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QUEDA DE GIGANTES / Ken Follett
QUEDA DE GIGANTES / Ken Follett

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

QUEDA DE GIGANTES

Primeira Parte

 

22 de junho de 1911

No mesmo dia em que Jorge V foi coroado rei na Abadia de Westminster, em Londres, Billy Williams desceu até as profundezas da mina de Aberowen, na região de Gales do Sul.

Era 22 de junho de 1911 e Billy fazia 13 anos. Foi seu pai quem o acordou. A técnica de Da para despertar os outros era mais eficaz do que delicada. Ele dava tapinhas ritmados na bochecha, com firmeza e insistência. Naquele dia, Billy dormia profundamente e tentou ignorar os tapinhas por alguns instantes, mas eles continuaram sem trégua. O menino sentiu uma raiva passageira, mas daí se lembrou de que precisava acordar, queria acordar, então abriu os olhos e se sentou com um sobressalto.

– São quatro horas – falou Da, saindo do quarto, suas botas ecoando nos degraus de madeira enquanto descia a escada.

Billy estava prestes a começar sua vida profissional como aprendiz de mineiro, tal qual a maioria dos homens do lugar havia feito naquela idade. Não se sentia tão minerador quanto gostaria, mas estava decidido a não dar vexame. Em seu primeiro dia na mina, David Crampton havia chorado, e até hoje todos o chamavam de Dai Chorão, embora ele já tivesse 25 anos e fosse a estrela do time de rúgbi da cidade.

O solstício de verão fora na véspera, e uma luz fraca do início da manhã entrava pela pequena janela do quarto. Billy olhou para o avô deitado ao seu lado. Os olhos de Gramper estavam abertos. Sempre que Billy acordava, ele já estava desperto. Dizia que os velhos não dormiam muito.

Billy saiu da cama. Estava só de cueca. No frio, dormia de camisa, mas aquele verão estava quente, e à noite a temperatura ficava amena. Ele puxou o penico de baixo da cama e tirou a tampa.

O tamanho de seu pênis não havia mudado. Continuava o mesmo cotoquinho de sempre. Tinha esperanças de que ele poderia ter começado a crescer na noite anterior ao seu aniversário, ou que talvez fosse ver um único pelo preto brotando em algum lugar por ali, mas ficou desapontado. Seu melhor amigo, Tommy Griffiths, que nascera no mesmo dia que ele, era diferente: sua voz estava mudando e uma penugem escura crescia sobre o lábio superior. Além disso, o pinto dele era de homem. Era humilhante.

Enquanto usava o penico, Billy olhou pela janela. Tudo o que viu foi a pilha de escória, uma montanha cor de ardósia feita de resíduos, o refugo da mina de carvão, composto principalmente de xisto e arenito. Era assim que o mundo devia ser no segundo dia da Criação, pensou Billy, antes de Deus dizer: “Que da terra brote a relva.” Uma brisa suave soprava a poeira fina e negra da pilha de escória em direção às fileiras de casas.

Dentro do quarto, havia menos ainda para se ver. Era um cômodo de fundos, um espaço estreito em que mal cabia a cama de solteiro, uma cômoda e o velho baú de Gramper. Na parede, havia um bordado com o dizer:

 

CRÊ

NO SENHOR JESUS CRISTO

E TERÁS A SALVAÇÃO

 

Não havia espelho.

Uma das portas conduzia ao alto da escada, a outra ao quarto da frente, no qual só se podia entrar passando pelo dos fundos. Esse segundo quarto era maior e tinha espaço para duas camas. Era onde dormiam Da e Mam e onde também costumavam dormir, anos atrás, as irmãs de Billy. A mais velha, Ethel, já não morava ali e as outras três tinham morrido – uma de sarampo, outra de coqueluche e a terceira de difteria. Houvera também um irmão mais velho, que dividia a cama com Billy antes de Gramper chegar. Ele se chamava Wesley e tinha morrido na mina, atropelado por um pequeno vagão desgovernado que transportava carvão.

Billy vestiu a camisa. A mesma que usara para ir à escola na véspera. Era quinta-feira, e ele só trocava de camisa aos domingos. Mas a calça era nova, sua primeira calça comprida, feita de algodão grosso e impermeável. Ela simbolizava seu ingresso no mundo dos homens e Billy a vestiu com orgulho, saboreando a aspereza máscula do tecido. Pôs um cinto de couro pesado, calçou as botas herdadas de Wesley e desceu a escada.

A maior parte do térreo era ocupada pela sala de 20 metros quadrados, com uma mesa no meio, uma lareira em uma das laterais e um tapete feito à mão sobre o piso de pedra. Da estava sentado à mesa, lendo uma edição antiga do Daily Mail, com os óculos empoleirados no nariz comprido e afilado. Mam preparava chá. Ela pousou a chaleira fumegante, beijou a testa do filho e disse:

– Como está meu homenzinho no dia do seu aniversário?

Billy não respondeu. O diminutivo o magoava porque ele era realmente pequeno, e o substantivo “homem” também o incomodava, pois sabia que ainda não era um. Ele foi até a área de serviço, nos fundos da casa. Mergulhou uma lata no barril de água, lavou o rosto e as mãos e descartou a água suja na pia rasa de pedra. A área tinha um caldeirão de cobre com um braseiro embaixo, mas ele só era usado nas noites de banho, aos sábados.

Eles esperavam ter água encanada em breve, como lhes fora prometido. Alguns dos mineradores já tinham. Para Billy, parecia um milagre as pessoas poderem obter um copo de água fresca e limpa simplesmente abrindo a torneira, sem ter que carregar um balde até a bica da rua. Mas a água encanada ainda não havia chegado a Wellington Row, onde ficava a casa dos Williams.

Ele voltou para a sala e se sentou à mesa. Mam depositou na sua frente uma xícara grande de chá com leite, já adoçado. Cortou duas fatias grossas de pão caseiro e foi buscar banha na despensa debaixo da escada. Billy uniu as mãos, fechou os olhos e disse:

– Obrigado Senhor por esta comida amém. – Então tomou um gole de chá e passou a banha no pão.

Os olhos azul-claros de Da espiaram por cima do jornal.

– Ponha sal no pão – disse ele. – Você vai suar lá embaixo.

O pai de Billy trabalhava para a Federação dos Mineradores de Gales do Sul, o sindicato mais influente da Grã-Bretanha, como ele fazia questão de dizer em qualquer oportunidade. Era conhecido como Dai do Sindicato. Dai, diminutivo de David, ou Dafydd em galês, era o apelido de muitos homens. Billy tinha aprendido na escola que David era popular no País de Gales por ser o nome de seu santo padroeiro, assim como Patrick era comum na Irlanda por conta de São Patrício. Os Dais eram diferenciados uns dos outros não pelo sobrenome – quase todo mundo na cidade se chamava Jones, Williams, Evans ou Morgan –, mas sim pelo apelido. Quando havia uma alternativa engraçada, os nomes verdadeiros quase nunca eram usados. O nome de Billy era William Williams, então os outros o chamavam de Billy Duplo. As mulheres às vezes ganhavam o apelido do marido, de modo que Mam era conhecida como Sra. Dai do Sindicato.

Gramper desceu quando Billy estava comendo a segunda fatia de pão. Apesar do calor que fazia, usava paletó e colete. Depois de lavar as mãos, sentou-se à mesa em frente ao neto.

– Não fique tão nervoso – falou. – Eu desci para a mina quando tinha 10 anos. E o meu pai foi carregado para lá nas costas do pai dele aos 5 anos, sendo que trabalhava das seis da manhã às sete da noite. De outubro a março, ele não via a luz do dia.

– Eu não estou nervoso – disse Billy. Não era verdade. Estava morrendo de medo.

Mas Gramper, bondoso como era, não insistiu. Billy gostava do avô. Mam tratava o filho como um bebê, e Da era ríspido e sarcástico, mas Gramper se mostrava tolerante e conversava com o neto como se ele fosse adulto.

– Ouçam só isso – falou Da. Ele nunca comprava o Mail, um jornaleco de direita, mas às vezes trazia o de alguém para casa e lia em voz alta com desprezo, zombando da estupidez e da desonestidade da classe dominante. – “Lady Diana Manners foi criticada por usar o mesmo vestido em dois bailes diferentes. A filha caçula do duque de Ruthland ganhou o prêmio de ‘melhor traje feminino’ no Baile do Savoy por seu corpete tomara que caia com barbatanas e saia-balão, recebendo o valor de 250 guinéus.” – Ele baixou o jornal e disse para Billy: – Isso, meu garoto, representa no mínimo cinco anos do seu salário. – Então prosseguiu: – “Mas ela atraiu a reprovação dos especialistas ao usar o mesmo vestido na festa de lorde Winterton e F.E. Smith no Hotel Claridge. Até o que é bom enjoa, foi o que disseram.” – Ele ergueu os olhos do jornal. – É melhor trocar de vestido, Mam – disse ele. – Não vai querer atrair a reprovação dos especialistas.

Mam não achou graça. Estava usando um vestido velho de lã marrom, com remendos nos cotovelos e manchas nas axilas.

– Se eu tivesse 250 guinéus, ficaria mais bonita do que a sebosa dessa lady Diana – comentou, não sem uma certa amargura.

– Verdade – concordou Gramper. – Cara sempre foi a mais bonita... igualzinha à mãe. – Cara era o nome de Mam. Gramper se virou para Billy. – A sua avó era italiana. O nome dela era Maria Ferrone. – Billy já sabia disso, mas o avô gostava de recontar histórias conhecidas. – Foi daí que saíram os cabelos pretos e lustrosos e os lindos olhos escuros da sua mãe... e os da sua irmã também. Sua avó era a moça mais linda de Cardiff... e quem a conquistou fui eu! – De repente, ele pareceu triste. – Bons tempos – disse baixinho.

Da franziu o cenho em sinal de reprovação – esse tipo de conversa trazia à mente os prazeres da carne –, mas Mam ficou alegre com os elogios do pai e sorriu ao lhe servir o desjejum.

– Ah, é – falou. – Eu e minhas irmãs éramos tidas como beldades. Se tivéssemos dinheiro para seda e renda, mostraríamos a esses duques o que é uma moça bonita.

Billy ficou surpreso. Nunca tinha pensado na mãe como sendo bonita ou feia, embora ela ficasse bastante vistosa quando se vestia para os encontros de sábado à noite na igreja, especialmente se colocasse um chapéu. Achava que ela até poderia ter sido uma moça bonita um dia, porém era difícil de imaginar.

– Mas a família da sua avó era inteligente também – disse Gramper. – Meu cunhado era minerador, mas largou o ramo para abrir um café em Tenby. Isso sim que é vida: a brisa do mar e nada para fazer o dia todo a não ser preparar café e contar dinheiro.

Da leu outra notícia:

– “Como parte dos preparativos para a coroação, o Palácio de Buckingham criou um manual de instruções de 212 páginas.” – Ele olhou por cima do jornal. – Comente isso lá na mina hoje, Billy. O pessoal vai ficar aliviado quando souber que nada foi deixado ao acaso.

Billy não tinha muito interesse pela realeza. Gostava, isso sim, das histórias de aventura que o Mail costumava publicar sobre jogadores de rúgbi durões de escolas particulares que capturavam espiões alemães sorrateiros. Segundo o jornal, todas as cidades da Grã-Bretanha estavam infestadas de espiões, embora, para decepção do garoto, não parecesse haver nenhum em Aberowen.

Billy se levantou da mesa.

– Vou descer a rua – anunciou. Então saiu de casa pela porta da frente. “Descer a rua” era um eufemismo da família: significava ir ao banheiro, que ficava mais adiante na Wellington Row. Era uma cabana baixa de tijolos com telhado de ferro corrugado, erguida sobre um buraco fundo na terra. A cabana era dividida em dois compartimentos, um masculino e um feminino. Cada um deles tinha dois assentos, para que as pessoas fizessem suas necessidades em duplas. Ninguém sabia por que os construtores tinham escolhido esse modelo, mas todos se adaptavam como podiam. Os homens ficavam olhando direto para a frente, sem dizer nada, mas – como Billy muitas vezes escutava – as mulheres conversavam animadamente. O cheiro era sufocante, mesmo quando você o sentia todos os dias da sua vida. Billy sempre tentava respirar o mínimo possível quando estava lá dentro e saía arquejando em busca de ar. O buraco era esvaziado periodicamente com uma pá por um homem chamado Dai da Fossa.

Quando Billy voltou, ficou encantado ao ver a irmã Ethel sentada à mesa.

– Parabéns, Billy! – exclamou ela. – Não podia deixar de vir lhe dar um beijo antes de você descer à mina.

Ethel tinha 18 anos e Billy não tinha a menor dificuldade em considerá-la bonita. Seus cabelos cor de mogno exibiam cachos irrepreensíveis e seus olhos escuros emitiam um brilho travesso. Talvez Mam tivesse sido daquele jeito um dia. Ethel usava o vestido preto simples e a touca branca de algodão de uma criada, uma roupa que lhe caía bem.

Billy idolatrava Ethel. Além de bonita, ela era engraçada, inteligente e corajosa, e às vezes chegava até a enfrentar Da. Falava com Billy sobre coisas que ninguém mais queria falar, como, por exemplo, aquele acontecimento mensal que as mulheres chamavam de maldição. Também lhe explicara o que significava o crime de atentado ao pudor que levara o pastor anglicano a sair da cidade com tanta pressa. Durante toda a vida escolar, ela havia sido a primeira da turma, e seu ensaio “Minha cidade ou minha aldeia” ficara em primeiro lugar em um concurso organizado pelo jornal South Wales Echo. Seu prêmio foi um exemplar do Atlas Mundial Cassell.

Ethel beijou o irmão na bochecha.

– Eu disse à Sra. Jevons, a governanta, que a graxa para botas estava acabando e era melhor eu ir comprar mais na cidade. – Ethel morava e trabalhava em Tŷ Gwyn, a imensa propriedade do conde Fitzherbet, que ficava quase dois quilômetros montanha acima. Entregou a Billy algo embrulhado em um pano limpo. – Roubei um pedaço de bolo para você.

– Ah, Eth, obrigado! – agradeceu Billy. Ele adorava bolo.

– Quer que eu ponha na sua marmita? – perguntou Mam.

– Quero, por favor.

Mam pegou um recipiente de lata no armário e pôs o bolo lá dentro. Cortou mais duas fatias de pão, passando banha e salpicando um pouco de sal nelas antes de guardá-las na marmita. Todos os mineradores tinham a sua marmita de lata. Se levassem para a mina comida enrolada em um pano, os ratos a comeriam antes do intervalo do meio da manhã.

– Quando você me trouxer o seu salário, vai poder levar uma fatia de toucinho cozido na marmita – disse Mam.

O salário de Billy não seria grande coisa no começo, mas mesmo assim faria diferença para a família. Ele se perguntou com quanto Mam o deixaria ficar, e se algum dia ele conseguiria economizar o suficiente para comprar uma bicicleta, que desejava mais do que tudo na vida.

Ethel sentou-se à mesa.

– Como andam as coisas no casarão? – perguntou-lhe Da.

– Tranquilas – respondeu ela. – O conde e a princesa estão em Londres para assistir à coroação. – Ela olhou para o relógio sobre a lareira. – Eles devem acordar daqui a pouco... precisam chegar bem cedo na abadia. Ela não vai gostar, não está acostumada a sair da cama a esta hora, mas não pode se atrasar para o rei. – A mulher do conde, Bea, era uma princesa russa, e muito distinta.

– Eles vão querer pegar lugares na frente para não perderem o espetáculo – falou Da.

– Oh, não, você não pode sair sentando onde quiser – disse Ethel. – Eles mandaram fazer 600 cadeiras especiais de mogno, com os nomes dos convidados gravados no encosto em letras de ouro.

– Ora, mas que desperdício! – comentou Gramper. – O que vão fazer com essas cadeiras depois?

– Não sei. Talvez cada um leve a sua para casa de lembrança.

– Se sobrar alguma, peça para eles mandarem para cá – falou Da com sarcasmo. – Somos apenas cinco aqui e sua mãe já teve que ficar em pé.

Por trás das brincadeiras de Da, sempre podia haver raiva de verdade. Ethel pulou da cadeira.

– Oh, perdão, Mam, nem me dei conta.

– Fique aí, estou ocupada demais para me sentar – disse Mam.

O relógio bateu cinco horas.

– Billy – falou Da –, é melhor você chegar lá cedo. Para mostrar desde agora como pretende trabalhar.

Billy se pôs de pé, relutante, e pegou sua marmita.

Ethel tornou a beijá-lo e Gramper apertou sua mão. Da lhe entregou dois pregos de 15 centímetros, enferrujados e um pouco tortos.

– Guarde isso no bolso da calça.

– Pra quê? – quis saber Billy.

– Você vai ver – respondeu Da com um sorriso.

Mam entregou a Billy uma garrafa de um litro com tampa de rosca cheia de chá gelado com leite e açúcar.

– Billy – disse ela –, lembre-se de que Jesus está sempre ao seu lado, mesmo lá no fundo da mina.

– Sim, Mam.

Ele pôde ver uma lágrima no olho da mãe e virou o rosto depressa, pois aquilo lhe dava vontade de chorar também. Apanhou sua boina no gancho.

– Bem, até logo – falou, como se estivesse simplesmente indo para a escola. Depois saiu pela porta da frente.

Até então, o verão tinha sido quente e ensolarado, mas aquele dia estava nublado, parecendo até que poderia chover. Tommy estava encostado na parede externa da casa, esperando.

– Oi, Billy – disse ele.

– Oi, Tommy.

Os dois puseram-se a descer a rua lado a lado.

Billy aprendera na escola que antigamente Aberowen era uma pequena cidade-mercado, que atendia aos agricultores das redondezas. Do alto da Wellington Row era possível ver o antigo centro comercial, com os currais abertos do mercado de gado, o prédio onde se fazia o comércio da lã e a igreja anglicana, todos na mesma margem do rio Owen, que mal passava de um córrego. Agora uma ferrovia cortava a cidade ao meio como uma ferida, indo acabar na entrada da mina. As casas dos mineradores haviam se espalhado pelas encostas do vale acima, centenas de casinhas de pedra cinzenta com telhados de ardósia galesa de um cinza mais escuro. As construções formavam longas fileiras sinuosas que acompanhavam os contornos das encostas. Essas fileiras, por sua vez, eram cortadas por ruas mais curtas que mergulhavam em direção ao fundo do vale.

– Com quem você acha que vamos trabalhar? – perguntou Tommy.

Billy deu de ombros. Os recém-chegados costumavam ser despachados para um dos subgerentes da mina.

– Só vendo.

– Espero que me ponham nas estrebarias. – Tommy gostava de cavalos. Na mina viviam cerca de 50 pôneis. Os animais puxavam os vagões que os mineiros enchiam e os transportavam por trilhos ferroviários. – Que tipo de trabalho você quer fazer?

Billy estava torcendo para não lhe confiarem uma tarefa árdua demais para seu físico infantil, embora não estivesse disposto a admiti-lo.

– Lubrificar os vagões – respondeu ele.

– Por quê?

– Porque parece fácil.

Os dois passaram pela escola que, no dia anterior, haviam frequentado como alunos. Era um prédio vitoriano, com janelas pontiagudas feito as de uma igreja. Fora construída pela família Fitzherbert, como o diretor nunca se cansava de lembrar aos alunos. O conde até hoje nomeava os professores e estabelecia o currículo. Quadros nas paredes retratavam vitórias militares heroicas, e a grandeza da Grã-Bretanha era um tema constante. Na aula de religião, sempre a primeira do dia, ensinavam-se doutrinas estritamente anglicanas, embora quase todas as crianças pertencessem a famílias não conformistas. A escola tinha um comitê diretor do qual Da fazia parte, mas cujos poderes se limitavam aos de um conselho. Da costumava dizer que o conde tratava a escola como sua propriedade particular.

Em seu último ano, Billy e Tommy haviam aprendido os princípios da mineração, enquanto as meninas aprendiam a costurar e cozinhar. Billy ficara surpreso ao descobrir que o chão que ele pisava era formado por várias camadas de diferentes tipos de terra, como uma pilha de sanduíches. Um veio de carvão – expressão que havia escutado a vida inteira sem entender direito – era uma dessas camadas. Ele também aprendera que o carvão era composto de folhas mortas e outras matérias vegetais acumuladas ao longo de milhares de anos e comprimidas pelo peso da terra acima delas. Tommy, cujo pai era ateu, dizia que isso provava que a Bíblia estava errada; mas o pai de Billy afirmava que essa era apenas uma das interpretações possíveis.

A escola estava vazia àquela hora, seu pátio deserto. Billy sentia orgulho de tê-la deixado para trás, embora parte dele desejasse poder voltar para lá em vez de descer à mina.

Conforme eles foram se aproximando da entrada da mina, as ruas começaram a se encher de mineradores, cada qual com sua marmita e sua garrafa de chá. Estavam todos vestidos da mesma forma, com ternos velhos que iriam despir assim que chegassem ao local de trabalho. Algumas minas eram frias, mas a de Aberowen era quente, e nela os homens trabalhavam de roupa de baixo e botas, ou então usando calções de linho grosseiro. Todos usavam uma boina acolchoada o tempo todo, pois os tetos dos túneis eram baixos e era fácil bater com a cabeça.

Por sobre as casas, Billy conseguia ver o guindaste, uma torre encimada por duas grandes rodas que giravam em direções opostas e acionavam os cabos que baixavam e erguiam o elevador. Era possível ver estruturas de mineração semelhantes pairando sobre a maioria das cidades dos vales de Gales do Sul, da mesma forma que os campanários das igrejas dominavam as aldeias de agricultores.

Outras construções se espalhavam em volta da entrada da mina como se houvessem sido largadas ali por acidente: o paiol de lamparinas, o escritório da empresa de mineração, o ferreiro, os depósitos. Trilhos serpeavam por entre os prédios. No terreno baldio, havia vagões quebrados, vigas de madeira velhas e rachadas, sacos de aniagem e pilhas de máquinas enferrujadas e sem uso, tudo coberto por uma camada de pó de carvão. Da sempre dizia que haveria menos acidentes se os mineiros mantivessem as coisas arrumadas.

Billy e Tommy foram até o escritório da mineradora. Na sala da frente, trabalhava um auxiliar de escritório pouco mais velho do que eles, Arthur Llewellyn “Espinhento”, que vestia uma camisa branca com o colarinho e os punhos encardidos. Os dois estavam sendo aguardados – seus pais já haviam combinado que começariam a trabalhar naquele dia. Espinhento anotou seus nomes em um livro-razão e, em seguida, levou-os até a sala do gerente.

– Os jovens Tommy Griffiths e Billy Williams, Sr. Morgan – anunciou.

Maldwyn Morgan era um homem alto e vestia um terno preto. Não havia pó de carvão nos punhos de sua roupa. Suas bochechas rosadas eram lisas, o que significava que ele devia se barbear diariamente. Seu diploma de engenheiro pendia emoldurado da parede, e o chapéu-coco – outro símbolo de seu status – estava à mostra no cabideiro junto à porta.

Para surpresa de Billy, o gerente não estava sozinho. Ao seu lado, havia um homem ainda mais impressionante: Perceval Jones, presidente da Celtic Minerals, dona e administradora da mina de carvão de Aberowen e de várias outras. Era um homem baixo, agressivo, que os mineradores chamavam de Napoleão. Usava trajes formais, um fraque preto e calça cinza listrada, e não havia tirado a cartola preta alta.

Jones olhou para os meninos com aversão.

– Griffiths – disse ele. – Seu pai é um socialista revolucionário.

– Sim, Sr. Jones – respondeu Tommy.

– E, além disso, ateu.

– Sim, Sr. Jones.

Ele então olhou para Billy.

– E o seu pai tem um cargo importante na Federação dos Mineradores de Gales do Sul.

– Sim, Sr. Jones.

– Eu não gosto de socialistas. Os ateus estão fadados à danação eterna. E os sindicalistas são os piores de todos.

Ele os fuzilava com o olhar, mas aquilo não era uma pergunta, então Billy continuou calado.

– Não quero arruaceiros aqui – continuou Jones. – No vale de Rhondda, os mineradores estão em greve há 43 semanas, atiçados por gente como seu pai.

Billy sabia que a greve no vale de Rhondda não tinha sido causada por arruaceiros, mas pelos proprietários da mina Ely, em Penygraig, que a haviam fechado para que os mineradores não pudessem trabalhar. Porém ficou de bico calado.

– Vocês são arruaceiros? – perguntou Jones, apontando um dedo ossudo para Billy e fazendo-o tremer. – Seu pai lhe disse para você defender seus direitos enquanto estiver trabalhando para mim?

Billy tentou pensar, embora fosse difícil diante da figura ameaçadora de Jones. Da não tinha dito muita coisa naquela manhã, mas na noite anterior lhe dera alguns conselhos.

– Senhor, com sua licença, ele me disse: “Não enfrente os patrões, esse é o meu trabalho.”

Atrás dele, Llewellyn Espinhento abafou uma risadinha.

Perceval Jones não achou graça.

– Selvagem insolente – disse ele. – Mas, se eu mandar você embora, este vale inteiro vai entrar em greve.

Billy não tinha pensado nisso. Será que ele era tão importante assim? Não... mas talvez os mineradores entrassem em greve partindo do princípio de que os filhos de seus representantes não deveriam ser punidos. Estava trabalhando há menos de cinco minutos e o sindicato já o estava protegendo.

– Tirem esses meninos daqui – disse Jones.

Morgan aquiesceu.

– Leve-os lá para fora, Llewellyn – falou ele. – Rhys Price pode cuidar deles.

Em seu íntimo, Billy soltou um gemido. Rhys Price era um dos subgerentes mais temidos. No ano anterior, ele havia flertado com Ethel, que o rejeitara no ato. Sua irmã agira da mesma forma com metade dos homens solteiros de Aberowen, mas Price tinha ficado muito abalado.

Espinhento fez um gesto brusco com a cabeça.

– Chispem – disse, saindo atrás deles. – Aguardem o Sr. Price lá fora.

Billy e Tommy saíram do escritório e se recostaram na parede ao lado da porta.

– Quem me dera dar um soco naquela barriga gorda do Napoleão – disse Tommy. – Que capitalista nojento.

– É – disse Billy, embora nem sequer tivesse pensado nisso.

Um minuto depois, Rhys Price apareceu. Como todos os subgerentes, usava um cha­péu baixo de copa redonda, mais caro do que uma boina de minerador, porém mais barato do que um chapéu-coco. Trazia um bloco de anotações e um lápis no bolso do colete e segurava um metro na mão. A barba por fazer e um vão entre os dentes da frente marcavam suas feições. Billy sabia que ele era inteligente, mas ardiloso.

– Bom dia, Sr. Price – cumprimentou Billy.

Price fez cara de desconfiado.

– Que história é essa de me dar bom-dia, Billy Duplo?

– O Sr. Morgan disse que a gente vai descer à mina com o senhor.

– Foi mesmo? – Price tinha a mania de lançar olhares rápidos de um lado para outro e, às vezes, para trás, se pressentisse encrenca vindo de alguma direção desconhecida. – Isso nós vamos ver. – Então olhou para o guindaste, como se ele pudesse lhe dar uma explicação. – Não tenho tempo para cuidar de moleques. – Dito isso, entrou no escritório.

– Espero que ele chame outra pessoa para descer com a gente – disse Billy. – Ele detesta a minha família porque minha irmã não quis namorar com ele.

– A sua irmã se acha boa demais para os homens de Aberowen – falou Tommy, obviamente repetindo algo que havia escutado alguém dizer.

– Ela é boa demais para os homens de Aberowen – disse Billy com altivez.

Price saiu do escritório.

– Muito bem, por aqui – falou, seguindo em frente a passos largos.

Os dois meninos o acompanharam até o paiol das lamparinas. O homem que trabalhava ali entregou a Billy uma lamparina de segurança, feita de latão, que ele prendeu ao cinto como faziam os demais.

Ele havia aprendido na escola sobre as lamparinas dos mineradores. Um dos perigos da mineração do carvão era o metano, um gás inflamável que vazava dos veios de carvão. Os homens o chamavam de grisu, e ele era a causa de todas as explosões subterrâneas. As minas galesas eram conhecidas por terem muito dessa substância. A lamparina era engenhosamente concebida de modo que sua chama não inflamasse o grisu. Na verdade, a chama mudava de formato e se alongava, dando assim um alerta – pois o metano não tinha cheiro.

Caso a lamparina se apagasse, os mineradores não conseguiam reacendê-la sozinhos. Era proibido portar fósforos no interior da mina, e a lamparina ficava lacrada para desencorajá-los a burlar essa regra. Uma lamparina apagada precisava ser levada até um ponto de acendimento, que em geral ficava no fundo da mina, junto ao poço. Isso podia acarretar uma caminhada de quase dois quilômetros, ou mais, mas valia a pena para evitar o risco de uma explosão subterrânea.

Na escola, os meninos haviam aprendido que a lamparina de segurança era uma das maneiras de os donos das minas demonstrarem seu zelo e preocupação para com os empregados – “como se os patrões não tirassem nenhum proveito do fato de evitarem explosões, interrupções no trabalho e danos aos túneis”, dizia Da.

Depois de pegarem as lamparinas, os homens faziam fila para o elevador. Estrategicamente posicionado ao lado da fila, havia um quadro de avisos. Cartazes escritos à mão ou impressos de forma grosseira anunciavam treinos de críquete, uma partida de dardos, um canivete perdido, um recital do Coral Masculino de Aberowen e uma palestra sobre a teoria do materialismo histórico de Karl Marx na Biblioteca Livre. Os subgerentes, no entanto, não precisavam esperar na fila, de modo que Price abriu caminho aos empurrões até a frente dela, com os meninos em seu encalço.

Como a maioria das minas, Aberowen tinha dois poços, com ventiladores posicionados para forçarem o ar a descer por um e subir pelo outro. Os donos das minas muitas vezes batizavam os poços com nomes extravagantes, e os dali se chamavam Píramo e Tisbe. O poço em que estavam, Píramo, era por onde o ar subia, e Billy podia sentir a corrente de ar morno que brotava da mina.

No ano anterior, Billy e Tommy tiveram a ideia de olhar para dentro do poço. Na segunda-feira após o domingo de Páscoa, quando os homens estavam de folga, eles driblaram o vigia e se esgueiraram pelo terreno baldio até a entrada da mina, escalando em seguida a cerca de proteção. A boca do poço não estava totalmente tampada pela cabine do elevador, então eles se deitaram de bruços e olharam pela borda. Ficaram encarando aquele buraco terrível com um fascínio mórbido, e Billy sentiu um frio na barriga. A escuridão parecia infinita. Teve uma sensação que era metade de alegria, por não ter que descer até as profundezas, e metade de terror, porque um dia seria obrigado a fazê-lo. Chegou a jogar uma pedra lá dentro, e os dois a escutaram ricochetear entre o trilho de madeira que guiava o elevador e o revestimento de tijolos do poço. O tempo que a pedra levou para fazer seu barulho fraco e distante ao atingir a poça d’água no fundo lhes pareceu aterrorizante de tão longo.

Agora, um ano depois, ele estava prestes a seguir o mesmo trajeto daquela pedra.

Disse a si mesmo para deixar de ser covarde. Precisava agir como homem, mesmo que não se sentisse assim. O pior de tudo seria arruinar sua reputação. Tinha mais medo disso que de morrer.

Ele podia ver a grade deslizante que fechava o poço. Para além dela, havia apenas espaço vazio, pois o elevador ainda estava subindo. Do outro lado do vão, via também o cabrestante que fazia girar as rodas grandes lá no alto. Jatos de vapor escapavam do mecanismo. Os cabos batiam em suas correias com um barulho de chicote. Um cheiro de óleo quente pairava no ar.

Com um estrondo metálico, o elevador vazio surgiu atrás da grade. O sinaleiro responsável pelo elevador ali em cima abriu o gradeado. Rhys Price entrou na cabine vazia, seguido pelos dois meninos. Treze mineradores entraram depois deles – o elevador tinha capacidade para 16 homens. O sinaleiro fechou a grade com força.

Houve um intervalo. Billy se sentiu vulnerável. O chão sob seus pés era sólido, mas ele poderia, sem muita dificuldade, se espremer por entre as barras espa­çadas das laterais. O elevador era sustentado por um cabo de aço, mas nem mesmo ele era totalmente seguro: todos sabiam que o cabo da mina de Tirpentwys tinha se rompido um dia em 1902 e que o elevador havia despencado até o fundo do poço, matando oito homens.

Billy meneou a cabeça para o minerador ao seu lado. Era Harry “Seboso” Hewitt, um menino de rosto redondo apenas três anos mais velho do que ele, embora fosse 30 centímetros mais alto. Billy se lembrava de quando Harry estava na escola: ele havia empacado na terceira série com os meninos de 10 anos, levando bomba ano após ano, até ter idade suficiente para trabalhar.

Uma campainha tocou, avisando que o sinaleiro no fundo do poço havia fechado sua grade. Seu colega da superfície puxou uma alavanca, fazendo uma campainha diferente soar. O motor a vapor chiou e então se ouviu outro baque.

A cabine despencou no vazio.

Billy sabia que o elevador entrava em queda livre, freando em seguida para fazer uma aterrissagem suave, mas nenhum conhecimento prévio poderia tê-lo preparado para a sensação de cair sem obstáculo algum rumo às entranhas da Terra. Seus pés se descolaram do chão. Ele gritou de medo. Não conseguiu se controlar.

Todos os homens riram. Sabiam que era a primeira vez dele e, como Billy percebeu, estavam esperando sua reação. Então ele notou, com atraso, que todos seguravam as barras da cabine para não ficarem suspensos no ar. Mas saber disso não atenuou em nada seu medo. Somente depois de apertar bem os dentes conseguiu parar de gritar.

Por fim, o freio foi acionado. A velocidade da queda diminuiu e os pés de Billy tocaram o chão. Ele agarrou uma das barras e tentou parar de tremer. Dali a um minuto, o medo foi substituído por uma sensação de humilhação tão forte que lágrimas ameaçaram brotar dos seus olhos. Ele encarou o semblante risonho de Seboso e gritou bem alto:

– Cala essa boca, seu merda.

A expressão de Seboso mudou no mesmo instante, assumindo um ar furioso, mas os outros homens riram mais ainda. Billy teria de pedir perdão a Jesus por ter dito um palavrão, mas sentia-se um pouco menos idiota.

Ele olhou para Tommy, que estava branco feito um lençol. Será que Tommy tinha gritado? Billy não quis perguntar, com medo de que a resposta pudesse ser não.

O elevador parou, a grade foi aberta e Billy e Tommy seguiram, trêmulos, para o interior da mina.

O ambiente era sombrio. As lamparinas dos mineradores produziam menos claridade do que as lanternas de parafina nas paredes de casa. A mina era tão escura quanto uma noite sem lua. Talvez eles não precisassem enxergar bem para minerar carvão, pensou Billy. Ele pisou em uma poça e, ao olhar para baixo, viu água e lama por toda parte, cintilando com o reflexo fraco das chamas das lamparinas. Sentia um gosto estranho na boca: o ar estava repleto de pó de carvão. Como era possível que os homens respirassem aquele ar o dia inteiro? Devia ser por isso que os mineradores viviam tossindo e escarrando.

Quatro homens aguardavam para entrar no elevador e subir até a superfície. Cada um deles carregava uma maleta de couro, e Billy percebeu que eram os bombeiros. Todo dia pela manhã, antes de os mineradores começarem o trabalho, eles testavam o nível de gás na mina. Caso a concentração de metano fosse excessiva, ordenavam que os homens não trabalhassem até ele ser dispersado pelos ventiladores.

Perto de onde estava, Billy podia ver uma fileira de baias para pôneis e uma porta aberta, que conduzia a uma sala bem iluminada com uma escrivaninha, provavelmente destinada aos subgerentes. Os homens se dispersaram, embrenhando-se por quatro túneis que irradiavam do fundo da mina. Os túneis eram chamados de galerias e conduziam aos locais onde o carvão era extraído.

Price levou-os até um barracão e abriu um cadeado. Era um depósito de ferramentas. Ele escolheu duas pás, entregou-as aos meninos e trancou o barracão de volta.

Em seguida, os três foram até a estrebaria. Um homem vestindo apenas um calção e botas removia com uma pá a palha suja de uma das baias, jogando-a dentro de um vagão de carvão. Suor escorria de suas costas musculosas.

– Quer um menino para ajudá-lo? – perguntou-lhe Price.

O homem se virou e Billy reconheceu Dai dos Pôneis, membro do conselho da Capela de Bethesda. Dai não pareceu reconhecer Billy.

– Não quero o pequeno – disse ele.

– Certo – disse Price. – O outro é Tommy Griffiths. Ele é todo seu.

Tommy pareceu contente. Tinha conseguido o que queria. Mesmo que fosse apenas limpar a sujeira das baias, iria trabalhar na estrebaria.

– Venha, Billy Duplo – disse Price, entrando por uma das galerias.

Billy apoiou a pá no ombro e foi atrás dele. Ficou mais ansioso sem Tommy ao seu lado. Preferia que o tivessem mandado limpar baias junto com o amigo.

– O que eu vou fazer, Sr. Price? – perguntou.

– Não consegue adivinhar? – respondeu Price. – Por que acha que eu lhe dei uma porra de uma pá?

Billy ficou chocado ao ouvir aquela palavra proibida sendo usada de forma tão casual. Não conseguia adivinhar o que iria fazer, mas parou de perguntar.

O túnel era arredondado, seu teto reforçado com suportes curvos de aço. Um cano de cinco centímetros de diâmetro corria pelo ponto mais alto dele, pro­vavelmente transportando água. Todas as noites, ela era usada para borrifar as galerias, numa tentativa de reduzir a quantidade de pó. Esta não só era um perigo para os pulmões dos mineradores – se fosse apenas isso, a Celtic Minerals provavelmente não se importaria – como também representava risco de incêndio. O sistema de irrigação, no entanto, era inadequado. Da havia argumentado que seria preciso instalar um cano de 15 centímetros, mas Perceval Jones se recusara a custear a despesa.

Cerca de 400 metros depois, eles entraram num túnel transversal ascendente. Era uma passagem mais antiga e mais estreita, sustentada por vigas de madeira em vez de anéis de aço. Price teve de abaixar a cabeça nos pontos em que o teto começava a ceder. A intervalos de mais ou menos 30 metros, eles passavam pelas entradas dos postos de trabalho onde os mineradores já extraíam o carvão.

Billy ouviu uma espécie de ronco, ao que Price falou:

– Entre no bueiro.

– O quê? – Billy olhou para o chão. Um bueiro era algo que existia nas calçadas da cidade, e ele não conseguia ver nada ali a não ser os trilhos pelos quais passavam os vagões. Ergueu os olhos e viu um pônei trotando na sua direção, vindo depressa ladeira abaixo, puxando uma série de vagões.

– No bueiro! – gritou Price.

Billy continuou sem entender o que se esperava dele, mas podia ver que o túnel tinha quase a mesma largura dos vagões e que ele seria esmagado. Então Price pareceu entrar na parede e desaparecer.

Billy largou a pá, deu meia-volta e saiu correndo por onde tinha vindo. Tentou se manter à frente do pônei, mas o animal se movia com uma rapidez surpreendente. Foi então que notou um vão escavado na parede, indo do chão ao teto do túnel, e percebeu que tinha visto espaços como aquele mais ou menos de 25 em 25 metros, sem lhes dar muita atenção. Devia ser aquilo que Price chamava de bueiro. Ele se jogou lá dentro, e o comboio passou rugindo.

Depois que os vagões desapareceram, Billy saiu de dentro do bueiro, ofegante.

Price fingiu se zangar, mas estava sorrindo.

– Você vai ter que ficar mais esperto – falou. – Ou então vai morrer aqui embaixo... igual ao seu irmão.

Na opinião de Billy, a maioria dos homens se comprazia em zombar da ignorância dos meninos. Ele estava decidido a ser diferente quando crescesse.

Tornou a pegar a pá. Estava intacta.

– Sorte sua – comentou Price. – Se tivesse sido quebrada, você precisaria pagar uma nova.

Eles prosseguiram e logo adentraram uma seção exaurida da mina, onde os postos de trabalho estavam vazios. Havia menos água no chão, que estava coberto por uma camada grossa de pó de carvão. Eles fizeram várias curvas e Billy perdeu o senso de direção.

Chegaram a um local em que o túnel estava bloqueado por um vagão velho e sujo.

– Esta área precisa ser limpa – disse Price. Era a primeira vez que se dava ao trabalho de explicar o que quer que fosse, e Billy teve a impressão de que ele estava mentindo. – O seu trabalho é pôr a sujeira dentro do vagão com a pá.

Billy olhou em volta. Até onde a luz da sua lamparina alcançava, a camada de pó tinha 30 centímetros de altura, e ele imaginava que se estendesse para muito além. Poderia passar uma semana inteira recolhendo aquilo com a pá sem muito resultado. E para quê? Já não havia o que minerar ali. Mas ele não fez perguntas. Aquilo decerto era uma espécie de teste.

– Daqui a pouco eu volto para ver como você está indo – disse Price, retornando pelo mesmo caminho e deixando Billy sozinho.

Por essa Billy não esperava. Havia imaginado que fosse trabalhar com homens mais velhos, aprender com eles. Mas não podia fazer nada além do que lhe diziam.

Ele desprendeu a lamparina do cinto e olhou em volta à procura de algum lugar para apoiá-la. Não havia nada que pudesse usar como prateleira. Pôs a lamparina no chão, mas nessa posição ela era quase inútil. Foi quando se lembrou dos pregos que Da lhe dera. Então era para isso que serviam. Tirou um deles do bolso. Usando a lâmina da pá, pregou-o em uma das vigas de madeira, pendurando ali a lamparina. Bem melhor.

O vagão batia no peito de um homem, mas, no caso de Billy, batia nos ombros – e, quando ele começou a trabalhar, descobriu que metade do pó escorregava da pá antes que conseguisse jogá-lo dentro do vagão. Ele inventou uma maneira de girar a lâmina para evitar que isso acontecesse. Em poucos minutos, ficou encharcado de suor e entendeu para que servia o segundo prego. Pregou-o em outra viga de madeira e ali pendurou a camisa e a calça.

Algum tempo depois, sentiu que alguém o observava. Com o rabo do olho, enxergou um vulto parado ali, imóvel feito uma estátua.

– Ai, meu Deus! – gritou, virando-se para encará-lo.

Era Price.

– Esqueci de testar sua lamparina – disse ele. Então retirou a lamparina de Billy do prego e fez alguma coisa com ela. – Não está muito boa – falou. – Vou deixar a minha com você. – Ele pendurou a outra lamparina no lugar e desapareceu.

Price era uma figura sinistra, mas ao menos parecia preocupado com a sua segurança.

Billy voltou ao trabalho. Dali a pouco, seus braços e pernas começaram a doer. Ele disse a si mesmo que estava acostumado a usar uma pá: Da criava um porco no terreno atrás de casa, e cabia a Billy limpar a pocilga uma vez por semana. Mas isso só levava uns 15 minutos. Será que ele conseguiria passar o dia inteiro fazendo aquilo?

Debaixo do pó, havia um chão feito de pedra e barro. Depois de algum tempo, ele conseguiu limpar uma área de pouco mais de um metro, a mesma largura do túnel. O pó mal cobria o fundo do vagão, mas ele já estava exausto.

Tentou empurrar o vagão para a frente de modo a não ter que caminhar tanto com a pá cheia, mas as rodas pareciam emperradas depois de tanto tempo sem uso.

Ele estava sem relógio, então era difícil saber quanto tempo havia passado. Começou a trabalhar mais devagar para poupar as forças.

Então sua luz apagou.

A chama primeiro tremeluziu, o que fez Billy olhar com aflição para a lamparina pendurada no prego, embora soubesse que a chama ficaria comprida caso houvesse grisu ali. Não era o que estava vendo, de modo que ficou mais tranquilo. Então a chama se apagou por completo.

Ele nunca tinha estado numa escuridão como aquela. Não conseguia enxergar nada, nem mesmo manchas cinzentas, nem mesmo tons diferentes de preto. Ergueu a pá até a altura do rosto, segurando-a a menos de 3 centímetros do nariz, mas nem assim conseguiu vê-la. Devia ser essa a sensação de ser cego.

Ele ficou imóvel. O que deveria fazer? Teoricamente, levar a lâmpada até o ponto de acendimento. Porém, mesmo que conseguisse ver alguma coisa, teria sido incapaz de achar o caminho de volta pelos túneis. Naquele breu, poderia passar horas perdido. Não fazia ideia de quantos quilômetros de extensão tinham as galerias abandonadas e não queria que os homens tivessem de mandar uma equipe de busca para encontrá-lo.

Tudo o que podia fazer era aguardar a volta de Price. O subgerente tinha dito que voltaria “daqui a pouco”. Isso poderia significar alguns minutos, ou então uma hora ou mais. E Billy desconfiava que a segunda alternativa era a mais provável. Com certeza Price havia planejado aquilo. Lamparinas de segurança não se apagavam nunca, e ainda por cima quase não ventava ali. Price tinha apanhado a lamparina de Billy e a substituído por outra com pouco óleo.

Ele sentiu uma onda de autocomiseração, e seus olhos se encheram de lágrimas. O que tinha feito para merecer aquilo? Logo em seguida, se recompôs. Era só mais um teste, feito o elevador. Iria mostrar a eles que era durão.

Decidiu que deveria continuar trabalhando, mesmo no escuro. Movendo-se pela primeira vez desde que a luz havia se apagado, ele pôs a pá no chão e a deslizou para a frente, tentando catar alguma coisa. Ao erguê-la, lhe pareceu, pelo peso, que a lâmina estava cheia. Virou-se, deu dois passos e então ergueu a pá, tentando jogar a sujeira dentro do vagão, mas avaliou mal a altura. A pá bateu na lateral da caçamba e ficou subitamente mais leve quando sua carga caiu no chão.

Ele iria se adaptar. Tentou outra vez, erguendo a pá mais alto. Depois de descarregar a lâmina, deixou a ferramenta cair, sentindo o cabo de madeira bater contra a borda do vagão. Melhor assim.

À medida que o trabalho o fazia se afastar cada vez mais do vagão, ele continuou a errar o alvo de vez em quando, até começar a contar os passos em voz alta. Logo estabeleceu um ritmo e, embora seus músculos doessem, conseguiu continuar.

Assim que o trabalho se tornou automático, sua mente ficou livre para di­vagar, o que não era tão bom. Ele se perguntou até onde aquele túnel ia e há quanto tempo estava abandonado. Pensou na terra acima de sua cabeça, se estendendo por quase um quilômetro, e no peso que aquelas vigas de madeira velhas sustentavam. Lembrou-se do irmão, Wesley, e dos outros homens que haviam morrido na mina. Mas é claro que seus espíritos não estavam ali. Wesley estava com Jesus. Os demais também, provavelmente. Caso contrário, estariam em outro lugar.

Ele começou a sentir medo e decidiu que era melhor não pensar em espíritos. Estava com fome. Será que já era hora de abrir a marmita? Não fazia ideia, mas resolveu comer assim mesmo. Conseguiu chegar ao local em que havia pendurado as roupas, tateou o chão logo abaixo e encontrou sua garrafa e sua marmita.

Sentou-se com as costas apoiadas na parede e tomou um gole generoso do chá frio e doce. Enquanto comia o pão com banha, ouviu um barulho distante. Torceu para ser o rangido das botas de Rhys Price, mas essa era uma esperança infundada. Ele conhecia aquele guincho: eram ratos.

Não sentiu medo. Havia muitos ratos nas valas que se estendiam ao longo de todas as ruas de Aberowen. Naquela escuridão, contudo, os ratos pareciam mais ousados e, num piscar de olhos, um deles passou correndo por cima de suas pernas nuas. Transferindo a comida para a mão esquerda, ele apanhou a pá e desferiu um golpe com ela. Isso sequer os amedrontou e ele tornou a sentir suas garras pequeninas sobre a pele. Então um deles tentou subir por seu braço. Era óbvio que estavam sentindo o cheiro da comida. Os guinchos aumentaram e ele se perguntou quantos ratos haveria ali.

Levantou-se e enfiou na boca o último pedaço de pão. Tomou mais um pouco de chá, comendo o bolo em seguida. Estava uma delícia, cheio de frutas secas e amêndoas; mas um rato subiu por sua perna e ele foi obrigado a engolir o restante de uma vez só.

Os ratos pareceram perceber que a comida havia acabado, pois os guinchos foram diminuindo progressivamente e, logo depois, cessaram por completo.

Comer renovou as energias de Billy durante algum tempo e ele voltou ao trabalho, porém suas costas latejavam de dor. Ele continuou em um ritmo mais lento, parando para descansar com frequência.

Para se animar, disse a si mesmo que talvez fosse mais tarde do que pensava. Provavelmente já era quase meio-dia. Alguém viria buscá-lo ao final do turno. O responsável pelas lamparinas contava as cabeças, de modo que eles sempre sabiam quando um dos homens não retornava à superfície. Mas Price tinha apanhado a lamparina de Billy e a substituído por outra. Será que ele pretendia fazer Billy passar a noite ali?

Isso nunca daria certo. Da armaria uma confusão. Os patrões tinham medo de Da – Perceval Jones havia praticamente confessado isso. Cedo ou tarde, sem dúvida alguém sairia à procura de Billy.

Quando tornou a sentir fome, no entanto, teve certeza de que muitas horas haviam se passado. Começou a ficar com medo e dessa vez não conseguiu afastá-lo. Era a escuridão que estava mexendo com ele. Se conseguisse enxergar alguma coisa, poderia ter suportado a espera. Mas, naquele breu, sentia que estava perdendo o juízo. Sem qualquer senso de direção, sempre que se afastava do vagão ficava em dúvida se não estava prestes a se chocar contra a parede do túnel. Mais cedo, ficara preocupado em não chorar como uma criança. Agora, tinha de se esforçar para não gritar.

Então se lembrou do que Mam lhe dissera: “Jesus está sempre ao seu lado, mesmo lá no fundo da mina.” Na hora, pensou que ela estivesse apenas lhe dizendo para se comportar. Mas sua mãe fora mais sábia do que isso. É claro que Jesus estava ao seu lado. Jesus estava em toda parte. A escuridão não tinha importância, tampouco a passagem do tempo. Billy tinha alguém para cuidar dele.

Para se lembrar disso, ele cantou um hino. Não gostava da própria voz, que ainda era muito aguda, mas, como não havia ninguém para escutá-lo, cantou o mais alto que pôde. Quando terminou de cantar e a sensação de medo ameaçou voltar, imaginou Jesus em pé do outro lado do vagão, observando-o com uma expressão de compaixão profunda no rosto barbado.

Billy entoou outro hino. Manejava a pá e caminhava ao ritmo da música. A maioria dos hinos era fácil de cantar. De vez em quando, tornava a ser invadido pelo medo de ter sido esquecido, de que o turno poderia ter acabado e ele estivesse sozinho lá embaixo; então simplesmente se lembrava da figura em pé ao seu lado no escuro, vestida com sua túnica.

Ele conhecia muitos hinos. Frequentava a Capela de Bethesda três vezes por domingo desde que tinha idade suficiente para ficar sentado quietinho. Os hinários eram caros, e nem toda a congregação sabia ler, então todos decoravam os versos.

Depois de cantar 12 hinos, ele calculou que uma hora tinha se passado. Já não era para o turno ter acabado àquela altura? Ainda assim, ele cantou mais 12. Depois disso, ficou difícil manter a contagem. Começou a repetir seus preferidos, trabalhando cada vez mais devagar.

Estava cantando “Ele se ergueu da tumba” o mais alto que podia quando viu uma luz. O trabalho havia se tornado tão automático que ele não parou, erguendo outra pá cheia e levando-a até o vagão, ainda cantando, conforme a luz ficava mais forte. Quando o hino terminou, ele se apoiou na pá. Rhys Price o observava, com a lamparina presa ao cinto e uma expressão estranha no rosto coberto de sombras.

Billy não se permitiu sentir alívio. Não deixaria Price ver como estava se sentindo. Vestiu a camisa e a calça, tirando em seguida a lamparina apagada do prego e prendendo-a ao cinto.

– O que houve com sua lamparina? – perguntou Price.

– O senhor sabe o que houve – disse Billy, e sua voz soou estranhamente adulta.

Price virou-lhe as costas e começou a voltar pelo túnel.

Billy hesitou. Olhou para trás. Do outro lado do vagão vislumbrou um rosto barbado e uma túnica clara, mas o vulto se dissipou como um pensamento.

– Obrigado – falou Billy para o túnel vazio.

Enquanto seguia Price, suas pernas doíam tanto que achou que fosse cair, mas pouco se importava com essa possibilidade. Conseguia enxergar de novo, e seu turno havia terminado. Dali a pouco estaria em casa e poderia se deitar.

Eles chegaram ao fundo do poço e entraram no elevador com um grupo de mineradores de rosto preto. Tommy Griffiths não estava entre eles, mas Hewitt Seboso, sim. Enquanto esperavam o sinal lá de cima, Billy percebeu que todos o encaravam com sorrisos marotos.

– Como foi seu primeiro dia, Billy Duplo? – perguntou Hewitt.

– Bem, obrigado – respondeu Billy.

A expressão de Hewitt era de malícia: obviamente se lembrava de que Billy o chamara de “seu merda”.

– Nenhum problema? – indagou ele.

Billy hesitou. Estava claro que eles sabiam de alguma coisa. Queria que percebessem que ele não se deixara vencer pelo medo.

– Minha lamparina apagou – disse, mal conseguindo manter a voz firme. Olhou para Price, mas decidiu que, se não o acusasse, estaria agindo mais como um homem. – Foi um pouco difícil trabalhar com a pá no escuro o dia inteiro – concluiu. Isso também já era deixar por menos: eles poderiam acabar achando que o seu calvário não tinha sido nada de mais. Mas era melhor do que reconhecer que ficara com medo.

Um homem mais velho falou. Era John Jones da Loja. Eles o chamavam assim porque sua mulher tinha uma pequena mercearia na sala de casa.

– O dia inteiro? – quis saber ele.

– Sim – respondeu Billy.

John Jones olhou para Price e disse:

– Seu filho da mãe, era pra ter sido só por uma hora.

As suspeitas de Billy foram confirmadas. Eles sabiam o que havia acontecido e, ao que tudo indicava, faziam coisa parecida com todos os recém-chegados. Mas Price o fizera sofrer mais do que o normal.

Hewitt Seboso sorria.

– E então, Billy, você não ficou com medo sozinho no escuro? – perguntou.

Billy refletiu antes de responder. Todos olhavam para ele, esperando para ouvir o que diria. Seus sorrisos marotos haviam desaparecido, e eles pareciam um pouco envergonhados. O garoto resolveu dizer a verdade:

– Fiquei com medo, sim, mas eu não estava sozinho.

Hewitt se admirou.

– Não estava sozinho?

– Não, claro que não – respondeu Billy. – Jesus estava comigo.

Hewitt riu bem alto, mas ninguém o acompanhou. A gargalhada ecoou no silêncio e cessou de repente.

O silêncio durou vários segundos. Então houve um baque metálico e um solavanco, e o elevador começou a subir. Hewitt se virou para o outro lado.

Depois disso, todos passaram a chamá-lo de “Billy com Jesus”.

 

Janeiro de 1914

O conde Fitzherbert, que tinha 28 anos e era conhecido por parentes e amigos como Fitz, era o nono homem mais rico da Grã-Bretanha.

Não havia feito nada para ganhar sua imensa fortuna. Simplesmente herdara milhares de hectares de terras no País de Gales e em Yorkshire. As propriedades rendiam pouco dinheiro, mas havia carvão debaixo delas, e o avô de Fitz ficara muito rico vendendo os direitos de exploração a mineradoras.

Estava claro que era a vontade de Deus que os Fitzherbert dominassem seus semelhantes e tivessem um estilo de vida compatível com sua riqueza; mas Fitz sentia ter feito pouco para justificar a fé que Deus depositava nele.

Seu pai, o conde anterior, não se sentira assim. Oficial da Marinha, havia sido promovido a almirante após o bombardeio a Alexandria em 1882, tor­nara-se embaixador britânico em São Petersburgo e por fim fora nomeado ministro durante o governo de lorde Salisbury. Poucas semanas depois que os conservadores perderam as eleições gerais de 1906, o pai de Fitz morreu – seu fim precipitado, Fitz tinha certeza, pela decepção de ver liberais irresponsáveis como David Lloyd George e Winston Churchill assumindo o controle do governo de Sua Majestade.

Fitz assumira sua cadeira de membro conservador da Câmara dos Lordes, a câmara alta do Parlamento britânico. Falava bem o francês e arranhava um pouco o russo, e gostaria de um dia ser nomeado ministro das Relações Exteriores de seu país. Infelizmente, os liberais haviam continuado a ganhar as eleições, de modo que ele ainda não tivera chance de se tornar ministro.

Sua carreira militar tinha sido igualmente inexpressiva. Ele frequentara a academia de treinamento de oficiais do Exército em Sandhurst e passara três anos com os Fuzileiros Galeses, chegando à patente de capitão. Depois de casado, havia abandonado a carreira militar em tempo integral, tornando-se coronel honorário do Exército de Reserva de Gales do Sul. Infelizmente, coronéis honorários não ganhavam medalhas.

No entanto, ele tinha algo de que se orgulhar, pensou Fitz enquanto o trem cruzava os vales de Gales do Sul. Dali a duas semanas, o rei viria se hospedar em sua casa de campo. O rei Jorge V e o pai de Fitz tinham sido colegas de Marinha na juventude. Recentemente, o rei manifestara o desejo de saber o que se passava na cabeça dos jovens, de modo que Fitz organizara uma confraternização discreta para que Sua Majestade pudesse conhecer alguns deles. Agora, ele e Bea, sua esposa, estavam a caminho da casa para cuidar dos preparativos.

Fitz era um tradicionalista. A humanidade ainda não havia encontrado nada que superasse a ordem conveniente formada pela monarquia, pela aristocracia, pelos comerciantes e pelos camponeses. Mas, naquele instante, olhando pela janela do trem, ele via uma ameaça ao modo de vida britânico, maior do que qualquer outra que o país houvesse enfrentado nos últimos 100 anos. Cobrindo as encostas outrora verdejantes, como uma praga a manchar de cinza-escuro um arbusto de rododendro, estendiam-se as casas geminadas dos mineradores. Naqueles barracos imundos, falava-se em republicanismo, ateísmo e rebelião. Fazia pouco mais de um século que a nobreza francesa havia sido levada de carroça para a guilhotina, e o mesmo aconteceria ali caso alguns daqueles mineiros brutamontes de cara preta conseguissem o que queriam.

Fitz abriria mão de bom grado de todo o dinheiro que ganhava com o carvão, pensou, se isso fizesse a Grã-Bretanha retornar a uma época mais simples. A família real era um bastião poderoso contra a insurreição. Contudo, por mais que aquela visita deixasse Fitz orgulhoso, ela também lhe causava apreensão. Tantas coisas podiam dar errado. Quando se tratava da realeza, qualquer deslize podia ser interpretado como desconsideração – e, portanto, falta de respeito. Cada detalhe do fim de semana seria relatado pelos criados dos hóspedes a outros criados, e por estes aos seus patrões, de modo que todas as mulheres da sociedade londrina saberiam em dois tempos se o rei tinha recebido um travesseiro duro, uma batata estragada ou a marca errada de champanhe.

O Rolls-Royce Silver Ghost de Fitz o aguardava na estação de trem de Aberowen. Com Bea ao seu lado, ele foi conduzido por quase 2 quilômetros até Tŷ Gwyn, sua casa de campo. Uma garoa fina mas persistente caía do céu, como de hábito no País de Gales.

“Tŷ Gwyn” significava Casa Branca em galês, mas o nome havia se tornado uma ironia. Como tudo o mais naquela parte do mundo, a casa estava coberta por uma camada de pó de carvão, de modo que seus blocos de pedra outrora brancos haviam assumido um tom cinza-escuro, que sujava as saias das senhoras que roçassem por descuido em suas paredes.

Mesmo assim, era uma casa magnífica, e ela encheu Fitz de orgulho quando o carro subiu ronronando a estrada de acesso. Tŷ Gwyn era a maior propriedade privada do País de Gales e tinha 200 cômodos. Certa vez, quando Fitz era menino, ele e a irmã, Maud, haviam contado as janelas e chegado a um número impressivo: 523. Ela fora construída por seu avô, e uma ordem agradável regia o projeto de três andares. As janelas do térreo, bem altas, deixavam entrar bastante luz nos salões de recepção majestosos. No segundo piso, havia dezenas de quartos de hós­pedes, enquanto o sótão acomodava incontáveis quartinhos de empregados, revelados pelas longas fileiras de trapeiras que cobriam os telhados íngremes.

Os 20 hectares de terreno eram a maior alegria de Fitz. Ele supervisionava pessoalmente os jardineiros, decidindo o que semear, podar e replantar.

– Uma casa digna da visita de um rei – disse quando o carro parou diante do pórtico imponente.

Bea não falou nada. Viajar a deixava mal-humorada.

Ao sair do carro, Fitz foi recebido por Gelert, seu cão montanhês dos Pireneus, do tamanho de um urso, que lambeu sua mão e pôs-se a correr animadamente pelo pátio, fazendo festa.

Em seu quarto de vestir, Fitz tirou as roupas de viagem e colocou um terno de tweed marrom-claro. Então atravessou a porta de comunicação e entrou no quarto de Bea.

Nina, a criada russa, estava soltando os grampos pontiagudos do chapéu intrincado que Bea usara durante a viagem. De relance, Fitz viu o rosto de sua mulher no espelho da penteadeira e seu coração parou de bater por um instante. A visão o fez voltar quatro anos no tempo, até o salão de baile de São Petersburgo, onde tinha visto pela primeira vez aquele rosto de inacreditável beleza, emoldurado por cachos louros impossíveis de domar por completo. Como naquele instante, ela ostentava um ar emburrado que lhe parecera estranhamente cativante. Num piscar de olhos, Fitz havia decidido que ela, dentre todas as outras, era a mulher com quem queria se casar.

Nina era uma mulher de meia-idade, e sua mão tremia – Bea costumava deixar seus criados nervosos. Enquanto Fitz observava, um dos alfinetes espetou o couro cabeludo de Bea, que soltou um grito.

Nina empalideceu.

– Sinto muitíssimo, Vossa Alteza – disse em russo.

Bea pegou um alfinete que estava em cima da penteadeira e cravou-o no braço da criada.

– Veja se você gosta! – exclamou.

Nina desatou a chorar e saiu correndo do quarto.

– Deixe-me ajudá-la – disse Fitz à mulher em tom tranquilizador.

Ela não queria ser acalmada.

– Eu mesma faço.

Fitz foi até a janela. Cerca de uma dúzia de jardineiros estavam ocupados aparando as plantas, cortando a grama e alisando o cascalho com ancinhos. Vários arbustos estavam floridos: folhados cor-de-rosa, jasmins-de-inverno amarelos, hamamélis e madressilvas-de-inverno. Além do jardim, estendia-se a suave curva verde da encosta da montanha.

Ele precisava ser paciente com Bea e lembrar a si mesmo que ela era uma estrangeira isolada em um país estranho, longe da família e de tudo o que conhecia. Durante os primeiros meses de casamento, quando ainda estava inebriado por sua aparência, por seu cheiro e pela maciez de sua pele, isso havia sido fácil. Agora, tinha que se esforçar um pouco.

– Por que você não descansa? – perguntou ele. – Vou procurar Peel e a Sra. Jevons para ver como andam os preparativos. – Peel era o mordomo e a Sra. Jevons, a governanta. Administrar os empregados era responsabilidade de Bea, mas Fitz estava tão nervoso com a visita do rei que qualquer desculpa para se meter era bem-vinda. – Mais tarde, quando você estiver mais disposta, venho dizer em que pé andam as coisas. – Ele sacou seu porta-charutos.

– Não fume aqui dentro – disse ela.

Ele tomou isso por um sim e se encaminhou para a porta. Antes de sair, parou e disse:

– Você não vai se comportar assim na frente do rei e da rainha, vai? Quer dizer, não vai bater nos criados.

– Eu não bati nela, eu lhe dei uma alfinetada para ela aprender uma lição.

Os russos faziam esse tipo de coisa. Quando o pai de Fitz reclamara que os empregados na embaixada britânica em São Petersburgo eram muito preguiçosos, seus amigos russos tinham lhe dito que ele deveria bater mais neles.

– O monarca ficaria constrangido se tivesse que assistir a uma coisa dessas – disse Fitz a Bea. – Eu já lhe disse que, aqui na Inglaterra, não se faz isso.

