntando-se a outros viajantes que conduziam gado enfeitado como o seu touro; mas nenhum dos animais era tão puro nem tão belo.

A Lua arredondou-se, iluminando o céu desde o ocaso ao nascer do Sol. Durante o dia o sol cegava, o pó branco cintilava. Dormitando sobre a sela -enquanto as éguas se moviam constantemente, pastando num círculo aper­tado -, Cassandra olhava os remoinhos de poeira seca que subiam e rodopia­vam sobre as ervas para depois se desfazerem. Pensou no turbulento deus Hennes, Senhor dos Ventos, da ilusão e dos artifícios.

Num sonho desperto, viu um dos pequenos turbilhões vibrar e estremecer, começar a erguer-se e a endireitar-se até ganhar a forma de um homem; seguiu o vento instável e endiabrado através das planícies, para oeste, até junto do sopé do monte Ida. Sob o sol ofuscante, uma centelha dourada surgiu, transmutando-se na silhueta de um homem; mas era mais alto e mais brilhante do que qualquer homem comum, e tinha o rosto de Apolo, Senhor do Sol; e à frente dos dois deuses ia um touro.

Cassandra tinha ouvido a história dos touros de Apolo - grandes animais reluzentes, mais belos que qualquer animal terreno; e este era decerto um deles: tlancos largos, chifres lustrosos, sem necessitar de pinturas ou fitas para fazê-los brilhar. Uma das mais velhas baladas cantadas pelos menestréis da corte de seu pai falava de como o jovem Hermes havia roubado a manada sagrada de Apolo e depois aplacara a ira do Deus construindo-lhe uma lira da carapaça de uma tartaruga. Agora, o brilho dos olhos do touro sagrado e o intenso lustro da sua pelagem esfumavam a memória do touro que Páris havia decorado com tanto esmero. Não era justo; como poderia um touro vulgar ser comparado com as reses sagradas de um deus?

Deitou-se para a frente de olhos fechados; tinha aprendido a dormir sobre o cavalo, abandonando frouxamente o corpo ao sabor do movimento do animal. Dormitava agora, enquanto a sua mente se estendia em busca do irmão. Talvez tivesse sido a visão do touro de Apolo que a transportou até ao animal que Páris conduzia para a feira.

Cassandra olhou, através dos olhos de Páris, para a enorme massa de ani­mais reunidos, observando, com o pensamento dele, os seus defeitos e qualida­des. Aquela vaca tinha os flancos demasiado estreitos; a outra, um feio desenho com malhas castanhas e rosadas nas tetas; aquele touro tinha os chifres torcidos e inclinados para um dos lados, não reunindo condições para proteger a sua manada; o outro, uma bossa por cima do pescoço. Nem de perto, nem de longe, pensava Páris com vaidade, havia algum que igualasse o touro da sua criação, que ele enfeitara com tanto cuidado e trouxera até ali; podia atribuir as honras do dia ao touro do seu próprio pai adoptivo. Este era o segundo ano em que ele era escolhido para avaliar o gado, e estava orgulhoso da sua aptidão e da confiança que os seus vizinhos e companheiros depositavam nele.

Movia-se no meio das reses, empurrando com cuidado, para trazer uma delas para a frente ou retirar um animal que não merecia ser seriamente considerado, para fora do seu campo de visão.

Escolhera já a melhor bezerra e o melhor cabrito e em seguida, entre murmúrios de aprovação, a melhor vaca; era de facto uma esplêndida vaca, o pêlo de um branco pálido com manchas cinzentas tão subtis que quase pareciam azuis; os olhos eram doces e maternais, as tetas uniformemente rosadas como os seios de uma virgem. Os chifres eram pequenos e bem afastados e o seu hálito impregnado do aroma de tomilho das ervas.

Agora era altura de julgar os touros. Páris dirigiu-se, satisfeito, para o touro do seu pai adoptivo, Snowy *, o animal que ele cuidara e ataviara com tanto esmero. Ao longo de um dia inteiro a avaliar gado sabia, honestamente, que não tinha visto animal algum que se lhe comparasse e considerou ser com justiça que atribuía o prémio ao touro do seu pai adoptivo. Já tinha até aberto a boca para falar quando viu os dois estranhos com o seu touro.

Logo que o mais novo - Páris calculou que era o mais novo - começou a falar, Páris soube que se encontrava na presença de não mortais. Era o seu primeiro encontro deste tipo, mas o brilho dos olhos do homem sob o chapéu e algo na sua voz, que parecia vir de muito longe e ao mesmo tempo de muito perto, disse-lhe que aquele não era um homem vulgar. Cassandra teria reconhecido, onde quer que fosse, o brilho sobrenatural dos caracóis dourados do seu Deus; e talvez, sem que Páris o soubesse conscientemente, algo vindo da mente da sua irmã desconhecida se arrastou até ele.

Disse em voz alta:

- Forasteiros! Trazei o touro para mais perto, a fim de que eu possa vê-lo. Nunca vi tão belo animal.

Talvez o touro tivesse algum defeito encoberto, pensou Páris, movendo-se em volta dele, olhando-o de todos os lados. Não, as pernas eram como colunas de mármore; até a cauda ao se agitar possuía um toque de nobreza. Os chifres eram lisos e largos, os olhos simultaneamente ferozes e ternos; o animal permitiu até, com um ar entediado, que Páris lhe abrisse a boca com cuidado e lhe examinasse os dentes perfeitos.

«Que direito tem um deus a trazer as suas reses perfeitas para serem avaliadas entre os mortais?», perguntou-se Páris. Bem, era o Destino, e seria arrogante afrontar o Destino.

* Snowy = Níveo. (N. da T. )

Acenou novamente para os homens que seguravam a corda atada ao pescoço do touro e disse, lançando um olhar desgostoso a Snowy:

- Lamento dizê-lo, mas nunca na minha vida vi um touro tão soberbo. Forasteiros, o prémio é vosso.

O sorriso fulgurante dos imortais confundiu-se com o sol; ao acordar, Cassandra ouviu uma voz - como um eco na sua mente:

«Este homem é um juiz honesto; talvez seja ele o indicado para decidir sobre o repto de Éris.» E de repente estava sozinha sobre a sela e Páris tinha desapare­cido, desta vez para lá de qualquer chamamento possível por ordem sua. Por muito tempo não voltou a vê-lo.

 

Acabavam de entrar em território das Amazonas, quando o tempo mudou. Num dia o Sol brilhava, ofuscante, desde a madrugada até ao ocaso; depois, parecia que, no espaço de uma noite, dava lugar a dias de chuva constante combinados com noites húmidas e orvalhadas. Andar a cavalo não representava prazer mas sim trabalho duro e exaustão; para Cassandra, cada dia era uma batalha permanente contra o frio e a humidade.

As Amazonas mantinham as fogueiras ateadas nos seus acampamentos abrigados; muitas viviam em cavernas, outras em tendas com paredes de cabedal grosso, montadas em bosques densos. As crianças pequenas e as mulhéres grávidas mantinham-se o dia inteiro dentro dos abrigos, amon­toando-se junto das fogueiras fumegantes.

Por vezes, o calor tentava-a, mas, no seio da tribo, as raparigas com a idade de Cassandra consideravam-se parte do grupo das guerreiras; assim, ela cobria-se com uma pesada túnica de lã grossa e ensebada, e suportava a humidade o melhor que podia.

Com o arrastar da estação das chuvas, Cassandra cresceu e um dia, ao desmontar para tomar uma das raras refeições quentes junto da fogueira do acampamento, apercebeu-se de que o seu corpo se arredondava e que pequenos seios despontavam sob as roupas soltas e ásperas.

De tempos a tempos, enquanto cavalgavam, visões do rapaz de rosto igual ao seu deslizavam na sua mente. Estava agora mais alto; a túnica tecida que vestia mal cobria as coxas do gémeo, e ela tiritou em comunhão com ele ao vê-lo tentar cobrir-se com a capa demasiado curta. Rodeado pelo seu rebanho, deitava-se nas encostas da montanha; uma vez, viu-o num festival, num grupo de rapazes engrinaldados que se moviam numa dança. Noutra altura, fundida com ele, sentou-se em frente de uma esplendorosa fogueira, enquanto lhe ofereciam um agasalho novo e lhe cortavam o longo cabelo a fim de ser deposto no altar do Senhor do Sol. Estaria, também ele, sob a protecção de Apolo?

Num dia de Primavera, no meio de um bando de rapazes, observava, em silêncio, um grupo de rapariguinhas - embora na sua maioria fossem tão ou mais altas que ele - envoltas em pele de urso, numa dança ritual em honra da Virgem.

Agora, ela raramente pensava na vida de casa, exceptuando uma vaga e incómoda memória desse tempo em que estava confinada ao palácio e nunca lhe era permitido sair. Sensações estranhas assaltavam-lhe o corpo; o grosseiro tecido de lã da sua túnica deixava-lhe os mamilos em carne viva e ela pediu a uma das outras mulheres uma camisa interior de um pano macio de algodão. Ajudavam, mas não era o suficiente; os seios estavam quase permanentemente doridos.

Os dias foram ficando mais curtos e uma Lua pálida de Inverno apareceu no céu. As manadas circulavam sem destino, em busca de comida. Mais tarde o leite das éguas secou e os animais famintos moviam-se incansavelmente, de uma pastagem esgotada para outra pastagem esgotada.

A perda do leite de égua, alimento básico das Amazonas, significava que havia ainda menos comida; o pouco que havia era guardado, segundo os costumes, para as mulheres grávidas e para as crianças mais pequenas. Dia após dia, Cassandra pouco mais conseguia sentir que uma fome lancinante; guardava a sua parca ração de alimentos para comer antes de dormir, a fim de evitar acordar sonhando com o quente e delicioso aroma do pão a cozer nos fornos do castelo de Príamo. Nas pastagens, enquanto vigiava os cavalos, procurava insistentemente frutos secos ou bagas fibrosas agarradas às plantas mortas; como todas as outras raparigas, comia tudo o que encontrava, sabendo embora que mais de metade da comida assim encontrada a faria sentir.-se doente.

- Não podemos ficar aqui - diziam as mulheres. - De que está a rainha à espera?

- De uma palavra da Deusa - diziam as outras, e as mulheres mais velhas da tribo foram ter com Pentesileia exigindo partir para as pastagens de Inverno.

- Sim - disse a rainha -, devíamos ter partido há já uma lua; mas há guerra nos campos. Se a tribo partir com todas as crianças e mulheres idosas, seremos capturadas e escravizadas. Ë isso que querem?

- Não, não - protestaram as mulheres. - Sob as tuas ordens, vivere­mos livres, e morreremos livres, se preciso for.

No entanto, Pentesileia prometeu que, quando a Lua voltasse a ficar cheia, pediria conselho à Deusa, para saber qual a Sua vontade.

Um dia, ao olhar o rosto na água, depois de uma forte chuvada, Cassan­dra mal se reconheceu; estava alta e seca, a cara e as mãos castanhas, quei­madas pelo sol implacável, as feições marcadas e mais semelhantes às de uma mulher do que às de uma rapariga - ou talvez às de um rapazinho... Tinha também o rosto coberto de sardas e perguntou-se se a sua família a reconhe­ceria se lhes aparecesse à frente sem ser anunciada; talvez dissessem: «Quem é esta mulher das tribos selvagens? Fora com ela.» Ou, quem sabe, confundi­-la-iam com o seu gémeo exilado?

Apesar da vida difícil, não tinha qualquer desejo de voltar a Tróia; por vezes sentia saudades da mãe, mas não da vida na cidade fortificada.

Uma vez, ao pôr do Sol, quando as raparigas regressavam ao acampamento em busca de roupas secas e um quinhão da pouca comida existente - geralmente simples raízes cozidas ou feijões-bravos duros-, receberam instruções para não saírem de novo com os cavalos, mas sim para ficarem e se reunirem às outras mulheres. Todas as outras fogueiras, à excepção de uma, tinham sido extintas; estava escuro e frio.

Não havia mais do que um punhado de comida para cada uma, e Elaria disse à sua protegida que a rainha declarara que deveriam jejuar antes de ser feito um pedido à Deusa.

- Isso não é novidade nenhuma - disse Cassandra. - Eu diria que nós, neste último mês, já fizemos jejuns suficientes para satisfazer qualquer deusa. Que mais pode Ela exigir de nós?

- Sssh! - fez Elaria. - Até hoje Ela nunca deixou de olhar por nós. Continuamos vivas; houve muitos anos em que havia ataques de surpresa, em que muitos bandidos andavam pelos campos, em que nós só deixávamos as pastagens quando metade das nossas crianças já tinham morrido. Este ano a Deusa não levou sequer um bebé de mama, nem um único potro.

- Tanto melhor para Ela - disse Cassandra. - Não vejo que utilidade teriam, para a Deusa, as mulheres da tribo depois de mortas; a menos que Ela queira que a sirvamos no AIém.

Dorida de fome, Cassandra tirou as húmidas vestimentas de couro que usava para andar a cavalo e enfiou uma túnica enxuta, tecida numa lã áspera. Enfiou um pente de madeira nos cabelos e entrançou-o, enrolando-o depois na base do pescoço. No seu estado de exaustão e quase morta de fome, o simples contacto da roupa seca e o calor do fogo davam-lhe um prazer sensual; ficou de pé durante algum tempo, sentindo apenas o calor invadir-lhe o corpo, até que uma das outras mulheres a empurrou para o lado. No ambiente abafado da tenda, o fumo espalhava-se gradualmente por todo o lado, e ela tossiu, engasgada, até ao ponto de sentir que teria vomitado se o seu estômago não estivesse tão vazio.

Na tenda, atrás dela, sentia a pressão dos outros corpos, o restolhar silencioso de mulheres, raparigas e crianças: todas as mulheres da tribo pareciam estar reunidas no escuro, por trás de si. Agacharam-se em volta do fogo e, vindo de algures, ouviu-se o som suave de mãos batendo em peles retesadas sobre aros, do matraquear das sementes duras das cabaças, agi­tando-se e restolhando como folhas secas, como chuva tamborilando nas tendas. A fogueira fumegava com uma luz fraca, e Cassandra apenas conse­guia sentir leves correntes de um calor mortiço.

No meio do profundo silêncio que envolvia a fogueira, três das mulheres mais velhas da tribo levantaram-se e lançaram sobre o fogo o conteúdo de um pequeno cesto. As folhas secas incendiaram-se e depois foram-se consumindo, libertando grossas nuvens brancas de fumo aromático. A tenda ficou repleta do seu estranho perfume, seco e adocicado; à medida que o inalava, Cassandra sentia a cabeça flutuar e cores estranhas agitaram-se na-frente dos seus olhos, fazendo-a deixar de sentir a dor consta.nte dá fome.

Pentesileia disse, do meio da escuridão:

- Minhas irmãs, eu sei da vossa fome; pois não a sinto eu, também? Se houver alguém que não queira ficar connosco, eu de livre vontade lhe dou permissão de partir para as aldeias dos homens, onde obterá comida se aceitar deitar-se com eles. Mas não tragam para a nossa tribo as filhas assim nascidas; deixem-nas para que sejam escravas, tal como vós próprias o provastes ser. Se houver alguém que deseje partir já, que o faça, pois não é digna de ficar enquanto invocamos a nossa Virgem Caçadora, que ama a liberdade das mulheres.

Silêncio; no interior da tenda repleta de fumo, mulher alguma se moveu. - Então, irmãs, nesta hora difícil, chamemos Aquela que zela por nós. De novo o silêncio, com excepção do som dos dedos nos tambores. Depois, no meio do silêncio, ecoou um uivo longo e sinistro.

«Ouu-ooooo-ooooo-ooooou!» A princípio, Cassandra pensou tratar-se de algum animal que andasse a rondar a tenda. Depois viu as bocas abertas, as cabeças das mulheres lançadas para trás. O uivo soou uma e outra vez; os rostos das mulheres tinham deixado de parecer humanos. Os uivos estridentes continuaram, crescendo e decrescendo à medida que as mulheres arqueavam os corpos e gritavam, e a eles se veio juntar um breve e agudo «Iip-üp-üp-üp-üp... üp-üp-üp», até que o ruído preencheu inteiramente a tenda; pulsava e açoitava as suas percepções e ela não podia fazer mais do que controlar-se para não se deixar envolver. Tinha visto a sua mãe possuída pela Deusa, mas nunca prisioneira de um transe delirante como aquele.

Nesse momento, pela primeira vez em muitas luas, o rosto de Hécuba surgiu repentinamente ante os olhos de Cassandra, e pareceu-lhe ouvir a sua voz meiga: «Não é costume...

Porque não? ,

Não existem razões para os costumes. São, e é tudo...»

Ela não acreditara nisso, naquela~altura, e continuava a não acreditar agora. Tinha de haver uma razão para que este uivar estranhíssimo fosse considerado como uma forma adequada de invocar a Virgem Caçadora. «Teremos nós de tornar-nos semelhantes às feras selvagens que Ela caça?»

Pentesileia ergueu-se, estendendo as mãos para as mulheres; num abrir e fechar de olhos, Cassandra viu o rosto da rainha esbater-se, e o esplendor da Deusa brilhar através da sua pele, a voz alterar-se para além do reconhecível. Ela gritou:

- Não para sul, onde vagueiam as tribos dos homens! Cavalguem para leste, para lá dos dois rios; que aí se mantenham até caírem as estrelas da Pri­mavera!

Então tombou para a frente; duas das anciãs da tribo agarraram-na e ampararam-na ao longo de um acesso de tosse tão violento que terminou com uma série de vómitos cansados. Quando se levantou, recuperara de novo o seu rosto.

Perguntou, num murmúrio rouco: - Ela respondeu-nos?

Uma dúzia de vozes repetiram as palavras que proferira enquanto estivera possuída:

«Não para sul, onde vagueiam as tribos dos homens! Cavalguem para leste, para lá dos dois rios; que aí se mantenham até caírem as estrelas da Primavera!» - Então partiremos de madrugada, irmãs - disse Pentesileia, ainda com a voz enfraquecida. - Não há tempo a perder. Não sei de quaisquer rios para leste, mas se nos voltarmos de costas para o rio Escamandro e seguirmos o Vento Leste, certamente os encontraremos.

- Que queria dizer a Deusa com «até caírem as estrelas da Primavera?» ­perguntou uma das mulheres.

Pentesileia encolheu os ombros estreitos.

- Não sei, irmãs; a Deusa falou, mas não explicou as suas palavras. Se seguirmos as Suas ordens, Ela fará com que o saibamos.

Quatro mulheres trouxeram cestos repletos de raízes retorcidas e fizeram passar em volta odres de pele cheios de vinho.

- Celebremos em Seu nome, irmãs, e cavalguemos de madrugada repletas das Suas dádivas - disse Pentesileia.

Cassandra apercebeu-se de que a comida devia ter vindo a ser poupada, por muito tempo, para esta celebração a meio do Inverno. Agarrou-se às insípidas raízes cozidas como o animal esfaimado que sentia ser, e bebeu a sua parte do vinho.

Quando os cestos ficaram vazios e depois de espremida a última gota dos odres, a tribo reuniu os seus parcos haveres; as tendas desmontadas e amarradas em conjunto num fardo; alguns caldeirões em bronze, uma série de mantos usados por chefes anteriores. Cassandra via ainda o rosto da Deusa estampado e retido no de Pentesileia, e continuava a escutar a estranha alteração na voz da sua parente. Cassandra perguntou-se se um dia a Deusa iria falar através da sua voz e do seu espírito.

A tribo de mulheres dispôs os cavalos numa fila de marcha: à cabeça, Pentesileia e as suas guerreiras; bem no centro, as mulheres idosas ou grávidas e as crianças mais pequenas, rodeadas pelas mulheres mais jovens e mais fortes.

Cassandra tinha uma lança e sabia utilizá-la, portanto tomou lugar entre as jovens guerreiras. Pentesileia viu-a e fez um ar carrancudo, mas nada disse; Cassandra tomou esse silêncio como permissão para ficar onde estava. Não sabia se ansiava pela sua primeira batalha ou se, intimamente, desejava que a viagem decorresse sem qualquer incidente. Raiava a madrugada quando Pentesileia gritou o sinal de partida; uma estrela solitária brilhava ainda no céu escuro. Cassandra tiritava sob a túnica de lã que usara na cerimónia. Esperava que não chovesse naquela noite; tinha deixado na tenda as suas roupas de couro, próprias para montar, e estas haviam sido arrumadas algures, no meio dos sacos de couro e dos cestos.

A sua companheira mais próxima, uma rapariga com cerca de catorze anos a quem a mãe chamava Star*, e que cavalgava a seu lado, não escondia que estava desejosa de um combate.

- Houve um ano, era eu pequena, em que tivemos uma guerra com uma das tribos dos Centauros; não era o bando de Quíron, esses são nossos amigos; era uma das tribos do interior. Caíram sobre nós quando deixávamos o nosso antigo acampamento, e tentaram roubar o nosso melhor garanhão - disse-lhe Star. - Quase não consegui vê-los; ainda montava com a minha mãe. Mas ouvi os gritos dos homens enquanto Pentesileia corria com eles.

- Vencemos?

- Claro que vencemos! Se não tivéssemos vencido eles ter-nos-iam levado para~o seu acampamento e quebrado as nossas pernas para que não pudéssemos fugir - disse Star, e Cassandra recordou-se da mulher mutilada no acampa­mento dos homens. - Mas fizemos as pazes com eles e emprestámos-lhes o garanhão durante um ano, para que pudessem melhorar as suas manadas. E con­cordámos em visitar a aldeia deles em vez da de Quíron, nesse ano; Pentesileia disse que tínhamos criado demasiados laços de sangue com a gente dele e portanto deveríamos esperar alguns anos, pois não é aconselhável dormir com os próprios pais ou irmãos ao longo de muitas gerações. Ela diz que, quando isso acontece, os bebés nascem fracos e por vezes morrem.

Cassandra não percebeu e disse-lho. Star riu-se:

- Não te deixariam ir, de qualquer forma; para que possas ir às aldeias dos homens tens de ser uma mulher, não uma rapariguinha.

- Eu sou uma mulher - disse Cassandra. - Há já dez luas que tenho idade suficiente para ter filhos.

- Ainda assim. Primeiro tens de ser testada como guerreira. Eu já há mais de um ano que sou crescida e ainda não tenho permissão para ir às aldeias dos homens. Mas não tenho pressa; posso acabar por ficar grávida durante nove luas e dar à luz apenas um macho inútil, que terá de ser entregue à tribo do pai ­disse Star.

- Ir às aldeias dos homens? Para quê? - perguntou Cassandra, e Star disse-lhe. - Acho que deves estar a inventar - disse Cassandra. - A minha mãe e o meu pai nunca fariam uma coisa dessas.

Conseguia entender isso entre uma égua e um garanhão; mas a ideia dos seus reais progenitores envolvidos em tais manobras, parecia-lhe repugnante.

* Star = Estrela. (N. da T. )

Porém, recordou, contrariada, que sempre que o seu pai chamava uma das muitas mulheres do palácio para o seu quarto de dormir, mais cedo ou mais tarde (geralmente mais cedo do que tarde) aparecia um novo bebé no palácio. Se era um rapaz,,Príamo visitava o ourives do palácio e haveria belos presentes, anéis, correntes e taças de ouro para a nova protegida e para o seu filho.

Por isso, talvez afinal o que lhe dizia fosse verdade, por muito estranho que parecesse. Ela tinha visto nascer crianças, mas a sua mãe tinha-lhe dito que não era digno de uma princesa dar ouvidos às mexeriquices das mulheres do palácio; lembrava-se agora de algumas piadas obscenas que na altura não tinha entendido e sentiu as faces a arder. A mãe tinha-lhe dito que era a Mãe Terra quem enviava os bebés para os ventres das mulheres, e ela perguntara-se por vezes por que razão a Deusa não lhe enviaria um a ela, que gostava tanto de bebés.

- É por isso que os habitantes das cidades mantêm as suas mulheres fechadas em alojamentos especiais para mulheres - disse Star. - Dizem que as mulheres da cidade são tão devassas que não se pode confiar nelas e deixá-las sozinhas.

- Não são nada - disse Cassandra, sem saber muito bem por que razão estava tão zangada.

- São, sim! Senão, que razão teriam os seus homens para as manter trancadas dentro de casa? As nossas mulheres não são assim - disse Star -, mas as mulheres da cidade são como as cabras: fornicam com qualquer homem em que ponham os olhos! - Sorrindo maldosamente para Cassandra, disse: - Tu vens de uma cidade, não vens? Tu não eras fechada para te manterem longe dos homens?

Os joelhos de Cassandra apertaram-se contra o cavalo; incitou o animal e lançou-se sobre Star, urrando de raiva. Star agarrou-se a ela e Cassandra puxou pelos cabelos mal entrançados de Star, tentando arrancá-la do cavalo. As mon­tadas relinchavam e resfolegavam enquanto elas se batiam, esmurrando-se, arranhando-se e gritando; Cassandra sentiu o cotovelo da outra rapariga atingir­-lhe o nariz e o sangue começou a pingar ao mesmo tempo que as suas unhas se cravavam na face de Star.

De repente, surgiram Pentesileia e Elaria, rindo e tocando os cavalos para o meio das raparigas. Pentesileia arrancou Cassandra da sela e prendeu-a com os braços enquanto ela esbracejava furiosamente.

- Que vergonha, Cassandra! Se lutarmos assim entre nós, como podemos esperar viver em paz com as outras tribos? É assim que tratas as tuas irmãs? Porque estavam a brigar?

Cassandra baixou a cabeça e não respondeu. Star continuava a sorrir, com aquele sorriso detestável.

- Eu disse-lhe que as mulheres das cidades eram mantidas fechadas porque fornicam como as cabras - zombou Star -, e se não fosse verdade, porque se daria ela ao trabalho de lutar comigo por causa disso?

Cassandra disse, zangada:

- A minha mãe não é assim! Diz-lhe que retire o que disse! Pentesileia encostou-se a ela e disse-lhe ao ouvido:

- Será que a tua mãe se torna diferente só porque ela o diz, seja verdade ou mentira?

- Não, claro que não. Mas se ela o disser...

- Se ela o disser tu tens medo que alguém oiça e acredite? - perguntou Pentesileia, arqueando levemente uma sobrancelha. - Para quê dares-lhe assim tanto poder sobre ti, Cassandra?

Cassandra baixou a cabeça e não respondeu, e Pentesileia, carrancuda, pousou o olhar sobre Star.

- É assim que tu tratas uma parente e convidada da tribo, irmãzinha? Inclinou-se sobre o cavalo e tocou com o dedo no rosto arranhado de Star, que sangrava:

- Não vou castigar-te, pois já foste castigada; ela defendeu-se bem. Para a próxima sê mais cortês para com uma convidada da nossa tribo. As boas graças da mulher de Príamo são para nós valiosas.

Virou as costas a Star e debruçou-se sobre Cassandra, segurando-a ainda com força contra o peito. Cassandra conseguia sentir o riso na voz dela:

- És suficientemente crescida para montar sozinha sem arranjar problemas ou tenho de te levar à minha frente, como a um bebé?

- Posso montar sozinha - disse Cassandra amuada, apesar de estar grata a Pentesileia por a ter defendido.

- Então vou pôr-te de novo no teu cavalo - disse a rainha amazona, e Cassandra sentiu-se satisfeita por sentir o dorso amplo de Southwind debaixo de si. Star trocou um olhar com ela e franziu-lhe o nariz; Cassandra percebeu que eram outra vez amigas. Pentesileia conduziu o cavalo até à frente da formação de marcha, deu o sinal e partiram.

Caía uma chuva miúda e gelada, que gradualmente ia ensopando tudo. Cassandra puxou a sua túnica riscada de lã para cima da cabeça, mas o seu cabelo continuava húmido e pegajoso. Cavalgaram todo o dia e continuaram pela noite dentro. Cassandra indagava-se acerca de quando alcançariam as novas pasta­gens. Não fazia ideia de para onde iam, mas cavalgava na escuridão húmida, seguindo o cavalo na sua frente.

Viajava imersa num sonho obscuro, o seu corpo assaltado por sensações estranhas que não conseguia identificar. Depois, o cintilar de uma fogueira surgiu-lhe diante do olhar, mas ela soube que não eram os seus olhos que a viam. Algures, Páris encontrava-se sentado junto daquela fogueira e, por cima do fogo, olhava uma mulher jovem e esbelta, de longos cabelos claros frouxamente atados à altura do pescoço. Usava um vestido solto e pregueado, próprio das mulheres do continente, e Cassandra apercebeu-se de que Páris era incapaz de tirar os olhos dela, sentiu a fome aguda do seu corpo, o que a confundiu a ponto de fazê-la desviar os olhos do fogo; e subitamente estava de novo sobre o cavalo, sentindo a humidade da sua capa pingando em gotas frias pelo pescoço abaixo. O seu corpo vibrava ainda sob o efeito do que sabia, sem compreender, tratar-se de desejo. Era a primeira vez que se sentia assim tão inteiramente consciente do seu corpo... e, no entanto, o corpo não era o seu. A lembrança dos olhos grandes da rapariga, da curva delicada das suas faces, do volume dos seios jovens no ponto em que o vestido se afastava do corpo, a forma como estas memórias lhe despertavam sensações inteiramente físicas, perturbavam-na; nesse instante começou a asso­ciá-las com as coisas inquietantes que Star lhe dissera, e sentiu-se invadir pelo receio e por algo mais que era ainda demasiado inocente para identificar como vergonha.

Com o aproximar da manhã a chuva parou e os farrapos de nuvens escuras dissiparam-se; a Lua apareceu e Cassandra pôde ver que atravessavam uma estreita garganta, alta e rochosa. Olhou para baixo, para as vastas planícies lá no fundo, cobertas de pequenas árvores contorcidas e de campos metodicamente arados, cercados por muros de pedra. Desciam devagar pela encosta íngreme e, gradualmente, os cavalos da frente abrandaram e acabaram por parar. As tendas foram desenroladas e o pote contendo as brasas, embrulhado num pano húmido, colocado num ponto central. Os primeiros raios de um Sol vermelho começavam já a surgir por trás do desfiladeiro que haviam atravessado durante a noite. As raparigas mais novas foram mandadas à procura de lenha seca. Não havia muito que encontrar, depois de vários dias de chuva torrencial, mas debaixo das oli­veiras densas e retorcidas Cassandra encontrou uns quantos paus secos que a chuva não alcançara e voltou a correr com eles para a fogueira.

Estavam sentadas junto ao fogo quando o Sol nasceu numa torrente de vennelhos que anunciava novas chuvas; por isso, permaneceram sentadas desfru­tando do calor húmido e enxugando as roupas e os cabelos. Depois as mulheres mais velhas começaram a orientar a montagem de uma tenda, levando para dentro dela uma mulher prestes a dar à luz; as guerreiras disseram às raparigas que fossem pôr as manadas a pastar e Cassandra foi com elas.

Estava muito cansada e os olhos ardiam-lhe, mas não tinha sono; uma parte do seu espírito ficara na tenda onde as mulheres se tinham reunido, encorajando a mulher em trabalho de parto; outra parte de si estava ainda mais longe, unida a Páris. Sabia que ele estava na encosta de uma colina com os seus rebanhos e os pensamentos dele haviam ficado com a rapariga cuja lembrança o obcecava. Ela sabia o nome da rapariga - Enone - conhecia o seu som doce e humano, e era perseguida pela noção do modo como Páris se agarrava a essa memória que lhe roubava toda a consciência do que deveria dominar os seus pensamentos: os seus cuidados para com o rebanho. E mesmo antes de o próprio Páris o pressentir, ela ouviu - ou sentiu ou cheirou - a presença da rapariga movendo-se furti­vamente em direcção a ele através dos maciços de árvores na encosta da mon­tanha.

O cheiro acre do zimbro espalhava-se em volta deles. Cassandra mal con­seguiu saber qual dos dois, se Páris se a rapariga, viu o outro em primeiro lugar, ou qual deles correu primeiro a apertar o outro nos seus braços ansiosos.

O ímpeto dos beijos famintos quase a empurrou de volta ao seu corpo e ao seu lugar, mas, agora, ela já estava preparada, e agarrou-se à consciência das emo­ções e sensações dele. Quando deu por isso, Enone estava estendida sobre a relva macia com Páris ajoelhado por cima dela arrancando-lhe a roupa.

A súbita consciência de que aquele não era um momento para ser partilIhado, nem mesmo com uma irmã gémea, fè-la recuar e afastar-se; encontrou-se de novo escacrachada sobre o seu cavalo, com as gotas de um aguaceiro a fustigar-lhe o rosto. Ansiava pelo sol do seu país, o sol brilhante de Apolo, e pela primeira vez, desde que andava com as Amazonas, pensou no regresso.

Sentia-se doente; os olhos ardiam-lhe e uma náusea invadiu-a. A memória do que partilhara respondia-lhe a algumas das muitas perguntas que tinha em mente, mas não sabia ao certo se fora com o seu irmão que vivera esta curiosa experiência, ou se fora com Enone, a rapariga, se fora amante ou amada.

Não tinha ainda a certeza se estava dentro do seu próprio corpo ou se continuava deitada na relva macia do monte Ida, com o irmão e a rapariga, os corpos ainda envoltos pela auréola do desejo. A sua mente não se conseguia confinar ao seu corpo e estendia-se muito para além dele, fazendo com que uma parte do seu ser estivesse ali, no círculo de cavalos e das mulheres jovens, e outra parte se estendesse descendo até à tenda dos partos, onde a mulher continuava ajoelhada dentro de um anel de outras mulheres que a olhavam, gritando instruções e palavras de encorajamento. As dores lancinantes pareciam atacar o seu corpo inexperiente. Assustada pela confusão, sentiu o sangue fugir-lhe das faces, ouviu a sua própria respiração a arranhar-lhe a garganta.

Deu meia volta, desvairada; puxou pelas rédeas com tal violência que fez com que a égua quase se desequilibrasse, e enterrou os calcanhares nos flancos do animal, disparando através da planície como se, através de um esforço físico brutal, lhe fosse possível trazer toda a consciência de volta aó seu corpo. Pentesi­leia viu-a galopar para longe do acampamento e, rapidamente, saltou para cima do cavalo e partiu atrás dela.

Cassandra, estendida ao comprido sobre o dorso do cavalo, tentava desesperadamente apagar tudo o que lhe era exterior; pressentiu a perseguição e cravou os calcanhares com mais força. Porém, o cavalo de Pentesileia tinha pernas mais longas e ela era, de longe, melhor cavaleira; gradualmente, o espaço entre as duas encurtou e a amazona acabou por ficar ombro a ombro com a rapariga, olhando consternada para o rosto congestionado e o olhar aterrorizado de Cassandra.

Estendeu os braços e sacou Cassandra de cima da égua, segurando-lhe o corpo frouxo sobre a sela, à sua frente.

Conseguia sentir na testa da rapariga um calor escaldante como se tivesse febre. Quase em delírio, Cassandra debatia-se contra ela, e a mulher mais velha segurou-a com firmeza entre os seus braços robustos.

- Sssh! Sssh! Que se passa contigo, Olhos Brilhantes? Porque é que a tua testa parece abrasada pelo sol, quando o dia nem sequer está quente?! - A voz dela era meiga, mas Cassandra sentiu que a mulher mais velha zombava dela e lutou freneticamente para se libertar.

- Não se passa nada... Eu não queria...

- Não, está tudo bem, filha. Ninguém te vai fazer mal; ninguém está zangada contigo - disse Pentesileia enquanto a abraçava, tentando acalmá-la. Momentos depois Cassandra parou de se debater e abandonou-se nos braços da sua parente.

- Conta-me o que aconteceu. Cassandra explodiu:

- Estive... com ele. Com o meu irmão. E uma rapariga. E não conseguia desligar-me deles, nada, em sítio nenhum do acampamento...

- Que a Deusa nos valha - murmurou Pentesileia. Também ela na idade de Cassandra tinha sido portadora do dom (ou da maldição) da visão sem limites. Partilhar experiências para as quais a mente ou corpo não estavam preparados podia raiar a loucura interior, e nem sempre existia um regresso seguro. Cassan­dra estava deitada nos seus braços apenas semiconsciente e a sua parente não sabia ao certo o que fazer por ela.

Primeiro tinha de voltar para o acampamento; estavam longe das outras mulheres e dos cavalos, era provável a presença de homens estranhos e sem lei naqueles ermos e, no estado em que Cassandra se encontrava, um recontro desse tipo poderia conduzi-la para além dos limites da sanidade. Deu meia volta segurando as rédeas da égua de Cassandra, obrigando-a a segui-la. Embalou a rapariga de encontro ao peito e quando entravam no perímetro do acampamento tirou-a de cima do cavalo e levou-a para o interior da tenda onde a mulher que acabara de dar à luz descansava ao lado do bebé adormecido. Pentesileia esten­deu Cassandra sobre uma manta e sentou-se a seu lado, com a mão firme pousada na testa da sobrinha, cobrindo-lhe os olhos, encorajando-a a expulsar do seu espírito todas as interferências.

Os soluços foram enfraquecendo e ela foi ficando progressivamente mais calma, escondendo o rosto como um bebé na mão de Pentesileia e enroscando-se contra o seu corpo.

Passado longo tempo, a rainha amazona perguntou: - Estás melhor agora?

- Sim, mas... Será que vai voltar?

- Provavelmente. É um dom da Deusa e tu tens de aprender a viver com ele. Pouco posso fazer para te ajudar, filha. Talvez a Mãe Serpente te tenha chamado a falar pelos deuses; existem sacerdotisas e videntes entre nós. Talvez quando chegar a altura de desceres ao Mundo Subterrâneo e ao Seu encontro...

- Não estou a entender - disse Cassandra. Depois lembrou-se de quando Apolo lhe falara e pedira que fosse Sua sacerdotisa. Contou isto a Pentesileia e a amazona mais velha pareceu aliviada.

- Verdade? Não sei nada sobre o vosso Senhor do Sol; parece-me estranho que uma mulher prefira um deus à Mãe Terra ou à nossa Mãe Serpente. É Ela que habita as entranhas da terra e reina sobre todos os domínios das mulheres - o mistério do nascimento e da morte. Talvez também Ela te tenha chamado e tu não tenhas ouvido a Sua voz. Ouvi dizer que por vezes isso acontece com aquelas que nascem sacerdotisas: quando elas não ouvem o Seu apelo, Ela contacta-as através de enigmas, em sonhos ruins, para que elas aprendam como escutar a Sua voz.

Cassandra não sabia ao certo; conhecia pouco acerca da Mãe Serpente de Pentesileia, mas lembrava-se, no entanto, das belas serpentes da casa de Apolo e de como ela ansiara por acariciá-las. Talvez esta Mãe Serpente a tivesse chamado também e não apenas o esplendoroso e amado Senhor do Sol.

Tivera a esperança de que a sua tia, que sabia tanto sobre a Deusa, lhe dissesse o que deveria fazer para se livrar dessa visão indesejada. Agora começava a perceber que teria de ser ela própria a controlá-la, que teria de encontrar, dentro de si, uma forma de fechar as comportas antes que as visões a devorassem por completo.

- Vou tentar - disse ela. - Existe alguém que saiba destas coisas? , - Talvez entre os servidores dos deuses. Tu és uma princesa de duas casas reais: a nossa das Amazonas e a do teu pai; não sei nada desses deuses, mas há-de chegar o tempo em que, por seres uma de nós, terás de descer ao Mundo Subterrâneo para que encontres a Mãe Serpente, e uma vez que Ela já te chamou, é preferível que seja mais cedo do que mais tarde. Talvez na próxima lua; falarei com as anciãs e verei o que dizem de ti.

«Talvez», disse Cassandra para consigo, «fosse essa a razão por que o Deus me chamou para O servir». No entanto fora ela quem abrira essas portas; não podia lamentar-se por lhe ter sido concedido o dom que pedira.

Dia após dia a tribo cavalgava, entre ferozes ventanias e chuvas geladas e agrestes. O tempo ia ficando cada vez mais frio e à noite as mulheres embru­lhavam-se com todas as suas roupas e mantas de lã. Cassandra enroscava-se junto do cavalo, refugiando-se no calor do seu corpo grande e macio. Os céus acabaram por se tornar mais claros e brilhantes e a chuva cessou. Sempre para leste, a tribo seguia viagem; quando as mulheres perguntavam às suas chefes quando iriam descansar e encontrar pastagens para os seus cavalos, Pentesileia apenas suspirava:

- Temos primeiro de atravessar dois rios, como a Deusa ordenou.

A Lua já enchera e voltara a minguar quando, pela primeira vez desde que a viagem começara, avistaram seres humanos: um pequeno grupo de homens vestidos com pel ~s ainda com pêlos agarrados, o que fez com que as mulheres percebessem que a arte de curtir as peles era ainda desconhecida entre eles.

«Existem pastagens aqui», pensou Cassandra; «este poderá ser o lugar para pararmos e descansarmos as nossas manadas. Mas não com estes homens...» Os homens olhavam para as mulheres, boquiabertos e apalermados, e Pentesileia parou o seu cavalo ao lado deles.

- Quem é o dono destes rebanhos? - perguntou, apontando os carneiros e as cabras que pastavam sobre a vegetação verdejante.

- Somos nós. Que espécie de cabras vós montar? - perguntou um dos homens. - Nós nunca ver cabras tão grandes e saudáveis.

Pentesileia ia dizer que aquilo não eram cabras, mas sim cavalos; depois decidiu que a ignorância deles poderia ser vantajosa para a tribo.

- São as cabras de Posídon, Deus do Mar - disse-lhe ela. - Que ser o mar? - perguntou ele.

- Água como daqui até ao horizonte - disse ela e ele conteve a respiração. - Eia! Nunca nós ver água senão nalgum buraco lamacento que seca no Verão! Não admira que sejam boas e gordas!

Depois sorriu maliciosamente e perguntou, no seu tosco dialecto, se as senhoras gostariam de apascentar os seus rebanhos juntamente com os dele. - Talvez por uma ou duas noites - disse Pentesileia.

- Onde estarem os vossos homens? - perguntou ele.

- Não temos nenhuns; estamos livres de todos os homens - disse a amazona -, mas aceitaremos a hospitalidade da vossa pastagem por esta noite, pois viajamos há já muito tempo. Os nossos animais estão cansados e apreciarão um pouco da vossa boa erva.

- São bem-vindos - replicou um dos homens, que parecia um pouco mais limpo do que os outros e tinha as roupas um pouco mais compostas. Quando desmontaram, Pentesileia sussurrou a Cassandra que deveriam

precaver-se e não se deixar dormir, e sim vigiar os cavalos mesmo durante a noite.

- Porque eu não confio nestes homens, nem um bocadinho - murmurou ela. - Acho que assim que adormecermos, ou que eles pensem que adormece­mos, vão tentar roubar-nos os cavalos, e talvez mesmo atacar-nos.

Os homens tentaram abrir caminho para o interior do círculo de mulheres e conseguir alguns contactos furtivos, e Cassandra pensou que se elas fossem mulheres das cidades, inexperientes e ingénuas, não teriam percebido o que os homens estavam a fazer. Levantou-se com as outras raparigas para começar a estender as mantas. Passou um laço pelas patas do cavalo para que ele não pudesse afastar-se muito durante a noite, desapertou o cinto de couro e deitou-se na sua manta entre Elaria e Star.

- Gostava de saber até onde iremos - murmurou Star, aconchegando a manta em torno dos ombros magros para os proteger da humidade. - Se não encontrarmos comida brevemente, as crianças começarão a morrer.

- Não estamos assim tão mal - protestou Elaria. - Ainda nem começá­mos a sangrar os cavalos. Podemos viver do sangue deles durante pelo menos um mês, até começarem a enfraquecer. Uma vez, quando tivemos um mau ano, vivemos do sangue das éguas durante dois meses. A minha primeira filha morreu e nós estivemos tão perto de morrer à fome que depois, quando fomos às aldeias dos homens, nenhuma de nós engravidou durante quase meio ano.

- Tenho tanta fome que era capaz de beber sangue de égua; ou o que quer que fosse - resmungou Star, mas Elaria disse:

- Isso não é possível enquanto Pentesileia não der ordens; e ela sabe o que faz.

- Não tenho assim tanta certeza - disse Star, entredentes. - Deixar-nos dormir aqui, no meio destes homens todos...

- Não - disse Elaria. - Ela ordenou que não dormíssemos. Lentamente, a Lua surgiu por cima das árvores, subindo cada vez mais alto. Depois, através das pálpebras descidas, Cassandra viu formas escuras movendo­-se furtivamente através da clareira.

Esperava o sinal de Pentesileia quando, de repente, uma sombra escura encobriu as estrelas lá no alto e o corpo de um homem pesou subitamente sobre o seu; mãos arrancavam-lhe os calções e remexiam no seu peito. Ela tinha a mão sobre a sua espada de bronze; lutou para se libertar, mas estava esmagada contra o solo. Pontapeou e mordeu a mão que lhe cobria a boca; o agressor uivou - como verdadeiro cão que era, pensou ela com raiva - e ela lançou com força o punho da espada para cima, atingindo-o na boca; ele uivou novamente e Cassan­dra sentiu jactos de sangue e pragas saírem-lhe dos lábios rebentados. Depois soltou a espada e golpeou-o; ele soltou um urro e caiu por cima dela no momento em que Pentesileia gritava e, por todo o bosque, as mulheres se punham de pé. Alguém atirou um archote para o meio das brasas e o fogo reacendeu-se, reflectindo-se nos punhais de bronze, nus, nas mãos dos homens.

- É esta a vossa hospitalidade para com os convidados?

- Eu já arrumei um deles, tia! - gritou Cassandra. Desembaraçou-se do homem que gemia, empurrando-o de cima do seu corpo. Pentesileia avançou na sua direcção e olhou para baixo.

- Acaba com ele - disse ela. - Não o deixes morrer lentamente em agonia.

«Mas eu não o quero matar», pensou Cassandra; «ele agora já não pode fazer-me nada, e não chegou realmente a fazer-me mal.» No entanto ela conhecia a lei das Amazonas: morte para qualquer homem que tentasse violar uma amazona; e não podia infringir a lei. Sob o olhar frio de Pentesileia, Cassandra curvou-se com relutância sobre o homem ferido e deu uma forte estocada com a espada, atravessando-lhe a garganta. Ele gorgolejou e morreu.

Cassandra, enjoada, endireitou-se e sentiu a mão de Pentesileia apertando­-lhe com força o ombro.

- Bom trabalho. Agora és, realmente, uma das nossas guerreiras - mur­murou e dirigiu-se a passos largos para os homens reunidos à luz do archote. - Os deuses decretaram que um hóspede é sagrado - disse-lhes Pentesileia com severidade. - No entanto, um dos vossos homens teria violado uma das minhas virgens contra vontade dela. Que desculpa podem invocar por esta falta de hospitalidade?

- Mas quem já ouviu falar de mulheres que andar assim a viajar sozinhas? - argumentou o chefe. - Os deuses só protegem as mulheres que são esposas decentes, e vocês não são; vocês não pertencerem a ninguém.

- Qual foi o deus que te disse isso? - inquiriu Pentesileia.

- Nós não precisamos que um deus nos diga aquilo que é evidente para a razão. E como não terem maridos, decidimos ficar com vocês e dar a vocês o que mais precisam, homens para cuidar de vocês.

- Não é isso o que nós precisamos nem o que nós procuramos - declarou a amazona, e fez sinal às mulheres que, armadas, cercavam os homens.

- Apanhem-nos!

Cassandra deu por si a lançar-se para a frente com as outras, a espada erguida. O homem sobre quem se precipitou não fez nenhum esforço em especial para se defender; ela derrubou-o e ajoelhou-se sobre ele, a lâmina na sua garganta.

- Não nos matem! - gritou o chefe dos homens. - Não vos faremos mal! - Agora já não - disse Pentesileia ferozmente -, mas quando dormíamos e vocês pensavam que estávamos indefesas, ter-nos-iam morto ou violado!

Pentesileia encostou a lâmina da sua espada à garganta do homem e ele encolheu-se.

- Juram pelos vossos deuses que nunca mais molestarão uma mulher das nossas tribos, ou de qualquer outra, se vos deixarmos viver?

- Não, não juramos - disse o chefe. - Os deuses enviaram-vos até nós e nós usámo-vos, e eu acho que o que fizemos estava certo.

Pentesileia encolheu os ombros e abriu-Lhe a garganta. Os outros homens gritaram que jurariam e Pentesileia fez sinal às mulheres para que os soltassem. Um a um, eles ajoelharam e juraram como lhes tinha sido exigido.

- Mas eu não confio nem mesmo nos seus votos - disse Pentesileia -, quando perderem as nossas armas de vista.

Deu ordens para que os haveres da tribo fossem reunidos e os cavalos selados para que pudessem partir de madrugada.

Depois da noite em claro, os olhos de Cassandra ardiam-lhe e doía-lhe a cabeça; tinha a sensação de ter ainda as mãos ásperas do homem na sua pele. Quando tentou mover-se, não conseguiu. O seu corpo estava rígido, preso; ouviu alguém chamar pelo seu nome, mas o som estava muito distante.

Pentesileia veio até junto dela e o toque da sua mão trouxe Cassandra de volta à realidade.

- Consegues montar?

Sem dizer nada, Cassandra assentiu com a cabeça e içou-se para a sela. A sua mãe adoptiva veio ter com ela e abraçou-a:

- Portaste-te bem! Agora que mataste um homem, és uma guerreira, já podes lutar por nós. Não és mais uma criança.

Pentesileia deu o sinal de partida e Cassandra, tremendo, incitou o cavalo para a frente. Embrulhou a manta em torno dos ombros.

«Pfff», pensou, «cheira a morte»

Cavalgavam, a chuva gelada nos rostos; ela invejou as mulheres que leva­vam potes cobertos de barro, contendo carvões quentes. Para leste e ainda mais para leste, cavalgaram geladas pelo vento cada vez mais frio. Depois de muito tempo o céu clareou, passando a um cinzento pálido, mas havia, de facto, alvorada. Cassandra ouvia à sua volta os resmungos das mulheres, e sofria com a fome e o frio.

Finalmente, Pentesileia deu sinal para parar e as mulheres prepararam-se para montar as tendas pela primeira vez em muitos dias. Cassandra agarrou-se ao seu cavalo, necessitada do calor do corpo do animal; o frio doloroso parecia penetrar cada músculo e osso do seu corpo. Algum tempo depois, ardiam fogueiras no centro do acampamento e ela, como as outras, foi acocorar-se perto das línguas de calor.

Pentesileia apontou para junto do sítio por onde tinham passado com os cavalos e as mulheres olharam, com espanto, os campos verdes de cereal ainda não amadurecido. Cassandra nem podia crer nos seus olhos. Cereal, naquela altura do ano?

- É trigo de Inverno - disse Pentesileia. - Esta gente planta os seus cereais antes da queda das primeiras neves, deixam-nos todo o Inverno debaixo da neve e eles amadurecem antes das colheitas de cevada. Nas épocas frias têm dois cereais, e aquele que eu procuro é o centeio.

A rainha amazona acenou à sua sobrinha e Cassandra foi colocar-se a seu lado.

- Que terra é esta em que estamos, tia? - perguntou.

- Estas são as terras dos Trácios - disse-lhe Pentesileia -, e para norte ­apontou - fica a antiga cidade de Cálcis.

Cassandra recordou-se de uma das histórias de sua mãe.

- Onde Jasão encontrou o velo dourado com a ajuda da feiticeira Medeia? - Essa mesma. Mas, hoje em dia, há lá pouco ouro, embora haja muita feitiçaria.

- Vivem pessoas aqui à volta? - perguntou Cassandra. Parecia-lhe impos­sível que alguém escolhesse aquele local desolado para viver.

- Os campos de trigo e centeio não se plantam a si próprios - retrucou Pentesileia. - Onde existem cereais, existe sempre alguém, homem ou mulher, para os plantar. E aqui existem pessoas e também - indicou - cavalos.

Lá longe, no horizonte, Cassandra distinguiu pequenas manchas em movi­mento, que pareciam não ser maiores do que carneiros; mas pela forma como se moviam, bem via que eram cavalos. À medida que a distância ia diminuindo e os via com maior nitidez, Cassandra reparou que aqueles eram muito diferentes dos cavalos que ela e as outras amazonas montavam: pequenos e ruços, com corpos atarracados e pêlo espesso e comprido quase como uma peliça.

- Cavalos selvagens do Norte; nunca foram montados ou domados ­disse Pentesileia. - Nenhum deus os tocou para os destinar a homens ou mulheres. Se acaso pertencem a algum deus ou deusa, é à caçadora Ártemis.

Como que comandada por um espírito comum, a manada inteira deu meia volta e afastou-se; a égua que conduzia a manada fez uma pausa, levantando a cabeça e fixando as mulheres, as narinas dilatadas e os olhos brilhantes.

- Sentem o cheiro do nosso garanhão - disse Pentesileia. -Ele tem de ser vigiado; se farejar uma manada de éguas é capaz de tentar juntá-las às nossas, e estes cavalos não nos servem para nada. Não os poderíamos alimentar e não haveria pasto suficiente.

- O que estamos aqui a fazer? - perguntou Cassandra.

