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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


SANGUE ROMANO / Steven Saylor
SANGUE ROMANO / Steven Saylor

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

 

Primeira Parte

 

                                         PARA CIMA E PARA BAIXO

 

O escravo que veio chamar-me naquela manhã de Primavera excepcionalmente quente era um jovem com pouco mais de vinte anos.

 

Normalmente, quando um cliente me manda chamar, o mensageiro é o escravo mais humilde da sua casa um criado, um aleijado, o rapaz meio atrasado que trata dos estábulos, a cheirar a estrume e a espirrar por causa dos bocados de palha que lhe ficaram presos no cabelo. Trata-se de uma espécie de formalidade; quando alguém precisa dos serviços de Gordiano, o Descobridor, mantém um certo distanciamento. É como se eu fosse um leproso, ou um sacerdote de um culto oriental impuro. Já estou habituado a isso. Não me ofendo desde que os meus honorários sejam pagos a tempo, e por inteiro.

 

Mas o escravo que se apresentou à minha porta naquela manhã era muito limpo e estava meticulosamente arranjado. Tinha uma atitude calma, respeitosa, mas de modo nenhum servil a delicadeza que se espera de qualquer jovem que se dirija a um homem dez anos mais velho do que ele. O seu latim era impecável (melhor que o meu) e a voz que o transmitia era modulada com a beleza de uma flauta. Não se tratava, pois, de um criado dos estábulos, mas nitidamente de um servidor educado e mimado de um senhor que sabia apreciá-lo. O nome do escravo era Tiro.

 

Venho da casa do mui estimado Marco Túlio Cícero disse ele, fazendo uma pausa e inclinando ligeiramente a cabeça, para ver se eu reconhecia o nome. Eu não o reconheci. Venho procurar os teus serviços acrescentou sob recomendação de...

 

Eu tomei-lhe o braço, cerrei-lhe os lábios com o indicador, e conduzi-o para dentro de casa. A um Inverno brutal seguira-se uma Primavera sufocante; apesar de ser muito cedo, eu já estava com demasiado calor para querer ficar de pé, ao sol, à porta de casa. E também era muito cedo para ficar a ouvir tagarelar este jovem escravo, por muito melodiosa que fosse a sua voz. Sentia o ribombar de trovões nas fontes. Traços araneiformes de relâmpagos formavam-se e desapareciam mesmo ao lado dos meus olhos.

 

Diz-me uma coisa perguntei-lhe, conheces algum tratamento para a ressaca?

 

O jovem Tiro olhou-me de lado, perturbado pela mudança de assunto, desconfiado com a minha súbita familiaridade.

 

Não, senhor. Eu acenei.

 

Talvez nunca tenhas tido uma ressaca. Ele corou ligeiramente.

 

Não, senhor.

 

O teu senhor não te permite beber vinho?

 

Claro que sim. Mas, como diz o meu senhor, moderação em todas as coisas...

 

Eu acenei. E estremeci. O mais ligeiro movimento desencadeava uma dor horrível.

 

Moderação em todas as coisas, presumo eu, excepto na hora em que manda um escravo bater-me à porta.

 

Oh, perdoa-me, senhor. Talvez seja melhor voltar mais tarde.

 

Isso seria uma perda de tempo, para ti e para mim. Já para não falar do teu senhor. Não, ficas aqui, mas só começas a falar do que te trouxe quando eu te disser, e vais tomar o pequeno-almoço comigo no jardim, onde o ar é mais suave.

 

Voltei a tomar-lhe o braço, conduzi-o através do átrio, por um corredor mergulhado na penumbra, até ao peristilo, no centro da casa. Ele ergueu as sobrancelhas surpreendido, não sei bem se por causa do tamanho ou do estado do local. Eu estava habituado àquele jardim, evidentemente, mas é natural que, para um estranho, ele parecesse um campo de batalha os salgueiros eram enormes, e as suas gavinhas penduradas chegavam até às ervas que cresciam num solo poeirento; há muito que a fonte que havia no centro tinha secado e, com o tempo, a pequena estátua de mármore do deus Pan que a decorava estava a ficar esburacada; o estreito viveiro de peixes que serpenteava pelo jardim estava opaco e estagnado, obstruído por juncos egípcios em estado selvagem. O jardim deixara de ser cuidado muito antes de eu ter herdado a casa do meu pai, e eu nada fizera para o arranjar. Gostava dele assim como um lugar não domesticado de verdura selvagem, escondido no meio da ordenada Roma, como um silencioso voto pelo caos contra tijolos e argamassa e arbustos obedientes. Além disso, nunca teria dinheiro para pagar a mão-de-obra e os materiais necessários para voltar a pôr o jardim num estado formal.

 

Presumo que isto seja muito diferente da casa do teu senhor. Sentei-me cuidadosamente, por forma a não perturbar a cabeça, e indiquei a Tiro que se sentasse também. Bati palmas e lamentei imediatamente ter feito esse ruído. Reprimi a dor e gritei: Betesda! Onde está essa rapariga? Ela já nos traz de comer. Foi por isso que tive de ser eu a abrir a porta ela está ocupada na despensa. Betesda!

 

Tiro aclarou a garganta.

 

Na verdade, senhor, é bastante maior que a do meu senhor. Olhei-o surpreendido, com o estômago a ribombar em competição com a cabeça.

 

O quê?

 

A casa, senhor. É maior que a do meu senhor.

 

Isso surpreende-te?

 

Ele baixou os olhos, com receio de me ter ofendido.

 

Sabes em que é que eu trabalho, meu rapaz?

 

Não sei muito bem, senhor.

 

Mas sabes que é uma coisa pouco respeitável se é que há alguma coisa digna de respeito em Roma nestes tempos. Mas não é ilegal se é que a legalidade tem algum sentido numa cidade governada por um ditador. Estás então surpreendido por ver que eu vivo em instalações tão espaçosas, por muito decrépitas que elas sejam. Não tem importância. Eu próprio fico por vezes surpreendido. Ora aqui está a Betesda. Põe o tabuleiro aqui, entre mim e o meu jovem convidado, inesperado, mas perfeitamente bem-vindo.

 

Betesda obedeceu, não sem um olhar de lado e uma silenciosa careta de desdém. Sendo ela própria uma escrava, Betesda não achava bem que eu convivesse informalmente com outros escravos, e muito menos que os alimentasse com o conteúdo da minha própria despensa. Quando acabou de pousar o tabuleiro, colocou-se diante de nós, como se estivesse à espera de novas instruções. Tratava-se apenas de uma pose.

 

Era óbvio para mim, mesmo que o não fosse para Tiro, que o que ela queria era observar de perto o meu convidado.

 

Betesda ficou a olhar para Tiro, que parecia incapaz de olhá-la de frente. Os cantos da sua boca recuaram. O lábio de cima comprimiu-se e enrolou-se formando um arco subtil. Ela sorriu com desprezo.

 

Na maioria das mulheres, este género de sorriso é um gesto pouco atraente de desagrado. Com Betesda, isso não é certo. Um sorriso de desprezo não consegue estragar o seu escuro e voluptuoso encanto. Na realidade, pode fazê-lo aumentar. E, no limitado mas imaginativo vocabulário físico de Betesda, um sorriso de desprezo pode significar uma gama de coisas, desde uma ameaça até um convite descarado. Neste caso, suspeito de que se tratava de uma reacção ao distinto baixar de olhos de Tiro, à sua tímida modéstia do sorriso da raposa astuciosa perante o donairoso coelho. Eu julgava que todos os seus apetites tinham sido satisfeitos na noite anterior. Pelo menos assim acontecera comigo.

 

O meu senhor deseja mais alguma coisa? Ela estava de pé, com os braços estendidos ao longo do corpo, os seios erguidos, os ombros para trás. Pesavam-lhe as pálpebras, ainda com pintura da noite anterior. A sua voz tinha a pronúncia maliciosa, ligeiramente ceceante do Oriente. Nova pose. Betesda decidira que, escravo ou não, valia a pena impressionar o jovem Tiro.

 

Mais nada, Betesda. Vai-te embora.

 

Ela inclinou a cabeça, voltou-se e atravessou o jardim em direcção à casa, passando sinuosamente por entre os ramos pendurados dos salgueiros. Logo que ela voltou costas, a timidez de Tiro recuou. Segui-lhe o olhar, desde a sua origem, nos olhos muito abertos, até ao ponto de atenção, algures acima das nádegas suavemente oscilantes de Betesda. Invejei-lhe a modéstia e a timidez, o apetite, a beleza, a juventude.

 

O teu senhor não te permite beber, pelo menos em excesso disse eu. E permite-te usufruir de uma mulher de vez em quando?

 

Não estava preparado para a profundidade e a riqueza de cor do seu rubor, um vermelho de sangue semelhante ao de um pôr do Sol sobre o mar. Só os jovens, com as suas faces lisas e macias, podem corar daquela maneira. Até Betesda era demasiadamente velha para poder voltar a corar daquela maneira, presumindo que ela fosse capaz de corar.

 

Deixa lá disse eu. Não tenho qualquer direito de te fazer esta pergunta. Toma, come um pouco de pão. É a Betesda que o faz, e é melhor do que seria de esperar. Foi uma receita que a mãe lhe ensinou, em Alexandria. Pelo menos é o que ela diz eu cá suspeito de que a Betesda não teve mãe. E, embora eu a tenha comprado em Alexandria, o nome dela não é grego nem egípcio. O leite e as ameixas devem ser frescos, embora não possa garantir o mesmo acerca do queijo.

 

Comemos em silêncio. O jardim ainda estava mergulhado na sombra, mas eu sentia o sol, palpável, quase ameaçador, aproximar-se ao longo da berma rendilhada do telhado, como um ladrão planeando a sua descida. Ao meio-dia, todo o jardim estaria inundado de luz, insuportavelmente quente e brilhante, mas por agora era mais fresco do que o interior da casa, que ainda retinha o calor de ontem. Subitamente, os pavões começaram a agitar-se no seu canto; o macho maior deu um grito estridente e empertigou-se, exibindo a sua plumagem. Tiro entreviu o pássaro e estremeceu, surpreendido pelo espectáculo. Eu mastigava em silêncio, retraindo-me perante ocasionais pontadas de dor que se transmitiam do maxilar até às fontes. Relanceei o olhar para Tiro, cuja contemplação trocara o pavão pela porta vazia por onde Betesda saíra.

 

É isso o tratamento para a ressaca, senhor?

 

O quê, Tiro?

 

Ele voltou-se para mim. A absoluta inocência do seu rosto cegava mais do que o sol, que surgiu subitamente por cima do telhado. O seu nome podia ser grego mas, à excepção dos olhos, todos os seus traços eram classicamente romanos o suave contorno da testa, das faces e do queixo; o ligeiro exagero dos lábios e do nariz. Foram os olhos que me surpreenderam, pois eram de um pálido tom de alfazema que eu nunca tinha observado, e que certamente não era nativo de Roma, mas seria o contributo de uma mãe ou de um pai escravos trazidos para o coração do império vindos sabiam os deuses de onde. Estes olhos eram demasiadamente inocentes e confiados para pertencerem a um romano.

 

É isso o tratamento para a ressaca? dizia Tiro. Tomar uma mulher de manhã?

 

Eu ri-me com gosto.

 

Não. A maioria das vezes, faz parte da doença, ou então é o incentivo para a recuperação, para a vez seguinte.

 

Ele olhou para a comida que tinha diante de si, pegando num bocado de queijo, com delicadeza mas sem entusiasmo. Era claro que, embora fosse escravo, estava habituado a melhor.

 

Então é pão com queijo?

 

A comida ajuda, se conseguirmos mantê-la dentro do estômago. Mas a verdadeira cura para a ressaca foi-me ensinado por um sábio médico de Alexandria, há quase dez anos quando eu tinha aproximadamente a tua idade, dá-me a impressão, e o vinho não era para mim um desconhecido. Tem-me servido desde essa altura. Ele tinha a teoria de que, quando bebemos excessivamente, há certos humores do vinho que, em vez de se dissolverem no estômago, fazem subir à cabeça vapores impuros, endurecendo o flegma segregado pelo cérebro e fazendo com que ele inche e fique inflamado. Estes humores acabam por se dispersar e o flegma amolece. É por isso que as pessoas não morrem de ressaca, por muito fortes que sejam as dores.

 

Então, o único remédio é o tempo, senhor?

 

Sim, à excepção de outro mais rápido: o pensamento. O exercício concentrado da mente. Estás a ver, de acordo com esse médico meu amigo, o pensamento tem lugar no cérebro, lubrificado pela secreção do flegma. Quando o flegma fica poluído ou endurece, o resultado é uma dor de cabeça. Mas a actividade do pensamento produz novo flegma, que amolece e dispersa o velho; quanto mais intensamente se pensa, maior é a produção de flegma. Portanto, uma concentração intensa fará aumentar a velocidade da recuperação natural de uma ressaca, limpando os humores do tecido inflamado e restabelecendo a lubrificação das membranas.

 

Estou a perceber. Tiro parecia desconfiado, mas impressionado. A lógica flui naturalmente. Evidentemente, temos de aceitar as premissas, que não podem ser provadas.

 

Encostei-me e cruzei os braços, mordiscando um pedaço de crosta.

 

A prova é a própria cura. Já estou a sentir-me melhor, por me ter sido pedido que explicasse a mecânica da cura. E suspeito de que ficarei completamente curado dentro de minutos, depois de te ter explicado ao que vieste.

 

Tiro sorriu cautelosamente.

 

Temo que o remédio esteja a fracassar, senhor.

 

Sim?

 

Trocaste os pronomes, senhor. Sou eu que tenho de explicar por que vim ter contigo.

 

Pelo contrário. É verdade, como pudeste perceber pela minha expressão, que nunca ouvi falar do teu senhor como era o nome, Marco qualquer coisa Cícero? Não faço ideia de quem seja. Contudo, posso dizer-te algumas coisas sobre ele. Fiz uma pausa, suficiente para garantir a atenção do rapaz. Pertence a uma família altiva, uma característica que ele próprio partilha. Vive aqui em Roma, mas a sua família é originária de outro local, talvez do Sul; não estão instalados na cidade há mais de uma geração. São mais do que confortavelmente abastados, embora não sejam fabulosamente ricos. Tenho razão, até agora?

 

Tito olhou para mim desconfiado.

 

Até agora.

 

Esse Cícero é um jovem, como tu; suponho que será um pouco mais velho. E um ávido estudioso da oratória e da retórica e, até certo ponto, seguidor dos filósofos gregos. Imagino que não seja epicurista; talvez estóico, embora não devoto. Está correcto?

 

Sim. Tiro começava a mostrar-se pouco à vontade.

 

Quanto à razão por que vieste, procuras os meus serviços para um processo legal que Cícero vai apresentar à Rostra. Cícero é advogado, em início de carreira. Mas este é um caso importante e complicado. E, já agora, quem recomendou os meus serviços deve ter sido o maior de todos os advogados romanos. Hortênsio, é claro.

 

É... claro. Tiro pronunciou as palavras num murmúrio indistinto. Tinha os olhos quase fechados e a boca muito aberta. Mas como é que conseguiste...

 

E o processo? Calculo que seja um caso de assassínio... Tiro olhou para mim de lado, revelando francamente o seu espanto.

 

E não deve ser apenas assassínio. Não, deve ser pior do que isso. Qualquer coisa muito pior...

 

É um truque murmurou Tiro. Desviou os olhos, abanando a cabeça, como se tivesse de fazer um grande esforço para afastar o olhar de mim. Fazes qualquer coisa quando olhas para os meus olhos. É magia...

 

Pressionei a fontes com as pontas dos dedos, apoiando os cotovelos na cintura em parte para aliviar a pressão latejante, mas também para imitar uma pose treatral mística.

 

Foi um crime tremendo murmurei. Vil. Inominável. O assassínio de um pai pelo seu filho. Um parricídio.

 

Soltei as fontes e encostei-me na cadeira. Olhei o meu jovem convidado nos olhos.

 

Tu, Tiro, da casa de Marco Túlio Cícero, vieste procurar os meus serviços para que eu ajude o teu senhor a defender um Sexto Róscio de Améria, acusado de ter morto o pai cujo nome é o seu. Olha passou-me completamente a ressaca.

 

Tiro pestanejou. E voltou a pestanejar. Encostou-se na cadeira e passou o dedo indicador pelo lábio superior, mantendo as sobrancelhas pensativamente unidas.

 

É mesmo um truque, não é?

 

Eu sorri-lhe da forma mais esbatida que consegui.

 

Porquê? Não acreditas que eu seja capaz de te ler o pensamento?

 

Cícero diz que a dupla visão ou a leitura do pensamento ou a previsão do futuro são coisas que não existem. Cícero diz que os videntes e os presságios e os oráculos são, na pior das hipóteses, charlatães, e na melhor actores que se aproveitam da credulidade das multidões.

 

E tu acreditas em tudo aquilo que o teu senhor Cícero diz? Tiro corou. Antes de ele poder falar, eu levantei a mão. Não respondas. Eu nunca te pediria para dizeres fosse o que fosse contra o teu senhor. Mas diz-me uma coisa: alguma vez Marco Túlio Cícero visitou o oráculo de Delfos? Viu o altar à Magna Mater de Éfeso e provou o leite que brota dos seus seios de mármore? Ou subiu às grandes pirâmides no silêncio da noite, ouvindo a voz do vento a correr por aquelas velhas pedras?

 

Não, suponho que não. Tiro baixou os olhos. Cícero nunca saiu de Itália.

 

Pois eu já, meu rapaz. Por um momento, perdi-me nos meus pensamentos, incapaz de me libertar de uma torrente de imagens, olhares, sons e cheiros do passado. Olhei para o jardim e percebi subitamente até que ponto ele era de mau gosto. Olhei para a comida que tinha diante de mim e percebi como o pão era seco e insípido, e que o queijo tinha realmente azedado. Olhei para Tiro e recordei quem ele era e o que era, e senti-me tolo por gastar tanta energia a impressionar um simples escravo.

 

Eu fiz todas essas coisas, visitei todos esses lugares. Apesar disso, suspeito de que, de certa maneira, sou ainda mais descrente do que o teu céptico senhor. Sim, é apenas um truque. Um jogo de lógica.

 

Mas como pode a simples lógica produzir novos conhecimentos? Disseste-me que nunca tinhas ouvido falar de Cícero. Eu nada te disse acerca dele, e tu és capaz de me dizer exactamente por que razão vim procurar-te. É como produzir moedas do ar. Como podes criar algo a partir de nada? Ou descobrir uma verdade sem provas?

 

Não estás a perceber, Tiro. Mas a culpa não é tua. Tenho a certeza de que sabes raciocinar tão bem como qualquer outra pessoa. O problema está no tipo de lógica que os reitores romanos ensinam. Voltar a julgar processos antigos, voltar a combater velhas batalhas, aprender rotineiramente a gramática e a lei, e tudo isso com o objectivo de ser capaz de torcer a lei para vantagem do cliente, sem pensar no bem e no mal, ou no superior e no inferior. E certamente sem dar qualquer importância à verdade. A esperteza substitui a sabedoria. A vitória tudo justifica. Até os Gregos se esqueceram de como se pensa.

 

Se se trata apenas de um truque, diz-me como se faz. Eu ri-me e dei uma dentada no queijo.

 

Se te explicar, terás menos respeito por mim do que se eu permitir que o mistério se mantenha.

 

Tiro franziu o sobrolho.

 

Penso que deves dizer-me, senhor. De outra maneira, como poderei curar-me se por acaso tiver a sorte de vir a ter uma ressaca? O franzido desfez-se num sorriso. Tiro era tão capaz de fazer teatro como Betesda. Ou como eu próprio.

 

Muito bem. Levantei-me e estiquei os braços acima da cabeça, e fiquei surpreendido ao ver que um sol quente me banhava as mãos, de forma tão palpável como se as tivesse metido em água fumegante. Metade do jardim estava cheia de luz. Vamos dar uma volta pelo jardim, enquanto ainda está fresco. Betesda! Vou explicar-te as minhas deduções, Betesda vai levar a comida Betesda! e a ordem será restabelecida.

 

Caminhámos lentamente à roda do viveiro de peixes. Do outro lado, Bast, a minha gata, perseguia libelinhas, com o pêlo preto a brilhar ao sol.

 

Muito bem, como é que eu sei o que sei sobre Marco Túlio Cícero? Disse-te que ele pertencia a uma família altiva. Isso é óbvio pelo seu nome. Não pelo nome de família, Túlio, que eu já conhecia, mas pelo terceiro nome, Cícero. Em geral, o terceiro nome de um cidadão romano identifica o ramo familiar neste caso, o ramo Cícero da família Túlio. Ou, se não existir um nome para o ramo, poderá ser próprio do indivíduo, normalmente descrevendo uma característica física. Naso, se o homem tiver um grande nariz, ou Sula, o nome do nosso estimado e digno ditador, assim chamado por causa da sua compleição morena. Em qualquer dos casos, Cícero é um nome muito peculiar. A palavra refere o comum grão-de-bico, e dificilmente poderá ser considerada lisonjeira. Qual é exactamente o caso do teu senhor?

 

Cícero é um antigo nome de família. Dizem que vem de um antepassado que tinha um alto na ponta do nariz, com uma greta ao meio, parecido com um grão-de-bico. Tens razão, parece estranho, embora eu já esteja tão habituado a ele, que nem me lembro. Alguns dos amigos do meu senhor dizem que ele devia mudar de nome, se quer ir para a política ou para a advocacia, mas ele nem quer ouvir falar disso. Cícero diz que, se a sua família achou por bem adoptar nome tão peculiar, então o primeiro homem a quem ele foi posto devia ser extraordinário, ainda que ninguém se lembre porquê. Diz ele que tenciona fazer com que Roma inteira conheça e respeite o nome de Cícero.

 

Altivo, tal como eu disse. Mas, evidentemente, isso aplicar-se-ia a virtualmente todas as famílias romanas e com certeza que a todos os advogados. O facto de ele viver em Roma pareceu-me óbvio. O facto de a sua família vir do Sul, presumi-o pelo nome Túlio. Lembro-me de o ter encontrado mais do que uma vez na estrada para Pompeia talvez em Aquino, Interamna, Arpino...

 

Exactamente acenou Tiro. Cícero tem família em toda essa região. Ele próprio nasceu em Arpino.

 

Mas só viveu aí até aos nove ou dez anos.

 

Sim, tinha oito anos quando a família se mudou para Roma. Mas como sabes isso?

 

Tendo desistido de caçar libelinhas, Basta roçava-se contra os meus calcanhares.

 

Pensa, Tiro. A educação formal de um cidadão começa aos dez anos e eu suspeito, dados os seus conhecimentos de filosofia e a tua própria erudição, de que o teu senhor não foi educado numa cidadezinha sonolenta à beira da estrada para Pompeia. Quanto ao facto de a família não estar em Roma há mais de uma geração, deduzi-o do próprio facto de o nome Cícero me ser desconhecido. Se ele vivesse cá desde a minha juventude, certamente que eu teria pelo menos ouvido falar dele e não me teria esquecido de um nome desses. Quanto à idade e à riqueza de Cícero, e ao seu interesse pela oratória e pela filosofia, tudo isso se torna evidente simplesmente observando-te, Tiro.

 

A mim?

 

Um escravo é o espelho do seu senhor. A tua ausência de familiaridade com os perigos do vinho, a tua modéstia para com Betesda indicam que serves numa casa onde o comedimento e o decoro são regras importantes. Esse tom apenas pode ser introduzido pelo próprio senhor. Cícero é claramente um homem de moral rigorosa. Isso pode ser indicativo de virtudes puramente romanas, mas o teu comentário acerca da moderação em todas as coisas indica uma apreciação da virtude grega e da filosofia grega. Há também, na casa de Cícero, um grande interesse pela retórica, pela gramática e pela oratória. Duvido de que tu próprio tenhas alguma vez recebido lições formais nestes campos, mas um escravo é capaz de absorver muitas coisas pela regular exposição às artes. Isso é notório no teu discurso e nas tuas maneiras, no tom cortês da tua voz. É óbvio que Cícero estudou longa e profundamente nas escolas da linguagem. Considerado em conjunto, tudo isto apenas pode significar uma coisa: que ele deseja ser advogado e apresentar processos legais na Rostra. Essa conclusão seria sempre natural, pelo próprio facto de teres vindo solicitar os meus serviços. Os meus clientes pelo menos os respeitáveis são, na sua maioria, ou políticos, ou advogados, ou as duas coisas. Tiro acenou.

 

Mas também sabias que Cícero era jovem e estava a iniciar a sua carreira.

 

Sim. Bem, se ele fosse um advogado estabelecido, eu já teria ouvido falar dele. Quantos casos já apresentou ele?

 

Só um reconheceu Tiro, e é natural que não tenhas ouvido falar dele foi um simples processo de parceria.

 

O que confirma ainda mais a sua juventude e inexperiência. O mesmo se pode concluir do facto de ele te ter enviado. Será razoável dizer que és o escravo de maior confiança de Cícero? O seu servo favorito.

 

Sou o seu secretário particular. Passei toda a minha vida junto dele.

 

Levaste-lhe os livros para as aulas, treinaste-o na gramática, preparaste-lhes as notas para o seu primeiro processo na Rostra?

 

Exactamente.

 

Então não és o tipo de escravo que a maioria dos advogados envia quando pretende solicitar os serviços de Gordiano, o Descobridor. Só um advogado inexperiente, embaraçosamente ignorante dos costumes, se preocuparia em enviar o seu braço direito bater-me à porta. Sinto-me lisonjeado, embora saiba que a lisonja não é intencional. Como prova da minha gratidão, prometo não espalhar que Marco Túlio Cícero fez figura de parvo mandando o seu melhor escravo chamar o desgraçado Gordiano, explorador de montes de esterco e infiltrado em ninhos de vespas. As pessoas rir-se-iam disso com mais vontade do que alguma vez se rirão do nome de Cícero.

 

Tiro enrugou a testa. Com a ponta da sandália, embati na raiz de um salgueiro, por baixo de água. Massagei o dedo e abafei uma praga.

 

Tens razão disse Tiro suavemente, parecendo muito sério. Ele é muito jovem, tal como eu. Ainda não conhece todos estes pequenos truques da sua profissão, os gestos tolos e as formalidades vazias. Mas sabe bem em que acredita, o que é mais do que aquilo que se pode dizer de muitos advogados.

 

Olhei para o pé, surpreendido por não estar a sangrar. Há deuses no meu jardim, rústicos, selvagens e desalinhados como o próprio jardim. Eles tinham-me castigado por fazer troça de um escravo jovem e ingénuo. Eu tinha-o merecido.

 

A lealdade fica-te bem, Tiro. Que idade tem exactamente o teu senhor?

 

Cícero tem vinte e seis anos.

 

E tu?

 

Vinte e três.

 

Sois ambos um pouco mais velhos do que eu pensava. Nesse caso, eu não tenho mais dez anos do que tu, Tiro, mas apenas sete. Ainda assim, sete anos podem representar muito disse eu, pensando na paixão daqueles jovens dispostos a mudar o mundo. Uma onda de nostalgia passou por mim com a suavidade da débil brisa que sussurrava no salgueiro que cobria as nossas cabeças. Olhei para o viveiro e vi-nos a ambos reflectidos num fragmento de água limpa que brilhava ao sol. Eu era mais alto do que Tiro, tinha os ombros mais largos e era mais pesado no meio; tinha o queixo mais proeminente, o nariz mais achatado e mais adunco e os meus olhos, longe de serem cor de alfazema, eram de um sereno castanho romano. Aparentemente, apenas tínhamos em comum os mesmos caracóis pretos indomáveis; nos meus, começavam a aparecer fios cinzentos.

 

Falaste de Quinto Hortênsio disse Tiro. Como sabias que tinha sido ele a recomendar-te a Cícero?

 

Ri-me mansamente.

 

Não sabia. Pelo menos não tinha a certeza. Foi uma conjectura, mas foi boa. O espanto com que me olhaste confirmou imediatamente que eu tinha razão. Logo que tive a certeza de que Hortênsio estava envolvido no caso, tudo se me tornou claro. Deixa-me explicar-te. Um dos homens de Hortênsio esteve aqui, talvez há uns dez dias, a sondar-me acerca de um caso. É aquele que costuma vir ter comigo quando Hortênsio precisa da minha ajuda só de pensar na criatura, fico arrepiado. Onde é que homens como Hortênsio encontram espécimes abomináveis como aquele? Por que vêm todos para Roma, cortar o pescoço uns aos outros? Mas evidentemente que tu nada sabes sobre esse lado da advocacia. Pelo menos por enquanto.

 

Seja como for, este homem de Hortênsio veio bater-me à porta. Fez-me uma série de perguntas ao acaso, nada me disse grandes mistérios, muito teatro, o tipo de adulações em que esses tipos se metem quando querem saber se a oposição já nos abordou por causa de um processo. Pensam sempre que o inimigo nos contactou primeiro mas que, apesar disso, nós vamos fingir ajudá-los, para depois, no último momento, lhes metermos uma faca nas costas. Suponho que seria o que eles fariam se estivessem no meu lugar.

 

”Finalmente, foi-se embora, deixando na entrada um cheiro que Betesda ainda não conseguiu erradicar, embora ande a esfregá-la há três dias, juntamente com apenas duas pistas sobre aquilo de que estava a falar: o nome Róscio e a cidade de Améria conhecia eu o primeiro, já tinha estado na segunda? Róscio é, evidentemente, o nome de um actor famoso, de um dos favoritos de Sula, como toda a gente sabe. Mas não era desse que ele estava a falar. Améria é uma pequena cidade situada no alto da colina Umbriana, a cerca de setenta e cinco quilómetros a norte de Roma. Não há grandes razões para se ir lá, a não ser que a pessoa pretenda dedicar-se à agricultura. Por isso, a minha resposta foi não, e não.

 

”Passou um ou dois dias. O homem de recados de Hortênsio não voltou cá a casa. Fiquei intrigado. Fiz umas perguntas aqui e ali e não precisei de me esforçar muito para descobrir o que se passava: era o caso de parricídio que estava a chegar à Rostra. Sexto Róscio, da cidade de Améria, é acusado de ter conspirado para matar o seu próprio pai, aqui em Roma. Há uma coisa estranha ninguém parece estar muito informado sobre o assunto, mas todos me dizem que o melhor que tenho a fazer é manter-me afastado dele. É um crime desagradável, dizem-me, e certamente que o julgamento também será desagradável. Continuei à espera de que Hortênsio voltasse a contactar comigo, mas a sua criatura não reapareceu. Há dois dias, ouvi dizer que Hortênsio se retirara da defesa.

 

Olhei Tiro de soslaio. Ele mantinha os olhos baixos enquanto caminhávamos, evitando olhar para mim, mas eu quase sentia a intensidade da sua concentração. Era um excelente ouvinte. Se não fosse um escravo, que óptimo aluno teria sido, pensei; e talvez que, noutra vida, noutro mundo, eu tivesse sido um óptimo professor de jovens.

 

Abanei a cabeça.

 

Hortênsio e a sua criatura e este misterioso julgamento tinha-os afastado completamente do pensamento. Depois tu bates-me à porta, dizendo-me que eu tinha sido ”recomendado”. Por quem? Possivelmente, pensei, por Hortênsio, que parece ter achado que era mais sensato passar a outro o caso do parricídio. A um advogado mais jovem, talvez, a alguém com menos experiência. A um principiante, que ficasse entusiasmado com a perspectiva de um processo importante, ou pelo menos de um processo com uma pena tão devastadora. Um advogado que não estivesse bem informado que não estivesse em posição de saber o que quer que seja que Hortênsio sabe. Quando confirmaste que tinha sido Hortênsio a recomendar-me, foi simples chegar à conclusão final, sempre conduzido pela tua expressão que, já agora, é tão clara e tão fácil de ler como o Latim de Catão.

 

Encolhi os ombros. Um pouco de lógica e um pouco de conjectura. Na minha profissão, aprendi a usar ambas.

 

Continuámos a caminhar em silêncio durante um momento. Depois Tiro sorriu e riu-se.

 

Então já sabes por que vim. E sabes o que vinha perguntar-te. Quase não tenho que te dizer nada. Tu facilitas muito as coisas.

 

Encolhi os ombros e afastei as mãos, num gesto tipicamente romano de falsa modéstia. Tiro enrugou a testa.

 

Se ao menos eu pudesse ler os teus pensamentos mas temo que seja necessário algum treino. Ou quererá o facto de me teres tratado tão bem significar que aceitas que prestarás os teus serviços quando Cícero precisar deles? Hortênsio disse-lhe como é que tu trabalhas e os honorários que cobras. Fá-lo-ás?

 

Fazer o quê? Temo não conseguir continuar a adivinhar. Tens de ser mais específico.

 

Queres vir comigo?

 

Onde?

 

A casa de Cícero. Vendo a minha expressão de espanto, Tiro procurou ser mais claro. Para te reunires com ele. Para discutirem o caso.

 

Isto fez-me parar tão abruptamente, que as minhas sandálias, raspando o chão, levantaram uma pequena nuvem de pó.

 

O teu senhor é realmente ignorante quanto ao decoro, não é? Convida-me para sua casa. A mim, Gordiano, o Descobridor? Como convidado? Que estranho. Sim, gostaria muito de conhecer esse Marco Túlio Cícero. Os deuses sabem que ele precisa da minha ajuda. Que pessoa tão estranha ele deve ser. Sim, claro que vou. Deixa-me só vestir uma coisa mais adequada. Uma toga, suponho. E, já agora, calçar uns sapatos, em vez das sandálias. Espera um momento. Betesda! Betesda!

 

A viagem desde minha casa no monte Esquilino até casa de Cícero, perto do Capitólio, demoraria mais de uma hora para quem fosse a passear calmamente. É provável que Tiro tivesse demorado metade desse tempo a chegar à minha porta, mas Tiro partira de madrugada. Nós saímos à hora mais movimentada da manhã, na altura em que as ruas de Roma ficam inundadas de humanidade, agitada e desperta pelos aguilhões perpétuos da fome, da obediência e da ganância.

 

Vêem-se mais escravos domésticos na rua a essa hora do que em qualquer outro momento do dia. Eles percorrem a cidade com uma série de incumbências matinais, entregando mensagens, levando encomendas, indo chamar pessoas, às compras de mercado em mercado. Transportam consigo o forte odor do pão, acabado de cozer num milhar de fornos de pedra espalhados por toda a cidade, cada um deles expelindo o seu fio de fumo como uma oferta diária aos deuses. Transportam o odor a peixe fresco de espécies de água doce, capturado ali perto, no Tibre, ou de espécies mais exóticas, transportadas durante a noite, rio acima, desde o porto de Óstia moluscos criados na lama e grandes peixes do mar, polvos e chocos escorregadios. Transportam o cheiro a sangue dos membros e dos peitos cortados e dos órgãos cuidadosamente extraídos de vacas, galinhas, porcos e ovelhas, embrulhados em panos e lançados sobre os ombros, destinados à mesa dos seus senhores, aos estômagos já proeminentes dos seus senhores.

 

Não conheço nenhuma cidade capaz de competir com a absoluta vitalidade de Roma na hora que antecede o meio da manhã. Roma desperta espreguiçando-se, satisfeita consigo própria, e inspirando profundamente, a fim de estimular os pulmões e acelerar o pulso. Roma acorda com um sorriso, despertando de sonhos agradáveis, pois todas as noites Roma vai dormir sonhando com o império. Na manhã seguinte, Roma abre os olhos, pronta para se dedicar à tarefa de realizar esse sonho à luz do dia. Há outras cidades que continuam a dormir Alexandria e Atenas entusiasmando-se com sonhos do passado, Pérgamo e Antioquia cobrindo-se de esplendor oriental, as pequenas Pompeia e Herculano, entregando-se ao luxo de dormir até à tarde. Roma gosta de sacudir o sono e de se dedicar às tarefas do dia. Roma levanta-se cedo.

 

Roma são várias cidades numa só. A qualquer hora do dia que a atravessemos, poderemos sempre observar pelo menos alguns dos seus aspectos. Aos olhos daqueles que olham para uma cidade e vêem rostos, é sobretudo e antes de mais uma cidade de escravos, porque os escravos são muito mais numerosos do que os cidadãos e os libertos. Há escravos por toda a parte, tão ubíquos e vitais para a vida da cidade como as águas do Tibre ou a luz do Sol. Os escravos são o sangue da vida de Roma.

 

Há-os de todas as raças e condições. Alguns têm origem em cepas indistinguíveis das dos seus senhores. Andam pelas ruas mais bem vestidos e mais finamente arranjados do que muitos homens livres; pode faltar-lhes a toga do cidadão, mas as suas túnicas são feitas de um material igualmente fino. Outros são inimaginavelmente desprezíveis, como aqueles operários meio-idiotas com a pele marcada pelas bexigas, que se vêem pelas ruas em colunas esfarrapadas, nus à excepção do pano que lhes cobre o sexo, transportando enormes pesos, ligados uns aos outros pelas cadeias que lhes prendem os tornozelos, mantidos em filas por tiranos que brandem longos chicotes e atormentados pelas nuvens de moscas que os seguem para onde quer que vão. Correm para as minas, ou para as galeras ou para cavarem as fundações da casa de um homem rico, a caminho de um túmulo antecipado.

 

Para aqueles que olham para uma cidade e não vêem pessoas, mas pedras, Roma é decididamente uma cidade de culto. Roma sempre foi um local piedoso, onde se fazem abundantes sacrifícios (ainda que nem todos com sinceridade) a todo e qualquer deus ou herói que possa vir a tornar-se um aliado no sonho do império. Roma presta culto aos deuses. Roma adora os mortos. Abundam os templos, os altares, os santuários e as estátuas. Ao virarmos uma esquina, pode cheirar-nos subitamente a incenso. Podemos entrar numa rua estreita e ventosa num bairro que conhecemos desde a infância e deparar subitamente com um marco em que nunca tínhamos reparado uma estátua minúscula e imperfeita de um deus etrusco esquecido, instalada num nicho e escondida por trás de um arbusto de funcho selvagem, um segredo conhecido exclusivamente pelas crianças que brincam no beco e pelos habitantes da casa, que veneram aquele deus esquecido e impotente como uma divindade doméstica. Ou deparar com um templo, inimaginavelmente antigo, de tal maneira que não é feito de tijolos e mármore, mas de madeira comida pelos vermes e cujo interior foi há muito despido de qualquer pista que nos permita saber qual a divindidade que ali habitou, mas que continua a ser sagrado por razões de que nenhum dos vivos se recorda.

 

Há outras visões mais próprias de determinadas zonas. O meu bairro, por exemplo, exibe uma estranha mistura de morte e desejo. A minha casa está situada a meio do monte Esquilino. Acima de mim, fica o quarteirão dos trabalhadores da morgue, daqueles que cuidam da carne dos mortos os embalsamadores, os que fazem as massagens de perfume, os que transportam a chama. Dia e noite, eleva-se do topo uma coluna maciça de fumo, mais espessa e mais escura do que qualquer outra, nesta cidade de fumo, que transporta aquele odor estranhamente atraente da carne queimada que só se encontra nos campos de batalha. Abaixo da minha casa, no sopé da colina, situa-se a conhecida Subura, a maior concentração de tabernas, casas de jogo e bordéis a oeste de Alexandria. A proximidade destes dois bairros tão díspares que dispensam a morte, de um lado, e os mais básicos prazeres da vida, do outro pode conduzir a estranhas justaposições.

 

Tiro e eu descemos o caminho empedrado e escarpado que sai de minha casa, passando pelos brancos muros de estuque dos meus vizinhos.

 

Cuidado aí disse-lhe eu, apontando para um ponto onde sabia que estaria à nossa espera um carregamento fresco de excrementos, lançado por cima do muro pelos habitantes da casa da esquerda. Tiro saltou para a direita, evitando o monte com alguma dificuldade, e franziu o nariz.

 

Não estava aqui quando eu subi riu-se ele.

 

Não, tem um aspecto bastante fresco. A dona da casa expliquei-lhe com um suspiro vem de uma cidadezinha atrasada de Sâmnio. Já lhe expliquei um milhão de vezes como funcionam os esgotos públicos, mas ela só sabe responder: ”Era assim que nós fazíamos no Buraco de Plutão”, ou lá como é a que se chama a cidadezinha malcheirosa de onde ela vem. Nunca fica aqui muito tempo; durante o dia, o homem que vive por trás do muro manda um dos seus escravos apanhar a porcaria. Não sei porquê; o caminho só leva a minha casa eu sou a única pessoa que tem de olhar para ela, e não é provável que outras pessoas pisem a porcaria. Talvez não goste do cheiro. Ou talvez a roube para fertilizar o jardim. Só sei que essa é uma das rotinas previsíveis da vida a senhora do Buraco de Plutão deita a merda da família por cima do muro todas as manhãs; e o homem do outro lado da rua apanha-a antes de a noite cair. Sorri para Tiro com o meu mais caloroso sorriso. Explico isto a toda a gente que possa visitar-me entre o nascer e o pôr do Sol. De outra maneira, é fácil as pessoas darem cabo de um par de sapatos em óptimo estado.

 

O caminho alargou-se. As casas começaram a ficar mais pequenas e mais juntas. Finalmente, chegámos ao sopé do Esquilino e entrámos na avenida larga chamada Via de Subura. Um grupo de gladiadores, com a cabeça rapada à excepção de uns primitivos rabichos no alto, saiu a cambalear do Covil de Vénus. O Covil é conhecido por enganar os seus clientes, espcialmente os que visitam Roma, mas também os nativos, e essa é uma das razões por que eu nunca o frequentei, apesar da sua conveniente proximidade da minha casa. Enganados ou não, os gladiadores pareciam satisfeitos. Cambaleavam pela rua, apoiando-se nos ombros uns dos outros e entoando uma canção que tinha tantas músicas quantas as vozes que a cantavam, ainda embriagados depois do que devia ter sido uma longa noite de deboche.

 

À esquina da rua, um grupo de jogadores de trígono abriu-se para dar passagem aos gladiadores, voltando em seguida a formar-se para recomeçar o jogo, assumindo cada jogador o seu lugar numa ponta do triângulo desenhado no pó. Batiam com a mão na bola de pele para a frente e para trás, rindo-se ruidosamente. Pouco mais eram do que rapazes, mas eu já os tinha visto entrar e sair suficientes vezes pela porta lateral do Covil para saber que eram lá empregados. O facto de estarem a pé tão cedo e a jogar, depois de terem trabalhado toda a noite no bordel, era um tributo à energia da juventude.

 

Voltámos à direita, caminhando para oeste ao longo da Via de Subura, seguindo os gladiadores embriagados. Havia outra estrada que descia do Esquilino e acabava numa ampla intersecção, mais à frente. Há uma regra em Roma: quanto mais larga for uma rua e maior uma praça, mais apinhada e intransitável estará. Tiro e eu avançámos com dificuldade em fila indiana, abrindo caminho pelo meio da súbita congestão de carros, animais e vendas de ocasião. Eu acelerei o passo e disse-lhe que me acompanhasse; apanhámos rapidamente os gladiadores. Como seria de prever, a multidão abria-se para deixá-los passar, como o nevoeiro perante uma forte rajada de vento. Tiro e eu aproveitávamos essas abertas.

 

Abram caminho! gritou subitamente uma voz forte. Abram caminho para os mortos! Um grupo de embalsamadores vestidos de branco vindos do Esquilino aproximou-se pela nossa direita. Empurravam uma carrinha comprida e estreita, transportando um corpo embrulhado em gase, que parecia flutuar num casulo de fragâncias essência de rosas, unguento de cravo-da-índia, especiarias orientais de nomes impronunciáveis. Como sempre, o cheiro a fumo vinha-lhes agarrado às vestes, misturado com o odor a carne queimada, proveniente dos enormes crematórios que havia no topo do monte.

 

Abram caminho! gritava o chefe, brandindo uma delgada varinha de madeira, do tipo da que uma pessoa poderia usar para disciplinar suavemente um cão ou um escravo. Embora a varinha apenas atingisse o ar, os gladiadores ofenderam-se. Um deles deu uma sapatada na varinha, soltando-a da mão do embalsamador. Ela voou rodopiando pelo ar, e ter-me-ia atingido no rosto se eu não me tivesse agachado. Ouvi atrás de mim um guincho de dolorosa surpresa, mas não me incomodei a olhar. Mantive-me agachado e puxei a manga de Tiro.

 

A pressão da multidão era demasiadamente forte para que fosse possível fugir. Em vez de se voltarem calmamente, como recomendavam as circunstâncias, as pessoas começaram subitamente a empurrar de todos os lados, cheirando a possibilidade de violência e com medo de não assistirem. Não ficaram desapontadas.

 

O embalsamador era um homem pequeno, de estômago proeminente, calvo e coberto de rugas. Ergueu-se a toda a sua altura, e mesmo um pouco acima dela, pondo-se em bicos de pés. Encostou a face, retorcida de raiva, à do gladiador. Franziu o nariz ao sentir o hálito do gladiador eu próprio, que me encontrava um pouco distante, consegui sentir o cheiro a alho e a vinho rançoso e sibilou para ele como uma cobra. O espectáculo era absurdo, patético, assustador. O enorme gladiador respondeu com um grande arroto e outra sapatada, com que empurrou o embalsamador para trás, para cima da carrinha. Ouviu-se um estalido de ossos ou de madeira, ou de ambos; o embalsamador e a carrinha desfizeram-se juntos.

 

Eu apertei a manga de Tiro com mais força.

 

Por aqui murmurei, indicando uma súbita aberta na multidão. Antes de termos conseguido lá chegar, o intervalo encheu-se de novos espectadores.

 

Tiro fez um ruído peculiar. Eu olhei para ele. O ruído era menos peculiar do que a sua expressão. Ele olhava para baixo. Eu senti um forte encontrão contra os tornozelos. A carrinha tinha lançado o seu conteúdo para a rua. O corpo rolara de cabeça voltada para cima até embater nos meus pés, com a mortalha de gase a desenrolar-se atrás de si.

 

Tratava-se do cadáver de uma mulher, pouco mais que uma rapariga. Era loura e pálida, como são pálidos todos os cadáveres quando lhes tiram o sangue. Apesar do tom de cera da sua carne, era óbvio que fora consideravelmente bela. A queda despojara-a da sua veste, desnudando um seio branco e duro como alabastro, e um mamilo cor-de-rosa desbotado.

 

Relanceei o olhar pelo rosto de Tiro, vendo os seus lábios abrirem-se com uma luxúria espontânea e irreflectida, mas retorcerem-se nos cantos com igualmente espontânea repulsa. Olhei para cima e detectei outra aberta na multidão. Dirigi-me para aí, puxando Tiro pela manga, mas ele estava pregado ao chão. Puxei com mais força. Certamente que, agora, ia haver problemas.

 

Nesse instante, ouvi o som inconfundivelmente metálico de um punhal a ser tirado da bainha e, pelo canto do olho, avistei um brilho de aço. Não tinha sido um dos gladiadores a puxar da arma a figura encontrava-se do lado oposto da carrinha, no meio dos embalsamadores. Seria um guarda-costas? Seria um parente da rapariga? Um instante depois tão depressa, que eu não tive qualquer sensação de movimento, mas apenas de deslocação, a figura e o brilho do aço encontravam-se do lado da carrinha situado mais perto de nós. Ouviu-se um estranho som de dilaceração, diminuto mas de certa maneira definitivo. O gladiador dobrou-se ao meio, agarrado à barriga. Grunhiu, depois gemeu, mas o ruído foi submerso por um forte guincho colectivo.

 

Não cheguei a ver o assassino nem o crime; estava demasiadamente ocupado a tentar abrir caminho por entre a multidão, que se espalhou como grãos de um saco rasgado no momento em que a primeira gota de sangue caiu sobre as pedras do pavimento.

 

Anda embora! gritei, arrastando Tiro atrás de mim. Ele continuava a olhar por cima do ombro para a rapariga morta, sem perceber, pensei eu, o que se tinha passado. Mas, quando nos encontrávamos a uma distância segura, longe do tumulto e da confusão que prosseguiam à volta da carrinha voltada, ele olhou de lado para mim e disse baixinho:

 

Devíamos voltar lá, senhor. Fomos testemunhas.

 

Testemunhas de quê?

 

De um assassínio!

 

Eu não vi nada. E tu também não. Estiveste sempre a olhar para a rapariga morta.

 

Não, eu vi tudo. Ele engolia com dificuldade. Eu assisti a um assassínio.

 

Não sabes ao certo. O gladiador pode recuperar. Além disso, provavelmente não passa de um escravo. Encolhi-me perante o brilho de dor que detectei nos olhos de Tiro.

 

De qualquer maneira, devíamos voltar lá interrompeu Tiro. A facada foi só o começo. A cena continuou, não estás a ver? Metade do mercado está a ser empurrado para lá. Ergueu as sobrancelhas, pois acabara de ter uma ideia. Processos! Talvez uma das partes precise de um bom advogado.

 

Olhei para ele, silenciosamente espantado.

 

O teu senhor, Cícero, é de facto um homem de sorte. Tu és muito prático, Tiro. Um brutal crime tem lugar diante dos teus olhos, e o que vês tu? Uma perspectiva de negócio.

 

Tiro ficou picado com o meu riso.

 

Mas há advogados que ganham imenso dinheiro assim. Cícero diz que Hortênsio emprega nada menos do que três criados, cujo único trabalho é andar pelas ruas, à procura de casos prováveis.

 

Voltei a rir-me.

 

Duvido de que o teu Cícero gostasse de ter aquele gladiador como cliente, ou o dono do gladiador. Mas o que é mais importante é que duvido de que eles quisessem relacionar-se com o teu senhor, ou com qualquer outro advogado. As partes interessadas farão justiça à maneira habitual: sangue por sangue. Se não quiserem encarregar-se eles próprios disso embora os amigos do homem que foi esfaqueado me não parecessem propriamente cobardes ou escrupulosos, farão aquilo que toda a gente faz, que é contratar um bando para o fazer. O bando há-de descobrir o assassino, ou o irmão do assassino, e apunhalá-lo-á como vingança; a família da nova vítima contratará um bando rival para devolver a violência, e assim sucessivamente. E isto Tiro, é a justiça romana.

 

Consegui sorrir, permitindo a Tiro tomar a minha afirmação como uma piada. Mas o seu rosto ficou ainda mais sombrio.

 

É isto a justiça romana disse eu mais ponderadamente para aqueles que não têm dinheiro para contratar um advogado, ou talvez nem sequer saibam o que é um advogado. Ou sabem, mas não confiam neles, pois acham que todos os tribunais são uma fraude. O mais provável é que aquilo que nós vimos seja o meio de uma rixa desse género, e não o começo. O homem da faca poderia nada ter a ver com os embalsamadores nem com a rapariga morta. Talvez estivesse apenas à espera do momento oportuno para dar o golpe, e quem sabe porquê, ou até onde remonta a discussão? O melhor é mantermo-nos de fora. Não podemos recorrer a ninguém para pôr fim àquilo.

 

Esta última parte era verdadeira, e era uma constante fonte de espanto para os visitantes que vinham de capitais estrangeiras, ou para pessoas pouco habituadas à vida numa república: em Roma não há Polícia. Não existe um corpo municipal armado que mantenha a ordem dentro dos muros da cidade. Ocasionalmente, um senador farto de violência propõe a criação de uma força desse género. A reacção de todos é imediata: Mas a quem é que vai pertencer essa Polícia? têm razão. Num país governado por um rei, a lealdade da Polícia estende-se em linha recta até ao monarca. Mas Roma é uma república (governada, no momento em que escrevo, por um ditador, é certo, mas um ditador temporário e constitucionalmente legal). Em Roma, quem quisesse conspirar e maquinar para conseguir ser nomeado chefe de uma tal força policial, limitar-se-ia a utilizá-la para seu engrandecimento, enquanto os maiores problemas dos seus agentes seriam decidir de quem deveriam aceitar o maior suborno, e se deviam servir essa pessoa ou apunhalá-la pelas costas. A Polícia serviria exclusivamente como um instrumento que uma facção poderia utilizar contra outra. Tornar-se-ia apenas mais um bando com o qual o público teria de lutar. Roma prefere viver sem Polícia.

 

Deixámos para trás a praça, bem como a Via Subura. Eu conduzi Tiro para uma rua estreita que conhecia, um atalho. Tal como a maioria das ruas de Roma, não tem nome. Eu chamo-lhe a Estreita.

 

A rua era escura e bolorenta, pouco mais do que uma fenda entre dois muros altos. Os tijolos e as pedras do pavimento estavam cobertos de humidade, manchada de bolor. Até as paredes parecia suarem; as pedras da calçada exalavam um odor a humidade, um cheiro quase animal, rançoso e não inteiramente desagradável. Era uma rua que o sol nunca visitava, que nunca era seca pelo seu calor nem purificada pela sua luz cheia de vapor no pico do Verão, coberta por uma camada de gelo no Inverno, eternamente húmida. Há mil ruas como esta em Roma, pequenos mundos separados do grande mundo, isolados e independentes.

 

A viela era demasiadamente estreita para podermos caminhar a par. Tiro seguia atrás de mim. Pelo som da sua voz, percebi que ele olhava constantemente por cima do ombro. Pelo tom da sua voz, percebi que estava nervoso.

 

Haverá muitos esfaqueamentos nesta zona?