– Quando eu era menina, fui obrigada a ver três camponeses serem enforcados – falou ela. – Minha mãe não gostou, mas meu avô insistiu. “Isso é para ensiná-la a punir seus criados”, disse ele. “Se você não bater neles nem açoitá-los por pequenos lapsos, como o descuido e a preguiça, eles vão acabar cometendo pecados maiores que os levarão para a forca.” Ele me ensinou que, a longo prazo, a indulgência para com as classes inferiores é cruel.

Fitz começou a perder a paciência. Bea tivera uma infância de riqueza e luxo sem limites, cercada por bandos de criados obedientes e milhares de camponeses felizes. Se seu avô implacável e competente ainda fosse vivo, talvez sua vida tivesse continuado da mesma forma. Contudo, a fortuna da família havia sido dissipada pelo pai de Bea, um bêbado, e pelo inepto irmão dela, Andrei, que vendia madeira sem replantar as florestas.

– Os tempos mudaram – disse Fitz. – Estou pedindo a você, ou melhor, estou lhe dando uma ordem, para não me constranger diante do meu rei. Espero não ter deixado nenhum espaço para dúvida na sua mente. – Ele saiu e fechou a porta.

Enquanto caminhava pelo corredor largo, sentia-se irritado e um pouco triste. No início do casamento, essas discussões o deixavam desnorteado e arrependido. Agora, estava começando a se acostumar com elas. Será que todos os casamentos eram assim? Ele não sabia.

Um lacaio alto que estava lustrando uma maçaneta se endireitou e ficou em pé de costas para a parede, olhando para o chão, como os criados de Tŷ Gwyn eram ensinados a fazer quando o conde passava. Em algumas casas importantes, os serviçais tinham de ficar virados para a parede, mas Fitz considerava isso feudal demais. Reconheceu o rapaz em questão, que tinha visto jogar críquete durante uma partida entre os empregados de Tŷ Gwyn e os mineradores de Aberowen. Ele era um bom batedor canhoto.

– Morrison – disse Fitz, recordando seu nome –, peça a Peel e à Sra. Jevons que venham até a biblioteca.

– Sim, meu amo.

Fitz desceu a imponente escadaria. Casara-se com Bea porque tinha ficado encantado com ela, mas existia também um motivo racional. Ele sonhava em fundar uma grande dinastia anglo-russa que dominaria amplas extensões de terra, nos moldes em que a dinastia dos Habsburgo havia governado partes da Europa durante muitos séculos.

Mas, para isso, ele precisava de um herdeiro. O mau humor de Bea significava que ela não iria recebê-lo em sua cama naquela noite. Ele poderia insistir, mas o resultado nunca era muito satisfatório. Já fazia cerca de duas semanas desde a última vez. Não desejava uma mulher que fosse vulgarmente ávida por esse tipo de coisa, mas, por outro lado, duas semanas era muito tempo.

Sua irmã, Maud, continuava solteira aos 23 anos. Além disso, qualquer filho dela provavelmente seria criado como um socialista fanático que dilapidaria a fortuna da família imprimindo tratados revolucionários.

Fitz já era casado havia três anos, de modo que estava começando a ficar preocupado. Bea só havia engravidado uma vez, no ano anterior, porém sofrera um aborto espontâneo aos três meses, logo após uma discussão com o marido. Fitz cancelara uma viagem planejada com antecedência para São Petersburgo, o que a deixou terrivelmente abalada, chorando e dizendo que queria ir para casa. Fitz fincara o pé – afinal de contas, um homem não podia deixar a esposa mandar nele –, mas depois, quando ela abortou, sentiu-se responsável e ficou convencido de que a culpa era sua. Se ela engravidasse novamente, ele cuidaria para que absolutamente nada a perturbasse até o nascimento do bebê.

Afastando essa preocupação da cabeça, ele entrou na biblioteca e sentou-se à escrivaninha forrada de couro para fazer uma lista.

Dali a uns dois minutos, Peel entrou acompanhado de uma criada. O mordomo era o filho caçula de um agricultor, e seu rosto sardento e os cabelos grisalhos davam a impressão de uma vida ao ar livre, mas ele era empregado de Tŷ Gwyn desde que começara a trabalhar.

– A Sra. Jevons se tomou de um mal, meu amo – disse Peel. Fitz já desistira havia muito tempo de corrigir o jeito de falar dos criados galeses. – Na barriga – acrescentou Peel em tom lúgubre.

– Poupe-me dos detalhes. – Fitz olhou para a criada, uma garota bonita de uns 20 anos. Seu rosto lhe era vagamente familiar. – Quem é essa?

A própria garota respondeu:

– Ethel Williams, meu amo, ajudante da Sra. Jevons. – A moça tinha o sotaque cadenciado dos vales de Gales do Sul.

– Bem, Williams, você me parece jovem demais para fazer o trabalho de uma governanta.

– Com sua licença, meu amo, a Sra. Jevons disse que o senhor provavelmente mandaria buscar a governanta de Mayfair, mas espera que nesse meio-tempo eu possa satisfazê-lo.

Teria havido um brilho em seu olhar quando ela falou em satisfazê-lo? Embora se dirigisse a ele com a devida deferência, havia algo de insolente nela.

– Muito bem – disse Fitz.

Williams segurava um grosso bloco de anotações em uma das mãos e dois lápis na outra.

– Fui ver a Sra. Jevons em seu quarto, e ela estava disposta o suficiente para repassar todas as providências comigo.

– Por que você trouxe dois lápis?

– Para o caso de um deles quebrar – respondeu ela, sorrindo.

As criadas não deveriam sorrir para o conde, mas Fitz não pôde deixar de retribuir o sorriso.

– Está certo – falou. – Diga-me o que tem anotado no seu bloco.

– Três assuntos – disse ela. – Hóspedes, criadagem e mantimentos.

– Muito bem.

– Pela carta que o senhor enviou, meu amo, entendemos que serão 20 hóspedes. A maioria trará um ou dois criados particulares, digamos que dois em média, portanto haverá 40 criados a mais para acomodar. Todos chegarão no sábado e irão embora na segunda.

– Correto. – Fitz sentia um misto de prazer e apreensão, muito parecido com a sensação que tivera antes de pronunciar seu primeiro discurso na Câmara dos Lordes: estava entusiasmado por fazer aquilo e, ao mesmo tempo, preocupado se iria fazê-lo bem.

– Evidentemente, Suas Majestades ficarão na ala egípcia – prosseguiu Williams.

Fitz aquiesceu. Eram os maiores aposentos da casa. O papel de parede dos cômodos era decorado com imagens de templos egípcios.

– A Sra. Jevons sugeriu que outros aposentos deveriam ser abertos, está anotado por aqui.

“Por aqui” era uma expressão local, pronunciada de forma que fazia lembrar o francês. Era uma redundância que significava exatamente a mesma coisa que “aqui”.

– Deixe-me ver – disse Fitz.

Ela deu a volta na escrivaninha e posicionou o bloco aberto à sua frente. Os criados que trabalhavam dentro de casa eram obrigados a tomar banho uma vez por semana, de modo que ela não cheirava tão mal quanto a classe operária em geral. Na verdade, seu corpo quente exalava um perfume de flores. Talvez andasse roubando os sabonetes de Bea. Ele leu sua lista.

– Ótimo – falou. – A princesa pode distribuir os hóspedes pelos quartos. Talvez ela tenha opiniões fortes em relação a isso.

Williams virou a página.

– Esta aqui é uma lista dos criados a mais que serão necessários: seis meninas na cozinha, para descascar os legumes e lavar a louça; dois homens de mãos limpas para ajudar a servir à mesa; três criadas de quarto; e três meninos para engraxar as botas e cuidar das velas.

– Você sabe onde vamos encontrar essa gente toda?

– Ah, sim, meu amo, tenho uma lista de moradores da região que já trabalharam aqui e, se isso não bastar, podemos pedir a eles que indiquem outras pessoas.

– Nada de socialistas, entendido? – disse Fitz, aflito. – Eles podem tentar falar com o rei sobre os malefícios do capitalismo. – Com os galeses, todo cuidado era pouco.

– Naturalmente, meu amo.

– E quanto aos mantimentos?

Ela virou outra página.

– Com base em outras festas que já foram dadas aqui, é disto que precisamos.

Fitz leu a lista: 100 pães, 20 dúzias de ovos, 45 litros de creme de leite, 45 quilos de toucinho, 300 quilos de batatas... Então, começou a ficar entediado.

– Não deveríamos deixar isso para quando a princesa tiver definido os cardápios?

– Precisamos mandar vir tudo de Cardiff – retrucou Williams. – Os armazéns de Aberowen não conseguem dar conta de encomendas desse porte. E até mesmo os fornecedores de Cardiff precisam ser avisados com antecedência, para garantir que terão as quantidades necessárias no dia.

A moça estava certa. Fitz ficou satisfeito por ela estar encarregada daquilo, pois tinha capacidade de planejamento, uma qualidade rara, em sua opinião.

– Eu bem que gostaria de alguém como você no meu regimento – falou ele.

– Não posso usar cáqui, não combina com meu tom de pele – devolveu ela, atrevida.

O mordomo pareceu indignado.

– Williams, não seja insolente!

– Me desculpe, Sr. Peel.

Fitz percebeu que a culpa tinha sido dele, por ter falado com a criada em tom de brincadeira. De toda forma, não ligava para a sua insolência. Na verdade, até que gostava da moça.

– A cozinheira deu algumas sugestões para os cardápios, meu amo – disse Peel. Ele entregou a Fitz uma folha de papel um pouco engordurada, preenchida pela caligrafia cuidadosa e infantil da cozinheira. – Infelizmente, está cedo demais para cordeiro de leite, mas podemos mandar vir de Cardiff bastante peixe fresco, conservado em gelo.

– Parece muito com o que comemos em nosso encontro de caça em novembro – disse Fitz. – Por outro lado, não queremos experimentar nada novo nessa ocasião... melhor prepararmos pratos já testados e aprovados.

– Exatamente, meu amo.

– Agora, os vinhos. – Ele se levantou. – Vamos descer até a adega.

Peel fez cara de surpresa. O conde não tinha o costume de descer ao porão.

Um pensamento que Fitz não queria admitir pairava em um canto distante da sua mente. Ele hesitou, então disse:

– Williams, venha também, para tomar notas.

O mordomo segurou a porta, ao que Fitz saiu da biblioteca e desceu a escada dos fundos. A cozinha e a ala dos criados ficavam em um subsolo intermediário. As regras de etiqueta ali eram outras, e as criadas menos importantes e os engraxates faziam mesuras ou levavam uma das mãos à testa ao vê-lo passar.

A adega ficava no último subsolo. Peel abriu a porta e disse:

– Se o senhor me permite, eu vou na frente.

Fitz aquiesceu. Peel riscou um fósforo e acendeu uma lamparina a vela presa à parede, descendo em seguida os degraus. Lá embaixo, acendeu outra lamparina.

Fitz tinha uma adega modesta, com cerca de 12 mil garrafas, a maioria guardada ali por seu pai e por seu avô. Havia sobretudo champanhe, vinho do Porto e da região do Reno, além de tintos de Bordeaux e brancos da Borgonha em menor quantidade. Fitz não era um grande fã de vinhos, mas adorava a adega por lhe re­cordar o pai. “Uma adega de vinhos exige ordem, planejamento e bom gosto”, cos­tumava dizer o velho. “São essas virtudes que fizeram a grandeza da Grã-Bretanha.”

É claro que Fitz iria servir o melhor ao rei, mas isso demandava algumas escolhas. O champanhe seria Perrier-Jouët, o mais caro de todos, mas de que safra? Um champanhe maduro, com 20 ou 30 anos de idade, era menos borbulhante e mais saboroso, mas as safras mais jovens tinham uma certa vivacidade que era deliciosa. Ele retirou uma das garrafas do suporte ao acaso. Estava toda coberta de poeira e teias de aranha. Usou o lenço branco que trazia no bolso da frente do paletó para limpar o rótulo. Ainda assim, à luz mortiça da vela, não conseguiu ver a data. Mostrou a garrafa a Peel, que havia posto os óculos.

– Mil oitocentos e cinquenta e sete – disse o mordomo.

– Meu Deus, eu me lembro deste champanhe – disse Fitz. – A primeira safra que provei na vida, e provavelmente a melhor. – Estava consciente da presença da criada, inclinada junto a ele para examinar a garrafa muitos anos mais velha do que ela. Para sua consternação, a proximidade dela o deixava ligeiramente ofegante.

– Imagino que, infelizmente, o 57 já não esteja mais no auge – comentou Peel. – Posso sugerir o 92?

Fitz examinou outra garrafa, hesitou e por fim tomou uma decisão.

– Não consigo ler com esta luz – falou. – Peel, você buscaria uma lupa para mim, por favor?

Peel subiu os degraus de pedra.

Fitz olhou para Williams. Estava prestes a cometer uma tolice, mas não pôde evitar.

– Que moça bonita você é – falou.

– Obrigada, meu amo.

Cachos escuros despontavam de sua touca de criada. Ele tocou-lhe os cabelos. Sabia que iria se arrepender disso.

– Você já ouviu falar em droit du seigneur? – disse ele, notando o som rouco da própria voz.

– Eu sou galesa, não francesa – falou ela, erguendo o queixo do jeito insolente que ele já passara a ver como uma característica sua.

Ele levou a mão de seus cabelos até a sua nuca e fitou-lhe os olhos. Ela sustentou seu olhar com uma segurança audaciosa. Mas significaria a sua expressão que ela desejava que ele fosse mais longe – ou que estava prestes a armar uma cena humilhante?

Fitz ouviu passos pesados na escada da adega. Peel estava voltando. Ele se afastou da criada.

Ela o surpreendeu com uma risadinha.

– Mas que cara de culpado! – comentou ela. – Parece até um colegial.

À luz fraca da vela, Peel surgiu carregando uma bandeja de prata sobre a qual repousava uma lupa com cabo de marfim.

Fitz tentou respirar normalmente. Pegou a lupa e voltou a examinar as garrafas de vinho. Tomou cuidado para não cruzar olhares com Williams.

Deus meu, pensou, que moça extraordinária.

 

Ethel Williams sentia-se cheia de energia. Nada a incomodava, ela era capaz de lidar com qualquer problema, de vencer qualquer empecilho. Quando se olhava no espelho, via que sua pele reluzia e que seus olhos brilhavam. Depois da missa de domingo, seu pai havia comentado com seu humor sarcástico de sempre:

– Você parece alegre – dissera ele. – Ganhou algum dinheiro?

Em vez de andar, ela se pegava correndo pelos intermináveis corredores de Tŷ Gwyn. A cada dia que passava, preenchia mais páginas de seu bloco de anotações com listas de compras, horários de trabalho dos empregados, cronogramas para tirar a mesa e tornar a arrumá-la e cálculos variados: número de fronhas, de vasos, de guardanapos, de velas, de colheres...

Aquela era a sua grande oportunidade. Apesar da pouca idade, ela era a governanta interina na ocasião de uma visita real. A Sra. Jevons não dava sinais de melhora, de modo que Ethel assumiu toda a responsabilidade de preparar Tŷ Gwyn para o rei e a rainha. Sempre tivera a sensação de que poderia se destacar caso tivesse uma chance; porém, na rígida hierarquia da criadagem, havia poucas oportunidades para se sobressair. De repente, uma brecha havia surgido – e ela estava decidida a aproveitá-la. Depois da visita, talvez a adoentada Sra. Jevons recebesse um cargo que não exigisse tanto esforço e Ethel fosse promovida a governanta, com um salário que seria o dobro do atual, um quarto só para si e sua própria sala de estar na ala dos criados.

Mas ela ainda não havia chegado lá. O conde estava evidentemente satisfeito com seu trabalho, e resolvera não mandar buscar a governanta de Londres, o que Ethel interpretou como um grande elogio. No entanto, pensou ela com apreensão, havia tempo de sobra para aquele ligeiro deslize, para o erro fatal que arruinaria todo o restante: um prato de jantar sujo, um esgoto transbordando, um rato morto dentro da banheira. E o conde ficaria possesso.

Na manhã do sábado em que o rei e a rainha chegariam, ela percorreu cada quarto de hóspedes para se certificar de que as lareiras estavam acesas e os travesseiros afofados. Cada cômodo tinha pelo menos um vaso de flores, trazidas da estufa naquela manhã mesmo. Todas as escrivaninhas estavam abastecidas com o papel de carta timbrado de Tŷ Gwyn. Havia toalhas, sabonete e água para o banho. O velho conde não gostava de encanamentos modernos, e Fitz ainda não havia encontrado tempo para instalar água corrente em todos os quartos. Em uma casa com 100 quartos de dormir havia apenas três banheiros, então a maioria dos cômodos precisava de um penico. Um pot-pourri, confeccionado pela Sra. Jevons de acordo com a sua própria receita, havia sido providenciado para neutralizar o cheiro.

Os hóspedes reais iriam chegar na hora do chá. O conde os receberia na estação de trem de Aberowen. Sem dúvida a estação estaria cheia de gente ansiosa por ver os membros da realeza, mas não seria ali que o rei e a rainha se encontrariam com seus súditos. Fitz os levaria até a casa em seu Rolls-Royce, um carro grande, fechado. O camarista do rei, Sir Alan Tite, e o restante da comitiva real os acompanhariam com a bagagem em um comboio de veículos puxados a cavalo. Em frente a Tŷ Gwyn, um batalhão dos Fuzileiros Galeses já estava se posicionando dos dois lados do acesso à casa para servir de guarda de honra.

O casal real se apresentaria aos seus súditos na manhã de segunda-feira. Antes de voltarem para a estação, eles haviam planejado um passeio em carruagem aberta pelos vilarejos próximos e uma parada na prefeitura de Aberowen, para encontrarem o prefeito e os conselheiros.

Os outros hóspedes começaram a chegar ao meio-dia. Peel, parado no hall de entrada, destacava criadas para conduzi-los até seus quartos e lacaios para carregar as malas. Os primeiros a chegar foram o tio e a tia de Fitz, o duque e a duquesa de Sussex. O duque era primo do rei e havia sido convidado para fazer o monarca sentir-se mais à vontade. A duquesa era tia de Fitz e, como a maior parte da família, tinha grande interesse por política. Em sua casa londrina, ela organizava um salão frequentado por membros do gabinete ministerial.

A duquesa informou Ethel que o rei Jorge V era um tanto obcecado por relógios e detestava ver vários deles na mesma casa marcando horas diferentes. Ethel soltou um palavrão entre os dentes: Tŷ Gwyn tinha mais de 100 relógios. Ela pediu emprestado o relógio de bolso da Sra. Jevons e começou a percorrer a casa acertando-os um a um.

Na pequena sala de jantar, topou com o conde. Ele estava em pé junto à janela, com um ar distraído. Ethel o analisou por alguns instantes. Era o homem mais bonito que já vira. Seu rosto pálido, iluminado pela luz suave do inverno, poderia muito bem ter sido esculpido em mármore branco. Ele tinha um queixo quadrado, as maçãs do rosto proeminentes e um nariz reto. Seu cabelo era escuro, mas os olhos eram verdes: uma combinação incomum. Ele não usava barba, bigode ou sequer costeletas. Com um rosto desses, pensou Ethel, para que cobri-lo de pelos?

A moça atraiu a atenção de Fitz.

– Acabei de ficar sabendo que o rei gosta de ter uma cesta de laranjas no quarto! – disse ele. – Não há uma única laranja nesta maldita casa.

Ethel franziu o cenho. Nenhum dos comerciantes de Aberowen teria laranjas no início da estação; seus clientes não podiam arcar com um luxo desses. O mesmo valeria para quase todas as cidades dos vales de Gales do Sul.

– Se eu puder usar o telefone, tentarei falar com alguns comerciantes de Cardiff – disse ela. – Talvez eles tenham laranjas esta época do ano.

– Mas como faremos para elas chegarem aqui?

– Posso pedir à loja para pôr um cesto no trem. – Ela olhou para o relógio que estava acertando. – Com sorte, as laranjas vão chegar na mesma hora que o rei.

– É isso – disse ele. – É isso que vamos fazer. – Ele a encarou. – Você é surpreendente – acrescentou. – Acho que nunca conheci uma moça como você.

Ela devolveu o olhar. No decorrer das duas últimas semanas, o conde havia falado assim com ela várias vezes, com excesso de intimidade e num tom um pouco intenso, o que provocava em Ethel um sentimento estranho, uma espécie de euforia desconfortável, como se algo perigosamente excitante estivesse prestes a acontecer. Era como o instante em que o príncipe encantado entra no castelo em um conto de fadas.

O feitiço foi quebrado pelo barulho de rodas no acesso à casa, seguido por uma voz conhecida:

– Peel! Que prazer revê-lo.

Fitz olhou pela janela. A expressão que fez foi cômica.

– Ah, não – disse ele. – Minha irmã!

– Bem-vinda à casa, lady Maud – disse a voz de Peel. – Embora não a estivéssemos esperando.

– O conde se esqueceu de me convidar, mas eu vim assim mesmo.

Ethel reprimiu um sorriso. Fitz adorava a irmã espevitada, mas achava difícil lidar com ela. Suas opiniões políticas eram tão liberais que chegavam a ser alarmantes: ela era sufragista, uma militante do voto feminino. Ethel achava Maud fantástica – exatamente o tipo de mulher independente que ela própria gostaria de ser.

Fitz saiu da sala a passos largos e Ethel o seguiu até um cômodo imponente decorado no estilo gótico tão apreciado pelos vitorianos como o pai de Fitz: paredes revestidas de madeira escura, papel de parede com desenhos intrincados e cadeiras de carvalho imitando tronos medievais. Maud estava entrando pela porta.

– Fitz, querido, como vai? – disse ela.

Maud era alta como o irmão, e os dois eram parecidos, mas os traços esculpidos que faziam o conde parecer a estátua de um deus não caíam tão bem em uma mulher, o que tornava Maud mais vistosa do que bonita. Contrariando o imaginário popular, para o qual todas as feministas eram deselegantes, ela estava vestida com roupas da moda: uma saia funil, botas de abotoar, um casaco azul-marinho com cinto grosso e punhos grandes dobrados e um chapéu com uma pena alta espetada na frente feito a bandeira de um regimento.

Junto com ela, estava tia Herm. Lady Hermia era a outra tia de Fitz. Ao contrário da irmã, que havia se casado com um duque rico, Herm desposara um barão esbanjador que tinha morrido jovem e arruinado. Dez anos antes, quando os pais de Fitz e Maud morreram em um intervalo de poucos meses, tia Herm se mudara para a casa para cuidar de Maud, então com 13 anos. Ela até hoje servia, embora sem muita eficácia, de acompanhante para Maud.

– O que você está fazendo aqui? – perguntou Fitz à irmã.

– Eu disse a você que ele não iria gostar, querida – murmurou tia Herm.

– Eu não podia faltar a uma visita real – disse Maud. – Seria um desrespeito.

O tom de Fitz era um misto de irritação e carinho.

– Não quero você conversando com o rei sobre direitos femininos.

Ethel não achava que ele tivesse motivo para se preocupar. Apesar das opiniões políticas radicais de Maud, ela sabia lisonjear e flertar com os poderosos, de modo que até mesmo os amigos conservadores de Fitz gostavam dela.

– Morrison, pegue meu casaco, sim? – disse Maud. Ela o desabotoou, virando-se para que o lacaio o removesse. – Olá, Williams, como vai? – disse a Ethel.

– Bem-vinda a casa, minha senhora – disse Ethel. – Gostaria de ficar na Suíte Gardênia?

– Seria um prazer, adoro aquela vista.

– Gostaria de almoçar enquanto eu preparo o quarto?

– Sim, por favor, estou faminta.

– Hoje estamos servindo ao estilo clube, porque os hóspedes estão chegando em horários diferentes. – Estilo clube significava que os hóspedes eram servidos à medida que chegavam à sala de jantar, como em um clube de cavalheiros ou um restaurante, em vez de todos ao mesmo tempo. O almoço naquele dia era modesto: caldo de carne com curry à moda indiana, frios, peixe defumado, truta recheada, costeletas de cordeiro e algumas sobremesas e queijos.

Ethel segurou a porta e seguiu Maud e Herm até a grande sala de jantar. Os primos Von Ulrich já estavam almoçando. Walter von Ulrich, o mais jovem, era bonito e charmoso, e parecia encantado por estar em Tŷ Gwyn. Robert estava irrequieto: havia endireitado o quadro do Castelo de Cardiff na parede do seu quarto, pedido mais travesseiros e descoberto que o tinteiro de sua escrivaninha estava seco – deslize que fez Ethel se perguntar, aflita, o que mais poderia ter esquecido.

Os dois se levantaram quando as senhoras entraram. Maud seguiu direto até Walter e disse:

– Você não mudou nada desde os 18 anos! Está lembrado de mim?

A expressão dele se iluminou.

– Estou, embora você tenha mudado desde os 13 anos.

Eles trocaram um aperto de mãos e então Maud o beijou nas duas bochechas, como se ele fosse da família.

– Naquela idade eu tinha uma paixonite de adolescente por você que era uma verdadeira agonia – disse ela, com uma sinceridade surpreendente.

Walter sorriu.

– Eu também gostava bastante de você.

– Mas sempre se comportava como se eu fosse uma pestinha insuportável!

– Eu tinha de esconder meus sentimentos de Fitz, que protegia você como um cão de guarda.

Tia Herm tossiu, deixando claro que não aprovava aquela intimidade instantânea. Maud disse:

– Tia, este aqui é Herr Walter von Ulrich, um velho amigo de escola de Fitz que costumava vir passar as férias aqui. Agora ele é diplomata na embaixada alemã em Londres.

– Permitam-me apresentar meu primo, Graf Robert von Ulrich – disse Walter. Ethel sabia que Graf queria dizer conde em alemão. – Ele é adido militar na embaixada austríaca.

Na verdade, conforme Peel havia explicado a Ethel com muita gravidade, os dois eram primos em terceiro grau: seus avôs eram irmãos, sendo que o mais novo se casara com uma herdeira alemã e trocara Viena por Berlim; por isso Walter era alemão e Robert, austríaco. Peel gostava de deixar essas coisas bem claras.

Todos se sentaram. Ethel puxou uma cadeira para tia Herm.

– Gostaria de um caldo de carne, lady Hermia? – perguntou ela.

– Sim, Williams, por favor.

Ethel meneou a cabeça para um lacaio, que foi até o aparador sobre o qual havia uma sopeira que mantinha a sopa aquecida. Ao ver que os recém-chegados estavam confortáveis, Ethel saiu discretamente para cuidar dos aposentos deles. Quando a porta estava se fechando atrás dela, ouviu Walter von Ulrich dizer:

– Eu me lembro de como a senhora gostava de música, lady Maud. Estávamos justamente conversando sobre o balé russo. O que a senhora acha de Diaghilev?

Raros eram os homens que perguntavam a opinião das mulheres. Maud iria gostar disso. Enquanto descia a escada às pressas para encontrar duas criadas que pudessem arrumar os quartos, Ethel pensou: esse alemão é mesmo um sedutor.

 

O Salão das Esculturas de Tŷ Gwyn era uma antessala do salão de jantar. E foi ali que os hóspedes se reuniram antes do jantar. Fitz não tinha muito interesse por arte – a coleção fora reunida por seu avô –, mas as esculturas serviam de assunto para as pessoas enquanto esperavam o jantar.

Ao mesmo tempo que conversava com a tia duquesa, Fitz olhava em volta com nervosismo para os homens de fraque e gravata e para as mulheres de vestidos decotados e tiaras. O protocolo exigia que todos os hóspedes estivessem no recinto antes de o rei e a rainha entrarem. Onde estava Maud? Ela não iria cometer uma gafe, ou iria? Não, ali estava ela, com um vestido de seda roxo, usando os diamantes da mãe e conversando animadamente com Walter von Ulrich.

Fitz e Maud sempre tinham sido próximos. O pai deles fora um herói distante, sua mãe uma companheira infeliz; os dois filhos haviam encontrado um no outro o afeto de que precisavam. Após a morte dos pais, foram unidos pela dor que compartilhavam. Fitz tinha 18 anos na época e tentara proteger sua irmãzinha do mundo cruel. Ela, por sua vez, o idolatrava. Depois de adulta, havia se tornado independente, por mais que ele, na posição de chefe da família, continuasse a acreditar que tinha autoridade sobre a irmã. Mas o afeto que sentiam um pelo outro se mostrara forte o suficiente para sobreviver às suas desavenças – até então.

Agora Maud estava chamando a atenção de Walter para um cupido de bronze. Ao contrário de Fitz, ela entendia desse tipo de coisa. Fitz rezou para que a irmã passasse a noite inteira falando de arte e esquecesse os direitos femininos. Todos sabiam que Jorge V detestava liberais. Em geral, todos os monarcas eram conservadores, mas os acontecimentos haviam aguçado a antipatia do rei. Ele subira ao trono em meio a uma crise política. Contra a sua vontade, tinha sido forçado pelo primeiro-ministro liberal H.H. Asquith – fortemente apoiado pela opinião pública – a restringir os poderes da Câmara dos Lordes. Ainda se ressentia dessa humilhação. Sua Majestade sabia que Fitz, membro conservador da Câmara dos Lordes, havia lutado até o último instante contra as chamadas reformas. Mesmo assim, se o rei fosse importunado por Maud naquela noite, ele jamais perdoaria o conde.

Walter era um diplomata em começo de carreira, mas seu pai era um dos amigos mais antigos do Kaiser. Robert também era bem relacionado: era próximo do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro. Outro hóspede que frequentava círculos prestigiosos era o jovem americano alto que conversava naquele instante com a duquesa. Seu nome era Gus Dewar, e seu pai, senador, era conselheiro particular do presidente norte-americano Woodrow Wilson. Fitz sentia que fizera bem em reunir um grupo tão distinto de jovens, a futura elite governante. Esperava que o rei ficasse satisfeito.

Gus Dewar era simpático, porém desengonçado. Mantinha as costas curvadas, como se preferisse ser mais baixo e chamar menos atenção. Parecia pouco seguro de si, mas se mostrava agradavelmente cortês com todos.

– O povo americano está mais preocupado com questões domésticas do que com política externa – dizia ele à duquesa. – Mas o presidente Wilson é um liberal e, sendo assim, está mais inclinado a simpatizar com democracias como a França e a Grã-Bretanha do que com monarquias autoritárias como a Áustria e a Alemanha.

Nesse instante, as portas duplas do salão se abriram, fez-se silêncio e o rei e a rainha entraram. A princesa Bea fez uma mesura e Fitz inclinou a cabeça, ao que todos os outros também prestaram seus cumprimentos ao casal real. Seguiram-se alguns instantes de silêncio um pouco constrangido, pois ninguém podia falar antes que o rei ou a rainha se manifestassem. Por fim, Sua Majestade disse a Bea:

– Sabia que fiquei hospedado nesta casa 20 anos atrás? – E todos começaram a relaxar.

O rei era um homem elegante, pensou Fitz enquanto ele e Bea conversavam sobre amenidades com o casal real. Tinha a barba e o bigode aparados com esmero. Sua cabeça exibia entradas, mas ele ainda tinha cabelo suficiente para pentear, repartindo-o milimetricamente. As roupas justas de gala caíam bem em seu corpo esguio: ao contrário do pai, Eduardo VII, ele não era um gourmet. Para relaxar, cultivava hobbies que exigiam precisão: gostava de colecionar selos, que colava meticulosamente em álbuns, passatempo que provocava a zombaria de intelectuais londrinos desrespeitosos.

A rainha era uma figura mais imponente, com cachos grisalhos e uma boca de traços severos. Tinha um peito farto e magnífico, muito valorizado pelo decote generoso que era de rigueur na moda da época. Era filha de um príncipe alemão. A princípio, havia sido noiva do irmão mais velho de Jorge, Alberto, mas este morrera de pneumonia antes do casamento. Quando Jorge tornou-se herdeiro do trono, também herdou a noiva do irmão, arranjo que algumas pessoas consideraram um tanto medieval.

Bea estava em seu elemento. Usando um vestido provocante de seda cor-de-rosa, tinha os cachos louros arrumados com perfeição para parecerem levemente despenteados, como se tivesse se libertado de repente de um beijo ilícito. Ela conversava animadamente com o rei. Pressentindo que assuntos triviais não cativariam Jorge V, estava lhe contando como Pedro, o Grande havia criado a Marinha russa, ao que o rei meneava a cabeça, interessado.

Peel apareceu à porta da sala de jantar, com uma expressão ansiosa no rosto sardento. Fisgou o olhar de Fitz e meneou a cabeça com energia. Fitz perguntou à rainha:

– Vossa Majestade gostaria de jantar?

Ela lhe deu o braço. Atrás deles, o rei estava de braços dados com Bea, enquanto os demais convidados se reuniam em pares conforme ditava a hierarquia. Uma vez todos prontos, caminharam em procissão até a sala de jantar.

– Que linda! – murmurou a rainha ao ver a mesa.

– Obrigado – disse Fitz, soltando um suspiro discreto de alívio. Bea havia feito um trabalho incrível. Três lustres pendiam baixos sobre a mesa comprida. Seus reflexos cintilavam nos copos de cristal. Todos os talheres eram de ouro, assim como os saleiros, pimenteiros e até mesmo as pequenas caixas de fósforos para os fumantes. A toalha de mesa branca estava coalhada de rosas da estufa e, em um último toque dramático, Bea havia prendido delicadas samambaias que iam dos lustres até as pirâmides de uvas sobre travessas douradas.

Todos se sentaram, o bispo deu graças e Fitz relaxou. Uma festa que começava bem quase sempre continuava bem. Vinho e comida deixavam as pessoas menos dispostas a encontrar defeitos.

O cardápio começou com hors d’oeuvres russes, uma homenagem ao país natal de Bea: pequenos blinis com caviar e creme, torradinhas triangulares com peixe defumado, biscoitos salgados com arenque em conserva, tudo regado a champanhe Perrier-Jouët 1892, suave e delicioso como Peel havia prometido. Fitz não desgrudava os olhos de Peel, que, por sua vez, observava com atenção o rei. Assim que Sua Majestade pousava os talheres, Peel retirava seu prato, e esse era o sinal para os lacaios retirarem todos os outros. Qualquer conviva que por acaso ainda estivesse comendo precisava parar em sinal de deferência.

Em seguida veio uma sopa, um pot-au-feu, servida com um ótimo xerez oloroso de Sanlúcar de Barrameda. O peixe era linguado, acompanhado por um Mersault Charmes tão maduro que parecia ouro líquido. Para acompanhar os medalhões de cordeiro galês, Fitz havia escolhido o Château Lafite 1875, já que o 1870 ainda não estava bom para beber. O tinto continuou a ser servido com o parfait de fígado de ganso que veio depois e com o último prato de carne: codornas com uvas envoltas em massa folhada.

Ninguém comeu tudo isso. Os homens escolheram o que preferiam e ignoraram o resto. As mulheres beliscaram um ou dois pratos. Muitos voltaram para a cozinha intocados.

Serviu-se ainda salada, uma sobremesa, um quitute, frutas e petits fours. Por fim, a princesa Bea ergueu discretamente uma sobrancelha para a rainha, que respondeu com um movimento de cabeça quase imperceptível. Ambas se levantaram, todos os outros se puseram de pé e as senhoras se retiraram do salão.

Os homens tornaram a se sentar, os lacaios trouxeram caixas de charutos e Peel pousou um decantador de vinho do Porto Ferreira 1847 à direita do rei. Fitz tragou um charuto com satisfação. Tudo havia corrido bem. O rei tinha fama de antissocial, de se sentir à vontade somente entre antigos companheiros dos bons tempos da Marinha. Mas naquela noite ele havia sido encantador e nada saíra errado. Até mesmo as laranjas haviam chegado.

Fitz tinha falado mais cedo com Sir Alan Tite, o camarista do rei, um oficial reformado do Exército que usava costeletas antiquadas. Haviam combinado que, na manhã seguinte, o rei passaria cerca de uma hora sozinho com cada um dos homens à mesa, sendo que todos detinham informações privilegiadas sobre algum governo. Ainda naquela noite, Fitz deveria quebrar o gelo puxando alguma conversa genérica sobre política. Ele pigarreou e se dirigiu a Walter von Ulrich:

– Walter, você e eu somos amigos há 15 anos... estudamos juntos em Eton. – Ele se virou para Robert. – E eu conheço seu primo desde que nós três dividimos um apartamento em Viena quando éramos estudantes. – Robert sorriu e aquiesceu. Fitz gostava de ambos: como ele, Robert era um tradicionalista; Walter, embora não fosse tão conservador, era muito inteligente. – Agora estamos vendo o mundo falar em guerra entre nossos países – prosseguiu Fitz. – Existe mesmo a chance de uma tragédia dessas acontecer?

Walter respondeu:

– Se falar sobre a guerra pode fazê-la acontecer, então sim, nós vamos lutar, pois estão todos se preparando para isso. Mas quanto a haver um motivo de verdade, eu não vejo nenhum.

Gus Dewar ergueu a mão, hesitante. Apesar de sua visão política liberal, Fitz gostava de Dewar. Os americanos tinham a reputação de serem impetuosos, mas aquele era educado e até um pouco tímido. Além de surpreendentemente bem informado.

– A Grã-Bretanha e a Alemanha têm motivos de sobra para brigar.

Walter se virou para ele.

– Pode me dar um exemplo?

Gus soprou a fumaça do charuto.

– Rivalidade naval.

Walter aquiesceu.

– O meu Kaiser não acredita haver uma lei divina que obrigue a Marinha alemã a permanecer eternamente inferior à britânica.

Nervoso, Fitz lançou um olhar para o rei. Jorge V adorava a Marinha Real e poderia se ofender com facilidade. Por outro lado, o Kaiser Guilherme era seu primo. O pai de Jorge e a mãe de Guilherme eram irmãos, ambos filhos da rainha Vitória. Fitz ficou aliviado ao ver Sua Majestade sorrir com indulgência.

– Isso já foi motivo de atritos no passado – prosseguiu Walter –, mas há dois anos que chegamos a um acordo informal quanto ao tamanho relativo de nossas forças navais.

– E a rivalidade econômica? – perguntou Dewar.

– É verdade que a Alemanha está ficando mais próspera a cada dia, e logo poderá alcançar a Grã-Bretanha e os Estados Unidos em matéria de produção econômica. Mas por que isso deveria ser um problema? A Alemanha é um dos maiores clientes da Grã-Bretanha. Quanto mais dinheiro nós tivermos, mais poderemos comprar. A nossa potência econômica é uma coisa boa para as manufaturas britânicas!

– Dizem que a Alemanha quer mais colônias – insistiu Dewar.

Fitz lançou outro olhar para o rei, perguntando-se se ele não se incomodava que a conversa estivesse sendo monopolizada por aqueles dois. Jorge V, no entanto, parecia fascinado.

– Já houve guerras por causa de colônias, em particular no seu país, Sr. Dewar – disse Walter. – Mas creio que hoje em dia sejamos capazes de resolver esse tipo de contenda sem disparar nossas armas. Três anos atrás, a Alemanha, a Grã-Bretanha e a França entraram em disputa pelo Marrocos, porém o assunto foi resolvido sem guerra. Mais recentemente, a Grã-Bretanha e a Alemanha chegaram a um acordo sobre a questão espinhosa da ferrovia de Bagdá. Basta simplesmente continuarmos assim, e não teremos uma guerra.

– O senhor me perdoaria se eu usasse a expressão militarismo alemão? – indagou Dewar.

Era um comentário forte, e Fitz fez uma careta. Walter enrubesceu, mas respondeu com tranquilidade:

– Aprecio a sua franqueza. O Império Germânico é dominado pelos prussianos, que desempenham um papel parecido com o dos ingleses no Reino Unido de Sua Majestade.

Comparar a Grã-Bretanha com a Alemanha e a Inglaterra com a Prússia era uma ousadia. Walter estava no limite do que seria permitido em uma conversa educada, pensou Fitz, apreensivo.

– Os prussianos têm uma tradição militar forte – prosseguiu Walter –, mas não travam guerras sem motivo.

– Então a Alemanha não é agressiva – falou Dewar com ceticismo.

– Pelo contrário – disse Walter. – Posso afirmar ao senhor que a Alemanha é a única grande potência da Europa continental que não é agressiva.

A mesa foi percorrida por um murmúrio de surpresa, e Fitz viu o rei arquear as sobrancelhas. Dewar recostou-se na cadeira, espantado, e perguntou:

– Por que o senhor diz isso?

As boas maneiras impecáveis e o tom amigável de Walter amenizaram suas palavras provocadoras.

– Comecemos pela Áustria – continuou ele. – Meu primo vienense, Robert, não irá negar que o Império Austro-Húngaro gostaria de estender suas fronteiras a sudeste.

– Mas não sem motivo – protestou Robert. – Essa região do mundo, que os britânicos chamam de Bálcãs, está sob domínio otomano há centenas de anos, mas o governo otomano ruiu e agora há instabilidade na península balcânica. O imperador austríaco acredita que é seu dever sagrado manter a ordem e a religião cristã nessa região.

– Sem dúvida – disse Walter. – Mas a Rússia também almeja territórios nos Bálcãs.

Talvez por causa de Bea, Fitz se sentiu na obrigação de defender o governo russo.

– Eles também têm bons motivos – falou. – Metade de seu comércio internacional atravessa o mar Negro, e de lá entra no Mediterrâneo pelos estreitos. A Rússia não pode permitir que nenhuma outra grande potência domine os estreitos ao adquirir territórios no leste dos Bálcãs. Isso seria como uma forca no pescoço da economia russa.

– Exatamente – concordou Walter. – Por falar na Europa Ocidental, a França tem ambições de tomar da Alemanha os territórios da Alsácia e da Lorena.

Nesse momento, o convidado francês, Jean-Pierre Charlois, reagiu.

– Que foram roubados da França 43 anos atrás!

– Não vou entrar nesse mérito – falou Walter com brandura. – Digamos que a Alsácia-Lorena foi anexada ao Império Germânico em 1871, depois da derrota da França na guerra franco-prussiana. Roubadas ou não, Monsieur le Comte, o senhor reconhece que a França quer essas terras de volta.

– Naturalmente. – O francês tornou a se recostar na cadeira e tomou um gole de vinho do Porto.

– Até mesmo a Itália gostaria de tomar da Áustria os territórios do Trentino... – continuou Walter.

– Onde a maioria das pessoas fala italiano! – exclamou o signor Falli.

– ... e também a maior parte do litoral da Dalmácia...

– Cheio de leões venezianos, igrejas católicas e colunas romanas!

– ... e o Tirol, província com uma longa história de autonomia política, onde a maior parte do povo fala alemão.

– Necessidade estratégica.

– É claro.

Fitz percebeu como Walter tinha sido esperto. Em um tom nada grosseiro, porém levemente provocativo, ele havia levado os representantes de cada nação a confirmar, em linguagem mais ou menos beligerante, suas respectivas ambições territoriais.

Então Walter disse:

– Mas que novo território a Alemanha está reivindicando? – Ele correu os olhos pela mesa, mas ninguém disse nada. – Nenhum – afirmou, triunfante. – E o único outro país importante da Europa que pode dizer o mesmo é a Grã-Bretanha!

Gus Dewar passou a garrafa de Porto e disse, com seu sotaque americano arrastado:

– Acho que o senhor tem razão.

– Então, Fitz, meu velho amigo, por que nós iríamos à guerra? – indagou Walter.

 

No domingo de manhã, antes do café, lady Maud mandou chamar Ethel.

Ethel precisou conter um suspiro de irritação. Estava muito ocupada. Era cedo, mas os empregados já estavam trabalhando duro. Antes de os hóspedes se levantarem, era preciso limpar todas as lareiras, reacender o fogo de cada uma delas e encher seus respectivos baldes de carvão. Os principais cômodos da casa – sala de jantar, sala de visitas, biblioteca, sala de fumar, bem como os cômodos coletivos menores – precisavam ser limpos e arrumados. Ethel estava verificando as flores na sala de bilhar e substituindo as que já estavam murchas quando foi chamada. Por mais que gostasse da irmã radical de Fitz, torceu para Maud não lhe pedir nada muito complicado.

Quando Ethel começara a trabalhar em Tŷ Gwyn, aos 13 anos, a família Fitzherbert e seus hóspedes lhe pareciam quase irreais: era como se fossem personagens de uma história, ou membros de tribos bíblicas estranhas, como os hititas talvez, e deixavam-na aterrorizada. Ela temia fazer alguma coisa errada e perder o emprego, mas também tinha muita curiosidade em ver de perto aquelas criaturas peculiares.

Certo dia, uma das criadas da cozinha lhe mandou subir até a sala de bilhar para buscar o tantalus. Ela estava nervosa demais para perguntar o que era aquilo. De qualquer forma, foi até lá e olhou em volta, torcendo para ser alguma coisa óbvia, como uma bandeja de louça suja, mas não conseguiu ver nada que parecesse pertencer ao andar de baixo. Estava em prantos quando Maud entrou.

Na época, Maud era uma adolescente alta e desengonçada de 15 anos, uma mulher usando roupas de menina, infeliz e rebelde. Somente mais tarde daria um sentido à própria vida, transformando seu descontentamento numa cruzada. Porém já tinha a compaixão à flor da pele que a tornava sensível à injustiça e à opressão.

Ela perguntou a Ethel qual era o problema. O tantalus, no fim das contas, era um recipiente de prata com decantadores de conhaque e uísque dentro. Numa referência ao suplício do mitológico Tântalo, condenado a não satisfazer sua fome e sua sede, embora vivesse cercado por água e frutos, o recipiente tentava os empregados, mas possuía uma trava para evitar que bebericassem às escondidas, explicou Maud. Ethel lhe agradeceu profusamente. Essa foi a primeira de muitas gentilezas e, ao longo dos anos, Ethel passara a idolatrar a moça mais velha.

Ethel subiu até o quarto de Maud, bateu na porta e entrou. A Suíte Gardênia tinha um papel de parede florido rebuscado, do tipo que havia saído de moda na virada do século. No entanto, sua janela de sacada dava para a parte mais encantadora do jardim de Fitz, a Aleia Oeste, um caminho reto e longo, ladeado por canteiros, que conduzia até uma cabana reservada para os dias de verão.

Maud estava calçando um par de botas, notou Ethel com desagrado.

– Vou dar um passeio, preciso de você como acompanhante – disse ela. – Ajude-me com meu chapéu e me conte as fofocas.

Ethel não tinha tempo para aquilo, porém, por mais aborrecida que estivesse, também ficou intrigada. Com quem Maud estava indo passear? Onde estava sua acompanhante habitual, tia Herm? E por que ela estava pondo um chapéu tão bonito só para ir até o jardim? Haveria algum homem na história?

Enquanto prendia o chapéu nos cabelos escuros de Maud, Ethel disse:

– Houve um escândalo lá embaixo hoje de manhã. – Maud colecionava fofocas da mesma forma que o rei colecionava selos. – Morrison só foi dormir às quatro da manhã. Ele é um dos lacaios... alto, com um bigode louro.

– Eu conheço Morrison. E sei onde ele passou a noite. – Maud hesitou.

Ethel aguardou um instante e então disse:

– A senhora não vai me dizer?

– Você vai ficar chocada.

Ethel sorriu.

– Melhor ainda.

– Ele passou a noite com Robert von Ulrich. – Maud olhou para o reflexo de Ethel no espelho da penteadeira. – Está horrorizada?

Ethel estava fascinada.

– Não acredito! Sabia que Morrison não era muito dado a mulheres, mas não achava que ele pudesse ser um desses, se é que a senhora me entende.

– Bom, Robert com certeza é um desses, e eu o vi trocar olhares com Morrison várias vezes durante o jantar.

– E na frente do rei! Como é que a senhora sabe sobre Robert?

– Walter me disse.

– Mas que coisa para um cavalheiro contar a uma dama! As pessoas revelam tudo à senhora. Quais são as fofocas de Londres?

– Está todo mundo falando no Sr. Lloyd George.

David Lloyd George era chanceler do Tesouro, encarregado das finanças da nação. Galês, era um orador inflamado de esquerda. O pai de Ethel dizia que Lloyd George deveria estar no Partido Trabalhista. Durante a greve do carvão de 1912, ele chegara a falar em nacionalizar as minas.

– O que estão dizendo sobre ele? – quis saber Ethel.

– Que tem uma amante.

– Não! – Desta vez, a moça ficou realmente chocada. – Mas ele foi criado como batista!

Maud riu.

– Seria menos chocante se fosse anglicano?

– Seria! – Ethel se conteve para não dizer é claro. – Quem é ela?

– Frances Stevenson. Ela começou como governanta da filha dele, mas é uma mu­lher inteligente, formada em Estudos Clássicos, e agora é sua secretária particular.

– Que horror.

– Ele a chama de Pussy.

Ethel enrubesceu diante da palavra de duplo sentido. Não soube o que responder a isso. Maud se levantou e Ethel a ajudou com o casaco.

– E Margaret, a mulher dele? – quis saber Ethel.

– Ela fica aqui no País de Gales com os quatro filhos.

– Eram cinco, um morreu. Coitada.

Maud estava pronta. As duas desceram o corredor e a escadaria imponente. Walter von Ulrich estava esperando no hall, usando um casaco escuro comprido. Tinha um bigode pequeno e suaves olhos castanhos. Era atraente de um jeito reservado, bem alemão. O tipo de homem capaz de fazer uma mesura, bater continência à tradicional moda alemã e depois lhe dar uma piscadela, pensou Ethel. Então era por isso que Maud não queria lady Hermia como acompanhante.

– Williams veio trabalhar aqui quando eu era menina – disse Maud a Walter –, e somos amigas desde então.

Ethel gostava de Maud, mas dizer que as duas eram amigas era um exagero. Maud era bondosa e Ethel a admirava, mas não deixavam de ser patroa e empregada. Maud na verdade estava dizendo que Ethel era digna de confiança.

Walter se dirigiu a Ethel com o excesso de boas maneiras que pessoas como ele usavam para falar com seus inferiores.

– Muito prazer em conhecê-la, Williams. Como vai você?

– Bem, obrigada, senhor. Deixem-me pegar meu casaco.

Ela desceu às pressas para o andar de baixo. Não queria sair para um passeio enquanto o rei estava hospedado na casa – teria preferido ficar disponível para supervisionar as criadas de quarto –, mas não podia recusar.

Na cozinha, a criada pessoal da princesa Bea, Nina, preparava um chá à moda russa para sua patroa. Ethel falou com uma das criadas de quarto.

– Herr Walter acordou – disse ela. – Pode arrumar o Quarto Cinza. – Assim que os hóspedes apareciam, as empregadas precisavam entrar nos quartos para limpá-los, fazer as camas, esvaziar os penicos e repor a água para a toalete. Ela viu o mordomo Peel contando pratos.

– Algum movimento no andar de cima? – perguntou-lhe.

– Dezenove, vinte – disse ele, terminando a contagem. – O Sr. Dewar chamou pedindo água quente para se barbear e o signor Falli quis um café.

– Lady Maud quer que eu saia com ela.

– Péssima hora – falou Peel, zangado. – Precisamos de você dentro de casa.

Ethel sabia disso. Com sarcasmo, ela disse:

– O que devo fazer, Sr. Peel? Falar para ela ir se catar?

– Não seja atrevida. Volte o mais rápido que puder.

Quando ela tornou a subir para o térreo, o cachorro do conde, Gelert, estava parado diante da porta, ofegando com animação, pois já havia adivinhado que um passeio estava por vir. Todos saíram e atravessaram o Gramado Leste até o bosque.

– Imagino que lady Maud tenha ensinado você a ser sufragista – disse Walter a Ethel.

– Foi justamente o contrário – disse-lhe Maud. – Williams foi a primeira pessoa a me apresentar ideias liberais.

– Aprendi tudo com meu pai – disse Ethel.

Ethel sabia que eles na verdade não queriam conversar com ela. A etiqueta não lhes permitia ficar sozinhos, mas queriam chegar o mais perto possível disso. Ela chamou Gelert e foi andando na frente, brincando com o cachorro e dando-lhes a privacidade que provavelmente estavam esperando. Quando olhou para trás, viu que os dois estavam de mãos dadas.

Maud não perdia tempo, pensou Ethel. Pelo que tinha dito na véspera, havia 10 anos que não encontrava Walter. E, mesmo naquela época, os dois não tiveram um romance propriamente dito, houvera apenas uma atração não declarada. Algo devia ter acontecido na noite anterior. Talvez eles tivessem ficado acordados até tarde conversando. Maud flertava com todo mundo – era assim que conseguia lhes arrancar informações –, mas estava claro que aquilo ali era mais sério.

Pouco depois, Ethel ouviu Walter entoar o trecho de uma canção. Maud juntou-se a ele, então os dois pararam de cantar e riram. Maud adorava música e tocava piano muito bem, ao contrário de Fitz, que não tinha nenhum ouvido musical. Parecia que Walter também tinha talento para a música. Sua voz era um barítono leve, agradável, que faria bonito na Capela de Bethesda, pensou Ethel.

Ela tornou a pensar no seu trabalho. Não tinha visto pares de sapatos engraxados diante da porta de nenhum dos quartos. Precisava ir atrás dos engraxates e lhes dizer para se apressarem. Aflita, perguntou-se que horas seriam. Se aquele passeio se estendesse demais, ela precisaria insistir para que voltassem para a casa.

Olhou para trás, mas desta vez não viu Walter nem Maud. Teriam parado de andar, ou seguido em outra direção? Ela ficou um ou dois minutos no mesmo lugar, mas não podia passar a manhã inteira ali, esperando, de modo que voltou por entre as árvores pelo caminho que tinha percorrido anteriormente.

Não tardou a encontrá-los. Os dois estavam abraçados e se beijavam com paixão. Walter segurava Maud pelas nádegas e a apertava contra si. Suas bocas estavam abertas e Ethel ouviu Maud soltar um gemido.

Não conseguia desgrudar os olhos deles. Imaginou se um dia algum homem iria beijá-la daquele jeito. Llewellyn Espinhento a havia beijado na praia durante um passeio da igreja, mas não com a boca aberta e os corpos colados, e com certeza não a ponto de Ethel gemer. O pequeno Dai Costeletas, filho do açougueiro, enfiara a mão debaixo da sua saia no Palace Cinema, a sala de cinema de Cardiff, mas ela a afastara depois de alguns segundos. Tinha gostado de verdade de Llewellyn Davies, filho de um professor. O rapaz havia lhe ensinado sobre o governo liberal e dito que seus seios pareciam filhotes de passarinho aquecidos dentro de um ninho, mas fora embora para fazer faculdade e jamais lhe escrevera. Com esses meninos, ela havia ficado intrigada e curiosa para ir mais longe, mas nunca sentira paixão por eles. Tinha inveja de Maud.

Então Maud abriu os olhos, viu Ethel de relance e se soltou do abraço.

De repente, Gelert soltou um ganido e começou a andar em círculos com o rabo entre as pernas. Qual era o problema com ele?

Logo em seguida, Ethel sentiu um tremor no chão, como se um trem expresso estivesse passando, muito embora a ferrovia estivesse a quase dois quilômetros dali.

Maud franziu o cenho e abriu a boca para dizer alguma coisa, mas então ouviu-se um estrondo parecido com um trovão.

– Que diabo foi isso? – perguntou Maud.

Ethel sabia.

Ela deu um grito e começou a correr.

 

Billy Williams e Tommy Griffiths estavam no intervalo.

Vinham trabalhando em um veio chamado Quatro Pés, a apenas uns 550 metros da superfície, não tão profundo quanto o Nível Principal. O veio se dividia em cinco áreas, cada qual batizada com o nome de uma pista de hipismo britânica. Eles estavam na área chamada Ascot, a mais próxima do duto de subida da mina. Ambos os rapazes estavam trabalhando como ajudantes dos mineradores mais velhos. O mineiro usava o mandril, uma picareta de lâmina reta, para remover o carvão do veio, enquanto seu ajudante o jogava com uma pá dentro de um vagão. Eles haviam começado a trabalhar às seis da manhã, como de hábito, e agora, depois de algumas horas, estavam descansando um pouco, sentados no chão úmido com as costas apoiadas na lateral do túnel, deixando a brisa suave do sistema de ventilação refrescar sua pele e tomando goles generosos do chá doce e morno de suas garrafas.

Os dois tinham nascido no mesmo dia de 1898, e dali a seis meses completariam 16 anos. A diferença em seu desenvolvimento físico, tão constrangedora para Billy aos 13 anos, tinha desaparecido. Agora eram dois rapazes, de ombros largos e braços fortes, e faziam a barba uma vez por semana, embora, na verdade, não fosse necessário. Usavam apenas um calção e um par de botas, seus corpos enegrecidos por uma mistura de suor e pó de carvão. À luz mortiça das lamparinas, eles reluziam qual estátuas de deuses pagãos – impressão prejudicada apenas por suas boinas.

O trabalho era árduo, mas eles estavam acostumados. Não reclamavam de dor nas costas ou rigidez nas juntas como os homens mais velhos. Tinham energia de sobra e, nos dias de folga, arrumavam coisas igualmente extenuantes para fazer, como jogar rúgbi, cavar canteiros de flores, ou mesmo lutar boxe sem luvas no celeiro atrás do pub Two Crowns.

Billy não havia se esquecido de sua iniciação, três anos antes – na verdade, ainda ardia de indignação sempre que pensava nela. Tinha jurado a si mesmo que nunca maltrataria os novatos. Naquele mesmo dia, alertara o pequeno Bert Morgan:

– Não se espante se os homens pregarem alguma peça em você. Eles talvez o deixem no escuro por uma hora ou algo idiota desse tipo. Pessoas mesquinhas sentem prazer com mesquinharias. – Os mais velhos que estavam no elevador o fuzilaram com os olhos, mas Billy não se intimidou: sabia que estava certo, e os homens também sabiam.

Mam tinha ficado mais zangada do que Billy.

– Me diga uma coisa – dissera ela a Da, em pé no meio da sala com as mãos nas cadeiras e os olhos escuros chispando de moralismo –, como o ato de torturar meninos atende aos desígnios de Deus?

– Você é mulher, jamais entenderia – retrucara Da, uma resposta fraca e pouco típica dele.

Billy acreditava que o mundo como um todo e a mina de Aberowen em especial seriam lugares melhores se todos os homens levassem vidas tementes a Deus. Tommy, cujo pai era ateu e discípulo de Karl Marx, acreditava que o sistema capitalista logo iria se autodestruir, com um empurrãozinho da classe operária revolucionária. Os dois rapazes discutiam acaloradamente, mas continuavam a ser grandes amigos.

– Você não costuma trabalhar aos domingos – disse Tommy.

Era verdade. A mina estava fazendo turnos extras para suprir a demanda de carvão, mas, por respeito à religião, os turnos dominicais eram facultativos na Celtic Minerals. Ainda assim, apesar de sua devoção ao dia santo, Billy estava trabalhando.

– Acho que Deus quer que eu compre uma bicicleta – falou ele.

Tommy riu, mas Billy não estava brincando. A Capela de Bethesda abrira uma igreja irmã em um pequeno vilarejo a 15 quilômetros dali, e Billy era um dos membros da congregação de Aberowen que haviam se oferecido para cruzar a montanha domingo sim, domingo não para incentivar a nova capela. Se tivesse uma bicicleta, poderia ir até lá nos dias de semana à noite também e ajudar a criar uma aula de catecismo ou uma roda de oração. Havia conversado com os membros do conselho, e estes tinham concordado que Deus veria com bons olhos o fato de Billy trabalhar aos domingos durante algumas semanas.

Billy estava prestes a explicar isso quando o chão sob seus pés tremeu, ouviu-se um estrondo que parecia o fim do mundo e sua garrafa foi-lhe arrancada da mão por um vento fortíssimo.

Ele teve a sensação de que seu coração tinha parado de bater. De repente, se lembrou de que estava a meio quilômetro de profundidade, com milhões de toneladas de terra e rocha acima de sua cabeça sustentadas apenas por algumas vigas de madeira.

– Que porcaria foi essa? – perguntou Tommy com a voz amedrontada.

Billy se levantou de um salto, tremendo de medo. Ergueu a lamparina e olhou para os dois lados do túnel. Não viu fogo, pedras caídas, ou mais poeira do que o normal. Quando as reverberações cessaram, o silêncio foi completo.

– Foi uma explosão – disse ele com voz trêmula.

Era isso que todos os mineradores temiam diariamente. Uma liberação repentina de grisu poderia ser produzida por um desmoronamento de rochas, ou mesmo por algum trabalhador que perfurasse uma falha no veio de carvão. Se ninguém percebesse os sinais de alerta – ou se a concentração simplesmente aumentasse depressa demais –, o gás poderia ser inflamado pela mera faísca do casco de um pônei, pela campainha elétrica de um elevador, ou por algum mineiro estúpido que acendesse seu cachimbo, contrariando todos os regulamentos.

– Mas onde? – indagou Tommy.

– Deve ser lá embaixo, no Nível Principal... foi por isso que escapamos.

– Jesus Cristo nos ajude.

– Ele vai ajudar – disse Billy, seu terror começando a se dissipar. – Sobretudo se nós ajudarmos a nós mesmos. – Não havia sinal dos dois mineradores com quem os rapazes estavam trabalhando; ambos tinham ido passar o intervalo na área conhecida como Goodwood. Billy e Tommy precisavam tomar suas próprias decisões. – É melhor irmos para o poço.

Eles vestiram as roupas, prenderam as lamparinas nos cintos e correram até o poço por onde o ar subia, chamado de Píramo. O sinaleiro do nível intermediário, encarregado do elevador, era Dai Costeletas.

– O elevador não desce! – disse ele com a voz tomada de pânico. – Já chamei várias vezes!

Seu medo era contagioso, e Billy teve de lutar contra o próprio pânico. Depois de alguns instantes, perguntou:

– E o telefone? – O sinaleiro se comunicava com seu colega da superfície tocando uma campainha elétrica, mas telefones haviam sido instalados recentemente em ambos os pavimentos. Essas linhas eram ligadas, ainda, ao escritório do gerente da mina, Maldwyn Morgan.

– Ninguém atende – falou Dai.

– Vou tentar de novo. – O telefone ficava preso à parede ao lado do elevador. Billy o pegou e girou a manivela. – Vamos, vamos!

Uma voz vacilante atendeu.

– Alô? – Era Arthur Llewellyn, assistente do gerente.

– Espinhento, aqui é Billy Williams – gritou Billy para dentro do fone. – Onde está o Sr. Morgan?

– Ele não está aqui. O que foi aquele estrondo?

– Uma explosão dentro da mina, seu imbecil! Onde está o chefe?

– Foi a Merthyr – disse Espinhento em tom choroso.

– O que ele foi fazer em... deixa pra lá, esquece. Você tem que fazer o seguinte... Está me ouvindo, Espinhento?

– Estou. – Sua voz pareceu mais forte.

– Em primeiro lugar, mande alguém até a Capela Metodista e diga a Dai Chorão para reunir sua equipe de resgate.

– Certo.

– Depois, ligue para o hospital e peça que mandem uma ambulância para a entrada da mina.

– Alguém se machucou?

– Só pode, depois de um estrondo desses! Terceiro, diga a todos os homens no barracão de limpeza do carvão para trazerem mangueiras.

– Mangueiras de incêndio?

– O pó de carvão deve ter pegado fogo. Quarto, ligue para a delegacia e diga a Geraint que houve uma explosão. Ele vai ligar para Cardiff. – Billy não conseguia pensar em mais nada. – Entendido?

– Entendido, Billy.

Billy devolveu o fone ao gancho. Não tinha certeza quanto à eficácia de suas instruções, mas falar com Espinhento havia colocado sua mente em foco.

– Deve haver homens feridos no Nível Principal – disse ele a Dai Costeletas e Tommy. – Precisamos descer até lá.

– Não dá, o elevador não está aqui – falou Dai.

– Tem uma escada na parede do poço, não tem?

– São quase 200 metros até lá embaixo!

– Bom, se eu fosse maricas, não seria minerador, seria? – Suas palavras eram corajosas, mas no fundo ele estava com medo. A escada do poço era pouquíssimo usada e talvez não estivesse em bom estado. Bastaria um escorregão ou um degrau quebrado para ele cair e morrer.

Dai abriu a grade com um barulho metálico. O poço era de tijolos, úmido e bolorento. Um ressalto estreito rodeava horizontalmente o revestimento, passando pelo lado de fora das guias de madeira do elevador. Uma escada de ferro era sustentada por suportes em forma de L cimentados à alvenaria. Seus corrimões laterais finos e degraus estreitos não transmitiam segurança nenhuma. Billy hesitou, já arrependido de sua bravata impulsiva. Mas recuar àquela altura seria humilhante demais. Ele respirou fundo, fez uma prece silenciosa e pisou no ressalto.