- A Deusa é sábia - respondeu-lhe a sua parente. - Aqui, no país dos Trácios, podemos negociar ferro e retemperar as nossas armas. Encontraremos cereais à venda na cidade de Cálcis, ou até mesmo mais perto; e nós temos produtos para vender: objectos de couro - selas, rédeas e ainda outras coisas. Iremos esta tarde à aldeia e veremos se conseguimos comprar comida.

Cassandra olhou para o céu cinzento e perguntou-se como conseguiria alguém dizer se era de manhã ou de tarde. Supunha que Pentesileia tinha uma forma qualquer de o saber.

Mais tarde, Pentesileia chamou Cassandra e uma das outras raparigas mais novas, Evandra, e saíram a cavalo em direcção à aldeia, situada no meio das searas. Quando as mulheres entraram na aldeia - apenas umas quantas casas pequenas e redondas, construídas em pedra, e um edifício central, a céu aberto, onde mulheres trabalhavam na moldagem de potes - os habitantes saíram à rua para as ver.

Muitas das mulheres seguravam fusos com lã ou pêlo de cabra enrolado. Usavam saias longas e soltas, tecidas com pêlo de cabra e tingidas de azul ou verde; os seus cabelos eram escuros e crespos. Algumas traziam crianças nos braços ou agarradas às saias.

Cassandra viu, com um pequeno frémito de horror, que muitas das crianças eram estranhamente deformadas. Uma rapariguinha tinha, no lábio, uma fenda que parecia estar em carne viva e se estendia pelo rosto até à narina, que tinha o aspecto de uma ferida aberta; outra possuía apenas o polegar e outro dedo deformado na pequena mão, que mais se assemelhava a uma garra. Nunca tinha visto, com vida, crianças como aquelas; em Tróia, uma criança que nascesse deformada era imediatamente exposta nas encostas do monte Ida para que os lobos e outros animais selvagens a devorassem. As mulheres e as crianças mantiveram-se afastadas e silenciosas, mas olhando com curiosidade para as Amazonas e seus cavalos.

- Para onde vão?

- Para norte, segundo a vontade da nossa Deusa; mas para já vamos até Cálcis - disse Pentesileia. - Gostaríamos de negociar algum cereal.

- O que têm para trocar?

- Utensílios em couro - disse Pentesileia, e as mulheres abanaram a cabeça.

- Nós fazemos o nosso próprio couro a partir das peles dos nossos cavalos e cabras - disse uma mulher que parecia ser a chefe do grupo. - Mas vendam­-nos uma dúzia das vossas rapariguinhas e nós dar-vos-emos todo o cereal que puderem transportar.

O rosto de Pentesileia ficou pálido de ira.

- Jamais mulher alguma da nossa tribo será vendida como escrava.

- Não as queremos para escravas - disse a mulher. - Adoptá-las-emos como nossas filhas. Uma doença assolou estas paragens; muitas mulheres morre­ram de parto e outras não conseguem gerar bebés saudáveis; por isso, como podes ver, as mulheres são para nós muito preciosas.

Pentesileia estava mais pálida que nunca. Disse baixinho para Evandra: - Passa palavra às de trás para que nenhuma mulher desmonte do cavalo nesta aldeia por um instante que seja e por razão nenhuma, seja qual for a necessidade. Continuaremos a viagem.

- Que se passa, tia? - perguntou Cassandra.

- Não devemos tocar em nenhuns dos seus cereais - disse Pentesileia; e depois, dirigindo-se à mulher: - Lamento a vossa doença; mas nada podemos fazer para vos ajudar. No entanto, se quiserem ver-se livres dela, ceifem os cereais que estão plantados e queimem-nos; não os deixem sequer no chão como fertilizante para os campos. Arranjem novas sementes de milho algures a sul daqui. Examinem as sementes cuidadosamente e procurem qualquer vestígio de praga; foi isso que envenenou os ventres das vossas mulheres.

Enquanto se afastavam da aldeia, cavalgando através dos campos de cen­teio, Pentesileia curvou-se e arrancou alguns pés verdes. Levantou-os apontando para o sítio onde as sementes viriam a formar-se.

- Olha - disse ela, indicando as fibras arroxeadas e filiformes nas extremidades dos pés, enquanto os estendia a Cassandra. - Cheira-os. Como sacerdotisa deverás ser capaz de reconhecer isto onde quer que o encontres. Não o proves em circunstância alguma nem o comas, mesmo que estejas a morrer de fome.

Cassandra cheirou e sentiu um odor estranho, bafiento, pegajoso, algo semelhante ao do peixe.

- Este trigo envenenará qualquer uma que coma os grãos frescos, ou mesmo o pão que seja feito com ele; e a pior forma de envenenamento é aquela que mata as crianças no ventre e pode destruir a fertilidade de uma mulher durante anos. Esta aldeia pode já estar condenada. É pena. As mulheres deles parecem bonitas e trabalhadoras, e o seu trabalho de fiação e tecelagem é notável. Fazem também belos potes e taças.

- Vão morrer todas, tia?

- É provável. Muitas delas irão comer os cereais envenenados sem que morram por isso; mas não nascerão mais crianças saudáveis naquela aldeia, e quando estiverem suficientemente desesperadas para impor um ano de fome à sua gente, talvez já seja tarde de mais.

- E os deuses permitem isto? - perguntou Cassandra. - Qual a deusa que estará suficientemente zangada para mandar uma praga sobre os cereais da -aldeia?

- Não sei; talvez nem seja por acção de qualquer deusa - disse a sua parente. - Só sei que ela vem, ano após ano, sobretudo quando chove de mais. Nunca tinha ocorrido a Cassandra duvidar de que os cereais dos campos eram vigiados e cresciam sob a acção directa da Mãe Terra; esta era uma heresia assustadora e ela varreu-a do espírito o mais depressa possível. Estava de novo consciente da sua fome - tinha passado tanto tempo sem alimentos substanciais que, por dias a fio, quase deixara de a sentir.

Enquanto cavalgavam, começaram a ver pequenos animais saltando para fora e para dentro de tocas abertas no chão. Uma rapariga esticou rapidamente o seu arco e lançou uma flecha de caça - talhada em madeira endurecida ao fogo, em vez de metal - e o animal atingido tombou e ali ficou a espernear. A arqueira saltou do seu potro e deu-lhe uma paulada na cabeça. Um enxame de setas seguiu a primeira, mas apenas uma ou duas atingiram o alvo. A ideia da lebre assada no espeto fez crescer água na boca a Cassandra.

Pentesileia deteve as cavaleiras com um gesto.

- Acampamos aqui e prometo-vos que não prosseguiremos até que todas estejamos alimentadas de uma maneira ou de outra - disse ela. - Vocês, guerreiras, peguem nos vossos arcos e cacem; as restantes preparem os alvos e treinem com as vossas flechas. Temos descuidado a prática das nossas técnicas de caça e luta nestes dias de viagem. Houve demasiadas flechas a passar longe dos alvos. No tempo da minha mãe aquela quantidade de flechas teria abatido lebres suficientes para nos alimentar a todas. - E acrescentou: - Sei como todas estão esfomeadas; não gosto mais de jejuar do que qualquer uma de vocês e passou-se tanto tempo para mim como para qualquer outra, desde a última vez que comi uma boa refeição. E no entanto peço-vos, minhas irmãs, se encontraram (ou roubaram) algum cereal ou qualquer coisa feita a partir dele, ou comida de qualquer tipo, naquela aldeia, deixem-me vê-la antes de a comerem. Os cereais deles estão amaldiçoados, e aquelas que comerem pão feito com eles, poderão abortar ou então as vossas crianças podem nascer sem um olho ou só com um dedo.

Uma mulher tirou, desafiadora, um pão duro e algo bolorento de dentro da sua túnica.

- Dá-lo-ei a uma mulher que já não tenha idade para ter filhos e que o possa comer sem correr risco. Não o roubei -acrescentou -, troquei-o por uma fivela velha.

Uma das mulheres mais velhas da tribo disse:

- Ficarei com ele em troca da minha parte da lebre que abati com a minha seta; passou já muito tempo desde a última vez que comi pão, e de certeza que nunca mais terei filhos para poderem ser afectados por isso.

A visão do pão fez Cassandra sentir tanta fome que ela pensou que preferiria arriscar-se a abortar ou a afectar a criança que poderia vir a gerar um dia, num futuro distante; mas nunca desobedeceria à sua tia. Outras amazonas entregaram diversos alimentos que tinham obtido por troca (ou por roubo) na aldeia, a maior parte dos quais Pentesileia confiscou e atirou para o fogo.

Cassandra foi atirar aos alvos enquanto as guerreiras experientes partiam em busca de caça e as mulheres idosas se espalhavam pelos campos planos à procura de qualquer tipo de comida. O Inverno ia avançado de mais para permitir encontrar bagas ou frutos, mas poderia haver, algures, raízes ou alguns fungos comestíveis.

O curto dia de Inverno escurecia, e aproximava-se do crepúsculo, quando as caçadoras voltaram. Em pouco tempo as lebres esquartejadas ferviam num caldeirão juntamente com insípidos feijões-bravos e algumas raízes; nacos corta­dos de um animal maior - tinha sido esfolado, mas Cassandra suspeitava ser um dos peludos cavalos selvagens e tinha fome demasiada para se preocupar com isso - assavam por cima de uma grande fogueira. Pelo menos, naquela noite, poderiam comer até fartar, e Pentesileia havia prometido que em Cálcis encontra­riam comida em abundância.

 

- Ei-la - disse Pentesileia, apontando. - A cidade de Cálcis. Habituada às ciclópicas muralhas fortificadas de Tróia que se erguiam

muito acima dos rios da planície fértil, Cassandra não ficou impressionada à primeira vista pelas muralhas construídas com tijolos cozidos ao sol, de aspecto baço sob a luz nublada. Esta cidade, pensou, seria vulnerável a um ataque vindo de qualquer dos lados. No ano passado, com as Amazonas, ela tinha aprendido alguma coisa - não em termos formais, mas sim através das histórias de cercos e guerras contadas pelas outras mulheres - de estratégia militar.

- Esta é como as cidades egípcias e hititas - disse Pentesileia. - Eles não constroem fortificações imponentes; não têm necessidade delas. No interior dos seus portões de ferro verás os templos e as estátuas dos seus deuses. Estes são maiores que os templos e as estátuas de Tróia, assim como as muralhas de Tróia são maiores que as muralhas de Cálcis. A história conta que a cidade foi fundada por um antigo povo navegador do longínquo Sul; mas eles aqui são diferentes de todos os outros povos, como verás quando entrarmos na cidade. São estranhos; têm muitos costumes e hábitos curiosos. - Deu uma gargalhada. - Mas suponho que eles dizem o mesmo de nós.

De tudo isto Cassandra só ouviu «portões de ferro». Tinha visto muito pouca quantidade desse metal; uma vez o seu pai havia-lhe mostrado um anel de um metal negro que lhe dissera ser ferro.

- É excessivamente caro e demasiado difícil de trabalhar para ser utili­zado em armas - dissera-lhe ele. - Um dia, quando se souber mais sobre a arte da sua forja, o ferro poderá ser utilizado para arar a terra, pois é muito mais duro que o bronze.

Cassandra, agora, recordando-se, pensou que um povo e uma cidade que sabiam o suficiente sobre o ferro para serem capazes de forjar portões com ele, deviam ser realmente sabedores.

- É por os portões serem em ferro que a cidade nunca foi tomada? - per­guntou ela.

Pentesileia olhou-a e disse com alguma surpresa:

- Não sei. Eles são um povo feroz, mas muito raramente se envolvem em guerras. Suponho que é por estarem longe das principais zonas de comércio. No entanto, as pessoas vêm do fim do mundo em busca de ferro.

- Vamos entrar na cidade ou acampamos fora dos muros?

- Esta noite dormiremos na cidade; a rainha deles é praticamente uma de nós - disse Pentesileia. - É filha da irmã da minha mãe.

«Então», pensou Cassandra, «ela é parente da minha mãe e minha parente também.»

- E o rei? - Não existe rei nenhum - disse Pentesileia. - Imandra reina aqui e ainda não decidiu tomar um consorte.

Por trás da cidade erguiam-se montes de um vermelho-ferruginoso que fazia os portões parecerem pequenos. O caminho que conduzia até à cidade estava pavimentado com gigantescos blocos de pedra, e as casas, com arcos e escadas de pedra, tinham sido construídas com tábuas e barrotes e rebocadas e pintadas de cores alegres. As ruas da cidade não estavam empedradas e apresentavam-se lamacentas e espezinhadas, e eram percorridas por estra­nhos animais de carga, peludos e com cornos, que se moviam entre as casas ajoujados com enormes cestos e potes. Os seus donos tocavam-nos para o lado enquanto as Amazonas, dispostas numa formação quase militar, percorriam as ruas. Cassandra, consciente de todos aqueles olhos postos nela, empunhou a lança e endireitou-se na sela, lutando contra a fadiga da cavalgada e tentando parecer uma guerreira.

A cidade era muito diferente de Tróia. As mulheres circulavam livre­mente pelas ruas levando potes e cestos à cabeça. Os seus trajes eram compri­dos, grossos e pesadões, mas apesar das suas saias desajeitadas e dos olhos pintados tinham um ar forte e competente. Viu também uma forja onde trabalhava uma mulher, com músculos fortes como os de uma guerreira, e o rosto escuro e manchado pela fuligem. Nua da cintura para cima a fim de suportar o calor intenso, martelava uma espada. Uma mulher jovem, pouco mais do que uma rapariguinha, fazia funcionar os foles. Cassandra tinha visto, nos meses que passara com as Amazonas, as mulheres fazerem muitas coisas estranhas, mas esta era a mais estranha de todas.

As sentinelas das muralhas eram também mulheres e podiam muito bem fazer parte do grupo das Amazonas, pois estavam armadas, usavam couraças de bronze sobre o peito e seguravam longas lanças. À medida que as Amazo­nas percorriam as ruas, as sentinelas soltavam um longo e ululante grito de guerra; em breve meia dúzia delas, com as lanças baixas em sinal de paz, apareceram na rua à sua frente. A comandante aproximou-se e, montada, abraçou Pentesileia.

- Saudamos-te exultantes, Pentesileia, rainha das Éguas - disse ela. -- A senhora de Cálcis envia-te os seus cumprimentos e saúda o teu retorno ao nosso seio. Convida as tuas mulheres a instalarem-se nos campos junto ao Muro Sul e convida-te, a ti, a seres sua hóspede no palácio com uma óu duas amigas, se assim o desejares.

A rainha amazona transmitiu para a retaguarda as notícias que a sentinela trouxera.

- E mais - disse a mulher de Cálcis -, a rainha mandou duas ovelhas e um cesto de pão cozido nos fornos reais, como presente para as tuas mulheres; que as tuas mulheres celebrem aqui enquanto tu te reúnes a ela no palácio.

Ao pensar naquela comida que há tanto tempo não provavam, as Amazo­nas soltaram grandes gritos de aplauso.

Pentesileia vigiou a instalação das suas mulheres no campo, a armação das tendas e a matança das ovelhas. Cassandra, observando uma boa porção de pernil ser queimada em homenagem à Caçadora, reparou que as ovelhas tinham um aspecto muito normal, em tudo semelhante ao dos carneiros de Tróia. Pentesileia, observando-a, disse:

- Que se passa? Esperavas que as ovelhas de CáIcis tivessem velos de ouro? Elas não nascem assim; nem mesmo os rebanhos de Apolo, Senhor do Sol, nascem assim. As gentes de Cálcis estendem os seus velos nos rios, para que estes apanhem o ouro que ainda vem arrastado nas correntes; e apesar de haver talvez menos ouro do que no tempo de Jasão, verás um desses velos antes de deixares Cálcis. Agora vamos vestir-nos para jantar à mesa da rainha.

A rainha amazona entrou na sua tenda, despiu as roupas de montar e vestiu a sua melhor saia, calçou umas botas de pele de gamo e pôs uma túnica que lhe deixava nu um dos seios, como era o costume naquela terra. Tendo-lhe sido dito para vestir as suas melhores roupas, Cassandra vestiu o seu vestido troiano - estava-lhe agora demasiado curto e chegava-lhe só a meio da canela - e cal­çou as sandálias.

Pentesileia tinha tirado do seu saco um pouco de Kohl * e estava a espalhá-lo nos olhos; virou-se e disse:

- É esse o único vestido que tens, filha? - Receio bem que sim.

- Isso não serve de forma alguma - disse Pentesileia. -Cresceste mais do que eu pensava. - Procurou dentro das bolsas da sua sela e retirou um vestido usado, tingido de açafrão-pálido. - Este vai ficar-te grande, mas faz o melhor que puderes.

Cassandra enfiou o vestido pela cabeça e apertou-o com os seus velhos alfinetes de bronze. Sentia-se tão desconfortável e tão estorvada pelas saias em torno dos joelhos, que lhe era dificil recordar que já usara este tipo de vestuário quotidianamente.

* Koh! - pó cosmético usado no Oriente para escurecer as pálpebras. (N da T. )

Caminharam juntas pelas ruas empedradas de Cálcis. Tinha-se passado muito tempo desde que Cassandra estivera no interior das muralhas de uma cidade, e apercebeu-se de que olhava embasbacada para as casas altas, como se fosse um bárbaro.

O palácio tinha sido construído, à semelhança do palácio de Tróia, com o mármore cinzento local. Erguia-se no sítio mais alto no centro da cidade e nem mesmo os templos se erguiam acima dele; Cassandra, educada de acordo com os costumes da sua terra, segundo os quais as habitações dos homens não se podem erguer ao nível dos templos dos deuses, ficou um pouco chocada.

Paradas nas escadas do palácio, conseguiam ver até ao mar. «Tal como em Tróia», pensou Cassandra; só que este mar não era de um azul intenso tal como recordava o da sua terra, mas cinzento-escuro e oleoso. Havia homens a carregar e a descarregar pacificamente os navios ancorados no porto; não eram piratas nem invasores, mas sim mercadores. Tantos navios nas proximidades de Tróia seriam sinal de desastre ou guerra.

«E no entanto ela podia vê-los estendendo-se na frente de Tróia; tantos barcos que o azul do mar escurecera...»

Fazendo um esforço, voltou ao presente. Aqui não havia perigo... Pentesileia tocou-a no braço.

- Que foi? Que viste?

- Navios - murmurou Cassandra. - Navios ameaçando Tróia...

- Sem dúvida, se Príamo continuar como começou - disse a sua tia secamente. - O teu pai tem tentado adquirir poder que não é suficientemente forte para manter, e um dia esse poder será testado. Mas por agora não podemos fazer esperar a rainha Imandra.

Cassandra nunca pusera em causa as políticas do seu pai, no entanto via que o que Pentesileia dissera era verdade. Príamo cobrava tributo a todos os navios que passavam pelo estreito em direcção ao mar; até à data os Aqueus tinham pago sempre, porque isso era mais fácil do que organizar uma armada para se lhes opor. Olhou os portões de ferro e percebeu que estes significavam, mais cedo ou mais tarde, um modo de vida completamente novo.

Disse a si própria que não estava a ser realista; o seu pai era forte, tinha muitos guerreiros e aliados; podia manter Tróia para sempre. «Talvez Tróia venha um dia a ter também portões de ferro, como esta cidade de Cálcis.» À medida que passavam pelos longos corredores, as guardas, com protecções peitorais de bronze e capacetes de couro com incrustações em metal, erguiam os punhos em gesto de saudação. Entraram então para uma sala de tecto alto, com uma clarabóia com embutidos de pedra translúcida verde, e, ao centro, uma alta cadeira de mármore onde se encontrava sentada uma mulher.

Tinha também aspecto de guerreira, com uma couraça peitoral em prata martelada; mas, por baixo, estava vestida com uma soberba túnica de brocado vindo do Extremo Sul e uma fina camisa de gaze do Egipto, conhecida como «tecido de vento». No rosto exibia uma barba postiça, dourada e presa como as cabeleiras dos rituais: um símbolo, pensou Cassandra, de que ela governava não como uma mulher, mas como o rei da cidade. Em torno das ancas usava um cinto com incrustações de pedras verdes e dele pendia uma bela espada. Calçava botas de pele, tingidas e decoradas com bordados, que lhe chegavam à barriga da perna. Logo abaixo do peitoral, na cintura, um estranho cinto que parecia mover-se, para cima e para baixo, ao ritmo da sua respiração; quando se aproximaram, Cassandra percebeu que era uma cobra viva.

Quando chegaram junto da rainha, ela levantou-se e disse:

- Saúdo-te com regozijo, prima. As tuas guerreiras foram condignamente recebidas e festejadas? Haverá mais alguma coisa que eu possa fazer para te dar as boas-vindas, Pentesileia, rainha das Cavaleiras?

Pentesileia sorriu:

- Fomos, de facto, bem recebidas, senhora; diz-me então o que queres de nós. Eu conheço-te desde os tempos da nossa juventude e sei bem que quando eu, bem como todas as minhas guerreiras, somos assim tão bem recebidas e nos são oferecidos banquetes, não é só por uma questão de boa educação. Os nossos laços de parentesco, só por si, fariam com que eu me pusesse a mim e às minhas guerreiras à tua disposição, Imandra; fala livremente e diz o que desejas que nós façamos.

- Como tu me entendes, Pentesileia; tenho de facto necessidade da amizade das tuas guerreiras - disse Imandra na sua voz rouca e agradável -; mas jantemos primeiro. Diz-me, prima, quem é a virgem? É demasiado jovem para ser uma das tuas filhas.

- É a filha da nossa parente Hécuba de Tróia.

- Oh? - as sobrancelhas delicadamente pintadas de Imandra ergueram-se, arqueando-se elegantemente.

Acenou a uma criada e estalou levemente os dedos; era o sinal para que numerosos escravos avançassem, trazendo travessas decoradas com jóias, reple­tas das mais variadas comidas: carne assada e carne de aves acompanhadas por molhos variados e deliciosos, frutos com mel e doces tão abundantemente con­dimentados que Cassandra não fazia ideia de que seriam feitos.

Tinha passado fome por tanto tempo que toda aquela comida a fazia sentir-se levemente enjoada; comeu um pouco da galinha assada e alguns pãezi­nhos depois; por insistência da rainha, provou uma suculenta carne doce, tempe­rada com canela. Apercebeu-se de que Pentesileia também comia pouco, e quando os tabuleiros foram retirados e água de rosas vertida sobre as suas mãos, a rainha de Cálcis disse:

- Prima, pensei que Hécuba há muito tinha esquecido os seus tempos de guerreira. E afinal a sua filha é uma das tuas cavaleiras? Bom, eu não tenho qualquer disputa com Príamo de Tróia. Ela é bem-vinda. É ela a destinada a casar com Aquiles?

- Não, não ouvi falar nisso - disse Pentesileia. - Creio que Príamo descobrirá, quando lhe tentar arranjar um marido, que os deuses a reivindicaram para si.

- Então talvez seja uma das suas irmãs - disse Imandra com indiferença. - Se viermos a precisar de um rei em Cálcis, talvez eu case a minha filha com um dos filhos de Príamo; tenho uma filha em idade de casar. Diz-me, filha de Priamo, o teu irmão mais velho já foi prometido em casamento?

Cassandra disse timidamente:

- Não que eu saiba, senhora, mas o meu pai não me faz confidências acerca dos seus planos. Pode muito bem ter feito algum desses acordos já há muitos anos, sem que eu tenha tido conhecimento.

- Falaste com sinceridade - disse Imandra. - Quando voltares a Trôia irão contigo enviados meus que proporão Andrómaca ao filho do teu pai; se não ao mais velho, a outro; creio que ele tem cinquenta filhos e muitos deles filhos da tua real mãe, não é verdade?

- Não creio que sejam cinquenta - disse Cassandra -, mas tem muitos. - Que assim seja, então - disse Imandra, e quando estendeu a mão para Cassandra, a serpente que trazia enrolada na cintura começou a mover-se; rastejou pelo seu braço, e quando Cassandra estendeu a sua prôpria mão, a serpente lançou para a frente a cabeça seguida do seu corpo anelado; começou a enrolar-se em torno do pulso de Cassandra como uma fina pulseira.

- Ela gosta de ti - disse Imandra. - Foste ensinada a lidar com cobras? Cassandra disse, recordando-se das serpentes do Templo de Apolo, Senhor do Sol:

- Não me são estranhas.

- Tem cuidado; se ela te mordesse ficarias muito doente - disse Imandra. Cassandra não sentiu medo, mas antes uma sensação de euforia à medida que a cobra rastejava pelo seu braço, o deslizar seco e suave das escamas transmitindo à sua pele uma intensa volúpia.

- E agora passemos às coisas sérias - disse Imandra. - Pentesileia, viste os navios no porto?

- Quem não veria? São tantos...

- Estão carregados com estanho e ferro vindos do Norte, das terras dos Hiperbóreos - disse ela. - E, naturalmente, são cobiçados pelos outros reis. Visto que eu, segundo eles dizem, não lhes vendo estanho suficiente para fazerem o bronze (dizem que eu temo as armas que eles fariam, quando a verdade é que eu não tenho que chegue para .mim e eles não têm nada de que eu necessite), começaram a atacar as minhas caravanas de estanho e a levá-lo sem pagar. Não há um número suficiente de guerreiras treinadas nesta cidade. Qual a paga que me pedirás para que as tuas guerreiras protejam as minhas remessas de metal? Pentesileia ergueu o sobrolho.

- Seria mais simples (e, parece-me, mais barato) vender-lhes o que eles querem.

- E deixar que eles se armem contra mim? É mais vantajoso que os meus ferreiros façam as armas e que eles paguem em ouro pelas que quiserem. Eu envio algum estanho, chumbo e também ferro para o Sul, para os reis hititas; os que restam deles. Essas caravanas também são assaltadas. Se quiserem, haverá nisto ouro para ti e para as tuas mulheres.

- Posso escoltar as tuas caravanas - disse Pentesileia -, mas o preço não vai ser baixo. As minhas mulheres viajaram até aqui devido a um sinal divino e não anseiam por guerra; tudo o que queremos é voltar às nossas pastagens na Primavera.

Cassandra perdeu o fio à conversa; estava absorvida pela cobra que se enrolava no seu braço e deslizava para dentro do seu vestido, enroscando-se entre os seus seios tépidos. Olhou para o lado, onde uma escrava fazia malabarismos com três bolas douradas e perguntou-se como conseguiria a rapariga fazer aquilo. Quando voltou a prestar atenção aó que se estava a passar, Pentesileia e Imandra abraçavam-se.

- Esperarei as tuas guerreiras depois de amanhã - disse Imandra. - Por essa altura, as caravanas estarão carregadas e os navios navegarão de novo em direcção às minas secretas das terras do Norte. As minhas guardas escoltar-te-ão de volta ao local onde as tuas mulheres estão acampadas. Que a Deusa te dê uma boa noite; e a ti também, pequena parente. - Depois estendeu a mão. - A mi­nha cobra abandonou-me. Pede-lhe que volte para mim, Cassandra.

Com uma certa relutância, Cassandra mergulhou a mão no corpo do vestido e retirou a cobra, que volteou solta sobre a sua mão e se enrolou no seu pulso. Ela soltou-a desajeitadamente com a outra mão.

- Tens de voltar para brincar com ela; habitualmente, se eu peço a alguém para a segurar, ela morde - disse Imandra. - Mas contigo simpatizou como se fosses uma sacerdotisa. Vais voltar?

- Seria um prazer para mim - murmurou Cassandra, ao mesmo tempo que Imandra hhe retirava a cobra do pulso; ela coleou velozmente pelo braço da rainha e deslizou para o interior do seu vestido.

- Então terei todo o prazer em te receber um outro dia, filha de Hécuba. Adeus.

Quando voltavam ao acampamento, com as guardas caminhando dois passos atrás de si, Cassandra pensou que mais pareciam prisioneiras sob escolta do que convidadas de honra sob protecção. No entanto, à medida que percorriam as ruas movimentadas ouviu, vindo dos becos, o barulho de brigas e um grito abafado; sentiu que aquela cidade estranha era capaz, afinal, de não ser inteira­mente segura para as mulheres que não pertenciam a Cálcis.

 

Dez dias mais tarde, Pentesileia saiu de Cálcis com um grupo seleccionado de guerreiras amazonas; entre elas estava Cassandra. Acompanhariam as caravanas de estanho descarregado dos barcos que se encontravam no porto, na sua viagem para sul até ao distante país dos reis hititas.

Secretamente, Cassandra recordava as palavras da profecia: « Mantenham­-se aí até que caiam as estrelas da Primavera!» Estaria então a sua parente a desdenhar das ordens da Deusa? Mas não lhe competia a ela fazer perguntas. Levava ao ombro um arco cita, formado por uma dupla curvatura em chifre e uma corda feita com os pêlos entretecidos da cauda do seu cavalo. Segurava junto a si a lança curta de ponta metálica das guerreiras Amazonas. Cavalgando ao lado de Star, recordou que a sua amiga já tinha participado numa batalha.

No entanto a manhã parecia cheia de paz, o ar límpido brilhando sob a luz pálida do Sol, nuvens dispersas deslizando lá no cimo. Os cascos dos cavalos ecoavam na estrada com um som abafado em contraponto com o ruído intenso dos carros - cada um puxado por duas parelhas de mulas - carregados com pilhas de fardos enrolados e barras do metal baço-brilhante cobertos com panos negros pesados como velas de navio.

Na noite anterior, com as outras guerreiras, ficara de vigia ao carregamento dos vagões; recordando o negro profundo das barras de ferro e o tom baço dos pedaços de estanho, pensou porque seria que aqueles metais tão feios teriam tanto valor. Certamente que havia nas profundezas da terra metal suficiente para que todos os homens pudessem ter a sua parte; porque haviam os homens - e as mulheres - de se envolver em guerras por causa do metal? Se não havia o suficiente para todos aqueles que o queriam, seria por certo fácil trazer mais das minas. No entanto, parecia que a rainha Imandra sentia orgulho no facto de não haver o suficiente para todos aqueles que queriam uma parte.

Naquele dia nada se passou; as Amazonas cavalgavam em fila indiana, ao ritmo lento do rodar das carroças. Cassandra cavalgava ao lado de uma das ferreiras de Cálcis, conversando com ela acerca do seu curioso oficio; descobriu, com surpresa, que a mulher era casada e tinha três filhos adultos.

- E nunca tive uma filha a quem pudesse ensinar o meu ofício!

- Porque não podes ensinar aos teus filhos o teu ofício de ferreiro? ­perguntou Cassandra.

A mulher pequena e musculosa olhou-a franzindo o sobrolho.

- Pensei que vocês, mulheres das tribos Amazonas, percebessem - disse ela. - Vocês nem sequer criam os vossos filhos homens por saberem como eles são inúteis. Ouve, rapariga: o metal é arrancado do ventre da Mãe Terra; como não seria imensa a Sua cólera se qualquer homem se atrevesse a tocar ou moldar o fruto da Sua generosidade? É trabalho de mulher moldá-lo em formas terrenas para que os homens o usem. Nenhum homem pode seguir o ofício de ferreiro ou a Mãe Terra nunca perdoará a sua intromissão.

«Se a Deusa não deseja que esta mulher ensine aos seus filhos a sua arte», pensou Cassandra, «porque não lhe terá dado filhas?» Mas estava a aprender a não dizer tudo o que lhe vinha à cabeça. Murmurou: «Talvez ainda venhas a ter uma filha», mas a ferreira resmungou: «O quê? Arriscar outra gravidez quando já vivi quase quarenta Invernos?», e Cassandra não respondeu. Em vez disso, conduziu o seu cavalo para a frente para ficar ao lado de Star. A rapariga mais velha estava a limpar a sujidade das unhas com uma pequena faca talhada em osso.

- Pensas realmente que vamos ter de lutar?

- E interessa o que eu penso? A senhora acha que sim, e ela sabe disso melhor que eu.

Tendo sido repelida de novo, Cassandra recolheu-se nos seus próprios pensamentos. O tempo estava frio e ventoso; puxou a sua capa grossa sobre os ombros e pensou em lutar. Desde que vivia com as Amazonas, tinha sido mandada praticar o tiro com o arco todos os dias, e adquirira uma certa perícia com a lança e até mesmo com a espada. O seu irmão mais velho, Heitor, fora treinado para ser um guerreiro desde que tivera idade suficiente para agarrar uma espada com a mão; a sua primeira armadura havia sido feita de propósito quando tinha sete anos. A sua mãe também fora uma virgem guerreira; no entanto, em Tróia, nunca tinha ocorrido a ninguém que Cassandra ou a sua irmã, Políxena, devessem aprender o que quer que fosse relacionado com armas ou guerra. E apesar de ter sido, como todos os filhos de Príamo, embalada ao som de histórias de heróis e glória, às vezes parecia-lhe que a guerra era algo de vil e que passava muito melhor sem ela. Mas se a guerra era uma coisa demasiado horrível para as mulheres, porque seria, então, boa para os homens? E se era uma coisa boa e honrosa para os homens, porque seria errado para as mulheres partilharem da honra e da glória?

A única resposta a que conseguiu apelar perante a sua perplexidade foi o comentário de Hécuba: «Não é costume. - Mas porquê?» tinha ela perguntado, e a única resposta da sua mãe tinha sido: «Não há qualquer razão para os costumes, eles são, simplesmente.» Não acreditava nisso agora, como não tinha acreditado então.

Retirando-se para dentro de si, deu por que buscava no interior de si o seu irmão gémeo.

Tróia e as encostas ensolaradas do monte Ida pareciam-lhe muito distantes. Pensou no dia em que ele havia perseguido e apanhado a rapariga, Enone, e as estranhas sensações apaixonadas que tinham provocado nela enquanto faziam amor. Pensou onde se encontraria ele agora e o que estaria a fazer.

Mas à excepção de um breve e inócuo relance dos carneiros e das cabras pastando nas encostas do monte Ida, não havia nada para ver. Habitualmente, pensou ela, são os homens que viajam e as mulheres que ficam em casa; mas aqui estou eu bem longe de casa e o meu irmão ficou nas encostas da montanha sagrada. Bem, porque não havia de ser assim uma vez na vida?

Talvez devesse ser ela então a heroína, em vez de Heitor ou Páris?

Mas nada se passou; os carros rodavam lentamente e as Amazonas seguiam atrás deles.

Quando o breve Sol de Inverno se pôs, distorcendo as sombras em formas defeituosas e inconstantes, as Amazonas juntaram os cavalos num círculo aper­tado em torno das carroças, para acampar. Pentesileia deu voz àquilo que andara no espírito de todas.

- Com a caravana assim guardada, talvez eles não cheguem a atacar; talvez acabemos simplesmente por fazer uma viagem longa e cansativa inutilmente. - E isso não seria o melhor que podia acontecer? Que eles nunca atacassem e a caravana chegasse em paz ao fim da viagem?-perguntou uma das mulheres. - Assim resolvia-se o problema sem guerra...

- Não ficava absolutamente nada resolvido; nós saberíamos que eles ainda se mantinham emboscados e que, no momento em que a guarda fosse retirada, cairiam novamente sobre as caravanas; possivelmente perderíamos aqui todo o Inverno - disse outra. - Quero ver estes piratas liquidados de uma vez por todas.

- Imandra quer que eles fiquem bem cientes de que não devem atacar as caravanas de Cálcis - disse uma das mulheres com ferocidade. - É bom que lhes ensinemos essa lição.

Fizeram um guisado com carne seca nas fogueiras e dormiram em círculo à volta das carroças; muitas das mulheres, notou Cassandra, convidaram os homens das carroças para os seus cobertores. Ela sentia-se só, mas nunca lhe ocorreu fazer o mesmo. A pouco e pouco ouviu o acampamento quedar-se em silêncio até não haver outro som senão o do vento eterno das planícies; todos dormiam.

Parecia que os dias se repetiam, sempre iguais, sem cessar; arrastavam-se como uma lagarta numa folha, movendo-se ao ritmo das pesadas carroças, e Cassandra, olhando a vasta planície que ficava para trás, pensou que, ao fim de todo aquele tempo, não parecia que estivessem mais longe da Cálcis dos portões de ferro e do porto cheio de navios, do que a distância que teriam percorrido numa boa cavalgada de um dia com um cavalo bom e rápido.

Tinha perdido a conta aos dias entediantes que se arrastavam e que não forneciam emoções mais fortes do que a queda de um fardo de cima de uma carroça, forçando a fila inteira a parar enquanto o fardo era recolhido e laboriosa­mente içado de novo.

No décimo primeiro ou décimo segundo dia - tinha-lhes perdido a conta por não ter qualquer referência para a passagem do tempo - Cassandra obser­vava um dos fardos escorregar lentamente para trás sob a lona que cobria a carga. Sabia que devia conduzir o cavalo até à frente e avisar o chefe da caravana ou, pelo menos, o condutor da carroça para que o fardo fosse mais bem amarrado; mas se ele caísse, pelo menos haveria uma quebra na monotonia. Contou os passos até o fardo se desequilibrar e cair aos trambolhões.

- Guerra - resmungou ela para Star. - Isto nem chega a ser uma aventura, guardar as caravanas; será que vamos fazer o caminho todo até ao país dos Hititas? E o país dos Hititas é mais interessante que isto?

- Quem sabe? - Star encolheu os ombros. - Sinto que fomos enganadas; prometeram-nos uma batalha e boa paga. E até aqui não tem havido mais nada senão esta cavalgada enfadonha. - Encolheu de novo os ombros. - Pelo menos o país dos Hititas terá alguma coisa para ver. Ouvi dizer que lá nunca chove; as casas são todas feitas com tijolos de lama, por isso se alguma vez chovesse realmente, as casas, os templos, os palácios, tudo iria por água abaixo e o seu império inteiro se desmoronaria. Mas aqui há tão pouca coisa em que pensar que me sinto quase tentada a convidar aquele tratador de cavalos bonito para a minha cama.

- Não te atreverias!

- Não? Porque não? E que teria eu a perder? Só que é proibido para as guerreiras - disse Star -, e se tivesse uma criança passaria os próximos quatro anos a amamentar o fedelho e a lavar fraldas em vez de lutar e conquistar o meu lugar como guerreira.

Cassandra sentiu-se um pouco chocada; Star falava com tanto à-vontade daquelas coisas.

- Não o viste a olhar para mim? - insistiu Star. - Ele é bonito e tem uns ombros fortes. Ou será que vais ser uma dessas virgens que fazem votos de se manterem castas como a Virgem Caçadora?

Cassandra não tinha pensado nisso seriamente. Tinha partido do princípio de que ficaria pelo menos alguns anos com as guerreiras Amazonas para quem a castidade era um dado adquirido.

- Mas por toda a vida, Cassandra? Viver sozinha? Isso está muito bem para uma deusa que pode ter os homens que quiser - disse Star -, mas mesmo a Virgem, dizem, olha de vez em quando lá dos Céus cá para baixo e escolhe um jovem bonito para partilhar a sua cama.

- Não acredito nisso -` disse Cassandra. - Acho que os homens gostam de contar essas histórias porque não lhes agrada pensar que uma mulher lhes consegue resistir; não querem pensar que mesmo uma deusa pode escolher permanecer casta.

- Bem, eu acho que eles têm razão - disse Star. - Deitar-se com um homem é o que qualquer mulher deseja; só que entre nós não somos forçadas a ficar seja com que homem for, nem a tratar da sua casa ou satisfazer os seus desejos; mas sem os homens também não teríamos filhos. Estou desejosa de escolher o meu primeiro; e apesar de toda a tua conversa tenho a certeza de que não és diferente de todas nós.

Cassandra lembrou-se do pastor rude que a tentara violar e sentiu-se enjoada. Pelo menos aqui, entre as Amazonas, ninguém insistiria para que ela se entregasse a um homem a não ser que ela assim o escolhesse; e ela não conseguia imaginar por que razão qualquer mulher escolheria tal coisa.

- É diferente para ti, Cassandra - disse Star. - Tu és uma princesa de Tróia e o teu pai arranjar-te-á casamento com qualquer homem que desejares; um rei ou um príncipe ou um herói. Não existe nada de semelhante no meu futuro.

- Mas se queres um homem - perguntou Cassandra -, porque cavalgas com as Amazonas?

- Não me foi dado escolher - replicou Star. - Não sou uma amazona porque o tenha desejado, mas porque a minha mãe e a sua mãe antes dela escolheram este tipo de vida.

- Não consigo imaginar vida melhor que esta - disse Cassandra.

- Então é porque tens falta de imaginação - disse Star -, pois pratica­mente qualquer outra vida que eu possa imaginar seria melhor que esta; prefiro ser uma guerreira a ser uma mulher de aldeia com as pernas partidas, mas preferia viver numa cidade como Cálcis e escolher um marido do que ser guerreira.

Isto não soou a Cassandra como sendo o tipo de vida que desejaria para si, e não conseguiu pensar em mais nada para dizer. Retomou a observação das alterações nos fardos nas pesadas carroças e seguia já meio adormecida na sela quando um grande grito a sobressaltou e o condutor da carroça aterrou de cabeça no caminho com a garganta atravessada por uma seta.

Pentesileia gritou às suas mulheres e Cassandra puxou rapidamente a corda do arco para o peito, ajustou uma flecha e atirou-a ao mais próximo dos homens esfarrapados que tinham invadido repentinamente a planície, e que pareciam ter brotado da areia como dentes-de-dragão. A seta voou direita ao seu alvo. O ho­mem que tinha surgido ao lado do condutor caiu aos gritos ao mesmo tempo que os pesados fardos tombavam sonoramente no caminho pedregoso esmagando um dos atacantes que tentava iça'r-se para cima da carroça. Homem e metal rolaram juntos pela encosta abaixo, e uma das guerreiras saltou do cavalo, lançando-se atrás dele, golpeando-o rapidamente com a lança.

Um dos homens, em corrida, agarrou as correias da sela de Cassandra e puxou-Lhe pela perna; ela pontapeou-o, mas ele arrastou-a para o chão e ela lutou para conseguir sacar da faca.

Golpeou-o de baixo para cima e ele caiu sobre ela com sangue a jorrar-lhe pela boca; outro golpe, desta vez com a lança, e o homem tombou sem vida sobre o corpo dela. Esforçou-se por se libertar do seu peso. Viu então uma lança apontada à sua garganta; levantou a faca para desviar o golpe e sentiu uma dor dilacerante na face.

A mão de um homem prendia-lhe o cotovelo; lançou o cotovelo contra a boca dele e sentiu sangue e dentes aspergindo-lhe o rosto. Por cima do ombro conseguiu ver muitos homens puxando pelos fardos de metal, lançando-os na estrada; ouvia algures os gritos de Star e o voo sibilante das setas. O estridente grito de guerra das Amazonas chegava-lhe de todos os lados. Cassandra golpeou com a lança e o homem que a atacava caiu morto; puxou pela arma libertando-a e viu que estava coberta de sangue e entranhas. Com rapidez sacou novamente o arco e começou a atirar sobre os invasores, mas a cada seta que voava, temia que a atingida fosse uma das suas companheiras.

De repente tudo estava terminado; Pentesileia correu em direcção à carroça fazendo sinal às suas mulheres para que a seguissem de perto. Cassandra apres­sou-se a agarrar o seu cavalo que, para espanto seu, tinha saído incólume da espessa nuvem de setas. O condutor da carroça estava morto, caído de costas na estrada. Star jazia meio esmagada por baixo do seu cavalo caído; o animal tinha sido morto por meia dúzia de setas dos intrusos. Chocada, Cassandra correu a tentar tirar o cavalo de cima do corpo da sua amiga. Star jazia imóvel, a túnica rasgada, a parte de trás da cabeça esmagada, numa papa avermelhada, olhando fixamente em frente.

«Ela queria uma batalha», pensou Cassandra. «Bem, teve a sua batalha.» Curvou-se sobre a amiga e fechou-Lhe os olhos suavemente. Só então se aper­cebeu de que também ela estava gravemente ferida; tinha a face aberta, o sangue pingando da pele e da carne rasgadas.

Pentesileia aproximou-se dela e debruçou-se sobre o corpo de Star.

- Era muito nova para morrer - disse a rainha amazona docemente. - Mas bateu-se com bravura.

Isso agora não servia de grande coisa a Star, pensou Cassandra. A rainha amazona olhou-a directamente no rosto e disse:

- Mas tu também estás ferida, filha. Vem cá, deixa-me tratar-te da ferida. Cassandra disse sombriamente:

- Não tem importância; não me dói.

- Mas vai doer - disse-lhe a sua parente, e levou-a para uma das carroças onde Elaria lhe lavou com vinho a face rasgada, fazendo-lhe em seguida um penso com óleo doce.

- És agora uma verdadeira guerreira - disse Elaria, e Cassandra lembrou­-se de que lhe tinham dito o mesmo na noite em que matara o homem que a tentara violar. Mas supôs que uma verdadeira batalha a tornava, mais ainda, numa guerreira a sério. Exibia a ferida com orgulho - marca da sua primeira batalha.

Pentesileia, com a cara coberta de sangue, curvou-se para observar de perto a ferida depois de limpa e franziu a testa.

- Liga-a cuidadosamente, Elaria, ou ficará uma horrível cicatriz e isso não pode acontecer.

- Que importa? - perguntou Cassandra com cansaço. - A maioria das guerreiras Amazonas têm cicatrizes. - A própria Pentesileia escorria sangue de um golpe aberto no queixo. Cassandra tocou cuidadosamente a face com os dedos. - Quando ficar boa quase que não se dará por ela. Para quê tanto alarido?

- Pareces esquecer-te de que não és uma amazona, Cassandra.

- A minha própria mãe foi uma guerreira - protestou Cassandra. - Com­preenderá um honroso ferimento de batalha.

- Ela já não é uma guerreira - disse Pentesileia com ar severo. - Escolheu o que iria ser, há muitos anos; viveria com o teu pai, tomaria conta da sua casa, pariria os seus filhos. Por isso, se o teu pai ficar zangado (e fica-lo-á, acredita-me, se te mandarmos de volta com a tua beleza manchada), a tua mãe ficará muito infeliz, e a sua boa vontade tem muito valor para nós. Voltarás para Tróia quando viajarmos para Sul, na Primavera.

- Não! - protestou Cassandra. - Só agora começo a ser de alguma utilidade para a tribo e a deixar de ser um fardo. Porque é que hei-de voltar à vida de rato doméstico - pronunciou as palavras com desdém -, logo agora que demonstrei ter capacidade para me tornar uma guerreira?

- Pensa, Cassandra, e saberás porque tens de partir-replicou Pentesileia. - Estás a tornar-te uma guerreira, o que estaria bem e seria óptimo se fosses passar o resto da tua vida connosco. De bom grado te receberia na nossa tribo como verdadeira guerreira e minha filha enquanto vivesse. Mas não pode ser; mais cedo ou mais tarde terás de voltar à tua vida de Tróia; e se isso tem de acontecer, para teu próprio bem é melhor que seja em breve. Já tens idade suficiente para casar; de facto, é possível que o teu pai já tenha escolhido um marido para ti. Não iria mandar-te de volta mudada a ponto de seres infeliz toda a vida por teres de viver dentro dos muros da cidade.

Cassandra sabia que aquilo era verdade, mas sentia-se como se estivesse a ser punida por estar a tornar-se uma delas.

- Não fiques tão abatida, Olhos Brilhantes; não te vou mandar embora amanhã - disse a tia, encostando a rapariga contra o seu peito e afagando-lhe o cabelo. - Ficarás connosco pelo menos mais uma lua, ou talvez duas, e voltarás connosco para Cálcis. Também não esqueci a promessa que te fiz. A Deusa chamou-te para o Seu serviço; marcou-te com a Sua mão como sacerdotisa nata. De qualquer forma, nunca te poderíamos reclamar como guerreira. Antes que vás para longe de nós, trataremos de te apresentar a Ela.

Cassandra continuava a sentir que fora enganada; trabalhara longa e corajosamente para ser considerada como guerreira amazona, e fora precisamente esse esforço e bravura que Lhe haviam roubado esse objectivo tão cobiçado.

O cenário da batalha estava a ser limpo; os corpos das amazonas - para além de Star, duas outras mulheres haviam sido trespassadas por flechas e uma esmagada debaixo de um cavalo abatido - estavam a ser retirados para serem queimados. Pentesileia, com suavidade, empurrou Cassandra para baixo quando esta fez menção de se levantar.

- Descansa, estás ferida.

- Descansar? O que estão as outras guerreiras a fazer, feridas ou não? Não poderei eu desempenhar o meu papel de guerreira, pelo menos enquanto ainda estou com vocês?

Pentesileia suspirou.

- Como queiras, então. Tens o direito de ver aqueles que enviaste para o Senhor das Profundezas. - Tocou, com ternura, a face ferida da rapariga. «Deusa, Mãe das Éguas, senhora que moldas as nossas sinas», pensou ela, «porque não me enviaste tu esta, verdadeira filha do meu coração, para o meu ventre em lugar de a dares a minha irmã, que escolheu entregá-la ao domínio de um homem? Aí, ela não conhecerá a felicidade, e eu vejo apenas trevas na sua frente; trevas, e a sombra da sina de outrem.»

O seu coração sofria por Cassandra como nunca sofrera pelas suas próprias filhas; no entanto, percebeu que a filha de Hécuba teria de carregar o seu próprio destino, do qual ela não poderia aliviá-la, e a Senhora das Trevas marcara a rapariga com a Sua mão.

«Mulher nenhuma pode fugir ao seu destino», pensou, «e é nocivo tentar privar a Mãe Terra do sacrifício por ela esperado. Porém, por amor a ela, preferia mandá-la servir a Mãe ~Terra, nas profundezas, do que condená-la a servir a Senhora das Trevas aqui, em terras de mortais.»

 

Cassandra presenciou a entrega das suas companheiras às chamas sem qualquer traço visível de emoção; quando nessa noite montaram o acampa­mento, estendeu a sua manta entre Elaria e Pentesileia, por insistência destas.

A sua mente captou a decisão que havia sido tomada, sem que tivesse sido consultada. Agora que o pior do perigo já passara, pareciam ter-se subitamente lembrado de que ela era uma princesa de Tróia, e tinha de ser cuidadosamente protegida. Mas ela não era nem mais nem menos princesa do que há dois ou três dias atrás.

Sentia a falta de Star, embora não tivessem sido, supunha, verdadeiramente amigas. Porém, Cassandra sentia um horror reprimido perante a ideia de que naquela viagem, noite após noite, estendera o seu cobertor nos caminhos ao lado daquela rapariga cujo corpo jazia agora, reduzido a cinzas, depois de ter sido desfigurado e trespassado por flechas.

Um pouco menos de sorte, um adversário algo mais hábil, e o dardo que lhe rasgara a face ter-lhe-ia atravessado a garganta; seria o seu corpo que estaria naquela pira nessa noite. Sentiu-se vagamente culpada e era demasiado novata no mundo das guerreiras para saber que cada uma das mulheres deitadas à sua volta se sentia exactamente como ela: culpada e perturbada pelo facto de ser ela que estava viva e que a sua amiga morrera.

Pentesileia tinha falado de a Deusa ter pousado a Sua mão sobre ela como se isso fosse um facto como outro qualquer, e Cassandra deu por si a questionar-se se teria sido poupada porque a Deusa via nela alguma utilidade para si própria.

A ferida na sua face dava-lhe uma comichão violenta e enlouquecedora, mas quando levantou a mão para tentar aliviá-la coçando ou esfregando, uma dor aguda impediu-a de lhe tocar. Ajeitou a capa que enrolara debaixo da cabeça e tentou arranjar uma posição confortável para dormir. Que deusa a teria esco­lhido? Pentesileia dissera-lhe uma vez, casualmente, que todas as deusas eram a mesma, embora cada aldeia e tribo tivesse o seu próprio nome para Ela. Havia muitos: a Senhora da Lua, cujos ciclos e ritmos diários imprimiam a sua força em todas as fêmeas animais; a Mãe das Éguas, que Pentesileia invocava; a Virgem Caçadora, sob cuja protecção se encontravam todas as virgens e todos aqueles que atiravam com o arco - a guardiã das guerreiras; a Mãe das Trevas, do fundo da Terra, Mãe Serpente das Profundezas... mas Ela, pensou Cassandra confusa, à medida que os seus pensamentos se esbatiam no sono, tinha sido trespassada pelas flechas de Apolo...

Como acontecia frequentemente antes de adormecer, procurou no seu espírito o toque familiar dos pensamentos do seu irmão gémeo. Ali estava o sopro dos ventos da sua terra e o ar do monte Ida, impregnado do cheiro do tomilho, flutuava através dos seus sentidos; a escuridão da cabana de pastor, onde fisicamente nunca entrara, rodeava-a; perguntou-se o que teria ele pensado da batalha. Na sombra escura, ao lado dele, podia ver - ou pressentir - uma silhueta adormecida que identificou como Enone, a mulher que por tanto tempo estivera no centro das fantasias dela - das fantasias dele. Tinha-se acostumado, nos últimos meses, a esta sua curiosa divisão entre si própria e o seu irmão ­embora não mais estivesse certa de quais sensações eram suas e quais eram de Páris. Estaria ela a dormir e a sonhar? E ele?

