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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


TEMPO DE MATAR / John Grisham
TEMPO DE MATAR / John Grisham

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

TEMPO DE MATAR

Primeira Parte 

 

Uma vez que tenho tendência para iniciar projectos que nunca chegam ao fim, o meu objectivo ao começar a escrever este livro foi terminá-lo. Eu imaginava uma pilha de páginas dactilografadas num canto do meu escritório, para a qual, um dia, poderia apontar com certo orgulho e dizer a clientes e amigos, ali está o livro que escrevi. Certamente, em qualquer sítio, no mais profundo da minha mente, sonhei vê-lo publicado, mas, para ser franco, não me lembro disso, pelo menos não quando comecei a escrever. Seria a minha primeira tentativa no gênero da ficção. Comecei no Outono de 1984, três anos depois de me formar em Direito e muito inexperiente ainda.

Naqueles primeiros anos da minha carreira eu passava muitas horas nos tribunais, a observar o trabalho de bons advogados. O ambiente do tribunal sempre me fascinou - ainda hoje me fascina. Nos tribunais, as pessoas falam de coisas que jamais ousariam mencionar fora de casa. Os grandes dramas não ocorrem nas ecrãs ou nos palcos, mas nos inúmeros tribunais deste país.

Certo dia assisti a um julgamento terrível no qual uma menina testemunhava contra o homem que a havia violentado brutalmente. Foi uma experiência avassaladora para mim e eu era apenas um espectador. Num momento, ela era toda coragem, no outro, dolorosamente frágil. Fiquei estupefacto. Não podia sequer imaginar o pesadelo pelo qual a menina e a família tinham passado. Pensei no que faria se fosse minha filha. Enquanto eu a via sofrer em frente do júri, tive vontade de matar o violador. Por um breve, mas interminável momento, desejei ser seu pai. Eu queria justiça. Havia uma história em tudo aquilo.

Fiquei obcecado com a ideia de vingança do pai. Que faria um júri de cidadãos comuns com um pai que tivesse feito justiça por suas próprias mãos? Naturalmente vê-lo-iam com muita simpatia, mas o suficiente para uma absolvição?

A ideia deste livro ganhou corpo num período de mais de três meses, durante os quais quase não pensei noutra coisa. Escrevi o primeiro capítulo à mão num bloco vulgar e pedi a Renée, minha mulher, que o lesse. Ela ficou impressionada e disse que gostaria de ler o segundo capítulo. Um mês depois, entreguei-lhe os capítulos dois e três e ela ficou completamente encantada. Renée lê cinco ou seis livros por semana - mistério, suspense, terror, espionagem, todo o tipo de ficção - e não tem paciência para uma história que não funciona como deveria.

Encarei o trabalho como um passatempo, uma hora aqui, uma hora ali, e impondo-me vagamente a disciplina de pelo menos uma página por dia, nunca o abandonei. Lembro-me de um período de quatro semanas em que nada foi escrito. Ocasionalmente, saltava um dia, mas de um modo geral prosseguia com teimosa diligência. Na minha opinião, a história era maravilhosa, mas tinha dúvidas quanto à minha capacidade em escrevê-la. Renée gostou e eu continuei. Ao cabo de um ano, admirei-me da rapidez com que a pilha de páginas aumentava e percebi que tinha chegado ao meio do livro. O objectivo original foi esquecido e surpreendi-me a pensar em contratos de publicação, royalties, almoços elegantes com agentes e editores - os sonhos de todo o escritor não-publicado.

Três anos depois de ter começado a escrever, Renée leu o último capítulo e mandámo-los para Nova York. O título provisório era Deathknell, uma péssima ideia que foi abandonada assim que o manuscrito aterrou no escritório do meu novo agente, Jay Garon.

Jay tinha lido os três primeiros capítulos e imediatamente me enviou um contrato de representação. Dezasseis outros agentes tinham recusado, bem como uma dezena de editores. Jay aceitou o manuscrito e disse-me que começasse a escrever outro livro.

Segui o conselho dele. Passou um ano e nada aconteceu. Eu estava a meio do meu segundo livro, A firma, quando Jay telefonou, em Abril de 1988, com a notícia maravilhosa de que o meu livro ia ser publicado. Bill Thompson, da Wynwood Press, lera os originais e comprara-os imediatamente. Sob a sua orientação, fiz diversas revisões e encontrei um novo título, Tempo de matar. Acho que foi o sexto ou sétimo que escolhi. Não sou bom em títulos. Wynwood imprimiu 5 mil exemplares e publicou o livro em Junho de 1989. Vendeu-se bem num raio de 200 quilómetros da minha cidade, mas foi ignorado pelo resto do mundo. Não houve negociação para a publicação em livro de bolso, nem requisição de direitos no exterior. Mas era um primeiro livro e o primeiro livro geralmente é ignorado. Coisas melhores estão para vir.

Terminei A firma em 1989 e mandei-a Jay. A Doubleday/Dell comprou-o e quando foi publicado em capa dura, em Março de 1991, a minha carreira de escritor deu uma guinada espectacular. O sucesso de A firma despertou novo interesse por Tempo de matar.

Trata-se de um livro bastante autobiográfico. Eu deixei de fazer advocacia, mas durante dez anos exerci-a muito à maneira de Jake Brigance. Representava indivíduos, e não instituições financeiras, companhias de seguros ou grandes firmas. Eu era um advogado das ruas. Jake e eu temos a mesma idade. A minha posição era a de defesa nos tempos de colégio, embora eu não jogasse muito bem. Muitas das coisas que ele faz e diz são exactamente o que eu acho que faria e diria nas mesmas circunstâncias. Nós dois temos automóveis da mesma marca. Ambos sentimos a pressão insuportável do tribunal criminal, uma coisa que procuro captar no livro. Ambos perdemos o sono por causa de clientes e vomitamos nas casa-de-banho do tribunal. Este livro saiu do coração. É um primeiro livro e às vezes perde-se em digressões, mas eu não mudaria uma palavra, se me pedissem.

Oxford, Mississippi 30 de Janeiro, 1992

 

 

Billy Ray Cobb era o mais jovem e mais baixo dos dois homens brancos. Com vinte e três anos era veterano de Parchman, a penitenciária estadual, tendo cumprido uma pena de três anos.

Posse, com intenção de venda. Era um vagabundo magro e rijo que tinha sobrevivido à prisão graças a um bom stock de drogas que ele vendia e às vezes dava aos negros e aos guardas, em troca de protecção. No ano seguinte à sua saída da cadeia, Billy Ray Cobb prosperou e o seu pequeno negócio de tráfico de drogas elevou-o à posição de um dos mais ricos caciques brancos de Ford County. Era um homem de negócios com empregados, obrigações, contratos e tudo, menos impostos. Na revendedora Ford de Clanton, ele era conhecido como o último homem na história recente a pagar em dinheiro vivo por uma pick-up. Dezasseis mil dólares na ficha por uma pick-up Ford de luxo, feita sob encomenda, tracção às quatro rodas, amarelo-canário. As rodas cromadas e os pneus faziam parte do acordo de compra. A bandeira rebelde, no vidro traseiro fora roubada por Cobb a um rapaz bêbedo durante uma partida de futebol em Ole Miss.

A pick-up era o objecto mais valioso de Billy Ray. Sentado na traseira da camionete, a beber cerveja e a fumar um charro, Billy observava o amigo Willard na sua vez de se divertir com a garotinha negra.

Willard era quatro anos mais velho e dez anos mais burro. De um modo geral era inofensivo, nunca se tinha metido em sarilhos sérios nem num emprego fixo. Talvez uma noite na cadeia por causa de uma briga ocasional, mas nada de importante.

Dizia-se lenhador, cortava madeira para a fábrica de papel até ao dia em que um problema na coluna o afastou das florestas. Sofrera um acidente quando trabalhava numa plataforma marítima, no Golfo, e recebera uma boa indemnização da companhia de petróleo. O dinheiro desapareceu quando a ex-mulher o deixou completamente liso. A principal ocupação dele era trabalhar a meio-tempo para Billy Ray Cobb, que não pagava muito mas era um bocado mãos largas nas drogas. Pela primeira vez em muitos anos, Willard podia ter sempre alguma coisa. E ele estava sempre a precisar delas. Isso desde o acidente que lhe tinha afectado a coluna.

A menina tinha dez anos e era baixa para a idade. Estava deitada sobre os cotovelos amarrados atrás das costas com uma corda amarela de nylon. Tinha as pernas grotescamente abertas, o pé direito amarrado a um pequeno carvalho e o outro à estaca tombada de uma velha cerca. A corda cortava-lhe os tornozelos e o sangue escorria-lhe pelas pernas abaixo. O rosto estava ensanguentado e inchado, com um dos olhos fechado, com o outro via o homem branco sentado na camionete. Não olhava para o homem em cima dela. Ele arquejava, suava e praguejava e estava a magoá-la.

Quando terminou, ele esbofeteou a menina e riu, o outro homem riu também. Depois, às gargalhadas, os dois rolaram na erva ao lado do carro como dois loucos, gritando e rindo. Ela virou o rosto e chorou em silêncio. Eles tinham-na espancado anteriormente porque ela gritava e chorava. Tinham dito que a matavam se não ficasse quieta.

Cansados de rir, os homens saltaram para a parte de trás aberta da pick-up e Willard limpou-se com a t-shirt da menina negra, agora encharcada de sangue e de suor. Cobb estendeu-lhe uma lata de cerveja gelada, da caixa de isopor, e fez um comentário qualquer àcerca da humidade do tempo. Observaram a menina que, depois de emitir alguns sons estranhos e baixos ficou imóvel. A lata de cerveja de Cobb estava quase vazia e quente, e ele atirou-a, acertando no estômago da criança. A espuma branca espalhou-se por todo o lado e a lata rolou para o chão, ao lado de outras latas vazias saídas da mesma caixa de isopor. Já tinham atirado duas dúzias de latas de cerveja ao mesmo alvo, rindo de cada vez que lhe acertavam. Willard não tinha boa pontaria, mas Cobb tinha. Não costumavam atirar cerveja fora, mas as latas mais pesadas acertavam com maior precisão e era divertido ver a espuma a subir e a espalhar-se.

A cerveja quente misturada com o sangue escuro escorria pelo rosto e pelo pescoço da menina, formando uma poça debaixo da cabeça dela. Ela não se mexeu.

Willard perguntou a Cobb se achava que ela estava morta.

Abrindo outra lata, Cobb explicou que não estava porque, normalmente, não era possível matar um crioulo com pontapés, pancadas ou estupro. Era preciso muito mais para se acabar com eles, uma faca, um revólver ou uma corda. Embora nunca tivesse tomado parte nesse tipo de assassinato, na prisão havia muitos negros e Cobb sabia tudo àcerca deles. Passavam a vida a matar-se uns aos outros e usavam sempre uma arma. Os que eram só espancados e violentados nunca morriam. Alguns brancos, espancados e violentados, morriam. Mas não os negros. As cabeças deles eram mais duras. Willard ficou satisfeito com a explicação.

Willard perguntou-lhe o que pretendia fazer, agora que já tinham acabado de se divertir com ela. Cobb deu uma passa no charro, bebeu um gole de cerveja e disse que não tinha terminado ainda. Saltou do carro e cambaleou para a pequena clareira onde a menina estava amarrada. Gritou e praguejou a fim de a acordar, depois atirou-lhe cerveja gelada à cara, rindo como um louco.

Ela viu-o dar a volta à árvore à sua direita e depois olhar para o meio das suas pernas abertas. Quando Cobb baixou as calças, ela virou o rosto para a esquerda e fechou os olhos. Ele estava a magoá-la de novo.

A menina olhou para as árvores e viu o vulto de um homem a correr desesperadamente por entre as trepadeiras e o mato alto. Era o pai, aos gritos, a apontar e a correr para a salvar. A menina .  gritou por ele e ele desapareceu. Ela voltou a adormecer.

Quando acordou, um dos homens estava deitado debaixo da carroceria e o outro debaixo de uma árvore. Os dois dormiam. Os braços e pernas dela estavam dormentes. O sangue, a cerveja e a urina misturados com a terra formavam uma pasta pegajosa que se lhe colava ao corpo e estalava a cada pequeno movimento. Fugir, pensou ela, mas o esforço maior só lhe permitiu um pequeno movimento para a direita. Os pés amarrados estavam tão altos que as suas nádegas mal tocavam no chão. Os braços e as pernas dormentes não se moviam.

Procurou o pai entre as árvores e chamou-o baixinho. Esperou e tornou a adormecer. Quando acordou outra vez, eles estavam de pé, movendo-se ao lado do carro. O mais alto cambaleou para ela com um canivete na mão. Segurou no tornozelo esquerdo da menina e serrou furiosamente a corda. Depois, soltou a perna direita e ela enrolou-se na posição fetal, de costas para eles.

Cobb passou o pedaço de corda de nylon por um galho de árvore e fez um nó corredio na ponta. Segurou na menina, passou o laço pela cabeça dela e caminhou para o outro lado da clareira, com a outra ponta da corda na mão. Sentou-se na porta da camionete, onde Willard fumava um charro e ria para Cobb, percebendo antecipadamente o que ele ia fazer. Cobb esticou a corda e deu um puxão forte. O corpo pequenino saltou no chão e foi arrastado para debaixo do ramo da árvore. Ela engasgou-se e tossiu, e ele gentilmente afrouxou um pouco a corda para a poupar durante mais alguns minutos. Amarrou a corda no pára-choques do carro e abriu mais uma cerveja.

Ficaram ambos sentados na porta da camionete, a beber, a fumar e a olhar para ela. Tinham passado quase o dia todo no lago, onde o amigo de Cobb tinha um barco e algumas raparigas supostamente fáceis, mas que na verdade eram intocáveis. Cobb fora generoso com as drogas e a cerveja, mas as raparigas não corresponderam. Frustrados, deixaram o lago e seguiram pela estrada, sem destino, até que avistaram a menina. Ela caminhava pela estrada de cascalho com um saco de compras, quando Willard lhe acertou na nuca com uma lata de cerveja.

- Vais fazer isso? - perguntou Willard, com os olhos vermelhos e vidrados.

Cobb hesitou.

- Não, deixo para ti. A ideia foi tua.

Willard deu uma passa no charro, cuspiu e disse:

- A ideia não foi minha. Tu é que és especialista em matar crioulos. Faz tu isso.

Cobb desamarrou a corda do pára-choques e esticou-a outra vez. Pedaços da casca do galho, arrancados pela corda de nylon, caíram sobre a menina, que agora os observava atentamente. Tossiu.

De repente, ela ouviu um ruído - como o de um carro com o tubo de escape aberto. Os dois homens voltaram-se rapidamente e olharam para a estrada alcatroada ao longe. A praguejar, agiram rapidamente, um fechando a porta de trás do carro, e o outro correndo para ela. Tropeçou e caiu perto da menina. Por entre uma troca de palavrões, agarraram nela, tiraram-lhe a corda do pescoço, a arrastaram-na até o carro e atiraram-na para dentro da parte de trás, aberta. Cobb esbofeteou-a, ameaçando matá-la se não ficasse deitada no fundo do carro e quieta. Disse-lhe que a levaria a casa se obedecesse, de contrário, matá-la-iam. Fecharam as portas e enfiaram rapidamente pela estrada de terra. Ela ia voltar para casa. Desmaiou.

Cobb e Willard acenaram para o Firebird de caixa aberta, quando se cruzaram com ele na estrada estreita de terra. Willard virou-se para trás a fim de verificar se a menina estava deitada. Cobb entrou na estrada de asfalto e seguiu em frente.

- E agora? - perguntou Willard, nervoso.

- Não sei - respondeu Cobb, também nervoso. - Mas temos de fazer alguma coisa depressa, antes que ela suje de sangue o carro todo. Olha para trás, há sangue por toda a parte.

Willard pensou um minuto, enquanto acabava de beber a cerveja.

- Vamos atirá-la de uma ponte - disse, orgulhoso.

- Grande ideia. É mesmo uma puta de uma bela ideia. - Cobb travou de repente. - Dá-me uma cerveja - ordenou. Willard saiu do carro e pegou nas cervejas na parte de trás. - Ela sujou de sangue até a caixa de isopor - informou ele, e o carro voltou a partir a toda a velocidade pela estrada.

Gwen Hailey teve um pressentimento horrível. Normalmente ela teria mandado um dos rapazes ao armazém, mas estavam de castigo, a tratar do jardim, por ordem do pai. Tonya já anteriormente tinha ido sozinha ao armazém - a dois quilómetros de casa - sem qualquer problema. Porém, ao fim de duas horas, Gwen mandou as crianças procurar a irmã. Pensaram que ela devia estar na casa dos Pounder, a brincar com as crianças, ou talvez se tivesse aventurado para além do armazém para visitar a sua melhor amiga, Bessie Pierson.

O Sr. Bates do armazém disse que ela tinha saído há uma hora. Jarvis, o irmão do meio, encontrou o saco com os mantimentos ao pé da estrada.

Gwen telefonou para o marido na fábrica de papel, a seguir meteu Carl Lee Jr. no carro e começou a percorrer as estradas de terra em volta do armazém. Foi até um conjunto de casas velhas no Sítio Graham, para ver se ela estaria em casa de uma das tias. Parou na loja Broadway a dois quilómetros do armazém e um grupo de negros velhos garantiu-lhe que não a tinham visto. Gwen percorreu uma vasta área de estradas de terra em volta da sua casa.

Cobb não conseguia encontrar uma ponte que não estivesse cheia de crioulos com canas de pesca. Em cada uma delas havia quatro ou cinco a pescar, com grandes chapéus de palha, e mais alguns debaixo da ponte, sentados em baldes, também com chapéus de palha e caniços de pesca, imóveis, a não ser por um ocasional movimento para espantar os mosquitos.

Estava assustado. Willard, completamente bêbedo, estava a dormir e não podia ajudar em nada. Cobb tinha de se desfazer da menina de modo a que ela nunca pudesse contar o que tinha acontecido. Willard roncava enquanto ele percorria freneticamente as estradas de terra e de asfalto à procura de uma ponte ou de uma rampa ao lado do rio, onde pudesse parar e atirá-la à água sem ser visto por uma dezena de crioulos com chapéus de palha. Olhou pelo retrovisor e viu que ela tentava ficar de pé. Travou bruscamente e a menina caiu no fundo do carro, bem por baixo da janela. Willard fez ricochete no painel e escorregou para o chão, onde continuou a roncar. Cobb insultou-os a ambos.

O lago Chatulla não passava de um enorme buraco lamacento feito pelo homem, com uma represa coberta de mato de um quilómetro e meio de extensão numa das suas extremidades. Ficava no extremo sudoeste de Ford County, e entrava ainda por alguns hectares de Van Buren County. Na Primavera, o lago era elevado à posição de maior massa de água do Mississippi. Mas no fim do Verão, terminadas as chuvas, o sol evaporava a água, secando quase por completo o lago. As linhas das margens, dantes ambiciosas, retraíam-se agora, juntando-se praticamente no centro, criando uma bacia profunda cheia de água castanho-avermelhada. Vários regatos, pântanos e riachos alimentavam-no, vindos de todas as direcções além de duas correntes que podiam ser consideradas como rios. A existência de todos esses afluentes era a causa da construção de várias pontes em volta do lago.

E era sobre essas pontes que a pick-up amarela voava, num esforço frenético para encontrar um lugar onde pudesse despejar a passageira indesejável. Cobb estava desesperado. Conhecia mais uma ponte, estreita e de madeira, sobre o Foggy Creek. Ao chegar lá, avistou mais crioulos e mais canas. Seguiu por outra estrada de terra e parou. Abriu a porta de trás da camionete, arrastou a menina para fora e atirou-a numa pequena ravina cercada de mato seco.

Carl Lee Hailey não se apressou em voltar para casa. Gwen assustava-se com facilidade e telefonava para a fábrica sempre que imaginava que uma das crianças fora raptada. Ele marcou o ponto à hora habitual e, como sempre, fez em trinta minutos o percurso da fábrica até casa. Ficou preocupado quando viu o carro da polícia parado na frente da varanda. Os carros da família de Gwen estavam espalhados na frente da casa e no jardim e estava lá um que ele não conhecia. Tinha canas de pesca a sair pelas janelas e pelo menos sete chapéus de palha lá dentro.

Onde estavam Tonya e os rapazes?

Quando abriu a porta, ouviu o choro de Gwen. À sua direita, na pequena sala de estar, viu um grupo de pessoas em volta de alguém deitado no sofá. A criança estava coberta com toalhas e rodeada pelos parentes que choravam. Quando Carl Lee chegou perto do sofá, o choro parou e todos recuaram. Só Gwen ficou, acariciando o cabelo da filha. Ele ajoelhou-se ao lado do sofá e tocou no ombro da menina. Falou com Tonya e ela tentou sorrir. O seu rosto era uma massa informe e sangrenta, cheia de.equimoses e de golpes. Os dois olhos estavam fechados e sangravam. Os olhos dele encheram-se de lágrimas ao olhar para o corpo pequenino enrolado em toalhas e a sangrar desde os tornozelos até à testa.

Carl Lee perguntou a Gwen o que tinha acontecido. Ela começou a tremer e a chorar alto e o irmão levou-a para a cozinha. Carl Lee levantou-se e perguntou aos parentes o que tinha acontecido. Silêncio.

Ele perguntou pela terceira vez. O polícia, Willie Hastings, primo de Gwen, adiantou-se e explicou-lhe que uns homens estavam a pescar no Foggy Creek e tinham avistado Tonya deitada no meio da estrada. Ela dissera o nome do pai e eles tinham-na trazido para casa. Hastings calou-se e baixou a cabeça.

Cari Lee olhou para ele e ficou à espera, enquanto todos na sala continham a respiração e olhavam para o chão.

- O que aconteceu, Willie? - gritou Carl Lee, a olhar para o polícia.

Hastings falou devagar e, a olhar pela janela, repetiu o que Tonya tinha contado à mãe àcerca dos dois homens brancos e da pick-up, da corda e das árvores e de como a tinham magoado quando a tinham violado. Parou de falar ao ouvir a sirene da ambulância.

Todos saíram cá para fora, para a varanda, e olharam gravemente para os homens que retiraram a maca da ambulância e se dirigiram até à casa.

Os paramédicos pararam no jardim quando a porta se abriu e Cari Lee apareceu com a filha nos braços. Sussurrava-lhe palavras carinhosas e as lágrimas caíam-lhe queixo abaixo. Foi até à ambulância e entrou. Os paramédicos fecharam a porta cuidadosamente e tiraram-na dos braços do pai.

 

Ozzie Walls era o único xerife negro em todo o Mississippi. Houve outros na história recente do estado, mas, nessa altura, era o único. Orgulhava-se muito do facto, uma vez que a população de Ford County era formada por setenta e quatro por cento de brancos e os outros xerifes negros tinham sido eleitos em cidades onde a população negra era muito maior. Desde a Restauração nenhum outro xerife negro fora eleito num condado branco do Mississippi.

Ozzie fora criado em Ford County e era parente da maioria dos negros e de alguns brancos. Terminada a segregação, no final dos anos 60, fizera parte da primeira turma mista formada no liceu de Clanton. Ozzie queria jogar futebol em Ole Miss, mas já havia dois negros na equipa. Entrou para o Alcom State, onde sobressaiu, e jogava na defesa dos Rams quando teve um problema num dos joelhos e voltou para Clanton. Sentia a falta do futebol, mas gostava de ser xerife, especialmente na época das eleições quando recebia mais votos do que os seus oponentes brancos. Os miúdos brancos idolatravam-no porque ele era um herói, uma estrela do futebol que aparecia na TV e a sua fotografia saía nas revistas. Os pais respeitavam-no e votavam nele porque -era um polícia duro que não fazia distinção entre vagabundos negros e vagabundos brancos. Os políticos brancos apoiavam-no porque, desde que se tornara xerife, o Departamento de Justiça deixara de interferir nos assuntos de Ford County. Os negros adoravam-no simplesmente por ele ser Ozzie, um deles.

Ozzie não jantou e permaneceu no seu escritório, no prédio da cadeia, esperando Hastings para ouvir o relatório que o polícia faria quando voltasse da casa dos Hailey. O xerife tinha um suspei to. Billy Ray Cobb não lhe era desconhecido. Ozzie sabia que ele vendia drogas - só que não conseguia deitar-lhe a mão. Sabia também que Cobb era cruel.

O operador de rádio chamou os polícias e Ozzie deu-lhes instruções para localizarem, mas não prenderem, Billy Ray Cobb. Eram doze polícias ao todo - nove brancos e três negros. Espalharam-se pela região à procura da pick-up Ford especial, amarelo-canário, com uma bandeira rebelde no vidro traseiro.

Quando Hastings chegou, Ozzie seguiu com ele para o hospital. Como sempre, Hastings dirigia e Ozzie dava instruções pelo rádio. Encontraram o clã dos Hailey na sala de espera do segundo andar. Tias, tios, avós, amigos e estranhos amontoavam-se no pequeno espaço e outros no corredor estreito. Ouviam-se murmúrios e viam-se lágrimas silenciosas. Tonya estava na sala de cirurgia.

Carl Lee estava sentado com Gwen a seu lado e os rapazinhos ao lado dela. Com os olhos fixos no chão, parecia não ver ninguém. Recostada no ombro dele, Gwen chorava baixinho. Os filhos, muito rígidos, com as mãos nos joelhos, uma vez por outra olhavam para o pai, como que à espera de uma palavra tranquilizadora.

Ozzie atravessou a salinha, dando apertos de mão, palmadas nas costas e dizendo em voz baixa que ia apanhar os culpados. Ajoelhou-se em frente de Carl Lee e de Gwen.

- Como está ela? - perguntou.

Carl Lee não o viu. Gwen chorou mais alto e os filhos fungaram e enxugaram as lágrimas. Ozzie bateu de leve no joelho de Gwen e levantou-se. Um dos irmãos dela levou-o para o corredor, para longe da família. Apertou a mão de Ozzie e agradeceu a sua presença.

- Como está ela? - perguntou Ozzie.

- Não muito bem. Está na cirurgia e ao que parece vai demorar. Tem ossos partidos e um traumatismo grave. Foi muito espancada. Tem também marcas de uma corda no pescoço, como se tivessem tentado enforcá-la.

- Foi violada? - perguntou Ozzie, apesar de saber a resposta.

- Foi. Contou à mãe que eles se revezaram e a magoaram muito. Os médicos confirmaram.

- Como estão Carl Lee e Gwen?

- Muito abalados. Acho que estão em estado de choque. Carl Lee ainda não disse uma palavra desde que aqui chegou. Ozzie garantiu que ia encontrar os dois homens, que isso não ia demorar e que quando os encontrasse ia trancá-los muito bem em lugar seguro. O irmão sugeriu-lhe que os prendesse noutra cadeia, para própria segurança de ambos.

A cinco quilómetros de Clanton, Ozzie apontou para a entrada de terra de uma casa.

- Pare ali - disse a Hastings, que saiu do asfalto e parou em frente de um trailer velho. Era quase noite.

Ozzie bateu à porta com o cassetete. - Abra a porta, Bumpous!

O trailer estremeceu e Bumpous correu para a casa-de-banho para atirar o cigarro de haxixe para a retrete.

- Abra, Bumpous! - Ozzie bateu de novo, com violência. - Sei que está aí. Se não abrir, arrombo a porta com um pontapé. Bumpous abriu a porta rapidamente e Ozzie entrou.

- Sabe uma coisa, Bumpous, de todas as vez que lhe faço uma visita, que sinto um cheiro esquisito e ouço o autoclismo da casa-de-banho. Vista-se, tenho um trabalho para si.

- O-o quê?

- Explico-lhe lá fora, onde consigo respirar. Trate de se vestir depressa.

- E se eu não quiser?

- Não há problema. Amanhã, arranjo maneira de lhe acabar com a liberdade condicional.

- Saio já.

Ozzie sorriu e dirigiu-se para o carro. Bobby Bumpous era um dos seus favoritos. Desde que obtivera a liberdade condicional, dois anos antes, levava uma vida razoavelmente limpa, sucumbindo uma vez ou outra à compra fácil da droga a troco de uns tostões. Ozzie vigiava-o como um gavião e sabia dessas transacções e Bumpous sabia que Ozzie sabia. Por isso, Bumpous estava sempre mais do que disposto a ajudar o seu amigo, o xerife Ozzie Walls. O plano de Ozzie era usar Bumpous para incriminar Billy Ray Cobb por tráfico de drogas, mas isso tinha de ficar para mais tarde.

Minutos depois Bumpous saiu, a meter a camisa para dentro e a puxar o fecho das calças.

- De quem é que anda à procura? - perguntou. - De Billy Ray Cobb.

- Ora, não precisa de mim para encontrar Billy Ray.

- Cale a boca e ouça. Achamos que Cobb está envolvido num caso de estupro que aconteceu esta tarde. Uma menina negra foi violada por dois homens brancos e eu acho que Cobb está metido nisso.

- Cobb não é violador, xerife. O negócio dele é droga, lembra-se?

- Cale a boca e ouça. Você encontra Cobb, passa algum tempo com ele. Há cinco minutos, a pick-up dele foi vista em frente do Huey's. Pague-lhe uma cerveja. Jogue bilhar, dados, qualquer coisa. Descubra o que fez ele hoje. Com quem esteve. Onde foi. Você sabe como ele gosta de falar, certo?

- Certo.

- Quando o encontrar, telefone para o meu escritório. Eles avisam-me. Vou estar por ali. Compreendeu?

- Claro, xerife, tudo bem. - Alguma pergunta?

- Sim. Estou teso. Quem vai pagar tudo isto?

Ozzie deu-lhe vinte dólares e seguiu com Hastings na direcção do Huey's, na margem do lago.

- Tem a certeza de que pode confiar nele? - perguntou Hastings.

- Em quem?

- Neste tal Bumpous.

- Claro que confio. Ele já provou que é digno de confiança desde a liberdade condicional. É um bom miúdo que tenta andar direito, a maior parte do tempo. Ele apoia o xerife local e faz qualquer coisa que eu lhe peça.

- Porquê?

- Porque eu o apanhei com 300 gramas de droga há um ano. O Bumpous tinha saído da cadeia há um ano quando eu apanhei o irmão dele com 30 gramas e o avisei de que estava candidatar-se a trinta anos de prisão. Ele desatou a chorar e chorou e lamentou-se a noite inteira na cela. De manhã estava pronto a falar. Disse que o fornecedor era o irmão dele, o Bobby. Nessa altura, soltei-o e fui falar com Bobby. Bati à porta e ouvi o autoclismo da casa-de-banho. Ele não veio abrir a porta e eu abri-a com um pontapé. O Bumpous estava só de cuecas, na casa-de-banho, a tentar desentupir a retrete. Havia droga por toda a parte. Não sei quanto ele já tinha conseguido deitar fora, mas a maior parte estava a vir ao de cima na retrete entupida. O susto foi tão grande que ele urinou nas cuecas.

- Está a brincar!

- A sério. O rapaz mijou-se todo. Um espectáculo! Ele ali de pé com as cuecas molhadas, o desentupidor numa das mãos, a droga na outra e a casa-de-banho inundada com a água da retrete. - E o que é que você fez?

- Disse-lhe que o matava. - E ele?

- Começou a chorar. Chorou como uma criança. Chorou por causa da mãe, da prisão, disto e daquilo. Prometeu que nunca mais ia sair da linha.

- Prendeu-o?

- Não, não tive coragem. Gritei com ele e ameacei-o mais um bocado. Declarei-lhe que estava em liberdade provisória, ali mesmo, na casa-de-banho inundada. Desde esse dia que tem sido divertido trabalhar com ele.

Passaram pelo Huey's e viram a camionete de Cobb no estacionamento de cascalho, no meio de mais uma dúzia de outras, todas com tracção às quatro rodas. Estacionaram atrás da igreja de negros numa colina de onde avistavam o pequeno inferno, ou taberna, como chamavam ao Huey's, carinhosamente, os seus frequentadores. Outro carro da polícia estava escondido atrás de umas árvores, na outra extremidade da estrada. Logo a seguir, Bumpous passou por eles à desfilada e entrou no estacionamento. Travou de repente, espalhando cascalho e pó e entrou, de marcha atrás, no lugar livre, ao lado do carro de Cobb. Olhou em volta e calmamente entrou no Huey's. Trinta minutos depois, o rádio da polícia avisou que o informador avistara um elemento, um homem branco, no Huey's, um estabelecimento na auto-estrada 305, perto do lago. Logo em seguida, duas outras viaturas chegaram e esconderam-se perto do Huey's. Puseram-se à espera.

- Por que tem tanta certeza de que foi Cobb? - perguntou Hastings.

- Não tenho a certeza. É só uma intuição. A menina disse que era uma pick-up com rodas brilhantes e pneus grandes.

- Isso descreve mais ou menos duas mil camionetes.

- Ela disse também que era amarela, parecia nova e tinha uma bandeira grande dependurada no vidro traseiro.

- Agora, já só são duzentas.

- Talvez menos. Quantos desses homens são tão cruéis quanto Billy Ray Cobb?

- E se não foi ele? - Mas foi.

- Se não for...

- Depressa ficaremos a saber. Billy Ray fala demais, especialmente quando bebe.

Esperaram duas horas, vendo as pick-ups que entravam e saíam do estacionamento. Camionistas, lenhadores da fábrica de papel, operários de fábrica e agricultores estacionavam as suas pick-ups e os seus jipes no cascalho e entravam para beber, jogar bilhar, ouvir o grupo musical, mas especialmente para encontrar mulheres. Alguns saíam e iam até à casa vizinha, o Ann's, onde ficavam durante alguns minutos e depois voltavam para o Huey's. O Ann's era mais escuro tanto por dentro quanto por fora e não tinha anúncios coloridos de cerveja nem música ao vivo, o que fazia do Huey's o preferido lá do sítio. O Ann's era conhecido pelo tráfico de drogas, ao passo que o Huey's tinha de tudo, música, mulheres, flipers, máquinas de poquer, jogo de dados, dança e muita pancadaria. Uma delas estoirou porta fora para o meio do estacionamento, com um grupo de brancos aos pontapés uns aos outros, aos empurrões e a agarrem-se uns aos outros, até que, vencidos pelo cansaço, voltaram para os dados.

- Espero que não tenha sido o Bumpous - disse o xerife. As casas-de-banho no Huey's eram pequenas e imundas e a maior parte dos frequentadores preferia fazer as necessidades entre as pick-ups estacionadas cá fora. Isso acontecia especialmente às segundas-feiras, dia de promoção da cerveja a cinquenta cêntimos, que atraía os agricultores brancos de quatro condados; cada um dos carros recebia pelo menos três regadelas. Mais ou menos uma vez por semana, algum viajante de passagem ficava chocado com alguma coisa que via no estacionamento e Ozzie era obrigado a efectuar uma prisão. Fora disso, não interferia.

Os dois pequenos infernos violavam uma porção de leis. Havia jogo, drogas, uísque de contrabando, menores, nunca fechavam à hora determinada, etc. Logo depois de eleito pela primeira vez, Ozzie cometeu o erro, devido em parte a uma precipitada promessa de campanha, de fechar todos os pequenos infernos da zona. Foi um erro terrível. O índice de criminalidade subiu alarmantemente. A cadeia ficou cheia. Os julgamentos multiplicaram-se. Os agricultores brancos uniram-se, foram em caravana até Clanton e estacionaram em volta do tribunal de justiça, na praça. Às centenas. Todas as noites invadiam a praça, bebendo, lutando, tocando música no volume mais elevado e gritando obscenidades para a população da cidade. Todas as manhãs a praça parecia um depósito de lixo, com latas e garrafas por toda a parte. Ozzie fechou também os bares dos negros. Arrombamentos, assaltos e lutas à facada triplicaram num mês. Houve dois assassinatos numa semana.

Finalmente, com a cidade sitiada, um grupo de religiosos locais reuniu-se secretamente com Ozzie e pediu-lhe que fosse menos rigoroso com os infeminhos. Delicadamente, ele lembrou-lhes que, durante a sua campanha, tinham sido eles a insistir no encerramento daqueles locais. Admitiram que tinham errado e pediram para suspender a ordem. Sim, eles o apoiariam nas eleições. Ozzie cedeu e a vida voltou ao normal em Ford County.

Não agradava a Ozzie que aqueles estabelecimentos prosperassem no seu distrito, mas estava mais do que convencido de que seus eleitores, cumpridores da lei, estariam muito mais seguros com os inferninhos abertos.

às dez e meia o rádio da polícia preveniu que o informador estava ao telefone e queria ver o xerife. Ozzie disse onde estava e, um minuto depois, viram Bumpous sair e cambalear para o carro.

Fazendo chiar os pneus e levantando cascalho, saiu disparado em direcção à igreja.

- Está bêbedo - disse Hastings.

Bumpous entrou no estacionamento da igreja e parou com uma travagem brusca a poucos metros do carro-patrulha.

- Como vai, xerife? - gritou ele. Ozzie foi até à pick-up.

- Por que se demorou tanto?

- O xerife disse que eu tinha a noite toda. - Você encontrou-o há duas horas.

- Isso é verdade, xerife, mas já alguma vez tentou gastar vinte dólares em cerveja que custa cinquenta cêntimos a lata?

- Está bêbedo?

- Nem pouco mais ou menos, só me diverti um bocado. Não me quer dar mais vinte?

- O que descobriu? - Sobre quê?

- Cobb!

- Ah, está lá dentro, sim.

- Eu sei que ele está lá dentro. E que mais?

O sorriso desapareceu e Bumpous olhou para o Huey's ao longe.

- Ele está a gozar com a história toda, xerife. A rir à gargalhada. Diz que finalmente encontrou uma crioula virgem. Alguém perguntou que idade ela tinha e Cobb respondeu oito ou nove. Toda a gente achou graça.

Hastings fechou os olhos e baixou a cabeça. Ozzie rangeu os dentes e olhou para longe.

- Que mais disse ele?

- Cobb está muito bêbedo. Não se vai lembrar de nada amanhã. Chegou mesmo a dizer que até era uma crioulinha jeitosinha. - Quem estava com ele?

- Pete Willard.

- Também está lá?

- Claro, estão ambos a rir que nem uns perdidos. - Onde estão eles?

- Do lado esquerdo, perto da slot-machine. - Ozzie sorriu. - Tudo bem, Bumpous. Trabalhou bem. Desapareça. Hastings comunicou os dois nomes pelo rádio. A mensagem foi transmitida para o polícia Looney que estava parado na rua, em frente da casa do juiz do condado, Percy Bullard. Looney tocou à campainha e entregou ao juiz duas declarações ajuramentadas e dois mandatos de prisão. Bullard preencheu os mandatos e devolveu-os a Looney, que agradeceu ao meritíssimo e se foi embora. Vinte minutos depois, Looney entregou os mandatos a Ozzie, atrás da igreja. Às onze horas em ponto, o grupo musical parou a meio de uma música, os dados desapareceram, os dançarinos ficaram imóveis, as bolas de bilhar pararam de rolar e alguém acendeu as luzes. Todos os olhos acompanharam o xerife e os seus homens que atravessaram devagar a pista de dança na direcção da mesa ao lado da slot-machine. Cobb, Willard e dois outros homens estavam sentados a uma mesa cheia de latas de cerveja vazias. Ozzie aproximou-se com um largo sorriso.

- Desculpe-me, senhor, mas não permitimos pretos aqui - disse Cobb e os quatro desataram às gargalhadas. Ozzie continuou a sorrir. Quando eles pararam de rir, disse:

- Estão bastante divertidos, Billy Ray? - Estávamos.

- É o que parece. Detesto ser desmancha-prazeres, mas o senhor e o Sr. Willard têm de vir comigo.

- Aonde é que vamos? - perguntou Willard. - Dar um passeio.

- Não saio daqui - afirmou Cobb. Os outros dois homens levantaram-se e juntaram-se aos espectadores.

- Eu estou a dar voz de prisão a ambos - disse Ozzie. - Tem os mandatos? - perguntou Cobb.

Hastings estendeu os mandatos e Ozzie atirou-os para cima da mesa.

- Sim, temos os mandatos. Agora, levantem-se.

Willard olhou desesperado para Cobb, que bebeu um gole de cerveja e disse:

- Eu não vou para a cadeia.

Looney entregou a Ozzie o mais comprido e negro cassetete já usado em Ford County. Willard entrou em pânico. Ozzie bateu com o cassetete no meio da mesa, atirando com as garrafas e as latas para todos os lados. Willard levantou-se de um salto e estendeu os pulsos para Looney que esperava com as algemas. Foi levado para fora e empurrado para dentro de um carro da polícia.

Ozzie bateu com o cassetete na palma da mão e sorriu para Cobb.

- Tem o direito de permanecer em silêncio. Qualquer coisa que diga pode ser usada contra si no tribunal. Tem direito a um advogado. Se não puder pagar, o estado arranja-lhe um. Alguma pergunta?

- Sim, que horas são?

- Hora de ir para a cadeia, grande homem. - Vá para o inferno, crioulo.

Ozzie segurou-o pelos cabelos e ergueu-o do banco, depois esfregou-lhe a cara no chão. Pôs um joelho nas costas de Cobb, o cassetete sob o queixo e puxou para cima, apertando o joelho para baixo. Cobb gritou até o cassetete começar a sufocá-lo. As algemas fecharam-se nos pulsos dele e Ozzie arrastou-o pelos cabelos através da pista de dança, porta fora, pelo chão de cascalho. Atirou-o para o banco de trás do carro da polícia, para junto de Willard.

A notícia do estupro espalhou-se rapidamente. Mais amigos e parentes amontoaram-se na sala de espera e nos corredores do hospital. Tonya saiu da sala de cirurgia e o estado dela foi considerado crítico. Ozzie falou com o irmão de Gwen e contou-lhe a prisão dos dois homens. Sim, tinham sido eles, tinha a certeza.

Jake Brigance rolou na cama por cima da mulher e caminhou ensonado para a pequena casa-de-banho a poucos metros da cama. A tactear no escuro, procurou o terrível despertador. Encontrou-o onde o tinha deixado na noite anterior e acabou-lhe com a gritaria com um poderoso safanão. Eram 5:30 da manhã de quarta-feira, 15 de Maio.

Jake parou um momento, com falta de ar, apavorado, com o coração aos saltos, a olhar para os números fluorescentes do relógio, daquele relógio que ele odiava. O grito estridente podia ouvir -se na rua. Todas as manhãs, àquela hora, enfrentava o risco de uma paragem cardíaca, quando aquela coisa entrava em erupção. Umas duas vezes por ano ele conseguia empurrar Carla para fora da cama e ela desligava o despertador, antes de voltar para debaixo dos cobertores. Porém, a maior parte das vezes ela não cooperava. Carla achava que o marido era louco por se levantar àquela hora.

O relógio ficava no peitoril da janela para o obrigar a dar alguns passos a fim de silenciá-lo. Uma vez de pé, Jake não se permitia voltar para o aconchego dos cobertores. Era uma das suas normas. Houve um tempo em que o despertador ficava na mesa-de-cabeceira, com o volume reduzido. Carla estendia o braço e desligava-o, antes que Jake o tivesse ouvido. Nessas alturas, dormia até às sete ou oito horas, o que lhe dava cabo do dia todo. Não podia chegar ao escritório às sete horas, o que era outra das suas normas. O despertador foi para a casa-de-banho, onde servia perfeitamente o seu objectivo.

Jake lavou a cara e molhou a cabeça com água fria. Acendeu a luz e, com uma exclamação de horror, olhou para a imagem reflectida no espelho. O cabelo castanho liso, despenteado, espetava-se para todos os lados e a linha no alto da testa tinha-se afastado, pelo menos cinco centímetros, durante a noite. Ou talvez a testa tivesse crescido. A ramela acumulava-se nos cantos dos olhos inchados e sem brilho. Uma linha vermelha, desenhada por uma dobra do cobertor, marcava-lhe o lado esquerdo da cara, como uma cicatriz. Jake tocou-lhe e esfregou-a, temendo que nunca mais desaparecesse. Empurrou o cabelo para trás com a mão direita e examinou a linha da testa. Aos trinta e dois anos, não tinha nenhum cabelo branco. Mas o problema não eram os cabelos brancos. O problema era a calvície, herdada dos dois lados da família. Jake sonhava com uma linha do cabelo que começasse logo acima das sobrancelhas. Carla afirmava que ele ainda tinha muito cabelo. Mas à velocidade com que desaparecia, aquilo não ia durar muito. Ela garantia também que Jake continuava belo como sempre, e ele acreditava. Carla explicara que a calvície incipiente dava um ar de maturidade, essencial para um jovem advogado. Jake também acreditava nisso.

Mas, que dizer dos advogados velhos e carecas, ou até mesmo dos advogados maduros, de meia-idade e carecas? Por que não podia voltar o cabelo quando ele tivesse rugas e cabelos brancos, o que o fazia parecer muito amadurecido?

Jake pensava nisso debaixo do chuveiro. Depois do banho rápido, fez a barba e vestiu-se à pressa. Tinha de estar no Coffee Shop as 6 horas - outra norma. Acendeu a luz do quarto e abriu e fechou as gavetas ruidosamente, tentando acordar Carla. Esse era o ritual das manhãs de Verão, durante as férias da escola onde ela leccionava. Jake tinha explicado, várias vezes, que Carla tinha o dia todo para recuperar o sono perdido e que deviam passar juntos aqueles primeiros momentos da manhã. Ela gemeu e afundou-se mais debaixo dos cobertores. Já vestido, Jake saltou para cima da cama e apoiado nas mãos e nos joelhos, beijou a orelha de Carla, o pescoço, o rosto, até ela se virar para ele. Puxou, então, os cobertores e riu quando Carla se encolheu, a tremer de frio e a pedir os cobertores. Jake admirou as pernas bronzeadas, magras e quase perfeitas. A t-shirt de dormir só chegava até a cintura e pensamentos deliciosos dançaram-lhe na cabeça.

Mais ou menos uma vez por mês esse ritual ultrapassava os limites. Carla não protestava e os cobertores eram afastados de comum acordo. Nessas manhãs, Jake despia-se, mais do que rapidamente, e violava pelo menos três das suas normas. Fora assim que tinham concebido Hanna.

Mas não nessa manhã. Ele cobriu a mulher, beijou-a gentilmente e apagou a luz. Carla respirou aliviada e voltou a adormecer.

 

No corredor, abriu silenciosamente a porta do quarto de Hanna e ajoelhou-se ao lado da cama. Hanna tinha quatro anos, era filha única e não iam ter mais nenhum filho. Ela dormia no meio das bonecas e bichinhos de pelouche. Jake beijou-a ao de leve, na face. Hanna era tão bela quanto a mãe e eram ambas idênticas em tudo. Tinham olhos grandes, cinza-azulados, que podiam encher-se de lágrimas num instante, quando necessário. Usavam o mesmo penteado - o cabelo escuro cortado pela mesma pessoa, no mesmo dia. Até a roupa que usavam era igual.

Jake adorava as duas mulheres da sua vida. Despediu-se da segunda com um beijo e foi até à cozinha fazer café para Carla. Abriu a porta das traseiras para Max, o rafeiro. Enquanto fazia o café, Max latia para o gato da vizinha, a Sra. Pickle.

Poucas pessoas enfrentavam a manhã como Jake Brigance. Foi rapidamente até ao portão e pegou nos jornais para Carla. Estava escuro, o céu limpo e o ar frio, mas com a promessa do Verão que se aproximava.

Jake olhou para os dois lados da rua escura e depois, voltando-se, admirou a sua casa. Apenas duas residências em Ford County faziam parte do Património Histórico e Jake Brigance era dono de uma delas. A pesada hipoteca não lhe diminuía o orgulho. Era uma casa de estilo vitoriano, do século XIX, construída por um ferroviário reformado que morrera na primeira noite de Natal que passou na nova casa. A fachada era um enorme frontão central com telhado esconso sobre um largo alpendre interno. Sob o frontão, uma pequena colunata coberta com a trave da empena apoiava-se suavemente no alpendre. Os cinco pilares de sustentação eram redondos e pintados de branco e cinzento-azulado. Cada coluna exibia um entalhe florístico feito à mão, cada qual com uma flor diferente: narcisos, íris e girassóis. A balaustrada entre os pilares mostrava um profuso rendilhado. No alto, três janelas salientes abriam-se para uma pequena varanda, e à esquerda da varanda uma torre octogonal com janelas de vitrais projectava-se acima do frontão, terminando num remate de ferro. Por baixo da torre e à esquerda do alpendre, estendia-se uma passagem coberta, larga e graciosa, com grades ornamentais, que servia de abrigo para carros. As paredes da frente eram uma colagem de rosquinhas de gengibre, telhas de cedro, festões, escamas de peixe, pequenos frontões rebuscados e fusos em miniatura.

Carla encontrara um consultor de pintura em Nova Orleães e a bicha tinha escolhido seis cores originais - a maior parte tonalidades de azul, cinzento, pêssego e branco. A pintura levou dois meses a fazer, sem contar as horas intermináveis que ele e Carla passaram no alto de escadas a raspar paredes. Embora Jake não gostasse muito de algumas cores, jamais ousou sugerir uma nova pintura.

Como todas as casas vitorianas, aquela era gloriosamente única. O seu ar alegre, ingénuo, quase infantil, tornava-a picante, provocadora, simpática. Carla cobiçara-a muito antes do casamen to e, quando o proprietário morreu, em Memphis, e a casa foi fechada, compraram-na bastante barata porque ninguém mais a queria. Estava abandonada há vinte anos. Fizeram dois grandes empréstimos em dois dos três bancos de Clanton e passaram os três anos seguintes a trabalhar imenso e a valorizar a sua propriedade. Agora, muita gente parava para ver a casa e tirar fotografias.

O terceiro banco local tinha a hipoteca do carro de Jake, o único Saab de Ford County. E ainda por cima, vermelho. Jake limpou o orvalho do pára-brisa e abriu a porta. Max continuava a latir, acordando o exército de azulões que morava no grande bordo do jardim da Sra. Pickle. Os pássaros cantaram uma despedida e Jake sorriu, respondendo com um assobio. Saiu em marcha atrás para a rua Adams. Seguiu para leste e dois quarteirões adiante virou para sul, na Jefferson, que, dois quarteirões adiante, terminava na rua Washington. Jake interrogava-se sempre sobre o motivo que levava todas as cidades pequenas do sul dos Estados Unidos a ter uma rua Adams, uma Jefferson e uma Washington, mas nenhuma Lincoln ou Grant. A rua Washington ficava a norte da praça de Clanton, no sentido leste-oeste.

Clanton, como sede do condado, tinha uma praça e, no centro da praça, o tribunal de justiça. O general Clanton fizera a planta da cidade com muito cuidado e a praça era comprida e larga e, no relvado do tribunal, enfileiravam-se a intervalos regulares carvalhos altos e maciços. O tribunal de justiça de Ford County fora construído há quase dois séculos, depois de os ianques terem incendiado o primeiro. Era voltado a sul, oferecendo desafiadoramente as costas aos nortistas. Era antigo e imponente, com colunas brancas em frente e persianas negras nas dezenas de janelas. O tijolo vermelho original há muito tempo que fora pintado de branco e, de quatro em quatro anos, os escoteiros acrescentavam uma espessa camada de verniz brilhante, para o seu tradicional projecto de Verão. Várias emissões de títulos garantiam, através dos anos, adições e renovações. O jardim em volta do prédio era limpo e bem cuidado. Um grupo de prisioneiros tratava dele duas vezes por semana.

Clanton tinha três restaurantes - dois para os brancos e um para os negros, os três na praça. Não era ilegal nem fora do habitual, para os brancos, frequentar o Claude's, o restaurante dos negros, no lado oeste. E os negros podiam comer no Tea Shoppe, no lado sul, ou no Coffee Shop, na rua Washington. Mas não o faziam, porque lhes tinham dito que podiam retroceder para os anos 70. Como a maioria dos liberais de Clanton, Jake comia churrasco no Claude's, todas as sextas-feiras. Mas seis vezes por semana tomava café no Coffee Shop.

Estacionou o Saab em frente do seu escritório, na rua Washington e caminhou até ao Çoffee Shop, três portas adiante. O restaurante estava aberto há uma hora e já bastante movimentado. As empregadas serviam café e pequeno-almoço e conversavam o tempo todo com os pequenos fazendeiros, mecânicos e polícias que eram fregueses habituais. Não era um restaurante de colarinhobranco. Os colarinhos-brancos reuniam-se mais tarde, no outro lado da praça, no Tea Shoppe, para discutir política nacional, ténis, golfe e o movimento da Bolsa. No Coffee Shop falava-se de política local, futebol e pescarias. Jake era um dos poucos colarinhos-brancos que podia frequentar tranquilamente o Coffee Shop. Os homens simples do campo gostavam dele e aceitavam-no e procuravam-no para lhes resolver problemas legais, como divórcios, transações financeiras, uma defesa no tribunal ou outro qualquer. As brincadeiras e as piadas de advogados não o perturbavam. Pediam explicação para as determinações do Supremo Tribunal e outros assuntos legais e Jake dava muitas consultas de graça no Coffee Shop. Uma das suas características era dispensar rodeios e ir direito ao assunto. Era disso que eles gostavam. Nem sempre concordavam com ele, mas obtinham sempre respostas honestas. Às vezes discutiam, mas sem ressentimentos.

Jake entrou no restaurante às seis horas e levou cinco minutos a cumprimentar toda a gente, trocando apertos de mãos, batendo nas costas de uns e de outros e dizendo piropos às empregadas. Assim que se sentou, a sua favorita, Dell, serviu-lhe o pequeno-almoço de sempre, café, torradas, compota e flocos de aveia. Dell bateu de leve na mão dele, chamando-lhe, como sempre, querido e meu amor e dispensando-lhe uma atenção especial. Ela discutia e barafustava com os outros, mas com Jake era diferente.

Nessa manhã os companheiros de mesa de Jake eram Tim Nunley, mecânico da Chevrolet, e dois irmãos, Bill e Bert West, que trabalhavam na fábrica de calçado a norte da cidade. Pôs três gotas de Tabasco nos flocos de aveia e misturou tudo com um pouco de manteiga. Passou na torrada uma camada espessa de compota de amora de fabricação caseira. Tudo preparado, tomou um gole de café e começou a comer. Os quatro comiam tranquilamente e falavam sobre a pesca.

Três polícias comiam e conversavam na mesa perto da janela, entre duas divisórias baixas, a poucos metros da mesa de Jake. O polícia mais alto, Prather, voltou-se e perguntou em voz alta:

- Ouça, Jake, não foi você que defendeu Billy Ray Cobb há alguns anos?

Fez-se silêncio de repente e todos olharam para o advogado. Admirado, não com a pergunta, mas com a reacção, Jake engoliu uma colherada de aveia e tentou lembrar-se.

- Billy Ray Cobb - disse, em voz alta. - Que tipo de casofoi?

Cumpriu pena na Parchman e saiu no ano passado. Jake lembrou-se.

- Não, não fui eu que o defendi. Acho que foi um advogado de Memphis.

Prather ficou satisfeito e voltou às suas panquecas. Jake esperou e finalmente perguntou:

- Porquê? Que fez ele desta vez?

- Prendêmo-lo na noite passada por estupro. - Estupro!

- Isso mesmo, ele e Pete Willard. - Quem violentaram eles?

- Lembra-se daquele negro, Hailey, que você livrou da acusação de assassinato há alguns anos?

- Lester Hailey. É claro que me lembro. - Conhece o irmão dele, Carl Lee?

- Claro. Conheço-o muito bem. Conheço todos os Hailey. Já defendi muitos deles.

- Muito bem, foi a filha dele. - Está a brincar!

- A sério.

- Que idade tem ela? - Dez.

O apetite de Jake desapareceu e o restaurante voltou ao normal. Sem comer, Jake ouviu a conversa passar da pesca para carros japoneses e para a pesca novamente. Quando os irmãos West saíram, Jack passou para a mesa dos polícias.

- Como está ela? - perguntou.

- Quem?

- A filha do Hailey.

- Muito mal - disse Prather. - Está no hospital. - Que aconteceu.

Não sabemos de `tudo. Ela não conseguiu falar muito. A mãe mandou-a ao armazém. Eles moram na Craft Road, por trás do armazém do Bates.

- Eu sei onde eles moram.

- Eles meteram-na na pick-up de Cobb, foram para o bosque e violaram-na.

- Os dois?

- Os dois. Várias vezes. E deram-lhe pontapés e espancaram-na com violência. Ela ficou em tal estado que alguns parentes nem a reconheceram.

Jake abanou a cabeça.

- Isso é coisa de tarados.

- Claro que é. A pior história que eu já vi. Tentaram matar a menina. Pensaram que ela estivesse morta.

- Quem a encontrou?

- Um grupo de negros que estava a pescar em Foggy Creek. Viram a menina caída no meio da estrada com as- mãos atadas atrás das costas. Ela conseguiu falar um bocadinho... disse o nome do pai e eles levaram-na a casa.

- Como sabem que foi o Billy Cobb?

- Ela disse à mãe que era uma pick-up amarela com uma bandeira rebelde no vidro traseiro. Ozzie não precisou de mais nada. Quando ela chegou ao hospital, Ozzie já tinha a certeza.

Prather teve o cuidado de não falar demais. Gostava de Jake, mas ele era advogado e actuava como defensor em muitos casos criminais.

- Quem é esse Pete Willard? - Um amigo de Cobb.

- Onde é que os encontraram? - No Huey's.

- Tinha que ser. -Jake bebeu o café e pensou em Hanna. - Um nojo, um nojo, coisa de gente doente - resmungou Looney.

- Como está Carl Lee?

Prather limpou a compota do bigode.