Contornou a face interna do poço até chegar à escada. Limpou as mãos nas calças, agarrou os corrimões laterais e pôs os pés sobre os degraus.

Começou a descer. Podia sentir a textura áspera do ferro, e pedacinhos de ferrugem se desprendiam em suas mãos. Os suportes estavam frouxos em alguns pontos, de modo que a escada balançava de forma aflitiva sob seus pés. A lamparina presa a seu cinto produzia luz suficiente para iluminar os degraus logo abaixo dele, mas não chegava ao fundo do poço. Ele não sabia se era melhor ou pior assim.

Infelizmente, a descida lhe deu tempo para pensar. Ele se lembrou de todas as formas como um minerador podia morrer. Ser morto pela explosão em si era um fim misericordiosamente rápido, reservado aos mais sortudos. A queima do metano produzia dióxido de carbono, uma substância sufocante que os mineradores chamavam de sobra de gás. Muitos ficavam encurralados por pedras que tivessem desmoronado e podiam se esvair em sangue antes de serem socorridos. Alguns morriam de sede, com os colegas a poucos metros de distância, tentando desesperadamente abrir um túnel em meio aos destroços.

De repente, ele sentiu vontade de voltar, de subir para onde era seguro, em vez de descer rumo à destruição e ao caos. Mas não podia fazer isso, não com Tommy logo acima dele, seguindo-o escada abaixo.

– Está comigo, Tommy? – chamou ele.

A voz de Tommy soou logo acima de sua cabeça.

– Estou!

Isso encorajou Billy. Confiante outra vez, ele começou a descer mais depressa. Logo viu uma luz e, pouco depois, escutou vozes. Ao se aproximar do Nível Principal, sentiu cheiro de fumaça.

Então ouviu uma algazarra sinistra que se esforçou para compreender. Os gritos e baques assustadores ameaçaram minar sua coragem. Ele se controlou: devia haver uma explicação racional. Logo em seguida, percebeu que estava ouvindo os relinchos aterrorizados dos pôneis e o barulho que eles faziam ao escoicear as laterais de madeira das baias, desesperados para fugir. Entender isso não tornou o barulho menos perturbador: ele se sentia daquela mesma forma.

Chegou ao Nível Principal, contornou de lado a borda de tijolos, abriu a grade por dentro e, com uma sensação de alívio, pisou o chão enlameado. A luz subterrânea, que já era fraca, estava mais tênue ainda graças a um resquício de fumaça, mas ele podia ver os túneis principais.

O sinaleiro do nível inferior era Patrick O’Connor, um homem de meia-idade, que havia perdido uma das mãos em um desabamento de teto. Católico, seu apelido inevitável era Pat Papa. Ele encarou o rapaz com incredulidade.

– Billy com Jesus! – exclamou. – De onde diabos você surgiu?

– Do veio Quatro Pés – respondeu Billy. – Nós ouvimos o estrondo.

Tommy saiu do poço do elevador atrás de Billy e perguntou:

– O que houve, Pat?

– Até onde eu consigo entender, a explosão deve ter acontecido na outra extremidade deste nível, perto do Tisbe – disse Pat. – O subgerente e todos os outros foram lá ver. – Ele falava com calma, mas havia desespero em seu olhar.

Billy foi até o telefone e girou a manivela. Instantes depois, ouviu a voz do pai.

– Williams falando, quem é?

Billy não parou para se perguntar por que um sindicalista estava atendendo ao telefone do gerente da mina. Em uma emergência, tudo podia acontecer.

– Da, sou eu, Billy.

– Você está bem! Que Deus seja louvado em Sua misericórdia – respondeu seu pai com a voz embargada, voltando logo em seguida a falar com a rispidez habitual. – Me diga o que sabe, rapaz.

– Eu e Tommy estávamos no veio Quatro Pés. Descemos pelo Píramo até o Nível Principal. Achamos que a explosão foi para os lados do Tisbe. Tem um pouco de fumaça, não muita. Mas o elevador não está funcionando.

– O guindaste foi danificado pela explosão – disse-lhe o pai com a voz calma. – Mas já estamos cuidando disso e ele vai estar funcionando em alguns minutos. Reúna o máximo de homens que conseguir no fundo do poço para podermos começar a tirá-los daí assim que o elevador estiver consertado.

– Vou dizer a eles.

– O poço do Tisbe está totalmente fora de combate, então cuide para que ninguém tente fugir por lá: eles podem ficar encurralados pelo fogo.

– Certo.

– Há máscaras de gás em frente à sala do subgerente.

Billy sabia disso. Era uma inovação recente, uma exigência do sindicato tornada obrigatória pela Lei das Minas de Carvão de 1911.

– O ar não está muito ruim agora – disse ele.

– Talvez não aí onde você está, mas lá para dentro pode estar pior.

– Certo. – Billy colocou o fone no gancho.

Então repetiu para Pat e Tommy o que o pai tinha dito. Pat apontou para uma fileira de escaninhos novos.

– A chave deve estar no escritório.

Billy correu até a sala do subgerente, mas não viu chave nenhuma. Imaginou que deveriam estar presas ao cinto de alguém. Tornou a olhar para a fileira de escaninhos, todos identificados com as palavras “Máscaras de gás”. Os compartimentos eram feitos de latão.

– Pat, você tem um pé de cabra? – perguntou.

O sinaleiro tinha um kit de ferramentas para pequenos consertos. Estendeu ao rapaz uma chave de fenda parruda. Billy arrombou com facilidade o primeiro escaninho.

Estava vazio.

O rapaz ficou olhando para aquilo, incrédulo.

– Eles nos enganaram! – exclamou Pat.

– Capitalistas desgraçados – disse Tommy.

Billy abriu outro escaninho. Também estava vazio. Arrombou os demais com uma violência selvagem, como se quisesse revelar a desonestidade da Celtic Minerals e de Perceval Jones.

– Podemos nos virar sem elas – disse Tommy.

Tommy estava impaciente para começar logo a busca, mas Billy tentava colocar os pensamentos em ordem. Seus olhos recaíram sobre o vagão anti-incêndio. Aquilo era o que a gerência tinha a coragem de chamar de carro de bombeiros: um vagão de carvão cheio d’água equipado com uma bomba manual. Ainda assim, não era de todo inútil: Billy já o vira em ação após uma ocorrência daquilo que os mineradores chamavam de “clarão”, quando uma pequena quantidade de grisu entrava em combustão junto ao teto da mina e todos tinham de se jogar no chão. Às vezes, o clarão fazia o pó de carvão nas paredes dos túneis pegar fogo, de modo que era preciso borrifá-las com água.

– Vamos levar o vagão anti-incêndio – gritou ele para Tommy.

O vagão já estava sobre os trilhos e, juntos, os dois conseguiram empurrá-lo. Billy cogitou atrelar um dos pôneis ao vagão, mas logo concluiu que isso levaria tempo demais, sobretudo considerando o estado de pânico dos animais.

– Meu filho Micky está trabalhando na área de Marigold – disse Pat Papa –, mas eu não posso ir procurar por ele. Tenho que ficar aqui. – Sua expressão traía todo o seu desespero, mas em caso de emergência o sinaleiro precisava ficar junto ao poço: essa regra era inflexível.

– Vou ficar atento para ver se o encontro – prometeu Billy.

– Obrigado, Billy.

Os dois rapazes saíram empurrando o vagão pelo trilho principal. Os vagões não tinham freio: para desacelerá-los, os condutores enfiavam um toco de madeira grosso entre os raios das rodas. Muitas mortes e incontáveis ferimentos eram causados por vagões desgovernados.

– Mais devagar – disse Billy.

Eles haviam avançado pouco menos de 500 metros quando a temperatura subiu e a fumaça se tornou mais espessa. Logo ouviram vozes. Seguindo o som, entraram em um túnel secundário. Era o trecho do veio de carvão que estava sendo explorado no momento. De ambos os lados do túnel, Billy conseguia ver, a intervalos regulares, as entradas dos postos de trabalho dos mineradores, em geral chamados de portões, mas às vezes apenas de buracos. À medida que o barulho foi aumentando, eles pararam de empurrar o vagão e olharam para a frente.

O túnel estava pegando fogo. Labaredas se erguiam das paredes e do chão. Um grupo de homens estava parado à beira do incêndio, seus vultos recortados contra o brilho das chamas como se fossem almas no inferno. Um deles segurava um cobertor, com o qual batia inutilmente em uma pilha de madeira em combustão. Outros gritavam; ninguém dava ouvidos. Ao longe, mal se podia distinguir um comboio de vagões. A fumaça tinha um cheiro estranho de carne assada e Billy percebeu, nauseado, que deveria vir do pônei que puxava os vagões.

– O que está acontecendo? – perguntou Billy a um dos homens.

– Alguns mineradores estão presos nos portões... mas não conseguimos chegar até eles.

Billy viu que o homem era Rhys Price. Não era de espantar que nada estivesse sendo feito.

– Nós trouxemos o vagão anti-incêndio – disse ele.

Outro homem se virou na sua direção e ele ficou aliviado ao ver John Jones da Loja, que tinha mais tino do que o subgerente.

– Bom trabalho! – exclamou Jones. – Peguem a mangueira e vamos molhar isso tudo.

Billy desenrolou a mangueira enquanto Tommy conectava a bomba. Billy mirou o jato d’água no teto do túnel para que ela escorresse pelas paredes. Logo percebeu que o sistema de ventilação da mina, que fazia o ar descer pelo Tisbe e subir pelo Píramo, estava empurrando as chamas e a fumaça em sua direção. Assim que tivesse uma oportunidade, pediria aos homens da superfície para inverter os ventiladores. Ventiladores reversíveis tinham passado a ser obrigatórios – mais uma exigência da Lei de 1911.

Apesar da dificuldade, o fogo começou a arrefecer e Billy foi conseguindo avançar aos poucos. Depois de alguns minutos, o portão mais próximo já estava livre das chamas. Na mesma hora, dois mineradores saíram correndo lá de dentro, sorvendo com um arquejo o ar relativamente puro do túnel. Billy reconheceu os irmãos Ponti, Giuseppe e Giovanni, conhecidos como Joey e Johnny.

Alguns homens entraram correndo no portão. John Jones saiu trazendo o vulto desfalecido do cavalariço Dai dos Pôneis. Billy não conseguiu determinar se ele estava morto ou apenas desmaiado.

– Leve-o para o Píramo, não para o Tisbe – disse.

Price interveio:

– Quem é você para dar ordens, Billy com Jesus?

Billy não iria perder tempo discutindo com Price. Falou diretamente a Jones.

– Eu telefonei para a superfície. O Tisbe está muito danificado, mas o elevador do Píramo deve voltar a funcionar em breve. Eles me disseram para mandar todo mundo para o Píramo.

– Certo, vou espalhar a notícia – falou Jones, afastando-se em seguida.

Billy e Tommy continuaram a combater o incêndio, liberando mais portões e deixando sair outros homens que estavam presos. Alguns sangravam, muitos tinham queimaduras leves e um ou outro, ferimentos causados por desabamentos. Os que conseguiam andar carregavam os mortos e os gravemente feridos numa procissão macabra.

A água não demorou a acabar.

– Vamos empurrar o vagão de volta e enchê-lo no poço do fundo do Píramo – disse Billy.

Juntos, os dois retornaram depressa por onde tinham vindo. O elevador ainda não voltara a funcionar. Àquela altura, cerca de uma dúzia de mineradores resgatados aguardavam e havia vários corpos dispostos no chão, alguns grunhindo de dor, outros assustadoramente imóveis. Enquanto Tommy enchia o vagão de água barrenta, Billy pegou o telefone. Novamente, quem atendeu foi seu pai.

– O guindaste vai estar funcionado daqui a cinco minutos – disse ele. – Como estão as coisas aí embaixo?

– Tiramos alguns mortos e feridos dos portões. Mandem vagões cheios d’água assim que possível.

– E você?

– Eu estou bem. Escute, Da, vocês têm que reverter os ventiladores. Façam o ar descer pelo Píramo e subir pelo Tisbe. Isso vai soprar a fumaça e a sobra de gás para longe das equipes de resgate.

– Não dá para fazer isso – disse-lhe o pai.

– Mas é a lei... a ventilação da mina tem que ser reversível!

– Perceval Jones contou uma história triste para os inspetores e eles lhe deram mais um ano para adaptar os ventiladores.

Billy teria soltado um palavrão se estivesse falando com qualquer outra pessoa que não seu pai.

– E ligar os borrifadores... isso vocês podem fazer?

– Sim, podemos – respondeu Da. – Por que não pensei nisso antes? – Ele falou com alguma outra pessoa.

Billy pôs o fone no gancho. Em seguida, foi ajudar Tommy a encher o vagão d’água, revezando-se na bomba manual, o que levou algum tempo. O fluxo de homens vindos da área afetada diminuiu, enquanto o incêndio prosseguia descontrolado. Por fim, conseguiram encher o vagão e começaram a voltar.

Os borrifadores foram ligados, mas, quando Billy e Tommy chegaram ao local do incêndio, descobriram que a água que saía do cano estreito preso ao teto não bastava para apagar as chamas. Àquela altura, no entanto, Jones da Loja já havia organizado os homens. Estava mantendo consigo os sobreviventes que não tinham se machucado, para que pudessem ajudar no resgate, e mandando os feridos que conseguissem andar para o poço. Assim que Billy e Tommy conectaram a mangueira, ele a agarrou de suas mãos e ordenou que outro homem acionasse a bomba.

– Vocês dois, voltem lá e peguem outro vagão d’água! – ordenou ele. – Assim não precisamos parar.

– Certo – disse Billy, porém, antes de se virar para voltar, algo chamou sua atenção. Um vulto surgiu correndo por entre as chamas com as roupas pegando fogo. – Meu Deus! – exclamou Billy, horrorizado. Enquanto ele olhava, o mineiro tropeçou e caiu no chão.

– Jogue água em mim! – gritou Billy para Jones. Sem esperar resposta, ele saiu correndo para dentro do túnel. Sentiu um jato d’água atingir suas costas. O calor era terrível. Seu rosto ardia e suas roupas fumegavam. Ele agarrou o corpo caído pelas axilas e o puxou, começando a correr de costas. Não conseguia distinguir seu rosto, mas podia ver que era um rapaz da sua idade.

Jones continuava com a mangueira mirada em Billy, encharcando seus cabelos, costas e pernas, mas a parte da frente de seu corpo estava seca e o rapaz podia sentir a pele queimar. Soltou um grito de dor, mas conseguiu não largar o homem inconsciente. Segundos depois, saiu do meio das labaredas. Virou-se para que Jones pudesse molhá-lo de frente. O alívio da água sobre seu rosto foi uma bênção: embora ainda sentisse dor, era suportável.

Jones molhou o rapaz estendido no chão. Billy o virou de frente e viu que era Michael O’Connor, conhecido como Micky Papa, filho de Pat. Pat havia pedido a Billy para procurá-lo.

– Bom Jesus, tenha piedade de Pat – disse Billy.

Curvando-se, ele ergueu Micky do solo. Seu corpo estava flácido, sem vida.

– Vou levá-lo até o poço – falou.

– Está bem – disse Jones. Ele fitava Billy com uma expressão estranha no rosto. – Faça isso, Billy.

Tommy o acompanhou. Billy estava zonzo, mas conseguiu carregar Micky. No trilho principal, eles cruzaram com uma equipe de resgate trazendo um pônei que puxava um pequeno comboio de vagões cheios d’água. Eles deveriam ter vindo lá de cima, o que significava que o elevador tinha voltado a funcionar e o resgate já estava sendo conduzido de forma adequada, raciocinou Billy, cansado.

Ele tinha razão. Quando se aproximou do poço, o elevador tornou a chegar e dele emergiu mais um grupo de resgate, usando roupas protetoras e trazendo outros vagões cheios d’água. Depois que os recém-chegados se dispersaram, seguindo em direção ao incêndio, os feridos começaram a embarcar no elevador, carregando os mortos e os inconscientes.

Logo após Pat Papa fazer subir o elevador, Billy foi até onde ele estava, carregando Micky nos braços.

Pat encarou Billy com uma expressão de terror, sacudindo a cabeça em recusa, como se pudesse negar o que estava acontecendo.

– Sinto muito, Pat – disse Billy.

Pat não se permitia olhar para o corpo.

– Não – disse ele. – O meu Micky, não.

– Eu o tirei do fogo, Pat – falou Billy. – Só que não teve jeito, foi tarde demais... – E então começou a chorar.

 

Sob todos os aspectos, o jantar fora um sucesso. Bea estava de ótimo humor: se dependesse dela, eles receberiam hóspedes reais todas as semanas. Fitz a havia visitado em sua cama e, conforme esperava, ela o recebera de bom grado. Ele ficou lá até de manhã, só se retirando pouco antes de Nina subir com o chá.

Fitz temia que o debate entre os homens tivesse sido controverso demais para um jantar real, mas não precisava ter se preocupado. Na hora do café, o rei lhe agradeceu dizendo:

– Uma conversa fascinante, muito esclarecedora, exatamente o que eu queria. – Fitz ficou radiante de tanto orgulho.

Refletindo sobre o assunto enquanto fumava seu charuto matinal, Fitz percebeu que a perspectiva de uma guerra não o deixava horrorizado. Havia falado em tragédia de forma um tanto automática, mas a guerra não seria de todo ruim. Um conflito uniria a nação contra um inimigo comum e apaziguaria as chamas da rebelião. Não haveria mais greves, e qualquer referência ao republicanismo seria vista como antipatriota. Quem sabe até as mulheres parassem de reivindicar o direito de voto. E, de um ponto de vista pessoal, ele se descobriu estranhamente atraído pela ideia. Seria sua oportunidade de se mostrar útil, provar sua coragem, servir ao seu país e fazer algo para retribuir a riqueza e o privilégio de que gozara a vida inteira.

A notícia sobre a explosão na mina, que chegara à Tŷ Gwyn no meio da manhã, levou embora a alegria da festa. Somente um dos hóspedes já estivera em Aberowen: o americano Gus Dewar. Mesmo assim, todos ficaram com a sensação – pouco habitual para eles – de estarem fora do centro das atenções. O almoço foi desanimado e os passatempos da tarde tiveram que ser cancelados. Fitz temeu que o rei fosse ficar contrariado com ele, muito embora o conde não tivesse nenhum envolvimento com a operação da mina. Não era diretor, tampouco acionista da Celtic Minerals. Apenas cedia os direitos de exploração à empresa, que lhe pagava um royalty por cada tonelada de carvão extraída. Portanto, tinha certeza de que nenhuma pessoa sensata poderia culpá-lo pelo ocorrido. Apesar disso, a nobreza não poderia ser vista se dedicando a frivolidades enquanto havia homens encurralados debaixo da terra, sobretudo durante uma visita do rei e da rainha. Isso significava que ler e fumar eram praticamente as únicas atividades aceitáveis. O casal real com certeza ficaria entediado.

Fitz se irritou com aquilo. Homens morriam o tempo todo: soldados perdiam a vida em combate, marinheiros naufragavam com seus navios, trens descarrilavam, hotéis lotados de hóspedes adormecidos pegavam fogo. Por que uma tragédia na mina tinha de acontecer justamente quando ele estava hospedando o rei?

Pouco antes do jantar, Perceval Jones, prefeito de Aberowen e presidente da Celtic Minerals, apareceu para dar informações ao conde, e Fitz perguntou a Sir Alan Tite se o rei gostaria de ouvir seu relato. A resposta foi que sim, Sua Majestade gostaria de participar do encontro, o que deixou Fitz aliviado: pelo menos o monarca teria alguma coisa para fazer.

Os convidados estavam reunidos na sala de estar pequena, um cômodo informal mobiliado com poltronas estofadas, vasos de plantas e um piano. Jones estava de fraque preto, sem dúvida o mesmo que usara para ir à igreja pela manhã. Baixo e pomposo, pavoneava-se com seu colete cinza transpassado.

O rei usava um traje de gala.

– Que gentileza a sua ter vindo – disse ele.

– Tive a honra de apertar a mão de Vossa Majestade em 1911 – falou Jones –, quando o senhor foi a Cardiff para a investidura do príncipe de Gales.

– Folgo em vê-lo de novo, embora lamente que seja em circunstâncias tão difíceis – retrucou o rei. – Conte-me o que aconteceu sem rodeios, como se estivesse explicando para um de seus colegas da diretoria enquanto toma um drinque no clube.

Uma abordagem inteligente, pensou Fitz. Ela estabelecia o tom certo, embora ninguém tivesse oferecido uma bebida a Jones e o rei tampouco o tivesse convidado a se sentar.

– Vossa Majestade é muito gentil. – Jones falava com um sotaque de Cardiff, mais duro do que o falar cadenciado dos vales. – Havia 220 homens na mina quando a explosão ocorreu, menos do que o normal, já que hoje é um turno especial de domingo.

– O senhor sabe o número exato? – quis saber o rei.

– Sabemos, sim, senhor, nós anotamos o nome de cada homem que desce.

– Perdoe-me a interrupção. Por favor, continue.

– Os dois elevadores foram danificados, mas as equipes de combate a incêndio controlaram as chamas com o auxílio do nosso sistema de irrigação e conseguiram evacuar os homens. – Ele olhou para o relógio. – Há duas horas, 215 já haviam sido levados para a superfície.

– O senhor parece ter lidado com a emergência de forma muito eficiente, Jones.

– Muito agradecido, Vossa Majestade.

– Todos os 215 estão vivos?

– Não, senhor. Oito morreram. Outros 50 têm ferimentos graves o suficiente para precisar de um médico.

– Que tristeza – comentou o rei.

Enquanto Jones explicava as providências que estavam sendo tomadas para localizar e resgatar os cinco homens restantes, Peel entrou na sala e veio na direção de Fitz. O mordomo trajava seu uniforme de gala, pronto para servir o jantar. Falando em voz muito baixa, disse:

– Só para o caso de a informação interessar, meu amo...

– Sim? – sussurrou Fitz.

– A criada Williams acabou de voltar da entrada da mina. Parece que o irmão dela foi uma espécie de herói. Será que o rei gostaria de ouvir a história em primeira mão...?

Fitz pensou um pouco. Williams estaria abalada e talvez acabasse falando o que não devia. Por outro lado, o rei provavelmente gostaria de falar com alguém diretamente afetado pela explosão. Ele decidiu arriscar.

– Vossa Majestade – disse ele. – Uma das minhas criadas acabou de chegar da entrada da mina e talvez tenha notícias mais atualizadas. O irmão dela estava lá embaixo quando o gás explodiu. O senhor gostaria de lhe fazer algumas perguntas?

– Sim, muito – respondeu o rei. – Por favor, mande-a entrar.

Pouco depois, Ethel Williams entrou na sala. Seu uniforme estava sujo de pó de carvão, mas ela havia lavado o rosto. Fez uma reverência, e o rei disse:

– Quais são as últimas notícias?

– Vossa Majestade, há cinco homens presos na área de Carnation por causa de um desabamento. A equipe de resgate está escavando os destroços, mas o incêndio ainda não foi debelado.

Fitz reparou que a atitude do rei diante de Ethel era ligeiramente diferente. Ele mal olhara para Perceval Jones, tamborilando os dedos no braço da cadeira com inquietação enquanto o escutava. Já Ethel ele olhava nos olhos, parecendo mais interessado nela. Com uma voz mais suave, perguntou:

– O que o seu irmão diz?

– A explosão pôs fogo no pó de carvão, e foi isso que causou o incêndio. O fogo encurralou muitos homens nos seus postos de trabalho, sendo que alguns morreram sufocados. Meu irmão e os outros não conseguiram resgatá-los porque não havia máscaras de gás.

– Isso não é verdade – disse Jones.

– Parece-me que é, sim – interveio Gus Dewar, contradizendo-o. Como sempre, o americano soava um pouco titubeante, porém se esforçou para falar com firmeza. – Eu conversei com alguns dos homens que estavam subindo. Segundo eles, os escaninhos que diziam “Máscaras de gás” na verdade estavam vazios. – Ele parecia estar contendo sua raiva.

– E eles não conseguiram apagar o fogo porque não havia água suficiente lá embaixo – acrescentou Ethel Williams. Seus olhos chispavam de fúria de um jeito que Fitz achou encantador, e ele sentiu o coração parar de bater por um instante.

– Há um carro de bombeiros! – protestou Jones.

Gus Dewar tornou a intervir:

– Um vagão de carvão cheio d’água e uma bomba manual.

– Eles deveriam ter conseguido reverter o fluxo da ventilação – continuou Ethel Williams –, mas o Sr. Jones não tinha modificado o equipamento como manda a lei.

Jones parecia indignado.

– Não foi possível...

Fitz o interrompeu:

– Fique tranquilo, Jones, isto aqui não é um inquérito público. Sua Majestade quer apenas saber qual é a impressão das pessoas.

– Exatamente – disse o rei. – Mas talvez o senhor possa me aconselhar em relação a um assunto, Jones.

– Seria uma honra.

– Eu estava planejando visitar Aberowen e alguns dos vilarejos vizinhos amanhã de manhã, e inclusive encontrar com o senhor na prefeitura. Porém esta não me parece uma boa hora para um cortejo real.

Sir Alan, que estava sentado atrás do ombro esquerdo do rei, balançou a cabeça e murmurou:

– Fora de cogitação.

– Por outro lado – prosseguiu o rei –, não me parece correto ir embora sem fazer qualquer pronunciamento em relação à tragédia. O povo pode interpretar isso como indiferença da nossa parte.

Fitz pressentiu que havia um conflito entre o rei e seus subordinados. Estes provavelmente queriam cancelar a visita, imaginando que seria a atitude menos arriscada. O rei, por sua vez, sentia a necessidade de se manifestar de alguma forma.

Houve um silêncio enquanto Perceval refletia sobre o assunto. Quando ele falou, disse apenas:

– É uma escolha difícil.

– Posso dar uma sugestão? – disse Ethel Williams.

Peel ficou indignado.

– Williams! – sibilou ele. – Só fale quando lhe dirigirem a palavra!

Fitz ficou pasmo com a insolência de Ethel diante do rei. Tentou manter a voz calma enquanto dizia:

– Talvez mais tarde, Williams.

O rei, no entanto, sorriu. Para alívio de Fitz, parecia simpatizar bastante com Ethel.

– Talvez possamos ouvir o que esta jovem tem a propor – disse ele.

Era tudo de que Ethel precisava. Sem mais delongas, ela falou:

– O senhor e a rainha deveriam visitar as famílias dos mortos. Nada de cortejo, só uma carruagem puxada por cavalos pretos. Isso significaria muito para elas. E todos ficariam maravilhados com Vossa Majestade. – Ela mordeu o lábio e se calou.

A última frase de Ethel contrariava as regras da etiqueta, pensou Fitz, nervoso. O rei não precisava fazer as pessoas acharem que ele era maravilhoso.

Sir Alan ficou horrorizado.

– Isso nunca foi feito antes – disse com pavor.

Contudo, o rei parecia intrigado com a ideia.

– Visitar os familiares... – disse ele, pensativo. Voltou-se para seu camarista. – Por Deus, Alan, eu considero isso de suma importância. Consolar meus súditos num momento de aflição. Nada de cortejo, só uma carruagem. – Ele tornou a se virar para a criada. – Muito bem, Williams – disse ele. – Obrigado pela sua sugestão.

Fitz deu um suspiro de alívio.

 

No fim das contas, é claro, houve mais do que uma carruagem. O rei e a rainha seguiram na primeira, acompanhados de Sir Alan e de uma dama de companhia, e Fitz e Bea seguiram em uma segunda, junto com o bispo, enquanto uma carruagem aberta puxada por apenas um cavalo trazia diversos empregados. Perceval Jones quisera fazer parte da comitiva, mas Fitz havia vetado a ideia. Conforme Ethel tinha assinalado, os familiares poderiam tentar esganá-lo.

Ventava bastante e uma chuva fria fustigava os cavalos à medida que trotavam pela longa estrada de acesso, saindo de Tŷ Gwyn. Ethel estava na terceira carruagem. Por causa do trabalho do pai, ela conhecia bem todas as famílias de mineradores de Aberowen. Era a única pessoa em Tŷ Gwyn a saber o nome de todos os mortos e feridos. Havia indicado o caminho aos condutores das carruagens e caberia a ela lembrar ao camarista do rei quem era quem. Seus dedos estavam cruzados. Aquilo fora ideia sua e, caso desse errado, a responsabilidade também seria.

Quando eles saíram pelos portões de ferro imponentes, ela ficou impressionada, como sempre, com a transição repentina. Dentro da propriedade tudo era ordem, charme e beleza; do lado de fora reinava a feiura do mundo real. Uma sequência de cabanas de agricultores ladeava a estrada, casas minúsculas de dois cômodos, com pedaços de madeira e ferro-velho espalhados na frente e uma ou outra criança suja brincando no valão. Logo depois, começavam as casas geminadas dos mineradores, melhores do que as dos agricultores, mas ainda assim toscas e sem graça para olhos como os de Ethel, estragados pela simetria perfeita das janelas, portas e telhados de Tŷ Gwyn. As pessoas ali usavam roupas de má qualidade, que logo ficavam deformadas e puídas, além de serem tingidas com corantes que desbotavam, de modo que todos os homens usavam ternos em tons de cinza e todas as mulheres, vestidos amarronzados. O uniforme de criada de Ethel era motivo de cobiça devido à sua saia de lã quentinha e à blusa de algodão bem engomada, por mais que algumas das moças gostassem de dizer que jamais se rebaixariam a ponto de trabalhar como criadas. A maior diferença, contudo, estava nas próprias pessoas. Todos ali tinham a pele marcada, os cabelos sujos e as unhas pretas. Os homens tossiam, as mulheres fungavam e as crianças viviam com o nariz ranhoso. Os pobres arrastavam os pés e mancavam pelas ruas, enquanto os ricos andavam a passos largos, cheios de confiança.

As carruagens desceram a encosta da montanha até o conjunto de casas geminadas de Mafeking Terrace. A maioria dos moradores estava enfileirada à beira da rua, mas não havia bandeiras e ninguém deu vivas quando a comitiva parou em frente ao número 19. Os súditos apenas se curvaram e fizeram suas mesuras.

Ethel saltou da carruagem e dirigiu-se em voz baixa a Sir Alan.

– Sian Evans, cinco filhos, perdeu o marido David Evans, cavalariço da mina. – David Evans, cujo apelido era Dai dos Pôneis, era conhecido de Ethel e membro do conselho da Capela de Bethesda.

Sir Alan assentiu e Ethel se apressou a dar um passo para trás enquanto ele sussurrava no ouvido do rei. Ethel lançou um olhar para Fitz, que lhe meneou a cabeça em sinal de aprovação. Ela se sentiu radiante. Estava ajudando o rei – e o conde estava satisfeito com ela.

O rei e a rainha foram até a porta da casa. A tinta estava descascando, mas o degrau de madeira tinha sido encerado. Nunca pensei que fosse ver o rei batendo à porta da casa de um minerador, pensou Ethel. O monarca vestia um fraque e uma cartola preta. Ethel havia recomendado enfaticamente a Sir Alan que os moradores de Aberowen não iriam querer ver o seu rei vestido com o mesmo tipo de terno de tweed que eles próprios poderiam usar.

A porta foi aberta pela viúva, que usava seu melhor vestido e chapéu inclusive. Fitz havia sugerido que o rei surpreendesse as pessoas com a sua presença, mas Ethel tinha sido contra e Sir Alan concordara com ela. Ao visitar de surpresa uma família enlutada, o casal real corria o risco de se deparar com homens embriagados, mulheres seminuas e crianças engalfinhadas. Era melhor deixar todos de sobreaviso.

– Bom dia, eu sou o rei – disse ele, erguendo a cartola com educação. – Estou falando com a Sra. David Evans?

A mulher ficou sem ação por um instante. Estava mais acostumada a ser chamada de Sra. Dai dos Pôneis.

– Vim dizer quanto sinto pelo seu marido, David – falou o rei.

A Sra. Dai dos Pôneis parecia nervosa demais para sentir qualquer emoção.

– Muito agradecida – disse ela, tensa.

Ethel percebeu que aquilo era formal demais. O rei estava tão pouco à vontade quanto a viúva. Nenhum dos dois conseguia dizer o que realmente sentia.

Então a rainha tocou o braço da Sra. Dai.

– Deve ser muito difícil para você, minha cara – comentou.

– Sim, senhora, é, sim – falou a viúva com um sussurro, desatando a chorar em seguida.

Ethel enxugou uma lágrima do próprio rosto.

O rei estava constrangido, mas, para lhe fazer justiça, manteve a compostura e murmurou:

– É triste, muito triste.

A viúva soluçava descontroladamente, mas parecia presa ao chão e não desviou o rosto. Não havia nada de gracioso na dor, viu Ethel: o rosto da Sra. Dai estava todo vermelho, sua boca aberta mostrava que ela já havia perdido metade dos dentes e seus soluços eram roucos de desespero.

– Calma, calma – disse a rainha. Ela pressionou seu lenço contra a palma da mão da Sra. Dai. – Tome isto.

A Sra. Dai tinha menos de 30 anos, porém a artrite havia deixado suas mãos nodosas e cheias de calombos, como as de uma velha. Ela enxugou o rosto com o lenço da rainha. Seus soluços se aquietaram.

– Ele era um homem bom, senhora – disse ela. – Nunca levantou a mão para mim.

A rainha não soube o que dizer sobre um homem cuja virtude era não bater na mulher.

– Ele era bom até com seus pôneis – acrescentou a Sra. Dai.

– Tenho certeza que sim – falou a rainha, novamente em terreno conhecido.

Um menino pequeno surgiu das profundezas da casa e agarrou-se à saia da mãe. O rei fez outra tentativa:

– Soube que a senhora tem cinco filhos – falou.

– Ah, meu senhor, o que eles vão fazer sem pai?

– É muito triste – repetiu o rei.

Sir Alan pigarreou e o rei disse:

– Estamos indo visitar outras pessoas na mesma situação penosa que a senhora.

– Ah, meu senhor, foi muita gentileza sua vir até aqui. Não posso nem lhe dizer quanto isso significa para mim. Obrigada, obrigada.

O rei se virou para ir embora.

– Rezarei pela senhora esta noite, Sra. Evans – disse a rainha. Então saiu atrás do rei.

Enquanto eles subiam em sua carruagem, Fitz entregou um envelope à Sra. Dai. Ethel sabia que lá dentro havia cinco soberanos de ouro e um bilhete, escrito à mão no papel de carta azul de Tŷ Gwyn, que dizia: “O conde Fitzherbert deseja que a senhora aceite esta prova de seus profundos sentimentos.”

Isso também havia sido ideia de Ethel.

 

Uma semana depois da explosão, Billy foi à capela com seu pai, sua mãe e seu avô.

A Capela de Bethesda era um recinto quadrado, de paredes caiadas e sem nenhum quadro pendurado. As cadeiras ficavam dispostas em fileiras bem-arrumadas ao longo dos quatro lados de uma mesa simples. Em cima da mesa, um pão branco sobre um prato de porcelana e uma jarra de xerez barato – o pão e vinho simbólicos. O serviço religioso não era chamado de comunhão nem de missa, mas apenas de partilha do pão.

Às 11 horas, a congregação de mais ou menos uma centena de fiéis já estava acomodada, os homens com seus ternos mais elegantes, as mulheres de chapéu, as crianças limpas e irrequietas nas fileiras de trás. Não havia ritual definido: os homens agiam conforme os desígnios do Espírito Santo – recitavam preces, entoavam hinos, liam trechos da Bíblia, ou faziam sermões curtos. As mulheres, é claro, ficavam caladas.

Na prática, havia um padrão estabelecido. A primeira prece era sempre recitada por um dos membros do conselho, que então partia o pão e entregava o prato à pessoa mais próxima. Cada membro da congregação, com exceção das crianças, pegava um pedacinho e comia. Depois o vinho era passado de mão em mão e todos bebiam da jarra, as mulheres dando pequenos goles, enquanto alguns dos homens tomavam uma generosa talagada. Depois disso, todos ficavam sentados em silêncio até alguém se inspirar a dizer alguma coisa.

Quando Billy havia perguntado ao pai com que idade deveria começar a se pronunciar durante o serviço, Da respondera:

– Não existe regra. Nós nos deixamos guiar pelo Espírito Santo. – Billy interpretara aquilo ao pé da letra. Quando lhe vinha à cabeça a primeira estrofe de algum hino em algum momento durante a hora que passavam reunidos, ele tomava isso como um incentivo do Espírito Santo, levantando-se para entoá-lo. Agir assim na sua idade era um tanto precoce, e ele sabia disso, mas a congregação havia aceitado. A história de como Jesus tinha aparecido para ele em seu primeiro dia na mina fora contada em metade das capelas das minas de Gales do Sul, de modo que Billy era considerado um rapaz especial.

Naquela manhã, todas as preces pediam consolo para as famílias enlutadas, sobretudo para a Sra. Dai dos Pôneis, sentada entre os fiéis com o rosto coberto por um véu e o filho mais velho, que parecia amedrontado, ao lado. Da pediu a Deus que tivesse a generosidade de perdoar a maldade dos donos da mina, que haviam ignorado as leis relativas às máscaras de gás e à ventilação reversível. Billy, no entanto, sentia que faltava alguma coisa. Era simples demais pedir apenas por consolo. Ele queria ajuda para entender como a explosão se encaixava no plano de Deus.

Billy nunca havia recitado uma prece. Muitos dos homens oravam com frases bonitas e citações das Escrituras, quase como se estivessem fazendo um sermão. Mas o rapaz desconfiava que Deus não se deixasse impressionar com tanta facilidade. Sempre se sentia mais comovido com preces simples, que pareciam sinceras.

Por volta do final do serviço, palavras e frases começaram a ganhar forma em sua mente, e ele sentiu um forte impulso de lhes dar vazão. Interpretando isso como um sinal do Espírito Santo, acabou por se levantar.

Com os olhos bem fechados, disse:

– Ó Deus, nós Lhe pedimos esta manhã para reconfortar aqueles que perderam o marido, o pai, o filho, principalmente nossa irmã em Cristo Sra. Evans, e oramos para que os enlutados abram seus corações para receber a Sua bênção.

Isso já havia sido dito por outros. Billy fez uma pausa e então prosseguiu:

– E agora, Senhor, pedimos mais uma dádiva: a bênção da compreensão. Precisamos saber, Senhor, por que ocorreu essa explosão na mina. Todas as coisas estão em Seu poder, então por que o Senhor permitiu que o grisu enchesse o Nível Principal e pegasse fogo? Como é possível, Senhor, haver homens acima de nós, os diretores da Celtic Minerals, que em sua ganância descuidam da vida de Seus seguidores? Como a morte de homens bons e a mutilação dos corpos que o Senhor criou podem servir ao Seu desígnio sagrado?

Ele fez outra pausa. Sabia que era errado fazer exigências a Deus, como se estivesse negociando com a administração da mina, por isso acrescentou:

– Sabemos que o sofrimento do povo de Aberowen deve ter um papel em Seu plano eterno. – Pensou que talvez fosse melhor terminar por ali, mas não pôde resistir e acrescentou: – Mas, Senhor, nós não entendemos por que, então, por favor, nos explique.

Depois de uma pausa, concluiu:

– Em nome do Senhor Jesus Cristo.

E a congregação respondeu:

– Amém.

 

Os moradores de Aberowen tinham sido convidados a visitar os jardins de Tŷ Gwyn naquela tarde. Isso significava muito trabalho para Ethel.

Cartazes foram afixados nos pubs sábado à noite e a mensagem foi lida nas igrejas e capelas depois dos serviços religiosos do domingo de manhã. Apesar do inverno, os jardins estavam particularmente graciosos, pois tinham recebido cuidados especiais para a visita do rei, e agora o conde Fitzherbert desejava compartilhar a beleza deles com seus vizinhos, dizia o convite. O conde estaria de gravata preta e gostaria que os visitantes usassem algo parecido em respeito aos mortos. Embora evidentemente não fosse adequado organizar uma festa, mesmo assim seriam servidos comes e bebes.

Ethel havia mandado armar três tendas no Gramado Leste. Debaixo de uma delas, havia meia dúzia de barris de 500 litros de cerveja clara trazidos de trem da cervejaria Crown em Pontyclun. Para os abstêmios, numerosos em Aberowen, a tenda seguinte tinha mesas de cavalete com bules de chá gigantescos e centenas de xícaras e pires. Na última e menor das tendas, havia xerez à disposição da diminuta classe média da cidade, que incluía o pastor anglicano, os dois médicos e o gerente da mina, Maldwyn Morgan, que todos já haviam apelidado de “Morgan-foi-a-Merthyr”.

Por sorte, fazia um dia de sol, frio porém seco, com umas poucas nuvens brancas de aspecto inofensivo pairando bem alto no céu azul. Quatrocentas pessoas apareceram – praticamente a população inteira da cidade –, sendo que quase todos usavam uma gravata, uma fita ou uma braçadeira pretas. Os convidados passearam por entre os arbustos, espiaram o interior da casa pelas janelas e estragaram a grama.

A princesa Bea ficou no seu quarto: aquele não era o seu tipo de evento social. Todos os membros da classe alta eram egoístas, Ethel concluíra, com base em sua experiência, mas Bea havia transformado isso em uma arte. Toda sua energia se concentrava em agradar a si mesma e conseguir o que queria. Mesmo quando dava uma festa – o que sabia fazer muito bem –, sua motivação principal era poder exibir sua beleza e seu charme.

Fitz recebeu os convidados no esplendor gótico-vitoriano do Salão de Gala, com seu cachorro imenso deitado no chão ao seu lado como um tapete de pele. Ele usava um terno de tweed marrom que lhe dava um aspecto mais acessível, apesar do colarinho engomado e da gravata preta. Estava mais bonito do que nunca, pensou Ethel. Ela trouxe os parentes dos mortos e feridos para cumprimentá-lo em grupos de três ou quatro, para que ele pudesse dar os pêsames a todos os moradores de Aberowen que tivessem sofrido com a tragédia. O conde dirigiu-se a eles com seu charme habitual, fazendo com que cada um fosse embora se sentindo especial.

Ethel agora era a governanta. Depois da visita do rei, a princesa Bea havia insistido para a Sra. Jevons se aposentar de vez: ela não tinha tempo para criados velhos e cansados. Via em Ethel alguém que se esforçaria ao máximo para satisfazer os seus desejos, de modo que a promovera apesar da pouca idade. Assim, Ethel havia conquistado a posição que ambicionava. Assumira o quartinho da governanta anexo à ala dos criados e ali tinha pendurado uma fotografia dos pais, vestidos com sua melhor roupa de domingo, tirada no dia da inauguração da Capela de Bethesda.

Quando Fitz chegou ao final da lista, Ethel pediu permissão para passar alguns minutos com a família.

– Claro – respondeu o conde. – Passe o tempo que quiser. Você foi absolutamente maravilhosa. Não sei como teria feito tudo sem você. O rei também ficou grato por sua ajuda. Como é que você se lembra de todos esses nomes?

Ethel sorriu. Não sabia bem por que os elogios dele mexiam tanto com ela.

– A maioria dessas pessoas já foi à nossa casa em algum momento, para consultar meu pai sobre a compensação por um ferimento, ou sobre alguma briga com um supervisor, ou para falar de sua preocupação com as medidas de segurança da mina.

– Bom, eu acho você extraordinária – disse ele, dando-lhe o sorriso irresistível que às vezes surgia em seu rosto e o fazia parecer quase um menino. – Meus respeitos ao seu pai.

Ela saiu da casa e atravessou o gramado correndo, sentindo-se a mais feliz das mulheres. Encontrou Da, Mam, Billy e Gramper na tenda do chá. Da estava elegante com seu terno de domingo e uma camisa branca com o colarinho engomado. Billy exibia uma queimadura feia na bochecha.

– Como está se sentindo, Billy? – perguntou-lhe Ethel.

– Bem. Sei que está feio, mas o médico falou que é melhor não usar curativo.

– Está todo mundo comentando sobre como você foi corajoso.

– É, mas não o suficiente para salvar Micky Papa.

Não havia como responder àquilo, mas Ethel tocou o braço do irmão para mostrar que entendia.

– Billy recitou uma prece hoje de manhã em Bethesda – disse Mam com orgulho.

– Que maravilha, Billy! Sinto muito não ter podido ir. – Ethel não fora à capela; havia coisas demais para fazer na casa. – Sobre o que foi a prece?

– Eu pedi ao Senhor que nos ajudasse a entender por que Ele permitiu a explosão na mina. – Billy lançou um olhar nervoso para Da, que não sorria.

– Talvez tivesse sido melhor Billy pedir a Deus para fortalecer sua fé, para ele poder acreditar sem entender – falou Da com severidade.

Estava claro que os dois já haviam discutido sobre isso. Ethel não estava com paciência para desavenças teológicas que, no fim das contas, não faziam diferença alguma. Ela tentou desanuviar a atmosfera.

– O conde Fitzherbert me pediu para lhe transmitir os seus respeitos, Da – disse ela. – Muito gentil da parte dele, o senhor não acha?

Da não se sensibilizou.

– Fiquei decepcionado ao ver você participando daquela palhaçada na segunda-feira – disse ele com rispidez.

– Na segunda-feira? – perguntou ela, incrédula. – Quando o rei visitou as famílias?

– Vi você sussurrando os nomes para aquele borra-botas.

– Aquele era Sir Alan Tite.

– Pouco me importa como ele se chama, eu reconheço um puxa-saco quando vejo um.

Ethel ficou chocada. Como Da podia menosprezar seu momento de glória? Sentiu vontade de chorar.

– Pensei que o senhor fosse ficar orgulhoso de mim por eu ter ajudado o rei!

– Como o rei se atreve a ir dar os pêsames ao nosso povo? O que um rei sabe sobre dificuldade e perigo?

Ethel conteve as lágrimas.

– Mas, Da, as pessoas ficaram tão felizes por ele ter ido visitá-las!

– Isso distraiu a atenção de todo mundo das atitudes perigosas e ilegais da Celtic Minerals.

– Mas as pessoas precisam ser consoladas. – Como é que ele não entendia isso?

– Elas foram amolecidas pelo rei, isso sim. Na tarde de domingo passado, esta cidade estava prestes a se rebelar. Na segunda-feira à noite, só se falava sobre como a rainha tinha dado seu lenço para a Sra. Dai dos Pôneis.

No mesmo instante, Ethel passou de magoada a furiosa.

– Lamento que o senhor pense assim – disse ela, friamente.

– Não há nada que lamentar...

– Lamento porque o senhor está errado – interrompeu-o Ethel, com firmeza.

Da ficou atônito. Era raro alguém lhe dizer que estava errado, quanto mais uma menina.

– Olha a língua, Eth... – censurou Mam.

– As pessoas têm sentimentos, Da – falou ela, sem pensar. – É isso que o senhor sempre esquece.

Da não sabia o que dizer.

– Agora chega! – gritou Mam.

Ethel olhou para Billy. Em meio a uma bruma de lágrimas, viu sua expressão pasma de admiração. Isso lhe deu mais coragem. Ela fungou, enxugou os olhos com as costas da mão e disse:

– O senhor, seu sindicato, seus regulamentos de segurança, suas Escrituras... eu sei que tudo isso é importante, Da, mas o senhor não pode esquecer os sentimentos das pessoas. Espero que um dia o socialismo torne o mundo um lugar melhor para os trabalhadores, mas, enquanto isso não acontece, elas precisam de consolo.

Da finalmente recuperou a voz.

– Acho que já ouvimos o bastante – disse ele. – Esse encontro com o rei subiu à sua cabeça. Você não passa de uma menina e não tem nada que dar lição de moral aos mais velhos.

Ela estava chorando demais para continuar a discussão.

– Desculpe, Da – falou. Então, depois de um silêncio pesado, acrescentou: – É melhor eu voltar ao trabalho. – O conde lhe dissera para passar o tempo que quisesse com a família, mas ela queria ficar sozinha. Virou as costas para o olhar irado de Da e caminhou de volta até o casarão. Manteve os olhos baixos, esperando que os convidados não vissem suas lágrimas.

Não queria cruzar com ninguém, de modo que entrou às escondidas na Suíte Gardênia. Lady Maud já havia voltado para Londres, portanto o quarto estava desocupado e a cama desfeita. Ethel se deixou cair sobre o colchão e chorou.

Ela estava tão orgulhosa. Como Da podia menosprezar todos os seus esforços? Será que ele queria que ela fizesse um trabalho ruim? Ela trabalhava para a no­breza. Assim como todo e qualquer minerador de Aberowen. Por mais que fossem empregados da Celtic Minerals, era o carvão do conde que eles exploravam, e este recebia por tonelada o mesmo que o trabalhador que dava duro na extração – fato que seu pai nunca se cansava de ressaltar. Se ser um bom mineiro, eficiente e produtivo, era uma coisa boa, que problema havia em ser uma boa governanta?

Ela ouviu a porta se abrir e se levantou de um pulo. Era o conde.

– O que está acontecendo? – perguntou ele em tom gentil. – Ouvi você do outro lado da porta.

– Eu sinto muitíssimo, meu amo, não deveria ter entrado aqui.

– Não tem problema. – Seu rosto extraordinariamente belo exibia uma preocupação genuína. – Por que está chorando?

– Eu estava tão orgulhosa por ter ajudado o rei – disse Ethel, arrasada. – Mas meu pai acredita que foi tudo uma farsa, só para impedir as pessoas de terem raiva da Celtic Minerals. – Ela desatou a chorar outra vez.

– Mas que tolice – falou Fitz. – Qualquer um podia ver que os sentimentos do rei eram genuínos. E os da rainha também. – Ele tirou do bolso da frente do paletó um lenço de linho branco. Ethel achou que ele fosse lhe entregar o lenço, mas, em vez disso, o conde enxugou-lhe as lágrimas das bochechas com delicadeza. – Eu senti muito orgulho de você na segunda-feira, mesmo que seu pai não tenha sentido.

– O senhor é muito gentil.

– Já passou, já passou – sussurrou ele, curvando-se e beijando-lhe os lábios.

Ethel ficou atônita. Era a última coisa no mundo que podia esperar. Quando o conde se endireitou, ela o encarou sem entender nada.

Ele a olhou de volta.

– Você é absolutamente encantadora – disse ele com voz grave, beijando-a novamente.

Desta vez, ela o empurrou.

– Meu amo, o que está fazendo? – perguntou ela baixinho, chocada.

– Não sei.

– Mas o que pensa que está fazendo?

– Eu não estou pensando.

Ethel ergueu os olhos para o rosto bem-feito de Fitz. Os olhos verdes a examinavam com atenção, como se tentassem ler seus pensamentos. Ela percebeu então que o adorava. De repente, foi inundada pela excitação e pelo desejo.

– Não consigo me controlar – disse ele.

Ela suspirou de felicidade.

– Então me beije de novo – pediu.

 

Fevereiro de 1914

Às dez e meia, o espelho do hall da residência do conde Fitzherbert em Mayfair refletia um homem alto, vestido de maneira impecável com os trajes formais diurnos de um aristocrata inglês. Como não apreciava a moda dos colarinhos moles, usava um colarinho duro, e sua gravata prateada estava presa por uma pérola. Alguns de seus amigos achavam que se vestir bem era vergonhoso. “Fitz, você parece um alfaiate indo abrir a loja pela manhã”, dissera-lhe certa vez o jovem marquês de Lowther. Mas Lowthie vivia desgrenhado, com o colete cheio de migalhas e cinzas de charuto nos punhos da camisa, e queria que todos fossem tão largados quanto ele. Fitz detestava andar desarrumado; a elegância lhe convinha.

Ele pôs uma cartola cinza. Com uma bengala na mão direita e um novo par de luvas de camurça cinza na esquerda, saiu de casa e tomou a direção sul. Na Berkeley Square, uma menina loura de seus 14 anos piscou para ele e disse:

– Uma chupada por um xelim?

Ele atravessou a Piccadilly e entrou no Green Park. Alguns flocos de neve se acumulavam ao redor das raízes das árvores. Passou pelo Palácio de Buckingham e entrou em um bairro pouco atraente próximo à estação ferroviária conhecida como Victoria Station. Teve que se informar com um policial sobre como chegar à Ashley Gardens. No fim das contas, a rua ficava atrás da catedral católica. Francamente, pensou Fitz, se você pretende receber a visita de um membro da nobreza, o mínimo que pode fazer é ter seu escritório em um bairro respeitável.

Ele havia sido convocado por um velho amigo do pai, chamado Mansfield Smith-Cumming. Oficial da Marinha reformado, Smith-Cumming agora tinha um cargo indefinido no Departamento de Guerra. Ele enviara a Fitz um recado bem curto: “Eu ficaria grato se pudéssemos trocar algumas palavras sobre uma questão de importância nacional. O senhor poderia me fazer uma visita amanhã pela manhã, às onze horas?” O recado estava escrito à máquina e assinado, em tinta verde, apenas com a letra “C”.

Na verdade, Fitz estava contente pelo fato de algum membro do governo querer falar com ele. Tinha verdadeiro horror a ser visto como um ornamento, um aristocrata rico cuja única função era a de decorar eventos sociais. Torcia para que pedissem sua opinião, quem sabe a respeito do seu antigo regimento, os Fuzileiros Galeses. Ou talvez ele pudesse desempenhar alguma tarefa relacionada ao Exército de Reserva de Gales do Sul, do qual era coronel honorário. De toda forma, o simples fato de ser convocado ao Departamento de Guerra lhe dava a sensação de não ser totalmente supérfluo.

Isto é, se aquilo ali fosse de fato o Departamento de Guerra. O endereço se revelou um moderno bloco de apartamentos. Um porteiro conduziu Fitz até o elevador. O apartamento de Smith-Cumming parecia em parte residência, em parte escritório, mas um jovem muito eficiente, com ares de militar, disse a Fitz que “C” iria recebê-lo imediatamente.

C não exibia ares de militar. Gorducho e meio careca, tinha nariz adunco e usava um monóculo. Seu escritório estava abarrotado dos mais variados objetos: aeromodelos, telescópio, bússola e um quadro representando camponeses diante de um pelotão de fuzilamento. O pai de Fitz sempre se referira a Smith-Cumming como “o capitão que enjoa no mar”, e a carreira militar dele não tinha sido brilhante. O que estava fazendo ali?

– Que departamento é este, exatamente? – perguntou Fitz ao se sentar.

– Esta aqui é a Divisão Estrangeira do Escritório do Serviço Secreto – respondeu C.

– Eu não sabia que tínhamos um Serviço Secreto.

– Se as pessoas soubessem, ele não seria secreto.

– Entendo. – Fitz sentiu uma injeção de adrenalina. Era lisonjeiro ser inteirado de informações confidenciais.

– Imagino que o senhor teria a bondade de não comentar com ninguém a respeito.

Fitz percebeu que estava recebendo uma ordem, apesar da escolha educada de palavras.

– Naturalmente – respondeu. A sensação de pertencer a um círculo privilegiado o deixava contente. Será que C o convidaria a trabalhar para o Departamento de Guerra?

– Parabéns pelo sucesso da sua recepção real. Parece-me que o senhor reuniu um grupo de jovens muito bem relacionados para apresentar a Sua Majestade.

– Obrigado. Para ser franco, foi um evento social discreto, mas temo que as notícias se espalhem depressa.

– E agora o senhor vai levar sua esposa à Rússia.

– A princesa é russa. Ela quer visitar o irmão. É uma viagem que vínhamos adiando há tempos.

– E Gus Dewar irá acompanhá-los.

C parecia estar a par de tudo.

– Ele está dando a volta ao mundo – disse Fitz. – Nossos planos coincidiram.

– O senhor sabe por que o almirante Alexeev foi nomeado para o comando do Exército russo na guerra contra o Japão, mesmo sem saber nada sobre combates terrestres? – perguntou C em tom casual, recostando-se na cadeira.

Como tinha passado algum tempo na Rússia quando menino, Fitz havia acom­panhado o desenrolar da guerra russo-japonesa de 1904-1905, mas não conhecia essa história.

– Por que o senhor não me conta?

– Bem, parece que o grão-duque Alexis se envolveu numa confusão em um bordel de Marselha e acabou preso pela polícia francesa. Alexeev foi resgatá-lo e disse aos gendarmes que tinha sido ele, não o grão-duque, a arranjar encrenca. A semelhança de seus nomes tornou a história plausível e o grão-duque foi solto. A recompensa de Alexeev foi o comando do Exército.

– Não é de espantar que eles tenham perdido.

– Mesmo assim, os russos têm o maior exército que o mundo já conheceu: seis milhões de homens segundo alguns cálculos, na hipótese de eles convocarem todos os reservistas. Por mais incompetente que seja sua liderança, trata-se de uma força extraordinária. Mas qual seria a eficiência desse exército, digamos, em uma guerra na Europa?

– Não volto lá desde o meu casamento – respondeu Fitz. – Não saberia dizer.

– Nós tampouco. É aí que o senhor entra. Eu gostaria que fizesse algumas perguntas enquanto estivesse lá.

Fitz ficou surpreso.

– Mas isso é tarefa da nossa embaixada, não?

– É claro. – C deu de ombros. – Mas os diplomatas sempre estão mais interessados em política do que em questões militares.

– Mesmo assim, deve haver um adido militar.

– Um elemento externo como o senhor pode proporcionar um ponto de vista novo. Mais ou menos da mesma forma como o grupo reunido em Tŷ Gwyn deu ao rei algo que ele não teria conseguido obter do Ministério das Relações Exteriores. Mas se o senhor acha que não pode...

– Eu não estou recusando – Fitz se apressou a responder. Pelo contrário: estava satisfeito por lhe pedirem que fizesse algo por seu país. – Só fico surpreso que as coisas sejam feitas dessa forma.

– Nós somos um departamento relativamente novo, com poucos recursos. Meus melhores informantes são viajantes inteligentes com bagagem militar suficiente para entender o que estão vendo.

– Muito bem.

– Eu estaria interessado em saber se o senhor acha que a classe dos oficiais russos evoluiu desde 1905. Eles se modernizaram, ou ainda estão agarrados a ideias antigas? Como sua mulher é parente de metade dos homens mais importantes de São Petersburgo, o senhor vai encontrar todos eles.

Fitz estava pensando na última vez em que a Rússia entrara em guerra.

– O principal motivo que os levou a serem derrotados pelo Japão foi o fato de as ferrovias russas não conseguirem abastecer o exército – disse ele.

– Mas desde então os russos vêm tentando melhorar sua malha ferroviária... usando o dinheiro que pediram emprestado à França, sua aliada.

– Será que fizeram muitos avanços nesse sentido?

– Essa é a questão-chave. O senhor vai viajar de trem. Os trens saem na hora? Fique de olhos abertos. As linhas ainda são de trilho único? Ou agora eles usam trilhos duplos? Os generais alemães têm um plano de contingência para a guerra baseado em quanto tempo o Exército russo levará para ser mobilizado. Se houver guerra, muita coisa vai depender da exatidão desse cronograma.

Fitz estava entusiasmado como um garoto, mas forçou-se a falar com gravidade:

– Descobrirei o máximo possível.

– Obrigado. – C olhou para o relógio.

Fitz se levantou e os dois trocaram um aperto de mãos.

– Quando exatamente o senhor viaja? – indagou C.

– Partimos amanhã – respondeu Fitz. – Até breve.

 

Grigori Peshkov observou seu irmão mais novo, Lev, dar um golpe para tirar dinheiro do americano alto. O rosto atraente de Lev exibia uma expressão de avidez jovial, como se seu principal objetivo fosse demonstrar a própria habilidade. Grigori experimentou uma conhecida pontada de nervosismo. Algum dia, temia ele, o charme de Lev não iria bastar para mantê-lo longe dos problemas.

– É um teste de memória – disse Lev em inglês. Havia decorado as palavras. – Escolha uma carta qualquer. – Ele precisava falar alto por causa do barulho da fábrica: estalos de máquinas pesadas, chiado de vapor, pessoas gritando instruções e perguntas.

O nome do visitante era Gus Dewar. Ele usava paletó, colete e calça feitos da mesma lã cinza de boa qualidade. Grigori estava especialmente interessado naquele homem por ele ser de Buffalo.

Dewar era um rapaz amigável. Dando de ombros, ele escolheu uma carta do baralho de Lev e olhou para ver qual era.

– Ponha a carta em cima do banco, virada para baixo – instruiu Lev.

Dewar pôs a carta sobre o banco de madeira grosseiro da fábrica.

Lev tirou do bolso uma nota de um rublo, colocando-a em cima da carta.

– Agora ponha um dólar por cima. – O truque só funcionava com visitantes ricos.

Grigori sabia que Lev já havia feito a troca. Na mão, escondida pela nota de um rublo, ele estava segurando outra carta. O truque, que Lev passara muitas horas treinando, era pegar a primeira carta e escondê-la na palma da mão, substituindo-a ao mesmo tempo pela nota de um rublo e por uma carta diferente.

– Tem certeza de que pode se dar ao luxo de perder um dólar, Sr. Dewar? – perguntou Lev.

Dewar sorriu, como os trouxas sempre faziam nessa hora.

– Acho que sim – respondeu.

– O senhor se lembra da carta que tirou? – Lev na verdade não falava inglês. Também sabia dizer aquelas mesmas frases em alemão, francês e italiano.

– Era o cinco de espadas – disse Dewar.

– Errado.

– Eu tenho certeza.

– Pode virar.

Dewar virou a carta. Era a rainha de paus.

Lev recolheu a nota de um dólar e o rublo que havia posto no banco.

Grigori prendeu a respiração. Aquele era o momento mais arriscado. O americano iria ou não reclamar de ter sido roubado e acusar Lev?

Dewar abriu um sorriso arrependido e disse:

– Você me pegou.

– Eu conheço outro jogo – disse Lev.

Aquilo era demais: o irmão estava abusando da sorte. Embora Lev já tivesse 20 anos, Grigori ainda precisava protegê-lo.

– Não jogue com meu irmão – Grigori alertou Dewar em russo. – Ele sempre ganha.

O americano sorriu e respondeu na mesma língua com alguma hesitação:

– Um bom conselho.

Dewar era o primeiro de um pequeno grupo de visitantes em excursão pela Metalúrgica Putilov. A fábrica era a maior de São Petersburgo e empregava 30 mil homens, mulheres e crianças. A função de Grigori era lhes mostrar a pequena, porém importante, seção em que trabalhava. A fábrica produzia locomotivas e outros grandes artefatos de metal. Grigori era contramestre da seção que fabricava rodas de trens.

Grigori estava ansioso para conversar com Dewar sobre Buffalo. Porém, antes de conseguir fazer qualquer pergunta, o supervisor da seção de fundição, Kanin, apareceu. Engenheiro qualificado, ele era alto e magro, com uma calva avançada.

Ao seu lado estava um segundo visitante. Pelas roupas, Grigori soube que deveria ser o aristocrata inglês. O homem estava vestido como um nobre russo, de fraque e cartola. Talvez aquele fosse o traje usado pela classe dominante no mundo inteiro.

Grigori ficara sabendo que o aristocrata se chamava conde Fitzherbert. Com cabelos pretos e olhos verdes de brilho intenso, ele era o homem mais bem-apessoado que o contramestre já vira. As mulheres da seção de rodas encaravam-no como se fosse um deus.

Kanin dirigiu-se a Fitzherbert em russo.

– Atualmente, estamos produzindo duas locomotivas novas por semana – disse ele com orgulho.

– Incrível – comentou o aristocrata inglês.

Grigori entendia por que os estrangeiros estavam tão interessados. Ele lia os jornais e participava de palestras e grupos de leitura organizados pelo Comitê Bolchevique de São Petersburgo. As locomotivas fabricadas ali eram essenciais à capacidade de defesa da Rússia. Os visitantes poderiam até fingir uma curiosidade casual, mas estavam coletando informações de inteligência militar.

Kanin apresentou Grigori.

– Este é Peshkov, o campeão de xadrez da fábrica. – Kanin era supervisor, mas um bom sujeito.

Fitzherbert foi muito simpático. Dirigiu-se a Varya, uma mulher de seus 50 anos que usava um lenço ao redor dos cabelos grisalhos.

– É muita gentileza sua nos mostrar seu local de trabalho – falou ele alegremente, num russo fluente mas com forte sotaque.

Varya, mulher impressionante, musculosa e de seios fartos, riu feito uma colegial.

A demonstração estava pronta. Grigori havia posto lingotes de aço dentro do cone de alimentação e acendido a fornalha, de modo que o metal agora estava derretido. Mas ainda faltava um visitante: a esposa do conde, que diziam ser russa – o que explicava o fato de ele falar a língua, algo incomum para um estrangeiro.

