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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


REMÉDIO AMARGO / Arthur Hailey
REMÉDIO AMARGO / Arthur Hailey

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

REMÉDIO AMARGO

Primeira Parte

 

 

 

No 747, nas filas da frente da primeira classe e meia hora depois de sair de Londres, o Dr. Andrew Jordan segurou na mão da esposa e manteve-a entre as suas.

 

- Deixa de te ralares - implorou. - Pode não acontecer nada.

 

- Algo vai acontecer - retorquiu ela. - Dennis Donahue tratará disso. Andrew fez uma careta à menção do senador popularista de Nova Inglaterra.

 

- Estava a pensar no almoço - contrapôs ele. - Precisas de mo estragares fazendo-me ficar agoniado?

 

- Fala a sério, Andrew. Lembra-te de que houve mortes relacionadas com a droga.

 

- Estás bastante afastada disso.

 

- Tanto faz, se houver um processo criminal estarei nele incluída. Posso ir para a prisão.

 

Ele tentou manter em cima os seus espíritos deprimidos.

 

- Deixa lá, isso ainda não aconteceu mas prometo-te que, se assim for, te vou visitar todos os dias e te levo bolos com limas lá dentro.

 

- Oh, Andrew! - exclamou ela virando-se para o olhar com um sorriso misto de amor e de mágoa.

 

Depois de vinte e oito anos de casamento, pensou ele, como é bom ver a esposa com admiração, tão bela, inteligente e forte. E disse para si mesmo que não estava a ser sentimental. Já vira aquelas qualidades, e outras mais, exibidas por mil vezes.

 

- É bonito - interpôs-se entre eles uma voz feminina.

 

Andrew olhou para cima. Era uma jovem e adorável hospedeira contemplando as suas mãos dadas.

 

- O amor também pode acontecer aos velhos - respondeu ele de raspão.

 

- A sério? - A hospedeira imitou-lhe o tom de brincadeira. - Nunca tal me tinha ocorrido. Mais champanhe?

 

- Sim, se faz favor.

 

Apanhou a moça a inspeccioná-lo e sabia, sem vaidade, que conservava uma boa figura, até para alguém suficientemente jovem para ser sua filha. Como é que o tinha descrito, na semana anterior, aquele colunista de um jornal de Londres? ”O simpático e distinto médico de cabelos brancos marido de... etc, etc.” Embora Andrew não o tivesse dito, a verdade é que gostara de tais palavras.

 

Vazado o champanhe, Andrew recostou-se para trás. Gostava dos requintes que acompanhavam a viagem em primeira classe, mesmo se agora tais coisas parecessem menos significativas que outrora. Era o dinheiro da mulher que pagava tais luxos, é claro. Embora o seu rendimento como interno sempre ocupado fosse
mais que confortável tinha dúvidas de que chegasse para ostentar uma tarifa de primeira classe entre Londres e Nova Iorque, e decerto que nunca permitiria o jacto privado em que a sua mulher, e às vezes Andrew, viajavam pela América do Norte.

 

”Correcção”, recordou a si mesmo. ”Tinham viajado até agora.” Que alterações traria o futuro imediato era coisa ainda incerta.

 

O dinheiro, pensou, nunca tinha constituído problema no seu casamento. Nunca tivera a mais pequena discussão sobre o assunto e desde o princípio que a mulher insistira que aquilo que tinham, tinham-no em conjunto. As suas contas bancárias eram sempre em comum e, embora a contribuição actual de Andrew fosse substancialmente menor, nenhum deles se preocupava com aritmética comparativa.

 

Os seus pensamentos vaguearam e continuaram de mãos dadas enquanto o 747 avançava para oeste sobre o Atlântico.

 

- Andrew - disse a esposa -, és um conforto. Sempre comigo. E sempre forte.

 

- É engraçado - comentou ele. - Forte era mesmo aquilo que estava a pensar de ti.

 

- Existem diferentes tipos de força. E preciso da tua.

 

Começara a habitual azáfama dentro do avião, preparatória da refeição a ser-lhes servida. Soltavam-se mesas até aí escondidas, aparecia sobre elas linho branco e talheres de prata.

 

Passado algum tempo a mulher afirmou:

 

- Aconteça o que acontecer vou lutar.

 

- Não foi o que sempre fizeste?

 

Ela estava a pensar cuidadosamente, como sempre.

 

- Nos próximos dias escolherei um advogado. Tem de ser alguém sólido, mas não extravagante. Um excesso de exibicionismo seria um erro.

 

Ele apertou-lhe a mão.

 

- Esta sim é a minha garota! Ela sorriu-lhe:

 

- Sentas-te ao meu lado no tribunal?

 

- Todos os dias. Os doentes que se amanhem sozinhos até estar tudo arrumado.

 

- Nunca deixarás acontecer uma coisa dessas, mas gostaria de te ter comigo.

 

- Existem mais médicos. Tratarei disso.

 

- Talvez - continuou ela -, talvez com o advogado certo possamos conseguir um milagre.

 

Andrew mergulhou a faca num pratinho de caviar que acabara de ser colocado na sua frente. Por piores que fossem os seus problemas não era questão para rejeitar aquilo.

 

- Pode acontecer - disse ele espalhando o caviar no pão torrado. - Tu e eu começámos com um milagre. E desde então houve outros, que tu fizeste acontecer. Por que não mais um? Desta vez só para ti.

 

- Seria um milagre.

 

- Será - corrigiu ele com suavidade.

 

Andrew fechou os olhos. O champanhe e a altitude tornavam-no sonolento. Mas, na sua sonolência, recordava o primeiro milagre. Há muito tempo.

 

                         1957 – 1963

 

- A tua mulher está a morrer, John - explicou o Dr. Jordan com toda a calma. - Restam-lhe apenas algumas horas de vida, nada mais. - E acrescentou, cônscio do rosto pálido e angustiado do jovem esguio que estava na sua frente, ainda vestido com as roupas de trabalho da fábrica: - Gostaria de te poder dizer mais qualquer coisa. Mas penso que preferes a verdade.

 

Estavam no Hospital de St. Bede, em Morristown, Nova Jérsia. Os ruídos exteriores de um fim de tarde - ruídos de cidade pequena - chegavam filtrados lá de dentro, mal perturbando o silêncio entre eles.

 

Na obscuridade do quarto de hospital Andrew viu a maçã-de-adão do marido da doente saltar duas vezes convulsivamente antes dele conseguir falar.

 

- Não posso acreditar. Estamos no princípio. A começar. Sabe que temos um bebé.

 

- Sim, sei.

 

- É tão...

 

- Injusto?

 

O homem concordou. Um homem bom e decente, com aspecto de trabalhador incansável. Johii Rowe. Tinha vinte e cinco anos, apenas quatro menos que o próprio Dr. Jordan, e estava a encarar a situação com dificuldade, o que nada tinha de surpreendente. Andrew gostaria de poder dar mais conforto ao homem. Embora Andrew enfrentasse a morte com frequência e estivesse treinado para reconhecer os sinais da sua aproximação, ainda estava inseguro sobre a forma de comunicar com amigos ou familiares de uma pessoa moribunda. O médico devia ser incisivo, directo, ou havia alguma forma mais subtil? Era uma coisa que não ensinavam na escola médica, nem sequer depois.

 

- Os vírus são imprevisíveis - explicou -, embora na maior parte dos casos não actuem como no caso da Mary. Normalmente respondem ao tratamento.

 

- Mas não há nada? Nenhuma droga que pudesse...?

 

Andrew abanou a cabeça. Não valia a pena entrar em detalhes respondendo: ”Ainda não. Até agora não existe qualquer droga para o coma agudo da hepatite infecciosa avançada.” Nem nada ganharia em dizer que hoje, bem cedo, consultara o seu colega, o Dr. Noah Townsend, que por acaso era também o chefe do serviço de Medicina no hospital.

 

Uma hora antes, Townsend dissera a Andrew: ”Fizeste tudo aquilo que podias. Não há nada que eu tivesse feito de outra forma.” Fora então que Andrew enviara uma mensagem para a fábrica, situada na cidade vizinha de Boonton, onde John Rowe trabalhava por turnos.

 

”Bolas!” Os olhos de Andrew contemplaram a cama alta de metal onde estava uma figura parada. Era a única cama do quarto devido ao proeminente letreiro ”ISOLAMENTO” pendurado lá fora no corredor. O frasco de soro no suporte ao lado da cama pingava o seu conteúdo - dextrose, soro fisiológico, vitaminas do complexo B - para dentro de Mary Rowe através de uma agulha enfiada numa veia do antebraço. Lá fora estava já escuro; de quando em quando, ouvia-se o ribombar de uma tempestade e chovia abundantemente. Uma noite miserável. E a última noite de vida desta jovem esposa e mãe que apenas uma semana antes estivera sadia e activa. Bolas! Era injusto.

 

Hoje era sexta-feira. Na última segunda-feira, Mary Rowe, pequena e bonita, embora obviamente doente, aparecera no consultório de Andrew. Queixava-se de se sentir doente, fraca e não ter apetite. A sua temperatura era de trinta e oito graus.

 

Quatro dias antes, contara-lhe a Sra. Rowe, tivera os mesmos sintomas mas acompanhados de vómitos, mas no dia seguinte sentira-se melhor e pensara que a doença, fosse qual fosse, estava a passar. Mas agora voltara. Sentia-se mal, pior ainda que antes.

 

Andrew inspeccionou o branco dos olhos de Mary Rowe; mostravam-se corados de amarelo. Existiam já áreas da pele com icterícia. Palpou o fígado, que estava aumentado de volume e doloroso. O interrogatório revelou que estivera no México com o marido, numas férias curtas, no mês anterior. Sim, tinham estado num hotel pequeno e velho porque era mais barato. Sim, comera alimentos locais e bebera água.

 

- Vou interná-la imediatamente no hospital - dissera-lhe Andrew. Precisamos de uns exames ao sangue para confirmar, mas tenho quase a certeza de que tem uma hepatite infecciosa.

 

Nessa altura, como Mary Rowe lhe parecera assustada, explicou-lhe que decerto consumira comida ou água contaminada no México e que a fonte de contaminação fora provavelmente alguém infectado que lidava com a comida. Era coisa que acontecia com frequência nos países onde as condições higiénicas eram más.

 

Quanto ao tratamento seria sobretudo de suporte com uma administração adequada de líquidos por via intravenosa. O restabelecimento completo dá-se em noventa e cinco por cento das pessoas, acrescentou Andrew, e demora três a quatro meses, embora Mary pudesse regressar a casa numa questão de dias.

 

- E os outros cinco por cento? - perguntara Mary com um sorriso pálido. Andrew rira-se e tranquilizara-a:

 

- Esqueça-se disso! É uma estatística de que não irá fazer parte. Aí é que ele errara.

 

Em vez de melhorar, o estado da saúde de Mary Rowe piorou. A bilirrubina no seu sangue subiu, subiu, indicando uma icterícia crescente que era óbvia pelo alarmante amarelo da sua pele. E, o que era ainda mais grave, os exames de quarta-feira revelaram níveis perigosos de amónia no sangue. Era a amónia, proveniente dos intestinos, que o fígado em deterioração não era já capaz de tratar.

 

Ontem o seu estado mental deteriorara-se. Estava confusa, desorientada, não sabia onde estava nem porquê, e não reconhecia já nem Andrew nem o marido. Fora então que Andrew avisara John Rowe de que a mulher estava gravemente doente.

 

A frustração de não ser capaz de fazer mais nada para ajudar a doente atormentou Andrew durante toda a quinta-feira e, nos intervalos entre os doentes do consultório, continuava a pensar no problema, mas sem qualquer resultado. Um obstáculo ao restabelecimento era aquela acumulação de amónia. Como eliminá-la? Sabia que, no presente estado da medicina, não existia forma de o fazer.

 

Finalmente, e injustamente achava ele agora, livrara-se da sua frustração fazendo explodir a sua fúria sobre o raio da delegada de propaganda médica que o fora visitar ao fim da tarde. Era um ”delegado”. Ou seria ”delegada”? Tanto fazia.

 

Nem sequer se recordava do seu nome ou do seu aspecto, excepto que usava óculos e era jovem, quase miúda, provavelmente inexperiente.

 

A delegada era da Felding-Roth Pharmaceuticals. Mais tarde Andrew procurou imaginar o que o levara a recebê-la quando a recepcionista lhe dissera que estava à espera na sala, mas fizera-o, pensando talvez que poderia aprender qualquer coisa, apesar de que, quando ela começara a falar do novo antibiótico lançado pela sua firma, os seus pensamentos vaguearam até ela lhe dizer ”Nem sequer me está a ouvir, doutor” e isso tornara-o furibundo.

 

- Talvez seja pelo facto de ter algo melhor em que pensar e você me esteja a fazer perder o meu tempo.

 

Foi rude e, habitualmente, não o teria sido. Mas a sua intensa preocupação relativamente a Mary Rowe associara-se a uma já velha aversão às firmas farmacêuticas e aos seus métodos de venda forçada. Claro que existiam algumas boas drogas produzidas pelas grandes companhias, mas o seu regatear, que incluía a bajulação dos médicos, era algo que Andrew considerava ofensivo. Encontrara isso pela primeira vez na escola médica onde os estudantes - futuros prescritores, como bem o sabiam as firmas farmacêuticas - eram tentados, cortejados e auxiliados pelos representantes das firmas. Tais representantes davam, entre outras coisas, estetoscópios e malas de médico que alguns estudantes aceitavam com satisfação. Andrew não era deste grupo. Embora o dinheiro fosse escasso, preferia manter a sua independência e comprar as suas coisas.

 

- Talvez me possa dizer, doutor - dissera-lhe na véspera a delegada da Felding-Roth -, o que é assim tão extraordinariamente importante.

 

Fora então que ele lhe dera forte, contando-lhe o que se passava com Mary Rowe, em estado crítico por causa da amónia, e acrescentando causticamente que gostaria de ver as companhias como a Felding-Roth, em vez de andarem por aí com um antibiótico ”eu-também-tenho-um” provavelmente nem melhor nem pior que dúzias de outros já existentes, a trabalhar numa droga que impedisse a produção excessiva de amónia...

 

Parara, já envergonhado da sua explosão, e teria até pedido desculpas se a delegada de propaganda, tendo reunido os seus papéis e amostras, não estivesse já a sair dizendo apenas:

 

- Boa tarde, senhor doutor.

 

Ontem tinha sido de mais e Andrew não estava sequer mais perto de ajudar a sua doente, Mary Rowe.

 

Hoje de manhã recebera uma chamada telefónica da enfermeira-chefe do piso, Ludlow.

 

- Doutor Jordan, estou preocupada com a sua doente, Rowe. Está a ficar comatosa, não responde a estímulos.

 

Andrew correu para o hospital. Um residente encontrava-se junto a Mary Rowe que, agora, estava num coma profundo. Embora procurando qualquer coisa que pudesse fazer, Andrew, mesmo antes de ali chegar, sabia que não eram possíveis quaisquer medidas heróicas. Nada mais lhes restava que manter os líquidos intravenosos a correr. Isso e esperança.

 

Agora, no fim do dia, tudo levava a crer que a esperança fora vã. A situação de Mary Rowe parecia irreversível.

 

Lutando para conter as lágrimas, John Rowe perguntou-lhe:

 

- Ela ainda vai ficar consciente, doutor? Mary saberá que eu estou aqui?

 

- Lamento - respondera Andrew. - Muito pouco provável.

 

- Mesmo assim fico aqui ao lado dela.

 

- Claro. As enfermeiras andarão sempre por perto e vou dar algumas instruções ao residente.

 

- Obrigado, doutor.

 

Ao sair do quarto, Andrew pensava: ”Obrigado porquê?” Sentiu necessidade de um café e dirigiu-se para onde sabia haver algum a ferver.

 

A sala dos médicos parecia uma caixa, escassamente mobilada com algumas cadeiras, uma prateleira para correspondência, uma televisão, uma pequena secretária e cacifos para os médicos. Mas tinha as vantagens de privacidade e café permanente. Mais ninguém lá estava quando Andrew chegou.

 

Serviu-se de café e deslizou para uma velha e muito gasta cadeira de braços. Não havia qualquer necessidade de continuar no hospital, mas, instintivamente, adiava a sua partida para o apartamento de solteiro - fora a mulher de Noah Townsend, Hilda, que lho arranjara -, que era confortável embora às vezes solitário.

 

O café estava quente. Enquanto o deixava arrefecer, Andrew deu uma vista de olhos pelo Newark Star-Ledger. Em evidência na primeira página estava uma reportagem sobre qualquer coisa chamada ”Sputnik” - um satélite terrestre, fosse isso o que fosse, recentemente enviado para o espaço pelos Russos entre fanfarras anunciando a ”alvorada da nova idade do espaço”. O presidente Eisenhower, de acordo com a notícia, devia estar prestes a ordenar uma aceleração do programa espacial americano e os cientistas americanos sentiam-se ”chocados e humilhados” pela liderança tecnológica russa. Andrew desejou que parte do choque transbordasse para a ciência médica. Apesar de se terem feito bons progressos nos doze anos transcorridos desde a Segunda Guerra Mundial, continuavam ainda a existir inúmeras lacunas deprimentes e questões sem respostas.

 

Descartando-se do jornal pegou num exemplar do Medicai Economias, uma revista que alternadamente o divertia e fascinava. Dizia-se que era a publicação que os médicos liam com maior avidez e que lhe davam mais atenção que ao prestigioso New England Journal of Medicine.

 

O Medicai Economics tinha uma função básica - ensinar aos médicos como ganhar o máximo dinheiro possível, e, uma vez ganho, como o investir ou gastar. Andrew começou a ler um artigo: ”Oito Maneiras de Minimizar os Impostos em Medicina Privada.” Achava que devia tentar perceber daqueles assuntos porque lidar com dinheiro, quando um médico acaba finalmente por ganhar algum após vários anos de carreira, era outra coisa que não ensinavam na escola médica. Desde que se associara ao consultório do Dr. Townsend, há cerca de ano e meio, sentia-se surpreendido pela quantidade de dinheiro que entrava todos os meses na sua conta bancária. Era uma experiência nova e nada desagradável. Embora não tivesse intenções de se deixar dominar pelo dinheiro, mesmo assim...

 

- Desculpe, doutor.

 

Uma voz de mulher. Andrew virou a cabeça.

 

- Fui ao seu consultório, doutor Jordan. Como não estava lá decidi procurado aqui no hospital.

 

”Raios!” Era a mesma delegada de propaganda médica que estivera ontem no consultório. Envergava uma gabardina, encharcada. O cabelo acastanhado tombava molhado e tinha os óculos embaciados. É o cúmulo da irritação - chatear ali!

 

- Julgo que não se apercebeu - disse ele - de que está numa sala privada. Além disso, não atendo vendedores...

 

- No hospital - interrompeu-o ela. - Sim, eu sei. Mas achei que isto era suficientemente importante. - Numa série de movimentos rápidos, pousou a pasta, tirou os óculos para os limpar e despiu a gabardina. - Lá fora está um tempo miserável. Fiquei ensopada só por atravessar o parque de estacionamento.

 

- O que é importante?

 

A delegada - mais uma vez ele reparou que era jovem, se calhar não tinha mais de vinte e quatro anos - atirou a gabardina para uma cadeira. Falou devagar e com clareza.

 

- Amónia, doutor. Ontem contou-me que tinha uma doente com hepatite a morrer intoxicada pela amónia. Disse que gostaria...

 

- Sei muito bem aquilo que disse.

 

A delegada olhou-o ao mesmo nível com uns olhos claros, verdes-acinzentados. Andrew sentiu ali uma personalidade forte. Não era aquilo que se dissesse bonita, pensou, embora tivesse um rosto agradável de queixo saliente; de cabelo seco e penteado teria provavelmente melhor aspecto. E, sem gabardina, não tinha nada má figura.

 

- Não duvido que o saiba, doutor, e tenho a certeza de que a sua memória é melhor que as suas maneiras. - Quando ele quis dizer qualquer coisa ela interrompeu-o com um gesto impaciente. - O que não lhe disse, não podia, ontem, foi que a minha casa, Felding-Roth, há quatro anos que trabalha numa droga para reduzir a produção de amónia pelas bactérias intestinais, uma droga que será útil em situações críticas como a da sua doente. Eu sabia disso mas desconhecia até onde tinha chegado o nosso pessoal da investigação.

 

- Fico satisfeito por saber que alguém está a tentar - comentou Andrew -, mas continuo sem ver...

 

- Verá se me ouvir. - A delegada afastou várias madeixas do cabelo molhado que lhe tinham tombado para a cara. - O que eles desenvolveram chama-se Lotromycin e tem sido usado com sucesso nos animais. Agora está pronta para ensaio humano. Consegui arranjar alguma Lotromycin. Trouxe-a comigo.

 

Andrew levantou-se da cadeira de braços:

 

- Estou a percebê-la, Miss... - Não conseguiu recordar-se do nome dela e, pela primeira vez, sentiu-se desconfortável.

 

- Não esperava que se lembrasse. - De novo a impaciência. - Sou Célia de Grey.

 

- Está a sugerir, Miss de Grey, que eu dê à minha doente uma droga desconhecida e experimental que só foi ensaiada em animais?

 

- Com qualquer droga tem de haver sempre um primeiro ser humano a usá-la.

 

- Se não se importa - disse Andrew -, prefiro não ser o médico pioneiro. A delegada ergueu cepticamente uma sobrancelha; a sua voz endureceu:

 

- Nem sequer quando a sua doente está a morrer e não há mais nada que possa fazer? Como é que está a sua doente, doutor? Aquela de que me falou.

 

- Pior do que ontem. - Hesitou. - Entrou em coma.

 

- Nesse caso está a morrer?

 

- Olhe - disse Andrew -, sei que tem boas intenções, Miss de Grey, e peço-lhe desculpa pela maneira como lhe falei quando chegou aqui. Mas de facto é tarde de mais. Tarde de mais para ensaiar novas drogas e, mesmo que eu o pretendesse fazer, tem alguma ideia dos processos, protocolos e tudo o mais que teríamos de passar?

 

- Sim - disse a delegada; os olhos dela estavam agora resplandecentes, fixando a atenção de Andrew, e Andrew teve a sensação que começava a gostar daquela franca e impetuosa rapariga-mulher. Ela prosseguiu: - Sim, sei exactamente que processos e protocolos são necessários. Na realidade desde que o deixei ontem que não fiz mais nada senão descobri-los. Isso e torcer o braço ao nosso director de investigação para que me desse alguma Lotromycin de que, até agora, pouca existe. Mas consegui, há três horas atrás no nosso laboratório, em Camden, e guiei até aqui sem parar no meio deste tempo horroroso.

 

- Estou muito grato - começou Andrew, mas a delegada abanou a cabeça com impaciência.

 

- Mais ainda, doutor Jordan, toda a papelada necessária está tratada. Para usar a droga só precisa de ter a autorização deste hospital e dos familiares mais próximos. Nada mais.

 

Ele apenas conseguiu ficar a olhar para ela e exclamou:

 

- Raios me partam!

 

- Estamos a perder tempo - disse Célia de Grey. Abrira a mala e tirava de lá papéis. - Por favor, leia isto primeiro. É uma descrição da Lotromycin que foi preparada para si pelo departamento de investigação da Felding-Roth. E isto é um memorando do nosso director médico. Instruções sobre a maneira de administrar a droga.

 

Andrew pegou nos dois papéis que pareciam ser os primeiros de muitos. Assim que começou a ler ficou imediatamente absorvido.

 

Passaram-se quase duas horas.

 

- Com a sua doente In extremis, Andrew, que tem a perder? - A voz no telefone era de Noah Townsend. Andrew localizara o chefe do Serviço de Medicina num jantar particular e descrevera-lhe a oferta da droga experimental, Lotromycin. Townsend continuou: - Disseste que o marido já deu autorização?

 

- Sim, por escrito. Apanhei o administrador em casa. Veio para o hospital e mandou dactilografar o documento. Está assinado e confirmado por testemunhas.

 

Antes da assinatura, Andrew falou com John Rowe no corredor do lado de fora do quarto da mulher e o jovem marido reagiu favoravelmente. Tão favoravelmente, de facto, que Andrew o avisou para não ter grandes esperanças nem esperar de mais. A assinatura no impresso ficou tremida por causa da mão agitada de John Rowe. Mas estava lá e era legal.

 

Agora Andrew contava a Noah Townsend:

 

- O administrador está satisfeito e considera em ordem os outros papéis mandados pela Felding-Roth. Parece que tudo foi facilitado pelo facto da droga não atravessar uma fronteira entre estados.

 

- Não te esqueças de escrever todos esses detalhes no processo da doente.

 

- Já o fiz.

 

- Então, nesse caso, só te falta a minha autorização?

 

- Para o hospital. Sim.

 

- Dou-ta - disse o Dr. Townsend. - Não que tenha grandes esperanças, Andrew. Penso que a tua doente está longe de mais, mas façamos mais uma tentativa. Agora importas-te que eu regresse a um delicioso faisão assado?

 

Assim que pousou o telefone na sala de enfermagem de onde fizera a chamada, Andrew perguntou:

 

- Tudo pronto?

 

A enfermeira encarregada do turno da noite, uma enfermeira mais antiga que trabalhava em part time, preparara um tabuleiro com uma seringa. Abriu um frigorífico e juntou um recipiente contendo a droga trazida pela delegada da Felding-Roth.

 

- Sim, está.

 

- Então, vamos a isso.

 

O mesmo residente que estivera toda a manhã junto de Mary Rowe, o Dr. Overton, continuava à sua cabeceira quando Andrew e a enfermeira lá chegaram. John Rowe vagueava atrás de todos.

 

Andrew explicou a Lotromycin ao residente, um robusto e extrovertido texano, que arrastou as palavras:

 

- Está à espera de um milagre?

 

- Não - disse secamente Andrew. Virou-se para o marido de Mary Rowe: Quero salientar mais uma vez, John, que isto é um tiro comprido, muito comprido. Só que as circunstâncias...

 

- Eu compreendo - anuiu numa voz baixa, carregada de emoção.

 

A enfermeira preparou Mary Rowe, inconsciente, para uma injecção, que seria intramuscular, nas nádegas, enquanto Andrew dizia ao residente:

 

- A companhia diz que a dose deve repetir-se de quatro em quatro horas. Deixei uma ordem escrita mas gostaria de...

 

- Estarei aqui, chefe. Tudo certo: de quatro em quatro horas. - O residente baixou a voz. - E que me diz a uma aposta? Até lhe dou uma vantagem sobre...

 

Andrew silenciou-o com um olhar penetrante. O texano estava há um ano no programa de estágio do hospital e, nesse período, provara a sua competência como médico, mas tinha uma notória falta de sensibilidade.

 

A enfermeira terminou a injecção e controlou o pulso e a pressão arterial da doente. Fez o seu relatório:

 

- Nenhuma reacção, doutor. Sem alterações nos sinais vitais.

 

Andrew abanou a cabeça, aliviado desse momento. Não esperava qualquer efeito positivo, mas uma reacção adversa fora uma possibilidade, em particular com uma droga experimental. Não obstante, continuava a duvidar que Mary Rowe sobrevivesse até de manhã.

 

- Telefonem-me se piorar - ordenou. Depois, com um tranquilo ”Boa noite, John” dirigido ao marido de Mary, saiu.

 

Só quando chegou ao apartamento é que se lembrou que nada dissera à delegada da Felding-Roth que deixara na sala dos médicos. Desta vez recordava-se do seu nome - De Grey. E Cindy? Não, era Célia. Esteve para telefonar, mas decerto que nesta altura já ela sabia do que se passara. Falaria com ela amanhã.

 

Normalmente, nas manhãs de sábado, Andrew via doentes no consultório desde as dez horas da manhã e chegava ao hospital por volta do meio-dia. Mas inverteu a ordem e, às nove horas, estava em St. Bede.

 

A tempestade e a chuva da noite passada tinham sido substituídas por uma manhã fresca e clara, fria, mas ensolarada.

 

Andrew subia as escadas da frente do hospital quando a porta principal se abriu com força e o Dr. Overton, o residente, pareceu lançar-se por ela fora. Overton parecia agitado. Apresentava o cabelo desalinhado como se tivesse saído apressadamente da cama e nem se tivesse lembrado de o pentear. Estava sem fôlego. Arrebatou Andrew por um braço.

 

- Tentei telefonar-lhe para o seu apartamento. Já tinha saído. O porteiro disse-me que vinha já a caminho. Queria ser o primeiro a vê-lo.

 

Andrew fê-lo largar o braço:

 

- Que é isto?

 

O residente engoliu em seco:

 

- Deixe lá. Entre.

 

Overton, apressado, avançou à frente de Andrew por um corredor até um elevador. Recusou-se a falar ou mesmo a olhar para Andrew enquanto subiam até ao quarto piso. O residente saiu apressado do elevador com Andrew atrás dele.

 

Pararam à porta do quarto onde, na noite anterior, Andrew deixara Mary Rowe inconsciente, John, a enfermeira e o residente.

 

- Entre! - Overton fez um gesto de impaciência. - Entre! Andrew entrou e estacou, espantado.

 

Atrás dele o residente disse:

 

- Devia ter aceite a minha aposta, doutor Jordan. - E acrescentou: - Se não tivesse visto não acreditava.

 

- Não tenho a certeza de estar a acreditar - comentou baixinho Andrew. Mary Rowe, perfeitamente consciente, apoiada numa almofada e com uma camisa de noite azul rendilhada, sorria-lhe. Embora fosse um sorriso fraco, e fosse nítido que Mary Rowe estava igual, o seu estado contrastava de tal modo com o coma profundo da véspera que parecia um milagre. Estivera a beber uns golinhos de água; o copo de plástico estava ainda nas suas mãos. O tom amarelo da pele, que na véspera estivera carregado, estava notoriamente mais claro. Quando Andrew se aproximou, o marido levantou-se com um sorriso aberto e mãos estendidas.

 

- Obrigado, doutor! Oh, muito obrigado! - E a maçã-de-adão de John Rowe subia e descia a toda a velocidade quando Andrew lhe pegou nas mãos.

 

Da cama, Mary Rowe acrescentou um suave, mas fervente:

 

- Deus o abençoe, doutor!

 

Era a vez do residente. Overton agitou a mão de Andrew:

 

- Parabéns! - E acrescentou, incaracteristicamente: - Senhor! - Andrew ficou surpreendido por ver lágrimas a quererem escapar-se dos olhos ríspidos do texano.

 

A enfermeira-chefe do piso, a Sr.a Ludlow, apressou-se a entrar. Normalmente preocupada e séria, estava radiante.

 

- Já todo o hospital sabe, doutor Jordan. Toda a gente fala de si.

 

- Escutem - disse Andrew -, é uma droga experimental. Lotromycin. Trouxeram-ma. Eu não...

 

- Por estas bandas - disse a enfermeira -, é um herói. Se fosse a si não fugia a isso.

 

- Pedi uma análise ao sangue, chefe - informou o residente. - Mostrou que a amónia está abaixo do nível tóxico. Além disso, a bilirrubina não está a subir pelo que o resto da cura será mera rotina. - E acrescentou consigo próprio: Incrível!

 

Andrew falou com a sua doente:

 

- Estou contente por si, Mary. - Ocorreu-lhe um pensamento. - Alguém viu a moça da Felding-Roth? Miss de Grey?

 

- Manhã cedo já por cá andava - informou a enfermeira Ludlow. - Deve estar na sala de enfermagem.

 

- Com licença - pediu Andrew saindo do quarto.

 

Célia de Grey esperava-o no corredor. Mudara de roupa. Um sorriso suave pairava no seu rosto.

 

Enquanto se olhavam, Andrew ficou consciente de um constrangimento entre os dois.

 

- Fica com muito melhor aspecto com o cabelo seco - disse.

 

- E você não está tão severo e rude como ontem. Houve uma pausa até ele perguntar:

 

- Já ouviu as novas?

 

- Já.

 

- Ali... - Andrew apontou para o quarto do hospital. - Ali têm estado a agradecer-me. Mas só a si devem agradecer.

 

- Você é o médico - retorquiu ela, com um sorriso.

 

Então, de repente, caídas todas as barreiras, estavam a rir e a chorar juntos. Um momento depois, para surpresa dele’, pegou-a nos braços e beijou-a.

 

Em redor de um café e de um bolo compartilhados no bar do hospital, Célia de Grey tirou os óculos e disse:

 

- Telefonei ao director médico da nossa companhia e contei-lhe o que acontecera. Ele falou com gente da investigação. Estão felicíssimos!

 

- Têm o direito de o estar - afirmou Andrew. - Criaram uma boa droga.

 

- Pediram-me também para lhe perguntar se se importava de escrever uma comunicação sobre o caso, incluindo o uso da Lotromycin, para ser publicada numa revista médica?

 

- Com prazer - respondeu ele.

 

- Claro que será benéfico para a Felding-Roth. - O tom da delegada de propaganda era profissional. - Pois esperamos que a Lotromycin venha a ser uma droga importante e com grandes vendas. Mas não lhe trará a si quaisquer prejuízos.

 

- Provavelmente não - assentiu Andrew com um sorriso.

 

Saboreava, pensativo, o café. Sabia que por um mero acaso, uma casualidade engendrada pelo que ele agora via ser uma notável e deliciosa jovem sentada na sua frente, participara num episódio da história médica. Poucos eram os médicos que tinham uma tal oportunidade.

 

- Bem - disse Andrew -, há uma coisa que te quero dizer. Ontem, Célia, disseste-me que tenho maus modos e tinhas razão. Fui rude contigo. Peço-te desculpa.

 

- Não é preciso - respondeu ela com vivacidade. - Gostei de ti assim. Estavas preocupado com uma doente e nada mais te interessava. Via-se a tua preocupação. Mas és sempre assim.

 

O comentário surpreendeu-o.

 

- Como sabes isso?

 

- Porque houve gente que mo disse. - De novo aquele sorriso vivo e caloroso. Pusera outra vez os óculos; tirá-los e pô-los parecia ser hábito seu. Célia continuou: - Sei muitas coisas acerca de ti, Andrew Jordan. Por um lado, porque o meu negócio é conhecer os médicos, por outro... bem, mais tarde falarei disso.

 

Esta moça incomum, pensou ele, tem imensas facetas.

 

- Afinal o que sabes? - perguntou-lhe.

 

- Bem, por um lado, eras o primeiro no teu curso médico no Johns Hopkins, por outro, foste interno e residente no Massachusetts General. Sei que só os melhores lá entram. Depois o doutor Townsend escolheu-te entre cinquenta candidatos e meteu-te no seu consultório porque sabia que eras bom. Queres mais?

 

- Há mais? - perguntou ele rindo alto.

 

- Apenas que és um homem simpático, Andrew. Toda a gente o diz. Claro que descobri algumas coisas negativas a teu respeito.

 

- Sinto-me chocado - disse ele. - Estás a sugerir que, no fim de contas, não sou perfeito?

 

- Tens alguns pontos negros - afirmou Célia. - Por exemplo, as companhias de medicamentos. Tens muitos preconceitos contra nós. Oh, concordo que nalguns aspectos...

 

- Alto aí! - Andrew levantou uma mão. - Admito o preconceito, mas também te digo que esta manhã me sinto com vontade para mudar de opinião.

 

- Isso é bom, mas não mudes por completo. - O tom profissional de Célia regressara. - Há montes de coisas boas na nossa indústria e acabaste de ver uma delas. Mas existem também coisas menos boas, algumas das quais não gosto e que espero alterar.

 

- Tu esperas alterar? - Ele ergueu o sobrolho. - Pessoalmente?

 

- Sei em que estás a pensar. Que eu sou uma mulher.

 

- Uma vez que mencionaste tal, é verdade, já reparei. Mas Célia disse com ar sério:

 

- Está a chegar o tempo, na verdade já chegou, em que as mulheres farão muitas coisas que até agora não fizeram.

 

- Neste momento sinto-me pronto a acreditar nisso, sobretudo no que te diz respeito. - E Andrew acrescentou: - Disseste que tinhas algo mais para me dizer, mas que o farias mais tarde.

 

Pela primeira vez Célia de Grey hesitou.

 

- Sim, tenho mesmo. - Os seus penetrantes olhos cinzento-esverdeados olharam directamente para os de Andrew. - Ia esperar até outro encontro mas posso-te dizer já. Resolvi casar contigo.

 

”Que rapariga extraordinária!” Tão cheia de vida e de carácter, para não falar de surpresas. Ele nunca encontrara ninguém assim. Andrew começou a rir mas, de repente, parou.

 

Um mês mais tarde, na presença de alguns amigos e parentes mais próximos, o dr. Andrew Jordan e Célia de Grey casaram-se numa discreta cerimónia civil.

 

No segundo dia da sua lua-de-mel Célia disse a Andrew:

 

- O nosso casamento vai ser feliz. Vamos fazer com que resulte.

 

- Se queres a minha opinião... - Andrew rolou na toalha de praia, que compartilhavam, conseguindo ao mesmo tempo beijar a nuca da sua mulher. - Se queres a minha opinião, já está a resultar.

 

Estavam na ilha de Eleuthera, nas Baamas. Sobre eles brilhava um quente sol matinal e viam-se alguns tufos de nuvens. Uma praia de areia branca, de que eram eles os únicos ocupantes, parecia alargar-se até ao infinito. Uma brisa costeira agitava as copas das palmeiras e, logo à frente, provocava uma ondulação no mar calmo e translúcido.

 

- Se te referes a sexo - disse Célia -, não somos nada maus juntos, pois não?

 

Andrew levantou-se apoiado num cotovelo:

 

- Nada maus? Somos dinamite! Onde raio aprendeste...? - Parou. - Não, não me digas.

 

- Podia fazer-te a mesma pergunta - brincou ela. A sua mão deu uma pancada na coxa dele e a sua língua correu ao de leve o perfil da boca dele.

 

Ele encostou-se a ela e murmurou:

 

- Anda! Voltemos ao bangaló.

 

- E por que não aqui mesmo? Ou naquelas ervas altas ali adiante?

 

- E chocar os nativos?

 

Ela riu-se quando ele a puxou para se levantarem e correrem praia fora:

 

- És um púdico! Um púdico verdadeiro. Quem diria?

 

Andrew conduziu-a para o pitoresco bangaló de colmo para onde se tinham nudado na véspera e que seria deles nos dez dias seguintes.

 

- Não quero compartilhar-te com as formigas e os caranguejos e se isso me torna púdico, assim seja - disse ele despindo o calção de banho.

 

Mas Célia estava mais adiantada. Tirara o biquini e já estava deitada, nua, na cama, ainda a rir.

 

Uma hora depois, de novo na praia, Célia disse:

 

- Como estava a dizer, o nosso casamento...

 

- Será feliz - concluiu Andrew. - Concordo.

 

- E para que resulte ambos teremos de ser pessoas realizadas.

 

Andrew estava deitado de costas, satisfeito, de mãos entrelaçadas atrás da cabeça:

 

- Continuo a concordar.

 

- Sendo assim deveremos ter filhos.

 

- Se houver uma maneira de te poder ajudar nesse assunto é só dizeres que...

 

- Andrew! Por favor, fala a sério.

 

- Não consigo. Estou demasiadamente feliz.

 

- Então vou ser séria por nós os dois.

 

- Quantas crianças? - perguntou ele. - E quando?

 

- Já pensei nisso - disse Célia - e acho que devemos ter duas... a primeira o mais depressa possível e a segunda dois anos depois. Desta forma terei o meu trabalho de procriação realizado antes dos trinta anos.

 

- É bonito - comentou ele. - E, além disso, perfeito. Por uma questão de interesse, já tens alguns planos para a tua velhice... quero dizer, para depois dos trinta?

 

- Vou seguir uma carreira. Não to tinha dito?

 

- Não me lembro. Mas se bem te lembras, amor, a forma como saltámos para esta cambalhota do casamento não nos deixou muito tempo para discutir ou filosofar.

 

- Bem - explicou Célia -, mencionei a Sam Hawthorne o meu plano acerca das crianças. Ele acha que funcionará bem.

 

- Um bravo para o Sam!... Seja ele quem for. - Andrew franziu a testa. Espera. Não era aquele da Felding-Roth que estava no nosso casamento?

 

- Correcto. Sam Hawthorne é o meu patrão, o director regional de vendas. Estava com a mulher, Lilian.

 

- Já sei. Estou a recordar-me de tudo.

 

Andrew lembrava-se agora de Sam Hawthorne - um tipo alto e simpático, aí no meio da casa dos trinta, mas prematuramente careca, com umas feições escarpadas e fortes que fizeram lembrar a Andrew os rostos gravados no monte Rushmore1. A mulher de Hawthorne, Lilian, era uma morena espantosa.

 

Revivendo, mentalmente, os acontecimentos de há três dias atrás, Andrew comentou:

 

- Tens de dar um descontozinho ao facto de estar um tanto confundido nessa altura.

 

Uma razão para tal, recordava-se, era a visão de Célia, tal como ela lhe aparecera, de branco, com um véu curto, na sala de recepção do hotel local que tinham escolhido para o casamento. A cerimónia foi realizada por um juiz amigo que fazia parte do quadro do Hospital de St. Bede. Fora o Dr. Townsend quem escoltara Célia dando-lhe o braço.

 

Noah Townsend estava à altura da ocasião, o epítome de um médico de família maduro. Grisalho, digno, estava bastante parecido com o primeiro-ministro britânico, Harold Macmillan, que surgia com frequência nos noticiários suavizando as relações Estados Unidos-Inglaterra depois dos anos de discórdia sobre o canal de Suez.

 

A mãe de Célia, uma pequena e retraída viúva que morava em Filadélfia, estava presente no casamento. O pai de Célia morrera na Segunda Guerra Mundial; daí o papel de Townsend.

 

Sob o sol das Baamas Andrew fechou os olhos, em parte para se aliviar do brilho, mas sobretudo para recriar o momento em que Townsend entrara com Célia...

 

1 Referência à ”Galeria dos Presidentes” em monte Rushmore, National Park Memorial, Dacota do Sul. Esculturas gigantescas (l 927-1941) de quatro grandes estadistas americanos: George Washington, Thomas Jefferson, Theodore Roosevelt e Abraham Lincoln. (N. do E.)

 

No mês que decorrera desde que Célia, naquela manhã memorável no bar do hospital, anunciara a sua intenção de casar com ele, Andrew caíra no que ele pensava ser a sua fascinação mágica. Supunha que a palavra fosse amor, mas parecia algo mais e diferente - o abandono do celibato que Andrew sempre defendera e a total interligação de duas vidas e personalidades por meios que ao mesmo tempo o desconcertavam e deliciavam. Com alguém como Célia ninguém ficava quieto. Em momento algum ela era aborrecida. Continuava cheia de surpresas, conhecimento, intelecto, ideias, planos, todas jorrando daquela nascente que era a sua natureza voluntariosa, colorida, independente. Quase desde o princípio que sentira uma sensação de sorte como se, graças a uma máquina de jogo, tivesse ganho umjackpot, um prémio cobiçado por outros. E sentia que os outros desejavam Célia quando a apresentava aos colegas.

 

Na vida de Andrew tinham existido outras mulheres, mas nenhuma durara muito e nenhuma delas o levara a pensar a sério no casamento. O que tornava tudo mais espantoso é que desde o momento em que Célia - para pôr as coisas de forma convencional - lhe ”propusera casamento” ele não tivera a menor dúvida, hesitação ou inclinação para voltar atrás.

 

E, no entanto, foi só naquele incrível momento em que vira Célia com o seu vestido de noivado branco - radiante, deliciosa, jovem, desejável, tudo o que um homem podia ansiar numa mulher e mais ainda, muito mais - que, com um relâmpago que parecia uma bola de fogo explodindo dentro de si, Andrew ficou realmente apaixonado e soube, com uma certeza positiva que poucas vezes acontece na vida, que era incrivelmente afortunado, que o que estava a acontecer era para sempre e que, apesar do cinismo daqueles tempos, ele e Célia nunca conheceriam a separação e o divórcio.

 

Era essa palavra - ”divórcio” - disse Andrew consigo mesmo quando mais tarde pensou nisso, que o mantivera desligado numa época em que muitos dos seus contemporâneos se casavam pouco depois dos vinte anos. Claro que tinham sido os seus pais a fornecer tal ideia e a sua mãe, que representava (tal como Andrew a via) a divorciada non grata, estava no casamento. Voara de Los Angeles como uma borboleta envelhecida, anunciando a toda a gente disposta a ouvi-la que interrompera a partilha do seu quarto marido para estar presente ao ”primeiro casamento” do seu filho. O pai de Andrew fora o seu segundo marido e quando Andrew lhe perguntava coisas sobre ele, ela dizia-lhe apenas: ”Oh, meu querido filho, mal me lembro como ele era. Não o vejo há mais de vinte anos e, da última vez que ouvi falar dele, era um velho libertino que vivia com uma pega de dezassete anos em Paris.”

 

Ao longo dos anos Andrew tentara compreender a mãe e racionalizar o seu comportamento. No entanto chegava sempre à mesma conclusão triste: uma beleza de cabeça oca, superficial, egoísta, que atraía homens do mesmo tipo.

 

Convidara a mãe para o casamento - embora mais tarde se tivesse arrependido - por um sentido do dever e uma convicção de que se devia ter consideração por um parente natural. Enviara também uma carta comunicando o casamento para o último endereço conhecido do pai, mas não teve resposta e Andrew duvidava de algum dia a ter. Mais ou menos de três em três anos ele e o pai conseguiam trocar cartões de Natal e nada mais.

 

Andrew fora o único filho do breve casamento dos pais e o único outro membro da família a quem teria gostado de apresentar Célia morrera há dois anos. Fora uma tia solteirona com quem Andrew vivera quase toda a infância e que, embora não tivesse nada de seu, conseguira economizar - sem a ajuda de qualquer dos seus pais - o dinheiro suficiente para sustentar Andrew no colégio e na escola médica. Só depois da sua morte, quando os patéticos restos do seu património, valendo escassas centenas de dólares, foram expostos no escritório de um advogado, é que ele se apercebera como fora grande o sacrifício.

 

Mas no casamento Célia vencera com facilidade a mãe de Andrew. Avaliando a situação sem que fosse necessário explicar-lhe nada Célia fora cordial, até acolhedora, embora não falsamente efusiva. Mais tarde, quando Andrew exprimira pena pelo comportamento bizarro da mãe, Célia respondera-lhe: ”Casámos um com o outro, querido, não com as nossas famílias.” E depois acrescentara: ”Agora sou a tua família e vais receber de mim mais amor do que aquele que tiveste durante toda a tua vida.”

 

Hoje, na praia, Andrew começava a compreender que tal era verdade.

 

- O que gostaria de fazer, se concordares - disse Célia continuando a conversa -, é continuar a trabalhar durante a maior parte da minha primeira gravidez e depois tirar um ano para ser mãe a tempo inteiro. Em seguida voltarei ao trabalho até à segunda gravidez e assim por diante.

 

- Decerto que concordo - assentiu ele. - E nos intervalos entre ser amado e engravidar-te tenciono praticar um pouco de medicina.

 

- Vais praticar montes de medicina e serás um óptimo e carinhoso médico.

 

- Assim o espero - suspirou Andrew feliz e, minutos depois, adormeceu. Passaram os dias seguintes a descobrir coisas um sobre o outro que ainda não tinham tido tempo para descobrir.

 

Uma manhã, ao pequeno-almoço, que todos os dias era trazido ao bangaló por uma negra simpática e maternal chamada Remona, Célia disse:

 

- Adoro este lugar. A ilha, as pessoas, a tranquilidade. Estou contente por o teres escolhido, Andrew, e nunca o esquecerei.

 

- Também me sinto contente - afirmou ele.

 

A primeira sugestão de Andrew para a lua-de-mel fora o Havaí. Mas sentira uma relutância da parte de Célia e mudara para o que originalmente fora a segunda hipótese.

 

- Ainda não to tinha dito mas se tivéssemos escolhido o Havai ficaria triste revelou Célia.

 

Quando lhe perguntou porquê mais uma peça da geometria do passado deslizou para o seu lugar.

 

Em 7 de Dezembro de 1941, quando Célia tinha dez anos e estava em Filadélfia com a mãe, o seu pai, um oficial subalterno da Marinha dos Estados Unidos sargento-chefe Willis de Grey - estava no Havai a bordo do navio de guerra Arizona ancorado em Pearl Harbour. Durante o ataque japonês realizado nesse dia o Arizona foi afundado e perderam-se mil cento e dois marinheiros. A maior parte morreu nos conveses inferiores; os seus corpos nunca foram recuperados. Um era Willis de Grey.

 

- Oh, claro, recordo-me dele - disse Célia em resposta a uma pergunta de Andrew. - De facto estava fora, no mar, por longos períodos. Mas quando estava em terra de licença a casa andava sempre ruidosa, cheia de alegria. Quando estávamos à sua espera era excitante. Até mesmo a minha irmã pequenina, Janet, o sentia, embora não se recorde dele como eu.

 

- Como era ele? - perguntou Andrew. Célia pensou antes de responder.

 

- Grande, com um vozeirão, fazia as pessoas rir e adorava crianças. Além disso era forte, não apenas no aspecto físico, embora também o fosse, mas mentalmente. A minha mãe não é assim; provavelmente notaste isso. Confiava totalmente no meu pai. Até mesmo quando não estava em casa era ele que lhe dizia, nas cartas, o que devia fazer.

 

- E agora confia em ti?

 

- Resulta. Na realidade foi assim quase desde que o meu pai morreu. - Célia sorriu. - Claro, fui horrivelmente precoce. Se calhar ainda o sou.

 

- Um bocado - comentou Andrew. - Mas resolvi viver suportando isso. Mais tarde ele disse, com cuidado:

 

- Compreendo a razão por que não escolherias o Havai para a lua-de-mel. Mas já foste lá... a Pearl Harbour?

 

Célia negou com a cabeça.

 

- A minha mãe nunca quis ir, apesar de eu não saber porquê. Ainda não estou preparada. - Fez uma pausa antes de continuar. - Disseram-me que se consegue chegar ao local onde o Arizona se afundou e que olhando para o fundo se vê o navio, embora nunca tenham conseguido içá-lo. Podes pensar que é esquisito, Andrew, mas um dia gostaria de ir ao local onde o meu pai morreu, mas não sozinha. Adoraria levar os meus filhos.

 

Houve um silêncio até que Andrew respondeu:

 

- Não, não acho esquisito. E prometo-te uma coisa. Um dia, quando tivermos os nossos filhos e eles compreenderem, tratarei disso.

 

Noutro dia, num bote mal calafetado e batido pela tempestade, enquanto Andrew lutava atabalhoadamente com os remos, falaram sobre o trabalho de Célia.

 

- Sempre pensei - comentou ele - que os delegados dos laboratórios eram sempre, como dizer, delegados.

 

- Não te afastes muito da costa. Sinto que esta velharia se vai afundar - disse Célia. - Sim, tens razão, são quase exclusivamente homens embora existam algumas mulheres; algumas delas foram enfermeiras militares. Mas fui a primeira e, por enquanto, a única delegada na Felding-Roth.

 

- Um sucesso extraordinário. Como conseguiste?

 

- Tortuosamente.

 

Em 1952, recordou Célia, graduara-se no Penn State College com um bacharelato em Química. Financiara o seu curso por um lado com uma bolsa de estudos e por outro trabalhando à noite e nos fins-de-semana num drugstore.

 

- Essa época do drugstore, aviando receitas com uma mão e rolos para o cabelo ou desodorizantes com a outra, ensinou-me muita coisa que mais tarde me foi de grande utilidade. Oh, e às vezes até vendi na candonga.

 

Explicou-se.

 

Os homens, quase sempre novos, entravam na loja e ficavam pouco à vontade, procurando atrair a atenção do empregado masculino. Célia nunca falhava em reconhecer estas hesitações. Perguntava então: ”Em que posso servi-lo?” e a resposta era quase sempre ”Quando é que ele fica livre?” - ”Se quer preservativos”, retorquia Célia calmamente, ”temos uma grande variedade.” E tirava de baixo do balcão várias marcas empilhando as caixas no tampo. Os homens, de cara bem vermelha, faziam as suas compras e escapavam-se o mais depressa possível.

 

Ocasionalmente um engraçadinho qualquer perguntava a Célia se esta o ajudaria a experimentar o produto. Para isto tinha uma resposta pronta. ”Com certeza. Quando quiser. Acho que já estou livre da minha sífilis.” Embora alguns percebessem que era uma piada, o certo é que nenhum queria correr o risco porque nunca ninguém lhe perguntou segunda vez.

 

Andrew riu-se e parou de remar deixando o barco ir à deriva.

 

Armada com o bacharelato, explicou Célia, candidatou-se a um emprego na Felding-Roth Pharmaceuticals como química estagiária. Foi admitida e trabalhou dois anos nos laboratórios.

 

- Aprendi lá algumas coisas, sobretudo que, a menos que se seja um cientista dedicado, o trabalho num laboratório é monótono e repetitivo. O que me interessava eram as vendas e o marketing. Ainda me interessam. E é aí que são tomadas algumas das grandes decisões.

 

Mas mudar do trabalho de laboratório para as vendas revelou-se difícil. Célia tentou a via convencional: candidatou-se e foi rejeitada.

 

- Disseram-me que era política da companhia que as únicas mulheres empregadas nas vendas eram as secretárias.

 

Recusando-se a aceitar tal decisão planeou uma campanha.

 

- Descobri que a pessoa que teria de recomendar uma alteração dessa política, se tal acontecesse, era Sam Hawthorne... Conheceste-o no nosso casamento.

 

- O teu patrão, o maestro das vendas regionais - disse Andrew. - O tal que deu a sua aprovação para tu teres dois filhos.

 

- Sim... para que possa continuar a trabalhar. Bem, decidi que a única forma de influenciar Hawthorne era através da mulher dele. Era arriscado. Quase que não resultou.

 

A Sra. Lilian Hawthorne, descobriu Célia, era activista numa série de grupos feministas e assim, tudo o levava a crer, poderia simpatizar com as ambições de carreira de outra mulher. E foi assim, durante o dia, enquanto Sam Hawthorne estava na Felding-Roth, que Célia foi ver a sua mulher a casa dele.

 

- Nunca a tinha encontrado - contou Célia a Andrew. - Não marcara encontro. Limitei-me a tocar à campainha e entrar.

 

A recepção foi hostil. A Sra. Hawthorne, no princípio da terceira década e sete anos mais velha que Célia, era uma mulher forte e segura com um cabelo longo e negro que puxava para trás impacientemente enquanto Célia explicava o seu objectivo. No fim Lilian Hawthorne disse:

 

- Isto é ridículo. Nada tenho a ver com o trabalho do meu marido. E mais ainda: vai ficar furioso quando souber que você esteve aqui.

 

- Bem sei - concordou Célia. - É até provável que me custe o emprego.

 

- Devia ter pensado nisso antes.

 

- Oh, mas pensei, senhora Hawthorne. No entanto julguei que a senhora estivesse actualizada na sua forma de pensar e que acreditasse em tratamento igual para as mulheres e em que não devem ser penalizadas apenas por causa do seu sexo.

 

Por momentos pareceu que Lilian Hawthorne iria explodir. Atirou a Célia:

 

- Tem uma destas latas!

 

- Exactamente - retorquiu Célia. - É por isso que penso que darei uma boa delegada.

 

A outra mulher olhou-a, espantada, e depois desatou a rir.

 

- Santo Deus! - exclamou. - Acho que o merece. E um momento depois:

 

- Ia fazer café, Miss de Grey. Venha até à cozinha para conversarmos. Foi o início de uma amizade que duraria anos e anos.

 

- Mesmo assim - contou Célia a Andrew - foi preciso persuadir Sam. Mas entrevistou-me, e acho que gostou do que viu, e Lilian continuou a trabalhá-lo. Depois foi ele que teve de obter a aprovação dos seus patrões. No fim tudo acabou por dar bom resultado. - Ela olhou para a água no bote; dava-lhe pelos tornozelos. - Andrew, tinha razão! Esta coisa está a afundar-se.

 

Rindo saltaram para a água e nadaram para a praia rebocando o barco.

 

- Quando comecei a trabalhar nas vendas, como delegada - contou Célia a Andrew durante o jantar dessa noite -, compreendi que não devia ser tão boa como um homem no meu ofício. Tinha de ser melhor.

 

- Lembro-me de uma experiência recente - disse-lhe o marido - em que não foste apenas melhor que um homem, foste melhor que este médico.

 

Ela lançou-lhe um sorriso luminoso, retirou os óculos e, estendendo o braço, tocou-lhe na mão sobre a mesa.

 

- Aí tive sorte, e não foi só com a Lotromycin.

 

- Fartas-te de tirar os óculos - comentou Andrew. - Porquê?

 

- Sou míope e preciso deles. Mas sei que fico melhor sem óculos. Só por isso.

 

- Ficas melhor de qualquer maneira - disse ele. - Mas se os óculos te incomodam tens de pensar em lentes de contacto. Já muita gente as usa.

 

- Quando regressarmos vou ver o que se passa - prometeu Célia. - Já que estamos nisso, há mais qualquer coisa? Mais alterações?

 

- Gosto de tudo tal como está.

 

Para chegarem onde estavam tinham andado a pé uma milha desde o bangaló, mão na mão, por uma estrada serpenteante e cruamente pavimentada onde o trânsito era uma raridade. O ar da noite era quente e os únicos sons eram o sussurre dos insectos e as ondas batendo nos recifes. Agora, num pequeno e mal equipado café chamado ”Repouso dos Viajantes”, estavam a comer a habitual refeição local: garoupa frita, ervilhas e arroz.

 

Embora o Repouso dos Viajantes não se pudesse qualificar no Guia Michelin, servia comida saborosa para os esfomeados, o peixe era fresco e preparado numa velha frigideira num lume de lenha pelo hospedeiro, um homem magro e seco chamado Cleophas Moss. Sentara Célia e Andrew a uma mesa sobranceira ao mar. Entre eles havia uma vela espetada numa garrafa de cerveja. Mesmo em frente viam-se nuvens dispersas e uma Lua quase cheia.

 

- Em Nova Jérsia - lembrou Célia a Andrew - se calhar está frio e chove.

 

- Daqui a pouco lá estaremos. Conta-me mais coisas sobre ti e as vendas de drogas.

 

O seu primeiro posto como delegada, relatou Célia, foi no Nebrasca onde, até aí, a Felding-Roth não tivera qualquer representante das vendas.

 

- De certo modo foi bom para mim. Sabia exactamente onde estava porque partia do zero. Não havia qualquer organização, poucos registos existiam e não havia ninguém para me dizer com quem falar ou aonde.

 

- O teu amigo Sam fê-lo deliberadamente, como uma espécie de prova?

 

- Pode tê-lo feito. Nunca lho perguntei.

 

Em vez de perguntar, Célia dedicou-se ao trabalho. Em Omaha encontrou um pequeno apartamento e, a partir dessa base, percorreu todo o Estado, cidade a cidade. Em cada lugar arrancava a secção de ”Médicos Cirurgiões” das páginas amarelas da lista telefónica, dactilografava as fichas do arquivo e começava as visitas. Descobriu que existiam mil e quinhentos médicos no seu território; mais tarde decidiu concentrar-se nos duzentos que ela pensava serem os maiores prescritores de drogas.

 

- Estavas bem afastada de casa - disse Andrew. - Sentias-te só?

 

- Não tinha tempo para o sentir. Estava demasiado ocupada.

 

Uma das primeiras descobertas foi a de que era difícil ver os médicos.

 

- Perdia horas sentada em salas de espera. Depois, quando finalmente entrava, o médico podia dar-me apenas cinco minutos. Até que um médico em North Platte me mandou para fora do consultório, mas, ao mesmo tempo, me fez um grande favor.

 

- Como?

 

Célia provou a garoupa e comentou:

 

- Frita em gordura! Não devia comê-la mas está boa de mais para desperdiçar. - Pousou o garfo e recostou-se para trás, a recordar. - Era um interno como tu, Andrew. Aí na casa dos quarenta e acho que tinha tido um mau dia. Seja como for, mal tinha começado a minha conversa de vendedora quando me interrompeu. ”Jovem”, disse-me, ”está a tentar falar de medicina profissional comigo: permita que lhe diga uma coisa. Passei quatro anos na escola médica, outros cinco como interno e residente e pratico há mais de dez e, embora não saiba tudo, sei muito mais do que você. O que me está a tentar dizer, com os seus conhecimentos inadequados, posso ler em vinte segundos numa página de anúncio de qualquer revista médica. Por’isso, saia!”

 

- Cruel - comentou Andrew com uma careta.

 

- Mas bom para mim - disse Célia -, apesar de ter saído sentindo-me de rastos. Porque ele tinha razão.

 

- Mas o laboratório não te deu qualquer treino?

 

- Oh, uma coisinha. Mas curta e superficial, uma simples série de truques de vendas. A minha base de química ajudava, mas pouco. Pura e simplesmente não estava habilitada para falar com médicos ocupados e altamente qualificados.