- Eu não o conheço pessoalmente, mas nunca ouvi nada de mau a respeito dele. Ainda estão no hospital. Acho que o Ozzie conhece essa gente toda muito bem. O Hastings é parente da criança.

- Quando vai ser a audiência preliminar?

- O Bullard marcou-a para a uma hora da tarde, hoje. Não foi, Looney?

Looney assentiu com um gesto. - Alguma fiança?

- Ainda não foi determinada. O Bullard vai esperar pela audiência preliminar. Se ela morrer, a acusação será de homicídio, não é?

Jake fez que sim com a cabeça.

- Não podem determinar fiança para homicídios, pois não, Jake?

- Podem, mas nunca vi. Sei que o Bullard não vai determinar fiança neste caso e, se tentasse, não ia conseguir.

- Se ela não morrer, quanto tempo é que eles apanham? - perguntou Nesbit, o terceiro polícia. Jake explicou aos três homens atentos:

- Podem apanhar prisão perpétua pelo estupro. Suponho que serão acusados também de sequestro e agressão física qualificada.

- Já foram.

- Então, podem apanhar vinte anos pelo rapto e vinte anos pela agressão.

- Sim, mas quanto tempo irão cumprir? - perguntou Looney. Jake pensou por um segundo.

- Podem conseguir liberdade condicional ao fim de treze anos. Sete pelo estupro, três pelo rapto e três pela agressão. Isso, supondo que sejam condenados por todas as acusações e à pena máxima.

- E Cobb? Ele tem antecedentes criminais.

- Sim, tem, mas só é considerado reincidente se tiver duas condenações anteriores.

-Treze anos - disse Looney, abanando a cabeça.

Jake olhou pela janela. A praça começava a acordar. Camionetes cheias de fruta e de verduras chegavam e paravam no passeio em volta do tribunal de justiça. Os agricultores, com fatos-de -macaco desbotados, arrumavam cuidadosamente os cestinhos com tomates, pepinos e abóboras-meninas em cima das portas traseiras dos carros. As melancias da Florida eram arrumadas ao lado dos pneus empoeirados e os homens seguiam até ao monumento ao Vietname, sentavam-se nos bancos para mascar tabaco, aparar pedaços de madeira e comentar as novidades. Provavelmente estão a falar sobre o estupro, pensou Jake. Já era dia, hora de ir para o escritório. Os polícias acabaram de comer e Jake levantou-se. Abraçou Dell, pagou a conta e, durante um segundo, pensou em ir até casa para ver Hanna.

Faltavam três minutos para as sete quando Jake girou a chave na fechadura da porta do escritório e acendeu as luzes.

Carl Lee não conseguia dormir no sofá da sala de espera. O estado de Tonya era grave, mas estável. Tinham-na visto à meia-noite, depois do médico ter prevenido que o estado da criança não era bom. Não era. Gwen beijou a carinha envolta em ligaduras e Carl Lee ficou parado ao pé da cama, calado, imóvel, abatido, a olhar para a filha pequenina rodeada de máquinas, tubos e enfermeiras.

Mais tarde Gwen tomou um sedativo e foi levada para casa da mãe, em Clanton. Os filhos ficaram em casa, com o irmão de Gwen. Mais ou menos à uma hora da manhã, os visitantes saíram, deixando Carl Lee sozinho no sofá. Às duas horas, Ozzie levou-lhe café e rosquinhas e disse-lhe tudo o que sabia sobre Cobb e Willard.

O escritório de Jake ficava num prédio de dois andares, num quarteirão de outros da mesma altura, de frente para o tribunal, no lado norte da praça, logo a seguir ao Coffee Shop. O prédio fora construído pela família Wilbanks na década de 1890, quando eram donos de Ford County. Os Wilbanks tinham tido os seus escritórios de advocacia no prédio, desde a construção até 1979, o ano da interdição. No prédio vizinho, a leste, ficava o escritório de um corretor de seguros que Jake tinha processado por prejudicar uma reivindicação de Tim Nunle~,, o mecânico da Chevrolet. A oeste ficava o banco que tinha a hipoteca do Saab. Todos os prédios, em volta da praça, eram de tijolo vermelho, excepto os bancos. O que era vizinho de Jake fora também construído pelos Wilbanks e tinha só dois andares, mas o da esquina a sudeste da praça tinha três e o mais novo, na esquina a sudoeste, tinha quatro.

Jake trabalhava sozinho desde 1979, o ano da interdição. Preferia assim, especialmente porque não havia mais nenhum advogado em Clanton com competência para trabalhar com ele. Havia alguns bons advogados na cidade, mas a maioria trabalhava na firma Sullivan de advocacia, no prédio do banco de quatro andares. Jake detestava a firma Sullivan. Todos os advogados a detestavam, excepto os que trabalhavam para ela. Eram oito, os oito imbecis.

Queria ser advogado criminal, e a clientela da antiga firma era toda constituída por empresas. Ele queria estupros, assassinatos, crianças maltratadas, os casos escabrosos que ninguém queria. A ambição dele era ser defensor dos direitos civis e sustentar as liberdades civis. Mas, acima de tudo, Lucien desejava ser um advogado radical, inflamado, defendendo casos e causas impopulares e, com isso, atrair sobre si as atenções.

Deixou crescer a barba, divorciou-se, renunciou à sua igreja, vendeu o título do country club, entrou para a Associação Nacional para o Progresso dos Homens de Cor e para a União Americana das Liberdades Civis, pediu a demissão da direcção do banco e de um modo geral tornou-se o flagelo de Clanton. Processava escolas por segregação, o governador por causa das condições carcerárias, a cidade porque não calcetava as ruas no bairro negro, o banco porque não tinha funcionários negros, o estado por causa da pena capital e as fábricas porque não reconheciam os sindicatos. Batalhou e venceu muitos casos de homicídio e não apenas em Ford County. A fama dele cresceu e tinha inúmeros seguidores entre os negros, brancos pobres e os poucos sindicatos ao norte do Mississippi. Defendeu alguns casos lucrativos que envolviam danos pessoais e reparação por morte com dor. Fez também alguns acordos interessantes. A firma, ele e Ethel, estava mais lucrativa do que nunca. Lucien não precisava de dinheiro. Tinha nascido rico e nunca se preocupava com essa parte, Ethel encarregava-se da contabilidade.

A advocacia era a sua vida. Sem família, ele era o típico workaholic. Quinze horas por dia, sete dias por semana, Lucien praticava a advocacia apaixonadamente. Não tinha outros interesses, excepto a bebida. No fim dos anos 60 descobriu uma grande afinidade com o Jack Daniel's... No começo da década de 70 era um bêbedo e quando contratou Jake, em 1978, era um alcoólico inveterado. Porém, nunca deixou que a bebida interferisse com o seu trabalho. Aprendeu a beber e a trabalhar ao mesmo tempo. Lucien estava sempre meio bêbedo e, nessas condições, era um advogado perigoso. Ousado e agressivo por natureza, era assustador quando bebia. No tribunal, embaraçava os advogados opositores, insultava o juiz, maltratava as testemunhas e, por fim, pedia desculpas ao júri. Não respeitava ninguém e não podia ser intimidado. Era temido por ser capaz de fazer e dizer qualquer coisa. Todos andavam em bicos de pés junto dele.

Lucien sabia disso e gostava. Tornou-se cada vez mais excêntrico. Quanto mais bebia, mais estranhamente agia, e as pessoas falavam a seu respeito e ele bebia mais ainda.

De 1966 a 1978, Lucien contratou e despediu onze assistentes. Contratou negros, judeus, hispânicos, mulheres e nenhum deles correspondeu às suas expectativas. No escritório era um tirano, sempre a praguejar e a gritar com os jovens advogados. Alguns demitiam-se logo no primeiro mês. Um aguentou dois anos. Era difícil aceitar as loucuras de Lucien. Tinha dinheiro bastante para ser excêntrico - os jovens advogados é que não tinham.

Jake foi contratado por Lucien em 1978, logo que se formou. Jake era de Karaway, uma cidadezinha com dois mil e quinhentos habitantes, trinta quilómetros a oeste de Clanton. Jake tinha boa apresentação, era conservador, presbiteriano devoto, com uma bela mulher que queria ter filhos: Lucien contratou-o para ver se conseguia corrompê-lo. Jake aceitou o emprego com muita hesitação, pois não tinha nada mais em vista perto de onde morava.

Um ano depois, Lucien foi expulso da ordem dos advogados. Foi uma tragédia para as poucas pessoas que gostavam dele. O pequeno sindicato da fábrica de calçado, a norte da cidade decretou uma greve. Era um sindicato organizado e representado por Lucien. A fábrica começou a contratar novos empregados para substituir os grevistas, o que deu origem à violência. Lucien apareceu na linha de piquetes para estimular a sua gente. Estava mais bêbedo do que o normal. Um grupo de fura-greves tentou atravessar a linha e começou a briga. Lucien comandou o ataque e foi preso. O tribunal da cidade condenou-o por agressão e espancamento e perturbação da ordem. Apelou e perdeu, e voltou a apelar e voltou a perder.

A Ordem dos Advogados do Estado estava farta dos sarilhos de Lucien. Nenhum outro advogado do estado fora alvo de tantas queixas como Lucien Wilbanks. Admoestações particulares, admoestações públicas, suspensões, tudo foi tentado inutilmente. O Comité Disciplinar agiu rapidamente. Lucien foi expulso por conduta ultrajante, imprópria de um membro da Ordem dos Advogados. Mais uma vez, apelou e perdeu, voltou a apelar e voltou a perder.

Lucien ficou arrasado. Jake estava no escritório de Lucien, a sala grande do segundo andar, quando chegou de Jackson a notícia de que o Supremo Tribunal tinha mantido a exoneração. Lucien desligou o telefone e foi até às portas de vidro que davam para a praça. Jake observava-o atentamente, à espera da explosão. Mas Lucien não disse nada. Desceu a escada vagarosamente, parou e olhou para Ethel, que chorava, e depois para Jake. Abriu a porta e disse:

- Tome conta disto. Falo consigo depois.

Ambos se precipitaram para a janela da frente e viram-no sair da praça no Porsche velho e amachucado. Durante vários meses não tiveram notícias dele. Jake trabalhava diligentemente nos casos deixados por Lucien, enquanto Ethel mantinha o escritório a salvo do caos. Alguns dos casos foram resolvidos com acordos, alguns passaram para outros advogados, outros foram a julgamento. Seis meses depois, ao voltar para o escritório depois de um longo dia no tribunal, Jake encontrou Lucien a dormir deitado no tapete persa, no escritório do segundo andar.

- Lucien! Sente-se mal? - perguntou.

Ele levantou-se de um salto e sentou-se na grande poltrona de couro atrás da sua mesa. Estava sóbrio, bronzeado de sol, descansado.

- Jake, meu rapaz, como vai isso? - perguntou, calorosamente.

- Bem, muito bem. Onde esteve? - Nas Ilhas Caimão.

- A fazer o quê?

- A beber rum, a descansar na praia, a correr atrás das nativas.

- Parece ter sido divertido. Por que voltou? - Tornou-se monótono.

Jake sentou-se em frente da mesa. - Estou contente por vê-lo, Lucien. - Também eu, Jake. Como vão as coisas, por aqui? - Agitadas. Mas tudo bem, penso eu.

- Chegou a um acordo com Medley? - Sim, pagaram oito mil.

- Isso é bom. Ele ficou satisfeito? - Sim, pelo menos parece que ficou. - Cruger foi a julgamento?

Jake desviou os olhos.

- Não, ele contratou Fredrix. Acho que o julgamento está marcado para o próximo mês.

- Eu devia ter falado com ele antes de ir viajar. - Ele é culpado, não é?

- Sim, e muito. Não importa quem o represente. De um modo geral, quase todos os acusados são culpados. Lembre-se disso. - Lucien foi até às portas de vidro e olhou para o prédio do tribunal. - Quais são os seus planos, Jake?

- Eu gostaria de ficar aqui. E os seus?

- Você é boa pessoa, Jake, e quero que fique. Quanto a mim, não sei. Pensei em morar nas Caraíbas, mas desisti. É muito bom para se visitar, mas uma pessoa acaba por ficar farta. Na verdade, não tenho planos. Talvez viajar. Gastar alguma massa... Eu valho uma tonelada, você sabe.

Jake concordou. Lucien voltou-se e estendeu os braços para

a sala.

- Quero que fique com tudo isto, Jake. Quero que fique aqui e mantenha a aparência de uma firma em funcionamento. Mude para esta sala, use a mesa que o meu avô trouxe da Virgínia, depois da Guerra Civil. Fique com os arquivos, os casos, os clientes, os livros, tudo.

- É muita generosidade sua, Lucien.

- A maior parte dos clientes vai desaparecer. Não tem nada a ver consigo - um dia, o Jake será um grande advogado. Mas a maioria dos meus clientes está comigo há anos.

Jake não queria os clientes de Lucien. - E o aluguer?

- Pague o que puder. O dinheiro vai ser curto no princípio, mas vai conseguir. Eu não preciso de dinheiro, mas você precisa. - É muita amabilidade.

- O facto é que eu sou um tipo muito porreiro. Riram ambos, um tanto constrangidos.

- E Ethel? - perguntou Jake, novamente sério.

- Isso resolve o Jake. Ela é uma boa secretária, que já esqueceu mais do que o Jake poderá aprender sobre Direito. Sei que não gosta dela, mas não vai ser fácil encontrar quem a substitua. Despeça-a, se quiser. Eu não me importo.

Lucien encaminhou-se para a porta.

- Se precisar é só telefonar. Vou ficar por aqui. Quero que trabalhe neste escritório. Foi do meu pai e do meu avô. Ponha as minhas coisas numa caixa que eu venho buscá-las depois.

Cobb e Willard acordaram com os gritos de Ozzie, com uma tremenda dor de cabeça e os olhos inchados e vermelhos. Estavam só os dois numa cela pequena. À direita, separada pelas grades, ficava a cela dos prisioneiros do estado, que estavam à espera de ser enviados para Parchman. Uns dez negros, encostados às grades, observavam, carrancudos, os dois brancos que esfregavam os olhos, atordoados. À esquerda, havia uma cela mais pequena também cheia de negros. Acordem, gritou Ozzie, e fiquem quietos, do contrário vamos pô-los todos juntos.

O período de calma de Jake ia das sete até à chegada de Ethel às oito e meia. Ele aproveitava ciosamente esse tempo. Trancava a porta da frente, ignorava o telefone, não marcava nenhum compromisso. Planeava meticulosamente o seu dia. Às oito e meia, já tinha ditado o suficiente para manter Ethel ocupada e quieta até ao meio-dia. Às nove horas, estava no tribunal a conversar com os clientes. Não atendia o telefone até às onze, quando metodicamente respondia a todas as chamadas e mensagens da manhã - a todas. Nunca deixava para depois - outra norma. Jake trabalhava sistemática e eficientemente sem perder tempo. Esses hábitos não tinha aprendido com Lucien.

Às oito e meia Ethel fez sua entrada habitual e espalhafatosa. Fez café fresco e abriu a correspondência, como fazia há quarenta e um anos. Tinha sessenta e quatro anos e aparentava cinquenta. Era cheia de corpo, mas não gorda, bem-cuidada, mas não atraente. Enquanto lia a correspondência de Jake, mastigava uma salsicha engordurada e um biscoito trazidos de casa.

Jake ouviu vozes. A de Ethel e de outra mulher. Verificou a agenda: nada até às dez.

- Bom dia, Dr. Brigance - disse Ethel pelo interfone.

- Bom dia, Ethel. - Ela preferia que a tratassem por Sra. Twitty. Lucien e toda a gente a tratava assim. Mas Jake tratava-a por Ethel desde que a despedira, logo depois da expulsão de Lucien.

- Uma senhora quer falar com o Senhor Doutor. - Ela não tem hora marcada.

- Não, Senhor Doutor, eu sei.

- Marque para amanhã, depois das dez e meia. Agora estou ocupado.

- Sim, Senhor Doutor, mas ela diz que é urgente. - Quem é? - perguntou Jake, irritado.

Era sempre urgente quando apareciam sem hora marcada, como se o seu escritório fosse uma lavandaria ou uma agência funerária. Provavelmente, alguma pergunta sobre o testamento do tio Luke ou o julgamento marcado para daí a três meses.

- Sra. Willard - disse Ethel. - Primeiro nome?

- Earnestine Willard. O Senhor Doutor não a conhece, mas o filho dela está preso.

Jake atendia sempre os clientes à hora marcada, mas os que apareciam inesperadamente eram outra conversa. Ethel mandava-os embora sumariamente ou marcava hora para um ou dois dias depois. O Dr. Brigance estava muito ocupado, explicava ela, mas podia atender daí a dois dias. Isso impressionava bem.

- Diga que não estou interessado.

Mas ela precisa de um advogado. O filho vai ao tribunal esta tarde.

- Diga-lhe que procure Drew Jack Tyndale, o defensor públicEthel transmitiu ocre adoosição.

- Mas, Dr. Brigance, ela quer contratar o senhor doutor. Alguém disse que é o melhor advogado criminal da cidade.

A ironia era evidente na voz de Ethel.

- Diga-lhe que é verdade, mas que não estou interessado.

Ozzie algemou Willard e conduziu-o pelo corredor até ao seu escritório na parte da frente do prédio da cadeia de Ford County. Tirou-lhe as algemas e mandou-o sentar-se numa cadeira no centro da pequena sala. Sentou-se na cadeira grande atrás da sua mesa e olhou para o acusado.

- Sr. Willard, este é o tenente Griffin da Patrulha Rodoviária do Mississippi. Aquele é o investigador Rady, do meu departamento, e estes são os polícias Looney e Prather, que conheceu ontem à noite mas acho que não se deve lembrar. Eu sou o xerife Walls.

Willard virava a cabeça, assustado, a cada apresentação. Estava encurralado. A porta fechada. Viu dois gravadores sobre a mesa do xerife.

- Gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas, está bem? - Eu não sei.

- Antes de começar, quero ter certeza de que conhece os seus direitos. Primeiro, tem o direito de ficar calado. Compreendeu?

- Umm, umm.

- Não precisa falar se não quiser, mas se falar, qualquer coisa que diga pode e será usada contra si no tribunal. Compreendeu?

- Umm, umm.

- Sabe ler e escrever? - Sei.

- óptimo, então leia e assine isto. Diz aí que foi informado dos seus direitos.

Willard assinou. Ozzie carregou no botão vermelho de um dos gravadores.

- Percebe que o gravador está ligado?

Nenhuma resposta.

- Tenente Griffin, diga ao Sr. Willard como os brancos são tratados na Parchman.

Griffin sentou-se na ponta da mesa de Ozzie, a olhar para Willard.

- Há uns cinco anos, mais ou menos, um garoto branco de Helena County, no delta, violou uma menina negra de doze anos. Quando chegou à Parchman, eles estavam à espera dele. Sabiam que ele ia chegar. Na primeira noite, uns trinta negros ataram-no a um barril e sodomizaram-no. Os guardas assistiram, rindo à gargalhada. Eles apanharam-no todas as noites durante três meses e depois mataram-no. Foi encontrado castrado e enfiado no barril.

Willard encolheu-se na cadeira, depois inclinou a cabeça para trás e respirou fundo, deixando sair o ar dos pulmões para o tecto.

- Escute, Pete - disse Ozzie -, não é atrás de si que andamos. Queremos o Cobb. Estou atrás desse homem desde que ele saiu da Parchman. O Cobb é quem eu quero e quero muito. Você ajuda-nos a apanhar Cobb e; eu ajudo-o na medida do possível. Não estou a prometer nada, mas eu e o promotor trabalhamos juntos. Você ajuda-me a apanhar o Cobb e eu ajudo-o com o promotor. Limite-se a contar o que aconteceu.

- Quero um advogado - disse Willard. Ozzie baixou a cabeça e gemeu.

- O que é que um advogado vai fazer, Pete? Vai tirar os negros de cima de si? Estou a tentar ajudá-lo e você está a querer armar-se em esperto.

- Deve dar ouvidos ao xerife, homem. Ele está a tentar salvar-lhe a pele - disse Griffin.

- Você tem hipótese de apanhar só alguns anos nesta cadeia - disse Rady.

- É muito mais segura do que a de Parchman - explicou Prather.

- A escolha é sua, Pete - disse Ozzie. - Pode morrer na Parchman ou ficar aqui. Posso até resolver atenuar a sua prisão, se se portar como deve ser.

Willard baixou a cabeça e passou as mãos pelas têmporas. - Pronto, está bem.

Ozzie carregou no botão vermelho. - Onde encontraram a menina? - Numa estrada de cascalho.

- Umm, umm.

- Hoje é quarta-feira, 15 de Maio, oito e quarenta e três horas da manhã.

- Se é o senhor a dizê-lo...

- Como é o seu nome completo? - James Louis Willard.

- Como é que o tratam? - Por Pete. Pete Willard. - Endereço?

- Via 6, apartamento 14, Lake Village, Mississippi. - Em que rua?

- Bethel Road.

- Com quem vive?

- Com a minha mãe, Earnestine Willard. Sou divorciado. - Conhece Billy Ray Cobb?

Willard hesitou e olhou para os pés. Os sapatos tinham ficado na cela. As meias brancas, sujas, não escondiam os dedos grandes. Essa pergunta é segura, pensou ele.

- E, conheço, sim.

- Esteve com ele ontem? - Umm, umm.

- Onde estiveram? - No lago.

- A que horas saíram? - Mais ou menos às três. - Que tipo de viatura conduzia? - Eu não ia a guiar.

- Que transporte é que usaram? Willard hesitou. Olhou para os pés.

- Acho que não quero dizer mais nada. Ozzie desligou o gravador e respirou fundo. - Já esteve na Parchman?

Willard abanou a cabeça.

- Sabe quantos negros há na Parchman? Willard voltou a abanar a cabeça negativamente.

- Mais ou menos cinco mil. Sabe quantos brancos? - Não.

- Cerca de mil.

Willard apoiou o queixo no peito. Ozzie deixou que ele pensasse durante um minuto e piscou o olho ao tenente Griffin.

- Tem ideia do que aqueles negros vão fazer a um homem que violou uma criança negra?

- Em que estrada?

- Não sei. Eu estava bêbedo. - Para onde a levaram?

- Não sei.

- Só você e o Cobb? - Isso mesmo.

- Quem a violou?

- Nós dois. Billy Ray primeiro. - Quantas vezes?

- Não me lembro. Eu estava a fumar haxixe e a beber. - Vocês dois violentaram-na?

- Isso mesmo.

- Onde a deixaram?

- Não me lembro. Juro que não me lembro. Ozzie desligou o gravador.

- Vamos mandar dactilografar isto e você assina. Willard abanou a cabeça.

- Não diga ao Billy Ray.

- Não vamos dizer - prometeu o xerife.

 

Percy Bullard remexeu-se nervoso na cadeira de couro, atrás da enorme mesa de carvalho, no gabinete do juiz, atrás da sala do tribunal, onde uma multidão já estava à espera. Na pequena sala ao lado, os advogados, em volta da máquina de café, conversavam sobre o estupro. A pequena toga negra de Bullard estava pendurada ao lado da janela que dava para a parte norte da rua Washington. Calçava ténis nos pés pequenos que mal tocavam no chão. Era um homenzinho nervoso que se preocupava demasiado com audiências preliminares ou com qualquer outra audiência de rotina. Ao fim de treze anos como juiz não aprendera ainda a descontrair-se. Felizmente não precisava julgar casos importantes, que iam para o juiz da tribunal distrital. Bullard era apenas um juiz de condado, e tinha chegado ao topo da sua carreira.

O Sr. Pate, velho polícia do tribunal, bateu à porta. - Entre! - ordenou Bullard.

- Boa tarde, Senhor Doutor Juiz.

- Quantos negros estão lá fora? - perguntou Bullard, bruscamente.

- Metade da sala do tribunal.

- Isso quer dizer uma centena! Nunca aparecem tantos para um bom julgamento de assassinato. Que querem eles?

O Sr. Pate abanou a cabeça.

- Acho que pensam que os dois homens vão ser julgados hoje.

- Eu acho que eles só estão preocupados - disse o Sr. Pate, em voz baixa.

- Preocupados com quê? Não vou soltar nenhum deles. É só uma audiência preliminar. - E acalmando-se, olhou pela janela. - A família está lá?

- Acho que sim. Reconheci alguns deles, mas não conheço os pais da criança.

- E a segurança?

- O xerife pôs todos os polícias e até os de reserva perto do tribunal. Revistámos toda a gente à entrada.

- Encontraram alguma coisa? - Não, senhor.

- Onde estão os homens?

- Com o xerife. Devem chegar dentro de um minuto.

O juiz ficou satisfeito. O Sr. Pate pôs um papel escrito à mão sobre a mesa.

- O que é isso?

O Sr. Pate respirou fundo.

- Uma solicitação de um canal de TV de Memphis para filmar a audiência.

- O quê? - Bullard ficou rubro e abanou-se furiosamente na cadeira giratória. - Câmaras - gritou. - No tribunal! - Rasgou o papel e atirou os pedaços na direcção do cesto. - Onde estão?

- Na antecâmara.

- Pônha-os a todos fora do tribunal. O Sr. Pate saiu rapidamente.

Carl Lee Hailey estava sentado na penúltima fila, rodeado por dezenas de parentes e amigos que ocupavam as filas de bancos no lado direito do recinto do tribunal. Os bancos da esquerda esta

vam vazios. Os polícias, armados e apreensivos, vigiavam nervosamente o grupo de negros e especialmente Carl Lee que, curvado para a frente, com os cotovelos nos joelhos, olhava para o chão.

Jake, da sua janela, olhou para a parte de trás do tribunal. Era uma hora da tarde. Como sempre, tinha dispensado o almoço e não tinha nada para fazer na rua, mas precisava de um pouco de ar fresco. Passara a manhã toda no escritório e embora não estivesse interessado nos detalhes do estupro, detestava a ideia de perder uma audiência. O tribunal devia estar cheio porque não se via nenhum lugar vago disponível na praça. Um punhado de repórteres e fotógrafos esperava ansiosamente ao lado da porta das traseiras do tribunal, por onde Cobb e Willard deveriam entrar.

A cadeia ficava a dois quarteirões, ao sul da praça. Ozzie dirigia o carro com Cobb e Willard no banco de trás. Com um carro de policia em frente e outro atrás, a procissão deixou a rua Washington e entrou no curto caminho de acesso à varanda do tribunal. Seis policias, que escoltavam os acusados, passaram pelos repórteres, entraram no prédio e subiram a escada que levava à salinha de espera, ao lado do recinto do tribunal.

Jake pegou no casaco, ignorou Ethel e atravessou a rua a correr. Subiu a escada das traseiras, passou pelo pequeno corredor e entrou na sala do tribunal por uma porta lateral, no momento em que o Sr. Pate de pé para o tribunal. - gritou o Sr. Pate.

Todos se levantaram. Bullard adiantou-se e sentou-se.

-- Sentem-se - gritou ele. - Onde estão os acusados? Onde? Tragam os acusados!

Cobb e Willard foram conduzidos, algemados, da salinha de espera para a sala do tribunal. Estavam com a barba por fazer, sujos e pareciam confusos. Willard olhou para o grande grupo de negros, mas Cobb virou-lhes as costas. Looney retirou-lhes as algemas e fê-los sentar ao lado de Drew Jack Tyndale, o defensor público, atrás da longa mesa da defesa. Ao lado estava a mesa, longa também, do promotor Rocky Childers, que tomava notas com ar de importância.

Willard olhou para trás, para os negros. Na primeira fila, logo atrás dele, estavam sua mãe e a mãe de Cobb, cada uma protegida por um polícia. Willard sentiu-se seguro com todos aqueles polícias. Cobb nem uma só vez olhou para trás. Na penúltima fila, a vinte e cinco metros de distância, Carl Lee levantou a cabeça e olhou para as costas dos dois homens que tinham violentado a sua filha. Eram dois estranhos abatidos, com a barba por fazer e sujos. Tapou a cara com as mãos e curvou o corpo para a frente. Os polícias estavam de pé atrás dele, encostados à parede, a observar qualquer movimento.

- Agora, ouçam - começou Bullard, em voz bem alta. - Isto é só uma audiência preliminar, não um julgamento. O objectivo da preliminar é determinar se existe prova suficiente de que um crime foi cometido para enviar os acusados ao grande júri. Os acusados podem abrir mão desta audiência se quiserem.

Tyndale levantou-se.

- Não, senhor, Meritíssimo, queremos prosseguir com a audiência.

- Muito bem. Tenho aqui cópias das declarações juramentadas do xerife Walls, a acusar os dois homens de estupro de uma menina com menos de doze anos, rapto e danos corporais qualificados. Sr. Childers, pode chamar a sua primeira testemunha.

- Meritíssimo, o estado chama para depor o xerife Ozzie Walls.

Jake estava na bancada dos jurados com vários outros advogados, todos a fingir que liam algum material importante. Oz.ie prestou juramento e sentou-se no banco das testemunhas, à esquerda de Bullard, a poucos metros da bancada dos jurados.

- Queira dizer o seu nome. - Xerife Ozzie Walls.

- O senhor é o xerife de Ford County? - Sim.

- Eu sei quem ele é - resmungou Bullard, examinando rapidamente os papéis na pasta sobre a sua mesa.

- Xerife, ontem à tarde, o seu departamento recebeu um telefonema sobre uma criança desaparecida?

- Sim, mais ou menos às quatro e meia. - O que fez o senhor?

- Enviei o polícia Willie Hastings à residência de Gwen e Carl Lee Hailey, os pais da criança.

- Onde fica isso?

- Na Craft Road, atrás do armazém Bates. - O que foi que ele encontrou?

- Encontrou a mãe da criança, que tinha telefonado. Saiu de carro à procura da menina.

- Encontrou-a?

- Não. Quando voltou à casa, a menina estava lá. Tinha sido encontrada por uns homens que estavam a pescar e que a levaram para casa.

- Como estava a menina?

- Tinha sido violada e espancada. - Estava consciente?

- Sim. Podia falar, ou murmurar, um pouco. - Que disse ela?

Tyndale levantou-se de um salto.

- Meritíssimo, por favor, eu sei que é admissível o testemunho auricular numa audiência preliminar, mas isto é testemunho auricular em terceira mão.

- Objecção negada. Cale-se. Sente-se. Prossiga, Sr. Childers. - O que disse? Disse à mãe que tinham sido dois homens brancos numa pick-up amarela com uma bandeira rebelde no vidro traseiro. Só isso. Não conseguiu dizer mais nada. Tinha os dois maxilares partidos e o rosto cheio de marcas de pontapés.

- Que aconteceu depois? - polícia chamou uma ambulância e ela foi levada para o hospital.

Como está ela agora?

- Dizem que o estado é crítico. Que aconteceu a seguir?

- Baseado no que sabíamos na ocasião, pensei num suspeito. - Então, o que fez?

- Localizei um informador, um informador de confiança, e mandei-o a um bar perto do lago.

Childers não era homem de perder tempo com detalhes, especialmente em frente de Bullard. Jake sabia isso, e Tyndale também. Bullard enviava todos os casos para o júri de instrução. Fosse qual fosse o caso, os factos, as provas, independentemente fosse do que fosse, Bullard mandava o "acusado para o júri de instrução. Se as provas fossem insuficientes, o júri de instrução que os libertasse, não Bullard. Ele precisava de ser reeleito, o júri de instrução, não. Os eleitores ficavam descontentes quando os criminosos eram soltos. A maioria dos advogados de defesa do condado desistia das preliminares no tribunal de Bullard. Não Jake. Para ele, essas audiências eram o meio melhor e mais rápido de se conhecer as razões da acusação. Tyndale raramente desistia de uma preliminar.

- A que bar? - Ao Huey's. - E que descobriu?

- Disse que Cobb e Willard, os dois acusados, se estavam a gabar de terem violentado uma menina negra.

Cobb e Willard entreolharam-se. Quem seria o informador? Lembravam-se de pouca coisa no Huey's.

- Que encontrou o senhor, no Huey's?

- Efectuámos a prisão de Cobb e Willard, depois revistámos a pick-up registada em nome de Billy Ray Cobb.

- E que encontraram?

- Rebocámo-la e revistámo-la esta manhã. Muitas manchas de sangue.

- Que mais?

- Encontrámos uma t-shirt pequena coberta de sangue. - De quem era a t-shirt?

- Pertencia a Tonya Hailey, a menina violada. O pai dela, Carl Lee Hailey, identificou a t-shirt esta manhã.

Ao ouvir seu nome, Carl Lee endireitou o corpo na cadeira. Ozzie olhou directamente para ele. Jake voltou-se e viu Carl Lee pela primeira vez.

- Descreva a camionete.

- Uma pick-up Ford nova, amarela, de meia tonelada.

Rodas grandes cromadas e pneus antiderrapantes. Bandeira rebelde no vidro traseiro.

- Propriedade de quem?

Ozzie apontou para os acusados. - Billy Ray Cobb.

- Combina com a descrição feita pela menina? - Sim.

Childers fez uma pausa e consultou as suas notas.

- Agora, xerife, quais são as outras provas que tem contra esses acusados?

- Falámos com Pete Willard esta manhã, na cadeia. Ele assinou uma confissão.

- O que é que tu fizeste?! - exclamou Cobb.

Willard encolheu-se e olhou em volta à procura de ajuda.

- Ordem! Ordem! - gritou Bullard, batendo com o martelo. Tyndale separou os seus clientes.

- Informou o Sr. Willard dos seus direitos? - Sim.

- Ele compreendeu? - Sim.

- Ele assinou uma declaração a esse respeito? - Sim.

- Quem estava presente quando o Sr. Willard deu esse depoimento?

- Eu, mais dois polícias, o meu investigador, Rady e o tenente Griffin da Patrulha Rodoviária.

- O senhor tem a confissão? - Tenho.

- Por favor, leia-a.

O tribunal ouviu imóvel e em silêncio a leitura do breve depoimento. Carl Lee olhava inexpressivamente para os dois acusados. Cobb olhou furioso para Willard, que limpou a terra dos sapatos.

- Muito obrigado, xerife - disse Childers, quando Ozzie terminou. - O Sr. Willard assinou a confissão?

- Sim, perante três testemunhas.

- O estado não tem mais perguntas, Meritíssimo. Bullard berrou:

- A testemunha é sua, Sr. Tyndale.

- Não tenho perguntas, de momento, Meritíssimo.

Boa jogada, pensou Jake. Um recuo estratégico era o melhor que a defesa tinha a fazer, ficar calada, tomar notas, deixar que o testemunho fosse registado pelo estenógrafo do tribunal para que constasse dos autos. O júri de instrução ia estudar o caso, de qualquer modo, portanto, para que é que ele se iria dar ao trabalho?... E nunca permitir que o acusado testemunhe. O testemunho dele não serve para nada e pode prejudicá-lo no julgamento. Jake sabia que eles não iam testemunhar porque conhecia Tyndale.

- Chame a sua próxima testemunha - ordenou o juiz. - Não temos outra testemunha, Meritíssimo.

- Muito bem. Pode sentar-se. Sr. Tyndale, tem alguma testemunha?

- Não, Meritíssimo.

Óptimo. Este tribunal considera que existem provas suficientes de que um crime foi cometido por esses acusados e determina que o Sr. Cobb e o Sr. Willard fiquem à disposição do júri de instrução de Ford County, cuja sessão está marcada para o dia 27 de Maio, segunda-feira. Alguma pergunta?

Tyndale levantou-se devagar.

- Sim, Meritíssimo, gostaríamos de pedir ao tribunal o estabelecimento de uma fiança razoável para estes ac...

- Nem pense nisso - interrompeu Bullard secamente. - A partir deste momento está negada a fiança. Estou informado de que o estado da menina é crítico. Se ela morrer, haverá outras acusações.

- Bem, Meritíssimo, nesse caso, eu gostaria de pedir uma audiência para determinação da fiança, daqui a alguns dias, na esperança de que ela melhore.

Bullard olhou atentamente para Tyndale. Boa ideia, pensou. - Concedido. Está marcada uma audiência para fiança na próxima segunda-feira, dia 20 de Maio, neste tribunal. Até então, os acusados permanecerão sob a custódia do xerife de Ford County. Esta audiência está encerrada.

Bullard bateu com o martelo e desapareceu. Os polícias rodearam os acusados, algemaram-nos a ambos e saíram da sala, entraram na salinha de espera, desceram a escada das traseiras, passaram pelos repórteres e entraram no carro da polícia.

Fora uma audiência típica de Bullard - menos de vinte minutos. A justiça podia ser rápida naquele tribunal.

Jake conversou com os outros advogados enquanto a multidão atravessava em silêncio as enormes portas do tribunal. Carl Lee não se apressou e fez sinal a Jake para que fosse ter com ele.

Encontraram-se na antecâmara. Carl Lee despediu-se dos amigos e parentes e prometeu encontrá-los no hospital. Ele e Jake desceram para o primeiro andar.

- Eu lamento profundamente, Carl Lee - disse Jake.

- É, eu também. - Como está ela? - Vai conseguir. - Como está Gwen? - Bem, acho eu. - E você?

Seguiram vagarosamente pelo corredor, na direcção das traseiras do prédio.

- Ainda não consigo acreditar. Quero dizer, há vinte e quatro horas, tudo estava bem. Agora, olhe para nós. A minha filha está no hospital cheia de tubos. A minha mulher quase louca e os meus filhos mortos de medo, e a única coisa em que consigo pensar, é em pôr as mãos naqueles desgraçados.

- Eu gostaria de poder fazer alguma coisa, Carl Lee. - Tudo o que pode fazer é rezar por ela. Rezar por nós. - Sei que é doloroso.

- Tem uma filha pequena, não tem, Jake? - Tenho.

Caminharam em silêncio durante algum tempo. Jake mudou de assunto.

- Onde está o Lester? - Em Chicago.

- Que está ele lá a fazer?

- A trabalhar numa siderurgia. Um bom emprego. Casou. - Está a brincar! O Lester, casado?

- Isso mesmo, casou com uma rapariga branca.

- Branca! Que tem o Lester que ver com uma rapariga branca? - Bom, você conhece o Lester. Sempre foi um negro armado em parvo. Está a caminho. Deve chegar esta noite.

- Para quê?

Pararam na porta das traseiras. Jake perguntou: - Para que vem o Lester para cá?

- Negócios de família.

- Está a planear alguma coisa?

- Nada. Ele só quer ver a sobrinha. - Vejam se vão com calma.

- É fácil para si dizer isso, Jake. - Eu sei.

- No meu caso, o que faria, Jake? - De que é que está a falar?

- Tem uma filha, Jake! Suponha que ela está no hospital, espancada e violada. O que é que fazia?

Jake olhou para a pequena janela da porta e não respondeu. Carl Lee esperou.

- Não faça nenhum disparate, Carl Lee.

- Responda à minha pergunta. O que é que fazia? - Não sei. Não sei o que faria.

- Então deixe-me perguntar-lhe de outra maneira. Se fosse a sua filha e se fossem dois negros, e você pudesse pôr as mãos neles, o que é que fazia?

- Matava-os a ambos. Carl Lee sorriu.

- É claro que matava, Jake, é claro. Depois, contratava um advogado porreiro para dizer que você é doido, como fez no julgamento do Lester.

- Não dissemos que o Lester é doido. Só dissemos que Bowie precisava ser morto.

- Você livrou o Lester, não livrou? - Claro.

Carl Lee foi até à escada e olhou para cima.

- É por aqui que eles sobem para o tribunal? - perguntou, sem olhar para Jake.

- Quem?

- Aqueles dois.

- É. Geralmente, são levados por essa escada. É mais rápido e mais seguro. Podem parar o carro bem em frente da porta e levá-los rapidamente lá para cima.

Carl Lee foi até à porta das traseiras e olhou para a varanda. - Quantos casos de homicídio já defendeu, Jake?

- Três. O do Lester e mais dois outros. - Quantos eram negros?

- Todos três.

- Quantos ganhou? - Os três.

- Você é bom de verdade com negros assassinos, não é? - Acho que sou.

- Está pronto para outro?

- Não faça uma coisa dessas, Carl Lee. Não vale a pena. E se for condenado à câmara de gás? O que vai ser dos seus filhos? Quem vai criá-los? Esses vagabundos não valem isso.

- Você acabou de dizer que era o que faria. Jake aproximou-se dele, em frente da porta.

Livre- Comigo é diferente. Eu teria maior probabilidade de sair.

- Como?

- Eu sou branco e esta cidade é branca. Com um pouco de sorte, eu podia conseguir um júri só de brancos, que evidentemente estaria do meu lado. Não estamos em Nova Iorque, nem na Califórnia. O homem deve proteger a sua família. O júri iria achar que eu tinha procedido correctamente.

- E eu?

- Como acabei de dizer, isto não é Nova Iorque, nem a Califórnia. Alguns brancos poderiam louvar o que você fez, mas a maioria iria querer que fosse condenado. Seria muito mais difícil conseguir um veredicto de inocente.

- Mas você podia fazer isso, não podia, Jake? - Não faça isso, Carl Lee.

- Não tenho alternativa, Jake. Nunca mais vou dormir sossegado sabendo que aqueles dois estão vivos. Devo isso à minha filha. Devo-o a mim mesmo e devo-o à minha gente. Vai ser feito.

Abriram as portas, saíram para a varanda coberta e seguiram na direcção da rua Washington, no outro lado do prédio da cadeia. Despediram-se com um aperto de mão e Jake prometeu passar pelo hospital no dia seguinte para ver Gwen e a família.

- Mais uma coisa, Jake. Vai me esperar-me na cadeia quando eles me prenderem?

Sem pensar, Jake fez que sim com a cabeça. Carl Lee sorriu e continuou pelo passeio, na direcção da sua camionete.

 

Lester Hailey casou com uma sueca do Wisconsin e, embora ela garantisse que ainda o amava, Lester tinha a impressão de que o poder de atracção e novidade que a sua cor exercia, começava a perder o encanto. Ela tinha o pavor do Mississippi e recusou terminantemente acompanhá-lo na viagem a Ford County, por mais que ele lhe garantisse que não havia perigo. Ela não conhecia a família dele. Não que os parentes estivessem ansiosos por conhecê-la - não estavam. Não eram raros os casos de negros que se mudavam para o norte e casavam com brancas, mas nenhum Hailey tinha anteriormente feito isso. Havia muitos Hailey em Chicago, quase todos parentes e casados com negros. A família não estava impressionada com a mulher loura de Lester. Ele partiu para Clanton sozinho, no seu Cadillac.

Chegou ao hospital na quarta-feira, noite alta, e encontrou alguns primos a ler revistas na sala de espera do segundo andar. Abraçou Carl Lee. Não se viam desde o Natal, quando metade dos negros de Chicago regressava ao Mississippi e ao Alabama.

Foram depois para o corredor, para longe dos familiares. - Como está ela? - perguntou Lester.

- Melhor. Muito melhor. Acho que vai para casa no fim da semana.

Lester ficou aliviado. Quando saira de Chicago, onze horas antes, ela estava à morte, segundo o primo que lhe tinha telefonado e o tinha feito saltar da cama apavorado. Acendeu um cigarro bem debaixo do aviso de NÃO FUMAR e olhou atentamente para o irmão mais velho.

- Como é que estás?

Carl Lee fez um gesto afirmativo e olhou para o fim do corredor.

- Como está a Gwen?

- Mais louca do que nunca. Está em casa da mãe. Vieste sozinho?

- Isso mesmo - disse Lester, na defensiva. - óptimo.

- Não te armes em engraçadinho. Não vim a guiar este tempo todo para ouvir gracinhas sobre a minha mulher.

- Pronto, pronto. Ainda sofres de gases?

Lester riu. Desde o casamento que vivia atormentado por gases estomacais. A sueca fazia pratos cujo nome ele nem sabia pronunciar e o organismo reagia violentamente. Ele queria comer couve, ervilhas, quiabo, galinha frita, churrasco de porco e torresmos.

Chegaram a uma pequena sala de espera no terceiro andar, com cadeiras dobráveis e uma mesa de jogo. Lester pegou em dois copos de café velho e forte de uma máquina e mexeu o cre me em pó com o dedo. Ouviu atentamente a descrição do estupro, das prisões e da audiência. Depois agarrou nalguns guardanapos de papel e desenhou um diagrama do interior do tribunal e da cadeia. O seu julgamento fora há quatro anos e ele teve alguma dificuldade em lembrar-se de tudo. Passara apenas uma semana na cadeia antes do pagamento da fiança e não a voltara a visitar desde o julgamento. Na verdade, fora para Chicago logo a seguir. A vítima tinha parentes. Fizeram planos e mais planos, até bem depois da meia-noite.

Na quinta-feira, ao meio-dia, Tonya saiu da unidade de tratamento intensivo para um quarto particular. O quadro clínico era de estabilidade. Os médicos ficaram mais calmos e a família levou-lhe rebuçados, brinquedos e flores. Com os dois maxilares quebrados e fios de arame na boca, Tonya só conseguia olhar para os rebuçados. Os irmãos comeram quase todos. Eles ficavam junto da cama, pegando-lhe nas mãos, como para a protegerem e tranquilizarem. O quarto encheu-se de amigos e de estranhos, todos a fazerem-lhe festas delicadamente, dizendo que ela era um amor, tratando-a como uma pessoa especial, que acabava de passar por uma dura experiência. Os grupos revezavam-se, do corredor para o quarto e de volta ao corredor, sob a vigilância atenta das enfermeiras.

Tonya tinha dores e chorava de vez em quando. De hora a hora, as enfermeiras abriam caminho por entre as visitas para aplicarem um analgésico na paciente. Naquela noite, todos ficaram em silencio no quarto quando a estação de Memphis comentou o estupro. A televisão mostrou retratos dos dois homens brancos, mas Tonya não conseguia ver muito bem.

O tribunal de justiça de Ford County abria às 8 horas e fechava às 5 da tarde, todos os dias, excepto à sexta-feira, em que fechava às quatro e meia. Às quatro e meia de sexta-feira, Carl Lee estava escondido numa casa-de-banho do primeiro andar quando o tribunal foi fechado. Sentado na tampa de uma retrete, ficou imóvel, atentamente à escuta, durante uma hora. Nenhum empregado da limpeza. Ninguém. Silêncio. Saiu para o corredor largo e quase às escuras e espreitou pela janela. Ninguém à vista. Pôs-se de novo à escuta. O prédio do tribunal estava deserto. Voltou-se e olhou para a outra ponta do corredor, para a antecâmara e para as portas da frente, a sessenta metros de onde estava.

Carl Lee examinou o prédio. As duas portas duplas das traseiras abriam para dentro, para uma área de entrada grande e rectangular. Na extremidade direita havia duas escadas, e à esquerda outra igual. A área aberta estreitava-se e terminava no corredor.

Carl Lee fez de conta que estava a ser levado para julgamento. Pôs as duas mãos nas costas e encostou-se a uma das portas. Andou dez metros para a direita até a escada, subiu dez degraus, chegou ao pequeno patamar, uma volta de noventa graus para a esquerda, exactamente como Lester tinha dito. Depois, mais dez degraus até à salinha de espera, pequena, quatro metros por quatro, com uma janela e duas portas. Carl Lee abriu uma delas e entrou na enorme sala do tribunal, em frente das cadeiras dos espectadores. Foi até à passagem central e sentou-se na primeira fila. Examinando a sala, viu na sua frente a balaustrada, ou cerca, como dizia Lester, que separava o público do recinto onde ficavam o juiz, o júri, as testemunhas, os advogados, os réus e funcionários do tribunal.

Carl Lee seguiu pela passagem central até às portas grandes de madeira e examinou minuciosamente a sala do tribunal. Parecia muito diferente do que tinha visto na quarta-feira. Voltou pela passagem para a salinha de espera e abriu a outra porta que dava para a parte do tribunal onde se processava o julgamento. Sentou-se em frente da mesa comprida onde Lester, Cobb e Willard se tinham sentado. À direita estava a outra mesa grande onde ficava o promotor. Atrás das mesas havia uma fila de cadeiras, depois a balaustrada com portas de vaivém nas duas extremidades. O juiz sentava-se regiamente na cadeira no alto do estrado, de costas para a parede de onde pendia o retrato desbotado de Jefferson Davis, a olhar carrancudo para toda a sala. A bancada dos jurados estava à sua direita e'' à esquerda do juiz, encostada na parede, sob os retratos amarelados dos heróis confederados. O banco das testemunhas era perto do estrado do juiz, mais baixo, evidentemente, e de frente para o júri. À sua esquerda, de frente para a bancada do júri, estava uma mesa comprida com enormes livros vermelhos de registo. Funcionários e advogados reuniam-se, geralmente, em volta dessa mesa, durante os julgamentos. Atrás, do outro lado da parede, ficava a salinha de espera dos réus.

Carl Lee levantou-se e, ainda como se estivesse algemado, passou vagarosamente pela porta de vaivém da balaustrada e depois pela porta da salinha de espera. Desceu os dez degraus da escada estreita e escura e parou. Do patamar, no meio da escada, podia ver as portas do fundo do tribunal e grande parte da área de entrada entre as portas e o corredor. Aos pés da escada, à direita, abriu a porta do armário do zelador, atulhado e em desordem. Fechou a porta e examinou o pequeno espaço que fazia uma curva e acabava debaixo da escada. Era escuro, empoeirado, cheio de vassouras e baldes raramente usados. Abriu a porta e olhou para cima, para a escada.

Carl Lee andou pelo edifício durante mais uma hora. A outra escada das traseiras dava para outra salinha de espera, mesmo por detrás da bancada do júri, e continuava até ao terceiro andar, onde ficava a biblioteca de Direito e duas salas para jurados, exactamente como Lester dissera.

Descendo, subindo e tornando a descer, estudou os movimentos dos homens que tinham violentado a sua filha. Sentou-se na cadeira do juiz e olhou para os seus domínios. Sentou-se no banco dos jurados e soprou no microfone. Finalmente, às sete horas, já noite, Carl Lee levantou a janela da casa-de-banho ao lado do armário do zelador e saiu silenciosamente para o meio dos arbustos e para a noite.

- A quem tencionas comunicar isso? - perguntou Carla, fechando a caixa da pizza de 30 centímetros e servindo mais limonada.

Jake balançou suavemente o baloiço duplo da varanda, ao mesmo tempo que olhava para Hanna que saltava à corda no passeio.

- Estás aí? - perguntou Carla. - Não.

- A quem tencionas participar?

. Não pretendo comunicar a ninguém - disse ele. Eu acho que devias.

E eu acho que não devo. Porquê?

Jake balançou-se mais depressa e bebeu um gole de limonada. Depois falou devagar.

- Para começar, não tenho a certeza de que um crime esteja a ser planeado. Ele disse o que qualquer pai diria e sei que está a pensar como qualquer pai pensaria. Mas, quanto a planear um crime, não acredito. Depois, o que ele disse foi dito em confidência, como se fosse meu cliente. Na verdade, ele provavelmente pensa que sou advogado dele.

Mas mesmo como seu advogado, se soubesses que ele está a planear um crime, devias comunicar, não devias?

- Sim. Se eu tivesse a certeza dos planos dele. Mas não tenho.

Carla não desistiu.

- Eu acho que tu devias comunicar.

Jake não respondeu. Não tinha importância. Comeu o seu último pedaço de pizza tentando ignorá-la.

-- Queres que o Carl Lee faça isso, não queres? - Quero que ele faça o quê?

- Que mate aqueles dois homens.

- Não, não quero. - Jake não parecia muito convincente. - Mas se ele o fizer, não vou culpá-lo, porque eu faria a mesma coisa.

- Não comeces com isso outra vez.

- Sabes perfeitamente que estou a falar a sério. Eu matava-os. - Jake, tu não eras capaz de matar um homem.

-Tudo bem. Seja lá o que for. Não quero discutir. Já falámos disto.

Carla gritou a Hanna que saísse do meio da rua. Sentou-se ao lado dele no baloiço, sacudindo os cubos de gelo no copo.

- Defendê-lo-ias? - Espero que sim.

- Achas que o júri o condenava? - E tu, condenavas?

- Não sei.

- Muito bem, pensa na Hanna. Olha para aquela criança doce e inocente a saltar à corda. Tu és mãe. Agora, pensa na filhinha do Hailey, espancada, ensanguentada, a chamar pela mãe e pelo pai...

- Pára com isso, Jake! Ele sorriu.

- Responde, estás no júri. Votarias a favor da condenação do pai? Carla pôs o copo no parapeito da janela e de repente ficou muito interessada nas próprias unhas. Jake farejou a vitória.

- Vamos. Tu fazes parte do júri. Culpado ou inocente?

- Eu faço sempre parte do júri por aqui. Ou sou do júri, ou estou a ser interrogada.

- Culpado ou inocente? Carla olhou para ele zangada. - Seria difícil dizer culpado.

Com um largo sorriso, a defesa encerrou o caso.

- Mas não sei como ele os vai matar, estando eles na cadeia.

- Fácil. Nem sempre estão na cadeia. Vão ao tribunal e são levados de um lado para o outro. Lembra-te do Lee Oswald e do Jack Ruby. Além disso, se conseguirem fiança, podem sair da cadeia.

- Quando?

- A fiança vai ser determinada na segunda-feira. Se puderem pagar, estão livres.

- E se não puderem?

- Ficam na cadeia até ao julgamento. - Quando é o julgamento?

- Provavelmente no fim do Verão.

- Eu acho que tu devias comunicar isso.

Jake levantou-se do baloiço e foi brincar com Hanna.

 

  1. T. Bruster, ou Ca t Bruster, como era conhecido, era, pelo que sabia, o único milionário negro e zarolho de Memphis. Era dono de uma rede de night-clubs, todas a funcionar legalmente. Era proprietário de quarteirões de casas para alugar, que ele dirigia legalmente, tinha duas igrejas no sul de Memphis, que também funcionavam legalmente. Ajudava financeiramente várias causas dos negros, era amigo dos políticos e um herói para seu povo.

Para Cat era importante ser popular na comunidade porque ele seria indiciado outra vez e julgado outra vez e quase certamente inocentado outra vez, por um júri cuja metade era formada por negros. As autoridades não conseguiam condenar Cat por matar gente e vender coisas como mulheres, cocaína, mercadorias roubadas, cartões de crédito, senhas de refeição, bebidas de contrabando, armas e artilharia leve.

Cat tinha um olho só. O outro ficara em algum arrozal do Vietname. Perdera-o em 1971, no mesmo dia em que o seu amigo, Carl Lee Hailey, fora ferido na perna e carregou com ele às costas, durante duas horas, até serem socorridos. Depois da guerra, Cat voltou para Memphis com um quilo de haxixe. Com o dinheiro da venda, comprou um pequeno bar na South Main, e pouco faltou para morrer de fome até que ganhou uma prostituta num jogo de póquer. Cat prometeu-lhe que não precisaria mais de ser prostituta se tirasse a roupa para dançar entre as mesas do seu bar. Da noite para o dia Cat conseguiu mais fregueses do que podia atender, tendo comprado depois outro bar e arranjado mais bailarinas. Encontrou o seu lugar no mercado e, em dois anos, era um homem muito rico.

O escritório dele ficava em cima de um dos clubes, na South Main, entre Vance e Beale, no bairro mais perigoso de Memphis. O letreiro luminoso na porta anunciava Budweiser e bustos, mas muitas outras coisas eram vendidas por detrás daquelas janelas escuras. Carl Lee e Lester encontraram o bar - Brown Sugar - por volta do meio-dia de sábado. Sentaram-se ao balcão, pediram cerveja e olharam para os bustos.

- Cat está? - perguntou Carl Lee ao barman quando ele passou por eles, atrás do balcão. O homem resmungou e voltou a lavar as canecas de cerveja. Carl Lee ficou de cara fechada, enquanto bebia uns goles de cerveja e apreciava a dança.

- Outra cerveja! - disse Lester, em voz alta sem tirar os olhos das bailarinas.

- Cat Bruster está cá? - perguntou Carl Lee, com firmeza, quando o homem serviu a cerveja.

- Quem pergunta? - Eu.

- E então?

- Então, eu e Cat somos grandes amigos. Lutámos juntos no Vietname.

- Nome?

- Hailey. Carl Lee Hailey. Do Mississippi.

O barman saiu e um minuto depois apareceu entre dois espelhos no meio das garrafas de bebidas. Fez um sinal para os Hailey, que o seguiram por uma porta pequena, passaram pelas casas-de banho, por outra porta, fechada à chave, e subiram uma escada. O escritório era escuro e espalhafatoso. A alcatifa era dourada no chão, vermelha nas paredes e verde no tecto. Um tecto de tapete espesso verde. Barras de aço finas protegiam as janelas com vidros escuros e, por segurança, cortinas pesadas e poeirentas, cor-devinho, pendiam do tecto até ao chão para apanhar e estrangular qualquer raio de sol mais ousado que conseguisse penetrar através dos vidros pintados. Um lustre pequeno de metal cromado, com placas espelhadas, girava lentamente pouco acima das suas cabeças.

Dois guarda-costas enormes com fatos completos pretos e idênticos mandaram embora o barman, convidaram Carl Lee e Lester a sentarem-se e ficaram de pé atrás deles.

Os Hailey admiraram a decoração. - Bonito, não é? - disse Lester.

  1. B. King cantava os seus lamentos num estéreo fora das vistas. De repente, Cat entrou por uma porta secreta entre a parede e a mesa de mármore e vidro. Praticamente, atirou-se a Carl Lee.

- Meu amigo! Meu amigo! Carl Lee Hailey! - gritou, abraçando Carl Lee. - Que prazer em ver-te, Carl Lee. Que grande prazer!

Carl Lee retribuiu o abraço.

- Como estás, companheiro? - perguntou Cat. - Muito bem, Cat, muito bem. E tu?