Grigori queria perguntar a Dewar sobre Buffalo, mas, antes que tivesse oportunidade, a mulher do conde chegou à seção de rodas. Sua saia, que roçava o chão, parecia uma vassoura empurrando à sua frente uma linha de sujeira e limalha de ferro. Ela usava um casaco curto por cima do vestido e vinha seguida por um servo que carregava uma capa de pele, uma criada com uma bolsa e um dos diretores da fábrica, o conde Maklakov, um jovem vestido como Fitzherbert. Maklakov estava evidentemente muito impressionado com sua convidada, sorrindo, falando em voz baixa e segurando o braço da mulher de forma desnecessária. Ela era de uma beleza extraordinária, com seus cachos louros e seu jeito sedutor de inclinar a cabeça.

Grigori a reconheceu na mesma hora. Era a princesa Bea.

Seu coração saltou no peito e ele ficou enjoado. Reprimiu com violência a lembrança terrível que emergiu de um passado distante. Então, como se aquilo fosse uma emergência, olhou para verificar a reação do irmão. Será que Lev se lembrava? Ele tinha apenas seis anos na época. Lev encarava a princesa com curiosidade, como se tentasse identificá-la. Então, diante dos olhos de Grigori, a expressão de Lev mudou à medida que ele recordava. Seu irmão empalideceu, como se estivesse passando mal, e, de repente, ficou vermelho de raiva.

A essa altura, Grigori já estava do lado de Lev.

– Fique calmo – murmurou ele. – Não diga nada. Lembre-se, nós vamos para os Estados Unidos... Não podemos deixar nada atrapalhar isso!

Lev soltou um grunhido de repulsa.

– Volte para a estrebaria – disse Grigori. Lev era condutor de pôneis e trabalhava com os muitos animais usados na fábrica.

Lev fuzilou a princesa com o olhar por mais alguns instantes, sem que ela percebesse. Então, virou-se e foi embora, e o momento de perigo passou.

Grigori iniciou a demonstração. Meneou a cabeça para Isaak, rapaz da sua idade que era capitão do time de futebol da fábrica. Isaak abriu a caixa de moldar. Então Grigori e Varya pegaram um modelo de uma roda de trem com flange, feito de madeira encerada. O modelo em si era produto de um trabalho minucioso, com raios de seção transversal elíptica e afunilados em escala de um para vinte do eixo ao aro. Era a roda de uma grande locomotiva 4-6-4, e o modelo tinha quase a mesma altura das pessoas que o estavam erguendo.

Os dois posicionaram a roda dentro de uma bandeja funda, cheia de uma mistura arenosa úmida para moldagem. Isaak acomodou por cima disso a peça destinada a resfriar o aço fundido de modo a formar a superfície de rolamento e o flange, acrescentando, por último, a tampa da caixa de moldar.

O conjunto então foi aberto e Grigori verificou a impressão deixada pela roda de madeira. Não havia nenhuma irregularidade visível. Ele borrifou a areia de moldagem com um líquido preto oleoso e então a caixa de moldar tornou a ser fechada.

– Por favor, mantenham uma boa distância agora – pediu aos visitantes.

Isaak aproximou o bico do alimentador do funil que ficava em cima da caixa. Então, bem devagar, Grigori puxou a alavanca que fazia o alimentador se inclinar.

O aço derretido se derramou lentamente dentro da caixa. O vapor expelido pela areia molhada saiu chiando pelos respiradouros. Por experiência, Grigori sabia quando erguer o alimentador para interromper o fluxo.

– O passo seguinte é aperfeiçoar o formato da roda – disse ele. – Como o metal quente leva muito tempo para esfriar, tenho aqui uma roda que fundimos mais cedo.

A roda já estava presa a um torno, e Grigori meneou a cabeça para o torneiro Konstantin, filho de Varya. Intelectual magro e comprido, de cabelos pretos revoltos, Konstantin era presidente do grupo de discussão bolchevique e o melhor amigo de Grigori. Ele ligou o motor elétrico, fazendo a roda girar em alta velocidade, e começou a arrematá-la com uma lixa.

– Por favor, mantenham distância do torno – disse Grigori aos visitantes, erguendo a voz para se fazer ouvir por sobre o barulho da máquina. – Se tocarem nele, podem perder um dedo. – Ele ergueu a mão esquerda. – Como aconteceu comigo, aqui mesmo nesta fábrica, aos 12 anos. – Seu terceiro dedo, o anular, não passava de um coto feio. Ele viu a expressão de irritação do conde Maklakov, que não gostava de ser lembrado do custo humano de seus lucros. Já o olhar que recebeu da princesa Bea era um misto de repulsa e fascínio, e Grigori se perguntou se ela cultivava algum interesse excêntrico pela pobreza e pelo sofrimento. Não era comum ver uma dama visitando uma fábrica.

Ele fez um sinal para Konstantin, que desligou o torno.

– Em seguida, as dimensões da roda são verificadas com um compasso de calibre. – Ele ergueu a ferramenta em questão. – As rodas de um trem devem ter o tamanho exato. Se o diâmetro variar mais de um milímetro e meio, aproximadamente a largura do grafite de um lápis, a roda tem que ser refundida e refeita.

Com um russo capenga, Fitzherbert perguntou:

– Quantas rodas vocês fabricam por dia?

– Em média seis ou sete, descontando as que não passam pelo controle.

– E quantas horas vocês trabalham? – quis saber o americano, Dewar.

– Das seis da manhã às sete da noite, de segunda a sábado. No domingo, somos liberados para ir à missa.

Um menino de uns oito anos entrou correndo na seção de rodas, perseguido por uma mulher aos gritos – provavelmente sua mãe. Grigori tentou agarrá-lo para que não se aproximasse da fornalha. O menino se esquivou e trombou com a princesa Bea, sua cabeça de cabelos à escovinha golpeando-a nas costelas com um baque audível. Ela soltou um arquejo de dor. O menino parou, parecendo zonzo. Furiosa, a princesa ergueu o braço e deu-lhe um tapa tão forte no rosto que ele titubeou. Grigori chegou a achar que a criança fosse cair no chão. O americano disse algo ríspido em inglês, parecendo surpreso e indignado. No instante seguinte, a mãe recolheu o menino em seus braços fortes e virou-se para ir embora.

Kanin, o supervisor, estava com uma cara assustada, pois sabia que poderia ser responsabilizado por aquilo.

– Vossa Alteza se machucou? – perguntou ele à princesa.

A princesa Bea estava visivelmente irada, mas respirou fundo e disse:

– Não foi nada.

Seu marido e o conde Maklakov se aproximaram dela com ar preocupado. Apenas Dewar continuou onde estava, com uma careta de reprovação e repulsa estampada no rosto. Havia ficado chocado com o tapa, imaginou Grigori, perguntando-se se todos os americanos tinham o mesmo coração mole. Um tapa não era nada: quando eram crianças, Grigori e o irmão tinham sido açoitados com varas naquela fábrica.

Os visitantes começaram a se dispersar. Grigori ficou com medo de não ter outra chance de fazer perguntas ao turista de Buffalo. Reunindo coragem, tocou a manga de Dewar. Um nobre russo teria reagido com indignação, dando-lhe um empurrão ou um tapa por sua insolência, mas o americano simplesmente se virou com um sorriso educado.

– O senhor é de Buffalo, Nova York? – perguntou Grigori.

– Isso mesmo.

– Meu irmão e eu estamos guardando dinheiro para ir para os Estados Unidos. Nós vamos morar em Buffalo.

– Por que escolheram essa cidade?

– Aqui em São Petersburgo tem uma família que consegue os documentos necessários... por um preço, é claro... e nos prometeu um emprego com parentes deles em Buffalo.

– Que família é essa?

– São os Vyalov. – Embora também tivessem negócios lícitos, os Vyalov eram uma gangue de bandidos. Não eram as pessoas mais dignas de confiança do mundo, de modo que Grigori queria verificar por conta própria o que haviam lhe dito. – Senhor, a família Vyalov, de Buffalo, Nova York, é mesmo rica e importante?

– Sim – respondeu Dewar. – Josef Vyalov emprega várias centenas de pessoas em seus hotéis e bares.

– Obrigado. – Grigori estava aliviado. – É muito bom saber disso.

 

A lembrança mais antiga de Grigori era a do dia em que o czar fora visitar Bulovnir. Ele tinha seis anos.

Os moradores do vilarejo haviam passado muitos dias sem falar em outra coisa. Todos acordaram bem cedo, embora o czar obviamente fosse tomar seu café da manhã antes de partir, de modo que jamais chegaria lá antes do meio da manhã. O pai de Grigori retirou a mesa de sua casa de um só cômodo para colocá-la à beira da rua. Sobre ela, dispôs um pão inteiro, um buquê de flores e um pequeno saleiro, explicando ao filho mais velho que aqueles eram os símbolos russos tradicionais de boas-vindas. A maioria dos outros moradores do vilarejo fez a mesma coisa. A avó de Grigori havia posto um lenço amarelo novo na cabeça.

Era um dia seco de início de outubro, antes da chegada do frio rigoroso do inverno. Os camponeses se puseram a esperar de cócoras. Os anciãos do vilarejo andavam de um lado para outro vestindo suas melhores roupas, com ares de gente importante, embora esperassem como todo mundo. Grigori logo ficou entediado e começou a brincar na terra batida ao lado da casa. Seu irmão, Lev, tinha apenas um ano e ainda mamava no peito da mãe.

O meio-dia passou, mas ninguém quis entrar em casa para preparar o almoço por medo de perder a passagem do czar. Grigori tentou comer um pouco do pão que estava sobre a mesa e levou um tapa na cabeça, mas sua mãe lhe trouxe uma tigela de mingau frio.

Grigori não sabia ao certo quem ou o que era o czar. Sempre o mencionavam na igreja como alguém que amava todos os camponeses e que velava o sono deles, então decerto era um personagem à altura de São Pedro, Jesus e o anjo Gabriel. Grigori se perguntou se ele teria asas ou uma coroa de espinhos, ou se usava apenas um casaco bordado como um dos anciãos do vilarejo. De toda forma, estava claro que as pessoas eram abençoadas pelo simples fato de vê-lo, igualzinho às multidões que seguiam Jesus.

A tarde já ia avançada quando uma nuvem de poeira surgiu no horizonte. Grigori pôde sentir as vibrações do chão sob suas botas de feltro, e logo ouviu o rufar dos cascos. Os aldeões se ajoelharam. Grigori se ajoelhou ao lado da avó. Os anciãos se deitaram na rua de bruços, suas testas tocando o solo, da mesma forma que haviam feito durante a visita do príncipe Andrei e da princesa Bea.

Primeiro surgiram os batedores, seguidos por uma carruagem fechada puxada por quatro cavalos. Eram cavalos imensos, os maiores que Grigori já vira, e estavam correndo a toda a velocidade, com os flancos reluzindo de suor e as bocas espumando ao redor dos freios. Os anciãos perceberam que os animais não iriam parar e saíram depressa do caminho antes de serem pisoteados. Grigori soltou um grito de medo, mas ninguém conseguiu ouvi-lo. Quando a carruagem passou por eles, seu pai exclamou:

– Vida longa ao czar, pai de seu povo!

Quando terminou de gritar, a carruagem já estava deixando o vilarejo para trás. Por causa da poeira, Grigori não conseguira ver os passageiros. Quando se deu conta de que havia perdido a oportunidade de ver o czar e, portanto, não receberia nenhuma bênção, desatou a chorar.

Sua mãe pegou o pão que estava sobre a mesa, partiu um pedaço e deu para o filho comer, e ele se sentiu melhor.

 

Quando o turno da Metalúrgica Putilov chegava ao fim, às sete da noite, Lev em geral saía para jogar cartas com os amigos ou beber com alguma de suas namoradas tranquilas. Grigori muitas vezes ia assistir a algum tipo de reunião: uma palestra sobre ateísmo, um grupo de discussão socialista, um teatro de sombras sobre terras distantes, um recital de poesia. Naquela noite, contudo, ele não tinha nada para fazer. Voltaria para casa, prepararia um guisado para o jantar, deixaria um pouco na panela para Lev comer mais tarde e iria para a cama cedo.

A fábrica ficava nos subúrbios ao sul de São Petersburgo, e sua profusão de chaminés e barracões ocupava um vasto terreno às margens do mar Báltico. Muitos dos operários moravam na fábrica, alguns em alojamentos, outros dormindo ao lado das máquinas. Era por isso que havia tantas crianças por ali.

Grigori estava entre os que tinham uma casa fora da fábrica. Em uma sociedade socialista, ele sabia, as casas dos operários eram planejadas ao mesmo tempo que as fábricas; porém o fortuito capitalismo russo havia deixado milhares de pessoas sem lugar para morar. Grigori tinha um bom salário, mas morava em um apartamento de um cômodo a meia hora a pé da fábrica. Ele sabia que em Buffalo os peões tinham eletricidade e água encanada em casa. Ouvira dizer que alguns tinham até seu próprio telefone, mas isso parecia absurdo, como dizer que as ruas eram calçadas de ouro.

Ver a princesa Bea o havia levado de volta à própria infância. Enquanto percorria as ruas congeladas, ele se recusou a se deixar levar pela insuportável lembrança que ela provocava. Mesmo assim, pensou no casebre de madeira em que morava, tornando a ver o oratório onde ficavam pendurados os ícones e, logo em frente, o canto em que dormia à noite, em geral ao lado de uma cabra ou de um bezerro. Sua lembrança mais vívida era algo que mal percebia na época: o cheiro. Ele vinha do braseiro, dos animais, da fumaça preta da lamparina de querosene e do tabaco caseiro que seu pai fumava enrolado em papel-jornal. As janelas eram calafetadas com trapos ao redor dos batentes para impedir que o frio entrasse, o que deixava o ar pesado. Ele agora podia sentir esse cheiro em sua imaginação, enchendo-o de saudade dos dias anteriores ao pesadelo, a última vez em sua vida em que se sentira seguro.

Não muito longe da fábrica, ele viu algo que o fez parar. Na poça de luz lançada por um poste de rua, dois policiais, vestidos com uniformes pretos de colarinhos e punhos verdes, interrogavam uma jovem. O casaco feito em casa e a forma como ela havia amarrado o lenço na cabeça com um nó na nuca indicavam que fosse uma camponesa recém-chegada à cidade. À primeira vista, Grigori avaliou que tivesse uns 16 anos – a mesma idade que ele tinha quando perdeu os pais.

O policial atarracado falou alguma coisa, dando uns tapinhas no rosto da menina. Ela se encolheu e seu parceiro riu. Grigori se lembrou de como fora maltratado por todo tipo de autoridade quando era um órfão de 16 anos e se compadeceu daquela menina vulnerável. Mesmo sabendo que poderia se arrepender, aproximou-se do pequeno grupo. Apenas para ter o que dizer, falou:

– Se a senhorita estiver procurando a Metalúrgica Putilov, eu posso lhe mostrar o caminho.

O policial atarracado riu e disse:

– Livre-se dele, Ilya.

Seu companheiro tinha uma cabeça pequena e um rosto mau.

– Suma daqui, seu lixo – disse ele.

Grigori não teve medo. Era alto e forte e tinha os músculos definidos pelo trabalho braçal constante. Desde menino participava de brigas de rua e fazia muitos anos que não perdia uma. Lev era como ele. Mesmo assim, era melhor não irritar a polícia.

– Sou contramestre na fábrica – disse ele à menina. – Se estiver procurando trabalho, posso ajudar.

A menina lançou-lhe um olhar agradecido.

– Um contramestre não é ninguém – falou o policial atarracado, olhando diretamente para Grigori pela primeira vez. À luz amarelada de querosene do poste, Grigori reconheceu o rosto redondo com sua expressão de agressividade estúpida. O homem era Mikhail Pinsky, capitão daquele distrito policial. O coração de Grigori se encolheu dentro do peito. Puxar briga com o capitão do distrito era uma loucura – mas ele já havia ido muito longe para voltar atrás.

A menina então falou, e sua voz mostrou a Grigori que ela estava mais para os 20 anos do que para os 16.

– Obrigada, senhor, vou acompanhá-lo.

Era uma jovem bonita, percebeu ele, com traços delicados e uma boca larga, sensual.

Grigori olhou em volta. Infelizmente, a rua estava deserta: ele havia saído da fábrica alguns minutos depois do movimento das sete da noite. Sabia que deveria recuar, mas não podia abandonar a moça.

– Deixe-me levar a senhorita até o escritório da fábrica – falou, embora o escritório na verdade já estivesse fechado.

– Ela vem comigo... não é, Katerina? – disse Pinsky. Ele então a apalpou, apertando seus seios através do casaco fino e enfiando uma das mãos entre as pernas dela.

A moça saltou para trás e disse:

– Tire suas mãos imundas de mim.

Com rapidez e precisão surpreendentes, Pinsky lhe deu um soco na boca.

Ela gritou e sangue esguichou de seu lábio.

Grigori ficou furioso. Mandando a cautela pelos ares, deu um passo à frente e pôs uma das mãos no ombro de Pinsky, empurrando-o com força. O policial cambaleou para o lado e caiu sobre um dos joelhos. Grigori se virou para Katerina, que estava chorando.

– Corra o mais rápido que puder! – disse a ela, e logo depois sentiu um golpe pungente na nuca. O segundo policial, Ilya, havia sacado o cassetete mais depressa do que Grigori esperava. A dor foi excruciante e ele caiu ajoelhado, porém não desmaiou.

Katerina se virou e saiu correndo, mas não foi muito longe. Pinsky estendeu o braço para segurar seu pé e ela caiu estatelada no chão.

Grigori girou o corpo e viu o cassetete vindo outra vez em sua direção. Esquivou-se do golpe e pôs-se de pé com dificuldade. Ilya tornou a golpear e errou de novo. Grigori mirou um soco na lateral de sua cabeça e bateu com toda a força. Ilya desabou.

Quando Grigori deu meia-volta, viu Pinsky em pé ao lado de Katerina, chutando-a sem parar com as botas pesadas.

Um automóvel se aproximou, vindo da direção da fábrica. Ao passar por ali, o motorista freou com força e o carro parou cantando pneus debaixo do poste.

Dois passos largos colocaram Grigori logo atrás de Pinsky. Ele fechou os dois braços em volta do capitão de polícia e o prendeu em um abraço de urso, levantando-o do chão. Pinsky sacudiu as pernas e os braços, mas de nada adiantou.

A porta do carro se abriu e, para surpresa de Grigori, dele desceu o americano de Buffalo.

– O que está acontecendo aqui? – perguntou ele. Seu rosto jovial, iluminado pela luz da rua, exibia uma expressão indignada quando ele se dirigiu a Pinsky, que ainda se contorcia. – Por que está chutando uma mulher indefesa?

Mas que sorte, pensou Grigori. Só mesmo um estrangeiro para achar inaceitável um policial chutar uma camponesa.

A silhueta comprida e magra do supervisor Kanin emergiu do carro atrás de Dewar.

– Peshkov, solte o policial – disse ele a Grigori.

Grigori devolveu Pinsky ao chão e o soltou. O policial se virou e Grigori se preparou para evitar um golpe, mas Pinsky se conteve. Com uma voz cheia de fel, ele disse:

– Não vou me esquecer de você, Peshkov. – Grigori soltou um grunhido: o homem agora sabia seu nome.

Gemendo, Katerina se pôs de joelhos. Dewar a ajudou a se levantar com gentileza, perguntando:

– Está muito ferida, senhorita?

Kanin aparentou constrangimento. Nenhum russo se dirigiria a uma camponesa de forma tão cortês.

Ilya se levantou, parecendo tonto.

De dentro do carro, ouviu-se a princesa Bea falar algo em inglês, soando irritada e impaciente.

Grigori se voltou para Dewar:

– Com sua permissão, Excelência, posso levar esta mulher a um médico aqui perto.

Dewar olhou para Katerina.

– A senhorita está de acordo?

– Sim, senhor – disse ela através dos lábios ensanguentados.

– Muito bem – disse ele.

Grigori pegou o braço da moça, conduzindo-a para longe dali antes que alguém tivesse outra ideia.

Na esquina, deu uma olhada para trás. Os dois policiais discutiam com Dewar e Kanin debaixo do poste.

Ainda segurando o braço de Katerina, ele começou a puxá-la mais depressa, embora a jovem estivesse mancando. Era preciso aumentar a distância que os separava de Pinsky.

Assim que dobraram a esquina, ela disse:

– Eu não tenho dinheiro para ir ao médico.

– Posso lhe emprestar algum – disse ele com uma pontada de culpa: o dinheiro que tinha era para sua viagem aos Estados Unidos, não para ajudar moças bonitas feridas.

Ela o avaliou com o olhar.

– Não é de médico que eu preciso – falou. – Preciso é de um emprego. O senhor poderia me levar até o escritório da fábrica?

Que moça corajosa, pensou ele com admiração. Havia acabado de apanhar da polícia e tudo em que conseguia pensar era arrumar um emprego.

– O escritório está fechado. Eu só disse aquilo para confundir os policiais. Mas posso levar a senhorita até lá pela manhã.

– Eu não tenho onde dormir – disse ela, lançando-lhe um olhar cauteloso que ele não entendeu totalmente. Estaria se oferecendo? Muitas camponesas que iam para a cidade acabavam fazendo isso. Mas talvez aquele olhar quisesse dizer o contrário: que ela queria uma cama, porém não estava disposta a pagar com favores sexuais.

– Na casa onde moro tem um quarto onde vivem várias mulheres – disse ele. – São três ou mais dormindo na mesma cama, e sempre conseguem arrumar espaço para mais uma.

– É muito longe?

Ele apontou para a frente, na direção de uma rua que margeava o talude de uma ferrovia.

– Logo ali.

A jovem assentiu com a cabeça e, pouco depois, ambos entraram na casa.

Grigori ocupava um quarto de fundos no primeiro andar. A cama estreita que ele dividia com Lev ficava encostada em uma das paredes. Havia uma lareira com um apoio para manter objetos e alimentos aquecidos, além de uma mesa com duas cadeiras junto à janela que dava para a ferrovia. Uma mala de cabeça para baixo servia de criado-mudo e havia ainda uma jarra e uma bacia para a toalete.

Katerina inspecionou o lugar com um olhar demorado, absorvendo tudo, e então disse:

– Você mora sozinho aqui?

– Não... eu não sou rico! Divido com meu irmão. Ele vai chegar mais tarde.

Ela assumiu um ar pensativo. Talvez com medo de que esperassem que fosse para a cama com os dois. Para tranquilizá-la, Grigori falou:

– Quer que eu lhe apresente às mulheres da casa?

– Haverá tempo de sobra para isso. – A jovem se sentou em uma das cadeiras. – Deixe-me descansar um pouco.

– Claro. – A lareira estava pronta para ser acesa: ele sempre a preparava pela manhã, antes de sair para o trabalho. Acendeu os gravetos com um fósforo.

Ouviu-se um barulho estrondoso, e Katerina pareceu assustada.

– É só um trem – explicou Grigori. – Estamos bem ao lado dos trilhos.

Ele derramou água da jarra dentro da bacia, colocando-a para esquentar no apoio da lareira. Sentou-se de frente para Katerina e ficou olhando para ela. A moça tinha cabelos louros escorridos e a pele clara. No início, a achara bastante bonita, mas agora via que, na verdade, ela era linda, com um formato de corpo um tanto oriental, o que sugeria antepassados siberianos. Seu rosto também tinha muita personalidade: a boca larga era sedutora, mas também firme, e parecia haver uma força de vontade de ferro em seus olhos azul-esverdeados.

Os lábios dela estavam começando a inchar por causa do soco de Pinsky.

– Como está se sentindo? – perguntou Grigori.

Ela passou as mãos pelos ombros, costelas, quadris e coxas.

– Estou cheia de hematomas – respondeu. – Mas você tirou aquele animal de cima de mim antes que ele pudesse me machucar de verdade.

A moça não estava disposta a sentir pena de si mesma. Grigori gostou disso.

– Quando a água esquentar, vou limpar esse sangue – disse ele.

Grigori guardava a comida em uma marmita de lata. Tirou lá de dentro um joelho de porco, que jogou na panela, acrescentando em seguida um pouco de água da jarra. Enxaguou um rabanete e começou a fatiá-lo, juntando-o à carne. Quando voltou a olhar para Katerina, notou que ela parecia surpresa.

– Seu pai cozinhava? – quis saber ela.

– Não – respondeu Grigori, sendo levado, num piscar de olhos, de volta à época em que tinha 11 anos. Não pôde mais resistir às lembranças terríveis da princesa Bea. Depositou a panela sobre a mesa com força e então se sentou na beirada da cama, enterrando o rosto nas mãos, soterrado pela tristeza. – Não – repetiu. – Meu pai não cozinhava.

 

Eles chegaram à aldeia ao raiar do dia: o capitão responsável pelas terras da região e seis cavaleiros. Assim que Ma escutou o trotar dos cascos, pegou Lev no colo. O menino de 6 anos era pesado, mas a mãe tinha ombros largos e braços fortes. Depois ela agarrou a mão de Grigori e saiu correndo da casa. Os cavaleiros estavam sendo conduzidos pelos anciãos da aldeia, que deviam tê-los encontrado nos arredores. Como a casa tinha apenas uma porta, a família de Grigori não tinha como sair sem ser vista. Assim que eles apareceram, os soldados esporearam seus cavalos.

Ma deu a volta na casa correndo, espantando galinhas e assustando a cabra, que partiu a corda que a prendia e também desembestou. Ma atravessou a toda o terreno baldio nos fundos da casa em direção ao bosque. Talvez pudessem ter escapado, mas, de repente, Grigori percebeu que sua avó não estava ali. Ele se deteve e largou a mão da mãe.

– Esquecemos a vovó! – exclamou.

– Ela não consegue correr! – gritou-lhe a mãe de volta.

Grigori sabia disso. Sua avó mal conseguia andar. Mesmo assim, achava que não deveriam deixá-la para trás.

– Vamos, Grishka! – gritou Ma.

Ela voltou a correr com Lev ainda nos braços. O caçula àquela altura chorava de medo. Grigori foi atrás dela, mas o atraso tinha sido fatal. Os cavaleiros os alcançaram, cercando-os pelos dois lados. O caminho para o bosque estava bloqueado. Desesperada, Ma disparou em direção ao lago, mas seus pés se enterraram na lama, seus passos ficaram mais lentos e, por fim, ela caiu dentro d’água.

Os soldados deram gargalhadas.

Eles amarraram as mãos de Ma e fizeram-na marchar de volta à casa.

– Não se esqueçam de trazer os meninos também – disse o capitão. – Ordens do príncipe.

O pai de Grigori tinha sido levado embora na semana anterior, junto com dois outros homens. Na véspera, os carpinteiros particulares do príncipe Andrei haviam construído um cadafalso na campina norte. Agora, enquanto seguia a mãe até lá, Grigori viu três homens em pé no tablado, com as mãos e os pés amarrados e cordas em volta do pescoço. Ao lado do cadafalso, havia um padre.

– Não! – gritou Ma, tentando se soltar da corda que lhe prendia as mãos.

Um dos cavaleiros sacou uma espingarda do coldre preso à sela e, virando-a, golpeou o rosto de Ma com a coronha de madeira. Ela parou de se debater e se pôs a soluçar.

Grigori sabia o que significava aquilo: seu pai iria morrer ali. Já havia visto ladrões de cavalos serem enforcados pelos anciãos da aldeia, embora não tivesse sido a mesma coisa, pois eram homens que ele não conhecia. Foi invadido por um terror que deixou seu corpo inteiro dormente e fraco.

Talvez acontecesse algo que pudesse evitar a execução. Se era mesmo verdade que o czar protegia seu povo, talvez ele interviesse. Ou quem sabe um anjo. Grigori sentiu o rosto molhado e percebeu que estava chorando.

Ele e a mãe foram obrigados a ficar bem em frente ao cadafalso. Os demais aldeões se reuniram ao seu redor. Assim como Ma, as mulheres dos dois outros homens tinham sido arrastadas até lá, aos gritos e aos prantos, com as mãos amarradas e as crianças agarradas às suas saias uivando de terror.

Uma carruagem fechada estava parada no caminho de terra batida depois do portão da campina, seus dois cavalos baios pastando a grama ao redor. Depois de todos chegarem, uma figura de barba preta surgiu de dentro da carruagem usando um casaco escuro comprido: era o príncipe Andrei. Ele se virou e deu a mão à irmã mais nova, princesa Bea, cujos ombros estavam cobertos por peles para protegê-los do frio da manhã. Grigori não pôde deixar de notar que a princesa era linda, com a pele clara e os cabelos louros, idêntica aos anjos que ele imaginava, muito embora ela obviamente fosse um demônio.

O príncipe se dirigiu aos aldeões.

– Esta campina pertence à princesa Bea – disse ele. – Ninguém pode pôr seu gado para pastar aqui sem a permissão dela. Fazer isso é o mesmo que roubar o pasto da princesa.

Um burburinho indignado atravessou a multidão. Apesar do que ouviam na igreja todos os domingos, ninguém acreditava nesse tipo de propriedade privada. Eles respeitavam uma moralidade mais antiga, camponesa, segundo a qual a terra pertencia a quem a cultivava.

O príncipe apontou para os três homens no cadafalso.

– Esses homens desobedeceram à lei... não uma vez, mas várias. – A afronta que sentia deixava sua voz estridente como a de uma criança cujo brinquedo foi roubado. – Pior ainda: eles disseram que a princesa não tinha o direito de impedi-los e que os campos não usados pelo proprietário deveriam estar à disposição dos camponeses pobres. – Grigori tinha ouvido o pai dizer esse tipo de coisa muitas vezes. – Por causa disso, homens de outros vilarejos começaram a pôr seu gado para pastar em terras pertencentes à nobreza. Em vez de se arrepender de seus pecados, esses três homens ainda transformaram seus vizinhos em pecadores! É por isso que eles foram condenados à morte. – Ele fez um sinal com a cabeça para o padre.

O sacerdote galgou os degraus improvisados e, em voz baixa, falou com um dos homens de cada vez. O primeiro aquiesceu com uma expressão vazia. O segundo chorou e começou a rezar em voz alta. O terceiro, pai de Grigori, cuspiu no rosto do padre. Ninguém ficou chocado: os vilarejos não gostavam do clero, e Grigori já escutara o pai dizer que os padres contavam à polícia tudo o que ouviam no confessionário.

Assim que o padre desceu os degraus, o príncipe Andrei meneou a cabeça para um dos criados postado ao seu lado com uma marreta. Somente então Grigori notou que os três condenados estavam em pé sobre uma plataforma de madeira articulada de forma grosseira, sustentada por um simples pedaço de pau. Percebeu também, aterrorizado, que a marreta estava prestes a soltá-lo.

Seria agora que um anjo deveria aparecer, pensou ele.

Os aldeões gemeram em uníssono. As mulheres dos condenados começaram a gritar e, desta vez, os soldados não as impediram. O pequeno Lev estava histérico. Ele provavelmente não entendia o que iria acontecer, pensou Grigori, mas estava assustado com os gritos da mãe.

Pa não demonstrava emoção alguma. Seu rosto estava impassível. Ele tinha o olhar distante, de quem aguarda seu destino. Grigori desejava ter aquela mesma força. Lutou para manter o controle, por mais que sentisse vontade de chorar como Lev. Não conseguiu conter as lágrimas, mas mordeu os lábios e se manteve tão calado quanto o pai.

O servo ergueu a marreta, encostando-a no pedaço de pau para calcular a distância. Então a jogou para trás e desferiu o golpe. O pedaço de pau voou longe. A plataforma despencou com um estalo. Os três homens caíram e pararam no ar com um tranco, a queda interrompida pelas cordas presas em volta de seus pescoços.

Grigori não conseguiu desviar os olhos. Ficou encarando o pai. Pa não morreu na hora. Abriu a boca para tentar respirar ou gritar, mas não conseguiu fazer nenhuma das duas coisas. Seu rosto ficou vermelho e ele lutou contra as cordas que o prendiam. Isso pareceu durar muito tempo, até seu rosto ficar ainda mais vermelho.

Então a pele do pai adquiriu um tom azulado, e seus movimentos foram ficando mais fracos. Por fim, ele se imobilizou.

Os gritos de Ma cessaram e ela se pôs a soluçar.

O padre começou a rezar em voz alta, mas os aldeões o ignoraram e, um depois do outro, deram as costas para os três homens mortos.

O príncipe e a princesa tornaram a subir na carruagem e, logo em seguida, o cocheiro estalou o chicote, fazendo-a partir.

 

Quando terminou de contar a história, Grigori já havia se acalmado. Passou a manga da camisa no rosto para enxugar as lágrimas e então voltou sua atenção para Katerina. Ela o escutara em um silêncio compassivo, mas não estava chocada. Provavelmente tinha presenciado cenas parecidas: enforcamentos, açoitamentos e mutilações eram punições corriqueiras nos vilarejos.

Grigori pôs a bacia de água morna sobre a mesa e apanhou um pano limpo. Katerina inclinou a cabeça para trás, enquanto ele pendurava a lamparina de querosene em um gancho na parede para poder enxergar melhor.

Havia um corte em sua testa, um hematoma em sua bochecha e seus lábios estavam inchados. Ainda assim, ver o rosto dela de perto deixou Grigori sem fôlego. Katerina o encarou com um olhar sincero e destemido que o deixou encantado.

Ele mergulhou uma das pontas do pano na água morna.

– Seja delicado – disse ela.

– É claro. – Ele começou limpando sua testa. Depois de retirar o sangue, viu que o ferimento era só um arranhão.

– Bem melhor – falou Katerina.

Enquanto Grigori prosseguia, ela ficou observando seu rosto. Quando terminou de lavar-lhe as faces e o pescoço, ele disse:

– Deixei a parte mais dolorida para o final.

– Não tem problema – disse ela. – Você tem a mão muito leve. – Apesar disso, ela fez uma careta quando o pano tocou seus lábios inchados.

– Perdão – falou ele.

– Continue.

Ao limpar as feridas, ele viu que já começavam a cicatrizar. Katerina tinha dentes de menina, brancos e simétricos. Ele limpou os cantos de sua boca larga. Ao se inclinar para junto dela, pôde sentir no rosto seu hálito morno.

Depois de terminar, foi tomado por uma sensação de desapontamento, como se esperasse por algo que não tinha acontecido.

Recostou-se na cadeira e enxaguou o pano na água agora escura com o sangue dela.

– Obrigada – agradeceu Katerina. – Você tem mãos muito boas.

Ele percebeu que seu coração estava disparado. Não era a primeira vez que limpava os ferimentos de alguém, mas jamais experimentara aquela sensação de vertigem. Sentiu que talvez estivesse prestes a cometer uma besteira.

Abriu a janela e despejou para fora a água da bacia, deixando uma mancha cor-de-rosa na neve que cobria o quintal.

Uma ideia maluca lhe passou pela cabeça: talvez Katerina fosse um sonho. Ele se virou, quase esperando ver a cadeira vazia. Mas ali estava ela, encarando-o com aqueles olhos azul-esverdeados, e Grigori percebeu que não queria que ela fosse embora nunca.

Ocorreu-lhe que talvez estivesse apaixonado.

Nunca havia pensado coisa parecida. Em geral, estava ocupado demais cuidando de Lev para correr atrás de mulheres. Não era virgem: fora para a cama com três mulheres diferentes. Mas não tinham sido experiências agradáveis, talvez porque ele não gostasse muito de nenhuma das três.

Mas agora, pensou ele, trêmulo, o que mais queria no mundo era se deitar com Katerina na cama estreita encostada na parede, beijar seu rosto machucado e lhe dizer...

E lhe dizer que a amava.

Não seja idiota, disse a si mesmo. Faz apenas uma hora que você a conhece. O que ela quer de você não é amor, mas sim algum dinheiro emprestado, um emprego e um lugar para dormir.

Ele fechou a janela com força.

– Então você cozinha para seu irmão e tem mãos delicadas – comentou ela –, mas ainda assim é capaz de nocautear um policial com um único soco.

Ele não soube o que dizer.

– Você me contou como seu pai morreu – continuou ela. – Mas a sua mãe também morreu quando você era pequeno... não foi?

– Como adivinhou?

Katerina deu de ombros.

– Porque você teve que se transformar em mãe.

 

Ela morreu no dia 9 de janeiro de 1905, pelo antigo calendário russo. Era um domingo, e nos meses e anos que se seguiram essa data passou a ser conhecida como Domingo Sangrento.

Grigori tinha 16 anos e Lev, 11. Assim como Ma, ambos trabalhavam na Metalúrgica Putilov. Grigori era aprendiz de fundidor, enquanto Lev era faxineiro. Naquele mês de janeiro, todos os três estavam em greve, junto com outros 100 mil operários de São Petersburgo, reivindicando uma jornada de trabalho de oito horas e o direito de se sindicalizar. Na manhã do dia 9, mãe e filhos vestiram suas melhores roupas e saíram de mãos dadas, caminhando com dificuldade sobre a neve recente até uma igreja próxima à metalúrgica. Depois da missa, foram se unir aos milhares de trabalhadores que seguiam em passeata, vindos de todos os pontos da cidade, rumo ao Palácio de Inverno.

– Por que temos que participar da passeata? – resmungou o pequeno Lev. Ele teria preferido jogar futebol em um beco.

– Por causa do seu pai – disse Ma. – Porque os príncipes e princesas são assassinos desalmados. Porque precisamos derrubar o czar e todos os da sua laia. Porque eu não vou descansar até a Rússia ser uma república.

Fazia um dia perfeito em São Petersburgo, frio mas seco, e o sol aquecia o rosto de Grigori da mesma forma que a sensação de aliança em prol de uma causa justa esquentava seu coração.

O líder deles, padre Gapon, parecia um profeta do Antigo Testamento com sua barba comprida, sua linguagem bíblica e a luz gloriosa que emanava de seus olhos. Ele não era um revolucionário: as reuniões de seus grupos de apoio, autorizadas pelo governo, sempre começavam com o pai-nosso e terminavam com o hino nacional.

– Hoje entendo em que o czar pretendia transformar Gapon – disse Grigori a Katerina nove anos depois, em seu quartinho com vista para a ferrovia. – Em uma válvula de escape, destinada a canalizar a pressão por reformas para atividades inofensivas como chás e bailes campestres. Mas não funcionou.

Vestido com uma túnica branca comprida e carregando um crucifixo, Gapon conduziu a procissão pela estrada de Narva. Grigori, Lev e Ma seguiam bem ao seu lado: ele incentivava as famílias a ficarem na frente do cortejo, dizendo que os soldados jamais disparariam contra crianças. Atrás deles, dois vizinhos carregavam um grande retrato do czar. Gapon lhes dizia que o czar era o pai de seu povo. Ele iria escutar seus clamores, derrotar seus ministros cruéis e ceder às exigências sensatas dos trabalhadores. “Nosso Senhor Jesus Cristo falou: ‘Que venham a mim as crian­cinhas’, e o czar diz a mesma coisa”, exclamava Gapon, e Grigori acreditava nele.

Eles haviam chegado ao Portão de Narva, um imenso arco do triunfo, e Grigori se lembrava de ter erguido os olhos para a estátua de uma carruagem puxada por seis cavalos gigantescos. Então um esquadrão de cavalaria atacou os manifestantes, quase como se um dos cavalos de bronze do monumento tivesse ganhado vida com violência.

Algumas pessoas saíram correndo, outras sucumbiram aos golpes dos cascos dos animais. Grigori congelou onde estava, aterrorizado, assim como Ma e Lev.

Os soldados não sacaram nenhuma arma e pareciam apenas querer afugentar os participantes, porém havia trabalhadores demais e, em poucos minutos, os soldados fizeram seus cavalos darem meia-volta e foram embora.

Quando a passeata foi retomada, a atmosfera havia mudado. Grigori sentiu que o dia talvez não fosse terminar de forma pacífica. Pensou nas forças reunidas contra eles: a nobreza, os ministros, o Exército. Até onde eles iriam para impedir o povo de falar com o czar?

Sua resposta chegou quase na mesma hora. Ao olhar por cima das cabeças à sua frente, viu uma linha de soldados de infantaria e percebeu, com um calafrio de medo, que eles estavam preparados para atirar.

À medida que as pessoas entendiam o que as aguardava, a marcha foi desacelerando. O padre Gapon, que estava bem perto de Grigori, virou-se e gritou para seus seguidores:

– O czar jamais permitirá que o Exército atire em seu amado povo!

Ouviu-se uma barulheira ensurdecedora, como uma chuva de granizo sobre um telhado de zinco: os soldados haviam disparado uma salva de tiros. O cheiro acre de pólvora fez as narinas de Grigori arderem e ele sentiu o coração se apertar de medo.

O padre gritou:

– Não se preocupem... eles estão atirando para cima!

Outra salva ecoou, mas ninguém pareceu ter sido atingido. Mesmo assim, o pavor de Grigori era tanto que suas entranhas se contraíram.

Então houve uma terceira salva e, desta vez, as balas não subiram de forma inofensiva em direção ao céu. Grigori ouviu gritos e viu pessoas caindo. Confuso, olhou em volta por alguns instantes, mas então Ma o empurrou com violência enquanto gritava:

– Deite-se no chão!

Ele se atirou de bruços. Ao mesmo tempo, Ma jogou Lev no chão e caiu por cima dele.

Nós vamos morrer, pensou Grigori, as batidas de seu coração soando mais alto do que as próprias armas.

Os disparos prosseguiram sem trégua, fazendo um estardalhaço apavorante, impossível de abafar. À medida que outros fugiam, em pânico, Gregori foi pisoteado por botas pesadas, porém Ma protegeu sua cabeça e a de Lev. Os três ficaram deitados ali, tremendo, enquanto tiros e gritos ecoavam acima deles.

Então o tiroteio cessou. Ma se mexeu e Grigori levantou a cabeça para olhar em volta. Pessoas corriam em todas as direções, gritando umas com as outras, mas a algazarra foi diminuindo.

– Levantem-se, vamos – disse Ma.

Os três ficaram de pé e se afastaram depressa da estrada, pulando por cima de corpos inertes e contornando os feridos ensanguentados. Chegaram a uma rua menor e diminuíram o ritmo. Lev sussurrou para Grigori:

– Eu fiz xixi na calça! Não conte para Ma!

Ma estava possessa.

– Nós VAMOS falar com o czar! – gritou ela, fazendo as pessoas pararem para olhar seu rosto de camponesa e seu olhar intenso. Ma tinha o peito largo, e sua voz ribombou pela rua. – Eles não podem nos impedir! Precisamos ir até o Palácio de Inverno! – Algumas pessoas vibraram, outras assentiram com a cabeça. Lev começou a chorar.

Ao ouvir essa história, nove anos depois, Katerina comentou:

– Por que ela fez isso? Deveria ter levado os filhos para casa, garantido a segurança deles!

– Ma costumava dizer que não queria que tivéssemos a mesma vida que ela – respondeu Grigori. – Achava que seria melhor para todos nós morrer do que desistir da esperança de uma vida mais justa, imagino.

Katerina adotou uma expressão pensativa.

– Talvez isso seja coragem.

– É mais do que coragem – disse Grigori com firmeza. – É heroísmo.

– E depois, o que aconteceu?

Junto com milhares de outros, eles haviam chegado ao centro da cidade. À medida que o sol se erguia mais alto acima da cidade coberta de neve, Grigori desabotoou o casaco e desatou o cachecol. A caminhada era longa para as pernas curtas de Lev, mas o menino estava abalado e assustado demais para reclamar.

Finalmente, eles chegaram à Nevsky Prospekt, o amplo bulevar que atravessava o coração da cidade. Já havia uma multidão ali. Bondes e ônibus passavam de um lado para outro e cabriolés zuniam perigosamente em todas as direções – naquela época não havia táxis motorizados, recordou Grigori.

Os três toparam com Konstantin, torneiro mecânico da Metalúrgica Putilov. Com o semblante fechado, o torneiro disse a Ma que manifestantes haviam sido mortos em outras partes da cidade. Contudo, ela não diminuiu o passo – e a multidão parecia igualmente decidida. Foram passando sem titubear por lojas que vendiam pianos da Alemanha, chapéus fabricados em Paris e vasos de prata especiais para abrigar rosas de estufa. Grigori ouvira dizer que, nas joalherias daquele bairro, um nobre poderia gastar mais dinheiro comprando uma bugiganga para a amante do que um operário conseguia ganhar durante a vida inteira. Eles passaram pelo cinema Soleil, que Grigori sonhava em visitar. Os ambulantes estavam tirando proveito da situação, vendendo chá em samovares e balões coloridos para as crianças.

No final da rua, chegaram a três grandes marcos da cidade de São Petersburgo, situados lado a lado na margem do rio Neva, então congelado: a estátua equestre de Pedro, o Grande, chamada O Cavaleiro de Bronze; o prédio do Almirantado, com sua torre alta; e o Palácio de Inverno. Na primeira vez que vira o palácio, aos 12 anos, Grigori se recusara a acreditar que um prédio tão enorme assim pudesse de fato ser um lugar em que pessoas moravam. Isso lhe parecia inconcebível, como algo saído de um conto de fadas, uma espada mágica ou uma capa de invisibilidade.

A praça em frente ao palácio estava toda branca de neve. Na outra ponta, enfileirados em frente ao prédio vermelho-escuro, havia soldados de cavalaria, fuzileiros de casacos compridos e canhões. A multidão se aglomerava nas extremidades da praça, mantendo distância, com medo dos militares; mas um fluxo constante de recém-chegados vinha das ruas próximas, como os afluentes que desaguavam no rio Neva, e Grigori não parava de ser empurrado para a frente. Ele reparou com surpresa que nem todos os presentes eram operários. Muitos eram membros da classe média, voltando da igreja com seus casacos grossos, alguns pareciam estudantes e uns poucos até usavam uniformes escolares.

Ma se afastou cautelosamente das armas e entrou no Jardim Alexandrovskii, um parque em frente ao comprido prédio amarelo e branco do Almirantado. Outros tiveram a mesma ideia, e aquela parte da multidão ganhou vida. O homem que costumava oferecer passeios de trenó às crianças de classe média já havia ido para casa. Todos ali falavam sobre massacres. Por toda a cidade, manifestantes tinham sido abatidos a tiros e golpeados até a morte pelos sabres dos cossacos. Grigori conversou com um menino da sua idade e lhe disse o que havia acontecido no Portão de Narva. À medida que os integrantes da passeata descobriam o que havia acontecido com os outros, ficavam mais irados.

Grigori ergueu os olhos para a ampla fachada do Palácio de Inverno, com suas centenas de janelas. Onde estaria o czar?

– Mais tarde, nós descobrimos que ele não estava no Palácio de Inverno naquela manhã – disse Grigori a Katerina, ouvindo na própria voz o ressentimento amargo de um devoto desapontado. – Não estava sequer na cidade. O pai de seu povo tinha ido para seu palácio de Tsarskoe Selo passar o fim de semana fazendo caminhadas pelo campo e jogando partidas de dominó. Mas não sabíamos disso, então começamos a chamá-lo, rogando que aparecesse para seus súditos fiéis.

A multidão cresceu; os clamores pelo czar se tornaram mais insistentes; alguns dos manifestantes começaram a zombar dos soldados. Todos estavam ficando tensos e irritados. De repente, um destacamento de guardas avançou em direção ao jardim, ordenando a todos que saíssem. Grigori ficou olhando, apavorado e incrédulo, enquanto eles distribuíam chicotadas indiscriminadamente, alguns golpeando com a parte chata da lâmina de seus sabres. Sem saber o que fazer, olhou para Ma.

– Não podemos desistir agora! – disse ela.

Grigori não sabia o que exatamente eles esperavam que o czar fizesse; apenas tinha certeza, como todos os outros, de que seu monarca daria um jeito de atender às reivindicações do povo se ao menos soubesse quais eram elas.

Os outros manifestantes estavam tão decididos quanto Ma e, embora aqueles que haviam sido atacados pelos guardas tivessem recuado, ninguém saiu de onde estava.

Os soldados assumiram posições de tiro.

Várias das pessoas que estavam mais à frente caíram de joelhos, tiraram os gorros e se benzeram.

– Ajoelhem-se! – disse Ma, ao que os três se ajoelharam, assim como quase todos à sua volta, até a maior parte da multidão assumir uma postura de oração.

O silêncio que se fez deixou Grigori com medo. Ele encarou os rifles apontados em sua direção e os fuzileiros o olharam de volta com uma expressão vazia, como estátuas.

Então Grigori ouviu o som de uma corneta.

Era um sinal. Os soldados dispararam as armas. Ao redor de Grigori, pessoas gritavam e caíam. Um menino que havia subido em uma estátua para ver melhor deu um grito e despencou no chão. Uma criança caiu de uma árvore como um passarinho alvejado.

Grigori viu Ma cair de cara no chão. Achando que tinha sido para se esquivar dos tiros, ele fez a mesma coisa. Então, deitado ao seu lado, olhou para ela e viu o sangue vermelho-vivo sobre a neve em volta da cabeça da mãe.

– Não! – berrou ele. – Não!

Lev soltou um grito.

Grigori agarrou os ombros de Ma e puxou-a para cima. Seu corpo estava mole. Ele encarou seu rosto. A princípio, ficou atônito com a imagem que viu. O que era aquilo? No lugar onde deveriam estar sua testa e seus olhos havia apenas uma irreconhecível massa sanguinolenta.

Foi Lev quem entendeu a verdade.

– Ela morreu! – exclamou ele. – Ma morreu, minha mãe morreu!

Os tiros cessaram. Por toda parte, pessoas corriam, mancavam ou rastejavam para longe. Grigori tentou pensar. O que deveria fazer? Concluiu que precisava tirar Ma dali. Passou os braços por debaixo dela e a ergueu. Sua mãe não era leve, mas ele era forte.

Ele se virou, à procura do caminho de casa. Tinha a visão estranhamente embaçada e percebeu que estava chorando.

– Vamos – disse a Lev. – Pare de berrar. Temos que ir.

À beira da praça, foram parados por um velho cuja pele do rosto se enrugava em volta de dois olhos marejados. Ele usava um uniforme azul de operário.

– Vocês são jovens – disse ele a Grigori. Havia angústia e raiva em sua voz. – Nunca se esqueçam disto – falou. – Nunca se esqueçam dos assassinatos cometidos aqui hoje pelo czar.

Grigori aquiesceu.

– Não vou me esquecer, senhor – disse ele.

– Que você viva muito – retrucou o velho. – Que viva o suficiente para se vingar do czar coberto de sangue pelo mal que fez hoje.

 

– Eu a carreguei por uns dois quilômetros, depois fiquei cansado e subi em um bonde, ainda com ela no colo – disse Grigori a Katerina.

Ela o encarava. Seu lindo rosto machucado estava pálido de horror.

– Você carregou sua mãe morta para casa de bonde?

Ele deu de ombros.

– Na época, eu não tinha ideia de que estava fazendo algo estranho. Ou melhor, tudo o que aconteceu naquele dia foi tão bizarro que nada do que eu fazia parecia estranho.

– E os outros passageiros do bonde?

– O motorneiro não disse nada. Acho que ficou chocado demais para me expulsar, e obviamente nem me cobrou passagem... até porque eu não teria mesmo dinheiro para pagar.

– Então você se sentou e pronto?

– Fiquei sentado ali, com o corpo dela nos braços e Lev chorando ao meu lado. Os passageiros ficaram apenas olhando. Eu não estava ligando para o que eles pensavam. Estava concentrado no que tinha de fazer, que era levar minha mãe para casa.

– E daí você virou chefe de família aos 16 anos.

Grigori aquiesceu. Embora as lembranças fossem dolorosas, a atenção irrestrita de Katerina lhe dava grande prazer. Seus olhos estavam fixos nele e ela o escutava boquiaberta, com uma expressão no rosto formoso que era um misto de fascínio e horror.

– Minha lembrança mais vívida daquele momento é o fato de ninguém ter nos ajudado – disse ele, tornando a experimentar a sensação de pânico de estar sozinho em um mundo hostil.

Essa lembrança nunca deixava de encher sua alma de raiva. Isso tudo é passado, pensou ele com seus botões. Hoje tenho uma casa, um emprego e meu irmão cresceu e se tornou um rapaz forte e bonito. Os maus dias acabaram. Mesmo assim, ele sentia vontade de agarrar alguém pelo pescoço – soldado, policial, ministro do governo ou o próprio czar – e esganá-lo até toda a vida se esvair do seu corpo. Trêmulo, fechou os olhos até a sensação passar.

– Logo depois do funeral, o senhorio nos expulsou dizendo que não poderíamos mais pagar o aluguel. Ainda confiscou nossos móveis, para cobrir os pagamentos atrasados, segundo ele, embora Ma nunca ficasse devendo. Eu fui à igreja e disse ao padre que não tínhamos onde dormir.

Katerina deu uma risada sarcástica.

– Posso adivinhar o que aconteceu lá.

Ele ficou surpreso.

– Pode?

– O padre lhes ofereceu uma cama... a cama dele. Foi o que aconteceu comigo.

– Foi mais ou menos isso – disse Grigori. – Ele me deu alguns copeques e me mandou comprar batatas quentes. A loja não ficava onde ele dissera, mas em vez de procurar voltei correndo para a igreja, porque não tinha gostado da cara dele. Dito e feito: quando entrei na sacristia, ele estava abaixando as calças de Lev.

Ela assentiu:

– Os padres têm feito esse tipo de coisa comigo desde os meus 12 anos.

Grigori ficou chocado. Sempre imaginara que aquele padre em especial fosse ruim. Katerina evidentemente achava que a devassidão era a regra.

– Eles são todos assim? – perguntou com raiva.

– Pelo que sei, a maioria é.

Grigori balançou a cabeça, enojado.

– E sabe o que mais me impressionou? Quando eu o flagrei, ele nem sequer ficou envergonhado! Pareceu apenas contrariado, como se tivesse sido interrompido enquanto meditava sobre a Bíblia.

– O que você fez?

– Mandei Lev levantar as calças e fomos embora. O padre pediu seus copeques de volta, mas eu lhe disse que aquela era uma esmola para os pobres. Paguei um pernoite em uma hospedaria com eles.

– E depois?

– Acabei conseguindo um emprego razoável depois de mentir sobre a minha idade, arranjei um quarto e aprendi, um dia depois do outro, a ser independente.

– E hoje você é feliz?

– Longe disso. Minha mãe queria que nós tivéssemos uma vida melhor, e eu vou garantir que isso aconteça. Vou embora da Rússia. Já guardei a maior parte do dinheiro. Vou para os Estados Unidos e, quando chegar lá, mandarei dinheiro para a passagem de Lev. Não existe czar nenhum nos Estados Unidos... nem imperador ou rei de qualquer tipo. O Exército de lá não pode simplesmente atirar em quem quiser. Quem manda no país é o povo!

Ela se mostrou cética.

– Você acredita mesmo nisso?

– É verdade!

Alguém bateu na vidraça. Katerina se assustou – eles estavam no primeiro andar –, mas Grigori sabia que era Lev. Tarde da noite, quando a porta da casa ficava trancada, Lev tinha de atravessar a linha do trem até o quintal dos fundos, depois subir no telhado da lavanderia e entrar pela janela.

Grigori abriu a janela para Lev entrar. Seu irmão estava elegante, usando um paletó com botões de madrepérola e um chapéu com fita de veludo. Em seu colete, via-se a corrente de latão de um relógio de bolso. Seus cabelos ostentavam o corte da moda, estilo “polonês” – repartidos de lado em vez de no meio como o dos camponeses. Katerina pareceu surpresa, e Grigori imaginou que ela não esperava que seu irmão fosse tão atraente.

Em geral, Grigori ficava feliz ao ver Lev, e aliviado quando o irmão aparecia sóbrio e inteiro. Mas, daquela vez, desejou poder ter passado mais tempo sozinho com Katerina.

Apresentou os dois e os olhos de Lev chisparam de interesse ao apertar a mão da moça. Katerina enxugou as lágrimas do rosto.

– Grigori estava me contando sobre a morte da sua mãe – explicou.

– Há nove anos ele tem sido minha mãe e meu pai – disse Lev, inclinando a cabeça e farejando o ar. – E faz um senhor ensopado.

Grigori pegou tigelas e colheres e pôs um pão preto sobre a mesa. Katerina explicou a Lev sobre a briga com o policial Pinsky. A forma como ela contou a história fez Grigori parecer mais valente do que se sentia, mas ele ficou feliz por parecer um herói aos olhos dela.

Lev ficou encantado com Katerina. Inclinou-se para a frente, escutando como se nunca tivesse ouvido nada tão fascinante, sorrindo e aquiescendo, alternando expressões de espanto e de desgosto de acordo com o que ela dizia.

Grigori serviu o ensopado nas tigelas e puxou a mala até a mesa para servir de terceira cadeira. A comida estava boa; ele havia acrescentado uma cebola à panela e o joelho de porco dava aos rabanetes algo do sabor da carne. A atmosfera ficou mais leve quando Lev começou a falar sobre amenidades, como incidentes estranhos na fábrica e coisas engraçadas que os outros tinham dito. Graças a ele, Katerina riu o tempo todo.

Quando terminaram de comer, Lev perguntou à jovem como ela fora parar na cidade.

– Meu pai morreu e minha mãe se casou de novo – respondeu ela. – Infeliz­mente, meu padrasto parecia gostar mais de mim do que da minha mãe. – Ela sacudiu a cabeça e Grigori não soube dizer se aquele gesto era de vergonha ou de rebeldia. – Seja como for, era isso que minha mãe achava, então ela me botou para fora de casa.

– Metade da população de São Petersburgo veio para cá de algum vilarejo – disse Grigori. – Daqui a pouco não vai restar ninguém para arar a terra.

– Como foi a sua viagem? – quis saber Lev.

A história que ela contou foi o relato banal de passagens para vagões de terceira classe e caronas em carroças, mas Grigori ficou hipnotizado por seu rosto enquanto ela falava.

Lev escutou com atenção, fazendo comentários divertidos e uma ou outra pergunta.

Em pouco tempo, percebeu Grigori, Katerina já havia se virado na cadeira e estava falando apenas com Lev.

Quase como se eu nem estivesse aqui, pensou ele.

 

Março de 1914

– Então – disse Billy ao pai – todos os livros da Bíblia foram escritos originalmente em várias línguas e depois traduzidos para o inglês.

– Isso – respondeu Da. – E a Igreja Católica tentou proibir as traduções... Eles não queriam que gente como nós lesse a Bíblia por conta própria e questionasse os padres.

Da soava um tanto anticristão quando se referia aos católicos. Parecia odiar o catolicismo mais do que o ateísmo. Mas adorava uma controvérsia.

– Bom – falou Billy –, mas onde estão os originais?

– Que originais?

– Os livros originais da Bíblia, escritos em hebraico e em grego. Onde eles estão guardados?

Eles estavam sentados um de frente para o outro à mesa quadrada da cozinha, na casa de Wellington Row. A tarde ia pela metade. Billy já havia voltado da mina e lavado as mãos e o rosto, mas ainda usava as roupas de trabalho. Da tinha pendurado seu paletó e estava sentado de camisa de colarinho, colete e gravata – iria sair novamente depois do jantar para uma reunião do sindicato. Mam estava aquecendo o ensopado na lareira. Gramper estava sentado à mesa com eles, escutando a conversa com um leve sorriso, como se já tivesse ouvido tudo aquilo antes.

– Ora, nós não temos os originais – respondeu Da. – Eles desapareceram séculos atrás. Temos cópias.

– Então onde estão as cópias?

– Em vários lugares diferentes, mosteiros, museus...

– Deveriam ficar guardados no mesmo lugar.

– Mas existe mais de uma cópia de cada livro e algumas são melhores do que outras.

– Como uma cópia pode ser melhor do que outra? Não me diga que são diferentes...

– Sim, elas são. Com o passar dos anos, erros humanos foram ocorrendo.

Isso surpreendeu Billy.

– Mas como é possível saber qual cópia é a certa?

– É aí que entra uma área de estudos chamada crítica textual: a comparação das diferentes versões para produzir um texto definitivo.

Billy estava chocado.

– Quer dizer que não existe um livro incontestável que seja a verdadeira Palavra de Deus? Os homens discutem a respeito e decidem?

– Isso.

– E como podemos saber se eles estão certos?

Da abriu um sorriso matreiro, um claro sinal de que estava contra a parede.

– Nós acreditamos que, se eles trabalharem com humildade e fé, Deus irá guiar seus esforços.

– Mas e se eles não fizerem isso?

Mam depositou quatro tigelas sobre a mesa.

– Não discuta com seu pai – falou ela. Em seguida, cortou quatro fatias grossas de pão.

– Cara, minha menina, deixe-o em paz – disse Gramper. – Deixe o garoto fazer suas perguntas.

– Nós temos fé no poder de Deus de garantir que Sua palavra chegue a nós como Ele deseja – falou Da.

– O senhor não está dizendo coisa com coisa!

Mam tornou a interromper:

– Não fale assim com seu pai! Você ainda é um menino, não sabe de nada.

Billy não lhe deu ouvidos.

– Se Deus queria mesmo que nós conhecêssemos Sua Palavra, por que não orientou o trabalho dos copistas para que eles não cometessem erros?

– Algumas coisas não cabe a nós compreender – falou Da.

Essa resposta era a menos convincente de todas, e Billy a ignorou.

– Se os copistas podiam cometer erros, é óbvio que os estudiosos do texto bíblico também podiam.

– É preciso ter fé, Billy.

– Fé na Palavra de Deus, sim... não em um bando de professores de grego!

Mam sentou-se à mesa e afastou dos olhos os cabelos já grisalhos.

– De modo que, como sempre, você está certo e todos os outros estão errados, imagino?

Essa tática sempre o atingia, pois parecia válida. Não era possível que ele fosse mais sabido que todos os outros.

– Não sou eu – protestou ele. – É uma questão de lógica!

– Ah, você e sua velha lógica – disse Mam. – Coma a sua janta.

A porta se abriu e a Sra. Dai dos Pôneis entrou. Isso era normal em Wellington Row: somente os desconhecidos batiam. A Sra. Dai estava usando um vestido sem mangas e calçava botas de homem – o que quer que tivesse a dizer era urgente o bastante para ela nem sequer pôr um chapéu antes de sair de casa. Visivelmente agitada, brandiu uma folha de papel.

– Estou sendo despejada! – falou. – O que é que eu vou fazer?

Da se levantou para lhe ceder a cadeira.

– Sente-se aqui e recupere o fôlego, Sra. Dai – disse ele com calma. – Deixe-me ler essa carta. – Ele pegou o papel de sua mão vermelha deformada pela artrite e o estendeu sobre a mesa.

Billy pôde ver que a carta havia sido datilografada em um papel timbrado da Celtic Minerals.

– “Prezada Sra. Evans” – leu Da em voz alta. – “Solicitamos a casa situada no endereço acima mencionado para acomodação de um minerador em atividade.”

A Celtic Minerals havia construído a maior parte das casas de Aberowen. Com o passar dos anos, algumas tinham sido vendidas para seus ocupantes, incluindo aquela onde vivia a família Williams, mas a maioria ainda era alugada aos trabalhadores.

– “De acordo com as cláusulas de nosso contrato de aluguel, venho por meio desta” – Da fez uma pausa e Billy notou que o pai estava chocado – “lhe dar um aviso prévio de duas semanas para desocupar o imóvel” – terminou ele.

– Um aviso de despejo... e não faz nem seis semanas que o marido dela foi enterrado! – exclamou Mam.

– Para onde eu vou com cinco crianças? – lamentou-se a Sra. Dai.

Billy também estava chocado. Como a empresa podia fazer uma coisa dessas com uma mulher cujo marido tinha morrido na sua mina?

– A carta está assinada por Perceval Jones, Presidente – concluiu Da.

– Que contrato de aluguel? Não sabia que os mineradores tinham esse tipo de coisa – disse Billy.

– Não existe nada por escrito – esclareceu Da –, mas a lei diz que há um contrato implícito. Essa é uma batalha que nós já travamos e perdemos. – Ele se virou para a Sra. Dai. – Em teoria, a casa está atrelada ao emprego, mas as viúvas em geral são autorizadas a ficar. Às vezes elas saem mesmo assim e vão morar em outro lugar, com os pais, talvez. Muitas vezes tornam a se casar com outro minerador, que então assume o aluguel. Normalmente, elas têm pelo menos um filho homem que passa a trabalhar na mina depois de crescido. Na verdade, não é do interesse da empresa expulsar as viúvas.

– Então por que eles querem se livrar de mim e dos meus filhos? – falou a Sra. Dai em tom de lamúria.

– Perceval Jones está com pressa – disse Gramper. – Ele deve estar achando que o preço do carvão vai subir. Foi por isso que começou o turno dominical.

Da assentiu.

– Seja qual for o motivo, eles querem aumentar a produção, isso com certeza. Mas não vão conseguir isso expulsando viúvas. – Ele se levantou. – Não se eu puder impedir.