 

Na Subura? Constantemente. À luz do dia. É o quarto de que oiço falar este mês, embora seja o primeiro a que assisti. É o tempo quente que os traz. Mas, na verdade, as coisas não são piores na Subura do que noutros sítios. Pode ficar-se com o pescoço cortado com a mesma facilidade no Palatino, ou até em pleno Fórum.

 

Cícero diz que a culpa é de Sula. A frase começou arrojadamente, mas terminou com um fragmento estranhamente sufocado. Não precisei de olhar para o rosto de Tiro, para perceber que ele tinha corado. Era uma atitude temerária, um cidadão criticar o nosso amado ditador. E mais temerário ainda era o seu escravo repetir as suas críticas descuidadamente. Eu devia ter deixado cair o assunto, mas a minha curiosidade tinha sido picada.

 

Quer dizer que o teu senhor não é admirador de Sula? Tentei dar à minha pergunta um tom casual, para deixar Tiro à vontade. Mas Tiro não respondeu.

 

Cícero não tem razão, sabes, se é isso que ele pensa que o crime e o caos que devastam Roma são da responsabilidade de Sula. Os banhos de sangue nas ruas não começaram com Sula embora Sula tenha certamente contribuído para eles. Aí, eu próprio estava a pisar gelo fino. Mas Tiro continuava a não responder. Caminhando atrás de mim, não tendo de me olhar de frente, podia fingir que não estava a ouvir. Os escravos aprendem rapidamente a fingir que são surdos ou que estão distraídos. Eu podia ter parado e ter-me voltado para ele, mas isso seria dar demasiada importância ao assunto.

 

Mas também não estava disposto a deixá-lo morrer. Há qualquer coisa na simples menção do nome de Sula que acende um fogo em todos os Romanos, sejam eles amigos ou inimigos, cúmplices ou vítimas.

 

A maioria das pessoas atribui a Sula o regresso da ordem a Roma. Talvez por um elevado preço, e não sem um banho de sangue mas a ordem é a ordem, e não há nada a que um romano dê mais valor. Mas presumo que Cícero tenha uma opinião diferente.

 

Tiro nada disse. A estreita ruela virava para a esquerda e para a direita, impossibilitando-me de ver mais do que uns metros adiante. Ocasionalmente, passávamos por uma porta ou uma janela, ligeiramente recuadas, sempre fechadas. Dificilmente poderíamos estar mais isolados.

 

Claro que Sula é um ditadordisse eu. Isso enerva o espírito romano: nós somos todos homens livres pelo menos aqueles que não são escravos. Mas, afinal de contas, um ditador não é um rei: é isso que os legisladores nos ensinam. Uma ditadura é uma coisa perfeitamente legal, desde que seja aprovada pelo Senado. Só em casos de emergência, naturalmente. E só durante um período de tempo previamente fixado. O facto de Sula manter os seus poderes desde há três anos, ultrapassando o ano legalmente estabelecido pois, talvez seja isso que aborrece o teu senhor. O desleixo que isso implica.

 

Por favor disse-me Tiro, num murmúrio tenso. Não continues a falar disso. Nunca se sabe quem estará a ouvir.

 

Ah, as próprias paredes têm ouvidos outro pensamento sábio proveniente dos cautelosos lábios do senhor Grão-de-Bico?

 

Isto acabou por fazê-lo reagir.

 

Não! Cícero diz sempre o que pensa tem tanto medo de dizer o que pensa como tu. E sabe muito mais sobre política do que tu aparentemente sabes. Mas não é imprudente. Cícero diz: Se um homem não for versado na arte da retórica, deixará rapidamente de controlar as palavras que pronuncia em lugares públicos, que se tornarão folhas levadas pelo vento. Uma verdade inocente pode ser torcida, transformando-se numa mentira fatal. É por isso que ele me proíbe de falar de política fora de sua casa. Ou com estrangeiros que não sejam dignos de confiança.

 

Isso pôs-me no meu lugar. Tanto o silêncio como a ira de Tiro eram justificados; eu atormentara-o deliberadamente. Mas não lhe pedi desculpa, nem sequer daquela maneira indirecta que os homens livres por vezes utilizam para pedir desculpa aos escravos. Tudo aquilo que me desse uma imagem mais clara de Cícero antes de me encontrar com ele valia a trivial despesa de ofender o seu escravo. Além disso, uma pessoa devia conhecer muito bem um escravo antes de lhe permitir saber que a sua insolência nos agradava.

 

Continuámos a andar. A Estreita alargou apenas o suficiente para permitir a duas pessoas caminharem lado a lado. Tiro aproximou-se um pouco, mas não o suficiente para se pôr ao meu lado, mantendo uma distância formal, atrás de mim e à minha esquerda. Voltámos à Via Subura perto do Fórum. Tiro indicou-me que seria mais rápido atravessar o Fórum do que rodeá-lo. Passámos pelo coração da cidade, da Roma em que os visitantes pensam, com os seus magníficos pátios e as suas fontes, os seus templos e as suas praças, onde se fazem as leis e onde os deuses mais importantes são adorados nas suas mais belas casas.

 

Passámos pela própria Rostra, pelo alto pedestal decorado com os bicos de navios capturados, de onde os oradores e os advogados defendiam os mais importantes processos do sistema jurídico romano. Nada mais dissemos acerca do ditador Sula, mas eu não pude deixar de perguntar a mim próprio se Tiro estaria a pensar, como eu estava, na cena que tivera lugar exactamente ali apenas um ano antes, quando as cabeças dos inimigos de Sula se alinhavam no Fórum, às centenas, arrancadas dos corpos e espetadas em estacas. O sangue das suas vítimas ainda formava manchas ferrujentas na pedra branca e imaculada.

 

Tal como Tiro dissera, a casa de Cícero era consideravelmente mais pequena do que a minha. O seu exterior era quase constrangidamente modesto e tranquilo, formando uma estrutura singular sem um único ornamento. O rosto que apresentava à rua era totalmente liso, nada mais do que um muro de estuque cor de açafrão onde se destacava uma estreita porta de madeira.

 

A aparente modéstia da casa de Cícero não queria dizer grande coisa. Encontrávamo-nos, evidentemente, num dos mais caros bairros de Roma, onde a dimensão pouca relação tem com a riqueza. A mais pequena das casas deste bairro podia valer tanto como um bloco de villas na Subura. Para além disso, as classes abastadas de Roma evitam tradicionalmente a exibição de ostentação em suas casas, pelo menos no que diz respeito ao exterior. Afirmam elas que se trata de uma questão de bom gosto. Eu suspeito de que isso tem mais a ver com o seu receio de que uma vulgar exibição de riqueza possa despertar a inveja da multidão. Além disso, uma decoração dispendiosa no exterior é bem mais fácil de roubar do que a mesma decoração exibida na segurança do seu interior.

 

Esta austeridade e sobriedade nunca deixaram de ser consideradas ideais. Apesar disso, ao longo da minha vida, tenho vindo a assistir a desvios no sentido da opulência pública. Isto sucede em particular entre os proprietários jovens e ambiciosos, especialmente aqueles cujas fortunas floresceram no despontar da guerra civil e do triunfo de Sula. Eles acrescentam uma segunda história; eles constróem pórticos sobre os seus telhados. Eles instalam estatuária importada da Grécia.

 

Nada disso se via na rua onde Cícero morava. Aí reinava o decoro. As casas tinham as traseiras voltadas para a rua e a frente para o interior, nada tendo a dizer aos estranhos que por ali passassem, reservando a sua vida privada para os privilegiados que nelas tinham entrada.

 

A rua era pequena e calma. Não se avistavam mercados nas suas extremidades e, aparentemente, os vendedores ambulantes preferiam não perturbar o silêncio. Pedras cinzentas no pavimento, céu azul-pálido no alto, estuque de cores desmaiadas manchado da chuva e com rachas por causa do calor de ambos os lados; não eram permitidas outras cores, e menos que todas o verde não se via um único arbusto rebelde espreitando por entre as pedras da calçada ou estendendo-se por trás de um muro, e muito menos uma flor ou uma árvore. O próprio ar, que se erguia do chão empedrado, quente e sem cheiro, exalava a estéril pureza da virtude romana.

 

Mesmo no meio de todo este comedimento, a casa de Cícero era particularmente austera. Ironicamente, era de tal maneira despretensiosa, que acabava por chamar a atenção aqui está, diriam as pessoas, aqui está a morada ideal para um romano abastado com a mais excelente das virtudes romanas. Era uma casinha tão modesta e tão estreita, que se poderia pensar que era a morada de uma matrona romana outrora abastada, agora viúva e numa situação menos favorável; ou talvez que se tratava da casa de cidade de um agricultor de meios, que só ocasionalmente vinha tratar de negócios, e não a utilizava para receber nem para fazer férias; ou talvez (e era esse o caso) uma casa tão austera numa rua tão discreta pertencesse a um jovem solteiro de meios substanciais e valores fora de moda, a um filho urbanizado de pais rurais, determinado a procurar fortuna entre os círculos mais elevados de Roma, a um jovem de austera virtude romana, tão seguro de si próprio que nem a juventude nem a ambição poderiam seduzi-lo a dar os vulgares passos em falso que a moda exigia.

 

Tiro bateu suavemente à porta.

 

Momentos depois, ela foi aberta por um escravo de barba branca. Afectada por qualquer doença, a cabeça do velho movia-se constantemente, abanando para cima e para baixo e para os lados. Ele demorou algum tempo a reconhecer Tiro, olhando com atenção e de lado e estendendo um pescoço delgado, como uma tartaruga. Não parava de abanar a cabeça. Finalmente a sua boca abriu-se num sorriso sem dentes, e ele recuou para dentro de casa, abrindo a porta para trás.

 

A entrada tinha a forma de um semicírculo, com a parede direita nas nossas costas. A parede curva que se apresentava diante de nós era cortada por três passagens, todas flanqueadas por estreitas colunas e decoradas com frontões. Os corredores para que elas davam estavam escondidos por cortinas de um tecido vermelho de boa qualidade, bordado na base com um desenho de acanto em amarelo. A decoração era completada por candeeiros gregos de pé, colocados nos cantos, e um mosaico não muito distinto (Diana perseguindo um varrão) no chão. Era o que eu esperava. O vestíbulo era adequadamente comedido e de bom gosto, não contradizendo a austeridade da fachada de estuque, mas com peças suficientemente dispendiosas para desmentir qualquer impressão de pobreza.

 

O velho porteiro mandou-nos esperar com um gesto. Silencioso e sorridente, retirou-se através da passagem oculta por uma cortina que se encontrava à nossa esquerda, com a mirrada cabeça a abanar sobre os ombros estreitos, como uma rolha embalada por ondas suaves.

 

Um velho criado da família? perguntei. Esperei que ele desaparecesse e falei baixo. Era óbvio que os ouvidos do velho eram mais perspicazes do que os seus olhos, pois ele ouvira o suficiente para responder à porta, e teria sido indelicado falar acerca dele na sua presença como se fosse um escravo, porque não o era. Eu observara o anel de alforria que ele tinha no dedo, e que o marcava como liberto e como cidadão.

 

É o meu avô respondeu Tiro, com mais do que um pouco de orgulho na voz, Marco Túlio Tiro. Estendeu o pescoço e olhou na direcção da passagem, como se pudesse ver através da cortina e observar o arrastado progresso do velho pelo corredor. A extremidade bordada da cortina agitava-se ligeiramente, por acção da brisa. Deduzi assim que a passagem da esquerda conduzia ao ar fresco e a céu aberto, provavelmente ao átrio, situado no coração da casa, onde presumivelmente o Senhor Cícero estaria confortavelmente instalado, ao abrigo do calor da manhã.

 

Quer dizer que a tua linhagem serve esta família há três gerações? disse eu.

 

Sim, embora o meu pai tenha morrido quando eu era muito novo, antes de eu ter podido conhecê-lo. O mesmo aconteceu à minha mãe. O velho Tiro é o único membro da minha família que ainda vive.

 

E há quanto tempo é que o teu senhor o libertou? perguntei, pois eram o primeiro nome e o nome de família de Cícero que o velho agora usava, para além do seu antigo nome de escravo: Marco Túlio Tiro, liberto por Marco Túlio Cícero. É tradição que um escravo emancipado assuma os primeiros dois nomes do homem que o libertou, dando-lhes precedência, relativamente ao seu.

 

Há quase cinco anos. Até essa altura, ele pertencia ao avô de Cícero e vivia em Arpino. Eu próprio também lhe pertencia, embora sempre tenha estado com Cícero, desde que ambos éramos rapazes. O velho senhor transferiu a propriedade do meu avô, oferecendo-o a Cícero quando ele completou os seus estudos e se instalou aqui em Roma. Foi nessa altura que Cícero o libertou. O avô de Cícero nunca se teria preocupado com o assunto. Ele não é adepto da alforria, por muito que um escravo envelheça, por muito longa e fielmente que sirva o seu senhor. A família de Túlio poderá ser originária de Arpino, mas é romana até à medula. É uma família muito severa e antiquada.

 

E tu?

 

Eu?

 

Achas que Cícero também te libertará um dia? Tiro corou.

 

Fazes perguntas muito estranhas, senhor.

 

É essa a minha natureza. E também a minha profissão. Já deves ter feito a mesma pergunta a ti próprio, mais do que uma vez.

 

Não a faz todo o escravo? Não havia amargura na voz de Tiro, mas apenas uma pálida e despretensiosa nota de tristeza, uma peculiar melancolia com que eu já deparara anteriormente. Nesse momento, percebi que Tiro era um daqueles escravos, naturalmente inteligentes e educados no meio da abundância, que suporta a maldição de perceber quão arbitrárias e caprichosas são as extravagâncias da Fortuna, que faz de um homem escravo toda a sua vida e de outro rei, quando no fundo não há entre eles diferenças discerníveis. Um dia destes disse ele suavemente, quando o meu senhor estiver estabelecido, quando eu for mais velho. De qualquer maneira, de que vale ser livre, a não ser que se queira constituir família? É a única vantagem que entrevejo. E isso é uma coisa em que eu não penso. Pelo menos não penso muito.

 

Tiro voltou o rosto, olhando para a passagem, para o ponto onde o seu avô passara pela cortina. Voltou a olhar para mim, e o seu rosto recuperara a compostura. Levei um momento a perceber que sorria.

 

Além disso disse ele, é melhor esperar que o meu avô morra. De outra maneira, haveria dois libertos chamados Marco Túlio Tiro, e seria difícil distinguirem-nos.

 

Como é que vos distinguem agora?

 

Chamam-nos Tiro e Velho Tiro, naturalmente. Sorriu de forma mais genuína. O avô não responde ao nome Marco. Acha que dá azar chamarem-no por esse nome. É tentar os deuses. Além disso, tem demasiada idade para se habituar a um novo nome, embora esteja orgulhoso dele. E, de qualquer maneira, não vale a pena chamá-lo. Actualmente, apenas atende à porta. E demora muito tempo. Acho que o meu senhor gosta que assim seja. Cícero acha que é boa educação manter os convidados à espera à porta e ainda melhor educação mantê-los aqui, na antessala, a andar de um lado para o outro, pelo menos numa primeira visita, enquanto o Velho Tiro os anuncia.

 

É isso que estamos a fazer agora? À espera de ser anunciados? Tiro cruzou os braços e acenou com a cabeça. Eu olhei à volta da sala. Não havia sequer um banco onde pudesse sentar-me. Muito romano, pensei.

 

Finalmente, o Velho Tiro regressou, erguendo a cortina para deixar passar o seu senhor. Como poderei descrever Marco Túlio Cícero? Os homens belos são todos parecidos uns com os outros, mas um homem feio é feio de acordo com as suas peculiaridades. Cícero tinha a testa larga, o nariz carnudo e o cabelo rarefeito. Era de estatura mediana, tinha o peito pequeno, ombros estreitos e um longo pescoço, com um nó proeminente. Parecia ter consideravelmente mais anos do que os vinte e seis que realmente tinha.

 

Gordiano disse Tiro, apresentando-me. Aquele a quem chamam o Descobridor.

 

Eu inclinei a cabeça. Cícero sorriu calorosamente. Havia nos seus olhos uma chama inquieta e inquisitiva. Fiquei imediatamente impressionado, sem saber exactamente porquê.

 

E, no instante seguinte, fiquei consternado, quando Cícero abriu a boca para falar. Apenas disse duas palavras, mas foi o suficiente. A voz que saiu da sua garganta era aguda e dissonante. O orador devia ser Tiro, com as suas doces modulações. Cícero tinha voz de leiloeiro ou de actor cómico, uma voz tão peculiar como o seu nome.

 

Por aqui disse ele, indicando-me que o seguisse e atravessando a cortina vermelha.

 

O corredor era bastante curto, quase nem era bem um corredor. Demos apenas alguns passos entre paredes despidas, antes de ambas as paredes terminarem. À direita, via-se uma ampla cortina de gase amarelo-pálida, tão fina que através dela se podia ver perfeitamente o pequeno mas imaculado átrio. Aberto para o céu e para o sol, o átrio era como um poço entalhado fora da casa, um reservatório onde se derramavam o calor e a luz. No centro, chapinhava uma pequena fonte. A cortina de gase ondulava mansamente, como uma névoa perturbada por um sopro de ar, como uma membrana viva suspirando à mais pequena brisa.

 

Diante do átrio, havia uma enorme e arejada sala, iluminada por janelas estreitas instaladas no tecto. As paredes eram de gesso branco. O mobiliário era todo de madeira escura e polida, com desenhos rústicos, adornada por subtis floreados de madeira, fivelas de prata e embutidos de madrepérola, cornalina e lazulite.

 

O quarto estava cheio de um espantoso número de rolos de pergaminho. Tratava-se da biblioteca e do escritório de Cícero. Estas salas são muitas vezes as mais íntimas nas casas dos homens abastados, revelando mais coisas acerca dos seus proprietários do que os quartos de cama ou as salas de jantar, que são o domínio das mulheres e dos escravos. Tratava-se de uma sala privada, inegavelmente marcada pelo seu proprietário, mas também de uma sala pública; uma prova disso eram as muitas cadeiras espalhadas por ali, algumas delas em pequenos grupos, como se tivessem acabado de ser abandonadas por um desordenado grupo de visitantes. Cícero apontou para um grupo de três cadeiras, sentou-se, e indicou-nos que fizéssemos o mesmo. Que género de homem recebe os seus convidados na biblioteca, e não na sala de jantar ou na varanda? Um homem com pretensões gregas, pensei eu. Um estudioso. Um amante do conhecimento e da sabedoria. Um homem que inicia uma conversa com uma pessoa que não conhece com um desafio como este:

 

Diz-me uma coisa, Gordiano, o Descobridor alguma vez pensaste em assassinar o teu pai

 

Que expressão terei eu feito? Suponho que comecei a responder, retraí-me, olhei-o de soslaio. Cícero assistiu a tudo isso, e sorriu daquela maneira reservada como os oradores sorriem sempre que conseguem manipular a audiência. Os actores (e eu tenho conhecido alguns) sentem uma satisfação bastante semelhante, o mesmo frémito de poder. O pastor revela a verdade a Édipo e, com uma só palavra, origina ruídos de choque e consternação num milhar de gargantas, que reagem à sua deixa. Por trás da sua máscara, o pastor sorri e retira-se.

 

Fingi olhar de forma distraída para um rolo de pergaminho; percebi, pelo canto do olho, que Cícero continuava a observar-me, interessado em avaliar a minha reacção. Os oradores pensam que conseguem controlar tudo e todos com as suas palavras. Eu esforcei-me por afastar do meu rosto qualquer vestígio de expressão.

 

O meu pai comecei, e tive de fazer uma pausa para clarear a garganta, odiando essa interrupção, por me parecer um sinal de fraqueza. O meu pai já morreu, estimado Cícero. Morreu há muitos anos. A expressão de travessura que havia nos seus olhos recuou. Ele franziu o sobrolho.

 

As minhas desculpas disse suavemente, com uma ligeira inclinação da cabeça. Não pretendi ofender-te.

 

Não me senti ofendido.

 

Óptimo. Depois de um intervalo adequado, desfranziu as sobrancelhas. O olhar travesso regressou. Então não te importarás que volte a fazer-te a mesma pergunta de um ponto de vista puramente hipotético, claro. Supõe, pois, supõe apenas que tinhas um pai de que querias ver-te livre. Como farias?

 

Encolhi os ombros.

 

Que idade tem o velho?

 

Sessenta anos, talvez sessenta e cinco.

 

E que idade tenho eu hipoteticamente?

 

Talvez quarenta anos.

 

Tempo disse eu. Quaisquer que sejam as queixas, o tempo resolverá o problema, tão seguramente como qualquer outra solução.

 

Cícero abanou a cabeça.

 

Basta esperar, queres tu dizer. Sentar-se. Descontrair-se. Deixar a natureza agir. Sim, essa seria a maneira mais fácil. E talvez, embora não necessariamente, a mais segura. Seria certamente isso que a maioria das pessoas faria, quando confrontada com outra pessoa cuja existência não suporta especialmente se essa pessoa fosse mais velha ou mais fraca, especialmente se por acaso fosse um membro da família. Muito especialmente se fosse o próprio pai. Suporta o desconforto e tem paciência. Deixa o tempo resolver as coisas. Afinal, ninguém vive eternamente, e os jovens costumam sobreviver aos que são mais velhos do que eles.

 

Cícero fez uma pausa. A gase amarela ergueu-se suavemente e voltou a cair, como se toda a casa tivesse exalado. A sala foi inundada de calor.

 

Mas o tempo pode ser um luxo. Certamente que, se a pessoa esperar, um velho de sessenta e cinco anos acabará por expirar naturalmente embora possa ter oitenta e cinco anos antes que isso aconteça.

 

Ergueu-se da sua cadeira e começou a andar de um lado para o outro. Cícero não era homem para discursar sentado quieto. Mais tarde, eu perceberia que todo o seu corpo era uma espécie de mecanismo as pernas andavam deliberadamente de um lado para o outro, os braços moviam-se, as mãos faziam gestos ponderados, a cabeça inclinava-se, as sobrancelhas oscilavam para cima e para baixo. Nenhum destes movimentos era um fim em si mesmo. Mas todos eles estavam, de alguma maneira, relacionados uns com os outros, e todos se submetiam à sua voz, aquela voz estranha, irritante, completamente fascinante como se a sua voz fosse um instrumento e o seu corpo, a máquina que o produzia; e como se os seus membros e os seus dedos fossem as engrenagens e as alavancas necessárias à produção da voz que saía da sua boca. O corpo movia-se. A voz emergia.

 

Considera disse ele uma inclinação da cabeça, um subtil floreado com a mão um velho de sessenta e cinco anos, viúvo, que vive sozinho em Roma. Não é do tipo retirado. Gosta bastante de ir a jantares e a festas. Adora o teatro e a arena. Frequenta as termas. Até frequenta juro, aos sessenta e cinco anos! o bordel do seu bairro. O prazer é a sua vida. Quanto ao trabalho, está reformado. E tem dinheiro para gastar. Tem propriedades valiosas no campo, tem quintas e vinhas mas já não se incomoda com elas. Há muito que passou a alguém mais jovem a tarefa de gerir as coisas.

 

A mim disse eu.

 

Cícero sorriu ligeiramente. Tal como todos os oradores, odiava ser interrompido, mas a pergunta provava, pelo menos, que eu estava a ouvir.

 

Sim disse ele, hipoteticamente. A ti. Ao seu hipotético filho. Quanto ao velho, a sua vida é agora inteiramente dedicada ao prazer. Na sua procura, percorre as ruas da cidade a todas as horas do dia e da noite, apenas acompanhado pelos seus escravos.

 

Não tem guarda-costas? disse eu.

 

Não. Acompanham-no dois escravos. Mais por conveniência do que para o protegerem.

 

Armados?

 

Porvavelmente não.

 

O meu hipotético pai anda à procura de sarilhos. Cícero acenou com a cabeça.

 

É verdade. As ruas de Roma não são lugar que um cidadão respeitável deva percorrer a meio da noite. Especialmente um velho. Especialmente se tem aspecto de ter dinheiro, e não possui guardas armados. Que imprudência! Arriscar a vida, dia-a-dia que velho louco. Mais cedo ou mais tarde, acontecer-lhe-á alguma coisa, pelo menos é de supor que assim seja. E, no entanto, ele mantém o seu escandaloso comportamento ano após ano, e nada lhe acontece. As pessoas começam a pensar que um demónio ou um espírito invisível deve olhar por ele, pois nunca lhe acontece mal algum. Não foi roubado uma única vez. Não foi sequer ameaçado uma única vez. O pior que lhe acontece é ser abordado por um pedinte, ou por um bêbedo ou por uma prostituta vadia ao fim da noite, e com eles pode facilmente lidar, com uma moeda ou uma palavra aos seus escravos. Não, o tempo não parece cooperar. Sem outros expedientes, o velho pode perfeitamente viver para sempre.

 

Mas isso seria assim tão mau? Acho que começo a gostar dele. Cícero ergueu uma sobrancelha.

 

Pelo contrário, tu odeia-lo. Não importa porquê. Supõe apenas por um momento que, seja por que razão for, tu queres que ele morra. Desesperadamente.

 

Ainda assim, o tempo seria o meio mais fácil. Disseste que ele tinha sessenta e cinco anos e que tal é a sua saúde?

 

Excelente. Talvez melhor do que a tua. E por que não? As pessoas estão sempre a dizer que tu trabalhas demasiado, a gerir as propriedades, a sustentar a tua família, trabalhando, tu sim, para um túmulo antecipado enquanto o velho não tem preocupações. Limita-se a divertir-se. De manhã, descansa. À tarde, faz planos para a noite. À noite, enche-se de alimentos caros, bebe em excesso, anda na pândega com homens com metade da sua idade. Na manhã seguinte, recupera nas termas e recomeça o ciclo. Que tal é a sua saúde? Já te disse, continua a frequentar o bordel do bairro.

 

Toda a gente sabe que a comida e a bebida dão cabo de um homem sugeri. E que já muitas prostitutas fizeram parar o coração de um homem.

 

Cícero abanou a cabeça.

 

Não é suficiente, é demasiadamente imprevisível. Tu odeia-lo, não percebes? Talvez tenhas medo dele. Estás impaciente por que morra.

 

Política? propus.

 

Cícero parou de andar de um lado para o outro durante um momento, sorriu, e depois recomeçou.

 

Política disse ele. Sim, hoje em dia, em Roma certamente que a política pode matar um homem mais rápida e seguramente do que uma vida devassa, ou os braços de uma prostituta, ou mesmo um passeio à noite pela Subura. Abriu os braços, num desespero de orador. Infelizmente, o velho é uma dessas criaturas extraodinárias que conseguem passar pela vida sem nunca se envolverem em política.

 

Em Roma? disse eu. Cidadão e proprietário? Impossível.

 

Digamos então que ele é um daqueles homens parecidos com coelhos encantadores, vazios, inofensivos. Nunca chama a atenção sobre si próprio, nunca ofende ninguém. Não vale a pena perder tempo a persegui-lo enquanto houver coisas mais importantes a fazer. Rodeado de política como de um matagal de urtigas, ele consegue sair do labirinto sem um arranhão.

 

Parece ser muito esperto. Gosto cada vez mais deste velho. Cícero franziu o sobrolho.

 

Isto não tem nada a ver com esperteza. A única estratégia do velho é passar pela vida com a menor inconveniência possível. Tem sorte, é tudo. Nada o atinge. Os aliados italianos revoltam-se contra Roma? Ele é originário de Améria, de uma aldeia que espera até ao último momento para aderir à revolta, e depois recolhe os primeiros frutos da reconciliação; foi assim que se tornou cidadão. A guerra civil entre Mário e Sula, e depois entre Sula e Cina? A lealdade do velho vai variando ele é um realista e um oportunista, como a maioria dos romanos da actualidade e ele emerge como uma donzela delicada que atravessa um rio enfurecido saltando de pedra em pedra sem sequer molhar as sandálias. Hoje em dia, aqueles que não têm opiniões são os únicos que estão em segurança. É um coelho, já te disse. Se deixares que seja a política a pô-lo em perigo, ele viverá até aos cem anos.

 

Não pode ser tão desenxabido como tu o descreves. Nestes tempos, qualquer homem corre riscos pelo simples facto de estar vivo. Dizes que é proprietário, que tem interesses em Roma. Deve ser cliente de alguma família influente. Quem são os seus patronos?

 

Cícero riu-se.

 

Até nesse campo ele escolheu bem; aliou-se à mais branda e mais segura de todas as famílias os Metelos. Parentes de Sula por afinidade ou, pelo menos, eram, antes de Sula se divorciar da sua quarta mulher. E não estou a falar de uns Metelos quaisquer, mas do mais antigo, do mais inerte e infinitamente respeitável dos seus diversos ramos. Por qualquer razão, ele caiu nas graças de Cecília Metela. Conhece-la?

 

Abanei a cabeça.

 

Hás-de conhecê-la respondeu ele, misteriosamente. Não, a política nunca te fará o favor de matar este homem. Sula pode encher o Fórum de cabeças espetadas em paus, o Campo de Marte pode transformar-se num charco de sangue a escorrer para o Tibre que este homem continuará a passear depois de escurecer nas piores zonas da cidade, cheio depois de um jantar em casa de Cecília, caminhando alegremente em direcção ao bordel do bairro.

 

Abruptamente, Cícero sentou-se. Aparentemente, a máquina precisava de descansar de vez em quando, mas o instrumento rachado continuou a funcionar.

 

Estás a perceber que não vai ser o destino a afastar este homem odioso da tua vida. Além disso, pode acontecer que tenhas uma razão urgente para quereres que ele morra não apenas o ódio ou o ressentimento, mas qualquer crise imediata. Tens de ser tu próprio a agir.

 

Sugeres que eu assassine o meu próprio pai?

 

Exactamente.

 

Impossível.

 

Tens de o fazer.

 

Os Romanos não fazem isso!

 

O destino obriga-te.

 

Nesse caso veneno? Ele encolheu os ombros.

 

Possivelmente. Se tivesses acesso a ele. Mas vocês não são um pai e um filho normais, que entram constantemente em casa um do outro. Tem havido algumas discussões entre os dois. Pensa nisto: o velho tem a sua própria casa, aqui na cidade, e raramente dorme noutro sítio. Tu vives na velha casa de família, em Améria, e nas raras ocasiões em que os negócios te obrigam a vir a Roma nunca dormes na casa do teu pai. Preferes ficar em casa de um amigo, ou mesmo numa estalagem estás ver até que ponto estão zangados um com o outro. Por isso, não é fácil teres acesso ao jantar do velho antes de ele o comer. Podias subornar um dos seus criados. Mas isso é improvável e altamente incerto numa família dividida, os escravos tomam partido. É muito mais provável que lhe sejam leais a ele do que a ti. O veneno é uma solução impraticável.

 

A cortina amarela ondulou. Por baixo da sua bainha, passou uma lufada de ar quente, que entrou na sala como um nevoeiro que se mantivesse colado ao chão. Senti-a passar e remoinhar junto dos meus pés, transportando um forte odor a jasmim. A manhã estava a chegar ao fim. O dia começava a aquecer verdadeiramente. De repente, senti-me ensonado. Tiro também; vi-o disfarçar um bocejo. Talvez estivesse apenas aborrecido. Provavelmente não seria a primeira vez que ouvia o seu senhor apresentar a mesma cadeia de argumentos, refinando a sua lógica, preocupando-se com a forma e a glosa de cada frase. Clareei a garganta.

 

Nesse caso, a solução parece óbvia, estimado Cícero. Se o pai tem de ser assassinado por instigação do seu próprio filho, um crime quase excessivamente odioso, então isso tem de ser feito na altura em que o velho está mais vulnerável e mais acessível. Numa noite sem luar, quando ele for a sair de uma festa e se encaminhar para casa ou para um bordel. A essa hora, não há testemunhas, pelo menos testemunhas dispostas a comparecer em tribunal. Os bandos percorrem as ruas. Uma morte como essa nada teria de suspeito. Seria fácil atribuí-la a um grupo qualquer de bandidos anónimos.

 

Cícero inclinou-se para diante. A máquina retomava o seu movimento.

 

Portanto, cometerias tu próprio o acto, com as tuas próprias mãos?

 

Certamente que não! Nem sequer estaria em Roma. Estaria longe, no Norte, na minha casa de Améria a ter pesadelos, provavelmente.

 

Contratavas uns assassinos para te desempenharem a tarefa?

 

Claro.

 

Pessoas que conhecesses e em quem confiasses?

 

Seria provável que eu conhecesse pessoalmente pessoas desse género? Eu, um laborioso agricultor amério? Encolhi os ombros. O mais provável seria que confiasse em estranhos. Num chefe de um bando que tivesse conhecido numa taberna da Subura. Num conhecido sem nome recomendado por outro conhecido de um amigo casual...

 

É assim que as coisas se fazem? Cícero inclinou-se para diante, genuinamente curioso. Já não estava a falar com o hipotético parricida, mas com Gordiano, o Descobridor. Disseram-me que sabias de facto uma ou duas coisas acerca desses processos. Disseram-me: ”Sim, se quiseres entrar em contacto com o tipo de homens que não se importam de sujar as mãos de sangue, deves começar por Gordiano.”

 

Disseram-te? Quem te disse isso, Cícero? Quem é que anda a dizer que eu bebo com assassinos?

 

Ele mordeu os lábios, sem ter bem a certeza do que queria revelar-me. Eu respondi por ele:

 

Presumo que estejas a referir-te a Hortênsio, não?, uma vez que foi Hortênsio quem me recomendou.

 

Cícero lançou um olhar cortante a Tiro, que de repente ficou completamente acordado.

 

Não, Senhor, eu nada lhe disse. Foi ele que adivinhou... Pela primeira vez, Tiro pareceu-me falar como um escravo.

 

Adivinhou? O que queres dizer?

 

Deduziu seria uma palavra mais adequada. Tiro está a dizer a verdade. Eu sei, pelo menos aproximadamente, por que me chamaste. Trata-se de um caso de assassínio que envolve um pai e um filho, ambos chamados Sexto Róscio.

 

Adivinhaste que foi por isso que te chamei? Mas como? Só ontem eu decidi aceitar o caso de Róscio.

 

Suspirei. A cortina suspirou. O calor envolveu-me os pés e as pernas, como água a subir lentamente num poço.

 

Talvez Tiro possa contar-te mais tarde. Está muito calor para eu voltar a explicar tudo, passo por passo. Mas sei que era Hortênsio quem estava encarregado do caso, e que agora és tu. E presumo que esta conversa acerca de hipotéticas conspirações tenha alguma coisa a ver com o assassínio real.

 

Cícero parecia maldisposto. Julgo que se terá sentido um tolo ao descobrir que eu sempre estivera a par das verdadeiras circunstâncias.

 

Sim disse ele, está calor. Tiro, vai buscar uns refrescos. Um pouco de vinho, misturado com água fria. Talvez umas frutas. Gostas de maças secas, Gordiano?

 

Tiro ergueu-se.

 

Vou dizer a Atalena.

 

Não, Tiro, vai tu buscá-los. Não precisas de te apressar. A ordem era aviltante, mas era-o intencionalmente; percebi-o pelo olhar ferido de Tiro e também pela expressão de Cícero, que tinha as pálpebras pesadas e estava abatido, mas não por causa do calor. Tiro não estava habituado a que o mandassem desempenhar estas tarefas servis. E Cícero? É comum ver um senhor descarregar as suas pequenas frustrações nos escravos que o rodeiam. O hábito torna-se de tal maneira vulgar, que eles o fazem sem pensar; os escravos aceitam-no sem se queixarem nem se sentirem humilhados, como se se tratasse de uma inconveniência da natureza, como a chuva num dia de compras.

 

Mas Cícero e Tiro ainda não tinham avançado o suficiente por esse caminho. Tiro saiu da sala amuado, Cícero compadeceu-se, pelo menos tanto quanto podia sem perder a face.

 

Tiro! chamou. Esperou que o escravo regressasse. Olhou-o nos olhos. Não te esqueças de trazer o suficiente também para ti.

 

Um homem mais cruel teria sorrido enquanto falava. Um homem mais cobarde teria falado com os olhos no chão. Cícero não fez uma coisa nem outra e, naquele momento, eu descobri o meu primeiro reflexo de respeito por ele.

 

Tiro partiu. Durante um momento, Cícero brincou com um anel que tinha no dedo, e depois voltou a fixar a sua atenção em mim.

 

Ias a dizer-me como se combina um assassínio nas ruas de Roma. Perdoa-me se a pergunta é presunçosa. Não pretendo dizer com isto que tu próprio alguma vez ofendeste os deuses participando em crimes desses. Mas dizem-me diz Hortênsio que a verdade é que tu sabes mais do que um pouco acerca destas coisas. Quem, como e por quanto...

 

Eu encolhi os ombros.

 

Se um homem quiser que outro homem seja assassinado, isso não é assim muito difícil. Como te disse, uma palavra ao homem indicado, uma quantia em ouro passada de mão em mão, e a tarefa será realizada.

 

Mas onde é que se encontra o homem indicado?

 

Eu esquecera-me que ele era jovem e inexperiente, apesar da sua educação e da sua vivacidade.

 

É mais fácil do que parece. Há anos que diferentes bandos controlam as ruas de Roma depois de escurecer, e por vezes mesmo à luz do dia.

 

Mas os bandos lutam uns com os outros.

 

Os bandos lutam com quem quer que se lhes atravesse no caminho.

 

Os crimes que cometem são crimes políticos. Eles aliam-se a determinado partido...

 

Eles não se metem em política, excepto na política do homem que os contrate. E não têm lealdades, excepto aquela que o dinheiro compra. Pensa, Cícero. De onde vêm os bandos? Alguns deles desovam aqui em Roma, como larvas debaixo de uma pedra. São os pobres, os filhos dos pobres, os seus netos e os seus bisnetos. Dinastias inteiras de criminosos, gerações de vilões gerando linhagens de vício. Negoceiam uns com os outros como pequenas nações. Casam-se entre si como as famílias nobres. E deixam-se contratar, como mercenários, pelo político ou o general que mais atraentes promessas fizer.

 

Cícero desviou o olhar, contemplando as dobras translúcidas da cortina amarela, como se por trás dela avistasse todo o refugo humano de Roma.

 

De onde vêm eles? murmurou.

 

Nascem do chão disse eu, como as ervas daninhas. Ou são arrastados para Roma, vindos do campo, por guerra após guerra. Pensa nisto. Sula vence a guerra contra os aliados italianos rebeldes e paga aos seus soldados em terras. Mas, para eles ficarem na posse dessas terras, os aliados derrotados têm de ser expulsos. Como hão-de eles acabar, senão em Roma, como pedintes e como escravos? E tudo isso para quê? O campo está devastado pela guerra. Os soldados nada sabem de agricultura; um mês ou um ano depois, vendem as suas propriedades a quem mais lhes der por elas e regressam à cidade. Os campos vão parar às mãos dos grandes proprietários. Os pequenos agricultores esforçam-se por competir com eles, são derrotados e desapossessados emigram para Roma. Tenho visto alargar-se cada vez mais, nos anos que conto de vida, a distância entre ricos e pobres, o reduzido número de uns, a enorme quantidade dos outros. Roma é como uma mulher fabulosamente rica e bonita, vestida de ouro e adornada de jóias, com o ventre cheio de um feto chamado Império e infestada da cabeça até aos pés por um milhão de piolhos que se afadigam de um lado para o outro.

 

Cícero franziu o sobrolho.

 

Hortênsio avisou-me de que tu falarias de política.

 

Só porque a política é o ar que respiramos se eu inalo ar, que outra coisa poderia exalar? Poderá não ser assim noutras cidades, mas é assim na República, e nos nossos tempos. Chama-lhe política, chama-lhe realidade. Os bandos existem por uma razão. Ninguém consegue eliminá-los. Toda a gente tem medo deles. Um homem com inclinações para o assassínio há-de descobrir maneira de fazer uso deles. Mais não fará do que seguir o exemplo de um político bem sucedido.

 

Estás a falar de...

 

Não estou a falar de nenhum político em particular. Todos eles utilizam os bandos, ou tentam fazê-lo.

 

Mas estavas a falar de Sula.

 

Cícero foi o primeiro a pronunciar o nome. Eu fiquei surpreendido. E impressionado. A determinado ponto, perdêramos o controlo da conversa, que estava a tornar-se rapidamente sediciosa.

 

Sim disse eu. Se insistes: Sula. Desviei o olhar. Os meus olhos incidiram na cortina amarela. Dei por mim a olhar para ela e para dentro dela, como se, na imprecisão das sombras que havia para além dela, pudesse distinguir as imagens de um velho pesadelo. Estavas em Roma quando começaram as proscrições?

 

Cícero acenou com a cabeça.

 

Também eu. Então sabes como era. Todos os dias era afixada no Fórum uma nova lista de proscritos. E quem eram sempre os primeiros da fila que se formava para ler os nomes? Não, não eram aqueles que poderiam fazer parte da lista, porque esses estavam escondidos em casa, ou sensatamente barricados no campo. Eram os bandidos e os chefes porque Sula não queria saber de quem destruía os seus inimigos, contanto que eles fossem destruídos. Apresenta-te com a cabeça de um proscrito a tiracolo, assina um recibo, e em troca receberás uma bolsa de moedas de prata. Para conseguires essa cabeça, não te detenhas perante coisa alguma. Deita abaixo as portas da casa do cidadão. Espanca-lhe os filhos, viola-lhe a mulher mas não lhe mexas nos bens porque, quando a sua cabeça é separada do corpo, a propriedade de um romano proscrito passa a ser propriedade de Sula.

 

Não exactamente...

 

Enganei-me, claro. Queria dizer que, quando um inimigo do Estado é decapitado, as suas propriedades são confiscadas e passam a ser propriedade do Estado ou seja, serão vendidas em leilão o mais cedo possível, a preços inacreditavelmente baixos, aos amigos de Sula.

 

Até Cícero empalideceu ao ouvir isto. Disfarçou bem o seu nervosismo, mas eu vi-o olhar de um lado para o outro por um breve instante, como se tivesse receio de que houvesse espiões escondidos no meio dos rolos de pergaminho.

 

És um homem de opiniões fortes, Gordiano. O calor solta-te a língua. Mas o que tem tudo isso a ver com o nosso assunto?

 

Eu tive de me rir.

 

E qual é o nosso assunto? Acho que me esqueci.

 

Combinar um assassínio declarou Cícero bruscamente, parecendo a quem quer que o ouvisse um professor de oratória tentando fazer regressar um aluno indisciplinado ao tema proposto. Um assassínio por motivos puramente pessoais.

 

Bem, eu estou apenas a tentar mostrar-te como é fácil, hoje em dia, encontrar assassinos disponíveis. E não apenas na Subura. Olha para qualquer esquina sim, mesmo para esta. Aposto que, se sair de tua casa e der exactamente uma volta ao quarteirão, consigo regressar com um amigo acabado de fazer, totalmente disposto a assassinar esse meu hipotético pai, amigo de prazeres e papa-prostitutas.

 

Estás a ir longe de mais, Gordiano. Se tivesses estudado retórica, saberias que as hipérboles têm limites.

 

Não estou a exagerar. Os bandos tornaram-se muito arrojados. É culpa de Sula e de mais ninguém. Eles transformou-os nos seus caçadores de prémios pessoais. Permitiu-lhes circularem à sua vontade em Roma, como matilhas de lobos. Até as proscrições terem terminado oficialmente, no ano passado, os bandos tinham um poder quase ilimitado de perseguir e matar. Um dia apresentam a cabeça de um homem inocente, de um homem que não estava na lista e então? Os acidentes acontecem. Acrescenta-se esse nome à lista dos proscritos. O morto transforma-se num inimigo retroactivo do Estado. Que importa que isso implique que a sua família seja deserdada, que os seus filhos fiquem arruinados e reduzidos à pobreza, transformando-se em forragem fresca para os bandos? Isso significa também que os amigos de Sula poderão adquirir uma nova casa na cidade.

 

Cícero tinha o ar de quem estava com uma enorme dor de dentes. Ergueu a mão para me silenciar. Eu ergui a minha para o afastar.

 

Estou quase a chegar ao ponto importante. Estás a ver, não foram apenas os ricos e os poderosos que sofreram durante as proscrições, e que continuam a sofrer. Quando a caixa de Pandora se abre, ninguém consegue voltar a fechá-la. O crime torna-se um hábito. O impensável passa a ser um lugar-comum. Tu não consegues percebê-lo daqui, do sítio onde vives. Esta rua é demasiadamente estreita, demasiadamente calma. Por entre as pedras que pavimentam o chão que conduz à tua porta não crescem ervas daninhas. Oh, certamente que, na pior das hipóteses, alguns dos teus vizinhos foram arrastados de casa a meio da noite. Talvez consigas avistar o Fórum do terraço de tua casa e, num dia limpo, é natural que conseguisses contar as novas cabeças espetadas nas estacas.

 

Mas eu conheço uma Roma diferente, Cícero, aquela Roma que Sula deixou para a posteridade. Dizem que ele planeia reformar-se em breve, deixando atrás de si uma nova constituição, destinada a reforçar as classes altas e a colocar o povo no seu lugar. E que lugar é esse, senão a Roma devastada pelo crime que Sula nos legou? A minha Roma, Cícero. A Roma que gera na sombra, que se movimenta de noite, que respira directamente o ar do vício, sem os disfarces da política ou da riqueza. Afinal, foi por isso que me chamaste, não foi? Para te levar a esse mundo, ou para entrar eu próprio nele, e te trazer o que quer que seja que procuras. É isso que eu posso oferecer-te, se estás à procura da verdade.

 

Nesse momento, Tiro regressou, transportando um tabuleiro de prata com três copos, um pão redondo, maças secas e queijo branco. A sua presença acalmou-me instantaneamente. Deixáramos de ser dois homens sozinhos numa sala, a discutir política, tendo passado a ser dois cidadãos e um escravo, ou dois homens e um rapaz, tendo em conta a inocência de Tiro. Eu nunca teria falado de forma tão imprudente se ele não tivesse saído da sala. Receei ter falado de mais.

 

Tiro poisou o tabuleiro numa mesa baixa, entre nós. Cícero olhou desinteressadamente para a comida.

 

Tanta coisa, Tiro?

 

É quase meio-dia, Senhor. É natural que Gordiano esteja com fome.

 

Muito bem. Temos de ser hospitaleiros com ele. Continuou a olhar fixamente para o tabuleiro, mas não parecia estar a vê-lo. Esfregou suavemente as fontes, como se eu lhe tivesse enchido demasiadamente a cabeça de ideias sediciosas.

 

A caminhada fizera-me fome. A conversa deixara-me a boca espessa e seca. O calor provocara-me uma sede profunda. Apesar disso, esperava pacientemente que Cícero iniciasse a refeição. Posso ser politicamente radical, mas a minha educação nunca foi posta em causa quando Tiro deu o sinal de partida inclinando-se para diante, cortando um pedaço do pão e pegando num copo.

 

É exactamente em momentos como este que percebemos até que ponto as convenções estão enraizadas em nós. Apesar de tudo aquilo que a vida me ensinara acerca da natureza arbitrária do destino e dos absurdos da escravatura, apesar de todos os esforços que fizera, desde o momento em que o conhecera, por tratar Tiro como um homem, não deixei de me sobressaltar ligeiramente ao ver um escravo ser o primeiro a servir-se de uma mesa, enquanto o seu senhor se mantinha encostado na cadeira, por não ter ainda vontade de começar.

 

Ambos se aperceberam do meu gesto. Tiro olhou-me, espantado. Cícero riu-se suavemente.

 

Gordiano está chocado. Não está habituado aos nossos costumes, Tiro, ou à tua educação. Não tem importância, Gordiano. Tiro sabe que eu nunca como ao meio-dia. Está habituado a começar sem mim. Por favor, come qualquer coisa. O queijo é bastante bom, vem directamente da vacaria de Arpino, é a minha avó que mo envia, com todo o seu amor. Quanto a mim, beberei um pouco de vinho. Só um pouco; com este calor, o mais provável é que me azede no estômago. Serei o único a sofrer deste padecimento particular? Não consigo comer nada no Verão, jejuo dias a fio. Entretanto, enquanto a tua boca está ocupada com a comida, em vez da traição, talvez eu possa falar-te um pouco mais das razões por que te pedi que viesses aqui. Cícero engoliu e encolheu-se um pouco, como se o vinho tivesse começado a azedar no momento em que passou pelos seus lábios.

 

Afastámo-nos do nosso assunto há já um bom momento, não foi? O que diria Diódoto se nos tivesse ouvido, Tiro? O que eu tenho pago àquele velho grego durante todos estes anos, e nem sequer sou capaz de manter uma conversa ordenada na minha própria casa. O discurso desordenado não é apenas inconveniente; numa altura inoportuna e num lugar inoportuno, pode ser mortal.

 

Nunca percebi bem qual era o assunto, estimado Cícero. Julgo recordar que estávamos a conspirar para matar o pai de alguém. Era o meu pai ou o de Tiro? Não, eles já morreram ambos. Talvez fosse o teu?

 

Cícero não achou graça.

 

Eu apresentei um modelo hipotético, Gordiano, apenas para te sondar acerca de alguns factores a metodologia, a praticabilidade, a plausibilidade relativamente a um crime muito real e muito letal. Um crime que já foi cometido. O facto trágico é que um certo agricultor de Améria...

 

Muito semelhante ao velho agricultor que tu descreveste?

 

Igual a ele. Como eu ia dizendo, um certo agricultor da Améria foi assassinado nas ruas de Roma nos Idos de Setembro, na noite de lua cheia há quase oito meses. Aparentemente, já conheces o seu nome: Sexto Róscio. Agora, dentro de exactamente oito dias nos Idos de Março o filho de Sexto Róscio será levado a tribunal, acusado de ter organizado a morte do pai. Eu serei o seu advogado de defesa.

 

Com tal defesa, eu diria que o acusador é desnecessário.

 

Que queres dizer?

 

Por tudo aquilo que tu disseste, parece-me óbvio que achas que o filho é culpado.

 

Que disparate! Fui assim tão convincente? Suponho que devia sentir-me lisonjeado. Estava apenas a tentar pintar o caso como os seus acusadores provavelmente o descreverão.

 

Estás a dizer-me que acreditas na inocência de Sexto Róscio?

 

Claro! Se assim não fosse, por que razão me encarregaria de o defender contra estas chocantes acusações?

 

Cícero, sei o suficiente sobre advogados e oradores para saber que eles não têm necessariamente de acreditar naquilo que defendem. Nem têm de acreditar na inocência de uma pessoa para a defenderem.

 

Subitamente, Tiro olhou para mim com um ar ameaçador, por cima da mesa.

 

Não tens o direito disse ele, com uma pequena quebra desesperada na voz. Marco Túlio Cícero é um homem de elevados princípios, de indiscutível integridade, um homem que diz aquilo que pensa e que acredita em todas as palavras que pronuncia, o que talvez seja uma coisa rara em Roma nestes dias, mas ainda assim...

 

Chega! A voz de Cícero transmitia uma força tremenda, mas sem cólera. Levantou a mão, fazendo o gesto que os oradores utilizam para significar pára, e pareceu incapaz de deixar de sorrir.

 

Tens de desculpar o jovem Tiro disse ele, inclinando-se na minha direcção com um ar de confidencialidade. É um servo leal, e eu sinto-me grato por isso. Já não abundam, nos nossos dias. Olhou para Tiro com uma expressão de puro afecto, aberto, genuíno e imperturbável. Subitamente, Tiro achou que era conveniente desviar o olhar para a mesa, para o tabuleiro de comida, para a cortina que se agitava suavemente.

 

Mas talvez seja, por vezes, excessivamente leal. O que achas, Gordiano? O que achas tu, Tiro talvez devamos apresentar a questão a Diódoto da próxima vez que ele nos visitar e ver o que diz dela o mestre da retórica. Eis um excelente tema de debate: Será possível um escravo ser excessivamente leal ao seu senhor? Isto é, demasiadamente entusiasta na sua devoção, excessivamente pronto a saltar em defesa do seu senhor?

 

Cícero olhou para o tabuleiro e alcançou um pedaço de maçã seca. Segurou-o entre o polegar e o indicador e estudou-o como se considerasse se a sua delicada constituição toleraria mesmo um pedaço tão diminuto, no auge do calor do dia. Houve uma pausa e um silêncio, apenas quebrado pelo trinar de um pássaro no átrio exterior. Naquele momento de tranquilidade, a sala pareceu voltar a respirar à nossa volta, ou antes, a tentar respirar, lutando em vão por respirar superficialmente e por pouco o conseguindo; a cortina ergueu-se tentativamente para o interior, depois para o exterior, depois novamente para o interior, nunca o suficiente para libertar uma lufada de ar em nenhuma das direcções, como se a brisa fosse uma coisa quente e palpável apanhada no laço da sua bainha de brocado. Cícero franziu o sobrolho e voltou a pôr o bocado de maçã no tabuleiro.

 

De repente, a cortina fez um ruído audível. Um sopro de ar quente redemoinhou pelos azulejos e passou por cima dos meus pés. A sala tinha finalmente libertado o suspiro que reprimira.