O luar iluminou os contornos suaves e brilhantes de uma mulher parada na ombreira da porta da cabana, e Cassandra percebeu que aquela era a silhueta da Senhora; uma rainha, majestosa e reluzente. A figura brilhante moveu-se e a luz jorrou do arco de prata em flechas de luar que encheram o pequeno quarto.

A luz da Lua parecia atravessar o seu corpo - ou o dele - correndo-lhe nas veias, tecendo uma rede à sua volta, atraindo-a para a silhueta junto à porta. Tinha a impressão de estar de pé, voltada para a Senhora, e de que uma voz falava, vinda de trás do seu ombro esquerdo...

- Páris, haveis mostrado serdes um juiz justo e honesto. - Cassandra viu de novo, por instantes, o touro ao qual Páris atribuíra o prémio na feira. - Julgai pois, de entre as deusas, qual a mais bela.

- Na verdade - ela sentiu a resposta de Páris como se saísse da sua própria boca - a Senhora é muitíssimo bela sob qualquer das suas formas...

Um riso agaiatado ecoou junto do seu ombro.

- E conseguis adorá-la em todas as deusas de forma exactamente igual, sem terdes preferência por uma acima das outras? Até o Pai dos Céus vacila perante tal equilíbrio!

Algo macio e frio e muito pesado foi colocado entre as mãos de Páris, e uma luz dourada projectou-se, brilhando sobre o seu rosto.

- Tomai esta maçã e oferecei-a à deusa mais bela.

A silhueta junto à porta moveu-se ligeiramente; a lua cheia coroava-a com um halo resplandecente, e as suas vestes brilhavam como mármore polido. A rainha do Pai dos Céus ali estava, parada; Hera, altiva e majestosa, enraizada na terra mas reinando acima dela.

- Serve-me, Páris, e serás poderoso. Reinarás sobre todos os territórios conhecidos, e a riqueza do mundo será tua.

Cassandra sentiu Páris curvar a cabeça.

- És na verdade bela, Senhora, rainha Todo-Poderosa. - Mas a maçã continuava pesadamente pousada na sua mão.

Ela ergueu cautelosamente os olhos, receando a ira da Deusa, mas a Lua parecia agora brilhar através de uma neblina dourada, cintilando no elmo e no escudo que a Deusa ostentava. A luz dourada irradiava também Dela, e mesmo a coruja pousada no seu ombro direito brilhava com gloriosos reflexos.

- Terás muita sabedoria, Páris - disse Atena. - Sabes já que não podes dominar o mundo sem que primeiro te domines a ti próprio. Dar-te-ei o conheci­mento de ti mesmo e sobre ele construirei todo o restante conhecimento. Possui­rás sabedoria para viver bem e alcançar a vitória em todas as batalhas.

- Agradeço-te, Senhora, mas eu sou um pastor, não um guerreiro. E não há guerra nestas paragens; quem ousaria desafiar o império do rei Príamo? Cassandra pensou ter visto um esgar de desdém no rosto da Senhora, mas

depois Ela moveu-se, aproximando-se tanto que Cassandra teve a sensação de que se estendesse a mão A poderia tocar. O elmo e o escudo tinham, desapare­cido, bem como as suas vestes claras, e a luz irradiava do Seu corpo perfeito. Páris levantou as mãos, apertando ainda a maçã, para proteger os olhos.

- Esplendorosa Senhora - murmurou ele.

- Há outras batalhas que um pastor pode ganhar facilmente; e será que pode haver vitória sem amor e uma dama com quem a partilhar? Sois belo, Páris, e muito agradável aos sentidos. - A Sua respiração afagou-lhe a face e ele sentiu-se tonto, como se a montanha inteira rodopiasse à sua volta. O ar em torno de si estava quente; ele brilhava, reluzente, banhado pelo fulgor dourado da Senhora. A voz Dela continuou, suave e sedutora, puxando-o para Si. - Sois um homem que qualquer mulher desposaria com orgulho; mesmo uma mulher como Helena de Esparta, a mais bela mulher do Mundo.

- Certamente que nenhuma mortal se pode comparar contigo, Senhora. ­Páris olhou Afrodite nos olhos e Cassandra teve a estranha sensação de que ela e ele se afundavam juntos, arrastados pela enxurrada de luz que brotava dos olhos da rainha do Amor.

- Mas Helena não é inteiramente mortal; ela é filha de Zeus, e a sua mãe era suficientemente bela para o tentar. Ela é quase tão bela como eu e é também dona de Esparta. Todos os homens a desejam; todos os reis entre os Argivos pediram a sua mão. Ela escolheu Menelau, mas asseguro-te que bastaria olhar-te uma só vez para esquecer essa escolha. Porque tu és belo, e a beleza atrai o que é belo.

Cassandra pensou em Enone, dormindo encantada ao lado de Páris. «Que quererá ele de uma mulher bela? Já tem uma» - mas Páris parecia ignorar a sua presença. A maçã parecia leve como uma pena na sua mão quando a entregou à deusa Afrodite, e o brilho dourado ganhou intensidade, como se fosse con­sumi-lo...

A luz do Sol brilhava nos seus olhos, entrando pela porta da tenda que Elaria acabara de abrir.

- Como te sentes esta manhã, Olhos Brilhantes?

Cassandra esticou-se com cuidado, franzindo os olhos sob a luz - simples luz do Sol, afinal, e não as flechas brilhantes de luar da Deusa. Teria sido uma visão ou apenas um sonho? E teria sido ela a sonhá-lo ou o seu irmão? Três deusas - mas nenhuma delas era a Virgem Caçadora. Porquê?

«Talvez Páris não se interesse por virgens», pensou ela irreverentemente. Mas também não houvera sinal algum da Mãe Terra - ou seria que a Mãe Terra e Hera eram a mesma? Não, pois a Mãe Terra é Deusa por direito próprio; não é mulher de ninguém nem mesmo de um deus, e aquelas deusas eram todas definidas como esposas ou filhas do Pai dos Céus. Seriam aquelas, então, as mesmas que as deusas de Tróia?

Não, não podiam ser; porque aceitaria uma deusa ser julgada por qualquer homem - ou mesmo por qualquer deus?

«Nenhuma destas deusas é a Deusa tal como A conheço -a Virgem, a Mãe Terra, a Mãe Serpente - nem mesmo a Mãe das Éguas de Pentesileia. Talvez que nas terras onde reinam os deuses dos Céus só possam ser vistas aquelas deusas que são entendidas enquanto servidoras do Deus?» Isto deixou-a mais confusa que nunca.

«Não pode ter sido um sonho meu, pois se eu tivesse sonhado com deusas teria sonhado com aquelas que venero e honro. Já ouvi falar destas deusas; a mãe falou-me de Atena e das suas dádivas da azeitona e da vinha; mas não são as minhas deusas, nem as das Amazonas.

- Cassandra? Ainda estás a dormir? - perguntou Elaria. - Temos de regressar a Cálcis e Pentesileia tem estado a perguntar por ti.

- Vou já - disse Cassandra, enfiando os calções. À medida que se mexia, a tensão provocada pelo sonho - ou visão - parecia desvanecer-se, de modo que no seu espírito restava apenas a curiosa memória das deusas

estrangeiras. «A visão é do meu irmão, não minha.»

- Diz à minha tia que eu vou já - disse Cassandra. - Deixa-me só escovar o cabelo.

- Deixa-me ajudar-te - disse Elaria, e ajoelhou-se ao lado dela. - Dói-te a cabeça? A ligadura caiu-te da cara. Ah, bom; não há sinal de cicatriz; está a sarar sem marcas. A Deusa foi benevolente para contigo.

Cassandra perguntou, de si para si, «Qual Deusa?», mas não fez a per­gunta em voz alta. Em poucos minutos estava sobre a sela, e quando se vol­taram em direcção de Cálcis para a longa cavalgada, Cassandra viu diante de si, sob o Sol brilhante, os rostos e as formas de todas as deusas do Mundo. «Mas o que quereriam estas deusas dos Aqueus do meu irmão ou de mim? Ou de Tróia?»

 

Cavalgando ao seu ritmo próprio e não mais presas ao lento arrastar das trôpegas carroças carregadas de estanho, Cassandra e as outras que regressavam a Cálcis, deixaram para trás a caravana na sua viagem para as longínquas terras dos Hititas. O rosto de Cassandra estava dorido, e o sacolejar do cavalo fazia-a sentir-se ainda pior. Perguntava-se qual a sorte do resto das guerreiras na sua viagem, e quase desejou poder seguir com elas para essa terra desconhecida, nem que fosse só para estar a seu lado na batalha ou na morte. «Mas», pensou, não devo queixar-me; já viajei para mais longe de casa do que qualquer outra mulher de Tróia algum dia viajou, mais longe que qualquer dos meus irmãos, ou mesmo que o próprio Príamo.

Pentesileia não parecia preocupada com possíveis ataques enquanto percorriam, agora em sentido inverso, o caminho para a cidade; talvez as Amazonas, sem o metal que escoltavam, não justificassem um ataque. E quem, pensou Cassandra, escoltaria a caravana seguinte quando tantas Amazonas se encontra­vam a proteger aquela? Mas sabia que isso não era da sua conta.

Agora que pensava nisso, estava ansiosa por ver mais da cidade de Cálcis; o oráculo de Pentesileia tinha-lhe ordenado que ficasse durante algum tempo. Tudo o que ela poderia esperar depois disto era o regresso a Tróia. Percebia agora o que a sua parente quisera dizer ao afirmar que ela deveria regressar antes de ficar completamente incapaz de levar a vida normal de uma mulher de Tróia. Mas, pensou Cassandra, é já tarde de mais para isso. «Enlouquecerei, presa dentro das paredes de uma casa para o resto da minha vida.»

Então recordou a visão que tivera das deusas e do seu irmão. Com esse dom, ela teria sempre uma forma de ultrapassar as suas limitações imediatas, e era portanto mais afortunada que muitas outras mulheres.

Mas conseguiria isso substituir a verdadeira mudança? Ou seria apenas uma ironia, a sua mente poder escapar-se à prisão das paredes quando o seu corpo não podia fazê-lo?

Sentiu que gostaria de ter uma longa conversa sobre isto com a sua mãe, que vivera os dois tipos de vida e poderia compreendê-la. Mas estaria a sua mãe disposta a falar abertamente sobre isso, tendo ela própria feito uma escolha irrevogável? O que ganhara a sua mãe em troca de tudo quanto abdicara? Faria ela hoje a mesma escolha?

No entanto, Cassandra sabia que nunca lhe seria dada essa oportunidade. Para Hécuba era importante ser olhada como poderosa, e para tal nunca admiti­ria perante Cassandra - ou quem quer que fosse -ter feito uma escolha que não fosse absolutamente perfeita.

Com quem mais poderia falar? Existiria alguém a quem co~ar a sua confusão e angústia? Não conseguia lembrar-se de ninguém. Não era provável que Pentesileia estivesse disposta a uma discussão como aquela; Cassandra tinha a certeza de que a sua parente a amava, mas ela via em Cassandra uma criança e não uma igual com quem pudesse falar à vontade.

Embora viajassem à 'maior velocidade permitida pelos cavalos, a viagem para Cálcis parecia interminável. Apesar de ao fim do primeiro dia terem começado a avistar as altas muralhas da cidade dos portões do ferro, ainda havia um longo caminho a percorrer: dias e dias sobre a sela desde o romper da aurora, apenas com uma pausa a meio do dia para os habituais queijo ou coalho de leite. Pelo menos era melhor que a fome nas pastagens do sul. Punha-se já o Sol do terceiro ou quarto dia, quando finalmente as cavaleiras exaustas passaram sob os enormes portões e torres. Soltaram vivas a que Cassandra se juntou, mas abrir a boca para gritar fazia-lhe doer o corte ainda ligado que tinha no rosto. Estava a ficar frio e ameaçava chover.

Já dentro da protecção dos muros, uma mensageira do palácio aproximou­-se e falou com Pentesileia, depois do que esta fez sinal a Cassandra.

- Tu e eu somos chamadas ao palácio, Cassandra; as restantes que se juntem às outras no acampamento.

Cassandra perguntou-se o que quereria delas a rainha.

Trotaram devagar pelas ruas empedradas, entregaram os cavalos às por­tas do palácio e foram conduzidas pelas mulheres da rainha Imandra até à sua majestosa presença.

Ela esperava-as na mesma sala onde as acolhera anteriormente. Uma rapariga jovem com cachos de caracóis escuros apanhados junto à base do pescoço encontrava-se a seu lado, recostada sobre um tapete.

- Fizeram um bom trabalho - disse Imandra, acenando-lhes para que se aproximassem; segurando a mão de Pentesileia; fez deslizar para dentro dela uma pulseira formada por folhas esculpidas em ouro e ligadas por pedaços de pedra verde. Cassandra nunca vira nada tão belo. - Não vou demorar-vos - disse a rainha. - Devem estar ansiosas por tomar um banho e jantar depois da vossa longa jornada. No entanto, queria falar um pouco convosco.

- O prazer é nosso, prima - disse Pentesileia.

- Andrómaca - disse a rainha Imandra, voltando-se para a rapariga no tapete a seu lado -, esta é a tua prima Cassandra, a filha de Hécuba de Tróia. É irmã de Heitor, o teu prometido esposo.

A rapariga dos cabelos escuros sentou-se, lançando os seus longos caracóis para um lado.

- És irmã de Heitor? - perguntou ela avidamente. - Fala-me dele. Como é que ele é?

- É um mandão - disse Cassandra prontamente. - Tens de ser muito firme com ele ou ele tratar-te-á como um capacho e passar-te-á por cima, e tu não serás mais que uma coisinha tímida, dizendo-Lhe eternamente que sim a tudo, como a minha mãe faz com o meu pai.

- Mas isso é próprio entre marido e mulher - disse Andrómaca. - Como querias tu que um homem se comportasse?

- É inútil falar com ela, Cassandra - disse a rainha Imandra. - Ela devia ter nascido de uma das vossas mulheres que habitam as cidades. Eu tinha-a destinado a ser uma guerreira, como podes ver pelo nome que lhe dei.

- Não vale a pena dizer isso a Cassandra -disse Pentesileia -, ela não fala nenhuma língua senão á sua.

- É horrível - disse Andrómaca. - O meu nome significa «Aquela que luta como um homem»; e quem é que quereria tal coisa?

- Eu quero - disse Pentesileia - e luto.

- Não quero ser incorrecta contigo, parente - disse Andrómaca -, mas não gosto absolutamente nada de lutar. A minha mãe não me perdoa eu não ter nascido uma guerreira nata como ela, para lhe oferecer todo o tipo de feitos guerreiros.

- A desgraçada da rapariga - disse Imandra - não quer nada com armas. É preguiçosa e acriançada; só o que quer é ficar dentro de casa e vestir roupas bonitas. E já tem a cabeça cheia de homens. Quando eu era da idade dela mal sabia que havia homens no mundo à excepção do meu mestre de armas, e mesmo desse só queria que ele tivesse orgulho em mim. Cometi o erro de a deixar ser educada em casa pelas mulheres; devia tê-la entregue a ti, Pentesileia, mal ela teve idade para montar um cavalo. Que rainha é esta para Cálcis? Não presta para nada senão para se casar; e isso para que serve?

- Oh, mãe! - disse Andrómaca zangada. - Tens de aceitar que eu não sou como tu. Quem te ouvir, pensará que não há nada na vida a não ser guerras e armas e o governo da tua cidade, e fora isso, para lá das fronteiras do teu mundo, comércio e navios.

Imandra sorriu e disse:

- Nunca encontrei nada melhor. Tu encontraste?

- Então e o amor? - perguntou Andrómaca. - Tenho ouvido as con­versas das mulheres; verdadeiras mulheres e não mulheres que fingem ser guer­reiras...

Imandra cortou-lhe a palavra, debruçando-se sobre ela e dando-lhe uma bofetada na cara.

- Como te atreves a dizer «fingem» ser guerreiras? Eu sou uma guerreira e não sou menos mulher por isso!

O sorriso de Andrómaca era malicioso apesar de ter levado a mão à face avermelhada.

- Os homens dizem que as mulheres que se dedicam às armas fingem ser guerreiras porque não são capazes de tecer e fazer tapeçarias e gerar crianças... - Eu não te encontrei debaixo de"uma oliveira - interrompeu Imandra. - E onde está o meu pai para o confirmar? - perguntou a rapariga descaradamente.

Imandra sorriu.

- E que diz a nossa convidada? Cassandra, tu que já viveste das duas maneiras...

- Pelas vestes da Deusa - disse Cassandra -, prefiro ser guerreira a esposa.

- Isto a mim parece-me uma tolice - disse Andrómaca -, pois não trouxe felicidade à minha mãe.

- Porém, eu não trocava a minha vida pela de mulher nenhuma desta costa, casada ou não casada - disse Imandra -, e não sei o que queres dizer com felicidade. Quem te meteu essas ideias sentimentais na cabeça?

Pentesileia, falando pela primeira vez, disse:

- Deixa-a em paz, Imandra; visto já teres decidido que ela vai casar, é bom que ela se sinta satisfeita com essa situação. Uma rapariga desta idade não sabe o que quer, nem porquê; isso é assim tanto entre as nossas raparigas como entre as tuas.

Cassandra baixou o olhar para a rapariga de pele macia e rosto rosado, junto de si.

- Acho-te bastante perfeita tal como és; não consigo imaginar-te de outra maneira.

Andrómaca ergueu a mão na direcção da face ligada de Cassandra. - Que te aconteceu, prima?

- Nada que valha a pena mencionar - disse Cassandra. - Não passa de um arranhão. - E de facto, sob os olhos meigos de Andrómaca, ela sentia que aquilo era realmente insignificante, um acidente trivial que teria vergonha de mencionar.

Imandra inclinou-se para a frente, e quando o fez, Cassandra viu a pequena cabeça quadrangular deslizar para fora do seu corpete. Esticou a mão.

- Posso? - perguntou, em tom suplicante, e a cobra deslizou para a frente para se enrolar no seu pulso. Imandra guiou a cobra até à mão de Cassandra. - Será que ela te vai reconhecer?

Andrómaca olhou de sobrolho franzido.

- Bem! Como consegues tocar nessas coisas? Tenho-lhes um asco tão grande.

Cassandra chegou a cobra ao rosto numa carícia.

- Mas isso é uma tolice - disse ela. - Ela não morde, e se mordesse, não me fazia grande mal.

- Não tem nada a ver com o medo de ser mordida - disse Andrómaca. - Não está certo, não é normal não ter medo de cobras. Mesmo um macaco que tenha passado toda a sua vida numa jáula, e nunca tenha visto uma cobra viva, desata aos guinchos e a tremer mal se lhe atira um pedaço de corda para dentro da jaula, pensando tratar-se de uma cobra. E eu acho que os homens, por natureza, também devem ter medo de cobras.

- Bom, então talvez eu não seja normal - disse Cassandra com brus­quidão. Chegou a cabeça junto da cobra, falando-lhe em murmúrios. Imandra disse suavemente:

- Não é para qualquer pessoa, Cassandra. É só para aqueles que, como tu, nascem ligados aos deuses.

- Não percebo - disse Cassandra, sentindo-se amuada e apetecendo-lhe contrariar tudo quanto lhe diziam. Fazendo festas à cobra, disse: - Uma noite destas sonhei (ou talvez tivesse sido qualquer espécie de visão) com as deusas. Mas a Mãe Serpente não era uma delas.

- Sonhaste? Conta-me como foi -disse Imandra, mas Cassandrahesitou. Em parte, sentia que o facto de contar o sonho poderia diluir a sua magia; aquilo tinha-lhe sido enviado como um segredo sagrado e não se destinava a mais ninguém. Lançou um olhar implorante a Pentesileia, pois também não queria ofender a rainha que tinha sido tão boa para elas.

- Aconselho-te a que lho contes, Cassandra - disse a rainha amazona. - Ela própria é uma sacerdotisa da Mãe Terra e talvez te possa dizer qual o seu significado para o teu destino.

Assim encorajada, Cassandra começou o seu relato, detalhando cada momento da sua visão e terminando a falar da sua confusão pelo facto de nem a Virgem, nem a Mãe Terra, nem a Mãe Serpente, terem aparecido entre as deusas.

Imandra ouviu atentamente mesmo quando Cassandra, momentaneamente dominada pela memória, deixou a voz reduzir-se a um murmúrio.

Quando ela terminou, Imandra perguntou-lhe calmamente: - Foi este o teu primeiro encontro com um dos Imortais?

- Não, senhora; vi a Mãe Deusa de Tróia falar pela boca da minha mãe, embora eu devesse ser muito pequena, na altura. E uma vez - engoliu, baixando a cabeça e tentando controlar a voz, sabendo que se não o fizesse rebentaria em pranto sem saber porquê -, uma vez... no Seu próprio templo... Apolo, Senhor do Sol, falou-me claramente.

Sentiu os dedos meigos de Imandra pousarem nos seus cabelos.

- É, de facto, como eu pensei quando falei contigo pela primeira vez; foste chamada para sacerdotisa. Sabes o que isso significa?

Cassandra abanou a cabeça e tentou adivinhar.

- Que tenho de viver no templo e cuidar dos oráculos e ritos?

- Não, não é assim tão simples, filha - disse-lhe Imandra. - Significa que de hoje mesmo em diante deves ficar entre os homens e os Imortais, para explicar uns aos outros... Não é uma vida que eu escolhesse para a minha própria filha. - Mas porque fui eu escolhida?

- Só Aqueles que te chamaram - sabem a resposta, pequenina - disse Imandra, e a sua voz era muito meiga. - Eles pousam a Sua mão sobre alguns de nós de uma forma inconfundível. Eles não nos explicam as Suas acções. Mas se tentarmos escapar à Sua vontade, Eles têm formas de nos forçar a servi-Los, nunca o esqueças... Ninguém procura ser escolhido; são os deuses que nos escolhem, não nós que procuramos pôr-nos ao Seu serviço.

«E no entanto», pensou Cassandra, «acho que eu teria buscado este serviço. Pelo menos não parto para ele contra vontade.» A cobra parecia ter adormecido num enorme emaranhado no seu braço; Imandra inclinou-se para a frente e agarrou-a ainda a dormir, deixando-a deslizar, como se derretesse, pela frente do seu vestido.

- Quando brilhar a próxima lua cheia, irás procurá-La - disse ela. E Cas­sandra sentiu um augúrio na forma como ela falou.

 

- Sei tão pouco do que é ser sacerdotisa - disse Cassandra. - Que tenho de fazer?

- Se a Deusa te chamou, Ela indicar-to-á - disse Pentesileia -; e se não chamou, pouco importa o que fazes ou não fazes; será exactamente o mesmo. - Passou a mão pela cabeça de Cassandra e disse: - Tens de arranjar uma cobra e um pote para a guardares.

- Preferia guardá-la dentro do vestido, como faz a rainha.

- Isso está tudo muito bem - disse Pentesileia -, mas qualquer animal tem de ter um lugar que seja só seu, onde se possa refugiar.

Cassandra entendia aquilo muito bem. E assim foi ao mercado com a sua parente procurar um pote para a cobra; amanhã, disse para consigo, iria ao campo em busca de uma cobra para si. Não lhe parecia apropriado comprar uma no mercado em troca de dinheiro, embora supusesse que podia falar com as pessoas que criavam cobras para o templo. Talvez Imandra se convencesse a dizer-lhe o que ela devia saber.

Correu os vendedores de potes do mercado e encontrou finalmente um recipiente pintado de um azul-esverdeado e decorado com criaturas marinhas; num dos lados via-se uma sacerdotisa oferecendo uma serpente a uma deusa que não Lhe era familiar. Pareceu a Cassandra que aquele era o pote ideal para guardar a sua cobra, e comprou-o imediatamente com o dinheiro que Pen­tesileia lhe tinha dado. Havia muitos potes decorados exactamente como aquele, e Cassandra perguntou-se se seriam todos utilizados para o mesmo fim.

Naquela noite, enquanto o Sol se punha, ela e Andrómaca ficaram no telhado do palácio, olhando para a escuridão da cidade enquanto, uma a uma, as luzes se acendiam lá em baixo.

- Não podes apresentar-te à Deusa com esses calções de couro à ama­zona - disse Andrómaca. - Eu empresto-te uma túnica.

Cassandra fez uma careta.

- A Deusa é alguma tola? Eu sou o que sou; achas que A iludo pelo facto de mudar de vestimenta?

- Tens razão, claro - disse Andrómaca, apaziguadora -, isso não teria qualquer importância para a Deusa. Mas outros devotos podem ver e ficar escandalizados, não compreender.

- Isso é outra questão - concordou Cassandra -, e eu percebo o que queres dizer; vestirei uma túnica, se quiseres fazer o favor de me emprestar uma.

- Com certeza, minha irmã - disse Andrómaca, e depois hesitou, dizendo quase defensivamente: - Serás minha irmã, se eu casar com o teu irmão, e, quando eu for para Tróia, terei uma amiga na vossa estranha cidade.

- Claro - Cassandra passou o braço em volta da rapariga mais nova e assim ficaram, juntas, na escuridão. - Mas Tróia não é mais estranha que a tua cidade.

- Para mim é mais estranha, em todo o caso - disse a rapariguinha. - Estou acostumada a uma cidade onde é uma rainha quem governa. É ver­dade que a tua mãe, Hécuba, não governa a cidade?

Cassandra soltou uma curta gargalhada, quando pensou em Hécuba dando ordens ao seu severo pai.

- Não, não governa. E a tua mãe, ela não tem nenhum marido?

- Que faria ela com um marido? Por duas ou três vezes, desde que o meu pai morreu, ela tomou um consorte por uma estação e mandou-o embora quando se cansou dele. É isto que uma rainha deve fazer quando sente desejo de um homem; pelo menos na nossa cidade.

- Apesar disso tu desejas casar com o meu irmão e sujeitar-te a ele tal como as nossas mulheres se sujeitam aos seus homens?

- Acho que vou gostar disso - disse Andrómaca com uma risadinha, e em seguida gritou: - Oh! Olha!

Um traço de luz brilhante rasgou o céu e desapareceu. Logo a seguir surgiu outro, e outro, tão brilhantes que, por momentos, parecia que a própria terra rodopiava e, simultaneamente, o céu se movia. Estrelas e mais estrelas, uma após outra, pareciam soltar as suas amarras e cair, ante o olhar das duas raparigas. Cassandra murmurou: - «...que aí permaneçam até que caiam as estrelas da Primavera».

Na escuridão, uma sombra destacou-se, desdobrou-se em duas e a rainha Imandra e Pentesileia surgiram no telhado.

- Ah, pensei que eram capazes de estar aqui, meninas. É como Ela nos disse - lembrou Pentesileia, erguendo o olhar para o firmamento bruxuleante, onde uma estrela após outra parecia desprender-se do céu e tombar, tremeluzente; uma chuva de estrelas cadentes.

- Mas como é possível as estrelas caírem? Irão todas cair do céu? - per­guntou Andrómaca. - E o que acontecerá quando todas tiverem desaparecido?

Pentesileia disfarçou o riso e disse:

- Não tenhas medo, criança. Tenho assistido a chuvas de estrelas todos os anos, e há muitos anos; ainda ficam sempre imensas no céu.

- Além disso - acrescentou Imandra -, não vejo em que é que nos afectaria aqui na terra, se elas caíssem todas; excepto o facto de eu ficar com pena de não ter a sua luz.

- Uma vez - disse Pentesileia -, quando eu era muito nova, estava com a minha mãe e a sua tribo; cavalgávamos numas planícies muito para norte daqui, entre as montanhas de ferro, e uma estrela caiu próximo de nós, com grande estrépido e soltando sons e luzes incandescentes. Procurámos toda a noite, rodeadas pelo cheiro do ar queimado e; por fim, encontrámos uma enorme pedra negra, ainda vermelha e em brasa; é por isso que muitos crêem que as estrelas são fogo liquefeito que se transforma em rocha quando arrefece. A minha mãe deixou-me esta espada, que eu vi forjar com metal de céu.

- O ferro do céu é melhor que o ferro tirado da terra - confirmou Iman­dra -, talvez por não estar debaixo da maldição da Mãe; não foi arrancado à terra, é uma dádiva dos deuses.

- Quem me dera encontrar uma estrela caída - murmurou Andróma­ca -, são tão bonitas.

Estava ainda rodeada pelo braço de Cassandra, e havia um desejo tão grande na sua voz que Cassandra murmurou:

- Quem me dera encontrar uma e oferecer-ta como um presente digno de ti, irmãzinha.

Pentesileia disse:

- Somos livres de voltar para as nossas planícies e pastagens; não sabemos ainda por que razão a Deusa nos mandou para aqui.

- Fosse qual fosse a razão - disse Imandra -, foi uma sorte para mim; talvez a Deusa soubesse que eu precisava de vocês aqui. Quando partirem para sul, levarão convosco as minhas ofertas. E se algumas das tuas mulheres quiserem ficar e instruir as mulheres da minha escolta, serão bem pagas. - Olhou para cima, onde as estrelas continuavam a tombar e a bailar pelos céus, e murmurou: - Talvez a Deusa as tenha enviado como presságio para a tua viagem até Ela, Cassandra. Não houve nenhum sinal como este para mim, quando busquei os Seus longínquos domínios para oferecer os meus serviços - acrescentou ela, com uma ponta de inveja.

- Aonde tenho de ir? - perguntou Cassandra. - E tenho de viajar sozinha?

Imandra afagou-lhe levemente a mão, no escuro. Disse:

- Esta é uma viagem do espírito, prima; não precisas de dar um passo que seja. E embora vás ter muitas companheiras, cada candidata viaja sozinha, pois a alma está sempre só perante os deuses.

Os olhos de Cassandra estavam ofuscados pelas estrelas cadentes, e, no estranho ambiente daquela noite, as palavras de Imandra pareciam ter um significado profundo, mais forte do que o contido nas próprias palavras.

- Conta-me mais coisas acerca do metal do céu - disse Andrómaca. - Não deveríamos procurá-lo, já que está a cair à nossa volta? Assim não precisaríamos de o extrair, nem mandar navios a buscá-lo às terras do Norte.

- Os astrólogos da minha corte - disse Imandra - previram esta chuva de estrelas e estarão de vigia, com cavalos velozes para, no caso de uma estrela cair por perto, partirem à sua procura. Seria um sacrilégio deixar perder assim uma dádiva dos deuses ou permitir que caísse nas mãos de alguém que não a tratasse com a reverência devida.

A Cassandra parecia terem caído centenas de estrelas; mas, olhando para o escuro firmamento salpicado de luzes por cima de si, viu tantas estrelas como de costume. Talvez, pensou ela, cresçam novas estrelas quando outras caem. O espectáculo começava a parecer quase vulgar e ela, suspirando, desviou os olhos do céu.

- Devias ir para a cama - disse Pentesileia -, pois amanhã serás levada com as outras que irão procurar a Deusa aos Seus domínios. E come bem antes de dormir, porque amanhã ser-te-á exigido que jejues todo o dia.

- Esta noite ela dorme no meu quarto - disse Andrómaca -, porque eu prometi emprestar-lhe uma túnica para amanhã, mãe.

- Foi uma ideia simpática para com a tua prima - disse Imandra. - Vão então para a cama, meninas, e não fiquem acordadas até muito tarde em conversas e risotas.

- Prometo - disse Andrómaca, e arrastou Cassandra para as escadas que desciam até ao interior do palácio. Levou Cassandra para os seus aposentos e chamou uma das criadas para que lhes desse banho e trouxesse pão, frutos e vinho. Depois de terem tomado banho e comido, Andrómaca debruçou-se no peitoril da janela

- Olha, prima, as estrelas continuam a cair.

- Sem dúvida que irão cair toda a noite - disse Cassandra. - A menos que uma entre pela janela do nosso quarto, não vejo que isso nos faça alguma diferença.

- Pois é, suponho que não - disse Andrómaca. - Se uma caísse aqui, Cassandra, podias ficar com ela para fazer uma espada como a de Pentesileia; não tenho o mínimo desejo de ter uma arma.

- Penso que também não tenho necessidade delas, já que parece que não irei ser guerreira mas sim sacerdotisa - disse Cassandra, suspirando.

- Preferias ser guerreira toda a tua vida, Cassandra? Mas Cassandra cerrou os dentes e disse:

- Creio que o que eu prefiro nunca terá importância; o meu destino está traçado e ninguém pode lutar contra a sina, quaisquer que sejam as armas que use.

Quando ambas as raparigas se encontravam deitadas lado a lado na cama de Andrómaca, e até mesmo a luz intermitente das estrelas cadentes se esbatera com o aproximar da manhã, Cassandra pressentiu, no meio do seu sono irrequieto, que estava alguém parado à porta; soergueu-se para sussurraruma pergunta, mas estava ainda envolta pelo sono e percebeu que não tinha emitido qualquer som. No seu torpor percebeu ser Pentesileia quem deslizava silenciosamente pelo quarto, parando a olhá-las um grande bocado à luz do luar, curvando-se depois para tocar por instantes o seu cabelo, como que numa bênção. Em seguida, embora Cassandra não a tivesse visto sair do quarto, partira e ficara apenas o luar.

 

A madrugada mal começava a clarear no céu quando, sem ser anunciada, uma mulher entrou no quarto e afastou os cortinados. Andrómaca enterrou a cabeça sob os cobertores, protegendo-se da luz, mas Cassandra sentou-se na cama e olhou para ela. Era uma mulher de Cálcis, morena e de compleição robusta, com o porte autoconfiante das mulheres guerreiras de Pentesileia; vestia uma longa túnica de linho branqueado, de um branco puro e sem adornos. No seu pulso enrolava-se uma pequena serpente verde e Cassandra percebeu que ela era uma sacerdotisa.

- Quem és tu? - perguntou Cassandra.

- O meu nome é Evadne, e sou a sacerdotisa enviada para te preparar -disse ela. - És tu ou a tua companheira quem se vai encontrar com a Deusa hoje? Ou serão as duas?

Andrómaca destapou um olho e disse:

- Eu fui iniciada no ano passado; é só a minha prima. - Fechou os olhos e pareceu adormecer de novo. Evadne dirigiu a Cassandra um sorriso divertido, ficando depois, de novo, muito séria.

- Diz-me - disse ela -, todas as mulheres devem serviço aos Imortais, e todos os homens também; tens intenção de Os servir quando Eles to pedirem ou pretendes dedicar a tua vida ao Seu serviço?

- Estou disposta a dedicar a minha vida a esse serviço - disse Cassan­dra -, mas não sei o que Eles me pedem.

Evadne estendeu-lhe a túnica que Andrómaca pousara em cima de um banco.

- Vamos para o outro quarto, para não incomodar a princesa - disse ela. Quando se encontravam no quarto exterior disse: - Diz-me então, porque desejas tornar-te sacerdotisa?

Cassandra contou de novo a história do que lhe sucedera na casa do Senhor do Sol, falando pela primeira vez sem a mínima hesitação; esta mulher conhecia os Imortais, e se existia alguém capaz de compreender, era ela. Evadne ouviu sem comentar, esboçando um sorriso no final.

- O Senhor do Sol é um amo ciumento - disse por fim - e parece-me que Ele te chamou. De qualquer modo, todas as mulheres pertencem à Mãe e eu não te posso negar o direito de te encontrares com Ela.

- A minha mãe - disse Cassandra - contou-me que a Mãe Serpente e o Senhor do Sol eram velhos inimigos. Diz-me, senhora -a expressão de respeito veio-lhe naturalmente aos lábios -, ela disse que Apolo, Senhor do Sol, lutou com a Mãe Serpente e A matou; é verdade? Estarei a ser, então, desleal ao Senhor do Sol se servir a Mãe?

- Ela, a Mãe de Tudo, nunca nasceu; portanto não pode ser morta - disse Evadne com um gesto de reverência. - Quanto ao Senhor do Sol, os Imortais compreendem-Se uns aos outros, e Eles não vêem estas coisas da mesma forma que nós. A Mãe Terra, segundo dizem, teve a princípio o Seu santuário no local onde Apolo construiu o Seu oráculo; e dizem que, enquanto o santuário estava em construção, uma enorme serpente ou um dragão surgiu do próprio umbigo da terra, e o Senhor Sol (ou talvez o Seu sacerdote, não interessa) matou o animal com as Suas setas. E assim, penso eu, alguns ignorantes fizeram constar que Ele tivera uma disputa com a Mãe Serpente; mas o Senhor do Sol, como todas as criaturas, é Seu filho.

- Então, embora tenha sido o Senhor do Sol que me chamou, posso res­ponder ao chamamento da Mãe?

- Todas as criaturas Lhe devem serviço - disse a sacerdotisa, repetindo o seu gesto de reverência - e mais do que isto não posso dizer às não iniciadas. Agora, penso que devias lavar-te e aprontar-te para te juntares às outras que irão fazer contigo esta viagem. Mais tarde, se quiseres, posso contar-te algumas histórias da Deusa tal como Ela é aqui adorada.

Cassandra apressou-se a obedecer, compondo cuidadosamente a túnica que enfiara à pressa. A túnica de Andrómaca era demasiado comprida para ela, e caía-lhe solta até aos tornozelos; entalou-a no cinto por forma a poder caminhar sem dificuldade. Depois penteou o cabelo escuro e deixou-o solto, tal como Lhe havia sido dito ser próprio das virgens naquela cidade, apesar de a incomodar senti-lo à solta e esvoaçando ao vento em vez de cuidadosamente entrançado.

Ouvir, vindos da rua, os sons dos festejos; as mulheres saíam das casas e corriam de um lado para o outro com pernadas de verdura e ramos de flores. Evadne veio e conduziu-a à sala do trono, onde uma quantidade de raparigas, aproximadamente da sua idade, estavam reunidas; nesse dia o trono estava vazio, coberto com o pano de ouro tecido, sobre o qual se enrolava a grande serpente de Imandra.

- Olha - murmurou uma das raparigas. - Dizem que a rainha também é uma sacerdotisa que consegue transformar-se numa cobra.

- Que disparate - disse Cassandra. - A rainha está noutro sítio qualquer e deixou a serpente dela no trono como símbolo do seu poder.

Pentesileia encontrava-se entre as mulheres que aguardavam. Cassandra deslizou para junto da sua parente e a rainha amazona pegou-lhe na mão e apertou-a; embora Cassandra não estivesse propriamente amedrontada, sentiu-se satisfeita pela confiança transmitida por aquele contacto. Imandra estava também entre elas, mas a princípio Cassandra não a reconhecera, pois a rainha envergava um vulgar vestido de sacerdotisa. Isto pareceu razoável a Cassandra ­era também costume em Tróia que a rainha fosse a representante legal da Grande Deusa.

Ficou surpreendida por Andrómaca não se encontrar entre elas; se a sua prima havia sido iniciada no ano anterior, porque não se juntava às outras sacerdotisas? Porém, parecia que Andrómaca não se interessava especialmente pela religião; seria esta, perguntou-se, outra das razões por que Imandra hesitava em ter a sua filha a sucedê-la como rainha? Até àquele momento, desconhecera ser esse o pensamento de Imandra; mas estava a ficar acostumada a saber ouvir o que não era dito e a ver o invisível.

Imandra, com um gesto, silenciou a tagarelice das raparigas; as mulhe­res que eram já sacerdotisas iniciadas reuniram-se à sua volta. Cassandra apercebeu-se de que era a mais velha das candidatas; provavelmente era costume naquela cidade iniciar mulheres um pouco mais jovens. Interrogou­-se sobre se todas aquelas raparigas iriam dedicar as suas vidas à Deusa ou apenas «oferecer o seu serviço quando tal lhes fosse pedido», segundo as alternativas sugeridas por Evadne. Fosse como fosse; esta era uma iniciação preliminar e, segundo parecia, seguramente considerada como um primeiro passo no serviço dos Imortais.

As mulheres mais velhas juntaram as raparigas não iniciadas num círculo interior, com Imandra no centro. Por trás delas Cassandra ouviu, vindo de algures, a batida de um tambor, um som brando e incessante como o pulsar de um coração.

- Nesta altura do ano - recitou Imandra - celebramos o regresso da Filha da Terra do subsolo onde esteve prisioneira durante os frios da estação do Inverno. Reconhecemos a Sua chegada quando o verde da Primavera se espalha pelas terras estéreis, vestindo os prados e os bosques com o brilho das folhas e das flores.

Silêncio, excepto para o interminável vibrar dos tambores tocados pelas mulheres, lá atrás.

- Aqui estamos, sentadas na escuridão, esperando o regresso da Luz; aqui iniciaremos a descida, cada uma de nós, em busca da Filha da Terra no reino da escuridão. Cada uma de nós será purificada e aprenderá os caminhos da Verdade.

A história prosseguiu no mesmo tom, contando a lenda da Filha da Terra, o modo como Ela fora atraída para as profundezas e como as serpentes a haviam confortado e jurado que jamais alguma delas Lhe faria mal. Antes, Cassandra ouvira apenas fragmentos da história, tanto devido a esta não ser conhecida por não iniciados, como por não ser considerado conveniente que ela fosse ouvida por estranhos. Escutava-a atentamente, fascinada, a cabeça dorida devido ao som dos tambores que continuava sempre, sem cessar, por trás das vozes.

Começava a parecer-Lhe estar imersa num sonho que se arrastava dia após dia, sabendo-se acordada mas nunca plenamente consciente. Algum tempo depois apercebeu-se, sem fazer a menor ideia de onde ou como isso acontecera, de que já não estavam na sala do trono, mas sim numa imensa caverna negra onde a água escorria nas paredes húmidas que se erguiam até muito acima, em vastos espaços ecoantes que tornavam cavo o som das vozes e abafavam o próprio som dos tambores.

Algures, uma flauta de cana sussurrava uma discreta melodia, chamando por ela numa voz quase familiar. Então sentiu - estava escuro de mais para ver fosse o que fosse - uma taça achatada de cerâmica, com desenhos em relevo, que estava a ser passada de mão em mão; cada rapariga levava a taça aos lábios, bebia e passava-a à seguinte. Nunca conseguiria lembrar-se, depois, do que haviam dito quando chegara a sua vez de beber. Ela pensara, até ao momento em que os seus lábios tocaram na infusão, que fosse vinho.

Sentiu um gosto estranho e ligeiramente amargo que lhe lembrou o cheiro do centeio empestado, que Pentesileia ordenara que nunca esquecesse; enquanto bebia, pensou que o seu estômago iria revoltar-se, mas, num esforço violento, controlou a náusea e centrou de novo a sua atenção nos tambores. A história terminara; nunca, em toda a sua vida, conseguiu recordar como terminara; ou qual fora o destino da Filha da Terra.

Após algum tempo, a sua desorientação tornou-se de tal modo grande que teve a impressão de já não estar dentro do círculo de mulheres, na gruta; não fazia ideia de onde se encontrava, mas não se interrogou acerca disso. A ideia de que talvez a infusão fosse alguma espécie de droga cruzou-lhe o espírito, mas tam­bém não se interrogou a esse respeito. Tocou o chão gelado e húmido e ficou surpreendida ao sentir que este era de um empedrado vulgar; teria chegado a deslocar-se? Cores estranhas deslizavam diante dos seus olhos e pareceu-lhe, por momentos, que caminhava através de um enorme túnel negro.

«Partilha com a Filha da Terra a descida até à escuridão», orientou-a uma voz distante; se era uma voz real ou não, nunca o soube. «Uma por uma, terás de abandonar todas as coisas que te são queridas neste mundo, pois agora não há lugar para elas.»

Descobriu que trazia consigo as suas armas; seria capaz de jurar que não as pusera naquela manhã. Através do som dos tambores, a voz-guia soou de novo: « Esta é a primeira das portas do Mundo Subterrâneo; aqui terás de aban­donar tudo o que te liga à Terra e aos reinos da Luz.»

Cassandra debateu-se com a faixa pouco familiar da túnica que trazia vestida e desapertou o cinto decorado com jóias que prendia a espada e a lança. Lembrou-se de Hécuba advertindo-a para que as usasse sempre com honra; mas isso fora lá longe, e nada tinha a ver com aquela câmara mergulhada na escuridão. Teria Pentesileia chegado também àquela porta escura e entregado as suas armas? Ouviu a espada e a lança deslizarem para o chão e baterem contra ele com um som metálico, por entre o barulho dos tambores.

Porque se moveriam as suas mãos tão devagar - e tê-las-ia movido de facto? Seria tudo uma ilusão provocada pelos tambores, ou estaria ela agachada e imóvel no círculo escuro, mesmo enquanto avançava audaciosamente pela escuridão do túnel, vestida com a comprida túnica de Andrómaca, agora desatada, que incompreensivelmente não constituía qualquer estorvo?

Havia, algures, um olho de fogo. Chamas por baixo de si? Ou estaria a fixar o olho rasgado da serpente?

Este observou-a sem pestanejar e uma voz ordenou:

«Esta é a segunda porta do Mundo Subterrâneo, onde deverás abandonar os teus medos, ou seja o que for que te impeça de viajar neste reino tal como essas cujos pés conhecem e trilham o Caminho, seguindo as Minhas próprias pegadas.»

O olho da serpente estava agora próximo; movia-se acariciando-a e, num lampejo de memória - há séculos, numa outra vida talvez? - recordou como acariciara as serpentes na casa do Senhor do Sol, e as cingira sem medo. Era como se as abraçasse de novo, e o olho aproximou-se mais e mais; o mundo foi-se estreitando até nada mais existir à excepção de si própria e do abraço da serpente no escuro. Uma voz cortante trespassou-a inteira, até que ela teve a certeza de que estava a morrer e se abandonou à morte quase com alívio.

Mas não estava morta; movia-se ainda sozinha através da escuridão escaldante; mas havia uma voz que Lhe chegava por entre o pulsar contínuo dos tambores, o qual se arrastava até toda a sua cabeça pulsar com eles.

«Agora estás no Meu Reino, e esta é a terceira e última porta do Mundo Subterrâneo. Aqui já nada te resta senão a tua vida. Sacrificá-la-ás também para Me servir?»

Cassandra pensou desvairada: «Não entendo o que Lhe servirá a minha vida, mas se cheguei até aqui não é agora que vou voltar atrás.» Pensou ter falado em voz alta, mas uma parte da sua mente repetia-lhe que não produzira som algum, que a fala era uma ilusão, como tudo o que lhe acontecera naquela viagem - se era de facto uma viagem e não um estranho sonho.

«Não voltarei atrás, ainda que isso me custe a própria vida; já dei tudo o resto; toma-a também, Senhora das Trevas.»

Flutuava na escuridão, inconsciente, trespassada de fogo, rodeada pelo som de um frenético bater de asas.

«Deusa, se vou morrer por Ti deixa-me, ao menos uma vez, contemplar o Teu rosto!»

A escuridão clareou um pouco; diante dos seus olhos surgiu um turbilhão esbranquiçado, do qual gradualmente se destacou um par de olhos escuros, um rosto pálido. Já vira aquele rosto antes, reflectido num riacho... era o seu próprio rosto. Uma voz, muito perto de si, por entre o bater dos tambores e o lamento das flautas, murmurou:

«Não sabes ainda que tu és Eu e Eu sou tu?»

Foi então que as asas irrequietas a levaram e tudo se esfumou. Asas, e misteriosos ventos ciclónicos impelindo-a para cima, cada vez mais para cima, em direcção à luz, enquanto protestava: «Mas há tantas outras coisas a saber...»

Os ventos rasgavam-na em pedaços; o clarão de um relâmpago revelou olhos e bicos cruéis rasgando, dilacerando - era como se algo de estranho a percorresse, como se águas profundas e turvas a preenchessem totalmente, expulsando de si o pensamento e a consciência. De uma imensa altura olhou para baixo, para alguém que era - e ao mesmo tempo não era - ela própria e soube que fixava o rosto da Deusa. Depois, a ténue ligação com a consciência cedeu e, protestando ainda, caiu num silencioso e infinito abismo de luz ofuscante.

Alguém lhe tocava o rosto docemente. - Abre os olhos, minha filha.

Cassandra sentia-se doente e fraca, mas abriu os olhos para o silêncio e para o ar fresco e húmido. Estava de novo na gruta... alguma vez a deixara? Tinha a cabeça pousada no colo de Pentesileia; o rosto da mulher mais velha esbatia-se sob uma aura de luz tão intensa que Cassandra protegeu os olhos com as mãos e exclamou:

- Mas tu... tu és a Deusa... - depois quedou-se num respeitoso silêncio face à sua parente.

- Claro - murmurou a mulher mais velha -, e tu também, minha filha. Nunca o esqueças.

- Mas o que aconteceu? Onde estou? Eu estava...

Pentesileia cobriu prontamente os lábios de Cassandra num gesto de aviso. - Chiu... é proibido falar no Mistério - disse ela. - Mas tu chegaste realmente bem longe; a maioria das candidatas não vai além da Primeira Porta. Vem - murmurou Pentesileia. - Vem!

Cassandra levantou-se, cambaleante, e a sua tia amparou-a.

Os tambores estavam silenciosos; havia apenas o fogo e um ténue queixume. Podia ver agora a tocadora de flauta, uma mulher magra, acocorada por trás do fogo. Os seus olhos estavam vazios e ela balançava-se levemente, como que em êxtase; mas o fogo e a flauta, pelo menos, tinham sido reais. Num círculo à sua volta, cerca de metade das virgens jazia ainda em transe, cada uma vigiada por uma das sacerdotisas mais velhas. Havia espaços vazios no círculo. Pentesileia incitou-a a percorrer o seu caminho com cuidado, sem tocar em ninguém, em direcção à entrada da gruta. Lá fora chovia mas, pela fraca luminosidade, ela pôde perceber que o dia estava quase no fim. Sentia as gotas geladas e puras da chuva no rosto. Sentiu-se enjoada e com uma sede terrível; tentou recolher a chuva nas mãos e sorver as gotas, mas Pentesileia conduziu-a através de uma porta que ela se lembrava vagamente de ter visto, e encontrou-se sob a luz das candeias da sala do trono de Imandra, onde a viagem começara. Continuava a caminhar cuidadosamente, como se o seu corpo fosse um jarro frágil, cheio até à borda de um vinho estranho que se entornaria se fizesse um movimento mais brusco. A rainha Imandra surgiu de repente e abraçou-a, apertando-a fortemente nos braços.

- Bem-vinda, irmãzinha, de regresso dos reinos onde a Senhora das Trevas caminhou a teu lado. A tua viagem foi longa, mas regozijo-me por teres regres­sado ilesa - disse a rainha. - És agora uma de nós, as que Lhe pertencemos. Pentesileia disse:

- Ela passou as três Portas.

- Eu sei - respondeu Imandra. - Mas esta iniciação foi muito tardia. Ela é uma sacerdotisa nata, e é tarde para ela.

Recuou um pouco e agarrou Cassandra pelos ombros, como a sua mãe teria feito.

- Estás pálida, filha; como te sentes?

- Por favor - disse Cassandra -, tenho tanta sede.

Mas quando Pentesileia fez menção de lhe servir um pouco de vinho, o cheiro enjoou-a e ela pediu água. Era límpida e fresca e aliviou-lhe a sede, mas como tudo o que iria comer e beber nos dias seguintes, tinha um leve sabor viscoso a peixe.

Imandra disse:

- Assegura-te de que reparas no sonho que tiveres esta noite; será uma mensagem especial da Filha da Terra. - Depois perguntou a Pentesileia: - Voltas em breve para o Sul, agora que já recebeste o Seu sinal?

- Assim que Cassandra possa montar e Andrómaca esteja preparada para voltar com ela para Tróia - respondeu a rainha amazona.

- Assim seja - disse Imandra. - Já aprontei o dote de Andrómaca e muita gente para a acompanhar. E para a nossa jovem parente, a sacerdotisa, tenho um presente.

A prenda era uma serpente; pequena e verde, muito parecida com a de Imandra, mas não mais comprida do que o antebraço de Cassandra e aproximadamente da grossura do seu polegar. Cassandra agradeceu, quase sem fala. Imandra disse, suavemente:

- Um presente adequado para uma sacerdotisa oferecer a outra, filha. Nasceu de um ovo de uma das minhas próprias serpentes; aliás, que havia eu de fazer com ela? Dá-la a Andrómaca, que fugiria dela? Penso que ficará feliz por viajar contigo para sul naquele lindo pote, e por servir contigo no santuário de Tróia.

Nessa noite Cassandra ficou muito tempo acordada, perturbada pela ideia daquilo que iria sonhar; mas quando adormeceu viu apenas as encostas do monte Ida, batidas pela chuva, e as três deusas estrangeiras; e parecia-lhe que elas lutavam umas com as outras, não pelos favores de Páris, mas sim pelos seus, e por Tróia.

 

Partiram em carroças tão toscas e lentas como aquelas em que havia sido ttansportado o metal, carregadas com os presentes de noivado de Andró­maca, com o seu dote e preciosidades de Cálcis, ofertas da rainha para os seus parentes troianos: armas de ferro e de bronze, peças de tecido, cerâmicas e ouro e prata e até jóias.