 

- Já que mencionas o facto - disse Andrew -, essa é uma das razões pela qual alguns médicos não recebem delegados de propaganda médica. Além de terem de ouvir um discurso de vendas enlatado estão sujeitos ainda a receber informações incorrectas que podem ser perigosas. Alguns delegados dizem-te tudo, até te enganam, só para que prescrevas o seu produto.

 

- Querido Andrew, quero que faças uma coisa para mim acerca disso. Dir-te-ei mais tarde.

 

- Está bem. Se puder fazê-lo. E o que aconteceu após North Platte?

 

- Compreendi duas coisas. Primeiro, tinha de deixar de pensar como um vendedor e não fazer qualquer tipo de venda forçada. Segundo, apesar dos médicos saberem mais do que eu, precisava de encontrar coisas específicas sobre drogas que eles não soubessem e que os pudesse ajudar. Desta forma tornar-me-ia útil. Incidentalmente, ao tentar fazer tudo isso, descobri algo mais. Os médicos aprendem imenso sobre a doença, mas não estão bem informados sobre as drogas.

 

- Verdade - concordou Andrew. - O que nos ensinam na escola médica sobre as drogas não vale um caracol e, no trabalho, já é difícil acompanhar os progressos médicos quanto mais os das drogas. Assim, no que respeita à prescrição, é às vezes uma questão de tentativa e erro.

 

- Havia algo mais - disse Célia. - Percebi que devia dizer sempre a verdade exacta aos médicos, nunca exagerar nem esconder. E se me perguntassem sobre um produto de um concorrente que fosse melhor que o nosso, di-lo-ia.

 

- Como é que fizeste uma mudança tão radical?

 

- Durante uns bons tempos dormia quatro horas por noite.

 

Célia descreveu como, depois de um dia normal de trabalho, passava noites e fins-de-semana a ler todos os manuais de farmacologia a que conseguia deitar a mão. Estudava cada um deles com detalhe, tomando notas e memorizando. Se havia perguntas sem resposta procurava esta nas bibliotecas. Voltou à sede da Felding-Roth, em Nova Jérsia, e importunou os antigos colegas do sector científico para lhe dizerem mais coisas que as que vinham nos manuais, e a informarem das novas drogas em investigação e que em breve estariam disponíveis. Em pouco tempo as suas apresentações aos médicos melhoraram; alguns clínicos pediram-lhe que obtivesse certas informações específicas, e ela obtinha-as. Notou que estava a ter resultados. As encomendas de drogas da Felding-Roth no seu território aumentaram.

 

- Célia: és uma raridade. Única - comentou Andrew com admiração. Ela riu-se.

 

- Mas tu és suspeito, embora goste assim mesmo. O facto é que num ano a companhia triplicou os seus negócios no Nebrasca.

 

- Foi então que te fizeram regressar do trabalho de campo?

 

- Entregaram a alguém que era novo, um homem, o território do Nebrasca e a mim outro mais importante, em Nova Jérsia.

 

- Imagina - declarou Andrew - que se te tivessem enviado para outro lugar, como o Ilinóis ou a Califórnia, nunca nos teríamos encontrado.

 

- Não - disse ela com confiança -, ter-nos-íamos encontrado. De uma maneira ou de outra estávamos a isso destinados. ”Casamento é destino.”

 

Ele completou a citação:

 

- ”Assim como o enforcamento.” Riram ambos.

 

- Espantoso! - exclamou, deliciada, Célia. - Um médico sempre encafuado nos tratados e que sabe citar John Heywood!

 

- O mesmo Heywood, um escritor do século dezasseis, que também cantava e tocava para Henrique oitavo - rematou Andrew igualmente satisfeito.

 

Levantaram-se da mesa e o hospedeiro perguntou de junto do fogão incandescente:

 

- O peixe estava bom, jovens lua-de-mel? Passando hoje?

 

- Tudo muito bom - assegurou Célia. - O peixe e a lua-de-mel.

 

- Não existem segredos numa ilha pequena - exclamou Andrew, divertido.

 

Pagou a refeição com uma nota de dez xelins - uma soma modesta quando traduzida em dólares - e deixou o troco.

 

Lá fora, onde estava agora mais frio e a brisa do mar refrescara, deram os braços carinhosamente e caminharam pela estrada calma e serpenteante.

 

Era o último dia.

 

Como se quisesse compartilhar a tristeza da partida, o tempo nas Baamas tomara-se melancólico. Uma carapaça de cúmulos acompanhada de chuvadas matinais enquanto um forte vento do nordeste levantava carneiros brancos no mar e fazia as ondas bater com fúria na costa.

 

Andrew e Célia partiriam ao meio-dia nas Bahamas Airways de Rock Sound, com ligação em Nassau a um voo da Pan Am que os levaria a Nova Iorque nessa noite. Deviam estar em Morristown no dia seguinte onde, até que encontrassem uma casa adequada, o apartamento de Andrew na South Street seria o seu lar. Célia, que estivera a viver em salas mobiladas em Boonton, já de lá se mudara colocando algumas das suas coisas num armazém.

 

No bangaló da lua-de-mel, que deixariam em menos de uma hora, Célia fazia a mala, as suas roupas espalhadas sobre a cama dupla. Chamou por Andrew, que se estava a barbear na casa-de banho.

 

- Isto aqui tem sido maravilhoso. E é apenas o princípio. Ele respondeu através da porta aberta:

 

- Um princípio espectacular! Mesmo assim estou pronto para regressar ao trabalho.

 

- Sabes uma coisa, Andrew? Acho que tu e eu vamos progredir no trabalho. Temos isso em comum e somos ambos ambiciosos. Seremos sempre assim.

 

- Uhmm... - Ele saiu da casa de banho nu, enxugando a cara com uma toalha. - Nada nos impede de parar de trabalhar de vez em quando. Desde que haja uma boa razão.

 

Célia ainda começou a dizer ”Será que temos tempo?”, mas não acabou porque Andrew a estava a beijar. Momentos depois ele murmurou:

 

- Importas-te de desocupar essa cama?

 

Pondo uma mão para trás, sem olhar, e com o outro braço em torno de Andrew, Célia começou a atirar a roupa para o chão.

 

- Assim está melhor - disse ele quando se deitaram onde as roupas tinham estado. - É para isto que as camas foram feitas.

 

- Vamos chegar atrasados ao voo - protestou ela.

 

- Que interessa?

 

Pouco tempo depois Célia contemporizava:

 

- Tens razão. Que interessa? E mais tarde, ternamente:

 

- Eu interesso-me... E, por fim:

 

- Oh, Andrew, amo-te tanto!
Capítulo quarto

 

A bordo do voo 206 da Pan American para Nova Iorque havia exemplares da edição desse dia do New York Times. Folheando o jornal Célia observou:

 

- As coisas não mudaram muito na nossa ausência.

 

Um despacho de Moscovo citava Nikita Khruchtchev que desafiara os Estados Unidos para um ”jogo de lançamento de mísseis”. Uma futura guerra mundial, proclamava o líder soviético, seria combatida no continente americano e predizia ”a morte do capitalismo e o triunfo universal do comunismo”.

 

O presidente Eisenhower, por outro lado, assegurava aos Americanos que os gastos com a defesa dos Estados Unidos os manteria a passo com os desafios soviéticos.

 

E a investigação sobre o assassínio do patrão da Mafia, Albert Anastasia, morto a tiro quando sentado na cadeira do barbeiro do Park-Sheraton Hotel de Nova Iorque, prosseguia, mas até ao momento sem quaisquer resultados.

 

Andrew deu também uma vista de olhos pelo jornal mas pô-lo de lado.

 

A viagem a bordo do DC-7B a hélices duraria quatro horas e o jantar foi servido pouco depois de levantarem voo. Depois do jantar Andrew recordou à esposa:

 

- Disseste que havia qualquer coisa que gostavas que eu fizesse. Qualquer coisa sobre os delegados de propaganda médica.

 

- Sim, é verdade. - Célia Jordan sentou-se confortavelmente no assento e segurou a mão de Andrew. - Está relacionado com a conversa que tivemos no dia seguinte a teres usado a Lotromycin e a doente melhorar. Disseste-me que ias mudar a tua opinião sobre a indústria farmacêutica, seres mais favorável, e eu aconselhei-te a não mudar muito porque existem coisas erradas e que espero vir a alterar. Recordas-te?

 

- Como me poderia esquecer? - Riu-se ele. - Cada pormenor desse dia ficou gravado na minha alma.

 

- Óptimo! Deixa-me só fazer um apanhado geral.

 

Olhando de lado para a esposa, Andrew maravilhou-se na força e inteligência que estavam contidas numa embalagem tão pequena e atraente. Nos anos que se iriam seguir, reflectiu, precisava de se manter alerta e informado só para acompanhar Célia. Mas agora concentrou-se a ouvi-la.

 

A indústria farmacêutica de 1957, começou Célia, estava de certo modo ainda próxima das suas raízes, das suas origens.

 

- Começámos, e não foi assim há tanto tempo, vendendo banha da cobra em feiras, poções de fertilidade e uma pílula que curava tudo, desde dores de cabeça ao cancro. Os vendedores de tais coisas não ligavam àquilo que diziam ou prometiam. Tudo o que queriam era vender. Garantiriam qualquer resultado só para o fazerem.

 

Muitas vezes, prosseguiu Célia, tais pomadas e remédios populares eram comercializados por famílias. E foram algumas dessas famílias que abriram os primeiros drugstores. Mais tarde os seus descendentes continuaram a tradição familiar e construíram as firmas produtoras de drogas que, no decorrer dos anos, se tornaram grandes, científicas e respeitáveis. À medida que isto acontecia, os primitivos métodos de vendas mudaram e tornaram-se também mais respeitáveis.

 

- Mas, por vezes, não suficientemente respeitáveis. Uma razão para tal era a persistência do controlo familiar e a tradição da banha da cobra e da venda forçada continuava-lhes no sangue.

 

- Decerto - observou Andrew - que não existem muitas famílias que controlem as grandes firmas farmacêuticas.

 

- Não muitas, mas algumas das famílias originais controlam grandes quantidades de acções. Mas o que persistiu, mesmo com executivos pagos para dirigir as firmas, foi a fora de moda e nada ética venda forçada. Sucede com frequência quando certos delegados falam com os médicos acerca de novas drogas. Como sabes - continuou Célia -, alguns delegados, nem todos, mas ainda são muitos, dirão seja o que for, mentirão até, para conseguirem que os médicos prescrevam as drogas que vendem. E embora as firmas farmacêuticas que afirmam oficialmente que não apoiam tais métodos estão bem cientes de que existem.

 

Foram interrompidos pela hospedeira que anunciava a aterragem em Nova Iorque dentro de quarenta minutos, o bar encerraria dentro em pouco e entretanto não quereriam umas bebidas? Célia pediu a sua favorita, um daiquiri1, e Andrew quis uísque com soda.

 

Depois das bebidas servidas e de estarem de novo bem instalados, Andrew disse:

 

- Certo, já vi exemplos daquilo que me estás a dizer. Além disso conheço histórias de outros médicos sobre doentes que pioravam ou até morriam depois de tomar drogas devido a falsas informações dadas pelos delegados de propaganda e em que eles acreditavam. - Bebeu um gole do uísque antes de continuar. - E depois há a publicidade das firmas. Os médicos são inundados com ela mas a maior parte dos anúncios não dizem ao médico aquilo que deviam saber, principalmente sobre os efeitos colaterais das drogas, inclusive sobre os perigosos. A coisa é a seguinte: quando se está ocupado com doentes para ver e um monte de problemas na cabeça, é difícil de crer que alguém de uma firma farmacêutica, ou a própria firma, nos esteja deliberadamente a enganar.

 

- Mas acontece - disse Célia. - E depois é só varrer para debaixo do tapete e não se fala mais nisso. Eu sei: já tentei tocar no assunto na Felding-Roth.

 

- Qual é afinal o teu plano?

 

- Formar um registo. Um registo que ninguém possa refutar. Depois, quando chegar a altura, usá-lo-ei.

 

Começou a explicar.

 

- Já não serei eu a visitar-te, Andrew: uma questão de política da companhia. Será outra pessoa da Felding-Roth a lidar contigo e com o doutor Townsend. Mas sempre que um delegado ou delegada te visite, seja da nossa companhia seja de qualquer outra, e descubras que está a dar informações erradas, ou não avisa dos efeitos colaterais de uma droga ou qualquer outra coisa que deveria informar, quero que preenchas um relatório e mo dês. Já tenho outros médicos a fazerem o mesmo, médicos que confiam em mim, no Nebrasca e em Nova Jérsia, e o meu arquivo já tem um tamanho razoável.

 

Andrew assobiou baixinho.

 

- Estás a meter-te em algo bem grande. E com os seus riscos.

 

- Alguém tem de correr riscos para melhorar uma situação anómala. Não tenho medo.

 

1 Bebida de rum e limão. (W. do E.)

 

- Não - comentou ele -, não creio que alguma vez o tenhas.

 

- Vou-te dizer uma coisa, Andrew. Se as grandes firmas farmacêuticas não limpam elas mesmas a casa, e depressa, vai ser o Governo que o fará. Já surgiram rumores disto no Congresso. Se a indústria farmacêutica espera pelas sessões dos congressistas e pelas leis com duras restrições, vão depois desejar ter actuado primeiro por conta própria.

 

Andrew ficou silencioso, absorvendo o que aprendera agora e matutando noutros pensamentos. Por fim disse:

 

- Ainda não to perguntei, Célia, mas talvez seja agora a ocasião para aprender uma coisa acerca de ti.

 

Os olhos da esposa fixaram-se nele com uma expressão séria. Andrew escolheu cuidadosamente as palavras.

 

- Temos falado sobre seguir carreira, o que para mim está óptimo, e estou certo que sem ela não serias feliz. Mas tive a impressão, nestes dias em que estivemos juntos, que ambicionas algo mais de uma carreira do que aquilo que agora fazes: delegada de propaganda.

 

- Sim, quero. Vou subir até ao topo - disse Célia tranquilamente.

 

- Mesmo no topo? - Andrew estava espantado. - Falas em chefiar uma grande companhia?

 

- Se puder. E mesmo que não consiga ir até ao topo pretendo chegar suficientemente perto para ter uma influência e um poder bem reais.

 

- E é isso que queres? Poder? - perguntou ele, duvidoso.

 

- Sei em que estás a pensar, Andrew, que o poder é obsessivo e corrupto. Não tenciono cair em nenhum desses defeitos. Pretendo apenas uma vida cheia, com um casamento e filhos, mas também algo mais, uma realização sólida.

 

- Naquele dia no bar... - Andrew parou e corrigiu-se: - Naquele dia memorável disseste que era tempo de as mulheres fazerem coisas que até aí não tinham feito. Bem, também creio nisso; já está a suceder numa série de sítios, incluindo na medicina. Mas penso na tua indústria farmacêutica. É um negócio conservador e governado por homens, tu mesma o afirmaste.

 

- Horrivelmente assim - concordou Célia sorrindo.

 

- Mas já está pronto para alguém como tu? O motivo por que te pergunto, Célia, é que não quero ver-te ferida ou infeliz enquanto concentras todas as tuas forças num esforço que talvez não resulte.

 

- Não serei infeliz. Prometo-te. - Afagou o braço de Andrew. - Para mim é novidade ter alguém que se preocupa como tu, querido, e gosto disso. Quanto à tua pergunta, não, a indústria ainda não está preparada, nem para mim, nem para qualquer outra mulher com uma ambição forte. Mas tenho um plano.

 

- Já devia saber que tinhas planeado as coisas.

 

- Primeiro - revelou-lhe Célia -, tenciono ser tão boa no meu trabalho que a Felding-Roth descobrirá ser impossível não me promover.

 

- Aposto nisso. Mas disseste ”primeiro”. Não chega? Célia abanou a cabeça.

 

- Estudei outras companhias, as suas histórias, as pessoas que as administram, e descobri uma coisa. maior parte dos que estão no topo chegaram lá agarrando-se à casaca de outros. Oh, não me interpretes mal. Tiveram de trabalhar no duro e ser excelentes. Mas no início das suas carreiras seleccionaram um indivíduo, um pouco mais acima, em geral um pouco mais velho, que acharam estar a caminho do topo. Fizeram-se então úteis a essa pessoa, devotaram-lhe lealdade e seguiram atrás dele. O ponto é este: quando um executivo é promovido gosta de ter alguém a que esteja habituado, que seja competente e em quem possa confiar.

 

- Nesta altura - perguntou Andrew - já escolheste alguém para seguir?

 

- Decidi há já algum tempo - disse Célia. - É o Sam Hawthorne.

 

- Bem, bem! - O marido franziu o sobrolho. - De uma forma ou de outra o Sam parece ter um grande papel nas nossas vidas.

 

- Só em questões de negócio. Não precisas de ficar com ciúmes.

 

- Tudo bem. Mas o Sam sabe dessa tua decisão. De que te agarraste à sua estrela?

 

- Claro que não. Mas Lilian Hawthorne sabe. Discutimos isso confidencialmente e ela concorda.

 

- Está cá a parecer-me - disse Andrew - que há uma conspiração feminina em curso.

 

- E por que não há-de estar? - Por um momento brilhou o aço interior de Célia. - Chegará o dia em que isso não será necessário. Mas neste momento o mundo dos negócios é como um clube privado só para homens. Uma mulher tem de lançar mão a tudo o que puder para se tornar sócio e avançar.

 

Andrew ficou silencioso, meditando, depois disse:

 

- Até hoje não tinha pensado muito nesse assunto; acho que poucos homens pensaram. Mas o que dizes faz sentido. Por isso, Célia, tudo bem: enquanto tu abres o teu caminho até ao topo, e acredito que o consigas, estarei a teu lado, sempre.

 

A esposa inclinou-se no assento para o beijar.

 

- Sempre soube isso. Foi uma das razões por que casei contigo. Sentiram os motores do avião abrandarem e acendeu-se o sinal de ”Apertar os

 

cintos”. Pelas janelas viam-se as luzes de Manhattan no crepúsculo do entardecer. ”Dentro de poucos minutos”, anunciou uma hospedeira, ”aterraremos no Aeroporto Internacional de Idlewild.”

 

Mais uma vez Célia segurou a mão de Andrew.

 

- E começaremos a nossa vida juntos - disse ela. - Como poderíamos falhar?

 

Capítulo quinto

 

Ao regressarem aos seus respectivos trabalhos, Andrew e Célia descobriram que, de maneiras diferentes, ambos tinham alcançado um status de celebridade.

 

Como muitos outros progressos médicos importantes, as notícias sobre a bem sucedida utilização da Lotromycin por Andrew demoraram certo tempo a circular, mas agora, umas seis semanas depois da cura de Mary Rowe, atingira a imprensa nacional.

 

O pequeno Daily Record de Morristown fora o primeiro a publicar a história sob o título: ”Médico Local Usa Droga Maravilhosa - Cura ’Milagrosa’ da Doente.”

 

QNewark Star-Ledger, que esquadrinhava os jornais locais, repetiu o artigo que, por sua vez, chamou a atenção dos escritores científicos ao New York Times e da Time. Quando Andrew regressou havia mensagens telefónicas pedindo-lhe que ligasse para as duas publicações, o que fez. Mais publicidade resultou ainda do facto da Time, com maior inclinação romântica, ter referido no seu artigo o casamento de Andrew e Célia.

 

Na mesma altura oNew England Journal of Medicine informou de que, sujeito a certas revisões, o seu artigo sobre a Lotromycin seria publicado a seu devido tempo. As revisões sugeridas eram mínimas pelo que Andrew concordou logo com elas.

 

- Não me importo de admitir que estou consumido de inveja - comentou o Dr. Noah Townsend quando Andrew lhe falou doNew England Journal. E depois acrescentou: - Mas consolo-me com o impulso que a coisa tem vindo a dar ao nosso consultório.

 

Mais tarde, a mulher de Townsend, Hilda, atractiva nos princípios da casa dos cinquenta, confidenciou a Andrew:

 

- O Noah nunca te dirá isto mas está tão orgulhoso que te considera um filho. O filho que gostaríamos de ter tido e nunca tivemos.

 

Célia, embora recebendo menos publicidade pessoal, descobriu que o seu status na Felding-Roth mudara de maneiras não muito subtis.

 

Antes fora um anacronismo, para alguns uma fonte de curiosidade e divertimento - a única delegada da firma, apesar do inicial e inesperado sucesso no Nebrasca, ainda tinha de dar provas a longo prazo. Agora já não. O seu trabalho com aLotromycin, e a contínua publicidade que deliciava a Felding-Roth, pusera a droga e Célia na estrada do sucesso.

 

Dentro da companhia o seu nome era agora bem conhecido dos executivos do topo, incluindo o presidente da Felding-Roth, Eli Camperdown, que a chamou um dia depois do seu regresso ao trabalho.

 

Camperdown, um delgado e cadavérico veterano da indústria aí na casa dos sessenta, que se vestia sempre de forma impecável e nunca fora visto sem uma rosa vermelha na lapela, recebeu Célia no seu escritório de luxo no décimo primeiro piso - zona dos executivos - do edifício da Felding-Roth em Boonton. Começou pelas amabilidades.

 

- Os meus parabéns pelo seu casamento, senhora Jordan. Desejo que seja feliz. - Acrescentou com um sorriso. - Confio também que, daqui em diante, o seu marido só receite produtos Felding-Roth.

 

Célia agradeceu e decidiu que o comentário sobre Andrew era meramente ritual, pelo que o deixou passar sem frisar a independência do seu marido no que respeitava a medicina e drogas.

 

- Tornou-se uma espécie de lenda, minha cara amiga - prosseguiu o presidente. - A prova viva de que uma mulher excepcional pode, ocasionalmente, ser tão boa como um homem.

 

- Gostaria, sir - disse Célia calmamente -, que um dia não necessitasse de dizer esse ”ocasionalmente”. Creio que irá ver mais mulheres neste negócio e que algumas poderão ser melhores que os homens.

 

Por uns instantes Camperdown pareceu chocado e franziu a testa. Mas disse, recuperando a sua genialidade:

 

- Acho que já sucederam coisas mais estranhas. Veremos. Veremos.

 

Continuaram a conversar com Camperdown inquirindo sobre as experiências de Célia com a comercialização. Parecia impressionado pelas suas respostas informadas e directas. Depois, puxando do bolso do colete um relógio, o presidente olhou-o e anunciou:

 

- Vou ter aqui uma reunião, senhora Jordan. A respeito de uma nova droga que tencionamos comercializar depois da Lotromycin. Talvez não se importe de ficar.

 

Quando ela concordou em ficar, o presidente chamou meia dúzia de membros masculinos do pessoal que tinham estado à espera no gabinete da secretária. Depois das apresentações dirigiram-se para a área de conferências e sentaram-se a uma mesa redonda com Camperdown à cabeceira.

 

Os recém-chegados incluíam o director da pesquisa, Dr. Vincent Lord, um cientista jovem recentemente recrutado; um velho vice-presidente de vendas que em breve se reformaria; e outros quatro, entre os quais Sam Hawthorne. À excepção de Sam - o único que Célia já conhecia - todos os outros a olharam com franca curiosidade.

 

A nova droga em análise, explicou Camperdown em benefício de Célia, não era um produto desenvolvido pela Felding-Roth, mas fora obtida por uma licença de um grupo da Alemanha Ocidental, Chemie-Grunenthal.

 

- É um sedativo, um dos mais seguros até hoje descobertos - declarou o presidente - e produz um sono normal e refrescante sem a desagradável sonolência matinal.

 

O produto não tinha efeitos colaterais significativos, continuou ele, e era tão seguro que se podia administrar a crianças pequenas. O sedativo estava já à venda, e era popular, em quase todos os grandes países excepto os Estados Unidos. Felding-Roth era afortunada por ter os direitos americanos.

 

O nome da droga, acrescentou Camperdown, era Thalidomide.

 

Apesar do provado registo de segurança da Thalidomide eram necessários ensaios da droga em seres humanos nos Estados Unidos antes da sua venda ser aprovada pela Food and Drug Administration.

 

- Nestas circunstâncias, com todos os dados estrangeiros de primeira resmungou Camperdown -, é uma estúpida exigência burocrática, mas temos de viver com ela.

 

Seguiu-se uma discussão sobre aonde e como se realizariam os ensaios da droga nos Estados Unidos. O director da investigação, o Dr. Lord, era a favor do recrutamento de, mais ou menos, cinquenta médicos com clínica privada que dariam a droga aos seus doentes e fariam um relatório dos resultados, relatório esse que a Felding-Roth submeteria ao FDA.

 

- Seria uma mistura de clínicos gerais, internos, psiquiatras e obstetras declarou.

 

- E quanto tempo levaria essa barafunda? - perguntou o vice-presidente de vendas.

 

- Talvez três meses.

 

- Não podem ser dois? Precisamos deste produto no mercado.

 

- Acho que pode ser.

 

Mas alguém exprimiu a sua preocupação pelo ensaio ser tão espalhado. Não seria mais simples e rápido num ambiente concentrado tal como o de um hospital? Depois de vários minutos de discussão Camperdown interveio com um sorriso.

 

- Talvez a nossa jovem convidada tenha algumas ideias sobre o assunto.

 

- Sim, de facto tenho - disse Célia. Todas as cabeças se viraram para ela.

 

Falou com cuidado, consciente de que a sua presença era pouco habitual, privilegiada até; seria loucura estragar a oportunidade por parecer demasiado segura ou imprudente.

 

- Uma coisa que pode ser preocupante - afirmou Célia - é a sugestão de que os obstetras prescrevam a droga. Tal significa que será tomada por mulheres grávidas e normalmente aconselha-se que a gravidez não seja uma altura para fazer quaisquer experiências.

 

O Dr. Lord interrompeu peremptório:

 

- Isso não se aplica neste caso. A Thalidomide tem sido largamente utilizada na Europa e noutros lados e entre os que a tomaram incluíam-se mulheres grávidas.

 

- Tanto faz - resolveu Sam Hawthorne em voz tranquila. - A senhora Jordan marcou um ponto.

 

- Uma questão a levantar é esta - continuou Célia: - Quais são as pessoas com maiores problemas para adormecer e que por isso necessitam de um comprimido para dormir? Bem, baseada na minha experiência como delegada, visitando hospitais e instituições assim como médicos, diria que são as pessoas idosas, os doentes de geriatria.

 

Ela tinha na mão a atenção do grupo. Vários acenos de cabeça em volta da mesa concordaram com o seu último comentário. O Dr. Lord, de rosto rígido, foi um deles.

 

- Sendo assim recomendava - disse Célia - que o nosso ensaio da Thalidomide fosse realizado em um ou dois lares para idosos. Se vos puder ser útil sei de dois, um em Lincoln, Nebrasca, e outro nos arredores de Plainfield, aqui neste Estado. São ambos bem geridos e eficientes, capazes de fazerem bons registos. Em quaisquer deles já conheço os médicos responsáveis e não me importaria de os contactar.

 

Quando Célia acabou houve um silêncio incerto. Eli Camperdown quebrou-o. O presidente da Felding-Roth parecia surpreendido.

 

- Não sei o que vocês pensam, mas o que a senhora Jordan acaba de sugerir soa-me muito acertado.

 

Tendo-lhes sido mostrado o caminho, os outros juntaram o seu acordo, embora o Dr. Lord se tenha mantido em silêncio. Célia sentiu imediatamente um antagonismo entre ela e o director da investigação que iria persistir no futuro.

 

Pouco depois tomou-se a decisão de que Célia telefonaria às instituições suas conhecidas no dia seguinte e, se se mostrassem cooperadoras, o Departamento de Pesquisa utilizá-las-ia.

 

Quando a reunião acabou, Célia foi a primeira a sair entre sorrisos e apertos de mão amigáveis.

 

Mais ou menos uma semana depois, tendo feito o que lhe fora pedido, Célia soube por intermédio de Sam Hawthorne que em breve começariam os ensaios da Thalidomide em ambos os lares.

 

Na altura isso pareceu o fim de um acidente menor.

 

No meio das pressões das suas vidas profissionais, Andrew e Célia encontraram tempo para procurar casas à venda. Uma, que Célia descobriu e de que gostava, era em Convent Station, um subúrbio residencial da cidade de Morris, onde as casas estavam separadas entre si e proliferavam relvados e árvores. Como ela salientou ao telefonar a Andrew, a casa estava a apenas duas milhas do consultório dele e mais perto ainda do Hospital de St. Bede.

 

- E isso tem importância - declarou Célia -, porque não quero que guies muito, em especial quando tiveres chamadas nocturnas e estiveres cansado.

 

A localização significaria uma viagem de dez milhas para Célia quando estivesse a trabalhar na Felding-Roth, em Boonton, mas, uma vez que a sua área de trabalho era noutras partes de Nova Jérsia, a distância não era importante.

 

Mas a moradia, que era uma enorme casa colonial, desocupada, mal cuidada, branca, chocou Andrew quando a viu pela primeira vez. Protestou.

 

- Célia, este velho palheiro desconjuntado não é para nós! Mesmo que façamos uns remendos, o que parece ser impossível, que iremos fazer a cinco quartos?

 

- Será um para nós - explicou a esposa com paciência -, depois um para cada uma das crianças e, quando elas nascerem, vamos necessitar de ajuda pelo que precisamos doutro quarto. - O quinto quarto, acrescentou ela, seria para os convidados. - A minha mãe visitar-nos-á uma vez por outra e talvez a tua faça o mesmo.

 

Célia imaginou também ”um estúdio cá em baixo que nós os dois poderemos compartilhar e estar juntos quando trouxermos trabalho para casa”.

 

Embora sem a mínima intenção de concordar com uma ideia tão absurda e impraticável Andrew riu.

 

- É um facto que olhas em frente!

 

- O que nenhum de nós decerto deseja - argumentou Célia - é a interrupção e o incómodo de mudar de casa quase todos os anos só porque precisamos de mais espaço e não planeamos as coisas. - Ela olhou em volta contemplando o piso de baixo, cheio de teias de aranha e de poeira incrustada à luz pálida de um sol domingueiro de Janeiro que entrava pelas janelas sujas. - Este lugar precisa de escova, de tinta, de organização, mas pode ser lindo... o género de lar de que nunca queremos sair a menos que tenhamos de o fazer.

 

- Vou sair já - disse Andrew - porque o que este lugar precisa é de um bulldozer. - E acrescentou, com rara impaciência: - Tens tido razão sobre muitas coisas, mas não desta vez.

 

Célia pareceu inamovível. Colocando os braços em torno de Andrew pôs-se em bicos de pés para o beijar.

 

- Continuo a pensar que tenho razão. Vamos para casa conversar sobre o assunto.

 

Mais tarde, nessa noite, com relutância, Andrew cedeu e no dia seguinte Célia negociou a compra por um preço que era uma pechincha e tratou do empréstimo. O pagamento da entrada não ofereceu problemas. Quer ela quer Andrew tinham poupado dinheiro nos anos precedentes e os seus actuais rendimentos juntos eram uma bonita soma.

 

Mudaram-se no fim de Abril e quase imediatamente depois Andrew confessou que não tivera razão sobre a casa.

 

- Já gosto dela - disse ele depois do primeiro dia. - Talvez até a venha a amar.

 

A renovação custara menos do que ele esperara e os resultados eram impressionantes, belos até.

 

Foi uma época feliz para ambos e, além disso, Célia já estava por essa altura no quinto mês de gravidez.

 

O nascimento do primeiro filho de Célia e Andrew ocorreu - como Andrew estava apto a contar aos seus colegas do hospital - ”precisamente de acordo com o programa de Célia”.

 

Aconteceu em Agosto de 1958, nove meses e uma semana depois do casamento, e a criança era uma menina, saudável, pesando três quilos e quatrocentas. Era uma bebé contestatária que chorava bem alto. Deram-lhe o nome de Lisa.

 

Durante a gravidez Célia mantivera-se firme sobre as questões do parto, o que criou desde logo atritos com o seu obstetra, o Dr. Paul Keating, um colega de Andrew no Hospital de St. Bede. Keating, um espalhafatoso homem de meia-idade, inclinado para a pomposidade, disse uma vez a Andrew:

 

- A sua esposa é mesmo impossível.

 

- Sei o que quer dizer - concordou Andrew. - Mas decerto que torna a vida interessante. O engraçado é que as coisas impossíveis para algumas pessoas tornam-se possíveis para Célia.

 

Um dia ou dois antes, Célia informara o Dr. Keating:

 

- Estive a estudar o parto natural e já comecei os exercícios adequados. Quando o obstetra sorriu indulgentemente, acrescentou: - Quero participar activamente no trabalho de parto e estar plenamente consciente no momento do nascimento. O que significa nada de anestesia. Além disso não quero episiotomia.

 

O sorriso de Keating transformou-se em mau humor.

 

- Minha cara senhora Jordan, ambas essas decisões competem ao seu obstetra durante o parto.

 

- Discordo - disse Célia suave e tranquilamente. - Se ceder nesta questão é provável que seja ultrapassada num momento em que não estarei no meu melhor.

 

- E se houver uma emergência?

 

- Isso é inteiramente diferente. Se tal acontecer é óbvio que será você a avaliar a situação e fazer aquilo que for necessário. Mas depois terá de me provar, assim como ao Andrew, que existiu uma emergência.

 

O Dr. Keating resmungou desaprovadoramente antes de continuar:

 

- Quanto à episiotomia, talvez não perceba que cortar o períneo com tesouras cirúrgicas antes do nascimento evita um rasgão quando a cabeça do bebé emergir... um rasgão que é doloroso e cura menos facilmente que um corte cirúrgico.

 

- Oh, percebo isso perfeitamente - disse Célia. - E estou certa de que você está igualmente consciente do crescente número de médicos e parteiras que discordam dessa atitude.

 

Ignorando a crescente desaprovação do obstetra, Célia continuou:

 

- Existem registos de imensos casos em que rasgões naturais cicatrizaram com rapidez enquanto houve casos de episiotomia em que tal se não deu e produziram infecções ou meses de dores pós-parto ou ambas.

 

O Dr. Keating olhou-a severamente.

 

- Parece conhecer todas as respostas.

 

- Longe disso - assegurou-lhe Célia. - O caso é que se trata do meu corpo e do meu bebé.

 

- Falando do seu corpo - disse o obstetra -, faço salientar que embora esse não seja o objectivo da episiotomia o facto é que a sutura subsequente mantém o tónus vaginal.

 

- Sim - concordou Célia -, sei que o tónus vaginal é para dar prazer ao meu parceiro sexual. Mas sabe, doutor, não quero quaisquer queixas do meu marido sobre uma vagina dilatada pelo que, após o nascimento do meu bebé, farei exercícios de fortalecimento dos músculos pélvicos.

 

Pouco tempo depois, por mútuo consentimento, Célia mudou de obstetra e tornou-se doente do Dr. Eunice Nashman, que era mais velho que o Dr. Keating, mas suficientemente jovem de espírito para compartilhar muitas das ideias de Célia.

 

Após o nascimento de Lisa, o Dr. Eunice Nashman confidenciou a Andrew:

 

- A sua esposa é uma mulher notável. Houve momentos em que estava com muitas dores e perguntei-lhe se queria mudar de ideias acerca da anestesia.

 

Andrew, que tencionara estar presente ao nascimento mas fora chamado para uma emergência médica relativa a um dos seus doentes, perguntou com curiosidade:

 

- Que é que ela disse?

 

- Disse apenas: ”Não, mas haja alguém que me segure” - respondeu o Dr. Nashman. - De forma que uma das enfermeiras pôs os braços em torno dela, confortando-a, e de nada mais precisou. Depois, quando a sua filha nasceu, não levámos a bebé, como em geral acontece, mas colocá-mo-la ao lado de Célia e as duas juntas estavam numa paz tal que era lindo de se ver.

 

Exactamente como tinha dito que faria, Célia afastou-se do trabalho por um ano para dar toda a atenção e amor a Lisa. Aproveitou também o tempo para continuar a organizar a casa de Convent Station que provou ser tudo aquilo que ela antevira e prometera.

 

- Amo-a - comentou alegremente um dia.

 

Ao mesmo tempo, Célia mantinha-se em contacto com a Felding-Roth. Sam Hawthorne subira tornando-se assistente do chefe nacional de vendas e prometera a Célia um lugar quando estivesse pronta a regressar.

 

O ano foi bom para a Felding-Roth. Alguns meses depois da publicidade respeitante à dramática utilização da Lotromycin pelo Dr. Jordan a Food and Drug Administration aprovou a droga para comercialização. A Lotromycin veio a tornar-se uma das drogas mais bem sucedidas e apreciadas a nível mundial e um dos produtos mais lucrativos na história da Felding-Roth. A contribuição pessoal de Célia para o lançamento da Lotromycin levava os executivos da companhia a endossar o desejo de Sam Hawthorne para a ter de volta.

 

Para lá da companhia, em termos de história, o ano de 1959 não foi nada de espectacular. O Alasca tornou-se um Estado em Janeiro, o Havai em Julho. No Norte, em Abril, abriu o canal de São Lourenço. Em Maio, o primeiro-ministro de Israel, David Ben-Gurion, prometeu ao Mundo que o seu país procuraria conseguir a paz com os seus vizinhos árabes. Mais adiante, no mesmo mês, dois macacos fizeram um voo espacial de quatrocentos e oitenta quilómetros de altura a bordo de um míssil militar dos Estados Unidos, e sobreviveram. Havia esperança de que um dia os seres humanos fizessem o mesmo.

 

Um acontecimento que atraiu a atenção de Célia foi uma série de audições, começadas em Dezembro, por uma subcomissão do Senado presidida pelo senador Estes Kefauver. Numas anteriores audições sobre crime, o senador, um democrata do Ténesse com ambições presidenciais, ganhara a atenção geral e ansiava novamente pelo mesmo. O alvo das novas audições era a indústria farmacêutica.

 

A maior parte dos dirigentes da indústria considerava Kefauver um incómodo sem qualquer importância. A antecâmara da indústria em Washington era forte; não se esperava qualquer efeito a longo prazo. Célia, embora confiando apenas a Andrew a sua opinião, discordava.

 

Até que, no fim do ano, Célia retomou as suas tarefas como delegada de propaganda médica mantendo o seu território de vendas em Nova Jérsia. Por intermédio dos contactos de St. Bede encontrou uma enfermeira idosa, reformada, que ia lá a casa tomar conta da criança. Tipicamente Célia testou o sistema saindo da cidade numa viagem com Andrew e deixando a mulher mais velha nas suas funções. Resultou bem.

 

A mãe de Célia, Mildred, vinha ocasionalmente de Filadélfia fazer-lhes uma visita e adorava ajudar e tomar conta da neta quando a enfermeira não estava.

 

Mildred e Andrew relacionaram-se bem e Célia chegou-se mais à sua mãe à medida que o tempo passava, atingindo uma intimidade que raramente tinham conhecido antes. Uma das razões talvez fosse a de que a sua irmã mais nova, Janet, estava muito longe - nos Trucial Sheidoms - pois casara com um geologista de uma companhia petrolífera e que agora trabalhava lá fora.

 

Assim, com o apoio de várias fontes, Célia e Andrew estavam mais uma vez em condições de tirar prazer das suas respectivas carreiras.

 

No caso da carreira de Andrew havia apenas uma coisa que a perturbava e até ele mesmo não tinha certezas sobre qual seria a importância dessa preocupação. Dizia respeito a Noah Townsend.

 

O sócio mais velho de Andrew exibira, numa mão-cheia de ocasiões bem separadas, o que pareciam ser sinais de instabilidade emocional. Ou talvez, concluiu Andrew quando pensou no assunto, fosse mais apropriado dizer comportamento bizarro. O que intrigava Andrew era o facto de ambas as características serem estranhas à natureza do velho e digno médico que Andrew conhecia do dia-a-dia.

 

Tanto quanto Andrew soubesse tinham existido três incidentes.

 

Um fora quando Noah, durante uma conversa com Andrew no seu consultório, se mostrara impaciente por causa de uma chamada telefónica que o interrompera. Depois de uma resposta brusca, arrancara o fio do telefone da parede e atirara o instrumento sala fora: batera num arquivo e partira-se. Em seguida Noah continuou a falar como se nada tivesse acontecido.

 

No dia seguinte um telefone novo estava em cima da secretária de Noah; nunca foi mencionado o destino do velho.

 

Umas seis semanas depois Andrew ia dentro do carro de Noah, com este a guiar. De repente, para horror de Andrew, voavam dentro de Morristown com o acelerador a fundo, cortando esquinas e passando um sinal vermelho. Andrew gritou para o avisar, mas Noah pareceu nada ouvir. Com uma sorte extraordinária não tiveram qualquer acidente e entraram a alta velocidade no parque de estacionamento de St. Bede onde derraparam numa travagem que soltou um guincho aos pneus. Enquanto Andrew protestava, Noah apenas encolhia os ombros - e da vez seguinte em que Andrew observou Noah a conduzir viu-o fazê-lo a uma velocidade moderada e com as precauções habituais.

 

Um terceiro incidente, também bastante afastado dos outros, mas ainda mais assustador, envolveu a secretária-recepcionista, a Sra. Parsons, que trabalhava há longos anos para Noah, muito antes de Andrew chegar. Na verdade Violet Parsons, já bem dentro dos sessenta, estava a ficar lenta e às vezes esquecida. Mas raramente esquecera algo importante e era boa para os doentes, estes gostavam dela. Ela e Andrew davam-se bem e a sua devoção a Noah - muito perto da adoração - era motivo de piadas lá por casa.

 

Até um incidente com um cheque.

 

Ao preencher um para pagar uns artigos para o consultório, Violet cometeu um erro. A factura era de quarenta e cinco dólares. Ela inverteu os algarismos, preencheu um cheque de cinquenta e quatro dólares e colocou-o na secretária de Noah para este assinar. Em termos práticos, não tinha qualquer consequência pois a importância a mais apareceria a crédito na conta do mês seguinte.

 

Mas Noah entrou de rompante na área da recepção com o cheque na mão e gritou para Violet Parsons:

 

- Sua cabra estúpida! Queres arruinar-me atirando à rua o meu dinheiro? Andrew, que por acaso entrava naquele momento, não queria crer no que estava a ouvir. O mesmo parecia acontecer com Violet que se levantou e respondeu com dignidade.

 

- Doutor Townsend, nunca me falaram nesse tom até hoje e não pretendo que o voltem a fazer. Vou-me já embora para nunca mais voltar.

 

Quando Andrew tentou intervir, Noah berrou:

 

- Não te metas nisto!

 

- Obrigado, doutor Jordan, mas já não trabalho aqui - disse Violet.

 

No dia seguinte Andrew tentou falar do assunto com Noah, mas o homem mais velho limitou-se a resmungar:

 

- Ela não estava a cumprir as suas obrigações. Contratei outra; começa amanhã.

 

Se os incidentes fossem menos isolados ou mais frequentes, Andrew poderia ter ficado bastante preocupado. Mas, raciocinou ele, à medida que uma pessoa envelhece as pressões do trabalho e do dia-a-dia podem provocar a erupção de tensões e as têmperas cedem. No fim de contas era uma característica humana. Até Andrew sentia de vez em quando tais pressões que punham as coisas à flor da pele, mas ele continha-as. Ao que parecia Noah não continha as dele.

 

No entanto os incidentes continuavam a perturbar Andrew.

 

As actividades da carreira de Célia foram mais vivas.

 

Em Fevereiro de 1960, num dia em que deixara o seu território de vendas para tratar de uns assuntos na sede da Felding-Roth, Sam Hawthorne convocara-a ao seu gabinete. Sam estava de boa disposição e saudou cordialmente Célia. As suas responsabilidades perante as vendas nacionais pareciam não o estar a sufocar um bom sinal. E, tendo em vista os seus próprios planos a longo prazo, estava algo optimista. O cabelo de Sam, notou, estava mais ralo; pelo seu quadragésimo aniversário, daí a um ano, seria provavelmente careca embora o ar lhe parecesse cair bem.

 

- Quero ver-te aparecer na reunião nacional das vendas - anunciou ele. Célia já sabia que a convenção bienal de vendas da Felding-Roth seria no Hotel Waldorf-Astoria, em Nova Iorque, no mês de Abril. Embora privada e encerrada aos de fora, a reunião era esperada por todo o pessoal de vendas nos Estados Unidos e pelos executivos das subsidiárias da Felding-Roth no estrangeiro. Além disso, o director, o presidente e outros executivos superiores estariam presentes nos três dias de encontros.

 

- Queria ir lá - disse Célia. - Espero que não me vá dizer que é só para homens.

 

- Não só não é apenas para homens como o chefão quer que sejas um dos oradores.

 

- Serei - disse Célia. Sam observou secamente.

 

- Estava certo disso. Agora, o tema da palestra. Falei com Eli Camperdown e o que ele e outros querem é que descrevas algumas das tuas experiências de vendas... do ponto de vista feminino. Foi até sugerido um título: ”Uma Mulher Olha para as Vendas Farmacêuticas.”

 

- Não estou a ver um título assim num filme - disse Célia -, mas farei isso.

 

- Deves manter a tua conversação num tom ligeiro, possivelmente humorístico - prosseguiu Sam. - Nada pesado ou sério. Nada controverso. E dez a quinze minutos devem ser o bastante.

 

- Percebo... - disse Célia pensativamente.

 

- Se quiseres podes apresentar um resumo. Eu lê-lo-ei e farei sugestões.

 

- Não me esquecerei da oferta - disse Célia que tinha já uma ideia sobre o seu discurso e não tinha a mínima intenção de apresentar fosse o que fosse.

 

- As vendas no teu território têm sido excelentes - cumprimentou-a Sam. Que continuem a subir!

 

- Assim o pretendo - assentiu Célia -, embora uns produtos novos ajudassem. A propósito: que aconteceu àquele de que o senhor Camperdown falou há um ano... Thalidomide?

 

- Abandonámo-lo. Devolvemo-lo à Chemie-Griinethal dizendo não, obrigado.

 

- Porquê?

 

- Segundo a nossa gente da pesquisa - explicou Sam - não era uma boa droga. Ensaiaram-na nos lares de idosos que tu nos arranjaste. Como instigador de sono parecia não resultar.

 

- E acabou?

 

- Pelo menos no que diz respeito à Felding-Roth. Mas ouvi dizer que a Merrell Company pegou na Thalidomide. Vão-lhe chamar Kevadon e estão a planear um grande lançamento aqui e no Canadá - acrescentou. - Com todo o sucesso da Thalidomide na Europa a coisa não é de surpreender.

 

- Pareces descontente - disse Célia. - Pensas que a nossa companhia cometeu um erro?

 

Sam encolheu os ombros.

 

- Talvez. Mas só podemos vender aquilo que o nosso Departamento de Pesquisa aprova e este não foi aprovado. - Hesitou antes de afirmar: - Também te posso dizer, Célia, que algumas pessoas te criticam porque os ensaios da Thalidomide foram limitados a velhos e não foram mais generalizados... como queria originalmente o Vincent Lord.

 

- És um dos críticos?

 

- Não. Na altura, se bem te lembras, concordei contigo.

 

- Lembro-me. - Célia meditou antes de perguntar: - As outras críticas têm importância?

 

- Para ti? - Sam abanou a cabeça. - Não penso que tenham.

 

Em casa, nas noites e fins-de-semana que se seguiram, Célia trabalhou, no seu discurso para a reunião das vendas. No calmo e confortável estúdio que ela e Andrew gostavam de compartilhar rodeou-se de papéis e notas.

 

Observando-a um domingo, Andrew comentou:

 

- Estás a cozinhar qualquer coisa, não estás?

 

- Sim - admitiu ela. - Estou.

 

- Vais-me dizer?

 

- Dir-te-ei mais tarde - disse Célia. - Se to disser agora vais tentar demover-me.

 

Andrew sorriu e teve a sabedoria suficiente para deixar as coisas ficarem por ali.

 

Capítulo sétimo

 

- Sei que a maioria de vocês são casados - disse Célia olhando o mar de rostos masculinos que estava na sua frente - e sabem como é connosco, as mulheres. Somos muitas vezes vagas, misturamos as coisas e às vezes até as esquecemos.

 

- Menos tu, miúda esperta - disse baixinho alguém nas filas da frente e Célia esboçou um sorriso mas prosseguiu.

 

- Uma das coisas que eu esqueci é de quanto tempo disponho para falar aqui e agora. Tenho uma vaga ideia de alguém mencionar dez ou quinze minutos mas nunca poderia ser, pois não? No fim de contas qual a mulher que se poderia dar intimamente a conhecer a quinhentos homens em tão curto espaço de tempo?

 

Houve risota e, lá do fundo da sala da convenção, uma voz do Oeste: ”Dispõe do meu tempo à tua vontade, miúda!” A que se seguiram mais risadas, assobios e gritos ”De mim também!” e ”Leva o que precisas, borracho!”

 

Inclinando-se para o microfone na plataforma do orador, Célia respondeu.

 

- Muito obrigado! Tinha esperança de que alguém dissesse isso. – Evitou encontrar os olhos de Sam Hawthorne que a olhava com toda a atenção a poucos lugares dela.

 

Fora Sam quem, no princípio do dia, dissera a Célia:

 

- Na abertura da reunião de vendas toda a gente se sente bem-disposta. Daí que o primeiro dia seja quase todo ligeiro. Tentamos trabalhar os tipos... dizer aos que são da província como são bons, a maravilha que é a Felding-Roth e como se sente feliz por os ter na equipa. Depois disso, nos dois dias seguintes, vamos aos assuntos mais sérios.

 

- Faço parte do ligeiro? - perguntou Célia pois reparara que, pelo programa, iria falar na tarde do primeiro dia da convenção.

 

- Decerto e por que não? És a única mulher que temos nas vendas, um monte de tipos ouviu falar de ti e todos querem ver e ouvir algo de diferente.

 

- Tentarei não os desapontar - disse Célia.

 

Na altura ela e Sam estavam a passear na Park Avenue depois do pequeno-almoço no Waldorf com outros membros da companhia. A convenção de vendas começaria dentro de uma hora. Entretanto aproveitavam uma manhã suave e solarenta de Abril. Frescas brisas sopravam por Manhattan e a Primavera proclamava-se nas tulipas e narcisos dos canteiros centrais da Park Avenue. Do outro lado, como sempre, havia a barulhenta e permanente corrente de um tráfico multipistas. Nos passeios uma onda de empregados de escritório perpassava por Sam e Célia que passeavam.

 

Célia, que chegara de carro nessa mesma manhã e ficaria nas duas noites seguintes no Waldorf, vestira-se cuidadosamente para a ocasião. Envergava uma saia e casaco azul-marinho e uma blusa de folhos. Célia sabia que fazia boa impressão e que a combinação era uma mistura feliz entre a frieza dos negócios e a feminilidade. Estava também contente por ter largado os óculos que sempre detestara; as lentes de contacto, sugeridas por Andrew durante a lua-de-mel, eram agora parte permanente da sua vida.

 

- Acabaste por não me apresentar um esboço do teu discurso - disse Sam bruscamente.

 

- Oh, querido! - exclamou ela. - Esqueci-me! Sam levantou o tom da voz acima do tráfico.

 

- Poderias enganar outros. Mas não a mim: sei que de nada te esqueces. Quando Célia ia responder ele silenciou-a com um gesto.

 

- Não precisas de responder. Sei que és diferente das outras pessoas que trabalham comigo e até agora só lhes fizeste bem. Mas dar-te-ei um aviso, Célia... não te excedas. Não deixes a cautela ficar muito para trás. Não estragues uma ocasião excepcional ao tentares fazer de mais e ires muito depressa. É tudo.

 

Célia mantivera-se silenciosa e pensativa enquanto davam meia volta, atravessavam a Park Avenue num sinal verde e regressavam ao Waldorf. Seria que aquilo que pretendia fazer à tarde era um excesso?

 

Agora, com a convenção de vendas a decorrer, e ao enfrentar toda a força de vendas da Felding-Roth no Salão Astor do Waldorf, compreendeu que estava prestes a descobri-lo.

 

A sua audiência era composta essencialmente por vendedores - delegados de propaganda - além de alguns supervisores e directores distritais, de todas as filiais da companhia tão afastadas como o Alasca, a Florida, o Havai, a Califórnia, os Dacotas, o Texas, o Novo México, o Maine e todos os lugares entre elas. Para muitos era este o único contacto directo, ano sim ano não, com os seus supervisores na sede da companhia. Era um tempo de camaradagem, de reviver o entusiasmo, de implantação de novas ideias e produtos e até - para alguns - a renovação do idealismo e da dedicação. Existiam também alguns espíritos turbulentos inclinados para as mulheres e as bebidas - ingredientes encontrados em qualquer convenção de vendas de qualquer indústria e em qualquer lugar.

 

- Quando fui convidada para vos falar - contou Célia à audiência sugeriram-me que descrevesse algumas das minhas experiências como delegada de propaganda e é isso que pretendo fazer. Fui também avisada para nada dizer de sério ou de controverso. Bem, descobri que isso era impossível. Todos sabemos que este é um negócio sério. Fazemos parte de uma grande companhia que comercializa produtos importantes, que salvam vidas. Por isso temos de ser sérios e pretendo sê-lo. Outra coisa em que acredito é que nós, os que trabalhamos na linha da frente das vendas, devemos ser francos, honestos e, quando necessário, críticos uns com os outros.

 

Enquanto falava, Célia estava consciente não apenas da grande audiência de vendedores, mas também de outra, mais pequena, que ocupava os lugares reservados nas duas primeiras filas: os executivos superiores da Felding-Roth... o presidente do conselho, o presidente, o vice-presidente executivo, o vice-presidente de vendas, uma dúzia de outros. Sam Hawthorne, a sua cabeça quase calva lembrando um farol de sinalização, estava entre os outros.

 

Eli Camperdown, como presidente, sentava-se na frente e ao centro. Ao seu lado estava o presidente do conselho, Floyd VanHouten, agora velho e frágil, mas que conduzira e moldara a companhia uma década antes. Actualmente a obrigação de VanHouten estava sobretudo limitada à presidência do conselho administrativo, mas a sua influência continuava a ser forte.

 

- Usei a palavra ”crítica” - disse Célia ao microfone - e isso, embora alguns possam não gostar, é o que pretendo ser. A razão é simples. Quero fazer uma contribuição positiva para esta ocasião e não ser meramente ornamental. Mas tudo o que vou dizer está dentro dos limites do título que me foi atribuído: ”Uma Mulher Olha para as Vendas Farmacêuticas”.

 

Naquele momento tinha toda a audiência na mão e sabia-o. Toda a gente estava em silêncio, ouvindo.

 

Fora essa a sua preocupação - se seria ou não capaz de captar esta audiência. Ao voltar de Park Avenue e ao entrar na antecâmara apinhada, cheia de fumo, barulhenta, onde a força de vendas se estava a reunir, Célia experimentara, pela primeira vez desde que concordara em ser uma das oradoras, um certo nervosismo. Até para consigo própria Célia admitia que a convenção de vendas da Felding-Roth era, pelo menos por enquanto, essencialmente um exercício masculino com a sua bonomia de pancadas nas costas, piadas rudes, risos estupidamente altos e um fundo de conversas nada originais. Célia perdera a conta do número de vezes que hoje já ouvira ”Há quanto tempo te não via!” dito de uma forma que parecia ser uma frase inventada de novo.

 

- Tal como vocês - continuou ela -, preocupo-me bastante com esta companhia para a qual trabalhamos e com a indústria farmacêutica de que fazemos parte. Ambas fizeram coisas maravilhosas no passado e farão mais ainda. Mas existem também coisas erradas, muito erradas, sobretudo na propaganda. Gostaria de vos dizer quais são, na minha opinião, essas coisas e como podemos melhorar a situação.

 

Dando uma olhadela às duas filas de executivos, Célia detectou vários rostos preocupados; uma ou duas estavam excitadas. Era nítido que aquilo que ela dissera não fora o que estavam à espera. Afastou o olhar e deu atenção a outras áreas do salão.

 

- Antes de aqui entrarmos esta manhã, e de novo esta tarde, todos nós vimos os cartazes e o balcão onde apresentam a Lotromycin. É uma droga magnífica, um dos grandes avanços na medicina e eu, neste caso, sinto-me orgulhosa de a vender.’

 

Houve aplausos e vivas e Célia fez uma pausa. Os cartazes na antecâmara apresentavam mais de uma dúzia dos produtos importantes da Felding-Roth mas Célia concentrara-se na Lotromycin por causa da sua experiência.

 

- Se pegarem num dos panfletos desse balcão, como já alguns de vocês o fizeram, descobrirão que descrevem a utilização da Lotromycin pelo meu marido. Ele é médico interno. O meu marido tem uma excelente experiência com esta droga assim como com outras. Tem também más experiências com drogas e com gente da propaganda que o enganaram descrevendo tais drogas com falsidade. Não é o único. Outros médicos, demasiados, como sei por relatórios que me fizeram, compartilharam da mesma experiência. É uma faceta deste negócio que pode e deve ser mudada.

 

Consciente de que estava a atingir terreno escorregadio, Célia enfrentou com decisão a audiência e escolheu as palavras com cuidado.

 

- Como resultado da sua experiência como médico, o meu marido disse-me que divide mentalmente os delegados de propaganda que o contactam em três grupos: primeiro, aqueles que lhe dão informações honestas sobre as drogas das suas companhias, incluindo os efeitos adversos; segundo, os que estão mal informados e não podem deste modo informá-lo correctamente sobre as drogas que promovem; e terceiro, aqueles que lhe dirão tudo, até mentiras, só para o levar a prescrever aquilo que vendem.

 

”Gostaria de dizer que o primeiro destes três grupos, os delegados de propaganda que estão bem informados e são honestos, é o maior e que os outros dois são pequenos. Mas, infelizmente, não é essa a verdade. O segundo e o terceiro grupos são de longe maiores que o primeiro. O que isto contribui para a qualidade da propaganda, em termos de uma informação completa e concreta, é muito pouco e isto aplica-se a todas as companhias no negócio farmacêutico, incluindo à nossa.

 

Célia podia agora ver sinais de consternação, não apenas entre os executivos ali na frente, mas também nas filas de trás. Entre uma série de protestos alguém gritou: ”Afinal o que é isto?”

 

Ela antecipara a reacção e aceitara-a como parte do risco calculado. Continuou com uma voz forte e clara.

 

- Tenho a certeza de que estão a pôr a vós próprios duas questões. A primeira: ”Como é que ela sabe dessas coisas e será capaz de as provar?” A segunda: ”Por que falar agora dessas coisas, quando todos estamos felizes e satisfeitos, e não queremos escutar coisas desagradáveis?”

 

Mais uma vez uma voz se ergueu da audiência:

 

- É isso mesmo que te queremos perguntar!

 

- Então façam-no! - gritou Célia em resposta. - E têm direito a uma resposta que eu vos darei.

 

- É melhor que seja boa!

 

Uma coisa em que Célia arriscara na sua palestra de hoje é que, fosse qual fosse a reacção ao seu discurso, a deixariam terminar. Era o que parecia estar a acontecer. Apesar dos gestos de reprovação das filas dos executivos, ninguém se levantara para a fazer calar.

 

- Uma das razões por que sei do que estou a falar - declarou Célia - é que eu costumava ser um membro desse segundo grupo: os não informados. E isso porque, quando me mandaram vender drogas aos médicos, estava inadequadamente treinada. Na realidade quase nem fora treinada. A respeito disto permitam-me que vos conte uma história.

 

Descreveu o encontro - que relatara a Andrew durante a lua-de-mel - com o médico de North Platte, Nebrasca, que a acusara de ter um ”conhecimento inadequado” e a pusera fora do consultório. Célia contou bem a história e houve um regresso ao silêncio enquanto a audiência escutava. Aqui e ali via acenos de cabeça e murmúrios de concordância. .Célia suspeitava de que muitos dos presentes tinham também tido experiências análogas.

 

- O doutor tinha razão - continuou ela. - Não possuía os conhecimentos que me permitissem discutir drogas com médicos altamente qualificados, embora pensasse que mos deviam ter dado antes de ser lançada nas vendas.

 

Estendeu o braço para a mesa atrás dela e pegou numa pasta.

 

- Mencionei relatórios de médicos acerca de falsas informações dadas por gente da propaganda. Nos quase quatro anos em que trabalhei nas vendas para a Felding-Roth mantive um registo de tais relatórios e aqui está ele. Permitam-me que cite exemplos.

 

Célia tirou uma folha da pasta.

 

- Como sabem temos um produto chamado Pernaltone. É uma excelente droga para o tratamento da hipertensão e uma das de maior venda na Felding-Roth. Mas nunca deve utilizar-se em doentes com diabetes ou doenças reumáticas. Fazê-lo é perigoso; existem na literatura avisos acerca disto. E, no entanto... quatro médicos em Nova Jérsia, dois outros no Nebrasca, foram informados por delegados de propaganda desta companhia que o Pernaltone era seguro para todos os doentes, incluindo os que tinham as doenças que mencionei. Possuo o nome dos médicos se desejarem vê-los. Claro que são apenas os médicos que conheço. Obviamente que existem mais, talvez muitos mais.