 

Perguntas-me se acredito se Sexto Róscio está inocente do assassínio do seu pai. Cícero abriu os dedos e premiu as extremidades umas contra as outras. A resposta é sim. Quando o conheceres, também tu acreditarás na sua inocência.

 

Parecia que estávamos finalmente a aproximar-nos da questão. Eu estava farto daquele jogo de andar para trás e para diante no escritório de Cícero, estava farto da cortina amarela e do calor sufocante.

 

Como é que ele morreu exactamente, o velho? Moca, faca, pedras? Quantos eram os assaltantes? Alguém os viu? É possível identificá-los? Onde estava o filho no momento preciso em que o crime teve lugar, e como foi ele informado do facto? Que outras pessoas tinham razões para matar o velho? Qual era o conteúdo do seu testamento? Quem acusa o filho, e porquê? Fiz uma pausa, mas apenas para beber um golo de vinho. E diz-me ainda...

 

Gordiano Cícero riu-se, se eu soubesse tudo isso, não precisaria dos teus serviços, pois não?

 

Mas tens de saber alguma coisa.

 

Mais do que alguma coisa, mas ainda não o suficiente. Muito bem, posso pelo menos responder à tua última pergunta. A acusação foi feita por um acusador público chamado Gaio Erúcio. Vejo que já ouviste falar dele ou foi o vinho que se transformou em vinagre na tua boca?

 

Não ouvi apenas falar dele disse eu. Já trabalhei para ele uma vez ou outra, mas apenas porque tinha fome. Erúcio nasceu na Sicília, como escravo; agora é um liberto, e conduz em Roma a mais duvidosa de todas as actividades legais de Roma. Aceita processos por dinheiro, e não por mérito. Defenderia a mulher que lhe tivesse violado a mãe se visse que podia ganhar dinheiro com isso, e ainda acusaria a velhota de calúnia se pudesse lucrar com isso. Tens alguma ideia de quem o terá contratado para tomar conta do caso?

 

Não, mas quando conheceres Sexto Róscio...

 

Estás sempre a dizer que eu vou conhecer alguém dentro em breve primeiro, era Cecília Metela, agora é Sexto Róscio. Eles vão chegar a qualquer momento?

 

Na verdade, o melhor seria irmos nós visitá-los.

 

O que te faz ter a certeza de que eu vou contigo? Vim cá porque me disseram que tinhas trabalho para mim, mas até agora nem sequer me explicaste o que pretendes. Nem fizeste qualquer menção a pagamentos.

 

Estou informado de quais são os teus honorários, pelo menos tal como Hortênsio mos explicou. Presumo que ele saiba.

 

Acenei com a cabeça.

 

Quanto ao trabalho, é o seguinte: pretendo provar que Sexto Róscio está inocente do assassínio do seu pai. Melhor do que isso, pretendo saber quem foi o verdadeiro assassino. Ainda mais, pretendo saber quem contratou esses assassinos, e porquê. E tudo isto em oito dias, antes dos Idos.

 

Falas como se eu já tivesse aceite o encargo. Talvez não esteja interessado, Cícero.

 

Ele abanou a cabeça e fechou os lábios num ténue sorriso.

 

Não és o único homem capaz de fazer deduções acerca do carácter de outro homem antes de o ter conhecido, Gordiano. Eu também sei algumas coisas sobre ti. Na realidade, sei três coisas. Qualquer delas te convenceria a aceitar o caso. Primeiro, precisas do dinheiro. Um homem com a tua situação, que vive numa casa enorme no Esquilino o dinheiro nunca é suficiente. Tenho razão?

 

Encolhi os ombros.

 

Em segundo lugar, Hortênsio disse-me que tu adoras mistérios. Ou antes, que odeias mistérios. És um tipo que não consegue suportar o desconhecido, que se sente obrigado a distinguir a verdade da falsidade, a separar a ordem do caos. Quem matou o velho Róscio, Gordiano? Já estás apanhado, como um peixe por um anzol. Admite-o.

 

Bem...

 

Em terceiro lugar, és um homem que ama a justiça.

 

Também foi Hortênsio quem te disse isso? Hortênsio não sabe distinguir um homem justo de um...

 

Ninguém me disse. Isso fui eu que o deduzi, na última meia hora. Nenhum homem exprime a sua opinião de forma tão franca como tu o fizeste se não for um amante da justiça. Estou a oferecer-te a possibilidade de que ela seja cumprida. Inclinou-se para diante. Serás capaz de ver um homem inocente ser condenado à morte? Pois bem aceitas o caso ou não?

 

Aceito.

 

Cícero bateu as palmas e levantou-se.

 

Óptimo. Excelente! Vamos imediatamente a casa de Cecília.

 

Agora? Com este calor? Pouco passa do meio-dia.

 

Não há tempo a perder. Se achas que está demasiado calor, posso chamar uma liteira mas não, isso demorava demasiado tempo. Não é longe. Tiro, vai-nos buscar um par de chapéus de aba larga.

 

Tiro lançou ao seu senhor um olhar dorido.

 

Está bem, traz três chapéus.

 

Achas que ela já está acordada a esta hora?

 

O Fórum estava deserto. As pedras do pavimento lançavam reflexos de calor. Não se via vivalma para além de nós os três, que nos movíamos como ladrões por cima das lajes. Acelerei o passo. O calor atravessava as solas finas dos meus sapatos. Reparei que os meus dois companheiros usavam sapatos mais caros do que os meus, com solas de couro mais espessas, que lhes protegiam os pés.

 

Cecília está acordada garantiu-me Cícero. Ela é uma insomníaca desesperada tanto quanto sei, nunca dorme.

 

Tínhamos chegado ao fim da Via Sacra. O meu coração afundou-se quando olhei para a rua inclinada e estreita que levava até às imponentes villas situadas no topo do monte Palatino. O mundo era apenas sol e pedra, sem qualquer espécie de sombra. As camadas de calor tremeluzente faziam com que o cume do monte Palatino parecesse enublado e indistinto, muito alto e longínquo.

 

Começámos a subir. Tiro ia adiante, indiferente ao esforço. Havia qualquer coisa estranha na sua disposição de vir connosco, algo que ultrapassava a mera curiosidade ou o desejo de seguir o seu senhor. Eu estava com demasiado calor para me espantar com isso.

 

Tenho de te pedir uma coisa, Gordiano. Cícero começava a exibir sinais de cansaço, mas falava através dele, como um verdadeiro estóico. Apreciei a tua sinceridade, há pouco, no meu escritório. Ninguém pode dizer que não és um homem honesto. Mas preferia que fosses mais contido em casa de Cecília. Há muito que a sua família é aliada de Sula a quarta mulher dele, já falecida, era uma Metela.

 

Estás a referir-te à filha de Delmático? Aquela de quem ele se divorciou enquanto ela estava a morrer?

 

Exactamente. Os Metelos não ficaram satisfeitos com o divórcio, apesar das desculpas de Sula.

 

Os augúrios leram uma taça de entranhas de ovelha e disseram-lhe que a doença da sua mulher poluiria a sua casa.

 

Foi isso que Sula afirmou. O mais provável é que a própria Cecília se não ofendesse com o que quer que tu dissesses, mas nunca podemos ter a certeza. É uma mulher idosa, solteira e sem filhos. Dada a hábitos estranhos como acontece quando uma mulher é abandonada a si própria durante demasiado tempo, sem marido e sem família que a ocupe com objectivos salutares. Actualmente, a sua paixão é qualquer culto oriental novo que se torne moda em Roma, e quanto mais estranho e bizarro, melhor. Ela não está muito preocupada com questões meramente terrenas.

 

Mas é provável que encontremos lá em casa outra pessoa, com ouvidos mais perspicazes e olhos mais argutos. Estou a pensar no meu querido amigo Marco Messala a quem chamamos Rufo, por ter o cabelo ruivo. Não é um estranho na casa de Cecília Metela; conhece-a desde criança, ela é quase uma tia para ele. Trata-se de um excelente jovem não é ainda um homem, tem apenas dezasseis anos. Rufo vai a minha casa com frequência, participar em reuniões e assistir a conferências e coisas assim, e já conhece bem o funcionamento dos tribunais. Está ansioso por nos ajudar no caso de Sexto Róscio.

 

Mas...?

 

Mas as suas relações familiares fazem com que seja perigoso. Hortênsio é seu meio-irmão quando Hortênsio abandonou o caso, foi o jovem Rufo quem ele enviou a minha casa para me pedir que o aceitasse. Para além disso, a irmã mais velha do rapaz é a jovem Valéria que Sula tomou recentemente como sua quinta mulher. O pobre Rufo não tem grande afecto pelo seu novo cunhado, mas o casamento coloca-o numa posição difícil. Pedir-te-ia que evitasses caluniar o nosso estimado ditador na sua presença.

 

Claro, Cícero. Quando, nessa manhã, saíra de casa, não esperava vir a conviver com nobres de alta linhagem, como os Metelos e os Messalas. Olhei para a roupa que tinha vestida, uma toga de cidadão comum sobre uma simples túnica. O único toque de púrpura era uma mancha de vinho junto da bainha. Betesda afirmara que passara horas a tentar tirá-la, sem conseguir.

 

Quando chegámos ao cume, até mesmo Tiro exibia sinais de fadiga. Os seus caracóis escuros estavam colados à testa, com o suor. Estava corado de cansaço ou talvez de algo mais semelhante a excitação. Perguntei uma vez mais a mim próprio por que razão estaria tão ansioso por chegar a casa de Cecília Metela.

 

Cá estamos arquejou Cícero, fazendo uma pausa para recuperar o fôlego. A casa que se encontrava diante de nós era uma massa larga de estuque cor-de-rosa, rodeada de carvalhos antigos. A entrada formava um nicho por baixo de um pórtico, flanqueado por dois soldados protegidos com capacetes, completamente equipados para a guerra, com espadas no cinto e lanças na mão. Veteranos grisalhos do exército de Sula, pensei eu, e estremeci.

 

Os guardas disse Cícero, fazendo um gesto vago com as mãos enquanto subia as escadas. Ignora-os. Devem estar a sufocar por baixo de todo aquele couro. Tiro?

 

Tiro, que olhava fascinado para o equipamento dos soldados, avançou para diante do seu senhor, a fim de bater levemente às pesadas portas de carvalho. Passou um longo momento, em que todos recuperámos o fôlego e tirámos os chapéus à sombra do pórtico.

 

A porta abriu-se para dentro, sem fazer ruído nos gonzos. O ar fresco e o odor a incenso bafejaram-nos como uma forma de boas-vindas.

 

Tiro e o escravo que atendia à porta trocaram as formalidades típicas ”O meu senhor deseja falar com a tua senhora”, e nós esperámos mais um momento antes que o escravo da entrada viesse chamar-nos para dentro. Ele ficou com os nossos chapéus, desaparecendo em seguida para ir chamar o anunciante. Olhei por cima dos ombros para o guarda da porta, que estava sentado num banquinho ao lado do portal, ocupado com qualquer trabalho de artesanato, com o pé preso ao muro por uma cadeia, que apenas tinha a extensão suficiente para lhe permitir atender à porta.

 

O anunciante chegou, obviamente desiludido por ver que se tratava de Cícero e não de um cliente rastejante a quem pudesse extorquir alguns denários antes de lhe permitir a admissão no interior de casa. Através de pequenos sinais a sua voz aguda, o tamanho dos seios, percebi que se tratava de um eunuco. Embora constituam uma parte antiga e indispensável do tecido social do Oriente, os desprovidos de sexo continuam a ser uma raridade em Roma e são olhados com profundo desagrado. Cícero dissera-me que Cecília era uma seguidora dos cultos orientais, mas manter um eunuco dentro da sua própria casa pareceu-me uma afectação verdadeiramente bizarra.

 

Seguimo-lo à volta do átrio central e subimos um lanço de escadas de mármore. O anunciante ergueu uma cortina e eu entrei atrás de Cícero numa câmara que não estaria excessivamente deslocada num bordel alexandrino de alto preço.

 

Parecia que tínhamos entrado numa tenda enorme e excessivamente decorada, semeada de pelúcias e de almofadas, com carpetes e pendentes em toda a parte. Havia lamparinas de latão suspensas em braseiros verticais situados nos cantos, que exalavam fios de fumo. Era a partir desta sala que o odor a incenso permeava a casa. Eu quase não conseguia respirar. As diversas especiarias estavam a ser queimadas sem a menor sensibilidade pelas suas proporções e propriedades individuais. A forte concentração de madeira de sândalo e de mirra provocava náuseas. Qualquer dona de casa egípcia saberia que não devia fazer estas misturas.

 

Senhora murmurou o eunuco num tom de voz agudo. O estimado Marco Túlio Cícero, advogado. E retirou-se rapidamente.

 

A nossa anfitriã encontrava-se na extremidade mais distante da sala, deitada no chão, em cima de um monte de almofadas, de pernas e braços abertos e de cabeça para baixo. Era servida por duas escravas, ajoelhadas de cada um dos seus lados. As escravas tinham a pele escura e estavam vestidas ao estilo egípcio, com vestes diáfanas e fortemente maquilhadas. Acima delas, dominando a sala, encontrava-se o objecto perante o qual Cecília se prostrava.

 

Eu nunca vira uma coisa assim. Tratava-se claramente de uma encarnação de uma das deusas orientais da terra, Cibele ou Astarte ou Isis, embora eu nunca tivesse visto esta permutação específica. A estátua tinha dois metros e meio de altura, de maneira que o topo da sua cabeça aflorava levemente o tecto. Tinha um rosto austero, quase masculino, e uma coroa feita de serpentes. À primeira vista, pareceu-me que os objectos descaídos que lhe adornavam o tronco eram seios, montes e montes deles. Um olhar mais cuidadoso à forma curiosa como os globos estavam agrupados fez-me perceber que deviam ser testículos. Numa das suas mãos, a deusa segurava uma foice, cuja lâmina tinha sido pintada de vermelho-vivo.

 

O que é? Uma voz abafada ergueu-se das almofadas. Cecília debateu-se durante um momento. As escravas pegaram-lhe pelos braços, ajudando-a a erguer-se. Ela voltou-se e olhou para nós alarmada.

 

Não, não! guinchou. Aquele eunuco é um estúpido! Fora, fora desta sala, Cícero! Nunca devias ter entrado, devias esperar do lado de lá da cortina. Como é que ele pode ter cometido um erro tão estúpido? Não é permitida a entrada aos homens no santuário da Deusa. Que horror, voltou a acontecer. A bem dizer, vocês deviam ser os três sacrificados como punição, ou pelo menos açoitados, mas suponho que isso está fora de questão. Evidentemente que um de vocês podia assumir o lugar dos outros mas não, nem sequer vou pedir-to, sei perfeitamente como gostas do jovem Tiro. Talvez este outro escravo... Ela lançou um olhar ao meu anel de ferro, marca de um cidadão comum, e vendo que eu não era escravo de ninguém, ergueu as mãos ao alto como expressão do seu desapontamento. Tinha as unhas extraordinariamente longas e tingidas de vermelho com hena, à maneira egípcia.

 

Que horror. Suponho que isto quer dizer que terei de açoitar uma destas pobres raparigas escravas em vosso lugar, como fiz quando o eunuco cometeu o mesmo erro estúpido a semana passada com Rufo. Que horror, e elas são tão delicadas. A Deusa vai ficar muito irritada...

 

Não percebo como é que ele cometeu o mesmo erro duas vezes. Achas que fez de propósito? Estávamos sentados na sala de recepções de Cecília, um átrio comprido e alto, com clarabóias no tecto e as portas abertas nas duas extremidades, para deixar entrar a brisa. As paredes estavam pintadas de forma realista, reproduzindo um jardim erva verde, árvores, pavões e flores nas paredes, com o céu azul por cima. O chão era de ladrilhos verdes. O tecto estava coberto com um tecido azul.

 

Não, não respondas a isso. Já sei o que vais dizer, Cícero. Mas Ahausarus é demasiadamente valioso para eu me ver livre dele, e demasiadamente delicado para ser castigado. Se ao menos ele não fosse tão desmiolado.

 

Éramos quatro, sentados à volta de uma pequena mesa de prata, onde tinham sido servidas água fresca e romãs. Cícero, eu próprio, Cecília e o jovem Rufo, que chegara antes de nós, mas já sabia que não devia entrar no santuário de Metela, preferindo esperar no jardim. Tiro mantinha-se de pé, atrás da cadeira do seu senhor, a curta distância.

 

Metela era uma mulher corada e de grande porte. Apesar da sua idade, parecia bastante robusta. Fosse qual fosse a cor original do seu cabelo, era agora vermelho-vivo, e seria provavelmente branco por baixo da hena. Ela usava-o amontoado no alto da cabeça, enrolado em espiral, e seguro por um longo alfinete de prata. A extremidade pontiaguda entrava por um dos lados; a cabeça da agulha estava decorada com cornalina. Ela vestia uma estola de aspecto dispendioso e muitas jóias. Tinha o rosto coberto de maquilhagem. O cabelo e as roupas cheiravam intensamente a incenso. Numa das mãos, segurava um leque, com que abanava o ar, como se estivesse a tentar dispersar o seu próprio odor por cima da mesa.

 

Rufo também era ruivo, tinha os olhos castanhos, as faces coradas e o nariz coberto de sardas. Era tão jovem como Cícero indicara. Na realidade, não podia ter mais do que dezasseis anos, pois ainda usava o trajo que todos os menores usam, sejam eles rapazes ou raparigas de lã branca com mangas compridas, a fim de desviar os olhos dos libidinosos. Dentro de alguns meses, vestiria a toga da masculinidade, mas por enquanto continuava a ser, legalmente, um rapaz. Era óbvio que idolatrava Cícero, mas era igualmente óbvio que Cícero gostava de ser idolatrado.

 

Nenhum dos nobres manifestava qualquer desconforto pelo facto de eu me encontrar presente, sentado à mesma mesa que eles. Evidentemente, procuravam a minha ajuda num problema relativamente ao qual nenhum deles tinha qualquer experiência. Mostravam por mim a mesma deferência que um senador mostraria por um assentador de tijolos, se tivesse no quarto um arco prestes a desmoronar-se. Tiro, por sua vez, era ignorado.

 

Cícero clareou a garganta.

 

Cecília, está muito calor. Se já falámos o suficiente da nossa infeliz intrusão no teu santuário, talvez possamos passar a questões mais terrenas.

 

Claro, Cícero. Vieste falar-me do pobre jovem Sexto.

 

Sim. É possível que Gordiano possa ajudar-nos a desvendar as circunstâncias, enquanto eu preparo a sua defesa.

 

A defesa. Ah, pois. Que horror. Suponho que aqueles guardas horríveis continuam lá fora, não? Deves ter reparado neles.

 

Lamentavelmente, sim.

 

É uma vergonha tão grande. No dia em que chegaram, disse-lhes claramente que não estava para aceitar aquilo. Evidentemente que isso não teve qualquer efeito. São ordens do tribunal, disseram eles. Se Sexto Róscio se tinha refugiado aqui, tinha de estar em prisão domiciliária, com soldados colocados em todas as portas, dia e noite. ”Prisão?” perguntei eu. ”Quer dizer que ele está preso, como se fosse um soldado capturado ou um escravo fugido? Conheço muito bem a lei, e não há nada que vos permita prender um cidadão romano dentro de sua casa, ou na casa da sua benfeitora.” Sempre foi assim; um cidadão acusado de um crime tem sempre a possibilidade de fugir se não quiser enfrentar um julgamento e estiver disposto a deixar para trás a sua propriedade.

 

Por isso, mandaram vir um representante do tribunal, que me explicou tudo muito serenamente a explicação não teria sido mais serena se tivesse vindo dos teus lábios, Cícero. ”Tens muita razão”, disse ele, ”excepto em determinados casos. Determinados casos capitais.” E o que queria ele dizer, perguntei eu. ”Capital”, disse ele, ”como no caso de uma decapitação de casos que implicam a remoção da cabeça, ou de outros órgãos vitais, resultante na morte.”

 

Cecília Metela encostou-se na cadeira e abanou-se com o leque. Os seus olhos estreitaram-se e embaciaram-se. Rufo inclinou-se para diante e colocou-lhe ternamente a mão no cotovelo.

 

Só então percebi como tudo isto era terrível. O pobre jovem Sexto, o único filho sobrevivente do meu querido amigo, tendo perdido o seu pai, está agora em risco de perder também a sua cabeça. Mas ainda há pior! Esse subordinado, essa pessoa, esse representante prosseguiu, explicando-me exactamente o que significava a palavra capital numa acusação de parricídio. Oh! Nunca teria acreditado se tu próprio, Cícero, o não tivesses confirmado, palavra por palavra. É demasiadamente terrível, demasiadamente terrível para se poder falar disso!

 

Cecília abanou-se furiosamente com o leque. As suas sobrancelhas, pesadas sob a maquilhagem egípcia, tremeluziram como asas de borboletas. Parecia que ia desmaiar.

 

Rufo estendeu a mão para um copo de água. Ela afastou-o.

 

Não pretendo conhecer o jovem; era o seu pai que eu amava e estimava como um amigo muito, muito querido. Mas ele é filho de Sexto Róscio, e eu ofereci-lhe refúgio em minha casa. E certamente que o que aquele homem, aquele representante, aquela pessoa odiosa descrevia não poderá acontecer senão aos mais desprezíveis, aos mais revoltantes e aviltantes dos assassinos.

 

Ela fechou os olhos e estendeu a mão cegamente. Rufo moveu-se desajeitadamente durante um momento, e depois apanhou um copo e pôs-lho na mão. Ela tomou um golo e devolveu-lho.

 

Por isso, perguntei a essa criatura, a esse representante, muito razoavelmente, pareceu-me, se seria uma grande maçada pedir àqueles soldados que se mantivessem um pouco afastados da casa, em vez de se postarem mesmo em frente da porta. É humilhante! Eu tenho vizinhos, e o que eles adoram falar! Tenho dependentes e clientes que me procuram todas as manhãs para pedir favores e os soldados assustam-nos. Tenho sobrinhas e sobrinhos que têm medo de vir cá a casa. Oh, esses soldados sabem manter a boca fechada, mas havias de ver como olham para as raparigas! Não podes fazer alguma coisa, Rufo?

 

Eu?

 

Claro, tu. Tens de ter algum peso junto de... junto de Sula. É Sula quem controla os tribunais. E ele é casado com a tua irmã Valéria.

 

Pois é, mas isso não quer dizer... Rufo corou profundamente.

 

Oh, vá lá. A voz de Cecília tornou-se conspirativa. És um jovem suficientemente elegante, tão belo como Valéria. E todos nós sabemos que Sula lança as suas redes para os dois lados do barco.

 

Cecília! Os olhos de Cícero relampejaram, mas ele manteve a voz baixa.

 

Não estou a sugerir nada impróprio. Encanto, Cícero. Um gesto, um olhar. Rufo não precisa propriamente de fazer nada, claro. Ora, Sula tem idade para ser seu avô. Tanto mais razão para condescender em fazer um pequeno favor a um rapaz tão encantador.

 

Sula não acha que eu seja encantador disse Rufo.

 

Por que não? Casou-se com Valéria por causa do seu aspecto, não foi? E tu és suficientemente parecido com ela para seres seu irmão.

 

Ouviu-se um pequeno ruído crepitante. Era Tiro, que estava de pé por trás da cadeira do seu senhor, pressionando os lábios para se impedir de rir. Cícero cobriu o barulho, limpando ruidosamente a garganta.

 

Se me fosse permitido regressar a algo que foi mencionado há bocadinho disse eu. Três pares de olhos convergiram sobre mim. Cícero pareceu aliviado, Tiro atento, Cecília confusa. Rufo olhava para o chão, ainda corado.

 

Mencionaste o castigo pelo crime de parricídio. Eu não estou informado de qual é. Talvez mo pudesses explicar, Cícero.

 

O ambiente ficou subitamente mais sombrio, como se uma nuvem tivesse ocultado o Sol. Cecília voltou-se de lado e escondeu-se por trás do seu leque. Rufo trocou um olhar desconfortável com Tiro.

 

Cícero encheu o copo e bebeu um longo golo de água.

 

Não me espanta que não estejas familiarizado com o assunto, Gordiano. O parricídio é um crime muito raro entre os Romanos. A última condenação, tanto quanto consegui averiguar, teve lugar quando o meu pai era um jovem.

 

Tradicionalmente, como é óbvio, a pena de morte é levada a cabo através da decapitação ou, no caso de um escravo, de crucifixão. No caso de parricídio, a pena é muito antiga e muito severa, foi estabelecida há muito por sacerdotes, e não por legisladores, e destina-se a exprimir a ira do pai Júpiter contra qualquer filho que se atreva a derrubar aquele que transporta a semente que o produziu.

 

Por favor, Cícero. Cecília olhou por cima do leque e bateu as suas pestanas cobertas de maquilhagem. Tê-lo ouvido uma vez é suficiente. Isso provoca-me pesadelos.

 

Mas Gordiano tem de saber. Saber que está em jogo a vida de um homem é uma coisa; saber como poderá ele morrer é algo mais.

 

A lei decreta o seguinte: que, imediatamente a seguir à sua condenação, o parricida condenado seja levado para fora dos muros da cidade, para o Campo de Marte, junto do Tibre. Ouvir-se-ão trombetas e soarão címbalos, convocando a populaça para assistir.

 

”Quando o povo estiver reunido, o parricida será completamente despido, como estava no dia do seu nascimento. Montar-se-ão dois pedestais, à altura dos joelhos, à distância de vários centímetros um do outro. O parricida subirá para cima deles, colocando um pé em cada pedestal, acocorado e com as mãos presas atrás das costas. Deste modo, todas as partes do seu corpo nu ficarão acessíveis aos seus atormentadores, que são encarregados pela lei de o chicotear com látegos cheios de nós, até o sangue jorrar como água das suas feridas. Se cair dos pedestais, voltará a ser colocado em cima deles. Os látegos devem atingir todas as partes do seu corpo, incluindo as plantas dos pés e as regiões inferiores, entre as suas pernas. O sangue que lhe corre do corpo é o mesmo que o sangue que correu pelas veias do seu pai e lhe deu a vida. Vendo-o correr das suas feridas, poderá contemplar o desperdício.

 

Cícero olhava vagamente para o horizonte enquanto falava. Cecília olhava para ele por cima do leque, com os olhos semicerrados e uma expressão de intensidade.

 

Preparar-se-á um saco, de tamanho suficiente para conter um homem, feito de peles tão estreitamente cosidas umas às outras, que não deixarão entrar água nem ar. Quando os atormentadores tiverem terminado o seu trabalho isto é, quando todas as partes do corpo do parricida estiverem de tal maneira cobertas de sangue que não seja possível dizer onde termina o sangue e começa a carne, o condenado será obrigado a rastejar para dentro do saco. O saco será colocado a uma certa distância do pedestal, de modo que o povo reunido possa observar o seu progresso e ter a oportunidade de o cobrir de excrementos e de o amaldiçoar publicamente.

 

”Quando ele chegar à boca do saco, será obrigado a rastejar para dentro dele. Se resistir, será novamente arrastado para cima dos pedestais, e o castigo recomeçará.

 

”Ao ser metido dentro do saco, o parricida estará a ser devolvido ao ventre, tornado não nado, não nascido. Nascer é, segundo nos dizem os filósofos, uma agonia. Ser não nascido é uma agonia ainda maior. Para dentro do saco, amontoados contra a carne rasgada e a sangrar do parricida, lançarão os atormentadores quatro animais vivos. Primeiro, um cão, o mais abjecto e desprezível dos animais, e um galo, com o bico e as garras especialmente aguçados. Estes símbolos são muito antigos: o cão e o galo, o vigilante e o despertador, os que guardam o lar; tendo sido incapazes de proteger o pai do filho, eles assumem o seu lugar junto do assassino. Juntamente com eles vai uma cobra, o princípio masculino que pode matar mesmo quando dá a vida; e um macaco, a mais cruel paródia de humanidade feita pelos deuses.

 

Imaginem! Cecília arquejou por trás do leque. Imaginem o barulho!

 

Os cinco serão fechados dentro do saco e transportados para a beira do rio. O saco não pode ser voltado nem açoitado com paus, os animais têm de se manter vivos para poderem atormentar o parricida o máximo de tempo possível. Enquanto os sacerdotes pronunciam as maldições finais, o saco será lançado ao Tibre. Haverá vigilantes ao longo de todo o caminho até Óstia; se o saco encalhar, será imediatamente lançado de novo na corrente, até chegar ao mar e desaparecer de vista.

 

”O parricida destrói a própria fonte da sua vida. Põe fim a essa vida privando-a do contacto com os próprios elementos que deram vida ao mundo a terra, o ar, a água, e mesmo a luz do Sol ser-lhe-ão negados nas últimas horas ou dias da sua agonia, até que por fim o saco se rompe pelas costuras e é devorado pelo mar, passando os seus despojos de Júpiter para Neptuno, e daí para Plutão, para além do cuidado e da memória, ou mesmo do sofrimento da humanidade.

 

A sala estava em silêncio. Por fim, Cícero inspirou, longa e profundamente. Havia nos seus lábios um ligeiro sorriso, e pareceu-me que ele se sentia orgulhoso de si próprio, como os actores e os oradores costumam parecer depois de uma recitação bem sucedida.

 

Cecília baixou o leque. Estava absolutamente branca, por baixo da maquilhagem.

 

Compreenderás agora, Gordiano, quando o conheceres. Pobre jovem Sexto, compreenderás agora por que está ele tão perturbado.

 

Parece um coelho, petrificado pelo terror. Pobre rapaz. Eles fá-lo-ão, a não ser que os detenhamos. Tens de o ajudar, jovem. Tens de ajudar Rufo e Cícero a impedi-los de o fazerem.

 

Com certeza. Farei tudo o que puder. Se a verdade puder ajudar Sexto Róscio suponho que ele está aqui, algures, nesta casa?

 

Sim, sim, não está autorizado a sair; viste os guardas. Ele estaria aqui connosco, mas...

 

Sim?

 

Rufo clareou a garganta.

 

Quando o conheceres, perceberás.

 

Perceberei o quê?

 

O homem está desfeito disse Cícero. Está em pânico, incoerente, completamente perturbado. Está quase louco de terror.

 

Tem assim tanto medo de ser condenado? O processo contra ele deve ser muito forte.

 

Claro que tem medo Cecília bateu com o leque numa mosca que se lhe tinha empoleirado na manga. Qualquer pessoa estaria, ameaçada por um tal terror. E o facto de ele estar inocente não significa necessariamente... quer dizer, todos conhecemos casos, especialmente desde que... quer dizer, no último ano, aproximadamente... ser inocente não é propriamente seguro, hoje em dia. Lançou um rápido olhar a Rufo, que a ignorou cuidadosamente.

 

O homem tem medo da sua própria sombra disse Cícero.

 

Tinha medo antes de vir para aqui, mas agora ainda está mais aterrorizado. Tem medo de ser condenado; tem medo de ser absolvido. Diz que quem matou o seu pai está decidido a matá-lo igualmente; o próprio julgamento faz parte de uma conspiração para o eliminar. Se a lei os não apoiar, matá-lo-ão nas ruas.

 

Ele acorda a meio da noite, a gritar. Cecília atingiu a mosca.

 

Eu durmo na ala oeste, que é bastante longe, mas consigo ouvi-lo. Tem pesadelos. Penso que o pior é o macaco. À excepção da cobra...

 

Rufo estremeceu.

 

Cecília diz que até foi um alívio para ele quando puseram os guardas à porta como se eles estivessem ali para o proteger, e não para evitar que ele fugisse. Fugir! Ele nem sequer sai do quarto.

 

É certo disse Cícero. Se assim não fosse, ter-nos-íamos reunido com ele no meu escritório, Gordiano, sem precisarmos de vir aqui incomodar a nossa anfitriã.

 

Teria sido uma enorme perda, e uma profunda desvantagem para mim disse eu, nunca ter sido acolhido em casa de Cecília Metela.

 

Cecília sorriu de forma reservada, reconhecendo o cumprimento. No instante seguinte, os seus olhos pousaram sobre a mesa e o leque desceu sobre ela com um golpe. A mosca não voltaria a incomodá-la.

 

Seja como for, teria de conhecê-la, mais cedo ou mais tarde, no decurso das minhas investigações.

 

Mas porquê? objectou Cícero. Cecília nada sabe acerca do assassínio. É apenas uma amiga da família, e não uma testemunha.

 

Apesar de tudo, Cecília Metela foi uma das últimas pessoas a ver Róscio com vida.

 

Sim, isso é verdade. Ela acenou com a cabeça. Foi aqui, nesta mesma sala, que ele comeu a sua última refeição. Oh, ele adorava esta sala. Certa vez, disse-me que não gostava nada de coisas ao ar livre. Os campos e os prados e a vida rural da Améria aborreciam-no terrivelmente. ”Não preciso de mais jardim do que isto”, disse-me certa vez. Ela apontou para as paredes pintadas. Estás a ver aquele pavão ali, na parede sul, com a cauda toda aberta? Olha, está precisamente a ser iluminado pela clarabóia. Ele adorava aquelas imagens, todas as suas cores lembro-me de que costumava chamar-lhe o seu Gaio, e queria que eu fizesse a mesma coisa. Gaio também adorava esta sala, sabes?

 

Gaio?

 

Sim. O filho.

 

Pensei que o morto só tinha um filho.

 

Oh, não. Bem, na verdade só lhe restava um filho, depois da morte de Gaio.

 

E quando aconteceu isso?

 

Deixa-me pensar. Há três anos? Sim, lembro-me bem, porque foi precisamente na noite do triunfo de Sula. Havia festas em todo o monte Palatino. As pessoas andavam de um lado para o outro, de festa em festa. Toda a gente festejava as guerras civis tinham finalmente terminado. Eu também dei uma festa, nesta sala, com as portas para o jardim completamente abertas. O próprio Sula esteve aqui, durante algum tempo. Lembro-me de ele ter dito uma piada. ”Esta noite”, disse ele, ”todas as pessoas que são alguém em Roma estão a festejar ou a fugir.” É claro que havia alguns que estavam a festejar e deviam estar a partir. Quem poderia imaginar que as coisas iriam tão longe? Ela ergueu as sobrancelhas e suspirou.

 

Então foi aqui que Gaio Róscio morreu?

 

Oh, não, aí é que está. É por isso que eu me lembro. Gaio e o seu pai deviam ter vindo à festa oh, o querido Sexto teria ficado entusiasmadíssimo com o facto de se cruzar com Sula nesta sala, de ter a oportunidade de lhe apresentar Gaio. E, conhecendo os gostos do ditador nesse sentido ela estreitou os olhos e olhou de soslaio para ninguém em particular eles poderiam muito bem ter acertado um com o outro.

 

Sula e o rapaz, queres tu dizer.

 

Claro.

 

Então Gaio era um jovem agradável?

 

Oh, sim. Louro e belo, inteligente, de boas maneiras. Era tudo aquilo que o querido Sexto quereria que um filho seu fosse.

 

Que idade tinha Gaio?

 

Deixa-me pensar, tinha tomado a sua toga de homem algum tempo antes. Teria dezanove anos, penso eu, talvez vinte.

 

Era consideravelmente mais jovem que o seu irmão?

 

Oh, sim, imagino que o pobre jovem Sexto terá o quê, quarenta anos, pelo menos? Ele tem duas filhas, sabes? A mais jovem tem quase dezasseis anos.

 

E eles eram íntimos, os dois irmãos?

 

Gaio e o jovem Sexto? Não me parece. Não vejo como poderiam sê-lo quase nunca se viam. Gaio passava quase todo o tempo com o pai, na cidade, enquanto Sexto geria as quintas na Améria.

 

Estou a ver. Ias dizer-me como morreu Gaio.

 

Bem, não estou a perceber bem o que tem isto a ver com o caso. Cícero mexeu-se desconfortavelmente na sua cadeira. Não passa de bisbilhotices.

 

Eu olhei para ele, não sem simpatia. Até agora, Cícero tratara-me com particular cortesia, em parte porque era ingénuo, em parte porque era essa a sua natureza. Mas o facto de eu estar a conversar de uma forma tão livre como uma mulher que me era tão superior (uma Metela) aborrecia-o, apesar da sua sensibilidade liberal. Ele apercebia-se de que este diálogo era, na realidade, um interrogatório, e sentia-se ofendido com isso.

 

Não, não, Cícero, deixa-o perguntar. Cecília afastou-o com o leque e concedeu-me um sorriso. Sentia-se feliz, e mesmo ansiosa por falar acerca do seu falecido amigo. Eu não podia deixar de perguntar a mim próprio quais teriam sido, no passado, as suas relações com o velho Sexto Róscio, que frequentava as festas e adorava divertir-se.

 

Não, Gaio Róscio não morreu em Roma. Cecília suspirou. Estava combinado que viriam cá a casa nessa noite, passando o fim da tarde na minha festa; depois, partiríamos todos para a mansão de Sula, para participarmos no banquete triunfal. Tinham sido convidados milhares de pessoas. A generosidade de Sula não teve limites. Sexto Róscio queria muito provocar uma impressão agradável; apenas alguns dias antes, tinha vindo cá a casa com o jovem Gaio, para pedir a minha opinião sobre o que ele havia de vestir. Se as coisas tivessem corrido como deviam, Gaio nunca teria morrido... A sua voz foi-se apagando. Ela ergueu os olhos para o pavão iluminado pelo Sol.

 

As Parcas intervieram incitei eu.

 

Como têm o horrível hábito de fazer. Dois dias antes do triunfo, Sexto pater recebeu uma mensagem de Sexto filius, de Améria, chamando-o com urgência. Era uma emergência um incêndio, uma inundação, não tenho bem a certeza. Acontece que Sexto foi convocado a casa, à propriedade da família, e levou Gaio consigo. Esperava regressar a tempo das festividades. Em vez disso, só saiu de Améria depois do funeral.

 

Como é que isso aconteceu?

 

Por envenenamento. Um frasco estragado de conserva de cogumelos uma das guloseimas favoritas de Gaio. Mais tarde, Sexto descreveu-me o incidente com grande pormenor, que o seu filho caíra ao chão e começara a vomitar bílis clara. Sexto agarrou-se-lhe à garganta, pensando que o filho se tinha engasgado. A garganta do rapaz estava a ferver. Quando ele retirou os dedos, estavam cobertos de sangue. Gaio expeliu mais bílis, desta vez espessa e preta. Em poucos minutos estava morto. Foi uma coisa trágica e sem sentido. Depois disso, o caro Sexto não voltou a ser o mesmo.

 

Dizes que Gaio tinha dezanove ou vinte anos, mas eu pensava que o pai era viúvo. Quando morreu a mãe do rapaz?

 

Oh mas, evidentemente, não deves saber. Ela morreu ao dar Gaio à luz. Penso que era uma das razões por que Sexto amava tanto o rapaz. Ele era muito parecido com a mãe. Sexto achava que Gaio era um último presente que ela lhe tinha deixado.

 

E os dois filhos devem ter nascido com quase vinte anos de diferença. Eram filhos da mesma mãe?

 

Não. Não te expliquei? Gaio e o jovem Sexto eram meios-irmãos. A primeira mulher tinha morrido há uns anos, de uma doença qualquer. Cecília encolheu os ombros. Talvez essa seja outra das razões por que os rapazes nunca foram íntimos.

 

Estou a ver. E quando Gaio morreu, isso aproximou Sexto Róscio do seu filho mais velho?

 

Cecília desviou os olhos tristemente.

 

Não. Foi o contrário, infelizmente. Por vezes, a tragédia tem esse efeito sobre as famílias, faz aumentar ainda mais as feridas. Por vezes, um pai ama mais um filho do que outro quem pode alterar esse facto? Quando Gaio morreu, Sexto culpou o irmão do rapaz. Foi um acidente, naturalmente, mas um homem angustiado pela dor nem sempre tem a fortaleza suficiente para acusar os deuses. Ele regressou a Roma e dedicou-se a dissipar o seu tempo e a sua fortuna. Certa vez, disse-me que, agora que Gaio tinha morrido, não tinha ninguém de quem gostasse a quem legar a sua fortuna, pelo que estava decidido a gastá-la antes de morrer. Palavras cruéis, sei-o bem. Enquanto Sexto filius gere as propriedades, Sexto pater gasta cegamente o máximo que pode. Podes imaginar a amargura de ambos os lados.

 

Suficiente para conduzir a um assassínio?

 

Cecília encolheu fatigadamente os ombros. A sua vivacidade tinha-a abandonado. O disfarce de hena e maquilhagem murchou abruptamente, revelando a mulher cheia de rugas que se escondia por trás dele.

 

Não sei. É quase insuportável pensar que Sexto Róscio possa ter sido morto pelo seu próprio filho.

 

Nessa noite de Setembro passado nos Idos, não foi? Sexto Róscio jantou aqui em casa... antes de morrer?

 

Sim.

 

Quando é que ele saiu da tua casa?

 

Lembro-me de que saiu cedo. Tinha o hábito de ficar até tarde, mas nessa noite partiu antes do último prato. Saiu na primeira hora depois de cair a noite.

 

E sabes para onde se dirigia?

 

Para casa, suponho... A sua voz diminuiu de intensidade de uma maneira pouco natural. Cecília Metela, tendo vivido muitos anos sozinha, não tinha uma das faculdades que todas as esposas romanas pussuem. Cecília Metela não sabia mentir.

 

Eu clareei a garganta.

 

Talvez Sexto Róscio não se dirigisse para casa quando te deixou naquela noite. Talvez ele tivesse algum motivo para partir mais cedo. Um encontro? Uma mensagem?

 

Bem, sim, na verdade. Cecília franziu o sobrolho. Julgo que apareceu por aí um mensageiro. Sim, um mensageiro muito vulgar, do tipo de mensageiro que qualquer pessoa poderia contratar na rua. Bateu à porta de serviço. Ahausarius veio à minha procura, explicando-me que esstava um homem à porta da cozinha com uma mensagem para Sexto Róscio. Nessa noite, eu dava uma pequena festa; éramos apenas seis ou oito, e ainda não tínhamos acabado de jantar. Sexto estava descontraído, quase sonolento. Ahausarus murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Sexto ficou um pouco sobressaltado, mas levantou-se imediatamente e saiu da sala sem sequer me pedir desculpa.

 

Não saberás por acaso, de uma maneira ou de outra, qual terá sido a mensagem?

 

Cícero resmungou, muito ao de leve. Cecília tornou-se rígida, e a cor natural subiu-lhe às faces.

 

Jovem, Sexto Róscio e eu éramos amigos muito antigos e muito íntimos.

 

Compreendo, Cecília Metela.

 

Compreendes? Um homem velho precisa de alguém que vele pelos seus interesses, que mostre alguma curiosidade quando estranhos mensageiros o perturbam durante um jantar. Evidentemente que o segui. E que escutei.

 

Ah. Então podes dizer-me quem enviou o mensageiro.

 

Foram estas as suas palavras exactas: ”Elena pede-te que venhas imediatamente à Casa dos Cisnes. É muito importante.” E depois mostrou a Sexto uma insígnia.

 

Que tipo de insígnia?

 

Um anel.

 

Um anel?

 

Um anel de mulher pequeno, de prata, muito simples. O tipo de anel que um homem pobre poderia dar à sua amante, ou o tipo de pequena insígnia que um homem rico poderia dar a uma...

 

Estou a ver.

 

Estás? Depois de Gaio ter morrido, Sexto começou a gastar muito tempo e muito dinheiro nesse género de sítios. Estou a falar de bordéis, evidentemente. Achas que é patético, num homem da sua idade? Mas não estás a perceber, era por causa de Gaio. Foi como se ele tivesse tido um desejo súbito e devastador de ter outro filho. É absurdo, claro, mas por vezes um homem tem de inclinar perante a natureza. As curas têm caminhos misteriosos.

 

Por um momento, sentámo-nos em silêncio.

 

Penso que és uma mulher sensata, Cecília Metela. Sabes mais alguma coisa sobre essa Elena?

 

Não.

 

E sobre a Casa dos Cisnes?

 

Nada, a não ser que fica algures nas proximidades das Termas de Palacina, não muito longe da casa de Sexto, junto do Circo Flamínio. Não estavas à espera de que ele frequentasse algum estabelecimento de mau gosto na Subura, pois não?

 

Cícero clareou a garganta.

 

Acho que talvez seja o momento de Gordiano conhecer o jovem Sexto Róscio.

 

Só mais umas perguntas solicitei eu. Sexto Róscio partiu imediatamente?

 

Sim.

 

Mas não foi sozinho.

 

Não, partiu com os dois escravos que o tinham acompanhado. Eram os seus favoritos. Sexto trazia-os sempre consigo.

 

Por acaso não te lembras dos seus nomes?

 

Claro que me lembro, eles frequentaram a minha casa durante anos. Cresto e Félix. Eram muito leais. Sexto confiava absolutamente neles.

 

Seriam simultaneamente seus guarda-costas?

 

Suponho que andariam com facas. Mas não eram fortes como gladiadores, se é isso que queres dizer. Não, a sua tarefa era sobretudo segurar as lamparinas e acompanhar o seu senhor à cama. Não me parece que fossem muito úteis contra um grupo de bandidos armados.

 

E o seu senhor precisava que o acompanhassem à cama ou o ajudassem a caminhar pelas ruas?

 

Ou seja, estaria assim tão embriagado? Cecília sorriu com carinho. Sexto não era homem que se poupasse ao prazer.

 

Suponho que tivesse vestida uma bela toga?

 

A sua melhor toga.

 

E trazia jóias.

 

Sexto não tinha uma aparência modesta. Imagino que houvesse ouro visível na sua pessoa.

 

Abanei a cabeça perante tanta audácia: um velho partira virtualmente sem guardas pelas ruas de Roma, depois de escurecer, embriagado e exibindo a sua riqueza, em resposta a um misterioso apelo de uma prostituta. A sorte abandonara finalmente Sexto Róscio nos Idos de Setembro, mas quem fora o instrumento do Destino, e com que objectivo?

 

Sexto Róscio e a sua família tinham sido instalados numa ala distante da enorme casa. O eunuco Ahausarus conduziu-nos através de uma rede de corredores cada vez mais estreitos e menos resplandecentes. Finalmente, entrámos numa zona onde as pinturas das paredes precisavam de um profundo restauro, e depois desapareciam por completo, sendo substituídas por estuque vulgar, muito do qual estava a cair e a esmigalhar-se. Os ladrilhos que pisávamos tornaram-se desiguais e desagregados, com buracos do tamanho do punho de um homem. Estávamos longe dos jardins formais e da íntima sala de jantar onde Cecília nos recebera, muito para além das cozinhas e mesmo dos aposentos dos criados. Os odores eram aqui menos deleitáveis do que os do pato assado e do peixe cozido. Estávamos perto das latrinas interiores.

 

Tal como uma verdadeira patrona romana da antiga cepa, Cecília parecia disposta a sofrer algumas vergonhas e até mesmo um certo escândalo a fim de proteger um cliente da família, mas era claro que não tinha qualquer desejo de ter o jovem Sexto Róscio perto de si, no interior da casa, ou de mimá-lo com luxos. Comecei a perguntar-me se Cecília estaria convencida da inocência do homem, para lhe ter dado um abrigo tão pouco simpático.

 

Há quanto tempo vive Róscio sob o tecto de Metela? perguntei a Cícero.

 

Não estou certo. Rufo?

 

Há pouco tempo. Talvez há vinte dias; estou certo de que não estava cá antes dos Nados de Abril. Visito-a frequentemente, mas nem sequer sabia que ele estava cá até os guardas terem sido postados à porta e Cecília ter achado que me devia dar uma explicação. Antes disso, ela não fez qualquer esforço para mo apresentar. Não me parece que ela goste muito dele e, claro, a mulher é tão vulgar.

 

E o que estava ele a fazer na cidade se gosta assim tanto do campo? Rufo encolheu os ombros.

 

Também não tenho a certeza disso, e não me parece que Cecília saiba muito bem. Ele e a família limitaram-se a bater-lhe à porta certa tarde, pedindo-lhe que os acolhesse. Duvido de que ela o conhecesse, mas evidentemente que, quando percebeu que ele era filho de Sexto, lhe abriu imediatamente as portas de sua casa. Parece que este problema por causa da morte do velho estava a fermentar há algum tempo, tendo começado na Améria. Presumo que o tenham expulso da aldeia; ele apareceu em Roma praticamente sem nada, nem sequer um escravo doméstico. Perguntem-lhe quem está a cuidar das suas quintas na Améria, e ele dir-vos-á que a maioria foi vendida, e que há uns primos que estão a cuidar do resto. Peçam-lhe para ser mais específico e ele terá um dos seus ataques. Pessoalmente, penso que Hortênsio largou o caso por frustração, pura e simples.

 

Ahausarus fez uma figura ridícula, afastando com um floreado uma última cortina para nós passarmos.

 

Sexto Róscio, filho de Sexto Róscio disse ele, acenando com a cabeça para a figura que estava sentada no centro da sala, cliente muito estimado da minha senhora. Trago-te visitas disse ele, fazendo um gesto na nossa direcção. O jovem Messala, e Cícero, o advogado, que já conheces. E ainda outro, Gordiano. Ignorou Tiro, evidentemente, tal como ignorou a mulher sentada no chão, a um canto, de pernas traçadas, e as duas raparigas ajoelhadas por baixo da clarabóia, a jogar um jogo qualquer.

 

Ahausarus retirou-se. Rufo avançou.

 

Estás hoje com melhor aspecto, Sexto Róscio. O homem acenou fracamente. Talvez tenhas mais que dizer esta tarde. Cícero precisa de começar a preparar a sua defesa o teu julgamento é já daqui a oito dias. Foi por isso que Gordiano veio connosco. Chamam-lhe o Descobridor. Ele tem muita habilidade para descobrir a verdade.

 

É um mágico? Dois olhos sinistros olharam ferozmente para mim.

 

Não disse Rufo. É um investigador. O meu irmão Hortênsio costuma utilizar os seus serviços.

 

Os olhos sinistros voltaram-se para Rufo.

 

Hortênsio aquele cobarde que pôs o rabo entre as pernas e fugiu? Que bem me podem fazer os amigos de Hortênsio?

 

A face pálida e sardenta de Rufo ficou cor de cereja. Ele abriu a boca, mas eu levantei a mão para o silenciar.

 

Diz-me uma coisa disse eu em voz alta. Cícero franziu o sobrolho e abanou a cabeça, mas eu repeli-o com a mão. Diz-me uma coisa, antes de irmos mais longe. Sexto Róscio de Améria: assassinaste ou contribuíste, fosse de que maneira fosse, para o assassínio do teu pai?

 

Eu estava de pé à sua frente, desafiando-o, pela própria posição em que me encontrava, a olhar para mim, e ele assim fez. Aquilo que vi foi um rosto simples, como aquele que os políticos romanos se deliciam a enaltecer, um rosto enegrecido pelo sol, gretado pelo vento, gasto pelo tempo. Róscio podia ser um agricultor rico, mas não deixava de ser um agricultor. Nenhum homem pode governar camponeses sem adquirir uma expressão de camponês; nenhum homem pode colher os frutos da terra, ainda que utilize escravos para o fazer, sem ficar com uma camada de lixo por baixo das unhas. Havia em Sexto Róscio uma rusticidade, um estado de esboço, não polido, uma qualidade de inércia tão inexpressiva e inamovível como o granito. Este era o filho que tinha sido deixado no campo, a fim de chicotear as costas dos escravos teimosos e ver os bois puxar a água dos poços, enquanto o belo e jovem Gaio crescia como um rapazinho mimado, com os hábitos urbanos do seu pai amante do prazer.

 

Procurei nos seus olhos ressentimento, amargura, inveja, avareza. Não vi nada disso. O que vi foram os olhos de um animal com um pé preso numa armadilha, que ouve o ruído dos caçadores que se aproximam.

 

Finalmente, Róscio respondeu-me, num murmúrio baixo e enrouquecido:

 

Não. Olhou-me nos olhos sem pestanejar. Neles, só pude ver medo e, embora o medo leve mais homens a mentir do que qualquer outra coisa, Cícero deve ter visto a mesma coisa; fora Cícero que me dissera que Róscio estava inocente, e que bastaria eu conhecê-lo para perceber que assim era.

 

Sexto Róscio era de meia-idade. Dado que era um homem trabalhador de considerável riqueza, tive de presumir que a sua aparência neste dia não era uma aparência típica. O terrível fardo do seu futuro incerto ou a terrível culpa pelo crime que praticara pesava fortemente sobre os seus ombros. O seu cabelo e a sua barba eram mais compridos do que a moda alguma vez ditaria, mesmo a moda do campo, enredados e desalinhados e cobertos de fios cinzentos. O seu corpo, afundado na cadeira, parecia vergado e frágil, embora um olhar a Cícero ou a Rufo me tivesse revelado que, em comparação com eles, ele era um homem bastante mais encorpado, com uma razoável quantidade de músculo. Tinha círculos negros por baixo dos olhos. A sua pele estava amarelada. Os seus lábios, secos e gretados.

 

Cecília Metela afirmara que ele acordava a gritar durante a noite. Certamente que ela olhara para ele e decidira que a sua mente estava transtornada. Mas Cecília nunca percorrera as ruas intermináveis e enxameadas de pobres de Roma e de Alexandria. O desespero poderá estar próximo da loucura, mas para um olhar que tenha visto demasiado de um e de outra, existe uma diferença clara entre ambos. Sexto Róscio não estava louco. Estava desesperado.