- Optimamente! Optimãm-ente. Quem é este? - Estendeu a mão a Lester que a apertou e abanou violentamente.

- Este, é o meu irmão Lester - disse Carl Lee. - Ele é de Chicago.

- É um prazer conhecê-lo, Lester. Eu e o grande homem aqui somos muito amigos.-Muito amigos.

- Ele falou-me de si - disse Lester.

Cat olhou outra vez para Carl Lee, com admiração.

- Ora, ora, Carl Lee. Estás óptimo. Como vai a perna?

- Vai bem, Cat. Incomoda-me um pouco quando chove, mas de resto vai bem.

- Somos muito amigos, não somos?

Carl Lee fez que sim com a cabeça e sorriu. Cat largou-o. - Aceitam um copo?

- Não, obrigado - disse Carl Lee. - Aceito uma cerveja - disse Lester.

Cat fez estalar os dedos e um dos guarda-costas saiu da sala. Carl Lee sentou-se na cadeira e Cat na ponta da mesa, balançando os pés como um garoto num cais. Sorriu para Carl Lee que se remexeu na cadeira, envergonhado com tanta admiração.

- Porque não vens para Memphis trabalhar para mim? - perguntou Cat.

Carl Lee já esperava isso. Há dez anos que Cat lhe vinha oferecendo empregos.

- Não, obrigado, Cat. Estou satisfeito.

- Pois fico satisfeito por ti. Então, qual é o problema?

Carl Lee abriu a boca, hesitou, cruzou as pernas e franziu a testa. Inclinou levemente a cabeça e disse.

- Preciso de um favor, Cat. Um pequeno favor. Cat abriu os braços.

- Qualquer coisa, grande homem, seja o que for.

- Lembras-te daquelas M-16 que usámos no Vietname? Preciso de uma. O mais depressa possível.

Cat cruzou os braços sobre o peito. Olhou para o amigo por um momento.

- É uma arma perigosa. De que espécie de esquilo é que andaa à caça?

- Não é para esquilos.

Cat olhou atentamente para os dois. Sabia o suficiente para não perguntar para que era a arma. Era coisa séria, de contrário Carl Lee não estaria ali.

- Semi-automática? - Não. A verdadeira. - É muita massa. - Quanto?

- É ilegal à brava, sabias?

- Se eu pudesse comprar na Sears, não estaria aqui. Cat perguntou-lhe com um largo sorriso:

- Para quando é que precisas dela? - Para hoje.

A cerveja de Lester chegou e foi servida. Cat sentou-se na sua cadeira de capitão, de vinil cor-de-laranja, atrás da mesa.

- Mil dólares. - Eu tenho.

Cat não demonstrou a surpresa que sentiu. Aonde é que aquele negro humilde, de uma cidadezinha do Mississippi, teria arranjado mil dólares? Talvez emprestados pelo irmão.

- Mil para qualquer outra pessoa, mas não para ti, companheiro.

- Quanto?

- Nada, Carl Lee, nada. Estou-te a dever muito mais do que dinheiro.

- Terei prazer em pagar.

- Nada disso. Não se fala mais no assunto. A arma é tua. - É um grande favor que me fazes, Cat.

- Eu dava-te cinquenta se tu quisesses. - Só preciso de uma. Quando?

- Deixa-me verificar. - Cat fez um telefonema e resmungou qualquer coisa em voz baixa. Dadas as ordens, desligou e disse que ia demorar mais ou menos uma hora.

- Podemos esperar - disse Carl Lee.

Cat tirou a venda do olho esquerdo e passou um lenço pela órbita vazia.

- Tenho uma ideia melhor. - Voltou-se para os guarda-costas. - Tragam o meu carro. Vamos buscar a arma.

Seguiram Cat por uma porta secreta e depois por um corredor. - Eu vivo aqui, sabes - apontou. - Por detrás dessa porta, fica o meu apartamento. Geralmente tenho algumas mulheres nuas lá dentro.

- Gostava de ver - disse Lester. - Tudo bem - disse Carl Lee.

Mais adiante, Cat apontou para uma porta larga, preta e brilhante, no fim de um corredor curto.

- É aí que eu guardo o dinheiro. Tem um guarda a postos dia e noite.

- Quanto? - perguntou Lester, enquanto beberricava a cerveja.

Cat olhou carrancudo para ele. Carl Lee franziu a testa ao irmão e abanou a cabeça. No fim do corredor subiram uma escada estreita até ao quarto andar,-que era mais escuro. Na escuridão, Cat encontrou um botão na parede. Os três esperaram em silêncio, durante alguns segundos e então a parede abriu-se, revelando um elevador iluminado, com alcatifa vermelha e o aviso de NÃO FUMAR. Cat carregou noutro botão.

- Tens de subir para descer no elevador - disse ele, sorrindo. - Questão de segurança.

Ambos menearam a cabeça aprovando e com admiração. As portas abriram-se no subsolo. Um dos guarda-costas esperava ao lado da porta aberta de uma limusine enorme e branca e Cat convidou os dois para um passeio. À saída da garagem, passaram lentamente por uma fila de Fleetwoods, de outras limusines, de um Rolls-Royce e de uma série de carros de luxo europeus.

- São todos meus - disse Cat, com orgulho.

O motorista buzinou e uma porta pesada enrolou-se para cima, revelando uma rua lateral.

- Vá devagar. - gritou Cat ao chofer e ao guarda-costas, no banco da frente. - Quero mostrar-lhes esta parte da cidade. Carl Lee já tinha dado esse passeio anteriormente, na sua última visita. Viram filas e filas de barracas velhas e sem pintura a que o grande homem chamava propriedades arrendadas. Havia antigos armazéns de tijolo vermelho com janelas pintadas de preto ou fechadas com tábuas, sem a menor indicação do que havia lá dentro. Viram uma igreja, com aparência próspera e, logo adiante, mais outra. Ele era dono dos pastores também, disse Cat. Havia dezenas de bares nas esquinas, com as portas abertas e grupos de jovens negros sentados nos bancos, no passeio, a beber cerveja pela garrafa. Cat apontou com orgulho para um prédio incendiado perto da rua Beale e contou com entusiasmo a história de um concorrente que tinha tentado disputar um lugar no ramo dos shows de topless. Disse que não tinha concorrentes. Depois, havia também os clubes, com nomes como Angels e Cat's House e Black Paradise, onde um homem podia encontrar boas bebidas, boa comida, boa música, mulheres nuas e possivelmente mais coisas, disse ele. Os clubes tinham feito dele um homem muito rico. Eram oito ao todo.

Os Hailey viram os oito. Além do que parecia ser a maior parte dos prédios do sul de Memphis. No fim de uma rua sem nome e sem saída, perto do rio, o motorista enfiou por entre dois armazéns e seguiu por uma passagem estreita até um portão aberto, à direita. Passado o portão, abriu-se uma porta, ao lado de um cais, e a limusine entrou no prédio. O carro parou e o guarda-costas desceu.

- Fiquem sentados - disse Cat.

A mala foi aberta e fechada. Em menos de um minuto, a limusine percorria outra vez as ruas de Memphis.

- Que tal almoçarmos? - perguntou Cat e, antes que eles pudessem responder, gritou para o motorista. - Para o Black Paradise. Avise que vou almoçar.

- Tenho a melhor carne de Memphis, aqui mesmo nos meus clubes. É claro que não vão ler nada sobre eles, no jornal de domingo. Tenho sido ignorado pelos críticos. Dá para acreditar?

- A mim, parece-me discriminação - disse Lester.

- Isso mesmo. Tenho a certeza de que é. Mas eu não faço uso disso, a menos que seja indiciado.

- Não temos lido muito sobre ti, ultimamente, Cat - disse Carl Lee.

- O meu último julgamento foi há três anos. Fuga aos impostos. A polícia federal passou três semanas a reunir as provas e o júri demorou vinte e sete minutos e voltou com a palavra mais preciosa da língua afro-inglesa: "inocente".

- Eu já a ouvi uma vez - disse Lester.

O porteiro estava à espera deles sob a marquise do clube e uma equipe de guarda-costas - não os mesmos do escritório - escoltou o grande homem e os seus convidados para um gabinete reservado, distante da pista de dança. Bebida e comida foram servidas por um batalhão de empregados. Lester passou para scotch e já estava bêbedo quando chegou o prato principal. Carl Lee tomou chá gelado e reviveu velhas histórias com Cat.

Quando terminaram, um guarda-costas murmurou qualquer coisa ao ouvido de Cat. Com um largo sorriso, este olhou para Carl Lee.

- O Eldorado vermelho com placa de Illinois é teu? - É. Mas deixámo-lo no outro estacionamento.

- Está aí fora... na mala.

- O quê? - exclamou Lester. - Como...

Com uma gargalhada, Cat bateu-lhe nas costas.

- Não perguntes, homem, não perguntes. Tudo foi providenciado, homem. Cat é capaz de fazer seja o que for.

Como sempre fazia, Jake foi trabalhar no sábado, depois do pequeno-almoço no Coffee Shop. Gostava da tranquilidade do escritório, nas manhãs de sábado: nada de telefone, nada de Ethel.

Fechava a porta à chave, ignorava o telefone e evitava os clientes. Organizava arquivos, lia as decisões recentes do Supremo Tribunal e planeava a estratégia do seu próximo julgamento. As suas melhores ideias e pensamentos surgiam nessas tranquilas manhãs de sábado. Às onze horas telefonou para a cadeia. - O xerife está? - perguntou.

- Vou ver - respondeu o polícia. Passado algum tempo o xerife atendeu. - Xerife Walls.

- Ozzie, Jake Brigance. Como está? - Muito bem, Jake. E você?

- Bem. Vai ficar aí mais algum tempo? - Umas duas horas. O que há?

- Nada de especial. Só quero um minuto. Estou aí daqui a meia-hora.

- Fico à espera.

Jake e o xerife simpatizavam um com o outro e respeitavam-se. Jake era duro com ele, às vezes, nos interrogatórios, mas Ozzie sabia que não era nada pessoal. Jake ajudava nas campanhas de Ozzie e Lucien financiava-as, portanto, o xerife não se importava com algumas perguntas sarcásticas e agressivas nos julgamentos. E ele gostava de provocar Jake falando a respeito do jogo. Em 1969, quando Jake era um defesa principiante da equipa de futebol de Karaway, Ozzie era atacante da equipa campeã de Clanton. As duas equipas, ambas invictas, defrontaram-se no jogo final em Clanton, para a decisão do campeonato da liga de futebol. Durante quatro longos tempos do jogo, Ozzie barbarizou o ataque do Karaway, muito menor e conduzido por um bravo mas inexperiente capitão. No quarto tempo do jogo, com a sua equipa a vencer por 44-0, Ozzie partiu a perna de Jake num confronto.

Durante anos, ameaçou que lhe partia a outra. Continuava a dizer que Jake coxeava e perguntava-lhe como ia a perna.

- Qual é o problema, amigo? - perguntou Ozzie, quando Jake chegou ao seu escritório.

- Carl Lee. Estou um pouco preocupado com ele. - Preocupado como?

- Ouça, Ozzie, esta conversa é confidencial. Não quero que ninguém saiba o que vou dizer.

- Parece coisa séria, Jake.

- É sério. Falei com Carl Lee na quarta-feira, depois da audiência. Ele está completamente desnorteado e eu compreendo. Eu também estaria. Falou em matar os dois homens e falou a sério. Eu achei que o senhor devia saber.

- Eles estão seguros, Jake. Carl Lee não conseguiria chegar ao pé deles, nem que quisesse. Tivemos alguns telefonemas ameaçadores, anónimos, é claro. Os negros estão muito preocupados.

Mas os homens estão seguros, só os dois numa cela, e estamos a ter todos os cuidados.

- Isso é bom. Não fui contratado por Carl Lee, mas já representei quase todos os Hailey e tenho certeza de que ele me considera seu advogado, e achei que era minha obrigação falar consigo.

- Eu não estou preocupado, Jake.

- Óptimo. Quero perguntar-lhe uma coisa. Eu tenho uma filha e você tem uma filha, certo?

- Tenho duas.

- O que é que Carl Lee pensa? Quero dizer, como um pai negro?

- A mesma coisa que você pensaria. - E o que é?

Ozzie recostou-se na cadeira, cruzou os braços e pensou um momento.

- Está a pensar se ela vai ficar bem, fisicamente, quero dizer. Se vai viver e, se viver, quais serão as sequelas de tudo isso. Se vai poder ter filhos. Depois, está a pensar se ela está bem mentale emocionalmente e como isso a irá afectar pelo resto da vida. Terceiro, ele quer matar os desgraçados.

- Você matava-os?

- É fácil dizer que sim, mas a gente nunca sabe se o faria ou não. Acho que os meus filhos precisam de mim muito mais do que a Parchman. Que pensaria você, Jake?

- Mais ou menos a mesma coisa, acho eu. Não sei o que faria. Talvez ficasse louco. - Parou de falar e olhou para a mesa de Ozzie. - Mas pensaria seriamente em matar o culpado. Seria muito difícil dormir de noite, sabendo que ele estava vivo.

- Que faria um júri?

- Depende de quem são os jurados. Se você escolher o júri

certo, sai em liberdade. Se o promotor escolher o júri certo, você vai parar à câmara de gás. Depende exclusivamente do júri e nesta cidade podemos escolher as pessoas certas. Todos estão fartos de estupros, de roubos e de assassinatos. Sei que os brancos, pelo menos, estão.

-- Toda a gente está.

- O que eu estou a dizer é que todos veriam com simpatia o pai que resolveu fazer justiça com as próprias mãos. Ninguém confia no sistema judiciário. Eu acho que posso, pelo menos, fazer com que o júri fique indeciso. Basta convencer um ou dois jurados de que o desgraçado merecia morrer.

- Como o Monroe Bowie.

- Exactamente. Como o Monroe Bowie. Ele era um safado de um negro que merecia morrer e o Lester ficou livre. A propósito, Ozzie, porque pensa que o Lester veio de Chicago?

- Os dois irmãos são muito unidos. Andamos também a vigiar o Lester.

Mudaram de assunto e finalmente Ozzie perguntou-lhe pela perna. Despediram-se com um aperto de mãos e Jake saiu. Foi directamente para casa, onde Carla o esperava com a lista. Ela não se importava que ele fosse ao escritório no sábado de manhã, desde que chegasse à hora do almoço e obedecesse a todas as suas ordens até o fim do dia.

No Domingo, à tarde, uma pequena multidão acompanhou a cadeira de rodas de Tonya Hailey empurrada pelo pai, no corredor do hospital. Saíram para o estacionamento. Carl Lee, com todo o cuidado, tirou-a da cadeira e pô-la no banco da frente e, com a filha sentada entre ele e a mãe e os filhos no banco de trás, partiu, acompanhado pela procissão de amigos, parentes e estranhos. A caravana seguiu devagar, deixando o centro da cidade. Tonya estava sentada no banco da frente, como uma pessoa crescida.

O pai estava calado, a mãe chorosa, os irmãos silenciosos e rígidos.

Outra multidão estava à espera deles em casa e todos correram para a varanda, quando o carro parou no amplo jardim. Carl Lee levou-a ao colo para dentro, entre os murmúrios discretos dos presentes, e deitou-a no sofá da sala. Tonya sentia-se feliz por estar em casa, mas cansada dos espectadores. A mãe segurou-lhe nos pés enquanto primos, tios, tias, vizinhos e toda a gente a tocavam e sorriam, alguns com lágrimas nos olhos, sem dizer nada. O pai estava lá fora a conversar com o tio Lester e os outros homens. Os irmãos estavam na cozinha, com uma porção de gente, a devorar a imensa quantidade de comida em cima da mesa.

Rocky Childers era promotor em Ford County há mais tempo do que ele gostaria de se lembrar. Era um emprego que pagava quinze mil dólares por ano e lhe tomava o tempo todo, além de lhe ter destruído qualquer esperança de possuir um escritório particular de advocacia. Aos quarenta e dois anos, Childers via o ponto final da sua carreira como advogado num beco sem saída, com um emprego a tempo integral, sendo eleito sucessivamente de quatro em quatro anos. Felizmente, a mulher tinha um bom emprego, podendo assim terem sempre Buicks novos, eram sócios do country club e de um modo geral correspondiam aos padrões dos brancos educados de Ford County. Quando era mais novo, Childers tinha ambições políticas, mas os eleitores fizeram-no desistir, e agora, contra sua vontade, exauria a carreira a processar bêbedos, ladrões de meia-tigela, delinquentes juvenis e a aguentar os insultos do juiz Bullard que ele desprezava. Uma vez por outra, Childers animava-se, quando gente como Cobb e Willard fazia alguma coisa realmente sensacional e Rocky, com a sua autoridade legal, era encarregado da preliminar e de outras audiências, antes de o caso ser enviado ao grande júri, e posteriormente ao tribunal distrital, cujo promotor era o Sr. Rufus Buckley, de Polk County, o responsável pelo fim das ambições políticas de Childers.

Normalmente, a audiência para estipulação da fiança não significava muito para Childers, mas esta era um pouco diferente. Desde quarta-feira, que ele recebia dezenas de telefonemas de negros, todos eleitores, ou pelo menos dizendo que o eram, muito preocupados com a possibilidade de Cobb e Willard saírem da cadeia. Queriam que continuassem presos, exactamente como os negros que não podiam pagar a fiança exigida, antes do julgamento. Childers prometia fazer o melhor possível mas explicava que as fianças seriam estabelecidas pelo juiz do condado, Percy Bullard cujo número do telefone também constava da lista. Ele morava na rua Bennington. Todos prometiam estar no tribunal na segunda-feira para ver o que ele e Bullard iam fazer.

Segunda-feira, ao meio-dia e meia, Childers foi chamado ao gabinete do juiz, onde Bullard e o xerife o esperavam. O juiz estava tão nervoso que não conseguia permanecer sentado.

- Qual a fiança que quer? - perguntou Bullard.

- Eu não sei, Sr. Dr. juiz. Não pensei muito no assunto.

- Não acha que está mais do que na hora de começar a pensar? - Bullard andava de um lado para o outro, da mesa até a janela, da janela até a mesa.

Ozzie observava, divertido e em silêncio.

- Na verdade, não - respondeu Childers, com calma. - A decisão é sua. O senhor é que é o juiz.

- Obrigado! Obrigado! Obrigado! Quanto pediria?

- Eu peço sempre mais do que espero conseguir - respondeu Childers secamente, feliz com o nervosismo do juiz.

- E, quanto é isso?

- Não sei. Não pensei muito no assunto.

O pescoço de Bullard ficou rubro e ele olhou furioso para Ozzie.

- O que acha, xerife?

- Bom - disse Ozzie, com voz arrastada - eu sugiro fianças bem altas. Esses homens precisam de ficar na cadeia para sua própria segurança. Os negros estão inquietos lá fora. Eles vão acabar mal se saírem sob fiança. É melhor fixar uma fiança bastante alta.

- Que dinheiro têm eles?

- Willard está liso. Cobb, não sei. É difícil seguir a pista do dinheiro da droga. Ele pode arranjar uns vinte, trinta mil. Ouvi dizer que contratou um advogado importante de Memphis. Deve chegar hoje. Suponho que Cobb tenha algum dinheiro.

-- Bolas, por que é que eu nunca sei dessas coisas? Quem é que ele contratou?

- Bernard. Peter K. Bernard - disse Childers. Ele telefonou-me esta manhã.

- Nunca ouvi falar - disse Bullard com ar de superioridade, como se tivesse decorado uma lista de casos judiciais de todos os advogados existentes.

Bullard olhou para as árvores lá fora e o xerife e o promotor trocaram uma piscadela de olho. As fianças seriam exorbitantes, como sempre. Os agiotas de fianças adoravam Bullard por causa das suas fianças absurdas. Viam satisfeitos as famílias desesperadas gastar o último centavo, hipotecar casas e terras para pagar os juros que cobravam. Bullard fixava quantias elevadas sem se preocupar ele. Politicamente era seguro manter os criminosos na cadeia. Os negros iam gostar, o que era importante, apesar da maioria branca da sua jurisdição. Bullard devia alguns favores aos negros.

- Vamos fixar cem mil para Willard e duzentos mil para Cobb. Isso vai deixar todos satisfeitos.

-- Todos quem? - perguntou Ozzie.

- Bem, ora, o povo, o povo lá fora. Está de acordo?

- Para mim, está bem - disse Childers. - Mas e a audiência? - perguntou com um largo sorriso.

- Vamos conceder a audiência. Dar-lhes-emos uma audiência justa e, a seguir, eu determino as fianças em cem e duzentos mil.

- Suponho que devo pedir três mil, para que a sua decisão pareça justa? - perguntou Childers.

- Pouco me importa quanto vai pedir! - gritou o juiz.

- A mim, parece-me justo - disse Ozzie, dirigindo-se para a porta. - Vai chamar-me para testemunhar? - perguntou a Childers.

- Não, não precisamos de si. Acho que o estado não vai chamar ninguém uma vez que vamos ter uma audiência tão justa... Saíram da sala e Bullard ficou fulo. Fechou a porta, tirou uma garrafa de vodca da pasta e, furioso, bebeu um trago. O Sr. Pate estava à espera no corredor. Cinco minutos depois, Bullard entrou no tribunal completamente cheio, como um touro zangado. - Todos de pé! - gritou o Sr. Pate.

- Sentem-se! - berrou o juiz, antes que as pessoas tivessem tempo de se pôr de pé.

- Onde estão os acusados? Onde?

Cobb e Willard foram escoltados da sala de espera para a mesa da defesa. O novo advogado de Cobb sorriu para o cliente quando as algemas foram retiradas. O advogado de Willard, Tyndale, defensor público, ignorou-o.

O mesmo grupo de negros da audiência preliminar estava presente, com mais alguns amigos. Todos observavam atentamente os movimentos dos dois homens brancos. Lester viu-os pela primeira vez. Carl Lee não estava no tribunal.

Do alto da sua cátedra, Bullard contou os polícias - nove ao todo. Devia ser um recorde. Então contou os negros-centenas, todos juntos, todos a olhar carrancudos para os violadores que esta-

vam entre os seus dois advogados. A vodca era um alívio. Bebeu um gole do que parecia ser água gelada, no copo de plástico, e sorriu. A bebida desceu lentamente como fogo brando e o sangue subiu-lhe à cara. O que ele devia fazer era mandar sair todos os polícias e atirar Cobb e Willard aos negros. Seria divertido e a justiça teria sido feita. Bullard quase conseguia ver as negras gordas a pular de contentes, enquanto os homens espetavam os dois homens com facas e machadinhas. Depois, quando tudo estivesse terminado, eles sairiam em silêncio da sala. Bullard sorriu.

Fez um sinal ao Sr. Pate, que se aproximou.

- Tenho uma garrafa de água gelada na gaveta da minha mesa - murmurou o juiz. - Sirva um pouco num copo de plástico.

O Sr. Pate fez um gesto afirmativo e saiu da sala.

- Esta é uma audiência para se estipular a fiança - explicou o juiz, em voz alta - e espero que seja breve. Os acusados estão prontos?

- Sim, senhor - disse Tyndale.

- Sim, Meritíssimo - disse o Sr. Bernard. - O estado está pronto?

- Sim, senhor - respondeu Childers, sem se levantar. - Muito bem. Chame a sua primeira testemunha. Childers dirigiu-se ao juiz.

- Meritíssimo, o estado não vai chamar nenhuma testemunha. O Meritíssimo está a par das acusações contra os dois acusados, uma vez que presidiu à audiência preliminar na quarta-feira. Fui informado de que a vítima já está em casa. Sendo assim, não antecipamos novas acusações. Pediremos ao júri de instrução, na segunda-feira, o indiciamento dos dois acusados por estupro, rapto e lesão corporal qualificada. Devido à natureza violenta desses crimes, à idade da vítima e por ser o Sr. Cobb um ex-condenado, o estado pede as fianças máximas, nem um centavo a menos.

Bullard quase engasgou com a água gelada. Que máxima? Não existe nenhuma fiança máxima.

- O que sugere, Sr. Childers?

- Meio milhão cada um! - disse Childers orgulhosamente, sentando-se.

Meio milhão! De jeito nenhum, pensou Bullard. Bebeu mais água gelada e olhou furioso para o promotor. Meio milhão! Traído em pleno tribunal! Mandou o Sr. Pate buscar mais água gelada.

- Tem a palavra a defesa.

O novo advogado de Cobb levantou-se com ar decidido, tirou os óculos académicos de leitura, com aros de tartaruga pigarreou e    , disse:

Com permissão do tribunal, Meritíssimo, o meu nome é peter K. Bernard. Sou de Memphis e fui contratado pelo Sr. Cobb para o representar Tem licença para advogar no Mississippi? – interrompeu Bullard.

Bernard foi apanhado de surpresa.

- Bem, eu". não exactamente, Meritíssimo.

- já percebi. Quando diz "não exactamente", quer dizer alguma coisa diferente de não?

Alguns advogados na" bancada do júri riram divertidos. Bullard era famoso por coisas destas. Detestava os advogados de emphis e exigia que trabalhassem com um advogado local antes de se apresentarem no seu tribunal. Anos antes, quando ele ainda advogava, um juiz de Memphis expulsara-o do tribunal por não ser licenciado no Tennessee. Bullard vingava-se desde o dia em que fora eleito juiz.

- Meritíssimo, não sou licenciado no Mississippi, mas sou licenciado no Tennessee.

- Espero bem que sim... - respondeu o juiz. Mais risos abafados da bancada do júri, - Conhece os regulamentos de Ford County? - perguntou o Meritíssimo.

- Bem, eu, sim, Senhor Dr. Juiz.

- Tem uma cópia desses regulamentos? - Tenho sim, Meretíssimo.

- E leu-a atentamente antes de se aventurar no meu tribunal?

- Bem, sim, a maior parte.

- Compreendeu o Regulamento 14 quando o leu? Cobb olhou desconfiado para o novo advogado.

- Bem, não me lembro desse especificamente - admitiu Bernard.

- Foi o que eu pensei, o Regulamento 14 determina que advogados de outros estados, sem licença no Mississippi, se associem a um advogado local para aparecerem no meu tribunal.

- Sim, senhor.

A aparência e os maneirismos de Bernard eram de um advogado experiente. Pelo menos, era essa a sua fama em Memphis. Entretanto, estava em via de ser totalmente arrasado e humilhado por um juiz simplório de uma pequena cidade, com uma língua ferina.

- Sim, senhor o quê? - vociferou Bullard.

- Sim, senhor, acho que ouvi falar desse regulamento. - Então, onde está o advogado local?

- Não há nenhum, mas eu pretendia...

- Então, o senhor veio de Memphis, leu atentamente os meus regulamentos e ignorou-os deliberadamente. Correcto? Bernard baixou a cabeça e olhou atordoado para o bloco de papel em branco sobre a mesa. Tyndale levantou-se devagar.

- Meritíssimo, que fique registado que eu me apresento como advogado associado do Dr. Bernard, exclusivamente para fins desta audiência e de mais nenhum.

Bullard sorriu. Boa jogada, Tyndale, boa jogada. A água gelada aqueceu-o e Bullard aquietou-se.

- Muito bem, chame as suas testemunhas.

Bernard empertigou-se outra vez e inclinou a cabeça para o lado.

- Meritíssimo, como testemunha de defesa do Sr. Cobb, eu gostaria de chamar o irmão, o Sr. Fred Cobb, para depor.

- Seja breve - disse Bullard.

O irmão de Cobb prestou juramento e sentou-se. Bernard assumiu o pódio e começou um longo e detalhado interrogatório directo. Estava bem preparado. Provou que Billy Ray Cobb tinha um bom emprego, era proprietário de imóveis em Ford County, tinha crescido na cidade, onde moravam quase toda a sua família e os seus amigos e que não tinha motivos para sair de Ford County. Um cidadão sólido, com raízes profundas, teria muito a perder com uma fuga. Era um homem no qual se podia confiar que compareceria ao julgamento. Um homem que merecia uma fiança razoável.

Bullard bebeu um gole, bateu com a caneta na mesa e examinou os rostos dos espectadores.

Childers não tinha nenhuma pergunta. Bernard chamou a mãe de Cobb, Cora, que repetiu o que o filho Fred dissera sobre o seu filho Billy Ray. Deixou escapar umas duas lágrimas no momento errado e Bullard meneou a cabeça.

Chegou a vez de Tyndale. Fez o mesmo com a familia de Willard.

Fiança de meio milhão de dólares! Qualquer coisa menor seria pouco e os negros não iam ficar satisfeitos. O juiz tinha motivo para odiar Childers. Mas gostava dos negros porque o tinham eleito na última eleição. Tivera cinquenta e um por cento dos votos do condado, mas todos os votos dos negros.

- Mais alguma coisa? - perguntou, quando Tyndale terminou.

Os três advogados entreolharam-se, depois voltaram-se para o juiz. Merd ssimo, eu gostaria de resumir a posição do meu cliente em relação a uma fiança razoável...

- Esqueça, meu amigo. Já ouvi o bastante sobre o senhor e o seu cliente. Sente-se.

Bullard hesitou, e então disse rapidamente:

- O tribunal decide determinar uma fiança de cem mil dólares para Pete Willard e de duzentos mil dólares para Billy Ray Cobb. Os acusados permanecerão sob a custódia do xerife até ao pagamento das fianças. Está encerrada a sessão. - Bateu com o martelo e saiu da sala. No seu gabinete, esvaziou a garrafa de vodca e abriu outra.

Lester ficou satisfeito com as fianças. A dele fora de cinquenta mil pelo assassinato de Monroe Bowie. É claro que Bowie era negro e as fianças geralmente eram mais baixas nesse caso.

O povo começou a caminhar para a porta, mas Lester não se moveu. Observou atentamente os dois acusados a serem algemados e conduzidos para a sala de espera. Quando eles desapareceram, Lester apoiou a cabeça nas mãos e recitou uma rápida oração. Depois, pôs-se à escuta.

Pelo menos dez vezes ao dia, Jake passava pelas portas de vidro e ia até à varanda para examinar o centro da cidade de Clanton. Às vezes, acendia um charuto barato e deitava o fumo lá para fora, por cima da rua Washington. Mesmo no Verão, deixava abertas as janelas do escritório. Os sons do movimentado centro da cidade faziam-lhe companhia enquanto ele trabalhava. Às vezes, admirava-se com o volume do som que subia das ruas em volta do tribunal e, outras vezes, ia até à varanda para ver por que razão estava tudo tão quieto.

Um pouco antes das duas horas da tarde, na segunda-feira, 20 de Maio, Jake foi até à varanda e acendeu um charuto. Um silêncio pesado envolvia o centro de Clanton, Mississippi.

Cobb desceu à frente, com as mãos algemadas nas costas, e atrás dele desceu Willard e o polícia Looney. Dez degraus, o patamar, virar para a direita, mais dez degraus até ao primeiro andar.

Três polícias esperavam-nos do lado de fora, ao lado dos carros de polícia, a fumar e a olhar a movimentação dos repórteres.

Quando Cobb chegou ao segundo degrau, de baixo para cima, Willard no terceiro acima dele, e Looney no primeiro degrau depois do patamar, a porta do pequeno, sujo e desordenado armário zelador abriu-se bruscamente e o Sr. Carl Lee Hailey saltou do escuro, empunhando uma M-16. Abriu fogo à queima-roupa.

Osestampidos rápidos e secos fizeram tremer o prédio do tribunal, explodindo o silêncio. Os violadores ficaram imóveis, depois gritaram quando foram atingidos - Cobb primeiro, na barriga e no peito, e a seguir Willard, no rosto e no pescoço. Giraram o corpo inutilmFente na direcção do topo da escada, algemados e indefesos, cai% um por cima do outro, misturando pedaços de pele e sangue, Looney foi atingido na perna, mas conseguiu subir para a sala de espera, onde ficou agachado, ouvindo os gritos e os gemidos de Cobb e Willard e o riso louco do negro. As balas ricocheteavam entre as paredes da escada estreita e, quando olhava para baixo,Looney via carne e sangue a espirrar para as paredes e a esc%er pelos degraus.

Com disparos rápidos e curtos, de sete ou oito balas cada um, o som trovejante da M-16 ecoou pelo prédio durante uma eternidade. Entre os estampidos e o ruído das balas a bater nas paredes, ouvia-se perfeitamente o riso louco de Carl Lee.

Quando acabou, atirou a espingarda para cima dos dois corpos e desatou a correr. Na casa-de-banho, prendeu o trinco da porta com uma cadeira, saltou pela janela para os arbustos e saiu para o passeio. Calmamente, dirigiu-se para a sua pick-up e foi para casa. Lester ficou rígido quando começaram os tiros. Ouvia perfeitamente os estampidos na sala do tribunal. A mãe de Willard gritou e a mãe de Cobb gritou também e os polícias precipitaram-se para a sala de espera, mas não desceram a escada. Lester ficou atento para ver se ouvia tiros de revólveres e como não ouviu nenhum, saiu da sala.

Ao primeiro tiro, Bullard agarrou na garrafa de vodca e enfiou-se debaixo da mesa, enquanto o Sr. Pate trancava a porta.

Cobb, ou o que dele restava, caiu sobre o corpo de Willard. O sangue misturado dos dois formava poças nos degraus, e escorria para o seguinte, onde formava outra poça, antes de pingar para baixo. Em questão de segundos, o chão, no fim da escada estreita, tornara-se um lago de sangue.

Jake saiu a correr do escritório e atravessou a rua na direcção da porta das traseiras do tribunal. O polícia Prather, agachado em frente da porta, de arma na mão, esbravejava com os repórteres que tentavam aproximar-se. Os outros polícias estavam ajoelhados prudentemente nos degraus, ao lado dos carros-patrulha. Jake correu para a frente do prédio, onde mais polícias guardavam a porta, ajudando a saída dos funcionários e das testemunhas. Uma verdadeira multidão corria para a rua. Jake abriu caminho contra a corrente e encontrou Ozzie no átrio, a orientar as pessoas e a gritar em todas as direcções. Fez um sinal a Jake e seguiram ambos pelo corredor, a caminho das portas das traseiras, onde uma meia dúzia de polícias, empunhando as suas armas, olhavam em silêncio para a escada. Jake sentiu náuseas. Willard tinha quase chegado ao patamar. A parte da frente da cabeça tinha desaparecido e a massa cinzenta escorria como geléia cobrindo-lhe a cara. Cobb tinha conseguido virar o corpo e recebera a maior parte das balas nas costas. A cara dele estava em cima da barriga de Willard e os pés tocavam no quarto degrau da escada, de baixo para cima. O sangue continuava a escorrer dos corpos sem vida, cobrindo completamente os últimos degraus da escada. A poça vermelha no chão avançava rapidamente na direcção dos polícias que iam recuando aos poucos. A arma estava entre as pernas de Cobb, no quinto degrau, também coberta de sangue.

O grupo olhava em silêncio, horrorizado perante os dois corpos que, embora mortos, continuavam a verter sangue. O cheiro espesso de pólvora pairava no ar e espalhava-se pelo corredor até ao átrio do tribunal, onde os polícias continuavam a conduzir as pessoas para a porta da frente.

- Jake, acho melhor ir-se embora - disse Ozzie, sem olhar para os corpos.

- Porquê?

- Vá-se embora. - Porquê?

- Porque preciso de tirar fotografias e de reunir provas e não precisa de ficar aqui.

- Está bem. Mas não o interrogue sem a minha presença. Compreendeu?

Ozzie fez que sim com a cabeça.

As fotografias foram tiradas, a escada limpa, as provas reunidas, os corpos removidos e, duas horas depois, Ozzie saiu do prédio do tribunal acompanhado por cinco carros-patrulha. Era Has

tings quem ia a guiar e seguiu para fora da cidade, na direcção do lago, passaram pelo armazém Bates e entraram na Craft Road. Em frente da casa dos Hailey estavam apenas o carro de Gwen, a pickup de Carl Lee e o Cadillac vermelho com placa do Illinois.Quando os carros pararam enfileirados em frente da casa. Ozzie não esperava nenhum problema. Os polícias agacharam-se atrás das portas abertas, de armas em punho, e o xerife dirigiu-se

sozinho para a casa. A porta abriu-se lentamente e apareceu a família Hailey. Carl Lee foi até à beira da varanda com Tonya nos braços. Olhou para o seu amigo, o xerife, e depois para a fileira de carros e polícias. À sua direita estava Gwen e à esquerda os três filhos, o mais pequeno a chorar baixinho, mas os outros dois bravos e orgulhosos. Atrás deles estava Lester. Os dois grupos estudaram-se mutuamente, cada um deles à espera que o outro dissesse ou fizesse alguma coisa, desejando cada um deles evitar o que estava para acontecer. Só se ouvia o choro contido de Tonya, da mãe e do filho mais pequeno.

As crianças tinham tentado compreender. O pai contara o que tinha feito e explicara as razões. Eles percebiam isso, mas não conseguiam compreender por que o pai tinha de ir para a prisão. Ozzie deu um pontapé num torrão de terra, olhou para a família, depois para os seus homens. Por fim, disse:

- É melhor vir comigo.

Carl Lee inclinou levemente a cabeça, mas não se mexeu. Gwen e o menino choraram mais alto quando Lester tirou Tonya dos braços do pai. Então Carl Lee ajoelhou-se diante dos filhos e em voz baixa repetiu que tinha que ir mas que voltava em breve. Abraçou os três e as crianças agarraram-se a ele, a chorar. Carl Lee voltou-se e beijou a mulher. Depois, desceu os degraus da varanda e foi ter com o xerife.

- Quer pôr-me as algemas, Ozzie? - Não, Carl Lee, entre no carro.

 

Moss Junior Tatum, o primeiro subdelegado, e Jake conversavam no escritório de Ozzie enquanto polícias, tropas de reserva, prisioneiros com regalias por bom comportamento e outros funcionários da prisão se amontoavam na sala de trabalho, espaçosa, ao lado do escritório de Ozzie, esperando ansiosamente a chegada do prisioneiro. Dois polícias espreitavam por entre as lâminas da persiana os repórteres e cameramen no estacionamento, entre o edifício e a estrada. As carrinhas de televisão de Memphis, Jackson e Tupelo estavam espalhadas pelo espaço completamente cheio. Moss não gostou. Foi até ao passeio e mandou que os jornalistas se limitassem a uma determinada área e juntassem também as carrinhas.

- O senhor vai fazer uma declaração? - gritou um repórter - Vou, ponham as carrinhas onde eu mandei.

- Pode dizer alguma coisa sobre os crimes? - Posso, duas pessoas foram mortas.

- E os pormenores?

- Nada. Eu não estava lá. - Já têm um suspeito? - Temos.

- Quem é?

- Digo-lhes depois de terem mudado as carrinhas de lugar. A ordem foi obedecida imediatamente e as câmaras e microfones juntaram-se no passeio. Moss dirigiu o movimento até ficar satisfeito com o resultado, depois aproximou-se dos repórteres. Enquanto mastigava calmamente um palito, enfiou os polegares nas alças do cinto, abaixo da barriga avantajada.

- Quem foi? - Está preso?

- A família da menina está envolvida? - Foram ambos mortos?

Moss sorriu e abanou a cabeça.

- Um de cada vez. Sim, temos um suspeito. Está preso e deve chegar a qualquer momento. Deixem os carros fora do caminho. E é tudo.

Moss voltou para o prédio da cadeia ignorando os repórteres que continuavam a gritar perguntas e entrou na sala onde os outros esperavam.

- Como está Looney? - perguntou.

- Prather está com ele no hospital. Está bem - um ferimento leve na perna.

- Sim, e um leve ataque do coração - sorriu Moss. Os outros riram.

- Aí vêm eles! - gritou um prisioneiro e todos correram para as janelas quando a fila de luzes azuis entrou no estacionamento.

Ozzie conduzia o primeiro carro com Carl Lee ao seu lado, sem algemas. Hastings, recostado no banco de trás, acenou para as câmaras quando passaram por elas e continuaram além das carrinhas, deram a volta ao edifício, pararam na porta das traseiras e entraram os três, calmamente. Carl Lee foi entregue ao carcereiro e Ozzie foi para o escritório, onde Jake o esperava.

- Pode vê-lo num minuto, Jake - disse o xerife. - Obrigado. Tem a certeza de que foi ele?

- Sim, tenho.

- Ele não confessou, pois não?

- Não, ele não falou muito sobre coisa alguma. Acho que o Lester o instruiu.

- Ozzie - disse Moss, entrando no escritório - aqueles repórteres querem falar consigo. Eu disse-lhes que iria falar com eles daqui a minutos.

- Obrigado, Moss - suspirou Ozzie.

- Alguém presenciou o crime? - perguntou Jake. Ozzie enxugou a testa com um grande lenço vermelho.

- Sim. Looney pode identificá-lo. Você conhece o Murphy, o homenzinho aleijado que varre o chão do tribunal?

- Claro. Gagueja um bocado.

- Ele viu tudo. Estava sentado na escada do lado leste, bem de frente para o que aconteceu. A almoçar. Ficou tão assustado que não conseguiu falar durante uma hora. - Ozzie parou de falar e olhou para Jake. - Porque lhe estou a contar tudo isto?

 

- E qual é a diferença? Eu havia de saber, mais cedo ou mais tarde. Onde está o meu homem?

- No fim do corredor, na cadeia. Eles têm de tirar fotografias e tudo o mais. Uns trinta minutos, mais ou menos.

Ozzie saiu e Jake telefonou para Carla, recomendando-lhe que assistisse e gravasse os noticiários.

Diante dos microfones e das câmaras, Ozzie disse:

- Não vou responder a nenhuma pergunta. Temos um suspeito sob custódia. O nome dele é Carl Lee Hailey de Ford County. Detido por dois assassinatos.

- É o pai da criança?. - Sim, é.

Como sabem que foi ele? - É que somos muito espertos. - Alguma testemunha ocular? - Não que eu saiba.

- Ele confessou? - Não.

- Onde o encontrou? - Na casa dele.

- Houve um polícia que ficou ferido? - Houve.

- Como está ele?

- Está bem. Está no hospital, mas está bem. - Como é que ele se chama?

- Looney. DeWayne Looney.

- Quando vai ser a audiência preliminar? - Eu não sou juiz.

- Alguma ideia?

- Talvez amanhã, talvez na quarta-feira. Chega de perguntas, por favor. De momento, não tenho mais nenhuma informação para a imprensa.

O carcereiro pegou na carteira de Carl Lee, dinheiro, relógio, chaveiro e canivete e procedeu à sua relação, num inventário, que Carl Lee assinou e datou. Numa pequena sala, ao lado da cadeia,

foi fotografado e tiraram-lhe as impressões digitais, exactamente como Lester dissera que fariam. Ozzie estava à espera no corredor e levou-o para uma sala onde se faziam os testes de alcolémia aos bêbedos. Jake estava sentado ao lado da mesa com o aparelho. Ozzie pediu licença e saiu.

Advogado e cliente, com a mesa de premeio, estudaram-se atentamente. Sorriram, com admiração, mas em silêncio. Tinham estados, tinham os problemas delas e não podiam oferecer mais do que apoio moral. A família de Gwen era grande e todos evitavam sarilhos, mas não eram ricos. Carl Lee tinha alguns hectares de terra e a casa que tinha hipotecado para ajudar Lester a pagar a Jake.

Jake tinha cobrado cinco mil dólares pela defesa de Lester no julgamento por assassinato. Metade foi paga antes do julgamento e o resto em prestações, durante três anos.

Jake detestava falar sobre honorários. Era a parte mais difícil da sua profissão. Os clientes queriam saber com antecedência, imediatamente, quanto teriam de pagar e as reacções variavam. Alguns ficavam chocados, outros engoliam em seco, alguns - poucos - saíam furiosos do seu escritório. Outros ainda negociavam, mas a maioria pagava ou prometia pagar.

Jake leu a ficha e o contrato, desesperadamente, tentando pensar num preço justo. Muitos outros advogados estariam dispostos a aceitar aquele caso praticamente de graça. Só pela publicidade. Jake pensou no terreno da casa de Carl Lee, no emprego na fábrica de papel e finalmente disse:

- Os meus honorários são dez mil dólares. Carl Lee não pestanejou.

- Cobrou cinco mil ao Lester. Jake já estava à espera disso.

- Você tem três acusações. O Lester só tinha uma. - Quantas vezes posso ir para a câmara de gás? - Boa pergunta. Quanto pode pagar?

- Posso pagar mil agora - disse, com orgulho. - E o resto peço emprestado dando as minhas terras como aval e dou-lhe tudo a si, Jake.

Jake pensou um minuto.

- Tenho uma ideia melhor. Vamos combinar um preço. Você paga mil agora e assina uma nota promissória pelo resto. Faça o empréstimo e pague mediante apresentação da promissória.

- Quanto é que quer? - perguntou Carl Lee. - Dez mil.

- Pago cinco.

- Pode pagar mais do que isso.

- E você pode defender-me por muito menos. - Certo, posso fazer-lho por nove.

- Nesse caso, posso pagar seis. - Oito?

- Sete.

- Podemos concordar com sete mil e quinhentos?

 

. Sim, acho que posso pagar isso. Depende do que irão emprestar pelas minhas terras. Quer que eu pague mil agora e assine uma promissória de seis mil e quinhentos?

- Isso mesmo.

- Está bem, negócio fechado.

Jake preencheu o formulário do contrato e fez a nota promissória e Carl Lee assinou os dois documentos.

- Jake, quanto é que pediria para defender um homem com muito dinheiro?

- Cinquenta mil dólares.

- Cinquenta mil! Está a falar a sério? - Exactamente.

- Diabo, é uma pipa de massa. Já recebeu isso?

- Não, mas não tenho encontrado muitas pessoas julgadas por assassinato com todo esse dinheiro.

Carl Lee queria saber tudo sobre a fiança, o grande júri, o julgamento, as testemunhas, quem ia fazer parte do júri, quando iria sair da cadeia, se Jake podia apressar o julgamento, quando podia contar a sua própria versão e milhares de outras coisas. Jake disse-lhe que teriam muito tempo para conversar. Prometeu telefonar para Gwen e para o patrão de Carl Lee, na fábrica de papel.

Jake saiu e Carl Lee foi para a sua cela, ao lado da cela dos prisioneiros do estado.

O Saab estava bloqueado por uma carrinha da televisão. Jake peguntou quem era o dono. A maioria dos repórteres tinha-se ido embora, mas alguns continuavam por ali, à espera de alguma novidade. Era quase noite.

- O senhor trabalha no departamento do xerife? - perguntou um repórter.

- Não, sou advogado - respondeu Jake, descontraído, procurando aparentar indiferença.

- É o advogado do Sr. Hailey .

Jake olhou para o repórter. Os outros estavam atentos. - Para falar verdade, sou.

- Estaria disposto a responder a algumas perguntas? - Pode perguntar. Não prometo responder.

- Quer vir até aqui?

Jake caminhou para os microfones e as câmaras, tentando parecer aborrecido com a inconveniência. Ozzie e os polícias observavam-no de dentro do edifício.

- Jake adora as câmaras - disse ele.

Às onze e quinze o telefone tornou a tocar e Jake recebeu a primeira ameaça de morte, anónima, é claro. Chamaram-lhe filho da puta, defensor de pretos, e disseram-lhe que não viveria se o negro fosse solto.

 

Na manhã de terça-feira, depois dos crimes, Dell Perkins serviu mais café e aveia do que nunca. Todos os frequentadores habituais e mais alguns se reuniram muito cedo para ler os jornais e falar sobre os crimes cometidos a menos de 30 metros da porta do Coffee Shop. Claude's e o Tea Shoppe também ficaram cheios mais cedo que de costume. A fotografia de Jake apareceu na primeira página do jornal de Tupelo e os jornais de Memphis e de Jackson estampavam fotografias de Cobb e Willard, antes dos tiros e depois, quando os corpos foram levados para a ambulância. Nenhuma fotografia de Carl Lee. Os três jornais descreviam com detalhes os últimos seis dias em Clanton.

Todos tinham a certeza de que Carl Lee era o autor dos crimes, mas boatos de outros atiradores que teriam participado começaram a surgir e aumentaram até se transformarem, numa das mesas do Tea Shoppe, numa quadrilha de negros selvagens. No Coffee Shop, policias, embora falando pouco, acabaram com essa fantasia. O estado do polícia Looney era regular e os médicos estavam preocupados com os ferimentos, que pareciam mais graves do que tinham suposto. Continuava no hospital e tinha identificado o atirador como o irmão de Lester Hailey.

Jake chegou às seis horas e sentou-se perto da entrada, com alguns fazendeiros. Cumprimentou Prather e o outro polícia com um aceno de cabeça, mas eles fingiram não o ter visto. Isto vai passar quando Looney ficar bom, pensou Jake. Houve algumas observações sobre a sua fotografia na primeira página, mas ninguém lhe fez perguntas sobre o seu cliente, nem sobre os crimes. Notou uma certa frieza por parte de alguns dos fregueses habituais. Comeu rapidamente e saiu.

Às nove horas, Ethel chamou-o pelo interfone. O juiz Bullard estava em linha.

- Alô, senhor doutor juiz. Como tem passado?

- Pessimamente. Você representa Carl Lee Hailey? - Sim, senhor.

- Para quando quer a preliminar?

- Porque me pergunta a mim, senhor doutor juiz?

- Tem razão. Ouça, os funerais vão ser amanhã de manhã, não sei a hora e acho que seria melhor esperar que enterrem aqueles miseráveis, não concorda?

- Sim, senhor doutor juiz, boa ideia. - Que tal amanhã, às duas da tarde? - óptimo.

Bullard hesitou.

- Jake, você consideraria abrir mão da preliminar e deixar que eu envie o caso directamente para o grande júri?

- O senhor sabe muito bem que eu nunca desisto de uma preliminar.

- Pois, eu sei. Só pensei em lhe pedir um favor. Não vou presidir a este julgamento e não quero ter nada a ver com ele. Vemo-nos amanhã. Uma hora depois, a voz esganiçada de Ethel soou outra vez no interfone.

- Dr. Brigance, estão aqui alguns repórteres que querem falar com o senhor doutor.

Jake ficou encantado. - De onde?

- Memphis e Jackson, parece-me.

- Mande-os entrar para a sala de conferências. Desço já. Jake endireitou a gravata e penteou-se. Depois, olhou para a rua para ver se lá estava alguma carrinha de televisão. Resolveu fazê-los esperar e ao fim de uns dois telefonemas sem importância desceu para o primeiro andar, passou por Ethel sem uma palavra e entrou na sala de conferências. Pediram-lhe que se sentasse na cabeceira da comprida mesa, por causa da luz. Jake recusou, dizendo a si mesmo que ia controlar as coisas, e sentou-se a meio da mesa, de costas para os grossos e caros livros de Direito.

Os microfones foram postos na sua frente, as luzes da câmara ajustadas e então uma atraente repórter de Memphis com cabelos e pestanas cor-de-laranja pigarreou e perguntou:

- Dr. Brigance, o senhor representa Carl Lee Hailey? - Sim, represento.

- E ele foi acusado dos assassinatos de Billy Ray Cobb e Pete Willard?

- Exactamente.

- E Cobb e Willard foram acusados de violentar a filha do Sr. Hailey?

- Sim, isso mesmo.

- O Sr. Hailey nega ter matado Cobb e Willard? - Ele vai declarar-se inocente dessas acusações.

- Vai ser acusado de ter atirado no polícia Looney?

- Sim. Antecipamos uma terceira acusação de agressão qualificada contra o polícia.

- O senhor espera uma defesa baseada em insanidade?

- Não pretendo discutir a defesa neste momento, porque ele não foi indiciado.

- Está a querer dizer que há possibilidade de ele não ser indiciado?

Uma vantagem, com que Jake contava. O júri de instrução podia indiciar ou não e os jurados só seriam escolhidos quando o tribunal itinerante se reunisse no dia 27 de Maio, segunda-feira.

Assim sendo, os futuros jurados estavam naquele momento a andar nas ruas de Clanton, a tratar das suas lojas, a trabalhar nas fábricas, a arrumar as casas, a ler os jornais, a ver TV e a discutir se o acusado devia ou não ser indiciado.

- Sim, penso que há uma possibilidade de não ser indiciado. Depende do júri de instrução ou dependerá, depois da audiência preliminar.

- Quando vai ser a audiência preliminar? - Amanhã. Às duas da tarde.

- O senhor supõe que o juiz Bullard vai submetê-lo ao júri de instrução?

- Podemos contar com isso - disse Jake, sabendo que Bullard ia adorar a resposta.

- Quando se reunirá o júri de instrução?

- Um novo júri de instrução vai prestar juramento na segunda-feira de manhã. Pode estudar o caso na tarde do mesmo dia.

- Quando espera que seja o julgamento?

- Partindo do princípio de que ele é indiciado, o caso pode ser julgado-no fim do Verão ou no começo do Outono.

- Em que tribunal?

- No tribunal itinerante de Ford County. - Quem será o juiz?

- O meritíssimo juiz Ornar Noose. - De onde é ele?

- Chester, Mississippi, Van Buren County.

- Quer dizer que o caso vai ser julgado aqui em Clanton? - Sim, a não ser que o foro seja transferido.

- O senhor vai pedir transferência de foro?

- Boa pergunta, mas não estou preparado para responder neste momento. É um pouco prematuro falar sobre a estratégia da defesa.

- Por que razão poderia o senhor pedir a transferência do local do julgamento?

Para encontrar um lugar mais simpático aos negros, pensou Jake. Respondeu pensativamente:

- Os motivos de sempre. Publicidade anterior ao julgamento, etc.

- Quem decide a transferência?

- O juiz Noose. A decisão depende unicamente dele. - Foi determinada a fiança?

- Não e provavelmente não o será, até que ele seja indiciado. Neste momento, ele tem direito a uma fiança razoável, mas neste município não é concedida fiança em casos de assassinato, antes do réu ser indiciado e acusado formalmente pelo tribunal distrital. Nessa ocasião a fiança será determinada pelo juiz Noose.

O que pode o senhor dizer-nos sobre o Sr. Hailey?

Jake pensou calmamente um instante, enquanto as câmaras continuavam a filmar. Outra boa pergunta, com uma boa oportunidade de plantar algumas sementes para a defesa.

- Tem trinta e sete anos. É casado há vinte anos com a mesma mulher, tem quatro filhos: três rapazes e uma rapariga. Um bom homem, sem ficha criminal. Nunca teve este tipo de problemas, anteriormente. Condecorado no Vietname. Trabalha cinquenta horas por semana na fábrica de papel, em Coleman. Tem os impostos em dia e tem alguns hectares de terra. Vai à igreja todos os domingos com a família. Trata da vida dele e espera que os outros o deixem em paz.

- O senhor deixar-nos-ia falar com ele? - É claro que não.

- O irmão dele não foi julgado por assassinato, há alguns anos?

- Sim, e o veredicto foi inocente.

- O senhor foi o advogado de defesa? - Fui, sim.

- Já defendeu vários casos de assassinatos em Ford County, certo?

- Três.

- Quantos veredictos de inocente?

- Todos - respondeu Jake, lentamente.

- Não é verdade que o júri tem várias opções no Mississippi? - Sim, é verdade. Com uma acusação formal de assassinato o júri pode declarar o réu culpado de homicídio culposo, com pena de vinte anos, ou de crime doloso, com pena de prisão perpétua ou de morte determinada pelo júri. E o júri pode declarar o acusado inocente. - Jake sorriu para as câmaras. - Suponho, aqui também, que ele seja indiciado.

- Como está a menina dos Hailey?

- Está em casa. Teve alta no domingo. Ao que parece, está bem.

Os repórteres olharam uns para os outros à procura de mais perguntas. Jake sabia que aquele era o momento perigoso, quando começavam a fazer perguntas malucas. Levantou-se e abotoou o casaco.

- Ouçam, agradeço-lhes terem aqui vindo. Estarei sempre à vossa disposição. Basta avisarem-me com mais antecedência e terei muito prazer em conversar convosco.

Eles agradeceram e foram-se embora.

Às dez horas da manhã de quarta-feira, numa cerimónia simples, na casa funerária, os brancos enterraram os seus mortos. O pastor, recentemente ordenado na igreja pentecostal, lutou desesperadamente para encontrar palavras de-consolo para os presentes, ao lado dos dois caixões fechados. Foi uma cerimónia breve e com poucas lágrimas.

As pick-ups e os Chevrolets sujos acompanharam lentamente o carro funerário para fora da cidade. Pararam atrás de uma pequena igreja de tijolos vermelhos. Os corpos foram enterrados um de cada vez, nas extremidades opostas do pequeno cemitério coberto de mato. Depois de mais algumas orações, as pessoas afastaram-se. Os pais de Cobb tinham-se divorciado quando ele era pequeno e o pai viera de Birmingham para o funeral. Depois do enterro, desapareceu. A Sra. Cobb morava numa casa branca de madeira, pequena e limpa, perto do aglomerado de Lake Village, dez milhas ao sul de Clanton. Os dois irmãos, primos e amigos do morto reuniram-se debaixo de um carvalho, no quintal, enquanto as mulheres rodeavam a Sra. Cobb. Os homens falavam sobre os negros em geral, mascavam tabaco, bebiam uísque e evocavam com saudade um passado onde os negros conheciam o seu lugar. Agora eram mimados e protegidos pelo governo e pela justiça. E os brancos não podiam fazer nada. Um dos primos tinha um amigo ou conhecido que fora membro actuante do Ku Klux Klan e disse que podia telefonar-lhe. O avô de Cobb tinha pertencido ao Klan, muito antes de morrer, explicou o primo, e, quando ele e Billy Ray eram pequenos, costumava contar histórias sobre enforcamentos de negros enm Ford County e Tyler County. O que deviam fazer era o mesmo que o negro tinha feito, mas ninguém se apresentou como voluntário. Talvez o Klan se interessasse. Tinham uma filial ao sul, perto de Jackson e de Nettles County, e o primo foi autorizado a entrar em contacto com eles.

