Biblio VT
14
QUANDO CHEGO AO banheiro, tem uma fila de mulheres esperando por cabines vazias. O ar está espesso com o bafo de álcool, perfume e roupas cheirando a cigarro. Uma porta de cabine se abre e fecha com uma batida violenta de poucos em poucos segundos quando alguém entra ou sai. Lavo as mãos primeiro, precisando me espremer entre duas garotas bêbadas sentadas no balcão da pia, uma de cada lado. Por sorte, elas são o tipo de bêbada supersimpática, porque não estou podendo com uma briguenta e grosseira hoje. Elas pedem desculpas por atrapalhar e se afastam para me dar espaço.
— Obrigada — digo, abrindo a torneira.
— Ei, você é a menina que tava cantando — a garota da esquerda diz, apontando para mim e sorrindo. Ela olha para a amiga do outro lado, depois para mim de novo.
— É, acho que sou eu.
Não estou nem um pouco a fim de conversa de banheiro. Quanto mais tempo passo num banheiro público, com mais nojo eu fico.
— Vocês dois são muito bons — ela diz com um sorrisão.
— É, sério — a amiga dela confirma. — Por que estão cantando em bares, afinal?
Eu dou de ombros e espremo mais sabão do reservatório na mão e tento evitá-las o mais gentilmente possível.
— De verdade — a da esquerda acrescenta. — Eu pagaria pra ver vocês tocarem.
Tudo bem, eu não sou totalmente imune a elogios. Sorrio e agradeço de novo.
Quando mais duas cabines ficam desocupadas, elas aproveitam a oportunidade e se trancam nelas. Logo depois, acenam em despedida e me desejam boa sorte na minha “carreira musical”. Quando estou quase sozinha, me viro para o espelho, mas não olho para mim. Em vez disso, enfio a mão no bolso e pego um comprimido, engolindo-o com água da pia.
É só pra tirar o nervoso.
Então eu me olho, empurrando o comprimido e o sentimento de culpa que vem cada vez que tomo um para o fundo da minha mente. Invento pretextos para justificar tomá-lo e quase engano a mim mesma. Mas eu sei que a culpa que sempre sinto tem um motivo.
Em menos de 11 minutos, não me importo mais com a culpa, os pretextos ou o nervoso, porque essa parte do meu cérebro foi adormecida.
Passo as pontas dos dedos embaixo dos olhos para limpar o rímel borrado, depois enxugo a oleosidade do meu rosto com papel higiênico. Preciso estar de cara boa quando voltar lá. Me sinto ótima, mas preciso parecer tão bem quanto me sinto.
Abrindo caminho em meio à multidão, encontro Aidan e Michelle de pé perto do enorme balcão do bar e me junto a eles. Então lembro que Andrew foi buscar uma bebida para mim, mas não quero atravessar aquele mar de gente de novo só para pegá-la.
— Vocês dois são fantásticos! — Michelle grita por cima da multidão barulhenta. Ela me abraça e eu retribuo, sentindo meu sorriso movido a comprimidos se alargando muito em meu rosto.
Eu me viro para Aidan.
— O que você achou?
— Concordo com Michelle! Vocês deveriam compor seu próprio repertório e tocar aqui mais vezes. Tem sempre caçadores de talentos aqui no bar. E celebridades. — Ele aponta para a parede do fundo, onde uma série de fotografias autografadas de vários músicos e astros do cinema formam uma linha reta. — Comecem a tocar material próprio — ele continua. — Aposto que vocês dois seriam contratados por uma gravadora em menos de um ano.
Estou tão chapada, no momento, que ele poderia me dizer que achou a gente uma bosta e sem futuro nenhum na música, e eu sorriria do mesmo jeito, deixando as palavras passarem por mim como uma brisa.
Olho para o outro lado do salão e vejo Andrew no palco com sua guitarra e a banda da casa, se preparando para a canção que é sua marca registrada, “Laugh, I Nearly Died”. Ele provavelmente não me vê no meio da multidão, mas sabe que estou assistindo. Adoro vê-lo no palco, no seu elemento. Sei que, por mais que sejamos bons juntos, musicalmente, ele sempre é mais dono do palco quando toca sozinho. Talvez seja impressão minha, mas gosto de pensar nele como na primeira vez que o vi tocar. Porque naquela noite em Nova Orleans, ele estava cantando para mim, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu faria qualquer coisa pra me sentir assim de novo. Qualquer coisa...
Segundos depois de começar a tocar, Andrew, como sempre, tem a atenção de todos os presentes. As duas garotas na mesa estão de pé agora, dançando juntas de um jeito provocante, mas eu sei que é tudo para Andrew. Já vi isso antes. Elas o querem, e Andrew deixa que acreditem, só por uma noite, que ele também as quer. É perfeitamente inofensivo. Andrew e eu encaramos isso como uma maneira de levantar a autoestima dos outros. Um pouco de paquera aqui e ali, tornar uma garota ou um cara de sorte o centro das atenções só pelo tempo suficiente para corar e sorrir. Nunca se sabe o que acontece na vida das pessoas a portas fechadas, e um pouco de energia positiva da paquera nunca atrapalha.
Quando voltamos para a casa de Aidan e Michelle pouco depois da meia-noite, vou para a cama antes de todos. Fico deitada por uma hora, ouvindo as vozes deles vindo do corredor e entrando no quarto. Andrew ia se deitar comigo, mas insisti para que ele ficasse com o irmão. Ele anda se preocupando demais comigo ultimamente. Vamos voltar para Raleigh amanhã, e quero que ele passe o maior tempo possível com Aidan.
Mais uma hora passa e eu continuo acordada.
Frustrada, enfio a mão na bolsa, procurando o frasco. Sem nem perceber, já estou nos últimos comprimidos.
Desmaio com três, desta vez.
Andrew
15
— CAMRYN? AMOR, acorda, por favor. — Eu a sacudo com força pelo ombro.
Minha emoção dominante, no momento, é o medo. Minhas emoções secundárias são raiva e mágoa. Mas, estranhamente, a sensação de incerteza está mantendo todas as outras a distância.
Eu a sacudo de novo.
— Levanta.
Não faço ideia de quantas dessas porras de comprimidos ela tomou, mas julgando pelo frasco quase vazio, a perspectiva de ter sido o suficiente para uma overdose faz uma onda de pânico percorrer todo o meu corpo. Mas ela está respirando normalmente e seu ritmo cardíaco parece normal. Se ela não acordar...
Seus olhos se abrem lentamente, e eu respiro mais aliviado.
— Camryn. Olha pra mim.
Finalmente, ela acorda o suficiente para me olhar nos olhos.
— Que que foi? — Ela geme suavemente e tenta fechar os olhos de novo, mas eu a seguro pelos ombros e a obrigo a se sentar.
— Acorda. Fica de olhos abertos.
Ela se senta, toda mole, mas não é nada tão fora do comum, depois de ter sido forçada a acordar e a se endireitar assim.
— Quantos você tomou?
Michelle está na porta do quarto, atrás de mim.
— Quer que eu chame uma ambulância?
De repente, Camryn fica completamente alerta. Não sei se minha pergunta finalmente a alcançou ou se foi a menção de uma ambulância, mas ela me encara com olhos arregalados e assustados.
— Quantas dessas porras de comprimidos você tomou?
Ela desvia o olhar do meu e vê o frasco de comprimidos sobre o criado-mudo. Quando decidi que dormir até depois das 14h não era típico dela e fui ver o que estava acontecendo, encontrei o frasco no chão.
— Camryn? — Eu a sacudo de novo e ela volta a prestar atenção em mim.
Ela só me olha. Vejo tanta coisa em seus olhos agora que não sei dizer se é mais humilhação, arrependimento, mágoa, raiva ou resignação. E então seus olhos começam a se encher de lágrimas. Sinto seu corpo se agitando sob o peso dos meus braços. Ela desata a chorar, caindo em meus braços, soluçando descontroladamente, e aquilo me despedaça.
— Andrew? — Michelle diz da porta.
Sem olhar para trás, eu digo:
— Não, ela vai ficar bem. — E engulo minhas próprias lágrimas e a raiva, sentindo meu peito se apertar.
A porta se fecha silenciosamente atrás de mim quando Michelle sai do quarto.
Abraço Camryn por muito tempo, deixando-a chorar no meu peito. Não digo uma palavra. Ainda não. Em parte porque sei que ela precisa disso, poder chorar e desabafar. Mas a outra parte de mim está tão puta da vida e magoada que sinto que vou precisar me afastar e me recompor para não dizer coisas erradas. Eu a abraço forte, apertando os braços em volta do seu corpo trêmulo. Beijo seu cabelo e tento não chorar também. A parte de mim que está puta da vida ajuda nisso.
— Eu sinto muito! — ela grita e, nessa fração de segundo, quando ouço a dor em sua voz, minha raiva se apaga quase completamente e eu a abraço ainda mais forte.
— Tá pedindo desculpas pra mim? — pergunto, incrédulo. Eu a afasto, segurando-a firme pelos antebraços. Balançando a cabeça furiosamente, volto a ficar como alguns minutos atrás. — Não, primeiro você precisa me dizer quantos você tomou. — Eu a encaro com firmeza.
— Ontem à noite. Só três.
— Quantos tinha no frasco no total?
— Não sei. Uns vinte.
— Então há quanto tempo você tá tomando?
Ela faz uma pausa e responde.
— Desde terça. São da minha mãe. Tomei um quando tava com dor de cabeça, mas aí comecei a tomar... — Seus olhos se enchem de água novamente.
Eu enxugo as lágrimas do seu rosto.
— Puta que pariu, Camryn! — exclamo, puxando-a para o meu peito por mais um breve momento. — O que você tava pensando, porra?
— Eu não pensei! — ela grita. — Não sei o que eu tenho!
Seguro seu rosto com as palmas das mãos.
— Você sabe o que você tem. Tá arrasada por perder a Lily e não sabe como lidar com isso. Só queria que você tivesse falado comigo.
Com o rosto dela ainda nas mãos, seus olhos desviam dos meus. O silêncio tenebroso entre nós me afeta da forma mais estranha.
— Camryn? — Tento fazê-la me olhar de novo, mas ela se recusa. — Fala comigo. Você precisa falar comigo. Escuta, você não fez nada errado, nem poderia ter evitado o que aconteceu. Precisa saber disso. Precisa enten...
Sua cabeça se desvencilha das minhas mãos, seus olhos penetrando os meus, cheios de dor e de... algo mais.
— É culpa minha! — ela diz, se afastando de mim na cama.
Ela se levanta do outro lado e cruza os braços, me dando as costas.
— Não é culpa sua, Camryn. — Ando até ela, mas assim que sente que vou me aproximar, ela se vira.
— É culpa minha sim, Andrew! — ela repete, com as lágrimas escorrendo dos olhos. — Eu não conseguia parar de pensar que minha gravidez ia ferrar com tudo! Detestava continuar morando em Galveston depois de quatro meses! Fiquei me perguntando como a gente ia fazer tudo o que queria com um bebê! Por isso, sim, é culpa minha que a perdemos e eu me odeio por isso, caralho! — Ela esconde o rosto nas mãos.
Atravesso a curta distância até ela, tomando-a em meus braços de novo.
— Meu Deus, Camryn, não foi culpa sua! — Acho que nunca falei nada para ninguém com tanta emoção. Meu peito tremia incontrolavelmente contra o dela.
— Olha pra mim! — imploro, afastando-a. — Isso é tão normal. E se você é culpada, então eu também sou. Tive esses pensamentos de vez em quando, mas, como você também, não teria desistido dela nem se pudesse.
Ela não precisa confirmar essa afirmação em voz alta, porque sei que ela também não teria desistido. Mas ela confirma assim mesmo: — Não lamentei nada engravidar dela. E eu... quero minha bebê de volta!
— Eu sei. Eu sei. — Eu a abraço apertado e ando com ela até o pé da cama, fazendo-a sentar. Eu me agacho entre as pernas dela, apoiando os braços em suas coxas e tomando suas mãos nas minhas. Olho para ela e digo mais uma vez: — Não foi culpa sua.
Ela enxuga algumas lágrimas e nós ficamos sentados assim pelo que parece uma eternidade. Acho que ela acredita em mim — ou isso ou está só evitando encarar a realidade. Então ela olha para a parede atrás da minha cabeça e diz baixinho: — Isso faz de mim uma viciada em drogas?
Quero rir, mas não rio. Em vez disso, apenas balanço a cabeça e sorrio suavemente para ela, apertando as pontas dos dedos em suas mãos.
— Foi um momento de fraqueza, e até a pessoa mais forte não é imune à fraqueza, Camryn. Quatro dias e um frasco de analgésicos não fazem de você uma viciada em drogas. É falta de juízo, mas não é vício.
Ela olha de novo para mim.
— Michelle e Aidan vão achar que é.
Balanço a cabeça.
— Não, não vão. E ninguém mais vai. — Eu me levanto e me sento ao lado dela. — Além disso, não é da conta de ninguém, porra. É uma coisa que só você e eu precisamos saber e enfrentar.
— Nunca fiz nada assim antes — ela continua, olhando para a frente. — Não acredito...
— Você estava diferente. Está diferente desde que Lily morreu.
O quarto fica estranhamente em silêncio de novo. Olho para ela de lado, mas a deixo em silêncio por um momento. Ela parece perdida em pensamentos.
E então ela diz:
— Andrew, talvez nós não devêssemos estar juntos. — E suas palavras me atingem tão rápido e com tanta força que sinto que falta ar nos meus pulmões.
Fico tão surpreso que é como se suas palavras tivessem roubado todas as minhas. Meu coração está disparado.
Finalmente, quando ela não elabora, consigo balbuciar:
— Por que tá dizendo isso? — E fico com medo de sua resposta.
Ela continua olhando para a frente, com as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto. E então ela olha para mim e vejo a mesma dor intensa em seus olhos que eu sei que ela vê nos meus.
— Porque todo mundo que eu amo acaba me abandonando ou morrendo.
O alívio me invade, mas é superado pela sua dor.
É nesse exato momento que percebo que essa é a primeira vez que Camryn se abriu a respeito disso tudo comigo, ou com qualquer outra pessoa. Penso nas coisas que Natalie me contou, e nas conversas que Camryn e eu tivemos na estrada, e sei que no momento Camryn está admitindo a dimensão de sua dor não só para outra pessoa, mas o mais importante, para si mesma.
— Eu me sinto tão egoísta dizendo isso — ela continua, e deixo que ela fale à vontade, sem interrupções. — Meu pai abandonou a gente. Minha mãe mudou. Minha avó, a única pessoa que continuou a mesma e sempre me apoiou quando precisei, morreu. Ian morreu. Cole foi pra prisão. Natalie me apunhalou pelas costas. Lily... — Ela olha para mim, finalmente, a dor intensificada em seu rosto. — E você.
— Eu? — Me agacho diante dela de novo. — Mas eu tô aqui, Camryn. Vou estar sempre aqui. — Tomo as mãos dela nas minhas. — Não importa o que você faça, ou o que aconteça entre a gente. Nunca vou te abandonar. Vou estar sempre com você. — Aperto as mãos dela. — Lembra quando eu disse que você era a coisa mais importante do mundo pra mim? Você pediu que eu te lembrasse disso, se um dia você esquecesse. Bom, eu tô te lembrando agora.
Soluços percorrem seu corpo.
— Mas você podia ter morrido — ela insiste, com choro na voz. — Cada dia que passei naquele hospital, pensei que seria o seu último. E aí quando não era e você resistia, eu continuava prevendo isso mesmo assim. Semanas, meses depois, porque uma parte de mim achava que eu precisava me acostumar com a ideia de perder você. Um dia. Porque eu sabia que você ia me deixar de um jeito ou de outro. Como todo mundo.
— Mas eu não deixei — digo com desespero, sorrindo um pouco ao mesmo tempo. Eu me sento no chão e a puxo para perto de mim. — Eu não morri. Não morri porque eu sabia que você tava lá comigo o tempo todo. Porque eu sabia que nosso destino era ficar juntos, e que se você vivesse, eu também viveria.
— Mas e se você morrer? — ela pergunta.
Isso eu não esperava.
— E se o tumor voltar?
— Não vai voltar — respondo. — E mesmo se voltar, vou vencê-lo de novo. Cacete, eu fiquei oito meses sem ir ao médico e venci assim mesmo. Com você na minha vida, me atormentando pra me fazer ir aos checkups regularmente, de jeito nenhum ele vai me matar.
Ela não parece totalmente convencida disso, mas vejo um pequeno raio de esperança em seu rosto, e era isso que eu queria ver.
— Eu sinto muito mesmo — ela diz, mas em vez de dizer que não precisa, também deixo que ela viva esse momento, porque parece mais que ela está se permitindo fechar um ciclo. — Aposto que você nunca pediu pra ter um fardo absurdo desses. — Ela passa os dedos sob os olhos.
Tentando aliviar um pouco o clima, esfrego as mãos em seus joelhos nus e digo: — Eu te amaria mesmo se você fosse uma daquelas garotas que correm pro banheiro pra vomitar depois de comer, ou se tivesse o fetiche secreto de transar com um palhaço.
Ela ri baixinho em meio às lágrimas, e isso me faz sorrir.
Levanto o queixo dela com um dedo e fico sério de novo, olhando bem em seus lindos olhos azuis e úmidos.
— Camryn, Lily não tava pronta, só isso. Não sei por que, mas você não pode se culpar por ela ou por qualquer um. E você precisa entender que estamos nisso juntos. Em tudo. Acredita nisso?
Ela balança a cabeça.
— Sim.
Eu me curvo e a beijo primeiro na testa, depois nos lábios.
Segue-se o silêncio, e a atmosfera no quarto parece diferente. Mais brilhante. Eu sei que Camryn não vai voltar a ficar 100% da noite pro dia, mas posso ver que ela já está melhor. Percebo só de olhar que ela se sente menos carregada, agora que tirou essas merdas da cabeça. Ela precisava disso. Precisava de alguém para fazê-la cair na real. Não alguém indiferente, ou que desse apenas respostas prontas para tudo.
Ela precisava de mim.
Eu me levanto e pego a mão dela.
— Vem cá.
Ela me segue, pego o frasco de comprimidos da mesa ao lado da cama e a puxo comigo para o banheiro da suíte. Levanto a tampa da privada e entrego o frasco a ela. E antes que eu diga qualquer coisa, Camryn vira o frasco sem hesitação e joga os últimos quatro ou cinco comprimidos na privada.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão fraca. — Ela olha para a água enquanto os comprimidos giram no vaso e são sugados pelo cano. Depois olha para mim. — Andrew, eu podia facilmente ter ficado viciada neles. Não consigo imaginar...
— Mas você não ficou — interrompo, antes que ela fique remoendo aquilo mais. — E você tem direito a um momento de fraqueza. E chega.
Eu saio do banheiro e ando pelo quarto. Ela me segue e fica parada no meio do quarto, me olhando.
— Andrew?
Eu paro, me viro para ela e digo:
— Me dá uma semana.
Ela parece meio confusa.
— Uma semana pra quê?
Sorrio fracamente.
— Só concorda. Fica aqui comigo uma semana.
Cada vez mais confusa, ela diz:
— Hãã, tá. Vou ficar aqui com você uma semana — embora esteja estampado em seu rosto que ela não sabe com o que está concordando.
Mas ela confia, e isso significa tudo para mim. Vou dar a nós dois o que ambos precisamos, querendo ela ou não.
Camryn
16
Dia Três
Nunca pensei nem por um minuto que seria capaz de fazer o que fiz. Andrew chama de um momento de fraqueza e talvez tenha razão, mas vai levar tempo pra cacete pra que eu consiga me perdoar por aquilo.
Michelle deixou claro que não vai me julgar, e embora isso me faça sentir melhor, me sinto humilhada sempre que estou na presença dela ou de Aidan. Talvez seja por isso que eu me sinta tão mal, por eles serem tão compreensivos.
Uma semana. Nem faço ideia do que Andrew quis dizer com isso, mas estou em dívida com ele, por isso não faço perguntas e deixo que ele faça o que está planejando. Ele andou bem misterioso nos últimos dias, muitas vezes atendendo ligações em outros quartos para que eu não pudesse ouvir. Só tentei escutar uma vez, simplesmente ficando bem quieta no sofá quando ele foi para a cozinha falar com Asher. Mas então bisbilhotar assim me fez sentir culpada, por isso aumentei o volume da TV para não conseguir ouvir.
E posso ter tomado os comprimidos só por uma semana, mas pelo jeito foi tempo suficiente para eu ainda me sentir zonza três dias depois dos últimos que tomei. Me sinto mal, até mais incapaz de dormir do que antes de começar a tomá-los, mas pelo menos as dorezinhas de cabeça finalmente estão começando a desaparecer. Não consigo imaginar ficar viciada neles por meses ou anos. Sinto pena de quem fica...
Dia Quatro
Aidan entra com um pequeno maço de correspondências na mão, olhando cada uma enquanto anda pela sala.
Ele para num envelope branco por um segundo, constrangido, e o levanta, olhando para mim primeiro, até que Andrew entra na sala.
— Parece que esta é pra você. — Ele me olha de novo, mas entrega o envelope a Andrew.
Isso me dá uma sensação muito estranha, então me levanto instintivamente da espreguiçadeira e me aproximo de Andrew para ver o que é.
Pouco antes que Andrew escondesse o envelope de mim, vejo o nome de Natalie escrito nele.
Ele também sabe que eu vi.
— Não — diz Andrew, balançando a cabeça. — Vou deixar você ver outro dia. — E então ele enfia o envelope no bolso de trás do jeans.
Confio totalmente nele, mas sou humana, e uma pequena parte de mim está nervosa com essa situação toda. Por que Natalie mandaria uma carta para Andrew? Confiando ou não, a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um é se perguntar se tem alguma coisa acontecendo entre os dois. Mas isso é absurdo, e afasto essa ideia da minha mente com a mesma rapidez que ela veio.
Eles estão conspirando contra mim.
Eu só queria saber o que está acontecendo.
Dia Cinco
Falei com Natalie, minha mãe e Marna por telefone hoje. Marna tenta agir como se nada tivesse acontecido com o bebê, e é tão boa nisso quanto Michelle foi no meu primeiro dia em Chicago. Ela é tão meiga e delicada. Minha mãe, por outro lado, parece não conseguir falar de outra coisa além do meu relacionamento com Andrew. Ela me persegue sempre que pode, perguntando quando vamos nos casar, e resolveu enfiar na cabeça que vamos fazer isso do jeito que todo mundo faz. Tento dizer a ela que não quero um vestido caro, uma capela ou milhares de dólares em flores que vão murchar na semana seguinte, mas é como se ela nem me escutasse. Ela só quer que a gente se case. Talvez assim se sinta melhor com ele dormindo no meu quarto. Não faço ideia do que passa pela cabeça da minha mãe, e metade do tempo acho que nem ela sabe.
Andrew foi a um médico aqui em Chicago fazer um checkup hoje. E como toda vez que ele vai, fico até com enjoo de preocupação até que acabe. Por sorte, ele voltou com boas notícias.
Dia Seis
Falo com Natalie por telefone de novo, mas novamente não menciono o envelope. Ela também não está agindo naturalmente. É óbvio que está se esforçando para não entregar nenhum dos segredos de Andrew, o que deixa as conversas cheias de momentos silenciosos e constrangidos. Quero rir dela por ser tão péssima em agir normalmente, quando só o que ela quer é me contar tudo e dar o assunto por encerrado.
Dia Sete
Esta semana foi uma das mais longas da minha vida. Fico na cama até mais tarde porque está começando a esfriar, mas também porque estou nervosa e não consigo fazer outra coisa. Andrew se levantou há uma hora, e só o vi voltar para o quarto uma vez, para calçar os sapatos. Ele me beijou e sorriu para mim como se estivesse secretamente empolgado, e então saiu de novo sem dizer uma palavra.
Eu viro para o lado, enrolada no cobertor, e olho pela janela. O sol está brilhando hoje, e o céu está azul e sem nuvens.
Ouço os três andando pela casa.
Os sapatos de Andrew rangem sobre o chão de madeira na porta do nosso quarto. Ele abre a porta e fica na entrada, olhando para mim.
— Levanta e se veste — ele diz, com a mão ainda na maçaneta.
Eu só o olho por um segundo, achando que talvez ele vá explicar o que vamos fazer, mas ele só aponta para os meus sapatos no chão, como que dizendo calce-os, depois fecha a porta e me deixa sozinha.
Faço exatamente o que ele manda. Me levanto e visto meu jeans favorito e uma blusa folgada de tricô de mangas compridas, depois um par de meias e meus mocassins. Quando saio do quarto para a sala, vejo Michelle encolhida no canto do sofá, com um cobertor sobre as pernas, vendo TV. Ela se vira para me ver, e está com um sorriso aberto, como se soubesse algo que não sei. E com certeza sabe.
— Ele tá lá fora com Aidan — ela diz, acenando na direção da porta.
Cada vez mais nervosa, ando lentamente até a porta e a abro.
Saindo na varanda de pedra, vejo Andrew e Aidan de pé do lado da estrada, em frente à casa, com Asher, e todos eles estão encostados na lateral do Chevelle.
Por um momento eu penso: Tá, então Asher veio nos visitar, é só isso que tá acontecendo? Não que eu não fique feliz em ver Asher, mas, francamente, não é algo que eu imaginaria que fosse justificar todos esses planos de Andrew em segredo.
É o carro, percebo, mas é só isso que consigo entender sozinha. Tenho uma teoria sobre o motivo de ele tê-lo trazido para cá, mas a esta altura vou só fazer o melhor que posso para não pensar nisso.
Desço rapidamente os degraus de pedra e dou um abraço apertado em Asher.
— Você tá ótima, garota — ele diz, com aquelas covinhas e os olhos verdes e brilhantes quase idênticos aos de Andrew. Então ele me aperta e me levanta um pouco do chão.
— É muito bom te ver — digo, sorrindo.
Fico correndo os olhos dele para Andrew, que está sorrindo tanto que duvido que consiga manter o mistério por muito mais tempo.
Olho para o Chevelle e então para Asher. Olho de novo.
— Então você veio dirigindo lá de... — Tudo bem, é um pouco mais intrigante do que eu imaginava. O carro estava no Texas, até onde eu sei, e Asher estava em Wyoming. Finalmente continuo: — O que tá acontecendo?
Asher olha para Andrew, e Andrew dá um passo à frente.
— Eu pedi que Asher trouxesse o carro pra cá — ele diz.
— Mas por quê?
Asher cruza os braços e se apoia na porta de trás do carro.
— Porque ele é doido — Asher diz, rindo baixinho. — E porque não confiou num serviço de entregas pra trazer o carro.
Eu me viro para Andrew de novo, esperando que ele desembuche. Uma brisa fria atravessa minha blusa de tricô e eu enfio as mãos nas mangas.
— Você tem cinco minutos pra botar todas as suas coisas na mala — ele diz, e meu coração começa a bater descompassado antes que ele termine a frase. Ele bate no pulso sem relógio. — Nem um segundo a mais.
— Andrew...
— Isso não tá em discussão — ele diz. — Vai pegar suas coisas.
Eu só olho para ele, sem expressão.
Minha teoria estava certa, mas eu não queria que estivesse. Não quero cair na estrada... Isto é, eu quero... mas não está certo. Isso não está certo.
— Agora você tem quatro minutos — Asher diz.
— Mas a gente não pode partir assim — eu argumento. — Seria grosseria. — Aponto para Asher. — E Asher acabou de chegar. Você não quer ver...?
— Posso ver meu irmão mais velho a hora que eu quiser — Asher rebate. — No momento, acho melhor você fazer o que ele mandou, ou vai acabar na estrada, usando a mesma calcinha por uma semana.
Mais alguns segundos se passam e eu ainda não me mexi. Estou num leve estado de choque, acho.
— Três minutos, amor — Andrew diz, e está me olhando com expressão séria. — Não tô brincando. Sobe lá, bota suas porras nas malas e entra nessa merda de carro.
Cacete, ele voltou a ser como era...
Quando começo a discutir de novo, os olhos de Andrew ficam ferozes e ele diz:
— Anda logo. O tempo tá acabando! — E aponta para a casa.
Finalmente, baixando a guarda e entrando no clima tanto quanto posso me permitir, olho para ele com raiva e digo:
— Tudo bem. — Só concordo porque sei que ele está tentando melhorar as coisas. Mas me sinto culpada pra caramba.
Desconsiderando seu prazo bem-humorado de cinco minutos, giro nos calcanhares e ando muito lentamente na direção da casa, demorando de propósito, em parte minha maneira silenciosa de discordar da situação.
— Você sabia disso, Michelle? — pergunto quando passo por ela e vou para o corredor.
— Com certeza! — ela grita em resposta. Posso ouvir o sorriso em sua voz.
Abro a porta do quarto, ponho a mochila sobre a cama e começo a enfiar tudo dentro dela. Depois vou para o banheiro, pego nossas escovas de dentes e vários artigos de toalete. Arranco nossos carregadores da parede, pego meu celular do criado-mudo e enfio tudo na minha bolsa. Ando pelo quarto, torcendo para não ter esquecido nada.
Parece que Andrew já tinha feito as malas e eu nem percebi.
Em seguida fico ali, vasculhando cada centímetro do quarto, mas sem ver nada, na verdade. Não quero fazer isso, mas talvez seja o certo.
Ouço a buzina tocar três vezes e isso me arranca dos devaneios. Levantando a mochila, eu a jogo no ombro e pego minha bolsa de cima da cama.
— A gente se vê por aí! — Michelle diz do sofá.
Eu paro ao passar por ela, me curvo sobre o encosto do sofá para lhe dar um abraço desajeitado, atrapalhada pelas alças nos ombros.
— Divirta-se — ela acrescenta.
— Obrigada por nos convidar — eu digo.
Com um grande sorriso, Michelle gesticula para que eu vá, e eu saio da casa.
Quando desço os degraus, Andrew abre o porta-malas do Chevelle e eu jogo minha mochila lá dentro. Os cinco minutos que ele me deu passaram faz tempo, mas duvido que ele vá dizer alguma coisa.
— Tá pronta? — Andrew pergunta, fechando o porta-malas.
Eu respiro fundo, olho para Asher e Aidan, e antes de responder, vou abraçar os dois.
— Legal você ter vindo — diz Aidan.
— Vê se bota meu irmão na linha — Asher recomenda.
Sorrio para os dois, me sento no banco do passageiro e Andrew fecha a porta para mim.
Os três se despedem. Um minuto depois, Andrew se senta no banco do motorista, e uma lufada de ar frio entra no carro junto com ele.
Ele me olha.
— Então, vai ser assim — ele diz, apoiando os pulsos no volante. — A gente vai pro sudeste, pro litoral...
— Peraí — interrompo —, você planejou tudo? — Isso é tão fora do estilo dele. Me deixa cismada.
Andrew sorri suavemente e diz:
— Em parte. Mas é necessário.
— Que parte é necessária?
Ele me olha como que dizendo: Vai me deixar terminar?
Fico quieta e deixo que ele continue, enquanto ele se debruça e abre o porta-luvas.
— A gente vai pro sul, vamos ficar no litoral durante o inverno todo — ele diz, e agora só consigo me perguntar quanto tempo ele planeja ficar na estrada. O inverno todo? Não consigo entender que diabo de ideia é essa. Ele saca um mapa e o desdobra sobre o volante. Olho para ele, desconfiada. — Odeio o frio. Seguindo o litoral e indo mais pro sul na época certa, a gente vai evitar quase toda a neve e merdas assim.
Tá, o plano é bom, admito. Também não aguento o clima frio, portanto, sim, essa parte é necessária mesmo. Concordo com a cabeça e deixo que ele continue.
Andrew aponta para o mapa gigante e começa a correr o dedo pelo nosso itinerário.
— Vamos começar no litoral da Virgínia e ir pro sul, passando pelo seu estado, mas nada de parar pra visitar. — Ele aponta para mim. — A gente tá só de passagem, certo? — Ele espera a minha resposta.
Concordo com a cabeça novamente e digo:
— Certo — porque com certeza há um método em sua loucura, e sinto que devo concordar com ele.
Ele olha de novo para o mapa e volta a correr o dedo pelo papel.
— Depois, pela Carolina do Sul até a Geórgia, e aí vamos percorrer toda a costa da Flórida, da praia de Fernandina — seu dedo faz uma longa curva pelo papel — indo até Pensacola.
— Quanto tempo tudo isso vai levar?
Ele sorri e balança a cabeça para mim.
— Isso importa? — Então ele dobra o mapa desorganizadamente e o joga no banco, entre nós. — Eu decido a direção, desta vez. Sobretudo porque não quero morrer de frio. Mas... — Ele se vira de novo e olha para a frente, tirando os olhos de mim — Bom, é assim que precisa ser.
— Por que a gente tá fazendo isso, Andrew?
Seus olhos pousam em mim mais uma vez.
— Porque é o certo — ele responde, com um olhar profundo. — Porque você tá no carro.
Suas palavras me deixam confusa.
— Porque eu tô no carro?
Ele balança a cabeça discretamente.
— Sim.
— Mas... o que isso significa?
Seus olhos verdes se abrandam com o sorriso, ele estende a mão e segura o meu queixo. Ele beija meus lábios e diz:
— Você podia ter lutado com unhas e dentes. Podia ter me mandado à merda quando falei pra pegar nossas coisas. Mas você não fez nada disso. — Ele me beija devagar mais uma vez, e o gosto de hortelã do seu hálito fica em meus lábios. — Você não entrou correndo naquela casa porque eu mandei, foi porque era o que você queria. Você nunca fez nada só porque eu mandei, Camryn. Eu sou só um chute no seu traseiro, mais nada.
Tento disfarçar o sorriso que está se abrindo em meu rosto, mas não consigo. Ele se curva, aperta os lábios na minha testa e se endireita no assento. O motor ronrona agressivamente por um momento quando o pé dele aperta o acelerador.
Ele tem razão. Tudo o que ele já me mandou fazer, mesmo quando reclamei, eu jamais teria feito se uma parte de mim não quisesse. Fico intrigada em ver como ele sempre sabe coisas sobre mim antes que eu saiba.
Andrew
17
ACHO QUE ONTEM, em Chicago, foi a primeira vez que não consegui prever a reação de Camryn a uma das minhas exigências. Minha garota estava arrasada. Isso me deixava mais apavorado a cada dia, a pessoa que ela estava se tornando. Corri um risco ligando para Asher naquela noite e pedindo que ele dirigisse o Chevelle até Chicago. Eu não sabia o que Camryn ia fazer e, para dizer a verdade, temi que ela se recusasse a ir. Por causa da culpa. Ei, odeio termos perdido a nossa Lily. Daria um braço ou uma perna para tê-la de volta. Mas o que está feito está feito, e ficarmos parados nos afogando em sofrimento e nos recusando a fazer o que nos deixa felizes por qualquer motivo é uma puta duma bobagem. É assim que você se mata. Um suicídio lento e doloroso. Se Camryn recusasse, eu a carregaria sobre o ombro, esperneando e gritando, e a jogaria no banco de trás do carro. Porque essa é a nossa vida. Nós nos encontramos na estrada; nos conhecemos e aprendemos a nos amar na estrada. É onde devemos estar pelo tempo que for, e é o que vamos fazer até que fique claro que deveríamos fazer outra coisa.
As primeiras 14 longas horas de nossa viagem são calmas e silenciosas. Eu dirijo de Chicago até Virginia Beach ouvindo rádio, ou meus CDs quando não encontro uma estação decente. Camryn, embora sorria e fale sobre as coisas que vemos da estrada, ainda não voltou ao normal, mas vai chegar lá. Pode levar alguns dias, mas vai começar a cair na real.
As praias da Costa Leste são diferentes das do Texas. São mais limpas, e aqui a água parece água do oceano de verdade, e não a água barrenta e turva do Golfo em Galveston.
Já é quase noite. Vimos o sol se pôr no horizonte quando chegamos a Virginia Beach, e foi a primeira vez que vi aquela faísca nos olhos de Camryn, desde que ela perdeu o bebê. Se eu soubesse que um crepúsculo podia fazer isso, já a teria levado para ver um há muito tempo.
— Então, a gente vai pedir quartos separados? — ela pergunta quando saímos do carro no estacionamento do nosso primeiro hotel.
Percebo que ela está brincando, mas aposto que não espera que eu entre na brincadeira.
— É exatamente o que vamos fazer. — Eu abro o porta-malas e jogo nossas mochilas nos ombros.
— Tá falando sério? — Ela está chocada, e é engraçado.
Eu represento o melhor que posso. Nunca me passou pela cabeça pedir quartos separados, mas agora que ela mencionou isso, não acho tão má ideia.
Fecho o porta-malas e nós entramos no saguão do hotel.
— Andrew, acho que a gente já passou dessa fase.
— Dois quartos contíguos para não fumantes, por favor, se tiver.
A recepcionista digita o pedido em seu computador. Eu ignoro Camryn a maior parte do tempo, mexendo na minha carteira à procura do cartão de crédito.
— Andrew?
— Não tenho dois quartos contíguos — a mulher diz —, mas tenho dois que ficam um de frente pro outro no corredor.
— Pode ser — eu digo.
Camryn sussurra:
— Não acredito que você vai gastar dinheiro com dois quartos quando a gente já fez sexo milhares de vezes... — Camryn não para de falar, enquanto a recepcionista nos olha disfarçadamente como se fôssemos loucos. Adoro essa expressão no rosto das pessoas, esse ar surpreso de “não acredito que você disse isso”.
— Por favor, fique quieta — eu digo, me virando para Camryn. — Eu vou pro seu quarto e te como rapidinho, não se preocupe. Então para de dar espetáculo.
Camryn arregala os olhos tanto quanto a recepcionista.
Pego Camryn pela mão e a puxo para a saída do saguão.
— Espero que apreciem sua estada — a recepcionista diz em tom estupefato enquanto vamos para o elevador.
Camryn cai na gargalhada assim que as portas do elevador se fecham.
— O que foi aquilo?! — ela pergunta, incapaz de se conter. — Parecemos dois adolescentes imaturos!
— Mas você tá rindo — eu comento. — Portanto, a imaturidade valeu totalmente a pena.
O elevador para no segundo andar e nós saímos no corredor.
— Mas, sério, Andrew, por que quartos separados?
Provando mais ainda que a espontaneidade tem mesmo um propósito, eu penso no que pedi que Natalie enviasse a Chicago, enquanto andamos pelo corredor. Paramos no meio dele, diante dos nossos quartos, e eu jogo as mochilas no chão verde acarpetado.
— Só por esta noite — respondo, enfiando a mão na mochila para procurar o envelope.
Camryn fica perto de mim, assistindo a tudo em silêncio. Percebo que ela quer dizer alguma coisa, mas não tem certeza, nesse momento, do que poderia ser.
Eu endireito o corpo com o envelope na mão. Ela olha para ele, mas não sabe ao certo quais são as minhas intenções.
— Esta noite você vai ficar sozinha no seu quarto — eu digo e entrego o envelope a ela.
Ela parou de sorrir assim que tirei o envelope da mochila. Agora só consegue olhar para mim, confusa e intrigada.
Cuidadosamente, ela estende a mão e pega o envelope, ainda insegura com relação a tudo, talvez até quanto a querer ou não saber o que há dentro dele.
Eu passo o cartão na fechadura do quarto de Camryn e abro a porta, levando a mochila dela para dentro. Ela me segue, vários passos atrás, muda e desconfiada, com o envelope entre os dedos relutantes. Deixo a mochila dela sobre o balcão da TV e verifico o quarto, como sempre faço. Ligo e desligo as luzes e testo o aquecedor antes de puxar os lençóis para ver se estão limpos. Lembrando que Camryn tem fobia de colchas de hotel, eu a arranco completamente da cama e a jogo no chão, num canto do quarto.
Ela fica perto do pé da cama, imóvel.
Eu me aproximo e fico na frente dela. Olho-a nos olhos e observo o modo como ela retribui meu olhar. Passo o indicador por sua sobrancelha e pelo lado de seu rosto e sinto o calor de sua pele sob o meu toque. Eu a quero. Quando seus olhos baixaram para os meus lábios, isso desencadeou algo predador em mim. Mas eu controlo meus impulsos, pelo seu bem. Esta noite, se tudo der certo, um ciclo vai se fechar.
— Cam foi ao funeral — Natalie me disse pelo telefone no dia em que liguei para ela da casa de Aidan. — Mas chegou tarde, ficou bem no fundo, perto da porta, e foi embora antes que a cerimônia terminasse. Ela se recusou a ir até o caixão.
— Alguma vez ela falou com você a respeito disso? — perguntei.
— Nunca — Natalie disse. — E sempre que tentei abordar o assunto, o funeral, o acidente, qualquer coisa, ela não me deixou continuar.
Esta noite vai ser dura para Camryn, mas se ela não enfrentar isso, nunca vai melhorar.
— Você sabe onde estou — sussurro suavemente, deixando minhas mãos caírem dos seus braços. — Vou ficar acordado a noite toda. Comecei a compor outra canção ontem e quero muito trabalhar nela enquanto tá fresca na minha mente. — Aos poucos, mas sempre, estamos compondo material próprio, especialmente desde a viagem a Chicago; e depois da noite em que tocamos no bar de Aidan, Camryn mostrou interesse por isso, por algum motivo.
Camryn balança a cabeça e sorri fracamente por baixo da expressão de preocupação em seu rosto, preocupação com o que se esconde dentro do envelope.
— E se eu não quiser ficar neste quarto sozinha? — ela pergunta.
— Tô pedindo pra você ficar — insisto com firmeza. — Só por esta noite.
Não quero dizer mais do que isso, mas espero que a sinceridade no meu rosto faça o que palavras poderiam fazer.
— Tá bom — ela concorda.
Eu a beijo de leve nos lábios e a deixo sozinha no quarto.
Só espero que esse tiro não saia pela culatra.
Camryn
Andrew me deixa no quarto. Sozinha. Não gosto disso, mas aprendi a lhe dar ouvidos nos curtos cinco meses que passamos juntos. Cinco meses. Isso me espanta cada vez que lembro, porque parece mais que estamos juntos há cinco anos, depois de tudo o que enfrentamos. Às vezes penso no meu ex, Christian, o namorado infiel que arranjei para preencher o vazio deixado por Ian, e com quem fiquei por quatro meses. A gente mal se conhecia. Pensando bem, agora não consigo nem lembrar o dia do seu aniversário ou o nome de sua irmã, que morava a duas quadras da casa dele.
É totalmente outro mundo com Andrew.
Em cinco meses, me encontrei com ele, me apaixonei total, incondicional e loucamente, aprendi de verdade a viver, conheci praticamente toda a sua família e logo me senti parte dela, enfrentei uma jornada desafiando a morte com Andrew, fiquei grávida e noiva. Tudo em cinco meses. E agora aqui estamos, enfrentando mais uma dificuldade. E ele continua comigo a cada passo. Fui idiota e fraca e tomei comprimidos, e ele continua aqui. Eu me pergunto se existe alguma coisa que eu possa fazer que seria tão horrível a ponto de ele me abandonar. Algo no meu coração diz que não, não existe nada capaz disso. Nada mesmo.
Nunca vou entender, enquanto eu viver, como tive a sorte de ficar com ele.
Durante esse momento de reflexão, noto que meus olhos não desviaram da porta por onde ele saiu. Finalmente, olho para o envelope na minha mão, e não sei por quê, mas fico com medo de pensar no que há dentro dele. Pensei nisso muitas vezes esta semana. Uma carta? Se for, do que poderia falar? E para quem seria, e de quem? Por que Natalie me escreveria uma carta? Por que ela escreveria para Andrew?
Nada disso faz nenhum sentido.
Eu me sento no pé da cama, deixando minha bolsa cair no chão ao meu lado, e passo os dedos pelo contorno do que está dentro do envelope. Mas já fiz isso algumas vezes esta semana e continuo chegando às mesmas conclusões: é um papel, meio grosso, dobrado duas ou três vezes. Não tem nenhuma saliência, nem mesmo algum relevo dentro. É só papel.
Eu suspiro e faço menção de soltá-lo, mas continuo segurando. Não sei por que não abro essa droga de uma vez. Está me deixando meio maluca há uma semana, e aqui estou eu, finalmente capaz de desvendar o segredo de uma vez, abrindo-o, mas tenho medo demais.
Deixo o envelope na cama e me levanto, cruzando os braços e olhando para ele com o canto do olho enquanto começo a andar pelo quarto. Me sinto ameaçada por ele, como se fosse pular em mim e cravar as garras na minha perna quando passo perto. Como aquela gata psicótica que minha tia Brenda tem. Até começo a mexer na minha bolsa, procurando o celular para ligar para Andrew e fazê-lo contar por que tudo isso, até que me dou conta de como isso seria idiota.
Finalmente, eu pego o envelope e, depois de uma longa pausa, sentindo seu peso leve em minha mão, passo a ponta do dedo pela aba colada para soltá-la. Depois de tentar romper o lacre cuidadosamente e não conseguir, mando tudo à merda e rasgo o resto de alto a baixo. Jogo o envelope esfarrapado na cama e desdobro o papel de carta, vendo que a maior parte dele está em branco. Foi usado apenas para esconder a fotografia que tem dentro. Olhando para o verso da fotografia, primeiro me recuso a virá-la para ver o que há do outro lado. Em vez disso, leio a letra de Natalie no meio do último pedaço de papel:
Esta foi a melhor que eu achei.
Espero que ajude no que você está tentando fazer, seja o que for.
Sinceramente,
Natalie
Viro a fotografia e meu coração afunda como uma pedra quando vejo o rosto vibrante e sorridente de Ian me olhando. Minha bochecha está encostada na dele, olhando para a câmera. As luzes coloridas dos brinquedos do Parque Estadual da Carolina do Norte iluminam a noite ao fundo, atrás de nós. Como se eu tivesse caído num lago congelado, ver seu rosto me deixa totalmente sem fôlego. Lágrimas brotam instantaneamente dos meus olhos, e eu deixo a foto cair dos meus dedos sobre a cama. As duas mãos sobem ao meu rosto, onde os dedos cobrem meus lábios trêmulos.
Como posso me permitir chorar por ele?! Por que isso está acontecendo?!
Eu me desfiz de todas as fotos de Ian por um motivo. De todas. Deletei cada arquivo com fotos digitais nossas, tirei seu nome do meu celular. Até joguei fora o criado-mudo que eu tinha desde criança, porque Ian entalhara IAN AMA CAMRYN na madeira por baixo dele. Tentei tirar da minha vida cada coisa que me fizesse lembrar dele, o melhor que pude, porque doía demais saber que tudo o que me restava dele eram coisas materiais. Eu não podia fazer muita coisa com as lembranças, mas me esforcei ao máximo para esquecê-las também.
Por que Andrew faria isso comigo? Trazer toda essa dor de volta à minha vida, e ainda por cima tão pouco tempo depois de perdermos Lily?
Uma parte de mim quer berrar com Andrew, sair marchando pela porta, cruzar o corredor até seu quarto e lhe dizer o quanto isso dói. Mas minha razão me alcança rapidamente. Eu sei por que ele fez isso. Eu sei por que ele me colocou neste quarto, sozinha, com esta foto. Porque ele me ama tanto que está disposto a me devolver Ian só por uma noite, para que eu possa finalmente aceitar a perda dele.
Mas não consigo olhar essa droga de foto! Não consigo!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, pego meu suéter grosso da mochila e enfio os braços de qualquer jeito nas mangas. E então saio correndo do quarto e vou para o elevador.
Segundos depois, estou sentada na areia fria da praia, olhando para o oceano sem fim.
Andrew
18
EU ME PERGUNTO se ela vai abrir. Cacete, me pergunto se ela vai me odiar por fazer isso com ela, mas se isso vai ajudá-la, aceito a barganha.
Aperto o botão de ligar do controle remoto e uma velha reprise de Seinfeld preenche o silêncio do meu quarto. Tiro os sapatos e entro no chuveiro, deixando a água quente bater em mim até ela começar a sair morna. Só consigo pensar no que Camryn está fazendo, sozinha no seu quarto, se está olhando para aquela foto de seu ex-namorado morto, e se está se aguentando. Quero ir lá ajudá-la, mas sei que é algo que ela precisa fazer sozinha. Algo que ela deveria ter feito há muito tempo, antes que nos conhecêssemos.
Depois de me enxugar, enrolo a toalha na cintura e remexo na mochila sobre a cama, procurando uma cueca. Eu me sento, olho fixamente para a TV, depois para a parede, depois para a TV de novo, até que me dou conta de que estou só tentando fazer qualquer coisa para parar de pensar em Camryn.
Deixo meu MP3 tocar umas cinco músicas aleatórias em meus ouvidos antes de decidir que preciso ao menos ver como ela está. Tento seu celular primeiro, mas ela não atende. Então uso o telefone do hotel e tento ligar para o quarto dela. Ainda sem resposta. Talvez ela esteja apenas tomando banho. Tento me obrigar a acreditar nisso, até que meu instinto fala mais alto. Visto meu jeans e uma camisa de manga comprida e atravesso o corredor até seu quarto. Encosto o ouvido na porta, tentando ouvir o chuveiro ligado. Nada. Por isso passo o cartão extra na porta para destrancá-la.
Ela não está ali. Meu coração acelera enquanto entro no quarto. A primeira coisa que noto é a fotografia, que na verdade eu nem tinha visto ainda, sobre a cama. Eu a pego e a estudo por um instante. Camryn parece tão feliz nela. Essa é a Camryn que eu conheci, aquela com um sorriso lindo e cheio de energia. Me lembro desse sorriso. Eu o vi dezenas de vezes quando estávamos na estrada juntos.
Entrando em pânico, tiro os olhos da foto e vou para a janela. Olho para o oceano negro lá fora e vejo algumas pessoas andando pelo calçadão. Com a foto ainda na mão, volto rapidamente para o meu quarto e calço os sapatos, deixando-os desamarrados enquanto saio e vou para a praia. O ar frio não é insuportável, mas é suficiente para me fazer pensar que fiz bem em usar mangas compridas. Procuro qualquer sinal dela, olhando de um lado para o outro no calçadão e nas cadeiras de praia perto do hotel, mas ela não está em lugar nenhum. Enfiando a foto no bolso de trás da calça, começo a correr um pouco e rumo para a praia.
Eu a encontro sentada na areia, não muito longe.
— Porra, amor, você me deixou apavorado.
Eu me sento ao lado dela, passando um braço ao redor do seu corpo.
Ela olha para o oceano, o vento gelado atravessando seu cabelo louro. Não olha para mim.
— Desculpa. Eu só queria...
— Eu te amo, Andrew — ela interrompe, mas continua com o olhar fixo à sua frente. — Não sei como uma garota pode ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo.
Sem saber aonde ela quer chegar com isso, tenho medo de dizer alguma coisa porque não quero dizer a coisa errada. Eu a aperto mais para compartilhar o nosso calor. E não digo uma palavra.
— Não tô brava com você — ela continua. — Primeiro fiquei, mas quero que saiba que não tô mais.
— Me fala o que você tá pensando — peço baixinho.
Ela ainda não desviou o olhar da escuridão à sua frente. As ondas mal lambem a praia a alguns metros de nós. Um pontinho branco, a luz de um barco, se move no horizonte.
De repente, sinto que Camryn está me fitando e me viro para olhá-la também. A luz dos prédios atrás de nós e do luar é suficiente apenas para mostrar seus traços suaves, os cachos do seu cabelo soprados sobre sua face fria. Eu afasto alguns fios dos seus lábios. Seu olhar se abranda quando ela me encara e diz:
— Eu amava Ian, amava muito. Mas não quero que você pense...
Eu balanço a cabeça.
— Camryn, não faz isso. Não estamos aqui pra falar de mim, tá? — Eu enfio o dedo em outro cacho do seu cabelo e o afasto da sua boca. — Não fale de mim.
Ela para por um momento, e sinto sua mão no meu colo e meus dedos se entrelaçando com os seus.
Camryn volta a olhar o oceano.
— Eu não queria ir ao funeral de Ian — ela me conta. — Não queria vê-lo pela última vez daquele jeito. — Camryn me olha. — Lembra aquele dia, no seu apartamento, quando cheguei e você tava falando ao telefone com Aidan, quando ele tava tentando te convencer a ir ao funeral do seu pai?
Balanço a cabeça.
— Lembro, sim.
— Você disse uma coisa pra ele, disse que preferia que a última vez que você visse alguém, que ele estivesse vivo, não morto, deitado num caixão. Bem, era isso que eu pensava do funeral de Ian. Eu não queria ir. Foi por isso, também, que eu não quis ver Lily. Por isso escolhi a cremação.
— Mas você foi. Ao funeral de Ian. — Eu evito o assunto de Lily por enquanto. É um caso mais doloroso. Para nós dois. Eu a vi. Era tão pequena que caberia na palma da minha mão. Mas Camryn se recusou a olhar.
Ela balança a cabeça.
— Não exatamente — ela explica, a respeito do funeral de Ian. — Eu tava lá, mas não tava. Minha maneira de me desapegar dele foi tirá-lo da minha mente, cada palavra que ele já me disse, seu rosto; tudo o que eu podia apagar, eu apaguei. Só fui porque era o que todos esperavam de mim. Se eu não estivesse tão preocupada com o que todos fossem pensar de mim, teria ficado em casa naquele dia.
— Mas isso não fecha o ciclo — digo cautelosamente. — É a mesma coisa que varrer a sujeira pra baixo do tapete. Ela continua lá. Você sabe que tá lá. E aquilo vai ficar te incomodando até você fazer certo.
— Eu sei — ela diz.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, eu enfio a mão no bolso de trás e tiro a foto.
— Sabe, se ele ainda estivesse vivo, eu ficaria com um pouco de ciúme. Até que, pra um cara, ele é gato.
Camryn sorri para mim e noto que seu olhar mal pousa na foto.
Eu a deixo na areia perto dos nossos joelhos. Então fico sério de novo.
— Camryn, isso que tá acontecendo com você, os comprimidos e tudo mais, não é só por causa da perda da Lily. Você sabe disso, não sabe?
Ela não responde, mas percebo que está pensando muito no que eu falei.
— Você bloqueia tudo. Ian. Lily. De acordo com Natalie, até a morte da sua avó, o crime de Cole, e o fato do seu pai ter ido embora e parecer se importar mais com a nova namorada do que com você. — Digo as coisas como elas são porque é exatamente assim que precisam ser ditas. — Em vez de lidar com tudo isso, chorar, o que for, você só bloqueia essas merdas e espera que desapareçam sozinhas. Você já tava fazendo isso bem antes da gente se conhecer. Mas precisa saber que tudo se acumula, e um dia você desmorona e cai num abismo.
— Sei. Você tem razão, como sempre — ela concorda desconsoladamente.
— Você acredita nisso ou tá concordando só pra me fazer calar a boca? — Abro um sorriso para ela, esperando receber outro em troca.
E funciona.
Ela sorri e diz:
— Não, eu acredito mesmo. Só queria ter acreditado nisso antes.
— Por que acredita agora?
— Porque você é uma espécie de filósofo com tatuagens. — Ela ri, e isso espalha calor pelo meu sangue.
Não acredito que ela está rindo. De início, imaginei que fosse levar muito tempo para Camryn aceitar tudo isso, mas ela me surpreende a cada dia.
— Um filósofo? — digo. — Exagerada. Mas aceito o elogio.
Camryn se vira de lado e deita a cabeça no meu colo. Ela olha para mim com aqueles olhos azuis de corça, e não consigo deixar de tocar seu rosto macio.
— Quer saber a verdade? — ela pergunta.
— Claro — respondo, mas fico um pouco ansioso, de repente.
— É como te falei na casa de Aidan — ela continua. — Se um dia eu perdesse você, logo você, isso seria o fim pra mim. Quando tive o aborto, isso fez todos os meus medos voltarem. De perder você. Foi como se aquele instante de tragédia me fizesse lembrar de novo da morte, e com que rapidez ela pula em cima de uma pessoa. Se Deus, a natureza, ou sei lá quem ou que porra controla tudo, pode ser cruel e desalmado a ponto de matar o meu bebê, então Ele pode te matar também, sem pensar duas vezes. Isso me apavora, Andrew. A ideia de perder você me mata por dentro. E como já quase te perdi uma vez, o medo fica muito pior.
— Mas eu já te disse...
Ela se levanta do meu colo e fica sentada na minha frente, com os joelhos enterrados na areia.
— Eu sei o que você disse — ela interrompe. — Mas não importa o que você pensa, ou você saber dizer todas as coisas certas pra me fazer sentir melhor. Você não tem certeza do que vai acontecer, Andrew. O tumor pode muito bem voltar, e apesar de tudo o que fazemos, de todas as precauções que tomamos, ele pode te matar.
Eu começo a discordar, mas ela está tão empenhada em me dizer essas coisas que sei que preciso deixar.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu — ela continua — e agora posso te olhar nos olhos e dizer que, por mais que isto doa, consigo aceitar a morte de Ian. Consigo aceitar a morte de Lily. Consigo aceitar a morte de qualquer um, mesmo que essa morte seja insuportavelmente dolorosa. Mas a sua... — Ela se interrompe e nem pisca ao olhar no fundo dos meus olhos. — A sua eu jamais poderia aceitar. Jamais.
O silêncio entre nós só amplifica o som do oceano. Quero pegá-la nos braços, apertar meus lábios contra os dela, mas fico sentado ali, olhando para ela, porque as palavras que ela me disse são as mais poderosas que já ouvi, senti ou entendi.
Finalmente, eu a pego em meus braços e a ponho no meu colo. Passo os braços pelas suas costas, fito seus olhos e digo:
— Acredito em você e sinto a mesma coisa.
Ela inclina um pouco a cabeça para o lado.
— Mesmo?
— Sim. Camryn, não consigo viver sem você. Eu poderia tentar, mas ia ser uma existência péssima. Isso não vale só pra mim; você pode morrer amanhã tão facilmente quanto eu. Ninguém tá imune.
Ela não discute, mas desvia o olhar por um breve momento.
Eu seguro seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me olhar. Sua pele está gelada.
— A gente precisa viver no presente, lembra? — eu digo e ela volta a prestar atenção em mim. — Precisamos fazer um pacto, você e eu, agora mesmo. Topa fazer um pacto comigo? — Movo um pouco minhas mãos para aquecer suas orelhas geladas.
Ela concorda com a cabeça.
— Tá — diz, e fico feliz por ela confiar em mim o suficiente para não fazer perguntas antes de concordar.
Tirando uma mão de sua orelha, passo as pontas dos dedos na sua testa e pelos lados de suas bochechas.
— Não podemos controlar a morte. Nenhum dos dois pode fazer nada pra evitá-la ou adiá-la. Só o que podemos controlar é como vamos viver nossas vidas antes que ela nos alcance. Portanto, vamos prometer um pro outro coisas que possamos cumprir, haja o que houver.
Camryn concorda com a cabeça e sorri um pouco.
— Que tipo de coisas? — ela pergunta.
— Qualquer coisa. Tudo o que a gente quiser um do outro. Tipo... — Eu me levanto da areia e enfio as mãos nos bolsos. Olho para o oceano, vasculhando minha mente em busca da melhor promessa para começar. Só consigo pensar numa coisa no momento, por isso me viro novamente para ela, levanto o dedo indicador e digo: — Isto não tem nada a ver com o tumor, nem com nada específico, mas quero que você me prometa que, se algum dia estiverem me mantendo vivo por aparelhos, por qualquer motivo, e você sentir no fundo do coração que eu não vou melhorar, se você sentir que eu tô sofrendo, vai mandar desligar os aparelhos.
Seu sorriso desaparece, e ela me olha como se eu tivesse estragado o momento. Eu estendo os braços e a pego pela mão, fazendo-a levantar comigo.
— Não tô tentando ser mórbido. É só uma coisa que sempre me incomodou, sabe? Você vê isso na TV e nos filmes. O cara fica ligado a todo tipo de aparelho que a ciência já inventou pra se manter vivo porque a família tem esperança ou qualquer coisa assim. Nada contra ter esperança, mas, porra, aquilo me dá um puta medo. — Eu seguro seus braços delicadamente. — Nunca me deixe viver como um vegetal. Me prometa isso. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa, e confio que você vai saber quando tiver chegado a minha hora. Então prometa.
Aos poucos, ela começa a entender. Leva um segundo, mas ela começa a concordar com a cabeça.
— Me promete a mesma coisa — ela pede.
Eu sorrio e digo:
— Tá prometido.
Ela dá um passo para trás e enfia as mãos nas mangas. Apertando bem o suéter ao redor do corpo, ela começa a andar de um lado para o outro.
Ela para e me olha.
— Promete que se um dia eu tiver mal de Alzheimer ou ficar senil e não me lembrar de ninguém, você vai me visitar todo dia e ler pra mim, como Noah lia pra Allie.
— Quem? — eu pergunto, mas aí a ficha cai. — Aaaah, entendi. — Eu rio dela e concordo com a cabeça.
Seus olhos e seu sorriso aumentam e ela grita:
— Andrew! Não tem graça! Tô falando sério! — Ela ri e eu a agarro, puxando-a para os meus braços.
— Tudo bem, tudo bem! — eu me rendo, apertando seu corpo que se retorce contra o meu.
— A ideia foi sua — ela acusa —, então não faz piada.
— Eu sei. Você tem razão, mas... é sério? Precisa ser tão fã assim de Diário de uma paixão?
Sinto o cotovelo dela atingindo meu estômago e me curvo um pouco e exagero a dor que isso me causa, contorcendo o rosto com a agonia e o riso. Para me humilhar de vez, Camryn me dá um empurrão e me derruba na areia. Depois fica por cima de mim, com um pé de cada lado do meu peito e as mãos na cintura, toda autoritária. Mantenho uma mão na barriga, rindo e tentando ficar sério, embora eu saiba muito bem que não consigo enganá-la.
— Só você pra fazer piada num momento tão sério. — Ela reclama tão seriamente que isso só me faz rir mais, sobretudo pela dificuldade dela em ficar de cara fechada.
Ela começa a se sentar em cima de mim, e provavelmente vai tentar me bater com suas mãozinhas delicadas, mas eu a seguro antes que ela comece, meto a mão no meio das pernas dela e aperto com toda a força.
— Aaaaaii! — Camryn geme, e começa a desabar, mas eu a mantenho na posição. — Que ideia é essa de apertar minhas paaarrr... porra, Andrew! Apertar minhas partes?!
Faço mais pressão e levanto aos poucos as costas da areia, guiando-a para trás. Ela fica de joelhos olhando para mim.
— Porque eu gosto — sussurro sobre seus lábios. — Agora fica parada.
O clima entre nós muda em questão de segundos. Sua pele fria fica mais quente; seus olhos, arrebatados; seu corpo, conivente.
— Tem gente aqui... — ela tenta dizer baixinho, mas minha mão apertando-a no meio das pernas lhe rouba a voz.
— Não me importa — retruco, examinando seus olhos primeiro e então seus lábios úmidos e inchados. — Eles estão longe.
— Mas... o que você tá fazendo...
— Só fica parada. Quieta. — Eu passo a língua sobre seu lábio inferior e o chupo delicadamente. Sinto que ela tenta me beijar, mas não deixo. Eu puxo o tecido de sua calça e enfio a mão dentro da cintura folgada para achar o seu calor. Caramba, ela já tá molhada. Me curvando sobre o seu pescoço, fecho os olhos e inalo o cheiro de sua pele. Ela fica bem imóvel, mas posso sentir seu corpo tremendo e seu coração batendo forte sob o meu toque. Quero tanto comê-la. Mas não vou fazer isso ainda, porque gosto de me torturar. Adoro, porra.
Minha mão livre solta sua cintura e eu a ponho em sua coxa, forçando-a a abrir mais as pernas.
— Abre — eu instruo, com meus lábios roçando nela, e Camryn faz exatamente o que eu mando, afastando os joelhos na areia. Ela fica um pouco tensa quando percebo um homem andando não muito longe, mas eu a aperto de novo, enfiando dois dedos nela e obrigando-a a olhar só para mim. Ela geme e eu estremeço silenciosamente, sentindo suas entranhas se apertando em volta dos meus dedos. Encaro seus olhos, os meus de vez em quando se perdendo no estudo da curvatura de sua boca. — Não tira os olhos de mim — digo. — Não me importa se você sentir que precisa fechar os olhos. Não feche. Continue me olhando.
Ela balança um pouco a cabeça, como se temesse que eu vá parar se ela fizer errado.
Mexo os dedos para dentro e para fora dela, lentamente de início, tirando-os e usando seu gozo para manter seu clitóris úmido, esfregando meu dedo médio sobre ele num movimento circular. Cada vez que a toco, seus olhos começam a se fechar, mas eu paro assim que percebo, e ela volta a controlar o olhar. Mexo meus dedos dentro dela de novo, um pouco mais rápido, e com o polegar faço cada vez mais pressão no seu clitóris. Pequenos gemidos escapam de seus lábios abertos, chupando o ar gelado ao nosso redor e meu hálito quente à medida que fico mais ofegante em sua boca. Mas ela nunca tira os olhos dos meus e não fala, embora eu saiba que ela queira fazer tudo isso.
— Admite uma coisa — sussurro no ouvido dela. — Neste momento, você não estaria nem aí se alguém estivesse olhando. Não é verdade? Me deixaria foder você aqui, na frente de todo mundo, e se preocuparia com a vergonha só depois que eu terminasse.
Sinto sua cabeça balançando perto da minha.
— O que mais você me deixaria fazer? — pergunto e mantenho os lábios perto do ouvido dela. Continuo mexendo os dedos.
— Tudo o que você quisesse — ela diz, com um gemido na voz.
— Tudo o que eu quisesse? — Eu esfrego meu polegar com mais força no seu clitóris.
— Tudo... — ela diz e perde um pouco o fôlego. — Qualquer porra que você quisesse...
Suas palavras, sua voz carregada de desejo, me deixam louco de tesão por ela, e meu pau está tão duro que mal consigo aguentar. Enfio os dedos com mais força e mais rápido. Seu corpo começa a tremer, suas coxas balançam tentando levantar o corpo. Eu me afasto do ouvido dela e a fito de novo. Ela mantém o olhar fixo no meu o melhor que pode, suas pálpebras estão ficando mais pesadas; sua respiração, irregular e ofegante. Mas seus olhos ficam arregalados e imóveis quando atinjo aquele ponto especial, e tomo cuidado para não interromper o ritmo.
— Não tira os olhos de mim — digo e continuo a olhá-la ferozmente.
Quando ela começa a gozar, meu olhar só fica mais forte, perfurando o dela num momento de luxúria faminta. É como se eu conseguisse ver o prazer emanando de suas íris, o calor do seu orgasmo saindo da pele sensível dos seus lábios, que querem beijar os meus tão selvagemente, mas mesmo assim eu não deixo. Quando seu corpo trêmulo começa a se acalmar, enfio os dois dedos mais fundo, sentindo-a se estreitar ao redor deles, o tempo todo mantendo a pressão no seu clitóris.
Ela desaba sobre o meu peito.
Eu envolvo seu corpo trêmulo nos braços e beijo o alto da sua cabeça.
— O que você tá fazendo comigo, caralho? — ela diz.
Eu rio um pouco e a abraço mais forte.
— Qualquer porra que eu quiser — respondo astutamente.
Erguendo a cabeça do meu peito, ela olha para mim.
— Bom, pode dizer o que quiser, mas não vai me fazer gozar desta vez sem que eu retribua o favor.
— Ah, é?
— É isso mesmo, por isso nem tenta.
— O que você vai fazer comigo, então? — Eu sinto o meu sorriso aumentando.
— Qualquer porra que eu quiser — ela diz, com um sorriso ainda maior e mais malicioso que o meu.
Então ela fica de pé e, segurando minha mão, me faz levantar com ela.
— Mas não aqui fora — ela diz. — Tá esfriando demais.
— Você que manda — digo, deixando que ela me puxe.
Eu jamais tocaria no assunto, mas noto, quando nos afastamos da praia, que Camryn olha para trás uma vez, para a foto dela e de Ian na areia. Sua mão aperta a minha forte e ela olha para meu sorriso suave quando atravessamos o calçadão.
Sei que tive muito pouco a ver com ela finalmente fechar esse ciclo. Tudo bem, eu a forcei a fazer isso, mas foi Camryn que, naquele momento, enfrentou um dos seus maiores medos. Ela olhou no rosto de alguém que amou e perdeu, e finalmente aceitou isso. Admito que foi estranho como tudo aconteceu, e eu não fui para lá com nenhuma intenção sexual, especialmente num momento como aquele. Mas Camryn, no tempo que passou sozinha naquela praia pensando em Ian, bem antes que eu chegasse, já tinha entendido tudo.
Não sei ao certo como ela fez, ou qual foi meu papel nisso, mas quando retornou da praia comigo naquela noite, ela já começava a ser como era antes.
Camryn estava voltando, e eu estava nas nuvens com ela.
Camryn
19
8 DE DEZEMBRO — meu vigésimo primeiro aniversário
Quando começou a esfriar, Andrew e eu rumamos mais para o Sul. Passamos só uma noite em Virginia Beach e de lá percorremos o litoral da Carolina do Norte, ficando alguns dias em Myrtle Beach, Carolina do Sul, onde arranjei meu primeiro emprego na estrada. Como arrumadeira. Com certeza não era a minha primeira escolha, especialmente depois que Andrew me lembrou das coisas nojentas que os hóspedes costumam deixar nos quartos. Mas era um emprego e não me incomodava tanto, a não ser quando queriam que eu lavasse cestos de lixo com catarradas nojentas grudadas no fundo. Desculpa, mas só de pensar nisso me dá vontade de vomitar. Eu ligava para Andrew e implorava que ele viesse limpar. Claro que eu o subornava com promessas de boquetes enlouquecedores em lugares públicos. Puxa, que maravilha. Não, quem eu tô tentando enganar? Adoro fazer isso por ele. Só finjo detestar às vezes, mas acho que ele gosta quando eu finjo, porque gosta de me ouvir reclamar.
De qualquer forma, pelo jeito, empregos de arrumadeira são como portas giratórias, as funcionárias vêm e vão tão rápido que seria melhor nem incluí-las oficialmente na folha de pagamento. Pensei em como isso poderia trabalhar a meu favor enquanto estivéssemos na estrada. Assim, em troca de metade do valor das diárias do quarto que estávamos ocupando, e como o quadro de funcionários do hotel estava desfalcado, eu perguntei se poderia ajudar e eles me contrataram na hora.
Mas o emprego era só temporário, pois Andrew e eu precisávamos partir de Myrtle Beach e seguir para o nosso destino, onde quer que fosse. Nunca planejamos nossos destinos antecipadamente. A nossa única regra é ficar no litoral. Pelo menos até a primavera. Mas ainda faltam alguns meses até lá e, no momento, estamos felizes instalados num hotel estilo chalé bem em frente à praia, na linda Savannah, Geórgia.
E hoje eu faço 21 anos.
Andrew me acorda de um sono profundo abrindo as cortinas da janela gigante do nosso quarto e deixando o sol invadir o ambiente.
— Levanta, aniversariante — exclama ele de algum lugar perto do pé da cama. Eu o ouço batendo várias vezes na mesinha perto da janela com a palma da mão.
Resmungo e viro para o lado, dando as costas para o sol brilhante e me enterrando nos lençóis. Uma lufada de ar frio me atinge quando Andrew me arranca os lençóis.
— Ah, vai! — gemo, encolhendo os joelhos para o peito e puxando o travesseiro para cima da minha cabeça. — Eu devia poder dormir até tarde no meu aniversário.
De repente, meu corpo está sendo arrastado da cama e eu estico os braços freneticamente, tentando me agarrar à borda do colchão. A mão de Andrew segura com firmeza o meu tornozelo. Eu chuto e esperneio, tentando me soltar, mas ele me arrasta pela cama tão rápido e sem esforço que eu simplesmente desisto. Minha bunda bate no chão e os lençóis caem ao meu redor.
— Você é tão babaca! — eu rio.
— Mas você me ama. Agora levanta.
Com o cabelo todo emaranhado, olho para Andrew e faço bico. Ele sorri para mim e estende a mão. Eu a seguro e ele me puxa de pé.
— Feliz aniversário, amor — ele diz, e me dá um selinho.
Eu me encolho um pouco, porque sei que meu bafo está podre, e já estou ficando acostumada com a mania de Andrew de aproveitar qualquer oportunidade de me lembrar disso.
Sem olhar para mim, Andrew enfia a mão no bolso do casaco e tira uma caixinha de veludo preto. Obviamente, ele já saiu hoje, mas eu estou mais interessada na caixa que ele pôs na minha mão. Olho para ele desconfiada, pronta para dar um esporro nele caso tenha gastado uma grana numa joia escondido de mim.
— Andrew? — digo, desconfiada.
— Abre de uma vez. Eu me comportei. Juro. — Ele ergue as duas mãos num gesto de rendição.
Ainda totalmente desconfiada de sua aparente sinceridade, abro a tampa da caixa e vejo um colar com pingente de diamante dentro e fico com um pouco de falta de ar. Então estreito os olhos para ele.
— Andrew, por favor. — Olho mais uma vez para o colar, me sentindo culpada só de tê-lo nas mãos. — De jeito nenhum isso foi...
— Juro — ele diz com um sorriso encantador. — Não foi caro.
Mordendo o lábio com ceticismo, eu pergunto:
— Quanto custou, então?
— Ah, uns 125 dólares. Nada mais do que isso. Juro por Deus. — Ele faz uma cruz sobre o coração com o dedo.
Então tira o colar da caixa, deixando-o pendurado na mão.
— Gostou? — pergunta, indo para trás de mim.
Instintivamente, levanto meu cabelo embaraçado enquanto ele põe o colar no meu pescoço.
— É perfeito, Andrew. Eu mais do que gostei. Eu amei. — Olho para baixo enquanto ele o fecha e seguro o pingente brilhante de prata.
Eu me viro para Andrew e fico na ponta dos pés descalços para beijá-lo apaixonadamente.
Nem imagino como uma joia dessas pode não ter custado um caminhão de dinheiro, mas ele está dizendo a verdade. Eu acho...
— Obrigada, amor — agradeço, radiante.
De repente, ele me dá um tapão na bunda e diz:
— A gente precisa sair daqui hoje. Tô de saco cheio de me esconder em quartos assim. De saco cheio do frio. Eu queria poder hibernar.
— Eu também. E o que a gente vai fazer, exatamente? — Pego uma roupa limpa da minha mochila perto da TV.
— Sei lá. Qualquer coisa. Mas põe uma roupa quente.
Ele não precisava me lembrar disso, na verdade. Nem mesmo a proximidade do litoral e a mudança de latitude ajudaram muito a nos aquecer nos últimos dias. Ambos sonhamos com a primavera e o verão, a ponto de ser a única coisa da qual falamos. Eu reclamo muito de não poder esticar os pés descalços para fora da janelinha do carro sem matar nós dois de frio, e ele reclama que ainda não conseguimos dormir num gramado sob as estrelas. Claro que não vou dizer em voz alta, senão ele vai querer ainda mais, mas não estou muito ansiosa para dormir sob as estrelas. Jamais. Não depois do que aconteceu na primeira vez que tentamos. Não. Acho que estou satisfeita com as camas de hotel. Elas não têm cobras.
O inverno é deprimente. Acho que é por isso que o índice de suicídios é tão alto no Alasca. É um estado lindo, mas ainda prefiro o calor de rachar de um deserto do Sul.
Eu visto roupas extraquentes para o meu aniversário: casaco grosso, cachecol, luvas, o que tiver eu tô vestindo. E mesmo assim tô morrendo de frio.
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Andrew meio que “esquenta” o inverno. Sempre achei que caras de gorro ficam sexy, mas o jeitão dele com sua jaqueta preta de grife e seu gorro de lã, suéter cinza-escuro, jeans preto e botas Doc Martens é tudo o que eu quero de presente de aniversário. Sorrio comigo mesma enquanto andamos de mãos dadas por uma pequena multidão, todos se acotovelando no farol para se proteger do frio, e então três garotas, provavelmente turistas como nós, devoram Andrew com os olhos quando passamos. Isso acontece muito, e eu já deveria estar acostumada. Me vanglorio em segredo, mas quem não faria isso, na minha situação? Ele é a coisa mais sexy que eu já vi. Não admira que já tenha trabalhado como modelo. Ele odeia falar disso, então, naturalmente, eu toco no assunto com frequência para vê-lo sofrer. Andrew também está se barbeando menos; está com aquela barba sexy por fazer.
Subimos a escada em caracol até o farol debruçado sobre o oceano e olhamos o panorama juntos. Porque é algo para se fazer. Estamos apenas improvisando, andando de carro pela cidade e escolhendo as coisas quando as vemos. Mas, nos meses frios, até isso é um processo de tentativa e erro. Estendemos os braços sobre o corrimão e ficamos perto um do outro para nos aquecer. O vento gelado nos fustiga, naquela altitude, e eu sei que meu nariz e minhas bochechas devem estar vermelhos.
Levamos exatamente cinco minutos para mandar aquilo à merda e praticamente correr de volta para o carro.
— A gente podia ir pro cinema — ele sugere, no banco do motorista. — Ou... tá, acho melhor a gente hibernar e pronto.
Ficamos sentados por muito tempo, só pensando em alguma coisa para fazer.
— Vamos andar de carro mais um pouco — eu digo, sem nenhuma ideia.
— Talvez seja melhor ir embora de uma vez.
Dou de ombros.
— Se você quiser. — Então vejo uma placa que diz Feira de Antiguidades das Pulgas & Carrapatos.
— Vamos fazer compras — sugiro.
Andrew não parece empolgado.
— Compras?
Balanço a cabeça e aponto para a placa.
— Não no shopping, nada disso — explico. — Dá pra achar umas coisas bem bacanas em feirinhas de coisas usadas.
Sua expressão continua neutra, mas acho que ele se dá conta de que com certeza é melhor do que andar na rua no frio, ou ficar parado no carro sem fazer nada.
Andrew acaba cedendo porque, francamente, ele não tem mesmo muita escolha, e em seguida tira o carro do estacionamento e seguimos as placas até a feira de antiguidades. Encontramos um pouco de tudo: chapéus idiotas, instrumentos odontológicos antigos, colchas de retalhos feitas à mão, fitas de vídeo e discos. Andrew não se empolgou com muita coisa, até ver a caixa de madeira cheia de discos.
— Não vejo um disco do Led Zeppelin há anos — ele comenta, segurando um. A capa está tão detonada e desbotada que parece ter ficado num sótão por trinta anos, mas ele o segura com tanto cuidado que poderia ser um exemplar em perfeito estado.
— Você não tá pensando em comprar isso, tá?
— Por que não? — ele pergunta, sem olhar para mim.
Ele vira o disco e olha para o verso da capa.
— Porque é um LP?
— Tá, mas é um LP do Led Zeppelin — ele argumenta, olhando rapidamente para mim.
— Tá, e?
Ele não responde.
Eu continuo:
— Andrew, onde é que você vai tocar isso?
Finalmente ele me dá atenção total.
— Eu não vou tocar.
— Então por que quer comprar? — pergunto, e então respondo por ele, sarcasticamente. — Ah, já sei, é um artigo de colecionador. Você pode pendurá-lo no banco de trás do carro. — Dou um sorrisinho para ele.
— Ou posso pôr você no banco de trás e pendurá-lo na frente.
Eu fico levemente boquiaberta.
Andrew sorri e devolve o disco à caixa.
— Eu não vou comprar — ele resolve, pegando a minha mão.
Minutos depois, entramos em outra barraca, lotada de roupas antigas. Enquanto examino meticulosamente tudo o que há nos cabides, Andrew fica na barraca ao lado, onde centenas de DVDs e Blu-rays estão expostos numa parede. Ele para diante dela de braços cruzados, praticamente imóvel, lendo cada um dos títulos. Posso ver sua nuca através da treliça de madeira que separa seu quiosque do meu. Volto a olhar as roupas, sentindo urgência e necessidade a cada peça que toco. Eu adoro roupas antigas. Não que eu chegue a usar, ou que tenha comprado alguma vez, mas são coisas que não dá para deixar de olhar com admiração e se imaginar nelas.
Empurro os cabides finos de arame, um por um, para conseguir ver tudo. Camisas com mangas bufantes e cadarços de couro, espartilhos, vestidos plissados e com mangas longas, botas vitorianas...
O que é isso?
Meu coração para por um segundo quando puxo um dos cabides e vejo o vestido. É um modelo vintage cor de marfim, com mangas curtas drapeadas. Tiro o cabide da arara e seguro o vestido junto ao corpo, virando para o espelho. O comprimento por pouco não chega ao chão. Segurando-o com uma mão na altura certa, estico o tecido com a outra mão. Então eu rodopio.
— Meu Deus, amei este vestido — digo em voz alta para mim mesma. — Preciso comprar.
— Hãã, devo dizer — Andrew intervém por trás, me assustando — que é um vestido lindo.
Um pouco sem jeito porque Andrew provavelmente me viu enquanto eu me admirava com o vestido e falava sozinha, não olho para ele. Em vez disso, olho a etiqueta para ver se é do meu tamanho. É! Claro que agora preciso comprá-lo, sem mais perguntas. Era pra ser meu!
Abraçando apertado o vestido, eu giro para ficar de frente para Andrew.
— Você gostou mesmo? — pergunto com voz culpada, minha maneira de implorar para que ele não jogue na minha cara aquela conversa sobre o disco.
— Eu acho que você deve comprar — ele confirma, com um sorrisão cheio de covinhas. — Já posso imaginar você vestida nele. Linda. Naturalmente.
Eu fico vermelha e olho para o vestido de novo.
— Você acha? — Não consigo parar de sorrir.
— Com certeza — ele diz. — E você fica mais acessível nele.
Típico!
Ignoro seu comentário pervertido, sobretudo porque estou apaixonada demais pelo vestido. Então me dou conta de que ainda não olhei o preço. Conhecendo os vestidos daquela marca, sei que eles não são caros. Mas quando o vendedor é alguém que acha que pode enganar um cliente, fazendo-o pagar três vezes o valor justo, não há como prever o preço na etiqueta. Prendo a respiração e olho o valor. Vinte contos! Perfeito.
Olho mais uma vez para Andrew e de repente me sinto uma vaca reclamona.
— Por que você não compra aquele disco do Led Zeppelin também? — digo timidamente.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Não, um LP antigo não serve pra nada mesmo. Mas um vestido como esse tem sua serventia. — Ele cruza os braços e me olha de cima a baixo.
Eu acho que ele está bancando o pervertido de novo, e dessa vez abro a boca para acusá-lo, quando ele acrescenta:
— Casar comigo vestida nele, por exemplo.
Seus olhos verdes parecem cruzar rapidamente os meus.
Meu sorriso se abranda e eu digo:
— É um vestido de noiva perfeito.
— Então tá combinado — ele diz, segurando a minha mão. — Quando a gente se casar, pelo menos você já vai ter o vestido.
— Só precisamos disso, na verdade — digo, saindo com ele da barraca com o vestido pendurado no braço.
Ele olha para mim.
— Alianças — ele diz, com um olhar estranho.
— Eu tenho aliança — digo, levantando a mão, achando que por algum motivo ele se esqueceu do anel que me comprou no Texas.
— Isso é um anel de noivado.
— É, mas basta.
— Bom, eu também preciso de uma. Ou você se esqueceu de mim? Casamento é pra dois, sabe.
Eu rio baixinho enquanto chegamos à pequena fila da caixa.
— Tá, tem razão, mas eu tô feliz com o meu anel. Além disso, eu sei que você gastou uma grana com este colar. Não pode fazer essas coisas.
— Vamos começar com isso de novo? — ele pergunta em tom brincalhão, tirando a carteira do bolso. — Não menti pra você sobre o preço do colar.
Talvez ele esteja mesmo dizendo a verdade.
— Acredito em você — digo finalmente.
Ele sorri e deixa por isso mesmo.
Andrew
20
SIM, SOU UM baita mentiroso. Aquele colar custou pouco mais de 600 dólares, mas sei que não posso contar pra ela. Ela acha que o que importa nas coisas caras é quantos zeros há antes da vírgula, mas nem sempre é isso. Francamente, acho que normalmente é pra mulher que o preço importa tanto. Porra, já ouvi garotas reclamando e choramingando porque o cara delas não gastou o suficiente. Eu queria saber se elas percebem como dificultam a nossa vida quando se juntam com as amigas e comparam pedras como nós, homens, comparamos nossas ferramentas. A propósito, a gente não faz isso, na verdade. Pelo menos eu nunca consegui encontrar um cara que quisesse abrir o zíper e competir comigo.
Eu queria comprar algo bem legal pra Camryn no aniversário dela. Por pura coincidência, aquilo de que eu mais gostei, entre as coisas que vi, era caro.
Aceite isso, amor.
Ela é capaz de desmaiar se descobrir quanto eu gastei nas nossas alianças, que comprei enquanto estávamos em Chicago. Está difícil evitar que Camryn as veja. Mas consegui enfiar a caixinha num bolso escondido da minha mochila.
Passamos o dia todo fazendo o que sempre fazemos, ficando juntos e aproveitando o tempo frio como dá. Quando voltamos para o hotel, pego o violão e toco para ela uma canção que compus e na qual estou trabalhando há uma semana. Eu esperava terminá-la até o dia do aniversário porque faz parte do presente dela. Compus só pra ela. Eu a chamo de “A Tulipa na Colina”, uma canção inspirada pelo primeiro dia que passamos juntos quando eu saí do hospital, depois da minha cirurgia.
— Eu acho que você deve pegar leve — Camryn disse naquele dia. — Nada de enfiar a cabeça nos motores de Billy Frank por uns tempos, nem bungee jumping, nem corridas de carros.
Eu ri um pouco, virando a cabeça para o lado para vê-la. Eu estava deitado de comprido numa mesa de piquenique de pedra. Camryn estava sentada no banco, perto da minha cabeça.
— Então sua definição de pegar leve é não fazer absolutamente nada? — perguntei, sorrindo para ela, com a cabeça apoiada nas mãos.
— O que tem de errado em passar um dia calmo no parque? — ela perguntou, passando os dedos na minha testa.
— Nada — respondi e beijei-lhe os dedos quando sua mão chegou à minha boca. — Eu gosto de ficar sozinho com você.
Ela virou a cabeça devagar para o lado e sua expressão ficou mais meiga. Depois olhou para o parque. As árvores estavam frondosas, e a grama, espessa e verdejante. Estava realmente um dia lindo. Fiquei me perguntando por que só nós dois, aparentemente, estávamos ali, aproveitando.
— Acho tulipas bonitas — ela disse com voz distante, olhando para a pequena colina coberta de grama do meu outro lado.
Olhei também e vi uma única tulipa brotando no alto daquela colina, sozinha. Não sei bem por quê, mas desde aquele dia, sempre que vejo uma tulipa em qualquer lugar, penso em Camryn.
Eu nunca vou esquecer o sorriso em seu rosto enquanto toco e canto a canção para ela. É tão terno, radiante e carinhoso, o tipo de sorriso que diz Amo Você Mais Do Que Tudo Neste Mundo sem precisar dizer essas palavras.
CONTINUA
14
QUANDO CHEGO AO banheiro, tem uma fila de mulheres esperando por cabines vazias. O ar está espesso com o bafo de álcool, perfume e roupas cheirando a cigarro. Uma porta de cabine se abre e fecha com uma batida violenta de poucos em poucos segundos quando alguém entra ou sai. Lavo as mãos primeiro, precisando me espremer entre duas garotas bêbadas sentadas no balcão da pia, uma de cada lado. Por sorte, elas são o tipo de bêbada supersimpática, porque não estou podendo com uma briguenta e grosseira hoje. Elas pedem desculpas por atrapalhar e se afastam para me dar espaço.
— Obrigada — digo, abrindo a torneira.
— Ei, você é a menina que tava cantando — a garota da esquerda diz, apontando para mim e sorrindo. Ela olha para a amiga do outro lado, depois para mim de novo.
— É, acho que sou eu.
Não estou nem um pouco a fim de conversa de banheiro. Quanto mais tempo passo num banheiro público, com mais nojo eu fico.
— Vocês dois são muito bons — ela diz com um sorrisão.
— É, sério — a amiga dela confirma. — Por que estão cantando em bares, afinal?
Eu dou de ombros e espremo mais sabão do reservatório na mão e tento evitá-las o mais gentilmente possível.
— De verdade — a da esquerda acrescenta. — Eu pagaria pra ver vocês tocarem.
Tudo bem, eu não sou totalmente imune a elogios. Sorrio e agradeço de novo.
Quando mais duas cabines ficam desocupadas, elas aproveitam a oportunidade e se trancam nelas. Logo depois, acenam em despedida e me desejam boa sorte na minha “carreira musical”. Quando estou quase sozinha, me viro para o espelho, mas não olho para mim. Em vez disso, enfio a mão no bolso e pego um comprimido, engolindo-o com água da pia.
É só pra tirar o nervoso.
Então eu me olho, empurrando o comprimido e o sentimento de culpa que vem cada vez que tomo um para o fundo da minha mente. Invento pretextos para justificar tomá-lo e quase engano a mim mesma. Mas eu sei que a culpa que sempre sinto tem um motivo.
Em menos de 11 minutos, não me importo mais com a culpa, os pretextos ou o nervoso, porque essa parte do meu cérebro foi adormecida.
Passo as pontas dos dedos embaixo dos olhos para limpar o rímel borrado, depois enxugo a oleosidade do meu rosto com papel higiênico. Preciso estar de cara boa quando voltar lá. Me sinto ótima, mas preciso parecer tão bem quanto me sinto.
Abrindo caminho em meio à multidão, encontro Aidan e Michelle de pé perto do enorme balcão do bar e me junto a eles. Então lembro que Andrew foi buscar uma bebida para mim, mas não quero atravessar aquele mar de gente de novo só para pegá-la.
— Vocês dois são fantásticos! — Michelle grita por cima da multidão barulhenta. Ela me abraça e eu retribuo, sentindo meu sorriso movido a comprimidos se alargando muito em meu rosto.
Eu me viro para Aidan.
— O que você achou?
— Concordo com Michelle! Vocês deveriam compor seu próprio repertório e tocar aqui mais vezes. Tem sempre caçadores de talentos aqui no bar. E celebridades. — Ele aponta para a parede do fundo, onde uma série de fotografias autografadas de vários músicos e astros do cinema formam uma linha reta. — Comecem a tocar material próprio — ele continua. — Aposto que vocês dois seriam contratados por uma gravadora em menos de um ano.
Estou tão chapada, no momento, que ele poderia me dizer que achou a gente uma bosta e sem futuro nenhum na música, e eu sorriria do mesmo jeito, deixando as palavras passarem por mim como uma brisa.
Olho para o outro lado do salão e vejo Andrew no palco com sua guitarra e a banda da casa, se preparando para a canção que é sua marca registrada, “Laugh, I Nearly Died”. Ele provavelmente não me vê no meio da multidão, mas sabe que estou assistindo. Adoro vê-lo no palco, no seu elemento. Sei que, por mais que sejamos bons juntos, musicalmente, ele sempre é mais dono do palco quando toca sozinho. Talvez seja impressão minha, mas gosto de pensar nele como na primeira vez que o vi tocar. Porque naquela noite em Nova Orleans, ele estava cantando para mim, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu faria qualquer coisa pra me sentir assim de novo. Qualquer coisa...
Segundos depois de começar a tocar, Andrew, como sempre, tem a atenção de todos os presentes. As duas garotas na mesa estão de pé agora, dançando juntas de um jeito provocante, mas eu sei que é tudo para Andrew. Já vi isso antes. Elas o querem, e Andrew deixa que acreditem, só por uma noite, que ele também as quer. É perfeitamente inofensivo. Andrew e eu encaramos isso como uma maneira de levantar a autoestima dos outros. Um pouco de paquera aqui e ali, tornar uma garota ou um cara de sorte o centro das atenções só pelo tempo suficiente para corar e sorrir. Nunca se sabe o que acontece na vida das pessoas a portas fechadas, e um pouco de energia positiva da paquera nunca atrapalha.
Quando voltamos para a casa de Aidan e Michelle pouco depois da meia-noite, vou para a cama antes de todos. Fico deitada por uma hora, ouvindo as vozes deles vindo do corredor e entrando no quarto. Andrew ia se deitar comigo, mas insisti para que ele ficasse com o irmão. Ele anda se preocupando demais comigo ultimamente. Vamos voltar para Raleigh amanhã, e quero que ele passe o maior tempo possível com Aidan.
Mais uma hora passa e eu continuo acordada.
Frustrada, enfio a mão na bolsa, procurando o frasco. Sem nem perceber, já estou nos últimos comprimidos.
Desmaio com três, desta vez.
Andrew
15
— CAMRYN? AMOR, acorda, por favor. — Eu a sacudo com força pelo ombro.
Minha emoção dominante, no momento, é o medo. Minhas emoções secundárias são raiva e mágoa. Mas, estranhamente, a sensação de incerteza está mantendo todas as outras a distância.
Eu a sacudo de novo.
— Levanta.
Não faço ideia de quantas dessas porras de comprimidos ela tomou, mas julgando pelo frasco quase vazio, a perspectiva de ter sido o suficiente para uma overdose faz uma onda de pânico percorrer todo o meu corpo. Mas ela está respirando normalmente e seu ritmo cardíaco parece normal. Se ela não acordar...
Seus olhos se abrem lentamente, e eu respiro mais aliviado.
— Camryn. Olha pra mim.
Finalmente, ela acorda o suficiente para me olhar nos olhos.
— Que que foi? — Ela geme suavemente e tenta fechar os olhos de novo, mas eu a seguro pelos ombros e a obrigo a se sentar.
— Acorda. Fica de olhos abertos.
Ela se senta, toda mole, mas não é nada tão fora do comum, depois de ter sido forçada a acordar e a se endireitar assim.
— Quantos você tomou?
Michelle está na porta do quarto, atrás de mim.
— Quer que eu chame uma ambulância?
De repente, Camryn fica completamente alerta. Não sei se minha pergunta finalmente a alcançou ou se foi a menção de uma ambulância, mas ela me encara com olhos arregalados e assustados.
— Quantas dessas porras de comprimidos você tomou?
Ela desvia o olhar do meu e vê o frasco de comprimidos sobre o criado-mudo. Quando decidi que dormir até depois das 14h não era típico dela e fui ver o que estava acontecendo, encontrei o frasco no chão.
— Camryn? — Eu a sacudo de novo e ela volta a prestar atenção em mim.
Ela só me olha. Vejo tanta coisa em seus olhos agora que não sei dizer se é mais humilhação, arrependimento, mágoa, raiva ou resignação. E então seus olhos começam a se encher de lágrimas. Sinto seu corpo se agitando sob o peso dos meus braços. Ela desata a chorar, caindo em meus braços, soluçando descontroladamente, e aquilo me despedaça.
— Andrew? — Michelle diz da porta.
Sem olhar para trás, eu digo:
— Não, ela vai ficar bem. — E engulo minhas próprias lágrimas e a raiva, sentindo meu peito se apertar.
A porta se fecha silenciosamente atrás de mim quando Michelle sai do quarto.
Abraço Camryn por muito tempo, deixando-a chorar no meu peito. Não digo uma palavra. Ainda não. Em parte porque sei que ela precisa disso, poder chorar e desabafar. Mas a outra parte de mim está tão puta da vida e magoada que sinto que vou precisar me afastar e me recompor para não dizer coisas erradas. Eu a abraço forte, apertando os braços em volta do seu corpo trêmulo. Beijo seu cabelo e tento não chorar também. A parte de mim que está puta da vida ajuda nisso.