 

Olhei à volta, à procura de um lugar para me sentar. Róscio estalou os dedos na direcção da mulher. Era uma mulher de meia-idade, corpulenta e simples. Pela maneira como se atreveu a franzir o sobrolho na sua direcção, era óbvio que era a sua mulher. A mulher levantou-se e estalou os dedos na direcção das duas raparigas, que se levantaram do chão. Seriam elas Róscia Majora e Róscia Minora, dada a forma pouco imaginativa como os Romanos transmitem o sobrenome do pai a todas as filhas da família, distinguindo-as apenas pelo acrescento do respectivo nível.

 

A Róscia mais velha seria talvez da idade de Rufo, ou um pouco mais jovem, uma criança à beira da idade adulta. Tal como Rufo, usava um trajo branco simples que lhe escondia os braços. Grandes massas de cabelo castanho estavam entrançadas num nó na base do seu pescoço e estendiam-se em cascata até à cintura; seguindo a moda do campo, ela nunca cortara o cabelo. O seu rosto era notavelmente belo, mas eu vi nos seus olhos o mesmo olhar acossado que marcava o seu pai.

 

A rapariga mais jovem era apenas uma criança, uma réplica da sua irmã em miniatura, com o mesmo trajo e o mesmo cabelo comprido e entrançado. Seguia as outras mulheres pela sala, mas era demasiadamente jovem para as ajudar a transportar as cadeiras. Preferiu sorrir, e apontou para Cícero.

 

Cara de palhaço gritou e depois bateu com as mãos na boca, rindo. A mãe zangou-se com ela e mandou-a sair da sala. Eu olhei para Cícero, que suportou a indignidade com graça estóica. Rufo, que ao lado de Cícero parecia belo como Apoio, corou e olhou para o tecto.

 

A rapariga mais velha saiu a seguir à mãe mas, antes de atravessar a cortina, parou e olhou para trás. Cícero e Rufo estavam a sentar-se e pareceu-me que não tinham reparado nela. Eu fiquei novamente surpreendido com o seu rosto com a sua boca grande e testa regular, os seus profundos olhos castanhos impregnados de tristeza. Deve ter percebido que eu estava a olhar para ela; devolveu-me o olhar com uma franqueza que não era habitual encontrar em raparigas com a sua idade e da sua classe. Os seus lábios recuaram, os olhos estreitaram-se, e o seu olhar transformou-se subitamente num convite sensual, calculado, provocador. Sorriu. Acenou com a cabeça. Os seus lábios moveram-se, dizendo em silêncio palavras que eu não consegui perceber.

 

Cícero e Rufo estavam do outro lado da sala, com as cabeças juntas, trocando um murmúrio apressado. Olhei por cima do ombro e apenas vi Tiro saltitando nervosamente de um pé para o outro. Ela só podia estar a olhar para mim, pensei eu.

 

Quando olhei para trás, a jovem Róscia Majora partira, ficando a sua passagem marcada apenas pelo oscilar da cortina e um suave odor a jasmim. O carácter íntimo do seu olhar de despedida deixou-me sobressaltado e confuso. Era o tipo de olhar que os amantes trocam, mas a verdade é que eu nunca a vira.

 

Dirigi-me à cadeira que me tinha sido destinada. Tiro seguiu-me e fê-la deslizar para baixo de mim. Abanei a cabeça para me libertar daquele olhar. Um novo relance ao pai da rapariga fez-me ficar instantaneamente sóbrio.

 

Onde estão os teus escravos, Sexto Róscio? Certamente que, em tua casa, nunca te lembrarias de pedir à tua mulher e às tuas filhas que trouxessem cadeiras para os convidados.

 

Aqueles olhos sinistros tremeluziram.

 

Por que não? Achas que elas são superiores a isso? É bom recordar a uma mulher qual é o seu lugar. Especialmente a uma mulher como a minha, que tem um marido e um pai suficientemente ricos para lhe permitirem sentar-se o dia todo sem nada que fazer.

 

Perdão, Sexto Róscio. Não pretendi ofender-te. Falas sabiamente. Talvez da próxima vez devamos pedir a Cecília Metela que traga as cadeiras.

 

Rufo reprimiu uma gargalhada. Cícero estremeceu perante a minha impertinência.

 

Tu és um verdadeiro espertinho, não és? lançou Sexto Róscio. Um homem esperto da cidade, como estes. O que queres?

 

Apenas a verdade, Sexto Róscio. Porque o meu trabalho é descobrir, e porque a verdade é a única coisa que pode salvar um homem inocente um homem como tu.

 

Róscio afundou-se mais na cadeira. Num confronto de músculos, ele poderia perfeitamente enfrentar dois de nós, mesmo no estado enfraquecido em que se encontrava, mas era fácil derrotá-lo com palavras.

 

O que queres saber?

 

Onde estão os teus escravos? Ele encolheu os ombros.

 

Regressaram a Améria, evidentemente. Às propriedades.

 

Todos eles? Não trouxeste criados contigo, para fazerem limpezas e cozinharem, para cuidarem das tuas filhas? Não compreendo.

 

Tiro inclinou-se na direcção de Cícero e murmurou-lhe qualquer coisa ao ouvido. Cícero acenou com a cabeça e fez um gesto com a mão. Tiro saiu da sala.

 

O teu escravo é muito bem educado. Róscio frisou os lábios. Pede licença ao seu senhor para ir urinar. Já viram como são as canalizações aqui? Nunca vi uma coisa assim. Água corrente dentro de casa. O meu pai costumava falar disso sabem como os velhos odeiam ter de sair de casa para urinar durante a noite. Mas aqui não! É um lugar excessivamente bom para os escravos trabalharem, se quiserem saber a minha opinião. Normalmente, não cheira tão mal, só que hoje está este maldito calor.

 

Estávamos a falar sobre os teus escravos, Sexto Róscio. Há dois, em particular, com os quais gostaria de falar. Os favoritos do teu pai, aqueles que o acompanhavam na noite em que ele morreu. Félix e Cresto. Eles também estão em Améria?

 

Como queres que eu saiba? lançou-me ele. O mais provável é que, nesta altura, tenham fugido. Ou que alguém lhes tenha cortado o pescoço.

 

Quem faria uma coisa dessas?

 

Cortar-lhes o pescoço? Os mesmos homens que assassinaram o meu pai, evidentemente.

 

E porquê?

 

Porque os escravos viram o que aconteceu, idiota.

 

E como é que tu sabes isso?

 

Porque eles me disseram.

 

Foi assim que soubeste que o teu pai tinha morrido foram os escravos que estavam com ele que te contaram?

 

Róscio fez uma pausa.

 

Sim. Enviaram-me um mensageiro de Roma.

 

Estavas em Améria na noite em que ele foi morto?

 

Claro. Há vinte pessoas que podem dizer-te isso.

 

E quando é que soubeste que ele tinha sido morto? Róscio voltou a fazer uma pausa.

 

O mensageiro chegou dois dias depois, de manhã.

 

Nessa altura, o que fizeste?

 

Vim para a cidade nesse dia. Foi uma viagem dura. Pode fazer-se em oito horas, com um bom cavalo. Parti de madrugada, cheguei ao pôr do Sol no Outono, os dias são mais curtos. Os escravos mostraram-me o corpo. As feridas... A sua voz transformou-se num murmúrio.

 

E mostraram-te a rua onde ele tinha sido morto? Sexto Róscio olhou para o chão.

 

Sim.

 

O local exacto?

 

Ele encolheu os ombros.

 

Sim.

 

Vou ter de ir vê-lo com os meus próprios olhos.

 

Ele abanou a cabeça.

 

Eu não volto lá.

 

Compreendo. Os dois escravos, Félix e Cresto, podem levar-me lá. Observei-lhe o rosto. Uma luz cintilou nos seus olhos, e eu fiquei subitamente desconfiado, embora não soubesse dizer de quê. Ah disse eu, mas os escravos estão na Améria, não estão?

 

Já te disse que sim. Róscio pareceu estremecer, apesar do calor.

 

Mas eu tenho de visitar o local do crime logo que possível. Não posso esperar que esses escravos sejam novamente trazidos para Roma. Disseram-me que o teu pai ia a caminho de um estabelecimento chamado Casa dos Cisnes. Talvez o crime tenha ocorrido lá perto.

 

Nunca ouvi falar desse lugar. Estaria a mentir? Eu estudei-lhe o rosto, mas os meus instintos nada me disseram.

 

Apesar disso, talvez possas dizer-me onde é esse local. Podia, e disse-me. Fiquei um pouco surpreendido com isto, dada a sua ignorância da cidade. Havia em Roma um milhar de ruas; só uma mão-cheia delas tinha nome. Mas, entre Cícero e eu próprio, e as indicações de que Róscio se lembrava, consegui perceber qual era o caminho. Cícero olhou por cima do ombro, murmurando qualquer coisa acerca da ausência de Tiro; felizmente, Tiro deixara a sua tabuinha de cera e o seu estilete no chão, ao lado da cadeira de Cícero. Rufo ofereceu-se para escrever as anotações.

 

Diz-me então, Sexto Róscio: sabes quem assassinou o teu pai? Ele baixou os olhos e fez uma longa pausa. Talvez fosse apenas o calor que o fazia mostrar-se cambaleante.

 

Não.

 

Contudo, disseste a Cícero que temias o mesmo destino que os mesmos homens estão decididos a matar-te também a ti. Que esta acusação é, em si mesma, um atentado à tua vida.

 

Róscio abanou a cabeça e colocou os braços à volta do tronco. A luz sinistra tinha-se extinguido. Os seus olhos escureceram.

 

Não, não resmoneou. Nunca disse tal coisa. Cícero lançou-me um olhar de espanto. Os resmungos de Róscio aumentaram de volume. Desistam, todos vocês! Desistam! Sou um homem condenado. Eles vão lançar-me ao Tibre, dentro de um saco cosido, e porquê? Por nada! O que será das minhas filhas, das minhas belas filhinhas, das minhas lindas meninas? Começou a chorar.

 

Rufo aproximou-se dele e colocou-lhe uma mão no ombro. Róscio afastou-o violentamente.

 

Eu levantei-me e fiz uma vénia formal.

 

Vamos, meus senhores, julgo que por hoje terminámos. Cícero ergueu-se com relutância.

 

Mas ainda agora começámos. Pergunta-lhe...

 

Eu coloquei um dedo sobre os lábios. Voltei-me para a porta, chamando Rufo, ao ver que ele continuava a tentar consolar Sexto Róscio. Segurei na cortina para deixar passar Cícero e Rufo. Olhei para trás, para Róscio, que batia com os nós dos dedos e tremia.

 

Cobre-te uma sombra terrível, Sexto Róscio de Améria. Se é de culpa, de vergonha ou de medo, não sei. É óbvio que não tens intenção de nos explicar. Mas possa isto confortar-te, ou atormentar-te, conforme o caso: prometo-te que farei tudo o que puder para descobrir o assassino do teu pai, quem quer que ele seja; e conseguirei.

 

Róscio bateu com o dedo indicador no braço da cadeira. Os seus olhos brilhavam, mas ele deixara de chorar. O fogo regressara.

 

Faz o que quiseres! lançou. Mais outro tolo nascido na cidade. Nunca te pedi ajuda. Como se a verdade importasse, ou significasse o que quer que fosse. Vai lá olhar de boca aberta para essas manchas de sangue no chão! Vai ver onde morreu o velhote, quando ia visitar a sua prostituta! Que diferença fará isso? Que diferença? Nem aqui eu estou a salvo!

 

Ele continuou, mas eu já não o ouvia. Baixei o braço e deixei as pesadas cortinas absorverem a sua vociferação.

 

Parece-me que ele sabe muito mais do que diz disse Rufo enquanto caminhávamos pelos corredores, em direcção à ala de Cecília.

 

Claro que sabe. Mas o quê? Cícero fez uma careta. Começo a perceber por que razão Hortênsio desistiu do caso.

 

Ai sim? perguntei eu.

 

O homem é impossível. Como é que eu posso defendê-lo? Já percebes por que é que Cecília o mandou meter neste corredor malcheiroso. Sinto-me envergonhado por te ter feito perder o teu tempo. Eu próprio começo a sentir-me inclinado a desistir do caso.

 

Eu não te aconselharia a fazê-lo.

 

Porquê?

 

Porque ainda agora iniciei a minha investigação e ela começou de forma prometedora.

 

Como é que podes dizer isso? Nada ficámos a saber, nem do que disse Cecília nem do que disse o próprio Róscio. Cecília nada sabe, e só está envolvida no assunto por causa da sua ligação sentimental ao morto. Róscio sabe alguma coisa, mas não diz. O que poderá tê-lo assustado de tal maneira, que ele não quer ajudar os seus defensores? Nem sequer sabemos o suficiente para saber sobre que está ele a mentir. Cícero fez um trejeito. Apesar disso, por Hércules, continuo a acreditar que ele está inocente. Não achas o mesmo?

 

Sim, talvez. Mas estás enganado se pensas que nada descobrimos de valioso. Eu só deixei de lhe fazer perguntas porque já tinha suficientes fios para desembaraçar. Esta tarde soube o suficiente para me manter ocupado durante os próximos dois dias.

 

Dois dias? Cícero tropeçou num ladrilho solto. Mas o julgamento começa dentro de oito dias, e eu ainda não tenho fundamentos com base nos quais possa argumentar.

 

Prometo-te, Marco Túlio Cícero, que dentro de oito dias saberemos, não apenas onde foi morto Sexto Róscio o que não é um pormenor de pequena importância, mas também porquê e por quem e por que razão. Contudo, neste momento ficaria muito feliz em resolver um mistério bastante mais simples, mas não menos premente.

 

E qual é ele?

 

Onde poderei encontrar estas famosas latrinas interiores? Rufo riu-se.

 

Já passámos por elas. Terás de voltar atrás. Entra pela segunda porta à esquerda. Podes identificar o sítio pelos azulejos azuis e por um pequeno relevo de Tritão que se encontra por cima da porta.

 

Cícero franziu o nariz.

 

Suspeito de que saberás onde é pelo cheiro. E, enquanto lá estiveres, veio atrás de mim. Vê se descobres onde está Tiro. Já da última vez que cá viemos aconteceu isto disse que se perdeu nos corredores. Se ainda está nas latrinas, deve estar maldisposto.

 

Diz-lhe que é o que ele merece, por se recusar a seguir o meu exemplo de jejuar ao meio-dia. Tanta comida é um choque pouco natural para o sistema, especialmente com este calor...

 

Uma viragem à esquerda e uma curta caminhada por um estreito corredor conduziram-me até à porta dos azulejos azuis. Havia pequenos nichos na entrada, com cones de cinzas, de restos de incenso e de madeiras que, ao arderem, libertam cheiros doces, destinados a cobrir os fétidos odores que vinham lá de dentro. Num dia sufocante como este, o incenso tinha de ser constantemente renovado, mas os criados de Cecília tinham sido descuidados nos seus deveres, ou então todo o incenso tinha sido reclamado para o santuário da sua senhora. Atravessei a pesada cortina azul.

 

Não há no mundo pessoas mais adeptas ao manejamento de água e de desperdícios do que os Romanos. ”Somos governados”, disse-me certa vez um ateniense, ”por uma nação de canalizadores.” Mas aqui, numa das mais belas casas situadas no coração da cidade, havia qualquer coisa dramaticamente ausente. Os azulejos azuis precisavam de ser limpos. A tina de pedra estava entupida e, quando pressionei a válvula, só saiu um fio de água. Um zumbido fez-me erguer os olhos. Ao longo da clarabóia de ventilação, estendia-se uma imensa teia de aranha, cheia de moscas.

 

Fiz aquilo que tinha vindo fazer e apressei-me a sair do compartimento, inspirando profundamente depois de ter atravessado a cortina azul. O ar atravessou-me a garganta, e eu contive-o, porque ouvi vozes abafadas vindas do interior de um compartimento do outro lado do corredor. Uma das vozes era de Tiro.

 

Atravessei o corredor e inclinei a cabeça na direcção da fina cortina amarela. A outra voz era de uma jovem, uma voz rústica, mas com algum refinamento. Ele disse umas palavras abafadas e depois emitiu um ruído e um gemido.

 

Percebi imediatamente.

 

Poderia ter-me retirado. Em vez disso, aproximei-me mais da cortina e empurrei o rosto contra o fino pano amarelo. Eu pensava que tinha sido a mim que ela lançara aquele desconcertante olhar sedutor, que tinha sido por minha causa que ela se demorara na sala. Pensava que a sua mensagem silenciosa era para eu decifrar. Mas ela estivera sempre a olhar através de mim, como se eu fosse transparente. Era a Tiro, que estava de pé atrás de mim, que ela lançara o seu olhar, a sua mensagem, o seu convite.

 

As vozes de ambos eram baixas e murmuradas, e não estavam a mais de três metros de distância. Eu quase não conseguia ouvir as palavras.

 

Não gosto disto aqui dizia ela. Cheira mal.

 

Mas é o único compartimento ao pé das latrinas foi a única desculpa que consegui arranjar se o meu senhor vier à minha procura, tenho de estar perto...

 

Está bem, está bem. Ela fez um ruído. Ouvi-os passar a vias de facto. Puxei a extremidade da cortina e entrei na sala.

 

Tratava-se de uma pequena despensa, iluminada por uma única janela, junto do tecto. Uma luz branca dispersava-se pela sala, parecendo contudo incapaz de a encher. Partículas de pó formavam espirais no ar, denso e pesado. Por entre os montes de caixas, grades e sacos, tive um vislumbre de carne humana: as coxas e as nádegas de Tiro. A sua fina túnica de algodão estava levantada e era pressionada contra as suas costas pelos dedos encurvados da rapariga. As virilhas dele esmagavam-se contra as dela, afastando-se e aproximando-se convulsivamente, num ritmo antigo e inconfundível.

 

As suas faces estavam juntas, escondidas num bloco de sombra profunda. A rapariga estava nua. O trajo unissexo, abandonado sem forma no chão, não dava sinais das linhas voluptuosas da figura da rapariga ou da insuperável pureza da sua carne nua, cintilante e dura como o alabastro, húmida de suor naquele compartimento, aquecido e desprovido de ar, de tal maneira que ela brilhava como se tivesse sido esfregada com óleo. O seu corpo reagia ao dele, pressionando-se contra ele, retorcendo-se em pé contra a parede, com um estranho e convulsivo movimento, como uma cobra contorcendo-se num pavimento quente.

 

Estou quase murmurava Tiro, numa voz rouca e sem fôlego, que eu nunca teria reconhecido uma voz que não era de escravo nem de homem livre, que era a voz do animal, da besta, do corpo.

 

A rapariga tinha as mãos às voltas das suas nádegas, e segurava-o fortemente. Lançara a cabeça para trás, e tinha os seios bem levantados.

 

Fica um pouco mais murmurava ela.

 

Não, eles estão à minha espera...

 

Então, lembra-te do que me prometeste da última vez. Não! dentro de mim o meu pai...

 

Agora! Tiro emitiu um longo gemido.

 

Dentro de mim não! sibilou a rapariga. Os dedos dela enterraram-se na carne macia das ancas dele, empurrando-o para fora. Tiro cambaleou, depois inclinou-se novamente para diante, caindo sobre ela. Encostou o rosto à cara dela, depois ao pescoço, depois aos seios, enquanto ia deslizando para o chão. Beijou-lhe o umbigo. Tocou com a língua nos fios cintilantes de sémen que tinham ficado presos na suave carne da sua barriga. Abraçou-lhe as coxas e colocou a face entre as suas pernas.

 

Eu vi-a nua, revelada na luz suave e enublada. Só a face dela estava escondida na sombra. O seu corpo era perfeito, lustroso e gracioso, pálido e imaculado como um creme espesso; não era o corpo de uma rapariga nem o corpo de uma mulher, mas o corpo de uma rapariga que desperta para a idade adulta, liberto da inocência mas ainda não estragado pelo tempo.

 

Sem Tiro entre nós, eu senti-me tão despido como a rapariga. Recuei. A fina cortina amarela caiu sem ruído, ondulando suavemente com se uma brisa perdida tivesse atravessado o corredor.

 

Então foi mesmo ali, na casa da mulher rica, mesmo por baixo do nariz do seu senhor. Boa!

 

Não, Betesda. Por baixo do meu nariz. Afastei a bacia e olhei para cima, para o céu. O brilho da cidade obscurecia as pequenas estrelas, mas as maiores constelações brilhavam forte e resplandecentemente no quente ar do fim da tarde. Lá ao longe, para oeste, formava-se uma ameaçadora faixa de nuvens de tempestade, semelhante ao despertar poeirento de um exército a cavalo. Encostei-me no canapé, fechei os olhos e escutei a calma do jardim e os pequenos sons que ele encerrava: a suave crepitação da lamparina, o cri-cri de um grilo ao lado do viveiro, o forte ronronar de Bast, que se enrolava contra a perna da mesa. Ouvi um ligeiro bater dos pratos e os passos leves de Betesda, que recuava para dentro de casa. A gata seguiu-a; o ronronar aumentou de intensidade por um instante, diminuindo em seguida até se silenciar.

 

Betesda regressou. Ouvi o sussurro do seu trajo, sentindo depois a sua presença quando ela se juntou a mim no canapé. A minha cabeça afundou-se por causa do seu peso, depois as suas mãos suaves ergueram-me e apoiaram a minha face sobre o seu colo. Outro peso subiu para os pés do canapé. O pêlo morno encostou-se aos meus pés descalços, e eu senti, tanto quanto ouvi, a vibração o contentamento forte reflectido no ronronar de uma gata engordada a acepipes provenientes do prato do seu dono.

 

A refeição desagradou-te, Senhor? Quase não comeste. Betesda tocou-me suavemente na fonte.

 

A refeição estava deliciosa menti eu. Foi o calor que me deu cabo do apetite. E o facto de me ter fartado de andar o dia todo.

 

Não devias ter andado tanto com este calor. Devias ter obrigado a mulher rica a contratar uma liteira.

 

Encolhi os ombros. Betesda acariciou-me o pescoço. Peguei-lhe na mão e pressionei os seus dedos contra os meus lábios.

 

Que suaves e macios. Tu trabalhas tanto, Betesda eu arrelio-te por seres preguiçosa, mas sei que isso é falso mas as tuas mãos continuam tão suaves como as de uma vestal.

 

Foi uma coisa que a minha mãe me ensinou. Até as raparigas mais pobres do Egipto sabem cuidar do seu corpo e manter-se bonitas. Não são como estas mulheres romanas. Mesmo com os olhos fechados, eu sabia qual era a expressão do seu rosto, desdenhosa e arrogante. Aplicam cremes e maquilhagem na cara como se estivessem a colocar argamassa para prender tijolos.

 

Os Romanos não têm estilo concordei eu. Não têm graça. Especialmente as mulheres. Os Romanos enriqueceram em excesso, e com demasiada rapidez. São um povo rude e vulgar, e são donos do mundo. Antigamente tinham boas maneiras, pelo menos. Suponho que alguns deles ainda têm.

 

Como tu? Ri-me.

 

Eu não. Eu não tenho boas maneiras, nem tenho dinheiro. Tenho apenas uma mulher e uma gata e uma casa que não tenho dinheiro para manter. Estava a pensar em Cícero.

 

Pela maneira como o descreves, deve ser um homem muito rústico.

 

Sim, Betesda, Cícero nada tem que possa interessar-te.

 

Mas o rapaz...

 

Não, Betesda, Rufo Messala é demasiadamente jovem, mesmo para os teus gostos, e é muito, muito rico.

 

Estava a falar do escravo. Aquele que o seu senhor mandou vir buscar-te. Aquele que viste com a rapariga. Que aspecto tinha ele, sem as roupas?

 

Encolhi os ombros.

 

Quase não o vi. Pelo menos, não vi as partes dele que poderiam interessar-te.

 

Talvez não saibas quais são as partes que me interessam.

 

Talvez não. Com os olhos fechados, voltei a vê-los, esmagados contra a parede, movendo-se furiosamente em conjunto, a um ritmo do qual todo o resto do mundo estava excluído. Betesda fez deslizar a mão para dentro da minha túnica e acariciou-me suavemente o peito.

 

O que aconteceu depois? Não me digas que foram apanhados, senão eu ficarei muito triste.

 

Não, não foram apanhados.

 

O rapaz percebeu que o tinhas visto?

 

Não. Voltei a atravessar o corredor, até que encontrei Cícero e Rufo no jardim, sentados com Cecília Metela, os três com uma expressão lúgubre. Trocámos algumas palavras. Tiro entrou um pouco mais tarde, com um ar adequadamente envergonhado. Cícero não fez comentários. Ninguém suspeitou de nada.

 

Claro que não. Pensam que sabem muito e que ele deve saber muito pouco, uma vez que é apenas um escravo. Ficarias surpreendido com as coisas que um escravo pode fazer sem ser apanhado.

 

Uma trança do seu cabelo tocou-me na face. Rocei a cara contra ela, inspirando os odores da hena e de ervas.

 

Ficaria surpreendido, Betesda?

 

Não. Tu não. Nada te surpreende.

 

Isso é porque eu tenho uma natureza desconfiada. Graças aos deuses por isso. Bast ronronou fortemente contra os meus pés, eu instalei confortavelmente os ombros contra a coxa de Betesda.

 

Estás tão cansado disse ela suavemente. Queres que cante para ti?

 

Sim, Betesda, canta-me uma coisa suave e calmante. Canta-me qualquer coisa numa língua que eu não compreenda.

 

A sua voz era como água fresca, pura e profunda. Eu nunca ouvira aquela canção e, embora não compreendesse uma única palavra, sabia que devia ser uma canção de embalar. Talvez fosse uma canção que a sua mãe lhe cantava. Eu repousava, meio a dormir, no seu colo, enquanto imagens da mais horrenda violência passavam inofensivamente diante dos meus olhos. As imagens eram estranhamente vivas, mas de uma certa maneira remotas, como se eu estivesse a observá-las através de uma vidraça espessa de vidro colorido. Via os gladiadores embriagados, e os embalsamadores e a facada na rua, nessa manhã, e o rosto de Tiro vermelho da excitação. Via um velho atacado por bandidos numa ruela algures, esfaqueado uma e outra vez. Via um homem nu amarrado e chicoteado, coberto de excrementos, metido com uma série de animais dentro de um saco cosido e atirado vivo ao Tibre.

 

A determinada altura, a canção de embalar cessou e transformou-se noutra canção, uma canção que eu já ouvira muitas vezes, embora nunca tivesse compreendido as palavras. Era uma das canções que Betesda cantava para me excitar e, enquanto a cantava, eu percebi pelos movimentos do seu corpo que ela estava a despir-se, e senti o forte odor almiscarado da sua carne nua. Ela ergueu-se e passou por cima de mim, até ficarmos deitados lado a lado no canapé. Ergueu-me a túnica acima das coxas, como a filha de Sexto Róscio fizera a Tiro. Continuei a não abrir os olhos, nem quando ela se inclinou e me tragou, nem quando eu a puxei para mim e rolei para cima dela e entrei dentro dela. Era o corpo de Betesda que eu abraçava, mas quem via por trás dos meus olhos fechados era a rapariga, de pé, nua, manchada pelo sémen de um escravo, que brilhava sobre a sua carne.

 

Ficámos juntos durante muito tempo, sem nos mexermos, com os corpos ligados pelo calor e pelo suor, como se a nossa carne pudesse derreter-se e fundir-se. Bast, que a determinada altura tinha fugido, regressou e subiu a ronronar para o emaranhado das nossas pernas. Ouvi o estrépito de um trovão e pensei que estava a sonhar, até que senti sobre a minha carne umas gotas dispersas de chuva, que caíam sobre o jardim. A lamparina crepitou e apagou-se. Mais trovões, e Betesda comprimiu-se contra mim, murmurando na sua linguagem secreta. A chuva tornou-se mais forte e abundante, sibilando nas telhas do telhado e nas pedras do pavimento, uma chuva longa e regular, suficientemente forte para lavar os mais sujos canos de esgoto e as ruas de Roma, a chuva de limpeza que os poetas e os sacerdotes nos dizem que tem origem nos deuses, a fim de purificar os pecados de pais e filhos.

 

Na manhã seguinte, levantei-me cedo e lavei-me na fonte do jardim. A terra ressequida ficara mole e húmida com a chuva que caíra durante toda a noite. A vegetação pingava um orvalho pesado. O céu por cima de mim era de uma cor de pérola leitoso, tocado de coral, opalescente como a superfície interior de uma concha. Enquanto o observava, o brilho de cor evaporou-se em humidade; imperceptivelmente, o céu foi-se tornando adequadamente azul, coberto de luz, sem nuvens, anunciador do calor que se aproximava. Eu vesti a minha túnica mais leve e a minha toga mais limpa e comi um pedaço de pão. Deixei Betesda a dormir no canapé. Ela continuava deitada, agarrada à túnica, como se ela fosse uma colcha que a cobrisse contra o fresco da manhã, com Blast enrolada contra o seu pescoço como um colar de pele preta.

 

Dirigi-me em passo rápido a casa de Cícero. Tínhamo-nos separado no dia anterior combinando que eu passaria por lá antes de ir inspeccionar o local onde Sexto Róscio tinha sido assassinado. Mas, quando cheguei, Cícero mandou dizer por Tiro que só se levantaria à tarde. Sofria de uma doença crónica nos intestinos, e atribuía a actual recaída ao facto de ter quebrado a sua dieta, comendo uma ameixa em casa de Cecília Metela. Amavelmente, ofereceu-me Tiro como companhia para esse dia.

 

Quando partimos, as ruas continuavam brilhantes por causa da chuva e o ar tinha um cheiro limpo e esfregado. Chegámos ao Capitolino, passámos pela Porta Fontinal e entrámos no bairro do Circo Flamínio; a esta hora, já o calor do dia já começara a impor o seu poder sobre a cidade. As pedras da calçada começavam a exalar vapor de água. As paredes de tijolo começavam a exsudar e a transpirar. A frescura da manhã dava lugar a um tempo húmido e abafado.

 

Limpei a testa com a extremidade da toga e amaldiçoei silenciosamente o calor. Lancei um olhar a Tiro e vi que ele sorria, olhando em frente com uma expressão de estupidez. Não era difícil imaginar a razão para a sua boa disposição, mas eu nada disse.

 

À volta do Circo Flamínio há uma rede labiríntica de ruas. Naquelas que se encontram mais perto do Circo, especialmente nas que dão directamente para a longa estrutura e podem portanto explorar melhor o forte tráfico que nela circula, há uma enorme quantidade de lojas, tabernas, bordéis e estalagens. Na rede exterior de ruas amontoam-se imóveis com três e quatro andares, muitos dos quais se encontram inclinados para a rua, bloqueando a entrada da luz do Sol. As ruas são muito parecidas umas com as outras e consistem numa miscelânea de edifícios de várias épocas e tipos arquitectónicos. Dada a frequência dos incêndios e dos tremores de terra, Roma está constantemente a ser reconstruída; tendo em conta que a população aumentou e que vastas extensões de propriedade foram anexadas sob o controlo de grandes proprietários terratenentes, os edifícios mais recentes tendem a ter uma concepção e construção do mais pobre que se pode imaginar. Rodeando um venerável edifício de apartamentos de tijolo e argamassa, que por qualquer razão sobreviveu a um século de catástrofes, viam-se edifícios desmoronados sem o mais pequeno ornamento, que parecia serem feitos apenas de lama e de paus. Durante o governo de Sula, estes problemas apenas pioraram, evidentemente.

 

Seguimos o caminho que Sexto Róscio nos indicara, copiado na véspera pelo jovem Messala. A letra de Rufo era atroz, quase ilegível. Observei a Tiro que era uma pena que ele tivesse estado ocupado noutro sítio e não tivesse podido ser ele a tomar notas com a sua letra firme e clara.

 

Sendo um nobre, Rufo nunca se preocupou em aprender a desenhar letras, pelo menos de maneira que outra pessoa possa lê-las. Mas tu parece teres considerável habilidade no manejamento do estilete. Fiz o comentário tão espontaneamente quanto pude, e sorri ao ver as suas orelhas ficarem vermelhas.

 

Eu não tinha dúvidas de que o caminho era o indicado, pois seguia um percurso natural desde a casa de Cecília Metela até ao coração do bairro do Circo, através das ruas largas, evitando os atalhos mais estreitos e mais perigosos. Passámos por diversas tabernas, mas não era provável que o velho Sexto tivesse entrado em nenhuma delas, pelo menos nessa noite, uma vez que estava ansioso por chegar junto de quem lhe enviara a críptica mensagem.

 

Chegámos a uma praça ampla, iluminada pelo sol. As lojas estavam voltadas para dentro, na direcção da cisterna central onde os habitantes locais iam todos os dias buscar água. Uma mulher alta, de ombros largos e de vestes carregadas parecia ser a autonomeada dona da cisterna, orientando a pequena fila de escravos e donas de casa que iam conversando enquanto esperavam a sua vez. Um dos escravos lançou meio balde de água sobre um grupo de miúdos andrajosos que andava por ali. As crianças gritaram de prazer e abanaram-se como cães.

 

Por aqui disse Tiro. Estudou as direcções e juntou os sobrolhos. Pelo menos acho que é por aqui.

 

Sim, lembro-me do que ele disse ontem. Uma passagem estreita entre uma loja de vinhos e um edifício alto manchado de vermelho. Olhei à volta da praça irregular, para as seis ruas que irradiavam para o exterior. De todas elas, a rua que o velho Sexto tomara naquela noite era a mais estreita e, porque fazia uma curva logo no princípio, tinha muito pouca visibilidade. Talvez fosse o caminho mais curto até à mulher chamada Elena. Ou talvez fosse o único caminho.

 

Olhei à volta e detectei um homem atravessando a praça. Calculei que fosse um pequeno comerciante, um homem de alguns meios, mas não rico, a avaliar pelos seus sapatos, gastos mas de boa qualidade. Pela forma tranquila como se comportava, olhando ociosamente para a praça sem parecer reparar em coisa alguma, presumi que se tratasse de um habitante da zona que a tivesse atravessado muitas vezes, talvez todos os dias. Parou ao lado do relógio de sol, montado num pedestal baixo, franzindo o sobrolho e enrugando o nariz para ele. Aproximei-me dele.

 

”Que os deuses o confundam” citei, ”àquele que inventou as horas, e que colocou em Roma o primeiro relógio de sol!”

 

Ah! Ele olhou para cima, sorriu abertamente e prosseguiu imediatamente o refrão: ”Tem piedade de mim, tem piedade de mim! Eles segmentaram o meu dia como os dentes de um pente!”

 

Ah, conheces a peça comecei eu, mas ele não estava disposto a ser interrompido.

 

”Quando eu era criança, o meu estômago era o meu relógio, e ele nunca me enganou; agora, ainda que a mesa transborde, não se pode comer enquanto as sombras não forem longas. Roma é governada pelo relógio de sol; entretanto, os Romanos morrem de fome e de sede!”

 

Partilhámos uma gargalhada tranquila.

 

Cidadão disse eu, conheces este bairro?

 

Claro. Há anos que moro aqui.

 

Então tenho a certeza de que podes ajudar-me. Não estou a morrer de fome e de sede, mas há outra fome que anseio por saciar. Sou um amante de pássaros.

 

De pássaros? Aqui só há pombos. E são demasiadamente pegajosos para o meu gosto. Sorriu, exibindo uma falha enorme entre os dentes.

 

Estava a pensar numa ave mais elegante. Que sente bem na água, na terra e que no céu encontra os seus limites. Um amigo de um amigo disse-me que havia aqui cisnes.

 

Ele compreendeu imediatamente.

 

Estás a falar da Casa dos Cisnes? Acenei com a cabeça.

 

Ao fundo da rua. Apontou para o espaço entre a loja de vinhos e o edifício vermelho.

 

Alguma destas ruas poderá levar-me lá com igual facilidade?

 

Só se quiseres percorrer o dobro do caminho. Não, esta rua é o único percurso razoável. Trata-se de um bloco comprido, que apenas dá para umas ruas laterais, sem saída. E vai valer-te a pena a caminhada acrescentou com uma piscadela de olho.

 

Espero bem que sim. Anda, Tiro. Voltámo-nos e caminhámos em direcção à tal rua estreita. Só era possível avistar uma pequena parte da sua extensão. Os edifícios dos dois altos eram bastante altos. Mesmo à forte luz da manhã, os seus muros parecia fecharem-se à nossa volta, frios e húmidos, formando uma racha obscura de argamassa e tijolo.

 

Os edifícios ao longo da sua extensão eram sobretudo grandes edifícios para habitação, muitos com uma única porta e sem janelas ao nível da rua, pelo que percorremos longos trechos apenas com paredes de um lado e do outro. Os andares superiores inclinavam-se sobre os inferiores; poderiam proporcionar abrigo quando chovesse, mas também criavam bolsas profundas de sombra durante a noite. Ao longo de todo o caminho, de cinquenta em cinquenta passos, aproximadamente, havia suportes fixos na parede, cheios dos tocos ainda fumegantes das tochas da noite anterior. Sob cada tocha, estava fixada uma pequena pedra; cada pedra tinha gravado o perfil de um cisne, no género de trabalho imperfeito de artesãos pouco refinados. As pedras eram meios de publicidade. As tochas destinavam-se a guiar o cliente nocturno até à Casa dos Cisnes.

 

Devemos estar perto disse Tiro, olhando para cima, para a tabuleta. Já passámos por uma rua lateral à nossa esquerda, e agora temos outra à direita. De acordo com as indicações de Rufo, Sexto Róscio descobriu uma grande mancha de sangue no meio da rua. Mas achas possível que, passado tanto tempo, ela ainda lá...

 

As palavras de Tiro não chegaram a formar uma pergunta. A sua voz suspendeu-se antes da última palavra, no momento em que ele olhou para o chão e se imobilizou subitamente.

 

Olha murmurou ele e engoliu audivelmente.

 

Considere-se que o corpo de um homem possui uma grande quantidade de sangue. Considere-se também a natureza porosa das pedras do pavimento, e a drenagem pouco adequada das ruas de Roma, particularmente as dos locais mais baixos. Considere-se que pouco tinha chovido naquele Inverno. Apesar disso, o velho Sexto Róscio devia ter jazido durante muito tempo no centro da rua, a sangrar continuamente, para deixar uma mancha tão grande e indelével.

 

A mancha era quase perfeitamente redonda e tinha o diâmetro do braço de um homem alto. Estava esborratada e a desaparecer nas extremidades, misturando-se imperceptivelmente com a sujidade geral. Mas, mais perto do centro, continuava a ser de um vermelho bastante escuro e concentrado. As marcas dos pés que passavam diariamente por cima tinham gasto a superfície das pedras devolvendo-lhes a sua regularidade normal e oleosa mas, quando me ajoelhei para olhar mais atentamente, consegui ainda detectar pequenas crostas secas de vermelho nas fissuras mais profundas.

 

Olhei para cima. Mesmo do centro da rua, era impossível ver qualquer das janelas do segundo andar, excepto num ângulo muito oblíquo.

 

Para ver de qualquer dessas janelas para a rua, uma pessoa teria de se inclinar muito por cima do peitoril.

 

A porta mais próxima estava localizada a vários metros; tratava-se da entrada para o grande edifício situado à nossa esquerda. A parede à nossa direita era igualmente lisa, à excepção de uma loja de comida, um pouco atrás de nós, no canto onde a rua formava um cruzamento com um estreito beco sem saída. A loja ainda não estava aberta. Uma única porta quadrada, muito alta e larga, cobria toda a frente. Era uma porta de madeira, pintada com uma tinta amarelo-pálida em cujo topo se encontravam dispostos diversos canais cilíndricos, para cereais, vegetais e especiarias. Muito mais abaixo, a um canto, havia outra mancha na porta, que me fez conter a respiração quando a vi.

 

Tiro! Anda cá ver isto. Corri para trás e acocorei-me ao lado da porta. A partir do nível da cintura de um homem para baixo, a madeira estava coberta por uma camada de fuligem e de pó, que se tornava mais espessa até se transformar numa banda enegrecida à medida que se ia aproximando do solo. Apesar disso, ao nível do joelho, a marca de uma mão estava ainda bastante visível por baixo da sujidade. Coloquei a minha mão por cima dela e senti uma estranho arrepio, pois percebi sem sombra de dúvida que estava a tocar numa marca sangrenta deixada há meses pela mão de Sexto Róscio.

 

Tiro olhou para a marca da mão e novamente para a mancha que se via na rua.

 

Estão tão longe uma da outra murmurou.

 

Sim, mas a marca da mão deve ter sido feita primeiro. Levantei-me e fui até à esquina, passando pela porta. O pequeno beco lateral não era sequer uma rua ou, se alguma vez o tivesse sido, estava actualmente tapado na extremidade com um sólido muro da altura de dois andares. O espaço teria aproximadamente 600 metros de profundidade, e não mais 150 metros de largura. Lá ao fundo, alguém estivera a queimar lixo; pedaços de lixo e de ossos espreitavam de uma pilha de cinzas brancas e cinzentas que chegava à altura da cintura. Nenhuma janela dava para este espaço, nem as das paredes em volta, nem as dos edifícios situados do outro lado da rua. As tochas mais próximas estavam fixadas à distância de pelo menos quarenta passos.

 

À noite, o pequeno beco sem saída seria completamente escuro e invisível antes de se passar directamente diante dele era o lugar ideal para uma emboscada. Foi aqui que eles esperaram, Tiro, precisamente aqui, escondidos no recesso, sabendo que ele passaria por aqui quando viesse responder ao recado dessa mulher, Elena. Deviam saber como ele era, o suficiente para o reconhecerem à luz das tochas transportadas pelos seus escravos, porque não tiveram qualquer hesitação em saltar e come-çar a esfaqueá-lo, aqui no canto.

 

Caminhei lentamente em direcção à marca da mão.

 

A primeira ferida deve ter sido feita algures no peito ou na barriga suponho que o terão olhado de frente para terem a certeza de que era ele, porque ele não teve dificuldade em lhe chegar, tentando cobri-la e enchendo a mão de sangue. Por qualquer razão, afastou-se. Talvez tivesse pensado que conseguiria empurrar e abrir esta porta, mas deve ter caído de joelhos estás a ver que a marca da mão é baixa. Olhei para a rua. Mas a verdadeira matança teve lugar ali, no meio da rua. Fosse como fosse, ele conseguiu voltar a pôr-se de pé e cambaleou até ali antes de eles conseguirem derrubá-lo.

 

Talvez os escravos estivessem a tentar combater os assassinos disse Tiro.

 

Talvez. Acenei com a cabeça, embora me fosse mais fácil imaginá-los a fugir num pânico cego ao primeiro brilho do aço.

 

Inclinei-me para examinar novamente a marca da mão. A porta alta e ampla estremeceu e abriu-se de repente para fora, atingindo-me em cheio no nariz.

 

Ei, o que é isso? ouviu-se uma voz do interior. Outro vagabundo a dormir diante da minha loja? Vou mandar-te espancar. Sai daí, deixa-me abrir a porta!

 

A porta voltou a estremecer. Eu bloqueei-a com o pé até conseguir levantar-me e afastar-me para o lado.

 

Uma cara rugosa espreitou de trás da porta.

 

Já te disse para saíres daí! rosnou o homem. A porta oscilou para fora a vibrar nos gonzos, formando um arco enorme, até bater contra o muro do outro lado do beco sem saída, cobrindo por completo o caminho estreito onde os assassinos se tinham escondido.

 

Oh, não é um vagabundo murmurou o velho, olhando-me de cima a baixo. Eu ainda estava a esfregar o nariz. Peço desculpa.

 

A sua voz não transmitia o mínimo de amizade ou de arrependimento.

 

Esta loja é tua, senhor?

 

Claro que é minha. É minha desde que o meu pai morreu, provavelmente antes de tu nasceres. E, antes disso, era do pai dele.

 

Piscou os olhos por causa da luz do Sol, abanou a cabeça como se o brilho o incomodasse, e recuou para dentro da loja.

 

Só agora estás a abrir a loja? disse eu, seguindo atrás dele.

 

Parece-me um pouco tarde.

 

A loja é minha. Abro-a quando quiser.

 

Quando quiserl Uma voz guinchou, vinda algures de trás do balcão, ao fundo da loja. O longo compartimento estava mergulhado na sombra. Depois da forte luz da rua, olhei para a escuridão como um cego. Quando quiser, diz ele! Quando eu finalmente consigo tirá-lo da cama e vesti-lo, é nessa altura que ele quer. Quando eu quero, poderia ele dizer. Um destes dias, não me incomodarei a sair da cama. Fico deitada, como ele faz, e nessa altura o que nos acontecerá?

 

Cala-te, velha! O homem tropeçou contra uma mesa baixa. Virou um cesto, espalhando azeitonas secas pelo chão. Tiro entrou na loja atrás de mim e começou a apanhá-las.

 

Quem é este? disse o velho, inclinando-se e olhando-o de lado. É um escravo teu?

 

Não.

 

Bem, comporta-se como um escravo. Não queres vendê-lo?

 

Já te disse que ele não é meu escravo. O velho encolheu os ombros.

 

Antigamente tínhamos um escravo. Até que o estúpido do meu filho libertou aquele maldito preguiçoso. Era ele que costumava abrir a porta todas as manhãs. Que mal tem um velho ficar a dormir até tarde, se tiver um escravo que lhe abra a porta? Ele nem sequer roubava muito, embora fosse um maldito preguiçoso. Devia continuar aqui, escravo ou não. Um liberto tem obrigações para com aqueles que o libertaram, toda a gente sabe disso, obrigações legais, seja escravo ou não, e era justamente agora que eu precisava dele. Mas ele foi para a Apúlia, não sei para onde, arranjou uma mulher. Demos-lhes a liberdade e a primeira coisa que fizeram foi partir e reproduzir-se como pessoas decentes. Era ele que abria a porta. E nem sequer roubava muito. Enquanto ele continuava a resmungar, os meus olhos iam-se habituando à escuridão. A loja encontrava-se num estado delapidado, cheia de pó e por varrer. Metade das prateleiras e dos balcões estava vazia. As azeitonas pretas encarquilhadas que Tiro tinha tratado de apanhar estavam cobertas de pó. Eu levantei a tampa de uma urna de barro e puxei um figo seco. A polpa estava cheia de manchas de bolor cinzento. Espalhava-se por toda a sala o odor bafiento de uma casa que há muito não era usada, atravessado pelo fedor doce e amargo da fruta podre.

 

Como é que sabes? sibilou uma voz aguda na parte de trás da loja. Já conseguia ver a mulher com maior clareza. Ela usava um xaile escuro e parecia estar a cortar qualquer coisa com uma faca, pontuando cada frase com um golpe seco sobre o balcão. Tu não achas nada, velho, ou pelo menos não és capaz de te recordar. A tua cabeça parece uma peneira. Esse Gálio-que-não-valia-nada estava sempre a roubar-nos. Eu ter-lhe-ia mandado cortar as mãos por roubo, simplesmente depois disso ele não teria qualquer utilidade para ninguém. Ninguém consegue vender um escravo se ele não tiver mãos, e ninguém compra um ladrão conhecido como tal, excepto para as minas ou para as galeras, e a carne morta não dá dinheiro, como se diz. Ele não prestava para nada. Estamos muito melhor sem tipos como ele.

 

O homem voltou-se para mim e fez uma careta por trás das costas da mulher.

 

Muito bem, vieram comprar alguma coisa ou ouvir uma velha dizer disparates?

 

Eu olhei à minha volta, à procura de qualquer coisa que me parecesse razoavelmente comestível.

 

Na realidade, foram os sinais no exterior da porta que me chamaram a atenção. Os pequenos símbolos de frutas, de cereais...

 

Ah, também foi Gálio que fez isso. Pouco antes de o meu filho o libertar. Era um escravo talentoso, embora fosse preguiçoso. Quase nem nos roubava.

 

Reparei num sinal em particular. Diferente dos outros. Junto da base da porta a marca da uma mão.

 

O seu rosto endureceu.

 

Não foi Gálio que pintou isso.

 

Também não pensei que tivesse sido. Parece mesmo sangue.

 

E é.

 

Velho, tu falas muito. A mulher fez um ar carregado e bateu com a faca contra o balcão. Há coisas que têm de ser vistas mas de que não se pode falar.

 

Cala-te, velha! Se dependesse de mim, há muito que a teria limpo, mas tu quiseste que ela ficasse ali, e enquanto ali estiver não podes ficar surpreendida por as pessoas repararem nela.

 

Há quanto tempo é que a marca está ali?

 

Oh, há meses e meses. Desde Setembro passado, acho eu. Eu acenei com a cabeça.

 

E como...

 

Houve um homem que foi morto no meio da rua, um homem rico, pelo que ouvi dizer. Imagina, foi esfaqueado até à morte mesmo em frente da minha loja.

 

Depois de escurecer?

 

Claro senão, a porta estava aberta, não achas? Por Hércules imagina se ele tivesse tropeçado aqui para dentro quando a loja estava aberta! Nunca mais acabariam as conversas e os problemas.

 

Velho, tu nada sabes sobre isso, por isso o melhor é calares-te. Pergunta outra vez a esse bom homem se ele veio comprar alguma coisa. A mulher mantinha a cabeça inclinada, como um touro, olhando para mim por baixo das suas espessas sobrancelhas.

 

Eu sei que houve um homem que foi morto, se não te importas ladrou o velho.

 

Nós não vimos nada nem ouvimos nada. Só ouvimos bisbilhotices na manhã seguinte.

 

Bisbilhotices? disse eu. Então falou-se do assunto aqui no bairro. Ele era daqui?

 

Que eu saiba, não disse o homem. Mas disseram que alguns dos frequentadores dos Cisnes estavam na rua quando o voltaram, na manhã seguinte, e reconheceram-no.

 

Os Cisnes?

 

É uma casa de entretenimento, para homens. Eu cá não sei nada sobre isso. Rolou os olhos, indicando a mulher, e baixou a voz. Embora o meu rapaz contasse umas histórias muito estranhas sobre esse sítio.

 

A faca voltou a bater no balcão com especial ferocidade.

 

Seja como for, aconteceu algum tempo depois de nós termos fechado a loja e de termos subido as escadas para ir dormir.

 

Então não ouviste nada? Pensei que tivesse havido gritos, e outros barulhos.

 

O homem começou a responder, mas a mulher interrompeu-o.

 

Os nossos quartos são na parte de trás do edifício. Não temos nenhuma janela para a rua da frente. Mas afinal que interesse tens tu no assunto?

 

Encolhi os ombros.

 

Estava a passar por acaso e reparei na marca da mão. Parece-me estranho que ninguém a tenha coberto.

 

Foi a minha mulher disse o velho, com uma expressão dorida. É supersticiosa, como todas as mulheres.

 

A faca desceu.

 

Ficou ali por uma excelente razão. Tivemos algum roubo desde que aquilo aconteceu? Tivemos?

 

O velho franziu os lábios.

 

Ela imagina que aquilo impede que os ladrões apareçam durante a noite. Eu disse-lhe que era mais provável que impedisse os clientes de entrarem.

 

Mas quando a porta está aberta ninguém a vê, fica escondida do outro lado. Só quando a porta está fechada é que se consegue vê-la da rua, só quando estamos fechados, e é nessa altura que precisamos de protecção. Estás a chamar-me supersticiosa? Um criminoso comum pensará duas vezes antes de roubar uma loja depois de ter visto a marca de uma mão ensanguentada na entrada. Costumam cortar as mãos aos ladrões, como sabes. Essa mão tem poder, digo-te eu. Se tivéssemos sido nós a forjá-la, se não fosse sangue, nada significaria, nada protegeria. Mas a marca de um homem que está a morrer, feita com o seu próprio sangue pela sua própria mão, tem poder. Pergunta a esse estrangeiro. Ele sentiu esse poder. Não foi?

 

Senti, sim! Era Tiro, situado atrás de mim. Três pares de olhos voltaram-se para o ver corar, até ficar da cor de uma maça vermelha.

 

Tens a certeza de que não queres vendê-lo? perguntou o velho, que começou subitamente a arquejar.

 

Já te disse...

 

Tem um poder! guinchou a mulher.

 

Diz-me uma coisa: alguém assistiu ao assassínio? Deve ter havido coscuvilhice. As pessoas entram e saem da tua loja todo o dia. Se alguém tivesse assistido, tu saberias.

 

O velho parou subitamente de arquejar. Olhou para mim durante um longo momento, depois olhou para a mulher. Tanto quanto pude ver, ela limitou-se a lançar-lhe um olhar carregado, mas pode ser que tenha feito algum sinal imperceptível aos meus olhos pois, quando ele se voltou, parecia que tinha recebido, de má vontade, autorização para falar.

 

Houve uma pessoa... uma mulher. Ela vive no edifício do outro lado da rua. Chama-se Polia. É uma mulher jovem, uma viúva. Vive com o filho, um rapaz mudo. Parece que me recordo de outro cliente dizer que Polia andava a falar a toda a gente do assassínio logo depois de ele ter acontecido, que o tinha visto com os seus próprios olhos, enquanto olhava pela janela. Naturalmente que quando ela voltou à loja, lhe fiz algumas perguntas sobre ele. E sabes que mais? Ela não disse uma palavra acerca do assunto, ficou tão muda como o filho, excepto para dizer que eu não devia voltar a fazer perguntas, e que não dissesse a ninguém que pudesse... Fechou abruptamente a boca com uma contorsão de culpa.