As mulheres fizeram o almoço. Os homens comeram em silêncio e voltaram ao uísque debaixo do carvalho. Alguém mencionou a audiência do negro marcada para as duas horas e todos entraram nos carros e seguiram até Clanton.

Agora havia uma Clanton de antes dos crimes e uma Clanton de depois dos crimes, e só depois de muitos meses uma começaria a parecer-se com a outra. Uma tragédia sangrenta, que durara menos de quinze segundos, transformara a tranquila cidade sulista de oito mil habitantes numa meca de jornalistas, repórteres, equipas de filmagem, fotógrafos, alguns das cidades vizinhas, outros das redes nacionais de notícias. Cameramen e repórteres de TV acotovelavam-se nas calçadas em volta da praça, perguntando pela centésima vez o que a população pensava do caso Hailey e como votaria se fizesse parte do júri. Não havia um veredicto definido. As carrinhas da televisão seguiam os pequenos carros importados por toda a praça, à procura de escândalos, reportagens e entrevistas. No começo, Ozzie era o favorito. Foi entrevistado uma dezena de vezes no dia seguinte ao crime, depois arranjou outras coisas para fazer e delegou o encargo das entrevistas em Moss Junior, que se divertia com a imprensa. Moss podia responder a vinte perguntas sem divulgar um único detalhe novo. Também mentia bastante e os estranhos, ignorantes, nunca sabiam quando é que mentia ou dizia a verdade.

- Senhor, existe alguma prova de que havia outros atiradores?

- Sim.

- É verdade? Quem eram?

- Temos provas de que o crime foi autorizado e financiado por um grupo dos Black Panthers - respondia Moss Junior, muito sério.

- Alguns repórteres, confusos, olhavam para ele sem entender, outros repetiam o que ele tinha dito e escreviam furiosamente nos seus blocos Bullard não saía do seu gabinete e nem atendia o telefone. Ligou para Jake novamente, a pedir-lhe que desistisse da audiência. Jake recusou. Havia repórteres que aguardavam que aguardavam na sala de espera de gullard, no primeiro andar do tribunal, mas ele estava a salvo com a sua vodka, atrás das portas fechadas à chave.

Houve um pedido para filmar os funerais. Os irmãos de Cobb concordaram, mediante uma certa quantia, mas a Sra. Willard vetou a proposta. Os repórteres ficaram no lado de fora da agência funerária e filmaram tudo 'o que foi possível. Depois, seguiram a procissão até ao cemitério e filmaram os enterros. Em seguida, acompanharam os carros até a casa da Sra. Cobb, onde Freddie, o mais velho, os expulsou aos palavrões.

Na quarta-feira reinava silêncio no Coffee Shop. Os fregueses habituais, incluindo Jake, observavam os estranhos que tinham invadido o seu santuário. Quase todos usavam barba, falavam com sotaques diferentes e não pediam aveia.

- O senhor não é o advogado do Sr. Hailey? - gritou um deles, do outro lado do restaurante.

Jake, preparando a sua torrada, não respondeu. - Não é? O senhor aí?

- E se for? - disse Jake.

- Ele vai declarar-se culpado? - Estou a tomar o meu café. - Vai?

- Sem comentários.

- Porquê sem comentários? - Sem comentários.

- Mas porquê?

- Não faço comentários durante o café da manhã. Sem comentários.

- Posso falar com o senhor mais tarde?

- Pode, marque uma hora. Eu fálo a sessenta dólares a hora. Os fregueses habituais riram alto, mas os estranhos não se abalaram.

Jake consentiu em dar uma entrevista, sem cobrar nada, para um jornal de Memphis, na quarta-feira; depois, fechado na sala de guerra, preparou-se para a preliminar. Ao meio-dia, foi visitar o seu famoso cliente à cadeia. Carl Lee estava tranquilo e descansado. Da cela, via o movimento dos repórteres no estacionamento.

-Como vai a cadeia? - perguntou Jake.

- Não muito mal. A comida é boa. Eu como com o 022,e no escritório dele.

- Como é que é?

- É assim. Também jogamos às cartas. - Está a brincar, Carl Lee.

- Não estou. Também vejo televisão. Vi-o a si no noticiário ontem à noite. Você estava óptimo. Vou torná-lo famoso, não vou, Jake?

Jake não disse nada.

- Quando é que apareço na TV? Quero dizer, eu é que matei os homens e você e o Ozzie é que estão a ficar famosos. - O cliente sorria, o advogado não.

- Hoje, daqui a uma hora.

- Sim, ouvi dizer que vamos ao tribunal. Para quê?

- Audiência preliminar. Não é grande coisa, pelo menos não deve ser. Esta será diferente por causa das câmaras.

- Que devo dizer?

- Nada! Você não diz uma palavra a ninguém. Nem ao juiz, nem ao promotor, nem aos repórteres, a ninguém. Nós limitamo-nos a ouvir. Ouviremos o promotor para sabermos como vai ser a acusação. Ao que parece, eles têm uma testemunha ocular, que talvez seja chamada. Ozzie vai testemunhar para falar ao juiz sobre a arma, as impressões digitais e o Looney...

- Como está o Looney?

- Não sei. Pior do que pensavam.

- Homem, sinto-me mal quando penso que disparei sobre o Looney. Eu nem sequer o vi.

- Bem, vai ser acusado de lesão corporal qualificada por ter disparado sobre o Looney. De qualquer modo, a preliminar é só uma formalidade. O objectivo é permitir que o juiz determine se existem provas suficientes para o enviar ao júri de instrução. Bullard toma sempre essa decisão, portanto é só uma formalidade.

- Então para que serve a audiência?

- Podemos abrir mão da audiência - disse Jake, pensando nas câmaras que perderia. - Mas não gosto de desistir. É uma boa oportunidade para saber como será a acusação.

- Bem, Jake, eu cá diria que eles têm uma causa e peras, não acha?

- Acho que sim. Mas vamos limitar-nos a ouvir. É essa a estratégia da audiência preliminar. Certo?

- Está bem. Falou com a Gwen ou com o Lester, hoje?

- Não, só na segunda-feira à noite.

- Eles, ontem, estiveram no escritório do Ozzie. Disseram que vão estar no tribunal hoje.

- Acho que toda a gente vai estar no tribunal, hoje.

No estacionamento Jake passou por alguns repórteres que esperavam a saída de Carl Lee para o tribunal.

Não lhes fez nenhum comentário, nem aos que esperavam à porta do seu escritório. Estava muito ocupado naquele momento para responder a perguntas, mas não ignorou as câmaras. A uma e meia seguiu para o tribunal e refugiou-se na biblioteca do terceiro andar.

Ozzie, Moss Junior e. os outros polícias observaram com desagrado o grupo de repórteres e câmeramen no estacionamento. Faltavam quinze para as duas, hora de conduzir o prisioneiro para o tribunal.

- Parecem um bando de abutres à espera de que um cão seja atropelado na estrada - disse Moss Junior, olhando para fora, por entre as tiras da persiana.

- Os tipos mais grosseiros que já vi - observou Prather.

- Não aceitam não como resposta. Esperam que toda a gente esteja à sua disposição.

- E isto é só metade deles, a outra metade está à espera no tribunal.

Ozzie não disse nada. Um jornal tinha criticado a sua actuação, dizendo que a segurança fora descurada intencionalmente no tribunal. Estava farto da imprensa. Na quarta-feira, por duas vezes, expulsara os repórteres do prédio da cadeia.

- Tenho uma ideia - disse ele, por fim. - O quê? - perguntou Moss Junior. - Curtis Todd ainda está na cadeia?

- Está. Sai na semana que vem.

- Ele é parecido com o Carl Lee, não é? - O que queres dizer com isso?

- Quero dizer que ele é quase tão negro como o Carl Lee, tem mais ou menos a mesma altura e o mesmo peso.

- Sim, e daí? - perguntou Prather.

Moss Junior olhou com um sorriso para Ozzie, que continuava a olhar lá para fora.

- Ozzie, não vais fazer isso...

- Fazer o quê? - perguntou Prather.

- Vamos. Vão buscar o Carl Lee e o Curtis Todd - ordenou Ozzie. - Levem o meu carro para a porta das traseiras e tragam o Todd para algumas instruções.

Dez minutos depois, a porta da frente abriu-se e seis polícias escoltaram o prisioneiro para o passeio, dois á frente, dois atrás e um de cada lado do homem com óculos escuros e algemas que não

estavam fechadas. Quando se aproximaram dos repórteres, as câmaras começaram a filmar. As perguntas choviam de todos os lados.

- O senhor vai declarar-se culpado? - O senhor vai declarar-se inocente? - Que vai declarar o senhor?

- Sr. Hailey, vai alegar insanidade?

O prisioneiro sorriu e continuou a andar vagarosamente para o carro da polícia. Os polícias, com sorrisos fixos, ignoravam os repórteres. Os fotógrafos agitavam-se, procurando o melhor ângulo do mais famoso justiceiro do país.

De repente, com toda a nação a assistir, rodeado de polícias, o prisioneiro desatou a correr. Deu um salto, girou o corpo, atravessou a correr o estacionamento, saltou uma vala, atravessou a estra

da e desapareceu entre as árvores, do outro lado. Os repórteres gritaram, espalhando-se e alguns até o seguiram, durante um momento. Curiosamente, os polícias correram para dentro do prédio da cadeia e fecharam a porta, deixando os abutres a correrem em círculos, completamente atarantados. No meio das árvores, o prisioneiro retirou as algemas e foi para casa. Curtis Todd começou a sua liberdade condicional uma semana antes do previsto...

Ozzie, Moss Junior e Carl Lee saíram rapidamente pela porta das traseiras e seguiram por uma rua secundária até ao tribunal, onde outros polícias os esperavam.

 

Pate- Quantos negros estão lá fora? - gritou Bullard para o Sr.

- Uma tonelada.

- Maravilha! Uma tonelada de negros. Aposto que está lá também uma tonelada de rufiões brancos.

- Estão bastantes.

- O tribunal está cheio? - Completamente.

- Meu Deus, e é só uma preliminar! - berrou Bullard. Esvaziou a meia garrafa de vodka e o Sr. Pate pegou noutra. - Acalme-se, Senhor Doutor juiz.

- Maldito Brigance. É tudo culpa dele. Podia desistir desta audiência. Eu pedi-lhe que desistisse. Pedi-lhe duas vezes. Ele sabe que vou mandar o caso para o júri de instrução. Ele sabe muito bem isso. Todos os advogados sabem. Mas agora vou pôr os negros todos furiosos, porque não mando soltar o acusado, e todos os brancos furiosos, porque não o mando executar no tribunal. O Brigance há-de pagar-mas. Ele está a representar (para as câmaras. Eu tenho de ser reeleito, mas ele não, certo?

- Certo, Senhor Doutor juiz.

- Quantos polícias estão no tribunal?

- Uma data deles. O xerife convocou a tropa de reserva. O senhor está seguro.

- E a imprensa?

- Estão todos sentados nas primeiras filas. - Nada de câmaras!

- Nada de câmaras. - Hailey já chegou?

- Sim, senhor. Está na sala do tribunal com o Dr. Brigance. Estão todos prontos, à sua espera.

O meritíssimo encheu um copo de plástico com vodka pura. - Está bem, então vamos.

Como nos velhos tempos, antes dos anos 60, a sala do tribunal estava estritamente segregada, com negros e brancos separados pela passagem central. Os polícias estavam de pé na passagem e perto das paredes, em volta de toda a sala. Vigiavam com atenção especial um grupo de brancos levemente embriagados que ocupavam duas filas de cadeiras. Dois deles foram reconhecidos como irmãos ou primos do falecido Billy Ray Cobb. Os polícias estavam atentos. Na primeira fila, na frente dos brancos e na frente dos negros, estavam os jornalistas. Alguns tomavam notas, outros desenhavam o acusado, o seu advogado e agora, finalmente, o juiz.

- Eles vão fazer desse negro um herói - disse um dos brancos, em voz alta, para os repórteres. Quando Bullard assumiu o seu posto, os polícias fecharam as portas do tribunal.

- Chame a sua primeira testemunha - ordenou o juiz para Rocky Childers.

- O estado chama para depor o xerife Ozzie Walls.

O xerife prestou juramento e ocupou o banco das testemunhas. Descontraído, começou uma longa narrativa, descrevendo a cena do crime, os corpos, os ferimentos, a arma e as impressões digitais do acusado. Childers apresentou um depoimento assinado pelo guarda Looney e atestado pelo xerife e por Moss Junior. O documento identificava Carl Lee como o autor dos disparos. Ozzie autenticou a assinatura de Looney e leu o depoimento para constar dos autos.

- Xerife, tem conhecimento de outra testemunha ocular? perguntou Childers, sem grande entusiasmo.

- Sim, Murphy, o zelador.

- Qual é o primeiro nome dele? - Ninguém sabe. É só Murphy. - Está bem. O senhor falou com ele? - Não, mas o meu investigador falou. - Quem é o seu investigador?

- O guarda Rady.

Rady prestou juramento e sentou-se no banco das testemunhas. O Sr. Pate foi buscar outro copo com água gelada para o juiz. Jake já tinha páginas e páginas de anotações. Não ia chamar nenhuma testemunha e resolveu não interrogar o xerife. Uma vez ou outra as testemunhas da acusações atrapalhavam-se com mentiras na preliminar e Jake depois interrogava-as para que as discrepâncias constassem dos autos. Mais tarde, no julgamento, quando começavam a mentir outra vez, Jake apresentava o testemunho da preliminar para confundir os mentirosos. Mas não naquele dia.

- O senhor teve ocasião de falar com Murphy? - perguntou Childers.

- Qual Murphy?

- Eu não sei, apenas Murphy, o zelador. - Ah, ele. Sim, senhor.

- Muito bem. O que foi que ele disse? - Sobre quê?

Childers baixou a cabeça. Rady era novo e não tinha testemunhado muitas vezes. Ozzie achou que seria um bom treino para ele.

-Sobre os tiros! Diga-nos o que contou ele sobre os tiros. Jake levantou-se.

- Meritíssimo. Eu tenho uma objecção. Sei que o testemunho indirecto é admissível na preliminar, mas o tal Murphy pode testemunhar. Ele trabalha aqui no tribunal. Porque não chamá-lo? - Porque ele gagueja - respondeu Bullard.

- O quê?

- Ele gagueja. E não estou disposto a ouvi-lo gaguejar 3 pelos próximos trinta minutos. Objecção negada. Continue, Sr. Childers.

Jake sentou-se, sem poder acreditar. Bullard deu uma risadinha para o Sr. Pate que saiu para ir buscar mais água gelada.

- Muito bem. Sr. Rady, que disse Murphy àcerca dos tiros? - Bem, foi difícil entender porque ele estava nervoso e quando está nervoso gagueja de verdade. Quero dizer, ele gagueJa sempre, mas...

- Diga apenas o que ele disse! - gritou Bullard.

- Está bem. Ele disse que viu um homem negro disparar sobre os dois homens brancos e sobre o polícia.

- Muito obrigado - disse Childers. - Agora, onde estava ele, quando isso aconteceu?

- Quem? - Murphy!

- Sentado na escada, de frente para a escada onde eles foram atingidos.

- E viu tudo?

- Ele disse que tinha visto tudo.

- Ele identificou o homem que disparou?

- Sim, mostrámos-lhe fotografias de dez homens negros e ele identificou o acusado que está sentado ali.

- Muito bem. Obrigado. Meritíssimo, sem mais perguntas. - Alguma pergunta, Dr. Brigance? - perguntou o juiz.

- Não, Meritíssimo - respondeu Jake, levantando-se. - Alguma testemunha?

- Não, senhor.

- Alguma petição, moção, qualquer coisa? - Não, senhor.

Jake não ia fazer a tolice de pedir fiança. Em primeiro lugar, não iria adiantar. Bullard não ia estabelecer fiança para um crime de morte. Depois, isso iria embaraçar o juiz.

- Muito obrigado, Dr. Brigance. Este tribunal considera que existem provas suficientes para enviar este acusado ao júri de instrução de Ford County. O Sr. Hailey ficará sob custódia do xerife, sem fiança. A sessão está suspensa.

Carl Lee foi algemado rapidamente e escoltado para fora da sala. A área em volta da porta das traseiras estava isolada e guardada. As câmaras, no lado de fora, conseguiram captar uma rápida imagem do acusado entre a porta e o carro de polícia que o esperava. Carl Lee estava de novo na cela antes de toda a gente ter saído do recinto do tribunal.

Os polícias orientaram a saída dos brancos, de um lado, em primeiro lugar, depois, dos negros.

Os repórteres pediram para falar com Jake e ele disse que estaria na antecâmara dentro de alguns minutos. Fê-los esperar, indo primeiro ao gabinete do juiz cumprimentar Bullard. Depois, foi ao terceiro andar consultar um livro. Quando o tribunal ficou vazio e os repórteres já tinham esperado bastante, Jake entrou na ante-sala, de frente para as câmaras.

Um microfone com letras vermelhas foi-lhe quase encostado à cara.

- Porque não pediu fiança, senhor doutor? - quis saber um repórter.

- Isso fica para depois.

- O Sr. Hailey vai alegar insanidade em sua defesa?

- Como eu já disse, é muito cedo para responder a essa pergunta. Agora, precisamos de esperar pelo júri de instrução. O acusado pode ser ou não indiciado. Se for, começaremos a planear a defesa.

- O promotor, o Dr. Buckley, declarou que espera uma condenação fácil. Algum comentário?

- Infelizmente, o Dr. Buckley fala sempre quando não deve. É idiotice da parte dele fazer qualquer comentário antes de o caso ser estudado pelo júri de instrução.

- Ele disse também que se vai opor vigorosamente a qualquer pedido de transferência do foro do julgamento.

- Esse pedido ainda não foi feito. Na verdade, para ele não importa onde seja feito. O Dr. Buckley julgaria este caso até no deserto, desde que a imprensa estivesse presente.

- Podemos supor que existe alguma hostilidade entre o senhor doutor e o promotor?

- Mais ou menos. Ele é um bom promotor e um adversário válido. Só que fala quando não deve.

Jake respondeu a mais algumas perguntas variadas e deu por encerrada a entrevista.

Na quarta-feira, tarde na noite, os médicos amputaram a perna de Looney logo abaixo do joelho. Telefonaram para Ozzie e o xerife contou a Carl Lee.

 

Rufus Buckley examinou os jornais da manhã e leu com grande interesse as descrições da audiência preliminar em Ford County. Com prazer, viu o seu nome mencionado pelos repórteres e pelo Dr. Brigance. As críticas eram altamente compensadas pelo facto de ver o nome impresso. Buckley não gostava de Brigance, mas ficou satisfeito por ele ter mencionado o nome dele, frente às câmaras. Desde há dois dias que toda a atenção estava voltada para Brigance e para o acusado e já era tempo de começarem a mencionar o promotor. Brigance não devia criticar ninguém por procurar publicidade. Lucien Wilbanks era mestre em manipular a imprensa, antes e durante os julgamentos, Jake aprendera muito bem com ele. Mas Buckley não guardava ressentimentos. Estava satisfeito. Gostava da ideia de um julgamento longo e disputado, com a sua primeira oportunidade de aparecer realmente. Mal podia esperar pela segunda-feira, o primeiro dia das sessões de Maio do tribunal em Ford County.

Buckley tinha quarenta e um anos, e nove anos antes, quando fora eleito pela primeira vez, era o mais jovem promotor do Mississippi. Agora, concluia o primeiro ano do seu terceiro mandato e começava a pensar nas suas ambições. Estava na hora de se candidatar a outro cargo público, como, por exemplo, procurador do Estado, ou talvez governador. Depois, o Congresso. Tinha tudo planeado mas não era muito conhecido fora da Vigésima Segunda Circunscrição Judiciária (condados de Ford, Tyles, Polk, Van Buren e Milburn.) Precisava ser visto e ouvido. Precisava de publicidade. O que Rufus precisava, acima de tudo, era de um julgamento criminal com veredicto de culpa, de grandes proporções, controverso, disputado e com muita publicidade.

Ford County ficava directamente a norte de Smithfield, a sede distrital de Polk County, onde Rufus morava. Ele era de TTyler County, perto da fronteira com o Tennessee, a norte de Ford County. Tinha uma boa base política. Era um bom promotor. Nas suas campanhas, afirmava ter uma média de noventa por cento de condenações e gabava-se de ter mandado mais criminosos para o corredor da morte do que qualquer outro promotor do estado. Era espalhafatoso, mordaz, com ares de virtuoso. O seu cliente era a população do Mississippi, por Deus, e ele levava a sério essa obrigação. A população odiava o crime e ele odiava o crime, e juntos haveriam de erradicá-lo.

Buckley sabia dirigir-se a um júri, oh, e de que maneira! Podia pregar, rezar, influenciar, implorar, pedir. Podia inflamar o júri, a ponto de os jurados não verem a hora de voltar para a sala do júri, fazer uma oração em conjunto e votar pela condenação do acusado. Ele sabia falar com os negros e sabia falar com os brancos e isso era suficiente para satisfazer a maioria dos jurados da Vigésima Segunda. E os júris sempre se mostraram bons para com ele em Ford County. Buckley gostava de Clanton.

Quando chegou ao escritório, no prédio do tribunal de Polk County, Rufus viu, com satisfação, uma equipa de repórteres e uma câmara à sua espera. Explicou-lhes que estava muito ocupado, consultou o relógio e disse que lhes podia dispensar um minuto para algumas perguntas.

Levou os repórteres para a sua sala e sentou-se esplendidamente na cadeira giratória de couro, atrás da sua mesa de trabalho. O repórter era de Jackson.

- Dr. Buckley, o senhor tem alguma simpatia pelo Sr. Hailey? Buckley sorriu enigmaticamente, com ar de quem está a pensar no assunto.

- Sim, tenho. Tenho simpatia por qualquer pai ou mãe cuja filha tenha sido violentada, é claro que tenho. Mas o que não posso admitir e o que o nosso sistema não pode tolerar é que se faça justiça pelas próprias mãos.

- O senhor tem filhos?

- Tenho. Um filho pequeno e duas filhas, uma da idade da pequena Hailey, e ficaria extremamente furioso se uma delas fosse violada. Mas esperaria que o nosso sistema judiciário agisse adequadamente contra o violador. Tenho muita confiança no nosso sistema.

- Nesse caso, o senhor espera uma condenação.

- Certamente. Em geral, eu consigo uma condenação quando luto por ela e pretendo consegui-la neste caso.

- O senhor vai pedir a pena de morte?

- Sim, parece um caso evidente de assassinato premeditado. Acho que a penalidade deve ser a câmara de gás.

- O senhor prevê um veredicto de pena de morte?

- É claro. Os jurados de Ford County sempre se mostraram dispostos a recomendar a pena de morte quando eu a peço e quando ela se aplica. Tenho tido óptimos júris em Clanton.

- O Dr. Brigance, advogado do acusado, declarou que o júri de instrução pode não indiciar o seu cliente.

Buckley riu com ironia.

- Bem, o Dr. Brigance não devia ser tão ingénuo. O caso será apresentado ao júri na segunda-feira e teremos os indiciamentos na tarde do mesmo dia. Prometo. Na verdade, o Dr. Brigance sabe isso.

- O senhor acha que o caso vai ser julgado em Ford County?

- Para mim tanto faz, eu vou conseguir a condenação.

- O senhor espera uma defesa baseada na alegação de insanidade?

- Eu espero qualquer coisa. O Dr. Brigance é um advogado de defesa muito capaz. Não sei que argumentos ele vai usar, mas o estado do Mississippi estará preparado.

- Que acha de um acordo entre o senhor e a defesa?

- Não acredito muito nesse tipo de acordo. O Dr. Brigance também não. Não estou à espera disso.

- Ele disse que nunca tinha perdido um julgamento de homicídio consigo.

O sorriso desapareceu imediatamente. Buckley inclinou-se para a frente, sobre a mesa, e olhou com ar severo para o repórter. - É verdade, mas aposto que ele não mencionou um grande número de assaltos à mão armada e de casos de cheques falsos, pois não? Tive a minha parte de vitórias. Noventa por cento, para ser exacto.

A câmara foi desligada e os repórteres agradeceram a atenção do promotor. Está bem, disse Buckley. Estou à disposição.

 

Ethel subiu a escada com o seu andar gingado e parou em frente da mesa de Jake.

- Dr. Brigance, o meu marido e eu recebemos um telefonema obsceno ontem à noite e acabo de receber outro, aqui no escritório. Não gosto de coisas dessas.

Jake estendeu o braço, convidando-a a sentar-se.

- Sente-se, Ethel. O que foi que lhe disseram?

- Não foram realmente obscenos, mas ameaçadores. Eles ameaçaram-me porque trabalho para o senhor. Disseram que me vou arrepender por trabalhar para um amigo de pretos. No telefone ma para o escritório ameaçaram o senhor e a sua família. Eu estou com medo.

- Mude o número do seu telefone, Ethel. Eu pago.

- Não quero mudar o meu número. Tenho esse número há muitos anos.

- Muito bem, então não mude. Eu mudei o meu e foi muito simples.

- Pois eu não vou mudá-lo.

- Como queira. Que mais quer?

- Bem, acho que o senhor não devia ter aceitado este caso. - Pois fique sabendo que não estou interessado no que acha! Não é paga para pensar nos meus casos. Quando eu quiser a sua opinião, peço-lha. Até lá, fique caladinha.

Ethel bufou, zangada, e saiu da sala. Jake telefonou outra vez para Ozzie. Uma hora depois, Ethel disse, pelo interfone.

- Lucien telefonou esta manhã. Pediu cópias de alguns casos recentes e quer que o senhor lhos leve esta tarde. Disse que o senhor não vai visitá-lo, há cinco semanas.

- Quatro. Tire cópia dos casos que eu levo-lhos.

Lucien passava pelo escritório, ou telefonava uma vez por mês. Lia casos e estava sempre informado sobre os mais recentes assuntos legais. Não tinha muito que fazer, excepto beber Jack Daniel's e investir na Bolsa, duas coisas que ele fazia temerariamente. Era um bêbedo inveterado e passava a maior parte do tempo na varanda da frente da sua casa enorme, na colina, a oito quarteirões da praça, de onde se avistava quase toda Clanton, a beber uísque puro e a ler casos.

Tinha envelhecido bastante desde a expulsão. Tinha uma empregada a tempo inteiro que era também enfermeira e que servia as bebidas na varanda, desde o meio-dia até à meia-noite. Lucien raramente comia ou dormia. Passava as horas na cadeira de baloiço.

Jake geralmente visitava-o uma vez por mês, como obrigação. Lucien era um homem velho, doente, amargurado, que vivia a amaldiçoar juizes, advogados e especialmente a Ordem dos Advogados. Jake era o seu único amigo, a única audiência que ele conseguia prender por algum tempo para os seus sermões. A par da pregação, dava conselhos não solicitados sobre os casos de Jake, um

hábito extremamente irritante. Jake não compreendia como Lucien podia saber tanto sobre os casos dele. Raramente era visto em Clanton, a não ser uma vez ou outra quando comprava bebidas no bairro negro.

Jake estacionou o Saab atrás do Porsche amachucado e sujo e entregou as cópias dos casos a Lucien. Não se cumprimentaram, não disseram uma palavra. Jake estendeu apenas as pastas e Lucien pegou nelas. Sentaram-se nas cadeiras de baloiço de vime na ampla varanda, a olhar para Clanton. O último andar do edifício do tribunal erguia-se acima dos outros edifícios, das casas e das árvores da praça.

Finalmente, Lucien ofereceu-lhe uísque, vinho, cerveja. Jake não aceitou. Carla era contra qualquer bebida alcoólica e Lucien sabia isso.

- Os meus parabéns.

- Porquê? - perguntou Jake. - Pelo caso Hailey.

- Porque me dá os parabéns?

- Eu nunca tive um caso tão grande, e tive alguns bem grandes.

- Grande em que sentido?

- Publicidade. Tornar-se conhecido. Para os advogados, esse é o nome do jogo, Jake. Se você é desconhecido, morre de fome. Quando alguém tem problemas, chama um advogado e cha

ma sempre um de que já ouviu falar. Um advogado das ruas precisa vender a própria imagem para o público. É claro que é diferente se trabalhar para uma grande firma ou companhia de seguros, sentado no traseiro e ganhando cem dólares por hora, dez horas por dia, a explorar os pequenos e...

- Lucien - interrompeu Jake, calmamente -, já falámos sobre isso uma porção de vezes. Vamos falar sobre o caso Hailey. - Pronto, pronto. Aposto que o Noose vai recusar o pedido de transferência de foro.

- E quem lhe disse a si que eu vou pedi-lo? - É muito burro se não pedir.

- Porquê?

- Simples estatística! Este condado é vinte e seis por cento negro. Todos os outros da Vigésima Segunda têm pelo menos trinta por cento de negros. Van Buren County tem quarenta por cento.

Isso significa um potencial maior de jurados negros. Se conseguir a transferência as suas hipóteses de negros no júri vão aumentar. Se ele for julgado aqui, corre o risco de ter um júri cem por cento branco e, acredite; já vi muitos júris brancos neste condado. Tudo o que você precisa é de um negro para criar o impasse e conseguir a anulação do julgamento.

- Mas, depois, -vai haver novo julgamento.

- E você cria a mesma situação. Eles desistem depois do terceiro. Um júri indeciso é o mesmo que um ponto perdido no placar de Buckley. Ele vai desistir depois do terceiro julgamento.

- Então, digo simplesmente ao Noose que quero o julgamento num distrito com maior número de negros para ter um júri negro.

- Pode dizer, se quiser, mas eu não faria isso. Eu usaria as palermeiras de sempre, como publicidade antes do julgamento, uma comunidade tendenciosa e assim por diante...

- E acha que o Noose vai acreditar.

- Não. Este caso é muito grande e vai tornar-se ainda maior. A imprensa já começou o julgamento. Toda a gente ouviu falar do caso e não só em Ford County. Não vai encontrar ninguém neste estado sem uma ideia preconcebida sobre o veredicto de culpado ou inocente.

- Então, por que devo eu pedir a transferência?

- Porque quando o pobre homem for condenado, terá bases para argumentar no recurso. Pode dizer que não teve um julgamento justo porque foi negada a transferência de foro.

- Obrigado pelo encorajamento. Quais são as hipóteses de conseguir a transferência, digamos, para algum sítio do delta?

- Nem pense nisso. Pode pedir a transferência, mas não pode determinar para onde.

Jake não sabia isso. Geralmente aprendia alguma coisa naquelas visitas. Abanou a cabeça, confiante, e olhou para o velho com a barba comprida, branca e suja. Nunca vira Lucien hesitar sobre algum ponto da legislação criminal.

- Sallie! - gritou Lucien, atirando com os cubos de gelo para o meio dos arbustos.

- Quem é Sallie?

- A minha empregada - disse Lucien, quando uma negra alta e bonita abriu a porta de tela e sorriu para Jake.

- Sim, Lucien? - disse ela. - O meu copo está vazio.

Com passos elegantes, ela atravessou a varanda e pegou no copo. Tinha menos de trinta anos, corpo bem-feito, cara bonita e era muito escura. Jake pediu chá gelado.

- Onde a arranjou? - perguntou Jake. Lucien olhou para o edifício do tribunal. - Onde a arranjou?

- Não sei.

- Que idade tem ela? Lucien não respondeu. - Vive aqui? Silêncio.

- Quanto é que lhe paga?

- Não é da sua conta, não acha? Mais do que você paga a Ethel. Ela é enfermeira também, sabia?

É claro, pensou Jake, com um largo sorriso. - Aposto que ela faz uma porção de coisas. - Não se preocupe com isso.

- Pelo que vejo, não está muito entusiasmado com as minhas possibilidades de vencer este caso.

Lucien pensou um momento. A criada/enfermeira voltou com o uísque e o chá.

- Na verdade, não. Vai ser difícil. - Porquê?

- Ao que parece, foi crime premeditado. Muito bem premeditado, pelo que ouvi. Certo?

- Sim.

- Decerto que vai alegar insanidade. - Não sei.

- Deve alegar insanidade - disse Lucien, em tom severo e professoral. - Não existe outra defesa possível. Não pode dizer que foi acidente. Não pode alegar que ele disparou sobre os dois

homens, algemados e desarmados, com uma metralhadora, em legítima defesa, pois não?

- Não.

- Não vai inventar um álibi e dizer que ele estava em casa, com a família.

- É claro que não.

- Então, que outra defesa é que tem? Vai ter de dizer que ele estava louco.

- Mas, Lucien, ele não estava louco, e nunca conseguirei encontrar um psiquiatra de terceira categoria para afirmar que estava. Ele planeou tudo meticulosamente, até ao último detalhe.

Lucien sorriu e bebeu um gole de uisque.

- Por isso está metido num grande sarilho, menino.

Jake pôs o copo com chá na mesa e balançou lentamente a cadeira. Lucien saboreou o momento.

- Por isso está num grande sarilho, Jake - repetiu.

- E o júri? Você sabe que os jurados vão olhar para ele com simpatia.

- Exactamente, é por isso que deve alegar insanidade. Deve dar uma saída ao júri. Deve mostrar-lhes um modo de o declarem inocente, se for o que eles quiserem. Se simpatizam com o acusado, se querem dar o veredicto de inocente, você tem de fazer uma defesa que eles possam usar para esse fim. Não faz diferença se acreditam ou não na história da loucura. Na sala dos jurados, isso não tem importância. O importante é que o júri tenha uma base legal para o veredicto de inocente, supondo que é isso que eles querem. - Acha que é o que eles vão querer?

- Alguns sim, mas o Buckley vai alegar crime premeditado. Ele é bom. Vai neutralizar toda a simpatia do júri pelo acusado. O Hailey será apenas mais um negro julgado por matar um homem branco, quando o Buckley acabar com ele.

Lucien atirou fora os cubos de gelo e olhou para o copo.

- E o polícia? Agredir com intenção de matar um guarda civil implica prisão perpétua, sem condicional. Veja se consegue livrar-se dessa.

- Não houve intenção.

- Óptimo. Isso vai ser muito convincente quando o infeliz for a coxear para o banco das testemunhas e mostrar ao júri o coto de perna.

- Coto?

- Isso mesmo. Coto. Amputaram-lhe a perna, ontem à noite. - Looney!

- Sim, o polícia atingido por Hailey. - Eu pensei que ele estivesse bem.

- Oh, ele está bem. Só que com uma perna a menos. - Como é que soube?

- Tenho as minhas fontes.

Jake foi até à beira da varanda e encostou-se a uma coluna, sentindo-se fraco. Toda a confiança o abandonou, levada mais uma vez por Lucien. Ele era mestre em cavar buracos em todos os casos de Jake. Para Lucien não passava de um desporto e geralmente tinha razão.

- Ouça, Jake, não quero desanimá-lo. Pode ganhar este caso. Não vai ser fácil, mas pode ganhar. Pode libertar o Hailey e tem de acreditar nisso. Mas não fique muito convencido. Já falou demais com a imprensa. Recue agora e comece a trabalhar. Lucien foi até à beira da varanda e cuspiu para os arbustos.

- Não esqueça nunca de que o Sr. Hailey é culpado, culpado mesmo. A maioria dos réus é culpada, mas ele especialmente. Hailey fez justiça com as próprias mãos e matou duas pessoas. Planeou tudo cuidadosamente. O nosso sistema legal não admite justiças dessas. Agora, você pode ganhar o caso e então a justiça terá prevalecido. Mas se perder, a justiça prevalece também. Um caso estranho, suponho. Só queria que ele fosse meu.

- Está a falar a sério?

- Claro! É o sonho de qualquer advogado. Ganhe o caso e ficará famoso. O melhor advogado do estado. Pode fazer de si um homem rico.

- Vou precisar da sua ajuda.

- Já a tem. Ando mesmo a precisar de alguma coisa para fazer.

Depois do jantar, quando Hanna já estava a dormir, Jake contou a Carla os telefonemas para o escritório. Já tinham recebido um telefonema estranho quando Jake estivera noutro julgamento de homicídio, mas sem ameaças, apenas alguém a gemer e a arquejar ao telefone. Mas estes eram diferentes. Citavam Jake e a família e prometiam vingança se Carl Lee fosse ilibado.

- Estás preocupado? - perguntou Carla.

- Francamente, não. Provavelmente é coisa de garotos, ou de alguns amigos de Cobb. E tu, tens medo?

- Preferia que não telefonassem.

- Toda a gente está a receber telefonemas. O Ozzie já teve centenas, o Buliard, o Childers, toda a gente. Não estou preocupado. - E se a coisa se tornar ainda mais séria?

- Carla, eu nunca arriscaria a segurança da minha família. Não vale a pena. Retiro-me do caso se tiver a certeza de que as ameaças são autênticas. Prometo.

Carla não ficou convencida.

Lester contou nove notas de cem dólares e depositou-as majestosamente em cima da mesa de Jake.

- Aí só estão novecentos - disse Jake. - O nosso acordo foram mil dólares.

- A Gwen precisou de comprar mantimentos.

- Tem a certeza de que Lester não precisou comprar uísque?

- Ora, Jake, deixe-se disso, sabe que eu não ia roubar o meu irmão.

- Pronto, pronto. Quando é que a Gwen vai ao banco pedir o empréstimo?

- Eu vou agora falar com o banqueiro. Atcavage?

- Sim. Stan Atcavage, aqui ao lado, no Security Bank. Muito meu amigo. Foi ele quem fez o empréstimo para pagar o seu julgamento. Tem a escritura?

- No meu bolso. Quanto é que acha que ele vai emprestar? - Não faço ideia. Por que não vai tentar saber?

Lester saiu e, dez minutos depois, Atcavage telefonou.

- Jake, não posso emprestar o dinheiro a essa gente. E se ele for condenado, sem querer ofender, eu sei que é um bom advogado... o meu divórcio, lembra-se?... mas como é que ele vai pagar se estiver no corredor da morte?

- Muito obrigado, Stan; se ele não pagar, você fica com as terras dele, certo?

- Certo, com uma barraca no meio. Alguns hectares de árvores e erva daninha mais uma casa velha. Exactamente o que a minha nova mulher deseja. Francamente, Jake.

- É uma boa casa e quase paga.

- É uma barraca, uma barraca limpa. Mas não vale nada, Jake.

- Tem de valer alguma coisa.

- Jake, eu não quero. O banco não quer. - Você emprestou da outra vez.

- E ele não estava preso, quem estava era o irmão, lembra-se? Ele estava a trabalhar na fábrica de papel. Um bom emprego. Agora, está a caminho da Parchman.

- Muito obrigado, Stan, pelo voto de confiança.

- Deixe-se disso, Jake, eu confio na sua habilidade, mas não posso investir nela. Se alguém pode libertar esse homem, esse alguém é você. E eu espero que consiga. Mas não posso conceder este empréstimo. Os auditores iam ficar loucos.

Lester tentou o Peoples Bank e o Ford National com o mesmo resultado. Eles esperavam que o irmão dele fosse ilibado, mas e se não fosse?

Que maravilha, pensou Jake. Novecentos dólares por um caso de homicídio.

 

Claude nunca tinha achado necessário mandar imprimir menus para o seu restaurante. Anos atrás, quando inaugurara o café, não podia pagar e agora que podia, não precisava, porque a maioria dos fregueses sabia o que ia ser servido. Para o pequeno-almoço ele fazia tudo, menos arroz e torradas, e os preços variavam. Às sextas-feiras, o almoço era churrasco de lombo e costeletas de porco e toda a gente sabia. Claude tinha poucos fregueses brancos durante a semana, mas às sextas-feiras o seu pequeno café ficava quase inteiramente cheio de brancos. Há já algum tempo que sabia que os brancos gostavam tanto de churrasco como os negros, só que não o sabiam fazer.

Jake e Atcavage sentaram-se numa mesa pequena, perto da cozinha. O próprio Claude serviu dois pratos com costeletas e salada de repolho. Inclinou-se para Jake e disse:

- Boa sorte para si. Espero que o liberte.

- Obrigado, Claude. Espero que você seja um dos jurados. Claude riu e disse, em voz mais alta:

- Posso apresentar-me como voluntário?

Jake atacou as costeletas e censurou Atcavage por não fazer o empréstimo. O banqueiro manteve-se firme mas ofereceu um empréstimo de cinco mil se Jake fosse fiador. Isso seria anti-ético, disse Jake.

No passeio, os que esperavam na fila olhavam para dentro através do vidro das janelas com as letras pintadas. Claude estava em toda a parte, anotando pedidos, dando ordens, cozinhando, con tando dinheiro, gritando, praguejando, cumprimentando fregueses e pedindo-lhes que se fossem embora. À sexta-feira, os fregueses tinham direito a vinte minutos a partir do momento em que eram servidos. Depois disso, Claude exigia que pagassem e se fossem embora para que ele pudesse vender mais churrasco.

- Deixe de falar e coma! - gritava ele. - Ainda tenho dez minutos, Claude. - Sete.

Às quartas-feiras, servia peixe frito e concedia trinta minutos, por causa das espinhas. Os brancos evitavam o Claude's nesse dia e ele sabia porquê. Era a gordura, uma receita secreta herdada da sua avó, dizia ele. Era pesada e pegajosa e fazia misérias nos intestinos dos brancos. Não afetava os negros, que às quartas-feiras enchiam o restaurante.

Dois estranhos, sentados perto da caixa registadora, olhavam cheios de medo para Claude. Provavelmente repórteres, pensou Jake. Sempre que Claude se aproximava e olhava carrancudo para eles, os dois obedientemente espetavam uma costeleta e começavam a mastigar. Nunca tinham comido costeletas e não havia dúvida de que eram do Norte. Tinham pedido saladas mistas, mas Claude, a praguejar, mandou-os comer churrasco ou desocupar a mesa. Nessa altura, disse a toda a gente que aqueles idiotas queriam salada mista.

- Aqui está o vosso almoço, Tratem de comê-lo depressa - disse-lhes ele, quando os serviu.

- Não tem facas de carne? - perguntou um deles, atrevidamente.

Claude revirou os olhos e afastou-se a resmungar. Um deles viu Jake e depois de o olhar fixamente, durante alguns minutos, foi até a mesa dele e baixou-se, apoiado num joelho, ao seu lado.

- O senhor não é o Dr. Brigance, advogado do Sr. Hailey? - Sim, sou. Quem é o senhor?

- O meu nome é Roger McKittrick, do New York Times. - Muito prazer - disse Jake, com um sorriso e uma atitude mais simpática.

- Estou a fazer a cobertura do caso Hailey e gostaria de falar consigo, quando puder. O mais breve possível, para ser franco.

- Certo. Não estou ocupado esta tarde. Hoje é sexta-feira. - Podemos então conversar mais tarde.

- Que tal às quatro horas?

- Óptimo - disse ~ittrick, vendo Claude sair da cozinha.

- Encontramo-nos às quatro, então.

- Ora bem, meu amigo - berrou Claude para McICttrick. O seu tempo acabou. Pague a sua conta e vá-se embora.

Jake e Atcavage terminaram em quinze minutos e ficaram à espera dos ataques verbais de Claude. Lamberam as pontas dos dedos, passaram os guardanapos pela cara e fizeram notar como as costeletas eram tenras.

- Vai ficar famoso com este caso, não vai, Jake? - perguntou Atcavage.

- Espero que sim. Evidentemente não me vai tonar rico. - Falando a sério, Jake, não vai ajudar a sua carreira?

- Se eu ganhar, terei mais clientes do que os que conseguirei atender. É claro que vai ajudar. Vou poder escolher os casos, escolher os clientes.

- Financeiramente, quais serão as vantagens?

- Não faço ideia. Não posso prever. É claro que a escolha dos casos será maior e isso pode significar mais dinheiro. Vou deixar de me preocupar com as despesas obrigatórias.

- Não acredito que você se preocupe com as despesas.

- Ouça, Stan, nem todos os advogados são podres de ricos. O diploma de Direito não vale o que valia antes - somos muitos, hoje em dia. Catorze só nesta pequena cidade. A concorrência é feroz, mesmo em Clanton: poucos casos bons e muitos bons advogados. Nas grandes cidades é pior e cada ano é maior o número dos que se formam em Direito e grande parte não consegue emprego. Num ano, cerca de dez recém-formados batem à minha porta à procura de trabalho. Uma firma grande de Memphis dispensou alguns advogados alguns meses atrás. Dá para acreditar? Como se fosse uma fábrica, despediu-os simplesmente. Imagino que tenham ido todos para as filas das agências de emprego, ao lado dos mecânicos. Advogados, não secretárias ou camionistas, mas advogados.

- Desculpe a pergunta.

- É claro que me preocupo com as despesas do escritório. São quatro mil por mês e eu trabalho sozinho. Significa cinquenta mil por ano sem que eu possa retirar um centavo. Alguns meses são bons, outros não. Sempre imprevisíveis. Eu não seria capaz de fazer uma estimativa sobre o que vai ser o meu rendimento bruto no próximo mês. Por isso este caso é tão importante. Nunca mais vou ter outro igual. Este é o maior. Posso trabalhar o resto da vida sem nunca mais ter de ser procurado por um repórter do New York Times num restaurante, para uma entrevista. Se eu ganhar, serei o melhor advogado desta região. Posso então esquecer as despesas.

- E se perder?

Jake pensou um instante, olhando em volta à procura de Claude.

- A publicidade será enorme, qualquer que seja o resultado.

Quer perca quer ganhe, este caso vai ajudar-me. -Mas uma derrota será dolorosa. Todos os advogados do país secretamente estão a desejar que eu perca. Querem que ele seja condenado. Eles têm inveja, têm medo de que eu cresça demais e lhes roube os clientes. Os advogados são extremamente invejosos.

- Você também?

- Claro. Veja a firma Sullivan. Tenho um profundo desprezo por todos os advogados da firma, mas de certo modo invejo-os. Eu gostaria de ter alguns dos clientes deles, um pouco da segurança deles. Eles sabem que todos os meses vão receber um belo cheque, é praticamente certo, e no Natal recebem uma maravilhosa bonificação. Eles representam dinheiro garantido, dinheiro antigo. Seria agradável, para variar. Eu represento bêbedos, desordeiros, maridos que batem nas mulheres, mulheres que batem nos maridos, vítimas de agressões, a maior parte com pouco dinheiro. E nunca sei, de um mês para o outro, quantos desses clientes vão aparecer no meu escritório.

- Ouça, Jake - interrompeu Atcavage. - Eu gostaria de continuar esta conversa, mas o Claude acaba de olhar para o relógio e para nós. Acho que nossos vinte minutos terminaram. A conta de Jake tinha setenta e um cêntimos a mais do que a de Atcavage e uma vez que tinham comido a mesma coisa, ele reclamou. Pronto, disse Claude. Jake obteve mais uma costeleta.

McKittrick era bem-parecido e preciso, minucioso e agressivo. Estava em Clanton desde quarta-feira, para investigar e escrever sobre o que era considerado o crime mais famoso do país, naquele momento. Falou com Ozzie e Moss Junior e eles sugeriram que procurasse Jake. Falou com Bullard, do outro lado da porta fechada, e o juiz sugeriu que ele falasse com Jake. Entrevistou Lester e Gwen, mas não permitiram que visse a menina. Conversou com os fregueses habituais do Coffee Shop e do Tea Shoppe e com os frequentadores do Huey's e do Ann's. Falou com a ex-mulher de Willard e com a mãe dele, mas a Sra. Cobb estava farta de repórteres. Um dos irmãos de Cobb concordou em ser entrevistado mediante uma certa quantia. McKittrick não aceitou. Foi à fábrica de papel e conversou com os companheiros de trabalho de Carl Lee e foi a Smithfield para entrevistar o promotor. Ia ficar na cidade mais alguns dias, depois voltaria para o julgamento.

McKittrick era do Texas e, quando convinha, usava a fala arrastada do sul, o que impressionava as pessoas e as fazia falar com maior liberdade. Ocasionalmente até usava expressões bastante típicas, o que o diferenciava da maioria dos repórteres que faziam questão da pronúncia moderna, seca e precisa.

- O que é isso? - perguntou McKittrick, apontando para o centro da mesa de Jake.

- Isso é um gravador - respondeu Jake. McKittrick pôs o seu gravador sobre a mesa e disse:

Posso perguntar porquê?

- Pode. Este é o meu escritório, e esta a minha entrevista. Logo, posso gravar, se quiser.

-           - Espera problemas?

- Estou a tentar evitar problemas. Não gosto de ser citado erradamente.

- Não tenho fama de fazer isso.

- Óptimo. Então, não se importará que nós dois gravemos a entrevista.

- Não confia em mim, pois não, Dr. Brigance? - Claro que não. E meu nome é Jake.

- Porque não confia em mim?

- Porque é um repórter, é de Nova Iorque, está à procura de uma história sensacionalista e, se for igual aos outros, vai escrever um lixo cheio de imprecisões e moralista, vai descrever-nos como um bando de parolos brancos, racistas e ignorantes.

- Está enganado. Para começar, sou do Texas. - O seu jornal é de Nova Iorque.

- Mas eu considero-me sulista. - Há quanto tempo deixou o Sul? - Uns vinte anos.

Jake sorriu e abanou a cabeça, como que a dizer que era muito tempo.

- E não trabalho para um jornal sensacionalista.

- Veremos. O julgamento será dentro de alguns meses. Até lá teremos tempo de ler as suas reportagens.

- Acho justo.

Jake ligou o seu gravador e McKittrick ligou o dele.

- Carl Lee Hailey pode ter um julgamento justo em Ford County?

- Porque não?

- Bem, ele é negro. Matou dois homens brancos e vai ser julgado por um júri de brancos.

- Quer dizer que vai ser julgado por um bando de racistas brancos.

- Não, não foi o que eu disse, nem o que insinuei. Porque supõe automaticamente que eu considero que todas as pessoas daqui são racistas?

- Porque é a verdade. Somos estereotipados e você sabe disso.

McKittrick encolheu os ombros e escreveu no bloco-notas. - Quer responder à pergunta?

- Sim. Ele pode ter um julgamento justo em Ford County, se for julgado aqui.

- Quer que ele seja julgado aqui?

- Estou certo de que tentaremos transferir o local. - Para onde?

- Não vamos sugerir o local. É atribuição do juiz. - Onde é que ele foi arranjar a M-16?

Jake riu e olhou para o gravador. - Não sei.

- Ele seria indiciado se fosse branco? - Ele é negro e não foi indiciado ainda. - Mas se fosse branco, seria indiciado? - Na minha opinião, seria.

- Seria condenado?

- Aceita um charuto? - Jake tirou um Roi-Tan da gaveta da mesa. Desembrulhou o charuto e acendeu-o com um isqueiro a gás.

- Não, obrigado.

- Não, se fosse branco não seria condenado. Na minha opinião. Não no Mississippi, não no Texas, não no Wyoming. Não tenho a certeza quanto a Nova Iorque.

- Porquê?

- Tem uma filha? - Não.

- Então, não ia compreender.

- Acho que compreendo. O Sr. Hailey vai ser condenado? - Provavelmente.

- Então, o sistema não funciona com a mesma justiça para os negros.

- Conversou com Raymond Hughes? - Não. Quem é ele?

- Na última eleição, foi candidato a xerife e teve a infelicidade de ter por adversário Ozzie Walls. Hughes é branco. Ozzie evidentemente não é. Se não estou enganado, ele conseguiu trinta e um por cento dos votos. Num distrito com setenta e quatro por cento de brancos. Por que não pergunta ao Sr. Hughes se o sistema trata os negros com justiça?

- Eu referia-me ao sistema judiciário.

- É o mesmo sistema. Por quem é que acha que o júri é formado? Os mesmos eleitores registados que elegeram Ozzie Walls. - Bem, se um homem branco não seria condenado e o Sr. Hailey provavelmente será, explique-me como é que o sistema trata os dois com justiça.

- Não trata.

- Acho que não entendi.

- O sistema reflecte a sociedade. Nem sempre é justo, mas é tão justo como o sistema de Nova Iorque, Massachusetts ou Califórnia. É tão justo quanto o faz a emotividade e o preconceito dos seres humanos.

- Então acha que o Sr. Hailey será tratado com justiça aqui, exactamente como seria em Nova Iorque?

- Estou a querer dizer que há tanto racismo em Nova Iorque como no Mississippi. Veja as escolas públicas - tão sem segregação como quaisquer outras.

- Por ordem judicial.

- Certo. Mas e os tribunais de Nova Iorque? Durante anos vocês, embuídos de uma hipocrisia piedosa, apontaram o dedo e o nariz para nós, exigindo o fim da segregação. Aconteceu aqui e não foi o fim do mundo. Mas vocês, muito convenientemente, ignoraram as vossas escolas e os vossos bairros residenciais, as vossas irregularidades em relação ao voto, os vossos júris e conselhos municipais formados só por brancos. Nós estávamos errados e pagámos caro o nosso erro. Mas aprendemos e embora a mudança tenha sido lenta, pelo menos estamos a tentar. Vocês continuam a apontar o dedo acusador.

- Eu não pretendia repetir a batalha de Gettysburg.

- Desculpe. Qual a defesa que vamos usar? No momento ainda não sei. Francamente, é muito cedo. Ele nem foi indiciado. - Mas, evidentemente, vai sê-lo.

- É claro que ainda não sabemos. É mais do que provável. Quando é que esta entrevista vai ser publicada?

- Talvez no domingo.

- Não faz diferença. Ninguém aqui lê o seu jornal. Sim, ele vai ser indiciado.

McKittrick consultou o relógio e Jake desligou o gravador. - Ouça, eu não sou o "mau da fita" - disse McKittrick. - Vamos beber uma cerveja um dia destes e acabar com isto.

- Confidencialmente, eu não bebo. Mas aceito o convite.

A Primeira Igreja Presbiteriana de Clanton ficava do outro lado da rua, de frente para a Primeira Igreja Metodista Unida de Clanton e as duas podiam ser vistas da Primeira Igreja Baptista. Os baptistas tinham maior número de adeptos e mais dinheiro, mas os presbiterianos e metodistas reuniam-se mais cedo aos domingos e chegavam antes dos baptistas aos restaurantes. Os baptistas chegavam ao meio-dia e meia e ficavam na fila de espera, enquanto os presbiterianos e metodistas comiam calmamente e lhes diziam adeus.

Jake estava satisfeito por não ser baptista. Eram um bocado rígidos e rigorosos demais, e estavam sempre a pregar sobre o ofício nocturno aos domingos, com o qual Jake não concordava. A família de Carla era baptista, a de Jake metodista e durante o namoro chegaram a um acordo e tornaram-se presbiterianos. Estavam satisfeitos com a sua igreja e com as suas atividades às quais raramente faltavam.

Nesse domingo, sentados no lugar de sempre, com Hanna a dormir entre ambos, ignoravam completamente o sermão. Jake fazia isso ao mesmo tempo que olhava para o pregador e ia imagi nando o seu confronto com Buckley, no tribunal, perante doze cidadãos bons e cumpridores da lei, enquanto a nação assistia e esperava, e Carla ignorava o sermão, olhando para o pregador e redecorando mentalmente a sala de jantar. Jake percebeu alguns olhares curiosos durante a cerimónia e imaginou que alguns dos fiéis estavam deslumbrados e cheios de respeito por ter uma celebridade na sua igreja. Havia algumas caras desconhecidas e podiam ser pecadores arrependidos ou repórteres. Jake só teve a certeza quando um deles insistiu em olhar fixamente para ele - nessa altura, não teve dúvidas de que eram todos repórteres.

- Gostei muito do seu sermão, reverendo - mentiu Jake, apertando a mão do pastor nos degraus em frente da igreja.

- É um prazer vê-lo, Jake - respondeu o reverendo. - Vimo-lo na semana toda na televisão. Os meus filhos ficam entusiasmados cada vez que aparece.

- Obrigado. Reze por nós.

Jake, Carla e Hanna foram almoçar com os pais dele em Karaway. Gene e Eva Brigance moravam na antiga residência da família, uma espaçosa casa de fazenda com dois hectares arboriza dos, no centro da cidade de Karaway, a três quarteirões da rua principal e a dois da escola onde Jake e a irmã tinham estudado durante doze anos. Eram ambos reformados, mas eram ainda bastante jovens e, durante o Verão, viajavam por todo o continente numa caravana. Na segunda-feira iam partir para o Canadá e só voltariam depois do Dia do Trabalhador. Jake era o único rapaz. A filha, mais velha, morava em Nova Orleães.

O almoço na mesa de Eva era um típico banquete sulista com carnes fritas, legumes frescos da horta, cozidos, em puré, assados e crus, rosquinhas e biscoitos feitos em casa, molhos, melancia, melão, tortas de pêssego, de limão e de morango. Pouca coisa era consumida ao almoço e o que sobrava Carla e Eva acondicionavam cuidadosamente e ia tudo para Clanton, onde durava uma semana.

- Como estão os seus pais, Carla? - perguntou o Dr. Brigance, passando as rosquinhas.

- Estão bons. Falei com minha mãe ontem. - Estão em Knoxville?

- Não, senhor. Já foram para Wilmington para passar o Verão.

- Vocês fazem tenções de irem visitá-los? - perguntou Eva, servindo o chá no bule de cerâmica de três litros.

Carla olhou para Jake, que estava a servir Hanna de feijão-manteiga. Jake não queria falar sobre Carl Lee Hailey. Todas as noites, desde segunda-feira, era só o que discutiam ao jantar, e Jake não estava disposto a responder às mesmas perguntas.

- Sim, senhora. Pretendemos. Depende de Jake. Ele vai ter muito que fazer este Verão.