Cassandra não conseguia imaginar porque estaria a rainha Imandra tão desejosa por ver a filha ligada a Tróia, e muito menos ainda por que razão Andrómaca se mostrava disposta - ou antes, ansiosa - a consentir. Mas já que tinha de voltar para Tróia, estava satisfeita por ter com ela algo desse mundo imenso que ali descobrira. Além disso, acabara por gostar de Andrómaca; e se tinha de deixar Pentesileia e as mulheres da tribo, pelo menos teria a seu lado, em Tróia, a sua única verdadeira amiga e parente.

A viagem parecia interminável, com as carroças arrastando-se dia após dia, a passo de caracol, através das extensas planícies; luas e luas enchendo e min­guando, sem que aparentemente se encontrassem mais perto das montanhas distantes. Cassandra ansiava por montar e cavalgar velozmente ao lado das guardas Amazonas, deixando que as carroças prosseguissem como pudessem; mas Andrómaca não sabia ou não queria montar, e queixava-se de ficar sozinha nas carroças. Queria a companhia de Cassandra: assim, embora com relutância, Cassandra aceitava aquela reclusão e viajava com ela, entre inter­mináveis jogos de gato e rato * num tabuleiro de ónix esculpido, e escutando a tagarelice fútil da sua parente sobre vestidos e jóias e enfeites para o cabelo e o que iria fazer quando estivesse casada - assunto que Andrómaca considerava inesgotável e fascinante (tinha até decidido já quais os nomes para as suas primeiras três ou quatro crianças) - até Cassandra ficar convencida de que ia dar em louca.

* Hound and Jackal no original - cão de caça e chacal. (N. da T. )

Na sua primeira viagem (parecia-lhe que era, então, imensamente mais jovem), Cassandra não se apercebera das enormes distâncias que tinham percorrido; só quando chegou de novo o Verão e começaram a avistar as colinas distantes por trás de Tróia, teve a verdadeira noção de quão longa havia sido aquela viagem. Em Tróia, Cálcis era vulgarmente considerada como ficando do outro lado do mundo. Agora, ela tinha idade suficiente para contabilizar os muitos meses de viagem; e, claro, com as carroças, viajavam mais devagar do que os grupos a cavalo. Não tinha qualquer pressa de ver terminada a viagem, sabendo que a sua chegada a Tróia faria com que as paredes dos aposentos das mulheres se fechassem de novo à sua volta, mas perguntou-se como iriam as coisas na cidade; e uma noite, enquanto Andró­maca dormia, distendeu a sua mente para ver, se não Tróia, pelo menos a mente do seu irmão gémeo, o qual não visitava havia tanto tempo. E, pouco depois, imagens começaram a formar-se na sua mente, primeiro pequenas e longínquas, depois aumentando e preenchendo-lhe todos os sentidos...

Muito para sul, nas encostas do monte Ida, onde um jovem de cabelos escuros chamado Páris seguia os touros e o gado do seu pai adoptivo, apareceu naqueles morros, num dia de fim do Outono, um grupo de jovens bem vestidos; Páris, atento aos possíveis perigos para a manada que guardava, aproximou-se deles com prudência.

- Salve, forasteiros; quem sois, e como posso servi-vos?

- Somos filhos e servidores do rei Príamo de Tróia - respondeu um deles - e viemos à procura de um touro. O melhor da manada, pois destina-se a um sacrifício para os Jogos Fúnebres de um dos filhos de Príamo. Mos­tra-nos o teu melhor.

Páris sentiu-se um tanto perturbado pelos seus modos arrogantes; no entanto, Agelau, o seu pai adoptivo, tinha-lhe ensinado que os desejos do rei eram leis, e ele não queria ser olhado como irreverente.

- O meu pai é servidor de Príamo - disse - e tudo o que temos está à sua disposição. Ele hoje está fora; se desejarem esperar o seu regresso, ele poderá mostrar-vos o que temos. Se aceitarem repousar em minha casa, abrigados do calor do sol do meio-dia, a minha mulher trar-vos-á vinho ou coalho de leite; ou, se preferirem, calda de mel dos favos das nossas abelhas. Quando o meu pai voltar, mostrar-vos-á as manadas e poderão levar o que quiserem.

- Agradeço-te; um pouco de calda de mel seria bem-vinda - respondeu um dos recém-chegados, e, enquanto os conduzia à pequena casa onde vivia com Enone, Páris ouviu outro deles susssurrar: « Um sujeito generoso; e nunca pensei encontrar alguém com estes modos tão longe da cidade.»

Enquanto Enone, alegre e bonita na sua túnica de trabalho, com o cabelo preso sob o pano que usava de manhã para varrer a casa, trazia a calda de mel em taças de madeira, ele ouviu o outro dizer baixinho:

- E se nas montanhas existem em abundância ninfas tão adoráveis como esta, porque haverá um homem de ficar dentro dos muros da cidade?

Enone olhou de lado para Páris, como que perguntando quem eram aqueles homens e o que queriam; mas ele pouco mais sabia do que ela, embora não quisesse, de todo, dizê-lo na presença deles.

- Estes homens têm negócios com o meu pai, minha querida -disse ele. - Agelau estará de volta antes do meio-dia e poderão então acertar as coisas com ele, seja lá o que for.

Se quisessem cabras, ou mesmo carneiros, sentir-se-ia apto a negociar pessoalmente com eles, mesmo tratando-se de um caso especial de sacrifício; mas o gado era o principal orgulho e prazer do seu pai. Assim, sorvëu a bebida que Enone servira e esperou, perguntando por fim:

- São todos filhos do rei Príamo?

- Somos - respondeu o mais velho. - Eu sou Heitor, filho mais velho de Príamo e da sua rainha, Hécuba; e este é o meu meio-irmão, Deífobo. Heitor era invulgarmente alto, quase uma cabeça mais alto que Páris, que

não era um homem baixo. Possuía ombros largos próprios de um lutador nato, e o seu rosto tinha feições enérgicas e atraentes, com os olhos castanhos bem separados por sobre os malares salientes e uma boca e um queixo audaciosos. Usava à cintura uma espada de ferro que Páris imediatamente cobiçou, embora até aí tivesse achado que não existia arma mais bela do que o punhal que Agelau Lhe oferecera, como um presente especial, quando ele saíra para o meio de uma tempestade, em pleno Inverno, e trouxera de volta uma dúzia de borregos fracos que, de outro modo, teriam perecido.

- Fala-me desses Jogos Fúnebres - disse finalmente. Reparou na forma como Heitor olhava para Enone e não gostou. Mas notou também que Enone não estava a reparar em nenhum dos intrusos. «Ela é minha», pensou; «é uma mulher boa e decente, não é de andar a olhar para desconhecidos.»

- Realizam-se todos os anos - disse Heitor - e são como todos os outros jogos e festivais. Tu pareces forte e atlético; nunca competiste em jogos destes? Estou certo de que arrebatarias muitos prémios.

- Compreendeste-me mal - disse Páris. - Não sou um nobre como vocês, com tempo livre para os desportos; sou um humilde pastor e um servidor do vosso pai. Jogos e coisas desse tipo não são para mim.

- Falas com modéstia - disse Heitor. - Mas os jogos estão abertos a qualquer homem que não tenha nascido escravo; serias bem-vindo.

Páris pensou naquilo. - Falaste de prémios...

- O prémio máximo é um tripé e um caldeirão em bronze - disse Hei­tor. - Por vezes, o meu pai oferece uma espada, por um especial valor demonstrado.

- Gostaria de ganhar esse prémio para a minha mãe - disse Páris. - Tal­vez, se o meu pai me der permissão, eu vá.

- És um homem feito; deves ter quinze anos ou mais - disse Heitor -, suficientemente crescido para entrar e sair sem autorização.

Ao ouvir estas palavras, Páris pensou que, de facto, assim era; mas ele nunca fora a lado nenhum sem o conhecimento de Agelau e nunca pensara em fazê-lo. Reparou que Heitor o olhava fixamente e ergueu as sobrancelhas, interrogativa­mente.

Heitor tossiu nervosamente.

- Pergunto-me onde te terei visto antes - disse. - Os teus olhos... parecem recordar-me alguém que conheço bem, mas não me lembro de onde.

- Às vezes vou ao mercado fazer recados ao meu pai ou à minha mãe ­disse Páris, mas Heitor abanou a cabeça.

Pareceu a Páris que sobre ele pairava uma estranha sombra; sentia uma instintiva antipatia por aquele jovem corpulento. E, no entanto, Heitor não tinha sido ofensivo de modo algum, tendo-o tratado sempre com toda a cortesia, pelo que ele não compreendia aquele sentimento.

Levantou-se, irrequieto, e foi até à porta da casa, espreitando para fora. Após alguns momentos, disse:

- O meu pai adoptivo chegou a casa - e pouco depois Agelau, um homem pequeno e esguio que, apesar da sua idade, se movia com rapidez, entrou na sala. - Príncipe Heitor - disse ele, com uma vénia -, sinto-me honrado; como tem passado o meu senhor, teu pai?

Heitor explicou-lhe a sua missão e Agelau disse:

- É o meu rapaz quem melhor pode ajudar-te nisso, meu príncipe; sabes, ele conhece o gado melhor que eu, pois faz todas as avaliações de gado nas feiras e acontecimentos do género. Páris, leva estes senhores até às pastagens e mostra­-Lhes o que temos de melhor.

Páris escolheu o mais belo touro da manada, e Heitor aproximou-se olhando o focinho do animal.

- Sou um guerreiro e sei pouco de gado - disse ele. - Porquê a escolha deste touro?

Páris fez-lhe notar a amplitude das suas espáduas, a largura dos seus flancos.

- E a sua pelagem é macia, sem cicatrizes ou imperfeições - disse ele, e pensou intimamente: « Bom de mais para um sacrifício; devia ser conservado para criação. Qualquer touro velho serviria para ser decapitado e sangrado sobre um altar. E este príncipe arrogante chega, acena com a mão e leva a melhor rês do gado que eu e o meu pai criámos com tanto e tão duro trabalho. Mas ele tem razão: todo o gado pertence a Príamo e nós somos seus servos.»

- Sabes mais destes assuntos que eu - repetiu Heitor. - Por isso, aceito a tua palavra de que este touro é o mais adequado para um sacrificio ao Senhor do Trovão; agora, preciso de uma bezerra virgem para a Senhora, Sua consorte.

Instantaneamente, Páris viu surgir na sua mente a bela e imponente Deusa que lhe oferecera fortuna e poder. Perguntou-se se Ela não lhe guardaria rancor por ele não Lhe ter entregue a maçã; talvez se escoLhesse para Ela a melhor criatura de toda a manada, Ela o perdoasse.

- Esta bezerra - disse ele - é a melhor de todas; repara na macieza do seu pêlo castanho, e no focinho branco, e vê como são belos os seus olhos; parecem quase humanos.

Heitor deu umas palmadas na espádua do pequeno animal e pediu um laço de corda.

- Não precisas, meu príncipe - disse Páris. - Levando tu o touro da manada, ela seguir-te-á como um cachorro.

- Então as vacas não são diferentes das mulheres - disse Heitor com uma gargalhada grosseira. - Agradeço-te e espero que consideres a hipótese de ires aos jogos. Estou certo de que conseguirias a maior parte dos prémios; pareces-me um atleta nato.

- És muito amável em dizer isso, meu príncipe - disse Páris, e ficou a olhar Heitor e a sua comitiva enquanto desciam a montanha, em direcção à cidade. Mais tarde, nessa noite, quando foi com o seu pai adoptivo buscar as cabras

para mungir, mencionou o convite de Heitor. Não estava, de modo algum, preparado para a reacção do velho.

- Não! Proíbo-te! Não penses nisso sequer, meu filho; algo terrível acon­teceria, decerto!

- Mas porquê, pai? O príncipe garantiu-me que não tinha importância eu não ter nascido nobre; que mal poderia acontecer? E eu gostaria de ganhar o caldeirão e o tripé para dar à mãe, que foi sempre tão boa para mim e não tem nada dessas coisas.

- A tua mãe não quer caldeirão nenhum; queremos o nosso filho a salvo aqui em casa, onde nada lhe pode acontecer.

- O que poderia acontecer-me, pai?

- Estou proibido de to dizer - disse o velho, seriamente. - De facto, devia ser suficiente para ti que eu o proíba; sempre foste um filho bom e obediente para comigo, até aqui.

Agelau cerrou os lábios com severidade.

- Pai, já não sou uma criança - disse Páris. - Agora, quando me proibires de alguma coisa, já tenho idade para saber a razão.

- Não tolerarei insolências e não tenho que te apresentar razão nenhuma; farás o que eu digo.

Páris soubera sempre que Agelau não era o seu verdadeiro pai; desde o seu sonho com as deusas, começara a suspeitar de que a sua linhagem era mais elevada do que alguma vez pensara. Agora, começava a pensar que a proibição de Agelau tinha algo a ver com isso. Mas quando pôs a questão, Agelau pareceu mais obstinado do que nunca.

- Não posso dizer-te absolutamente nada sobre isso - disse, e saiu de rompante para mungir as cabras. Páris seguiu o seu exemplo e não disse mais nada; mas, por dentro, estava furioso.

«Não passarei eu de um servidor pago para ser mandado para aqui e para ali? Mesmo um criado contratado tem direito à sua folga, e o pai até hoje nunca me negou a autorização. Irei aos jogos; a minha mãe, pelo menos, irá perdoar-me se eu lhe trouxer o caldeirão e o tripé. Mas se eu trouxer o prémio e ela não o quiser, dá-lo-ei a Enone.»

Naquela noite nada disse; mas logo cedo, na manhã seguinte, pôs a sua melhor túnica dos dias de festa (que era, de facto, bastante vulgar, embora Enone a tivesse tecido com a melhor lã que possuíam e tingido de um vermelho-claro, usando suco de bagas) e foi ter com Enone para lhe dizer adeus. Ela olhou-o, a boca contorcida pela inquietação.

- Então sempre vais? Apesar das advertências do teu pai?

- Ele não tem o direito de mo proibir - replicou Páris, defensivamente. - Ele nem sequer é meu pai, por isso não é ímpio desobedecer-lhe.

- Mesmo assim, ele tem sido um pai bom e compreensivo para contigo ­disse ela, com o lábio a tremer. - Isso não está certo, Páris. Porque desejas, afinal, ir aos jogos deles? O que tem o rei Príamo a ver contigo?

- Porque é o meu destino - ripostou ele, calorosamente. - Porque já não acredito que seja vontade dos deuses que eu fique aqui sentado até ao fim dos meus dias, a guardar cabras nas encostas. Vamos, rapariga, dá-me um beijo e deseja-me boa sorte.

Enone ergueu-se nas pontas dos pés e beijou-o obedientemente, mas disse:

- Aviso-te, meu amor, a sorte não estará do teu lado nesta jornada. Ele zombou:

- O quê, vais começar a falar como uma profetisa? Não gosto nada desses avisos.

- Mesmo assim devo fazê-lo - disse Enone, e lançou-se a chorar nos braços dele.

- Páris, peço-te, por amor de mirn, fica. - Pousou, embaraçada, a mão sobre a sua pequena barriga em crescimento e suplicou timidamente: - Para o bem dele, senão para o meu?

- É acima de tudo para o bem dele que eu tenho de ir procurar a fortuna e a fama - disse Páris. - O seu pai há-de ser algo mais do que um guardador do gado de Príamo.

- O que há de errado em ser o filho de um pastor? - perguntou Enone. - Eu tenho orgulho em ser mulher de um pastor.

Páris lançou-lhe um olhar mal-humorado e disse:

- Minha amada, se não me deres a tua bênção, terei de ir mesmo sem ela; desejar-me-ás mal?

- Nunca, meu amor - disse ela muito séria -, mas tenho uma terrível sensação de que se fores não mais voltarás para mim.

- Ora, esse é o maior disparate que eu já ouvi - disse ele, e beijou-a de novo. Ela permaneceu agarrada a Páris, até que por fim ele se desprendeu das mãos que o apertavam e partiu pela montanha abaixo; mas sentiu que ela o seguia com o olhar até ele desaparecer do seu campo de visão.

Lentamente, Cassandra retomou a consciência de onde estava: na escuridão da carroça e não sob o sol brilhante de Outono no monte Ida. E nem sequer estavam ainda no Verão; alcançariam Tróia no Outono, talvez. A seu lado Andrómaca continuava a dormir tranquilamente; dorida e com frio, Cassandra deslizou debaixo dos cobertores para junto dela, grata pelo calor do corpo da prima.

«Ele está em Tróia. Talvez esteja em Tróia quando eu lá chegar; irei vê-lo finalmente.» O pensamento era quase demasiado excitante para ser suportável; Cassandra não dormiu mais, naquela noite.

 

Foi Andrómaca, e não Cassandra, quem primeiro avistou as imponentes muralhas de Tróia erguendo-se ao longe. Parecia impressionada ao dizer: - É realmente maior do que Cálcis.

- Já to tinha dito - lembrou Cassandra.

- Pois já, mas eu não acreditei em ti; não podia acreditar que uma cidade pudesse ser realmente maior do que Cálcis. O que é aquele edificio brilhante mesmo no cimo da cidade? É o palácio?

- Não, é o Templo da Virgem; em Tróia, os lugares mais altos são reserva­dos aos Imortais. E Ela é a nossa Deusa protectora, que nos deu a oliveira e a vinha.

- O rei Príamo não pode ser um rei realmente poderoso - disse Andró­maca. - Em Cálcis é proibido que qualquer casa (mesmo a de uma Deusa) esteja acima do palácio real.

- E, no entanto, eu sei que a tua mãe é uma mulher crente, que respeita a Deusa - disse Cassandra. Lembrou-se de ter achado, na primeira vez que entrara em Cálcis, que era uma blasfémia construir a casa de um mortal tão acima.

Os seus olhos buscaram a casa do Senhor do Sol, com os seus telhados de ouro, erguendo-se num socalco acima do palácio; apontou o palácio a Andrómaca.

- Não está construído muito em cima; mas é tão bonito como qualquer palácio de Cálcis - disse ela a Andrómaca.

Agora que conseguiam realmente avistar a cidade, Cassandra examinava os seus sentimentos cuidadosamente como se receasse reabrir uma ferida: não sabia como se sentia em relação ao seu regresso a Tróia, depois daquele período de liberdade. Apercebeu-se de que estava quase dolorosamente ansiosa por rever a sua mãe e a sua irmã, Políxena, e, quase sem esforço, sentiu a sua mente partir em busca dessa frágil e misteriosa conexão com o irmão gémeo que, por vezes, conseguia ser mais real do que ela própria.

«Não serei de novo prisioneira.» Depois corrigiu ligeiramente: «Não deixa­rei que me prendam de novo. Ninguém poderá aprisionar-me, a menos que eu aceite ser aprisionada.»

Olhou em volta para a sua escolta, semidesejosa de poder voltar com elas para as terras das Amazonas. Pentesileia não se encontrava no grupo; dissera que, depois daquela longa ausência, teria de ficar para tratar dos assuntos da tribo. Cassandra sabia que se estivesse actualmente a viver com as Amazonas seria mandada, juntamente com as outras mulheres em idade de procriar, para as aldeias dos homens a fim de gerar uma criança para a tribo. Sentiu que estaria disposta a seguir esse costume, se fosse esse o preço para ficar com a tribo de Pentesileia; mas essa não fazia parte das escolhas que lhe eram oferecidas.

- Mas que se passa? - perguntou Andrómaca. - É dia de festival? Cortejos passavam através dos portões da cidade, longas filas de homens e mulheres vestidos com as roupas dos dias de festa, animais enfeitados com fitas e flores, os quais não sabia dizer se se destinariam a um espectáculo ou a um sacrifício. Viu então Heitor e alguns dos seus outros irmãos, cobertos apenas pela pequena tanga com que competiam no campo e percebeu que devia haver jogos. Não eram coisas para mulheres - apesar de a sua mãe lhe ter dito uma vez que, nos tempos antigos, as mulheres tinham competido nas corridas, no lançamento de lanças e também com o arco. Cassandra, que era uma boa arqueira, desejou ter ainda os seios suficientemente pequenos para se fazer passar por um rapaz e competir com os arqueiros; mas se tal disfarce já lhe fora possível, não o era agora. Resignadamente, pensou: «Bem, um dia a minha perícia com as armas poderá ainda vir a ser útil à minha cidade: na guerra, e não em jogos», e depois viu, quase no fim do cortejo, um carro de guerra, transportando a agora mais curvada, mas ainda impressionante personagem que era o seu pai, Príamo. Estava quase a lançar-se de cabeça de cima da carroça para o abraçar, mas a visão do seu cabelo branco chocou-a; aquele velho era praticamente um desconhecido para ela.

Atrás dele, num carro mais pequeno e ostentando as insígnias da Deusa, Cassandra viu a mãe; Hécuba parecia estar exactamente na mesma. Cassandra desceu da carroça e avançou, curvando-se perante o seu pai em sinal de respeito e correndo depois a lançar-se nos braços da sua mãe.

- Chegaste em boa altura, minha querida - disse Hécuba. - Mas estás uma mulher! Dificilmente reconhecería nesta alta amazona a minha filhinha. ­Puxou Cassandra para o seu lado no carro. - Quem é a tua companheira, minha filha?

Cassandra olhou para Andrómaca, ainda sentada no banco da frente da carroça. Estava com um ar muito solitário e deslocado. Não era assim que ela planeara apresentar a sua amiga a Tróia.

- É Andrómaca, filha de Imandra, rainha de Cálcis - disse Cassandra com lentidão. - Imandra, a nossa parente, enviou-a para que desposasse um dos seus irmãos. Ela tem um carroção cheio de tesouros de Cálcis como dote ­acrescentou, e enquanto falava as suas palavras soaram-lhe rudes, como se se tratasse de uma mera questão de negócios e de oportunismo real, como se Imandra tivesse enviado a sua filha para subornar Príamo. Andrómaca merecia melhor que aquilo.

- Vejo agora que ela se parece com Imandra - disse Hécuba. - Quanto ao casamento, isso cabe ao teu pai decidir; mas ela aqui é bem-vinda, com ou sem casamento, como minha parente.

- Mãe - disse Cassandra com ar sério; depois de ter feito todo aquele caminho, Andrómaca não podia ser rejeitada -, ela é a única filha da actual rainha de Cálcis; o meu pai tem filhos de sobra, e se ele não conseguir fazer com que um dos meus irmãos case com ela, em favor de uma aliança como esta, é porque não é tão inteligente como dizem.

Apressou-se a ir buscar Andrómaca, ajudando-a a descer da carroça e apresentando-a a Príamo e Hécuba; Hécuba beijou-a e Andrómaca sorriu e arqueou o corpo numa vénia submissa. Príamo afagou-lhe a face e levou-a consigo para cima da tribuna, tratando-a por filha, o que parecia ser um bom começo. Sentou-a entre ele e Hécuba, enquanto Cassandra se interrogava sobre a razão de Andrómaca agir com tanta humildade. Perguntou:

- Onde está a minha irmã Políacena?

- Ficou em casa, como uma rapariga decente e recatada - sussurrou Hécuba reprovadora. - Naturalmente que ela não tem qualquer interesse em ver homens nus a competir com armas.

«Bem», pensou Cassandra, «se alguma vez tive dúvidas, agora tenho a certeza de que voltei a casa. Terei de passar o resto da minha vida como uma rapariga decente e recatada?» Este pensamento deprimiu-a.

Cassandra assistia ao concurso de abertura, uma corrida pedestre, com um interesse morno, tentando descobrir os filhos de Príamo que conhecia de vista. Reconheceu imediatamente Heitor e Troilo, o qual deveria ter agora pelo menos dez anos. Quando partiram, Heitor tomou rapidamente o comando, e aí se manteve ao longo da primeira volta; depois, vindo de trás, um jovem mais magro, de cabelos negros, começou a aproximar-se. Quase sem dificuldade, ultrapas­sou-o como um raio, e tocou a meta um instante antes da mão estendida de Heitor.

- Esplêndida corrida! - gritaram os outros concorrentes, amontoando-se à sua volta.

- Minha querida - disse Príamo para Hécuba, debruçando-se sobre Andrómaca -, não conheço aquele jovem, mas se ele consegue bater Heitor, é um concorrente de valor. Descobre quem ele é, está bem?

- Com certeza - disse Hécuba, e acenou a um criado. - Vai lá abaixo e descobre para o rei quem é o jovem que ganhou a corrida pedestre. Cassandra colocou a mão em pala sobre os olhos para procurar o vencedor,

mas ele tinha desaparecido na multidão. Os concorrentes encontravam-se agora a ajustar as cordas dos seus arcos. Cassandra, que se tornara uma arqueira exímia, observava fascinada; e subitamente, encandeada pelo sol, sentiu-se confundida: era ela própria quem se encontrava no campo, colocando uma flecha na corda do arco - «Os meus pais vão ficar tão furiosos»... Depois, olhando o robusto braço nu, bem mais musculoso do que o seu, percebeu o que acontecera: os seus pensamentos tinham-se enredado novamente nos do seu irmão gémeo. Sabia agora por que razão o jovem vencedor da corrida lhe parecera quase penosa­mente familiar: era o seu irmão gémeo, Páris. Tal como antevira, ele estava presente no seu regresso a Tróia.

Nessa estranha e dupla visão, parecia-lhe estar, ao mesmo tempo, no campo e no seu lugar, olhando Príamo como se fosse a primeira vez, vendo-o simultanea­mente como seu pai e como um estranho, um velho assustador com o porte pouco familiar e majestoso da realeza. Havia também outros velhos cujos nomes desconhecia - Páris deduziu, acertadamente, que deviam ser conselheiros do rei troiano; uma mulher idosa de rosto doce que ele estava certo de ser a rainha; um grupo de rapazinhos com roupas vistosas e caras, que supôs - correctamente ­serem os filhos mais novos de Príamo, ainda sem idade suiiciente para tomar parte naqueles concursos, e algumas raparigas bonitas que lhe atraíram especial­mente a atenção por serem muito diferentes de Enone. Perguntou-se o que estariam a fazer ali - talvez às mulheres do palácio fosse permitido assistir aos jogos. Bom, ele iria oferecer-Lhes algo para ver. Estava agora a ser chamado para atirar ao alvo.

O primeiro tiro de Páris subiu muito, devido ao seu nervosismo, e o segundo passou muito para além do alvo.

- Deixem o forasteiro atirar de novo - disse Heitor. - Não estás habi­tuado aos nossos alvos; se consegues atirar tão alto e tão longe, decerto que serás capaz de um tiro mais perfeito. - Apontou para o alvo e explicou-lhe os preceitos.

Páris preparou-se para atirar de novo, profundamente surpreendido com a cortesia de Heitor. Soltou a flecha, desta vez directamente para o centro do alvo. Os outros arqueiros atiraram, um por um, mas nem mesmo Heitor conseguiu fazer melhor. Heitor já não sorria; parecia furioso e amuado, e Cassandra sabia que ele lamentava aquele impulso de generosidade.

Houve outros concursos, e Cassandra, obrigando-se através de um esforço violento a regressar a si própria, em corpo e mente, presenciou, com interesse e prazer, a vitória do seu irmão gémeo em todos eles. Derrubou Deífobo, quase sem esforço, na luta corpo-a-corpo, e quando Deífobo se levantou e se atirou a ele, Páris estendeu-o inconsciente, para só se voltar a levantar quando os jogos já estavam terminados. Lançou o dardo ainda mais longe do que Heitor, recebendo os gritos de « Ele é tão forte como Héracles» com ingénuos sorrisos de prazer.

Um criado aproximou-se do rei e da rainha com um recado, e Cassandra ouviu o seu pai repetir em voz alta:

- Ele diz que o jovem forasteiro se chama Páris; é o filho adoptivo de Agelau, o pastor.

Hécuba ficou branca como a cal.

- Devia ter adivinhado; ele parece-se contigo. Mas quem poderia acreditar? Foi há tanto tempo, tanto tempo...

Os concursos haviam agora terminado e Príamo fez sinal a Páris, o vence­dor, para que avançasse. Depois levantou-se.

- Agelau - chamou em voz alta -, meu velho tratante, onde estás? Trouxeste o meu filho de volta.

O velho servidor avançou timidamente, pálido e pouco à vontade. Curvou­-se diante do rei e balbuciou:

- Não o autorizei a vir aqui hoje, alteza; veio sem a minha permissão, e eu compreéndo perfeitamente que estejas zangado comigo; com nós dois.

- Na verdade, não - disse Príamo afavelmente, e Cassandra viu os nós dos dedos da sua mãe aliviarem a tensão do punho sobre o coração. - Ele é um motivo de orgulho para ti, e para mim também. A culpa foi minha, ao dar ouvidos a esses disparates supersticiosos; só posso agradecer-te, velho amigo. -Tirou um anel de ouro da sua mão e colocou-o no dedo, deformado pelo trabalho, de Agelau.

- Mereces maior recompensa do que esta, meu velho amigo, mas é tudo o que posso dar-te neste momento. Antes de regressares aos teus rebanhos, terei um presente melhor para ti.

Cassandra presenciava, boquiaberta, o seu pai - que a atirara ao chão com uma bofetada só por ter inquirido sobre a existência daquele irmão - abraçando Páris e entregando-lhe todos os prémios do dia. Hécuba chorava e aproximou-se para abraçar o filho que havia perdido.

- Nunca pensei ver este dia - murmurou. - Oferecerei à Deusa uma bezerra imaculada.

Heitor franziu as sobrancelhas ao ver o seu pai ofertando generosos presen­tes a Páris: o prometido tripé (que Páris declarou querer enviar à sua mãe adoptiva); um manto carmim com bandas bordadas, tecido pelas mulheres do palácio; um belo capacete em bronze lavrado; uma espada de ferro.

- E claro que vens para o palácio e jantas comigo e com a tua mãe ­convidou ele por fim, sorrindo expansivamente. Quando Príamo se levantou, com o manto no braço, um dos homens idosos que o rodeavam avançou e falou-lhe num murmúrio insistente. Cassandra reconheceu o homem como um dos velhos frequentadores do palácio, um dos sacerdotes-adivinhos das relações de Príamo.

Príamo zangou-se e afastou o homem.

- Não me venhas falar de presságios, velho agoirento! Superstições dispa­ratadas; nunca lhes devia ter dado ouvidos.

Cassandra sentiu o choque - e também o medo - que percorreu Páris ao ouvir aquelas palavras. Era evidente que ele conhecia os presságios que o haviam exilado do palácio e despojado daquilo a que tinha direito por nascimento - ou seria que só agora deles tomava conhecimento?

Heitor disse ao ouvido do pai, mas ao alcance dos ouvidos de Páris: - Pai, se os deuses decretaram que ele é um perigo para Tróia... Príamo interrompeu-o:

- Os deuses? Não; uma sacerdotisa, uma leitora de entranhas de galinha e de sonhos; só um louco se privaria de um belo filho só para agradar a alguém assim. Um rei não dá ouvidos aos presságios de uma mulher prestes a parir, nem aos seus caprichos...

Cassandra sentiu-se dividida entre a simpatia pelo gémeo, cujo medo e insegurança não podia deixar de sentir como se fossem seus, e o terror da sua mãe. Quis avançar e atrair sobre si a ira do seu pai; mas antes de abrir a boca, os olhos de Fríamo pousaram-se de novo em Andrómaca.

- E agora vou fazer justiça, emendando o meu velho erro e trazer para casa o meu filho perdido. Que dizes, Hécuba: casamos a filha da rainha de Cálcis com o nosso novo e maravilhoso filho?

- Não podes fazer tal coisa, pai - disse Heitor, no momento em que Cassandra sentia os olhos de Páris pousarem-se, gulosos, em Andrómaca. - Páris já tem uma mulher; eu próprio a vi em casa de Agelau.

- Isto é verdade, meu filho? - perguntou Príamo.

Páris pareceu ficar de mau humor, mas percebeu a ameaça implícita. Disse com bons modos:

- É verdade; a minha mulher é uma sacerdotisa do Deus-Rio Escamandro. - Então tens de a mandar chamar, meu filho, e apresentá-la à tua mãe ­disse Príamo, e voltou-se para Heitor. - E a ti, Heitor, meu filho mais velho e meu herdeiro, a ti eu dou a mão da filha da rainha Imandra; celebraremos esta noite o casamento.

- Mais devagar, mais devagar - disse Hécuba. - A criança precisa, como qualquer outra rapariga, de tempo para fazer as roupas para o casamento; e as mulheres do palácio precisam de tempo para preparar esta festa tão importante na vida de uma mulher.

- Disparate - disse Príamo. - A partir do momento em que a noiva está pronta e o dote combinado, quaisquer roupas servem para o casamento. As mulheres estão sempre preocupadas com coisas insignificantes.

«Tudo isto pode ser um disparate», pensou Cassandra, «mas este menos­prezo é grosseiro da parte de Príamo. Que diria a rainha de Cálcis se soubesse que o casamento da filha tinha sido encaixado no 6m de um festival?»

Aproximou-se de Andrómaca e murmurou:

- Não os deixes apressarem-te assim. Tu és uma princesa de Cálcis, não um manto velho, para ser dada como um prémio especial dos jogos ou como consolação para Heitor por não ter vencido!

Andrómaca sorriu e sussurrou a Cassandra:

- Acho que gostaria de apanhar Heitor antes que o teu pai mude outra vez de ideias ou decida usar-me como prémio para outra pessoa qualquer. -Ergueu os olhos e disse numa vozinha tímida que Cassandra nunca a tinha ouvido usar, tão falsa que Cassandra não percebeu como Príamo não se lhe riu na cara: - Meu Senhor Príamo... pai de meu marido... a Senhora de Cálcis, a rainha minha mãe, enviou juntamente comigo todo o tipo de roupas e linhos; assim, se isso te der prazer, podemos celebrar o casamento no momento que achares adequado.

Príamo sorriu exultante e deu-Lhe uma palmadinha no ombro.

- Linda menina - disse ele, e Andrómaca corou e baixou modesta­mente os olhos, enquanto Heitor se aproximava e a olhava de cima a baixo, («tal como olhara a bezerra virgem que Páris escolhera para o sacrifício», pensou Cassandra).

- Ficarei muito contente por tomar a filha da rainha Imandra por esposa.

O longo dia estava a aproximar-se do fim. Príamo e Hécuba foram auxilia­dos a subir para os seus carros a fim de voltarem ao palácio. Cassandra deu por si caminhando ao lado de Páris; estava profundamente perturbada pelo facto de ele ainda não lhe ter dirigido uma única palavra nem ter reconhecido de qualquer forma o laço que os unia e que era, para ela, tão importante. Como podia ele ignorá-lo?

Perguntou-se se também ele estaria sob a protecção especial do Senhor do Sol, de forma a poder vir enfrentar o pai que tencionara expô-lo à nascença e que agora o reconhecia e pretendia devolver-lhe o lugar na família que era seu por direito.

Heitor seguia perto de Andrómaca; virou-se e pousou a mão no ombro de Cassandra, dando-lhe depois um brusco abraço de boas-vindas.

- Viva, irmã Cassandra. Como estás morena e queimada pelo sol -se bem que depois de todos estes anos com as Amazonas não seja de admirar. Porque não pegaste no teu arco e não foste até ao campo para competir com os outros arqueiros?

- Ela podia tê-lo feito, não duvides - disse Andrómaca -, e fazer uma marca melhor que a tua.

- Não duvido - disse Heitor. - Eu hoje não estava nos meus dias; e (tossiu e baixou a voz lançando um rápido olhar por cima do ombro na direcção de Páris) preferia ser vencido por uma rapariga a ser vencido por um arrivista. -Virou-se para Deífobo, que ainda estava agarrado à cabeça como se esta lhe doesse. - Diz-me, irmão - disse ele -, que havemos de fazer com este sujeito? Cresci ao som da velha história de como o pai o tinha exposto por ele ser uma ameaça para Tróia. Será que o devo ignorar só porque o pai achou apropriado subornar-me com uma bela mulher?

Deífobo disse:

- Parece que o pai já está enfeitiçado por ele. Devia aprender a lição com o rei Pélias, quando este foi confrontado com o seu filho desaparecido, Jasão; lembro-me de que ele enviou Jasão ao fim do mundo em busca do Tosão de Ouro...

- Mas já não há nenhum ouro em Cálcis - disse Andrómaca.

- Bem, temos de encontrar uma forma de nos vermos livres dele - disse Heitor. - Talvez consigamos persuadir o pai a enviá-lo a Agamémnon e usar com ele algum do seu encanto para o convencer a devolver Hesíona.

- Uma boa ideia, essa - disse Deífobo - E se isso falhar, poderemos mandá-lo... oh, convencer as sereias a darem-nos os seus tesouros marítimos, ou ferrar os Centauros lá nas terras deles ou a atrelá-los e fazê-los puxar os nossos carros de guerra...

- Ou o que quer que seja que o leve para mil léguas de distância de Tróia ­concordou Heitor. - E isto para benefício do próprio pai; se os deuses decre­taram que ele não é benéfico para Tróia...

- Nem, certamente, para nós - disse Deífobo. Mas Cassandra já ouvira o suficiente. Saiu do caminho e voltou para o lado de Páris.

- Tu - disse ele, olhando-a sem delicadeza -, tu... pensei que fosses um sonho. - E quando os seus olhos se encontraram pela primeira vez, ela sentiu o laço estabelecer-se de novo entre eles; estaria também ele consciente de como estavam ligados, na alma?

- Pensei que fosses um sonho - repetiu - ou talvez um pesadelo.

A rudeza das suas palavras foi como uma pancada; ela esperara que ele a abraçasse dando-lhe as boas-vindas.

Ela disse:

- Irmão, sabes que conspiram contra ti? Para os nossos irmãos, não és bem-vindo em Tróia. - Ela tentou de novo o contacto, mas apenas o sentiu afastar-se de novo, zangado.

Ele disse:

- Eu sei; achas que sou idiota? E daqui em diante, irmã, guarda para ti os teus pensamentos... e mantém-te afastada dos meus!

Ela recuou magoada pela crueldade de ter sido expulsa da sua mente. A partir do momento em que soubera da sua existência e do laço que os unia, tinha imaginado que quando se encontrassem ele a acolheria com alegria e que a partir daí seria muito especial, preciosa até, para ele. Agora, em vez disso, ele repelia-a, encarava-a como uma intrusa. Não via ele sequer que ela era, ali, a única pessoa pronta a recebê-lo com uma aceitação e amor ainda maiores que os de Príamo?

Não choraria nem lhe imploraria o seu amor.

- Como queiras - disse com rispidez. - Nunca foi meu desejo estar assim ligada a ti. Pensas, então, que talvez o nosso pai tenha exposto o gémeo errado? - Lançou-se para longe dele, apressando-se a descer o caminho e a voltar para junto de Andrómaca, com toda a alegria do retorno a casa destruída.

 

Ao longo de todo o serão, Cassandra pensou que aquela era mais a celebração do acolhimento de Páris na família do que uma festa de casamento para Heitor e Andrómaca, apesar de Príamo, uma vez decidido a celebrar o casamento, não se ter poupado a esforços para que nada faltasse. Mandou buscar o melhor vinho às adegas reais, e Hécuba foi às cozinhas a fim de providenciar as delicadas iguarias a adicionar à refeição da noite: frutos, favos de mel, todo o género de doçarias. Músicos, malabaristas, dançarinos e acrobatas foram chamados para o entretenimento.

Uma sacerdotisa do Templo de Palas Atena foi convocada para superin­tender os sacrifícios, os quais eram parte fundamental de um casamento real. Cassandra ficou junto de Andrómaca que agora, perante a evidência do facto, estava pálida e amedrontada - ou talvez, pensou Cassandra com uma ironia que a deixou espantada, fosse esta a ideia que Andrómaca tinha de como uma mulher decente e recatada deveria comportar-se no dia do seu casamento.

Quando se encontravam juntas no pátio, presenciando solenemente a preparação dos sacrifícios, Andrómaca encostou-se a Cassandra e mur­murou: «Pensava que os deuses já tivessem tido sacrifícios suficientes para um só dia. Achas que eles nunca se fartam de ver pessoas a matar animais em sua honra? A mim um matadouro não me divertiria nada.» Cassandra teve de sufocar uma risadinha que teria sido escandalosa; mas era verdade: já tinha havido sacrifícios suficientes durante os jogos. O casal estava lado a lado, as mãos fechadas em torno da faca dos sacrifícios, e Heitor curvou-se e sussurrou algo a Andrómaca. Ela abanou a cabeça mas ele insistiu, e foi a mão dela que, sem hesitação, enterrou a faca na garganta da vitela branca. Para Cassandra, que não comera nada desde manhã cedo, o cheiro da carne a assar era como ambrósia.

Depois disso, bastaram alguns minutos para que se retirassem e Hécuba enviasse as criadas para vestir Andrómaca e Cassandra para a festa. Estavam no quarto que Cassandra costumava partilhar com Políxena quando eram pequenas; mas já não era um simples quarto de crianças. As paredes tinham sido pintadas segundo a moda cretense, em murais com criaturas marinhas, estranhos moluscos curvilíneos e polvos de muitos tentáculos enleados em espirais de algas marinhas, nereidas e sereias. As mesas eram em madeira esculpida, repletas de cosméticos e frascos de essências em vidro azul soprado em forma de peixes e sereias. As cortinas das janelas éram de algodão egípcio, tingido de verde, através do qual o sol do fim da tarde, ao entrar no quarto, parecia sair das ondas do mar espalhando uma estranha luz subaquática.

O carregamento dos presentes de Cálcis tinha sido descarregado e levado para o palácio, e Andrómaca vasculhou os fardos em busca de um presente de casamento adequado para o seu recém-desposado. A rainha mandara levar a Cassandra um elegante vestido de gaze do Egipto, e Andrómaca encontrou, numa das arcas de Cálcis, um vestido de seda comprido, mas tão fino que era possível fazê-lo passar por dentro de um anel, e tingido com o incalculavel­mente valioso carmim de Tiro.

A rainha enviou também as suas próprias criadas, que trataram de pre­parar tinas de água aquecida, dar banho e perfumar ambas as raparigas. Encaracolaram-lhes o cabelo com pinças aquecidas, e em seguida fizeram-nas sentar e pintaram-lhes o rosto com cosméticos. Puseram-lhes nos lábios um creme próprio, vermelho, que cheirava a maçãs frescas e a mel; depois apli­caram kohl do Egipto para escurecer as sobrancelhas e sublinhar os olhos, e pintaram-lhes as pálpebras com uma pasta azul, semelhante a giz ao tacto, mas que tinha o odor do mais puro azeite. Andrómaca recebia todas aquelas atenções como se sempre, na sua vida, tivesse sido acostumada a elas; mas Cassandra ia dizendo piadas nervosas enquanto as mulheres tratavam dela.

- Se eu tivesse chifres, tenho a certeza de que vocês os enfeitariam também - disse ela. - Sou uma convidada ou uma das sacrificadas?

- A rainha ordenou-o, senhora - disse uma das camareiras. Cassandra supôs que Hécuba havia ordenado tudo aquilo para que a princesa de Cálcis não pensasse que Tróia era menos sumptuosa do que a sua longínqua cidade. A camareira disse:

- Ela ordenou que não vos deixássemos menos elegantes do que ela própria; e com toda a razão, pois como diz a velha canção, toda a dama é uma rainha quando vai no carro de núpcias. E é assim que eu tenho vestido a princesa Políxena para todos os festejos desde que ela passou a ter idade para isso.

Franziu a testa ao massajar as mãos de Cassandra com óleo perfumado que cheirava a lírios e a rosas.

- As tuas mãos estão calejadas, senhora - disse ela, reprovadora. - Nunca ficarão tão macias como as mãos da princesa, que são como pétalas de rosa; como devem ser as de uma dama.

- Lamento, mas não posso fazer nada - disse Cassandra, contorcendo as mãos assim tão criticadas. Foi nesse momento que teve consciência de quando iria sentir a falta da vida ao ar livre, tal como sentia já a falta do seu cavalo. Pentesileia havia-lhe oferecido uma magnífica égua, como presente de despedida; mas no fim da viagem, a última decisão de Cassandra tinha sido mandá-la de volta com a escolta de amazonas. Sabia que não lhe seria permitido cavalgar livremente, e não queria ver a sua nobre companheira enjau­lada nos estábulos ou, pior ainda, entregue a um dos seus irmãos para puxar um carro de combate.

O Sol estava a pôr-se, e as camareiras acenderam archotes. Depois puse­ram uma pregadeira de ouro no ombro da túnica de Cassandra e colocaram­-lhe sobre as costas um manto novo de lã riscada. Andrómaca enfiou os pés em sandálias douradas.

- E eis aqui um par exactamente igual a ti - disse ela, curvando-se para as calçar nos pés de Cassandra.

- Vais estar tão bonita como a noiva - disse a camareira; mas Cassan­dra pensava que Andrómaca, com os seus caracóis escuros e brilhantes, era mais bela do que qualquer outra mulher em Tróia.

As duas raparigas dirigiram-se apressadamente para as escadas; mas Cassandra não conseguia correr com aquelas sandálias requintadas, e tiveram de descer cuidadosamente, degrau a degrau, o comprido lanço de escadas.

O grande salão de festas brilhava à luz dos muitos archotes e candeias. Príamo já se encontrava sentado no seu alto trono e parecia aborrecido por elas estarem atrasadas. Mas quando o arauto anunciou «A Princesa Cassandra e a Princesa Andrómaca de Cálcis», Príamo, bem-humorado, fez sinal com a mão para que as raparigas se aproximasem dele. Sentou Andrómaca no lugar de honra a seu lado, partilhando com ela o prato e a taça de ouro.

Hécuba fez sinal a Cassandra para que se sentasse a seu lado e murmu­rou: «Agora pareces realmente uma princesa de Tróia e não uma mulher das tribos selvagens, minha querida. Como estás bonita...»

Cassandra pensou que devia parecer uma boneca pintada, como as pequenas efígies que vinham do Egipto e se destinavam aos túmulos de reis e rainhas. Era esse o aspecto de Políxena; mas se a sua mãe estava satisfeita, não iria protestar.

Quando toda a gente se sentara, Príamo propôs o primeiro brinde levamtando a sua taça.

- Ao meu novo e esplêndido filho Páris, e à boa sorte que o devolveu a mim e à sua mãe, um conforto para a velhice.

- Mas, pai - protestou Heitor a meia voz -, esqueceste a profecia que acompanhou o seu nascimento, segundo a qual ele atrairia uma calamidade sobre Tróia? Nessa altura eu era uma criança, mas lembro-me muito bem.

Príamo pareceu contrariado; Hécuba ficou à beira das lágrimas. Páris não pareceu ficar surpreendido; Agelau devia ter-lhe contado. Mas era gros­seiro da parte de Heitor mencionar a profecia durante a festa.

Heitor exibia as suas melhores roupas: uma requintada túnica com bordados a ouro nos quais Cassandra reconheceu o trabalho das mãos da própria rainha; a Páris também tinha sido dada uma bela túnica e um manto novo como o de Cassandra, e ele estava magnífico. Príamo observou-os a ambos com satisfação, enquanto dizia:

- Não, meu filho, não esqueci o presságio enviado não a mim, mas sim à minha rainha. Mas as mãos dos deuses devolveram-mo, e homem algum pode argumentar contra o Destino ou contra a vontade dos Imortais.

- Mas estás certo - insistiu Heitor - de que foram os deuses e não alguma Parca perversa decidida a destruir a nossa Casa Real?

O rosto moreno de Páris ensombrara-se, mas Cassandra já não conseguia ler os pensamentos do seu gémeo.

Príamo disse com um ameaçador franzir de sobrolho que fez Cassandra estremecer:

- Paz, meu filho! Este é o único assunto em que não te darei ouvidos! Preferia, se necessário, ver Tróia inteira perecer do que ver algum mal atingir este magnífico filho que reencontrei.

Cassandra sentiu um arrepio percorrê-la. Príamo, ao escarnecer da profecia, acabava de proferir outra.

Ele sorriu com benevolência a Páris, que se encontrava sentado do outro lado de Hécuba, os dedos firmemente apertados nos dela. O rosto da rainha desfazia-se em sorrisos, e Cassandra sentiu uma dor cortante; a descoberta de Páris fazia-a perder as atenções de boas-vindas que poderia ter recebido da rainha. Sentia-se triste e magoada, mas disse para si própria que era Pentesileia quem se tornara a sua verdadeira mãe; entre as Amazonas uma filha era útil e bem-vinda, enquanto aqui em Tróia pensava-se sempre numa filha apenas como não sendo um filho.

Príamo insistia com Andrómaca para que esta bebesse cada vez que a taça passava em volta, esquecendo que ela era apenas uma rapariguinha a quem, normalmente, não seria permitido, ou encorajado, beber daquela maneira. Cassandra percebia que a sua amiga já estava um pouco tonta e embriagada. «Talvez seja bom», pensou ela, «pois no fim da festa vai ser enviada, praticamente sem preparação, para a cama do meu irmão Heitor. E ele também está bastante bêbado.»

Ocorreu-lhe de repente que devia sentir-se satisfeita por Andrómaca não se casar com Páris como tinha sido sugerido; com o laço que os unia, ela provavelmente não conseguiria evitar partilhar a consumação do casamento. A ideia fê-la sentir calor e frio alternadamente; os seus sentidos estavam em chamas. Onde estava Enone? Porque não a teria Páris convidado, como sua mulher, para o casamento?

Heitor, talvez por estar bêbado, decidiu continuar com o mesmo assunto. - Bom, meu pai, decidiste honrar o nosso irmão; não levarás em considera­ção que talvez devêssemos dar-lhe a óportunidade de merecer as honras que lhe concedeste? Suplico-te que, pelo menos, o envies numa expedição entre os Aqueus; assim, se a profecia maligna ainda vigorar, pode ser que se desvie para eles.

- Essa é uma boa ideia - murmurou Príamo, também ele já sob o efeito de uma boa quantidade de vinho. - Mas tu não nos queres deixar já, pois não, Páris?

Páris murmurou, correctamente, que se encontrava sempre à disposição do seu pai e do seu rei.

- Ele encantou-nos a todos - replicou Heitor, não sem malícia. - Porque não deixá-lo tentar o seu charme irresistível em Agamémnon e persuadi-lo a pedir resgate pela senhora Hesíona?

- Agamémnon - disse Páris, levantando repentinamente a cabeça. - Não é ele o irmão desse Menelau que casou com Helena de Esparta? E não é ele próprio casado com a irmã da rainha espartana?

- É isso mesmo - disse Heitor. - Quando os Aqueus vieram do Norte com os seus carros de guerra e os seus deuses do Trovão, Leda, a Senhora de Esparta, desposou um desses reis, e correram rumores, quando ela lhe deu duas filhas gémeas, que uma delas era filha do próprio Senhor do Trovão.

- E Helena desposou Menelau - continuou Heitor -, apesar de dizerem que ela era bela como uma deusa e que poderia ter casado com qualquer rei, da Tessália a Creta. Houve segundo ouvi, muitas desavenças em torno do casamento de Helena, que iam resultando numa guerra, ali, naquele momento. Tu não és mal parecida, minha Andrómaca - disse ele, aproximando-se e olhando­-lhe atentamente o rosto -, mas não és tão bela, penso eu, que eu tenha de te manter encerrada para evitar que todos os homens me invejem e te cobicem. - Ele tomou-lhe o queixo nas mãos e olhou-a.

- O meu senhor é bondoso para com a sua humilde esposa - dise Andró­maca com um breve sorriso, que somente Cassandra identificou como sarcástico. Páris observava Heitor com tal atenção, que Cassandra não pôde deixar de reparar. Que estaria ele a pensar? Teria ele ciúmes de Heitor, que não era nem tão belo nem tão inteligente como ele? Com uma mulher tão bonita como Enone, dificilmenmte poderia cobiçar Andrómaca a Heitor, só porque ela era princesa de Cálcis. Ou teria ele inveja de Heitor por este ser o mais velho e o favorito confirmado do pai? Ou estaria ele zangado porque, no fundo, Heitor o tinha insultado?

Beberricou lentamente o vinho da sua taça, perguntando-se como Andró­maca se sentiria, realmente, em relação a este casamento; não a conseguia imaginar louca de alegria por estar casada com o tirânico Heitor, mas supunha que a Andrómaca não desagradava a ideia de vir a ser, eventualmente, rainha de Tróia. Sub-repticiamente - a sua mãe sempre lhe havia dito que não era decente olhar os homens no rosto - olhou em torno da sala, pensando se haveria ali algum homem com quem casasse de boa vontade. Certamente que com nenhum dos seus irmãos, mesmo supondo que não era irmã deles; Heitor era bruto e quezilento; Deífobo era dissimulado e tinha um olhar matreiro; mesmo Páris sendo belo como era, já tinha esquecido Enone. Troilo era ainda uma criança~ mas quando crescesse era capaz de vir a ser bastante suave e gentil. Recordou~ como, mesmo entre as Amazonas, as raparigas passavam o tempo a falar do rapazes, e também aí ela tinha sentido o peso da diferenÇa no seu coração. Porquê? não se preocuparia minimamente com o que, para elas, era tão importante.

«Deve haver alguma coisa que valha a pena no casamento, caso contrário porque estariam todas as mulheres tão ansiosas por casar?» Depois recordou as palavras da rainha Imandra: ela era uma «sacerdotisa nata». Pelo menos isso era uma razão válida para a sua diferença.