 

Diz-me prossegui eu, escolhendo entre os figos secos para descobrir alguns que valesse a pena comer, o rapazinho mudo gosta de figos? Tiro, dá ao homem uma moeda da minha bolsa.

 

Tiro, que levava a minha saca ao ombro, meteu a mão lá dentro e tirou um asse de cobre.

 

Oh, não, mais do que um asse, Tiro. Dá ao homem um sestércio, e deixa-o ficar com o troco. Afinal, tenho uma conta para essas despesas com o teu senhor.

 

O velho aceitou a moeda e olhou para ela desconfiado. Por trás dele, observei que a mulher continuava a cortar com uma satisfação ressentida.

 

Um escravo tão calmo e com tão boas maneiras. Tens a certeza

 

de que não queres vendê-lo?

 

Limitei-me a sorrir e a indicar a Tiro que me seguisse. Antes de sair para a luz do Sol, voltei-me para trás.

 

Se o teu filho insistiu em vender o único escravo que tu tinhas, por que não está ele aqui para te ajudar?

 

Ainda mal pronunciara aquelas palavras quando fiquei a saber a resposta. Mordi o lábio, desejando engolir o que tinha dito.

 

A mulher lançou abruptamente a faca pela sala, espetando-a na parede com um estremecimento. Lançou os braços para o alto e atirou-se de cara para baixo sobre o balcão. O velho inclinou a cabeça e torceu as mãos. Na escuridão da delapidada loja, parecia que estavam a posar para um quadro fantástico, cristalizado numa súbita erupção de dor que era quase aterradora, quase cómica.

 

As guerras murmurou o velho. Perdemo-lo nas guerras... Voltei-me e pus o braço à volta de Tiro, que estava mudo, pregado ao chão. Juntos, saímos furtivamente para a rua banhada pela luz do Sol.

 

O edifício do outro lado do caminho era de construção relativamente recente. As paredes sem janelas viradas para a rua ainda só tinham sido desfeadas com uma quantidade limitada de palavras de ordem eleitorais (tinha continuado a haver eleições, embora sem grande entusiasmo, durante a ditadura de Sula). Mais comum era uma selecção de escritos obscenos, provavelmente feitos, a avaliar pelo seu conteúdo, por clientes satisfeitos de regresso da Casa dos Cisnes. Vi Tiro voltar a cabeça para apanhar uma das frases mais obscenas, e dei um estalo com a língua, como um professor desaprovador. Mas eu próprio fui lendo as litanias de esguelha, curioso por ver se nelas ocorria um certo nome; mas nem Elena aquela que mandara chamar Sexto Róscio nem quaisquer talentos específicos que ela possuísse eram mencionados.

 

Um breve lanço de escadas conduzia à entrada do edifício, que estava escorada para se manter aberta por causa do calor da manhã. De uma pequena e despida antessala, saíam duas passagens para a esquerda. Uma delas era uma longa escadaria fechada que conduzia ao segundo andar. A outra era uma entrada escura que atravessava toda a extensão do edifício, flanqueada por numerosos cubículos cobertos por tapeçarias esfarrapadas, que não combinavam umas com as outras.

 

Na extremidade do corredor, um homem alto e magro levantou-se do chão, onde estava sentado, e avançou rapidamente até junto de nós, virando a cabeça de lado e esfregando o queixo. Era o vigilante. Todos os edifícios tinham pelo menos um, e por vezes, nos grandes edifícios, havia um em cada andar tratava-se de um residente desempregado, que recebia uma pequena gratificação dos outros residentes ou do senhorio para vigiar a sua propriedade durante o dia, enquanto eles estivessem ausentes, e para ver quem eram os estrangeiros e os visitantes que lá entravam. Por vezes, era utilizado um escravo para essa tarefa, mas este edifício não parecia propriamente uma habitação de proprietários de escravos; além disso, vi de relance que ele usava o anel dos Romanos livres.

 

Cidadão disse ele, parando abruptamente diante de nós. Era muito alto e magro, tinha a barba grisalha e um olhar ligeiramente selvagem.

 

Cidadão disse eu, ando à procura de uma mulher. Ele sorriu estupidamente.

 

Quem não anda?

 

De uma mulher chamada Polia.

 

Polia?

 

Sim. Mora lá em cima, acho eu.

 

Polia? disse ele novamente, esfregando o queixo.

 

É uma viúva que tem um filho jovem. O rapaz é mudo.

 

O homem encolheu os ombros, exagerando o gesto. Ao mesmo tempo, voltou lentamente para cima a palma da mão direita.

 

Tiro comecei eu, mas Tiro já se tinha adiantado a meter a mão dentro do saco de couro que tinha ao ombro. Tirou umas quantas moedas de asse de cobre e mostrou-mas. Acenei com a cabeça, indiquei-lhe por gestos que esperasse. Entretanto, o gigante magro avultou-se diante de nós, olhando para o punho fechado de Tiro com desavergonhada ganância.

 

Existe uma mulher chamada Polia que ainda vive aqui? disse eu.

 

O homem enrugou os lábios, depois acenou com a cabeça. Eu inclinei a minha para Tiro, que lhe entregou um único asse.

 

E ela está neste momento no seu quarto?

 

Não tenho a certeza. Ela mora lá em cima. Tem um quarto com porta e tudo.

 

Uma porta que fecha?

 

Não suficientemente para levantar problemas.

 

Então suponho que terei de lidar com outro vigilante ao cimo das escadas, não? Talvez deva guardar o resto das minhas moedas para ele. Voltei-me em direcção às escadas.

 

O gigante deteve-me, colocando sobre o meu ombro uma mão surpreendentemente suave.

 

Cidadão, espera. Estarás a desperdiçar as tuas moedas com ele. Ele não presta para nada, começa a beber logo que acorda. Provavelmente estará agora a dormir, com este calor. Bastava-te acordá-lo para lhe perguntares onde é o quarto de Polia. Vem cá, eu próprio posso mostrar-te onde é, mas sobe as escadas devagarinho.

 

O gigante foi à frente, subindo com facilidade dois degraus ao mesmo tempo, caminhando em bicos de pés de forma exagerada; parecia estar quase a perder o equilíbrio a cada passo. Como ele previra, o vigilante do andar de cima estava completamente adormecido no topo das escadas. Era um homenzinho redondo, que estava sentado contra a parede, com as pernas rechonchudas abertas à sua frente, um odre de vinho entornado sobre um joelho e uma garrafa de barro lascivamente apoiada entre as coxas. O vigilante passou cautelosamente por cima dele, revirando o nariz.

 

O estreito corredor estava fracamente iluminado por uma pequena janela em cada extremidade. O tecto era tão baixo, que o nosso guia tinha de se inclinar para evitar as vigas mais baixas. Seguimo-lo até uma porta situada a meio do corredor, e esperámos enquanto ele batia suavemente. A cada toque dos seus nós dos dedos contra a madeira, olhava nervosamente para o vigilante adormecido no chão e, a determinado momento, quando Tiro fez chiar as tábuas do solo, pediu silêncio com ambas as mãos. Apenas pude presumir que o pequeno vigilante embriagado teria poderes de retaliação invisíveis a um estranho.

 

Passado um momento, a porta fina e estreita abriu-se a largura de um dedo.

 

Oh, és tu disse uma voz de mulher. Já te disse mais de mil vezes, não. Por que não me deixas em paz? Deve haver mais cinquenta mulheres neste edifício.

 

O gigante olhou para mim e corou.

 

Não estou sozinho. Tenho visitas murmurou ele.

 

Visitas? Não é a minha mãe?

 

Não. É um homem. E o seu escravo. Ela conteve a respiração.

 

Não são aqueles que já cá estiveram, pois não?

 

Claro que não. Estão aqui ao meu lado.

 

A porta abriu-se um pouco mais, apenas o suficiente para revelar completamente o rosto da viúva. Não havia muito que ver naquela quase escuridão, a não ser dois olhos assustados.

 

Quem és tu?

 

Na extremidade do corredor, o vigilante embriagado voltou-se agitadamente, fazendo mover a garrafa que tinha entre as pernas. Ela virou-se e rolou em direcção às escadas.

 

Por Hércules! O gigante arfou e correu nas pontas dos pés em direcção ao patamar. Quando estava mesmo a chegar, a garrafa rolou por cima do último degrau e começou a descer as escadas, batendo com estrondo em cada degrau.

 

O pequeno vigilante acordou instantaneamente.

 

O que é isto? Tu! Rolou para diante e pôs-se de pé a cambalear. O gigante já descia as escadas, com as mãos em cima da cabeça, mas o homenzinho foi mais rápido do que ele. Num instante, pegou numa comprida tábua de madeira e começou a bater com ela na cabeça e nos ombros do gigante, guinchando em altos gritos. A trazer estrangeiros ao meu andar outra vez! A roubar as minhas gorgetas! Não pensaste que eu te apanhava! Monte desprezível de porcaria! Avança, avança, ou espanco-te como a um cão!

 

O espectáculo era absurdo, patético, embaraçoso. Tiro e eu rimo-nos simultaneamente, e cessámos simultaneamente de rir quando nos voltámos para olhar para o rosto cinzento da jovem viúva.

 

Quem são vocês? O que vieram aqui fazer?

 

Chamo-me Gordiano. Fui empregado pelo mui estimado advogado Marco Túlio Cícero. Este é o seu secretário, Tiro. Apenas quero fazer-te umas perguntas, acerca de uns acontecimentos de Setembro passado.

 

Ela ficou ainda mais pálida.

 

Eu sabia. Não me perguntem como, mas eu sabia. Sonhei com isso a noite passada... Mas vocês têm de se ir embora. Não posso falar com ninguém neste momento.

 

O seu rosto recuou. Ela empurrou a porta. Eu bloqueei-a com o pé. O painel de madeira era tão fino e de tão má qualidade, que estalou em consequência da pressão.

 

Vá lá, deixa-me entrar. Tens ali um belo vigilante, no cimo das escadas. Estou a ouvi-lo regressar. Tenho a certeza de que vais ficar a salvo bastar-te-á gritar se eu fizer alguma coisa imprópria.

 

A porta abriu-se subitamente para trás, mas não era a viúva que estava diante de nós. Era o seu filho e, embora não devesse ter mais de oito anos, não parecia particularmente pequeno, especialmente porque segurava na mão direita um punhal erguido.

 

Não, Eco, não! A mulher agarrou no braço do rapaz e empurrou-o para trás. Os olhos dele continuavam fixos nos meus, sem pestanejar. No andar de cima e de baixo, abriram-se portas. O pequeno vigilante, regressando ao cimo das escadas, clamou numa voz embriagada:

 

O que se passa aí?

 

Oh, por amor de Cibele, entrem. A mulher conseguiu tirar o punhal da mão do filho e aferrolhou rapidamente a porta atrás de nós.

 

O rapaz manteve os olhos pousados sobre mim, fixando-me de forma carregada.

 

Entalha antes isto disse eu, pegando os figos e atirando-lhos. Ele apanhou-os todos com uma só mão.

 

A sala era pequena e apertada, como o são muitos apartamentos destes na maioria dos edifícios iguais a este, mas tinha uma janela com venezianas e espaço para duas pessoas dormirem no chão sem sequer se tocarem.

 

Vivem aqui sozinhos? perguntei eu. Só os dois? Olhei à volta, para os poucos haveres pessoais que se viam em desordem pela sala: uma muda de roupas, um pequeno cesto de cosméticos, alguns brinquedos de madeira. Eram as coisas dele e as coisas dela.

 

O que tens tu a ver com isso? Ela estava ao canto da sala, junto da janela, com o rapaz à sua frente. Mantinha um braço à volta dele, abraçando-o e, ao mesmo tempo, segurando-o.

 

Absolutamente nada disse eu. Importas-te que olhe pela tua janela? Não sabes a sorte que tens, ou suponho que saibas, uma vez que podes ver a rua. O rapaz vacilou quando eu me aproximei, mas a mulher segurava-o com força. Claro que não é uma grande vista disse eu, mas imagino que esta rua seja calma durante a noite, e o ar fresco é uma bênção.

 

O peitoril chegava-me às coxas. A janela era recuada na parede, trinta centímetros ou mais, formando uma espécie de assento; a mulher lançara uma almofada estreita sobre ele. Tive de me inclinar bastante por cima do peitoril para poder ver para a rua. Dado que nos sobrepúnhamos aos apartamentos do andar de baixo, nada conseguia ver da parede exterior abaixo de nós mas, do outro lado da rua e um pouco para a direita, conseguia ver a entrada da pequena loja de comida; a velha estava ocupada a varrer a rua em frente, entregue ao seu trabalho com a mesma agressividade com que antes cortava o bloco sobre o balcão. Mesmo por baixo, claramente visível a esta distância contra o pano de fundo das pedras do pavimento, estava a enorme mancha deixada pelo sangue de Sexto Róscio.

 

Dei umas pancadinhas na almofada.

 

Esta almofada é um óptimo assento, especialmente num dia quente como este, imagino eu. Também deve ser agradável no Outono, ficar aqui sentado quando a noite está suficientemente quente. Observar quem passa. Quando se olha para cima, deve-se conseguir ver as estrelas nas noites mais limpas.

 

Costumo ter as venezianas fechadas depois de escurecer disse ela, seja qual for o tempo que faça. E não presto atenção às pessoas que passam na rua. Não me meto na vida dos outros.

 

Chamas-te Polia, não é verdade?

 

Ela encolheu-se contra a parede, apertando ainda mais o rapaz e acariciando-lhe desajeitadamente o cabelo. Ele fez uma careta e esticou-se para cima, empurrando-lhe os braços com agitação.

 

Eu não te conheço. Como é que sabes o meu nome?

 

Diz-me, Polia, essa sábia política de não te meteres na vida dos outros desde quando é que a tens? Sempre a seguiste, ou é uma decisão recente? Talvez seja uma coisa que decidiste desde, digamos, Setembro passado?

 

Não faço ideia do que estás a falar.

 

Quando o vigilante nos trouxe cá acima, pensaste que éramos outra pessoa.

 

Só perguntei se era a minha mãe. Ela está sempre a vir pedir-me dinheiro, e eu não tenho dinheiro para lhe dar.

 

Não, eu ouvi perfeitamente a conversa. Ele disse-te que era um cidadão e um escravo, e tu disseste ”Não são aqueles que já cá estiveram, pois não?”. Parecias bastante perturbada com a perspectiva de voltares a vê-los.

 

A inquietação do rapaz aumentou, transformando-se numa luta. Ela agarrou-o fortemente e deu-lhe uma palmada no alto da cabeça.

 

Por que não te vais embora? Por que não nos deixas em paz?

 

Porque um homem foi morto e há outro homem que vai morrer por causa dele.

 

Que me importa isso? lançou ela. A amargura estragara o que restava da sua beleza. Que crime tinha cometido o meu marido quando morreu de febre? Que tinha ele feito para merecer a morte? Nem os deuses sabem responder a isso. Os deuses não se incomodam. Todos os dias morrem homens.

 

Este foi esfaqueado mesmo por baixo da tua janela em Setembro passado. Julgo que tu assististe ao acontecimento.

 

Não. De qualquer maneira, como hei-de lembrar-me de tal coisa? A mulher e a criança pareciam estar a fazer uma dança estranha e sinuosa, lutando juntos no canto. Polia começava a respirar mais depressa. O rapaz não tirava os olhos de mim.

 

Julgo que não é coisa de que pudesses esquecer-te. Olha, vê-se a mancha de sangue aqui da janela. Mas não preciso de te dizer isso, pois não?

 

Subitamente, o rapaz libertou-se. Eu recuei. Tiro moveu-se para me resguardar, mas não era preciso. O rapaz desatou a chorar e saiu precipitadamente da sala.

 

Pronto, viste o que fizeste? Obrigaste-me a falar no pai dele. Lá porque Eco não consegue falar, as pessoas esquecem-se de que ele ouve como qualquer pessoa. Antigamente também falava, mas deixou de falar desde que o pai morreu. Nunca mais pronunciou uma palavra. A febre atacou-os a ambos... Agora saiam. Não tenho nada para vos dizer. Saiam!

 

Ela agitava desajeitadamente a faca enquanto falava e depois, subitamente, parece ter-se apercebido do que tinha na mão. Apontou-a na nossa direcção, agarrando-a de forma tosca, com a mão a tremer, parecendo mais provável que se cortasse a si própria do que esfaqueasse alguém.

 

Vem, Tiro disse eu. Nada mais temos a fazer aqui.

 

O pequeno vigilante tinha voltado a encher o seu odre e estava sentado no topo das escadas, esguichando o líquido por entre os lábios manchados de vermelho. Murmurou qualquer coisa e estendeu a mão quando nós passámos. Eu ignorei-o. O vigilante do andar de baixo estava onde o tínhamos visto pela primeira vez, encostado na extremidade do corredor. Ignorou-nos.

 

A rua estava inumanamente quente.

 

Tiro ficava para trás, descendo lentamente os degraus e parecendo perplexo.

 

Que se passa? perguntei.

 

Por que não lhe ofereceste dinheiro? Sabemos que ela viu o assassínio, foi o velho quem o disse. Certamente que a prata lhe faria jeito.

 

Não tenho na bolsa suficiente dinheiro para fazê-la falar. Não percebeste? Trata-se de uma mulher muito assustada. De qualquer maneira, não me parece que ela tivesse aceitado o dinheiro. Não está habituada a ser pobre, pelo menos suficientemente pobre para pedir. Pelo menos por enquanto. Quem sabe qual será a sua história. Tentei endurecer a voz. Que interessa isso? Seja qual for, há mais um milhar de viúvas nesta cidade com a mesma história, cada uma delas mais patética do que a anterior. Aquilo que importa para nós é que alguém a silenciou muito antes de nós chegarmos. Neste momento, ela não tem qualquer utilidade para nós.

 

Quase esperei que Tiro me censurasse mas, evidentemente, isso nunca aconteceria. Ele era um escravo, e um escravo muito jovem, e não conseguia perceber até que ponto eu tinha lidado desadequadamente com a mulher. Eu tratara-a de forma tão grosseira como tratara o comerciante e o vigilante. Talvez ela tivesse falado se eu a tivesse abordado de outra forma, que não através do medo. Eu caminhava rapidamente, esquecido da mancha de sangue, quando passei por cima dela, demasiadamente irritado para perceber para onde me dirigia. O sol do meio-dia pousava sobre nós como um punho sobre o pescoço. Eu prosseguia de cabeça baixa, até que choquei com o rapaz.

 

Ambos recuámos, sem fôlego por causa da colisão. Lancei’uma praga. Eco fez um ruído áspero e abafado com a garganta.

 

Tive suficiente presença de espírito para lançar um olhar cauteloso às suas mãos. Estavam vazias. Olhei-o nos olhos por um instante, e depois afastei-me para continuar a andar. Ele agarrou na manga da minha túnica. Abanou a cabeça e apontou para a janela.

 

O que queres? Deixámos a tua mãe em paz. Devias ir ter com ela.

 

Eco abanou a cabeça e bateu com o pé no chão. Indicou-nos por gestos que esperássemos e correu para dentro de casa.

 

O que achas que ele quer? perguntou Tiro.

 

Não tenho a certeza disse eu, mas no próprio momento em que falava percebi a verdade, e senti um aperto de temor.

 

Um instante mais tarde, o rapaz reapareceu, transportando uma capa preta debaixo de um dos braços e escondendo algo nas dobras da sua túnica. Retirou a mão e a longa lâmina brilhou ao sol. Tiro arquejou e agarrou-me no braço. Eu afastei-o suavemente, pois sabia que a faca não era para nós.

 

O rapaz encaminhou-se lentamente na minha direcção. Não havia mais ninguém na rua; estava demasiado calor.

 

Penso que o rapaz quer dizer-nos qualquer coisa disse eu. Eco acenou com a cabeça.

 

Acerca daquela noite em Setembro.

 

Ele voltou a acenar e apontou com a lâmina para a mancha de sangue.

 

Acerca da morte do velho na rua. O crime teve lugar uma hora ou duas depois de cair a noite. Não tenho razão?

 

Ele acenou.

 

Então como é que alguém poderia ter visto alguma coisa para além de sombras?

 

Ele apontou para os suportes das tochas aplicados nas paredes, e depois para o alto. As suas mãos definiam uma esfera.

 

Ah, sim, foi durante os Idos era noite de lua cheia disse eu. Ele acenou. Os assassinos, de onde vieram eles?

 

Eco apontou para o espaço recuado agora tapado pela porta da loja de comida.

 

Exactamente como eu pensei. E quantos eram eles? Ele levantou três dedos.

 

Só três? Tens a certeza?

 

Ele acenou vigorosamente. Depois a pantomima começou.

 

Ele subiu um pouco a rua, a correr, depois olhou à volta, pavoneando-se na nossa direcção, com a cabeça de lado e uma expressão afectada. Fez um gesto floreado dos dois lados.

 

É o velho Sexto Róscio disse eu. E vem acompanhado pelos seus dois escravos, um de cada lado.

 

O rapaz bateu as palmas e acenou com a cabeça. Correu até à porta da loja, empurrou-a com o ombro, e fechou-a. Através da madeira, ouvi a velha blasfemar, ao fundo da loja, de trás do balcão. O rapaz lançou a capa preta sobre os ombros e encostou-se à parede na pequena rua sem saída, segurando na comprida faca. Eu segui-o.

 

Eram três assassinos, dizes tu. E quem és tu agora, o chefe? Ele acenou, depois indicou-me que tomasse eu o lugar do velho Sexto, deambulando pela rua iluminada pelo luar.

 

Vem, Tiro disse eu, tu és Félix, ou Cresto, o escravo que estava à direita do seu senhor, mais próximo da emboscada.

 

Achas que isto é sensato, senhor?

 

Está calado, Tiro, e desempenha o teu papel.

 

Fomos andando pela rua lado a lado. Do ponto de vista da vítima, a estreita passagem sem saída surgiu inesperadamente; à noite, mesmo com a lua cheia, ela devia constituir um buraco invisível de escuridão. Olhando para ela directamente ao passar, nada vi para além de um movimento vacilante, e nessa altura já era tarde de mais. O rapaz mudo já estava em cima de nós, de surpresa, segurando Tiro pelo ombro e afastando-o para o lado. Fê-lo duas vezes, uma para a esquerda e outra para a direita: dois assassinos, a empurrar dois escravos. Da segunda vez, Tiro reagiu e empurrou-o.

 

Comecei a voltar-me, mas Eco empurrou-me pelos ombros, indicando-me que não me movesse. Por trás, envolveu os meus braços com os seus, como que para me manter imóvel. Com um toque no meu braço, afastou-se lestamente para ir assumir outro papel, girando em círculos diante de mim, puxando o capuz para a frente do rosto, segurando a faca e caminhando a coxear. Aproximou-se de mim, agarrando-me no queixo com uma mão e olhou-me directamente nos olhos. Ergueu o punhal e fê-lo descer, cortando o ar vazio.

 

Onde? disse eu. Onde foi a primeira ferida?

 

Ele tocou-me num ponto entre o pescoço e o mamilo, imediatamente acima do coração. Eu ergui a mão e toquei nesse ponto sem pensar. Eco acenou com a cabeça, com a face invisível por trás da sombra do capuz. Apontou para a marca da mão na porta da loja.

 

Então Sexto deve ter lutado para se libertar... Ele abanou a cabeça e fez um movimento súbito.

 

Foi lançado ao chão? Um aceno. Mas acabou por conseguir arrastar-se até à porta...

 

Eco voltou a abanar a cabeça e apontou para o ponto onde o velho tinha caído. Subiu para cima do imaginário corpo e começou a dar-lhe pontapés violentos, fazendo ruídos estranhos no fundo da garganta. Tinha uma expressão de chacota, ladrava e percebi subitamente, com um sentimento de náusea imitou uma gargalhada.

 

Então, ele estava aqui disse eu, tomando o meu lugar aos pés do rapaz. Chocado, confuso, a sangrar. Eles empurraram-no para diante, dando-lhe pontapés, amaldiçoando-o e ridicularizando-o, às gargalhadas. Ele ergueu-se e tocou na porta...

 

Pela segunda vez nessa manhã, a porta acertou-me em cheio quando se abriu para trás, estremecendo e chiando.

 

O que pensas que estás a fazer? Era a mulher. Não tens o direito...

 

Eco avistou-a e estacou.

 

Continua disse eu, não te preocupes com ela. Continua. Sexto Róscio tinha caído, inclinou-se contra a porta. E depois?

 

O rapaz aproximou-se de mim, outra vez a coxear, e fez um movimento de me agarrar na toga com ambas as mãos, atirando-me literalmente para o meio da rua. Coxeou rapidamente até ao fantasma prostrado e retomou os pontapés, avançando um bocadinho a cada passo até se situar exactamente por cima da enorme mancha de sangue. Indicou os seus companheiros fantasma de cada lado.

 

Três disse eu, os três assassinos rodearam-no. Mas onde estavam então os dois escravos? Mortos? Não. Feridos? Não. O rapaz fez um gesto obsceno de desagrado e rejeição. Os escravos tinham fugido. Eu lancei um olhar a Tiro, que parecia profundamente desiludido.

 

Eco acocorou-se sobre a mancha de sangue, tirou a faca e levantou-a ao alto, acima da cabeça, depois baixou-a à distância de um dedo do solo, uma vez e outra. Começou a tremer. Caiu para baixo, sobre os joelhos. Fez um ruído semelhante ao de um burro a zurrar. Estava a chorar.

 

Eu ajoelhei-me ao seu lado e pus a mão no seu ombro.

 

Pronto, pronto disse eu. Já passou. Só quero que te recordes de mais uma coisa. Ele afastou-se de mim e limpou a cara, irritado consigo próprio por ter chorado. Só mais um pouco. Mais alguém viu o que se passou? Alguma pessoa no edifício ou do outro lado da rua?

 

Ele lançou um olhar à mulher do comerciante, que olhava para nós da entrada da sua loja. Ergueu a mão e apontou.

 

Ha! A mulher cruzou os braços e baixou a cabeça, como um touro. Esse rapaz é um mentiroso. Ou então, além de mudo, é cego.

 

O rapaz voltou a apontar, como se, ao espetar o seu dedo na direcção dela, pudesse obrigá-la a confessar. Depois apontou para uma pequena janela por cima da loja, de onde a cara do homem olhou para nós por um instante antes de desaparecer abruptamente por trás de um par de venezianas, fechadas do interior.

 

É um mentiroso resmungou a mulher. Devia ser espancado.

 

Contaste-me que vivias na parte de trás do edifício, sem janelas para a rua disse-lhe eu.

 

Contei? Bem, é a verdade. Ela não tinha maneira de saber que eu acabava de ver o marido, espreitando directamente por cima dela, como a cara desencarnada de um deus ex machina numa peça.

 

Voltei-me novamente para Eco.

 

Eram três, dizes tu. Haveria alguma coisa que os distinguisse, para além das capas? Seriam altos, baixos, qualquer coisa estranha? Um deles coxeava, como dizes, o chefe. De que perna coxeava ele, da esquerda ou da direita?

 

O rapaz pensou durante um momento, depois apontou para a esquerda. Levantou-se e coxeou à minha volta, num círculo.

 

Da esquerda? Tens a certeza?

 

Ridículo! gritou a velha. Esse estúpido desse rapaz não sabe nada! Ele coxeava da perna direita, da direita! As palavras tinham-lhe saído da boca antes que ela pudesse impedi-las. Ela tapou a boca com a mão. Um sorriso de triunfo invadiu-me o rosto, murchando quando ela me lançou um olhar semelhante ao que Medusa lançou a Perseu. Durante um momento, ficou confusa, depois assumiu uma atitude decidida. Saiu de rompante para a rua, agarrou no puxador da enorme porta e voltou a entrar dentro da loja, puxando a porta e fechando-a atrás de si num grande arco, enquanto Tiro se afastava rapidamente do caminho. Voltaremos a abrir gritou ela, para ninguém em particular quando esta gentalha tiver abandonado as ruas! A porta fechou-se atrás dela, não com grande estrondo, mas com um ruído e um baque equívocos.

 

Era a esquerda disse eu, voltando-me para o rapaz. Ele acenou. Uma lágrima correu-lhe pelo rosto; ele limpou-a com a manga, irritado. E a mão que mão usou ele para esfaquear? Pensa!

 

Eco pareceu olhar intensamente para uma grande profundidade que se abria sob a mancha de sangue, aos nossos pés. Lentamente, como que em estado hipnótico, transferiu o punhal da mão direita para a esquerda. Estreitou os olhos. Sacudiu a mão esquerda, fazendo pequenos movimentos de esfaqueamento no ar. Pestanejou e olhou para mim, acenando com a cabeça.

 

Canhoto! Óptimo, canhoto e coxo da perna esquerda deve ser bastante fácil descobri-lo. E o rosto conseguiste ver-lhe o rosto?

 

Ele encolheu os ombros e pareceu conter as lágrimas. Abanou a cabeça, lentamente, gravemente, não me olhando directamente nos olhos.

 

Não olhaste bem para ele? Suficientemente para o reconheceres se voltasses a vê-lo?

 

Ele lançou-me um olhar de puro pânico e começou a tremer da cabeça aos pés. Eu agarrei-lhe no braço e empurrei-o para trás, para perto da mancha de sangue.

 

Mas como é possível que o tenhas visto tão de perto? Onde estavas tu, à janela do teu quarto?

 

Ele abanou a cabeça. Eu olhei para cima.

 

É demasiadamente longe para conseguires ter olhado bem para ele na rua, mesmo à luz do dia. E, contudo, era uma noite escura, embora houvesse lua cheia.

 

Louco! Não compreendes? A voz vinha do alto, da janela situada por cima da loja. O velho tinha feito recuar as venezianas e estava novamente a espreitar para baixo, falando num murmúrio rouco. Não foi nessa noite que ele viu bem a cara do homem. Eles voltaram mais tarde, apenas alguns dias depois.

 

E como é que tu sabes isso? perguntei eu, esticando o pescoço.

 

Eles... eles vieram à minha loja.

 

E como é que tu os reconheceste? Tu assististe ao crime?

 

Eu não. Não, eu não. O velho olhou cautelosamente por cima do ombro. Mas nada acontece nesta rua, seja de dia ou de noite, que a minha mulher não saiba. Ela viu-os naquela noite, pois estava onde eu estou agora, a esta mesma janela. E reconheceu-os quando eles regressaram uns dias depois, à luz do dia, os mesmos três reconheceu o chefe porque ele coxeava, e um dos outros pelo seu tamanho era um enorme gigante loiro de cara vermelha. O terceiro tinha uma barba, julgo eu, mas não posso dizer mais do que isso. O chefe andava a fazer perguntas pelo bairro, tal como tu. Mas nós nada lhe dissemos, nada, nem uma palavra do que Polia afirmava, que tinha visto o esfaqueamento do princípio ao fim. Juro. Não gostei do aspecto deles. Pelo menos eu não lhes disse nada; mas parece-me, agora que falas nisso, que tive de sair da loja, apenas por um momento, enquanto a velha se via livre deles não achas que ela tenha aberto aquela enorme boca...

 

Atrás de mim, ouvi um estranho grito animal. Voltei-me e esquivei-me da faca de Eco, que voava por cima da minha cabeça. Os reflexos do velho foram espantosamente rápidos. A faca passou a sibilar pela janela aberta, batendo contra as venezianas fechadas. A lâmina cravou-se directamente na madeira, ficou presa durante um longo momento, e depois soltou-se e caiu à rua com um ruído característico. Voltei-me e olhei para Eco, espantado com o facto de um simples rapaz ter conseguido lançar a faca com tanta força. Ele escondia o rosto nas mãos e chorava.

 

Estas pessoas são loucas murmurou Tiro.

 

Eu agarrei nos pulsos de Eco e afastei-lhe as mãos do rosto. Ele abanou a cabeça de um lado para o outro, procurando esconder as lágrimas. Tentou libertar-se de mim. Eu segurei-o com mais força.

 

Os homens regressaram disse eu. Vieram à tua procura. Ter-te-ão visto a observar a cena, na noite do assassínio?

 

Ele abanou ferozmente a cabeça.

 

Não. Então foi a velha da loja que lhes disse. Foi ela que os levou até ti. Mas, de acordo com a bisbilhotice, foi a tua mãe que viu o crime. É verdade? Ela estava contigo à janela?

 

Uma vez mais, ele abanou a cabeça. Estava a chorar.

 

Então tu foste o único que assistiu. Tu e a velha do outro lado da rua. Mas a velha teve o bom senso de se manter fora disto e de os conduzir a outro sítio. Contaste à tua mãe todos os pormenores, não foi? Tal como nos contaste a nós? E ela começou a dizer que tinha sido ela a ver o crime. Foi assim?

 

Ele encolheu os ombros e fungou.

 

Desgraçada murmurei eu. Desgraçada. Então, nesse dia, eles vieram à procura dela, e não à tua procura. E encontraram-na no vosso apartamento. Tu também lá estavas?

 

Ele conseguiu abanar a cabeça.

 

E depois, o que aconteceu? Ameaças, subornos? perguntei eu, sabendo que tinha sido alguma coisa muito pior.

 

O rapaz deu um puxão e libertou-se de mim. Fungando, choramingando, começou a dar bofetadas a si próprio, de um lado e do outro do rosto. Tiro aproximou-se de mim, assistindo horrorizado. Finalmente, o rapaz parou. Bateu com os pés e olhou-me directamente nos olhos. Rangendo os dentes, contorcendo o rosto numa máscara de ódio, ergueu ambos os braços. As suas mãos moveram-se lentamente, rigidamente, como que contra a sua vontade. Fez um gesto obsceno, depois formou dois punhos com as mãos, como se tivessem ficado atrofiadas pelo fogo.

 

Tinham violado a mãe, Polia, que nada vira, que nada saberia sobre o crime se ele não lhe tivesse contado, cujo único crime tinha sido difundir coscuvilhices em segunda mão a uma velha que vivia do outro lado da rua. Tinham-na violado, e Eco tinha assistido.

 

Olhei para Tiro para ver se ele tinha compreendido. Ele cobriu a boca e desviou os olhos.

 

Subitamente, o rapaz empurrou-me para o lado e correu para a faca que estava no solo. Agarrou nela e correu na minha direcção, pegando-me na mão e cerrando os meus dedos à volta do punho. Antes de eu poder pagar-lhe, antes de eu poder fazer qualquer gesto de conforto ou de compreensão, correu para dentro do edifício, empurrando para o lado o vigilante magro, que vinha cá fora respirar um pouco.

 

Olhei para a faca que tinha na mão. Suspirei e fechei os olhos, subitamente tonto por causa do calor.

 

Para o vingarmos murmurei eu. Ele pensa que nós vamos fazer-lhe justiça, Tiro.

 

Sentámo-nos numa pequena taberna no auge do calor da tarde. Eu tencionara prosseguir, a fim de descobrirmos a prostituta Elena, a Casa dos Cisnes teria de ser a curta distância da cena do assassínio, mas faltou-me a coragem. Em vez disso, voltámos atrás, subindo a rua estreita até chegarmos à praça.

 

O espaço estava quase deserto. Os comerciantes tinham fechado as suas lojas. O calor era de tal maneira intenso, que até os vendedores, com as suas carrinhas, tinham desaparecido. Só se viam algumas crianças caprichosas e um cão, brincando nas poças de água à volta da cisterna pública. Elas tinham afastado a cobertura de ferro, e um dos rapazes estava empoleirado perigosamente perto da borda. Sem lançar sequer um olhar por cima do ombro, ele içou a túnica e começou a urinar para dentro do buraco.

 

Um mosaico com um cacho de uvas pretas embutido por cima da pedra angular de um pequeno edifício anunciava uma taberna próxima. Uma fila de azulejos púrpura e brancos dava a volta à esquina e acompanhava um curto lanço de escadas. A taberna era um pequeno e húmido compartimento, escuro, frio e deserto.

 

O calor tinha-me esgotado, incapacitando-me de falar. Depois de tanto andar, devia comer, mas não tinha apetite. Em vez disso, mandei vir água e vinho, e persuadi Tiro a acompanhar-me. Depois mandei vir mais e, por essa altura, Tiro não precisou de ser persuadido. Vendo que a língua se lhe soltara e que as suas reservas tinham sido derrubadas, senti-me tentado a interrogá-lo directamente acerca do seu encontro com a filha de Sexto Róscio. Se ao menos o tivesse feito! Mas, por uma vez, contive a curiosidade.

 

Tiro não estava habituado ao vinho. Durante um momento, esteve bastante animado, falando acerca dos acontecimentos da manhã e do dia anterior, interrompendo-se de vez em quando para dizer uma palavra de louvor ao seu judicioso senhor, enquanto eu o olhava divertido e meio-distraído. Depois, ficou abruptamente silencioso, olhando para o copo com uma expressão de melancolia. Deu um último golo, pousou o copo, encostou-se e adormeceu profundamente.

 

Passado algum tempo, fechei os olhos e, embora não tivesse adormecido profundamente, dormitei durante o que me pareceu ser um longo período, abrindo ocasionalmente os olhos para a imutável visão de Tiro, escarrapachado de boca meio aberta na cadeira à minha frente, dormindo o sono absoluto dos jovens e inocentes.

 

Os meios sonhos que sonhei, parcialmente submerso neles, parcialmente consciente de que estava a sonhar, eram deformados e inquietantes, e nada inocentes. Estava sentado em casa de Cecília Metela, entrevistando Sexto Róscio; ele balbuciava e murmurava e, embora parecesse falar latim, eu quase não conseguia perceber uma palavra do que ele dizia. Quando se levantou, vi que tinha vestida uma pesada capa e, quando se dirigiu a mim, fê-lo coxeando terrivelmente, arrastando atrás de si a perna esquerda. Afastei-me dele, horrorizado, e corri para o corredor. Os corredores bifurcavam-se e misturavam-se, como passagens de um labirinto. Eu estava perdido. Abri uma cortina e vi-o de costas. Para além dele, a jovem viúva estava encostada à parede, nua e a chorar, enquanto ele a penetrava com violência.

 

Mas, como costuma acontecer nos sonhos, aquilo que vi primeiramente transformou-se noutra coisa, e eu percebi com um sobressalto que a mulher não era a viúva; era a própria filha de Róscio e, quando ela viu que eu estava a observar, não se mostrou envergonhada. Pelo contrário, beijou o ar vazio e estalou a língua na minha direcção.

 

Abri os olhos e vi Tiro a dormir do outro lado da mesa. Uma parte de mim queria acordá-lo, mas sentia-se demasiadamente enfraquecida. Tinha os olhos excessivamente pesados e faltava-me a vontade para mantê-los abertos. Ou talvez isto fosse apenas outra parte do sonho.

 

Na despensa de casa de Cecília, o homem e a mulher continuavam a copular. Eu observava-os da porta, tímido como um rapaz. O homem da capa olhava por cima dos ombros. Sorri para mim próprio, pois agora esperava ver o rosto de Tiro, vermelho de excitação, inocente, envergonhado. Mas o que vi foi Sexto Róscio, de olhar lúbrico e trespassado por inominável paixão.

 

Cobri a boca e comecei a recuar, chocado. Alguém me puxou pela manga. Era o rapaz mudo, com os olhos vermelhos por ter estado a chorar, mordendo os lábios para evitar sorrir. Tentou entregar-me uma faca, mas eu recusei-me a pegar nela. Ele empurrou-me irritadamente para o lado, e depois atirou-se violentamente contra as figuras que copulavam.

 

O rapaz esfaqueou-os brutal e indiscriminadamente. Eles recusavam-se a parar, como se o esfaqueamento fosse uma perturbação menor, que não valesse o prazer que lhes custaria separarem-se, e empurraram o rapaz. Eu sabia, não sei como, que eles não podiam afastar-se, que a carne de ambos se tinha fundido e se tornara indistinta. No próprio momento em que se agitavam e contorciam, corria dos seus corpos fundidos um rio de sangue, que se espalhou pelo chão como uma carpete vermelha de grande qualidade, deslizando por baixo dos meus pés. Eu tentei avançar, mas estava petrificado, incapaz de me mover ou sequer de falar, rígido como um cadáver.

 

Abri os olhos, mas isso parece não ter alterado coisa alguma. Apenas conseguia ver uma inundação de vermelho. Percebi que não tinha aberto nada os olhos e que continuava a sonhar contra a minha vontade. Tentei abrir os olhos com os dedos, mas as pálpebras mantiveram-se coladas. Lutei, ofegante, incapaz de sair do sonho.

 

Depois, num instante, despertei. Tinha os olhos abertos. Tinha as mãos sobre a mesa, e estava a tremer. Tiro continuava sentado à minha frente, do outro lado da mesa, dormindo pacificamente.

 

Eu tinha a boca seca como alúmen. Parecia que tinha a cabeça cheia de lã. Tinha a cara e as mãos dormentes. Tentei chamar o taberneiro e descobri que mal conseguia falar. Não fazia mal; o próprio homem também estava a dormitar, sentado numa banqueta a um canto, com os braços cruzados e o queixo pousado no peito.

 

Levantei-me. As minhas pernas pareciam madeira seca. Cambaleei até à entrada, subi as escadas até à ruela, dobrei a esquina e entrei na praça. O espaço aberto tinha um brilho que cegava e estava completamente deserto; até os garotos o tinham abandonado. Caminhei até à cisterna, ajoelhei-me ao lado dela e mergulhei na escuridão. A água era demasiadamente funda para me devolver qualquer reflexo, mas senti a frescura subir-me até ao rosto. Puxei o balde, salpiquei a cara, e despejei-o por cima da cabeça.

 

Comecei a sentir-me remotamente humano, mas ainda fraco. Só queria estar a descansar em minha casa, por baixo do pórtico, olhando para a luz do Sol derramada sobre o jardim, com Basta roçar-se pelos meus pés e Betesda a trazer-me um pano fresco para me refrescar a testa.

 

Em vez disso, senti uma mão no ombro. Era Tiro.

 

Estás bem, senhor? Inspirei profundamente.

 

Sim.

 

É o calor. Este calor terrível e estranho. Parece um castigo. Embota o cérebro, como diz Cícero, e seca o espírito.

 

Ajuda-me aqui, Tiro.

 

Devias deitar-te. Ir dormir.

 

Não! O sono é o pior inimigo quando está um calor como este. Sonhos terríveis...

 

Então vamos regressar à taberna?

 

Não. Ou antes, sim; suponho que devo qualquer coisa ao homem pelo vinho.

 

Não, eu paguei-lhe com dinheiro da bolsa antes de sair. Ele estava a dormir, mas deixei o dinheiro em cima do balcão.

 

Eu abanei a cabeça.

 

E acordaste-o antes de sair, para que os ladrões não possam apanhar-lho?

 

Claro.

 

Tiro, tu és um modelo de virtudes. És uma rosa entre espinhos. És a amora doce entre os espinheiros.

 

Sou apenas um reflexo do meu senhor disse ele, parecendo orgulhoso e não humilde.

 

Durante algum tempo, o Sol, embora continuasse alto, esteve escondido por trás de um manto de nuvens brancas que se juntaram vindas não sei de onde. O pior do calor tinha passado, mas a cidade estava agora a devolver aquilo que absorvera ao longo do dia. As pedras do pavimento e os tijolos pareciam as paredes de um forno, irradiando calor. A não ser que outra tempestade viesse arrefecê-las, as pedras emitiriam calor durante toda a noite, cozendo a cidade e todos aqueles que nela viviam.

 

Tiro insistiu comigo para que regressássemos, para que contratasse uma liteira que me levasse a casa, ou pelo menos que regressasse a pé a casa de Cícero, no Capitolino. Mas era absurdo estar tão perto da Casa dos Cisnes sem ir fazer-lhe uma visita.

 

Voltámos a descer a estreita rua, passámos o pequeno beco sem saída onde os assassinos se tinham escondido, neste momento tapado pela porta aberta da loja de comida. Da reentrância obscura vinha o cheiro doce de fruta podre; não olhei para dentro. Contornámos a mancha de sangue e passámos pela porta que conduzia ao apartamento da janela. O vigilante magro estava a dormitar nas escadas. Abriu os olhos quando nós passámos e lançou-me um olhar espantado e descontente, como se a nossa entrevista se tivesse passado há tanto tempo, que ele se tivesse esquecido da nossa cara.

 

A Casa dos Cisnes era ainda mais perto do que eu pensara. A rua estreitava e curvava para a esquerda, impedindo-nos de ver para trás de nós. Abruptamente, à nossa direita, inconfundível na sua berrante tentativa de opulência, estava o local do nosso destino.

 

Que encantador ele deveria parecer ao homem de meios modestos que aqui chegava por informação oral, à noite, seguido as tochas e os simples emblemas de cisnes que se alinhavam nas ruas. Que deliciosamente aparatoso deveria parecer a um homem algo refinado como o velho Sexto Róscio, que convidativo para um homem com os seus apetites carnais da maturidade.

 

A fachada salientava-se, em nítido contraste com tudo aquilo que a rodeava. Os edifícios à volta eram estucados e estavam pintados em tons claros de açafrão, cor de ferrugem e creme sarapintado. A frente estucada da Casa dos Cisnes era de um cor-de-rosa berrante e garrido, enfeitado aqui e ali, por exemplo à volta dos frontões das janelas, com azulejos vermelhos. Um pórtico semicircular avançava pela rua. No topo da meia cúpula estava empoleirada uma estátua de Vénus, demasiadamente pequena para o espaço; a qualidade da escultura era verdadeiramente penosa, quase blasfema. Até Tiro riu à socapa quando a viu. Dentro do pórtico, via-se uma grande lamparina pendurada na meia cúpula; com boa vontade, poderíamos dizer que tinha a forma de um barco, embora eu suspeite de que a suave curvatura e a extremidade embotada visassem sugerir um acessório humano obscenamente fora de escala. Quantas noites se teria Sexto Róscio aproximado da sua luz como de um farol, subindo os três degraus de pedra até à grelha preta onde eu agora me encontrava com Tiro, batendo sem vergonha em plena luz do dia?

 

Atendeu à porta um escravo, um jovem alto e musculoso, que parecia mais um guarda-costas ou um gladiador do que um porteiro. O seu comportamento era desagradavelmente servil. Nunca deixou de sorrir, fazendo vénias e acenando enquanto nos conduzia a um canapé baixo na aparatosamente chamada antessala. Apenas tivemos de esperar alguns momentos antes de o proprietário se apresentar em pessoa.

 

O meu anfitrião tinha uma aparência rotunda em todos os seus aspectos, desde a barriga até ao nariz, e até à coroa de calvície que tinha no alto da cabeça. O pouco cabelo que lhe restava tinha sido industriosamente oleado e penteado, e o seu rosto estava grotescamente coberto de pó e de rouge. O seu gosto em jóias parecia tão excessivo como o seu gosto em mobiliário. No conjunto, ele tinha o aspecto de um Epicurista falido e as suas tentativas de recrear o ambiente de um bordel levantino bordeavam da paródia. Quando os Romanos tentam imitar o Oriente, raramente são bem sucedidos. Não é fácil copiar ou comprar por atacado a graça e o verdadeiro luxo.

 

Cidadão disse ele, chegas numa hora pouco habitual. A maioria dos nossos clientes chega mais perto do pôr do Sol. Mas tanto melhor para ti poderás escolher qualquer uma das raparigas, sem teres de esperar. Estão quase todas a dormir neste momento, mas não me importo de as acordar. É nessa altura que eu próprio as considero mais atraentes, recém-acordadas, ainda frescas e perfumadas de sono, como as rosas da manhã humedecidas de orvalho.

 

Na verdade, eu estava a pensar numa rapariga específica.

 

Sim?

 

Sim, foi-me recomendada. Uma rapariga chamada Elena.

 

O homem ficou a olhar para mim inexpressivamente e demorou algum tempo a responder. Quando voltou a falar, não detectei qualquer artifício, mas apenas o esquecimento sincero de um homem que comprou e vendeu tantos corpos ao longo dos anos, que não é de esperar que se lembre de todos eles.

 

Elena disse ele, como se se tratasse de uma palavra estrangeira de cujo conteúdo se não recordasse. E foi recentemente que ta recomendaram, senhor?

 

Sim. Mas já passou algum tempo desde que o meu amigo a visitou pela última vez. Ele saiu de Roma, está ocupado nas suas propriedades no campo. Os negócios impedem-no de visitar a cidade, mas ele escreveu-me, transmitindo-me recordações dedicadas desta Elena, dizendo-me que gostaria muito de encontrar uma mulher do campo cujas carícias o satisfizessem sequer uma parte do que o satisfaziam as de Elena.

 

Ah. O homem juntou as pontas dos dedos, franziu os lábios e pareceu contar os anéis que tinha nas duas mãos. Dei por mim a olhar fixamente para a pintura da parede oposta, na qual Príapo cortejava um grupo de cortesãs nuas, todas adequadamente temerosas do talo de tamanho excessivo que se erguia agressivamente por entre as pernas do deus.

 

Talvez possas descrever-me essa Elena. Pensei durante um momento e abanei a cabeça.

 

Infelizmente, o meu amigo não faz qualquer menção à sua aparência, o que é bastante estranho. Limitou-se a dar-me o seu nome e a garantir-me que não ficaria desiludido.

 

O rosto do meu anfitrião iluminou-se.

 

Ah, bem, asseguro-te de que te posso dar a mesma garantia relativamente a qualquer uma das minhas raparigas.

 

Então tens a certeza de que não tens nenhuma Elena?

 

A verdade é que esse nome não me é estranho. Sim, parece que me recordo vagamente da rapariga. Mas tenho a certeza de que há algum tempo que não há aqui nenhuma Elena.

 

Mas o que lhe terá acontecido? Certamente que as tuas raparigas são saudáveis.

 

Claro que são; nunca perdi nenhuma rapariga por doença. Foi vendida, tanto quanto me lembro a um cidadão privado, e não a uma casa rival acrescentou, como que para me impedir de procurar noutro sítio.

 

A um cidadão privado? O meu amigo ficará desiludido quando ouvir dizer isso. Pergunto a mim próprio se conhecerás o comprador talvez esteja a preparar-se alguma coisa sem eu saber. Não podes dizer-me quem foi o comprador?

 

Temo não ser capaz de me recordar de pormenores sem consultar o meu contabilista. E devo dizer-te que, por uma questão de princípio, nunca discuto a venda de escravos excepto com um potencial comprador.

 

Compreendo.

 

Ah, aqui tens, Estábio trouxe-te uma selecção. Quatro belas raparigas. O teu único problema será decidir qual preferes. Ou talvez queiras duas ao mesmo tempo. Ou talvez gostasses de tentar as quatro ao mesmo tempo, uma a seguir a outra. As minhas raparigas conseguem transformar homens vulgares em sátiros, e tu, senhor, não me pareces nada um homem vulgar.

 

Comparada com a dos bordéis de Antioquia e de Alexandria, a oferta inicial do meu anfitrião era desanimadoramente enfadonha. Eram todas morenas. Duas delas pareceram-me bastante vulgares, quase rústicas, embora, para um homem que apenas se interessasse pelo que está abaixo do pescoço, possuíssem fortes encantos. As outras duas eram bastante atraentes, embora nenhuma delas fosse tão bela como a viúva Polia, ou pelo menos tão bela como a jovem viúva devia ter sido antes de o seu rosto ter ficado marcado pelo sofrimento.

 

Todas elas vestiam trajos coloridos sem mangas, de um tecido tão fino e que se lhes colava de tal maneira ao corpo, que só os mais íntimos pormenores podiam permanecer escondidos. O meu anfitrião tocou no ombro da mais jovem e mais bela, e empurrou-a para diante.

 

Toma, senhor, ofereço-te o mais terno botão do meu jardim, a minha mais jovem e mais fresca flor: Tália. É bela e divertida como uma criança. Mas é já uma mulher, não tenhas dúvidas. Ele permaneceu atrás dela, erguendo-lhe suavemente o trajo a partir dos ombros. O vestido abriu-se a meio e, por um breve momento, ela foi-me exibida nua, com a cabeça inclinada e os olhos desviados. Por trás de mim, ouvi Tiro arfar.

 

O dono do bordel acariciou-lhe suavemente os seios e fez correr os seus dedos até ao abdómen. Eu vi arrepiar-se-lhe a pele aveludada por baixo do umbigo.

 

Ela cora, estás a ver e que cor isso lhe dá ao rosto. Tália também cora noutros pontos, que não seria delicado mencionar. Voltou a cobri-la. Mas, apesar da sua modéstia de rapariga, garanto-te que é uma descarada na cama.

 

Há quanto tempo está ela contigo?

 

Oh, não está há muito tempo, senhor. Há apenas um mês. Ainda é quase virgem, mas é espantosamente hábil em todos os orifícios. E especialmente talentosa com a boca...

 

Não estou interessado.

 

Não?

 

Vinha a pensar em Elena.

 

O meu anfitrião cerrou os dentes.

 

Mas, se ela não está cá, manda vir a tua mais experiente prostituta. Não me importa o aspecto. Estas raparigas são demasiadamente jovens para saberem o que estão a fazer; não me interesso por crianças. Traz-me a tua prostituta mais veterana. Mostra-me uma mulher madura, uma mulher de sangue quente, que não ignore todos os esquemas possíveis e imaginários do amor. E tem de falar razoavelmente latim. Conversar é para mim metade do prazer. Haverá uma tal mulher na Casa dos Cisnes?