- Foi o que calculámos - disse Eva secamente, falando devagar, como que a lembrar ao filho que ele não telefonava desde o dia do crime.

- Há algum problema com o vosso telefone, filho? - perguntou o Dr. Brigance.

- Sim. Mandámos mudar o número.

Os quatro adultos comiam devagar, preocupados, e Hanna olhava para a torta de morangos.

- Sim, eu sei. Foi o que a telefonista nos disse. Para um número que não consta da lista.

- Desculpe. Tenho tido muito que fazer. O tempo todo. - Foi o que lemos nos jornais - disse o pai.

Eva parou de comer e disse.

- Jake, achas que consegues libertá-lo?

- Estou preocupado com a tua família - disse o pai. - Pode ser um caso muito perigoso.

- Ele matou-os a sangue-frio - observou Eva.

- Mãe, eles violaram a filha dele. O que é que os pais fariam se alguém violentasse a Hanna?

- O que é violentar? - perguntou Hanna.

- Não importa, minha querida - disse Carla. - Será que podemos mudar de assunto? - Olhou para os três Brigances e eles recomeçaram a comer. A nora tinha falado, como sempre com sabedoria. Jake sorriu para a mãe, sem olhar para o Dr. Brigance.

- Eu, pura e simplesmente, não quero falar sobre o caso, mãe. Estou farto desse assunto.

- Acho que temos de ler os jornais - disse o Dr. Brigance. Puseram-se a falar sobre o Canadá.

Mais ou menos à hora em que os Brigances acabavam de almoçar, o santuário da Capela Mount Zion estremecia e ondulava com o frenesim dos fiéis conduzidos pelo reverendo Ollie Agee. Diáconos dançavam. Presbíteros cantavam. Mulheres desmaiavam. Homens adultos gritavam e erguiam os braços para o céu, e as crianças olhavam para cima, apavoradas. Os membros do coro cambaleavam e investiam para a frente, cantando depois com voz esganiçada estrofes diferentes do mesmo hino. O pianista tocava uma música, o organista tocava outra e o coro cantava a combinação das duas coisas. O reverendo pulava em volta do púlpito com a longa veste branca debruada de vermelho, gritando, rezando, berrando para Deus e suando.

O tumulto crescia e diminuía, aumentando a cada desmaio e decrescendo com o cansaço. Anos de experiência tinham ensinado a Agee qual o momento exacto em que a fúria atingia o auge, em que o delírio dava lugar ao cansaço e quando o seu rebanho precisava de uma pausa. Nesse preciso momento, ele foi a dançar até ao púlpito e bateu com a mão na madeira com toda a força de Deus Todo-poderoso. Imediatamente a música parou, as convulsões cessaram, as desmaiadas acordaram, as crianças pararam de chorar e a multidão voltou obedientemente para os bancos. Estava na hora do sermão.

Quando o reverendo ia começar, as portas abriram-se e os Hailey entraram. A pequena Tonya vinha à frente, coxeando, a segurar na mão da mãe. Os irmãos marchavam atrás, seguidos pelo tio Lester. Caminharam lentamente pela passagem central e sentaram-se numa das primeiras filas. A um sinal do reverendo, o organista começou a tocar suavemente e o coro começou a ondular, murmurando baixinho. Os diáconos levantaram-se balançando com o coro. Para não ficar atrás, os presbíteros também se puseram de pé e começaram a cantar. Então, sem que ninguém esperasse, a irmã Crystal desmaiou violenta e contagiosamente. As outras irmãs começaram a cair como moscas. Os presbiteros cantavam mais alto do que o coro, e o coro tentou superá-los. Não conseguiam ouvir o organista, por isso este aumentou o volume. O pianista fez o mesmo, martelando vigorosamente um hino diferente. O organista aceitou o desafio. O reverendo Agee desceu fluidamente do pódio e dançou na direcção dos Hailey. Todos foram atrás dele - o coro, os diáconos, os presbíteros, as mulheres, as crianças, a chorar -, todos seguiram o reverendo para cumprimentar a pequena Hailey.

A cadeia não perturbava Carl Lee. Era mais agradável estar em casa, mas, dadas as circunstâncias, era tolerável. A cadeia era nova, fora construída com recursos do governo federal por ordem de um processo sobre os direitos dos prisioneiros. A comida era preparada por duas negras enormes que sabiam cozinhar e falsificar cheques. Estavam qualificadas para serem soltas, mas Ozzie não se dera ao trabalho de informá-las disso. A comida para os quarenta detidos era servida pelos prisioneiros com regalias. Treze prisioneiros pertenciam à Parchman que, naquele momento, estava superlotada. Assim, para ali estavam à espera, sem saberem quando seria o dia temido da viagem para a grande penitenciária, uma fazenda, no delta, onde a comida não era tão boa, as camas não eram tão macias, não havia ar condicionado, os mosquitos eram enormes, abundantes e ferozes e onde as retretes eram escassas e entupidas.

A cela de Carl Lee ficava ao lado da cela dois, onde os prisioneiros do estado esperavam a transferência. Salvo duas excepções, eram todos negros. Sem excepção, eram todos violentos. Mas todos tinham medo de Carl Lee. Ele estava na cela um com dois vigaristas que, mais do que medo, tinham verdadeiro pavor do famoso companheiro de cela. Todas as noites Carl Lee era escoltado até ao gabinete do xerife, onde ambos jantavam e viam o noticiário da televisão. Carl Lee era uma celebridade e gostava disso quase tanto como o seu advogado e o promotor. Carl Lee queria explicar tudo aos repórteres, falar-lhes sobre a filha e dizer-lhes por que não devia estar preso, mas o seu advogado não lho permitia.

Naquele domingo, depois da visita de Gwen e Lester, no fim da tarde, Ozzie, Moss Junior e Carl Lee saíram furtivamente pela porta das traseiras da cadeia e foram ao hospital. A ideia fora de

Carl Lee, e Ozzie não viu qualquer inconveniente. Quando entraram no quarto particular, Looney estava sozinho. Carl Lee olhou para a perna do polícia. Trocaram um aperto de mão. Com lágrimas nos olhos e a voz trémula, Carl Lee disse que lamentava imenso, que não tinha tido intenção de acertar em ninguém além dos dois homens, que gostaria de poder desfazer o que tinha feito a Looney. Looney aceitou as desculpas sem hesitar.

Quando entraram sorrateiramente no edifício da cadeia, Jake estava no escritório do xerife. Ozzie e Moss Junior deixaram o acusado sozinho com o advogado.

- Onde é que foi? - perguntou Jake. - Fui ao hospital ver Looney.

- Foi aonde? - Há problema? - Eu gostaria que me consultasse antes de fazer outras visitas.

- Qual é problema por ter ido visitar Looney?

- Looney vai ser a testemunha principal da acusação quando eles tentarem mandá-lo para a câmara de gás. É só isso. Ele não está do nosso lado, Carl Lee, e qualquer conversa que você tenha com Looney deve ser na presença do seu advogado. Compreendeu? - Para ser franco, não.

- Eu não acredito que Ozzie tenha feito uma coisa destas. - resmungou Jake.

- A ideia foi minha - admitiu Carl Lee.

- Está bem. Se tiver outras ideias, por favor informe-me. Está bem?

- Está bem.

- Tem falado com o Lester ultimamente?

- Tenho. Ele e a Gwen estiveram aqui hoje. Trouxeram alguns petiscos. Falaram sobre os empréstimos negados.

Jake estava disposto a não ceder na questão dos honorários. De modo nenhum iria aceitar a defesa de Carl Lee por novecentos dólares. O caso iria tomar-lhe o tempo todo, durante os três meses seguin tes, pelo menos, e novecentos dólares seriam menos do que o salário mínimo. Não seria justo para ele nem para a sua família trabalhar de graça. Carl Lee teria de arranjar o dinheiro. Tinha muitos parentes. A família de Gwen era grande. Teriam de fazer sacrifícios, talvez vender alguns automóveis, algumas terras, mas Jake teria o seu dinheiro. De contrário, Carl Lee teria de procurar outro advogado.

- Eu dou-lhe a escritura da minha casa e do terreno - ofereceu Carl Lee.

Jake ficou comovido.

- Eu não quero a sua casa, Carl Lee. Quero o dinheiro. Seis mil e quinhentos dólares.

- Então, diga-me onde é que eu os vou buscar... Você é o advogado, pense numa maneira. Estou consigo.

Jake tinha de admitir que fora vencido.

- Carl Lee, não posso fazer isto por novecentos dólares. Não posso permitir que este caso me leve à falência. Sou advogado. É disso que eu vivo.

- Jake, eu vou pagar. Prometo. Pode levar muito tempo, mas eu vou pagar. Confie em mim.

Não se estiver no corredor da morte, pensou Jake. Mudou de assunto.

- Sabe que o júri de instrução se vai reunir amanhã para estudar o seu caso?

- Então eu vou ao tribunal?

- Não, isso quer dizer que será formalmente acusado amanhã. O tribunal vai estar à cunha com espectadores e repórteres. O juiz Noose estará presente para a abertura dos trabalhos forenses no tribunal. O Buckley vai andar a correr de um lado para o outro, à procura das câmaras e a promover-se. Vai ser um grande dia. O Noose começa o julgamento de um assalto à mão armada, na parte da tarde. Se você for indiciado amanhã, estaremos no tribunal na quarta ou na quinta para a leitura do libelo na presença do acusado. - Para a leitura do quê?

- Do libelo. Num caso de homicídio, a lei exige que o juiz leia a acusação em tribunal aberto, na presença do acusado, de Deus e de toda a gente. Vão fazer um grande espectáculo disso. Nós daremos entrada na declaração de inocente e o Noose determina a data do julgamento. Pediremos uma fiança razoável e ele vai negá-la. Quando eu mencionar a fiança, o Buckley vai pôr-se aos berros e aos pulos. Quanto mais penso nele, mais o odeio. É só para o irritar.

- Porque não vou ter fiança?

- O juiz não precisa determinar fiança em casos de homicídio. Ele pode, se quiser, mas a maioria não quer. Mesmo que o Noose determine uma fiança, você não vai poder pagar, portanto, não se preocupe com isso. Vai ficar preso até ao julgamento.

- Perdi o emprego, já sabia? - Quando?

- A Gwen foi à fábrica na sexta-feira receber o meu pagamento. E nessa altura, disseram-lhe. É simpático, não acha? Trabalhei para eles onze anos, faltei cinco dias e eles despedem-me. Acho que pensam que não vou voltar.

- Lamento imenso, Carl Lee. Tenho mesmo muita pena.

 

Sua Excelência, o juiz Ornar Noose, nem sempre fora tão excelente. Antes de se tornar o juiz itinerante da Vigésima Segunda Circunscrição Judiciária, era um advogado de escasso talento e poucos clientes, mas um político extremamente habilidoso. Cinco mandatos no Legislativo do Mississippi tinham-no corrompido e ensinado a arte da manipulação e da fraude política. O senador Noose prosperou magnificamente como presidente do Comité de Finanças do Estado e poucas pessoas em Van Buren questionavam o facto de ele e a família levarem uma vida de tanto luxo com o seu ordenado legislativo de sete mil dólares por ano.

Como a maioria dos membros do Legislativo do Mississippi, cometeu o erro de se candidatar uma vez a mais e, no Verão de 1971, sofreu a humilhação de ser vencido por um oponente desconhecido. Um ano mais tarde, o juiz Loopus, seu predecessor na magistratura, morreu e Noose convenceu os amigos a apoiarem a sua indicação para o final do mandato ainda não terminado. Foi assim que o ex-senador Noos ; se tornou o juiz itinerante Noose. Foi eleito em 1975 e reeleito em 1979 e em 1983.

Arrependido, regenerado e muito humilde dada a sua rápida descida na escalada do poder, o juiz Noose dedicou-se ao estudo das leis e depois de um começo difícil ficou à altura do novo cargo. Ganhava sessenta mil dólares por ano e assim podia ser honesto. Com sessenta e três anos, era um juiz velho e sábio, respeitado pela maioria dos advogados e pelo Supremo Tribunal do estado, que raramente anulava uma decisão sua. Era discreto mas encantador, paciente mas rigoroso e tinha um nariz monumental, muito comprido e ponteagudo, que servia de trono para os óculos de leitura, de lentes hexagonais cor-de-laranja e aros negros, que trazia sempre com ele, mas eram raramente usados. O nariz, aliado ao corpo alto e desajeitado, mais o cabelo branco, rebelde e abundante, e a voz esganiçada deram origem ao apelido secreto, murmurado entre os advogados, de Ichabod. Ichabod Noose. O Meritíssimo Ichabod Noose.

O juiz Noose ocupou o seu lugar e o tribunal completamente cheio levantou-se quando Ozzie murmurou incoerentemente um parágrafo de lei, leitura obrigatória para a abertura oficial do período de Maio do Tribunal Itinerante de Ford County. Uma oração, longa e rebuscada, foi recitada pelo pastor local e toda a gente se sentou. Os possíveis jurados enfileiravam-se de um dos lados do recinto. Criminosos e outros litigantes, as famílias e amigos, a imprensa e os curiosos, enchiam o outro lado. Noose exigia a presença de todos os advogados do distrito na abertura do período forense e eles ocupavam a bancada dos jurados, todos de beca e com ares de importância. Buckley e o seu assistente, D. R. Musgrove, sentados frente à mesa da promotoria, representavam esplendidamente o estado. Jake estava numa cadeira, em frente da balaustrada. Os funcionários e escriturários estavam atrás dos grandes livros vermelhos dos autos, e todos observaram com atenção quando Ichabod se sentou, ajeitou a toga, pôs os horríveis óculos e olhou por cima deles para os presentes.

- Bom dia - disse ele, com a sua voz estridente. Ajeitou o microfone e pigarreou. - É sempre um prazer estar em Ford County para o meu período forense do mês de Maio. Vejo que a maior parte dos advogados arranjou tempo para comparecer à abertura do tribunal e, como sempre, pedirei à senhora escriturária que anote os nomes dos ausentes, para que eu possa entrar pessoalmente em contacto com eles. Vejo um grande número de jurados em potencial e agradeço a cada um a sua presença. Sei que não tiveram escolha, mas a vossa presença é vital para o nosso processo judiciário. Seleccionaremos um júri provisório e depois escolheremos vários júris para servirem nesta semana e na próxima. Espero que todos os advogados tenham uma cópia da agenda para este período e já devem ter notado que está bastante carregada. O meu calendário marca pelo menos dois julgamentos por dia, nas duas semanas, mas fui informado de que a maioria dos casos de foro criminal, marcados para julgamento, serão resolvidos por meio de negociação das declarações dos acusados. Mesmo assim, temos vários casos para serem julgados e eu peço a cooperação diligente dos advogados. Uma vez escolhido e instalado o júri de instrução, e à medida que forem aparecendo os indiciamentos, eu marcarei a ordem das leituras das acusações formais e o protocolo de comparecimentos. Vamos chamar os casos protocolados rapidamente, primeiro os criminais, depois os civis. Nessa altura, os advogados poderão retirar-se, enquanto escolhemos os jurados.

"O estado contra Warren Moke. Assalto à mão armada, julgamento marcado para esta tarde."

Buckley levantou-se com ar decidido.

- O estado do Mississippi está pronto para o julgamento, Meritíssimo - anunciou gloriosamente aos espectadores.

- A defesa também está pronta - disse Tyndale, o advogado indicado pelo tribunal.

- Quanto tempo calculam que vai durar este julgamento? - perguntou o juiz.

- Um dia e meio - respondeu Buckley. Tyndale concordou, inclinando a cabeça.

- Muito bem. Seleccionaremos o júri para o julgamento esta manhã e começaremos o julgamento à uma hora da tarde de hoje. O estado contra William Daal, falsificação, seis acusações, marcado para amanhã.

- Meritíssimo - respondeu D. R. Musgrove - haverá negociação da declaração do acusado neste caso.

- Muito bem. O estado contra Roger Hornton, cheques sem cobertura, duas acusações, marcado para amanhã.

Noose continuou a enumerar os casos da agenda. Cada um deles recebia a mesma resposta. Buckley levantava-se e declarava que o estado estava pronto para o julgamento, ou Musgrave infor mava rapidamente o tribunal que a declaração fora negociada. Os advogados da defesa levantavam-se e concordavam com uma inclinação da cabeça. Jake não tinha nenhum caso no período forense de Maio e embora fizesse o possível por parecer aborrecido, gostava daquela chamada porque ficava a saber a natureza dos casos e o que os seus concorrentes andavam a fazer. Era também uma oportunidade para aparecer perante a população da cidade. Metade dos membros da firma Sullivan estavam presentes e também pareciam enfadados, arrogantes, todos juntos na primeira fila da bancada do júri. Os sócios mais antigos da firma não se dignavam comparecer à chamada do calendário e depois mentiam ao juiz Noose, dizendo que tinham estado num julgamento do Tribunal Federal, em Oxford, ou talvez do Supremo Tribunal, em Jackson. A dignidade impedia-os de se misturarem com os outros advogados comuns, por isso os jovens representantes da firma compareciam para satisfazer Noose e pedir a continuação, adiamento, diferimento ou arquivamento dos casos civis, ou conseguir que fossem legislados de modo a que a firma pudesse continuar a arrastá-los indefinidamente e continuar a cobrar ao cliente cada hora de trabalho. Os clientes eram companhias de seguros, que geralmente preferiam não ir a julgamento e pagavam por hora as manobras legais, cujo único objectivo era manter os casos longe dos jurados. Saía mais barato e mais justo pagar um acordo razoável e evitar o litígio e as firmas parasitas de defesa como a Sullivan & O'Hare, mas as companhias de seguros e os seus assistentes administrativos eram idiotas e avarentos demais, de modo que os advogados de rua, como Jake Brigance, ganhavam a vida a processar essas companhias e obrigando-as a pagar mais do que pagariam se tivessem agido correctamente, desde o início.

Jake detestava companhias de seguros, detestava os advogados de defesa dessas companhias e detestava especialmente os jovens membros da firma Sullivan, todos da sua idade e todos dis postos a cortar alegremente a garganta, a garganta dos seus companheiros contratados, dos sócios, a garganta de qualquer um, para chegar a sócio da firma, ganhar duzentos mil dólares por ano e não comparecer à chamada do calendário do tribunal distrital. Jake detestava especialmente Lotterhouse, ou L. Winston Lotterhouse, como anunciava o seu papel timbrado, um caixa-de-óculos insignificante, com diploma de Harvard e um caso agudo de megalomania, o primeiro da fila para ser sócio da firma, e que, por isso, usara de pouca discriminação no seu corte de gargantas, no ano anterior. Estava sentado com o seu ar arrogante entre dois outros contratados da Sullivan, com sete pastas na sua frente, cada uma delas pagando cem dólares por hora para que ele respondesse à chamada do tribunal.

Noose começou a chamada dos casos civis.

- Collins contra a Companhia Real de Títulos e Seguros Mútuos Gerais.

Lotterhouse levantou-se vagarosamente. Segundos significavam minutos. Minutos significavam horas. Horas significavam honorários, bonificações, sociedades.

- Meritíssimo, esse caso está marcado para a quarta-feira da próxima semana.

- Eu sei - disse Noose.

- Sim, senhor. Bem, senhor doutor juiz, infelizmente vejo-me obrigado a pedir uma prorrogação. Há uma incompatibilidade no meu calendário jurídico de quarta-feira pois tenho uma confe rência para saneamento do processo no Tribunal Federal, em Memphis, que o juiz se recusa a adiar. Lamento muito. Esta manhã dei entrada num recurso pedindo a prorrogação do caso.

Gardner, o advogado do queixoso, ficou furioso.

- Meritíssimo, este caso já foi marcado várias vezes. O julgamento foi marcado para Fevereiro e o Sr. Lotterhouse teve um caso de morte na família da sua esposa. Foi marcado para julga mento em Novembro último e um tio dele morreu. Foi marcado para Agosto e houve outro enterro. Acho que devemos ficar agradecidos por ninguém ter morrido desta vez.

Ouviram-se risos discretos e Lotterhouse corou.

- Tudo tem um limite, Meritíssimo - continuou Gardner. - O Sr. Lotterhouse gostaria de adiar este julgamento para sempre. O caso está pronto para ser julgado e o meu cliente tem direito a um julgamento. Nós opomo-nos rigorosamente à moção de adiamento.

Lotterhouse sorriu para o juiz e tirou os óculos. - Meritíssimo, se me permite responder...

- Não, não permito, Sr. Lotterhouse - interrompeu Noose. - Chega de adiamentos. O julgamento do caso está marcado para quarta-feira da próxima semana. Não vai haver mais nenhuma prorrogação.

Aleluia, pensou Jake. Geralmente Noose era benevolente com a firma Sullivan. Jake sorriu para Lotterhouse.

Dois dos casos civis de Jake foram prorrogados para Agosto. Quando Noose terminou a chamada dos casos civis, dispensou os advogados e voltou a atenção para o grupo de possíveis jurados.

Explicou o papel do júri de instrução, a sua importância e procedimento. Descreveu a diferença entre o júri de instrução e os júris ordinários, igualmente importantes, mas que não exigiam tanto tempo. Começou a fazer perguntas, dezenas delas, a maioria exigidas por lei, todas relacionadas com a capacidade de cada um para servir como jurado, integridade física e moral, isenção e idade. Algumas perguntas não tinham utilidade, mas eram exigidas por algum estatuto legal muito antigo: "São jogadores ou alcoólicos compulsivos?"

Ouviram-se risos, mas ninguém se apresentou como voluntário. Os que tinham mais de sessenta e cinco anos estavam automaticamente dispensados, ao critério de cada um. Noose concedeu a isenção habitual por doença, emergências e outras dificuldades reais, mas poucos foram dispensados por razões de ordem económica. Era interessante ver os que se levantavam, um de cada vez, e humildemente explicavam que alguns dias a servirem como jurados significaria um prejuízo irreparável para a fazenda, ou para a oficina, ou para o corte da madeira na fábrica. Noose agiu com severidade e fez várias prelecções sobre responsabilidade cívica.

Do exame de mais ou menos noventa pessoas convocadas, dezoito seriam escolhidas para o júri de instrução e o resto permaneceria à disposição para a formação dos júris ordinários. Quando Noose completou o interrogatório, a escriturária retirou dezoito nomes de uma caixa e pô-los na mesa, diante do juiz, que começou a chamada. Os jurados, um a um, levantavam-se e caminhavam até à frente do recinto, passavam pelo portão da balaustrada e tomavam os seus lugares nas cadeiras estofadas e giratórias do banco dos jurados. Havia catorze lugares na bancada, doze para os jurados, dois para os suplentes. Quando a bancada estava completa, Noose chamou mais quatro, que se sentaram em cadeiras, frente à bancada.

-Levantem-se e prestem juramento - disse Noose e a funcionária do tribunal ficou de pé diante deles e começou a ler o livro que continha todos os juramentos.

- Levantem a mão direita - disse ela. - Juram solenemente ou afirmam que desempenharão fielmente os seus deveres de jurados, que ouvirão e decidirão com justiça todos os assuntos e questões que lhes forem apresentados, em nome de Deus?

Depois do coro de "eu juro", o júri voltou a sentar-se. Dos cinco negros, duas eram mulheres. Dos treze brancos, oito eram mulheres e a maioria era de trabalhadores do campo. Jake reconheceu sete dos dezoito.

- Minhas senhoras e meus senhores - Noose começou o discurso de praxe -, foram escolhidos e prestaram juramento como jurados para Ford County e servirão nessa qualidade até ser escolhido outro júri em Agosto. Quero acentuar que este dever não tomará todo o vosso tempo. Deverão reunir-se todos os dias, durante esta semana, depois algumas horas todos os meses, até Setembro. A vossa responsabilidade será estudar casos criminais, ouvir o testemunho de polícias e das vítimas e determinar se existem ou não provas razoáveis de que o acusado cometeu o crime. Se a resposta for positiva, devem determinar o indiciamento, que consiste numa acusação formal contra o acusado. Os senhores são dezoito ao todo e quando pelo menos doze concordarem que uma pessoa deve ser indiciada, o indiciamento é promulgado. Os senhores têm um poder considerável. Por lei, podem investigar qualquer acto criminoso, qualquer cidadão suspeito de acto ilícito, qualquer funcionário público, na verdade qualquer pessoa ou qualquer coisa digna de suspeita. Podem reunir-se quando quiserem, mas normalmente sempre que o promotor público, o Dr. Buckley, os convocar. Têm o poder de intimar uma testemunha a depor na vossa frente e podem também intimar a apresentação de todos os actos processuais referentes a ela. As vossas deliberações são feitas em extrema privacidade, admitindo apenas a presença do promotor público e das testemunhas. Não é permitido ao acusado apresentar-se perante os senhores. São expressamente proibidos de discutir qualquer coisa dita ou que transpire na sala do júri.

- Dr. Buckley, quer ter a bondade de se levantar? Obrigado. Este é o Dr. Buckley, o promotor público. Ele é de Smithfield, Polk County. Ele vai agir como um supervisor das vossas deliberações. Muito obrigado, Dr. Buckley. Dr. Musgrove, quer ter a bondade de se levantar? Este é D, R. Musgrove, assistente do promotor, também de Smithfield. Ele assistirá o Dr. Buckley, quando o júri estiver em sessão. Muito obrigado, Dr. Musgrove. Muito bem, estes cavalheiros representam o estado do Mississippi e apresentarão os casos ao júri de instrução.

"Agora, para concluir. O último júri de instrução de Ford County foi escolhido em Fevereiro e o primeiro jurado foi um homem branco. A ser assim, de acordo com a tradição e seguindo os desejos do Departamento de Justiça, vou nomear uma mulher negra como primeiro jurado deste júri de instrução. Vejamos. Laverne Gossett. Onde está, Sra. Gossett? Ah, está aí, óptimo. A senhora é professora, correcto? Muito bem. Estou certo de que poderá desempenhar a contento os seus novos deveres. Chegou a hora de começarem a trabalhar. Ao que sei, há mais de cinquenta casos à vossa espera. Peço que acompanhem o Dr. Buckley à pequena sala que reservámos para os jurados. Muito obrigado e boa sorte.

Buckley, orgulhosamente, conduziu o seu novo júri de instrução para fora da sala. Acenou aos repórteres e não fez nenhum comentário - por agora... Na pequena sala do tribunal os jurados sentaram-se em volta de duas mesas compridas. Uma secretária entrou com um carrinho cheio de pastas. Um polícia muito velho, meio aleijado, meio surdo, há muito tempo aposentado, com um uniforme desbotado, postou-se junto à porta. A sala estava segura. Buckley pensou melhor e saiu para o corredor, para falar com os repórteres. Sim, disse ele, o caso Hailey seria apresentado naquela mesma tarde. Na verdade ele ia convocar a imprensa para uma entrevista colectiva, às 4 horas, na escadaria do tribunal e nessa altura já teria os indiciamentos.

Depois do almoço o chefe do Departamento de Polícia de Karaway, sentado a uma das mesas compridas, procurou nervosamente alguma coisa entre as várias pastas. Evitou olhar para o júri de instrução, que esperava ansiosamente o seu primeiro caso.

- Declare o seu nome! - berrou o promotor.

- Chefe Nolan Earnhart, Departamento de Polícia da cidade de Karaway.

- Quantos casos tem o senhor, chefe? - Temos cinco de Karaway.

- Vamos ouvir o primeiro.

- Muito bem, vejamos, sim - murmurou o chefe e gaguejou, sempre a mexer nos papéis. - Muito bem, o primeiro caso é o de Fedison Bulow, homem negro, idade vinte e cinco anos, apanhado em flagrante nas traseiras do supermercado Griffin, de Karaway, às duas horas da manhã, no dia 12 de abril. O alarme soou e nós apanhámo-lo dentro do mercado. A caixa registadora estava arrombada e faltavam algumas sacas de fertilizante. Encontrámos o dinheiro e a mercadoria num carro registado no nome dele, estacionado atrás do mercado. Na cadeia, fez uma confissão de três páginas, cuja cópia tenho aqui comigo.

Buckley andava ao acaso pela sala, sorrindo para todos.

- E o senhor quer que este júri faça duas acusações formais contra Fedison Bulow, arrombamento e invasão de um estabelecimento comercial e furto qualificado.

- Sim, senhor, exactamente.

- Muito bem, os membros do júri têm direito a fazer perguntas. Esta é a sua audiência. Alguma pergunta?

- Sim, ele tem ficha na polícia? - perguntou Mack Loyd Crowell, um camionista desempregado.

- Não - respondeu o chefe. - Este é o primeiro delito.

- Boa pergunta, perguntem sempre isso, porque se eles tiverem antecedentes criminais, talvez tenhamos de indiciá-los como reincidentes - ensinou Buckley. - Mais perguntas? Nenhuma? Muito bem. Bem, neste ponto, alguém precisa apresentar ao júri o pedido de pronúncia ou reconhecimento da veracidade da denúncia contra Fedison Bulow.

Silêncio. Os dezoito jurados olharam para a mesa e esperaram que alguém fizesse a moção. Buckley esperou. Silêncio. Isto é óptimo, pensou ele. Um júri com bom coração. Um bando de almas tímidas, com medo de falar. Liberais. Porque não poderia ele ter um júri sedento de sangue, ávido por recomendar o indiciamento de toda a gente por qualquer coisa?

- Sra. Gossett, não quer fazer a primeira moção, uma vez que a senhora é primeiro jurado?

- Proponho a moção - disse ela.

- Muito obrigado - disse Buckley. - Agora vamos votar. Quantos votam a favor de indiciar Fedison Bulow por arrombamento e invasão de um estabelecimento comercial e furto qualificado? Levantem as mãos.

Dezoito mãos ergueram-se e Buckley ficou aliviado. O chefe apresentou os outros quatro casos de Karaway. Todos tratavam de acusados tão culpados como Bulow e foram unanimemente pronun ciados. Buckley, a pouco e pouco, foi ensinando o grande júri a funcionar sozinho. Fê-los sentirem-se importantes, poderosos e sob a pesada carga da justiça. Começaram a fazer perguntas.

- Tem antecedentes?

- Qual a pena para esse caso? - Quando é que sairá da prisão? - Quantas acusações podemos fazer? - Quando será julgado?

- Ele está em liberdade neste momento?

Com cinco indiciamentos resolvidos, cinco pronunciamentos sem nenhuma oposição, com o grande júri ansiando pelo caso seguinte, fosse qual fosse, Buckley resolveu que o estado de espíri to ideal estava garantido. Abriu a porta e fez sinal a Ozzie para entrar. Ozzie estava no corredor, a conversar em voz baixa com um polícia e a observar os repórteres.

- Apresente o Hailey primeiro - murmurou Buckley, quando se encontraram na soleira da porta.

- Meus senhores e minhas senhoras, este é o xerife Walls. Tenho a certeza de que quase todos o conhecem. Ele tem vários casos para apresentar. Qual é o primeiro, xerife?

Ozzie procurou nos seus papéis, perdeu-se no meio do que estava à procura e finalmente disse:

- Carl Lee Hailey.

Os jurados emudeceram novamente. Buckley observou-os atentamente, para avaliar a reacção. Muitos voltaram a olhar para a mesa. Ninguém disse nada, enquanto Ozzie examinava as suas pastas e depois pediu licença para pegar noutra. Não estava preparado para apresentar o caso Hailey em primeiro lugar. Buckley orgulhava-se da sua habilidade para ler os pensamentos dos jurados, enquanto observava as suas expressões. Olhava atentamente para o júri diversas vezes durante um julgamento, procurando prever o que cada jurado estava a pensar. Interrogava as testemunhas sem tirar os olhos do júri. Às vezes, interrogava-as voltado para os jurados, observando a reacção às respostas. Ao fim de centenas de julgamentos, Buckley tornara-se muito bom nisso e percebeu imediatamente que ia ter problema com o caso Hailey. Os cinco jurados negros ficaram tensos, com uma expressão arrogante, como quem espera ansiosamente a inevitável discussão sobre o caso. O primeiro jurado, a Sra. Gossett, especialmente, adoptou uma atitude de concentrado respeito, enquanto Ozzie resmungava baixinho, remexendo nos papéis. A maioria dos brancos manteve-se neutra, mas Mack Loyd Crowell, um homem do campo, de meia idade e com ar decidido, adoptou a mesma atitude arrogante dos negros. Empurrou a cadeira, levantou-se e foi até à janela que dava para o lado norte do pátio interno. Buckley não lhe conseguia ver a cara, mas sabia que Crowell ia criar problemas.

- Xerife, quantas testemunhas tem o senhor para o caso Hailey? - perguntou Buckley, um pouco nervoso.

Ozzie parou de mexer nos papéis e disse:

- Bem, ah... só eu. Podemos arranjar mais uma, se for preciso.

- Bem, bem... - disse Buckley. - Fale-nos então sobre o caso.

Ozzie recostou-se na cadeira, cruzou as pernas e disse:

- Faça as perguntas, Rufus, toda a gente sabe o que aconteceu. O caso está há uma semana na televisão.

- Cite apenas a evidência.

- A evidência. Está bem. Há uma semana, Carl Lee Hailey, negro, trinta e sete anos, matou a tiro um certo Billy Ray Cobb e um certo Pete Willard e atingiu com um tiro um polícia, DeWayne Looney, que ainda está no hospital com a perna amputada. A arma foi uma metralhadora M-16, ilegal, que está em nosso poder e que tem as impressões digitais do Sr. Hailey. Tenho um depoimento juramentado assinado pelo polícia Looney, onde ele declara que o homem que atirou foi Carl Lee Hailey. Houve uma testemunha ocular, Murphy, o aleijadinho que faz a limpeza do tribunal e que é muito gago. Posso chamá-lo, se quiser.

- Alguma pergunta? - disse Buckley.

O promotor observou nervosamente os jurados que observavam nervosamente o xerife. Crowell continuava de pé, de costas para os outros, a olhar pela janela.

- Alguma pergunta? - repetiu Buckley.

- Sim - disse Crowell, voltando-se e olhando para o promotor e em seguida para Ozzie. - Aqueles dois homens sobre quem ele disparou, violentaram-lhe a filha, não foi, xerife?

- Temos a certeza de que sim - respondeu Ozzie.

- Bem, um deles confessou, não confessou?

- Sim.

Crowell, ousado e arrogante, deu alguns passos pela sala e parou além das duas mesas. Olhou então para Ozzie.

- O senhor tem filhos, xerife? - Tenho.

- Tem uma filha pequena? - Tenho.

- Suponha que ela seja violentada e que o senhor consiga pôr as mãos no homem que fez isso. O que faria o senhor?

Ozzie olhou ansiosamente para o promotor. O pescoço de Buckley estava vermelho.

- Não preciso responder a essa pergunta - disse Ozzie.

- Não precisa? O senhor apresentou-se a este júri de instrução para testemunhar, ou não? É uma testemunha, não é? Responda à pergunta.

- Eu não sei o que faria.

"Ora, vamos, xerife. Queremos uma resposta clara. Diga a verdade. Que faria o senhor?

Ozzie ficou embaraçado, confuso e furioso com aquele estranho. Queria dizer a verdade, explicar que teria grande prazer em castrar e mutilar e matar qualquer pessoa que tocasse na sua filha. Mas não podia. O júri podia concordar e recusar-se a indiciar Carl Lee. Não que Ozzie quisesse que ele fosse indiciado, mas sabia que a acusação formal era necessária. Olhou timidamente para Buckley, que estava sentado e suava profusamente. Crowell assestou as baterias no xerife com o entusiasmo e o fervor de um advogado que acaba de apanhar a testemunha numa mentira patente.

- Deixe-se disso, xerife - provocou ele. - Somos todos ouvidos. Diga a verdade. Que faria o senhor ao violador? Diga lá, vamos...

Buckley estava quase em pânico. Estava prestes a perder o maior caso da sua maravilhosa carreira, não num julgamento, mas na sala do júri de instrução, no primeiro assalto da luta, derrotado por um camionista desempregado. Ficou de pé, à procura das palavras.

- A testemunha não precisa de responder. Crowell voltou-se e gritou para o promotor:

- Sente-se e cale a boca! Não aceitamos ordens suas. Podemos indiciá-lo, se quisermos, não podemos?

Buckley sentou-se e olhou para Ozzie. Crowell era um concorrente. Esperto demais para fazer parte do júri de instrução. Devia ter sido pago por alguém. Ele sabia demais. Sim, o júri podia indiciar qualquer um. Crowell recuou e voltou à janela. Todos o observaram e esperaram até terem certeza de que ele não ia dizer mais nada.

- Tem a certeza absoluta de que ele atirou nos dois homens, Ozzie? - perguntou Lemoyne Frady, um primo afastado e ilegítimo de Gwen Hailey.

- Sim, temos a certeza - respondeu Ozzie, falando devagar ao mesmo tempo que falava para Crowell.

- E quer que ele seja formalmente acusado do quê? - perguntou Frady.

A admiração que ele sentia pelo xerife era mais do que evidente.

- Duas acusações de crime de morte e uma acusação de agressão a um polícia.

- Está a falar de quanto tempo de prisão? - perguntou Barney Flaggs, outro negro.

- A pena para crime de morte é a câmara de gás. Para agressão a um polícia é prisão perpétua, sem condicional.

- E é isso que você quer, Ozzie? - perguntou Flaggs.

- Sim, Barney, eu acho que este júri deve indiciar o Sr. Hailey. É o que eu acho.

- Mais alguma pergunta? - interrompeu Buckley.

- Não tenha tanta pressa - disse Crowell, voltando-se da janela. - Acho que está a tentar enfiar-nos este caso pela boca abaixo, Dr. Buckley, e não vou admitir isso. Quero falar um pouco sobre o assunto. Deixe-se estar sentado. Se precisarmos do senhor, chamamo-lo.

Buckley, furioso, apontou o dedo para ele.

- Eu não tenho de ficar sentado, nem de ficar quieto! - gritou.

- Tem, sim - respondeu Crowell friamente, com um sorriso sarcástico. - Porque se não ficar, podemos obrigá-lo a sair, não podemos, Dr. Buckley? Podemos pedir que saia desta sala e, se o senhor recusar, vamos falar com o juiz e ele o fará sair, não é assim, Dr. Buckley?

Rufus ficou imóvel, mudo e estupefacto. O estômago revolvia-se-lhe e os joelhos pareciam feitos de esponja, mas manteve-se firme onde estava.

- Portanto, se quiser ouvir o resto da nossa deliberação, trate de se sentar e de ficar calado.

Buckley sentou-se ao lado do meirinho, que agora estava acordado.

- Muito obrigado - disse Crowell. - Eu quero perguntar uma coisa a todos os jurados. Quantos dos senhores fariam ou teriam desejo de fazer o que o Sr. Hailey fez se alguém tivesse violen tado uma filha vossa, ou talvez a vossa mulher, ou até mesmo a vossa mãe? Quantos? Levantem as mãos.

Sete ou oito mãos ergueram-se e Buckley baixou a cabeça. Com um sorriso, Crowell continuou:

- Eu admiro-o pelo que fez. Precisou de coragem. Eu só queria ter a coragem de fazer o mesmo, porque, Deus sabe, era o que eu ia querer fazer. Às vezes, um homem tem de fazer o que é preciso. Esse homem merece um prémio, não um indiciamento.

Crowell caminhou lentamente entre as duas mesas, saboreando a atenção de todos.

- Antes de votarem, quero que façam uma coisa. Quero que pensem naquela pobre menina. Acho que ela tem dez anos. Procurem imaginar a menina deitada no chão, com as mãos amarradas nas costas, a chorar e chamar pelo pai. E pensem naqueles dois bandidos, bêbedos, drogados, a revezarem-se para violentar, espancar e dar pontapés na criança. Que diabo, eles até tentaram matá-la! Pensem nas vossas filhas. Imaginem as vossas filhas no lugar daquela pequenina Hailey.

- Ora bem, não diriam que eles tiveram exactamente o que mereciam? Devemos estar gratos por estarem mortos. Sinto-me mais seguro por saber que aqueles dois desgraçados já cá não estão para violentar e matar outras crianças. O Sr. Hailey prestou-nos um grande serviço. Não vamos indiciá-lo. Vamos mandá-lo para casa, para a sua família, que é o seu lugar. Ele é um bom homem que fez uma boa coisa.

Crowell terminou e voltou para a janela. Buckley olhou para ele, amedrontado, e quando teve a certeza de que o homem tinha terminado, pôs-se de pé.

- O senhor acabou? Nenhuma resposta.

- Muito bem. Senhoras e senhores do júri de instrução. Eu gostaria de explicar algumas coisas. Um júri de instrução não julga os casos. Para isso temos os júris ordinários. O Sr. Hailey terá um julgamento justo perante doze jurados justos e imparciais e, se for inocente, será libertado. Mas a sua culpa ou a sua inocência não deve ser determinada pelo júri de instrução. Os senhores devem decidir, depois de ouvir a versão do caso apresentada pelo estado, se há uma forte possibilidade de ter sido cometido um crime. Muito bem, eu espero que concordem que um crime foi cometido por Carl Lee Hailey. Três crimes na verdade. Ele matou dois homens e feriu outro. Temos testemunhas oculares.

Buckley começou a adquirir mais confiança enquanto andava por entre as mesas.

- O dever deste júri de instrução é pronunciá-lo, e se ele tiver uma justificação válida, terá oportunidade de apresentá-la no julgamento. Se ele tiver um motivo legal para fazer o que fez, pode prová-lo no julgamento. É para isso que servem os julgamentos. O estado acusa-o de um crime e o estado deve provar, no julgamento, que ele cometeu o crime. Se ele tiver uma justificação e se conseguir convencer o tribunal do júri, será solto, garanto-vos. Óptimo para ele. Mas não cabe a este júri de instrução decidir hoje que o Sr. Hailey deve ser solto. Haverá outro dia para isso, certo, xerife? Ozzie fez que sim com a cabeça e disse:

- Certo. O júri de instrução deve indiciar baseado na prova apresentada. O tribunal do júri não o condenará se o estado não puder provar as suas alegações, ou se ele apresentar uma boa defesa. Mas o júri de instrução não se preocupa com essas coisas.

- Mais alguma coisa de parte do júri de instrução? - perguntou Buckley, ansioso. - Muito bem, precisamos de uma moção.

- Eu apresento uma moção para que ele não seja indiciado por coisa alguma - gritou Crowell.

- Apoiado - resmungou Bamey Flaggs.

Os joelhos de Buckley tremeram. Tentou falar e não conseguiu. Ozzie reprimiu o seu contentamento.

- Temos uma moção e uma manifestação de apoio - anunciou a Sra. Gossett. - Todos os que são a favor levantem as mãos. Cinco mãos negras ergueram-se, junto com a de Crowell. Seis votos. A moção não foi aprovada.

- O que fazemos agora? - perguntou a Sra. Gossett. Buckley disse rapidamente:

- Alguém apresenta uma moção para indiciar o Sr. Hailey por duas acusações de homicídio e uma acusação de agressão a um agente da autoridade.

- Feita a moção - disse um dos brancos. - Apoiado - disse outro.

- Todos os que estão a favor levantem as mãos - disse a Sra. Gossett. - Eu conto doze mãos. Todos os que estão contra, conto cinco, mais a minha, seis. Doze a seis. O que é que isso significa?

- Significa que ele foi indiciado - respondeu Buckley, com orgulho. Respirava normalmente e a cor voltou-lhe ao rosto. Sussurrou alguma coisa a uma secretária, depois dirigiu-se aos jurados:

- Vamos fazer uma pausa de dez minutos. Temos cerca de mais quarenta casos para resolver, portanto, por favor, não demorem. Eu gostaria de lembrar uma coisa que o juiz Noose disse esta manhã. Essas deliberações são estritamente confidenciais. Não devem discutir o vosso trabalho fora desta sala...

- O que ele está a querer dizer - interrompeu Crowell - é que não podemos dizer a ninguém que ele quase não ia conseguindo os indiciamentos. Não é verdade, Dr. Buckley?

O promotor saiu da sala em silêncio e bateu com a porta.

 

Rodeado por dezenas de câmaras e repórteres, Buckley, de pé nos degraus da frente do edifício do tribunal, acenou com as cópias dos indiciamentos. Ele pregou, discursou, moralizou, elogiou o júri de instrução, fez um sermão contra o crime e a justiça pela próprias mãos e condenou Carl Lee Hailey. Que venha o julgamento. Que os jurados ocupem os seus lugares. Ele garantia a condenação. Ele garantia a pena de morte. Ele foi antipático, arrogante, agressivo, fanfarrão. Foi ele mesmo. O legítimo Buckley. Alguns repórteres afastaram-se, mas ele continuou. Exaltou as suas próprias habilidades no tribunal e os seus noventa, não, noventa e cinco por cento de condenações. Mais repórteres se foram embora. Outras câmaras foram desligadas. Ele elogiou a sabedoria e o espírito de justiça do juiz Noose. Aclamou a inteligência e o discemimento dos jurados de Ford County.

Foi o último a sair. Os repórteres tinham-se cansado dele e tinham-se ido todos embora.

 

Stump Sisson, o mago soberano do Klan do Mississippi, convocou uma reunião na pequena cabana dentro da floresta de pinheiros, em Nettles County, trezentos e setenta quilómetros a sul de Ford County. Não houve mantos, rituais nem discursos. O pequeno grupo de membros do Klan local discutiu os acontecimentos de Ford County com o Sr. Freddie Cobb, irmão de Billy Ray Cobb, falecido. Freddie tinha telefonado para um amigo, que telefonou para Stump, que providenciou a reunião.

O negro já tinha sido indiciado? Cobb não tinha a certeza, mas pelo que se dizia, o julgamento ia ser no final do Verão ou no começo do Outono. O que o preocupava agora era toda aquela conversa sobre o negro alegar insanidade para ser libertado. Não havia direito. O negro tinha matado o seu irmão a sangue-frio, planeado o crime. Tinha-se escondido num armário e esperado que o irmão aparecesse. Era assassinato a sangue-frio e agora dizia-se que o negro ia ser libertado. Que podia o Man fazer a esse respeito? Hoje em dia, os negros tinham muita protecção - a Associação Nacional para o Progresso dos Homens de Cor, a União Americana das Liberdades Civis, milhares de outros grupos de direitos civis, além dos tribunais e do governo. Que diabo! os brancos não podem fazer nada, a não ser recorrendo ao Klan.

Quem mais é que está disposto a levantar-se em defesa dos brancos? Todas as leis favorecem os negros e os políticos liberais, amigos dos negros, continuam a fazer mais leis contra os brancos. Alguém tem de defender os brancos. Por isso ele recorreu ao Klan. O negro está na cadeia? Sim, e tratado como um rei. A população tem um xerife negro, Walls, e ele gosta desse negro. Concede-lhe privilégios especiais e protecção extra. O xerife é outra história. Dizem que Hailey pode sair da cadeia esta semana, pagando a fiança. É só um boato. Eles queriam mesmo que ele saísse.

E o seu irmão? Violentou a menina? Não temos a certeza, provavelmente não. Willard, o outro tipo, confessou o estupro, mas Billy Ray não confessou nada. Billy Ray tinha muitas mulheres. Porque iria violentar uma criança negra? E se violentou, o que tem isso?

Quem é o advogado do negro? Brigance, de Clanton. Rapaz novo ainda, mas muito bom. Lida com processos criminais e tem boa reputação. Defendeu e ganhou várias causas de homicídio. Ele disse a alguns repórteres que o negro vai alegar insanidade e sair livre.

Quem é o juiz? Não sabemos ainda. Bullard é o juiz de Ford County, mas diz-se que não vai ser o juiz do julgamento. Falam em levar o caso para outro distrito, por isso ninguém sabe quem vai ser o juiz.

Sisson e os homens do Klan ouviram atentamente o palerma. Gostaram da parte sobre as associações de protecção aos negros, o governo e os políticos, mas eles também liam jornais e viam televi são e sabiam que com o irmão dele tinham feito justiça. Mas pelas mãos de um negro. Isto era inadmissível!

O caso tinha futuro. Com o julgamento marcado para vários meses depois, teriam tempo para armar um protesto. Poderiam marchar durante o dia em volta do tribunal de justiça com seus mantos brancos e capuzes fechados e ponteagudos. Poderiam discursar para uma audiência atenta e desfilar frente às câmaras. A imprensa iria adorar - odeia o Klan, mas gosta de discussões e de polémica... E à noite, poderiam intimidar as pessoas através das cruzes de fogo e de telefonemas ameaçadores. Os alvos eram fáceis e desprevenidos. A violência era inevitável. Eles sabiam como provocá-la. Sabiam perfeitamente o efeito que a marcha dos homens com mantos brancos e capuzes ponteagudos produzia nos negros.

Ford County poderia servir de parque de diversões para um jogo de escondidas, de caça à raposa; poderiam atacar e fugir. Teriam tempo para se organizar e chamar os companheiros de outros estados. Que membro do Ku Klux Klan iria querer perder aquela oportunidade de ouro? E os novos recrutas? Ora, aquele caso iria alimentar a chama do racismo, tirar do meio do mato e trazer para as ruas todos aqueles que odiavam os negros. Hailey seria o seu novo grito de guerra, o ponto de união.

- Sr. Cobb, pode arranjar-nos os nomes e endereços do negro, da sua família, do seu advogado, do juiz e dos jurados? - perguntou Sisson.

Cobb avaliou as dificuldades da tarefa.

- Todos, menos dos jurados. Ainda não foram escolhidos. - Quando é que vai ficar a saber quem são?

- Sei lá. Acho que no julgamento. O que pretendem fazer? - Não temos a certeza, mas o Klan pode vir a envolver-se neste caso. Precisamos de exercitar um bocado os nossos músculos e esta pode ser uma boa oportunidade.

- Posso ajudar? - perguntou Cobb, avidamente. - Claro, mas precisa de entrar para o Klan.

- Não há Klan em Ford County. Acabou há muito tempo. O meu avô pertencia ao Klan.

- Está a dizer que o avô da vítima foi um membro da Ku Klux Klan?

- Isso mesmo - disse Cobb, com orgulho.

- Muito bem. Nesse caso, temos obrigação de nos envolvermos. - Os membros do Klan menearam a cabeça incrédulos e juraram vingança. Disseram a Cobb que, se ele pudesse arranjar cinco ou seis amigos com a mesma motivação e o mesmo modo de pensar, dispostos a entrar para o Klan, realizariam uma grande cerimónia secreta no meio da floresta, em Ford County, com uma enorme cruz em chamas e todos os rituais da praxe. Eles seriam aceites como membros, membros verdadeiros do Ku Klux Klan, responsáveis pelo Klan de Ford County. E todos juntos fariam um espetáculo do julgamento de Carl Lee Hailey. Iriam perturbar tanto Ford County naquele Verão que nenhum jurado sequer iria sonhar inocentar o negro. Trate de recrutar uma meia dúzia, que nós faremos de si o líder do Klan de Ford County.

Cobb disse que tinha o número suficiente de primos para começar a organizar um Klan. Saiu da reunião embriagado de entusiasmo com a expectativa de ser membro do Klan, como o seu avô.

Buckley tinha calculado mal. A sua entrevista das 4 da tarde não apareceu no noticiário das seis. Jake procurou em todos os canais da pequena televisão a preto-e-branco do escritório e riu alto quando os noticiários de Memphis, depois Jackson e Tupelo, terminaram sem nenhuma notícia sobre o indiciamento. Ele podia imaginar a família de Buckley, colada à televisão, a mudar de estação para estação, a procurar desesperadamente o seu herói enquanto este gritava, a mandar calar toda a gente. Nessa altura, às sete horas, depois da previsão meteorológica, na estação de Tupelo, a última previsão do dia, todos sairiam da sala deixando-o sozinho, na sua cadeira reclinável. Talvez às dez, deve ter ele dito.

Às dez, Jake e Carla estavam no sofá, com as pernas cruzadas e muito juntos, à espera do noticiário. Finalmente, lá estava ele na frente do tribunal, a sacudir papéis e a gritar como um pregador bíblico, enquanto o repórter, no local da entrevista, explicava que aquele era Rufus Buckley, o promotor encarregado da acusação no julgamento de Carl Lee Hailey, agora que o acusado fora indiciado. Depois de uma imagem rápida de Buckley, a câmara percorreu a praça para a vista maravilhosa do centro da cidade de Clanton e finalmente voltou ao repórter que disse duas frases àcerca do julgamento no final do Verão.

- Ele está na ofensiva - disse Carla. - Para quê convocar uma colectiva para dizer que o acusado foi indiciado?

- Buckley é o promotor. Nós os advogados de defesa, odiamos a imprensa.

- Sim, já dei por isso. O meu álbum de recortes está quase cheio...

- Não te esqueças de fazer fotocópias das fotografias para a minha mãe.

- Vais autografá-las?

- Só se ela pagar. A tua, posso autografar de graça.

- Esplêndido. E se perderes, mando-te a conta dos cantos e da cola.

- Devo lembrar-te, minha querida, de que nunca perdi um caso de homicídio. Três a zero, para ser mais preciso. Carla premiu um botão do controle remoto, deixando só o homem da previsão do tempo, sem som.

- Sabes o que eu mais detesto nos julgamentos de homicídio? - Ela afastou as almofadas com as pernas esguias, bronzeadas e quase perfeitas.

- O sangue, a carnificina, as descrições escabrosas?

- Não. - Ela soltou o cabelo que ia até os ombros, espalhando-o no braço do sofá.

- A perda de vidas, por mais insignificantes que sejam?

- Não. - Carla vestia uma camisa social de Jake, velha, engomada, tamanho médio, e começou a brincar com os botões muito pequenos.

- A visão horrível de um homem inocente ameaçado de ir para a câmara de gás?

- Não. - Carla começou a desabotoar a camisa. A luz azul-acinzentada da televisão iluminava a sala escura como um estroboscópio e o apresentador sorriu e disse boa-noite só com o movimento dos lábios.

- O medo de uma família jovem quando o pai entra no tribunal para enfrentar o júri formado pelos seus pares?

- Não. - A camisa estava desabotoada e uma faixa de seda fina e transparente brilhou contrastando com a pele bronzeada.

- A injustiça latente do nosso sistema judiciário?

- Não. - Ela ergueu vagarosamente uma perna bronzeada, fina e quase perfeita, mais para cima, mais para cima e finalmente apoiou-a nas costas do sofá.

- As tácticas antiéticas e sem escrúpulos empregadas pelos polícias e promotores para condenarem homens inocentes?

- Não. - Carla abriu a faixa de seda entre os seios quase perfeitos.

- O fervor, a fúria, a intensidade, as emoções descontroladas, os embates da alma humana, a paixão irrefreável?

- Andas lá perto - disse ela.

Camisas e outras peças de roupa fizeram ricochete nos candeeiros e nas mesas de centro e os corpos fundiram-se sob as almofadas. O velho sofá, presente dos pais dela, vibrou e rangeu sobre o soalho antigo de madeira de lei. Era resistente e acostumado àqueles balanços e rangidos. Max, o rafeiro, instintivamente correu pelo corredor fora e foi montar guarda ao lado da porta de Hanna.

 

Harry Rex Vonner era um advogado grandalhão e trangalhadanças, especialista em divórcios litigiosos, que punha sempre algum infeliz atrás das grades por não pagar a pensão obrigatória para sustento dos filhos. Era vil e perverso e muito solicitado para questões de divórcio em Ford County. Conseguia os filhos, a casa, a fazenda, o vídeo, o micro-ondas, tudo! Um fazendeiro rico mantinha-o sob contrato para que a actual mulher não pudesse contratá-lo para o seu futuro divórcio. Harry Rex enviava os seus casos de homicídio a Jake e Jake mandava-lhe os seus divórcios litigiosos. Eram ambos amigos e não gostavam dos outros advogados, especialmente os da firma Sullivan.

Na terça-feira, pela manhã, ele apareceu no escritório e resmungou para Ethel.

- Jake `tá aí? - Subiu a escada, olhando carrancudo para ela, a desafiá-la a dizer alguma coisa. Ethel apenas inclinou a cabeça, a dizer que sim, sem cair na tolice de perguntar se ele tinha hora marcada. Rex já a tinha gozado antes. Na verdade, ele já tinha gozado toda a gente.

A escada estremeceu com o peso dele e Rex resfolegava ao chegar ao escritório de Jake.

- Bom dia, Harry Rex. Ainda estás vivo?

- Porque não pões o escritório no primeiro andar? - perguntou Rex, ofegante.

- Estás a precisar de exercício. Se não fossem essas escadas, pesava com certeza mais de cento e cinquenta quilos.

- Obrigado. Ouve, acabo de vir do tribunal. Noose quer ver-te no gabinete dele às dez e meia, se for possível. Quer falar contigo e com Buckley àcerca do Hailey. Acertar denúncia, data de julgamento, toda essa trapalhada. Pediu-me que te dissesse.

OK.! Lá estarei.

- Suponho que tiveste notícias do júri de instrução.

- Claro! Tenho uma cópia do indiciamento mesmo aqui. Harry Rex sorriu.