 

”Dois destes médicos de que falei, a quem foi dada uma falsa informação, verificaram a literatura e descobriram o erro. Dois outros aceitaram-na de boa-fé e prescreveram Pernaltone a doentes hipertensos que eram ao mesmo tempo diabéticos. Vários destes doentes ficaram muito piores, um deles à beira da morte embora depois recuperasse.

 

Célia retirou outro papel da pasta.

 

- Um dos nossos concorrentes tem um antibiótico, Chloromycetin, mais uma vez uma droga de primeiro grau, mas só para infecções graves, pois os seus efeitos colaterais incluem alterações sanguíneas devastadoras, mortais até. No entanto, e tenho as datas, os nomes, os locais, os delegados da outra companhia asseguraram aos médicos que a droga é inofensiva...

 

Célia terminou o tema da Chloromycetin mas continuou:

 

- Agora voltemos à Felding-Roth...

 

A medida que ela falava as provas acumulavam-se.

 

- Podia continuar - disse algum tempo depois Célia -, mas não o faço porque a minha pasta está aqui para quem quiser consultá-la. Responderei à segunda questão: ”Por que falar agora destas coisas?

 

”Trouxe-as à baila porque não consegui chamar a atenção para o assunto de qualquer outra forma. Desde o ano passado que tento que alguém da sede me escute e veja os meus arquivos. Ninguém o fez. Fiquei com a forte impressão de que acumulara simplesmente más notícias de que ninguém queria ouvir falar.

 

Célia dirigiu-se então às duas filas de executivos.

 

- Pode dizer-se que aquilo que hoje fiz é de uma cabeça dura, que é uma loucura. Talvez assim seja. Mas gostaria de dizer que o fiz com uma convicção profunda e uma preocupação... por esta companhia, pela nossa indústria e pela reputação de ambas.

 

”Essa reputação foi manchada e, apesar disso, pouco ou nada fazemos a esse respeito. Como a maioria de nós sabe existem presentemente audições no Congresso dos Estados Unidos sobre a indústria farmacêutica. Tais audições são-nos antagónicas, mas pouca gente na indústria as toma a sério. Mas são sérias. A imprensa já vai dando proeminência às críticas; em breve haverá um grito pedindo reformas. Creio que, a menos que se faça qualquer coisa para melhorar as nossas práticas de vendas e a nossa reputação, veremos o Governo fazer isso por nós... de uma forma que nenhum de nós irá gostar e que a todos será prejudicial.

 

”Finalmente, e por todas estas razões, insisto para que a nossa companhia tome a dianteira. Primeiro, estabelecendo um código de ética para os delegados de propaganda; segundo, montando um programa de educação e reeducação para a nossa gente da propaganda. Já tenho ideias sobre um tal programa. - Célia fez uma pausa e sorriu. - Se alguém estiver interessado estão também na minha pasta. - E concluiu: - Muito obrigada e boa tarde.

 

Quando Célia começou a reunir os papéis para sair da plataforma dos oradores houve umas palmas fracas na sala, mas que cessaram de imediato porque poucos na audiência pareciam interessados em reunir-se. Era claro que a maior parte seguia a reacção da fila da frente, os executivos, de onde não houve aplausos e os rostos mostravam reprovação. O presidente do conselho parecia zangado - falava em voz baixa, mas acalorada, com Eli Camperdown; o presidente da Felding-Roth concordava com a cabeça.

 

O vice-presidente das vendas, um sujeito de Nova Iorque recentemente promovido, Irving Gregson, aproximou-se dela. Gregson, um homem de porte atlético, era habitualmente genial e bem-parecido. Mas agora estava furibundo, de rosto vermelho.

 

- Jovem - declarou ele -, foi maliciosa, presunçosa e enganadora; além disso, aquilo a que chama de factos estão errados. Vai arrepender-se. Depois trataremos de si, mas agora, neste momento, ordeno-lhe que saia desta convenção de vendas e não volte mais.

 

- Sir - disse Célia -, nem sequer ao menos olha para o material que tenho...

 

- Não olharei para nada! - A voz alta de Gregson era audível em toda a sala. - Rua!

 

- Boa tarde, senhor Gregson - disse Célia. Virou-se e dirigiu-se para a saída. De passos firmes, cabeça levantada. Pensou que talvez, mais tarde, houvesse tempo para arrependimento e até para desânimo; mas ali, naquele momento, não tinha intenção de deixar aquela assembleia masculina como derrotada. Tanto fazia, admitiu consigo mesma, estava derrotada e claro que soubera que tal podia acontecer mas mantivera sempre uma certa esperança. Para Célia as faltas que mostrara eram tão óbvias e evidentes, as reformas tão nitidamente necessárias, que era difícil de compreender como é que os outros discordavam quando os factos eram apontados.

 

Mas tinham. E quase de certeza que o seu emprego na Felding-Roth terminara ou iria terminar em breve. Uma pena. Sam Hawthorne decerto que lhe diria que ela fizera o que ele a avisara para não fazer - excedera-se ao querer fazer de mais. Andrew também a avisara - no regresso da lua-de-mel, quando lhe falara do arquivo de relatórios dos médicos. Recordava-se das palavras de Andrew: ”Estás a meter-te em algo bem grande. E com os seus riscos.” Como tivera razão! No entanto havia ali envolvido um princípio, e a sua integridade, e Célia há muito que decidira não contemporizar nesse ponto. Qual fora a citação de Hamlet que aprendera na escola? ”Isto acima de tudo: ser verdadeiro consigo próprio...” Paga-se por isso. Às vezes um preço bem alto.

 

Ao atravessar a sala via os olhares de simpatia que lhe lançavam alguns dos homens ainda sentados. Era algo inesperado depois de toda a crítica. Mas agora já não importava.

 

- Um momento, se faz favor!

 

De repente, assustando-a, vinda não se sabia de onde, uma voz ecoou forte no sistema de altifalantes.

 

- Senhora Jordan, é capaz de esperar? Célia hesitou mas parou quando a voz repetiu:

 

- Senhora Jordan, espere!

 

Virando-se viu, com surpresa, que a voz era de Sam Hawthorne. Sam deixara o seu lugar, subira à plataforma dos oradores e falava ao microfone. Os outros estavam igualmente espantados. Podia ouvir-se Irving Gregson exclamando:

 

- Sam... que raios?

 

Sam passou uma mão pela cabeça brilhante sob o holofote; era um hábito seu quando pensava profundamente num problema. O seu rosto anguloso estava sério.

 

- Se não te importas, Irving, gostaria de dizer uma coisa para toda a gente ouvir e antes que a senhora Jordan saia.

 

Célia tentou imaginar o que iria sair. Decerto que Sam não ia endossar a sua expulsão contando a todo o mundo a sua conversa daquela manhã e o aviso que lhe dera. Não era coisa que estivesse no seu carácter. No entanto a ambição fazia estranhas coisas às pessoas. Seria possível que Sam pensasse que um comentário o faria parecer melhor aos olhos da assembleia?

 

Olhando para a plataforma o vice-presidente das vendas perguntou receoso:

 

- O que é?

 

- Bem - disse Sam suficientemente perto do microfone para a sua voz ser ouvida em toda a sala agora silenciosa -, acho que podes dizer, Irving, que estou aqui para ser solidário.

 

- Solidário de que maneira? - Desta vez a pergunta era de Eli Camperdown, agora também de pé.

 

Sam Hawthorne encarou de frente o presidente da Felding-Roth e ao mesmo tempo aproximou de si o microfone.

 

- Solidário com a senhora Jordan, Eli. E para admitir, embora ninguém pareça querer fazê-lo, de que tudo o que ela disse é verdade. Todos nós o sabemos muito bem embora façamos de conta...

 

O silêncio na sala era aterrador. Só se filtravam ruídos mínimos - o som do tráfico, muito ao longe; um tintilar de copos, da cozinha; vozes murmuradas num corredor distante. Como se toda a gente estivesse quieta, enraizada, pois mexer poderia fazer perder uma palavra. No meio daquela calma Sam continuou:

 

- Gostaria também que ficasse registado como desejaria ter tido a fibra e a coragem moral para fazer o discurso que a senhora Jordan fez. Mas há mais.

 

- Não achas que já disseste o suficiente? - interrompeu Irving Gregson.

 

- Deixa-o acabar - ordenou Eli Camperdown. - Que se enforque à vontade. O vice-presidente das vendas cedeu.

 

- Em particular - prosseguiu Sam Hawthorne -, concordo com a opinião de que se a indústria não emenda as suas vias surgirão leis que nos obrigarão a fazê-lo. Pior ainda: tais leis serão de longe muito mais restritivas do que se aceitarmos o conselho amigo que ouvimos e limparmos nós mesmos a casa.

 

”Finalmente, falemos da senhora Jordan. Já por várias vezes provou o seu grande valor para a companhia. Na minha opinião acaba de fazer outra vez o mesmo e, se a deixarmos sair assim desta sala, não passaremos de uns loucos de vistas curtas.

 

Célia nem conseguia acreditar no que ouvia. Teve um momento de vergonha por ter duvidado dos motivos de Sam. Aquilo que ele acabara de fazer, compreendeu ela, era pelo seu emprego, pelas suas ambições, pelo seu futuro prometedor na Felding-Roth, era por tudo isso que ele estava do seu lado.

 

No entanto o silêncio intocável persistia. Houve a consciência colectiva de um drama elevado no qual ninguém sabia o que iria acontecer no momento seguinte.

 

Eli Camperdown foi o primeiro a mexer-se, regressando ao seu lugar, ao lado do presidente do conselho, onde os dois começaram uma segunda e urgente conversa em voz baixa. Desta vez era Camperdown quem mais falava - ao que parecia tentava convencer - enquanto o velho VanHouten escutava. De início abanava a cabeça obstinadamente, depois pareceu ceder e acabou por encolher os ombros. Camperdown fez sinal a Irving para se lhes juntar.

 

Uma vez que as decisões estavam a ser tomadas ao mais alto nível, os outros aguardaram embora agora um zumbido de conversas enchesse o salão.

 

Diminuiu quando o vice-presidente das vendas deixou os outros dois e ascendeu à plataforma dos oradores. Tirou o microfone de Sam Hawthorne que voltou ao seu lugar lá em baixo. Gregson contemplou o mar de rostos curiosos, fez uma pausa, e depois permitiu a si mesmo um sorriso amplo.

 

- Digam o que disserem sobre as conferências de vendas - declarou ele -, prometemos sempre que nunca serão aborrecidas.

 

Era a coisa certa a dizer e houve um coro de gargalhadas a que até o taciturno VanHouten se juntou.

 

- Fui instruído pelos nossos presidentes - disse Gregson -, uma instrução que pessoalmente também subscrevo, para declarar que momentos atrás agimos apressadamente, talvez até mal. - De novo o sorriso, a pausa, e o chefe das vendas continuou.

 

- Há muitos anos, quando era um rapazinho e me metia em encrencas, como todos os rapazes, a minha mãe ensinou-me uma coisa. ”Irving”, dizia-me ela, ”quando agires como um burro e for preciso pedir desculpa, endireita-te, sê um homem, e pede-a de espírito aberto.” Minha querida mãe, que a sua alma descanse em paz, morreu; mas pareceu-me estar a ouvir a sua voz dizendo: ”Irving, meu rapaz, é essa a altura.”

 

Olhando e ouvindo, Célia pensou que Gregson tinha estilo. Via-se que não tinha sido por acaso que fora promovido na hierarquia das vendas.

 

Célia percebeu de repente que Gregson apontava para ela:

 

- Senhora Jordan, venha até aqui, por favor. E tu também, Sam.

 

Quando os três se reuniram na plataforma - Célia sentia-se tonta, incrédula Gregson disse:

 

- Anunciei que ia pedir desculpa, senhora Jordan, e é o que farei. Afinal vamos ponderar com cuidado as suas sugestões. E agora, se não se importa, alivio-a da sua pasta.

 

Virando-se para a audiência, Gregson concluiu:

 

- Acho que acabo de testemunhar um exemplo do que faz a nossa companhia ser grande e...

 

O resto dos seus comentários foi afogado em aplausos e vivas e, momentos depois, executivos e outros rodeavam Célia dando-lhe parabéns e apertos de mão.

 

- Por que é que te arriscaste? - perguntou Sam Hawthorne.

 

- Já que falas nisso - respondeu Célia -, por que o fizeste tu? Passou-se uma semana. Célia e Andrew estavam a passar uma noite em casa dos Hawthorne e durante o jantar - uma soberba refeição atestando as capacidades culinárias de Lilian Hawthorne - tinham evitado o assunto da convenção de vendas e falado de outras coisas. Uns dias antes os Russos tinham anunciado o abate de um avião U-2 americano e a captura do piloto, Gary Powers. Moscovo acusou ambos de espionagem. De início os Estados Unidos negaram a acusação, mas pouco depois o presidente Eisenhower admitiu, de rosto corado, que era verdade. Muitos americanos - os Hawthorne e os Jordan estavam de acordo estavam também embaraçados.

 

Na Inglaterra a irmã da rainha, a princesa Margarida, fizera muitas línguas falar e levantar muitos sobrolhos ao casar com um fotógrafo profissional, Antony Armstrong-Jones. O casamento teve lugar no meio daquilo a que a imprensa chamou um ”ambiente de Carnaval”. As pessoas perguntavam: ”O casamento diminuiu o prestígio do trono britânico?” Andrew dizia enfaticamente que não.

 

Depois do jantar escutaram um disco novo de Elvis Presley - uma balada popular, Fame and Fortune. Presley retomara a sua carreira depois de um ano no Exército dos Estados Unidos, mas a sua ausência deixara intocável a sua popularidade. As mulheres gostavam de Fame and Fortune. Os homens não.

 

Finalmente, nos brandes tornados na espaçosa e artisticamente decorada sala de estar dos Hawthorne, foi Sam que trouxe à baila o assunto que estava nas mentes de todos.

 

Respondendo à pergunta de Célia, disse:

 

- Quando te segui até àquela plataforma foi talvez por não resistir a uma cena tão dramática.

 

- Sabias que era mais que isso - objectou ela.

 

- Todos o sabemos - disse Andrew. Estava recostado num sofá saboreando o brande; tivera um dia com muitos doentes numa clínica que crescia a olhos vistos e estava cansado. - Arriscaste tudo, Sam... muito mais do que Célia.

 

- Claro, sinto-me grata... - começou Célia, mas Sam cortou-lhe a palavra.

 

- Não precisas de o estar. Se queres saber a verdade senti-me posto à prova. Dirigiu-se a Andrew: - A tua mulher já mostrou que tem mais tomates, e mais respeito pela verdade, que qualquer outra pessoa. Não quero baixar nas suas normas. - Sam sorriu para Célia. - Sobretudo se me estás a seguir pela escada da Felding-Roth.

 

- Sabes disso?

 

- Eu disse-lhe - explicou Lilian Hawthorne. - Desculpa se desmereci a tua confiança, Célia, mas eu e Sam não temos segredos um para o outro.

 

- Eu tenho um segredo - disse Sam. - Sobre a Célia. - Enquanto os outros o olhavam curiosos ele continuou. - Vai deixar de ser delegada de vendas.

 

Andrew deu um palpite:

 

- Afinal vão despedi-la?

 

- Não. Promovê-la. A nossa companhia vai ter um Departamento de Treino de Vendas, tal como Célia sugeriu. Ela vai ajudar na sua instalação... e será directora-assistente.

 

- Viva! - Lilian ergueu o copo. - Os homens mostraram algum juízo. Bebo a isso.

 

- Se as coisas fossem justas - disse Sam - Célia seria directora. Mas há na companhia quem não consiga engolir uma dessas. Por enquanto não. A propósito: será anunciado amanhã.

 

Andrew levantou-se para beijar Célia:

 

- Sinto-me feliz por ti, querida. Merecia-lo.

 

- Bem - acabou por dizer Célia -, não estou muito espantada. Obrigado, Sam, e aceito o ”assistente”. - E acrescentou, com um sorriso: - Por enquanto.

 

Foram interrompidos por duas pequenas figuras metidas em pijamas que correram, a rir, pela sala de estar. À frente vinha Lisa, agora com vinte meses, viva e curiosa, que Andrew e Célia trouxeram com eles e que - assim o tinham pensado - haviam colocado na cama para dormir. Atrás vinha Juliet, a filha única, com quatro anos, dos Hawthorne. Lilian confidenciara a Célia que os médicos lhe tinham recomendado não ter mais filhos e ela e Sam adoravam Juliet que era brilhante, inteligente e aparentemente não mimada. Era claro que as duas crianças tinham ficado excitadas com a presença uma da outra.

 

Lisa meteu-se nos braços do pai, dizendo-lhe:

 

- Julie apanhou-me. Lilian levantou-se.

 

- Eu apanho as duas. Já para a cama.

 

Entre risos e gritinhos as três desapareceram na direcção do quarto de Juliet. Quando Lilian regressou, Célia disse:

 

- Tudo isto me fez lembrar uma coisa. Se calhar vou precisar de estar afastada algum tempo do meu novo emprego, Sam. Acho que estou outra vez grávida.

 

- Esta é uma noite de revelações - disse Lilian. - Afortunadamente ainda nos resta uma pinga para comemorar.

 

Célia pensou detectar um traço de inveja na voz da outra mulher.

 

No final de 1960 e em 1961, Célia dedicou-se a ensinar a força de vendas da Felding-Roth a promover os seus produtos.

 

O seu novo chefe, o director do ensino de vendas, era um antigo chefe de divisão de Cansas City chamado Teddy Upshaw. Quando foram apresentados, Célia reconheceu-o imediatamente. Fora um dos rostos simpatizantes na altura em que ela estivera para ser expulsa da convenção de vendas no Waldorf.

 

Upshaw, um indivíduo que falava depressa, baixo, dinâmico e activo, no fim da década dos quarenta, toda a sua vida vendera drogas. Irradiava energia, sempre apressado de um lado para o outro, e possuía uma pequena cabeça redonda que balançava com frequência durante a conversa; dava a impressão de uma bola a ressaltar. Antes de ser promovido a um cargo de direcção, Upshaw fora o primeiro vendedor da companhia e confidenciou a Célia que ainda sentia saudades da vida de vendedor, que dizia ser ”algo como respirar leve” e acrescentou: ”Neste negócio não é preciso vender sujo para se ser bom, pois a maior parte dos médicos pouco ou nada sabe de drogas e, se formos honestos com eles, aprendem a confiar em nós e fazemos todos os negócios que queiramos. A única coisa que não nos podemos esquecer é de tratar os médicos como deuses. É o que eles esperam que se faça.”

 

Quando Célia, uma noite já na cama, falou a Andrew daquele comentário sobre ”deuses” ele riu-se e afirmou:

 

- Tens um patrão espertalhão. Nunca te esqueças de tratar este médico que cá tens em casa sempre desse modo.

 

Ela atirou-lhe uma almofada e começaram a lutar na brincadeira. A brincadeira avançou mais um pouco e acabaram a fazer amor. Mais tarde Andrew acariciou a barriga de Célia onde a gradivez começava a ver-se e disse:

 

- Toma conta aqui deste pequenino e lembra-te de que enquanto ele aqui estiver... nada de drogas de qualquer tipo para ti!

 

Era uma precaução que ele já expressara quando da gravidez de Lisa e Célia respondeu:

 

- Fazes finca-pé neste ponto!

 

- Lá isso faço. - Andrew bocejou. - Agora permite que este deus-doutor durma um pouco.

 

Noutra altura Teddy Upshaw, ao conversar com Célia, descreveu as ”vendas sujas” como ”uma estupidez crassa e desnecessária”. Apesar disso, admitiu ele, havia montes disso no negócio farmacêutico.

 

- Não penses que nós os dois vamos deter os delegados que não dizem a verdade, nem sequer aqui na Felding-Roth. Não vamos. O que poderemos fazer, penso, é mostrar-lhes que a outra via é melhor.

 

Upshaw concordava com Célia acerca da necessidade de ensinar as vendas. Ele próprio pouca ou nenhuma dessa educação recebera e conseguira os seus conhecimentos científicos - numa quantidade surpreendente, como ela descobriu - por autodidactismo através dos anos.

 

Os dois deram-se bem e depressa organizaram uma divisão das tarefas. Célia escrevia os programas de treino, uma tarefa que Upshaw detestava, e ele punha-os em acção, o que adorava fazer.

 

Uma das inovações de Célia era uma representação de uma entrevista entre um médico e um delegado de vendas, com este apresentando uma das drogas da Felding-Roth e o médico fazendo perguntas difíceis, agressivas até. Em geral Teddy, Célia ou outro membro do pessoal faziam o papel do médico; ocasionalmente, com o auxílio de Andrew, convenciam um médico de verdade a participar e aumentar a realidade. As sessões mostraram-se imensamente populares, quer para os participantes, quer para os observadores.

 

A cada novo delegado de propaganda admitido pela Felding-Roth era agora administrado um treino de cinco semanas enquanto os já empregados na companhia eram trazidos à sede para dez dias de sessões a fim de refrescarem ideias. Para surpresa de toda a gente, os mais velhos não só eram cooperativos como estavam ansiosos por aprender. Célia, que dava também aulas regulares, era querida de todos. Descobriu que os delegados que tinham estado no encontro do Waldorf se referiam a ela como a ”Joana d’Arc” porque, como um deles explicou, ”embora Jordan não fosse queimada por heresia, esteve mesmo à beira de o ser”. Quando Célia pensava na convenção de vendas compreendia, em retrospectiva, a sorte que tivera e como estivera perto de destruir a sua carreira. Noutras alturas pensava: se Sam Hawthorne não tivesse falado, defendendo-a, se tivesse sido expulsa da convenção e mais tarde do emprego, ter-se-ia arrependido de ter actuado daquela maneira? Esperava que não. Esperava também ter o mesmo tipo de coragem no futuro para enfrentar as confrontações que estavam para vir. De momento, pensou, encontrava-se satisfeita com o resultado.

 

No seu novo trabalho Célia via bastante Sam Hawthorne, pois, embora oficialmente os contactos fossem com Teddy Upshaw, Sam mantinha um interesse pessoal pelo programa de treino e estava ao corrente da contribuição de Célia.

 

Menos harmoniosa era a relação de Célia com o director da investigação, o Dr. Vincent Lord. Devido à necessidade de auxílio científico nas informações do treino, o Departamento de Investigação era consultado com frequência, algo que o Dr. Lord mostrara claramente considerar uma imposição. No entanto recusara-se a delegar a responsabilidade noutra pessoa. Durante uma acalorada sessão com Célia dissera a esta:

 

- Pode ter enganado o senhor Camperdown e os outros para conseguir construir o seu pequeno império, mas a mim não engana.

 

Mantendo-se, com esforço, calma, ela retorquiu:

 

- Não é ”império” meu. Sou a assistente, não a directora. Será que prefere que os médicos continuem a receber informações erradas como até aqui?

 

- De qualquer modo - disse o Dr. Lord, furibundo - duvido que você soubesse a diferença.

 

Quando relatou a conversa a Upshaw este encolheu os ombros e comentou:

 

- Vince Lord é um provocador de primeira classe. Mas um provocador que sabe da sua ciência. Queres que fale com Sam para que leve um chutozinho?

 

- Não - disse ela com firmeza. - Tratarei dele à minha maneira.

 

A maneira dela incluía colher mais insultos, mas ao mesmo tempo aprendendo e, por fim, respeitando a competência de Vincent Lord. Embora apenas sete anos mais velho que Célia - tinha trinta e seis anos - as suas impressionantes qualificações incluíam um bacharelato em Ciências com distinção da Universidade de Wisconsin, um doutoramento em Química da Universidade de Ilinóis e era membro de honra de várias sociedades científicas. Vincent Lord publicara trabalhos que descreviam as suas descobertas mais significativas - um deles, respeitante à contracepção oral, conduzira a progressos na pílula. O que toda a gente estava à espera, descobriu Célia, é que o Dr. Lord acabasse eventualmente por conseguir um êxito no desenvolvimento de uma nova e importante droga.

 

Mas nunca no seu caminho Vincent Lord aprendera a ser um ser humano agradável. Talvez, pensou Célia, fosse por isso que continuara um bacharel, embora fosse bastante atraente fisicamente de uma forma ascética e austera.

 

Um dia, tentando melhorar as suas relações, ela sugeriu-lhe que usassem os nomes próprios, uma prática comum na companhia. Ele avisara-a com frieza:

 

- Seria melhor para ambos, senhora Jordan, nunca nos esquecermos da diferença de categorias entre nós.

 

Célia continuava a sentir que o antagonismo gerado no seu primeiro encontro, ano e meio antes, continuaria a ser uma parte permanente das relações entre eles. Mas, apesar disso, e pela persistência de Célia, a contribuição do Departamento de Investigação para o programa de treinos mostrou-se substancial.

 

Não porque o programa para elevar o padrão de propaganda fosse inteiramente bem sucedido ou aceite. Não o era. Célia pretendera introduzir um sistema de relatório com avaliações do trabalho dos delegados através de questionários confidenciais. Os questionários seriam enviados pelo correio para os médicos da área de cada delegado. A sugestão subiu ao mais alto nível e foi vetada.

 

Então Célia sugeriu que as cartas de reclamações sobre os delegados, enviadas por médicos, fossem centralizadas no Treino de Vendas onde seria mantido um arquivo. Sabia, pelos seus contactos pessoais, que tais cartas existiam, mas ninguém na companhia admitia tê-las visto e presumivelmente estavam enterradas em qualquer arquivo como as medidas correctivas, se as tivesse havido, secretas. Este pedido foi também recusado.

 

Como Teddy Upshaw explicara cheio de paciência:

 

- Há certas coisas que os poderes em exercício não querem saber. Mudaste algumas delas porque te impuseste na barafunda das vendas e disseste umas verdades, depois Sam salvou-te e já não se podem continuar a esconder e há que fazer qualquer coisa. Mas não os puxes, nem demasiado longe, nem demasiado depressa.

 

Soava impressionantemente similar ao conselho que Sam Hawthorne lhe dera antes do discurso no Waldorf e Célia retorquiu:

 

- Um dia destes o Governo vai entrar cá dentro e dizer-nos o que temos de fazer.

 

- Já o tinhas dito - confirmou Upshaw - e talvez tenhas razão. Mas poderá ser a única forma.

 

Deixaram as coisas assim.

 

O assunto das drogas e da indústria farmacêutica estava também noutros espíritos.

 

Durante grande parte de 1960 o negócio das drogas foi notícia quase diariamente - muitas vezes de fornia desfavorável. As audições do Senado, presididas pelo senador Kefauver, estavam a mostrar-se uma mina de ouro para os repórteres e uma inesperada agonia para companhias como a Felding-Roth. As duas coisas resultavam, em parte, de um planeamento cuidadoso do senador e respectivo pessoal.

 

Tal como noutras audições do Congresso, a ênfase estava colocada na política com a tendência decidida de antemão. Um repórter de Washington, Douglass Cater, escreveu: ”Eles... vão de uma ideia preconcebida para uma conclusão predeterminada.” Havia também, da parte de Estes Kefauver e auxiliares, uma busca constante de títulos; deste modo as suas apresentações eram unilaterais. O senador mostrou-se um mestre em revelar acusações sensacionais no momento em que os repórteres saíam da sala para escrever as suas histórias - 11.30 para os jornais da tarde e 16.30 para as edições matutinas. Deste modo as refutações surgiam quando os repórteres estavam ausentes.

 

Apesar da deslealdade emergiam algumas feias verdades. Revelavam o excessivo preço das drogas; conluios ilegais para fixação de preços; acordos fraudulentos nos contratos para fornecimentos de drogas ao Governo; publicidade enganadora aos médicos, incluindo minimizar ou mesmo ignorar efeitos colaterais perigosos; infiltração da Food and Drug Administration pelas companhias farmacêuticas e aceitação, por um funcionário de alto nível da FDA, de ”honorários” que somavam duzentos e oitenta e sete mil dólares vindos de uma firma.

 

Os títulos dos jornais, se bem que parciais, acertavam em cheio nalguns abusos:

 

SENADORES DESCOBREM 1118% DE MARGEM DE LUCRO EM DROGAS

 

Washington Evening Star

 

COMISSÃO DE SENADORES CITA MARGEM DE LUCRO EM DROGAS INDO ATÉ 7079%

 

The New York Times

 

GRANDES LUCROS NOS TRANQUILIZANTES A cloropromazina custa seis vezes mais nos Estados Unidos que em Paris

 

The New York Times

 

Os testemunhos revelaram que drogas descobertas e aperfeiçoadas em países estrangeiros eram muito mais baratas nesses países que nos Estados Unidos. Salientava-se que tal era um absurdo porque as companhias americanas que comercializavam tais drogas não tinham custos de desenvolvimento.

 

Nas farmácias de França, por exemplo, cinquenta comprimidos de cloropromazina custavam cinquenta e um cêntimos, mas nos Estados Unidos custavam três dólares e três cêntimos. Da mesma forma o preço nos Estados Unidos da reserpina era três vezes superior ao vigente na Europa onde a droga fora criada.

 

Outro contraste estranho era o facto da penicilina de fabrico americano custar no México menos dois terços do que custava no país de origem. Sugeria-se que este e outros preços americanos eram altos por acordos ilegais entre os fabricantes.

 

A COMIDA PARA ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO É MELHOR INSPECCIONADA QUE AS DROGAS

 

Los Angeles Times

 

DISCURSO DE FUNCIONÁRIO DA FDA CORRIGIDO POR LABORATÓRIO Publicidade de firma farmacêutica em discurso

 

New York Times

 

Os testemunhos revelaram que o discurso proferido por um chefe de divisão da FDA no Simpósio Internacional sobre Antibióticos fora enviado, para aprovação prévia, a uma companhia farmacêutica, Pfizer. Um perito em publicidade alterara o texto de forma a incluir, por inferência, uma indicação sobre um produto da Pfizer, a Sigmamycin. Mais tarde a companhia comprara duzentas e sessenta mil cópias do discurso usando-o como aval da FDA.

 

Os títulos desagradáveis dos jornais continuaram, às vezes dias seguidos, em grandes e pequenas cidades de costa a costa, com a televisão e a rádio a ajudarem à festa.

 

Célia acabou por exprimir a Andrew o que sentia, em Dezembro:

 

- Não foi um ano para nos gabarmos da nossa profissão.

 

Nessa altura Célia estava no período de descanso por causa do nascimento do segundo filho em fins de Outubro, mais uma vez de acordo com o programa de Célia. Tal como Andrew ansiara, era um rapaz. Deram-lhe o nome de Bruce.

 

As vidas de ambos tinham-se tornado mais fáceis uns meses atrás pela chegada de uma jovem inglesa, Winnie August, que agora vivia lá em casa e tomava conta das crianças na ausência dos pais. Andrew encontrara-a através de uma agência que anunciava em revistas médicas. Tinha dezanove anos, trabalhara anteriormente como vendedora numa loja de Londres e, como a própria Winnie explicava: ”Queria passar umas férias de trabalho descobrindo como eram os lanques e depois talvez fosse um par de anos viver com os Australianos.” Era simpática, desembaraçada e, para grande alegria de Andrew, despachava o pequeno-almoço com uma rapidez de relâmpago. ”Vem com a prática. Fazia isto lá em casa com a mamã”, explicou-lhe ela quando Andrew a cumprimentou pelo serviço. Winnie gostava muito de crianças e Lisa adorava-a. Andrew e Célia esperavam que a partida de Winnie para a Austrália ficasse longo tempo adiada.

 

Um outro evento que chamou a atenção de Célia deu-se no fim de 1960. A droga americana Thalidomide - conhecida nos Estados Unidos e no Canadá como Kevadon - foi submetida à FDA para aprovação. Segundo as revistas da indústria farmacêutica, a Merrell Company, que possuía agora os direitos americanos, tinha planos em grande escala para a Thalidomide-Kevadon, pois esperava que a droga se vendesse muito bem como continuava a acontecer na Europa. A companhia estava a pressionar a FDA para uma rápida aprovação. Entretanto amostras da droga - oficialmente para ”investigação”, embora na realidade sem qualquer restrição - eram distribuídas a mais de mil médicos por entusiasmados delegados da Merrell.

 

As notícias fizeram Célia recordar a conversa com Sam Hawthorne uns oito meses antes quando este se referira ao ressentimento dentro da Felding-Roth por a Thalidomide, devido a uma sugestão de Célia, só ter sido ensaiada em velhos e rejeitada. Perguntou a si mesma se o ressentimento ainda existiria, mas logo pôs o assunto de parte como se não tivesse importância.

 

Tinha outras preocupações.

 

Depois do nascimento de Bruce regressou ao trabalho mais depressa que após Lisa ter nascido pelo que a meio de Dezembro já estava de novo na Felding-Roth. Uma razão: era uma altura em que havia muito trabalho no Treino de Vendas. A companhia estava a expandir-se e ia ser admitida mais uma centena de delegados de propaganda - assim como, por pressão de Célia, algumas delegadas, embora apenas uma escassa meia dúzia. Para a sua decisão contribuiu também um contagiante sentimento de excitação nacional. Em Novembro, John F. Kennedy foi eleito presidente e parecia - pelo menos pelos discursos - que uma nova era, estimulante e criativa, começara.

 

- Quero tomar parte em tudo isto - confidenciou Célia a Andrew. - As pessoas falam de ”um novo começo” e em ”fazer história”, e a dizer que é tempo de se ser jovem e ter a responsabilidade de qualquer coisa. Regressar ao trabalho significa participar.

 

- Uhmm... - murmurara Andrew quase com indiferença, o que não era habitual. Depois, como se apercebesse disso, acrescentou: - Por mim tudo bem. - Mas o espírito de Andrew não estava ligado às coisas de Célia; estava preocupado com um problema próprio.

 

O problema dizia respeito ao Dr. Noah Townsend, o sócio mais velho de Andrew e respeitado chefe do Serviço de Medicina no Hospital de St. Bede. Andrew descobrira uma coisa sobre Noah, má e desagradável, que punha em questão a competência do homem para exercer medicina.

 

O Dr. Townsend estava viciado em drogas.

 

Noah Townsend, agora com cinquenta e oito anos, parecera durante muito tempo representar tudo aquilo que um médico maduro e experiente devia ser. Era consciencioso, tratava todos os que o procuravam, pobres ou ricos, com igual desvelo. Tinha um ar distinto; sempre tivera maneiras corteses e dignas. Como resultado de tudo isto, o Dr. Townsend tinha uma clientela que gostava dele e lhe era leal - e com razão, pois ele servia-os bem. A sua capacidade para fazer diagnósticos era notável. A esposa de Townsend, Hilda, dissera em certa altura a Andrew: ”Uma vez estava numa festa com Noah e ele olhou para o outro lado da sala, para um desconhecido, e disse-me calmamente: ’Aquele homem está muito doente e não o sabe’, ou, noutra ocasião: ’Aquela mulher acolá, não sei como se chama, mas vai morrer em menos de seis meses.’ E estava sempre com razão. Sempre.”

 

Os doentes de Townsend sentiam o mesmo. Alguns, que contavam anedotas sobre os seus diagnósticos impecáveis, referiam-se-lhe como o ”médico bruxo”. Um até trouxera de África, como presente, uma máscara de bruxo que Townsend colocara com orgulho na parede do consultório.

 

Andrew respeitava também as capacidades do médico mais velho. Além disso crescera entre os dois uma genuína e calorosa afeição, a que não era estranho, pela parte de Andrew, o facto de Townsend sempre ter tratado generosamente o colega mais novo.

 

Contribuindo para o respeito de Andrew, havia o facto de Noah Townsend se conservar sempre actualizado no campo médico mediante um estudo sistemático, uma coisa que muitos clínicos da sua idade descuidavam. No entanto Andrew notava também, nos últimos meses, um certo ar vago e um discurso lento da parte de Townsend. Depois tinham-se dado aqueles incidentes no princípio do ano em que Townsend mostrara um comportamento bizarro. Os sintomas perturbavam Andrew, embora continuasse a pensar que a tensão e o cansaço podiam ser a causa de tudo isso pois ambos os médicos estavam a trabalhar de mais, com excesso de doentes.

 

Fora um mês atrás, numa tarde de Novembro, que Andrew recordava como o início de uma agonizante busca interior, que a perturbação e a vaga desconfiança se transformaram em certeza.

 

Aconteceu deste modo. Andrew precisou de discutir a programação dos dias de folga, dias em que ele e o Dr. Townsend se substituíam mutuamente. Depois de verificar que não havia nenhum doente no gabinete de Townsend, Andrew batera ao de leve na porta e entrara. Era uma coisa que qualquer deles estava habituado a fazer com frequência.

 

Townsend estava de costas para Andrew e rodou, assustado, incapaz de esconder o que tinha na palma da mão - um considerável monte de comprimidos e cápsulas. Mesmo assim Andrew nada veria de especial nisso se não fora o imediato comportamento do homem mais velho. Townsend corara, embaraçado, mas enchendo-se de coragem levou a mão à boca, despejou lá os comprimidos e empurrou-os bebendo um copo de água.

 

Townsend não tinha maneira de esconder o significado daquilo que Andrew vira, mas mesmo assim tentou encarar as coisas de ânimo leve:

 

- Com que então apanhaste-me a encher a fornalha!... Bem, admito que o faço uma vez por outra, bem sabes como tenho estado sob tensão nos últimos tempos... Mas não deixo as coisas fugirem-me das mãos... sou um médico já muito batido, meu rapaz. Sei de mais para perder o controlo... Um bom bocado de mais. Townsend riu-se, um riso que soou a falso. - Não precisas de ficar preocupado, Andrew, sei quando e onde devo parar.

 

A explicação não convenceu Andrew. Menos convincente ainda era a fala arrastada, um arrastamento que sugeria que aqueles comprimidos não tinham sido os primeiros que Noah Townsend ingerira naquele dia.

 

Andrew perguntou, com uma aspereza de que logo se arrependeu:

 

- O que está a tomar? De novo o riso falso.

 

- Oh! Apenas umas Dexedrine, unsPercodan, uma pitada de Darvon só para dar sabor... Andrew, que raio te interessa isso? - E depois, com um toque de beligerância. - Já te disse que sei controlar-me. Agora: qual o assunto que te trouxe aqui?

 

Com a mente num torvelinho Andrew mencionou o assunto dos dias de folga que agora pareciam absurdamente pouco importantes - combinou com uma certa pressa as coisas e deixou o gabinete de Noah Townsend o mais rápido que conseguiu. Precisava de ficar só para pensar.

 

Andrew horrorizara-se com a quantidade de drogas - devia ser mais de uma dúzia de comprimidos e cápsulas - que o seu colega mais velho engolira com tanto à vontade. De acordo com o próprio Noah eram estimulantes e depressores

- drogas que reagiam entre si e que nenhum médico competente prescreveria em simultâneo. Sem ser um perito em viciação, Andrew sabia o bastante para compreender que a quantidade e o à-vontade eram marcas registadas de alguém que há muito seguia a estrada do vício. E drogas tomadas indiscriminadamente, como era claro que Noah as tomava, podiam ser tão perigosas e destruidoras como qualquer droga vendida ilegalmente nas ruas.

 

Que fazer a seguir? De imediato, decidiu Andrew, era preciso descobrir mais coisas.

 

Nas duas semanas seguintes usou todos os bocadinhos de tempo livre para visitar bibliotecas médicas. A de St. Bede era modesta; Andrew conhecia outra em Newark. Ambas tinham artigos sobre médicos que se haviam viciado em drogas e, ao estudar o material, a primeira coisa que se lhe tornou evidente foi a natureza comum e disseminada do problema. A Associação Médica Americana calculava que cerca de cinco por cento dos médicos estavam ”afectados” em virtude do abuso de drogas, alcoolismo ou causas similares. Se a Associação Médica admitia um número tão elevado, raciocinou Andrew, o número real devia ser bastante mais alto. Havia outros que pareciam concordar com ele. A maior parte falava em dez por cento, vários apontavam para quinze.

 

Uma conclusão que era comum a todos os observadores é que os médicos se metiam em sarilhos devido a excesso de confiança. Convenciam-se de que os seus conhecimentos especializados lhes permitiam usar as drogas sem que o hábito se tomasse perigoso, mas quase sempre estavam errados. As palavras de Noah Townsend ”... não deixo as coisas fugirem-me das mãos... sei de mais para perder o controlo... sei quando e onde devo parar...” pareciam um patético eco do que Andrew lia.

 

A questão é que os médicos se tornavam ”viciados bem sucedidos”, não detectados por longos períodos devido à facilidade com que podiam obter as drogas. Como Andrew sabia isso! Fora um assunto que discutira com Célia - o facto dos médicos poderem conseguir qualquer droga, virtualmente em quantidade ilimitada, bastava pedi-la ao delegado de propaganda da firma em questão.

 

De uma forma que o envergonhava, embora mentalmente justificada como necessária, Andrew conseguiu inspeccionar o armário no gabinete de Noah Townsend onde este guardava os medicamentos. Fê-lo numa altura em que Townsend estava no hospital.

 

O armário deveria estar fechado, mas não estava. Nele, empilhadas e ocupando todos os espaços disponíveis, havia uma espantosa colecção de embalagens dos laboratórios incluindo uma boa quantidade de narcóticos. Andrew reconheceu alguns daqueles que Townsend referira.

 

Andrew mantinha algumas drogas no seu gabinete, amostras daquelas que receitava com regularidade, que por vezes dava a doentes que sabia terem problemas financeiros. Mas, comparado com o que ali estava, o seu armário estava vazio. Nem nunca, por questões de segurança, Andrew acumulava narcóticos. Assobiou baixinho de espanto. Como é que Noah podia ser tão descuidado? Como mantivera tudo em segredo durante tanto tempo? Como é que podia tomar as drogas que ingeria e controlar-se? Não existiam respostas simples.

 

Mais alguma coisa chocou Andrew. Descobriu, nas suas pesquisas, que não existia qualquer programa para ajudar médicos com problemas por ingestão em excesso de drogas, nem para proteger os seus doentes. A profissão médica ignorava o problema sempre que podia fazê-lo; quando o não podia, tapava-o com o segredo, cerrando fileiras. Ao que parecia nunca nenhum médico tinha participado que outro era um viciado em drogas. Quanto a um médico que tivesse perdido o direito de exercer medicina por causa de ser viciado em drogas, Andrew não conseguiu descobrir uma só referência sequer a tal acontecimento.

 

E, no entanto, outra questão perseguia Andrew. E os doentes de Noah Townsend que, de certo modo, eram também seus doentes uma vez que os compartilhavam, pois se substituíam de vez em quando? Estariam esses doentes a correr algum risco? Embora o comportamento de Townsend parecesse normal e embora, tanto quanto Andrew soubesse, não tivesse até agora cometido erros médicos, até quando esta situação continuaria? Podia confiar-se nele? Ou algum dia, por causa das drogas, Noah faria um diagnóstico errado ou não se aperceberia de um sintoma importante que devia reconhecer? E quanto à sua maior responsabilidade como chefe do Serviço de Medicina em St. Bede?

 

Quanto mais Andrew pensava, mais as questões se multiplicavam e mais se lhe escapavam as respostas.

 

Por fim falou a Célia.

 

Foi num princípio de tarde, alguns dias antes do Natal. Célia e Andrew estavam em casa e, com a ajuda excitada de Lisa, decoravam a árvore. Era a primeira vez que Lisa tomava consciência do ”Natal”, como ela lhe chamava; todos os três estavam a adorar a experiência. Mais tarde, com a filha quase a dormir de excitação e de fadiga, Andrew levou-a com carinho para a cama. Depois parou uns instantes no quarto ao lado onde Bruce, o bebé, dormia tranquilamente no berço.

 

Quando Andrew regressou à sala de estar Célia preparara um uísque com soda.

 

- Fi-lo bem forte - disse-lhe ela ao dar-lhe o copo. - Acho que precisas dele.

 

Quando ele a olhou inquisitivamente, ela continuou:

 

- Lisa fez-te bem esta noite; estás mais relaxado do que te tenho visto nas últimas semanas. Mas continuas perturbado. Não estás?

 

- Vê-se assim tanto? - perguntou ele, surpreendido.

 

- Querido: estamos casados há quatro anos!

 

- Foram os melhores quatro anos da minha vida - comentou ele, sentidamente. Enquanto bebia o uísque concentrou-se na árvore de Natal e no silêncio de Célia que esperava. Depois afirmou: - Se era assim tão óbvio por que é que nunca me perguntaste o que havia?

 

- Sabia que não mo dirias enquanto não estivesses preparado. - Célia bebeu um pouco do daiquiri que preparara para si. - Queres contar-me? Agora?

 

- Sim - respondeu ele devagar. - Sim, acho que quero.

 

- Meu Deus! - exclamou Célia num murmúrio quando Andrew terminou. Oh, meu Deus!

 

- Como vês - disse ele -, se não tenho sido muito alegre é porque havia uma boa razão.

 

Ela aproximou-se dele, passou-lhe os braços em volta, encostou-lhe o rosto no seu e segurou-o com força.

 

- Meu pobre, pobre querido. Que fardo tens suportado! Não fazia a mínima ideia. Tenho tanta pena de ti.

 

- Será mais correcto... ter pena de Noah.

 

- Oh, tenho. Tenho mesmo. Mas sou mulher, Andrew, e tu és quem mais significa para mim. Não posso, não quero, ver-te numa situação dessas.

 

- Então diz-me o que fazer - disse ele com brusquidão.

 

- Sei o que há a fazer. - Célia largou-o para o olhar de frente. - Tens de partilhar isto, Andrew. Tens de dizer a alguém, não apenas a mim.

 

- Quem... por exemplo?

 

- Não é óbvio? A alguém do hospital... a alguém com autoridade que possa agir e até ajudar Noah.

 

- Não posso, Célia. Se o fizer falarão disso, virá a público... Noah cairá em desgraça. Será destituído do cargo de chefe do Serviço de Medicina, só Deus sabe o que acontecerá à sua licença e, de qualquer forma, isso quebrá-lo-á. Não posso, simplesmente não posso, fazer isso.

 

- Nesse caso qual é a alternativa?

 

- Gostaria de saber - respondeu ele sombriamente.

 

- Quero ajudar-te - disse Célia. - Quero mesmo e tenho uma ideia.

 

- Espero que seja melhor que a última.

 

- Não tenho a certeza de que a última estivesse errada. Mas se não quiseres falar especificamente de Noah Townsend por que é que não falas de alguém em abstracto? Sonda-os. Discute o assunto de uma forma geral. Descobre o que pensam sobre isso as outras pessoas do hospital.

 

- Tens alguém em mente?

 

- Por que não o administrador?

 

- Len Sweeting? Não tenho a certeza. - Andrew deu uma volta pela sala, pensando, e parou ao pé da árvore de Natal. - Bem, pelo menos é uma ideia. Obrigado. Deixa-me pensar no assunto.

 

- Espero que tu e Célia tenham tido um bom Natal - disse Leonard Sweeting.

 

- Sim - assegurou-lhe Andrew -, tivemos.

 

Estavam no gabinete do administrador do hospital, de porta fechada. Sweeting sentado atrás da sua secretária, Andrew numa cadeira na sua frente.

 

O administrador era um ex-advogado alto e esgalgado que poderia ter sido um jogador de basquetebol, mas, em vez disso, tinha o invulgar passatempo de lançar ferraduras e até já ganhara vários campeonatos. Às vezes dizia que ganhar campeonatos era mais fácil que conseguir a concordância dos médicos sobre um qualquer assunto. Mudara da advocacia para o hospital ainda na casa dos vinte e agora, no fim dos quarenta, parecia saber tanto de medicina como alguns médicos. Andrew começara a conhecer bem Len Sweeting desde o envolvimento de ambos no incidente da Lotromycin, quatro anos antes, e, no fundamental, respeitava-o.

 

O administrador tinha umas sobrancelhas espessas e grandes que se moviam para cima e para baixo, como cílios vibratórios, cada vez que falava. De repente Sweeting entrou no assunto:

 

- Disseste-me que tinhas um problema, Andrew. Qualquer coisa sobre que precisavas de conselhos.

 

- Na verdade é um médico meu amigo, na Florida, que tem o problema mentiu Andrew. - Pertence ao pessoal de um hospital de lá e descobriu uma coisa que não sabe como resolver. De forma que me pediu para saber como é que aqui enfrentaríamos a mesma situação.

 

- Que espécie de situação?

 

- Tem a ver com drogas.

 

Em poucas palavras Andrew esboçou uma situação hipotética paralela à real, embora evitando cuidadosamente que a comparação fosse semelhante de mais.

 

Enquanto falava ficou consciente da atenção nos olhos de Sweeting, no evaporar do ar amigável inicial. As sobrancelhas do administrador fundiram-se num cenho franzido. No fim levantou-se.

 

- Andrew, tenho aqui problemas que me cheguem para precisar de um vindo de outro hospital. aconselho-te a que o teu amigo seja muito, muito cuidadoso. Está a caminhar em terreno deveras perigoso, em especial ao fazer uma acusação contra outro médico. Agora, se me permites...

 

”Ele sabia!” Num relâmpago de intuição Andrew compreendeu que Len Sweeting sabia precisamente do que ele estivera a falar e sobre quem era a conversa. O truque do amigo da Florida não enganara um momento sequer Sweeting. ”Deus sabe como”, pensou Andrew, ”mas ele sabe de tudo há mais tempo do que eu.” E o administrador não queria meter-se no assunto. Tudo o que queria, estava bem claro naquele momento, era pôr Andrew fora do seu gabinete.

 

”E outra coisa mais.” Se Sweeting sabia, então os outros no hospital também deviam sabê-lo. Quase de certeza que nesse grupo se incluíam colegas médicos, alguns deles mais graduados que Andrew. E também eles nada iam fazer.

 

Andrew levantou-se para sair, sentindo-se simplório e parvo. Len Sweeting acompanhou-o até à porta, novamente amigável, a mão sobre o ombro do jovem médico.

 

- Desculpa ter de te pôr fora desta maneira, mas espero uns visitantes importantes: grandes beneméritos para hospitais que talvez nos ofereçam vários milhões de dólares. E bem sabes que precisamos desse dinheiro. A propósito: o teu chefe também estará aqui. Noah ajuda imenso no levantamento de fundos. Parece conhecer toda a gente e toda a gente gosta dele. Há alturas em que pergunto a mim mesmo como é que este hospital funcionaria sem o nosso doutor Townsend.

 

Então era isso. A mensagem clara e inequívoca: Deixa Noah Townsend em paz. Os contactos de Noah e os seus amigos endinheirados tornavam-no demasiado valioso para St. Bede deixar que algum escândalo se intrometesse. Vamos esconder a coisa, colegas; talvez se fingirmos que o problema não existe ele se resolva.

 

E é claro que, se Andrew tentasse repetir o que Sweeting acabara de lhe dizer, o administrador negaria que a conversa tivesse existido ou diria que as suas palavras tinham sido mal interpretadas.

 

No fim, e tal deu-se já bastante tarde nesse dia, Andrew decidiu que só podia fazer o que toda a gente fazia - nada. Resolveu que, dali em diante, e o melhor que pudesse, iria vigiar o seu colega mais velho de perto tentando assegurar-se de que nem a prática clínica, nem os doentes de Noah fossem prejudicados.

 

Quando Andrew contou a Célia a cadeia de acontecimentos e sobre a sua decisão ela olhou-o de forma estranha:

 

- A decisão é tua e compreendo por que a tomaste. No entanto pode ser uma coisa de que te irás arrepender.

O Dr. Vincent Lord, director de pesquisa da Felding-Roth Pharmaceuticals, Inc., era uma personalidade complexa - uma pessoa menos simpática diria ”baralhada”. Um colega cientista observara: ”Vince comporta-se como se a sua psique estivesse a rodar numa centrifugadora e não soubesse como ela iria de lá sair - nem de como quereria que saísse.”

 

Que uma tal apreciação fosse feita é em si mesmo paradoxal. Com a relativamente jovem idade de trinta e seis anos, o Dr. Lord alcançara um tal grau de sucesso com que muitos sonham mas que poucos atingem. Mas este facto levava-o a estar preocupado pensando sobre como ali chegara e sobre o que ficara para trás.

 

O que também se poderia dizer do Dr. Lord é que, se não tivesse havido desapontamentos na sua vida, tê-los-ia inventado. Exprimindo de outra forma: alguns dos seus desapontamentos eram mais ilusórios que reais.

 

Um deles era o de não ter recebido o respeito que achava merecer da comunidade académico-científica que continuava a considerar-se superior aos cientistas dos laboratórios farmacêuticos - encarando-os, em geral, se bem que muitas vezes erradamente, como de segunda classe.

 

No entanto fora uma escolha pessoal e livre de Vincent Lord, três anos antes, passar de professor assistente na Universidade de Ilinóis à indústria e à Felding-Roth. Contudo esta escolha foi fortemente influenciada pela frustração e raiva que Lord sentia nessa altura - ambas dirigidas contra a Universidade -, uma raiva que ainda hoje persistia ao ponto de ser uma amargura permanentemente a corroer.

 

Em simultâneo com essa amargura havia uma pergunta que com frequência punha a ele próprio: Fora apressado e errado em deixar a Universidade? Ter-se-ia tornado um cientista mais respeitado internacionalmente se tivesse permanecido onde estava ou pelo menos mudado para outra Universidade noutro sítio qualquer?

 

A história por detrás de tudo isto remontava a seis anos atrás, a 1954.

 

Foi nessa altura que Vincent Lord, um estudante graduado da Universidade de Ilinóis, se tomou no ”Dr. Lord” com um doutoramento em Química Orgânica. Fora um bom doutoramento. A escola de Química da Universidade, em Champaign-Urbana, era reconhecida como uma das melhores do mundo e Lord mostrara-se um estudante brilhante.

 

O seu aspecto correspondia ao conceito de um estudioso. Tinha um rosto fino, sensível, delicadamente estruturado e, de certo modo, agradável. Menos agradável era o facto de que raramente sorria e tinha quase sempre um semblante carregado. A sua vista era má, talvez devido aos anos de intenso estudo, pelo que usava óculos sem aros através dos quais se viam olhos verde-escuros - o aspecto mais saliente de Lord -, que olhavam com uma atenção misturada com suspeita. Era alto e magro, esta última característica porque a comida não lhe despertava qualquer interesse. Encarava as refeições como um desperdício de tempo e comia porque o seu corpo o exigia; nada mais. As mulheres sintonizadas com homens sensíveis achavam Vincent Lord atraente. Os homens pareciam estar divididos: uns gostavam dele, outros detestavam-no.

 

O seu campo de especialidade eram os esteróides. Isto incluía as hormonas masculinas e femininas - testosterona, estrogénio, progestrona - que afectam a fertilidade, a agressividade sexual e o controlo dos nascimentos e, durante esse período dos anos cinquenta em que a pílula começava a ser usada, o assunto dos esteróides tinha um amplo interesse científico e comercial.

 

Após alcançar o doutoramento, e uma vez que o seu trabalho sobre os esteróides corria bem, pareceu lógico ao Dr. Lord fazer uma bolsa pós-doutoramento de dois anos, também na Universidade de llinóis.

 

A Universidade era cooperante, um financimento para um pós-doutoramento era fácil de obter num organismo estatal, e os dois anos passaram entre contínuos sucessos científicos e apenas pequenos problemas pessoais. Os problemas surgiam pelo hábito, quase uma obsessão, que Lord tinha de olhar mentalmente por cima do ombro e perguntar a si mesmo: ”Fiz o que devia ter feito?”

 

Meditava: Teria cometido um erro ao ficar ”em casa” na Universidade de llinóis? Deveria ter cortado os laços e ido para a Europa? A Europa ter-lhe-ia proporcionado uma educação melhor? As questões - a maior parte delas desnecessárias - multiplicavam-se com persistência. Além disso tornavam-no taciturno e mal-humorado, um traço que iria persistir e fazê-lo perder amigos.

 

E, no entanto, outra faceta do prisma paradoxal que era Vincent Lord, tinha uma alta opinião do seu valor e do seu trabalho, uma opinião que era plenamente justificada. Daí que não ficasse surpreendido quando, depois dos dois anos de pós-doutoramento, a Universidade de llinóis lhe ofereceu um posto de professor assistente. Aceitou. Mais uma vez ficou ”em casa”. Mais uma vez, à medida que o tempo passava, meditou sobre esta sua última decisão e repetiu a tortura das primeiras questões.

 

Um anjo que olhasse para a alma de Vincent Lord podia até perguntar: Porquê?

 

Durante o período de Lord como professor assistente a sua reputação como especialista em esteróides floresceu, não só na Universidade de llinóis como mais longe. Em pouco mais de quatro anos publicou quinze comunicações científicas, algumas delas em publicações prestigiosas como o Journal of the American Chemical Society e o Journal ofBiological Chemistry. Era um excelente recorde considerando a sua posição na Universidade.

 

E isso era algo que enfurecia o dr. Lord, uma fúria que ia aumentando com o tempo.

 

No mundo misterioso da Escolástica e da Ciência as promoções raramente eram aceleradas e quase sempre eram dolorosamente lentas. O degrau imediato para Vincent Lord seria o de professor agregado - um título cobiçado, um título que equivalia a uma coroa de louros ou a um seguro financeiro para toda a vida, conforme o ponto de vista com que fosse encarado. Ser professor agregado era também um sinal que dizia: ”Conseguiste. És agora do escol da Universidade. Tens uma coisa que não te podem tirar, és livre para trabalhares como quiseres, com poucas limitações. Chegaste.”

 

Vincent Lord queria desesperadamente esta promoção. E queria-a já. Não daqui a dois anos, o período que lhe faltava para, pelas vias normais, lá chegar.

 

Assim, pensando por que é que a ideia ainda não lhe tinha ocorrido antes, decidiu acelerar a promoção. Com o seu currículo, raciocinou ele, seria uma coisa simples, uma mera formalidade. Cheio de confiança preparou uma bibliografia, telefonou a marcar um encontro com o deão na semana seguinte e, quando o encontro ficou marcado, despachou a bibliografia a precedê-lo.

 

O deão Robert Harris era um homem pequeno, enrugado e sábio, embora a sua sabedoria incluísse dúvidas sobre a sua própria capacidade para tomar as decisões socráticas que frequentemente lhe eram requeridas. Basicamente era um cientista. Mantinha ainda um pequeno laboratório e participava em encontros científicos várias vezes por ano. No entanto a maior parte das suas horas de labor eram tomadas pela administração da Escola de Química.

 

Numa manhã de Março de 1957 o deão Harris estava no seu gabinete folheando as páginas da bibliografia do Dr. Vincent Lord e tentando imaginar por que lhe teria sido enviada. Com alguém tão temperamental e imprevisível como Lord podia haver uma dúzia de razões. Bem, depressa descobriria. O sujeito da bibliografia chegaria dentro de quinze minutos.

 

Fechando a volumosa pasta que lera total e cuidadosamente - o deão era por natureza consciencioso -, recostou-se na cadeira de braços matutando nos factos e nos seus instintos pessoais e privados acerca de Vincent Lord.

 

O homem tinha o potencial do génio. Disso não havia dúvidas. Se o deão já não o soubesse teria aprendido isso pela recente leitura dos trabalhos publicados de Lord e dos comentários e louvores que o acompanhavam. No campo que escolhera, Vince Lord podia, e provavelmente fá-lo-ia, escalar as alturas de Parnaso. Com uma certa sorte, que os cientistas tais como os outros mortais necessitavam ter, podia haver uma esplêndida descoberta no seu futuro, uma descoberta que trouxesse renome a ele e à Universidade de Ilinóis. Tudo parecia positivo, todos os sinais estavam verdes. E, no entanto...

 

Em certas ocasiões o Dr. Vincent Lord fizera o deão Harris sentir-se pouco à vontade.

 

A razão não residia no temperamento irado exibido por Lord; isso e ser brilhante eram coisas muitas vezes juntas e também eram aceitáveis. Qualquer universidade - o deão suspirou ao pensar nisso - era um caldeirão de animosidades e invejas, muitas vezes por questões sem importância argumentadas com uma teimosia surpreendente.

 

Não, era algo mais, algo mais - uma questão já antes levantada e que surgira agora de novo. Era ela: Seria que a semente da desonestidade intelectual, e logo da fraude científica, residiam algures no fundo de Vincent Lord?

 

Quase quatro anos atrás, no primeiro ano do Dr. Lord como professor assistente, preparara uma comunicação científica sobre uma série de experiências que, como o próprio Lord exprimira, tinham dado resultados excepcionais. A comunicação estava prestes a ser publicada quando um colega da Universidade de Ilinóis, um químico mais graduado, dera a conhecer que, ao tentar repetir as experiências e os resultados descritos pelo Dr. Lord, não o conseguira fazer; os seus resultados eram diferentes.