 

Oito mulheres estavam sendo despejadas, todas viúvas de homens mortos na explosão. Elas haviam recebido cartas idênticas de Perceval Jones, como Da confirmou naquela mesma tarde ao visitá-las uma por uma, com Billy a tiracolo. A reação das mulheres ia da histeria da Sra. Hywel Jones, que não conseguia parar de chorar, ao fatalismo sinistro da Sra. Roley Hughes, segundo a qual o país precisava era de uma guilhotina como a que havia em Paris para homens como Perceval Jones.

Billy fervia de indignação. Será que não bastava aquelas mulheres terem perdido os maridos na mina? Além de viúvas, precisavam ficar sem teto?

– A empresa pode fazer isso, Da? – perguntou ele enquanto os dois passavam pelas miseráveis casas geminadas cinza, em direção à entrada da mina.

– Só se nós deixarmos, filho. A classe operária é mais numerosa do que a classe dominante, e mais forte. Eles dependem de nós para tudo. Produzimos a comida que eles comem, construímos as casas em que eles moram e fabricamos as roupas que eles vestem. Sem nós, eles morrem. Não podem fazer nada a menos que a gente deixe. Nunca se esqueça disso.

Os dois entraram no escritório do gerente, guardando as boinas nos bolsos.

– Boa tarde, Sr. Williams – disse Llewellyn Espinhento com nervosismo. – Aguarde só um minuto. Vou perguntar ao Sr. Morgan se ele pode recebê-lo.

– Não seja idiota, garoto, é claro que ele vai me receber – falou Da, entrando na sala particular do gerente. Billy foi atrás dele.

Maldwyn Morgan estava conferindo um livro-razão, mas Billy teve a impressão de que aquilo era apenas fingimento. Ele ergueu os olhos. Suas bochechas rosadas estavam bem barbeadas, como sempre.

–Entre, Williams – disse ele, sem necessidade.

Ao contrário de muitos homens, Morgan não tinha medo de Da. Nascido em Aberowen, o gerente era filho de professor e havia estudado engenharia. Ele e Da eram parecidos, percebeu Billy: inteligentes, donos da verdade e cabeças-duras.

– O senhor sabe o que me traz aqui, não é, Sr. Morgan? – falou Da.

– Posso adivinhar, mas diga mesmo assim.

– Quero que o senhor revogue os avisos de despejo.

– A empresa precisa das casas para mineradores.

– Vai haver confusão.

– O senhor está me ameaçando?

– Não se faça de ofendido – falou Da com a voz tranquila. – Essas mulheres perderam os maridos na sua mina. O senhor não se sente responsável por elas?

Morgan ergueu o queixo, defendendo-se.

– A investigação pública concluiu que a explosão não foi causada por negligência da empresa.

Billy teve vontade de lhe perguntar como um homem inteligente podia dizer uma coisa dessas sem ficar envergonhado.

– A investigação encontrou uma lista de irregularidades tão comprida quanto o trem para Paddington – retrucou Da. – Equipamentos elétricos sem proteção, nenhuma máscara de gás ou sistema de combate a incêndio adequado...

– Mas as irregularidades não causaram a explosão nem a morte dos mineradores.

– Não foi possível provar que as irregularidades causaram a explosão ou as mortes.

Pouco à vontade, Morgan se remexeu na cadeira.

– O senhor não veio aqui discutir sobre a investigação.

– Eu vim aqui para colocar juízo na sua cabeça. Neste exato momento, a notícia das cartas está se espalhando pela cidade. – Da fez um gesto em direção à janela e Billy viu que o sol de inverno estava se pondo atrás da montanha. – Os homens estão ensaiando nos corais, bebendo nos pubs, indo a rodas de oração, jogando xadrez... e todos estão falando sobre o despejo das viúvas. E pode apostar que eles estão zangados.

– Vou perguntar de novo: o senhor está tentando intimidar a empresa?

Billy queria esganar aquele homem, mas Da só fez suspirar.

– Escute, Maldwyn, nós nos conhecemos desde a escola. Seja sensato. Você sabe que há homens no sindicato que vão ser mais agressivos do que eu. – Da estava se referindo ao pai de Tommy Griffiths. Len Griffiths acreditava na revolução e sempre torcia para que a briga seguinte fosse a faísca que provocaria a conflagração. Ele também queria a vaga de Da. Era certo que iria propor medidas drásticas.

– Está me dizendo que vocês vão entrar em greve? – perguntou Morgan.

– Estou lhe dizendo que os homens vão ficar bravos. Não posso prever o que eles vão fazer. Mas eu não quero confusão, e você, tampouco. Estamos falando em oito casas de um total de quantas, oitocentas? O que eu vim aqui perguntar é: vale a pena?

– A empresa já tomou sua decisão – disse Morgan, e Billy intuiu que ele não concordava com a empresa.

– Peça ao conselho de diretores para reavaliar a questão. Que mal poderia haver nisso?

O tom moderado de Da estava deixando Billy impaciente. Ele não deveria estar levantando a voz, colocando o dedo na cara de Morgan e acusando a companhia da crueldade desumana de que ela era evidentemente culpada? Era isso que Len Griffiths teria feito.

Morgan não se deixou comover.

– Estou aqui para executar as decisões do conselho, não para questioná-las.

– Então os despejos já foram aprovados pelo conselho – falou Da.

Morgan pareceu embaraçado.

– Eu não disse isso.

Mas deu a entender, pensou Billy, graças às perguntas engenhosas de Da. Talvez a moderação não fosse tão má ideia assim.

Da mudou de tática.

– E se eu conseguisse encontrar oito casas cujos donos estivessem dispostos a aceitar novos mineradores como inquilinos?

– Esses homens têm famílias.

Da falou de forma lenta e calculada.

– Nós poderíamos chegar a um acordo, se você estivesse disposto.

– A empresa precisa ter o poder de administrar seus próprios negócios.

– Independentemente das consequências para os outros?

– Esta mina de carvão é nossa. A empresa avaliou o terreno, negociou com o conde, escavou a mina e comprou os equipamentos. E ela também construiu as casas para os trabalhadores morarem. Fomos nós que pagamos por tudo e ninguém vai nos dizer o que fazer com a nossa propriedade.

Da tornou a pôr a boina.

– Mas vocês não puseram o carvão debaixo da terra, Maldwyn, ou puseram? – indagou ele. – Quem fez isso foi Deus.

 

Da tentou reservar a sala de reunião da prefeitura para uma assembleia às sete e meia da noite seguinte, mas o espaço já tinha sido cedido ao Grupo de Teatro Amador de Aberowen, que ensaiava a primeira parte de Henrique IV. Então, Da decidiu que os mineradores iriam se reunir na Capela de Bethesda. Billy e Da, acompanhados por Len e Tommy Griffiths e por alguns outros membros atuantes do sindicato, percorreram a cidade para divulgar a reunião no boca a boca e pregar avisos manuscritos nos pubs e capelas.

Às sete e quinze da noite seguinte, a capela já estava lotada. As viúvas se sentaram na primeira fileira e todos os outros ficaram em pé. Billy estava em uma das laterais, perto da frente, de onde podia ver os rostos dos homens. Ao seu lado estava Tommy Griffiths.

Billy sentia orgulho do pai por sua coragem, por sua inteligência e pelo fato de ele ter recolocado a boina antes de sair da sala de Morgan. Ainda assim, queria que Da tivesse sido mais agressivo. Ele deveria ter falado com Morgan do mesmo jeito que falava com a congregação de Bethesda, predizendo o fogo e a danação do inferno a quem se recusasse a enxergar a verdade.

Às sete e meia em ponto, Da pediu silêncio. Com sua voz imponente de pregador, leu em voz alta a carta enviada por Perceval Jones à Sra. Dai dos Pôneis.

– Esta carta foi enviada para as oito viúvas dos homens mortos na explosão da mina seis semanas atrás.

– Vergonhoso! – gritaram vários homens.

– Segundo o nosso regulamento, os homens só devem falar quando solicitados pelo presidente da assembleia, e só nesse caso, para que todos sejam ouvidos um de cada vez. Agradeço se vocês puderem respeitar essa regra, mesmo em uma situação como esta, em que os sentimentos estão exaltados.

– Malditos sejam, isso é um absurdo! – gritou alguém.

– Griff Pritchard, por favor, sem blasfêmias. Estamos em uma capela e, além disso, há senhoras presentes.

– Silêncio, silêncio – disseram dois ou três dos homens.

Griff Pritchard, que ficara no pub Two Crowns desde o final de seu turno naquela tarde, falou:

– Desculpe, Sr. Williams.

– Eu tive uma reunião ontem com o gerente da mina e lhe pedi formalmente que revogasse os avisos de despejo, mas ele se recusou. Deu a entender que a de­cisão tinha sido do conselho de diretores e que ele não tinha poder para mudá-la, ou nem sequer questioná-la. Insisti que cogitássemos alternativas, mas ele disse que a empresa tinha o direito de administrar seus negócios sem interferência. São essas as informações que tenho para vocês. – Aquilo era um tanto comedido, pensou Billy. Ele queria que Da conclamasse a revolução. Mas seu pai se limitou a apontar para um homem que estava com a mão levantada. – John Jones da Loja.

– Eu morei a vida inteira no número 23 de Gordon Terrace – falou Jones. – Nasci naquela casa e continuo nela até hoje. Meu pai morreu quando eu tinha 11 anos. Foi bem difícil para a minha mãe, mas deixaram que ela ficasse. Quando eu tinha 13 anos, comecei a trabalhar na mina e hoje quem paga o aluguel sou eu. É assim que sempre foi. Ninguém disse nada sobre nos despejar.

– Obrigado, John Jones. Você tem alguma proposta de ação?

– Não, só queria falar.

– Eu tenho uma proposta – disse outra voz. – Greve!

Ouviu-se um coro de aprovação.

– Dai Chorão – disse o pai de Billy.

– Eu acho o seguinte – falou o capitão do time de rúgbi da cidade. – Não podemos deixar a empresa fazer isso. Se eles puderem despejar as viúvas, nenhum de nós vai conseguir ficar tranquilo quanto à segurança das nossas famílias. Um homem pode passar a vida inteira trabalhando para a Celtic Minerals, morrer a serviço e duas semanas depois sua família ser jogada na rua. Dai do Sindicato foi ao escritório tentar um acordo com Morgan-foi-a-Merthyr, mas não adiantou. Agora nossa única alternativa é entrar em greve.

– Obrigado, Dai – falou Da. – Devo interpretar isso como uma proposta formal a favor de uma greve?

– Sim.

Billy ficou surpreso por Da aceitar isso tão depressa. Sabia que seu pai queria evitar uma greve.

– Vamos votar! – gritou alguém.

– Antes de eu levar a proposta a votação, precisamos decidir quando deveríamos entrar em greve – disse Da.

Ah, pensou Billy, ele não está aceitando.

– Talvez seja interessante começarmos na segunda – prosseguiu Da. – Até lá, enquanto continuamos a trabalhar, a ameaça de uma greve pode fazer a dire­toria mudar de ideia. Assim, podemos conseguir o que queremos sem deixar de receber nosso salário.

Billy percebeu que Da estava defendendo um adiamento da greve. E Len Griffiths chegou à mesma conclusão.

– Posso falar, Sr. Presidente? – perguntou ele.

O pai de Tommy era calvo bem no centro da cabeça, mas tinha uma franja e um bigode pretos. Ele deu um passo à frente e se colocou ao lado de Da, de frente para os homens reunidos, de modo que os dois parecessem ter a mesma autoridade. Todos se calaram. Assim como Da e Dai Chorão, Len estava entre as poucas pessoas que eram sempre ouvidas com um silêncio respeitoso.

– Eu pergunto: seria sensato dar quatro dias de lambuja para a empresa? E se eles não mudarem de ideia? O que, aliás, me parece muito provável, considerando a intransigência que demonstraram até agora. Se isso acontecer, quando chegar segunda-feira, estaremos de mãos vazias e as viúvas terão menos tempo ainda antes do despejo. – Ele levantou um pouco a voz para soar mais eloquente. – Companheiros, na minha opinião, não devemos ceder nenhum centímetro!

Os homens vibraram, e Billy se juntou a eles.

– Obrigado, Len – falou Da. – Então já tenho duas propostas na mesa: entrar em greve amanhã ou entrar em greve na segunda-feira. Quem mais gostaria de falar?

Billy ficou observando seu pai conduzir a reunião. O homem que se pronunciou em seguida chamava-se Giuseppe “Joey” Ponti, o principal solista do Coral Masculino de Aberowen, irmão mais velho de Johnny, colega de escola de Billy. Apesar do nome italiano, ele nascera em Aberowen e falava com o mesmo sotaque de todos os outros homens ali reunidos. Joey também defendeu a greve imediata.

Da falou:

– Para manter a imparcialidade, alguém quer se pronunciar a favor da greve na segunda?

Billy se perguntou por que Da não punha sua autoridade pessoal na balança. Se ele defendesse a greve na segunda, talvez os outros mudassem de ideia. Por outro lado, se não conseguisse convencê-los, ficaria em posição delicada, obrigado a conduzir uma greve que tentara evitar. Billy percebeu que Da não estava totalmente livre para dizer o que pensava.

O debate tinha várias implicações. O preço do carvão estava alto, de modo que a administração poderia aguentar uma greve; mas a demanda também estava alta, então eles iriam querer vender enquanto pudessem. A primavera estava chegando, o que significava que as famílias dos mineradores logo poderiam passar sem a sua cota gratuita de carvão. A posição dos mineradores estava bem fundamentada em uma prática de longa data, mas a lei estava do lado da administração.

Da deixou o debate prosseguir e alguns dos discursos foram se tornando tediosos. Billy se perguntou o que seu pai pretendia, e concluiu que ele tinha esperança de que os ânimos se acalmassem. Mas, no fim das contas, teve de colocar as propostas em votação.

– Primeiro, quem é a favor de não fazer greve?

Uns poucos homens levantaram a mão.

– Agora, quem é a favor de entrarmos em greve na segunda-feira?

Essa proposta recebeu uma votação expressiva, mas Billy não teve certeza se ela garantiria a sua vitória. Tudo dependeria de quantos homens se abstivessem de votar.

– Por último, quem é a favor de entrarmos em greve amanhã?

Os homens vibraram e muitos braços se agitaram no ar. Não havia dúvidas quanto ao resultado.

– A proposta de entrarmos em greve amanhã foi aprovada – falou Da.

Ninguém sugeriu uma contagem de votos.

A assembleia chegou ao fim. Na saída da capela, Tommy disse com animação:

– Estamos de folga amanhã, então.

– Sim – disse Billy. – E sem nenhum tostão para gastar.

 

Na primeira vez que Fitz contratou os serviços de uma prostituta, ele tentou beijá-la – não porque quisesse, mas porque imaginou que fosse a coisa certa a fazer. “Eu não beijo”, disse ela com rispidez em seu sotaque cockney. Depois disso, ele nunca mais havia tentado. Segundo Bing Westhampton, várias prostitutas se recusavam a beijar, o que era estranho, levando em conta as outras intimidades que permitiam. Talvez essa proibição trivial lhes preservasse um resquício de dignidade.

Teoricamente, as moças da classe social de Fitz não deveriam beijar ninguém antes do casamento. É claro que o faziam, mas apenas em raros momentos de breve privacidade, em um cômodo subitamente vazio em algum baile, ou atrás de um arbusto em um jardim campestre. Nunca havia tempo para a paixão se desenvolver.

A única mulher que Fitz havia beijado de verdade era sua esposa Bea. Ela lhe entregava o seu corpo da mesma forma que um cozinheiro ofereceria um bolo especial, perfumado, confeitado e lindamente decorado para o seu prazer. Deixava que ele fizesse qualquer coisa, mas não exigia nada. Oferecia os lábios para ele beijar e abria a boca para permitir que sua língua entrasse, mas Fitz nunca sentira que ela ansiava por seu toque.

Ethel beijava como se lhe restasse apenas um minuto de vida.

Os dois estavam na Suíte Gardênia, em pé ao lado da cama, abraçados. Ela chupava sua língua, mordia seus lábios e lambia seu pescoço, ao mesmo tempo que acariciava seus cabelos, segurava sua nuca e enfiava as mãos por baixo de seu colete para afagar seu peito. Quando finalmente se soltaram, ofegantes, ela segurou-lhe o rosto com as duas mãos, imobilizando sua cabeça e encarando-o, e disse:

– Você é tão lindo!

Ele se sentou na beirada da cama, segurando suas mãos enquanto ela ficava em pé na sua frente. Sabia que alguns homens tinham o hábito de seduzir suas empregadas, mas ele não era assim. Aos 15 anos, havia se apaixonado por uma das criadas encarregadas de receber as visitas na casa de Londres: sua mãe percebera tudo em poucos dias e mandara a moça embora sem pestanejar. Seu pai tinha sorrido e dito: “Mas você escolheu bem.” Desde então, Fitz não havia tocado em nenhuma empregada. Mas não conseguia resistir a Ethel.

– Por que você voltou? – perguntou ela. – Deveria ter passado o mês de maio inteiro em Londres.

– Eu queria ver você. – Ele pôde ver que ela relutava em acreditar nele. – Não parava de pensar em você, o dia inteiro, todos os dias, e simplesmente tive de voltar.

Ela se curvou e tornou a beijá-lo. Sem se desgrudar do beijo, ele se deixou cair lentamente de costas sobre a cama, puxando-a consigo até ela ficar deitada por cima dele. Ela era tão magra que não pesava mais do que uma criança. Seus cabelos se soltaram dos grampos e ele enterrou os dedos nos cachos lustrosos.

Depois de algum tempo, ela rolou de lado e se deitou junto a ele, arfando. Ele se apoiou no cotovelo para encará-la. Ethel o chamara de lindo, mas naquele momento a coisa mais bela que ele tinha visto na vida era ela. Tinha as bochechas coradas, os cabelos despenteados e os lábios vermelhos úmidos e entreabertos. Seus olhos escuros o fitavam com adoração.

Ele levou a mão ao seu quadril, acariciando-lhe a coxa em seguida. Ethel cobriu a mão dele com a sua, imobilizando-a, como se estivesse com medo que ele passasse dos limites.

– Por que as pessoas o chamam de Fitz? – perguntou ela. – O seu nome é Edward, não é?

Ele teve certeza de que isso era uma tentativa de acalmar a paixão dos dois.

– Começou na escola – disse ele. – Todos os meninos tinham apelidos. Então Walter von Ulrich veio passar férias na minha casa, Maud ouviu o apelido e o adotou.

– Mas antes disso seus pais o chamavam como?

– Teddy.

– Teddy – disse ela, ensaiando dizer o nome. – Gosto mais que de Fitz.

Ele recomeçou a lhe acariciar a coxa e, desta vez, ela permitiu. Enquanto a beijava, Fitz foi levantando devagar a saia comprida de seu uniforme preto de governanta. As meias que ela usava iam apenas até as panturrilhas, de modo que ele acariciou seus joelhos nus. Acima dos joelhos, vestia uma calcinha grande de algodão. Ele tocou-lhe as pernas através do tecido, depois moveu a mão até o espaço entre suas coxas. Quando a tocou ali, ela gemeu e jogou o quadril para cima, apertando-se contra a mão dele.

– Tire isso – sussurrou ele.

– Não!

Ele encontrou o cordão que amarrava a calcinha na cintura. Estava atado com um laço. Fitz o desfez com um puxão.

Ela tornou a cobrir a mão dele com a sua.

– Pare.

– Eu só quero tocar você ali.

– Eu quero mais até que você – disse ela. – Mas não.

Ele se ajoelhou na cama.

– Não vamos fazer nada que você não queira – falou. – Eu juro. – Então, pegou a cintura de sua calcinha com as duas mãos e rasgou o tecido. Ela soltou um arquejo de surpresa, mas não protestou. Ele tornou a se deitar e usou a mão para explorá-la. Ela abriu as pernas na mesma hora. Tinha os olhos fechados e a respiração acelerada, como se tivesse acabado de correr. Ele imaginou que fosse o primeiro a lhe fazer aquilo, e uma voz fraca lhe disse que não deveria tirar vantagem da inocência dela. Porém seu desejo era intenso demais para que ele pudesse escutá-la.

Fitz desabotoou a calça e se deitou por cima dela.

– Não – disse Ethel.

– Por favor.

– E se eu ficar grávida?

– Eu tiro antes do final.

– Jura?

– Juro – disse ele, penetrando-a.

Sentiu uma obstrução. Ela era virgem. Sua consciência tornou a se manifestar e, desta vez, a voz não foi tão débil. Ele parou. Mas agora quem não conseguia mais se conter era Ethel. Ela segurou seus quadris e puxou-o para dentro de si, ao mesmo tempo que arqueava ligeiramente o corpo. Ele sentiu algo se romper e ela soltou um grito agudo de dor – então o obstáculo sumiu. Ela se pôs a acompanhar com avidez o ir e vir dele. Abriu os olhos e encarou seu rosto.

– Ah, Teddy, Teddy – falou, e ele percebeu que ela o amava. A ideia o comoveu de tal forma que ele quase chorou, deixando-o ao mesmo tempo tão excitado que foi impossível se controlar, e seu orgasmo veio inesperadamente rápido. Com uma pressa aflita, ele recuou o corpo e seu sêmen se derramou sobre a coxa de Ethel, enquanto ele soltava um grunhido de prazer misturado com decepção. Ela levou a mão até sua nuca e puxou-lhe o rosto em direção ao seu, beijando-o com ardor, então fechou os olhos e soltou um gritinho entre a surpresa e o prazer – e assim acabou.

Espero ter tirado a tempo, pensou ele.

 

Ethel continuou trabalhando normalmente, mas o tempo inteiro tinha a sensação de carregar no bolso um diamante secreto que podia tocar vez por outra, alisando suas superfícies polidas e seus cantos afiados quando ninguém estivesse olhando.

Em seus momentos de maior lucidez, ela se perguntava o que aquele amor significava e até onde poderia chegar. De vez em quando, ficava horrorizada ao imaginar o que seu pai socialista e temente a Deus iria pensar caso descobrisse. Contudo, na maior parte do tempo, ela se sentia apenas como se estivesse despencando pelo ar sem nada para aparar sua queda. Adorava a maneira como ele caminhava, seu cheiro, suas roupas, seus modos refinados, seu ar de autoridade. Adorava também o jeito como ele às vezes parecia desnorteado. E, quando o via sair do quarto da mulher com aquela expressão de mágoa no rosto, sentia vontade de chorar. Estava apaixonada e fora de controle.

Na maioria dos dias, ela falava com ele pelo menos uma vez, e os dois em geral conseguiam passar alguns instantes sozinhos e trocar um beijo longo e ardente. O simples fato de beijá-lo já a deixava molhada, de modo que às vezes ela precisava lavar a roupa de baixo no meio do dia. Sempre que possível, ele também tomava outras liberdades, tocando seu corpo inteiro, o que a deixava ainda mais excitada. Eles haviam conseguido se encontrar outras duas vezes na cama da Suíte Gardênia.

Uma coisa deixava Ethel intrigada: nas duas vezes em que eles haviam se deitado juntos, Fitz a mordera com bastante força – uma vez na parte interna da coxa e outra no seio. Isso a fez soltar um grito de dor abafado às pressas. O grito pareceu deixá-lo ainda mais fogoso. E, apesar da dor, ela também ficou excitada com as mordidas, ou pelo menos com a ideia de que seu desejo por ela era tão intenso que ele era levado a expressá-lo dessa forma. Não fazia ideia se isso era normal, e não tinha ninguém a quem pudesse perguntar.

Mas a sua principal aflição era pensar no que aconteceria se um dia Fitz não conseguisse retirar na hora H. A tensão era tão grande que foi quase um alívio quando ele e a princesa Bea tiveram de voltar para Londres.

Antes de ir, ela o convenceu a doar comida para os filhos dos mineradores em greve.

– Não para os pais, porque você não pode dar a impressão de estar tomando partido – disse ela. – Só para os meninos e meninas. A greve já dura duas semanas e eles estão passando fome. Não lhe custaria muito. Pelos meus cálculos, são umas 500 crianças. Elas iriam amar você por isso, Teddy.

– Nós poderíamos armar uma tenda no jardim – disse ele, deitado na cama da Suíte Gardênia com a calça desabotoada e a cabeça no seu colo.

– E podemos preparar a comida aqui mesmo na cozinha – falou Ethel com entusiasmo. – Um ensopado de carne com batatas, e pão até dizer chega para as crianças.

– E um pudim com passas, que tal?

Será que ele a amava?, perguntava-se Ethel. Naquele momento, sentiu que ele faria qualquer coisa que ela pedisse: teria lhe dado joias, levado a Paris, comprado uma bela casa para seus pais. Contudo, Ethel não estava interessada em nenhuma dessas coisas – mas, afinal, o que ela queria? Não sabia e se recusava a deixar sua feli­cidade ser arruinada por perguntas sem resposta relacionadas ao futuro.

Alguns dias depois, ela estava no Gramado Leste ao meio-dia de um sábado, vendo as crianças de Aberowen devorarem a primeiro refeição gratuita de suas vidas. Fitz não tinha noção de que elas estavam comendo melhor do que quando seus pais estavam trabalhando. Pudim com passas, sim, senhor! Os pais não puderam entrar, mas a maioria das mães ficou postada do lado de fora do portão, observando seus filhos sortudos. Quando olhou para lá, Ethel viu alguém que acenava para ela e foi até a entrada.

O grupo junto ao portão era formado principalmente por mulheres: os homens não cuidavam das crianças, nem mesmo durante uma greve. Elas cercaram Ethel, parecendo agitadas.

– O que houve? – quis saber ela.

Quem respondeu foi a Sra. Dai dos Pôneis:

– Todos foram despejados!

– Todos? – repetiu Ethel, sem entender. – Todos quem?

– Todos os mineradores locatários da Celtic Minerals.

– Meu Deus! – Ethel ficou horrorizada. – Deus tenha piedade de nós. – Seu choque foi seguido por incompreensão. – Mas por quê? O que a empresa ganha com isso? Eles vão ficar sem trabalhadores.

– Homens – disse a Sra. Dai. – Quando eles entram em uma briga, só pensam em ganhar. Seja qual for o custo, não desistem. São todos iguais. Não que eu não quisesse o meu Dai de volta, se isso fosse possível.

– Que horror! – Como a empresa iria encontrar fura-greves em número suficiente para manter a mina em atividade? Se a mina fosse fechada, a cidade iria morrer, pensou ela. O comércio ficaria sem clientes, as escolas ficariam vazias, os médicos não teriam pacientes... Seu pai também perderia o trabalho. Ninguém imaginava que Perceval Jones fosse ser tão intransigente.

– Fico pensando no que o rei iria dizer, se soubesse – falou a Sra. Dai.

Ethel se perguntava a mesma coisa. O rei parecera demonstrar uma compaixão genuína pelos operários. Mas ele provavelmente não sabia que as viúvas tinham sido despejadas.

Foi então que ela teve uma ideia.

– Talvez vocês devessem contar a ele – falou.

A Sra. Dai riu.

– Vou contar na próxima vez que estiver com ele.

– Poderiam lhe escrever uma carta.

– Ora, Eth, deixe de bobagem.

– Estou falando sério. É o que deveriam fazer. – Ela olhou para o grupo reunido à sua volta. – Uma carta assinada pelas viúvas que o rei visitou, dizendo que vocês estão sendo expulsas de suas casas e que a cidade está em greve. Isso chamaria a atenção dele, vocês não acham?

A Sra. Dai fez uma cara amedrontada.

– Eu não gostaria de arrumar problemas.

Quem lhe respondeu foi a Sra. Minnie Ponti, uma mulher magra e loura de opiniões fortes:

– Você não tem mais marido, nem casa, nem lugar nenhum para ir... Quer mais problema do que isso?

– Isso lá é verdade. Mas eu não saberia o que dizer. O certo é escrever “Prezado Rei”, “Prezado Jorge V” ou o quê?

– Vocês devem escrever: “Senhor, com nossa humilde devoção.” Trabalhando aqui, aprendi essa bobajada toda. Vamos escrever agora. Venham comigo até a ala dos criados.

– Isso não vai lhe causar problemas?

– Agora eu sou a governanta aqui, Sra. Dai. Sou eu que digo o que pode ou não ser feito.

As mulheres a acompanharam pela estradinha de acesso e deram a volta até a entrada da cozinha. Sentaram-se em volta da mesa de jantar dos criados e a cozinheira preparou um bule de chá. Ethel tinha uma pilha de papel de carta simples que usava para se corresponder com os comerciantes.

– “Senhor, com nossa humilde devoção” – disse ela, escrevendo. – E depois?

– “Perdoe nosso atrevimento por escrever para Vossa Majestade” – falou a Sra. Dai.

– Não – retrucou Ethel com firmeza. – Não peçam desculpas. Ele é nosso rei, temos o direito de lhe escrever. Vamos dizer o seguinte: “Nós somos as viúvas que Vossa Majestade visitou em Aberowen depois da explosão na mina.”

– Muito bem – disse a Sra. Ponti.

– “Nos sentimos honradas pela sua visita e reconfortadas pelas suas condolências, bem como pela solidariedade generosa de Sua Majestade, a rainha” – continuou Ethel.

– Você leva jeito para isso, igualzinha ao seu pai – comentou a Sra. Dai.

– Mas agora chega de bajulação – disse a Sra. Ponti.

– Está bem. Vamos continuar: “Na condição de nosso rei, pedimos agora a sua ajuda. Como nossos maridos morreram, estamos sendo despejadas de nossas casas...”

– “... pela Celtic Minerals”– completou a Sra. Ponti.

– “Pela Celtic Minerals. Todos os mineradores entraram em greve para nos defender, mas agora eles também estão sendo despejados.”

– Não se alongue muito – falou a Sra. Dai. – Ele pode estar ocupado demais para ler tudo.

– Certo. Vamos terminar assim: “Será que uma coisa dessas deveria ser permitida no reino de Vossa Majestade?”

– Está um pouco ameno – reclamou a Sra. Ponti.

– Não, está bom assim – discordou a Sra. Dai. – Isso vai apelar para a noção do rei de certo e errado.

– “Temos a honra, senhor, de continuar sendo suas mais humildes e obedientes servas”– concluiu Ethel.

– Precisamos mesmo pôr isso? – quis saber a Sra. Ponti. – Eu não sou serva de ninguém. Com todo o respeito, Ethel.

– É o normal nesses casos. O conde escreve isso sempre que manda uma carta para o Times.

– Então está bem.

Ethel fez a carta passar de mão em mão.

– Ponham seu endereço ao lado das assinaturas.

– Minha caligrafia é péssima, assine você o meu nome – disse a Sra. Ponti.

Ethel estava prestes a protestar quando lhe ocorreu que a Sra. Ponti talvez fosse analfabeta, de modo que não discutiu, apenas escreveu: “Sra. Minnie Ponti, Wellington Row, 19.”

Em seguida, endereçou a carta:

 

Sua Majestade, o Rei

Palácio de Buckingham

Londres

 

Ela lacrou o envelope e colou nele um selo.

– Prontinho – falou.

As mulheres lhe deram uma salva de palmas. Ethel pôs a carta no correio no mesmo dia.

Ninguém jamais respondeu.

 

O último sábado de março foi um dia nublado em Gales do Sul. Nuvens baixas escondiam o topo das montanhas e um chuvisco incessante caía sobre Aberowen. Ethel e a maioria dos empregados de Tŷ Gwyn abandonaram suas funções – o conde e a princesa estavam em Londres – e foram até a cidade.

Policiais haviam sido enviados de Londres para executar os despejos e era possível vê-los em cada rua, com suas capas de chuva pesadas gotejando. A Greve das Viúvas era notícia em todo o país, e repórteres de Cardiff e Londres tinham vindo no primeiro trem da manhã, fumando cigarros e fazendo anotações em seus blocos. Havia até mesmo uma câmera grande, apoiada em um tripé.

Ethel estava diante da porta de casa com a família, observando. Da trabalhava para o sindicato, não para a Celtic Minerals, e era dono da própria casa, mas a maioria de seus vizinhos estava sendo despejada. Durante a manhã, eles haviam trazido seus pertences para a rua: camas, mesas e cadeiras, panelas e penicos, um quadro emoldurado, um relógio, uma caixa de laranjas cheia de louça de barro e talheres, algumas roupas envoltas em jornal e amarradas com barbante. Em cada soleira, uma pequena pilha de bens quase sem valor se erguia como uma oferenda para algum sacrifício.

O rosto de Da era uma máscara de raiva contida. Billy parecia a fim de arranjar uma briga. Gramper não parava de sacudir a cabeça e dizer:

– Nunca vi coisa parecida, nunca em 70 anos de vida.

Mam parecia apenas desgostosa.

Ethel chorava sem parar.

Alguns dos mineradores haviam arrumado outros empregos, mas não era fácil: um mineiro não conseguia se adaptar de imediato a um trabalho de vendedor ou chofer de ônibus. Os patrões sabiam disso e os mandavam embora quando viam o pó de carvão debaixo de suas unhas. Meia dúzia deles havia entrado para a marinha mercante, aceitando empregos de foguista e pedindo um adiantamento para deixar com as esposas antes de irem embora. Alguns estavam indo para Cardiff ou Swansea, na esperança de conseguir trabalho na fundição de aço. Muitos tinham se mudado para a casa de parentes em cidades vizinhas. O restante estava apenas se apinhando em alguma casa de Aberowen, junto com uma família que não fosse de mineradores, até a greve acabar.

– O rei nunca respondeu à carta das viúvas – disse Ethel a Da.

– Você não fez do jeito certo – falou ele sem rodeios. – Veja só a Sra. Pankhurst. Eu não acredito no voto feminino, mas ela com certeza sabe se fazer notar.

– O que eu deveria ter feito: encontrado uma maneira de ser presa?

– Não precisa ir tão longe. Se eu soubesse o que vocês estavam fazendo, teria dito para mandarem uma cópia da carta para o Western Mail.

– Não cheguei a pensar nisso. – Ethel ficou arrasada ao se dar conta de que tivera a chance de fazer alguma coisa para impedir aqueles despejos e havia fracassado.

– O jornal perguntaria ao palácio se eles tinham recebido a carta e teria sido difícil para o rei dizer que iria simplesmente ignorá-la.

– Ah, que droga. Eu deveria ter pedido a sua opinião.

– Olhe a boca suja – falou sua mãe.

– Desculpe, mãe.

Os policiais londrinos observavam tudo com perplexidade, sem entender o orgulho e a teimosia tolos que haviam conduzido àquela situação. Perceval Jones não dera as caras. Um repórter do Daily Mail pediu uma entrevista a Da, mas, como o jornal era hostil à classe operária, ele se recusou a falar.

A cidade não tinha carrinhos de mão suficientes, então as pessoas se revezavam para transportar seus pertences. O processo levou muitas horas, porém no meio da tarde as últimas pilhas já haviam desaparecido e as chaves tinham sido deixadas penduradas nas fechaduras das casas. Os policiais voltaram para Londres.

Ethel ainda ficou na rua por mais algum tempo. As janelas das casas vazias a encaravam de volta, inexpressivas, e a água da chuva escorria inutilmente pela rua. Ela fitou a sucessão de telhas cinzentas molhadas que cobriam as casas, seu olhar descendo a encosta até os prédios espalhados ao redor da entrada da mina, no fundo do vale. Pôde ver um gato andando por uma linha de trem, mas, fora isso, não havia movimento. Nenhuma fumaça saía da casa de máquinas, e as duas roldanas do guindaste, grandes e idênticas, pairavam no alto de sua torre, imóveis e desnecessárias sob a chuva fina incessante.

 

Abril de 1914

Aembaixada alemã era uma grande mansão em Carlton House Terrace, uma das ruas mais elegantes de Londres. O prédio dava para um jardim exuberante que se estendia até o pórtico margeado de colunas do Athenaeum, o clube frequentado pelos intelectuais alemães. Nos fundos, seus estábulos davam para The Mall, o bulevar que ligava a Trafalgar Square ao Palácio de Buckingham.

Walter von Ulrich não morava ali – ainda. A única pessoa que tinha esse privilégio era o próprio embaixador, o príncipe Lichnowsky. Walter, um mero adido militar, vivia em um apartamento de solteiro a dez minutos a pé da embaixada, na Piccadilly. No entanto, ele esperava um dia poder ocupar o grandioso apartamento particular do embaixador, dentro da própria embaixada. Walter não era príncipe, mas seu pai era amigo íntimo do Kaiser Guilherme II. Falava inglês como um ex-aluno do Eton College, onde havia de fato estudado. Passara dois anos no Exército e três na Academia de Guerra antes de entrar para o Ministério das Relações Exteriores. Tinha 28 anos e era uma estrela em ascensão.

Não eram apenas o prestígio e a glória do cargo de embaixador que o atraíam. Ele acreditava, com grande paixão, que não havia vocação mais nobre do que servir ao próprio país. Seu pai achava a mesma coisa.

Os dois discordavam quanto a todo o resto.

Parados no hall de entrada da embaixada, os dois se encaravam. Tinham a mesma estatura, porém Otto era mais pesado e careca e usava um bigode mais antiquado, do tipo que cobria a boca inteira, enquanto Walter ostentava um moderno bigode à escovinha. Naquele dia, ambos estavam vestidos de forma idêntica, com ternos de veludo preto e calças na altura dos joelhos, meias de seda e sapatos de fivela. Os dois portavam uma espada e usavam um chapéu de duas pontas curvadas para cima. Incrivelmente, era esse o traje habitual para se comparecer à corte real inglesa.

– Parece que estamos prestes a subir no palco – disse Walter. – Que roupa ridícula.

– Pelo contrário – retrucou seu pai. – É uma tradição magnífica.

Otto von Ulrich havia passado grande parte da vida no Exército alemão. Jovem oficial na guerra franco-prussiana, liderara sua companhia na travessia de uma ponte flutuante na batalha de Sedan. Mais tarde, Otto se tornaria um dos amigos a quem o Kaiser Guilherme recorreu após a ruptura com Bismarck, o Chanceler de Ferro. Atualmente, Otto exercia um cargo itinerante, visitando capitais europeias como uma abelha a pousar em flores, sorvendo o néctar dos serviços de informação diplomáticos e levando tudo de volta para a colmeia. Ele acreditava na monarquia e na tradição militar prussiana.

Walter era igualmente patriota, mas, em sua opinião, a Alemanha precisava se tornar moderna e igualitária. Como o pai, tinha orgulho das conquistas de seu país na área de ciência e tecnologia, assim como do povo alemão trabalhador e eficiente. Mas pensava que eles tinham muito a aprender – democracia com os americanos liberais, diplomacia com os ardilosos britânicos e a arte de viver bem com os franceses cheios de estilo.

Pai e filho saíram da embaixada e desceram um largo lance de escadas até The Mall. Walter estava prestes a ser apresentado ao rei Jorge V, ritual considerado um privilégio, muito embora não acarretasse nenhum benefício especial. Os diplomatas em início de carreira como ele não costumavam gozar de tamanha honra, mas Otto não tinha escrúpulos em puxar as cordinhas em prol da carreira do filho.

– As metralhadoras tornam obsoletas todas as armas de mão – disse Walter, continuando uma discussão que estavam tendo mais cedo. As armas eram sua especialidade e ele estava convencido de que a Alemanha precisava dispor da tecnologia mais moderna em poder de fogo.

Otto discordava.

– Elas emperram, ficam superaquecidas e erram o alvo. Um homem com um rifle toma cuidado na hora de mirar. Mas basta lhe darem uma metralhadora para ele a manejar como se fosse uma mangueira de jardim.

– Quando sua casa está pegando fogo, você não joga água usando uma xícara, por mais exata que seja a sua mira. Você precisa de uma mangueira.

Otto sacudiu o dedo.

– Você nunca esteve no campo de batalha. Não tem ideia de como é. Escute o que eu digo, sei do que estou falando.

Era assim que geralmente terminavam suas discussões.

Walter achava a geração do pai arrogante. Entendia o que os deixara assim. Eles haviam vencido uma guerra, criado o Império Germânico unindo a Prússia e um punhado de monarquias independentes menores e depois transformado a Alemanha em uma das nações mais prósperas do mundo. É claro que se achavam maravilhosos. Mas isso os tornava incautos.

Algumas centenas de metros adiante no bulevar, Walter e Otto dobraram em direção ao Palácio de St. James. Essa pilha de tijolos do século XVI era mais antiga e menos impressionante do que o vizinho Palácio de Buckingham. Os dois deram seus nomes a um porteiro vestido como eles.

Walter estava um pouco nervoso. Era muito fácil cometer algum deslize de etiqueta – e não havia erros pequenos quando se estava lidando com a realeza.

Otto se dirigiu ao porteiro:

– O señor Diaz já chegou?

– Sim, senhor, faz alguns minutos.

Walter franziu o cenho. Juan Carlos Diego Diaz era um representante do governo mexicano.

– Qual o seu interesse em Diaz? – perguntou ele em alemão enquanto atravessavam uma série de cômodos cujas paredes eram decoradas com espadas e armas.

– A Marinha Real britânica está trocando o combustível de seus navios de carvão para petróleo.

Walter aquiesceu. A maioria das nações avançadas estava fazendo o mesmo. O petróleo era mais barato, mais limpo e mais fácil de manejar – bastava bombeá-lo, em vez de empregar exércitos de foguistas de cara preta.

– E os britânicos compram petróleo do México.

– Eles compraram poços de petróleo mexicanos para garantir o abastecimento da sua Marinha.

– Mas, se nós interferíssemos no México, o que os americanos iriam pensar?

Otto bateu na lateral do nariz.

– Ouça e aprenda. E, faça o que fizer, não diga nada.

Os homens prestes a serem apresentados ao rei aguardavam em uma antessala. A maioria usava a mesma roupa de veludo adotada na corte, embora um ou outro estivesse vestido com os trajes dignos de uma ópera-bufa usados pelos generais oitocentistas. Um deles – provavelmente escocês – ostentava um uniforme completo com um kilt. Walter e Otto percorreram o recinto, meneando a cabeça para rostos conhecidos do circuito diplomático, até chegarem a Diaz, um homem corpulento com um bigode enroscado nas pontas.

Depois das gentilezas de praxe, Otto disse:

– O senhor deve estar contente com o fato de o presidente Wilson ter revogado a proibição da venda de armas para o México.

– Venda de armas para os rebeldes – falou Diaz, como se quisesse corrigi-lo.

O presidente norte-americano, sempre inclinado a assumir uma postura mo­ralista, havia se recusado a reconhecer o general Huerta, que subira ao poder após o assassinato de seu predecessor. Wilson chamava Huerta de assassino e apoiava um grupo rebelde, os constitucionalistas.

– Se armas podem ser vendidas para os rebeldes, com certeza também podem ser vendidas para o governo, não? – disse Otto.

Diaz pareceu surpreso.

– Está me dizendo que a Alemanha estaria disposta a fazer isso?

– De que o senhor precisa?

– O senhor já deve saber que precisamos desesperadamente de rifles e munição.

– Nós poderíamos conversar mais a respeito.

Walter estava tão espantado quanto Diaz. Aquilo iria causar problemas.

– Mas, pai, os Estados Unidos... – começou ele.

– Só um instante! – interrompeu-o o pai, erguendo uma das mãos para silenciá-lo.

– Vamos conversar mais sobre isso, sim, com certeza – falou Diaz. – Mas diga-me: que outros assuntos poderão surgir? – Ele imaginava que a Alemanha iria querer algo em troca.

A porta da Sala do Trono se abriu e um lacaio saiu lá de dentro trazendo uma lista. A apresentação estava prestes a começar. Otto, no entanto, continuou falando, sem pressa:

– Em tempos de guerra, um país soberano tem o direito de restringir a saída de produtos estratégicos.

– O senhor está falando de petróleo – comentou Diaz. Esse era o único produto estratégico que o México tinha.

Otto aquiesceu.

– Então vocês nos dariam armas... – disse o representante mexicano.

– Daríamos não, venderíamos – murmurou Otto.

– Vocês nos venderiam armas agora em troca de uma promessa de que não forneceríamos petróleo aos ingleses em caso de guerra. – Diaz obvia­mente não estava acostumado à complexa valsa das conversas diplomáticas normais.

– Talvez valha a pena conversar a respeito. – Em linguagem diplomática, isso equivalia a um sim.

O lacaio chamou:

– Monsieur Honoré de Picard de la Fontaine!

E as apresentações começaram.

Otto fitou Diaz nos olhos.

– O que eu gostaria de saber é como uma proposta desse tipo seria recebida na Cidade do México.

– Acho que o presidente Huerta ficaria interessado.

– Então, se o cônsul alemão no México, o almirante Paul von Hintze, fizesse uma proposta formal ao seu presidente, não receberia uma recusa?

Walter notou que o pai estava decidido a obter uma resposta inequívoca para a sua pergunta. Ele não queria que o governo alemão ficasse exposto ao constrangimento de ter uma proposta como aquela jogada de volta em sua cara.

Aflito, Walter achava que o constrangimento não era o maior perigo para a Alemanha naquele ardil diplomático. Ela corria o risco de fazer dos Estados Unidos um inimigo. No entanto, para sua frustração, era difícil salientar isso na presença de Diaz.

– Ele não receberia uma recusa – falou Diaz, respondendo à pergunta de Otto.

– Tem certeza? – insistiu o alemão.

– Eu garanto.

– Pai, posso falar com o senhor um instante? – perguntou Walter. Mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, o lacaio exclamou:

– Herr Walter von Ulrich!

Walter hesitou, ao que seu pai disse:

– É a sua vez. Ande logo!

Walter se virou e entrou na Sala do Trono.

Os britânicos gostavam de impressionar seus convidados. O teto alto decorado com caixotões tinha sancas cravejadas de diamantes; as paredes vermelhas revestidas de plush ostentavam imensos retratos pendurados; e, no fundo da sala, o trono era encimado por um dossel alto com cortinado de veludo escuro. O rei estava parado diante do trono, vestido com um uniforme da Marinha. Walter ficou feliz em ver o rosto conhecido de Sir Alan Tite ao lado do rei – sem dúvida sussurrando nomes no ouvido do monarca.

Walter se aproximou e fez uma reverência. O rei disse:

– É um prazer revê-lo, Von Ulrich.

Walter já havia ensaiado o que dizer.

– Espero que Vossa Majestade tenha achado interessantes as conversas que tivemos em Tŷ Gwyn.

– Bastante! Embora nosso encontro tenha ficado tragicamente em segundo plano, é claro.

– Por causa do acidente na mina. Sim, uma tragédia.

– Torço para nos reencontrarmos em breve.

Walter percebeu que isso era uma dispensa. Afastou-se sem se virar, fazendo várias mesuras até chegar à porta, conforme mandava a etiqueta.

Seu pai o aguardava na sala ao lado.

– Foi bem rápido! – comentou Walter.

– Pelo contrário, levou mais tempo do que o normal – disse Otto. – Em geral o rei diz: “É um prazer vê-lo em Londres”, e a conversa termina por aí.

Os dois saíram juntos do palácio.

– Os britânicos são um povo admirável sob muitos aspectos, mas são frouxos – falou Otto enquanto eles subiam a St. James’s Street até a Piccadilly. – O rei é controlado por seus ministros, os ministros estão subordinados ao Parlamento e os parlamentares são escolhidos pelo povo. Isso lá é jeito de governar um país?

Walter não se deixou provocar. Para ele, o sistema político alemão, com seu Parlamento fraco, incapaz de fazer frente ao Kaiser ou aos generais, estava ultrapassado, mas ele já tivera essa discussão com o pai muitas vezes. Além do mais, ainda estava preocupado com a conversa com o enviado mexicano.

– Foi arriscado aquilo que o senhor falou para Diaz – disse ele. – O presidente Wilson não vai gostar de nos ver vendendo rifles para Huerta.

– Que importância tem o que Wilson acha?

– O perigo está em fazer amizade com um país fraco como o México, conquistando a inimizade de um país forte como os Estados Unidos.

– Não vai haver guerra na América.

Walter achava o mesmo, mas, ainda assim, continuou apreensivo. Ele não gostava de pensar no seu país em conflito com os Estados Unidos.

Em seu apartamento, eles trocaram os trajes antiquados por ternos de tweed com camisas de colarinho mole e chapéus de feltro marrons. De volta a Piccadilly, embarcaram em um ônibus motorizado rumo a leste.

Otto ficara impressionado com o fato de Walter ter sido convidado a conhecer o rei em Tŷ Gwyn em janeiro.

– O conde Fitzherbert é um bom contato – comentara ele. – Se o Partido Conservador subir ao poder, talvez ele vire ministro, quem sabe um dia até ministro das Relações Exteriores. Você precisa manter essa amizade.

Walter ficara inspirado.

– Eu deveria ir visitar a clínica de caridade que ele mantém e fazer uma pequena doação.

– Excelente ideia.

– O senhor não gostaria de me acompanhar?

Seu pai tinha mordido a isca.

– Melhor ainda.

Walter tinha um motivo oculto, mas seu pai não desconfiou de nada.

O ônibus os fez passar pelos teatros da Strand, pelas sedes dos jornais na Fleet Street e pelos bancos do centro financeiro. Então as ruas se tornaram mais estreitas e mais sujas. Cartolas e chapéus-coco foram substituídos por boinas de pano. Os veículos puxados a cavalo eram maioria e havia poucos automóveis. Aquilo era o East End.

Os dois saltaram em Aldgate. Otto olhou em volta com um ar de desdém.

– Não sabia que você estava me levando a uma favela – comentou ele.

– Nós estamos indo visitar uma clínica de gente pobre – retrucou Walter. – Onde o senhor esperava que ela ficasse?

– O conde Fitzherbert costuma vir aqui?

– Desconfio que ele só pague as contas. – Walter sabia muito bem que Fitz jamais pusera os pés ali na vida. – Mas ele sem dúvida ficará sabendo sobre a nossa visita.

Eles ziguezaguearam por ruas secundárias até chegarem a uma capela protestante não anglicana. Uma placa de madeira pintada à mão informava: “Salão do Evan­gelho do Calvário”. Presa à madeira, havia uma folha de papel com as palavras:

 

CLÍNICA PEDIÁTRICA

ATENDIMENTO GRATUITO

HOJE E

TODAS AS QUARTAS-FEIRAS

 

Walter abriu a porta e os dois entraram.

Otto emitiu um ruído de repulsa, em seguida sacou um lenço e o levou ao nariz. Walter já estivera ali antes, de modo que o cheiro não o surpreendeu, mas mesmo assim ele era espantosamente desagradável. O recinto estava cheio de mulheres maltrapilhas e crianças seminuas, todas imundas. As mulheres estavam sentadas em bancos, enquanto as crianças brincavam no chão. No fundo, havia duas portas, cada qual identificada por um letreiro provisório, um dizendo “Médico” e o outro, “Benfeitora”.

Ao lado da porta estava sentada tia Herm, listando nomes em um caderno. Walter apresentou o pai à tia de Fitz.

– Lady Hermia Fitzherbert, este é meu pai, Otto von Ulrich.

Do outro lado da sala, a porta onde se lia “Médico” se abriu e uma mulher maltrapilha saiu lá de dentro carregando um bebê minúsculo e um frasco de remédio. Uma enfermeira pôs a cabeça para fora e disse:

– O próximo, por favor.

Lady Hermia consultou sua lista e chamou:

– Sra. Blatsky e Rosie!

Uma mulher mais velha e uma menina entraram no consultório.

– Espere aqui um instante, por favor, pai – pediu Walter –, enquanto vou chamar a diretora.

Ele caminhou depressa até a outra ponta da sala, contornando as crianças que engatinhavam pelo chão. Então bateu na porta onde estava escrito “Benfeitora” e entrou.

A sala era pouco maior do que uma despensa, e de fato havia um esfregão e um balde em um canto. Lady Maud Fitzherbert estava sentada diante de uma mesinha, escrevendo em um registro. Usava um vestido simples, cinza-claro, e um chapéu de aba larga. Ergueu o rosto e, ao ver Walter, um sorriso iluminou seus traços de tal forma que os olhos dele se encheram de lágrimas. Ela pulou da cadeira e correu para abraçá-lo.

Ele passara o dia inteiro aguardando esse momento. Beijou-a na boca, que se abriu para ele na mesma hora. Walter já havia beijado várias mulheres, mas nenhuma jamais apertara o corpo contra o dele daquela forma. Ficou constrangido, com medo de ela notar sua ereção, de modo que arqueou o corpo para longe; mas ela apenas o abraçou com mais força – como se quisesse realmente senti-la – e ele se deixou levar pelo prazer.

Maud encarava todas as coisas da vida com muita intensidade: a pobreza, os direitos femininos, a música – e Walter. Ele se sentia ao mesmo tempo surpreso e privilegiado por ela ter se apaixonado por ele.

Ela interrompeu o beijo, ofegante.

– Tia Herm vai ficar desconfiada – falou.

Walter aquiesceu.

– Meu pai está lá fora.

Maud passou a mão nos cabelos e alisou o vestido.

– Está bem.

Walter abriu a porta e os dois retornaram para o salão. Otto conversava amigavelmente com Hermia: ele gostava de senhoras de idade respeitáveis.

– Lady Maud Fitzherbert, permita-me lhe apresentar meu pai, Herr Otto von Ulrich.

Otto fez uma mesura por sobre a mão de Maud. Já havia aprendido a não bater os calcanhares: os ingleses achavam isso engraçado.

Walter observou os dois avaliarem um ao outro. Maud sorriu como se estivesse achando algo divertido e Walter concluiu que ela estava imaginando se era daquele jeito que ele seria no futuro. Otto avaliou com aprovação o vestido de caxemira caro e o chapéu elegante de Maud. Até ali, tudo estava indo muito bem.

Otto não sabia que os dois estavam apaixonados. O plano de Walter era que seu pai conhecesse Maud primeiro. Otto aprovava que mulheres ricas trabalhassem em obras de caridade e insistia para que a mãe e a irmã de Walter visitassem as famílias pobres de Zumwald, sua propriedade rural no leste da Prússia. Ele primeiro descobriria que mulher maravilhosa e excepcional era Maud e então, quando ficasse sabendo que Walter queria se casar com ela, suas defesas já não estariam mais armadas.

Walter sabia que era um pouco tolo ficar tão nervoso. Ele era um homem de 28 anos: tinha o direito de escolher a mulher que amava. Oito anos antes, no entanto, ele havia se apaixonado por outra mulher. Tilde era passional e inteligente, como Maud, mas tinha 17 anos e era católica. Os Von Ulrich eram protestantes. As duas famílias tinham demonstrado uma oposição feroz ao romance, e Tilde não conseguira desafiar o pai. Aquela era a segunda vez que Walter se apaixonava por uma mulher inadequada. Seria difícil para seu pai aceitar uma feminista estrangeira. Mas, desta vez, Walter era mais velho e mais astucioso – e Maud, mais forte e independente do que Tilde.

Mesmo assim, ele estava aterrorizado. Nunca se sentira daquele jeito em relação a mulher nenhuma, nem mesmo Tilde. Queria se casar com Maud e passar a vida inteira ao seu lado; na verdade, era incapaz de se imaginar longe dela. E não queria que o pai criasse problemas com isso.

Maud se comportou da melhor forma possível.

– É muita gentileza sua vir nos visitar, Herr Von Ulrich – disse ela. – O senhor deve ser um homem ocupadíssimo. Imagino que o trabalho nunca termine para o interlocutor de confiança de um monarca, como o senhor é para o seu Kaiser.

Otto ficou lisonjeado, o que era justamente a intenção dela.

– Infelizmente, acho que a senhorita tem razão – respondeu. – Mas seu irmão, o conde, é um amigo tão antigo de Walter que fiquei muito interessado em vir.

– Deixe-me apresentá-lo ao nosso médico. – Maud atravessou o salão na frente do grupo e bateu à porta do consultório. Walter estava curioso: ainda não conhecia o doutor. – Podemos entrar? – perguntou ela.

Eles então entraram naquele que deveria ter sido o gabinete do pastor, um cômodo mobiliado com uma pequena escrivaninha e uma prateleira de livros de registro e hinários. O médico, um rapaz atraente de sobrancelhas pretas e boca sensual, estava examinando a mão de Rosie Blatsky. Walter sentiu uma pontada de ciúme: Maud passava dias inteiros na companhia daquele sujeito bonito.

– Dr. Greenward – disse ela –, temos uma visita muito importante. Permita-me lhe apresentar Herr Von Ulrich.

– Como vai o senhor? – cumprimentou Otto com austeridade.

– O doutor trabalha aqui de graça – disse Maud. – Somos muito gratas a ele.

Greenward meneou a cabeça com um gesto brusco. Walter se perguntou o que estaria provocando a tensão evidente entre seu pai e o médico.

Este último tornou a dar atenção à paciente. A palma da mão da menina exibia um corte feio, e a mão e o pulso estavam inchados. Ele olhou para a mãe e perguntou:

– Como foi que ela se cortou?

Quem respondeu foi a menina.

– Minha mãe não fala inglês – disse ela. – Eu cortei a mão no trabalho.

– E o seu pai?

– Meu pai já morreu.

– Esta clínica é para famílias sem pai – falou Maud em voz baixa –, embora na prática não deixemos de atender ninguém.

– Quantos anos você tem? – perguntou Greenward a Rosie.

– Onze.

– Pensei que crianças menores de 13 anos não pudessem trabalhar – murmurou Walter.

– Há brechas na lei – respondeu Maud.

– Em que você trabalha? – quis saber Greenward.

– Eu sou faxineira na fábrica de roupas de Mannie Litov. Tinha uma gilete no meio do lixo.

– Sempre que você se cortar, deve lavar a ferida e pôr um curativo limpo. Depois, precisa trocar o curativo diariamente para que ele não fique muito sujo. – Greenward falava com certa rispidez, mas não deixava de ser gentil.

A mãe perguntou alguma coisa para a filha com uma voz rude, falando em russo com um sotaque carregado. Walter não entendeu o que ela disse, mas pescou algo da resposta da menina, que era uma tradução do que o médico acabara de dizer.

O médico se virou para sua enfermeira.

– Por favor, limpe a mão e faça um curativo. – Então dirigiu-se a Rosie. – Vou lhe dar uma pomada. Se o seu braço inchar mais, você deve voltar aqui na semana que vem. Entendido?

– Sim, senhor.

– Se deixar a infecção piorar, pode acabar perdendo a mão.

Os olhos de Rosie se encheram de lágrimas.

– Sinto muito por assustar você – falou o Dr. Greenward –, mas quero que entenda a importância de manter essa mão limpa.

A enfermeira preparou uma vasilha de um líquido que era aparentemente um antisséptico.

– Permita-me expressar minha admiração e meu respeito pelo trabalho que o senhor faz aqui, doutor – disse Walter.

– Obrigado. É um prazer para mim trabalhar como voluntário, mas nós precisamos comprar material hospitalar. Qualquer ajuda que o senhor puder oferecer será muito bem-vinda.

– Precisamos deixar o doutor voltar ao trabalho... – disse Maud. – Há pelo menos 20 pacientes aguardando.

Os visitantes saíram do consultório. Walter mal conseguia conter seu orgulho. O sentimento que movia Maud ia além da compaixão. Quando ouviam falar em crianças pequenas trabalhando em condições precárias, muitas damas da aristocracia se limitavam a enxugar uma lágrima com seus lenços bordados. Maud, no entanto, tinha a determinação e a coragem de ajudar de verdade.

E ela me ama!, pensou ele.

– Posso lhe oferecer algo para beber, Herr Von Ulrich? – perguntou Maud. – Minha sala é apertada, mas tenho uma garrafa do melhor xerez do meu irmão.

– É muito gentil da sua parte, mas precisamos ir andando.

Isso foi um pouco precipitado, pensou Walter. O charme de Maud havia parado de surtir efeito em Otto. Ele teve a sensação desagradável de que algo saíra errado.

Otto sacou a carteira e dela extraiu uma nota de dinheiro.

– Queira aceitar uma modesta contribuição para o seu excelente trabalho aqui, lady Maud.

– Quanta generosidade! – exclamou ela.

– A senhorita permite que eu também faça uma doação? – disse Walter, entregando-lhe uma nota semelhante.

– Agradeço qualquer coisa que possa me oferecer – falou ela. Walter torceu para ter sido o único a reparar no olhar furtivo que Maud lhe lançou ao dizer isso.

– Por favor, transmita minhas saudações ao conde Fitzherbert – disse Otto.

Eles então se despediram. Walter estava preocupado com a reação do pai.

– Lady Maud não é maravilhosa? – perguntou ele em tom casual, enquanto caminhavam de volta até Aldgate. – Quem paga todas as despesas é Fitz, claro, mas é Maud quem faz todo o trabalho.

– Uma vergonha – disse Otto. – Uma vergonha completa.

Walter já havia percebido que o pai estava mal-humorado, mas esse comentário o surpreendeu.

– O que quer dizer com isso? O senhor sempre aprovou que mulheres bem-nascidas fizessem alguma coisa para ajudar os pobres!

– Levar um cesto de comida para camponeses adoentados é uma coisa – respondeu Otto. – Mas fico horrorizado em ver a irmã de um conde em um lugar daqueles ao lado de um médico judeu!

– Ah, meu Deus – resmungou Walter. É claro, o Dr. Greenward era judeu. Provavelmente filho de alemães chamados Grunwald. Aquela era a primeira vez que Walter encontrava o médico e, de toda forma, poderia muito bem não ter notado ou dado importância à sua raça. Mas Otto, como muitos homens de sua geração, se preocupava com esse tipo de coisa. – Pai, o homem está trabalhando de graça... – disse Walter. – Lady Maud não pode se dar ao luxo de recusar a ajuda de um bom médico pelo simples fato de ele ser judeu.

Otto não estava sequer escutando.

– Famílias sem pai... onde foi que ela arrumou essa expressão? – perguntou com repulsa. – Crias de prostitutas, é isso que ela quer dizer.

Walter ficou arrasado. Seu plano tinha sido um fracasso completo.

– O senhor não vê como ela é corajosa? – perguntou ele, desanimado.

– De forma alguma – disse Otto. – Se fosse minha irmã, eu lhe daria uma boa sova.

 

Havia uma crise na Casa Branca.

Nas primeiras horas da manhã do dia 21 de abril, Gus Dewar estava na Ala Oeste do complexo presidencial. Esse novo prédio havia proporcionado um imprescindível espaço administrativo, deixando a Casa Branca original livre para ser usada como residência. Gus estava sentado na sala do presidente, próxima do Salão Oval, um cômodo pequeno e insosso, iluminado por uma lâmpada de brilho mortiço. Sobre a escrivaninha, via-se a surrada máquina de escrever portátil, da marca Underwood, usada por Woodrow Wilson para escrever seus discursos e comunicados à imprensa.

Gus estava mais interessado no telefone. Caso ele tocasse, teria que decidir se acordaria ou não o presidente.

Essa decisão não podia ser tomada por nenhuma telefonista. Por outro lado, os conselheiros de maior escalão do presidente precisavam descansar. Dependendo do ponto de vista, Gus poderia ser considerado o mais reles dos conselheiros de Wilson, ou o mais graduado de seus assessores. De toda forma, coubera a ele a tarefa de passar a noite sentado junto ao telefone e decidir quando atrapalhar ou não o sono do presidente – ou o da primeira-dama, Ellen Wilson, que sofria de uma doença misteriosa. Gus estava nervoso, com medo de dizer ou fazer algo errado. De repente, toda a educação cara que havia tido lhe parecia supérflua: mesmo em Harvard ninguém jamais lhe ensinara quando deveria acordar o presidente. Estava torcendo para o telefone não tocar nunca.

Gus estava ali por causa de uma carta que tinha escrito. Havia relatado ao pai o encontro com o rei em Tŷ Gwyn e a conversa sobre o perigo de guerra na Europa depois do jantar. O senador Dewar achou sua carta tão interessante e divertida que a mostrou ao amigo Woodrow Wilson, que por sua vez disse:

– Eu gostaria de ter esse rapaz trabalhando na minha equipe. – Gus estava tirando um ano de folga entre os estudos em Harvard, onde cursara direito internacional, e seu primeiro emprego em um escritório de advocacia de Washington. Estava no meio de uma volta ao mundo, mas interrompeu sua viagem com entusiasmo e correu para casa a fim de prestar serviço ao presidente.

Nada fascinava tanto Gus quanto as relações entre países – as amizades e os ódios, as alianças e as guerras. Quando adolescente, havia assistido a sessões do Comitê de Relações Exteriores do Senado – do qual seu pai era membro – e as achara mais impressionantes do que uma peça de teatro.

– É assim que as nações geram paz e prosperidade, ou então guerra, devastação e fome – dissera-lhe o pai. – Se você quiser mudar o mundo, então as relações exteriores são o campo onde mais poderá fazer o bem... ou o mal.

E agora Gus estava envolvido em sua primeira crise internacional.