- Não, não. Estou a falar da votação sobre o indiciamento. Jake olhou intrigado para ele. Harry Rex movia-se em círculos escuros e silenciosos, como uma nuvem. Era uma fonte inesgotável de mexericos e de boatos e orgulhava-se de espalhar somente a verdade - a maior parte do tempo. Era sempre o primeiro a saber de quase tudo. A lenda de Harry Rex começara vinte anos antes, com o seu primeiro aparecimento no tribunal. A via férrea que ele processava em milhões de dólares recusou-se a pagar um centavo que fosse e, ao fim de três dias de julgamento, o júri finalmente retirou-se para deliberar. Os advogados da companhia, que esperavam um rápido veredicto a seu favor, começaram a ficar preocupados quando o júri demorou em voltar. No segundo dia de espera ofereceram a Rex vinte e cinco mil dólares por um acordo. Com nervos de aço, mandou-os para o inferno. O cliente dele queria o dinheiro. Ele mandou o cliente para o inferno. Horas depois, um júri exausto reapareceu com um veredicto favorável a cento e cinquenta mil. Harry Rex riu dos advogados da companhia, ignorou os clientes e foi para o bar no Best Western. Pagou bebidas a toda a gente e durante a longa noite contou que tinha posto escutas na sala do júri e sabia exactamente o que os jurados estavam a fazer. A história espalhou-se e Murphy encontrou uma porção de fios que passavam pelos canos do aquecimento da sala do júri. A Ordem dos Advogados do estado fez algumas investigações mas não encontrou nada. Nos últimos vinte anos, os juizes mandavam os funcionários do tribunal verificar a sala do júri sempre que se deliberava um caso de Harry Rex.

- Como é que sabes do voto? - perguntou Jake, desconfiado. - Tenho as minhas fontes.

- Muito bem, como foi a votação?

- Doze a seis. Menos um e não estarias com essa cópia na mão...

- Doze a seis... - repetiu Jake.

- O Buckley por pouco morria. Um gajo chamado Crowell, branco, tomou conta do espetáculo e ia convencendo um número suficiente de jurados a negar o indiciamento do teu homem.

- Conheces esse Crowell?

- Eu fiz-lhe o divórcio, há dois anos. Ele vivia em Jackson, até a mulher ser violentada por um negro. Ela enlouqueceu e eles divorciaram-se. A mulher cortou os pulsos com um facalhão de cozinha. Depois, ele veio para Clanton e casou com uma rapariga insignificante. Durou mais ou menos um ano. Ele arrumou o Buckley! Mandou-o sentar-se e calar a boca! Dava dinheiro para ter assistido...

- Estás a falar como se tivesses visto. - Não. É que eu tenho uma boa fonte. - Quem?

- Ora, Jake, não insistas.

- Andas outra vez a pôr escutas nas salas?

- Não é nada disso. Eu limito-me a ouvir... É um bom sinal, não achas?

- O quê?

- O voto apertado. Seis dos dezoito votaram contra o indiciamento. Cinco negros e Crowell. É um bom sinal. Consegue uns dois negros no júri e pronto. Certo?

- Não é assim tão fácil. Se ele for julgado aqui, é bem possível que tenhamos um júri branco. São muitos em Ford County e, como sabes, ainda são constitucionalistas. Além disso, esse tipo, esse Crowell, parece que veio do nada.

- Foi exactamente o que Buckley pensou. Devias ter visto o cretino. Está no tribunal, a desfilar de um lado para o outro, pronto para assinar autógrafos por causa do teu grande sucesso na TV ontem à noite. Como ninguém quer falar no assunto, ele procura intrometer-se em todas as conversas. Parece um garoto pequeno a implorar atenção.

- Tem calma. Ele pode ser o teu próximo governador.

- Não se ele perder o caso Hailey. E vai perder, Jake. Nós vamos arranjar um bom júri, doze bons e fiéis cidadãos, e depois compramos todos.

- Nem pensar.

- Funciona sempre.

Alguns minutos depois das dez e meia Jake entrou no gabinete do juiz, atrás do tribunal, e apertou friamente as mãos de Buckley, Musgrove e Ichabod. Estavam à espera dele. Noose indicou-lhe uma cadeira e sentou-se atrás da secretária.

Jake, isto não vai tomar-lhe mais do que alguns minutos - olhou por cima do narigão. - Eu gostaria de ler a acusação formal de Carl Lee Hailey às nove horas da manhã. Algum problema? - Não. Está bem - disse Jake.

- Teremos outras acusações formais da parte da manhã, depois daremos início a um caso de furto às dez horas. Certo, Rufus? - Sim, senhor.

- Muito bem. Agora vamos falar sobre a data do julgamento do Sr. Hailey. Como sabe, o próximo período do tribunal aqui será no final de Agosto, na terceira segunda-feira do mês, e estou certo de que o calendário vai estar repleto nessa época. Devido à natureza deste caso e, francamente, devido à publicidade, acho que seria melhor fazermos o julgamento o mais depressa possível.

- Quanto antes melhor - disse Buckley. - Jake, de quanto tempo precisa para se preparar para o julgamento?

- Sessenta dias?

- Sessenta dias! - exclamou Buckley, incrédulo. - Porquê tanto tempo?

Jake ignorou-o e olhou para o juiz, que pôs os óculos e consultou o calendário.

- Seria possível antecipar um pedido de transferência de foro? - perguntou ele.

- Sim.

- Isso não vai fazer diferença nenhuma - disse Buckley. - Vamos conseguir a condenação em qualquer lugar.

- Guarde isso para as câmaras, Rufus - disse Jake, com voz calma.

- Se fosse a si não falava disso... - refilou Buckley. - Ao que parece gosta muito delas.

- Senhores, por favor - disse Noose. - Que outras moções prévias podemos antecipar da parte da defesa?

Jake pensou um momento: - Haverá outras.

- Posso saber quais são as outras? - perguntou Noose, um pouco irritado.

- Senhor Doutor Juiz, francamente, não quero discutir a minha defesa, por enquanto. Acabámos de receber o indiciamento e ainda não conversei com o meu cliente. Não há dúvida de que temos muito que fazer.

- De quanto tempo precisa? - Sessenta dias.

- Está a brincar! - exclamou Buckley. - É uma piada nova? O estado pode fazer esse julgamento amanhã, Senhor Juiz. Sessenta dias é ridículo!

Jake começou a ferver mas ficou calado. Buckley foi até à janela, resmungando, incrédulo. Noose estudou o calendário.

- Porquê sessenta dias?

- Pode ser um caso complicado.

Buckley riu e continuou a abanar a cabeça.

- Então, podemos esperar alegação de privação momentânea de sentidos? - perguntou o juiz.

- Sim, senhor. E vai demorar algum tempo o exame de um psiquiatra. E depois, o estado vai querer que ele seja examinado pelos seus próprios médicos.

- Compreendo.

- E somos capazes de ter outras questões preliminares. É um caso grande e quero ter-tempo suficiente para o preparar.

- Dr. Buckley - disse o juiz.

- Seja! Não faz nenhuma diferença para o estado. Estaremos prontos. Podemos julgar amanhã.

Noose escreveu no calendário e ajustou os óculos de leitura, que ele usava na ponta do nariz, ancorado numa verruga. Devido ao tamanho do nariz e à forma estranha da sua cabeça, o meritíssi mo tinha de mandar fazer óculos especiais com hastes muito compridas. Noose nunca os usava para ler ou para qualquer outra coisa que não fosse o esforço inútil de distrair a atenção do tamanho e da forma do nariz. Jake sempre suspeitara disso mas não tinha coragem para informar o meritíssimo que os óculos ridículos, com lentes hexagonais cor-delaranja, dirigiam toda a atenção directamente para o nariz.

- Quanto tempo calcula que vai durar o julgamento, Jake? - perguntou Noose.

- Três ou quatro dias. Mas podemos levar três dias para escolher os jurados.

- Dr. Buckley?

- Sim, acho que está certo. Mas não compreendo por que são necessários sessenta dias de,preparação para um julgamento de três dias. Acho que devia ser antes.

- Acalme-se, Rufus - disse Jake. - As câmaras estarão aqui dentro de sessenta dias, ou de noventa, se fosse o caso. Não se vão esquecer de si. Pode dar entrevistas, conferências de imprensa, fazer sermões, tudo. O espetáculo completo. Mas não se preocupe muito. Vai ter a sua oportunidade.

Buckley semicerrou os olhos e ficou vermelho. Deu três passos na direcção de Jake.

- Se não me engano, Dr. Brigance, deu mais entrevistas e viu mais câmaras do que eu, nesta última semana.

- Eu sei, e está com inveja, não está?

- Não, não estou com inveja! Não me importo com as câmaras...

- Desde quando?

- Senhores, por favor - interrompeu Noose. - Este caso promete ser longo e repleto de emoções. Espero que os meus advogados se comportem como profissionais. Agora, o meu calendário está mais do que cheio. A única vaga que tenho é na semana de 22 de Julho. Há algum problema?

- Podemos fazer o julgamento nessa semana - disse Musgrove.

Jake sorriu para Buckley e folheou a sua agenda de bolso. - Para mim está bem.

- Ainda bem. Todas as moções devem ser apresentadas e todas as questões preliminares resolvidas até ao dia 8 de Julho, segunda-feira. A leitura da acusação está marcada para amanhã, às nove da manhã. Alguma pergunta?

Jake levantou-se, apertou as mãos de Noose e Musgrove e saiu.

Após o almoço, foi visitar seu famoso cliente ao escritório de Ozzie, na cadeia. Carl Lee tinha recebido na cela uma cópia do indiciamento. Ele tinha algumas perguntas a fazer ao seu advogado.

- O que é homicídio doloso? - O pior tipo de crime.

- Quantos tipos existem?

- Basicamente três. Homicídio culposo, homicídio qualificado e homicídio doloso.

- O que é homicídio culposo? - Vinte anos.

- O que é homicídio qualificado? - De vinte a perpétua.

- O que é homicídio doloso? - Câmara de gás.

- O que é agressão qualificada a um polícia? - Perpétua. Sem condicional.

Carl Lee estudou o indiciamento atentamente.

- Quer dizer que eu tenho duas câmaras de gás e uma perpétua.

- Ainda não. Tem direito a julgamento primeiro. Por falar nisso, foi marcado para o dia 22 de Julho.

- Daqui a dois meses! Porquê tanto tempo?

- Precisamos de tempo. É o tempo de que preciso para encontrar um psiquiatra que ateste que você estava louco. Nessa altura, Buckley manda-o para Smithfield, para ser examinado pelos médicos do estado e eles todos vão dizer que você não estava louco quando cometeu os crimes. Nós entramos com moções. Buckley apresenta moções e temos algumas audiências. Tudo isso leva tempo.

- Não há maneira de ser antes? - Não queremos que seja antes. - E se eu quiser? - perguntou Carl Lee, irritado. Jake estudou atentamente o seu cliente.

- Qual é o problema, grande homem? - Tenho de sair daqui e bem depressa. - Pensei que não achasse a cadeia tão desagradável.

- Não é, mas preciso de ir para casa. A Gwen está sem dinheiro, não consegue arranjar um emprego. O Lester está com problemas com a mulher. Ela passa a vida a telefonar, por isso eu

sei que ele não vai ficar muito tempo por aqui. Eu detesto ter de pedir ajuda aos meus parentes.

- Mas eles vão ajudar, não vão?

- Um pouco. Todos têm os seus problemas. Tem de me tirar daqui, Jake.

- Ouça, você vai ser denunciado amanhã, às nove horas. O julgamento é no dia 22 de Julho e esta data não vai ser mudada, portanto, esqueça. Eu já lhe expliquei o que é a denúncia?

Carl Lee abanou negativamente a cabeça.

- Não leva mais de vinte minutos. Nós comparecemos perante o juiz Noose, no grande tribunal. Ele faz-lhe algumas perguntas a si, depois faz-me algumas perguntas a mim. Lê-se-lhe o indiciamento a si, em sessão pública, e pergunta-lhe se recebeu uma cópia. Depois pergunta-lhe se se declara culpado ou inocente. Quando responder "inocente", ele marcará a data do julgamento. Senta-se, e eu e o Buckley começamos uma grande batalha em torno da sua fiança. Noose recusará estabelecer uma fiança e aí você volta para a cadeia, onde ficará até ao dia do julgamento.

- E depois do julgamento? Jake sorriu.

- Não, você, não ficará na cadeia depois do julgamento. - Promete?

- Não. Nada de promessas. Alguma pergunta sobre amanhã?

- Não. Diga, Jake, humm, quanto é que eu já lhe paguei? Jake hesitou, prevendo problemas.

- Porque pergunta? - Estava só a pensar. - Novecentos e uma promissória.

Gwen tinha menos de cem dólares. As contas estavam vencidas e a comida a acabar. No domingo, quando o tinha visitado, chorara durante uma hora. O pânico fazia parte da sua vida, da sua constituição, da sua estrutura. Mas ele sabia que não tinham um tostão e ela estava com medo. A família de Gwen pouco podia ajudar, talvez alguns legumes da horta e algum dinheiro para leite e ovos. Quando se tratava de enterros e contas de hospital, eles nunca faltavam com a ajuda. Eram generosos e cediam grande parte do seu tempo para chorar e lamentar, dando um verdadeiro show. Mas quando se tratava de dinheiro vivo, fugiam como galinhas assustadas. Carl Lee não gostava da família dela e a sua não era muito melhor.

Ele queria pedir cem dólares a Jake, mas resolveu esperar até que Gwen estivesse completamente sem dinheiro. Seria mais fácil. Jake folheou o bloco-notas, à espera de que Carl Lee pedisse dinheiro. Os clientes das acções penais, especialmente os negros, pediam sempre de volta uma parte dos honorários depois de pagos. Jake duvidava da possibilidade de receber mais do que novecentos dólares e não tinha intenção de restituir coisa alguma. Além disso, os negros cuidavam sempre dos seus. As famílias iriam cooperar e as igrejas também. Ninguém morreria de fome.

Esperou e guardou o bloco e o dossier na pasta. - Mais alguma pergunta, Carl Lee?

- Sim. O que é que eu posso dizer amanhã? - Que quer dizer com isso?

- Quero dizer ao juiz por que disparei sobre aqueles homens. Eles violaram a minha filha. Eles tinham de morrer.

- E quer explicar isso ao juiz amanhã? - Quero.

- E pensa que ele vai soltá-lo depois de de lhe ter explicado tudo?

Carl Lee não disse nada.

- Ouça, Carl Lee, você contratou-me como seu advogado. E contratou-me porque tem confiança em mim, certo? E se eu quiser que diga alguma coisa amanhã, eu previno. Se eu não disser nada, fica quietinho. Quando for a julgamento, em Julho, terá oportunidade de contar a sua história. Mas, por enquanto, sou só eu que falo.

- Tem razão.

Lester e Gwen amontoaram os meninos e Tonya no Cadillac vermelho e foram para o consultório do médico, ao lado do hospital. A violação fora duas semanas antes. Tonya ainda coxeava um bocadinho e queria correr e subir escadas com os irmãos. Mas a mãe não largava a mão dela. O ferimento nas pernas e nas nádegas tinha quase desaparecido, as ligaduras nos pulsos e nos tornozelos tinham sido retiradas pelo médico na semana anterior e os cortes estavam a cicatrizar muito bem. A gaze com algodão entre as pernas continuava lá. Numa salinha, despiu-se e sentou-se ao lado da mãe numa mesa acolchoada. Gwen abraçou-a para aquecê-la. O médico examinou-lhe a boca e o maxilar. Depois, os pulsos e os tornozelos. Ele fê-la deitar na mesa e apalpou-a entre as pernas. Tonya gritou e agarrou-se à mãe, que se debruçou sobre ela. Estava a doer-lhe outra vez.

 

Na quarta-feira, às cinco da manhã, Jake bebeu um gole de café no escritório e olhou através das portas de vidro para a praça escura. Depois de algumas horas de sono intermitente tinha deixado o calor da cama numa tentativa alucinada de localizar um processo sem nome, julgado na Geórgia, que, segundo se lembrava das aulas da faculdade, pedia ao juiz que concedesse fiança num caso de crime de morte desde que o acusado não tivesse antecedentes criminais, possuísse bens no condado, tivesse um emprego fixo e vários parentes nas vizinhanças. Não conseguiu encontrá-lo. Encontrou uma pilha de processos recentes, lógicos, claros e sem ambiguidades, julgados no Mississippi, que concediam ao juiz a faculdade de negar fiança a tais acusados. Era essa a lei e Jake, agora, conhecia-a bem, mas precisava de alguma coisa para tentar convencer Ichabod. Temia pedir fiança para Carl Lee. Buckley iria gritar e citar todos aqueles casos maravilhosos e Noose ia ouvir com um sorriso, para em seguida negar a fiança. Jake ia ser derrotado na primeira escaramuça.

- Chegou cedo, hoje, meu querido - disse Dell para o seu freguês favorito enquanto servia o café.

- Pelo menos estou aqui.

Desde a amputação da perna de Looney que Jake não aparecia no Coffee Shop. Looney era popular e havia um certo ressentimento entre os fregueses do restaurante e em toda a cidade contra o advogado de Hailey. Jake sabia disso e tentava ignorar. Muitos se ressentiam do facto de um advogado estar disposto a defender um negro culpado da morte de dois homens brancos.

- Tem um minuto? - perguntou Jake.

- É claro - disse Dell, olhando em volta.

Às cinco e quinze, o local não estava cheio ainda. Sentou-se de frente para Jake e serviu-lhe o café.

- De que é que as pessoas andam por aqui a falar? - perguntou.

- Da mesma coisa de sempre. Política, pescaria, lavoura. Sempre a mesma coisa... Trabalho aqui há vinte e um anos, servindo as mesmas coisas, às mesmas pessoas, e todos continuam a falar das mesmas coisas.

- Nada de novo?

- Hailey. Falam muito disso. Excepto quando temos estranhos. Aí as conversas voltam ao de sempre.

- Porquê?

- Porque se você der a impressão de que sabe alguma coisa sobre o caso, um repórter vai sair atrás de si com uma porção de perguntas.

- Uma chatice, não é?

- Não. É formidável. Nunca tivemos tanto movimento. Jake sorriu, pôs manteiga na aveia, depois acrescentou Tabasco.

- O que acha do caso?

Dell coçou a ponta do nariz com as unhas postiças, longas e vermelhas e soprou o café na chávena. Ela era famosa por dizer o que pensava e Jake esperava uma resposta sincera.

- Ele é culpado. Matou os dois homens. Não há nenhuma dúvida. Mas tinha a melhor desculpa que já vi. Há alguma simpatia por ele.

- Supunhamos que fazia parte do júri. Culpado ou inocente? Dell olhou para a porta e acenou para um freguês.

- Bem, o meu instinto diz-me que perdoe qualquer pessoa que mate um violador. Especialmente um pai. Por outro lado, não podemos permitir que as pessoas arranjem armas e andem por aí a fazer justiça pelas próprias mãos. O Jake pode provar que ele estava louco quando cometeu o crime?

- Vamos supor que posso.

- Nesse caso, votaria inocente, mesmo sabendo que ele não estava louco.

Jake pôs geleia de morango na torrada e concordou com uma inclinação de cabeça.

- Mas, e Looney? - perguntou ela. - Ele é meu amigo. - Foi um acidente.

- Isso basta para a defesa?

- Não, não basta. A arma não disparou por acidente. O Looney foi atingido acidentalmente, mas duvido que seja uma defesa válida. Você condenava-o por ter disparado sobre o Looney?

- Talvez - disse ela, devagar. - Ele perdeu uma perna... Como é que o Hailey podia estar louco quando matou o Cobb e o Willard e não quando disparou sobre o Looney, pensou Jake, mas não perguntou. Mudou de assunto.

-- Que andam a dizer a meu respeito?

- Mais ou menos a mesma coisa. Um dia destes alguém perguntou por onde andava e disse que agora já não tem tempo para nós porque é famoso. Ouvi qualquer coisa sobre você e o negro, mas tudo muito discreto. Eles não o criticam em voz alta. Eu não permitiria.

- Você é um amor.

- Não sou nada, sou uma megera e você sabe isso. - Não. Só tenta ser.

- Será? Pois então, veja!

Dell levantou-se de um salto e gritou uma meia dúzia de palavrões para alguns fazendeiros que tinham pedido mais café. Jake terminou de comer sozinho e voltou para o escritório.

Quando Ethel chegou, às oito e meia, dois repórteres estavam à espera no passeio, ao lado da porta fechada. Entraram com Ethel e disseram-lhe que queriam falar com o Dr. Brigance. Ela

recusou e mandou-os sair. Eles recusaram e insistiram no pedido. Jake ouviu a discussão e fechou a porta à chave. Ethel que se entendesse com eles.

Do escritório Jake viu a equipa de filmagem instalar-se na porta das traseiras do tribunal. Sorriu, sentindo uma forte descarga de adrenalina. Podia ver a sua imagem no noticiário das seis, a atravessar a rua com passo decidido, muito sério, muito concentrado, seguido pelos repórteres que procuravam o diálogo mas não conseguiam nem uma palavra. E aquilo era apenas a denúncia! Imagine-se o julgamento! Câmaras por toda a parte, repórteres fazendo perguntas aos gritos, artigos nas primeiras páginas dos jornais, talvez nas capas das revistas. Um jornal de Atlanta dizia que o caso Hailey era o crime mais sensacional ocorrido no Sul, nos últimos vinte anos. Jake teria aceitado o caso de graça, ou quase.

Alguns minutos depois, interrompeu a discussão no andar de baixo e foi calorosamente recebido pelos repórteres. Ethel desapareceu na sala de conferências.

- Pode responder a algumas perguntas? - perguntou um deles.

- Não - disse Jake, delicadamente. - Tenho um encontro com o juiz Noose.

- Só algumas perguntas?

- Não. Mas haverá uma conferência de imprensa, às três horas - Jake abriu a porta e os repórteres seguiram-no até ao passeio.

- Onde será a conferência de imprensa? - No meu escritório.

- Para quê?

- Para falar sobre o caso.

Jake atravessou a rua com passos lentos e seguiu na direcção do tribunal, respondendo às perguntas.

- O Sr. Hailey vai estar presente na conferência de imprensa? - Sim, com a família.

- A menina também? - Sim, ela também.

- O Sr. Hailey vai responder a perguntas? - Talvez. Não resolvi ainda.

Jake despediu-se e entrou no tribunal e os repórteres ficaram a comentar como seria a entrevista.

Buckley entrou no tribunal pelas enormes portas de madeira da frente, mas não havia fanfarra. A esperança dele em ver uma ou duas câmaras acabou quando soube que os repórteres estavam todos na porta das traseiras, à espera do réu. De futuro, ele entraria pela porta das traseiras.

O juiz Noose estacionou na frente do correio, perto de uma boca de incêndio, atravessou a praça a passos largos e entrou no tribunal. Ele também não atraiu nenhuma atenção, a não ser alguns olhares curiosos. Ozzie espreitou pela janela da frente do edifício da cadeia e viu a multidão à espera de Carl Lee, no estacionamento. Pensou noutro plano para evitar a imprensa, mas desistiu. O seu escritório tinha recebido duas dúzias de ameaças de morte a Carl Lee e algumas delas foram levadas a sério por Ozzie. Eram específicas, com datas e locais. Porém, a maior parte era de ameaças vagas e comuns. E tudo aquilo para a leitura da denúncia. Ozzie pensou no julgamento e resmungou alguma coisa para Moss Junior. Os polícias fardados cercaram Carl Lee e saíram para a rua, passaram pela imprensa e entraram numa carrinha alugada. Seis polícias e o motorista. Escoltado pelos três carros-patrulha mais novos, a carrinha dirigiu-se rapidamente para o edifício do tribunal.

Noose tinha marcado uma dúzia de leituras formais de acusação para as nove horas da manhã e quando se sentou na sua cadeira, no tribunal, procurou o dossier do caso Hailey. Viu na primeira fila um grupo de tipos suspeitos, todos recentemente indiciados. Na extremidade da fila, Jake Brigance falava em voz baixa com um réu algemado e ladeado por dois polícias. Devia ser Hailey. Noose pegou num dossier vermelho que continha os autos e ajustou os óculos de modo a não atrapalhar a leitura.

- O estado contra Carl Lee Hailey, processo número 3889. Queira aproximar-se, Sr. Hailey.

As algemas foram retiradas e Carl Lee e o seu advogado aproximaram-se da mesa do juiz que, em silêncio e nervoso, examinou as acusações escritas. O silêncio era completo. Buckley levantou-se e parou a alguns passos do acusado. Os artistas, perto da grade, desenhavam a cena.

Jake olhou carrancudo. para Buckley, que não tinha nenhum motivo para estar na frente do juiz durante a leitura. O promotor estava com o seu melhor fato de polyester e com cada fio de cabelo meticulosamente penteado. Parecia um pastor evangélico da TV. Jake aproximou-se dele e disse, em voz baixa:

- Belo fato, Rufus.

- Obrigado - respondeu ele, apanhado de surpresa.

- Ele brilha no escuro? - perguntou Jake e voltou para o lado do seu cliente.

- O senhor é Carl Lee Hailey? - perguntou o juiz.

- Sim.

- O Dr. Brigance é o seu advogado?

- Sim.

- Tenho aqui uma cópia de um indiciamento proferido contra o senhor, pelo júri de instrução. Recebeu uma cópia?

- Sim. - Leu-a? - Sim.

- Falou sobre ela com o seu advogado? - Sim.

- O senhor compreendeu? - Sim.

- Muito bem. A lei determina que eu lho leia em sessão pública do tribunal - Noose pigarreou. - "Os membros do júri de instrução do estado do Mississippi, oriundos do conjunto de cidadãos probos e cumpridores da lei de Ford County, devidamente eleitos, sorteados ajuramentados e incumbidos de investigar no e para o dito condado e o estado supramencionado, em nome e sob a autoridade do estado do Mississippi, sob juramento denunciam que Carl Lee Hailey, do condado e do estado acima citados, dentro da jurisdição deste tribunal, de maneira ilegal, deliberada, perversa e intencional e com premeditada intenção criminosa abateu e assassinou Bill Ray Cobb, um ser humano, e Pete Willard, um ser humano, e alvejou e tentou matar DeWayne Looney, um agente da autoridade, em directa violação do código do Mississippi, e contra a paz e a dignidade do estado do Mississippi. Este é o veredicto do júri. Assinado, Laverne Gossett, primeiro jurado do júri de instrução."

Noose tomou fôlego.

- Compreende as acusações que lhe são feitas? - Sim.

- Compreende que se for condenado pode ser executado na câmara de gás na penitenciária estadual de Parchman?

- Sim.

- Deseja declarar-se culpado ou inocente? - Inocente.

Noose examinou outra vez o calendário, enquanto todos observavam com atenção. Os repórteres tomavam notas. Os artistas concentravam-se nas figuras principais, inclusive Buckley, que conseguira entrar no quadro e ficar de lado, para uma pose de perfil. Estava ansioso por dizer alguma coisa. Olhou carrancudo e desdenhoso para a nuca de Carl Lee Hailey como se não pudesse esperar para dar cabo daquele assassino. Caminhou até à mesa onde estava Musgrove e ambos conversaram em voz baixa, com ar de importância. Atravessou a sala e conversou, também em voz baixa, com um dos funcionários do tribunal. Depois voltou para a frente do juiz, onde o acusado permanecia imóvel, ao lado de Jake, que percebia e tentava a todo custo ignorar o teatro de Buckley.

- Sr. Hailey - disse Noose com sua voz esganiçada -, o seu julgamento está marcado para segunda-feira, 22 de Julho. Todas as moções e questões preliminares do julgamento devem estar protocoladas até 24 de Junho e resolvidas até 8 de Julho. Carl,Lee e Jake inclinaram a cabeça afirmativamente. - Mais alguma coisa?

- Sim, Meritíssimo - trovejou Buckley com sonoridade suficiente para ser ouvido pelos repórteres na antecâmara. - O estado opõe-se a qualquer pedido de fiança para este acusado.

Jake fechou as mãos com força e teve vontade de gritar.

- Meritíssimo, o acusado ainda não pediu fiança. O Dr. Buckley, como sempre, está confuso quanto aos procedimentos. Ele não pode recusar um pedido que não foi feito. Devia ter aprendido isso na faculdade de Direito.

Embora atingido em cheio, Buckley continuou.

- Meritíssimo, o Dr. Brigance costuma sempre pedir fiança e tenho a certeza de que o vai fazer hoje. O estado opor-se-á a qualquer pedido.

- Muito bem, porque não espera que o pedido seja feito? - perguntou Noose, com uma ponta de irritação.

-- Está bem - respondeu Buckley. Vermelho de raiva, olhou para Jake.

- O senhor planeia pedir fiança? - perguntou Noose.

- Eu tinha planeado fazê-lo no momento oportuno, mas antes que eu tivesse uma oportunidade, o dr. Buckley interveio com sua atitude teatral...

- Deixe lá o Dr. Buckley - interrompeu Noose. - Eu sei, Sr. Dr. Juiz, ele está apenas confuso. - Fiança, Dr. Brigance?

- Sim, eu tinha planeado solicitá-la.

- Foi o que pensei e já considerei a conveniência ou não de conceder a fiança neste caso. Como deve saber, a decisão depende exclusivamente de mim e eu nunca concedo fiança num caso de homicídio doloso. Não acho que uma excepção se aplique a este caso.

- Quer dizer que decidiu negar a fiança?

- Sim.

Jake encolheu os ombros e pôs um dossier em cima da mesa. - Está bem.

- Mais alguma coisa? - perguntou Noose. - Não, Meritíssimo - disse Jake. Buckley abanou a cabeça, sem dizer nada.

- Muito bem. Sr. Hailey, este tribunal ordena que o senhor permaneça sob a custódia do xerife de Ford County até ao julgamento. Está dispensado.

Carl Lee voltou para a primeira fila, onde o polícia o esperava com as algemas. Jake abriu a pasta e estava a guardar os papéis quando Buckley lhe segurou no braço.

- Foi um golpe baixo, Brigance - disse ele, com os dentes cerrados.

- Você estava a pedi-las... - respondeu Jake. - Tire a mão de cima de mim.

Buckley largou-o.

- Eu não gostei daquilo.

- É uma pena, Excelência. Não devia falar tanto. Os tagarelas acabam por se queimar.

Buckley era uns oito centímetros mais alto e pesava uns vinte e cinco quilos mais do que Jake, e a sua irritação ia crescendo. A conversa atraiu a atenção de um polícia que se colocou entre ambos. Com uma piscadela de olho a Buckley, Jake saiu da sala.

Às duas horas, o clã dos Hailey, conduzido por Lester, entrou no escritório de Jake pela porta das traseiras. Jake recebeu-os numa sala pequena, ao lado da sala de conferências, no primeiro andar.

Falaram sobre a entrevista à imprensa. Vinte minutos depois, Ozzie e Carl Lee entraram calmamente pela porta das traseiras e Jake levou-os para o escritório onde estava a família de Carl Lee. Jake e Ozzie saíram da sala.

A entrevista à imprensa foi cuidadosamente orquestrada por Jake, que ficou admirado com a própria habilidade para manipular a imprensa e com a disposição da imprensa de se deixar manipular.

Jake sentou-se a um lado da mesa de conferências com os três filhos de Hailey de pé atrás dele. Gwen sentou-se à sua esquerda, Carl Lee à direita, com Tonya ao colo.

As normas legais proibiam a divulgação da identidade de uma criança vítima de estupro, mas Tonya era diferente. O seu nome, o seu rosto e a sua idade eram muito conhecidos por causa do pai. Ela já fora mostrada ao mundo e Jake queria que fosse vista e fotografada com o seu vestido dos domingos, sentada nos joelhos do pai. Os jurados, fossem eles quem fossem, ou onde vivessem, estariam a ver.

Os repórteres enchiam a sala, o corredor e a recepção, onde Ethel secamente os mandou sentar e deixarem-na em paz. Um polícia guardava a porta da frente e dois outros estavam sentados nos degraus das traseiras. O xerife Walls e Lester, um pouco constrangidos, estavam de pé, atrás dos Hailey e do seu advogado. Os microfones foram amontoados em cima da mesa, em frente de Jake, e as câmaras clicavam, sob as luzes quentes da televisão.

- Quero fazer algumas observações preliminares - começou Jake. - Em primeiro lugar, sou eu quem responde a todas as perguntas. Nenhuma pergunta deve ser dirigida ao Sr. Hailey ou à sua família. Se lhe fizerem alguma pergunta a ele, dir-lhe-ei que não responda. Segundo, quero apresentar-lhes a sua família. À minha esquerda está a mulher, Gwen Hailey. De pé, atrás de nós, estão os filhos Carl Lee Jr., Jarvis e Robert. Atrás deles está o irmão do Sr. Hailey, Lester Hailey.

Depois de ter feito uma pausa, Jake sorriu para Tonya.

- Sentada ao colo do pai, está Tonya Hailey. Agora, estou pronto para responder às perguntas.

- Que aconteceu no tribunal, esta manhã?

-- O Sr. Hailey foi formalmente acusado, declarou-se inocente e o julgamento foi marcado para o dia 22 de Julho.

- Houve uma altercação entre o senhor e o promotor?

- Sim. Depois da leitura da acusação, o Dr. Buckley aproximou-se, segurou-me no braço e parecia querer agredir-me, quando um polícia interferiu.

- O que provocou essa atitude?

- O Dr. Buckley tem tendência para se descontrolar quando está sob pressão.

- O senhor e o Dr. Buckley são amigos? - Não.

- O julgamento vai ser em Clanton?

- A defesa vai apresentar uma moção para transferência de foro. O local do julgamento será determinado pelo juiz Noose. Não tenho nenhuma previsão de qual será ele.

- Pode descrever o efeito de tudo isso na familia Hailey? Jake pensou um instante, enquanto as câmaras rodavam. Olhou rapidamente para Carl Lee e Tonya.

- Estão a ver uma família simples. Até há duas semanas, a vida era boa e simples. Tinha um bom emprego na fábrica de papel, algum dinheiro no banco, segurança, estabilidade, igreja todos os domingos, uma família unida. Então, por motivos só conhecidos de Deus, dois vagabundos bêbedos e drogados cometeram um terrível acto de violência contra esta menina. Nós todos ficámos chocados e enojados. Arruinaram a vida dela e as vidas dos pais e dos familiares. Foi demais para o pai dela. Descontrolou-se. Perdeu a razão. Agora, está na cadeia à espera do julgamento e da possibilidade da câmara de gás. O emprego deixou de existir. O dinheiro acabou. A inocência foi perdida. As crianças enfrentam a possibilidade de crescer sem o pai. A mãe precisa encontrar um emprego para sustentar os filhos e pedir emprestado aos amigos e familiares para sobreviver. Enfim, para responder à sua pergunta, senhor, a família foi devastada e destruída.

Gwen começou a chorar em silêncio e Jake deu-lhe um lenço. - O senhor está a sugerir uma defesa baseada em insanidade? - Sim.

- Vai ser feita realmente a alegação de insanidade? - Sim.

- O senhor pode provar essa alegação?

- Isso ficará a cargo do júri. Vamos apresentar especialistas no campo da psiquiatria.

- Já consultou algum desses especialistas? - Sim - mentiu Jake.

- Pode dizer-nos os nomes deles?

- Não, não seria apropriado neste momento.

- Ouvimos falar de ameaças de morte contra o Sr. Hailey, O senhor pode confirmar isso?

- As ameaças continuam contra o Sr. Hailey, a família dele, a minha família, o xerife, o juiz, quase todos ligados ao caso. Eu não sei até que ponto devemos dar-lhes crédito.

Carl Lee bateu de leve na perna de Tonya e olhou para a mesa. Ele parecia assustado, infeliz, a precisar de apoio. Os meninos também estavam assustados, mas de acordo com as ordens rigorosas recebidas, continuavam de pé, com medo de fazer um movimento. Carl Lee Jr., o mais velho, com quinze anos, estava atrás de Jake. Jarvis, o do meio, atrás do pai. E Robert, onze anos, atrás da mãe. Estavam os três de fato azul-marinho, camisa branca e laço vermelho. O fato de Robert fora de Carl Lee Jr. e depois de Jarvis e parecia um pouco mais usado do que os outros dois. Mas estava limpo, bem passado e com os punhos perfeitos. Os meninos pareciam inteligentes. Como é que um jurado podia votar a favor de os privar do pai?

A conferência de imprensa foi um sucesso. Fragmentos da entrevista apareceram nas redes nacionais e nas estações locais, tanto no primeiro, quanto no último noticiário. Na quinta-feira, os Hailey e o seu advogado apareceram nas primeiras páginas dos jornais.

 

A sueca telefonara inúmeras vezes durante as duas semanas em que o marido esteve no Mississippi. Ela não confiava nele, naquela cidade. Lester já tinha confessado vários casos amorosos

antes do casamento. Cada vez que ela telefonava, Lester não estava em casa e Gwen explicava que ele tinha ido pescar ou estava a cortar madeira para a fábrica de papel, para poder comprar mantimentos. Gwen estava cansada de mentir e Lester cansado das escapadelas, cada um deles estava farto do outro. Quando o telefone tocou, na madrugada de sexta-feira, Lester atendeu. Era a sueca.

Duas horas depois, o Cadillac vermelho parou em frente da cadeia. Moss Junior levou Lester até à cela de Carl Lee. Os irmãos conversaram em voz baixa para não acordar os outros prisioneiros.

- Tenho de ir para casa - disse Lester, meio envergonhado, meio tímido.

- Porquê? - perguntou Carl Lee, como se já esperasse aquilo.

- A minha mulher telefonou esta manhã. Se eu não voltar para o trabalho amanhã, despedem-me. Carl Lee meneou a cabeça afirmativamente.

- Lamento muito, bubba. Não fico nada satisfeito com isso, mas tenho de ir.

- Compreendo. Quando voltas? - Quando queres que eu volte?

- Para o julgamento. Vai ser duro para a Gwen e as crianças. Podes voltar?

- Sabes que vou estar presente. Tenho alguns dias de férias e mais o resto. Cá estarei.

Sentaram-se na beira da cama de Carl Lee, a olhar para os outros prisioneiros, em silêncio. A cela estava escura e sossegada. Os dois beliches em frente da cama de Carl Lee estavam vazios.

- Com a breca, eu já me tinha esquecido de como este lugar é horrível - disse Lester.

- Só espero não ter de ficar aqui muito tempo. Puseram-se de pé e, depois de um abraço, Lester chamou Moss Junior para abrir a porta.

- Tenho orgulho em ti, bubba - disse Lester ao irmão mais velho e voltou para Chicago.

A segunda visita daquela manhã foi o advogado de Carl Lee, no escritório de Ozzie. Jake estava irritado e com os olhos vermelhos.

- Carl Lee, falei com dois psiquiatras de Memphis, ontem. Sabe qual é o mínimo que cobram para uma avaliação para fins legais? Sabe?

- Tenho obrigação de saber? - perguntou Carl Lee.

- Mil dólares - exclamou Jake. - Mil dólares. Onde é que você vai arranjar mil dólares?

- Dei-lhe a si todo o dinheiro que tinha. Até ofereci...

- Não quero a escritura das suas terras. Para quê? Ninguém quer comprá-las e, se você não puder vender, não adianta nada. Precisamos de dinheiro, Carl Lee. Não para mim, mas para os psiquiatras.

- Porquê?

- Porquê!? - disse Jake, incrédulo. - Porquê? Porque eu quero evitar que você vá para a câmara de gás e ela fica apenas a cento e sessenta quilómetros daqui. Não é longe. E para fazer isso, preciso convencer o júri de que você estava louco quando matou aqueles homens. Não posso dizer que você estava louco. Você não pode dizer que estava louco. Quem tem de o dizer é um psiquiatra. Um especialista. Um médico. E eles não trabalham de graça. Compreendeu?

Carl Lee acocorou-se para olhar para uma aranha no tapete empoeirado. Ao fim de doze dias na cadeia e de duas apresentações no tribunal, estava farto do sistema judiciário. Lembrou-se das horas e dos minutos antes do crime. Quais eram os seus pensamentos? É claro que os homens tinham de morrer. Carl Lee nem pensou em remorso. Mas, teria pensado em prisão, pobreza, advogados ou psiquiatras? Talvez, mas só por breves instantes. Essas coisas desagradáveis eram subprodutos que deviam ser enfrentados e suportados durante algum tempo, até à sua libertação. Depois do crime, o sistema ia processá-lo, justificar o seu acto e mandá-lo de volta para junto da família. Ia ser fácil, exactamente como o caso de Lester que tinha sido praticamente sem problemas de maior.

Mas o sistema não estava a funcionar agora. Estava a conspirar para o manter na prisão, para lhe quebrar o ânimo, e lhe deixar os filhos órfãos. Parecia resolvido a puni-lo por um acto que ele considerava inevitável. E agora, o seu único aliado fazia-lhe exigências que ele não podia atender. O seu advogado pedia-lhe o impossível. O seu amigo Jake estava zangado e aos gritos.

- Arranje o dinheiro - gritou Jake, encaminhando-se para a porta. - Arranje-o junto dos seus irmãos e irmãs, da família da Gwen, dos seus amigos, da sua igreja. Mas arranje o dinheiro. E o mais depressa possível.

Jake bateu com a porta e saiu do edifício.

O terceiro visitante daquela manhã chegou antes do meio-dia numa limusine negra com motorista e placas do Tennessee. Depois de manobrar no pequeno estacionamento, parou ocupando três vagas. Um enorme guarda-costas negro saiu do carro e abriu a porta ao patrão. Seguiram ambos pelo passeio e entraram no edifício da cadeia.

A secretária parou de escrever à máquina e sorriu, desconfiada. - Bom dia.

- Bom dia - disse o mais baixo deles, o homem com a pala no olho. - Chamo-me Cat Bruster e gostaria de falar com o xerife Walls.

- Posso perguntar qual é o assunto?

- Pode sim, minha senhora. É a respeito do Sr. Hailey, um morador do seu belo estabelecimento.

O xerife ouviu o seu nome e apareceu à porta para cumprimentar o infame visitante.

- Sr. Bruster, sou Ozzie Walls. - Estendeu a mão, que Cat apertou. O guarda-costas não se mexeu.

- É um prazer conhecê-lo, xerife. Eu sou Cat Bruster, de Memphis.

- Sim, eu sei quem o senhor é. Tenho-o visto nos noticiários. O que o traz a Ford County?

- Bem, tenho um amigo com um grande problema. Carl Lee Hailey. Estou aqui para ajudá-lo.

- Muito bem. E quem é ele? - perguntou Ozzie, olhando para o guarda-costas. Ozzie media cerca de um metro e noventa e cinco e era pelo menos dez centímetros mais baixo do que homem.

O guarda-costas devia pesar no mínimo cento e cinquenta quilos, a maior parte nos braços.

- Este aqui é Tiny Tom - explicou Cat. - Chamamos-lhe Tiny para abreviar.

- Entendido.

- É como se fosse um guarda-costas. - Ele não está armado, ou está?

- Ora, xerife, ele não precisa de arma.

- É claro. Por que é que o senhor e Tiny não entram no meu escritório?

No escritório, Tiny fechou a porta e ficou de pé em frente dela. Cat sentou-se na cadeira, diante da mesa do xerife.

- Ele pode sentar-se, se quiser - disse Ozzie a Cat.

- Não, xerife, ele fica sempre de pé junto da porta. Foi treinado assim.

- Como se fosse um cão polícia? - Exactamente.

- óptimo. Quer falar sobre quê?

Cat cruzou as pernas e apoiou no joelho a mão cheia de anéis de brilhantes.

- Bem, xerife, eu e Carl Lee conhecêmo-nos há muito tempo. Lutámos juntos no Vietname. Fomos encurralados perto de Da Nang, no verão de 71. Eu fui ferido na cabeça e, bam! dois segundos depois ele foi ferido na perna. O nosso esquadrão desapareceu e os amarelos praticavam tiro ao alvo em nós. Carl Lee arrastou-se até onde eu estava, pôs-me ao ombro e correu no meio do tiroteio para uma vala perto de um caminho. Comigo pendurado às costas, arrastou-se ao longo de quase cinco quilómetros. Salvou-me a vida. Ganhou uma medalha por ter feito isso. Sabia?

- Não.

- É verdade. Ficámos juntos no hospital em Saigão durante dois meses, depois regressámos ambos do Vietname. E não pretendo lá voltar.

Ozzie ouvia atentamente.

- E agora que aquele meu camarada está metido numa alhada, eu gostaria de o ajudar.

- Foi a si que ele foi pedir a M-16? Tiny rosnou e Cat sorriu.

- É claro que não. - Gostaria de o ver? - É claro! É assim tão fácil?

- É. Se puder tirar Tiny da frente da porta, eu vou buscá-lo.

Tiny afastou-se para o lado e dois minutos depois Ozzie voltou com o prisioneiro. Cat gritou de alegria, abraçou Carl Lee e cumprimentaram-se ambos, aos murros, como lutadores de boxe.

Carl Lee olhou embaraçado para Ozzie, que percebeu a deixa e saiu da sala. Tiny fechou a porta e ficou de guarda. Carl Lee juntou duas cadeiras para que ficassem um na frente do outro e bem próximos. Cat foi o primeiro a falar.

- Estou orgulhoso do que fizeste, bela figura. Porque não me disseste que era para isso que querias a arma?

- Achei melhor não te dizer. - Como foi?

- Igualzinho ao Vietname, só que eles não podiam atirar em mim.

- É essa a melhor maneira.

- É, acho que sim. Eu só queria que nada disto tivesse acontecido.

- Não estás arrependido, pois não?

Carl Lee balançou-se na cadeira e olhou para o tecto.

- Eu faria tudo outra vez, portanto não sinto remorsos. Eu só queria que eles não tivessem maltratado a minha filha. Eu queria que ela estivesse como dantes. Queria que nada daquilo tivesse acontecido.

- Claro, claro... Deve ser difícil para ti estar aqui preso.

- Não estou preocupado comigo. O que me atormenta é a minha família.

- Claro, claro, como vai a tua mulher? - Está boa. Vai aguentar.

- Vi no jornal que o julgamento vai ser em Julho. Ultimamente, tens aparecido nos jornais mais do que eu.

- Pois, Cat, mas tu safas-te sempre. Eu não tenho tanta certeza disso.

- Tens um bom advogado, não tens? - É. Ele é bom.

Cat levantou-se e deu alguns passos pela sala, admirando os troféus e certificados de Ozzie.

- Foi especialmente por isso que eu vim ver-te, meu...

- Por isso o quê? - perguntou Carl Lee, sem saber o que o amigo pretendia, mas certo de que a visita tinha um objectivo.

- Carl Lee, sabes quantas vezes já fui julgado?

- Tenho a impressão de que passas o tempo todo no tribunal.

- Cinco! Cinco vezes eles me levaram a julgamento. Os federais. Os estaduais. Os municipais. Drogas, jogo, suborno, contrabando de armas, prostituição. Por tudo quanto possas imaginar, eles já me julgaram! E queres saber o melhor, Carl Lee? Eu era sempre culpado. Todas as vezes que fui ao tribunal eu era culpado como o diabo. Sabes quantas vezes fui condenado?

- Não.

- Nenhuma! Não me apanharam uma única vez. Cinco julgamentos, cinco vezes inocente!

Carl Lee sorriu com admiração.

- Sabes por que é que eles não me conseguem condenar? Carl Lee tinha uma ideia, mas abanou a cabeça.

- Porque, Carl Lee, eu tenho o mais esperto, o mais danado, o mais desonesto advogado criminal desta região. Ele mente, ele faz jogo sujo e os polícias odeiam-no. Mas estou sentado aqui e não numa prisão. Ele faz qualquer coisa para ganhar uma causa.

- Quem é ele? - perguntou Carl Lee, com curiosidade.

- Já o viste na televisão a entrar e a sair do tribunal. Está sempre nos jornais. Sempre que algum velhaco importante se mete num sarilho, lá está ele... Ele defende os traficantes de drogas, os políticos, eu, todos os assassinos importantes.

- Como é que ele se chama?

- Ele só pega em causas criminais, especialmente drogas, suborno, extorsão, coisas assim. Mas queres saber de que é que ele gosta mais?

- De quê?

- Homicídio. Ele adora casos de homicídio. Nunca perdeu um. Agarra em todos os grandes, em Memphis. Lembras-te de quando eles apanharam aqueles dois negros em flagrante, a atirar um tipo da ponte, no Mississippi? Apanharam os tipos em flagrante. Há uns cinco anos, mais ou menos.

- Sim, lembro-me.

- Foi um grande julgamento que durou duas semanas e eles saíram livres. Foi esse advogado. Tirou os dois de lá. Julgados inocentes.

- Acho que me lembro de ter visto esse advogado na televisão.

- É claro que viste. É um sujeito mau, Carl Lee. Estou-te a dizer, o homem não perde nunca.

- Qual é o nome dele?

Cat sentou-se e olhou solenemente para Carl Lee. - Bo Marsharfsky - disse ele.

Carl Lee olhou para o tecto como se se lembrasse do nome.

- E daí?

Cat pôs cinco dedos com oito quilates no joelho de Carl - Daí, que ele quer ajudar-te, meu !

- Eu já tenho um advogado a quem não posso pagar. Como é que vou pagar a outro?

- Não precisas de pagar, Carl Lee. É aí que eu entro. Ele está às minhas ordens. É propriedade minha. Paguei ao tipo quase cem mil dólares, no ano passado, só para me manter fora de chatices. Tu não pagas nada.

De repente Carl Lee ficou muito interessado em Bo Marsharfsky.

- Como é que ele sabe de mim?

- Porque lê os jornais e vê televisão. Sabes como são os advogados. Eu estive no escritório dele, ontem, e ele estava a ler um jornal com a tua fotografia na primeira página. Falei-lhe de nós.

Ficou doido! Disse que tem de pegar no teu caso. Eu disse-lhe que podia ajudar.

- E é por isso que estás aqui?

- Pois claro! Ele disse que conhece as pessoas certas para te livrar.

- Quem, por exemplo?

- Médicos, psiquiatras, gente desse tipo. Ele conhece todos. - Eles custam dinheiro.

- Eu pago, Carl Lee! Ouve o que te estou a dizer! Eu pago tudo. Terás o melhor advogado e os melhores médicos que o dinheiro pode comprar, e o teu velho amigo Cat paga a conta. Não te preocupes com o dinheiro.

- Mas eu tenho um bom advogado. - Que idade tem ele?

- Acho que uns trinta.

Cat revirou os olhos, atónito!

- É uma criança, Carl Lee. Não foi há muito tempo que saiu da escola! Marsharfsky tem cinquenta anos e já defendeu mais assassinos do que o teu garoto jamais vai ver. E a tua vida, Carl Lee. Não a deixes nas mãos de um principiante.

De repente, Jake tornou-se demasiado jovem. Mas, no julgamento de Lester, ele era ainda mais novo.

- Ouve, Carl Lee, estive em muitos julgamentos e aquelas coisas todas são complicadas e muito técnicas. Um erro e estás feito. Se esse rapazola comete um engano, isso pode ser a diferença entre vida e morte. Tu não podes arriscar-te a ter nenhum garotinho na tua defesa e esperar que ele não cometa nenhum erro. Um engano - Cat fez estalar os dedos para efeito especial - e tu estás na câmara de gás. Marsharfsky não comete erros.

Carl Lee estava num beco sem saída.

- Achas que ele trabalharia com o meu advogado? - perguntou, à procura de um acordo.

- Não! De maneira nenhuma. Ele não trabalha com ninguém. Ele não precisa de nenhuma ajuda. O teu advogado salta! Carl Lee apoiou os cotovelos nos joelhos e olhou para os pés. Era impossível arranjar mil dólares para o médico. Ele não compreendia a necessidade disso, uma vez que não estava louco quando fizera aquilo, mas evidentemente ia precisar de um médico. Toda a gente achava que era necessário. Mil dólares para um médico barato. Cat estava a oferecer-lhe o melhor que o dinheiro podia comprar.

- Detesto fazer isso com o meu advogado - murmurou ele. - Não sejas burro, homem - disse Cat. - Acho melhor que comeces a pensar em Carl Lee e para o diabo com esse rapazola. Não é altura de te preocupares com sentimentalismos. Ele é um advogado, deixa. Vai conseguir sobreviver.

- Mas eu já paguei...

- Quanto? - quis saber Cat, fazendo estalar os dedos para Tiny.

- Novecentos.

Tiny tirou do bolso um maço de notas, Cat separou nove notas de cem e pô-las no bolso da camisa de Carl Lee.

- Aqui está alguma coisa para as crianças - disse ele, separando uma nota de mil e juntando-a às outras, no bolso da camisa.

As pulsações de Carl Lee aceleraram-se, quando pensou no dinheiro sobre o seu coração. Sentiu o dinheiro entrar no bolso e comprimir-lhe de leve o peito. Queria olhar para a nota de mil e

segurá-la firme entre os dedos. Comida, pensou, comida para as crianças.

- Negócio fechado? - perguntou Cat com um sorriso.

- Queres que eu despeça o meu advogado e contrate o teu? - quis saber Carl Lee, cauteloso.

- Isso mesmo.

- E tu vais pagar tudo? - Claro, claro.

- E este dinheiro?

- É teu. Avisa se precisares de mais. - És um grande amigo, Cat.

- Eu sou um homem muito bom. Estou a ajudar dois amigos. Um salvou a minha vida há muitos anos e o outro salva a minha pele de dois em dois anos.

- Porque quer ele tanto o meu caso?

- Publicidade. Sabes como são os advogados. Repara na quantidade de publicidade que o outro já conseguiu graças a ti. É o sonho de qualquer advogado. Estamos combinados?

- Sim, estamos combinados.

Cat bateu afectuosamente com o punho fechado no ombro de Carl Lee e dirigiu-se ao telefone, na mesa de Ozzie. Marcou o número.

- A cobrar ao 901-566-9800. De Cat Bruster para Bo Marsharfsky.

No vigésimo andar de um edifício de escritórios, no centro da cidade, Bo Marsharfsky desligou o telefone e perguntou à secretária se estava pronto o material para a imprensa. Ela entregou-lhe o papel e o advogado leu-o atentamente.

- Parece-me bem - disse ele. - Mande para os dois jornais imediatamente. Diga-lhes que usem a fotografia do arquivo, a nova. Fale com Frank Fields, no Post. Diga-lhe que quero isto na primeira página, amanhã de manhã. Ele está a dever-me um favor. - Sim, senhor. E as estações de televisão? - perguntou ela. - Mande uma cópia. Não posso falar agora, mas darei uma conferência de imprensa em Clanton, na semana que vem.

Lucien telefonou no sábado, às seis e meia da manhã. Carla estava aninhada entre os cobertores e não atendeu. Jake rolou para o lado da parede e tropeçou no candeeiro até que finalmente conseguiu encontrar o telefone.

- Alô - disse com voz sonolenta.

- O que é que você está a fazer? - perguntou Lucien. - Estava a dormir até o telefone tocar.

- Viu o jornal? - Que horas são? - Vá buscar o jornal e depois telefone-me.

Lucien desligou. Jake olhou para o telefone e depois desligou também. Sentou-se na beira da cama, esfregou os olhos e tentou lembrar-se da última vez que Lucien tinha telefonado para sua casa. Devia ser importante.

Jake fez café, abriu a porta ao cão e caminhou rapidamente com os seus shorts de ginástica e a t-shirt até o portão onde estavam os três jornais da manhã, um muito perto do outro. Tirou os elásticos e abriu os jornais ao lado da chávena de café, na mesa da cozinha. Nada no jornal de Jackson. Nada no de Tupelo. The Memphis Post tinha uma manchete sobre morte no Médio Oriente, e aí ele encontrou. Na parte inferior da primeira página estava a sua fotografia e debaixo dela a frase "Sai Jake Brigance". Ao lado, estava uma foto de Carl Lee e junto dela uma magnífica fotografia de uma cara que ele já vira antes, com a legenda "Entra Bo Marsharfsky". O título anunciava que o famoso advogado criminal de Memphis fora contratado para representar o "justiceiro assassino".

Jake ficou atónito, trémulo e confuso. Devia ser um engano. Tinha falado com Carl Lee na véspera. Leu a notícia devagar. Não tinha muitos detalhes, apenas uma relação dos maiores veredictos de Marsharfsky. O advogado prometia uma conferência de imprensa, em Clanton. Dizia que o caso representava novos desafios, etc. E que confiava nos jurados de Ford County.

Jake trocou os shorts por umas calças cáqui engomadas e vestiu uma camisa social. Carla dormia ainda, sob os cobertores. Ele dir-lhe-ia depois. Não seria prudente ir ao Coffee Shop. Na mesa de Ethel, Jake leu o jornal novamente e olhou para sua fotografia na primeira página.

Lucien não foi muito encorajador. Ele conhecia Marsharfsky, ou "O Tubarão", como era conhecido. Era um vigarista com muita elegância e finesse. Lucien admirava-o.

Moss Junior conduziu Carl Lee ao escritório de Ozzie, onde Jake o esperava com o jornal na mão. O polícia saiu e fechou a porta. Carl Lee sentou-se no pequeno sofá de napa preta. Jake atiroulhe o jornal.

- Já viu isto? - perguntou. Carl Lee olhou-o com ferocidade e ignorou o jornal.

- Porquê, Carl Lee?

- Não tenho de lhe dar explicações, Jake.

- Tem, sim. Não teve coragem de me telefonar como um homem e dar a notícia de homem para homem. Deixou que eu soubesse pelo jornal. Eu exijo uma explicação.

- Você queria dinheiro demais, Jake. Está sempre a falar em dinheiro. Aqui estou eu, na cadeia, e você a atormentar-me com coisas que não posso fazer.

- Dinheiro! Você não me pode pagar. Como é que pode pagar a Marsharfsky?

- Não vou pagar.

-O quê?!

- Ouviu o que eu disse. Não vou pagar. - Suponho que ele trabalha de graça. - Não. Alguém vai pagar.

- Quem? - gritou Jake.

- Não lhe vou dizer. Não é da sua conta, Jake.

- Você contratou o maior advogado criminal de Memphis e é outra pessoa quem lhe vai pagar?

- É isso mesmo.

A Associação Nacional para o Progresso dos Homens de Cor, pensou Jake. Não, eles não contratariam Marsharfsky. A associação tem os seus próprios advogados. Além disso, ele era caro demais para eles. Quem mais?