 

Seguiu-se uma investigação. Mostrou que Vincent Lord cometera erros. Pareciam ser erros honestos da interpretação e a comunicação de Lord foi corrigida e mais tarde publicada. Contudo não causou a sensação científica que os resultados originais - se estivessem correctos - teriam causado.

 

Em si o incidente não tinha qualquer significado. O que acontecera ao Dr. Lord acontecia de vez em quando ao melhor dos cientistas. Toda a gente comete erros. Mas se um cientista descobre mais tarde um erro seu é considerado normal e ético anunciar o erro e corrigir qualquer trabalho já publicado.

 

O que era diferente no caso de Lord era uma intuição, uma suspeita entre os seus pares, baseada na reacção de Lord quando confrontado, de que sabia dos erros, provavelmente descobertos quando a comunicação estava a ser preparada, mas que nada fizera na esperança de que mais ninguém notaria.

 

Durante uns tempos houve rumores no compus1 sobre senso moral e ética. Depois, a seguir a uma série de descobertas não contestadas e apreciadas feitas por Vincent Lord, os rumores pararam e o incidente ficou aparentemente esquecido.

 

O deão Harris também já quase o esquecera. Até uma conversa que tivera duas semanas antes numa conferência científica em São Francisco.

 

- Escuta, Bobby - dissera a Harris um professor da Universidade de Stanford e seu velho amigo íntimo -, se fosse a ti mantinha um olho num dos teus tipos, o Lord. Alguns de nós não conseguimos repetir os resultados das suas duas últimas comunicações. As suas sínteses estão perfeitas, mas não conseguimos os resultados espectaculares que ele reclama.

 

Quando pressionado a dar mais detalhes o informante acrescentou:

 

- Não estou a dizer que Lord não é honesto e todos sabemos que é bom. Mas dá a impressão de que é um jovem apressado, talvez demasiado apressado. Tu e eu sabemos o que quero dizer, Bobby, uma vez por outra cortando os cantos, interpretando os resultados da maneira como os desejas. Resulta em arrogância científica e perigo. Por isso te repito: a bem da Universidade de llinóis e de ti, toma cuidado!

 

Um deão Harris preocupado e pensativo agradeceu o conselho.

 

Quando regressou a Champaign-Urbana convocou o director do departamento do Dr. Lord e repetiu a conversa que tivera em São Francisco. O deão perguntara: ”Que se passa com as duas últimas publicações de Vince Lord’.’”

 

No dia seguinte o director do departamento estava de volta ao gabinete do deão com uma resposta. Sim, o Dr. Lord sabia que existiam algumas disputas acerca dos seus últimos resultados publicados; tencionava repetir as experiências e, se tal fosse o caso, publicar unia correcção.

 

Em face disto, tudo bem. No entanto uma questão não formulada pairava sobre toda.esta conversa: Teria Lord actuado se ninguém lhe tivesse chamado a atenção para o assunto?

 

Agora, duas semanas depois, o deão Harris estava mais uma vez a meditar nesta questão quando a sua secretária anunciou:

 

- O doutor Lord está aqui para o encontro.

 

- E é tudo - concluía Vincent Lord dez minutos mais tarde. Estava sentado do outro lado da secretária, de fronte para Harris. - Viu a minha bibliografia, deão Harris. Acho que é mais activa e impressionante que a de qualquer outro professor assistente nesta escola. Na realidade não há ninguém que se lhe chegue. Disse-lhe também o que planeio fazer no futuro. Juntando tudo isto acho que uma promoção acelerada é justificada e que a devo ter já.

 

O deão juntou as mãos, observou o Dr. Lord por entre as pontas dos dedos e disse um tanto ou quanto divertido:

 

- Não parece menosprezar o seu próprio valor.

 

- Por que o faria? - A resposta foi rápida e incisiva, destituída de humor. Os olhos verde-escuros de Lord fixavam-se com intensidade no deão. - Conheço o

 

1 Terrenos de uma universidade ou escola. (N. do E.)

 

meu currículo tão bem como qualquer outro. Além disso sei de muita gente por estas bandas que faz muito menos que eu.

 

- Se não se importa - disse o deão Harris com alguma agressividade -, deixemos as outras pessoas de fora. Os outros não são aqui a questão. A questão é você.

 

O rosto delicado de Lord corou.

 

- Não vejo sequer onde esteja a questão. As coisas parecem-me perfeitamente claras. Pensei que me tinha explicado bem.

 

- Sim, explicou-se. Com bastante eloquência.

 

O deão Harris decidiu que não se deixaria provocar ao ponto de perder a paciência. No fim de contas Lord tinha razão quanto ao currículo. Por que deveria mostrar falsa modéstia e fingimento? Até a agressividade era desculpável. Muitos cientistas - sendo ele mesmo um, o deão compreendia bem isso - simplesmente não têm tempo para aprender as bonitezas da diplomacia.

 

Nesse caso devia aceder ao pedido de rápida promoção formulado por Lord? Não. O deão Harris já sabia que não.

 

- Deve compreender, doutor Lord - salientou ele -, que não tomo sozinho as decisões sobre as promoções. Como deão dependo bastante da opinião da comissão da faculdade.

 

- Isso é... - Lord interrompeu as palavras e calou-se.

 

”Uma pena”, pensou o deão. ”Se tivesse dito ’um monte de idiotas’ ou qualquer coisa parecida teria uma boa desculpa para o pôr fora do meu gabinete. Mas estamos numa ocasião formal, como Lord se lembrara ainda a tempo, e conservaremos as coisas nesse pé.”

 

- Uma promoção apoiada por si é sempre aceite - balbuciou Vincent Lord procurando corrigir-se. Odiava ser subserviente com este deão que considerava como um ex-cientista inferior convertido agora num tratador de papelada. Infelizmente tinha a autoridade da Universidade atrás de si.

 

O deão Harris não respondeu. Era verdade o que Lord afirmava sobre o seu apoio a qualquer promoção mas tal devia-se a nunca tomar uma posição sobre alguém até ter a certeza da mesma ser aceite pela faculdade. Embora o deão fosse o membro mais poderoso da faculdade, esta, como um todo, era mais poderosa que um deão. Sabia que nunca conseguiria a concordância para a promoção de Lord nesta altura, mesmo que a forçasse.

 

Entretanto as conversas sobre os dois mais recentes trabalhos de Vincent decerto que já circulavam pelo campus. Conversas, problemas de ética, recordação do incidente de quatro anos atrás que quase fora já esquecido, mas que agora voltaria à baila.

 

Não havia vantagem, raciocinou o deão, em adiar a notícia de uma decisão já tomada.

 

- Doutor Lord - disse ele com calma -, não recomendarei a sua promoção acelerada nesta altura.

 

- Porquê?

 

- Não creio que os motivos que me deu sejam suficientemente compelentes. Convincentes.

 

- Explique ”convincentes”.

 

As palavras saíram como uma ordem e há limites para a paciência, decidiu o deão. Retorquiu com frieza:

 

- Creio que será melhor para ambos dar por finda esta entrevista. Bom dia! Mas Lord nem se mexeu. Continuou sentado em frente da secretária, irritado.

 

- Peço-lhe que reconsidere. Se não o fizer pode vir a arrepender-se!

 

- Arrepender-me como?

 

- Posso decidir sair.

 

O deão Harris disse, e disse-o sentindo o que dizia:

 

- Ficaria com pena se tal sucedesse, doutor Lord, e a sua saída seria uma perda. Tem trazido crédito à Universidade e, assim o espero, continuará a trazê-lo. Por outro lado - o deão esboçou um sorriso - acho que esta instituição sobreviverá à sua partida.

 

Lord levantou-se da cadeira, o rosto vermelho de raiva. Sem uma palavra atravessou o gabinete a passos largos e bateu a porta atrás de si.

 

Recordando a si mesmo, como já o fizera muitas vezes, que parte do seu trabalho era lidar com serenidade e justeza com as pessoas talentosas e nada calmas que tantas vezes agiam de forma pouco razoável, o deão voltou ao seu trabalho.

 

Ao contrário do deão, o Dr. Lord não afastou a questão dos seus pensamentos. Como se tivesse um gravador implantado no seu espírito tornou a passar a entrevista vezes sem fim, cada vez mais amargo e irado até que por fim ficou a odiar não só Harris como toda a Universidade.

 

Vincent Lord suspeitava - embora o assunto não tivesse sido mencionado durante a entrevista - que aquelas alterações menores que tivera de fazer nos seus dois trabalhos mais recentemente publicados tinham algo a ver com a rejeição. A suspeita aumentou a raiva, pois, do seu ponto de vista, a questão era trivial quando comparada com todo o seu trabalho científico. Oh, claro, concedia isso a si próprio, que sabia como tais erros se tinham dado. Fora impaciente, demasiado entusiasmante, apressado. Deixara, por um tempo absolutamente mínimo, que os seus desejos ultrapassassem as precauções de cientista. Mas jurara nunca mais deixar que tal acontecesse. Além disso o incidente pertencia ao passado, em breve publicaria correcções, por isso que interesse tinha? Pormenores! Trivial!

 

Nunca ocorreu a Vincent Lord que não eram os incidentes em si mesmos, incluindo o de há quatro anos atrás, que preocupavam os seus críticos, mas sim certos sintomas e sinais do seu carácter. Na ausência de tal raciocínio e compreensão da parte do Dr. Lord a sua amargura continuou a progredir.

 

Em consequência disto, quando, três meses depois, durante uma conferência científica em Santo António, foi abordado por um representante da Felding-Roth Pharmaceuticals com um convite para ”se lhes juntar” - um eufemismo para uma oferta de emprego - a sua reacção, se bem que não de imediato positiva, foi de: ”Bem, talvez.”

 

A abordagem em si não era fora do comum. As grandes firmas farmacêuticas andavam sempre à procura de novos talentos científicos e vigiavam cuidadosamente todos os trabalhos publicados por membros das universidades. No caso de algo interessante enviavam por vezes uma carta dando congratulações. Depois havia os encontros científicos, onde as pessoas dos laboratórios farmacêuticos encontravam os cientistas académicos em terreno neutro, eram úteis locais de contacto. Tinha sido assim, e muito antes do encontro de Santo António, que o nome de Vincent Lord fora avaliado e seleccionado como ”alvo”.

 

Seguiram-se conversações mais específicas. O que a Felding-Roth pretendia era um cientista de alto calibre, no seu campo de especialidade, capaz de chefiar uma nova divisão para estudar esteróides. Desde o início os representantes da companhia trataram o Dr. Lord com deferência e respeito, uma atitude que lhe agradava e que encarava como um contraste simpático em relação ao mesquinho tratamento da faculdade.

 

A oportunidade, do ponto de vista científico, era interessante. Assim como o era o salário oferecido - catorze mil dólares por ano, quase o dobro do que ganhava na Universidade de Ilinóis.

 

Para sermos justos com Vincent Lord há que dizer aqui que para ele o dinheiro tinha quase tão pouco interesse como a comida. As suas necessidades pessoais eram simples; nunca tivera dificuldades devido ao seu ordenado da Universidade. Mas o dinheiro da companhia farmacêutica era sobretudo um reconhecimento do seu valor.

 

Depois de pensar duas semanas no assunto o Dr. Lord aceitou. Deixou a Universidade de repente, com um mínimo de despedidas. Começou a trabalhar na Felding-Roth em Setembro de 1957.

 

Quase de seguida aconteceu uma coisa extraordinária. No princípio de Novembro o director das pesquisas da firma caiu sobre um microscópio e morreu de hemorragia cerebral. Vincent Lord estava lá e disponível. Tinha as necessárias qualificações. Foi indicado para o lugar vago.

 

Agora, três anos depois, o Dr. Lord estava solidamente enquadrado na Felding-Roth. Continuava a ser respeitado. A sua competência nunca era posta em dúvida. Dirigia o seu departamento com eficiência, com um mínimo de interferência exterior e, apesar dos problemas privados da personalidade de Lord, mantinha boas relações com o pessoal. Igualmente importante era o facto do seu trabalho científico pessoal continuar a progredir bem.

 

A maioria das pessoas, nas suas circunstâncias, sentir-se-ia feliz. No entanto para Vincent Lord havia aquela perpétua síndroma do olhar para trás, as dúvidas e os problemas sobre as suas decisões passadas, a raiva e a amargura - tão desapaixonadas como sempre - sobre a sua promoção recusada na Universidade de Ilinóis. O presente tinha também os seus problemas, ou pelo menos assim o pensava. Fora do seu departamento suspeitava de outros membros da companhia. Estariam a sabotá-lo? Havia várias pessoas de que não gostava e em quem não confiava - uma delas era aquela mulher metediça. Célia Jordan recebia demasiadas atenções. A promoção dela não lhe agradara. Via-a como uma competidora para o prestígio e o poder.

 

Havia sempre a possibilidade, tinha essa esperança, de que aquela cadela da Jordan fosse ultrapassada e tapada, que desaparecesse. No que respeitava ao Dr. Lord seria coisa que não aconteceria nos tempos mais próximos.

 

Claro que nada disto teria interesse, nem sequer o insulto da Universidade de Ilinóis, e ninguém se aproximaria de Vincent Lord em poder e respeito se ocorresse um certo acontecimento que agora parecia próximo.

 

Tal como a maioria dos cientistas, o Dr. Lord era inspirado pelo desafio do desconhecido. Tal como os outros há muito que sonhava conseguir, pessoalmente, um progresso fulgurante, uma descoberta que alargasse de forma espantosa as fronteiras do conhecimento e colocasse o seu nome na lista de honra da História.

 

Tal sonho parecia agora atingível.

 

Depois de três anos de trabalho persistente e esforçado na Felding-Roth, trabalho que sabia ter sido brilhantemente concebido, estava à vista pelo menos um composto que seria uma nova e revolucionária droga. Restava ainda muito para fazer. A pesquisa e os ensaios em animais necessitavam de um mínimo de dois anos, mas as fases preliminares tinham sido um sucesso e os sinais estavam prontos. Com o seu conhecimento, experiência e intuição científica o Dr. Lord via-os claramente.

 

Claro que a nova droga, quando comercializada, traria uma fortuna inconcebível para a Felding-Roth. Mas isso não importava. O que importava é que traria a reputação mundial para o Dr. Vincent Lord.

 

Só era preciso mais algum tempo.

 

Então mostrar-lhes-ia. ”Santo Deus, mostrar-lhes-ia!”

 

A Thalidomide explodiu!

 

Como Célia disse muito depois ”embora nenhum de nós o soubesse nessa altura nada na indústria farmacêutica seria o mesmo depois dos factos sobre a Thalidomide serem bem conhecidos”.

 

As coisas começaram devagar, só conhecidos a nível local e - nos espíritos das pessoas envolvidas no princípio - não relacionadas com a droga.

 

Na Alemanha Ocidental, em Abril de 1961, os médicos andavam espantados com uma epidemia de focomelia - um fenómeno raro em que os bebés nascem tragicamente deformados, sem braços ou sem pernas que são substituídos por rudimentos que lembram caudas de focas. No ano anterior tinham sido relatados dois casos - mesmo assim um número sem precedentes, pois, como disse um investigador, ”crianças com duas cabeças seriam mais vulgares”. Agora, subitamente, existiam dúzias de bebés focómelos.

 

Algumas mães, quando lhes mostraram as crianças que tinham dado à luz, gritavam de repugnância e desespero. Outras soluçavam sabendo que, como uma exprimira: ”O meu filho nunca poderá comer sozinho, tomar banho, fazer as suas necessidades fisiológicas básicas, abrir uma porta, segurar uma mulher nos braços ou até escrever o seu nome.”

 

Das mães, várias foram as que cometeram suicídio; muitas mais precisaram de ajuda psiquiátrica. Um pai até aí devoto amaldiçoava Deus: ”Cuspo e cago nele!” Depois corrigia-se: ”Não existe Deus. Como poderia existir?”

 

Mas a causa da focomelia continuava desconhecida. (A palavra, explicava-se, provinha do grego phoke que significava foca e meios que significava membro.) Um estudo sugeriu que a causa podia estar nas poeiras radiactivas devido às bombas atómicas. Outra indicava um vírus como responsável.

 

Muitos dos bebés tinham outros defeitos além da falta de membros. Os ouvidos estavam ausentes ou deformados; corações, intestinos ou outros órgãos estavam incompletos ou não funcionavam como devia ser. Alguns bebés morreram - ”os com sorte”, como escrevera um observador.

 

Foi então que, em Novembro de 1961, dois médicos trabalhando independentemente e sem saberem um do outro - um pediatra na Alemanha e um obstetra na Austrália - ligaram a focomelia a uma droga: a Thalidomide. Pouco depois confirmava-se que a droga era de facto a causa dos defeitos de nascimento.

 

As autoridades australianas, agindo com firmeza, mandaram retirar a Thalidomide do mercado no mesmo mês em que a ligação foi estabelecida. A Alemanha Ocidental e a Inglaterra retiraram a droga um mês depois, em Dezembro. Mas nos Estados Unidos passaram mais dois meses até que, em Fevereiro de 1962, o pedido de aprovação da Thalidomide-Kevadon fosse retirado da FDA. O Canadá, inexplicavelmente, deixou a droga ser vendida até Março - quatro meses depois da Austrália a retirar e dando tempo a que mais indivíduos, incluindo mulheres grávidas, a tomassem.

 

Célia e Andrew, que seguiam a triste história lendo não só as publicações científicas como a imprensa diária discutiam o assunto com frequência.

 

Uma noite, ao jantar, Célia disse:

 

- Oh, Andrew, como me sinto contente por não me deixares tomar nenhuma droga durante a gravidez! - Poucos minutos antes olhara com amor e gratidão para as suas crianças saudáveis e normais. - Podia ter tomado Thalidomide. Ouvi dizer que existem mulheres de médicos que a tomaram.

 

- Eu próprio tenho algum Kevadon - disse Andrew com tranquilidade.

 

- Tens?

 

- Um delegado deu-me umas amostras.

 

- Mas não as usaste, pois não? - perguntou Célia sobressaltada. Andrew negou com a cabeça.

 

- Gostaria de dizer que suspeitava da droga, mas não seria essa a verdade. Pura e simplesmente esqueci-me de que estava ali.

 

- Onde estão as amostras?

 

- Hoje lembrei-me delas. Deitei-as fora. Centenas de comprimidos. Li não sei aonde que mais de dois milhões e meio foram distribuídas aos médicos americanos. Mandei as minhas sanita abaixo.

 

- Graças a Deus.

 

- Concordo.

 

Nos meses que se seguiram continuaram a aparecer mais notícias sobre a Thalidomide. Calculava-se que tivessem nascido vinte mil bebés deformados em vinte países, embora o número exacto nunca viesse a ser conhecido.

 

Nos Estados Unidos o número de bebés focomelos era baixo - uns dezoito ou dezanove - porque a droga não chegara a ser aprovada para uso generalizado. Se tivesse sido aprovada o número de bebés americanos sem braços e sem pernas talvez fosse de uns dez mil.

 

- Acho que todos nós estamos em débito com aquela mulher, a Kelsey comentou Andrew para Célia num domingo de Julho de 1962. Estava em casa, a repousar, com um jornal aberto na sua frente.

 

”Kelsey” era a Dr.a Francês Kelsey, uma funcionária da FDA que, apesar das pressões do laboratório que planeava comercializar a Thalidomide-Kevadon, usara de tácticas burocráticas para adiar a aprovação. Agora, declarando que tivera razões científicas para duvidar da segurança da droga, a Dr.a Kelsey era uma heroína nacional. O presidente Kennedy galardoara-a com a Medalha de Ouro Presidencial por serviços distintos, a mais alta condecoração civil do país.

 

- Dado o que aconteceu - disse Célia - o que ela fez estava certo e concordo que devamos estar gratos. Mas há quem diga que a medalha lhe foi dada por ela nada fazer, por adiar uma decisão, o que é sempre a coisa mais segura para um burocrata e agora ela proclama que foi mais esperta do que na realidade foi. Além disso receia-se as consequências futuras do acto de Kennedy pois boas drogas, e bem necessárias, poderão ser retardadas por outros tipos da FDA que pretendam também uma medalha.

 

- Tens de compreender - disse Andrew - que todos os políticos são oportunistas e Kennedy não constitui excepção, assim como Kefauver. Ambos estão a usar a publicidade em tomo da Thalidomide para seu benefício próprio. Apesar de tudo precisamos de alguma lei nova pois a Thalidomide veio mostrar e bem, Célia, que a tua indústria é incapaz de se regular a si mesma e que há nela muitos podres.

 

O comentário era apoiado por revelações surgidas após investigação das firmas responsáveis pela Thalidomide sobre duplicidade, indiferença, avidez, cobertura e incompetência, revelações que pareciam vir à superfície todos os dias.

 

Célia concordou com tristeza:

 

- Gostaria de poder argumentar isso. Mas ninguém no seu juízo perfeito o faria.

 

Surpreendentemente, e apesar das manobras políticas que a antecederam, apareceu alguma legislação bastante razoável que foi assinada pelo presidente Kennedy em Outubro de 1962. Embora longe de ser perfeita, e com medidas que mais tarde eliminariam drogas novas e valiosas aos que precisavam desesperadamente delas, a nova lei veio dar algumas garantias ao consumidor que não existiam ”a. T.” - que era como muitas indústrias farmacêuticas identificariam no futuro a era ”antes da Thalidomide”.

 

Foi também em Outubro que Célia soube que Eli Camperdown, presidente da Felding-Roth, que estava há vários meses doente, estava a morrer. De cancro. Uns dias depois Sam Hawthorne chamou Célia ao gabinete.

 

- Eli mandou uma mensagem. Gostaria de te ver. Foi levado do hospital para casa e arranjei as coisas para te levarem lá amanhã.

 

A casa ficava em Mount Kemble Lake, cinco milhas a sudoeste de Morristown. Localizada ao fundo de uma comprida alameda e escondida do exterior por árvores e inúmeros arbustos, era uma casa enorme e antiga, com uma frontaria de pedra a que as chuvas tinham dado uma patina verde. De fora parecia escura. Lá dentro era-o.

 

Um mordomo velho e curvado deu entrada a Célia. Conduziu-a a uma sala ornamentada e mobilada com pesadas peças de estilo e pediu-lhe para esperar. A casa estava em silêncio, sem quaisquer sons de actividade. Talvez, pensou, porque Eli Camperdown vive só; sabia-o viúvo há muitos anos.

 

Poucos minutos depois apareceu uma enfermeira uniformizada. Em contraste com o ambiente, era jovem, bonita e activa.

 

- Acompanhe-me, se faz favor, senhora Jordan. O senhor Camperdown espera-a.

 

Enquanto subiam uma larga escadaria curva, coberta de uma espessa alcatifa, Célia perguntou:

 

- Como está ele?

 

A enfermeira informou-a de forma casual:

 

- Muito fraco e com muitas dores embora usemos sedativos para o ajudar neste ponto. Mas hoje não o fizemos. Ele disse que queria estar bem desperto. - Olhou para Célia com curiosidade. - Tem estado ansioso pela sua visita.

 

No fim da escadaria a enfermeira abriu uma porta e fez sinal para Célia entrar.

 

Ao princípio Célia teve dificuldade em reconhecer a figura descarnada, apoiada em almofadas, que se encontrava na grande cama de quatro pilares. Eli Camperdown, que bem pouco antes ainda parecia a encarnação da força e do poder, estava agora magro, macilento e frágil - uma caricatura do seu antigo eu. Os olhos, afundados nas órbitas, encararam Célia enquanto o seu rosto fazia uma espécie de sorriso. Quando falou a voz era baixa e trémula.

 

- Receio bem que o cancro em fase avançada não seja uma coisa bonita, senhora Jordan. Hesitei sobre se devia ou não permitir que me visse assim, mas há coisas que lhe quero dizer pessoalmente. Agradeço ter vindo.

 

A enfermeira trouxera uma cadeira antes de se ir embora e Célia sentou-se nela, ao lado da cama.

 

- Fiquei contente por vir, senhor Camperdown. Só lamento que esteja doente.

 

- A maior parte do meu pessoal superior trata-me por Eli. Gostaria que fizesse o mesmo.

 

- E eu sou a Célia - disse ela sorrindo.

 

- Oh, sim, já sabia. Sei também como foi importante para mim, Célia. Ergueu uma mão descarnada e apontou para uma mesa. - Está ali um exemplar da revista Life e uns papéis. Importa-se de mós dar?

 

Ela encontrou a revista e os papéis e trouxe-lhos. Com esforço Eli Camperdown folheou a revista até encontrar o que queria.

 

- Talvez já tenha visto isto.

 

- O artigo sobre a Thalidomide com as fotos de bebés deformados? Sim, já vi.

 

Mexeu noutros papéis.

 

- Estão aqui mais relatos e fotografias; alguns ainda não vieram a público. Tenho seguido o caso de perto. Uma coisa terrível, não é?

 

- De facto é.

 

Ficaram em silêncio até que ele disse:

 

- Célia, sabe que estou a morrer?

 

- Sei - respondeu ela com gentileza.

 

- Obriguei os patifes dos médicos a dizerem-mo. Na melhor das hipóteses tenho uma semana ou duas de vida; se calhar são só mais uns dias. Foi por isso que me trouxeram para casa. Para morrer aqui. - Ela quis começar a falar, mas ele interrompeu-a com um gesto. - Não, escute-me até ao fim.

 

Ele fez uma pausa para descansar. Era nítido que o esforço o extenuara. Depois prosseguiu:

 

- Isto é egoísmo, Célia. Nada poderá fazer qualquer bem a essas pobres crianças inocentes. - Os seus dedos tocaram as fotos da revista. - Mas estou contente por morrer sem isto na consciência e a razão por que tal não acontece é você.

 

- Eli, acho que sei no que está a pensar mas quando sugeri... - protestou ela. Ele continuou como se a não ouvisse:

 

- Quando na Felding-Roth pusemos a mão nessa droga tencionávamos vendê-la a sério. Acreditávamos que seria um êxito, íamos testá-la amplamente e depois pressionar a aprovação pela FDA. Talvez fosse aprovada. O nosso calendário teria sido diferente; poderíamos ter calhado com outro examinador. Nem sempre há lógica nestas coisas.

 

Fez nova pausa reunindo as suas forças e pensamentos.

 

- Convenceu-nos a ensaiar em velhos; por isso ninguém abaixo dos sessenta anos a tomou. Não deu resultado. Abandonámo-la. Depois sei que a criticaram... Mas se tivesse acontecido... da forma como inicialmente queríamos... então eu seria o responsável... - Mais uma vez os seus dedos pousaram nas fotos da revista. - Morreria tendo sobre mim esta coisa terrível. Mas assim...

 

Os olhos de Célia estavam húmidos. Pegou na mão dele e disse-lhe:

 

- Eli, fique em paz.

 

Ele acenou que sim com a cabeça e mexeu os lábios. Ela teve de se inclinar para o ouvir.

 

- Célia, acredito que tenha qualquer coisa em si: um dom, um instinto, para saber o que está certo... Grandes mudanças se preparam para o nosso negócio, mudanças que não chegarei a ver... Há na nossa companhia quem pense que irá longe. Isso será bom... De modo que lhe vou dar alguns conselhos, os meus últimos conselhos... Utilize o seu dom, Célia. Acredite nos seus bons instintos. Quando tiver o poder seja forte para fazer aquilo em que acredita... Não deixe que pessoas inferiores a influenciem...

 

A sua voz desapareceu. Um espasmo de dor contorceu-lhe o rosto.

 

Célia virou-se, sentindo um movimento atrás de si. A jovem enfermeira entrara silenciosamente no quarto. Trazia uma seringa num tabuleiro que colocou ao lado da cama. Os seus movimentos eram eficientes e rápidos. Inclinou-se sobre o doente para perguntar: ”É outra vez a dor, senhor Camperdown?” Quando ele acenou que sim com a cabeça ela arregaçou-lhe uma das mangas do pijama e injectou o conteúdo da seringa no braço dele. Quase de imediato a sua tensão facial cedeu e os olhos fecharam-se.

 

- Vai ficar sonolento, senhora Jordan - disse a enfermeira. - Receio que não valha a pena ficar mais tempo aqui. - Tornou a olhar Célia com curiosidade.

- Terminaram a vossa conversa? Acho que era algo muito importante para ele.

 

Célia fechou a revista Life e colocou-a, junta com os papéis, no sítio onde a encontrara.

 

- Sim - disse ela. - Acho que sim.

 

Sem se saber como - embora não fosse por Célia, que mantivera o silêncio soube-se na companhia do seu encontro com Eli Camperdown. Em resultado disso sentiu-se olhada com uma mistura de curiosidade, respeito e, ocasionalmente, inveja. Ninguém, nem sequer Célia, tinha a ilusão de que alguma intuição excepcional guiara a sua sugestão velha de cinco anos sobre os ensaios da Thalidomide pela Felding-Roth, ensaios que se tinham revelado um insucesso. Mas o facto era que a rota que a companhia seguira a tinha salvo de um provável desastre e a contribuição de Célia para essa rota era motivo bastante para a gratidão.

 

Só uma pessoa no escalão superior da companhia não reconhecia o papel de Célia. O director da investigação, embora fosse um dos que primeiro sugerira um amplo ensaio da Thalidomide - incluindo os obstetras, a que Célia especificamente se opusera -, escolheu ficar sossegado quanto à sua parte no assunto da droga. Em vez disso lembrava aos outros que fora sua a decisão de a reprovar quando os ensaios nos velhos tinham falhado. A sua afirmação era verdadeira, mas incompleta.

 

Contudo pouco tempo havia para discussão. A morte de Eli Camperdown deu-se duas semanas depois de Célia o ter visitado. Nos jornais do dia seguinte, 8 de Novembro de 1962, os obituários de Camperdown eram respeitosamente extensos embora mais extensos fossem os da senhora Eleanor Roosevelt, também falecida na véspera. Disse Célia a Andrew:

 

- É como se dois bocados de história terminassem juntos: um era da grande história, outro da pequena história, mas neste tomei parte.

 

A morte do presidente da Felding-Roth provocou mudanças dentro da companhia pois um novo presidente foi eleito do quadro dos directores e outros subiram mais um degrau na escala das promoções. Entre os afectados encontrava-se Sam Hawthorne, que se tornou vice-presidente e director nacional de vendas, enquanto Teddy Upshaw, para sua grande alegria, foi nomeado director das vendas de produtos de balcão, comercializados pela Bray & Commonwealth, uma divisão da companhia.

 

- Uma hipótese espantosa para as vendas de produtos de balcão, de fazer algo que os arraste, rebentando as vendas - era assim que Teddy descrevia excitadamente a sua nova carreira a Célia e contou-lhe: - Recomendei-te para o meu cargo, embora te tenha de dizer que ainda há por aí muita gente a quem não agrada a ideia de uma mulher ser directora de qualquer coisa. - E acrescentou: - Para ser honesto eu também pensava o mesmo mas fizeste-me mudar de ideias.

 

Outras oito semanas se passaram durante as quais Célia funcionou em tudo como chefe do Treino de Vendas excepto no título. Dia a dia crescia a sua frustração pela injustiça. Até que, numa manhã de Janeiro, Sam Hawthorne entrou de rompante no seu gabinete sem bater sequer à porta:

 

- Santo Deus! Conseguimos! - declarou. - Tive de mergulhar a minha espada nas entranhas de alguns machos renitentes, e o sangue correu em barda, mas a palavra veio agora lá de cima. És directora desta chafarica e, mais importante ainda, estás oficialmente na via rápida da companhia.

 

                             1963 - 1975

 

Estar na via rápida na Felding-Roth tinha o mesmo significado que nas outras companhias. Estava-se seleccionado como candidato aos cargos directivos superiores e recebiam-se mais oportunidades que o habitual para aprender o negócio e para mostrar aquilo que se valia. Claro que nem toda a gente da via rápida alcançava o fim da linha. Havia outros na via. A competição era renhida. Além disso um nome podia ser retirado em qualquer altura.

 

Célia sabia tudo isto. Também sabia, como mulher, que tinha de enfrentar uma sobrecarga de preconceitos que não existiam para os homens. A necessidade de ser ainda melhor tornava as coisas mais renhidas para ela.

 

Por isso era pouca sorte que os anos sessenta se estivessem a mostrar pobres, não inovadores, para o negócio farmacêutico.

 

- Já não é a primeira vez que acontece - disse Sam Hawthome quando Célia levantou a questão. - Vê bem: acabamos de atravessar vinte anos de drogas milagrosas: antibióticos, novos medicamentos para o coração, a pílula, tranquilizantes e tudo o resto. Estamos agora numa fase plana antes da próxima escalada de descobertas.

 

- Quanto tempo durará?

 

Sam coçou pensativamente a cabeça careca.

 

- Quem sabe? Podem ser dois anos, ou serem dez. Entretanto a nossa Lotromycin vende-se bem e estamos a desenvolver versões melhoradas de drogas já existentes.

 

- Não estás a referir-te aos ”nós também”? - perguntou Célia. - À cópia das drogas de sucesso dos nossos competidores? Jogando à roleta molecular, mudando-as apenas o suficiente para não sermos acusados de infringir as patentes dos outros?

 

Sam encolheu os ombros.

 

- Se usares essa tua linguagem crítica, talvez seja.

 

- Falando de críticas, não é verdade que nos acusam de desperdiçar esforço de investigação com as drogas ”nós também”, um esforço que poderia ser aplicado de maneira mais produtiva e benéfica?

 

- E não é já altura de perceberes que esta indústria é criticada por tudo? Uma sugestão de agressividade soou na voz de Sam. - Sobretudo por pessoas que não sabem ou não se importam em saber que são as drogas do ”nós também” que mantêm companhias como a nossa a flutuar quando nada de novo surge na ciência. Sempre têm existido lacunas. Sabias que, depois da vacina da varíola começar a ser utilizada com êxito, os cientistas levaram cem anos para descobrir como actuava?

 

Embora a conversa deprimisse Célia descobriu depois que havia outras companhias a atravessar o mesmo período estéril, sem que muita coisa de novo e excitante surgisse. Era um fenómeno que abrangia toda a indústria e que embora ainda ninguém o soubesse nessa altura - duraria até à década de setenta, comprovando assim Sam como um profeta de confiança.

 

Durante a maior parte de 1962 Célia continuou a trabalhar com sucesso como directora do Treino de Vendas. Até Novembro.

 

- Mandei-te chamar - disse Sam a Célia numa tarde dos fins de Novembro, os dois sentados no seu gabinete revestido a nogueira - para te comunicar que vais ter outro cargo. E, além disso, é também uma promoção.

 

Célia aguardou. Quando Sam nada mais disse ela suspirou e sorriu.

 

- Sabes muito bem que estou morta de curiosidade mas vais obrigar-me a fazer a pergunta. Fá-la-ei. Muito bem, Sam, qual é o meu novo emprego?

 

- Director-geral dos produtos de venda ao balcão. Terás a teu cargo a Bray & Commonwealth. Teddy Upshaw, o teu antigo chefe, será agora teu subordinado. Sam sorriu. - Célia, espero que estejas feliz e impressionada.

 

- Oh, se estou! Estou mesmo a sério, Sam! Obrigado! Ele olhou-a com atenção.

 

- No meio desse entusiasmo será que detecto uma reserva?

 

- Nenhuma reserva. - Célia abanou a cabeça com decisão. - Só que... Bem, o facto é que nada sei desse negócio das vendas ao balcão.

 

- Não és a única - disse Sam. - Tinha a mesma lacuna até que trabalhei um par de anos nisso. De certo modo é como ir para um país estrangeiro. - Hesitou. - Ou atravessar para o outro lado da cidade.

 

- O lado de pior reputação.

 

- Talvez.

 

O que ambos sabiam é que a Felding-Roth, como outras grandes firmas farmacêuticas, erigia uma parede entre a parte das drogas por prescrição médica, que era considerada prestigiosa, e as suas actividades de vendas ao balcão, que o não eram. De cada lado da parede todas as actividades estavam separadas. Cada um dos lados tinha a sua administração, o seu pessoal de pesquisa, a sua força de vendas; nenhuma ligação havia entre os dois lados.

 

Devido a esta política de separação é que a Felding-Roth mantinha viva a marca Bray & Commonwealth - originalmente uma pequena firma farmacêutica independente. Fora adquirida pela Felding-Roth muitos anos atrás e agora só lidava com produtos sem prescrição. Para o público a Bray & Commonwealth não tinha qualquer ligação com a Felding-Roth e a companhia-mãe preferia assim.

 

- Bray & Commonwealth será uma experiência educacional - disse Sam a Célia. - Aprenderás a preocupar-te com remédios para a tosse, pomadas para as hemorróidas e champôs. Além de que as vendas ao balcão fazem parte do cenário farmacêutico. Uma parte importante e que dá um monte de dinheiro. Pelo que tens de saber o que é, como é que funciona e porquê. Além disso tens de suspender as tuas críticas por uns tempos.

 

- Explicas-me isso? - perguntou ela com curiosidade.

 

- Descobrirás.

 

Célia decidiu não insistir nesse ponto.

 

- Há mais uma coisa que te tenho de dizer - continuou Sam. - A divisão Bray & Commonwealth tem estagnado e a nossa linha de vendas ao balcão precisa de novas iniciativas, novas ideias. - Sorriu. - Talvez as ideias de uma mulher forte, imaginativa, às vezes dura... Sim, que é?

 

Esta última pergunta era para a secretária, uma atraente jovem negra que abrira a porta e estava ali, parada. Como ela tardou em responder Sam disse:

 

- Maggie, disse-te que não queria...

 

- Espera! - interrompeu Célia. Ela vira o que a Sam passara despercebido: corriam lágrimas pelo rosto da secretária. - Maggie, que aconteceu?

 

A moça falou com esforço, as palavras emergindo entre os soluços!

 

- Foi o presidente... o presidente Kennedy foi alvejado... em Dállas... ouvi... no rádio...

 

Apressadamente, com um olhar que combinava horror e descrença, Sam Hawthorne ligou o rádio ao lado da secretária.

 

Daí em diante, tal como muitos outros da sua geração, Célia recordaria com precisão onde estava e o que fazia nesse terrível momento. Era um prefácio destruidor e estúpido para os dias apocalípticos que se seguiram, uma época de esperanças perdidas e desânimo profundo. Fosse Camelot real ou imaginário havia a sensação de algo perdido para sempre; de um novo começar que de repente não existia; da impermanência de todas as coisas; da falta de importância de certas preocupações incluindo - para Célia - as suas ambições pessoais, as conversas e os pensamentos sobre o seu novo trabalho. O hiato terminou, é claro, e a vida continuou. Para Célia continuou na sede da Bray & Commonwealth Inc., subsidiária da Felding-Roth, localizada num edifício em tijolo de quatro pisos a milha e meia da sede da companhia-mãe. Aí, umas duas semanas depois, no seu modesto mas confortável gabinete, encontrou Teddy Upshaw, o director de vendas da divisão, para estudar os produtos de venda ao balcão.

 

Na semana anterior Célia mergulhara em papéis - relatórios financeiros, vendas, relatórios de investigação, ficheiros de pessoal - relacionados com o seu novo cargo. Ao ler tudo aquilo verificou que Sam dissera a verdade. A divisão estava a estagnar perante uma chefia não inspirada. Precisava de novas iniciativas e ideias.

 

No início da sua conversa com Upshaw, Célia perguntou:

 

- Teddy, vou fazer-te uma pergunta simples e directa. Sentes-te ressentido por eu estar aqui sentada e teres de me prestar contas? Importas-te com a inversão dos nossos, papéis?

 

O chefe de vendas pareceu surpreendido.

 

- Importar-me? Por amor de Deus, Célia, não poderia estar mais feliz! Era mesmo de ti que a divisão precisava. Quando ouvi dizer que vinhas tu para cá apeteceu-me saltar de contente. Pergunta à minha mulher! Na noite em que soube da notícia brindámos à tua saúde. - A cabeça enérgica e balançante de Teddy pontuava as suas palavras. - Quanto a ficar ressentido, não, minha querida, sou apenas um vendedor... um bom vendedor mas só isso. Mas tens miolos para me dares qualquer coisa de bom, algo melhor do que aquilo que temos para vender.

 

Célia ficou comovida com a reacção.

 

- Muito obrigado, Teddy - disse ela. - Também gosto de ti. Podemos ser úteis um ao outro.

 

- Isso mesmo!

 

- Tu já viste ambos os lados deste negócio - afirmou ela. - Drogas por receita e vendas ao balcão. Diz-me quais são as diferenças que encontras.

 

- Coisas básicas. As vendas ao balcão são exageradas. - Teddy olhou os papéis espalhados pelo gabinete. - Acho que já o descobriste ao estudar os custos.

 

- Mesmo assim gostaria de ouvir a tua versão.

 

Ele olhou-a inquisidoramente:

 

- Confidencialmente? Sem enfeites?

 

- É mesmo isso que quero - concordou ela.

 

- Muito bem, nesse caso encara a coisa deste modo. Como ambos sabemos uma droga de prescrição custa milhões a investigar e leva uns cinco ou seis anos a ficar pronta para vender. Com uma venda ao balcão precisas de uns seis meses ou menos ainda para formular a coisa e custa-te meia dúzia de amendoins. A maior fatia do dinheiro vai para a embalagem, a publicidade, as vendas.

 

- Teddy - comentou Célia -, tens uma destas habilidades para ir ao fundo das coisas!

 

- Nunca me engano a mim mesmo - disse ele com um encolher de ombros. O que vendemos aqui não tem nada a ver com Louis Pasteur.

 

- No entanto, globalmente, as vendas de drogas ao balcão está a subir, a subir...

 

- Como um foguete! Somos aquilo que o grande público americano quer, Célia. As pessoas que sentem qualquer coisa mal, quase sempre coisas que o tempo trataria se tivessem o bom senso de deixar as coisas em paz, querem tratar-se a si próprias. Gostam de brincar aos médicos e é aqui que nós entramos. Se o foguete está a subir por que é que nós, Felding-Roth, tu, eu, não estamos a subir com ele, agarrados à cauda? - Fez uma pausa para pensar mas continuou. O único problema é que não estamos muito bem agarrados à cauda. Não estamos a ter a fatia que devíamos ter do mercado.

 

- Concordo com essa da fatia do mercado - disse Célia - e acredito que sejamos capazes de mudar as coisas. Mas as drogas de venda ao balcão decerto que têm um pouco mais de valor do que tu dizes.

 

Teddy levantou as mãos como se a pergunta não interessasse.

 

- Talvez um pouco mais, mas não muito. Existem poucas coisas boas... como a aspirina. Quanto às outras a principal função é fazerem as pessoas sentirem-se bem, nem que seja só nos seus espíritos.

 

- Será que nenhum dos remédios para as constipações, por exemplo, não faz mais nada que aliviar o espírito? - persistiu ela.

 

- Não! - Teddy sacudiu a cabeça enfaticamente. - Pergunta a qualquer bom médico. Pergunta ao Andrew. Se tu ou eu apanharmos uma constipação qual é a melhor coisa que temos a fazer? Eu digo-te! Ir para casa, pés no ar, descanso, muitas bebidas quentes e uma ou outra aspirina. É tudo o que há a fazer... até que a ciência descubra uma cura para a constipação o que, pelo que ouço, ainda não está para breve.

 

Apesar da seriedade Célia riu-se.

 

- Nunca tomas nenhum medicamento para a constipação?

 

- Nunca. Felizmente que há muitos que o fazem. Exércitos de crédulos que pagam meio bilião de dólares por ano para tentar curar as suas constipações incuráveis. E tu e eu, Célia, vamos vender-lhes aquilo que eles querem e a coisa boa é que nada disso lhes vai fazer mal. - Um tom de precaução entrou na voz de Teddy. - Claro que percebes que nunca falo assim lá fora. Estou a fazê-lo aqui porque mo pediste, estamos em privado e confiamos um no outro.

 

- Aprecio a franqueza, Teddy - disse Célia. - Mas sentindo o que sentes não estás às vezes incomodado ao fazer este tipo de trabalho?

 

- A resposta é não por duas razões. - Salientou-as com os dedos. – Número um, não estou num negócio de julgamentos morais. Aceito o mundo tal como é e não como alguns sonhadores pensam que deveria ser. Número dois, alguém vai vender o produto e pode muito bem ser o Teddy Upshaw. - Olhou para Célia. A ti incomoda-te, não é verdade?

 

- Sim - reconheceu ela. - Às vezes incomoda.

 

- Os chefões disseram-te quanto tempo ias ficar na Bray & Commonwealth?

 

- Nada me foi dito. Acho que pode ser indefinidamente.

 

- Não - assegurou-lhe Teddy. - Não vão deixar-te aqui. Ficarás por cá um ano ou coisa parecida e depois seguirás caminho. Aguenta-te, miúda! No fim vai valer a pena.

 

- Obrigado, Teddy. Vou seguir o teu conselho embora pense fazer mais do que apenas aguentar-me.

 

Apesar de ser mulher e mãe trabalhadora, Célia estava determinada a nunca negligenciar a família e sobretudo a manter-se perto de Lisa, agora com cinco anos, e Bruce com três. Em cada noite da semana, após o regresso a casa e antes do jantar, passava duas horas com as crianças - um programa que Célia cumpria fosse qual fosse a importância dos papéis que trazia do escritório para casa numa pasta para os estudar.

 

Na tarde do dia em que tivera a conversa com Teddy Upshaw prosseguiu no que vinha a fazer há vários dias - ler para Lisa e para Bruce, quando este estava suficientemente quieto para ouvir, a Alice no País das Maravilhas.

 

Bruce mantinha-se mais sossegado do que lhe era habitual - estava cansado e tinha o princípio de uma constipação com o nariz a correr - e Lisa, como sempre, escutava compenetrada a história que descrevia Alice junto a uma portinha que dava para um jardim maravilhoso, uma porta para a qual Alice era demasiado grande para entrar, procurando descobrir...

 

... um livro de regras para encolher pessoas como telescópios: desta vez encontrou uma garrafinha (”que certamente não estava aqui antes”, disse Alice) que tinha em volta do gargalo um papel com as palavras BEBE-ME lindamente escritas em grandes letras.

 

Célia colocou o livro de lado enquanto limpava o nariz de Bruce com um lenço e depois prosseguiu a leitura.

 

Era muito bom dizer ”Bebe-me” mas uma pequena esperta como Alice não fazia uma coisa dessas sem mais nem menos. ”Não, primeiro vou olhar”, disse ela, ”e ver se está escrito ’Veneno’ ou não.”... Nunca mais esqueceria que, se se bebesse de uma garrafa onde estivesse escrito ’Veneno’ era quase certo que mais tarde ou mais cedo discordava de nós.

 

Mas na garrafinha, contudo, não estava escrito ”Veneno” e Alice aventurou-se a provar um bocadinho e, descobrindo que era saborosa (de facto era uma mistura de tarte de cereja, mostarda, ananás, peru assado, café e torrada quente com manteiga), em breve a bebera toda.

 

”Que sensação curiosa!”, disse Alice. ”Devo estar a encolher-me como um telescópio.”

 

E assim era: estava agora com dez polegadas de altura...

 

- Ela nunca devia ter bebido isso, pois não mamã? - interrompeu Lisa.

 

- Não na vida real - disse Célia -, mas isto é uma história.

 

- Mesmo assim acho que não devia ter bebido - insistiu com firmeza Lisa.

 

Célia já antes observara que a sua filha era uma pessoa de fortes opiniões.

 

- Tens toda a razão, fofinha - disse a voz de Andrew atrás deles; entrara devagar e sem ser notado. - Nunca bebas nada que não saibas bem o que é, a menos que o médico to receite.

 

Todos riram, as crianças abraçaram entusiasticamente Andrew e ele beijou Célia.

 

- Neste momento - disse Andrew - prescrevo um martini do fim do dia. Perguntou a Célia: - Acompanhas-me?

 

- Sem dúvida.

 

- Papá - disse Lisa -, o Bruce está constipado. Podes fazer a constipação desaparecer?

 

- Não.

 

- Porquê?

 

- Porque não sou um médico frio. - Pegou-a ao colo e apertou-a. - Vê! Sou um médico quente’.

 

- Oh, papá! - riu-se Lisa.

 

- É engraçado - comentou Célia. - Isto é quase uma repetição de uma conversa que tive hoje.

 

Andrew colocou Lisa no chão e começou a preparar os martinis.

 

- Que conversa?

 

- Conto-ta ao jantar.

 

Célia colocou o livro numa prateleira até ao dia seguinte e preparou-se para meter as crianças na cama. Um aroma de borrego de caril vinha da cozinha, enquanto na sala de jantar Winnie August punha a mesa para a refeição de Célia e Andrew. ”Que fiz eu”, pensou Célia, ”para merecer uma vida tão maravilhosa, tão recompensante, tão feliz?”

 

- Teddy tem toda a razão quando diz que é inútil tratar as constipações com outra coisa que não seja líquidos, repouso e aspirina - disse Andrew a Célia depois desta lhe contar a conversa que tivera essa manhã no gabinete.

 

Os dois tinham acabado de jantar e tomavam o café na sala de estar. Ele continuou:

 

- Costumo dizer aos meus doentes que, se tiverem uma constipação e a tratarem bem dura sete dias. Se não a tratarem dura uma semana.

 

Célia riu e Andrew remexeu um cavaco que acendera antes, espevitando-o.

 

- Mas Teddy está errado - disse Andrew - ao dizer que os chamados remédios das constipações não são prejudiciais. Há muitos que são prejudiciais e alguns até perigosos.

 

- A sério? - objectou ela. - Certamente que ”perigosos” é exagero.

 

- Não é. Ao tentar curar uma constipação podes fazer outras coisas mais sérias que te fazem mal e são muito piores. - Andrew foi a uma estante e tirou alguns livros com as páginas marcadas por tiras de papel. - Andei a fazer umas leituras sobre o assunto nestes últimos tempos. - Folheou os livros. - Na maior parte dos remédios para constipações - prosseguiu Andrew - há uma mistura de ingredientes. Um deles é uma substância química chamada fenilefrina; é anunciada como descongestionante para as narinas entupidas. Na maior parte dos casos

 

Em inglês cold significa ”frio” e ”constipação”, daí o trocadilho intraduzível. (N. dos T.)

 

a fenilefrina não resulta, não é suficientemente usada para ser eficaz, mas aumenta a pressão arterial, o que é prejudicial para qualquer um e perigosa para os que já a têm alta. Citou uma página:

 

- A aspirina simples, sem misturas, e aqui todos os investigadores médicos concordam, é a melhor coisa para uma constipação. Mas existem substitutos da aspirina, muito publicitados e comprados, que contêm uma outra substância, a fenacetina. Pode causar lesões renais, talvez até irreversíveis, se tomada com muita frequência ou por períodos prolongados. Existem anti-histamínicos nos comprimidos antigripais que não deviam lá estar; aumentam o muco dos pulmões. Existem gotas para o nariz e vaporizadores nasais mais prejudiciais que benéficos... - Andrew parou. - Queres que continue?

 

- Não - disse Célia suspirando. - Já vi tudo.

 

- Pelo que se conclui - afirmou Andrew - de que se houver uma publicidade agressiva pode-se fazer as pessoas acreditar em tudo e comprar tudo.

 

- Mas essas coisas ajudam as pessoas com constipações - protestou ela. As pessoas dizem isso.

 

- Pensam que as ajudam. É tudo pura ilusão; talvez a constipação esteja melhor; talvez seja psicológico.

 

Enquanto Andrew arrumava os livros, Célia recordou algo que outro médico lhe dissera, um clínico geral já idoso, era ela ainda uma delegada de propaganda. ”Quando os doentes se me queixam de estar constipados dou-lhes placebos inofensivos comprimidos de açúcar. Uns dias depois voltam dizendo: ’Aqueles comprimidos fazem maravilhas, a constipação já passou.’” O velho clínico geral olhara para Célia e fizera uma careta. ”Teria passado de qualquer modo.”

 

Essa memória, e os comentários de Andrew, tinham o sabor da verdade e agora, em contraste com a sua disposição anterior, Célia sentia-se deprimida. As suas novas responsabilidades abriam-lhe os olhos para coisas que ela desejaria nunca ter sabido. Que estava a acontecer, perguntou a si mesma, ao seu senso de valores? Compreendeu o que Sam pretendera quando lhe dissera: ”Tens de suspender as tuas críticas por uns tempos.” Seria realmente necessário? Poderia ela? Deveria ela? Ainda ponderando estas questões abriu a pasta que trouxera para casa e espalhou os papéis à sua volta.

 

Na pasta estava também uma coisa que Célia esquecera - uma amostra de Healthotherm um produto de venda ao balcão da Bray & Commonwealth introduzido no mercado há uns vinte anos e que ainda se vendia bem para esfregar o peito das crianças constipadas; tinha um odor forte, a especiarias, que a publicidade descrevia como ”confortante”. Célia trouxera-o para casa porque sabia que Bruce estava constipado e pretendia aplicá-lo. Mas agora perguntou a Andrew:

 

- Devo?

 

Ele pegou na embalagem, leu a lista de ingredientes e riu-se.

 

- E por que não, querida? Se quiseres usar esta antiga pomada de gordura decerto que mal não fará ao Bruce. Também não lhe fará qualquer bem mas far-te-á sentir melhor. Serás uma mãe afazer qualquer coisa.

 

Andrew abriu a embalagem e inspeccionou a bisnaga. Ainda divertido comentou:

 

- Talvez o Healthotherm seja para isso. Não é para os miúdos; é para as mães.

 

Célia ia rir-se mas estacou e olhou de forma estranha para Andrew. Dois pensamentos tinham-lhe saltado na mente. O primeiro: sim, teria de suspender a sua crítica por uns tempos. Não restavam dúvidas. Quanto ao segundo pensamento Andrew tocara numa boa - não, muito melhor que isso! - numa esplêndida e feliz ideia.

 

- Não - disse Célia aos executivos da agência de publicidade. - Não, não gosto de nada disto.

 

O efeito foi instantâneo como o eclodir repentino de um fogo. Se houvesse um indicador de temperatura na sala de conferências da agência, pensou Célia, teria caído de ”quente” para ”gelado”. Sentiu o quarteto dos homens da publicidade fazendo uma difícil e improvisada avaliação de como deveriam reagir.

 

Estava-se numa quarta-feira do meio de Janeiro. Célia e outros quatro membros da Bray & Commonwealth tinham vindo de carro de Nova Jérsia para Nova Iorque para este encontro com a Quadrille-Brown Advertising. Sam Hawthorne, que chegara na véspera a Nova Iorque, juntara-se ao grupo.

 

Lá fora estava um dia tumultuoso. A Agência Quadrille-Brown estava instalada na Burlington House, na Avenida das Américas, e o tráfico denso e os peões encolhidos combatiam uma traiçoeira mistura de neve e chuva gelada.

 

O objectivo do encontro, na sala de conferências do quadragésimo quarto andar, era rever o programa de publicidade da Bray & Commonwealth - um acontecimento normal depois de uma grande mudança na administração. Na hora que passara o programa fora apresentado com petulância e cerimónia - tanta que Célia se sentira num palanque a assistir à passagem de um regimento em parada.

 

Um regimento pouco impressionante, concluíra Célia. O que motivou o seu comentário, recebido como um choque.

 

Na longa mesa de mogno à qual estavam sentados, o homem criativo da agência, de meia-idade, Al Fiocca, parecia em pânico; cofiava a sua barba Vandyke e remexia os pés, talvez como substitutos do discurso, deixando o passo seguinte ao jovem supervisor, Kenneth Orr. Orr, de fala macia e impecável num fato azul às riscas, fora o líder do grupo da agência. O terceiro homem da agência, Dexter Wilson, era o contabilista e fizera a maior parte da detalhada apresentação. Wilson, alguns anos mais velho que Orr e prematuramente grisalho, tinha a honestidade de um pregador baptista e parecia agora preocupado, talvez porque o desagrado do cliente lhe pudesse custar o enprego. Os executivos da publicidade, sabia Célia, ganhavam principescamente, mas viviam vidas bem precárias.

 

O quarto membro do quarteto da agência, Bladen - Célia não percebera o primeiro nome - era assistente do contabilista. (Haveria alguém naquele negócio, pensou, que não tivesse um título sonante?) Bladen, que parecia um jovem imberbe, tivera um trabalhão a movimentar expositores e cartazes para os mostrar aos representantes da companhia encabeçados por Célia.

 

Outras pessoas da agência - talvez uma boa dúzia - entraram e saíram à medida que os segmentos da apresentação se sucediam uns aos outros. O segmento mais recente destinara-se ao Healthotherm - uma nova proposta de publicidade começara antes de Célia chegar à cena das vendas ao balcão.

 

Os outros da Bray & Commonwealth, que acompanhavam Célia, eram Grant Carvill, que chefiava o Marketing; Teddy Upshaw, das vendas; e Bill Ingram, um jovem chefe de produto. Carvill, um homem há muito tempo na companhia com cinquenta e tantos anos, era competente mas sem imaginação; Célia já decidira que o havia de colocar noutro trabalho. Ingram, jovem, cabelo ruivo encaracolado e saído há apenas um ano da Harvard Business School, era aparentemente esperto e enérgico mas em quantidades ainda desconhecidas.

 

Sam Hawthorne, como quadro superior da Felding-Roth, estava acima de todos eles. O presidente da agência, em reconhecimento da presença de Sam, fizera uma breve entrada para apresentar cumprimentos.

 

Mas Sam, ao anunciar pelo telefone a Célia que iria ao encontro, tornara claro o seu papel:

 

- Vou apenas ficar sentado, a observar. Como tu tens uma grande responsabilidade e és nova na função, e há um monte de dólares envolvidos, os chefões sentir-se-ão mais seguros se alguém da companhia-mãe estiver de olho no que se passa para lhes comunicar. Mas não vou intervir: o espectáculo é teu.

 

Célia olhou de relance para Sam tentando perceber se ele concordava ou não com o seu comentário de alguns momentos atrás. Mas o rosto de Sam estava impassível, nada revelando, como aliás sempre o estivera toda a manhã.

 

- Muito bem, senhor Orr - disse Célia bruscamente dirigindo-se ao supervisor de contabilidade -, deixe lá de pensar em como há-de reagir e em como lidar comigo. Vamos ter uma conversa honesta sobre a publicidade, o porquê de eu não gostar dela e por que penso que esta agência, com cujo trabalho estou familiarizada, pode fazer muito melhor que isto.

 

Sentiu uma onda de interesse no grupo de publicitários e até, talvez, de alívio. Todos os olhos, incluindo os da sua gente, estavam focados em si.

 

- Gostaremos decerto de a ouvir, senhora Jordan - disse Kenneth Orr com ar calmo. - Não há nada daquilo que viu da agência a que estejamos colados. Quanto a novas ideias ficaremos contentes em produzi-las ou em desenvolver as suas.

 

- Fico satisfeita sobre isso da cola - disse Célia com um sorriso - porque sinto que tudo aquilo que vi teria sido bom há dez anos atrás, mas está desactualizado aqui e agora. Estou também a pensar, para ser justa, se tal não será consequência de instruções e restrições da nossa companhia.

 

Ela estava ciente do olhar de respeito que Orr e Dexter Wilson lhe lançaram. Mas foi Bladen, o jovem imberbe, que balbuciou:

 

- Isso, é isso mesmo! Sempre que alguém tinha uma ideia ”em cheio” ou queria modernizar os vossos produtos velhos...

 

O supervisor de contabilidade cortou-lhe a palavra:

 

- Basta! - Olhou o subordinado. - Não culpamos um cliente por erros na nossa publicidade. Somos profissionais que aceitam a responsabilidade pelo que daqui sai. Além disso nunca nos referimos a ”produtos velhos” nesse tom. Senhora Jordan, peço-lhe desculpa.

 

- Isso é trampa de cavalo! - O comentário explodiu do lado da mesa onde estava Célia antes que ela pudesse responder a Orr. Veio do jovem Bill Ingram, cujo rosto vermelho de raiva combinava com o cabelo. Continuou: - São produtos velhos e todos o sabemos: que está de errado em dizê-lo? Ninguém está a sugerir deitá-los fora, mas decerto, que podem ser modernizados. Se vamos ter uma conversa honesta, como a senhora Jordan pretende, que a tenhamos! Houve um silêncio constrangido que Orr quebrou.

 

- Bem, bem! - De sobrolho erguido parecia dividido entre a surpresa e o divertimento. - Parece que a juventude falou pela juventude. - Virou-se para Célia! - Importa-se?

 

- Não. Até pode ajudar-nos a fazer progressos.

 

Por detrás da atitude de hoje de Célia estava a sua opinião, ganha pelo estudo dos arquivos da Bray & Commonwealth, de que a publicidade fora inibida por políticas excessivamente cautelosas e conservadoras, uma inibição que ela pretendia apagar.

 

- Para começar podemos discutir o Healthotherm - disse ela. - Acho que a nova publicidade proposta, tal como a anterior, o aborda de forma errada.