Um funcionário mais exaltado do governo mexicano tinha detido oito marinheiros norte-americanos no porto de Tampico. Os homens já haviam sido liberados, o funcionário pedira desculpas e o incidente trivial poderia ter se encerrado ali. Porém o comandante do esquadrão da Marinha, almirante Mayo, havia exigido uma salva de 21 tiros. O presidente Huerta se recusara. Para aumentar ainda mais a pressão, Wilson tinha ameaçado ocupar Veracruz, o maior porto do México.

Assim, os Estados Unidos estavam à beira de uma guerra. Gus admirava muito Woodrow Wilson e seus nobres princípios. O presidente não se contentava com a opinião cínica de que os mexicanos eram todos iguais, todos bandidos. Huerta era um reacionário que havia assassinado seu predecessor, de modo que Wilson vinha buscando um pretexto para depô-lo. Gus achava excitante o fato de um líder mundial dizer que não era aceitável um homem se valer de assassinato para alcançar o poder. Será que algum dia tal princípio seria aceito por todas as nações?

A crise fora ainda mais intensificada pelos alemães. Um navio alemão chamado Ypiranga estava se aproximando de Veracruz com um carregamento de rifles e munição para o governo de Huerta.

O dia inteiro fora de grande tensão, mas agora Gus estava brigando para continuar acordado. Sobre a mesa à sua frente, iluminado por um abajur de cúpula verde, havia um relatório datilografado do serviço de inteligência do Exército sobre o poderio dos rebeldes no México. A inteligência era um dos menores departamentos do Exército, com apenas dois funcionários e dois auxiliares de escritório, e o relatório era malfeito.

Em meio a toda essa crise, os pensamentos de Gus vagavam em outra direção: ele não conseguia parar de pensar em Caroline Wigmore.

Ao chegar a Washington, ele tinha feito uma visita ao professor Wigmore, um de seus professores de Harvard que se transferira para a Universidade de Georgetown. Wigmore não estava em casa, mas sua jovem segunda esposa, sim. Gus já havia encontrado Caroline em diversos eventos no campus, ocasiões em que se sentira fortemente atraído por seu jeito discreto e observador e por sua inteligência viva.

– Ele falou que precisava encomendar camisas novas – dissera ela, mas Gus pôde ver a tensão em seu rosto. – Mas eu sei que ele foi encontrar a amante – acrescentara em seguida. – Gus havia usado seu lenço de bolso para lhe enxugar as lágrimas e ela o beijara na boca, falando:

– Eu gostaria de ser casada com um homem em quem pudesse confiar.

Caroline havia se revelado surpreendentemente fogosa. Embora não permitisse relações sexuais, eles faziam todo o resto. As carícias dele já eram suficientes para lhe provocar orgasmos avassaladores.

O caso durava apenas um mês, mas Gus sabia que queria que ela se divorciasse de Wigmore para se casar com ele. Ela, no entanto, não queria nem ouvir falar nisso, embora não tivesse filhos. Dizia que isso seria o fim da carreira de Gus, e provavelmente tinha razão. Não seria possível agir com discrição, pois o escândalo seria irresistível – a esposa atraente que abandona um professor de renome para se casar logo em seguida com um rapaz mais novo e rico.

Gus sabia exatamente o que sua mãe diria sobre um casamento assim: “Se o professor foi infiel, é compreensível, mas é claro que não se pode frequentar socialmente uma mulher dessas.” O presidente ficaria constrangido, bem como o tipo de gente que um advogado gostaria de ter como cliente. E Gus certamente daria adeus a qualquer esperança que pudesse acalentar de seguir os passos do pai no Senado.

Ele disse a si mesmo que não ligava para nada disso. Amava Caroline e iria tomá-la do marido. Tinha dinheiro de sobra e, quando o pai morresse, ficaria milionário. Encontraria outra carreira para seguir. Talvez se tornasse jornalista, correspondente em capitais estrangeiras.

Ainda assim, sentiu uma pontada de arrependimento. Havia acabado de conseguir um emprego na Casa Branca, o sonho de qualquer jovem como ele. Seria um verdadeiro sacrifício abrir mão dessa oportunidade e de tudo o que ela poderia representar para a sua carreira.

O telefone tocou e Gus levou um susto com o barulho repentino no silêncio noturno da Ala Oeste.

– Ai, meu Deus – falou ele, encarando o aparelho. – Ai, meu Deus, chegou a hora. – Gus hesitou vários segundos antes de finalmente pegar o fone. Quando o fez, ouviu a voz afeminada do secretário de Estado William Jennings Bryan.

– Gus, estou com Joseph Daniels na linha. – Daniels era o secretário da Marinha. – E o assistente do presidente está escutando em uma extensão.

– Sim, senhor secretário – respondeu Gus. Forçou-se a manter a voz calma, mas seu coração estava disparado.

– Vá acordar o presidente, por favor – pediu o secretário Bryan.

– Sim, senhor.

Gus cruzou o Salão Oval e saiu para o Rose Garden sob o ar fresco da noite. Atravessou correndo o jardim até o prédio antigo. Um guarda o deixou entrar. Ele subiu às pressas a escadaria principal e desceu o corredor até a porta do quarto. Respirou fundo e bateu com força, machucando os nós dos dedos.

Após alguns instantes, ouviu a voz de Wilson.

– Quem é?

– Gus Dewar, Sr. Presidente – disse ele. – Os secretários Bryan e Daniels estão ao telefone.

– Só um minuto.

O presidente Wilson saiu do quarto pondo os óculos sem armação, parecendo vulnerável com seu pijama e roupão. Era alto, mas não tão alto quanto Gus. Aos 57 anos, tinha cabelos cinza-escuros. Achava-se um homem feio, e não estava muito longe da verdade. Tinha um nariz aquilino e orelhas de abano, mas o queixo grande e protuberante dava a seu rosto um ar determinado que refletia com precisão a força de caráter que Gus tanto admirava. Quando o presidente falou, exibiu uma dentição em mau estado.

– Bom dia, Gus – disse ele cordialmente. – Que agitação toda é essa?

– Eles não me disseram.

– Bom, é melhor você ficar escutando na extensão da sala ao lado.

Gus foi depressa até a sala ao lado e pegou o telefone.

Ouviu a voz melodiosa de Bryan:

– Espera-se que o Ypiranga atraque às dez horas da manhã de hoje.

Gus sentiu um arrepio de apreensão. Agora o presidente mexicano sem dúvida iria ceder, não? Caso contrário, haveria derramamento de sangue.

Bryan leu uma mensagem por cabo do cônsul norte-americano em Veracruz:

– “O vapor Ypiranga, de propriedade da linha Hamburg-Amerika, chegará amanhã da Alemanha com 200 metralhadoras e 15 milhões de cartuchos. Irá para o píer quatro para começar a descarregar às dez e meia.”

– Sr. Bryan, você entende o que isso significa? – indagou Wilson, e Gus pensou que sua voz soava queixosa. – Daniels, você está aí? O que acha?

– Não podemos permitir que a munição chegue até Huerta – respondeu Daniels. Gus ficou surpreso ao ouvir essa afirmação dura sair da boca do pacífico secretário da Marinha. – Posso mandar um cabo para o almirante Fletcher dizendo-lhe para impedir a entrega e ocupar a alfândega.

Houve uma longa pausa. Gus percebeu que estava segurando o fone com tanta força que sua mão doía. Por fim, o presidente falou:

– Daniels, envie a seguinte ordem para o almirante Fletcher: “Ocupe Veracruz imediatamente.”

– Sim, Sr. Presidente – respondeu o secretário da Marinha.

E os Estados Unidos entraram em guerra.

 

Gus não dormiu naquela noite, tampouco na seguinte.

Pouco depois das oito e meia, o secretário Daniels trouxe a notícia de que um navio de guerra americano havia bloqueado a passagem do Ypiranga. O navio alemão, um cargueiro sem armas, reverteu os motores e foi embora. Fuzileiros navais americanos iriam desembarcar em Veracruz mais tarde naquela manhã, informou Daniels.

Gus estava apavorado com a rapidez com que a crise avançava, mas empolgado por estar no centro dos acontecimentos.

Woodrow Wilson não tinha medo da guerra. Sua peça de teatro preferida era Henrique V, de Shakespeare, e ele gostava de citar a fala: “Se ambicionar a honra é pecado, sou a alma mais pecadora que existe.”

Notícias chegavam por telégrafo e por cabo, e cabia a Gus levar as mensagens até o presidente. Ao meio-dia, os fuzileiros navais assumiram o controle da alfândega de Veracruz.

Pouco depois, Gus foi avisado de que tinha uma visita – uma certa Sra. Wigmore.

Preocupado, franziu o cenho. Aquilo era uma indiscrição. Deveria ter acontecido alguma coisa.

Saiu apressado para o saguão. Caroline parecia abalada. Embora usasse um casaco de tweed alinhado e um chapéu simples, tinha os cabelos despenteados e os olhos vermelhos de tanto chorar. Gus ficou chocado e aflito ao vê-la nesse estado.

– Minha querida! – disse ele em voz baixa. – O que foi que houve?

– Está tudo terminado. Nunca mais posso ver você. Sinto muito – disse ela, começando a chorar.

Gus sentiu vontade de abraçá-la, mas não podia fazer isso ali. Não tinha sala própria. Olhou em volta. O guarda junto à porta os observava. Não havia nenhum lugar onde pudessem ficar a sós. Era enlouquecedor.

– Vamos sair – disse ele, pegando-a pelo braço. – Podemos dar uma volta.

Ela fez que não com a cabeça.

– Não. Eu vou ficar bem. Fique aqui.

– O que deixou você assim?

Ela se recusou a encará-lo, olhando para o chão.

– Preciso ser fiel ao meu marido. Tenho minhas obrigações.

– Deixe-me ser o seu marido.

Ela ergueu o rosto, e sua expressão de desejo partiu o coração de Gus.

– Ah, como eu queria poder fazer isso.

– Mas você pode!

– Eu já tenho marido.

– Ele não é fiel a você... por que você deveria ser fiel a ele?

Caroline ignorou o comentário.

– Ele aceitou um cargo em Berkeley. Vamos nos mudar para a Califórnia.

– Não vá.

– Já está decidido.

– É claro – disse Gus com uma voz sem vida. Tinha a sensação de ter sido nocauteado. Seu peito doía e ele estava com dificuldade para respirar. – Califórnia – falou ele. – Nossa...

Caroline viu que ele estava aceitando o inevitável, de modo que começou a recobrar a compostura.

– Este é nosso último encontro – disse ela.

– Não!

– Por favor, escute. Quero lhe contar uma coisa e esta é minha única chance.

– Está bem.

– Um mês atrás, eu estava prestes a me matar. Não me olhe assim, é verdade. Achava que era tão desprezível que ninguém daria importância se eu morresse. Então você apareceu à minha porta. Foi tão afetuoso, tão cortês, tão atencioso, que me fez pensar que valia a pena continuar viva. Você me tratou com carinho. – As lágrimas escorriam por suas faces, mas ela prosseguiu: – E ficou tão feliz quando o beijei... Percebi que, se eu era capaz de proporcionar uma alegria tão grande a alguém, não podia ser totalmente inútil; e esse pensamento me fez seguir em frente. Você salvou minha vida, Gus. Que Deus o abençoe.

Ele quase sentiu raiva.

– E o que me resta disso tudo?

– Lembranças – respondeu ela. – Espero que você as guarde com o mesmo amor com que guardo as minhas.

Caroline se virou para ir embora. Gus a seguiu até a porta, mas ela não olhou para trás. Saiu do prédio, e ele a deixou ir.

Quando ela sumiu de seu campo de visão, Gus tomou automaticamente o rumo do Salão Oval, mas logo em seguida mudou de direção: seus pensamentos estavam tumultuados demais para que fosse se encontrar com o presidente. Resolveu ir até o toalete masculino para ter alguns instantes de paz. Felizmente, não havia ninguém lá. Lavou o rosto e se olhou no espelho. Viu um homem magro, de cabeça grande: ele tinha o mesmo formato de um pirulito. Seus cabelos eram castanho-claros, seus olhos, castanhos, e não era muito bonito, mas as mulheres em geral gostavam dele – e Caroline o amava.

Ou, pelo menos, havia amado por algum tempo.

Ele não deveria tê-la deixado partir. Como podia ter assistido à sua partida sem fazer nada? Deveria tê-la convencido a adiar sua decisão, a pensar melhor, a conversar um pouco mais. Talvez os dois pudessem ter pensado em alternativas. Porém, no fundo, ele sabia não haver alternativa alguma. Imaginava que ela já tivesse refletido bastante sobre tudo aquilo. Provavelmente tinha ficado noites em claro, com o marido adormecido ao seu lado, passando e repassando a situação. Já havia se decidido antes de ir até lá.

Ele precisava voltar ao seu posto. Os Estados Unidos estavam em guerra. Mas como faria para tirar aquilo da cabeça? Quando não podia vê-la, passava o dia inteiro ansiando pelo próximo encontro. Agora não conseguia parar de pensar na vida sem ela. Era uma perspectiva estranha. O que iria fazer?

Um assessor entrou no toalete, então Gus secou as mãos em uma toalha e voltou para seu posto no escritório contíguo ao Salão Oval.

Logo em seguida, um mensageiro lhe trouxe um cabo enviado pelo cônsul norte-americano em Veracruz. Gus leu o papel e exclamou:

– Ah, não! – A mensagem dizia: “Quatro homens nossos mortos vírgula vinte feridos vírgula tiroteio generalizado nas cercanias do consulado ponto”.

Quatro mortos, pensou Gus, horrorizado, quatro bons americanos, com mães e pais, mulheres ou namoradas. A notícia pareceu redimensionar sua própria tristeza. Pelo menos Caroline e eu estamos vivos, pensou ele.

Bateu na porta do Salão Oval e entregou o cabo a Wilson. O presidente ficou pálido ao ler a mensagem.

Gus o encarou com intensidade. Como o presidente se sentia sabendo que aqueles homens haviam morrido por causa da decisão que ele tomara no meio da noite?

Aquilo não deveria ter acontecido. Os mexicanos queriam se ver livres de governos tirânicos, não queriam? Eles deveriam ter recebido os americanos como libertadores. O que saíra errado?

Bryan e Daniels apareceram alguns minutos mais tarde, seguidos pelo secretário da Guerra, Lindley Garrison, homem em geral mais beligerante do que Wilson, e por Robert Lansing, o conselheiro do Departamento de Estado. Todos se reuniram no Salão Oval para aguardar novas notícias.

O presidente estava mais tenso do que uma corda de violino. Pálido, irrequieto e nervoso, ficava andando de um lado para outro. Era uma pena Wilson não fumar, pensou Gus – talvez ajudasse a acalmá-lo.

Todos sabíamos que poderia haver violência, refletiu ele, mas de alguma forma a realidade é mais chocante do que havíamos previsto.

Novos detalhes foram chegando esporadicamente e Gus entregava as mensagens a Wilson. As notícias eram todas ruins. As tropas mexicanas tinham resistido, disparando de seu forte contra os fuzileiros navais. Os soldados tiveram o apoio da população, que passou a atirar a esmo nos americanos das janelas mais altas de suas casas. Em retaliação, o USS Prairie, embarcação norte-americana ancorada próximo da costa, virou seus canhões de oito centímetros para a cidade e disparou.

As baixas aumentaram: seis americanos mortos, oito, 12 – e mais feridos. O confronto, no entanto, foi irremediavelmente desigual, e mais de 100 mexicanos morreram.

O presidente parecia atônito.

– Nós não queremos combater os mexicanos – disse ele. – Queremos ajudá-los. Queremos ajudar a humanidade.

Pela segunda vez no mesmo dia, Gus se sentiu levado a nocaute. O presidente e seus conselheiros não tinham nada além de boas intenções. Como as coisas podiam ter dado tão errado? Será que era mesmo tão difícil fazer o bem em matéria de relações internacionais?

O Departamento de Estado enviou uma mensagem. O embaixador alemão, conde Johann von Bernstorff, recebera instruções do Kaiser para telefonar ao secretário de Estado, e desejava saber se seria conveniente ligar às nove horas da manhã seguinte. Extraoficialmente, sua equipe deu a entender que o embaixador faria uma queixa formal contra o embargo ao Ypiranga.

– Uma queixa? – disse Wilson. – De que diabos eles estão falando?

Gus logo percebeu que o direito internacional estava do lado dos alemães.

– Sr. Presidente, não houve declaração de guerra nem de bloqueio, portanto, estritamente falando, os alemães têm razão.

– O quê? – Wilson se virou para Lansing. – É isso mesmo?

– Nós vamos verificar, é claro – respondeu o conselheiro do Departamento de Estado. – Mas tenho quase certeza de que Gus está certo. O que nós fizemos é uma violação do direito internacional.

– Então o que isso significa?

– Significa que teremos que pedir desculpas.

– Nunca! – respondeu Wilson com irritação.

Mas foi o que fizeram.

 

Maud Fitzherbert estava admirada por ter se apaixonado por Walter von Ulrich. Por outro lado, teria ficado surpresa por ter se apaixonado por qualquer homem. Era raro gostar de algum. Muitos tinham ficado atraídos por ela, sobretudo nos seus tempos de debutante, mas seu feminismo logo afastara a maioria deles. Outros tinham planejado colocá-la nos eixos – como o mal-ajambrado marquês de Lowther, que dissera a Fitz que ela veria quanto estava equivocada quando conhecesse um homem que a dominasse de verdade. Pobre Lowthie: ela havia lhe mostrado que o equívoco era todo dele.

Walter a considerava maravilhosa do jeito que era. Qualquer coisa que Maud fizesse o deixava encantado. Quando ela defendia pontos de vista extremos, ele ficava impressionado com sua argumentação; quando chocava a sociedade ao ajudar mães solteiras e seus filhos, ele admirava sua coragem; e ainda adorava seu estilo ousado de se vestir.

Maud ficava entediada com os ingleses ricos de classe alta que consideravam a atual forma de organização da sociedade bastante satisfatória. Walter era diferente. Mesmo vindo de uma família alemã conservadora, ele era surpreendentemente radical. De onde ela estava sentada, na fileira de trás do camarote de seu irmão na ópera, podia ver Walter nas primeiras fileiras da plateia, ao lado de um pequeno grupo da embaixada alemã. Com seus cabelos penteados com esmero, seu bigode bem aparado e seu traje de gala sob medida, ele não parecia um rebelde. Fitava o palco com grande concentração enquanto Don Giovanni, acusado de tentar estuprar uma camponesa pobre, fingia descaradamente ter flagrado seu criado Leporello cometendo o crime.

Na verdade, pensou ela, rebelde não era a palavra certa para definir Walter. Embora fosse extraordinariamente aberto a novas ideias, ele às vezes era conservador. Tinha orgulho da grande tradição musical dos povos de língua alemã e se irritava com os espectadores ingleses blasés que chegavam atrasados, conversavam com os amigos durante os espetáculos e saíam antes do final. Àquela altura, estaria irritado com Fitz, por ele fazer comentários sobre a aparência física da soprano com seu amigo Bing Westhampton, e com Bea, por ela conversar com a duquesa de Sussex sobre a loja de Madame Lucille na Hanover Square, onde ambas haviam comprado seus vestidos. Maud sabia até o que Walter lhe diria: “Eles só escutam a música depois de esgotar todas as fofocas!”

Ela achava a mesma coisa, mas os dois eram uma minoria. Para a maior parte da alta sociedade londrina, a ópera era apenas mais uma oportunidade para exibir roupas e joias. No entanto, até mesmo aquela plateia fez silêncio por volta do final do primeiro ato, quando Don Giovanni ameaçou matar Leporello e a orquestra produziu uma verdadeira tempestade com seus tambores e contrabaixos. Então, com a indiferença que lhe era característica, Don Giovanni libertou Leporello e afastou-se com desenvoltura, desafiando todos a detê-lo; e o pano caiu.

Walter se levantou na mesma hora, olhou na direção do camarote e acenou. Fitz acenou de volta.

– Aquele é Von Ulrich – disse ele a Bing. – Os alemães estão todos cheios de si por terem deixado os americanos constrangidos no México.

Bing era um mulherengo endiabrado, de cabelos encaracolados, parente distante da família real. Pouco sabia sobre questões internacionais, e seus principais interesses eram jogar e beber nas capitais europeias. Intrigado, ele franziu as sobrancelhas e perguntou:

– Qual o interesse dos alemães pelo México?

– Boa pergunta – respondeu Fitz. – Se eles pensam que vão conseguir conquistar colônias nas Américas, estão enganados... os Estados Unidos jamais permitirão tal coisa.

Maud saiu do camarote e desceu a escadaria imponente, meneando a cabeça e sorrindo para conhecidos. Conhecia praticamente metade dos presentes: a sociedade londrina era surpreendentemente pequena. No saguão coberto com um tapete vermelho, encontrou um grupo reunido em volta da silhueta franzina e elegante de David Lloyd George, chanceler do Tesouro.

– Boa noite, lady Maud – disse ele, com a faísca que surgia em seus olhos azuis brilhantes sempre que se dirigia a uma mulher atraente. – Ouvi dizer que a visita do rei à sua casa correu bem. – Ele falava com o sotaque anasalado de Gales do Norte, menos melodioso do que o falar cadenciado de Gales do Sul. – Mas que tragédia na mina de Aberowen!

– As famílias dos mortos ficaram muito reconfortadas com as condolências do rei – disse Maud.

Uma mulher atraente de vinte e poucos anos fazia parte do grupo.

– Boa noite, Srta. Stevenson, é um prazer revê-la – falou Maud.

A secretária para assuntos políticos e amante de Lloyd George era uma rebelde, de modo que Maud simpatizava com ela. Além do mais, um homem sempre ficava grato às pessoas que tratavam sua amante com educação.

Lloyd George dirigiu-se ao grupo:

– No fim das contas, o navio alemão entregou as armas ao México assim mesmo. Ele simplesmente foi para outro porto e descarregou na surdina. O que significa que 19 soldados americanos morreram por nada. É uma humilhação terrível para Woodrow Wilson.

Maud sorriu e tocou o braço de Lloyd George.

– Chanceler, poderia me explicar uma coisa?

– Se estiver ao meu alcance, minha cara – disse ele, solícito.

A maioria dos homens ficava feliz quando uma pessoa lhe pedia que explicasse algo, pensou Maud, sobretudo se fosse uma jovem atraente.

– Por que alguém se interessaria pelo que acontece no México? – perguntou ela.

– Petróleo, minha cara senhora – respondeu Lloyd George. – Petróleo.

Alguma outra pessoa falou com ele, e o chanceler se virou.

Maud viu Walter. Os dois se encontraram ao pé da escadaria. Ele se curvou por sobre sua mão enluvada e ela teve de resistir à tentação de tocar seus cabelos louros. Seu amor por Walter havia despertado um profundo desejo adormecido, que era ao mesmo tempo atiçado e atormentado por seus beijos roubados e suas carícias furtivas.

– Está gostando da ópera, lady Maud? – indagou ele com formalidade, mas seus olhos cor de avelã diziam: Queria que estivéssemos a sós.

– Muito... o Don tem uma voz maravilhosa.

– Na minha opinião, o maestro está regendo um pouco depressa demais.

Walter era o único conhecido de Maud a levar a música tão a sério quanto ela.

– Discordo – foi sua resposta. – É uma comédia, então as melodias precisam ser velozes.

– Mas não é só uma comédia.

– É verdade.

– Quem sabe ele não diminui o ritmo quando as coisas desandarem no segundo ato?

– Parece que vocês conseguiram algum tipo de vitória diplomática no México – falou ela, mudando de assunto.

– Meu pai está... – Ele hesitou, procurando as palavras, coisa rara no seu caso. – Exultante – completou, após uma pausa.

– E você não está?

Sua expressão ficou sombria.

– Tenho minhas preocupações de que o presidente americano queira se vingar um dia.

Foi então que Fitz passou por eles e disse:

– Olá, Von Ulrich, venha ficar conosco no nosso camarote, temos um lugar vazio.

– Com prazer! – respondeu Walter.

Maud ficou encantada. Fitz estava apenas sendo hospitaleiro: não sabia que a irmã estava apaixonada por Walter. Ela teria que deixá-lo a par da notícia em breve. Não sabia ao certo como ele iria reagir. Seus países tinham divergências e, embora Fitz considerasse Walter um amigo, aceitá-lo como cunhado era uma história muito diferente.

Ela e Walter subiram as escadas e atravessaram o corredor. A fileira de trás do camarote de Fitz tinha apenas dois lugares com uma visão ruim do palco. Sem reclamar, Maud e Walter se sentaram neles.

Alguns minutos depois, as luzes do teatro se apagaram. Na penumbra, Maud quase conseguia se imaginar a sós com Walter. O segundo ato começou com um dueto entre o Don e Leporello. Maud gostava da forma como Mozart fazia patrões e criados cantarem juntos, mostrando as relações complexas e íntimas entre as classes superiores e inferiores. Muitas peças se atinham somente às classes superiores, retratando os criados como parte da mobília – coisa que muitos gostariam que eles fossem.

Bea e a duquesa voltaram para o camarote durante o trio “Ah! Taci, ingiusto core”. Todos pareciam ter ficado sem assunto, pois estavam falando menos e escutando mais. Ninguém dirigiu a palavra a Maud nem a Walter, e nem sequer se virou para olhá-los, de modo que Maud se perguntou, animada, se poderia tirar vantagem da situação. Sentindo-se ousada, estendeu a mão e segurou furtivamente a de Walter. Ele sorriu e acariciou seus dedos com o polegar. Ela desejou poder beijá-lo, mas isso seria uma temeridade.

Quando Zerlina cantou sua ária “Vedrai, carino”, em um comovente compasso 3/8, um impulso irresistível começou a instigar Maud – e, assim que Zerlina apertou a mão de Masetto junto ao coração, Maud levou a mão de Walter ao próprio seio. Ele soltou um arquejo involuntário, mas ninguém percebeu, pois Masetto produzia ruídos semelhantes, uma vez que acabara de levar uma surra de Don.

Ela virou a mão de Walter para que ele pudesse sentir seu mamilo com a palma. Walter adorava os seios de Maud e os tocava sempre que podia, ou seja, raramente. Ela desejava que fosse com mais frequência: adorava quando ele fazia isso. Essa era outra revelação. Já haviam tocado seus seios antes – um médico, um pastor anglicano, uma menina mais velha no curso de dança, um homem na multidão –, e ela ficara ao mesmo tempo perturbada e lisonjeada ao se pensar capaz de despertar a luxúria alheia, mas nunca havia gostado da sensação como agora. Olhou de relance para o rosto de Walter e viu que ele tinha os olhos fixos no palco, mas que sua testa exibia um brilho de transpiração. Imaginou se seria errado da sua parte excitá-lo de tal forma quando não podia satisfazê-lo; porém ele não fez nenhum movimento para retirar a mão, o que a fez concluir que apreciava aquilo. Assim como ela. Como sempre, no entanto, Maud queria mais.

O que a havia feito mudar? Nunca fora assim. Era ele, é claro, e a química que sentia entre os dois, uma intimidade tão intensa que lhe dava a impressão de poder dizer qualquer coisa, fazer o que bem entendesse, não esconder nada. O que o tornava tão diferente de todos os outros homens que haviam se sentido atraídos por ela? Um homem como Lowthie, ou mesmo Bing, esperava que uma mulher se comportasse como uma criança bem-educada: que escutasse respeitosamente quando ele dissesse algo maçante, risse de suas tiradas inteligentes, obedecesse quando ele se mostrasse dominador e o beijasse sempre que ele pedisse. Walter a tratava como adulta. Não fazia galanteios vazios, nem se mostrava condescendente ou exibido, e escutava pelo menos tanto quanto falava.

A música ficou sinistra quando a estátua ganhou vida e o Commendatore entrou com passos firmes na sala de jantar de Don Giovanni. Aquele era o clímax da ópera, e Maud tinha quase certeza de que ninguém olharia para trás. Talvez, pensou, pudesse satisfazer Walter afinal – e essa ideia a deixou sem fôlego.

Enquanto os trombones bradavam junto à voz de baixo grave do Commendatore, ela pôs a mão sobre a coxa de Walter. Pôde sentir o calor de sua pele através da lã fina da calça. Ele continuou sem olhar para ela, porém Maud notou que tinha a boca aberta e a respiração acelerada. Ela subiu a mão por sua coxa e, ao mesmo tempo que o Don segurava corajosamente a mão do Commendatore, encontrou o membro rijo de Walter e o empunhou.

Estava ao mesmo tempo excitada e curiosa. Nunca tinha feito aquilo antes. Explorou o órgão através do tecido da calça. Era maior do que ela imaginava, e mais duro também, parecendo mais um pedaço de madeira do que uma parte do corpo. Que estranho, pensou, o simples toque de uma mulher gerar uma modificação física tão notável. Quando ela ficava excitada, isso transparecia em pequenas mudanças: aquela sensação de inchaço quase imperceptível e a umidade lá dentro. No caso dos homens, era como hastear uma bandeira.

Ela sabia o que os meninos faziam, pois havia espionado Fitz quando o irmão tinha 15 anos; então imitou os gestos que o vira fazer, subindo e descendo a mão enquanto o Commendatore exigia que o Don se arrependesse e este se recusava a fazê-lo repetidas vezes. Àquela altura, Walter ofegava, mas ninguém conseguia escutá-lo porque a orquestra tocava muito alto. Maud estava radiante por ser capaz de lhe proporcionar tanto prazer. Ficou observando as nucas dos companheiros de camarote, morrendo de medo que alguém se virasse, mas envolvida demais no que estava fazendo para parar. Walter cobriu-lhe a mão com a sua, ensinando a ela como fazer, apertando com mais força ao descer e aliviando a pressão ao subir, e Maud imitou seus gestos. Enquanto o Don era arrastado para dentro das chamas, Walter teve um sobressalto. Ela sentiu uma espécie de espasmo em seu membro – uma, duas, três vezes – e, então, enquanto o Don morria de terror, Walter pareceu se afundar na cadeira, exausto.

Maud de repente se deu conta de que o que havia feito era uma loucura completa. Retirou a mão no mesmo instante, corando de vergonha. Percebeu que ofegava e tentou respirar normalmente.

No palco, iniciou-se a cena final com o elenco inteiro e Maud relaxou. Não sabia o que havia dado nela, mas conseguira escapar ilesa. O alívio da tensão lhe deu vontade de rir, mas ela se conteve.

Cruzou olhares com Walter. Ele a fitava com adoração. Maud sentiu uma onda de prazer. Ele se inclinou mais para perto e colou os lábios ao seu ouvido.

– Obrigado – murmurou.

Ela deu um suspiro e disse:

– Foi um prazer.

 

Junho de 1914

No início de junho, Grigori Peshkov enfim juntou dinheiro suficiente para comprar uma passagem até Nova York. A família Vyalov de São Petersburgo lhe vendeu tanto o bilhete quanto os documentos necessários para emigrar para os Estados Unidos, incluindo uma carta do Sr. Josef Vyalov, de Buffalo, prometendo um emprego a Grigori.

Grigori beijou a passagem. Mal podia esperar para partir. Aquilo parecia um sonho, e ele tinha medo de acordar antes de o navio zarpar. Agora que a viagem estava tão próxima, ansiava ainda mais pelo instante em que estaria em pé no convés e olharia para trás para ver a Rússia desaparecer no horizonte e sair de sua vida para sempre.

Na noite anterior à partida, seus amigos organizaram uma festa.

A festa foi no bar do Mishka, próximo à Metalúrgica Putilov. Uma dúzia de colegas de trabalho estava presente, além de quase todos os membros do grupo de discussão bolchevique sobre socialismo e ateísmo e as moças da casa em que Grigori e Lev moravam. Todos haviam aderido à greve que se estendia por metade das fábricas de São Petersburgo, então ninguém tinha muito dinheiro, mas fizeram uma vaquinha para comprar um barril de cerveja e alguns arenques. Era uma noite quente de verão, e eles se sentaram em bancos num terreno baldio ao lado do bar.

Grigori não gostava muito de festas. Teria preferido passar a noite jogando xadrez. O álcool deixava as pessoas idiotas, e flertar com as esposas e namoradas dos outros lhe parecia uma perda de tempo. Seu amigo de cabelos revoltos, Konstantin, presidente do grupo de discussão, se desentendeu por causa da greve com o agressivo Isaak, o jogador de futebol, e eles acabaram aos gritos um com o outro. Grande Varya, mãe de Konstantin, bebeu quase uma garrafa inteira de vodca, deu um soco no marido e desmaiou. Lev trouxe vários amigos – homens que Grigori nunca havia encontrado e garotas que não queria conhecer –, que tomaram toda a cerveja sem pagar um tostão.

Grigori passou a noite inteira lançando olhares tristes para Katerina. Ela estava de bom humor; adorava festas. Sua saia comprida rodopiava e seus olhos azul-esverdeados faiscavam enquanto se movia de um lado para outro, provocando os homens e encantando as mulheres, sempre a sorrir com aquela boca larga e generosa. Suas roupas eram velhas e remendadas, mas seu corpo era lindo, bem do tipo que os homens russos gostavam, com seios fartos e quadris largos. Grigori se apaixonara por ela no dia em que a conhecera – e agora, quatro meses depois, continuava apaixonado. Mas ela preferia seu irmão.

Por quê? Não era uma questão de aparência física. Os dois eram tão parecidos que as pessoas às vezes os confundiam. Tinham a mesma altura e o mesmo peso e podiam usar as roupas um do outro. Mas Lev era extremamente charmoso. Era egoísta e irresponsável, além de viver à margem da lei, mas as mulheres o adoravam. Grigori era honesto e confiável, trabalhador e um intelectual sério, e era solteiro.

Nos Estados Unidos seria diferente. Tudo lá seria diferente. Os latifundiários norte-americanos não podiam enforcar seus trabalhadores. A polícia norte-americana era obrigada a julgar as pessoas antes de puni-las. O governo não podia sequer prender socialistas. Não havia nobres: todos lá eram iguais, até mesmo os judeus.

Será que isso era mesmo real? Às vezes achava que o que ouvia sobre os Estados Unidos era fantasioso demais, como as histórias que as pessoas contavam sobre as ilhas dos mares do Sul, onde lindas donzelas se entregavam a qualquer um que pedisse. Mas só podia ser verdade: milhares de emigrantes já haviam mandado cartas para casa. Na fábrica, um grupo de socialistas revolucionários tinha dado início a uma série de palestras sobre a democracia norte-americana, mas a polícia os proibira de continuar.

Ele se sentia culpado por deixar o irmão para trás, mas essa era a melhor solução.

– Cuide-se – disse ele a Lev perto do fim da noite. – Eu não vou mais estar aqui para tirar você de encrencas.

– Eu vou ficar bem – falou Lev, sem dar muita importância ao assunto. – Cuide-se, você.

– Vou mandar dinheiro para a sua passagem. Com o salário que os americanos pagam, não vai demorar muito.

– Estarei esperando.

– Não mude de casa... Nós poderíamos perder contato.

– Eu não vou a lugar nenhum, irmão.

Não haviam decidido se Katerina também iria posteriormente para os Estados Unidos. Grigori deixara a cargo de Lev trazer o assunto à baila, mas o irmão não fizera isso. Grigori não sabia se deveria ter esperanças ou medo de que Lev quisesse levá-la consigo.

Lev segurou o braço de Katerina e disse:

– Temos de ir agora.

Grigori ficou surpreso.

– Para onde vocês vão a esta hora da noite?

– Vou me encontrar com Trofim.

Trofim era um membro pouco importante da família Vyalov.

– Por que precisa encontrá-lo hoje?

Lev deu uma piscadela.

– Não se preocupe. Nós vamos voltar antes do amanhecer... com tempo de sobra para levar você até a ilha Gutuyevsky. – Era lá que ficavam atracados os vapores transatlânticos.

– Está bem – disse Grigori. – Não façam nada perigoso – acrescentou ele, sabendo que era um conselho inútil.

Lev acenou alegremente e desapareceu.

Já era quase meia-noite. Grigori se despediu dos presentes. Vários de seus amigos choraram, mas ele não sabia se era de tristeza ou apenas por causa do álcool. Voltou andando para casa acompanhado por algumas das garotas e, no hall de entrada, todas o beijaram. Então foi para o seu quarto.

Sua mala de segunda mão estava em cima da mesa. Embora fosse pequena, estava cheia só até a metade. Ele estava levando camisas, roupa de baixo e seu jogo de xadrez. Tinha apenas um par de botas. Não havia acumulado muita coisa durante os nove anos desde a morte da mãe.

Antes de ir para a cama, espiou dentro do armário onde Lev guardava seu revólver, um Nagant M1895 de fabricação belga. Sentiu um frio na barriga ao perceber que a arma não estava no seu lugar de sempre.

Para não ter de sair da cama e abrir a janela quando Lev chegasse, ele a destrancou.

Deitado na cama sem dormir, escutando o rumor familiar dos trens que passavam, ele se perguntou como seria a vida a mais de seis mil quilômetros dali. Sempre havia morado com Lev, fazendo as vezes de mãe e pai para o irmão caçula. A partir do dia seguinte, nem mesmo saberia se Lev teria passado a noite inteira fora ou se carregava uma arma. Seria um alívio ou ele se preocuparia ainda mais?

Como sempre, Grigori acordou às cinco. Seu navio zarpava às oito e o cais ficava a uma hora a pé de onde ele morava. Havia tempo de sobra.

Lev não voltara para casa.

Grigori lavou as mãos e o rosto. Olhando-se em um caco de espelho quebrado, aparou o bigode e a barba com uma tesoura de cozinha. Então vestiu seu melhor terno. Deixaria o outro para Lev.

Estava com uma panela de mingau no fogo quando ouviu alguém bater com força à porta.

Com certeza eram más notícias. Os amigos gritavam da rua; apenas as autoridades batiam à porta. Grigori pôs a boina na cabeça, saiu para o corredor e olhou escada abaixo. A senhoria estava abrindo a porta para dois homens com o uniforme preto e verde da polícia. Observando melhor, ele reconheceu o rosto gorducho em forma de lua cheia de Mikhail Pinsky e a pequena cabeça de rato de seu parceiro, Ilya Kozlov.

Grigori pensou depressa. Evidentemente, alguém na casa era suspeito de um crime. O culpado mais provável era Lev. Quer se tratasse de seu irmão ou de algum outro inquilino, todos no prédio seriam interrogados. Os dois policiais se lembrariam do incidente em fevereiro, quando Grigori havia salvado Katerina deles, e aproveitariam a oportunidade para prender Grigori.

E ele perderia seu navio.

Esse pensamento terrível o deixou paralisado. Perder o navio! Depois de todas as economias e de tanto esperar e torcer por esse dia. Não, pensou ele; eu não vou deixar isso acontecer.

Encolhendo-se, voltou ao quarto na mesma hora em que os dois policiais começaram a subir a escada. De nada adiantaria argumentar com eles – muito pelo contrário: se Pinsky descobrisse que Grigori estava prestes a emigrar, teria ainda mais prazer em prendê-lo. Grigori sequer teria uma chance de devolver a passagem e pegar seu dinheiro de volta. Todos aqueles anos de economia iriam por água abaixo.

Ele precisava fugir.

Em frenesi, correu os olhos pelo quarto. Havia uma porta e uma janela ali. Ele teria de sair da maneira que Lev entrava durante a noite. Olhou para fora: o quintal dos fundos estava vazio. A polícia de São Petersburgo era brutal, mas ninguém jamais diria que era muito esperta. Pinsky e Kozlov sequer haviam pensado em vigiar os fundos da casa. Talvez soubessem que não havia saída pelo quintal, exceto se você atravessasse a via férrea, mas trilhos ferroviários não representavam um grande obstáculo para um homem desesperado.

Grigori ouviu gritos e exclamações vindos do quarto das moças ao lado do seu: a polícia havia entrado lá primeiro.

Apalpou a frente do paletó. A passagem, seus documentos e o dinheiro estavam no bolso. Todo o resto dos seus bens materiais já estava dentro da mala usada de papelão.

Ele pegou a mala e se debruçou o máximo possível pela janela. Segurou-a para fora e a deixou cair. Ela aterrissou em pé e aparentemente intacta.

A porta de seu quarto se abriu de supetão.

Grigori passou as pernas por sobre o peitoril, sentando-se nele por uma fração de segundo, e então pulou sobre o telhado da lavanderia. Seus pés escorregaram nas telhas e ele levou um tombo, caindo sentado. Em seguida, escorregou pelo telhado inclinado até a calha. Ouviu um grito às suas costas, mas não olhou para trás. Pulou lá de cima até o chão e aterrissou sem se machucar.

Apanhou a mala e saiu correndo.

Um tiro ecoou, assustando-o e fazendo-o correr mais depressa. A maioria dos policiais não conseguiria acertar o Palácio de Inverno a três metros de distância, mas ninguém estava a salvo de um acidente. Ele subiu aos tropeços o talude que ia dar nos trilhos, consciente de que, ao se aproximar do nível da janela, tornava-se um alvo mais fácil. Quando ouviu o típico resfolegar de uma locomotiva, olhou para a direita e viu um trem de carga se aproximando depressa. Ouviu-se outro tiro e ele sentiu um baque em algum lugar, mas, como não sentiu dor, concluiu que a bala atingira a mala. Chegou ao topo da subida, sabendo que seu corpo agora se destacava contra o céu claro da manhã. O trem estava a poucos metros de distância. O maquinista fez soar forte e demoradamente a buzina. Um terceiro tiro ecoou. Grigori se jogou para o outro lado dos trilhos um segundo antes de o trem passar.

A locomotiva avançou com um estrondo, rodas de aço batendo em trilhos também de aço, deixando um rastro de vapor à medida que o som da buzina esmorecia. Grigori se levantou, desequilibrado. Agora estava protegido dos tiros por um comboio de vagões abertos carregados de carvão. Atravessou em disparada os trilhos que ainda restavam. Enquanto o último dos vagões de carvão passava, ele desceu a encosta oposta e passou pelo quintal de uma pequena fábrica até chegar à rua.

Olhou para a mala. Um dos cantos exibia um buraco de bala. Fora por pouco.

Andou depressa, tentando recuperar o fôlego, e se perguntou o que deveria fazer em seguida. Agora que estava seguro – pelo menos por hora –, começou a se preocupar com o irmão. Precisava saber se Lev estava em apuros e, caso estivesse, de que espécie.

Enquanto caminhava em direção ao bar, ficou nervoso com a possibilidade de ser avistado. Seria uma falta de sorte, mas não era impossível: Pinsky poderia muito bem estar rondando por aquelas ruas. Ele abaixou a boina sobre a testa, sem acreditar de todo que isso poderia disfarçar sua identidade. Cruzou com alguns operários a caminho do cais e juntou-se ao grupo, mas, com a mala na mão, destoava dos outros.

Contudo, conseguiu chegar ao bar do Mishka sem incidentes. O lugar era mobiliado com bancos e mesas de madeira rústicos. Recendia à cerveja e à fumaça de cigarro da noite anterior. Pela manhã, Mishka, o dono, servia pão e chá aos que não tinham lugar em casa para preparar o desjejum, mas o movimento estava fraco por causa da greve e o local estava praticamente vazio.

Grigori pretendia perguntar a Mishka se ele sabia para onde Lev estava indo quando saiu do bar, mas, antes de conseguir fazê-lo, viu Katerina. Ela parecia ter passado a noite em claro. Seus olhos azul-esverdeados estavam avermelhados; seus cabelos louros, desgrenhados e sua saia, amarrotada e manchada. Estava visivelmente abalada, com as mãos trêmulas e rastros de lágrimas no rosto encardido. Isso, no entanto, a tornava ainda mais bonita aos olhos de Grigori, e ele desejou poder tomá-la nos braços para reconfortá-la. Como não podia fazer isso, escolheu a segunda melhor opção e foi falar com ela.

– O que houve? – indagou. – Qual é o problema?

– Graças a Deus você apareceu – disse ela. – A polícia está atrás de Lev.

Grigori suspirou. Então seu irmão estava mesmo em apuros, e logo naquele dia.

– O que ele aprontou? – Grigori nem sequer se deu ao trabalho de considerar a hipótese de Lev ser inocente.

– Houve uma confusão ontem à noite. Nós devíamos descarregar uns cigarros de uma barca. – Cigarros roubados, presumiu Grigori. – Lev pagou por eles – prosseguiu Katerina –, mas o condutor da barca disse que o dinheiro não era suficiente e eles discutiram. Alguém começou a atirar. Lev atirou de volta e depois nós saímos correndo.

– Graças a Deus nenhum de vocês dois se machucou!

– Agora estamos sem os cigarros e sem o dinheiro.

– Que confusão! – Grigori olhou para o relógio acima do balcão. Eram seis e quinze. Ainda tinha bastante tempo. – Vamos nos sentar. Quer um pouco de chá? – Ele acenou para Mishka e pediu dois copos de chá.

– Obrigada – agradeceu Katerina. – Lev acha que um dos feridos deve ter alertado a polícia. E agora estão atrás dele.

– E você?

– Eu não corro perigo, ninguém sabe o meu nome.

Grigori assentiu.

– Nesse caso, o que precisamos fazer é manter Lev longe da polícia. Ele vai ter que ficar escondido por mais ou menos uma semana, depois fugir da cidade.

– Ele não tem dinheiro.

– É claro que não. – Lev nunca tinha dinheiro para comprar o básico, embora sempre conseguisse pagar uma bebida, apostar e sair com garotas. – Eu posso deixar algum com ele. – Grigori teria de mexer no dinheiro que juntara para a viagem. – Onde ele está?

– Ele disse que iria encontrar você no navio.

Mishka lhes trouxe o chá. Grigori percebeu que estava com fome, pois havia deixado o mingau no fogo. Ele pediu uma sopa.

– Quanto você pode deixar com Lev? – perguntou Katerina.

Ela o fitou com um olhar intenso que, como sempre, o fez pensar que faria qualquer coisa que ela pedisse. Grigori desviou os olhos.

– Quanto ele precisar – respondeu.

– Como você é bom!

Grigori deu de ombros.

– Ele é meu irmão.

– Obrigada.

Grigori gostava quando Katerina se mostrava agradecida, embora também ficasse constrangido. A sopa chegou e ele começou a comer, grato pela distração. A comida o deixou mais otimista. Lev estava sempre arrumando encrenca. Sairia daquela dificuldade como já havia feito muitas vezes. Isso não significava que precisasse perder o navio.

Katerina bebericou o chá enquanto observava Grigori. Ela não exibia mais o ar frenético de antes. Lev põe você em perigo e quem a salva sou eu, pensou Grigori, mas mesmo assim você prefere ficar com ele.

Àquela altura, Lev provavelmente já estava no cais, escondido à sombra de um guindaste, à espreita de algum policial enquanto aguardava com nervosismo. Grigori precisava ir. Mas talvez nunca mais fosse ver Katerina e mal conseguia suportar a ideia de se despedir dela para sempre.

Terminou de tomar a sopa e consultou o relógio. Eram quase sete horas. Ele estava começando a se arriscar.

– Preciso ir – falou, relutante.

Katerina o acompanhou até a porta.

– Não seja duro demais com Lev – pediu ela.

– Eu algum dia fui?

Ela pôs as duas mãos em seus ombros, ficou na ponta dos pés e o beijou rapidamente na boca.

– Boa sorte – disse.

Grigori foi embora.

Ele percorreu a passos largos as ruas do sudoeste de São Petersburgo, um bairro industrial repleto de armazéns, fábricas, pátios de armazenamento e favelas apinhadas de gente. A vergonhosa vontade de chorar passou em poucos minutos. Ele caminhava pelo lado da sombra, sempre com a boina puxada para baixo e o olhar no chão, evitando espaços amplos e abertos. Se Pinsky houvesse divulgado uma descrição de Lev, um policial alerta poderia muito bem prender Grigori.

Ele, no entanto, chegou ao cais sem ser visto. Seu navio, o Anjo Gabriel, era uma embarcação pequena e enferrujada que transportava tanto carga quanto passageiros. No momento, estava sendo carregado com caixotes de madeira bem pregados e assinalados com o nome do maior comerciante de peles da cidade. Diante de seus olhos, a última caixa foi armazenada no compartimento de carga, que a tripulação fechou em seguida.

Uma família de judeus mostrava suas passagens na beirada da passarela. Até onde Grigori sabia, todos os judeus queriam ir para os Estados Unidos. Tinham ainda mais motivos do que ele. Na Rússia, existiam leis que os impediam de possuir terras, trabalhar no serviço público e serem oficiais do Exército, além de inúmeras outras proibições. Judeus não podiam morar onde quisessem e cotas limitavam seu acesso às universidades. Era um milagre que alguns ainda conseguissem ganhar a vida. E se, contrariando todas as probabilidades, eles prosperassem, não demorava muito tempo para serem emboscados por alguma turba – geralmente instigada por policiais da laia de Pinsky – e espancados, além de terem as famílias aterrorizadas, as janelas de suas casas estilhaçadas e suas propriedades incendiadas. Surpreendente era algum deles continuar na Rússia, isso sim.

O navio tocou o apito de “todos a bordo”.

Grigori não estava vendo o irmão. O que saíra errado? Teria Lev mudado de planos outra vez? Ou será que já havia sido preso?

Um menininho puxou a manga de Grigori.

– Um homem quer falar com o senhor – disse.

– Que homem?

– Ele é parecido com o senhor.

Graças a Deus, pensou Grigori.

– Onde ele está?

– Atrás daquelas tábuas.

No cais havia uma pilha de tábuas de madeira. Grigori a contornou às pressas e encontrou Lev escondido lá atrás, fumando um cigarro com agitação. Seu irmão estava irrequieto e pálido – coisa rara, visto que em geral ele permanecia alegre, mesmo em apuros.

– Estou encrencado – disse Lev.

– De novo.

– Aqueles condutores de barca são uns mentirosos!

– E ladrões também, provavelmente.

– Não me venha com sarcasmo. Não temos tempo para isso.

– Não, tem razão. Precisamos tirar você da cidade até a poeira baixar.

Lev fez que não com a cabeça, ao mesmo tempo que soltava com força a fumaça do cigarro.

– Um dos condutores morreu. Estou sendo procurado por assassinato.

– Ah, droga! – Grigori sentou-se em uma das tábuas de madeira e enterrou o rosto nas mãos. – Assassinato – repetiu.

– Trofim ficou gravemente ferido e a polícia conseguiu fazê-lo falar. Foi ele quem me dedurou.

– Como você sabe de tudo isso?

– Estive com Fyodor faz uma hora. – Fyodor era um policial corrupto conhecido de Lev.

– Péssima notícia.

– E não é o pior. Pinsky jurou me pegar... para se vingar de você.

Grigori aquiesceu.

– Era isso que eu temia.

– O que vou fazer?

– Você vai ter que ir para Moscou. Vai demorar muito tempo até São Petersburgo ser um lugar seguro para você outra vez, se é que voltará a ser um dia.

– Não sei se Moscou é longe o bastante, agora que a polícia tem telégrafos.

Grigori percebeu que ele tinha razão.

O navio tornou a apitar. Logo as passarelas seriam retiradas.

– Nosso tempo está acabando – disse Grigori. – O que você vai fazer?

– Eu poderia ir para os Estados Unidos – disse Lev.

Grigori o encarou firme.

– Você poderia me dar sua passagem – falou seu irmão.

Grigori não queria sequer pensar nisso.

Mas Lev prosseguiu, com uma lógica sem remorso:

– Eu poderia usar seu passaporte e seus documentos para entrar nos Estados Unidos. Ninguém iria notar a diferença.

Grigori viu seu sonho se dissipar, como o final de um filme no cinema Soleil da Nevsky Prospekt, quando as luzes da sala se acendiam e revelavam as cores desbotadas e o piso sujo do mundo real.

– Dar minha passagem para você – repetiu ele, adiando desesperadamente a hora da decisão.

– Você estaria salvando a minha vida – disse Lev.

Grigori sabia que era a coisa certa a fazer, e compreender isso foi como uma punhalada no seu coração.

Tirou os documentos do bolso de seu melhor terno e os entregou a Lev. Passou-lhe todo o dinheiro que havia economizado para a viagem. E, por fim, a mala de papelão com o buraco de bala.

– Eu lhe mando o dinheiro para outra passagem – disse Lev com fervor. Grigori ficou calado, mas o ceticismo deve ter transparecido em seu rosto, porque Lev protestou: – Mando mesmo, eu juro. Vou economizar.

– Está bem – falou Grigori.

Os irmãos se abraçaram. Lev disse:

– Você sempre cuidou de mim.

– Sim, sempre.

Lev deu as costas e correu para o navio.

Os marinheiros já desamarravam as cordas. Estavam prestes a puxar a passarela, mas Lev gritou e eles o aguardaram por mais alguns segundos.

Ele subiu correndo até o convés.

Uma vez lá, girou o corpo, se apoiou no parapeito e acenou para Grigori.

Grigori não conseguiu se forçar a acenar de volta. Virou as costas e foi embora.

O apito do navio soou, mas ele não olhou para trás.

Sem o fardo da mala, seu braço direito parecia estranhamente leve. Ele atravessou o cais, olhando para a água profunda e escura lá embaixo, e ocorreu-lhe a estranha ideia de que poderia se jogar ali. Obrigou-se a voltar a si: não era homem de se deixar levar por esse tipo de ideia tola. Ainda assim, sentia-se deprimido e amargurado. A vida sempre lhe puxava o tapete.

Não conseguiu se alegrar enquanto refazia o mesmo caminho e voltava pelo bairro industrial. Caminhava com os olhos pregados no chão, sem nem mesmo se dar ao trabalho de manter um olho aberto caso a polícia aparecesse: àquela altura, pouco importava se o prendessem.

O que seria dele? Sentia-se incapaz de reunir energia para fazer qualquer coisa. Quando a greve terminasse, conseguiria de volta seu emprego na fábrica: era um bom operário e eles sabiam disso. Provavelmente deveria ir até lá agora mesmo para descobrir se houvera algum avanço na situação – mas não conseguiu se forçar a tanto.

Uma hora depois, viu que se aproximava do bar do Mishka. Pretendia passar direto por lá, mas, ao olhar para dentro, viu Katerina sentada no mesmo lugar em que a havia deixado duas horas antes, com um copo de chá frio à sua frente, e percebeu que precisava lhe contar o que havia acontecido.

Entrou no bar. Com exceção de Mishka, que varria o chão, ele estava vazio.

Katerina se levantou com um ar assustado.

– O que você está fazendo aqui? – perguntou ela. – Perdeu o navio?

– Não exatamente. – Ele não conseguia pensar em um jeito de lhe dar a notícia.

– O que houve, então? – quis saber ela. – Lev morreu?

– Não, ele está bem. Mas está sendo procurado por assassinato.

Ela o encarou.

– Onde ele está?

– Ele teve que ir embora.

– Para onde?

Não havia como dizer aquilo de forma sutil.

– Ele me pediu para lhe dar a minha passagem.

– Sua passagem?

– E o meu passaporte. Ele foi para os Estados Unidos.

– Não! – gritou Katerina.

Grigori só fez assentir com a cabeça.

– Não! – Ela tornou a gritar. – Ele não me deixaria! Não diga isso, nunca diga isso!

– Tente ficar calma.

Ela deu um tapa no rosto de Grigori. Era apenas uma menina, de modo que ele mal saiu do lugar.

– Seu porco! – berrou ela com uma voz esganiçada. – Você o mandou embora!

– Fiz isso para salvar a vida dele.

– Filho da mãe! Cachorro! Eu odeio você! Odeio sua cara idiota!

– Nada que você diga pode me deixar pior do que já estou – falou Grigori, mas ela não o escutava. Ignorando seus xingamentos, ele se afastou, a voz dela começando a morrer à medida que ele atravessava a porta.

Os gritos cessaram e ele ouviu passos apressados seguindo-o pela rua.

– Pare! – chamou ela. – Por favor, Grigori, pare, não vire as costas para mim, eu sinto muito.

Ele tornou a se virar.

– Grigori, você tem que cuidar de mim agora que Lev foi embora.

Ele fez que não com a cabeça.

– Você não precisa de mim. Os homens desta cidade vão fazer fila para cuidar de você.

– Não, eles não vão – disse ela. – Tem uma coisa que você não sabe.

O que será desta vez?, pensou Grigori.

– Lev não quis que eu lhe contasse.

– Diga.

– Estou esperando um bebê – falou ela, começando a chorar.

Grigori ficou imóvel, absorvendo a notícia. O filho era de Lev, é claro. E Lev sabia. Mesmo assim, tinha ido para os Estados Unidos.

– Um bebê – repetiu Grigori.

Ela aquiesceu, aos prantos.

O filho de seu irmão. Seu sobrinho ou sobrinha. Sua família.

Grigori a abraçou, puxando-a para junto de si. Katerina tremia, soluçante. Enterrou o rosto em seu paletó. Ele acariciou-lhe os cabelos.

– Está bem – falou. – Não se preocupe. Você vai ficar bem. Seu filho também. – Ele deu um suspiro. – Vou cuidar de vocês dois.

 

A viagem no Anjo Gabriel foi dura, mesmo para um rapaz saído dos bairros pobres de São Petersburgo. Havia apenas uma classe, a mais baixa, e os passageiros eram tratados como reles mercadorias. O navio era sujo e insalubre, sobretudo quando as ondas ficavam maiores e as pessoas passavam mal. Como ninguém da tripulação falava russo, era impossível reclamar. Lev não sabia ao certo qual era a nacionalidade deles, mas não conseguiu se comunicar nem com seu inglês capenga nem com seu alemão ainda mais limitado. Alguém disse que eram holandeses. Lev nunca ouvira falar de um povo com aquele nome.

Apesar de tudo, o clima entre os passageiros era de grande otimismo. Lev tinha a sensação de ter derrubado os muros da prisão do czar e fugido – e de que agora era um homem livre. Estava a caminho dos Estados Unidos, onde não existia nobreza. Quando o mar se acalmava, os passageiros sentavam-se no convés para contar as histórias que tinham ouvido sobre os Estados Unidos: a água quente que saía das torneiras, as botas de couro de qualidade que até os trabalhadores usavam e, acima de tudo, a liberdade para praticar qualquer religião, unir-se a qualquer grupo político, exprimir suas opiniões em público e não ter medo da polícia.

No final do décimo dia, Lev estava jogando cartas. Era a sua vez de distribuir, mas ele estava perdendo. Todos estavam perdendo exceto Spirya, rapaz de aparência inocente da mesma idade de Lev e que também viajava sozinho.

– Spirya ganha todas as noites – disse outro jogador, Yakov. A verdade era que Spirya ganhava quando Lev distribuía as cartas.

O vapor seguia lentamente por um nevoeiro. O mar estava calmo e o único ruído era o som grave e baixo dos motores. Lev não conseguira descobrir quando iriam chegar. Cada um dava uma resposta diferente. Os mais bem informados diziam que tudo dependia do tempo. A tripulação, como sempre, se mostrava inescrutável.

Quando a noite caiu, Lev colocou suas cartas na mesa.

– Estou limpo – falou. Na verdade, tinha muito mais dinheiro dentro da camisa, mas podia ver que os demais estavam ficando duros, com exceção de Spirya. – É isso aí – prosseguiu ele. – Quando chegarmos aos Estados Unidos, vou ter de arranjar uma velha rica e viver como um cachorro de estimação em seu palácio de mármore.

Os outros riram.

– Mas por que alguém iria querer você como animal de estimação? – perguntou Yakov.

– Senhoras de idade sentem frio à noite – respondeu ele. – Ela precisaria do meu aparelho de aquecimento.

O jogo terminou de forma bem-humorada e os jogadores se dispersaram.

Spirya foi até a popa e se debruçou sobre o parapeito, observando a espuma do navio desaparecer em meio à névoa. Lev foi se juntar a ele.

– A minha metade ficou em sete rublos – disse Lev.

Spirya tirou algumas notas de dinheiro do bolso e as entregou a Lev, ocultando a transação com o próprio corpo para ninguém ver o dinheiro mudando de mãos.

Lev guardou as notas no bolso e encheu o cachimbo de fumo.

– Me diga uma coisa, Grigori – disse Spirya. Lev estava usando os documentos do irmão, então tivera de dizer aos outros que seu nome era Grigori. – O que você faria se eu me recusasse a lhe dar a sua parte?

Esse tipo de conversa era um perigo. Lev guardou seu fumo devagar e pôs o cachimbo apagado de volta no bolso do paletó. Então agarrou Spirya pelas lapelas e ergueu seu corpo contra o parapeito, arqueando-o para trás sobre o mar. Spirya era mais alto do que Lev, mas estava longe de ser tão forte quanto ele.

– Eu quebraria o seu pescoço de idiota – disse Lev. – Depois pegaria de volta todo o dinheiro que você ganhou comigo. – Ele empurrou Spirya para mais além do parapeito. – E jogaria você nesse maldito mar.

Spirya ficou apavorado.

– Está bem! – falou ele. – Me solte!

Lev soltou sua lapela.

– Meu Deus! – disse Spirya, ofegante. – Eu só fiz uma pergunta.

Lev acendeu o cachimbo.

– E eu lhe dei a resposta – falou. – Não se esqueça.

Spirya foi embora.

Quando o nevoeiro se dissipou, eles já podiam avistar terra. Era de noite, mas Lev conseguiu ver as luzes de uma cidade. Onde estariam? Alguns diziam que era o Canadá, outros a Irlanda, mas ninguém sabia ao certo.

As luzes se aproximaram e o navio diminuiu a velocidade. Estavam prestes a atracar. Lev ouviu alguém dizer que já haviam chegado aos Estados Unidos! Dez dias parecia pouco. Mas como ele poderia saber? Ficou junto ao parapeito com a mala de papelão do irmão. Seu coração acelerou no peito.

A mala lembrava a ele que era Grigori quem deveria estar chegando aos Estados Unidos naquele instante. Lev não se esquecera da promessa que havia feito ao irmão de lhe mandar dinheiro para comprar outra passagem. Essa era uma promessa que pretendia cumprir. Grigori provavelmente tinha lhe salvado a vida – outra vez. Tenho sorte de ter um irmão assim, pensou Lev.

Ele estava fazendo dinheiro no navio, mas não depressa o suficiente. Sete rublos não davam para nada. Ele precisava ganhar uma bolada. Mas os Estados Unidos eram a terra da oportunidade. Era ali que iria fazer fortuna.

Lev ficara intrigado ao descobrir um buraco de bala na mala e um projétil cravado em uma caixa contendo um jogo de xadrez. Tinha vendido o jogo de xadrez a um dos judeus por cinco copeques. Perguntou-se em que circunstâncias Grigori quase havia levado um tiro no dia de sua partida.

Sentia saudades de Katerina. Adorava andar para lá e para cá de braços dados com uma garota daquelas, sabendo que todos os homens o invejavam. Mas haveria muitas garotas nos Estados Unidos.

Imaginou se Grigori já estaria sabendo sobre o bebê de Katerina. Lev sentiu uma pontada de arrependimento: será que algum dia veria seu filho ou sua filha? Disse a si mesmo para não se preocupar com o fato de deixar Katerina sozinha para criar a criança. Ela encontraria outra pessoa para cuidar dela. Era uma sobrevivente.

Já passava da meia-noite quando o navio finalmente atracou. O cais estava mal iluminado e não havia ninguém à vista. Os passageiros desembarcaram com suas sacolas, caixas e baús. Um tripulante do Anjo Gabriel os instruiu a irem até um barracão onde havia alguns bancos.

– Vocês devem esperar aqui até o pessoal da imigração vir buscá-los pela manhã – disse ele, demonstrando que, no fim das contas, falava um pouco de russo.

Aquilo foi um certo anticlímax para quem havia passado anos economizando dinheiro para chegar até ali. As mulheres se sentaram nos bancos e as crianças pegaram no sono enquanto os homens fumavam, esperando o dia raiar. Algum tempo depois, ouviram o motor do navio e Lev foi até lá fora para vê-lo se afastar lentamente do atracadouro. Talvez os caixotes de peles precisassem ser desembarcados em outro lugar.

Ele tentou se lembrar do que Grigori tinha lhe dito, durante uma conversa casual, sobre os primeiros passos naquele novo país. Os imigrantes tinham de passar por uma avaliação médica – um momento de tensão, pois quem não estivesse bem de saúde era mandado de volta, com o dinheiro desperdiçado e as esperanças destruídas. Às vezes os funcionários da imigração mudavam os nomes das pessoas, de modo a torná-los mais fáceis de pronunciar para os americanos. Do lado de fora do cais, um representante da família Vyalov estaria esperando para levá-los de trem até Buffalo. Lá, eles arrumariam empregos nos hotéis e fábricas de propriedade de Josef Vyalov. Lev se perguntou a que distância Buffalo ficaria de Nova York. Seria uma viagem de uma hora ou de uma semana? Ele desejou ter escutado Grigori com mais atenção.