— Eu sinto muito! — ela grita e, nessa fração de segundo, quando ouço a dor em sua voz, minha raiva se apaga quase completamente e eu a abraço ainda mais forte.
— Tá pedindo desculpas pra mim? — pergunto, incrédulo. Eu a afasto, segurando-a firme pelos antebraços. Balançando a cabeça furiosamente, volto a ficar como alguns minutos atrás. — Não, primeiro você precisa me dizer quantos você tomou. — Eu a encaro com firmeza.
— Ontem à noite. Só três.
— Quantos tinha no frasco no total?
— Não sei. Uns vinte.
— Então há quanto tempo você tá tomando?
Ela faz uma pausa e responde.
— Desde terça. São da minha mãe. Tomei um quando tava com dor de cabeça, mas aí comecei a tomar... — Seus olhos se enchem de água novamente.
Eu enxugo as lágrimas do seu rosto.
— Puta que pariu, Camryn! — exclamo, puxando-a para o meu peito por mais um breve momento. — O que você tava pensando, porra?
— Eu não pensei! — ela grita. — Não sei o que eu tenho!
Seguro seu rosto com as palmas das mãos.
— Você sabe o que você tem. Tá arrasada por perder a Lily e não sabe como lidar com isso. Só queria que você tivesse falado comigo.
Com o rosto dela ainda nas mãos, seus olhos desviam dos meus. O silêncio tenebroso entre nós me afeta da forma mais estranha.
— Camryn? — Tento fazê-la me olhar de novo, mas ela se recusa. — Fala comigo. Você precisa falar comigo. Escuta, você não fez nada errado, nem poderia ter evitado o que aconteceu. Precisa saber disso. Precisa enten...
Sua cabeça se desvencilha das minhas mãos, seus olhos penetrando os meus, cheios de dor e de... algo mais.
— É culpa minha! — ela diz, se afastando de mim na cama.
Ela se levanta do outro lado e cruza os braços, me dando as costas.
— Não é culpa sua, Camryn. — Ando até ela, mas assim que sente que vou me aproximar, ela se vira.
— É culpa minha sim, Andrew! — ela repete, com as lágrimas escorrendo dos olhos. — Eu não conseguia parar de pensar que minha gravidez ia ferrar com tudo! Detestava continuar morando em Galveston depois de quatro meses! Fiquei me perguntando como a gente ia fazer tudo o que queria com um bebê! Por isso, sim, é culpa minha que a perdemos e eu me odeio por isso, caralho! — Ela esconde o rosto nas mãos.
Atravesso a curta distância até ela, tomando-a em meus braços de novo.
— Meu Deus, Camryn, não foi culpa sua! — Acho que nunca falei nada para ninguém com tanta emoção. Meu peito tremia incontrolavelmente contra o dela.
— Olha pra mim! — imploro, afastando-a. — Isso é tão normal. E se você é culpada, então eu também sou. Tive esses pensamentos de vez em quando, mas, como você também, não teria desistido dela nem se pudesse.
Ela não precisa confirmar essa afirmação em voz alta, porque sei que ela também não teria desistido. Mas ela confirma assim mesmo: — Não lamentei nada engravidar dela. E eu... quero minha bebê de volta!
— Eu sei. Eu sei. — Eu a abraço apertado e ando com ela até o pé da cama, fazendo-a sentar. Eu me agacho entre as pernas dela, apoiando os braços em suas coxas e tomando suas mãos nas minhas. Olho para ela e digo mais uma vez: — Não foi culpa sua.
Ela enxuga algumas lágrimas e nós ficamos sentados assim pelo que parece uma eternidade. Acho que ela acredita em mim — ou isso ou está só evitando encarar a realidade. Então ela olha para a parede atrás da minha cabeça e diz baixinho: — Isso faz de mim uma viciada em drogas?
Quero rir, mas não rio. Em vez disso, apenas balanço a cabeça e sorrio suavemente para ela, apertando as pontas dos dedos em suas mãos.
— Foi um momento de fraqueza, e até a pessoa mais forte não é imune à fraqueza, Camryn. Quatro dias e um frasco de analgésicos não fazem de você uma viciada em drogas. É falta de juízo, mas não é vício.
Ela olha de novo para mim.
— Michelle e Aidan vão achar que é.
Balanço a cabeça.
— Não, não vão. E ninguém mais vai. — Eu me levanto e me sento ao lado dela. — Além disso, não é da conta de ninguém, porra. É uma coisa que só você e eu precisamos saber e enfrentar.
— Nunca fiz nada assim antes — ela continua, olhando para a frente. — Não acredito...
— Você estava diferente. Está diferente desde que Lily morreu.
O quarto fica estranhamente em silêncio de novo. Olho para ela de lado, mas a deixo em silêncio por um momento. Ela parece perdida em pensamentos.
E então ela diz:
— Andrew, talvez nós não devêssemos estar juntos. — E suas palavras me atingem tão rápido e com tanta força que sinto que falta ar nos meus pulmões.
Fico tão surpreso que é como se suas palavras tivessem roubado todas as minhas. Meu coração está disparado.
Finalmente, quando ela não elabora, consigo balbuciar:
— Por que tá dizendo isso? — E fico com medo de sua resposta.
Ela continua olhando para a frente, com as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto. E então ela olha para mim e vejo a mesma dor intensa em seus olhos que eu sei que ela vê nos meus.
— Porque todo mundo que eu amo acaba me abandonando ou morrendo.
O alívio me invade, mas é superado pela sua dor.
É nesse exato momento que percebo que essa é a primeira vez que Camryn se abriu a respeito disso tudo comigo, ou com qualquer outra pessoa. Penso nas coisas que Natalie me contou, e nas conversas que Camryn e eu tivemos na estrada, e sei que no momento Camryn está admitindo a dimensão de sua dor não só para outra pessoa, mas o mais importante, para si mesma.
— Eu me sinto tão egoísta dizendo isso — ela continua, e deixo que ela fale à vontade, sem interrupções. — Meu pai abandonou a gente. Minha mãe mudou. Minha avó, a única pessoa que continuou a mesma e sempre me apoiou quando precisei, morreu. Ian morreu. Cole foi pra prisão. Natalie me apunhalou pelas costas. Lily... — Ela olha para mim, finalmente, a dor intensificada em seu rosto. — E você.
— Eu? — Me agacho diante dela de novo. — Mas eu tô aqui, Camryn. Vou estar sempre aqui. — Tomo as mãos dela nas minhas. — Não importa o que você faça, ou o que aconteça entre a gente. Nunca vou te abandonar. Vou estar sempre com você. — Aperto as mãos dela. — Lembra quando eu disse que você era a coisa mais importante do mundo pra mim? Você pediu que eu te lembrasse disso, se um dia você esquecesse. Bom, eu tô te lembrando agora.
Soluços percorrem seu corpo.
— Mas você podia ter morrido — ela insiste, com choro na voz. — Cada dia que passei naquele hospital, pensei que seria o seu último. E aí quando não era e você resistia, eu continuava prevendo isso mesmo assim. Semanas, meses depois, porque uma parte de mim achava que eu precisava me acostumar com a ideia de perder você. Um dia. Porque eu sabia que você ia me deixar de um jeito ou de outro. Como todo mundo.
— Mas eu não deixei — digo com desespero, sorrindo um pouco ao mesmo tempo. Eu me sento no chão e a puxo para perto de mim. — Eu não morri. Não morri porque eu sabia que você tava lá comigo o tempo todo. Porque eu sabia que nosso destino era ficar juntos, e que se você vivesse, eu também viveria.
— Mas e se você morrer? — ela pergunta.
Isso eu não esperava.
— E se o tumor voltar?
— Não vai voltar — respondo. — E mesmo se voltar, vou vencê-lo de novo. Cacete, eu fiquei oito meses sem ir ao médico e venci assim mesmo. Com você na minha vida, me atormentando pra me fazer ir aos checkups regularmente, de jeito nenhum ele vai me matar.
Ela não parece totalmente convencida disso, mas vejo um pequeno raio de esperança em seu rosto, e era isso que eu queria ver.
— Eu sinto muito mesmo — ela diz, mas em vez de dizer que não precisa, também deixo que ela viva esse momento, porque parece mais que ela está se permitindo fechar um ciclo. — Aposto que você nunca pediu pra ter um fardo absurdo desses. — Ela passa os dedos sob os olhos.
Tentando aliviar um pouco o clima, esfrego as mãos em seus joelhos nus e digo: — Eu te amaria mesmo se você fosse uma daquelas garotas que correm pro banheiro pra vomitar depois de comer, ou se tivesse o fetiche secreto de transar com um palhaço.
Ela ri baixinho em meio às lágrimas, e isso me faz sorrir.
Levanto o queixo dela com um dedo e fico sério de novo, olhando bem em seus lindos olhos azuis e úmidos.
— Camryn, Lily não tava pronta, só isso. Não sei por que, mas você não pode se culpar por ela ou por qualquer um. E você precisa entender que estamos nisso juntos. Em tudo. Acredita nisso?
Ela balança a cabeça.
— Sim.
Eu me curvo e a beijo primeiro na testa, depois nos lábios.
Segue-se o silêncio, e a atmosfera no quarto parece diferente. Mais brilhante. Eu sei que Camryn não vai voltar a ficar 100% da noite pro dia, mas posso ver que ela já está melhor. Percebo só de olhar que ela se sente menos carregada, agora que tirou essas merdas da cabeça. Ela precisava disso. Precisava de alguém para fazê-la cair na real. Não alguém indiferente, ou que desse apenas respostas prontas para tudo.
Ela precisava de mim.
Eu me levanto e pego a mão dela.
— Vem cá.
Ela me segue, pego o frasco de comprimidos da mesa ao lado da cama e a puxo comigo para o banheiro da suíte. Levanto a tampa da privada e entrego o frasco a ela. E antes que eu diga qualquer coisa, Camryn vira o frasco sem hesitação e joga os últimos quatro ou cinco comprimidos na privada.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão fraca. — Ela olha para a água enquanto os comprimidos giram no vaso e são sugados pelo cano. Depois olha para mim. — Andrew, eu podia facilmente ter ficado viciada neles. Não consigo imaginar...
— Mas você não ficou — interrompo, antes que ela fique remoendo aquilo mais. — E você tem direito a um momento de fraqueza. E chega.
Eu saio do banheiro e ando pelo quarto. Ela me segue e fica parada no meio do quarto, me olhando.
— Andrew?
Eu paro, me viro para ela e digo:
— Me dá uma semana.
Ela parece meio confusa.
— Uma semana pra quê?
Sorrio fracamente.
— Só concorda. Fica aqui comigo uma semana.
Cada vez mais confusa, ela diz:
— Hãã, tá. Vou ficar aqui com você uma semana — embora esteja estampado em seu rosto que ela não sabe com o que está concordando.
Mas ela confia, e isso significa tudo para mim. Vou dar a nós dois o que ambos precisamos, querendo ela ou não.
Camryn
16
Dia Três
Nunca pensei nem por um minuto que seria capaz de fazer o que fiz. Andrew chama de um momento de fraqueza e talvez tenha razão, mas vai levar tempo pra cacete pra que eu consiga me perdoar por aquilo.
Michelle deixou claro que não vai me julgar, e embora isso me faça sentir melhor, me sinto humilhada sempre que estou na presença dela ou de Aidan. Talvez seja por isso que eu me sinta tão mal, por eles serem tão compreensivos.
Uma semana. Nem faço ideia do que Andrew quis dizer com isso, mas estou em dívida com ele, por isso não faço perguntas e deixo que ele faça o que está planejando. Ele andou bem misterioso nos últimos dias, muitas vezes atendendo ligações em outros quartos para que eu não pudesse ouvir. Só tentei escutar uma vez, simplesmente ficando bem quieta no sofá quando ele foi para a cozinha falar com Asher. Mas então bisbilhotar assim me fez sentir culpada, por isso aumentei o volume da TV para não conseguir ouvir.
E posso ter tomado os comprimidos só por uma semana, mas pelo jeito foi tempo suficiente para eu ainda me sentir zonza três dias depois dos últimos que tomei. Me sinto mal, até mais incapaz de dormir do que antes de começar a tomá-los, mas pelo menos as dorezinhas de cabeça finalmente estão começando a desaparecer. Não consigo imaginar ficar viciada neles por meses ou anos. Sinto pena de quem fica...
Dia Quatro
Aidan entra com um pequeno maço de correspondências na mão, olhando cada uma enquanto anda pela sala.
Ele para num envelope branco por um segundo, constrangido, e o levanta, olhando para mim primeiro, até que Andrew entra na sala.
— Parece que esta é pra você. — Ele me olha de novo, mas entrega o envelope a Andrew.
Isso me dá uma sensação muito estranha, então me levanto instintivamente da espreguiçadeira e me aproximo de Andrew para ver o que é.
Pouco antes que Andrew escondesse o envelope de mim, vejo o nome de Natalie escrito nele.
Ele também sabe que eu vi.
— Não — diz Andrew, balançando a cabeça. — Vou deixar você ver outro dia. — E então ele enfia o envelope no bolso de trás do jeans.
Confio totalmente nele, mas sou humana, e uma pequena parte de mim está nervosa com essa situação toda. Por que Natalie mandaria uma carta para Andrew? Confiando ou não, a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um é se perguntar se tem alguma coisa acontecendo entre os dois. Mas isso é absurdo, e afasto essa ideia da minha mente com a mesma rapidez que ela veio.
Eles estão conspirando contra mim.
Eu só queria saber o que está acontecendo.
Dia Cinco
Falei com Natalie, minha mãe e Marna por telefone hoje. Marna tenta agir como se nada tivesse acontecido com o bebê, e é tão boa nisso quanto Michelle foi no meu primeiro dia em Chicago. Ela é tão meiga e delicada. Minha mãe, por outro lado, parece não conseguir falar de outra coisa além do meu relacionamento com Andrew. Ela me persegue sempre que pode, perguntando quando vamos nos casar, e resolveu enfiar na cabeça que vamos fazer isso do jeito que todo mundo faz. Tento dizer a ela que não quero um vestido caro, uma capela ou milhares de dólares em flores que vão murchar na semana seguinte, mas é como se ela nem me escutasse. Ela só quer que a gente se case. Talvez assim se sinta melhor com ele dormindo no meu quarto. Não faço ideia do que passa pela cabeça da minha mãe, e metade do tempo acho que nem ela sabe.
Andrew foi a um médico aqui em Chicago fazer um checkup hoje. E como toda vez que ele vai, fico até com enjoo de preocupação até que acabe. Por sorte, ele voltou com boas notícias.
Dia Seis
Falo com Natalie por telefone de novo, mas novamente não menciono o envelope. Ela também não está agindo naturalmente. É óbvio que está se esforçando para não entregar nenhum dos segredos de Andrew, o que deixa as conversas cheias de momentos silenciosos e constrangidos. Quero rir dela por ser tão péssima em agir normalmente, quando só o que ela quer é me contar tudo e dar o assunto por encerrado.
Dia Sete
Esta semana foi uma das mais longas da minha vida. Fico na cama até mais tarde porque está começando a esfriar, mas também porque estou nervosa e não consigo fazer outra coisa. Andrew se levantou há uma hora, e só o vi voltar para o quarto uma vez, para calçar os sapatos. Ele me beijou e sorriu para mim como se estivesse secretamente empolgado, e então saiu de novo sem dizer uma palavra.
Eu viro para o lado, enrolada no cobertor, e olho pela janela. O sol está brilhando hoje, e o céu está azul e sem nuvens.
Ouço os três andando pela casa.
Os sapatos de Andrew rangem sobre o chão de madeira na porta do nosso quarto. Ele abre a porta e fica na entrada, olhando para mim.
— Levanta e se veste — ele diz, com a mão ainda na maçaneta.
Eu só o olho por um segundo, achando que talvez ele vá explicar o que vamos fazer, mas ele só aponta para os meus sapatos no chão, como que dizendo calce-os, depois fecha a porta e me deixa sozinha.
Faço exatamente o que ele manda. Me levanto e visto meu jeans favorito e uma blusa folgada de tricô de mangas compridas, depois um par de meias e meus mocassins. Quando saio do quarto para a sala, vejo Michelle encolhida no canto do sofá, com um cobertor sobre as pernas, vendo TV. Ela se vira para me ver, e está com um sorriso aberto, como se soubesse algo que não sei. E com certeza sabe.
— Ele tá lá fora com Aidan — ela diz, acenando na direção da porta.
Cada vez mais nervosa, ando lentamente até a porta e a abro.
Saindo na varanda de pedra, vejo Andrew e Aidan de pé do lado da estrada, em frente à casa, com Asher, e todos eles estão encostados na lateral do Chevelle.
Por um momento eu penso: Tá, então Asher veio nos visitar, é só isso que tá acontecendo? Não que eu não fique feliz em ver Asher, mas, francamente, não é algo que eu imaginaria que fosse justificar todos esses planos de Andrew em segredo.
É o carro, percebo, mas é só isso que consigo entender sozinha. Tenho uma teoria sobre o motivo de ele tê-lo trazido para cá, mas a esta altura vou só fazer o melhor que posso para não pensar nisso.
Desço rapidamente os degraus de pedra e dou um abraço apertado em Asher.
— Você tá ótima, garota — ele diz, com aquelas covinhas e os olhos verdes e brilhantes quase idênticos aos de Andrew. Então ele me aperta e me levanta um pouco do chão.
— É muito bom te ver — digo, sorrindo.
Fico correndo os olhos dele para Andrew, que está sorrindo tanto que duvido que consiga manter o mistério por muito mais tempo.
Olho para o Chevelle e então para Asher. Olho de novo.
— Então você veio dirigindo lá de... — Tudo bem, é um pouco mais intrigante do que eu imaginava. O carro estava no Texas, até onde eu sei, e Asher estava em Wyoming. Finalmente continuo: — O que tá acontecendo?
Asher olha para Andrew, e Andrew dá um passo à frente.
— Eu pedi que Asher trouxesse o carro pra cá — ele diz.
— Mas por quê?
Asher cruza os braços e se apoia na porta de trás do carro.
— Porque ele é doido — Asher diz, rindo baixinho. — E porque não confiou num serviço de entregas pra trazer o carro.
Eu me viro para Andrew de novo, esperando que ele desembuche. Uma brisa fria atravessa minha blusa de tricô e eu enfio as mãos nas mangas.
— Você tem cinco minutos pra botar todas as suas coisas na mala — ele diz, e meu coração começa a bater descompassado antes que ele termine a frase. Ele bate no pulso sem relógio. — Nem um segundo a mais.
— Andrew...
— Isso não tá em discussão — ele diz. — Vai pegar suas coisas.
Eu só olho para ele, sem expressão.
Minha teoria estava certa, mas eu não queria que estivesse. Não quero cair na estrada... Isto é, eu quero... mas não está certo. Isso não está certo.
— Agora você tem quatro minutos — Asher diz.
— Mas a gente não pode partir assim — eu argumento. — Seria grosseria. — Aponto para Asher. — E Asher acabou de chegar. Você não quer ver...?
— Posso ver meu irmão mais velho a hora que eu quiser — Asher rebate. — No momento, acho melhor você fazer o que ele mandou, ou vai acabar na estrada, usando a mesma calcinha por uma semana.
Mais alguns segundos se passam e eu ainda não me mexi. Estou num leve estado de choque, acho.
— Três minutos, amor — Andrew diz, e está me olhando com expressão séria. — Não tô brincando. Sobe lá, bota suas porras nas malas e entra nessa merda de carro.
Cacete, ele voltou a ser como era...
Quando começo a discutir de novo, os olhos de Andrew ficam ferozes e ele diz:
— Anda logo. O tempo tá acabando! — E aponta para a casa.
Finalmente, baixando a guarda e entrando no clima tanto quanto posso me permitir, olho para ele com raiva e digo:
— Tudo bem. — Só concordo porque sei que ele está tentando melhorar as coisas. Mas me sinto culpada pra caramba.
Desconsiderando seu prazo bem-humorado de cinco minutos, giro nos calcanhares e ando muito lentamente na direção da casa, demorando de propósito, em parte minha maneira silenciosa de discordar da situação.
— Você sabia disso, Michelle? — pergunto quando passo por ela e vou para o corredor.
— Com certeza! — ela grita em resposta. Posso ouvir o sorriso em sua voz.
Abro a porta do quarto, ponho a mochila sobre a cama e começo a enfiar tudo dentro dela. Depois vou para o banheiro, pego nossas escovas de dentes e vários artigos de toalete. Arranco nossos carregadores da parede, pego meu celular do criado-mudo e enfio tudo na minha bolsa. Ando pelo quarto, torcendo para não ter esquecido nada.
Parece que Andrew já tinha feito as malas e eu nem percebi.
Em seguida fico ali, vasculhando cada centímetro do quarto, mas sem ver nada, na verdade. Não quero fazer isso, mas talvez seja o certo.
Ouço a buzina tocar três vezes e isso me arranca dos devaneios. Levantando a mochila, eu a jogo no ombro e pego minha bolsa de cima da cama.
— A gente se vê por aí! — Michelle diz do sofá.
Eu paro ao passar por ela, me curvo sobre o encosto do sofá para lhe dar um abraço desajeitado, atrapalhada pelas alças nos ombros.
— Divirta-se — ela acrescenta.
— Obrigada por nos convidar — eu digo.
Com um grande sorriso, Michelle gesticula para que eu vá, e eu saio da casa.
Quando desço os degraus, Andrew abre o porta-malas do Chevelle e eu jogo minha mochila lá dentro. Os cinco minutos que ele me deu passaram faz tempo, mas duvido que ele vá dizer alguma coisa.
— Tá pronta? — Andrew pergunta, fechando o porta-malas.
Eu respiro fundo, olho para Asher e Aidan, e antes de responder, vou abraçar os dois.
— Legal você ter vindo — diz Aidan.
— Vê se bota meu irmão na linha — Asher recomenda.
Sorrio para os dois, me sento no banco do passageiro e Andrew fecha a porta para mim.
Os três se despedem. Um minuto depois, Andrew se senta no banco do motorista, e uma lufada de ar frio entra no carro junto com ele.
Ele me olha.
— Então, vai ser assim — ele diz, apoiando os pulsos no volante. — A gente vai pro sudeste, pro litoral...
— Peraí — interrompo —, você planejou tudo? — Isso é tão fora do estilo dele. Me deixa cismada.
Andrew sorri suavemente e diz:
— Em parte. Mas é necessário.
— Que parte é necessária?
Ele me olha como que dizendo: Vai me deixar terminar?
Fico quieta e deixo que ele continue, enquanto ele se debruça e abre o porta-luvas.
— A gente vai pro sul, vamos ficar no litoral durante o inverno todo — ele diz, e agora só consigo me perguntar quanto tempo ele planeja ficar na estrada. O inverno todo? Não consigo entender que diabo de ideia é essa. Ele saca um mapa e o desdobra sobre o volante. Olho para ele, desconfiada. — Odeio o frio. Seguindo o litoral e indo mais pro sul na época certa, a gente vai evitar quase toda a neve e merdas assim.
Tá, o plano é bom, admito. Também não aguento o clima frio, portanto, sim, essa parte é necessária mesmo. Concordo com a cabeça e deixo que ele continue.
Andrew aponta para o mapa gigante e começa a correr o dedo pelo nosso itinerário.
— Vamos começar no litoral da Virgínia e ir pro sul, passando pelo seu estado, mas nada de parar pra visitar. — Ele aponta para mim. — A gente tá só de passagem, certo? — Ele espera a minha resposta.
Concordo com a cabeça novamente e digo:
— Certo — porque com certeza há um método em sua loucura, e sinto que devo concordar com ele.
Ele olha de novo para o mapa e volta a correr o dedo pelo papel.
— Depois, pela Carolina do Sul até a Geórgia, e aí vamos percorrer toda a costa da Flórida, da praia de Fernandina — seu dedo faz uma longa curva pelo papel — indo até Pensacola.
— Quanto tempo tudo isso vai levar?
Ele sorri e balança a cabeça para mim.
— Isso importa? — Então ele dobra o mapa desorganizadamente e o joga no banco, entre nós. — Eu decido a direção, desta vez. Sobretudo porque não quero morrer de frio. Mas... — Ele se vira de novo e olha para a frente, tirando os olhos de mim — Bom, é assim que precisa ser.
— Por que a gente tá fazendo isso, Andrew?
Seus olhos pousam em mim mais uma vez.
— Porque é o certo — ele responde, com um olhar profundo. — Porque você tá no carro.
Suas palavras me deixam confusa.
— Porque eu tô no carro?
Ele balança a cabeça discretamente.
— Sim.
— Mas... o que isso significa?
Seus olhos verdes se abrandam com o sorriso, ele estende a mão e segura o meu queixo. Ele beija meus lábios e diz:
— Você podia ter lutado com unhas e dentes. Podia ter me mandado à merda quando falei pra pegar nossas coisas. Mas você não fez nada disso. — Ele me beija devagar mais uma vez, e o gosto de hortelã do seu hálito fica em meus lábios. — Você não entrou correndo naquela casa porque eu mandei, foi porque era o que você queria. Você nunca fez nada só porque eu mandei, Camryn. Eu sou só um chute no seu traseiro, mais nada.
Tento disfarçar o sorriso que está se abrindo em meu rosto, mas não consigo. Ele se curva, aperta os lábios na minha testa e se endireita no assento. O motor ronrona agressivamente por um momento quando o pé dele aperta o acelerador.
Ele tem razão. Tudo o que ele já me mandou fazer, mesmo quando reclamei, eu jamais teria feito se uma parte de mim não quisesse. Fico intrigada em ver como ele sempre sabe coisas sobre mim antes que eu saiba.
Andrew
17
ACHO QUE ONTEM, em Chicago, foi a primeira vez que não consegui prever a reação de Camryn a uma das minhas exigências. Minha garota estava arrasada. Isso me deixava mais apavorado a cada dia, a pessoa que ela estava se tornando. Corri um risco ligando para Asher naquela noite e pedindo que ele dirigisse o Chevelle até Chicago. Eu não sabia o que Camryn ia fazer e, para dizer a verdade, temi que ela se recusasse a ir. Por causa da culpa. Ei, odeio termos perdido a nossa Lily. Daria um braço ou uma perna para tê-la de volta. Mas o que está feito está feito, e ficarmos parados nos afogando em sofrimento e nos recusando a fazer o que nos deixa felizes por qualquer motivo é uma puta duma bobagem. É assim que você se mata. Um suicídio lento e doloroso. Se Camryn recusasse, eu a carregaria sobre o ombro, esperneando e gritando, e a jogaria no banco de trás do carro. Porque essa é a nossa vida. Nós nos encontramos na estrada; nos conhecemos e aprendemos a nos amar na estrada. É onde devemos estar pelo tempo que for, e é o que vamos fazer até que fique claro que deveríamos fazer outra coisa.
As primeiras 14 longas horas de nossa viagem são calmas e silenciosas. Eu dirijo de Chicago até Virginia Beach ouvindo rádio, ou meus CDs quando não encontro uma estação decente. Camryn, embora sorria e fale sobre as coisas que vemos da estrada, ainda não voltou ao normal, mas vai chegar lá. Pode levar alguns dias, mas vai começar a cair na real.
As praias da Costa Leste são diferentes das do Texas. São mais limpas, e aqui a água parece água do oceano de verdade, e não a água barrenta e turva do Golfo em Galveston.
Já é quase noite. Vimos o sol se pôr no horizonte quando chegamos a Virginia Beach, e foi a primeira vez que vi aquela faísca nos olhos de Camryn, desde que ela perdeu o bebê. Se eu soubesse que um crepúsculo podia fazer isso, já a teria levado para ver um há muito tempo.
— Então, a gente vai pedir quartos separados? — ela pergunta quando saímos do carro no estacionamento do nosso primeiro hotel.
Percebo que ela está brincando, mas aposto que não espera que eu entre na brincadeira.
— É exatamente o que vamos fazer. — Eu abro o porta-malas e jogo nossas mochilas nos ombros.
— Tá falando sério? — Ela está chocada, e é engraçado.
Eu represento o melhor que posso. Nunca me passou pela cabeça pedir quartos separados, mas agora que ela mencionou isso, não acho tão má ideia.
Fecho o porta-malas e nós entramos no saguão do hotel.
— Andrew, acho que a gente já passou dessa fase.
— Dois quartos contíguos para não fumantes, por favor, se tiver.
A recepcionista digita o pedido em seu computador. Eu ignoro Camryn a maior parte do tempo, mexendo na minha carteira à procura do cartão de crédito.
— Andrew?
— Não tenho dois quartos contíguos — a mulher diz —, mas tenho dois que ficam um de frente pro outro no corredor.
— Pode ser — eu digo.
Camryn sussurra:
— Não acredito que você vai gastar dinheiro com dois quartos quando a gente já fez sexo milhares de vezes... — Camryn não para de falar, enquanto a recepcionista nos olha disfarçadamente como se fôssemos loucos. Adoro essa expressão no rosto das pessoas, esse ar surpreso de “não acredito que você disse isso”.
— Por favor, fique quieta — eu digo, me virando para Camryn. — Eu vou pro seu quarto e te como rapidinho, não se preocupe. Então para de dar espetáculo.
Camryn arregala os olhos tanto quanto a recepcionista.
Pego Camryn pela mão e a puxo para a saída do saguão.
— Espero que apreciem sua estada — a recepcionista diz em tom estupefato enquanto vamos para o elevador.
Camryn cai na gargalhada assim que as portas do elevador se fecham.
— O que foi aquilo?! — ela pergunta, incapaz de se conter. — Parecemos dois adolescentes imaturos!
— Mas você tá rindo — eu comento. — Portanto, a imaturidade valeu totalmente a pena.
O elevador para no segundo andar e nós saímos no corredor.
— Mas, sério, Andrew, por que quartos separados?
Provando mais ainda que a espontaneidade tem mesmo um propósito, eu penso no que pedi que Natalie enviasse a Chicago, enquanto andamos pelo corredor. Paramos no meio dele, diante dos nossos quartos, e eu jogo as mochilas no chão verde acarpetado.
— Só por esta noite — respondo, enfiando a mão na mochila para procurar o envelope.
Camryn fica perto de mim, assistindo a tudo em silêncio. Percebo que ela quer dizer alguma coisa, mas não tem certeza, nesse momento, do que poderia ser.
Eu endireito o corpo com o envelope na mão. Ela olha para ele, mas não sabe ao certo quais são as minhas intenções.
— Esta noite você vai ficar sozinha no seu quarto — eu digo e entrego o envelope a ela.
Ela parou de sorrir assim que tirei o envelope da mochila. Agora só consegue olhar para mim, confusa e intrigada.
Cuidadosamente, ela estende a mão e pega o envelope, ainda insegura com relação a tudo, talvez até quanto a querer ou não saber o que há dentro dele.
Eu passo o cartão na fechadura do quarto de Camryn e abro a porta, levando a mochila dela para dentro. Ela me segue, vários passos atrás, muda e desconfiada, com o envelope entre os dedos relutantes. Deixo a mochila dela sobre o balcão da TV e verifico o quarto, como sempre faço. Ligo e desligo as luzes e testo o aquecedor antes de puxar os lençóis para ver se estão limpos. Lembrando que Camryn tem fobia de colchas de hotel, eu a arranco completamente da cama e a jogo no chão, num canto do quarto.
Ela fica perto do pé da cama, imóvel.
Eu me aproximo e fico na frente dela. Olho-a nos olhos e observo o modo como ela retribui meu olhar. Passo o indicador por sua sobrancelha e pelo lado de seu rosto e sinto o calor de sua pele sob o meu toque. Eu a quero. Quando seus olhos baixaram para os meus lábios, isso desencadeou algo predador em mim. Mas eu controlo meus impulsos, pelo seu bem. Esta noite, se tudo der certo, um ciclo vai se fechar.
— Cam foi ao funeral — Natalie me disse pelo telefone no dia em que liguei para ela da casa de Aidan. — Mas chegou tarde, ficou bem no fundo, perto da porta, e foi embora antes que a cerimônia terminasse. Ela se recusou a ir até o caixão.
— Alguma vez ela falou com você a respeito disso? — perguntei.
— Nunca — Natalie disse. — E sempre que tentei abordar o assunto, o funeral, o acidente, qualquer coisa, ela não me deixou continuar.
Esta noite vai ser dura para Camryn, mas se ela não enfrentar isso, nunca vai melhorar.
— Você sabe onde estou — sussurro suavemente, deixando minhas mãos caírem dos seus braços. — Vou ficar acordado a noite toda. Comecei a compor outra canção ontem e quero muito trabalhar nela enquanto tá fresca na minha mente. — Aos poucos, mas sempre, estamos compondo material próprio, especialmente desde a viagem a Chicago; e depois da noite em que tocamos no bar de Aidan, Camryn mostrou interesse por isso, por algum motivo.
Camryn balança a cabeça e sorri fracamente por baixo da expressão de preocupação em seu rosto, preocupação com o que se esconde dentro do envelope.
— E se eu não quiser ficar neste quarto sozinha? — ela pergunta.
— Tô pedindo pra você ficar — insisto com firmeza. — Só por esta noite.
Não quero dizer mais do que isso, mas espero que a sinceridade no meu rosto faça o que palavras poderiam fazer.
— Tá bom — ela concorda.
Eu a beijo de leve nos lábios e a deixo sozinha no quarto.
Só espero que esse tiro não saia pela culatra.
Camryn
Andrew me deixa no quarto. Sozinha. Não gosto disso, mas aprendi a lhe dar ouvidos nos curtos cinco meses que passamos juntos. Cinco meses. Isso me espanta cada vez que lembro, porque parece mais que estamos juntos há cinco anos, depois de tudo o que enfrentamos. Às vezes penso no meu ex, Christian, o namorado infiel que arranjei para preencher o vazio deixado por Ian, e com quem fiquei por quatro meses. A gente mal se conhecia. Pensando bem, agora não consigo nem lembrar o dia do seu aniversário ou o nome de sua irmã, que morava a duas quadras da casa dele.
É totalmente outro mundo com Andrew.
Em cinco meses, me encontrei com ele, me apaixonei total, incondicional e loucamente, aprendi de verdade a viver, conheci praticamente toda a sua família e logo me senti parte dela, enfrentei uma jornada desafiando a morte com Andrew, fiquei grávida e noiva. Tudo em cinco meses. E agora aqui estamos, enfrentando mais uma dificuldade. E ele continua comigo a cada passo. Fui idiota e fraca e tomei comprimidos, e ele continua aqui. Eu me pergunto se existe alguma coisa que eu possa fazer que seria tão horrível a ponto de ele me abandonar. Algo no meu coração diz que não, não existe nada capaz disso. Nada mesmo.
Nunca vou entender, enquanto eu viver, como tive a sorte de ficar com ele.
Durante esse momento de reflexão, noto que meus olhos não desviaram da porta por onde ele saiu. Finalmente, olho para o envelope na minha mão, e não sei por quê, mas fico com medo de pensar no que há dentro dele. Pensei nisso muitas vezes esta semana. Uma carta? Se for, do que poderia falar? E para quem seria, e de quem? Por que Natalie me escreveria uma carta? Por que ela escreveria para Andrew?
Nada disso faz nenhum sentido.
Eu me sento no pé da cama, deixando minha bolsa cair no chão ao meu lado, e passo os dedos pelo contorno do que está dentro do envelope. Mas já fiz isso algumas vezes esta semana e continuo chegando às mesmas conclusões: é um papel, meio grosso, dobrado duas ou três vezes. Não tem nenhuma saliência, nem mesmo algum relevo dentro. É só papel.
Eu suspiro e faço menção de soltá-lo, mas continuo segurando. Não sei por que não abro essa droga de uma vez. Está me deixando meio maluca há uma semana, e aqui estou eu, finalmente capaz de desvendar o segredo de uma vez, abrindo-o, mas tenho medo demais.
Deixo o envelope na cama e me levanto, cruzando os braços e olhando para ele com o canto do olho enquanto começo a andar pelo quarto. Me sinto ameaçada por ele, como se fosse pular em mim e cravar as garras na minha perna quando passo perto. Como aquela gata psicótica que minha tia Brenda tem. Até começo a mexer na minha bolsa, procurando o celular para ligar para Andrew e fazê-lo contar por que tudo isso, até que me dou conta de como isso seria idiota.
Finalmente, eu pego o envelope e, depois de uma longa pausa, sentindo seu peso leve em minha mão, passo a ponta do dedo pela aba colada para soltá-la. Depois de tentar romper o lacre cuidadosamente e não conseguir, mando tudo à merda e rasgo o resto de alto a baixo. Jogo o envelope esfarrapado na cama e desdobro o papel de carta, vendo que a maior parte dele está em branco. Foi usado apenas para esconder a fotografia que tem dentro. Olhando para o verso da fotografia, primeiro me recuso a virá-la para ver o que há do outro lado. Em vez disso, leio a letra de Natalie no meio do último pedaço de papel:
Esta foi a melhor que eu achei.
Espero que ajude no que você está tentando fazer, seja o que for.
Sinceramente,
Natalie
Viro a fotografia e meu coração afunda como uma pedra quando vejo o rosto vibrante e sorridente de Ian me olhando. Minha bochecha está encostada na dele, olhando para a câmera. As luzes coloridas dos brinquedos do Parque Estadual da Carolina do Norte iluminam a noite ao fundo, atrás de nós. Como se eu tivesse caído num lago congelado, ver seu rosto me deixa totalmente sem fôlego. Lágrimas brotam instantaneamente dos meus olhos, e eu deixo a foto cair dos meus dedos sobre a cama. As duas mãos sobem ao meu rosto, onde os dedos cobrem meus lábios trêmulos.
Como posso me permitir chorar por ele?! Por que isso está acontecendo?!
Eu me desfiz de todas as fotos de Ian por um motivo. De todas. Deletei cada arquivo com fotos digitais nossas, tirei seu nome do meu celular. Até joguei fora o criado-mudo que eu tinha desde criança, porque Ian entalhara IAN AMA CAMRYN na madeira por baixo dele. Tentei tirar da minha vida cada coisa que me fizesse lembrar dele, o melhor que pude, porque doía demais saber que tudo o que me restava dele eram coisas materiais. Eu não podia fazer muita coisa com as lembranças, mas me esforcei ao máximo para esquecê-las também.
Por que Andrew faria isso comigo? Trazer toda essa dor de volta à minha vida, e ainda por cima tão pouco tempo depois de perdermos Lily?
Uma parte de mim quer berrar com Andrew, sair marchando pela porta, cruzar o corredor até seu quarto e lhe dizer o quanto isso dói. Mas minha razão me alcança rapidamente. Eu sei por que ele fez isso. Eu sei por que ele me colocou neste quarto, sozinha, com esta foto. Porque ele me ama tanto que está disposto a me devolver Ian só por uma noite, para que eu possa finalmente aceitar a perda dele.
Mas não consigo olhar essa droga de foto! Não consigo!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, pego meu suéter grosso da mochila e enfio os braços de qualquer jeito nas mangas. E então saio correndo do quarto e vou para o elevador.
Segundos depois, estou sentada na areia fria da praia, olhando para o oceano sem fim.
Andrew
18
EU ME PERGUNTO se ela vai abrir. Cacete, me pergunto se ela vai me odiar por fazer isso com ela, mas se isso vai ajudá-la, aceito a barganha.
Aperto o botão de ligar do controle remoto e uma velha reprise de Seinfeld preenche o silêncio do meu quarto. Tiro os sapatos e entro no chuveiro, deixando a água quente bater em mim até ela começar a sair morna. Só consigo pensar no que Camryn está fazendo, sozinha no seu quarto, se está olhando para aquela foto de seu ex-namorado morto, e se está se aguentando. Quero ir lá ajudá-la, mas sei que é algo que ela precisa fazer sozinha. Algo que ela deveria ter feito há muito tempo, antes que nos conhecêssemos.
Depois de me enxugar, enrolo a toalha na cintura e remexo na mochila sobre a cama, procurando uma cueca. Eu me sento, olho fixamente para a TV, depois para a parede, depois para a TV de novo, até que me dou conta de que estou só tentando fazer qualquer coisa para parar de pensar em Camryn.
Deixo meu MP3 tocar umas cinco músicas aleatórias em meus ouvidos antes de decidir que preciso ao menos ver como ela está. Tento seu celular primeiro, mas ela não atende. Então uso o telefone do hotel e tento ligar para o quarto dela. Ainda sem resposta. Talvez ela esteja apenas tomando banho. Tento me obrigar a acreditar nisso, até que meu instinto fala mais alto. Visto meu jeans e uma camisa de manga comprida e atravesso o corredor até seu quarto. Encosto o ouvido na porta, tentando ouvir o chuveiro ligado. Nada. Por isso passo o cartão extra na porta para destrancá-la.
Ela não está ali. Meu coração acelera enquanto entro no quarto. A primeira coisa que noto é a fotografia, que na verdade eu nem tinha visto ainda, sobre a cama. Eu a pego e a estudo por um instante. Camryn parece tão feliz nela. Essa é a Camryn que eu conheci, aquela com um sorriso lindo e cheio de energia. Me lembro desse sorriso. Eu o vi dezenas de vezes quando estávamos na estrada juntos.
Entrando em pânico, tiro os olhos da foto e vou para a janela. Olho para o oceano negro lá fora e vejo algumas pessoas andando pelo calçadão. Com a foto ainda na mão, volto rapidamente para o meu quarto e calço os sapatos, deixando-os desamarrados enquanto saio e vou para a praia. O ar frio não é insuportável, mas é suficiente para me fazer pensar que fiz bem em usar mangas compridas. Procuro qualquer sinal dela, olhando de um lado para o outro no calçadão e nas cadeiras de praia perto do hotel, mas ela não está em lugar nenhum. Enfiando a foto no bolso de trás da calça, começo a correr um pouco e rumo para a praia.
Eu a encontro sentada na areia, não muito longe.
— Porra, amor, você me deixou apavorado.
Eu me sento ao lado dela, passando um braço ao redor do seu corpo.
Ela olha para o oceano, o vento gelado atravessando seu cabelo louro. Não olha para mim.
— Desculpa. Eu só queria...
— Eu te amo, Andrew — ela interrompe, mas continua com o olhar fixo à sua frente. — Não sei como uma garota pode ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo.
Sem saber aonde ela quer chegar com isso, tenho medo de dizer alguma coisa porque não quero dizer a coisa errada. Eu a aperto mais para compartilhar o nosso calor. E não digo uma palavra.
— Não tô brava com você — ela continua. — Primeiro fiquei, mas quero que saiba que não tô mais.
— Me fala o que você tá pensando — peço baixinho.
Ela ainda não desviou o olhar da escuridão à sua frente. As ondas mal lambem a praia a alguns metros de nós. Um pontinho branco, a luz de um barco, se move no horizonte.
De repente, sinto que Camryn está me fitando e me viro para olhá-la também. A luz dos prédios atrás de nós e do luar é suficiente apenas para mostrar seus traços suaves, os cachos do seu cabelo soprados sobre sua face fria. Eu afasto alguns fios dos seus lábios. Seu olhar se abranda quando ela me encara e diz:
— Eu amava Ian, amava muito. Mas não quero que você pense...
Eu balanço a cabeça.
— Camryn, não faz isso. Não estamos aqui pra falar de mim, tá? — Eu enfio o dedo em outro cacho do seu cabelo e o afasto da sua boca. — Não fale de mim.
Ela para por um momento, e sinto sua mão no meu colo e meus dedos se entrelaçando com os seus.
Camryn volta a olhar o oceano.
— Eu não queria ir ao funeral de Ian — ela me conta. — Não queria vê-lo pela última vez daquele jeito. — Camryn me olha. — Lembra aquele dia, no seu apartamento, quando cheguei e você tava falando ao telefone com Aidan, quando ele tava tentando te convencer a ir ao funeral do seu pai?
Balanço a cabeça.
— Lembro, sim.
— Você disse uma coisa pra ele, disse que preferia que a última vez que você visse alguém, que ele estivesse vivo, não morto, deitado num caixão. Bem, era isso que eu pensava do funeral de Ian. Eu não queria ir. Foi por isso, também, que eu não quis ver Lily. Por isso escolhi a cremação.
— Mas você foi. Ao funeral de Ian. — Eu evito o assunto de Lily por enquanto. É um caso mais doloroso. Para nós dois. Eu a vi. Era tão pequena que caberia na palma da minha mão. Mas Camryn se recusou a olhar.
Ela balança a cabeça.
— Não exatamente — ela explica, a respeito do funeral de Ian. — Eu tava lá, mas não tava. Minha maneira de me desapegar dele foi tirá-lo da minha mente, cada palavra que ele já me disse, seu rosto; tudo o que eu podia apagar, eu apaguei. Só fui porque era o que todos esperavam de mim. Se eu não estivesse tão preocupada com o que todos fossem pensar de mim, teria ficado em casa naquele dia.
— Mas isso não fecha o ciclo — digo cautelosamente. — É a mesma coisa que varrer a sujeira pra baixo do tapete. Ela continua lá. Você sabe que tá lá. E aquilo vai ficar te incomodando até você fazer certo.
— Eu sei — ela diz.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, eu enfio a mão no bolso de trás e tiro a foto.
— Sabe, se ele ainda estivesse vivo, eu ficaria com um pouco de ciúme. Até que, pra um cara, ele é gato.
Camryn sorri para mim e noto que seu olhar mal pousa na foto.
Eu a deixo na areia perto dos nossos joelhos. Então fico sério de novo.
— Camryn, isso que tá acontecendo com você, os comprimidos e tudo mais, não é só por causa da perda da Lily. Você sabe disso, não sabe?
Ela não responde, mas percebo que está pensando muito no que eu falei.
— Você bloqueia tudo. Ian. Lily. De acordo com Natalie, até a morte da sua avó, o crime de Cole, e o fato do seu pai ter ido embora e parecer se importar mais com a nova namorada do que com você. — Digo as coisas como elas são porque é exatamente assim que precisam ser ditas. — Em vez de lidar com tudo isso, chorar, o que for, você só bloqueia essas merdas e espera que desapareçam sozinhas. Você já tava fazendo isso bem antes da gente se conhecer. Mas precisa saber que tudo se acumula, e um dia você desmorona e cai num abismo.
— Sei. Você tem razão, como sempre — ela concorda desconsoladamente.
— Você acredita nisso ou tá concordando só pra me fazer calar a boca? — Abro um sorriso para ela, esperando receber outro em troca.
E funciona.
Ela sorri e diz:
— Não, eu acredito mesmo. Só queria ter acreditado nisso antes.
— Por que acredita agora?
— Porque você é uma espécie de filósofo com tatuagens. — Ela ri, e isso espalha calor pelo meu sangue.
Não acredito que ela está rindo. De início, imaginei que fosse levar muito tempo para Camryn aceitar tudo isso, mas ela me surpreende a cada dia.
— Um filósofo? — digo. — Exagerada. Mas aceito o elogio.
Camryn se vira de lado e deita a cabeça no meu colo. Ela olha para mim com aqueles olhos azuis de corça, e não consigo deixar de tocar seu rosto macio.
— Quer saber a verdade? — ela pergunta.
— Claro — respondo, mas fico um pouco ansioso, de repente.
— É como te falei na casa de Aidan — ela continua. — Se um dia eu perdesse você, logo você, isso seria o fim pra mim. Quando tive o aborto, isso fez todos os meus medos voltarem. De perder você. Foi como se aquele instante de tragédia me fizesse lembrar de novo da morte, e com que rapidez ela pula em cima de uma pessoa. Se Deus, a natureza, ou sei lá quem ou que porra controla tudo, pode ser cruel e desalmado a ponto de matar o meu bebê, então Ele pode te matar também, sem pensar duas vezes. Isso me apavora, Andrew. A ideia de perder você me mata por dentro. E como já quase te perdi uma vez, o medo fica muito pior.
— Mas eu já te disse...
Ela se levanta do meu colo e fica sentada na minha frente, com os joelhos enterrados na areia.
— Eu sei o que você disse — ela interrompe. — Mas não importa o que você pensa, ou você saber dizer todas as coisas certas pra me fazer sentir melhor. Você não tem certeza do que vai acontecer, Andrew. O tumor pode muito bem voltar, e apesar de tudo o que fazemos, de todas as precauções que tomamos, ele pode te matar.
Eu começo a discordar, mas ela está tão empenhada em me dizer essas coisas que sei que preciso deixar.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu — ela continua — e agora posso te olhar nos olhos e dizer que, por mais que isto doa, consigo aceitar a morte de Ian. Consigo aceitar a morte de Lily. Consigo aceitar a morte de qualquer um, mesmo que essa morte seja insuportavelmente dolorosa. Mas a sua... — Ela se interrompe e nem pisca ao olhar no fundo dos meus olhos. — A sua eu jamais poderia aceitar. Jamais.
O silêncio entre nós só amplifica o som do oceano. Quero pegá-la nos braços, apertar meus lábios contra os dela, mas fico sentado ali, olhando para ela, porque as palavras que ela me disse são as mais poderosas que já ouvi, senti ou entendi.
Finalmente, eu a pego em meus braços e a ponho no meu colo. Passo os braços pelas suas costas, fito seus olhos e digo:
— Acredito em você e sinto a mesma coisa.
Ela inclina um pouco a cabeça para o lado.
— Mesmo?
— Sim. Camryn, não consigo viver sem você. Eu poderia tentar, mas ia ser uma existência péssima. Isso não vale só pra mim; você pode morrer amanhã tão facilmente quanto eu. Ninguém tá imune.
Ela não discute, mas desvia o olhar por um breve momento.
Eu seguro seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me olhar. Sua pele está gelada.
— A gente precisa viver no presente, lembra? — eu digo e ela volta a prestar atenção em mim. — Precisamos fazer um pacto, você e eu, agora mesmo. Topa fazer um pacto comigo? — Movo um pouco minhas mãos para aquecer suas orelhas geladas.
Ela concorda com a cabeça.
— Tá — diz, e fico feliz por ela confiar em mim o suficiente para não fazer perguntas antes de concordar.
Tirando uma mão de sua orelha, passo as pontas dos dedos na sua testa e pelos lados de suas bochechas.
— Não podemos controlar a morte. Nenhum dos dois pode fazer nada pra evitá-la ou adiá-la. Só o que podemos controlar é como vamos viver nossas vidas antes que ela nos alcance. Portanto, vamos prometer um pro outro coisas que possamos cumprir, haja o que houver.
Camryn concorda com a cabeça e sorri um pouco.
— Que tipo de coisas? — ela pergunta.
— Qualquer coisa. Tudo o que a gente quiser um do outro. Tipo... — Eu me levanto da areia e enfio as mãos nos bolsos. Olho para o oceano, vasculhando minha mente em busca da melhor promessa para começar. Só consigo pensar numa coisa no momento, por isso me viro novamente para ela, levanto o dedo indicador e digo: — Isto não tem nada a ver com o tumor, nem com nada específico, mas quero que você me prometa que, se algum dia estiverem me mantendo vivo por aparelhos, por qualquer motivo, e você sentir no fundo do coração que eu não vou melhorar, se você sentir que eu tô sofrendo, vai mandar desligar os aparelhos.
Seu sorriso desaparece, e ela me olha como se eu tivesse estragado o momento. Eu estendo os braços e a pego pela mão, fazendo-a levantar comigo.
— Não tô tentando ser mórbido. É só uma coisa que sempre me incomodou, sabe? Você vê isso na TV e nos filmes. O cara fica ligado a todo tipo de aparelho que a ciência já inventou pra se manter vivo porque a família tem esperança ou qualquer coisa assim. Nada contra ter esperança, mas, porra, aquilo me dá um puta medo. — Eu seguro seus braços delicadamente. — Nunca me deixe viver como um vegetal. Me prometa isso. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa, e confio que você vai saber quando tiver chegado a minha hora. Então prometa.
Aos poucos, ela começa a entender. Leva um segundo, mas ela começa a concordar com a cabeça.
— Me promete a mesma coisa — ela pede.
Eu sorrio e digo:
— Tá prometido.
Ela dá um passo para trás e enfia as mãos nas mangas. Apertando bem o suéter ao redor do corpo, ela começa a andar de um lado para o outro.
Ela para e me olha.
— Promete que se um dia eu tiver mal de Alzheimer ou ficar senil e não me lembrar de ninguém, você vai me visitar todo dia e ler pra mim, como Noah lia pra Allie.
— Quem? — eu pergunto, mas aí a ficha cai. — Aaaah, entendi. — Eu rio dela e concordo com a cabeça.
Seus olhos e seu sorriso aumentam e ela grita:
— Andrew! Não tem graça! Tô falando sério! — Ela ri e eu a agarro, puxando-a para os meus braços.
— Tudo bem, tudo bem! — eu me rendo, apertando seu corpo que se retorce contra o meu.
— A ideia foi sua — ela acusa —, então não faz piada.
— Eu sei. Você tem razão, mas... é sério? Precisa ser tão fã assim de Diário de uma paixão?
Sinto o cotovelo dela atingindo meu estômago e me curvo um pouco e exagero a dor que isso me causa, contorcendo o rosto com a agonia e o riso. Para me humilhar de vez, Camryn me dá um empurrão e me derruba na areia. Depois fica por cima de mim, com um pé de cada lado do meu peito e as mãos na cintura, toda autoritária. Mantenho uma mão na barriga, rindo e tentando ficar sério, embora eu saiba muito bem que não consigo enganá-la.
— Só você pra fazer piada num momento tão sério. — Ela reclama tão seriamente que isso só me faz rir mais, sobretudo pela dificuldade dela em ficar de cara fechada.
Ela começa a se sentar em cima de mim, e provavelmente vai tentar me bater com suas mãozinhas delicadas, mas eu a seguro antes que ela comece, meto a mão no meio das pernas dela e aperto com toda a força.
— Aaaaaii! — Camryn geme, e começa a desabar, mas eu a mantenho na posição. — Que ideia é essa de apertar minhas paaarrr... porra, Andrew! Apertar minhas partes?!
Faço mais pressão e levanto aos poucos as costas da areia, guiando-a para trás. Ela fica de joelhos olhando para mim.
— Porque eu gosto — sussurro sobre seus lábios. — Agora fica parada.
O clima entre nós muda em questão de segundos. Sua pele fria fica mais quente; seus olhos, arrebatados; seu corpo, conivente.
— Tem gente aqui... — ela tenta dizer baixinho, mas minha mão apertando-a no meio das pernas lhe rouba a voz.
— Não me importa — retruco, examinando seus olhos primeiro e então seus lábios úmidos e inchados. — Eles estão longe.
— Mas... o que você tá fazendo...
— Só fica parada. Quieta. — Eu passo a língua sobre seu lábio inferior e o chupo delicadamente. Sinto que ela tenta me beijar, mas não deixo. Eu puxo o tecido de sua calça e enfio a mão dentro da cintura folgada para achar o seu calor. Caramba, ela já tá molhada. Me curvando sobre o seu pescoço, fecho os olhos e inalo o cheiro de sua pele. Ela fica bem imóvel, mas posso sentir seu corpo tremendo e seu coração batendo forte sob o meu toque. Quero tanto comê-la. Mas não vou fazer isso ainda, porque gosto de me torturar. Adoro, porra.
Minha mão livre solta sua cintura e eu a ponho em sua coxa, forçando-a a abrir mais as pernas.
— Abre — eu instruo, com meus lábios roçando nela, e Camryn faz exatamente o que eu mando, afastando os joelhos na areia. Ela fica um pouco tensa quando percebo um homem andando não muito longe, mas eu a aperto de novo, enfiando dois dedos nela e obrigando-a a olhar só para mim. Ela geme e eu estremeço silenciosamente, sentindo suas entranhas se apertando em volta dos meus dedos. Encaro seus olhos, os meus de vez em quando se perdendo no estudo da curvatura de sua boca. — Não tira os olhos de mim — digo. — Não me importa se você sentir que precisa fechar os olhos. Não feche. Continue me olhando.
Ela balança um pouco a cabeça, como se temesse que eu vá parar se ela fizer errado.
Mexo os dedos para dentro e para fora dela, lentamente de início, tirando-os e usando seu gozo para manter seu clitóris úmido, esfregando meu dedo médio sobre ele num movimento circular. Cada vez que a toco, seus olhos começam a se fechar, mas eu paro assim que percebo, e ela volta a controlar o olhar. Mexo meus dedos dentro dela de novo, um pouco mais rápido, e com o polegar faço cada vez mais pressão no seu clitóris. Pequenos gemidos escapam de seus lábios abertos, chupando o ar gelado ao nosso redor e meu hálito quente à medida que fico mais ofegante em sua boca. Mas ela nunca tira os olhos dos meus e não fala, embora eu saiba que ela queira fazer tudo isso.
— Admite uma coisa — sussurro no ouvido dela. — Neste momento, você não estaria nem aí se alguém estivesse olhando. Não é verdade? Me deixaria foder você aqui, na frente de todo mundo, e se preocuparia com a vergonha só depois que eu terminasse.
Sinto sua cabeça balançando perto da minha.
— O que mais você me deixaria fazer? — pergunto e mantenho os lábios perto do ouvido dela. Continuo mexendo os dedos.
— Tudo o que você quisesse — ela diz, com um gemido na voz.
— Tudo o que eu quisesse? — Eu esfrego meu polegar com mais força no seu clitóris.
— Tudo... — ela diz e perde um pouco o fôlego. — Qualquer porra que você quisesse...
Suas palavras, sua voz carregada de desejo, me deixam louco de tesão por ela, e meu pau está tão duro que mal consigo aguentar. Enfio os dedos com mais força e mais rápido. Seu corpo começa a tremer, suas coxas balançam tentando levantar o corpo. Eu me afasto do ouvido dela e a fito de novo. Ela mantém o olhar fixo no meu o melhor que pode, suas pálpebras estão ficando mais pesadas; sua respiração, irregular e ofegante. Mas seus olhos ficam arregalados e imóveis quando atinjo aquele ponto especial, e tomo cuidado para não interromper o ritmo.
— Não tira os olhos de mim — digo e continuo a olhá-la ferozmente.
Quando ela começa a gozar, meu olhar só fica mais forte, perfurando o dela num momento de luxúria faminta. É como se eu conseguisse ver o prazer emanando de suas íris, o calor do seu orgasmo saindo da pele sensível dos seus lábios, que querem beijar os meus tão selvagemente, mas mesmo assim eu não deixo. Quando seu corpo trêmulo começa a se acalmar, enfio os dois dedos mais fundo, sentindo-a se estreitar ao redor deles, o tempo todo mantendo a pressão no seu clitóris.
Ela desaba sobre o meu peito.
Eu envolvo seu corpo trêmulo nos braços e beijo o alto da sua cabeça.
— O que você tá fazendo comigo, caralho? — ela diz.
Eu rio um pouco e a abraço mais forte.
— Qualquer porra que eu quiser — respondo astutamente.
Erguendo a cabeça do meu peito, ela olha para mim.
— Bom, pode dizer o que quiser, mas não vai me fazer gozar desta vez sem que eu retribua o favor.
— Ah, é?
— É isso mesmo, por isso nem tenta.
— O que você vai fazer comigo, então? — Eu sinto o meu sorriso aumentando.
— Qualquer porra que eu quiser — ela diz, com um sorriso ainda maior e mais malicioso que o meu.
Então ela fica de pé e, segurando minha mão, me faz levantar com ela.
— Mas não aqui fora — ela diz. — Tá esfriando demais.
— Você que manda — digo, deixando que ela me puxe.
Eu jamais tocaria no assunto, mas noto, quando nos afastamos da praia, que Camryn olha para trás uma vez, para a foto dela e de Ian na areia. Sua mão aperta a minha forte e ela olha para meu sorriso suave quando atravessamos o calçadão.
Sei que tive muito pouco a ver com ela finalmente fechar esse ciclo. Tudo bem, eu a forcei a fazer isso, mas foi Camryn que, naquele momento, enfrentou um dos seus maiores medos. Ela olhou no rosto de alguém que amou e perdeu, e finalmente aceitou isso. Admito que foi estranho como tudo aconteceu, e eu não fui para lá com nenhuma intenção sexual, especialmente num momento como aquele. Mas Camryn, no tempo que passou sozinha naquela praia pensando em Ian, bem antes que eu chegasse, já tinha entendido tudo.
Não sei ao certo como ela fez, ou qual foi meu papel nisso, mas quando retornou da praia comigo naquela noite, ela já começava a ser como era antes.
Camryn estava voltando, e eu estava nas nuvens com ela.
Camryn
19
8 DE DEZEMBRO — meu vigésimo primeiro aniversário
Quando começou a esfriar, Andrew e eu rumamos mais para o Sul. Passamos só uma noite em Virginia Beach e de lá percorremos o litoral da Carolina do Norte, ficando alguns dias em Myrtle Beach, Carolina do Sul, onde arranjei meu primeiro emprego na estrada. Como arrumadeira. Com certeza não era a minha primeira escolha, especialmente depois que Andrew me lembrou das coisas nojentas que os hóspedes costumam deixar nos quartos. Mas era um emprego e não me incomodava tanto, a não ser quando queriam que eu lavasse cestos de lixo com catarradas nojentas grudadas no fundo. Desculpa, mas só de pensar nisso me dá vontade de vomitar. Eu ligava para Andrew e implorava que ele viesse limpar. Claro que eu o subornava com promessas de boquetes enlouquecedores em lugares públicos. Puxa, que maravilha. Não, quem eu tô tentando enganar? Adoro fazer isso por ele. Só finjo detestar às vezes, mas acho que ele gosta quando eu finjo, porque gosta de me ouvir reclamar.
De qualquer forma, pelo jeito, empregos de arrumadeira são como portas giratórias, as funcionárias vêm e vão tão rápido que seria melhor nem incluí-las oficialmente na folha de pagamento. Pensei em como isso poderia trabalhar a meu favor enquanto estivéssemos na estrada. Assim, em troca de metade do valor das diárias do quarto que estávamos ocupando, e como o quadro de funcionários do hotel estava desfalcado, eu perguntei se poderia ajudar e eles me contrataram na hora.
Mas o emprego era só temporário, pois Andrew e eu precisávamos partir de Myrtle Beach e seguir para o nosso destino, onde quer que fosse. Nunca planejamos nossos destinos antecipadamente. A nossa única regra é ficar no litoral. Pelo menos até a primavera. Mas ainda faltam alguns meses até lá e, no momento, estamos felizes instalados num hotel estilo chalé bem em frente à praia, na linda Savannah, Geórgia.
E hoje eu faço 21 anos.
Andrew me acorda de um sono profundo abrindo as cortinas da janela gigante do nosso quarto e deixando o sol invadir o ambiente.
— Levanta, aniversariante — exclama ele de algum lugar perto do pé da cama. Eu o ouço batendo várias vezes na mesinha perto da janela com a palma da mão.
Resmungo e viro para o lado, dando as costas para o sol brilhante e me enterrando nos lençóis. Uma lufada de ar frio me atinge quando Andrew me arranca os lençóis.
— Ah, vai! — gemo, encolhendo os joelhos para o peito e puxando o travesseiro para cima da minha cabeça. — Eu devia poder dormir até tarde no meu aniversário.
De repente, meu corpo está sendo arrastado da cama e eu estico os braços freneticamente, tentando me agarrar à borda do colchão. A mão de Andrew segura com firmeza o meu tornozelo. Eu chuto e esperneio, tentando me soltar, mas ele me arrasta pela cama tão rápido e sem esforço que eu simplesmente desisto. Minha bunda bate no chão e os lençóis caem ao meu redor.
— Você é tão babaca! — eu rio.
— Mas você me ama. Agora levanta.
Com o cabelo todo emaranhado, olho para Andrew e faço bico. Ele sorri para mim e estende a mão. Eu a seguro e ele me puxa de pé.
— Feliz aniversário, amor — ele diz, e me dá um selinho.
Eu me encolho um pouco, porque sei que meu bafo está podre, e já estou ficando acostumada com a mania de Andrew de aproveitar qualquer oportunidade de me lembrar disso.
Sem olhar para mim, Andrew enfia a mão no bolso do casaco e tira uma caixinha de veludo preto. Obviamente, ele já saiu hoje, mas eu estou mais interessada na caixa que ele pôs na minha mão. Olho para ele desconfiada, pronta para dar um esporro nele caso tenha gastado uma grana numa joia escondido de mim.
— Andrew? — digo, desconfiada.
— Abre de uma vez. Eu me comportei. Juro. — Ele ergue as duas mãos num gesto de rendição.
Ainda totalmente desconfiada de sua aparente sinceridade, abro a tampa da caixa e vejo um colar com pingente de diamante dentro e fico com um pouco de falta de ar. Então estreito os olhos para ele.
— Andrew, por favor. — Olho mais uma vez para o colar, me sentindo culpada só de tê-lo nas mãos. — De jeito nenhum isso foi...
— Juro — ele diz com um sorriso encantador. — Não foi caro.
Mordendo o lábio com ceticismo, eu pergunto:
— Quanto custou, então?
— Ah, uns 125 dólares. Nada mais do que isso. Juro por Deus. — Ele faz uma cruz sobre o coração com o dedo.
Então tira o colar da caixa, deixando-o pendurado na mão.
— Gostou? — pergunta, indo para trás de mim.
Instintivamente, levanto meu cabelo embaraçado enquanto ele põe o colar no meu pescoço.
— É perfeito, Andrew. Eu mais do que gostei. Eu amei. — Olho para baixo enquanto ele o fecha e seguro o pingente brilhante de prata.
Eu me viro para Andrew e fico na ponta dos pés descalços para beijá-lo apaixonadamente.
Nem imagino como uma joia dessas pode não ter custado um caminhão de dinheiro, mas ele está dizendo a verdade. Eu acho...
— Obrigada, amor — agradeço, radiante.
De repente, ele me dá um tapão na bunda e diz:
— A gente precisa sair daqui hoje. Tô de saco cheio de me esconder em quartos assim. De saco cheio do frio. Eu queria poder hibernar.
— Eu também. E o que a gente vai fazer, exatamente? — Pego uma roupa limpa da minha mochila perto da TV.
— Sei lá. Qualquer coisa. Mas põe uma roupa quente.
Ele não precisava me lembrar disso, na verdade. Nem mesmo a proximidade do litoral e a mudança de latitude ajudaram muito a nos aquecer nos últimos dias. Ambos sonhamos com a primavera e o verão, a ponto de ser a única coisa da qual falamos. Eu reclamo muito de não poder esticar os pés descalços para fora da janelinha do carro sem matar nós dois de frio, e ele reclama que ainda não conseguimos dormir num gramado sob as estrelas. Claro que não vou dizer em voz alta, senão ele vai querer ainda mais, mas não estou muito ansiosa para dormir sob as estrelas. Jamais. Não depois do que aconteceu na primeira vez que tentamos. Não. Acho que estou satisfeita com as camas de hotel. Elas não têm cobras.
O inverno é deprimente. Acho que é por isso que o índice de suicídios é tão alto no Alasca. É um estado lindo, mas ainda prefiro o calor de rachar de um deserto do Sul.
Eu visto roupas extraquentes para o meu aniversário: casaco grosso, cachecol, luvas, o que tiver eu tô vestindo. E mesmo assim tô morrendo de frio.
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Andrew meio que “esquenta” o inverno. Sempre achei que caras de gorro ficam sexy, mas o jeitão dele com sua jaqueta preta de grife e seu gorro de lã, suéter cinza-escuro, jeans preto e botas Doc Martens é tudo o que eu quero de presente de aniversário. Sorrio comigo mesma enquanto andamos de mãos dadas por uma pequena multidão, todos se acotovelando no farol para se proteger do frio, e então três garotas, provavelmente turistas como nós, devoram Andrew com os olhos quando passamos. Isso acontece muito, e eu já deveria estar acostumada. Me vanglorio em segredo, mas quem não faria isso, na minha situação? Ele é a coisa mais sexy que eu já vi. Não admira que já tenha trabalhado como modelo. Ele odeia falar disso, então, naturalmente, eu toco no assunto com frequência para vê-lo sofrer. Andrew também está se barbeando menos; está com aquela barba sexy por fazer.
Subimos a escada em caracol até o farol debruçado sobre o oceano e olhamos o panorama juntos. Porque é algo para se fazer. Estamos apenas improvisando, andando de carro pela cidade e escolhendo as coisas quando as vemos. Mas, nos meses frios, até isso é um processo de tentativa e erro. Estendemos os braços sobre o corrimão e ficamos perto um do outro para nos aquecer. O vento gelado nos fustiga, naquela altitude, e eu sei que meu nariz e minhas bochechas devem estar vermelhos.
Levamos exatamente cinco minutos para mandar aquilo à merda e praticamente correr de volta para o carro.
— A gente podia ir pro cinema — ele sugere, no banco do motorista. — Ou... tá, acho melhor a gente hibernar e pronto.
Ficamos sentados por muito tempo, só pensando em alguma coisa para fazer.
— Vamos andar de carro mais um pouco — eu digo, sem nenhuma ideia.
— Talvez seja melhor ir embora de uma vez.
Dou de ombros.
— Se você quiser. — Então vejo uma placa que diz Feira de Antiguidades das Pulgas & Carrapatos.
— Vamos fazer compras — sugiro.
Andrew não parece empolgado.
— Compras?
Balanço a cabeça e aponto para a placa.
— Não no shopping, nada disso — explico. — Dá pra achar umas coisas bem bacanas em feirinhas de coisas usadas.
Sua expressão continua neutra, mas acho que ele se dá conta de que com certeza é melhor do que andar na rua no frio, ou ficar parado no carro sem fazer nada.
Andrew acaba cedendo porque, francamente, ele não tem mesmo muita escolha, e em seguida tira o carro do estacionamento e seguimos as placas até a feira de antiguidades. Encontramos um pouco de tudo: chapéus idiotas, instrumentos odontológicos antigos, colchas de retalhos feitas à mão, fitas de vídeo e discos. Andrew não se empolgou com muita coisa, até ver a caixa de madeira cheia de discos.
— Não vejo um disco do Led Zeppelin há anos — ele comenta, segurando um. A capa está tão detonada e desbotada que parece ter ficado num sótão por trinta anos, mas ele o segura com tanto cuidado que poderia ser um exemplar em perfeito estado.
— Você não tá pensando em comprar isso, tá?
— Por que não? — ele pergunta, sem olhar para mim.
Ele vira o disco e olha para o verso da capa.
— Porque é um LP?
— Tá, mas é um LP do Led Zeppelin — ele argumenta, olhando rapidamente para mim.
— Tá, e?
Ele não responde.
Eu continuo:
— Andrew, onde é que você vai tocar isso?
Finalmente ele me dá atenção total.
— Eu não vou tocar.
— Então por que quer comprar? — pergunto, e então respondo por ele, sarcasticamente. — Ah, já sei, é um artigo de colecionador. Você pode pendurá-lo no banco de trás do carro. — Dou um sorrisinho para ele.
— Ou posso pôr você no banco de trás e pendurá-lo na frente.
Eu fico levemente boquiaberta.
Andrew sorri e devolve o disco à caixa.
— Eu não vou comprar — ele resolve, pegando a minha mão.
Minutos depois, entramos em outra barraca, lotada de roupas antigas. Enquanto examino meticulosamente tudo o que há nos cabides, Andrew fica na barraca ao lado, onde centenas de DVDs e Blu-rays estão expostos numa parede. Ele para diante dela de braços cruzados, praticamente imóvel, lendo cada um dos títulos. Posso ver sua nuca através da treliça de madeira que separa seu quiosque do meu. Volto a olhar as roupas, sentindo urgência e necessidade a cada peça que toco. Eu adoro roupas antigas. Não que eu chegue a usar, ou que tenha comprado alguma vez, mas são coisas que não dá para deixar de olhar com admiração e se imaginar nelas.
Empurro os cabides finos de arame, um por um, para conseguir ver tudo. Camisas com mangas bufantes e cadarços de couro, espartilhos, vestidos plissados e com mangas longas, botas vitorianas...
O que é isso?
Meu coração para por um segundo quando puxo um dos cabides e vejo o vestido. É um modelo vintage cor de marfim, com mangas curtas drapeadas. Tiro o cabide da arara e seguro o vestido junto ao corpo, virando para o espelho. O comprimento por pouco não chega ao chão. Segurando-o com uma mão na altura certa, estico o tecido com a outra mão. Então eu rodopio.
— Meu Deus, amei este vestido — digo em voz alta para mim mesma. — Preciso comprar.
— Hãã, devo dizer — Andrew intervém por trás, me assustando — que é um vestido lindo.
Um pouco sem jeito porque Andrew provavelmente me viu enquanto eu me admirava com o vestido e falava sozinha, não olho para ele. Em vez disso, olho a etiqueta para ver se é do meu tamanho. É! Claro que agora preciso comprá-lo, sem mais perguntas. Era pra ser meu!
Abraçando apertado o vestido, eu giro para ficar de frente para Andrew.
— Você gostou mesmo? — pergunto com voz culpada, minha maneira de implorar para que ele não jogue na minha cara aquela conversa sobre o disco.
— Eu acho que você deve comprar — ele confirma, com um sorrisão cheio de covinhas. — Já posso imaginar você vestida nele. Linda. Naturalmente.
Eu fico vermelha e olho para o vestido de novo.
— Você acha? — Não consigo parar de sorrir.
— Com certeza — ele diz. — E você fica mais acessível nele.
Típico!
Ignoro seu comentário pervertido, sobretudo porque estou apaixonada demais pelo vestido. Então me dou conta de que ainda não olhei o preço. Conhecendo os vestidos daquela marca, sei que eles não são caros. Mas quando o vendedor é alguém que acha que pode enganar um cliente, fazendo-o pagar três vezes o valor justo, não há como prever o preço na etiqueta. Prendo a respiração e olho o valor. Vinte contos! Perfeito.
Olho mais uma vez para Andrew e de repente me sinto uma vaca reclamona.
— Por que você não compra aquele disco do Led Zeppelin também? — digo timidamente.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Não, um LP antigo não serve pra nada mesmo. Mas um vestido como esse tem sua serventia. — Ele cruza os braços e me olha de cima a baixo.
Eu acho que ele está bancando o pervertido de novo, e dessa vez abro a boca para acusá-lo, quando ele acrescenta:
— Casar comigo vestida nele, por exemplo.
Seus olhos verdes parecem cruzar rapidamente os meus.
Meu sorriso se abranda e eu digo:
— É um vestido de noiva perfeito.
— Então tá combinado — ele diz, segurando a minha mão. — Quando a gente se casar, pelo menos você já vai ter o vestido.
— Só precisamos disso, na verdade — digo, saindo com ele da barraca com o vestido pendurado no braço.
Ele olha para mim.
— Alianças — ele diz, com um olhar estranho.
— Eu tenho aliança — digo, levantando a mão, achando que por algum motivo ele se esqueceu do anel que me comprou no Texas.
— Isso é um anel de noivado.
— É, mas basta.
— Bom, eu também preciso de uma. Ou você se esqueceu de mim? Casamento é pra dois, sabe.
Eu rio baixinho enquanto chegamos à pequena fila da caixa.
— Tá, tem razão, mas eu tô feliz com o meu anel. Além disso, eu sei que você gastou uma grana com este colar. Não pode fazer essas coisas.
— Vamos começar com isso de novo? — ele pergunta em tom brincalhão, tirando a carteira do bolso. — Não menti pra você sobre o preço do colar.
Talvez ele esteja mesmo dizendo a verdade.
— Acredito em você — digo finalmente.
Ele sorri e deixa por isso mesmo.
Andrew
20
SIM, SOU UM baita mentiroso. Aquele colar custou pouco mais de 600 dólares, mas sei que não posso contar pra ela. Ela acha que o que importa nas coisas caras é quantos zeros há antes da vírgula, mas nem sempre é isso. Francamente, acho que normalmente é pra mulher que o preço importa tanto. Porra, já ouvi garotas reclamando e choramingando porque o cara delas não gastou o suficiente. Eu queria saber se elas percebem como dificultam a nossa vida quando se juntam com as amigas e comparam pedras como nós, homens, comparamos nossas ferramentas. A propósito, a gente não faz isso, na verdade. Pelo menos eu nunca consegui encontrar um cara que quisesse abrir o zíper e competir comigo.
Eu queria comprar algo bem legal pra Camryn no aniversário dela. Por pura coincidência, aquilo de que eu mais gostei, entre as coisas que vi, era caro.
Aceite isso, amor.
Ela é capaz de desmaiar se descobrir quanto eu gastei nas nossas alianças, que comprei enquanto estávamos em Chicago. Está difícil evitar que Camryn as veja. Mas consegui enfiar a caixinha num bolso escondido da minha mochila.
Passamos o dia todo fazendo o que sempre fazemos, ficando juntos e aproveitando o tempo frio como dá. Quando voltamos para o hotel, pego o violão e toco para ela uma canção que compus e na qual estou trabalhando há uma semana. Eu esperava terminá-la até o dia do aniversário porque faz parte do presente dela. Compus só pra ela. Eu a chamo de “A Tulipa na Colina”, uma canção inspirada pelo primeiro dia que passamos juntos quando eu saí do hospital, depois da minha cirurgia.
— Eu acho que você deve pegar leve — Camryn disse naquele dia. — Nada de enfiar a cabeça nos motores de Billy Frank por uns tempos, nem bungee jumping, nem corridas de carros.
Eu ri um pouco, virando a cabeça para o lado para vê-la. Eu estava deitado de comprido numa mesa de piquenique de pedra. Camryn estava sentada no banco, perto da minha cabeça.
— Então sua definição de pegar leve é não fazer absolutamente nada? — perguntei, sorrindo para ela, com a cabeça apoiada nas mãos.
— O que tem de errado em passar um dia calmo no parque? — ela perguntou, passando os dedos na minha testa.
— Nada — respondi e beijei-lhe os dedos quando sua mão chegou à minha boca. — Eu gosto de ficar sozinho com você.
Ela virou a cabeça devagar para o lado e sua expressão ficou mais meiga. Depois olhou para o parque. As árvores estavam frondosas, e a grama, espessa e verdejante. Estava realmente um dia lindo. Fiquei me perguntando por que só nós dois, aparentemente, estávamos ali, aproveitando.
— Acho tulipas bonitas — ela disse com voz distante, olhando para a pequena colina coberta de grama do meu outro lado.
Olhei também e vi uma única tulipa brotando no alto daquela colina, sozinha. Não sei bem por quê, mas desde aquele dia, sempre que vejo uma tulipa em qualquer lugar, penso em Camryn.
Eu nunca vou esquecer o sorriso em seu rosto enquanto toco e canto a canção para ela. É tão terno, radiante e carinhoso, o tipo de sorriso que diz Amo Você Mais Do Que Tudo Neste Mundo sem precisar dizer essas palavras.
CONTINUA
14
QUANDO CHEGO AO banheiro, tem uma fila de mulheres esperando por cabines vazias. O ar está espesso com o bafo de álcool, perfume e roupas cheirando a cigarro. Uma porta de cabine se abre e fecha com uma batida violenta de poucos em poucos segundos quando alguém entra ou sai. Lavo as mãos primeiro, precisando me espremer entre duas garotas bêbadas sentadas no balcão da pia, uma de cada lado. Por sorte, elas são o tipo de bêbada supersimpática, porque não estou podendo com uma briguenta e grosseira hoje. Elas pedem desculpas por atrapalhar e se afastam para me dar espaço.
— Obrigada — digo, abrindo a torneira.
— Ei, você é a menina que tava cantando — a garota da esquerda diz, apontando para mim e sorrindo. Ela olha para a amiga do outro lado, depois para mim de novo.
— É, acho que sou eu.
Não estou nem um pouco a fim de conversa de banheiro. Quanto mais tempo passo num banheiro público, com mais nojo eu fico.
— Vocês dois são muito bons — ela diz com um sorrisão.
— É, sério — a amiga dela confirma. — Por que estão cantando em bares, afinal?
Eu dou de ombros e espremo mais sabão do reservatório na mão e tento evitá-las o mais gentilmente possível.
— De verdade — a da esquerda acrescenta. — Eu pagaria pra ver vocês tocarem.
Tudo bem, eu não sou totalmente imune a elogios. Sorrio e agradeço de novo.
Quando mais duas cabines ficam desocupadas, elas aproveitam a oportunidade e se trancam nelas. Logo depois, acenam em despedida e me desejam boa sorte na minha “carreira musical”. Quando estou quase sozinha, me viro para o espelho, mas não olho para mim. Em vez disso, enfio a mão no bolso e pego um comprimido, engolindo-o com água da pia.
É só pra tirar o nervoso.
Então eu me olho, empurrando o comprimido e o sentimento de culpa que vem cada vez que tomo um para o fundo da minha mente. Invento pretextos para justificar tomá-lo e quase engano a mim mesma. Mas eu sei que a culpa que sempre sinto tem um motivo.
Em menos de 11 minutos, não me importo mais com a culpa, os pretextos ou o nervoso, porque essa parte do meu cérebro foi adormecida.
Passo as pontas dos dedos embaixo dos olhos para limpar o rímel borrado, depois enxugo a oleosidade do meu rosto com papel higiênico. Preciso estar de cara boa quando voltar lá. Me sinto ótima, mas preciso parecer tão bem quanto me sinto.
Abrindo caminho em meio à multidão, encontro Aidan e Michelle de pé perto do enorme balcão do bar e me junto a eles. Então lembro que Andrew foi buscar uma bebida para mim, mas não quero atravessar aquele mar de gente de novo só para pegá-la.
— Vocês dois são fantásticos! — Michelle grita por cima da multidão barulhenta. Ela me abraça e eu retribuo, sentindo meu sorriso movido a comprimidos se alargando muito em meu rosto.
Eu me viro para Aidan.
— O que você achou?
— Concordo com Michelle! Vocês deveriam compor seu próprio repertório e tocar aqui mais vezes. Tem sempre caçadores de talentos aqui no bar. E celebridades. — Ele aponta para a parede do fundo, onde uma série de fotografias autografadas de vários músicos e astros do cinema formam uma linha reta. — Comecem a tocar material próprio — ele continua. — Aposto que vocês dois seriam contratados por uma gravadora em menos de um ano.
Estou tão chapada, no momento, que ele poderia me dizer que achou a gente uma bosta e sem futuro nenhum na música, e eu sorriria do mesmo jeito, deixando as palavras passarem por mim como uma brisa.
Olho para o outro lado do salão e vejo Andrew no palco com sua guitarra e a banda da casa, se preparando para a canção que é sua marca registrada, “Laugh, I Nearly Died”. Ele provavelmente não me vê no meio da multidão, mas sabe que estou assistindo. Adoro vê-lo no palco, no seu elemento. Sei que, por mais que sejamos bons juntos, musicalmente, ele sempre é mais dono do palco quando toca sozinho. Talvez seja impressão minha, mas gosto de pensar nele como na primeira vez que o vi tocar. Porque naquela noite em Nova Orleans, ele estava cantando para mim, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu faria qualquer coisa pra me sentir assim de novo. Qualquer coisa...
Segundos depois de começar a tocar, Andrew, como sempre, tem a atenção de todos os presentes. As duas garotas na mesa estão de pé agora, dançando juntas de um jeito provocante, mas eu sei que é tudo para Andrew. Já vi isso antes. Elas o querem, e Andrew deixa que acreditem, só por uma noite, que ele também as quer. É perfeitamente inofensivo. Andrew e eu encaramos isso como uma maneira de levantar a autoestima dos outros. Um pouco de paquera aqui e ali, tornar uma garota ou um cara de sorte o centro das atenções só pelo tempo suficiente para corar e sorrir. Nunca se sabe o que acontece na vida das pessoas a portas fechadas, e um pouco de energia positiva da paquera nunca atrapalha.
Quando voltamos para a casa de Aidan e Michelle pouco depois da meia-noite, vou para a cama antes de todos. Fico deitada por uma hora, ouvindo as vozes deles vindo do corredor e entrando no quarto. Andrew ia se deitar comigo, mas insisti para que ele ficasse com o irmão. Ele anda se preocupando demais comigo ultimamente. Vamos voltar para Raleigh amanhã, e quero que ele passe o maior tempo possível com Aidan.
Mais uma hora passa e eu continuo acordada.
Frustrada, enfio a mão na bolsa, procurando o frasco. Sem nem perceber, já estou nos últimos comprimidos.
Desmaio com três, desta vez.
Andrew
15
— CAMRYN? AMOR, acorda, por favor. — Eu a sacudo com força pelo ombro.
Minha emoção dominante, no momento, é o medo. Minhas emoções secundárias são raiva e mágoa. Mas, estranhamente, a sensação de incerteza está mantendo todas as outras a distância.
Eu a sacudo de novo.
— Levanta.
Não faço ideia de quantas dessas porras de comprimidos ela tomou, mas julgando pelo frasco quase vazio, a perspectiva de ter sido o suficiente para uma overdose faz uma onda de pânico percorrer todo o meu corpo. Mas ela está respirando normalmente e seu ritmo cardíaco parece normal. Se ela não acordar...
Seus olhos se abrem lentamente, e eu respiro mais aliviado.
— Camryn. Olha pra mim.
Finalmente, ela acorda o suficiente para me olhar nos olhos.
— Que que foi? — Ela geme suavemente e tenta fechar os olhos de novo, mas eu a seguro pelos ombros e a obrigo a se sentar.
— Acorda. Fica de olhos abertos.
Ela se senta, toda mole, mas não é nada tão fora do comum, depois de ter sido forçada a acordar e a se endireitar assim.
— Quantos você tomou?
Michelle está na porta do quarto, atrás de mim.
— Quer que eu chame uma ambulância?
De repente, Camryn fica completamente alerta. Não sei se minha pergunta finalmente a alcançou ou se foi a menção de uma ambulância, mas ela me encara com olhos arregalados e assustados.
— Quantas dessas porras de comprimidos você tomou?
Ela desvia o olhar do meu e vê o frasco de comprimidos sobre o criado-mudo. Quando decidi que dormir até depois das 14h não era típico dela e fui ver o que estava acontecendo, encontrei o frasco no chão.
— Camryn? — Eu a sacudo de novo e ela volta a prestar atenção em mim.
Ela só me olha. Vejo tanta coisa em seus olhos agora que não sei dizer se é mais humilhação, arrependimento, mágoa, raiva ou resignação. E então seus olhos começam a se encher de lágrimas. Sinto seu corpo se agitando sob o peso dos meus braços. Ela desata a chorar, caindo em meus braços, soluçando descontroladamente, e aquilo me despedaça.
— Andrew? — Michelle diz da porta.
Sem olhar para trás, eu digo:
— Não, ela vai ficar bem. — E engulo minhas próprias lágrimas e a raiva, sentindo meu peito se apertar.
A porta se fecha silenciosamente atrás de mim quando Michelle sai do quarto.
Abraço Camryn por muito tempo, deixando-a chorar no meu peito. Não digo uma palavra. Ainda não. Em parte porque sei que ela precisa disso, poder chorar e desabafar. Mas a outra parte de mim está tão puta da vida e magoada que sinto que vou precisar me afastar e me recompor para não dizer coisas erradas. Eu a abraço forte, apertando os braços em volta do seu corpo trêmulo. Beijo seu cabelo e tento não chorar também. A parte de mim que está puta da vida ajuda nisso.
— Eu sinto muito! — ela grita e, nessa fração de segundo, quando ouço a dor em sua voz, minha raiva se apaga quase completamente e eu a abraço ainda mais forte.
— Tá pedindo desculpas pra mim? — pergunto, incrédulo. Eu a afasto, segurando-a firme pelos antebraços. Balançando a cabeça furiosamente, volto a ficar como alguns minutos atrás. — Não, primeiro você precisa me dizer quantos você tomou. — Eu a encaro com firmeza.
— Ontem à noite. Só três.
— Quantos tinha no frasco no total?
— Não sei. Uns vinte.
— Então há quanto tempo você tá tomando?
Ela faz uma pausa e responde.
— Desde terça. São da minha mãe. Tomei um quando tava com dor de cabeça, mas aí comecei a tomar... — Seus olhos se enchem de água novamente.
Eu enxugo as lágrimas do seu rosto.
— Puta que pariu, Camryn! — exclamo, puxando-a para o meu peito por mais um breve momento. — O que você tava pensando, porra?
— Eu não pensei! — ela grita. — Não sei o que eu tenho!
Seguro seu rosto com as palmas das mãos.
— Você sabe o que você tem. Tá arrasada por perder a Lily e não sabe como lidar com isso. Só queria que você tivesse falado comigo.
Com o rosto dela ainda nas mãos, seus olhos desviam dos meus. O silêncio tenebroso entre nós me afeta da forma mais estranha.
— Camryn? — Tento fazê-la me olhar de novo, mas ela se recusa. — Fala comigo. Você precisa falar comigo. Escuta, você não fez nada errado, nem poderia ter evitado o que aconteceu. Precisa saber disso. Precisa enten...
Sua cabeça se desvencilha das minhas mãos, seus olhos penetrando os meus, cheios de dor e de... algo mais.
— É culpa minha! — ela diz, se afastando de mim na cama.
Ela se levanta do outro lado e cruza os braços, me dando as costas.
— Não é culpa sua, Camryn. — Ando até ela, mas assim que sente que vou me aproximar, ela se vira.
— É culpa minha sim, Andrew! — ela repete, com as lágrimas escorrendo dos olhos. — Eu não conseguia parar de pensar que minha gravidez ia ferrar com tudo! Detestava continuar morando em Galveston depois de quatro meses! Fiquei me perguntando como a gente ia fazer tudo o que queria com um bebê! Por isso, sim, é culpa minha que a perdemos e eu me odeio por isso, caralho! — Ela esconde o rosto nas mãos.
Atravesso a curta distância até ela, tomando-a em meus braços de novo.
— Meu Deus, Camryn, não foi culpa sua! — Acho que nunca falei nada para ninguém com tanta emoção. Meu peito tremia incontrolavelmente contra o dela.
— Olha pra mim! — imploro, afastando-a. — Isso é tão normal. E se você é culpada, então eu também sou. Tive esses pensamentos de vez em quando, mas, como você também, não teria desistido dela nem se pudesse.
Ela não precisa confirmar essa afirmação em voz alta, porque sei que ela também não teria desistido. Mas ela confirma assim mesmo: — Não lamentei nada engravidar dela. E eu... quero minha bebê de volta!
— Eu sei. Eu sei. — Eu a abraço apertado e ando com ela até o pé da cama, fazendo-a sentar. Eu me agacho entre as pernas dela, apoiando os braços em suas coxas e tomando suas mãos nas minhas. Olho para ela e digo mais uma vez: — Não foi culpa sua.
Ela enxuga algumas lágrimas e nós ficamos sentados assim pelo que parece uma eternidade. Acho que ela acredita em mim — ou isso ou está só evitando encarar a realidade. Então ela olha para a parede atrás da minha cabeça e diz baixinho: — Isso faz de mim uma viciada em drogas?
Quero rir, mas não rio. Em vez disso, apenas balanço a cabeça e sorrio suavemente para ela, apertando as pontas dos dedos em suas mãos.
— Foi um momento de fraqueza, e até a pessoa mais forte não é imune à fraqueza, Camryn. Quatro dias e um frasco de analgésicos não fazem de você uma viciada em drogas. É falta de juízo, mas não é vício.
Ela olha de novo para mim.
— Michelle e Aidan vão achar que é.
Balanço a cabeça.
— Não, não vão. E ninguém mais vai. — Eu me levanto e me sento ao lado dela. — Além disso, não é da conta de ninguém, porra. É uma coisa que só você e eu precisamos saber e enfrentar.
— Nunca fiz nada assim antes — ela continua, olhando para a frente. — Não acredito...
— Você estava diferente. Está diferente desde que Lily morreu.
O quarto fica estranhamente em silêncio de novo. Olho para ela de lado, mas a deixo em silêncio por um momento. Ela parece perdida em pensamentos.
E então ela diz:
— Andrew, talvez nós não devêssemos estar juntos. — E suas palavras me atingem tão rápido e com tanta força que sinto que falta ar nos meus pulmões.
Fico tão surpreso que é como se suas palavras tivessem roubado todas as minhas. Meu coração está disparado.
Finalmente, quando ela não elabora, consigo balbuciar:
— Por que tá dizendo isso? — E fico com medo de sua resposta.
Ela continua olhando para a frente, com as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto. E então ela olha para mim e vejo a mesma dor intensa em seus olhos que eu sei que ela vê nos meus.
— Porque todo mundo que eu amo acaba me abandonando ou morrendo.
O alívio me invade, mas é superado pela sua dor.
É nesse exato momento que percebo que essa é a primeira vez que Camryn se abriu a respeito disso tudo comigo, ou com qualquer outra pessoa. Penso nas coisas que Natalie me contou, e nas conversas que Camryn e eu tivemos na estrada, e sei que no momento Camryn está admitindo a dimensão de sua dor não só para outra pessoa, mas o mais importante, para si mesma.
— Eu me sinto tão egoísta dizendo isso — ela continua, e deixo que ela fale à vontade, sem interrupções. — Meu pai abandonou a gente. Minha mãe mudou. Minha avó, a única pessoa que continuou a mesma e sempre me apoiou quando precisei, morreu. Ian morreu. Cole foi pra prisão. Natalie me apunhalou pelas costas. Lily... — Ela olha para mim, finalmente, a dor intensificada em seu rosto. — E você.
— Eu? — Me agacho diante dela de novo. — Mas eu tô aqui, Camryn. Vou estar sempre aqui. — Tomo as mãos dela nas minhas. — Não importa o que você faça, ou o que aconteça entre a gente. Nunca vou te abandonar. Vou estar sempre com você. — Aperto as mãos dela. — Lembra quando eu disse que você era a coisa mais importante do mundo pra mim? Você pediu que eu te lembrasse disso, se um dia você esquecesse. Bom, eu tô te lembrando agora.
Soluços percorrem seu corpo.
— Mas você podia ter morrido — ela insiste, com choro na voz. — Cada dia que passei naquele hospital, pensei que seria o seu último. E aí quando não era e você resistia, eu continuava prevendo isso mesmo assim. Semanas, meses depois, porque uma parte de mim achava que eu precisava me acostumar com a ideia de perder você. Um dia. Porque eu sabia que você ia me deixar de um jeito ou de outro. Como todo mundo.
— Mas eu não deixei — digo com desespero, sorrindo um pouco ao mesmo tempo. Eu me sento no chão e a puxo para perto de mim. — Eu não morri. Não morri porque eu sabia que você tava lá comigo o tempo todo. Porque eu sabia que nosso destino era ficar juntos, e que se você vivesse, eu também viveria.
— Mas e se você morrer? — ela pergunta.
Isso eu não esperava.
— E se o tumor voltar?
— Não vai voltar — respondo. — E mesmo se voltar, vou vencê-lo de novo. Cacete, eu fiquei oito meses sem ir ao médico e venci assim mesmo. Com você na minha vida, me atormentando pra me fazer ir aos checkups regularmente, de jeito nenhum ele vai me matar.
Ela não parece totalmente convencida disso, mas vejo um pequeno raio de esperança em seu rosto, e era isso que eu queria ver.
— Eu sinto muito mesmo — ela diz, mas em vez de dizer que não precisa, também deixo que ela viva esse momento, porque parece mais que ela está se permitindo fechar um ciclo. — Aposto que você nunca pediu pra ter um fardo absurdo desses. — Ela passa os dedos sob os olhos.
Tentando aliviar um pouco o clima, esfrego as mãos em seus joelhos nus e digo: — Eu te amaria mesmo se você fosse uma daquelas garotas que correm pro banheiro pra vomitar depois de comer, ou se tivesse o fetiche secreto de transar com um palhaço.
Ela ri baixinho em meio às lágrimas, e isso me faz sorrir.
Levanto o queixo dela com um dedo e fico sério de novo, olhando bem em seus lindos olhos azuis e úmidos.