 

Com uma saudação mental a Andrew, Célia prosseguiu:

 

- Toda a nossa publicidade, mesmo a de anos atrás, mostra crianças a sorrir, sentindo-se melhores, depois do Healthotherm lhes ser esfregado no peito.

 

O executivo da contabilidade, Dexter Wilson, perguntou com um leve sorriso:

 

- Não é o que devia suceder?

 

Mas Kenneth Orr, olhando atentamente para o rosto de Célia, fez sinal ao colega para se calar.

 

- Sim, acontece - respondeu Célia. - Mas não são as crianças felizes ou não, que vão comprar o Healthotherm. São as mães. Mães que querem ser boas mães, que querem fazer qualquer coisa para melhorar as suas crianças doentinhas. Na nossa publicidade a mãe ou está em posição apagada ou nem sequer está à vista. O que gostaria de ver, logo na primeira fila, é uma mãe feliz, uma mãe aliviada, uma mãe que, quando a sua criança estava doente, fez algo para a ajudar e agora se sente bem com o que fez. Devemos usar o mesmo sistema para os meios impressos e para a televisão.

 

De repente havia acenos de aprovação em volta da mesa. Célia pensou se devia ou não acrescentar o comentário de Andrew: ”Talvez seja isso o que o Healthotherm faz. Não de forma alguma para os filhos; é para as mães.” Decidiu não o fazer. Pôs resolutamente de lado a descrição de Andrew, sobre a ”antiga pomada de gordura” que, como ele dizia, não fazia mal nem bem.

 

- Isso é interessante. Muito interessante - disse em voz baixa Kenneth Orr.

 

- É mais do que interessante - injectou Bill Ingram. - É mesmo bom. Que pensas disto, Howard? - A questão era para Bladen de forma que Célia tinha já o primeiro nome que lhe faltava.

 

- Tens razão - disse o homem da agência com satisfação. - O que temos de ter é um miúdo em segundo plano. Acho que temos de mostrar um em qualquer lado. Mas a mamã ficará bem na frente e não uma mamã toda aperaltada. Deve ter o cabelo um pouco desalinhado e a roupa com um toque de sujidade. Como se tivesse estado a trabalhar, suar, preocupar-se no quarto do miúdo doente.

 

- Sim, que seja real - acrescentou Ingram.

 

- Mas feliz - disse Bladen. - Está aliviada, já não está preocupada porque sabe que o filho se encontra bem graças ao Healthotherm. Será o máximo. A senhora Jordan acertou em cheio.

 

- Podemos trabalhar nos detalhes - observou Orr. Sorriu para Célia. Senhora Jordan, parece haver o consenso de que tem algo prometedor.

 

- E outra coisa ainda, senhora Jordan - disse Bill Ingram. - Da nossa parte mudaremos um pouco o produto. Assim poderemos chamar-lhe Novo Healthotherm.

 

O executivo da contabilidade, Dexter Wilson, concordou:

 

- Isso é sempre uma ajuda.

 

- Novo Healthotherm - Teddy Upshaw mastigou as palavras como se as saboreasse. - Sim! Seria óptimo para os nossos rapazes das vendas. Dá-se-lhes um ângulo novo, uma coisa fresca para falarem.

 

Grant Carvill, o homem do Marketing da Bray & Commonwealth, inclinou-se para a frente. Célia teve a impressão de que ele se estava a sentir ultrapassado pelo processo e que se via obrigado a dizer qualquer coisa.

 

- Mudar o produto não será difícil - afirmou Carvill. - Os químicos fazem-no alterando um ingrediente. Uma coisa mínima, nada importante, talvez uma diferença no perfume.

 

- Em cheio! - disse Bladen. - Agora já estamos a cozinhar a coisa! Num compartimento separado da sua mente Célia pensava se tudo isto estava mesmo a acontecer e como se teria sentido se tal tivesse acontecido algum tempo antes. Bem, raciocinou, para bem ou para mal aceitara o conselho de Sam Hawthorne e pusera de lado as considerações morais. Quanto tempo teria de continuar a fazê-lo. Se Teddy Upshaw estivesse certo não demoraria mais de um ano. Célia observou que Sam sorria.

 

Os seus pensamentos regressaram às suas responsabilidades. Observando os dois jovens, Howard Bladen e Bill Igram, Célia soube instintivamente com quem estaria a trabalhar de perto, no futuro, na Bray & Commonwealth e na Quadrille-Brown Advertising.

 

Mesmo nos seus maiores momentos de exultação nunca Célia esperara que o seu programa de comercialização do Novo Healthotherm - o ”plano mamã feliz”, como passou a ser conhecido dentro da companhia - produzisse os resultados espectaculares que teve. Tal como Teddy Upshaw declarara com fervor numa das reuniões privadas no seu gabinete: ”Célia, miúda, és dinamite!” E acrescentara: ”Sempre soube que eras boa, mas afinal és um génio!”

 

Um mês depois do lançamento na televisão, na rádio e na imprensa, uma campanha orquestrada pela Quadrille-Brown Advertising, as vendas de Healthotherm eram multiplicadas por seis. Mais ainda: uma quarta semana com uma inundação de encomendas tornava claro que aquilo era apenas um começo. E no mês seguinte as vendas tinham duplicado e eram previsíveis mais ganhos.

 

O sucesso de Célia e do Novo Healthotherm foram devidamente anotados no quartel-general da Felding-Roth. Consequentemente, durante o resto de 1964, sempre que surgiam planos para revitalizar outros produtos da Bray & Commonwealth, a aprovação das despesas era automática. Sam Hawthorne explicara-lhe:

 

- Continuamos a querer saber o que se passa, Célia, no fim de contas podemos aprender alguma coisa, mas enquanto continuares a produzir dar-te-emos liberdade para operar à tua maneira.

 

A maneira de Célia consistia em criar novas imagens para produtos antigos, já existentes.

 

Um deles era conhecido simplesmente como B C Shampoo. Por sugestão de Célia foi mantido o nome antigo, mas num tipo minúsculo, com um novo nome em grandes letras -EMBRACE. Logo abaixo e quase com igual predominância havia uma frase sugestiva: Tão Suave como o Amor dos Seus Sonhos.

 

Não só a frase era lembrada pelos que viam o EMBRACE nos anúncios, e o compravam, mas - para delícia de todos os que estavam ligados às vendas como acabou por se tornar numa expressão nacional. Os desenhos animados da televisão usavam-na para fazer rir. Nos jornais usavam-na como paródia incluindo numa página do editorial do The Wall Street Journal que criticava o plano de impostos da Casa Branca e tinha por título:

 

Não Suave Abraço do Vosso Presidente de Sonho.

 

Isto, e mais ainda, chamou sobre o EMBRACE uma atenção sem precedentes e as vendas explodiram.

 

De novo foi a Quadrille-Brown que desenvolveu o programa de publicidade para o EMBRACE mas desta vez sob a direcção de Howard Bladen, promovido de assistente a executivo de contabilidade. O jovem Bladen tivera também um papel no Novo Healthotherm, acabando por eclipsar um Dexter Wilson teimoso e preocupado, que desaparecera da vista, pelo que Célia nunca chegou a saber se ele deixara a agência ou passara a um posto mais recatado.

 

Do mesmo modo, na extremidade Bray & Commonwealth da equação, Célia fizera subir o jovem Bill Ingram a director de Marketing substituindo o veterano Grant Carvill. Para Carvill fora encontrado outro buraco onde estava agora como alguém comentara - ”a contar clips até à reforma”.

 

Ingram, usando Célia como modelo a seguir, trouxera ideias de marketing inovadoras. Foi também Ingram que lhe trouxe a notícia de que havia à venda no Michigão uma pequena firma farmacêutica.

 

- Têm diversos produtos, senhora Jordan, mas o único com interesse é o Sistema Cinco, um líquido descongestionante. Como sabe é uma lacuna na nossa linha, algo que não temos. Se comprarmos a companhia do Michigão abandonamos os outros produtos e pegamos no Sistema Cinco para fazer dele uma coisa grande.

 

Recordando-se do ponto de vista de Andrew sobre os remédios para as constipações, Célia perguntou:

 

- O Sistema Cinco serve para alguma coisa?

 

- Já pedi aos nossos químicos que o verificassem. Dizem que está okay. Nada de revolucionário e conseguiríamos produzir uma coisa igual partindo do zero. Ingram passou a mão pelo seu cabelo ruivo perpetuamente sujo. - Mas o Sistema Cinco faz o que é suposto fazer e já está no mercado com uma base de vendas razoável pelo que não teríamos de começar do zero.

 

- Sim, isso é importante.

 

Célia sabia que a parte económica pendia a favor de um produto de venda ao balcão já com alguma aceitação do que à introdução de uma coisa inteiramente nova. Não só um produto novo era incrivelmente dispendioso de lançar como a

 

Em inglês Embrace (abraço), dá o trocadilho. (N. do E.)

 

maioria dos produtos novos falhavam arrastando com eles para a obscuridade os seus lançadores.

 

- Arranja-me um relatório com todos os detalhes, Bill - pediu ela. - Irei revê-los. Se achar que é uma boa ideia falarei ao Sam.

 

Uns dias depois Célia achou que era uma boa ideia e recomendou que fosse adquirida a companhia de Michigão - e o remédio para a constipação, Sistema 5. O resultado foi que a pequena companhia foi comprada discretamente por intermédio de uma firma de advogados sem que os vendedores se apercebessem de quem os causídicos representavam. Tais métodos eram de norma pois anunciar que uma grande firma farmacêutica estava interessada na compra era fazer subir o preço em flecha.

 

Pouco depois os outros produtos da companhia adquirida foram vendidos e a fábrica de Michigão encerrada. A fabricação do Sistema 5, e algumas pessoas que nela trabalhavam, foram transferidas para as instalações em Nova Jérsia da Bray & Commonwealth.

 

Bill Ingram foi encarregue de melhorar e expandir as vendas do Sistema 5.

 

Ele começou por encomendar uma embalagem moderna, atraente, em laranja e ouro, com um frasco de plástico a condizer para substituir o frasco de vidro verde até aí utilizado, e rebaptizou-o de Sistema 500.

 

- Estes números extras - argumentou ele quando falou com Célia implicarão que aumentámos a força do produto ao mesmo tempo que o reformámos. Na verdade os nossos químicos estão a fazer uma ou duas alterações na fórmula para tornar a fabricação mais eficiente.

 

Célia estudou o material apresentado e disse:

 

- Sugiro uma linha extra logo abaixo do nome. - E escrevinhou numa folha de papel:

 

Sistema 500 O Lutador SISTEMÁTICO contra as Constipações passando-a a Ingram. Ele encarou-a com admiração.

 

- Brilhante! Fará as pessoas sentirem que devem ser organizadas para se livrarem das constipações. Vão adorar!

 

Célia pensou: ”Perdoa-me, Andrew!” Mais uma vez recordou a si mesma, isto é só durante um ano - e depois como o tempo passara depressa e que já fora transferida há ano e meio para a Bray & Commonwealth. ”Tenho-me embrenhado tanto nisto”, pensou, ”que às vezes me esqueço de que quero mudar para o lado dos medicamentos de receita. Além disso isto aqui é divertido.”

 

Bill Ingram continuava, com o seu entusiasmo habitual:

 

- Daqui a seis meses, quando a nova embalagem tiver pegado, podemos lançar os comprimidos.

 

- Que comprimidos?

 

- Não leu o meu relatório? - perguntou ele parecendo magoado.

 

- Se calhar está ali. - Célia apontou para uma pilha de papéis em cima da secretária. - Diz-me o que se passa.

 

- Com certeza. Os comprimidos são apenas outra forma de vender o Sistema Quinhentos. mesmos ingredientes, o mesmo efeito. faremos uma publicidade separada e obteremos uma dupla exposição. Claro que diluiremos os ingredientes para a versão infantil. Essa será a versão Sistema Cinquenta, o número menor mostrará...

 

- Sim - riu-se Célia. - Sim, já vi a ideia. Número mais pequeno, gente mais pequena.

 

- No próximo Inverno - continuou Ingram imperturbável -, quando houver famílias inteiras constipadas, o meu relatório sugere a introdução de um frasco grande, tamanho familiar, do Sistema Quinhentos. Se a coisa pegar prosseguiremos com outra ainda maior. Aquilo que no negócio é chamado tamanho ”santo deus”.

 

- Bill - disse Célia ainda a rir. - Estás a ir longe de mais! Mas gosto da ideia. E que tal o Sistema Quinhentos em geleia?

 

- Para a troca? - Ele já ria como ela. - Vou pensar nisso!

 

E enquanto Célia e as vendas de balcão se misturavam frutuosamente, os acontecimentos no Mundo continuavam como sempre - com tragédias, comédias, conflitos, nobrezas, tristezas, risos e loucuras humanas - entrando e saindo de cena umas vezes um a um, outras em grupo.

 

Os Ingleses e os Franceses anunciaram, confidencialmente, tal como o vinham fazendo há uns bons cento e cinquenta anos, que em breve começariam os trabalhos do túnel sob a Mancha. Jack Ruby, o assassino do assassino do presidente Kennedy, Oswald, fora considerado culpado e condenado à morte. O presidente Johnson foi bem sucedido onde Kennedy falhara: conseguiu fazer passar no Congresso uma lei forte sobre os direitos civis. Quatro guedelhudos de Liverpul, com o incrível nome de The Beatles, estavam a virar o Mundo do avesso com a sua música e um novo culto, a ”beatlemania”.

 

No Canadá, depois de um debate nacional que envolvera ódios e infantilidades, o país adoptara uma nova bandeira. Winston Churchill, que parecera ser eterno, morreu aos noventa. E nos Estados Unidos uma coisa chamada a Resolução do Golfo de Tonquim, relacionada com um país distante, o Vietname, passara pelo Congresso sem que lhe fosse prestada grande atenção e sem se ter a consciência de que as suas consequências alienariam uma geração e fariam a América em pedaços.

 

- Quero ver as notícias da noite na televisão - disse Andrew a Célia numa noite de Agosto de 1965. - Estão a dar-se tumultos e incêndios num sítio chamado Watts, em Los Angeles.

 

Estavam em casa para uma noite em família, de que ambos tanto gostavam, mas que agora eram mais raras pois o trabalho de Célia obrigava-a a viajar e às vezes estava vários dias fora de casa. Por causa disto, e como compensação, as crianças tomavam a refeição da noite com os pais sempre que possível.

 

Célia gostava também que as crianças vissem a avó, embora - com grande pena de todos - as visitas de Mildred fossem cada vez menos frequentes devido à sua falta de saúde. A asma constituíra sempre um problema para a mãe de Célia e ultimamente tinha piorado. Andrew sugerira que Mildred viesse viver com eles, pois assim poderiam tomar conta dela, mas ela declinou a oferta preferindo conservar a sua independência e a modesta casa de Filadélfia onde sempre vivera desde que Célia era pequenita.

 

A mãe de Andrew, que se mudara para a Europa, só raramente dava notícias e, apesar dos convites, nunca viera visitá-los. Nunca vira os netos e, aparentemente, não desejava sequer vê-los. Andrew comentara: ”Quando ouve falar de nós fazemos-lhe recordar que está velha. Acho que prefere não se lembrar disso pelo que é melhor deixá-la em paz.”

 

Célia sentira a tristeza que estava por detrás do comentário de Andrew.

 

O distante pai de Andrew morrera; a notícia chegara-lhe, por mero acaso, meses depois do acontecimento.

 

Quanto aos membros mais novos da família, Lisa tinha agora sete anos e estava no segundo ano da escola. Continuava a exibir uma personalidade forte, levava a sério o trabalho da escola e tinha um orgulho especial no seu vocabulário em crescimento, embora às vezes se excedesse. Ao falar de uma lição de História americana dissera a Célia: ”Hoje falámos da Constipação Americana.”

 

Bruce - com quase cinco anos - mostrava, em contraste, uma ternura e uma sensibilidade que em parte eram absorvidas por um estranho sentido de humor. Célia fizera um dia uma observação a Andrew:

 

- Bruce magoa-se com facilidade. Vai precisar de mais protecção do que Lisa.

 

- Nesse caso deve fazer o mesmo que eu - respondera Andrew. - Casar com uma mulher forte e boa - afirmou-o com ternura e Célia abraçou-o.

 

- Vejo muito de ti em Bruce - disse ela mais tarde.

 

Claro que os dois tinham de vez em quando as suas desavenças e até, nos oito anos de casamento, uma ou duas disputas mais sérias, mas nada mais normal entre maridos e mulheres, e as suas pequenas feridas saravam depressa. Ambos sabiam que tinham um bom casamento e faziam tudo o que podiam para o proteger e preservar.

 

As crianças estavam com eles quando viram na televisão os tumultos de Watts.

 

- Meu Deus! - exclamou Andrew quando viu cenas horríveis atrás de cenas horríveis - de incêndios, pilhagens, destruições, brutalidades, feridos e mortos, ;ombates selvagens entre negros desesperados e polícias sitiados no paupérrimo, degradado e segregado gueto de Charcoal Alley. Era um pesadelo vivo de pobreza e miséria que o Mundo ignorava excepto em momentos como aquele em que Watts fornecia um drama para as redes de televisão e que iria continuar por cinco terríveis dias e noites.

 

- Meu Deus! - repetiu Andrew. - Como é possível crer que isto está a acontecer no nosso país?

 

Estavam todos tão atentos à televisão que só quase no fim Célia reparou que Bruce tremia, soluçando em silêncio, com lágrimas rosto abaixo. Abraçou-o e pediu a Andrew numa voz urgente:

 

- Desliga isso!

 

Mas Bruce gritou ”Não, papá! Não!” e ficaram a ver aquilo até as imagens terminarem.

 

- Estavam a fazer mal às pessoas, mamã! - protestou depois Bruce. Ainda a confortá-lo Célia respondeu:

 

- Estavam sim, Bruce. É triste e não está certo mas às vezes acontece. Hesitou antes de acrescentar: - Acabarás por descobrir que coisas destas acontecem muitas vezes.

 

Mais tarde, com as crianças já na cama, Andrew disse:

 

- Foi muito deprimente, mas deste a Bruce a resposta certa. Há gente de mais a viver em casulos. Mais cedo ou mais tarde ele tem de aprender que há outro mundo lá fora.

 

- Sim - disse Célia. E continuou, pensativamente: - Queria falar contigo sobre casulos. Acho que estou metida num.

 

Um sorriso perpassou pelo rosto do marido antes de desaparecer. Ele perguntou:

 

- As vendas de balcão podem ser um casulo?

 

- São uma coisa parecida. Sei que parte daquilo que tenho estado a fazer envolve coisas que tu não aprovas, Andrew... como o Novo Healthotherm e o Sistema Quinhentos. Não tens falado muito disso. Tens-te importado?

 

- Um pouco, talvez. - Hesitou. - Tenho orgulho em ti, Célia, e naquilo que fazes e por isso me sentirei contente quando regressares aos medicamentos de prescrição da Felding-Roth, que ambos sabemos serem muito mais importantes. Entretanto houve coisas com que tive de chegar a acordo. Uma é que as pessoas continuarão a comprar banha da cobra sejas tu ou sejam outros a produzi-la, de modo que não faz grande diferença quem a fabrica. E outra coisa ainda: se as pessoas não comprassem essas poções e em vez disso fossem aos médicos ficaríamos todos inundados... não daríamos conta do recado.

 

- Não estás a racionalizar? - perguntou, duvidosa, Célia. - Só porque se trata da minha pessoa?

 

- E se estiver, por que não? És a minha mulher e amo-te.

 

- Isso dá para os dois lados. - Ela inclinou-se para o beijar. - Bem, podes parar de racionalizar, querido, porque já decidi que as vendas ao balcão e eu estamos juntas há tempo que chegue. Amanhã tenciono pedir uma mudança.

 

- Se é isso mesmo que queres, espero que o consigas.

 

Mas a resposta de Andrew era reflexiva, automática. A depressão mental produzida pelas cenas da televisão continuava presente. Assim como um problema pessoal, crucial, não relacionado com Célia nem com a família - um problema que já lhe causara angústia e não ia, não podia, ir-se embora.

 

- O dilema é que - disse Sam Hawthorne a Célia no dia seguinte - foste demasiado bem sucedida. És a galinha que põe ovos de ouro e por isso te deixámos sozinha na Bray & Commonwealth.

 

Estavam no gabinete de Sam na sede da Felding-Roth - um encontro feito a pedido de Célia e durante o qual acabara de pedir a transferência de serviço.

 

- Tenho aqui uma coisa que te deve interessar - disse Sam procurando na secretária e mexendo em várias pastas até que tirou uma do meio das outras e a abriu. Do outro lado da secretária Célia pôde observar que tinha elementos financeiros. - Isto ainda não andou a circular mas o conselho de directores em breve o verá. - Sam apontou um número com o dedo. - Quando foste para a Bray & Commonwealth as receitas dessa divisão constituíam dez por cento de todas as vendas da Felding-Roth. Este ano a percentagem será de quinze porcento e os lucros subiram na mesma proporção. - Sam fechou a pasta e sorriu. - Claro que foste um pouco ajudada pela quebra nas vendas dos medicamentos de prescrição. Mesmo assim é um feito notável, Célia. Parabéns!

 

- Obrigado. - Célia estava satisfeita. Sempre esperara resultados favoráveis mas não na escala que Sam referira. Pensou um pouco antes de lhe dizer: - Acho que as vendas ao balcão vão manter o ritmo e Bill Ingram tornou-se muito bom. Uma vez que, como tu disseste, as vendas de prescrição estão em baixo talvez eu pudesse dar aqui uma ajuda.

 

- Darás - disse Sam. - Prometo-te. Aliás já talvez tenhamos algo de interessante para ti. Mas tem paciência durante mais uns meses.

 

Andrew fitou sombriamente o administrador do hospital. Estavam no gabinete de Leonard Sweeting, ambos de pé. Havia tensão no ar. Era uma sexta-feira, já perto do meio-dia.

 

- Doutor Jordan - disse formalmente o administrador de St. Bede com voz tensa e expressão grave -, antes que continues permite-me que te aconselhe a teres a certeza absoluta do que estás a dizer e que consideres as consequências que se podem seguir.

 

- Raios! - Andrew, de mau humor após uma noite sem dormir, estava pronto a explodir. - Achas que não o fiz já?

 

- Imagino que sim. só ter a certeza. Como era hábito, sobrancelhas espessas de Sweeting subiam e desciam com as suas palavras.

 

- Muito bem... lá vai de novo, Leonard, e desta vez é oficial. - Antes de continuar Andrew escolheu com cuidado as palavras e as frases saíram como se arrancadas do seu coração. - O meu associado, o doutor Noah Townsend disse Andrew - encontra-se neste momento no piso médico onde está a observar doentes. Tenho conhecimento que o doutor Townsend está sob influência de drogas nas quais está viciado. Na minha opinião é incompetente para praticar medicina e pode pôr em risco as vidas dos doentes. Além disso é também do meu conhecimento pessoal que um doente morreu desnecessariamente neste hospital, esta semana, devido a um erro cometido por Noah Townsend sob a influência das drogas.

 

- Jesus! - O administrador empalidecera ao ouvir a última frase. Implorou: - Andrew, não podes ao menos deixar esse último ponto de lado?

 

- Não quero e não deixo! E exijo que se faça imediatamente alguma coisa disse furiosamente Andrew. - Uma coisa que devias ter feito há quatro anos quando ambos sabíamos o que estava a acontecer, mas tu e os outros escolheram ficar de boca calada e olhos abertos.

 

- Tenho de fazer alguma coisa - murmurou Leonard Sweeting. - Legalmente, depois do que me disseste, não tenho alternativa. Mas quanto ao passado nada sei.

 

- Mentes - disse Andrew - e ambos o sabemos. Mas deixarei passar isso porque nessa altura eu fui tão mau e tão insensível como tu. O que me preocupa é o agora.

 

O administrador suspirou. Disse, quase para si próprio:

 

- Acho que isto tinha de acabar por suceder. - E, indo à secretária, pegou num telefone.

 

A voz de uma secretária estralejou no instrumento e Sweeting deu as suas instruções:

 

- Liga-me ao presidente do conselho. Seja o que for que estiver a fazer ”faz com que seja contactado. É urgente. Depois de fazeres isso tu e outra pessoa qualquer agarram-se aos telefones e convocam uma reunião da comissão executiva médica. A reunião será realizada de imediato na sala do conselho. - Sweeting deu uma olhadela ao relógio. - A maior parte dos chefes de serviço está ainda no hospital.

 

Quando o administrador pousou o auscultador fez uma careta de insatisfação, mas depois os seus modos suavizaram-se.

 

- Este é um dia mau, Andrew. Para todos nós e para o hospital. Mas sei que fizeste aquilo que sentiste ser teu dever.

 

- Que vai acontecer agora? - perguntou Andrew concordando com a cabeça.

 

- A comissão executiva estará reunida dentro de minutos. Serás chamado. Fica aqui à espera.

 

Algures, lá fora, soou uma sirene indicando meio-dia.

 

Tempo. Espera. Esperando.

 

Andrew pensou divertido: esperar era algo que já fizera demasiadas vezes. Esperara tempo de mais. Esperara até um doente - um doente jovem, que poderia ter vivido muitos anos mais - morrer.

 

Após a sua descoberta, quatro anos e oito meses antes, de que Noah Townsend era um viciado em drogas, Andrew vigiara o melhor que pudera o médico mais velho - tendo por objectivo evitar que ocorresse qualquer lapso médico ou falha crucial. E embora existissem limites, é óbvio, ao escrutínio de Andrew estava satisfeito por não se terem dado erros sérios.

 

Noah, quase como se conhecesse e aceitasse as preocupações do seu colega, discutia com frequência os casos difíceis e era evidente que, com ou sem drogas, o médico mais velho mantinha as suas capacidades diagnósticas a funcionar.

 

Por outro lado, o Dr. Townsend estava a tornar-se cada vez mais descuidado em tomar as drogas, não se importando em o esconder de Andrew como o fizera antes, e mostrando cada vez mais sinais dos efeitos das drogas - olhos baços, fala arrastada, mãos trementes - quer no consultório, quer em St. Bede. Deixava dúzias de embalagens de medicamentos espalhados no consultório, não se dando sequer ao trabalho de os colocar fora da vista, e tomava-os - por vezes até quando Andrew estava com ele - como se fossem rebuçados.

 

Às vezes Andrew tentava imaginar porque é que Townsend podia ser um viciado em drogas e mesmo assim funcionar tão bem como o parecia fazer. Raciocinava Andrew: os hábitos custam a morrer, assim como os instintos. Noah pratica medicina há tantos anos que muito do que faz - incluindo diagnósticos que seriam difíceis para outros - é para ele coisa fácil. De certo modo, pensava Andrew, era como se Noah fosse uma máquina avariada mas que continuasse a rodar movida pela própria inércia. Mas permanecia uma questão: quanto tempo duraria a inércia?

 

No entanto em St. Bede ninguém parecia compartilhar da preocupação de Andrew. Mesmo assim em 1961 - um ano após a descoberta de Andrew e a sua primeira e abortada sessão com Leonard Sweeting - Noah deixara de ser chefe do Serviço de Medicina e abandonara também a comissão médica do hospital. Se tais mudanças tinham sido ideia de Townsend ou o resultado de uma discreta sugestão, fora coisa que nunca Andrew conseguira descobrir. E Townsend levava também uma vida social menos activa ficando em casa mais tempo que dantes. E no consultório procurava reduzir a carga de trabalho enviando quase todos os doentes novos para Andrew e para um novo médico, Oscar Aarons, que se lhes juntara.

 

De tempos a tempos Andrew ainda ficava preocupado com Noah e os doentes, mas como não parecia haver qualquer problema de maior, Andrew simplesmente como agora via - deixara as coisas correr, nada fazendo, esperando que algo acontecesse, embora nutrindo dentro de si a esperança de que nada houvesse.

 

Até à presente semana.

 

O clímax, quando chegou, fê-lo súbita e assustadoramente.

 

Ao princípio Andrew teve apenas informações parciais e isoladas. Mas pouco depois, devido às suas suspeitas e inquéritos, era capaz de juntar os diversos acontecimentos na sequência apropriada.

 

Tinham começado na terça-feira à tarde.

 

Um homem de vinte e nove anos, Kurt Wyrazik, aparecera no consultório do Dr. Townsend queixando-se de dores de garganta, náuseas, tosse persistente e febre. O exame mostrara que tinha a garganta inflamada; a temperatura era de trinta e nove graus e a respiração rápida. Com o estetoscópio, revelavam as notas clínicas de Noah Townsend, ouvira supressão de sons respiratórios, roncos e ruídos de fricção pleural. Diagnosticou pneumonia e disse a Wyrazik para ir ao Hospital de St. Bede a fim de ser imediatamente internado e onde Townsend o tornaria a ver mais tarde nesse mesmo dia.

 

Wyrazik não era um novo doente. Já antes estivera várias vezes no consultório desde há três anos para cá. Na primeira consulta tinha também a garganta inflamada e Townsend receitara-lhe, nessa altura, uma injecção de penicilina.

 

Nos dias que se seguiram à injecção a garganta de Wyrazik voltou ao normal mas surgiu-lhe uma erupção cutânea pruriginosa. A erupção indicava que ele era hipersensível à penicilina; portanto, daí em diante, tal fármaco não lhe deveria ser administrado sob o risco de futuros efeitos colaterais graves ou mesmo catastróficos. O Dr. Townsend assinalara isto, de forma proeminente e a tinta vermelha, na ficha do doente.

 

Até aí Wyrazik desconhecia a sua alergia à penicilina.

 

Da segunda vez que Wyrazik fora à consulta por qualquer coisa sem grande importância, Noah Townsend não estava e foi Andrew quem o viu. Ao ler a ficha do doente Andrew reparou no aviso respeitante à penicilina. Não se serviu dele porque o doente não necessitou de qualquer medicação.

 

Fora essa - cerca de ano e meio atrás - a última vez que Andrew vira Wyrazik vivo.

 

Depois de Noah Townsend o ter mandado para o Hospital de St. Bede, Wyrazik ficou internado num quarto com outros três doentes. Logo a seguir, como era normal, veio um interno fazer-lhe a história clínica. Mera rotina. Uma das perguntas que o interno fez foi ”É alérgico a alguma coisa?”, ao que Wyrazik respondera ”Sim... à penicilina”. A pergunta e a resposta foram registadas no processo clínico hospitalar.

 

O Dr. Townsend manteve a sua promessa de ver mais tarde Wyrazik no hospital mas antes disso telefonou para St. Bede dando instruções para que fosse dada ao doente eritromicina. O interno cumpriu a ordem. Uma vez que, na maior parte dos doentes, era normal usar a penicilina para tratar uma pneumonia, tudo levava a crer que Townsend lera o aviso de alergia ou dele se lembrara - talvez até as duas coisas.

 

Nesse mesmo dia, quando visitou Wyrazik no hospital, Townsend leu, ou devia ter lido, as notas do interno sendo assim mais uma vez recordado da alergia à penicilina.

 

O passado do doente teve certa importância no que aconteceu, ou não aconteceu, mais tarde.

 

Kurt Wyrazik era um indivíduo apagado, vulgar, solteiro e sem amigos próximos. Empregado como contínuo, vivia sozinho e era, na verdadeira acepção do termo, um ”solitário”. Ninguém o foi visitar ao hospital. Wyrazik nascera na América; os pais eram imigrantes polacos. A mãe já morrera. O pai vivia numa pequena cidade do Texas com a irmã mais velha de Kurt, também solteira. Estes dois eram as únicas pessoas no mundo com quem Wyrazik tinha laços íntimos. Contudo não os informou de que estava doente e internado no St. Bede.

 

A situação permaneceu assim até ao segundo dia da estada de Wyrazik no hospital.

 

Na tarde do segundo dia, por volta das oito horas, foi visto de novo pelo Dr. Townsend. Também neste ponto Andrew teve uma ligação indirecta com o caso.

 

Noah Townsend, nos últimos tempos, visitava os seus doentes no hospital a horas pouco ortodoxas. Andrew e os outros raciocinaram, mais tarde, que talvez o fizesse para evitar encontrar-se com os colegas durante o dia ou que talvez isso se devesse à desorientação provocada pelas drogas. Aconteceu que Andrew foi também nessa noite a St. Bede, pois tinham-lhe telefonado para casa por causa de uma emergência. Andrew ia a sair do hospital quando Townsend chegava e estiveram a falar um bocado. ^

 

Andrew soube logo, pelas maneiras de Noah Townsend e pela sua fala lenta, que o médico mais velho estava sob a influência das drogas e que provavelmente até tomara algumas há pouco tempo. Andrew hesitou, mas, uma vez que já vivia com aquela situação há tanto tempo, raciocinou que nada de mal ia acontecer; e nada fez. Mais tarde Andrew culpar-se-ia amargamente desta omissão.

 

Andrew foi para casa e Townsend tomou o elevador até ao piso do Serviço de Medicina para ver vários doentes. O jovem Wyrazik foi o último a ser observado.

 

O que passou na mente de Townsend nessa altura só pode ser conjecturado. O que se sabe é que a situação de Wyrazik, se bem que não crítica, piorara um pouco com uma febre alta e uma dificuldade respiratória. É provável que Townsend, no seu estado confuso, tivesse decidido que a medicação inicial que prescrevera não estava a resultar e devia ser mudada. Escreveu nova terapêutica e, saindo de junto de Wyrazik, entregou-a pessoalmente na sala de enfermagem.

 

A nova terapêutica consistia em seiscentas mil unidades de penicilina de seis em seis horas, por via intramuscular, devendo a primeira injecção ser dada de imediato.

 

Por causa da ausência, por motivo de doença, de uma enfermeira mais antiga, a enfermeira de vela era nova e inexperiente. E estava cheia de trabalho. Ainda não vira, e nem nesta altura as leu, as notas assinaladas no processo do doente; deste modo desconhecia o aviso sobre a alergia à penicilina.

 

Wyrazik, quando a enfermeira chegou junto dele, estava febril e sonolento. Não perguntou o que lhe estavam a injectar, nem a enfermeira prestou voluntariamente tal informação. Assim que deu a injecção a enfermeira saiu do quarto de Wyrazik.

 

Parte do que aconteceu em seguida só pode ser conjecturado; o resto é baseado no relato de outro doente do mesmo quarto.

 

Dados os efeitos conhecidos da penicilina nestas circunstâncias, Wyrazik sentiu, momentos depois, uma grave perturbação acompanhada por uma comichão súbita em todo o corpo e a sua pele ficou de um tom vermelho-vivo. Num processo contínuo entrou em reacção anafiláctica com o rápido desenvolvimento do edema e distorção do rosto, olhos, boca, língua e laringe, tudo isto acompanhado de engasgamento, sibilos e outros ruídos desesperados do peito. O edema da laringe, o facto mais crítico de todos, bloqueou a passagem de ar para os pulmões impedindo a respiração e seguiu-se - misericordiosamente, depois de dor e terror - a inconsciência e a morte. Todo o processo durou uns cinco minutos ou talvez um pouco mais.

 

Se tivesse sido feito um tratamento de emergência teria consistido em doses maciças de adrenalina e traqueotomia de urgência - uma incisão cirúrgica no pescoço até à traqueia - para dar ar aos pulmões. Mas não foi pedido e quando chegou auxílio era tarde de mais.

 

Outro dos doentes do quarto, ao ver o desassossego e os ruídos de engasgamento da cama ao lado, premira o botão com força para chamar a enfermeira. Mas quando ela chegou, já Kurt Wyrazik morrera - só e sem auxílio.

 

A enfermeira procurara logo um residente. Procurou também o Dr. Townsend na esperança de que ainda estivesse no hospital. Estava e chegou primeiro.

 

O que parece mais provável é que a compreensão do que acontecera penetrou na sua mente confusa e, por um esforço de vontade, aclarou a cabeça e começou com o que - não fora a posterior intervenção de Andrew - teria sido uma camuflagem bem-feita. Decerto que percebeu que a enfermeira não sabia da alergia à penicilina. Era também possível que, por uma sorte extraordinária, os dois factos incriminatórios - a nota de entrada referindo a alergia e a injecção de penicilina - não estivessem ligados entre si. Sendo assim, se pudesse apresentar a morte como natural, a verdadeira causa podia ser camuflada. Também não deve ter escapado a Townsend o facto de que Kurt Wyrazik não tinha amigos próximos daqueles que fazem perguntas embaraçantes.

 

- Pobre tipo! - disse Townsend à enfermeira. - O coração não aguentou. Receava que isto acontecesse. Tinha o coração fraco, como você sabe.

 

- Sim, doutor.

 

A jovem enfermeira sentia-se aliviada por não a culparem de nada. Além de que, apesar de tudo, Noah Townsend continuava a ter uma figura impressionante e madura de autoridade cujas palavras ela não punha em dúvida. Nem as pôs em dúvida o residente que fora chamado e que voltou aos seus outros deveres pois ”já havia alguém” a tomar conta do assunto; pelo que ele já não era necessário.

 

Townsend soltou um suspiro e disse à enfermeira:

 

- Há coisas que temos de fazer depois de uma morte, jovem. Vamos nós os dois tratar disso.

 

Uma das coisas era uma certidão de óbito completa em que Noah notificara a morte como causada por ”insuficiência cardíaca aguda secundária a pneumonia”.

 

Foi por acaso que, na manhã de quarta-feira, Andrew soubera da morte de Kurt Wyrazik. Ao passar pela recepção do consultório que ele, Townsend e o Dr. Aarons compartilhavam, Andrew ouviu Peggy, a recepcionista que substituíra Violet Parsons, referir-se no telefone ”ao doente do doutor Townsend que morreu a noite passada”. Pouco depois Andrew encontrou Townsend e disse-lhe com simpatia:

 

- Ouvi dizer que perdeu um doente.

 

- É triste - disse o homem mais velho. - Era um tipo novo; uma vez viste-o tu. Wyrazik. O coração dele não aguentou. Receava isso mesmo.

 

Andrew podia não ter pensado mais no assunto; a morte de um doente, embora lamentável, não era coisa rara. Mas havia qualquer coisa de estranho nos modos de Townsend que lhe deu uma vaga inquietação. A sensação levou Andrew, aí uma hora depois de Townsend sair do consultório, a ir procurar a ficha médica de Wyrazik e lê-la. Sim, já se lembrava do doente e, ao percorrer a ficha, notou duas coisas. Uma era a nota sobre a alergia à penicilina, que não parecia ter significado. A outra era a ausência de qualquer referência a doença cardíaca, que o tinha.

 

Ainda não muito preocupado, mas curioso, Andrew decidiu, mais tarde, fazer um inquérito discreto à morte de Wyrazik no hospital.

 

Nessa tarde foi aos arquivos de St. Bede. Os documentos respeitantes a Wyrazik tinham sido para lá enviados pouco depois da morte do doente.

 

Andrew leu primeiro a última entrada - a causa de morte que Townsend registara - e depois viu o processo de trás para a frente. Quase a seguir a ordem, escrita pela própria mão de Townsend, para administração de seiscentas mil unidades de penicilina, saltou-lhe à vista atingindo-o como um raio. Igualmente chocante era a anotação da enfermeira confirmando a sua administração e, mostravam-no as sequências de tempo, isso fora pouco antes da morte de Wyrazik.

 

Andrew leu o resto do processo - incluindo a nota do interno sobre a alergia à penicilina e a primeira prescrição de eritromicina - ainda estonteado. Quando devolveu o processo ao empregado a mão tremia-lhe e o coração saltava-lhe no peito.

 

As questões assaltavam-no: ”Que fazer? Qual o próximo passo?”

 

Andrew foi à morgue ver o corpo de Wyrazik.

 

Na morte os olhos estavam cerrados e as faces do cadáver serenas. À excepção de um tom cianótico, azulado, da pele, que podia ter outras causas, não havia quaisquer sinais do choque anafiláctico que, acreditava Andrew, matara desnecessariamente aquele jovem.

 

Perguntou ao empregado da morgue que o acompanhara:

 

- Foi pedida autópsia?

 

- Não senhor. - E depois acrescentou: - Há uma irmã que deve vir do Texas. Vai ser cremado quando ela chegar.

 

Os pensamentos de Andrew estavam num torvelinho. Recordando a sua primeira experiência com o administrador do hospital sentia-se ainda inseguro sobre o que fazer a seguir. Claro que era preciso fazer qualquer coisa, mas o quê? Devia avisar da necessidade de uma autópsia? De uma coisa estava Andrew certo: uma autópsia mostraria que não houvera insuficiência cardíaca. Mas, mesmo sem a autópsia, os registos no processo constituíam provas diabólicas.

 

Mas a tarde chegava ao fim. A maior parte dos chefes já tinha ido para casa e não lhe restava senão esperar pelo dia seguinte.

 

Durante essa noite, enquanto Célia dormia a seu lado, sem saber do problema do marido, ele ficou acordado com a mente cheia de vias de acção. Devia dizer aos colegas do hospital aquilo que sabia ou seriam as coisas mais imparcialmente tratadas por autoridades exteriores? Deveria primeiro enfrentar Noah Townsend e escutar as suas explicações? Mas Andrew percebeu a futilidade disto pois a personalidade de Noah mudara nitidamente, muito mais do que aparentava à superfície - o resultado de anos de viciado.

 

O Noah que Andrew outrora conhecera e respeitara, e em certos momentos até amara, era recto e honrado, com pontos de vista firmes sobre ética e medicina, pelo que nunca teria permitido nele mesmo ou noutros a negligência profissional horrível, seguida de subterfúgio, que acabara de praticar. O velho Noah Townsend teria aguentado firme, confessado e arcado com as consequências fosse qual fosse a dureza delas. Não, uma confrontação pessoal para nada serviria.

 

Mais do que tudo Andrew sentia tristeza e perda.

 

Por fim decidiu-se a manter o que sabia dentro da família do hospital. Se fosse necessária a intervenção do exterior, que fossem outros a tomar tal decisão. No dia seguinte de manhã, no seu consultório, arranjou tempo para escrever um relato detalhado do que sabia. Depois, um pouco antes do meio-dia, foi a St. Bede e enfrentou o administrador.

 

Se fechasse os olhos, pensou Andrew, poderia imaginar-se numa reunião de pais na escola das crianças ou talvez na sala da direcção de uma companhia industrial de porcas e parafusos onde estivessem a tomar decisões de todos os dias, rotinas.

 

As palavras passavam por ele.

 

- Posso apresentar uma resolução sobre isso?

 

- Senhor presidente, proponho...

 

- Há alguém mais que apoie?

 

- ... eu apoio.

 

- ... foi proposto e apoiado. ...Os que são a favor da resolução... Um coro de ”sins”.

 

- Contra? Silêncio.

 

- ... declaro a resolução aprovada. Por decisão unânime são suspensos os privilégios hospitalares ao doutor Noah Townsend...

 

Era mesmo verdade o que estava a acontecer? Este acompanhamento prosaico, formal, vulgar, de uma grande tragédia? Seriam estas frases fúteis, rebuscadas, o melhor que se podia encontrar para assinalar o fim súbito e amargo de uma vida inteira de trabalho, o fim da carreira de um homem outrora dedicado?

 

Andrew não se sentiu envergonhado por descobrir que havia lágrimas correndo-lhe pelo rosto. Sabia que outros dos que estavam em torno da mesa as viam mas não procurou escondê-las.

 

- Doutor Jordan - disse o presidente da comissão médica executiva -, por favor, creia-me quando lhe digo que todos nós compartilhamos a sua tristeza.

 

Noah era, e é, também nosso amigo e colega. Temos por si o maior respeito por ter feito o que fez e que bem sabemos como lhe foi difícil. O que fizemos foi igualmente difícil mas também necessário.

 

Andrew assentiu com a cabeça, incapaz de falar.

 

O presidente era o Dr. Ezra Gould. Era neurologista e chefe do Serviço de Medicina, cargo em que sucedera a Noah Townsend três anos antes. Gould era um indivíduo pequeno, de fala mansa, mas cheio de força e muito respeitado em St. Bede. Os outros membros da comissão eram chefes de serviços - cirurgia, ginecologia e obstetrícia, patologia, pediatria, radiologia e outros. Andrew conhecia bastante bem a maioria deles. Eram gente decente, sensível e responsável, mas no fazerem o seu dever tinham sido, do ponto de vista de Andrew, demasiado demorados.

 

- Senhor presidente - disse Leonard Sweeting -, gostaria de informar a comissão de que, tendo previsto a decisão ora tomada, preparei um comunicado a ser distribuído imediatamente em todo o hospital: salas de enfermagem, secretaria de admissões, farmácia, etc. Tomei a liberdade de descrever a suspensão do doutor Townsend como ”por motivos de saúde”. Creio ser mais discreto do que qualquer coisa mais específica. Está certo?

 

Gould olhou interrogadoramente para os outros. Ouviram-se murmúrios de concordância.

 

- Está certo - disse Gould.

 

- Peço também - continuou o administrador - que os pormenores do que aqui se passou sejam discutidos o menos possível fora desta sala.

 

Leonard Sweeting conduzira a comissão desde o momento em que a ordem de trabalhos fora conhecida - e que constituíra choque e consternação para os médicos ali reunidos tão apressadamente. Além disso Sweeting, antes da reunião começar, tivera uma consulta telefónica urgente com o presidente do hospital, um advogado veterano local, Fergus McNair, que tinha escritório em Morristown. A conversa dera-se na presença de Andrew e, embora só ouvisse um dos lados dela, não lhe tinham escapado as últimas palavras do presidente ecoando no auscultador: ”Proteger o hospital.”

 

- Farei o melhor que puder - dissera o administrador.

 

Depois disso Sweeting fora para a sala de reuniões, mesmo ao lado do seu gabinete, deixando Andrew sozinho. Alguns minutos depois a porta abrira-se e Andrew fora convidado a entrar.

 

Todos os rostos em torno da mesa tinham um ar mortalmente sério.

 

- Doutor Jordan - dissera o presidente, Dr. Gould -, fomos informados da natureza das suas acusações. Por favor, diga-nos tudo o que sabe.

 

Andrew repetira o que já antes dissera ao administrador, consultando ocasionalmente as suas notas. Depois do seu depoimento houve algumas perguntas e alguma discussão, mas pouco. Leonard Sweeting apresentou então o processo clínico do falecido Kurt Wyrazik que correu os presentes provocando, ao verificar os registos feitos, muitos acenos tristes de cabeças.

 

Andrew ficou com a impressão de que, embora os membros da comissão não tivessem esperado que aquelas coisas tivessem sucedido naquele dia e daquela forma, o assunto em si não lhes causava surpresa.

 

A resolução formal fora tomada de seguida, tirando Noah Townsend da sua situação há muito adquirida em St. Bede.

 

O chefe do Serviço de Pediatria, um natural de Nova Inglaterra, disse então:

 

- Há uma coisa que ainda não discutimos: que vai acontecer no que respeita ao jovem que morreu?

 

- Sabendo aquilo que nós sabemos - respondeu o administrador -, é essencial que se faça a autópsia. Pouco antes de começarmos esta reunião falei pelo telefone com o pai do falecido, no Cansas, a irmã vem a caminho, e o pai deu a autorização necessária. A autópsia far-se-á hoje. - Sweeting olhou para o chefe do Serviço de Patologia que concordou com um gesto de cabeça.

 

- Até aí tudo bem - insistiu o chefe do Serviço de Pediatria -, mas que vamos dizer à família?

 

- Falando francamente - começou Sweeting -, por causa dos problemas legais envolvidos, essa é uma questão delicada e potencialmente explosiva. Sugiro que deixem essa decisão ao doutor Gould, a mim e ao doutor McNair que dentro em pouco estará aqui e nos dará a sua opinião legal. - Acrescentou: - Talvez mais tarde façamos um relato a esta comissão.

 

- Está tudo? - perguntou o Dr. Gould aos outros. Houve acenos de concordância e, assim pareceu, de alívio.

 

”Talvez”, pensou Andrew. Era a palavra chave. ”Talvez... façamos um relato a esta comissão. E talvez não.”

 

O que o hospital, nas pessoas de Leonard Sweeting e do seu patrão Fergus McNair, sem dúvida gostaria era de que tudo fosse abafado e que o jovem Kurt Wyrazik, a vítima inocente, fosse cremado e esquecido. De certo modo, pensou Andrew, não se podia criticar Sweeting e McNair. Tinham as suas responsabilidades. E se tudo isto fosse para tribunal como um caso de erro médico seria horrível uma condenação ou um acordo financeiro. Andrew não fazia a mínima ideia, nem nisso estava interessado, se o seguro cobriria tal eventualidade. A única coisa de que estava certo é que pessoalmente não faria parte do encobrimento.

 

Pairava no ar um sussurro de conversas e o presidente chamou a atenção dos presentes com um toque do martelo.

 

- Agora - disse o Dr. Gould - chegamos à parte mais difícil. - Observou a sala. - Tenho de procurar Noah Townsend para lhe dizer o que aqui foi decidido. Segundo sei está ainda no hospital. Há alguém que queira vir comigo?

 

- Eu irei consigo - disse Andrew. Era, pensou, a última coisa que podia fazer. Devia isso a Noah.

 

- Obrigado, Andrew - disse Gould agradecido.

 

Mais tarde, ao pensar com calma no que se passara, e apesar da cena patética e estridente que se dera, Andrew sentira que Noah Townsend estivera à espera deles e ficara aliviado por os ver chegar.

 

Quando o Dr. Ezra Gould e Andrew saíram do elevador no piso do Serviço de Medicina, à direita deles ficava um corredor cheio de movimento, com quartos de doentes e sala de enfermagem. No fim do corredor estava Townsend, sem nada fazer, parecendo contemplar o espaço.

 

Quando os dois se aproximaram ele mexeu a cabeça e, ao vê-los, recolheu-se em si mesmo. Virou-lhes as costas, mas, um momento mais tarde, mudou subitamente de ideias. Voltando atrás, o rosto contorcido numa imitação de um sorriso, levantou os pulsos juntos um ao outro.

 

- Trouxeram as algemas? - perguntou Townsend. Gould ficou perplexo, mas disse:

 

- Noah, preciso de falar contigo. Vamos para um sítio onde possamos ficar em privado.

 

- Para que é preciso a privacidade? - A resposta era quase um grito como se Townsend tivesse levantado a voz propositadamente; uma enfermeira e vários doentes olharam com curiosidade. - O hospital todo não vai saber de tudo antes do dia acabar?

 

- Muito bem - disse Gould mantendo a calma. - Se insistes digo-te aqui mesmo. É meu dever comunicar-te, Noah, que a comissão médica executiva teve uma reunião. Com grande pena nossa foi aí decidido suspender os teus privilégios hospitalares.

 

- Fazes uma ideia sequer - a voz de Townsend continuava alta de mais - de há quanto tempo faço parte deste hospital e de quanto fiz por ele?

 

- Sei que foram muitos anos e que te devemos muito. - Gould estava consciente de que havia ainda mais gente a ouvir. - Por favor, Noah, vamos...

 

- Tudo isso não conta para nada?

 

- Neste caso, infelizmente, não.

 

- Pergunta aqui ao Andrew o muito que eu fiz! Vá, pergunta-lhe!

 

- Noah - disse Andrew -, contei-lhe aquilo do Wyrazik. Lamento muito, mas tinha de o fazer.

 

- Ah, sim! Wyrazik. - Townsend acenou várias vezes que sim com a cabeça, em movimentos bruscos; falou num tom mais baixo. - Pobre tipo. Merecia melhor sorte. Também lamento o que sucedeu ao Wyrazik. A sério que lamento.

 

E, de repente, de forma embaraçadora, o velho médico cedeu e começou a balbuciar. Soluços violentos sacudiram-lhe o corpo.

 

- ...primeira vez... cometi um erro... não reparei... não acontecerá... prometo...

 

Andrew deu um passo em frente para segurar o braço de Townsend, mas Ezra Gould adiantou-se. Segurando-o com força, Gould disse com firmeza:

 

- Noah, vamos sair daqui. Não estás bem. Vou levar-te a casa.

 

Ainda sacudido pelos soluços Townsend deixou-se levar até ao elevador. Seguiram-no olhares curiosos.

 

Gould virou-se para Andrew. Afastando um pouco Townsend o chefe do Serviço de Medicina sussurrou a Andrew:

 

- Fica aqui, Andrew. Descobre quais foram os doentes que Noah viu hoje e verifica as prescrições. E fá-lo depressa. Não deve haver uma repetição do... Percebeste?

 

- Sim - concordou Andrew.

 

Sentindo uma certa relutância deixou os outros dois homens seguirem.

 

Quando chegaram aos elevadores Townsend começou a gritar histericamente, tentando resistir. De súbito, incrivelmente, algo dentro dele se deve ter transformado, reduzindo-o a uma sombra de si próprio, uma figura alquebrada, despida de qualquer dignidade ou estatura. Quando a porta de um elevador se abriu Gould empurrou apressadamente Townsend para dentro. Mesmo após a porta se fechar podiam ouvir-se os gritos. Depois abafaram-se à medida que o elevador descia deixando Andrew de pé, sozinho no meio do silêncio.

 

Nessa noite, depois do jantar, Andrew recebeu um telefonema de Ezra Gould.

 

- Preciso de te ver - disse o chefe do Serviço de Medicina. - Esta noite. Onde é que daria mais jeito? Irei aí a tua casa se quiseres.

 

- Não - disse Andrew. - Encontramo-nos no hospital.

 

Ainda não se sentira com alento para falar de Noah a Célia e embora, como ela sempre o fazia, Célia sentisse que havia algo errado, não o pressionara para saber de que se tratava.

 

Quando Andrew chegou a St. Bede já o Dr. Gould estava no pequeno gabinete que o hospital pusera ao seu dispor.

 

- Entra - disse ele. - E fecha a porta.

 

Abrindo uma porta do armário Gould tirou de lá uma garrafa de uísque e dois copos.

 

- É contra as normas, e raramente o faço. Mas acho que preciso disto esta noite. Acompanhas-me?

 

- Acompanho - disse Andrew agradecido.

 

Gould vazou as bebidas, juntou gelo e água e beberam em silêncio.

 

- Tenho estado com Noah desde que te deixei - disse Gould. - Há várias coisas que precisas de saber. A primeira é que, uma vez que afectará o teu consultório e os doentes de Noah, o Noah Townsend nunca mais praticará medicina.

 

- Como é que ele está? - perguntou Andrew.

 

- Pergunta antes ”onde é que está?” que eu darei a resposta. - Gould engoliu o resto do líquido do copo. - Foi internado num hospital psiquiátrico privado de Newark. Na opinião dos que são competentes para o saber é pouco provável que venha algum dia a sair de lá.

 

Gould mostrava-se tenso ao descrever os acontecimentos dessa tarde e do princípio da noite. A certa altura comentou ”espero que nunca mais tenha de passar por tudo isto”.

 

Depois de ter deixado Andrew, quando Gould e Townsend chegaram ao piso principal de St. Bede, o chefe do Serviço de Medicina conseguira meter Townsend, ainda a gritar, numa sala de tratamento vaga onde Gould fechou a porta à chave e pediu com urgência pelo telefone um psiquiatra. Quando o psiquiatra chegou os dois conseguiram dominar Townsend e deram-lhe um sedativo. Era óbvio que, naquele estado, Townsend não podia ir para casa de modo que o psiquiatra fez alguns telefonemas apressados após os quais Townsend foi evacuado numa ambulância para o instituto de Newark. Gould e o psiquiatra acompanharam-no.

 

Quando chegaram ao hospital psiquiátrico o efeito do sedativo acabara e Townsend tornou-se violento tendo sido necessário segurá-lo com um colete-de-forças.

 

- Oh, Cristo! Foi horroroso! - Gould pegou num lenço e limpou o rosto. Nessa altura, mais ou menos, tornou-se evidente que Noah Townsend estava

 

louco. Ezra Gould descreveu assim a situação:

 

- Foi como se Noah estivesse a viver, há muito tempo e por causa da sua viciação em drogas, é claro, numa concha vazia. Só Deus sabe como é que ele conseguiu manter-se, mas fê-lo. Depois, de repente, o que hoje aconteceu fez partir a concha... e nada havia a funcionar lá dentro e, segundo parece, nada que seja recuperável.

 

Uma hora antes, continuou Gould, fora ver a esposa de Noah Townsend. Andrew estava espantado. No meio de tudo o que acontecera nos últimos dias ainda não pensara em Hilda.

 

- Como é que ela aceitou tudo isto? - perguntou. Gould meditou antes de responder.

 

- É difícil de dizer. Ela não falou muito nem se admirou. Fiquei com a impressão de que estava à espera que acontecesse uma coisa destas, embora não soubesse bem o quê. Acho que será melhor que a vás ver amanhã.

 

- Claro - disse Andrew. - Irei.

 

Gould hesitou. Depois, olhando directamente para Andrew, resolveu-se a falar:

 

- Há mais uma coisa que temos os dois de discutir e é o homem morto, Wyrazik.

 

- Digo-lhe já - disse Andrew com firmeza - que não faço intenção de participar numa camuflagem.

 

- Está bem - concordou Gould. A sua voz endureceu: - Nesse caso deixa-me perguntar-te uma coisa: Que te propões fazer? Vais fazer uma comunicação pública, talvez na imprensa? E depois oferecer-te-ás como testemunha de acusação num caso de erro médico? Vais ajudar um desses advogados caçadores de tesouros a ganhar uma gorda fatia tirada da mulher de Noah à custa do dinheiro que este possa ter guardado para a velhice? Vais sobrecarregar este hospital com indemnizações muito acima dos seguros que temos e que nos podem fazer falir financeiramente, obrigando-nos a reduzir os nossos serviços ou a fechar as portas?

 

- Pode não acontecer nada disso - protestou Andrew.

 

- Mas pode acontecer. Já leste o bastante sobre advogados espertos para saberes o que podem fazer num tribunal.

 

- O problema não é meu - insistiu Andrew. - O que importa é a verdade.

 

- A verdade é importante para todos nós - respondeu Gould. - Não tens o monopólio. Mas às vezes a verdade pode ser encoberta por razões decentes e em circunstâncias especiais. - A sua voz tornou-se persuasiva. - Agora ouve-me com atenção, Andrew. Ouve-me.

 

O chefe do Serviço de Medicina fez uma pausa, para reunir os. pensamentos, antes de prosseguir:

 

- A irmã do morto, Miss Wyrazik, chegou do Cansas esta tarde. Len Sweeting viu-a. Descreveu-a como uma mulher simpática mas vulgar, um bocado mais velha que o irmão e, claro, triste com a sua morte. Mas os dois não eram muito íntimos, não o eram há anos, pelo que a morte não foi para ela um choque muito grande. O pai, que ficou lá no Texas, tem a doença de Parkinson. Está numa fase muito avançada, já com pouco tempo de vida.

 

- Não sei o que é que isto tudo tem... - disse Andrew.

 

- Vais ver. Ouve apenas!

 

Gould tornou a fazer uma pausa antes de continuar.

 

- A irmã de Wyrazik não veio cá para levantar problemas. Nem sequer fez muitas perguntas. Até referiu espontaneamente que a saúde do irmão nunca fora boa. Quer os seus restos cremados e vai levar as cinzas para o Cansas. Mas tem problemas de dinheiro. Len descobriu isso ao falar com ela.

 

- Nesse caso deve ser ajudada. Decerto que é o mínimo...

 

- Exactamente! Todos concordamos nesse ponto, Andrew. Mais ainda: pode arranjar-se uma ajuda financeira.

 

- Como?

 

- Len e Fergus McNair arranjaram a coisa. Estiveram muito ocupados a tarde toda. Não interessam os pormenores; não necessitamos de os saber. Mas o facto é que os nossos seguradores, falámos com eles confidencialmente, têm todo o interesse em que isto acabe em bem. Ao que parece o Wyrazik mandava dinheiro para o Cansas para ajudar nas despesas médicas do pai. Essas quantias podem ser continuadas, talvez até aumentadas. As despesas do funeral de Wyrazik serão pagas. E pode haver uma pensão, pequena mas suficiente, para a irmã durante o resto da sua vida.

 

- Como é que lhe vão explicar isso sem admitir culpa? E se ela começar com suspeitas?

 

- Acho que é um risco - disse Gould -, embora Len e McNair não pensem que o seja e, no fim de contas, são advogados. Pensam que podem fazer tudo discretamente. Suponho também que seja possível devido ao tipo de mulher que é Miss Wyrazik. O mais importante é que desta forma não haverá um desses ridículos pedidos de milhões de dólares.

 

- Suponho - disse Andrew - que o ser ou não ridículo depende do seu ponto de vista.

 

O chefe do Serviço de Medicina fez um gesto de impaciência:

 

- Tenta não te esquecer do seguinte: não há nenhuma esposa envolvida, nem filhos com uma futura educação a ter em conta, apenas um velho moribundo e uma mulher de meia-idade de que vamos tomar conta razoavelmente. - Gould parou e perguntou de chofre: - Que pensas tu? - Andrew sorriu.