 

O meu anfitrião bateu as palmas. O escravo chamado Estábio empurrou as raparigas para fora do compartimento. Tália, a jovem botão que o nosso anfitrião nos tinha exibido, que corara e olhara para longe com tanta convicção, cobriu a boca com a mão ao sair, bocejando.

 

Estábio!

 

O escravo regressou.

 

Estábio, vai buscar Electra.

 

A mulher chamada Electra demorou a chegar. Quando o meu anfitrião finalmente a anunciou, soube imediatamente que se tratava da mulher que eu queria.

 

O cabelo era a sua característica mais notável, formando uma grande massa de tranças pretas com um toque de branco em cada têmpora. Ela usava a sua maquilhagem com uma habilidade só possível depois de anos de prática; o meu anfitrião faria bem em aprender com ela. Embora tivesse traços demasiadamente marcantes para se poder dizer que eram delicados, embora a sua pele tivesse deixado de ser prístina, ainda assim, sob a luz suave do átrio, poder-se-ia dizer com absoluta convicção que ela era bela. Com a idade, conquistara a dignidade que lhe permitia usar um trajo menos transparente do que o das raparigas mais novas, um vestido branco solto, de mangas largas, apertado com uma faixa na cintura. As curvas das suas ancas e dos seus seios eram suficientemente sedutoras para que fosse necessário vê-las através de um tecido transparente.

 

Há pelo menos uma mulher como esta em todos os bordéis e, em cidades dedicadas às especializações do prazer, é possível encontrar casas inteiras cheias delas. Electra era a Grande Mãe. Não era a mãe de um homem adulto, era a mãe de que os homens se recordam da infância; não era velha, mas era sábia, tinha um corpo que não era esguio e infantil, nem velho para além da beleza, mas cheio, primevo, alimentício.

 

Olhei de relance para Tiro e percebi que ele tinha ficado bastante impressionado. Ela não era o tipo de mulher que ele pudesse encontrar com frequência ao serviço de um senhor como Cícero.

 

Chamei o meu anfitrião de lado e negociei. Naturalmente, ele queria demasiado. Eu voltei a mencionar a ausente Elena. Ele fez um trejeito e baixou o preço. Eu objectei. Ele voltou a baixar o preço. Eu aquiesci. Indiquei a Tiro que lhe pagasse. Ele estendeu as moedas com uma expressão chocada, não percebi se por ter pensado que o preço era extravagante (especialmente considerando que vinha da conta do seu senhor), se por ter percebido que eu tinha feito um óptimo negócio.

 

Electra voltou-se, dirigindo-se ao seu quarto. Eu segui-a e, com um gesto, indiquei a Tiro que viesse comigo.

 

Tiro pareceu espantado. O meu anfitrião também.

 

Cidadão, cidadão. Não fazia ideia que querias levar o rapaz contigo. Naturalmente, terás de pagar um pouco mais.

 

Que disparate. O escravo vai para onde eu for.

 

Senhor...

 

O rapaz é um escravo, mera propriedade. Também queres aumentar o preço pelo facto de eu levar as minhas sandálias? Estava convencido de que este era um estabelecimento agradável. Claro, estava convencido de que poderia encontrar aqui uma certa rapariga...

 

O meu anfitrião fez girar as moedas na mão. O seu tinido juntou-se aos estalidos dos anéis. Ele ergueu um sobrolho, estalou os lábios e afastou-se.

 

O quarto de Electra era muito diferente do vestíbulo e dos corredores. Suspeitei de que tivesse sido ela própria a decorá-lo; ele possuía a infalível simplicidade do bom gosto grego e transmitia a sensação de conforto de um quarto há muito habitado. Havia duas cadeiras. Indiquei a Tiro que se sentasse numa delas. Eu sentei-me na outra.

 

Ela sorriu e riu-se suavemente, talvez pensando que éramos tímidos, ou que estávamos a fingir.

 

Estás mais confortável aqui disse ela, passando com a mão pelo tecido gasto do canapé. A sua voz apenas tinha vestígios de uma pronúncia.

 

Tenho a certeza de que sim. Mas primeiro quero conversar. Ela encolheu os ombros com ar conhecedor.

 

Claro. Queres que eu me dispa?

 

Lancei um olhar a Tiro, que já estava a corar.

 

Sim disse eu. Tira o teu fato enquanto falamos. Fá-lo lentamente.

 

Electra pôs-se de pé. Pôs o cabelo para as costas e ergueu as mãos para abrir o fecho, atrás do pescoço. Por trás dela, numa mesinha ao lado do canapé, detectei uma pequena ampulheta. A parte de cima estava cheia; a areia corria livremente. Ela devia tê-la voltado quando nós entrámos, de forma tão discreta que eu não tinha reparado. Electra era uma verdadeira profissional.

 

Fala-me de Elena disse-lhe eu. Ela apenas hesitou um momento.

 

És amigo dela? Cliente?

 

Não.

 

Como é que a conheces?

 

Não conheço. Ela parecia divertida.

 

Então por que me falas dela? O fato deslizou com facilidade por sobre os seus ombros, formando pregas à volta da cintura, onde estava preso pela faixa. A sua carne era surpreendentemente lisa e firme. Contra a sua nudez pálida, reparei nas jóias que usava, braceletes de prata à volta dos pulsos e um fino colar que definia uma curva sumptuosa acima dos seus seios. Embora talvez não lhe pertencessem, era óbvio que tinha sido ela a escolher os ornamentos. Uma vez mais, o seu gosto eclipsava o do seu senhor.

 

Ela parecia empenhada em ignorar Tiro, o que permitia a este olhar para ela à vontade. Ele observava-a com uma espécie de intensidade indefesa, com os lábios franzidos e as sobrancelhas juntas como se estivesse em pânico.

 

Talvez pudesses simplesmente responder à pergunta. Afinal, já paguei para te ter. Se me desagradares, eu queixar-me-ei ao teu senhor, exigindo que me devolva o meu dinheiro. Talvez ele te bata.

 

Ela deu uma gargalhada.

 

Não me parece disse. E a ti também não. Pegou num pente e num pequeno espelho que estavam em cima da mesa e sentou-se na cama, olhando para o seu reflexo e penteando o cabelo. Era realmente extraordinária. O meu anfitrião devia ter-me exigido o dobro do seu preço inicial.

 

Tens razão. Só disse isso para excitar o rapaz.

 

Ela desviou o olhar do espelho, apenas o tempo suficiente para erguer o sobrolho na minha direcção.

 

Tens uma mente perversa. Parece-me que estamos a perder tempo, a conversar desta maneira.

 

Eu abanei a cabeça.

 

Fala-me de Elena. Quando é que ela se foi embora?

 

Algures no Outono. Antes do Inverno.

 

Talvez em Setembro?

 

Sim, penso que sim. Sim, foi logo a seguir ao Festival Romano. Lembro-me porque os feriados fazem com que haja sempre muito movimento. Deve ter sido no final de Setembro.

 

Que idade tem Elena?

 

É uma criança.

 

Tão jovem como Tália?

 

Eu disse que ela era uma criança, não disse que era um bebé.

 

E como é ela?

 

Muito bonita. Era uma das raparigas mais bonitas da casa. Sempre o disse. Era loura, com a pele clara, cor de mel. Julgo que os seus pais eram cítios. Tinha um corpo muito belo, muito sumptuoso para a sua idade, de seios grandes com mamilos largos e uma cintura fina. Era muito vaidosa relativamente à sua cintura!

 

Tinha algum cliente especial? Algum homem que parecesse cuidar dela de maneira especial?

 

Electra olhou para mim pouco à vontade.

 

É por isso que estás aqui?

 

Sim.

 

És amigo desse homem? Como se chama ele, Sexto?

 

Sim, é esse o nome dele. Não, não era amigo dele.

 

Falas como se ele tivesse morrido.

 

E morreu.

 

Ela pousou o pente e o espelho no colo.

 

E Elena? Estava com ele quando morreu? Sabes onde ela está agora?

 

Nada sei acerca dela, excepto aquilo que puderes dizer-me.

 

Era uma rapariga amorosa. Muito delicada. Electra pareceu-me subitamente muito triste e muito bela. Passado um momento, voltou a pegar no pente e no espelho. Não esteve cá em casa muito tempo. Um ano, julgo eu. O senhor comprou-a num leilão no templo de Castor, juntamente com mais meia dúzia de raparigas, todas da mesma idade e da mesma cor. Mas ela era especial, embora ele nunca tivesse percebido.

 

Mas Sexto percebeu.

 

O velho? Oh, sim. Depois da primeira vez, vinha pelo menos de cinco em cinco ou de seis em seis dias. Já para o fim, chegava a vir dia sim, dia não.

 

Para o fim?

 

Depois de ela ter engravidado. Antes de ter partido.

 

Engravidado? Quem era o pai? Electra riu-se.

 

Isto é um bordel, caso tenhas esquecido. Nem todos os clientes ficam satisfeitos apenas por ver uma mulher a pentear-se. Ela encolheu os olhos. Num sítio como este, uma rapariga nunca sabe bem que homem terá sido, embora algumas raparigas gostem de ter fantasias. Era a primeira vez que Elena engravidava. Eu expliquei-lhe como devia fazer para se livrar do bebé, mas ela não quis. Para bem ser, eu devia ter contado ao senhor.

 

Mas não contaste. Porquê?

 

Já te disse, a Elena era tão amorosa, tão delicada. Ela queria muito ter o filho. Pensei que, se conseguisse escondê-lo do senhor tempo suficiente, ele teria de lhe permitir que ela o tivesse, ainda que não a deixasse ficar com ele.

 

Mas Elena disse a outra pessoa. Algumas raparigas têm fantasias, dizes tu. Qual era a sua fantasia?

 

Os seus olhos brilharam de irritação.

 

Tu já sabes. Tenho a certeza pela maneira como perguntas.

 

Só sei aquilo que me disseres.

 

Muito bem. Ela disse ao velho, Sexto, que estava grávida. Disse-lhe que o bebé era dele. E o tolo acreditou nela. Naquela idade, por vezes, os homens desejam muito ter um filho. Ele perdera o seu filho, sabes? Falava constantemente com ela sobre o assunto. Talvez tenha sido por isso que ela percebeu que ele acreditaria nela. Quem sabe, talvez se tratasse de facto do filho dele.

 

E como é que isso seria útil a Elena?

 

Como é que achas? Qualquer rapariga de uma casa como esta sonha com o mesmo, pelo menos até aprender. Um homem rico apaixona-se por ela, compra-a ao seu senhor, leva-a para casa. Ou talvez a liberte e a estabeleça num apartamento próprio, onde poderá criar o seu filho como cidadão. Nas suas mais loucas fantasias, ele poderá mesmo reconhecer o bastardo, e fazer dele um herdeiro. Ouve-se falar de milagres assim. Elena ainda era suficientemente jovem para ter sonhos desses.

 

E como terminou o sonho dela?

 

Sexto prometeu-lhe comprá-la e libertá-la. Chegou mesmo a falar em casar com ela. Pelo menos foi isso que ela me disse. Não me parece que o tenha imaginado.

 

E depois?

 

Deixou, pura e simplesmente, de aparecer. Elena disfarçou durante algum tempo, mas a gravidez começava a ser óbvia, e os dias continuavam a passar. Eu embalava-a nos braços enquanto ela chorava, durante a noite. Os homens são muito cruéis.

 

Onde está ela agora?

 

O senhor vendeu-a.

 

A quem?

 

Não sei. Pensei que Sexto tivesse acabado por comprá-la. Mas tu dizes que ele morreu e que nada sabes de Elena.

 

Abanei a cabeça.

 

Vieram buscá-la no final de Setembro. Sem anúncios nem preparações. Estábio entrou por aí dentro, dizendo-lhe que juntasse as coisas dela. O senhor tinha-a vendido e ela tinha de partir imediatamente. Ela tremia como um gatinho. Estava a chorar de felicidade, e eu chorei com ela. Não se preocupou em levar nada do que era seu, pois dizia que Sexto lhe compraria coisas melhores. Eu desci o corredor atrás dela. Quando os vi, percebi que havia qualquer coisa que não estava bem. Penso que ela também percebeu, mas tentou disfarçar. Deu-me um beijo e ia a sorrir quando saiu de casa com eles.

 

Não era Sexto disse eu. Por essa altura, Sexto já estava morto.

 

Não, não era o velho. Eram dois homens. Não gostei do seu aspecto. Nem do grande e louro nem do que coxeava.

 

Devo ter feito um barulho ou um gesto sem perceber. Electra parou de escovar o cabelo e olhou para mim.

 

O que se passa? Conhece-lo o homem que coxeia?

 

Ainda não.

 

Ela pousou a escova e olhou para mim intensamente.

 

Que mistério é esse? Sabes onde está Elena ou não? Sabes quem a comprou?

 

Já te disse. Tudo o que sei acerca de Elena será o que tu me disseres.

 

Isso é mentira disse ela.

 

Tiro contorceu-se na cadeira. Julgo que nunca teria ouvido um escravo falar daquela maneira com um cidadão.

 

Sim acenei eu. É mentira. Eu sei uma coisa acerca de Elena; é por isso que estou aqui. Vou contar-te. Na noite em que Sexto Róscio foi morto perto daqui, Electra, quase ao cimo da rua, nessa noite, ele estava numa festa em casa de uma importante mulher da nobreza, Cecília Metela: já ouvista falar dela? Elena alguma vez mencionou esse nome?

 

Não.

 

Já tinha anoitecido, quando chegou um mensageiro. Trazia uma mensagem escrita para Sexto. Era de Elena, pedindo-lhe que viesse imediatamente à Casa dos Cisnes.

 

Impossível.

 

Porquê?

 

Elena não sabia escrever.

 

Mas talvez houvesse quem soubesse.

 

Estábio sabe, um pouco. E os escriturários também, mas nós nunca os vemos. Não importa. Enviar uma mensagem a um homem rico, mandando-o chamar como a um cão a casa de uma importante matrona Elena era uma sonhadora, mas não era louca. Ela nunca teria feito tal coisa e, se o fizesse, pedir-me-ia conselho.

 

Tens a certeza?

 

Absoluta.

 

Acenei com a cabeça. Olhei para a ampulheta. Ainda restava uma quantidade considerável de areia.

 

Penso que já falámos o suficiente disse eu.

 

Foi a vez de Electra verificar a ampulheta. Fechou os olhos por um momento. A agitação e a ansiedade desvaneceram-se lentamente do seu rosto. Ela levantou-se e abriu a faixa que tinha à cintura.

 

Só uma coisa disse ela suavemente. Se souberes notícias de Elena e do bebé, dizes-me? Mesmo que sejam más notícias. Não precisas de voltar a falar comigo, se não quiseres. Podes simplesmente pedir a um escravo que venha comunicá-las a Estábio. Ele transmitir-me-á a mensagem.

 

Se descobrir alguma coisa, comunicar-te-ei.

 

Ela acenou com a cabeça em sinal de gratidão, e deixou cair o trajo das ancas.

 

Contemplei-a durante muito tempo. Ela estava imóvel, com a cabeça inclinada, um pé ligeiramente à frente do outro e as mãos dos lados, permitindo-me estudar as linhas do seu corpo, inspirar o atraente odor da sua carne.

 

És uma mulher muito bonita, Electra.

 

Alguns homens acham que sim.

 

Mas eu não vim aqui por precisar de uma mulher. Vim à procura de Elena.

 

Compreendo.

 

E, embora tenha pago ao teu senhor, não era o teu corpo que eu queria.

 

Eu sei. Ela ergueu os olhos para mim. Mas ainda temos muito tempo.

 

Não. Para mim, não. Pelo menos hoje. Mas há um presente que podes fazer-me. Um favor.

 

Sim.

 

O rapaz. Fiz um gesto na direcção de Tiro, que olhou para mim com um olhar onde se lia um misto de luxúria e estupefacção. O seu rosto estava completamente vermelho.

 

Claro disse Electra. Tu queres assistir?

 

Não.

 

Queres-nos aos dois? Ela inclinou a cabeça e lançou-me um sorriso de esguelha. Suponho que posso partilhar-te.

 

Não estás a compreender. Eu espero no vestíbulo. É estritamente para dar prazer ao rapaz, e não a mim. E talvez também para te dar prazer a ti.

 

Ela ergueu um sobrolho céptico. Mas que tipo de homem era este, que pagava bom dinheiro para o seu escravo ser servido por uma prostituta?

 

Voltei-me para me ir embora. Tiro começou a levantar-se.

 

Mas, senhor...

 

Deixa-te estar, Tiro. É um presente. Aceita-o graciosamente. Saí e fechei a porta atrás de mim. Deixei-me estar no vestíbulo

 

durante um longo momento, a ver se Tiro me seguia. Ele não o fez. Na entrada, o negócio começara a desenvolver-se. O proprietário acolhia novos visitantes; Estábio e outro escravo exibiam a mercadoria. Todos os assentos estavam ocupados e alguns dos clientes tinham de permanecer de pé. Eu mantive-me de pé no meio deles, numa posição discreta. Pouco depois, Tiro apareceu, descendo rapidamente o corredor, e ajustando a túnica nos ombros. Tinha o rosto húmido de suor e o cabelo desgrenhado. Nem sequer se tinha preocupado em endireitar a roupa antes de fugir do quarto.

 

Já acabaste? disse eu.

 

Esperava que ele sorrisse, mas ele mal olhou para mim antes de mergulhar na pequena multidão e de se dirigir para a porta sem se deixar deter. Eu segui atrás dele, olhando por cima do ombro para a última selecção de raparigas. A jovem Tália era uma delas. O seu senhor abria-lhe o vestido a partir dos ombros e acariciava-lhe suavemente os seios. ”Estás a ver como ela cora?” ouvi-o dizer. ”E que cor isso lhe dá ao rosto. Também cora noutros pontos, que não seria delicado mencionar...”

 

Na rua, Tiro caminhava tão depressa, que eu tive de correr para o apanhar.

 

Não devia ter feito aquilo disse ele, sacudindo a cabeça e olhando fixamente em frente.

 

Eu coloquei a mão sobre o seu ombro. Embora ele a tivesse sacudido, obedeceu como obedece um cavalo, abrandando o ritmo.

 

Não achaste que ela era desejável, Tiro?

 

Claro que achei. Ela é... Ele procurava uma palavra e, não encontrando nenhuma que fosse adequada, encolheu os ombros desesperadamente.

 

Não gostaste?

 

Claro que gostei.

 

Então podias pelo menos agradecer-me.

 

Mas não devia ter feito aquilo. Ele mostrava-se carrancudo. Foi Cícero quem pagou, não foste tu. Vais cobrar-lhe essa despesa. O que achas que ele diria, se soubesse? Usar o seu dinheiro para comprar uma mulher para mim...

 

Então não lhe digas. Seja como for, eu já tinha pago a prostituta; tens de admitir que foi uma despesa legítima. Era absolutamente razoável que um de nós a usasse.

 

Sim, vistas as coisas desse modo. Apesar disso... Ele olhou-me de frente, apenas por um instante, mas que bastou para eu ver o que se passava dentro dele. A culpa que sentia não era por ter abusado da confiança de Cícero, mas por ter atraiçoado outra.

 

Foi então que percebi até que ponto Tiro se deixara impressionar pela filha de Sexto Róscio.

 

Voltámos a passar pelo edifício onde morava a viúva Polia, pela mancha de sangue, pelo velho comerciante e pela sua mulher. Tiro estava com disposição para andar depressa; eu adaptei-me a ela e ainda aumentei o ritmo. Estava farto de estranhos e das suas tragédias. Ansiava por regressar a casa.

 

Chegámos à praça. As lojas tinham reaberto; os vendedores de rua tinham regressado. O Sol continuava suficientemente alto para passar por cima dos edifícios e chegar ao relógio de sol público. Restava uma hora de luz.

 

As crianças brincavam à volta da cisterna; as donas de casa e os escravos esperavam a sua vez para tirar água para a refeição da noite. A praça estava cheia de barulho e de movimento. Só gradualmente percebi que metade das pessoas, ou mais, estava voltada na mesma direcção. Alguns deles apontavam.

 

Roma é uma cidade de fogos e de fumo. As pessoas sustentam-se a pão, o pão é cozido em fornos, e os fornos lançam colunas de fumo. Mas o fumo de um edifício em chamas tem um aspecto completamente diferente. O fumo eleva-se, espesso e escuro; num dia sem nuvens nem vento, vai-se elevando até ao céu, formando uma grande coluna. Correntes de cinza rolam e agitam-se no céu, sendo novamente sugadas para dentro, para o coração do fogo, e lançadas ainda mais alto.

 

O incêndio era exactamente no nosso caminho, algures entre nós e o Capitolino. Ao vê-lo, Tiro pareceu subitamente aliviado de todas as suas angústias. O seu rosto assumiu um brilho de excitação mais suave e mais saudável, enquanto ele acelerava o passo. O instinto dos homens diz-lhes que fujam do fogo, mas a vida urbana oblitera as urgências animais; na realidade, enquanto nos aproximávamos do incêndio, não passámos por uma única pessoa que se dirigisse na direcção oposta, antes fomos sendo arrastados para uma congestão sempre crescente de peões e de carroças, pois as pessoas das redondezas acorriam para ver a catástrofe no seu auge.

 

O incêndio era perto do sopé do Capitolino, junto ao Muro de Serviano, no exterior, num bloco de apartamentos chiques a sul do Circo Flamínio. Um edifício de quatro andares estava quase completamente tomado. As chamas saíam pelas janelas e dançavam no telhado. Se tivesse havido algum drama como aqueles que a multidão tanto adora, já tinha acontecido; não havia vítimas desamparadas a gritar nas janelas superiores, nem bebés a serem lançados à rua. Os habitantes já tinham escapado, ou então estavam mortos lá dentro.

 

Aqui e ali, por entre a multidão, vi mulheres a arrepelar os cabelos, homens a chorar, famílias amontoadas. Aqueles que estavam de luto e os que tinham sido destituídos das suas coisas eram engolidos pela massa geral da multidão, que observava as chamas com expressões variadas de temor e deleite.

 

Parece que começou a meio da tarde dizia um homem ali perto e demorou todo este tempo a engolir o edifício por completo. O seu amigo acenou gravemente com a cabeça. Apesar disso, ouvi dizer que várias famílias ficaram presas no andar de cima, e foram queimadas vivas. Ouviam-se gritos. Dizem que, ainda não há uma hora, um homem em chamas se atirou de uma janela, aterrando no meio da multidão. Se formos até ali, talvez consigamos ver o sítio onde ele aterrou...

 

No corredor aberto entre a multidão e as chamas, um homem de barba cinzenta corria febrilmente de um lado para o outro, contratando pessoas para que o ajudassem a conter a conflagração. Aquilo que ele oferecia pouco mais era que os honorários de um voluntário, e não eram muitos os que aceitavam. O fogo não parecia apresentar grande perigo de se espalhar para norte, para o topo da colina; não havia vento, que transportasse as chamas, e o espaço aberto entre os edifícios constituía uma protecção adequada. Mas, para sul, na direcção do Circo, havia outro edifício mais pequeno junto do edifício em chamas, apenas à distância da extensão de um homem alto. A parede que dava para o edifício em chamas já estava a ficar chamuscada e, quando o edifício em chamas começou a desmoronar-se, caíram para o espaço entre ambos pilhas de cinza e de detritos, aterrando algum do material flamejante no telhado da estrutura de dimensão inferior, de onde um grupo de escravos se apressou a varrê-lo.

 

Um nobre, finamente vestido e seguido por uma grande comitiva de escravos, secretários e gladiadores, salientou-se da multidão e dirigiu-se ao aflito homem de barba cinzenta.

 

Cidadão proclamou, és o proprietário destes edifícios?

 

Não sou proprietário do edifício que está a arder respondeu o homem. Esse é o estúpido do meu vizinho Vário, que é tão louco que permite aos seus inquilinos acenderem fogueiras no dia mais quente do ano. Como vês, não está aqui, a combater o incêndio. Provavelmente está de férias em Baias. Este é que é meu, o que ainda está de pé.

 

Mas talvez não fique assim por muito tempo. O nobre falava com uma voz modulada, que não estaria deslocada no Fórum. Ainda não lhe tinha visto o rosto, mas sabia quem devia ser.

 

Crasso murmurei eu.

 

Sim disse Tiro, Crasso. O meu senhor conhece-o. Havia um vestígio de orgulho na sua voz, o orgulho daqueles que apreciam contactos com celebridades, qualquer que seja a sua natureza. Conheces a canção: Crasso, Crasso, rico como Creso. Dizem que é o homem mais rico de Roma, sem contar com Sula, claro, o que faz com que seja mais rico do que muitos reis, e que continua a enriquecer. Pelo menos é o que Cícero diz.

 

E que mais diz o teu senhor acerca de Crasso? O objecto da nossa conversa tinha posto um braço à volta dos ombros do homem de barba cinzenta. Juntos, caminharam até um ponto onde podiam apreciar melhor a distância entre os dois edifícios. Eu segui-os, e olhei por cima deles para aquela fenda sem saída, onde era impossível circular por causa da chuva constante de cinzas e de tijolos em chamas. Diz que Crasso tem muitas virtudes e um único vício devastador, a sua avareza. Mas Cícero diz que a sua ganância mais não é do que o sintoma de um vício mais profundo: a inveja. A riqueza é a única coisa que Crasso possui. Ele continua a acumulá-la porque tem inveja das qualidades dos outros homens, como se a sua inveja fosse um poço profundo e, se ele conseguisse enchê-lo de ouro e de gado e de edifícios e de escravos, então pudesse finalmente ficar ao nível dos seus rivais.

 

Devemos então ter piedade de Marco Crasso? O teu senhor é muito compassivo.

 

Ultrapassámos a massa de multidão e aproximámo-nos o suficiente para ouvir Crasso e o dono do edifício a gritar por cima do ribombar das chamas. O incêndio era como um bafo quente contra o meu rosto, e eu tinha de piscar os olhos para evitar as cinzas que voavam pelo ar.

 

Estávamos no coração de uma crise. Parecia um lugar estranho para fazer negócios, a não ser que considerássemos as vantagens que Crasso podia retirar dessa circunstância. O pobre homem da barba cinzenta não parecia em estar em situação de negociar. Acima do ribombar das chamas, eu ouvia a voz de Crasso, uma voz treinada na oratória, semelhante ao repicar de sinos.

 

Dez mil denários gritava ele. Não consegui ouvir a resposta do proprietário, mas a sua voz e os seus gestos indicavam escândalo. Muito bem. Crasso encolheu os ombros. Parecia disposto a oferecer um preço mais elevado quando um lençol de chamas se desenvolveu abruptamente junto da base do edifício em perigo. Um grupo de trabalhadores correu imediatamente para esse ponto, batendo nas chamas com mantas grossas e passando entre si uma corrente de baldes. Aparentemente, os seus esforços apagaram as chamas; depois, o fogo reacendeu-se noutro ponto.

 

Oito mil e quinhentos disse Crasso. É a minha última oferta. É melhor do que o valor da terra sem nada, que será provavelmente aquilo que ficará. Considera a despesa que terás para tirar o cascalho. Olhou fixamente para a conflagração e abanou a cabeça. Oito mil denários e nem mais um. Aceita já, se estás interessado. Quando as chamas aumentarem, não te vou oferecer nem um asse.

 

O homem da barba cinzenta tinha uma expressão de agonia. Uns quantos milhares de denários dificilmente seriam uma compensação adequada. Mas, se o edifício desaparecesse, então seria totalmente inútil.

 

Crasso chamou o seu secretário.

 

Reúne a minha comitiva. Diz-lhes que estejam prontos para avançar. Vim aqui comprar, e não ver um edifício ser comido pelas chamas.

 

O homem da barba cinzenta quebrou. Agarrou-se à manga de Crasso e fez um gesto de assentimento. Crasso fez um sinal ao seu secretário, que lhe apresentou imediatamente uma larga bolsa e pagou ao homem sem demora.

 

Crasso ergueu a mão e fez estalar os dedos. Imediatamente toda a sua comitiva entrou em acção. Os gladiadores e os escravos correram para o edifício como formigas, tirando os baldes das mãos dos esgotados voluntários, agarrando em pedras da calçada e lançando rochas, lixo, e tudo o que não pudesse arder para o espaço entre os dois edifícios.

 

Crasso voltou-se e encaminhou-se em direcção a nós. Eu já o vira muitas vezes no Fórum, mas nunca tão de perto. Era um homem de má catadura, ligeiramente mais velho do que eu, com pouco cabelo, um grande nariz e uma queixada proeminente.

 

Cidadão! chamou-me ele. Junta-te à batalha. Pagar-te-ei dez vezes o salário diário de um trabalhador, metade agora e metade depois, e o mesmo ao teu escravo.

 

Eu senti-me demasiadamente espantado para conseguir responder. Crasso continuou a andar, imperturbável, fazendo a mesma oferta a todos os homens capazes que avistava por entre a multidão. O secretário seguia atrás dele, distribuindo os pagamentos.

 

Devem ter visto o fumo e vindo directamente do Fórum, atravessando o monte, disse Tiro.

 

Uma possibilidade de comprar um edifício na base do Capitolino por quase nada por que não? Ouvi dizer que ele mantém escravos no topo das colinas para detectarem incêndios como este, a fim de que ele possa ser o primeiro a chegar aos sítios e comprar despojos.

 

Não é a pior história que se conta sobre Crasso. O rosto de Tiro ficou lívido, quer por causa do meu súbito escrutínio, quer em consequência do calor das chamas.

 

O que queres dizer?

 

Bem, que ele fez fortuna aproveitando-se das proscrições. Quando Sula mandava decapitar os seus inimigos, os bens destes eram confiscados pelo Estado. Propriedades inteiras foram vendidas em leilão. Os amigos de Sula conseguiram comprá-las a preços escandalosos. Todos os outros tinham receio de licitar.

 

Toda a gente sabe isso, Tiro.

 

Mas Crasso acabou por ir longe de mais. Mesmo para Sula.

 

Como?

 

Tiro baixou a voz, embora não fosse possível ouvirem-nos no meio do estrondo das chamas e do súbito ruído provocado pelos assalariados de Crasso.

 

Certo dia, ouvi Rufo contar ao meu senhor. Rufo é parente de Sula por afinidade, como sabes, através da sua irmã Valéria; ouve todo o tipo de coisas que, de outro modo, nunca sairiam de casa de Sula.

 

Sim, continua.

 

Conta-se que Crasso fez acrescentar o nome de um homem inocente à lista das proscrições, para poder deitar as mãos às suas propriedades. Tratava-se de um velho patrício, que não tinha ninguém que protegesse os seus interesses; os seus filhos tinham sido mortos nas guerras combatendo do lado de Sula! O pobre homem foi cercado por bandidos, que lhe cortaram a cabeça nesse mesmo dia. As suas propriedades foram leiloadas alguns dias depois, e Crasso fez com que mais ninguém fosse autorizado a licitar. As proscrições aplicavam-se exclusivamente aos inimigos políticos, e eram já suficientemente terríveis, mas Crasso utilizou-as para satisfazer a sua ganância. Sula ficou furioso, ou fingiu ficar, e desde essa altura que não lhe permite candidatar-se a um cargo público, com receio do escândalo que daí pudesse resultar.

 

Procurei Crasso por entre a multidão. Ele encontrava-se no meio de um remoinho de escravos e gladiadores, indiferente à confusão, olhando de olhos muito abertos e sorrindo com orgulho paternal para a sua mais recente aquisição. Desviei o olhar para seguir a direcção do seu. Enquanto ambos o observávamos, o muro do edifício em chamas cedeu e desmoronou-se com um enorme estrondo e uma chuva de fagulhas. O incêndio estava controlado. O edifício mais pequeno não se perderia.

 

Voltei a olhar para Crasso. O seu rosto transbordava de uma alegria quase religiosa o êxtase de um negócio bem conseguido. Ao brilho avermelhado daquela grande fogueira, o seu rosto parecia suave e mais jovem do que realmente era, transbordante de vitória, adornado com uns olhos que cintilavam de insaciável ganância. Olhei para o rosto de Marco Licínio Crasso e vi nele o futuro de Roma.

 

Cícero ainda estava recolhido quando eu regressei com Tiro à casa do Capitolino. O velho criado informou-nos solenemente de que o seu senhor se tinha levantado antes do meio-dia, tendo conseguido dirigir-se até ao Fórum, a fim de levar a cabo algumas diligências, mas que regressara passado muito pouco tempo, enfraquecido pela intranquilidade nos seus intestinos e exausto por causa do calor. Cícero retirara-se para a cama mandando dizer que não queria ser incomodado, nem sequer por Tiro. Ainda bem. Eu não estava com disposição para lhe narrar os acontecimentos do dia e exibir os seus intervenientes diante do olhar cáustico de Cícero.

 

Tiro assumiu o comando, oferecendo-me de comer e de beber, e mesmo uma cama onde dormir, se eu me sentisse demasiadamente cansado para ir para casa. Recusei. Perguntou-me a que horas devia esperar por mim no dia seguinte. Eu disse-lhe que ele não veria senão no dia a seguir a esse, ou mesmo depois.

 

A descida do monte e a passagem pelo Fórum refrescou-me a mente. Aproximava-se a hora do jantar, e uma brisa nocturna trazia consigo odores culinários provenientes de todos os cantos. No Fórum, chegava ao fim mais um longo dia de negócios. O Sol que estava a pôr-se lançava longas sombras sobre as praças abertas. Aqui e ali, os negócios prosseguiam de maneira informal. Os banqueiros reuniam-se em pequenos grupos na base dos degraus do templo, a fim de trocarem a última coscuvilhice do dia; os amigos que passavam trocavam convites de última hora para jantar; alguns pedintes desgarrados sentavam-se em cantos escondidos, contando os rendimentos do dia.

 

Talvez seja esta a hora em que Roma é mais agradável. Terminou o louco movimento do dia, mas ainda se estende diante de nós o langor de uma noite suave. O lusco-fusco em Roma é uma meditação sobre as vitórias obtidas e os prazeres futuros. Pouco importa que as vitórias sejam triviais e passageiras, ou que os prazeres possam vir a ser insatisfatórios. A esta hora, Roma está em paz consigo própria. Os monumentos aos deuses e aos heróis do passado estão furados pela corrosão e desgastados pela negligência? A esta luz, eles parecem recentemente talhados, as suas extremidades desagregadas parecem lisas e as suas fissuras são apagadas pela suave luz do anoitecer. O seu futuro é incerto, imprevisível, é um salto febril na escuridão? A esta hora, a escuridão agiganta-se mas ainda não desceu sobre a cidade, e Roma pode perfeitamente imaginar que ela apenas lhe trará sonhos doces, dispensando os seus pesadelos aos seus súbditos.

 

Saí do Fórum, procurando ruas mais vulgares. Dei por mim a desejar que o Sol se mantivesse fixo no horizonte, como uma bola repousa sobre o peitoril de uma janela, de maneira que o lusco-fusco pudesse permanecer indefinidamente. Que cidade misteriosa se tornaria então Roma, perpetuamente banhada numa sombra azul, com as suas vielas tomadas pelas ervas daninhas, frescas e odoríferas como margens musgosas de rios, as suas grandes avenidas marcadas por sombras profundas, e cujos afluentes mais estreitos conduzem àqueles lugares onde as massas de Roma estão constantemente a produzir-se e a reproduzir-se.

 

Cheguei à longa, coleante e monótona passagem pela qual conduzira Tiro no dia anterior, a Estreita. Aqui, a sensação de paz e de serena expectativa suspendeu-se e abandonou-me. Atravessar a Estreita quando o Sol ainda está a subir no céu é uma coisa; passar por ela quando a luz está a decair é outra. Mal dera alguns passos, dei por mim mergulhado numa noite prematura, com paredes escuras de ambos os lados, uma incerta palidez adiante e atrás, e uma estreita fita de céu de lusco-fusco acima de mim.

 

Num local como este, é fácil imaginar, não apenas todo o tipo de sons e de formas, mas todo um catálogo de outros fenómenos, detectados por um sentido sem nome, mais ratificado do que o ouvido ou a vista. Se eu pensava ouvir passos atrás de mim, não era a primeira vez que isso acontecia na Estreita. Se parecia que esses passos paravam sempre que eu parava para os ouvir, e que regressavam quando eu decidia recomeçar a andar, não era o primeiro contacto que eu tinha com esta experiência. Mas, nessa noite, comecei a ter um sentimento pouco habitual de temor, quase de pânico. Dei por mim a andar cada vez mais depressa e a olhar por cima do ombro para me assegurar de que o nada que eu vira momentos antes era o mesmo nada que me seguia persistentemente. Quando finalmente saí da Estreita e entrei numa rua mais larga, os últimos vestígios de lusco-fusco pareceram-me tão claros e convidativos como o sol do meio-dia.

 

Tinha um último negociozinho a fazer antes de me dirigir à Esquilina. Existem na Via de Subura, não muito longe do caminho que conduz a minha casa, uns estábulos onde os agricultores que estão de visita à cidade têm à sua disposição estrebarias e palha para os seus cavalos e os cavaleiros podem substituir os seus corcéis. O proprietário é um velho conhecido meu. Disse-lhe que precisaria de uma montada para o dia seguinte, para fazer uma viagem muito rápida, de ida e volta, ao Norte, a Améria.

 

Améria? ele estava inclinado sobre um banco, olhando de esguelha para o seu registo das contas do dia por baixo de uma lamparina recentemente acesa. São umas boas oito horas de caminho, pelo menos.

 

O menos é o máximo que eu consigo suportar. Depois de lá chegar, vou precisar de resolver o meu problema durante o resto do dia e de regressar a Roma no dia seguinte de manhã. A não ser que tenha de fugir rapidamente antes disso.

 

O dono dos estábulos olhou para mim com o sobrolho franzido. Nunca soubera exactamente como eu ganhava a vida, embora devesse suspeitar de que a actividade a que me dedicava continha qualquer elemento criminoso, dada a estranheza das minhas idas e vindas. Apesar disso, sempre me prestara óptimos serviços.

 

Presumo que vás sozinho, como um louco varrido?

 

Sim.

 

Escarrou ruidosamente uma massa de muco e lançou-o para o chão coberto de palha.

 

Vais precisar de um cavalo veloz e forte.

 

O mais veloz e mais forte que tiveres concordei eu. Vespa.

 

E se Vespa não estiver disponível?

 

Estou a ver daqui a sua cauda, pendurada por cima do portão da estrebaria.

 

Pois estás. Calculo que um destes dias virás contar-me a história do seu triste fim, e dizer-me que fizeste o possível por evitar que ela se ferisse. ”Fugir rapidamente” dizes tu. De quê? Naturalmente que não me vais contar. Ela é a minha melhor égua. Não gostaria de a alugar a um homem que vai conduzi-la com excesso de violência e, além disso, colocá-la em perigo.

 

O mais provável é que, um destes dias, eu parta montado em Vespa e ela regresse a ti incólume e sem cavaleiro, embora não me pareça que tu venhas a verter uma lágrima por causa disso. Estarei aqui antes do amanhecer. Espero que ela esteja preparada para eu a levar.

 

Pela taxa habitual?

 

Não disse eu, e vi-lhe cair o queixo. A habitual mais uma gratificação especial. À combinação do lusco-fusco azul e da suave luz da lamparina, avistei as linhas de um sorriso de má vontade no seu rosto feio. Eu cobraria o extra a Cícero.

 

O dia mantém-se durante mais tempo no topo das sete colinas de Roma. O Sol partira para sempre, mas a encosta do Esquilino continuava mais brilhante do que a estreita e profundamente sombria artéria localizada a seus pés. Enquanto me apressava a subir o irregular caminho até minha casa, entrei numa latitude de lusco-fusco azul-claro que ainda se alongava. Por sobre o topo da colina, as estrelas brilhavam já fracamente num céu de um azul profundo.

 

O meu nariz foi o primeiro a contar-me a notícia. O cheiro a excrementos que tinham cozido ao sol durante muito tempo erguia-se das pedras secas da calçada. Algures durante o dia, a minha vizinha vinda do campo lançara um presente por cima do muro para o caminho que conduzia a minha casa, e o meu outro vizinho ainda não viera buscá-lo. Movido por um hábito antigo, sustive a respiração, ergui a toga e desviei-me um pouco para a esquerda enquanto me aproximava da massa escura enroscada como um sapo no caminho. Por acaso, olhei para baixo, recordando-me com um sorriso do aviso que fizera a Tiro para que não sujasse os sapatos.

 

Parei durante algum tempo. Apesar da luz do dia e das sombras que a suavizavam, as marcas embutidas nos excrementos eram de uma clareza quase preternatural. Pelo menos dois homens tinham-me visitado durante a minha ausência. Ambos tinham conseguido pisar os excrementos à saída.

 

Sem qualquer motivo racional, apressei o passo. O bater do meu coração começou subitamente a ressoar-me aos ouvidos. Por cima dele, imaginei ouvir uma mulher chamar-me pelo nome de um ponto abaixo, na base da colina.

 

A porta de minha casa estava aberta para trás. Na armadura exterior, alguém deixara a marca de uma mão, escura e brilhante. Não tive de tocar nela para perceber; mesmo a este lusco-fusco sem cor, era óbvio que a marca tinha sido feita com sangue.

 

Dentro de casa, tudo estava em silêncio. Não havia lamparinas nem luzes de velas; a única iluminação provinha do lusco-fusco que se alongava no jardim central, formando um grande losango de azul espectral que penetrava por entre as colunas e entrava pelas salas abertas. O chão estendia-se à minha frente, obscuro e incerto, como a superfície de uma piscina, mas percebi claramente que estava manchado de sangue de grandes gotas de sangue, algumas inteiras, outras esborratadas como se tivessem sido pisadas. As gotas formavam um trilho que terminava contra a parede do quarto de Betesda.

 

No centro da parede, havia uma enorme explosão de sangue, preto como breu contra a argamassa branca, com pequenos filamentos espalhados em direcção ao tecto e um largo trilho manchado no chão. Ao lado, estava uma mensagem, escrevinhada em sangue. As letras eram pequenas, irregulares e grosseiras. Na escuridão, não consegui lê-las.

 

Betesda? murmurei. A palavra soou-me estúpida e inútil. Disse-a em voz mais alta, e depois ainda mais alta, assustado pela estridência da minha voz. Não obtive resposta.

 

Fiquei muito quieto. O silêncio era absoluto. A escuridão parecia concentrar-se nos cantos e espalhar-se a partir deles, enchendo o compartimento. O jardim estava a ficar cinzento, sob a luz das estrelas e da Lua. O lusco-fusco terminara. Começara a noite.

 

Afastei-me da parede, tentando pensar onde poderia encontrar uma lamparina e uma mecha. Sempre fora Betesda a preparar as mechas. Ao pensar nela, abriu-se dentro de mim um enorme poço de sofrimento. Nesse momento, tropecei em qualquer coisa caída no chão.

 

Era uma coisa pequena, macia e imóvel. Recuei e escorreguei no sangue. A forma que se encontrava a meus pés estava quase perdida na escuridão, e de tal maneira mutilada que estava irreconhecível, mas eu percebi imediatamente o que era, ou fora.

 

Senti uma luz tremeluzir à porta. Olhei para trás, amaldiçoando-me por não ter comigo nenhuma arma. Depois recordei-me da faca que o rapaz mudo me tinha dado, e que ainda tinha escondida nas dobras da minha túnica. Procurei-a cegamente, até que senti o seu punho contra a palma da minha mão. Retirei a faca e caminhei rápida e firmemente em direcção à entrada, indo ao encontro da lamparina que emergia da escuridão, deslizando para trás dela e imobilizando a sua portadora com uma mão à volta do seu pescoço.

 

Ela guinchou e mordeu-me o antebraço. Eu tentei libertar-me, mas os seus dentes estavam fincados na minha carne.

 

Betesda pedi eu, solta-me!

 

Ela largou-me e voltou-se, encostando-se à parede. Ergueu a mão para limpar o sangue que tinha na boca. Fosse como fosse, tinha conseguido segurar a lamparina no alto e acesa, sem entornar uma gota de óleo.

 

Por que fizeste isso? gritou ela. Bateu com o punho na parede. Havia nos seus olhos uma espécie de loucura. À luz da lamparina, detectei as feridas que tinha na cara e no pescoço. O decote do seu fato tinha sido completamente rasgado.

 

Betesda, estás ferida? Estás a sangrar?

 

Ela fechou os olhos e inspirou profundamente.

 

Só tenho uns ferimentos pequenos. Ergueu a lamparina e olhou para dentro do compartimento, depois fez uma cara tão desgraçada, que eu pensei que tivesse entrado dentro de casa uma nova ameaça. Mas, quando segui a direcção do seu olhar até ao chão, apenas vi o corpo quebrado e coberto de sangue da sua amada Basta.

 

Tentei abraçá-la, mas Betesda não queria ser abraçada. Afastou-se com um estremecimento e começou a correr de sala em sala, utilizando a luz da sua lamparina para acender todas as lamparinas e todas as velas. Quando toda a casa ficou iluminada e ela se sentiu segura de que não havia intrusos escondidos nos cantos mais escuros, trancou a porta e voltou a percorrer a casa inteira, fechando todas as janelas.

 

Eu observava-a em silêncio. À luz vacilante das lamparinas, vi a devastação que a casa sofrera: móveis de pernas para o ar, quadros arrancados das paredes, objectos esmagados e partidos. Baixei os olhos, entorpecidos de olharem para todo aquele caos, e dei por mim a estudar o trilho de sangue que se via no chão, o retalhado corpo de Bast, o que estava escrito na parede. Aproximei-me mais. As letras eram de diferentes tamanhos, muitas delas mal formadas e invertidas, mas a ortografia estava correcta. Tinham sido obviamente feitas por uma pessoa pouco habituada a escrever, talvez por um perfeito iletrado que reproduzisse os símbolos de uma cópia. Fez-me mal aos olhos lê-las:

 

                   CALA-TE OU MORRES.

                   DEIXA A JUSTIÇA ROMANA

                   TRABALHAR À VONTADE

 

Betesda passou por mim, fazendo um grande teatro à volta do cadáver da gata e afastando os olhos da parede.

 

Deves ter fome disse ela. A sua voz era estranhamente calma e factual.

 

Muita fome admiti eu. Segui-a até à parte de trás da casa, à despensa.

 

Ela ergueu a tampa de um pote e retirou um peixe inteiro, lançando-o bruscamente para cima da mesa; o peixe emitiu um odor forte para o ar quente e calmo. Ao lado dele, colocou uma mão cheia de ervas frescas, uma cebola, algumas folhas de parra.

 

Estás a ver disse Betesda, eu tinha acabado de regressar do mercado.

 

Quando chegaram eles? Quantos eram?

 

Dois homens. Foi buscar uma faca e trouxe-a para junto do peixe, cortando-lhe a cabeça com um único golpe decidido. Vieram por duas vezes. Primeiro, vieram ao fim da manhã. Como sempre me recomendaste, eu tinha a porta fechada e trancada, e falei com eles pela janelinha. Disse-lhes que tu não estavas e que era provável que só regressasses muito tarde. Eles não quiseram dizer quem eram. Disseram que regressariam.

 

Observei-a enquanto ela limpava o peixe, utilizando as unhas e a extremidade aguçada da faca. As suas mãos eram extraordinariamente ágeis.

 

Depois, saí para o mercado. Consegui arranjar o peixe muito barato. Estava tanto calor e o mercado estava tão cheio de pó, que o homem temia que se estragasse antes de conseguir vendê-lo. Peixe fresco do rio. Terminei de fazer as compras e subi a colina. Fechei a porta e corri o ferrolho. Verifiquei se estava bem posto, como tu sempre me dizes que faça.

 

Ela começou a cortar as ervas, pressionando a lâmina com toda a força e rapidez. Eu pensei na mulher do velho comerciante.

 

Mas estava tanto calor, e estava tudo tão calmo. Não vinha uma brisa do jardim. Eu quase não conseguia estar acordada. Fui abrir a porta. Só durante um bocadinho, pensei eu, mas devo ter-me esquecido. Sentia-me tão sonolenta, que fui para o meu quarto deitar-me um pouco. Não sei se adormeci ou não mas, passado algum tempo, ouvi-os no vestíbulo. Por qualquer razão, percebi que eram os mesmos homens. Ouvi-os falar baixo; depois ouviu-se um barulho forte, como de uma mesa voltada. Começaram a gritar, a chamar pelo teu nome, a gritar obscenidades. Escondi-me no meu quarto. Consegui ouvi-los a caminhar pesadamente pela casa, a voltar a mobília, a lançar coisas contra as paredes. Chegaram ao meu quarto. Imaginamos sempre que conseguiremos esconder-nos, se for necessário, mas evidentemente que eles me descobriram logo.

 

E depois? O coração acelerava-se-me no peito.

 

Não foi o que tu pensas. Ela ergueu a mão para limpar uma lágrima que lhe caía dos olhos. É a cebola disse ela. Eu vi a ferida que lhe rodeava o pulso como uma pulseira, deixada pelo aperto de um homem forte.

 

Mas eles magoaram-te.

 

Empurraram-me. Bateram-me algumas vezes. Um deles segurou-me por trás. Obrigaram-me a ver. Olhou fixamente para a mesa. O tom da sua voz tornou-se lúgubre. Eu tinha andado a ralhar com Bast o dia todo. Ela estava louca com o cheiro do peixe. Um deles descobriu-a na cozinha e trouxe-a para o vestíbulo. Ela bateu-lhe e arranhou-o na cara. Ele lançou-a contra a parede. Depois tirou uma faca. Ela ergueu os olhos. Escreveram qualquer coisa. Com o sangue. Disseram que era para ti e que não devias esquecê-lo. O que é que diz? É uma maldição?

 

Não. É uma ameaça. Não faz qualquer sentido.

 

Tem a ver com o jovem escravo que veio cá ontem, não tem? Com o novo cliente, o parricida?

 

Talvez, embora eu não perceba como. Cícero só ontem me chamou. Só hoje comecei a fazer perguntas mas eles já deviam estar a dirigir-se para cá, mesmo antes de eu ter falado com o comerciante e a sua mulher... Como é que conseguiste escapar?

 

Da mesma maneira que consegui libertar-me de ti há bocado. Com os dentes. O grande que me segurava era bastante cobarde. Gritou como um porco.

 

Como eram eles? Ela encolheu os ombros.

 

Guarda-costas, gladiadores. Combatentes. Homens grandes. Feios.

 

E um deles coxeava. Disse estas palavras com segurança. Mas Betesda abanou a cabeça.

 

Não. Ninguém coxeava. Observei-os ambos a andar da primeira vez.

 

Tens a certeza? Não coxeava?

 

Não vi bem aquele que me segurava. Mas aquele que escreveu era muito grande, e louro, era um gigante. O seu rosto sangrava no sítio onde Bast tinha arranhado. Espero que fique com uma cicatriz. Ela voltou a meter o peixe dentro do pote, polvilhou-o com ervas e cobriu-o completamente com as folhas de parra. Deitou sobre ele água tirada de uma urna, pôs o pote ao lume e depois curvou-se para vigiar a chama. Reparei que as suas mãos tinham começado a tremer.

 

Homens assim disse ela não ficariam satisfeitos por matar um gato, não achas?

 

Não. Acho que não. Ela abanou a cabeça.

 

A porta continuava a aberta. Eu sabia que tinha de fugir enquanto o gigante louro estava ocupado a traçar as letras na parede, por isso mordi com toda a força o homem que estava a segurar-me, aqui. Indicou a parte mais larga do antebraço. Escapei-me dos seus braços e corri para a porta. Eles seguiram-me. Mas pararam subitamente quando passaram entre os muros dos vizinhos. Ouvi-os atrás de mim, a fazerem ruídos enojados, a bufarem como porcos.

 

Foi quando pisaram o monte de excrementos.

 

Sim. Imagina, homens capazes de besuntar as mãos com sangue de um gato, transformados em matronas susceptíveis por terem um bocado de merda nas sandálias! Romanos! A palavra saiu-lhe da boca como veneno. Só um nativo de Alexandria consegue pronunciar o nome da capital do mundo com um desagrado tão determinado.

 

Perdi-me na rua, até que pensei que eles deviam ter-se ido embora. Mas, quando regressei à base da colina, tive medo de subir. Em vez disso, fui para a taberna do outro lado da rua. Conheço a mulher que trata ali da cozinha, de a ver no mercado. Ela deixou-me esconder numa das salas vazias do andar de cima, até te ver chegar a casa. Foi ela que me emprestou a lamparina. Eu chamei-te cá de baixo, para te avisar antes que chegasses a casa, mas tu não me ouviste. Ela olhava para o fogo. Achas que eles vão voltar?

 

Esta noite não garanti-lhe eu, não fazendo ideia se voltariam ou não.

 

Depois de comer, eu ansiava por descansar, mas Betesda não me deixou ir dormir enquanto não tratámos do cadáver.