O sol nasceu sobre quilômetros e mais quilômetros de cais abarrotados, e Lev voltou a ficar animado. Mastros e cordames antiquados conviviam lado a lado com as chaminés dos barcos a vapor. O cais era margeado por prédios imensos e barracões caindo aos pedaços, guindastes altos e cabrestantes atarracados, escadas, cordas e carrinhos. Na direção do continente, Lev podia ver fileiras compactas de vagões ferroviários cheios de carvão, centenas deles – não, centenas não, milhares – perdendo-se ao longe além do seu campo de visão. Ficou decepcionado por não conseguir ver a famosa Estátua da Liberdade empunhando sua tocha; imaginou que estivesse escondida por algum rochedo.

Os estivadores foram chegando, primeiro em pequenos grupos e, em seguida, aos montes. Navios zarpavam, outros chegavam. Uma dúzia de mulheres começou a descarregar sacos de batatas de um pequeno barco em frente ao barracão. Lev se perguntou quando iriam chegar os funcionários da imigração.

Spirya se aproximou dele. O rapaz parecia ter perdoado a forma como Lev o havia ameaçado.

– Eles nos esqueceram – disse ele.

– Parece que sim – concordou Lev, intrigado.

– Vamos dar uma volta? Ver se conseguimos encontrar alguém que fale russo?

– Boa ideia.

Spirya foi falar com um dos homens mais velhos.

– Nós vamos ver se conseguimos descobrir o que está acontecendo.

O homem parecia nervoso.

– Talvez seja melhor ficarmos aqui como eles mandaram.

Os dois rapazes o ignoraram e foram até as mulheres das batatas. Lev lhes exibiu seu melhor sorriso e perguntou:

– Alguma de vocês fala russo? – Uma das mulheres mais jovens sorriu de volta, mas ninguém respondeu à pergunta. Lev sentiu-se frustrado: todo o seu charme era inútil com quem não entendia o que ele estava dizendo.

Lev e Spirya foram andando na direção da qual a maioria dos trabalhadores do cais tinha vindo. Ninguém prestou atenção alguma neles. Depois de chegarem a um par de portões grandes, eles os atravessaram e foram dar em uma rua movimentada, cheia de lojas e escritórios. A rua em si estava coalhada de automóveis, bondes elétricos, cavalos e carrinhos de mão. De tantos em tantos metros, Lev falava com alguém, mas ninguém respondia.

Lev estava perplexo. Que lugar era aquele, onde as pessoas podiam descer de um navio e entrar na cidade sem permissão?

Ele viu um prédio que o deixou intrigado. Lembrava um pouco um hotel, não fosse por dois homens com roupas de pobre e boinas de marinheiro sentados nos degraus da frente, fumando.

– Olhe só aquele prédio – disse Lev.

– O que tem ele?

– Acho que é uma missão de marinheiros, como a de São Petersburgo.

– Nós não somos marinheiros.

– Mas talvez alguém lá dentro fale outras línguas.

Eles entraram. Uma mulher grisalha atrás de um balcão lhes dirigiu a palavra.

– Nós não falamos americano – disse Lev em sua própria língua.

A mulher respondeu com uma única palavra no mesmo idioma:

– Russo?

Lev aquiesceu.

Ela fez um gesto com o dedo, chamando-os para acompanhá-la, e a esperança de Lev cresceu.

Os dois rapazes seguiram a mulher por um corredor até uma salinha cuja única janela dava para o mar. Atrás da mesa, havia um homem que, aos olhos de Lev, parecia um judeu russo, embora ele não soubesse dizer por que achava isso.

– O senhor fala russo? – perguntou-lhe Lev.

– Eu sou russo – respondeu o homem. – Posso ajudar?

Lev poderia ter lhe dado um abraço. Em vez disso, fitou o homem nos olhos e abriu-lhe um sorriso caloroso.

– Alguém deveria ter ido nos receber no cais do porto para nos levar até Buffalo, mas ninguém apareceu – disse ele, falando em tom amigável, porém preocupado. – Somos cerca de 300... – Para conquistar a simpatia do homem, arrematou: – ... incluindo mulheres e crianças. O senhor acha que poderia nos ajudar a encontrar nosso contato?

– Buffalo? – disse o homem. – Onde vocês acham que estão?

– Em Nova York, é claro.

– Isto aqui é Cardiff.

Lev nunca tinha ouvido falar em Cardiff, mas pelo menos agora entendia qual era o problema.

– Aquele capitão idiota nos fez desembarcar no porto errado – falou. – Como é que se vai daqui até Buffalo?

O homem apontou pela janela em direção ao mar e Lev teve a sensação nauseante de que sabia o que estava por vir.

– É por ali – disse o homem. – A uns cinco mil quilômetros de distância.

 

Lev se informou sobre o preço de uma passagem de Cardiff até Nova York. Quando convertido em rublos, era dez vezes a quantia que ele trazia dentro da camisa.

Ele conteve sua raiva. Todos haviam sido enganados pela família Vyalov, ou pelo capitão do navio – ou, mais provavelmente, por ambos, já que teria sido mais fácil executar o golpe em dupla. Todo o dinheiro ganho com o suor do rosto de Grigori tinha sido roubado por aqueles porcos mentirosos. Se Lev tivesse a chance de agarrar o capitão do Anjo Gabriel pela garganta, ele o esganaria e riria ao vê-lo morrer.

Mas era inútil acalentar sonhos de vingança. O importante era não desistir. Ele iria arrumar um emprego, aprender a falar inglês e entrar em algum jogo de cartas de alto cacife. Levaria tempo. Ele teria de ser paciente. Precisava aprender a ser um pouco mais como Grigori.

Naquela primeira noite, todos dormiram no chão da sinagoga. Lev foi atrás dos outros. Os judeus de Cardiff não sabiam que alguns dos passageiros eram cristãos, ou talvez não ligassem para isso.

Pela primeira vez na vida, ele percebeu a vantagem de ser judeu. Na Rússia, os judeus eram tão perseguidos que Lev sempre havia se perguntado por que mais deles não abandonavam sua religião, mudavam de roupa e se misturavam ao resto. Isso teria salvado muitas vidas. Mas ele agora via que um judeu podia ir a qualquer parte do mundo e sempre encontrar alguém que o trataria como um membro da família.

Eles acabaram descobrindo que aquela não era a primeira vez que um grupo de russos comprava passagens para Nova York e ia parar em algum outro lugar. Já havia acontecido antes, em Cardiff e em outros portos britânicos. Além disso, como muitos dos emigrantes russos eram judeus, os anciãos da sinagoga tinham uma rotina. No dia seguinte, os viajantes abandonados puderam trocar seu dinheiro por libras, xelins e pence e, em seguida, foram levados até hospedarias onde puderam alugar quartos baratos.

Como todas as cidades do mundo, Cardiff tinha milhares de estrebarias. Lev aprendeu o suficiente da língua para dizer que tinha experiência no trato com cavalos e então percorreu a cidade à procura de um emprego. Logo as pessoas perceberam que ele tinha jeito com animais, porém mesmo os empregadores mais bem-intencionados quiseram fazer algumas perguntas que ele não conseguiu entender nem responder.

Desesperado, ele aprendeu mais depressa e, em poucos dias, já compreendia o preço das coisas e era capaz de pedir um pouco de pão ou cerveja. Os empregadores, no entanto, faziam perguntas complexas, possivelmente sobre onde ele havia trabalhado antes e se algum dia tivera problemas com a polícia.

Ele voltou à missão dos marinheiros e explicou seu problema ao russo da salinha. Este lhe deu um endereço em Butetown, o bairro mais próximo do cais, e lhe disse para procurar Filip Kowal, conhecido como Kowal, o Polaco. Tratava-se de um capataz que vendia mão de obra estrangeira a preços baixos e arranhava a maioria dos idiomas europeus. Ele disse a Lev para estar, com sua mala, no saguão da principal estação de trem da cidade às dez da manhã da segunda-feira seguinte.

Lev ficou tão contente que nem sequer perguntou de que se tratava o trabalho.

Na segunda, apareceu na estação junto com outros 200 homens, em sua maioria russos, mas também alemães, poloneses, eslavos e um africano de pele escura. Ficou satisfeito ao ver que Spirya e Yakov também estavam ali.

Todos foram embarcados em um trem a vapor, com as passagens pagas por Kowal, e partiram para o norte ao longo de uma bela paisagem montanhosa. Entre as encostas verdes, as cidades industriais se espalhavam pelos vales como poças de água escura. Um ponto em comum entre todas as cidades era a presença de pelo menos uma torre com duas rodas gigantescas em cima, e Lev descobriu que a principal atividade da região era a extração do carvão. Vários dos homens que o acompanhavam eram mineradores, enquanto outros tinham ofícios diferentes, como a metalurgia, e muitos eram trabalhadores sem qualificação.

Uma hora depois, eles desembarcaram do trem. Enquanto saíam da estação, Lev percebeu que aquele não era um trabalho como os outros. Uma multidão formada por várias centenas de homens, todos usando as boinas e roupas grosseiras dos operários, os aguardava na praça. A princípio, os homens mantiveram um silêncio ameaçador, até que um deles gritou alguma coisa e os outros o imitaram logo em seguida. Lev não tinha a menor ideia do que estavam dizendo, mas não restava dúvida de que era algo hostil. Havia também uns 20 ou 30 policiais ali, parados diante da multidão, mantendo os homens atrás de uma linha imaginária.

– Quem são essas pessoas? – perguntou Spirya com voz assustada.

– Homens baixos e musculosos, de semblante duro e mãos limpas... – disse Lev. – Eu diria que são mineradores em greve.

– Eles parecem querer nos matar. Que diabos está acontecendo?

– Nós somos os fura-greves – falou Lev com gravidade.

– Que Deus nos proteja.

Kowal, o Polaco gritou “Venham comigo!” em várias línguas e todos se puseram a subir a rua principal. A multidão continuava a protestar e homens brandiam o punho, mas ninguém atravessou a linha. Era a primeira vez que Lev se sentia grato à polícia.

– Que horror – comentou.

– Agora você sabe o que é ser judeu – disse Yakov.

Eles deixaram para trás os mineradores aos gritos e subiram a encosta da colina, atravessando fileiras de casas geminadas. Lev reparou que muitas das casas pareciam vazias. As pessoas continuavam a encará-los quando eles passavam, mas os insultos cessaram. Kowal começou a distribuir os homens pelas casas. Lev e Spirya ficaram espantados ao receberem uma casa só para eles. Antes de ir embora, Kowal indicou onde ficava a mina – a torre com as rodas gêmeas – e lhes disse para estarem lá às seis da manhã do dia seguinte. Quem fosse minerador iria extrair carvão, enquanto os outros ficariam encarregados da manutenção dos túneis e equipamentos ou, no caso de Lev, de cuidar dos pôneis.

Lev correu os olhos por seu novo lar. A casa não era nenhum palácio, mas estava limpa e seca. Tinha um cômodo espaçoso no térreo e mais dois no andar de cima – um quarto para cada um! Lev nunca tivera um quarto só seu. Não havia móveis, mas eles estavam acostumados a dormir no chão e, como era junho, nem sequer precisavam de cobertas.

Lev não estava com a menor vontade de sair, mas, depois de algum tempo, os dois ficaram com fome. Não havia comida em casa, de modo que os dois saíram relutantes para conseguir um jantar. Apreensivos, entraram no primeiro pub que encontraram, porém os clientes, mais ou menos uma dúzia deles, os fuzilaram com seus olhares – e quando Lev pediu, em inglês, “Duas cervejas, por favor”, o barman o ignorou.

Eles desceram a colina até o centro da cidade e encontraram um café. Ali, pelo menos, a clientela não parecia louca para começar uma briga. No entanto, passaram meia hora sentados diante de uma mesa, vendo a garçonete servir todos que chegavam depois deles, então foram embora.

Ia ser difícil viver ali, percebeu Lev. Mas não seria por muito tempo. Assim que tivesse dinheiro suficiente, iria para os Estados Unidos. Ainda assim, precisava comer enquanto estivesse naquele lugar.

Ele e Spirya entraram em uma padaria. Desta vez, Lev estava decidido a conseguir o que queria. Apontou para uma prateleira cheia de pães e falou em inglês:

– Um pão, por favor.

O padeiro fingiu não entender.

Lev estendeu o braço por cima do balcão e apanhou o pão que queria. Quero só ver ele tentar pegar de volta, pensou.

– Ei! – exclamou o padeiro, mas permaneceu do seu lado do balcão.

Lev sorriu e disse:

– Quanto é, por favor?

– Um quarto de pêni – respondeu o padeiro com a cara amarrada.

Lev pôs o dinheiro sobre o balcão.

– Muito obrigado – falou.

Ele partiu o pão, dando metade a Spirya, e os dois foram comendo pela rua. Chegaram à estação de trem, mas a multidão já havia se dispersado. No pátio da estação, um vendedor de jornais oferecia sua mercadoria. Os jornais estavam sendo vendidos depressa, e Lev imaginou se alguma coisa importante havia acontecido.

Um carro grande veio chegando pela rua, em alta velocidade, e eles tiveram de pular para sair do caminho. Ao olhar para a passageira sentada no banco de trás, Lev ficou atônito ao reconhecer a princesa Bea.

– Deus do céu! – exclamou.

Em uma fração de segundo, foi transportado de volta a Bulovnir, rumo à visão medonha do pai morrendo na forca enquanto aquela mulher assistia a tudo. O terror que sentira na época não se comparava a nenhuma outra sensação que houvesse experimentado. Nada jamais o amedrontaria daquele jeito, nem brigas de rua, nem os cassetetes da polícia, nem armas apontadas para ele.

O carro parou em frente à estação. Quando a princesa Bea desceu, Lev foi dominado por uma mistura de ódio, náusea e repulsa. O pão em sua boca pareceu feito de cascalho e ele o cuspiu.

– O que houve? – quis saber Spirya.

Lev se recompôs.

– Aquela mulher é uma princesa russa – respondeu ele. – Ela mandou enforcar meu pai 14 anos atrás.

– Vadia. O que ela pode estar fazendo aqui?

– Ela se casou com um aristocrata inglês. Eles devem morar aqui por perto. Talvez a mina seja dele.

O chofer e uma criada se ocuparam da bagagem. Lev ouviu Bea se dirigir à criada em russo, e a mulher respondeu na mesma língua. Todos entraram na estação, então a empregada voltou para comprar um jornal.

Lev foi abordá-la. Tirando a boina, fez uma reverência exagerada e falou em russo:

– A senhora deve ser a princesa Bea.

A criada riu com gosto.

– Deixe de ser bobo. Eu sou a criada dela, Nina. E o senhor, quem é?

Lev lhe disse o seu nome e o de Spirya, explicando como os dois tinham ido parar ali e por que não conseguiam comprar comida.

– Vou voltar hoje à noite – disse Nina. – Estamos indo apenas a Cardiff. Se vocês forem até a entrada de serviço de Tŷ Gwyn e baterem à porta da cozinha, posso lhes dar um pouco de carne fria. Basta seguirem a estrada que sai da cidade para o norte até chegarem a um palácio.

– Obrigado, bela dama.

– Eu tenho idade para ser sua mãe – disse ela, mas não sem abrir um sorriso acanhado. – É melhor eu levar o jornal da princesa.

– Qual é a grande notícia?

– Ah, foi no estrangeiro – respondeu ela, sem dar importância. – Houve um assassinato. A princesa está muito abalada. O arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria foi morto em um lugar chamado Sarajevo.

– Deve ser assustador para uma princesa.

– Sim – respondeu Nina. – Mas não acho que vá fazer diferença para gente como você e eu.

– Não – concordou Lev. – Imagino que não.

 

Início de julho de 1914

A Igreja de St. James, em Piccadilly, tinha os fiéis mais bem-vestidos do mundo. Era o lugar de culto preferido da elite londrina. Em teoria, a ostentação era algo condenável; mas as mulheres precisavam usar chapéu e, ultimamente, era im­possível achar qualquer um sem penas de avestruz, fitas, laços e flores de seda. Do fundo da nave, Walter von Ulrich observava uma profusão de formatos e cores extravagantes. Os homens, em contraste, pareciam todos iguais, com seus paletós pretos e seus colarinhos brancos duros, segurando as cartolas no colo.

A maioria daquelas pessoas não compreendia o que havia acontecido em Sarajevo sete dias antes, pensou ele com amargura; algumas sequer sabiam onde ficava a Bósnia. Estavam chocadas com o assassinato do arquiduque, mas não conseguiam entender o que isso significava para o resto do mundo. Estavam, no máximo, um pouco desnorteadas.

Walter não estava desnorteado. Sabia muito bem o que esse assassinato anunciava. Ele criava uma séria ameaça para a segurança da Alemanha, e cabia a pessoas como Walter proteger e defender seu país naquela hora de perigo.

Sua primeira tarefa era descobrir o que o czar russo estava pensando. Era o que todos queriam saber: o embaixador alemão, o pai de Walter, o ministro das Relações Exteriores em Berlim e o próprio Kaiser. E Walter, como bom agente de inteligência que era, tinha uma fonte.

Correu os olhos pela congregação, tentando identificar seu homem entre todas aquelas nucas, com medo de ele não ter vindo. Anton trabalhava como auxiliar de escritório na embaixada russa. Os dois se encontravam em igrejas anglicanas, porque Anton tinha certeza de que não haveria ninguém da sua embaixada nelas: a maioria dos russos pertencia à Igreja Ortodoxa cristã, e quem não pertencesse jamais arrumaria emprego no serviço diplomático.

Anton era encarregado do setor de telegrafia da embaixada russa, de modo que tinha acesso a todos os telegramas que chegavam e partiam. Suas informações tinham um valor inestimável, mas ele era difícil de administrar, o que causava grande ansiedade em Walter. A ideia de espionagem apavorava Anton e, quando ele ficava com medo, deixava de aparecer – geralmente em momentos de tensão internacional como aquele, quando Walter mais precisava dele.

Walter se distraiu ao ver Maud. Reconheceu seu pescoço comprido e gracioso despontando de um elegante colarinho de bico, em estilo masculino, e seu coração deixou de bater por um instante. Ele beijava aquele pescoço sempre que podia.

Quando pensava no perigo da guerra, era sempre com Maud que se preo­cupava primeiro, e somente depois com seu país. Sentia vergonha de seu egoísmo, mas não podia fazer nada a respeito. Seu maior medo era que alguém tirasse Maud dele; a ameaça à pátria vinha em segundo lugar. Ele estava disposto a morrer em nome da Alemanha – mas não a viver sem a mulher que amava.

Um homem na terceira fileira a partir do fundo olhou para trás e Walter cruzou olhares com ele. Anton tinha cabelos castanhos ralos e uma barba falhada. Aliviado, Walter desceu a nave sul da igreja como se estivesse procurando um lugar e, depois de uma breve hesitação, sentou-se.

Anton em geral aparecia, porque tinha a alma cheia de amargor. Cinco anos antes, um sobrinho muito querido dele fora acusado de atividades revolucionárias pela polícia secreta do czar e acabara sendo encarcerado na Fortaleza de Pedro e Paulo, do outro lado do rio, em frente ao Palácio de Inverno, no coração de São Petersburgo. O rapaz estudava teologia e era inocente de qualquer ato de subversão. No entanto, antes de conseguir ser libertado, havia contraído pneumonia e morrido. Desde então, Anton vinha executando sua vingança discreta, porém mortal, contra o governo do czar.

Era uma pena a igreja ser tão bem iluminada. Seu arquiteto, Christopher Wren, havia projetado fileiras compridas de grandes janelas arqueadas. Para aquele tipo de trabalho, a penumbra sinistra de uma igreja gótica teria sido melhor. Contudo, Anton havia escolhido bem a sua posição, no final de uma fileira, com uma criança ao lado e uma grossa coluna de madeira atrás.

– Você pegou um bom lugar – murmurou Walter.

– Ainda podem nos ver da galeria – disse Anton, aflito.

Walter sacudiu a cabeça, discordando.

– Todos estão olhando para a frente.

Anton era um homem de meia-idade, solteiro. De baixa estatura, era bem-arrumado a ponto de parecer neurótico: a gravata com o nó apertado, o paletó com cada botão fechado, os sapatos lustrosos. Seu terno um tanto gasto exibia o brilho de muitos anos de escova e ferro de passar. Walter achava que essa era a sua maneira de contrabalançar a sordidez do serviço de espionagem. Afinal de contas, ele estava traindo seu país. E eu estou aqui para incentivá-lo, pensou Walter com gravidade.

Durante o silêncio que precedeu o culto, Walter não disse nada, mas, assim que o primeiro hino começou, pôs-se a falar em voz baixa:

– Como está o clima em São Petersburgo?

– A Rússia não quer uma guerra – disse Anton.

– Ótimo.

– O czar teme que a guerra leve à revolução. – Ao mencionar o czar, Anton pareceu que fosse cuspir. – Metade de São Petersburgo já está em greve. É claro que não lhe ocorre que é a sua própria brutalidade imbecil que faz as pessoas quererem uma revolução.

– De fato. – Walter sempre tinha de se adaptar ao fato de que as opiniões de Anton eram distorcidas pelo ódio, mas, nesse caso, o espião não estava de todo errado. Walter não odiava o czar, mas seu poder o amedrontava. Ele tinha à disposição o maior exército do mundo. Qualquer conversa sobre a segurança da Alemanha precisava levá-lo em consideração. A Alemanha era como um homem cujo vizinho de porta tivesse um urso gigante acorrentado no jardim da frente.

– O que o czar vai fazer?

– Depende da Áustria.

Walter se conteve para não retrucar com impaciência. Todos estavam aguardando a reação do imperador austríaco. Ele tinha de fazer alguma coisa, pois o arquiduque assassinado era herdeiro de seu trono. Mais tarde naquele mesmo dia, Walter esperava receber notícias sobre as intenções da Áustria por meio de seu primo Robert. Essa parte da família era católica, como toda a elite austríaca, e Robert deveria estar assistindo à missa da Catedral de Westminster naquele exato momento, mas Walter o encontraria para almoçar. Enquanto isso, precisava saber mais sobre os russos.

Ele teve de esperar outro hino. Tentou ser paciente. Ergueu os olhos e estudou as extravagantes dourações das abóbadas cilíndricas de Wren.

Os fiéis começaram a cantar o hino “Rocha Eterna”.

– No caso de haver conflito nos Bálcãs – murmurou Walter para Anton –, os russos ficarão de fora?

– Não. O czar não pode ficar omisso caso a Sérvia seja atacada.

Walter sentiu um calafrio. Era exatamente esse o tipo de agravamento que ele temia.

– Entrar em guerra por causa disso seria loucura!

– É verdade. Mas os russos não podem deixar a Áustria controlar a região dos Bálcãs. Eles precisam proteger a rota do mar Negro.

Isso era indiscutível. A maioria das exportações da Rússia – milho dos milharais do sul e petróleo dos poços ao redor de Baku – era despachada para o mundo de portos no mar Negro.

– Por outro lado – prosseguiu Anton –, o czar também está aconselhando todos a agirem com cautela.

– Em suma, ele está com a mente indecisa.

– Se é que se pode chamar aquilo de mente.

Walter aquiesceu. O czar não era um homem inteligente. Seu sonho era fazer a Rússia voltar à idade de ouro do século XVII, e ele era burro o suficiente para pensar que isso fosse possível. Era como se o rei Jorge V tentasse recriar a Inglaterra pastoral e idílica da época de Robin Hood. Como o czar mal sabia pensar, era extremamente difícil prever o que ele faria.

Durante o último hino, o olhar de Walter se perdeu na direção de Maud, sentada duas fileiras mais à frente, do outro lado da nave. Ele observou seu perfil com ternura enquanto ela cantava vigorosamente.

O relatório ambivalente de Anton era perturbador. Havia deixado Walter mais preocupado do que uma hora antes.

– De agora em diante, preciso encontrar você todos os dias – falou.

Anton pareceu entrar em pânico.

– Isso não é possível! – protestou. – É arriscado demais.

– Mas a situação está mudando de hora em hora.

– Domingo que vem, de manhã, na Smith Square.

Esse era o problema com espiões idealistas, pensou Walter, frustrado: não havia como convencê-los. Por outro lado, não era possível confiar em homens que espionavam por dinheiro. Na esperança de ganhar um bônus, eles diziam o que você quisesse ouvir. Com Anton, se ele dizia que o czar estava indeciso, Walter podia ter certeza de que ele não havia tomado nenhuma decisão.

– Então me encontre uma vez no meio da semana – pediu ele enquanto o hino terminava.

Anton não respondeu. Em vez de se sentar, escapuliu dali, saindo da igreja.

– Maldição – xingou Walter baixinho, e a criança sentada ao seu lado o encarou com ar de reprovação.

Quando o culto terminou, ele ficou em pé no pátio cimentado da igreja, cumprimentando os conhecidos até Maud sair acompanhada por Fitz e Bea. Ela estava inacreditavelmente graciosa, usando um vestido estampado de veludo cinza com uma peça de crepe de um cinza mais escuro por cima. Aquela talvez não fosse uma cor muito feminina, mas realçava sua beleza de traços bem marcados e parecia fazer sua pele cintilar. Walter apertou a mão de todos, ansiando desesperadamente por alguns minutos a sós com ela. Trocou amenidades com Bea – um verdadeiro bibelô com sua roupa cor-de-rosa com rendas brancas – e concordou com um Fitz solene que o assassinato era um “mau negócio”. Os Fitzherbert então se afastaram e Walter temeu ter pedido a sua chance. Na última hora, contudo, Maud murmurou:

– Estarei na casa da duquesa na hora do chá.

Walter sorriu para suas costas elegantes. Tinha se encontrado com Maud na véspera e iria encontrá-la no dia seguinte, mas, mesmo assim, a possibilidade de não encontrá-la hoje o apavorava. Seria mesmo incapaz de passar 24 horas longe dela? Não se considerava um homem fraco, porém Maud o havia enfeitiçado. E ele não tinha o menor desejo de escapar.

O que mais o atraía era o seu espírito independente. A maioria das mulheres de sua geração parecia se contentar em desempenhar o papel passivo que a sociedade lhes atribuía, usando roupas bonitas, organizando festas e obedecendo aos maridos. Esse gênero submisso entediava Walter. Maud era mais parecida com as mulheres que havia conhecido nos Estados Unidos, durante o período em que trabalhara na embaixada alemã em Washington. As americanas eram elegantes e encantadoras, mas não subservientes. Ser amado por uma mulher assim era a coisa mais excitante.

Ele subiu a Piccadilly com um andar confiante e parou diante de uma banca de jornais. Ler os jornais britânicos nunca era agradável: a maioria deles era intensamente antialemã, sobretudo o virulento Daily Mail. Queriam fazer os ingleses acreditarem que estavam cercados por espiões alemães. Como Walter queria que isso fosse verdade! Tinha cerca de uma dúzia de agentes em cidades costeiras, tomando nota das chegadas e partidas nas docas, como os britânicos faziam nos portos alemães, mas nada que se comparasse aos milhares de espiões mencionados pelos histéricos editores dos jornais.

Ele comprou um exemplar do People. A situação nos Bálcãs não era uma grande notícia ali em Londres: os britânicos estavam mais preocupados com a Irlanda. Uma minoria protestante governava a região havia centenas de anos, pouco se importando com a maioria católica. Se a Irlanda alcançasse a independência, a situação iria se inverter. Ambos os lados estavam fortemente armados e havia o risco de uma guerra civil.

Um solitário parágrafo no final da primeira página fazia referência à “crise austro-sérvia”. Como sempre, os jornais não faziam a menor ideia do que estava acontecendo.

Logo que Walter entrou no Hotel Ritz, Robert saltou de um táxi motorizado. De luto pelo arquiduque, ele usava um colete e uma gravata pretos. Robert fazia parte do grupo de Francisco Ferdinando – pelos padrões da corte vienense, ambos eram progressistas, apesar de serem conservadores sob qualquer outra ótica. Walter sabia que ele apreciava e respeitava o arquiduque assassinado e sua família.

Os dois deixaram suas cartolas na chapelaria e entraram juntos no salão de jantar. Walter tinha uma atitude protetora em relação a Robert. Desde que eram meninos, sabia que o primo era diferente. As pessoas chamavam homens como ele de afeminados, porém essa era uma palavra grosseira demais: Robert não era uma mulher em um corpo de homem. Mesmo assim, tinha várias características femininas, o que levava Walter a tratá-lo com uma espécie de cavalheirismo contido.

Robert era parecido com Walter, com as mesmas feições simétricas e olhos castanhos, mas tinha os cabelos mais compridos e o bigode encerado e com as pontas curvas.

– Como vão as coisas com lady M.? – perguntou ele enquanto se sentavam. Walter havia feito confidências ao primo. Robert era especialista em amores proibidos.

– Ela é maravilhosa, mas meu pai não consegue aceitar que ela trabalhe em uma clínica para pobres com um médico judeu.

– Ah, não... quanto rigor – disse Robert. – A objeção dele seria até compreensível se ela própria fosse judia.

– Eu tinha esperanças de que ele fosse aprender a gostar dela, ao encontrá-la socialmente aqui e ali e perceber que é amiga dos homens mais poderosos do país. Mas não está funcionando.

– Infelizmente, essa crise nos Bálcãs só vai aumentar a tensão nas... – Robert sorriu. – Me perdoe, nas relações internacionais.

Walter forçou uma risada.

– Aconteça o que acontecer, nós vamos dar um jeito.

Robert não disse nada, mas não parecia tão confiante.

Enquanto saboreavam um cordeiro galês e batatas ao molho de salsa, Walter transmitiu a Robert as informações vagas que havia colhido de Anton.

Robert também tinha notícias.

– Nós já concluímos que os assassinos conseguiram suas armas e bombas na Sérvia.

– Ah, que inferno! – disse Walter.

Robert deixou a raiva transparecer.

– As armas foram fornecidas pelo diretor da inteligência militar sérvia. Os assassinos tiveram aulas de tiro ao alvo em um parque de Belgrado.

– Os agentes de inteligência às vezes agem de forma independente – disse Walter.

– Com frequência. E o caráter sigiloso do trabalho deles significa que podem se safar.

– Então isso não prova que o governo sérvio tramou o assassinato. E, analisando friamente a questão, um país pequeno como a Sérvia, que está tentando desesperadamente preservar sua autonomia, seria louco de provocar um vizinho tão poderoso.

– É até possível que a inteligência sérvia tenha agido de forma diretamente oposta ao desejo do governo – admitiu Robert. Mas então continuou com firmeza: – Isso não faz a menor diferença. A Áustria deve tomar uma atitude contra a Sérvia.

Era isso que Walter temia. O caso não podia mais ser considerado um simples crime, a ser solucionado pela polícia e pelos tribunais. A situação havia se agravado, e agora um império precisava punir uma nação pequena. O imperador austríaco, Francisco José, tinha sido um grande homem no passado, um líder forte, apesar de conservador e muito religioso. Porém agora estava com 84 anos – e a idade o tornara ainda mais autoritário e intolerante. Homens assim achavam que sabiam tudo só porque eram velhos. O pai de Walter era igual.

O meu destino está nas mãos de dois monarcas, pensou Walter: o czar e o imperador. O primeiro é um tolo, o segundo está senil – no entanto, eles controlam o destino de Maud, o meu e o de milhões de outros europeus. Isso sim era um argumento contra a monarquia!

Enquanto comiam a sobremesa, Walter não parava de pensar. Quando o café foi servido, disse, otimista:

– Imagino que vocês pretendam ensinar uma lição dura à Sérvia sem envolver nenhum outro país.

Robert frustrou suas esperanças na mesma hora.

– Pelo contrário – falou ele. – Meu imperador escreveu uma carta pessoal para seu Kaiser.

Walter ficou atônito. Não tinha ouvido nada a respeito.

– Quando?

– A correspondência foi entregue ontem.

Como todo diplomata, Walter detestava quando os reis se comunicavam diretamente em vez de usarem seus representantes. Nesse caso, qualquer coisa poderia acontecer.

– O que ele dizia?

– Que a Sérvia deve ser eliminada como potência política.

– Não! – Era pior do que Walter temia. – O imperador está falando sério? – perguntou ele, chocado.

– Tudo depende da resposta.

Walter franziu o cenho. O imperador Francisco José estava pedindo o apoio do Kaiser Guilherme. Era esse o verdadeiro objetivo da carta. Os dois países eram aliados, de modo que o Kaiser era obrigado a se mostrar solícito, mas poderia privilegiar o entusiasmo ou a relutância, o encorajamento ou a cautela.

– Creio que a Alemanha vá apoiar a Áustria, qualquer que seja a decisão do meu imperador – disse Robert com severidade.

– Você não pode querer que a Alemanha ataque a Sérvia! – protestou Walter.

Robert ficou ofendido.

– Queremos uma garantia de que a Alemanha cumprirá suas obrigações como nossa aliada.

Walter controlou sua impaciência.

– O problema com essa forma de pensar é que ela aumenta os riscos. É como a Rússia alardeando seu apoio à Sérvia, um incentivo à agressão. O que nós deveríamos fazer é acalmar todos os envolvidos.

– Não tenho certeza se concordo – falou Robert, tenso. – A Áustria levou um golpe brutal. O imperador não pode parecer tolerante demais. Quem desafia um gigante deve ser esmagado.

– Vamos tentar ser sensatos.

Robert ergueu a voz.

– O herdeiro do trono foi assassinado! – Um homem na mesa ao lado ergueu os olhos e franziu as sobrancelhas ao escutar o tom raivoso da conversa em alemão. Robert suavizou a voz, mas não a expressão em seu rosto. – Não venha me falar em sensatez.

Walter tentou reprimir os próprios sentimentos. Seria estúpido e perigoso para a Alemanha envolver-se naquele conflito, mas dizer isso a Robert não iria adiantar nada. A tarefa de Walter era colher informações, não ter uma discussão.

– Entendo – disse ele. – Todos em Viena pensam como você?

– Em Viena, sim – respondeu Robert. – Tisza é contra. – István Tisza era o primeiro-ministro húngaro, porém subordinado ao imperador austríaco. – A alternativa que ele propõe é um cerco diplomático à Sérvia.

– Menos dramático, talvez, mas também menos arriscado – observou Walter com cautela.

– Fraco demais.

Walter pediu a conta. Estava profundamente abalado pelo que acabara de escutar. Mas não queria que houvesse rancor entre ele e Robert. Os dois confiavam um no outro e se ajudavam – e ele não queria que isso mudasse. Na calçada em frente ao hotel, apertou a mão de Robert e segurou-lhe o cotovelo em um gesto de companheirismo inabalável.

– Aconteça o que acontecer, primo, devemos continuar unidos – disse ele. – Nós somos aliados e sempre seremos. – Deixou a cargo de Robert decidir se ele estava se referindo aos dois ou a seus países. Eles se despediram como amigos.

Walter atravessou depressa o Green Park. Os londrinos estavam aproveitando o sol, mas uma nuvem de pessimismo pairava sobre a cabeça de Walter. Ele vinha esperando que a Alemanha e a Rússia ficassem de fora da crise nos Bálcãs, mas o que tinha ouvido até o momento naquele dia sugeria o contrário. Quando chegou à altura do Palácio de Buckingham, dobrou à esquerda e desceu The Mall até a entrada dos fundos da embaixada alemã.

Seu pai tinha uma sala na embaixada: passava mais ou menos uma semana a cada três ali. Em uma das paredes, havia um quadro retratando o Kaiser Guilherme e, sobre a mesa, uma fotografia emoldurada de Walter usando um uniforme de tenente. Otto segurava na mão um objeto de cerâmica. Ele colecionava cerâmicas inglesas e adorava sair à caça de peças raras. Ao observar com mais atenção, Walter viu que se tratava de um cesto de frutas feito de uma louça creme, conhecida como creamware, com as bordas delicadamente vazadas e moldadas para imitar a trama de um cesto de verdade. Conhecendo o gosto do pai, imaginou que fosse do século XVIII.

Gottfried von Kessel, um adido cultural de quem Walter não gostava, estava na sala junto com Otto. Gottfried tinha cabelos escuros e grossos penteados para o lado e usava óculos de lentes espessas. Tinha a mesma idade de Walter e seu pai também trabalhava no serviço diplomático, mas, apesar de tudo isso em comum, os dois não eram amigos. Walter considerava Gottfried um puxa-saco.

Ele meneou a cabeça para o visitante antes de se sentar.

– O imperador austríaco escreveu para o nosso Kaiser – falou.

– Nós já sabemos – apressou-se a dizer Gottfried.

Walter o ignorou. Gottfried estava sempre tentando medir forças.

– Com certeza a resposta do Kaiser será amigável – disse ele ao pai. – Porém, muito pode depender do tom escolhido.

– Sua Majestade ainda não se confidenciou comigo.

– Mas vai fazer isso.

Otto aquiesceu.

– É o tipo de coisa sobre o qual ele me consulta às vezes.

– E, se ele recomendar cautela, talvez consiga convencer os austríacos a serem menos beligerantes.

– Por que ele faria isso? – indagou Gottfried.

– Para impedir a Alemanha de ser arrastada para uma guerra por causa de um território tão insignificante quanto a Sérvia!

– Do que você está com medo? – perguntou Gottfried com sarcasmo. – Do Exército sérvio?

– Eu estou com medo do Exército russo, e você também deveria estar – retrucou Walter. – É o maior da história...

– Eu sei disso – falou Gottfried.

Walter ignorou a interrupção.

– Em teoria, o czar pode pôr seis milhões de homens no campo de batalha em poucas semanas...

– Eu sei...

– ... e isso é mais do que a população da Sérvia inteira.

– Eu sei.

Walter deu um suspiro.

– Von Kessel, você parece saber tudo. Por acaso sabe onde os assassinos arrumaram suas armas e bombas?

– Com nacionalistas eslavos, imagino.

– Algum grupo nacionalista eslavo específico, você imagina?

– Quem pode saber?

– Segundo minhas informações, os austríacos sabem. Eles acham que as armas vieram do diretor do serviço de inteligência sérvio.

Otto soltou um grunhido de surpresa.

– Isso sim deixaria os austríacos com sede de vingança – disse.

– A Áustria ainda é governada pelo seu imperador – falou Gottfried. – Em última instância, a decisão a favor da guerra só pode ser tomada por ele.

Walter assentiu.

– Não que um imperador Habsburgo algum dia tenha precisado de muita desculpa para se mostrar inclemente e brutal.

– De que outra forma se pode governar um império?

Walter não mordeu a isca.

– Com exceção do primeiro-ministro húngaro, que não tem muito peso, não parece haver ninguém recomendando cautela. Esse papel deve caber a nós. – Ele se levantou. Já havia relatado suas descobertas e não queria passar mais tempo no mesmo recinto que o irritante Gottfried. – Com sua licença, pai, vou tomar chá na casa da duquesa de Sussex e ver o que mais as pessoas estão falando pela cidade.

– Os ingleses não fazem visitas aos domingos – disse Gottfried.

– Eu fui convidado – respondeu Walter, saindo antes de perder a paciência.

Foi a pé de Mayfair até a Park Lane, onde ficava o palácio do duque de Sussex. Este não desempenhava papel algum no governo britânico; já a duquesa presidia um grupo de discussão sobre política. Quando Walter chegara a Londres, em dezembro, Fitz o havia apresentado a ela, que tomara providências para fazê-lo ser convidado a todos os eventos.

Ele entrou na sala de estar do palácio, fez uma mesura, apertou a mão roliça da duquesa e disse:

– Todos em Londres querem saber o que vai acontecer na Sérvia, de modo que, mesmo sendo domingo, vim aqui lhe perguntar isso, duquesa.

– Não haverá guerra – disse ela, aparentemente sem perceber que ele estava brincando. – Sente-se e tome uma xícara de chá. É claro que o que aconteceu com o pobre arquiduque e sua esposa foi uma tragédia, e sem dúvida os culpados serão punidos, mas é uma tolice pensar que duas grandes nações como a Alemanha e a Grã-Bretanha entrariam em guerra por causa da Sérvia.

Walter desejou poder sentir a mesma segurança. Escolheu uma cadeira perto de Maud, que deu um sorriso alegre, e de lady Hermia, que meneou a cabeça. Havia uma dúzia de pessoas na sala, incluindo o primeiro-lorde do Almirantado, Winston Churchill. A decoração era extremamente antiquada: um excesso de móveis pesados talhados à mão, tecidos grossos em uma dúzia de estampas diferentes e todas as superfícies cobertas de bibelôs, fotografias emolduradas e vasos de plantas secas. Um lacaio entregou a Walter uma xícara de chá e lhe ofereceu leite e açúcar.

Walter estava contente por estar ao lado de Maud, mas, como sempre, queria mais, e logo estava pensando se eles poderiam dar algum jeito de ficar sozinhos, mesmo que apenas por um ou dois minutos.

– O problema, obviamente, é a fraqueza dos turcos – falou a duquesa.

Aquela velha empolada tinha razão, pensou Walter. O Império Otomano estava em declínio, impedido de se modernizar por um clero muçulmano conservador. Por muitos séculos, o sultão turco havia mantido a ordem na península balcânica, do litoral mediterrâneo da Grécia até a Hungria ao norte, porém vinha recuando cada vez mais com o passar das décadas. As grandes potências mais próximas, Áustria e Rússia, tentavam preencher esse vácuo. Entre a Áustria e o mar Negro ficavam, sucessivamente, Bósnia, Sérvia e Bulgária. Fazia cinco anos que a Áustria tinha assumido o controle da Bósnia. Agora, estava em conflito com o país do meio, a Sérvia. Os russos olhavam para o mapa e viam que a Bulgária era a próxima peça do dominó, e que os austríacos poderiam acabar controlando toda a costa oeste do mar Negro, ameaçando o comércio internacional russo.

Enquanto isso, os povos subordinados ao Império Austríaco estavam começando a pensar que poderiam governar a si mesmos – era por isso que o nacionalista bósnio Gavrilo Princip havia atirado no arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo.

– Que tragédia para a Sérvia – comentou Walter. – Imagino que o primeiro-ministro deles deva estar prestes a se atirar no Danúbio.

– Você quer dizer no Volga – disse Maud.

Walter olhou para ela, grato pela desculpa para devorá-la com os olhos. Maud havia trocado de roupa e usava um vestido informal azul-escuro por cima de uma blusa de renda cor-de-rosa clara. Para completar, um chapéu de feltro cor-de-rosa com um pompom azul.

– Certamente não, lady Maud – disse ele.

– O Volga passa por Belgrado, que é a capital da Sérvia – falou ela.

Walter estava prestes a protestar novamente, então hesitou. Maud sabia muito bem que o Volga ficava a mais de 1.500 quilômetros de distância de Belgrado. Aonde queria chegar com aquilo?

– Fico relutante em contradizer uma pessoa tão bem informada quanto a senhorita, lady Maud – disse ele. – Mas ainda assim...

– Vamos verificar – disse ela. – Meu tio, o duque, tem uma das maiores bibliotecas de Londres. – Ela se levantou. – Venha comigo e lhe mostrarei como está enganado.

Aquele era um comportamento ousado para uma moça de boa família, e a duquesa contraiu os lábios.

Walter deu de ombros, fingindo não ter saída, e seguiu Maud até a porta.

Por alguns instantes, lady Hermia pareceu disposta a acompanhá-los, mas estava confortavelmente acomodada em um acolhedor estofado de veludo, com uma xícara e um pires na mão e um pratinho no colo, de modo que teria de se esforçar muito para sair dali.

– Não demorem – disse ela em voz baixa, comendo em seguida outro pedaço de bolo. Os dois saíram da sala.

Maud subiu o corredor na frente de Walter, passando por um par de lacaios postados como dois sentinelas. Ela parou diante de uma porta e esperou que Walter a abrisse. Ambos entraram na biblioteca.

O amplo aposento estava silencioso. Eles estavam a sós. Maud se atirou nos braços de Walter. Ele a abraçou com força, pressionando o corpo dela contra o seu. Maud virou o rosto para cima.

– Eu amo você – disse, beijando-o com ardor.

Dali a um minuto, ela se desprendeu do abraço, ofegante. Walter a fitava com adoração.

– Você não existe – falou ele. – Dizer que o Volga passa por Belgrado!

– Deu certo, não foi?

Ele sacudiu a cabeça, admirado.

– Eu nunca teria pensado nisso. Como você é esperta.

– Nós precisamos de um atlas – disse ela. – Caso alguém entre aqui.

Walter correu os olhos pelas estantes. Aquela era a biblioteca de um colecionador, não de um leitor. Todos os livros tinham encadernações de luxo, sendo que a maioria parecia nunca ter sido aberta. Havia algumas obras de referência reunidas em um canto e ele sacou um atlas, encontrando um mapa dos Bálcãs.

– Esta crise – disse Maud, aflita. – A longo prazo... ela não vai nos separar, vai?

– Não se eu puder evitar – respondeu Walter.

Ele a arrastou para trás de uma estante, para que não fossem vistos de imediato se alguém entrasse, e tornou a beijá-la. Maud estava deliciosamente carinhosa naquele dia, esfregando-lhe os ombros, braços e costas com as mãos enquanto o beijava. Interrompeu o beijo para sussurrar:

– Levante a minha saia.

Ele engoliu em seco. Havia fantasiado aquilo. Agarrou o tecido e o suspendeu.

– As anáguas também – disse ela. Ele pegou um bolo de tecido em cada mão. – Sem amarrotar – acrescentou. Ele tentou levantar-lhe as roupas sem amassar a seda, mas o pano escorregou de suas mãos. Impaciente, ela se curvou, segurou a saia e as anáguas pela bainha e ergueu tudo até a cintura. – Toque em mim – falou ela, encarando-o.

Walter estava nervoso, com medo de alguém entrar, mas o amor e o desejo que sentia eram grandes demais para ele se conter. Quando colocou a mão direita entre as suas coxas, soltou um arquejo chocado: ela estava nua ali. Descobrir que Maud havia planejado aquilo para lhe proporcionar prazer o deixou ainda mais arrebatado. Walter começou a acariciá-la com delicadeza, mas ela jogou o quadril para a frente e ele aumentou a pressão.

– Assim – disse Maud.

Ele fechou os olhos, mas ela pediu:

– Olhe para mim, querido, por favor, olhe para mim enquanto estiver fazendo isso. – Ele tornou a abrir os olhos. Maud tinha as faces coradas e respirava depressa pelos lábios entreabertos. Agarrou a mão dele para conduzi-lo, como ele a conduzira no camarote.

– Enfie o dedo – sussurrou ela, apoiando-se no ombro dele. Walter podia sentir o calor de seu hálito através das roupas. Ela não parava de arremeter contra a sua mão. Então emitiu um som fraco e gutural, como o grito contido de alguém que estivesse sonhando – por fim, deixou-se cair contra ele.

Walter ouviu o som da porta se abrindo, seguido pela voz de lady Hermia:

– Maud, querida, vamos, nós temos de ir embora.

Walter retirou a mão e Maud ajeitou a saia depressa. Com a voz trêmula, disse:

– Acho que eu estava errada, tia Herm, e Herr Von Ulrich tinha razão... o rio que passa por Belgrado é o Danúbio, não o Volga. Acabamos de encontrar aqui no atlas.

Os dois se curvaram por cima do livro na mesma hora em que lady Hermia acabava de contornar a estante.

– Nunca tive a menor dúvida – falou ela. – Os homens em geral têm razão quanto a esse tipo de coisa. Além disso, Herr Von Ulrich é um diplomata, precisa saber de muitas coisas com as quais as mulheres não têm necessidade de se preocupar. Você não deveria ser tão teimosa, Maud.

– Acho que você está certa – respondeu Maud com uma falsidade espantosa.

Os três saíram da biblioteca e atravessaram o corredor. Walter abriu a porta da sala de estar. Lady Hermia entrou primeiro. Ao passar, Maud fisgou o olhar dele. Ele ergueu a mão direita, levou a ponta do dedo até a boca e a chupou.

Aquilo não podia continuar assim, pensou Walter enquanto caminhava de volta para a embaixada. Ele parecia um colegial. Maud tinha 23 anos e ele 28, mas ainda assim os dois precisavam recorrer a subterfúgios absurdos para passar cinco minutos sozinhos. Já era hora de se casarem.

Ele teria de pedir a permissão de Fitz. Maud não tinha pai, então o chefe da família era seu irmão. Fitz sem dúvida preferiria que ela desposasse um inglês. No entanto, provavelmente acabaria aceitando: já deveria estar preocupado, achando que nunca conseguiria casar sua irmã espevitada.

Não, o maior problema era Otto. Ele queria que Walter se casasse com uma donzela prussiana bem-comportada, que se contentasse em passar o resto da vida gerando herdeiros. E, quando Otto queria alguma coisa, fazia todo o possível para consegui-la, esmagando qualquer oposição sem remorso – era justamente isso que o tornara um bom oficial do Exército. Jamais lhe ocorreria que o filho tivesse o direito de escolher a própria noiva sem interferência ou pressão. Walter preferia ter o incentivo e o apoio do pai; certamente não ansiava pelo confronto direto inevitável. Contudo, seu amor era uma força muito mais potente do que a deferência filial.

Era domingo à noite, mas Londres não estava tranquila. Embora o Parlamento não estivesse reunido e os mandachuvas de Whitehall já tivessem voltado para suas casas na região metropolitana, as negociações políticas prosseguiam nos palácios de Mayfair, nos clubes de cavalheiros da St. James’s Street e nas embaixadas. Pelas ruas, Walter reconheceu vários membros do Parlamento, dois subsecretários do Ministério das Relações Exteriores britânico e alguns diplomatas europeus. Imaginou se o ministro das Relações Exteriores do país, Sir Edward Grey, cujo passatempo era a observação de pássaros, teria ficado na cidade durante o fim de semana em vez de ir para o seu querido chalé rural em Hampshire.

Walter encontrou o pai diante da escrivaninha, lendo telegramas decodificados.

– Talvez este não seja o melhor momento para lhe dar a minha notícia – começou Walter.

Otto grunhiu algo ininteligível e prosseguiu a leitura.

Walter continuou.

– Eu estou apaixonado por lady Maud.

Otto levantou os olhos.

– A irmã de Fitzherbert? Eu já desconfiava. Meus pêsames.

– Pai, por favor, fale sério.

– Não, fale sério você. – Otto atirou sobre a mesa os documentos que estava lendo. – Maud Fitzherbert é feminista, defensora do voto feminino e uma inconformista. Não é uma esposa adequada para homem nenhum, muito menos para um diplomata alemão de boa família. Então vamos esquecer esse assunto.

Palavras coléricas vieram à ponta da língua de Walter, mas ele cerrou os dentes e se controlou.

– Maud é uma mulher maravilhosa e eu a amo, então é melhor o senhor se referir a ela com educação, sejam quais forem as suas opiniões.

– Eu vou dizer o que penso – prosseguiu Otto com grosseria. – Ela é um desastre. – Ele baixou os olhos para os seus telegramas.

O olhar de Walter recaiu sobre a fruteira de porcelana que seu pai havia comprado.

– Não – disse ele, apanhando a fruteira. – O senhor não vai dizer o que pensa.

– Tome cuidado com isso.

Walter havia conquistado toda a atenção do pai.

– O meu instinto de proteção em relação a lady Maud é o mesmo que você tem por esta bugiganga.

– Bugiganga? Deixe-me lhe dizer uma coisa, isso vale...

– Com a ressalva, naturalmente, de que o amor é mais forte do que a gana do colecionador. – Walter lançou o delicado objeto no ar, pegando-o com uma só mão. Seu pai deixou escapar um grito angustiado de protesto. Walter prosseguiu sem lhe dar atenção: – Então, quando o senhor fala nela em termos insultuosos, eu me sinto da mesma forma que o senhor quando acha que vou deixar isto aqui cair no chão... só que mais ainda.

– Seu fedelho insolente...

Walter ergueu a voz mais alto que a do pai.

– E, se o senhor continuar a pisar nos meus sentimentos, eu vou esmigalhar este pedaço de cerâmica idiota com o calcanhar do meu sapato.

– Certo, você já disse o que queria, agora largue isso, pelo amor de Deus.

Walter interpretou a resposta como aquiescência e tornou a pousar o artefato sobre uma mesinha de canto.

– Mas há outra questão que você precisa levar em consideração... – disse Otto com malícia. – Se é que me permite mencioná-la sem pisar nos seus sentimentos.

– Prossiga.

– Ela é inglesa.

– Pelo amor de Deus! – protestou Walter. – Alemães bem-nascidos vêm se casando com aristocratas inglesas há anos. O príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gotha se casou com a rainha Vitória... O neto dele é hoje rei da Inglaterra. E a rainha da Inglaterra nasceu princesa de Württemberg!

Otto levantou a voz.

– As coisas mudaram! Os ingleses estão decididos a nos manter como uma potência de segunda classe. São aliados de nossos adversários, a Rússia e a França. Você estaria se casando com uma inimiga da sua pátria.

Walter sabia que era assim que a velha guarda pensava, mas era uma opinião irracional.

– Nós não deveríamos ser inimigos – disse ele, irritado. – Não há motivo para tanto.

– Eles nunca nos deixarão competir em condição de igualdade.

– Isso é mentira! – Walter percebeu que estava gritando e tentou se acalmar. – Os ingleses acreditam no livre comércio... Eles nos permitem vender nossa produção industrial por todo o Império Britânico.

– Então leia isto aqui. – Otto lançou até a outra ponta da mesa o telegrama que estava lendo. – Sua Majestade, o Kaiser, solicitou minha opinião.

Walter pegou o papel. Era o rascunho de uma resposta à carta pessoal do imperador austríaco. Walter a leu com inquietação crescente. O texto terminava da seguinte forma: “Contudo, o imperador Francisco José pode estar certo de que Sua Majestade apoiará fielmente a Áustria-Hungria, conforme exigem as obrigações de sua aliança e de sua antiga amizade.”

Walter estava horrorizado.

– Mas isto dá carta branca à Áustria! – falou ele. – Eles poderão fazer o que quiserem e nós vamos apoiá-los!

– Com algumas restrições.

– Não muitas. Isto aqui já foi enviado?

– Não, mas já está decidido. Será enviado amanhã.

– Nós podemos impedir?

– Não, e não tenho interesse em fazer isso.

– Mas assim ficamos obrigados a apoiar a Áustria em uma guerra contra a Sérvia.

– O que não é nada ruim.

– Nós não queremos uma guerra! – protestou Walter. – Precisamos de ciência, de manufaturas e de comércio. A Alemanha precisa se modernizar, se liberalizar, crescer. Queremos paz e prosperidade. – E, acrescentou ele em sua cabeça, também queremos um mundo em que um homem possa se casar com a mulher que ama sem ser acusado de traição.

– Escute aqui – disse Otto. – Nós temos inimigos poderosos de ambos os lados, a França a oeste e a Rússia a leste... e os dois são unha e carne. Não podemos travar uma guerra em duas frentes.

Walter sabia disso.

– É por esse motivo que temos o Plano Schlieffen – respondeu ele. – Se formos forçados a entrar em guerra, primeiro invadimos a França com uma força avassaladora, obtemos a vitória em poucas semanas e, então, com o oeste garantido, voltamos nossa atenção para o leste e enfrentamos a Rússia.

– Essa é a nossa única esperança – falou Otto. – Mas, quando esse plano foi adotado pelo Exército alemão, nove anos atrás, nosso serviço de inteligência nos disse que o Exército russo levaria 40 dias para se mobilizar. Isso nos dava quase seis semanas para conquistar a França. Desde então, os russos vêm aprimorando suas ferrovias... com dinheiro emprestado pelos franceses! – Otto deu um soco na mesa, como se pudesse esmagar a França com o punho. – Quanto menor o tempo de mobilização da Rússia, mais arriscado fica o Plano Schlieffen. O que significa que... – Ele apontou o dedo para Walter com um gesto dramático. – ... quanto antes travarmos essa guerra, melhor para a Alemanha!

– Não! – Por que o velho não conseguia ver como esse raciocínio era perigoso? – Isso significa que deveríamos estar buscando soluções pacíficas para disputas mesquinhas.

– Soluções pacíficas? – Otto balançou a cabeça com arrogância. – Você é jovem e idealista. Acha que toda pergunta tem uma resposta.

– O senhor quer mesmo uma guerra – falou Walter, incrédulo. – Quer de verdade.

– Ninguém quer uma guerra – disse Otto. – Mas às vezes ela é melhor do que a alternativa.

 

Maud havia herdado uma pensão irrisória do pai – 300 libras por ano, que mal davam para comprar seus vestidos para a temporada. O título de nobreza, as terras, os imóveis e quase toda a fortuna haviam ficado para Fitz. Assim era o sistema inglês. Mas não era isso que irritava Maud. O dinheiro pouco significava para ela. Na verdade, não precisava das suas 300 libras. Fitz pagava por tudo que ela quisesse sem questioná-la: para ele, a avareza não caía bem em um cavalheiro.

O grande ressentimento de Maud era não ter podido estudar. Aos 17 anos, havia anunciado que iria para a universidade – e todos riram na sua cara. Ela acabara descobrindo que, para ser admitida, era preciso antes ter estudado em uma boa escola e então passar nas provas. Maud nunca tinha ido à escola e, embora fosse capaz de conversar sobre política com os homens mais importantes do país, uma sucessão de governantas e professores particulares havia fracassado por completo na tarefa de qualificá-la para ser aprovada em qualquer tipo de exame. Ela passara dias chorando e se descabelando e, até hoje, pensar no assunto a deixava mal-humorada. Por isso havia se tornado uma sufragista: sabia que as mulheres só teriam uma boa instrução quando pudessem votar.

Ela muitas vezes se perguntara por que as mulheres se casavam. Comprometiam-se com uma vida de escravidão em troca de quê? Agora, porém, sabia a resposta. Jamais havia sentido nada tão intenso quanto seu amor por Walter. E as coisas que eles faziam para expressar esse amor lhe proporcionavam o mais delicioso prazer. Poderem se tocar daquela forma sempre que quisessem seria o paraíso. Ela teria se deixado escravizar três vezes, se o preço a pagar fosse esse.

Mas o preço não era a escravidão, pelo menos não com Walter. Maud já havia perguntado a ele se achava que uma esposa deveria obedecer ao marido em tudo e ouvira a seguinte resposta:

– Sem dúvida que não. Não vejo o que a obediência tem a ver com isso. Dois adultos que se amam deveriam ser capazes de tomar decisões juntos, sem que um tenha de obedecer ao outro.

Ela passava muito tempo pensando na vida que teriam juntos. Durante alguns anos, ele provavelmente seria transferido de uma embaixada para outra e os dois viajariam pelo mundo: Paris, Roma, Budapeste, talvez até lugares mais distantes, como Adis Abeba, Tóquio ou Buenos Aires. Ela pensou na história de Rute na Bíblia: “Aonde tu fores, eu também irei.” Seus filhos aprenderiam a tratar as mulheres como iguais e suas filhas seriam independentes e decididas quando adultas. Talvez os dois acabassem fixando residência em Berlim, para os filhos poderem estudar em boas escolas alemãs. Em algum momento, Walter sem dúvida herdaria Zumwald, a casa de campo do pai no leste da Prússia. Quando eles ficassem velhos e seus filhos estivessem crescidos, poderiam passar mais tempo no campo, caminhando de mãos dadas pela propriedade, lendo juntos à noite e refletindo sobre como o mundo havia mudado desde a sua juventude.

Maud praticamente não conseguia pensar em outra coisa. Estava sentada diante de sua mesa no Salão do Evangelho do Calvário, encarando uma lista de preços de materiais hospitalares e se lembrando de como Walter havia chupado a ponta do dedo na porta da sala de estar da duquesa. As pessoas estavam começando a perceber sua distração: o Dr. Greenward havia lhe perguntado se ela estava se sentindo bem e até tia Herm lhe dissera para “acordar”.

Ela tentou se concentrar novamente no formulário de pedidos e, desta vez, foi interrompida por uma batida na porta. Tia Herm pôs a cabeça para dentro da sala e falou:

– Um cavalheiro está aqui para vê-la. – Ela parecia um pouco atônita e entregou um cartão de visita a Maud.

 

General Otto von Ulrich Adido Embaixada do Império Germânico Carlton House Terrace, Londres

 

– O pai de Walter! – disse Maud. – Mas o que ele...?

– O que devo fazer? – sussurrou tia Herm.

– Pergunte se ele gostaria de tomar chá ou xerez e mande-o entrar.

Von Ulrich usava um traje formal: sobrecasaca preta com lapelas de cetim, colete branco de piquê e calça listrada. O calor do verão fazia seu rosto vermelho transpirar. Ele era mais corpulento do que Walter e não tão bonito, mas os dois tinham o mesmo porte militar ereto e altivo.

Maud forçou-se a exibir o comportamento descontraído de sempre.

– Meu caro Herr Von Ulrich, esta é uma visita formal?

– Quero falar com a senhorita sobre o meu filho – disse ele. Seu inglês era quase tão bom quanto o de Walter, embora, ao contrário do filho, ele tivesse algum sotaque.

– É muito gentil da sua parte ir direto ao assunto dessa forma – retrucou Maud, com uma ponta de sarcasmo que Otto nem percebeu. – Sente-se, por favor. Lady Hermia irá pedir uma bebida.

– Walter vem de uma antiga família aristocrática.

– Assim como eu – retrucou Maud.

– Nós somos tradicionais, conservadores, muito religiosos... talvez um pouco antiquados.

– Também como a minha família – disse Maud.

A conversa não estava correndo conforme Otto planejara.

– Nós somos prussianos – disse ele com um quê de irritação.

– Ah – disse Maud, fingindo surpresa. – Enquanto nós, é claro, somos anglo-saxões.

Ela estava argumentando com ele, como se aquilo não passasse de um duelo de intelectos, mas no fundo estava assustada. O que ele estaria fazendo ali? Qual seria seu objetivo? Tinha a impressão de que boa coisa não era. O pai de Walter estava contra ela. Maud sentia, com uma certeza desoladora, que ele tentaria se opor à união dos dois.

De toda forma, Otto não iria se deixar demover por tiradas irônicas.

– A Alemanha e a Grã-Bretanha estão em conflito. Seu país é amigo de nossos inimigos, a Rússia e a França. Isso faz dele nosso adversário.

– Sinto muito que o senhor pense assim. Muitos pensam diferente.

– Não se chega à verdade por voto majoritário. – Maud tornou a perceber uma nota de aspereza em sua voz. Ele estava acostumado a ser ouvido sem críticas, sobretudo por mulheres.

A enfermeira do Dr. Greenward trouxe chá em uma bandeja e pôs-se a servi-lo. Otto permaneceu calado até ela se retirar. Então disse:

– Pode ser que nós entremos em guerra nas próximas semanas. Se o motivo de nossa disputa não for a Sérvia, haverá outros casus belli. Mais cedo ou mais tarde, Grã-Bretanha e Alemanha terão de brigar pelo domínio da Europa.

– Sinto muito que o senhor esteja tão pessimista.

– Muitos outros pensam como eu.

– Mas não se chega à verdade por voto majoritário.

Otto pareceu contrariado. Obviamente esperava que ela ficasse sentada e escutasse seu discurso pomposo em silêncio. Não gostava de ser alvo de zombarias. Irritado, falou:

– A senhorita deveria me dar ouvidos. Este é um assunto que a afeta diretamente. A maioria dos alemães considera a Grã-Bretanha uma inimiga. Imagine as consequências se Walter se casasse com uma inglesa.

– Pode ter certeza de que já imaginei. Walter e eu conversamos muito sobre isso.

– Em primeiro lugar, ele não teria a minha aprovação. Eu não poderia acolher uma nora inglesa na minha família.

– Walter acredita que o amor que o senhor tem por ele talvez o ajudasse a superar sua repulsa por mim. Será que isso é impossível?

– Em segundo lugar – disse ele, ignorando a pergunta dela –, ele seria visto como desleal ao Kaiser. Homens da sua classe deixariam de considerá-lo amigo. Ele e a esposa não seriam recebidos nos melhores lares.

Maud estava ficando zangada.

– Acho isso difícil de acreditar. Com certeza nem todos os alemães têm a mente tão fechada.

Otto pareceu não reparar na grosseria dela.

– Em terceiro e último lugar, a carreira de Walter é no Ministério das Relações Exteriores. Ele vai se distinguir nessa carreira. Eu o matriculei em escolas e universidades de vários países. Ele fala um inglês perfeito e domina razoavelmente bem o russo. Apesar de suas opiniões idealistas e imaturas, é bem-visto por seus superiores e o Kaiser já lhe dirigiu a palavra com apreço em mais de uma ocasião. Ele poderia se tornar ministro das Relações Exteriores.

– Ele é brilhante – comentou Maud.