 

- Um pensamento cínico. Se Noah tinha de matar um doente não podia ter escolhido um melhor que este.

 

- A vida está cheia de surpresas - comentou Gould com um encolher de ombros. - Parece que a sorte esteve desta vez do nosso lado. Então?

 

- Então, o quê?

 

- Então, sempre vais fazer uma comunicação pública? Vais chamar a imprensa?

 

- Claro que não - disse, irritado, Andrew. - Nunca tive tal intenção. Sabia-lo muito bem.

 

- Então que mais temos? Já agiste correctamente trazendo à atenção do hospital aquilo que sabias. Além de que não estás envolvido. Não tomarás parte em qualquer jogada. Não te estão a pedir para mentir e, se por qualquer razão, isto vier a público e fores oficialmente interrogado decerto que dirás a verdade.

 

- Se for essa a minha posição - inquiriu Andrew - qual será a vossa? Dirão a Miss Wyrazik a verdadeira causa de morte do irmão?

 

- Não - disse Gould sem hesitar. Depois acrescentou: - É por isso que alguns de nós estamos mais metidos nisto do que tu. E talvez por isso mereçamos estar.

 

No silêncio que se seguiu Andrew pensou que aquilo que Ezra Gould acabara de dizer era a admissão, subtil mas clara, de que Andrew estivera certo e os outros errados, quatro anos atrás, quando Andrew tentara trazer a público a viciação em drogas de Noah Townsend e fora abafado. Andrew estava agora seguro de que Leonard Sweeting contara na altura a sua história aos outros.

 

Sem dúvida que tal admissão de culpa seria a única jamais feita; coisas dessas não eram inseridas em registos escritos. Mas no fim de contas, raciocinou Andrew, aprendera-se qualquer coisa - aprendera ele, Sweeting, Gould e os outros. Infelizmente a lição viera demasiado tarde para ser útil a Townsend e a Wyrazik.

 

Andrew perguntou a si mesmo: ”E agora? Que fazer?” A resposta parecia ser: ”Nada.”

 

O que Gould dissera, no seu todo, fazia sentido. Era também verdade que não estava a pedir a Andrew que mentisse embora lhe pedisse para não fazer nada o que significava que participava no encobrimento. Por outro lado quem mais devia saber e o que se ganharia com isso? Acontecesse o que acontecesse, Kurt Wyrazyk não voltaria à vida e Noah Townsend - trágica, mas necessariamente - fora retirado de cena e já não seria ameaça para mais ninguém.

 

- Está bem - disse Andrew ao chefe do Serviço de Medicina -, não vou fazer mais nada.

 

- Obrigado - agradeceu Gould. Olhou para o relógio. - Foi um dia muito comprido. Vou para casa.

 

Na tarde do dia seguinte Andrew foi ver Hilda Townsend.

 

Townsend tinha sessenta e três anos e Hilda era mais nova quatro anos. Para uma mulher da sua idade era atraente. Mantivera o corpo em boa forma. O rosto firme. O cabelo, todo cinzento, estava cortado num estilo curto. Vestira-se hoje com gosto, umas calças de linho branco e uma blusa de seda azul. Usava, em volta do pescoço, uma fina corrente de ouro.

 

Andrew esperava que ela mostrasse sinais de tensão, talvez até de lágrimas. Nada havia.

 

Os Townsend viviam numa pequena mas agradável casa de dois pisos na Hill Street, Morristown, não muito longe do consultório médico em Elm and Franklin para o qual, nos dias bonitos, Noah Townsend fora tantas vezes a pé. Não havia criados em casa e foi a própria Hilda que abriu a porta a Andrew e o precedeu até à sala de estar. Era uma sala, decorada em tons castanho-claros e beges, que dava para um jardim.

 

Quando já estavam sentados Hilda perguntou em tom casual:

 

- Queres alguma coisa, Andrew? Uma bebida? Talvez um chá?

 

- Não, obrigado. - Depois disse: - Hilda, não sei o que dizer excepto que... lamento muito.

 

Ela acenou com a cabeça, como se esperasse tais palavras, e perguntou:

 

- Estavas a recear isto? Vires aqui ver-me?

 

- Um pouco - admitiu ele.

 

- Pensei isso. Mas não precisavas de o estar. E não fiques surpreendido ou chocado por eu não estar a chorar, ou a entrelaçar os dedos, ou a fazer dessas coisas emocionais que fazem as mulheres.

 

- Está bem - disse apenas ele, incerto da resposta a dar. Hilda Townsend continuou como se não o tivesse ouvido:

 

- Na realidade já as fiz todas. Já as fiz tantas vezes e durante tanto tempo que agora ficaram lá para trás. Foram tantos anos a verter lágrimas que agora tenho o depósito seco. Costumava imaginar que se partiam pedacinhos do meu coração enquanto via o Noah a destruir-se a si mesmo. E quando não o conseguia fazer compreender ou escutar acabei por pensar que já não tinha coração e no seu lugar estava um bocado de pedra. Isto faz algum sentido?

 

- Acho que sim - disse Andrew e pensou: ”Como cada um de nós sabe tão pouco do sofrimento das outras pessoas!” Hilda devia ter vivido anos atrás de uma parede de um encobrimento leal, uma parede que Andrew nunca vira e de que nem sequer suspeitara. Recordava-se também das palavras de Ezra Gould na noite anterior: ”Ela não falou muito... fiquei com a impressão de que estava à espera que acontecesse uma coisa destas embora não soubesse bem o quê.”

 

- Tu sabias do que se passava com o Noah e as drogas - disse Hilda. - Não sabias?

 

- Sabia.

 

- És médico. - A voz dela tornou-se acusadora: - Por que é que nada fizeste?

 

- Tentei. No hospital. Há quatro anos.

 

- E ninguém te deu ouvidos?

 

- Mais ou menos isso.

 

- Não podias ter tentado mais?

 

- Sim - disse ele. - Olhando agora para trás penso que podia.

 

- Provavelmente não terias sido bem sucedido - concluiu ela com um suspiro. E mudando subitamente de assunto: - Fui esta manhã ver Noah ou, melhor, tentei vê-lo. Está delirante. Não me conheceu. Não conhece ninguém.

 

- Hilda - disse Andrew devagar -, há alguma coisa, qualquer coisa, que possa fazer por ti?

 

Ela ignorou a pergunta.

 

- Célia sente alguma culpa pelo que aconteceu? A pergunta surpreendeu-o.

 

- Ainda não lho disse. Vou contar-lhe logo à noite. Mas culpada de...

 

- Devia sentir-se! - As palavras foram ditas selvaticamente. Hilda continuou no mesmo tom: - Célia faz parte desse degradante, insensível, ganancioso e pressionante negócio das drogas. São capazes de tudo para as venderem, para levarem os médicos a prescrevê-las e as pessoas a usá-las, mesmo quando não são precisas. Tudo]

 

- Nenhuma casa farmacêutica obrigou Noah a ingerir as drogas que tomou disse Andrew com calma.

 

- Talvez não o fizessem directamente. - A voz de Hilda subiu: - Mas o Noah tomava drogas, como outros o fazem, porque os laboratórios rodeiam os médicos delas! Inundam-nos! Com imensos anúncios, delicados e espertinhos, página após página, nas revistas que os médicos têm de ler e com uma avalanche de correio, e com ofertas de viagens, estadas e beberetes, tudo concebido para que os médicos pensem drogas, sempre drogas, ainda mais drogas! Os laboratórios, todos eles, cercam os médicos com amostras gratuitas dizendo-lhes que podem ter a droga que desejarem e em qualquer quantidade que pretenderem bastando só pedir! Sem restrições, sem perguntas! Tu sabes isto, Andrew. - Parou. - Quero perguntar-te uma coisa.

 

- Se souber responder-te-ei - afirmou ele.

 

- Montes de vendedores, delegados de propaganda, vão ao consultório. Noah recebia-os sempre. Não pensas que alguns deles, talvez todos eles, soubessem que ele tomava drogas a mais, que era um viciado?

 

Andrew meditou na questão. Pensou na profusão de drogas, todas elas nas embalagens dos fabricantes, que enchia o consultório de Noah.

 

- Sim - respondeu. - Sim, acho provável que soubessem.

 

- Mas isso não os fez parar, pois não? Bastardos. Continuaram a fornecê-las. Davam a Noah tudo o que ele pedia. Ajudaram-no a destruir-se a si mesmo. A tua mulher está num negócio muito sujo e indecente, Andrew, que me repugna]

 

- Há qualquer coisa de verdade no que disseste, Hilda - reconheceu ele. Talvez até muito. E embora o quadro não seja completo gostaria que soubesses que compreendo os teus sentimentos.

 

- A sério? - A voz de Hilda misturava desdém e amargura. - Então um dia destes explica-os a Célia. Talvez ela decida enveredar por outro trabalho.

 

Então, como se uma força até aí retida se libertasse, ela colocou a cabeça entre as mãos e começou a chorar.

 

A segunda metade da década de sessenta foi uma época em que a libertação feminina se tornou uma frase em muitos lábios e uma constante nas notícias. Em

1963 Betty Friedan publicara The Feminine Mystique’, uma declaração de guerra à ”cidadania de segunda classe das mulheres”. O seu livro tornou-se o vade-mécum do movimento feminista e a voz de Friedan ouvia-se com frequência. Germaine Greer e Kate Millett juntaram-se ao movimento dando-lhe estilo literário e artístico. Gloria Steinem combinou efectivamente a advocacia feminina com o jornalismo e a política feminista.

 

O Movimento de Libertação Feminina tinha os seus gozadores. Abbie Hoffman, uma celebridade da contracultura desse período, declarou: ”A única aliança que posso fazer com o Movimento dê Libertação Feminina é na cama.” E os historiadores, recordando ao Mundo que pouca coisa era nova, salientaram que, em 1792, em Inglaterra, uma tal Mary Wollstonecraft tivera a coragem de publicar A Vindication ofthe Rights ofWoman2, argumentando: ”Tiranos e sensualistas... procuram manter as mulheres na escuridão porque o primeiro só quer escravas e o segundo objectos de prazer.”

 

Mas muita gente nos anos sessenta levara o movimento a sério e homens pensadores exploraram as suas consciências.

 

A atitude de Célia perante o movimento feminista era aprovadora e de simpatia. Comprou exemplares de The Feminine Mystique e enviou-os a vários executivos do sexo masculino da Felding-Roth. Um deles foi Vincent Lord que devolveu o livro com uma nota rabiscada: ”Não tenho tempo para esta mistela.” Sam Hawthorne, influenciado pela mulher, Lilian, uma feminista ardente, era mais tolerante.

 

- És a prova de que não há discriminação sexual nesta companhia - afirmou ele a Célia.

 

1 ”A Mística Feminina.” (N. dos T.)

2 ”Uma Defesa dos Direitos da Mulher.” (N. dos T.)

 

- Tive de subir à unha até aonde estou, Sam... com a tua ajuda, mas também lutando contra os preconceitos masculinos e tu bem o sabes - discordou Célia.

 

- Mas já não precisas de o fazer.

 

- Isso porque provei que era produtiva e útil. O que faz de mim algo anormal, uma excepção. Além disso bem sabes como tenho pouco apoio quando peço mais mulheres no pessoal das vendas.

 

- Okay - riu-se ele -, concordo, mas as opiniões estão a mudar. À parte isso és ainda o melhor exemplo que um homem pode ter por tratar as mulheres de igual para igual.

 

Apesar da sua simpatia ardente Célia não tomava parte activa no movimento feminista. Decidira - admitia a si mesma que egoisticamente - que, primeiro, não precisava dele pessoalmente; segundo, não tinha tempo para isso.

 

O tempo de Célia continuava a ser ocupado com os produtos de venda ao balcão da Bray & Commonwealth. Apesar da promessa de Sam de que mudaria para outras funções não havia qualquer novo cargo à vista para ela e o pedido de Sam para ”ter paciência por alguns meses” revelara-se uma estimativa curta.

 

Entretanto, em casa, Célia compartilhava com Andrew a angústia que se seguiu à queda de Noah Townsend e ao seu internamento numa instituição mental. À medida que o tempo passava cada vez mais parecia que a previsão do Dr. Gould era verdadeira e Noah nunca de lá sairia.

 

Andrew contara a Célia a tirada de Hilda Townsend sobre os laboratórios farmacêuticos e o excesso de amostras gratuitas e ficara surpreendido por descobrir que ela concordava.

 

- Hilda tem razão - disse Célia. - O total de medicamentos oferecidos é uma loucura e acho que todos nós o sabemos. Mas a competição é como é. Neste momento nenhum laboratório pode recuar sem ficar em desvantagem.

 

- Decerto - insistiu Andrew - que os laboratórios podem juntar-se e chegar a um acordo para parar isso.

 

- Não - disse Célia. - Mesmo que o desejassem fazer isso seria conluio ilegal.

 

- E então um caso como o de Noah? Havia delegados de propaganda que sabiam, ou pelo menos suspeitavam, de que Noah abusava das drogas. Por que é que sustentaram o seu hábito da forma como o fizeram?

 

- Noah era um viciado, mas era também um médico - apontou Célia. E sabes perfeitamente bem, Andrew, que os médicos podem conseguir todas as drogas que quiserem, por uma via ou por outra. Se Noah não as tivesse conseguido dos delegados poderia ter passado receitas, o que talvez até tenha feito para lá das amostras - acrescentou com algum calor. - Além disso, quando a profissão médica nada faz em relação a médicos que se tornam viciados, por que é que os laboratórios farmacêuticos haviam de ser diferentes?

 

- Uma questão justa - concedeu Andrew - para a qual não tenho resposta. Mas, em Agosto de 1967, Célia foi recolocada.

 

A preceder isto deu-se um acontecimento significativo nos finais de 1966. Sam Hawthorne foi promovido a vice-presidente executivo ficando assim bem explícito que, a menos que houvesse algum acidente, Sam em breve seria o patrão da Felding-Roth. Deste modo a avaliação que Célia fizera ao escolher um mentor dentro da companhia parecia bem perto de se provar correcta.

 

Foi Sam que a mandou chamar e lhe disse com um sorriso:

 

- Okay, acabou a tua servidão nas vendas ao balcão.

 

Sam estava agora num gabinete palaciano com uma confortável área de conferências e, em vez de uma secretária do lado de fora da porta, tinha duas. Numa reunião anterior confidenciara a Célia: ”Diabos me levem se sei como as manter ocupadas. Penso que ditam cartas uma à outra.”

 

- Ofereço-te o posto de directora latino-americana dos produtos farmacêuticos - anunciou ele. - Se aceitares terás aqui a tua base, embora tenhas de estar uns tempos fora e viajar muito. - Olhou-a interrogadoramente: - Que irá pensar o Andrew disto? E tu, em relação às crianças?

 

- Havemos de nos arranjar - respondeu Célia sem hesitação.

 

- Era isso mesmo que esperava que dissesses - concordou Sam.

 

As novas deliciavam e excitavam Célia. Célia sabia que o comércio internacional farmacêutico se estava a tornar cada vez mais importante. A oportunidade era excelente, melhor até da que esperara ter.

 

Como se lhe lesse os pensamentos Sam disse:

 

- O sector internacional é onde reside o futuro das vendas. Até agora só arranhámos a superfície, pelo menos na América Latina. - Fez um sinal de despedida com a mão. - Agora vai para casa. Partilha a notícia com Andrew. Amanhã trataremos dos detalhes.

 

Assim começaram cinco anos que provaram ser um rubicão na carreira de Célia. Além de que, em vez de tornarem mais difícil a vida da família Jordan, a enriqueceram incomensuravelmente. Como Célia mais tarde escreveria numa carta à sua irmã Janet: ”Todos nós beneficiámos de formas inesperadas. Andrew e eu porque estávamos realmente mais juntos quando Andrew viajava comigo do que estávamos em casa onde ambos tínhamos as ocupações das nossas vidas profissionais separadas. E as crianças ganharam porque viajaram o que enriqueceu a sua educação e tornou o seu pensamento internacional.”

 

Desde o princípio, quando Célia trouxera para casa as notícias do seu novo trabalho, que Andrew se sentia feliz e lhe dava apoio. Estava satisfeito por ter acabado o período das vendas ao balcão e, se tinha dúvidas sobre as separações da família que o novo cargo traria, guardou-as para si mesmo. A atitude dele, tal como a de Célia, era: ”Havemos de nos arranjar.”

 

Ao pensar mais na questão Andrew decidiu que usaria a oportunidade para se afastar de vez em quando das pressões da medicina viajando com Célia sempre que pudesse. Andrew, a um ano apenas dos quarenta, pretendia aproveitar a lição de Noah Townsend cujo fim, estava disso convencido, começara com excesso de trabalho e de tensão. Andrew vira já demasiados médicos ficarem obcecados pela profissão ao ponto de excluírem tudo o resto, em detrimento deles mesmos e das famílias.

 

No exercício da medicina passara de um interno recém-qualificado onze anos antes - um ano antes de Andrew e Célia se conhecerem e casarem - para a situação de médico sénior. O segundo médico, Oscar Aarons, um canadiano bem constituído e exuberante, com um delicioso sentido de humor, provara ser alguém em que Andrew depositava grande confiança e gostava da amizade crescente que os unia. Um terceiro interno, Benton Fox, um clínico de vinte e oito anos com excelentes credenciais, juntara-se-lhes há cerca de um mês e já estava a trabalhar bem.

 

Quando Andrew falou a Célia da sua intenção de viajar com ela de vez em quando Célia ficou encantada; pelo que acabou por fazer várias viagens anuais à América do Sul. Ocasionalmente, conforme a escola, uma ou ambas as crianças viajavam também.

 

Tudo isto foi facilitado por certos arranjos domésticos. Winnie August, a jovem governanta e cozinheira, que há muito abandonara a ideia de se mudar para a Austrália e era virtualmente um membro da família há uns sete anos, casou na Primavera de 1967.

 

Quando Andrew descobriu que Hank March, o jovem marido de Winnie, bem-parecido e cheio de energia que fazia uns ganchos por fora, procurava um emprego mais estável, ofereceu-lhe um posto de motorista-jardineiro. Uma vez que na oferta estava incluída habitação foi logo aceite com satisfação por Winnie e Hank. Pela sua parte Andrew continuava grato pela antevisão de Célia em insistir, pouco depois do casamento, na compra de uma casa grande.

 

Em pouco tempo Hank parecia ser tão indispensável como a mulher, agora Winnie March.

 

Deste modo Andrew e Célia podiam sair de casa, com ou sem as crianças, confiantes de que os seus interesses seriam defendidos na sua ausência.

 

Uma nota de tristeza familiar surgiu nessa época. A mãe de Célia, Mildred, morreu com insuficiências respiratórias após uma grave crise de asma. Tinha sessenta e um anos.

 

A morte da mãe afectou muito Célia. Apesar da força e do conforto de Andrew e dos filhos experimentou uma sensação de ”solidão” que persistiu por muito tempo, embora tal sentimento, tranquilizara-a Andrew, fosse inteiramente normal.

 

- Já o vi acontecer em doentes - disse ele. - A morte do segundo progenitor é como o corte do cordão umbilical com o nosso passado. Por mais que tenhamos crescido enquanto há um progenitor vivo temos sempre a sensação de ter alguém em quem nos apoiarmos. Quando os dois já não existem então ficamos mesmo entregues a nós próprios.

 

A irmã mais nova de Célia, Janet, voou para Filadélfia para assistir ao funeral deixando o marido ocupado e os dois filhinhos pequenos no Médio Oriente. Depois do funeral Célia e Janet passaram alguns dias juntas em Morristown prometendo mutuamente que se visitariam com maior frequência no futuro.

 

O que via e ouvia em lugares distantes fascinava Andrew. Enquanto Célia debatia os seus negócios latino-americanos com os funcionários regionais das sucursais da Felding-Roth ele explorava as confusões das cidades estranhas ou saboreava cenas da vida rural. O Parque Cólon de Buenos Aires tornou-se-lhe familiar assim como as grandes manadas de gado a pastar nas pampas da Argentina. E Bogotá, na Colômbia, cercada de montanhas grandiosas onde ruas que desciam quase a pique, as callas, traziam correntes de água gelada dos Andes e os antigos carros de mulas discutiam com automóveis modernos o direito a um espaço. Na Costa Rica ficou a conhecer a meseta central, no coração do país, e as densas florestas onde crescia o mogno e o cedro. Das estreitas e congestionadas ruas da Cidade Velha de Montevideu partiam viagens para os vales do Uruguai, o ar fragrante com o odor da verbena e dos arbustos aromáticos. Havia a dinâmica cidade de São Paulo no Brasil, à beira da Grande Escarpa, e para lá dela, planícies infindas de uma rica terra vermelho-púrpura, a terra roxa.

 

Quando as crianças iam com eles, Andrew levava-as também nas suas explorações. Noutras alturas ele fazia um reconhecimento e depois Célia juntava-se a ele quando o trabalho o permitia.

 

Um dos prazeres de Andrew era regatear nas lojas nativas e comprar coisas. Os drugstores - drogueries - com as suas prateleiras atafulhadas em espaços minúsculos, fascinavam-no. Conversava com os farmacêuticos e às vezes até conseguia conversar com médicos locais. Já sabia umas coisas em português e em espanhol e os seus conhecimentos iam aumentando com a prática. Célia andava também a aprender as duas línguas; às vezes ajudavam-se um ao outro.

 

Apesar de tudo nem todas as viagens eram um sucesso. Célia trabalhava muito. Por vezes o tentar resolver os problemas locais num ambiente não familiar criava tensões. O resultado era o cansaço e as normais fricções humanas que levaram, numa das ocasiões, à pior discussão do casamento de Andrew e Célia, uma colisão de vontades e de pontos de vista que nunca mais esqueceriam.

 

Aconteceu no Equador e, como a maior parte das querelas entre marido e mulher, começou por uma coisa mínima.

 

Estavam hospedados, com Lisa e Bruce, na capital, Quito, uma cidade de montanha aninhada num vale dos Andes e um lugar de contrastes viciosos quase todos entre a religião e a realidade. Por um lado havia uma profusão de igrejas e mosteiros ornados de altares dourados, coros talhados, crucifixos de prata e marfim e custódias cravejadas de jóias. Por outro lado havia uma pobreza suja e descalça e um campesinato que era sem dúvida o mais pobre do continente com salários - para os felizardos que conseguiam arranjar trabalho - de uns dez cêntimos por dia.

 

Contrastando também com toda essa pobreza existia o Hotel Quito, um excelente hotel onde a família Jordan ocupava umasuite. Era a essasuite que Célia regressava ao fim do dia, um dia em geral frustrante e passado com o gerente local da Felding-Roth, senor António José Moreno.

 

Moreno, gordo e complacente, tomara bem claro que qualquer visita de um funcionário da sede era não só uma intromissão indesejada como também uma afronta à sua competência pessoal. E, mais ainda, quando Célia sugerira alterações no sistema, ele dera-lhe uma resposta que ela acabara por conhecer como normal na América Latina: ”Em este país, así se hace, senora.” Quando Célia sugeriu que a atitude ”Neste país é como se faz” podia santificar a ineficiência e ser até por vezes pouco ética, encontrara a mesma frase branda e um encolher de ombros.

 

Uma das preocupações de Célia era a informação inadequada que os médicos do Equador recebiam sobre os medicamentos da Felding-Roth, em especial no que respeitava aos possíveis efeitos colaterais. Quando ela salientou este ponto Moreno argumentou: ”As outras companhias fazem o mesmo. E nós também. Falar demasiado sobre as coisas que talvez não venham a suceder será para nós prejudicial.”

 

Se bem que Célia tivesse autoridade para dar ordens sabia bem que este Moreno, como homem local e vendedor de sucesso, as interpretaria mais tarde auxiliado pela diferença de línguas - como bem entendesse.

 

Agora, na sala de estar da suite do hotel e com as frustrações ainda presentes, perguntou a Andrew:

 

- Onde estão as crianças?

 

- Na cama e a dormir - respondeu ele. - Resolveram ir mais cedo. Tivemos um dia estafante.

 

O facto de não poder ver Lisa e Bruce, como ela pensara, juntamente com o que lhe pareceu ser o tom frio da voz de Andrew, irritou Célia e ela disparou:

 

- Não foste o único a ter um dia arrasante.

 

- Não disse que foi arrasador, mas estafante - fez ele notar. - Embora tenham existido para mim alturas desagradáveis.

 

Embora nenhum deles o soubesse a altitude elevada de Quito - três mil e seiscentos metros acima do nível do mar - afectava-os. Em Célia causava uma hipersensibilidade física piorando o seu já péssimo humor. Andrew tinha uma acuidade aguçada, uma propensão agressiva, que contrastava com os seus modos ligeiros em casa.

 

- Alturas desagradáveis! - disse Célia. - Nem sei do que estás a falar.

 

- Estou a falar disto! - Andrew levantou um dedo e apontou-o para uma colecção de frascos e embalagens farmacêuticas colocados sobre uma pequena mesa.

 

- Já tive disso que me chegasse para um dia - disse-lhe ela com uma expressão de desagrado - pelo que sugiro que os leves daqui.

 

- Quer dizer que não estás interessada? - perguntou ele num tom sarcástico.

 

- Raios! Não estou!

 

- Falando com franqueza não esperava que estivesses. O que tenho aqui é sobre laboratórios farmacêuticos e não é agradável. - Andrew pegou num pequeno recipiente de plástico. - Hoje, além de levar as crianças a dar uma volta, fiz umas compras e umas perguntas.

 

Tirou a tampa do recipiente e vazou comprimidos na mão segurando-os bem à vista:

 

- Sabes o que está aqui?

 

- Claro que não! - Célia deixou-se tombar numa cadeira e descalçou os sapatos com uma sacudidela deixando-os cair ao acaso. - E há mais: nem quero saber!

 

- Mas devias querer! São Thalidomide e comprei-os hoje numa drogueria do sítio... sem receita.

 

A resposta sobressaltou Célia e a troca azeda de palavras teria terminado por aí se Andrew não tivesse prosseguido.

 

- O facto de que as comprei, cinco anos depois de deverem ter sido retiradas, assim como comprei outros medicamentos comercializados cá sem quaisquer recomendações no rótulo porque não existe qualquer departamento do Governo para insistir numa rotulagem adequada, é típico do não-me-ralo das firmas farmacêuticas americanas, incluindo da tua preciosa Felding-Roth.

 

A injustiça, assim encarou Célia a coisa, quando ela passara grande parte do dia a mudar aquilo que Andrew acabara de criticar, inflamou ao rubro a sua raiva. Roubou-lhe também a razão. Em vez de falar a Andrew, como tivera intenção de fazer mais tarde, da sua frustração com António José Moreno, ela atirou-lhe a sua versão da resposta de Moreno:

 

- Que raio sabes tu dos problemas e regulamentações locais? Que direito tens tu de chegar cá e dizer ao Equador como governar este país?

 

- O direito que tenho é que sou um médico! - O rosto de Andrew ficou branco. - E sei que as mulheres grávidas que tomam estes comprimidos irão ter bebés com barbatanas em vez de braços. Sabes o que é que o farmacêutico me disse hoje? Disse que sim, que ouvira falar da ThaUdomiide, mas não sabia que estes comprimidos eram a mesma coisa porque aqui são chamados O ndasil. E, no caso de que tu não saibas, Célia, ou não queiras saber, a Thalidomide foi vendida pelas firmas farmacêuticas sob cinquenta e três nomes diferentes.

 

E ele continuou sem esperar pela resposta dela:

 

- Por que é que há tantos nomes diferentes para os fármacos? Decerto que não é para ajudar médicos e doentes. O único motivo em que se pode pensar é que assim se lança confusão e se ajuda as firmas farmacêuticas com problemas. Já que estamos a falar de problemas olha para isto!

 

Andrew seleccionou outro frasco e ergueu-o no ar. Célia leu o rótulo: Chloromycetin.

 

- Se comprares isto nos Estados Unidos - declarou ele - terá um aviso acerca de possíveis efeitos colaterais, em especial discrasias sanguíneas fatais. Mas aqui não! Nem uma palavra!

 

Escolheu outra ainda de entre a colecção sobre a mesa.

 

- Hoje arranjei também isto. Dá uma olhadela à Lotromycin, da Felding-Roth, que nós os dois conhecemos bem. Sabemos também que não deve ser administrada a ninguém com alterações da função renal, nem a mulheres grávidas, ou mulheres que amamentem os filhos ao peito. Mas existe um aviso impresso dizendo isso? Não o vejo! Que importa que sofram ou morram aqui algumas pessoas por não estarem avisadas? No fim de contas estamos no Equador, muito longe de Nova Jérsia. Por que é que a Felding-Roth se devia importar? Ou a Célia Jordan?

 

- Como é que te atreves a dizer-me isso? - gritou ela. Foi a vez de Andrew perder o controlo.

 

- Atrevo-me - disse ele num tom feroz - porque te tenho visto a mudar. A mudar pouco a pouco em onze anos. De ter sentimentos decentes, ideais e cuidados até não se preocupar muito com essas coisas, enquanto ajudavas a impingir essas porcarias de vendas ao balcão e chegando agora a isto: a usar ocas desculpas escondendo a cabeça na areia para justificar o que tu sabes estar errado mas que não queres confessar nem a ti própria. - Subiu ainda mais o tom da voz. Que rapariga que Lotromycin e queria elevar a ética do negócio farmacêutico, a mesma que se levantou, erecta e forte, numa reunião de vendas em Nova Iorque e criticou as desonestidades? Queres saber o que lhe aconteceu? Acho que se vendeu.

 

Andrew fez uma pausa para perguntar fulminantemente:

 

- A ambição e a promoção valeram isso?

 

- Grande bastardo! - Actuando por instinto, sem pensamento racional, Célia baixou-se e, apanhando um dos sapatos que deixara cair momentos antes, atirou-o a Andrew com força. Não falhou o alvo. O salto fino do sapato apanhou-o no lado esquerdo do rosto abrindo um rasgão de onde brotou sangue. Mas Célia não viu nada. Cega a todo o resto berrou palavras envenenadas. - Que é que te dá direito a ser tão santo sobre morais e ideais? Que aconteceu aos teus? Onde estavam os teus preciosos ideais quando nada fizeste a respeito de Noah Townsend e o deixaste exercer medicina quase cinco anos sabendo que todo esse tempo ele estava cheio de drogas e era um perigo para ele próprio e para os outros? E não deites as culpas para cima do hospital! A inacção deles não justifica a tua! E quanto ao doente - continuou a gritar Célia -, o jovem Wyrazik? Foi mesmo o Noah que o matou ou foste tu? Tu, porque quando podias ter feito alguma coisa a respeito do Noah nada fizeste e continuaste sem nada fazer até ser tarde de mais. Algumas vezes estiveste acordado de noite pensando nisso e sentindo-te culpado? Mas devias ter estado! E nunca pensaste sequer se Noah não terá matado outros doentes nesses cinco anos, outros de que tu não sabes, e que morreram por culpa da tua negligência? Estás a ouvir-me, egoísta hipócrita? Responde!

 

Célia parou abruptamente. Parou, não só porque lhe faltaram as palavras, mas porque nunca antes vira uma tal angústia no rosto de Andrew. Levou a mão à boca e disse baixinho, para si mesma, horrorizada:

 

- Oh, meu Deus! Que fiz eu?

 

Depois não foi apenas angústia que viu na expressão de Andrew mas um choque súbito por algo que estava a acontecer atrás dela. Célia virou-se seguindo-lhe o olhar. Duas pequenas figuras em pijama tinham entrado na sala. Na sua fúria incontrolada os pais tinham-se esquecido de Lisa e Bruce no quarto ao lado.

 

- Mamã! Papá! - era a voz de Lisa embargada pelas lágrimas. Bruce soluçava incontrolavelmente.

 

Célia correu para ambos de braços estendidos, também ela em lágrimas. Mas Lisa foi mais rápida. Fitando a mãe dirigiu-se para Andrew.

 

- Papá, estás ferido! - Viu o sapato, com sangue no salto, e gritou: - Mamã, como pudeste?

 

Andrew tocou no rosto que ainda sangrava. Parecia haver sangue por todo o lado - nas suas mãos, na camisa, no chão.

 

Bruce juntou-se a Lisa agarrando-se ao pai enquanto Célia olhava impotente, culpada, recuando.

 

Foi Andrew que, resolutamente, quebrou o impasse.

 

- Não! - disse ele aos filhos. - Não façam isto! Não devem tomar partido! A vossa mãe e eu fomos parvos. Ambos estávamos errados e estamos envergonhados; havemos de falar disto mais tarde. Mas continuamos a ser uma família. Pertencemos uns aos outros.

 

E de repente todos estavam abraçados uns aos outros, emocionados, como se nunca se quisessem separar de novo.

 

Foi Lisa, com dez anos, que se separou e foi à casa de banho buscar toalhas com as quais, eficientemente, limpou o sangue do rosto do pai.

 

Muito mais tarde, quando as crianças já estavam de novo na cama, a dormir, Andrew e Célia fizeram amor com um abandono apaixonado e selvagem, com um ardor que há muito não experimentavam. Já perto do culminar Célia gritou ”Mais fundo! Mais fundo! Magoa-me!” e Andrew, esquecendo toda a meiguice, agarrou-a, esmagou-a e atirou-se dentro dela com rudeza, crueldade, profundidade.

 

Era como se a ferocidade anterior tivesse libertado paixões que não a raiva, paixões que subitamente emergiram.

 

Depois, embora exaustos, conversaram até bastante tarde e continuaram a falar no dia seguinte. ”Era o tipo de conversa”, disse depois Andrew, ”que estávamos a precisar de ter mas de que ambos fugíamos.”

 

Qualquer deles reconheceu que, na maior parte, havia verdades desagradáveis nas acusações do outro.

 

- É verdade - admitiu Célia -, cedi nalgumas normas que dantes seguia. Não em todas, nem sequer na maioria, mas em algumas. E houve alturas em que meti a consciência no bolso. Não me sinto orgulhosa por isso e gostaria de poder dizer que vou regressar àquilo que era dantes, mas tenho de ser honesta, pelo menos nisto, e dizer que não estou certa de o conseguir.

 

- Acho - disse Andrew - que isso acontece quando envelhecemos. Pensas que estás mais sabedora, mais madura, e estás. Mas também aprendeste pelo caminho que existem obstáculos e praticabilidades que o idealismo nunca conquistará e assim cedeste nos ideais.

 

- Pretendo fazer qualquer coisa para melhorar isso - respondeu Célia. A sério que pretendo. Garantir que aquilo que nos aconteceu não foi em vão.

 

- Acho que isso se aplica a ambos - disse Andrew. Antes disso ele dissera a Célia:

 

- Tocaste um nervo sensível quando perguntaste se às vezes ficava acordado de noite pensando na morte de Wyrazik e talvez de outros mais. Podia ter salvo Wyrazik se actuasse mais cedo em relação a Noah? Sim, podia, e não faz nada bem afirmar o contrário e viver na ilusão. A única coisa que posso dizer é que não existe ninguém com anos de medicina que não tenha algo no passado de que lembre sabendo que podia ter feito melhor e, talvez, ter até salvo uma vida. Claro que não deve acontecer com frequência, mas, quando acontece, o que nos resta é esperar que tenhamos aprendido qualquer coisa que mais tarde beneficie outro alguém.

 

O post-scriptum do que aconteceu foi que no dia seguinte Andrew tinha três pontos no rosto, aí colocados por um médico local que observara, quando o seu doente ia a sair: ”Talvez fique uma cicatriz, doutor. Será uma recordação para a sua mulher.” Como Andrew descrevera o golpe como consequência de uma queda esta frase só demonstrava como Quito era uma terra pequena onde a coscuvilhice viajava depressa.

 

- Sinto-me infeliz por ver isso - disse Célia. Tinham-se passado umas horas e estavam a almoçar com as crianças.

 

- Não precisas de te sentir infeliz - tranquilizou Andrew. - Houve uma altura em que tive vontade de fazer o mesmo. Mas por acaso eras tu que tinhas um sapato à mão de semear. Além disso a minha pontaria não se compara à tua.

 

- Não brinques com coisas sérias - disse Célia.

 

Foi então que Bruce, até aí silencioso durante a refeição, falou para perguntar:

 

- Agora vão divorciar-se?

 

O seu pequeno e sério rosto estava crispado, reflectindo preocupação, tornando bem claro que a pergunta fora meditada por algum tempo.

 

Andrew ia responder petulantemente quando Célia o fez parar com um gesto.

 

- Bruce - disse ela com carinho -, prometo e juro que enquanto o teu pai e eu formos vivos tal nunca acontecerá.

 

- E eu também - acrescentou Andrew e o rosto do filho iluminou-se de um sorriso radiante assim como o de Lisa ao seu lado.

 

- Estou contente - disse simplesmente Bruce e as suas palavras pareceram ser o fim adequado de um pesadelo já passado.

 

Mas houve também outras viagens mais felizes compartilhadas pela família durante o lustro em que Célia permaneceu nas Vendas Internacionais. Quanto à carreira de Célia, o período revelou-se no todo um sucesso aumentando ainda mais a sua reputação na sede da Felding-Roth. Ela até conseguiu, apesar de oposição interna na companhia, modificar a rotulagem dos medicamentos da Felding-Roth vendidos na América Latina tornando-a mais próxima das normas existentes nos Estados Unidos. Contudo, como ela mesma admitiu a Andrew, o progresso não fora ”muito”.

 

- Virá o dia - predisse Célia - em que alguém trará este assunto à luz do dia. Nessa altura novas leis ou a opinião pública obrigar-nos-ão a fazer o que devíamos estar a fazer há muito. Mas essa época ainda não chegou.

 

Uma ideia cujo tempo chegara foi encontrada por Célia no Peru. Aí, grande parte da força de vendas da Felding-Roth era constituída por mulheres. O motivo, aprendeu Célia, não era a libertação feminina; era vendas. No Peru considerava-se descortês fazer esperar uma mulher; por isso as delegadas de propaganda eram levadas sem demora à presença do médico passando à frente dos colegas masculinos que esperavam horas.

 

A descoberta motivou um memorando de Célia para Sam Hawthorne pedindo o recrutamento de mais delegadas de propaganda para a força de vendas da Felding-Roth nos Estados Unidos invocando o mesmo motivo. ”Recordo-me que quando era delegada de propaganda”, escreveu Célia, ”embora às vezes tivesse de esperar noutras era atendida de imediato e penso que tal era devido a ser uma mulher; por que não usar o facto em nosso favor?”

 

Numa discussão subsequente Sam levantou a questão:

 

- O que estás a sugerir não é uma forma de fazer avançar as mulheres por uma razão errada? Isso que propões não é a libertação feminina. É apenas usar a feminilidade das mulheres.

 

- E por que não? - retorquiu Célia. - Os homens usaram a sua masculinidade durante séculos, muitas vezes para desvantagem das mulheres, pelo que agora chegou a nossa vez. Seja como for, homem ou mulher, temos o direito de usar o melhor possível aquilo que temos.

 

Mas, por fim, o memorando de Célia foi levado a sério e começou na Felding-Roth um processo que, nos anos que se lhe seguiram, foi entusiasticamente copiado por outros laboratórios.

 

E durante todo este tempo, para lá dos negócios farmacêuticos, os acontecimentos continuavam. A tragédia do Vietname tomava forma e piorava, com jovens americanos - a nata de uma geração - sendo chacinados por uns tipos pequeninos em pijamas pretos, e sem que alguém soubesse porquê. Um culto de música rock, chamado ”Woodstock Nation”, brilhou brevemente antes de se apagar. A União Soviética extingiu brutalmente a liberdade na Checoslováquia. O Dr. Martin Luther King, Jr., e Robert Kennedy foram selvaticamente assassinados. Nixon tornou-se presidente, Golda Me ir primeiro-ministro de Israel. Jackie Kennedy casou con Aristóteles Onassis. Eisenhower morreu. Kissinger foi à China, Armstrong à Lua, Edward Kennedy a Chappaquiddick.

 

Então, em Fevereiro de 1972, Sam Hawthorne, com cinquenta e um anos, tornou-se presidente e director executivo da Felding-Roth. A sua ascensão ao poder foi súbita e deu-se num período crítico, difícil da história da companhia.

 

Sam Hawthorne, no calão da época, era um homem da Renascença. Tinha uma multiplicidade de interesses, interiores e ao ar livre, intelectuais e atléticos.

 

No fundo do coração era um académico que, apesar de muito envolvido nos negócios, conseguia manter vivo e actualizado um amor de uma vida inteira pela literatura, a arte e a música. Nas cidades estrangeiras, fosse qual fosse a pressão do trabalho, Sam conseguia sempre tempo livre para visitar livrarias, galerias e assistir a concertos. Na pintura preferia os impressionistas, inclinando-se para Monet e Pissarro. Na escultura o seu grande amor era Rodin. Lilian Hawthorne contara uma vez a um amigo que em Paris, no jardim do Museu Rodin, vira o seu marido contemplar em silêncio, quinze minutos a fio, os Burgueses de Calais, com lágrimas nos olhos.

 

Na música era Mozart a paixão de Sam. Ele próprio um bom pianista, sem ser brilhante, gostava de ter um piano na suite do hotel onde se hospedava durante as viagens e tocava qualquer coisa de Mozart, talvez a sonata n.° 11 - o andante grave, o minuete rápido e finalmente o jubilante rondo, acalmando assim o seu espírito depois de um dia cansativo.

 

O facto de ter um piano no que habitualmente era uma suite de luxo devia-se a que ele mesmo pagava essas coisas. Podia fazê-lo. Sam era rico e possuía uma parte substancial das acções da Felding-Roth herdadas da sua mãe, que morrera quando ele era novo.

 

A sua mãe fora uma Roth e Sam era o último membro dos clãs Felding e Roth envolvido na administração da companhia. Não que as suas relações familiares o tenham ajudado muito, se é que ajudaram alguma coisa, na sua carreira; não tinham, em particular quando se aproximara do cume. Sam conseguira-o com capacidade e integridade e o facto era por todos reconhecido.

 

Em casa o matrimónio de Sam e Lilian Hawthome era sólido e ambos adoravam Juliet, agora com quinze anos e aparentemente não estragada apesar da adoração.

 

No atletismo Sam fora um corredor de longa distância na faculdade e ainda gostava de uma corridinha manhã bem cedo várias vezes por semana. Era entusiástico e relativamente bem sucedido jogador de ténis, embora o entusiasmo fosse mais forte que o seu estilo. O maior trunfo de Sam no corte era uma subida rápida à rede o que o tornava popular nos jogos de pares.

 

Mas, dominando todos os outros interesses, desportivos ou intelectuais, havia o facto de Sam Hawthorne ser um anglófilo.

 

Tanto quanto era capaz de se recordar sempre gostara de visitar a Inglaterra e sentira uma admiração e uma afinidade pelas coisas inglesas - tradições, linguagem, educação, humor, estilo, a monarquia, Londres, as regiões rurais, os carros clássicos. De acordo com esta última preferência tinha, e todos os dias o conduzia para o trabalho, um soberbo Rolls-Bentley cinzento-prateado.

 

Outra coisa pela qual Sam sentia uma grande admiração era a ciência britânica

- não apenas a inglesa - e foi esta convicção que o levou a fazer uma proposta original e espantosa nos primeiros meses da sua presidência da Felding-Roth.

 

Numa proposta confidencial, por escrito, ao quadro dos directores, pusera a claro alguns factos desagradáveis.

 

”No que respeita à investigação e à produção - a nossa razão de ser a companhia está num período parado e estagnado cuja extensão se está a mostrar maior que o ”período morto” experimentado pela indústria em geral. O nosso maior sucesso foi com a Lotromycin, há já quase quinze anos. Desde então, enquanto os concorrentes introduzem novos e importantes fármacos, temos tido apenas coisas pequenas. E não temos nada espectacular à vista.

 

”Isto tudo tem um efeito deprimente na reputação e na moral da nossa companhia. Igualmente deprimente foi o efeito nas finanças. Por esta razão reduzimos o dividendo no ano passado, uma posição que fez descer o valor das nossas acções de que os investidores ainda não gostam.

 

”Começamos a apertar o cinto internamente mas não chega. Dentro de dois a três anos, se não conseguirmos um programa forte e positivo para o futuro, enfrentaremos uma crise financeira das mais graves.”

 

O que Sam não disse foi que o seu predecessor como presidente e director executivo, que fora demitido depois de um confronto com o conselho, seguira uma política de ”inacção” que, em grande parte, reduzira a Felding-Roth Pharmaceuticals ao presente estado lastimoso.

 

Em vez disso, e tendo montado o palco, Sam avançou com a sua proposta.

 

”Recomendo fortemente que, com toda a urgência”, escreveu ele, ”criemos um instituto de investigação Felding-Roth na Inglaterra. O instituto será chefiado por um cientista britânico de primeira craveira. Será independente das nossas actividades de investigação nos Estados Unidos.”

 

Após dar mais pormenores acrescentou: ”Creio profundamente que o novo centro de investigação sugerido- reforçará a nossa área mais crítica e acelerará a descoberta de importantes novos fármacos de que a nossa companhia necessita desesperadamente.”

 

Porquê a Inglaterra?

 

Antecipando esta questão Sam respondera desde logo.

 

”Tradicionalmente, pelos séculos fora, a Grã-Bretanha tem sido o líder na investigação científica básica. Só no século presente vejamos algumas das grandes descobertas que aí tiveram origem e que mudaram a nossa maneira de viver de forma radical - penicilina, televisão, radar moderno, o avião a jacto, só para citar quatro.

 

”Claro”, assinalava Sam, ”que foram companhias americanas que desenvolveram estas invenções e colheram os benefícios económicos - isto por causa da habilidade incomparável que os Americanos têm para desenvolver e comercializar, uma habilidade que muitas vezes falta aos Ingleses. Mas as descobertas originais, nestas e em outras instâncias, foram britânicas.

 

”Se me pedirem uma razão para isto”, continuou ele, ”direi que existem diferenças fundamentais e inerentes entre a educação universitária britânica e americana. Cada sistema tem os seus pontos fortes. Mas na Grã-Bretanha as diferenças produzem uma curiosidade académica e científica sem paralelo em qualquer outra parte. É esta curiosidade que podemos, e devemos, usar a nosso favor.”

 

Sam tratou então dos custos e só então concluiu: ”Pode argumentar-se que embarcar num projecto tão dispendioso nesta altura crítica da existência da nossa companhia é temerário e arriscado. E, é bem verdade, um novo instituto de investigação constituirá um pesado fardo financeiro. Mas creio que seria mais temerário, até mesmo mais arriscado, continuar sem nada fazer, não tomando decisões fortes, positivas, para o futuro - acção é o que é necessário agora”

 

A oposição ao plano de Sam surgiu com espantosa velocidade e força.

 

A proposta, como alguém disse, ”ainda mal saíra da Xerox” e começara a circular entre os directores e alguns funcionários superiores da companhia, já o telefone de Sam começara a tocar trazendo objecções. ”Decerto que os Britânicos tiveram as suas glórias científicas”, argumentou um director, ”mas actualmente as realizações americanas são-lhes muito superiores pelo que toda a tua conversa, Sam, não tem valor.” Outros apoiavam-se - como um membro do conselho exprimiu acaloradamente - ”na noção absurda e retrógrada de localizar um centro de investigação num país gasto, decadente, que já fora”.

 

- Terias pensado - confidenciou Sam a Lilian algumas noites ao jantar - que eu sugerira cancelar a Declaração de Independência e que regressássemos ao estatuto de colónia.

 

Uma coisa que Sam estava a aprender depressa era a de que ter o emprego mais elevado da companhia não lhe dava carta branca para fazer o que lhe apetecesse nem o livrava das areias movediças da política de corporação.

 

Um perito praticante da política da companhia era o director da investigação, Vincent Lord, também desde logo um objector da proposta de Sam. Embora concordando em que se devia gastar mais dinheiro na investigação, o Dr. Lord descrevia a ideia de o fazer na Grã-Bretanha como naive e a opinião de Sam Hawthorne acerca da ciência britânica como ”pensamento de jardim infantil baseado num mito de propaganda”.

 

Estas palavras rudes, até mesmo insultuosas, constavam de um memorando enviado a Sam, com cópia para um amigo e aliado de Vince Lord no conselho de directores. Ao ler pela primeira vez o memorando Sam ficou a arder de raiva e, deixando o seu gabinete, foi procurar Vincent Lord no território do director de investigação.

 

Ao caminhar sobre o chão impecavelmente polido dos corredores ladeados de vidros e com o ar condicionado da divisão, Sam foi-se lembrando dos muitos milhões de dólares, somas virtualmente ilimitadas, dispendidas pela Felding-Roth em equipamento de investigação - moderno, computadorizado, brilhante, por vezes misterioso - arrumado em laboratórios agradáveis e espaçosos e servido por um exército de cientistas e técnicos de bata branca. O que ali estava representava o sonho de um cientista académico, mas era a norma de qualquer grande companhia farmacêutica. O dinheiro para a investigação de fármacos só raramente, se é que alguma vez, era restringido. Só ocasionalmente, como agora, é que a justificação das despesas era discutida.

 

Vincent Lord estava no seu gabinete revestido a madeira e livros, bem iluminado. A porta abriu-se e Sam Hawthorne entrou, acenando distraidamente para a secretária que estivera para o deter - mas que mudara de ideias ao ver de quem se tratava. O Dr. Lord, de bata branca, estava sentado à secretária de cenho franzido, como era seu hábito, lendo um documento. Levantou o olhar surpreendido, os olhos negros mirando por detrás de óculos sem aros, a face ascética mostrando o aborrecimento que lhe causava aquela intromissão não anunciada.

 

Sam trouxera o memorando de Lord. Colocando-o em cima da secretária anunciou:

 

- Vim falar acerca disto.

 

Lord olhou para o memorando sobre a secretária com os seus olhos de míope para se certificar do que se tratava.

 

- O que é que não gosta aí?

 

- Do conteúdo e do tom.

 

- E que mais há aí?

 

Sam estendeu a mão para o papel e pegou-lhe:

 

- Está bastante bem dactilografado.

 

- Suponho - disse Lord com um sorriso sardónico - que sendo agora o tipo do topo, Sam, gostaria de se rodear de yes men’.

 

Sam Hawthorne suspirou. Já conhecia Vince Lord há quinze anos e acostumara-se aos caminhos tortuosos do director de pesquisas pelo que estava preparado para lhes dar o devido desconto. Respondeu moderadamente:

 

- Sabes que isso não é verdade. O que pretendo é uma discussão racional e melhores razões para discordares de mim do que aquelas que já apresentaste.

 

- Falando de razão - disse Lord abrindo uma gaveta da secretária e tirando de lá uma pasta - protesto veementemente contra uma afirmação tua.

 

- Qual?

 

- Sobre a nossa investigação. - Consultando a pasta, Lord citou a proposta de Sam sobre o instituto britânico. - ”Enquanto os nossos competidores introduziram fármacos novos e bem sucedidos nós apenas lançámos coisas mínimas. Nem sequer temos nada de espantoso em perspectiva.”

 

- Prova-me que estou errado.

 

- Temos alguns desenvolvimentos promissores em vista - insistiu Lord. Vários dos novos e jovens cientistas que admiti estão a trabalhar...

 

- Vince - disse Sam -, sei disso. Já te esqueceste que leio os teus relatórios? Além disso aplaudo os talentos que recrutaste.

 

Era verdade, pensou Sam. Uma das qualidades de Vincent Lord durante todos os anos em que ali estava era a sua capacidade para atrair a nata dos novos valores científicos. Uma razão para isso era a de que a reputação de Lord ainda continuava alta apesar de não ter feito a grande descoberta que dele se esperava. Nem sequer havia qualquer descontentamento contra Lord pelas suas funções de director de pesquisa; a secura dos resultados era um dos azares que aconteciam aos laboratórios farmacêuticos mesmo quando a sua parte científica tinha os melhores cérebros.

 

- Os relatórios que te envio - disse Lord - são sempre cuidadosamente pesados. Tenho que evitar que tu ou o bando da parte comercial fiquem excitados com algo ainda experimental.

 

- Também sei disso - afirmou Sam - e aceito-o.

 

Sam sabia bem da guerra perpétua dentro de qualquer laboratório entre as

 

1 Homens que dizem sempre que sim. (N. do E.)

 

vendas e a produção, por um lado, e a pesquisa por outro. Dizia o pessoal das vendas: ”A pesquisa quer sempre estar cento e dez por cento certa de cada detalhezinho antes de dizer Vkay, vamos arrancar! Da mesma forma a produção estava sempre disposta a organizar o fabrico e não gostava de se ver surpreendida por pedidos inesperados de grandes quantidades de um novo produto. Mas, no outro lado da equação, os investigadores acusavam o ramo comercial de ”gostar de se lançar a toda a pressa no mercado com um produto apenas vinte por cento comprovado só para bater a concorrência e conseguir uma subida precoce nas vendas”.

 

- O que te vou dizer não está nos relatórios - Vincent Lord informou Sam -, mas estamos a obter resultados espantosamente bons com dois compostos. Um deles é um diurético e o outro é um anti-inflamatório para a artrite reumatóide.

 

- São notícias excelentes.

 

- E temos também o processo do Derogil pendente na FDA.

 

- O novo anti-hipertensor. - Sam sabia que o Derogil, um controlador da pressão arterial, não era um medicamento revolucionário, mas podia tornar-se um produto bastante lucrativo. Perguntou: - O processo está a avançar?

 

- Nada que se veja - disse Lord com pena. - Aqueles incompetentes pomposos de Washington... - Fez uma pausa. - Vou voltar lá para a semana que vem.

 

- Continuo a pensar que a minha afirmação não está errada - disse Sam. Mas se te sentes ofendido alterá-la-ei na próxima reunião do conselho.

 

Vincent Lord assentiu com a cabeça como se a concessão não fosse mais que um dever e continuou:

 

- Há ainda a minha pesquisa pessoal sobre o bloqueio dos radicais livres. Bem sei que, depois deste tempo todo, já não crês que surjam resultados...

 

- Nunca disse isso - protestou Sam. - Nunca! Por vezes és tu o descrente, Vince, mas alguns de nós continuam a ter fé em ti. Todos sabemos que as grandes descobertas não são nem fáceis nem rápidas.

 

Sam apenas tinha uma ideia muito vaga do que era isso do bloqueio dos radicais. Sabia que o objectivo era eliminar os efeitos tóxicos dos fármacos na generalidade e era algo que Lord teimava há mais de uma década. Se tivesse sucesso as possibilidades comerciais seriam imensas. Mas era tudo o que sabia.

 

- Nada do que me disseste - comentou Sam levantando-se - muda a minha opinião de que a criação de um centro de pesquisas britânico é uma boa ideia.

 

- E continuo a opor-me porque o acho desnecessário. - A resposta do director de pesquisas foi firme embora ele acrescentasse: - Mesmo que o teu plano vá para a frente devemos manter o controlo.

 

- Discutiremos isso depois, se e quando. - Sam Hawthorne sorriu, mas sabia perfeitamente que deixar Vincent Lord controlar o novo instituto de pesquisa britânico seria a última coisa que permitiria.

 

Quando Lord ficou sozinho foi até à porta do gabinete e fechou-a. Depois sentou-se desconsolado na sua cadeira. Sentia que a proposta de um instituto da Felding-Roth em Inglaterra seria concretizado apesar da sua oposição e encarava tal coisa como uma ameaça pessoal, um sinal de que o seu domínio científico na empresa lhe estava a fugir. Até que ponto poderia fugir-lhe, pensou, antes de se eclipsar?

 

Como as coisas teriam sido diferentes, pensou sombriamente, se as suas pesquisas pessoais tivessem progredido mais depressa e melhor do que na realidade o tinham feito. Postas assim as coisas que havia para mostrar de uma vida dedicada à ciência?

 

Tinha agora quarenta e oito anos, deixara há muito de ser o jovem e brilhante mago com o seu doutoramento ainda fresco. Estava ciente de que algumas das suas técnicas e conhecimentos se encontravam até desactualizados. Oh, claro que ainda lia imenso e se procurava manter informado. No entanto esse tipo de conhecimento nunca era a mesma coisa que o envolvimento pessoal no campo de trabalho em que se é especialista - química orgânica no seu caso pessoal; um conhecimento convertido em arte de forma a que se tem para sempre o instinto e a experiência para nos guiarem. No novo campo da engenharia genética, por exemplo, não estava verdadeiramente à vontade, pelo menos com o à-vontade dos jovens cientistas que agora saíam da universidade, alguns dos quais tinham sido recrutados para a Felding-Roth.

 

E, no entanto, raciocinava ele - tranquilizando-se - apesar das mudanças e dos novos conhecimentos continuava a ser possível uma abertura titânica no trabalho que estava a fazer, uma descoberta que viria ainda a tempo. Dentro dos parâmetros da química orgânica existia uma resposta - uma resposta às questões que pusera em incontáveis experiências ao longo de dez anos de pesquisa intensa.

 

O bloqueio dos radicais livres.

 

Conjuntamente com a resposta que Vincent Lord procurava viriam enormes benefícios terapêuticos e ilimitadas possibilidades comerciais que nem Sam Hawthorne, nem outros dentro da companhia, na sua ignorância científica, tinham ainda conseguido antever.

 

Que conseguiria com o bloqueio dos radicais livres?

 

A resposta: algo essencialmente simples mas magnificente.

 

Como muitos outros cientistas do seu campo Vincent Lord sabia que inúmeros fármacos, quando em acção no corpo humano e como parte do seu metabolismo, geravam ”radicais livres”. Estes elementos eram prejudiciais para os tecidos sãos sendo os responsáveis por alguns efeitos colaterais adversos e até por mortes.

 

A eliminação, ou ”bloqueio”, dos radicais livres significaria que fármacos benéficos, outros fármacos, que até agora não se podiam utilizar nos seres humanos por causa dos graves efeitos colaterais, podiam ser tomados impunemente por qualquer pessoa. E fármacos restritos, até aí usados apenas com grandes riscos, poderiam ser tomados tão facilmente como uma aspirina.

 

Nunca mais os médicos, ao prescreverem para os seus doentes, necessitariam de se preocupar com a toxicidade dos fármacos. Nunca mais os doentes com cancro sofreriam as agonias infligidas pelos fármacos quase mortíferos que às vezes os mantêm vivos mas com igual frequência os matam por outra causa que não o cancro. Os efeitos benéficos destes fármacos, assim como de todos os outros, seriam mantidos mas os efeitos prejudiciais seriam anulados pelo bloqueio dos radicais livres.

 

O que Vincent Lord esperava produzir era um fármaco para adicionar aos outros fármacos e que os tornaria totalmente seguros.

 

E tudo isso era possível. A resposta existia. Estava lá. Escondida, escorregadia, mas esperando ser descoberta.

 

E Vincent Lord, depois de dez anos de pesquisa, pensava estar bem perto dessa resposta escorregadia. Podia cheirá-la, senti-la, quase que conseguia provar o néctar do sucesso.

 

Mas quanto tempo mais? Quanto tempo mais teria de esperar?

 

De repente sentou-se direito na cadeira e, com um esforço de vontade, expurgou de si o estado de espírito deprimente. Abrindo uma gaveta da secretária escolheu uma chave. Iria agora mesmo - mais uma vez - para o seu laboratório privado, a poucos passos dali, onde realizava o seu trabalho de pesquisa.

 

O amigo e aliado de Vincent Lord no quadro de directores da Felding-Roth era Clinton Etheridge, um importante e bem sucedido advogado de Nova Iorque que tinha pretensões a cientista. As pretensões baseavam-se no facto de que, quando jovem, Etheridge fora estudante de medicina durante dois anos antes de se decidir pela carreira das leis. Alguém escrevera cinicamente a mudança com estas palavras: ”Clint diagnosticou onde estava o dinheiro graúdo e prescreveu uma rota directa até ela.”

 

Etheridge tinha agora cinquenta e três anos. O facto de os seus breves e incompletos estudos de medicina estarem para trás mais de um quarto de século não o impedia de fazer comentários confiantes sobre questões científicas, fornecidos no seu melhor tom de tribunal com a implicação de que deviam ser preservados em pedra.

 

Convinha aos propósitos de Vincent Lord adular Etheridge tratando-o como seu par científico. Desta forma os pontos de vista dos directores da pesquisa eram muitas vezes apresentados ao conselho de directores da Felding-Roth com a vantagem, para Vincent Lord, de o serem com toda a persuasão de um bom advogado.

 

Não foi surpresa nenhuma, quando o conselho se reuniu para debater a proposta de Sam Hawthorne sobre um instituto de pesquisas em Inglaterra, que a oposição fosse conduzida por Clinton Etheridge.

 

A reunião teve lugar na sede da Felding-Roth em Boonton, Nova Jérsia. Catorze dos dezasseis directores - todos homens - estavam sentados em torno da tradicional mesa de nogueira.