Carl Lee apanhou o jornal e dobrou-o cuidadosamente. Estava envergonhado e não se sentia bem, mas a decisão tinha sido tomada. Tinha pedido a Ozzie que telefonasse a Jake e lhe desse a notícia, mas o xerife não quisera meter-se nisso. Carl Lee devia ter telefonado, mas não ia pedir desculpa. Olhou para o retrato na primeira página. Gostou do "justiceiro".

- E não me vai dizer quem? - perguntou Jake, mais calmo. - Não, Jake, não lhe vou dizer.

- Falou com o Lester sobre isto?

A zanga voltou a aparecer nos olhos dele.

- Não. Não é o Lester que vai ser julgado, e não é da conta dele.

- Onde está ele?

- Em Chicago. Foi-se embora ontem. E não adianta telefonar-lhe. Eu tomei a minha decisão, Jake.

Veremos, pensou Jake. Em breve, Lester iria ficar a saber. Jake abriu a porta.

- Então é isso. Estou despedido. Desta maneira.

Carl Lee olhou para a sua fotografia no jornal e não disse nada.

Carla tomava café e estava à espera. Um repórter de Jackson tinha telefonado para falar com Jake e contara-lhe a respeito de Marsharfsky.

Não houve palavras, só movimentos. Jake deitou café numa chávena e foi para a varanda das traseiras. Enquanto bebia o café quente, olhou para as cercas-vivas mal cuidadas que marcavam os limites do seu quintal estreito e comprido. Um sol forte aquecia o verde-escuro dos pés de cebola e secava o orvalho, formando uma névoa pegajosa que subia do chão e lhe colava a camisa ao corpo, Os arbustos das cercas e o relvado esperavam a poda semanal. Jake atirou para o lado os mocassins - estava sem meias - e caminhou sobre a relva molhada para examinar um pequeno chafariz quebrado onde os passarinhos se banhavam, perto de um enfezado pé de pervinca, a única árvore que merecia esse nome no jardim.

Carla seguiu-lhe as pegadas na relva e pôs-se atrás dele. Jake pegou-lhe na mão e sorriu.

- Estás bem? - perguntou Carla. - Sim, estou bem.

- Falaste com ele? - Falei.

- Que foi que ele disse?

Jake abanou a cabeça, sem dizer nada. - Tenho muita pena, Jake.

Ele inclinou a cabeça afirmativamente e olhou para o chafariz.

- Haverá outros casos - disse Carla, sem muita convicção. - Eu sei. - Jake pensou em Buckley e ouviu a gargalhada dele. Pensou nos fregueses do Coffee Shop e jurou que não voltaria lá. Pensou nas câmaras e nos repórteres e uma dor surda apertou-lhe o estômago. Pensou em Lester, a sua única esperança de recuperar o caso.

- Queres comer alguma coisa? - perguntou Carla. - Não. Não estou com fome. Obrigado.

- Procura ver o lado positivo - disse ela. - Já não precisamos de ter medo de atender o telefone.

- Acho que vou cortar a relva - disse Jake.

 

O Conselho de Ministros era um grupo de pregadores negros criado para coordenar as actividades políticas nas comunidades negras de Ford County. Reunia raramente, a não ser nos anos de eleições, quando realizava reuniões semanais nas tardes de domingo para entrevistar candidatos, discutir problemas e especialmente determinar a benevolência de cada um dos candidatos a um cargo público. Acordos eram feitos, estratégias planeadas, dinheiro pago e recebido. O conselho já tinha provado que podia garantir o voto dos negros. Donativos e ofertas às igrejas negras cresciam significativamente na época das eleições.

O reverendo Ollie Agee convocou uma reunião extraordinária do conselho na tarde de domingo na sua igreja. Fez o seu sermão mais cedo e, às 4 horas da tarde, os fiéis já tinham saído quando os Cadillacs e Lincolns chegaram ao seu estacionamento. As reuniões eram secretas e só os membros do conselho eram convidados. Havia vinte e três igrejas negras em Ford County e vinte e dois membros do conselho estavam presentes quando o reverendo Agee deu início à reunião. Seria uma reunião breve, uma vez que alguns pastores, especialmente os da Igreja de Cristo, deviam oficiar os cultos da noite.

O objectivo da reunião, explicou ele, era organizar o apoio moral, politico e financeiro a Carl Lee Hailey, um membro proeminente da sua igreja. Deviam estabelecer um fundo para sua defesa, a fim de lhe garantirem a melhor representação legal. Outro fundo seria estabelecido para ajudar o sustento da família de Hailey. Ele, o reverendo Agee, seria o presidente do movimento de recolha de fundos e cada ministro seria responsável pela sua congregação, como sempre. Uma colecta especial seria feita durante as cerimónias matinais e nocturnas, a partir do domingo seguinte. Agee encarregar-se-ia de entregar o dinheiro à família. Metade do que fosse arrecadado iria para os fundos de defesa. O tempo era importante. O julgamento estava marcado para o mês seguinte. Precisavam de arranjar o dinheiro rapidamente, enquanto o assunto estava quente e a população disposta a colaborar.

A aprovação do conselho foi unânime. O reverendo Agee continuou. A Associação Nacional para o Progresso dos Homens de Cor devia tomar parte activa no caso Hailey. Ele não seria levado a julgamento se fosse branco. Não em Ford County. Ia a julgamento só porque era negro, e isso devia ser questionado pela associação. O director nacional fora contatado. As sedes locais de Memphis e Jackson tinham prometido ajudar. Realizariam conferências de imprensa. Manifestações e passeatas eram importantes. Talvez o boicote a firmas de brancos - era uma táctica popular naquele momento e funcionava com resultados espantosos.

Tudo isso devia ser feito imediatamente enquanto a população estava disposta a ajudar. Os ministros religiosos concordaram unanimemente e saíram para os seus cultos noturnos.

Em parte devido ao cansaço e em parte devido ao constrangimento, Jake dormiu até mais tarde e não foram à igreja. Carla preparou panquecas e eles fizeram um longo pequeno-almoço com Hanna no pátio. Jake pôs de lado os jornais do domingo depois de ter encontrado, na primeira página do segundo caderno do The Memphis Post, uma reportagem de página inteira sobre Marsharfsky e seu famoso novo cliente. A história era completa, com fotos e declarações do grande advogado. O caso Hailey representava o seu maior desafio, dizia ele. Assuntos importantes de ordem legal e social irão ser discutidos. A sua defesa iria ser completamente nova, prometia ele. Gabava-se de não ter perdido nenhuma causa nos últimos doze anos. Seria difícil, mas ele confiava na sabedoria e na justiça dos jurados do Mississippi.

Jake leu o artigo sem fazer comentários e atirou o jornal para o caixote do lixo.

Carla sugeriu um piquenique e, embora precisasse de trabalhar, Jake não disse nada. Puseram a comida e os brinquedos no Saab e foram para o lago. As águas escuras e lamacentas do lago Chatulla estavam na sua altura máxima e, dentro de alguns dias, começariam a sua retirada para o centro. A enchente atraiu uma flotilha de barcos com esquiadores, barcos de pesca, catamarãs e caíques.

Carla estendeu duas mantas pesadas debaixo de um carvalho na encosta de uma colina enquanto Jake descarregava a comida e a casa de bonecas. Hanna arrumou a sua grande família, com animais de estimação e automóveis, numa das mantas e começou a dar ordens enquanto armava a casa. Os pais ouviam, sorrindo. O nascimento de Hanna fora um pesadelo doloroso e muito sofrido, dois meses antes do tempo, assombrado por sintomas e prognósticos divergentes. Durante onze dias, Jake, sentado ao lado da incubadora na UCI, viu aquele corpo pequenino, arroxeado, lindo, com um quilo e meio, lutar pela vida enquanto um exército de médicos e enfermeiras observavam os monitores, ajustavam tubos e agulhas e abanavam a cabeça. Quando ficava sozinho, Jake tocava na incubadora e enxugava as lágrimas. Rezou como nunca tinha rezado. Dormia numa cadeira de baloiço, ao lado da filha, sonhando com uma bela menina de olhos azuis e cabelos negros a brincar com bonecas e a dormir no seu ombro. Conseguia até ouvir a voz dela.

Passado um mês, as enfermeiras começaram a sorrir e os médicos ficaram mais calmos. Os tubos foram removidos, um todos os dias, durante uma semana. O peso de Hanna subiu para dois quilos e vinte e cinco gramas e os pais muito felizes levaram-na para casa. O médico sugeriu que não tivessem mais filhos, a não ser que fossem adoptados.

Hanna estava perfeita agora e o som da sua voz podia ainda encher de lágrimas os olhos de Jake. Comeram e riram ao ouvirem Hanna ensinar as normas de higiene às bonecas.

- É a primeira vez que descansas, em duas semanas - disse Carla, quando estavam deitados em cima da manta.

Catamarãs de cores vivas cruzavam o lago, lá em baixo, desviando-se dos barcos a motor que puxavam esquiadores meio-bêbedos. - Fomos à igreja no domingo passado - disse ele.

- E tu pensaste o tempo todo no julgamento. - Ainda estou a pensar.

- Acabou, não acabou? - Não sei.

- Será que ele vai mudar de ideias?

- É possível, se o Lester falar com ele. É difícil dizer. Os negros são imprevisíveis, especialmente quando estão metidos em sarilhos. Ele fez um bom negócio. Conseguiu o melhor advogado criminal de Memphis e está livre.

- Quem é que paga?

- Um velho amigo de Memphis, um tipo chamado Cat Bruster.

- Quem é ele?

- Um rufião cheio da massa. Traficante de drogas, assassino, ladrão. Marsharfsky é advogado dele. Dois canalhas.

- O Carl Lee contou-te isso?

- Não. Ele não me quis dizer, por isso perguntei ao Ozzie. - O Lester sabe?

- Ainda não.

- Que queres dizer? Não lhe vais telefonar, pois não? - Bem, sim, estava a pensar nisso.

- Não achas que é ir longe demais?

- Acho que não. O Lester tem direito de saber, e... - Então o Carl Lee que lhe diga.

- Sim, devia, mas não lhe vai dizer. Cometeu um erro e ainda não se apercebeu.

- O problema é dele, não teu. Pelo menos, deixou de ser.

- O Carl Lee não tem coragem de contar ao Lester. Sabe que o Lester vai ficar furioso e dizer-lhe que cometeu outro erro. - Por isso cabe-te a ti interferir nas questões da família... - Não. Mas eu acho que o Lester devia saber.

- Tenho a certeza de que vai ler isso nos jornais.

- Talvez não - disse Jake, sem muita convicção. - Acho que Hanna quer mais sumo de laranja.

- E eu acho que tu queres mudar de assunto.

- O assunto não me incomoda. Eu quero a causa, e pretendo reavê-la. O Lester é a única pessoa que pode fazer isso.

Jake sentiu o olhar de censura de Carla. Olhou para um barco de pesca que derivava para um banco de lama na margem.

- Jake, sabes muito bem que isso é anti-ético. - A voz era calma, mas firme. As palavras saíam lentas e acusadoras.

- Não é verdade, Carla. Eu sou um advogado muito ético. - Tu sempre pregaste a ética, 'mas neste momento estás a planear solicitar a causa. Isso é imoral, Jake.

- Recuperar, não solicitar. - Qual é a diferença?

- Solicitar é anti-ético. Nunca vi nenhuma proibição contra recuperar.

- Não é correcto, Jake. O Carl Lee contratou outro advogado e está na hora de tu esqueceres o caso.

- E suponho que tu achas que o Marsharfsky se importa com opiniões sobre ética. Como é que julgas que ele conseguiu o caso? Foi contratado por um homem que nunca ouviu falar dele. Ele foi-lhe no encalço e conseguiu.

- E isso faz com que seja correcto que sejas tu, agora, a ir-lhe no encalço?

- Recuperar, não é correr atrás dele.

Hanna pediu biscoitos e Carla procurou no cesto de piquenique. Apoiado num cotovelo, Jake ignorou ambas. Pensou em Lucien. Que faria ele naquela situação? Provavelmente alugaria um avião, iria a Chicago e depois de dar algum dinheiro ao Lester,trá-lo-ia para Ford County, para intimidar o Carl Lee e fazê-lo desistir do novo advogado. Diria ao Lester que o Marsharfsky não pode advogar no Mississippi e, como ele é um estranho, os brancos do júri não iriam acreditar nele. Lucien telefonaria para o Marsharfsky acusando-o de oportunismo e ameaçando-o com uma queixa formal contra seu comportamento anti-ético, assim que ele pusesse os pés no Mississippi. Mandaria os seus amigos negros falar com a Gwen e o Ozzie e convencê-los de que o único advogado com alguma hipótese de ganhar a causa era Lucien Wilbanks. Finalmente, o Carl Lee seria vencido e contrataria Lucien.

Era isso exactamente o que Lucien faria. E estamos a falar de ética.

- Porque sorris? - perguntou Carla.

- Estava a pensar como é bom estar aqui contigo e com a Hanna. Não fazemos isso muitas vezes.

- Ficaste desiludido, não ficaste?

- Claro! Não vai aparecer mais nenhum caso como este. Ganhando-o, sou o maior advogado destas bandas. Não precisaríamos de nos preocupar com dinheiro nunca mais.

- E se perdesses?

- Mesmo assim seria um trunfo. Mas não posso perder o que não tenho.

- Constrangido?

- Um bocado. Não é fácil aceitar uma coisa destas. Todos os advogados de Ford County devem estar a gozar, excepto talvez Harry Rex. Mas vou conseguir superar tudo isso.

- Que faço ao álbum de recortes?

- Guarda-o. Talvez o consigas completar.

A cruz era pequena, dois metros e setenta e cinco centímetros de comprimento por um metro e vinte de largura, feita para caber deitada numa pick-up sem chamar a atenção. Cruzes muito maiores eram usadas para os rituais, mas as pequenas funcionavam melhor nas investidas nocturnas aos bairros residenciais. Não eram usadas com frequência, ou pelo menos não com a frequência desejada pelos homens que as armavam. Na verdade, há muitos anos não eram usadas- em Ford County. A última fora erguida no quintal de um negro acusado de violentar uma mulher branca.

Algumas horas antes do amanhecer, na segunda-feira, a cruz foi retirada rápida e silenciosamente da pick-up e plantada nun, buraco com 25 centímetros de profundidade, recém-cavado no jardim da elegante casa vitoriana da rua Adams. Uma pequena tocha foi atirada ao pé da cruz e em segundos ela estava em chamas. A pick-up desapareceu na noite e parou num telefone público na periferia da cidade, onde uma chamada foi feita para a central de polícia.

Momentos depois, o sub-delegado Marshall Prather entrou na rua Adams e viu imediatamente a cruz em chamas no jardim da casa de Jake. Ele enveredou pela entrada de automóvel e parou atrás do Saab. Tocou à campainha e ficou na varanda, a olhar para as chamas. Eram quase três e trinta. Tocou outra vez. A rua estaria escura e silenciosa não fossem o clarão da cruz e o crepitar da madeira a arder a quinze metros de distância. Finalmente, Jake passou aos tropeções pela porta da frente e parou bruscamente, apavorado, junto do sub-delegado. Ambos estavam lado a lado na varanda, embasbacados não só pela cruz em chamas mas também pela intenção que havia naquilo.

- Bom dia, Jake - disse Prather, por fim, sem tirar os olhos do fogo.

- Quem fez uma coisa destas? - perguntou Jake com voz rouca.

- Não sei. Não disseram o nome. Só telefonaram a avisar. - Quando é que telefonaram?

- Há quinze minutos.

Jake passou os dedos pelo cabelo tentando evitar que ficasse inteiramente revoltado na aragem suave.

- Vai arder durante quanto tempo? - perguntou, certo de que Prather sabia tanto como ele, ou ainda menos, sobre cruzes em chamas.

- Não falto a mínima ideia. Provavelmente está encharcada em querosene. E a isso que cheira, em todo o caso. Pode arder durante umas duas horas. Quer que eu chame os bombeiros?

Jake olhou para um lado e depois para o outro da rua. Todas as casas estavam silenciosas e escuras.

- Não. Não precisa de acordar toda a gente. Deixe arder. Não vai danificar nada, pois não?

- O jardim é seu.

Prather não se moveu. Ficou ali parado, com as mãos nos bolsos, a barriga caída sobre o cinturão.

- Há muito tempo não tínhamos uma destas por aqui. A última de que me lembro foi em Karaway, em mil novecentos e sessenta...

- Sessenta e sete. - Lembra-se?

- Sim. Eu estava no liceu. Fomos de carro vê-la arder. - Como era o nome do negro?

- Robinson, não sei quê Robinson. Disseram que ele atacou Velma Thayer.

- Tinha mesmo sido ele? - perguntou Prather.

- O júri achou que sim. Ele está em Parchman a colher algodão até ao fim da vida.

Prather pareceu satisfeito.

- Vou chamar a Carla - disse Jake, entrando. Voltou com Carla atrás de si.

- Meu Deus, Jake. Quem é que fez isto? - Sei lál...

- É o KKK? - perguntou ela.

- Deve ser - respondeu o sub-delegado. - Não conheço mais ninguém que queime cruzes, você conhece, Jake?

Jake abanou a cabeça.

- Pensei que eles tinham ido embora de Ford County há muitos anos - disse Prather.

- Pois parece que voltaram - observou Jake.

Carla ficou imóvel, cobrindo a boca com a mão, apavorada. O brilho do fogo avermelhava-lhe o rosto.

- Faz alguma coisa, Jake. Apaga aquilo.

Jake olhou para o fogo e outra vez para os dois lados da rua. Os estalidos e o crepitar estavam cada vez mais altos e as chamas alaranjadas subiam na noite. Durante um momento ele esperou que se apagasse logo, sem ser visto por mais ninguém a não ser por eles três, e que simplesmente se extinguisse e fosse esquecido e que ninguém em Clanton viesse alguma vez a saber. Depois sorriu da própria ingenuidade. Prather resmungou e era evidente que estava cansado de ficar de pé na varanda.

- Ouça, Jake, ah, eu não queria tocar no assunto, mas pelo que li nos jornais eles vieram ter com o advogado errado. É ou não é verdade?

- Acho que não sabem ler - murmurou Jake. - Provavelmente não sabem.

- Diga-me uma coisa, Prather, sabe da existência de algum membro do Klan em Ford County?

- Nenhum. Temos alguns no sul do estado, mas não por aqui. Não que eu saiba. O FBI disse-nos que o Klan era coisa do passado.

- Isso não é muito reconfortante. - Porquê?

- Porque esses tipos, se são membros do Klan, não são daqui. Visitantes vindos não sabemos de onde. Significa que não estão a brincar, não acha, Prather?

- Não sei. Ficaria mais preocupado se fosse gente daqui a trabalhar com o Klan. Podia significar que o Klan está de volta.

- O que é que isso significa, a cruz? - perguntou Carla ao polícia.

- É um aviso. Quer dizer, pare com o que anda a fazer, ou da próxima vez vamos queimar mais do que um pedaço de madeira. Usaram essas coisas durante anos para intimidar os brancos que simpatizavam com negros e com toda aquela coisa dos direitos civis. Se os brancos não deixavam de proteger os negros, começava a violência. Bombas, dinamite, espancamentos, até assassinatos. Mas isso foi há muito tempo, julgo eu. No seu caso, este é o modo que eles têm de dizer a Jake que fique longe do Hailey. Mas como ele deixou de ser o advogado do Hailey, não sei o que significa.

- Vai ver da Hanna - disse Jake a Carla e ela entrou.

- Se tiver uma mangueira, eu encarrego-me de apagar o fogo - ofereceu Prather.

- Boa ideia - disse Jake. - Eu não gostaria que os vizinhos vissem.

Jake e Carla, de roupão, ficaram na varanda vendo o subdelegado borrifar a cruz em chamas. A madeira chiou e deitou fumo quando a água cobriu a cruz e apagou o fogo. Prather enso pou-a durante quinze minutos, depois enrolou cuidadosamente a mangueira e colocou-a atrás dos arbustos, no canteiro, perto dos degraus da frente da casa.

- Obrigado, Marshall. Vamos manter isso entre nós, está bem?

Prather enxugou as mãos nas calças e ajeitou o chapéu.

- Claro. Tranque bem tudo. Se ouvir qualquer coisa, telefone para a central. Estaremos de olho aberto durante os próximos dias. Saiu em marcha atrás e desceu lentamente a rua Adams em direcção à praça. Jake e Carla sentaram-se no baloiço da varanda e ficaram a olhar para a cruz fumegante.

- Sinto-me como se estivesse a olhar para um número antigo da revista Life - disse Jake.

- Ou um capítulo de um manual de história do Mississippi. Talvez lhes devêssemos dizer que foste despedido.

- Obrigado. - Obrigado? - Por seres tão frontal.

- Desculpa. Devia ter dito dispensado, ou exonerado.

- Diz apenas que ele arranjou outro advogado. Estás mesmo assustada, não estás?

- Sabes perfeitamente que estou. Estou apavorada. Se eles podem queimar uma cruz no nosso jardim, o que é que os impede de incendiar a nossa casa? Não vale a pena, Jake. Eu quero que tu sejas feliz, que tenhas sucesso e todas essas coisas maravilhosas, mas não à custa da nossa segurança. Nenhuma causa vale isso.

- Estás satisfeita por eu ter sido despedido?

- Estou satisfeita por ele ter arranjado outro advogado. Talvez nos deixem em paz agora.

Jake enlaçou-a com o braço e puxou-a para o seu colo. O baloiço oscilou suavemente. Ela estava linda, às três e trinta da manhã, no seu roupão.

- Eles não vão voltar, pois não? - perguntou ela.

- Não. Não têm mais nada a ver connosco. Vão descobrir que estou fora do caso e vão telefonar, a pedir desculpas.

- Não tem graça nenhuma, Jake. - Eu sei.

- Achas que as pessoas vão saber?

- Não durante uma hora... Quando o Cbffee Shop abrir, às cinco, Dell Perkins ficará a saber todos os detalhes antes de servir a primeira chávena de café.

- O que é que lhe vais fazer? - perguntou Carla indicando com um movimento de cabeça a cruz agora quase invisível sob a meia-lua.

- Tive uma ideia. Vamos pôr a cruz no carro, levá-la para Memphis e queimá-la no jardim do Marsharfsky.

- Eu vou para a cama.

Às nove horas, Jake tinha terminado de ditar a sua moção para retirar o nome dos autos como advogado de Hailey. Ethel dactilografava com satisfação o documento quando interrompeu Jake:

- Dr. Brigance, tem um Dr. Marsharfsky ao telefone. Eu disse-lhe que o senhor estava em reunião e ele disse que esperava.

- Eu falo com ele - Jake pegou no auscultador. - Está? - Dr. Brigance, Bo Marsharfsky, de Memphis. Como está? - Maravilhosamente.

- Ainda bem. Estou certo de que leu o jornal da manhã no sábado e no domingo. Vocês recebem jornais em Clanton?

- Recebemos e temos telefone e correio.

- Então viu as reportagens sobre o Sr. Hailey? - Vi. O senhor escreve uns artigos muito bons.

- Vou ignorar isso. Se tiver um minuto, eu gostaria de conversar sobre o caso Hailey.

- Seria um prazer.

- De acordo com as normas de procedimento do Mississippi, o advogado de outro estado deve associar-se a um advogado local para fins de julgamento.

- Quer dizer que não tem licença para advogar no Mississippi? - perguntou Jake, incrédulo.

- Bem, não, não tenho.

- Não mencionou isso nos seus artigos.

- Vou ignorar isso também. Os juizes exigem a presença de advogados locais em todos os casos?

- Alguns exigem, outros não. - Compreendo. E o Noose? - Às vezes.

- Obrigado. Bem, eu, geralmente, associo-me a um advogado local quando actuo em processos pelo país fora. O pessoal do lugar sente-se melhor quando vê um dos seus sentado ao meu lado. - Ainda bem.

- Não creio que esteja interessado em...

- Deve estar a brincar! - gritou Jake. - Acabo de ser despedido e agora o senhor quer-me para lhe transportar a pasta! Está maluco! Eu não associaria nunca o meu nome ao seu.

- Espere um pouco, seu provinciano...

- Espere o senhor, doutor. Pode ser uma surpresa para si, mas neste estado temos um código de ética e leis contra o aliciamento de causas e clientes. Custear processos alheios visando pro veito pessoal é crime no Mississippi, bem como na maioria dos estados, não sabia? Temos princípios éticos que proíbem que se corra atrás de ambulâncias e se aliciem pacientes. Ética, Sr. Tubarão, já ouviu falar nisso?

- Eu não corro atrás de causas, meu filho. Elas é que me procuram.

- Como Carl Lee Hailey. Quer que eu acredite que ele encontrou o seu nome nas páginas amarelas. Tenho a certeza de que seu anúncio ocupa uma página inteira, ao lado das clínicas de aborto.

- Ele foi-me recomendado.

- Sim, pelo seu patrão. Sei exactamente como conseguiu o caso. Aliciamento puro e simples. Eu talvez apresente queixa à Ordem dos Advogados. Melhor ainda, poderia fazer com que o júri de instrução examinasse os seus métodos.

- Sim, sei que o senhor e o promotor são muito amigos. Bom dia, doutor.

Marsharfsky ficou com a última palavra. Jake ferveu de raiva durante uma hora, antes de se conseguir concentrar no parecer que estava a escrever. Lucien teria ficado orgulhoso dele.

Um pouco antes do almoço, Jake recebeu um telefonema de Walter Sullivan, da firma Sullivan.

- Jake, meu amigo, como está? - Optimamente.

- Ainda bem. Ouça, Jake, Bo Marsharfsky é um velho amigo meu. Defendemos há alguns anos dois funcionários de bancos acusados de fraude. Ganhámos a causa. É um advogado de alto lá com ele! Vou-me associar a ele como advogado local no caso de Carl Lee Hailey. Eu só queria saber...

Jake desligou-lhe o telefone e saiu do escritório. Passou a tarde na varanda da casa de Lucien.

 

Gwen não tinha o número do telefone de Lester. Nem Ozzie, nem ninguém. A telefonista disse que havia duas páginas de Hailey na lista de Chicago, pelo menos uns doze Lester Hailey e vários L. S. Hailey. Jake pediu os números dos cinco primeiros Lester Hailey e telefonou para todos. Eram todos brancos. Ligou para Tank Scales, dono de um dos mais seguros e sofisticados bares de negros do condado. Tank's, como era chamado. Lester era frequentador assíduo. Tank era um cliente e muitas vezes dava a Jake informações valiosas e confidenciais sobre vários negros, o que faziam e onde estavam.

Tank parou no escritório de Jake, na terça de manhã, a caminho do banco.

- Viu o Lester Hailey nas duas últimas semanas? - perguntou-lhe Jake.

- Claro. Passou vários dias no bar a jogar bilhar e a beber cerveja. Voltou para Chicago neste último fim de semana, disseram-me. Deve ter voltado, porque não voltei a vê-lo.

- Com quem andava ele? - Quase sempre sozinho. - E Iris?

- Pois, ele levou Iris umas duas vezes quando Henry estava fora da cidade. Eu fico nervoso quando ele lá vai com ela. Henry é má rês. Ele é capaz de fazer os dois em bocados se souber que andam os dois a encontrar-se.

- Há dez anos que eles se encontram, Tank!

- Pois é... e ela tem dois filhos do Lester. Toda a gente sabe isso, menos o Henry. Pobre e velho Henry. Um dia destes descobre e o Jake terá outro caso de homicídio.

- Ouça, Tank, pode falar com a Iris?

- Ela não aparece muito.

- Não foi isso que perguntei. Preciso do telefone do Lester, em Chicago. Pensei que a Iris devia ter.

-Tenho a certeza de que tem. Acho que o Lester lhe manda dinheiro

- Pode pedir-lho para mim? Preciso de falar com o Lester. - Claro, Jake. Se ela o tiver, eu arranjo-lho.

Na quarta-feira, o escritório de Jake voltou ao normal. Os clientes começaram a aparecer. Ethel procurava ser agradável, tanto quanto uma velha rabugenta pode sê-lo. Jake continuou na sua rotina, mas visivelmente abatido. Deixou de ir ao Coffee Shop e evitava o tribunal, encarregando Ethel de entregar documentos, verificar o andamento dos processos, ou qualquer outra coisa que exigisse a sua presença no edifício do outro lado da praça. Jake estava desiludido, humilhado e preocupado, e com dificuldade em concentrar-se noutros casos. Pensou em tirar umas longas férias, mas naquele momento não podia fazê-lo. O dinheiro era escasso e não se sentia motivado para o trabalho. Passava a maior parte do tempo no escritório, fazendo muito pouco, a olhar para o edifício do tribunal e para a praça lá em baixo.

Pensava em Carl Lee, na cela, a poucos metros do seu escritório, e pela milésima vez perguntava a si mesmo por que fora traído. Insistira muito para que Carl Lee arranjasse dinheiro, esquecen do-se de que havia muitos advogados dispostos a aceitar o caso de graça. Odiava Marsharfsky. Lembrava-se das vezes em que tinha visto Marsharfsky a entrar e a sair dos tribunais, em Memphis, a proclamar a inocência dos seus pobres clientes e a denunciar maus-tratos sofridos por eles. Traficantes, "protectores", políticos corruptos e nojentos, assassinos a soldo. Todos culpados, todos a merecerem longas sentenças, até mesmo de morte. Marsharfsky era ianque, com uma pronúncia anasalada de algures no centro-oeste, capaz de irritar qualquer pessoa ao sul de Memphis. Um actor consumado, olhava directamente para a câmara e choramingava, "O meu cliente foi horrivelmente maltratado pela polícia de Memphis". Jake tinha visto isso uma dúzia de vezes. "O meu cliente é completa, total e absolutamente inocente. Não devia estar a ser julgado. O meu cliente é um cidadão exemplar, paga todos os impostos exigidos por lei." E o que me diz das quatro condenações anteriores por extorsão? "Foi uma armadilha do FBI. Armada pelo governo. Além disso, ele pagou a dívida. Desta vez, é inocente." Jake odiava-o e, por aquilo de que se conseguia lembrar, Marsharfsky tinha perdido tantas causas quantas tinha ganho.

Na tarde de quarta-feira, Marsharfsky ainda não tinha aparecido em Clanton. Ozzie prometeu informar Jake se ele aparecesse na cadeia.

O Tribunal Itinerante estaria em sessão até à sexta-feira, e seria de boa educação fazer uma breve visita ao juiz Noose e explicar as circunstâncias do seu afastamento do caso. O meritíssimo presidia ao julgamento de uma questão cível e havia uma boa chance de Buckley estar ausente. Tinha de estar. Jake não podia ser visto nem ouvido.

Noose, geralmente, fazia um intervalo de dez minutos, por volta das três horas, e, exactamente, a essa hora, Jake entrou no gabinete do juiz pela porta lateral. Não foi visto por ninguém. Sen tou-se pacientemente ao lado da janela, esperando que Ichabod descesse do seu estrado e entrasse no gabinete. Cinco minutos depois a porta abriu-se e o meritíssimo entrou.

- Jake, como tem passado? - perguntou.

- Bem, Sr. Dr. Juiz. Pode conceder-me um minuto? - perguntou Jake, quando o juiz fechou a porta.

- É claro que sim, sente-se. De que se trata? - Noose tirou a toga, atirou-a para cima de uma cadeira e estendeu-se na mesa, fazendo cair livros, dossiers e o telefone. Ficou imóvel, cruzou as mãos sobre a barriga, fechou os olhos e respirou fundo. - São as minhas costas, Jake. O médico mandou-me deitar numa superfície dura sempre que possível.

- Ah, é claro, Sr. Dr. Juiz. Quer que eu saia? - Não, não. De que se trata?

- Do caso Hailey.

- Foi o que eu pensei. Eu vi a sua moção. Ele arranjou outro advogado, não foi?

- Sim, senhor. Eu não fazia a mínima ideia. Esperava que o caso fosse julgado em Julho.

- Não precisa de pedir desculpa, Jake. A moção para se retirar do caso será deferida. A culpa não é sua. Acontece muitas vezes. Quem é esse Marsharfsky?

- Sim, senhor. De Memphis.

- Com um nome desses, deve fazer sucesso em Ford County...

- Sim, senhor. - Quase tão ruim quanto Noose, pensou Jake. - Ele não tem licença para advogar no Mississippi.

- Isso é interessante. Ele está a par das nossas normas de procedimento?

- Não sei se ele já actuou alguma vez no Mississippi.

Disse-me que, normalmente, se associa a um advogado local quando anda pelo país.

- Pelo país?

- Foi o que ele disse.

- Bem, é melhor que se associe se pretende entrar no meu tribunal. Tenho tido péssimas experiências com advogados de outros estados, especialmente de Memphis.

- Sim, senhor.

Noose respirava com mais força e Jake resolveu ir embora. - Sr. Dr. Juiz, tenho de ir indo... Se não o vir em Julho, vêlo-ei em Agosto. Tome cuidado com as suas costas.

- Obrigado, Jake. Trate bem de si, também.

Jake estava quase na porta das traseiras do pequeno gabinete quando a porta da frente se abriu e o ilustre L. Winston Lotterhouse e outro ferrabrás da firma Sullivan entraram no gabinete.

- Olá, Jake - disse Lotterhouse. Conhece K. Peter Otter, o nosso novo contratado?

- Prazer em conhecê-lo, K. Peter - disse Jake. - Viemos interromper alguma coisa?

- Não, eu ia mesmo a sair. O juiz Noose está a descansar as costas e eu ia-me embora.

- Sentem-se, meus senhores - disse o juiz. Lotterhouse farejou sangue.

- Ouça, Jake, estou certo de que Walter Sullivan o informou de que a nossa firma será a representante local na defesa de Carl Lee Hailey.

- Foi o que me disseram.

- Lamento muito o que aconteceu consigo. - Os seus sentimentos comovem-me.

- É um caso interessante para a nossa firma. Como sabe, não temos muitas causas criminais.

- Sim, eu sei - disse Jake, à procura de um buraco para se esconder. - Preciso de me ir embora. Foi muito agradável falar consigo, L. Winston. Foi um prazer conhecê-lo, K. Peter. Os meus cumprimentos ao J. Walter e ao R Robert e à rapaziada toda.

Jake saiu pela porta das traseiras do tribunal e amaldiçoou-se a si mesmo por mostrar a cara onde podia ser esbofeteado. Correu para o escritório.

- Tank Scales telefonou? - perguntou a Ethel já na escada. - Não. Mas o Sr. Buckley está à sua espera.

Jake parou no primeiro degrau.

- À espera onde? - perguntou sem mexer os maxilares.

- Lá em cima, no seu gabinete.

Jake caminhou vagarosamente até à mesa de Ethel e inclinou-se de modo a ficar a algumas polegadas do rosto dela. Ethel pecara e sabia-o. Jake olhou para ela ferozmente.

- Eu não sabia que ele tinha hora marcada. - Novamente os maxilares não se mexeram.

- Não tinha - respondeu ela, com os olhos pregados na mesa.

- Não sabia que ele era dono deste prédio. Ethel não se mexeu, nem respondeu.

- Não sabia que ele tinha uma chave do meu escritório.

Ela não se mexeu nem disse uma só palavra. Jake aproximou-se mais.

- Eu devia despedi-la por causa disto.

O lábio dela tremeu. Parecia completamente indefesa.

- Estou farto de si, Ethel. Farto da sua atitude, da sua voz, da sua insubordinação. Farto do modo como trata as pessoas, farto de tudo em si.

Os olhos dela encheram-se de lágrimas. - Lamento muito.

- Não, não lamenta. Sabe, e sabe há anos que ninguém, ninguém neste mundo, nem mesmo a minha mulher, sobe esta escada e entra no meu escritório se eu cá não estiver.

- Ele insistiu...

- Ele é um cretino. É pago para intimidar. Mas não neste escritório.

- Psiu. Ele pode ouvir.

- Pouco me importa. Ele sabe que é um cretino.

Jake aproximou-se mais, até os narizes quase se tocarem. - Quer continuar neste emprego, Ethel?

Ela fez que sim com a cabeça, incapaz de dizer uma palavra. - Pois então faça exactamente o que lhe vou dizer. Vá ao meu gabinete, pegue no Sr. Buckley e leve-o para a sala de conferências. Eu vou lá ter com ele. E nunca mais faça isto!

Ethel enxugou as lágrimas e subiu a escada a correr. Momentos depois, o promotor público estava sentado na sala de conferências com a porta fechada. À espera... Jake estava perto, na cozinha,

a beber sumo de laranja e a avaliar Buckley. Bebia devagar. Passado um quarto de hora, abriu a porta e entrou na sala. Buckley estava sentado numa ponta da comprida mesa de conferências. Jake sentou-se na outra ponta, bem longe dele.

- Olá, Rufus. Que quer?

- Belo lugar este. Os antigos escritórios de Lucien, se não estou enganado.

- Está certo. O que o traz por cá? - Queria apenas fazer uma visita. - Tenho muito que fazer.

- E queria conversar sobre o caso Hailey. - Procure o Marsharfsky.

- Eu estava ansioso para começar a luta, especialmente consigo do outro lado. Você é um adversário de valor, Jake.

- Muito honrado...

- Não me interprete mal. Não gosto de si, e já não gosto há muito tempo.

- Desde o Lester Hailey.

- Sim, acho que tem razão. Você ganhou, mas fez batota. - Ganhei, e isso é que importa. E não fiz batota. Você foi apanhado com as calças na mão.

- Você aldrabou e o Noose permitiu.

- Pode dizer o que quiser. Eu também não gosto de si.

- óptimo. Isso faz com que me sinta melhor. O que é que sabe sobre Marsharfsky?

- É por isso que está aqui? - Talvez.

- Não o conheço pessoalmente, mas se ele fosse meu pai, eu não lhe diria nada a si. Que mais é que quer?

- Tenho a certeza de que você falou com ele.

- Trocámos algumas palavras ao telefone. Não me vai dizer que está preocupado com ele.

- Não. Apenas curioso. Ele tem uma boa reputação.

- Sim, tem. Não veio até aqui para falar comigo àcerca da reputação dele.

- Não, realmente. Eu queria falar sobre o caso. - O quê, por exemplo?

- As hipóteses de absolvição, as possíveis defesas, estaria ele realmente insano? Essas coisas.

- Pensei que você tinha garantido uma condenação. Em frente das câmaras, lembra-se? Logo a seguir ao indiciamento. Numa das suas conferências de imprensa.

- Já está a sentir a falta das câmaras, Jake?

- Fique descansado, Rufus. Eu estou fora do jogo. As câmaras são todas suas, pelo menos suas, do Marsharfsky e do Walter Sullivan. Vá ao encontro delas, campeão. Se lhe roubei um bocadinho do seu foco de luz, peço mil desculpas. Sei quanto isso lhe é doloroso.

- Desculpas aceites. O Marsharfsky esteve na cidade? - Não sei.

- Ele prometeu uma conferência de imprensa para esta semana.

- E você veio aqui falar sobre essa conferência, certo?

- Não. Eu queria falar sobre Hailey, mas é claro que você tem mais que fazer.

- Tem razão. Além disso, não tenho nada para conversar consigo, senhor governador.

- Isso é ofensivo.

- Porquê? Sabe que é verdade. Você acusaria a própria mãe em troca de umas poucas manchetes nos jornais.

Buckley levantou-se e começou a andar de um lado para o outro atrás da cadeira.

- Eu queria que ainda estivesse no caso, Brigance - disse, elevando a voz.

- Eu também.

- Eu ia ensinar-lhe algumas coisas sobre acusação de assassinos. Eu queria mesmo era arrasá-lo.

- Não foi muito bem-sucedido no passado.

- Por isso é que eu o queria a si neste caso, Brigance. - Queria imenso. - A cara dele voltou ao vermelho vivo que Jake conhecia tão bem.

- Haverá outros, governador.

- Não me chame assim - gritou ele.

- É verdade, não é, governador? É por isso que persegue as câmaras com tanta insistência. Toda a gente sabe isso. Lá vai o velho Rufus, à caça das câmaras, na corrida para governador. É claro que é verdade.

- Faço o meu trabalho. Acuso facínoras. - Cari Lee Hailey não é nenhum facínora. - Vai ver-me dar cabo dele.

- Não vai ser assim tão fácil... - Espere e verá!

- São necessários doze votos de doze jurados. - Não há problema.

- Como o seu júri de instrução?

Buckley interrompeu as passadas. Semicerrou os olhos e franziu a testa. Três imensas rugas apareceram na testa enorme.

- O que sabe você sobre o júri de instrução?

- Tanto quanto você. Um voto a menos e fazia figura de parvo.

- Não é verdade!

- Deixe-se disso, governador. Não está a falar com um repórter. Sei exactamente o que aconteceu. Fiquei a saber passadas algumas horas.

- Vou dizer isso ao Noose.

- E eu digo aos jornais. Será uma beleza antes do julgamento. - Não teria coragemde fazer isso!

- Agora não. Não tenho motivo para isso. Fui despedido, lembra-se? É por isso que está aqui, não é, Rufus? Para me lembrar que eu deixei de estar no caso, mas que você está. Para esfregar um pouco de sal na ferida. Muito bem, já o fez. Agora, quero que saia. Vá tratar do seu júri de instrução. Ou talvez um repórter esteja à sua espera no tribunal. Vá-se embora.

- Com prazer. Lamento se o incomodei. - Também eu.

Buckley abriu a porta que dava para o corredor e parou.

- Eu menti, Jake. Estou satisfeitíssimo por você não estar neste caso.

- Eu sei que mentiu. Mas não fique tão certo de que estou fora.

O júri de instrução de Ford County tinha andado atarefado e, na quinta-feira da segunda semana de sessões, Jake foi contratado por dois acusados recém-indiciados. Um era um negro que tinha esfaqueado outro negro na taberna Massey's, em Abril. Jake apreciava os esfaqueamentos porque as absolvições eram possíveis; bastava conseguir um júri de brancos parolos que tinham mais que fazer do que se importarem com os negros que se esfaqueavam mutuamente. Eles estavam a divertir-se na taberna, as coisas aqueceram, um foi esfaqueado, mas não morreu. Se não há lesão, não há condenação. Era semelhante à estratégia que Jake aprendera com Lester Hailey. O novo cliente prometeu mil e quinhentos dólares, mas antes tinha de pagar a fiança.

O outro novo indiciado era um garoto branco apanhado a conduzir uma pick-up roubada. Era a terceira vez que o apanhavam num carro roubado e não era possível evitar que passasse sete anos em Parchman. Ambos estavam presos e isso dava a Jake a oportunidade, e o dever, de visitá-los e de consultar Ozzie; no fim da tarde de quinta-feira, encontrou o xerife no escritório.

- Está ocupado? - perguntou Jake. Uns cinquenta quilos de papel estavam espalhados na mesa e no chão.

- O que é que isso quer dizer? - Até à próxima, Rufus.

- Não, só papelada. Mais alguma cruz em chamas? - Não, graças a Deus. Uma chega.

- Ainda não vi o seu amigo de Memphis.

- É estranho - disse Jake. - Imaginei que a esta altura já cá estivesse. Tem falado com o Carl Lee?

-Todos os dias. Ele está a ficar nervoso. O advogado nem sequer telefonou, Jake.

- Óptimo. Deixe-o suar um pouco. Não tenho pena dele. - Acha que ele cometeu um erro?

- Eu sei que sim. Conheço esses tipos de cá, Ozzie, e sei como agem quando fazem parte de um júri. Não vão ficar impressionados com um estranho de falinhas mansas. Não está de acordo?

- Não sei. O advogado é você. Não duvido do que diz, Jake. Eu já o vi a trabalhar.

- Ele nem licença tem para advogar no Mississippi. O juiz Noose está à coca. Ele detesta advogados de fora do estado.

- Está a brincar?

- Não. Falei com ele ontem.

Ozzie pareceu perturbado e olhou atentamente para Jake. - Quer falar com ele?

- Falar com quem? - Com o Carl Lee.

- Não! Não tenho nenhum motivo para vê-lo. - Jake passou os olhos pelo interior da sua pasta. - Preciso ver Leroy Glass, agressão qualificada.

- Ficou com o Leroy?

- Sim. A família dele procurou-me esta manhã. - Venha comigo.

Jake esperou na sala do teste de alcoolismo enquanto um preso com regalias foi buscar o novo cliente. Leroy usava o uniforme da cadeia de Ford County, macacão laranja que brilhava no escuro. Estava com a cabeça cheia de rolos de cabelo de esponja corde-rosa e duas tranças ensebadas coladas na nuca. Os pés negros, grossos e secos como couro eram protegidos do chão sujo por chinelos verde-limão de veludo frisado. Sem meias. Uma cicatriz antiga e feia começava perto da orelha direita, passava pelo alto do rosto e ia parar na narina direita. Era uma prova, além de qualquer dúvida razoável, de que Leroy não era estranho a punhaladas e golpes. Ostentava a cicatriz como uma medalha. Fumava Kools.

- Leroy, sou Jake Brigance. - Jake apresentou-se, apontando para uma cadeira de lona ao lado da máquina da Pepsi. - A sua mãe e o seu irmão contrataram-me esta manhã.

- É um prazer conhecê-lo, Dr. Jake.

Um preso com regalias esperava no corredor, ao lado da porta, enquanto Jake falava com o cliente. Jake encheu três páginas do seu bloco-notas sobre Leroy Glass. Naquele momento, o dinheiro tinha prioridade. De quanto dispunha o cliente e onde podia arranjar mais. Falariam das facadas depois. Tias, tios, irmãos, irmãs, amigos, qualquer pessoa com um bom emprego que pudesse fazer um empréstimo. Jake anotou os números dos telefones.

- Quem me recomendou? - perguntou Jake.

- Eu vi o senhor na TV, Dr. Jake. O senhor e o Carl Lee Hailey.

Jake ficou orgulhoso, mas não sorriu. A televisão era apenas uma parte do seu trabalho.

- Conhece o Carl Lee?

-Isso mesmo, e o Lester também. O senhor foi advogado do Lester, não foi?

- Fui.

- Eu e o Carl Lee estamos na mesma cela. Puseram-me lá, na noite passada.

- Ah, sim?

- Pois foi. Ele não fala muito. Disse que o senhor é um advogado porreiro e tudo, mas que ele encontrou outro, de Memphis.

- Exactamente. Que é que ele acha do novo advogado?

- Não sei, Dr. Jake. Hoje de manhã ele estava danado da vida porque o novo advogado ainda não apareceu. Disse que o senhor vinha sempre conversar com ele sobre o processo, mas que

o novo advogado, com um nome complicado, nem sequer ainda conhece o Carl Lee.

Jake ficou muito sério para disfarçar a satisfação, o que não foi fácil.

- Vou-lhe dizer uma coisa, se você prometer não contar ao Carl Lee.

- Diga.

- O novo advogado não pode vir falar com ele. - Não? Porquê?

- Porque não tem licença para advogar no Mississippi. É do Tennessee. Se entrar sozinho no tribunal, vai ser expulso. Acho que o Carl Lee cometeu um grande erro.

- Porque não lhe diz isso?

- Porque ele já me despediu. Já não posso aconselhá-lo... - Alguém devia dizer-lhe.

- Você prometeu que não ia dizer nada, certo? - Está bem, não digo.

- Promete? - Juro!

- Muito bem. Agora, tenho de ir andando. Vou encontrar-me com o fiador de manhã, e talvez você saia dentro de um dia ou dois. Nem uma palavra ao Carl Lee, certo?

- Certo. Tank Scales estava encostado ao Saab, no estacionamento, quando Jake saiu da cadeia. Esmagou com o pé uma ponta de cigarro e tirou um papel do bolso da camisa.

- Dois números. O de cima é da casa, o de baixo, do trabalho. Mas só telefone para o trabalho em último caso.

- Bom trabalho, Tank. Foi a Iris?

- Foi. Não queria... Passou pelo bar, ontem à noite, e eu enfrasquei-a.

- Fico em dívida para consigo.

- Há-de pagar-me, mais cedo ou mais tarde.

Estava escuro, eram quase oito horas. O jantar estava frio, mas isso era habitual. Por isso Jake comprara um micro-ondas. Carla estava habituada ao horário e ao jantar requentado e não se queixava. Jantavam quando ele chegava em casa, fosse às seis da tarde ou às dez da noite.

Jake seguiu da cadeia para o escritório. Não queria telefonar para Lester da sua casa, não com Carla por perto. Sentou-se à sua mesa e olhou para os números que Tank tinha conseguido. Carl Lee tinha dito para ele não telefonar. Por que não devia telefonar? Seria suplicar? Seria anti-ético? Seria anti-ético telefonar para Lester e contar que Carl Lee o despedira e contratara outro advogado? Não. Deveria responder às perguntas de Lester sobre o novo advogado? Não. E dizer que estava preocupado? Não. E criticar o novo advogado? Provavelmente não. Seria anti-ético convencer Lester a falar com o irmão? Não. E convencer Carl Lee a despedir Marsharfsky? Provavelmente sim. E contratar Jake outra vez? Sim, sem dúvida alguma. Isso seria completamente anti-ético. E se telefonasse para Lester só para falar sobre Carl Lee e deixar que a conversa seguisse o próprio curso?

- Está lá?

- É de casa de Lester Hailey?

- É. Quem fala? - perguntou a sueca com o sotaque dela. - Jake Brigance, do Mississippi.

- Um momento.

Jake consultou o relógio. Oito e meia. Era a mesma hora em Chicago, não era?

- Jake!

- Lester, como tem passado?

- Bem, Jake. Cansado, mas bem. E você?

- Muito bem. Ouça, falou com o Carl Lee, esta semana?

- Não. Saí daí na sexta-feira e tenho trabalhado dois turnos desde domingo. Não tenho tempo para nada.

- Tem lido os jornais?

- Não. Aconteceu alguma coisa? - Não vai acreditar, Lester.

- O que foi, Jake?

- O Carl Lee despediu-me e contratou um advogado importante de Memphis.

- O quê? Está a falar a sério? Quando?

- Na sexta-feira. Acho que logo a seguir a você se ter ido embora. Ele nem se deu ao trabalho de me dizer. Soube pelo jornal de Memphis, no sábado de manhã.

- Ele está louco. Porque é que ele fez uma coisa dessas, Jake? Quem é que ele contratou?

- Conhece um tipo chamado Cat Bruster, de Memphis? = Claro.

- É o advogado desse. Cat é que paga. Veio de Memphis na sexta-feira e falou com Carl Lee na cadeia. Na manhã seguinte, vi o meu retrato no jornal e fiquei a saber que tinha sido despedido. - Quem é o advogado?

- Bo Marsharfsky. - É bom?

- É um safado. Defende todos os mafiosos e traficantes de Memphis.

- Parece um nome polaco.

- E é. Acho que é de Chicago.

- Pois, há carradas de polacos por aqui. Ele fala como eles? - Como se tivesse a boca cheia de favas. Vai fazer um sucesso em Ford County.

- Burro, burro, burro. O Carl Lee nunca foi muito inteligente. Tive sempre de pensar por ele. Burro, burro.

- Sim, ele cometeu um erro, Lester. Você sabe o que é um julgamento por homicídio porque já esteve num deles. Sabe a importância do júri quando ele deixa o tribunal e vai para a sala deliberar. A sua vida está nas mãos deles. Doze residentes da região a brigarem e a discutirem sobre o seu caso, a sua vida. O papel do júri é a coisa mais importante num julgamento. Por isso, a gente precisa de saber falar com o júri.

- Tem razão, Jake. Eu nem quero acreditar que ele tenha feito uma coisa dessas. Está outra vez metido numa alhada.

- Exactamente, Lester, e eu estou preocupado. - Já falou com ele?

- No sábado, depois de ver o jornal, fui directamente falar com ele. Perguntei-lhe porquê e ele não me respondeu. Estava embaraçado. Não voltei a falar com ele. O Marsharfsky também não. Ainda não encontrou Clanton no mapa e, segundo me disseram, o Carl Lee está furioso. Tanto quanto eu sei, não foi feito nada pelo caso esta semana.

- O Ozzie falou com ele?

- Falou. Mas você conhece o Ozzie. Não fala muito. Sabe que o Bruster é um canalha e que o Marsharfsky é outro canalha, mas não vai pressionar o Carl Lee.

- Meu Deus, nem quero acreditar... Ele é estúpido se pensa que aqueles campónios vão ouvir um palhaço de Memphis. Que diabo, Jake, eles não confiam nem nos advogados de Tyler County que é logo pegada... Caramba!

Jake sorriu. Até agora, nada contra a ética. - Que devo fazer, Jake?

- Não sei, Lester. Ele precisa de ajuda e você é o único que ele ouve. Sabe como o Carl Lee é teimoso.

- Acho melhor eu ligar-lhe.

Não, pensou Jake. Seria mais fácil para Carl Lee dizer não pelo telefone. Era preciso que os irmãos falassem pessoalmente. O facto de Lester pegar no carro e ir de Chicago a Ford County ia causar um impacto.

- Julgo que não consiga grande coisa pelo telefone. O Carl Lee já resolveu. Só você pode fazer com que ele mude de ideias e não pode fazer isso pelo telefone.

Lester ficou calado por alguns segundos e Jake esperou, ansioso.

- Que dia é hoje?

- Terça-feira, 6 de Junho.

- Deixe-me cá ver - resmungou Lester. - Estou a dez horas de Clanton. Amanhã e depois, no domingo, trabalho no turno das quatro à meia-noite. Posso sair daqui à meia-noite de amanhã e estarei em Clanton às dez da manhã de sábado. Depois, posso sair sábado cedo e estar no trabalho às quatro. Vou conduzir uma -data de horas, mas aguento.

- É muito importante, Lester. Acho que vale a viagem. - Onde é que está, no sábado, Jake?

- Aqui, no escritório.

- Certo. Eu vou até à cadeia e se precisar de si telefono para o seu escritório.

- Está certo. Mais uma coisa, Lester. O Carl Lee disse-me para não lhe telefonar a si. Não fale no meu telefonema.

- Que é que lhe digo?

- Diga que telefonou a Iris e ela lhe contou a história. - Que Iris?

- Ora, vamos, Lester. Toda a gente daqui sabe essa história há anos! Toda a gente, menos o marido e um dia destes também ele irá descobrir...

- Espero que não. Se ele descobrir, vamos ter outro assassinato. E você, outro cliente.

- Por favor, não. Mal posso conservar os que tenho. Telefone-me no sábado.

Ele jantou às dez e meia a comida aquecida no micro-ondas. Hanna estava a dormir. O assunto foi Leroy Glass, o rapazote branco que tinha roubado a pick-up, Carl Lee, mas não Lester. Ela estava mais calma agora, sentindo-se mais segura sem o problema de Carl Lee Hailey. Tinham acabado os telefonemas. Ninguém ia queimar mais cruzes. Acabados os olhares na igreja. Haveria mais causas, tinha a certeza disso. Ele falou pouco. Apenas comeu e sorriu.

 

Um pouco antes do tribunal fechar na sexta-feira, Jake telefonou para saber se estava a decorrer algum julgamento. Não, disse a secretária. Noose, Buckley, Musgrove e os outros todos já tinham saído. Não havia ninguém no tribunal. Jake atravessou a rua, entrou pela porta das traseiras do prédio e seguiu pelo corredor até à sala dos funcionários. Brincou com as secretárias e dactilógrafas, enquanto procurava o dossier de Carl Lee Hailey. Examinou os autos do processo, ansiosamente. Muito bem! Exactamente aquilo de que estava à espera... Nada fora acrescentado naquela semana, à excepção da sua moção para se retirar do caso. Marsharfsky e o seu associado local não tinham tocado no processo. Nada tinha sido feito. Despediu-se e voltou para o escritório.

Leroy Glass ainda estava na cadeia. A fiança era de dez mil dólares e a familia não conseguira levantar o prémio de dez mil dólares para pagar a um fiador. Assim, continuava na cela com Carl Lee. Jake tinha um amigo que era fiador dos seus clientes. Se um cliente precisava sair da cadeia, e havia pouco perigo de que desaparecesse ao ver-se livre, a fiança era concedida. As condições eram acessíveis aos clientes de Jake. Por exemplo, cinco por cento de entrada e um tanto por mês. Se Jake quisesse Leroy fora da cadeia, a fiança podia ser paga a qualquer momento. Mas Jake precisava dele lá dentro.

- Ouça, Leroy, tenho muita pena. Ando em conversas com o fiador - explicou Jake ao cliente, na sala dos testes de alcoolismo. - Mas o senhor disse que nesta altura eu já estaria livre.

- A sua famllia não tem o dinheiro, Leroy. E eu não tenho condições de pagar. Vamos tirá-lo daqui, mas vai levar alguns dias. Quero que você saia para poder trabalhar e ganhar algum dinheiro para me pagar. Leroy ficou satisfeito com a explicação.

- Pronto, Dr. Jake, faça o que puder.

- A comida é boa aqui, não é? - perguntou Jake com um sorriso.

- Não é má. A de casa é melhor. - Vamos soltá-lo - prometeu Jake. - Como está o negro que eu feri? - Não sei bem.

- O Ozzie disse que ele está no hospital. O Moss Tatum diz que já teve alta. Quem é que sabe? Acho que o ferimento não foi muito grave. - Quem era a mulher? - perguntou Jake, que não se lembrava dos pormenores.

- Era a mulher do Willie. - Que Willie?

- Willie Hoyt.

Jake pensou um segundo, tentando lembrar-se dos termos da acusação.

- Não foi ele que você feriu. - Não, foi Curtis Sprawling.

- Quer dizer que vocês andaram a lutar por causa da mulher de outro homem?

- Isso mesmo.

- Onde estava Willie?

- Ele também andou à pancada. - Com quem?

- Com outro gajo qualquer.

- Então, vocês quatro andaram à pera por causa da mulher do Willie?