— Camryn, Lily não tava pronta, só isso. Não sei por que, mas você não pode se culpar por ela ou por qualquer um. E você precisa entender que estamos nisso juntos. Em tudo. Acredita nisso?
Ela balança a cabeça.
— Sim.
Eu me curvo e a beijo primeiro na testa, depois nos lábios.
Segue-se o silêncio, e a atmosfera no quarto parece diferente. Mais brilhante. Eu sei que Camryn não vai voltar a ficar 100% da noite pro dia, mas posso ver que ela já está melhor. Percebo só de olhar que ela se sente menos carregada, agora que tirou essas merdas da cabeça. Ela precisava disso. Precisava de alguém para fazê-la cair na real. Não alguém indiferente, ou que desse apenas respostas prontas para tudo.
Ela precisava de mim.
Eu me levanto e pego a mão dela.
— Vem cá.
Ela me segue, pego o frasco de comprimidos da mesa ao lado da cama e a puxo comigo para o banheiro da suíte. Levanto a tampa da privada e entrego o frasco a ela. E antes que eu diga qualquer coisa, Camryn vira o frasco sem hesitação e joga os últimos quatro ou cinco comprimidos na privada.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão fraca. — Ela olha para a água enquanto os comprimidos giram no vaso e são sugados pelo cano. Depois olha para mim. — Andrew, eu podia facilmente ter ficado viciada neles. Não consigo imaginar...
— Mas você não ficou — interrompo, antes que ela fique remoendo aquilo mais. — E você tem direito a um momento de fraqueza. E chega.
Eu saio do banheiro e ando pelo quarto. Ela me segue e fica parada no meio do quarto, me olhando.
— Andrew?
Eu paro, me viro para ela e digo:
— Me dá uma semana.
Ela parece meio confusa.
— Uma semana pra quê?
Sorrio fracamente.
— Só concorda. Fica aqui comigo uma semana.
Cada vez mais confusa, ela diz:
— Hãã, tá. Vou ficar aqui com você uma semana — embora esteja estampado em seu rosto que ela não sabe com o que está concordando.
Mas ela confia, e isso significa tudo para mim. Vou dar a nós dois o que ambos precisamos, querendo ela ou não.
Camryn
16
Dia Três
Nunca pensei nem por um minuto que seria capaz de fazer o que fiz. Andrew chama de um momento de fraqueza e talvez tenha razão, mas vai levar tempo pra cacete pra que eu consiga me perdoar por aquilo.
Michelle deixou claro que não vai me julgar, e embora isso me faça sentir melhor, me sinto humilhada sempre que estou na presença dela ou de Aidan. Talvez seja por isso que eu me sinta tão mal, por eles serem tão compreensivos.
Uma semana. Nem faço ideia do que Andrew quis dizer com isso, mas estou em dívida com ele, por isso não faço perguntas e deixo que ele faça o que está planejando. Ele andou bem misterioso nos últimos dias, muitas vezes atendendo ligações em outros quartos para que eu não pudesse ouvir. Só tentei escutar uma vez, simplesmente ficando bem quieta no sofá quando ele foi para a cozinha falar com Asher. Mas então bisbilhotar assim me fez sentir culpada, por isso aumentei o volume da TV para não conseguir ouvir.
E posso ter tomado os comprimidos só por uma semana, mas pelo jeito foi tempo suficiente para eu ainda me sentir zonza três dias depois dos últimos que tomei. Me sinto mal, até mais incapaz de dormir do que antes de começar a tomá-los, mas pelo menos as dorezinhas de cabeça finalmente estão começando a desaparecer. Não consigo imaginar ficar viciada neles por meses ou anos. Sinto pena de quem fica...
Dia Quatro
Aidan entra com um pequeno maço de correspondências na mão, olhando cada uma enquanto anda pela sala.
Ele para num envelope branco por um segundo, constrangido, e o levanta, olhando para mim primeiro, até que Andrew entra na sala.
— Parece que esta é pra você. — Ele me olha de novo, mas entrega o envelope a Andrew.
Isso me dá uma sensação muito estranha, então me levanto instintivamente da espreguiçadeira e me aproximo de Andrew para ver o que é.
Pouco antes que Andrew escondesse o envelope de mim, vejo o nome de Natalie escrito nele.
Ele também sabe que eu vi.
— Não — diz Andrew, balançando a cabeça. — Vou deixar você ver outro dia. — E então ele enfia o envelope no bolso de trás do jeans.
Confio totalmente nele, mas sou humana, e uma pequena parte de mim está nervosa com essa situação toda. Por que Natalie mandaria uma carta para Andrew? Confiando ou não, a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um é se perguntar se tem alguma coisa acontecendo entre os dois. Mas isso é absurdo, e afasto essa ideia da minha mente com a mesma rapidez que ela veio.
Eles estão conspirando contra mim.
Eu só queria saber o que está acontecendo.
Dia Cinco
Falei com Natalie, minha mãe e Marna por telefone hoje. Marna tenta agir como se nada tivesse acontecido com o bebê, e é tão boa nisso quanto Michelle foi no meu primeiro dia em Chicago. Ela é tão meiga e delicada. Minha mãe, por outro lado, parece não conseguir falar de outra coisa além do meu relacionamento com Andrew. Ela me persegue sempre que pode, perguntando quando vamos nos casar, e resolveu enfiar na cabeça que vamos fazer isso do jeito que todo mundo faz. Tento dizer a ela que não quero um vestido caro, uma capela ou milhares de dólares em flores que vão murchar na semana seguinte, mas é como se ela nem me escutasse. Ela só quer que a gente se case. Talvez assim se sinta melhor com ele dormindo no meu quarto. Não faço ideia do que passa pela cabeça da minha mãe, e metade do tempo acho que nem ela sabe.
Andrew foi a um médico aqui em Chicago fazer um checkup hoje. E como toda vez que ele vai, fico até com enjoo de preocupação até que acabe. Por sorte, ele voltou com boas notícias.
Dia Seis
Falo com Natalie por telefone de novo, mas novamente não menciono o envelope. Ela também não está agindo naturalmente. É óbvio que está se esforçando para não entregar nenhum dos segredos de Andrew, o que deixa as conversas cheias de momentos silenciosos e constrangidos. Quero rir dela por ser tão péssima em agir normalmente, quando só o que ela quer é me contar tudo e dar o assunto por encerrado.
Dia Sete
Esta semana foi uma das mais longas da minha vida. Fico na cama até mais tarde porque está começando a esfriar, mas também porque estou nervosa e não consigo fazer outra coisa. Andrew se levantou há uma hora, e só o vi voltar para o quarto uma vez, para calçar os sapatos. Ele me beijou e sorriu para mim como se estivesse secretamente empolgado, e então saiu de novo sem dizer uma palavra.
Eu viro para o lado, enrolada no cobertor, e olho pela janela. O sol está brilhando hoje, e o céu está azul e sem nuvens.
Ouço os três andando pela casa.
Os sapatos de Andrew rangem sobre o chão de madeira na porta do nosso quarto. Ele abre a porta e fica na entrada, olhando para mim.
— Levanta e se veste — ele diz, com a mão ainda na maçaneta.
Eu só o olho por um segundo, achando que talvez ele vá explicar o que vamos fazer, mas ele só aponta para os meus sapatos no chão, como que dizendo calce-os, depois fecha a porta e me deixa sozinha.
Faço exatamente o que ele manda. Me levanto e visto meu jeans favorito e uma blusa folgada de tricô de mangas compridas, depois um par de meias e meus mocassins. Quando saio do quarto para a sala, vejo Michelle encolhida no canto do sofá, com um cobertor sobre as pernas, vendo TV. Ela se vira para me ver, e está com um sorriso aberto, como se soubesse algo que não sei. E com certeza sabe.
— Ele tá lá fora com Aidan — ela diz, acenando na direção da porta.
Cada vez mais nervosa, ando lentamente até a porta e a abro.
Saindo na varanda de pedra, vejo Andrew e Aidan de pé do lado da estrada, em frente à casa, com Asher, e todos eles estão encostados na lateral do Chevelle.
Por um momento eu penso: Tá, então Asher veio nos visitar, é só isso que tá acontecendo? Não que eu não fique feliz em ver Asher, mas, francamente, não é algo que eu imaginaria que fosse justificar todos esses planos de Andrew em segredo.
É o carro, percebo, mas é só isso que consigo entender sozinha. Tenho uma teoria sobre o motivo de ele tê-lo trazido para cá, mas a esta altura vou só fazer o melhor que posso para não pensar nisso.
Desço rapidamente os degraus de pedra e dou um abraço apertado em Asher.
— Você tá ótima, garota — ele diz, com aquelas covinhas e os olhos verdes e brilhantes quase idênticos aos de Andrew. Então ele me aperta e me levanta um pouco do chão.
— É muito bom te ver — digo, sorrindo.
Fico correndo os olhos dele para Andrew, que está sorrindo tanto que duvido que consiga manter o mistério por muito mais tempo.
Olho para o Chevelle e então para Asher. Olho de novo.
— Então você veio dirigindo lá de... — Tudo bem, é um pouco mais intrigante do que eu imaginava. O carro estava no Texas, até onde eu sei, e Asher estava em Wyoming. Finalmente continuo: — O que tá acontecendo?
Asher olha para Andrew, e Andrew dá um passo à frente.
— Eu pedi que Asher trouxesse o carro pra cá — ele diz.
— Mas por quê?
Asher cruza os braços e se apoia na porta de trás do carro.
— Porque ele é doido — Asher diz, rindo baixinho. — E porque não confiou num serviço de entregas pra trazer o carro.
Eu me viro para Andrew de novo, esperando que ele desembuche. Uma brisa fria atravessa minha blusa de tricô e eu enfio as mãos nas mangas.
— Você tem cinco minutos pra botar todas as suas coisas na mala — ele diz, e meu coração começa a bater descompassado antes que ele termine a frase. Ele bate no pulso sem relógio. — Nem um segundo a mais.
— Andrew...
— Isso não tá em discussão — ele diz. — Vai pegar suas coisas.
Eu só olho para ele, sem expressão.
Minha teoria estava certa, mas eu não queria que estivesse. Não quero cair na estrada... Isto é, eu quero... mas não está certo. Isso não está certo.
— Agora você tem quatro minutos — Asher diz.
— Mas a gente não pode partir assim — eu argumento. — Seria grosseria. — Aponto para Asher. — E Asher acabou de chegar. Você não quer ver...?
— Posso ver meu irmão mais velho a hora que eu quiser — Asher rebate. — No momento, acho melhor você fazer o que ele mandou, ou vai acabar na estrada, usando a mesma calcinha por uma semana.
Mais alguns segundos se passam e eu ainda não me mexi. Estou num leve estado de choque, acho.
— Três minutos, amor — Andrew diz, e está me olhando com expressão séria. — Não tô brincando. Sobe lá, bota suas porras nas malas e entra nessa merda de carro.
Cacete, ele voltou a ser como era...
Quando começo a discutir de novo, os olhos de Andrew ficam ferozes e ele diz:
— Anda logo. O tempo tá acabando! — E aponta para a casa.
Finalmente, baixando a guarda e entrando no clima tanto quanto posso me permitir, olho para ele com raiva e digo:
— Tudo bem. — Só concordo porque sei que ele está tentando melhorar as coisas. Mas me sinto culpada pra caramba.
Desconsiderando seu prazo bem-humorado de cinco minutos, giro nos calcanhares e ando muito lentamente na direção da casa, demorando de propósito, em parte minha maneira silenciosa de discordar da situação.
— Você sabia disso, Michelle? — pergunto quando passo por ela e vou para o corredor.
— Com certeza! — ela grita em resposta. Posso ouvir o sorriso em sua voz.
Abro a porta do quarto, ponho a mochila sobre a cama e começo a enfiar tudo dentro dela. Depois vou para o banheiro, pego nossas escovas de dentes e vários artigos de toalete. Arranco nossos carregadores da parede, pego meu celular do criado-mudo e enfio tudo na minha bolsa. Ando pelo quarto, torcendo para não ter esquecido nada.
Parece que Andrew já tinha feito as malas e eu nem percebi.
Em seguida fico ali, vasculhando cada centímetro do quarto, mas sem ver nada, na verdade. Não quero fazer isso, mas talvez seja o certo.
Ouço a buzina tocar três vezes e isso me arranca dos devaneios. Levantando a mochila, eu a jogo no ombro e pego minha bolsa de cima da cama.
— A gente se vê por aí! — Michelle diz do sofá.
Eu paro ao passar por ela, me curvo sobre o encosto do sofá para lhe dar um abraço desajeitado, atrapalhada pelas alças nos ombros.
— Divirta-se — ela acrescenta.
— Obrigada por nos convidar — eu digo.
Com um grande sorriso, Michelle gesticula para que eu vá, e eu saio da casa.
Quando desço os degraus, Andrew abre o porta-malas do Chevelle e eu jogo minha mochila lá dentro. Os cinco minutos que ele me deu passaram faz tempo, mas duvido que ele vá dizer alguma coisa.
— Tá pronta? — Andrew pergunta, fechando o porta-malas.
Eu respiro fundo, olho para Asher e Aidan, e antes de responder, vou abraçar os dois.
— Legal você ter vindo — diz Aidan.
— Vê se bota meu irmão na linha — Asher recomenda.
Sorrio para os dois, me sento no banco do passageiro e Andrew fecha a porta para mim.
Os três se despedem. Um minuto depois, Andrew se senta no banco do motorista, e uma lufada de ar frio entra no carro junto com ele.
Ele me olha.
— Então, vai ser assim — ele diz, apoiando os pulsos no volante. — A gente vai pro sudeste, pro litoral...
— Peraí — interrompo —, você planejou tudo? — Isso é tão fora do estilo dele. Me deixa cismada.
Andrew sorri suavemente e diz:
— Em parte. Mas é necessário.
— Que parte é necessária?
Ele me olha como que dizendo: Vai me deixar terminar?
Fico quieta e deixo que ele continue, enquanto ele se debruça e abre o porta-luvas.
— A gente vai pro sul, vamos ficar no litoral durante o inverno todo — ele diz, e agora só consigo me perguntar quanto tempo ele planeja ficar na estrada. O inverno todo? Não consigo entender que diabo de ideia é essa. Ele saca um mapa e o desdobra sobre o volante. Olho para ele, desconfiada. — Odeio o frio. Seguindo o litoral e indo mais pro sul na época certa, a gente vai evitar quase toda a neve e merdas assim.
Tá, o plano é bom, admito. Também não aguento o clima frio, portanto, sim, essa parte é necessária mesmo. Concordo com a cabeça e deixo que ele continue.
Andrew aponta para o mapa gigante e começa a correr o dedo pelo nosso itinerário.
— Vamos começar no litoral da Virgínia e ir pro sul, passando pelo seu estado, mas nada de parar pra visitar. — Ele aponta para mim. — A gente tá só de passagem, certo? — Ele espera a minha resposta.
Concordo com a cabeça novamente e digo:
— Certo — porque com certeza há um método em sua loucura, e sinto que devo concordar com ele.
Ele olha de novo para o mapa e volta a correr o dedo pelo papel.
— Depois, pela Carolina do Sul até a Geórgia, e aí vamos percorrer toda a costa da Flórida, da praia de Fernandina — seu dedo faz uma longa curva pelo papel — indo até Pensacola.
— Quanto tempo tudo isso vai levar?
Ele sorri e balança a cabeça para mim.
— Isso importa? — Então ele dobra o mapa desorganizadamente e o joga no banco, entre nós. — Eu decido a direção, desta vez. Sobretudo porque não quero morrer de frio. Mas... — Ele se vira de novo e olha para a frente, tirando os olhos de mim — Bom, é assim que precisa ser.
— Por que a gente tá fazendo isso, Andrew?
Seus olhos pousam em mim mais uma vez.
— Porque é o certo — ele responde, com um olhar profundo. — Porque você tá no carro.
Suas palavras me deixam confusa.
— Porque eu tô no carro?
Ele balança a cabeça discretamente.
— Sim.
— Mas... o que isso significa?
Seus olhos verdes se abrandam com o sorriso, ele estende a mão e segura o meu queixo. Ele beija meus lábios e diz:
— Você podia ter lutado com unhas e dentes. Podia ter me mandado à merda quando falei pra pegar nossas coisas. Mas você não fez nada disso. — Ele me beija devagar mais uma vez, e o gosto de hortelã do seu hálito fica em meus lábios. — Você não entrou correndo naquela casa porque eu mandei, foi porque era o que você queria. Você nunca fez nada só porque eu mandei, Camryn. Eu sou só um chute no seu traseiro, mais nada.
Tento disfarçar o sorriso que está se abrindo em meu rosto, mas não consigo. Ele se curva, aperta os lábios na minha testa e se endireita no assento. O motor ronrona agressivamente por um momento quando o pé dele aperta o acelerador.
Ele tem razão. Tudo o que ele já me mandou fazer, mesmo quando reclamei, eu jamais teria feito se uma parte de mim não quisesse. Fico intrigada em ver como ele sempre sabe coisas sobre mim antes que eu saiba.
Andrew
17
ACHO QUE ONTEM, em Chicago, foi a primeira vez que não consegui prever a reação de Camryn a uma das minhas exigências. Minha garota estava arrasada. Isso me deixava mais apavorado a cada dia, a pessoa que ela estava se tornando. Corri um risco ligando para Asher naquela noite e pedindo que ele dirigisse o Chevelle até Chicago. Eu não sabia o que Camryn ia fazer e, para dizer a verdade, temi que ela se recusasse a ir. Por causa da culpa. Ei, odeio termos perdido a nossa Lily. Daria um braço ou uma perna para tê-la de volta. Mas o que está feito está feito, e ficarmos parados nos afogando em sofrimento e nos recusando a fazer o que nos deixa felizes por qualquer motivo é uma puta duma bobagem. É assim que você se mata. Um suicídio lento e doloroso. Se Camryn recusasse, eu a carregaria sobre o ombro, esperneando e gritando, e a jogaria no banco de trás do carro. Porque essa é a nossa vida. Nós nos encontramos na estrada; nos conhecemos e aprendemos a nos amar na estrada. É onde devemos estar pelo tempo que for, e é o que vamos fazer até que fique claro que deveríamos fazer outra coisa.
As primeiras 14 longas horas de nossa viagem são calmas e silenciosas. Eu dirijo de Chicago até Virginia Beach ouvindo rádio, ou meus CDs quando não encontro uma estação decente. Camryn, embora sorria e fale sobre as coisas que vemos da estrada, ainda não voltou ao normal, mas vai chegar lá. Pode levar alguns dias, mas vai começar a cair na real.
As praias da Costa Leste são diferentes das do Texas. São mais limpas, e aqui a água parece água do oceano de verdade, e não a água barrenta e turva do Golfo em Galveston.
Já é quase noite. Vimos o sol se pôr no horizonte quando chegamos a Virginia Beach, e foi a primeira vez que vi aquela faísca nos olhos de Camryn, desde que ela perdeu o bebê. Se eu soubesse que um crepúsculo podia fazer isso, já a teria levado para ver um há muito tempo.
— Então, a gente vai pedir quartos separados? — ela pergunta quando saímos do carro no estacionamento do nosso primeiro hotel.
Percebo que ela está brincando, mas aposto que não espera que eu entre na brincadeira.
— É exatamente o que vamos fazer. — Eu abro o porta-malas e jogo nossas mochilas nos ombros.
— Tá falando sério? — Ela está chocada, e é engraçado.
Eu represento o melhor que posso. Nunca me passou pela cabeça pedir quartos separados, mas agora que ela mencionou isso, não acho tão má ideia.
Fecho o porta-malas e nós entramos no saguão do hotel.
— Andrew, acho que a gente já passou dessa fase.
— Dois quartos contíguos para não fumantes, por favor, se tiver.
A recepcionista digita o pedido em seu computador. Eu ignoro Camryn a maior parte do tempo, mexendo na minha carteira à procura do cartão de crédito.
— Andrew?
— Não tenho dois quartos contíguos — a mulher diz —, mas tenho dois que ficam um de frente pro outro no corredor.
— Pode ser — eu digo.
Camryn sussurra:
— Não acredito que você vai gastar dinheiro com dois quartos quando a gente já fez sexo milhares de vezes... — Camryn não para de falar, enquanto a recepcionista nos olha disfarçadamente como se fôssemos loucos. Adoro essa expressão no rosto das pessoas, esse ar surpreso de “não acredito que você disse isso”.
— Por favor, fique quieta — eu digo, me virando para Camryn. — Eu vou pro seu quarto e te como rapidinho, não se preocupe. Então para de dar espetáculo.
Camryn arregala os olhos tanto quanto a recepcionista.
Pego Camryn pela mão e a puxo para a saída do saguão.
— Espero que apreciem sua estada — a recepcionista diz em tom estupefato enquanto vamos para o elevador.
Camryn cai na gargalhada assim que as portas do elevador se fecham.
— O que foi aquilo?! — ela pergunta, incapaz de se conter. — Parecemos dois adolescentes imaturos!
— Mas você tá rindo — eu comento. — Portanto, a imaturidade valeu totalmente a pena.
O elevador para no segundo andar e nós saímos no corredor.
— Mas, sério, Andrew, por que quartos separados?
Provando mais ainda que a espontaneidade tem mesmo um propósito, eu penso no que pedi que Natalie enviasse a Chicago, enquanto andamos pelo corredor. Paramos no meio dele, diante dos nossos quartos, e eu jogo as mochilas no chão verde acarpetado.
— Só por esta noite — respondo, enfiando a mão na mochila para procurar o envelope.
Camryn fica perto de mim, assistindo a tudo em silêncio. Percebo que ela quer dizer alguma coisa, mas não tem certeza, nesse momento, do que poderia ser.
Eu endireito o corpo com o envelope na mão. Ela olha para ele, mas não sabe ao certo quais são as minhas intenções.
— Esta noite você vai ficar sozinha no seu quarto — eu digo e entrego o envelope a ela.
Ela parou de sorrir assim que tirei o envelope da mochila. Agora só consegue olhar para mim, confusa e intrigada.
Cuidadosamente, ela estende a mão e pega o envelope, ainda insegura com relação a tudo, talvez até quanto a querer ou não saber o que há dentro dele.
Eu passo o cartão na fechadura do quarto de Camryn e abro a porta, levando a mochila dela para dentro. Ela me segue, vários passos atrás, muda e desconfiada, com o envelope entre os dedos relutantes. Deixo a mochila dela sobre o balcão da TV e verifico o quarto, como sempre faço. Ligo e desligo as luzes e testo o aquecedor antes de puxar os lençóis para ver se estão limpos. Lembrando que Camryn tem fobia de colchas de hotel, eu a arranco completamente da cama e a jogo no chão, num canto do quarto.
Ela fica perto do pé da cama, imóvel.
Eu me aproximo e fico na frente dela. Olho-a nos olhos e observo o modo como ela retribui meu olhar. Passo o indicador por sua sobrancelha e pelo lado de seu rosto e sinto o calor de sua pele sob o meu toque. Eu a quero. Quando seus olhos baixaram para os meus lábios, isso desencadeou algo predador em mim. Mas eu controlo meus impulsos, pelo seu bem. Esta noite, se tudo der certo, um ciclo vai se fechar.
— Cam foi ao funeral — Natalie me disse pelo telefone no dia em que liguei para ela da casa de Aidan. — Mas chegou tarde, ficou bem no fundo, perto da porta, e foi embora antes que a cerimônia terminasse. Ela se recusou a ir até o caixão.
— Alguma vez ela falou com você a respeito disso? — perguntei.
— Nunca — Natalie disse. — E sempre que tentei abordar o assunto, o funeral, o acidente, qualquer coisa, ela não me deixou continuar.
Esta noite vai ser dura para Camryn, mas se ela não enfrentar isso, nunca vai melhorar.
— Você sabe onde estou — sussurro suavemente, deixando minhas mãos caírem dos seus braços. — Vou ficar acordado a noite toda. Comecei a compor outra canção ontem e quero muito trabalhar nela enquanto tá fresca na minha mente. — Aos poucos, mas sempre, estamos compondo material próprio, especialmente desde a viagem a Chicago; e depois da noite em que tocamos no bar de Aidan, Camryn mostrou interesse por isso, por algum motivo.
Camryn balança a cabeça e sorri fracamente por baixo da expressão de preocupação em seu rosto, preocupação com o que se esconde dentro do envelope.
— E se eu não quiser ficar neste quarto sozinha? — ela pergunta.
— Tô pedindo pra você ficar — insisto com firmeza. — Só por esta noite.
Não quero dizer mais do que isso, mas espero que a sinceridade no meu rosto faça o que palavras poderiam fazer.
— Tá bom — ela concorda.
Eu a beijo de leve nos lábios e a deixo sozinha no quarto.
Só espero que esse tiro não saia pela culatra.
Camryn
Andrew me deixa no quarto. Sozinha. Não gosto disso, mas aprendi a lhe dar ouvidos nos curtos cinco meses que passamos juntos. Cinco meses. Isso me espanta cada vez que lembro, porque parece mais que estamos juntos há cinco anos, depois de tudo o que enfrentamos. Às vezes penso no meu ex, Christian, o namorado infiel que arranjei para preencher o vazio deixado por Ian, e com quem fiquei por quatro meses. A gente mal se conhecia. Pensando bem, agora não consigo nem lembrar o dia do seu aniversário ou o nome de sua irmã, que morava a duas quadras da casa dele.
É totalmente outro mundo com Andrew.
Em cinco meses, me encontrei com ele, me apaixonei total, incondicional e loucamente, aprendi de verdade a viver, conheci praticamente toda a sua família e logo me senti parte dela, enfrentei uma jornada desafiando a morte com Andrew, fiquei grávida e noiva. Tudo em cinco meses. E agora aqui estamos, enfrentando mais uma dificuldade. E ele continua comigo a cada passo. Fui idiota e fraca e tomei comprimidos, e ele continua aqui. Eu me pergunto se existe alguma coisa que eu possa fazer que seria tão horrível a ponto de ele me abandonar. Algo no meu coração diz que não, não existe nada capaz disso. Nada mesmo.
Nunca vou entender, enquanto eu viver, como tive a sorte de ficar com ele.
Durante esse momento de reflexão, noto que meus olhos não desviaram da porta por onde ele saiu. Finalmente, olho para o envelope na minha mão, e não sei por quê, mas fico com medo de pensar no que há dentro dele. Pensei nisso muitas vezes esta semana. Uma carta? Se for, do que poderia falar? E para quem seria, e de quem? Por que Natalie me escreveria uma carta? Por que ela escreveria para Andrew?
Nada disso faz nenhum sentido.
Eu me sento no pé da cama, deixando minha bolsa cair no chão ao meu lado, e passo os dedos pelo contorno do que está dentro do envelope. Mas já fiz isso algumas vezes esta semana e continuo chegando às mesmas conclusões: é um papel, meio grosso, dobrado duas ou três vezes. Não tem nenhuma saliência, nem mesmo algum relevo dentro. É só papel.
Eu suspiro e faço menção de soltá-lo, mas continuo segurando. Não sei por que não abro essa droga de uma vez. Está me deixando meio maluca há uma semana, e aqui estou eu, finalmente capaz de desvendar o segredo de uma vez, abrindo-o, mas tenho medo demais.
Deixo o envelope na cama e me levanto, cruzando os braços e olhando para ele com o canto do olho enquanto começo a andar pelo quarto. Me sinto ameaçada por ele, como se fosse pular em mim e cravar as garras na minha perna quando passo perto. Como aquela gata psicótica que minha tia Brenda tem. Até começo a mexer na minha bolsa, procurando o celular para ligar para Andrew e fazê-lo contar por que tudo isso, até que me dou conta de como isso seria idiota.
Finalmente, eu pego o envelope e, depois de uma longa pausa, sentindo seu peso leve em minha mão, passo a ponta do dedo pela aba colada para soltá-la. Depois de tentar romper o lacre cuidadosamente e não conseguir, mando tudo à merda e rasgo o resto de alto a baixo. Jogo o envelope esfarrapado na cama e desdobro o papel de carta, vendo que a maior parte dele está em branco. Foi usado apenas para esconder a fotografia que tem dentro. Olhando para o verso da fotografia, primeiro me recuso a virá-la para ver o que há do outro lado. Em vez disso, leio a letra de Natalie no meio do último pedaço de papel:
Esta foi a melhor que eu achei.
Espero que ajude no que você está tentando fazer, seja o que for.
Sinceramente,
Natalie
Viro a fotografia e meu coração afunda como uma pedra quando vejo o rosto vibrante e sorridente de Ian me olhando. Minha bochecha está encostada na dele, olhando para a câmera. As luzes coloridas dos brinquedos do Parque Estadual da Carolina do Norte iluminam a noite ao fundo, atrás de nós. Como se eu tivesse caído num lago congelado, ver seu rosto me deixa totalmente sem fôlego. Lágrimas brotam instantaneamente dos meus olhos, e eu deixo a foto cair dos meus dedos sobre a cama. As duas mãos sobem ao meu rosto, onde os dedos cobrem meus lábios trêmulos.
Como posso me permitir chorar por ele?! Por que isso está acontecendo?!
Eu me desfiz de todas as fotos de Ian por um motivo. De todas. Deletei cada arquivo com fotos digitais nossas, tirei seu nome do meu celular. Até joguei fora o criado-mudo que eu tinha desde criança, porque Ian entalhara IAN AMA CAMRYN na madeira por baixo dele. Tentei tirar da minha vida cada coisa que me fizesse lembrar dele, o melhor que pude, porque doía demais saber que tudo o que me restava dele eram coisas materiais. Eu não podia fazer muita coisa com as lembranças, mas me esforcei ao máximo para esquecê-las também.
Por que Andrew faria isso comigo? Trazer toda essa dor de volta à minha vida, e ainda por cima tão pouco tempo depois de perdermos Lily?
Uma parte de mim quer berrar com Andrew, sair marchando pela porta, cruzar o corredor até seu quarto e lhe dizer o quanto isso dói. Mas minha razão me alcança rapidamente. Eu sei por que ele fez isso. Eu sei por que ele me colocou neste quarto, sozinha, com esta foto. Porque ele me ama tanto que está disposto a me devolver Ian só por uma noite, para que eu possa finalmente aceitar a perda dele.
Mas não consigo olhar essa droga de foto! Não consigo!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, pego meu suéter grosso da mochila e enfio os braços de qualquer jeito nas mangas. E então saio correndo do quarto e vou para o elevador.
Segundos depois, estou sentada na areia fria da praia, olhando para o oceano sem fim.
Andrew
18
EU ME PERGUNTO se ela vai abrir. Cacete, me pergunto se ela vai me odiar por fazer isso com ela, mas se isso vai ajudá-la, aceito a barganha.
Aperto o botão de ligar do controle remoto e uma velha reprise de Seinfeld preenche o silêncio do meu quarto. Tiro os sapatos e entro no chuveiro, deixando a água quente bater em mim até ela começar a sair morna. Só consigo pensar no que Camryn está fazendo, sozinha no seu quarto, se está olhando para aquela foto de seu ex-namorado morto, e se está se aguentando. Quero ir lá ajudá-la, mas sei que é algo que ela precisa fazer sozinha. Algo que ela deveria ter feito há muito tempo, antes que nos conhecêssemos.
Depois de me enxugar, enrolo a toalha na cintura e remexo na mochila sobre a cama, procurando uma cueca. Eu me sento, olho fixamente para a TV, depois para a parede, depois para a TV de novo, até que me dou conta de que estou só tentando fazer qualquer coisa para parar de pensar em Camryn.
Deixo meu MP3 tocar umas cinco músicas aleatórias em meus ouvidos antes de decidir que preciso ao menos ver como ela está. Tento seu celular primeiro, mas ela não atende. Então uso o telefone do hotel e tento ligar para o quarto dela. Ainda sem resposta. Talvez ela esteja apenas tomando banho. Tento me obrigar a acreditar nisso, até que meu instinto fala mais alto. Visto meu jeans e uma camisa de manga comprida e atravesso o corredor até seu quarto. Encosto o ouvido na porta, tentando ouvir o chuveiro ligado. Nada. Por isso passo o cartão extra na porta para destrancá-la.
Ela não está ali. Meu coração acelera enquanto entro no quarto. A primeira coisa que noto é a fotografia, que na verdade eu nem tinha visto ainda, sobre a cama. Eu a pego e a estudo por um instante. Camryn parece tão feliz nela. Essa é a Camryn que eu conheci, aquela com um sorriso lindo e cheio de energia. Me lembro desse sorriso. Eu o vi dezenas de vezes quando estávamos na estrada juntos.
Entrando em pânico, tiro os olhos da foto e vou para a janela. Olho para o oceano negro lá fora e vejo algumas pessoas andando pelo calçadão. Com a foto ainda na mão, volto rapidamente para o meu quarto e calço os sapatos, deixando-os desamarrados enquanto saio e vou para a praia. O ar frio não é insuportável, mas é suficiente para me fazer pensar que fiz bem em usar mangas compridas. Procuro qualquer sinal dela, olhando de um lado para o outro no calçadão e nas cadeiras de praia perto do hotel, mas ela não está em lugar nenhum. Enfiando a foto no bolso de trás da calça, começo a correr um pouco e rumo para a praia.
Eu a encontro sentada na areia, não muito longe.
— Porra, amor, você me deixou apavorado.
Eu me sento ao lado dela, passando um braço ao redor do seu corpo.
Ela olha para o oceano, o vento gelado atravessando seu cabelo louro. Não olha para mim.
— Desculpa. Eu só queria...
— Eu te amo, Andrew — ela interrompe, mas continua com o olhar fixo à sua frente. — Não sei como uma garota pode ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo.
Sem saber aonde ela quer chegar com isso, tenho medo de dizer alguma coisa porque não quero dizer a coisa errada. Eu a aperto mais para compartilhar o nosso calor. E não digo uma palavra.
— Não tô brava com você — ela continua. — Primeiro fiquei, mas quero que saiba que não tô mais.
— Me fala o que você tá pensando — peço baixinho.
Ela ainda não desviou o olhar da escuridão à sua frente. As ondas mal lambem a praia a alguns metros de nós. Um pontinho branco, a luz de um barco, se move no horizonte.
De repente, sinto que Camryn está me fitando e me viro para olhá-la também. A luz dos prédios atrás de nós e do luar é suficiente apenas para mostrar seus traços suaves, os cachos do seu cabelo soprados sobre sua face fria. Eu afasto alguns fios dos seus lábios. Seu olhar se abranda quando ela me encara e diz:
— Eu amava Ian, amava muito. Mas não quero que você pense...
Eu balanço a cabeça.
— Camryn, não faz isso. Não estamos aqui pra falar de mim, tá? — Eu enfio o dedo em outro cacho do seu cabelo e o afasto da sua boca. — Não fale de mim.
Ela para por um momento, e sinto sua mão no meu colo e meus dedos se entrelaçando com os seus.
Camryn volta a olhar o oceano.
— Eu não queria ir ao funeral de Ian — ela me conta. — Não queria vê-lo pela última vez daquele jeito. — Camryn me olha. — Lembra aquele dia, no seu apartamento, quando cheguei e você tava falando ao telefone com Aidan, quando ele tava tentando te convencer a ir ao funeral do seu pai?
Balanço a cabeça.
— Lembro, sim.
— Você disse uma coisa pra ele, disse que preferia que a última vez que você visse alguém, que ele estivesse vivo, não morto, deitado num caixão. Bem, era isso que eu pensava do funeral de Ian. Eu não queria ir. Foi por isso, também, que eu não quis ver Lily. Por isso escolhi a cremação.
— Mas você foi. Ao funeral de Ian. — Eu evito o assunto de Lily por enquanto. É um caso mais doloroso. Para nós dois. Eu a vi. Era tão pequena que caberia na palma da minha mão. Mas Camryn se recusou a olhar.
Ela balança a cabeça.
— Não exatamente — ela explica, a respeito do funeral de Ian. — Eu tava lá, mas não tava. Minha maneira de me desapegar dele foi tirá-lo da minha mente, cada palavra que ele já me disse, seu rosto; tudo o que eu podia apagar, eu apaguei. Só fui porque era o que todos esperavam de mim. Se eu não estivesse tão preocupada com o que todos fossem pensar de mim, teria ficado em casa naquele dia.
— Mas isso não fecha o ciclo — digo cautelosamente. — É a mesma coisa que varrer a sujeira pra baixo do tapete. Ela continua lá. Você sabe que tá lá. E aquilo vai ficar te incomodando até você fazer certo.
— Eu sei — ela diz.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, eu enfio a mão no bolso de trás e tiro a foto.
— Sabe, se ele ainda estivesse vivo, eu ficaria com um pouco de ciúme. Até que, pra um cara, ele é gato.
Camryn sorri para mim e noto que seu olhar mal pousa na foto.
Eu a deixo na areia perto dos nossos joelhos. Então fico sério de novo.
— Camryn, isso que tá acontecendo com você, os comprimidos e tudo mais, não é só por causa da perda da Lily. Você sabe disso, não sabe?
Ela não responde, mas percebo que está pensando muito no que eu falei.
— Você bloqueia tudo. Ian. Lily. De acordo com Natalie, até a morte da sua avó, o crime de Cole, e o fato do seu pai ter ido embora e parecer se importar mais com a nova namorada do que com você. — Digo as coisas como elas são porque é exatamente assim que precisam ser ditas. — Em vez de lidar com tudo isso, chorar, o que for, você só bloqueia essas merdas e espera que desapareçam sozinhas. Você já tava fazendo isso bem antes da gente se conhecer. Mas precisa saber que tudo se acumula, e um dia você desmorona e cai num abismo.
— Sei. Você tem razão, como sempre — ela concorda desconsoladamente.
— Você acredita nisso ou tá concordando só pra me fazer calar a boca? — Abro um sorriso para ela, esperando receber outro em troca.
E funciona.
Ela sorri e diz:
— Não, eu acredito mesmo. Só queria ter acreditado nisso antes.
— Por que acredita agora?
— Porque você é uma espécie de filósofo com tatuagens. — Ela ri, e isso espalha calor pelo meu sangue.
Não acredito que ela está rindo. De início, imaginei que fosse levar muito tempo para Camryn aceitar tudo isso, mas ela me surpreende a cada dia.
— Um filósofo? — digo. — Exagerada. Mas aceito o elogio.
Camryn se vira de lado e deita a cabeça no meu colo. Ela olha para mim com aqueles olhos azuis de corça, e não consigo deixar de tocar seu rosto macio.
— Quer saber a verdade? — ela pergunta.
— Claro — respondo, mas fico um pouco ansioso, de repente.
— É como te falei na casa de Aidan — ela continua. — Se um dia eu perdesse você, logo você, isso seria o fim pra mim. Quando tive o aborto, isso fez todos os meus medos voltarem. De perder você. Foi como se aquele instante de tragédia me fizesse lembrar de novo da morte, e com que rapidez ela pula em cima de uma pessoa. Se Deus, a natureza, ou sei lá quem ou que porra controla tudo, pode ser cruel e desalmado a ponto de matar o meu bebê, então Ele pode te matar também, sem pensar duas vezes. Isso me apavora, Andrew. A ideia de perder você me mata por dentro. E como já quase te perdi uma vez, o medo fica muito pior.
— Mas eu já te disse...
Ela se levanta do meu colo e fica sentada na minha frente, com os joelhos enterrados na areia.
— Eu sei o que você disse — ela interrompe. — Mas não importa o que você pensa, ou você saber dizer todas as coisas certas pra me fazer sentir melhor. Você não tem certeza do que vai acontecer, Andrew. O tumor pode muito bem voltar, e apesar de tudo o que fazemos, de todas as precauções que tomamos, ele pode te matar.
Eu começo a discordar, mas ela está tão empenhada em me dizer essas coisas que sei que preciso deixar.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu — ela continua — e agora posso te olhar nos olhos e dizer que, por mais que isto doa, consigo aceitar a morte de Ian. Consigo aceitar a morte de Lily. Consigo aceitar a morte de qualquer um, mesmo que essa morte seja insuportavelmente dolorosa. Mas a sua... — Ela se interrompe e nem pisca ao olhar no fundo dos meus olhos. — A sua eu jamais poderia aceitar. Jamais.
O silêncio entre nós só amplifica o som do oceano. Quero pegá-la nos braços, apertar meus lábios contra os dela, mas fico sentado ali, olhando para ela, porque as palavras que ela me disse são as mais poderosas que já ouvi, senti ou entendi.
Finalmente, eu a pego em meus braços e a ponho no meu colo. Passo os braços pelas suas costas, fito seus olhos e digo:
— Acredito em você e sinto a mesma coisa.
Ela inclina um pouco a cabeça para o lado.
— Mesmo?
— Sim. Camryn, não consigo viver sem você. Eu poderia tentar, mas ia ser uma existência péssima. Isso não vale só pra mim; você pode morrer amanhã tão facilmente quanto eu. Ninguém tá imune.
Ela não discute, mas desvia o olhar por um breve momento.
Eu seguro seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me olhar. Sua pele está gelada.
— A gente precisa viver no presente, lembra? — eu digo e ela volta a prestar atenção em mim. — Precisamos fazer um pacto, você e eu, agora mesmo. Topa fazer um pacto comigo? — Movo um pouco minhas mãos para aquecer suas orelhas geladas.
Ela concorda com a cabeça.
— Tá — diz, e fico feliz por ela confiar em mim o suficiente para não fazer perguntas antes de concordar.
Tirando uma mão de sua orelha, passo as pontas dos dedos na sua testa e pelos lados de suas bochechas.
— Não podemos controlar a morte. Nenhum dos dois pode fazer nada pra evitá-la ou adiá-la. Só o que podemos controlar é como vamos viver nossas vidas antes que ela nos alcance. Portanto, vamos prometer um pro outro coisas que possamos cumprir, haja o que houver.
Camryn concorda com a cabeça e sorri um pouco.
— Que tipo de coisas? — ela pergunta.
— Qualquer coisa. Tudo o que a gente quiser um do outro. Tipo... — Eu me levanto da areia e enfio as mãos nos bolsos. Olho para o oceano, vasculhando minha mente em busca da melhor promessa para começar. Só consigo pensar numa coisa no momento, por isso me viro novamente para ela, levanto o dedo indicador e digo: — Isto não tem nada a ver com o tumor, nem com nada específico, mas quero que você me prometa que, se algum dia estiverem me mantendo vivo por aparelhos, por qualquer motivo, e você sentir no fundo do coração que eu não vou melhorar, se você sentir que eu tô sofrendo, vai mandar desligar os aparelhos.
Seu sorriso desaparece, e ela me olha como se eu tivesse estragado o momento. Eu estendo os braços e a pego pela mão, fazendo-a levantar comigo.
— Não tô tentando ser mórbido. É só uma coisa que sempre me incomodou, sabe? Você vê isso na TV e nos filmes. O cara fica ligado a todo tipo de aparelho que a ciência já inventou pra se manter vivo porque a família tem esperança ou qualquer coisa assim. Nada contra ter esperança, mas, porra, aquilo me dá um puta medo. — Eu seguro seus braços delicadamente. — Nunca me deixe viver como um vegetal. Me prometa isso. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa, e confio que você vai saber quando tiver chegado a minha hora. Então prometa.
Aos poucos, ela começa a entender. Leva um segundo, mas ela começa a concordar com a cabeça.
— Me promete a mesma coisa — ela pede.
Eu sorrio e digo:
— Tá prometido.
Ela dá um passo para trás e enfia as mãos nas mangas. Apertando bem o suéter ao redor do corpo, ela começa a andar de um lado para o outro.
Ela para e me olha.
— Promete que se um dia eu tiver mal de Alzheimer ou ficar senil e não me lembrar de ninguém, você vai me visitar todo dia e ler pra mim, como Noah lia pra Allie.
— Quem? — eu pergunto, mas aí a ficha cai. — Aaaah, entendi. — Eu rio dela e concordo com a cabeça.
Seus olhos e seu sorriso aumentam e ela grita:
— Andrew! Não tem graça! Tô falando sério! — Ela ri e eu a agarro, puxando-a para os meus braços.
— Tudo bem, tudo bem! — eu me rendo, apertando seu corpo que se retorce contra o meu.
— A ideia foi sua — ela acusa —, então não faz piada.
— Eu sei. Você tem razão, mas... é sério? Precisa ser tão fã assim de Diário de uma paixão?
Sinto o cotovelo dela atingindo meu estômago e me curvo um pouco e exagero a dor que isso me causa, contorcendo o rosto com a agonia e o riso. Para me humilhar de vez, Camryn me dá um empurrão e me derruba na areia. Depois fica por cima de mim, com um pé de cada lado do meu peito e as mãos na cintura, toda autoritária. Mantenho uma mão na barriga, rindo e tentando ficar sério, embora eu saiba muito bem que não consigo enganá-la.
— Só você pra fazer piada num momento tão sério. — Ela reclama tão seriamente que isso só me faz rir mais, sobretudo pela dificuldade dela em ficar de cara fechada.
Ela começa a se sentar em cima de mim, e provavelmente vai tentar me bater com suas mãozinhas delicadas, mas eu a seguro antes que ela comece, meto a mão no meio das pernas dela e aperto com toda a força.
— Aaaaaii! — Camryn geme, e começa a desabar, mas eu a mantenho na posição. — Que ideia é essa de apertar minhas paaarrr... porra, Andrew! Apertar minhas partes?!
Faço mais pressão e levanto aos poucos as costas da areia, guiando-a para trás. Ela fica de joelhos olhando para mim.
— Porque eu gosto — sussurro sobre seus lábios. — Agora fica parada.
O clima entre nós muda em questão de segundos. Sua pele fria fica mais quente; seus olhos, arrebatados; seu corpo, conivente.
— Tem gente aqui... — ela tenta dizer baixinho, mas minha mão apertando-a no meio das pernas lhe rouba a voz.
— Não me importa — retruco, examinando seus olhos primeiro e então seus lábios úmidos e inchados. — Eles estão longe.
— Mas... o que você tá fazendo...
— Só fica parada. Quieta. — Eu passo a língua sobre seu lábio inferior e o chupo delicadamente. Sinto que ela tenta me beijar, mas não deixo. Eu puxo o tecido de sua calça e enfio a mão dentro da cintura folgada para achar o seu calor. Caramba, ela já tá molhada. Me curvando sobre o seu pescoço, fecho os olhos e inalo o cheiro de sua pele. Ela fica bem imóvel, mas posso sentir seu corpo tremendo e seu coração batendo forte sob o meu toque. Quero tanto comê-la. Mas não vou fazer isso ainda, porque gosto de me torturar. Adoro, porra.
Minha mão livre solta sua cintura e eu a ponho em sua coxa, forçando-a a abrir mais as pernas.
— Abre — eu instruo, com meus lábios roçando nela, e Camryn faz exatamente o que eu mando, afastando os joelhos na areia. Ela fica um pouco tensa quando percebo um homem andando não muito longe, mas eu a aperto de novo, enfiando dois dedos nela e obrigando-a a olhar só para mim. Ela geme e eu estremeço silenciosamente, sentindo suas entranhas se apertando em volta dos meus dedos. Encaro seus olhos, os meus de vez em quando se perdendo no estudo da curvatura de sua boca. — Não tira os olhos de mim — digo. — Não me importa se você sentir que precisa fechar os olhos. Não feche. Continue me olhando.
Ela balança um pouco a cabeça, como se temesse que eu vá parar se ela fizer errado.
Mexo os dedos para dentro e para fora dela, lentamente de início, tirando-os e usando seu gozo para manter seu clitóris úmido, esfregando meu dedo médio sobre ele num movimento circular. Cada vez que a toco, seus olhos começam a se fechar, mas eu paro assim que percebo, e ela volta a controlar o olhar. Mexo meus dedos dentro dela de novo, um pouco mais rápido, e com o polegar faço cada vez mais pressão no seu clitóris. Pequenos gemidos escapam de seus lábios abertos, chupando o ar gelado ao nosso redor e meu hálito quente à medida que fico mais ofegante em sua boca. Mas ela nunca tira os olhos dos meus e não fala, embora eu saiba que ela queira fazer tudo isso.
— Admite uma coisa — sussurro no ouvido dela. — Neste momento, você não estaria nem aí se alguém estivesse olhando. Não é verdade? Me deixaria foder você aqui, na frente de todo mundo, e se preocuparia com a vergonha só depois que eu terminasse.
Sinto sua cabeça balançando perto da minha.
— O que mais você me deixaria fazer? — pergunto e mantenho os lábios perto do ouvido dela. Continuo mexendo os dedos.
— Tudo o que você quisesse — ela diz, com um gemido na voz.
— Tudo o que eu quisesse? — Eu esfrego meu polegar com mais força no seu clitóris.
— Tudo... — ela diz e perde um pouco o fôlego. — Qualquer porra que você quisesse...
Suas palavras, sua voz carregada de desejo, me deixam louco de tesão por ela, e meu pau está tão duro que mal consigo aguentar. Enfio os dedos com mais força e mais rápido. Seu corpo começa a tremer, suas coxas balançam tentando levantar o corpo. Eu me afasto do ouvido dela e a fito de novo. Ela mantém o olhar fixo no meu o melhor que pode, suas pálpebras estão ficando mais pesadas; sua respiração, irregular e ofegante. Mas seus olhos ficam arregalados e imóveis quando atinjo aquele ponto especial, e tomo cuidado para não interromper o ritmo.
— Não tira os olhos de mim — digo e continuo a olhá-la ferozmente.
Quando ela começa a gozar, meu olhar só fica mais forte, perfurando o dela num momento de luxúria faminta. É como se eu conseguisse ver o prazer emanando de suas íris, o calor do seu orgasmo saindo da pele sensível dos seus lábios, que querem beijar os meus tão selvagemente, mas mesmo assim eu não deixo. Quando seu corpo trêmulo começa a se acalmar, enfio os dois dedos mais fundo, sentindo-a se estreitar ao redor deles, o tempo todo mantendo a pressão no seu clitóris.
Ela desaba sobre o meu peito.
Eu envolvo seu corpo trêmulo nos braços e beijo o alto da sua cabeça.
— O que você tá fazendo comigo, caralho? — ela diz.
Eu rio um pouco e a abraço mais forte.
— Qualquer porra que eu quiser — respondo astutamente.
Erguendo a cabeça do meu peito, ela olha para mim.
— Bom, pode dizer o que quiser, mas não vai me fazer gozar desta vez sem que eu retribua o favor.
— Ah, é?
— É isso mesmo, por isso nem tenta.
— O que você vai fazer comigo, então? — Eu sinto o meu sorriso aumentando.
— Qualquer porra que eu quiser — ela diz, com um sorriso ainda maior e mais malicioso que o meu.
Então ela fica de pé e, segurando minha mão, me faz levantar com ela.
— Mas não aqui fora — ela diz. — Tá esfriando demais.
— Você que manda — digo, deixando que ela me puxe.
Eu jamais tocaria no assunto, mas noto, quando nos afastamos da praia, que Camryn olha para trás uma vez, para a foto dela e de Ian na areia. Sua mão aperta a minha forte e ela olha para meu sorriso suave quando atravessamos o calçadão.
Sei que tive muito pouco a ver com ela finalmente fechar esse ciclo. Tudo bem, eu a forcei a fazer isso, mas foi Camryn que, naquele momento, enfrentou um dos seus maiores medos. Ela olhou no rosto de alguém que amou e perdeu, e finalmente aceitou isso. Admito que foi estranho como tudo aconteceu, e eu não fui para lá com nenhuma intenção sexual, especialmente num momento como aquele. Mas Camryn, no tempo que passou sozinha naquela praia pensando em Ian, bem antes que eu chegasse, já tinha entendido tudo.
Não sei ao certo como ela fez, ou qual foi meu papel nisso, mas quando retornou da praia comigo naquela noite, ela já começava a ser como era antes.
Camryn estava voltando, e eu estava nas nuvens com ela.
Camryn
19
8 DE DEZEMBRO — meu vigésimo primeiro aniversário
Quando começou a esfriar, Andrew e eu rumamos mais para o Sul. Passamos só uma noite em Virginia Beach e de lá percorremos o litoral da Carolina do Norte, ficando alguns dias em Myrtle Beach, Carolina do Sul, onde arranjei meu primeiro emprego na estrada. Como arrumadeira. Com certeza não era a minha primeira escolha, especialmente depois que Andrew me lembrou das coisas nojentas que os hóspedes costumam deixar nos quartos. Mas era um emprego e não me incomodava tanto, a não ser quando queriam que eu lavasse cestos de lixo com catarradas nojentas grudadas no fundo. Desculpa, mas só de pensar nisso me dá vontade de vomitar. Eu ligava para Andrew e implorava que ele viesse limpar. Claro que eu o subornava com promessas de boquetes enlouquecedores em lugares públicos. Puxa, que maravilha. Não, quem eu tô tentando enganar? Adoro fazer isso por ele. Só finjo detestar às vezes, mas acho que ele gosta quando eu finjo, porque gosta de me ouvir reclamar.
De qualquer forma, pelo jeito, empregos de arrumadeira são como portas giratórias, as funcionárias vêm e vão tão rápido que seria melhor nem incluí-las oficialmente na folha de pagamento. Pensei em como isso poderia trabalhar a meu favor enquanto estivéssemos na estrada. Assim, em troca de metade do valor das diárias do quarto que estávamos ocupando, e como o quadro de funcionários do hotel estava desfalcado, eu perguntei se poderia ajudar e eles me contrataram na hora.
Mas o emprego era só temporário, pois Andrew e eu precisávamos partir de Myrtle Beach e seguir para o nosso destino, onde quer que fosse. Nunca planejamos nossos destinos antecipadamente. A nossa única regra é ficar no litoral. Pelo menos até a primavera. Mas ainda faltam alguns meses até lá e, no momento, estamos felizes instalados num hotel estilo chalé bem em frente à praia, na linda Savannah, Geórgia.
E hoje eu faço 21 anos.
Andrew me acorda de um sono profundo abrindo as cortinas da janela gigante do nosso quarto e deixando o sol invadir o ambiente.
— Levanta, aniversariante — exclama ele de algum lugar perto do pé da cama. Eu o ouço batendo várias vezes na mesinha perto da janela com a palma da mão.
Resmungo e viro para o lado, dando as costas para o sol brilhante e me enterrando nos lençóis. Uma lufada de ar frio me atinge quando Andrew me arranca os lençóis.
— Ah, vai! — gemo, encolhendo os joelhos para o peito e puxando o travesseiro para cima da minha cabeça. — Eu devia poder dormir até tarde no meu aniversário.
De repente, meu corpo está sendo arrastado da cama e eu estico os braços freneticamente, tentando me agarrar à borda do colchão. A mão de Andrew segura com firmeza o meu tornozelo. Eu chuto e esperneio, tentando me soltar, mas ele me arrasta pela cama tão rápido e sem esforço que eu simplesmente desisto. Minha bunda bate no chão e os lençóis caem ao meu redor.
— Você é tão babaca! — eu rio.
— Mas você me ama. Agora levanta.
Com o cabelo todo emaranhado, olho para Andrew e faço bico. Ele sorri para mim e estende a mão. Eu a seguro e ele me puxa de pé.
— Feliz aniversário, amor — ele diz, e me dá um selinho.
Eu me encolho um pouco, porque sei que meu bafo está podre, e já estou ficando acostumada com a mania de Andrew de aproveitar qualquer oportunidade de me lembrar disso.
Sem olhar para mim, Andrew enfia a mão no bolso do casaco e tira uma caixinha de veludo preto. Obviamente, ele já saiu hoje, mas eu estou mais interessada na caixa que ele pôs na minha mão. Olho para ele desconfiada, pronta para dar um esporro nele caso tenha gastado uma grana numa joia escondido de mim.
— Andrew? — digo, desconfiada.
— Abre de uma vez. Eu me comportei. Juro. — Ele ergue as duas mãos num gesto de rendição.
Ainda totalmente desconfiada de sua aparente sinceridade, abro a tampa da caixa e vejo um colar com pingente de diamante dentro e fico com um pouco de falta de ar. Então estreito os olhos para ele.
— Andrew, por favor. — Olho mais uma vez para o colar, me sentindo culpada só de tê-lo nas mãos. — De jeito nenhum isso foi...
— Juro — ele diz com um sorriso encantador. — Não foi caro.
Mordendo o lábio com ceticismo, eu pergunto:
— Quanto custou, então?
— Ah, uns 125 dólares. Nada mais do que isso. Juro por Deus. — Ele faz uma cruz sobre o coração com o dedo.
Então tira o colar da caixa, deixando-o pendurado na mão.
— Gostou? — pergunta, indo para trás de mim.
Instintivamente, levanto meu cabelo embaraçado enquanto ele põe o colar no meu pescoço.
— É perfeito, Andrew. Eu mais do que gostei. Eu amei. — Olho para baixo enquanto ele o fecha e seguro o pingente brilhante de prata.
Eu me viro para Andrew e fico na ponta dos pés descalços para beijá-lo apaixonadamente.
Nem imagino como uma joia dessas pode não ter custado um caminhão de dinheiro, mas ele está dizendo a verdade. Eu acho...
— Obrigada, amor — agradeço, radiante.
De repente, ele me dá um tapão na bunda e diz:
— A gente precisa sair daqui hoje. Tô de saco cheio de me esconder em quartos assim. De saco cheio do frio. Eu queria poder hibernar.
— Eu também. E o que a gente vai fazer, exatamente? — Pego uma roupa limpa da minha mochila perto da TV.
— Sei lá. Qualquer coisa. Mas põe uma roupa quente.
Ele não precisava me lembrar disso, na verdade. Nem mesmo a proximidade do litoral e a mudança de latitude ajudaram muito a nos aquecer nos últimos dias. Ambos sonhamos com a primavera e o verão, a ponto de ser a única coisa da qual falamos. Eu reclamo muito de não poder esticar os pés descalços para fora da janelinha do carro sem matar nós dois de frio, e ele reclama que ainda não conseguimos dormir num gramado sob as estrelas. Claro que não vou dizer em voz alta, senão ele vai querer ainda mais, mas não estou muito ansiosa para dormir sob as estrelas. Jamais. Não depois do que aconteceu na primeira vez que tentamos. Não. Acho que estou satisfeita com as camas de hotel. Elas não têm cobras.
O inverno é deprimente. Acho que é por isso que o índice de suicídios é tão alto no Alasca. É um estado lindo, mas ainda prefiro o calor de rachar de um deserto do Sul.
Eu visto roupas extraquentes para o meu aniversário: casaco grosso, cachecol, luvas, o que tiver eu tô vestindo. E mesmo assim tô morrendo de frio.
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Andrew meio que “esquenta” o inverno. Sempre achei que caras de gorro ficam sexy, mas o jeitão dele com sua jaqueta preta de grife e seu gorro de lã, suéter cinza-escuro, jeans preto e botas Doc Martens é tudo o que eu quero de presente de aniversário. Sorrio comigo mesma enquanto andamos de mãos dadas por uma pequena multidão, todos se acotovelando no farol para se proteger do frio, e então três garotas, provavelmente turistas como nós, devoram Andrew com os olhos quando passamos. Isso acontece muito, e eu já deveria estar acostumada. Me vanglorio em segredo, mas quem não faria isso, na minha situação? Ele é a coisa mais sexy que eu já vi. Não admira que já tenha trabalhado como modelo. Ele odeia falar disso, então, naturalmente, eu toco no assunto com frequência para vê-lo sofrer. Andrew também está se barbeando menos; está com aquela barba sexy por fazer.
Subimos a escada em caracol até o farol debruçado sobre o oceano e olhamos o panorama juntos. Porque é algo para se fazer. Estamos apenas improvisando, andando de carro pela cidade e escolhendo as coisas quando as vemos. Mas, nos meses frios, até isso é um processo de tentativa e erro. Estendemos os braços sobre o corrimão e ficamos perto um do outro para nos aquecer. O vento gelado nos fustiga, naquela altitude, e eu sei que meu nariz e minhas bochechas devem estar vermelhos.
Levamos exatamente cinco minutos para mandar aquilo à merda e praticamente correr de volta para o carro.
— A gente podia ir pro cinema — ele sugere, no banco do motorista. — Ou... tá, acho melhor a gente hibernar e pronto.
Ficamos sentados por muito tempo, só pensando em alguma coisa para fazer.
— Vamos andar de carro mais um pouco — eu digo, sem nenhuma ideia.
— Talvez seja melhor ir embora de uma vez.
Dou de ombros.
— Se você quiser. — Então vejo uma placa que diz Feira de Antiguidades das Pulgas & Carrapatos.
— Vamos fazer compras — sugiro.
Andrew não parece empolgado.
— Compras?
Balanço a cabeça e aponto para a placa.
— Não no shopping, nada disso — explico. — Dá pra achar umas coisas bem bacanas em feirinhas de coisas usadas.
Sua expressão continua neutra, mas acho que ele se dá conta de que com certeza é melhor do que andar na rua no frio, ou ficar parado no carro sem fazer nada.
Andrew acaba cedendo porque, francamente, ele não tem mesmo muita escolha, e em seguida tira o carro do estacionamento e seguimos as placas até a feira de antiguidades. Encontramos um pouco de tudo: chapéus idiotas, instrumentos odontológicos antigos, colchas de retalhos feitas à mão, fitas de vídeo e discos. Andrew não se empolgou com muita coisa, até ver a caixa de madeira cheia de discos.
— Não vejo um disco do Led Zeppelin há anos — ele comenta, segurando um. A capa está tão detonada e desbotada que parece ter ficado num sótão por trinta anos, mas ele o segura com tanto cuidado que poderia ser um exemplar em perfeito estado.
— Você não tá pensando em comprar isso, tá?
— Por que não? — ele pergunta, sem olhar para mim.
Ele vira o disco e olha para o verso da capa.
— Porque é um LP?
— Tá, mas é um LP do Led Zeppelin — ele argumenta, olhando rapidamente para mim.
— Tá, e?
Ele não responde.
Eu continuo:
— Andrew, onde é que você vai tocar isso?
Finalmente ele me dá atenção total.
— Eu não vou tocar.
— Então por que quer comprar? — pergunto, e então respondo por ele, sarcasticamente. — Ah, já sei, é um artigo de colecionador. Você pode pendurá-lo no banco de trás do carro. — Dou um sorrisinho para ele.
— Ou posso pôr você no banco de trás e pendurá-lo na frente.
Eu fico levemente boquiaberta.
Andrew sorri e devolve o disco à caixa.
— Eu não vou comprar — ele resolve, pegando a minha mão.
Minutos depois, entramos em outra barraca, lotada de roupas antigas. Enquanto examino meticulosamente tudo o que há nos cabides, Andrew fica na barraca ao lado, onde centenas de DVDs e Blu-rays estão expostos numa parede. Ele para diante dela de braços cruzados, praticamente imóvel, lendo cada um dos títulos. Posso ver sua nuca através da treliça de madeira que separa seu quiosque do meu. Volto a olhar as roupas, sentindo urgência e necessidade a cada peça que toco. Eu adoro roupas antigas. Não que eu chegue a usar, ou que tenha comprado alguma vez, mas são coisas que não dá para deixar de olhar com admiração e se imaginar nelas.
Empurro os cabides finos de arame, um por um, para conseguir ver tudo. Camisas com mangas bufantes e cadarços de couro, espartilhos, vestidos plissados e com mangas longas, botas vitorianas...
O que é isso?
Meu coração para por um segundo quando puxo um dos cabides e vejo o vestido. É um modelo vintage cor de marfim, com mangas curtas drapeadas. Tiro o cabide da arara e seguro o vestido junto ao corpo, virando para o espelho. O comprimento por pouco não chega ao chão. Segurando-o com uma mão na altura certa, estico o tecido com a outra mão. Então eu rodopio.
— Meu Deus, amei este vestido — digo em voz alta para mim mesma. — Preciso comprar.
— Hãã, devo dizer — Andrew intervém por trás, me assustando — que é um vestido lindo.
Um pouco sem jeito porque Andrew provavelmente me viu enquanto eu me admirava com o vestido e falava sozinha, não olho para ele. Em vez disso, olho a etiqueta para ver se é do meu tamanho. É! Claro que agora preciso comprá-lo, sem mais perguntas. Era pra ser meu!
Abraçando apertado o vestido, eu giro para ficar de frente para Andrew.
— Você gostou mesmo? — pergunto com voz culpada, minha maneira de implorar para que ele não jogue na minha cara aquela conversa sobre o disco.
— Eu acho que você deve comprar — ele confirma, com um sorrisão cheio de covinhas. — Já posso imaginar você vestida nele. Linda. Naturalmente.
Eu fico vermelha e olho para o vestido de novo.
— Você acha? — Não consigo parar de sorrir.
— Com certeza — ele diz. — E você fica mais acessível nele.
Típico!
Ignoro seu comentário pervertido, sobretudo porque estou apaixonada demais pelo vestido. Então me dou conta de que ainda não olhei o preço. Conhecendo os vestidos daquela marca, sei que eles não são caros. Mas quando o vendedor é alguém que acha que pode enganar um cliente, fazendo-o pagar três vezes o valor justo, não há como prever o preço na etiqueta. Prendo a respiração e olho o valor. Vinte contos! Perfeito.
Olho mais uma vez para Andrew e de repente me sinto uma vaca reclamona.
— Por que você não compra aquele disco do Led Zeppelin também? — digo timidamente.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Não, um LP antigo não serve pra nada mesmo. Mas um vestido como esse tem sua serventia. — Ele cruza os braços e me olha de cima a baixo.
Eu acho que ele está bancando o pervertido de novo, e dessa vez abro a boca para acusá-lo, quando ele acrescenta:
— Casar comigo vestida nele, por exemplo.
Seus olhos verdes parecem cruzar rapidamente os meus.
Meu sorriso se abranda e eu digo:
— É um vestido de noiva perfeito.
— Então tá combinado — ele diz, segurando a minha mão. — Quando a gente se casar, pelo menos você já vai ter o vestido.
— Só precisamos disso, na verdade — digo, saindo com ele da barraca com o vestido pendurado no braço.
Ele olha para mim.
— Alianças — ele diz, com um olhar estranho.
— Eu tenho aliança — digo, levantando a mão, achando que por algum motivo ele se esqueceu do anel que me comprou no Texas.
— Isso é um anel de noivado.
— É, mas basta.
— Bom, eu também preciso de uma. Ou você se esqueceu de mim? Casamento é pra dois, sabe.
Eu rio baixinho enquanto chegamos à pequena fila da caixa.
— Tá, tem razão, mas eu tô feliz com o meu anel. Além disso, eu sei que você gastou uma grana com este colar. Não pode fazer essas coisas.
— Vamos começar com isso de novo? — ele pergunta em tom brincalhão, tirando a carteira do bolso. — Não menti pra você sobre o preço do colar.
Talvez ele esteja mesmo dizendo a verdade.
— Acredito em você — digo finalmente.
Ele sorri e deixa por isso mesmo.
Andrew
20
SIM, SOU UM baita mentiroso. Aquele colar custou pouco mais de 600 dólares, mas sei que não posso contar pra ela. Ela acha que o que importa nas coisas caras é quantos zeros há antes da vírgula, mas nem sempre é isso. Francamente, acho que normalmente é pra mulher que o preço importa tanto. Porra, já ouvi garotas reclamando e choramingando porque o cara delas não gastou o suficiente. Eu queria saber se elas percebem como dificultam a nossa vida quando se juntam com as amigas e comparam pedras como nós, homens, comparamos nossas ferramentas. A propósito, a gente não faz isso, na verdade. Pelo menos eu nunca consegui encontrar um cara que quisesse abrir o zíper e competir comigo.
Eu queria comprar algo bem legal pra Camryn no aniversário dela. Por pura coincidência, aquilo de que eu mais gostei, entre as coisas que vi, era caro.
Aceite isso, amor.
Ela é capaz de desmaiar se descobrir quanto eu gastei nas nossas alianças, que comprei enquanto estávamos em Chicago. Está difícil evitar que Camryn as veja. Mas consegui enfiar a caixinha num bolso escondido da minha mochila.
Passamos o dia todo fazendo o que sempre fazemos, ficando juntos e aproveitando o tempo frio como dá. Quando voltamos para o hotel, pego o violão e toco para ela uma canção que compus e na qual estou trabalhando há uma semana. Eu esperava terminá-la até o dia do aniversário porque faz parte do presente dela. Compus só pra ela. Eu a chamo de “A Tulipa na Colina”, uma canção inspirada pelo primeiro dia que passamos juntos quando eu saí do hospital, depois da minha cirurgia.
— Eu acho que você deve pegar leve — Camryn disse naquele dia. — Nada de enfiar a cabeça nos motores de Billy Frank por uns tempos, nem bungee jumping, nem corridas de carros.
Eu ri um pouco, virando a cabeça para o lado para vê-la. Eu estava deitado de comprido numa mesa de piquenique de pedra. Camryn estava sentada no banco, perto da minha cabeça.
— Então sua definição de pegar leve é não fazer absolutamente nada? — perguntei, sorrindo para ela, com a cabeça apoiada nas mãos.
— O que tem de errado em passar um dia calmo no parque? — ela perguntou, passando os dedos na minha testa.
— Nada — respondi e beijei-lhe os dedos quando sua mão chegou à minha boca. — Eu gosto de ficar sozinho com você.
Ela virou a cabeça devagar para o lado e sua expressão ficou mais meiga. Depois olhou para o parque. As árvores estavam frondosas, e a grama, espessa e verdejante. Estava realmente um dia lindo. Fiquei me perguntando por que só nós dois, aparentemente, estávamos ali, aproveitando.
— Acho tulipas bonitas — ela disse com voz distante, olhando para a pequena colina coberta de grama do meu outro lado.
Olhei também e vi uma única tulipa brotando no alto daquela colina, sozinha. Não sei bem por quê, mas desde aquele dia, sempre que vejo uma tulipa em qualquer lugar, penso em Camryn.
Eu nunca vou esquecer o sorriso em seu rosto enquanto toco e canto a canção para ela. É tão terno, radiante e carinhoso, o tipo de sorriso que diz Amo Você Mais Do Que Tudo Neste Mundo sem precisar dizer essas palavras.
CONTINUA
14
QUANDO CHEGO AO banheiro, tem uma fila de mulheres esperando por cabines vazias. O ar está espesso com o bafo de álcool, perfume e roupas cheirando a cigarro. Uma porta de cabine se abre e fecha com uma batida violenta de poucos em poucos segundos quando alguém entra ou sai. Lavo as mãos primeiro, precisando me espremer entre duas garotas bêbadas sentadas no balcão da pia, uma de cada lado. Por sorte, elas são o tipo de bêbada supersimpática, porque não estou podendo com uma briguenta e grosseira hoje. Elas pedem desculpas por atrapalhar e se afastam para me dar espaço.
— Obrigada — digo, abrindo a torneira.
— Ei, você é a menina que tava cantando — a garota da esquerda diz, apontando para mim e sorrindo. Ela olha para a amiga do outro lado, depois para mim de novo.
— É, acho que sou eu.
Não estou nem um pouco a fim de conversa de banheiro. Quanto mais tempo passo num banheiro público, com mais nojo eu fico.
— Vocês dois são muito bons — ela diz com um sorrisão.
— É, sério — a amiga dela confirma. — Por que estão cantando em bares, afinal?
Eu dou de ombros e espremo mais sabão do reservatório na mão e tento evitá-las o mais gentilmente possível.
— De verdade — a da esquerda acrescenta. — Eu pagaria pra ver vocês tocarem.
Tudo bem, eu não sou totalmente imune a elogios. Sorrio e agradeço de novo.
Quando mais duas cabines ficam desocupadas, elas aproveitam a oportunidade e se trancam nelas. Logo depois, acenam em despedida e me desejam boa sorte na minha “carreira musical”. Quando estou quase sozinha, me viro para o espelho, mas não olho para mim. Em vez disso, enfio a mão no bolso e pego um comprimido, engolindo-o com água da pia.
É só pra tirar o nervoso.
Então eu me olho, empurrando o comprimido e o sentimento de culpa que vem cada vez que tomo um para o fundo da minha mente. Invento pretextos para justificar tomá-lo e quase engano a mim mesma. Mas eu sei que a culpa que sempre sinto tem um motivo.
Em menos de 11 minutos, não me importo mais com a culpa, os pretextos ou o nervoso, porque essa parte do meu cérebro foi adormecida.
Passo as pontas dos dedos embaixo dos olhos para limpar o rímel borrado, depois enxugo a oleosidade do meu rosto com papel higiênico. Preciso estar de cara boa quando voltar lá. Me sinto ótima, mas preciso parecer tão bem quanto me sinto.
Abrindo caminho em meio à multidão, encontro Aidan e Michelle de pé perto do enorme balcão do bar e me junto a eles. Então lembro que Andrew foi buscar uma bebida para mim, mas não quero atravessar aquele mar de gente de novo só para pegá-la.
— Vocês dois são fantásticos! — Michelle grita por cima da multidão barulhenta. Ela me abraça e eu retribuo, sentindo meu sorriso movido a comprimidos se alargando muito em meu rosto.
Eu me viro para Aidan.
— O que você achou?
— Concordo com Michelle! Vocês deveriam compor seu próprio repertório e tocar aqui mais vezes. Tem sempre caçadores de talentos aqui no bar. E celebridades. — Ele aponta para a parede do fundo, onde uma série de fotografias autografadas de vários músicos e astros do cinema formam uma linha reta. — Comecem a tocar material próprio — ele continua. — Aposto que vocês dois seriam contratados por uma gravadora em menos de um ano.
Estou tão chapada, no momento, que ele poderia me dizer que achou a gente uma bosta e sem futuro nenhum na música, e eu sorriria do mesmo jeito, deixando as palavras passarem por mim como uma brisa.
Olho para o outro lado do salão e vejo Andrew no palco com sua guitarra e a banda da casa, se preparando para a canção que é sua marca registrada, “Laugh, I Nearly Died”. Ele provavelmente não me vê no meio da multidão, mas sabe que estou assistindo. Adoro vê-lo no palco, no seu elemento. Sei que, por mais que sejamos bons juntos, musicalmente, ele sempre é mais dono do palco quando toca sozinho. Talvez seja impressão minha, mas gosto de pensar nele como na primeira vez que o vi tocar. Porque naquela noite em Nova Orleans, ele estava cantando para mim, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu faria qualquer coisa pra me sentir assim de novo. Qualquer coisa...
Segundos depois de começar a tocar, Andrew, como sempre, tem a atenção de todos os presentes. As duas garotas na mesa estão de pé agora, dançando juntas de um jeito provocante, mas eu sei que é tudo para Andrew. Já vi isso antes. Elas o querem, e Andrew deixa que acreditem, só por uma noite, que ele também as quer. É perfeitamente inofensivo. Andrew e eu encaramos isso como uma maneira de levantar a autoestima dos outros. Um pouco de paquera aqui e ali, tornar uma garota ou um cara de sorte o centro das atenções só pelo tempo suficiente para corar e sorrir. Nunca se sabe o que acontece na vida das pessoas a portas fechadas, e um pouco de energia positiva da paquera nunca atrapalha.
Quando voltamos para a casa de Aidan e Michelle pouco depois da meia-noite, vou para a cama antes de todos. Fico deitada por uma hora, ouvindo as vozes deles vindo do corredor e entrando no quarto. Andrew ia se deitar comigo, mas insisti para que ele ficasse com o irmão. Ele anda se preocupando demais comigo ultimamente. Vamos voltar para Raleigh amanhã, e quero que ele passe o maior tempo possível com Aidan.
Mais uma hora passa e eu continuo acordada.
Frustrada, enfio a mão na bolsa, procurando o frasco. Sem nem perceber, já estou nos últimos comprimidos.
Desmaio com três, desta vez.
Andrew
15
— CAMRYN? AMOR, acorda, por favor. — Eu a sacudo com força pelo ombro.
Minha emoção dominante, no momento, é o medo. Minhas emoções secundárias são raiva e mágoa. Mas, estranhamente, a sensação de incerteza está mantendo todas as outras a distância.
Eu a sacudo de novo.
— Levanta.
Não faço ideia de quantas dessas porras de comprimidos ela tomou, mas julgando pelo frasco quase vazio, a perspectiva de ter sido o suficiente para uma overdose faz uma onda de pânico percorrer todo o meu corpo. Mas ela está respirando normalmente e seu ritmo cardíaco parece normal. Se ela não acordar...
Seus olhos se abrem lentamente, e eu respiro mais aliviado.
— Camryn. Olha pra mim.
Finalmente, ela acorda o suficiente para me olhar nos olhos.
— Que que foi? — Ela geme suavemente e tenta fechar os olhos de novo, mas eu a seguro pelos ombros e a obrigo a se sentar.
— Acorda. Fica de olhos abertos.
Ela se senta, toda mole, mas não é nada tão fora do comum, depois de ter sido forçada a acordar e a se endireitar assim.
— Quantos você tomou?
Michelle está na porta do quarto, atrás de mim.
— Quer que eu chame uma ambulância?
De repente, Camryn fica completamente alerta. Não sei se minha pergunta finalmente a alcançou ou se foi a menção de uma ambulância, mas ela me encara com olhos arregalados e assustados.
— Quantas dessas porras de comprimidos você tomou?
Ela desvia o olhar do meu e vê o frasco de comprimidos sobre o criado-mudo. Quando decidi que dormir até depois das 14h não era típico dela e fui ver o que estava acontecendo, encontrei o frasco no chão.
— Camryn? — Eu a sacudo de novo e ela volta a prestar atenção em mim.
Ela só me olha. Vejo tanta coisa em seus olhos agora que não sei dizer se é mais humilhação, arrependimento, mágoa, raiva ou resignação. E então seus olhos começam a se encher de lágrimas. Sinto seu corpo se agitando sob o peso dos meus braços. Ela desata a chorar, caindo em meus braços, soluçando descontroladamente, e aquilo me despedaça.
— Andrew? — Michelle diz da porta.
Sem olhar para trás, eu digo:
— Não, ela vai ficar bem. — E engulo minhas próprias lágrimas e a raiva, sentindo meu peito se apertar.
A porta se fecha silenciosamente atrás de mim quando Michelle sai do quarto.
Abraço Camryn por muito tempo, deixando-a chorar no meu peito. Não digo uma palavra. Ainda não. Em parte porque sei que ela precisa disso, poder chorar e desabafar. Mas a outra parte de mim está tão puta da vida e magoada que sinto que vou precisar me afastar e me recompor para não dizer coisas erradas. Eu a abraço forte, apertando os braços em volta do seu corpo trêmulo. Beijo seu cabelo e tento não chorar também. A parte de mim que está puta da vida ajuda nisso.
— Eu sinto muito! — ela grita e, nessa fração de segundo, quando ouço a dor em sua voz, minha raiva se apaga quase completamente e eu a abraço ainda mais forte.
— Tá pedindo desculpas pra mim? — pergunto, incrédulo. Eu a afasto, segurando-a firme pelos antebraços. Balançando a cabeça furiosamente, volto a ficar como alguns minutos atrás. — Não, primeiro você precisa me dizer quantos você tomou. — Eu a encaro com firmeza.
— Ontem à noite. Só três.
— Quantos tinha no frasco no total?
— Não sei. Uns vinte.
— Então há quanto tempo você tá tomando?
Ela faz uma pausa e responde.
— Desde terça. São da minha mãe. Tomei um quando tava com dor de cabeça, mas aí comecei a tomar... — Seus olhos se enchem de água novamente.
Eu enxugo as lágrimas do seu rosto.
— Puta que pariu, Camryn! — exclamo, puxando-a para o meu peito por mais um breve momento. — O que você tava pensando, porra?
— Eu não pensei! — ela grita. — Não sei o que eu tenho!
Seguro seu rosto com as palmas das mãos.
— Você sabe o que você tem. Tá arrasada por perder a Lily e não sabe como lidar com isso. Só queria que você tivesse falado comigo.
Com o rosto dela ainda nas mãos, seus olhos desviam dos meus. O silêncio tenebroso entre nós me afeta da forma mais estranha.
— Camryn? — Tento fazê-la me olhar de novo, mas ela se recusa. — Fala comigo. Você precisa falar comigo. Escuta, você não fez nada errado, nem poderia ter evitado o que aconteceu. Precisa saber disso. Precisa enten...
Sua cabeça se desvencilha das minhas mãos, seus olhos penetrando os meus, cheios de dor e de... algo mais.
— É culpa minha! — ela diz, se afastando de mim na cama.
Ela se levanta do outro lado e cruza os braços, me dando as costas.
— Não é culpa sua, Camryn. — Ando até ela, mas assim que sente que vou me aproximar, ela se vira.
— É culpa minha sim, Andrew! — ela repete, com as lágrimas escorrendo dos olhos. — Eu não conseguia parar de pensar que minha gravidez ia ferrar com tudo! Detestava continuar morando em Galveston depois de quatro meses! Fiquei me perguntando como a gente ia fazer tudo o que queria com um bebê! Por isso, sim, é culpa minha que a perdemos e eu me odeio por isso, caralho! — Ela esconde o rosto nas mãos.
Atravesso a curta distância até ela, tomando-a em meus braços de novo.
— Meu Deus, Camryn, não foi culpa sua! — Acho que nunca falei nada para ninguém com tanta emoção. Meu peito tremia incontrolavelmente contra o dela.
— Olha pra mim! — imploro, afastando-a. — Isso é tão normal. E se você é culpada, então eu também sou. Tive esses pensamentos de vez em quando, mas, como você também, não teria desistido dela nem se pudesse.
Ela não precisa confirmar essa afirmação em voz alta, porque sei que ela também não teria desistido. Mas ela confirma assim mesmo: — Não lamentei nada engravidar dela. E eu... quero minha bebê de volta!
— Eu sei. Eu sei. — Eu a abraço apertado e ando com ela até o pé da cama, fazendo-a sentar. Eu me agacho entre as pernas dela, apoiando os braços em suas coxas e tomando suas mãos nas minhas. Olho para ela e digo mais uma vez: — Não foi culpa sua.
Ela enxuga algumas lágrimas e nós ficamos sentados assim pelo que parece uma eternidade. Acho que ela acredita em mim — ou isso ou está só evitando encarar a realidade. Então ela olha para a parede atrás da minha cabeça e diz baixinho: — Isso faz de mim uma viciada em drogas?
Quero rir, mas não rio. Em vez disso, apenas balanço a cabeça e sorrio suavemente para ela, apertando as pontas dos dedos em suas mãos.
— Foi um momento de fraqueza, e até a pessoa mais forte não é imune à fraqueza, Camryn. Quatro dias e um frasco de analgésicos não fazem de você uma viciada em drogas. É falta de juízo, mas não é vício.
Ela olha de novo para mim.
— Michelle e Aidan vão achar que é.
Balanço a cabeça.
— Não, não vão. E ninguém mais vai. — Eu me levanto e me sento ao lado dela. — Além disso, não é da conta de ninguém, porra. É uma coisa que só você e eu precisamos saber e enfrentar.
— Nunca fiz nada assim antes — ela continua, olhando para a frente. — Não acredito...
— Você estava diferente. Está diferente desde que Lily morreu.
O quarto fica estranhamente em silêncio de novo. Olho para ela de lado, mas a deixo em silêncio por um momento. Ela parece perdida em pensamentos.
E então ela diz:
— Andrew, talvez nós não devêssemos estar juntos. — E suas palavras me atingem tão rápido e com tanta força que sinto que falta ar nos meus pulmões.
Fico tão surpreso que é como se suas palavras tivessem roubado todas as minhas. Meu coração está disparado.
Finalmente, quando ela não elabora, consigo balbuciar:
— Por que tá dizendo isso? — E fico com medo de sua resposta.
Ela continua olhando para a frente, com as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto. E então ela olha para mim e vejo a mesma dor intensa em seus olhos que eu sei que ela vê nos meus.
— Porque todo mundo que eu amo acaba me abandonando ou morrendo.
O alívio me invade, mas é superado pela sua dor.
É nesse exato momento que percebo que essa é a primeira vez que Camryn se abriu a respeito disso tudo comigo, ou com qualquer outra pessoa. Penso nas coisas que Natalie me contou, e nas conversas que Camryn e eu tivemos na estrada, e sei que no momento Camryn está admitindo a dimensão de sua dor não só para outra pessoa, mas o mais importante, para si mesma.
— Eu me sinto tão egoísta dizendo isso — ela continua, e deixo que ela fale à vontade, sem interrupções. — Meu pai abandonou a gente. Minha mãe mudou. Minha avó, a única pessoa que continuou a mesma e sempre me apoiou quando precisei, morreu. Ian morreu. Cole foi pra prisão. Natalie me apunhalou pelas costas. Lily... — Ela olha para mim, finalmente, a dor intensificada em seu rosto. — E você.
— Eu? — Me agacho diante dela de novo. — Mas eu tô aqui, Camryn. Vou estar sempre aqui. — Tomo as mãos dela nas minhas. — Não importa o que você faça, ou o que aconteça entre a gente. Nunca vou te abandonar. Vou estar sempre com você. — Aperto as mãos dela. — Lembra quando eu disse que você era a coisa mais importante do mundo pra mim? Você pediu que eu te lembrasse disso, se um dia você esquecesse. Bom, eu tô te lembrando agora.
Soluços percorrem seu corpo.
— Mas você podia ter morrido — ela insiste, com choro na voz. — Cada dia que passei naquele hospital, pensei que seria o seu último. E aí quando não era e você resistia, eu continuava prevendo isso mesmo assim. Semanas, meses depois, porque uma parte de mim achava que eu precisava me acostumar com a ideia de perder você. Um dia. Porque eu sabia que você ia me deixar de um jeito ou de outro. Como todo mundo.
— Mas eu não deixei — digo com desespero, sorrindo um pouco ao mesmo tempo. Eu me sento no chão e a puxo para perto de mim. — Eu não morri. Não morri porque eu sabia que você tava lá comigo o tempo todo. Porque eu sabia que nosso destino era ficar juntos, e que se você vivesse, eu também viveria.
— Mas e se você morrer? — ela pergunta.
Isso eu não esperava.
— E se o tumor voltar?
— Não vai voltar — respondo. — E mesmo se voltar, vou vencê-lo de novo. Cacete, eu fiquei oito meses sem ir ao médico e venci assim mesmo. Com você na minha vida, me atormentando pra me fazer ir aos checkups regularmente, de jeito nenhum ele vai me matar.
Ela não parece totalmente convencida disso, mas vejo um pequeno raio de esperança em seu rosto, e era isso que eu queria ver.
— Eu sinto muito mesmo — ela diz, mas em vez de dizer que não precisa, também deixo que ela viva esse momento, porque parece mais que ela está se permitindo fechar um ciclo. — Aposto que você nunca pediu pra ter um fardo absurdo desses. — Ela passa os dedos sob os olhos.
Tentando aliviar um pouco o clima, esfrego as mãos em seus joelhos nus e digo: — Eu te amaria mesmo se você fosse uma daquelas garotas que correm pro banheiro pra vomitar depois de comer, ou se tivesse o fetiche secreto de transar com um palhaço.
Ela ri baixinho em meio às lágrimas, e isso me faz sorrir.
Levanto o queixo dela com um dedo e fico sério de novo, olhando bem em seus lindos olhos azuis e úmidos.
— Camryn, Lily não tava pronta, só isso. Não sei por que, mas você não pode se culpar por ela ou por qualquer um. E você precisa entender que estamos nisso juntos. Em tudo. Acredita nisso?
Ela balança a cabeça.
— Sim.
Eu me curvo e a beijo primeiro na testa, depois nos lábios.
Segue-se o silêncio, e a atmosfera no quarto parece diferente. Mais brilhante. Eu sei que Camryn não vai voltar a ficar 100% da noite pro dia, mas posso ver que ela já está melhor. Percebo só de olhar que ela se sente menos carregada, agora que tirou essas merdas da cabeça. Ela precisava disso. Precisava de alguém para fazê-la cair na real. Não alguém indiferente, ou que desse apenas respostas prontas para tudo.
Ela precisava de mim.
Eu me levanto e pego a mão dela.
— Vem cá.
Ela me segue, pego o frasco de comprimidos da mesa ao lado da cama e a puxo comigo para o banheiro da suíte. Levanto a tampa da privada e entrego o frasco a ela. E antes que eu diga qualquer coisa, Camryn vira o frasco sem hesitação e joga os últimos quatro ou cinco comprimidos na privada.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão fraca. — Ela olha para a água enquanto os comprimidos giram no vaso e são sugados pelo cano. Depois olha para mim. — Andrew, eu podia facilmente ter ficado viciada neles. Não consigo imaginar...
— Mas você não ficou — interrompo, antes que ela fique remoendo aquilo mais. — E você tem direito a um momento de fraqueza. E chega.
Eu saio do banheiro e ando pelo quarto. Ela me segue e fica parada no meio do quarto, me olhando.
— Andrew?
Eu paro, me viro para ela e digo:
— Me dá uma semana.
Ela parece meio confusa.
— Uma semana pra quê?
Sorrio fracamente.
— Só concorda. Fica aqui comigo uma semana.
Cada vez mais confusa, ela diz:
— Hãã, tá. Vou ficar aqui com você uma semana — embora esteja estampado em seu rosto que ela não sabe com o que está concordando.
Mas ela confia, e isso significa tudo para mim. Vou dar a nós dois o que ambos precisamos, querendo ela ou não.
Camryn
16
Dia Três
Nunca pensei nem por um minuto que seria capaz de fazer o que fiz. Andrew chama de um momento de fraqueza e talvez tenha razão, mas vai levar tempo pra cacete pra que eu consiga me perdoar por aquilo.
Michelle deixou claro que não vai me julgar, e embora isso me faça sentir melhor, me sinto humilhada sempre que estou na presença dela ou de Aidan. Talvez seja por isso que eu me sinta tão mal, por eles serem tão compreensivos.
Uma semana. Nem faço ideia do que Andrew quis dizer com isso, mas estou em dívida com ele, por isso não faço perguntas e deixo que ele faça o que está planejando. Ele andou bem misterioso nos últimos dias, muitas vezes atendendo ligações em outros quartos para que eu não pudesse ouvir. Só tentei escutar uma vez, simplesmente ficando bem quieta no sofá quando ele foi para a cozinha falar com Asher. Mas então bisbilhotar assim me fez sentir culpada, por isso aumentei o volume da TV para não conseguir ouvir.
E posso ter tomado os comprimidos só por uma semana, mas pelo jeito foi tempo suficiente para eu ainda me sentir zonza três dias depois dos últimos que tomei. Me sinto mal, até mais incapaz de dormir do que antes de começar a tomá-los, mas pelo menos as dorezinhas de cabeça finalmente estão começando a desaparecer. Não consigo imaginar ficar viciada neles por meses ou anos. Sinto pena de quem fica...
Dia Quatro
Aidan entra com um pequeno maço de correspondências na mão, olhando cada uma enquanto anda pela sala.
Ele para num envelope branco por um segundo, constrangido, e o levanta, olhando para mim primeiro, até que Andrew entra na sala.
— Parece que esta é pra você. — Ele me olha de novo, mas entrega o envelope a Andrew.
Isso me dá uma sensação muito estranha, então me levanto instintivamente da espreguiçadeira e me aproximo de Andrew para ver o que é.
Pouco antes que Andrew escondesse o envelope de mim, vejo o nome de Natalie escrito nele.
Ele também sabe que eu vi.
— Não — diz Andrew, balançando a cabeça. — Vou deixar você ver outro dia. — E então ele enfia o envelope no bolso de trás do jeans.
Confio totalmente nele, mas sou humana, e uma pequena parte de mim está nervosa com essa situação toda. Por que Natalie mandaria uma carta para Andrew? Confiando ou não, a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um é se perguntar se tem alguma coisa acontecendo entre os dois. Mas isso é absurdo, e afasto essa ideia da minha mente com a mesma rapidez que ela veio.
Eles estão conspirando contra mim.
Eu só queria saber o que está acontecendo.
Dia Cinco
Falei com Natalie, minha mãe e Marna por telefone hoje. Marna tenta agir como se nada tivesse acontecido com o bebê, e é tão boa nisso quanto Michelle foi no meu primeiro dia em Chicago. Ela é tão meiga e delicada. Minha mãe, por outro lado, parece não conseguir falar de outra coisa além do meu relacionamento com Andrew. Ela me persegue sempre que pode, perguntando quando vamos nos casar, e resolveu enfiar na cabeça que vamos fazer isso do jeito que todo mundo faz. Tento dizer a ela que não quero um vestido caro, uma capela ou milhares de dólares em flores que vão murchar na semana seguinte, mas é como se ela nem me escutasse. Ela só quer que a gente se case. Talvez assim se sinta melhor com ele dormindo no meu quarto. Não faço ideia do que passa pela cabeça da minha mãe, e metade do tempo acho que nem ela sabe.
Andrew foi a um médico aqui em Chicago fazer um checkup hoje. E como toda vez que ele vai, fico até com enjoo de preocupação até que acabe. Por sorte, ele voltou com boas notícias.
Dia Seis
Falo com Natalie por telefone de novo, mas novamente não menciono o envelope. Ela também não está agindo naturalmente. É óbvio que está se esforçando para não entregar nenhum dos segredos de Andrew, o que deixa as conversas cheias de momentos silenciosos e constrangidos. Quero rir dela por ser tão péssima em agir normalmente, quando só o que ela quer é me contar tudo e dar o assunto por encerrado.
Dia Sete
Esta semana foi uma das mais longas da minha vida. Fico na cama até mais tarde porque está começando a esfriar, mas também porque estou nervosa e não consigo fazer outra coisa. Andrew se levantou há uma hora, e só o vi voltar para o quarto uma vez, para calçar os sapatos. Ele me beijou e sorriu para mim como se estivesse secretamente empolgado, e então saiu de novo sem dizer uma palavra.
Eu viro para o lado, enrolada no cobertor, e olho pela janela. O sol está brilhando hoje, e o céu está azul e sem nuvens.
Ouço os três andando pela casa.
Os sapatos de Andrew rangem sobre o chão de madeira na porta do nosso quarto. Ele abre a porta e fica na entrada, olhando para mim.
— Levanta e se veste — ele diz, com a mão ainda na maçaneta.
Eu só o olho por um segundo, achando que talvez ele vá explicar o que vamos fazer, mas ele só aponta para os meus sapatos no chão, como que dizendo calce-os, depois fecha a porta e me deixa sozinha.
Faço exatamente o que ele manda. Me levanto e visto meu jeans favorito e uma blusa folgada de tricô de mangas compridas, depois um par de meias e meus mocassins. Quando saio do quarto para a sala, vejo Michelle encolhida no canto do sofá, com um cobertor sobre as pernas, vendo TV. Ela se vira para me ver, e está com um sorriso aberto, como se soubesse algo que não sei. E com certeza sabe.
— Ele tá lá fora com Aidan — ela diz, acenando na direção da porta.
Cada vez mais nervosa, ando lentamente até a porta e a abro.
Saindo na varanda de pedra, vejo Andrew e Aidan de pé do lado da estrada, em frente à casa, com Asher, e todos eles estão encostados na lateral do Chevelle.
Por um momento eu penso: Tá, então Asher veio nos visitar, é só isso que tá acontecendo? Não que eu não fique feliz em ver Asher, mas, francamente, não é algo que eu imaginaria que fosse justificar todos esses planos de Andrew em segredo.
É o carro, percebo, mas é só isso que consigo entender sozinha. Tenho uma teoria sobre o motivo de ele tê-lo trazido para cá, mas a esta altura vou só fazer o melhor que posso para não pensar nisso.
Desço rapidamente os degraus de pedra e dou um abraço apertado em Asher.
— Você tá ótima, garota — ele diz, com aquelas covinhas e os olhos verdes e brilhantes quase idênticos aos de Andrew. Então ele me aperta e me levanta um pouco do chão.