As pálpebras de Cassandra desciam, e ela pestanejou e sentou-se direita, desejando que aquilo terminasse; antes do raiar do dia já ela estava acordada e a caminho, e fora um dia muito longo.

Príamo chamara Páris para junto de si e conversava com ele sobre navios, a rota de navegação até às ilhas Aqueias e qual a melhor forma de abordar as gentes de Agamémnon. Andrómaca estava meio adormecida. Aquela era, pensou Cas­sandra, a festa mais entediante que já vira, embora, de facto, não tivesse ido a muitas.

Finalmente, Príamo propôs um brinde aos recém-casados e mandou buscar archotes para escoltarem Heitor e a sua noiva até ao quarto nupcial. À frente das mulheres, Hécuba conduzia o cortejo segurando na mão um archote flamejante. A chama agitava-se e projectava luzes coloridas ao longo das paredes, à medida que as mulheres, com Cassandra e PolíCena ladeando Andrómaca, a acompa­nhavam pela escada acima, seguidas por todas as outras mulheres do palácio ­esposas e filhas de importância secundária, e todas as criadas do palácio, in­cluindo as da cozinha. Os archotes fumegavam e faziam doer os olhos a Cas­sandra. Pareceu-lhe que ardiam em altas chamas, que havia um fogo tremendo por detrás das paredes, mesmo no quarto nupcial; que conduziam Andrómaca para uma morte terrível,...

Cobrindo os olhos com as mãos, como que para afastar a visão, ouviu-se a si mesma gritando:

- Não! Não! O fogo! Não a levem para aí!

- Cala-te! - Hécuba apertou-lhe os pulsos até Cassandra se contorcer de dor. - Que se passa contigo? Estás louca?

- Não ouves os trovões? - sussurrou Cassandra. - Não, não, ali só há sangue e morte... fogo lá dentro, relâmpagos, destruição...

- Está quieta! - ordenou Hécuba. - Que augúrio para uma noite de núpcias! Como te atreves a fazer uma cena destas?

- Mas será que não ouvem, que não vêem... - Cassandra sentiu-se invadir pelas trevas, não conseguindo ver nada para além da escuridão cruzada pelo fogo. Comprimiu as mãos de encontro aos olhos, tentando apagar aquela imagem. Teriam sido apenas os archotes fumegantes distorcendo-lhe a visão?

- Que vergonha! - a mãe continuava a ralhar-Lhe enquanto a arrastava consigo. -- Pensei que a princesa de Cálcis fosse tua amiga; queres estragar-lhe a noite de núpcias com este espalhafato? Sempre foste ciumenta quando alguém, que não tu, é o centro das atenções; mas pensei que com a idade tivesses ultra­passado isso...

Levaram Andrómaca para o quarto nupcial. Também este tinha sido pin­tado com criaturas marinhas, tão realistas que pareciam ondular e nadar sobre as paredes. Hécuba dissera-lhe, ao jantar, que alguns artífices de Creta tinham passado um ano no palácio a redecorar as paredes segundo o estilo cretense,

e que a mobília esculpida fora tributo da rainha de Cnossios.

Sobre a mesa-de-cabeceira encontrava-se uma pequena escultura da Mãe Terra, com os Seus seios nus por sobre o corpete apertado, uma saia de folhos e uma serpente em cada mão. Andrómaca, enquanto as mulheres lhe retiravam os ornamentos nupciais e lhe vestiam uma camisa de gaze do Egipto, sussurrou a Cassandra:

- Olha, é a Mãe Serpente, mandaram-Na da minha terra para que me abençoe nesta noite...

Por momentos, no interior de Cassandra, a torrente de águas negras amea­çou agitar-se e inundá-la de novo. Afundava-se no medo; era tudo o que conseguia fazer para se impedir de gritar todo o terror e a apreensão que começava a estrangulá-la: «Fogo, morte, sangue, maldição para Tróia... para todos nós...»

O rosto de sua mãe, grave e zangado, manteve-a em silêncio. Entorpecida pelo terror, abraçou Andrómaca, empurrando contra ela a bonita estatueta e murmurando:

- Que Ela te dê, então, a bênção da fertelidade, irmãzinha.

Andrómaca parecia ser apenas uma criança crescida, dentro da sua camisa, com os cabelos escovados - e já sem os elegantes caracóis -caindo-lhe sobre os ombros, os seus olhos pintados, enormes e escuros devido ao kohl espalhado em volta das pálpebras. Cassandra, imersa ainda nas águas negras da sua visão, sentiu-se velha e definhada no meio de todas aquelas raparigas que brincavam aos casamentos sem fazer a mínima ideia do que as esperava.

Ouviam-se agora, pela escada acima, os cantos dos homens que acompanhavam Heitor, o qual vinha reclamar a sua noiva. Andrómaca agarrou-se a ela e murmurou:

- És a única pessoa que não é estranha para mim, Cassandra. Peço-te, deseja-me felicidade.

A garganta de Cassandra estava tão seca que ela mal conseguia falar. « Quem me dera que conceder felicidade fosse tão fácil como desejá-la.» Murmurou, por entre os lábios ressequidos:

- Desejo-te toda a felicidade, irmã.

«Mas não existirá felicidade; apenas maldição e os maiores sofrimentos deste mundo...»

Quase conseguia ouvir os gritos estridentes da angústia e os lamentos, por entre o canto alegre do hino nupcial; e no momento em que Heitor, escoltado pelos seus amigos, entrou no quarto, os laivos vermelhos da luz dos archotes mancharam as suas faces com o carmim do sangue... ou seriam somente os ossos dos seus rostos que a luz assemelhava a caveiras?

A sacerdotisa que se encontrava junto à cama deu-lhes a taça do matri­mónio. Cassandra pensou: «Aquela deveria ter sido a minha tarefa», mas o seu rosto estava gelado de pavor e ela sabia que jamais teria tido coragem de colocar a taça na mão da sua amiga.

- Não fiques tão acabrunhada, irmãzinha - disse Heitor, tocando os seus cabelos ao de leve. - Em breve será a tua vez; ao jantar, o nosso pai estava a falar em arranjar, a seguir, um marido para ti. Sabias que o filho do rei Peleu, Aquiles, fez uma oferta por ti? O pai diz existir uma profecia segundo a qual ele há-de ser o maior herói de todos os tempos. Talvez o casamento com um aqueu acabasse com estas estúpidas guerras, embora eu preferisse bater-me com Aquiles e cobrir-me de glória.

Cassandra agarrou furiosamente os ombros de Heitor.

- Tem cuidado com aquilo que pedes - disse entredentes -, pois algum deus pode conceder-to! Reza para que nunca tenhas de enfrentar Aquiles em combate!

Ele olhou para ela com desagrado e retirou-lhe as mãos dos seus ombros com firmeza.

- Como profetisa, és uma ave agoirenta, irmã, e eu preferia não ter de ouvir os teus grasnidos na noite do meu casamento. Vai para a tua cama e deixa-nos na nossa.

Ela sentiu que as águas escuras se escoavam, deixando-a oca, vazia e indisposta, sem a mínima noção do que estivera a dizer. Murmurou:

- Perdoa-me, não é por mal. Sabes com certeza que só desejo o bem para ti e para a nossa parente de Cálcis...

Heitor roçou os lábios pela sua fronte.

- Foi um dia longo e a tua viagem foi grande - disse ele. - E só os deuses sabem que loucuras te ensinaram em Cálcis. Não é para admirar que estejas quase a delirar de fadiga. Boa noite então, irmãzinha e... isto para os teus presságios! - Pegou no archote que se encontrava junto à cama e apagou rapidamente a chama. - Que todos eles se reduzam a nada, tal como isto!

Ela voltou-lhe as costas, vacilante, enquanto as vozes das mulheres que ali permaneciam se elevavam numa última canção nupcial. Sabia que deveria juntar-se a elas, mas sentia que mesmo que disso dependesse a própria vida, não conseguiria soltar uma única nota. Em passos trôpegos avançou às cegas, afastando-se da cama, e saiu do quarto dos noivos, precipitando-se para o seu. Deixou-se tombar sobre a cama, sem sequer se preocupar em tirar os seus enfeites ou limpar o rosto dos cosméticos gordurosos. Caiu no sono, ao mesmo que as águas negras se encapelavam de novo à sua volta, afogando por completo os ecos reminiscentes dos hinos de alegria.

 

Havia já muitos dias que o porto vibrava com o som dos martelos e enxós à medida que o navio crescia sobre o berço onde tinha sido assente a quilha; tocadores de harpa vinham quase todas as noites ao Grande Salão, para cantar a balada de Jasão e da construção do Argo.

As provisões para a viagem vinham sendo carregadas havia semanas, enquanto os fabricantes de velas cosiam, com as suas agulhas enormes, a volumosa vela estendida sobre a areia branca da praia; para secar ou defumar as barricas de carne, mantinham-se fogos acesos no pátio, noite e dia; foram trazidos cestos com frutos e potes de vinho e azeite e sempre mais e mais armas. Parecia às mulheres que havia meses que todos os ferreiros do reino não paravam de martelar pontas de flecha em bronze, espadas de bronze ou de ferro, armaduras de todos os tipos.

Dúzias dos melhores guerreiros de Príamo partiriam com Páris, não para fazer a guerra, mas para o caso de encontrarem piratas quando atravessassem o Egeu, fosse o famoso pirata Odisseu (que vinha por vezes ao palácio de Príamo para vender o seu saque, ou apenas para pagar o tributo que este cobrava a todos os navios que cruzavam os estreitos em direcção ao norte) ou qualquer outro pirata. Esta expedição, carregada de presentes para Agamém­non e para os outros reis aqueus, não poderia correr o risco de ser pilhada; a sua missão, pelo menos segundo dizia Príamo, era negociar um resgate hon­roso pela senhora Hesíona.

Cassandra observava o navio crescendo sob as mãos dos construtores, e desejava ardentemente partir nele com Páris e seus companheiros.

Por duas ou três ocasiões em que os guerreiros se treinavam no pátio, ela vestiu uma das túnicas curtas de Páris e, escondendo o rosto sob um capacete, treinou-se com eles com a espada e o escudo. A maioria pensava ser Páris quem lutava; visto ele raramente aparecer no campo de treinos, ela nunca foi descoberta. Apesar de saber que era um atrevimento, sentia um imenso prazer e, durante bastante tempo, a sua agilidade e força muscular mantiveram-na incógnita.

Mas um dia um amigo de Heitor defrontou-a e deitou-a por terra, e a túnica curta levantou-se descobrindo-a até à cintura. O próprio Heitor veio e arrancou-Lhe o capacete da cabeça; depois, zangado, tirou-lhe a espada da mão, virou-a ao contrário e deu-lhe com ela uma forte pancada nas costas.

- Agora vai para dentro, Cassandra, e trata de tecer e fiar - disse ele com rispidez. - Há trabalho de mulher que chegue para ti; se te apanho outra vez aqui disfarçada, dou-te uma sova com as minhas próprias mãos.

- Deixa-a em paz, grande bruto - gritou Andrómaca, que observava de um dos lados do pátio; tinha estado a ajustar uma almofada carmim ao carro de Heitor e a pregar-lhe os últimos pedaços de fio de ouro. Heitor virou-se para ela, zangado.

- Tu sabias que ela estava aqui, Andrómaca?

- E se soubesse? - perguntou Andrómaca com rebeldia. - A minha própria mãe (e a tua também) luta como uma guerreira!

- Não é próprio para a minha irmã, nem para a minha mulher, estarem aqui sob os olhares dos soldados - disse Heitor, repreendendo-a. - Vai para dentro e cuida do teu trabalho; e não quero mais conivências com esta desgraçada atrevida!

- Suponho que pensas que também me podes dar uma sova! - disse Andrómaca, insolenternente. - Mas já sabes o que te espera se tentares! ­Cassandra viu, com espanto, um rubor de embaraço espalhar-se pelo rosto do irmão.

O cabelo escuro de Andrómaca esvoaçava solto ao vento em torno do seu rosto; vestia uma túnica quase da cor do seu vestido de casamento, e estava muito bonita. Heitor disse por fim, de um modo tão formal que Cassandra percebeu que ele reprimia fosse o que fosse que lhe apetecia dizer, por não ser próprio dizê-lo perante uma terceira pessoa, mesmo tratando-se de uma irmã:

- Pode ser que assim seja, esposa. Mesmo assim seria mais decoroso se fosses para os alojamentos das mulheres e tratasses do teu tear; há muito trabalho de mulher para ser feito, e eu preferia que o fizesses em vez de vires cá para fora aprender os modos de Cassandra. No entanto, se isso te fizer sentir melhor, eu desta vez não Lhe bato. Quanto a ti, Cassandra, vai para dentro e trata das tuas tarefas, ou eu digo ao pai e ele talvez ponha as coisas nuns termos tais que te forcem a levar em conta as tuas palavras. - Ela percebeu que o ressentimento espelhado no seu rosto o tocava, visto ele dizer com um pouco mais de gentileza: - Vá lá, irmãzinha, pensas que eu estaria para aqui a cansar-me até à exaustão, com a espada e o escudo, se pudesse ficar dentro de casa, fresco e confortável? As batalhas podem parecer-te muito atraentes enquanto se trata de brincar com lanças e flechas com os teus amigos e os teus irmãos; mas olha - destapou o braço enrolando a manga da túnica de lã acima do debrum bordado e mostrou-lhe uma costura longa e avermelhada, ainda supurando no meio. - Continua a doer-me quando mexo o braço; quando há realmente que ferir e ser ferido, a guerra já não parece tão excitante!

Cassandra olhou para a ferida que marcava o corpo macio e musculado do seu irmão, e sentiu uma estranha sensação de enjoo que a apertava por baixo do diafragma; vacilou e recordou-se de quando golpeara a garganta do homem que a tentara violar. Quase sentiu vontade de contar esse episódio a Heitor - ele era um guerreiro e iria decerto compreendê-la. Depois olhou-o nos olhos e percebeu que não; ele nunca seria, pensou ela, capaz de ver nada para além do facto de ela ser uma rapariga.

- Alegra-te por ter sido eu o único a ver-te assim despida, irmãzinha -disse ele sem rudeza -, porque se descobrissem uma mulher no campo de batalha... Já vi mulheres guerreiras serem violadas sem que nenhum homem protestasse. Se uma mulher recusa a protecção legítima para esposas e irmãs, não existe mais nenhuma protecção para ela.

Enfiou o seu elmo e afastou-se, deixando as mulheres com os olhos pregados nele: Cassandra zangada e sabendo que deveria sentir-se envergonhada, Andrómaca reprimindo o riso. Momentos depois deixou escapar uma risada.

- Oh, ele estava tão zangado! Cassandra, se ele se zangasse assim comigo, eu ficava aterrorizada! - Sentindo o vento fresco, puxou a mantilha para os ombros. - Vem, vamos sair daqui para fora. Ele tem razão; se outro homem qualquer te tivesse visto... - torceu a boca numa careta e disse com um estremecimento exagerado: - ...algo de terrível teria certamente acon­tecido.

Não vendo nenhuma alternativa, Cassandra foi atrás dela e Andrómaca enfiou o braço por dentro do braço da cunhada.

Cassandra, pela primeira vez desde há vários dias, apercebeu-se de que a escuridão profética a preenchia por dentro.

Enquanto estivera no terreiro com uma arma, não tivera consciência daquilo que a fizera gritar na noite do casamento. Agora, através dessas águas escuras, ela via Andrómaca e, em torno dela, algo distinto, envolvendo-a como um fogo frio e assustador de sofrimento e pânico; mas havia, antes da dor; alegria bastante para a levar a pousar a mão, ansiosamente, no braço de Andrómaca e perguntar com doçura:

- Esperas uma criança?

Andrómaca sorriu; ou antes, pensou Cassandra, resplandeceu.

- Achas que sim? Eu ainda não tenho a certeza; pensei que talvez devesse perguntar à rainha como poderia certificar-me. A tua mãe tem sido tão boa comigo, Cassandra. A minha mãe nunca me compreendeu nem aceitou por eu ser cobarde e não querer ser uma guerreira; mas Hécuba gosta de mim e eu acho que ficará feliz se isso for verdade.

- Pelo menos disso eu tenho a certeza - disse Cassandra; e depois, porque sabia que Andrómaca ia perguntar «Como é que sabes?», procurou atrapalhadamente palavras que Lhe permitissem explicar as águas negras e a terrível coroa de fogo. - Por momentos, pareceu-me ver-te com o filho de Heitor nos braços.

O sorriso de Andrómaca era radiante; e Cassandra sentiu alívio ao ver que, desta vez, causara prazer em vez de medo com o seu dom indesejado. Nos dias que se seguiram não voltou a pegar nas armas, mas saía frequentemente, sem ser repreendida, para ver os progressos no navio. Ia cres­cendo diariamente, no berço sobre a areia e, pouco antes da gravidez de Andrómaca se tornar visível para os olhares menos treinados, estava pronto a ser lançado à água; um touro branco foi sacrificado no momento em que ele deslizava suavemente pela rampa abaixo, em direcção à água.

Nesse momento, Heitor, de pé entre a sua mulher e Cassandra, disse: - Tu que estás sempre a profetizar sem que to peçam, que prevês para este navio?

Cassandra disse, em voz baixa:

- Não vejo nada. E talvez esse seja o melhor de todos os presságios. ­Ela conseguia ver o navio regressar, envolto numa aura dourada como o rosto de um deus, e nada mais. - Mas creio que é bom que tu não partas, Heitor. - Que assim seja, então - disse Heitor.

Páris veio despedir-se deles, apertando calorosamente a mão de Heitor e abraçando Cassandra com um sorriso. Beijou a mãe e saltou para bordo do navio; a sua família continuou junta, vendo o barco deslizar para fora do porto, a grande vela enfunando-se ao vento. Páris ia de pé, junto à barra do leme, muito direito e esguio, com a face iluminada pelo Sol que ia avançando para oeste. Cassandra soltou o braço da mãe e afastou-se pelo meio da multidão entusiasmada; dirigiu-se imediatamente para o local onde se encon­trava uma mulher alta, fixando com os olhos a vela cujas dimensões se iam, progressivamente, assemelhando às de um brinquedo.

- Enone - disse ela, reconhecendo-a do momento em que, com Páris, abraçara a rapariga como se fosse com os seus próprios braços -, que fazes aqui? Porque não foste dizer-lhe adeus juntamente com o resto da sua família?

- Quando me apaixonei por ele, não fazia ideia de que ele era um prín­cipe - disse a rapariga. A sua voz era tão encantadora como ela, clara e musical. - Como seria possível uma rapariga vulgar como eu aproximar-se do rei e da rainha enquanto eles estavam a dizer adeus ao seu filho?

Cassandra pôs o braço em volta de Enone e disse suavemente:

- Tens de vir e ficar no palácio. Tu és mulher dele e a mãe do seu filho, portanto eles gostarão de ti tal como gostam de Páris. - «E se não gostarem», pensou, «podem pelo menos agir como se gostassem, pela honra da família. Pensar que ele partiu sem se despedir dela!»

A face de Enone estava inundada de lágrimas. Cravou os dedos no braço de Cassandra.

- Dizem que és profetisa, que podes ver o futuro - disse ela a chorar. a Diz-me que ele vai voltar! Diz-me que ele vai voltar para mim!

- Oh, ele vai voltar - disse Cassandra. «Ele vai voltar. Mas não para ti.»

A intensidade das suas próprias emoções confundia-a. Disse:

- Deixa-me falar com a minha mãe a teu respeito - e dirigiu-se com Andrómaca para junto de Hécuba. Andrómaca disse, em tom de meiga censura: - Oh, Cassandra, como é possível? Uma camponesa... trazê-la para o palácio?

- Não; ela é tão bem-nascida como qualquer de nós - disse Cassandra. - Basta olhar para as mãos dela para perceber isso. O pai dela é um sacerdote do deus-rio Escamandro.

Repetiu este argumento a Hécuba, cujo primeiro impulso foi dizer:

- Claro, se ela traz em si o filho de Páris. Mas como podes estar certa disso, querida? Temos de garantir-lhe todas as providências e que nada lhe falte. Mas levá-la para o palácio?

Apesar de tudo, quando conheceu Enone foi instantaneamente cativada pela sua beleza e levou-a para uma suite clara e arejada, com vista sobre o mar, na parte mais alta do palácio. Estava vazia e cheirava a ratos, mas Hécuba disse:

- Ninguém utilizou estes quartos desde que a mãe de Príamo aqui viveu; chamaremos os artífices e mandá-los-emos redecorar para ti, minha querida, se conseguires arranjar-te com eles tal como estão por uma ou duas noites.

Os olhos de Enone estavam muito abertos e quase incrédulos: - És tão boa comigo... isto é demasiado para mim...

- Não sejas tonta - interrompeu Hécuba. - Para a mulher do meu filho (e, em breve, para o seu filho) nada é demasiado, acredita-me. Chamaremos os artífices de Creta; eles estão na cidade, a pintar frescos em algumas casas, e alguns a decorar vasos e potes para azeite. Mandar-lhes-ei uma mensagem amanhã.

Ela cumpriu a sua palavra e passado um dia ou dois os cretenses chegaram para rebocar os quartos e pintar cenas festivas nas paredes: imponentes touros brancos e saltitantes touros-bailarinos de Creta, em tons realistas. Enone estava deliciada com a beleza dos quartos e quase infantilmente feliz quando Hécuba mandou mulheres para a servir.

- Não deves fatigar-te, pois o meu neto pode sofrer com isso - disse Hécuba asperamente, quando Enone tentou agradecer-lhe, atrapalhada. Andrómaca era também amável para Enone, embora de um modo indife­

rente, e a princípio Cassandra passava uma grande parte do seu tempo com elas, confundida pelos seus sentimentos. Andrómaca pertencia agora a Heitor e Enone a Páris; ela não tinha amigas chegadas e embora todos os dias Príamo mencionasse a necessidade de lhe arranjar um marido, ela não tinha a certeza de ser isso o que desejava ou do que responderia se lhe perguntasse - o que prova­velmente ele não faria.

Não compreendia por que razão a presença de Enone a afectava daquela maneira; supunha que fosse por ter partilhado as emoções de Páris (mas se Páris sentia o mesmo em relação a Enone, porque se mostrava pronto a deixá-la?) pela rapariga quando ele a fizera sua mulher. Sentia um enorme desejo de acariciar a outra mulher e confortá-la, ao mesmo tempo que se afastava dela, embaraçada até pelos abraços casuais, vulgares entre raparigas.

Confusa e assustada, começou a evitar Enone, o que significava evitar Andrómaca também, pois as duas jovens esposas passavam agora grande parte do tempo juntas, conversando sobre os bebés que vinham a caminho e tecendo roupas para eles, passatempo que não seduzia minimamente Cassandra. A sua irmã Políxena, que nunca fora uma amiga, ainda não estava casada, embora Príamo andasse a tentar negociar a melhor aliança possível para ela, e ela não pensasse ou falasse em outra coisa.

Cassandra esperava que quando Páris regressasse, ela deixasse de andar tão obcecada por Enone; mas não fazia ideia de quando isso iria acontecer. Sozinha sob as estrelas, no terraço superior do palácio, soltou os seus pensamentos em busca do irmão gémeo, mas não obteve mais do que as frias aragens marítimas e uma visão deslumbrante das profundezas do mar, tão clara que lhe era possível distinguir os seixos lá no fundo.

Um dia, aproveitando um momento em que Príamo estava de bom humor, foi ter com ele e, imitando as atitudes coquetes de Políxena, perguntou docemente:

- Diz-me, pai, por favor, até onde irá Páris e quanto tempo levará até ele estar de volta?

Príamo sorriu com indulgência e disse:

- Olha, minha querida. Aqui estamos nós, na ponta do estreito. Dez dias a navegar nesta direcção, para sul, e encontra-se um magote de ilhas governadas pelos Aqueus. Se ele evitar o naufrágio aqui, nos bancos de areia - esboçou a linha da costa -, pode navegar para sul, até Creta, ou para noroeste, para o continente dos Atenienses e Micenenses. Se os ventos lhe fossem favoráveis e não apanhassem tempestades violentas, poderia regressar antes do final do Verão; mas ele vai negociar e provavelmente será convidado de um ou mais dos reis aqueus... como eles chamam a si mesmos. Eles chegaram há pouco tempo a estas terras; a família de alguns deles não remonta mais atrás do que os seus pais. As cidades deles são novas; a nossa é antiga. Existiu uma outra Tróia aqui, antes dos meus antepassados construírem a nossa cidade, sabias, filha?

- A sério? - fez uma voz doce e admirada como a de Políxena, e ele sorriu e falou-lhe da antiga cidade cretense que em tempos se erguera a menos de um dia de viagem por mar, ao longo da costa.

- Nessa cidade existiam depósitos de vinho e azeite, e pensa-se que poderá ter sido por isso que a cidade ardeu quando o grande Posídon, O que Estremece a Terra, fez o mar levantar-se e o chão tremer. Durante um dia e uma noite abateu-se sobre o mundo uma imensa escuridão que chegou ao Egipto, para sul; e a bela ilha Calisto afundou-se no mar, arrastando consigo o Templo da Mãe Serpente enquanto os Templos do Zeus dos Trovões e de Apolo, Senhor do Sol, mantiveram intactos. É por isso que agora, nas terras civilizadas, há menos adoradores da Mãe Serpente.

- Mas como podemos saber que foram os deuses que estremeceram as terras? - perguntou Cassandra. - Enviaram mensageiros a avisar-nos?

- Não sabemos - disse Príamo -, mas quem mais poderia ser? Se não fossem os deuses, existiria somente o caos. Posídon é um dos deuses mais poderosos de Tróia, e nós rogamos-Lhe que conserve a terra firme sob os nossos pés.

- Que Ele o faça por muito tempo - murmurou Cassandra fervorosamente, e logo que viu que as atenções do seu pai se haviam desviado para a taça de vinho, pediu delicadamente para se retirar; o seu pai aquiesceu com a cabeça e ela saiu para o pátio com muitas coisas em que pensar. Se de facto ocorrera o grande terramoto (do qual ouvira falar na sua infância - acontecera vários anos antes 'do nascimento de Príamo), então era possível que isso fosse razão suficiente para a adoração da Mãe Terra estar desacreditada, excepto talvez entre as mulheres das tribos.

O pátio estava animado; estava um dia esplêndido. Os artífices andavam de um lado para outro. Os homens que pintavam os frisos lá em cima, nos aposentos destinados a Enone e Páris, moíam novos pigmentos e misturavam-nos com óleo; os contadores de mercadoria contavam potes de vinho trazidos como dízimo cobrado a um dos navios ancorado no porto; alguns soldados treinavam-se com as armas. Bem longe da cidade, Cassandra avistou uma nuvem de poeira, provavelmente provocada por Heitor exercitando os cavalos do seu novo carro de combate. Ela movia-se por entre as pessoas como um fantasma; «é como se eu fosse uma feiticeira e me tivesse tornado invisível», pensou, e perguntou-se se o conseguiria de verdade, e se isso faria alguma diferença.

Sem nenhum motivo, os seus olhos pousaram ociosarnente num rapaz que, com todo o zelo, fazia entalhes num pedaço de madeira e colocava cera sobre as cordas que selavam os enormes potes de azeite ou de vinho - calcava-a com o selo indicativo de que estes se destinavam à Casa Real.

Ele pareceu um pouco incomodado com aquela inspecção minuciosa e desviou o olhar; Cassandra, corando - fora-lhe ensinado que era impróprio para uma rapariga olhar fixamente os rapazes -, olhou para o outro lado. o rapaz como que resplandeceu. Os olhos tornaram-se estranhos, quase vazios; depois focaram algo e ele endireitou-se. Parecia crescer, agigantar-se; sim, era ela, Cassandra, quem ele fixava com o olhar e, num lampejo, ela reconheceu o Deus que o possuía: tinha de novo ante os seus olhos o rosto de Apolo, Senhor do Sol.

A voz dele reverberou como um trovão e ela interrogou-se, num rasgo de consciência difusa, como seria possível os outros trabalhadores continuarem tranquilamente os seus trabalhos.

«Cassandra, filha de Príamo, será que Me esqueceste?» Ela sussurrou entredentes:

- Nunca, Senhor.

«Esqueceste que Eu te escolhi e te chamei para Mim?» Ela sussurrou de novo:

- Nunca.

«O teu lugar é no Meu templo; vem, Eu to ordeno.»

- Irei - disse ela, meio em voz alta, olhando extasiada a forma luminosa. Então, o capataz atravessou o pátio e a imagem do rapaz esbateu-se, tremelu­zindo ao sol e toldando o olhar de Cassandra...

A visão tinha desaparecido e, por um instante, Cassandra duvidou se teria realmente sido chamada ao Templo do Senhor do Sol. Deveria ir buscar a sua capa e a serpente e subir imediatamente ao Cume dos Deuses? Hesitou; se ela tivesse mesmo sonhado e aquilo nunca tivesse acontecido, que iria dizer às sacerdotisas e sacerdotes do templo? Decerto existiriam punições para aquele tipo de blasfémias... Não. Ela era filha de Príamo, princesa de Tróia, e tinha-se tornado sacerdotisa da Grande Mãe. Podia estar enganada, mas aquilo não era, decerto, uma blasfémia nem algo que pudesse ser ignorado. Em silêncio, dirigiu­-se ao palácio, murmurando entredentes:

- Se eu não fui chamada, Senhor do Sol, envia-me um sinal.

Nas escadarias encontrou Hécuba, vestida com uma roupa de trabalho; as duas rugas vincadas entre as sobrancelhas faziam-na parecer mais velha.

- És preguiçosa, filha - repreendeu Hécuba. - Se não consegues encon­trar nada com que te manter ocupada, eu mesma te arranjarei uma tarefa; de hoje em diante, não sairás dos aposentos das mulheres manhã nenhuma, sem que a tua parte da fiação e da tecelagem esteja concluída. Que vergonha, deixares o teu trabalho para a tua irmã. Não conseguiste aprender nada entre as mulheres da minha tribo a não ser a preguiça?

- Não sou preguiçosa! - respondeu Cassandra, zangada. Seria este o sinal que pedira? - Fui procurada pelo Deus e a minha presença é requerida no Seu templo.

Hécuba fixou-a com uma expressão dura, semicerrando os olhos.

- Cassandra, os deuses escolhem as suas sacerdotisas de entre a gente simples; não chamariam uma princesa de Tróia.

- Achas-me menos merecedora do que qualquer outra? - explodiu Cassandra. - Desde criança, eu sempre soube que Apolo, Senhor do Sol, me queria para Si, e agora Ele convocou-me!

- Oh, Cassandra - suspirou Hécuba -, porque é que dizes esses disparates? - Mas Cassandra já não estava a ouvi-la: voltou-Lhe as costas e correu pelas escadas abaixo, saindo os grandes portões, e galgando a encosta em direcção ao Templo de Apolo.

 

Cassandra subiu a correr os degraus da rua que cruzava a cidade de cima abaixo, sem ter consciência de que as mulheres que viviam nas casas superlo­tadas, construídas ao longo da rua íngreme, tinham todas saído para a rua, numa profusão de vestidos de cores garridas, para ver a sua corrida precipi­tada. o bater do coração obrigou-a a abrandar o passo e depois a parar por completo.

Dobrou-se, um tanto enjoada. Tinha sido rigidamente educada no sen­tido de manter sempre o decoro perante estranhos; comprimiu contra a boca a manga longa do vestido, tentando controlar a náusea e a dor aguda no peito, e procurou um degrau onde se pudesse sentar e recuperar o fôlego. Não queria aparecer à porta do Deus como uma fugitiva desgrenhada.

Uma voz gentil disse:

- Princesa... - e ao levantar os olhos viu uma mulher de meia-idade curvada sobre si, segurando numa mão uma taça de barro. - Subiste demasiado e mais depressa do que devias, com este sol. Posso oferecer-te um pouco de água? Ou talvez prefiras que vá buscar algum vinho fresco, se te apetecer entrar.

A ideia de entrar na casa sombria e fresca era tentadora, mas Cassandra tinha vergonha de mostrar ou admitir fraqueza.

«Como poderei eu ser vencida pelo Sol? Eu sou a amada de Apolo, Senhor do Sol...», mas não o disse em voz alta; murmurou um agradecimento e levou a taça aos lábios. A água sabia um pouco a barro e não estava muito fresca, mas foi um alívio para os seus lábios e garganta ressequidos.

- Quererás descansar uns instantes em minha casa, princesa?

- Não, obrigada. - Desviou os olhos. - Estou bem; vou ficar aqui sentada a descansar um pouco.

A luz feria-Lhe os olhos; protegeu-os com a mão olhando para os reflexos claros e resplandecentes do porto. Por alguns instantes, o sol toldou-Lhe a visão; depois voltou a ver claramente e quase deixou escapar um grito: o azul claro do mar estava obscurecido pelas velas de muitos navios.

«Tantos! De onde tinham vindo?»

Não eram os navios de seu pai e, ao tentar fixar qualquer deles, deixou repentinamente de ter a certeza de estarem ali. Depois de alguns instantes assim, o porto brilhou, vazio, o mar de um azul ofuscante, manchado apenas pelos contornos de um velho barco cretense que descarregava tintas e madeiras havia já três dias.

«Tinha então sido apenas uma visão; uma alucinação.»

Desviou bruscamente os olhos doridos do mar enganador, levantou-se com lentidão e recomeçou a subida. Mantinha os olhos semicerrados sob o Sol que brilhava, como fogo espalhado sobre os muros de Tróia, e continuou a subir devagar, contrariando a crescente sensação de que fugir assim era um disparate, que não devia correr daquela maneira para um deus, como se fosse uma cabra extraviada, fugindo do rebanho. Oh, sim, ela devia ter vindo; mas devia ter vindo como princesa de Tróia, devidamente acompanhada e tra­zendo os presentes adequados para a casa do Deus.

No entanto, seria errado voltar agora para trás. «A não ser que a visão enganadora dos barcos tivesse sido enviada como aviso...?» Não; mesmo assim não podia voltar atrás no seu compromisso com o Deus.

Continuou a subir, aproximando-se do Templo do Senhor do Sol. Um clarão luminoso, envolvendo o raio de uma tempestade de Verão, atraiu-lhe o olhar para as alturas, onde se erguia o Templo de Palas Atena e, subitamente, foi assaltada pela dúvida. Tinha sido feita sacerdotisa da Deusa, enviada a buscá-La no Mundo Subterrâneo, e sido aceite; não tinha sido a Mãe Terra quem a chamara desde a mais tenra infância e lhe falara com a voz da profecia? Estaria ela, então, esquecendo a sua lealdade à Mãe Divina, Virgem e Protectora das Virgens, trocando-A pelo belo Senhor do Sol?

Um pânico súbito invadiu-a de tal forma que, por instantes, pensou de novo que iria vomitar e engoliu espasmodicamente; o seu corpo estava repleto de um medo tão grande que quase conseguia sentir-lhe o sabor. Ouviu passos pesados que a perseguiam, e o céu ficou.momentaneamente escuro sobre a sua cabeça; um só pensamento preencheu por completo o seu espírito, imerso em águas profundas: «Tenho de alcançar o Templo da Virgem; só lá estarei segura... Nenhum homem se atreveria a pôr as mãos em cima de ninguém sob a Sua protecção...»

Cassandra pestanejou incrédula. Não havia qualquer perigo, qualquer chama, qualquer perseguidor. O porto brilhava vazio e azul; na rua à sua volta havia apenas algumas mulheres, observando-a subir calmamente na direcção das portas do Templo do Senhor do Sol.

« Terá sido o Deus que lançou a loucura sobre mim?» Fez uma pausa para recuperar o fôlego e dirigiu-se à porta, entrando no Templo de Apolo.

Sentiu-se atingida por uma repentina rajada de vento, como se uma mão gigantesca a empurrasse através da porta. Cassandra, ajeitando distraidamente o cabelo com a mão, olhou à sua volta, quase desapontada por ninguém reparar nela. «Que esperava eu? Que o próprio Deus saísse para me dar as boas vindas?»

Uma mulher idosa trajada com as roupas usuais das sacerdotisas - uma túnica branca e um véu tingido com açafrão até ficar da cor dourada do Sol ­ergueu a cabeça e olhou para Cassandra e depois levantou-se caminhando na sua direcção. Disse:

- Bem-vinda, filha de Príamo; vieste para pedir um oráculo, um presságio ou para oferecer um sacrificio?

- Por nenhuma dessas razões - disse Cassandra embaraçada, sem saber como dizer a.quilo que tinha para dizer. - Vim... porque o Deus me chamou... para ser Sua sacerdotisa... - E calou-se, sentindo-se um tanto idiota.

Mas a mulher mais velha sorriu com gentileza e disse:

- Sim, claro; recordo-me de aqui teres vindo uma vez eras ainda uma criancinha e de te teres sentido perfeitamente à vontade; pensei que talvez um dia o Senhor do Sol te chamasse. Vem então para dentro, minha querida, e conta-me tudo a esse respeito. Primeiro, que idade tens? - perguntou ela. - Pareces-me bastante adulta.

- A minha mãe diz que vou fazer dezasseis anos um pouco depois do meio do Verão - respondeu Cassandra, enquanto passavam para o interior do templo.

Lembrava-se da sala de espera onde, há muitos anos, comera uma fatia de melão doce enquanto a sua mãe esperava pelo oráculo, e custou-lhe a entender que tivesse mudado tão pouco em tantos anos. Perguntou-se o que seria das serpentes que agarrara e acariciara naquela altura. Eram de uma das espécies que viviam pouco tempo; provavelmente, há muito que tinham morrido. A ideia entristeceu-a.

A sacerdotisa fez-lhe sinal para que se sentasse.

- Fala-me de ti - disse ela. - Diz-me tudo o que te fez pensar teres sido chamada ao nosso templo.

Quando Cassandra terminou, a sacerdotisa falou de novo.

- Bem, Cassandra - disse ela -, se desejas ser uma de nós, terás de viver um ano aqui no templo para aprenderes a interpretar os oráculos e os presságios e a falar pelo Deus.

Cassandra disse, percorrida por uma onda de intensa felicidade: - Ficarei muito feliz por viver na casa do Deus.

- Então tens de mandar um dos criados do templo buscar as tuas coisas: apenas algumas mudas de roupa e talvez um manto quente, pois vais ter de usar um vulgar vestido de sacerdotisa; aqui somos todas irmãs, e não poderás usar jóias nem ornamentos enquanto viveres no santuário.

- Eu não ligo importância a jóias - disse Cassandra - e, de facto, tenho muito poucas. Mas por que razão não são permitidas?

A mulher idosa sorriu.

- É uma regra do templo - disse ela -, e eu não sei qual a sua razão. Talvez seja porque muita da gente que aqui vem para nos consultar é pobre, e se nós estivéssemos enfeitadas com jóias eles poderiam pensar que nós estáva­mos a enriquecer à custa das suas ofertas. O meu nome - acrescentou ela - é Cáris, que é um dos nomes da Senhora da Terra. Vivo na casa do Senhor do Sol desde que tinha nove Invernos, e já tenho setenta e quatro. Nós aqui temos vidas longas, a menos que sejamos escolhidas para gerar uma criança para o Deus e morramos de parto; mas isso não acontece frequentemente, e muitos dos nossos irmãos e irmãs são sacerdotes-curandeiros. Tens permissão do teu pai ou da tua mãe para viver na casa do Deus?

Cassandra disse:

- Penso que a minha mãe concordará. Quanto ao meu pai, ele tem tantos filhos e filhas, que eu penso que ele não saberá nem quererá saber se eu vivo na casa do Deus ou na dele. Nunca fui uma das suas favoritas. Mas, diz-me - perguntou ela à velha sacerdotisa -, posso trazer a minha serpente para viver comigo no templo? Foi um presente de Imandra, rainha e sacerdotisa de Cálcis, e ninguém mais em Tróia gosta dela; temo que não cuidem dela se não me tiver a mim por perto.

- Será bem-vinda - disse Cáris. - Podes mandá-la trazer para aqui. A velha sacerdotisa chamou então uma criada e Cassandra deu-lhe instruções sobre o que pretendia que lhe fosse trazido do palácio.

- E procura a minha mãe, a rainha Hécuba - disse ela -, e diz-lhe que lhe imploro a sua bênção.

A criada fez uma vénia e partiu.

- E agora, se o desejares - disse Cáris -, mostrar-te-ei os aposentos onde dormem as virgens de Apolo.

Começaram assim os tempos que Cassandra recordaria mais tarde como os mais felizes e tranquilos de toda a sua vida. Aprendeu a consultar os oráculos, a ler os presságios e a servir o santuário com oferendas escolhidas. Tratava das serpentes sagradas e aprendeu a interpretar o significado dos seus movimentos e comportamentos.

Como tinha previsto, a sua mãe não levantou objecções; enviou pela criada as bênçãos pedidas e uma mensagem: «Diz à minha filha Cassandra que a aben­çoo e aprovo o que fez; diz-lhe que lhe envio muitos beijos e abraços:»

Em pouco tempo fez vários amigos no santuário, e passados alguns meses apenas eram muitos os visitantes e os suplicantes que a procuravam e que preferiam que fosse ela a aceitar as suas oferendas e a dar-lhes conselho. Uma vez ela perguntou a um sacerdote mais velho:

- Não percebo porque é que procuram o Deus para fazer perguntas idiotas para as quais não precisam de conselho do Deus mas apenas do juízo com que nasceram?

- Porque muitos deles nasceram idiotas ou pior - disse o velho sacerdote com brusquidão. - Pensam que os deuses não têm mais que fazer do que preocupar-se com os problemas dos humanos. Eu, por mim, creio que os deuses têm problemas suficientes na terra dos Imortais, para não se preocuparem muito com as questões dos homens comuns. Talvez se preocupem com as acções dos rreis e dos grandes; mas - baixou os olhos e falou quase num murmúrio ­mesmo disso tenho tido poucas provas, filha de Príamo.

Cassandra ficou um pouco chocada com aquela blasfémia, mas sentiu que o sacerdote tinha pouca fé no Deus e que era ele próprio, mais do que ninguém, quem perdia com isso. Quanto a si própria, vivendo no santuário, sentia intensa­mente, e muitas vezes de um modo avassalador, a presença do seu Deus, tal como no momento em que Ele a chamara pela primeira vez.

Isso não significava que o tempo passado no templo fosse totalmente desprovido de preocupações. Algumas das virgens do santuário mostravam-se manifestamente ciumentas por ela ser a favorita dos sacerdotes e sacerdotisas mais velhos e falavam-lhe, ou falavam dela, com antipatia ou despeito; mas ela, a não ser entre as Amazonas, nunca fora popular entre as raparigas da sua idade, nem mesmo com a sua irmã e meias-irmãs, e já se tinha resignado a esse facto mesmo antes de ter saído da infância.

Sentia-se, a maior parte do tempo, rodeada de atenções carinhosas; aliás, como poderia assim não ser, vivendo ela na casa do seu Deus? Havia muitas mulheres no santuário que falavam do Senhor do Sol como outras raparigas falavam do marido ou do amante; de facto, um dos nomes que vulgarmente se dava às sacerdotisas era «noivas do Deus~>. Uma das mulheres, Fílidas, era tida como tendo sido, realmente, noiva do Deus: tinha dado à luz uma criança que fora aceite como sendo filha de Apolo.

Quando Cassandra ouviu falar disso pela primeira vez, sentiu-se irritada e aborrecida com o que Lhe pareceu ser um disparate evidente.

«Seria a rapariga, simplesmente, uma ingénua enganada por um vulgar sedutor? Ou estaria a inventar uma história para encobrir alguma aventura proibida?», perguntou-se Cassandra, pois às virgens do Deus era proibido manter relações com homens; eram cuidadosamente vigiadas e não lhes era permitido receber visitas ou parentes, ou terem encontros nem mesmo com os próprios irmãos ou pais, excepto na presença de uma das zeladoras que acompa­nhavam e cuidavam das virgens do Senhor do Sol. « Se eu desejasse ficar noiva de qualquer mortal», pensou ela, «o meu pai ficaria felicíssimo por me arranjar um casamento.»

Por vezes, Cassandra ficava meio acordada durante a noite, ouvindo a voz inconfundível do Deus tal como a ouvira quando Ele a tinha chamado pela primeira vez - um imortal esplendoroso que era algo mais que um homem. Mais do que uma vez sonhou que desfalecia nos braços do Deus, os sentidos varridos por um êxtase sobre-humano; ao ouvir as conversas das outras raparigas (apesar de, por modéstia, não se envolver muito nesses mexericos), ficou a saber que não era a única a ser contemplada com esses sonhos.

Uma vez, quando uma das jovens virgens lhe contava o seu último sonho, repleto de detallies erôticos, que Cassandra pensou não passarem de fantasias românticas, disse:

- Se tens tantos sonhos acerca de dormir com um homem, Esiria, porque não mandas chamar o teu pai e não Lhe pedes que te arranje um marido? Caso contrário, não conseguirás encontrar outra coisa que te ocupe os pensamentos e algo de mais útil sobre que falar?

- Tu estás é com ciúmes por Ele não te procurar para se deitar contigo nem mesmo em sonhos - ripostou Esiria. - E se Ele te procurasse, recusá-lo-ias, então?

Um estranho arrepio percorreu Cassandra.

- Se Ele me procurasse para se deitar comigo - declarou - tentaria ter a certeza absoluta de que era de facto o Deus e não algum homem perverso, determinado a enganar uma mulher tonta e crédula, ou uma rapariga romântica, que toma um mero devasso por enviado do Deus. Sei que há homens neste tem­plo que não desdenhariam aproveitar-se dessa forma de uma rapariga pateta; ou pensas que os sacerdotes são eunucos só por terem feito um voto de castidade?

Esiria não lhe disse mais nada e Cassandra assegurou o seu sossego; mas no dia seguinte, quando as mulheres foram buscar água ao poço, procurou Fílidas e pediu-Lhe para ver o seu filho. Como todas as mães, a jovem mulher (ainda não tinha a idade de Cassandra) estava desejosa de mostrar o seu rapazinho.

Ele era de facto bonito, com grandes olhos azuis de pestanas muito longas e caracóis dourados que tornavam fácil acreditar ser, realmente, um filho do Senhor do Sol. Cassandra admirou-o e beijou-o, perguntando depois a Filidas num tom suficientemente admirativo:

- Como soubeste que era o Deus quem te procurava?

- Ao princípio não sabia - disse a rapariga. - Pensei que era um homem com a máscara do Deus e abri a boca para gritar por uma das zeladoras. Mas depois - já alguma vez ouviste a voz do Deus, filha de Príamo?

Cassandra sentiu um nó na garganta ao recordar essa voz. Disse: - Ouvi... - e não conseguiu continuar.

- Então, se acontecer contigo, saberás se é Ele - disse Fílidas abruptamente, e não disse mais nada.

Cassandra olhou outr•a vez para o rapazinho e disse: - Ele é lindo; posso pegar-lhe um bocadinho?

- Certamente.

A criança tinha adormecido, embora a sua boca de bebé, como uma rosa semiaberta, se agarrasse ainda ao mamilo da mãe; Filidas levantou-o e pô-lo nos braços de Cassandra. Ele mexeu-se e chorou, mas ela embalou-o um pouco como tinha visto a sua mãe fazer e ele calou-se. O volume dele, húmido e macio nos seus braços, era diferente de tudo o que já sentira; mesmo entre as Amazonas, nunca tinha pegado num bebé tão pequeno. Dobrou-se sobre ele, tocando a pele macia com os lábios; transmitia exactamente a mesma sensação das pétalas de rosa.

Por alguns instantes sentiu-se invadida por uma enorme satisfação; depois, foi como se uma nuvem tivesse encoberto o Sol e um vento frio varreu-Lhe o corpo apesar de ainda se encontrar sentada no pátio quente e luminoso sob o sol quase ardente que a fizera puxar a ponta do véu para cobrir o bebé, não fosse o sol ferir-lhe os olhos ou queimar-lhe a pele. Reconheceu o mistério da Visão e, imóvel, esperou aquilo que não podia evitar.

Sofrimento e dor eram a sua essência. Tinha, de alguma forma, deslizado no tempo e percebeu que haviam passado anos sobre aquele momento de calma; a criança que tinha deitada contra o peito era sua, a pequena cabeça junto ao seio era escura e encaracolada, e mesrno quando aquele estranho impulso de felici­dade interior a tocou, estava manchado de desespero, da memória daquele mesmo momento e de uma repulsa feroz. A visão foi tão intensa que, por momentos, ficou paralisada; depois recuperou a noção de onde se encontrava. Mais uma vez tinha conseguido evitar que as águas escuras a submergissem.

Viu nos grandes olhos infantis de Fílidas algo que se assemelhava a terror, enquanto devolvia o bebé aos braços da mãe. Fílidas murmurou:

- Parecias tão distante e tão estranha, Cassandra. Dizem que vês o f'uturo. Que viste para o meu filho? - E como Cassandra ficasse silenciosa, ela disse, suplicando: - Não serias capaz de amaldiçoar o meu bebé?

- Não, não, claro que não, pequenina - disse Cassandra. - Dar-lhe-ás então a tua bênção, filha de Príamo?

Cassandra desejava tranquilizá-la e buscou dentro de si o toque vago da Deusa, procurando o poder da bênção. Em vez disso ouviu-se dizer:

- Ai de mim, não existe bênção para qualquer criança nascida neste ano nefasto; mas talvez Apolo, seu pai, o abençoe apesar de eu o não poder fazer. ­Ergueu-se de repente e foi-se embora, deixando Fílidas a olhar na direcção em que partira num mudo desalento.

 

Dias mais tarde chegou um mensageiro, transportando oferendas para o templo, da parte da casa do rei Príamo, e uma mensagem para Cassandra.

- O teu pai e a tua mãe pediram que faças uma visita a casa para as bodas da tua meia-irmã Creúsa.

- Terei de pedir para me ausentar - disse-Lhe Cassandra, mas a permissão foi prontamente concedida - talvez com demasiada prontidão. Cassandra sabia que não teria sido concedida tão rapidamente a qualquer das outras jovens sacerdotisas, e ela queria ser, de facto, tratada como uma delas. Mas não podia culpar os sacerdotes e sacerdotisas por não quere­rem ofender o rei de Tróia. Apenas insistiram, dado ela não ser ainda uma verdadeira sacerdotisa e se encontrar no ano de noviciado, que fosse devida­mente acompanhada e vigiada por uma sacerdotisa mais velha, caso quisesse pernoitar em casa de seu pai. A sacerdotisa que ouviu o seu pedido disse:

- Está nas tuas mãos conceder essa graça, filha de Príamo: quem desejas que te acompanhe?

Este tipo de intrigas palacianas não lhe eram totalmente estranhas; fosse quem fosse a escolhida, as outras poderiam sentir-se menosprezadas. Optando por uma escolha que ninguém poderia criticar ou invejar, designou a velha Cáris, que fora quem primeiro a acolhera na casa do Deus.

Vestindo a roupa mais festiva de entre os poucos e simples vestidos que tinha consigo, e com a mulher mais velha a seu lado, caminhou calmamente pelas ruas, escoltada apenas por um dos escravos do templo.

Cáris, apesar de ter vivido toda a sua vida na casa do Senhor do Sol, não deixou de se mostrar impressionada, à medida que se aproximavam da Grande Cidadela de Príamo, e mal falava.

Cassandra seguia também silenciosa; ao olhar lá do alto sobre o porto, avistou de novo os navios escuros, ignorando se eles se encontrariam realmente ali ou se estariam ainda para chegar.

Quando entraram no átrio principal, Hécuba saiu a saudá-las. Cassandra curvou-se para abraçar a mãe. Hécuba era uma mulher alta, mas agora Cassandra estava ainda mais alta e Hécuba lamentou-se enquanto levantava a cabeça para olhar a filha:

- Não é possível que continues a crescer! Estás mais alta do que muitos guerreiros, Cassandra! Um homem é capaz de não gostar de te ter junto de si... - Que interessa isso, mãe? Uma vez que eu não estou destinada a casar mas sim a viver na casa do Deus...

- Isso eu nunca irei aceitar - disse Hécuba bem-humorada. - Quero ver os teus filhos antes de morrer.

«Mas nunca os verás», soube Cassandra subitamente. Junto com a recorda­ção de quando segurara a criança de Fílidas ao colo, chegou-lhe a dolorosa certeza de que, antes de poder pegar no seu neto (a amargura, o desespero), os olhos de Hécuba já se teriam fechado defmitivamente para este mundo.

- Mãe, não vamos falar disso. Se queres umas bodas, tens agora Creúsa para casar; e Políxena é mais velha do que eu e ainda está solteira. Arranja-lhe um marido - disse ela - e não te preocupes comigo. Fala-me do noivo de Creúsa.

- Ela vai desposar Eneias, filho de Anquises - disse Hécuba - ...tão belo que dizem ser um autêntico filho de Afrodite, que nasceu da espuma do mar. - Essa é uma deusa da qual eu nada sei - disse Cassandra antes de

recordar a beldade do sonho de Páris -, a Deusa do Amor e da Beleza.

- Se o pai dele afirma ser amante de Afrodite, suponho que os deuses ficarão zangados com ele - disse Cassandra. - Gostava de ver essa maravilha de homem.