– Porém, se ele se casar com a senhorita, será o fim da carreira dele.

– Que coisa mais ridícula – falou ela, chocada.

– Minha cara jovem, será que não é óbvio? Não se pode confiar em um homem casado com uma inimiga.

– Nós dois já conversamos a respeito. Naturalmente, a lealdade dele seria para com a Alemanha. Eu o amo o suficiente para aceitar isso.

– Talvez ele fique preocupado demais com a família da esposa para dedicar total lealdade ao próprio país. Mesmo que Walter ignorasse esse laço de forma implacável, outros homens continuariam desconfiados.

– O senhor está exagerando – disse ela, mas estava começando a ficar insegura.

– Certamente não poderia trabalhar em nenhum cargo que exigisse sigilo. Nenhum homem trataria de assuntos confidenciais na frente dele. Walter estaria acabado.

– Ele não precisa trabalhar com inteligência militar. Pode se transferir para outras áreas da diplomacia.

– Qualquer tipo de diplomacia envolve confidencialidade. Isso sem falar na minha própria posição.

Maud foi pega de surpresa. Ela e Walter não haviam levado em consideração a carreira de Otto.

– Eu sou confidente do Kaiser. Será que ele continuaria a depositar sua confiança absoluta em mim, caso meu filho fosse casado com uma estrangeira inimiga?

– É o que ele deveria fazer.

– Talvez o fizesse, se eu tomasse uma atitude firme e inflexível e deserdasse meu filho.

Maud soltou um arquejo.

– O senhor não faria isso.

Otto ergueu a voz.

– Eu seria obrigado!

Maud balançou a cabeça.

– O senhor teria escolha – falou ela, em desespero. – Um homem sempre tem escolha.

– Eu não vou sacrificar tudo o que conquistei... meu cargo, minha carreira, o respeito dos meus conterrâneos... por uma garota – disse ele com desprezo.

Maud sentiu como se tivesse levado um tapa.

Otto prosseguiu:

– Mas Walter sacrificará, é claro.

– O que o senhor está dizendo?

– Se Walter se casasse com a senhorita, perderia sua família, seu país e sua carreira. Mas ele vai fazer isso. Ele declarou seu amor pela senhorita sem pensar direito nas consequências e, mais cedo ou mais tarde, irá entender o erro catastrófico que cometeu. Mas, sem dúvida, já se considera seu noivo, mesmo que não oficialmente, e não vai recuar diante de um compromisso. É cavalheiro demais para agir de outra forma. “Pode me deserdar”, dirá ele. Se não fizer isso, vai se considerar um covarde.

– É verdade – disse Maud. Ela estava pasma. Aquele homem horrível enxergava a verdade com mais clareza do que ela.

– Então é a senhorita quem deve romper o noivado – continuou Otto.

As palavras a atingiram como uma punhalada.

– Não!

– É a única forma de salvá-lo. A senhorita tem que abrir mão dele.

Maud abriu a boca para objetar novamente, mas percebeu que Otto tinha razão e não conseguiu pensar em nada para dizer.

Otto se inclinou para a frente e perguntou com uma insistência opressora:

– A senhorita vai romper com ele?

Lágrimas escorriam pelo rosto de Maud. Ela sabia o que precisava fazer. Não podia arruinar a vida de Walter, nem mesmo por amor.

– Vou – disse, aos soluços. Não lhe restava mais dignidade alguma, porém isso não tinha importância; a dor era grande demais. – Sim, vou romper com ele.

– Promete?

– Sim, prometo.

Otto se levantou.

– Obrigado pela gentileza de me escutar. – Ele fez uma mesura. – Desejo-lhe uma boa tarde. – E então foi embora.

Maud enterrou o rosto nas mãos.

 

Meados de julho de 1914

No quarto novo de Ethel em Tŷ Gwyn havia um espelho de pé. Era um espelho antigo, com a madeira da moldura rachada e o vidro embaçado, mas ela podia se ver de corpo inteiro. Considerava isso um grande luxo.

Observou o próprio reflexo vestida apenas com a roupa de baixo. Parecia ter ficado mais voluptuosa desde que se apaixonara. Tinha engordado um pouco na cintura e nos quadris, e seus seios pareciam mais fartos, talvez porque Fitz os acariciasse e apertasse tanto. Quando pensava nele, sentia os mamilos doloridos.

Fitz chegara naquela manhã, acompanhado pela princesa Bea e por lady Maud, e havia lhe dito com um sussurro que a encontraria na Suíte Gardênia depois do almoço. Ethel alojara Maud no Quarto Rosa, inventando uma desculpa sobre reformas no piso do seu aposento habitual.

Ethel fora então até seu quarto para se lavar e vestir roupas de baixo limpas. Adorava se preparar para Fitz dessa forma, imaginando como ele iria tocar seu corpo e beijar-lhe a boca, já escutando a forma como grunhiria de desejo e prazer, pensando no cheiro de sua pele e na textura luxuosa de suas roupas.

Quando abriu uma gaveta para pegar meias limpas, seus olhos recaíram sobre uma pilha de tiras limpas de algodão branco, os “paninhos” que usava ao ficar menstruada. Ocorreu-lhe que não os havia lavado desde que se mudara para aquele quarto. De repente, uma pequena semente de puro pânico surgiu em sua mente. Ela se deixou cair sentada na cama estreita. Eram meados de julho. A Sra. Jevons tinha ido embora no início de maio. Fazia dez semanas. Nesse intervalo, Ethel deveria ter usado os paninhos não apenas uma, mas duas vezes.

– Ah, não – disse em voz alta. – Ah, por favor, não!

Forçou-se a pensar com calma e tornou a fazer as contas. A visita do rei tinha sido em janeiro. Ela fora nomeada governanta logo depois, mas a Sra. Jevons estava adoentada demais para se mudar do quarto. Fitz havia ido à Rússia em fevereiro e voltado em março, data em que eles fizeram amor de verdade pela primeira vez. Em abril, a Sra. Jevons já estava melhor e o homem de negócios de Fitz, Albert Solman, tinha vindo de Londres para lhe explicar como seria a sua aposentadoria. Ela fora embora no início de maio e somente então Ethel havia se mudado para aquele quarto e guardado aquela assustadora pilha de tiras de algodão branco na gaveta. Dez semanas. Ethel não conseguia fazer a conta chegar a outro resultado.

Quantas vezes eles haviam se encontrado na Suíte Gardênia? Oito, no mínimo. Fitz sempre tirava antes do final, mas às vezes o fazia um pouco tarde, e ela podia sentir o primeiro de seus espasmos quando ele ainda estava dentro de seu corpo. Sentira-se felicíssima por compartilhar esse instante com ele e, no seu êxtase, tinha fechado os olhos para o risco. Agora estava pagando o preço.

– Oh, meu Deus, me perdoe – disse ela em voz alta.

Sua amiga Dilys Pugh havia ficado grávida. Dilys tinha a mesma idade de Ethel. Ela trabalhava como criada para a esposa de Perceval Jones e namorava Johnny Bevan. Ethel se lembrou de como os seios de Dilys tinham ficado maiores por volta da época em que ela percebeu que, sim, era possível engravidar fazendo aquilo em pé. Os dois agora estavam casados.

O que seria de Ethel? Ela não poderia se casar com o pai de seu filho. Tirando todo o resto, ele já era casado.

Estava na hora de ir encontrá-lo. Desta vez, não iriam rolar na cama. Teriam de conversar sobre o futuro. Ela pôs seu vestido de seda preta de governanta.

O que ela iria dizer? Ele não tinha filhos; será que ficaria contente ou horrorizado? Amaria aquele filho ilegítimo, ou sentiria vergonha dele? Seu amor por Ethel aumentaria pelo fato de ela ter ficado grávida, ou ele passaria a odiá-la?

Ela saiu de seu quarto no sótão e percorreu o corredor estreito, descendo em seguida a escada dos fundos até a ala oeste da casa. O papel de parede conhecido, com sua estampa de gardênias, despertou seu desejo da mesma forma que a visão da roupa de baixo dela excitava Fitz.

Ele já estava no quarto, parado diante da janela, admirando o jardim iluminado pelo sol e fumando um charuto; e, quando Ethel o viu, tornou a ficar impressionada com sua beleza. Ela atirou os braços em volta do pescoço de Fitz. Havia descoberto que a maciez surpreendente de seu terno marrom se devia ao fato de ele ser feito de caxemira.

– Ah, Teddy, meu amor, como estou feliz por ver você – disse ela. Gostava de ser a única pessoa a chamá-lo de Teddy.

– E eu por ver você – disse ele, mas não lhe acariciou os seios como costumava fazer.

Ela beijou sua orelha.

– Tenho uma coisa para lhe dizer– falou Ethel, em tom solene.

– Eu também tenho uma coisa para lhe dizer! Posso falar primeiro?

Ethel estava prestes a responder que não, mas ele se soltou de seu abraço, dando um passo para trás, e de repente o coração dela foi tomado por um mau pressentimento.

– O quê? – indagou ela. – O que foi?

– Bea está esperando um filho. – Ele deu uma tragada no charuto e expeliu a fumaça como se suspirasse.

A princípio, ela não conseguiu entender aquelas palavras.

– O quê? – repetiu com a voz atônita.

– Minha mulher, a princesa Bea, está grávida. Ela vai ter um filho.

– Você quer dizer que esteve com ela ao mesmo tempo que esteve comigo? – perguntou Ethel, furiosa.

Ele pareceu surpreso. Não esperava que aquilo fosse aborrecê-la.

– É a minha obrigação! – protestou. – Eu preciso de um herdeiro.

– Mas você disse que me amava!

– Eu amo e, de certa forma, sempre amarei.

– Não, Teddy! – gritou ela. – Não diga isso assim... por favor!

– Fale baixo!

– Falar baixo? Você está me dispensando! De que me importa agora se as pessoas descobrirem?

– A mim importa, mais que tudo.

Ethel estava consternada.

– Teddy, por favor, eu te amo.

– Mas está tudo acabado. Eu preciso ser um bom marido e um bom pai para o meu filho. Você tem que entender.

– Entender uma ova! – disse ela, irada. – Como pode dizer isso com tanta facilidade? Já vi você demonstrar mais emoção por causa de um cachorro que teve de ser sacrificado!

– Isso não é verdade – disse ele, e sua voz saiu embargada.

– Eu me entreguei a você, neste quarto, naquela cama ali.

– E eu não vou... – Ele se calou. Seu rosto, até então congelado em uma expressão de rígido autocontrole, exibiu de repente um ar de aflição. Ele lhe deu as costas, evitando encará-la. – Eu nunca vou me esquecer disso – murmurou.

Ethel se aproximou e viu lágrimas nas faces dele, o que fez sua raiva se dissipar por completo.

– Oh, Teddy, eu sinto tanto... – disse.

Ele tentou se recompor.

– Eu gosto muito de você, mas preciso cumprir o meu dever – falou. As palavras eram frias, mas sua voz soava atormentada.

– Ai, meu Deus. – Ela tentou parar de chorar. Ainda não havia lhe dado a sua notícia. Enxugou os olhos com a manga do vestido, fungou e engoliu em seco. – Dever? – indagou. – Você não sabe da missa a metade.

– Do que você está falando?

– Eu também estou grávida.

– Meu bom Senhor! – Ele levou o charuto à boca em um gesto mecânico, depois tornou a abaixá-lo sem tragar. – Mas eu sempre tirei!

– Depois do que devia, pelo jeito.

– Há quanto tempo você sabe?

– Acabei de me dar conta. Olhei dentro da minha gaveta e vi meus paninhos limpos. – Ele fez uma cara feia. Estava claro que o assunto menstruação o desagradava. Bem, ele teria que aguentar. – Calculei que não tenho minhas regras desde que me mudei para o antigo quarto da Sra. Jevons, ou seja, há dez semanas.

– Dois ciclos. Então não resta dúvida. Foi o que Bea disse. Ah, maldição! – Fitz levou o charuto aos lábios, percebeu que a brasa tinha se apagado e o deixou cair no chão com um grunhido irritado.

Um pensamento irônico passou pela cabeça de Ethel.

– Talvez você ganhe dois herdeiros.

– Não seja ridícula – disse ele com rispidez. – Bastardos não têm direito a heranças.

– Ah – falou ela. Não tivera de fato a intenção de fazer qualquer exigência em nome do filho. Por outro lado, até aquele momento não havia pensado nele como um bastardo. – Pobrezinho – falou. – Meu filho, o bastardo.

Ficou visível pela expressão de Fitz que ele se sentia culpado.

– Desculpe – disse. – Eu falei sem pensar. Me perdoe.

Ela podia ver que sua natureza de homem bom estava em conflito com seus instintos egoístas. Tocou-lhe o braço.

– Pobre Fitz.

– Deus não permita que Bea fique sabendo – falou ele.

Ethel sentiu-se mortalmente ferida. Por que a maior preocupação dele era com a outra mulher? Bea não teria problemas: era rica e casada e estava carregando o filho amado e legítimo do clã Fitzherbert.

– O choque poderia ser demais para ela – continuou Fitz.

Ethel recordou um boato de que Bea sofrera um aborto espontâneo no ano anterior. Todas as criadas haviam comentado o fato. Segundo Nina, a criada russa, a princesa punha a culpa do aborto em Fitz, que a deixara abalada ao cancelar uma viagem já marcada à Rússia.

Ethel estava se sentindo profundamente rejeitada.

– Então sua maior preocupação é que a notícia do nosso filho abale a sua mulher.

Ele a encarou.

– Eu não quero que ela aborte... é importante!

Fitz não fazia ideia de quanto estava sendo insensível.

– Maldito seja você – falou Ethel.

– O que você espera que eu faça? Bea está carregando o filho pelo qual eu tenho torcido e rezado. Quanto ao seu, você não o quer, nem eu, nem qualquer outra pessoa.

– Não é assim que penso – falou ela com voz miúda, e então recomeçou a chorar.

– Preciso pensar no assunto – disse ele. – Preciso ficar sozinho. – Ele a segurou pelos ombros. – Tornamos a conversar amanhã. Enquanto isso, não conte a ninguém. Entendido?

Ela assentiu.

– Prometa para mim.

– Eu prometo.

– Boa menina – disse ele, e saiu do quarto.

Ethel se abaixou e pegou o charuto apagado do chão.

 

Ela guardou segredo, mas foi incapaz de se comportar como se estivesse tudo bem, de modo que fingiu estar doente e foi para a cama. Enquanto ficava deitada sozinha horas a fio, sua tristeza logo cedeu lugar ao nervosismo. Como ela e o filho fariam para viver?

Ela perderia seu emprego ali em Tŷ Gwyn – isso seria automático, mesmo que o filho não fosse do conde. Esse fato por si só era doloroso. Sentira tanto orgulho de si mesma ao ser promovida a governanta. Gramper gostava de dizer que o orgulho sempre precede a queda. No seu caso, ele estava certo.

Ethel não tinha certeza se poderia voltar para a casa dos pais: a humilhação mataria seu pai de desgosto. Ela estava quase tão angustiada com isso quanto com a própria vergonha. De certa forma, ele ficaria mais magoado com aquilo do que ela – era muito rígido em relação a esse tipo de coisa.

De toda maneira, não queria viver como mãe solteira em Aberowen. Já havia duas ali: Maisie Owen e Gladys Pritchard. Eram criaturas deploráveis, sem lugar na estrutura social da cidade. Apesar de solteiras, nenhum homem se interessava por elas. Eram mães, mas moravam com os pais como se ainda fossem crianças. Não eram bem-vindas em nenhuma igreja, pub, loja ou clube. Como ela, Ethel Williams, que sempre havia se considerado melhor do que as outras, poderia descer ao nível mais baixo de todos?

Assim, ela precisava ir embora de Aberowen. Isso não a entristecia. Ficaria contente em dar as costas às fileiras de casas deprimentes, às pequenas capelas moralistas e às infindáveis disputas entre os mineradores e a administração da mina. Mas para onde ela iria? E será que conseguiria ver Fitz?

Enquanto a noite caía, Ethel ficou acordada olhando as estrelas pela janela e, por fim, concebeu um plano. Iria começar uma nova vida em um novo lugar. Usaria uma aliança de casamento e diria que seu marido havia morrido. Encontraria alguém para cuidar do bebê, arrumaria um emprego qualquer e ganharia dinheiro. Mandaria a criança à escola. Sentia que teria uma menina – uma menina inteligente, que viraria escritora ou médica, ou quem sabe uma militante como a Sra. Pankhurst, que defendia os direitos femininos e havia sido presa em frente ao Palácio de Buckingham.

Achava que não conseguiria dormir, mas a emoção a deixara exausta e ela adormeceu por volta da meia-noite, caindo em um sono pesado e sem sonhos.

Acordou com o sol raiando. Sentou-se na cama, ansiosa como sempre pelo novo dia que começava, mas então se lembrou de que sua antiga vida havia terminado, de que estava arruinada e sua vida se transformara em uma tragédia. Quase sucumbiu novamente à tristeza, porém resistiu a ela. Não podia se dar ao luxo de chorar. Precisava começar uma vida nova.

Vestiu-se e desceu até a ala dos criados, onde anunciou que estava totalmente recuperada do mal-estar da véspera e em plenas condições de voltar aos seus afazeres normais.

Lady Maud mandou chamá-la antes do café da manhã. Ethel preparou uma bandeja com café, que levou até o Quarto Rosa. Maud estava sentada diante de uma penteadeira usando um négligé de seda roxa. Ela havia chorado. Ethel tinha seus próprios problemas, mas mesmo assim se compadeceu da outra mulher.

– O que houve, minha senhora?

– Ah, Williams, eu tive que desistir dele.

Ethel imaginou que ela estivesse falando de Walter von Ulrich.

– Mas por quê?

– O pai dele foi falar comigo. Eu vinha me recusando a encarar o fato de que a Grã-Bretanha e a Alemanha são inimigas e de que se casar comigo arruinaria a carreira de Walter... e provavelmente também a do pai dele.

– Mas todo mundo está dizendo que não vai haver guerra, que a Sérvia não é importante o suficiente.

– Se não for agora, a guerra virá mais tarde; e, mesmo que nunca aconteça, a ameaça por si só já basta. – A penteadeira era enfeitada com um babado de renda cor-de-rosa, que Maud manuseava com aflição, rasgando o tecido caro. Aquilo levaria horas para ser remendado, pensou Ethel. Maud prosseguiu: – Ninguém no Ministério das Relações Exteriores alemão iria confidenciar nada a Walter se ele fosse casado com uma inglesa.

Ethel serviu o café e entregou uma xícara a Maud.

– Se a amar de verdade, Herr Von Ulrich abrirá mão do emprego.

– Mas eu não quero que ele faça isso! – Maud parou de rasgar a renda e bebeu um gole do café. – Não posso me tornar a pessoa que pôs fim à carreira dele. Que base é essa para um casamento?

Ele poderia ter outra carreira, pensou Ethel – e, se de fato a amasse, era isso que faria. Então pensou no homem que ela amava e na rapidez com que a paixão dele havia esfriado quando se tornou inconveniente. Vou guardar minhas opiniões para mim mesma, pensou, eu não sei porcaria nenhuma.

– O que Walter disse? – perguntou ela.

– Eu não estive com ele. Em vez disso, escrevi uma carta. Parei de ir a todos os lugares em que geralmente o encontro. Então ele passou a aparecer na minha casa, mas, quando começou a ficar constrangedor mandar os criados dizerem que eu não estava, eu vim para cá com Fitz.

– Por que a senhora não quer falar com ele?

– Porque eu sei o que vai acontecer. Ele vai me tomar nos braços, me beijar e eu vou ceder.

Eu conheço essa sensação, pensou Ethel.

Maud deu um suspiro.

– Você está bem calada hoje, Williams. Também deve ter suas próprias preocupações, é claro. As coisas estão muito difíceis com essa greve?

– Estão, sim, senhora. A cidade inteira está em regime de racionamento.

– Vocês continuam dando comida aos filhos dos mineradores?

– Todos os dias.

– Que bom. Meu irmão é muito generoso.

– Sim, minha senhora. – Quando lhe convém, pensou Ethel.

– Bem, é melhor você continuar com seu trabalho. Obrigada pelo café. Devo estar entediando você com meus problemas.

Em um impulso, Ethel segurou a mão de Maud.

– Por favor, não diga isso. A senhora sempre foi boa comigo. Eu sinto muito por Walter, e espero que sempre me conte seus problemas.

– Que palavras mais gentis. – Novas lágrimas brotaram nos olhos de Maud. – Muito obrigada, Williams. – Ela apertou a mão de Ethel, soltando-a em seguida.

Ethel pegou a bandeja e saiu do quarto. Quando chegou à cozinha, o mordomo Peel perguntou:

– Você fez alguma coisa errada?

Você nem imagina, pensou ela.

– Por que a pergunta?

– Sua Senhoria quer que você o encontre na biblioteca às dez e meia.

Então seria uma conversa formal, pensou Ethel. Talvez fosse melhor assim. Os dois estariam separados por uma escrivaninha, de modo que ela não ficaria tentada a se atirar nos braços dele. Isso a ajudaria a não chorar. Teria de ficar calma e não se deixar levar pelas emoções. O resto de sua vida seria definido por aquela conversa.

Ela foi cuidar de seus afazeres domésticos. Iria sentir falta de Tŷ Gwyn. Durante os anos em que havia trabalhado ali, passara a amar os belos móveis antigos. Tinha aprendido os nomes das peças, e hoje sabia reconhecer uma torchère, um aparador, uma cristaleira ou um revisteiro. Enquanto tirava o pó e encerava, ia reparando na marchetaria, nas guirlandas e volutas, nos pés em formato de patas de leão segurando esferas. De vez em quando, alguém como Peel dizia: “Isto aqui é francês. Estilo Luís XV”, e ela havia percebido que cada cômodo era decorado e mobiliado em um só estilo, fosse ele barroco, neoclássico ou gótico. Ela nunca mais iria conviver com móveis assim.

Passada uma hora, encaminhou-se para a biblioteca. Os livros haviam sido reunidos pelos antepassados de Fitz. Atualmente, o cômodo não era usado com frequência: Bea lia apenas romances franceses e Fitz não lia nada. Os hóspedes às vezes iam à biblioteca para ter paz e tranquilidade, ou para usar o jogo de xadrez de marfim que ficava sobre a mesa de centro. Naquela manhã, as persianas estavam baixadas até a metade, conforme as instruções de Ethel, para proteger o cômodo do sol de julho e mantê-lo fresco. Consequentemente, a atmosfera era lúgubre.

Fitz estava sentado em uma poltrona de couro verde. Para surpresa de Ethel, Albert Solman também estava presente, usando um terno preto e uma camisa de colarinho duro. Advogado de formação, Solman era o que os cavalheiros da era eduardiana chamavam de homem de negócios. Administrava a fortuna de Fitz, verificando sua renda proveniente dos royalties do carvão e dos aluguéis, pagando as contas e providenciando dinheiro vivo para o salário dos empregados. Também cuidava das locações e dos demais contratos, além de às vezes mover processos contra pessoas que tentassem trapacear Fitz. Ethel já o havia encontrado antes e não simpatizava com ele. Achava-o convencido, um sabe-tudo. Talvez todos os advogados fossem assim, mas não podia afirmar com certeza: aquele era o único que ela jamais havia encontrado.

Fitz se levantou com ar constrangido.

– Expliquei a situação ao Sr. Solman – disse ele.

– Por quê? – indagou Ethel. Ela tivera de prometer não contar a ninguém. Ele ter contado àquele advogado parecia uma traição.

Fitz parecia envergonhado de si mesmo, coisa rara de se ver.

– Solman vai lhe comunicar a minha proposta – disse ele.

– Por quê? – tornou a indagar Ethel.

Fitz lançou-lhe um olhar de súplica, como se implorasse a Ethel para não piorar ainda mais a situação para ele.

Ethel, no entanto, não sentia compaixão alguma. Não era fácil para ela, então por que deveria ser para ele?

– O que você está com medo de me dizer pessoalmente? – perguntou ela, desafiadora.

Fitz havia perdido toda a sua segurança arrogante.

– Vou deixar que ele lhe explique – respondeu e, para espanto dela, saiu da biblioteca.

Quando a porta se fechou às suas costas, Ethel olhou para Solman e pensou: como posso conversar sobre o futuro do meu filho com este desconhecido?

Solman lhe deu um sorriso.

– Então a senhorita andou se assanhando?

O comentário a ofendeu.

– O senhor disse isso ao conde?

– É claro que não!

– Porque, como o senhor bem sabe, eu não fui a única. É preciso duas pessoas para fazer um bebê.

– Está certo, não é preciso entrar em detalhes.

– Só não fale como se eu tivesse feito tudo sozinha.

– Muito bem.

Ethel sentou-se e então tornou a olhar para ele.

– Pode se sentar, se quiser – disse ela, como se fosse a dona da casa dando permissão ao mordomo.

Solman enrubesceu. Não sabia se deveria se sentar, o que daria a entender que estivera esperando a permissão dela, ou se continuava em pé como um criado. Acabou decidindo andar de um lado para outro.

– Sua Senhoria me instruiu a lhe fazer uma oferta – disse ele. Andar de um lado para outro não funcionou muito bem, então ele parou e ficou em pé na sua frente. – É uma oferta generosa e aconselho a senhorita a aceitá-la.

Ethel não disse nada. A frieza de Fitz teve pelo menos um efeito útil: fez com que ela percebesse que aquilo era uma negociação. Esse era um território conhecido para Ethel. Seu pai vivia fazendo negociações, argumentando e lidando com a administração da mina, sempre tentando obter salários melhores, jornadas de trabalho mais curtas e melhores condições de segurança. Uma de suas máximas era: “Só abra a boca quando for preciso.” Assim, ela continuou calada.

Solman a encarava com ansiedade. Quando percebeu que ela não iria responder, pareceu irritado. E então prosseguiu:

– Sua Senhoria está disposto a lhe conceder uma pensão de 24 libras por ano, com pagamento mensal adiantado. Acho muita bondade da parte dele, a senhorita não concorda?

Mas que sovina miserável, pensou Ethel. Como ele pode ser tão mesquinho comigo? Vinte e quatro libras era o salário de uma criada. Era metade do que Ethel ganhava como governanta, e ela ainda perderia casa e comida.

Por que os homens achavam que podiam fazer esse tipo de coisa e sair impunes? Provavelmente porque em geral era o que acontecia. Uma mulher não tinha direito algum. Era preciso duas pessoas para gerar um bebê, mas só uma era obrigada a cuidar da criança. Como as mulheres acabaram ficando em uma posição tão fraca? Isso a deixava furiosa.

Mesmo assim, ela permaneceu calada.

Solman puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado.

– Veja pelo lado bom. A senhorita terá 10 xelins por semana...

– Menos de 10 xelins – ela apressou-se a dizer.

– Bom, vamos arredondar para 26 libras por ano, isso dá 10 xelins por semana. O que me diz?

Ethel ficou quieta.

– Você consegue encontrar um bom quartinho em Cardiff por dois ou três xelins e vai poder gastar o resto com as suas coisas. – Ele afagou seu joelho. – E, quem sabe, talvez conheça outro homem generoso para facilitar um pouco a sua vida... hein? A senhorita é uma moça muito atraente, sabia?

Ethel fingiu não entender o que ele estava dizendo. A ideia de ser amante de um advogado repulsivo como Solman lhe dava engulhos. Será que ele pensava mesmo que poderia assumir o lugar de Fitz? Ela não deu ouvidos às suas insinuações.

– Tem alguma condição? – indagou com frieza.

– Condição?

– A oferta do conde tem alguma condição?

Solman pigarreou.

– As de sempre, é claro.

– As de sempre? Então o senhor já fez isso antes.

– Não para o conde Fitzherbert – respondeu ele depressa.

– Mas para outros, sim.

– Vamos nos ater ao assunto em pauta, por favor.

– Pode continuar.

– A senhorita está proibida de pôr o nome do conde na certidão de nascimento da criança, ou de revelar para quem quer que seja, de qualquer outra forma, que ele é o pai.

– E pela sua experiência, Sr. Solman, as mulheres em geral aceitam essas suas condições?

– Sim.

É claro que aceitam, pensou ela com amargura. Que alternativa lhes resta? Como não têm direito a nada, pegam o que conseguem obter. É óbvio que elas aceitam as condições.

– Algo mais?

– Depois que for embora de Tŷ Gwyn, a senhorita não deve fazer nenhuma tentativa para entrar em contato com o conde.

Então ele não quer nunca mais me ver nem conhecer o próprio filho, pensou Ethel. A decepção brotou dentro dela como uma onda de fraqueza. Se não estivesse sentada, poderia ter caído no chão. Cerrou os dentes para conter as lágrimas. Depois de se controlar, falou:

– Algo mais?

– Acho que é só.

Ethel se levantou.

Solman disse:

– A senhorita deverá entrar em contato comigo para indicar onde devo realizar os pagamentos. – Ele sacou uma caixinha de prata e tirou lá de dentro um cartão de visita.

– Não – disse Ethel quando ele lhe ofereceu o cartão.

– Mas vai precisar disso para entrar em contato comigo...

– Não, não vou – tornou a dizer ela.

– Como assim?

– A oferta não é aceitável.

– Ora, Srta. Williams, não seja boba...

– Vou repetir, Sr. Solman, para que o senhor não tenha dúvidas. A oferta não é aceitável. Minha resposta é não. Não tenho mais nada a lhe dizer. Tenha um bom dia. – Ela saiu e bateu a porta.

Voltou para o quarto, trancou-se e caiu em um pranto angustiado.

Como Fitz podia ser tão cruel? Será possível que nunca mais queria vê-la de novo? Nem ao seu filho? Será que ele acreditava mesmo que tudo o que havia acontecido entre os dois podia ser apagado por 24 libras por ano?

Ele de fato não a amava mais? Será que algum dia havia amado? Ela era uma boba, afinal?

Havia pensado que ele a amava. Tivera certeza de que isso significava alguma coisa. Talvez ele houvesse fingido o tempo todo para enganá-la, mas ela achava que não. Uma mulher percebia quando um homem estava fingindo.

Então o que ele estava fazendo agora? Provavelmente reprimindo os próprios sentimentos. Quem sabe não era um homem de emoções levianas? Era possível. Talvez a houvesse amado de verdade, mas com um amor fácil de esquecer quando se tornasse inconveniente. No auge da paixão, ela poderia muito bem não ter percebido essa sua fraqueza de caráter.

Pelo menos a crueldade dele tornava mais fácil para ela negociar. Já não precisava pensar nos sentimentos de Fitz. Podia se concentrar em tentar conseguir o melhor para ela mesma e para o bebê. Precisava ter sempre em mente como Da teria conduzido a situação. Apesar da lei, uma mulher não era totalmente impotente.

Naquele instante, Fitz deveria estar angustiado, imaginou ela. Provavelmente tinha pensado que ela iria aceitar a oferta, ou no pior dos casos exigir mais dinheiro; assim, teria a sensação de que o seu segredo estava bem guardado. Agora, era quase certo que estivesse perplexo e aflito.

Ethel não dera a Solman a oportunidade de perguntar o que ela de fato queria. Eles que tateassem no escuro um pouco. Fitz começaria a ficar com medo de que Ethel pretendesse se vingar, contando à princesa Bea sobre o bebê.

Ela olhou pela janela, em direção ao relógio no telhado da estrebaria. Faltavam alguns minutos para o meio-dia. No gramado da frente, os criados estariam se preparando para servir o almoço aos filhos dos mineradores. A princesa Bea gostava de se reunir com a governanta por volta do meio-dia. Geralmente para reclamar de alguma coisa: não havia gostado das flores no hall de entrada, os uniformes dos lacaios não estavam bem passados, a tinta estava descascando no patamar da escada. A governanta, por sua vez, teria perguntas a fazer sobre que quartos atribuir a quais hóspedes, sobre a reposição da louça e dos artigos de cristal, sobre a contratação e a demissão de criadas e ajudantes de cozinha. Fitz habitualmente ia à sala de estar matutina por volta de meio-dia e meia para tomar uma taça de xerez antes do almoço.

Nessa hora, Ethel iria aumentar a pressão.

Fitz observava os filhos dos mineradores fazendo fila para o almoço – que eles chamavam de “janta”. Tinham os rostos sujos, os cabelos desgrenhados e as roupas rasgadas, mas pareciam felizes. Crianças eram uma coisa incrível. Aquelas dali estavam entre as mais pobres da região, e seus pais se encontravam no meio de uma disputa feroz, mas nenhuma delas dava mostras disso.

Desde que se casara com Bea, cinco anos antes, Fitz havia ansiado por um filho. Ela sofrera um aborto espontâneo, e a ideia de que isso pudesse se repetir o aterrorizava. Da última vez, ela tivera um chilique só porque ele havia cancelado a viagem dos dois à Rússia. Se descobrisse que ele havia engravidado a governanta, sua fúria seria incontrolável.

E esse segredo terrível estava nas mãos de uma empregada.

Ele estava se roendo de preocupação. Aquela era uma punição cruel para seu pecado. Em outras circunstâncias, o fato de ter um filho com Ethel talvez até lhe desse alguma alegria. Ele poderia ter instalado mãe e filho em uma casinha em Chelsea para visitá-los uma vez por semana. Comovido por esse devaneio, sentiu uma nova pontada de arrependimento e nostalgia. Não queria ser duro com Ethel. Seu amor havia lhe proporcionado grande prazer: seus beijos arrebatados, seu toque ávido, o calor de sua paixão juvenil. Mesmo quando estava lhe dando a má notícia, ele havia desejado poder acariciar aquele corpo esguio e senti-la beijar seu pescoço daquele jeito guloso que ele achava tão excitante. Contudo, precisava endurecer o próprio coração.

Além de ser a mulher mais sensual que ele jamais havia beijado, ela era também inteligente, bem informada e divertida. Havia lhe contado que seu pai sempre conversava com ela sobre assuntos da atualidade. E a governanta de Tŷ Gwyn tinha o direito de ler os jornais do conde depois que o mordomo acabasse de lê-los – uma regra da ala dos criados que Fitz desconhecia. Ethel lhe fazia perguntas inesperadas que ele nem sempre sabia responder, como, por exemplo: “Quem governava a Hungria antes dos austríacos?” Ele sentiria falta disso, pensou com tristeza.

Ethel, no entanto, não estava se comportando como seria de esperar de uma amante rejeitada. Solman ficara abalado com a conversa que tivera com ela. “O que ela quer?”, perguntara-lhe Fitz, mas Solman não sabia. Fitz nutria uma suspeita terrível de que Ethel talvez contasse a história toda para Bea, só por causa de algum desejo moralista deturpado de revelar a verdade. Que Deus me ajude a mantê-la afastada da minha mulher, rezou ele.

Ficou surpreso ao ver a forma baixinha e rotunda de Perceval Jones atravessar o gramado com uma calça verde na altura dos joelhos e botas de caminhada.

– Bom dia, senhor conde – disse o prefeito, tocando o chapéu de feltro marrom.

– Bom dia, Jones. – Como presidente da Celtic Minerals, Jones era fonte de grande parte da riqueza de Fitz, mas mesmo assim aquele homem o desagradava.

– As notícias não são boas – disse Jones.

– De Viena, o senhor quer dizer? Fiquei sabendo que o imperador austríaco ainda está burilando os termos de seu ultimato à Sérvia.

– Não, estou falando da Irlanda. Os habitantes da província de Ulster não querem aceitar a autonomia. Isso fará deles uma minoria dentro de um governo católico. O Exército já está se rebelando.

Fitz fechou o rosto. Não gostava de ouvir falar em motim no Exército britânico.

– Independentemente do que os jornais digam – falou ele, tenso –, não acredito que os oficiais britânicos irão desobedecer às ordens de seu governo soberano.

– Mas eles já desobedeceram! – disse Jones. – E quanto ao motim na planície de Curragh?

– Não houve desobediência alguma ali.

– Cinquenta e sete oficiais renunciaram depois de receber ordens para atacar os Voluntários de Ulster. O senhor pode não chamar isso de motim, milorde, mas todos os outros chamam.

Fitz soltou um grunhido. Infelizmente, Jones tinha razão. A verdade era que os oficiais ingleses se recusavam a atacar seus compatriotas para defender uma turba de católicos irlandeses.

– Nós nunca deveríamos ter prometido a independência à Irlanda – disse ele.

– Nisso eu concordo com o senhor – falou Jones. – Mas, na verdade, eu vim lhe falar sobre esta questão aqui. – Ele apontou para as crianças, sentadas em bancos diante de mesas apoiadas em cavaletes, comendo bacalhau cozido com repolho. – Gostaria que o senhor pusesse um fim nisso.

Fitz não gostava que gente abaixo dele na escala social lhe dissesse como agir.

– Eu não vou deixar as crianças de Aberowen morrerem de fome, mesmo que a culpa disso seja dos pais.

– O senhor está só prolongando a greve.

O fato de Fitz receber royalties por cada tonelada de carvão extraída não significava, na sua opinião, que fosse obrigado a tomar partido dos proprietários da mina contra os trabalhadores. Ofendido, ele falou:

– A greve é problema seu, não meu.

– Mas o dinheiro o senhor não recusa.

Fitz ficou indignado.

– Não tenho mais nada a lhe dizer. – Ele se virou para ir embora.

Jones se mostrou arrependido na mesma hora:

– Sinto muito, milorde, por favor, me perdoe... foi um comentário impensado e insensato, mas essa situação toda é extremamente desgastante.

Era difícil para Fitz recusar um pedido de desculpas. Ele não se deixou dobrar, mas mesmo assim tornou a se virar e respondeu a Jones com cortesia:

– Está bem, mas continuarei a alimentar as crianças.

– Milorde, o senhor precisa entender que um minerador pode ser teimoso à própria custa e suportar muitas dificuldades por causa de seu orgulho tolo, mas, no final das contas, o que o faz ceder é ver os filhos passarem fome.

– Mas o senhor continua operando a mina da mesma forma.

– Com mão de obra estrangeira de terceira categoria. A maioria dos homens não foi treinada para o trabalho e produz pouco. Nós os estamos usando sobretudo para a manutenção dos túneis e para cuidar dos cavalos. Não estamos extraindo muito carvão.

– Eu juro que não consigo entender por que vocês despejaram aquelas pobres viúvas de suas casas. Eram só oito e, afinal de contas, elas perderam os maridos dentro da maldita mina.

– É um precedente arriscado. A casa está atrelada ao minerador. Se abrirmos mão disso, vamos terminar como simples proprietários de barracos.

Então talvez não devessem ter construído barracos, pensou Fitz, mas segurou a língua. Não queria prolongar a conversa com aquele tiranozinho pomposo. Olhou para o relógio. Era meio-dia e meia: hora de uma taça de xerez.

– Não adianta, Jones – disse ele. – Não vou travar as suas batalhas no seu lugar. Tenha um bom dia. – E saiu andando a passos largos em direção à casa.

Jones era a menor de suas preocupações. O que ele iria fazer em relação a Ethel? Precisava garantir que Bea não tivesse nenhum aborrecimento. Além do perigo que isso representava para o filho que estava por nascer, ele sentia que talvez a gravidez pudesse ser um novo começo para seu casamento. Talvez aquela criança os aproximasse e recriasse a ternura e a intimidade que os dois tinham no início do relacionamento. Mas essa esperança iria por água abaixo se Bea descobrisse que ele tivera um caso com a governanta. Ela ficaria uma fera.

Fitz sentiu-se grato pela temperatura mais amena do hall de entrada, com seu piso de lajotas e seu teto gótico de madeira. Aquela decoração feudal havia sido escolhida por seu pai. O único livro que ele lera, com exceção da Bíblia, era Declínio e queda do Império Romano, de Gibbon. Segundo ele, o Império Britânico, ainda mais potente do que o romano, teria o mesmo destino a menos que os nobres lutassem para proteger suas instituições, sobretudo a Marinha Real, a Igreja Anglicana e o Partido Conservador. Fitz não tinha dúvidas de que seu pai estava certo.

Uma taça de xerez seco caía muito bem antes do almoço. A bebida o deixava alerta e abria seu apetite. Com uma agradável sensação de expectativa, ele adentrou a sala de estar matutina. E ficou horrorizado ao ver Ethel conversando com Bea. Deteve-se na soleira da porta e ficou olhando para as duas, consternado. O que Ethel estava dizendo? Será que ele havia chegado tarde demais?

– O que está havendo aqui? – perguntou com rispidez.

Bea olhou para ele com ar de surpresa e disse calmamente:

– Estou conversando sobre fronhas de travesseiro com minha governanta. Você esperava algo mais dramático? – Seu sotaque russo enrolou o erre da palavra “dramático”.

Por um instante, ele não soube o que dizer. Percebeu que estava encarando sua mulher e sua amante. Pensar nas intimidades que havia tido com ambas era perturbador.

– Não sei – murmurou ele, indo se sentar diante de uma escrivaninha, de costas para elas.

As duas continuaram a conversa. De fato, o assunto eram as fronhas: quanto tempo duravam, como as usadas podiam ser remendadas e usadas pelos criados e se era melhor comprá-las bordadas ou lisas para depois mandar as criadas bordarem. Fitz, no entanto, continuava abalado. Aquela pequena cena de patroa e empregada entretidas em uma conversa tranquila lembrou-lhe como seria fácil para Ethel contar a verdade a Bea. Aquilo não podia seguir assim. Ele precisava tomar uma atitude.

Pegou na gaveta uma folha de papel de carta azul encabeçada pelo brasão da família, mergulhou uma pena no tinteiro e escreveu: “Encontre-me depois do almoço.” Pressionou o mata-borrão sobre a carta e a inseriu dentro de um envelope da mesma cor.

Dali a alguns minutos, Bea dispensou Ethel. Quando ela estava de saída, Fitz disse, sem virar a cabeça.

– Williams, venha até aqui, por favor.

Ela veio até o seu lado. Ele notou o leve aroma de sabonete perfumado – ela havia confessado que os roubava de Bea. Por mais irritado que estivesse, ele se sentia desconfortavelmente consciente da proximidade de suas coxas esbeltas e firmes sob a seda preta do vestido de governanta. Sem olhar para ela, entregou-lhe o envelope.

– Mande alguém ao consultório do veterinário na cidade para comprar um frasco desse remédio para cães. É para tosse dos canis.

– Pois não, meu amo. – Ela saiu da sala.

Ele resolveria aquela situação dentro de poucas horas.

Serviu sua taça de xerez. Ofereceu uma a Bea, mas ela não quis. A bebida o aqueceu e aliviou-lhe a tensão. Ele foi se sentar ao lado da mulher, que lhe deu um sorriso simpático.

– Como está se sentindo? – perguntou ele.

– Fico enjoada pela manhã – disse ela. – Mas depois passa. Agora estou bem.

Ele logo voltou a pensar em Ethel. Ela o colocara na palma da mão. Não tinha dito nada, mas implicitamente estava ameaçando contar tudo a Bea. Era muito astucioso de sua parte. Fitz estava aflito e sem ter o que fazer. Quisera ele poder resolver o assunto ainda mais cedo, em vez de somente à tarde.

O casal almoçou na sala de jantar pequena, sentado a uma mesa de carvalho de pernas quadradas que poderia muito bem ter saído de um mosteiro medieval. Bea lhe disse ter descoberto que havia alguns russos em Aberowen.

– Mais de cem, segundo Nina.

Com esforço, Fitz afastou Ethel do pensamento.

– Eles devem fazer parte dos fura-greves trazidos por Perceval Jones.

– Parece que estão sendo marginalizados. Não conseguem ser atendidos nas lojas ou nos cafés.

– Preciso pedir ao reverendo Jenkins que faça um sermão sobre amor ao próximo, mesmo que o próximo seja um fura-greve.

– Você não pode simplesmente ordenar que os lojistas os atendam?

Fitz sorriu.

– Não, querida, não neste país.

– Bem, eu sinto pena deles e gostaria de fazer alguma coisa para ajudá-los.

Isso o deixou satisfeito.

– É um impulso bondoso da sua parte. O que você sugere?

– Acho que em Cardiff há uma igreja ortodoxa russa. Vou mandar vir um padre de lá para rezar uma missa para os russos um domingo desses.

Fitz franziu o cenho. Bea havia se convertido ao anglicanismo ao se casar com ele, mas ele sabia que a mulher ainda ansiava pela igreja de sua infância – e via isso como um sinal de que ela era infeliz em seu país de adoção. Mas não queria contrariá-la.

– Ótimo – falou.

– Nós poderíamos deixá-los jantar na ala dos criados.

– É uma ideia generosa, querida, mas talvez eles sejam homens rudes.

– Nós daremos comida apenas àqueles que comparecerem à missa. Assim excluímos os judeus e os piores arruaceiros.

– Muito sagaz. Embora os moradores da cidade talvez passem a vê-la com maus olhos.

– Mas que diferença isso faz para mim ou para você?

Ele aquiesceu.

– Está certo. Jones tem reclamado que eu estou apoiando a greve por dar de comer às crianças. Se você receber os fura-greves, pelo menos ninguém poderá dizer que estamos tomando partido.

– Obrigada – disse ela.

A gravidez já havia melhorado o relacionamento dos dois, pensou Fitz.

Durante o almoço, ele bebeu duas taças de vinho do Reno, porém sua ansiedade voltou ao sair da sala de jantar e tomar o rumo da Suíte Gardênia. Seu destino estava nas mãos de Ethel. O temperamento dela era suave e emotivo como o de qualquer mulher, mas, apesar disso, não aceitava ordens de ninguém. Ele não conseguia controlá-la, e isso o apavorava.

Contudo, Ethel ainda não estava no quarto. Ele olhou para o relógio. Eram duas e quinze. Ele dissera “depois do almoço”. Ethel saberia a que horas o café tinha sido servido e, portanto, deveria estar à sua espera. Ele não havia especificado o local, mas ela sem dúvida seria capaz de adivinhar.

Ele começou a ficar apreensivo.

Passados cinco minutos, ficou tentado a ir embora. Ninguém o deixava esperando daquele jeito. No entanto, não queria deixar o assunto sem solução por mais um dia, nem sequer por mais uma hora, então ficou.

Ela entrou no quarto às duas e meia.

– O que você está tentando fazer comigo? – perguntou ele, zangado.

Ela ignorou a pergunta.

– Onde você estava com a cabeça para me mandar falar com um advogado de Londres?

– Pensei que assim seria menos emotivo.

– Não seja idiota. – Fitz ficou chocado. Ninguém falava assim com ele desde os tempos da escola. – Eu vou ter um filho seu – continuou ela. – Como isso poderia não ser emotivo?

Ela estava certa, havia sido uma tolice da parte dele, e as suas palavras o atingiram, mas ao mesmo tempo ele não pôde deixar de apreciar a musicalidade do seu sotaque – a palavra “emotivo” ganhava uma nota diferente para cada sílaba, fazendo-a parecer uma melodia.

– Desculpe – disse ele. – Eu pago o dobro...

– Não piore as coisas, Teddy – falou ela, porém seu tom estava mais brando. – Não negocie comigo como se tudo fosse uma simples questão de preço.

Fitz apontou para ela um dedo acusador.

– Você não pode falar com minha mulher, está me ouvindo? Eu não vou permitir!

– Não me dê ordens, Teddy. Eu não tenho motivo nenhum para lhe obedecer.

– Como você se atreve a falar assim comigo?

– Cale a boca e escute, que eu vou lhe explicar.

O tom de voz dela o estava deixando enfurecido, mas ele se lembrou de que não podia se dar ao luxo de hostilizá-la.

– Então fale – disse.

– Você agiu de forma muito insensível comigo.

Ele sabia que era verdade, por isso sentiu uma pontada de culpa. Estava arrasado por tê-la magoado. Mas tentou não demonstrar isso.

– Ainda te amo demais para querer estragar a sua felicidade – continuou ela.

Ele se sentiu ainda pior.

– Não quero magoar você – disse Ethel. Ela engoliu em seco e se virou para o outro lado, e ele viu lágrimas em seus olhos. Começou a falar, mas ela ergueu a mão para silenciá-lo. – Você está me pedindo para abandonar meu emprego e minha casa, então precisa me ajudar a começar uma vida nova.

– É claro – falou ele. – Se for isso que você deseja. – Falar em termos mais práticos ajudava ambos a reprimir seus sentimentos.

– Eu vou para Londres.

– Boa ideia. – Ele não pôde deixar de se sentir satisfeito: ninguém em Aberowen saberia que ela tivera um filho, muito menos de quem era a criança.

– Você vai me comprar uma casinha. Nada luxuoso... um bairro operário já estaria de ótimo tamanho. Mas eu quero seis cômodos, para poder morar no térreo e ter um inquilino. O aluguel vai custear os reparos e a manutenção da casa. Mesmo assim, vou ter que trabalhar.

– Você refletiu bastante sobre o assunto.

– Imagino que esteja se perguntando quanto isso irá lhe custar, mas não quer fazer a pergunta, porque um cavalheiro não gosta de perguntar o preço das coisas.

Era verdade.

– Eu pesquisei no jornal – disse ela. – Uma casa assim custa algo em torno de 300 libras. Provavelmente sairá mais barato do que me pagar duas libras por mês pelo resto da vida.

Trezentas libras não era nada para Fitz. Bea era capaz de gastar essa quantia em roupas numa só tarde na Maison Paquin de Paris.

– Mas você prometeria guardar segredo? – perguntou ele.

– E prometo amar e cuidar do seu filho, e criar o menino ou a menina para que cresça feliz, saudável e bem instruído, mesmo que você não esteja dando nenhum sinal de estar preocupado com isso.

Ele ficou indignado, mas percebeu que Ethel estava certa. Mal havia pensado na criança.

– Sinto muito – desculpou-se. – Estou preocupado demais com Bea.

– Eu sei – disse ela, suavizando a voz como sempre acontecia quando ele deixava sua aflição transparecer.

– Quando você vai embora?

– Amanhã de manhã. Estou com tanta pressa quanto você. Vou pegar o trem para Londres e começar imediatamente a procurar uma casa. Assim que encontrar o imóvel, escreverei para Solman.

– Você vai ter que ficar hospedada em algum lugar enquanto procura a casa. – Ele tirou a carteira do bolso interno do paletó e lhe estendeu duas notas brancas de cinco libras.

Ethel sorriu.

– Você não faz mesmo a menor ideia do preço das coisas, não é, Teddy? – Ela lhe devolveu uma das notas. – Cinco libras são mais do que suficientes.

Ele fez cara de ofendido.

– Não quero que ache que estou sendo mesquinho com você.

Ela mudou de postura e, por um instante, Fitz vislumbrou a raiva que a corroía por dentro.

– Ah, mas você está sendo mesquinho sim, Teddy – disse ela com amargura. – Só que não em matéria de dinheiro.

– Somos os dois responsáveis – falou ele na defensiva, olhando de relance para a cama.

– Mas só um de nós vai ter um filho.

– Bom, não vamos bater boca. Vou dizer a Solman para fazer o que você sugeriu.

Ela estendeu a mão.

– Adeus, Teddy. Sei que irá cumprir sua palavra. – A voz de Ethel estava firme, mas ele podia ver que ela se esforçava para manter a compostura.

Ele apertou sua mão, embora isso parecesse estranho para duas pessoas que já haviam feito amor com paixão.

– Pode contar com isso – disse.

– Agora, por favor, vá embora, rápido – disse ela, virando-se para o lado.

Ele ainda hesitou alguns instantes, mas então saiu do quarto.

Enquanto se afastava, ficou surpreso e envergonhado ao sentir lágrimas nada viris brotarem de seus olhos.

– Adeus, Ethel – sussurrou ele para o corredor vazio. – Que Deus a abençoe e a proteja.

 

Ethel foi até o depósito de bagagens do sótão e roubou uma mala pequena, velha e surrada. Ninguém jamais daria falta dela. A mala pertencera ao pai de Fitz e tinha seu brasão gravado no couro: a douração já havia se desgastado há muito tempo, mas ainda era possível distinguir o desenho. Ela pôs lá dentro suas meias, sua roupa de baixo e alguns dos sabonetes perfumados da princesa.

Deitada na cama naquela noite, decidiu que afinal não queria ir para Londres. Estava assustada demais para passar por tudo aquilo sozinha. Queria ficar com a sua família. Precisava fazer perguntas à mãe sobre a gravidez. Seria melhor que estivesse em um lugar conhecido quando o bebê chegasse. Seu filho iria precisar dos avós e do tio Billy.

Pela manhã, vestiu as próprias roupas, deixou o uniforme de governanta pendurado no gancho e saiu às escondidas de Tŷ Gwyn bem cedo. No final da estrada de acesso, virou-se e olhou para a casa, com suas pedras encardidas de pó de carvão, suas longas fileiras de janelas que refletiam o sol nascente, e pensou em quanto havia aprendido desde que chegara ali para trabalhar aos 13 anos, recém-saída da escola. Agora sabia como vivia a elite. Eles comiam pratos estranhos, preparados de um jeito complicado, e desperdiçavam mais do que comiam. Todos falavam com o mesmo sotaque contido, mesmo alguns dos estrangeiros. Ela havia manuseado as roupas de baixo sofisticadas das mulheres ricas, feitas de algodão da melhor qualidade e de seda delicada, costuradas à mão, bordadas e debruadas de renda, 12 peças de cada empilhadas nas gavetas de suas cômodas. Era capaz de olhar para um aparador e dizer na hora em que século ele tinha sido fabricado. E, acima de tudo, pensou com amargura, havia aprendido que não se deve confiar no amor.

Ela desceu a encosta da montanha até Aberowen e tomou o caminho de Wellington Row. Como sempre, a porta da casa de seus pais estava destrancada. Ela entrou. O cômodo principal, a cozinha, era menor do que a Sala dos Vasos de Tŷ Gwyn, usada apenas para compor os arranjos de flores.

Mam estava sovando massa de pão, mas, ao ver a mala, parou o que estava fazendo e disse:

– Qual foi o problema?

– Eu voltei para casa – disse Ethel. Ela pousou a mala no chão e sentou-se diante da mesa quadrada da cozinha. Estava envergonhada demais para contar o que havia acontecido.

Mam, no entanto, adivinhou.

– Você foi demitida!

Ethel foi incapaz de olhar para a mãe.

– Fui. Sinto muito, Mam.

Mam enxugou as mãos em um pano de prato.

– O que você fez? – perguntou ela, irritada. – Pode ir dizendo!

Ethel deu um suspiro. O que a estava detendo?

– Fiquei grávida – disse ela.

– Ah, não... sua desnaturada!

Ethel reprimiu as lágrimas. Esperava compreensão, não condenação.

– Eu sou mesmo uma desnaturada – falou. Tirou o chapéu, tentando manter a compostura.

– Essa história toda subiu à sua cabeça... trabalhar na casa grande, conhecer o rei e a rainha. Fez você esquecer a forma como foi criada.

– Acho que a senhora tem razão.

– Seu pai vai morrer de desgosto.

– Ele não vai ter que parir – disse Ethel com sarcasmo. – Imagino que vá ficar bem.

– Não seja atrevida. Ele vai ficar com o coração partido.

– Onde ele está?

– Em outra reunião sobre a greve. Pense na posição dele na cidade: membro do conselho da capela, representante dos mineradores, secretário do Partido Trabalhista Independente... como ele vai conseguir ficar de cabeça erguida nas assembleias, com todo mundo dizendo que a filha dele é uma vadia?

Ethel não conseguiu mais se controlar.

– Eu sinto muito por causar tanta vergonha a ele – falou, começando a chorar.

A expressão de Mam mudou.

– Fazer o quê? – disse ela. – Essa é a história mais antiga do mundo. – Ela deu a volta na mesa e abraçou Ethel com força junto ao peito. – Passou, passou – disse, da mesma forma que costumava fazer quando Ethel era uma menina e ralava o joelho.

Depois de algum tempo, os soluços de Ethel foram diminuindo.

Mam a soltou e disse:

– É melhor tomarmos uma xícara de chá. – A chaleira ficava permanentemente na boca do fogão. Ela pôs folhas de chá dentro de um bule e despejou por cima a água fervente, mexendo em seguida com uma colher de pau. – Para quando é o bebê?

– Fevereiro.

– Ai, meu Deus! – Mam deu as costas para o fogão e olhou para Ethel. – Eu vou ser avó!

As duas riram. Mam pôs xícaras sobre a mesa e serviu o chá. Ethel bebeu um pouco e se sentiu melhor.

– Seus partos foram fáceis ou difíceis? – quis saber ela.

– Não existe parto fácil, mas, segundo a minha mãe, os meus foram melhores do que a maioria. Mesmo assim, fiquei com as costas ruins depois de Billy.

Billy desceu a escada perguntando:

– Quem está falando de mim? – Ele podia dormir até mais tarde porque estava em greve, percebeu Ethel. A cada vez que o via, ele lhe parecia mais alto e mais largo.

– Oi, Eth – disse ele, beijando-a e fazendo-a sentir seu bigode áspero. – Que mala é essa? – Sentou-se à mesa e Mam lhe serviu chá.

– Eu fiz bobagem, Billy – falou Ethel. – Vou ter um filho.

Ele a encarou, chocado demais para falar. Então enrubesceu, sem dúvida pensando no que ela havia feito para ficar grávida. Olhou para o chão, constrangido. Em seguida, tomou um pouco de chá. Por fim, perguntou:

– Quem é o pai?

– Ninguém que você conheça. – Ela havia pensado no assunto e inventado uma história. – Um lacaio que foi a Tŷ Gwyn com um dos convidados, mas ele agora entrou para o Exército.

– Mas vai cuidar de você.

– Eu nem sei onde ele está.

– Vou encontrar esse patife.

Ethel pôs a mão em seu braço.

– Não fique zangado, meu lindo. Se precisar da sua ajuda, eu peço.

Billy obviamente não sabia o que dizer. Era evidente que ameaças de vin­gança de nada adiantariam, mas ele não conseguia reagir de outra forma. Parecia desnorteado. Tinha apenas 16 anos.

Ethel se lembrou de quando o irmão era um bebê. Tinha apenas cinco anos quando ele nascera, mas ficara completamente fascinada por ele, por sua perfeição e sua vulnerabilidade. Logo eu também terei um lindo bebê indefeso, pensou – e não sabia se devia se sentir feliz ou aterrorizada.

– Imagino que Da não vá aceitar isso calado – falou Billy.

– É o que me preocupa – disse Ethel. – Gostaria de poder fazer alguma coisa para melhorar as coisas para ele.

Gramper desceu.

– Mandaram você embora? – disse ele ao ver a mala. – Foi por atrevimento?

– Não seja cruel, papai – disse Mam. – Ela está esperando um filho.

– Caramba! – comentou Gramper. – Foi um dos figurões lá da casa grande? Eu não me espantaria se tivesse sido o próprio conde.

– Não diga besteira, Gramper – falou Ethel, espantada por ele ter adivinhado a verdade tão depressa.

– Foi um lacaio que veio com um dos convidados – disse Billy. – Ele agora está no Exército. Ela não quer que a gente vá atrás dele.

– Ah, é? – disse Gramper. Ethel podia ver que seu avô não estava convencido, porém ele não insistiu. Em vez disso, acrescentou: – Isso é a italiana que existe dentro de você, minha menina. Sua avó tinha o sangue quente. Se eu não tivesse me casado com ela, teria arranjado encrenca. Mesmo assim, ela nem quis esperar o casamento. Na verdade...

– Pai! – interrompeu Mam. – Não na frente das crianças.

– O que pode chocá-las depois disso? – disse ele. – Estou velho demais para contos de fadas. As moças querem se deitar com os rapazes, e a vontade é tão grande que elas vão em frente, casadas ou não. Qualquer um que tente dizer outra coisa é um tolo... e isso inclui o seu marido, Cara.

– Cuidado com o que diz – falou Mam.

– Ah, esqueça – disse Gramper, calando-se e se pondo a tomar seu chá.

Minutos depois, Da entrou na casa. Mam olhou para ele com surpresa.

– Você chegou cedo! – disse ela.

Ele ouviu o desprazer na voz da mulher.

– Ouvindo você, parece até que não sou bem-vindo.

Mam se levantou da mesa, vagando uma cadeira para ele.

– Vou fazer mais chá.

Da não se sentou.

– A reunião foi cancelada. – Seus olhos recaíram sobre a mala de Ethel. – O que é isso?

Todos olharam para Ethel. Ela viu medo no rosto de Mam, rebeldia no de Billy e uma espécie de resignação no de Gramper. Então percebeu que cabia a ela responder à pergunta.

– Tenho uma coisa para lhe contar, Da – falou. – O senhor vai ficar zangado, e tudo que eu posso dizer é que sinto muito.

O semblante dele ficou carregado.

– O que foi que você fez?

– Saí do meu emprego em Tŷ Gwyn.

– Isso não é motivo para sentir muito. Nunca gostei de ver você se curvando e se rebaixando para aqueles parasitas.

– Eu fui embora por um motivo.

Ele chegou mais perto e ficou parado ao lado dela.

– Bom ou ruim?

– Estou em apuros.

Ele pareceu furioso.

– Espero que não esteja querendo dizer o que as garotas querem dizer quando falam assim.

Ela baixou os olhos para a mesa e assentiu.

– Você... – Ele se deteve, buscando as palavras certas. – Você cedeu à tentação moral?

– Cedi.

– Sua desnaturada!

A mesma expressão que Mam tinha usado. Ethel se encolheu de medo do pai, embora não esperasse de fato que ele fosse lhe bater.

– Olhe para mim! – ordenou ele.

Ela ergueu os olhos para encará-lo em meio a uma névoa de lágrimas.

– Então você está me dizendo que cometeu o pecado da carne?

– Eu sinto muito, Da.

– Com quem? – gritou ele.

– Com um lacaio.

– Como ele se chama?

– Teddy. – O nome lhe escapou antes de ela conseguir pensar.

– Teddy de quê?

– Não importa.

– Não importa? Como assim não importa?

– Ele esteve na casa durante uma visita de seu patrão. Quando percebi minha situação, ele já havia entrado para o Exército. Perdi contato com ele.

– Durante uma visita? Perdeu contato? – A voz de Da se transformou em um rugido irado. – Você quer dizer que nem sequer está noiva dele? Cometeu esse pecado... – Ele falou atropeladamente, mal conseguindo articular as palavras repulsivas. – Você cometeu este pecado imundo de forma leviana?

– Não fique zangado, Da – disse Mam.

– Não ficar zangado? Então quando é que um homem deveria se zangar?

Gramper tentou acalmá-lo.

– Não se altere, Dai. Gritar não adianta nada.

– Gramper, sinto muito ter de lembrar a você que esta é a minha casa, e quem decide o que adianta ou não sou eu.

– Está bem, está bem – falou Gramper com voz tranquila. – Como quiser.

Mam não estava disposta a desistir:

– Da, não diga nada de que vá se arrepender.

As tentativas de acalmar a fúria de Da conseguiram apenas irritá-lo ainda mais.

– Eu não vou acatar ordens de nenhuma mulher nem de nenhum velho! – gritou ele. Apontou o dedo para Ethel. – E não vou tolerar uma fornicadora em casa! Fora daqui!

Mam começou a chorar.

– Não, por favor não diga isso.

– Fora! – gritou ele. – E nunca mais volte!

– Mas o seu neto! – disse Mam.

Billy interveio.

– Da, o senhor acataria a palavra de Deus? Jesus falou: “Eu não vim chamar justos, mas pecadores, ao arrependimento.” Evangelho segundo Lucas, capítulo cinco, versículo 32.

Da virou-se para o filho.

– Deixe-me lhe dizer uma coisa, seu menino ignorante. Meus avós nunca se casaram. Ninguém sabe quem foi meu avô. Minha avó desceu ao nível mais baixo que uma mulher pode descer.

Mam soltou um arquejo. Ethel ficou chocada e pôde ver que Billy também estava atônito. Gramper fez uma expressão de quem já sabia.

– Ah, sim – falou Da, abaixando a voz. – Meu pai foi criado em uma casa de tolerância, se é que vocês me entendem; um lugar frequentado por marinheiros, lá no cais do porto de Cardiff. Então, um dia, quando a mãe dele estava bêbada de cair, Deus guiou seus passos infantis até a escola dominical de uma igreja, onde ele encontrou Jesus. No mesmo lugar, aprendeu a ler e escrever e, com o passar do tempo, criou os próprios filhos dentro dos caminhos da retidão.

– David, você nunca me contou isso – disse Mam com brandura. Ela raramente chamava o marido pelo nome de batismo.

– Eu esperava nunca mais ter que pensar no assunto. – O semblante de Da estava contorcido em uma máscara de vergonha e ira. Ele se apoiou na mesa e fitou os olhos da filha, sua voz se transformando em um sussurro. – Quando cortejei sua mãe, nós ficávamos de mãos dadas e eu a beijava no rosto todas as noites até o dia do casamento. – Ele deu um soco na mesa