— É muito bom te ver — digo, sorrindo.
Fico correndo os olhos dele para Andrew, que está sorrindo tanto que duvido que consiga manter o mistério por muito mais tempo.
Olho para o Chevelle e então para Asher. Olho de novo.
— Então você veio dirigindo lá de... — Tudo bem, é um pouco mais intrigante do que eu imaginava. O carro estava no Texas, até onde eu sei, e Asher estava em Wyoming. Finalmente continuo: — O que tá acontecendo?
Asher olha para Andrew, e Andrew dá um passo à frente.
— Eu pedi que Asher trouxesse o carro pra cá — ele diz.
— Mas por quê?
Asher cruza os braços e se apoia na porta de trás do carro.
— Porque ele é doido — Asher diz, rindo baixinho. — E porque não confiou num serviço de entregas pra trazer o carro.
Eu me viro para Andrew de novo, esperando que ele desembuche. Uma brisa fria atravessa minha blusa de tricô e eu enfio as mãos nas mangas.
— Você tem cinco minutos pra botar todas as suas coisas na mala — ele diz, e meu coração começa a bater descompassado antes que ele termine a frase. Ele bate no pulso sem relógio. — Nem um segundo a mais.
— Andrew...
— Isso não tá em discussão — ele diz. — Vai pegar suas coisas.
Eu só olho para ele, sem expressão.
Minha teoria estava certa, mas eu não queria que estivesse. Não quero cair na estrada... Isto é, eu quero... mas não está certo. Isso não está certo.
— Agora você tem quatro minutos — Asher diz.
— Mas a gente não pode partir assim — eu argumento. — Seria grosseria. — Aponto para Asher. — E Asher acabou de chegar. Você não quer ver...?
— Posso ver meu irmão mais velho a hora que eu quiser — Asher rebate. — No momento, acho melhor você fazer o que ele mandou, ou vai acabar na estrada, usando a mesma calcinha por uma semana.
Mais alguns segundos se passam e eu ainda não me mexi. Estou num leve estado de choque, acho.
— Três minutos, amor — Andrew diz, e está me olhando com expressão séria. — Não tô brincando. Sobe lá, bota suas porras nas malas e entra nessa merda de carro.
Cacete, ele voltou a ser como era...
Quando começo a discutir de novo, os olhos de Andrew ficam ferozes e ele diz:
— Anda logo. O tempo tá acabando! — E aponta para a casa.
Finalmente, baixando a guarda e entrando no clima tanto quanto posso me permitir, olho para ele com raiva e digo:
— Tudo bem. — Só concordo porque sei que ele está tentando melhorar as coisas. Mas me sinto culpada pra caramba.
Desconsiderando seu prazo bem-humorado de cinco minutos, giro nos calcanhares e ando muito lentamente na direção da casa, demorando de propósito, em parte minha maneira silenciosa de discordar da situação.
— Você sabia disso, Michelle? — pergunto quando passo por ela e vou para o corredor.
— Com certeza! — ela grita em resposta. Posso ouvir o sorriso em sua voz.
Abro a porta do quarto, ponho a mochila sobre a cama e começo a enfiar tudo dentro dela. Depois vou para o banheiro, pego nossas escovas de dentes e vários artigos de toalete. Arranco nossos carregadores da parede, pego meu celular do criado-mudo e enfio tudo na minha bolsa. Ando pelo quarto, torcendo para não ter esquecido nada.
Parece que Andrew já tinha feito as malas e eu nem percebi.
Em seguida fico ali, vasculhando cada centímetro do quarto, mas sem ver nada, na verdade. Não quero fazer isso, mas talvez seja o certo.
Ouço a buzina tocar três vezes e isso me arranca dos devaneios. Levantando a mochila, eu a jogo no ombro e pego minha bolsa de cima da cama.
— A gente se vê por aí! — Michelle diz do sofá.
Eu paro ao passar por ela, me curvo sobre o encosto do sofá para lhe dar um abraço desajeitado, atrapalhada pelas alças nos ombros.
— Divirta-se — ela acrescenta.
— Obrigada por nos convidar — eu digo.
Com um grande sorriso, Michelle gesticula para que eu vá, e eu saio da casa.
Quando desço os degraus, Andrew abre o porta-malas do Chevelle e eu jogo minha mochila lá dentro. Os cinco minutos que ele me deu passaram faz tempo, mas duvido que ele vá dizer alguma coisa.
— Tá pronta? — Andrew pergunta, fechando o porta-malas.
Eu respiro fundo, olho para Asher e Aidan, e antes de responder, vou abraçar os dois.
— Legal você ter vindo — diz Aidan.
— Vê se bota meu irmão na linha — Asher recomenda.
Sorrio para os dois, me sento no banco do passageiro e Andrew fecha a porta para mim.
Os três se despedem. Um minuto depois, Andrew se senta no banco do motorista, e uma lufada de ar frio entra no carro junto com ele.
Ele me olha.
— Então, vai ser assim — ele diz, apoiando os pulsos no volante. — A gente vai pro sudeste, pro litoral...
— Peraí — interrompo —, você planejou tudo? — Isso é tão fora do estilo dele. Me deixa cismada.
Andrew sorri suavemente e diz:
— Em parte. Mas é necessário.
— Que parte é necessária?
Ele me olha como que dizendo: Vai me deixar terminar?
Fico quieta e deixo que ele continue, enquanto ele se debruça e abre o porta-luvas.
— A gente vai pro sul, vamos ficar no litoral durante o inverno todo — ele diz, e agora só consigo me perguntar quanto tempo ele planeja ficar na estrada. O inverno todo? Não consigo entender que diabo de ideia é essa. Ele saca um mapa e o desdobra sobre o volante. Olho para ele, desconfiada. — Odeio o frio. Seguindo o litoral e indo mais pro sul na época certa, a gente vai evitar quase toda a neve e merdas assim.
Tá, o plano é bom, admito. Também não aguento o clima frio, portanto, sim, essa parte é necessária mesmo. Concordo com a cabeça e deixo que ele continue.
Andrew aponta para o mapa gigante e começa a correr o dedo pelo nosso itinerário.
— Vamos começar no litoral da Virgínia e ir pro sul, passando pelo seu estado, mas nada de parar pra visitar. — Ele aponta para mim. — A gente tá só de passagem, certo? — Ele espera a minha resposta.
Concordo com a cabeça novamente e digo:
— Certo — porque com certeza há um método em sua loucura, e sinto que devo concordar com ele.
Ele olha de novo para o mapa e volta a correr o dedo pelo papel.
— Depois, pela Carolina do Sul até a Geórgia, e aí vamos percorrer toda a costa da Flórida, da praia de Fernandina — seu dedo faz uma longa curva pelo papel — indo até Pensacola.
— Quanto tempo tudo isso vai levar?
Ele sorri e balança a cabeça para mim.
— Isso importa? — Então ele dobra o mapa desorganizadamente e o joga no banco, entre nós. — Eu decido a direção, desta vez. Sobretudo porque não quero morrer de frio. Mas... — Ele se vira de novo e olha para a frente, tirando os olhos de mim — Bom, é assim que precisa ser.
— Por que a gente tá fazendo isso, Andrew?
Seus olhos pousam em mim mais uma vez.
— Porque é o certo — ele responde, com um olhar profundo. — Porque você tá no carro.
Suas palavras me deixam confusa.
— Porque eu tô no carro?
Ele balança a cabeça discretamente.
— Sim.
— Mas... o que isso significa?
Seus olhos verdes se abrandam com o sorriso, ele estende a mão e segura o meu queixo. Ele beija meus lábios e diz:
— Você podia ter lutado com unhas e dentes. Podia ter me mandado à merda quando falei pra pegar nossas coisas. Mas você não fez nada disso. — Ele me beija devagar mais uma vez, e o gosto de hortelã do seu hálito fica em meus lábios. — Você não entrou correndo naquela casa porque eu mandei, foi porque era o que você queria. Você nunca fez nada só porque eu mandei, Camryn. Eu sou só um chute no seu traseiro, mais nada.
Tento disfarçar o sorriso que está se abrindo em meu rosto, mas não consigo. Ele se curva, aperta os lábios na minha testa e se endireita no assento. O motor ronrona agressivamente por um momento quando o pé dele aperta o acelerador.
Ele tem razão. Tudo o que ele já me mandou fazer, mesmo quando reclamei, eu jamais teria feito se uma parte de mim não quisesse. Fico intrigada em ver como ele sempre sabe coisas sobre mim antes que eu saiba.
Andrew
17
ACHO QUE ONTEM, em Chicago, foi a primeira vez que não consegui prever a reação de Camryn a uma das minhas exigências. Minha garota estava arrasada. Isso me deixava mais apavorado a cada dia, a pessoa que ela estava se tornando. Corri um risco ligando para Asher naquela noite e pedindo que ele dirigisse o Chevelle até Chicago. Eu não sabia o que Camryn ia fazer e, para dizer a verdade, temi que ela se recusasse a ir. Por causa da culpa. Ei, odeio termos perdido a nossa Lily. Daria um braço ou uma perna para tê-la de volta. Mas o que está feito está feito, e ficarmos parados nos afogando em sofrimento e nos recusando a fazer o que nos deixa felizes por qualquer motivo é uma puta duma bobagem. É assim que você se mata. Um suicídio lento e doloroso. Se Camryn recusasse, eu a carregaria sobre o ombro, esperneando e gritando, e a jogaria no banco de trás do carro. Porque essa é a nossa vida. Nós nos encontramos na estrada; nos conhecemos e aprendemos a nos amar na estrada. É onde devemos estar pelo tempo que for, e é o que vamos fazer até que fique claro que deveríamos fazer outra coisa.
As primeiras 14 longas horas de nossa viagem são calmas e silenciosas. Eu dirijo de Chicago até Virginia Beach ouvindo rádio, ou meus CDs quando não encontro uma estação decente. Camryn, embora sorria e fale sobre as coisas que vemos da estrada, ainda não voltou ao normal, mas vai chegar lá. Pode levar alguns dias, mas vai começar a cair na real.
As praias da Costa Leste são diferentes das do Texas. São mais limpas, e aqui a água parece água do oceano de verdade, e não a água barrenta e turva do Golfo em Galveston.
Já é quase noite. Vimos o sol se pôr no horizonte quando chegamos a Virginia Beach, e foi a primeira vez que vi aquela faísca nos olhos de Camryn, desde que ela perdeu o bebê. Se eu soubesse que um crepúsculo podia fazer isso, já a teria levado para ver um há muito tempo.
— Então, a gente vai pedir quartos separados? — ela pergunta quando saímos do carro no estacionamento do nosso primeiro hotel.
Percebo que ela está brincando, mas aposto que não espera que eu entre na brincadeira.
— É exatamente o que vamos fazer. — Eu abro o porta-malas e jogo nossas mochilas nos ombros.
— Tá falando sério? — Ela está chocada, e é engraçado.
Eu represento o melhor que posso. Nunca me passou pela cabeça pedir quartos separados, mas agora que ela mencionou isso, não acho tão má ideia.
Fecho o porta-malas e nós entramos no saguão do hotel.
— Andrew, acho que a gente já passou dessa fase.
— Dois quartos contíguos para não fumantes, por favor, se tiver.
A recepcionista digita o pedido em seu computador. Eu ignoro Camryn a maior parte do tempo, mexendo na minha carteira à procura do cartão de crédito.
— Andrew?
— Não tenho dois quartos contíguos — a mulher diz —, mas tenho dois que ficam um de frente pro outro no corredor.
— Pode ser — eu digo.
Camryn sussurra:
— Não acredito que você vai gastar dinheiro com dois quartos quando a gente já fez sexo milhares de vezes... — Camryn não para de falar, enquanto a recepcionista nos olha disfarçadamente como se fôssemos loucos. Adoro essa expressão no rosto das pessoas, esse ar surpreso de “não acredito que você disse isso”.
— Por favor, fique quieta — eu digo, me virando para Camryn. — Eu vou pro seu quarto e te como rapidinho, não se preocupe. Então para de dar espetáculo.
Camryn arregala os olhos tanto quanto a recepcionista.
Pego Camryn pela mão e a puxo para a saída do saguão.
— Espero que apreciem sua estada — a recepcionista diz em tom estupefato enquanto vamos para o elevador.
Camryn cai na gargalhada assim que as portas do elevador se fecham.
— O que foi aquilo?! — ela pergunta, incapaz de se conter. — Parecemos dois adolescentes imaturos!
— Mas você tá rindo — eu comento. — Portanto, a imaturidade valeu totalmente a pena.
O elevador para no segundo andar e nós saímos no corredor.
— Mas, sério, Andrew, por que quartos separados?
Provando mais ainda que a espontaneidade tem mesmo um propósito, eu penso no que pedi que Natalie enviasse a Chicago, enquanto andamos pelo corredor. Paramos no meio dele, diante dos nossos quartos, e eu jogo as mochilas no chão verde acarpetado.
— Só por esta noite — respondo, enfiando a mão na mochila para procurar o envelope.
Camryn fica perto de mim, assistindo a tudo em silêncio. Percebo que ela quer dizer alguma coisa, mas não tem certeza, nesse momento, do que poderia ser.
Eu endireito o corpo com o envelope na mão. Ela olha para ele, mas não sabe ao certo quais são as minhas intenções.
— Esta noite você vai ficar sozinha no seu quarto — eu digo e entrego o envelope a ela.
Ela parou de sorrir assim que tirei o envelope da mochila. Agora só consegue olhar para mim, confusa e intrigada.
Cuidadosamente, ela estende a mão e pega o envelope, ainda insegura com relação a tudo, talvez até quanto a querer ou não saber o que há dentro dele.
Eu passo o cartão na fechadura do quarto de Camryn e abro a porta, levando a mochila dela para dentro. Ela me segue, vários passos atrás, muda e desconfiada, com o envelope entre os dedos relutantes. Deixo a mochila dela sobre o balcão da TV e verifico o quarto, como sempre faço. Ligo e desligo as luzes e testo o aquecedor antes de puxar os lençóis para ver se estão limpos. Lembrando que Camryn tem fobia de colchas de hotel, eu a arranco completamente da cama e a jogo no chão, num canto do quarto.
Ela fica perto do pé da cama, imóvel.
Eu me aproximo e fico na frente dela. Olho-a nos olhos e observo o modo como ela retribui meu olhar. Passo o indicador por sua sobrancelha e pelo lado de seu rosto e sinto o calor de sua pele sob o meu toque. Eu a quero. Quando seus olhos baixaram para os meus lábios, isso desencadeou algo predador em mim. Mas eu controlo meus impulsos, pelo seu bem. Esta noite, se tudo der certo, um ciclo vai se fechar.
— Cam foi ao funeral — Natalie me disse pelo telefone no dia em que liguei para ela da casa de Aidan. — Mas chegou tarde, ficou bem no fundo, perto da porta, e foi embora antes que a cerimônia terminasse. Ela se recusou a ir até o caixão.
— Alguma vez ela falou com você a respeito disso? — perguntei.
— Nunca — Natalie disse. — E sempre que tentei abordar o assunto, o funeral, o acidente, qualquer coisa, ela não me deixou continuar.
Esta noite vai ser dura para Camryn, mas se ela não enfrentar isso, nunca vai melhorar.
— Você sabe onde estou — sussurro suavemente, deixando minhas mãos caírem dos seus braços. — Vou ficar acordado a noite toda. Comecei a compor outra canção ontem e quero muito trabalhar nela enquanto tá fresca na minha mente. — Aos poucos, mas sempre, estamos compondo material próprio, especialmente desde a viagem a Chicago; e depois da noite em que tocamos no bar de Aidan, Camryn mostrou interesse por isso, por algum motivo.
Camryn balança a cabeça e sorri fracamente por baixo da expressão de preocupação em seu rosto, preocupação com o que se esconde dentro do envelope.
— E se eu não quiser ficar neste quarto sozinha? — ela pergunta.
— Tô pedindo pra você ficar — insisto com firmeza. — Só por esta noite.
Não quero dizer mais do que isso, mas espero que a sinceridade no meu rosto faça o que palavras poderiam fazer.
— Tá bom — ela concorda.
Eu a beijo de leve nos lábios e a deixo sozinha no quarto.
Só espero que esse tiro não saia pela culatra.
Camryn
Andrew me deixa no quarto. Sozinha. Não gosto disso, mas aprendi a lhe dar ouvidos nos curtos cinco meses que passamos juntos. Cinco meses. Isso me espanta cada vez que lembro, porque parece mais que estamos juntos há cinco anos, depois de tudo o que enfrentamos. Às vezes penso no meu ex, Christian, o namorado infiel que arranjei para preencher o vazio deixado por Ian, e com quem fiquei por quatro meses. A gente mal se conhecia. Pensando bem, agora não consigo nem lembrar o dia do seu aniversário ou o nome de sua irmã, que morava a duas quadras da casa dele.
É totalmente outro mundo com Andrew.
Em cinco meses, me encontrei com ele, me apaixonei total, incondicional e loucamente, aprendi de verdade a viver, conheci praticamente toda a sua família e logo me senti parte dela, enfrentei uma jornada desafiando a morte com Andrew, fiquei grávida e noiva. Tudo em cinco meses. E agora aqui estamos, enfrentando mais uma dificuldade. E ele continua comigo a cada passo. Fui idiota e fraca e tomei comprimidos, e ele continua aqui. Eu me pergunto se existe alguma coisa que eu possa fazer que seria tão horrível a ponto de ele me abandonar. Algo no meu coração diz que não, não existe nada capaz disso. Nada mesmo.
Nunca vou entender, enquanto eu viver, como tive a sorte de ficar com ele.
Durante esse momento de reflexão, noto que meus olhos não desviaram da porta por onde ele saiu. Finalmente, olho para o envelope na minha mão, e não sei por quê, mas fico com medo de pensar no que há dentro dele. Pensei nisso muitas vezes esta semana. Uma carta? Se for, do que poderia falar? E para quem seria, e de quem? Por que Natalie me escreveria uma carta? Por que ela escreveria para Andrew?
Nada disso faz nenhum sentido.
Eu me sento no pé da cama, deixando minha bolsa cair no chão ao meu lado, e passo os dedos pelo contorno do que está dentro do envelope. Mas já fiz isso algumas vezes esta semana e continuo chegando às mesmas conclusões: é um papel, meio grosso, dobrado duas ou três vezes. Não tem nenhuma saliência, nem mesmo algum relevo dentro. É só papel.
Eu suspiro e faço menção de soltá-lo, mas continuo segurando. Não sei por que não abro essa droga de uma vez. Está me deixando meio maluca há uma semana, e aqui estou eu, finalmente capaz de desvendar o segredo de uma vez, abrindo-o, mas tenho medo demais.
Deixo o envelope na cama e me levanto, cruzando os braços e olhando para ele com o canto do olho enquanto começo a andar pelo quarto. Me sinto ameaçada por ele, como se fosse pular em mim e cravar as garras na minha perna quando passo perto. Como aquela gata psicótica que minha tia Brenda tem. Até começo a mexer na minha bolsa, procurando o celular para ligar para Andrew e fazê-lo contar por que tudo isso, até que me dou conta de como isso seria idiota.
Finalmente, eu pego o envelope e, depois de uma longa pausa, sentindo seu peso leve em minha mão, passo a ponta do dedo pela aba colada para soltá-la. Depois de tentar romper o lacre cuidadosamente e não conseguir, mando tudo à merda e rasgo o resto de alto a baixo. Jogo o envelope esfarrapado na cama e desdobro o papel de carta, vendo que a maior parte dele está em branco. Foi usado apenas para esconder a fotografia que tem dentro. Olhando para o verso da fotografia, primeiro me recuso a virá-la para ver o que há do outro lado. Em vez disso, leio a letra de Natalie no meio do último pedaço de papel:
Esta foi a melhor que eu achei.
Espero que ajude no que você está tentando fazer, seja o que for.
Sinceramente,
Natalie
Viro a fotografia e meu coração afunda como uma pedra quando vejo o rosto vibrante e sorridente de Ian me olhando. Minha bochecha está encostada na dele, olhando para a câmera. As luzes coloridas dos brinquedos do Parque Estadual da Carolina do Norte iluminam a noite ao fundo, atrás de nós. Como se eu tivesse caído num lago congelado, ver seu rosto me deixa totalmente sem fôlego. Lágrimas brotam instantaneamente dos meus olhos, e eu deixo a foto cair dos meus dedos sobre a cama. As duas mãos sobem ao meu rosto, onde os dedos cobrem meus lábios trêmulos.
Como posso me permitir chorar por ele?! Por que isso está acontecendo?!
Eu me desfiz de todas as fotos de Ian por um motivo. De todas. Deletei cada arquivo com fotos digitais nossas, tirei seu nome do meu celular. Até joguei fora o criado-mudo que eu tinha desde criança, porque Ian entalhara IAN AMA CAMRYN na madeira por baixo dele. Tentei tirar da minha vida cada coisa que me fizesse lembrar dele, o melhor que pude, porque doía demais saber que tudo o que me restava dele eram coisas materiais. Eu não podia fazer muita coisa com as lembranças, mas me esforcei ao máximo para esquecê-las também.
Por que Andrew faria isso comigo? Trazer toda essa dor de volta à minha vida, e ainda por cima tão pouco tempo depois de perdermos Lily?
Uma parte de mim quer berrar com Andrew, sair marchando pela porta, cruzar o corredor até seu quarto e lhe dizer o quanto isso dói. Mas minha razão me alcança rapidamente. Eu sei por que ele fez isso. Eu sei por que ele me colocou neste quarto, sozinha, com esta foto. Porque ele me ama tanto que está disposto a me devolver Ian só por uma noite, para que eu possa finalmente aceitar a perda dele.
Mas não consigo olhar essa droga de foto! Não consigo!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, pego meu suéter grosso da mochila e enfio os braços de qualquer jeito nas mangas. E então saio correndo do quarto e vou para o elevador.
Segundos depois, estou sentada na areia fria da praia, olhando para o oceano sem fim.
Andrew
18
EU ME PERGUNTO se ela vai abrir. Cacete, me pergunto se ela vai me odiar por fazer isso com ela, mas se isso vai ajudá-la, aceito a barganha.
Aperto o botão de ligar do controle remoto e uma velha reprise de Seinfeld preenche o silêncio do meu quarto. Tiro os sapatos e entro no chuveiro, deixando a água quente bater em mim até ela começar a sair morna. Só consigo pensar no que Camryn está fazendo, sozinha no seu quarto, se está olhando para aquela foto de seu ex-namorado morto, e se está se aguentando. Quero ir lá ajudá-la, mas sei que é algo que ela precisa fazer sozinha. Algo que ela deveria ter feito há muito tempo, antes que nos conhecêssemos.
Depois de me enxugar, enrolo a toalha na cintura e remexo na mochila sobre a cama, procurando uma cueca. Eu me sento, olho fixamente para a TV, depois para a parede, depois para a TV de novo, até que me dou conta de que estou só tentando fazer qualquer coisa para parar de pensar em Camryn.
Deixo meu MP3 tocar umas cinco músicas aleatórias em meus ouvidos antes de decidir que preciso ao menos ver como ela está. Tento seu celular primeiro, mas ela não atende. Então uso o telefone do hotel e tento ligar para o quarto dela. Ainda sem resposta. Talvez ela esteja apenas tomando banho. Tento me obrigar a acreditar nisso, até que meu instinto fala mais alto. Visto meu jeans e uma camisa de manga comprida e atravesso o corredor até seu quarto. Encosto o ouvido na porta, tentando ouvir o chuveiro ligado. Nada. Por isso passo o cartão extra na porta para destrancá-la.
Ela não está ali. Meu coração acelera enquanto entro no quarto. A primeira coisa que noto é a fotografia, que na verdade eu nem tinha visto ainda, sobre a cama. Eu a pego e a estudo por um instante. Camryn parece tão feliz nela. Essa é a Camryn que eu conheci, aquela com um sorriso lindo e cheio de energia. Me lembro desse sorriso. Eu o vi dezenas de vezes quando estávamos na estrada juntos.
Entrando em pânico, tiro os olhos da foto e vou para a janela. Olho para o oceano negro lá fora e vejo algumas pessoas andando pelo calçadão. Com a foto ainda na mão, volto rapidamente para o meu quarto e calço os sapatos, deixando-os desamarrados enquanto saio e vou para a praia. O ar frio não é insuportável, mas é suficiente para me fazer pensar que fiz bem em usar mangas compridas. Procuro qualquer sinal dela, olhando de um lado para o outro no calçadão e nas cadeiras de praia perto do hotel, mas ela não está em lugar nenhum. Enfiando a foto no bolso de trás da calça, começo a correr um pouco e rumo para a praia.
Eu a encontro sentada na areia, não muito longe.
— Porra, amor, você me deixou apavorado.
Eu me sento ao lado dela, passando um braço ao redor do seu corpo.
Ela olha para o oceano, o vento gelado atravessando seu cabelo louro. Não olha para mim.
— Desculpa. Eu só queria...
— Eu te amo, Andrew — ela interrompe, mas continua com o olhar fixo à sua frente. — Não sei como uma garota pode ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo.
Sem saber aonde ela quer chegar com isso, tenho medo de dizer alguma coisa porque não quero dizer a coisa errada. Eu a aperto mais para compartilhar o nosso calor. E não digo uma palavra.
— Não tô brava com você — ela continua. — Primeiro fiquei, mas quero que saiba que não tô mais.
— Me fala o que você tá pensando — peço baixinho.
Ela ainda não desviou o olhar da escuridão à sua frente. As ondas mal lambem a praia a alguns metros de nós. Um pontinho branco, a luz de um barco, se move no horizonte.
De repente, sinto que Camryn está me fitando e me viro para olhá-la também. A luz dos prédios atrás de nós e do luar é suficiente apenas para mostrar seus traços suaves, os cachos do seu cabelo soprados sobre sua face fria. Eu afasto alguns fios dos seus lábios. Seu olhar se abranda quando ela me encara e diz:
— Eu amava Ian, amava muito. Mas não quero que você pense...
Eu balanço a cabeça.
— Camryn, não faz isso. Não estamos aqui pra falar de mim, tá? — Eu enfio o dedo em outro cacho do seu cabelo e o afasto da sua boca. — Não fale de mim.
Ela para por um momento, e sinto sua mão no meu colo e meus dedos se entrelaçando com os seus.
Camryn volta a olhar o oceano.
— Eu não queria ir ao funeral de Ian — ela me conta. — Não queria vê-lo pela última vez daquele jeito. — Camryn me olha. — Lembra aquele dia, no seu apartamento, quando cheguei e você tava falando ao telefone com Aidan, quando ele tava tentando te convencer a ir ao funeral do seu pai?
Balanço a cabeça.
— Lembro, sim.
— Você disse uma coisa pra ele, disse que preferia que a última vez que você visse alguém, que ele estivesse vivo, não morto, deitado num caixão. Bem, era isso que eu pensava do funeral de Ian. Eu não queria ir. Foi por isso, também, que eu não quis ver Lily. Por isso escolhi a cremação.
— Mas você foi. Ao funeral de Ian. — Eu evito o assunto de Lily por enquanto. É um caso mais doloroso. Para nós dois. Eu a vi. Era tão pequena que caberia na palma da minha mão. Mas Camryn se recusou a olhar.
Ela balança a cabeça.
— Não exatamente — ela explica, a respeito do funeral de Ian. — Eu tava lá, mas não tava. Minha maneira de me desapegar dele foi tirá-lo da minha mente, cada palavra que ele já me disse, seu rosto; tudo o que eu podia apagar, eu apaguei. Só fui porque era o que todos esperavam de mim. Se eu não estivesse tão preocupada com o que todos fossem pensar de mim, teria ficado em casa naquele dia.
— Mas isso não fecha o ciclo — digo cautelosamente. — É a mesma coisa que varrer a sujeira pra baixo do tapete. Ela continua lá. Você sabe que tá lá. E aquilo vai ficar te incomodando até você fazer certo.
— Eu sei — ela diz.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, eu enfio a mão no bolso de trás e tiro a foto.
— Sabe, se ele ainda estivesse vivo, eu ficaria com um pouco de ciúme. Até que, pra um cara, ele é gato.
Camryn sorri para mim e noto que seu olhar mal pousa na foto.
Eu a deixo na areia perto dos nossos joelhos. Então fico sério de novo.
— Camryn, isso que tá acontecendo com você, os comprimidos e tudo mais, não é só por causa da perda da Lily. Você sabe disso, não sabe?
Ela não responde, mas percebo que está pensando muito no que eu falei.
— Você bloqueia tudo. Ian. Lily. De acordo com Natalie, até a morte da sua avó, o crime de Cole, e o fato do seu pai ter ido embora e parecer se importar mais com a nova namorada do que com você. — Digo as coisas como elas são porque é exatamente assim que precisam ser ditas. — Em vez de lidar com tudo isso, chorar, o que for, você só bloqueia essas merdas e espera que desapareçam sozinhas. Você já tava fazendo isso bem antes da gente se conhecer. Mas precisa saber que tudo se acumula, e um dia você desmorona e cai num abismo.
— Sei. Você tem razão, como sempre — ela concorda desconsoladamente.
— Você acredita nisso ou tá concordando só pra me fazer calar a boca? — Abro um sorriso para ela, esperando receber outro em troca.
E funciona.
Ela sorri e diz:
— Não, eu acredito mesmo. Só queria ter acreditado nisso antes.
— Por que acredita agora?
— Porque você é uma espécie de filósofo com tatuagens. — Ela ri, e isso espalha calor pelo meu sangue.
Não acredito que ela está rindo. De início, imaginei que fosse levar muito tempo para Camryn aceitar tudo isso, mas ela me surpreende a cada dia.
— Um filósofo? — digo. — Exagerada. Mas aceito o elogio.
Camryn se vira de lado e deita a cabeça no meu colo. Ela olha para mim com aqueles olhos azuis de corça, e não consigo deixar de tocar seu rosto macio.
— Quer saber a verdade? — ela pergunta.
— Claro — respondo, mas fico um pouco ansioso, de repente.
— É como te falei na casa de Aidan — ela continua. — Se um dia eu perdesse você, logo você, isso seria o fim pra mim. Quando tive o aborto, isso fez todos os meus medos voltarem. De perder você. Foi como se aquele instante de tragédia me fizesse lembrar de novo da morte, e com que rapidez ela pula em cima de uma pessoa. Se Deus, a natureza, ou sei lá quem ou que porra controla tudo, pode ser cruel e desalmado a ponto de matar o meu bebê, então Ele pode te matar também, sem pensar duas vezes. Isso me apavora, Andrew. A ideia de perder você me mata por dentro. E como já quase te perdi uma vez, o medo fica muito pior.
— Mas eu já te disse...
Ela se levanta do meu colo e fica sentada na minha frente, com os joelhos enterrados na areia.
— Eu sei o que você disse — ela interrompe. — Mas não importa o que você pensa, ou você saber dizer todas as coisas certas pra me fazer sentir melhor. Você não tem certeza do que vai acontecer, Andrew. O tumor pode muito bem voltar, e apesar de tudo o que fazemos, de todas as precauções que tomamos, ele pode te matar.
Eu começo a discordar, mas ela está tão empenhada em me dizer essas coisas que sei que preciso deixar.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu — ela continua — e agora posso te olhar nos olhos e dizer que, por mais que isto doa, consigo aceitar a morte de Ian. Consigo aceitar a morte de Lily. Consigo aceitar a morte de qualquer um, mesmo que essa morte seja insuportavelmente dolorosa. Mas a sua... — Ela se interrompe e nem pisca ao olhar no fundo dos meus olhos. — A sua eu jamais poderia aceitar. Jamais.
O silêncio entre nós só amplifica o som do oceano. Quero pegá-la nos braços, apertar meus lábios contra os dela, mas fico sentado ali, olhando para ela, porque as palavras que ela me disse são as mais poderosas que já ouvi, senti ou entendi.
Finalmente, eu a pego em meus braços e a ponho no meu colo. Passo os braços pelas suas costas, fito seus olhos e digo:
— Acredito em você e sinto a mesma coisa.
Ela inclina um pouco a cabeça para o lado.
— Mesmo?
— Sim. Camryn, não consigo viver sem você. Eu poderia tentar, mas ia ser uma existência péssima. Isso não vale só pra mim; você pode morrer amanhã tão facilmente quanto eu. Ninguém tá imune.
Ela não discute, mas desvia o olhar por um breve momento.
Eu seguro seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me olhar. Sua pele está gelada.
— A gente precisa viver no presente, lembra? — eu digo e ela volta a prestar atenção em mim. — Precisamos fazer um pacto, você e eu, agora mesmo. Topa fazer um pacto comigo? — Movo um pouco minhas mãos para aquecer suas orelhas geladas.
Ela concorda com a cabeça.
— Tá — diz, e fico feliz por ela confiar em mim o suficiente para não fazer perguntas antes de concordar.
Tirando uma mão de sua orelha, passo as pontas dos dedos na sua testa e pelos lados de suas bochechas.
— Não podemos controlar a morte. Nenhum dos dois pode fazer nada pra evitá-la ou adiá-la. Só o que podemos controlar é como vamos viver nossas vidas antes que ela nos alcance. Portanto, vamos prometer um pro outro coisas que possamos cumprir, haja o que houver.
Camryn concorda com a cabeça e sorri um pouco.
— Que tipo de coisas? — ela pergunta.
— Qualquer coisa. Tudo o que a gente quiser um do outro. Tipo... — Eu me levanto da areia e enfio as mãos nos bolsos. Olho para o oceano, vasculhando minha mente em busca da melhor promessa para começar. Só consigo pensar numa coisa no momento, por isso me viro novamente para ela, levanto o dedo indicador e digo: — Isto não tem nada a ver com o tumor, nem com nada específico, mas quero que você me prometa que, se algum dia estiverem me mantendo vivo por aparelhos, por qualquer motivo, e você sentir no fundo do coração que eu não vou melhorar, se você sentir que eu tô sofrendo, vai mandar desligar os aparelhos.
Seu sorriso desaparece, e ela me olha como se eu tivesse estragado o momento. Eu estendo os braços e a pego pela mão, fazendo-a levantar comigo.
— Não tô tentando ser mórbido. É só uma coisa que sempre me incomodou, sabe? Você vê isso na TV e nos filmes. O cara fica ligado a todo tipo de aparelho que a ciência já inventou pra se manter vivo porque a família tem esperança ou qualquer coisa assim. Nada contra ter esperança, mas, porra, aquilo me dá um puta medo. — Eu seguro seus braços delicadamente. — Nunca me deixe viver como um vegetal. Me prometa isso. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa, e confio que você vai saber quando tiver chegado a minha hora. Então prometa.
Aos poucos, ela começa a entender. Leva um segundo, mas ela começa a concordar com a cabeça.
— Me promete a mesma coisa — ela pede.
Eu sorrio e digo:
— Tá prometido.
Ela dá um passo para trás e enfia as mãos nas mangas. Apertando bem o suéter ao redor do corpo, ela começa a andar de um lado para o outro.
Ela para e me olha.
— Promete que se um dia eu tiver mal de Alzheimer ou ficar senil e não me lembrar de ninguém, você vai me visitar todo dia e ler pra mim, como Noah lia pra Allie.
— Quem? — eu pergunto, mas aí a ficha cai. — Aaaah, entendi. — Eu rio dela e concordo com a cabeça.
Seus olhos e seu sorriso aumentam e ela grita:
— Andrew! Não tem graça! Tô falando sério! — Ela ri e eu a agarro, puxando-a para os meus braços.
— Tudo bem, tudo bem! — eu me rendo, apertando seu corpo que se retorce contra o meu.
— A ideia foi sua — ela acusa —, então não faz piada.
— Eu sei. Você tem razão, mas... é sério? Precisa ser tão fã assim de Diário de uma paixão?
Sinto o cotovelo dela atingindo meu estômago e me curvo um pouco e exagero a dor que isso me causa, contorcendo o rosto com a agonia e o riso. Para me humilhar de vez, Camryn me dá um empurrão e me derruba na areia. Depois fica por cima de mim, com um pé de cada lado do meu peito e as mãos na cintura, toda autoritária. Mantenho uma mão na barriga, rindo e tentando ficar sério, embora eu saiba muito bem que não consigo enganá-la.
— Só você pra fazer piada num momento tão sério. — Ela reclama tão seriamente que isso só me faz rir mais, sobretudo pela dificuldade dela em ficar de cara fechada.
Ela começa a se sentar em cima de mim, e provavelmente vai tentar me bater com suas mãozinhas delicadas, mas eu a seguro antes que ela comece, meto a mão no meio das pernas dela e aperto com toda a força.
— Aaaaaii! — Camryn geme, e começa a desabar, mas eu a mantenho na posição. — Que ideia é essa de apertar minhas paaarrr... porra, Andrew! Apertar minhas partes?!
Faço mais pressão e levanto aos poucos as costas da areia, guiando-a para trás. Ela fica de joelhos olhando para mim.
— Porque eu gosto — sussurro sobre seus lábios. — Agora fica parada.
O clima entre nós muda em questão de segundos. Sua pele fria fica mais quente; seus olhos, arrebatados; seu corpo, conivente.
— Tem gente aqui... — ela tenta dizer baixinho, mas minha mão apertando-a no meio das pernas lhe rouba a voz.
— Não me importa — retruco, examinando seus olhos primeiro e então seus lábios úmidos e inchados. — Eles estão longe.
— Mas... o que você tá fazendo...
— Só fica parada. Quieta. — Eu passo a língua sobre seu lábio inferior e o chupo delicadamente. Sinto que ela tenta me beijar, mas não deixo. Eu puxo o tecido de sua calça e enfio a mão dentro da cintura folgada para achar o seu calor. Caramba, ela já tá molhada. Me curvando sobre o seu pescoço, fecho os olhos e inalo o cheiro de sua pele. Ela fica bem imóvel, mas posso sentir seu corpo tremendo e seu coração batendo forte sob o meu toque. Quero tanto comê-la. Mas não vou fazer isso ainda, porque gosto de me torturar. Adoro, porra.
Minha mão livre solta sua cintura e eu a ponho em sua coxa, forçando-a a abrir mais as pernas.
— Abre — eu instruo, com meus lábios roçando nela, e Camryn faz exatamente o que eu mando, afastando os joelhos na areia. Ela fica um pouco tensa quando percebo um homem andando não muito longe, mas eu a aperto de novo, enfiando dois dedos nela e obrigando-a a olhar só para mim. Ela geme e eu estremeço silenciosamente, sentindo suas entranhas se apertando em volta dos meus dedos. Encaro seus olhos, os meus de vez em quando se perdendo no estudo da curvatura de sua boca. — Não tira os olhos de mim — digo. — Não me importa se você sentir que precisa fechar os olhos. Não feche. Continue me olhando.
Ela balança um pouco a cabeça, como se temesse que eu vá parar se ela fizer errado.
Mexo os dedos para dentro e para fora dela, lentamente de início, tirando-os e usando seu gozo para manter seu clitóris úmido, esfregando meu dedo médio sobre ele num movimento circular. Cada vez que a toco, seus olhos começam a se fechar, mas eu paro assim que percebo, e ela volta a controlar o olhar. Mexo meus dedos dentro dela de novo, um pouco mais rápido, e com o polegar faço cada vez mais pressão no seu clitóris. Pequenos gemidos escapam de seus lábios abertos, chupando o ar gelado ao nosso redor e meu hálito quente à medida que fico mais ofegante em sua boca. Mas ela nunca tira os olhos dos meus e não fala, embora eu saiba que ela queira fazer tudo isso.
— Admite uma coisa — sussurro no ouvido dela. — Neste momento, você não estaria nem aí se alguém estivesse olhando. Não é verdade? Me deixaria foder você aqui, na frente de todo mundo, e se preocuparia com a vergonha só depois que eu terminasse.
Sinto sua cabeça balançando perto da minha.
— O que mais você me deixaria fazer? — pergunto e mantenho os lábios perto do ouvido dela. Continuo mexendo os dedos.
— Tudo o que você quisesse — ela diz, com um gemido na voz.
— Tudo o que eu quisesse? — Eu esfrego meu polegar com mais força no seu clitóris.
— Tudo... — ela diz e perde um pouco o fôlego. — Qualquer porra que você quisesse...
Suas palavras, sua voz carregada de desejo, me deixam louco de tesão por ela, e meu pau está tão duro que mal consigo aguentar. Enfio os dedos com mais força e mais rápido. Seu corpo começa a tremer, suas coxas balançam tentando levantar o corpo. Eu me afasto do ouvido dela e a fito de novo. Ela mantém o olhar fixo no meu o melhor que pode, suas pálpebras estão ficando mais pesadas; sua respiração, irregular e ofegante. Mas seus olhos ficam arregalados e imóveis quando atinjo aquele ponto especial, e tomo cuidado para não interromper o ritmo.
— Não tira os olhos de mim — digo e continuo a olhá-la ferozmente.
Quando ela começa a gozar, meu olhar só fica mais forte, perfurando o dela num momento de luxúria faminta. É como se eu conseguisse ver o prazer emanando de suas íris, o calor do seu orgasmo saindo da pele sensível dos seus lábios, que querem beijar os meus tão selvagemente, mas mesmo assim eu não deixo. Quando seu corpo trêmulo começa a se acalmar, enfio os dois dedos mais fundo, sentindo-a se estreitar ao redor deles, o tempo todo mantendo a pressão no seu clitóris.
Ela desaba sobre o meu peito.
Eu envolvo seu corpo trêmulo nos braços e beijo o alto da sua cabeça.
— O que você tá fazendo comigo, caralho? — ela diz.
Eu rio um pouco e a abraço mais forte.
— Qualquer porra que eu quiser — respondo astutamente.
Erguendo a cabeça do meu peito, ela olha para mim.
— Bom, pode dizer o que quiser, mas não vai me fazer gozar desta vez sem que eu retribua o favor.
— Ah, é?
— É isso mesmo, por isso nem tenta.
— O que você vai fazer comigo, então? — Eu sinto o meu sorriso aumentando.
— Qualquer porra que eu quiser — ela diz, com um sorriso ainda maior e mais malicioso que o meu.
Então ela fica de pé e, segurando minha mão, me faz levantar com ela.
— Mas não aqui fora — ela diz. — Tá esfriando demais.
— Você que manda — digo, deixando que ela me puxe.
Eu jamais tocaria no assunto, mas noto, quando nos afastamos da praia, que Camryn olha para trás uma vez, para a foto dela e de Ian na areia. Sua mão aperta a minha forte e ela olha para meu sorriso suave quando atravessamos o calçadão.
Sei que tive muito pouco a ver com ela finalmente fechar esse ciclo. Tudo bem, eu a forcei a fazer isso, mas foi Camryn que, naquele momento, enfrentou um dos seus maiores medos. Ela olhou no rosto de alguém que amou e perdeu, e finalmente aceitou isso. Admito que foi estranho como tudo aconteceu, e eu não fui para lá com nenhuma intenção sexual, especialmente num momento como aquele. Mas Camryn, no tempo que passou sozinha naquela praia pensando em Ian, bem antes que eu chegasse, já tinha entendido tudo.
Não sei ao certo como ela fez, ou qual foi meu papel nisso, mas quando retornou da praia comigo naquela noite, ela já começava a ser como era antes.
Camryn estava voltando, e eu estava nas nuvens com ela.
Camryn
19
8 DE DEZEMBRO — meu vigésimo primeiro aniversário
Quando começou a esfriar, Andrew e eu rumamos mais para o Sul. Passamos só uma noite em Virginia Beach e de lá percorremos o litoral da Carolina do Norte, ficando alguns dias em Myrtle Beach, Carolina do Sul, onde arranjei meu primeiro emprego na estrada. Como arrumadeira. Com certeza não era a minha primeira escolha, especialmente depois que Andrew me lembrou das coisas nojentas que os hóspedes costumam deixar nos quartos. Mas era um emprego e não me incomodava tanto, a não ser quando queriam que eu lavasse cestos de lixo com catarradas nojentas grudadas no fundo. Desculpa, mas só de pensar nisso me dá vontade de vomitar. Eu ligava para Andrew e implorava que ele viesse limpar. Claro que eu o subornava com promessas de boquetes enlouquecedores em lugares públicos. Puxa, que maravilha. Não, quem eu tô tentando enganar? Adoro fazer isso por ele. Só finjo detestar às vezes, mas acho que ele gosta quando eu finjo, porque gosta de me ouvir reclamar.
De qualquer forma, pelo jeito, empregos de arrumadeira são como portas giratórias, as funcionárias vêm e vão tão rápido que seria melhor nem incluí-las oficialmente na folha de pagamento. Pensei em como isso poderia trabalhar a meu favor enquanto estivéssemos na estrada. Assim, em troca de metade do valor das diárias do quarto que estávamos ocupando, e como o quadro de funcionários do hotel estava desfalcado, eu perguntei se poderia ajudar e eles me contrataram na hora.
Mas o emprego era só temporário, pois Andrew e eu precisávamos partir de Myrtle Beach e seguir para o nosso destino, onde quer que fosse. Nunca planejamos nossos destinos antecipadamente. A nossa única regra é ficar no litoral. Pelo menos até a primavera. Mas ainda faltam alguns meses até lá e, no momento, estamos felizes instalados num hotel estilo chalé bem em frente à praia, na linda Savannah, Geórgia.
E hoje eu faço 21 anos.
Andrew me acorda de um sono profundo abrindo as cortinas da janela gigante do nosso quarto e deixando o sol invadir o ambiente.
— Levanta, aniversariante — exclama ele de algum lugar perto do pé da cama. Eu o ouço batendo várias vezes na mesinha perto da janela com a palma da mão.
Resmungo e viro para o lado, dando as costas para o sol brilhante e me enterrando nos lençóis. Uma lufada de ar frio me atinge quando Andrew me arranca os lençóis.
— Ah, vai! — gemo, encolhendo os joelhos para o peito e puxando o travesseiro para cima da minha cabeça. — Eu devia poder dormir até tarde no meu aniversário.
De repente, meu corpo está sendo arrastado da cama e eu estico os braços freneticamente, tentando me agarrar à borda do colchão. A mão de Andrew segura com firmeza o meu tornozelo. Eu chuto e esperneio, tentando me soltar, mas ele me arrasta pela cama tão rápido e sem esforço que eu simplesmente desisto. Minha bunda bate no chão e os lençóis caem ao meu redor.
— Você é tão babaca! — eu rio.
— Mas você me ama. Agora levanta.
Com o cabelo todo emaranhado, olho para Andrew e faço bico. Ele sorri para mim e estende a mão. Eu a seguro e ele me puxa de pé.
— Feliz aniversário, amor — ele diz, e me dá um selinho.
Eu me encolho um pouco, porque sei que meu bafo está podre, e já estou ficando acostumada com a mania de Andrew de aproveitar qualquer oportunidade de me lembrar disso.
Sem olhar para mim, Andrew enfia a mão no bolso do casaco e tira uma caixinha de veludo preto. Obviamente, ele já saiu hoje, mas eu estou mais interessada na caixa que ele pôs na minha mão. Olho para ele desconfiada, pronta para dar um esporro nele caso tenha gastado uma grana numa joia escondido de mim.
— Andrew? — digo, desconfiada.
— Abre de uma vez. Eu me comportei. Juro. — Ele ergue as duas mãos num gesto de rendição.
Ainda totalmente desconfiada de sua aparente sinceridade, abro a tampa da caixa e vejo um colar com pingente de diamante dentro e fico com um pouco de falta de ar. Então estreito os olhos para ele.
— Andrew, por favor. — Olho mais uma vez para o colar, me sentindo culpada só de tê-lo nas mãos. — De jeito nenhum isso foi...
— Juro — ele diz com um sorriso encantador. — Não foi caro.
Mordendo o lábio com ceticismo, eu pergunto:
— Quanto custou, então?
— Ah, uns 125 dólares. Nada mais do que isso. Juro por Deus. — Ele faz uma cruz sobre o coração com o dedo.
Então tira o colar da caixa, deixando-o pendurado na mão.
— Gostou? — pergunta, indo para trás de mim.
Instintivamente, levanto meu cabelo embaraçado enquanto ele põe o colar no meu pescoço.
— É perfeito, Andrew. Eu mais do que gostei. Eu amei. — Olho para baixo enquanto ele o fecha e seguro o pingente brilhante de prata.
Eu me viro para Andrew e fico na ponta dos pés descalços para beijá-lo apaixonadamente.
Nem imagino como uma joia dessas pode não ter custado um caminhão de dinheiro, mas ele está dizendo a verdade. Eu acho...
— Obrigada, amor — agradeço, radiante.
De repente, ele me dá um tapão na bunda e diz:
— A gente precisa sair daqui hoje. Tô de saco cheio de me esconder em quartos assim. De saco cheio do frio. Eu queria poder hibernar.
— Eu também. E o que a gente vai fazer, exatamente? — Pego uma roupa limpa da minha mochila perto da TV.
— Sei lá. Qualquer coisa. Mas põe uma roupa quente.
Ele não precisava me lembrar disso, na verdade. Nem mesmo a proximidade do litoral e a mudança de latitude ajudaram muito a nos aquecer nos últimos dias. Ambos sonhamos com a primavera e o verão, a ponto de ser a única coisa da qual falamos. Eu reclamo muito de não poder esticar os pés descalços para fora da janelinha do carro sem matar nós dois de frio, e ele reclama que ainda não conseguimos dormir num gramado sob as estrelas. Claro que não vou dizer em voz alta, senão ele vai querer ainda mais, mas não estou muito ansiosa para dormir sob as estrelas. Jamais. Não depois do que aconteceu na primeira vez que tentamos. Não. Acho que estou satisfeita com as camas de hotel. Elas não têm cobras.
O inverno é deprimente. Acho que é por isso que o índice de suicídios é tão alto no Alasca. É um estado lindo, mas ainda prefiro o calor de rachar de um deserto do Sul.
Eu visto roupas extraquentes para o meu aniversário: casaco grosso, cachecol, luvas, o que tiver eu tô vestindo. E mesmo assim tô morrendo de frio.
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Andrew meio que “esquenta” o inverno. Sempre achei que caras de gorro ficam sexy, mas o jeitão dele com sua jaqueta preta de grife e seu gorro de lã, suéter cinza-escuro, jeans preto e botas Doc Martens é tudo o que eu quero de presente de aniversário. Sorrio comigo mesma enquanto andamos de mãos dadas por uma pequena multidão, todos se acotovelando no farol para se proteger do frio, e então três garotas, provavelmente turistas como nós, devoram Andrew com os olhos quando passamos. Isso acontece muito, e eu já deveria estar acostumada. Me vanglorio em segredo, mas quem não faria isso, na minha situação? Ele é a coisa mais sexy que eu já vi. Não admira que já tenha trabalhado como modelo. Ele odeia falar disso, então, naturalmente, eu toco no assunto com frequência para vê-lo sofrer. Andrew também está se barbeando menos; está com aquela barba sexy por fazer.
Subimos a escada em caracol até o farol debruçado sobre o oceano e olhamos o panorama juntos. Porque é algo para se fazer. Estamos apenas improvisando, andando de carro pela cidade e escolhendo as coisas quando as vemos. Mas, nos meses frios, até isso é um processo de tentativa e erro. Estendemos os braços sobre o corrimão e ficamos perto um do outro para nos aquecer. O vento gelado nos fustiga, naquela altitude, e eu sei que meu nariz e minhas bochechas devem estar vermelhos.
Levamos exatamente cinco minutos para mandar aquilo à merda e praticamente correr de volta para o carro.
— A gente podia ir pro cinema — ele sugere, no banco do motorista. — Ou... tá, acho melhor a gente hibernar e pronto.
Ficamos sentados por muito tempo, só pensando em alguma coisa para fazer.
— Vamos andar de carro mais um pouco — eu digo, sem nenhuma ideia.
— Talvez seja melhor ir embora de uma vez.
Dou de ombros.
— Se você quiser. — Então vejo uma placa que diz Feira de Antiguidades das Pulgas & Carrapatos.
— Vamos fazer compras — sugiro.
Andrew não parece empolgado.
— Compras?
Balanço a cabeça e aponto para a placa.
— Não no shopping, nada disso — explico. — Dá pra achar umas coisas bem bacanas em feirinhas de coisas usadas.
Sua expressão continua neutra, mas acho que ele se dá conta de que com certeza é melhor do que andar na rua no frio, ou ficar parado no carro sem fazer nada.
Andrew acaba cedendo porque, francamente, ele não tem mesmo muita escolha, e em seguida tira o carro do estacionamento e seguimos as placas até a feira de antiguidades. Encontramos um pouco de tudo: chapéus idiotas, instrumentos odontológicos antigos, colchas de retalhos feitas à mão, fitas de vídeo e discos. Andrew não se empolgou com muita coisa, até ver a caixa de madeira cheia de discos.
— Não vejo um disco do Led Zeppelin há anos — ele comenta, segurando um. A capa está tão detonada e desbotada que parece ter ficado num sótão por trinta anos, mas ele o segura com tanto cuidado que poderia ser um exemplar em perfeito estado.
— Você não tá pensando em comprar isso, tá?
— Por que não? — ele pergunta, sem olhar para mim.
Ele vira o disco e olha para o verso da capa.
— Porque é um LP?
— Tá, mas é um LP do Led Zeppelin — ele argumenta, olhando rapidamente para mim.
— Tá, e?
Ele não responde.
Eu continuo:
— Andrew, onde é que você vai tocar isso?
Finalmente ele me dá atenção total.
— Eu não vou tocar.
— Então por que quer comprar? — pergunto, e então respondo por ele, sarcasticamente. — Ah, já sei, é um artigo de colecionador. Você pode pendurá-lo no banco de trás do carro. — Dou um sorrisinho para ele.
— Ou posso pôr você no banco de trás e pendurá-lo na frente.
Eu fico levemente boquiaberta.
Andrew sorri e devolve o disco à caixa.
— Eu não vou comprar — ele resolve, pegando a minha mão.
Minutos depois, entramos em outra barraca, lotada de roupas antigas. Enquanto examino meticulosamente tudo o que há nos cabides, Andrew fica na barraca ao lado, onde centenas de DVDs e Blu-rays estão expostos numa parede. Ele para diante dela de braços cruzados, praticamente imóvel, lendo cada um dos títulos. Posso ver sua nuca através da treliça de madeira que separa seu quiosque do meu. Volto a olhar as roupas, sentindo urgência e necessidade a cada peça que toco. Eu adoro roupas antigas. Não que eu chegue a usar, ou que tenha comprado alguma vez, mas são coisas que não dá para deixar de olhar com admiração e se imaginar nelas.
Empurro os cabides finos de arame, um por um, para conseguir ver tudo. Camisas com mangas bufantes e cadarços de couro, espartilhos, vestidos plissados e com mangas longas, botas vitorianas...
O que é isso?
Meu coração para por um segundo quando puxo um dos cabides e vejo o vestido. É um modelo vintage cor de marfim, com mangas curtas drapeadas. Tiro o cabide da arara e seguro o vestido junto ao corpo, virando para o espelho. O comprimento por pouco não chega ao chão. Segurando-o com uma mão na altura certa, estico o tecido com a outra mão. Então eu rodopio.
— Meu Deus, amei este vestido — digo em voz alta para mim mesma. — Preciso comprar.
— Hãã, devo dizer — Andrew intervém por trás, me assustando — que é um vestido lindo.
Um pouco sem jeito porque Andrew provavelmente me viu enquanto eu me admirava com o vestido e falava sozinha, não olho para ele. Em vez disso, olho a etiqueta para ver se é do meu tamanho. É! Claro que agora preciso comprá-lo, sem mais perguntas. Era pra ser meu!
Abraçando apertado o vestido, eu giro para ficar de frente para Andrew.
— Você gostou mesmo? — pergunto com voz culpada, minha maneira de implorar para que ele não jogue na minha cara aquela conversa sobre o disco.
— Eu acho que você deve comprar — ele confirma, com um sorrisão cheio de covinhas. — Já posso imaginar você vestida nele. Linda. Naturalmente.
Eu fico vermelha e olho para o vestido de novo.
— Você acha? — Não consigo parar de sorrir.
— Com certeza — ele diz. — E você fica mais acessível nele.
Típico!
Ignoro seu comentário pervertido, sobretudo porque estou apaixonada demais pelo vestido. Então me dou conta de que ainda não olhei o preço. Conhecendo os vestidos daquela marca, sei que eles não são caros. Mas quando o vendedor é alguém que acha que pode enganar um cliente, fazendo-o pagar três vezes o valor justo, não há como prever o preço na etiqueta. Prendo a respiração e olho o valor. Vinte contos! Perfeito.
Olho mais uma vez para Andrew e de repente me sinto uma vaca reclamona.
— Por que você não compra aquele disco do Led Zeppelin também? — digo timidamente.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Não, um LP antigo não serve pra nada mesmo. Mas um vestido como esse tem sua serventia. — Ele cruza os braços e me olha de cima a baixo.
Eu acho que ele está bancando o pervertido de novo, e dessa vez abro a boca para acusá-lo, quando ele acrescenta:
— Casar comigo vestida nele, por exemplo.
Seus olhos verdes parecem cruzar rapidamente os meus.
Meu sorriso se abranda e eu digo:
— É um vestido de noiva perfeito.
— Então tá combinado — ele diz, segurando a minha mão. — Quando a gente se casar, pelo menos você já vai ter o vestido.
— Só precisamos disso, na verdade — digo, saindo com ele da barraca com o vestido pendurado no braço.
Ele olha para mim.
— Alianças — ele diz, com um olhar estranho.
— Eu tenho aliança — digo, levantando a mão, achando que por algum motivo ele se esqueceu do anel que me comprou no Texas.
— Isso é um anel de noivado.
— É, mas basta.
— Bom, eu também preciso de uma. Ou você se esqueceu de mim? Casamento é pra dois, sabe.
Eu rio baixinho enquanto chegamos à pequena fila da caixa.
— Tá, tem razão, mas eu tô feliz com o meu anel. Além disso, eu sei que você gastou uma grana com este colar. Não pode fazer essas coisas.
— Vamos começar com isso de novo? — ele pergunta em tom brincalhão, tirando a carteira do bolso. — Não menti pra você sobre o preço do colar.
Talvez ele esteja mesmo dizendo a verdade.
— Acredito em você — digo finalmente.
Ele sorri e deixa por isso mesmo.
Andrew
20
SIM, SOU UM baita mentiroso. Aquele colar custou pouco mais de 600 dólares, mas sei que não posso contar pra ela. Ela acha que o que importa nas coisas caras é quantos zeros há antes da vírgula, mas nem sempre é isso. Francamente, acho que normalmente é pra mulher que o preço importa tanto. Porra, já ouvi garotas reclamando e choramingando porque o cara delas não gastou o suficiente. Eu queria saber se elas percebem como dificultam a nossa vida quando se juntam com as amigas e comparam pedras como nós, homens, comparamos nossas ferramentas. A propósito, a gente não faz isso, na verdade. Pelo menos eu nunca consegui encontrar um cara que quisesse abrir o zíper e competir comigo.
Eu queria comprar algo bem legal pra Camryn no aniversário dela. Por pura coincidência, aquilo de que eu mais gostei, entre as coisas que vi, era caro.
Aceite isso, amor.
Ela é capaz de desmaiar se descobrir quanto eu gastei nas nossas alianças, que comprei enquanto estávamos em Chicago. Está difícil evitar que Camryn as veja. Mas consegui enfiar a caixinha num bolso escondido da minha mochila.
Passamos o dia todo fazendo o que sempre fazemos, ficando juntos e aproveitando o tempo frio como dá. Quando voltamos para o hotel, pego o violão e toco para ela uma canção que compus e na qual estou trabalhando há uma semana. Eu esperava terminá-la até o dia do aniversário porque faz parte do presente dela. Compus só pra ela. Eu a chamo de “A Tulipa na Colina”, uma canção inspirada pelo primeiro dia que passamos juntos quando eu saí do hospital, depois da minha cirurgia.
— Eu acho que você deve pegar leve — Camryn disse naquele dia. — Nada de enfiar a cabeça nos motores de Billy Frank por uns tempos, nem bungee jumping, nem corridas de carros.
Eu ri um pouco, virando a cabeça para o lado para vê-la. Eu estava deitado de comprido numa mesa de piquenique de pedra. Camryn estava sentada no banco, perto da minha cabeça.
— Então sua definição de pegar leve é não fazer absolutamente nada? — perguntei, sorrindo para ela, com a cabeça apoiada nas mãos.
— O que tem de errado em passar um dia calmo no parque? — ela perguntou, passando os dedos na minha testa.
— Nada — respondi e beijei-lhe os dedos quando sua mão chegou à minha boca. — Eu gosto de ficar sozinho com você.
Ela virou a cabeça devagar para o lado e sua expressão ficou mais meiga. Depois olhou para o parque. As árvores estavam frondosas, e a grama, espessa e verdejante. Estava realmente um dia lindo. Fiquei me perguntando por que só nós dois, aparentemente, estávamos ali, aproveitando.
— Acho tulipas bonitas — ela disse com voz distante, olhando para a pequena colina coberta de grama do meu outro lado.
Olhei também e vi uma única tulipa brotando no alto daquela colina, sozinha. Não sei bem por quê, mas desde aquele dia, sempre que vejo uma tulipa em qualquer lugar, penso em Camryn.
Eu nunca vou esquecer o sorriso em seu rosto enquanto toco e canto a canção para ela. É tão terno, radiante e carinhoso, o tipo de sorriso que diz Amo Você Mais Do Que Tudo Neste Mundo sem precisar dizer essas palavras.
CONTINUA
14
QUANDO CHEGO AO banheiro, tem uma fila de mulheres esperando por cabines vazias. O ar está espesso com o bafo de álcool, perfume e roupas cheirando a cigarro. Uma porta de cabine se abre e fecha com uma batida violenta de poucos em poucos segundos quando alguém entra ou sai. Lavo as mãos primeiro, precisando me espremer entre duas garotas bêbadas sentadas no balcão da pia, uma de cada lado. Por sorte, elas são o tipo de bêbada supersimpática, porque não estou podendo com uma briguenta e grosseira hoje. Elas pedem desculpas por atrapalhar e se afastam para me dar espaço.
— Obrigada — digo, abrindo a torneira.
— Ei, você é a menina que tava cantando — a garota da esquerda diz, apontando para mim e sorrindo. Ela olha para a amiga do outro lado, depois para mim de novo.
— É, acho que sou eu.
Não estou nem um pouco a fim de conversa de banheiro. Quanto mais tempo passo num banheiro público, com mais nojo eu fico.
— Vocês dois são muito bons — ela diz com um sorrisão.
— É, sério — a amiga dela confirma. — Por que estão cantando em bares, afinal?
Eu dou de ombros e espremo mais sabão do reservatório na mão e tento evitá-las o mais gentilmente possível.
— De verdade — a da esquerda acrescenta. — Eu pagaria pra ver vocês tocarem.
Tudo bem, eu não sou totalmente imune a elogios. Sorrio e agradeço de novo.
Quando mais duas cabines ficam desocupadas, elas aproveitam a oportunidade e se trancam nelas. Logo depois, acenam em despedida e me desejam boa sorte na minha “carreira musical”. Quando estou quase sozinha, me viro para o espelho, mas não olho para mim. Em vez disso, enfio a mão no bolso e pego um comprimido, engolindo-o com água da pia.
É só pra tirar o nervoso.
Então eu me olho, empurrando o comprimido e o sentimento de culpa que vem cada vez que tomo um para o fundo da minha mente. Invento pretextos para justificar tomá-lo e quase engano a mim mesma. Mas eu sei que a culpa que sempre sinto tem um motivo.
Em menos de 11 minutos, não me importo mais com a culpa, os pretextos ou o nervoso, porque essa parte do meu cérebro foi adormecida.
Passo as pontas dos dedos embaixo dos olhos para limpar o rímel borrado, depois enxugo a oleosidade do meu rosto com papel higiênico. Preciso estar de cara boa quando voltar lá. Me sinto ótima, mas preciso parecer tão bem quanto me sinto.
Abrindo caminho em meio à multidão, encontro Aidan e Michelle de pé perto do enorme balcão do bar e me junto a eles. Então lembro que Andrew foi buscar uma bebida para mim, mas não quero atravessar aquele mar de gente de novo só para pegá-la.
— Vocês dois são fantásticos! — Michelle grita por cima da multidão barulhenta. Ela me abraça e eu retribuo, sentindo meu sorriso movido a comprimidos se alargando muito em meu rosto.
Eu me viro para Aidan.
— O que você achou?
— Concordo com Michelle! Vocês deveriam compor seu próprio repertório e tocar aqui mais vezes. Tem sempre caçadores de talentos aqui no bar. E celebridades. — Ele aponta para a parede do fundo, onde uma série de fotografias autografadas de vários músicos e astros do cinema formam uma linha reta. — Comecem a tocar material próprio — ele continua. — Aposto que vocês dois seriam contratados por uma gravadora em menos de um ano.
Estou tão chapada, no momento, que ele poderia me dizer que achou a gente uma bosta e sem futuro nenhum na música, e eu sorriria do mesmo jeito, deixando as palavras passarem por mim como uma brisa.
Olho para o outro lado do salão e vejo Andrew no palco com sua guitarra e a banda da casa, se preparando para a canção que é sua marca registrada, “Laugh, I Nearly Died”. Ele provavelmente não me vê no meio da multidão, mas sabe que estou assistindo. Adoro vê-lo no palco, no seu elemento. Sei que, por mais que sejamos bons juntos, musicalmente, ele sempre é mais dono do palco quando toca sozinho. Talvez seja impressão minha, mas gosto de pensar nele como na primeira vez que o vi tocar. Porque naquela noite em Nova Orleans, ele estava cantando para mim, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu faria qualquer coisa pra me sentir assim de novo. Qualquer coisa...
Segundos depois de começar a tocar, Andrew, como sempre, tem a atenção de todos os presentes. As duas garotas na mesa estão de pé agora, dançando juntas de um jeito provocante, mas eu sei que é tudo para Andrew. Já vi isso antes. Elas o querem, e Andrew deixa que acreditem, só por uma noite, que ele também as quer. É perfeitamente inofensivo. Andrew e eu encaramos isso como uma maneira de levantar a autoestima dos outros. Um pouco de paquera aqui e ali, tornar uma garota ou um cara de sorte o centro das atenções só pelo tempo suficiente para corar e sorrir. Nunca se sabe o que acontece na vida das pessoas a portas fechadas, e um pouco de energia positiva da paquera nunca atrapalha.
Quando voltamos para a casa de Aidan e Michelle pouco depois da meia-noite, vou para a cama antes de todos. Fico deitada por uma hora, ouvindo as vozes deles vindo do corredor e entrando no quarto. Andrew ia se deitar comigo, mas insisti para que ele ficasse com o irmão. Ele anda se preocupando demais comigo ultimamente. Vamos voltar para Raleigh amanhã, e quero que ele passe o maior tempo possível com Aidan.
Mais uma hora passa e eu continuo acordada.
Frustrada, enfio a mão na bolsa, procurando o frasco. Sem nem perceber, já estou nos últimos comprimidos.
Desmaio com três, desta vez.
Andrew
15
— CAMRYN? AMOR, acorda, por favor. — Eu a sacudo com força pelo ombro.
Minha emoção dominante, no momento, é o medo. Minhas emoções secundárias são raiva e mágoa. Mas, estranhamente, a sensação de incerteza está mantendo todas as outras a distância.
Eu a sacudo de novo.
— Levanta.
Não faço ideia de quantas dessas porras de comprimidos ela tomou, mas julgando pelo frasco quase vazio, a perspectiva de ter sido o suficiente para uma overdose faz uma onda de pânico percorrer todo o meu corpo. Mas ela está respirando normalmente e seu ritmo cardíaco parece normal. Se ela não acordar...
Seus olhos se abrem lentamente, e eu respiro mais aliviado.
— Camryn. Olha pra mim.
Finalmente, ela acorda o suficiente para me olhar nos olhos.
— Que que foi? — Ela geme suavemente e tenta fechar os olhos de novo, mas eu a seguro pelos ombros e a obrigo a se sentar.
— Acorda. Fica de olhos abertos.
Ela se senta, toda mole, mas não é nada tão fora do comum, depois de ter sido forçada a acordar e a se endireitar assim.
— Quantos você tomou?
Michelle está na porta do quarto, atrás de mim.
— Quer que eu chame uma ambulância?
De repente, Camryn fica completamente alerta. Não sei se minha pergunta finalmente a alcançou ou se foi a menção de uma ambulância, mas ela me encara com olhos arregalados e assustados.
— Quantas dessas porras de comprimidos você tomou?
Ela desvia o olhar do meu e vê o frasco de comprimidos sobre o criado-mudo. Quando decidi que dormir até depois das 14h não era típico dela e fui ver o que estava acontecendo, encontrei o frasco no chão.
— Camryn? — Eu a sacudo de novo e ela volta a prestar atenção em mim.
Ela só me olha. Vejo tanta coisa em seus olhos agora que não sei dizer se é mais humilhação, arrependimento, mágoa, raiva ou resignação. E então seus olhos começam a se encher de lágrimas. Sinto seu corpo se agitando sob o peso dos meus braços. Ela desata a chorar, caindo em meus braços, soluçando descontroladamente, e aquilo me despedaça.
— Andrew? — Michelle diz da porta.
Sem olhar para trás, eu digo:
— Não, ela vai ficar bem. — E engulo minhas próprias lágrimas e a raiva, sentindo meu peito se apertar.
A porta se fecha silenciosamente atrás de mim quando Michelle sai do quarto.
Abraço Camryn por muito tempo, deixando-a chorar no meu peito. Não digo uma palavra. Ainda não. Em parte porque sei que ela precisa disso, poder chorar e desabafar. Mas a outra parte de mim está tão puta da vida e magoada que sinto que vou precisar me afastar e me recompor para não dizer coisas erradas. Eu a abraço forte, apertando os braços em volta do seu corpo trêmulo. Beijo seu cabelo e tento não chorar também. A parte de mim que está puta da vida ajuda nisso.
— Eu sinto muito! — ela grita e, nessa fração de segundo, quando ouço a dor em sua voz, minha raiva se apaga quase completamente e eu a abraço ainda mais forte.
— Tá pedindo desculpas pra mim? — pergunto, incrédulo. Eu a afasto, segurando-a firme pelos antebraços. Balançando a cabeça furiosamente, volto a ficar como alguns minutos atrás. — Não, primeiro você precisa me dizer quantos você tomou. — Eu a encaro com firmeza.
— Ontem à noite. Só três.
— Quantos tinha no frasco no total?
— Não sei. Uns vinte.
— Então há quanto tempo você tá tomando?
Ela faz uma pausa e responde.
— Desde terça. São da minha mãe. Tomei um quando tava com dor de cabeça, mas aí comecei a tomar... — Seus olhos se enchem de água novamente.
Eu enxugo as lágrimas do seu rosto.
— Puta que pariu, Camryn! — exclamo, puxando-a para o meu peito por mais um breve momento. — O que você tava pensando, porra?
— Eu não pensei! — ela grita. — Não sei o que eu tenho!
Seguro seu rosto com as palmas das mãos.
— Você sabe o que você tem. Tá arrasada por perder a Lily e não sabe como lidar com isso. Só queria que você tivesse falado comigo.
Com o rosto dela ainda nas mãos, seus olhos desviam dos meus. O silêncio tenebroso entre nós me afeta da forma mais estranha.
— Camryn? — Tento fazê-la me olhar de novo, mas ela se recusa. — Fala comigo. Você precisa falar comigo. Escuta, você não fez nada errado, nem poderia ter evitado o que aconteceu. Precisa saber disso. Precisa enten...
Sua cabeça se desvencilha das minhas mãos, seus olhos penetrando os meus, cheios de dor e de... algo mais.
— É culpa minha! — ela diz, se afastando de mim na cama.
Ela se levanta do outro lado e cruza os braços, me dando as costas.
— Não é culpa sua, Camryn. — Ando até ela, mas assim que sente que vou me aproximar, ela se vira.
— É culpa minha sim, Andrew! — ela repete, com as lágrimas escorrendo dos olhos. — Eu não conseguia parar de pensar que minha gravidez ia ferrar com tudo! Detestava continuar morando em Galveston depois de quatro meses! Fiquei me perguntando como a gente ia fazer tudo o que queria com um bebê! Por isso, sim, é culpa minha que a perdemos e eu me odeio por isso, caralho! — Ela esconde o rosto nas mãos.
Atravesso a curta distância até ela, tomando-a em meus braços de novo.
— Meu Deus, Camryn, não foi culpa sua! — Acho que nunca falei nada para ninguém com tanta emoção. Meu peito tremia incontrolavelmente contra o dela.
— Olha pra mim! — imploro, afastando-a. — Isso é tão normal. E se você é culpada, então eu também sou. Tive esses pensamentos de vez em quando, mas, como você também, não teria desistido dela nem se pudesse.
Ela não precisa confirmar essa afirmação em voz alta, porque sei que ela também não teria desistido. Mas ela confirma assim mesmo: — Não lamentei nada engravidar dela. E eu... quero minha bebê de volta!
— Eu sei. Eu sei. — Eu a abraço apertado e ando com ela até o pé da cama, fazendo-a sentar. Eu me agacho entre as pernas dela, apoiando os braços em suas coxas e tomando suas mãos nas minhas. Olho para ela e digo mais uma vez: — Não foi culpa sua.
Ela enxuga algumas lágrimas e nós ficamos sentados assim pelo que parece uma eternidade. Acho que ela acredita em mim — ou isso ou está só evitando encarar a realidade. Então ela olha para a parede atrás da minha cabeça e diz baixinho: — Isso faz de mim uma viciada em drogas?
Quero rir, mas não rio. Em vez disso, apenas balanço a cabeça e sorrio suavemente para ela, apertando as pontas dos dedos em suas mãos.
— Foi um momento de fraqueza, e até a pessoa mais forte não é imune à fraqueza, Camryn. Quatro dias e um frasco de analgésicos não fazem de você uma viciada em drogas. É falta de juízo, mas não é vício.
Ela olha de novo para mim.
— Michelle e Aidan vão achar que é.
Balanço a cabeça.
— Não, não vão. E ninguém mais vai. — Eu me levanto e me sento ao lado dela. — Além disso, não é da conta de ninguém, porra. É uma coisa que só você e eu precisamos saber e enfrentar.
— Nunca fiz nada assim antes — ela continua, olhando para a frente. — Não acredito...
— Você estava diferente. Está diferente desde que Lily morreu.
O quarto fica estranhamente em silêncio de novo. Olho para ela de lado, mas a deixo em silêncio por um momento. Ela parece perdida em pensamentos.
E então ela diz:
— Andrew, talvez nós não devêssemos estar juntos. — E suas palavras me atingem tão rápido e com tanta força que sinto que falta ar nos meus pulmões.
Fico tão surpreso que é como se suas palavras tivessem roubado todas as minhas. Meu coração está disparado.
Finalmente, quando ela não elabora, consigo balbuciar:
— Por que tá dizendo isso? — E fico com medo de sua resposta.
Ela continua olhando para a frente, com as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto. E então ela olha para mim e vejo a mesma dor intensa em seus olhos que eu sei que ela vê nos meus.
— Porque todo mundo que eu amo acaba me abandonando ou morrendo.
O alívio me invade, mas é superado pela sua dor.
É nesse exato momento que percebo que essa é a primeira vez que Camryn se abriu a respeito disso tudo comigo, ou com qualquer outra pessoa. Penso nas coisas que Natalie me contou, e nas conversas que Camryn e eu tivemos na estrada, e sei que no momento Camryn está admitindo a dimensão de sua dor não só para outra pessoa, mas o mais importante, para si mesma.
— Eu me sinto tão egoísta dizendo isso — ela continua, e deixo que ela fale à vontade, sem interrupções. — Meu pai abandonou a gente. Minha mãe mudou. Minha avó, a única pessoa que continuou a mesma e sempre me apoiou quando precisei, morreu. Ian morreu. Cole foi pra prisão. Natalie me apunhalou pelas costas. Lily... — Ela olha para mim, finalmente, a dor intensificada em seu rosto. — E você.
— Eu? — Me agacho diante dela de novo. — Mas eu tô aqui, Camryn. Vou estar sempre aqui. — Tomo as mãos dela nas minhas. — Não importa o que você faça, ou o que aconteça entre a gente. Nunca vou te abandonar. Vou estar sempre com você. — Aperto as mãos dela. — Lembra quando eu disse que você era a coisa mais importante do mundo pra mim? Você pediu que eu te lembrasse disso, se um dia você esquecesse. Bom, eu tô te lembrando agora.
Soluços percorrem seu corpo.
— Mas você podia ter morrido — ela insiste, com choro na voz. — Cada dia que passei naquele hospital, pensei que seria o seu último. E aí quando não era e você resistia, eu continuava prevendo isso mesmo assim. Semanas, meses depois, porque uma parte de mim achava que eu precisava me acostumar com a ideia de perder você. Um dia. Porque eu sabia que você ia me deixar de um jeito ou de outro. Como todo mundo.
— Mas eu não deixei — digo com desespero, sorrindo um pouco ao mesmo tempo. Eu me sento no chão e a puxo para perto de mim. — Eu não morri. Não morri porque eu sabia que você tava lá comigo o tempo todo. Porque eu sabia que nosso destino era ficar juntos, e que se você vivesse, eu também viveria.
— Mas e se você morrer? — ela pergunta.
Isso eu não esperava.
— E se o tumor voltar?
— Não vai voltar — respondo. — E mesmo se voltar, vou vencê-lo de novo. Cacete, eu fiquei oito meses sem ir ao médico e venci assim mesmo. Com você na minha vida, me atormentando pra me fazer ir aos checkups regularmente, de jeito nenhum ele vai me matar.
Ela não parece totalmente convencida disso, mas vejo um pequeno raio de esperança em seu rosto, e era isso que eu queria ver.
— Eu sinto muito mesmo — ela diz, mas em vez de dizer que não precisa, também deixo que ela viva esse momento, porque parece mais que ela está se permitindo fechar um ciclo. — Aposto que você nunca pediu pra ter um fardo absurdo desses. — Ela passa os dedos sob os olhos.
Tentando aliviar um pouco o clima, esfrego as mãos em seus joelhos nus e digo: — Eu te amaria mesmo se você fosse uma daquelas garotas que correm pro banheiro pra vomitar depois de comer, ou se tivesse o fetiche secreto de transar com um palhaço.
Ela ri baixinho em meio às lágrimas, e isso me faz sorrir.
Levanto o queixo dela com um dedo e fico sério de novo, olhando bem em seus lindos olhos azuis e úmidos.
— Camryn, Lily não tava pronta, só isso. Não sei por que, mas você não pode se culpar por ela ou por qualquer um. E você precisa entender que estamos nisso juntos. Em tudo. Acredita nisso?
Ela balança a cabeça.
— Sim.
Eu me curvo e a beijo primeiro na testa, depois nos lábios.
Segue-se o silêncio, e a atmosfera no quarto parece diferente. Mais brilhante. Eu sei que Camryn não vai voltar a ficar 100% da noite pro dia, mas posso ver que ela já está melhor. Percebo só de olhar que ela se sente menos carregada, agora que tirou essas merdas da cabeça. Ela precisava disso. Precisava de alguém para fazê-la cair na real. Não alguém indiferente, ou que desse apenas respostas prontas para tudo.
Ela precisava de mim.
Eu me levanto e pego a mão dela.
— Vem cá.
Ela me segue, pego o frasco de comprimidos da mesa ao lado da cama e a puxo comigo para o banheiro da suíte. Levanto a tampa da privada e entrego o frasco a ela. E antes que eu diga qualquer coisa, Camryn vira o frasco sem hesitação e joga os últimos quatro ou cinco comprimidos na privada.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão fraca. — Ela olha para a água enquanto os comprimidos giram no vaso e são sugados pelo cano. Depois olha para mim. — Andrew, eu podia facilmente ter ficado viciada neles. Não consigo imaginar...
— Mas você não ficou — interrompo, antes que ela fique remoendo aquilo mais. — E você tem direito a um momento de fraqueza. E chega.
Eu saio do banheiro e ando pelo quarto. Ela me segue e fica parada no meio do quarto, me olhando.
— Andrew?
Eu paro, me viro para ela e digo:
— Me dá uma semana.
Ela parece meio confusa.
— Uma semana pra quê?
Sorrio fracamente.
— Só concorda. Fica aqui comigo uma semana.
Cada vez mais confusa, ela diz:
— Hãã, tá. Vou ficar aqui com você uma semana — embora esteja estampado em seu rosto que ela não sabe com o que está concordando.
Mas ela confia, e isso significa tudo para mim. Vou dar a nós dois o que ambos precisamos, querendo ela ou não.
Camryn
16
Dia Três
Nunca pensei nem por um minuto que seria capaz de fazer o que fiz. Andrew chama de um momento de fraqueza e talvez tenha razão, mas vai levar tempo pra cacete pra que eu consiga me perdoar por aquilo.
Michelle deixou claro que não vai me julgar, e embora isso me faça sentir melhor, me sinto humilhada sempre que estou na presença dela ou de Aidan. Talvez seja por isso que eu me sinta tão mal, por eles serem tão compreensivos.
Uma semana. Nem faço ideia do que Andrew quis dizer com isso, mas estou em dívida com ele, por isso não faço perguntas e deixo que ele faça o que está planejando. Ele andou bem misterioso nos últimos dias, muitas vezes atendendo ligações em outros quartos para que eu não pudesse ouvir. Só tentei escutar uma vez, simplesmente ficando bem quieta no sofá quando ele foi para a cozinha falar com Asher. Mas então bisbilhotar assim me fez sentir culpada, por isso aumentei o volume da TV para não conseguir ouvir.
E posso ter tomado os comprimidos só por uma semana, mas pelo jeito foi tempo suficiente para eu ainda me sentir zonza três dias depois dos últimos que tomei. Me sinto mal, até mais incapaz de dormir do que antes de começar a tomá-los, mas pelo menos as dorezinhas de cabeça finalmente estão começando a desaparecer. Não consigo imaginar ficar viciada neles por meses ou anos. Sinto pena de quem fica...
Dia Quatro
Aidan entra com um pequeno maço de correspondências na mão, olhando cada uma enquanto anda pela sala.
Ele para num envelope branco por um segundo, constrangido, e o levanta, olhando para mim primeiro, até que Andrew entra na sala.
— Parece que esta é pra você. — Ele me olha de novo, mas entrega o envelope a Andrew.
Isso me dá uma sensação muito estranha, então me levanto instintivamente da espreguiçadeira e me aproximo de Andrew para ver o que é.
Pouco antes que Andrew escondesse o envelope de mim, vejo o nome de Natalie escrito nele.
Ele também sabe que eu vi.
— Não — diz Andrew, balançando a cabeça. — Vou deixar você ver outro dia. — E então ele enfia o envelope no bolso de trás do jeans.
Confio totalmente nele, mas sou humana, e uma pequena parte de mim está nervosa com essa situação toda. Por que Natalie mandaria uma carta para Andrew? Confiando ou não, a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um é se perguntar se tem alguma coisa acontecendo entre os dois. Mas isso é absurdo, e afasto essa ideia da minha mente com a mesma rapidez que ela veio.
Eles estão conspirando contra mim.
Eu só queria saber o que está acontecendo.
Dia Cinco
Falei com Natalie, minha mãe e Marna por telefone hoje. Marna tenta agir como se nada tivesse acontecido com o bebê, e é tão boa nisso quanto Michelle foi no meu primeiro dia em Chicago. Ela é tão meiga e delicada. Minha mãe, por outro lado, parece não conseguir falar de outra coisa além do meu relacionamento com Andrew. Ela me persegue sempre que pode, perguntando quando vamos nos casar, e resolveu enfiar na cabeça que vamos fazer isso do jeito que todo mundo faz. Tento dizer a ela que não quero um vestido caro, uma capela ou milhares de dólares em flores que vão murchar na semana seguinte, mas é como se ela nem me escutasse. Ela só quer que a gente se case. Talvez assim se sinta melhor com ele dormindo no meu quarto. Não faço ideia do que passa pela cabeça da minha mãe, e metade do tempo acho que nem ela sabe.
Andrew foi a um médico aqui em Chicago fazer um checkup hoje. E como toda vez que ele vai, fico até com enjoo de preocupação até que acabe. Por sorte, ele voltou com boas notícias.
Dia Seis
Falo com Natalie por telefone de novo, mas novamente não menciono o envelope. Ela também não está agindo naturalmente. É óbvio que está se esforçando para não entregar nenhum dos segredos de Andrew, o que deixa as conversas cheias de momentos silenciosos e constrangidos. Quero rir dela por ser tão péssima em agir normalmente, quando só o que ela quer é me contar tudo e dar o assunto por encerrado.
Dia Sete
Esta semana foi uma das mais longas da minha vida. Fico na cama até mais tarde porque está começando a esfriar, mas também porque estou nervosa e não consigo fazer outra coisa. Andrew se levantou há uma hora, e só o vi voltar para o quarto uma vez, para calçar os sapatos. Ele me beijou e sorriu para mim como se estivesse secretamente empolgado, e então saiu de novo sem dizer uma palavra.
Eu viro para o lado, enrolada no cobertor, e olho pela janela. O sol está brilhando hoje, e o céu está azul e sem nuvens.
Ouço os três andando pela casa.
Os sapatos de Andrew rangem sobre o chão de madeira na porta do nosso quarto. Ele abre a porta e fica na entrada, olhando para mim.
— Levanta e se veste — ele diz, com a mão ainda na maçaneta.
Eu só o olho por um segundo, achando que talvez ele vá explicar o que vamos fazer, mas ele só aponta para os meus sapatos no chão, como que dizendo calce-os, depois fecha a porta e me deixa sozinha.
Faço exatamente o que ele manda. Me levanto e visto meu jeans favorito e uma blusa folgada de tricô de mangas compridas, depois um par de meias e meus mocassins. Quando saio do quarto para a sala, vejo Michelle encolhida no canto do sofá, com um cobertor sobre as pernas, vendo TV. Ela se vira para me ver, e está com um sorriso aberto, como se soubesse algo que não sei. E com certeza sabe.
— Ele tá lá fora com Aidan — ela diz, acenando na direção da porta.
Cada vez mais nervosa, ando lentamente até a porta e a abro.
Saindo na varanda de pedra, vejo Andrew e Aidan de pé do lado da estrada, em frente à casa, com Asher, e todos eles estão encostados na lateral do Chevelle.
Por um momento eu penso: Tá, então Asher veio nos visitar, é só isso que tá acontecendo? Não que eu não fique feliz em ver Asher, mas, francamente, não é algo que eu imaginaria que fosse justificar todos esses planos de Andrew em segredo.
É o carro, percebo, mas é só isso que consigo entender sozinha. Tenho uma teoria sobre o motivo de ele tê-lo trazido para cá, mas a esta altura vou só fazer o melhor que posso para não pensar nisso.
Desço rapidamente os degraus de pedra e dou um abraço apertado em Asher.
— Você tá ótima, garota — ele diz, com aquelas covinhas e os olhos verdes e brilhantes quase idênticos aos de Andrew. Então ele me aperta e me levanta um pouco do chão.
— É muito bom te ver — digo, sorrindo.
Fico correndo os olhos dele para Andrew, que está sorrindo tanto que duvido que consiga manter o mistério por muito mais tempo.
Olho para o Chevelle e então para Asher. Olho de novo.
— Então você veio dirigindo lá de... — Tudo bem, é um pouco mais intrigante do que eu imaginava. O carro estava no Texas, até onde eu sei, e Asher estava em Wyoming. Finalmente continuo: — O que tá acontecendo?
Asher olha para Andrew, e Andrew dá um passo à frente.
— Eu pedi que Asher trouxesse o carro pra cá — ele diz.
— Mas por quê?
Asher cruza os braços e se apoia na porta de trás do carro.
— Porque ele é doido — Asher diz, rindo baixinho. — E porque não confiou num serviço de entregas pra trazer o carro.
Eu me viro para Andrew de novo, esperando que ele desembuche. Uma brisa fria atravessa minha blusa de tricô e eu enfio as mãos nas mangas.
— Você tem cinco minutos pra botar todas as suas coisas na mala — ele diz, e meu coração começa a bater descompassado antes que ele termine a frase. Ele bate no pulso sem relógio. — Nem um segundo a mais.
— Andrew...
— Isso não tá em discussão — ele diz. — Vai pegar suas coisas.
Eu só olho para ele, sem expressão.
Minha teoria estava certa, mas eu não queria que estivesse. Não quero cair na estrada... Isto é, eu quero... mas não está certo. Isso não está certo.
— Agora você tem quatro minutos — Asher diz.
— Mas a gente não pode partir assim — eu argumento. — Seria grosseria. — Aponto para Asher. — E Asher acabou de chegar. Você não quer ver...?
— Posso ver meu irmão mais velho a hora que eu quiser — Asher rebate. — No momento, acho melhor você fazer o que ele mandou, ou vai acabar na estrada, usando a mesma calcinha por uma semana.
Mais alguns segundos se passam e eu ainda não me mexi. Estou num leve estado de choque, acho.
— Três minutos, amor — Andrew diz, e está me olhando com expressão séria. — Não tô brincando. Sobe lá, bota suas porras nas malas e entra nessa merda de carro.
Cacete, ele voltou a ser como era...
Quando começo a discutir de novo, os olhos de Andrew ficam ferozes e ele diz:
— Anda logo. O tempo tá acabando! — E aponta para a casa.
Finalmente, baixando a guarda e entrando no clima tanto quanto posso me permitir, olho para ele com raiva e digo:
— Tudo bem. — Só concordo porque sei que ele está tentando melhorar as coisas. Mas me sinto culpada pra caramba.
Desconsiderando seu prazo bem-humorado de cinco minutos, giro nos calcanhares e ando muito lentamente na direção da casa, demorando de propósito, em parte minha maneira silenciosa de discordar da situação.
— Você sabia disso, Michelle? — pergunto quando passo por ela e vou para o corredor.
— Com certeza! — ela grita em resposta. Posso ouvir o sorriso em sua voz.
Abro a porta do quarto, ponho a mochila sobre a cama e começo a enfiar tudo dentro dela. Depois vou para o banheiro, pego nossas escovas de dentes e vários artigos de toalete. Arranco nossos carregadores da parede, pego meu celular do criado-mudo e enfio tudo na minha bolsa. Ando pelo quarto, torcendo para não ter esquecido nada.
Parece que Andrew já tinha feito as malas e eu nem percebi.
Em seguida fico ali, vasculhando cada centímetro do quarto, mas sem ver nada, na verdade. Não quero fazer isso, mas talvez seja o certo.
Ouço a buzina tocar três vezes e isso me arranca dos devaneios. Levantando a mochila, eu a jogo no ombro e pego minha bolsa de cima da cama.
— A gente se vê por aí! — Michelle diz do sofá.
Eu paro ao passar por ela, me curvo sobre o encosto do sofá para lhe dar um abraço desajeitado, atrapalhada pelas alças nos ombros.
— Divirta-se — ela acrescenta.
— Obrigada por nos convidar — eu digo.
Com um grande sorriso, Michelle gesticula para que eu vá, e eu saio da casa.
Quando desço os degraus, Andrew abre o porta-malas do Chevelle e eu jogo minha mochila lá dentro. Os cinco minutos que ele me deu passaram faz tempo, mas duvido que ele vá dizer alguma coisa.
— Tá pronta? — Andrew pergunta, fechando o porta-malas.
Eu respiro fundo, olho para Asher e Aidan, e antes de responder, vou abraçar os dois.
— Legal você ter vindo — diz Aidan.
— Vê se bota meu irmão na linha — Asher recomenda.
Sorrio para os dois, me sento no banco do passageiro e Andrew fecha a porta para mim.
Os três se despedem. Um minuto depois, Andrew se senta no banco do motorista, e uma lufada de ar frio entra no carro junto com ele.
Ele me olha.
— Então, vai ser assim — ele diz, apoiando os pulsos no volante. — A gente vai pro sudeste, pro litoral...
— Peraí — interrompo —, você planejou tudo? — Isso é tão fora do estilo dele. Me deixa cismada.
Andrew sorri suavemente e diz:
— Em parte. Mas é necessário.
— Que parte é necessária?
Ele me olha como que dizendo: Vai me deixar terminar?
Fico quieta e deixo que ele continue, enquanto ele se debruça e abre o porta-luvas.
— A gente vai pro sul, vamos ficar no litoral durante o inverno todo — ele diz, e agora só consigo me perguntar quanto tempo ele planeja ficar na estrada. O inverno todo? Não consigo entender que diabo de ideia é essa. Ele saca um mapa e o desdobra sobre o volante. Olho para ele, desconfiada. — Odeio o frio. Seguindo o litoral e indo mais pro sul na época certa, a gente vai evitar quase toda a neve e merdas assim.
Tá, o plano é bom, admito. Também não aguento o clima frio, portanto, sim, essa parte é necessária mesmo. Concordo com a cabeça e deixo que ele continue.
Andrew aponta para o mapa gigante e começa a correr o dedo pelo nosso itinerário.
— Vamos começar no litoral da Virgínia e ir pro sul, passando pelo seu estado, mas nada de parar pra visitar. — Ele aponta para mim. — A gente tá só de passagem, certo? — Ele espera a minha resposta.
Concordo com a cabeça novamente e digo:
— Certo — porque com certeza há um método em sua loucura, e sinto que devo concordar com ele.
Ele olha de novo para o mapa e volta a correr o dedo pelo papel.
— Depois, pela Carolina do Sul até a Geórgia, e aí vamos percorrer toda a costa da Flórida, da praia de Fernandina — seu dedo faz uma longa curva pelo papel — indo até Pensacola.
— Quanto tempo tudo isso vai levar?
Ele sorri e balança a cabeça para mim.
— Isso importa? — Então ele dobra o mapa desorganizadamente e o joga no banco, entre nós. — Eu decido a direção, desta vez. Sobretudo porque não quero morrer de frio. Mas... — Ele se vira de novo e olha para a frente, tirando os olhos de mim — Bom, é assim que precisa ser.
— Por que a gente tá fazendo isso, Andrew?
Seus olhos pousam em mim mais uma vez.
— Porque é o certo — ele responde, com um olhar profundo. — Porque você tá no carro.
Suas palavras me deixam confusa.
— Porque eu tô no carro?
Ele balança a cabeça discretamente.
— Sim.
— Mas... o que isso significa?
Seus olhos verdes se abrandam com o sorriso, ele estende a mão e segura o meu queixo. Ele beija meus lábios e diz:
— Você podia ter lutado com unhas e dentes. Podia ter me mandado à merda quando falei pra pegar nossas coisas. Mas você não fez nada disso. — Ele me beija devagar mais uma vez, e o gosto de hortelã do seu hálito fica em meus lábios. — Você não entrou correndo naquela casa porque eu mandei, foi porque era o que você queria. Você nunca fez nada só porque eu mandei, Camryn. Eu sou só um chute no seu traseiro, mais nada.
Tento disfarçar o sorriso que está se abrindo em meu rosto, mas não consigo. Ele se curva, aperta os lábios na minha testa e se endireita no assento. O motor ronrona agressivamente por um momento quando o pé dele aperta o acelerador.
Ele tem razão. Tudo o que ele já me mandou fazer, mesmo quando reclamei, eu jamais teria feito se uma parte de mim não quisesse. Fico intrigada em ver como ele sempre sabe coisas sobre mim antes que eu saiba.