- Bem, Creúsa está satisfeita com ele, e o teu pai também - disse Hécuba. - E eu, na minha juventude, teria ficado mais do que feliz com um marido assim. - Voltou-se, um pouco ansiosa, para Cassandra, e disse: - Por favor, tenta não profetizar nenhuma desgraça neste casamento, querida; isso trans­torna tanto as pessoas.

«Pensará ela que eu profetizo por prazer?» pensou Cassandra, numa súbita vaga de irritação. Mas a sua mãe parecia tão perturbada que a sua fúria se desvaneceu; beijou-a de novo e disse:

- Decerto tentarei não ver nenhuma catástrofe; se os deuses forem bondo­sos, talvez possa prever algo melhor.

- Que os deuses o permitam - murmurou Hécuba piamente. - Bem, entra, minha querida; senti muito a tua falta.

Após uma lua passada na casa do Senhor do Sol, tudo no palácio se afigurava mais pequeno e espalhafatoso, mas, apesar disso, querido e familiar. Andrómaca, vestida para o casamento, com um vestido cor de fogo, correu a receber Cassandra. A gravidez era evidente, e ela balançava-se nessa forma de andar típica das mulheres grávidas, inclinando o corpo para trás para manter o equilíbrio. Cassandra, recordando a graciosa rapariguinha que vira em casa de Imandra, sentiu-se entristecida, mas Andrómaca abraçou-a alegremente.

- Oh, estou tão contente por te ver! Estou desejando que te cases e voltes para casa, para podermos estar juntas! Imagina só, daqui a uma lua terei o meu filho nos braços!

- Onde está Enone? Não deveria estar entre nós? Uma mulher grávida é, de todos os convidados de um casamento, quem mais sorte traz.

- Ela já não está grávida - disse Andrómaca. - Não ouviste falar? Há quatro dias, ela deu a Páris um filho, e ainda está de cama; passou horrivelmente, pobrezinha; a tua mãe disse que ela era tão estreita que nunca deveria ter-se arriscado a ter um filho. Mas quando eu lhe perguntei como poderia ela tê-lo evitado, a tua mãe não quis dizer-me; disse que Heitor não iria gostar. Enone chamou ao filho dela Córito... Por isso, se Creúsa quiser uma mulher grávida no seu casamento, terá de contentar-se comigo.

- Creúsa tem sorte em ter-te entre os seus convidados - disse Cassandra. Andrómaca sorriu com um ar de gatinho que lambeu o leite e disse:

- Espero que ela pense o mesmo.

- Devia ir ver Enone - disse Cassandra.

Andrómaca pegou na mão de Cassandra e conduziu-a ao longo das escadas. - Talvez seja melhor não - disse ela. - Enone tem estado muito estranha ultimamente. Quando fui vê-la, não quis falar comigo. Disse que eu era inimiga do marido dela, porque Heitor tinha-o mandado para longe.

Dirigiram-se para a suite, no andar de cima, onde as mulheres estavam a preparar a noiva. Era o belo quarto de murais cretenses com touros-bailarinos e Cassandra disse:

- Mas este é o quarto que a minha mãe preparou para Enone.

- Ela não quis aqui ficar -disse Andrómaca. - Disse que não queria ficar aqui deitada, dia após dia, a olhar esse mar que levou Páris para longe dela; por isso, insistiu em mudar-se para um quarto nas traseiras, de onde pudesse ver o monte Ida, a sua casa. Mas isso não interessa agora; vem ajudar a vestir a noiva.

Vindo de baixo, chegava-lhes o ruído dos homens no salão, bebendo e brindando ao casamento.

Creúsa estava a ser coberta com um véu bordado; puxou-o para trás por momentos e avançou para saudar Andrómaca com uma vénia, beijando depois Cassandra friamente, dizendo:

- Bem-vinda, irmã.

Ela não era filha de Hécuba, mas de Príamo e de uma das mulheres mais importantes do palácio. Para falar com rigor, segundo a etiqueta da corte, devia ser Cassandra a primeira a tratá-la como irmã; mas naquele momento ela não estava interessada em cumprir os protocolos. Devolveu calorosamente o abraço de Creúsa e disse:

- Que a Mãe Terra e os Esplendorosos te abençoem, irmã.

- Consegues antever boa sorte para mim, Cassandra, tu, que és profetisa? - Sabê-lo-ei depois de ver o teu marido - disse Cassandra elipticamente. - Quando o vires, acho que vais invejar-me - disse Creúsa.

Cassandra sorriu e disse:

- Espero realmente que assim seja, irmã. A mãe falou-me do quanto ele é belo.

- É rico, também, e é um príncipe na sua terra - disse Creúsa. - Estou certa que nenhuma mulher é mais afortunada do que eu.

- Não digas essas coisas, não vão os Imortais sentir ciúmes - repreendeu Cáris. - Lembrem-se do destino daquela mulher que disse que a sua fiação era tão fina como a de Palas Atena; Atena transformou-a numa aranha, que have­ria de fiar eternamente as suas teias para serem destruídas pelas donas de casa!

- Venham, venham - disse Andrómaca, que era a primeira das damas de honor. - Vamos acabar de vesti-la depressa, ou os homens já estarão todos embriagados quando ela descer. Cassandra, os teus dedos são mais hábeis: importas-te de lhe pôr as flores no cabelo?

Cassandra atou rapidamente as flores numa grinalda e prendeu-a nos caracóis brilhantes de Creúsa.

- Agora está pronta; vamos levá-la para baixo.

Segurando-lhe nas mãos, as mulheres rodearam a noiva e conduziram-na pelas íngremes escadarias do palácio, segurando-a cuidadosamente, não fosse ela tropeçar e iniciar o seu casamento com um passo em falso - o pior dos augúrios.

As suas vozes elevaram-se num dos mais antigos hinos nupciais, dedicado à Mãe Terra, e Cassandra sentiu-se envolvida por tanta alegria e júbilo como se do seu próprio casamento se tratasse. «Desta vez, pelo menos,» pensou, «posso estar tão despreocupada como qualquer rapariguinha.» Teve a súbita noção de que as outras não olhavam para si mesmas desse modo; qual seria a diferença? Mas desta vez ela tinha uma resposta para essa dolorosa sensação de diferença. «Eu sou uma sacerdotisa e não tenho de ser como as outras; se conseguir de alguma forma parecer igual às demais, será o suficiente:

Encontravam-se precisamente à entrada do salão de festas quando ouviram um grito de surpresa e satisfação.

Príamo chamou:

- Odisseu, velho malandro! Mesmo a tempo! Sabes exactamente quando aparecer para provar o nosso melhor vinho dos casamentos! Entra e bebe qualquer coisa, velho companheiro!

Cassandra estendeu o braço e puxou Creúsa para trás.

- Deixa primeiro o nosso pai dar as boas-vindas ao seu convidado. Creúsa disse, com ar amuado:

- Eu não queria aquele pirata velho no meu casamento! Andrómaca sussurrou:

- Toda a minha vida ouvi falar das histórias que ele conta; ele navegou até mais longe que Jasão e tem muitas histórias de viajante. Visitou a minha mãe, em Cálcis, e levou-lhe um pente de madrepérola que lhe fora oferecido por uma sereia.

- Talvez também te tenha trazido um presente de casamento, Creúsa ­disse Cassandra. - Seja como for, até os deuses têm de se mostrar hospitaleiros. Vamos entrar.

Ela cantou o primeiro verso do hino à Virgem, sempre cantado nos casamen­tos, e as outras raparigas juntaram-se-lhe. Príamo ergueu o olhar e acenou-Lhes para que avançassem. Cassandra viu um homem jovem e belo, alto e esguio, com o cabelo encaracolado, de um castanho claro e com algumas sardas dispersas a enfeitar-lhe o rosto. Supôs tratar-se do noivo pela túnica carmim ornamentada que tinha vestida. Dirigindo-se para o trono, viu um homem de meia-idade, baixo, entroncado, de cabelo crespo aos caracóis e uma cara vermelha, tisnada, com um nariz adunco e olhos azuis encovados que pareciam perscrutar enormes distâncias. Calculou, mesmo antes de ver o reconhecimento nos olhos de Andró­maca, que ele era o famoso marinheiro e pirata Odisseu, o velho amigo de seu pai. O marinheiro voltou-se e gritou:

- Que belo magote de beldades, velho amigo. Não podem ser todas tuas filhas, Príamo; ou será que podem? Parece que me estou a lembrar que tu tens sempre mais mulheres do que as que te cabem.

Príamo chamou-as para junto dele, acenando com a mão. Cassandra deu por si envolvida num forte abraço de urso.

- É a tua segunda filha, não é? É esta a noiva? E porque não, com todos os demónios? - Cheirava a ar salgado e (ligeiramente) a vinho. Não podia ficar ofendida com aquele abraço; fora tão afável e entusiástico como uma rajada de vento do mar.

- Gostarias de ter uma tão bela como esta, não era, Eneias, meu amigo? Cassandra reparou que os olhos de Eneias se pousavam nela, apreciativos, e que Creúsa estava quase a chorar.

Afastou-se de Odisseu suavemente e disse:

- Não, senhor. Não me destino a homem algum; sou uma virgem de Apolo, Senhor do Sol, e estou feliz assim.

- Pelo fogo dos infernos! - A forma como praguejava era desmedida, como tudo nele. - Que desperdício, beleza! Eu mesmo casaria contigo, se não fosse ter já uma mulher lá em Ítaca; e Hera, a minha deusa protectora, é uma deusa da fidelidade conjugal. Teria problemas com ela se andasse a rondar outras mulheres. Não que eu não tenha tido a minha dose; mas não poderia casar com mais ninguém; e, além disso, tu queres um jovem bonito, não uma velha morsa como eu. - Ela deu uma risadinha; com os seus bigodes enormes, parecia realmente uma morsa. - E esta é a esposa de Heitor? - perguntou ele, voltan­do-se para Andrómaca. - Heitor, não te importas que um velhote beije a tua mulher, pois não? É costume, na parte do mundo onde eu vivo, sabias? ­Segurou Andrómaca pelos braços, deu-Lhe palmadinhas na sua barriga saliente. - Não posso aproximar-me o suficiente para te dar um beijo a sério, não é, rapariga? Bem, talvez noutra altura. - Beijou-a sonoramente na face. - Trouxe algumas coisas na minha bagagem (saque de um navio cretense): prendas de noivado para a tua filha, Príamo, e presentes para esse belo neto que esta bonita rapariga te há-de dar dentro de poucos dias - não é? E já que esta não vai casar, dar-Lhe-ei presentes para o Templo do Senhor do Sol.

- Em nome de Apolo eu te agradeço, senhor - disse Cassandra polidamente, mas Odisseu puxou-a para baixo, para que se sentasse a seu lado.

- Senta-te aqui ao pé de mim, bebe da minha taça ; és a única rapariga aqui que não está comprometida, e o namoro que eu posso ter contigo na presença do teu pai e da tua mãe não poderá fazer-te mal algum, hem?

- A minha irmã Políxena não é casada - disse Cassandra com uma ponta de malícia, e Odisseu disse, rindo:

- Não por muito tempo, se bem conheço o teu pai, rapariga; Políxena é bastante bonita mas, aqui para nós, eu gosto de raparigas com um bocadinho mais de carne em cima dos ossos. Tu serves perfeitamente.

Ela pegou na taça e misturou-lhe o vinho e, quando os criados passaram, encheu-lhe o prato; descobriu que sentia uma simpatia benevolente por aquele velho homem.

Príamo disse:

- Agora conta-nos as tuas novidades, Odisseu. E preciso também do teu conselho, amigo: tenho uma oferta para Políxena, de parte de Aquiles, filho de Peleu. Se estivesses no meu lugar, aceitarias? Ele é nobre e também, segundo ouvi, corajoso...

- Corajoso ele é certamente - disse Odisseu -, mas não tem prazer em nada senão matar. Se eu tivesse uma filha, preferiria cortar-lhe o pescoço a casá-la com esse tarado.

- Ele tem a força de Héracles... - começou Heitor.

- E muitos dos seus defeitos - interrompeu Odisseu. - Tal como Héracles, não é homem para ter mulheres; interessa-se por uma agora, e logo é capaz de a matar, num momento de loucura. Eu naveguei com Héracles; uma só vez chegou-me; fiquei farto de o ouvir lamentar-se por acusa dos seus amigos, e das suas súbitas fúrias. Aquiles é demasiado parecido com ele para meu gosto. Há muitos rapazes em Tróia; ou mesmo aqueus, bons e honrados, se é isso que pretendes para ela. Políxena parece ser uma boa rapariga; arranja-lhe outra pessoa. Este é o meu melhor conselho. - Depois gritou a chamar um criado, ordenando que os seus baús fossem trazidos para o salão e, de dentro de cada um deles, retirou objectos estranhos e belos que foi oferecendo generosamente a Príamo e aos seus filhos e filhas. Hécuba recebeu uma pequena taça, que não era maior que um punho fzchado, em ouro martelado.

- Veio da Casa dos Touros de Creta - disse ele. - Eu próprio a encontrei entre as ruínas daquilo que foi o Labirinto; só os deuses sabem como escapou às pilhagens anteriores.

- Talvez algum deus a tenha preservado para ti. - Talvez - disse Odisseu. - Vês os touros?

Hécuba olhou apreciativamente para a taça e depois passou-a em volta, no círculo de mulheres que admiravam os presentes. Cassandra, quando chegou a sua vez, examinou a taça soltando uma exclamação ao ver as esculturas fina­mente cinzeladas: um touro delicadamente gravado, num trabalho semelhante a fios de uma renda, rapazes num carro de combate e uma vaca para atrair o touro.

- Mas isto é um tesouro sem preço - disse ela. - Devias guardá-la para a tua mulher.

- Tenho outras tantas coisas belas - disse Odisseu com grande jovialidade - para a minha mulher e para o meu filho. Não pensem que eu iria dar tudo o que tenho de melhor.

Para Andrómaca ele tinha um pente de ouro e para Creúsa um espelho de bronze debruado por contas com banho de ouro.

- Um espelho digno da própria Afrodite - disse ele. - Foi-me dado quando pernoitei na gruta de uma ninfa marinha. Amámo-nos a noite inteira e, quando de manhã nos separámos, ela deu-me isto, pois dizia que nunca mais olharia para ele, já que não era suficientemente bonita para fazer com que eu ficasse com ela. - Pestanejou e disse: - Por isso, agora que és noiva, podes pôr-te bonita para o teu marido.

A prenda de Cassandra era um colar de contas azuis que se assemelhavam a vidro, de forma oblonga e simples, com engastes lisos, em ouro, nas pontas. - É uma coisa pequena - disse ele -, mas tenho ideia de que as sacerdotisas não estão autorizadas a usar ornamentos elaborados, e este é talvez suficien­temente simples para que possas usá-lo em memória do velho amigo do teu pai. Sensibilizada por aquelas palavras, Cassandra beijou-o na face, coisa que dificilmente teria ousado fazer ao seu próprio pai.

- Não precisarei de presentes para me lembrar de ti, Odisseu; mas usá-lo-ei sempre que me for permitido. Onde foi feito?

- No Egipto, a terra onde reina o faraó e onde os reis constroem túmulos imensos que fazem com que toda a cidade de Tróia pareça uma pequena aldeia ­disse ele, e ela estava já tão acostumada às suas histórias fantásticas que só muitos anos mais tarde veio a saber que ele, daquela vez, estava a dizer a pura verdade. Distribuídos os presentes, ele perguntou a Príamo:

- Quando é que vais deixar de me cobrar o imposto do estreito, para eu poder ir e vir sem pagar taxas como os outros aqueus?

- Tu és sem dúvida diferente dos outros - contemporizou Príamo -, e eu seria muito ingrato se depois de tantas ofertas fosse exigir mais de ti, meu amigo. Mas eu não posso autorizar todo e qualquer um a viajar através das minhas águas. A taxa que te cobro é apenas que me contes o que acontece no mundo distante. Há paz nas ilhas onde reinam os Aqueus?

- Quando o Sol nascer a oeste, talvez haja paz por lá - disse Odisseu. - Tal como acontece com Aquiles, os reis consideram a guerra como a sua maior diversão. Eu só irei para a guerra quando as minhas terras e a minha gente estiverem ameaçadas; mas eles vêem as batalhas como um passatempo mais virtuoso do que quaisquer jogos... o grande jogo no qual eles de boa vontade passariam a vida inteira. Eles acham-me fraco e cobarde por eu não gostar de lutar, embora seja melhor lutador do que a maior parte deles.

- Há anos que eles tentam provocar-nos para uma guerra - disse Pría­mo -, mas eu optei por uma política de ignorar insultos e provocações, mesmo quando eles raptaram a minha própria irmã. Tu vives entre os Aqueus, velho amigo; se eles nos fizessem guerra, virias também combater contra nós?

- Tentarei não ser arrastado para nenhuma guerra desse tipo - disse Odisseu. - Só existe um voto que me prende. Quando a mulher que é actualmente rainha de Esparta se casou, tinha tantos pretendentes e nenhum deles disposto a ceder face aos outros que parecia que só uma guerra resolveria o assunto. Então eu estabeleci um compromisso e orgulho-me dele.

- Que foi que fizeste? - perguntou Príamo. Odisseu exibiu um largo sorriso.

- Imagina só: talvez a mulher mais bela que alguma vez usou a faixa de Afrodite, e um grande número de homens à sua volta, anunciando quais os presentes que dariam a seu pai, e oferecendo-se para lutar por ela; o vencedor levaria a noiva e o dote de Esparta... e eu sugeri que fosse ela própria a escolher e que todos os pretendentes jurassem proteger a sua escolha.

- Quem escolheu ela? - perguntou Hécuba.

- O irmão de Agamémnon, Menelau; um triste. Mas talvez ela pensasse que ele era tão sabedor e forte como o irmão - disse Odisseu. - Ou, quem sabe, terá sido apenas por amar a sua irmã, que casara com Agamémnon no ano anterior. Irmãs casadas com irmãos... cria confusões na família, ou, pelo menos, eu suponho que cria.

- Mesmo assim, se Eneias tivesse um irmão, eu estaria disposta a casar com ele - segredou Políxena ao ouvido de Cassandra - se o irmão tivesse metade da sua beleza e da sua gentileza.

- Também eu - segredou Cassandra em resposta. Hécuba sussurrou num tom implicativo:

- É falta de educação dizer segredos, meninas; falem para toda a gente ou fiquem caladas. O que não é próprio para ser dito em voz alta, não deve ser dito de todo.

Cassandra estava cansada das regras de cortesia da sua mãe. Disse em voz alta:

- Por mim, não tenho vergonha do que estávamos a dizer; dizíamos que qualquer uma de nós casaria de boa vontade com um irmão de Eneias, se ele se parecesse minimamente com ele.

Foi recompensada com um imediato e fulgurante olhar de Eneias, que disse, sorrindo:

- Lamento, filha de Príamo, sou o único filho de meu pai; mas tu fazes-me desejar ser gémeo ou mesmo tríplice, pois de boa vontade partilharia a taça nupcial com vocês as três. Que pensas disto, meu senhor? - perguntou ele a Príamo. - Será apropriado para mim ter tantas mulheres como tu? Se estás desejoso de casar as tuas filhas, eu com satisfação ficarei com as três, se Creúsa mo permitir.

Políxena baixou os olhos e corou; Cassandra deu consigo a soltar um risinho. Creúsa ficou vermelha e disse:

- Preferiria ser a primeira e única esposa; porém, a lei permite-te ter tantas mulheres quantas desejares, meu esposo.

- Basta; isto não é nenhuma brincadeira - disse Príamo. - As filhas de um rei, genro, não servem para esposas menores ou concubinas.

Eneias sorriu de modo amigável e disse:

- Não era minha intenção insultar de qualquer modo as tuas filhas, senhor - e Príamo respondeu, tomando-lhe a mão num aperto amigável e algo embriagado:

- Eu sei bem disso; no meio de um banquete, quando o vinho já correu um pouco mais do que seria razoável, gracejos bem mais impróprios do que esse seriam perdoados. E agora talvez seja altura de as mulheres levarem a tua noiva daqui, antes que a festa se torne demasiado rude para os ouvidos de uma virgem.

Hécuba reuniu as mulheres, que rodearam Creúsa com os seus archotes, e Cassandra, cuja voz era a mais clara, iniciou o hino nupcial. Creúsa beijou o pai e este pousou a mão dela na de Eneias; depois as mulheres conduziram-na pelas escadas acima. Creúsa, junto a Cassandra, murmurou:

- Podes profetizar boa sorte para o meu casamento, irmã? Cassandra apertou-lhe a mão e sussurrou:

- Gosto do teu marido; ouviste-me dizer que de boa vontade eu própria o desposaria. E toda a fortuna que possa existir para qualquer casamento neste ano, será certamente tua; vejo uma vida longa e boa fama para o teu marido e para o filho que lhe hás-de dar.

Andrómaca tocou no ombro de Cassandra e segredou-lhe:

- Porque não tiveste uma profecia assim para mim, Cassandra? Somos amigas e eu gosto de ti.

Cassandra voltou-se para a amiga e disse-lhe suavemente:

- Eu não profetizo o que desejo, Andrómaca, mas o que os deuses me enviam para dizer. Se eu pudesse escolher as profecias, desejar-te-ia vida longa e honra, e muitos filhos e filhas para te rodearem, e a Heitor, na vossa respeitável velhice no trono de Tróia.

«E só os deuses sabem quanto eu desejava que fosse essa a profecia que me enviaram...»

Andrómaca sorriu e pegou na mão de Cassandra.

- Quem sabe, minha querida, a tua boa vontade conte mais que as tuas profecias - disse ela. - E consegues ver suficientemente longe no futuro para saber quanto tempo falta para nascer o filho de Heitor e se é um rapaz? A minha mãe iria preferir que eu desse à luz uma filha primeiro; mas Heitor não fala de mais nada senão do seu filho, por isso eu também quero um rapaz; e sobreviverei eu ao parto para ver o seu rosto?

Com um enorme alívio, Cassandra apertou os dedos frágeis da amiga entre os seus.

- Oh, é um rapaz - disse. - Irás ter um rapaz belo e forte, e viverás para o orientar até à idade adulta...

- As tuas palavras dão-me mais coragem -disse Andrómaca, e Cassandra sentiu um nó na garganta, ao recordar que tudo o que conseguira ver no casa­mento de Andrómaca tinha sido fogo. «Talvez», pensou ela, «fosse, afinal, apenas um delírio e não verdadeira profecia; era o que a minha mãe achava. Preferia estar louca a acreditar que, neste lugar sossegado sob a tranquilidade destas estrelas, o fogo e a desgraça se irão abater sobre todos os que eu amo.»

- Cassandra, estás outra vez a sonhar acordada; vem cá e ajuda-nos a desfazer estes nós que tu fizeste nos cabelos de Creúsa.

- Vou já - disse Cassandra subitamente, e foi ajudar as outras raparigas a aprontar a sua irmã para a chegada do marido. De todo o coração, estava feliz por não ter previsto desgraça alguma para eles.

 

Depois de todo o barulho e excitação do casamento, a casa do Deus parecia ainda mais silenciosa e calma, mais distante da agitação da vida comum. Dez dias após o casamento de Creúsa, Cassandra foi de novo convocada para uma festa no palácio: celebrava-se o nascimento de um filho a Heitor e Andrómaca, o primeiro neto de Príamo.

- Mas não é o primeiro neto de Príamo - disse Cassandra. - Há já o filho de Enone e Páris.

- Pode ser que assim seja - disse o mensageiro -, mas Príamo prefere chamar ao filho de Heitor o seu primeiro neto e, tanto quanto sei, o rei tem o direito de escolher aquele que será nomeado seu herdeiro depois do príncipe Heitor.

Era verdade; mas, pensou Cassandra, era duro para Enone ver o seu filho preterido, tal como já o pai o fora.

Apreciava a paz e a calma do templo e ressentia-se de tudo o que pudesse interferir com ela, mas deram-Lhe permissão para fazer uma visita a Andrómaca. Encontrou-a na sua requintada suite, decorada com murais de criaturas mari­nhas, recostada em almofadas com o pequeno bebé de rosto avermelhado num cesto de vime a seu lado. Estava com um aspecto saudável e esplendoroso, com boas cores nas faces, e Cassandra sentiu-se aliviada; muitas mulheres morriam ao dar à luz ou pouco depois, mas Andrómaca pareceu-lhe bastante bem.

- Que disparates são estes acerca do filho de Heitor? - perguntou ela num tom que só em parte era de brincadeira. - Foste tu quem teve o trabalho de o gestar durante quase um ano, e foste tu quem passou pela dor e pela labuta de o fazer nascer. Se fosse eu, chamar-lhe-ia filho de Andrómaca!

Andrómaca fez uma careta e depois riu-se.

- Talvez tenhas sorte, por estares prometida ao Deus e proibida aos homens! Depois daquilo tudo, não tenho pressa em acolher de novo Heitor na minha cama. Dar à luz crianças é um passatempo muito sobrevalorizado; prefe­ria deixar passar alguns anos antes de repetir a experiência. E ainda dizem que as mulheres são demasiado frágeis para lidar com armas, devido ao risco de serem feridas... Pergunto-me quão corajoso teria sido o meu querido Heitor nesta batalha! - Depois deu uma risada. - Consegues imaginar? Mudamos todos os costumes e os bardos farão baladas sobre a bravura de Hécuba, mãe de Heitor! Então, e porque não? Ela já triunfou pelo menos uma dúzia de vezes nesta batalha, o que significa que tem mais coragem do que eu alguma vez espero ter! Falam-nos nas delícias do casamento... todas as raparigas são educadas de forma a não pensar em mais nada; mas as delícias do parto são deixadas para que as descubramos por nós próprias. Ah, bem... - Inclinou-se para a frente, fazendo uma careta com a dor provocada pelo movimento, e acenou a uma das criadas para que lhe pusesse o bebé nos braços; a expressão de prazer no seu rosto enquanto o segurava contra si desmentia as suas palavras. - Penso - disse ela ­que o meu troféu de batalha é mais valioso que o saque de uma cidade!

- Bem, eu também acho - disse Cassandra, tocando no pequeno punho cerrado. - Como lhe vais chamar?

- Astíanax - disse Andrómaca. - É esse o desejo de Heitor. Sabias que quando o levarem para a festa em que lhe será dado o nome, irão deitá-lo no escudo de Heitor e transportá-lo-ão assim? Imagina só: que berço!

Cassandra tentou visualizar o bebé deitado no centro do grande escudo de guerra de Heitor. De repente estremeceu e ficou rígida, vendo o grande escudo, e a criança - com que idade? Certamente que demasiado novo para ser um guerreiro! - o corpo destroçado da criança jazendo como que para um funeral. Foi como se uma onda de água gelada a atingisse; mas Andrómaca, amamen­tando contente o seu bebé, não reparou.

Cassandra fechou os olhos na esperança de que isso afastasse a visão sangrenta.

- Como vai Creúsa? - perguntou.

- Parece-me feliz; diz que está impaciente por ficar grávida. Será que lhe devo dizer o que a espera?

- Não sejas antipática - disse Cassandra. - Deixa-a gozar a sua recente felicidade; mais tarde haverá tempo suficiente para tudo o resto.

- Tens razão; já há bruxas velhas que cheguem a tentar estragar tudo às jovens noivas, avisando-as de tudo o que as aguarda nos anos que estão para vir - concordou Andrómaca. - E apesar de tudo, eu não quereria perder o meu amorzinho pequenino. - Enterrou os lábios no pescoço macio do bebé e cheirou-o extasiada.

Tal como quando vira Fílidas com o seu filho ao colo, Cassandra sentiu-se emocionada e quase invejosa.

- Há mais alguma novidade?

- Sim; o navio de Páris foi avistado; um estafeta do miradouro da monta­nha veio dizê-lo ao rei - disse Andrómaca. - Páris é teu gémeo, mas não o acho muito parecido contigo.

- Segundo dizem, somos muito parecidos de feições - disse Cassandra, hesitante. - De resto, não nos acham muito parecidos. Há quem o julgue o mais ~ belo homem de Tróia.

Andrómaca disse alegremente, acariciando a mão de Cassandra:

- Eu não me conto entre os que assim pensam, claro; para mim nenhum ~ homem se compara a Heitor, quer em beleza quer no resto.

Isto agradou a Cassandra; sentia-se responsável por aquele casamento e regozijava-se por Andrómaca estar satisfeita com o seu marido. E Heitor também não tinha razão para não se sentir satisfeito.

- E toda a gente te acha bela - continuou Andrómaca -, mas não acho que a tua cara ficasse bem a um homem: é demasiado delicada. Não tenho ideia de serem assim tão parecidos; será que ele é assim tão efeminado?

- Penso que não; e ele é com certeza bastante viril, uma vez que ganhou #antas das competições dos jogos - disse Cassandra. - É um bom arqueiro, um belo atleta e lutador, e com o carro de combate é um verdadeiro demónio. Mas penso - acrescentou com uma certa malícia - que se nos defrontássemos em campo, ele não seria melhor guerreiro que eu.

- A minha mãe disse - comentou Andrómaca - que tu tinhas a alma de uma grande guerreira no corpo de um rato de campo.

Cassandra soltou uma risada e encostou o rosto ao bebé Astíanax; sentia que Lhe tinha feito uma injustiça ao deixar-se submergir pelas suas visões. - Que todos os deuses o abençoem, e a ti também, minha querida - disse ela.

- Não ficas para a festa da sua nomeação, para beber à sua boa sorte? - Não, acho que não - disse Cassandra. - Talvez venha a casa por um ou dois dias quando Páris voltar. Por agora vou dar um beijo a minha mãe e depois regresso ao templo.

Recebeu as despedidas afectuosas de Andrómaca, sentindo que ela lhe era mais chegada do que Políxena ou qualquer das suas meias-irmãs, e foi fazer uma visita rápida a Hécuba e receber a sua bênção. Depois dirigiu-se aos aposentos simples, nas traseiras da casa, onde Enone vivia com duas ou três criadas, raparigas calmas que haviam sido, segundo soubera, sacerdotisas do Deus-Rio.

Enone estava deitada numa rede, amamentando o seu filho; Cassandra aproximou-se e abraçou-a, consciente da fragilidade da mulher; era Enone e não ela, pensou, quem tinha o espírito de uma guerreira e o corpo de um rato de campo. Enone parecia-lhe delicada ao ponto de poder partir-se ao mínimo toque.

- Estás bem, minha irmã? - perguntou Cassandra, usando a palavra deliberadamente. De facto, gostava mais de Enone do que de Creúsa ou de Políxena. Mas quando estava perto dela sentia de novo aquele perturbador impulso de acariciar a rapariga, e como não sabia se aquela emoção era sua ou de Páris, sentia-se acanhada e tímida ao pé de Enone.

- Teria vindo aqui visitar-te, quando cá estive para o casamento de Creúsa, minha querida; mas disseram-me que não estavas suficientemente bem para receber visitas - disse ela.

Enone sorriu e disse:

- Bem, agora que o filho de Andrómaca nasceu e o lugar de Heitor está assegurado, não preciso de temer pelo meu filho.

Cassandra sentiu-se chocada.

- Certamente que não há necessidade de temer por ele...

- Com certeza que eu desejo que não haja - disse Enone -, mas Heitor conseguiu ver-se livre de Páris, e não penso que ele veja o filho de Páris com bons olhos ou tenha quaisquer motivos para gostar dele.

- Tenho a certeza de que te enganas acerca de Heitor - disse Cassandra. - Ele nunca demonstrou qualquer ciúme de Páris; pelo menos a mim. Enone riu-se e disse:

- Oh, Cassandra, penso que não sabes como toda a gente preza a tua opinião e tenta mostrar-te só o seu melhor lado. Se Heitor sentir ciúmes, serás a última a saber.

Cassandra corou. Para mudar de conversa, agarrou no bebé e embalou-o nos braços.

- Ele é bonito - disse ela. - Achas que é parecido com o pai ou contigo? - É demasiado cedo para dizer - disse Enone. - Gostaria que ele fosse como o meu pai; honesto e honrado.

Cassandra sentiu o desapontamento nas suas palavras, talvez mais forte­mente do que a própria Enone. Disse:

- Ele pode muito bem vir a ser como tu; nesse caso, ninguém poderá pôr em causa a sua bondade.

- Só o tempo poderá dizer quem teria sido mais adequado para reinar sobre esta cidade: ele ou o filho de Heitor; mas eu regozijo-me sinceramente por ele não ter de carregar tal fardo a tal destino.

Cassandra disse rapidamente:

- Enone, nunca invejes o destino do filho de Heitor.

- Que viste? - perguntou Enone apreensiva. - Não, não me digas; soube que o profetizaste no casamento de Andrómaca. Não desejo tal maldição para o meu filho... para o filho de Páris.

- Sim, estive a falar sobre isso com Andrómaca - disse Cassandra. - Pelo menos, entre as Amazonas, um filho pode usar o nome da mãe; Heitor seria filho de Hécuba...

- E a minha criança, filho de Enone e não filho de Páris ou da casa de Príamo - disse Enone. - Está muito certo; no entanto, na tua cidade, só o filho de uma prostituta tem o nome da mãe e não do pai.

Cassandra disse suavemente:

- Ninguém te poderia chamar uma coisa dessas, Enone, e disso eu serei testemunha. - No entanto, as suas palavras eram destituídas de significado, pois ela não tinha poder para alterar os factos; Andrómaca havia sido prometida a Heitor perante toda a cidade, enquanto Enone, segundo parecia, era mulher de Páris unicamente porque o aceitara com a bênção do seu pai.

- Enone, quem era a tua mãe?

- Nunca soube o seu nome - disse Enone. - O pai disse-me que ela morreu nova. Era, também ela, uma das sacerdotisas do Santuário do Deus-Rio. Sim; as mulheres que geram os filhos dos deuses são ainda mais anónimas do que aquelas que geram os filhos dos homens. Beijou Enone e prometeu-lhe que enviaria um presente para o seu filho.

No caminho de regresso à casa do Senhor do Sol, Cassandra tinha muito em que pensar. Se existiam no mundo homens como Eneias, talvez houvesse alguns com quem estivesse disposta a casar-se.

Uma manhã, foi ao quarto de Fílidas e segurou no bebé louro enquanto a jovem mãe dobrava um braçado de fraldas e cobertores recém-lavados. Tinha ti­rado os cueiros ao bebé para que ele pudesse espernear livremente e segurava os pequenos pés rechonchudos nas mãos, admirando a macieza perfeita dos minús­culos dedos e unhas; aproximou o rosto dos pequenos pés para os beijar e acari­ciar com os lábios. Soprou-lhe na barriga para o fazer rir e riu-se ela própria. Na­quele momento quase desejava ter o seu próprio bebé para brincar, apesar de não estar de todo interessada em qualquer dos preliminares necessários para ter um.

Fílidas aproximou-se e curvou-se para reclamar o seu filho, mas Cassandra agarrou-se a ele.

- Ele gosta de mim - disse ela com orgulho. - Acho que sabe quem eu sou - não sabes, beleza?

- Como não havia de saber? - disse Fílidas. - Tu estás sempre pronta a pegar nele e a dar-lhe mimos quando eu estou demasiado ocupada para lhe dar toda a atenção que ele quer.

Ao ouvir a voz da mãe, o bebé começou a gritar e a tentar agarrá-la.

- Está com fome - disse Fílidas resignadamente, começando a desapertar a túnica junto ao pescoço. - E isso, temo que não possas fazê-lo por mim.

- Fá-lo-ia, se pudesse - disse Cassandra quase num murmúrio. - Eu sei - disse Fílidas, instalando-se com o bebé ao peito. Observando-a com a criança, Cassandra sentiu as águas profundas das visões erguerem-se e baixarem.

- Cassandra, porque não me dizes o que vês? - perguntou Fílidas, fixan­do-a, amedrontada.

Cassandra ficou silenciosa.

« Esta manhã segurei nos braços três bebés e não vi futuro para qualquer deles. Que quer isto dizer? Talvez eu vá morrer e por isso não consigo ver o futuro, pois não estarei aqui para ver qualquer deles crescer e tornar-se homem? Se eu soubesse que era apenas isso, lançar-me-ia das alturas da cidade antes de o Sol deste dia se pôr.»

Mas esse não era o seu destino; avizinhava-se uma desgraça e ela teria de estar viva para a ver e suportar.

Curvou-se para beijar Fílidas e o bebé e disse, sem responder directamente: - Todos temos de cumprir a nossa sina; tu e eu e o bebé também. Acredita­-me, conhecer o destino não o torna mais fácil de suportar.

- Não te compreendo - disse Fílidas.

- Eu própria não me compreendo - disse Cassandra, e saiu para o pátio do templo, sobranceiro ao mar. Viu um barco... Sim, Andrómaca dissera que o barco de Páris tinha sido avistado.

Não fazia parte dos seus deveres dar as boas-vindas a Páris na sua chegada à cidade; mas algo mais forte que o dever atraía-a e obrigava-a a descer.

Enquanto descia a longa rua, Cassandra viu cortejos a formarem-se junto do barco, preparando-se para se dirigir ao palácio, e um outro cortejo descendo lentamente do palácio para a praia.

Páris conduzia o seu carro; tinha, sem dúvida, ordenado que o desembarcassem em primeiro lugar para poder fazer uma entrada impressionante na cida­de, em contraste com a sua não anunciada participação nos jogos. A seu lado, no carro, via-se uma silhueta feminina, cuja identidade se ocultava sob um longo véu.

Teria então Páris sido bem sucedido em trazer Hesíona de volta para Tróia? Cassandra apressou um pouco o passo e, assim, acabava de sair as portas da cidade quando Páris parou na sua frente. Ao mesmo tempo, Príamo e Hécuba, transportados no melhor dos carros cerimoniais de Príamo, detiveram-se de frente para ele. Heitor encontrava-se de pé um pouco atrás do seu pai, parecendo pouco satisfeito, e Cassandra olhou em torno procurando Andrómaca. Certa­mente que a sua amiga não quereria perder toda esta excitação? Ergueu o olhar para a janela de Andrómaca e viu-a aí sentada, com Enone de pé a seu lado, cada uma delas com o filho nos braços. Mesmo àquela distância apercebeu-se de que Enone se agarrava à moldura da janela com os dedos crispados.

Páris desceu do carro e virou-se para ajudar a mulher velada a descer; em seguida, fez uma pronunciada vénia diante de Príamo, que o obrigou a endireitar­-se e o abraçou.

- Bem-vindo a casa, meu filho. - Estendeu a mão à mulher velada (que se mantinha imóvel junto ao carro) num gesto de boas-vindas. - Foste bem sucedido na tua missão, meu filho?

- Para lá das nossas melhores expectativas. Heitor tentou parecer satisfeito.

- Trouxeste-nos, então, Hesíona de volta, meu irmão?

- Isso não - disse Páris. - Meu rei e meu pai, trago um troféu de longe melhor do que aquele que me enviaste a buscar.

Fez com que a dama se aproximasse e puxou-lhe o véu para trás. Cassandra susteve a respiração: a mulher era bela para lá do imaginável.

Era alta e delicadamente proporcionada, o seu cabelo tão belo e louro como o ouro mais fino; as suas feições eram como mármore esculpido, e os seus olhos tinham o azul profundo dos céus de tempestade.

- Apresento-te Helena de Esparta, que consentiu em tornar-se minha mulher.

Cassandra ergueu os olhos para a janela onde Enone, tapando a boca com a mão trémula, se virava e desaparecia, deixando Andrómaca a olhar, consternada, na direcção em que partira. Páris olhou de relance para cima; Cassandra não conseguiu perceber se ele tinha visto a rápida retirada de Enone.

Voltou-se de novo, rapidamente, para Helena, que o incitou com um murmúrio; depois virou-se novamente para Príamo.

- Receberás em Tróia a minha dama, pai?

Príamo abriu a boca, mas foi a voz de Hécuba que primeiro se ouviu. - Se ela aqui está de sua livre vontade, é bem-vinda - disse a velha rainha. - Tróia não apoiará o rapto e a violação de mulheres; caso contrário, não seríamos melhores que aquele homem depravado que nos roubou Hesíona. E por falar de Hesíona, onde é que ela está? A tua missão, meu filho, era trazer Hesíona de volta à nossa família; pelo menos nisso pareces ter falhado. Helena, senhora, vieste até aqui de livre vontade?

Helena de Esparta sorriu e ajeitou o cabelo brilhante. Era longo e caía solto - como só as jovens virgens o usavam em Tróia -, semelhante a um véu reluzente e pouco mais claro que o fio de ouro que o afastava da testa. Vestia uma túnica do mais belo linho do país dos faraós, e a sua cintura, que era estreita, estava circundada por uma faixa de discos de ouro martelado com incrustações circulares de lápis-lazúli que condiziam com a cor dos seus olhos.

O seu corpo era cheio, os seios fartos, as pernas - cuja forma se deixava adivinhar sob as pregas soltas do linho - longas. Quando falou, a sua voz era suave e profunda.

- Imploro-te, Senhora de Tróia, que me dês aqui acolhimento e abrigo; a própria Deusa me deu ao teu filho, e nem mesmo Ela pode conhecer maior amor do que aquele que eu tenho por ele.

- Mas tu já tens um marido - disse Príamo, hesitante -, ou será que era falso o que ouvimos, que tu tinhas desposado Menelau de Esparta?

Foi Páris quem respondeu:

- Ela foi-lhe ilegitimamente dada. Menelau era um usurpador que despo­sou esta dama por causa das suas terras. A cidade de Esparta pertence a Helena por direito materno; a sua mãe, Leda, recebeu-a da sua mãe e da sua avó. O seu pai...

- Ele não é meu pai - interrompeu Helena. - O meu pai foi Zeus, Senhor dos Trovões, e não aquele usurpador que tomou a cidade de minha mãe pela força das armas e desposou a rainha contra sua vontade.

Príamo ainda estava desconfiado.

- Pouco sei sobre o Senhor dos Trovões - disse ele. - Não é adorado aqui em Tróia. E nós não somos ladrões de mulheres...

- Meu senhor - interrompeu Helena, avançando para Príamo e pegando­-lhe na mão num gesto que Cassandra considerou atrevido. - Suplico-te em nome da senhora que me concedas a protecção e a hospitalidade de Tróia. Por amor do teu filho, exilei-me dos Aqueus, que conquistaram as minhas terras, Enviar-me-ias de volta para ser, entre eles, proscrita?

Príamo olhou os belos olhos e Cassandra viu, pela primeira vez, o efeito que Helena sempre tivera sobre os estranhos; uma espécie de desvanecimento cruzou o rosto de Príamo. Engoliu em seco e olhou-a de novo.

- Isso parece-me razoável - disse ele, mas mesmo numa frase tão curta, teve de respirar duas vezes. - Nunca a hospitalidade de Tróia foi requerida em vão. Certamente que não a podemos devolver a um marido que a tomou pela força...

Cassandra não conseguiu manter-se por mais tempo em silêncio. Gritou: - Pelo menos nisso, ela mente; não te recordas de como Odisseu nos contou que ela própria escolheu Menelau entre mais de duas dúzias de pretendentes e fez com que os outros jurassem defender o marido que ela escolhera contra quem quer que recusasse aceitar a sua escolha? Pai, não queiras nada com esta mulher! É ela quem trará ruína e desgraça à nossa cidade e ao nosso mundo! Que quer ela realmente daqui?

A linda boca de Helena abriu-se de espanto; soltou um grito - como um animal ferido, pensou Cassandra -, endurecendo-se para não sentir pena da rainha espartana.

Páris olhou Cassandra com uma aversão irada.

- Eu sempre soube que eras louca - disse ele. - Minha senhora, peço-te que não lhe ligues; ela é a minha irmã gémea a quem os deuses atingiram com a loucura, e os iludidos tomam por profetisa. Ela não fala de outra coisa senão ruína e morte para Tróia, e agora decidiu pensar que tu és a causa.

Os grandes olhos de Helena pousaram-se sobre Cassandra. - Que pena que alguém tão belo sofra de loucura.

- Eu tenho pena dela - disse Páris -, mas não temos necessidade de escutar os seus delírios. Não sabes cantar outra música, Cassandra? Já todos nós ouvimos essa e já estamos fartos dela.

Cassandra cerrou os punhos.

- Pai - apelou -, vê a razão de uma vez por todas. Esteja eu louca ou não, que tem isso a ver com o que Páris fez? Páris não se pode casar com esta mulher porque ela tem um marido com quem dúzias de testemunhas a viram casar de livre vontade, e Páris tem uma mulher. Ou já te esqueceste de Enone?

- Quem é Enone? - perguntou Helena.

- Não é ninguém com quem jamais tenhas que te preocupar, minha amada - disse Páris, olhando Helena nos olhos. - É uma sacerdotisa do Deus-Rio deste lugar, o Escamandro, e eu amei-a por algum tempo; mas saiu para sempre do meu espírito no dia em que pela primeira vez olhei o teu rosto.

- Ela é a mãe do teu filho primogénito, Páris - disse Cassandra. - Atreves-te a negá-lo?

- Nego-o, de facto - disse Páris. - As sacerdotisas do Escamandro arranjam­ amantes onde lhes apetece; como posso saber quem é o pai da criança que ela gerou? Porque pensas que não me casei com ela?

- Espera - disse Hécuba. - Aceitámos Enone porque ela gerava o teu filho...

«Enone era suficientemente boa para ser mulher de um pastor, filho de Agelau, mas não suficientemente bem-nascida para o filho de Príamo», pensou Cassandra. Disse em voz alta:

- Se abandonares Enone, és um idiota e um crápula. Mas faça ele o que fizer, pai, suplico-te que não te envolvas com esta mulher espartana. Pois posso desde já dizer-te que isso trará, pelo menos, a guerra a esta cidade...

- Pai - disse Páris -, vais dar ouvidos a esta louca e não ao teu filho? Pois desde já te digo que se recusares abrigo à esposa que os deuses me deram, deixarei Tróia para nunca mais voltar.

- Não! - gritou Hécuba, desesperada. - Não digas isso, meu filho! Já te perdi uma vez...

Príamo disse, parecendo perturbado:

- Não quero ter qualquer disputa com o irmão de Menelau. Heitor ­apelou -, e tu que dizes?

Heitor avançou e olhou Helena nos olhos; e Cassandra viu, consternada, que também ele sucumbia à sua beleza. Será que nenhum homem podia olhar para Helena e manter a posse da razão?

- Bem, pai - disse Heitor -, parece-me que já tens uma disputa com Agamémnon; esqueceste que ele ainda tem Hesíona? Podemos sempre dizer que a mantemos como refém até ao retorno de Hesíona. Ou será que não somos mais do que um campo onde esses aqueus roubam mulheres e gado? Que sejas bem-vinda a Tróia, Helena, senhora... irmã - disse ele, estendendo a mão e apertando-lhe os pequenos dedos na sua grande mão -, e prometo-te que um inimigo de Helena de Esparta será um inimigo de Heitor de Tróia e de toda a sua família. Será isso suficiente para te satisfazer, meu irmão?

- Se a receberes nesta cidade, és tu quem está louco, meu pai! - gritou Cassandra. - Não consegues ver, sequer, o fogo e a morte que ela carrega atrás de si? Entregarás às chamas Tróia inteira, só porque um homem é desleal e deseja a mulher de outro homem? - Tinha decidido manter-se calma e sensata, mas quando sentiu as águas negras elevarem-se para lhe tomarem a garganta, soltou um grito de terror. - Não! Não, imploro-te, pai...

Príamo subiu de novo para o seu carro.

- Tentei ser paciente contigo, rapariga; mas já não tenho mais paciência. Volta para a casa do Senhor do Sol; Ele é o Deus protector dos dementes; e reza para que Ele te dê visões mais benéficas. Quanto a mim, que nunca seja dito que Príamo de Tróia recusou hospitalidade a uma mulher que veio até ele como suplicante.

- Oh, deuses - gritou ela -, nem sequer conseguem ver? Estão todos enfeitiçados por esta mulher? Mãe, não vês o que ela fez ao meu pai, aos meus irmãos?

Heitor avançou e arrastou Cassandra, protestando, para fora do caminho dos carros.

- Não fiques aqui a lamentar-te - disse, bem-humorado. - Acalma-te, Olhos Brilhantes. Supõe que chegamos mesmo à guerra com a súcia dos Aqueus... Pensas que não os conseguiremos enviar a ganir de volta para os pastos de cabras a que eles chamam terra natal? A guerra significaria desgraça não para Tróia, mas para os nossos inimigos.

A sua voz era compassiva. Ela lançou a cabeça para trás e soltou um grande grito de desânimo e desespero.

- Pobre rapariga - disse Helena, aproximando-se dela -, porque deci­diste odiar-me? És a irmã do meu amado; estou pronta para te amar como a uma irmã.

Cassandra saltou para longe das mãos esticadas de Helena; sentia que iria cair e vomitar se a mulher chegasse a tocá-la. Olhou para Príamo cheia de an­gústia

- Oh, porque não me ouves? Não vês o que isto vai significar? Não são unicamente os homens, mas também os deuses que lutam aqui; e homem nenhum pode viver quando existe guerra entre os Imortais - gritou. - E, no entanto, tu dizes que sou eu quem está louca! A tua loucura é pior que a minha, garanto-te! - Rodou sobre si mesma e correu na direcção do palácio.

O seu coração batia como se tivesse vindo sempre a correr desde a casa do Senhor do Sol; sentia-se enjoada e parecia-lhe correr por entre chamas que se erguiam à sua volta, mergulhando o palácio em fumo e cheiro a queimado... Quando umas mãos a tocaram ela gritou de terror e tentou libertar-se; mas as mãos seguraram-na com firmeza e passados alguns instantes encontrava se envolta por braços carinhosos. A escuridão rolou para longe; não havia fogo. Olhou, confusa, para os olhos escuros de Andrómaca.

- Cassandra, minha querida! Que tens tu?

Cassandra, arrancada ao pesadelo mas ainda não completamente consciente do que se passava ou de onde se encontrava, fixava-a sem ser capaz de falar. - Irmã, estás exausta; estiveste demasiado tempo ao sol - disse Andró­maca. Pôs o braço em torno de Cassandra e conduziu-a para uma sala fresca e sombria.

- Oh, se fosse só isso - disse Cassandra com voz rouca, enquanto Andró­maca a fazia sentar-se num banco sobre almofadas macias, e lhe chegava aos lábios uma taça de água fresca. - Não achas que eu preferiria pensar estar louca ou com uma insolação, se isso quisesse dizer que eu não precisava de ver o que vi?

- Eu acredito em ti - disse Andrómaca. - Não penso que estejas louca; mas também não acredito nas tuas visões.

- Achas que eu ia inventar uma coisa assim? Quão perversa me deves julgar! - gritou Cassandra, indignada. Andrómaca apertou-a num abraço afectuoso:

- Não, irmã; creio que os deuses te têm atormentado com falsas visões ­ - disse ela. - Ninguém iria acreditar que és suficientemente maliciosa para fingir uma coisa dessas. Mas, minha querida, escuta a razão. A nossa cidade é forte está bem defendida; não temos falta de armas nem de guerreiros ou, se fosse caso disso, de aliados; se os Aqueus fossem suficientemente tolos para vir atrás desta cadela com o cio em vez de dizerem «Bons ventos te levem, nojento pedaço de lixo», o que te leva a pensar que os Troianos não lhes trocariam as voltas?

Cassandra via a sensatez daquelas palavras; mas continuava a gemer agarrada ao coração.

- Sim, Heitor disse qualquer coisa semelhante - murmurou - mas... ­ouviu-se gritar de novo, - São os Imortais que estão zangados connosco! ~ -- Lutou desesperadamente para vir à superfície e libertar-se das águas es#curas. - Pelo menos tu percebes que ela não passa de uma cadela no cio-disse - por fim.

- Oh, sim; eu vi os olhos que ela lançou a Heitor e até mesmo ao teu pai ­disse Andrómaca. - E é bem provável que ela seja uma praga lançada sobre a nossa cidade por um dos Imortais; mas se é a Sua vontade, nós não o podemos evitar.

Cassandra balançava-se para trás e para a frente, angustiada. O conformismo e as palavras calmas de Andrómaca enchiam-na de desespero.

- Acreditas realmente que os deuses se rebaixariam ao ponto de lutar contra uma cidade dos mortais? Que razão teriam eles para o fazer? Nós não somos perversos nem ímpios; não enfurecemos nenhum deus.

- Talvez - disse Andrómaca - os deuses não precisem de razões que justifiquem os seus actos.

- Se os deuses não são justos - disse Cassandra, chorando -, que esperança nos resta?

Como num clarão, viu o rosto da Bela, a Deusa que tentara Páris e fora bem sucedida.

«Dar-te-ei a mais bela mulher do mundo...»

Tal como na altura pensara, ela pensou de novo: «Mas ele já tem mulher!»

Levantou o rosto para Andrómaca: - Para onde foi Enone?

- Não vi; pensei que talvez tivesse ido cuidar do seu filho...

- Não; ela viu Páris com Helena e fugiu - disse Cassandra. - Vou ter com ela.

- Não vejo por que razão Páris havia de a abandonar, nem mesmo por Helena, bela como ela é - disse Andrómaca - ...a não ser que alguma deusa o tenha ordenado.