 

Etheridge, que era alto, ligeiramente curvado para a frente e que cultivava um certo ar lincolnesco, começou de forma genial:

 

- Será que tens esperança, Sam, de que se este projecto pró-inglês for para a frente eles te ficarão tão gratos que até te convidarão a tomar chá no Palácio de Buckíngham?

 

Sam participou na risada geral, mas ripostou:

 

- Aquilo que quero, Clint, é um fim-de-semana prolongado no Castelo de Windsor.

 

- Bem - disse o advogado -, acho que é um objectivo possível de alcançar, mas, na minha opinião, o único. - Ficou sério. - Aquilo que propões parece ignorar as fabulosas capacidades e realizações científicas do nosso país... que é também o teu.

 

Sam desde há muito que pensava nesta reunião e não tinha intenção de deixar fugir-lhe o domínio da situação.

 

- Não me esqueci dos sucessos americanos na ciência - objectou. - Como poderia esquecê-los? Estamos rodeados por eles. Apenas quero suplementá-los.

 

- Nesse caso usa o nosso dinheiro para os suplementar aqui - injectou alguém.

 

- Os próprios Ingleses - persistiu Etheridge - têm alimentado o mito de que a ciência da sua ilhota é superior às outras. Mas isso não é verdade pois a Inglaterra tem sofrido a chamada ”drenagem de cérebros”. Por que é que tantos dos seus melhores cientistas vieram para cá, para fazer investigação nos Estados Unidos?

 

- Fazem-no sobretudo - respondeu Sam - porque temos melhores condições, porque dispomos de mais dinheiro para pessoal e equipamento. Mas a tua pergunta, Clinton, apoia o meu argumento. O nosso país recebe os cientistas ingleses porque são de alta qualidade.

 

- Na tua opinião, Sam - perguntou Etheridge -, qual é a área de investigação científica, relacionada com a nossa indústria, com maior importância actual?

 

- Sem dúvida que é a engenharia genética.

 

- Exactamente. - O advogado concordou, satisfeito com a resposta. - E é ou não verdade, e falo com alguns conhecimentos científicos, como sabes, que os Estados Unidos foram os primeiros, e continuam a sê-lo, no campo genético?

 

Sam esteve tentado a sorrir, mas não o fez. Desta vez o pseudocientista fora mal informado.

 

- Realmente, Clint - disse Sam -, isso não é verdade. Há muito tempo atrás, em mil seiscentos e cinquenta e um, em Inglaterra, William Harvey estudou o desenvolvimento do pinto no ovo e lançou assim as bases dos estudos genéticos. Foi também em Inglaterra que começou a genética bioquímica, em mil novecentos e oito. Depois houve um período de várias descobertas em que se destacam, a partir dos anos vinte, os trabalhos de um cientista americano, o doutor Hermann Muller. Mas uma descoberta fundamental, às vezes referida como ”uma explosão na ciência genética” deu-se também em Inglaterra, mais precisamente em Cambridge, em mil novecentos e cinquenta e três, quando os doutores Watson e Crick descobriram a estrutura da molécula de ADN que lhes valeu o Prémio Nobel. - Agora Sam sorria. - Por acaso o doutor Watson nasceu na América o que mostra como a ciência é internacional.

 

Vários directores sorriram e Etheridge teve a graça de parecer desculpar-se.

 

- Como nós, os advogados, dizemos, há perguntas que nos arrependemos de ter feito. - Depois, inamovível, acrescentou: - Nada do que aqui foi dito altera o meu ponto de vista de que a ciência americana não tem rival; além disso a qualidade da nossa investigação sofrerá se nos espalharmos demasiado instalando uma casa noutro país.

 

Houve murmúrios de concordância até que outro director, Owen Norton, bateu com os nós dos dedos na mesa para chamar a atenção. Recebeu-a de imediato.

 

Norton, uma figura prestigiada e cheia de autoridade nos seus setenta e tal anos, era presidente e principal accionista de um império de comunicações que incluía uma rede de televisão. Era do consenso geral que a Felding-Roth beneficiava por o ter como director. Agora, tendo recebido a atenção da reunião, falou numa voz forte e decidida.

 

- Permitam-me que vos recorde de que estamos a discutir, ou devíamos estar, os problemas sérios e importantes que afectam esta companhia. Escolhemos Sam Hawthorne para presidente acreditando que ele nos daria uma boa chefia, boas ideias e bons conselhos. Fez uma proposta que abrange esses três pontos e que aconteceu? Estamos a ser empurrados por Clint e por outros para a rejeitar serr mais nem menos. Pois bem: eu, pelo menos, não o farei!

 

Owen Norton olhou para Etheridge, que tantas vezes esmagara em reuniões anteriores, e a sua voz tornou-se sarcástica.

 

- Acho também, Clint, que deves reservar as tuas polémicas juvenis e inflamadas para um júri que é menos bem informado que os membros deste conselho.

 

Houve um silêncio momentâneo durante o qual Sam pensou como as pessoas de fora ficariam surpreendidas se soubessem que as reuniões do conselho raramente tinham o alto nível intelectual que seria de esperar. Embora pudessem chegar a decisões e às vezes acertadas havia quase sempre uma quantidade surpreendente de argumentos mesquinhos e de disputas baixas.

 

- Afinal que raio importa - continuou Norton -, qual das ciências é superior, a inglesa ou a nossa? Não é isso que nos interessa.

 

- Então o que é? - perguntou um director.

 

- Diversificação! - afirmou Norton batendo com o punho na mesa. - Em qualquer negócio, incluindo no meu, é muitas vezes vantajoso ter um segundo ”tanque pensante completamente separado e isolado de qualquer outro. E talvez que a melhor forma de conseguir a separação seja colocar o oceano entre os dois.

 

- É também uma forma - disse alguém - de deixar os custos sair do nosso controlo.

 

O debate continuou por mais de uma hora com mais oposição vindo à superfície e com o aparecimento de novas ideias. Mas a proposta de Sam era apoiada por vários directores, um apoio que a posição de Owen Norton reforçara, pelo que a oposição acabou por ceder. Finalmente a proposta original foi aprovada por treze votos contra um, sendo Clinton Etheridge o único dissidente.

 

- Muito obrigado, meus senhores - agradeceu Sam. - Creio sinceramente que algo de produtivo resultará desta decisão.

 

Mais tarde, ainda nesse mesmo dia, mandou chamar Célia.

 

- Vais-te mudar - comunicou-lhe ele sem perder tempo com quaisquer preliminares. - Deixaste a Divisão Internacional. O teu novo trabalho é o de assistente especial do presidente e serás o meu braço direito na instalação do Instituto Britânico de Pesquisas.

 

- Está bem - concordou Célia; a notícia deliciava-a, mas manteve o tom de voz tão sério como o de Sam. Ele estava a mostrar sinais, pensou Célia, das pressões que sobre ele recaíam. Estava agora quase completamente calvo pois apenas lhe restava uma franja de cabelo. Do seu próprio ponto de vista Célia achava que havia motivo para uma boa celebração quando, à noite, desse a notícia a Andrew.

 

- Quando começo? - perguntou ela. Mentalmente procurou calcular quanto tempo levaria para se livrar das responsabilidades latino-americanas. Bastaria um mês.

 

- Gostaria que começasses esta tarde - respondeu Sam. - Mas temos de te arranjar um gabinete pelo que começarás amanhã às nove horas da manhã.

 

- Este teu novo cargo - explicou Sam a Célia no dia seguinte - não durará muito. A tua principal tarefa será ajudar a instalar o nosso Instituto Britânico de Pesquisas tornando-o operacional. Gostaria que tudo estivesse pronto dentro de um ano, mas quanto mais cedo melhor. E depois disso feito havemos de encontrar outra coisa para fazeres. As prioridades - continuou Sam - serão encontrar e contratar um cientista britânico para chefiar o instituto, decidir em que zona de Inglaterra deve ser instalado, comprar ou alugar um edifício - de preferência um já existente e fácil de adaptar às novas funções.

 

Tudo tinha de ser feito com urgência e por isso Célia era tão subitamente afastada do sector internacional. Seria o próprio Sam a procurar um director científico prestigiado e competente, embora Célia o ajudasse conforme as necessidades. Mas seria Célia a tratar dos outros assuntos sugerindo a Sam e aos outros recomendações sobre as acções a tomar.

 

Sam e Célia partiriam para Inglaterra na semana seguinte. Mas antes disso consultariam Vincent Lord que apesar da sua oposição ao projecto, estava bem informado sobre a ciência britânica e os seus cientistas, podendo sugerir até candidatos.

 

A consulta ao Dr. Lord teve lugar alguns dias depois no gabinete de Sam, com Célia presente.

 

Para surpresa de Célia, Vince Lord mostrou-se cooperante, amigável até tanto quanto esta capacidade existia nele. Sam, que conhecia melhor os antecedentes que Célia, percebia o porquê. Agora que a Felding-Roth estava decidida a efectuar investigações na Grã-Bretanha, Lord queria controlar a situação. Mas Sam continuava decidido a não deixar que tal acontecesse.

 

- Preparei uma lista - informou-os Lord - de pessoas que podem ser candidatas potenciais. Terão de as abordar discretamente porque são ou professores universitários ou estão ao serviço de concorrentes nossos.

 

Sam e Célia examinaram a lista, que continha oito nomes.

 

- Seremos discretos - prometeu Sam -, mas temos de andar depressa.

 

- Já que vão para lá - disse Lord - podem fazer outra coisa. - Extraiu de uma pasta um molho de papéis e cartas seguros por uma mola. - Tenho-me correspondido com um jovem cientista da Universidade de Cambridge. Está a realizar um trabalho interessante sobre envelhecimento mental e doença de Alzheimer mas está sem dinheiro e quer uma bolsa.

 

- Doença de Alzheimer - disse Célia. - É aquela em que o cérebro deixa de funcionar, não é?

 

- Parte do cérebro - explicou Lord. - A memória desaparece. A coisa começa devagar e vai piorando.

 

Apesar da antiga aversão por Célia do director de pesquisas o certo é que aprendera a aceitá-la como um elemento da companhia, e um elemento com influência; o que tomaria inútil qualquer antagonismo. Os dois tinham até conseguido evoluir ao ponto de usarem os nomes próprios - ao princípio a custo mas agora com naturalidade.

 

Sam tomou as cartas da mão de Lord e leu em voz alta:

 

- Doutor Martin Peat-Smith. - Entregando-as a Célia perguntou a Lord: Recomendas a bolsa?

 

- É um tiro à distância - comentou o director de pesquisas com um encolher de ombros. - A doença de Alzheimer tem iludido os cientistas desde que foi diagnosticada pela primeira vez, em mil novecentos e seis. O que Peat-Smith está a fazer é estudar os processos de envelhecimento do cérebro esperando descobrir ao mesmo tempo uma causa para a doença de Alzheimer.

 

:- Tem hipóteses?

 

- Poucas.

 

- Podemos dar algum dinheiro - disse Sam. - Se tivermos tempo falaremos com ele. Mas há outras coisas mais prioritárias.

 

Célia, que estivera a estudar as cartas, perguntou:

 

- O doutor Peat-Smith é um dos possíveis candidatos a director? Lord pareceu ficar surpreendido.

 

- Não - respondeu.

 

- Porquê?

 

- Um factor: é novo de mais. Célia olhou para o que lera.

 

- Tem trinta e dois anos - disse ela com um sorriso. - Quando para cá vieste, Vince, não tinhas a mesma idade?

 

Ele respondeu com sarcasmo e uma ponta da sua habitual irritação:

 

- As circunstâncias eram diferentes.

 

- Vamos falar desta gente - disse Sam. Pegara na lista original. - Vince, diz-me qualquer coisa sobre cada um deles.

 

Junho de 1972. Londres era um mar de fausto e cor. Célia estava deliciada. Nos parques e jardins públicos havia uma multidão de flores - rosas, lilases, azáleas

- enchendo o ar com as suas fragrâncias. Turistas e londrinos banhavam-se no sol quente. A Trooping the Color - o festival militar pelo aniversário da rainha - era um espectáculo vivo e espantoso de bandas musicais. Em Hyde Park cavaleiros elegantemente trajados trotavam por Rotten Row. Ali perto, em volta da Serpentine, crianças felizes alimentavam os patos que competiam por espaço na água com bater de asas. Em Epsom correra-se o Derby’, com tradição, estilo e pompa, e a vitória fora para o cavalo Roberto e o Jockey Lester Piggott, que vencera o seu sexto Derby.

 

- Nem me parece que estou aqui a trabalhar com tudo isto à minha volta disse Célia um dia a Sam. - Sinto que devia pagar à companhia por este privilégio.

 

’ A mais célebre competição hípica do Mundo, fundada por Lorde Derby, em 1780, e constituída por um prémio para potros de três anos. (N. do E.)

 

Ela estava instalada no Berkeley, em Knightsbridge, e nas últimas semanas visitara mais de uma dúzia de possíveis locais para a instalação do instituto de pesquisa da Felding-Roth. Célia estava sozinha pois Andrew não pudera abandonar o clínica para a acompanhar. Sam e Lilian estavam no Claridge.

 

Foi no Claridge, na suite dos Hawthome, que Célia comunicou o que se passara e qual a sua opinião, na terceira semana de Junho.

 

- Viajei pelo país todo, como sabes - contou ela a Sam -, e acho que o melhor lugar para nos instalarmos é em Harlow, no Essex.

 

- Nunca ouvi falar - disse Lilian.

 

- Talvez porque Harlow é uma pequena aldeia - explicou Célia. - Agora é uma coisa a que chamam uma ”nova cidade”, uma das trinta estabelecidas pelo Governo britânico que procura afastar as pessoas e as indústrias das grandes cidades. A localização - continuou ela- satisfaz todas as nossas condições. Está perto de Londres, tem serviços de comboios rápidos, boas estradas e um aeroporto perto. Há casas e escolas com campos verdejantes em volta. Um sítio maravilhoso para o pessoal viver.

 

- E um edifício? - perguntou Sam.

 

- Também tenho notícias sobre isso. - Célia consultou as suas notas. - Uma companhia chamada Comthrust, que produz pequenos equipamentos de comunicação, sistemas de intercomunicadores, alarmes contra ladrões e outras coisas do género, construiu uma fábrica em Harlow mas meteu-se em problemas financeiros. Agora não estão em condições de utilizar a fábrica que tem mais ou menos a área de que necessitamos. Nunca foi usada e a Comthrust procura uma venda rápida, em dinheiro.

 

- O edifício pode ser convertido em laboratórios?

 

- Com facilidade. - Célia desdobrou várias plantas. - Trouxe as plantas, Falei também com um construtor.

 

- Enquanto vocês, trabalhadores, mergulham nessa trapalhada - anunciou Lilian -, vou fazer umas compras aos Harrods.

 

Dois dias mais tarde Sam e Célia foram a Harlow juntos. Enquanto Sam se desembaraçava, com um Jaguar alugado, do trânsito matinal de Londres em direcção ao norte, Célia lia o International Herald Tríbune do dia.

 

As conversações de paz no Vietname, que tinham estado interrompidas, em breve recomeçariam em Paris, previa um artigo na primeira página. Num hospital da Marilândia fora removida com sucesso uma bala da espinha do governador George Wallace, do Alabama, baleado um mês antes por um assassino frustrado. O presidente Nixon, falando sobre a guerra do Vietname, assegurara aos Americanos: ”Hanói está a perder o seu jogo desesperado.”

 

Um assunto, proveniente de Washington, que parecia estar a receber atenção em demasia, era uma espécie de roubo - uma entrada na sede nacional do Partido Democrático num sítio chamado Watergate. Parecia coisa de menor importância. Célia, desinteressada, pôs o jornal de lado.

 

- Como têm decorrido as tuas últimas entrevistas? - perguntou ela a Sam.

 

- Nada bem - disse ele com uma careta. - Fizeste mais progressos do que eu.

 

- Sítios e casas são mais fáceis que pessoas - recordou-lhe ela.

 

Sam estivera a trabalhar na lista de potenciais candidatos fornecida por Vincent Lord.

 

- Até agora a maior parte dos que já vi - confidenciou ele a Célia - são um pouco como o Vince: já com rumos tomados, ciosos das suas situações, provavelmente já com os seus melhores anos de investigação atrás deles. O que procuro é alguém com ideias excitantes, claro que bem qualificado e possivelmente novo.

 

- Quando encontrares alguém assim como o irás saber?

 

- Saberei - disse Sam. Sorriu. - Talvez seja como ficar apaixonado. Não sabemos como é. Quando acontece apenas sabemos que aconteceu.

 

As vinte e três milhas que separavam Londres de Harlow foram feitas no meio de um tráfico crescente. Mas quando deixaram a estrada principal A 414 entraram numa área de amplas avenidas relvadas com casas agradáveis, separadas em muitos casos por campos abertos. As áreas industriais estavam discretamente separadas, escondidas das partes habitacionais e recreativas da cidade. Algumas estruturas antigas tinham sido preservadas. Quando passaram por uma igreja do século XI, Sam parou o carro e disse:

 

- Vamos sair e andar a pé.

 

- Isto é uma terra antiga - afirmou ela a Sam enquanto passeavam admirando a cena ao mesmo tempo rural e moderna. - Foram aqui descobertas velhas relíquias da Idade da Pedra com mais de dois mil anos. Os Saxões estiveram aqui; o nome de Harlow deriva de palavras saxónicas que significam ”a colina do exército”. E no século primeiro depois de Cristo os Romanos tiveram aqui um acampamento e construíram um templo.

 

- Tentaremos também contribuir para a História - disse Sam. - Afinal onde fica essa fábrica que viemos ver?

 

- Para ali - respondeu Célia apontando para oeste -, atrás daquelas árvores. Num parque industrial chamado Pinnacles.

 

- Muito bem, vamos lá ver isso. Estavam já a meio da manhã.

 

Sam inspeccionou o edifício silencioso e vazio depois de parar o Jaguar do lado de fora. Uma parte dele, destinado a salas de exposição e escritórios, era de cimento e vidro, com dois pisos. O restante, dotado de uma estrutura de aço, era de um só piso pois fora concebido como uma oficina ampla. Mesmo do lado de fora Sam verificou que Célia tinha razão - o conjunto podia facilmente ser convertido em laboratórios de investigação.

 

Outro carro estava estacionado a pouca distância do deles. Abriu-se uma porta e de lá saiu um homem de meia-idade que se aproximou do Jaguar. Célia apresentou-o como LaMarre, um representante de uma companhia imobiliária com quem ela combinara o encontro.

 

Depois de trocarem apertos de mão, LaMarre puxou de um molho de chaves e chocalhou-as.

 

- Não se deve comprar o palheiro sem ver a palha - disse ele amigavelmente. Dirigiram-se à porta principal e entraram.

 

Meia hora depois Sam afastou-se um pouco com Célia e disse-lhe em voz baixa:

 

- Servirá muito bem. Podes informar a este homem que estamos interessados e dizer aos nossos advogados para começarem as negociações. Diz-lhes para acelerarem as coisas o mais possível.

 

Enquanto Célia voltava atrás para falar com LaMarre, Sam voltou ao Jaguar. Uns minutos depois, quando ela foi ter com ele, Sam disse-lhe:

 

- Esqueci-me de te dizer que vamos a Cambridge. Como Harlow fica a meio caminho combinei um encontro com o doutor Peat-Smith, aquele que investiga o envelhecimento cerebral e a doença de Alzheimer, e que pediu uma bolsa.

 

- Acho óptimo teres tempo para tratar disso - disse Célia. - Julgava que não conseguirias.

 

Depois de uma hora de viagem pelos campos, sob um sol brilhante, entraram em Trumpington, Cambridge, pouco depois do meio-dia.

 

- É uma cidade apaixonante e venerável - disse Sam. - Aí à tua esquerda é Peterhouse, a mais antiga faculdade. Já a tinhas visto antes?

 

Célia, fascinada pela sucessão de casas antigas e históricas, respondeu:

 

- Nunca.

 

Sam parara no caminho para telefonar e marcar almoço no Garden House Hotel. Martin Peat-Smith iria lá ter com eles.

 

O pitoresco hotel estava localizado num sítio idílico, perto dos backs - os jardins que davam uma vista soberba às traseiras de muitas faculdades - e encostado ao rio Cam com os barcos e chatas.

 

Na entrada do hotel, Peat-Smith viu-os primeiro e avançou para eles. Célia teve a impressão de um jovem forte e bem constituído, com uma cabeleira loura que precisava de ser aparada e um sorriso voluntário e juvenil que cavava um rosto rugoso e quadrado. Fosse lá o que Peat-Smith fosse duma coisa ela estava segura: não era bonito. Mas sentiu que ele possuía uma personalidade forte e perseverante.

 

- A senhora Jordan e o senhor Hawthorne, não é verdade? - A voz incisiva e cultivada, mas sem afectação, ajustava-se à aparência ingénua de Peat-Smith.

 

- Certíssimo - respondeu Célia. - Excepto que, em termos de importância, é exactamente ao contrário.

 

- Tentarei não me esquecer. - Mais uma vez o sorriso.

 

Enquanto trocavam apertos de mãos Célia reparou, que Peat-Smith vestia um velho casaco axadrezado com cotoveleiras e punhos esgaçados e umas calças cinzentas manchadas e sem sinais de ferro. Lendo instantaneamente os pensamentos dela ele disse sem embaraço algum:

 

- Vim directamente do laboratório senhora Jordan. Tenho um fato. Se nos encontrarmos fora das horas de trabalho usá-lo-ei.

 

- Sinto-me envergonhada - disse ela corando. - Desculpe a rudeza.

 

- Não é preciso. - Sorriu de forma amável. - Só gosto de esclarecer as coisas.

 

- Um bom hábito - comentou Sam. - Vamos almoçar?

 

À mesa, que dava para um jardim de rosas e para o rio, pediram bebidas. Célia, como habitualmente, pediu um daiquiri, Sam um martini e Peat-Smith um copo de vinho branco.

 

- O doutor Lord falou-me da investigação que está a realizar- disse Sam. Segundo creio pediu à Felding-Roth uma bolsa para a poder continuar.

 

- Isso mesmo - assentiu Peat-Smith. - O meu projecto, o estudo do envelhecimento mental e da doença de Alzheimer, está sem dinheiro. A universidade não o tem, pelo menos para mim, de forma que tenho de o procurar noutro lado.

 

- Isso não é coisa rara - assegurou-lhe Sam. - A nossa companhia dá bolsas para a pesquisa académica quando pensamos que vale a pena. Falemos então disso.

 

- Muito bem. - Pela primeira vez o Dr. Peat-Smith mostrou um traço de nervosismo, provavelmente, pensou Célia, porque a bolsa era para ele uma coisa importante. - Para começar... que sabem da doença de Alzheimer?

 

- Muito pouco - disse Sam. - É melhor partir do princípio de que não sabemos nada.

 

O jovem cientista abanou a cabeça.

 

- Não é uma das doenças da moda... pelo menos por enquanto. E nada se sabe, apenas existem teorias, sobre as suas causas.

 

- Não afecta sobretudo pessoas idosas? - perguntou Célia.

 

- Com mais de cinquenta anos... é isso; em particular acima dos sessenta e cinco. Mas a doença de Alzheimer pode afectar pessoas mais novas. Houve casos em indivíduos com vinte e sete.

 

Peat-Smith bebeu um gole do vinho antes de continuar.

 

- A doença começa gradualmente, com lapsos de memória. As pessoas simplesmente esquecem-se de coisas simples, como atar os cordões dos sapatos ou para que serve um interruptor da luz, ou onde se costumam sentar às refeições. Depois, à medida que pioram, desaparece cada vez mais a memória. Muitas vezes a pessoa torna-se incapaz de identificar qualquer outra pessoa, nem sequer a mulher ou o marido. Podem esquecer-se de como se come e terem de ser alimentados; quando têm sede podem não saber o suficiente para pedir água. Frequentemente têm incontinência, nos casos piores podem ser violentos e destrutivos. Acabam por morrer da doença, mas depois de dez ou quinze anos de sofrimento, anos esses que são os mais duros para quem viva junto de uma vítima da Alzheimer.

 

Peat-Smith fez uma pausa.

 

- O que se passa no cérebro pode ver-se na autópsia. A Alzheimer afecta as células nervosas do córtex, onde se situam os sentidos e a memória. Lesa as fibras nervosas. Enche o cérebro de bocadinhos de uma substância chamada placa.

 

- Li alguma coisa sobre a sua investigação - disse Sam -, mas gostaria que nos dissesse a direcção que está a seguir.

 

- Uma direcção genética. E como não há modelos animais para a doença de Alzheimer, tanto quanto sabemos não existe qualquer animal que adquira esta doença, os meus estudos em animais são sobre a química do processo de envelhecimento cerebral. Como sabem sou um químico do ácido nucleico.

 

- A minha química está um tanto enferrujada - disse Célia -, mas para mim os ácidos nucleicos são os ”tijolos” com que o ADN faz os nossos genes.

 

- Correcto e não tanto enferrujado como isso. - Peat-Smith sorriu. - É provável que surjam grandes progressos na medicina quando compreendermos melhor a química do ADN e soubermos como trabalham os genes e por que é que às vezes funcionam mal. É isso que estou agora a fazer, usando ratos novos e velhos, tentando descobrir diferenças, variações com a idade, entre o ARN, ácido ribonucleico mensageiro, dos animais que provêm do ADN.

 

- Mas a doença de Alzheimer e o processo normal de envelhecimento são duas coisas distintas, não são? - interrompeu Sam.

 

- Parecem ser, mas poderão existir áreas de sobreposição.

 

Quando Peat-Smith fez uma pausa Célia pôde senti-lo a organizar os pensamentos, como o faria um professor, com palavras mais simples e menos científicas do que as que costumava usar.

 

- Uma vítima da Alzheimer pode ter tido, ao nascer, uma aberração no seu ADN, que contém a sua informação genética codificada. No entanto outra pessoa, nascida com um ADN mais normal, pode alterar esse ADN lesando o seu ambiente, o corpo humano. Por exemplo: fumando ou fazendo uma dieta errada. Durante algum tempo o nosso mecanismo de reparação do ADN cuidará disso, mas, à medida que envelhecemos, o mecanismo de reparação torna-se mais lento ou falha de todo. Em parte o que procuro é uma razão para essa lentidão...

 

No fim da explicação Célia comentou:

 

- É um professor nato. Gosta de ensinar, não gosta? Peat-Smith parecia surpreendido.

 

- Espera-se que quem esteja na universidade ensine qualquer coisa. Mas, é verdade, gosto de ensinar.

 

Outra faceta da interessante personalidade deste homem, pensou Célia.

 

- Começou a perceber as questões - disse ela. -- A que distância está das respostas?

 

- Talvez a anos-luz. Por outro lado posso estar bem perto. - Peat-Smith exibiu o seu sorriso genuíno. - É um risco que correm os doadores das bolsas.

 

O chefe de mesa trouxe as ementas e fizeram uma pausa para escolher o almoço. Depois de terem escolhido Peat-Smith disse:

 

- Espero que visitem o meu laboratório. Poderia explicar melhor o meu trabalho.

 

- Contávamos fazê-lo - disse Sam. - Depois do almoço. Enquanto comiam Célia perguntou:

 

- Qual é a sua situação em Cambridge, doutor Peat-Smith?

 

- Tenho um contrato de leitor; é mais ou menos o equivalente a professor assistente na América. O que significa que tenho direito a espaço num laboratório do Edifício de Bioquímica, um técnico para me auxiliar e liberdade para escolher a pesquisa que quero realizar. - Parou antes de acrescentar: - Liberdade desde que consiga apoio financeiro.

 

- No que respeita à bolsa de que temos estado a falar - disse Sam -, acho que a soma sugerida era de sessenta mil dólares.

 

- Sim. Seria por três anos e é o mínimo de que preciso para comprar equipamento e animais, empregar três técnicos a tempo inteiro e fazer as experiências. Nada é para mim. - Peat-Smith esboçou um sorriso. - Mesmo assim é muito dinheiro, não é?

 

- É - concordou Sam gravemente.

 

Mas não era. Tanto Sam como Célia sabiam que sessenta mil dólares eram uma gota quando comparados com as despesas anuais da Felding-Roth ou de qualquer outra grande firma farmacêutica. A questão, como sempre, era só uma: o projecto do Dr. Peat-Smith teria suficiente interesse comercial para tornar interessante o investimento?

 

- Tenho a impressão - disse Célia a Peat-Smith - de que está muito dedicado à doença de Alzheimer. Houve alguma razão especial para o levar a este projecto?

 

O jovem cientista hesitou. Mas, enfrentando directamente nos olhos Célia, disse:

 

- A minha mãe tem sessenta e um anos, senhora Jordan. Sou filho único; não surpreende ninguém que tenhamos sido sempre muito chegados um ao outro. Há quatro anos que ela tem a doença de Alzheimer e piora cada vez mais. O meu pai cuida dela o melhor que pode e vou vê-la quase todos os dias. Infelizmente ela não faz a menor ideia de quem eu sou.

 

O edifício de Bioquímica da Universidade de Cambridge era uma estrutura de três pisos, em tijolos vermelhos, no estilo neo-renascentista, simples e vulgar. Situava-se na Tennis Court Road, uma modesta rua onde não havia nenhum corte de ténis. Martin Peat-Smith, que viera para o almoço de bicicleta - ao que tudo levava a crer uma forma de transporte habitual em Cambridge - pedalava energicamente enquanto Sam e Célia o seguiam no Jaguar.

 

Na porta principal do edifício, onde se reuniram, Peat-Smith preveniu-os:

 

- Acho que os devo avisar, para não ficarem surpreendidos, que as nossas instalações não são das melhores. Estamos sempre cheios, com falta de espaço mais uma vez o sorriso suave - e quase sempre com falta de dinheiro. Às vezes as pessoas de fora ficam chocadas ao descobrir onde e como trabalhamos.

 

Apesar do aviso, poucos minutos depois Célia estava chocada.

 

Quando Peat-Smith os deixou a sós por uns instantes ela murmurou a Sam:

 

- Este lugar é tenebroso. Parece uma masmorra! Como se pode realizar aqui um bom trabalho?

 

Ao entrarem tinham descido uma escada para a cave. Os corredores eram sombrios. Uma série de pequenas salas pareciam sujas, desarrumadas, cheias de velhos equipamentos. Estavam agora num laboratório, pouco maior que a cozinha de uma pequena casa, que Peat-Smith anunciou ser um dos dois em que trabalhava, embora compartilhasse ambos com outro leitor que estava a realizar um projecto diferente.

 

Enquanto conversavam o outro homem e o assistente entraram e saíram várias vezes o que tornava difícil qualquer conversa privada.

 

O laboratório estava mobilado com bancadas de madeira já gastas, encostadas umas às outras para poupar o máximo de espaço. Em cima das bancadas estavam equipamentos velhos a gás e eléctricos, estes últimos maltratados e provavelmente inseguros, cheios de adaptadores e fichas. Nas paredes havia prateleiras toscas, cheias até mais não de livros, papéis e equipamento aparentemente abandonado entre o qual, reparou Célia, algumas antigas retortas de um tipo de que ela se recordava há dezanove anos atrás quando fazia Química. Uma parte de uma bancada servia de secretária. Em frente uma sólida cadeira de estilo Windsor. Viam-se também várias canecas sujas.

 

Numa das bancadas estavam algumas gaiolas de arame dentro das quais se viam uns vinte ratos - dois por gaiola e em diversos estados de actividade.

 

Há algum tempo que ninguém limpava o chão do laboratório. Nem as janelas, que eram estreitas e situadas bem altas na parede, mostrando uma paisagem de rodas e partes de baixo dos carros estacionados lá fora. O efeito era deprimente.

 

- Apesar do aspecto - disse Sam - não te esqueças que aqui se fez história da ciência. Trabalharam nestas salas e caminharam por estes corredores muitos homens galardoados com o Prémio Nobel.

 

- Correcto - disse Martin Peat-Smith; regressara a tempo de ouvir as últimas palavras. - Um deles foi Fred Sanger; descobriu a estrutura da molécula de insulina num laboratório mesmo por cima de nós. - Reparou que Célia olhava para o equipamento velho. - Nos laboratórios académicos nunca deitamos nada fora, senhora Jordan, porque nunca sabemos quando voltaremos a precisar das coisas. A necessidade leva-nos a improvisar e construir muito do nosso equipamento.

 

- O mesmo se passa nos meios académicos americanos - disse Sam.

 

- Apesar de tudo - concordou Peat-Smith - isto deve fazer um grande contraste com o tipo de laboratórios a que estão acostumados.

 

Recordando o espaçoso, imaculado e bem equipado laboratório da Felding-Roth, em Nova Jérsia, Célia respondeu:

 

- Francamente, faz mesmo.

 

Peat-Smith trouxera dois bancos. Ofereceu a cadeira a Célia, um dos bancos a Sam e sentou-se no segundo.

 

- É justo que vos diga - disse ele - que o que estou a tentar envolve não apenas problemas de ciência, mas também enormes dificuldades técnicas. O que se quer encontrar é um meio de transferir informação do núcleo da célula cerebral para a maquinaria da célula que produz proteínas e péptidos...

 

Entusiasmado pela sua exposição entrou no calão científico.

 

- ... pega-se numa mistura em bruto de ARN de ratos novos e velhos e coloca-se num sistema acelular... os moldes ARN produzem proteínas... uma cadeia longa de ARN pode conter o código de muitas proteínas... em seguida as proteínas são separadas por electroforese... uma técnica possível seria a utilização de uma transcriptase, uma enzima... depois, se o ARN e o ADN não se combinarem, tal significa que o rato velho perdeu essa capacidade genética e ficaremos a saber quais os péptidos que mudaram... eventualmente acabarei por ter um só péptido...

 

A palestra prosseguiu por mais de uma hora entremeada por perguntas directas e pormenorizadas de Sam que impressionaram Célia. Embora Sam não tivesse educação científica os anos que tinha de Felding-Roth fizeram-no absorver muita da ciência de ponta e os resultados estavam à vista.

 

O entusiasmo de Peat-Smith transmitiu-se a ambos. E, à medida que ele falava clara e concisamente, revelando uma mente ordenada e disciplinada - crescia o respeito deles.

 

Já quase no fim do debate o cientista apontou para os ratos nas gaiolas:

 

- Estes são apenas alguns, pois temos várias centenas deles na nossa sala de animais. - Tocou numa gaiola e um rato grande, que estivera a dormir, espreguiçou-se. - Este velhote tem dois anos e meio; equivale a setenta anos no ser humano. Hoje é o seu último dia. Amanhã vamos sacrificá-lo e depois comparar a sua química cerebral com a de um rato nascido há poucos dias. Para se encontrar as respostas de que precisamos, será necessário um monte de ratos, um monte de análises químicas e um monte de tempo.

 

Sam acenou com a cabeça assinalando que compreendera.

 

- A nossa experiência pessoal torna-nos cientes do factor tempo. Agora, doutor, para resumir, como exprimiria o seu objectivo a longo prazo?

 

Peat-Smith pensou antes de responder. Depois explicou com cuidado:

 

- Descobrir, através de uma pesquisa genética continuada, um péptido cerebral que favorece a memória nas pessoas jovens, mas que, quando essas mesmas pessoas envelhecem, deixa de ser produzido pelo corpo humano. Depois, uma vez encontrado e isolado esse péptido, aprender a produzi-lo por técnicas genéticas. Por fim dá-lo a pessoas de todas as idades para minimizar perdas de memória, esquecimento... e eliminar, talvez, o envelhecimento cerebral.

 

O resumo era tão impressionante, com uma confiança tão profunda, sem ser arrogante, que nenhum dos visitantes interrompeu o silêncio que se lhe seguiu. Célia, apesar do ambiente deprimente que a rodeava, sentiu compartilhar um momento para ser recordado, um momento histórico.

 

Foi Sam quem falou primeiro.

 

- Doutor Peat-Smith, já tem a sua bolsa. A partir deste momento está aprovada e na quantia que pediu.

 

Peat-Smith ficou confuso.

 

- Quer dizer... é assim tão simples... assim? Foi a vez de Sam sorrir.

 

- Como presidente da Felding-Roth Pharmaceuticals tenho alguma autoridade. De vez em quando sinto prazer em exercê-la. - E acrescentou: - A única condição é aja habitual nestes casos, sempre implícita nestes contratos. Ficaremos em contacto com os seus progressos e teremos direito de prioridade sobre qualquer fármaco que descubra.

 

- Claro - disse Peat-Smith. - É compreensível. Parecia ainda tonto.

 

Sam estendeu-lhe a mão que o jovem cientista apertou.

 

- Parabéns e boa sorte!

 

Trinta minutos depois era hora do chá no Edifício de Bioquímica. A convite de Martin - os três tinham progredido para o uso de nomes próprios - subiram as escadas para a entrada onde chá e biscoitos eram servidos em carrinhos. Equilibrando as chávenas e os pires o trio dirigiu-se para o salão de chá da faculdade que, como Martin explicou, era o ponto de encontro para os cientistas que ali trabalhavam e os seus convidados.

 

O salão de chá, tão austero e pouco elegante como o resto do edifício, estava mobilado com mesas compridas e cadeiras e encontrava-se cheio e barulhento. Havia cientistas de todas as formas, sexos, tamanhos e idades, mas os fragmentos das conversas que se ouviam aqui e ali eram francamente pouco científicos. Uma das discussões era sobre os parques de estacionamento oficiais e um membro mais idoso protestava que o favoritismo em relação a um elemento mais novo o estava a privar dos seus direitos adquiridos. Mais adiante um entusiasta de barba e casaco branco falava de um saldo ”sensacional” de vinhos numa das lojas de Cambridge; recomendava-se um Meursault. Outro grupo dissecava um filme que corria na cidade -O Padrinho com Marlon Brando e Al Pacino.

 

Depois de algumas manobras e trocas de lugares com outros, Martin Peat-Smith conseguiu encontrar um canto para o seu grupo.

 

- É sempre assim? - perguntou Célia. Martin parecia divertido.

 

- Quase sempre. E quase toda a gente vem cá. É a única altura em que alguns de nós nos conseguimos encontrar.

 

- Segundo me parece - comentou Sam - o sistema deste edifício não permite grande privacidade.

 

Martin encolheu os ombros.

 

- Às vezes incomoda. Mas uma pessoa habitua-se.

 

- Mas tem de se habituar? - Como não houve resposta Sam continuou, baixando o tom de voz para não ser ouvido pelos vizinhos. - Estava a pensar, Martin, se não estarias interessado em prosseguir este teu trabalho mas em melhores condições, com maiores instalações e ajuda.

 

Um meio sorriso brincava no rosto do cientista quando perguntou:

 

- Melhores condições aonde?

 

- Estou a sugerir - disse Sam -, como decerto já adivinhaste, que deixes a Universidade de Cambridge e te juntes a nós, à Felding-Roth. Para ti teria muitas vantagens e seria mesmo aqui em Inglaterra onde estamos a planear...

 

- Desculpe! - Martin interrompeu-o com ar preocupado. - Posso fazer uma pergunta?

 

- Claro.

 

- A oferta de uma bolsa da vossa companhia está condicionada por isso?

 

- De maneira nenhuma - respondeu Sam. - Já tens a bolsa sem qualquer restrição, excepto aquela de que falámos. Tens a minha palavra.

 

- Obrigado. Senti-me, por momentos, preocupado. - O sorriso cheio e juvenil regressou. - Não pretendo ser rude mas acho que pouparemos a todos bastante tempo se vos disser uma coisa.

 

- Diz - foi Célia quem falou.

 

- Sou um cientista académico e pretendo continuar a sê-lo - declarou Martin. - Não vos vou dizer todas as razões mas uma delas é a liberdade. Quero com isto significar ser livre para fazer o tipo de pesquisas que me interessam sem quaisquer pressões comerciais.

 

- Connosco terias liberdade... - começou Sam, mas Martin fê-lo parar com um aceno de cabeça.

 

- Haveria sempre factores comerciais em causa. Diz-me com honestidade: não haveria?

 

- Bem, de vez em quando alguns - admitiu Sam. - No fim de contas temos um negócio.

 

- ’Exactamente. Mas aqui não existem considerações comerciais. Apenas ciência pura, uma busca do saber. Pretendo continuar assim. Querem mais chá?

 

- Não, obrigado - disse Célia. Sam abanou a cabeça. Levantaram-se para partir.

 

No corte de ténis, junto ao Jaguar alugado, Martin disse a Sam:

 

- Obrigado por tudo, incluindo a oferta de emprego. E a ti também, Célia. Mas ficarei em Cambridge que à excepção desta casa - olhou para trás de si e fez uma careta -, é um sítio lindo.

 

- Foi um prazer - disse Sam. - Quanto ao trabalhar para nós, se bem que lamente a tua decisão, compreendo-a.

 

Entrou no carro.

 

Do assento ao lado dele, com a janela aberta, Célia confessou a Martin:

 

- Cambridge é um sítio bonito. Nunca tinha cá estado. Gostaria de ter tempo para a ver melhor.

 

- Eh, alto aí! - disse Martin. - Quanto tempo vais estar em Inglaterra?

 

- Oh, talvez mais duas semanas.

 

- Então por que não voltas um dia destes? É fácil chegar até cá. Gostaria de te mostrar tudo.

 

- Também gostaria muito - disse Célia.

 

Enquanto Sam ligava o motor combinaram a visita para daí a dez dias - do domingo seguinte a oito dias.

 

No Jaguar, de regresso a Londres, Sam e Célia permaneciam silenciosos, ocupados com os seus pensamentos, até que saíram de Cambridge e tomaram a estrada A 10 em direcção ao sul.

 

Só então Célia perguntou:

 

- Queres o Martin, não queres? Queres que ele chefie o nosso Instituto de Pesquisa?

 

- Claro - respondeu Sam bruscamente, com tensão na voz. - É espantoso, acho-o um génio e é o melhor que vi desde que cá cheguei. Mas raios, Célia, não o vamos conseguir! É um académico e continuará a sê-lo. Ouviste o que ele disse e é óbvio que nada o fará mudar de ideias.

 

- Duvido - disse Célia pensativamente. - Duvido disso.

 

Para Sam e Célia os dias que se seguiram foram completamente preenchidos com problemas físicos de instalação do Instituto de Pesquisas da Felding-Roth em Harlow. Mas tal actividade, se bem que necessária, não satisfazia. A frustração que partilhavam - uma convicção de que o Dr. Martin Peat-Smith seria o ideal para director do instituto, mas uma igual certeza de Sam de que Martin nunca se mudaria do mundo académico para a indústria - pairava sobre eles como um desapontamento.

 

Na semana seguinte à viagem a Cambridge Sam declarou:

 

- Já vi outros candidatos, mas nenhum é do calibre do Peat-Smith. Infelizmente não o posso ter.

 

Quando Célia lembrou a Sam que voltaria a ver Martin no domingo seguinte, para a visita guiada a Cambridge, ele limitou-se a comentar sombriamente:

 

- Faz o que puderes, mas não me sinto optimista. É um jovem determinado e dedicado que se conhece bem a si mesmo.

 

E preveniu Célia:

 

- Quando falares com Martin nunca tragas à baila o assunto do dinheiro. Refiro-me ao salário que lhe pagaríamos caso viesse trabalhar connosco. Ele sabe, sem que lho tenhamos dito, que é muito quando comparado com o que ganha agora. Mas se lhe falares nisso vai pensar que acreditamos que possa ser comprado e que nós não passamos de dois americanos doidos convencidos de que neste mundo tudo se pode comprar com dólares.

 

- Mas, Sam - contrapôs Célia -, se Martin vier trabalhar para a Felding-Roth vão ter de discutir o salário em qualquer altura.

 

- Em qualquer altura, sim. Mas não no princípio porque o dinheiro nunca estará em questão. Acredita, Célia, que sei como são sensíveis estes tipos académicos e se, como tu crês, há uma possibilidade de que Martin mude de ideias não estraguemos as coisas por sermos doidos!

 

- Já agora - inquiriu Célia -, a que nível são os números? Sam pensou um pouco antes de responder.

 

- Segundo as informações que tenho Martin ganha umas duas mil e quatrocentas libras por ano; o que faz mais ou menos seis mil dólares. Para começar pagar-lhe-íamos quatro ou cinco vezes mais do que isso. Digamos entre vinte cinco e trinta mil dólares mais os prémios.

 

Célia assobiou baixinho.

 

- Não sabia que o abismo era tão grande.

 

- Mas os académicos sabem-no. E, mesmo sabendo, continuam a escolher a academia acreditando que há nela maior liberdade intelectual e que os cientistas encontram ”uma pesquisa mais pura” no ambiente das faculdades. Ouviste o Martin quando se falou de ”pressões comerciais” e o que ele pensava disso.

 

- Sim, ouvi - disse Célia. - Mas discutiste com ele e afirmaste que as pressões não eram grandes.

 

- Porque estou do lado da indústria e é minha função pensar assim. Mas em privado, só entre nós os dois, admito que talvez Martin tenha razão.

 

- Concordo contigo na maioria dos assuntos. Mas não estou assim tão certa neste - duvidou Célia.

 

A conversa era frustrante e acabou pouco depois. Resolveu obter uma ”segunda opinião”.

 

No sábado, na véspera da sua viagem a Cambridge, Célia falou ao telefone com Andrew e os filhos como fora seu hábito pelo menos duas vezes por semana durante o seu mês de estada em Londres. Eles e ela estavam excitados com a perspectiva do seu breve regresso, a menos de uma semana de distância. Depois da conversa familiar habitual Célia falou a Andrew do Dr. Peat-Smith, do desapontamento que fora a sua decisão e das conversas com Sam sobre tudo isto.

 

Informou também Andrew de que se ia encontrar no dia seguinte com Martin.

 

- Achas que vai mudar de ideias? - perguntou Andrew.

 

- O instinto diz-me que poderá mudar - respondeu Célia. - Talvez noutras circunstâncias, embora não faça a mínima ideia de quais serão. O que não quero, quando amanhã falarmos, é estragar tudo.

 

Houve um silêncio no telefone e podia sentir o marido a ruminar, a revolver as coisas dentro da mente. Só depois falou:

 

- Sam está em parte certo no que disse mas não em tudo. Segundo a minha experiência pessoal nunca insultamos alguém por lhe dizer que tem um alto valor monetário. Na verdade a maior parte de nós gosta de o saber, mesmo que não tenhamos a intenção de aceitar o dinheiro oferecido.

 

- Continua a falar - disse Célia. Respeitava os conselhos de Andrew, o seu jeito para ir directamente ao âmago da situação.

 

- Pelo que me disseste esse Peat-Smith é uma pessoa recta.

 

- Muito.

 

- Nesse caso sugiro que lides com ele da mesma maneira. Se fores complicada, tentando rodear as coisas, talvez prejudiques os teus fins. Além disso ser tortuosa não é o teu estilo, Célia. Sê tu própria. Dessa forma será natural falar em dinheiro, ou em qualquer outra coisa, numa conversa.

 

- Andrew, querido - respondeu ela -, que faria eu sem ti?

 

- Nada de importante, espero. - Acrescentou: - Agora que me falaste de amanhã admito que sinto uma pontinha de ciúmes de Peat-Smith.

 

Célia riu.

 

- Exclusivamente negócios. Nada mais. Agora era domingo.

 

Sozinha num compartimento de primeira classe para não fumadores de um comboio Londres-Cambridge, manhã bem cedo, Célia deixou a cabeça repousar na almofada do assento. Tranquila, preparou-se para usar a viagem de uma hora e um quarto para ordenar os seus pensamentos.

 

Um pouco antes tomara um táxi para a Estação de Liverpool Road - uma herança vitoriana carrancuda, de ferro e tijolo, freneticamente activa de segunda a sexta-feira, mas calma nos fins-de-semana. A calma significava que havia pouca gente no comboio eléctrico e Célia estava contente com a solidão.

 

Reconstruiu mentalmente os acontecimentos e conversações das duas semanas precedentes, pensando mais uma vez que conselho deveria seguir - de Andrew ou de Sam. O encontro com Martin, embora ostensivamente social, podia ser importante quer para a Felding-Roth, quer para ela própria. O aviso de Sam voltou-lhe ao espírito: ”Não estragues tudo com uma doidice!”

 

O som rítmico das rodas nos carris embalou-a e a viagem chegou ao fim depressa. Quando o comboio parou em Cambridge, Martin Peat-Smith - com as boas-vindas expressas no seu largo e acolhedor sorriso - esperava-a na plataforma da estação.

 

Aos quarenta e um anos Célia ainda tinha uma boa figura. E sabia-o. O cabelo castanho estava cortado curto, o corpo era delgado e firme, o seu rosto de maçãs salientes estava tisnado e saudável pelas recentes semanas fora de casa e o pouco usual benevolente Verão inglês que hoje continuava.

 

Na sua cabeça apareciam já uns cabelos brancos. Esta marca do tempo que passava pouco a incomodava, embora às vezes camuflasse o facto com um colorante. Aplicara-o na véspera.

 

Trajava como se fosse um dia de Verão, com um vestido de algodão, verde e branco, de saia rendada. Calçava umas sandálias brancas de salto alto e usava na cabeça um chapéu branco de palha cem abas largas. O conjunto fora adquirido na semana anterior em West End, Londres, porque, ao fazer as malas em Nova Jérsia, não lhe ocorrera que precisaria de roupas de Verão em Inglaterra.

 

Ao descer do comboio apercebeu-se do olhar admirador de Martin. Ele pareceu ficar uns instantes sem palavras, mas, depois, pegando na mão que ela estendera, disse:

 

- Olá! Estás linda e estou satisfeito pela tua presença.

 

- Também não estás nada mal.

 

Martin riu-se com um sorriso arrapazado. Envergava um casaco azul-marinho, calças brancas e uma camisa de gola aberta.

 

- Prometi-te usar o meu fato - disse ele -, mas encontrei isto que já não usava há anos. Acho-o menos formal.

 

Célia deu-lhe o braço enquanto se encaminhavam para a saída da estação.

 

- Onde vamos?

 

- Tenho o automóvel lá fora. Penso que vamos andar um bocado de carro, outro bocado a pé e depois faremos um piquenique.

 

- O programa não soa nada mal!

 

- Enquanto estás aqui há mais alguma coisa que queiras fazer ou ver? Ela hesitou antes de responder:

 

- Sim, há mais uma coisa.

 

- O quê?

 

- Gostaria de ver a tua mãe.

 

Martin, surpreendido, virou-se para a olhar.

 

- Posso levar-te a casa dos meus pais depois de acabarmos a nossa volta. Se é isso mesmo que queres.

 

- Sim - disse ela -, é isso que quero.

 

O carro de Martin era um Morris Mini Minor de idade indefinida. Depois de se terem encaixado lá dentro ele fez o circuito das velhas ruas de Cambridge e estacionou em Queen’s Road, junto aos Backs.

 

- Agora vamos andar a pé - disse ele a Célia.

 

Deixando ali o carro tomaram um caminho até à King’s Bridge sobre o rio Cam. Célia parou na ponte. Pondo uma mão em pala sobre os olhos para afastar o brilhante sol matinal, disse:

 

- Nunca vi coisa mais bonita.

 

Ao lado dela Martin anunciou tranquilamente:

 

- King’s College Chapei... a mais nobre das vistas.

 

Logo à frente havia relvados serenos e árvores com sombra. A seguir estava a grande capela - uma visão de torres, contrafortes poderosos e espirais ligeiras que subiam acima de um tecto glorioso em abóbada e janelas com vitrais. A pálida pedra das faculdades situadas no outro lado emprestava mais um toque de história e nobreza.

 

- Permite que comece a minha actuação de cicerone - disse Martin. - É assim. Somos muito antigos. Em mil quatrocentos e quarenta e um o rei Henrique quarto começou aquilo que aqui vês e Peterhouse, mais a sul, é ainda mais antiga. Iniciou a ”busca do saber por Cambridge” em mil duzentos e oitenta e quatro.

 

Sem pensar Célia disse impulsivamente:

 

- Como é que alguém que pertença verdadeiramente a isto tudo pode abandonar este lugar?

 

- Muitos não o fizeram - respondeu Martin. - Grandes homens viveram e morreram em Cambridge. E alguns de nós, jovens e vivos, temos iguais intenções.

 

Andaram a pé e de carro por mais de duas horas e assim Célia embebeu-se no fascínio e amor de Cambridge. Os nomes dos lugares ficaram nela: Jesus Green, Midsummer Common, Parker’s Piece, Coe, Coe Fen, Lammas Land, Trinity, Queen’s, Newnham. A lista parecia não ter fim tal como os conhecimentos de Martin.

 

- Assim como muitos escolásticos ficaram também outros partiram disse-lhe ele. - Um foi John Harvard, do Emmanuel College. Há um sítio com o nome dele. - Lançou um dos seus sorrisos. - Esqueci-me aonde.

 

Quando mais uma vez voltavam para o Mini, Martin declarou:

 

- Acho que por hoje basta. Vamos guardar alguma coisa para outra altura. De repente o seu rosto ficou sério. - Ainda queres ver os meus pais? Desde já te aviso: a minha mãe não vai reconhecer nenhum de nós, nem sequer vai saber por que estamos lá. O efeito pode ser deprimente.

 

- Sim - disse Célia -, ainda quero.

 

A casa com terraço, pequena e comum, situava-se num bairro chamado Kite. Martin estacionou na rua e usou uma chave para entrar. De uma entrada pequena e mal iluminada gritou:

 

- Papá! Sou eu e trago uma visita!

 

Ouviu-se um som de passos abafados, abriu-se uma porta e um homem idoso, vestindo uma camisola usada e umas calças velhas, apareceu. Quando ele se aproximou Célia ficou admirada com a semelhança entre pai e filho. O Peat-Smith mais velho tinha a mesma solidez do mais novo, a mesma cara rugosa e quadrada - embora mais escavada pela idade - e até o sorriso espontâneo que lhe deu ao serem apresentados parecia um duplicado do sorriso de Martin.

 

Quando o homem mais velho falou a semelhança cessou. A sua voz revelava um sotaque provinciano, discordante, rouco; as suas frases, mal estruturadas, sugeriam pouca educação.

 

- Muito prazer em conhecê-la - disse ele a Célia. E, dirigindo-se a Martin: Não sabia que vinhas, filho. Acabei mesmo agora de vestir a mãe. Não tem estado boa hoje.

 

- Não vamos demorar-nos muito, papá - disse Martin acrescentando para Célia: - A Alzheimer tem sido um fardo para o meu pai. Sucede quase sempre assim... é mais duro para as famílias que para os doentes.

 

Quando passaram a uma sala de estar modesta e mal mobilada Peat-Smith, sénior, perguntou a Célia:

 

- Não quer uma chávena?

 

- Chá - acrescentou Martin.

 

- Muito obrigado, gostaria sim - disse Célia. - A nossa volta fez-me sede. Enquanto o pai de Martin estava ocupado na pequena cozinha Martin foi-se

 

ajoelhar ao lado de uma mulher de cabelos grisalhos sentada numa cadeira de braços com uma coberta de flores. Ela não se mexera desde que ali tinham entrado. Abraçou-a e beijou-a com ternura.

 

Outrora, pensou Célia, aquela velhinha fora bonita e mesmo agora havia nela algo agradável. O cabelo estava impecavelmente penteado. Usava um simples vestido claro com uma fila de contas. Pareceu ter uma leve reacção ao beijo do filho e sorriu um pouco, mas não, ao que parecia, por o reconhecer.

 

- Mãe, sou eu, o seu filho, Martin - disse Martin; a voz dele era terna. E esta senhora é Célia Jordan. É da América. Estive a mostrar-lhe Cambridge. Ela gosta da nossa cidadezinha.

 

- Como está, senhora Peat-Smith? - disse Célia. - Obrigado por me deixar visitar a sua casa.

 

Os olhos da mulher grisalha mexeram-se mais uma vez com aquela tantalizante sensação de reconhecimento. Mas Martin disse a Célia:

 

- Nada resta dela, acho eu. Nenhuma memória. Mas com a minha mãe permito-me ser um não-cientista e continuar a tentar comunicar.

 

- Percebo. - Célia hesitou antes de perguntar: - Julgas que, se a tua pesquisa progredir, se descobrires depressa algo importante, possa haver a possibilidade...

 

- De a ajudar? - perguntou Martin com determinação. - Absolutamente nenhuma. Nenhuma descoberta fará reviver uma célula cerebral morta. Não tenho ilusões a esse respeito. - Pondo-se de pé olhou com tristeza para a mãe. - Não, só poderei ajudar os outros. Outros que não tenham avançado tanto.

 

- Estás seguro disso, não estás?

 

- Estou seguro de que serão encontradas respostas, sejam por mim, sejam por outras pessoas.

 

- Mas gostarias de seres tu a descobri-las. Martin encolheu os ombros.

 

- Qualquer cientista gosta de ser o primeiro a fazer uma descoberta. É humano que assim seja. Mas - olhou para a mãe - o que importa é que alguém descubra a causa da doença de Alzheimer.

 

- Sendo assim é possível - insistiu Célia - que não sejas tu a descobri-la primeiro.

 

- Sim - disse Martin. - Em ciência é sempre possível que isso aconteça. Peat-Smith, sénior, saiu da cozinha com um tabuleiro contendo um bule de chá,

 

pires, chávenas e uma leiteira. Quando o tabuleiro foi pousado Martin colocou o braço sobre os ombros do pai.

 

- O papá faz tudo para a mãe: veste-a, penteia-a, alimenta-a e até faz outras coisas menos agradáveis. Em tempos, Célia, eu e o meu pai não éramos lá muito amigos. Mas agora somos.

 

- Isso mesmo. Costumávamos ter grandes discussões - disse o pai de Martin. Perguntou a Célia: - Quer leite no chá?

 

- Sim, se faz favor.

 

- Nesses tempos - disse o velho - eu não dava valor a esses tipos das escolas como o Martin e a mãe. Queria que ele fosse trabucar cá comigo. Mas isto é melhor, as coisas como estão, têm sido porreiras prá gente. Paga a casa e quase tudo o que precisamos. - Olhou para Martin. - E naquela faculdade ouvi dizer que ele não anda mal de todo.

 

- Não - disse Célia -, não anda mal de todo.

 

Quase duas horas mais tarde.

 

- Não te incomodas de falar enquanto fazes isso? - inquiriu Célia do confortável assento almofadado em que se instalara.

 

- Não. Porquê?

 

Enquanto falava, Martin, que estava de pé, lançou a longa vara para longe da chata; encontrou o fundo do rio e empurrou a vara fazendo deslizar a embarcação. Martin parecia fazer tudo bem, pensou Célia, incluindo manejar a vara - uma coisa para que pouca gente tinha habilidade a julgar pelos outros com quem se tinham cruzado no rio e que, por comparação, faziam todo o caminho aos esticões.

 

Martin alugara a chata num dos cais de Cambridge e iam agora a caminho de Grantchester, três milhas para o sul, para o que seria um piquenique tardio.

 

- Isto é apenas pessoal - disse Célia - e talvez não devesse fazer a pergunta. Mas tenho estado a pensar na diferença entre tu e o teu pai. Por exemplo: a forma como falam... e não me estou a referir apenas à gramática...

 

- Sei o que queres dizer- disse Martin. - Quando a minha mãe falava, antes de se ter esquecido de como o fazer, falava mais ou menos da mesma maneira. No Pigmalião, Bernard Shaw chamava-lhe ”um insulto encarnado à língua inglesa”.

 

- Lembro-me dessa frase em My Fair Lady1 - assentiu Célia. - Mas tu evitaste isso. Como?

 

1 Filme de 1964 de George Cukor (1899-1983) que se baseia na peça de Bernard Shaw (1856-1950) Pigmalião. (N. do E.)

 

- É mais uma coisa que devo à minha mãe. Mas antes que te explique há uma coisa que tens de perceber sobre este país. Em Inglaterra a maneira como as pessoas falam tem sido desde sempre uma barreira entre classes, uma distinção social. E, embora te possam dizer o contrário, ainda o é.

 

- E é assim também no mundo académico? Entre cientistas?

 

- Mesmo aí. Talvez sobretudo aí.

 

Martin ocupou-se da vara enquanto meditava nas próximas palavras.

 

- A minha mãe compreendeu essa barreira. Por isso, quando eu era ainda muito novo, comprou um rádio e obrigou-me a passar horas e horas sentado na frente dele a ouvir os locutores da BBC. Dizia-me ela: ”É assim que tens de falar: começa a imitar estas pessoas. Para mim e para o pai é tarde de mais mas para ti não.”

 

Ao escutar a voz de Martin, agradável e cultivada, mas. sem afectação, Célia comentou:

 

- Deu resultado.

 

- Acho que sim. Mas foi uma das muitas coisas que ela fez, incluindo descobrir o que me interessava mais na escola, onde estavam as bolsas de estudo e certificando-se de que eu as conseguiria. Era nessa altura que tínhamos lá em casa as zangas de que o meu pai falou.

 

- Ele julgava que a tua mãe estava a exagerar?