Andrew
17
ACHO QUE ONTEM, em Chicago, foi a primeira vez que não consegui prever a reação de Camryn a uma das minhas exigências. Minha garota estava arrasada. Isso me deixava mais apavorado a cada dia, a pessoa que ela estava se tornando. Corri um risco ligando para Asher naquela noite e pedindo que ele dirigisse o Chevelle até Chicago. Eu não sabia o que Camryn ia fazer e, para dizer a verdade, temi que ela se recusasse a ir. Por causa da culpa. Ei, odeio termos perdido a nossa Lily. Daria um braço ou uma perna para tê-la de volta. Mas o que está feito está feito, e ficarmos parados nos afogando em sofrimento e nos recusando a fazer o que nos deixa felizes por qualquer motivo é uma puta duma bobagem. É assim que você se mata. Um suicídio lento e doloroso. Se Camryn recusasse, eu a carregaria sobre o ombro, esperneando e gritando, e a jogaria no banco de trás do carro. Porque essa é a nossa vida. Nós nos encontramos na estrada; nos conhecemos e aprendemos a nos amar na estrada. É onde devemos estar pelo tempo que for, e é o que vamos fazer até que fique claro que deveríamos fazer outra coisa.
As primeiras 14 longas horas de nossa viagem são calmas e silenciosas. Eu dirijo de Chicago até Virginia Beach ouvindo rádio, ou meus CDs quando não encontro uma estação decente. Camryn, embora sorria e fale sobre as coisas que vemos da estrada, ainda não voltou ao normal, mas vai chegar lá. Pode levar alguns dias, mas vai começar a cair na real.
As praias da Costa Leste são diferentes das do Texas. São mais limpas, e aqui a água parece água do oceano de verdade, e não a água barrenta e turva do Golfo em Galveston.
Já é quase noite. Vimos o sol se pôr no horizonte quando chegamos a Virginia Beach, e foi a primeira vez que vi aquela faísca nos olhos de Camryn, desde que ela perdeu o bebê. Se eu soubesse que um crepúsculo podia fazer isso, já a teria levado para ver um há muito tempo.
— Então, a gente vai pedir quartos separados? — ela pergunta quando saímos do carro no estacionamento do nosso primeiro hotel.
Percebo que ela está brincando, mas aposto que não espera que eu entre na brincadeira.
— É exatamente o que vamos fazer. — Eu abro o porta-malas e jogo nossas mochilas nos ombros.
— Tá falando sério? — Ela está chocada, e é engraçado.
Eu represento o melhor que posso. Nunca me passou pela cabeça pedir quartos separados, mas agora que ela mencionou isso, não acho tão má ideia.
Fecho o porta-malas e nós entramos no saguão do hotel.
— Andrew, acho que a gente já passou dessa fase.
— Dois quartos contíguos para não fumantes, por favor, se tiver.
A recepcionista digita o pedido em seu computador. Eu ignoro Camryn a maior parte do tempo, mexendo na minha carteira à procura do cartão de crédito.
— Andrew?
— Não tenho dois quartos contíguos — a mulher diz —, mas tenho dois que ficam um de frente pro outro no corredor.
— Pode ser — eu digo.
Camryn sussurra:
— Não acredito que você vai gastar dinheiro com dois quartos quando a gente já fez sexo milhares de vezes... — Camryn não para de falar, enquanto a recepcionista nos olha disfarçadamente como se fôssemos loucos. Adoro essa expressão no rosto das pessoas, esse ar surpreso de “não acredito que você disse isso”.
— Por favor, fique quieta — eu digo, me virando para Camryn. — Eu vou pro seu quarto e te como rapidinho, não se preocupe. Então para de dar espetáculo.
Camryn arregala os olhos tanto quanto a recepcionista.
Pego Camryn pela mão e a puxo para a saída do saguão.
— Espero que apreciem sua estada — a recepcionista diz em tom estupefato enquanto vamos para o elevador.
Camryn cai na gargalhada assim que as portas do elevador se fecham.
— O que foi aquilo?! — ela pergunta, incapaz de se conter. — Parecemos dois adolescentes imaturos!
— Mas você tá rindo — eu comento. — Portanto, a imaturidade valeu totalmente a pena.
O elevador para no segundo andar e nós saímos no corredor.
— Mas, sério, Andrew, por que quartos separados?
Provando mais ainda que a espontaneidade tem mesmo um propósito, eu penso no que pedi que Natalie enviasse a Chicago, enquanto andamos pelo corredor. Paramos no meio dele, diante dos nossos quartos, e eu jogo as mochilas no chão verde acarpetado.
— Só por esta noite — respondo, enfiando a mão na mochila para procurar o envelope.
Camryn fica perto de mim, assistindo a tudo em silêncio. Percebo que ela quer dizer alguma coisa, mas não tem certeza, nesse momento, do que poderia ser.
Eu endireito o corpo com o envelope na mão. Ela olha para ele, mas não sabe ao certo quais são as minhas intenções.
— Esta noite você vai ficar sozinha no seu quarto — eu digo e entrego o envelope a ela.
Ela parou de sorrir assim que tirei o envelope da mochila. Agora só consegue olhar para mim, confusa e intrigada.
Cuidadosamente, ela estende a mão e pega o envelope, ainda insegura com relação a tudo, talvez até quanto a querer ou não saber o que há dentro dele.
Eu passo o cartão na fechadura do quarto de Camryn e abro a porta, levando a mochila dela para dentro. Ela me segue, vários passos atrás, muda e desconfiada, com o envelope entre os dedos relutantes. Deixo a mochila dela sobre o balcão da TV e verifico o quarto, como sempre faço. Ligo e desligo as luzes e testo o aquecedor antes de puxar os lençóis para ver se estão limpos. Lembrando que Camryn tem fobia de colchas de hotel, eu a arranco completamente da cama e a jogo no chão, num canto do quarto.
Ela fica perto do pé da cama, imóvel.
Eu me aproximo e fico na frente dela. Olho-a nos olhos e observo o modo como ela retribui meu olhar. Passo o indicador por sua sobrancelha e pelo lado de seu rosto e sinto o calor de sua pele sob o meu toque. Eu a quero. Quando seus olhos baixaram para os meus lábios, isso desencadeou algo predador em mim. Mas eu controlo meus impulsos, pelo seu bem. Esta noite, se tudo der certo, um ciclo vai se fechar.
— Cam foi ao funeral — Natalie me disse pelo telefone no dia em que liguei para ela da casa de Aidan. — Mas chegou tarde, ficou bem no fundo, perto da porta, e foi embora antes que a cerimônia terminasse. Ela se recusou a ir até o caixão.
— Alguma vez ela falou com você a respeito disso? — perguntei.
— Nunca — Natalie disse. — E sempre que tentei abordar o assunto, o funeral, o acidente, qualquer coisa, ela não me deixou continuar.
Esta noite vai ser dura para Camryn, mas se ela não enfrentar isso, nunca vai melhorar.
— Você sabe onde estou — sussurro suavemente, deixando minhas mãos caírem dos seus braços. — Vou ficar acordado a noite toda. Comecei a compor outra canção ontem e quero muito trabalhar nela enquanto tá fresca na minha mente. — Aos poucos, mas sempre, estamos compondo material próprio, especialmente desde a viagem a Chicago; e depois da noite em que tocamos no bar de Aidan, Camryn mostrou interesse por isso, por algum motivo.
Camryn balança a cabeça e sorri fracamente por baixo da expressão de preocupação em seu rosto, preocupação com o que se esconde dentro do envelope.
— E se eu não quiser ficar neste quarto sozinha? — ela pergunta.
— Tô pedindo pra você ficar — insisto com firmeza. — Só por esta noite.
Não quero dizer mais do que isso, mas espero que a sinceridade no meu rosto faça o que palavras poderiam fazer.
— Tá bom — ela concorda.
Eu a beijo de leve nos lábios e a deixo sozinha no quarto.
Só espero que esse tiro não saia pela culatra.
Camryn
Andrew me deixa no quarto. Sozinha. Não gosto disso, mas aprendi a lhe dar ouvidos nos curtos cinco meses que passamos juntos. Cinco meses. Isso me espanta cada vez que lembro, porque parece mais que estamos juntos há cinco anos, depois de tudo o que enfrentamos. Às vezes penso no meu ex, Christian, o namorado infiel que arranjei para preencher o vazio deixado por Ian, e com quem fiquei por quatro meses. A gente mal se conhecia. Pensando bem, agora não consigo nem lembrar o dia do seu aniversário ou o nome de sua irmã, que morava a duas quadras da casa dele.
É totalmente outro mundo com Andrew.
Em cinco meses, me encontrei com ele, me apaixonei total, incondicional e loucamente, aprendi de verdade a viver, conheci praticamente toda a sua família e logo me senti parte dela, enfrentei uma jornada desafiando a morte com Andrew, fiquei grávida e noiva. Tudo em cinco meses. E agora aqui estamos, enfrentando mais uma dificuldade. E ele continua comigo a cada passo. Fui idiota e fraca e tomei comprimidos, e ele continua aqui. Eu me pergunto se existe alguma coisa que eu possa fazer que seria tão horrível a ponto de ele me abandonar. Algo no meu coração diz que não, não existe nada capaz disso. Nada mesmo.
Nunca vou entender, enquanto eu viver, como tive a sorte de ficar com ele.
Durante esse momento de reflexão, noto que meus olhos não desviaram da porta por onde ele saiu. Finalmente, olho para o envelope na minha mão, e não sei por quê, mas fico com medo de pensar no que há dentro dele. Pensei nisso muitas vezes esta semana. Uma carta? Se for, do que poderia falar? E para quem seria, e de quem? Por que Natalie me escreveria uma carta? Por que ela escreveria para Andrew?
Nada disso faz nenhum sentido.
Eu me sento no pé da cama, deixando minha bolsa cair no chão ao meu lado, e passo os dedos pelo contorno do que está dentro do envelope. Mas já fiz isso algumas vezes esta semana e continuo chegando às mesmas conclusões: é um papel, meio grosso, dobrado duas ou três vezes. Não tem nenhuma saliência, nem mesmo algum relevo dentro. É só papel.
Eu suspiro e faço menção de soltá-lo, mas continuo segurando. Não sei por que não abro essa droga de uma vez. Está me deixando meio maluca há uma semana, e aqui estou eu, finalmente capaz de desvendar o segredo de uma vez, abrindo-o, mas tenho medo demais.
Deixo o envelope na cama e me levanto, cruzando os braços e olhando para ele com o canto do olho enquanto começo a andar pelo quarto. Me sinto ameaçada por ele, como se fosse pular em mim e cravar as garras na minha perna quando passo perto. Como aquela gata psicótica que minha tia Brenda tem. Até começo a mexer na minha bolsa, procurando o celular para ligar para Andrew e fazê-lo contar por que tudo isso, até que me dou conta de como isso seria idiota.
Finalmente, eu pego o envelope e, depois de uma longa pausa, sentindo seu peso leve em minha mão, passo a ponta do dedo pela aba colada para soltá-la. Depois de tentar romper o lacre cuidadosamente e não conseguir, mando tudo à merda e rasgo o resto de alto a baixo. Jogo o envelope esfarrapado na cama e desdobro o papel de carta, vendo que a maior parte dele está em branco. Foi usado apenas para esconder a fotografia que tem dentro. Olhando para o verso da fotografia, primeiro me recuso a virá-la para ver o que há do outro lado. Em vez disso, leio a letra de Natalie no meio do último pedaço de papel:
Esta foi a melhor que eu achei.
Espero que ajude no que você está tentando fazer, seja o que for.
Sinceramente,
Natalie
Viro a fotografia e meu coração afunda como uma pedra quando vejo o rosto vibrante e sorridente de Ian me olhando. Minha bochecha está encostada na dele, olhando para a câmera. As luzes coloridas dos brinquedos do Parque Estadual da Carolina do Norte iluminam a noite ao fundo, atrás de nós. Como se eu tivesse caído num lago congelado, ver seu rosto me deixa totalmente sem fôlego. Lágrimas brotam instantaneamente dos meus olhos, e eu deixo a foto cair dos meus dedos sobre a cama. As duas mãos sobem ao meu rosto, onde os dedos cobrem meus lábios trêmulos.
Como posso me permitir chorar por ele?! Por que isso está acontecendo?!
Eu me desfiz de todas as fotos de Ian por um motivo. De todas. Deletei cada arquivo com fotos digitais nossas, tirei seu nome do meu celular. Até joguei fora o criado-mudo que eu tinha desde criança, porque Ian entalhara IAN AMA CAMRYN na madeira por baixo dele. Tentei tirar da minha vida cada coisa que me fizesse lembrar dele, o melhor que pude, porque doía demais saber que tudo o que me restava dele eram coisas materiais. Eu não podia fazer muita coisa com as lembranças, mas me esforcei ao máximo para esquecê-las também.
Por que Andrew faria isso comigo? Trazer toda essa dor de volta à minha vida, e ainda por cima tão pouco tempo depois de perdermos Lily?
Uma parte de mim quer berrar com Andrew, sair marchando pela porta, cruzar o corredor até seu quarto e lhe dizer o quanto isso dói. Mas minha razão me alcança rapidamente. Eu sei por que ele fez isso. Eu sei por que ele me colocou neste quarto, sozinha, com esta foto. Porque ele me ama tanto que está disposto a me devolver Ian só por uma noite, para que eu possa finalmente aceitar a perda dele.
Mas não consigo olhar essa droga de foto! Não consigo!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, pego meu suéter grosso da mochila e enfio os braços de qualquer jeito nas mangas. E então saio correndo do quarto e vou para o elevador.
Segundos depois, estou sentada na areia fria da praia, olhando para o oceano sem fim.
Andrew
18
EU ME PERGUNTO se ela vai abrir. Cacete, me pergunto se ela vai me odiar por fazer isso com ela, mas se isso vai ajudá-la, aceito a barganha.
Aperto o botão de ligar do controle remoto e uma velha reprise de Seinfeld preenche o silêncio do meu quarto. Tiro os sapatos e entro no chuveiro, deixando a água quente bater em mim até ela começar a sair morna. Só consigo pensar no que Camryn está fazendo, sozinha no seu quarto, se está olhando para aquela foto de seu ex-namorado morto, e se está se aguentando. Quero ir lá ajudá-la, mas sei que é algo que ela precisa fazer sozinha. Algo que ela deveria ter feito há muito tempo, antes que nos conhecêssemos.
Depois de me enxugar, enrolo a toalha na cintura e remexo na mochila sobre a cama, procurando uma cueca. Eu me sento, olho fixamente para a TV, depois para a parede, depois para a TV de novo, até que me dou conta de que estou só tentando fazer qualquer coisa para parar de pensar em Camryn.
Deixo meu MP3 tocar umas cinco músicas aleatórias em meus ouvidos antes de decidir que preciso ao menos ver como ela está. Tento seu celular primeiro, mas ela não atende. Então uso o telefone do hotel e tento ligar para o quarto dela. Ainda sem resposta. Talvez ela esteja apenas tomando banho. Tento me obrigar a acreditar nisso, até que meu instinto fala mais alto. Visto meu jeans e uma camisa de manga comprida e atravesso o corredor até seu quarto. Encosto o ouvido na porta, tentando ouvir o chuveiro ligado. Nada. Por isso passo o cartão extra na porta para destrancá-la.
Ela não está ali. Meu coração acelera enquanto entro no quarto. A primeira coisa que noto é a fotografia, que na verdade eu nem tinha visto ainda, sobre a cama. Eu a pego e a estudo por um instante. Camryn parece tão feliz nela. Essa é a Camryn que eu conheci, aquela com um sorriso lindo e cheio de energia. Me lembro desse sorriso. Eu o vi dezenas de vezes quando estávamos na estrada juntos.
Entrando em pânico, tiro os olhos da foto e vou para a janela. Olho para o oceano negro lá fora e vejo algumas pessoas andando pelo calçadão. Com a foto ainda na mão, volto rapidamente para o meu quarto e calço os sapatos, deixando-os desamarrados enquanto saio e vou para a praia. O ar frio não é insuportável, mas é suficiente para me fazer pensar que fiz bem em usar mangas compridas. Procuro qualquer sinal dela, olhando de um lado para o outro no calçadão e nas cadeiras de praia perto do hotel, mas ela não está em lugar nenhum. Enfiando a foto no bolso de trás da calça, começo a correr um pouco e rumo para a praia.
Eu a encontro sentada na areia, não muito longe.
— Porra, amor, você me deixou apavorado.
Eu me sento ao lado dela, passando um braço ao redor do seu corpo.
Ela olha para o oceano, o vento gelado atravessando seu cabelo louro. Não olha para mim.
— Desculpa. Eu só queria...
— Eu te amo, Andrew — ela interrompe, mas continua com o olhar fixo à sua frente. — Não sei como uma garota pode ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo.
Sem saber aonde ela quer chegar com isso, tenho medo de dizer alguma coisa porque não quero dizer a coisa errada. Eu a aperto mais para compartilhar o nosso calor. E não digo uma palavra.
— Não tô brava com você — ela continua. — Primeiro fiquei, mas quero que saiba que não tô mais.
— Me fala o que você tá pensando — peço baixinho.
Ela ainda não desviou o olhar da escuridão à sua frente. As ondas mal lambem a praia a alguns metros de nós. Um pontinho branco, a luz de um barco, se move no horizonte.
De repente, sinto que Camryn está me fitando e me viro para olhá-la também. A luz dos prédios atrás de nós e do luar é suficiente apenas para mostrar seus traços suaves, os cachos do seu cabelo soprados sobre sua face fria. Eu afasto alguns fios dos seus lábios. Seu olhar se abranda quando ela me encara e diz:
— Eu amava Ian, amava muito. Mas não quero que você pense...
Eu balanço a cabeça.
— Camryn, não faz isso. Não estamos aqui pra falar de mim, tá? — Eu enfio o dedo em outro cacho do seu cabelo e o afasto da sua boca. — Não fale de mim.
Ela para por um momento, e sinto sua mão no meu colo e meus dedos se entrelaçando com os seus.
Camryn volta a olhar o oceano.
— Eu não queria ir ao funeral de Ian — ela me conta. — Não queria vê-lo pela última vez daquele jeito. — Camryn me olha. — Lembra aquele dia, no seu apartamento, quando cheguei e você tava falando ao telefone com Aidan, quando ele tava tentando te convencer a ir ao funeral do seu pai?
Balanço a cabeça.
— Lembro, sim.
— Você disse uma coisa pra ele, disse que preferia que a última vez que você visse alguém, que ele estivesse vivo, não morto, deitado num caixão. Bem, era isso que eu pensava do funeral de Ian. Eu não queria ir. Foi por isso, também, que eu não quis ver Lily. Por isso escolhi a cremação.
— Mas você foi. Ao funeral de Ian. — Eu evito o assunto de Lily por enquanto. É um caso mais doloroso. Para nós dois. Eu a vi. Era tão pequena que caberia na palma da minha mão. Mas Camryn se recusou a olhar.
Ela balança a cabeça.
— Não exatamente — ela explica, a respeito do funeral de Ian. — Eu tava lá, mas não tava. Minha maneira de me desapegar dele foi tirá-lo da minha mente, cada palavra que ele já me disse, seu rosto; tudo o que eu podia apagar, eu apaguei. Só fui porque era o que todos esperavam de mim. Se eu não estivesse tão preocupada com o que todos fossem pensar de mim, teria ficado em casa naquele dia.
— Mas isso não fecha o ciclo — digo cautelosamente. — É a mesma coisa que varrer a sujeira pra baixo do tapete. Ela continua lá. Você sabe que tá lá. E aquilo vai ficar te incomodando até você fazer certo.
— Eu sei — ela diz.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, eu enfio a mão no bolso de trás e tiro a foto.
— Sabe, se ele ainda estivesse vivo, eu ficaria com um pouco de ciúme. Até que, pra um cara, ele é gato.
Camryn sorri para mim e noto que seu olhar mal pousa na foto.
Eu a deixo na areia perto dos nossos joelhos. Então fico sério de novo.
— Camryn, isso que tá acontecendo com você, os comprimidos e tudo mais, não é só por causa da perda da Lily. Você sabe disso, não sabe?
Ela não responde, mas percebo que está pensando muito no que eu falei.
— Você bloqueia tudo. Ian. Lily. De acordo com Natalie, até a morte da sua avó, o crime de Cole, e o fato do seu pai ter ido embora e parecer se importar mais com a nova namorada do que com você. — Digo as coisas como elas são porque é exatamente assim que precisam ser ditas. — Em vez de lidar com tudo isso, chorar, o que for, você só bloqueia essas merdas e espera que desapareçam sozinhas. Você já tava fazendo isso bem antes da gente se conhecer. Mas precisa saber que tudo se acumula, e um dia você desmorona e cai num abismo.
— Sei. Você tem razão, como sempre — ela concorda desconsoladamente.
— Você acredita nisso ou tá concordando só pra me fazer calar a boca? — Abro um sorriso para ela, esperando receber outro em troca.
E funciona.
Ela sorri e diz:
— Não, eu acredito mesmo. Só queria ter acreditado nisso antes.
— Por que acredita agora?
— Porque você é uma espécie de filósofo com tatuagens. — Ela ri, e isso espalha calor pelo meu sangue.
Não acredito que ela está rindo. De início, imaginei que fosse levar muito tempo para Camryn aceitar tudo isso, mas ela me surpreende a cada dia.
— Um filósofo? — digo. — Exagerada. Mas aceito o elogio.
Camryn se vira de lado e deita a cabeça no meu colo. Ela olha para mim com aqueles olhos azuis de corça, e não consigo deixar de tocar seu rosto macio.
— Quer saber a verdade? — ela pergunta.
— Claro — respondo, mas fico um pouco ansioso, de repente.
— É como te falei na casa de Aidan — ela continua. — Se um dia eu perdesse você, logo você, isso seria o fim pra mim. Quando tive o aborto, isso fez todos os meus medos voltarem. De perder você. Foi como se aquele instante de tragédia me fizesse lembrar de novo da morte, e com que rapidez ela pula em cima de uma pessoa. Se Deus, a natureza, ou sei lá quem ou que porra controla tudo, pode ser cruel e desalmado a ponto de matar o meu bebê, então Ele pode te matar também, sem pensar duas vezes. Isso me apavora, Andrew. A ideia de perder você me mata por dentro. E como já quase te perdi uma vez, o medo fica muito pior.
— Mas eu já te disse...
Ela se levanta do meu colo e fica sentada na minha frente, com os joelhos enterrados na areia.
— Eu sei o que você disse — ela interrompe. — Mas não importa o que você pensa, ou você saber dizer todas as coisas certas pra me fazer sentir melhor. Você não tem certeza do que vai acontecer, Andrew. O tumor pode muito bem voltar, e apesar de tudo o que fazemos, de todas as precauções que tomamos, ele pode te matar.
Eu começo a discordar, mas ela está tão empenhada em me dizer essas coisas que sei que preciso deixar.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu — ela continua — e agora posso te olhar nos olhos e dizer que, por mais que isto doa, consigo aceitar a morte de Ian. Consigo aceitar a morte de Lily. Consigo aceitar a morte de qualquer um, mesmo que essa morte seja insuportavelmente dolorosa. Mas a sua... — Ela se interrompe e nem pisca ao olhar no fundo dos meus olhos. — A sua eu jamais poderia aceitar. Jamais.
O silêncio entre nós só amplifica o som do oceano. Quero pegá-la nos braços, apertar meus lábios contra os dela, mas fico sentado ali, olhando para ela, porque as palavras que ela me disse são as mais poderosas que já ouvi, senti ou entendi.
Finalmente, eu a pego em meus braços e a ponho no meu colo. Passo os braços pelas suas costas, fito seus olhos e digo:
— Acredito em você e sinto a mesma coisa.
Ela inclina um pouco a cabeça para o lado.
— Mesmo?
— Sim. Camryn, não consigo viver sem você. Eu poderia tentar, mas ia ser uma existência péssima. Isso não vale só pra mim; você pode morrer amanhã tão facilmente quanto eu. Ninguém tá imune.
Ela não discute, mas desvia o olhar por um breve momento.
Eu seguro seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me olhar. Sua pele está gelada.
— A gente precisa viver no presente, lembra? — eu digo e ela volta a prestar atenção em mim. — Precisamos fazer um pacto, você e eu, agora mesmo. Topa fazer um pacto comigo? — Movo um pouco minhas mãos para aquecer suas orelhas geladas.
Ela concorda com a cabeça.
— Tá — diz, e fico feliz por ela confiar em mim o suficiente para não fazer perguntas antes de concordar.
Tirando uma mão de sua orelha, passo as pontas dos dedos na sua testa e pelos lados de suas bochechas.
— Não podemos controlar a morte. Nenhum dos dois pode fazer nada pra evitá-la ou adiá-la. Só o que podemos controlar é como vamos viver nossas vidas antes que ela nos alcance. Portanto, vamos prometer um pro outro coisas que possamos cumprir, haja o que houver.
Camryn concorda com a cabeça e sorri um pouco.
— Que tipo de coisas? — ela pergunta.
— Qualquer coisa. Tudo o que a gente quiser um do outro. Tipo... — Eu me levanto da areia e enfio as mãos nos bolsos. Olho para o oceano, vasculhando minha mente em busca da melhor promessa para começar. Só consigo pensar numa coisa no momento, por isso me viro novamente para ela, levanto o dedo indicador e digo: — Isto não tem nada a ver com o tumor, nem com nada específico, mas quero que você me prometa que, se algum dia estiverem me mantendo vivo por aparelhos, por qualquer motivo, e você sentir no fundo do coração que eu não vou melhorar, se você sentir que eu tô sofrendo, vai mandar desligar os aparelhos.
Seu sorriso desaparece, e ela me olha como se eu tivesse estragado o momento. Eu estendo os braços e a pego pela mão, fazendo-a levantar comigo.
— Não tô tentando ser mórbido. É só uma coisa que sempre me incomodou, sabe? Você vê isso na TV e nos filmes. O cara fica ligado a todo tipo de aparelho que a ciência já inventou pra se manter vivo porque a família tem esperança ou qualquer coisa assim. Nada contra ter esperança, mas, porra, aquilo me dá um puta medo. — Eu seguro seus braços delicadamente. — Nunca me deixe viver como um vegetal. Me prometa isso. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa, e confio que você vai saber quando tiver chegado a minha hora. Então prometa.
Aos poucos, ela começa a entender. Leva um segundo, mas ela começa a concordar com a cabeça.
— Me promete a mesma coisa — ela pede.
Eu sorrio e digo:
— Tá prometido.
Ela dá um passo para trás e enfia as mãos nas mangas. Apertando bem o suéter ao redor do corpo, ela começa a andar de um lado para o outro.
Ela para e me olha.
— Promete que se um dia eu tiver mal de Alzheimer ou ficar senil e não me lembrar de ninguém, você vai me visitar todo dia e ler pra mim, como Noah lia pra Allie.
— Quem? — eu pergunto, mas aí a ficha cai. — Aaaah, entendi. — Eu rio dela e concordo com a cabeça.
Seus olhos e seu sorriso aumentam e ela grita:
— Andrew! Não tem graça! Tô falando sério! — Ela ri e eu a agarro, puxando-a para os meus braços.
— Tudo bem, tudo bem! — eu me rendo, apertando seu corpo que se retorce contra o meu.
— A ideia foi sua — ela acusa —, então não faz piada.
— Eu sei. Você tem razão, mas... é sério? Precisa ser tão fã assim de Diário de uma paixão?
Sinto o cotovelo dela atingindo meu estômago e me curvo um pouco e exagero a dor que isso me causa, contorcendo o rosto com a agonia e o riso. Para me humilhar de vez, Camryn me dá um empurrão e me derruba na areia. Depois fica por cima de mim, com um pé de cada lado do meu peito e as mãos na cintura, toda autoritária. Mantenho uma mão na barriga, rindo e tentando ficar sério, embora eu saiba muito bem que não consigo enganá-la.
— Só você pra fazer piada num momento tão sério. — Ela reclama tão seriamente que isso só me faz rir mais, sobretudo pela dificuldade dela em ficar de cara fechada.
Ela começa a se sentar em cima de mim, e provavelmente vai tentar me bater com suas mãozinhas delicadas, mas eu a seguro antes que ela comece, meto a mão no meio das pernas dela e aperto com toda a força.
— Aaaaaii! — Camryn geme, e começa a desabar, mas eu a mantenho na posição. — Que ideia é essa de apertar minhas paaarrr... porra, Andrew! Apertar minhas partes?!
Faço mais pressão e levanto aos poucos as costas da areia, guiando-a para trás. Ela fica de joelhos olhando para mim.
— Porque eu gosto — sussurro sobre seus lábios. — Agora fica parada.
O clima entre nós muda em questão de segundos. Sua pele fria fica mais quente; seus olhos, arrebatados; seu corpo, conivente.
— Tem gente aqui... — ela tenta dizer baixinho, mas minha mão apertando-a no meio das pernas lhe rouba a voz.
— Não me importa — retruco, examinando seus olhos primeiro e então seus lábios úmidos e inchados. — Eles estão longe.
— Mas... o que você tá fazendo...
— Só fica parada. Quieta. — Eu passo a língua sobre seu lábio inferior e o chupo delicadamente. Sinto que ela tenta me beijar, mas não deixo. Eu puxo o tecido de sua calça e enfio a mão dentro da cintura folgada para achar o seu calor. Caramba, ela já tá molhada. Me curvando sobre o seu pescoço, fecho os olhos e inalo o cheiro de sua pele. Ela fica bem imóvel, mas posso sentir seu corpo tremendo e seu coração batendo forte sob o meu toque. Quero tanto comê-la. Mas não vou fazer isso ainda, porque gosto de me torturar. Adoro, porra.
Minha mão livre solta sua cintura e eu a ponho em sua coxa, forçando-a a abrir mais as pernas.
— Abre — eu instruo, com meus lábios roçando nela, e Camryn faz exatamente o que eu mando, afastando os joelhos na areia. Ela fica um pouco tensa quando percebo um homem andando não muito longe, mas eu a aperto de novo, enfiando dois dedos nela e obrigando-a a olhar só para mim. Ela geme e eu estremeço silenciosamente, sentindo suas entranhas se apertando em volta dos meus dedos. Encaro seus olhos, os meus de vez em quando se perdendo no estudo da curvatura de sua boca. — Não tira os olhos de mim — digo. — Não me importa se você sentir que precisa fechar os olhos. Não feche. Continue me olhando.
Ela balança um pouco a cabeça, como se temesse que eu vá parar se ela fizer errado.
Mexo os dedos para dentro e para fora dela, lentamente de início, tirando-os e usando seu gozo para manter seu clitóris úmido, esfregando meu dedo médio sobre ele num movimento circular. Cada vez que a toco, seus olhos começam a se fechar, mas eu paro assim que percebo, e ela volta a controlar o olhar. Mexo meus dedos dentro dela de novo, um pouco mais rápido, e com o polegar faço cada vez mais pressão no seu clitóris. Pequenos gemidos escapam de seus lábios abertos, chupando o ar gelado ao nosso redor e meu hálito quente à medida que fico mais ofegante em sua boca. Mas ela nunca tira os olhos dos meus e não fala, embora eu saiba que ela queira fazer tudo isso.
— Admite uma coisa — sussurro no ouvido dela. — Neste momento, você não estaria nem aí se alguém estivesse olhando. Não é verdade? Me deixaria foder você aqui, na frente de todo mundo, e se preocuparia com a vergonha só depois que eu terminasse.
Sinto sua cabeça balançando perto da minha.
— O que mais você me deixaria fazer? — pergunto e mantenho os lábios perto do ouvido dela. Continuo mexendo os dedos.
— Tudo o que você quisesse — ela diz, com um gemido na voz.
— Tudo o que eu quisesse? — Eu esfrego meu polegar com mais força no seu clitóris.
— Tudo... — ela diz e perde um pouco o fôlego. — Qualquer porra que você quisesse...
Suas palavras, sua voz carregada de desejo, me deixam louco de tesão por ela, e meu pau está tão duro que mal consigo aguentar. Enfio os dedos com mais força e mais rápido. Seu corpo começa a tremer, suas coxas balançam tentando levantar o corpo. Eu me afasto do ouvido dela e a fito de novo. Ela mantém o olhar fixo no meu o melhor que pode, suas pálpebras estão ficando mais pesadas; sua respiração, irregular e ofegante. Mas seus olhos ficam arregalados e imóveis quando atinjo aquele ponto especial, e tomo cuidado para não interromper o ritmo.
— Não tira os olhos de mim — digo e continuo a olhá-la ferozmente.
Quando ela começa a gozar, meu olhar só fica mais forte, perfurando o dela num momento de luxúria faminta. É como se eu conseguisse ver o prazer emanando de suas íris, o calor do seu orgasmo saindo da pele sensível dos seus lábios, que querem beijar os meus tão selvagemente, mas mesmo assim eu não deixo. Quando seu corpo trêmulo começa a se acalmar, enfio os dois dedos mais fundo, sentindo-a se estreitar ao redor deles, o tempo todo mantendo a pressão no seu clitóris.
Ela desaba sobre o meu peito.
Eu envolvo seu corpo trêmulo nos braços e beijo o alto da sua cabeça.
— O que você tá fazendo comigo, caralho? — ela diz.
Eu rio um pouco e a abraço mais forte.
— Qualquer porra que eu quiser — respondo astutamente.
Erguendo a cabeça do meu peito, ela olha para mim.
— Bom, pode dizer o que quiser, mas não vai me fazer gozar desta vez sem que eu retribua o favor.
— Ah, é?
— É isso mesmo, por isso nem tenta.
— O que você vai fazer comigo, então? — Eu sinto o meu sorriso aumentando.
— Qualquer porra que eu quiser — ela diz, com um sorriso ainda maior e mais malicioso que o meu.
Então ela fica de pé e, segurando minha mão, me faz levantar com ela.
— Mas não aqui fora — ela diz. — Tá esfriando demais.
— Você que manda — digo, deixando que ela me puxe.
Eu jamais tocaria no assunto, mas noto, quando nos afastamos da praia, que Camryn olha para trás uma vez, para a foto dela e de Ian na areia. Sua mão aperta a minha forte e ela olha para meu sorriso suave quando atravessamos o calçadão.
Sei que tive muito pouco a ver com ela finalmente fechar esse ciclo. Tudo bem, eu a forcei a fazer isso, mas foi Camryn que, naquele momento, enfrentou um dos seus maiores medos. Ela olhou no rosto de alguém que amou e perdeu, e finalmente aceitou isso. Admito que foi estranho como tudo aconteceu, e eu não fui para lá com nenhuma intenção sexual, especialmente num momento como aquele. Mas Camryn, no tempo que passou sozinha naquela praia pensando em Ian, bem antes que eu chegasse, já tinha entendido tudo.
Não sei ao certo como ela fez, ou qual foi meu papel nisso, mas quando retornou da praia comigo naquela noite, ela já começava a ser como era antes.
Camryn estava voltando, e eu estava nas nuvens com ela.
Camryn
19
8 DE DEZEMBRO — meu vigésimo primeiro aniversário
Quando começou a esfriar, Andrew e eu rumamos mais para o Sul. Passamos só uma noite em Virginia Beach e de lá percorremos o litoral da Carolina do Norte, ficando alguns dias em Myrtle Beach, Carolina do Sul, onde arranjei meu primeiro emprego na estrada. Como arrumadeira. Com certeza não era a minha primeira escolha, especialmente depois que Andrew me lembrou das coisas nojentas que os hóspedes costumam deixar nos quartos. Mas era um emprego e não me incomodava tanto, a não ser quando queriam que eu lavasse cestos de lixo com catarradas nojentas grudadas no fundo. Desculpa, mas só de pensar nisso me dá vontade de vomitar. Eu ligava para Andrew e implorava que ele viesse limpar. Claro que eu o subornava com promessas de boquetes enlouquecedores em lugares públicos. Puxa, que maravilha. Não, quem eu tô tentando enganar? Adoro fazer isso por ele. Só finjo detestar às vezes, mas acho que ele gosta quando eu finjo, porque gosta de me ouvir reclamar.
De qualquer forma, pelo jeito, empregos de arrumadeira são como portas giratórias, as funcionárias vêm e vão tão rápido que seria melhor nem incluí-las oficialmente na folha de pagamento. Pensei em como isso poderia trabalhar a meu favor enquanto estivéssemos na estrada. Assim, em troca de metade do valor das diárias do quarto que estávamos ocupando, e como o quadro de funcionários do hotel estava desfalcado, eu perguntei se poderia ajudar e eles me contrataram na hora.
Mas o emprego era só temporário, pois Andrew e eu precisávamos partir de Myrtle Beach e seguir para o nosso destino, onde quer que fosse. Nunca planejamos nossos destinos antecipadamente. A nossa única regra é ficar no litoral. Pelo menos até a primavera. Mas ainda faltam alguns meses até lá e, no momento, estamos felizes instalados num hotel estilo chalé bem em frente à praia, na linda Savannah, Geórgia.
E hoje eu faço 21 anos.
Andrew me acorda de um sono profundo abrindo as cortinas da janela gigante do nosso quarto e deixando o sol invadir o ambiente.
— Levanta, aniversariante — exclama ele de algum lugar perto do pé da cama. Eu o ouço batendo várias vezes na mesinha perto da janela com a palma da mão.
Resmungo e viro para o lado, dando as costas para o sol brilhante e me enterrando nos lençóis. Uma lufada de ar frio me atinge quando Andrew me arranca os lençóis.
— Ah, vai! — gemo, encolhendo os joelhos para o peito e puxando o travesseiro para cima da minha cabeça. — Eu devia poder dormir até tarde no meu aniversário.
De repente, meu corpo está sendo arrastado da cama e eu estico os braços freneticamente, tentando me agarrar à borda do colchão. A mão de Andrew segura com firmeza o meu tornozelo. Eu chuto e esperneio, tentando me soltar, mas ele me arrasta pela cama tão rápido e sem esforço que eu simplesmente desisto. Minha bunda bate no chão e os lençóis caem ao meu redor.
— Você é tão babaca! — eu rio.
— Mas você me ama. Agora levanta.
Com o cabelo todo emaranhado, olho para Andrew e faço bico. Ele sorri para mim e estende a mão. Eu a seguro e ele me puxa de pé.
— Feliz aniversário, amor — ele diz, e me dá um selinho.
Eu me encolho um pouco, porque sei que meu bafo está podre, e já estou ficando acostumada com a mania de Andrew de aproveitar qualquer oportunidade de me lembrar disso.
Sem olhar para mim, Andrew enfia a mão no bolso do casaco e tira uma caixinha de veludo preto. Obviamente, ele já saiu hoje, mas eu estou mais interessada na caixa que ele pôs na minha mão. Olho para ele desconfiada, pronta para dar um esporro nele caso tenha gastado uma grana numa joia escondido de mim.
— Andrew? — digo, desconfiada.
— Abre de uma vez. Eu me comportei. Juro. — Ele ergue as duas mãos num gesto de rendição.
Ainda totalmente desconfiada de sua aparente sinceridade, abro a tampa da caixa e vejo um colar com pingente de diamante dentro e fico com um pouco de falta de ar. Então estreito os olhos para ele.
— Andrew, por favor. — Olho mais uma vez para o colar, me sentindo culpada só de tê-lo nas mãos. — De jeito nenhum isso foi...
— Juro — ele diz com um sorriso encantador. — Não foi caro.
Mordendo o lábio com ceticismo, eu pergunto:
— Quanto custou, então?
— Ah, uns 125 dólares. Nada mais do que isso. Juro por Deus. — Ele faz uma cruz sobre o coração com o dedo.
Então tira o colar da caixa, deixando-o pendurado na mão.
— Gostou? — pergunta, indo para trás de mim.
Instintivamente, levanto meu cabelo embaraçado enquanto ele põe o colar no meu pescoço.
— É perfeito, Andrew. Eu mais do que gostei. Eu amei. — Olho para baixo enquanto ele o fecha e seguro o pingente brilhante de prata.
Eu me viro para Andrew e fico na ponta dos pés descalços para beijá-lo apaixonadamente.
Nem imagino como uma joia dessas pode não ter custado um caminhão de dinheiro, mas ele está dizendo a verdade. Eu acho...
— Obrigada, amor — agradeço, radiante.
De repente, ele me dá um tapão na bunda e diz:
— A gente precisa sair daqui hoje. Tô de saco cheio de me esconder em quartos assim. De saco cheio do frio. Eu queria poder hibernar.
— Eu também. E o que a gente vai fazer, exatamente? — Pego uma roupa limpa da minha mochila perto da TV.
— Sei lá. Qualquer coisa. Mas põe uma roupa quente.
Ele não precisava me lembrar disso, na verdade. Nem mesmo a proximidade do litoral e a mudança de latitude ajudaram muito a nos aquecer nos últimos dias. Ambos sonhamos com a primavera e o verão, a ponto de ser a única coisa da qual falamos. Eu reclamo muito de não poder esticar os pés descalços para fora da janelinha do carro sem matar nós dois de frio, e ele reclama que ainda não conseguimos dormir num gramado sob as estrelas. Claro que não vou dizer em voz alta, senão ele vai querer ainda mais, mas não estou muito ansiosa para dormir sob as estrelas. Jamais. Não depois do que aconteceu na primeira vez que tentamos. Não. Acho que estou satisfeita com as camas de hotel. Elas não têm cobras.
O inverno é deprimente. Acho que é por isso que o índice de suicídios é tão alto no Alasca. É um estado lindo, mas ainda prefiro o calor de rachar de um deserto do Sul.
Eu visto roupas extraquentes para o meu aniversário: casaco grosso, cachecol, luvas, o que tiver eu tô vestindo. E mesmo assim tô morrendo de frio.
~~~
Andrew meio que “esquenta” o inverno. Sempre achei que caras de gorro ficam sexy, mas o jeitão dele com sua jaqueta preta de grife e seu gorro de lã, suéter cinza-escuro, jeans preto e botas Doc Martens é tudo o que eu quero de presente de aniversário. Sorrio comigo mesma enquanto andamos de mãos dadas por uma pequena multidão, todos se acotovelando no farol para se proteger do frio, e então três garotas, provavelmente turistas como nós, devoram Andrew com os olhos quando passamos. Isso acontece muito, e eu já deveria estar acostumada. Me vanglorio em segredo, mas quem não faria isso, na minha situação? Ele é a coisa mais sexy que eu já vi. Não admira que já tenha trabalhado como modelo. Ele odeia falar disso, então, naturalmente, eu toco no assunto com frequência para vê-lo sofrer. Andrew também está se barbeando menos; está com aquela barba sexy por fazer.
Subimos a escada em caracol até o farol debruçado sobre o oceano e olhamos o panorama juntos. Porque é algo para se fazer. Estamos apenas improvisando, andando de carro pela cidade e escolhendo as coisas quando as vemos. Mas, nos meses frios, até isso é um processo de tentativa e erro. Estendemos os braços sobre o corrimão e ficamos perto um do outro para nos aquecer. O vento gelado nos fustiga, naquela altitude, e eu sei que meu nariz e minhas bochechas devem estar vermelhos.
Levamos exatamente cinco minutos para mandar aquilo à merda e praticamente correr de volta para o carro.
— A gente podia ir pro cinema — ele sugere, no banco do motorista. — Ou... tá, acho melhor a gente hibernar e pronto.
Ficamos sentados por muito tempo, só pensando em alguma coisa para fazer.
— Vamos andar de carro mais um pouco — eu digo, sem nenhuma ideia.
— Talvez seja melhor ir embora de uma vez.
Dou de ombros.
— Se você quiser. — Então vejo uma placa que diz Feira de Antiguidades das Pulgas & Carrapatos.
— Vamos fazer compras — sugiro.
Andrew não parece empolgado.
— Compras?
Balanço a cabeça e aponto para a placa.
— Não no shopping, nada disso — explico. — Dá pra achar umas coisas bem bacanas em feirinhas de coisas usadas.
Sua expressão continua neutra, mas acho que ele se dá conta de que com certeza é melhor do que andar na rua no frio, ou ficar parado no carro sem fazer nada.
Andrew acaba cedendo porque, francamente, ele não tem mesmo muita escolha, e em seguida tira o carro do estacionamento e seguimos as placas até a feira de antiguidades. Encontramos um pouco de tudo: chapéus idiotas, instrumentos odontológicos antigos, colchas de retalhos feitas à mão, fitas de vídeo e discos. Andrew não se empolgou com muita coisa, até ver a caixa de madeira cheia de discos.
— Não vejo um disco do Led Zeppelin há anos — ele comenta, segurando um. A capa está tão detonada e desbotada que parece ter ficado num sótão por trinta anos, mas ele o segura com tanto cuidado que poderia ser um exemplar em perfeito estado.
— Você não tá pensando em comprar isso, tá?
— Por que não? — ele pergunta, sem olhar para mim.
Ele vira o disco e olha para o verso da capa.
— Porque é um LP?
— Tá, mas é um LP do Led Zeppelin — ele argumenta, olhando rapidamente para mim.
— Tá, e?
Ele não responde.
Eu continuo:
— Andrew, onde é que você vai tocar isso?
Finalmente ele me dá atenção total.
— Eu não vou tocar.
— Então por que quer comprar? — pergunto, e então respondo por ele, sarcasticamente. — Ah, já sei, é um artigo de colecionador. Você pode pendurá-lo no banco de trás do carro. — Dou um sorrisinho para ele.
— Ou posso pôr você no banco de trás e pendurá-lo na frente.
Eu fico levemente boquiaberta.
Andrew sorri e devolve o disco à caixa.
— Eu não vou comprar — ele resolve, pegando a minha mão.
Minutos depois, entramos em outra barraca, lotada de roupas antigas. Enquanto examino meticulosamente tudo o que há nos cabides, Andrew fica na barraca ao lado, onde centenas de DVDs e Blu-rays estão expostos numa parede. Ele para diante dela de braços cruzados, praticamente imóvel, lendo cada um dos títulos. Posso ver sua nuca através da treliça de madeira que separa seu quiosque do meu. Volto a olhar as roupas, sentindo urgência e necessidade a cada peça que toco. Eu adoro roupas antigas. Não que eu chegue a usar, ou que tenha comprado alguma vez, mas são coisas que não dá para deixar de olhar com admiração e se imaginar nelas.
Empurro os cabides finos de arame, um por um, para conseguir ver tudo. Camisas com mangas bufantes e cadarços de couro, espartilhos, vestidos plissados e com mangas longas, botas vitorianas...
O que é isso?
Meu coração para por um segundo quando puxo um dos cabides e vejo o vestido. É um modelo vintage cor de marfim, com mangas curtas drapeadas. Tiro o cabide da arara e seguro o vestido junto ao corpo, virando para o espelho. O comprimento por pouco não chega ao chão. Segurando-o com uma mão na altura certa, estico o tecido com a outra mão. Então eu rodopio.
— Meu Deus, amei este vestido — digo em voz alta para mim mesma. — Preciso comprar.
— Hãã, devo dizer — Andrew intervém por trás, me assustando — que é um vestido lindo.
Um pouco sem jeito porque Andrew provavelmente me viu enquanto eu me admirava com o vestido e falava sozinha, não olho para ele. Em vez disso, olho a etiqueta para ver se é do meu tamanho. É! Claro que agora preciso comprá-lo, sem mais perguntas. Era pra ser meu!
Abraçando apertado o vestido, eu giro para ficar de frente para Andrew.
— Você gostou mesmo? — pergunto com voz culpada, minha maneira de implorar para que ele não jogue na minha cara aquela conversa sobre o disco.
— Eu acho que você deve comprar — ele confirma, com um sorrisão cheio de covinhas. — Já posso imaginar você vestida nele. Linda. Naturalmente.
Eu fico vermelha e olho para o vestido de novo.
— Você acha? — Não consigo parar de sorrir.
— Com certeza — ele diz. — E você fica mais acessível nele.
Típico!
Ignoro seu comentário pervertido, sobretudo porque estou apaixonada demais pelo vestido. Então me dou conta de que ainda não olhei o preço. Conhecendo os vestidos daquela marca, sei que eles não são caros. Mas quando o vendedor é alguém que acha que pode enganar um cliente, fazendo-o pagar três vezes o valor justo, não há como prever o preço na etiqueta. Prendo a respiração e olho o valor. Vinte contos! Perfeito.
Olho mais uma vez para Andrew e de repente me sinto uma vaca reclamona.
— Por que você não compra aquele disco do Led Zeppelin também? — digo timidamente.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Não, um LP antigo não serve pra nada mesmo. Mas um vestido como esse tem sua serventia. — Ele cruza os braços e me olha de cima a baixo.
Eu acho que ele está bancando o pervertido de novo, e dessa vez abro a boca para acusá-lo, quando ele acrescenta:
— Casar comigo vestida nele, por exemplo.
Seus olhos verdes parecem cruzar rapidamente os meus.
Meu sorriso se abranda e eu digo:
— É um vestido de noiva perfeito.
— Então tá combinado — ele diz, segurando a minha mão. — Quando a gente se casar, pelo menos você já vai ter o vestido.
— Só precisamos disso, na verdade — digo, saindo com ele da barraca com o vestido pendurado no braço.
Ele olha para mim.
— Alianças — ele diz, com um olhar estranho.
— Eu tenho aliança — digo, levantando a mão, achando que por algum motivo ele se esqueceu do anel que me comprou no Texas.
— Isso é um anel de noivado.
— É, mas basta.
— Bom, eu também preciso de uma. Ou você se esqueceu de mim? Casamento é pra dois, sabe.
Eu rio baixinho enquanto chegamos à pequena fila da caixa.
— Tá, tem razão, mas eu tô feliz com o meu anel. Além disso, eu sei que você gastou uma grana com este colar. Não pode fazer essas coisas.
— Vamos começar com isso de novo? — ele pergunta em tom brincalhão, tirando a carteira do bolso. — Não menti pra você sobre o preço do colar.
Talvez ele esteja mesmo dizendo a verdade.
— Acredito em você — digo finalmente.
Ele sorri e deixa por isso mesmo.
Andrew
20
SIM, SOU UM baita mentiroso. Aquele colar custou pouco mais de 600 dólares, mas sei que não posso contar pra ela. Ela acha que o que importa nas coisas caras é quantos zeros há antes da vírgula, mas nem sempre é isso. Francamente, acho que normalmente é pra mulher que o preço importa tanto. Porra, já ouvi garotas reclamando e choramingando porque o cara delas não gastou o suficiente. Eu queria saber se elas percebem como dificultam a nossa vida quando se juntam com as amigas e comparam pedras como nós, homens, comparamos nossas ferramentas. A propósito, a gente não faz isso, na verdade. Pelo menos eu nunca consegui encontrar um cara que quisesse abrir o zíper e competir comigo.
Eu queria comprar algo bem legal pra Camryn no aniversário dela. Por pura coincidência, aquilo de que eu mais gostei, entre as coisas que vi, era caro.
Aceite isso, amor.
Ela é capaz de desmaiar se descobrir quanto eu gastei nas nossas alianças, que comprei enquanto estávamos em Chicago. Está difícil evitar que Camryn as veja. Mas consegui enfiar a caixinha num bolso escondido da minha mochila.
Passamos o dia todo fazendo o que sempre fazemos, ficando juntos e aproveitando o tempo frio como dá. Quando voltamos para o hotel, pego o violão e toco para ela uma canção que compus e na qual estou trabalhando há uma semana. Eu esperava terminá-la até o dia do aniversário porque faz parte do presente dela. Compus só pra ela. Eu a chamo de “A Tulipa na Colina”, uma canção inspirada pelo primeiro dia que passamos juntos quando eu saí do hospital, depois da minha cirurgia.
— Eu acho que você deve pegar leve — Camryn disse naquele dia. — Nada de enfiar a cabeça nos motores de Billy Frank por uns tempos, nem bungee jumping, nem corridas de carros.
Eu ri um pouco, virando a cabeça para o lado para vê-la. Eu estava deitado de comprido numa mesa de piquenique de pedra. Camryn estava sentada no banco, perto da minha cabeça.
— Então sua definição de pegar leve é não fazer absolutamente nada? — perguntei, sorrindo para ela, com a cabeça apoiada nas mãos.
— O que tem de errado em passar um dia calmo no parque? — ela perguntou, passando os dedos na minha testa.
— Nada — respondi e beijei-lhe os dedos quando sua mão chegou à minha boca. — Eu gosto de ficar sozinho com você.
Ela virou a cabeça devagar para o lado e sua expressão ficou mais meiga. Depois olhou para o parque. As árvores estavam frondosas, e a grama, espessa e verdejante. Estava realmente um dia lindo. Fiquei me perguntando por que só nós dois, aparentemente, estávamos ali, aproveitando.
— Acho tulipas bonitas — ela disse com voz distante, olhando para a pequena colina coberta de grama do meu outro lado.
Olhei também e vi uma única tulipa brotando no alto daquela colina, sozinha. Não sei bem por quê, mas desde aquele dia, sempre que vejo uma tulipa em qualquer lugar, penso em Camryn.
Eu nunca vou esquecer o sorriso em seu rosto enquanto toco e canto a canção para ela. É tão terno, radiante e carinhoso, o tipo de sorriso que diz Amo Você Mais Do Que Tudo Neste Mundo sem precisar dizer essas palavras.
CONTINUA
14
QUANDO CHEGO AO banheiro, tem uma fila de mulheres esperando por cabines vazias. O ar está espesso com o bafo de álcool, perfume e roupas cheirando a cigarro. Uma porta de cabine se abre e fecha com uma batida violenta de poucos em poucos segundos quando alguém entra ou sai. Lavo as mãos primeiro, precisando me espremer entre duas garotas bêbadas sentadas no balcão da pia, uma de cada lado. Por sorte, elas são o tipo de bêbada supersimpática, porque não estou podendo com uma briguenta e grosseira hoje. Elas pedem desculpas por atrapalhar e se afastam para me dar espaço.
— Obrigada — digo, abrindo a torneira.
— Ei, você é a menina que tava cantando — a garota da esquerda diz, apontando para mim e sorrindo. Ela olha para a amiga do outro lado, depois para mim de novo.
— É, acho que sou eu.
Não estou nem um pouco a fim de conversa de banheiro. Quanto mais tempo passo num banheiro público, com mais nojo eu fico.
— Vocês dois são muito bons — ela diz com um sorrisão.
— É, sério — a amiga dela confirma. — Por que estão cantando em bares, afinal?
Eu dou de ombros e espremo mais sabão do reservatório na mão e tento evitá-las o mais gentilmente possível.
— De verdade — a da esquerda acrescenta. — Eu pagaria pra ver vocês tocarem.
Tudo bem, eu não sou totalmente imune a elogios. Sorrio e agradeço de novo.
Quando mais duas cabines ficam desocupadas, elas aproveitam a oportunidade e se trancam nelas. Logo depois, acenam em despedida e me desejam boa sorte na minha “carreira musical”. Quando estou quase sozinha, me viro para o espelho, mas não olho para mim. Em vez disso, enfio a mão no bolso e pego um comprimido, engolindo-o com água da pia.
É só pra tirar o nervoso.
Então eu me olho, empurrando o comprimido e o sentimento de culpa que vem cada vez que tomo um para o fundo da minha mente. Invento pretextos para justificar tomá-lo e quase engano a mim mesma. Mas eu sei que a culpa que sempre sinto tem um motivo.
Em menos de 11 minutos, não me importo mais com a culpa, os pretextos ou o nervoso, porque essa parte do meu cérebro foi adormecida.
Passo as pontas dos dedos embaixo dos olhos para limpar o rímel borrado, depois enxugo a oleosidade do meu rosto com papel higiênico. Preciso estar de cara boa quando voltar lá. Me sinto ótima, mas preciso parecer tão bem quanto me sinto.
Abrindo caminho em meio à multidão, encontro Aidan e Michelle de pé perto do enorme balcão do bar e me junto a eles. Então lembro que Andrew foi buscar uma bebida para mim, mas não quero atravessar aquele mar de gente de novo só para pegá-la.
— Vocês dois são fantásticos! — Michelle grita por cima da multidão barulhenta. Ela me abraça e eu retribuo, sentindo meu sorriso movido a comprimidos se alargando muito em meu rosto.
Eu me viro para Aidan.
— O que você achou?
— Concordo com Michelle! Vocês deveriam compor seu próprio repertório e tocar aqui mais vezes. Tem sempre caçadores de talentos aqui no bar. E celebridades. — Ele aponta para a parede do fundo, onde uma série de fotografias autografadas de vários músicos e astros do cinema formam uma linha reta. — Comecem a tocar material próprio — ele continua. — Aposto que vocês dois seriam contratados por uma gravadora em menos de um ano.
Estou tão chapada, no momento, que ele poderia me dizer que achou a gente uma bosta e sem futuro nenhum na música, e eu sorriria do mesmo jeito, deixando as palavras passarem por mim como uma brisa.
Olho para o outro lado do salão e vejo Andrew no palco com sua guitarra e a banda da casa, se preparando para a canção que é sua marca registrada, “Laugh, I Nearly Died”. Ele provavelmente não me vê no meio da multidão, mas sabe que estou assistindo. Adoro vê-lo no palco, no seu elemento. Sei que, por mais que sejamos bons juntos, musicalmente, ele sempre é mais dono do palco quando toca sozinho. Talvez seja impressão minha, mas gosto de pensar nele como na primeira vez que o vi tocar. Porque naquela noite em Nova Orleans, ele estava cantando para mim, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu faria qualquer coisa pra me sentir assim de novo. Qualquer coisa...
Segundos depois de começar a tocar, Andrew, como sempre, tem a atenção de todos os presentes. As duas garotas na mesa estão de pé agora, dançando juntas de um jeito provocante, mas eu sei que é tudo para Andrew. Já vi isso antes. Elas o querem, e Andrew deixa que acreditem, só por uma noite, que ele também as quer. É perfeitamente inofensivo. Andrew e eu encaramos isso como uma maneira de levantar a autoestima dos outros. Um pouco de paquera aqui e ali, tornar uma garota ou um cara de sorte o centro das atenções só pelo tempo suficiente para corar e sorrir. Nunca se sabe o que acontece na vida das pessoas a portas fechadas, e um pouco de energia positiva da paquera nunca atrapalha.
Quando voltamos para a casa de Aidan e Michelle pouco depois da meia-noite, vou para a cama antes de todos. Fico deitada por uma hora, ouvindo as vozes deles vindo do corredor e entrando no quarto. Andrew ia se deitar comigo, mas insisti para que ele ficasse com o irmão. Ele anda se preocupando demais comigo ultimamente. Vamos voltar para Raleigh amanhã, e quero que ele passe o maior tempo possível com Aidan.
Mais uma hora passa e eu continuo acordada.
Frustrada, enfio a mão na bolsa, procurando o frasco. Sem nem perceber, já estou nos últimos comprimidos.
Desmaio com três, desta vez.
Andrew
15
— CAMRYN? AMOR, acorda, por favor. — Eu a sacudo com força pelo ombro.
Minha emoção dominante, no momento, é o medo. Minhas emoções secundárias são raiva e mágoa. Mas, estranhamente, a sensação de incerteza está mantendo todas as outras a distância.
Eu a sacudo de novo.
— Levanta.
Não faço ideia de quantas dessas porras de comprimidos ela tomou, mas julgando pelo frasco quase vazio, a perspectiva de ter sido o suficiente para uma overdose faz uma onda de pânico percorrer todo o meu corpo. Mas ela está respirando normalmente e seu ritmo cardíaco parece normal. Se ela não acordar...
Seus olhos se abrem lentamente, e eu respiro mais aliviado.
— Camryn. Olha pra mim.
Finalmente, ela acorda o suficiente para me olhar nos olhos.
— Que que foi? — Ela geme suavemente e tenta fechar os olhos de novo, mas eu a seguro pelos ombros e a obrigo a se sentar.
— Acorda. Fica de olhos abertos.
Ela se senta, toda mole, mas não é nada tão fora do comum, depois de ter sido forçada a acordar e a se endireitar assim.
— Quantos você tomou?
Michelle está na porta do quarto, atrás de mim.
— Quer que eu chame uma ambulância?
De repente, Camryn fica completamente alerta. Não sei se minha pergunta finalmente a alcançou ou se foi a menção de uma ambulância, mas ela me encara com olhos arregalados e assustados.
— Quantas dessas porras de comprimidos você tomou?
Ela desvia o olhar do meu e vê o frasco de comprimidos sobre o criado-mudo. Quando decidi que dormir até depois das 14h não era típico dela e fui ver o que estava acontecendo, encontrei o frasco no chão.
— Camryn? — Eu a sacudo de novo e ela volta a prestar atenção em mim.
Ela só me olha. Vejo tanta coisa em seus olhos agora que não sei dizer se é mais humilhação, arrependimento, mágoa, raiva ou resignação. E então seus olhos começam a se encher de lágrimas. Sinto seu corpo se agitando sob o peso dos meus braços. Ela desata a chorar, caindo em meus braços, soluçando descontroladamente, e aquilo me despedaça.
— Andrew? — Michelle diz da porta.
Sem olhar para trás, eu digo:
— Não, ela vai ficar bem. — E engulo minhas próprias lágrimas e a raiva, sentindo meu peito se apertar.
A porta se fecha silenciosamente atrás de mim quando Michelle sai do quarto.
Abraço Camryn por muito tempo, deixando-a chorar no meu peito. Não digo uma palavra. Ainda não. Em parte porque sei que ela precisa disso, poder chorar e desabafar. Mas a outra parte de mim está tão puta da vida e magoada que sinto que vou precisar me afastar e me recompor para não dizer coisas erradas. Eu a abraço forte, apertando os braços em volta do seu corpo trêmulo. Beijo seu cabelo e tento não chorar também. A parte de mim que está puta da vida ajuda nisso.
— Eu sinto muito! — ela grita e, nessa fração de segundo, quando ouço a dor em sua voz, minha raiva se apaga quase completamente e eu a abraço ainda mais forte.
— Tá pedindo desculpas pra mim? — pergunto, incrédulo. Eu a afasto, segurando-a firme pelos antebraços. Balançando a cabeça furiosamente, volto a ficar como alguns minutos atrás. — Não, primeiro você precisa me dizer quantos você tomou. — Eu a encaro com firmeza.
— Ontem à noite. Só três.
— Quantos tinha no frasco no total?
— Não sei. Uns vinte.
— Então há quanto tempo você tá tomando?
Ela faz uma pausa e responde.
— Desde terça. São da minha mãe. Tomei um quando tava com dor de cabeça, mas aí comecei a tomar... — Seus olhos se enchem de água novamente.
Eu enxugo as lágrimas do seu rosto.
— Puta que pariu, Camryn! — exclamo, puxando-a para o meu peito por mais um breve momento. — O que você tava pensando, porra?
— Eu não pensei! — ela grita. — Não sei o que eu tenho!
Seguro seu rosto com as palmas das mãos.
— Você sabe o que você tem. Tá arrasada por perder a Lily e não sabe como lidar com isso. Só queria que você tivesse falado comigo.
Com o rosto dela ainda nas mãos, seus olhos desviam dos meus. O silêncio tenebroso entre nós me afeta da forma mais estranha.
— Camryn? — Tento fazê-la me olhar de novo, mas ela se recusa. — Fala comigo. Você precisa falar comigo. Escuta, você não fez nada errado, nem poderia ter evitado o que aconteceu. Precisa saber disso. Precisa enten...
Sua cabeça se desvencilha das minhas mãos, seus olhos penetrando os meus, cheios de dor e de... algo mais.
— É culpa minha! — ela diz, se afastando de mim na cama.
Ela se levanta do outro lado e cruza os braços, me dando as costas.
— Não é culpa sua, Camryn. — Ando até ela, mas assim que sente que vou me aproximar, ela se vira.
— É culpa minha sim, Andrew! — ela repete, com as lágrimas escorrendo dos olhos. — Eu não conseguia parar de pensar que minha gravidez ia ferrar com tudo! Detestava continuar morando em Galveston depois de quatro meses! Fiquei me perguntando como a gente ia fazer tudo o que queria com um bebê! Por isso, sim, é culpa minha que a perdemos e eu me odeio por isso, caralho! — Ela esconde o rosto nas mãos.
Atravesso a curta distância até ela, tomando-a em meus braços de novo.
— Meu Deus, Camryn, não foi culpa sua! — Acho que nunca falei nada para ninguém com tanta emoção. Meu peito tremia incontrolavelmente contra o dela.
— Olha pra mim! — imploro, afastando-a. — Isso é tão normal. E se você é culpada, então eu também sou. Tive esses pensamentos de vez em quando, mas, como você também, não teria desistido dela nem se pudesse.
Ela não precisa confirmar essa afirmação em voz alta, porque sei que ela também não teria desistido. Mas ela confirma assim mesmo: — Não lamentei nada engravidar dela. E eu... quero minha bebê de volta!
— Eu sei. Eu sei. — Eu a abraço apertado e ando com ela até o pé da cama, fazendo-a sentar. Eu me agacho entre as pernas dela, apoiando os braços em suas coxas e tomando suas mãos nas minhas. Olho para ela e digo mais uma vez: — Não foi culpa sua.
Ela enxuga algumas lágrimas e nós ficamos sentados assim pelo que parece uma eternidade. Acho que ela acredita em mim — ou isso ou está só evitando encarar a realidade. Então ela olha para a parede atrás da minha cabeça e diz baixinho: — Isso faz de mim uma viciada em drogas?
Quero rir, mas não rio. Em vez disso, apenas balanço a cabeça e sorrio suavemente para ela, apertando as pontas dos dedos em suas mãos.
— Foi um momento de fraqueza, e até a pessoa mais forte não é imune à fraqueza, Camryn. Quatro dias e um frasco de analgésicos não fazem de você uma viciada em drogas. É falta de juízo, mas não é vício.
Ela olha de novo para mim.
— Michelle e Aidan vão achar que é.
Balanço a cabeça.
— Não, não vão. E ninguém mais vai. — Eu me levanto e me sento ao lado dela. — Além disso, não é da conta de ninguém, porra. É uma coisa que só você e eu precisamos saber e enfrentar.
— Nunca fiz nada assim antes — ela continua, olhando para a frente. — Não acredito...
— Você estava diferente. Está diferente desde que Lily morreu.
O quarto fica estranhamente em silêncio de novo. Olho para ela de lado, mas a deixo em silêncio por um momento. Ela parece perdida em pensamentos.
E então ela diz:
— Andrew, talvez nós não devêssemos estar juntos. — E suas palavras me atingem tão rápido e com tanta força que sinto que falta ar nos meus pulmões.
Fico tão surpreso que é como se suas palavras tivessem roubado todas as minhas. Meu coração está disparado.
Finalmente, quando ela não elabora, consigo balbuciar:
— Por que tá dizendo isso? — E fico com medo de sua resposta.
Ela continua olhando para a frente, com as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto. E então ela olha para mim e vejo a mesma dor intensa em seus olhos que eu sei que ela vê nos meus.
— Porque todo mundo que eu amo acaba me abandonando ou morrendo.
O alívio me invade, mas é superado pela sua dor.
É nesse exato momento que percebo que essa é a primeira vez que Camryn se abriu a respeito disso tudo comigo, ou com qualquer outra pessoa. Penso nas coisas que Natalie me contou, e nas conversas que Camryn e eu tivemos na estrada, e sei que no momento Camryn está admitindo a dimensão de sua dor não só para outra pessoa, mas o mais importante, para si mesma.
— Eu me sinto tão egoísta dizendo isso — ela continua, e deixo que ela fale à vontade, sem interrupções. — Meu pai abandonou a gente. Minha mãe mudou. Minha avó, a única pessoa que continuou a mesma e sempre me apoiou quando precisei, morreu. Ian morreu. Cole foi pra prisão. Natalie me apunhalou pelas costas. Lily... — Ela olha para mim, finalmente, a dor intensificada em seu rosto. — E você.
— Eu? — Me agacho diante dela de novo. — Mas eu tô aqui, Camryn. Vou estar sempre aqui. — Tomo as mãos dela nas minhas. — Não importa o que você faça, ou o que aconteça entre a gente. Nunca vou te abandonar. Vou estar sempre com você. — Aperto as mãos dela. — Lembra quando eu disse que você era a coisa mais importante do mundo pra mim? Você pediu que eu te lembrasse disso, se um dia você esquecesse. Bom, eu tô te lembrando agora.
Soluços percorrem seu corpo.
— Mas você podia ter morrido — ela insiste, com choro na voz. — Cada dia que passei naquele hospital, pensei que seria o seu último. E aí quando não era e você resistia, eu continuava prevendo isso mesmo assim. Semanas, meses depois, porque uma parte de mim achava que eu precisava me acostumar com a ideia de perder você. Um dia. Porque eu sabia que você ia me deixar de um jeito ou de outro. Como todo mundo.
— Mas eu não deixei — digo com desespero, sorrindo um pouco ao mesmo tempo. Eu me sento no chão e a puxo para perto de mim. — Eu não morri. Não morri porque eu sabia que você tava lá comigo o tempo todo. Porque eu sabia que nosso destino era ficar juntos, e que se você vivesse, eu também viveria.
— Mas e se você morrer? — ela pergunta.
Isso eu não esperava.
— E se o tumor voltar?
— Não vai voltar — respondo. — E mesmo se voltar, vou vencê-lo de novo. Cacete, eu fiquei oito meses sem ir ao médico e venci assim mesmo. Com você na minha vida, me atormentando pra me fazer ir aos checkups regularmente, de jeito nenhum ele vai me matar.
Ela não parece totalmente convencida disso, mas vejo um pequeno raio de esperança em seu rosto, e era isso que eu queria ver.
— Eu sinto muito mesmo — ela diz, mas em vez de dizer que não precisa, também deixo que ela viva esse momento, porque parece mais que ela está se permitindo fechar um ciclo. — Aposto que você nunca pediu pra ter um fardo absurdo desses. — Ela passa os dedos sob os olhos.
Tentando aliviar um pouco o clima, esfrego as mãos em seus joelhos nus e digo: — Eu te amaria mesmo se você fosse uma daquelas garotas que correm pro banheiro pra vomitar depois de comer, ou se tivesse o fetiche secreto de transar com um palhaço.
Ela ri baixinho em meio às lágrimas, e isso me faz sorrir.
Levanto o queixo dela com um dedo e fico sério de novo, olhando bem em seus lindos olhos azuis e úmidos.
— Camryn, Lily não tava pronta, só isso. Não sei por que, mas você não pode se culpar por ela ou por qualquer um. E você precisa entender que estamos nisso juntos. Em tudo. Acredita nisso?
Ela balança a cabeça.
— Sim.
Eu me curvo e a beijo primeiro na testa, depois nos lábios.
Segue-se o silêncio, e a atmosfera no quarto parece diferente. Mais brilhante. Eu sei que Camryn não vai voltar a ficar 100% da noite pro dia, mas posso ver que ela já está melhor. Percebo só de olhar que ela se sente menos carregada, agora que tirou essas merdas da cabeça. Ela precisava disso. Precisava de alguém para fazê-la cair na real. Não alguém indiferente, ou que desse apenas respostas prontas para tudo.
Ela precisava de mim.
Eu me levanto e pego a mão dela.
— Vem cá.
Ela me segue, pego o frasco de comprimidos da mesa ao lado da cama e a puxo comigo para o banheiro da suíte. Levanto a tampa da privada e entrego o frasco a ela. E antes que eu diga qualquer coisa, Camryn vira o frasco sem hesitação e joga os últimos quatro ou cinco comprimidos na privada.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão fraca. — Ela olha para a água enquanto os comprimidos giram no vaso e são sugados pelo cano. Depois olha para mim. — Andrew, eu podia facilmente ter ficado viciada neles. Não consigo imaginar...
— Mas você não ficou — interrompo, antes que ela fique remoendo aquilo mais. — E você tem direito a um momento de fraqueza. E chega.
Eu saio do banheiro e ando pelo quarto. Ela me segue e fica parada no meio do quarto, me olhando.
— Andrew?
Eu paro, me viro para ela e digo:
— Me dá uma semana.
Ela parece meio confusa.
— Uma semana pra quê?
Sorrio fracamente.
— Só concorda. Fica aqui comigo uma semana.
Cada vez mais confusa, ela diz:
— Hãã, tá. Vou ficar aqui com você uma semana — embora esteja estampado em seu rosto que ela não sabe com o que está concordando.
Mas ela confia, e isso significa tudo para mim. Vou dar a nós dois o que ambos precisamos, querendo ela ou não.
Camryn
16
Dia Três
Nunca pensei nem por um minuto que seria capaz de fazer o que fiz. Andrew chama de um momento de fraqueza e talvez tenha razão, mas vai levar tempo pra cacete pra que eu consiga me perdoar por aquilo.
Michelle deixou claro que não vai me julgar, e embora isso me faça sentir melhor, me sinto humilhada sempre que estou na presença dela ou de Aidan. Talvez seja por isso que eu me sinta tão mal, por eles serem tão compreensivos.
Uma semana. Nem faço ideia do que Andrew quis dizer com isso, mas estou em dívida com ele, por isso não faço perguntas e deixo que ele faça o que está planejando. Ele andou bem misterioso nos últimos dias, muitas vezes atendendo ligações em outros quartos para que eu não pudesse ouvir. Só tentei escutar uma vez, simplesmente ficando bem quieta no sofá quando ele foi para a cozinha falar com Asher. Mas então bisbilhotar assim me fez sentir culpada, por isso aumentei o volume da TV para não conseguir ouvir.
E posso ter tomado os comprimidos só por uma semana, mas pelo jeito foi tempo suficiente para eu ainda me sentir zonza três dias depois dos últimos que tomei. Me sinto mal, até mais incapaz de dormir do que antes de começar a tomá-los, mas pelo menos as dorezinhas de cabeça finalmente estão começando a desaparecer. Não consigo imaginar ficar viciada neles por meses ou anos. Sinto pena de quem fica...
Dia Quatro
Aidan entra com um pequeno maço de correspondências na mão, olhando cada uma enquanto anda pela sala.
Ele para num envelope branco por um segundo, constrangido, e o levanta, olhando para mim primeiro, até que Andrew entra na sala.
— Parece que esta é pra você. — Ele me olha de novo, mas entrega o envelope a Andrew.
Isso me dá uma sensação muito estranha, então me levanto instintivamente da espreguiçadeira e me aproximo de Andrew para ver o que é.
Pouco antes que Andrew escondesse o envelope de mim, vejo o nome de Natalie escrito nele.
Ele também sabe que eu vi.
— Não — diz Andrew, balançando a cabeça. — Vou deixar você ver outro dia. — E então ele enfia o envelope no bolso de trás do jeans.
Confio totalmente nele, mas sou humana, e uma pequena parte de mim está nervosa com essa situação toda. Por que Natalie mandaria uma carta para Andrew? Confiando ou não, a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um é se perguntar se tem alguma coisa acontecendo entre os dois. Mas isso é absurdo, e afasto essa ideia da minha mente com a mesma rapidez que ela veio.
Eles estão conspirando contra mim.
Eu só queria saber o que está acontecendo.
Dia Cinco
Falei com Natalie, minha mãe e Marna por telefone hoje. Marna tenta agir como se nada tivesse acontecido com o bebê, e é tão boa nisso quanto Michelle foi no meu primeiro dia em Chicago. Ela é tão meiga e delicada. Minha mãe, por outro lado, parece não conseguir falar de outra coisa além do meu relacionamento com Andrew. Ela me persegue sempre que pode, perguntando quando vamos nos casar, e resolveu enfiar na cabeça que vamos fazer isso do jeito que todo mundo faz. Tento dizer a ela que não quero um vestido caro, uma capela ou milhares de dólares em flores que vão murchar na semana seguinte, mas é como se ela nem me escutasse. Ela só quer que a gente se case. Talvez assim se sinta melhor com ele dormindo no meu quarto. Não faço ideia do que passa pela cabeça da minha mãe, e metade do tempo acho que nem ela sabe.
Andrew foi a um médico aqui em Chicago fazer um checkup hoje. E como toda vez que ele vai, fico até com enjoo de preocupação até que acabe. Por sorte, ele voltou com boas notícias.
Dia Seis
Falo com Natalie por telefone de novo, mas novamente não menciono o envelope. Ela também não está agindo naturalmente. É óbvio que está se esforçando para não entregar nenhum dos segredos de Andrew, o que deixa as conversas cheias de momentos silenciosos e constrangidos. Quero rir dela por ser tão péssima em agir normalmente, quando só o que ela quer é me contar tudo e dar o assunto por encerrado.
Dia Sete
Esta semana foi uma das mais longas da minha vida. Fico na cama até mais tarde porque está começando a esfriar, mas também porque estou nervosa e não consigo fazer outra coisa. Andrew se levantou há uma hora, e só o vi voltar para o quarto uma vez, para calçar os sapatos. Ele me beijou e sorriu para mim como se estivesse secretamente empolgado, e então saiu de novo sem dizer uma palavra.
Eu viro para o lado, enrolada no cobertor, e olho pela janela. O sol está brilhando hoje, e o céu está azul e sem nuvens.
Ouço os três andando pela casa.
Os sapatos de Andrew rangem sobre o chão de madeira na porta do nosso quarto. Ele abre a porta e fica na entrada, olhando para mim.
— Levanta e se veste — ele diz, com a mão ainda na maçaneta.
Eu só o olho por um segundo, achando que talvez ele vá explicar o que vamos fazer, mas ele só aponta para os meus sapatos no chão, como que dizendo calce-os, depois fecha a porta e me deixa sozinha.
Faço exatamente o que ele manda. Me levanto e visto meu jeans favorito e uma blusa folgada de tricô de mangas compridas, depois um par de meias e meus mocassins. Quando saio do quarto para a sala, vejo Michelle encolhida no canto do sofá, com um cobertor sobre as pernas, vendo TV. Ela se vira para me ver, e está com um sorriso aberto, como se soubesse algo que não sei. E com certeza sabe.
— Ele tá lá fora com Aidan — ela diz, acenando na direção da porta.
Cada vez mais nervosa, ando lentamente até a porta e a abro.
Saindo na varanda de pedra, vejo Andrew e Aidan de pé do lado da estrada, em frente à casa, com Asher, e todos eles estão encostados na lateral do Chevelle.
Por um momento eu penso: Tá, então Asher veio nos visitar, é só isso que tá acontecendo? Não que eu não fique feliz em ver Asher, mas, francamente, não é algo que eu imaginaria que fosse justificar todos esses planos de Andrew em segredo.
É o carro, percebo, mas é só isso que consigo entender sozinha. Tenho uma teoria sobre o motivo de ele tê-lo trazido para cá, mas a esta altura vou só fazer o melhor que posso para não pensar nisso.
Desço rapidamente os degraus de pedra e dou um abraço apertado em Asher.
— Você tá ótima, garota — ele diz, com aquelas covinhas e os olhos verdes e brilhantes quase idênticos aos de Andrew. Então ele me aperta e me levanta um pouco do chão.
— É muito bom te ver — digo, sorrindo.
Fico correndo os olhos dele para Andrew, que está sorrindo tanto que duvido que consiga manter o mistério por muito mais tempo.
Olho para o Chevelle e então para Asher. Olho de novo.
— Então você veio dirigindo lá de... — Tudo bem, é um pouco mais intrigante do que eu imaginava. O carro estava no Texas, até onde eu sei, e Asher estava em Wyoming. Finalmente continuo: — O que tá acontecendo?
Asher olha para Andrew, e Andrew dá um passo à frente.
— Eu pedi que Asher trouxesse o carro pra cá — ele diz.
— Mas por quê?
Asher cruza os braços e se apoia na porta de trás do carro.
— Porque ele é doido — Asher diz, rindo baixinho. — E porque não confiou num serviço de entregas pra trazer o carro.
Eu me viro para Andrew de novo, esperando que ele desembuche. Uma brisa fria atravessa minha blusa de tricô e eu enfio as mãos nas mangas.
— Você tem cinco minutos pra botar todas as suas coisas na mala — ele diz, e meu coração começa a bater descompassado antes que ele termine a frase. Ele bate no pulso sem relógio. — Nem um segundo a mais.
— Andrew...
— Isso não tá em discussão — ele diz. — Vai pegar suas coisas.
Eu só olho para ele, sem expressão.
Minha teoria estava certa, mas eu não queria que estivesse. Não quero cair na estrada... Isto é, eu quero... mas não está certo. Isso não está certo.
— Agora você tem quatro minutos — Asher diz.
— Mas a gente não pode partir assim — eu argumento. — Seria grosseria. — Aponto para Asher. — E Asher acabou de chegar. Você não quer ver...?
— Posso ver meu irmão mais velho a hora que eu quiser — Asher rebate. — No momento, acho melhor você fazer o que ele mandou, ou vai acabar na estrada, usando a mesma calcinha por uma semana.
Mais alguns segundos se passam e eu ainda não me mexi. Estou num leve estado de choque, acho.
— Três minutos, amor — Andrew diz, e está me olhando com expressão séria. — Não tô brincando. Sobe lá, bota suas porras nas malas e entra nessa merda de carro.
Cacete, ele voltou a ser como era...
Quando começo a discutir de novo, os olhos de Andrew ficam ferozes e ele diz:
— Anda logo. O tempo tá acabando! — E aponta para a casa.
Finalmente, baixando a guarda e entrando no clima tanto quanto posso me permitir, olho para ele com raiva e digo:
— Tudo bem. — Só concordo porque sei que ele está tentando melhorar as coisas. Mas me sinto culpada pra caramba.
Desconsiderando seu prazo bem-humorado de cinco minutos, giro nos calcanhares e ando muito lentamente na direção da casa, demorando de propósito, em parte minha maneira silenciosa de discordar da situação.
— Você sabia disso, Michelle? — pergunto quando passo por ela e vou para o corredor.
— Com certeza! — ela grita em resposta. Posso ouvir o sorriso em sua voz.
Abro a porta do quarto, ponho a mochila sobre a cama e começo a enfiar tudo dentro dela. Depois vou para o banheiro, pego nossas escovas de dentes e vários artigos de toalete. Arranco nossos carregadores da parede, pego meu celular do criado-mudo e enfio tudo na minha bolsa. Ando pelo quarto, torcendo para não ter esquecido nada.
Parece que Andrew já tinha feito as malas e eu nem percebi.
Em seguida fico ali, vasculhando cada centímetro do quarto, mas sem ver nada, na verdade. Não quero fazer isso, mas talvez seja o certo.
Ouço a buzina tocar três vezes e isso me arranca dos devaneios. Levantando a mochila, eu a jogo no ombro e pego minha bolsa de cima da cama.
— A gente se vê por aí! — Michelle diz do sofá.
Eu paro ao passar por ela, me curvo sobre o encosto do sofá para lhe dar um abraço desajeitado, atrapalhada pelas alças nos ombros.
— Divirta-se — ela acrescenta.
— Obrigada por nos convidar — eu digo.
Com um grande sorriso, Michelle gesticula para que eu vá, e eu saio da casa.
Quando desço os degraus, Andrew abre o porta-malas do Chevelle e eu jogo minha mochila lá dentro. Os cinco minutos que ele me deu passaram faz tempo, mas duvido que ele vá dizer alguma coisa.
— Tá pronta? — Andrew pergunta, fechando o porta-malas.
Eu respiro fundo, olho para Asher e Aidan, e antes de responder, vou abraçar os dois.
— Legal você ter vindo — diz Aidan.
— Vê se bota meu irmão na linha — Asher recomenda.
Sorrio para os dois, me sento no banco do passageiro e Andrew fecha a porta para mim.
Os três se despedem. Um minuto depois, Andrew se senta no banco do motorista, e uma lufada de ar frio entra no carro junto com ele.
Ele me olha.
— Então, vai ser assim — ele diz, apoiando os pulsos no volante. — A gente vai pro sudeste, pro litoral...
— Peraí — interrompo —, você planejou tudo? — Isso é tão fora do estilo dele. Me deixa cismada.
Andrew sorri suavemente e diz:
— Em parte. Mas é necessário.
— Que parte é necessária?
Ele me olha como que dizendo: Vai me deixar terminar?
Fico quieta e deixo que ele continue, enquanto ele se debruça e abre o porta-luvas.
— A gente vai pro sul, vamos ficar no litoral durante o inverno todo — ele diz, e agora só consigo me perguntar quanto tempo ele planeja ficar na estrada. O inverno todo? Não consigo entender que diabo de ideia é essa. Ele saca um mapa e o desdobra sobre o volante. Olho para ele, desconfiada. — Odeio o frio. Seguindo o litoral e indo mais pro sul na época certa, a gente vai evitar quase toda a neve e merdas assim.
Tá, o plano é bom, admito. Também não aguento o clima frio, portanto, sim, essa parte é necessária mesmo. Concordo com a cabeça e deixo que ele continue.
Andrew aponta para o mapa gigante e começa a correr o dedo pelo nosso itinerário.
— Vamos começar no litoral da Virgínia e ir pro sul, passando pelo seu estado, mas nada de parar pra visitar. — Ele aponta para mim. — A gente tá só de passagem, certo? — Ele espera a minha resposta.
Concordo com a cabeça novamente e digo:
— Certo — porque com certeza há um método em sua loucura, e sinto que devo concordar com ele.
Ele olha de novo para o mapa e volta a correr o dedo pelo papel.
— Depois, pela Carolina do Sul até a Geórgia, e aí vamos percorrer toda a costa da Flórida, da praia de Fernandina — seu dedo faz uma longa curva pelo papel — indo até Pensacola.
— Quanto tempo tudo isso vai levar?
Ele sorri e balança a cabeça para mim.
— Isso importa? — Então ele dobra o mapa desorganizadamente e o joga no banco, entre nós. — Eu decido a direção, desta vez. Sobretudo porque não quero morrer de frio. Mas... — Ele se vira de novo e olha para a frente, tirando os olhos de mim — Bom, é assim que precisa ser.
— Por que a gente tá fazendo isso, Andrew?
Seus olhos pousam em mim mais uma vez.
— Porque é o certo — ele responde, com um olhar profundo. — Porque você tá no carro.
Suas palavras me deixam confusa.
— Porque eu tô no carro?
Ele balança a cabeça discretamente.
— Sim.
— Mas... o que isso significa?
Seus olhos verdes se abrandam com o sorriso, ele estende a mão e segura o meu queixo. Ele beija meus lábios e diz:
— Você podia ter lutado com unhas e dentes. Podia ter me mandado à merda quando falei pra pegar nossas coisas. Mas você não fez nada disso. — Ele me beija devagar mais uma vez, e o gosto de hortelã do seu hálito fica em meus lábios. — Você não entrou correndo naquela casa porque eu mandei, foi porque era o que você queria. Você nunca fez nada só porque eu mandei, Camryn. Eu sou só um chute no seu traseiro, mais nada.
Tento disfarçar o sorriso que está se abrindo em meu rosto, mas não consigo. Ele se curva, aperta os lábios na minha testa e se endireita no assento. O motor ronrona agressivamente por um momento quando o pé dele aperta o acelerador.
Ele tem razão. Tudo o que ele já me mandou fazer, mesmo quando reclamei, eu jamais teria feito se uma parte de mim não quisesse. Fico intrigada em ver como ele sempre sabe coisas sobre mim antes que eu saiba.
Andrew
17
ACHO QUE ONTEM, em Chicago, foi a primeira vez que não consegui prever a reação de Camryn a uma das minhas exigências. Minha garota estava arrasada. Isso me deixava mais apavorado a cada dia, a pessoa que ela estava se tornando. Corri um risco ligando para Asher naquela noite e pedindo que ele dirigisse o Chevelle até Chicago. Eu não sabia o que Camryn ia fazer e, para dizer a verdade, temi que ela se recusasse a ir. Por causa da culpa. Ei, odeio termos perdido a nossa Lily. Daria um braço ou uma perna para tê-la de volta. Mas o que está feito está feito, e ficarmos parados nos afogando em sofrimento e nos recusando a fazer o que nos deixa felizes por qualquer motivo é uma puta duma bobagem. É assim que você se mata. Um suicídio lento e doloroso. Se Camryn recusasse, eu a carregaria sobre o ombro, esperneando e gritando, e a jogaria no banco de trás do carro. Porque essa é a nossa vida. Nós nos encontramos na estrada; nos conhecemos e aprendemos a nos amar na estrada. É onde devemos estar pelo tempo que for, e é o que vamos fazer até que fique claro que deveríamos fazer outra coisa.
As primeiras 14 longas horas de nossa viagem são calmas e silenciosas. Eu dirijo de Chicago até Virginia Beach ouvindo rádio, ou meus CDs quando não encontro uma estação decente. Camryn, embora sorria e fale sobre as coisas que vemos da estrada, ainda não voltou ao normal, mas vai chegar lá. Pode levar alguns dias, mas vai começar a cair na real.
As praias da Costa Leste são diferentes das do Texas. São mais limpas, e aqui a água parece água do oceano de verdade, e não a água barrenta e turva do Golfo em Galveston.
Já é quase noite. Vimos o sol se pôr no horizonte quando chegamos a Virginia Beach, e foi a primeira vez que vi aquela faísca nos olhos de Camryn, desde que ela perdeu o bebê. Se eu soubesse que um crepúsculo podia fazer isso, já a teria levado para ver um há muito tempo.
— Então, a gente vai pedir quartos separados? — ela pergunta quando saímos do carro no estacionamento do nosso primeiro hotel.
Percebo que ela está brincando, mas aposto que não espera que eu entre na brincadeira.
— É exatamente o que vamos fazer. — Eu abro o porta-malas e jogo nossas mochilas nos ombros.
— Tá falando sério? — Ela está chocada, e é engraçado.
Eu represento o melhor que posso. Nunca me passou pela cabeça pedir quartos separados, mas agora que ela mencionou isso, não acho tão má ideia.
Fecho o porta-malas e nós entramos no saguão do hotel.
— Andrew, acho que a gente já passou dessa fase.
— Dois quartos contíguos para não fumantes, por favor, se tiver.
A recepcionista digita o pedido em seu computador. Eu ignoro Camryn a maior parte do tempo, mexendo na minha carteira à procura do cartão de crédito.
— Andrew?
— Não tenho dois quartos contíguos — a mulher diz —, mas tenho dois que ficam um de frente pro outro no corredor.
— Pode ser — eu digo.
Camryn sussurra:
— Não acredito que você vai gastar dinheiro com dois quartos quando a gente já fez sexo milhares de vezes... — Camryn não para de falar, enquanto a recepcionista nos olha disfarçadamente como se fôssemos loucos. Adoro essa expressão no rosto das pessoas, esse ar surpreso de “não acredito que você disse isso”.
— Por favor, fique quieta — eu digo, me virando para Camryn. — Eu vou pro seu quarto e te como rapidinho, não se preocupe. Então para de dar espetáculo.
Camryn arregala os olhos tanto quanto a recepcionista.
Pego Camryn pela mão e a puxo para a saída do saguão.
— Espero que apreciem sua estada — a recepcionista diz em tom estupefato enquanto vamos para o elevador.
Camryn cai na gargalhada assim que as portas do elevador se fecham.
— O que foi aquilo?! — ela pergunta, incapaz de se conter. — Parecemos dois adolescentes imaturos!
— Mas você tá rindo — eu comento. — Portanto, a imaturidade valeu totalmente a pena.
O elevador para no segundo andar e nós saímos no corredor.
— Mas, sério, Andrew, por que quartos separados?
Provando mais ainda que a espontaneidade tem mesmo um propósito, eu penso no que pedi que Natalie enviasse a Chicago, enquanto andamos pelo corredor. Paramos no meio dele, diante dos nossos quartos, e eu jogo as mochilas no chão verde acarpetado.
— Só por esta noite — respondo, enfiando a mão na mochila para procurar o envelope.
Camryn fica perto de mim, assistindo a tudo em silêncio. Percebo que ela quer dizer alguma coisa, mas não tem certeza, nesse momento, do que poderia ser.
Eu endireito o corpo com o envelope na mão. Ela olha para ele, mas não sabe ao certo quais são as minhas intenções.
— Esta noite você vai ficar sozinha no seu quarto — eu digo e entrego o envelope a ela.
Ela parou de sorrir assim que tirei o envelope da mochila. Agora só consegue olhar para mim, confusa e intrigada.
Cuidadosamente, ela estende a mão e pega o envelope, ainda insegura com relação a tudo, talvez até quanto a querer ou não saber o que há dentro dele.
Eu passo o cartão na fechadura do quarto de Camryn e abro a porta, levando a mochila dela para dentro. Ela me segue, vários passos atrás, muda e desconfiada, com o envelope entre os dedos relutantes. Deixo a mochila dela sobre o balcão da TV e verifico o quarto, como sempre faço. Ligo e desligo as luzes e testo o aquecedor antes de puxar os lençóis para ver se estão limpos. Lembrando que Camryn tem fobia de colchas de hotel, eu a arranco completamente da cama e a jogo no chão, num canto do quarto.
Ela fica perto do pé da cama, imóvel.
Eu me aproximo e fico na frente dela. Olho-a nos olhos e observo o modo como ela retribui meu olhar. Passo o indicador por sua sobrancelha e pelo lado de seu rosto e sinto o calor de sua pele sob o meu toque. Eu a quero. Quando seus olhos baixaram para os meus lábios, isso desencadeou algo predador em mim. Mas eu controlo meus impulsos, pelo seu bem. Esta noite, se tudo der certo, um ciclo vai se fechar.
— Cam foi ao funeral — Natalie me disse pelo telefone no dia em que liguei para ela da casa de Aidan. — Mas chegou tarde, ficou bem no fundo, perto da porta, e foi embora antes que a cerimônia terminasse. Ela se recusou a ir até o caixão.
— Alguma vez ela falou com você a respeito disso? — perguntei.
— Nunca — Natalie disse. — E sempre que tentei abordar o assunto, o funeral, o acidente, qualquer coisa, ela não me deixou continuar.
Esta noite vai ser dura para Camryn, mas se ela não enfrentar isso, nunca vai melhorar.
— Você sabe onde estou — sussurro suavemente, deixando minhas mãos caírem dos seus braços. — Vou ficar acordado a noite toda. Comecei a compor outra canção ontem e quero muito trabalhar nela enquanto tá fresca na minha mente. — Aos poucos, mas sempre, estamos compondo material próprio, especialmente desde a viagem a Chicago; e depois da noite em que tocamos no bar de Aidan, Camryn mostrou interesse por isso, por algum motivo.
Camryn balança a cabeça e sorri fracamente por baixo da expressão de preocupação em seu rosto, preocupação com o que se esconde dentro do envelope.
— E se eu não quiser ficar neste quarto sozinha? — ela pergunta.
— Tô pedindo pra você ficar — insisto com firmeza. — Só por esta noite.
Não quero dizer mais do que isso, mas espero que a sinceridade no meu rosto faça o que palavras poderiam fazer.
— Tá bom — ela concorda.
Eu a beijo de leve nos lábios e a deixo sozinha no quarto.
Só espero que esse tiro não saia pela culatra.
Camryn
Andrew me deixa no quarto. Sozinha. Não gosto disso, mas aprendi a lhe dar ouvidos nos curtos cinco meses que passamos juntos. Cinco meses. Isso me espanta cada vez que lembro, porque parece mais que estamos juntos há cinco anos, depois de tudo o que enfrentamos. Às vezes penso no meu ex, Christian, o namorado infiel que arranjei para preencher o vazio deixado por Ian, e com quem fiquei por quatro meses. A gente mal se conhecia. Pensando bem, agora não consigo nem lembrar o dia do seu aniversário ou o nome de sua irmã, que morava a duas quadras da casa dele.
É totalmente outro mundo com Andrew.
Em cinco meses, me encontrei com ele, me apaixonei total, incondicional e loucamente, aprendi de verdade a viver, conheci praticamente toda a sua família e logo me senti parte dela, enfrentei uma jornada desafiando a morte com Andrew, fiquei grávida e noiva. Tudo em cinco meses. E agora aqui estamos, enfrentando mais uma dificuldade. E ele continua comigo a cada passo. Fui idiota e fraca e tomei comprimidos, e ele continua aqui. Eu me pergunto se existe alguma coisa que eu possa fazer que seria tão horrível a ponto de ele me abandonar. Algo no meu coração diz que não, não existe nada capaz disso. Nada mesmo.