- Uma deusa assim injusta eu jamais serviria - disse Cassandra com amargura.

Andrómaca tapou os ouvidos com as mãos. - não digas isso - implorou. - Isso é blasfémia; todos nós somos súbditos dos Imortais...

Cassandra erguera a taça que não acabara de beber e esvaziou-a até à última gota; mas as suas mãos tremiam e quase a deixou cair.

- Vou falar com Enone - disse ela, erguendo-se.

- Sim - encorajou-a Andrómaca -, vai e diz-lhe que nós a amamos e que nunca aceitaremos que aquela espartana ocupe o seu lugar; nem que ela fosse a própria Afrodite.

Apesar de Cassandra a ter procurado por todo o palácio, Enone não estava em sítio algum; nem nunca mais foi vista na casa de Príamo. Por fim, ouvindo o grupo real nas escadas - preparando-se, pensou ela, para celebrar o casamento de Páris, que, visto Enone não estar presente para objectar, não podia ser impedido -, deixou o palácio e voltou sossegadamente para a casa do Senhor do Sol. Não sentia o mínimo desejo de ouvir cantar a Helena os hinos nupciais que haviam sido negados a Enone. Ela ter-se-ia disposto a levantar contra eles a sua voz em nome de qualquer deus, se um deus Lhe tivesse falado; mas nada aconte­ceu, e ela não sentia vontade de se expor outra vez ao ridículo, gritando a morte e o desastre que não conseguia deixar de ver.

 

O DOM DE AFRODITE ­

Cassandra não falou a ninguém, quer na casa do Senhor do Sol quer noutro ~lugar, sobre Helena e Páris; mas ela devia saber que notícias como aquela nunca ~poderiam ser silenciadas. Nem três dias tinham decorrido, e já a história de Helena e a profecia de Cassandra andavam em todas as bocas de Tróia.

Houve mesmo alguns que, ao verem a beleza de Helena, acreditaram, ou disseram acreditar, que a Deusa do Amor e da Beleza dos Aqueus, Afrodite, tinha vindo em pessoa para a cidade. Cassandra, quando interrogada acerca 'disto, dizia apenas que Helena era, de facto, muito bela - o suficiente para dar a volta à cabeça de qualquer homem mortal - e que no país donde vinha acreditavam que o pai dela era um Imortal.

Ela não sabia nem queria saber se alguém acreditava nisso; a sua única preocupação agora era Enone. Esperava que a rapariga tivesse simplesmente pegado no seu filho e regressado ao Templo do Escamandro; mas não acreditava que assim fosse. No seu subconsciente havia o medo obsessivo de que Enone tivesse, por qualquer razão, decidido sacrificar-se a si própria e ao filho ao Deus-Rio. Se Afrodite era verdadeiramente uma deusa do Amor, porque não teria Ela escolhido proteger o amor entre Enone e Páris?

Interrogava-se sobre esta deusa Afrodite, que colocava tais tentações no coração dos homens - e das mulheres também; não só Páris escolhera e não conseguira resistir a Helena, como também Helena, embora fosse rainha de Esparta por direito materno, escolhera entregar-se a Páris - depois de ter escolhido o seu marido como poucas mulheres no mundo aqueu o puderam fazer. «Se eu fosse rainha», pensou ela, «preferiria ser como Imandra e governar sozinha, sem tomar nenhum consorte.

As deusas de Tróia e de Cálcis eram deusas sensatas, que reconheciam a primazia da terra e da maternidade; mas esta deusa que destruía tudo em nome de um capricho a que chamava amor - não, esta não era uma deusa que ela pudesse, alguma vez, aceitar servir. Depois, uma noite, sonhou que se encontrava num templo desconhecido, diante dessa deusa aqueia que se parecia imenso com a rainha espartana.

«Juraste então que não me servirias, Cassandra de Tróia? No entanto, tu entregaste a tua vida aos Imortais...»

Cassandra estava semiconsciente de que sonhava; olhou para cima, na direcção da Deusa, e viu que ela era ainda mais bela do que a espartana Helena; e, por momentos, pareceu-lhe ver no rosto de Afrodite a beleza já meio esquecida de Apolo, Senhor do Sol. Seria capaz de resistir ao apelo daquele amor?

- Jurei servir a Mãe de Tudo - disse ela. Tu não és Ela, e não tens lugar na Sua adoração; porque Tu estás a negá-La, acho eu.

Um riso longínquo soou como um ecoar de sinos.

«Também tu acabarás por me servir, filha de Príamo. Eu tenho mais poder que as deusas comuns nas vossas cidades. Todas as mulheres Me adorarão, e tu também.»

Cassandra gritou «Não!» e acordou sobressaltada, encontrando o quarto vazio e apenas a face brilhante do sol na janela, como um simulacro da beleza que tinha visto.

Que estranhos eram estes Aqueus; primeiro escolhiam adorar uma deusa do casamento, que castigava toda a mulher que se desviasse dele; e depois escolhiam uma deusa do amor apaixonado, que tentava a mulher a desrespeitar os votos que fizera. Era como se os Aqueus temessem e, ao mesmo tempo, desejassem a infidelidade das suas mulheres - ou talvez apenas ansiassem por um pretexto para as abandonar.

Quem sabe se não seria melhor para um filho pertencer apenas à sua mãe. Talvez o casamento e a paternidade não fossem bons para os homens. Uma mulher tem de se preocupar com o bem-estar da criança que carregou dentro do seu corpo, mas ter filhos era fácil para os homens; as crianças eram bem penho­ráveis para o proveito dos seus pais. Talvez Fílidas tivesse feito, afinal, o melhor negócio; um deus podia ter tantas mulheres quantas desejasse e não precisava de expulsar a antiga quando escolhia uma nova.

Este pensamento recordou a Cassandra que tinha obrigações no templo e que, tal como jurara nunca servir Afrodite, havia feito um voto de servir o Senhor do Sol. Devia descer e juntar-se às outras sacerdotisas e sacerdotes para saudar o nascer do Sol.

Estes já estavam reunidos, desde os veneráveis e anciãos sacerdotes-curan­deiros, às mais jovens iniciadas; ela foi praticamente a última a tomar o seu lugar, e Cáris lançou-lhe um olhar paciente mas reprovador. O sacerdote supremo saudou-os a todos e disse:

- Em nome do Senhor do Sol, peço-vos que dêem as boas-vindas a um recém-chegado entre nós. Ele serviu no santuário em Delos, a ilha do Senhor do Sol. Dêem as boas-vindas ao nosso irmão, que se chama Crises.

Um bom nome para ele, Crises: dourado. Era invulgarmente alto; quase tão alto como Heitor, embora não tão musculoso e bem constituído. As suas feições delicadas estavam como que polvilhadas de pequenas sardas; o cabelo luzia em toda a sua beleza, dado estar bronzeado do sol. O sorriso dele era radioso, mostrando os dentes brancos, e os olhos eram de um brilhante azul­ marinho.

Quando falou, a sua voz era forte e timbrada, com ecos ressonantes que fizeram lembrar fortemente a Cassandra as alturas em que ouvira a voz do Deeus. «Que bem ele escolheu o Deus a quem servir», pensou ela. «De um mortal como este, o Senhor do Sol poderia bem sentir ciúmes»

- A quem pertence hoje o serviço - perguntou Cáris - de receber e registar as ofertas?

Cassandra, recordada das suas obrigações, sobressaltou-se e disse: - A mim.

- Então vais levar o nosso irmão para o pátio e mostrar-lhe como são feitas as oferendas.

Cassandra baixou os olhos timidamente, como se receasse que Crises pudesse ler-lhe os pensamentos, os quais lhe pareciam demasiado impudicos. - Agradeço-vos este bom acolhimento - disse Crises -, mas se fosse possível pedir-vos primeiro um favor, senhora:..

- Decerto que podes pedir - disse Cassandra abruptamente, quando se tornou óbvio que Cáris não ia responder. -Mas não posso prometer-te nada até saber o que desejas.

Ele ergueu os olhos de forma a falar para todos os presentes.

- Queria pedir-vos que dessem guarida aqui à minha filha, que é órfã de mãe - disse ele, e acenou a chamar uma rapariguinha que se encontrava escondida no meio do maciço de arbustos na extremidade do pátio.

A princípio, Cassandra pensou que ela deveria ter cerca de onze anos. Vestia uma túnica esfarrapada e demasiado pequena, que mal lhe chegava aos joelhos; o cabelo, do mesmo dourado assombroso do do seu pai, pendia-lhe até meio das costas, numa massa emaranhada e sem brilho.

- Há muito tempo que ando em viagem, e é difícil para um homem sozinho cuidar adequadamente de uma filha mulher - disse Crises, seguindo o olhar de Cassandra. - Será possível ela viver aqui, na casa do Senhor do Sol?

- Certamente - disse Cáris -, mas ela é ainda muito nova para ser considerada como uma das virgens de Apolo; tem muito tempo, quando for crescida, de escolher esse caminho para si, se assim o desejar. Mas por agora... Cassandra, importas-te de levar a criança e de assegurar que cuidam dela convenientemente?

- Então ficarei duplamente grato para com a senhora Cassandra - disse Crises, curvando-se e sorrindo para ela. Tentando não olhar de novo para Crise, Cassandra estendeu a mão à rapariga.

- Vem comigo, querida. Tens fome?

- Tenho; mas o pai disse-me para eu não pedir nada.

- Bem, dar-te-ão de comer; ninguém passa fome na casa do Deus – disse Cassandra, e, conduzindo a rapariga para o seu próprio quarto, chamou uma criada e pediu-lhe que trouxesse pão e vinho e um cesto com fruta.

- Primeiro tens de tomar um banho e vestir roupas limpas -disse ela, pois a roupa da rapariga estava imunda para além de rota. Com a ajuda de uma das governantas, deu banho à rapariga. Enquanto ensaboava o seu corpo franzino, apercebeu-se de que a criança não era, nem de perto nem de longe, tão nova quanto aparentava. Os seus seios estavam já bem formados e havia um emara­nhado de pêlos dourados no ponto de união das pernas.

Depois de levada do pó das estradas, possuía a beleza do pai, e Cassandra, ao perguntar-lhe o nome, não ficou surpreendida quando ouviu a resposta. - A minha mãe, à nascença, chamou-me Helike; mas o meu pai sempre me chamou Criseide.

- O nome assenta-te bem - disse Cassandra -, especialmente se o teu cabelo não estivesse tão embaraçado.

- Suponho que vai ter de ser cortado - disse Criseide.

- Ah, não! Isso seria uma pena - exclamou Cassandra. - É demasiado bonito para isso.

Pegou num pente e, cuidadosamente, penteou os nós mais dificeis; dois ou três deles eram de facto impenetráveis e ela teve de os cortar. Depois de escovado até ficar macio e lustroso, o cabelo ondulava, brilhante, sobre os ombros da rapariga.

Quando já estava vestida, com a túnica branca das noviças e uma faixa de seda tecida - uma das de Cassandra - em volta da cintura, Criseide tocou-a com dedos fascinados.

- Nunca vesti nada tão bonito!

- Agora estás digna de ser uma das virgens do Senhor do Sol - disse Cassandra. - Apolo, o Senhor, ficará satisfeito contigo, pois Ele não gostaria de estar com uma criança suja.

A rapariga parecia ainda meio-faminta; as mãos tremiam-lhe ao lançar-se sobre o pão e as uvas, como se nada tivesse comido durante dias, embora Cassandra percebesse que estava a tentar controlar-se e mostrar boas maneiras. Agradeceu a Cassandra, com as lágrimas nos olhos.

- Enquanto viajámos, por vezes davam de comer ao meu pai nos santuá­rios - disse ela -, mas ele não queria que homens estranhos me vissem. - De­pois, com receio de parecer que estava a criticar o pai, acrescentou:

- Ele guardava alguma coisa para mim sempre que podia. Contra sua vontade, Cassandra sentiu-se tocada.

- Se a governanta der licença, poderás dormir no meu quarto e eu olharei por ti.

Criseide sorriu timidamente.

- E também terei obrigações no templo?

- Claro; não há ninguém ocioso em casa do Deus - disse Cassandra -, mas até descobrirmos aquilo para que tens mais habilidade, dar-te-emos as tarefas adequadas à tua idade. - Voltou-se para a governanta: - Leva-a a Fílidas - sugeriu - e deixem-na ajudar a tomar conta do bebé.

O dia ainda não ia muito avançado quando Cassandra regressou ao pátio onde Cáris e Crises a esperavam. A velha sacerdotisa estava a ajudá-lo a registar as ofertas deixadas durante a noite no pátio do templo, ofertas que eram feitas, por simples devoção, por habitantes da cidade que não tinham nenhuns pedidos em especial para fazer. Estavam a fazer marcas numa talha: uma marca para um pote de azeite ou vinho, outra para um tabuleiro de bolos espalmados, outra ainda para o casal de pombos numa gaiola de junco encanastrado. Cassandra disse-Lhes o que tinha destinado para a criança.

- Foi uma coisa sensata - disse Cáris. - Não lhe fará mal nenhum embalar o bebé, e isso deixará Fílidàs livre para retomar as suas funções.

- Não sei como exprimir a minha gratidão - disse Crises. - É quase impossível para um homem cuidar de uma menininha; se ela fosse um rapaz, talvez eu me tivesse arranjado. Quando ela era muito pequenina, era mais simples; agora está quase uma mulher, tenho de a vigiar noite e dia. Aqui entre as virgens do Senhor do Sol não tenho de recear por ela.

- Podes estar certo de que zelaremos pela sua virgindade - disse Cáris. - Mas isso é assim tão importante neste momento? Julguei que ela tinha apenas uns onze anos.

- Também eu - disse Cassandra -, mas quando Lhe dei banho, vi que era mais velha do que isso.

Crise considerou a questão.

- A mãe dela morreu há dez anos -disse ele -e tenho a certeza de que ela ainda não tinha três anos. Há quatro meses atrás, tornou-se mulher e eu nem sabia o que dizer a uma rapariga. Foi então que decidi que tinha de abandonar a vida errante e instalar-me num lugar onde ela pudesse receber os cuidados devidos. Em viagem não me era sequer possível mantê-la alimentada, pois era demasiado bonita para que eu a pudesse deixar mendigar.

- Pobre criança sem mãe - disse Cassandra. - Tomarei conta dela como se fosse minha filha.

- Tu não tens crianças tuas, senhora?

- Não - disse Cassandra -, sou uma virgem de Apolo.

Sentiu-se corar sob o olhar que ele lhe dirigiu e apressou-se a dizer:

- Estão a começar a trazer ofertas e a consultar o oráculo; tenho de ir aprontar-me para falar com eles.

O primeiro homem trouxera como oferta um pote de bom vinho; perguntou: - Sacerdotisa, quero perguntar ao Deus como poderei arranjar um bom casamento para a minha irmã; o meu pai já morreu e eu estive afastado da minha aldeia muitos anos, servindo no exército do meu rei.

Questões como esta já tinham sido postas a Cassandra muitas vezes; ela dirigiu-se ao santuário e, obedientemente, repetiu a pergunta. Não acreditava que esta fosse suficientemente importante para que o Deus lhe respondesse; de qualquer modo, aguardou por vários minutos, para o caso de Ele ter algo para dizer. Depois regressou para junto do homem que a esperava e disse:

- Vai ter com o amigo mais antigo do teu pai e pede-lhe conselho em nome da sua amizade por ele; e não esqueças de lhe dar um generoso presente.

O rosto do homem iluminou-se.

- Estou agradecido ao Deus pelo Seu conselho - disse ele, e Cassandra acenou polidamente com a cabeça, fazendo um enorme esforço para se inibir de lhe dizer: Se tivesses usado a inteligência que o Deus achou por bem conceder-te, terias poupado a ti mesmo a maçada de vir até aqui; mas, uma vez que qualquer pessoa te poderia ter dado esta resposta, podemos bem receber um presente em troca:

- Mas nunca te esqueças de ficar em silêncio alguns momentos, para o caso de o Deus ter uma outra resposta para dar. Até as questões mais idiotas (do nosso ponto de vista) por vezes o Deus considera merecedoras de uma resposta ­avisou-o ela.

Mais tarde, quando Crises Lhe perguntou «Como sabes o que responder? É-me difícil crer que um deus se preocupe com assuntos destes», ela disse-lhe que os sacerdotes tinham elaborado respostas adequadas para as perguntas mais comuns.

Passado um momento chegou outro homem, carregando um enorme cesto de excelentes melões, e perguntou:

- O que hei-de plantar nas minhas terras viradas a sul?

- Houve algum incêndio ou inundação, ou qualquer outra grande alteração na tua terra?

- Não, senhora.

Ela recolheu ao santuário, sentando-se por instantes diante da enorme estátua do Senhor do Sol, e recordando-se de como, da primeira vez que a vira, em criança, julgara tratar-se de um homem verdadeiro. Como o Deus não Lhe falou, regressou e disse:

- Planta o mesmo que ali plantaste há três anos.

Esta resposta não poderia prejudicá-lo; se ele tivesse vindo a fazer a rotação das culturas, como os chefes das aldeias actualmente aconselhavam, não entra­ria em conflito com este conselho; caso contrário, também não pioraria as coisas. Enquanto ele lhe agradecia, ela sentiu a exasperação usual; aquela era a resposta segura para qualquer agricultor em qualquer ano, e ela sentia que ele deveria sabê-la sem perguntar. Mas, fosse como fosse, haveriam de regalar-se todos com os melões.

A manhã passou devagar, apenas com uma pergunta que a fez pensar por alguns instantes. Um homem trouxe um belo cabrito como oferta e disse que a mulher dele havia acabado de dar à luz um filho perfeito.

- E tu desejas mostrar-te grato ao Senhor do Sol?

O homem mudou de posição, pouco à vontade, como uma criança apanhada em falta. - bem, não exactamente - balbuciou. - Queria saber se esta criança é ~ minha ou se a minha mulher me terá sido infiel.

Aquela era sempre, para Cassandra, a pergunta mais temida; o ano que passara entre as Amazonas ensinara-lhe que as suspeitas de um homem em relação a uma mulher significavam que ele não se sentia merecedor da estima dessa mulher.

Porém, aceitou calmamente a oferta e dirigiu-se ao santuário. Por vezes, e , aparentemente ao acaso, esta pergunta era mesmo respondida. «Se não tens a certeza, expõe a criança imediatamente.» Mas não houve qualquer resposta, por isso ela deu a resposta adequada àquelas situações. «Se podes confiar na tua mulher noutros aspectos, não existe motivo para que duvides dela quanto a este.»

O homem pareceu imensamente aliviado; Cassandra suspirou e disse-lhe: - Vai para casa, agora, e agradece à Deusa pelo teu filho; e não te esqueças de pedir desculpa à tua mulher por teres duvidado dela sem razão.

- Assim farei, senhora - prometeu ele, e Cassandra, vendo que não havia mais peticionários aguardando conselho, voltou-se para dizer a Crises:

- São horas agora de fechar o santuário e descansar até que o Sol comece a declinar; é costume comer um pouco de pão e fruta antes de voltarmos para receber quem aparece.

Ele agradeceu-lhe e acrescentou:

- A senhora Cáris disse-me que és a segunda filha do rei Príamo e da sua rainha. O teu berço é nobre e és bela como Afrodite; por que razão serves aqui no santuário quando todos os príncipes e nobres desta costa e ainda mais para o sul, até Creta, te devem ter pretendido em casamento?

- Oh, não foram tantos assim - disse ela, rindo nervosamente. - No meu caso, o Senhor do Sol chamou-me para o Seu serviço era eu mais nova que a tua filha.

Ele mostrou-se céptico. - Ele chamou-te? Como?

- Tu és um sacerdote - disse ela. - Certamente que Ele falou contigo. - Não fui assim tão afortunado, senhora - disse ele. - Acho que os Imortais só falam com os grandes. O meu pai, que era um homem pobre, prometeu-me para o serviço do Deus quando o meu irmão mais velho escapou à febre que assolou Micenas há muitos anos. Achou que era um bom negócio; o meu irmão era um guerreiro e eu, dizia ele, não servia para nada.

- Isso não está certo - disse Cassandra com veemência. - Um filho não é um escravo.

- Oh, a ideia não me desagradou - disse Crises. - Não tinha vocação para tornar-se guerreiro.

Cassandra riu um pouco.

- Estranho. És com certeza mais forte do que eu, e eu fui guerreira durante um ano, entre as Amazonas.

- Ouvi falar dessas mulheres guerreiras - disse ele - e ouvi dizer também que elas matam os amantes e os filhos rapazes.

- Não é assim - disse ela -, mas lá os homens vivem separadamente das mulheres; e os filhos são mandados para junto dos pais logo que deixam de mamar.

- E tu tinhas um amante quando vivias com elas, bela amazona?

- Não - disse ela brandamente. - Como já te disse, tenho um voto de virgindade para com o Senhor do Sol.

- Penso que é uma pena - disse Crises - que tão bela dama deva envelhecer sem ser amada.

- Não precisas de ter pena de mim - disse Cassandra em tom indignado. - Estou bastante satisfeita sem amante algum.

- É isso que me parece lamentável - disse Crises. - És uma princesa, e és bonita, e bondosa também - demonstraste-o com a minha filha; no entanto, vives aqui sozinha, à disposição destes peticionários infelizes, e serves como qualquer reles virgem o faria...

Abruptamente, puxou-a para si e beijou-a; alarmada, tentou afastá-lo, mas ele apertava-a de tal maneira que não conseguia soltar-se. A sua boca surpreen­deu-se com o calor dos lábios dele.

- Não desejo ofender-te, de modo algum - murmurou. - Serei teu amante; ou teu marido, se quiseres aceitar-me.

Ela soltou-se, desvairada, e correu para fora da sala, voando pelas escadas acima como que perseguida por demónios, o coração desenfreado e o som do seu próprio sangue a pulsar-lhe nos ouvidos. No quarto de Fílidas encontrou Cri­seide a embalar o bebé, cantando para ele numa voz baixa e aguda. Fílidas dormia, mas sentou-se assim que Cassandra irrompeu pelo quarto.

Cassandra vinha disposta a despejar toda a história; mas, ao ver Criseide, pensou: «Se eu me queixar dele, mandá-lo-ão embora; e então esta criança ficará de novo à mercê do acaso dos caminhos.»

Disse apenas:

- Dói-me a cabeça por causa do sol; Fílidas, serias capaz de trocar de funções comigo esta tarde e levar as ofertas para o santuário, se eu ficasse a cuidar do bebé? Posso mandar alguém ir buscar-te quando ele precisar de comer.

Fílidas concordou, satisfeita, dizendo que estava cansada de estar dentro de casa com a criança e que esta, de qualquer maneira, já estava em altura de ser desmamada. Quando ela saiu, Cassandra pós o bebé a brincar ao sol e sentou-se a pensar no que lhe acontecera.

Entrara em pânico sem necessidade, tinha a certeza; nenhum sacerdote de Apolo a teria violado no santuário do Deus.

Decerto ele não quisera, realmente, fazer-lhe mal; não sentira uma repulsa igual à que sentira em relação ao homem da tribo que tentara violá-la, quando ela cavalgava com o bando das Amazonas. Se ela não tivesse fugido, o que teria ele dito ou feito? Ela não teria sentido vontade de o matar; mas teria ele levado as coisas até esse ponto? Não queria saber, de facto; gostava de Crises e não sentia raiva verdadeira - apenas uma sensação de impotência. «Não era aquele o seu destino». Sentiu dentro de si a torrente de águas negras e soube que aquilo não era o que a Deusa escolhera para ela.

 

Durante vários dias Cassandra conseguiu esquivar-se à tarefa de receber as ofertas; mas soube, através dos outros, que Crises se estava a tornar popular entre as restantes sacerdotisas e sacerdotes. Não só estava familiari­zado com a secreta arte das abelhas e de como retirar o seu mel (embora lhe tivessem dito que, em Creta, esse trabalho era interdito aos homens e apenas permitido a certas sacerdotisas), como também dominava muitas das artes conhecidas em Creta e no Egipto.

- Ele viajou pelo Egipto - disse-Lhe Cáris - e aprendeu lá a arte de anotar as contagens; e disse que a ensinaria a quem quisesse aprender. Isso irá simplificar grandemente o controlo dos nossos registos, já que poderemos saber imediatamente o que se encontra nos armazéns sem ser preciso contar os traços na talha.

Outros falaram-Lhe da sua amistosidade, das suas muitas histórias de viagens e da sua dedicação à filha - até que ela começou a sentir que se tinha comportado como uma idiota. Chegou o dia em que regressou às suas tarefas normais, e quando entrou no santuário e aí e~controu Crises para trabalhar consigo, teve vergonha de olhá-lo nos olhos.

- Folgo ver-te de novo, Cassandra, minha senhora. Continuas zangada comigo?

Houve algo na voz dele que fortaleceu a decisão de Cassandra, que lhe disse que, pelo menos, ela não imaginara o que se passara entre eles. «Porque hei-de eu sentir vergonha de encontrar os seus olhos? Eu não fiz nada de errado; se houve alguma transgressão, foi dele e não minha.»

Disse: - Não guardo qualquer rancor; mas, peço-te, nunca mais voltes a tocar-me.

Ficou aborrecida consigo mesma, por ter falado como quem pede um favor e não como quem reclama o direito de recusar um contacto indesejado.

- Não sei como exprimir o quanto lamento ter-te ofendido -disse ele. - Não há necessidade de pedir desculpa; não falemos mais nisso. ­Afastou-se nervosamente.

- Não - disse ele. - Não posso deixar que isto fique assim. Eu sei que não sou digno de ti; sou apenas um pobre sacerdote e tu és filha de um rei. - Crises, não é isso - disse ela. - Fiz um voto de não pertencer a homem algum à excepção do Deus.

Ele deu uma gargalhada: um som breve e amargo.

- Ele nunca te procurará nem sentirá ciúmes - disse ele. - Quanto a isso, não seria eu a primeira...

- Oh, Cassandra - disse ele, rindo -, acredito que sejas inocente, mas com certeza que não és tão inocente (ou tão criança) a ponto de acreditares nessas velhas histórias!

Ela interrompeu-o:

- Não falemos nessas coisas; mas quer seja verdade ou falso que o Deus pode reclamar quem lhe pertence, eu não estou destinada a ti.

- Não digas isso - protestou ele. - Nunca na minha vida desejei uma mulher como te desejo a ti, nem pensei que pudesse querer tanto uma mulher até te ter visto aqui.

- Acredito que assim seja, se tu o dizes - disse ela -, mas mesmo que seja verdade, nunca mais me fales sobre isso.

Ele curvou a cabeça.

- Como queiras - disse ele. - Por nada no mundo te ofenderia, princesa; estou em dívída para contigo pela tua bondade para com a minha filha. No entanto, sinto que Afrodite, que é a Senhora do Desejo, me ordenou que te amasse.

- Essa Deusa só envia loucura - disse Cassandra - a homens e mulheres; eu nunca amaria um homem por Ela o ter ordenado. Pertenço ao Senhor do Sol. E agora não fales mais acerca disto ou iremos brigar realmente.

- Como queiras - disse Crises. - Direi unicamente que se negares o poder Daquela que todas as mulheres devem servir, pode muito bem aconte­cer que Ela te puna.

« Esta nova Deusa é uma criação dos homens», pensou Cassandra, «para desculparem a sua própria lascívia; eu não acredito no Seupoder.» Lembrou­-se então do seu sonho, mas encolheu os ombros. «Tenho pensado tanto nisto que é como se sonhasse com trovões ao ouvir a chuva no telhado.»

- Há devotos no templo e nós temos de receber as ofertas; ensinas-me o teu novo método de as registar por escrito? Já vi a escrita desenhada do Egipto, mas é muito complicada, e uma vez, há anos, um velho que lá viveu disse-me que os escribas egípcios tinham de estudar toda a vida para a aprender.

- É de facto assim - disse Crises -, mas os sacerdotes do Egipto têm uma escrita mais simples que não é tão difícil de aprender, e o estilo cretense é ainda mais simples, pois cada sinal não é nma imagem ouuma ideia, como nos Túmulos dos Reis, mas um som; e por isso pode ser escrita em qualquer língua.

- Ah! Mas que inteligente! Quem foi o Deus ou o grande homem que ! criou esse sistema?

- Não sei - disse Crise -, mas dizem que o Hermes Olímpico, o Deus mensageiro que viaja nas asas do pensamento, é o Deus patrono da escrita. Crises pegou nas suas placas e nas talhas. - Vou mostrar-te os sinais mais simples e como escrevê-los; depois podem ser copiados em placas de barro e assim, quando secarem, terás um registo que nunca desaparecerá e que não depende da memória de qualquer homem.

Ela aprendia depressa; era como se algo nela gritasse por este novo saber, e ela absorvia-o como o solo ressequido absorve a chuva depois de uma longa seca. Cassandra aprendeu tão bem a escrita cretense, que ameaçava tornar-se mais expedita do que Crises; foi então que ele insistiu que ela não podia aprender mais.

- É para teu próprio bem - insistiu ele. - Em Creta, nenhuma mulher pode aprender a escrita, nem mesmo a rainha. Os deuses ordenaram que às mulheres não fossem ensinadas estas coisas, pois prejudicarão as suas mentes, secarão os seus ventres e o mundo todo se tornará estéril. Quando as fontes sagradas secam, o mundo fica sedento.

- Isso é um disparate - protestou ela. - A mim não me fez mal.

- Serás tu capaz de o ajuizar? Já me recusaste a mim ou qualquer amante; não é isso um insulto à Deusa e um sinal de que já recusaste a tua feminilidade?

- Então recusas-me isto por teres ficado ofendido com a minha recusa? Ele parecia amargamente magoado.

- Não foi só a mim que tu recusaste; foi o grande poder da Natureza que decretou que a mulher é feita para o homem. Só as mulheres têm esse sagrado e precioso poder de gerar...

Aquilo pareceu-lhe tão ridículo que Cassandra riu-se-Lhe na cara.

- Estarás tu a tentar dizer-me que antes de os deuses e as deusas darem sabedoria e conhecimentos aos homens, estes podiam gerar crianças, e que por o homem ter criado outras coisas lhe foi negado esse poder? Até as Ama­zonas sabem que isso não é assim. Elas fazem todo o tipo de coisas que aqui são proibidas às mulheres e no entanto também geram filhos.

- Filhas - disse ele com desdém.

- Muitas amazonas tiveram belos filhos.

- Disseram-me que entre as Amazonas matam os filhos machos.

- Não; enviam-nos aos pais. E elas conhecem todas as ártes que nas tribos com costumes diferentes são reservados aos homens. Por isso, se às mulheres de Creta não é permitido ler, que é que isso tem a ver comigo? Não estamos em Creta.

- Uma mulher não devia ser capaz de argumentar assim - protestou Crises. - A vida da mente destrói a vida do corpo.

- És ainda mais tolo do que eu pensava - replicou Cassandra. - Se isso fosse verdade, seria ainda mais importante não ensinar qualquer homem, não fosse isso destruí-lo como guerreiro. Os sacerdotes de Creta são todos eunucos, então?

- Tu pensas de mais - disse Crises tristemente. - Isso ainda te destruirá como mulher.

Os olhos dela brilharam com malícia.

- E se eu me entregasse a ti, isso salvar-me-ia desse destino atroz? És de facto bondoso, meu amigo, e eu sou uma ingrata por não apreciar o grande sacrifício que estás disposto a fazer por mim.

- Não deves zombar destes mistérios - disse Crises sombriamente. - Não acreditas que se o Deus enviou desejo de ti ao meu coração, isso é uma mensagem do Deus significando que eu te devo possuir?

Erguendo as sobrancelhas com desdém, Cassandra disse:

- Os sedutores sempre falaram assim desde o início dos tempos, e todas as mães ensinam as suas filhas a não dar ouvidos a esses disparates e mentiras. Gostarias que eu ensinasse à tua própria filha esse tipo de coisas, que se um homem a deseja é seu dever entregar-se-lhe?

- A minha filha não tem nada a ver com isto.

- A tua filha tem imenso a ver com isto; a minha conduta deve ser para ela um modelo de virtude. Gostarias que ela se desse ao primeiro homem que declarar desejá-la?

- Certamente que não, mas...

- Então és um hipócrita para além de idiota e mentiroso - disse Cassandra. - Houve uma altura em que eu gostei de ti; não completes a destruição de toda a minha boa vontade em relação à tua pessoa.

Afastou-se dele e saiu do santuário. Durante todo o tempo que tinham trabalhado juntos ele não cessara, nem sequer por um dia, de a importunar. Não o toleraria mais; iria ter com Cáris, ou com o sacerdote responsável, e dir-lhe-ia que não voltaria a trabalhar com Crises, pois este em relação a ela só tinha uma intenção, e isso ela não o permitiria.

«Seria mais simples eu própria deixar o templo. Mas deverei eu permitir que um homem assim me afaste?»

Caía a noite; tentando acalmar a sua exasperação, Cassandra desceu a encosta em direcção ao recinto onde estavam alojadas as sacerdotisas. Quando passava pelo edifício, um pequeno som vindo dos arbustos perturbou-a; virou-se e viu duas figuras entrelaçadas na sombra. No impulso do momento dirigiu-se a elas, e um homem soltou-se e fugiu. Cassandra não o reconheceu e não se preocupou grandemente com esse facto. A segunda figura já era outra questão; Cassandra avançou rapidamente e agarrou o braço da jovem Criseide.

O vestido da rapariga estava amarrotado, enrolado até quase à cintura, deixando-lhe o púbis desnudado; a sua boca estava inchada e marcada; o seu . rosto afogueado e aturdido. Chocada, Cassandra pensou: «Mas ela é uma criança, um bebé!» E no entanto era evidente que, no que tinha estado a fazer - e quanto a isso não havia certamente quaisquer dúvidas -, a rapariga tinha participado de bom grado.

Amuada, a rapariga puxou o vestido para baixo e esfregou a cara com o braço. Cassandra explodiu finalmente:

- Desavergonhada! Como te atreves a estar aí nesse lugar? És uma virgem de Apolo!

Em tom de desafio, Criseis murmurou:

- Não olhes para mim dessa maneira, minha solteirona seca e azeda; só porque nenhum homem alguma vez te desejou, como te atreves a repro­var-me?

- Como me atrevo? - repetiu Cassandra, pensando: «E foi por me preocupar com esta rapariga que eu encobri as ofensas do seu pai! Não há necessidade de especular sobre como teria ela adquirido este tipo de comportamento.»

Disse calmamente:

- Penses tu o que pensares de mim, Criseis, não é a minha conduta que está em causa mas sim a tua; tais coisas são proibidas às virgens. Procuraste refúgio no Templo do Senhor do Sol; tens portanto de obedecer às regras sob as quais vivem as outras virgens.

«Talvez», pensou ela, «o mais sensato fosse expulsar juntamente estes dois impuros, pai e filha, da casa do Deus.»

- Vai lá para dentro, Criseide -disse ela, o mais suavemente que conseguiu -, muda de vestido e lava-te, ou não serei eu a única a repreender-te. A rapariga havia sido deixada ao seu cuidado; tinha, de alguma maneira, de conseguir que Criseis não desacreditasse a casa do Senhor do Sol ou os ensina­mentos dela. Quando Criseis entrou em casa, Cassandra pensou: «Creio que agora irei ficar à mercê de Afrodite; irá Criseis alegar que também ela está sob a influência dessa Deusa cuja função é atrair mulheres para paixões desenfreadas e ilícitas?»

Ergueu os olhos para a face do Sol, lá nas alturas dos céus.

- Estamos nas Tuas mãos, Meu Senhor, Apolo - orou. - É certo que és Tu quem manda na Tua casa e nos corações e espíritos que a Ti devotaram as suas vidas. Não pretendo desrespeitar nenhum dos Imortais; mas será que não podes manter a ordem na Tua casa e no Teu santuário?

 

Não houve qualquer resposta imediata à sua pergunta; mas ela não esperara nenhuma. Durante vários dias evitou o santuário, alegando doença; era como se a casa do Senhor do Sol, antes tão alegre, se tivesse tornado hostil, pois Crises estava por todo o lado. Finalmente, subiu a colina até mesmo ao topo da cidade e, aí, ofereceu um sacrifício à Virgem, Deusa protectora de Tróia; os seus pensamentos rodopiavam em turbilhão, e ela perguntava a si própria se aquilo seria uma deslealdade para com o Senhor do Sol, de quem era sacerdo­tisa. No entanto, fora chamada pela Mãe Terra e tornada Sua sacerdotisa também.

Depois de ofertar o seu sacrifício sentiu-se mais calma, embora a Deusa não lhe tivesse falado directamente. Regressou à casa do Senhor do Sol e apresentou-se para as cerimónias do final do dia; e quando viu Crises, en­tre os sacerdotes, a sorrir para ela, não procurou evitar-lhe o olhar. Não fora ela quem procedera erradamente; porque haveria de sentir-se enver­gonhada?

Nessa noite os seus sonhos foram confusos e apavorantes; uma tempestade assolava Tróia e ela estava na parte mais alta da cidade, na cidadela da Virgem, procurando atrair para si os relâmpagos de modo a que a atingissem primeiro e não caíssem sobre aqueles que amava. O Senhor dos Trovões dos Aqueus irrompeu através das enormes muralhas construídas por gigantes, agitando os punhos. Aquele que Estremece a Terra, Senhor de Tróia, que havia sido chamado para consorte da Mãe Terra, debatia-se e lutava para proteger a sua cidade. Também ali se encontravam os outros Imortais e ela, Cassandra, fizera algo que os enfurecera. «Mas eu não fiz nada de errado», protestava ela, confusa. Se alguém havia transgredido, tinha sido Páris. Chamou pelo Senhor do Sol para que salvasse a Sua cidade; Ele mostrou-se mal-humorado e encobriu o brilho do Seu rosto, dizendo, «Também sou adorado entre os Aqueus», e ela despertou, com um grito de horror. Quando ficou totalmente desperta, apercebeu-se do absurdo do sonho - com certeza que os deuses, sendo omniscientes, não iriam punir uma cidade tão grande por causa das infracções idiotas de um homem e uma mulher apenas.

Passado algum tempo, adormeceu de novo; e de novo começou a sonhar. Tinha a sensação de ter ao peito o bebé de Fílidas; e sentia outra vez aquele misto de ternura comovente e de horrível repulsa e desespero. Lutou para recuperar a consciência. O contacto no seu seio perdurava e, sobre ela, cur­vava-se uma silhueta escura, salvo onde a luz da lua cheia refulgia na máscara dourada de Apolo. Mas ela reconheceu o toque da mão no seu seio e abriu a boca para gritar.

A mão moveu-se rapidamente do seu seio para lhe cobrir a boca.

- És minha, Cassandra! - articulou uma voz demasiado familiar. - Recusarias o teu Deus?

Cassandra mordeu a mão, que foi retirada com um grito muito pouco divino, e sentou-se compondo a túnica.

- Eu conheço a voz do Deus, Crises - rosnou-lhe furiosamente -, e não é a tua voz! Blasfemo, pensas que Apolo não sabe proteger os Seus?

A sua voz elevara-se consideravelmente na última frase, e ela ouviu no corredor as vozes das outras sacerdotisas que vinham investigar aquele distúrbio. Atirou-se para fora da cama, tentando alcançar a porta, mas Crises barrou-lhe o caminho e empurrou-a de encontro à parede. As tentativas dele para a conservar assim, embora bem sucedidas, não eram silenciosas e, no instante seguinte, o quarto foi invadido por um enorme grupo de mulheres, incluindo Cáris, Fílidas e Criseide. Crises rodou a cabeça de forma a que a máscara ficasse de frente para o grupo de mulheres.

- Deixem-nos. - A sua voz era grave e impressionante. Fílidas a princípio ficou boquiaberta, ao ver a máscara do Deus; depois, reconhecendo a voz do homem, olhou para ele e Cassandra com uma expressão horrorizada de entendimento. Criseide ria; as restantes mulheres pareciam inseguras.

Cassandra bateu-lhe com força no estômago e soltou-se das mãos que a prendiam.

- Sacerdote ignóbil! - disse ela num esgar. - Atreves-te a usar a imagem do Deus para satisfazer a tua lascívia?! Tu profanas aquilo que não compreendes! - Tremia, numa mistura de fúria e horror. - Pela Mãe Terra! Não me deitaria contigo nem que estivesses realmente possuído por Apolo!

- Não, Cassandra? - Um estremecimento percorreu o corpo de Crises; e então, inesperadamente, inconfundivelmente, a voz era de Apolo. «Tu és a minha eleita; decerto não foste capaz de pensar que Eu ia deixar de te proteger de um mortal perverso e insensato?»

Cassandra ouviu o grito de reconhecimento de Fílidas; mas a maré negra correu sobre ela, preenchendo-a, e sentiu as águas da Deusa encapelarem-se dentro de si. A última coisa que escutou foi a voz da Deusa:

«Tua, Senhor do Sol? Ela foi-Me dada ainda antes de ter nascido para este mundo dos mortais ou de ter sentido a Tua mão!»

Depois, perdeu os sentidos.

O seu corpo estava apoiado contra a parede e era como se cada palmo da sua pele tivesse sido queimada. Umas unhas cravavam-se-lhe na face e conti­nuavam a rasgar-lhe o ombro da túnica.

- Assassina! - gritava Criseide ao seu ouvido. - Mataste o meu pai! Achas-te boa de mais para ele; pensas que, por seres princesa, és melhor que todas nós! Ages como se nem sequer fosses humana! Pois bem, não és; és um animal e uma cobarde imunda...

Cassandra abriu os olhos. Crises jazia no chão, branco como um morto e muito quieto. Fílidas estava debruçada sobre ele.

- Ele vai ficar bem, Criseide - disse ela, apaziguadora. - O Deus apoderou-se dele, nada mais.

Mas Criseide não estava a ouvir.

- Ela é uma bruxa! Lançou um feitiço maligno sobre ele!

Cáris puxou a rapariga em histeria para longe de Cassandra e empurrou­-a para os braços de duas das outras sacerdotisas.

- Levem este fedelho irresponsável daqui para fora!

Os gritos de Criseide ecoavam, enquanto era arrastada ao longo do corredor e depois, felizmente, esbateram-se na distância.

Cassandra sentiu o corpo deslizar para o chão, mas nada conseguiu fazer para o evitar. Os seus olhos estavam abertos, mas tudo lhe parecia distante e não muito real. Só uma parte do seu ser se encontrava no seu corpo; a outra parte pairava acima da cena, observando Cáris e a governanta a erguê-la do chão e a estendê-la de novo sobre a cama. Uma noviça trouxe um copo grande e largo com vinho; Cáris deitou algum pela garganta de Cassandra abaixo. Por instantes aqueceu-a e fê-la regressar um pouco ao seu corpo, mas sentia-se pessimamente, com um frio insuportável, como se a maior parte da sua força vital se tivesse esvaído. Podia ver Cáris segurando-lhe na mão, mas não conseguia sentir a pressão dos dedos da mulher. De súbito sentiu-se esmagada pela saudade do acampamento das Amazonas, e de Pentesileia, que tinha sido mais mãe para ela do que Hécuba alguma vez fora ou viria a ser. As lágrimas esborrataram-lhe a visão e desceram-lhe em gotas pelas faces.

- Ssshh - sossegou-a Cáris, puxando o cobertor e entalando-o firme­mente em volta dela. - Descansa agora, e não te atormentes. De manhã teremos muito tempo para esclarecer as coisas.

Atrás de Cáris, Cassandra viu Fílidas apanhar, reverentemente, a máscara de Apolo.

Dois dos sacerdotes entraram silenciosamente, conferenciaram por instantes com a governanta e levaram Crises. Os seus olhos estavam abertos, mas ele parecia atordoado e apático.

Os sacerdotes falavam um com o outro quando passaram junto da sua cama; Cassandra apanhou as palavras «possessão genuína». Mas qual? A de Crises ou a sua?

Despertou precisamente antes do nascer do Sol, sentindo-se como se todos os músculos e ossos do seu corpo tivessem sido espancados com um bordão; ficou deitada, imóvel, pensando no que acontecera.

Uma coisa era certa: Crises usara - ilicitamente - a máscara do Deus e tentara seduzi-la. Não tinha bem a certeza do que se passara a seguir; recordou Criseide atirando-se sobre ela aos gritos e depois lembrou-se da voz de Apolo sobrepondo-se ao ruído e à confusão reinantes no quarto, e as palavras mal­fadadas que ela lançara a Crises.

«Não me deitaria contigo nem que fosses o próprio Deus...»

Teria ela realmente dito aquelas palavras ao seu Deus? Crises merecera-as; no entanto, todo o seu corpo se contraía de angústia ao pensar que Apolo, Senhor do Sol, podia tê-las entendido como dirigidas a Ele.

Porém, para lá do medo e do remorso, ela conhecia agora a origem das águas negras: era a Deusa que a reclamava. Tinha-se dado ao Deus com toda a sinceridade do seu primeiro amor; mas nessa altura já não estava livre.

A porta abriu-se e Cáris entrou, debruçando-se ternamente sobre ela. - Vais levantar-te, Cassandra? Fomos todos convocados para o santuário, para discutir o que aconteceu realmente aqui na noite passada.

Cáris trouxe-lhe um pouco de vinho e pão com mel, mas Cassandra não conseguia engolir; sentia um aperto na garganta e sabia que se tentasse comer ficaria enjoada.

Cáris ajudou-a a pôr o vestido e a escovar o cabelo. Cassandra apanhou-o numa trança frouxa e seguiu a sacerdotisa mais velha até ao santuário, onde estavam reunidos os sacerdotes e as sacerdotisas.

Um dos sacerdotes mais velhos, que conhecia Cassandra desde criança, abriu a sessão, dizendo:

- Temos de descobrir a verdade sobre este infeliz incidente. Filha de Príamo, queres dizer-nos o que aconteceu?

- Estava a dormir e a sonhar, e quando acordei vi um homem no meu quarto. Tinha posto a máscara do Deus, mas eu reconheci a voz de Crises. Já me pedira antes que eu me entregasse a ele - disse ela - e eu recusei-o. - Ergueu a cabeça, olhando Crises nos olhos. - Perguntem a esse blasfemo devasso se ele se atreve a negá-lo!

O sacerdote perguntou:

- Crises, que tens tu a dizer?

Crises olhou directamente para Cassandra. Disse:

Não me lembro de nada; só de acordar no quarto dela com essa gata selvagem atirando-se a mim!

- Não puseste, deliberadamente, a máscara do Deus, com o objectivo de iludir a rapariga?

- Decerto que não! - disse Crises com indignação. - Chamu u próprio Apolo a testemunhar - mas duvido que Ele apareça para me acusar ou defender.

- Ele mente - gritou Fílidas. - Eu conheço a voz do Deus, e juro que aquela era apenas a voz de Crises! Cassandra já me tinha feito queixa de que ele lhe pedira o que não seria legítimo dar a qualquer homem mortal! Mais tarde, ouvi-o falar com a voz do Senhor do Sol...

- Todos nós ouvimos isso - disse Cáris. - A questão agora é saber qual deles, ou se ambos, ou se nenhum, blasfemou.

- Eu afirmo que ela é culpada de ter recusado a palavra de Apolo - disse Crises. - Ela blasfemou; e em nome do Deus que ambos servimos...

- É certo que ela invocou a Deusa dentro do Templo de Apolo - disse Cáris - e isso é proibido.

- Penso que ambos deveriam ser mandados embora - disse o velho sacerdote -, pois criaram um escândalo.

- Não vejo por que razão deva ser punida - disse Cassandra - por me defender de um sacerdote la scivo, capaz de violar uma mulher que se entregou ao Deus que ele finge servir. Quanto à Deusa, eu não busquei a Sua protecção; Ela vai e vem consoante a Sua vontade. Não estou envolvida na Sua disputa com Apolo.

- Chamo Apolo para qüe testemunhe... - começou Crises, acaloradamente.

Cassandra disse bruscamente:

- E que farás tu, blasfemo, se Ele vier para te responder? Arrogantemente, Crises disse:

Deus, tal como ela diz que faz...

- Tem cuidado - disse Cáris em tom cortante. - Eu corro esse risco!

Cáris disse:

- Nós temos obrigação de proteger Cassandra; as virgens do templo estão prometidas ao Deus, e não estão aqui para sofrer abusos de um mero homem, seja ele sacerdote ou não; e muito menos com um artifício destes.

Ouviram-se murmúrios na sala; Cassandra estava grata a Cáris por ter falado em sua defesa.

- Só pergunto uma coisa - disse o velho sacerdote. - Vem cá, filha de Príamo. Ouviram-te dizer-Lhe que não te entregarias a ele mesmo que estivesse possuído pelo verdadeiro Apolo. Querias dizer realmente isso ou falaste possuída pela raiva?

- Dado que o Deus não chegou até mim, eu falei apenas em rejeição daquele que me teria violado em nome de Apolo.

Uma luz forte surgiu e Cassandra levantou os olhos para o clarão que brilhava no lugar que Crises ocupara.

A voz cava e familiar ressoou por todos os cantos da sala:

« Cassandra...»

Estava fora de questão que se tratava da voz do Deus. Cassandra sentiu os joelhos fracassar e deixou-se tombar no chão, sem ousar levantar os olhos ou falar.

« Este Meu servo não acreditou que Eu pudesse fazer-lhe o que fiz; mas agora já sabe. Conhecerá o Meu poder antes que possa envelhecer muitos mais anos. Deixem-no Comigo; Eu trato dos Meus.»

A silhueta brilhante voltou-se para Cassandra; ela estremeceu e baixou a cabeça.

«Quanto a ti, Cassandra, a quem Eu amei: Tu entregaste-te à Minha velha inimiga; e, no entanto, Eu reclamei-te e tu és Minha. Não vou libertar-te; porém, tu ofendeste-Me e, assim, Eu te retiro o Meu divino dom da profecia. Escuta as Minhas palavras!»

A voz estava cheia de uma tristeza pulsante; Cassandra, ajoelhada, com a cabeça baixa, sentiu dentro de si uma vaga de protesto e ressentimento.

- Senhor do Sol, só desejo que o faças - disse ela em voz alta. - Não quero mais do que ser libertada desse dom que eu não desejei!

Dobrou-se como que açoitada por ventos fortíssimos; o seu corpo era um campo de batalha, os olhos ardiam-Lhe, as águas turbulentas da Deusa enfure­ciam-se contra a explosão da fúria de Apolo.

«Também tu conhecerás o Meu poder!»

Subitamente a Sua presença desapareceu; Cassandra, liberta da contenda entre os Imortais, tombou no solo. Apercebeu-se vagamente de que Cáris se curvara para a levantar. Como se flutuasse num ponto próximo do tecto, viu Crises cair, o corpo contorcendo-se violentamente, os calcanhares batendo con­tra o chão e os dentes rangendo. Uma espuma raiada de sangue jorrou-lhe dos lábios e um grito sinistro esvaziou-lhe os pulmões.

«É o que merece», pensou ela, «quem pensa que pode usar os poderes de Apolo para iludir uma das Suas...»

Como um eco da voz de Apolo, ouviu:

«Mesmo ele me irá ser útil nos tempos que virão...»

Tremendo de frio, sentiu as águas escuras desaparecerem e regressou a si como se voltasse à superfície depois de um profundíssimo mergulho. Continuava a não conseguir falar; os sacerdotes estavam a assistir Crises, enquanto a sua própria cabeça repousava no colo de Cáris.

Cáris embalou-a docemente e sussurou:

- Não chores; mesmo que a ira de Apolo seja terrível, será bom para ti que fiques livre dessa terrível praga da vidência.

«Como poderia eu dizer-lhe que não chorei a perda do dom da profecia? Ou que não era a ira de Apolo que eu temia mas a perda do Seu amor? Eu nunca desejei tornar-me o campo de batalha entre os Imortais.»

 

Se Cassandra pensou que a reprimenda a Crises iria resolver alguma coisa, estava enganada; parecia que a sua paz fora destruída para nada.

Mas não era ela a única que parecia perturbada; Crises estava com um aspecto pálido e exausto. Continuavam a precisar dele no santuário, pois ele não tinha conseguido ainda ensinar a ninguém - excepto a ela -o suficiente do seu novo método de registo para que pudessem substituí-lo. Ele conseguira tornar-se praticamente indispensável. Grande parte dos sacerdotes estavam a ficar velhos; não eram mais do que trinta, e ele era o único sacerdote do Senhor do Sol que ainda estava no auge da sua vitalidade.

Não ajudava nada o facto de Cassandra, cada vez que via o sol refulgir naquele cabelo brilhante e dourado, recordar o momento em que ele lhe falara com a voz do Senhor do Sol. Que idiota tinha sido, afinal, pensou ela desanimada. Decerto que ele era capaz de chamar Apolo... ou teria sido ela quem, ao clamar contra a impostura, chamara o Senhor do Sol para que a protegesse daquele homem que ela tanto desprezava? Ele continuaria a ser Apolo, qualquer que fosse a sua aparência, e se ela não o tivesse recusado, provavel­mente teria agora dentro de si o filho do Deus. Mas seria isso o que ela queria? Seria aquele o seu destino, e tê-lo-ia recusado?