 

- Sempre esteve convencido de que eu seria um pedreiro como ele. O meu pai acreditava naquele verso de Dickens. - Martin sorriu ao citá-lo:

 

Oh, amemos as nossas ocupações, Abençoemos o rústico e as suas relações, Vivamos das nossas diárias rações, E saibamos sempre as nossas devidas situações.

 

- Mas não guardas rancor ao teu pai por isso, pois não? Martin negou com a cabeça.

 

- Ele não era capaz de entender. E eu também não. Só a minha mãe entendia o que se podia alcançar pela ambição, e por mim. Talvez agora percebas melhor por que me preocupo tanto com ela.

 

- Decerto - disse Célia. - E agora que o sei também sinto o mesmo. Mergulharam no silêncio enquanto a chata subia o rio entre margens verdes e árvores folhosas. Um bocado depois Célia disse:

 

- O teu pai afirmou que tu pagas a maior parte daquilo que eles precisam.

 

- Faço o que posso - confessou Martin. - Uma das coisas que faço é mandar uma enfermeira duas manhãs por semana. Dá uma folga ao meu pai. Gostaria que a enfermeira lá fosse mais vezes mas... - Encolhendo os ombros deixou a frase por acabar e, com perícia, colocou a chata junto à margem debaixo da sombra de um salgueiro. - Que tal para fazer o piquenique?

 

- Idílico - disse Célia. - Directamente saído de Camelot.

 

Martin metera num cesto uns lagostins, uma empada de porco Melton Mowbray, uma salada fresca, morangos e espessas e amarelas natas de Devonshire. Havia vinho - um respeitável Chablis - e um termo com café.

 

Comeram e beberam com gosto.

 

No fim da refeição, ao café, Célia comentou:

 

- Este é o meu último fim-de-semana antes de regressar a casa. Não podia ter sido melhor.

 

- A tua viagem foi bem sucedida?

 

Célia ia responder com uma trivialidade quando se lembrou do conselho telefónico de Andrew e respondeu:

 

- Não.

 

- Porquê? - Martin parecia surpreso,

 

- Sam Hawthorne e eu descobrimos o director ideal para o Instituto de pesquisas da Felding-Roth, mas ele não aceitou o cargo. Tudo o resto parece ter ficado em segundo lugar.

 

Após um silêncio Martin disse:

 

- Presumo que estejas a falar de mim.

 

- Sabes bem que estou. Ele suspirou.

 

- Espero que me perdoes essa delinquência, Célia.

 

- Nada há a perdoar. A vida é tua, a decisão também - assegurou-lhe ela. Só que, ao pensar agora nisso, houve duas coisas... - Não completou a frase.

 

- Continua. Que duas coisas?

 

- Bem, há bocado admitiste que gostarias de ser o primeiro a descobrir as respostas sobre a doença de Alzheimer e o envelhecimento mental, mas que outros poderão consegui-lo antes de ti.

 

Martin reclinou-se na chata contemplando Célia; dobrara o casaco e usava-o como almofada.

 

- Há outros a fazerem as mesmas experiências que eu. Conheço alguns na Alemanha, na França, na Nova Zelândia. São pessoas competentes e todos nós perseguimos os mesmos objectivos e exploramos a mesma trilha. É impossível saber qual de nós está à frente, se é que algum o está.

 

- Afinal estás numa corrida - disse Célia. - Uma corrida contra o tempo. Inconscientemente a sua voz endurecera.

 

- Sim. Mas a ciência é assim mesmo.

 

- Algum dos outros tem melhores instalações ou mais pessoal do que tu?

 

- Talvez ”sim” a ambas as perguntas no que respeita à Alemanha. Não sei nada dos outros dois.

 

- De que espaço de laboratório dispões tu?

 

- No conjunto - Martin calculou mentalmente - uns cem metros quadrados.

 

- Não te ajudaria a chegares mais perto, e mais depressa, daquilo que procuras se tivesses cinco vezes mais espaço e respectivo equipamento. Tudo aquilo de que necessitasses e tudo só para o teu projecto, mais aí umas vinte pessoas a trabalharem para ti em vez de duas ou três? Será que isso não faria as coisas andarem mais depressa e não só descobririas as respostas como as descobririas primeiro?

 

De repente Célia apercebeu-se de que o estado de espírito entre os dois mudara. Já não era uma ocasião social; toda a inocência se evaporara. Subtilmente tornara-se numa luta de intelectos e vontades. Bem, pensou Célia, foi por isto que vim a Inglaterra e estou hoje em Cambridge.

 

Martin olhava-a com ar divertido.

 

- Estás a falar a sério? Quinhentos metros quadrados e vinte pessoas?

 

- Raios! Claro que estou a falar a sério! - E acrescentou com impaciência: Julgas que nós, na indústria farmacêutica, andamos a brincar?

 

- Não - disse ele ainda a olhar para ela. - Não penso isso. Disseste que havia duas coisas. Qual é a outra?

 

Célia hesitou. Deveria prosseguir? Sentia que as suas afirmações tinham causado em Martin uma profunda impressão. Não destruiria agora isso, perdendo toda a vantagem que ganhara? Mas, mais uma vez, lembrou-se de Andrew.

 

- Vou anunciar-to cruel e directamente, à maneira doida dos Americanos disse Célia -, e digo-o, porque sei que os investigadores como tu não estão motivados pelo dinheiro e não podem ser comprados. Mas se trabalhasses na Felding-Roth, te tornasses director do nosso instituto e trouxesses contigo o teu projecto provavelmente irias ganhar umas doze mil libras por ano, mais prémios, que podem ser substanciais. Tenho razões para crer que é cinco vezes o que ganhas agora. Mais ainda: tendo conhecido os teus pais e sabendo aquilo que estás a fazer por eles, e tendo uma ideia do que gostarias de fazer ainda mais, penso que poderias usar esse dinheiro. Decerto que poderias mandar a enfermeira mais do que duas vezes por semana, colocar a tua mãe num local melhor...

 

- Basta! - Martin sentara-se e olhava-a intensamente; tornara-se emocional. - Diabos te levem, Célia! Sei o que o dinheiro pode fazer. E não me lances essa tolice das pessoas como eu não se interessarem por ele. Eu interesso-me como o diabo e o que me acabas de dizer é levado da breca. Estás a pretender minar-me, tentar-me, obter vantagens...?

 

- Não sejas ridículo! Que vantagem?

 

- De teres encontrado os meus pais com um fim em vista. Viste como eles vivem e como gosto deles. E assim, aproveitando-te disso, estás a oferecer-me uma maçã dourada, a fazer o papel de Eva e eu o de Adão. - Olhou em volta. E ainda por cima no Paraíso.

 

- Não é uma maçã envenenada - retorquiu calmamente Célia - e não há nenhuma serpente neste barco. Escuta, lamento se...

 

Martin interrompeu-a sem delicadezas.

 

- Não lamentas, não! És uma mulher de negócios que é boa na sua profissão. Diabolicamente boa; posso testemunhá-lo! Mas uma mulher de negócios que vai em frente, sem barreiras, até conseguir o que pretende. És mesmo implacável, não és?

 

Agora era Célia a surpreendida.

 

- Sou?

 

- Tu - respondeu ele com ênfase.

 

- Está bem - disse Célia; sairia tão bem como entrara, decidiu. Suponhamos que o sou. E suponhamos que tudo o que disseste é verdade. Não é também o que tu queres? As respostas sobre a doença de Alzheimer! O péptido cerebral que procuras! Glória científica! E estas coisas não te estão a burlar?

 

- Não - disse Martin -, não estão. - Sorriu, mas havia no sorriso um toque de tristeza. - Espero que te estejam a pagar bem, Célia. Para doida americana, como te chamaste, tens um emprego tramado. - Pôs-se em pé e pegou na vara. É tempo de regressarmos.

 

Desceram o rio em silêncio. Martin lançava e empurrava a vara com uma ferocidade que não mostrara na viagem de ida. Célia, ocupada com os seus pensamentos, tentava saber se não teria ido longe de mais. Já perto da cidade e do cais Martin parou de usar a vara e deixou o barco ir à deriva. Do seu lugar elevado olhou para Célia com ar solene.

 

- Não sei a resposta. Só sei que me perturbaste - disse-lhe ele. - Mas ainda não a sei.

 

A tarde chegava ao fim quando Martin deixou Célia na estação de Cambridge e se despediram de uma maneira formal, quase tensa. O comboio de regresso de Célia era um daqueles pachorrentos que param em quase todas as estações e já passava das 23.30 quando chegou ao terminal londrino, desta vez a King’s Cross. Tomou um táxi para Berkeley, chegando ao hotel pouco antes da meia-noite.

 

Durante a maior parte da viagem Célia reconstituíra os acontecimentos do dia, em especial a parte que lhe coubera. O que mais a afectara, mais que qualquer outra coisa, fora a acusação de Martin: ”És mesmo implacável, não és?” Seria ela implacável? Mirando-se num espelho mental Célia admitiu que talvez o fosse. Depois corrigiu-se: ”Não ’talvez’. Antes ’certamente’.”

 

Mas, raciocinou ela, não seria às vezes necessário ser-se implacável? Necessário - sobretudo para uma mulher - para traçar uma carreira, como o fizera Célia, e chegar aonde chegara? ”Sim. Claro!”

 

Além disso, recordou a si mesma, implacabilidade não é - ou, melhor, não precisa de ser - igual a desonestidade. Na essência era uma atitude de ser dura no negócio, de tomar certas decisões difíceis e desagradáveis, de lutar pelo essencial e dispensar um excesso de preocupações sobre os outros indivíduos. Havia igualmente outro ponto: se no futuro as suas responsabilidades aumentassem teria de ser ainda mais dura, mais implacável do que até aqui fora.

 

Nesse caso, se ser implacável era um facto na vida dos negócios, por que é que o comentário de Martin a incomodara daquela maneira? Talvez porque ela gostava dele e o prezava e pretendesse que ele sentisse o mesmo a respeito dela. Bem, sentiria? Célia pensou um bocado antes de concluir que não, depois do que se passara naquela tarde.

 

No entanto a opinião de Martin era assim tão importante? A resposta: Não! Uma razão: havia algo ainda de criança em Martin apesar dos seus trinta e dois anos. Célia ouvira uma vez alguém dizer referindo-se aos cientistas: ”Passam tanto tempo das suas vidas a tornarem-se mais sábios que pouco tempo lhes sobra para o resto e, nalguns aspectos, permanecem sempre crianças.” Decerto que isto se aplicava em parte a Martin. Célia sabia que era muito mais pessoa do mundo que ele.

 

Nesse caso o que era importante? Não os sentimentos pessoais de Martin, nem sequer os de Célia, mas o resultado do dia.

 

Verdade? Sim, mais uma vez.

 

Quanto ao resultado - Célia suspirou por dentro - não era nada optimista. De facto ela decerto conseguira, na expressão de Sam, ”estragar tudo por ser doida”. Quanto mais pensava no assunto menos lhe agradava o que fizera, mais as memórias do dia a deprimiam. A depressão persistiu até chegar ao hotel.

 

Na recepção do Berkeley foi saudada por um porteiro de uniforme.

 

- Boa noite, senhora Jordan. Teve um dia agradável?

 

- Tive, obrigada. - Na sua mente acrescentou: ”Só algumas partes.”

 

Ao virar-se para lhe entregar a chave o porteiro deu-lhe também algumas mensagens que ela aceitou. Lê-las-ia mais tarde, no quarto.

 

Então, quando já se ia embora, Célia ouviu:

 

- E, já me esquecia, senhora Jordan, esta chegou há poucos minutos. Telefonou um cavalheiro. Eu próprio a recebi. Não parece fazer grande sentido, mas ele informou-me de que a senhora entenderia.

 

Cansada e desinteressada, Célia olhou o bocado de papel. Mas os seus olhos abriram-se muito. A mensagem dizia:

 

PARA TUDO EXISTE UMA ESTAÇÃO INCLUINDO

 

PARA AMERICANOS DOIDOS QUE TRAZEM PRESENTES.

 

OBRIGADO. ACEITO. MARTIN.

 

Invulgarmente, e com a reprovação no rosto do porteiro, a calma recepção do Berkeley ecoou com um grito alto e penetrante de Célia;

 

- lupiiii!!!

 

Alguns dias antes do passeio domingueiro de Célia a Cambridge, os Hawthorne tinham deixado Inglaterra para uma breve visita a Paris e daí tinham voado directamente para Nova Iorque, no sábado. Por isso só na segunda-feira, às 15.30, hora de Londres, é que Célia falou ao telefone com Sam no seu gabinete na Felding-Roth, em Nova Jérsia.

 

Quando ela o informou da aceitação de Martin Peat-Smith ele reagiu entusiasmado.

 

- Estou deliciado, espantado. Célia, és incrível! És incrível! Como diabo o conseguiste?

 

Ela já estava à espera da pergunta e começou com cautela:

 

- Já não sei se vais gostar de saber... - E contou-lhe a conversa que tivera com Martin sobre dinheiro e como isso, mais que qualquer outra coisa, influenciara a decisão dele.

 

No outro extremo da linha Sam resmungou de forma audível.

 

- Oh, merda! Peço-te perdão. - Depois acrescentou: - Fui eu quem te avisou para não falares de dinheiro. Como podia estar assim tão errado?

 

- Não podias saber - assegurou-lhe Célia. - Eu apenas sondei e descobri alguns dos problemas de Martin. A propósito: chamou-me implacável por fazer tudo isto.

 

- Não ligues! O que fizeste deu os resultados que queríamos. Eu poderia ter feito o mesmo, mas não tenho a tua visão e persistência.

 

”E não tens o Andrew para te aconselhar”, pensou Célia. Em voz alta disse:

 

- Sam, por amor de Deus, pára de te culpares! Não é necessário.

 

- Está bem, está bem. Mas vou-te pedir um favorzinho.

 

- Qual?

 

- Se alguma vez no caminho tu e eu diferirmos numa questão de avaliação que seja importante tens a minha permissão para me recordares este incidente e que tu é que tinhas razão e eu estava errado.

 

- Espero que isso nunca aconteça - disse Célia. Sam mudou de assunto:

 

- Regressas esta semana, não é?

 

- Depois de amanhã. Amo Londres, mas amo ainda mais Andrew e as crianças.

 

- Óptimo! Quando chegares a casa o melhor que tens a fazer é tirares uns dias de folga para estares com eles. Mas, daqui a poucas semanas, quero voltar a Inglaterra. Haverá mais coisas para fazer em relação ao instituto; precisamos também de contratar um administrador. As capacidades investigadoras de Martin são demasiado importantes para as desperdiçar com trabalho de organização e de escritório.

 

- Concordo - disse Célia - e acho tudo bem.

 

- Outra coisa boa - afirmou Sam - é que nos poucos dias que passei em Paris na semana passada adquiri os direitos americanos de um novo fármaco francês para a Felding-Roth. Está ainda em fase experimental e não ficará pronto antes de dois anos. Mas parece extremamente promissor.

 

- Parabéns! Já tem nome?

 

- Tem - respondeu Sam. - Chama-se Montayne. Depois vais ouvir mais coisas sobre ele.

 

O resto de 1972 e o ano de 1973 foram, para Célia, uma época excitante e estimulante. Fez mais cinco viagens a Inglaterra, todas elas com várias semanas de duração. Em duas delas Andrew juntou-se-lhe durante parte do tempo; noutra foi acompanhada por Lisa e Bruce. Quando Andrew foi a Inglaterra encontrou-se com Martin; os dois homens gostaram um do outro e mais tarde Andrew confidenciou a Célia:

 

- A única coisa de que o Martin precisa é de uma mulher como tu para partilhar com ele a vida. Espero que encontre uma.

 

Quando as crianças se encontravam com ela, e nas alturas em que não estava a trabalhar, Célia, Lisa e Bruce inspeccionaram a paisagem de Londres até segundo as palavras de Célia - ”ao ponto da exaustão”.

 

Bruce, agora com doze anos, revelou-se um viciado em História. E ele próprio explicara numa manhã de domingo enquanto os três davam a volta à Torre de Londres:

 

- Está tudo ali, mamã, para quem quiser descobrir: o que esteve certo e quais foram todos os erros. Podemos aprender imenso com o que já aconteceu.

 

- Sim, podemos - concordou Célia. - Infelizmente a maior parte de nós nada aprende.

 

A fascinação de Bruce pela História continuou na segunda visita a Cambridge conduzida, desta vez para as crianças, por Martin Peat-Smith. Célia encontrava Martin com regularidade durante as suas viagens a Inglaterra embora o tempo que passaram juntos fosse pouco, dado estarem ambos muito ocupados.

 

Martin, agora que tomara a decisão de entrar para a Felding-Roth, mostrou-se responsável e sabedor das necessidades em equipamentos e pessoal. Recrutou outro químico do ácido nucleico, o Dr. Rao Sastri, um jovem paquistanês que seria um segundo na pirâmide de comando do sector científico. Admitiram técnicos especialistas incluindo um perito em culturas de células e outro na electroforese das proteínas e ácidos nucleicos. Uma mulher, contratada como supervisora dos animais, cuidaria do bem-estar das centenas de ratos e coelhos que seriam usados nas experiências.

 

Durante as visitas a Harlow, Martin discutiu a localização dos laboratórios, pessoal e equipamentos no edifício onde a conversão estava já em marcha. No entanto tais visitas eram curtas e, até que o instituto estivesse pronto, Martin continuaria as suas pesquisas no laboratório de Cambridge. Tirando as excursões necessárias a Harlow, insistiu sempre que o seu tempo não fosse gasto em questões administrativas que podiam ser tratadas por outros - uma estratégia já endossada por Sam Hawthorne e implementada por Célia.

 

Célia contratou um administrador chamado Nigel Bentley. Era um homem pequeno e confiante, parecia um pardal, no meio da casa dos cinquenta, que há pouco tempo se reformara da Royal Air Force onde, com a patente de chefe de esquadrilha, tinha a seu cargo a administração de um grande hospital da RAF. As qualificações do ex-oficial para o cargo eram excelentes; percebeu também o que se esperava dele.

 

Na presença de Célia o administrador disse a Martin:

 

- Quanto menos eu o incomodar, sir. Na verdade quanto menos vezes me vir, melhor estarei a desempenhar o meu trabalho.

 

Célia gostara da afirmação e também do ”sir” que fora uma maneira graciosa de tornar bem claro que Bentley compreendia a relação que se esperava que ele mantivesse com o jovem cientista.

 

Entre as viagens a Inglaterra, e quando Célia estava nos Estados Unidos, ocorreu na sua vida - pelo menos do seu ponto de vista - um marco pessoal. Foi em Setembro de 1972 quando Lisa, com catorze anos, saiu de casa para entrar num colégio interno. A escola era a Emma Willard, no estado de Nova Iorque, e toda a família acompanhou Lisa na sua odisseia. Na noite anterior, quando estavam a jantar em casa, Célia perguntou com nostalgia a Andrew:

 

- Para onde foram todos estes anos?

 

Mas foi Lisa - sempre prática - quem respondeu.

 

- Aconteceram enquanto conseguia todas aquelas promoções no emprego, mamã. Já calculei que estarei a sair da faculdade quando a mamã se sentar na cadeira do senhor Hawthorne.

 

Todos riram com isto e a boa disposição prolongou-se pelo dia seguinte quando eles, com outros pais, famílias e raparigas, foram iniciados na beleza, espírito vivo e tradições da Emma Willard School.

 

Duas semanas depois Célia voltou a Inglaterra. Sam Hawthorne, profundamente envolvido noutras exigências da presidência da companhia, deixava a cargo dela quase todos os detalhes da cena britânica.

 

Por fim, em Fevereiro de 1973, o Felding-Roth Research Institute (U.K.) Limited foi oficialmente inaugurado. Na mesma altura o projecto do Dr. Martin Peat-Smith sobre a doença de Alzheimer e processo de envelhecimento mental foi transferido de Cambridge para Harlow.

 

Fora decidido, como questão de política da companhia, que por enquanto não haveria outro projecto de pesquisa na Grã-Bretanha. A razão, explicara Sam ao conselho de directores reunido em Nova Jérsia, era a de que ”o projecto que agora temos é em conta relógio, diabolicamente excitante e com enormes possibilidades comerciais; devemos por isso concentrarmo-nos nele”.

 

Não foi feita grande algazarra pública sobre a abertura de Harlow.

 

- O tempo para fanfarras - declarara Sam, que voara propositadamente para a inauguração - é quando tivermos alguma coisa positiva para mostrar e esse tempo ainda não chegou.

 

O que seria algo positivo?

 

- Dá-me dois anos - dissera Martin a Sam e a Célia num momento de repouso privado. - Nessa altura devem existir progressos para mostrar.

 

Depois da abertura do instituto as visitas de Célia a Inglaterra tornaram-se mais espaçadas e mais curtas. Durante algum tempo ainda foi, como representante de Sam, para ajudar a limar alguns problemas ligados ao arranque. Mas, de forma geral, Nigel Bentley parecia justificar a confiança que nele fora depositada ao ser nomeado administrador.

 

De Martin não chegavam quaisquer notícias específicas excepto, através de Bentley, de que a pesquisa continuava.

 

Na sede da Felding-Roth, em Nova Jérsia, Célia continuava a ser a assistente especial do presidente, trabalhando noutros projectos que Sam lhe entregava.

 

Foi neste período que, na cena nacional, rebentou o abcesso pestilento de Watergate. Célia e Andrew, como milhões de outros em todo o Mundo viam a parada dos acontecimentos todas as noites na televisão e estavam apanhados no fascínio do drama que se desenrolava. Célia lembrava-se de como, há um ano atrás, na viagem para Harlow com Sam, pusera de lado a primeira notícia sobre Watergate considerando -aquilo uma coisa insignificante.

 

Quase no fim de Abril, com a tensão a subir, dois auxiliares do presidente Haldeman e Ehrlichman - foram atirados aos lobos pelo presidente Nixon numa tentativa de se salvar a si mesmo. Depois, em Outubro, para aumentar a miséria de Nixon e da nação, o vice-presidente Agnew foi demitido por outro caso de corrupção, não relacionado com Watergate. Finalmente, dez meses depois, o próprio Nixon tornou-se com relutância o primeiro presidente americano a resignar. Como comentara Andrew, ”diga o que disser a História pelo menos ele ficará no Guinness - O Livro dos Recordes”.

 

O sucessor de Nixon concedeu prontamente a este uma amnistia contra qualquer procedimento criminal e, quando lhe foi perguntado se isso não era mais uma das coisas comuns em política, proclamara: ”Não houve qualquer acordo.”

 

Vendo e ouvindo a declaração na televisão, Célia perguntara a Andrew:

 

- Acreditas naquilo?

 

- Não.

 

Ao que ela retorquira enfaticamente:

 

- Eu também não.

 

Mais ou menos na mesma altura - menos significativo para a cena nacional, mas importante para a família Jordan - foi a vez de Bruce sair de casa para a escola preparatória - a Hill School, em Pottstown, Pensilvânia.

 

Durante todo este período, e até 1975, a sorte da Felding-Roth, se bem que não espectacular, manteve-se a bom nível. Foram auxiliados por dois produtos criados pelos laboratórios da companhia - um anti-inflamatório para a artrite reumatóide e um beta-bloqueante chamado Staidpace, um medicamento para reduzir os batimentos cardíacos e a pressão sanguínea. O medicamento da artrite tinha apenas um sucesso moderado, mas o Staidpace provou ser um excelente produto, amplamente utilizado.

 

O Staidpace poderia ter contribuído ainda mais para os rendimentos da Felding-Roth não fora a sua aprovação nos Estados Unidos retardada pela Food and Drug Administration durante um período inconcebivelmente longo - do ponto de vista da companhia dois anos mais do que era necessário.

 

Era como se houvesse na sede da FDA, em Washington, nas palavras do director de pesquisas da Felding-Roth, Vincent Lord, ”uma falta de vontade infecciosa de tomar decisões fosse sobre o que fosse”. A opinião era partilhada por outras firmas farmacêuticas. Um dos funcionários superiores da FDA exibia com orgulho sobre a sua secretária uma placa com a famosa promessa do marechal Pétain na Primeira Guerra Mundial: ”Eles não passarão.” Parecia ser mesmo a real atitude do pessoal da FDA em relação ao processo de qualquer novo medicamento.

 

Nasceu nessa altura a expressão ”atraso farmacêutico” para descrever a não existência nos Estados Unidos de medicamentos úteis correntes no resto do mundo - e começou a ser cada vez mais usada.

 

Mas, como sempre a resposta de rotina a qualquer pedido para haver maior rapidez era: ”Lembrem-se da Thalidomide.”

 

Sam Hawthome criticou esta atitude num discurso proferido numa das convenções da indústria:

 

- No interesse público - declarou ele - são necessárias normas de segurança fortes e, até há bem pouco tempo, poucas existiam. Mas os pêndulos balançam de mais e a indecisão burocrática tornou-se um mau serviço nacional. Aos críticos da nossa indústria que referem a Thalidomide eu digo o seguinte: o número de bebés deformados pela Thalidomide foi excedido pelo número daqueles que sofreram ou morreram só porque os medicamentos que os podiam auxiliar, devido aos atrasos regulamentares americanos, não estão disponíveis quando são necessários.

 

Foi um discurso duro e o começo do que seria um debate renhido, pró e contra, que se estenderia por muitos anos.

 

Na Felding-Roth um dos projectos mais acarinhados estava agora ”suspenso”.

 

O acordo que Sam estabelecera para os direitos americanos de um novo fármaco francês, Montayne, não atingira ainda o ponto em que tinham início nos Estados Unidos os ensaios sobre segurança e eficácia que a lei exigia. Havia assim um longo caminho a percorrer antes de pedir a aprovação da FDA.

 

O Montayne era um fármaco para combater as náuseas matinais das mulheres grávidas; encerrava grandes promessas, em especial para as mulheres trabalhadoras que se veriam assim livres de um fardo que lhes dificultava a vida e por vezes até lhes ameaçava os empregos. Os descobridores do medicamento - Laboratoires Gironde-Chimie, uma casa com grande reputação - estavam convencidos de que tinham algo de grande qualidade e seguro, como o mostravam os vastos estudos em animais e em voluntários humanos. Os testes, informara a firma de Paris, tinham até aí dado excelentes resultados e não tinham mostrado efeitos adversos. Mesmo assim, como o presidente da Gironde-Chimie explicara numa carta pessoal a Sam:

 

Devido ao que sucedeu no passado e à natureza frágil deste fármaco precisamos de ser extremamente prudentes.

 

Assim decidimos fazer mais uma série de testes em diferentes tipos de animais e também em mais seres humanos.

 

Isto levará mais algum tempo a realizar.

 

Dado o clima da época Sam concordou. As preocupações adicionais pareciam justas. E a Felding-Roth continuava à espera da luz verde dos franceses para começar a trabalhar no Montayne.

 

 

                           1975 - 1977

Embora o Dr. Vincent Lord tivesse alguns problemas imaginários tinha também alguns reais. Um desses era a FDA.

 

A Food and Drug Administration, com sede nas proximidades de Washington, D.C., representava uma intricada corrida de obstáculos que qualquer nova especialidade farmacêutica e os seus responsáveis tinham de fazer antes que o fármaco fosse aprovado para uso geral. Alguns medicamentos nunca passavam; falhavam a corrida. E como os responsáveis por esses fármacos eram quase sempre as companhias que os descobriam, fabricavam e eventualmente os vendiam ao público, as grandes firmas farmacêuticas e a FDA estavam quase sempre em estado de guerra. Esse estado de guerra classificava-se, segundo o que se passava no momento, desde as escaramuças intelecto-científicas até à guerra aberta.

 

No que respeitava a Vincent Lord, era guerra.

 

Parte do seu trabalho na Felding-Roth era levar a cabo, ou supervisionar, os contactos com a FDA. Abominava isso. Também não gostava, e nalguns casos até desprezava, as pessoas que lá trabalhavam. A juntar a este problema havia o facto de que, para conseguir qualquer coisa na FDA, tinha de vencer esses sentimentos ou escondê-los para si mesmo. Achava ambas as situações difíceis, por vezes quase impossíveis.

 

Claro que o Dr. Lord tinha preconceitos tal como outros, de outras firmas, que tinham de lidar com a FDA.

 

Alguns desses preconceitos eram justificados, outros não.

 

Isto porque as leis e os costumes exigiam que a FDA fosse várias coisas em simultâneo.

 

Era a guardiã da saúde pública sendo seu dever proteger os inocentes da excessiva avareza, incompetência, indiferença ou falta de cuidado, pecados estes que por vezes cometiam as companhias farmacêuticas cujo objectivo fundamental era o lucro. O reverso disso era a função de anjo da guarda da FDA: o acto de tornar disponíveis, com a máxima rapidez, aqueles novos e fantásticos medicamentos - dessas mesmas companhias farmacêuticas - que prolongavam a vida ou aliviavam a dor.

 

Outro papel da agência era ser bode expiatório para os críticos - companhias farmacêuticas, grupos de consumidores, jornalistas, autores, advogados e certos grupos com interesses especiais - que acusavam a FDA de ser ou demasiado rígida ou demasiado mole, dependendo do campo em que se situavam os críticos. A FDA era também usada com regularidade como plataforma política pelos egoístas e hipócritas deputados do Congresso e senadores que procuravam uma forma fácil de ver os seus nomes na imprensa e na televisão.

 

Conjuntamente com tudo isto a FDA era uma barafunda burocrática supercheia de gente, mas com falta de pessoal nas áreas críticas e com os especialistas médicos e científicos com trabalho a mais e ordenado a menos.

 

Mas o mais espantoso é que, no meio de todos os papéis, obstáculos e críticas a FDA desempenhava a sua tarefa - de um modo geral - bastante bem.

 

No entanto sem dúvida que havia lapsos e o atraso dos medicamentos era um deles.

 

Até que ponto era mau esse atraso dependia, como tantas outras coisas relacionadas com a FDA, do ponto de vista de cada um. Mas que tal atraso existia era facto assente, até a própria FDA concordava.

 

Vincent Lord sofrera um exemplo do atraso farmacológico durante o esforço da Felding-Roth para aprovar a comercialização nos Estados Unidos do Staidpace, um medicamento para o coração e a tensão arterial desenvolvido na Suíça e que tanto aí como em Inglaterra, na França, na Alemanha Ocidental e noutros países já estava a ser usado com sucesso.

 

A FDA exigiu que, antes do medicamento poder ir para as prateleiras das farmácias americanas, assim como antes de poder ser receitado pelos médicos, devia haver uma comprovação adicional e completa segurança e eficácia do produto. E era uma boa exigência. Ninguém se opôs, nem sequer Vincent Lord e os outros funcionários da Felding-Roth.

 

Com o que efectivamente protestaram - depois de terem sido efectuados com sucesso todos os testes requeridos e terem sido entregues na FDA os resultados foi com os dois anos de mesquinhas e indecisas evasivas por parte da agência governamental.

 

Em 1972 a Felding-Roth entregou na FDA a PNF - proposta de novo fármaco - do Staidpace, tendo sido levada para a sede da FDA num camião. A PNF consistia em cento e vinte e cinco mil páginas impressas, contidas em trezentos e sete volumes - o suficiente para encher uma pequena sala. Todo este material era exigido pela lei e incluía informações do laboratório suíço que desenvolvera o fármaco assim como os pormenores de dois anos de ensaios em animais e seres humanos nos Estados Unidos.

 

Embora a informação fornecida fosse tão completa quanto era humanamente possível havia o reconhecimento não expresso de ambos os lados que possivelmente ninguém na FDA leria tudo aquilo. Recebiam com frequência montes semelhantes de material de outros laboratórios para a aprovação de novos fármacos.

 

De entre o pessoal médico-científico da FDA foi seleccionado um revisor para verificar e adjudicar o pedido do Staidpace. Coube essa tarefa ao Dr. Gideon R. Mace, médico, que estava na FDA há um ano.

 

O Dr. Mace seria auxiliado por outros especialistas científicos da agência, isto é, sempre que pudessem dispensar tempo da tarefa de examinar outros medicamentos.

 

Outra parte do processo era que, à medida que o exame da FDA prosseguia, iam sendo chamados cientistas da Felding-Roth para explicar qualquer pormenor do material já entregue ou para juntar mais algum. Era normal.

 

O que parecia menos normal eram os hábitos de trabalho e as atitudes do Dr. Mace. Avançava como uma cobra - lento, mesmo para a FDA. Era também mesquinho, excessivamente impertinente e maldoso.

 

Foi deste modo que o nome de Gideon Mace se foi juntar à lista de pessoas da FDA que Vincent Lord desprezava.

 

Lord examinara pessoalmente a proposta do Staidpace e estava convencido de que era mais completa e minuciosa do que qualquer outra jamais apresentada pelo laboratório. No entanto, à medida que os meses se iam passando sem que fosse tomada qualquer decisão, crescia a frustração de Lord. Mas quando Mace se fez finalmente ouvir referiu apenas pontos insignificantes e mais tarde - como se exprimiu o assistente de Lord - ”ele perguntou todas as vírgulas, algumas vezes eram coisas que nada tinham a ver com ciência”. O que era igualmente de enlouquecer era o facto de várias vezes Mace ter pedido informações extras, mas o que ele queria já estava nos documentos iniciais. Mace não só não procurara como nem sequer perguntara se já lá estariam. Quando os factos eram indicados demorava semanas a tomar conhecimento deles - e fazia-o então grosseiramente.

 

Após aguentar bastante esta situação Vincent Lord tomou o lugar do seu pessoal e começou a fazer o que menos gostava - ir ele próprio à FDA.

 

A sede da agência situava-se num local pouco conveniente - Fishers Lane, Marilândia, cerca de quinze milhas a norte de Washington, a uma hora de carro da Casa Branca ou da colina do Capitólio. Estava instalada num edifício simples de tijolo, em forma de E, uma daquelas construções baratas dos anos sessenta sem o benefício de um trabalho arquitectural.

 

Os gabinetes onde trabalhavam sete mil pessoas eram na sua maioria pequenos e com gente a mais lá dentro. Muitos deles nem tinham janelas. Outros tinham tantos ocupantes e estavam tão cheios de móveis que era quase impossível alguém mexer-se lá dentro. O pouco espaço que sobrava estava cheio com papel. Havia papel por todo o lado. Pilhas de papel, rimas de papel, montões de papel, toneladas de papel. Papel para além do imaginável. A sala da correspondência era um pesadelo de papel e todos os dias sofria uma nova avalancha de papel que se movia em dois sentidos embora aquele que saía raramente igualasse o que entrava. Nos corredores os mensageiros empurravam carrinhos cheios de mais papel.

 

O Dr. Gideon Mace trabalhava numa sala não muito maior que um armário situado no décimo andar. Já quase nos sessenta Mace era magro e alto, com pescoço comprido; as pessoas faziam referências indelicadas acerca de girafas; sempre corado e com veias salientes no nariz. Usava óculos sem aros através dos quais olhava de soslaio como se precisasse de mudar de lentes. Os seus modos eram bruscos. Nas conversas era sempre sarcástico e o azedume era nele coisa fácil. Normalmente usava um velho fato cinzento a precisar de ser engomado e uma gravata engelhada.

 

Quando Vincent Lord o foi ver, Mace teve de tirar papéis de cima de uma cadeira para o director de pesquisas da Felding-Roth se poder sentar.

 

- Parece que temos um problema com o Staidpace - disse Lord, fazendo um esforço para ser simpático. - Vinha saber o que se passa.

 

- A sua proposta do novo fármaco é desleixada e desorganizada - disse Mace. - Também não me diz tudo aquilo que preciso saber.

 

- Em que medida está desorganizada? - perguntou Lord. - E que mais precisa de saber?

 

Mace ignorou a primeira pergunta e respondeu à segunda:

 

- Ainda não decidi. Mas a sua gente há-de vir a saber.

 

- Quando?

 

- Quando estiver pronto para lhes dizer.

 

- Seria útil e pouparia tempo - insistiu Lord dominando a custo a raiva que sentia - se me desse uma ideia de quais são os problemas que ambos temos.

 

- Eu não tenho - retorquiu Gideon Mace. - O senhor é que tem. Tenho dúvidas sobre a segurança do seu medicamento; pode ser carcinogéneo. Quanto a poupar tempo nada tenho a ver com isso. Não há pressa. Temos imenso tempo.

 

- Talvez você o tenha - disse Lord. - Mas as pessoas que sofrem do coração e podiam estar a usar Staidpace? Muitos doentes cardíacos precisam desse medicamento agora. Já está a salvar vidas na Europa onde há muito está aprovado. Gostaríamos que se passasse aqui o mesmo. Mace esboçou um sorriso.

 

- E, por mera coincidência, tornar a Felding-Roth uma mina de ouro. Lord empertigou-se.

 

- Essa parte não me diz respeito.

 

- Se diz que assim é - disse Mace cepticamente. - Mas daqui onde estou sentado mais parece um vendedor que um cientista.

 

Vincent Lord continuou a conter-se.

 

- Há pouco referiu a segurança. Como deve saber pelo nosso pedido de aprovação os efeitos secundários do fármaco foram mínimos, nenhum deles perigoso, e nem o menor vestígio de acção carcinogénea. Tendo isto em conta pode revelar-me as bases das suas dúvidas?

 

- Agora não - respondeu Mace. - Continuo a pensar nelas.

 

- E, entretanto, não toma qualquer decisão.

 

- Isso mesmo.

 

- Segundo a lei - recordou Lord ao funcionário da FDA - tem um prazo limite de seis meses...

 

- Não me venha pregar sobre regulamentos - interrompeu Mace. Conheço-os. Mas se rejeitar temporariamente as suas provas e pedir mais informações o calendário regressa a zero.

 

Era verdade. Tais tácticas processuais para atrasar as coisas eram utilizadas pela FDA - algumas vezes com razão, pensava Lord consigo mesmo, mas outras vezes por capricho de um funcionário ou meramente para adiar uma decisão.

 

Tendo já atingido o limite máximo da paciência Lord acrescentou:

 

- Não tomar qualquer decisão é sempre o caminho seguro para um burocrata, não é?

 

Mace sorriu mas não respondeu.

 

No fim de contas o único resultado do encontro foi aumentar a frustração de Vincent Lord. Levou-o, contudo, a tomar uma decisão: iria descobrir mais coisas tantas quantas pudesse - sobre o Dr. Gideon Mace. Às vezes esse tipo de informações poderia ser útil.

 

Nos meses seguintes Lord teve motivos para fazer outras visitas a Washington e à FDA. De todas essas vezes, através de perguntas casuais feitas a colegas de Mace na agência e a investigações discretas feitas por fora, foi reunindo uma quantidade surpreendente de factos.

 

Entretanto Mace encontrara um erro num dos estudos da Felding-Roth sobre o Staidpace - uma série de ensaios clínicos em doentes cardíacos. Nitidamente apreciando o poder que tinha Mace ordenou que esses ensaios fossem repetidos. Lord não conseguia ver uma razão válida para repetir o trabalho; levaria um ano e seria caro; poderia ter objectado. Mas também pensou que essa atitude podia ser autodestruidora acarretando ou o prolongamento por tempo indefinido dos ensaios do medicamento ou a sua rejeição definitiva. Por isso, se bem que contrariado, Vincent Lord deu ordens para ser efectuado novo programa de ensaios.

 

Pouco depois informou Sam Hawthorne da decisão e contou-lhe o que descobrira sobre Gideon Mace. Os dois estavam no gabinete de Sam.

 

- Mace é um médico falhado - começou o director de pesquisas.

 

É também um alcoólico, está com problemas monetários devido em parte à pensão que tem de dar a duas mulheres e deita-se de madrugada, pois trabalha à noite e nos fins-de-semana, como auxiliar de um consultório particular. Sam pesou o que fora dito.

 

- O que queres dizer por ”médico falhado”? O director de pesquisas consultou as suas notas.

 

- Desde que terminou o curso Mace trabalhou em cinco cidades diferentes onde foi assistente de outros médicos. Mais tarde teve consultório próprio. Mas, tanto quanto me referiram as pessoas que o conhecem, todos os empregos falharam porque é incapaz de lidar com as pessoas. Não gostava dos outros médicos e, quanto à renúncia à clínica privada, diz abertamente que não gostava dos doentes.

 

- Pelo que estou a ouvir - disse Sam - é provável que não o adorassem. Por que é que a FDA o contratou?

 

- Conhece a situação em que estão: têm dificuldade em conseguir alguém,

 

- Sim, eu sei - assentiu Sam.

 

O problema do recrutamento do pessoal médico-científico na FDA era um problema de longa data. Os ordenados do Governo eram notoriamente baixos e um médico empregado da FDA recebia menos de metade do que poderia ganhar na medicina privada. No caso dos cientistas o abismo entre o que ganhavam os que pertenciam à FDA e os cientistas dos laboratórios era ainda maior.

 

Mas existiam outros factores. Um deles era o prestígio profissional.

 

Nos círculos médico-científicos trabalhar para a FDA não era coisa considerada importante. Uma nomeação para o Instituto Nacional de Saúde, do Governo, era, por exemplo, muito mais procurada.

 

Outra coisa que afectava os médicos do FDA era a ausência do que a maioria dos médicos gostava - o contacto directo, mão na mão, com os doentes. Havia apenas - como uma vez Sam ouvira descrever ”a prática delegada da medicina pela leitura dos relatórios dos outros”.

 

Mais uma vez uma coisa notável, apesar daquela limitação, era o facto dos ficheiros da agência conterem muitos profissionais altamente dedicados e qualificados. Mas claro que havia os outros. Os mal sucedidos. Os desagradáveis e alienados que preferiam a solidão comparativa a encontrarem-se com muita gente. Os autoprotectores dedicados, evitando decisões difíceis. Os alcoólicos. Os desajustados.

 

Como Sam e Vince Lord verificaram sem a menor dúvida Mace era um destes.

 

- Há alguma coisa que eu possa fazer? - perguntou Sam. - Falar, por exemplo, com o chefe do departamento?

 

- Não o aconselho - respondeu Lord. - Os chefes da FDA são políticos; vêm e vão. Mas os burocratas ficam e têm memórias compridas.

 

- Estás a dizer - afirmou Sam - que podemos ganhar com o Staidpace mas perder mais tarde.

 

- Exactamente.

 

- E o alcoolismo de Mace? Lord encolheu os ombros.

 

- Ouvi dizer que foi a bebida em excesso que acabou com os casamentos. Mas ele consegue. Vai trabalhar. Funciona. Pode ter uma garrafa na secretária, mas, se a tem, ninguém com quem falei o viu jamais beber.

 

- E essas horas extraordinárias, o emprego numa clínica privada, não são contra os regulamentos?

 

- Aparentemente não, desde que Mace as limite ao seu tempo livre e mesmo que esteja cansado no dia a seguir. Há outros médicos na FDA a fazerem exactamente o mesmo.

 

- Nesse caso não há maneira de tocar em Mace.

 

- Por agora não - disse Lord. - Mas ele tem as pensões para pagar e os problemas monetários levam as pessoas a fazerem coisas estranhas. Vou continuar a observá-lo. Quem sabe se não haverá uma reviravolta?

 

Sam olhou pensativamente para o director de pesquisas.

 

- Tornou-se um bom homem do laboratório, Vince. Tratar disto não é agradável. Preocupa-se com os nossos interesses. Gostaria que soubesse que aprecio essa atitude.

 

- Bem. - Vince olhou-o com surpresa, mas satisfeito. - Não pensei no caso desse modo. Tudo o que desejei foi lixar aquele bastardo e obter a aprovação do Staidpace. Mas talvez tenha razão.

 

Vincent Lord, mais tarde, ao reflectir naquilo que o Sam dissera sobre ele ser um homem do laboratório, achou que era verdade. Lord estava agora no seu décimo oitavo ano na Felding-Roth e, mesmo quando não se espera que tal aconteça, um período tão longo leva à construção de certas lealdades. Além disso agora os pensamentos introspectivos sobre se fizera ou não bem em deixar a academia ocupavam-no menos que dantes. Os seus pensamentos estavam agora quase sempre ocupados pela sua busca de uma solução para o problema dos radicais livres - sempre que se podia libertar das outras responsabilidades no departamento. As respostas que Lord procurava ainda o iludiam. Mas sabia que estavam ali. Não desistiria nunca, nunca.

 

E havia um novo incentivo para a sua busca: o instituto da companhia na Grã-Bretanha onde Peat-Smith, que Vincent Lord ainda não conhecia, estava concentrado no processo do envelhecimento mental. Era uma competição. Quem Lord ou Peat-Smith - atingiria o cume em primeiro lugar?

 

Constituíra um desapontamento para Lord não lhe ter sido dada autoridade sobre a investigação da Felding-Roth em Inglaterra, tal como ele a tinha nos Estados Unidos. Mas Sam Hawthorne fora inflexível nesse ponto insistindo que o ”lá” tinha de ser independente e funcionar por si mesmo. Bem, raciocinava Lord, tal como as coisas estavam ga andar parecia que assim fora melhor. Pelos rumores vindos de Inglaterra parecia que Peat-Smith não estava a conseguir nada, encontrara uma parede de tijolo. Se fosse verdade Lord estava livre de qualquer responsabilidade.

 

Entretanto havia muito que fazer na cena farmacêutica americana.

 

Quanto ao Dr. Gideon Mace a oportunidade que Lord ansiava - ”apanhar” Mace - acabou por chegar embora não suficientemente depressa para ajudar o Staidpace que, após muitos atrasos e sofismas, foi por fim aprovado e entrou no mercado em 1974.

 

Foi em Janeiro de 1975, um dia depois do seu regresso de Washington onde estivera para tratar de outro assunto na FDA, que Lord recebeu um telefonema invulgar.

 

- Está um homem ao telefone - anunciou a secretária - que não quer dizer o nome. Mas é persistente e afirma que ficará satisfeito se falar com ele.

 

- Diga-lhe que vá para... Não, espere! - A curiosidade era inerente a Lord. - Dê-me a ligação.

 

Disse bruscamente ao telefone:

 

- Quem quer que seja diga depressa o que quer ou desligo!

 

- Sei que tem estado a juntar informações sobre o doutor Mace. Tenho algumas. - A voz masculina parecia jovem e educada.

 

Lord ficou de imediato curioso.

 

- Que espécie de informações?

 

- Mace violou a lei. Com aquilo que tenho podia mandá-lo para a cadeia.

 

- Que o leva a si a pensar que é isso que quero?

 

- Oiça - disse a voz -, queria que eu fosse rápido mas é o senhor que está a empatar. Está interessado ou não?

 

Lord mostrava-se cauteloso sabendo bem que as conversas telefónicas podiam ser gravadas.

 

- Como é que ele infringiu a lei?

 

- Usou informações confidenciais da FDA para ter lucros pessoais no mercado de acções. Por duas vezes.

 

- Como pode provar isso?

 

- Tenho documentos. Mas se os quiser, doutor Lord, aviso-o que pretendo ser pago. Dois mil dólares.

 

- Essa espécie de negócio não o torna tão mau como o Mace? A voz replicou tranquilamente:

 

- Talvez. Mas não é esse o problema.

 

- Como se chama? - perguntou Lord.

 

- Dir-lho-ei quando nos encontrarmos em Washington.

 

O bar ficava em Georgetown. Estava elegantemente decorado em tons subtis de vermelho, bege e castanho com ornamentos de bronze. Era, obviamente, um ponto de encontro de homossexuais. Várias caras olharam com interesse quando Vincent Lord entrou; sentiu que estava a ser apreciado o que o deixou pouco à vontade. Mas, antes que a sensação persistisse, um jovem que estivera sentado só num reservado levantou-se e aproximou-se dele.

 

- Boa noite, doutor Lord. Sou Tony Redmond. - Sorriu em reconhecimento. - A voz no telefone.

 

Lord murmurou uma saudação e apertou-lhe a mão. Reconhecera imediatamente Redmond como um dos empregados da FDA; Lord recordava-se de o ter visto várias vezes quando de outras suas viagens a Washington, embora não conseguisse precisar aonde. Redmond, entre os vinte e os trinta, tinha cabelo castanho curto e encaracolado, olhos de um azul-bebé com pestanas salientes e era, por assim dizer, um tipo bem-parecido.

 

Regressou ao reservado onde se sentaram, frente a frente. Redmond tinha já uma bebida. Fez um gesto perguntando:

 

- Acompanha-me, doutor?

 

- Eu mesmo peço - disse Lord. Não tinha qualquer intenção de fazer daquilo uma ocasião amigável. Quanto mais depressa acabasse o que o levara ali tanto melhor.

 

- Sou um técnico médico da FDA - disse voluntariamente Redmond. - Vi-o entrar e sair do nosso departamento várias vezes.

 

Agora Lord já localizara o homem. Trabalhava no mesmo sector de Gideon Mace. O que, em parte, explicava como é que arranjara a informação que tinha.

 

Desde o telefonema inicial do indivíduo agora identificado como Redmond tinha havido mais dois telefonemas posteriores. Nem discutiram dinheiro: Redmond mantivera-se firme no seu pedido original de dois mil dólares em troca dos documentos que dizia possuir. Durante o último telefonema tinham marcado este encontro cabendo a Redmond a escolha do local.

 

Alguns dias antes, na sede da Felding-Roth, Lord encontrara-se com Sam Hawthorne no gabinete deste:

 

- Preciso de dois mil dólares - disse o director de pesquisa - e não quero prestar contas deles.

 

Quando Sam ergueu os olhos Lord continuou:

 

- É para adquirir uma informação que considero de interesse para a empresa. Se insistir posso fornecer pormenores, mas acho melhor que não saiba.

 

- Não gosto desse género de coisas - objectou Sam que perguntou então: Há algo de desonesto no meio?

 

- Suponho que não seja muito ético. Um advogado poderia dizer que estava no limiar da ilegalidade. Mas garanto-lhe que não vou roubar nada, nem sequer os segredos de outra companhia.

 

Sam ainda hesitou mas Lord salientou:

 

- Disse-lhe que contaria tudo se o quisesse. Sam abanou a cabeça.

 

- Está bem, terá o dinheiro. Darei autorização.

 

- Quando o fizer - disse Lord à cautela - penso que será melhor envolver nisto o menor número possível de pessoas. Estava a pensar que a senhora Jordan não precisa de saber.

 

- Decidirei isso - disse Sam irritado, mas depois concordou: - Está bem, não saberá.

 

Lord ficou aliviado, Célia Jordan tinha um modo bastante original de fazer perguntas muito penetrantes. E, além disso, ela podia discordar do que ele tencionava fazer.

 

Mais tarde, mas ainda nesse mesmo dia, Vincent Lord recebeu um cheque da companhia. Um vale mostrava que a quantia se destinava a ”despesas especiais de viagem”.

 

Lord trocou o cheque por dinheiro antes de ir de Morristown para Washington e o dinheiro acompanhara-o até ao bar. Estava, dentro de um envelope, no bolso do casaco.

 

Um empregado veio ao reservado. O seu modo combinava com o de Redmond a quem tratou por ”Tony”. Lord pediu um gim com água tónica.

 

- Sítio agradável, não acha? - observou Redmond quando o empregado se foi embora. - É considerado fino. A maioria das pessoas que cá vem é do Governo ou da Universidade.

 

- Não me interessa quem cá vem - disse Lord. - Deixe-me ver esses documentos.

 

- Trouxe o dinheiro? - contrapôs Redmond. Lord acenou que sim e aguardou.

 

- Suponho que posso confiar em si - disse Redmond. Havia uma pasta no lugar ao seu lado e abriu-a; tirou dela um grande envelope pardo que entregou a Lord. - Está tudo aí.

 

A bebida de Lord chegou quando este começara a estudar o conteúdo do envelope. Bebeu duas vezes enquanto lia.

 

Dez minutos depois olhou para o outro e disse:

 

- Perfeito.

 

- Bem - reconheceu Redmond -, é a primeira coisa agradável que me diz. Surgiu-lhe no rosto um sorriso de conhecedor.

 

Lord permaneceu sentado em silêncio sopesando probabilidades.

 

O cenário respeitante ao Dr. Gideon Mace era bem claro. Redmond esboçara-o durante as conversas telefónicas. Os papéis que acabara de ler explicavam o resto.

 

Fundava-se nas leis dos Estados Unidos sobre patentes, medicamentos e regulamentos da FDA. Vincent Lord estava familiarizado com os três.

 

Quando a patente de qualquer grande medicamento expirava - em geral dezassete anos após o registo dessa patente - um certo número de pequenos produtores procurava produzir a forma genérica vendendo-a a um preço mais barato que o da companhia de origem. Quando tal acontecia os benefícios para a pequena companhia cifravam-se em milhões.

 

Contudo, antes de poder fabricar-se qualquer medicamento genérico, tinha de ser pedida autorização à FDA. Isto era verdade mesmo quando esse medicamento já existisse no mercado, devidamente aprovado pela FDA, comercializado pela firma original.

 

O processo dessa autorização era conhecido como pedido abreviado de medicamento novo - ou PAMN.

 

Quando qualquer fármaco importante tinha a patente prestes a expirar entravam na FDA uma dúzia ou mais de PAMN. E, tal como para os PNM da Felding-Roth, também os PAMN levavam o seu tempo dentro da FDA.

 

Não estava bem esclarecido como é que a FDA lidava internamente com estes PAMN. O que se sabia é que uma aprovação era em geral anunciada em primeiro lugar. As outras vinham mais tarde, normalmente isoladas, por vezes com intervalos largamente espaçados entre elas.

 

Deste modo a primeira companhia a receber a aprovação de um PAMN tinha uma enorme vantagem sobre as suas competidoras e uma maior probabilidade de maiores recompensas. E acontecia também que a mercadoria em armazém podia subir de valor, por vezes duplicava-o de um dia para o outro.

 

Contudo as pequenas companhias farmacêuticas não estão registadas nas grandes bolsas de valores, como a de Nova Iorque, e as suas acções são assim comercializadas ao balcão. Assim os negociantes profissionais podem aperceber-se de um súbito aumento destas acções enquanto a maioria do público o não pode pois raramente tais valores surgem nos jornais diários ou mesmo no Wall Street Journal.

 

Todas estas razões levavam a que estivesse preparada uma situação chamariz para alguém desonesto ”metido no assunto”. Esse alguém, sabedor de qual a companhia prestes a receber a aprovação de um PAMN, podia ganhar uma boa quantia de dinheiro comprando acções dessa companhia a um valor baixo antes do anúncio da aprovação da FDA e vendendo-as por um valor alto pouco depois.

 

O Dr. Gideon Mace, colocado dentro da FDA e com acesso a informações confidenciais, fizera isso mesmo. Duas vezes. A prova estava nas fotocópias que Vincent Lord segurava nas mãos. Estava ali tudo:

 

- as provas das transacções de ”compra” e de ”venda” do corretor nos quais o cliente aparecia como Marietta Mace. Lord já soubera, através de Redmond, que era a irmã solteira de Mace, obviamente uma cobertura que Mace usara como precaução mas que não funcionara; - dois anúncios datados, da FDA, com aprovações de PAMN que diziam respeito a duas companhias, Binvus Products e Minto Labs. Os dois nomes correspondiam às acções descritas nos documentos de corretagem; - dois cheques cancelados de Gideon Mace pagáveis à irmã e com a quantia exacta do total das duas ordens de ”compra” do corretor; - dois extractos bancários pertencentes a Gideon R. Mace que registavam avultados depósitos depois das datas das ordens de ”venda”.

 

Lord fizera alguns cálculos rápidos a lápis no envelope que tinha na sua frente. Mace, depois da irmã ter deduzido o que parecia ser uma comissão de dez por cento, obtivera um lucro total de uns dezasseis mil dólares.

 

Talvez mais. Era provável que Mace tivesse feito o mesmo noutras ocasiões e se assim fosse o facto seria esclarecido numa investigação criminal.

 

”Criminal” era a palavra certa. Tal como Redmond prometera no seu primeiro telefonema se o assunto viesse a público o Dr. Mace seria de certeza preso.

 

Lord esteve quase para perguntar a Redmond como conseguira aquele material, mas mudou de ideias. A resposta não era difícil de adivinhar. Muito provavelmente Mace conservara tudo na secretária na FDA talvez pensando que ficaria ali mais seguro que em casa. Mas Redmond, um tipo expedito, encontrara uma forma de ter acesso à secretária na ausência de Mace. Era evidente que Redmond começara por ter algumas suspeitas, mas uma conversa telefónica ouvida por acaso fora o suficiente para as confirmar.

 

Como é que Gideon Mace, perguntava Lord, fora tão incrivelmente estúpido? Sim, estúpido ao acreditar que podia fazer aquilo sem ser apanhado. Estúpido ao negociar acções num nome idêntico ao seu e em conservar os documentos incriminatórios num lugar a que alguém como Redmond podia ter acesso para os copiar. Mas, paciência, em geral a gente esperta faz muitas tolices.

 

Os pensamentos de Lord foram interrompidos pela voz de Redmond, petulante:

 

- Bem, quer esse material todo? Fazemos negócio ou não?

 

Sem falar Lord procurou no casaco o envelope com o dinheiro e entregou-o a Redmond. O jovem levantou a dobra do envelope. À medida que ia tirando e contando o dinheiro todo ele, olhos e rosto, sorria.

 

- Seria melhor contá-lo todo - disse Lord.

 

- Não é preciso. Não me ia enganar. Isso aí é demasiado importante. Desde há algum tempo que Lord tomara consciência de outro jovem sentado

 

num banco do bar a alguns metros de distância e que ocasionalmente olhava para eles. Agora olhava-os de novo, mas desta vez Redmond retribuiu o olhar e sorriu, exibindo o dinheiro antes de o guardar. O outro sorriu também. Lord sentiu repugnância.

 

- Acho que está todo aqui - disse Redmond com ar satisfeito.

 

- Só tenho mais uma pergunta - disse Vincent Lord. - Uma coisa que me está a aguçar a curiosidade.

 

- Pergunte!

 

Lord tocou no envelope cujo conteúdo comprara.

 

- Por que fez isto a Mace?

 

- Por causa de uma coisa que ele me chamou - respondeu Redmond com alguma hesitação.

 

- O quê?

 

- Se o quer saber - disse Redmond com um tom de voz penetrante e malicioso - chamou-me ”escravo nojento”.

 

- Que há de mal nisso? - perguntou Lord levantando-se para sair. - Você é mesmo isso, não é?

 

Antes de sair Lord ainda olhou para trás. Tony Redmond olhava-o com um rosto branco de raiva.

 

Durante uma semana Lord debateu consigo mesmo o que devia fazer, ou não fazer. Ainda não se decidira sobre a atitude a tomar quando se encontrou com Sam Hawthorne.

 

- Ouvi dizer que esteve em Washington - começou Sam. - Presumo que teve algo a ver com o dinheiro que lhe dei.

 

- Conjectura correcta - confirmou Lord.

 

- Não sou pessoa com quem se brinque - acrescentou Sam. - E se pensa que me está a proteger, esqueça! E tenho a minha natural curiosidade. Quero saber.

 

- Nesse caso vou buscar alguns papéis ao cofre do meu gabinete - disse Lord. - Trago-lhos já.

 

Meia hora mais tarde, ao acabar de lê-los, Sam assobiou baixinho. O seu semblante estava perturbado.

 

- Já pensou - disse ele ao director de pesquisas - que se não fizermos imediatamente qualquer coisa seremos colaboradores num crime?

 

- Suponho que sim - retorquiu Lord. - Mas façamos o que fizermos quando isto vier ao de cima será sempre confuso. Teríamos de explicar como conseguimos esses papéis. E na FDA, independentemente de quem tenha razão, passariam a odiar-nos e nunca mais nos esqueceriam.

 

- Então para que raio se meteu nisto?

 

- Porque aquilo que temos ser-nos-á útil e há outras maneiras de lidar com isto - respondeu Lord com ar confiante.

 

Lord estava impassível; por razões que ele mesmo desconhecia sentia-se à vontade naquela situação e com perfeito controlo da mesma. Decidira, nos poucos minutos antecedentes, qual o melhor caminho a seguir. E explicou a Sam:

 

- Bem, houve uma altura em que pensei que algo como isto nos ajudaria a desbloquear o Staidpace, mas isso são agora águas passadas. Haverá outros problemas, outros medicamentos e outras aprovações que gostaremos de ver resolvidos sem a demora invulgar que tivemos com o Staidpace.

 

- Decerto que não está a sugerir... - disse Sam com ar chocado.

 

- Não estou a sugerir nada. Excepto que, mais cedo ou mais tarde, estaremos outra vez contra Mace e, se nos der problemas, teremos material para o enfrentar.

 

Sam estava de pé. Enquanto meditava no que fora dito andava de um lado para o outro no gabinete. Por fim resmungou:

 

- Pode ter razão, mas não gosto disto.

 

- Nem Mace vai gostar. E permita-me recordar-lhe que é ele o criminoso, não nós.

 

Sam pareceu querer dizer qualquer coisa, mas foi Lord quem falou primeiro.

 

- Quando chegar a altura deixe-me tratar do assunto.

 

Enquanto Sam acenava com relutância Lord pensou consigo próprio: &