Nunca vou entender, enquanto eu viver, como tive a sorte de ficar com ele.
Durante esse momento de reflexão, noto que meus olhos não desviaram da porta por onde ele saiu. Finalmente, olho para o envelope na minha mão, e não sei por quê, mas fico com medo de pensar no que há dentro dele. Pensei nisso muitas vezes esta semana. Uma carta? Se for, do que poderia falar? E para quem seria, e de quem? Por que Natalie me escreveria uma carta? Por que ela escreveria para Andrew?
Nada disso faz nenhum sentido.
Eu me sento no pé da cama, deixando minha bolsa cair no chão ao meu lado, e passo os dedos pelo contorno do que está dentro do envelope. Mas já fiz isso algumas vezes esta semana e continuo chegando às mesmas conclusões: é um papel, meio grosso, dobrado duas ou três vezes. Não tem nenhuma saliência, nem mesmo algum relevo dentro. É só papel.
Eu suspiro e faço menção de soltá-lo, mas continuo segurando. Não sei por que não abro essa droga de uma vez. Está me deixando meio maluca há uma semana, e aqui estou eu, finalmente capaz de desvendar o segredo de uma vez, abrindo-o, mas tenho medo demais.
Deixo o envelope na cama e me levanto, cruzando os braços e olhando para ele com o canto do olho enquanto começo a andar pelo quarto. Me sinto ameaçada por ele, como se fosse pular em mim e cravar as garras na minha perna quando passo perto. Como aquela gata psicótica que minha tia Brenda tem. Até começo a mexer na minha bolsa, procurando o celular para ligar para Andrew e fazê-lo contar por que tudo isso, até que me dou conta de como isso seria idiota.
Finalmente, eu pego o envelope e, depois de uma longa pausa, sentindo seu peso leve em minha mão, passo a ponta do dedo pela aba colada para soltá-la. Depois de tentar romper o lacre cuidadosamente e não conseguir, mando tudo à merda e rasgo o resto de alto a baixo. Jogo o envelope esfarrapado na cama e desdobro o papel de carta, vendo que a maior parte dele está em branco. Foi usado apenas para esconder a fotografia que tem dentro. Olhando para o verso da fotografia, primeiro me recuso a virá-la para ver o que há do outro lado. Em vez disso, leio a letra de Natalie no meio do último pedaço de papel:
Esta foi a melhor que eu achei.
Espero que ajude no que você está tentando fazer, seja o que for.
Sinceramente,
Natalie
Viro a fotografia e meu coração afunda como uma pedra quando vejo o rosto vibrante e sorridente de Ian me olhando. Minha bochecha está encostada na dele, olhando para a câmera. As luzes coloridas dos brinquedos do Parque Estadual da Carolina do Norte iluminam a noite ao fundo, atrás de nós. Como se eu tivesse caído num lago congelado, ver seu rosto me deixa totalmente sem fôlego. Lágrimas brotam instantaneamente dos meus olhos, e eu deixo a foto cair dos meus dedos sobre a cama. As duas mãos sobem ao meu rosto, onde os dedos cobrem meus lábios trêmulos.
Como posso me permitir chorar por ele?! Por que isso está acontecendo?!
Eu me desfiz de todas as fotos de Ian por um motivo. De todas. Deletei cada arquivo com fotos digitais nossas, tirei seu nome do meu celular. Até joguei fora o criado-mudo que eu tinha desde criança, porque Ian entalhara IAN AMA CAMRYN na madeira por baixo dele. Tentei tirar da minha vida cada coisa que me fizesse lembrar dele, o melhor que pude, porque doía demais saber que tudo o que me restava dele eram coisas materiais. Eu não podia fazer muita coisa com as lembranças, mas me esforcei ao máximo para esquecê-las também.
Por que Andrew faria isso comigo? Trazer toda essa dor de volta à minha vida, e ainda por cima tão pouco tempo depois de perdermos Lily?
Uma parte de mim quer berrar com Andrew, sair marchando pela porta, cruzar o corredor até seu quarto e lhe dizer o quanto isso dói. Mas minha razão me alcança rapidamente. Eu sei por que ele fez isso. Eu sei por que ele me colocou neste quarto, sozinha, com esta foto. Porque ele me ama tanto que está disposto a me devolver Ian só por uma noite, para que eu possa finalmente aceitar a perda dele.
Mas não consigo olhar essa droga de foto! Não consigo!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, pego meu suéter grosso da mochila e enfio os braços de qualquer jeito nas mangas. E então saio correndo do quarto e vou para o elevador.
Segundos depois, estou sentada na areia fria da praia, olhando para o oceano sem fim.
Andrew
18
EU ME PERGUNTO se ela vai abrir. Cacete, me pergunto se ela vai me odiar por fazer isso com ela, mas se isso vai ajudá-la, aceito a barganha.
Aperto o botão de ligar do controle remoto e uma velha reprise de Seinfeld preenche o silêncio do meu quarto. Tiro os sapatos e entro no chuveiro, deixando a água quente bater em mim até ela começar a sair morna. Só consigo pensar no que Camryn está fazendo, sozinha no seu quarto, se está olhando para aquela foto de seu ex-namorado morto, e se está se aguentando. Quero ir lá ajudá-la, mas sei que é algo que ela precisa fazer sozinha. Algo que ela deveria ter feito há muito tempo, antes que nos conhecêssemos.
Depois de me enxugar, enrolo a toalha na cintura e remexo na mochila sobre a cama, procurando uma cueca. Eu me sento, olho fixamente para a TV, depois para a parede, depois para a TV de novo, até que me dou conta de que estou só tentando fazer qualquer coisa para parar de pensar em Camryn.
Deixo meu MP3 tocar umas cinco músicas aleatórias em meus ouvidos antes de decidir que preciso ao menos ver como ela está. Tento seu celular primeiro, mas ela não atende. Então uso o telefone do hotel e tento ligar para o quarto dela. Ainda sem resposta. Talvez ela esteja apenas tomando banho. Tento me obrigar a acreditar nisso, até que meu instinto fala mais alto. Visto meu jeans e uma camisa de manga comprida e atravesso o corredor até seu quarto. Encosto o ouvido na porta, tentando ouvir o chuveiro ligado. Nada. Por isso passo o cartão extra na porta para destrancá-la.
Ela não está ali. Meu coração acelera enquanto entro no quarto. A primeira coisa que noto é a fotografia, que na verdade eu nem tinha visto ainda, sobre a cama. Eu a pego e a estudo por um instante. Camryn parece tão feliz nela. Essa é a Camryn que eu conheci, aquela com um sorriso lindo e cheio de energia. Me lembro desse sorriso. Eu o vi dezenas de vezes quando estávamos na estrada juntos.
Entrando em pânico, tiro os olhos da foto e vou para a janela. Olho para o oceano negro lá fora e vejo algumas pessoas andando pelo calçadão. Com a foto ainda na mão, volto rapidamente para o meu quarto e calço os sapatos, deixando-os desamarrados enquanto saio e vou para a praia. O ar frio não é insuportável, mas é suficiente para me fazer pensar que fiz bem em usar mangas compridas. Procuro qualquer sinal dela, olhando de um lado para o outro no calçadão e nas cadeiras de praia perto do hotel, mas ela não está em lugar nenhum. Enfiando a foto no bolso de trás da calça, começo a correr um pouco e rumo para a praia.
Eu a encontro sentada na areia, não muito longe.
— Porra, amor, você me deixou apavorado.
Eu me sento ao lado dela, passando um braço ao redor do seu corpo.
Ela olha para o oceano, o vento gelado atravessando seu cabelo louro. Não olha para mim.
— Desculpa. Eu só queria...
— Eu te amo, Andrew — ela interrompe, mas continua com o olhar fixo à sua frente. — Não sei como uma garota pode ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo.
Sem saber aonde ela quer chegar com isso, tenho medo de dizer alguma coisa porque não quero dizer a coisa errada. Eu a aperto mais para compartilhar o nosso calor. E não digo uma palavra.
— Não tô brava com você — ela continua. — Primeiro fiquei, mas quero que saiba que não tô mais.
— Me fala o que você tá pensando — peço baixinho.
Ela ainda não desviou o olhar da escuridão à sua frente. As ondas mal lambem a praia a alguns metros de nós. Um pontinho branco, a luz de um barco, se move no horizonte.
De repente, sinto que Camryn está me fitando e me viro para olhá-la também. A luz dos prédios atrás de nós e do luar é suficiente apenas para mostrar seus traços suaves, os cachos do seu cabelo soprados sobre sua face fria. Eu afasto alguns fios dos seus lábios. Seu olhar se abranda quando ela me encara e diz:
— Eu amava Ian, amava muito. Mas não quero que você pense...
Eu balanço a cabeça.
— Camryn, não faz isso. Não estamos aqui pra falar de mim, tá? — Eu enfio o dedo em outro cacho do seu cabelo e o afasto da sua boca. — Não fale de mim.
Ela para por um momento, e sinto sua mão no meu colo e meus dedos se entrelaçando com os seus.
Camryn volta a olhar o oceano.
— Eu não queria ir ao funeral de Ian — ela me conta. — Não queria vê-lo pela última vez daquele jeito. — Camryn me olha. — Lembra aquele dia, no seu apartamento, quando cheguei e você tava falando ao telefone com Aidan, quando ele tava tentando te convencer a ir ao funeral do seu pai?
Balanço a cabeça.
— Lembro, sim.
— Você disse uma coisa pra ele, disse que preferia que a última vez que você visse alguém, que ele estivesse vivo, não morto, deitado num caixão. Bem, era isso que eu pensava do funeral de Ian. Eu não queria ir. Foi por isso, também, que eu não quis ver Lily. Por isso escolhi a cremação.
— Mas você foi. Ao funeral de Ian. — Eu evito o assunto de Lily por enquanto. É um caso mais doloroso. Para nós dois. Eu a vi. Era tão pequena que caberia na palma da minha mão. Mas Camryn se recusou a olhar.
Ela balança a cabeça.
— Não exatamente — ela explica, a respeito do funeral de Ian. — Eu tava lá, mas não tava. Minha maneira de me desapegar dele foi tirá-lo da minha mente, cada palavra que ele já me disse, seu rosto; tudo o que eu podia apagar, eu apaguei. Só fui porque era o que todos esperavam de mim. Se eu não estivesse tão preocupada com o que todos fossem pensar de mim, teria ficado em casa naquele dia.
— Mas isso não fecha o ciclo — digo cautelosamente. — É a mesma coisa que varrer a sujeira pra baixo do tapete. Ela continua lá. Você sabe que tá lá. E aquilo vai ficar te incomodando até você fazer certo.
— Eu sei — ela diz.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, eu enfio a mão no bolso de trás e tiro a foto.
— Sabe, se ele ainda estivesse vivo, eu ficaria com um pouco de ciúme. Até que, pra um cara, ele é gato.
Camryn sorri para mim e noto que seu olhar mal pousa na foto.
Eu a deixo na areia perto dos nossos joelhos. Então fico sério de novo.
— Camryn, isso que tá acontecendo com você, os comprimidos e tudo mais, não é só por causa da perda da Lily. Você sabe disso, não sabe?
Ela não responde, mas percebo que está pensando muito no que eu falei.
— Você bloqueia tudo. Ian. Lily. De acordo com Natalie, até a morte da sua avó, o crime de Cole, e o fato do seu pai ter ido embora e parecer se importar mais com a nova namorada do que com você. — Digo as coisas como elas são porque é exatamente assim que precisam ser ditas. — Em vez de lidar com tudo isso, chorar, o que for, você só bloqueia essas merdas e espera que desapareçam sozinhas. Você já tava fazendo isso bem antes da gente se conhecer. Mas precisa saber que tudo se acumula, e um dia você desmorona e cai num abismo.
— Sei. Você tem razão, como sempre — ela concorda desconsoladamente.
— Você acredita nisso ou tá concordando só pra me fazer calar a boca? — Abro um sorriso para ela, esperando receber outro em troca.
E funciona.
Ela sorri e diz:
— Não, eu acredito mesmo. Só queria ter acreditado nisso antes.
— Por que acredita agora?
— Porque você é uma espécie de filósofo com tatuagens. — Ela ri, e isso espalha calor pelo meu sangue.
Não acredito que ela está rindo. De início, imaginei que fosse levar muito tempo para Camryn aceitar tudo isso, mas ela me surpreende a cada dia.
— Um filósofo? — digo. — Exagerada. Mas aceito o elogio.
Camryn se vira de lado e deita a cabeça no meu colo. Ela olha para mim com aqueles olhos azuis de corça, e não consigo deixar de tocar seu rosto macio.
— Quer saber a verdade? — ela pergunta.
— Claro — respondo, mas fico um pouco ansioso, de repente.
— É como te falei na casa de Aidan — ela continua. — Se um dia eu perdesse você, logo você, isso seria o fim pra mim. Quando tive o aborto, isso fez todos os meus medos voltarem. De perder você. Foi como se aquele instante de tragédia me fizesse lembrar de novo da morte, e com que rapidez ela pula em cima de uma pessoa. Se Deus, a natureza, ou sei lá quem ou que porra controla tudo, pode ser cruel e desalmado a ponto de matar o meu bebê, então Ele pode te matar também, sem pensar duas vezes. Isso me apavora, Andrew. A ideia de perder você me mata por dentro. E como já quase te perdi uma vez, o medo fica muito pior.
— Mas eu já te disse...
Ela se levanta do meu colo e fica sentada na minha frente, com os joelhos enterrados na areia.
— Eu sei o que você disse — ela interrompe. — Mas não importa o que você pensa, ou você saber dizer todas as coisas certas pra me fazer sentir melhor. Você não tem certeza do que vai acontecer, Andrew. O tumor pode muito bem voltar, e apesar de tudo o que fazemos, de todas as precauções que tomamos, ele pode te matar.
Eu começo a discordar, mas ela está tão empenhada em me dizer essas coisas que sei que preciso deixar.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu — ela continua — e agora posso te olhar nos olhos e dizer que, por mais que isto doa, consigo aceitar a morte de Ian. Consigo aceitar a morte de Lily. Consigo aceitar a morte de qualquer um, mesmo que essa morte seja insuportavelmente dolorosa. Mas a sua... — Ela se interrompe e nem pisca ao olhar no fundo dos meus olhos. — A sua eu jamais poderia aceitar. Jamais.
O silêncio entre nós só amplifica o som do oceano. Quero pegá-la nos braços, apertar meus lábios contra os dela, mas fico sentado ali, olhando para ela, porque as palavras que ela me disse são as mais poderosas que já ouvi, senti ou entendi.
Finalmente, eu a pego em meus braços e a ponho no meu colo. Passo os braços pelas suas costas, fito seus olhos e digo:
— Acredito em você e sinto a mesma coisa.
Ela inclina um pouco a cabeça para o lado.
— Mesmo?
— Sim. Camryn, não consigo viver sem você. Eu poderia tentar, mas ia ser uma existência péssima. Isso não vale só pra mim; você pode morrer amanhã tão facilmente quanto eu. Ninguém tá imune.
Ela não discute, mas desvia o olhar por um breve momento.
Eu seguro seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me olhar. Sua pele está gelada.
— A gente precisa viver no presente, lembra? — eu digo e ela volta a prestar atenção em mim. — Precisamos fazer um pacto, você e eu, agora mesmo. Topa fazer um pacto comigo? — Movo um pouco minhas mãos para aquecer suas orelhas geladas.
Ela concorda com a cabeça.
— Tá — diz, e fico feliz por ela confiar em mim o suficiente para não fazer perguntas antes de concordar.
Tirando uma mão de sua orelha, passo as pontas dos dedos na sua testa e pelos lados de suas bochechas.
— Não podemos controlar a morte. Nenhum dos dois pode fazer nada pra evitá-la ou adiá-la. Só o que podemos controlar é como vamos viver nossas vidas antes que ela nos alcance. Portanto, vamos prometer um pro outro coisas que possamos cumprir, haja o que houver.
Camryn concorda com a cabeça e sorri um pouco.
— Que tipo de coisas? — ela pergunta.
— Qualquer coisa. Tudo o que a gente quiser um do outro. Tipo... — Eu me levanto da areia e enfio as mãos nos bolsos. Olho para o oceano, vasculhando minha mente em busca da melhor promessa para começar. Só consigo pensar numa coisa no momento, por isso me viro novamente para ela, levanto o dedo indicador e digo: — Isto não tem nada a ver com o tumor, nem com nada específico, mas quero que você me prometa que, se algum dia estiverem me mantendo vivo por aparelhos, por qualquer motivo, e você sentir no fundo do coração que eu não vou melhorar, se você sentir que eu tô sofrendo, vai mandar desligar os aparelhos.
Seu sorriso desaparece, e ela me olha como se eu tivesse estragado o momento. Eu estendo os braços e a pego pela mão, fazendo-a levantar comigo.
— Não tô tentando ser mórbido. É só uma coisa que sempre me incomodou, sabe? Você vê isso na TV e nos filmes. O cara fica ligado a todo tipo de aparelho que a ciência já inventou pra se manter vivo porque a família tem esperança ou qualquer coisa assim. Nada contra ter esperança, mas, porra, aquilo me dá um puta medo. — Eu seguro seus braços delicadamente. — Nunca me deixe viver como um vegetal. Me prometa isso. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa, e confio que você vai saber quando tiver chegado a minha hora. Então prometa.
Aos poucos, ela começa a entender. Leva um segundo, mas ela começa a concordar com a cabeça.
— Me promete a mesma coisa — ela pede.
Eu sorrio e digo:
— Tá prometido.
Ela dá um passo para trás e enfia as mãos nas mangas. Apertando bem o suéter ao redor do corpo, ela começa a andar de um lado para o outro.
Ela para e me olha.
— Promete que se um dia eu tiver mal de Alzheimer ou ficar senil e não me lembrar de ninguém, você vai me visitar todo dia e ler pra mim, como Noah lia pra Allie.
— Quem? — eu pergunto, mas aí a ficha cai. — Aaaah, entendi. — Eu rio dela e concordo com a cabeça.
Seus olhos e seu sorriso aumentam e ela grita:
— Andrew! Não tem graça! Tô falando sério! — Ela ri e eu a agarro, puxando-a para os meus braços.
— Tudo bem, tudo bem! — eu me rendo, apertando seu corpo que se retorce contra o meu.
— A ideia foi sua — ela acusa —, então não faz piada.
— Eu sei. Você tem razão, mas... é sério? Precisa ser tão fã assim de Diário de uma paixão?
Sinto o cotovelo dela atingindo meu estômago e me curvo um pouco e exagero a dor que isso me causa, contorcendo o rosto com a agonia e o riso. Para me humilhar de vez, Camryn me dá um empurrão e me derruba na areia. Depois fica por cima de mim, com um pé de cada lado do meu peito e as mãos na cintura, toda autoritária. Mantenho uma mão na barriga, rindo e tentando ficar sério, embora eu saiba muito bem que não consigo enganá-la.
— Só você pra fazer piada num momento tão sério. — Ela reclama tão seriamente que isso só me faz rir mais, sobretudo pela dificuldade dela em ficar de cara fechada.
Ela começa a se sentar em cima de mim, e provavelmente vai tentar me bater com suas mãozinhas delicadas, mas eu a seguro antes que ela comece, meto a mão no meio das pernas dela e aperto com toda a força.
— Aaaaaii! — Camryn geme, e começa a desabar, mas eu a mantenho na posição. — Que ideia é essa de apertar minhas paaarrr... porra, Andrew! Apertar minhas partes?!
Faço mais pressão e levanto aos poucos as costas da areia, guiando-a para trás. Ela fica de joelhos olhando para mim.
— Porque eu gosto — sussurro sobre seus lábios. — Agora fica parada.
O clima entre nós muda em questão de segundos. Sua pele fria fica mais quente; seus olhos, arrebatados; seu corpo, conivente.
— Tem gente aqui... — ela tenta dizer baixinho, mas minha mão apertando-a no meio das pernas lhe rouba a voz.
— Não me importa — retruco, examinando seus olhos primeiro e então seus lábios úmidos e inchados. — Eles estão longe.
— Mas... o que você tá fazendo...
— Só fica parada. Quieta. — Eu passo a língua sobre seu lábio inferior e o chupo delicadamente. Sinto que ela tenta me beijar, mas não deixo. Eu puxo o tecido de sua calça e enfio a mão dentro da cintura folgada para achar o seu calor. Caramba, ela já tá molhada. Me curvando sobre o seu pescoço, fecho os olhos e inalo o cheiro de sua pele. Ela fica bem imóvel, mas posso sentir seu corpo tremendo e seu coração batendo forte sob o meu toque. Quero tanto comê-la. Mas não vou fazer isso ainda, porque gosto de me torturar. Adoro, porra.
Minha mão livre solta sua cintura e eu a ponho em sua coxa, forçando-a a abrir mais as pernas.
— Abre — eu instruo, com meus lábios roçando nela, e Camryn faz exatamente o que eu mando, afastando os joelhos na areia. Ela fica um pouco tensa quando percebo um homem andando não muito longe, mas eu a aperto de novo, enfiando dois dedos nela e obrigando-a a olhar só para mim. Ela geme e eu estremeço silenciosamente, sentindo suas entranhas se apertando em volta dos meus dedos. Encaro seus olhos, os meus de vez em quando se perdendo no estudo da curvatura de sua boca. — Não tira os olhos de mim — digo. — Não me importa se você sentir que precisa fechar os olhos. Não feche. Continue me olhando.
Ela balança um pouco a cabeça, como se temesse que eu vá parar se ela fizer errado.
Mexo os dedos para dentro e para fora dela, lentamente de início, tirando-os e usando seu gozo para manter seu clitóris úmido, esfregando meu dedo médio sobre ele num movimento circular. Cada vez que a toco, seus olhos começam a se fechar, mas eu paro assim que percebo, e ela volta a controlar o olhar. Mexo meus dedos dentro dela de novo, um pouco mais rápido, e com o polegar faço cada vez mais pressão no seu clitóris. Pequenos gemidos escapam de seus lábios abertos, chupando o ar gelado ao nosso redor e meu hálito quente à medida que fico mais ofegante em sua boca. Mas ela nunca tira os olhos dos meus e não fala, embora eu saiba que ela queira fazer tudo isso.
— Admite uma coisa — sussurro no ouvido dela. — Neste momento, você não estaria nem aí se alguém estivesse olhando. Não é verdade? Me deixaria foder você aqui, na frente de todo mundo, e se preocuparia com a vergonha só depois que eu terminasse.
Sinto sua cabeça balançando perto da minha.
— O que mais você me deixaria fazer? — pergunto e mantenho os lábios perto do ouvido dela. Continuo mexendo os dedos.
— Tudo o que você quisesse — ela diz, com um gemido na voz.
— Tudo o que eu quisesse? — Eu esfrego meu polegar com mais força no seu clitóris.
— Tudo... — ela diz e perde um pouco o fôlego. — Qualquer porra que você quisesse...
Suas palavras, sua voz carregada de desejo, me deixam louco de tesão por ela, e meu pau está tão duro que mal consigo aguentar. Enfio os dedos com mais força e mais rápido. Seu corpo começa a tremer, suas coxas balançam tentando levantar o corpo. Eu me afasto do ouvido dela e a fito de novo. Ela mantém o olhar fixo no meu o melhor que pode, suas pálpebras estão ficando mais pesadas; sua respiração, irregular e ofegante. Mas seus olhos ficam arregalados e imóveis quando atinjo aquele ponto especial, e tomo cuidado para não interromper o ritmo.
— Não tira os olhos de mim — digo e continuo a olhá-la ferozmente.
Quando ela começa a gozar, meu olhar só fica mais forte, perfurando o dela num momento de luxúria faminta. É como se eu conseguisse ver o prazer emanando de suas íris, o calor do seu orgasmo saindo da pele sensível dos seus lábios, que querem beijar os meus tão selvagemente, mas mesmo assim eu não deixo. Quando seu corpo trêmulo começa a se acalmar, enfio os dois dedos mais fundo, sentindo-a se estreitar ao redor deles, o tempo todo mantendo a pressão no seu clitóris.
Ela desaba sobre o meu peito.
Eu envolvo seu corpo trêmulo nos braços e beijo o alto da sua cabeça.
— O que você tá fazendo comigo, caralho? — ela diz.
Eu rio um pouco e a abraço mais forte.
— Qualquer porra que eu quiser — respondo astutamente.
Erguendo a cabeça do meu peito, ela olha para mim.
— Bom, pode dizer o que quiser, mas não vai me fazer gozar desta vez sem que eu retribua o favor.
— Ah, é?
— É isso mesmo, por isso nem tenta.
— O que você vai fazer comigo, então? — Eu sinto o meu sorriso aumentando.
— Qualquer porra que eu quiser — ela diz, com um sorriso ainda maior e mais malicioso que o meu.
Então ela fica de pé e, segurando minha mão, me faz levantar com ela.
— Mas não aqui fora — ela diz. — Tá esfriando demais.
— Você que manda — digo, deixando que ela me puxe.
Eu jamais tocaria no assunto, mas noto, quando nos afastamos da praia, que Camryn olha para trás uma vez, para a foto dela e de Ian na areia. Sua mão aperta a minha forte e ela olha para meu sorriso suave quando atravessamos o calçadão.
Sei que tive muito pouco a ver com ela finalmente fechar esse ciclo. Tudo bem, eu a forcei a fazer isso, mas foi Camryn que, naquele momento, enfrentou um dos seus maiores medos. Ela olhou no rosto de alguém que amou e perdeu, e finalmente aceitou isso. Admito que foi estranho como tudo aconteceu, e eu não fui para lá com nenhuma intenção sexual, especialmente num momento como aquele. Mas Camryn, no tempo que passou sozinha naquela praia pensando em Ian, bem antes que eu chegasse, já tinha entendido tudo.
Não sei ao certo como ela fez, ou qual foi meu papel nisso, mas quando retornou da praia comigo naquela noite, ela já começava a ser como era antes.
Camryn estava voltando, e eu estava nas nuvens com ela.
Camryn
19
8 DE DEZEMBRO — meu vigésimo primeiro aniversário
Quando começou a esfriar, Andrew e eu rumamos mais para o Sul. Passamos só uma noite em Virginia Beach e de lá percorremos o litoral da Carolina do Norte, ficando alguns dias em Myrtle Beach, Carolina do Sul, onde arranjei meu primeiro emprego na estrada. Como arrumadeira. Com certeza não era a minha primeira escolha, especialmente depois que Andrew me lembrou das coisas nojentas que os hóspedes costumam deixar nos quartos. Mas era um emprego e não me incomodava tanto, a não ser quando queriam que eu lavasse cestos de lixo com catarradas nojentas grudadas no fundo. Desculpa, mas só de pensar nisso me dá vontade de vomitar. Eu ligava para Andrew e implorava que ele viesse limpar. Claro que eu o subornava com promessas de boquetes enlouquecedores em lugares públicos. Puxa, que maravilha. Não, quem eu tô tentando enganar? Adoro fazer isso por ele. Só finjo detestar às vezes, mas acho que ele gosta quando eu finjo, porque gosta de me ouvir reclamar.
De qualquer forma, pelo jeito, empregos de arrumadeira são como portas giratórias, as funcionárias vêm e vão tão rápido que seria melhor nem incluí-las oficialmente na folha de pagamento. Pensei em como isso poderia trabalhar a meu favor enquanto estivéssemos na estrada. Assim, em troca de metade do valor das diárias do quarto que estávamos ocupando, e como o quadro de funcionários do hotel estava desfalcado, eu perguntei se poderia ajudar e eles me contrataram na hora.
Mas o emprego era só temporário, pois Andrew e eu precisávamos partir de Myrtle Beach e seguir para o nosso destino, onde quer que fosse. Nunca planejamos nossos destinos antecipadamente. A nossa única regra é ficar no litoral. Pelo menos até a primavera. Mas ainda faltam alguns meses até lá e, no momento, estamos felizes instalados num hotel estilo chalé bem em frente à praia, na linda Savannah, Geórgia.
E hoje eu faço 21 anos.
Andrew me acorda de um sono profundo abrindo as cortinas da janela gigante do nosso quarto e deixando o sol invadir o ambiente.
— Levanta, aniversariante — exclama ele de algum lugar perto do pé da cama. Eu o ouço batendo várias vezes na mesinha perto da janela com a palma da mão.
Resmungo e viro para o lado, dando as costas para o sol brilhante e me enterrando nos lençóis. Uma lufada de ar frio me atinge quando Andrew me arranca os lençóis.
— Ah, vai! — gemo, encolhendo os joelhos para o peito e puxando o travesseiro para cima da minha cabeça. — Eu devia poder dormir até tarde no meu aniversário.
De repente, meu corpo está sendo arrastado da cama e eu estico os braços freneticamente, tentando me agarrar à borda do colchão. A mão de Andrew segura com firmeza o meu tornozelo. Eu chuto e esperneio, tentando me soltar, mas ele me arrasta pela cama tão rápido e sem esforço que eu simplesmente desisto. Minha bunda bate no chão e os lençóis caem ao meu redor.
— Você é tão babaca! — eu rio.
— Mas você me ama. Agora levanta.
Com o cabelo todo emaranhado, olho para Andrew e faço bico. Ele sorri para mim e estende a mão. Eu a seguro e ele me puxa de pé.
— Feliz aniversário, amor — ele diz, e me dá um selinho.
Eu me encolho um pouco, porque sei que meu bafo está podre, e já estou ficando acostumada com a mania de Andrew de aproveitar qualquer oportunidade de me lembrar disso.
Sem olhar para mim, Andrew enfia a mão no bolso do casaco e tira uma caixinha de veludo preto. Obviamente, ele já saiu hoje, mas eu estou mais interessada na caixa que ele pôs na minha mão. Olho para ele desconfiada, pronta para dar um esporro nele caso tenha gastado uma grana numa joia escondido de mim.
— Andrew? — digo, desconfiada.
— Abre de uma vez. Eu me comportei. Juro. — Ele ergue as duas mãos num gesto de rendição.
Ainda totalmente desconfiada de sua aparente sinceridade, abro a tampa da caixa e vejo um colar com pingente de diamante dentro e fico com um pouco de falta de ar. Então estreito os olhos para ele.
— Andrew, por favor. — Olho mais uma vez para o colar, me sentindo culpada só de tê-lo nas mãos. — De jeito nenhum isso foi...
— Juro — ele diz com um sorriso encantador. — Não foi caro.
Mordendo o lábio com ceticismo, eu pergunto:
— Quanto custou, então?
— Ah, uns 125 dólares. Nada mais do que isso. Juro por Deus. — Ele faz uma cruz sobre o coração com o dedo.
Então tira o colar da caixa, deixando-o pendurado na mão.
— Gostou? — pergunta, indo para trás de mim.
Instintivamente, levanto meu cabelo embaraçado enquanto ele põe o colar no meu pescoço.
— É perfeito, Andrew. Eu mais do que gostei. Eu amei. — Olho para baixo enquanto ele o fecha e seguro o pingente brilhante de prata.
Eu me viro para Andrew e fico na ponta dos pés descalços para beijá-lo apaixonadamente.
Nem imagino como uma joia dessas pode não ter custado um caminhão de dinheiro, mas ele está dizendo a verdade. Eu acho...
— Obrigada, amor — agradeço, radiante.
De repente, ele me dá um tapão na bunda e diz:
— A gente precisa sair daqui hoje. Tô de saco cheio de me esconder em quartos assim. De saco cheio do frio. Eu queria poder hibernar.
— Eu também. E o que a gente vai fazer, exatamente? — Pego uma roupa limpa da minha mochila perto da TV.
— Sei lá. Qualquer coisa. Mas põe uma roupa quente.
Ele não precisava me lembrar disso, na verdade. Nem mesmo a proximidade do litoral e a mudança de latitude ajudaram muito a nos aquecer nos últimos dias. Ambos sonhamos com a primavera e o verão, a ponto de ser a única coisa da qual falamos. Eu reclamo muito de não poder esticar os pés descalços para fora da janelinha do carro sem matar nós dois de frio, e ele reclama que ainda não conseguimos dormir num gramado sob as estrelas. Claro que não vou dizer em voz alta, senão ele vai querer ainda mais, mas não estou muito ansiosa para dormir sob as estrelas. Jamais. Não depois do que aconteceu na primeira vez que tentamos. Não. Acho que estou satisfeita com as camas de hotel. Elas não têm cobras.
O inverno é deprimente. Acho que é por isso que o índice de suicídios é tão alto no Alasca. É um estado lindo, mas ainda prefiro o calor de rachar de um deserto do Sul.
Eu visto roupas extraquentes para o meu aniversário: casaco grosso, cachecol, luvas, o que tiver eu tô vestindo. E mesmo assim tô morrendo de frio.
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Andrew meio que “esquenta” o inverno. Sempre achei que caras de gorro ficam sexy, mas o jeitão dele com sua jaqueta preta de grife e seu gorro de lã, suéter cinza-escuro, jeans preto e botas Doc Martens é tudo o que eu quero de presente de aniversário. Sorrio comigo mesma enquanto andamos de mãos dadas por uma pequena multidão, todos se acotovelando no farol para se proteger do frio, e então três garotas, provavelmente turistas como nós, devoram Andrew com os olhos quando passamos. Isso acontece muito, e eu já deveria estar acostumada. Me vanglorio em segredo, mas quem não faria isso, na minha situação? Ele é a coisa mais sexy que eu já vi. Não admira que já tenha trabalhado como modelo. Ele odeia falar disso, então, naturalmente, eu toco no assunto com frequência para vê-lo sofrer. Andrew também está se barbeando menos; está com aquela barba sexy por fazer.
Subimos a escada em caracol até o farol debruçado sobre o oceano e olhamos o panorama juntos. Porque é algo para se fazer. Estamos apenas improvisando, andando de carro pela cidade e escolhendo as coisas quando as vemos. Mas, nos meses frios, até isso é um processo de tentativa e erro. Estendemos os braços sobre o corrimão e ficamos perto um do outro para nos aquecer. O vento gelado nos fustiga, naquela altitude, e eu sei que meu nariz e minhas bochechas devem estar vermelhos.
Levamos exatamente cinco minutos para mandar aquilo à merda e praticamente correr de volta para o carro.
— A gente podia ir pro cinema — ele sugere, no banco do motorista. — Ou... tá, acho melhor a gente hibernar e pronto.
Ficamos sentados por muito tempo, só pensando em alguma coisa para fazer.
— Vamos andar de carro mais um pouco — eu digo, sem nenhuma ideia.
— Talvez seja melhor ir embora de uma vez.
Dou de ombros.
— Se você quiser. — Então vejo uma placa que diz Feira de Antiguidades das Pulgas & Carrapatos.
— Vamos fazer compras — sugiro.
Andrew não parece empolgado.
— Compras?
Balanço a cabeça e aponto para a placa.
— Não no shopping, nada disso — explico. — Dá pra achar umas coisas bem bacanas em feirinhas de coisas usadas.
Sua expressão continua neutra, mas acho que ele se dá conta de que com certeza é melhor do que andar na rua no frio, ou ficar parado no carro sem fazer nada.
Andrew acaba cedendo porque, francamente, ele não tem mesmo muita escolha, e em seguida tira o carro do estacionamento e seguimos as placas até a feira de antiguidades. Encontramos um pouco de tudo: chapéus idiotas, instrumentos odontológicos antigos, colchas de retalhos feitas à mão, fitas de vídeo e discos. Andrew não se empolgou com muita coisa, até ver a caixa de madeira cheia de discos.
— Não vejo um disco do Led Zeppelin há anos — ele comenta, segurando um. A capa está tão detonada e desbotada que parece ter ficado num sótão por trinta anos, mas ele o segura com tanto cuidado que poderia ser um exemplar em perfeito estado.
— Você não tá pensando em comprar isso, tá?
— Por que não? — ele pergunta, sem olhar para mim.
Ele vira o disco e olha para o verso da capa.
— Porque é um LP?
— Tá, mas é um LP do Led Zeppelin — ele argumenta, olhando rapidamente para mim.
— Tá, e?
Ele não responde.
Eu continuo:
— Andrew, onde é que você vai tocar isso?
Finalmente ele me dá atenção total.
— Eu não vou tocar.
— Então por que quer comprar? — pergunto, e então respondo por ele, sarcasticamente. — Ah, já sei, é um artigo de colecionador. Você pode pendurá-lo no banco de trás do carro. — Dou um sorrisinho para ele.
— Ou posso pôr você no banco de trás e pendurá-lo na frente.
Eu fico levemente boquiaberta.
Andrew sorri e devolve o disco à caixa.
— Eu não vou comprar — ele resolve, pegando a minha mão.
Minutos depois, entramos em outra barraca, lotada de roupas antigas. Enquanto examino meticulosamente tudo o que há nos cabides, Andrew fica na barraca ao lado, onde centenas de DVDs e Blu-rays estão expostos numa parede. Ele para diante dela de braços cruzados, praticamente imóvel, lendo cada um dos títulos. Posso ver sua nuca através da treliça de madeira que separa seu quiosque do meu. Volto a olhar as roupas, sentindo urgência e necessidade a cada peça que toco. Eu adoro roupas antigas. Não que eu chegue a usar, ou que tenha comprado alguma vez, mas são coisas que não dá para deixar de olhar com admiração e se imaginar nelas.
Empurro os cabides finos de arame, um por um, para conseguir ver tudo. Camisas com mangas bufantes e cadarços de couro, espartilhos, vestidos plissados e com mangas longas, botas vitorianas...
O que é isso?
Meu coração para por um segundo quando puxo um dos cabides e vejo o vestido. É um modelo vintage cor de marfim, com mangas curtas drapeadas. Tiro o cabide da arara e seguro o vestido junto ao corpo, virando para o espelho. O comprimento por pouco não chega ao chão. Segurando-o com uma mão na altura certa, estico o tecido com a outra mão. Então eu rodopio.
— Meu Deus, amei este vestido — digo em voz alta para mim mesma. — Preciso comprar.
— Hãã, devo dizer — Andrew intervém por trás, me assustando — que é um vestido lindo.
Um pouco sem jeito porque Andrew provavelmente me viu enquanto eu me admirava com o vestido e falava sozinha, não olho para ele. Em vez disso, olho a etiqueta para ver se é do meu tamanho. É! Claro que agora preciso comprá-lo, sem mais perguntas. Era pra ser meu!
Abraçando apertado o vestido, eu giro para ficar de frente para Andrew.
— Você gostou mesmo? — pergunto com voz culpada, minha maneira de implorar para que ele não jogue na minha cara aquela conversa sobre o disco.
— Eu acho que você deve comprar — ele confirma, com um sorrisão cheio de covinhas. — Já posso imaginar você vestida nele. Linda. Naturalmente.
Eu fico vermelha e olho para o vestido de novo.
— Você acha? — Não consigo parar de sorrir.
— Com certeza — ele diz. — E você fica mais acessível nele.
Típico!
Ignoro seu comentário pervertido, sobretudo porque estou apaixonada demais pelo vestido. Então me dou conta de que ainda não olhei o preço. Conhecendo os vestidos daquela marca, sei que eles não são caros. Mas quando o vendedor é alguém que acha que pode enganar um cliente, fazendo-o pagar três vezes o valor justo, não há como prever o preço na etiqueta. Prendo a respiração e olho o valor. Vinte contos! Perfeito.
Olho mais uma vez para Andrew e de repente me sinto uma vaca reclamona.
— Por que você não compra aquele disco do Led Zeppelin também? — digo timidamente.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Não, um LP antigo não serve pra nada mesmo. Mas um vestido como esse tem sua serventia. — Ele cruza os braços e me olha de cima a baixo.
Eu acho que ele está bancando o pervertido de novo, e dessa vez abro a boca para acusá-lo, quando ele acrescenta:
— Casar comigo vestida nele, por exemplo.
Seus olhos verdes parecem cruzar rapidamente os meus.
Meu sorriso se abranda e eu digo:
— É um vestido de noiva perfeito.
— Então tá combinado — ele diz, segurando a minha mão. — Quando a gente se casar, pelo menos você já vai ter o vestido.
— Só precisamos disso, na verdade — digo, saindo com ele da barraca com o vestido pendurado no braço.
Ele olha para mim.
— Alianças — ele diz, com um olhar estranho.
— Eu tenho aliança — digo, levantando a mão, achando que por algum motivo ele se esqueceu do anel que me comprou no Texas.
— Isso é um anel de noivado.
— É, mas basta.
— Bom, eu também preciso de uma. Ou você se esqueceu de mim? Casamento é pra dois, sabe.
Eu rio baixinho enquanto chegamos à pequena fila da caixa.
— Tá, tem razão, mas eu tô feliz com o meu anel. Além disso, eu sei que você gastou uma grana com este colar. Não pode fazer essas coisas.
— Vamos começar com isso de novo? — ele pergunta em tom brincalhão, tirando a carteira do bolso. — Não menti pra você sobre o preço do colar.
Talvez ele esteja mesmo dizendo a verdade.
— Acredito em você — digo finalmente.
Ele sorri e deixa por isso mesmo.
Andrew
20
SIM, SOU UM baita mentiroso. Aquele colar custou pouco mais de 600 dólares, mas sei que não posso contar pra ela. Ela acha que o que importa nas coisas caras é quantos zeros há antes da vírgula, mas nem sempre é isso. Francamente, acho que normalmente é pra mulher que o preço importa tanto. Porra, já ouvi garotas reclamando e choramingando porque o cara delas não gastou o suficiente. Eu queria saber se elas percebem como dificultam a nossa vida quando se juntam com as amigas e comparam pedras como nós, homens, comparamos nossas ferramentas. A propósito, a gente não faz isso, na verdade. Pelo menos eu nunca consegui encontrar um cara que quisesse abrir o zíper e competir comigo.
Eu queria comprar algo bem legal pra Camryn no aniversário dela. Por pura coincidência, aquilo de que eu mais gostei, entre as coisas que vi, era caro.
Aceite isso, amor.
Ela é capaz de desmaiar se descobrir quanto eu gastei nas nossas alianças, que comprei enquanto estávamos em Chicago. Está difícil evitar que Camryn as veja. Mas consegui enfiar a caixinha num bolso escondido da minha mochila.
Passamos o dia todo fazendo o que sempre fazemos, ficando juntos e aproveitando o tempo frio como dá. Quando voltamos para o hotel, pego o violão e toco para ela uma canção que compus e na qual estou trabalhando há uma semana. Eu esperava terminá-la até o dia do aniversário porque faz parte do presente dela. Compus só pra ela. Eu a chamo de “A Tulipa na Colina”, uma canção inspirada pelo primeiro dia que passamos juntos quando eu saí do hospital, depois da minha cirurgia.
— Eu acho que você deve pegar leve — Camryn disse naquele dia. — Nada de enfiar a cabeça nos motores de Billy Frank por uns tempos, nem bungee jumping, nem corridas de carros.
Eu ri um pouco, virando a cabeça para o lado para vê-la. Eu estava deitado de comprido numa mesa de piquenique de pedra. Camryn estava sentada no banco, perto da minha cabeça.
— Então sua definição de pegar leve é não fazer absolutamente nada? — perguntei, sorrindo para ela, com a cabeça apoiada nas mãos.
— O que tem de errado em passar um dia calmo no parque? — ela perguntou, passando os dedos na minha testa.
— Nada — respondi e beijei-lhe os dedos quando sua mão chegou à minha boca. — Eu gosto de ficar sozinho com você.
Ela virou a cabeça devagar para o lado e sua expressão ficou mais meiga. Depois olhou para o parque. As árvores estavam frondosas, e a grama, espessa e verdejante. Estava realmente um dia lindo. Fiquei me perguntando por que só nós dois, aparentemente, estávamos ali, aproveitando.
— Acho tulipas bonitas — ela disse com voz distante, olhando para a pequena colina coberta de grama do meu outro lado.
Olhei também e vi uma única tulipa brotando no alto daquela colina, sozinha. Não sei bem por quê, mas desde aquele dia, sempre que vejo uma tulipa em qualquer lugar, penso em Camryn.
Eu nunca vou esquecer o sorriso em seu rosto enquanto toco e canto a canção para ela. É tão terno, radiante e carinhoso, o tipo de sorriso que diz Amo Você Mais Do Que Tudo Neste Mundo sem precisar dizer essas palavras.
CONTINUA
14
QUANDO CHEGO AO banheiro, tem uma fila de mulheres esperando por cabines vazias. O ar está espesso com o bafo de álcool, perfume e roupas cheirando a cigarro. Uma porta de cabine se abre e fecha com uma batida violenta de poucos em poucos segundos quando alguém entra ou sai. Lavo as mãos primeiro, precisando me espremer entre duas garotas bêbadas sentadas no balcão da pia, uma de cada lado. Por sorte, elas são o tipo de bêbada supersimpática, porque não estou podendo com uma briguenta e grosseira hoje. Elas pedem desculpas por atrapalhar e se afastam para me dar espaço.
— Obrigada — digo, abrindo a torneira.
— Ei, você é a menina que tava cantando — a garota da esquerda diz, apontando para mim e sorrindo. Ela olha para a amiga do outro lado, depois para mim de novo.
— É, acho que sou eu.
Não estou nem um pouco a fim de conversa de banheiro. Quanto mais tempo passo num banheiro público, com mais nojo eu fico.
— Vocês dois são muito bons — ela diz com um sorrisão.
— É, sério — a amiga dela confirma. — Por que estão cantando em bares, afinal?
Eu dou de ombros e espremo mais sabão do reservatório na mão e tento evitá-las o mais gentilmente possível.
— De verdade — a da esquerda acrescenta. — Eu pagaria pra ver vocês tocarem.
Tudo bem, eu não sou totalmente imune a elogios. Sorrio e agradeço de novo.
Quando mais duas cabines ficam desocupadas, elas aproveitam a oportunidade e se trancam nelas. Logo depois, acenam em despedida e me desejam boa sorte na minha “carreira musical”. Quando estou quase sozinha, me viro para o espelho, mas não olho para mim. Em vez disso, enfio a mão no bolso e pego um comprimido, engolindo-o com água da pia.
É só pra tirar o nervoso.
Então eu me olho, empurrando o comprimido e o sentimento de culpa que vem cada vez que tomo um para o fundo da minha mente. Invento pretextos para justificar tomá-lo e quase engano a mim mesma. Mas eu sei que a culpa que sempre sinto tem um motivo.
Em menos de 11 minutos, não me importo mais com a culpa, os pretextos ou o nervoso, porque essa parte do meu cérebro foi adormecida.
Passo as pontas dos dedos embaixo dos olhos para limpar o rímel borrado, depois enxugo a oleosidade do meu rosto com papel higiênico. Preciso estar de cara boa quando voltar lá. Me sinto ótima, mas preciso parecer tão bem quanto me sinto.
Abrindo caminho em meio à multidão, encontro Aidan e Michelle de pé perto do enorme balcão do bar e me junto a eles. Então lembro que Andrew foi buscar uma bebida para mim, mas não quero atravessar aquele mar de gente de novo só para pegá-la.
— Vocês dois são fantásticos! — Michelle grita por cima da multidão barulhenta. Ela me abraça e eu retribuo, sentindo meu sorriso movido a comprimidos se alargando muito em meu rosto.
Eu me viro para Aidan.
— O que você achou?
— Concordo com Michelle! Vocês deveriam compor seu próprio repertório e tocar aqui mais vezes. Tem sempre caçadores de talentos aqui no bar. E celebridades. — Ele aponta para a parede do fundo, onde uma série de fotografias autografadas de vários músicos e astros do cinema formam uma linha reta. — Comecem a tocar material próprio — ele continua. — Aposto que vocês dois seriam contratados por uma gravadora em menos de um ano.
Estou tão chapada, no momento, que ele poderia me dizer que achou a gente uma bosta e sem futuro nenhum na música, e eu sorriria do mesmo jeito, deixando as palavras passarem por mim como uma brisa.
Olho para o outro lado do salão e vejo Andrew no palco com sua guitarra e a banda da casa, se preparando para a canção que é sua marca registrada, “Laugh, I Nearly Died”. Ele provavelmente não me vê no meio da multidão, mas sabe que estou assistindo. Adoro vê-lo no palco, no seu elemento. Sei que, por mais que sejamos bons juntos, musicalmente, ele sempre é mais dono do palco quando toca sozinho. Talvez seja impressão minha, mas gosto de pensar nele como na primeira vez que o vi tocar. Porque naquela noite em Nova Orleans, ele estava cantando para mim, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu faria qualquer coisa pra me sentir assim de novo. Qualquer coisa...
Segundos depois de começar a tocar, Andrew, como sempre, tem a atenção de todos os presentes. As duas garotas na mesa estão de pé agora, dançando juntas de um jeito provocante, mas eu sei que é tudo para Andrew. Já vi isso antes. Elas o querem, e Andrew deixa que acreditem, só por uma noite, que ele também as quer. É perfeitamente inofensivo. Andrew e eu encaramos isso como uma maneira de levantar a autoestima dos outros. Um pouco de paquera aqui e ali, tornar uma garota ou um cara de sorte o centro das atenções só pelo tempo suficiente para corar e sorrir. Nunca se sabe o que acontece na vida das pessoas a portas fechadas, e um pouco de energia positiva da paquera nunca atrapalha.
Quando voltamos para a casa de Aidan e Michelle pouco depois da meia-noite, vou para a cama antes de todos. Fico deitada por uma hora, ouvindo as vozes deles vindo do corredor e entrando no quarto. Andrew ia se deitar comigo, mas insisti para que ele ficasse com o irmão. Ele anda se preocupando demais comigo ultimamente. Vamos voltar para Raleigh amanhã, e quero que ele passe o maior tempo possível com Aidan.
Mais uma hora passa e eu continuo acordada.
Frustrada, enfio a mão na bolsa, procurando o frasco. Sem nem perceber, já estou nos últimos comprimidos.
Desmaio com três, desta vez.
Andrew
15
— CAMRYN? AMOR, acorda, por favor. — Eu a sacudo com força pelo ombro.
Minha emoção dominante, no momento, é o medo. Minhas emoções secundárias são raiva e mágoa. Mas, estranhamente, a sensação de incerteza está mantendo todas as outras a distância.
Eu a sacudo de novo.
— Levanta.
Não faço ideia de quantas dessas porras de comprimidos ela tomou, mas julgando pelo frasco quase vazio, a perspectiva de ter sido o suficiente para uma overdose faz uma onda de pânico percorrer todo o meu corpo. Mas ela está respirando normalmente e seu ritmo cardíaco parece normal. Se ela não acordar...
Seus olhos se abrem lentamente, e eu respiro mais aliviado.
— Camryn. Olha pra mim.
Finalmente, ela acorda o suficiente para me olhar nos olhos.
— Que que foi? — Ela geme suavemente e tenta fechar os olhos de novo, mas eu a seguro pelos ombros e a obrigo a se sentar.
— Acorda. Fica de olhos abertos.
Ela se senta, toda mole, mas não é nada tão fora do comum, depois de ter sido forçada a acordar e a se endireitar assim.
— Quantos você tomou?
Michelle está na porta do quarto, atrás de mim.
— Quer que eu chame uma ambulância?
De repente, Camryn fica completamente alerta. Não sei se minha pergunta finalmente a alcançou ou se foi a menção de uma ambulância, mas ela me encara com olhos arregalados e assustados.
— Quantas dessas porras de comprimidos você tomou?
Ela desvia o olhar do meu e vê o frasco de comprimidos sobre o criado-mudo. Quando decidi que dormir até depois das 14h não era típico dela e fui ver o que estava acontecendo, encontrei o frasco no chão.
— Camryn? — Eu a sacudo de novo e ela volta a prestar atenção em mim.
Ela só me olha. Vejo tanta coisa em seus olhos agora que não sei dizer se é mais humilhação, arrependimento, mágoa, raiva ou resignação. E então seus olhos começam a se encher de lágrimas. Sinto seu corpo se agitando sob o peso dos meus braços. Ela desata a chorar, caindo em meus braços, soluçando descontroladamente, e aquilo me despedaça.
— Andrew? — Michelle diz da porta.
Sem olhar para trás, eu digo:
— Não, ela vai ficar bem. — E engulo minhas próprias lágrimas e a raiva, sentindo meu peito se apertar.
A porta se fecha silenciosamente atrás de mim quando Michelle sai do quarto.
Abraço Camryn por muito tempo, deixando-a chorar no meu peito. Não digo uma palavra. Ainda não. Em parte porque sei que ela precisa disso, poder chorar e desabafar. Mas a outra parte de mim está tão puta da vida e magoada que sinto que vou precisar me afastar e me recompor para não dizer coisas erradas. Eu a abraço forte, apertando os braços em volta do seu corpo trêmulo. Beijo seu cabelo e tento não chorar também. A parte de mim que está puta da vida ajuda nisso.
— Eu sinto muito! — ela grita e, nessa fração de segundo, quando ouço a dor em sua voz, minha raiva se apaga quase completamente e eu a abraço ainda mais forte.
— Tá pedindo desculpas pra mim? — pergunto, incrédulo. Eu a afasto, segurando-a firme pelos antebraços. Balançando a cabeça furiosamente, volto a ficar como alguns minutos atrás. — Não, primeiro você precisa me dizer quantos você tomou. — Eu a encaro com firmeza.
— Ontem à noite. Só três.
— Quantos tinha no frasco no total?
— Não sei. Uns vinte.
— Então há quanto tempo você tá tomando?
Ela faz uma pausa e responde.
— Desde terça. São da minha mãe. Tomei um quando tava com dor de cabeça, mas aí comecei a tomar... — Seus olhos se enchem de água novamente.
Eu enxugo as lágrimas do seu rosto.
— Puta que pariu, Camryn! — exclamo, puxando-a para o meu peito por mais um breve momento. — O que você tava pensando, porra?
— Eu não pensei! — ela grita. — Não sei o que eu tenho!
Seguro seu rosto com as palmas das mãos.
— Você sabe o que você tem. Tá arrasada por perder a Lily e não sabe como lidar com isso. Só queria que você tivesse falado comigo.
Com o rosto dela ainda nas mãos, seus olhos desviam dos meus. O silêncio tenebroso entre nós me afeta da forma mais estranha.
— Camryn? — Tento fazê-la me olhar de novo, mas ela se recusa. — Fala comigo. Você precisa falar comigo. Escuta, você não fez nada errado, nem poderia ter evitado o que aconteceu. Precisa saber disso. Precisa enten...
Sua cabeça se desvencilha das minhas mãos, seus olhos penetrando os meus, cheios de dor e de... algo mais.
— É culpa minha! — ela diz, se afastando de mim na cama.
Ela se levanta do outro lado e cruza os braços, me dando as costas.
— Não é culpa sua, Camryn. — Ando até ela, mas assim que sente que vou me aproximar, ela se vira.
— É culpa minha sim, Andrew! — ela repete, com as lágrimas escorrendo dos olhos. — Eu não conseguia parar de pensar que minha gravidez ia ferrar com tudo! Detestava continuar morando em Galveston depois de quatro meses! Fiquei me perguntando como a gente ia fazer tudo o que queria com um bebê! Por isso, sim, é culpa minha que a perdemos e eu me odeio por isso, caralho! — Ela esconde o rosto nas mãos.
Atravesso a curta distância até ela, tomando-a em meus braços de novo.
— Meu Deus, Camryn, não foi culpa sua! — Acho que nunca falei nada para ninguém com tanta emoção. Meu peito tremia incontrolavelmente contra o dela.
— Olha pra mim! — imploro, afastando-a. — Isso é tão normal. E se você é culpada, então eu também sou. Tive esses pensamentos de vez em quando, mas, como você também, não teria desistido dela nem se pudesse.
Ela não precisa confirmar essa afirmação em voz alta, porque sei que ela também não teria desistido. Mas ela confirma assim mesmo: — Não lamentei nada engravidar dela. E eu... quero minha bebê de volta!
— Eu sei. Eu sei. — Eu a abraço apertado e ando com ela até o pé da cama, fazendo-a sentar. Eu me agacho entre as pernas dela, apoiando os braços em suas coxas e tomando suas mãos nas minhas. Olho para ela e digo mais uma vez: — Não foi culpa sua.
Ela enxuga algumas lágrimas e nós ficamos sentados assim pelo que parece uma eternidade. Acho que ela acredita em mim — ou isso ou está só evitando encarar a realidade. Então ela olha para a parede atrás da minha cabeça e diz baixinho: — Isso faz de mim uma viciada em drogas?
Quero rir, mas não rio. Em vez disso, apenas balanço a cabeça e sorrio suavemente para ela, apertando as pontas dos dedos em suas mãos.
— Foi um momento de fraqueza, e até a pessoa mais forte não é imune à fraqueza, Camryn. Quatro dias e um frasco de analgésicos não fazem de você uma viciada em drogas. É falta de juízo, mas não é vício.
Ela olha de novo para mim.
— Michelle e Aidan vão achar que é.
Balanço a cabeça.
— Não, não vão. E ninguém mais vai. — Eu me levanto e me sento ao lado dela. — Além disso, não é da conta de ninguém, porra. É uma coisa que só você e eu precisamos saber e enfrentar.
— Nunca fiz nada assim antes — ela continua, olhando para a frente. — Não acredito...
— Você estava diferente. Está diferente desde que Lily morreu.
O quarto fica estranhamente em silêncio de novo. Olho para ela de lado, mas a deixo em silêncio por um momento. Ela parece perdida em pensamentos.
E então ela diz:
— Andrew, talvez nós não devêssemos estar juntos. — E suas palavras me atingem tão rápido e com tanta força que sinto que falta ar nos meus pulmões.
Fico tão surpreso que é como se suas palavras tivessem roubado todas as minhas. Meu coração está disparado.
Finalmente, quando ela não elabora, consigo balbuciar:
— Por que tá dizendo isso? — E fico com medo de sua resposta.
Ela continua olhando para a frente, com as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto. E então ela olha para mim e vejo a mesma dor intensa em seus olhos que eu sei que ela vê nos meus.
— Porque todo mundo que eu amo acaba me abandonando ou morrendo.
O alívio me invade, mas é superado pela sua dor.
É nesse exato momento que percebo que essa é a primeira vez que Camryn se abriu a respeito disso tudo comigo, ou com qualquer outra pessoa. Penso nas coisas que Natalie me contou, e nas conversas que Camryn e eu tivemos na estrada, e sei que no momento Camryn está admitindo a dimensão de sua dor não só para outra pessoa, mas o mais importante, para si mesma.
— Eu me sinto tão egoísta dizendo isso — ela continua, e deixo que ela fale à vontade, sem interrupções. — Meu pai abandonou a gente. Minha mãe mudou. Minha avó, a única pessoa que continuou a mesma e sempre me apoiou quando precisei, morreu. Ian morreu. Cole foi pra prisão. Natalie me apunhalou pelas costas. Lily... — Ela olha para mim, finalmente, a dor intensificada em seu rosto. — E você.
— Eu? — Me agacho diante dela de novo. — Mas eu tô aqui, Camryn. Vou estar sempre aqui. — Tomo as mãos dela nas minhas. — Não importa o que você faça, ou o que aconteça entre a gente. Nunca vou te abandonar. Vou estar sempre com você. — Aperto as mãos dela. — Lembra quando eu disse que você era a coisa mais importante do mundo pra mim? Você pediu que eu te lembrasse disso, se um dia você esquecesse. Bom, eu tô te lembrando agora.
Soluços percorrem seu corpo.
— Mas você podia ter morrido — ela insiste, com choro na voz. — Cada dia que passei naquele hospital, pensei que seria o seu último. E aí quando não era e você resistia, eu continuava prevendo isso mesmo assim. Semanas, meses depois, porque uma parte de mim achava que eu precisava me acostumar com a ideia de perder você. Um dia. Porque eu sabia que você ia me deixar de um jeito ou de outro. Como todo mundo.
— Mas eu não deixei — digo com desespero, sorrindo um pouco ao mesmo tempo. Eu me sento no chão e a puxo para perto de mim. — Eu não morri. Não morri porque eu sabia que você tava lá comigo o tempo todo. Porque eu sabia que nosso destino era ficar juntos, e que se você vivesse, eu também viveria.
— Mas e se você morrer? — ela pergunta.
Isso eu não esperava.
— E se o tumor voltar?
— Não vai voltar — respondo. — E mesmo se voltar, vou vencê-lo de novo. Cacete, eu fiquei oito meses sem ir ao médico e venci assim mesmo. Com você na minha vida, me atormentando pra me fazer ir aos checkups regularmente, de jeito nenhum ele vai me matar.
Ela não parece totalmente convencida disso, mas vejo um pequeno raio de esperança em seu rosto, e era isso que eu queria ver.
— Eu sinto muito mesmo — ela diz, mas em vez de dizer que não precisa, também deixo que ela viva esse momento, porque parece mais que ela está se permitindo fechar um ciclo. — Aposto que você nunca pediu pra ter um fardo absurdo desses. — Ela passa os dedos sob os olhos.
Tentando aliviar um pouco o clima, esfrego as mãos em seus joelhos nus e digo: — Eu te amaria mesmo se você fosse uma daquelas garotas que correm pro banheiro pra vomitar depois de comer, ou se tivesse o fetiche secreto de transar com um palhaço.
Ela ri baixinho em meio às lágrimas, e isso me faz sorrir.
Levanto o queixo dela com um dedo e fico sério de novo, olhando bem em seus lindos olhos azuis e úmidos.
— Camryn, Lily não tava pronta, só isso. Não sei por que, mas você não pode se culpar por ela ou por qualquer um. E você precisa entender que estamos nisso juntos. Em tudo. Acredita nisso?
Ela balança a cabeça.
— Sim.
Eu me curvo e a beijo primeiro na testa, depois nos lábios.
Segue-se o silêncio, e a atmosfera no quarto parece diferente. Mais brilhante. Eu sei que Camryn não vai voltar a ficar 100% da noite pro dia, mas posso ver que ela já está melhor. Percebo só de olhar que ela se sente menos carregada, agora que tirou essas merdas da cabeça. Ela precisava disso. Precisava de alguém para fazê-la cair na real. Não alguém indiferente, ou que desse apenas respostas prontas para tudo.
Ela precisava de mim.
Eu me levanto e pego a mão dela.
— Vem cá.
Ela me segue, pego o frasco de comprimidos da mesa ao lado da cama e a puxo comigo para o banheiro da suíte. Levanto a tampa da privada e entrego o frasco a ela. E antes que eu diga qualquer coisa, Camryn vira o frasco sem hesitação e joga os últimos quatro ou cinco comprimidos na privada.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão fraca. — Ela olha para a água enquanto os comprimidos giram no vaso e são sugados pelo cano. Depois olha para mim. — Andrew, eu podia facilmente ter ficado viciada neles. Não consigo imaginar...
— Mas você não ficou — interrompo, antes que ela fique remoendo aquilo mais. — E você tem direito a um momento de fraqueza. E chega.
Eu saio do banheiro e ando pelo quarto. Ela me segue e fica parada no meio do quarto, me olhando.
— Andrew?
Eu paro, me viro para ela e digo:
— Me dá uma semana.
Ela parece meio confusa.
— Uma semana pra quê?
Sorrio fracamente.
— Só concorda. Fica aqui comigo uma semana.
Cada vez mais confusa, ela diz:
— Hãã, tá. Vou ficar aqui com você uma semana — embora esteja estampado em seu rosto que ela não sabe com o que está concordando.
Mas ela confia, e isso significa tudo para mim. Vou dar a nós dois o que ambos precisamos, querendo ela ou não.
Camryn
16
Dia Três
Nunca pensei nem por um minuto que seria capaz de fazer o que fiz. Andrew chama de um momento de fraqueza e talvez tenha razão, mas vai levar tempo pra cacete pra que eu consiga me perdoar por aquilo.
Michelle deixou claro que não vai me julgar, e embora isso me faça sentir melhor, me sinto humilhada sempre que estou na presença dela ou de Aidan. Talvez seja por isso que eu me sinta tão mal, por eles serem tão compreensivos.
Uma semana. Nem faço ideia do que Andrew quis dizer com isso, mas estou em dívida com ele, por isso não faço perguntas e deixo que ele faça o que está planejando. Ele andou bem misterioso nos últimos dias, muitas vezes atendendo ligações em outros quartos para que eu não pudesse ouvir. Só tentei escutar uma vez, simplesmente ficando bem quieta no sofá quando ele foi para a cozinha falar com Asher. Mas então bisbilhotar assim me fez sentir culpada, por isso aumentei o volume da TV para não conseguir ouvir.
E posso ter tomado os comprimidos só por uma semana, mas pelo jeito foi tempo suficiente para eu ainda me sentir zonza três dias depois dos últimos que tomei. Me sinto mal, até mais incapaz de dormir do que antes de começar a tomá-los, mas pelo menos as dorezinhas de cabeça finalmente estão começando a desaparecer. Não consigo imaginar ficar viciada neles por meses ou anos. Sinto pena de quem fica...
Dia Quatro
Aidan entra com um pequeno maço de correspondências na mão, olhando cada uma enquanto anda pela sala.
Ele para num envelope branco por um segundo, constrangido, e o levanta, olhando para mim primeiro, até que Andrew entra na sala.
— Parece que esta é pra você. — Ele me olha de novo, mas entrega o envelope a Andrew.
Isso me dá uma sensação muito estranha, então me levanto instintivamente da espreguiçadeira e me aproximo de Andrew para ver o que é.
Pouco antes que Andrew escondesse o envelope de mim, vejo o nome de Natalie escrito nele.
Ele também sabe que eu vi.
— Não — diz Andrew, balançando a cabeça. — Vou deixar você ver outro dia. — E então ele enfia o envelope no bolso de trás do jeans.
Confio totalmente nele, mas sou humana, e uma pequena parte de mim está nervosa com essa situação toda. Por que Natalie mandaria uma carta para Andrew? Confiando ou não, a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um é se perguntar se tem alguma coisa acontecendo entre os dois. Mas isso é absurdo, e afasto essa ideia da minha mente com a mesma rapidez que ela veio.
Eles estão conspirando contra mim.
Eu só queria saber o que está acontecendo.
Dia Cinco
Falei com Natalie, minha mãe e Marna por telefone hoje. Marna tenta agir como se nada tivesse acontecido com o bebê, e é tão boa nisso quanto Michelle foi no meu primeiro dia em Chicago. Ela é tão meiga e delicada. Minha mãe, por outro lado, parece não conseguir falar de outra coisa além do meu relacionamento com Andrew. Ela me persegue sempre que pode, perguntando quando vamos nos casar, e resolveu enfiar na cabeça que vamos fazer isso do jeito que todo mundo faz. Tento dizer a ela que não quero um vestido caro, uma capela ou milhares de dólares em flores que vão murchar na semana seguinte, mas é como se ela nem me escutasse. Ela só quer que a gente se case. Talvez assim se sinta melhor com ele dormindo no meu quarto. Não faço ideia do que passa pela cabeça da minha mãe, e metade do tempo acho que nem ela sabe.
Andrew foi a um médico aqui em Chicago fazer um checkup hoje. E como toda vez que ele vai, fico até com enjoo de preocupação até que acabe. Por sorte, ele voltou com boas notícias.
Dia Seis
Falo com Natalie por telefone de novo, mas novamente não menciono o envelope. Ela também não está agindo naturalmente. É óbvio que está se esforçando para não entregar nenhum dos segredos de Andrew, o que deixa as conversas cheias de momentos silenciosos e constrangidos. Quero rir dela por ser tão péssima em agir normalmente, quando só o que ela quer é me contar tudo e dar o assunto por encerrado.
Dia Sete
Esta semana foi uma das mais longas da minha vida. Fico na cama até mais tarde porque está começando a esfriar, mas também porque estou nervosa e não consigo fazer outra coisa. Andrew se levantou há uma hora, e só o vi voltar para o quarto uma vez, para calçar os sapatos. Ele me beijou e sorriu para mim como se estivesse secretamente empolgado, e então saiu de novo sem dizer uma palavra.
Eu viro para o lado, enrolada no cobertor, e olho pela janela. O sol está brilhando hoje, e o céu está azul e sem nuvens.
Ouço os três andando pela casa.
Os sapatos de Andrew rangem sobre o chão de madeira na porta do nosso quarto. Ele abre a porta e fica na entrada, olhando para mim.
— Levanta e se veste — ele diz, com a mão ainda na maçaneta.
Eu só o olho por um segundo, achando que talvez ele vá explicar o que vamos fazer, mas ele só aponta para os meus sapatos no chão, como que dizendo calce-os, depois fecha a porta e me deixa sozinha.
Faço exatamente o que ele manda. Me levanto e visto meu jeans favorito e uma blusa folgada de tricô de mangas compridas, depois um par de meias e meus mocassins. Quando saio do quarto para a sala, vejo Michelle encolhida no canto do sofá, com um cobertor sobre as pernas, vendo TV. Ela se vira para me ver, e está com um sorriso aberto, como se soubesse algo que não sei. E com certeza sabe.
— Ele tá lá fora com Aidan — ela diz, acenando na direção da porta.
Cada vez mais nervosa, ando lentamente até a porta e a abro.
Saindo na varanda de pedra, vejo Andrew e Aidan de pé do lado da estrada, em frente à casa, com Asher, e todos eles estão encostados na lateral do Chevelle.
Por um momento eu penso: Tá, então Asher veio nos visitar, é só isso que tá acontecendo? Não que eu não fique feliz em ver Asher, mas, francamente, não é algo que eu imaginaria que fosse justificar todos esses planos de Andrew em segredo.
É o carro, percebo, mas é só isso que consigo entender sozinha. Tenho uma teoria sobre o motivo de ele tê-lo trazido para cá, mas a esta altura vou só fazer o melhor que posso para não pensar nisso.
Desço rapidamente os degraus de pedra e dou um abraço apertado em Asher.
— Você tá ótima, garota — ele diz, com aquelas covinhas e os olhos verdes e brilhantes quase idênticos aos de Andrew. Então ele me aperta e me levanta um pouco do chão.
— É muito bom te ver — digo, sorrindo.
Fico correndo os olhos dele para Andrew, que está sorrindo tanto que duvido que consiga manter o mistério por muito mais tempo.
Olho para o Chevelle e então para Asher. Olho de novo.
— Então você veio dirigindo lá de... — Tudo bem, é um pouco mais intrigante do que eu imaginava. O carro estava no Texas, até onde eu sei, e Asher estava em Wyoming. Finalmente continuo: — O que tá acontecendo?
Asher olha para Andrew, e Andrew dá um passo à frente.
— Eu pedi que Asher trouxesse o carro pra cá — ele diz.
— Mas por quê?
Asher cruza os braços e se apoia na porta de trás do carro.
— Porque ele é doido — Asher diz, rindo baixinho. — E porque não confiou num serviço de entregas pra trazer o carro.
Eu me viro para Andrew de novo, esperando que ele desembuche. Uma brisa fria atravessa minha blusa de tricô e eu enfio as mãos nas mangas.
— Você tem cinco minutos pra botar todas as suas coisas na mala — ele diz, e meu coração começa a bater descompassado antes que ele termine a frase. Ele bate no pulso sem relógio. — Nem um segundo a mais.
— Andrew...
— Isso não tá em discussão — ele diz. — Vai pegar suas coisas.
Eu só olho para ele, sem expressão.
Minha teoria estava certa, mas eu não queria que estivesse. Não quero cair na estrada... Isto é, eu quero... mas não está certo. Isso não está certo.
— Agora você tem quatro minutos — Asher diz.
— Mas a gente não pode partir assim — eu argumento. — Seria grosseria. — Aponto para Asher. — E Asher acabou de chegar. Você não quer ver...?
— Posso ver meu irmão mais velho a hora que eu quiser — Asher rebate. — No momento, acho melhor você fazer o que ele mandou, ou vai acabar na estrada, usando a mesma calcinha por uma semana.
Mais alguns segundos se passam e eu ainda não me mexi. Estou num leve estado de choque, acho.
— Três minutos, amor — Andrew diz, e está me olhando com expressão séria. — Não tô brincando. Sobe lá, bota suas porras nas malas e entra nessa merda de carro.
Cacete, ele voltou a ser como era...
Quando começo a discutir de novo, os olhos de Andrew ficam ferozes e ele diz:
— Anda logo. O tempo tá acabando! — E aponta para a casa.
Finalmente, baixando a guarda e entrando no clima tanto quanto posso me permitir, olho para ele com raiva e digo:
— Tudo bem. — Só concordo porque sei que ele está tentando melhorar as coisas. Mas me sinto culpada pra caramba.
Desconsiderando seu prazo bem-humorado de cinco minutos, giro nos calcanhares e ando muito lentamente na direção da casa, demorando de propósito, em parte minha maneira silenciosa de discordar da situação.
— Você sabia disso, Michelle? — pergunto quando passo por ela e vou para o corredor.
— Com certeza! — ela grita em resposta. Posso ouvir o sorriso em sua voz.
Abro a porta do quarto, ponho a mochila sobre a cama e começo a enfiar tudo dentro dela. Depois vou para o banheiro, pego nossas escovas de dentes e vários artigos de toalete. Arranco nossos carregadores da parede, pego meu celular do criado-mudo e enfio tudo na minha bolsa. Ando pelo quarto, torcendo para não ter esquecido nada.
Parece que Andrew já tinha feito as malas e eu nem percebi.
Em seguida fico ali, vasculhando cada centímetro do quarto, mas sem ver nada, na verdade. Não quero fazer isso, mas talvez seja o certo.
Ouço a buzina tocar três vezes e isso me arranca dos devaneios. Levantando a mochila, eu a jogo no ombro e pego minha bolsa de cima da cama.
— A gente se vê por aí! — Michelle diz do sofá.
Eu paro ao passar por ela, me curvo sobre o encosto do sofá para lhe dar um abraço desajeitado, atrapalhada pelas alças nos ombros.
— Divirta-se — ela acrescenta.
— Obrigada por nos convidar — eu digo.
Com um grande sorriso, Michelle gesticula para que eu vá, e eu saio da casa.
Quando desço os degraus, Andrew abre o porta-malas do Chevelle e eu jogo minha mochila lá dentro. Os cinco minutos que ele me deu passaram faz tempo, mas duvido que ele vá dizer alguma coisa.
— Tá pronta? — Andrew pergunta, fechando o porta-malas.
Eu respiro fundo, olho para Asher e Aidan, e antes de responder, vou abraçar os dois.
— Legal você ter vindo — diz Aidan.
— Vê se bota meu irmão na linha — Asher recomenda.
Sorrio para os dois, me sento no banco do passageiro e Andrew fecha a porta para mim.
Os três se despedem. Um minuto depois, Andrew se senta no banco do motorista, e uma lufada de ar frio entra no carro junto com ele.
Ele me olha.
— Então, vai ser assim — ele diz, apoiando os pulsos no volante. — A gente vai pro sudeste, pro litoral...
— Peraí — interrompo —, você planejou tudo? — Isso é tão fora do estilo dele. Me deixa cismada.
Andrew sorri suavemente e diz:
— Em parte. Mas é necessário.
— Que parte é necessária?
Ele me olha como que dizendo: Vai me deixar terminar?
Fico quieta e deixo que ele continue, enquanto ele se debruça e abre o porta-luvas.
— A gente vai pro sul, vamos ficar no litoral durante o inverno todo — ele diz, e agora só consigo me perguntar quanto tempo ele planeja ficar na estrada. O inverno todo? Não consigo entender que diabo de ideia é essa. Ele saca um mapa e o desdobra sobre o volante. Olho para ele, desconfiada. — Odeio o frio. Seguindo o litoral e indo mais pro sul na época certa, a gente vai evitar quase toda a neve e merdas assim.
Tá, o plano é bom, admito. Também não aguento o clima frio, portanto, sim, essa parte é necessária mesmo. Concordo com a cabeça e deixo que ele continue.
Andrew aponta para o mapa gigante e começa a correr o dedo pelo nosso itinerário.
— Vamos começar no litoral da Virgínia e ir pro sul, passando pelo seu estado, mas nada de parar pra visitar. — Ele aponta para mim. — A gente tá só de passagem, certo? — Ele espera a minha resposta.
Concordo com a cabeça novamente e digo:
— Certo — porque com certeza há um método em sua loucura, e sinto que devo concordar com ele.
Ele olha de novo para o mapa e volta a correr o dedo pelo papel.
— Depois, pela Carolina do Sul até a Geórgia, e aí vamos percorrer toda a costa da Flórida, da praia de Fernandina — seu dedo faz uma longa curva pelo papel — indo até Pensacola.
— Quanto tempo tudo isso vai levar?
Ele sorri e balança a cabeça para mim.
— Isso importa? — Então ele dobra o mapa desorganizadamente e o joga no banco, entre nós. — Eu decido a direção, desta vez. Sobretudo porque não quero morrer de frio. Mas... — Ele se vira de novo e olha para a frente, tirando os olhos de mim — Bom, é assim que precisa ser.
— Por que a gente tá fazendo isso, Andrew?
Seus olhos pousam em mim mais uma vez.
— Porque é o certo — ele responde, com um olhar profundo. — Porque você tá no carro.
Suas palavras me deixam confusa.
— Porque eu tô no carro?
Ele balança a cabeça discretamente.
— Sim.
— Mas... o que isso significa?
Seus olhos verdes se abrandam com o sorriso, ele estende a mão e segura o meu queixo. Ele beija meus lábios e diz:
— Você podia ter lutado com unhas e dentes. Podia ter me mandado à merda quando falei pra pegar nossas coisas. Mas você não fez nada disso. — Ele me beija devagar mais uma vez, e o gosto de hortelã do seu hálito fica em meus lábios. — Você não entrou correndo naquela casa porque eu mandei, foi porque era o que você queria. Você nunca fez nada só porque eu mandei, Camryn. Eu sou só um chute no seu traseiro, mais nada.
Tento disfarçar o sorriso que está se abrindo em meu rosto, mas não consigo. Ele se curva, aperta os lábios na minha testa e se endireita no assento. O motor ronrona agressivamente por um momento quando o pé dele aperta o acelerador.
Ele tem razão. Tudo o que ele já me mandou fazer, mesmo quando reclamei, eu jamais teria feito se uma parte de mim não quisesse. Fico intrigada em ver como ele sempre sabe coisas sobre mim antes que eu saiba.
Andrew
17
ACHO QUE ONTEM, em Chicago, foi a primeira vez que não consegui prever a reação de Camryn a uma das minhas exigências. Minha garota estava arrasada. Isso me deixava mais apavorado a cada dia, a pessoa que ela estava se tornando. Corri um risco ligando para Asher naquela noite e pedindo que ele dirigisse o Chevelle até Chicago. Eu não sabia o que Camryn ia fazer e, para dizer a verdade, temi que ela se recusasse a ir. Por causa da culpa. Ei, odeio termos perdido a nossa Lily. Daria um braço ou uma perna para tê-la de volta. Mas o que está feito está feito, e ficarmos parados nos afogando em sofrimento e nos recusando a fazer o que nos deixa felizes por qualquer motivo é uma puta duma bobagem. É assim que você se mata. Um suicídio lento e doloroso. Se Camryn recusasse, eu a carregaria sobre o ombro, esperneando e gritando, e a jogaria no banco de trás do carro. Porque essa é a nossa vida. Nós nos encontramos na estrada; nos conhecemos e aprendemos a nos amar na estrada. É onde devemos estar pelo tempo que for, e é o que vamos fazer até que fique claro que deveríamos fazer outra coisa.
As primeiras 14 longas horas de nossa viagem são calmas e silenciosas. Eu dirijo de Chicago até Virginia Beach ouvindo rádio, ou meus CDs quando não encontro uma estação decente. Camryn, embora sorria e fale sobre as coisas que vemos da estrada, ainda não voltou ao normal, mas vai chegar lá. Pode levar alguns dias, mas vai começar a cair na real.
As praias da Costa Leste são diferentes das do Texas. São mais limpas, e aqui a água parece água do oceano de verdade, e não a água barrenta e turva do Golfo em Galveston.
Já é quase noite. Vimos o sol se pôr no horizonte quando chegamos a Virginia Beach, e foi a primeira vez que vi aquela faísca nos olhos de Camryn, desde que ela perdeu o bebê. Se eu soubesse que um crepúsculo podia fazer isso, já a teria levado para ver um há muito tempo.
— Então, a gente vai pedir quartos separados? — ela pergunta quando saímos do carro no estacionamento do nosso primeiro hotel.
Percebo que ela está brincando, mas aposto que não espera que eu entre na brincadeira.
— É exatamente o que vamos fazer. — Eu abro o porta-malas e jogo nossas mochilas nos ombros.
— Tá falando sério? — Ela está chocada, e é engraçado.
Eu represento o melhor que posso. Nunca me passou pela cabeça pedir quartos separados, mas agora que ela mencionou isso, não acho tão má ideia.
Fecho o porta-malas e nós entramos no saguão do hotel.
— Andrew, acho que a gente já passou dessa fase.
— Dois quartos contíguos para não fumantes, por favor, se tiver.
A recepcionista digita o pedido em seu computador. Eu ignoro Camryn a maior parte do tempo, mexendo na minha carteira à procura do cartão de crédito.
— Andrew?
— Não tenho dois quartos contíguos — a mulher diz —, mas tenho dois que ficam um de frente pro outro no corredor.
— Pode ser — eu digo.
Camryn sussurra:
— Não acredito que você vai gastar dinheiro com dois quartos quando a gente já fez sexo milhares de vezes... — Camryn não para de falar, enquanto a recepcionista nos olha disfarçadamente como se fôssemos loucos. Adoro essa expressão no rosto das pessoas, esse ar surpreso de “não acredito que você disse isso”.
— Por favor, fique quieta — eu digo, me virando para Camryn. — Eu vou pro seu quarto e te como rapidinho, não se preocupe. Então para de dar espetáculo.
Camryn arregala os olhos tanto quanto a recepcionista.
Pego Camryn pela mão e a puxo para a saída do saguão.
— Espero que apreciem sua estada — a recepcionista diz em tom estupefato enquanto vamos para o elevador.
Camryn cai na gargalhada assim que as portas do elevador se fecham.
— O que foi aquilo?! — ela pergunta, incapaz de se conter. — Parecemos dois adolescentes imaturos!
— Mas você tá rindo — eu comento. — Portanto, a imaturidade valeu totalmente a pena.
O elevador para no segundo andar e nós saímos no corredor.
— Mas, sério, Andrew, por que quartos separados?
Provando mais ainda que a espontaneidade tem mesmo um propósito, eu penso no que pedi que Natalie enviasse a Chicago, enquanto andamos pelo corredor. Paramos no meio dele, diante dos nossos quartos, e eu jogo as mochilas no chão verde acarpetado.
— Só por esta noite — respondo, enfiando a mão na mochila para procurar o envelope.
Camryn fica perto de mim, assistindo a tudo em silêncio. Percebo que ela quer dizer alguma coisa, mas não tem certeza, nesse momento, do que poderia ser.
Eu endireito o corpo com o envelope na mão. Ela olha para ele, mas não sabe ao certo quais são as minhas intenções.
— Esta noite você vai ficar sozinha no seu quarto — eu digo e entrego o envelope a ela.
Ela parou de sorrir assim que tirei o envelope da mochila. Agora só consegue olhar para mim, confusa e intrigada.
Cuidadosamente, ela estende a mão e pega o envelope, ainda insegura com relação a tudo, talvez até quanto a querer ou não saber o que há dentro dele.
Eu passo o cartão na fechadura do quarto de Camryn e abro a porta, levando a mochila dela para dentro. Ela me segue, vários passos atrás, muda e desconfiada, com o envelope entre os dedos relutantes. Deixo a mochila dela sobre o balcão da TV e verifico o quarto, como sempre faço. Ligo e desligo as luzes e testo o aquecedor antes de puxar os lençóis para ver se estão limpos. Lembrando que Camryn tem fobia de colchas de hotel, eu a arranco completamente da cama e a jogo no chão, num canto do quarto.
Ela fica perto do pé da cama, imóvel.
Eu me aproximo e fico na frente dela. Olho-a nos olhos e observo o modo como ela retribui meu olhar. Passo o indicador por sua sobrancelha e pelo lado de seu rosto e sinto o calor de sua pele sob o meu toque. Eu a quero. Quando seus olhos baixaram para os meus lábios, isso desencadeou algo predador em mim. Mas eu controlo meus impulsos, pelo seu bem. Esta noite, se tudo der certo, um ciclo vai se fechar.
— Cam foi ao funeral — Natalie me disse pelo telefone no dia em que liguei para ela da casa de Aidan. — Mas chegou tarde, ficou bem no fundo, perto da porta, e foi embora antes que a cerimônia terminasse. Ela se recusou a ir até o caixão.
— Alguma vez ela falou com você a respeito disso? — perguntei.
— Nunca — Natalie disse. — E sempre que tentei abordar o assunto, o funeral, o acidente, qualquer coisa, ela não me deixou continuar.
Esta noite vai ser dura para Camryn, mas se ela não enfrentar isso, nunca vai melhorar.
— Você sabe onde estou — sussurro suavemente, deixando minhas mãos caírem dos seus braços. — Vou ficar acordado a noite toda. Comecei a compor outra canção ontem e quero muito trabalhar nela enquanto tá fresca na minha mente. — Aos poucos, mas sempre, estamos compondo material próprio, especialmente desde a viagem a Chicago; e depois da noite em que tocamos no bar de Aidan, Camryn mostrou interesse por isso, por algum motivo.
Camryn balança a cabeça e sorri fracamente por baixo da expressão de preocupação em seu rosto, preocupação com o que se esconde dentro do envelope.
— E se eu não quiser ficar neste quarto sozinha? — ela pergunta.
— Tô pedindo pra você ficar — insisto com firmeza. — Só por esta noite.
Não quero dizer mais do que isso, mas espero que a sinceridade no meu rosto faça o que palavras poderiam fazer.
— Tá bom — ela concorda.
Eu a beijo de leve nos lábios e a deixo sozinha no quarto.
Só espero que esse tiro não saia pela culatra.
Camryn
Andrew me deixa no quarto. Sozinha. Não gosto disso, mas aprendi a lhe dar ouvidos nos curtos cinco meses que passamos juntos. Cinco meses. Isso me espanta cada vez que lembro, porque parece mais que estamos juntos há cinco anos, depois de tudo o que enfrentamos. Às vezes penso no meu ex, Christian, o namorado infiel que arranjei para preencher o vazio deixado por Ian, e com quem fiquei por quatro meses. A gente mal se conhecia. Pensando bem, agora não consigo nem lembrar o dia do seu aniversário ou o nome de sua irmã, que morava a duas quadras da casa dele.
É totalmente outro mundo com Andrew.
Em cinco meses, me encontrei com ele, me apaixonei total, incondicional e loucamente, aprendi de verdade a viver, conheci praticamente toda a sua família e logo me senti parte dela, enfrentei uma jornada desafiando a morte com Andrew, fiquei grávida e noiva. Tudo em cinco meses. E agora aqui estamos, enfrentando mais uma dificuldade. E ele continua comigo a cada passo. Fui idiota e fraca e tomei comprimidos, e ele continua aqui. Eu me pergunto se existe alguma coisa que eu possa fazer que seria tão horrível a ponto de ele me abandonar. Algo no meu coração diz que não, não existe nada capaz disso. Nada mesmo.
Nunca vou entender, enquanto eu viver, como tive a sorte de ficar com ele.
Durante esse momento de reflexão, noto que meus olhos não desviaram da porta por onde ele saiu. Finalmente, olho para o envelope na minha mão, e não sei por quê, mas fico com medo de pensar no que há dentro dele. Pensei nisso muitas vezes esta semana. Uma carta? Se for, do que poderia falar? E para quem seria, e de quem? Por que Natalie me escreveria uma carta? Por que ela escreveria para Andrew?
Nada disso faz nenhum sentido.
Eu me sento no pé da cama, deixando minha bolsa cair no chão ao meu lado, e passo os dedos pelo contorno do que está dentro do envelope. Mas já fiz isso algumas vezes esta semana e continuo chegando às mesmas conclusões: é um papel, meio grosso, dobrado duas ou três vezes. Não tem nenhuma saliência, nem mesmo algum relevo dentro. É só papel.
Eu suspiro e faço menção de soltá-lo, mas continuo segurando. Não sei por que não abro essa droga de uma vez. Está me deixando meio maluca há uma semana, e aqui estou eu, finalmente capaz de desvendar o segredo de uma vez, abrindo-o, mas tenho medo demais.
Deixo o envelope na cama e me levanto, cruzando os braços e olhando para ele com o canto do olho enquanto começo a andar pelo quarto. Me sinto ameaçada por ele, como se fosse pular em mim e cravar as garras na minha perna quando passo perto. Como aquela gata psicótica que minha tia Brenda tem. Até começo a mexer na minha bolsa, procurando o celular para ligar para Andrew e fazê-lo contar por que tudo isso, até que me dou conta de como isso seria idiota.
Finalmente, eu pego o envelope e, depois de uma longa pausa, sentindo seu peso leve em minha mão, passo a ponta do dedo pela aba colada para soltá-la. Depois de tentar romper o lacre cuidadosamente e não conseguir, mando tudo à merda e rasgo o resto de alto a baixo. Jogo o envelope esfarrapado na cama e desdobro o papel de carta, vendo que a maior parte dele está em branco. Foi usado apenas para esconder a fotografia que tem dentro. Olhando para o verso da fotografia, primeiro me recuso a virá-la para ver o que há do outro lado. Em vez disso, leio a letra de Natalie no meio do último pedaço de papel:
Esta foi a melhor que eu achei.
Espero que ajude no que você está tentando fazer, seja o que for.
Sinceramente,
Natalie
Viro a fotografia e meu coração afunda como uma pedra quando vejo o rosto vibrante e sorridente de Ian me olhando. Minha bochecha está encostada na dele, olhando para a câmera. As luzes coloridas dos brinquedos do Parque Estadual da Carolina do Norte iluminam a noite ao fundo, atrás de nós. Como se eu tivesse caído num lago congelado, ver seu rosto me deixa totalmente sem fôlego. Lágrimas brotam instantaneamente dos meus olhos, e eu deixo a foto cair dos meus dedos sobre a cama. As duas mãos sobem ao meu rosto, onde os dedos cobrem meus lábios trêmulos.
Como posso me permitir chorar por ele?! Por que isso está acontecendo?!
Eu me desfiz de todas as fotos de Ian por um motivo. De todas. Deletei cada arquivo com fotos digitais nossas, tirei seu nome do meu celular. Até joguei fora o criado-mudo que eu tinha desde criança, porque Ian entalhara IAN AMA CAMRYN na madeira por baixo dele. Tentei tirar da minha vida cada coisa que me fizesse lembrar dele, o melhor que pude, porque doía demais saber que tudo o que me restava dele eram coisas materiais. Eu não podia fazer muita coisa com as lembranças, mas me esforcei ao máximo para esquecê-las também.
Por que Andrew faria isso comigo? Trazer toda essa dor de volta à minha vida, e ainda por cima tão pouco tempo depois de perdermos Lily?
Uma parte de mim quer berrar com Andrew, sair marchando pela porta, cruzar o corredor até seu quarto e lhe dizer o quanto isso dói. Mas minha razão me alcança rapidamente. Eu sei por que ele fez isso. Eu sei por que ele me colocou neste quarto, sozinha, com esta foto. Porque ele me ama tanto que está disposto a me devolver Ian só por uma noite, para que eu possa finalmente aceitar a perda dele.
Mas não consigo olhar essa droga de foto! Não consigo!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, pego meu suéter grosso da mochila e enfio os braços de qualquer jeito nas mangas. E então saio correndo do quarto e vou para o elevador.
Segundos depois, estou sentada na areia fria da praia, olhando para o oceano sem fim.
Andrew
18
EU ME PERGUNTO se ela vai abrir. Cacete, me pergunto se ela vai me odiar por fazer isso com ela, mas se isso vai ajudá-la, aceito a barganha.
Aperto o botão de ligar do controle remoto e uma velha reprise de Seinfeld preenche o silêncio do meu quarto. Tiro os sapatos e entro no chuveiro, deixando a água quente bater em mim até ela começar a sair morna. Só consigo pensar no que Camryn está fazendo, sozinha no seu quarto, se está olhando para aquela foto de seu ex-namorado morto, e se está se aguentando. Quero ir lá ajudá-la, mas sei que é algo que ela precisa fazer sozinha. Algo que ela deveria ter feito há muito tempo, antes que nos conhecêssemos.
Depois de me enxugar, enrolo a toalha na cintura e remexo na mochila sobre a cama, procurando uma cueca. Eu me sento, olho fixamente para a TV, depois para a parede, depois para a TV de novo, até que me dou conta de que estou só tentando fazer qualquer coisa para parar de pensar em Camryn.
Deixo meu MP3 tocar umas cinco músicas aleatórias em meus ouvidos antes de decidir que preciso ao menos ver como ela está. Tento seu celular primeiro, mas ela não atende. Então uso o telefone do hotel e tento ligar para o quarto dela. Ainda sem resposta. Talvez ela esteja apenas tomando banho. Tento me obrigar a acreditar nisso, até que meu instinto fala mais alto. Visto meu jeans e uma camisa de manga comprida e atravesso o corredor até seu quarto. Encosto o ouvido na porta, tentando ouvir o chuveiro ligado. Nada. Por isso passo o cartão extra na porta para destrancá-la.
Ela não está ali. Meu coração acelera enquanto entro no quarto. A primeira coisa que noto é a fotografia, que na verdade eu nem tinha visto ainda, sobre a cama. Eu a pego e a estudo por um instante. Camryn parece tão feliz nela. Essa é a Camryn que eu conheci, aquela com um sorriso lindo e cheio de energia. Me lembro desse sorriso. Eu o vi dezenas de vezes quando estávamos na estrada juntos.
Entrando em pânico, tiro os olhos da foto e vou para a janela. Olho para o oceano negro lá fora e vejo algumas pessoas andando pelo calçadão. Com a foto ainda na mão, volto rapidamente para o meu quarto e calço os sapatos, deixando-os desamarrados enquanto saio e vou para a praia. O ar frio não é insuportável, mas é suficiente para me fazer pensar que fiz bem em usar mangas compridas. Procuro qualquer sinal dela, olhando de um lado para o outro no calçadão e nas cadeiras de praia perto do hotel, mas ela não está em lugar nenhum. Enfiando a foto no bolso de trás da calça, começo a correr um pouco e rumo para a praia.
Eu a encontro sentada na areia, não muito longe.
— Porra, amor, você me deixou apavorado.
Eu me sento ao lado dela, passando um braço ao redor do seu corpo.
Ela olha para o oceano, o vento gelado atravessando seu cabelo louro. Não olha para mim.
— Desculpa. Eu só queria...
— Eu te amo, Andrew — ela interrompe, mas continua com o olhar fixo à sua frente. — Não sei como uma garota pode ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo.
Sem saber aonde ela quer chegar com isso, tenho medo de dizer alguma coisa porque não quero dizer a coisa errada. Eu a aperto mais para compartilhar o nosso calor. E não digo uma palavra.
— Não tô brava com você — ela continua. — Primeiro fiquei, mas quero que saiba que não tô mais.
— Me fala o que você tá pensando — peço baixinho.
Ela ainda não desviou o olhar da escuridão à sua frente. As ondas mal lambem a praia a alguns metros de nós. Um pontinho branco, a luz de um barco, se move no horizonte.