 

Os Romanos nunca veneraram os animais como deuses. Nem são sentimentais acerca das criaturas que têm em casa. Como poderia comportar-se de outra maneira uma raça que tem tão pouca consideração pela vida humana? Sujeitos à entorpecida apatia dos seus senhores, os escravos de Roma, importados de todo o mundo mas especialmente do Oriente, perdiam muitas vezes qualquer noção da sacralidade da vida que pudessem ter adquirido na infância, nas terras longínquas onde tinham nascido. Mas Betesda mantinha um sentimento de decoro e de temor perante a morte de um animal e, à sua maneira, chorou por Bast.

 

Insistiu em que construíssemos uma pira no centro do jardim. Tirou um vestido do seu armário, uma bela túnica de linho branco que eu lhe dera apenas um ano antes. Eu pestanejei quando a vi rasgar as costuras para formar um único lençol coleante. Envolveu o corpo destruído em camada após camada de pano, até não passar mais sangue para fora, manchando o tecido exterior. Depois colocou o volume na pira e murmurou qualquer coisa para si própria, enquanto observava as chamas saltarem. No ar parado da noite, o fumo ergueu-se a direito, esborratando as estrelas.

 

Eu ansiava por dormir. Ordenei-lhe que se juntasse a mim, mas ela recusou-se a vir enquanto não tivesse limpo o sangue que havia no chão. Ajoelhou-se ao lado de um balde de água aquecida e esfregou durante muito tempo. Eu consegui convencê-la a não tocar na mensagem escrita na parede, embora fosse claro que ela achava que deixá-la ali era um convite a todo o tipo de desastres mágicos.

 

Não me permitiu apagar uma única lamparina ou vela. Adormeci numa casa com todos os compartimentos iluminados. Quando acabou de esfregar, Betesda juntou-se a mim, mas a sua presença não me trouxe qualquer conforto. Durante toda a noite, ela levantou-se constantemente, para ir verificar os ferrolhos das portas e das janelas, para voltar a encher as lamparinas e renovar as velas.

 

Eu fui dormindo aos poucos. E sonhando. Ao longo de quilómetros intermináveis de terrenos baldios, cavalgava um corcel branco, incapaz de me recordar onde ou quando tinha partido, incapaz de chegar a qualquer destino. A meio da noite, acordei, sentindo-me já cansado depois de uma viagem longa e desagradável.

 

Betesda nunca poderia ficar sozinha em casa enquanto eu estivesse fora. Um ano antes, o problema não se teria colocado; nessa altura, eu tinha dois escravos jovens e fortes. Excepto nas raras ocasiões em que precisava de uma comitiva ou de guarda-costas e os levava comigo, eles ficavam com Betesda um deles para acompanhá-la nas suas voltas, o outro para vigiar a casa na sua ausência, ambos para a ajudar e a proteger dentro de casa. O melhor de tudo era que lhe proporcionavam alguém em quem mandar; à noite, eu tentava não sorrir quando ela me contava as suas queixas contra eles e se irritava com as coscuvilhices que imaginava que eles andavam a espalhar nas suas costas.

 

Mas os escravos são uma despesa constante e um produto valioso, especialmente para aqueles que não podem dar-se ao luxo de os ter. Uma oferta casual de um cliente num momento de necessidade convencera-me a vendê-los. Durante o último ano, Betesda saíra-se bem sem eles e não houvera incidentes, até agora. A minha loucura quase nos conduzira a um desastre completo.

 

Não podia deixá-la sozinha. Contudo, mesmo que contratasse um guarda-costas para esse dia, ficaria ela mais segura? Os assassinos poderiam perfeitamente regressar; seria um guarda-costas, ou dois, ou três, suficientes, se eles estivessem inclinados para o assassínio? Se encontrasse algum local onde ela pudesse ficar, deixaria a casa abandonada. Estes homens, desorientados por não encontrarem a sua presa, poderiam perfeitamente incendiar tudo aquilo que eu possuía.

 

Muito antes do primeiro cantar do galo, já eu estava acordado, dando voltas ao drama na minha cabeça. O único conselho que obtive da minha contemplação do tecto iluminado pela luz das velas foi o de largar por completo o caso. Não faria viagem nenhuma a Améria. Logo que o Sol nascesse, poderia descer até à Subura e enviar um mensageiro a Cícero, dizendo-lhe que me retirava do caso e pedindo-lhe que fizesse as minhas contas. Depois, poderia instalar-me em casa com Betesda durante todo o dia, fazendo amor e passeando-me pelo jardim, e queixando-me por causa do calor; e, a qualquer intruso que batesse à porta, poderia dizer muito simplesmente: ”Sim, sim, prefiro o silêncio à morte! Que a justiça romana trabalhe à vontade! Agora vai-te embora!”

 

Há na colina um galo que canta muito antes de todos os outros; suspeito de que ele pertence à minha vizinha que veio do campo, e que lança os seus excrementos por cima do muro é um galo do campo, com hábitos rurais, diferente dos galos de Roma, mais preguiçosos e mais habituados ao luxo. Quando ele cantasse, ainda faltariam duas horas para amanhecer. Eu decidi que nessa altura me levantaria e tomaria a minha decisão.

 

A natureza do tempo altera-se enquanto o mundo dorme. Os momentos coagulam ou adelgaçam-se, como protuberâncias em finas fatias de queijo. O tempo torna-se irregular, ilusório, incerto. Àqueles que não dormem, a noite parece-lhes eterna, mas ainda assim demasiadamente curta. Permaneci deitado durante muito tempo, observando as sombras vacilantes por cima da minha cabeça, incapaz de dormir mas incapaz de seguir qualquer um dos pensamentos que povoavam a minha mente, à espera do cantar do galo, até que comecei a pensar que o galo tinha adormecido. Por fim lá cantou, um canto distinto e estridente no ar quente e calmo.

 

Levantei-me, percebendo subitamente que tinha mesmo adormecido, ou estivera à beira de adormecer. Durante um confuso momento, perguntei a mim próprio se teria sonhado com o cantar do galo. Depois voltei a ouvi-lo.

 

Por entre a luz de muitas velas, mudei de túnica e salpiquei o rosto. Betesda tinha por fim repousado; observei-a, deitada numa esteira de palha por baixo da colunata, na extremidade do jardim, rodeada por um anel de velas acesas, finalmente adormecida. Escolhera um ponto o mais distanciado possível da parede onde Bast morrera.

 

Atravessei o jardim, caminhando muito devagar a fim de não a acordar. Ela estava enrolada, voltada de lado, com os braços à volta do corpo. Os músculos do seu rosto estavam suavizados e descontraídos. Uma lustrosa trança de cabelo preto-azulado pousava de forma desordenada sobre a sua face. À luz das velas, parecia mais do que nunca uma criança. Parte de mim ansiava por pegar nela e levá-la para a cama, por envolvê-la nos meus braços quentes e seguros, afagando-a e sonhando até que o sol da manhã nos despertasse. Por esquecer a sórdida confusão em que Cícero me tinha mergulhado, por virar-lhe as costas. Olhando para Betesda, senti uma tal onda de ternura, que os meus olhos se velaram de lágrimas. A imagem do seu rosto dissolveu-se; a luz das velas derreteu-se numa névoa cintilante. Uma coisa é, segundo me dizem, juntar fortunas através do casamento com uma mulher livre. Outra coisa é possuir uma mulher como escrava, e eu tenho-me perguntado muitas vezes qual delas é mais amarga e qual é mais doce.

 

O galo voltou a cantar, desta vez em conjunto com outro, ao longe. Nesse instante, tomei uma decisão.

 

Ajoelhei-me ao lado de Betesda, e acordei-a com a maior suavidade possível. Apesar disso, ela teve um sobressalto e olhou fixamente para mim durante um momento como se eu fosse um estranho. Senti um baque de dúvida e voltei-me para o lado sabendo que, se ela observasse a minha hesitação, sentiria o seu próprio medo, e não conseguiria dominá-lo. Disse-lhe que se vestisse e se penteasse e que pegasse num bocado de pão se tivesse fome; logo que estivesse pronta, iríamos dar um pequeno passeio.

 

Voltei-me rapidamente para o lado e apressei-me a apagar as velas. A casa ficou às escuras. Passado pouco tempo, Betesda emergiu do seu quarto e anunciou que estava pronta. A sua voz tinha um tom de angústia, mas nenhuma nota de desconfiança nem de censura. Pronunciei uma oração silenciosa para que estivesse a fazer o que devia, e perguntei a mim próprio a quem estaria a rezar.

 

O caminho que descia a colina estava alinhado de sombras, escuro com a escuridão. Por trás do brilho da minha tocha, as pedras do pavimento assumiram as propriedades da ilusão, lançando sombras confusas e desordenadas, enquanto as suas pontas se erguiam, traiçoeiras e aguçadas. Quase teria sido mais seguro avançar sem luz. Betesda saltitava e agarrava-se ao meu braço. Aparecia de um lado e do outro, incapaz de olhar para os pés com receio de ver qualquer coisa surgir da escuridão.

 

A meio da descida, entrámos numa longa caleira de nevoeiro, que flutuava e refluía como um rio no entalhe do vale, tão espessa que a luz da tocha se reflectia sobre si própria, envolvendo-nos num casulo de branco leitoso. Tal como o calor inquietante que se derramara sobre Roma, havia qualquer coisa de estranho neste nevoeiro. Ele não trazia consigo repouso nem alívio; era uma grande massa quente e pegajosa, com bolsas abruptas de ar frio, que devorava a luz, que engolia o som. O ruído das pedras soltas que pisávamos era abafado e longínquo. Até os grilos tinham parado de fazer cri-cri e, durante um momento, os galos ficaram silenciosos.

 

Ao meu lado, Betesda teve um arrepio, mas eu sentia-me secretamente satisfeito com o nevoeiro. Se ele durasse até ao nascer do Sol, talvez eu conseguisse sair da cidade sem ser observado, nem sequer pelos olhos contratados para me vigiar.

 

O dono do estábulo estava a dormir quando lá chegámos, mas um escravo concordou em acordá-lo. A princípio, mostrou-se descontente; eu tinha chegado uma hora antes do previsto e, de qualquer maneira, o escravo podia ter tratado da minha partida sem perturbar o seu senhor. Mas, quando lhe expliquei o que queria e lhe disse o que lhe daria em troca, ele ficou subitamente bem acordado e bem-disposto.

 

Durante os dois dias seguintes, pelo menos, Betesda ficaria em sua casa. Disse-lhe que não a obrigasse a trabalhar demasiado, porque ela estava habituada ao seu próprio ritmo e não costumava fazer trabalhos pesados. (Esta última afirmação era mentira, mas eu não tinha qualquer intenção de lhe permitir que ele a obrigasse a trabalhar até à exaustão.) Se ele pudesse dar-lhe uma tarefa suave, como coser, por exemplo, ela mais do que ganharia o seu sustento.

 

Entretanto, eu queria arrendar-lhe dois escravos robustos para me guardarem a casa. Ele insistiu em que apenas podia dispensar um. Eu senti-me céptico, até que ele acordou o rapaz. Nunca na minha vida eu vira um jovem tão feio nem tão encorpado. Não fazia a menor ideia de onde teria ele vindo. Dava pelo bizarro nome de Escaldo. Tinha um rosto grosseiro e vermelho, empolado pelo sol intenso da semana anterior; o seu cabelo espetava-se em feixes, com a mesma textura e a mesma cor que os pedaços de palha que tinha pendurados na cabeça.

 

Se o seu tamanho não intimidasse os visitantes, o seu rosto assustá-los-ia. Ele devia montar vigilância à porta de minha casa, e não sair de lá enquanto eu não regressasse; uma mulher dos estábulos levar-lhe-ia comida e água ao longo do dia. Ainda que acabasse por mostrar ser mais fraco do que parecia ou se comportasse como um cobarde, poderia pelo menos lançar o alarme se houvesse intrusos em minha casa. Quanto à despesa, o dono dos estábulos concordou em me alargar o crédito. Eu transferiria o resto do pagamento para a conta de Cícero.

 

Não precisava de voltar a casa. Tinha levado comigo tudo aquilo de que precisava para a viagem. Um escravo foi buscar Vespa ao estábulo. Montei-a, voltei-me e vi Betesda a olhar para mim com os braços cruzados. Ela não estava satisfeita com a combinação, como pude perceber pelo aperto dos seus lábios e o clarão de irritação que tinha nos olhos negros. Sorri, aliviado. Já estava a recuperar do choque da noite anterior.

 

Tive o impulso de me inclinar e a beijar, mesmo em frente do dono dos estábulos e dos seus escravos; mas preferi voltar a minha atenção para Vespa, acalmando o seu nervosismo do começo da manhã, conduzindo-a em direcção à rua e soltando-a num trote suave. Há muito que eu aprendera que, quando um senhor mostra afecto por um escravo em público, a sua atitude pode ser mal interpretada. Por muito sincero que seja, o acto torna-se paternalista, embaraçoso, uma paródia. Apesar disso, atingiu-me um súbito temor, uma premonição de que poderia vir a lamentar para sempre ter negado a mim própria aquele beijo de despedida.

 

O nevoeiro era tão espesso, que eu me teria perdido se não conhecesse o caminho de cor. A névoa girava à nossa volta, engolindo o barulho dos cascos de Vespa e ocultando-nos aos dois milhões de olhos que habitavem Roma. À minha volta, a cidade parecia agitar-se, mas isso era uma ilusão; a cidade nunca estivera completamente adormecida. Ao longo de toda a noite, homens, carros e carroças percorrem as ruas mergulhadas em sombras profundas. Atravessei a Porta Fontinal. Comecei a trotar ao passar pelos quiosques de votação do Campo de Marte, tomando a estrada para norte da grande Via Flamínia.

 

Roma recuava, invisível, atrás de mim. O fedor mudo da cidade era substituído pelos odores da terra cultivada e orvalhada. Escondido pelo nevoeiro, o mundo parecia aberto e sem limites, um lugar sem muros e sem homens. Depois, o Sol ergueu-se sobre os campos negros e verdes, dispersando todo o vapor de água à sua frente. Na altura em que cheguei ao grande braço do Tibre que curva em direcção ao norte, o céu estava duro como cristal, sem uma única nuvem, e grávido de calor.

 

                                                 PORTENTOS

 

Os ricos que regressam da cidade às suas villas, e vice-versa, viajam acompanhados de comitivas de guarda-costas e de gladiadores. Os pobres viajam em grupos. Os actores em companhias. Os camponeses que conduzem os seus rebanhos ao mercado rodeiam-se de outros pastores. Mas o homem que viaja sozinho diz um provérbio tão antigo como os Etruscos tem um louco como companheiro.

 

Em todos os sítios em que vivi, existia entre os habitantes das cidades a crença de que a vida no campo deveria ser mais segura, mais calma, menos carregada de crimes e de ameaças. Os Romanos, sobretudo, são cegamente sentimentais relativamente à vida no campo, imbuindo-a de um carácter tranquilo e sublime que está para além do crime e das baixas paixões. Só acreditam nesta fantasia aqueles que nunca passaram algum tempo no campo, e especialmente aqueles que não viajaram, dia após dia, pelas estradas que Roma semeou como raios para todo o mundo. O crime existe em toda a parte, e em nenhum outro lugar está um homem sujeito a maiores perigos do que quando se encontra em plena estrada, especialmente se viaja sozinho.

 

Se tem de viajar sozinho, deve pelo menos viajar rapidamente, não parando para atender a ninguém. A velha que parece jazer, ferida e abandonada, à beira da estrada, poderá na realidade não estar ferida nem abandonada, nem ser sequer uma mulher, mas um jovem bandido rodeado por um grupo de bandidos, assassinos e raptores. Um homem pode morrer em plena estrada ou desaparecer para sempre. Para os imprudentes, uma viagem de quinze quilómetros pode assumir uma viragem inesperada, terminando num mercado de escravos a milhares de quilómetros de casa. O viajante tem de estar preparado para fugir sem demora, para gritar por socorro sem vergonha, e para matar se tiver de o fazer.

 

Apesar destes pensamentos, ou talvez por causa deles, aquele longo dia passou-se sem incidentes. A distância que tinha de percorrer exigia-me que cavalgasse sem parar durante longas e duras horas. Insensibilizei-me às dificuldades desde o princípio, e entrei no ritmo da velocidade constante. Não fui ultrapassado por um único cavaleiro durante todo o dia. Passei por viajante após viajante, como se eles fossem tartarugas paradas à beira da estrada.

 

A Via Flamínia sai de Roma para norte, atravessando o Tibre duas vezes enquanto percorre o sudeste da Etrúria. Finalmente, atinge o rio Nar, que corre para o Tibre vindo de leste. A estrada atravessa uma ponte na cidade de Nárnia, entrando na meridional Úmbria. Alguns quilómetros a norte de Nárnia, há uma pequena estrada que se ramifica para oeste, regressando ao Tibre. Essa estrada sobe uma série de colinas íngremes, descendo depois a um vale profundo de vinhas e pastagens férteis. Aqui, oculta num V de terra situado entre o Tibre e o Nar, fica Améria, uma sonolenta cidade de colina.

 

Há muitos anos que eu não viajava para o norte de Roma. Quando tinha de sair da cidade, os assuntos que tinha a tratar conduziam-me normalmente para oeste, para o porto de mar de Óstia, ou então para sul, ao longo da Via Ápia, através da região de luxuriantes villas e propriedades que termina nos lugares de Baias e Pompeia, onde os ricos dão livre curso ao seu tédio produzindo novos escândalos e conspirando para novos crimes, e onde os poderosos tinham escolhido os seus partidos nas guerras civis. Ocasionalmente, aventurava-me para leste, para os territórios rebeldes que tinham dado livre curso à sua ira contra Roma na Guerra Social. Para sul e para leste, observara directamente a devastação produzida por dez anos de guerras, quintas em ruínas, estradas e pontes destruídas, pilhas de cadáveres deixados a apodrecer ao ar, enquanto se transformam em montanhas de ossos.

 

Esperara encontrar o mesmo no Norte, mas aqui a terra estava razoavelmente intacta; aqui, as pessoas tinham exercido as suas cautelas até ao ponto da cobardia, procurando não se comprometer, farejando o caminho da neutralidade até emergir um vencedor claro, e correndo depois a aderir a ele. Na Guerra Social, tinham-se recusado a juntar-se aos outros estados clientes, que pressionavam Roma para obterem os seus direitos, preferindo esperar que Roma lhes pedisse ajuda, e garantindo assim esses direitos sem revolta. Nas guerras civis, tinham dançado no fio da navalha entre Mário e Sula, entre Sula e Cina, até o ditador emergir triunfante. O próprio Sexto Róscio, o velho, fora um apoiante declarado de Sula, mesmo antes de isso ser conveniente.

 

A guerra não estragara as pastagens ondulantes nem os densos campos de algodão que cobriam as extensões do Sul da Etrúria e da Umbria. Enquanto noutras regiões se sentiam de mil maneiras as perturbações provocadas pela guerra e pelas novas colonizações, havia aqui uma sensação de intemporalidade, de imutabilidade, quase de estagnação. As pessoas não mostravam simpatia nem curiosidade pelo estrangeiro que passava; os rostos daqueles que andavam pelos campos voltavam-se para mim, olhando-me sem expressão, e regressavam ao seu trabalho com um olhar desinteressado. Até agora, a seca Primavera tinha produzido pouca cor que refrescasse a terra. Pequenos fios de água corriam sobre leitos pedregosos; uma poeira fina tapava e obscurecia todas as coisas. O calor cobria pesadamente a terra, mas havia outra coisa que parecia cobrir o mundo como um cobertor: uma melancolia sufocante e desencorajadora, por baixo de uma intensa luz do Sol.

 

A monotonia da viagem deu-me tempo para pensar; o campo, sempre mutável, libertou-me o espírito das teias de aranha e dos becos sem saída de Roma. Mas o mistério de quem organizara o ataque a minha casa continuava por decifrar. A partir do momento em que iniciara seriamente a investigação, expusera-me a todo o tipo de perigos tanto o comerciante como a sua mulher, a viúva, a prostituta, qualquer um deles poderia ter alertado o inimigo. Mas os visitantes tinham ido a minha casa na manhã do dia a seguir àquele em que eu conhecera Cícero, quando eu me encontrava a caminho do cenário do crime, antes de ter entrevistado quem quer que fosse. Contei os nomes daqueles que sabiam desde o dia anterior que eu estava envolvido no caso: o próprio Cícero, e Tiro; Cecília Metela; Sexto Róscio; Rufo Messala; Betesda. A não ser que a conspiração contra Sexto Róscio fosse mais convoluta e mais loucamente ilógica do que eu poderia imaginar, nenhuma destas pessoas tinha qualquer razão para me afastar do caso. Havia sempre a possibilidade de um criado ter andado a escutar às portas, quer em casa de Cícero quer em casa de Cecília, ou de um espião ter passado informações aos inimigos de Sexto Róscio; mas, dada a lealdade que Cícero inspirava e o tipo de castigos que poderiam sofrer os servos de Cecília, a probabilidade parecia absurdamente pequena. Contudo, alguém soubera do meu envolvimento suficientemente cedo para mandar dois homens contratados bater à minha porta logo na manhã seguinte, alguém disposto a matar-me se eu me recusasse a desviar-me da questão.

 

Quanto mais o fazia girar na cabeça, mais emaranhado me parecia o problema, e mais me parecia aumentar o perigo, até que comecei a perguntar a mim próprio se Betesda estaria segura onde eu a deixara. Não fazendo ideia de onde vinha a ameaça, como podia eu protegê-la contra ela? Afastei a dúvida do espírito e olhei para a estrada que se estendia à minha frente. Era inútil ter medo. Só a verdade poderia trazer-me segurança.

 

Da segunda vez que atravessei o Tibre, parei durante algum tempo à sombra de um enorme carvalho, na margem do rio. Enquanto descansava, um agricultor de cabelo grisalho e três capatazes aproximaram-se a cavalo vindos do norte, com uma fila de trinta escravos a reboque. O agricultor e dois dos seus homens desmontaram e sentaram-se de pernas cruzadas na sombra, enquanto o terceiro conduzia os escravos, ligados uns aos outros pelo pescoço, até ao rio, para irem beber. O agricultor e os seus homens não falavam. Depois de me lançarem olhares desconfiados, ignoraram-me por completo. Tendo conseguido ouvir pedaços da sua conversa, percebi que se tratava de um Narmiano, que tinha recentemente adquirido uma propriedade perto de Faleros; os escravos estavam a ser levados para essa propriedade, a fim de reforçarem os seus trabalhadores.

 

Comi um bocado de pão e dei uns golos ao meu odre de vinho, sacudindo suavemente uma abelha que me rodeava a cabeça. Os escravos alinharam-se na margem e ajoelharam-se, afastando o pó do rosto e inclinando-se para beberem como animais. A maior parte era de meia idade; alguns eram mais velhos, outros muito mais jovens. Todos eles usavam uma espécie de sandálias como protecção, um recorte de couro preso a cada pé. Para além disso, estavam despidos, excepto dois ou três, que tinham uma pequena tira presa à volta da cintura. Muitos tinham cicatrizes recentes e marcas de vergastadas nas nádegas e nas costas. Mesmo os mais robustos pareciam fatigados e doentes. O mais jovem, ou pelo menos o mais pequeno, era um rapaz magro e despido, que se encontrava no fim da fila. Fungava continuamente e resmungava incoerentemente acerca da mão, que mantinha no ar num ângulo oblíquo. O capataz gritava com ele, batia violentamente com a bota no chão, e finalmente fez estalar o chicote, mas o rapaz não parava de se queixar.

 

Acabei de comer o pão, bebi um grande golo de vinho, e encostei-me à árvore. Tentei descansar, mas os constantes lamentos do escravo, pontuados pelo estalar do chicote, estavam a pôr-me os nervos em franja. Para um agricultor rico, os escravos são mais baratos do que o gado. Quando morrem, são substituídos sem dificuldades; o influxo de escravos a Roma é interminável, assemelhando-se ao esmagar das ondas numa praia. Montei Vespa e prossegui.

 

O dia foi ficando cada vez mais quente. Ao longo da tarde, quase não vi vivalma. Os campos tinham sido abandonados até uma hora mais fresca e a estrada estava deserta; eu tinha a impressão de ser o único viajante do mundo. Mas, na altura em que cheguei a Nárnia, os campos começaram novamente a agitar-se e o tráfego foi aumentando lentamente. Nárnia é uma movimentada cidade comercial. Nas ruas exteriores, alinham-se pedras tumulares e pequenos templos. No centro, deparei com uma ampla praça, sombreada por árvores e rodeada de lojas e de cercas para animais. O cheiro doce a palha e os odores fortes dos burros, das vacas e das ovelhas faziam-se sentir fortemente no ar aquecido.

 

Havia uma pequena taberna numa das esquinas da praça. Inserido na porta de madeira aberta, via-se um azulejo de argila que tinha desenhado um jovem pastor com uma ovelha aos ombros; uma placa de madeira por cima do lintel dava as boas-vindas ao A Ovelha e o Pastor. Tratava-se de um lugar sombrio e melancólico, mas fresco. O único cliente era um velho definhado, sentado a uma mesa num dos cantos, que olhava rigidamente para coisa nenhuma. O meu anfitrião era um Etrusco enormemente gordo, com os dentes amarelos: era de tal maneira grande, que quase enchia o minúsculo compartimento. Teria o maior prazer em me servir um copo do vinho local.

 

Améria ainda é longe? perguntei-lhe. Ele encolheu os ombros.

 

O teu cavalo está fresco?

 

Olhei à volta e concentrei a minha atenção num jarro de água chapeado que havia em cima do balcão. Tinha o rosto vermelho e suado, o cabelo emaranhado e cheio de pó.

 

Não está mais fresco do que eu. Ele voltou a encolher os ombros.

 

Uma hora se o apressares. Mais tempo se tiveres a preocupação de evitar que o coração do animal rebente. De onde vens?

 

De Roma. A palavra saiu-me antes que eu pudesse evitar. Tinha passado o dia a recordar a mim próprio os perigos do campo, mas tinham bastado alguns momentos dentro de uma taberna bizarra para me soltar a língua.

 

Roma? Fizeste todo este caminho num único dia? Deves ter partido muito cedo. Bebe mais um copo. Não te preocupes. Eu corto-o com muita água. De Roma, dizes tu. Tenho um filho que vive lá, ou pelo menos vivia. Combateu ao lado de Sula nas guerras. Deviam dar-lhe um pedaço de terra por causa disso. Talvez tenham dado. Há meses que não tenho notícias dele. Fizeste todo este caminho desde esta manhã? Tens família em Améria?

 

É mais fácil confiar num homem gordo do que num magro. A traição apresenta-se como uma cicatriz numa face macilenta, mas esconde-se bem por trás de uma suavidade roliça e infantil. Mas os olhos não mentem, e os olhos deste homem eram completamente inocentes. O meu anfitrião era simplesmente curioso, falador e estava entediado.

 

Não disse eu. Não se trata de família. São negócios.

 

Ah, deve ser uma coisa importante, para fazeres uma viagem tão longa.

 

Inocente ou não, decidi não confiar nele para além do necessário.

 

O meu patrão é um homem impaciente disse eu. Tão impaciente como rico. Há uma parcela de terra agrícola junto de Améria pela qual ele se interessou. Encarregou-me de vir vê-la.

 

Ah, isso está sempre a acontecer hoje em dia. Quando eu era miúdo, só havia por aqui pequenos agricultores, pessoas da zona que passavam as suas terras de pai para filho. Agora, vêm estranhos de Roma, e compram tudo. Já ninguém sabe a quem pertence metade da terra. Já não pertence aos antigos vizinhos, mas a um homem rico de Roma que vem cá duas vezes por ano, para brincar aos agricultores. Riu-se, e depois o seu rosto obscureceu-se. E, quanto maiores são as quintas, mais escravos eles trazem. Costumavam passar com eles directamente aqui pela praça, ou transportá-los por aqui em carroças, mas nós pusemos fim a isso e mandámo-los dar a volta pela estrada principal. Não é razoável homens presos com cadeias passarem por aqui e sentirem o cheiro da liberdade. Um homem como eu sente-se desconfortável com demasiados escravos infelizes à sua volta.

 

Continuando a olhar para o nada, o velho do canto bateu com o copo em cima da mesa. O taberneiro atravessou a sala bamboleando-se. O mais pequeno esforço fazia-o arquejar e arfar.

 

Queres dizer que te preocupas com os escravos fugitivos? disse eu.

 

As coisas acontecem. Oh, dentro das cidades nem por isso, mas eu tenho uma irmã que se casou com um agricultor do Norte. Vive algures no meio de nada. Claro que eles têm os seus escravos domésticos e alguns libertos para os protegerem. Apesar disso, só um louco deixaria as portas destrancadas durante a noite. Digo-te eu, um dia destes vai haver mais do que dois ou três escravos fugitivos. Imagina se fossem vinte ou cem, alguns dos quais assassinos profissionais. Há uma propriedade a menos de cinquenta quilómetros daqui, para onde mandam escravos para serem treinados para gladiadores. Imagina cem bestas dessas fugidos da gaiola sem terem nada a perder.

 

Ah, és um louco! bradou o velho. Ergueu o copo e esvaziou-o de uma vez. O vinho tinto transbordava pelos cantos da sua boca cinzenta, escorrendo lentamente para o pescoço grisalho. Bateu com o copo com toda a força e olhou rigidamente em frente. Louco! disse ele uma vez mais. Não têm nada a perder, dizes tu? Seriam crucificados e estripados! Achas que Sula e o Senado permitiriam que uma centena de gladiadores andasse por aí à solta, a matar proprietários de terras e a violar as suas mulheres? Nem um escravo deseja ter as mãos pregadas a uma árvore. Não te preocupes, a miséria não objectará enquanto houver medo suficiente para os manter na linha.

 

O velho empurrou o queixo para diante e fez um sorriso sinistro. Percebi finalmente que era cego.

 

Claro, Pai. O gordo Etrusco sorriu afectadamente e fez uma vénia que o velho não poderia ver.

 

Inclinei-me para diante e fiz girar o copo nas mãos.

 

Com medo ou sem medo dos escravos, por vezes parece que um homem nem sequer está seguro dentro de sua casa. Um pai pode não estar seguro sequer relativamente ao seu próprio filho. Desta vez, só água. Ergui o copo. O taberneiro afadigou-se.

 

O que queres dizer? Tremiam-lhe as mãos quando ele inclinou o jarro. Olhou com inquietação por cima do ombro para o velho.

 

Estava apenas a pensar numa coscuvilhice que ouvi ontem em Roma. Mencionei esta viagem a alguns dos meus amigos no Fórum, e perguntei-lhes se sabiam alguma coisa de Améria. Bem, a maioria nunca tinha ouvido falar da zona.

 

Dei um grande golo e calei-me. O taberneiro franziu o sobrolho, formando na testa uma série de rugas roliças. O velho moveu-se finalmente, inclinando a cabeça na minha direcção. O pequeno compartimento ficou silencioso como um túmulo.

 

O Etrusco arquejou.

 

E então?

 

Então o quê? disse eu.

 

A coscuvilhice! Era o velho. Sorriu de forma escarninha e voltou-se para o lado, subitamente desinteressado ou fingindo-se desinteressado. Esse porquinho vive para a coscuvilhice. É pior do que a mãe alguma vez foi.

 

O meu anfitrião olhou para mim e fez uma careta desamparada. Eu encolhi os ombros enfadado, como se a história não valesse o esforço de ser contada.

 

Foi uma coisa acerca de um julgamento que vai haver em Roma, envolvendo um homem de Améria. Acho que o nome dele é Róscio; sim, como o famoso actor. Acusado de bem, quase tenho vergonha de o dizer, acusado de ter morto o próprio pai.

 

O meu anfitrião acenou ligeiramente com a cabeça e recuou. Tirou um trapo do cinto da túnica, limpou as gotas de suor que tinha na testa, e depois começou a esfregar o balcão, arquejando por causa do esforço.

 

A sério? disse finalmente. Sim, já ouvi falar disso.

 

Só ouviste falar? Um crime como esse, num local tão pequeno, tão perto daqui, seria de crer que toda a gente falasse disso.

 

Bem, não aconteceu exactamente aqui.

 

Não?

 

Não. O crime teve lugar em Roma. Foi aí que o Velho Róscio foi assassinado, segundo me disseram.

 

Tu conhecia-lo? Tentei manter um tom de voz ligeiro, como se não estivesse a ouvir com grande atenção. O meu anfitrião poderia não estar desconfiado, mas não havia dúvida de que o velho estava. Era óbvio pela forma como apertava os lábios e movia lentamente a queixada de um lado para o outro, ouvindo tudo aquilo que se dizia.

 

O velho Sexto Róscio? Não. Bem, conhecia-o mal. Ele costumava passar por aqui ocasionalmente quando eu era miúdo, não era, Pai? Mas ultimamente nem por isso. Há anos e anos que não vinha cá. Tinha-se tornado um romano urbanizado, com maneiras mundanas. Poderá ter passado por aqui ocasionalmente, mas nunca parava. Não era, Pai?

 

Louco resmungou o velho. Louco gordo e desajeitado... O meu anfitrião voltou a limpar a testa, olhou para o pai e lançou-me um sorriso embaraçado. Olhei para o velho com tanto afecto fingido quanto consegui reunir, como se dissesse: Compreendo estas coisas. É velho e impossível de aturar, mas o que há-de fazer um bom filho?

 

Na verdade, quando te perguntei se conhecias este Róscio, estava a falar do filho. Se for verdade, isso de que ele é acusado bem, temos de perguntar a nós próprios que tipo de homem cometeria um crime desta natureza.

 

Sexto Róscio? Sim, conheço-o. Não muito bem, mas o suficiente para o cumprimentar na rua. É um homem aproximadamente da minha idade. Vinha aqui ao mercado nos dias livres. Não era raro fazer uma visita ao A Ovelha e o Pastor.

 

E que achas tu? Seria de prever, olhando para ele?

 

Oh, ele não gostava do seu velho, disso não há qualquer dúvida. Não é que estivesse sempre a falar disso, não era do tipo declamatório, mesmo depois de ter bebido um pouco. Mas deixava cair qualquer coisa de vez em quando. É provável que outras pessoas não reparassem, mas eu reparei. Eu ouvi.

 

Então pensas que ele poderá tê-lo feito?

 

Oh, não. Tenho a certeza de que não o fez.

 

E como?

 

Porque ele não estava em Roma quando aquilo aconteceu. Oh, houve muito falatório quando se soube da notícia da morte do velho, e há muitas pessoas que te podem garantir que há vários dias que Sexto não saía da sua quinta principal de Améria.

 

Mas ninguém acusa o filho de ter sido ele a brandir a faca. Dizem que ele contratou assassinos.

 

O meu anfitrião não tinha resposta para isso, mas estava claramente impressionado. Franziu o sobrolho, pensando.

 

É estranho que menciones esse assassínio. Eu fui praticamente o primeiro a ouvir falar dele.

 

Foste o primeiro em Nárnia, queres tu dizer?

 

Fui o primeiro em absoluto. Foi em Setembro passado. Ele olhava fixamente para a parede oposta, enquanto se ia recordando. O assassínio aconteceu durante a noite; sim, suponho que deve ter sido assim. Por aqui fazia frio, estava muito vento e o céu estava cinzento. Se eu fosse supersticioso, talvez te dissesse que nessa noite tinha tido um sonho sinistro, ou que tinha acordado com um fantasma no quarto.

 

ímpio! lançou o velho, abanando a cabeça com desgosto. Não há respeito pelos deuses.

 

O meu anfitrião parece não tê-lo ouvido, continuando a olhar fixamente para a profundidade da parede de argila sarapintada.

 

Mas algo deve ter-me despertado, porque na manhã seguinte acordei muito cedo. Mais cedo do que habitualmente.

 

Sempre foi um preguiçoso murmurou o velho.

 

Não há razão para um taberneiro acordar cedo; os clientes raramente aparecem antes do meio da manhã. Mas, nessa manhã, acordei antes do nascer do dia. Talvez tenha sido qualquer coisa que comi.

 

O velho resfolegou e franziu o sobrolho.

 

Qualquer coisa que ele comeu! Alguém acredita nisso?

 

Lavei-me e vesti-me. Deixei a minha mulher a dormir e desci as escadas, até este compartimento. Saí para a rua. Estava um pouco fresco, mas tudo muito calmo. Por cima das colinas, avistei os primeiros traços da madrugada. O céu tinha clareado ao longo da noite; só se via uma nuvem no horizonte oriental, incendiado de vermelho e de amarelo a partir de baixo. E, na estrada, avistei um homem que vinha do Sul. Comecei por ouvi-lo sabes como o som se transmite quando o ar está quente e calmo. Depois vi-o, num carro leve, conduzido por dois cavalos, a uma velocidade tal, que quase tive de entrar na taberna para me proteger. Mas preferi ficar onde estava e, quando ele passou, abrandou e parou. Tirou a capa de couro que vestia, e eu vi que se tratava de Málio Gláucia.

 

Um amigo?

 

O meu anfitrião franziu o nariz.

 

Amigo de alguns, mas não meu. Era um escravo, e já nessa altura era insolente e arrogante. Dizem que os escravos saem aos seus senhores, e isso nunca se aplicou tanto como a Málio Gláucia.

 

Há na colina de Améria dois ramos da família de Róscio continuou. Sexto Róscio, pai e filho, os respeitáveis, que construíram as suas quintas e as suas fortunas; e os dois primos, Magno e Cápeto, e o respectivo clã. Tipos de má catadura, chamar-lhes-ia eu, embora não possa dizer que alguma vez tenha tido relações pessoais com eles, para além de lhes servir um copo de vinho. Mas há pessoas para quem basta olhar para se dizer que são perigosas. Assim são Magno e o velho Cápeto. Málio Gláucia, o homem que nesse dia vinha do Sul, era escravo de Magno desde que nasceu, até Magno o ter libertado. Não tenho dúvidas de que terá sido uma recompensa por um crime inominável. Gláucia continuou, e continua, ao serviço de Magno. Logo que o vi no carro, desejei ter recuado para dentro de casa antes que ele me tivesse visto.

 

É um homem grande, esse Málio Gláucia?

 

Nem os deuses são maiores do que ele.

 

Louro?

 

De cabelo louro, talvez, mas feio como um bebé. E de cara vermelha como um bebé. Seja como for, aproximava-se estrondosamente. ”Abres cedo”, disse-me ele. Eu disse-lhe que ainda não estava aberto, e fiz menção de recuar para dentro. Estava a fechar a porta, quando ele a bloqueou com o pé. Disse-lhe uma vez mais que não estava aberto e tentei fechar a porta, mas ele não tirou o pé. Depois meteu um punhal pela abertura. Como se isso não fosse suficiente, o punhal não estava limpo e brilhante oh, não! A lâmina estava coberta de sangue.

 

Vermelho ou preto?

 

Não era demasiadamente fresco, mas também não era demasiadamente antigo. Estava em geral seco, mas nos pontos em que era mais espesso estava ainda um pouco húmido e vermelho no centro. Por muito que tentasse, não consegui fechar a porta. Pensei em gritar, mas a mulher é tímida, o meu filho não está cá, os meus escravos não seriam capazes de se confrontar com Gláucia, e que auxílio poderia eu esperar... Olhou culposamente para o velho que estava no canto. Por isso deixei-o entrar. Ele queria vinho simples, sem água. Trouxe-lhe um copo; ele engoliu-o de uma só vez e depois atirou o copo ao chão e disse-me que lhe levasse uma garrafa. Sentou-se exactamente onde tu estás sentado e bebeu-a por inteiro. Tentei sair da sala várias vezes mas, sempre que me afastava, ele começava a falar comigo em voz alta, de tal maneira e num tom de voz tal, que eu percebi que queria que eu ficasse a ouvi-lo.

 

”Dizia que vinha de Roma, que tinha partido muito depois de escurecer. Dizia que trazia notícias horríveis. Foi então que me disse que Sexto Róscio estava morto. Não me preocupei muito com o caso. ”Era um velho”, disse-lhe eu. ”Foi do coração?” E Gláucia riu-se. ”Mais ou menos”, disse ele. ”Foi uma faca no coração, se queres saber.” E espetou a lâmina ensanguentada na mesa.

 

O meu anfitrião estendeu o braço pequeno e atarracado. Eu olhei para baixo e vi, ao lado do meu copo, uma ranhura na madeira já muito desbastada.

 

Bem, suponho que ele se apercebeu da minha expressão. Voltou a rir-se devia ser do vinho. ”Não precisas de te assustar, taberneiro”, disse ele. ”Não fui eu que o matei. Pareço-te ser do tipo de quem mata um homem? Mas foi esta lâmina, directamente tirada do coração do morto.” Depois irritou-se. ”Não olhes para mim dessa maneira!” disse ele. ”Já te disse que não fui eu. Sou apenas um mensageiro que vem trazer a má notícia aos parentes que estão em casa.” Em seguida, cambaleou em direcção à porta, entrou no carro e desapareceu. Poderás pensar mal de mim por não querer voltar a levantar-me cedo?

 

Eu olhei fixamente para a mesa, para a cicatriz deixada pela lâmina. Por um truque de luz e de concentração, ela parecia tornar-se cada vez mais profunda e mais escura à medida que eu ia olhando para ela.

 

Então esse homem vinha dizer a Sexto Róscio que o pai tinha morrido?

 

Não exactamente. Quer dizer, não era a Sexto Róscio que ele vinha dizer isso. Diz-se que Sexto só ouviu a novidade no final desse dia, depois de a coscuvilhice já ter começado a dar a volta. Um vizinho encontrou-o na estrada e deu-lhe as suas condolências, não imaginando que ele ainda não sabia de nada. No dia seguinte chegou de Roma um mensageiro enviado de casa do velho que também parou nesta taberna mas, por essa altura, a novidade já era antiga.

 

Então, quem é que esse Gláucia veio informar? O seu antigo senhor, Magno?

 

Se é que Magno estava em Améria. E que, ultimamente, esse jovem malandro passa a maior parte do seu tempo em Roma, misturado com os bandos, segundo dizem, e conduzindo negócios em nome do seu primo mais velho; refiro-me ao velho Cápeto. Foi provavelmente a ele que Gláucia veio contar a novidade. Embora não fosse de esperar que Cápeto chorasse pelo velho Sexto; os dois ramos da linhagem de Róscio não têm grande amizade um pelo outro. A contenda é muito antiga.

 

A faca ensanguentada, o mensageiro enviado a meio da noite, a velha contenda familiar; a conclusão parecia óbvia. Esperei que o meu anfitrião a pronunciasse, mas ele limitou-se a suspirar e a abanar a cabeça, como se tivesse chegado ao fim da história.

 

Mas certamente disse eu que, dado o que me disseste, ninguém acredita que Sexto Róscio tenha morto o seu pai.

 

Ah, essa é a parte que eu não percebo. Não consigo perceber. Porque aquilo que toda a gente sabe, pelo menos por aqui, é que o velho Sexto Róscio foi morto pelos homens de Sula, ou pelo menos por um bando agindo em nome de Sula.

 

O quê?

 

O velho foi proscrito. Considerado um inimigo do Estado. Posto nas listas.

 

Não. Deves estar enganado. Confundiste esta história com outra.

 

Bom, havia muitos outros desta região que faziam regularmente negócios e tinham casas em Roma e que foram postos nas listas, e que foram mortos ou fugiram do país. Mas eu não estou a confundi-los com Sexto Róscio. Toda a gente sabe nesta região que o homem foi proscrito.

 

Mas ele era apoiante de Sula, comecei eu a dizer, mas calei-me a tempo.

 

Foi assim mesmo disse o taberneiro. Uns dias mais tarde, chegou de Roma um bando de soldados que fez uma declaração pública, anunciando que Sexto Róscio pater era um inimigo do Estado e, enquanto tal, tinha sido morto em Roma, e que as suas propriedades seriam confiscadas à força e levadas a leilão.

 

Mas isto foi em Setembro passado. As proscrições já tinham acabado; há meses que tinham terminado.

 

Achas que isso foi o fim dos inimigos de Sula? Nada o impediria de descobrir mais um.

 

Fiz rolar o copo vazio nas mãos, olhando para ele.

 

Tu próprio ouviste essa declaração?

 

Sim, na verdade ouvi. Eles fizeram a declaração primeiro em Améria, segundo ouvi dizer, mas fizeram o mesmo aqui, uma vez que as cidades têm famílias em comum. Ficámos chocados, evidentemente, mas as guerras deixaram tantas amarguras, tantas perdas, que eu não posso dizer que alguém tenha derramado alguma lágrima pelo velho.

 

Mas, se o que tu dizes é verdade, então o jovem Sexto Róscio foi deserdado.

 

Suponho que sim. Há algum tempo que o não vemos por aqui. As últimas coscuvilhices dizem que ele está em Roma, em casa da patrona do seu velhote. Bem, é óbvio que a história tem outros meandros.

 

É óbvio que sim. Mas então quem é que comprou as propriedades do velhote?

 

Treze quintas, é o que dizem que ele tinha. Bem, o velho Cápeto deve ter sido o primeiro da fila, porque ficou com três das melhores, incluindo a antiga casa de família. Dizem que ele expulsou o próprio Sexto jovem, que o empurrou pela porta fora. Mas agora a propriedade é dele, sem dúvida nenhuma; licitou-a em leilão em Roma.

 

E as outras quintas?

 

Foram todas compradas em Roma, pelo mesmo tipo rico; não me lembro de ter alguma vez ouvido o seu nome. O mais provável é que nunca tenha posto os pés em Améria, é outro proprietário ausente que anda a comprar propriedades no campo. Tal como o teu empregador, certamente. É esse o teu problema, cidadão, a inveja? Bem, essa é uma ameixa que já foi colhida. Se andas à procura de terras boas em Améria, terás de procurar mais.

 

Olhei para o exterior, através da porta aberta. Do local onde eu a prendera, a cauda de Vespa lançava uma sombra estranha e alongada, que atravessava nervosamente o solo poeirento da entrada. As sombras alongavam-se; o dia estava a morrer rapidamente, e eu não tinha feito planos para a noite. Tirei algumas moedas da bolsa e coloquei-as sobre a mesa. O meu anfitrião juntou-as e desapareceu através de uma porta estreita, situada na parte de trás da loja, voltando-se de lado para poder passar por ela.

 

O velho voltou a cabeça ao ouvir o sussurro do movimento.

 

Ganancioso murmurou. Vai a correr meter todas as moedas que consegue na sua caixinha. Tem de manter um registo de contas hora a hora, não consegue esperar que a taberna feche. Sempre foi um porco gordo e ganancioso. Sai à mãe, e não a mim, basta olhar para nós.

 

Dirigi-me silenciosamente para a porta, mas não o fiz com suficiente descrição. O velho pôs-se de pé e dirigiu-se para a entrada. Parecia estar a olhar para mim através das membranas leitosas de clara de ovo que lhe cobriam os olhos.

 

Tu, disse ele, estrangeiro. Não vieste comprar terras. Vieste investigar este assassínio, não foi?

 

Tentei dar ao rosto a expressão de uma máscara, mas depois percebi que não valia a pena.

 

Não disse eu.

 

De que lado estás tu? De Sexto Róscio ou dos homens que o acusam?

 

Já te disse, velho...

 

É um mistério, como pode um velho ser proscrito pelo Estado e depois o seu próprio filho ser acusado do crime. E não é estranho que tenha sido o miserável do velho Cápeto a lucrar? E ainda mais estranho que Cápeto seja o primeiro homem de Améria a ser informado do assassínio, e que a mensagem seja transmitida a meio da noite por Gláucia que apenas podia ter sido enviado por um homem, aquele malvado Magno. Como é que Magno foi informado do incidente com tanta rapidez, e por que mandou um mensageiro, e como é que ele possuía o punhal ensanguentado? É claro para ti, não é? Pelo menos é o que tu pensas.

 

”O meu filho diz que o jovem Sexto está inocente, mas o meu filho é louco, e tu serias louco se o ouvisses. Diz ele que ouve tudo o que se diz neste compartimento, mas não ouve nada; está sempre muito ocupado a falar. Eu sou o único que ouve. Desde há dez anos, desde que perdi a vista, que aprendi a ouvir. Antes disso, nunca ouvia nada pensava que ouvia, mas estava surdo, tal como tu, tal como todos os homens que vêem estão surdos. Não te passam pela cabeça as coisas que eu oiço. Oiço todas as palavras que são pronunciadas neste compartimento. Oiço as palavras que os homens murmuram para si próprios, não se apercebendo sequer de que os seus lábios se movem, ou de que estão a respirar.

 

Toquei-lhe no ombro, pensando em afastá-lo suavemente, mas ele permaneceu firme, como uma vara de ferro.

 

Sexto Róscio, o velho e o novo, conheço-os ambos há anos. E deixa-me dizer-te, por muito impossível que isso possa parecer, e o que quer que as provas te digam, que o filho esteve por trás do assassínio do pai. O ódio que eles tinham um pelo outro! Tudo começou quando Róscio se casou pela segunda vez e teve um filho dessa segunda mulher, Gaio, o filho que ele estragava com mimos até que o rapaz morreu. Lembro-me do dia em que ele trouxe o filho a esta taberna, e apresentou aquela coisinha loira a todos os homens que estavam na sala, porque os homens se sentem sempre orgulhosos dos seus novos filhos, e entretanto o jovem Sexto ficou à porta, esquecido, ignorado, soprando como um sapo de ódio. Nessa altura, eu ainda via. Não me lembro como é uma flor, mas continuo a ver o rosto daquele jovem e o olhar de puro assassínio que ele tinha nos olhos.

 

Pensei ouvir o meu anfitrião regressar, e olhei por cima do ombro.

 

Olha para mim! guinchou o velho. Não penses que eu não sei que desviaste os olhos sei pelo som da tua respiração. Olha para mim quando falo contigo! E ouve a verdade: o filho odiava o pai, e o pai odiava o filho. Eu senti o ódio crescer e inflamar-se nesta mesma sala, ano após ano. Ouvi as palavras que nunca foram pronunciadas palavras de ira, de ressentimento, de vingança. E não podemos censurar nenhum deles, especialmente o pai ter tido um filho como aquele, um fracasso e um desapontamento como aquele. Era um porquinho ganancioso, foi nisso que ele se tornou. Ganancioso, gordo e desrespeitoso. Imagina o sofrimento, a amargura! Será estranho que o meu neto nunca nos venha visitar, e que não fale com o pai? Dizem que Júpiter exige que os filhos obedeçam aos pais, e os pais aos seus próprios pais, mas que tipo de ordem pode haver num mundo em que os homens cegam ou engordam como porcos? O mundo é uma ruína, está perdido, não tem redenção. O mundo é escuro...

 

Eu recuei, aterrado. No momento seguinte, o taberneiro gordo empurrou-me para o lado, agarrou no velho pelos ombros e afastou-o da porta. Eu saí e olhei para trás. Os olhos leitosos do velho estavam fixados em mim. Ele continuava a balbuciar. O filho desviou o rosto.

 

Soltei Vespa, montei-a, e atravessei o que restava da cidade de Nárnia e a ponte o mais rapidamente que pude.

 

Vespa parecia tão ansiosa como eu como partir da aldeia de Nárnia. Não se queixou quando a conduzi obstinadamente para a parte final do percurso do dia. Ao chegarmos a um cruzamento à saída da aldeia, para norte, mostrou relutância em parar.

 

Havia no cruzamento uma tina pública. Obriguei-a a beber calmamente, forçando-a com as rédeas a regressar sempre que bebia alguns golos. Por cima da tina, havia um sinal tosco, uma caveira de cabra montada num pau. Na testa branqueada, alguém pintara uma seta apontando para a esquerda e a palavra AMÉRIA. Passei da ampla Via Flamínia para a estrada lateral para Améria, um caminho estreito que serpenteava pela borda de uma crista inclinada.

 

Iniciámos a subida. Vespa começou finalmente a dar sinais de cansaço e os solavancos que eu próprio sentia nas costas faziam-me ranger os dentes. Inclinei-me para diante, dando-lhe palmadinhas no pescoço. Pelo menos, o calor do dia começara a dissipar-se, e a crista da serra projectava sobre nós uma sombra refrescante.

 

Junto ao cume, encontrei um grupo de escravos, que se amontoavam à volta de um carro de bois, ajudando a empurrá-lo pela crista. O veículo balançou e oscilou, chegando finalmente ao topo. Os escravos enconstaram-se uns aos outros, uns sorrindo com alívio, outros demasiadamente cansados para terem qualquer expressão. Eu passei pelo condutor e acenei.

 

Costumas fazer esta viagem muitas vezes? perguntei-lhe. O rapaz teve um sobressalto quando me ouviu, mas depois sorriu.

 

Só quando há alguma coisa para levar ao mercado de Nárnia. A parte perigosa do caminho é a descida da colina.

 

Imagino.

 

O ano passado perdemos um escravo. Estava a ajudar a travar o carro e caiu por baixo da roda. Do outro lado, na descida para Améria, é muito menos inclinado.

 

Mas também é a descer. A minha égua vai gostar disso.

 

É um belo animal. Olhou para Vespa com a admiração de um rapaz do campo.

 

Quer dizer disse eu, vens de Améria?

 

De perto. Mesmo à saída da cidade, no sopé da colina.

 

Talvez possas dizer-me onde é a casa de Sexto Róscio.

 

Posso. Mas Sexto Róscio já não vive nessa casa.

 

Estás a falar do velho?