- Foi isso, agora já entendeu. - Qual o motivo da luta?

- O marido dela estava fora da cidade. - Ela é casada?

- É.

- Como é que se chama o marido?

- Johnny Sands. Quando ele está fora da cidade, há sempre pancadaria.

- Porquê?

- Porque ela não tem filhos, não os pode ter e gosta de companhia. Entende o que quero dizer? Quando ele vai viajar, toda a gente fica a saber. Se ela aparece num bar, pode estar certo de que vai haver porrada.

"Que julgamento!", pensou Jake.

- Mas não me disse que ela estava com esse tal Willie Hoyt?

- Disse. Mas não quer dizer nada, porque toda a gente no bar anda em cima dela, a pagar bebidas, e a querer dançar. Não se pode fazer nada.

- Uma mulher dos diabos, certo?

- Oh, Dr. Jake, ela é cá uma coisa!... O senhor precisava de ver. - Hei-de ver. No banco das testemunhas.

Leroy olhou sonhadoramente para a parede, sorrindo e desejando a mulher de Johnny Sands. Não importava o facto de ter esfaqueado um homem, sujeito a apanhar vinte anos. Tinha provado a sua corgam no combate, de homem para homem.

- Ouça, Leroy, não falou com o Carl Lee, pois não?

- Claro que sim. Ainda estou na cela dele. A gente passa o tempo a conversar. Não há muita coisa para fazer.

- Contou-lhe a nossa conversa de ontem?

- Oh, isso não. Eu disse-lhe que não ia contar. - Muito bem.

- Mas vou-lhe dizer uma coisa, Dr. Jake, ele está preocupado. Ainda não teve notícias do advogado. Está muito aborrecido. Tive de morder a língua para não dizer nada, mas não disse. Disse-lhe que o senhor é o meu advogado.

- Está bem.

- Ele disse que o senhor é bom, que vem aqui conversar com a gente e assim. Disse-me que eu tinha contratado um bom advogado.

- Mas não suficientemente bom para ele.

- Eu acho que o Carl Lee está confuso. Não sabe em quem confiar, só isso. É bom tipo.

- Muito bem, não lhe conte a nossa conversa, certo? É confidencial.

- Certo. Mas alguém tem de falar com ele.

- Ele não consultou ninguém para me despedir e contratar esse novo advogado. É um homem adulto. Tomou uma decisão. Problema dele. - Jake aproximou-se mais de Leroy e disse em voz baixa: - Vou-lhe dizer outra coisa que também não lhe pode contar. Verifiquei o processo dele há meia hora. O novo advogado não fez nada a semana inteira. Nada foi acrescentado ao processo. Nada.

Leroy franziu a testa e abanou a cabeça. - Credo, que coisa.

O seu advogado continuou:

- Esses tipos importantes trabalham assim. Falam um bocado, fazem um grande estardalhaço, fazem muito barulho. Aceitam mais causas do que podem e acabam por perder mais vezes do que as que ganham. Conheço essa gente. Vejo esse tipo a toda hora no tribunal. A maior parte é só fachada.

- Por isso ele ainda não veio ver o Carl Lee?

- Claro. Tem muito trabalho. Além disso, tem muitas outras causas grandes. Ele não liga a mínima importância a Carl Lee.

- Isso é mau. O Carl Lee merece coisa melhor.

- A escolha foi dele. Agora é aguentar e cara alegre!... - Acha que ele vai ser condenado, Dr. Jake?

- Tenho a certeza. Está a um passo da câmara de gás. Contratou essa porcaria de advogado importante que não tem tempo para trabalhar no processo dele, nem tempo para ver o cliente na cadeia.

- Quer dizer que o senhor pode libertar o Carl Lee? Jake cruzou as pernas e recostou-se na cadeira.

- Não, nunca prometi isso e não prometo no caso dele. É estupidez um advogado prometer uma coisa dessas. Muita coisa pode correr mal num julgamento.

- O Carl Lee disse que o advogado dele prometeu um veredicto de inocente no jornal.

- Ele é uma besta!

- Onde é que foste? - perguntou Carl Lee ao companheiro de cela quando o carcereiro trancou a porta.

- Fui conversar com o meu advogado. - Jake?

- Não tenho outro...

Leroy sentou-se no beliche, de frente para Carl Lee, que relia o jornal. Carl Lee dobrou o jornal e pô-lo em cima do seu beliche. - Pareces preocupado - disse ele. - Más notícias sobre o teu caso?

- Não. Só que não consigo pagar a minha fiança. O Jake diz que vai demorar alguns dias.

- Jake falou de mim? - Não, não muito.

- Não muito? O que é que ele disse? - Só perguntou como é que estavas. - Só isso?

- Só.

- Ele não está zangado comigo?

- Não. Pode estar preocupado contigo, mas não me pareceu que estivesse zangado.

- Preocupado comigo por quê?

- Não sei - disse Leroy, deitando-se no beliche com as mãos cruzadas sob a cabeça.

- Ora, vamos, Leroy. Tu sabes qualquer coisa que não queres contar. O que foi que Jake disse?

- Jake disse-me que não te posso dizer o que ele me disse. Diz que é confidencial. Também não ias querer que o teu advogado repetisse as tuas conversas com ele, pois não?

- Ainda não vi o meu advogado.

- Tinhas um bom advogado até o teres despedido. - Tenho um bom advogado agora.

- Como é que sabes? Ainda nem lhe puseste a vista em cima. Ele tem trabalho demais para vir falar contigo e se está muito ocupado, não tem tempo para trabalhar no teu caso.

- Como é que sabes? - Perguntei ao Jake.

- É? E o que foi que ele disse? Leroy ficou calado.

- Quero saber o que foi que ele disse - exigiu Carl Lee, sentando-se na beira do beliche de Leroy. Olhou furioso para o companheiro de cela, menor e mais fraco.

Leroy reconheceu que estava com medo e agora tinha uma boa desculpa para contar tudo. Ou contava ou apanhava...

- Ele é um velhaco - disse Leroy. - Um velhaco importante que te vai entregar de bandeja! Não se importa peva com o teu caso. Só quer publicidade. Não tocou no teu processo a semana inteira. Jake sabe, ele verificou o processo no tribunal, esta tarde. Nem sinal de Sua Excelência! Ele tem muitos outros clientes delinquentes em Memphis, incluindo o teu amigo, o Sr. Bruster.

- Endoideceste, Leroy?!

- Pois foi, enlouqueci. Espera para ver quem vai alegar insanidade. Espera para ver o que ele vai fazer com o teu caso.

- Como é que de repente ficaste tão sabido? - Perguntaste, eu estou a responder.

Carl Lee foi até a porta e segurou as grades, apertando-as com força com as mãos enormes. A cela tinha encolhido naquelas três semanas e quanto mais pequena ela se tornava, mais difícil era para Carl Lee pensar em qualquer coisa, raciocinar, planear, reagir. Não conseguia concentrar-se na cadeia. Sabia só o que lhe diziam e não podia confiar em ninguém. Gwen era irracional, Ozzie neutro, Lester estava em Chicago. Não confiava em ninguém, a não ser em Jake e, por qualquer motivo, tinha contratado outro advogado.

Dinheiro, era esse o motivo. Mil e novecentos em dinheiro, pagos pelo maior mafioso e traficante de Memphis, cujo advogado era especialista em defender rufias e traficantes, qualquer tipo de assassino e delinquentes. Será que Marsharfsky defendia também gente decente? O que iria pensar o júri quando visse Carl Lee sentado à mesa da defesa junto de Marsharfsky? Sim, ele era culpado. De contrário, porque iria ele contratar um famoso filho-da-mãe da cidade grande, como Marsharfsky?

- Sabes o que é que aqueles gajos brancos do júri vão dizer quando virem Marsharfsky? - perguntou Leroy.

- O quê?

- Vão pensar: esse pobre negro é culpado e vendeu a alma para contratar o maior sacana de Memphis para nos dizer a nós que não é culpado...

Carl Lee resmungou, em voz baixa. - Eles vão-te lixar, Carl Lee!

No sábado, Moss Junior Tatum estava de serviço às seis e meia da manhã quando o telefone tocou no escritório de Ozzie. Era o xerife.

- O que estás a fazer acordado? - perguntou Moss.

- Não tenho a certeza se estou acordado - respondeu o xerife. - Ouve, Moss, lembras-te de um velho pregador negro chamado Street, reverendo Isaiah Street?

- Para dizer a verdade, não.

- Lembras-te sim. Ele pregou durante cinquenta anos na Igreja de Springfield, ao norte da cidade. Primeiro membro da Associação Nacional para o Progresso dos Homens de Cor em Ford County. Ele ensinou os negros daqui a fazer manifestações e greves, nos anos sessenta.

- Sim, agora já me lembro. O Klan, não o apanhou, uma vez?

- Apanhou. Espancaram-no e incendiaram-lhe a casa, mas nada de grave. No Verão de 65.

- Pensei que tivesse morrido há anos...

- Nada disso, há dez anos que está semi-morto, mas ainda mexe. Telefonou-me às cinco e meia e falou durante uma hora. Obrigou-me a recordar todos os favores políticos que lhe devo.

- Que quer ele?

- Vai estar aqui às sete horas para falar com Carl Lee. Porquê, não sei. Mas vê se me tratas bem o homem. Leva-o para o meu escritório e deixa-os conversar à vontade. Mais logo, lá irei.

- - Certo, xerife.

No seu apogeu, na década de sessenta, o rewerendo Isaiah Street fora a força propulsora das actividades a favor dos direitos civis em Ford County. Marchou ao lado de Martin Luther King em Memphis e em Montgomery. Organizou manifestações e protestos em Clanton e Karaway e noutras cidades do Mississippi. No Verão de 64 recebeu estudantes do Norte e coordenou oss esforços dele para registar eleitores negros. Alguns viveram na casa dele naquele Verão memorável e ainda o visitavam de tempos erm tempos. Não era um radical. Era calmo, compassivo, inteligente e tinha conquistado o respeito de negros e brancos. Era uma voz com alma e sensata no meio do ódio e da controvérsia. Dirigiu, não oficialmente, o grande movimento de de não-segregação das escol.-as públicas em 1969 e poucos foram os problemas em Ford County.

Em 1975, um derrame paralisou-lhe o lado diireito do corpo mas o cérebro continuou perfeito. Agora, com setenta e oito anos, andava sozinho, devagar, apoiado numa bengala. Orgulhoso, cheio de dignidade, tão erecto quanto possível. Foi conduzido ao escritório do xerife e sentou-se. Recusou o café e Moss Ju:-nior foi buscar o acusado.

- Está acordado, Carl Lee? - murmurou 1Wloss, para não acordar os outros prisioneiros, que iam começar a pedir aos gritos o café, remédios, advogados, fiadores e namoradas.

Carl Lee sentou-se imediatamente no beliche. - Estou. Não dormi muito.

- Tem uma visita. Venha. - Moss abriu a cela silenciosamente.

Carl Lee conhecera o reverendo anos antes, quaando ele fizera uma palestra para os alunos do liceu East High:, a escola dos negros. Depois veio a não-segregação e a East High passou a ter curso secundário. Carl Lee não via o reverendo desde o derrame.

- Carl Lee, conhece o reverendo Isaiah Street? - perguntou Moss, formalmente.

- Sim, conhecemo-nos há uns anos.

- Muito bem. Vou fechar a porta para que possam conversar.

- Como tem passado, senhor? - perguntou Carl Lee. Sentaram-se lado a lado no sofá.

- Muito bem, meu filho, e você? - Tão bem quanto possível.

- Eu também estive preso, sabe. Há muitos anos. É um lugar horrível mas acho que é necessário. Tem sido bem tratado?

- Muito bem, muito bem. O Ozzie deixa-me fazer tudo que eu quiser.

- Sim, o Ozzie. Temos muito orgulho nele, não é verdade - Sim, senhor. É um bom homem. - Carl Lee olhou para homem frágil com a bengala. O corpo estava fraco e cansado, uma mente alerta, a voz forte.

- Nós também nos orgulhamos de si, Carl Lee. Não sou favor da violência, mas às vezes é necessária também. Pratico uma boa acção, meu filho.

- Sim, senhor - disse Carl Lee sem saber qual era a resposta certa.

- Imagino que se interrogue por que razão estou aqui. Carl Lee fez que sim com a cabeça. O reverendo bateu com bengala no chão.

- Estou preocupado com o seu julgamento. A comunidad negra está preocupada. Se você fosse branco, o mais provável seria^, que fosse a julgamento e inocentado. O estupro de uma criança é um crime horrível e quem pode culpar um pai por rectificar o erro Um pai branco, quero dizer. Um pai negro gera a mesma simpati_ entre os negros, mas há um problema. O júri vai ser branco. Dess modo, um pai negro e um pai branco não têm chances iguais com júri. Está a compreender? - Acho que sim.

- O júri é essencialmente importante. Culpado ou inocente Liberdade ou prisão. Vida ou morte. Tudo a ser decidido pelo júri' É um sistema frágil este que confia vidas a doze pessoas vulgares

que não conhecem a lei e que ficam intimidadas com todo o pro cesso.

- Sim, senhor.

- O seu veredicto de inocente, dado por um júri, pelo assassinato de dois homens brancos vai fazer mais pelos negros do Mis sissippi do que qualquer outra coisa, desde que integrámos as escolas. E não só no Mississippi, mas pelos negros de toda a parte.

seu caso é famoso e está a ser observado com atenção por muita gente.

- Só fiz o que tinha a fazer.

- Exactamente. Fez o que achou que era correcto. Foi correcto. Embora brutal e terrível, foi correcto. E a maioria das pessoas, negras e brancas, pensa da mesma maneira. Mas será que vai ser tratado como se fosse branco? A questão é essa.

- E se eu for condenado?

- A sua condenação será outra bofetada no nosso povo, um símbolo do racismo profundamente enraizado, dos antigos preconceitos, dos velhos ódios. Será um desastre. Você não pode ser condenado.

- Estou a fazer tudo o que posso.

- Acha que sim? Vamos falar do seu advogado, se me permite.

Carl Lee inclinou a cabeça afirmativamente. - Conhece-o?

- Não - Carl Lee baixou a cabeça e esfregou os olhos. - E o senhor?

- Conheço.

- Conhece? Quando é que o conheceu?

- Em Memphis, 1968. Eu estava com o Dr. King. Marsharfsky era um dos advogados que representavam os homens do lixo em greve contra a administração do condado. Ele pediu ao Dr. King que saísse de Memphis, alegando que ele estava a agitar os brancos e a incitar os negros, e a impedir as negociações. Foi arrogante e mal-educado. Insultou verbalmente o Dr. King, em particular, é claro. Pensámos que ele tinha vendido os trabalhadores e recebido dinheiro do governo para fazer aquilo. Parece que tínhamos razão.

Carl Lee respirou fundo e esfregou as têmporas.

- Tenho acompanhado a carreira dele - continuou o reverendo. - Conseguiu fama a defender bandidos, ladrões e chulos. Consegue livrar alguns, mas são todos culpados. Se é cliente dele, é culpado... É isso o que mais me preocupa agora. Tenho medo de que seja considerado culpado por ser cliente dele.

Carl Lee afundou-se no sofá, com os cotovelos apoiados nos joelhos.

- Quem mandou o senhor falar comigo? - Perguntou em voz baixa.

- Tive uma conversa com um velho amigo. - Quem?

- Só um velho amigo, meu filho. Ele também está preocupado consigo. Estamos todos.

- Ele é o melhor advogado de Memphis. - Isto não é Memphis, pois não?

- Ele é especialista em Direito Penal. - Talvez por ser um criminoso...

Carl Lee levantou-se de um salto e começou a andar pela sala, virando as costas ao reverendo.

- Ele faz isto de graça. Não me custa um centavo.

- Os honorários dele não vão parecer importantes quando você estiver no corredor da morte., meu filho.

Ficaram em silêncio durante algum tempo. Finalmente, o reverendo pôs-se de pé com dificuldade, apoiado na bengala.

- Já falei o suficiente. Vou-me embora. Boa sorte, Carl Lee. Carl Lee apertou-lhe a mão:

- Agradeço a sua preocupação e a sua visita.

- O que eu queria dizer é muito simples, meu filho. Vai ser difícil ganhar a sua causa. Não a torne mais difícil com um pulha como Marsharfsky.

Lester saiu de Chicago na sexta-feira, um pouco antes da meia-noite e seguiu para o Sul, sozinho, como de costume. Um pouco antes, sua mulher tinha partido para o Norte, para passar o fim de semana com a família em Green Bay. Lester não gostava tanto de Green Bay como do Mississippi e não tinha nenhuma vontade de visitar a família dela. Eram boas pessoas, os suecos, e certamente o tratariam como da família se ele lhes desse essa oportunidade. Mas eram diferentes e não só pelo facto de serem brancos. Lester tinha crescido com brancos, no Sul, e conhecia-os bem. Não gostava deles e não gostava do que a maioria sentia por ele, mas pelo menos conhecia-os... Porém, os brancos do Norte, especialmente os suecos, eram diferentes. Os costumes, a maneira de falar, a comida, quase tudo era estranho para ele e Lester nunca se sentia à vontade com eles.

Provavelmente, dali a um ano, estariam divorciados. Ele era negro, e um primo mais velho da mulher casara com uma negra no começo dos anos 70, e o casamento tinha sido muito comentado. Lester tinha sido um capricho, e a mulher já estava farta dele. Ainda bem que não tinham filhos. Ele desconfiava que a mulher tinha outro. Mas Lester também tinha outra é Iris tinha prometido casar com ele e ir viver para Chicago assim que pusesse Henry a mexer...

Os dois lados da Interestadual 57 pareciam iguais depois da meia-noite: luzes esparsas das pequenas e bem-tratadas propriedades e ocasionalmente uma cidade maior, como Champaign ou Effingham. O Norte era onde ele vivia e trabalhava, mas não era o seu lar. O lar era onde estava a sua mãe, no Mississippi, embora ele nunca mais fosse para lá viver. Muita ignorância e pobreza. Lester não se importava com o racismo. Não era tão intenso como anteriormente e ele já estava habituado. Sempre existiria, mas a pouco e pouco tornava-se menos evidente. Os brancos eram ainda os donos e, os controladores de tudo, e isso não era insuportável. Não ia mudar. O que Lester achava insuportável era a ignorância e a pobreza absoluta da maioria dos negros. As casas podres e velhas, o alto índice de mortalidade infantil, os desempregados crónicos, as mães solteiras e seus bebés sub-nutridos. Era deprimente a ponto de ser intolerável e intolerável a ponto de fazer com que ele fugisse do Mississippi como milhares de outros, emigrando para o Norte, à procura de um emprego, de qualquer emprego que pagasse decentemente, para aliviar a dor da pobreza.

Voltar para o Mississippi era deprimente e agradável ao mesmo tempo. Agradável porque ia ver a família. Deprimente porque ia ver a pobreza em que viviam. Havia certas coisas boas. Carl Lee tinha um emprego decente, uma casa limpa e filhos bem vestidos. Ele era uma excepção e agora tudo isso corria perigo por causa de dois montes de lixo brancos e bêbedos. Os negros tinham uma desculpa para serem imprestáveis, mas os brancos, num mundo de brancos, não tinham nenhuma. Graças a Deus, estavam mortos e Lester orgulhava-se do irmão mais velho.

Quando estava a seis horas de Chicago, cruzando o rio em Cairo, o sol apareceu. Duas horas depois, Lester atravessou o rio outra vez em Memphis. Seguiu para Sudeste, para o Mississippi, e uma hora depois deu a volta ao edifício do tribunal de Clanton. Estava acordado há vinte horas.

- Carl Lee, tem uma visita - disse Ozzie, do outro lado da porta de grades.

- Não me surpreende. Quem é?

- Venha comigo. Acho melhor usar meu escritório. Pode ser demorado.

Jake estava no escritório à espera do telefonema de Lester. Dez horas. Se veio de facto, pensou, o Lester deve estar na cidade. Onze. Jake consultou o arquivo e escreveu algumas notas para Ethel. Meio-dia. Telefonou para Carla e mentiu-lhe dizendo que se ia encontrar com um novo cliente à uma hora, portanto que não esperasse por ele para almoçar. Mais tarde, trabalharia no jardim. Uma hora. Encontrou um processo antigo do Wyoming no qual fora julgado inocente um homem que tinha perseguido e encontrado o homem que violentara a sua mulher. Em 1893. Copiou o processo, depois atirou-o para o lixo. Duas horas. Lester estaria na cidade? Podia visitar Leroy e dar uma espreitadela na cadeia. Não, não era correcto. Passou pelas brasas no sofá.

Às duas e um quarto, o telefone tocou. Jake levantou-se imediatamente com o coração a bater apressado.

- Está!

- Jake; aqui Ozzie.

- Sim, Ozzie, o que há?

- A sua presença é pedida aqui na cadeia.

- O quê? - perguntou Jake, fingindo inocência. - Precisam de si aqui.

- Quem?

- Carl Lee quer falar consigo. - O Lester está aí?

- Está. E também quer vê-lo. - Estou aí num minuto.

- Eles estão lá dentro há quatro horas - disse Ozzie, apontando para a porta do escritório.

- A fazer o quê? - perguntou Jake.

- A falar, a praguejar, aos gritos. Há trinta minutos mais ou menos a coisa acalmou-se. O Carl Lee saiu e pediu-me para o chamar.

- Obrigado. Vamos entrar.

- Nem pense nisso! Eu não entro aí. Eles não me chamaram. O Jake vai sozinho.

Jake bateu à porta. - Entre!

Abriu devagar, entrou e tornou a fechar a porta. Carl Lee estava sentado na cadeira de Ozzie, Lester deitado no sofá. Este levantou-se e apertou a mão a Jake.

- Prazer em vê-lo, Jake.

- Prazer em vê-lo, Lester. O que o traz aqui? - Negócios de família.

Jake olhou para Carl Lee, foi até à mesa e apertou-lhe a mão. O acusado estava visivelmente irritado.

- Mandaram-me chamar?

- Mandámos, Jake, sente-se. Precisamos de conversar - disse Lester. - O Carl Lee quer dizer-lhe uma coisa.

- Diz tu - resmungou Carl Lee.

Lester suspirou e esfregou os olhos. Estava cansado e frustrado.

- Não vou dizer nem mais uma palavra. Isto é entre ti e o Jake. - Lester fechou os olhos e tornou a deitar-se no sofá.

Jake sentou-se numa cadeira estofada que encostou à parede, de frente para o sofá. Observou Lester atentamente, mas não olhou para Carl Lee, que se balançava levemente na cadeira de Ozzie.

 

Carl Lee ficou calado. Lester ficou calado. Passados três minutos de silêncio, Jake aborreceu-se.

- Quem é que me mandou chamar? - perguntou. - Fui eu - respondeu Carl Lee.

- Muito bem, o que quer?

- Quero que se encarregue outra vez da minha defesa. - E porque pensa que eu quero?

- O quê? - exclamou Lester, olhando para Jake.

- Não é um presente que você dá e tira quando quer. É um acordo entre si e o seu advogado. Não pense que me está a fazer um grande favor. - A voz de Jake subia cada vez mais. Estava visivelmente irritado.

- Quer ou não quer defender-me? - perguntou Carl Lee. - Está a querer contratar-me novamente, Carl Lee?

- Exactamente.

- Porque me quer contratar de novo? - Porque o Lester quer.

- Muito bem, então não quero. - Jake levantou-se e dirigiu-se para a porta. - Se o Lester quer que eu fique com a sua defesa e você quer o Marsharfsky, fique com o Marsharfsky. Se não é capaz de pensar pela sua cabeça, então precisa do Marsharfsky.

- Espere, Jake. Acalme-se, homem - disse Lester, indo até à porta. - Sente-se, sente-se. Não o culpo por estar zangado com Carl Lee. Ele cometeu um erro quando o despediu. Certo, Carl Lee?

Carl Lee examinou as unhas.

- Sente-se, Jake, sente-se e vamos conversar - pediu Lester, levando-o de volta para a cadeira. - óptimo. Agora, vamos discutir a situação. Carl Lee, queres que o Jake seja teu advogado? Carl Lee fez que sim com a cabeça.

- É isso mesmo...

- Muito bem. Agora, Jake...

- Explique-me porquê - disse Jake dirigindo-se a Carl

Lee.

- O quê?

- Explique-me por que quer que eu fique com a sua defesa. Explique-me por que razão está a despedir Marsharfsky.

- Não tenho de dar explicações.

- Tem sim. Deve-me pelo menos uma explicação. Há oito dias, despediu-me e nem teve a coragem de me telefonar. Soube pelos jornais. Depois, li coisas àcerca do seu advogado de luxo que evidentemente ainda não descobriu o caminho para Clanton. Agora, manda-me chamar e espera que eu largue tudo o que estou a fazer porque mudou de ideias outra vez. Explique-me, se faz favor...

- Explica-lhe, Carl Lee. Fala com o Jake - disse Lester. Carl Lee inclinou-se para a frente e apoiou os cotovelos na mesa. Cobriu o rosto com as mãos e falou entre os dedos.

- Estou confuso. Este lugar está a pôr-me doido. Tenho os nervos em franja. Estou preocupado com a minha filha. Preocupado com a minha família. Preocupado com a minha pele. Cada um me diz para fazer uma coisa diferente. Eu nunca estive numa situação destas e não sei o que devo fazer. Tudo o que posso fazer é confiar nas pessoas. Confio em Lester e confio em si, Jake. É tudo o que eu posso fazer.

- Confia nos meus conselhos? - perguntou Jake. - Sempre confiei.

-- E confia em mim para defender o seu caso? - Sim, Jake, quero que fique com ele.

- Está bem.

Jake descontraiu-se e Lester recostou-se no sofá.

- Vai ter de notificar o Marsharfsky. Enquanto não fizer isso, não posso trabalhar no seu caso.

- Vamos fazer isso esta tarde - disse Lester.

- Óptimo. Depois de falar com ele, ligue para mim. Há muita coisa a ser feita e o tempo é curto.

- E o dinheiro? - perguntou Lester.

- A mesma coisa. O que combinámos. Acha satisfatório? - Para mim está bem - disse Carl Lee. - Vou pagar como puder.

- Falamos sobre isso depois.

- E os médicos? - perguntou Carl Lee.

- Havemos de arranjar uma maneira. Não sei. Vou conseguir.

O acusado sorriu. Lester ressonava alto e Carl Lee riu.

- Eu pensei que lhe tivesse telefonado, mas Lester jura que não. Jake sorriu amarelo e não disse nada. Lester era um mentiroso de primeira, um talento que tinha sido extremamente valioso no seu julgamento.

- Desculpe, Jake. Procedi mal.

- Nada de desculpas. Temos trabalho demais para perdermos tempo a desculpar-nos.

Ao lado do estacionamento, um repórter, à sombra de uma árvore, esperava que alguma coisa acontecesse.

- Com licença, senhor. Não é o Dr. Brigance? - Quem pergunta?

- O meu nome é Richard Fly e sou do Jackson Daily. O senhor é Jake Brigance.

- Sim.

- O ex-advogado do Sr. Hailey. - Não. O advogado do Sr. Hailey.

- Pensei que ele tivesse contratado Bo Marsharfsky. Na verdade, é por isso que estou aqui. Ouvi dizer que Marsharfsky estaria em Clanton esta tarde.

- Se o vir, diga-lhe que chegou atrasado.

 

Lester dormiu profundamente no sofá do escritório de Ozzie. O polícia de plantão acordou-o às 4 da manhã de domingo e depois de beber um copo de café puro, partiu para Chicago. No sábado à noite, ele e Carl Lee tinham telefonado para o escritório de Cat, por cima do clube, e informaram-no da nova decisão de Carl Lee. Cat estava muito ocupado e aparentemente não se importou. Disse que ia telefonar para Marsharfsky. Ninguém falou em dinheiro.

 

Logo a seguir à partida de Lester para Chicago, Jake saiu de casa, de roupão, para ir buscar os jornais. Clanton ficava a uma hora de distância a Sudoeste de Memphis, três horas a Norte de Jackson e a quarenta e cinco minutos de Tupelo. As três cidades tinham volumosas edições de domingo que podiam ser compradas em Clanton. Jake ficou satisfeito por ser há muito tempo assinante dos três. Agora Carla teria muito material para o álbum de recortes. Abriu os jornais e começou a procurar.

Nada no jornal de Jackson. Jake esperava que Richard Fly tivesse informado alguma coisa. Devia ter dado mais atenção ao repórter, na véspera. Nada no de Memphis. Nada no de Tupelo. Não foi surpresa para Jake. Apenas esperava que alguém tivesse descoberto. Mas tinha acontecido muito tarde, no sábado. Talvez na segunda-feira. Jake estava farto de se esconder, cansado de se sentir constrangido. Enquanto não aparecesse nos jornais e fosse lido pelos fregueses do Coffee Shop, pelos fiéis da igreja e pelos outros advogados, incluindo Buckley e Sullivan e Lotterhouse, até que toda a gente soubesse que o caso era seu outra vez, ia ficar quieto e escondido. Como devia dar a notícia a Sullivan? Carl Lee ia telefonar para Marsharfsky, ou para o mafioso, provavelmente para o mafioso, que então daria a notícia a Marsharfsky. O que iria Marsharfsky dizer à imprensa? Depois, o grande advogado ia telefonar para Walter Sullivan com a maravilhosa notícia. Tudo isso -devia acontecer na segunda-feira de manhã, se não antes. A notícia ia-se espalhar rapidamente na firma Sullivan e os sócios, antigos e novos, e os pequenos assistentes iriam reunir-se na ampla sala com lambris de mogno e amaldiçoar Brigance, a sua falta de ética, o seu golpe baixo. Os assistentes tentariam impressionar os patrões, citando regulamentos e os artigos do código de ética provavelmente violados por Brigance. Jake odiava-os, a todos. Enviaria uma carta curta e seca a Sullivan e uma cópia a Lotterhouse.

Não ia telefonar nem escrever a Buckley, que ia ficar em estado de choque depois de ler a notícia no jornal. Uma carta ao juiz Noose com uma cópia para Buckley seria suficiente. Não daria a Buckley a honra de receber notificação pessoal.

Jake teve uma ideia, depois hesitou, depois ligou para Lucien. Passavam alguns minutos das sete. A enfermeira/criada e bartender atendeu. - Sallie?

- Sim.

- É o Jake. O Lucien está acordado?

- Um momento. - Ela virou-se na cama e entregou o telefone a Lucien.

- Está lá?

- Lucien, é Jake. - Sim, que quer?

- Boas notícias. O Carl Lee Hailey contratou-me outra vez, ontem. O caso é meu outra vez.

- Que caso?

- O caso Hailey!

- Ah, o justiceiro. Ele é seu?

- Desde ontem. Temos muito trabalho pela frente. - Quando é o julgamento? Em Julho, certo?

- Vinte e dois.

- Está bem próximo. Quais são as prioridades?

- Um psiquiatra. Um psiquiatra barato que esteja disposto a dizer qualquer coisa.

- Eu conheço um - disse Lucien.

- Isso é óptimo. Comece a trabalhar. Telefono-lhe daqui a dois dias.

Carla acordou a horas decentes e encontrou o marido na cozinha com os jornais espalhados por cima e por baixo da mesa. Fez café e, sem uma palavra, sentou-se de frente para ele. Jake sorriu-lhe e continuou a ler.

- A que horas te levantaste? - perguntou Carla. - Cinco e meia.

- Porquê tão cedo? Hoje é domingo. - Não consegui dormir.

- Entusiasmado? Jake baixou o jornal.

- Para falar a verdade, estou. Muito mesmo. Pena que o entusiasmo não seja partilhado.

- Lamento no que se refere a ontem à noite.

- Não precisas de pedir desculpa. Sei o que sentes. O teu problema é que só estás a ver o lado negativo, não o positivo. Não imaginas o que este caso pode fazer por nós.

- Jake, este caso assusta-me. Os telefonemas, as ameaças, a cruz de fogo. Se o caso significa um milhão de dólares, será que vale a pena se alguma coisa nos acontecer?

- Não vai acontecer nada. Mais algumas ameaças e olhares de esguelha na igreja e na rua, mas nada de grave.

- Mas tu não tens a certeza.

- Já falámos sobre isso ontem à noite e não quero voltar a repetir tudo outra vez. Mas tenho uma ideia.

- Mal posso esperar...

- Tu e a Hanna apanham um avião para a Carolina do Norte e ficam com os teus pais até ao fim do julgamento. Eles vão adorar a visita e deixamos de nos preocupar com o Klan ou com qualquer pessoa que goste de queimar cruzes.

- Mas o julgamento é daqui a seis semanas! Tu queres que a gente fique seis semanas em Wilmington?

- Quero, sim.

- Eu adoro os meus pais, mas isso é ridículo.

- Tu quase não estás com eles e eles quase não têm oportunidade de ver a Hanna.

- E nós quase não te vemos a ti! Não vou ficar fora seis semanas...

- Tenho de preparar muita coisa. Vou comer e dormir este processo até terminar o julgamento. Vou trabalhar à noite, nos fins de semana.

- E isso é alguma novidade?

- Vou ignorar vocês duas e só vou pensar neste caso. - Já estamos habituadas.

Jake sorriu.

- Estás a querer dizer que consegues aguentar?

- Consigo aguentar-te a ti! O que me assusta é aquela gente doida, lá fora.

- Quando os doidos começarem a falar sério, eu desisto. Eu largo este caso se a minha família estiver em perigo.

- Prometes?

- É claro que prometo. Vamos mandar a Hanna.

- Se não há perigo, para que havemos de mandar a Hanna? - Por maior segurança. Ela vai adorar passar o Verão com os avós. Eles também.

- A Hanna não aguenta uma semana longe de mim. - E tu não aguentas uma semana longe dela.

- É verdade. Está fora de questão. Não me preocupo com ela desde que possa abraçá-la e apertá-la. O café estava pronto e Carla deitou-o nas chávenas. - Alguma coisa nos jornais?

- Não. Pensei que o jornal de Jackson pudesse trazer alguma coisa, mas aconteceu tarde demais, julgo eu.

- Se calhar a tua maneira de calcular o tempo está um pouco enferrujada depois desses dias de descanso.

- Espera por amanhã de manhã. - Como é que sabes?

- Prometo.

Carla abanou a cabeça e procurou o suplemento de modas e de cozinha.

- Vais à igreja? - Não.

- Porque não? Já tens o caso. És uma estrela novamente. - Pois, mas ainda ninguém sabe.

- Compreendo. No próximo domingo. - É evidente.

Em Mount Hebron, Mount Zion, Mount Pleasant e na Brown's Chapel, na Green's Chapel e Norris Road, Secção Line Road, Bethel Road e no God's Temple, no Christ's Temple e Saint's Temple, os cestinhos e baldes e bandejas passaram e voltaram a passar e foram deixados nos altares e nas portas da frente para a recolha de fundos para Carl Lee Hailey e sua família. Os recipientes, tamanho-família, da Kentucky Fried Chicken foram usados em várias igrejas. Quanto maior o recipiente, fosse balde ou cesto, mais pequenas as oferendas pessoais pareciam, ao cair no fundo, dando ensejo a que o pastor mandasse passar novamente entre os fiéis. Era uma oferenda especial, separada da oferenda comum, e em quase todas as igrejas foi precedida por um relato emocionante do que tinha acontecido à preciosa menina dos Hailey e o que aconteceria ao pai dela e à família se os recipientes não ficassem cheios. Em vários casos foi evocado o nome sagrado da Associação para o Progresso dos Homens de Cor e o efeito era a generosa abertura das carteiras e das bolsas.

Deu resultado. Os baldes e cestos foram esvaziados, o dinheiro contado e o ritual repetido nos serviços nocturnos. As oferendas da noite de domingo foram acrescentadas às da manhã e da tarde e contadas por cada um dos pastores, que depois entregaria uma grande percentagem do total ao reverendo Agee, na segunda-feira de manhã. Ele guardaria o dinheiro num local qualquer da sua igreja e uma grande parte seria gasta em benefício dos Hailey.

Todos os domingos, das duas às cinco da tarde, os prisioneiros da cadeia de Ford County eram levados para um grande pátio cercado, do outro lado da pequena passagem atrás do edifício da prisão. Um máximo de três amigos e/ou parentes de cada um dos prisioneiros tinha ordem para ficar no pátio, durante uma hora. Havia duas árvores de sombra, algumas mesas partidas de piquenique e um cesto de basquete em bom estado. Polícias e cães vigiavam do outro lado do muro.

Foi estabelecida uma rotina. Gwen e os filhos saíam da igreja depois da bênção, mais ou menos às três horas, e seguiam de carro até a prisão. Ozzie permitia que Carl Lee fosse mais cedo para o pátio para ficar com a melhor mesa de piquenique, a única que tinha quatro pernas e ficava debaixo de uma das árvores. Carl Lee sentava-se sozinho, sem falar com ninguém, a assistir à competição no cesto de basquete, até a sua família chegar. Não era bem basquete, mas uma mistura de rugby, luta livre, judo e basquete. Ninguém tinha coragem de ser o juiz. Não havia sangue, nem marcação de faltas. E, surpreendentemente, não havia lutas. Uma luta significava a solitária e suspensão do recreio durante um mês.

Os visitantes eram poucos, algumas namoradas e mulheres que se sentavam com os seus homens na relva, ao lado do muro, a assistir em silêncio à algazarra debaixo da rede de basquete. Um casal perguntou a Carl Lee se podiam usar a mesa para almoçar. Ele disse que não com a cabeça e o casal almoçou sentado na relva. Gwen e os filhos chegaram antes das três. O polícia Hastings, primo dela, abriu o portão e as crianças correram para o pai. Gwen arrumou a comida. Carl Lee percebeu os olhares dos menos afortunados e saboreou a inveja deles. Se ele fosse branco, ou mais baixo e mais fraco, ou talvez acusado de um crime mais leve, certamente pediriam para partilhar da sua comida. Mas ele era Carl Lee Hailey e ninguém ficou a olhar por muito tempo. O jogo voltou à sua fúria e violência e a família pôde comeu em paz. Tonya sentava-se sempre ao lado do pai.

- Esta manhã eles começaram um peditório a nosso favor - disse Gwen, depois do almoço.

- Eles quem?

- A igreja. O reverendo Agee disse que todas as igrejas de negros vão pedir dinheiro, todos os domingos, para nós e para pagar o advogado.

- Quanto?

- Não sei. Ele disse que vão passar o balde todos os domingos, até ao julgamento.

- É simpático da parte deles. O que é que ele disse de mim? - Só falou sobre o teu caso e o resto... Disse que vai ser muito caro e que precisamos da colaboração das igrejas. Falou sobre a generosidade cristã e essas coisas. Disse que tu eras um verdadeiro herói para o nosso povo.

Que surpresa agradável, pensou Carl Lee. Ele esperava alguma ajuda da sua igreja, mas não financeira.

- Quantas igrejas?

- Todas as igrejas de negros do condado. - Quando é que recebo o dinheiro?

- Ele não disse.

Depois de tirar a parte dele, pensou Carl Lee.

- Meninos, levem a vossa irmã e vão brincar para ali, perto do muro. Eu e a mãe precisamos de conversar. Tomem cuidado. Carl Lee Jr. e Robert seguraram cada um deles uma das mãos de Tonya e obedeceram.

- O que diz o médico? - perguntou Carl Lee, olhando para as crianças.

- Que ela está melhor. Os maxilares estão a ficar bem. Pode ser que tire os arames dentro de um mês. Ela ainda não pode correr, saltar nem brincar ainda, mas em breve poderá fazê-lo. Um pouco dolorida ainda.

- E quanto ao... ao resto?

Gwen baixou a cabeça, tapou os olhos com a mão e começou a chorar e a enxugar as lágrimas. Falou-com voz entrecortada.

- Ela nunca poderá vir a ter filhos. Ele disse-me... - Parou, enxugou os olhos e tentou continuar. Começou a soluçar alto e escondeu a cara com um guardanapo de papel.

Carl Lee sentiu-se mal. Apoiou a testa nas palmas das mãos, cerrou os dentes com força e os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. - O que foi que ele disse?

Gwen ergueu a cabeça e disse com a voz a tremer, lutando para conter as lágrimas:

- Na terça-feira, ele disse que a lesão foi muito grave. - Gwen enxugou a cara com a mão. - Mas quer mandar Tonya a um especialista em Memphis.

- Ele não tem a certeza? Ela meneou a cabeça.

- Noventa por cento. Mas acha que ela deve ser examinada por outro médico, em Memphis. Temos de levá-la lá daqui a um mês. Gwen tirou outro guardanapo de papel do rolo e enxugou a cara. Deu um ao marido que o passou rapidamente pelos olhos. Junto ao muro, Tonya ouvia a discussão dos irmãos sobre qual ia ser o polícia e qual ia ser o prisioneiro. Viu os pais a conversarem, abanando a cabeça e chorando. Sabia que se passava qualquer coisa com ela que não estava bem. Esfregou os olhos e começou a chorar também.

- Os pesadelos são cada vez piores - disse Gwen, quebrando o silêncio. - Tenho de dormir com ela todas as noites. Ela sonha com homens a correr atrás dela, homens escondidos no armário, sonha que está a ser perseguida no bosque. Acorda aos gritos e a suar. O médico diz que ela precisa consultar um psiquiatra. Diz que vai ficar pior antes de melhorar.

- Quanto é que isso vai custar?

- Não sei. Ainda não telefonei a saber.

- É melhor telefonares. Onde é esse psiquiatra? - Em Memphis.

- Tinha de ser. Como é que os rapazes têm tratado a Tonya? - Eles têm sido óptimos. Tratam a irmã de modo especial. Mas ficam assustados com os pesadelos. Quando ela acorda aos gritos, acorda toda a gente. Os rapazes correm para a cama dela e tentam ajudar, mas ficam assustados. A noite passada, ela só voltou a adormecer depois de eles se terem deitado no chão, ao lado da cama dela. Ficámos ali deitados, acordados, com as luzes acesas... - Os rapazes não são problema.

-- Sentem a falta do pai. Carl Lee forçou um sorriso. - Já não vai demorar muito. - Achas que não?

- Já não sei em que pensar. Mas não pretendo passar o resto da vida na cadeia. Contratei o Jake outra vez.

- Quando?

-Ontem. Aquele advogado de Memphis não apareceu, nem telefonou. Eu despedi-o e contratei o Jake outra vez.

- Mas tinhas dito que o Jake era muito novo.

- Eu não tinha razão. Ele é novo mas é bom. Pergunta ao Lester. - É o teu julgamento!

Carl Lee pôs-se a andar devagar pelo pátio, sempre ao lado do muro. Pensou nos dois homens, mortos e enterrados em qualquer parte, com a carne a apodrecer, as almas a arderem no inferno. Antes de morrer, eles tinham conhecido a sua filha, por um breve instante e no espaço de duas horas tinham-lhe destruído o pequeno corpo e arruinado o cérebro. A agressão fora tão brutal que ela nunca poderia vir a ter filhos. Tão violenta a agressão que ela os via agora escondidos a fim de a apanharem, à espera dentro dos armários. Será que, um dia, ela ia conseguir esquecer, bloquear a memória, apagar aquilo da cabeça para poder ter uma vida normal? Talvez um psiquiatra pudesse fazer isso. As outras crianças iriam permitir que ela fosse normal?

Tonya não passava de uma menina negra, era o que toda a gente devia pensar. Uma pretinha filha de alguém. Na certa ilegítima, como todos eram. Para ela, estupro não era nenhuma novidade.

Carl Lee recordou os outros dois no tribunal. Um orgulhoso, o outro com medo. Lembrou-se dos dois a descerem a escada enquanto ele os esperava para executá-los. Depois, a expressão de horror, quando ele apareceu com a M-16. O som dos tiros, os gritos de socorro, os gritos quando caíram juntos para trás, um em cima do outro, algemados, aos berros e a contorcerem-se, sem conseguirem fugir. Lembrou-se de ter sorrido, de ter rido alto, enquanto via ambos a estrebuchar com as metades das cabeças despedaçadas e de quando os corpos ficaram imóveis e ele fugiu. Carl Lee sorriu outra vez. Estava orgulhoso. O primeiro amarelo que ele matara no Vietname tinha-o deixado muito mais preocupado...

A carta para Walter Sullivan era objectiva:

Caro J. Walter,

Estou certo de que nesta altura o Sr. Marsharfsky já o informou de que a contratação dele por Carl Lee Hailey terminou. Os seus serviços como advogado local deixaram evidentemente de ser necessários. Desejo-lhe muito bom dia.

Jake Brigance

Enviou uma cópia a L. Winston Lotterhouse. A carta para Noose foi também sucinta.

Caro Juiz Noose,

Quero informá-lo de que fui contratado por Carl Lee Hailey. Estamos a preparar-nos para o julgamento no dia 22 de Julho. Por favor, faça constar nos autos o meu nome como advogado de defesa. Com os melhores cumprimentos,

Jake Brigance

Uma cópia foi enviada a Buckley.

Marsharfsky telefonou na segunda-feira, às nove e meia. Jake deixou piscar o botão de espera, durante dois minutos, antes de atender.

- Está?

- Como é que fez isso? - Quem fala?

- A sua secretária não lhe disse? É Bo Marsharfsky e eu quero saber como é que fez isso.

- Como é que fiz o quê? - Roubou-me o caso. Tem calma, pensou Jake. O homem é um provocador.

- Se bem me lembro, o caso foi-me roubado a mim - respondeu.

- Eu não conhecia o réu quando ele me contratou.

- Nem precisava. O senhor mandou o seu mafioso, lembra-se? - Está a acusar-me de correr atrás de causas?

- Estou.

Marsharfsky fez uma pausa e Jake preparou-se para os insultos. - Quer saber uma coisa, Dr. Brigance, o senhor tem razão. Eu corro atrás de causas todos os dias. Sou um mestre em conseguir causas. É assim que ganho tanto dinheiro. Se aparece um grande caso, quero-o para mim. E uso todos os métodos que achar necessários.

- Engraçado, isso não foi mencionado no jornal. - E se eu quiser o caso Hailey, consegui-lo-ei.

- Pois então, tente! - Jake desligou e riu durante dez minutos. Acendeu um charuto barato e começou a trabalhar na moção para a transferência de foro.

Dois dias depois, Lucien telefonou e pediu a Ethel que dissesse a Jake que fosse vê-lo. Era importante. Lucien tinha uma visita que Jake tinha de conhecer.

O visitante era o Dr. W. T. Bass, um psiquiatra aposentado, de Jackson. Ele conhecia Lucien há anos e tinham colaborado em dois processos de criminosos insanos. Os dois criminosos estavam ainda na Parchman. A sua reforma, concedida um ano depois da expulsão de Lucien, foi precipitada pelas mesmas razões que muito tinham contribuído para a expulsão do advogado, ou seja, uma forte afeição pelo uísque Jack Daniel's... Uma vez por outra, visitava Lucien em Clanton e Lucien visitava-o a ele com maior frequência em Jackson, e os dois apreciavam dessas visitas porque gostavam de se embriagar juntos. Sentaram-se na grande varanda à espera de Jake.

- Diga apenas que ele estava louco - aconselhou Lucien. - E estava? - perguntou o médico.

- Isso não é importante. - O que é importante?

- O importante é dar ao júri uma desculpa para inocentar o homem. Não vão querer saber se ele estava louco ou não. Mas precisam de um motivo para dizer que é inocente.

- Seria interessante examiná-lo.

- Pode examiná-lo. Pode falar com ele à vontade. Ele está na cadeia à espera de alguém com quem possa conversar.

- Vou precisar de falar com ele muitas vezes. - Eu sei.

- E se eu achar que ele não estava louco no momento do crime? - Então, não irá testemunhar no julgamento e não terá o nome e a fotografia nos jornais e não será entrevistado na TV Lucien parou o tempo suficiente para um longo trago.

- Faça o que lhe estou a dizer. Entreviste o homem, tome uma porção de notas. Faça perguntas estúpidas. Sabe perfeitamente o que tem a fazer. Depois, diga que ele estava louco.

- Eu não estou tão certo disso. Não funcionou lá muito bem no passado.

- Ouça, o senhor é médico, não é? Pois então seja orgulhoso, vaidoso, arrogante. Aja como um médico deve agir. Dê o seu parecer e desafie qualquer pessoa a fazer-lhe perguntas.

- Não sei... Não funcionou lá muito bem no passado... - Faça o que lhe estou a dizer.

- Eu já fiz isso uma vez e ambos estão na Parchman. - Eram casos perdidos. O de Hailey é diferente.

- Ele tem alguma hipótese? - Muito remota.

- Pensei que fosse diferente.

- Ele é um homem decente com uma boa razão para matar. - Então por que são remotas as hipóteses?

- A lei diz que o motivo dele não é suficiente. - Um ponto a favor da lei.

- Além disso, ele é negro e esta é uma cidade branca. Eu não confio nesses intolerantes daqui.

- E se ele fosse branco?

- Se fosse branco e matasse dois negros que lhe tivessem violentado a filha, o júri dava-lhe o edifício do tribunal de presente.

Bass terminou a sua bebida e serviu-se de outra. Uma garrafa de scotch e um balde com gelo estavam sobre a mesa de vime entre os dois. - E o advogado dele? - perguntou o médico.

- Daqui a pouco deve estar a chegar. - Ele trabalhou para si?

- Trabalhou. Mas acho que o senhor não o chegou a conhecer. Ele estava na firma há dois anos quando eu saí. É jovem, trinta e poucos anos, honesto, agressivo, trabalhador.

- E trabalhou para si?

- Foi isso que eu disse. Tem bastante experiência de tribunal para a idade. Este não é o primeiro caso de homicídio dele, mas, se não me engano, é o primeiro com alegação de insanidade.

- É bom saber isso. Não quero que ninguém comece a fazer uma porção de perguntas.

- Gosto da sua confiança. Espere até conhecer o promotor. - Não estou a gostar nada disto. Tentámos duas vezes, em tempos, e não resultou.

Lucien abanou a cabeça, surpreendido.

- O senhor deve ser o médico mais modesto que já conheci. - E o mais pobre.

- Tem de ser pomposo e arrogante. O especialista é o senhor. Aja como se fosse. Quem é que vai pôr em causa o seu parecer em Clanton, Mississippi?

- O estado terá especialistas.

- Vai lá estar um psiquiatra de Whitfield. Irá examinar o acusado durante algumas horas, depois aparece no julgamento e diz que o réu é o homem mais são que já viu. Ele nunca viu um réu legalmente insano. Para ele, ninguém é louco. Toda a gente foi abençoada com perfeita saúde mental. Whitfield está cheia de gente mentalmente sã, a não ser quando entra com pedido de reforma do governo; nessa altura, metade do estado é louco. Ele seria despedido se começasse a dizer que os acusados são legalmente insanos. É isso que o senhor vai ter de enfrentar.

- E o júri vai acreditar em mim automaticamente?

- Até parece que nunca esteve num julgamento desse tipo. - Duas vezes, lembra-se? Um violador e um assassino. Nenhum dos dois estava louco, apesar do que eu disse. Os dois estão trancados onde devem estar.

Lucien tomou um longo gole e estudou atentamente o líquido castanho-claro onde nadavam os cubos de gelo.

- O doutor disse que me ia ajudar. Deus é testemunha de que me deve um favor. Quantos divórcios lhe fiz?

- Três. E fiquei completamente teso das três vezes.

- Era o que merecia, nas três. A escolha era dar tudo ou ir a julgamento e ter os seus hábitos discutidos em pleno tribunal.

- Eu lembro-me.

- Quantos clientes, ou pacientes, é que eu lhe mandei a si, durante muitos anos?

- Não os suficientes para pagar a pensão da minha ex-mulher.

- Lembra-se do processo de prática ilegal movido por uma senhora cujo tratamento consistia especialmente em sessões semanais no seu sofá-cama? A firma que defendia os processos de prática ilegal da medicina recusou aceitar a defesa dela e então senhor chamou o seu querido amigo Lucien que, por pouco dinheiro, conseguiu um acordo para evitar que o caso fosse a tribunal.

- Não havia testemunhas.

- Apenas a cliente. E os autos provavam que qualquer das suas ex-mulheres tinha pedido o divórcio por adultério.

- Nunca conseguiram provar.

- Não tiveram oportunidade. Nós não as deixámos, lembra-se?

- Pronto! Chega, chega... Eu disse que vou ajudar. E que fazemos com minhas referências?

- Saiu-me cá um destes pessimistas compulsivos... - Não, é que fico nervoso só de pensar em tribunais.

- A sua papelada está em ordem. Foi qualificado como perito para efeito de testemunho. Não fique tão preocupado.

- E quanto a isto? - ergueu o copo.

- Não devia beber tanto - disse Lucien, virtuosamente.

O médico baixou o copo e deu uma sonora gargalhada. Levantou-se pesadamente da cadeira e foi até à beira da varanda, a rir ao mesmo tempo que segurava a barriga.

- O senhor está bêbedo - disse Lucien, entrando em casa para ir buscar outra garrafa.

Quando Jake chegou, uma hora depois, Lucien estava a balançar-se suavemente na enorme cadeira de vime. O médico dormia no baloiço de dois lugares, na outra extremidade da varanda. Estava descalço, com os pés enfiados nos arbustos. Jake subiu os degraus e Lucien voltou-se sobressaltado.

- Jake, meu rapaz, como está? - perguntou com voz pastosa. - Bem, muito obrigado, Lucien. Vejo que está óptimo. - Olhou para a garrafa vazia e a outra pela metade.

- Queria que você conhecesse aquele homem - disse Lucien, fazendo um esforço para endireitar o corpo na cadeira.

- Quem é?

- O nosso psiquiatra. Dr. W T. Bass, de Jackson. Um grande amigo meu. Ele vai ajudar-nos no caso Hailey.

- Ele é bom?

- O melhor. Trabalhámos juntos em vários casos de insanidade.

Jake deu alguns passos na direcção do baloiço e parou. O médico estava deitado de costas com a camisa desabotoada e a boca escancarada. Ressonava a bom ressonar. Um moscardo quase do tamanho de um pardalito voava em volta do nariz dele e era atirado ao ar cada vez que ele respirava. Um cheiro rançoso saía da boca do médico e pairava como uma névoa invisível no ar.

- Ele é médico?-perguntou Jake, sentado ao lado de Lucien. - Psiquiatra - disse Lucien, com orgulho.

- Ele ajudou-o nisso? - apontou para as garrafas.

- Eu é que o ajudei. Ele bebe como uma esponja, mas está sempre sóbrio no tribunal.

- É um alívio saber isso...

- Vai gostar dele. É barato. Está a dever-me um favor. Não nos vai custar nada.

- Já estou a gostar dele...

A cara de Lucien estava tão vermelha como os olhos. - Quer um copo?

- Não. São três e meia da tarde. - São? Que dia é hoje?

- 12 de Junho, quarta-feira. Há quanto tempo é que estão ambos a beber?

- Uns trinta anos. - Lucien riu e fez tilintar os cubos de gelo no copo.

- Quero dizer, hoje.

- Tomámos o café da manhã. Que importância é que isso tem?

- Ele trabalha?

- Não, está reformado. - Reforma voluntária? - Quer dizer, se foi expulso, ou coisa assim? - Ou coisa assim.

- Não. Ainda tem a licença e as referências são impecáveis. - Ele parece impecável.

- A bebida apoderou-se dele há alguns anos. A bebida e as pensões alimentares. Fui eu quem tratou dos três divórcios dele. Chegou a um ponto em que tudo quanto ganhava ia para as pensões e sustento dos filhos, por isso parou de trabalhar.

- De que é que ele vive?

- Nós, bem, quero dizer, ele tinha algum dinheiro guardado. Conseguiu escondê-lo das mulheres e dos seus ávidos advogados. Na verdade, ele governa-se muito bem.

- Sim, parece-me que sim.

- Além disso, vende um pouco de droga, mas só para uma clientela rica. Não realmente drogas, mas narcóticos que ele pode receitar legalmente. Na verdade, não é ilegal, apenas um pouco contra a ética.

- Que faz ele, aqui?

- Vem visitar-me uma vez por outra. Vive em Jackson, mas detesta a cidade. Eu telefonei-lhe no domingo à noite, depois de ter falado consigo. Ele quer ver o Hailey o mais depressa possível, amanhã, se puder.

O médico rosnou e virou-se de lado, fazendo oscilar bruscamente o baloiço. Esticou a perna direita e o pé foi encostar-se num galho grosso do arbusto. O baloiço virou-se de lado e atirou o bom doutor para o chão. A cabeça bateu no soalho de madeira e o pé direito ficou preso na ponta do baloiço. O médico fez uma careta, tossiu e continuou a dormir. Jake instintivamente adiantou-se para ele, mas parou quando percebeu que não se tinha magoado e dormia calmamente.

- Deixe o homem em paz! - ordenou Lucien, com uma gargalhada.

Lucien atirou um cubo de gelo, fazendo-o deslizar pelo soalho na direcção do médico e quase lhe acertou na cabeça. O segundo cubo acertou-lhe na ponta do nariz.

- Pontaria perfeita! - disse Lucien, com uma gargalhada. - Acorde, seu bêbedo!

Jake desceu os degraus da varanda e encaminhou-se para o carro, ao som das gargalhadas e das imprecações do seu antigo patrão, que continuava a atirar cubos de gelo ao Dr. W T. Bass, psiquiatra, testemunha da defesa.

O polícia DeWayne Looney saiu do hospital de muletas e foi de carro com a mulher e os três filhos para o edifício da cadeia, onde o xerife, os sub-delegados, os reservas e alguns amigos espe ravam com um bolo e presentes. Looney ia ser operador de rádio, com direito ao distintivo, uniforme e salário integral.

 

                                                                                            CONTINUA

 

                      

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