De repente, sinto que Camryn está me fitando e me viro para olhá-la também. A luz dos prédios atrás de nós e do luar é suficiente apenas para mostrar seus traços suaves, os cachos do seu cabelo soprados sobre sua face fria. Eu afasto alguns fios dos seus lábios. Seu olhar se abranda quando ela me encara e diz:
— Eu amava Ian, amava muito. Mas não quero que você pense...
Eu balanço a cabeça.
— Camryn, não faz isso. Não estamos aqui pra falar de mim, tá? — Eu enfio o dedo em outro cacho do seu cabelo e o afasto da sua boca. — Não fale de mim.
Ela para por um momento, e sinto sua mão no meu colo e meus dedos se entrelaçando com os seus.
Camryn volta a olhar o oceano.
— Eu não queria ir ao funeral de Ian — ela me conta. — Não queria vê-lo pela última vez daquele jeito. — Camryn me olha. — Lembra aquele dia, no seu apartamento, quando cheguei e você tava falando ao telefone com Aidan, quando ele tava tentando te convencer a ir ao funeral do seu pai?
Balanço a cabeça.
— Lembro, sim.
— Você disse uma coisa pra ele, disse que preferia que a última vez que você visse alguém, que ele estivesse vivo, não morto, deitado num caixão. Bem, era isso que eu pensava do funeral de Ian. Eu não queria ir. Foi por isso, também, que eu não quis ver Lily. Por isso escolhi a cremação.
— Mas você foi. Ao funeral de Ian. — Eu evito o assunto de Lily por enquanto. É um caso mais doloroso. Para nós dois. Eu a vi. Era tão pequena que caberia na palma da minha mão. Mas Camryn se recusou a olhar.
Ela balança a cabeça.
— Não exatamente — ela explica, a respeito do funeral de Ian. — Eu tava lá, mas não tava. Minha maneira de me desapegar dele foi tirá-lo da minha mente, cada palavra que ele já me disse, seu rosto; tudo o que eu podia apagar, eu apaguei. Só fui porque era o que todos esperavam de mim. Se eu não estivesse tão preocupada com o que todos fossem pensar de mim, teria ficado em casa naquele dia.
— Mas isso não fecha o ciclo — digo cautelosamente. — É a mesma coisa que varrer a sujeira pra baixo do tapete. Ela continua lá. Você sabe que tá lá. E aquilo vai ficar te incomodando até você fazer certo.
— Eu sei — ela diz.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, eu enfio a mão no bolso de trás e tiro a foto.
— Sabe, se ele ainda estivesse vivo, eu ficaria com um pouco de ciúme. Até que, pra um cara, ele é gato.
Camryn sorri para mim e noto que seu olhar mal pousa na foto.
Eu a deixo na areia perto dos nossos joelhos. Então fico sério de novo.
— Camryn, isso que tá acontecendo com você, os comprimidos e tudo mais, não é só por causa da perda da Lily. Você sabe disso, não sabe?
Ela não responde, mas percebo que está pensando muito no que eu falei.
— Você bloqueia tudo. Ian. Lily. De acordo com Natalie, até a morte da sua avó, o crime de Cole, e o fato do seu pai ter ido embora e parecer se importar mais com a nova namorada do que com você. — Digo as coisas como elas são porque é exatamente assim que precisam ser ditas. — Em vez de lidar com tudo isso, chorar, o que for, você só bloqueia essas merdas e espera que desapareçam sozinhas. Você já tava fazendo isso bem antes da gente se conhecer. Mas precisa saber que tudo se acumula, e um dia você desmorona e cai num abismo.
— Sei. Você tem razão, como sempre — ela concorda desconsoladamente.
— Você acredita nisso ou tá concordando só pra me fazer calar a boca? — Abro um sorriso para ela, esperando receber outro em troca.
E funciona.
Ela sorri e diz:
— Não, eu acredito mesmo. Só queria ter acreditado nisso antes.
— Por que acredita agora?
— Porque você é uma espécie de filósofo com tatuagens. — Ela ri, e isso espalha calor pelo meu sangue.
Não acredito que ela está rindo. De início, imaginei que fosse levar muito tempo para Camryn aceitar tudo isso, mas ela me surpreende a cada dia.
— Um filósofo? — digo. — Exagerada. Mas aceito o elogio.
Camryn se vira de lado e deita a cabeça no meu colo. Ela olha para mim com aqueles olhos azuis de corça, e não consigo deixar de tocar seu rosto macio.
— Quer saber a verdade? — ela pergunta.
— Claro — respondo, mas fico um pouco ansioso, de repente.
— É como te falei na casa de Aidan — ela continua. — Se um dia eu perdesse você, logo você, isso seria o fim pra mim. Quando tive o aborto, isso fez todos os meus medos voltarem. De perder você. Foi como se aquele instante de tragédia me fizesse lembrar de novo da morte, e com que rapidez ela pula em cima de uma pessoa. Se Deus, a natureza, ou sei lá quem ou que porra controla tudo, pode ser cruel e desalmado a ponto de matar o meu bebê, então Ele pode te matar também, sem pensar duas vezes. Isso me apavora, Andrew. A ideia de perder você me mata por dentro. E como já quase te perdi uma vez, o medo fica muito pior.
— Mas eu já te disse...
Ela se levanta do meu colo e fica sentada na minha frente, com os joelhos enterrados na areia.
— Eu sei o que você disse — ela interrompe. — Mas não importa o que você pensa, ou você saber dizer todas as coisas certas pra me fazer sentir melhor. Você não tem certeza do que vai acontecer, Andrew. O tumor pode muito bem voltar, e apesar de tudo o que fazemos, de todas as precauções que tomamos, ele pode te matar.
Eu começo a discordar, mas ela está tão empenhada em me dizer essas coisas que sei que preciso deixar.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu — ela continua — e agora posso te olhar nos olhos e dizer que, por mais que isto doa, consigo aceitar a morte de Ian. Consigo aceitar a morte de Lily. Consigo aceitar a morte de qualquer um, mesmo que essa morte seja insuportavelmente dolorosa. Mas a sua... — Ela se interrompe e nem pisca ao olhar no fundo dos meus olhos. — A sua eu jamais poderia aceitar. Jamais.
O silêncio entre nós só amplifica o som do oceano. Quero pegá-la nos braços, apertar meus lábios contra os dela, mas fico sentado ali, olhando para ela, porque as palavras que ela me disse são as mais poderosas que já ouvi, senti ou entendi.
Finalmente, eu a pego em meus braços e a ponho no meu colo. Passo os braços pelas suas costas, fito seus olhos e digo:
— Acredito em você e sinto a mesma coisa.
Ela inclina um pouco a cabeça para o lado.
— Mesmo?
— Sim. Camryn, não consigo viver sem você. Eu poderia tentar, mas ia ser uma existência péssima. Isso não vale só pra mim; você pode morrer amanhã tão facilmente quanto eu. Ninguém tá imune.
Ela não discute, mas desvia o olhar por um breve momento.
Eu seguro seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me olhar. Sua pele está gelada.
— A gente precisa viver no presente, lembra? — eu digo e ela volta a prestar atenção em mim. — Precisamos fazer um pacto, você e eu, agora mesmo. Topa fazer um pacto comigo? — Movo um pouco minhas mãos para aquecer suas orelhas geladas.
Ela concorda com a cabeça.
— Tá — diz, e fico feliz por ela confiar em mim o suficiente para não fazer perguntas antes de concordar.
Tirando uma mão de sua orelha, passo as pontas dos dedos na sua testa e pelos lados de suas bochechas.
— Não podemos controlar a morte. Nenhum dos dois pode fazer nada pra evitá-la ou adiá-la. Só o que podemos controlar é como vamos viver nossas vidas antes que ela nos alcance. Portanto, vamos prometer um pro outro coisas que possamos cumprir, haja o que houver.
Camryn concorda com a cabeça e sorri um pouco.
— Que tipo de coisas? — ela pergunta.
— Qualquer coisa. Tudo o que a gente quiser um do outro. Tipo... — Eu me levanto da areia e enfio as mãos nos bolsos. Olho para o oceano, vasculhando minha mente em busca da melhor promessa para começar. Só consigo pensar numa coisa no momento, por isso me viro novamente para ela, levanto o dedo indicador e digo: — Isto não tem nada a ver com o tumor, nem com nada específico, mas quero que você me prometa que, se algum dia estiverem me mantendo vivo por aparelhos, por qualquer motivo, e você sentir no fundo do coração que eu não vou melhorar, se você sentir que eu tô sofrendo, vai mandar desligar os aparelhos.
Seu sorriso desaparece, e ela me olha como se eu tivesse estragado o momento. Eu estendo os braços e a pego pela mão, fazendo-a levantar comigo.
— Não tô tentando ser mórbido. É só uma coisa que sempre me incomodou, sabe? Você vê isso na TV e nos filmes. O cara fica ligado a todo tipo de aparelho que a ciência já inventou pra se manter vivo porque a família tem esperança ou qualquer coisa assim. Nada contra ter esperança, mas, porra, aquilo me dá um puta medo. — Eu seguro seus braços delicadamente. — Nunca me deixe viver como um vegetal. Me prometa isso. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa, e confio que você vai saber quando tiver chegado a minha hora. Então prometa.
Aos poucos, ela começa a entender. Leva um segundo, mas ela começa a concordar com a cabeça.
— Me promete a mesma coisa — ela pede.
Eu sorrio e digo:
— Tá prometido.
Ela dá um passo para trás e enfia as mãos nas mangas. Apertando bem o suéter ao redor do corpo, ela começa a andar de um lado para o outro.
Ela para e me olha.
— Promete que se um dia eu tiver mal de Alzheimer ou ficar senil e não me lembrar de ninguém, você vai me visitar todo dia e ler pra mim, como Noah lia pra Allie.
— Quem? — eu pergunto, mas aí a ficha cai. — Aaaah, entendi. — Eu rio dela e concordo com a cabeça.
Seus olhos e seu sorriso aumentam e ela grita:
— Andrew! Não tem graça! Tô falando sério! — Ela ri e eu a agarro, puxando-a para os meus braços.
— Tudo bem, tudo bem! — eu me rendo, apertando seu corpo que se retorce contra o meu.
— A ideia foi sua — ela acusa —, então não faz piada.
— Eu sei. Você tem razão, mas... é sério? Precisa ser tão fã assim de Diário de uma paixão?
Sinto o cotovelo dela atingindo meu estômago e me curvo um pouco e exagero a dor que isso me causa, contorcendo o rosto com a agonia e o riso. Para me humilhar de vez, Camryn me dá um empurrão e me derruba na areia. Depois fica por cima de mim, com um pé de cada lado do meu peito e as mãos na cintura, toda autoritária. Mantenho uma mão na barriga, rindo e tentando ficar sério, embora eu saiba muito bem que não consigo enganá-la.
— Só você pra fazer piada num momento tão sério. — Ela reclama tão seriamente que isso só me faz rir mais, sobretudo pela dificuldade dela em ficar de cara fechada.
Ela começa a se sentar em cima de mim, e provavelmente vai tentar me bater com suas mãozinhas delicadas, mas eu a seguro antes que ela comece, meto a mão no meio das pernas dela e aperto com toda a força.
— Aaaaaii! — Camryn geme, e começa a desabar, mas eu a mantenho na posição. — Que ideia é essa de apertar minhas paaarrr... porra, Andrew! Apertar minhas partes?!
Faço mais pressão e levanto aos poucos as costas da areia, guiando-a para trás. Ela fica de joelhos olhando para mim.
— Porque eu gosto — sussurro sobre seus lábios. — Agora fica parada.
O clima entre nós muda em questão de segundos. Sua pele fria fica mais quente; seus olhos, arrebatados; seu corpo, conivente.
— Tem gente aqui... — ela tenta dizer baixinho, mas minha mão apertando-a no meio das pernas lhe rouba a voz.
— Não me importa — retruco, examinando seus olhos primeiro e então seus lábios úmidos e inchados. — Eles estão longe.
— Mas... o que você tá fazendo...
— Só fica parada. Quieta. — Eu passo a língua sobre seu lábio inferior e o chupo delicadamente. Sinto que ela tenta me beijar, mas não deixo. Eu puxo o tecido de sua calça e enfio a mão dentro da cintura folgada para achar o seu calor. Caramba, ela já tá molhada. Me curvando sobre o seu pescoço, fecho os olhos e inalo o cheiro de sua pele. Ela fica bem imóvel, mas posso sentir seu corpo tremendo e seu coração batendo forte sob o meu toque. Quero tanto comê-la. Mas não vou fazer isso ainda, porque gosto de me torturar. Adoro, porra.
Minha mão livre solta sua cintura e eu a ponho em sua coxa, forçando-a a abrir mais as pernas.
— Abre — eu instruo, com meus lábios roçando nela, e Camryn faz exatamente o que eu mando, afastando os joelhos na areia. Ela fica um pouco tensa quando percebo um homem andando não muito longe, mas eu a aperto de novo, enfiando dois dedos nela e obrigando-a a olhar só para mim. Ela geme e eu estremeço silenciosamente, sentindo suas entranhas se apertando em volta dos meus dedos. Encaro seus olhos, os meus de vez em quando se perdendo no estudo da curvatura de sua boca. — Não tira os olhos de mim — digo. — Não me importa se você sentir que precisa fechar os olhos. Não feche. Continue me olhando.
Ela balança um pouco a cabeça, como se temesse que eu vá parar se ela fizer errado.
Mexo os dedos para dentro e para fora dela, lentamente de início, tirando-os e usando seu gozo para manter seu clitóris úmido, esfregando meu dedo médio sobre ele num movimento circular. Cada vez que a toco, seus olhos começam a se fechar, mas eu paro assim que percebo, e ela volta a controlar o olhar. Mexo meus dedos dentro dela de novo, um pouco mais rápido, e com o polegar faço cada vez mais pressão no seu clitóris. Pequenos gemidos escapam de seus lábios abertos, chupando o ar gelado ao nosso redor e meu hálito quente à medida que fico mais ofegante em sua boca. Mas ela nunca tira os olhos dos meus e não fala, embora eu saiba que ela queira fazer tudo isso.
— Admite uma coisa — sussurro no ouvido dela. — Neste momento, você não estaria nem aí se alguém estivesse olhando. Não é verdade? Me deixaria foder você aqui, na frente de todo mundo, e se preocuparia com a vergonha só depois que eu terminasse.
Sinto sua cabeça balançando perto da minha.
— O que mais você me deixaria fazer? — pergunto e mantenho os lábios perto do ouvido dela. Continuo mexendo os dedos.
— Tudo o que você quisesse — ela diz, com um gemido na voz.
— Tudo o que eu quisesse? — Eu esfrego meu polegar com mais força no seu clitóris.
— Tudo... — ela diz e perde um pouco o fôlego. — Qualquer porra que você quisesse...
Suas palavras, sua voz carregada de desejo, me deixam louco de tesão por ela, e meu pau está tão duro que mal consigo aguentar. Enfio os dedos com mais força e mais rápido. Seu corpo começa a tremer, suas coxas balançam tentando levantar o corpo. Eu me afasto do ouvido dela e a fito de novo. Ela mantém o olhar fixo no meu o melhor que pode, suas pálpebras estão ficando mais pesadas; sua respiração, irregular e ofegante. Mas seus olhos ficam arregalados e imóveis quando atinjo aquele ponto especial, e tomo cuidado para não interromper o ritmo.
— Não tira os olhos de mim — digo e continuo a olhá-la ferozmente.
Quando ela começa a gozar, meu olhar só fica mais forte, perfurando o dela num momento de luxúria faminta. É como se eu conseguisse ver o prazer emanando de suas íris, o calor do seu orgasmo saindo da pele sensível dos seus lábios, que querem beijar os meus tão selvagemente, mas mesmo assim eu não deixo. Quando seu corpo trêmulo começa a se acalmar, enfio os dois dedos mais fundo, sentindo-a se estreitar ao redor deles, o tempo todo mantendo a pressão no seu clitóris.
Ela desaba sobre o meu peito.
Eu envolvo seu corpo trêmulo nos braços e beijo o alto da sua cabeça.
— O que você tá fazendo comigo, caralho? — ela diz.
Eu rio um pouco e a abraço mais forte.
— Qualquer porra que eu quiser — respondo astutamente.
Erguendo a cabeça do meu peito, ela olha para mim.
— Bom, pode dizer o que quiser, mas não vai me fazer gozar desta vez sem que eu retribua o favor.
— Ah, é?
— É isso mesmo, por isso nem tenta.
— O que você vai fazer comigo, então? — Eu sinto o meu sorriso aumentando.
— Qualquer porra que eu quiser — ela diz, com um sorriso ainda maior e mais malicioso que o meu.
Então ela fica de pé e, segurando minha mão, me faz levantar com ela.
— Mas não aqui fora — ela diz. — Tá esfriando demais.
— Você que manda — digo, deixando que ela me puxe.
Eu jamais tocaria no assunto, mas noto, quando nos afastamos da praia, que Camryn olha para trás uma vez, para a foto dela e de Ian na areia. Sua mão aperta a minha forte e ela olha para meu sorriso suave quando atravessamos o calçadão.
Sei que tive muito pouco a ver com ela finalmente fechar esse ciclo. Tudo bem, eu a forcei a fazer isso, mas foi Camryn que, naquele momento, enfrentou um dos seus maiores medos. Ela olhou no rosto de alguém que amou e perdeu, e finalmente aceitou isso. Admito que foi estranho como tudo aconteceu, e eu não fui para lá com nenhuma intenção sexual, especialmente num momento como aquele. Mas Camryn, no tempo que passou sozinha naquela praia pensando em Ian, bem antes que eu chegasse, já tinha entendido tudo.
Não sei ao certo como ela fez, ou qual foi meu papel nisso, mas quando retornou da praia comigo naquela noite, ela já começava a ser como era antes.
Camryn estava voltando, e eu estava nas nuvens com ela.
Camryn
19
8 DE DEZEMBRO — meu vigésimo primeiro aniversário
Quando começou a esfriar, Andrew e eu rumamos mais para o Sul. Passamos só uma noite em Virginia Beach e de lá percorremos o litoral da Carolina do Norte, ficando alguns dias em Myrtle Beach, Carolina do Sul, onde arranjei meu primeiro emprego na estrada. Como arrumadeira. Com certeza não era a minha primeira escolha, especialmente depois que Andrew me lembrou das coisas nojentas que os hóspedes costumam deixar nos quartos. Mas era um emprego e não me incomodava tanto, a não ser quando queriam que eu lavasse cestos de lixo com catarradas nojentas grudadas no fundo. Desculpa, mas só de pensar nisso me dá vontade de vomitar. Eu ligava para Andrew e implorava que ele viesse limpar. Claro que eu o subornava com promessas de boquetes enlouquecedores em lugares públicos. Puxa, que maravilha. Não, quem eu tô tentando enganar? Adoro fazer isso por ele. Só finjo detestar às vezes, mas acho que ele gosta quando eu finjo, porque gosta de me ouvir reclamar.
De qualquer forma, pelo jeito, empregos de arrumadeira são como portas giratórias, as funcionárias vêm e vão tão rápido que seria melhor nem incluí-las oficialmente na folha de pagamento. Pensei em como isso poderia trabalhar a meu favor enquanto estivéssemos na estrada. Assim, em troca de metade do valor das diárias do quarto que estávamos ocupando, e como o quadro de funcionários do hotel estava desfalcado, eu perguntei se poderia ajudar e eles me contrataram na hora.
Mas o emprego era só temporário, pois Andrew e eu precisávamos partir de Myrtle Beach e seguir para o nosso destino, onde quer que fosse. Nunca planejamos nossos destinos antecipadamente. A nossa única regra é ficar no litoral. Pelo menos até a primavera. Mas ainda faltam alguns meses até lá e, no momento, estamos felizes instalados num hotel estilo chalé bem em frente à praia, na linda Savannah, Geórgia.
E hoje eu faço 21 anos.
Andrew me acorda de um sono profundo abrindo as cortinas da janela gigante do nosso quarto e deixando o sol invadir o ambiente.
— Levanta, aniversariante — exclama ele de algum lugar perto do pé da cama. Eu o ouço batendo várias vezes na mesinha perto da janela com a palma da mão.
Resmungo e viro para o lado, dando as costas para o sol brilhante e me enterrando nos lençóis. Uma lufada de ar frio me atinge quando Andrew me arranca os lençóis.
— Ah, vai! — gemo, encolhendo os joelhos para o peito e puxando o travesseiro para cima da minha cabeça. — Eu devia poder dormir até tarde no meu aniversário.
De repente, meu corpo está sendo arrastado da cama e eu estico os braços freneticamente, tentando me agarrar à borda do colchão. A mão de Andrew segura com firmeza o meu tornozelo. Eu chuto e esperneio, tentando me soltar, mas ele me arrasta pela cama tão rápido e sem esforço que eu simplesmente desisto. Minha bunda bate no chão e os lençóis caem ao meu redor.
— Você é tão babaca! — eu rio.
— Mas você me ama. Agora levanta.
Com o cabelo todo emaranhado, olho para Andrew e faço bico. Ele sorri para mim e estende a mão. Eu a seguro e ele me puxa de pé.
— Feliz aniversário, amor — ele diz, e me dá um selinho.
Eu me encolho um pouco, porque sei que meu bafo está podre, e já estou ficando acostumada com a mania de Andrew de aproveitar qualquer oportunidade de me lembrar disso.
Sem olhar para mim, Andrew enfia a mão no bolso do casaco e tira uma caixinha de veludo preto. Obviamente, ele já saiu hoje, mas eu estou mais interessada na caixa que ele pôs na minha mão. Olho para ele desconfiada, pronta para dar um esporro nele caso tenha gastado uma grana numa joia escondido de mim.
— Andrew? — digo, desconfiada.
— Abre de uma vez. Eu me comportei. Juro. — Ele ergue as duas mãos num gesto de rendição.
Ainda totalmente desconfiada de sua aparente sinceridade, abro a tampa da caixa e vejo um colar com pingente de diamante dentro e fico com um pouco de falta de ar. Então estreito os olhos para ele.
— Andrew, por favor. — Olho mais uma vez para o colar, me sentindo culpada só de tê-lo nas mãos. — De jeito nenhum isso foi...
— Juro — ele diz com um sorriso encantador. — Não foi caro.
Mordendo o lábio com ceticismo, eu pergunto:
— Quanto custou, então?
— Ah, uns 125 dólares. Nada mais do que isso. Juro por Deus. — Ele faz uma cruz sobre o coração com o dedo.
Então tira o colar da caixa, deixando-o pendurado na mão.
— Gostou? — pergunta, indo para trás de mim.
Instintivamente, levanto meu cabelo embaraçado enquanto ele põe o colar no meu pescoço.
— É perfeito, Andrew. Eu mais do que gostei. Eu amei. — Olho para baixo enquanto ele o fecha e seguro o pingente brilhante de prata.
Eu me viro para Andrew e fico na ponta dos pés descalços para beijá-lo apaixonadamente.
Nem imagino como uma joia dessas pode não ter custado um caminhão de dinheiro, mas ele está dizendo a verdade. Eu acho...
— Obrigada, amor — agradeço, radiante.
De repente, ele me dá um tapão na bunda e diz:
— A gente precisa sair daqui hoje. Tô de saco cheio de me esconder em quartos assim. De saco cheio do frio. Eu queria poder hibernar.
— Eu também. E o que a gente vai fazer, exatamente? — Pego uma roupa limpa da minha mochila perto da TV.
— Sei lá. Qualquer coisa. Mas põe uma roupa quente.
Ele não precisava me lembrar disso, na verdade. Nem mesmo a proximidade do litoral e a mudança de latitude ajudaram muito a nos aquecer nos últimos dias. Ambos sonhamos com a primavera e o verão, a ponto de ser a única coisa da qual falamos. Eu reclamo muito de não poder esticar os pés descalços para fora da janelinha do carro sem matar nós dois de frio, e ele reclama que ainda não conseguimos dormir num gramado sob as estrelas. Claro que não vou dizer em voz alta, senão ele vai querer ainda mais, mas não estou muito ansiosa para dormir sob as estrelas. Jamais. Não depois do que aconteceu na primeira vez que tentamos. Não. Acho que estou satisfeita com as camas de hotel. Elas não têm cobras.
O inverno é deprimente. Acho que é por isso que o índice de suicídios é tão alto no Alasca. É um estado lindo, mas ainda prefiro o calor de rachar de um deserto do Sul.
Eu visto roupas extraquentes para o meu aniversário: casaco grosso, cachecol, luvas, o que tiver eu tô vestindo. E mesmo assim tô morrendo de frio.
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Andrew meio que “esquenta” o inverno. Sempre achei que caras de gorro ficam sexy, mas o jeitão dele com sua jaqueta preta de grife e seu gorro de lã, suéter cinza-escuro, jeans preto e botas Doc Martens é tudo o que eu quero de presente de aniversário. Sorrio comigo mesma enquanto andamos de mãos dadas por uma pequena multidão, todos se acotovelando no farol para se proteger do frio, e então três garotas, provavelmente turistas como nós, devoram Andrew com os olhos quando passamos. Isso acontece muito, e eu já deveria estar acostumada. Me vanglorio em segredo, mas quem não faria isso, na minha situação? Ele é a coisa mais sexy que eu já vi. Não admira que já tenha trabalhado como modelo. Ele odeia falar disso, então, naturalmente, eu toco no assunto com frequência para vê-lo sofrer. Andrew também está se barbeando menos; está com aquela barba sexy por fazer.
Subimos a escada em caracol até o farol debruçado sobre o oceano e olhamos o panorama juntos. Porque é algo para se fazer. Estamos apenas improvisando, andando de carro pela cidade e escolhendo as coisas quando as vemos. Mas, nos meses frios, até isso é um processo de tentativa e erro. Estendemos os braços sobre o corrimão e ficamos perto um do outro para nos aquecer. O vento gelado nos fustiga, naquela altitude, e eu sei que meu nariz e minhas bochechas devem estar vermelhos.
Levamos exatamente cinco minutos para mandar aquilo à merda e praticamente correr de volta para o carro.
— A gente podia ir pro cinema — ele sugere, no banco do motorista. — Ou... tá, acho melhor a gente hibernar e pronto.
Ficamos sentados por muito tempo, só pensando em alguma coisa para fazer.
— Vamos andar de carro mais um pouco — eu digo, sem nenhuma ideia.
— Talvez seja melhor ir embora de uma vez.
Dou de ombros.
— Se você quiser. — Então vejo uma placa que diz Feira de Antiguidades das Pulgas & Carrapatos.
— Vamos fazer compras — sugiro.
Andrew não parece empolgado.
— Compras?
Balanço a cabeça e aponto para a placa.
— Não no shopping, nada disso — explico. — Dá pra achar umas coisas bem bacanas em feirinhas de coisas usadas.
Sua expressão continua neutra, mas acho que ele se dá conta de que com certeza é melhor do que andar na rua no frio, ou ficar parado no carro sem fazer nada.
Andrew acaba cedendo porque, francamente, ele não tem mesmo muita escolha, e em seguida tira o carro do estacionamento e seguimos as placas até a feira de antiguidades. Encontramos um pouco de tudo: chapéus idiotas, instrumentos odontológicos antigos, colchas de retalhos feitas à mão, fitas de vídeo e discos. Andrew não se empolgou com muita coisa, até ver a caixa de madeira cheia de discos.
— Não vejo um disco do Led Zeppelin há anos — ele comenta, segurando um. A capa está tão detonada e desbotada que parece ter ficado num sótão por trinta anos, mas ele o segura com tanto cuidado que poderia ser um exemplar em perfeito estado.
— Você não tá pensando em comprar isso, tá?
— Por que não? — ele pergunta, sem olhar para mim.
Ele vira o disco e olha para o verso da capa.
— Porque é um LP?
— Tá, mas é um LP do Led Zeppelin — ele argumenta, olhando rapidamente para mim.
— Tá, e?
Ele não responde.
Eu continuo:
— Andrew, onde é que você vai tocar isso?
Finalmente ele me dá atenção total.
— Eu não vou tocar.
— Então por que quer comprar? — pergunto, e então respondo por ele, sarcasticamente. — Ah, já sei, é um artigo de colecionador. Você pode pendurá-lo no banco de trás do carro. — Dou um sorrisinho para ele.
— Ou posso pôr você no banco de trás e pendurá-lo na frente.
Eu fico levemente boquiaberta.
Andrew sorri e devolve o disco à caixa.
— Eu não vou comprar — ele resolve, pegando a minha mão.
Minutos depois, entramos em outra barraca, lotada de roupas antigas. Enquanto examino meticulosamente tudo o que há nos cabides, Andrew fica na barraca ao lado, onde centenas de DVDs e Blu-rays estão expostos numa parede. Ele para diante dela de braços cruzados, praticamente imóvel, lendo cada um dos títulos. Posso ver sua nuca através da treliça de madeira que separa seu quiosque do meu. Volto a olhar as roupas, sentindo urgência e necessidade a cada peça que toco. Eu adoro roupas antigas. Não que eu chegue a usar, ou que tenha comprado alguma vez, mas são coisas que não dá para deixar de olhar com admiração e se imaginar nelas.
Empurro os cabides finos de arame, um por um, para conseguir ver tudo. Camisas com mangas bufantes e cadarços de couro, espartilhos, vestidos plissados e com mangas longas, botas vitorianas...
O que é isso?
Meu coração para por um segundo quando puxo um dos cabides e vejo o vestido. É um modelo vintage cor de marfim, com mangas curtas drapeadas. Tiro o cabide da arara e seguro o vestido junto ao corpo, virando para o espelho. O comprimento por pouco não chega ao chão. Segurando-o com uma mão na altura certa, estico o tecido com a outra mão. Então eu rodopio.
— Meu Deus, amei este vestido — digo em voz alta para mim mesma. — Preciso comprar.
— Hãã, devo dizer — Andrew intervém por trás, me assustando — que é um vestido lindo.
Um pouco sem jeito porque Andrew provavelmente me viu enquanto eu me admirava com o vestido e falava sozinha, não olho para ele. Em vez disso, olho a etiqueta para ver se é do meu tamanho. É! Claro que agora preciso comprá-lo, sem mais perguntas. Era pra ser meu!
Abraçando apertado o vestido, eu giro para ficar de frente para Andrew.
— Você gostou mesmo? — pergunto com voz culpada, minha maneira de implorar para que ele não jogue na minha cara aquela conversa sobre o disco.
— Eu acho que você deve comprar — ele confirma, com um sorrisão cheio de covinhas. — Já posso imaginar você vestida nele. Linda. Naturalmente.
Eu fico vermelha e olho para o vestido de novo.
— Você acha? — Não consigo parar de sorrir.
— Com certeza — ele diz. — E você fica mais acessível nele.
Típico!
Ignoro seu comentário pervertido, sobretudo porque estou apaixonada demais pelo vestido. Então me dou conta de que ainda não olhei o preço. Conhecendo os vestidos daquela marca, sei que eles não são caros. Mas quando o vendedor é alguém que acha que pode enganar um cliente, fazendo-o pagar três vezes o valor justo, não há como prever o preço na etiqueta. Prendo a respiração e olho o valor. Vinte contos! Perfeito.
Olho mais uma vez para Andrew e de repente me sinto uma vaca reclamona.
— Por que você não compra aquele disco do Led Zeppelin também? — digo timidamente.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Não, um LP antigo não serve pra nada mesmo. Mas um vestido como esse tem sua serventia. — Ele cruza os braços e me olha de cima a baixo.
Eu acho que ele está bancando o pervertido de novo, e dessa vez abro a boca para acusá-lo, quando ele acrescenta:
— Casar comigo vestida nele, por exemplo.
Seus olhos verdes parecem cruzar rapidamente os meus.
Meu sorriso se abranda e eu digo:
— É um vestido de noiva perfeito.
— Então tá combinado — ele diz, segurando a minha mão. — Quando a gente se casar, pelo menos você já vai ter o vestido.
— Só precisamos disso, na verdade — digo, saindo com ele da barraca com o vestido pendurado no braço.
Ele olha para mim.
— Alianças — ele diz, com um olhar estranho.
— Eu tenho aliança — digo, levantando a mão, achando que por algum motivo ele se esqueceu do anel que me comprou no Texas.
— Isso é um anel de noivado.
— É, mas basta.
— Bom, eu também preciso de uma. Ou você se esqueceu de mim? Casamento é pra dois, sabe.
Eu rio baixinho enquanto chegamos à pequena fila da caixa.
— Tá, tem razão, mas eu tô feliz com o meu anel. Além disso, eu sei que você gastou uma grana com este colar. Não pode fazer essas coisas.
— Vamos começar com isso de novo? — ele pergunta em tom brincalhão, tirando a carteira do bolso. — Não menti pra você sobre o preço do colar.
Talvez ele esteja mesmo dizendo a verdade.
— Acredito em você — digo finalmente.
Ele sorri e deixa por isso mesmo.
Andrew
20
SIM, SOU UM baita mentiroso. Aquele colar custou pouco mais de 600 dólares, mas sei que não posso contar pra ela. Ela acha que o que importa nas coisas caras é quantos zeros há antes da vírgula, mas nem sempre é isso. Francamente, acho que normalmente é pra mulher que o preço importa tanto. Porra, já ouvi garotas reclamando e choramingando porque o cara delas não gastou o suficiente. Eu queria saber se elas percebem como dificultam a nossa vida quando se juntam com as amigas e comparam pedras como nós, homens, comparamos nossas ferramentas. A propósito, a gente não faz isso, na verdade. Pelo menos eu nunca consegui encontrar um cara que quisesse abrir o zíper e competir comigo.
Eu queria comprar algo bem legal pra Camryn no aniversário dela. Por pura coincidência, aquilo de que eu mais gostei, entre as coisas que vi, era caro.
Aceite isso, amor.
Ela é capaz de desmaiar se descobrir quanto eu gastei nas nossas alianças, que comprei enquanto estávamos em Chicago. Está difícil evitar que Camryn as veja. Mas consegui enfiar a caixinha num bolso escondido da minha mochila.
Passamos o dia todo fazendo o que sempre fazemos, ficando juntos e aproveitando o tempo frio como dá. Quando voltamos para o hotel, pego o violão e toco para ela uma canção que compus e na qual estou trabalhando há uma semana. Eu esperava terminá-la até o dia do aniversário porque faz parte do presente dela. Compus só pra ela. Eu a chamo de “A Tulipa na Colina”, uma canção inspirada pelo primeiro dia que passamos juntos quando eu saí do hospital, depois da minha cirurgia.
— Eu acho que você deve pegar leve — Camryn disse naquele dia. — Nada de enfiar a cabeça nos motores de Billy Frank por uns tempos, nem bungee jumping, nem corridas de carros.
Eu ri um pouco, virando a cabeça para o lado para vê-la. Eu estava deitado de comprido numa mesa de piquenique de pedra. Camryn estava sentada no banco, perto da minha cabeça.
— Então sua definição de pegar leve é não fazer absolutamente nada? — perguntei, sorrindo para ela, com a cabeça apoiada nas mãos.
— O que tem de errado em passar um dia calmo no parque? — ela perguntou, passando os dedos na minha testa.
— Nada — respondi e beijei-lhe os dedos quando sua mão chegou à minha boca. — Eu gosto de ficar sozinho com você.
Ela virou a cabeça devagar para o lado e sua expressão ficou mais meiga. Depois olhou para o parque. As árvores estavam frondosas, e a grama, espessa e verdejante. Estava realmente um dia lindo. Fiquei me perguntando por que só nós dois, aparentemente, estávamos ali, aproveitando.
— Acho tulipas bonitas — ela disse com voz distante, olhando para a pequena colina coberta de grama do meu outro lado.
Olhei também e vi uma única tulipa brotando no alto daquela colina, sozinha. Não sei bem por quê, mas desde aquele dia, sempre que vejo uma tulipa em qualquer lugar, penso em Camryn.
Eu nunca vou esquecer o sorriso em seu rosto enquanto toco e canto a canção para ela. É tão terno, radiante e carinhoso, o tipo de sorriso que diz Amo Você Mais Do Que Tudo Neste Mundo sem precisar dizer essas palavras.
CONTINUA
14
QUANDO CHEGO AO banheiro, tem uma fila de mulheres esperando por cabines vazias. O ar está espesso com o bafo de álcool, perfume e roupas cheirando a cigarro. Uma porta de cabine se abre e fecha com uma batida violenta de poucos em poucos segundos quando alguém entra ou sai. Lavo as mãos primeiro, precisando me espremer entre duas garotas bêbadas sentadas no balcão da pia, uma de cada lado. Por sorte, elas são o tipo de bêbada supersimpática, porque não estou podendo com uma briguenta e grosseira hoje. Elas pedem desculpas por atrapalhar e se afastam para me dar espaço.
— Obrigada — digo, abrindo a torneira.
— Ei, você é a menina que tava cantando — a garota da esquerda diz, apontando para mim e sorrindo. Ela olha para a amiga do outro lado, depois para mim de novo.
— É, acho que sou eu.
Não estou nem um pouco a fim de conversa de banheiro. Quanto mais tempo passo num banheiro público, com mais nojo eu fico.
— Vocês dois são muito bons — ela diz com um sorrisão.
— É, sério — a amiga dela confirma. — Por que estão cantando em bares, afinal?
Eu dou de ombros e espremo mais sabão do reservatório na mão e tento evitá-las o mais gentilmente possível.
— De verdade — a da esquerda acrescenta. — Eu pagaria pra ver vocês tocarem.
Tudo bem, eu não sou totalmente imune a elogios. Sorrio e agradeço de novo.
Quando mais duas cabines ficam desocupadas, elas aproveitam a oportunidade e se trancam nelas. Logo depois, acenam em despedida e me desejam boa sorte na minha “carreira musical”. Quando estou quase sozinha, me viro para o espelho, mas não olho para mim. Em vez disso, enfio a mão no bolso e pego um comprimido, engolindo-o com água da pia.
É só pra tirar o nervoso.
Então eu me olho, empurrando o comprimido e o sentimento de culpa que vem cada vez que tomo um para o fundo da minha mente. Invento pretextos para justificar tomá-lo e quase engano a mim mesma. Mas eu sei que a culpa que sempre sinto tem um motivo.
Em menos de 11 minutos, não me importo mais com a culpa, os pretextos ou o nervoso, porque essa parte do meu cérebro foi adormecida.
Passo as pontas dos dedos embaixo dos olhos para limpar o rímel borrado, depois enxugo a oleosidade do meu rosto com papel higiênico. Preciso estar de cara boa quando voltar lá. Me sinto ótima, mas preciso parecer tão bem quanto me sinto.
Abrindo caminho em meio à multidão, encontro Aidan e Michelle de pé perto do enorme balcão do bar e me junto a eles. Então lembro que Andrew foi buscar uma bebida para mim, mas não quero atravessar aquele mar de gente de novo só para pegá-la.
— Vocês dois são fantásticos! — Michelle grita por cima da multidão barulhenta. Ela me abraça e eu retribuo, sentindo meu sorriso movido a comprimidos se alargando muito em meu rosto.
Eu me viro para Aidan.
— O que você achou?
— Concordo com Michelle! Vocês deveriam compor seu próprio repertório e tocar aqui mais vezes. Tem sempre caçadores de talentos aqui no bar. E celebridades. — Ele aponta para a parede do fundo, onde uma série de fotografias autografadas de vários músicos e astros do cinema formam uma linha reta. — Comecem a tocar material próprio — ele continua. — Aposto que vocês dois seriam contratados por uma gravadora em menos de um ano.
Estou tão chapada, no momento, que ele poderia me dizer que achou a gente uma bosta e sem futuro nenhum na música, e eu sorriria do mesmo jeito, deixando as palavras passarem por mim como uma brisa.
Olho para o outro lado do salão e vejo Andrew no palco com sua guitarra e a banda da casa, se preparando para a canção que é sua marca registrada, “Laugh, I Nearly Died”. Ele provavelmente não me vê no meio da multidão, mas sabe que estou assistindo. Adoro vê-lo no palco, no seu elemento. Sei que, por mais que sejamos bons juntos, musicalmente, ele sempre é mais dono do palco quando toca sozinho. Talvez seja impressão minha, mas gosto de pensar nele como na primeira vez que o vi tocar. Porque naquela noite em Nova Orleans, ele estava cantando para mim, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu faria qualquer coisa pra me sentir assim de novo. Qualquer coisa...
Segundos depois de começar a tocar, Andrew, como sempre, tem a atenção de todos os presentes. As duas garotas na mesa estão de pé agora, dançando juntas de um jeito provocante, mas eu sei que é tudo para Andrew. Já vi isso antes. Elas o querem, e Andrew deixa que acreditem, só por uma noite, que ele também as quer. É perfeitamente inofensivo. Andrew e eu encaramos isso como uma maneira de levantar a autoestima dos outros. Um pouco de paquera aqui e ali, tornar uma garota ou um cara de sorte o centro das atenções só pelo tempo suficiente para corar e sorrir. Nunca se sabe o que acontece na vida das pessoas a portas fechadas, e um pouco de energia positiva da paquera nunca atrapalha.
Quando voltamos para a casa de Aidan e Michelle pouco depois da meia-noite, vou para a cama antes de todos. Fico deitada por uma hora, ouvindo as vozes deles vindo do corredor e entrando no quarto. Andrew ia se deitar comigo, mas insisti para que ele ficasse com o irmão. Ele anda se preocupando demais comigo ultimamente. Vamos voltar para Raleigh amanhã, e quero que ele passe o maior tempo possível com Aidan.
Mais uma hora passa e eu continuo acordada.
Frustrada, enfio a mão na bolsa, procurando o frasco. Sem nem perceber, já estou nos últimos comprimidos.
Desmaio com três, desta vez.
Andrew
15
— CAMRYN? AMOR, acorda, por favor. — Eu a sacudo com força pelo ombro.
Minha emoção dominante, no momento, é o medo. Minhas emoções secundárias são raiva e mágoa. Mas, estranhamente, a sensação de incerteza está mantendo todas as outras a distância.
Eu a sacudo de novo.
— Levanta.
Não faço ideia de quantas dessas porras de comprimidos ela tomou, mas julgando pelo frasco quase vazio, a perspectiva de ter sido o suficiente para uma overdose faz uma onda de pânico percorrer todo o meu corpo. Mas ela está respirando normalmente e seu ritmo cardíaco parece normal. Se ela não acordar...
Seus olhos se abrem lentamente, e eu respiro mais aliviado.
— Camryn. Olha pra mim.
Finalmente, ela acorda o suficiente para me olhar nos olhos.
— Que que foi? — Ela geme suavemente e tenta fechar os olhos de novo, mas eu a seguro pelos ombros e a obrigo a se sentar.
— Acorda. Fica de olhos abertos.
Ela se senta, toda mole, mas não é nada tão fora do comum, depois de ter sido forçada a acordar e a se endireitar assim.
— Quantos você tomou?
Michelle está na porta do quarto, atrás de mim.
— Quer que eu chame uma ambulância?
De repente, Camryn fica completamente alerta. Não sei se minha pergunta finalmente a alcançou ou se foi a menção de uma ambulância, mas ela me encara com olhos arregalados e assustados.
— Quantas dessas porras de comprimidos você tomou?
Ela desvia o olhar do meu e vê o frasco de comprimidos sobre o criado-mudo. Quando decidi que dormir até depois das 14h não era típico dela e fui ver o que estava acontecendo, encontrei o frasco no chão.
— Camryn? — Eu a sacudo de novo e ela volta a prestar atenção em mim.
Ela só me olha. Vejo tanta coisa em seus olhos agora que não sei dizer se é mais humilhação, arrependimento, mágoa, raiva ou resignação. E então seus olhos começam a se encher de lágrimas. Sinto seu corpo se agitando sob o peso dos meus braços. Ela desata a chorar, caindo em meus braços, soluçando descontroladamente, e aquilo me despedaça.
— Andrew? — Michelle diz da porta.
Sem olhar para trás, eu digo:
— Não, ela vai ficar bem. — E engulo minhas próprias lágrimas e a raiva, sentindo meu peito se apertar.
A porta se fecha silenciosamente atrás de mim quando Michelle sai do quarto.
Abraço Camryn por muito tempo, deixando-a chorar no meu peito. Não digo uma palavra. Ainda não. Em parte porque sei que ela precisa disso, poder chorar e desabafar. Mas a outra parte de mim está tão puta da vida e magoada que sinto que vou precisar me afastar e me recompor para não dizer coisas erradas. Eu a abraço forte, apertando os braços em volta do seu corpo trêmulo. Beijo seu cabelo e tento não chorar também. A parte de mim que está puta da vida ajuda nisso.
— Eu sinto muito! — ela grita e, nessa fração de segundo, quando ouço a dor em sua voz, minha raiva se apaga quase completamente e eu a abraço ainda mais forte.
— Tá pedindo desculpas pra mim? — pergunto, incrédulo. Eu a afasto, segurando-a firme pelos antebraços. Balançando a cabeça furiosamente, volto a ficar como alguns minutos atrás. — Não, primeiro você precisa me dizer quantos você tomou. — Eu a encaro com firmeza.
— Ontem à noite. Só três.
— Quantos tinha no frasco no total?
— Não sei. Uns vinte.
— Então há quanto tempo você tá tomando?
Ela faz uma pausa e responde.
— Desde terça. São da minha mãe. Tomei um quando tava com dor de cabeça, mas aí comecei a tomar... — Seus olhos se enchem de água novamente.
Eu enxugo as lágrimas do seu rosto.
— Puta que pariu, Camryn! — exclamo, puxando-a para o meu peito por mais um breve momento. — O que você tava pensando, porra?
— Eu não pensei! — ela grita. — Não sei o que eu tenho!
Seguro seu rosto com as palmas das mãos.
— Você sabe o que você tem. Tá arrasada por perder a Lily e não sabe como lidar com isso. Só queria que você tivesse falado comigo.
Com o rosto dela ainda nas mãos, seus olhos desviam dos meus. O silêncio tenebroso entre nós me afeta da forma mais estranha.
— Camryn? — Tento fazê-la me olhar de novo, mas ela se recusa. — Fala comigo. Você precisa falar comigo. Escuta, você não fez nada errado, nem poderia ter evitado o que aconteceu. Precisa saber disso. Precisa enten...
Sua cabeça se desvencilha das minhas mãos, seus olhos penetrando os meus, cheios de dor e de... algo mais.
— É culpa minha! — ela diz, se afastando de mim na cama.
Ela se levanta do outro lado e cruza os braços, me dando as costas.
— Não é culpa sua, Camryn. — Ando até ela, mas assim que sente que vou me aproximar, ela se vira.
— É culpa minha sim, Andrew! — ela repete, com as lágrimas escorrendo dos olhos. — Eu não conseguia parar de pensar que minha gravidez ia ferrar com tudo! Detestava continuar morando em Galveston depois de quatro meses! Fiquei me perguntando como a gente ia fazer tudo o que queria com um bebê! Por isso, sim, é culpa minha que a perdemos e eu me odeio por isso, caralho! — Ela esconde o rosto nas mãos.
Atravesso a curta distância até ela, tomando-a em meus braços de novo.
— Meu Deus, Camryn, não foi culpa sua! — Acho que nunca falei nada para ninguém com tanta emoção. Meu peito tremia incontrolavelmente contra o dela.
— Olha pra mim! — imploro, afastando-a. — Isso é tão normal. E se você é culpada, então eu também sou. Tive esses pensamentos de vez em quando, mas, como você também, não teria desistido dela nem se pudesse.
Ela não precisa confirmar essa afirmação em voz alta, porque sei que ela também não teria desistido. Mas ela confirma assim mesmo: — Não lamentei nada engravidar dela. E eu... quero minha bebê de volta!
— Eu sei. Eu sei. — Eu a abraço apertado e ando com ela até o pé da cama, fazendo-a sentar. Eu me agacho entre as pernas dela, apoiando os braços em suas coxas e tomando suas mãos nas minhas. Olho para ela e digo mais uma vez: — Não foi culpa sua.
Ela enxuga algumas lágrimas e nós ficamos sentados assim pelo que parece uma eternidade. Acho que ela acredita em mim — ou isso ou está só evitando encarar a realidade. Então ela olha para a parede atrás da minha cabeça e diz baixinho: — Isso faz de mim uma viciada em drogas?
Quero rir, mas não rio. Em vez disso, apenas balanço a cabeça e sorrio suavemente para ela, apertando as pontas dos dedos em suas mãos.
— Foi um momento de fraqueza, e até a pessoa mais forte não é imune à fraqueza, Camryn. Quatro dias e um frasco de analgésicos não fazem de você uma viciada em drogas. É falta de juízo, mas não é vício.
Ela olha de novo para mim.
— Michelle e Aidan vão achar que é.
Balanço a cabeça.
— Não, não vão. E ninguém mais vai. — Eu me levanto e me sento ao lado dela. — Além disso, não é da conta de ninguém, porra. É uma coisa que só você e eu precisamos saber e enfrentar.
— Nunca fiz nada assim antes — ela continua, olhando para a frente. — Não acredito...
— Você estava diferente. Está diferente desde que Lily morreu.
O quarto fica estranhamente em silêncio de novo. Olho para ela de lado, mas a deixo em silêncio por um momento. Ela parece perdida em pensamentos.
E então ela diz:
— Andrew, talvez nós não devêssemos estar juntos. — E suas palavras me atingem tão rápido e com tanta força que sinto que falta ar nos meus pulmões.
Fico tão surpreso que é como se suas palavras tivessem roubado todas as minhas. Meu coração está disparado.
Finalmente, quando ela não elabora, consigo balbuciar:
— Por que tá dizendo isso? — E fico com medo de sua resposta.
Ela continua olhando para a frente, com as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto. E então ela olha para mim e vejo a mesma dor intensa em seus olhos que eu sei que ela vê nos meus.
— Porque todo mundo que eu amo acaba me abandonando ou morrendo.
O alívio me invade, mas é superado pela sua dor.
É nesse exato momento que percebo que essa é a primeira vez que Camryn se abriu a respeito disso tudo comigo, ou com qualquer outra pessoa. Penso nas coisas que Natalie me contou, e nas conversas que Camryn e eu tivemos na estrada, e sei que no momento Camryn está admitindo a dimensão de sua dor não só para outra pessoa, mas o mais importante, para si mesma.
— Eu me sinto tão egoísta dizendo isso — ela continua, e deixo que ela fale à vontade, sem interrupções. — Meu pai abandonou a gente. Minha mãe mudou. Minha avó, a única pessoa que continuou a mesma e sempre me apoiou quando precisei, morreu. Ian morreu. Cole foi pra prisão. Natalie me apunhalou pelas costas. Lily... — Ela olha para mim, finalmente, a dor intensificada em seu rosto. — E você.
— Eu? — Me agacho diante dela de novo. — Mas eu tô aqui, Camryn. Vou estar sempre aqui. — Tomo as mãos dela nas minhas. — Não importa o que você faça, ou o que aconteça entre a gente. Nunca vou te abandonar. Vou estar sempre com você. — Aperto as mãos dela. — Lembra quando eu disse que você era a coisa mais importante do mundo pra mim? Você pediu que eu te lembrasse disso, se um dia você esquecesse. Bom, eu tô te lembrando agora.
Soluços percorrem seu corpo.
— Mas você podia ter morrido — ela insiste, com choro na voz. — Cada dia que passei naquele hospital, pensei que seria o seu último. E aí quando não era e você resistia, eu continuava prevendo isso mesmo assim. Semanas, meses depois, porque uma parte de mim achava que eu precisava me acostumar com a ideia de perder você. Um dia. Porque eu sabia que você ia me deixar de um jeito ou de outro. Como todo mundo.
— Mas eu não deixei — digo com desespero, sorrindo um pouco ao mesmo tempo. Eu me sento no chão e a puxo para perto de mim. — Eu não morri. Não morri porque eu sabia que você tava lá comigo o tempo todo. Porque eu sabia que nosso destino era ficar juntos, e que se você vivesse, eu também viveria.
— Mas e se você morrer? — ela pergunta.
Isso eu não esperava.
— E se o tumor voltar?
— Não vai voltar — respondo. — E mesmo se voltar, vou vencê-lo de novo. Cacete, eu fiquei oito meses sem ir ao médico e venci assim mesmo. Com você na minha vida, me atormentando pra me fazer ir aos checkups regularmente, de jeito nenhum ele vai me matar.
Ela não parece totalmente convencida disso, mas vejo um pequeno raio de esperança em seu rosto, e era isso que eu queria ver.
— Eu sinto muito mesmo — ela diz, mas em vez de dizer que não precisa, também deixo que ela viva esse momento, porque parece mais que ela está se permitindo fechar um ciclo. — Aposto que você nunca pediu pra ter um fardo absurdo desses. — Ela passa os dedos sob os olhos.
Tentando aliviar um pouco o clima, esfrego as mãos em seus joelhos nus e digo: — Eu te amaria mesmo se você fosse uma daquelas garotas que correm pro banheiro pra vomitar depois de comer, ou se tivesse o fetiche secreto de transar com um palhaço.
Ela ri baixinho em meio às lágrimas, e isso me faz sorrir.
Levanto o queixo dela com um dedo e fico sério de novo, olhando bem em seus lindos olhos azuis e úmidos.
— Camryn, Lily não tava pronta, só isso. Não sei por que, mas você não pode se culpar por ela ou por qualquer um. E você precisa entender que estamos nisso juntos. Em tudo. Acredita nisso?
Ela balança a cabeça.
— Sim.
Eu me curvo e a beijo primeiro na testa, depois nos lábios.
Segue-se o silêncio, e a atmosfera no quarto parece diferente. Mais brilhante. Eu sei que Camryn não vai voltar a ficar 100% da noite pro dia, mas posso ver que ela já está melhor. Percebo só de olhar que ela se sente menos carregada, agora que tirou essas merdas da cabeça. Ela precisava disso. Precisava de alguém para fazê-la cair na real. Não alguém indiferente, ou que desse apenas respostas prontas para tudo.
Ela precisava de mim.
Eu me levanto e pego a mão dela.
— Vem cá.
Ela me segue, pego o frasco de comprimidos da mesa ao lado da cama e a puxo comigo para o banheiro da suíte. Levanto a tampa da privada e entrego o frasco a ela. E antes que eu diga qualquer coisa, Camryn vira o frasco sem hesitação e joga os últimos quatro ou cinco comprimidos na privada.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão fraca. — Ela olha para a água enquanto os comprimidos giram no vaso e são sugados pelo cano. Depois olha para mim. — Andrew, eu podia facilmente ter ficado viciada neles. Não consigo imaginar...
— Mas você não ficou — interrompo, antes que ela fique remoendo aquilo mais. — E você tem direito a um momento de fraqueza. E chega.
Eu saio do banheiro e ando pelo quarto. Ela me segue e fica parada no meio do quarto, me olhando.
— Andrew?
Eu paro, me viro para ela e digo:
— Me dá uma semana.
Ela parece meio confusa.
— Uma semana pra quê?
Sorrio fracamente.
— Só concorda. Fica aqui comigo uma semana.
Cada vez mais confusa, ela diz:
— Hãã, tá. Vou ficar aqui com você uma semana — embora esteja estampado em seu rosto que ela não sabe com o que está concordando.
Mas ela confia, e isso significa tudo para mim. Vou dar a nós dois o que ambos precisamos, querendo ela ou não.
Camryn
16
Dia Três
Nunca pensei nem por um minuto que seria capaz de fazer o que fiz. Andrew chama de um momento de fraqueza e talvez tenha razão, mas vai levar tempo pra cacete pra que eu consiga me perdoar por aquilo.
Michelle deixou claro que não vai me julgar, e embora isso me faça sentir melhor, me sinto humilhada sempre que estou na presença dela ou de Aidan. Talvez seja por isso que eu me sinta tão mal, por eles serem tão compreensivos.
Uma semana. Nem faço ideia do que Andrew quis dizer com isso, mas estou em dívida com ele, por isso não faço perguntas e deixo que ele faça o que está planejando. Ele andou bem misterioso nos últimos dias, muitas vezes atendendo ligações em outros quartos para que eu não pudesse ouvir. Só tentei escutar uma vez, simplesmente ficando bem quieta no sofá quando ele foi para a cozinha falar com Asher. Mas então bisbilhotar assim me fez sentir culpada, por isso aumentei o volume da TV para não conseguir ouvir.
E posso ter tomado os comprimidos só por uma semana, mas pelo jeito foi tempo suficiente para eu ainda me sentir zonza três dias depois dos últimos que tomei. Me sinto mal, até mais incapaz de dormir do que antes de começar a tomá-los, mas pelo menos as dorezinhas de cabeça finalmente estão começando a desaparecer. Não consigo imaginar ficar viciada neles por meses ou anos. Sinto pena de quem fica...
Dia Quatro
Aidan entra com um pequeno maço de correspondências na mão, olhando cada uma enquanto anda pela sala.
Ele para num envelope branco por um segundo, constrangido, e o levanta, olhando para mim primeiro, até que Andrew entra na sala.
— Parece que esta é pra você. — Ele me olha de novo, mas entrega o envelope a Andrew.
Isso me dá uma sensação muito estranha, então me levanto instintivamente da espreguiçadeira e me aproximo de Andrew para ver o que é.
Pouco antes que Andrew escondesse o envelope de mim, vejo o nome de Natalie escrito nele.
Ele também sabe que eu vi.
— Não — diz Andrew, balançando a cabeça. — Vou deixar você ver outro dia. — E então ele enfia o envelope no bolso de trás do jeans.
Confio totalmente nele, mas sou humana, e uma pequena parte de mim está nervosa com essa situação toda. Por que Natalie mandaria uma carta para Andrew? Confiando ou não, a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um é se perguntar se tem alguma coisa acontecendo entre os dois. Mas isso é absurdo, e afasto essa ideia da minha mente com a mesma rapidez que ela veio.
Eles estão conspirando contra mim.
Eu só queria saber o que está acontecendo.
Dia Cinco
Falei com Natalie, minha mãe e Marna por telefone hoje. Marna tenta agir como se nada tivesse acontecido com o bebê, e é tão boa nisso quanto Michelle foi no meu primeiro dia em Chicago. Ela é tão meiga e delicada. Minha mãe, por outro lado, parece não conseguir falar de outra coisa além do meu relacionamento com Andrew. Ela me persegue sempre que pode, perguntando quando vamos nos casar, e resolveu enfiar na cabeça que vamos fazer isso do jeito que todo mundo faz. Tento dizer a ela que não quero um vestido caro, uma capela ou milhares de dólares em flores que vão murchar na semana seguinte, mas é como se ela nem me escutasse. Ela só quer que a gente se case. Talvez assim se sinta melhor com ele dormindo no meu quarto. Não faço ideia do que passa pela cabeça da minha mãe, e metade do tempo acho que nem ela sabe.
Andrew foi a um médico aqui em Chicago fazer um checkup hoje. E como toda vez que ele vai, fico até com enjoo de preocupação até que acabe. Por sorte, ele voltou com boas notícias.
Dia Seis
Falo com Natalie por telefone de novo, mas novamente não menciono o envelope. Ela também não está agindo naturalmente. É óbvio que está se esforçando para não entregar nenhum dos segredos de Andrew, o que deixa as conversas cheias de momentos silenciosos e constrangidos. Quero rir dela por ser tão péssima em agir normalmente, quando só o que ela quer é me contar tudo e dar o assunto por encerrado.
Dia Sete
Esta semana foi uma das mais longas da minha vida. Fico na cama até mais tarde porque está começando a esfriar, mas também porque estou nervosa e não consigo fazer outra coisa. Andrew se levantou há uma hora, e só o vi voltar para o quarto uma vez, para calçar os sapatos. Ele me beijou e sorriu para mim como se estivesse secretamente empolgado, e então saiu de novo sem dizer uma palavra.
Eu viro para o lado, enrolada no cobertor, e olho pela janela. O sol está brilhando hoje, e o céu está azul e sem nuvens.
Ouço os três andando pela casa.
Os sapatos de Andrew rangem sobre o chão de madeira na porta do nosso quarto. Ele abre a porta e fica na entrada, olhando para mim.
— Levanta e se veste — ele diz, com a mão ainda na maçaneta.
Eu só o olho por um segundo, achando que talvez ele vá explicar o que vamos fazer, mas ele só aponta para os meus sapatos no chão, como que dizendo calce-os, depois fecha a porta e me deixa sozinha.
Faço exatamente o que ele manda. Me levanto e visto meu jeans favorito e uma blusa folgada de tricô de mangas compridas, depois um par de meias e meus mocassins. Quando saio do quarto para a sala, vejo Michelle encolhida no canto do sofá, com um cobertor sobre as pernas, vendo TV. Ela se vira para me ver, e está com um sorriso aberto, como se soubesse algo que não sei. E com certeza sabe.
— Ele tá lá fora com Aidan — ela diz, acenando na direção da porta.
Cada vez mais nervosa, ando lentamente até a porta e a abro.
Saindo na varanda de pedra, vejo Andrew e Aidan de pé do lado da estrada, em frente à casa, com Asher, e todos eles estão encostados na lateral do Chevelle.
Por um momento eu penso: Tá, então Asher veio nos visitar, é só isso que tá acontecendo? Não que eu não fique feliz em ver Asher, mas, francamente, não é algo que eu imaginaria que fosse justificar todos esses planos de Andrew em segredo.
É o carro, percebo, mas é só isso que consigo entender sozinha. Tenho uma teoria sobre o motivo de ele tê-lo trazido para cá, mas a esta altura vou só fazer o melhor que posso para não pensar nisso.
Desço rapidamente os degraus de pedra e dou um abraço apertado em Asher.
— Você tá ótima, garota — ele diz, com aquelas covinhas e os olhos verdes e brilhantes quase idênticos aos de Andrew. Então ele me aperta e me levanta um pouco do chão.
— É muito bom te ver — digo, sorrindo.
Fico correndo os olhos dele para Andrew, que está sorrindo tanto que duvido que consiga manter o mistério por muito mais tempo.
Olho para o Chevelle e então para Asher. Olho de novo.
— Então você veio dirigindo lá de... — Tudo bem, é um pouco mais intrigante do que eu imaginava. O carro estava no Texas, até onde eu sei, e Asher estava em Wyoming. Finalmente continuo: — O que tá acontecendo?
Asher olha para Andrew, e Andrew dá um passo à frente.
— Eu pedi que Asher trouxesse o carro pra cá — ele diz.
— Mas por quê?
Asher cruza os braços e se apoia na porta de trás do carro.
— Porque ele é doido — Asher diz, rindo baixinho. — E porque não confiou num serviço de entregas pra trazer o carro.
Eu me viro para Andrew de novo, esperando que ele desembuche. Uma brisa fria atravessa minha blusa de tricô e eu enfio as mãos nas mangas.
— Você tem cinco minutos pra botar todas as suas coisas na mala — ele diz, e meu coração começa a bater descompassado antes que ele termine a frase. Ele bate no pulso sem relógio. — Nem um segundo a mais.
— Andrew...
— Isso não tá em discussão — ele diz. — Vai pegar suas coisas.
Eu só olho para ele, sem expressão.
Minha teoria estava certa, mas eu não queria que estivesse. Não quero cair na estrada... Isto é, eu quero... mas não está certo. Isso não está certo.
— Agora você tem quatro minutos — Asher diz.
— Mas a gente não pode partir assim — eu argumento. — Seria grosseria. — Aponto para Asher. — E Asher acabou de chegar. Você não quer ver...?
— Posso ver meu irmão mais velho a hora que eu quiser — Asher rebate. — No momento, acho melhor você fazer o que ele mandou, ou vai acabar na estrada, usando a mesma calcinha por uma semana.
Mais alguns segundos se passam e eu ainda não me mexi. Estou num leve estado de choque, acho.
— Três minutos, amor — Andrew diz, e está me olhando com expressão séria. — Não tô brincando. Sobe lá, bota suas porras nas malas e entra nessa merda de carro.
Cacete, ele voltou a ser como era...
Quando começo a discutir de novo, os olhos de Andrew ficam ferozes e ele diz:
— Anda logo. O tempo tá acabando! — E aponta para a casa.
Finalmente, baixando a guarda e entrando no clima tanto quanto posso me permitir, olho para ele com raiva e digo:
— Tudo bem. — Só concordo porque sei que ele está tentando melhorar as coisas. Mas me sinto culpada pra caramba.
Desconsiderando seu prazo bem-humorado de cinco minutos, giro nos calcanhares e ando muito lentamente na direção da casa, demorando de propósito, em parte minha maneira silenciosa de discordar da situação.
— Você sabia disso, Michelle? — pergunto quando passo por ela e vou para o corredor.
— Com certeza! — ela grita em resposta. Posso ouvir o sorriso em sua voz.
Abro a porta do quarto, ponho a mochila sobre a cama e começo a enfiar tudo dentro dela. Depois vou para o banheiro, pego nossas escovas de dentes e vários artigos de toalete. Arranco nossos carregadores da parede, pego meu celular do criado-mudo e enfio tudo na minha bolsa. Ando pelo quarto, torcendo para não ter esquecido nada.
Parece que Andrew já tinha feito as malas e eu nem percebi.
Em seguida fico ali, vasculhando cada centímetro do quarto, mas sem ver nada, na verdade. Não quero fazer isso, mas talvez seja o certo.
Ouço a buzina tocar três vezes e isso me arranca dos devaneios. Levantando a mochila, eu a jogo no ombro e pego minha bolsa de cima da cama.
— A gente se vê por aí! — Michelle diz do sofá.
Eu paro ao passar por ela, me curvo sobre o encosto do sofá para lhe dar um abraço desajeitado, atrapalhada pelas alças nos ombros.
— Divirta-se — ela acrescenta.
— Obrigada por nos convidar — eu digo.
Com um grande sorriso, Michelle gesticula para que eu vá, e eu saio da casa.
Quando desço os degraus, Andrew abre o porta-malas do Chevelle e eu jogo minha mochila lá dentro. Os cinco minutos que ele me deu passaram faz tempo, mas duvido que ele vá dizer alguma coisa.
— Tá pronta? — Andrew pergunta, fechando o porta-malas.
Eu respiro fundo, olho para Asher e Aidan, e antes de responder, vou abraçar os dois.
— Legal você ter vindo — diz Aidan.
— Vê se bota meu irmão na linha — Asher recomenda.
Sorrio para os dois, me sento no banco do passageiro e Andrew fecha a porta para mim.
Os três se despedem. Um minuto depois, Andrew se senta no banco do motorista, e uma lufada de ar frio entra no carro junto com ele.
Ele me olha.
— Então, vai ser assim — ele diz, apoiando os pulsos no volante. — A gente vai pro sudeste, pro litoral...
— Peraí — interrompo —, você planejou tudo? — Isso é tão fora do estilo dele. Me deixa cismada.
Andrew sorri suavemente e diz:
— Em parte. Mas é necessário.
— Que parte é necessária?
Ele me olha como que dizendo: Vai me deixar terminar?
Fico quieta e deixo que ele continue, enquanto ele se debruça e abre o porta-luvas.
— A gente vai pro sul, vamos ficar no litoral durante o inverno todo — ele diz, e agora só consigo me perguntar quanto tempo ele planeja ficar na estrada. O inverno todo? Não consigo entender que diabo de ideia é essa. Ele saca um mapa e o desdobra sobre o volante. Olho para ele, desconfiada. — Odeio o frio. Seguindo o litoral e indo mais pro sul na época certa, a gente vai evitar quase toda a neve e merdas assim.
Tá, o plano é bom, admito. Também não aguento o clima frio, portanto, sim, essa parte é necessária mesmo. Concordo com a cabeça e deixo que ele continue.
Andrew aponta para o mapa gigante e começa a correr o dedo pelo nosso itinerário.
— Vamos começar no litoral da Virgínia e ir pro sul, passando pelo seu estado, mas nada de parar pra visitar. — Ele aponta para mim. — A gente tá só de passagem, certo? — Ele espera a minha resposta.
Concordo com a cabeça novamente e digo:
— Certo — porque com certeza há um método em sua loucura, e sinto que devo concordar com ele.
Ele olha de novo para o mapa e volta a correr o dedo pelo papel.
— Depois, pela Carolina do Sul até a Geórgia, e aí vamos percorrer toda a costa da Flórida, da praia de Fernandina — seu dedo faz uma longa curva pelo papel — indo até Pensacola.
— Quanto tempo tudo isso vai levar?
Ele sorri e balança a cabeça para mim.
— Isso importa? — Então ele dobra o mapa desorganizadamente e o joga no banco, entre nós. — Eu decido a direção, desta vez. Sobretudo porque não quero morrer de frio. Mas... — Ele se vira de novo e olha para a frente, tirando os olhos de mim — Bom, é assim que precisa ser.
— Por que a gente tá fazendo isso, Andrew?
Seus olhos pousam em mim mais uma vez.
— Porque é o certo — ele responde, com um olhar profundo. — Porque você tá no carro.
Suas palavras me deixam confusa.
— Porque eu tô no carro?
Ele balança a cabeça discretamente.
— Sim.
— Mas... o que isso significa?
Seus olhos verdes se abrandam com o sorriso, ele estende a mão e segura o meu queixo. Ele beija meus lábios e diz:
— Você podia ter lutado com unhas e dentes. Podia ter me mandado à merda quando falei pra pegar nossas coisas. Mas você não fez nada disso. — Ele me beija devagar mais uma vez, e o gosto de hortelã do seu hálito fica em meus lábios. — Você não entrou correndo naquela casa porque eu mandei, foi porque era o que você queria. Você nunca fez nada só porque eu mandei, Camryn. Eu sou só um chute no seu traseiro, mais nada.
Tento disfarçar o sorriso que está se abrindo em meu rosto, mas não consigo. Ele se curva, aperta os lábios na minha testa e se endireita no assento. O motor ronrona agressivamente por um momento quando o pé dele aperta o acelerador.
Ele tem razão. Tudo o que ele já me mandou fazer, mesmo quando reclamei, eu jamais teria feito se uma parte de mim não quisesse. Fico intrigada em ver como ele sempre sabe coisas sobre mim antes que eu saiba.
Andrew
17
ACHO QUE ONTEM, em Chicago, foi a primeira vez que não consegui prever a reação de Camryn a uma das minhas exigências. Minha garota estava arrasada. Isso me deixava mais apavorado a cada dia, a pessoa que ela estava se tornando. Corri um risco ligando para Asher naquela noite e pedindo que ele dirigisse o Chevelle até Chicago. Eu não sabia o que Camryn ia fazer e, para dizer a verdade, temi que ela se recusasse a ir. Por causa da culpa. Ei, odeio termos perdido a nossa Lily. Daria um braço ou uma perna para tê-la de volta. Mas o que está feito está feito, e ficarmos parados nos afogando em sofrimento e nos recusando a fazer o que nos deixa felizes por qualquer motivo é uma puta duma bobagem. É assim que você se mata. Um suicídio lento e doloroso. Se Camryn recusasse, eu a carregaria sobre o ombro, esperneando e gritando, e a jogaria no banco de trás do carro. Porque essa é a nossa vida. Nós nos encontramos na estrada; nos conhecemos e aprendemos a nos amar na estrada. É onde devemos estar pelo tempo que for, e é o que vamos fazer até que fique claro que deveríamos fazer outra coisa.
As primeiras 14 longas horas de nossa viagem são calmas e silenciosas. Eu dirijo de Chicago até Virginia Beach ouvindo rádio, ou meus CDs quando não encontro uma estação decente. Camryn, embora sorria e fale sobre as coisas que vemos da estrada, ainda não voltou ao normal, mas vai chegar lá. Pode levar alguns dias, mas vai começar a cair na real.
As praias da Costa Leste são diferentes das do Texas. São mais limpas, e aqui a água parece água do oceano de verdade, e não a água barrenta e turva do Golfo em Galveston.
Já é quase noite. Vimos o sol se pôr no horizonte quando chegamos a Virginia Beach, e foi a primeira vez que vi aquela faísca nos olhos de Camryn, desde que ela perdeu o bebê. Se eu soubesse que um crepúsculo podia fazer isso, já a teria levado para ver um há muito tempo.
— Então, a gente vai pedir quartos separados? — ela pergunta quando saímos do carro no estacionamento do nosso primeiro hotel.
Percebo que ela está brincando, mas aposto que não espera que eu entre na brincadeira.
— É exatamente o que vamos fazer. — Eu abro o porta-malas e jogo nossas mochilas nos ombros.
— Tá falando sério? — Ela está chocada, e é engraçado.
Eu represento o melhor que posso. Nunca me passou pela cabeça pedir quartos separados, mas agora que ela mencionou isso, não acho tão má ideia.
Fecho o porta-malas e nós entramos no saguão do hotel.
— Andrew, acho que a gente já passou dessa fase.
— Dois quartos contíguos para não fumantes, por favor, se tiver.
A recepcionista digita o pedido em seu computador. Eu ignoro Camryn a maior parte do tempo, mexendo na minha carteira à procura do cartão de crédito.
— Andrew?
— Não tenho dois quartos contíguos — a mulher diz —, mas tenho dois que ficam um de frente pro outro no corredor.
— Pode ser — eu digo.
Camryn sussurra:
— Não acredito que você vai gastar dinheiro com dois quartos quando a gente já fez sexo milhares de vezes... — Camryn não para de falar, enquanto a recepcionista nos olha disfarçadamente como se fôssemos loucos. Adoro essa expressão no rosto das pessoas, esse ar surpreso de “não acredito que você disse isso”.
— Por favor, fique quieta — eu digo, me virando para Camryn. — Eu vou pro seu quarto e te como rapidinho, não se preocupe. Então para de dar espetáculo.
Camryn arregala os olhos tanto quanto a recepcionista.
Pego Camryn pela mão e a puxo para a saída do saguão.
— Espero que apreciem sua estada — a recepcionista diz em tom estupefato enquanto vamos para o elevador.
Camryn cai na gargalhada assim que as portas do elevador se fecham.
— O que foi aquilo?! — ela pergunta, incapaz de se conter. — Parecemos dois adolescentes imaturos!
— Mas você tá rindo — eu comento. — Portanto, a imaturidade valeu totalmente a pena.
O elevador para no segundo andar e nós saímos no corredor.
— Mas, sério, Andrew, por que quartos separados?
Provando mais ainda que a espontaneidade tem mesmo um propósito, eu penso no que pedi que Natalie enviasse a Chicago, enquanto andamos pelo corredor. Paramos no meio dele, diante dos nossos quartos, e eu jogo as mochilas no chão verde acarpetado.
— Só por esta noite — respondo, enfiando a mão na mochila para procurar o envelope.
Camryn fica perto de mim, assistindo a tudo em silêncio. Percebo que ela quer dizer alguma coisa, mas não tem certeza, nesse momento, do que poderia ser.
Eu endireito o corpo com o envelope na mão. Ela olha para ele, mas não sabe ao certo quais são as minhas intenções.
— Esta noite você vai ficar sozinha no seu quarto — eu digo e entrego o envelope a ela.
Ela parou de sorrir assim que tirei o envelope da mochila. Agora só consegue olhar para mim, confusa e intrigada.
Cuidadosamente, ela estende a mão e pega o envelope, ainda insegura com relação a tudo, talvez até quanto a querer ou não saber o que há dentro dele.
Eu passo o cartão na fechadura do quarto de Camryn e abro a porta, levando a mochila dela para dentro. Ela me segue, vários passos atrás, muda e desconfiada, com o envelope entre os dedos relutantes. Deixo a mochila dela sobre o balcão da TV e verifico o quarto, como sempre faço. Ligo e desligo as luzes e testo o aquecedor antes de puxar os lençóis para ver se estão limpos. Lembrando que Camryn tem fobia de colchas de hotel, eu a arranco completamente da cama e a jogo no chão, num canto do quarto.
Ela fica perto do pé da cama, imóvel.
Eu me aproximo e fico na frente dela. Olho-a nos olhos e observo o modo como ela retribui meu olhar. Passo o indicador por sua sobrancelha e pelo lado de seu rosto e sinto o calor de sua pele sob o meu toque. Eu a quero. Quando seus olhos baixaram para os meus lábios, isso desencadeou algo predador em mim. Mas eu controlo meus impulsos, pelo seu bem. Esta noite, se tudo der certo, um ciclo vai se fechar.
— Cam foi ao funeral — Natalie me disse pelo telefone no dia em que liguei para ela da casa de Aidan. — Mas chegou tarde, ficou bem no fundo, perto da porta, e foi embora antes que a cerimônia terminasse. Ela se recusou a ir até o caixão.
— Alguma vez ela falou com você a respeito disso? — perguntei.
— Nunca — Natalie disse. — E sempre que tentei abordar o assunto, o funeral, o acidente, qualquer coisa, ela não me deixou continuar.
Esta noite vai ser dura para Camryn, mas se ela não enfrentar isso, nunca vai melhorar.
— Você sabe onde estou — sussurro suavemente, deixando minhas mãos caírem dos seus braços. — Vou ficar acordado a noite toda. Comecei a compor outra canção ontem e quero muito trabalhar nela enquanto tá fresca na minha mente. — Aos poucos, mas sempre, estamos compondo material próprio, especialmente desde a viagem a Chicago; e depois da noite em que tocamos no bar de Aidan, Camryn mostrou interesse por isso, por algum motivo.
Camryn balança a cabeça e sorri fracamente por baixo da expressão de preocupação em seu rosto, preocupação com o que se esconde dentro do envelope.
— E se eu não quiser ficar neste quarto sozinha? — ela pergunta.
— Tô pedindo pra você ficar — insisto com firmeza. — Só por esta noite.
Não quero dizer mais do que isso, mas espero que a sinceridade no meu rosto faça o que palavras poderiam fazer.
— Tá bom — ela concorda.
Eu a beijo de leve nos lábios e a deixo sozinha no quarto.
Só espero que esse tiro não saia pela culatra.
Camryn
Andrew me deixa no quarto. Sozinha. Não gosto disso, mas aprendi a lhe dar ouvidos nos curtos cinco meses que passamos juntos. Cinco meses. Isso me espanta cada vez que lembro, porque parece mais que estamos juntos há cinco anos, depois de tudo o que enfrentamos. Às vezes penso no meu ex, Christian, o namorado infiel que arranjei para preencher o vazio deixado por Ian, e com quem fiquei por quatro meses. A gente mal se conhecia. Pensando bem, agora não consigo nem lembrar o dia do seu aniversário ou o nome de sua irmã, que morava a duas quadras da casa dele.
É totalmente outro mundo com Andrew.
Em cinco meses, me encontrei com ele, me apaixonei total, incondicional e loucamente, aprendi de verdade a viver, conheci praticamente toda a sua família e logo me senti parte dela, enfrentei uma jornada desafiando a morte com Andrew, fiquei grávida e noiva. Tudo em cinco meses. E agora aqui estamos, enfrentando mais uma dificuldade. E ele continua comigo a cada passo. Fui idiota e fraca e tomei comprimidos, e ele continua aqui. Eu me pergunto se existe alguma coisa que eu possa fazer que seria tão horrível a ponto de ele me abandonar. Algo no meu coração diz que não, não existe nada capaz disso. Nada mesmo.
Nunca vou entender, enquanto eu viver, como tive a sorte de ficar com ele.
Durante esse momento de reflexão, noto que meus olhos não desviaram da porta por onde ele saiu. Finalmente, olho para o envelope na minha mão, e não sei por quê, mas fico com medo de pensar no que há dentro dele. Pensei nisso muitas vezes esta semana. Uma carta? Se for, do que poderia falar? E para quem seria, e de quem? Por que Natalie me escreveria uma carta? Por que ela escreveria para Andrew?
Nada disso faz nenhum sentido.
Eu me sento no pé da cama, deixando minha bolsa cair no chão ao meu lado, e passo os dedos pelo contorno do que está dentro do envelope. Mas já fiz isso algumas vezes esta semana e continuo chegando às mesmas conclusões: é um papel, meio grosso, dobrado duas ou três vezes. Não tem nenhuma saliência, nem mesmo algum relevo dentro. É só papel.
Eu suspiro e faço menção de soltá-lo, mas continuo segurando. Não sei por que não abro essa droga de uma vez. Está me deixando meio maluca há uma semana, e aqui estou eu, finalmente capaz de desvendar o segredo de uma vez, abrindo-o, mas tenho medo demais.
Deixo o envelope na cama e me levanto, cruzando os braços e olhando para ele com o canto do olho enquanto começo a andar pelo quarto. Me sinto ameaçada por ele, como se fosse pular em mim e cravar as garras na minha perna quando passo perto. Como aquela gata psicótica que minha tia Brenda tem. Até começo a mexer na minha bolsa, procurando o celular para ligar para Andrew e fazê-lo contar por que tudo isso, até que me dou conta de como isso seria idiota.
Finalmente, eu pego o envelope e, depois de uma longa pausa, sentindo seu peso leve em minha mão, passo a ponta do dedo pela aba colada para soltá-la. Depois de tentar romper o lacre cuidadosamente e não conseguir, mando tudo à merda e rasgo o resto de alto a baixo. Jogo o envelope esfarrapado na cama e desdobro o papel de carta, vendo que a maior parte dele está em branco. Foi usado apenas para esconder a fotografia que tem dentro. Olhando para o verso da fotografia, primeiro me recuso a virá-la para ver o que há do outro lado. Em vez disso, leio a letra de Natalie no meio do último pedaço de papel:
Esta foi a melhor que eu achei.
Espero que ajude no que você está tentando fazer, seja o que for.
Sinceramente,
Natalie
Viro a fotografia e meu coração afunda como uma pedra quando vejo o rosto vibrante e sorridente de Ian me olhando. Minha bochecha está encostada na dele, olhando para a câmera. As luzes coloridas dos brinquedos do Parque Estadual da Carolina do Norte iluminam a noite ao fundo, atrás de nós. Como se eu tivesse caído num lago congelado, ver seu rosto me deixa totalmente sem fôlego. Lágrimas brotam instantaneamente dos meus olhos, e eu deixo a foto cair dos meus dedos sobre a cama. As duas mãos sobem ao meu rosto, onde os dedos cobrem meus lábios trêmulos.
Como posso me permitir chorar por ele?! Por que isso está acontecendo?!
Eu me desfiz de todas as fotos de Ian por um motivo. De todas. Deletei cada arquivo com fotos digitais nossas, tirei seu nome do meu celular. Até joguei fora o criado-mudo que eu tinha desde criança, porque Ian entalhara IAN AMA CAMRYN na madeira por baixo dele. Tentei tirar da minha vida cada coisa que me fizesse lembrar dele, o melhor que pude, porque doía demais saber que tudo o que me restava dele eram coisas materiais. Eu não podia fazer muita coisa com as lembranças, mas me esforcei ao máximo para esquecê-las também.
Por que Andrew faria isso comigo? Trazer toda essa dor de volta à minha vida, e ainda por cima tão pouco tempo depois de perdermos Lily?
Uma parte de mim quer berrar com Andrew, sair marchando pela porta, cruzar o corredor até seu quarto e lhe dizer o quanto isso dói. Mas minha razão me alcança rapidamente. Eu sei por que ele fez isso. Eu sei por que ele me colocou neste quarto, sozinha, com esta foto. Porque ele me ama tanto que está disposto a me devolver Ian só por uma noite, para que eu possa finalmente aceitar a perda dele.
Mas não consigo olhar essa droga de foto! Não consigo!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, pego meu suéter grosso da mochila e enfio os braços de qualquer jeito nas mangas. E então saio correndo do quarto e vou para o elevador.
Segundos depois, estou sentada na areia fria da praia, olhando para o oceano sem fim.
Andrew
18
EU ME PERGUNTO se ela vai abrir. Cacete, me pergunto se ela vai me odiar por fazer isso com ela, mas se isso vai ajudá-la, aceito a barganha.
Aperto o botão de ligar do controle remoto e uma velha reprise de Seinfeld preenche o silêncio do meu quarto. Tiro os sapatos e entro no chuveiro, deixando a água quente bater em mim até ela começar a sair morna. Só consigo pensar no que Camryn está fazendo, sozinha no seu quarto, se está olhando para aquela foto de seu ex-namorado morto, e se está se aguentando. Quero ir lá ajudá-la, mas sei que é algo que ela precisa fazer sozinha. Algo que ela deveria ter feito há muito tempo, antes que nos conhecêssemos.
Depois de me enxugar, enrolo a toalha na cintura e remexo na mochila sobre a cama, procurando uma cueca. Eu me sento, olho fixamente para a TV, depois para a parede, depois para a TV de novo, até que me dou conta de que estou só tentando fazer qualquer coisa para parar de pensar em Camryn.
Deixo meu MP3 tocar umas cinco músicas aleatórias em meus ouvidos antes de decidir que preciso ao menos ver como ela está. Tento seu celular primeiro, mas ela não atende. Então uso o telefone do hotel e tento ligar para o quarto dela. Ainda sem resposta. Talvez ela esteja apenas tomando banho. Tento me obrigar a acreditar nisso, até que meu instinto fala mais alto. Visto meu jeans e uma camisa de manga comprida e atravesso o corredor até seu quarto. Encosto o ouvido na porta, tentando ouvir o chuveiro ligado. Nada. Por isso passo o cartão extra na porta para destrancá-la.
Ela não está ali. Meu coração acelera enquanto entro no quarto. A primeira coisa que noto é a fotografia, que na verdade eu nem tinha visto ainda, sobre a cama. Eu a pego e a estudo por um instante. Camryn parece tão feliz nela. Essa é a Camryn que eu conheci, aquela com um sorriso lindo e cheio de energia. Me lembro desse sorriso. Eu o vi dezenas de vezes quando estávamos na estrada juntos.
Entrando em pânico, tiro os olhos da foto e vou para a janela. Olho para o oceano negro lá fora e vejo algumas pessoas andando pelo calçadão. Com a foto ainda na mão, volto rapidamente para o meu quarto e calço os sapatos, deixando-os desamarrados enquanto saio e vou para a praia. O ar frio não é insuportável, mas é suficiente para me fazer pensar que fiz bem em usar mangas compridas. Procuro qualquer sinal dela, olhando de um lado para o outro no calçadão e nas cadeiras de praia perto do hotel, mas ela não está em lugar nenhum. Enfiando a foto no bolso de trás da calça, começo a correr um pouco e rumo para a praia.
Eu a encontro sentada na areia, não muito longe.
— Porra, amor, você me deixou apavorado.
Eu me sento ao lado dela, passando um braço ao redor do seu corpo.
Ela olha para o oceano, o vento gelado atravessando seu cabelo louro. Não olha para mim.
— Desculpa. Eu só queria...
— Eu te amo, Andrew — ela interrompe, mas continua com o olhar fixo à sua frente. — Não sei como uma garota pode ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo.
Sem saber aonde ela quer chegar com isso, tenho medo de dizer alguma coisa porque não quero dizer a coisa errada. Eu a aperto mais para compartilhar o nosso calor. E não digo uma palavra.
— Não tô brava com você — ela continua. — Primeiro fiquei, mas quero que saiba que não tô mais.
— Me fala o que você tá pensando — peço baixinho.
Ela ainda não desviou o olhar da escuridão à sua frente. As ondas mal lambem a praia a alguns metros de nós. Um pontinho branco, a luz de um barco, se move no horizonte.
De repente, sinto que Camryn está me fitando e me viro para olhá-la também. A luz dos prédios atrás de nós e do luar é suficiente apenas para mostrar seus traços suaves, os cachos do seu cabelo soprados sobre sua face fria. Eu afasto alguns fios dos seus lábios. Seu olhar se abranda quando ela me encara e diz:
— Eu amava Ian, amava muito. Mas não quero que você pense...
Eu balanço a cabeça.
— Camryn, não faz isso. Não estamos aqui pra falar de mim, tá? — Eu enfio o dedo em outro cacho do seu cabelo e o afasto da sua boca. — Não fale de mim.
Ela para por um momento, e sinto sua mão no meu colo e meus dedos se entrelaçando com os seus.
Camryn volta a olhar o oceano.
— Eu não queria ir ao funeral de Ian — ela me conta. — Não queria vê-lo pela última vez daquele jeito. — Camryn me olha. — Lembra aquele dia, no seu apartamento, quando cheguei e você tava falando ao telefone com Aidan, quando ele tava tentando te convencer a ir ao funeral do seu pai?
Balanço a cabeça.
— Lembro, sim.
— Você disse uma coisa pra ele, disse que preferia que a última vez que você visse alguém, que ele estivesse vivo, não morto, deitado num caixão. Bem, era isso que eu pensava do funeral de Ian. Eu não queria ir. Foi por isso, também, que eu não quis ver Lily. Por isso escolhi a cremação.
— Mas você foi. Ao funeral de Ian. — Eu evito o assunto de Lily por enquanto. É um caso mais doloroso. Para nós dois. Eu a vi. Era tão pequena que caberia na palma da minha mão. Mas Camryn se recusou a olhar.
Ela balança a cabeça.
— Não exatamente — ela explica, a respeito do funeral de Ian. — Eu tava lá, mas não tava. Minha maneira de me desapegar dele foi tirá-lo da minha mente, cada palavra que ele já me disse, seu rosto; tudo o que eu podia apagar, eu apaguei. Só fui porque era o que todos esperavam de mim. Se eu não estivesse tão preocupada com o que todos fossem pensar de mim, teria ficado em casa naquele dia.
— Mas isso não fecha o ciclo — digo cautelosamente. — É a mesma coisa que varrer a sujeira pra baixo do tapete. Ela continua lá. Você sabe que tá lá. E aquilo vai ficar te incomodando até você fazer certo.
— Eu sei — ela diz.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, eu enfio a mão no bolso de trás e tiro a foto.
— Sabe, se ele ainda estivesse vivo, eu ficaria com um pouco de ciúme. Até que, pra um cara, ele é gato.
Camryn sorri para mim e noto que seu olhar mal pousa na foto.
Eu a deixo na areia perto dos nossos joelhos. Então fico sério de novo.
— Camryn, isso que tá acontecendo com você, os comprimidos e tudo mais, não é só por causa da perda da Lily. Você sabe disso, não sabe?
Ela não responde, mas percebo que está pensando muito no que eu falei.
— Você bloqueia tudo. Ian. Lily. De acordo com Natalie, até a morte da sua avó, o crime de Cole, e o fato do seu pai ter ido embora e parecer se importar mais com a nova namorada do que com você. — Digo as coisas como elas são porque é exatamente assim que precisam ser ditas. — Em vez de lidar com tudo isso, chorar, o que for, você só bloqueia essas merdas e espera que desapareçam sozinhas. Você já tava fazendo isso bem antes da gente se conhecer. Mas precisa saber que tudo se acumula, e um dia você desmorona e cai num abismo.
— Sei. Você tem razão, como sempre — ela concorda desconsoladamente.
— Você acredita nisso ou tá concordando só pra me fazer calar a boca? — Abro um sorriso para ela, esperando receber outro em troca.
E funciona.
Ela sorri e diz:
— Não, eu acredito mesmo. Só queria ter acreditado nisso antes.
— Por que acredita agora?
— Porque você é uma espécie de filósofo com tatuagens. — Ela ri, e isso espalha calor pelo meu sangue.
Não acredito que ela está rindo. De início, imaginei que fosse levar muito tempo para Camryn aceitar tudo isso, mas ela me surpreende a cada dia.
— Um filósofo? — digo. — Exagerada. Mas aceito o elogio.
Camryn se vira de lado e deita a cabeça no meu colo. Ela olha para mim com aqueles olhos azuis de corça, e não consigo deixar de tocar seu rosto macio.
— Quer saber a verdade? — ela pergunta.
— Claro — respondo, mas fico um pouco ansioso, de repente.
— É como te falei na casa de Aidan — ela continua. — Se um dia eu perdesse você, logo você, isso seria o fim pra mim. Quando tive o aborto, isso fez todos os meus medos voltarem. De perder você. Foi como se aquele instante de tragédia me fizesse lembrar de novo da morte, e com que rapidez ela pula em cima de uma pessoa. Se Deus, a natureza, ou sei lá quem ou que porra controla tudo, pode ser cruel e desalmado a ponto de matar o meu bebê, então Ele pode te matar também, sem pensar duas vezes. Isso me apavora, Andrew. A ideia de perder você me mata por dentro. E como já quase te perdi uma vez, o medo fica muito pior.
— Mas eu já te disse...
Ela se levanta do meu colo e fica sentada na minha frente, com os joelhos enterrados na areia.
— Eu sei o que você disse — ela interrompe. — Mas não importa o que você pensa, ou você saber dizer todas as coisas certas pra me fazer sentir melhor. Você não tem certeza do que vai acontecer, Andrew. O tumor pode muito bem voltar, e apesar de tudo o que fazemos, de todas as precauções que tomamos, ele pode te matar.
Eu começo a discordar, mas ela está tão empenhada em me dizer essas coisas que sei que preciso deixar.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu — ela continua — e agora posso te olhar nos olhos e dizer que, por mais que isto doa, consigo aceitar a morte de Ian. Consigo aceitar a morte de Lily. Consigo aceitar a morte de qualquer um, mesmo que essa morte seja insuportavelmente dolorosa. Mas a sua... — Ela se interrompe e nem pisca ao olhar no fundo dos meus olhos. — A sua eu jamais poderia aceitar. Jamais.
O silêncio entre nós só amplifica o som do oceano. Quero pegá-la nos braços, apertar meus lábios contra os dela, mas fico sentado ali, olhando para ela, porque as palavras que ela me disse são as mais poderosas que já ouvi, senti ou entendi.
Finalmente, eu a pego em meus braços e a ponho no meu colo. Passo os braços pelas suas costas, fito seus olhos e digo:
— Acredito em você e sinto a mesma coisa.
Ela inclina um pouco a cabeça para o lado.
— Mesmo?
— Sim. Camryn, não consigo viver sem você. Eu poderia tentar, mas ia ser uma existência péssima. Isso não vale só pra mim; você pode morrer amanhã tão facilmente quanto eu. Ninguém tá imune.
Ela não discute, mas desvia o olhar por um breve momento.
Eu seguro seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me olhar. Sua pele está gelada.
— A gente precisa viver no presente, lembra? — eu digo e ela volta a prestar atenção em mim. — Precisamos fazer um pacto, você e eu, agora mesmo. Topa fazer um pacto comigo? — Movo um pouco minhas mãos para aquecer suas orelhas geladas.
Ela concorda com a cabeça.
— Tá — diz, e fico feliz por ela confiar em mim o suficiente para não fazer perguntas antes de concordar.
Tirando uma mão de sua orelha, passo as pontas dos dedos na sua testa e pelos lados de suas bochechas.
— Não podemos controlar a morte. Nenhum dos dois pode fazer nada pra evitá-la ou adiá-la. Só o que podemos controlar é como vamos viver nossas vidas antes que ela nos alcance. Portanto, vamos prometer um pro outro coisas que possamos cumprir, haja o que houver.
Camryn concorda com a cabeça e sorri um pouco.
— Que tipo de coisas? — ela pergunta.
— Qualquer coisa. Tudo o que a gente quiser um do outro. Tipo... — Eu me levanto da areia e enfio as mãos nos bolsos. Olho para o oceano, vasculhando minha mente em busca da melhor promessa para começar. Só consigo pensar numa coisa no momento, por isso me viro novamente para ela, levanto o dedo indicador e digo: — Isto não tem nada a ver com o tumor, nem com nada específico, mas quero que você me prometa que, se algum dia estiverem me mantendo vivo por aparelhos, por qualquer motivo, e você sentir no fundo do coração que eu não vou melhorar, se você sentir que eu tô sofrendo, vai mandar desligar os aparelhos.
Seu sorriso desaparece, e ela me olha como se eu tivesse estragado o momento. Eu estendo os braços e a pego pela mão, fazendo-a levantar comigo.