De qualquer forma, o que estava feito, estava feito, e ela só podia dar-se por feliz, ainda que com alguma amargura, pelo castigo da presunção de Crises. «Ninguém zomba dos Imortais» e, pelo menos agora, Crises sabia-o.

«E eu também. O Senhor do Sol escarnece de mim; eu, que falei com respeito contra o que considerava uma blasfémia incidindo sobre os escolhi­dos de Apolo. Fui eu quem foi castigada, tão duramente como_o infractor.»

Não Lhe servia de consolo que Apolo tivesse intervido; agora dizia-se (e, é claro, a história havia-se espalhado, primeiro no templo e depois por toda a cidade) que ela recusara o próprio Deus e que, como resposta, Apolo a amaldiçoara. A verdade era apenas conhecida por aqueles que tinham estado lá naquela noite e, pensou ela à beira do desespero, mesmo esses desconheciam a verdade inteira.

Eles pensavam que Apolo lhe havia retirado o Seu dom da profecia. Mas o dom da previsão, sempre ela o possuíra, desde a sua mais tenra idade, e o Senhor do Sol não podia tirar-lho, pois não era uma dádiva Sua. Ele apenas tinha assegurado que as suas palavras não mais fossem mais acreditadas.

Também não lhe dava satisfação alguma ver Crises ser olhado com a mesma reverência meio receosa com que ela própria era olhada. Todos os dias, uma vez pelo menos, e'às vezes duas e três, ele era possuído, tombando no chão com as horrendas contracções próprias dos ataques e aí ficando agitado por convulsões. Ela já vira (embora raramente) homens, mulheres e até crianças assim possuídas; eram geralmente olhados como vítimas ou favoritos do Deus. Cassandra começava a perguntar-se se aquela não seria uma doença como qualquer outra. Mas porque não teria Crises, então, mostrado antes quaisquer sinais dela?

Não tirava a mínima satisfação destas dúvidas interiores; se havia algo que ela desejasse, era recuperar a sua antiga e ingénua fé. Continuava a ser forçada à companhia de Crises. Algum tempo depois, apercebeu-se de que aquele episódio fizera com que tivessem ficado associados no espírito da maior parte dos sacerdotes e sacerdotisas - como se ela tivesse, de facto, cometido a infracção para que Crises tentara seduzi-la, em vez de ambos serem vítimas da ira de Apolo. «Ou do despeito», pensou.

«Que mais pode o Senhor do Sol fazer-me? Eu estou segura do Seu amor... mas e isso que tem? Será que o Seu amor é, de alguma forma, melhor do que a Sua má vontade? Deverei eu agradecer-Lhe por Ele não me ter feito, também a mim, vítima dos ataques?»

Um dia foi chamada ao pátio por Criseide, que tinha sido encarregada de levar as mensagens ao santuário.

- Cassandra, tens uma visita; acho que é a princesa de Cálcis.

Ela veio ao pátio e olhou em volta, vendo Andrómaca com o filho ao ombro, vestida com roupas de plebeia. Apressou-se a ir abraçá-la.

- Que se passa?

- Oh, minha querida, é pior do que possas imaginar - disse Andró­maca. - Estão todos enfeitiçados pela mulher espartana, até o meu estimado marido; tentei repetir-lhe o que tu me tinhas dito acerca de Helena, e ele disse que todas as mulheres tinham ciúmes de uma mulher bonita, e nada mais. Eu acho que tu és mais bonita do que Helena - disse Andrómaca -, mas nin­guém concorda!

Cassandra disse, ponderadamente:

- É como se ela usasse a faixa de Afrodite...

- A qual, todos nós sabemos, faz com que os homens só sejam capazes de pensar com o baixo-ventre - disse Andrómaca com um sorriso sarcástico. - Mas as mulheres também? Achá-la assim tão bela, Cassandra?

- Sim - exclamou Cassandra -, ela é tão bela como a própria Senhora a Beleza - e em seguida sentiu-se chocada consigo própria. Murmurou a Andrómaca, quase como quem se desculpa: - Desde criança que eu vejo ptue és dos olhos de Páris - e deteve-se. Não podia dizer nada acerca da estranha intensidade com que reagira a Enone, ou a Helena; nem mesmo a Andrómaca, que fora criada entre amazonas, a compreenderia. - Um dia disse - contar-te-ei tudo; mas, para já, fala-me sobre o que está a acontecer. - Não sabias que Menelau veio aqui?

- Não. Como é ele?

- Parece-se tanto com o irmão, Agamémnon, como eu com Afrodite ­disse Andrómaca. - Ele veio, dócil e balbuciante, e pediu que lhe entregásse-­moss Helena; e Príamo disse, a rir, que talvez (talvez, repara) nós lhe devolvêssemos Helena se ele trouxesse Hesíona de volta a Tróia, com um dote para compensar os anos que ela ficou por casar; Menelau disse que Hesíona tinha um marido, que a tomara sem dote algum, talvez impressionado com o facto de ela ser irmã do rei de Tróia, e que ele, pelo menos, não roubava as mulheres aos seus maridos.

- O pai deve ter ficado muito satisfeito - disse Cassandra, fazendo uma careta.

- Então - continuou Andrómaca - Menelau disse-lhe que Hesíona não voltaria para Tróia e sugeriu que Príamo mandasse um enviado perguntar à própria Hesíona se ela desejava voltar para Tróia - sem o filho, claro, dado que o filho era um bom espartano e pertencia ao marido de Hesíona.

- E que respondeu o meu pai a isso? - perguntou Cassandra.

- Disse a Hécuba que Menelau jogara a favor dos seus planos; mandou chamar Helena e perguntou-lhe, na presença de Menelau: «Queres voltar para o teu marido, senhora?»

- E que respondeu ela?

- Disse: «Não, meu senhor»; e, claro, Menelau ficou ali parado a olhar para ela como se ela o estivesse a cortar aos bocadinhos. Então Príamo disse: « Bem, Menelau, já tiveste a tua resposta.»

- E o que disse Menelau a isso? - perguntou Cassandra.

- Foi piorar as coisas, dizendo: « Dás ouvidos à vontade desta puta infiel? Digo-te, ela é minha e eu hei-de levá-la»; e tentou agarrá-la pelo pulso e arras­tá-la dali.

- E conseguiu? - perguntou Cassandra, pensando que, se de facto Mene­lau agira com tanta determinação, aquilo devia ter impressionado até o próprio Príamo.

- Oh, não! - replicou Andrómaca. - Heitor e Páris avançaram de um salto e agarraram-no a ele; e Príamo disse: «Agradece aos teus deuses, nobre Menelau, o facto de seres meu convidado, senão eu deixaria os meus filhos dar largas às suas vontades; mas ofensa alguma será feita a um hóspede debaixo do meu tecto». E Menelau começou a gaguejar (desta vez de raiva) e disse: « Cuidado com a língua, velho, ou deixarás de ter uma casa de onde eu tenha de a levar.» Depois disse uma obscenidade qualquer a Helena (não iria repeti-la neste recinto sagrado) - acrescentou Andrómaca com um gesto supersticioso - e atirou ao chão a taça de que estava a beber, dizendo que não aceitava a hospitalidade de um... de um pirata que enviava os filhos a roubar mulheres.

Os olhos de Cassandra estavam esbugalhados de espanto; nunca vira nin­guém desafiar Príamo, à excepção dos próprios filhos. Andrómaca prosseguiu. - Então Príamo perguntou: « Não? Então como é que vocês, Aqueus, conseguem arranjar esposas?» Menelau lançou-lhe pragas, disse não sei o quê, deu um berro a chamar os criados dele e saiu como um furacão, dizendo que se Príamo não lhe dava ouvidos a ele, talvez desse ouvidos a Agamémnon. E Páris teve a última palavra... - Neste ponto Andrómaca começou a rir. - Príamo disse: «Pois é: quando eu era um miúdo, às vezes dizia aos outros que me arrelia­vam, que o meu irmão mais crescido viria

bater-lhes.» E Páris disse: «Se vamos por aí, Menelau, eu também tenho um irmão mais velho; será que tu ou o teu irmão gostariam de acertar as coisas com Heitor?» Aí Menelau saiu de rompante, e foi a rogar pragas ao longo de todo o caminho de volta ao barco.

Cassandra, abatida, mal escutara as últimas frases; tudo o que conseguiu pensar foi «Aconteceu». Podia já ver o porto repleto da negritude dos navios estrangeiros, o mundo que conhecia desfeito em pedaços. Não conseguiu impedir-se de interromper Andrómaca e gritou:

- Orem aos deuses! Orem e sacrifiquem! Eu disse ao meu pai que ele não devia querer nada com essa mulher espartana!

A voz de Andrómaca soou delicada, ignorando a interrupção. - Não te enerves assim, Cassandra, minha querida.

«Então até ela pensa que eu estou louca.»

- O que te leva a crer que nós não mandaremos os Aqueus de volta para as ilhas onde reinam? Uma coisa foi essa gente derrotar os simples pastores e homens sem terra que eram donos daquelas ilhas... outra coisa muito diferente é enfrentar o poder de Tróia inteira! O que eu digo é que temos de fazer com que esses Aqueus olhem para si mesmos! Achas que vamos deixar que eles pensem que podem continuar a roubar as nossas mulheres sem serem punidos, mas que, se tocarmos nas deles, poderão castigar-nos?

- Andrómaca, será que tu também estás cega? Não vês que Helena é apenas um pretexto? Há anos que Agamémnon anda a tentar encontrar uma desculpa assim para iniciar uma guerra entre nós, e nós fomos precisamente cair na armadilha dele. Agora vamos ter esses homens vestidos de ferro a tentar conquistar todas as terras para sul daqui. Ele irá reunir todo o poderio dessa gente amante da guerra para... oh, que importa? - Cassandra abateu-se sobre um banco. - Tu não consegues ver porque tu és como Heitor... pensas que a guerra só conduz à fama e à glória!

Andrómaca ajoelhou-se ao lado de Cassandra e pôs-lhe os braços em volta dizendo:

- Não penses mais nisso. Não devia ter-te amedrontado; eu devia ter pensado.

Cassandra quase podia ouvi-la pensar: «Pobrezinha, está louca; afinal, Apolo amaldiçoou-a mesmo.»

Não havia forma de argumentar contra aquilo, por isso ela desistiu do seu aviso e perguntou a Andrómaca:

- Que é feito de Enone?

- Voltou para a montanha e levou o filho com ela - disse Andrómaca. - Páris queria ficar com o bebé (o seu primeiro filho, apesar de tudo), mas Enone disse que ele não podia ter as duas coisas; se a criança era filho dele e ele decidisse reconhecê-lo, então ela seria, por direito, a sua primeira esposa e aquela mulher estrangeira apenas uma segunda mulher ou concubina.

- E é bem feito para ele - disse Cassandra. - Parece que Páris não tem o mínimo de honra ou de pudor; o pai devia tê-lo deixado no monte Ida com os carneiros dele, se eles o aceitassem. - Estava profundamente desapontada com o seu irmão; queria que Páris fosse, aos olhos das pessoas da cidade, o que era Heitor: o seu campeão, o seu herói, tanto pela sua generosidade e comporta­mento honroso, como pelo seu rosto atraente.

- Tenho de voltar para o palácio. Mas diz-me, o que faremos se houver uma guerra, Cassandra? - perguntou-lhe Andrómaca.

- Lutar, claro; até eu e tu iremos sentir-nos gratas pelas nossas armas, se se voltarem contra nós tantos Aqueus quantos os que Agamémnon tem em mente - disse Cassandra, desesperada.

Andrómaca abraçou-a e despediu-se. Quando ela desapareceu da sua vista, Cassandra saiu pela porta de cima da casa de Apolo, subindo sempre e mais em direcção ao Templo de Palas Atena. À medida que avançava, sob o calor, com o suor a ensopar-lhe a túnica, tentava desesperadamente articular uma oração. Mas nada lhe vinha à cabeça e continuou a subida. Olhou para baixo, na direcção do porto, escurecido pelos barcos, tal como o vira muitas vezes antes. Não sabia se os navios estavam ou não realmente ali, mas, neste caso, isso não era importante. Se não estavam lá nesse momento, iriam chegar muito em breve.

«Meu Senhor Apolo! Senhor do Sol adorado! Se não podes retirar-me este dom e afastar de mim esta Visão indesejada, pelo menos não me lances a maldição de nunca mais ser acreditada!»

Subiu até ao alto Templo de Palas Atena, mesmo no topo da cidade, e entrou no santuário. Reconhecendo-a, ou como filha de Príamo ou como sacer­dotisa (ou, talvez, como as duas coisas) as sentinelas afastaram-se, deixando-a passar para o interior do santuário, para a presença da enorme imagem da Deusa, sob a forma de uma mulher jovem exibindo o cabelo em cachos soltos e a grinalda das virgens.

«Virgem, Tu que amaste Tróia, Tu que nos trouxeste as preciosas dádivas da uva e da azeitona, Tu que chegaste aqui antes dos arrogantes adoradores do Trovão e das suas armas, protege agora a Tua cidade.»

Ulhuu para as cortinas fechadas do santuário interior, que continha a imagem de Palas, expulsa dos céus, antiga e tosca, e recordou-se da Deusa das mulheres Amazonas.

«A Ti que és uma Virgem Caçadora, Te procuro eu, uma virgem que sofreu a injustiça do Senhor do Sol; deverei continuar a servi-Lo desta forma, quando Ele me rejeitou e escarneceu?»

Não esperara, realmente, obter resposta, mas, nas profundezas do seu espírito, sentiu o movimento agitado das águas negras da Deusa.

Vagamente confortada, desceu a colina até ao templo para cumprir a sua tarefa de registo das ofertas.

Crises lá estava, como de costume, marcando os seus símbolos em placas de cera, anotando o número de potes de azeite, de cereais (cevada e milho miúdo), as ofertas de vinho ou favos de mel, de lebres e pombos e bezerros. Continuava sem vontade de olhar para ele apesar de dizer a si própria que não era ela quem devia sentir vergonha.

Uma das sacerdotisas mais novas, ao transportar um pote, tinha-o deixado cair quebrando outro, e um monte de cevada e o conteúdo pegajoso de um favo de mel misturavam-se no chão; os esforços da rapariguinha para os limpar só tinham aumentado a confusão. Cassandra mandou-a buscar uma vassoura de ramagem e um pote de água e ela própria se encarregou da limpeza. Estava a dizer à rapariga que tirasse uma gaiola com pombos do caminho, quando ouviu a voz conhecida e detestada.

- Não devias ser tu a fazer isso pessoalmente, princesa Cassandra; isso é trabalho para um escravo.

- Somos todos escravos aos olhos dos Imortais, tanto tu como eu, Cri­ses - disse Cassandra com os olhos postos na vassoura.

- Uma afirmação correcta; mas quando deixou a princesa Cassandra de ter razão, seja qual for o custo para ela ou para qualquer outra pessoa? - disse Crises. - Cassandra, não podemos continuar assim, contigo eternamente receosa de olhar para mim.

Ofendida, ela encarou-o, zangada.

- Como te atreves a dizer que tenho medo?

- Se não tens, por que razão evitas sempre os meus olhos? A voz dela soou cáustica:

- És assim tão belo para achares que eu devia sentir prazer em olhar

para ti?

- Vamos, Cassandra - disse ele -, será que não pode haver paz entre nós?

- Não tenho, em relação a ti, nenhuma má vontade em especial - disse ela, continuando sem olhar para ele. - Mantém-te afastado de mim e eu retribuirei a cortesia, se é isso o que pretendes de mim.

- Não - disse Crises -, sabes bem o que eu pretendo de ti, Cassandra.

Cassandra suspirou.

- Crises, eu não quero nada de ti a não ser que me deixes em paz; será isto suficientemente claro para ti?

- Não - disse o homem apertando-lhe as mãos nas suas. - Eu quero-te, Cassandra; a tua imagem habita dia e noite no meu espírito. Enfeitiçaste-me; se não me podes amar, então liberta-me pelo menos do teu feitiço.

- Não sei o que dizer-te - disse ela, desalentada. - Não te lancei qualquer feitiço; porque haveria eu de fazer tal coisa? Eu não te desejo; não gosto mesmo nada de ti, e se as coisas fossem como eu queria, tu estarias em Creta, ou num dos infernos, ou ainda mais longe do que isso. Não sei como poderei tornar isto mais óbvio para ti, mas se conseguisse pensar numa forma mais clara de o dizer, diria. Fiz-me entender?

- Cassandra, não consegues perdoar? Não pretendo desonrar-te. Se for da tua vontade irei, sacerdote pobre e humilde que sou, pedir ao teu pai a tua mão em casamento. Tens de sentir alguma simpatia por mim, pois foste bondosa para a minha filha que não tem mãe...

Faria exactamente o mesmo por qualquer gatinho perdido,- inter­ompeu Cassandra. - Pela última vez, não me casaria contigo nem que fosses o último dos homens criados pelos deuses. Se a alternativa fosse viver virgem o resto da minha vida, ou casar com um pedinte cego desses que estão estendidos no mercado, ou mesmo com um... um aqueu, eu escolhê-lo-ia em vez de ti.

Ele afastou-se, o rosto branco como as paredes de mármore do santuário. Disse através dos dentes cerrados:

- Um dia vais arrepender-te disto, Cassandra. Talvez eu não seja toda a vida um sacerdote sem poderes.

O seu rosto estava transtornado; ela perguntou-se subitamente se ele não teria estado a beber vinho sem água àquela hora tão matutina. Mas o vinho da mesa dos sacerdotes era sempre muito aguado; e ele também não tinha o aspecto congestionado que teria se fosse esse o caso. Não lhe parecia que o seu hálito cheirasse a vinho - mas havia um odor estranho que parecia estar agarrado às roupas dele. Ela não o conseguia identificar, mas supôs tratar-se de algum ~remédio que os sacerdotes-curandeiros lhe tivessem dado para os ataques.

Ela virou-se para se afastar, mas ele agarrou-a pela mão e puxou-a para junto de si, encostando-a contra a parede. O seu corpo encostava-se com força contra o dela e uma das mãos dele prendeu-lhe as duas mãos, forte e dolorosa­mente. Com a mão que tinha livre, tentou abrir-lhe o vestido, a sua boca esmagando a dela com violência.

- Tu deste comigo em doido - arquejou - e nenhum homem pode ser censurado por punir uma mulher que o tenha conduzido a tal delírio!

Ela lutou e tentou gritar; finalmente mordeu-o no lábio. Ele saltou para trás e ela empurrou-o com ambas as mãos, fazendo-o tropeçar e cair. Ele agarrou-a, fazendo-a cambalear, mas ela libertou, furiosa, as suas mãos das dele e fugiu. Crises tentou levantar-se e ela pontapeou-o nas costelas. Correu para fora do santuário e não parou até estar a salvo no seu próprio quarto.

 

Cassandra acordou a meio de um sonho em que um incêndio subia, devastador, a colina de Tróia em direcção ao palácio, e um cheiro de fumo verdadeiro e um clamor de vozes enchia as salas da casa do Senhor do Sol. Era o período mais escuro da noite, quando a Lua está já oculta e as estrelas se apagam; mas sentia-se o cheiro de archotes. Pegou numa capa para cobrir a túnica curta que usava para dormir e correu para o pátio.

Ao longe, no porto lá em baixo, podia ver luzes pálidas de navios e archotes, presumivelmente transportados por mãos humanas, abrindo Caminho pela colina acima.

; Tudo o que conseguiu pensar foi: «Aconteceu.» Soltou um grito e foi então que ouviu o barulho do alarme - uma enorme matraca de madeira ­"tocar no castelo de Príamo. Chamava as mulheres, as crianças e os velhos para que se refugiassem na cidadela principal, e os soldados para que se apresentassem.

Ficou de pé, observando as luzes que se moviam na cidade por baixo de si, ouvindo o som metálico das armas a serem empunhadas, e por ~m as vozes Sonoras dos oficiais dando ordens aos soldados para que fossem para os seus postos.

Sentiu um leve puxão na manga e viu que Criseide estava a seu lado. - O que é isto, Cassandra?

- São os Aqueus; vieram, como tínhamos previsto - disse ela, e ficou espantada por se sentir tão calma. - Temos que nos aprontar para nos refugiar­mos na cidadela.

- O meu pai...

- Sssh, querida; ele tem de se juntar aos soldados. Vai depressa e veste-te.

- Mas ele tem aqueles ataques...

- Se os Aqueus o apanharem, terá algo pior. Depressa, filha. – Pegou na mão de Criseide e conduziu-a para dentro, vestindo-a rapidamente com uma túnica grossa para a defender do frio da noite, apertando-lhe a capa e enf-iando-lhe umas sandálias nos pés. Assim que Criseide ficou vestida, saíram para o pátio. Cáris reunia as mulheres em torno de si e dizia-Lhes que descessem em direcção à cidadela principal do palácio.

Cassandra, com a mão da rapariga presa na sua, caminhou rapidamente pela rua íngreme abaixo. Parecia-lhe errado caminhar ao encontro dos archo­tes e do estrépito das armas; certamente que os Aqueus nunca subiriam até onde ela se encontrava: o que eles buscavam estava no palácio, não ali em cima, no templo. Podia ouvir agora os arrepiantes gritos de guerra e os brados de Heitor enquanto reunia os seus homens.

As outras mulheres agruparam-se em torno delas enquanto Cassandra as conduzia através dos portões do palácio. Os guardas e os soldados apressavam as mulheres para que entrassem, tirando depois, cada um deles, uma lança de uma enorme pilha amontoada à porta do armeiro.

Cassandra pensou em pegar numa lança e descer com os soldados; mas Heitor ficaria zangado. « No entanto, talvez chegue o tempo em que ele não irá desprezar a minha perícia com as armas.» De momento, decidiu ir com as mulheres. Eram um grupo desalinhado, na sua maioria semidespidas por terem sido obrigadas a levantar-se a meio do sono. Muitas não se tinham dado ao trabalho de se vestir, ou fazer mais do que lançar um cobertor sobre a sua nudez, tal como aos seus filhos; bebés gritavam ou choravam nos braços das suas mães ou amas de leite. Cassandra e as outras sacerdotisas de Apolo eram praticamente as únicas adequadamente vestidas para aparecer em público, e que mantinham a compostura. A maioria das mulheres tinha o rosto marcado de lágrimas ou choravam ainda, lamentando-se ou pedindo, aos gritos, expli­cações ou ajuda.

Também Helena permanecia serena no meio da histeria das mulheres. Todos os seus cabelos se encontravam alinhados e tinha o aspecto de quem acabara de sair das mãos da criada que a ajudava a banhar-se. Segurava pela mão um rapazinho de cinco ou seis anos; as roupas dele estavam em ordem, o cabelo penteado e no lugar e, apesar de ter os nós dos dedos brancos de apertar a mão dela, o rosto estava lavado e não chorava.

Olhou em torno da sala com profunda tranquilidade e os seus olhos encon­traram os de Cassandra. Atravessou então a sala, abrindo calmamente caminho por entre as mulheres queixosas e dirigiu-se a Cassandra.

- Lembro-me de ti - disse ela -, és a irmã gémea do meu marido. É bom ver que houve alguém que não se deixou estupidificar pelo terror. Porque não estás a chorar e a gritar como toda a gente?

- Não sei - disse Cassandra. - Talvez não me assuste assim tão facil­mente; e talvez prefira não chorar até ter sido magoada.

Helena sorriu.

- Ah, bom. A maioria das mulheres é tão idiota. Achas que há perigo?

- Porque me perguntas? - contrapôs Cassandra. - Certamente que não se esqueceram de te dizer que eu sou louca.

- Não tens aspecto de louca - disse Helena. - Seja como for, prefiro ser eu a tirar as minhas conclusões.

Cassandra franziu o sobrolho e voltou-se para se afastar. Não queria gostar daquela mulher ou encontrar nela o que quer que fosse de admirável. Era suficientemente mau que, ao olhá-la, visse nela algo do que Páris via.

- Então podes tirar as tuas próprias conclusões quanto ao facto de haver ou não perigo - disse ela bruscamente. - Eu só sei que fui acordada pelo alarme da sentinela e que obedeci ao sinal vindo para aqui. Suponho, dado que vi barcos aqueus no porto, que tudo isto tem algo a ver contigo; e assim, apesar de poder haver razões para termos medo, tu não tens, certamente, nada a temer.

- Achas que não? -disse Helena. - Agamémnon não é, com certeza, meu amigo; ele só pensaria em me entregar a Menelau, e este certamente que ficaria por perto para se assegurar de que eu não escapava impune.

O invulgarmente asseado rapazinho agarrado à mão de Helena estremeceu; Helena sentiu e olhou-o meigamente. Cassandra não percebeu por que razão isto a surpreendeu; porque teria pensado que a mulher espartana não podia ser também uma mãe meiga e dedicada?

Perguntou: - Que idade tem o teu filho?

- Faz cinco anos a meio do Verão - disse Helena, acenando para o outro lado da sala superlotada a uma mulher magra, de aspecto aristocrático, vestida com a saia comprida e o corpete curto das mulheres cretenses. - Etra, minha querida, levas o Nikos e deita-lo em qualquer lado para que durma? - Beijou a criança, que se agarrou a ela; mas Helena disse com meiguice: - Agora vai e dorme como um lindo menino - e ele foi sem protestar trotando obedientemente ao lado da alta mulher.

- É o filho de Menelau? - perguntou Cassandra.

- Talvez tu penses assim - disse Helena com indiferença. - Eu digo que ele é meu filho. Em qualquer dos casos decidi não o deixar com o pai; não gosto da maneira como ele trata os filhos. Não fará mal à minha filha Hermíona o facto de não ser mais do que o seu precioso brinquedo enfeitado; mas a única coisa que Menelau tem na cabeça é moldar Nikos à sua imagem; ou ainda pior, à imagem do seu precioso irmão. Mandei o Nikos embora porque houve alguém que, imprudentemente, disse ao alcance dos seus ouvidos que, se o seu pai nos apanhasse, nos mataria a ambos; Etra também tem razão para temer.

- Etra tem mais ar de rainha que de camareira - disse Cassandra.

- Ela é uma rainha - disse Helena -, é a mãe de Teseu, e ele enviou-a para junto de mim. Creio que eles tiveram uma disputa qualquer. Etra prefere continuar comigo e trata o meu filho como se fosse seu próprio neto, coisa que ela não faria pelo filho da Rainha Cavaleira - disse Helena. - Agora que a criança está segura, gostaria de saber o que se passa.

Cassandra disse:

- Aqui não há perigo, pelo menos por agora; creio que teria sido mais sen­sato deixar as mulheres da casa do Deus lá em cima. Certamente que os invasores não subirão mais alto do que a fortaleza do palácio.

Lado a lado com Helena, saiu para o pátio, de onde se via Tróia inteira e o porto. O Sol estava a nascer precisamente naquele momento; Cassandra podia ver homens lutando, subindo através da cidade.

- Olha - disse Helena. - Os vossos soldados troianos, sob as ordens de Heitor, cortaram o caminho que sobe até ao palácio; e agora os Aqueus estão a saquear e a queimar a baixa da cidade. Aquele é um dos barcos de Agamémnon, e não duvido de que Menelau esteja com ele.

O tom indiferente em que Helena falou fascinou Cassandra; não teria ela qualquer tipo de sentimentos pelo seu anterior marido?

Agora erguiam-se chamas das casas à beira-mar e dos edifícios em baixo; as casas mais pobres, construídas com toros e pranchas empilhados, estavam a ser consumidas pelas chamas. As casas construídas na parte mais alta da colina eram todas em pedra, e não havia forma de poderem ser incendiadas, mas os soldados aqueus corriam para o interior das casas e levavam tudo o que conseguiam encontrar.

- Não encontrarão grandes tesouros ou espólios ali em baixo - disse Cassandra, e Helena assentiu com a cabeça.

Encostaram-se ao parapeito observando os homens na parte baixa da cidade. Cassandra reconheceu um dos aqueus, um homem robusto que se destacava, praticamente uma cabeça mais alto que os seus homens, o elmo de crista brilhando, sob o Sol que se erguia, como se tivesse sido banhado com ouro. Ele invadira uma vez o palácio e carregara consigo Hesíona, que se debatia. Isso tinha sido - há quanto tempo? Sete anos, talvez? Apesar disso, estremeceu e sentiu o estômago contrair-se.

- Aquele é Agamémnon - disse Helena.

Cassandra respondeu, a voz reduzida a um murmúrio: - Sim, eu sei.

- Olha; Heitor e os seus homens estão a tentar bloquear-Lhes os caminhos de volta ao barco; achas que o vão incendiar?

- Vão tentar - disse Cassandra, observando os soldados troianos ten­tando isolár o chefe aqueu e fazendo-o lutar a cada passo do caminho de regresso ao barco. O Sol estava agora mais alto e elas não conseguiam ver para lá do brilho ardente dos reflexos do mar; Cassandra virou-se, protegendo os olhos.

- Vamos para dentro; está frio. Não será às mãos de Agamémnon que Heitor cumprirá o seu destino - disse ela. Entraram na sala onde as outras mulheres se encontravam agora mais calmas. As crianças tinham adormecido sobre cobertores e meia dúzia de parteiras estavam reunidas em torno de Creúsa. que lhes tentava dizer que estava perfeitamente bem e que não ia entrar em trabalho de parto só para Lhes fornecer algo com que se distraírem naquela noite.

Hécuba, embrulhada num dos seus xailes mais velhos, com um vestido de andar por casa também ele velho e roto, tinha encontrado alguns pedaços de lã e rodava negligentemente uma roca; Cassandra percebeu, avaliando a irregulari­dade do fio, que ela apenas fazia passar o tempo.

- Oh, aqui estão vocês, raparigas; perguntava-me onde teriam ido. Que se passa lá em baixo, filha? Os teus olhos são melhores que os meus. O que foi que disseste sobre Heitor, Cassandra?

- Disse que não será às mãos de Agamémnon que ele cumprirá o seu destino, mãe.

- Espero bem que não - disse ela irritada. - Aquele aqueu grande e bruto faria melhor se seguisse o conselho de evitar o nosso Heitor!

Algumas das mulheres tinham saído para a varanda, e Cassandra ouvia-as agora soltar vivas.

- Estão a ir-se embora; alcançaram o navio e estão a largar a vela! Os Aqueus partiram!

- E não podem ter levado grande saque das casas junto ao mar; uns quantos sacos de azeitonas, umas quantas cabras, talvez. Estás salva, Helena ­disse Hécuba.

- Oh, eles certamente voltarão de novo - disse Helena, e Cassandra, que ia dizer exactamente a mesma coisa, perguntou-se como o saberia ela. Não era tola nenhuma, esta mulher aqueia, e isso perturbou Cassandra. A última coisa que queria era sentir afecto ou respeito por Helena; e no entanto não conseguia evitar gostar dela.

Criseide chegou-se ao pé de Cassandra e sussurrou:

- Cáris disse que podemos voltar para o santuário; estás pronta?

- Não, querida; vou ficar um bocado com a minha mãe, as minhas irmãs e as mulheres dos meus irmãos, se Cáris mo permitir - disse Cassandra. - Vol­tarei quando puder.

- Oh, eles deixam-te sempre fazer tudo o que queres - disse Criseide maliciosamente. - Tenho a certeza de que não te censurariam se decidisses ficar sempre fora.

Hécuba tinha ouvido aquela frase por acaso, mas ela era também uma pessoa demasiado boa para captar a malícia na voz da rapariga.

A rainha disse:

- Sim, eles têm sido muito bons no que respeita a deixar-te vir para junto de nós, Cassandra. Não te esqueças de dizer a Cáris o quão grata eu lhe estou. Suponho que, com todas estas pessoas que foram mandadas para o palácio, eu deveria tentar arranjar-lhes pequeno-almoço; podes ajudar-me, Cassandra, se as tuas obrigações no templo não te reclamarem imediatamente?

- Claro, mãe - disse Cassandra, e Helena ofereceu-se de imediato: - E eu também ajudo.

Cassandra ficou espantada ao ver Hécuba dar a Helena uma palmadinha afectuosa na face.

- Vou falar com Cáris - disse, e afastou-se rapidamente.

- Claro que deves ficar, se a tua mãe tem necessidade de ti - disse Cá­ris -, com Creúsa grávida e Andrómaca com uma criança ainda de peito. Não te apoquentes, Cassandra; fica o tempo que a tua mãe precisar de ti.

- O que foi aquilo? - disse Andrómaca com voz trémula, escondendo a cabeça do filho debaixo do xaile, ao ouvir uma pancada fortíssima na porta. Várias outras mulheres estremeceram e gritaram de medo.

- Não sejam tontas - disse Helena, olhando-as com uma expressão de desdém. - Vimos os Aqueus partir. - Avançou e escancarou a porta; o seu rosto iluminou-se tornando-a ainda mais radiosamente bela, e Cassandra soube quem estava ali, mesmo antes de ver o seu irmão gémeo.

- Páris!

- Quis certificar-me de que tu e o menino estavam bem - disse Páris, olhando em volta do quarto à procura da criança. - Decerto não o deixaste lá em baixo enquanto te refugiavas aqui?

- Claro que não; está a dormir ali, nos braços de Etra - disse Helena, e Páris sorriu; um sorriso, pensou Cassandra, que não deveria ter sido visto fora do quarto deles.

- Estavas assustada, meu amor?

- Não, sabendo que estávamos tão bem protegidas, meu querido - murmurou ela, e ele apertou-lhe a mão.

- Disse a Heitor que ele devia vir comigo para se assegurar de que as nossas mulheres e crianças estavam bem - acrescentou Páris -, mas ele estava dema­siado ocupado, preocupando-se com o vinho e as rações para a guarda do palácio.

- Heitor - disse Andrómaca rispidamente - nunca negligenciaria o seu dever para com os seus homens; nem eu gostaria que ele o fizesse.

«O que está Páris a fazer aqui entre as mulheres numa ocasião como esta?» Cassandra sabia que Heitor se comportara correctamente; no entanto, naquele momento - ela sabia-o -, todas as mulheres de Tróia invejavam a Helena o seu marido.

- Menelau estava lá? - perguntou ela em voz baixa.

- Se estava, não o vi - disse Páris. - Eu disse-te que ele era demasiado cobarde para vir pessoalmente. E agora estamos todos mais que livres de Agamémnon.

- Nem penses nisso - exclamou Cassandra -, ele estará de volta mal tenha tido tempo para reorganizar os seus homens, e da próxima vez não te verás livre dele tão facilmente.

Páris olhou-a com uma indulgência bem-humorada.

- Ainda andas a profetizar desgraças, pobre rapariga? És como um menes­trel que só sabe uma canção e acaba com o bom acolhimento que lhe era dis­pensado a todas as lareiras - disse ele -, mas lamento que te tenhas assustado com esses aqueus nojentos. Esperemos que seja a última vez que os vemos.

«Eu também o espero; nem ele sabe quanto eu espero que seja assim.» - Tenho de ir ajudar a mãe a providenciar o pequeno-almoço para estas

mulheres todas - disse ela, e virou costas. Parecia incongruente pensar numa festa depois de todo aquele horror e confusão; mas os homens também estavam a festejar, celebrando o facto de Agamémnon ter sido - de momento - afastado.

- Preferia ficar contigo - disse Páris -, mas se não vou para junto de Heitor e dos homens, vou ter de ouvi-los até ao fim dos meus dias. Perdoa-me, amor. - Beijou a mão de Helena e saiu apressado; Cassandra ficou imóvel até que Andrómaca a chamou e ela foi ajudar a preparar o pequeno-almoço para os inesperados hóspedes do palácio.

 

Aquele fora apenas o primeiro assalto; durante o resto do Inverno, Cassandra teve a sensação de que sempre que olhava para o porto os navios aqueus lá estavam e os seus tripulantes andavam pelas ruas, lutando. Por fim, a maior parte dos objectos de valor foram levados para a cidadela do palácio, ou ainda para mais longe, para a casa do Senhor do Sol, e a cidade estava sob um cerco permanente.

Uma vez, os Aqueus contornaram discretamente a cidade e assaltaram o monte Ida; antes que o exército pudesse ser chamado, já tinham capturado a maior parte do gado de Príamo e a maioria das suas ovelhas. Nessa altura, Cassandra cumpria os seus deveres no templo, contando potes de azeite e reparando que a quantidade - ainda que não a qualidade - das ofertas havia decaído. Foi possuída por uma onda de raiva, dor e desespero, vinda não sabia de onde e tão súbita que ela explodiu num enorme uivo de angústia. Não conseguiu perceber o que se passara até que reconheceu aquele tipo peculiar de emoção intensa que sempre a levava a comunicar intimamente com a mente do seu irmão; ela - ou antes, ele - encontrava-se na encosta da montanha e diante de si, já coberto por ruidosos enxames de moscas, jazia o corpo de Agelau, o velho pastor.

- Parece que ele tentou pôr o seu velho corpo, sozinho, entre os rebanhos de Príamo e os soldados de Agamémnon - balbuciou Páris, e Cassan­dra, embora só tivesse visto o velho por instantes, nos jogos em que Páris fora recebido na cidade, sentiu toda a mágoa e toda a raiva do irmão.

- Ele não tinha mais nenhum filho; eu devia ter ficado com ele para o proteger na velhice - disse Páris. por fim, colocando com delicadeza a sua capa, ricamente tecida, sobre o corpo. Face a isto, Cassandra conseguiu distanciar-se o suficiente do seu irmão para pensar: «Quem dera que tivesses ficado com ele, de facto! Teria sido melhor para ti, para Agelau, para Enone; e melhor também para Tróia!»

Páris mandou levar o corpo para dentro das muralhas de Tróia, e Príamo deu ao honrado ancião um funeral de herói (tinha, de facto, tido uma morte de herói, protegendo os rebanhos do rei), com festejos e jogos. Uns quantos forasteiros haviam sido apanhados no mercado, no dia do primeiro ataque. Tinham sido sepultados condignamente, no Templo de Hermes, que era o deus dos viajantes e dos estrangeiros; mas ninguém aparecera a reclamar os seus corpos e não houvera quaisquer ritos para além dos necessários para aplacar a ira dos seus espíritos. O velho pastor foi o primeiro cidadão troiano a morrer naquela guerra e Páris, pelo menos, nunca o esqueceria; cortou o cabelo em sinal de luto e quando Cassandra voltou a vê-lo, na festa de atribuição do nome ao primeiro filho de Creúsa, mal reconheceu o seu gémeo.

- Isso era necessário? Ele era apenas um criado - disse ela -, embora fosse um criado antigo e honrado. Mas ainda assim...

- Era o meu pai adoptivo. Durante toda a minha infância foi o pai que eu tive. - Tinha os olhos vermelhos de chorar e ela nunca pensara que ele fosse capaz de sentir tanta mágoa. - Que os deuses me abandonem, se algum dia eu me esquecer de venerar a sua memória.

- Não quis insinuar que ele não era merecedor do teu luto - disse Cassandra, e sentiu que, naquele momento, algo o tornava mais verdadeira­mente seu irmão do que alguma vez havia sido. Ela tinha sido sempre aquela que, contra vontade, partilhava os sentimentos dele - uma intrometida; agora começava a conhecer a pessoa que ele era, com defeitos e virtudes, e a compreendê-lo um pouco.

Permaneciam ainda lado a lado quando o alarme soou de novo e, do exterior, surgiu a avalancha de mulheres e crianças que vinham refugiar-se na cidadela; Cassandra foi dar uma ajuda às mulheres que traziam bebés pesados e crianças que ainda mal andavam, enquanto Páris saiu para se armar e juntar aos homens de Heitor nas muralhas. Do lado de dentro, junto dos portões da cidade, havia uma escada que conduzia ao interior da enorme muralha, e foi aí que os homens se juntaram; olhando-os, Cassandra sentiu que talvez ela e o irmão fossem mais felizes se pudessem ter trocado de posições.

Passou o dia atarefada, ajudando a distrair as mulheres e a manter as crianças sossegadas; aquela reclusão tornava-a irascível e às vezes pensava se os homens não estariam a passar um melhor bocado lá fora, com um alvo contra o qual atirar. Seria com certeza um prazer, pensou, fazer pontaria a alguns daqueles detestáveis fedelhos - depois caiu em si: as crianças não tinham feito nada, excepto comportarem-se como é normal nas crianças. «Mas que malvada que eu sou, para me sentir exasperada com estes pequenos inocentes.» No entanto, admitiu intimamente que tinha vontade de agarrar alguns deles e abaná-los, um em cada mão, até que os dentinhos lhes choca­lhassem dentro da cabeça.

Criseide estava a comportar-se muito bem; tinha reunido as crianças à sua volta e ensinava-lhes um jogo movimentado. E, claro, isso era exactamente o que uma menina bonita devia fazer; estava a desempenhar aquele papel tão bem, que todas as mulheres do palácio a elogiavam e acarinhavam. Porém, até ela deixou as crianças passado um bocado, e veio até ao cimo dos muros do palácio, onde Cassandra se encontrava. Desta vez os atacantes não se tinham contentado em assaltar a parte baixa da cidade e batiam-se nas ruas abaixo do palácio, tentando chegar aos celeiros e à tesouraria de Príamo. Em breve, pensou, teriam de reforçar as muralhas e manter os Aqueus fora da baixa da cidade.

«Se ao menos eu tivesse o meu arco; estou destreinada, mas ainda seria capaz de correr com uns quantos antes de eles chegarem perto do palácio. Paciência; esse dia chegará.» Por momentos, Cassandra pensou ter ouvido alguém falar. Criseide tocou-lhe no braço.

- Quem são os chefes aqueus? Conheces alguns deles?

- Conheço alguns, sim; Agamémnon, aquele grande, de barbas negras, é o chefe deles. - Como sempre, ao vê-lo o seu estômago contraiu-se de repulsa. Mas Criseide observava-o com nítida admiração.

- Como ele é forte e bonito. Que pena que não seja nosso aliado, em vez de nosso inimigo.

Tentando não deixar transparecer o seu desagrado e irritação, Cassandra murmurou:

- Nunca pensas em mais nada a não ser em homens?

- Poucas vezes - disse Criseide jovialmente. - Em que mais deveria uma mulher pensar?

- Mas tu também és uma virgem prometida de Apolo...

- Não para sempre - disse Criseide. - Eu não andei com as Amazonas nem tenho nenhum compromisso de odiar os homens. Sou uma mulher; não pedi aos deuses que me fizessem mulher, mas, já que esse é o meu destino, quer eu queira quer não, porque não hei-de tirar prazer disso?

- Ser uma mulher não quer dizer, forçosamente, comportar-se como uma prostituta - disse Cassandra, irritada.

- Não creio que tu saibas qual é a diferença - disse Criseide. - Tu preferias ser um homem, não preferias? Se as leis o permitissem, creio que tomarias uma esposa.

Cassandra esteve prestes a dar uma resposta desabrida, mas depois controlou-se... Talvez Criseide tivesse razão. Secamente disse:

Esquecemo-nos todos do pobre velho Agelau e da sua pira. Por esta

altura, já se deve ter consumido; os seus ossos têm de ser decentemente colocados numa urna para serem sepultados. Irei eu; Páris é meu irmão, e eu celebrarei este último rito de respeito pelo seu pai adoptivo.

Durante o resto do Inverno e no começo da Primavera, os ataques continuaram, dia após dia; finalmente, Príamo mandou instalar acampamentos em cada uma das colinas mais altas a sul da cidade, de onde as suas sentinelas podiam vigiar a aproximação dos navios e acender fogos de alerta. Assim, os Aqueus, ao desembarcar, apenas encontraram paredes nuas e cumes bem defen­didos, e nada obtiveram como recompensa pelo trabalho, para além da viagem.

Mais tarde, os homens de Príamo aproveitaram uma longa temporada de chuvas para reparar as paredes exteriores e reforçar os enormes portões; quando os Aqueus começaram a lutar tentando abrir caminho pelos acessos principais e penetrar na cidade propriamente dita, não conseguiram passar. A baixa da cidade era um labirinto de ruas estreitas, construídas em socalcos íngremes, onde um defensor poderia facilmente rasteirar um assaltante.

- Esta cidade não está a ser a pêra doce que eles pensavam vir encontrar - ­disse Eneias triunfante, olhando de cima das muralhas do palácio para as ruas negras de aqueus correndo para cima e para baixo. Até Heitor, desta vez, ficara satisfeito por deixar que fossem as paredes a defendê-los, e a maior parte das mulheres, segundo parecia, tinham saído para presenciar a frustração dos Aqueus. Andrómaca estava lá com o seu filho, que começava agora a andar, e Creúsa trazia a sua filha pequenina metida dentro do xaile. Aqueles alertas tinham-se agora tornado um acontecimento tão frequente que Hécuba já não se preocupava em arranjar o pequeno-almoço, depois dos combates, para os convi­dados que contra vontade se encontravam na cidadela; mas quando Heitor distribuiu punhados de cereais e frascos de azeite aos seus soldados, a regra foi de que qualquer mulher que acompanhasse o seu marido poderia reclamar um quinhão equivalente.

Cassandra estava a assistir à distribuição das rações e disse: - Diz-lhes que tragam os frascos de volta.

Heitor protestou.

- Os frascos não têm grande valor; para quê ser mesquinho?

- Não tem nada a ver com mesquinhez. Os oleiros saem para lutar como os outros homens. Se isto se prolongar por muito tempo, não haverá oleiros suficientes para fazer mais para cada dia de combate.

- Percebo o que queres dizer. - Heitor deu a ordem e ninguém protestou. Os armazéns de Tróia continuavam apinhados de cereal e, de momento, não havia escassez de comida. Cassandra juntava-se, diariamente, às mulheres da casa de Príamo para reencher os frasquinhos de azeite e servir as rações de vinho. Mesmo no final do Inverno havia ainda muito cereal nos celeiros do palácio; mas Heitor começava a demonstrar preocupação.

- Como iremos fazer as sementeiras da Primavera se eles nos atacam todos os dias? - perguntou ele uma noite ao jantar, no palácio.

- Com certeza que eles não virão durante as plantações de Primavera ­disse Andrómaca. - Lá no meu país, todas as guerras são suspensas nas sementeiras e colheitas para render honras aos deuses.

- Mas estes Aqueus não temem a Mãe - disse Eneias - e talvez nem venerem os nossos deuses.

- Mas os Imortais não são todos um só? - perguntou Cassandra.

- Tu sabes disso. Eu sei disso - disse Eneias. - Se os Aqueus o sabem ou ` não, isso é outra história. Pelo que ouvi, não me surpreenderia grandemente que considerassem a guerra mais importante para eles do que qualquer deus. sorriu para ela e disse: - Não te preocupes com isso, Cassandra. São assuntos de homens.

- Porém! se eles vierem - disse ela -, serão as mulheres que irão sofrer, mais do que os homens.

Ele pareceu surpreendido, por momentos. Depois disse:

- É verdade! Nunca tinha pensado nisso. Um homem enfrenta apenas uma morte honrosa; mas as mulheres têm de enfrentar violações, aprisionamento, escravidão... É verdade; a guerra não é feita para as mulheres mas para os homens. Pergunto-me como uma mulher conduziria esta guerra.

Cassandra disse, com enorme amargura:

- Uma mulher teria arranjado uma forma de nunca a provocar. Depois, se os Aqueus quisessem o ouro e os bens de Tróia, viriam combater-nos sabendo que não estavam a lutar por questões de «honra», mas sim por ganância, coisa que os deuses odeiam.

- Lembra-te, Cassandra, que existem homens que pensam nesta guerra como um imenso terreno de recreio, um campo de jogos em que os prémios não são mais que coroas de louros e honra.

Cassandra assentiu com a cabeça.

- Heitor atira-se para cada batalha como se o objectivo fosse ganhar um caldeirão de bronze e um touro branco de chifres engalanados.

- Não, estás enganada - disse Eneias. - Heitor não tem nada de insensato ou de imprudente. Acontece é que todos nós temos de viver segundo as regras do deus que escolhemos; e Heitor pertence ao deus das batalhas. Mas o Deus dele não é o meu Deus; a guerra pode ser parte da minha vida, mas não será nunca a vida que escolherei para mim. - Tocou-lhe levemente na face e disse: - Estás com um ar exausto, irmã; não pode haver tanta coisa a fazer aqui que te obrigue a esta fadiga. A rainha tem muitas mulheres, e qualquer uma delas podia fazer estes pequenos serviços. Penso que os deuses destinaram algo de mais importante para ti; e nós, homens, talvez venhamos a necessitar dos teus poderes especiais antes desta guérra chegar ao fim, seja qual for o fim que os deuses destinaram para nós.

Afastou-se, parando junto da sua mulher. Cassandra viu-o curvar-se para olhar para dentro do xaile, tocando o rosto de bebé com o dedo; disse qualquer coisa, rindo, e afastou-se para ir ter com os homens.

«Tão diferente de Crises», pensou Cassandra, vendo-o descer a colina. «Eu disse-o no seu casamento: se o meu pai me tivesse arranjado um marido assim, teria ficado satisfeita. Em toda a minha vida - e eu sou praticamente a única mulher desta idade, na casa de Príamo, a quem não foi dado um marido - nunca vi um homem com o qual me casasse de boa vontade. Salvo este, e ele é o marido da minha meia-irmã e o pai da sua filha.»

Endireitou as costas, fatigada, e curvou-se de novo para prosseguir com a tarefa de encher os frasquinhos de azeite.

- Cassandra, estás a deitar o azeite por fora; não enchas tanto a concha ­censurou Creúsa, vindo sentar-se ao pé dela. - O que esteve o meu marido a dizer-te durante tanto tempo?

- Estava a perguntar-me como conduziria eu esta guerra se fosse um soldado - disse Cassandra, que, surpreendida, disse a verdade. Mas Creúsa riu-se apenas.

- Bem, não me digas, se não queres - disse ela desdenhosamente. - Não sou o tipo de mulher que fica com ciúmes se o marido troca duas palavras com outra mulher.

- Disse-te a verdade, Creúsa; essa foi uma das coisas que ele disse. Além disso, estávamos a pensar no que iríamos fazer se os Aqueus não respeitassem as tréguas de sementeira para as plantações da Primavera.

- Oh, suponho que é porque tu és sacerdotisa e deves saber dessas coisas­disse Creúsa. - Mas nem Agamémnon poderia ser tão ímpio assim. Pois não? -- E como Cassandra não respondesse imediatamente, ela protestou: - Tu és profetisa, devias saber. Não pode, pois não?

Cassandra não podia responder; mas disse:

- Espero que não. Não conheço o que fazem, nem como servem os deuses deles.

 

Mas ser profetisa não era o suficiente; mais tarde, todo o primeiro ano da guerra se transformou, na sua mente, numa amálgama confusa de incêndios, ataques, homens gritando, queimados vivos por flechas incendiárias. Uma mulher que se passeava incautamente, descera até ao acampamento aqueu, tendo sido violada por uma dúzia de homens. Fora encontrada gritando, em delírio; as sacerdotisas-curandeiras do Templo do Senhor do Sol lutaram para a salvar, mas, no primeiro dia em que ela parecia suficientemente bem para ser deixada por alguns instantes sem vigilância, precipitou-se do alto muro da cidadela, e alguém demasiado humilde para se poder furtar a essa tarefa teve de descer a retirar o seu corpo despedaçado e informe das pedras em baixo.

Poucos dias antes das sementeiras da Primavera, os sacerdotes e as sacerdotisas despertaram com o som alegre de uma trombeta que subia do palácio e depararam com o porto esvaziado de navios; os Aqueus tinham partido, deixando atrás de si apenas uma longa faixa negra de areia suja e revolvida, no local onde haviam estado instaladas as suas tendas.

A alegria invadiu a cidade, mesmo quando todos os homens de Heitor desceram para limpar todas .aquelas porcarias e detritos. O seu filho, o pequeno Astíanax, também foi. Agora que corria por todo o lado, e já tagarelava, era o grande favorito dos soldados; aparecia a toda a hora com bocados de lixo deixado na praia, pensando tratar-se de um tesouro: uma brilhante fivela de armadura em bronze, um pente de madeira partido em bocados, um pedaço de pergaminho usado onde alguém rabiscara um mapa rudimentar da cidade. Cassandra tirou este último à criança, apesar dos seus protestos, e ficou a olhá-lo durante muito tempo, pensando qual teria sido o inimigo de Tróia que o fizera.

- Dá-me cá isso! - gritou Astíanax, esticando-se para o agarrar, e Cassandra disse:

- Não, pequenino, o teu avô tem de ver isto.

- Ver o quê? - perguntou Heitor, tirando o pergaminho da sua mão e devolvendo-o à criança. Cassandra curvou-se para o recuperar, sem prestar atenção aos gritos zangados da criança.

- Que se passa contigo, Cassandra? Devolve-lho. Eles partiram; não existe razão para nos preocuparmos com o lixo que eles deixaram - disse Heitor. - Não. Pára de gritar, filhinho, e irás passear no carro do pai.

- Eles não partiram por muito tempo - disse Cassandra -, ou achas que tendo isto, eles desistiriam de tão grande vantagem?

- Estás a exagerar a importância disso - disse Heitor. - Que queres tu fazer com essa coisa?

Ela passou o dedo por cima das marcas familiares que não conseguia ler integralmente.

- Foi alguém de Creta que fez isto; pensei que eles eram nossos a