 

Oh, aquele que foi assassinado? Se é desse que estás à procura, podes encontrar o que resta dele no cemitério da família. Que eu saiba, ele nunca viveu em Améria, pelo menos desde que eu nasci.

 

Não, não estou à procura do velho, mas do filho.

 

Ele vivia ao pé da casa do pai, se estás a falar daquele que tem duas filhas.

 

Sim, tem uma filha mais ou menos da tua idade; uma rapariga muito bonita.

 

O rapaz riu-se.

 

Muito bonita. E muito amigável. Ergueu as sobrancelhas, num esforço para parecer mundano. A imagem do corpo nu de Róscia atravessou-me o espírito. Vi-a encostada à parede, encolhida de satisfação, com Tiro de joelhos diante dela. Talvez Tiro não tivesse sido o primeiro.

 

Diz-me como posso encontrar a casa disse eu. Ele encolheu os ombros.

 

Posso dizer-te onde é mas, como já te disse, ele já não vive lá. Levaram Sexto Róscio.

 

Quando?

 

Há cerca de dois meses.

 

E porquê?

 

Foram os tribunais, enviados por Roma. O pai tinha sido proscrito. Sabes o que significa isso?

 

Bem de mais.

 

Ele atravessou o pescoço com um dedo.

 

E depois tiram-te as terras e o dinheiro. A família fica sem nada. Houve um leilão em Roma. O meu pai disse que não se importava de ter licitado algumas das terras, especialmente as parcelas ao lado das nossas. Mas disse que não valia a pena. Os leilões são sempre manobrados. É preciso ser-se amigo de um amigo de Sula, ou então saber exactamente quem se deve subornar.

 

Já era a segunda vez que me contavam a história da proscrição. Não fazia sentido mas, se era verdade, certamente que seria simples provar que Sexto Róscio estava inocente da morte do seu pai.

 

Diz-me então, quem vive lá agora?

 

O Velho Cápeto. Comprou a casa de família e algumas das melhores terras. O meu pai cuspiu no chão quando soube que ele ia ser nosso vizinho. Ao longo de todo o Inverno, Cápeto permitiu a Sexto e à sua família ficarem lá. As pessoas acharam que era o mínimo, que Cápeto devia ter pena deles. Mas depois expulsou-os de vez.

 

E ninguém os acolheu? Com certeza que Sexto Róscio teria amigos que lhe deviam favores.

 

Ficarias surpreendido com a rapidez com que um homem pode perder os amigos quando está com problemas em Roma; é o que diz o meu pai. Além disso, Róscio foi sempre um solitário; não posso dizer que ele tivesse muitos amigos. Suponho que o meu pai era o que ele tinha de mais parecido com um amigo, uma vez que éramos vizinhos e tudo. Depois de Cápeto o ter expulsado, passou algumas noites debaixo do nosso tecto. Ele, a mulher e as filhas. A voz do rapaz baixou de tom, e eu percebi, pela expressão dos seus olhos, que ele estava a pensar em Róscia. Mas não ficou muito tempo em Améria. Partiu para Roma. Dizem que o velho tinha uma patrona poderosa, e que Sexto ia pedir-lhe ajuda.

 

Continuámos por um momento em silêncio. As rodas do carro de bois rangiam e estalavam contra a estrada cheia de buracos. Os escravos trotavam ao lado dele.

 

Contaste-me que o velho tinha sido proscrito disse eu.

 

Sim.

 

E, quando isso foi anunciado, alguém protestou?

 

Oh, sim. Foi enviada uma delegação a Sula e tudo. Mas, se queres realmente saber mais coisas sobre isso, o melhor será perguntares ao meu pai.

 

Como se chama o teu pai?

 

Tito Mégaro. Eu chamo-me Lúcio Mégaro.

 

E eu chamo-me Gordiano. Sim, gostaria muito de falar com o teu pai. Diz-me, como achas que ele reagiria se lhe levasses um estrangeiro que acabas de conhecer para o jantar?

 

O rapaz mostrou-se subitamente prudente.

 

Acho que depende.

 

De quê?

 

Pela forma como falas, deves ter algum interesse em Cápeto

 

e nas suas terras.

 

Tenho.

 

E de que lado estás tu?

 

Estou do lado de Sexto e contra Cápeto.

 

Então julgo que o meu pai terá todo o prazer em te ver.

 

Óptimo. A que distância fica a tua casa?

 

Estás a ver aquela coluna de fumo à direita, por cima daquelas árvores? É ali.

 

É muito perto. E onde é a casa de Cápeto?

 

Um pouco mais adiante, do outro lado da estrada principal, para a esquerda. Poderás avistar o telhado por um momento quando deres esta curva.

 

Muito bem. Faz-me um favor. Quando chegares a casa, diz ao teu pai que veio um homem de Roma que gostaria de falar com ele esta noite. Diz-lhe que sou um amigo de Sexto Róscio. Gostaria de esperar até amanhã de manhã mas não tenho tempo. Se ele pudesse convidar-me para a sua mesa, eu ficaria muito agradecido. Se pudesse dormir sob o vosso tecto, ficaria duplamente agradecido; um lugar no celeiro seria o suficiente. Ele sentir-se-ia insultado se eu lhe oferecesse dinheiro?

 

Provavelmente.

 

Então não o farei. E aqui nos separamos durante algum tempo. Enquanto passávamos a curva, avistei, através das árvores e com o auxílio da luz do Sol, que estava a diminuir, um telhado distante de telhas vermelhas.

 

Onde vais?

 

Vou fazer uma curta visita ao vosso vizinho. Provavelmente será inútil, mas quero pelo menos ver o sítio, e talvez também o homem. Acenei ao rapaz, e depois aliciei Vespa para um trote regular.

 

A casa em que o jovem Sexto Róscio tinha nascido e tinha sido criado, e que tinha governado na ausência do seu pai, era um exemplo imponente do ideal de villa rural, uma mansão grandiosa de dois andares, com um telhado vermelho de argila, rodeado por um rústico conjunto de barracas e de celeiros. À luz que morria, ouvi o ruído das campainhas das vacas e os balidos das ovelhas, à medida que os rebanhos iam sendo guiados para casa. Os trabalhadores regressavam pesadamente dos campos, passando pelas videiras; uma longa fila de foices parecia flutuar acima de um mar de folhas e de gavinhas. As lâminas afiadas captavam os últimos raios do sol poente e emitiam um brilho quente da cor do sangue.

 

A casa principal estava a ser sujeita a uma grande renovação. Um entrelaçado de passadiços e de redes obscurecia a fachada, e estavam a ser construídas alas simétricas de cada um dos seus lados. As novas alas permaneciam vazias e abertas, num estado de semiacabamento. Espreitando pelo esqueleto da ala esquerda, avistei por trás da casa os começos de um jardim tradicional, onde um homem de cabeça vermelha que mais parecia um galo de combate se movia impacientemente por entre aterros e latadas, gritando ordens a um grupo de escravos. Os escravos inclinavam-se sobre as pás e passavam os dedos sobre os seus cabos, tendo nas caras manchadas de pó a expressão humilhada e entediada de homens a quem se grita há muito tempo.

 

O senhor continuava a arengar, sem dar sinais de querer parar. Andava para diante e para trás, acenando com os braços e estrangulando punhados de ar. Era um homem à beira da velhice, com o cabelo branco e as costas inclinadas. Eu apenas obtinha vislumbres do seu rosto, à medida que ele ia andando de um lado para o outro. A sua pele estava gasta, picada e cheia de cicatrizes. O nariz, as faces e o queixo pareciam misturados e indistintos. Só os olhos se salientavam do conjunto, brilhando à luz que morria como as lâminas das foices distantes.

 

Desmontei e segurei as rédeas de Vespa, enquanto batia à porta. O escravo alto e magro que veio abrir a porta olhou humildemente para os meus pés e disse-me, com um murmúrio tímido, que o seu senhor estava ocupado no exterior da casa.

 

Eu sei disse eu. Vi-o organizar uma revista de tropas lá fora. Mas não é com o teu senhor que eu quero falar.

 

Não? Receio que a minha senhora também não esteja disponível. O escravo ergueu os olhos, mas não o suficiente para poder olhar-me de frente.

 

Diz-me uma coisa, há quanto tempo és escravo de Cápeto? Ele franziu o sobrolho, como se estivesse a avaliar se a questão seria perigosa.

 

Há pouco tempo.

 

Queres dizer, desde que a propriedade mudou de mãos? Por outras palavras, foste vendido juntamente com a casa.

 

Exactamente. Mas, por favor, talvez eu deva dizer ao meu senhor...

 

Não, diz-me o seguinte: havia dois escravos que serviam o pai do teu antigo senhor em Roma, Félix e Cresto. Conhece-los?

 

Sim. Ele acenou de forma hesitante e parece ter começado a achar os meus pés profundamente fascinantes.

 

Estavam com ele em Roma quando o velho foi morto. Onde estão eles agora?

 

Estão...

 

Sim?

 

Estiveram algum tempo nesta casa. Serviram o meu antigo senhor, Sexto Róscio, enquanto ele se encontrava aqui, como convidado do meu novo senhor, Cápeto.

 

E depois de Sexto Róscio se ter ido embora? Levou os escravos com ele?

 

Oh, não. Eles permaneceram aqui durante algum tempo.

 

E depois?

 

Julgo não tenho a certeza, naturalmente.

 

Depois? Fala.

 

Talvez devesses falar com o meu senhor, Cápeto.

 

Não me parece que o teu senhor quisesse falar comigo, pelo menos durante muito tempo. Como te chamas?

 

Cáron. Ele teve um pequeno sobressalto e estendeu as orelhas, como se tivesse ouvido qualquer coisa dentro de casa, mas o som vinha do exterior. No calmo lusco-fusco, distingui claramente a arenga de Cápeto, na parte de trás da casa, a que se juntou uma grosseira voz feminina. Parecia estarem a gritar um com o outro diante dos escravos.

 

Diz-me uma coisa, Cáron. Sexto Róscio era melhor senhor do que Cápeto?

 

Ele pareceu pouco à-vontade, como um homem que tivesse a bexiga cheia. Acenou com a cabeça de forma quase imperceptível.

 

Então talvez queiras ajudar-me se eu te disser que sou amigo de Sexto Róscio. O melhor amigo que ele ainda tem no mundo. Preciso muito de saber isto: onde estão Félix e Cresto?

 

A sua expressão tornou-se mais dorida, a tal ponto que eu pensei que ele me ia dizer que estavam mortos. Em vez disso, lançou um olhar por cima do meu ombro, e depois novamente para os meus pés.

 

Em Roma disse ele. O meu senhor vendeu-o ao seu parceiro da cidade, aquele outro que veio apoderar-se de toda a riqueza de Sexto Róscio.

 

Estás a falar de Magno.

 

Não, do outro. Ele baixou a voz. O louro. Félix e Cresto estão em Roma, em casa de um homem chamado Crisógono.

 

Crisógono, uma palavra grega que significava ”louro de nascença”. Por um instante, o nome flutuou sem forma no meu espírito e depois, de repente, pareceu explodir-me aos ouvidos como um trovão. No meu espírito, a palavra transformou-se numa chave, que este escravo colocara na minha mão sem grande vontade, uma chave dourada e brilhante que poderia revelar o mistério do assassínio de Sexto Róscio.

 

Ainda ouvia Cápeto a arengar no jardim e a mulher a gritar com ele.

 

Não digas nada ao teu senhor sibilei ao escravo. Compreendes? Nada. Virei-me para o poste e montei Vespa. Pensando que tinha finalmente chegado ao seu destino, ela resfolegou, mostrando-se rebelde, e abanou a cabeça; mas consegui fazê-la avançar. Cavalguei olhando por cima do ombro, tendo o cuidado de não ser visto por Cápeto. Ninguém podia saber que eu tinha estado ali; ninguém podia saber onde eu dormiria. Crisógono, pensei eu, abanando o cabeça perante a magnitude da novidade. Estremeci perante o perigo. Claro que ele sempre estivera diante de mim, mas só agora eu me apercebia da sua presença.

 

Cheguei à estrada principal e virei para o desvio que me conduziria a casa de Tito Mégaro. Por cima das árvores, à luz que se escoava, avistei uma coluna de fumo que se erguia até ao céu, e que era uma promessa de conforto e de repouso. Subi uma pequena inclinação e, abruptamente, vi aproximarem-se dois cavaleiros, vindos da Via Flamínia. As suas montadas avançavam lentamente, tão cansadas como Vespa. Os homens parecia estarem quase a dormitar como se estivessem cansados de uma longa cavalgada e depois olharam para cima, um após outro, e eu consegui ver-lhes os rostos.

 

Eram ambos homens grandes, de ombros largos, traziam vestidas túnicas leves de Verão, que lhes deixavam à vista os braços musculosos. Ambos estavam barbeados. O homem da direita tinha um cabelo preto desgrenhado, olhos salientes e uma boca de expressão cruel, e segurava as rédeas na mão esquerda. O seu amigo tinha um cabelo loiro pouco tratado e uma expressão de bruto, feio e pouco inteligente; era tão grande, que o seu cavalo parecia um pónei sobrecarregado e, numa das faces, tinha três crostas vermelhas, pequenas e paralelas, marcas inconfundíveis das garras de um gato.

 

O meu coração bateu com tanta força, que eu tive a certeza de que eles o tinham ouvido. Olharam-me friamente quando passei por eles. Consegui fazer-lhes um aceno, e um ligeiro cumprimento. Eles nada disseram e voltaram os olhos para a estrada. Eu apressei o passo de Vespa e, passado um momento, atrevi-me a olhar por cima do ombro. No topo da pequena elevação, vi-os entrarem no desvio que conduzia a casa de Cápeto.

 

O de cabelo preto disse o meu anfitrião, sim, esse deve ser Magno. Sim, coxeia da perna esquerda, há anos que coxeia; ninguém sabe exactamente porquê. Ele conta histórias diferentes. Umas vezes, diz que foi uma prostituta louca que lhe fez aquilo em Roma, outras vezes pretende que foi um marido ciumento, ou ainda um gladiador num tumulto de embriaguez. Afirma sempre que matou quem lho fez, e é provável que isso seja verdade.

 

E o outro, o grande e louro?

 

Málio Gláucia, sem dúvida. O ex-escravo de Magno, e seu actual homem de mão. Actualmente, Magno passa muito tempo em Roma, enquanto o seu primo Cápeto está ocupado a remodelar a villa de Róscio; Gláucia anda de um lado para o outro, como um cão que vai buscar um osso.

 

O mundo era escuro e estava cheio de estrelas. O luar brincava por cima das colinas baixas e onduladas, transformando-as em prata. Eu estava sentado com Tito Mégaro em cima do telhado da sua casa, cuja orientação nos permitia ter uma ampla visão para sul e para oeste. No horizonte, erguia-se uma linha de colinas altas, que marcavam a extremidade do vale; algures para lá delas corria o Tibre. Ali perto, algumas luzes esparsas e telhados iluminados pelo luar marcavam a cidade adormecida de Améria e, à esquerda, obscurecido pelas árvores que se encontravam de permeio, eu apenas conseguia avistar o andar de cima, não maior do que a unha de um polegar, da casa onde Cápeto, Magno e Málio Gláucia se tinham reunido para passar a noite. Havia uma única janela iluminada, emitindo uma pálida luz ocre.

 

Tito Mégaro não era um homem mundano, mas era um excelente anfitrião. Ele próprio veio ao meu encontro à porta de casa e ordenou imediatamente que arranjassem lugar para Vespa nos seus estábulos. Recusou-se a conversar sobre coisas controversas durante o jantar, dizendo que isso provocava indigestão. Em vez disso, ao longo da refeição, cada um dos seus cinco filhos foi cantando alternadamente. A comida era abundante e fresca; o vinho era excelente. Lentamente, fui-me descontraindo e perdendo o medo, até que dei por mim semireclinado num canapé, no jardim do telhado de sua casa. Lá em baixo, no peristilo aberto, estavam reunidas as mulheres e as crianças da casa. Uma das filhas de Tito cantava, enquanto outra tocava lira. O som subia até nós, baixo e doce, no quente ar da noite, com um vago eco, como se viesse de dentro de um poço. A convite do pai, o rapaz, Lúcio, veio sentar-se junto de nós, ouvindo-nos mas sem falar.

 

Eu estava tão cansado e tão dorido, que quase não conseguia mexer-me, e sentia-me tão confortável, que não tinha vontade de o fazer. Estava deitado no canapé, com um copo de vinho branco numa das mãos, lutando contra o sono, olhando para a paz profunda do vale e pensando nos segredos criminosos que nele se ocultavam.

 

Foi esse Málio Gláucia que foi a minha casa a noite passada disse eu, em companhia de outro assassino. Tenho a certeza disso as marcas das garras não deixam qualquer dúvida. Foi o mesmo homem que viajou toda a noite como um demónio para vir transmitir a Cápeto a notícia do assassínio de Sexto Róscio. Certamente que foi o mesmo senhor que o enviou a fazer ambos os recados.

 

Gláucia nada faz sem que Magno lho ordene; ele é como aqueles fantoches de sombra que são usados nos carnavais.

 

Tito olhou para o alto, para as estrelas. Eu fechei os olhos e imaginei Betesda ao meu lado, no canapé, mais quente do que a brisa da noite, mais suave do que as nuvens pálidas e translúcidas que deslizavam diante da Lua de cera. Ouviu-se uma gargalhada feminina, vinda do peristilo, e eu pensei com que naturalidade ela se adaptaria às maneiras simples do campo.

 

Tito deu um golo no seu vinho.

 

Então, Sexto foi acusado do assassínio do velho. Isso é uma novidade para mim; suponho que devia ir com mais frequência à taberna de Nárnia, trocar coscuvilhices. E tu vieste farejar as novidades. Boa sorte. Vais precisar dela. Ele abanou a cabeça e inclinou-se para diante, espreitando as luzes provenientes da villa do seu vizinho.

 

Cápeto e Magno querem-no arrumado para sempre. Não descansarão enquanto o homem não morrer.

 

Eu lancei um olhar à villa de Cápeto, e depois olhei para o alto, para as estrelas. Só pensava em dormir. Mas quem poderia garantir-me que o meu anfitrião teria tanta vontade de falar na manhã seguinte?

 

Diz-me uma coisa, Tito Mégaro... Entre o vinho e o cansaço, a voz falhou-me.

 

Que queres que te diga, Gordiano de Roma? O seu discurso era indistinto. Ele parecia um homem tão naturalmente sóbrio, tão moderado em todas as outras coisas, que eu pensei que devia ser o tipo de pessoa que só bebia vinho quando recebia convidados.

 

Diz-me tudo. Tudo o que sabes acerca da morte do velho Sexto Róscio, e da sua contenda com Cápeto e com Magno, e de tudo o que daí resultou.

 

Foi um escândalo indecente lançou ele. Toda a gente sabe que há qualquer coisa esquisita em tudo aquilo, mas ninguém faz nada. Eu tentei, mas não consegui.

 

Começa pelo princípio. Por essa contenda entre o falecido Sexto Róscio e os seus primos Magno e Cápeto até onde remonta ela?

 

Foi uma contenda que eles herdaram à nascença. Eles tinham todos o mesmo avô; o pai de Sexto era o mais velho dos três filhos, Cápeto e Magno eram filhos dos filhos mais novos. Quando o avô morreu, virtualmente toda a propriedade passou para o filho mais velho para o pai de Sexto Róscio. Bem, sabes como as coisas são, por vezes há uma combinação graciosa com o resto da família, mas outras vezes há um corte radical. Quem pode conhecer todos os pormenores? Tudo o que eu sei é que isso passou para os primos da segunda geração, com Cápeto e Magno sempre contra o velho Sexto, sempre a tentarem arranjar maneira de conseguir obter uma parte maior da fortuna da família. Fosse como fosse, conseguiram. Ainda há em Améria umas almas crédulas que pensam que eles foram simplesmente abençoados pela Fortuna. Quem quer que tivesse a cabeça em cima dos ombros perceberia que eles tinham as mãos cobertas de sangue, embora tivessem tido a inteligência de o limpar.

 

Muito bem; o pai do velho Sexto Róscio herda as propriedades da família, ficando os restantes com pequenos legados. O velho Sexto é o seu principal herdeiro presumo que fosse o filho mais velho?

 

Era o único rapaz; os Róscios não são reprodutores prolíficos.

 

Muito bem, o Sexto mais velho é o herdeiro, para grande tristeza dos seus destituídos primos, Cápeto e Magno. Até que ponto ficaram eles empobrecidos?

 

O pai de Cápeto ficou com uma das quintas junto do Nar, que lhe dava um rendimento modesto. Foi Magno quem ficou em pior situação. O seu pai perdeu a única quinta que tinha herdado, e acabou por se suicidar. Foi por isso que Magno partiu para a cidade, para aí ganhar a vida.

 

Homens amargos. E, se Magno foi para Roma aprender o que era a vida, o assassínio é uma lição fácil de aprender. Agora, corrige-me se a minha memória me atraiçoar: o velho Sexto casa-se duas vezes. A primeira união produz Sexto filius. A mulher morre, e Sexto pater volta a casar-se. Nasce um segundo filho, Gaio, e a jovem e amada esposa morre durante o parto. O jovem Sexto fica a gerir as quintas, enquanto o seu pai e Gaio partem para Roma. Porém, há três anos, na véspera do triunfo de Sula, o jovem Sexto convoca o seu pai e o seu irmão para Améria e, enquanto ambos aqui estão, Gaio morre em consequência de qualquer coisa que comeu. Diz-me, Tito, o que disse os intriguístas de Améria acerca disso?

 

Ele encolheu os ombros e bebeu mais um pouco de vinho.

 

Gaio não era muito conhecido por cá, embora toda a gente concorde que ele era certamente um belo jovem. Por mim, achava-o demasiadamente airoso e culto; suponho que foi o que o pai lhe ensinou, com tutores e jantares elegantes. Não era culpa do rapaz.

 

Mas a sua morte foi aceite como uma morte acidental?

 

Nunca se colocou qualquer questão.

 

Supõe que não foi um acidente. Poderiam Cápeto e Magno ter alguma coisa a ver com isso?

 

Parece-me arriscado. O que teriam eles a ganhar, excepto magoar o pai? Se quisessem matar alguém, por que não o velho, ou toda a família? Não há dúvida de que Cápeto é um homem violento. Esfaqueou e espancou mais do que um escravo até à morte e dizem que, em Roma, lançou um estranho de cima de uma ponte para o Tibre, só porque o homem não quis afastar-se para o deixar passar, e depois lançou-se atrás dele, para ter a certeza de que se afogaria. Presumo que ele e Magno poderiam ter morto Gaio por simples crueldade, mas não me parece provável.

 

Nem a mim. Trata-se apenas de um pormenor acidental. Talvez fosse o vinho a aquecer-me o sangue, ou a brisa fresca que nos vinha do campo; subitamente, senti-me totalmente desperto e alerta. Olhei para a luz que provinha da casa de Cápeto. Ela vacilava nas ondas de ar quente que se erguiam no ar e parecia devolver-me o olhar com uma expressão sinistra. Regressemos então a Setembro passado. Sexto Róscio é assassinado em Roma. Há testemunhas que viram o principal assassino, um homem forte vestido de preto, que coxeava da perna esquerda.

 

Magno, sem qualquer dúvida!

 

Ele parece conhecer a sua vítima. Além disso, é canhoto e bastante forte.

 

Magno, repito.

 

O assassino vai acompanhado de outros dois bandidos. Um deles é um gigante louro.

 

Málio Gláucia.

 

Sim. O outro quem sabe? O comerciante diz que ele tinha barba. A viúva Polia seria capaz de os identificar a todos, mas ninguém conseguiria convencê-la a testemunhar. Fosse como fosse, é Gláucia que para aqui se dirige na manhã seguinte muito cedo, a fim de comunicar a novidade a Cápeto, trazendo consigo uma faca ensanguentada.

 

O quê? Esse pormenor nunca tinha ouvido.

 

Foi o taberneiro de Nárnia que mo contou.

 

Ah, aquele cujo pai é cego? São ambos completamente tolos. Sangue fraco.

 

Talvez sim, talvez não. Disse-me o taberneiro que Gláucia transmitiu imediatamente a novidade a Cápeto. Quem comunicou a Sexto Róscio a morte do seu pai? Eu olhei para ele e ergui as sobrancelhas.

 

Tito acenou com a cabeça.

 

Sim, fui eu. Tinha ouvido a notícia ao princípio da manhã, no poço comum de Améria. Quando nessa tarde vi Sexto, estava certo de que ele já sabia. Mas, quando lhe dei os sentimentos, a expressão do seu rosto bem, foi uma expressão estranha. Eu não lhe chamaria uma expressão de dor; deves saber que não havia grande amor entre eles. Temor, foi o que eu vi nos seus olhos.

 

E surpresa? Choque?

 

Não propriamente. Confusão e medo.

 

Bom. No dia seguinte, chega um mensageiro mais oficial, enviado de Roma, da casa do velho.

 

Tito acenou.

 

E, no dia a seguir, chegaram os restos mortais do velho. Os Róscios são enterrados numa pequena colina por trás da villa; quando o céu está limpo, podem ver-se as esteias daqui. Sexto enterrou o pai ao oitavo dia, tendo iniciado em seguida os sete dias de luto. Mas não chegou a terminá-los.

 

Porquê?

 

Porque foi durante esse período que chegaram os soldados. Devem ter vindo de Volaterras, no Norte, onde Sula fazia uma campanha contra os últimos vestígios marianos na Etrúria. Seja como for, os soldados chegaram e fizeram uma declaração pública na praça da cidade, anunciando que o velho Sexto Róscio tinha sido declarado inimigo do Estado e que a sua morte, em Roma, fora uma execução legal por ordem do nosso amado Sula. Todos os seus bens estavam confiscados e seriam leiloados terras, casas, jóias, escravos. A data e o local foram anunciados, era algures em Roma.

 

E como reagiu o jovem Sexto?

 

Ninguém sabe. Recolheu-se na sua villa, recusando-se a deixar a casa e a receber quem quer que fosse. Talvez isto seja pouco próprio para uma pessoa enlutada, mas Sexto estava a ponto de perder tudo. As pessoas começavam a dizer que talvez fosse verdade que o seu pai tinha sido proscrito. Quem sabe o que teria feito o velho em Roma? Talvez fosse um espião mariano, talvez se tivesse descoberto que fazia parte de uma conspiração para assassinar Sula.

 

Mas as proscrições terminaram legalmente no princípio de Junho. Róscio foi assassinado em Setembro.

 

Tito encolheu os ombros.

 

Falas como um advogado. Se Sula queria matar o homem, por que não havia isso de ser legal, a partir do momento em que o ditador o declarasse?

 

O leilão suscitou muito interesse?

 

Toda a gente sabe que eles são combinados. Para quê incomodarmo-nos? Algum amigo de Sula acabaria por pagar uma insignificância por tudo aquilo, e quem quer que se metesse a licitar seria escoltado para fora da sala. Acredita-me, todos ficámos surpreendidos quando Magno e um grupo de bandidos de Roma apareceram diante da porta de Sexto com uma espécie de decreto oficial, ordenando-lhe que entregasse todas as suas propriedades e que as vagasse imediatamente.

 

Então ele foi posto de lado com toda essa facilidade?

 

Ninguém viu o que realmente aconteceu, excepto os escravos, evidentemente. As pessoas adoram enfeitar as histórias. Alguns dizem que Magno o encontrou a queimar mirra diante da campa do pai, lhe arrancou o incensário das mãos e o expulsou do santuário à ponta da espada. Outros dizem que arrancou as roupas a Sexto e o perseguiu até à estrada, lançando os cães atrás dele. Eu nunca ouvi nenhuma das histórias da boca de Sexto; ele recusava-se a falar sobre isso, e eu não quis insistir, para não fazer aumentar a sua vergonha.

 

Em qualquer caso, Sexto e a sua família passaram uma noite em casa de um amigo comerciante de Améria e, na manhã seguinte, Cápeto transferiu-se para a villa. Podes imaginar as reacções que essa atitude provocou. Nem toda a gente ficou desagradada; Sexto tem os seus inimigos e Cápeto tem amigos no vale. Sexto foi falar directamente com Cápeto; uma vez mais, não havia lá ninguém para testemunhar o encontro. Por fim, Cápeto autorizou Sexto a regressar à propriedade, deixando-o ficar numa pequena casa situada num canto da quinta, onde eles costumavam alojar os trabalhadores sazonais nas épocas de colheita.

 

E foi tudo?

 

Não propriamente. Eu convoquei uma reunião do conselho da cidade de Améria, e disse aos seus membros que tínhamos de fazer qualquer coisa. Foi necessária uma considerável dose de persuasão, acredita-me, para conseguir que alguns daqueles tipos tomassem uma decisão. E, entretanto, Cápeto olhava para mim por cima da mesa.

 

Oh, sim, Cápeto tem assento no nosso estimado conselho da cidade. Finalmente, ficou decidido que protestaríamos contra a proscrição de Sexto Róscio, para tentar lavar o seu nome e fazer com que a sua propriedade fosse devolvida ao filho. Cápeto concordou com tudo. Sula continuava acampado em Volaterras; foi-lhe enviada uma delegação de dez homens para defender a causa eu próprio, Cápeto e mais oito.

 

E o que disse Sula?

 

Não chegámos a vê-lo. Primeiro, mandaram-nos esperar. Cinco dias depois, continuávamos à espera, como se fôssemos bárbaros que estivéssemos ali para pedir favores, e não cidadãos romanos que queriam fazer uma petição ao Estado. Toda a gente estava impaciente e resmungava; teriam largado tudo aquilo e regressado imediatamente a casa, se eu não os tivesse envergonhado e obrigado a esperar. Finalmente, foi-nos permitido ver, não Sula, mas um representante de Sula, um Egípcio chamado Crisógono. Já ouviste falar dele? perguntou-me Tito, reparando na expressão que me atravessou o rosto.

 

Oh sim. Segundo dizem, é um jovem cheio de encanto natural e de grande beleza, e com inteligência e ambição suficientes para retirar deles a maior vantagem. Começou por ser escravo da casa de Sula, onde cuidava do jardim. Mas Sula tem olho para a beleza, e não gosta de a ver desperdiçada em trabalhos de escravo. Crisógono transformou-se no favorito do velho. Isto aconteceu há alguns anos, na altura em que a primeira mulher de Sula ainda era viva. Sula acabou por se fartar do corpo do escravo e recompensou-o dando-lhe liberdade, riqueza e um lugar de importância no seu séquito.

 

Tito torceu o nariz.

 

Perguntava a mim mesmo qual seria a história. Aquilo que nos disseram foi que Crisógono era um homem poderoso que tinha acesso a Sula. Eu disse-lhes que queríamos ver o ditador em pessoa, mas todos os secretários e ajudantes abanaram a cabeça, como se eu fosse uma criança, dizendo que seria preferível conquistarmos primeiro a simpatia deste Crisógono, que depois apresentaria o caso a Sula em nosso nome.

 

E foi isso que ele fez?

 

Tito olhou para mim pesarosamente.

 

As coisas passaram-se assim: acabámos por conseguir a nossa audiência, e fomos levados à presença de sua Loireza, onde permanecemos de pé, enquanto ele se mantinha sentado a olhar para o céu, como se alguém lhe tivesse dado com um martelo na testa. Finalmente, condescendeu em piscar os seus olhos azuis e conceder-nos um olhar fugidio. E depois sorriu. Juro-te que nunca vi um sorriso como aquele; era como se o próprio Apolo tivesse descido à terra. Havia naquele sorriso qualquer coisa de distante, mas que não era frio. Era mais como se ele tivesse pena de nós e se sentisse triste por nossa causa, mais ou menos como imaginamos um deus entristecido ao olhar para simples mortais.

 

”Ele acenava com a cabeça. Fixava em nós os seus olhos azuis e nós tínhamos a sensação de que um ser superior estava a fazer-nos um enorme favor pelo simples facto de reconhecer a nossa existência. Ouviu a nossa petição e depois todos os homens falaram, excepto Cápeto, que se mantinha lá atrás, rígido e silencioso como uma pedra. Em seguida, Crisógono pôs-se de pé, lançou os ombros para trás, afastou da testa uma madeixa de cabelo loiro e levou um dedo aos lábios, como se estivesse a meditar profundamente; e era quase embaraçoso ser um mero e sujo mortal que teve a ousadia de partilhar a sala com um espécime tão perfeito de humanidade.

 

”Ele disse-nos que nós éramos excelentes romanos por termos tido todo aquele trabalho em busca da justiça. Disse que ocorrências como aquela que tínhamos descrito eram muito, muito raras mas que houvera realmente, lamentavelmente, alguns casos de homens falsamente proscritos. Na primeira oportunidade que tivesse, apresentaria a nossa petição directamente ao grande Sula. Entretanto, devíamos ser pacientes; certamente que percebíamos que o ditador da República tinha mil preocupações que reclamavam a sua atenção de todos os lados, não sendo a menor delas o esforço final para erradicar todos os vestígios da conspiração mariana das colinas etruscas onde ela ulcerava. Dez cabeças balancearam-se para cima e para baixo como rolhas numa onda, e a minha foi uma delas. E lembro-me de ter pensado, embora tenha vergonha de o dizer neste momento, que me senti satisfeito por não nos ter sido permitido falar com Sula, pois se estar na presença deste representante seu era tão assustador, que tolos teríamos parecido perante o grande homem em pessoa?

 

”Mas depois aclarei a garganta e, não sei bem como, arranjei coragem para dizer que, se não podíamos falar com Sula, pelo menos insistíamos em obter uma resposta clara, fosse ela qual fosse, antes de regressarmos a Améria. Crisógono voltou os seus olhos azuis na minha direcção e ergueu muito ligeiramente as sobrancelhas, como alguém que olha para um escravo que teve a impertinência de interromper uma conversa com uma ninharia que lhe parecia importante. Finalmente, acenou e disse: ”claro, claro”, e depois assegurou-nos de que, quando regressasse a Roma, ele próprio pegaria no estilete e retiraria o nome de Sexto Róscio das listas de proscrição com o seu próprio punho, e teria o cuidado de fazer com que as propriedades do morto fossem reconstituídas e a escritura devolvida ao seu filho. Teríamos de ser pacientes, claro, porque em Roma as rodas da justiça movem-se lentamente, mas nunca contra a vontade do povo.

 

”Depois olhou directamente para Cápeto, pois estava informado de que ele tinha comprado pelo menos uma parte das propriedades confiscadas, e perguntou-lhe se ele estava de acordo com esta justiça, ainda que à sua custa. E Cápeto acenou com a cabeça e sorriu, inocente como uma criança, e declarou que apenas tinha no coração o espírito da lei romana e que, se se pudesse provar que o seu falecido primo não tinha, na realidade, sido inimigo do Estado e do bem-amado Sula, ele teria todo o gosto em devolver a sua parte das propriedades ao herdeiro legítimo, não lhe cobrando sequer pelos melhoramentos que tinha feito. Nessa noite, comemorámos com vinho e com um cordeiro assado na taberna que frequentávamos em Volaterras, dormimos bem, e na manhã seguinte regressámos a Améria e cada um foi para sua casa.

 

E o que aconteceu depois disso?

 

Nada. Sula e o seu exército terminaram o que estavam a fazer em Volaterras e regressaram a Roma.

 

Nunca mais tiveram notícias de Crisógono?

 

Nunca mais. Tito encolheu os ombros com um ar culposo. Sabes como é, acabamos por deixar estas coisas morrer eu sou agricultor, não sou político. Acabei por escrever uma carta em Dezembro e outra em Fevereiro, mas não recebi resposta. Talvez tivéssemos feito qualquer coisa se Sexto Róscio tivesse insistido nisso, mas ele mantinha-se mais isolado do que nunca. Ele e a família não saíam daquela casinha, dentro da propriedade, e ninguém ouvia falar deles, como se fossem prisioneiros, ou como se Cápeto tivesse feito deles seus escravos. Bem, se um homem não se defende, não pode esperar que os vizinhos se arrastem aos seus pés.

 

Quanto tempo durou isso?

 

Até Abril. Nessa altura, deve ter acontecido qualquer coisa entre Cápeto e Sexto. A meio da noite, Sexto apareceu-me à porta com a mulher e as duas filhas. Vinham num vulgar carro de bois, transportando os seus bens nos braços, sem trazerem sequer um escravo a guiar o carro. Ele pediu-me que o acolhesse naquela noite, e claro que eu disse que sim. Ficaram cá durante quatro ou cinco noites, já não me lembro...

 

Três disse uma voz suave. Era o rapaz, Lúcio, de cuja presença eu me tinha quase esquecido. Ele estava sentado no chão, a um canto, com os joelhos encostados ao peito. Sorria de forma vaga, como tinha sorrido à menção da filha de Róscio quando eu o conhecera, no dia anterior.

 

Muito bem, três dias disse Tito. Suponho que me pareceu que tinha sido mais tempo. Sexto Róscio trouxe consigo a sua melancolia. A minha mulher estava sempre a queixar-se de que ele nos traria má sorte. E, evidentemente, aquela jovem Róscia... começou, baixando a voz. A filha mais velha. Não é exactamente o ideal, como influência moral, numa casa onde há rapazes novos. Lançou um olhar a Lúcio, que contemplava a Lua com uma convincente imitação de surdez.

 

Depois partiu para Roma, dizendo-me que o pai tinha tido uma patrona que poderia ter alguma influência junto de Sula. Não fez qualquer menção a um julgamento por assassínio. Presumi que tivesse ficado suficientemente desesperado para ir ele próprio apresentar uma petição a esse Crisógono.

 

”Calculo que não ficarás surpreendido se te disser que o próprio Crisógono beneficiou com a divisão das propriedades de Sexto Róscio.

 

Bem, isso é mesmo um negócio sujo. E como é que tu sabes isso:

 

Foi um escravo chamado Cáron que me disse esta tarde. É ele que atende à porta na villa de Cápeto.

 

Então estavam os três combinados desde o princípio Cápeto, Magno e Crisógono.

 

Assim parece. Quem senão Crisógono poderia ter introduzido ilegalmente Sexto pater nas listas de proscritos, já fechadas? Quem queria que o velho morresse, para além de Cápeto e de Magno?

 

Bem, sendo assim já solucionaste o teu caso. Foram esses três que conspiraram para assassinar o velho Sexto Róscio, acrescentando-o à lista de proscritos, e depois comprando as suas terras, uma vez confiscadas pelo Estado. E qualquer pessoa de fora que tentasse esclarecer o assunto deparava com Crisógono, que é o mesmo que bater com o nariz numa porta. É um negócio ainda mais sujo do que eu pensava. Mas acusar Sexto Róscio do assassínio do seu pai eles foram demasiadamente longe, mesmo tendo em conta que se trata de um amigo íntimo de Sula. É absurdo, é inconcebivelmente cruel!

 

Olhei para a Lua, que já se mostrava gorda e branca; dentro de seis dias, nos Idos, seria lua cheia, e Sexto Róscio seria confrontado com o seu destino. Voltei preguiçosamente a cabeça e espreitei através das pálpebras pesadas para a janela amarela que brilhava na villa de Cápeto. Por que razão estaria ainda acordado? Certamente que Magno e Gláucia estariam tão cansados como eu da cavalgada do dia. O que estariam eles a conspirar?

 

Apesar de tudo disse eu, deixando as palavras perderem-se num bocejo, apesar de tudo, ainda há uma peça que falta ao quebra-cabeças. Algo que impede que tudo isso faça sentido. Algo ainda mais sujo do que tu pensas...

 

Olhei para a janela amarela. Fechei os olhos por um instante, e só voltei a abri-los muitas horas depois.

 

Despertei pestanejando e percebi que me encontrava num quarto escuro e abafado. Tinha a boca seca, mas sentia-me espantosamente refrescado. Tivera um sono sem sonhos. Estava deitado de costas e, durante um longo momento, senti-me satisfeito por ficar simplesmente quieto e sentir o fluxo da vida nos braços, nas pernas, nos dedos dos pés e das mãos. Depois agitei-me e percebi que teria de pagar um preço terrível por ter cavalgado tão longamente no dia anterior. Consegui sentar-me e balançar as pernas doridas até ao chão. Fiquei uma vez mais espantado com a frescura que sentia, considerando que acordava enquanto o mundo ainda se encontrava às escuras, até que detectei um estranho tremeluzir na extremidade do pano pendurado diante da janela, semelhante a um brilho de aço branco, alumiado por coisa nenhuma no meio da escuridão. Obriguei-me a levantar do divã e cambaleei rigidamente até à janela. Empurrei a cortina para o lado e fui atingido por uma luz quente que cegava.

 

No mesmo instante, a porta do quartinho abriu-se rangendo, e Lúcio meteu a cabeça do lado de dentro.

 

Finalmente disse ele, usando o tom exasperado com que as crianças imitam os seus pais. Já tentei acordar-te duas vezes, mas não consegui sequer fazer-te resmungar. Toda a gente está acordada há que tempos.

 

Que horas são?

 

Meio-dia. Foi por isso que vim ver se já estavas acordado, porque acabo de regressar da cidade, e observei o relógio de sol no jardim, e perguntei a mim próprio se seria possível que assim estivesses a dormir.

 

Eu olhei em volta.

 

Mas como é que eu vim para aqui? E quem me despiu? Inclinei-me, a gemer, para pegar na minha túnica, que escorregara do braço de uma cadeira para o chão.

 

O pai e eu transportámos-te do telhado para aqui a noite passada. Não te lembras? Parecias um saco de tijolos, e não conseguimos evitar que ressonasses.

 

Eu nunca ressono. Era Betesda quem mo tinha dito. Teria ela mentido para me lisonjear?

 

Lúcio riu-se.

 

Toda a casa te ouviu! A minha irmã Tércia até fez uma brincadeira com isso. Dizia ela...

 

Deixa lá. Comecei a fazer deslizar a túnica sobre a cabeça. A coisa torceu-se e enleou-se, como se tivesse vida própria. Tinha os braços tão rígidos como as pernas.

 

De qualquer maneira, o pai disse que devíamos despir-te, porque tinhas as roupas muito suadas e sujas da viagem. Mandou a velha Naia lavá-las antes de ir para a cama ontem à noite. Está tanto calor, que elas já estão secas.

 

Acabei por conseguir tapar-me, sem grande graciosidade. Voltei a olhar pela janela. Nem uma brisa agitava os topos das árvores. Viam-se escravos ocupados nos campos, mas o pátio estava vazio, à excepção de uma rapariguinha que brincava com um gatito. A luz reflectida pelas pedras do pavimento cegava.

 

É impossível. Nunca conseguirei regressar a Roma hoje.

 

E ainda bem. Era Tito Mégaro, que espreitava por trás do seu filho com uma expressão sombria. Olhei esta manhã para aquela égua em que vieste ontem da cidade. Estás habituado a montar um cavalo até ele cair?

 

Não estou assim muito habituado a andar a cavalo.

 

Isso não me surpreende. Nenhum cavaleiro a sério teria esgotado um excelente animal daquela maneira. Não estavas realmente a pensar em regressar com ela hoje.

 

Estava sim.

 

Não posso permitir-to.

 

Então como é que eu regresso?

 

Levas um dos meus cavalos.

 

O dono de Vespa não vai gostar.

 

Já pensei nisso. A noite passada, disseste-me que o julgamento de Sexto Róscio está marcado para os Idos.

 

Sim.

 

Nesse caso, eu irei à cidade na véspera e levarei Vespa comigo. Eu próprio a devolverei aos estábulos da Via Subura e, se isso ajudar, descobrirei o caminho até casa desse advogado, Cícero, e contar-lhe-ei aquilo que sei. Se ele quiser convocar-me como testemunho do julgamento bem, suponho que estou disposto a dar a cara, mesmo que o próprio Sula esteja presente. E olha, antes que eu me esqueça, toma isto. Ele retirou de dentro da túnica um pergaminho enrolado.

 

O que é isto?

 

É a petição que o conselho da cidade de Améria apresentou a Sula na realidade, a Crisógono, protestando contra a proscrição de Sexto Róscio. Trata-se da cópia que o conselho guardou. O original deve encontrar-se algures no Fórum, mas este género de documentos tende a desaparecer quando pode embaraçar alguém, não é? Mas esta cópia é válida; tem os nomes de todos nós, mesmo o de Cápeto. Não está a fazer nada aqui em casa. Talvez Cícero possa utilizá-la.

 

”Entretanto, empresto-te um dos meus cavalos. Não estará à altura da tua beleza branca em força, mas apenas precisarás de puxar por ele metade do que puxaste por ela. Um primo meu que tem uma quinta a meio caminho de Roma. Podes ficar em casa dele esta noite e partir para Roma amanhã. Ele deve-me alguns favores, por isso não te inibas de comer à sua mesa. Ou, se tiveres pressa em regressar a Roma, podes tentar convencê-lo a trocar um dos seus cavalos pelo meu, e continuar a cavalgar como um louco até chegares à cidade.

 

Eu franzi a testa, depois aquiesci com um aceno de cabeça. O olhar sombrio abrandou. Tito era evidentemente um pai romano, habituado a dar sermões e a impor a sua vontade a todos os membros da sua casa. Cumprido o seu dever para com Vespa, sorriu e desarranjou os cabelos do filho.

 

E agora, vai lavar a cara e as mãos junto ao poço, e depois junta-te a nós para irmos comer. Embora os habitantes da cidade possam ter acabado de se levantar, alguns de nós estamos de pé desde o cantar do galo, e o nosso apetite foi aumentando.

 

A família reuniu-se à sombra de uma enorme figueira, para comer a refeição do meio-dia. Tito Mégaro tinha outro filho, para além de Lúcio, um miúdo, bem como três filhas, todas com o mesmo nome de família, e outro, que marcava a sua posição na família, ao tradicional estilo romano: Megara Majora, Megara Minora, Megara Tércia. Embora eu não tivesse conseguido distinguir os residentes dos visitantes, participavam ainda na refeição desse dia dois cunhados, um deles casado e com filhos pequenos, duas avós e um avô. As crianças corriam de um lado para o outro, as mulheres estavam sentadas na relva, os homens sentados em cadeiras, e duas escravas andavam pelo meio de todos, para se assegurarem de que ninguém passava fome.

 

A mulher de Tito estava encostada ao tronco de uma árvore, amamentando um bebé; a sua filha mais velha estava sentada perto dela e arrulhava uma canção de embalar, que parecia seguir o som coleante do pequeno rio que sussurrava ali ao pé. Na casa de Tito Mégaro, a música estava sempre presente.

 

Tito apresentou-me ao seu pai e aos seus cunhados, que parecia já estarem informados da minha visita. Juntos, escarneciam de Cápeto e de Magno e do seu homem de mão, Gláucia, depois esqueceram o assunto com acenos de cabeça e os lábios franzidos, como que para me dizer que eu podia confiar na sua descrição. A conversa transferiu-se rapidamente para as colheitas e para o tempo, e Tito aproximou a sua cadeira da minha.

 

Se estavas a pensar rever Cápeto e companhia antes de partires, vais ficar desapontado.

 

Porquê?

 

Esta manhã, Lúcio foi à cidade fazer um recado e, no regresso, cruzou-se pelos três na estrada. Magno murmurou qualquer coisa vagamente insultuosa, por isso Lúcio perguntou-lhes, educadamente, onde iam. Cápeto respondeu-lhe que iam a caminho de uma das suas recentes propriedades junto ao Tibre, para caçar. O que significa, evidentemente, que não poderão regressar antes do pôr do Sol, se é que regressam hoje.

 

O que faz com que, em casa, esteja apenas a mulher de Cápeto.

 

Ah, mas há uma coscuvilhice. Enquanto estava na cidade, Lúcio ouviu dizer que eles tinham tido uma discussão horrível ontem, e que a velha saiu intempestivamente de casa ao cair da noite, para se ir instalar em casa da filha, em Nárnia. Ou seja, não há ninguém a tomar conta da propriedade neste momento, excepto um velho e grisalho intendente que Cápeto herdou de Sexto Róscio. Dizem que o homem passa o dia a beber vinho e odeia o seu novo senhor. Só te digo isto no caso de teres ainda alguma coisa por resolver em casa de Cápeto. Com o dono da casa, a sua mulher e os seus amigos todos ausentes, talvez isso seja um inconveniente para ti. Ou talvez não.

 

Voltou-se para o resto do grupo, exibindo o sorriso subtil de um conspirador satisfeito consigo próprio.

 

De facto, saí de casa de Tito Mégaro sem qualquer intenção de voltar a parar em casa de Cápeto. Já sabia o que tinha vindo investigar a Améria; até levava no bolso uma petição que Tito e outros cidadãos tinham apresentado a Crisógono, protestando contra a proscrição de Sexto Róscio. Ao partir, não me incomodei a olhar para trás, para a serenidade do vale ameriano. Enquanto conduzia a minha montada indistinta colina acima, os meus pensamentos estavam concentrados em Roma, em Betesda e em Cícero e em Tiro; nas pessoas que viviam na rua da Casa dos Cisnes. Estremeci ao lembrar-me da viúva Polia, e depois sorri, recordando a prostituta Electra; e, abruptamente, voltei a minha montada e dirigi-me novamente para casa de Cápeto.

 

O escravo Cáron não ficou satisfeito por me ver. Reconheceu-me com um olhar queixoso, como se eu fosse um demónio especialmente enviado para o atormentar.

 

Por que estás tão macambúzio? disse eu, passando por ele e entrando no vestíbulo. As paredes tinham sido recentemente pintadas de cor-de-rosa. O chão ladrilhado, num xadrez preto e branco, estava obscurecido por acumulações de serradura, e toda a sala ecoava os ruídos anormais de uma casa que está a ser remodelada. Deves estar mais ou menos de férias, uma vez que tanto o teu senhor como a tua senhora estão fora.

 

Ele torceu o rosto, como se estivesse a ponto de dizer uma mentira, mas depois pensou melhor.

 

O que pretendes?

 

O que havia aqui? perguntei eu, aproximando-me de um nicho onde se encontrava uma péssima cópia de um busto grego de Alexandre. Era absurdamente pretensioso, e não era certamente o género de coisa que o jovem e ruralizado Sexto Róscio tivesse em sua casa; seria antes algo que seria provável encontrar em casa de um salteador de estradas que pilha as villas de ricos de mau gosto.

 

Um jarro com flores disse Cáron, olhando tristemente para a estátua, com a sua expressão insípida e o cabelo desalinhado, mais parecida com uma Medusa do que com um Alexandre. Nos dias que antecederam a troca, a minha senhora tinha um jarro de prata nesse nicho, com flores frescas do jardim. Por vezes, na Primavera, as raparigas traziam flores campestres das colinas...

 

O intendente já está embriagado? Ele olhou para mim, desconfiado.

 

Analeu quase nunca está sóbrio.

 

Então talvez eu deva perguntar: está indisposto?

 

Se queres perguntar se ele estará inconsciente, provavelmente sim. Há uma casa pequena na extremidade da propriedade, para onde ele gosta de se escapulir quando pode.

 

A casa onde Sexto e a sua família ficaram alojados depois de Cápeto os ter expulsado?

 

Cáron olhou para mim sombriamente.

 

Exactamente. Vi Analeu dirigir-se para lá esta manhã, depois de o senhor ter saído, levando consigo a nova escrava das cozinhas. Isso e uma garrafa de vinho devem mantê-lo ocupado o dia todo.

 

Óptimo, nesse caso não seremos incomodados. Passei ao compartimento seguinte. Era onde eles faziam a sala de estar. Viam-se ainda por arrumar os restos de uma festa que tinha tido lugar na noite anterior, o tipo de festa que três homens grosseiros organizariam na ausência das suas mulheres. Uma escrava jovem e tímida estava ocupada a tentar limpar a porcaria, passando de desastre em desastre com uma expressão de total incapacidade. Não olhou directamente para mim. Cáron bateu as palmas, mandando-a sair da sala.

 

Instalado de forma proeminente numa das paredes, encontrava-se um enorme retrato de família, feito em encáustico sobre madeira. Reconheci Cápeto do olhar que lhe tinha lançado no dia anterior: era um homem de cabelo branco de aspecto irascível. A sua mulher era uma matrona sombria, de nariz grande. Estavam rodeados por diversos filhos adultos e pelas respectivas mulheres. Toda a família parecia estar a olhar para o artista como se começasse a desconfiar de que ele ia aumentar o preço.

 

- Detesto-os - murmurou Cáron. Olhei para ele surpreendido. Ele mantinha os olhos fixos no quadro. - Todos eles, são corruptos até à medula. Olha para eles, enfatuados e satisfeitos consigo próprios. Este retrato foi a primeira coisa que fizeram depois de se mudarem para esta casa, mandaram vir um artista de Roma. Estavam ansiosos por captar para a posteridade aquela expressão de satisfação maldosa e de triunfo que têm no rosto. - Parecia incapaz de continuar a falar; os seus lábios tremiam como se ele estivesse nauseado de repugnância. - Como posso contar-te o que vi nesta casa desde que eles para aqui vieram? A mesquinhez, a vulgaridade, a crueldade deliberada? Sexto Róscio podia não ser o melhor dos senhores e a senhora podia ter momentos de fúria, mas nunca me esbofetearam. E, se Sexto Róscio era um pai horrível para as suas filhas, o que tinha eu a ver com isso?...

 

 

                                                                                CONTINUA  

 

 

                      

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