— Não tô tentando ser mórbido. É só uma coisa que sempre me incomodou, sabe? Você vê isso na TV e nos filmes. O cara fica ligado a todo tipo de aparelho que a ciência já inventou pra se manter vivo porque a família tem esperança ou qualquer coisa assim. Nada contra ter esperança, mas, porra, aquilo me dá um puta medo. — Eu seguro seus braços delicadamente. — Nunca me deixe viver como um vegetal. Me prometa isso. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa, e confio que você vai saber quando tiver chegado a minha hora. Então prometa.
Aos poucos, ela começa a entender. Leva um segundo, mas ela começa a concordar com a cabeça.
— Me promete a mesma coisa — ela pede.
Eu sorrio e digo:
— Tá prometido.
Ela dá um passo para trás e enfia as mãos nas mangas. Apertando bem o suéter ao redor do corpo, ela começa a andar de um lado para o outro.
Ela para e me olha.
— Promete que se um dia eu tiver mal de Alzheimer ou ficar senil e não me lembrar de ninguém, você vai me visitar todo dia e ler pra mim, como Noah lia pra Allie.
— Quem? — eu pergunto, mas aí a ficha cai. — Aaaah, entendi. — Eu rio dela e concordo com a cabeça.
Seus olhos e seu sorriso aumentam e ela grita:
— Andrew! Não tem graça! Tô falando sério! — Ela ri e eu a agarro, puxando-a para os meus braços.
— Tudo bem, tudo bem! — eu me rendo, apertando seu corpo que se retorce contra o meu.
— A ideia foi sua — ela acusa —, então não faz piada.
— Eu sei. Você tem razão, mas... é sério? Precisa ser tão fã assim de Diário de uma paixão?
Sinto o cotovelo dela atingindo meu estômago e me curvo um pouco e exagero a dor que isso me causa, contorcendo o rosto com a agonia e o riso. Para me humilhar de vez, Camryn me dá um empurrão e me derruba na areia. Depois fica por cima de mim, com um pé de cada lado do meu peito e as mãos na cintura, toda autoritária. Mantenho uma mão na barriga, rindo e tentando ficar sério, embora eu saiba muito bem que não consigo enganá-la.
— Só você pra fazer piada num momento tão sério. — Ela reclama tão seriamente que isso só me faz rir mais, sobretudo pela dificuldade dela em ficar de cara fechada.
Ela começa a se sentar em cima de mim, e provavelmente vai tentar me bater com suas mãozinhas delicadas, mas eu a seguro antes que ela comece, meto a mão no meio das pernas dela e aperto com toda a força.
— Aaaaaii! — Camryn geme, e começa a desabar, mas eu a mantenho na posição. — Que ideia é essa de apertar minhas paaarrr... porra, Andrew! Apertar minhas partes?!
Faço mais pressão e levanto aos poucos as costas da areia, guiando-a para trás. Ela fica de joelhos olhando para mim.
— Porque eu gosto — sussurro sobre seus lábios. — Agora fica parada.
O clima entre nós muda em questão de segundos. Sua pele fria fica mais quente; seus olhos, arrebatados; seu corpo, conivente.
— Tem gente aqui... — ela tenta dizer baixinho, mas minha mão apertando-a no meio das pernas lhe rouba a voz.
— Não me importa — retruco, examinando seus olhos primeiro e então seus lábios úmidos e inchados. — Eles estão longe.
— Mas... o que você tá fazendo...
— Só fica parada. Quieta. — Eu passo a língua sobre seu lábio inferior e o chupo delicadamente. Sinto que ela tenta me beijar, mas não deixo. Eu puxo o tecido de sua calça e enfio a mão dentro da cintura folgada para achar o seu calor. Caramba, ela já tá molhada. Me curvando sobre o seu pescoço, fecho os olhos e inalo o cheiro de sua pele. Ela fica bem imóvel, mas posso sentir seu corpo tremendo e seu coração batendo forte sob o meu toque. Quero tanto comê-la. Mas não vou fazer isso ainda, porque gosto de me torturar. Adoro, porra.
Minha mão livre solta sua cintura e eu a ponho em sua coxa, forçando-a a abrir mais as pernas.
— Abre — eu instruo, com meus lábios roçando nela, e Camryn faz exatamente o que eu mando, afastando os joelhos na areia. Ela fica um pouco tensa quando percebo um homem andando não muito longe, mas eu a aperto de novo, enfiando dois dedos nela e obrigando-a a olhar só para mim. Ela geme e eu estremeço silenciosamente, sentindo suas entranhas se apertando em volta dos meus dedos. Encaro seus olhos, os meus de vez em quando se perdendo no estudo da curvatura de sua boca. — Não tira os olhos de mim — digo. — Não me importa se você sentir que precisa fechar os olhos. Não feche. Continue me olhando.
Ela balança um pouco a cabeça, como se temesse que eu vá parar se ela fizer errado.
Mexo os dedos para dentro e para fora dela, lentamente de início, tirando-os e usando seu gozo para manter seu clitóris úmido, esfregando meu dedo médio sobre ele num movimento circular. Cada vez que a toco, seus olhos começam a se fechar, mas eu paro assim que percebo, e ela volta a controlar o olhar. Mexo meus dedos dentro dela de novo, um pouco mais rápido, e com o polegar faço cada vez mais pressão no seu clitóris. Pequenos gemidos escapam de seus lábios abertos, chupando o ar gelado ao nosso redor e meu hálito quente à medida que fico mais ofegante em sua boca. Mas ela nunca tira os olhos dos meus e não fala, embora eu saiba que ela queira fazer tudo isso.
— Admite uma coisa — sussurro no ouvido dela. — Neste momento, você não estaria nem aí se alguém estivesse olhando. Não é verdade? Me deixaria foder você aqui, na frente de todo mundo, e se preocuparia com a vergonha só depois que eu terminasse.
Sinto sua cabeça balançando perto da minha.
— O que mais você me deixaria fazer? — pergunto e mantenho os lábios perto do ouvido dela. Continuo mexendo os dedos.
— Tudo o que você quisesse — ela diz, com um gemido na voz.
— Tudo o que eu quisesse? — Eu esfrego meu polegar com mais força no seu clitóris.
— Tudo... — ela diz e perde um pouco o fôlego. — Qualquer porra que você quisesse...
Suas palavras, sua voz carregada de desejo, me deixam louco de tesão por ela, e meu pau está tão duro que mal consigo aguentar. Enfio os dedos com mais força e mais rápido. Seu corpo começa a tremer, suas coxas balançam tentando levantar o corpo. Eu me afasto do ouvido dela e a fito de novo. Ela mantém o olhar fixo no meu o melhor que pode, suas pálpebras estão ficando mais pesadas; sua respiração, irregular e ofegante. Mas seus olhos ficam arregalados e imóveis quando atinjo aquele ponto especial, e tomo cuidado para não interromper o ritmo.
— Não tira os olhos de mim — digo e continuo a olhá-la ferozmente.
Quando ela começa a gozar, meu olhar só fica mais forte, perfurando o dela num momento de luxúria faminta. É como se eu conseguisse ver o prazer emanando de suas íris, o calor do seu orgasmo saindo da pele sensível dos seus lábios, que querem beijar os meus tão selvagemente, mas mesmo assim eu não deixo. Quando seu corpo trêmulo começa a se acalmar, enfio os dois dedos mais fundo, sentindo-a se estreitar ao redor deles, o tempo todo mantendo a pressão no seu clitóris.
Ela desaba sobre o meu peito.
Eu envolvo seu corpo trêmulo nos braços e beijo o alto da sua cabeça.
— O que você tá fazendo comigo, caralho? — ela diz.
Eu rio um pouco e a abraço mais forte.
— Qualquer porra que eu quiser — respondo astutamente.
Erguendo a cabeça do meu peito, ela olha para mim.
— Bom, pode dizer o que quiser, mas não vai me fazer gozar desta vez sem que eu retribua o favor.
— Ah, é?
— É isso mesmo, por isso nem tenta.
— O que você vai fazer comigo, então? — Eu sinto o meu sorriso aumentando.
— Qualquer porra que eu quiser — ela diz, com um sorriso ainda maior e mais malicioso que o meu.
Então ela fica de pé e, segurando minha mão, me faz levantar com ela.
— Mas não aqui fora — ela diz. — Tá esfriando demais.
— Você que manda — digo, deixando que ela me puxe.
Eu jamais tocaria no assunto, mas noto, quando nos afastamos da praia, que Camryn olha para trás uma vez, para a foto dela e de Ian na areia. Sua mão aperta a minha forte e ela olha para meu sorriso suave quando atravessamos o calçadão.
Sei que tive muito pouco a ver com ela finalmente fechar esse ciclo. Tudo bem, eu a forcei a fazer isso, mas foi Camryn que, naquele momento, enfrentou um dos seus maiores medos. Ela olhou no rosto de alguém que amou e perdeu, e finalmente aceitou isso. Admito que foi estranho como tudo aconteceu, e eu não fui para lá com nenhuma intenção sexual, especialmente num momento como aquele. Mas Camryn, no tempo que passou sozinha naquela praia pensando em Ian, bem antes que eu chegasse, já tinha entendido tudo.
Não sei ao certo como ela fez, ou qual foi meu papel nisso, mas quando retornou da praia comigo naquela noite, ela já começava a ser como era antes.
Camryn estava voltando, e eu estava nas nuvens com ela.
Camryn
19
8 DE DEZEMBRO — meu vigésimo primeiro aniversário
Quando começou a esfriar, Andrew e eu rumamos mais para o Sul. Passamos só uma noite em Virginia Beach e de lá percorremos o litoral da Carolina do Norte, ficando alguns dias em Myrtle Beach, Carolina do Sul, onde arranjei meu primeiro emprego na estrada. Como arrumadeira. Com certeza não era a minha primeira escolha, especialmente depois que Andrew me lembrou das coisas nojentas que os hóspedes costumam deixar nos quartos. Mas era um emprego e não me incomodava tanto, a não ser quando queriam que eu lavasse cestos de lixo com catarradas nojentas grudadas no fundo. Desculpa, mas só de pensar nisso me dá vontade de vomitar. Eu ligava para Andrew e implorava que ele viesse limpar. Claro que eu o subornava com promessas de boquetes enlouquecedores em lugares públicos. Puxa, que maravilha. Não, quem eu tô tentando enganar? Adoro fazer isso por ele. Só finjo detestar às vezes, mas acho que ele gosta quando eu finjo, porque gosta de me ouvir reclamar.
De qualquer forma, pelo jeito, empregos de arrumadeira são como portas giratórias, as funcionárias vêm e vão tão rápido que seria melhor nem incluí-las oficialmente na folha de pagamento. Pensei em como isso poderia trabalhar a meu favor enquanto estivéssemos na estrada. Assim, em troca de metade do valor das diárias do quarto que estávamos ocupando, e como o quadro de funcionários do hotel estava desfalcado, eu perguntei se poderia ajudar e eles me contrataram na hora.
Mas o emprego era só temporário, pois Andrew e eu precisávamos partir de Myrtle Beach e seguir para o nosso destino, onde quer que fosse. Nunca planejamos nossos destinos antecipadamente. A nossa única regra é ficar no litoral. Pelo menos até a primavera. Mas ainda faltam alguns meses até lá e, no momento, estamos felizes instalados num hotel estilo chalé bem em frente à praia, na linda Savannah, Geórgia.
E hoje eu faço 21 anos.
Andrew me acorda de um sono profundo abrindo as cortinas da janela gigante do nosso quarto e deixando o sol invadir o ambiente.
— Levanta, aniversariante — exclama ele de algum lugar perto do pé da cama. Eu o ouço batendo várias vezes na mesinha perto da janela com a palma da mão.
Resmungo e viro para o lado, dando as costas para o sol brilhante e me enterrando nos lençóis. Uma lufada de ar frio me atinge quando Andrew me arranca os lençóis.
— Ah, vai! — gemo, encolhendo os joelhos para o peito e puxando o travesseiro para cima da minha cabeça. — Eu devia poder dormir até tarde no meu aniversário.
De repente, meu corpo está sendo arrastado da cama e eu estico os braços freneticamente, tentando me agarrar à borda do colchão. A mão de Andrew segura com firmeza o meu tornozelo. Eu chuto e esperneio, tentando me soltar, mas ele me arrasta pela cama tão rápido e sem esforço que eu simplesmente desisto. Minha bunda bate no chão e os lençóis caem ao meu redor.
— Você é tão babaca! — eu rio.
— Mas você me ama. Agora levanta.
Com o cabelo todo emaranhado, olho para Andrew e faço bico. Ele sorri para mim e estende a mão. Eu a seguro e ele me puxa de pé.
— Feliz aniversário, amor — ele diz, e me dá um selinho.
Eu me encolho um pouco, porque sei que meu bafo está podre, e já estou ficando acostumada com a mania de Andrew de aproveitar qualquer oportunidade de me lembrar disso.
Sem olhar para mim, Andrew enfia a mão no bolso do casaco e tira uma caixinha de veludo preto. Obviamente, ele já saiu hoje, mas eu estou mais interessada na caixa que ele pôs na minha mão. Olho para ele desconfiada, pronta para dar um esporro nele caso tenha gastado uma grana numa joia escondido de mim.
— Andrew? — digo, desconfiada.
— Abre de uma vez. Eu me comportei. Juro. — Ele ergue as duas mãos num gesto de rendição.
Ainda totalmente desconfiada de sua aparente sinceridade, abro a tampa da caixa e vejo um colar com pingente de diamante dentro e fico com um pouco de falta de ar. Então estreito os olhos para ele.
— Andrew, por favor. — Olho mais uma vez para o colar, me sentindo culpada só de tê-lo nas mãos. — De jeito nenhum isso foi...
— Juro — ele diz com um sorriso encantador. — Não foi caro.
Mordendo o lábio com ceticismo, eu pergunto:
— Quanto custou, então?
— Ah, uns 125 dólares. Nada mais do que isso. Juro por Deus. — Ele faz uma cruz sobre o coração com o dedo.
Então tira o colar da caixa, deixando-o pendurado na mão.
— Gostou? — pergunta, indo para trás de mim.
Instintivamente, levanto meu cabelo embaraçado enquanto ele põe o colar no meu pescoço.
— É perfeito, Andrew. Eu mais do que gostei. Eu amei. — Olho para baixo enquanto ele o fecha e seguro o pingente brilhante de prata.
Eu me viro para Andrew e fico na ponta dos pés descalços para beijá-lo apaixonadamente.
Nem imagino como uma joia dessas pode não ter custado um caminhão de dinheiro, mas ele está dizendo a verdade. Eu acho...
— Obrigada, amor — agradeço, radiante.
De repente, ele me dá um tapão na bunda e diz:
— A gente precisa sair daqui hoje. Tô de saco cheio de me esconder em quartos assim. De saco cheio do frio. Eu queria poder hibernar.
— Eu também. E o que a gente vai fazer, exatamente? — Pego uma roupa limpa da minha mochila perto da TV.
— Sei lá. Qualquer coisa. Mas põe uma roupa quente.
Ele não precisava me lembrar disso, na verdade. Nem mesmo a proximidade do litoral e a mudança de latitude ajudaram muito a nos aquecer nos últimos dias. Ambos sonhamos com a primavera e o verão, a ponto de ser a única coisa da qual falamos. Eu reclamo muito de não poder esticar os pés descalços para fora da janelinha do carro sem matar nós dois de frio, e ele reclama que ainda não conseguimos dormir num gramado sob as estrelas. Claro que não vou dizer em voz alta, senão ele vai querer ainda mais, mas não estou muito ansiosa para dormir sob as estrelas. Jamais. Não depois do que aconteceu na primeira vez que tentamos. Não. Acho que estou satisfeita com as camas de hotel. Elas não têm cobras.
O inverno é deprimente. Acho que é por isso que o índice de suicídios é tão alto no Alasca. É um estado lindo, mas ainda prefiro o calor de rachar de um deserto do Sul.
Eu visto roupas extraquentes para o meu aniversário: casaco grosso, cachecol, luvas, o que tiver eu tô vestindo. E mesmo assim tô morrendo de frio.
~~~
Andrew meio que “esquenta” o inverno. Sempre achei que caras de gorro ficam sexy, mas o jeitão dele com sua jaqueta preta de grife e seu gorro de lã, suéter cinza-escuro, jeans preto e botas Doc Martens é tudo o que eu quero de presente de aniversário. Sorrio comigo mesma enquanto andamos de mãos dadas por uma pequena multidão, todos se acotovelando no farol para se proteger do frio, e então três garotas, provavelmente turistas como nós, devoram Andrew com os olhos quando passamos. Isso acontece muito, e eu já deveria estar acostumada. Me vanglorio em segredo, mas quem não faria isso, na minha situação? Ele é a coisa mais sexy que eu já vi. Não admira que já tenha trabalhado como modelo. Ele odeia falar disso, então, naturalmente, eu toco no assunto com frequência para vê-lo sofrer. Andrew também está se barbeando menos; está com aquela barba sexy por fazer.
Subimos a escada em caracol até o farol debruçado sobre o oceano e olhamos o panorama juntos. Porque é algo para se fazer. Estamos apenas improvisando, andando de carro pela cidade e escolhendo as coisas quando as vemos. Mas, nos meses frios, até isso é um processo de tentativa e erro. Estendemos os braços sobre o corrimão e ficamos perto um do outro para nos aquecer. O vento gelado nos fustiga, naquela altitude, e eu sei que meu nariz e minhas bochechas devem estar vermelhos.
Levamos exatamente cinco minutos para mandar aquilo à merda e praticamente correr de volta para o carro.
— A gente podia ir pro cinema — ele sugere, no banco do motorista. — Ou... tá, acho melhor a gente hibernar e pronto.
Ficamos sentados por muito tempo, só pensando em alguma coisa para fazer.
— Vamos andar de carro mais um pouco — eu digo, sem nenhuma ideia.
— Talvez seja melhor ir embora de uma vez.
Dou de ombros.
— Se você quiser. — Então vejo uma placa que diz Feira de Antiguidades das Pulgas & Carrapatos.
— Vamos fazer compras — sugiro.
Andrew não parece empolgado.
— Compras?
Balanço a cabeça e aponto para a placa.
— Não no shopping, nada disso — explico. — Dá pra achar umas coisas bem bacanas em feirinhas de coisas usadas.
Sua expressão continua neutra, mas acho que ele se dá conta de que com certeza é melhor do que andar na rua no frio, ou ficar parado no carro sem fazer nada.
Andrew acaba cedendo porque, francamente, ele não tem mesmo muita escolha, e em seguida tira o carro do estacionamento e seguimos as placas até a feira de antiguidades. Encontramos um pouco de tudo: chapéus idiotas, instrumentos odontológicos antigos, colchas de retalhos feitas à mão, fitas de vídeo e discos. Andrew não se empolgou com muita coisa, até ver a caixa de madeira cheia de discos.
— Não vejo um disco do Led Zeppelin há anos — ele comenta, segurando um. A capa está tão detonada e desbotada que parece ter ficado num sótão por trinta anos, mas ele o segura com tanto cuidado que poderia ser um exemplar em perfeito estado.
— Você não tá pensando em comprar isso, tá?
— Por que não? — ele pergunta, sem olhar para mim.
Ele vira o disco e olha para o verso da capa.
— Porque é um LP?
— Tá, mas é um LP do Led Zeppelin — ele argumenta, olhando rapidamente para mim.
— Tá, e?
Ele não responde.
Eu continuo:
— Andrew, onde é que você vai tocar isso?
Finalmente ele me dá atenção total.
— Eu não vou tocar.
— Então por que quer comprar? — pergunto, e então respondo por ele, sarcasticamente. — Ah, já sei, é um artigo de colecionador. Você pode pendurá-lo no banco de trás do carro. — Dou um sorrisinho para ele.
— Ou posso pôr você no banco de trás e pendurá-lo na frente.
Eu fico levemente boquiaberta.
Andrew sorri e devolve o disco à caixa.
— Eu não vou comprar — ele resolve, pegando a minha mão.
Minutos depois, entramos em outra barraca, lotada de roupas antigas. Enquanto examino meticulosamente tudo o que há nos cabides, Andrew fica na barraca ao lado, onde centenas de DVDs e Blu-rays estão expostos numa parede. Ele para diante dela de braços cruzados, praticamente imóvel, lendo cada um dos títulos. Posso ver sua nuca através da treliça de madeira que separa seu quiosque do meu. Volto a olhar as roupas, sentindo urgência e necessidade a cada peça que toco. Eu adoro roupas antigas. Não que eu chegue a usar, ou que tenha comprado alguma vez, mas são coisas que não dá para deixar de olhar com admiração e se imaginar nelas.
Empurro os cabides finos de arame, um por um, para conseguir ver tudo. Camisas com mangas bufantes e cadarços de couro, espartilhos, vestidos plissados e com mangas longas, botas vitorianas...
O que é isso?
Meu coração para por um segundo quando puxo um dos cabides e vejo o vestido. É um modelo vintage cor de marfim, com mangas curtas drapeadas. Tiro o cabide da arara e seguro o vestido junto ao corpo, virando para o espelho. O comprimento por pouco não chega ao chão. Segurando-o com uma mão na altura certa, estico o tecido com a outra mão. Então eu rodopio.
— Meu Deus, amei este vestido — digo em voz alta para mim mesma. — Preciso comprar.
— Hãã, devo dizer — Andrew intervém por trás, me assustando — que é um vestido lindo.
Um pouco sem jeito porque Andrew provavelmente me viu enquanto eu me admirava com o vestido e falava sozinha, não olho para ele. Em vez disso, olho a etiqueta para ver se é do meu tamanho. É! Claro que agora preciso comprá-lo, sem mais perguntas. Era pra ser meu!
Abraçando apertado o vestido, eu giro para ficar de frente para Andrew.
— Você gostou mesmo? — pergunto com voz culpada, minha maneira de implorar para que ele não jogue na minha cara aquela conversa sobre o disco.
— Eu acho que você deve comprar — ele confirma, com um sorrisão cheio de covinhas. — Já posso imaginar você vestida nele. Linda. Naturalmente.
Eu fico vermelha e olho para o vestido de novo.
— Você acha? — Não consigo parar de sorrir.
— Com certeza — ele diz. — E você fica mais acessível nele.
Típico!
Ignoro seu comentário pervertido, sobretudo porque estou apaixonada demais pelo vestido. Então me dou conta de que ainda não olhei o preço. Conhecendo os vestidos daquela marca, sei que eles não são caros. Mas quando o vendedor é alguém que acha que pode enganar um cliente, fazendo-o pagar três vezes o valor justo, não há como prever o preço na etiqueta. Prendo a respiração e olho o valor. Vinte contos! Perfeito.
Olho mais uma vez para Andrew e de repente me sinto uma vaca reclamona.
— Por que você não compra aquele disco do Led Zeppelin também? — digo timidamente.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Não, um LP antigo não serve pra nada mesmo. Mas um vestido como esse tem sua serventia. — Ele cruza os braços e me olha de cima a baixo.
Eu acho que ele está bancando o pervertido de novo, e dessa vez abro a boca para acusá-lo, quando ele acrescenta:
— Casar comigo vestida nele, por exemplo.
Seus olhos verdes parecem cruzar rapidamente os meus.
Meu sorriso se abranda e eu digo:
— É um vestido de noiva perfeito.
— Então tá combinado — ele diz, segurando a minha mão. — Quando a gente se casar, pelo menos você já vai ter o vestido.
— Só precisamos disso, na verdade — digo, saindo com ele da barraca com o vestido pendurado no braço.
Ele olha para mim.
— Alianças — ele diz, com um olhar estranho.
— Eu tenho aliança — digo, levantando a mão, achando que por algum motivo ele se esqueceu do anel que me comprou no Texas.
— Isso é um anel de noivado.
— É, mas basta.
— Bom, eu também preciso de uma. Ou você se esqueceu de mim? Casamento é pra dois, sabe.
Eu rio baixinho enquanto chegamos à pequena fila da caixa.
— Tá, tem razão, mas eu tô feliz com o meu anel. Além disso, eu sei que você gastou uma grana com este colar. Não pode fazer essas coisas.
— Vamos começar com isso de novo? — ele pergunta em tom brincalhão, tirando a carteira do bolso. — Não menti pra você sobre o preço do colar.
Talvez ele esteja mesmo dizendo a verdade.
— Acredito em você — digo finalmente.
Ele sorri e deixa por isso mesmo.
Andrew
20
SIM, SOU UM baita mentiroso. Aquele colar custou pouco mais de 600 dólares, mas sei que não posso contar pra ela. Ela acha que o que importa nas coisas caras é quantos zeros há antes da vírgula, mas nem sempre é isso. Francamente, acho que normalmente é pra mulher que o preço importa tanto. Porra, já ouvi garotas reclamando e choramingando porque o cara delas não gastou o suficiente. Eu queria saber se elas percebem como dificultam a nossa vida quando se juntam com as amigas e comparam pedras como nós, homens, comparamos nossas ferramentas. A propósito, a gente não faz isso, na verdade. Pelo menos eu nunca consegui encontrar um cara que quisesse abrir o zíper e competir comigo.
Eu queria comprar algo bem legal pra Camryn no aniversário dela. Por pura coincidência, aquilo de que eu mais gostei, entre as coisas que vi, era caro.
Aceite isso, amor.
Ela é capaz de desmaiar se descobrir quanto eu gastei nas nossas alianças, que comprei enquanto estávamos em Chicago. Está difícil evitar que Camryn as veja. Mas consegui enfiar a caixinha num bolso escondido da minha mochila.
Passamos o dia todo fazendo o que sempre fazemos, ficando juntos e aproveitando o tempo frio como dá. Quando voltamos para o hotel, pego o violão e toco para ela uma canção que compus e na qual estou trabalhando há uma semana. Eu esperava terminá-la até o dia do aniversário porque faz parte do presente dela. Compus só pra ela. Eu a chamo de “A Tulipa na Colina”, uma canção inspirada pelo primeiro dia que passamos juntos quando eu saí do hospital, depois da minha cirurgia.
— Eu acho que você deve pegar leve — Camryn disse naquele dia. — Nada de enfiar a cabeça nos motores de Billy Frank por uns tempos, nem bungee jumping, nem corridas de carros.
Eu ri um pouco, virando a cabeça para o lado para vê-la. Eu estava deitado de comprido numa mesa de piquenique de pedra. Camryn estava sentada no banco, perto da minha cabeça.
— Então sua definição de pegar leve é não fazer absolutamente nada? — perguntei, sorrindo para ela, com a cabeça apoiada nas mãos.
— O que tem de errado em passar um dia calmo no parque? — ela perguntou, passando os dedos na minha testa.
— Nada — respondi e beijei-lhe os dedos quando sua mão chegou à minha boca. — Eu gosto de ficar sozinho com você.
Ela virou a cabeça devagar para o lado e sua expressão ficou mais meiga. Depois olhou para o parque. As árvores estavam frondosas, e a grama, espessa e verdejante. Estava realmente um dia lindo. Fiquei me perguntando por que só nós dois, aparentemente, estávamos ali, aproveitando.
— Acho tulipas bonitas — ela disse com voz distante, olhando para a pequena colina coberta de grama do meu outro lado.
Olhei também e vi uma única tulipa brotando no alto daquela colina, sozinha. Não sei bem por quê, mas desde aquele dia, sempre que vejo uma tulipa em qualquer lugar, penso em Camryn.
Eu nunca vou esquecer o sorriso em seu rosto enquanto toco e canto a canção para ela. É tão terno, radiante e carinhoso, o tipo de sorriso que diz Amo Você Mais Do Que Tudo Neste Mundo sem precisar dizer essas palavras.
CONTINUA
14
QUANDO CHEGO AO banheiro, tem uma fila de mulheres esperando por cabines vazias. O ar está espesso com o bafo de álcool, perfume e roupas cheirando a cigarro. Uma porta de cabine se abre e fecha com uma batida violenta de poucos em poucos segundos quando alguém entra ou sai. Lavo as mãos primeiro, precisando me espremer entre duas garotas bêbadas sentadas no balcão da pia, uma de cada lado. Por sorte, elas são o tipo de bêbada supersimpática, porque não estou podendo com uma briguenta e grosseira hoje. Elas pedem desculpas por atrapalhar e se afastam para me dar espaço.
— Obrigada — digo, abrindo a torneira.
— Ei, você é a menina que tava cantando — a garota da esquerda diz, apontando para mim e sorrindo. Ela olha para a amiga do outro lado, depois para mim de novo.
— É, acho que sou eu.
Não estou nem um pouco a fim de conversa de banheiro. Quanto mais tempo passo num banheiro público, com mais nojo eu fico.
— Vocês dois são muito bons — ela diz com um sorrisão.
— É, sério — a amiga dela confirma. — Por que estão cantando em bares, afinal?
Eu dou de ombros e espremo mais sabão do reservatório na mão e tento evitá-las o mais gentilmente possível.
— De verdade — a da esquerda acrescenta. — Eu pagaria pra ver vocês tocarem.
Tudo bem, eu não sou totalmente imune a elogios. Sorrio e agradeço de novo.
Quando mais duas cabines ficam desocupadas, elas aproveitam a oportunidade e se trancam nelas. Logo depois, acenam em despedida e me desejam boa sorte na minha “carreira musical”. Quando estou quase sozinha, me viro para o espelho, mas não olho para mim. Em vez disso, enfio a mão no bolso e pego um comprimido, engolindo-o com água da pia.
É só pra tirar o nervoso.
Então eu me olho, empurrando o comprimido e o sentimento de culpa que vem cada vez que tomo um para o fundo da minha mente. Invento pretextos para justificar tomá-lo e quase engano a mim mesma. Mas eu sei que a culpa que sempre sinto tem um motivo.
Em menos de 11 minutos, não me importo mais com a culpa, os pretextos ou o nervoso, porque essa parte do meu cérebro foi adormecida.
Passo as pontas dos dedos embaixo dos olhos para limpar o rímel borrado, depois enxugo a oleosidade do meu rosto com papel higiênico. Preciso estar de cara boa quando voltar lá. Me sinto ótima, mas preciso parecer tão bem quanto me sinto.
Abrindo caminho em meio à multidão, encontro Aidan e Michelle de pé perto do enorme balcão do bar e me junto a eles. Então lembro que Andrew foi buscar uma bebida para mim, mas não quero atravessar aquele mar de gente de novo só para pegá-la.
— Vocês dois são fantásticos! — Michelle grita por cima da multidão barulhenta. Ela me abraça e eu retribuo, sentindo meu sorriso movido a comprimidos se alargando muito em meu rosto.
Eu me viro para Aidan.
— O que você achou?
— Concordo com Michelle! Vocês deveriam compor seu próprio repertório e tocar aqui mais vezes. Tem sempre caçadores de talentos aqui no bar. E celebridades. — Ele aponta para a parede do fundo, onde uma série de fotografias autografadas de vários músicos e astros do cinema formam uma linha reta. — Comecem a tocar material próprio — ele continua. — Aposto que vocês dois seriam contratados por uma gravadora em menos de um ano.
Estou tão chapada, no momento, que ele poderia me dizer que achou a gente uma bosta e sem futuro nenhum na música, e eu sorriria do mesmo jeito, deixando as palavras passarem por mim como uma brisa.
Olho para o outro lado do salão e vejo Andrew no palco com sua guitarra e a banda da casa, se preparando para a canção que é sua marca registrada, “Laugh, I Nearly Died”. Ele provavelmente não me vê no meio da multidão, mas sabe que estou assistindo. Adoro vê-lo no palco, no seu elemento. Sei que, por mais que sejamos bons juntos, musicalmente, ele sempre é mais dono do palco quando toca sozinho. Talvez seja impressão minha, mas gosto de pensar nele como na primeira vez que o vi tocar. Porque naquela noite em Nova Orleans, ele estava cantando para mim, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu faria qualquer coisa pra me sentir assim de novo. Qualquer coisa...
Segundos depois de começar a tocar, Andrew, como sempre, tem a atenção de todos os presentes. As duas garotas na mesa estão de pé agora, dançando juntas de um jeito provocante, mas eu sei que é tudo para Andrew. Já vi isso antes. Elas o querem, e Andrew deixa que acreditem, só por uma noite, que ele também as quer. É perfeitamente inofensivo. Andrew e eu encaramos isso como uma maneira de levantar a autoestima dos outros. Um pouco de paquera aqui e ali, tornar uma garota ou um cara de sorte o centro das atenções só pelo tempo suficiente para corar e sorrir. Nunca se sabe o que acontece na vida das pessoas a portas fechadas, e um pouco de energia positiva da paquera nunca atrapalha.
Quando voltamos para a casa de Aidan e Michelle pouco depois da meia-noite, vou para a cama antes de todos. Fico deitada por uma hora, ouvindo as vozes deles vindo do corredor e entrando no quarto. Andrew ia se deitar comigo, mas insisti para que ele ficasse com o irmão. Ele anda se preocupando demais comigo ultimamente. Vamos voltar para Raleigh amanhã, e quero que ele passe o maior tempo possível com Aidan.
Mais uma hora passa e eu continuo acordada.
Frustrada, enfio a mão na bolsa, procurando o frasco. Sem nem perceber, já estou nos últimos comprimidos.
Desmaio com três, desta vez.
Andrew
15
— CAMRYN? AMOR, acorda, por favor. — Eu a sacudo com força pelo ombro.
Minha emoção dominante, no momento, é o medo. Minhas emoções secundárias são raiva e mágoa. Mas, estranhamente, a sensação de incerteza está mantendo todas as outras a distância.
Eu a sacudo de novo.
— Levanta.
Não faço ideia de quantas dessas porras de comprimidos ela tomou, mas julgando pelo frasco quase vazio, a perspectiva de ter sido o suficiente para uma overdose faz uma onda de pânico percorrer todo o meu corpo. Mas ela está respirando normalmente e seu ritmo cardíaco parece normal. Se ela não acordar...
Seus olhos se abrem lentamente, e eu respiro mais aliviado.
— Camryn. Olha pra mim.
Finalmente, ela acorda o suficiente para me olhar nos olhos.
— Que que foi? — Ela geme suavemente e tenta fechar os olhos de novo, mas eu a seguro pelos ombros e a obrigo a se sentar.
— Acorda. Fica de olhos abertos.
Ela se senta, toda mole, mas não é nada tão fora do comum, depois de ter sido forçada a acordar e a se endireitar assim.
— Quantos você tomou?
Michelle está na porta do quarto, atrás de mim.
— Quer que eu chame uma ambulância?
De repente, Camryn fica completamente alerta. Não sei se minha pergunta finalmente a alcançou ou se foi a menção de uma ambulância, mas ela me encara com olhos arregalados e assustados.
— Quantas dessas porras de comprimidos você tomou?
Ela desvia o olhar do meu e vê o frasco de comprimidos sobre o criado-mudo. Quando decidi que dormir até depois das 14h não era típico dela e fui ver o que estava acontecendo, encontrei o frasco no chão.
— Camryn? — Eu a sacudo de novo e ela volta a prestar atenção em mim.
Ela só me olha. Vejo tanta coisa em seus olhos agora que não sei dizer se é mais humilhação, arrependimento, mágoa, raiva ou resignação. E então seus olhos começam a se encher de lágrimas. Sinto seu corpo se agitando sob o peso dos meus braços. Ela desata a chorar, caindo em meus braços, soluçando descontroladamente, e aquilo me despedaça.
— Andrew? — Michelle diz da porta.
Sem olhar para trás, eu digo:
— Não, ela vai ficar bem. — E engulo minhas próprias lágrimas e a raiva, sentindo meu peito se apertar.
A porta se fecha silenciosamente atrás de mim quando Michelle sai do quarto.
Abraço Camryn por muito tempo, deixando-a chorar no meu peito. Não digo uma palavra. Ainda não. Em parte porque sei que ela precisa disso, poder chorar e desabafar. Mas a outra parte de mim está tão puta da vida e magoada que sinto que vou precisar me afastar e me recompor para não dizer coisas erradas. Eu a abraço forte, apertando os braços em volta do seu corpo trêmulo. Beijo seu cabelo e tento não chorar também. A parte de mim que está puta da vida ajuda nisso.
— Eu sinto muito! — ela grita e, nessa fração de segundo, quando ouço a dor em sua voz, minha raiva se apaga quase completamente e eu a abraço ainda mais forte.
— Tá pedindo desculpas pra mim? — pergunto, incrédulo. Eu a afasto, segurando-a firme pelos antebraços. Balançando a cabeça furiosamente, volto a ficar como alguns minutos atrás. — Não, primeiro você precisa me dizer quantos você tomou. — Eu a encaro com firmeza.
— Ontem à noite. Só três.
— Quantos tinha no frasco no total?
— Não sei. Uns vinte.
— Então há quanto tempo você tá tomando?
Ela faz uma pausa e responde.
— Desde terça. São da minha mãe. Tomei um quando tava com dor de cabeça, mas aí comecei a tomar... — Seus olhos se enchem de água novamente.
Eu enxugo as lágrimas do seu rosto.
— Puta que pariu, Camryn! — exclamo, puxando-a para o meu peito por mais um breve momento. — O que você tava pensando, porra?
— Eu não pensei! — ela grita. — Não sei o que eu tenho!
Seguro seu rosto com as palmas das mãos.
— Você sabe o que você tem. Tá arrasada por perder a Lily e não sabe como lidar com isso. Só queria que você tivesse falado comigo.
Com o rosto dela ainda nas mãos, seus olhos desviam dos meus. O silêncio tenebroso entre nós me afeta da forma mais estranha.
— Camryn? — Tento fazê-la me olhar de novo, mas ela se recusa. — Fala comigo. Você precisa falar comigo. Escuta, você não fez nada errado, nem poderia ter evitado o que aconteceu. Precisa saber disso. Precisa enten...
Sua cabeça se desvencilha das minhas mãos, seus olhos penetrando os meus, cheios de dor e de... algo mais.
— É culpa minha! — ela diz, se afastando de mim na cama.
Ela se levanta do outro lado e cruza os braços, me dando as costas.
— Não é culpa sua, Camryn. — Ando até ela, mas assim que sente que vou me aproximar, ela se vira.
— É culpa minha sim, Andrew! — ela repete, com as lágrimas escorrendo dos olhos. — Eu não conseguia parar de pensar que minha gravidez ia ferrar com tudo! Detestava continuar morando em Galveston depois de quatro meses! Fiquei me perguntando como a gente ia fazer tudo o que queria com um bebê! Por isso, sim, é culpa minha que a perdemos e eu me odeio por isso, caralho! — Ela esconde o rosto nas mãos.
Atravesso a curta distância até ela, tomando-a em meus braços de novo.
— Meu Deus, Camryn, não foi culpa sua! — Acho que nunca falei nada para ninguém com tanta emoção. Meu peito tremia incontrolavelmente contra o dela.
— Olha pra mim! — imploro, afastando-a. — Isso é tão normal. E se você é culpada, então eu também sou. Tive esses pensamentos de vez em quando, mas, como você também, não teria desistido dela nem se pudesse.
Ela não precisa confirmar essa afirmação em voz alta, porque sei que ela também não teria desistido. Mas ela confirma assim mesmo: — Não lamentei nada engravidar dela. E eu... quero minha bebê de volta!
— Eu sei. Eu sei. — Eu a abraço apertado e ando com ela até o pé da cama, fazendo-a sentar. Eu me agacho entre as pernas dela, apoiando os braços em suas coxas e tomando suas mãos nas minhas. Olho para ela e digo mais uma vez: — Não foi culpa sua.
Ela enxuga algumas lágrimas e nós ficamos sentados assim pelo que parece uma eternidade. Acho que ela acredita em mim — ou isso ou está só evitando encarar a realidade. Então ela olha para a parede atrás da minha cabeça e diz baixinho: — Isso faz de mim uma viciada em drogas?
Quero rir, mas não rio. Em vez disso, apenas balanço a cabeça e sorrio suavemente para ela, apertando as pontas dos dedos em suas mãos.
— Foi um momento de fraqueza, e até a pessoa mais forte não é imune à fraqueza, Camryn. Quatro dias e um frasco de analgésicos não fazem de você uma viciada em drogas. É falta de juízo, mas não é vício.
Ela olha de novo para mim.
— Michelle e Aidan vão achar que é.
Balanço a cabeça.
— Não, não vão. E ninguém mais vai. — Eu me levanto e me sento ao lado dela. — Além disso, não é da conta de ninguém, porra. É uma coisa que só você e eu precisamos saber e enfrentar.
— Nunca fiz nada assim antes — ela continua, olhando para a frente. — Não acredito...
— Você estava diferente. Está diferente desde que Lily morreu.
O quarto fica estranhamente em silêncio de novo. Olho para ela de lado, mas a deixo em silêncio por um momento. Ela parece perdida em pensamentos.
E então ela diz:
— Andrew, talvez nós não devêssemos estar juntos. — E suas palavras me atingem tão rápido e com tanta força que sinto que falta ar nos meus pulmões.
Fico tão surpreso que é como se suas palavras tivessem roubado todas as minhas. Meu coração está disparado.
Finalmente, quando ela não elabora, consigo balbuciar:
— Por que tá dizendo isso? — E fico com medo de sua resposta.
Ela continua olhando para a frente, com as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto. E então ela olha para mim e vejo a mesma dor intensa em seus olhos que eu sei que ela vê nos meus.
— Porque todo mundo que eu amo acaba me abandonando ou morrendo.
O alívio me invade, mas é superado pela sua dor.
É nesse exato momento que percebo que essa é a primeira vez que Camryn se abriu a respeito disso tudo comigo, ou com qualquer outra pessoa. Penso nas coisas que Natalie me contou, e nas conversas que Camryn e eu tivemos na estrada, e sei que no momento Camryn está admitindo a dimensão de sua dor não só para outra pessoa, mas o mais importante, para si mesma.
— Eu me sinto tão egoísta dizendo isso — ela continua, e deixo que ela fale à vontade, sem interrupções. — Meu pai abandonou a gente. Minha mãe mudou. Minha avó, a única pessoa que continuou a mesma e sempre me apoiou quando precisei, morreu. Ian morreu. Cole foi pra prisão. Natalie me apunhalou pelas costas. Lily... — Ela olha para mim, finalmente, a dor intensificada em seu rosto. — E você.
— Eu? — Me agacho diante dela de novo. — Mas eu tô aqui, Camryn. Vou estar sempre aqui. — Tomo as mãos dela nas minhas. — Não importa o que você faça, ou o que aconteça entre a gente. Nunca vou te abandonar. Vou estar sempre com você. — Aperto as mãos dela. — Lembra quando eu disse que você era a coisa mais importante do mundo pra mim? Você pediu que eu te lembrasse disso, se um dia você esquecesse. Bom, eu tô te lembrando agora.
Soluços percorrem seu corpo.
— Mas você podia ter morrido — ela insiste, com choro na voz. — Cada dia que passei naquele hospital, pensei que seria o seu último. E aí quando não era e você resistia, eu continuava prevendo isso mesmo assim. Semanas, meses depois, porque uma parte de mim achava que eu precisava me acostumar com a ideia de perder você. Um dia. Porque eu sabia que você ia me deixar de um jeito ou de outro. Como todo mundo.
— Mas eu não deixei — digo com desespero, sorrindo um pouco ao mesmo tempo. Eu me sento no chão e a puxo para perto de mim. — Eu não morri. Não morri porque eu sabia que você tava lá comigo o tempo todo. Porque eu sabia que nosso destino era ficar juntos, e que se você vivesse, eu também viveria.
— Mas e se você morrer? — ela pergunta.
Isso eu não esperava.
— E se o tumor voltar?
— Não vai voltar — respondo. — E mesmo se voltar, vou vencê-lo de novo. Cacete, eu fiquei oito meses sem ir ao médico e venci assim mesmo. Com você na minha vida, me atormentando pra me fazer ir aos checkups regularmente, de jeito nenhum ele vai me matar.
Ela não parece totalmente convencida disso, mas vejo um pequeno raio de esperança em seu rosto, e era isso que eu queria ver.
— Eu sinto muito mesmo — ela diz, mas em vez de dizer que não precisa, também deixo que ela viva esse momento, porque parece mais que ela está se permitindo fechar um ciclo. — Aposto que você nunca pediu pra ter um fardo absurdo desses. — Ela passa os dedos sob os olhos.
Tentando aliviar um pouco o clima, esfrego as mãos em seus joelhos nus e digo: — Eu te amaria mesmo se você fosse uma daquelas garotas que correm pro banheiro pra vomitar depois de comer, ou se tivesse o fetiche secreto de transar com um palhaço.
Ela ri baixinho em meio às lágrimas, e isso me faz sorrir.
Levanto o queixo dela com um dedo e fico sério de novo, olhando bem em seus lindos olhos azuis e úmidos.
— Camryn, Lily não tava pronta, só isso. Não sei por que, mas você não pode se culpar por ela ou por qualquer um. E você precisa entender que estamos nisso juntos. Em tudo. Acredita nisso?
Ela balança a cabeça.
— Sim.
Eu me curvo e a beijo primeiro na testa, depois nos lábios.
Segue-se o silêncio, e a atmosfera no quarto parece diferente. Mais brilhante. Eu sei que Camryn não vai voltar a ficar 100% da noite pro dia, mas posso ver que ela já está melhor. Percebo só de olhar que ela se sente menos carregada, agora que tirou essas merdas da cabeça. Ela precisava disso. Precisava de alguém para fazê-la cair na real. Não alguém indiferente, ou que desse apenas respostas prontas para tudo.
Ela precisava de mim.
Eu me levanto e pego a mão dela.
— Vem cá.
Ela me segue, pego o frasco de comprimidos da mesa ao lado da cama e a puxo comigo para o banheiro da suíte. Levanto a tampa da privada e entrego o frasco a ela. E antes que eu diga qualquer coisa, Camryn vira o frasco sem hesitação e joga os últimos quatro ou cinco comprimidos na privada.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão fraca. — Ela olha para a água enquanto os comprimidos giram no vaso e são sugados pelo cano. Depois olha para mim. — Andrew, eu podia facilmente ter ficado viciada neles. Não consigo imaginar...
— Mas você não ficou — interrompo, antes que ela fique remoendo aquilo mais. — E você tem direito a um momento de fraqueza. E chega.
Eu saio do banheiro e ando pelo quarto. Ela me segue e fica parada no meio do quarto, me olhando.
— Andrew?
Eu paro, me viro para ela e digo:
— Me dá uma semana.
Ela parece meio confusa.
— Uma semana pra quê?
Sorrio fracamente.
— Só concorda. Fica aqui comigo uma semana.
Cada vez mais confusa, ela diz:
— Hãã, tá. Vou ficar aqui com você uma semana — embora esteja estampado em seu rosto que ela não sabe com o que está concordando.
Mas ela confia, e isso significa tudo para mim. Vou dar a nós dois o que ambos precisamos, querendo ela ou não.
Camryn
16
Dia Três
Nunca pensei nem por um minuto que seria capaz de fazer o que fiz. Andrew chama de um momento de fraqueza e talvez tenha razão, mas vai levar tempo pra cacete pra que eu consiga me perdoar por aquilo.
Michelle deixou claro que não vai me julgar, e embora isso me faça sentir melhor, me sinto humilhada sempre que estou na presença dela ou de Aidan. Talvez seja por isso que eu me sinta tão mal, por eles serem tão compreensivos.
Uma semana. Nem faço ideia do que Andrew quis dizer com isso, mas estou em dívida com ele, por isso não faço perguntas e deixo que ele faça o que está planejando. Ele andou bem misterioso nos últimos dias, muitas vezes atendendo ligações em outros quartos para que eu não pudesse ouvir. Só tentei escutar uma vez, simplesmente ficando bem quieta no sofá quando ele foi para a cozinha falar com Asher. Mas então bisbilhotar assim me fez sentir culpada, por isso aumentei o volume da TV para não conseguir ouvir.
E posso ter tomado os comprimidos só por uma semana, mas pelo jeito foi tempo suficiente para eu ainda me sentir zonza três dias depois dos últimos que tomei. Me sinto mal, até mais incapaz de dormir do que antes de começar a tomá-los, mas pelo menos as dorezinhas de cabeça finalmente estão começando a desaparecer. Não consigo imaginar ficar viciada neles por meses ou anos. Sinto pena de quem fica...
Dia Quatro
Aidan entra com um pequeno maço de correspondências na mão, olhando cada uma enquanto anda pela sala.
Ele para num envelope branco por um segundo, constrangido, e o levanta, olhando para mim primeiro, até que Andrew entra na sala.
— Parece que esta é pra você. — Ele me olha de novo, mas entrega o envelope a Andrew.
Isso me dá uma sensação muito estranha, então me levanto instintivamente da espreguiçadeira e me aproximo de Andrew para ver o que é.
Pouco antes que Andrew escondesse o envelope de mim, vejo o nome de Natalie escrito nele.
Ele também sabe que eu vi.
— Não — diz Andrew, balançando a cabeça. — Vou deixar você ver outro dia. — E então ele enfia o envelope no bolso de trás do jeans.
Confio totalmente nele, mas sou humana, e uma pequena parte de mim está nervosa com essa situação toda. Por que Natalie mandaria uma carta para Andrew? Confiando ou não, a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um é se perguntar se tem alguma coisa acontecendo entre os dois. Mas isso é absurdo, e afasto essa ideia da minha mente com a mesma rapidez que ela veio.
Eles estão conspirando contra mim.
Eu só queria saber o que está acontecendo.
Dia Cinco
Falei com Natalie, minha mãe e Marna por telefone hoje. Marna tenta agir como se nada tivesse acontecido com o bebê, e é tão boa nisso quanto Michelle foi no meu primeiro dia em Chicago. Ela é tão meiga e delicada. Minha mãe, por outro lado, parece não conseguir falar de outra coisa além do meu relacionamento com Andrew. Ela me persegue sempre que pode, perguntando quando vamos nos casar, e resolveu enfiar na cabeça que vamos fazer isso do jeito que todo mundo faz. Tento dizer a ela que não quero um vestido caro, uma capela ou milhares de dólares em flores que vão murchar na semana seguinte, mas é como se ela nem me escutasse. Ela só quer que a gente se case. Talvez assim se sinta melhor com ele dormindo no meu quarto. Não faço ideia do que passa pela cabeça da minha mãe, e metade do tempo acho que nem ela sabe.
Andrew foi a um médico aqui em Chicago fazer um checkup hoje. E como toda vez que ele vai, fico até com enjoo de preocupação até que acabe. Por sorte, ele voltou com boas notícias.
Dia Seis
Falo com Natalie por telefone de novo, mas novamente não menciono o envelope. Ela também não está agindo naturalmente. É óbvio que está se esforçando para não entregar nenhum dos segredos de Andrew, o que deixa as conversas cheias de momentos silenciosos e constrangidos. Quero rir dela por ser tão péssima em agir normalmente, quando só o que ela quer é me contar tudo e dar o assunto por encerrado.
Dia Sete
Esta semana foi uma das mais longas da minha vida. Fico na cama até mais tarde porque está começando a esfriar, mas também porque estou nervosa e não consigo fazer outra coisa. Andrew se levantou há uma hora, e só o vi voltar para o quarto uma vez, para calçar os sapatos. Ele me beijou e sorriu para mim como se estivesse secretamente empolgado, e então saiu de novo sem dizer uma palavra.
Eu viro para o lado, enrolada no cobertor, e olho pela janela. O sol está brilhando hoje, e o céu está azul e sem nuvens.
Ouço os três andando pela casa.
Os sapatos de Andrew rangem sobre o chão de madeira na porta do nosso quarto. Ele abre a porta e fica na entrada, olhando para mim.
— Levanta e se veste — ele diz, com a mão ainda na maçaneta.
Eu só o olho por um segundo, achando que talvez ele vá explicar o que vamos fazer, mas ele só aponta para os meus sapatos no chão, como que dizendo calce-os, depois fecha a porta e me deixa sozinha.
Faço exatamente o que ele manda. Me levanto e visto meu jeans favorito e uma blusa folgada de tricô de mangas compridas, depois um par de meias e meus mocassins. Quando saio do quarto para a sala, vejo Michelle encolhida no canto do sofá, com um cobertor sobre as pernas, vendo TV. Ela se vira para me ver, e está com um sorriso aberto, como se soubesse algo que não sei. E com certeza sabe.
— Ele tá lá fora com Aidan — ela diz, acenando na direção da porta.
Cada vez mais nervosa, ando lentamente até a porta e a abro.
Saindo na varanda de pedra, vejo Andrew e Aidan de pé do lado da estrada, em frente à casa, com Asher, e todos eles estão encostados na lateral do Chevelle.
Por um momento eu penso: Tá, então Asher veio nos visitar, é só isso que tá acontecendo? Não que eu não fique feliz em ver Asher, mas, francamente, não é algo que eu imaginaria que fosse justificar todos esses planos de Andrew em segredo.
É o carro, percebo, mas é só isso que consigo entender sozinha. Tenho uma teoria sobre o motivo de ele tê-lo trazido para cá, mas a esta altura vou só fazer o melhor que posso para não pensar nisso.
Desço rapidamente os degraus de pedra e dou um abraço apertado em Asher.
— Você tá ótima, garota — ele diz, com aquelas covinhas e os olhos verdes e brilhantes quase idênticos aos de Andrew. Então ele me aperta e me levanta um pouco do chão.
— É muito bom te ver — digo, sorrindo.
Fico correndo os olhos dele para Andrew, que está sorrindo tanto que duvido que consiga manter o mistério por muito mais tempo.
Olho para o Chevelle e então para Asher. Olho de novo.
— Então você veio dirigindo lá de... — Tudo bem, é um pouco mais intrigante do que eu imaginava. O carro estava no Texas, até onde eu sei, e Asher estava em Wyoming. Finalmente continuo: — O que tá acontecendo?
Asher olha para Andrew, e Andrew dá um passo à frente.
— Eu pedi que Asher trouxesse o carro pra cá — ele diz.
— Mas por quê?
Asher cruza os braços e se apoia na porta de trás do carro.
— Porque ele é doido — Asher diz, rindo baixinho. — E porque não confiou num serviço de entregas pra trazer o carro.
Eu me viro para Andrew de novo, esperando que ele desembuche. Uma brisa fria atravessa minha blusa de tricô e eu enfio as mãos nas mangas.
— Você tem cinco minutos pra botar todas as suas coisas na mala — ele diz, e meu coração começa a bater descompassado antes que ele termine a frase. Ele bate no pulso sem relógio. — Nem um segundo a mais.
— Andrew...
— Isso não tá em discussão — ele diz. — Vai pegar suas coisas.
Eu só olho para ele, sem expressão.
Minha teoria estava certa, mas eu não queria que estivesse. Não quero cair na estrada... Isto é, eu quero... mas não está certo. Isso não está certo.
— Agora você tem quatro minutos — Asher diz.
— Mas a gente não pode partir assim — eu argumento. — Seria grosseria. — Aponto para Asher. — E Asher acabou de chegar. Você não quer ver...?
— Posso ver meu irmão mais velho a hora que eu quiser — Asher rebate. — No momento, acho melhor você fazer o que ele mandou, ou vai acabar na estrada, usando a mesma calcinha por uma semana.
Mais alguns segundos se passam e eu ainda não me mexi. Estou num leve estado de choque, acho.
— Três minutos, amor — Andrew diz, e está me olhando com expressão séria. — Não tô brincando. Sobe lá, bota suas porras nas malas e entra nessa merda de carro.
Cacete, ele voltou a ser como era...
Quando começo a discutir de novo, os olhos de Andrew ficam ferozes e ele diz:
— Anda logo. O tempo tá acabando! — E aponta para a casa.
Finalmente, baixando a guarda e entrando no clima tanto quanto posso me permitir, olho para ele com raiva e digo:
— Tudo bem. — Só concordo porque sei que ele está tentando melhorar as coisas. Mas me sinto culpada pra caramba.
Desconsiderando seu prazo bem-humorado de cinco minutos, giro nos calcanhares e ando muito lentamente na direção da casa, demorando de propósito, em parte minha maneira silenciosa de discordar da situação.
— Você sabia disso, Michelle? — pergunto quando passo por ela e vou para o corredor.
— Com certeza! — ela grita em resposta. Posso ouvir o sorriso em sua voz.
Abro a porta do quarto, ponho a mochila sobre a cama e começo a enfiar tudo dentro dela. Depois vou para o banheiro, pego nossas escovas de dentes e vários artigos de toalete. Arranco nossos carregadores da parede, pego meu celular do criado-mudo e enfio tudo na minha bolsa. Ando pelo quarto, torcendo para não ter esquecido nada.
Parece que Andrew já tinha feito as malas e eu nem percebi.
Em seguida fico ali, vasculhando cada centímetro do quarto, mas sem ver nada, na verdade. Não quero fazer isso, mas talvez seja o certo.
Ouço a buzina tocar três vezes e isso me arranca dos devaneios. Levantando a mochila, eu a jogo no ombro e pego minha bolsa de cima da cama.
— A gente se vê por aí! — Michelle diz do sofá.
Eu paro ao passar por ela, me curvo sobre o encosto do sofá para lhe dar um abraço desajeitado, atrapalhada pelas alças nos ombros.
— Divirta-se — ela acrescenta.
— Obrigada por nos convidar — eu digo.
Com um grande sorriso, Michelle gesticula para que eu vá, e eu saio da casa.
Quando desço os degraus, Andrew abre o porta-malas do Chevelle e eu jogo minha mochila lá dentro. Os cinco minutos que ele me deu passaram faz tempo, mas duvido que ele vá dizer alguma coisa.
— Tá pronta? — Andrew pergunta, fechando o porta-malas.
Eu respiro fundo, olho para Asher e Aidan, e antes de responder, vou abraçar os dois.
— Legal você ter vindo — diz Aidan.
— Vê se bota meu irmão na linha — Asher recomenda.
Sorrio para os dois, me sento no banco do passageiro e Andrew fecha a porta para mim.
Os três se despedem. Um minuto depois, Andrew se senta no banco do motorista, e uma lufada de ar frio entra no carro junto com ele.
Ele me olha.
— Então, vai ser assim — ele diz, apoiando os pulsos no volante. — A gente vai pro sudeste, pro litoral...
— Peraí — interrompo —, você planejou tudo? — Isso é tão fora do estilo dele. Me deixa cismada.
Andrew sorri suavemente e diz:
— Em parte. Mas é necessário.
— Que parte é necessária?
Ele me olha como que dizendo: Vai me deixar terminar?
Fico quieta e deixo que ele continue, enquanto ele se debruça e abre o porta-luvas.
— A gente vai pro sul, vamos ficar no litoral durante o inverno todo — ele diz, e agora só consigo me perguntar quanto tempo ele planeja ficar na estrada. O inverno todo? Não consigo entender que diabo de ideia é essa. Ele saca um mapa e o desdobra sobre o volante. Olho para ele, desconfiada. — Odeio o frio. Seguindo o litoral e indo mais pro sul na época certa, a gente vai evitar quase toda a neve e merdas assim.
Tá, o plano é bom, admito. Também não aguento o clima frio, portanto, sim, essa parte é necessária mesmo. Concordo com a cabeça e deixo que ele continue.
Andrew aponta para o mapa gigante e começa a correr o dedo pelo nosso itinerário.
— Vamos começar no litoral da Virgínia e ir pro sul, passando pelo seu estado, mas nada de parar pra visitar. — Ele aponta para mim. — A gente tá só de passagem, certo? — Ele espera a minha resposta.
Concordo com a cabeça novamente e digo:
— Certo — porque com certeza há um método em sua loucura, e sinto que devo concordar com ele.
Ele olha de novo para o mapa e volta a correr o dedo pelo papel.
— Depois, pela Carolina do Sul até a Geórgia, e aí vamos percorrer toda a costa da Flórida, da praia de Fernandina — seu dedo faz uma longa curva pelo papel — indo até Pensacola.
— Quanto tempo tudo isso vai levar?
Ele sorri e balança a cabeça para mim.
— Isso importa? — Então ele dobra o mapa desorganizadamente e o joga no banco, entre nós. — Eu decido a direção, desta vez. Sobretudo porque não quero morrer de frio. Mas... — Ele se vira de novo e olha para a frente, tirando os olhos de mim — Bom, é assim que precisa ser.
— Por que a gente tá fazendo isso, Andrew?
Seus olhos pousam em mim mais uma vez.
— Porque é o certo — ele responde, com um olhar profundo. — Porque você tá no carro.
Suas palavras me deixam confusa.
— Porque eu tô no carro?
Ele balança a cabeça discretamente.
— Sim.
— Mas... o que isso significa?
Seus olhos verdes se abrandam com o sorriso, ele estende a mão e segura o meu queixo. Ele beija meus lábios e diz:
— Você podia ter lutado com unhas e dentes. Podia ter me mandado à merda quando falei pra pegar nossas coisas. Mas você não fez nada disso. — Ele me beija devagar mais uma vez, e o gosto de hortelã do seu hálito fica em meus lábios. — Você não entrou correndo naquela casa porque eu mandei, foi porque era o que você queria. Você nunca fez nada só porque eu mandei, Camryn. Eu sou só um chute no seu traseiro, mais nada.
Tento disfarçar o sorriso que está se abrindo em meu rosto, mas não consigo. Ele se curva, aperta os lábios na minha testa e se endireita no assento. O motor ronrona agressivamente por um momento quando o pé dele aperta o acelerador.
Ele tem razão. Tudo o que ele já me mandou fazer, mesmo quando reclamei, eu jamais teria feito se uma parte de mim não quisesse. Fico intrigada em ver como ele sempre sabe coisas sobre mim antes que eu saiba.
Andrew
17
ACHO QUE ONTEM, em Chicago, foi a primeira vez que não consegui prever a reação de Camryn a uma das minhas exigências. Minha garota estava arrasada. Isso me deixava mais apavorado a cada dia, a pessoa que ela estava se tornando. Corri um risco ligando para Asher naquela noite e pedindo que ele dirigisse o Chevelle até Chicago. Eu não sabia o que Camryn ia fazer e, para dizer a verdade, temi que ela se recusasse a ir. Por causa da culpa. Ei, odeio termos perdido a nossa Lily. Daria um braço ou uma perna para tê-la de volta. Mas o que está feito está feito, e ficarmos parados nos afogando em sofrimento e nos recusando a fazer o que nos deixa felizes por qualquer motivo é uma puta duma bobagem. É assim que você se mata. Um suicídio lento e doloroso. Se Camryn recusasse, eu a carregaria sobre o ombro, esperneando e gritando, e a jogaria no banco de trás do carro. Porque essa é a nossa vida. Nós nos encontramos na estrada; nos conhecemos e aprendemos a nos amar na estrada. É onde devemos estar pelo tempo que for, e é o que vamos fazer até que fique claro que deveríamos fazer outra coisa.
As primeiras 14 longas horas de nossa viagem são calmas e silenciosas. Eu dirijo de Chicago até Virginia Beach ouvindo rádio, ou meus CDs quando não encontro uma estação decente. Camryn, embora sorria e fale sobre as coisas que vemos da estrada, ainda não voltou ao normal, mas vai chegar lá. Pode levar alguns dias, mas vai começar a cair na real.
As praias da Costa Leste são diferentes das do Texas. São mais limpas, e aqui a água parece água do oceano de verdade, e não a água barrenta e turva do Golfo em Galveston.
Já é quase noite. Vimos o sol se pôr no horizonte quando chegamos a Virginia Beach, e foi a primeira vez que vi aquela faísca nos olhos de Camryn, desde que ela perdeu o bebê. Se eu soubesse que um crepúsculo podia fazer isso, já a teria levado para ver um há muito tempo.
— Então, a gente vai pedir quartos separados? — ela pergunta quando saímos do carro no estacionamento do nosso primeiro hotel.
Percebo que ela está brincando, mas aposto que não espera que eu entre na brincadeira.
— É exatamente o que vamos fazer. — Eu abro o porta-malas e jogo nossas mochilas nos ombros.
— Tá falando sério? — Ela está chocada, e é engraçado.
Eu represento o melhor que posso. Nunca me passou pela cabeça pedir quartos separados, mas agora que ela mencionou isso, não acho tão má ideia.
Fecho o porta-malas e nós entramos no saguão do hotel.
— Andrew, acho que a gente já passou dessa fase.
— Dois quartos contíguos para não fumantes, por favor, se tiver.
A recepcionista digita o pedido em seu computador. Eu ignoro Camryn a maior parte do tempo, mexendo na minha carteira à procura do cartão de crédito.
— Andrew?
— Não tenho dois quartos contíguos — a mulher diz —, mas tenho dois que ficam um de frente pro outro no corredor.
— Pode ser — eu digo.
Camryn sussurra:
— Não acredito que você vai gastar dinheiro com dois quartos quando a gente já fez sexo milhares de vezes... — Camryn não para de falar, enquanto a recepcionista nos olha disfarçadamente como se fôssemos loucos. Adoro essa expressão no rosto das pessoas, esse ar surpreso de “não acredito que você disse isso”.
— Por favor, fique quieta — eu digo, me virando para Camryn. — Eu vou pro seu quarto e te como rapidinho, não se preocupe. Então para de dar espetáculo.
Camryn arregala os olhos tanto quanto a recepcionista.
Pego Camryn pela mão e a puxo para a saída do saguão.
— Espero que apreciem sua estada — a recepcionista diz em tom estupefato enquanto vamos para o elevador.
Camryn cai na gargalhada assim que as portas do elevador se fecham.
— O que foi aquilo?! — ela pergunta, incapaz de se conter. — Parecemos dois adolescentes imaturos!
— Mas você tá rindo — eu comento. — Portanto, a imaturidade valeu totalmente a pena.
O elevador para no segundo andar e nós saímos no corredor.
— Mas, sério, Andrew, por que quartos separados?
Provando mais ainda que a espontaneidade tem mesmo um propósito, eu penso no que pedi que Natalie enviasse a Chicago, enquanto andamos pelo corredor. Paramos no meio dele, diante dos nossos quartos, e eu jogo as mochilas no chão verde acarpetado.
— Só por esta noite — respondo, enfiando a mão na mochila para procurar o envelope.
Camryn fica perto de mim, assistindo a tudo em silêncio. Percebo que ela quer dizer alguma coisa, mas não tem certeza, nesse momento, do que poderia ser.
Eu endireito o corpo com o envelope na mão. Ela olha para ele, mas não sabe ao certo quais são as minhas intenções.
— Esta noite você vai ficar sozinha no seu quarto — eu digo e entrego o envelope a ela.
Ela parou de sorrir assim que tirei o envelope da mochila. Agora só consegue olhar para mim, confusa e intrigada.
Cuidadosamente, ela estende a mão e pega o envelope, ainda insegura com relação a tudo, talvez até quanto a querer ou não saber o que há dentro dele.
Eu passo o cartão na fechadura do quarto de Camryn e abro a porta, levando a mochila dela para dentro. Ela me segue, vários passos atrás, muda e desconfiada, com o envelope entre os dedos relutantes. Deixo a mochila dela sobre o balcão da TV e verifico o quarto, como sempre faço. Ligo e desligo as luzes e testo o aquecedor antes de puxar os lençóis para ver se estão limpos. Lembrando que Camryn tem fobia de colchas de hotel, eu a arranco completamente da cama e a jogo no chão, num canto do quarto.
Ela fica perto do pé da cama, imóvel.
Eu me aproximo e fico na frente dela. Olho-a nos olhos e observo o modo como ela retribui meu olhar. Passo o indicador por sua sobrancelha e pelo lado de seu rosto e sinto o calor de sua pele sob o meu toque. Eu a quero. Quando seus olhos baixaram para os meus lábios, isso desencadeou algo predador em mim. Mas eu controlo meus impulsos, pelo seu bem. Esta noite, se tudo der certo, um ciclo vai se fechar.
— Cam foi ao funeral — Natalie me disse pelo telefone no dia em que liguei para ela da casa de Aidan. — Mas chegou tarde, ficou bem no fundo, perto da porta, e foi embora antes que a cerimônia terminasse. Ela se recusou a ir até o caixão.
— Alguma vez ela falou com você a respeito disso? — perguntei.
— Nunca — Natalie disse. — E sempre que tentei abordar o assunto, o funeral, o acidente, qualquer coisa, ela não me deixou continuar.
Esta noite vai ser dura para Camryn, mas se ela não enfrentar isso, nunca vai melhorar.
— Você sabe onde estou — sussurro suavemente, deixando minhas mãos caírem dos seus braços. — Vou ficar acordado a noite toda. Comecei a compor outra canção ontem e quero muito trabalhar nela enquanto tá fresca na minha mente. — Aos poucos, mas sempre, estamos compondo material próprio, especialmente desde a viagem a Chicago; e depois da noite em que tocamos no bar de Aidan, Camryn mostrou interesse por isso, por algum motivo.
Camryn balança a cabeça e sorri fracamente por baixo da expressão de preocupação em seu rosto, preocupação com o que se esconde dentro do envelope.
— E se eu não quiser ficar neste quarto sozinha? — ela pergunta.
— Tô pedindo pra você ficar — insisto com firmeza. — Só por esta noite.
Não quero dizer mais do que isso, mas espero que a sinceridade no meu rosto faça o que palavras poderiam fazer.
— Tá bom — ela concorda.
Eu a beijo de leve nos lábios e a deixo sozinha no quarto.
Só espero que esse tiro não saia pela culatra.
Camryn
Andrew me deixa no quarto. Sozinha. Não gosto disso, mas aprendi a lhe dar ouvidos nos curtos cinco meses que passamos juntos. Cinco meses. Isso me espanta cada vez que lembro, porque parece mais que estamos juntos há cinco anos, depois de tudo o que enfrentamos. Às vezes penso no meu ex, Christian, o namorado infiel que arranjei para preencher o vazio deixado por Ian, e com quem fiquei por quatro meses. A gente mal se conhecia. Pensando bem, agora não consigo nem lembrar o dia do seu aniversário ou o nome de sua irmã, que morava a duas quadras da casa dele.
É totalmente outro mundo com Andrew.
Em cinco meses, me encontrei com ele, me apaixonei total, incondicional e loucamente, aprendi de verdade a viver, conheci praticamente toda a sua família e logo me senti parte dela, enfrentei uma jornada desafiando a morte com Andrew, fiquei grávida e noiva. Tudo em cinco meses. E agora aqui estamos, enfrentando mais uma dificuldade. E ele continua comigo a cada passo. Fui idiota e fraca e tomei comprimidos, e ele continua aqui. Eu me pergunto se existe alguma coisa que eu possa fazer que seria tão horrível a ponto de ele me abandonar. Algo no meu coração diz que não, não existe nada capaz disso. Nada mesmo.
Nunca vou entender, enquanto eu viver, como tive a sorte de ficar com ele.
Durante esse momento de reflexão, noto que meus olhos não desviaram da porta por onde ele saiu. Finalmente, olho para o envelope na minha mão, e não sei por quê, mas fico com medo de pensar no que há dentro dele. Pensei nisso muitas vezes esta semana. Uma carta? Se for, do que poderia falar? E para quem seria, e de quem? Por que Natalie me escreveria uma carta? Por que ela escreveria para Andrew?
Nada disso faz nenhum sentido.
Eu me sento no pé da cama, deixando minha bolsa cair no chão ao meu lado, e passo os dedos pelo contorno do que está dentro do envelope. Mas já fiz isso algumas vezes esta semana e continuo chegando às mesmas conclusões: é um papel, meio grosso, dobrado duas ou três vezes. Não tem nenhuma saliência, nem mesmo algum relevo dentro. É só papel.
Eu suspiro e faço menção de soltá-lo, mas continuo segurando. Não sei por que não abro essa droga de uma vez. Está me deixando meio maluca há uma semana, e aqui estou eu, finalmente capaz de desvendar o segredo de uma vez, abrindo-o, mas tenho medo demais.
Deixo o envelope na cama e me levanto, cruzando os braços e olhando para ele com o canto do olho enquanto começo a andar pelo quarto. Me sinto ameaçada por ele, como se fosse pular em mim e cravar as garras na minha perna quando passo perto. Como aquela gata psicótica que minha tia Brenda tem. Até começo a mexer na minha bolsa, procurando o celular para ligar para Andrew e fazê-lo contar por que tudo isso, até que me dou conta de como isso seria idiota.
Finalmente, eu pego o envelope e, depois de uma longa pausa, sentindo seu peso leve em minha mão, passo a ponta do dedo pela aba colada para soltá-la. Depois de tentar romper o lacre cuidadosamente e não conseguir, mando tudo à merda e rasgo o resto de alto a baixo. Jogo o envelope esfarrapado na cama e desdobro o papel de carta, vendo que a maior parte dele está em branco. Foi usado apenas para esconder a fotografia que tem dentro. Olhando para o verso da fotografia, primeiro me recuso a virá-la para ver o que há do outro lado. Em vez disso, leio a letra de Natalie no meio do último pedaço de papel:
Esta foi a melhor que eu achei.
Espero que ajude no que você está tentando fazer, seja o que for.
Sinceramente,
Natalie
Viro a fotografia e meu coração afunda como uma pedra quando vejo o rosto vibrante e sorridente de Ian me olhando. Minha bochecha está encostada na dele, olhando para a câmera. As luzes coloridas dos brinquedos do Parque Estadual da Carolina do Norte iluminam a noite ao fundo, atrás de nós. Como se eu tivesse caído num lago congelado, ver seu rosto me deixa totalmente sem fôlego. Lágrimas brotam instantaneamente dos meus olhos, e eu deixo a foto cair dos meus dedos sobre a cama. As duas mãos sobem ao meu rosto, onde os dedos cobrem meus lábios trêmulos.
Como posso me permitir chorar por ele?! Por que isso está acontecendo?!
Eu me desfiz de todas as fotos de Ian por um motivo. De todas. Deletei cada arquivo com fotos digitais nossas, tirei seu nome do meu celular. Até joguei fora o criado-mudo que eu tinha desde criança, porque Ian entalhara IAN AMA CAMRYN na madeira por baixo dele. Tentei tirar da minha vida cada coisa que me fizesse lembrar dele, o melhor que pude, porque doía demais saber que tudo o que me restava dele eram coisas materiais. Eu não podia fazer muita coisa com as lembranças, mas me esforcei ao máximo para esquecê-las também.
Por que Andrew faria isso comigo? Trazer toda essa dor de volta à minha vida, e ainda por cima tão pouco tempo depois de perdermos Lily?
Uma parte de mim quer berrar com Andrew, sair marchando pela porta, cruzar o corredor até seu quarto e lhe dizer o quanto isso dói. Mas minha razão me alcança rapidamente. Eu sei por que ele fez isso. Eu sei por que ele me colocou neste quarto, sozinha, com esta foto. Porque ele me ama tanto que está disposto a me devolver Ian só por uma noite, para que eu possa finalmente aceitar a perda dele.
Mas não consigo olhar essa droga de foto! Não consigo!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, pego meu suéter grosso da mochila e enfio os braços de qualquer jeito nas mangas. E então saio correndo do quarto e vou para o elevador.
Segundos depois, estou sentada na areia fria da praia, olhando para o oceano sem fim.
Andrew
18
EU ME PERGUNTO se ela vai abrir. Cacete, me pergunto se ela vai me odiar por fazer isso com ela, mas se isso vai ajudá-la, aceito a barganha.
Aperto o botão de ligar do controle remoto e uma velha reprise de Seinfeld preenche o silêncio do meu quarto. Tiro os sapatos e entro no chuveiro, deixando a água quente bater em mim até ela começar a sair morna. Só consigo pensar no que Camryn está fazendo, sozinha no seu quarto, se está olhando para aquela foto de seu ex-namorado morto, e se está se aguentando. Quero ir lá ajudá-la, mas sei que é algo que ela precisa fazer sozinha. Algo que ela deveria ter feito há muito tempo, antes que nos conhecêssemos.
Depois de me enxugar, enrolo a toalha na cintura e remexo na mochila sobre a cama, procurando uma cueca. Eu me sento, olho fixamente para a TV, depois para a parede, depois para a TV de novo, até que me dou conta de que estou só tentando fazer qualquer coisa para parar de pensar em Camryn.
Deixo meu MP3 tocar umas cinco músicas aleatórias em meus ouvidos antes de decidir que preciso ao menos ver como ela está. Tento seu celular primeiro, mas ela não atende. Então uso o telefone do hotel e tento ligar para o quarto dela. Ainda sem resposta. Talvez ela esteja apenas tomando banho. Tento me obrigar a acreditar nisso, até que meu instinto fala mais alto. Visto meu jeans e uma camisa de manga comprida e atravesso o corredor até seu quarto. Encosto o ouvido na porta, tentando ouvir o chuveiro ligado. Nada. Por isso passo o cartão extra na porta para destrancá-la.
Ela não está ali. Meu coração acelera enquanto entro no quarto. A primeira coisa que noto é a fotografia, que na verdade eu nem tinha visto ainda, sobre a cama. Eu a pego e a estudo por um instante. Camryn parece tão feliz nela. Essa é a Camryn que eu conheci, aquela com um sorriso lindo e cheio de energia. Me lembro desse sorriso. Eu o vi dezenas de vezes quando estávamos na estrada juntos.
Entrando em pânico, tiro os olhos da foto e vou para a janela. Olho para o oceano negro lá fora e vejo algumas pessoas andando pelo calçadão. Com a foto ainda na mão, volto rapidamente para o meu quarto e calço os sapatos, deixando-os desamarrados enquanto saio e vou para a praia. O ar frio não é insuportável, mas é suficiente para me fazer pensar que fiz bem em usar mangas compridas. Procuro qualquer sinal dela, olhando de um lado para o outro no calçadão e nas cadeiras de praia perto do hotel, mas ela não está em lugar nenhum. Enfiando a foto no bolso de trás da calça, começo a correr um pouco e rumo para a praia.
Eu a encontro sentada na areia, não muito longe.
— Porra, amor, você me deixou apavorado.
Eu me sento ao lado dela, passando um braço ao redor do seu corpo.
Ela olha para o oceano, o vento gelado atravessando seu cabelo louro. Não olha para mim.
— Desculpa. Eu só queria...
— Eu te amo, Andrew — ela interrompe, mas continua com o olhar fixo à sua frente. — Não sei como uma garota pode ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo.
Sem saber aonde ela quer chegar com isso, tenho medo de dizer alguma coisa porque não quero dizer a coisa errada. Eu a aperto mais para compartilhar o nosso calor. E não digo uma palavra.
— Não tô brava com você — ela continua. — Primeiro fiquei, mas quero que saiba que não tô mais.
— Me fala o que você tá pensando — peço baixinho.
Ela ainda não desviou o olhar da escuridão à sua frente. As ondas mal lambem a praia a alguns metros de nós. Um pontinho branco, a luz de um barco, se move no horizonte.
De repente, sinto que Camryn está me fitando e me viro para olhá-la também. A luz dos prédios atrás de nós e do luar é suficiente apenas para mostrar seus traços suaves, os cachos do seu cabelo soprados sobre sua face fria. Eu afasto alguns fios dos seus lábios. Seu olhar se abranda quando ela me encara e diz:
— Eu amava Ian, amava muito. Mas não quero que você pense...
Eu balanço a cabeça.
— Camryn, não faz isso. Não estamos aqui pra falar de mim, tá? — Eu enfio o dedo em outro cacho do seu cabelo e o afasto da sua boca. — Não fale de mim.
Ela para por um momento, e sinto sua mão no meu colo e meus dedos se entrelaçando com os seus.
Camryn volta a olhar o oceano.
— Eu não queria ir ao funeral de Ian — ela me conta. — Não queria vê-lo pela última vez daquele jeito. — Camryn me olha. — Lembra aquele dia, no seu apartamento, quando cheguei e você tava falando ao telefone com Aidan, quando ele tava tentando te convencer a ir ao funeral do seu pai?
Balanço a cabeça.
— Lembro, sim.
— Você disse uma coisa pra ele, disse que preferia que a última vez que você visse alguém, que ele estivesse vivo, não morto, deitado num caixão. Bem, era isso que eu pensava do funeral de Ian. Eu não queria ir. Foi por isso, também, que eu não quis ver Lily. Por isso escolhi a cremação.
— Mas você foi. Ao funeral de Ian. — Eu evito o assunto de Lily por enquanto. É um caso mais doloroso. Para nós dois. Eu a vi. Era tão pequena que caberia na palma da minha mão. Mas Camryn se recusou a olhar.
Ela balança a cabeça.
— Não exatamente — ela explica, a respeito do funeral de Ian. — Eu tava lá, mas não tava. Minha maneira de me desapegar dele foi tirá-lo da minha mente, cada palavra que ele já me disse, seu rosto; tudo o que eu podia apagar, eu apaguei. Só fui porque era o que todos esperavam de mim. Se eu não estivesse tão preocupada com o que todos fossem pensar de mim, teria ficado em casa naquele dia.
— Mas isso não fecha o ciclo — digo cautelosamente. — É a mesma coisa que varrer a sujeira pra baixo do tapete. Ela continua lá. Você sabe que tá lá. E aquilo vai ficar te incomodando até você fazer certo.
— Eu sei — ela diz.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, eu enfio a mão no bolso de trás e tiro a foto.
— Sabe, se ele ainda estivesse vivo, eu ficaria com um pouco de ciúme. Até que, pra um cara, ele é gato.
Camryn sorri para mim e noto que seu olhar mal pousa na foto.
Eu a deixo na areia perto dos nossos joelhos. Então fico sério de novo.
— Camryn, isso que tá acontecendo com você, os comprimidos e tudo mais, não é só por causa da perda da Lily. Você sabe disso, não sabe?
Ela não responde, mas percebo que está pensando muito no que eu falei.
— Você bloqueia tudo. Ian. Lily. De acordo com Natalie, até a morte da sua avó, o crime de Cole, e o fato do seu pai ter ido embora e parecer se importar mais com a nova namorada do que com você. — Digo as coisas como elas são porque é exatamente assim que precisam ser ditas. — Em vez de lidar com tudo isso, chorar, o que for, você só bloqueia essas merdas e espera que desapareçam sozinhas. Você já tava fazendo isso bem antes da gente se conhecer. Mas precisa saber que tudo se acumula, e um dia você desmorona e cai num abismo.
— Sei. Você tem razão, como sempre — ela concorda desconsoladamente.
— Você acredita nisso ou tá concordando só pra me fazer calar a boca? — Abro um sorriso para ela, esperando receber outro em troca.
E funciona.
Ela sorri e diz:
— Não, eu acredito mesmo. Só queria ter acreditado nisso antes.
— Por que acredita agora?
— Porque você é uma espécie de filósofo com tatuagens. — Ela ri, e isso espalha calor pelo meu sangue.
Não acredito que ela está rindo. De início, imaginei que fosse levar muito tempo para Camryn aceitar tudo isso, mas ela me surpreende a cada dia.
— Um filósofo? — digo. — Exagerada. Mas aceito o elogio.
Camryn se vira de lado e deita a cabeça no meu colo. Ela olha para mim com aqueles olhos azuis de corça, e não consigo deixar de tocar seu rosto macio.
— Quer saber a verdade? — ela pergunta.
— Claro — respondo, mas fico um pouco ansioso, de repente.
— É como te falei na casa de Aidan — ela continua. — Se um dia eu perdesse você, logo você, isso seria o fim pra mim. Quando tive o aborto, isso fez todos os meus medos voltarem. De perder você. Foi como se aquele instante de tragédia me fizesse lembrar de novo da morte, e com que rapidez ela pula em cima de uma pessoa. Se Deus, a natureza, ou sei lá quem ou que porra controla tudo, pode ser cruel e desalmado a ponto de matar o meu bebê, então Ele pode te matar também, sem pensar duas vezes. Isso me apavora, Andrew. A ideia de perder você me mata por dentro. E como já quase te perdi uma vez, o medo fica muito pior.
— Mas eu já te disse...
Ela se levanta do meu colo e fica sentada na minha frente, com os joelhos enterrados na areia.
— Eu sei o que você disse — ela interrompe. — Mas não importa o que você pensa, ou você saber dizer todas as coisas certas pra me fazer sentir melhor. Você não tem certeza do que vai acontecer, Andrew. O tumor pode muito bem voltar, e apesar de tudo o que fazemos, de todas as precauções que tomamos, ele pode te matar.
Eu começo a discordar, mas ela está tão empenhada em me dizer essas coisas que sei que preciso deixar.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu — ela continua — e agora posso te olhar nos olhos e dizer que, por mais que isto doa, consigo aceitar a morte de Ian. Consigo aceitar a morte de Lily. Consigo aceitar a morte de qualquer um, mesmo que essa morte seja insuportavelmente dolorosa. Mas a sua... — Ela se interrompe e nem pisca ao olhar no fundo dos meus olhos. — A sua eu jamais poderia aceitar. Jamais.
O silêncio entre nós só amplifica o som do oceano. Quero pegá-la nos braços, apertar meus lábios contra os dela, mas fico sentado ali, olhando para ela, porque as palavras que ela me disse são as mais poderosas que já ouvi, senti ou entendi.
Finalmente, eu a pego em meus braços e a ponho no meu colo. Passo os braços pelas suas costas, fito seus olhos e digo:
— Acredito em você e sinto a mesma coisa.
Ela inclina um pouco a cabeça para o lado.
— Mesmo?
— Sim. Camryn, não consigo viver sem você. Eu poderia tentar, mas ia ser uma existência péssima. Isso não vale só pra mim; você pode morrer amanhã tão facilmente quanto eu. Ninguém tá imune.
Ela não discute, mas desvia o olhar por um breve momento.
Eu seguro seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me olhar. Sua pele está gelada.
— A gente precisa viver no presente, lembra? — eu digo e ela volta a prestar atenção em mim. — Precisamos fazer um pacto, você e eu, agora mesmo. Topa fazer um pacto comigo? — Movo um pouco minhas mãos para aquecer suas orelhas geladas.
Ela concorda com a cabeça.
— Tá — diz, e fico feliz por ela confiar em mim o suficiente para não fazer perguntas antes de concordar.
Tirando uma mão de sua orelha, passo as pontas dos dedos na sua testa e pelos lados de suas bochechas.
— Não podemos controlar a morte. Nenhum dos dois pode fazer nada pra evitá-la ou adiá-la. Só o que podemos controlar é como vamos viver nossas vidas antes que ela nos alcance. Portanto, vamos prometer um pro outro coisas que possamos cumprir, haja o que houver.
Camryn concorda com a cabeça e sorri um pouco.
— Que tipo de coisas? — ela pergunta.
— Qualquer coisa. Tudo o que a gente quiser um do outro. Tipo... — Eu me levanto da areia e enfio as mãos nos bolsos. Olho para o oceano, vasculhando minha mente em busca da melhor promessa para começar. Só consigo pensar numa coisa no momento, por isso me viro novamente para ela, levanto o dedo indicador e digo: — Isto não tem nada a ver com o tumor, nem com nada específico, mas quero que você me prometa que, se algum dia estiverem me mantendo vivo por aparelhos, por qualquer motivo, e você sentir no fundo do coração que eu não vou melhorar, se você sentir que eu tô sofrendo, vai mandar desligar os aparelhos.
Seu sorriso desaparece, e ela me olha como se eu tivesse estragado o momento. Eu estendo os braços e a pego pela mão, fazendo-a levantar comigo.
— Não tô tentando ser mórbido. É só uma coisa que sempre me incomodou, sabe? Você vê isso na TV e nos filmes. O cara fica ligado a todo tipo de aparelho que a ciência já inventou pra se manter vivo porque a família tem esperança ou qualquer coisa assim. Nada contra ter esperança, mas, porra, aquilo me dá um puta medo. — Eu seguro seus braços delicadamente. — Nunca me deixe viver como um vegetal. Me prometa isso. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa, e confio que você vai saber quando tiver chegado a minha hora. Então prometa.
Aos poucos, ela começa a entender. Leva um segundo, mas ela começa a concordar com a cabeça.
— Me promete a mesma coisa — ela pede.
Eu sorrio e digo:
— Tá prometido.
Ela dá um passo para trás e enfia as mãos nas mangas. Apertando bem o suéter ao redor do corpo, ela começa a andar de um lado para o outro.
Ela para e me olha.
— Promete que se um dia eu tiver mal de Alzheimer ou ficar senil e não me lembrar de ninguém, você vai me visitar todo dia e ler pra mim, como Noah lia pra Allie.
— Quem? — eu pergunto, mas aí a ficha cai. — Aaaah, entendi. — Eu rio dela e concordo com a cabeça.
Seus olhos e seu sorriso aumentam e ela grita:
— Andrew! Não tem graça! Tô falando sério! — Ela ri e eu a agarro, puxando-a para os meus braços.
— Tudo bem, tudo bem! — eu me rendo, apertando seu corpo que se retorce contra o meu.
— A ideia foi sua — ela acusa —, então não faz piada.
— Eu sei. Você tem razão, mas... é sério? Precisa ser tão fã assim de Diário de uma paixão?
Sinto o cotovelo dela atingindo meu estômago e me curvo um pouco e exagero a dor que isso me causa, contorcendo o rosto com a agonia e o riso. Para me humilhar de vez, Camryn me dá um empurrão e me derruba na areia. Depois fica por cima de mim, com um pé de cada lado do meu peito e as mãos na cintura, toda autoritária. Mantenho uma mão na barriga, rindo e tentando ficar sério, embora eu saiba muito bem que não consigo enganá-la.
— Só você pra fazer piada num momento tão sério. — Ela reclama tão seriamente que isso só me faz rir mais, sobretudo pela dificuldade dela em ficar de cara fechada.
Ela começa a se sentar em cima de mim, e provavelmente vai tentar me bater com suas mãozinhas delicadas, mas eu a seguro antes que ela comece, meto a mão no meio das pernas dela e aperto com toda a força.
— Aaaaaii! — Camryn geme, e começa a desabar, mas eu a mantenho na posição. — Que ideia é essa de apertar minhas paaarrr... porra, Andrew! Apertar minhas partes?!
Faço mais pressão e levanto aos poucos as costas da areia, guiando-a para trás. Ela fica de joelhos olhando para mim.
— Porque eu gosto — sussurro sobre seus lábios. — Agora fica parada.
O clima entre nós muda em questão de segundos. Sua pele fria fica mais quente; seus olhos, arrebatados; seu corpo, conivente.
— Tem gente aqui... — ela tenta dizer baixinho, mas minha mão apertando-a no meio das pernas lhe rouba a voz.
— Não me importa — retruco, examinando seus olhos primeiro e então seus lábios úmidos e inchados. — Eles estão longe.
— Mas... o que você tá fazendo...
— Só fica parada. Quieta. — Eu passo a língua sobre seu lábio inferior e o chupo delicadamente. Sinto que ela tenta me beijar, mas não deixo. Eu puxo o tecido de sua calça e enfio a mão dentro da cintura folgada para achar o seu calor. Caramba, ela já tá molhada. Me curvando sobre o seu pescoço, fecho os olhos e inalo o cheiro de sua pele. Ela fica bem imóvel, mas posso sentir seu corpo tremendo e seu coração batendo forte sob o meu toque. Quero tanto comê-la. Mas não vou fazer isso ainda, porque gosto de me torturar. Adoro, porra.
Minha mão livre solta sua cintura e eu a ponho em sua coxa, forçando-a a abrir mais as pernas.
— Abre — eu instruo, com meus lábios roçando nela, e Camryn faz exatamente o que eu mando, afastando os joelhos na areia. Ela fica um pouco tensa quando percebo um homem andando não muito longe, mas eu a aperto de novo, enfiando dois dedos nela e obrigando-a a olhar só para mim. Ela geme e eu estremeço silenciosamente, sentindo suas entranhas se apertando em volta dos meus dedos. Encaro seus olhos, os meus de vez em quando se perdendo no estudo da curvatura de sua boca. — Não tira os olhos de mim — digo. — Não me importa se você sentir que precisa fechar os olhos. Não feche. Continue me olhando.
Ela balança um pouco a cabeça, como se temesse que eu vá parar se ela fizer errado.
Mexo os dedos para dentro e para fora dela, lentamente de início, tirando-os e usando seu gozo para manter seu clitóris úmido, esfregando meu dedo médio sobre ele num movimento circular. Cada vez que a toco, seus olhos começam a se fechar, mas eu paro assim que percebo, e ela volta a controlar o olhar. Mexo meus dedos dentro dela de novo, um pouco mais rápido, e com o polegar faço cada vez mais pressão no seu clitóris. Pequenos gemidos escapam de seus lábios abertos, chupando o ar gelado ao nosso redor e meu hálito quente à medida que fico mais ofegante em sua boca. Mas ela nunca tira os olhos dos meus e não fala, embora eu saiba que ela queira fazer tudo isso.
— Admite uma coisa — sussurro no ouvido dela. — Neste momento, você não estaria nem aí se alguém estivesse olhando. Não é verdade? Me deixaria foder você aqui, na frente de todo mundo, e se preocuparia com a vergonha só depois que eu terminasse.
Sinto sua cabeça balançando perto da minha.
— O que mais você me deixaria fazer? — pergunto e mantenho os lábios perto do ouvido dela. Continuo mexendo os dedos.
— Tudo o que você quisesse — ela diz, com um gemido na voz.
— Tudo o que eu quisesse? — Eu esfrego meu polegar com mais força no seu clitóris.
— Tudo... — ela diz e perde um pouco o fôlego. — Qualquer porra que você quisesse...
Suas palavras, sua voz carregada de desejo, me deixam louco de tesão por ela, e meu pau está tão duro que mal consigo aguentar. Enfio os dedos com mais força e mais rápido. Seu corpo começa a tremer, suas coxas balançam tentando levantar o corpo. Eu me afasto do ouvido dela e a fito de novo. Ela mantém o olhar fixo no meu o melhor que pode, suas pálpebras estão ficando mais pesadas; sua respiração, irregular e ofegante. Mas seus olhos ficam arregalados e imóveis quando atinjo aquele ponto especial, e tomo cuidado para não interromper o ritmo.
— Não tira os olhos de mim — digo e continuo a olhá-la ferozmente.
Quando ela começa a gozar, meu olhar só fica mais forte, perfurando o dela num momento de luxúria faminta. É como se eu conseguisse ver o prazer emanando de suas íris, o calor do seu orgasmo saindo da pele sensível dos seus lábios, que querem beijar os meus tão selvagemente, mas mesmo assim eu não deixo. Quando seu corpo trêmulo começa a se acalmar, enfio os dois dedos mais fundo, sentindo-a se estreitar ao redor deles, o tempo todo mantendo a pressão no seu clitóris.
Ela desaba sobre o meu peito.
Eu envolvo seu corpo trêmulo nos braços e beijo o alto da sua cabeça.
— O que você tá fazendo comigo, caralho? — ela diz.
Eu rio um pouco e a abraço mais forte.
— Qualquer porra que eu quiser — respondo astutamente.
Erguendo a cabeça do meu peito, ela olha para mim.
— Bom, pode dizer o que quiser, mas não vai me fazer gozar desta vez sem que eu retribua o favor.
— Ah, é?
— É isso mesmo, por isso nem tenta.
— O que você vai fazer comigo, então? — Eu sinto o meu sorriso aumentando.
— Qualquer porra que eu quiser — ela diz, com um sorriso ainda maior e mais malicioso que o meu.
Então ela fica de pé e, segurando minha mão, me faz levantar com ela.
— Mas não aqui fora — ela diz. — Tá esfriando demais.
— Você que manda — digo, deixando que ela me puxe.
Eu jamais tocaria no assunto, mas noto, quando nos afastamos da praia, que Camryn olha para trás uma vez, para a foto dela e de Ian na areia. Sua mão aperta a minha forte e ela olha para meu sorriso suave quando atravessamos o calçadão.
Sei que tive muito pouco a ver com ela finalmente fechar esse ciclo. Tudo bem, eu a forcei a fazer isso, mas foi Camryn que, naquele momento, enfrentou um dos seus maiores medos. Ela olhou no rosto de alguém que amou e perdeu, e finalmente aceitou isso. Admito que foi estranho como tudo aconteceu, e eu não fui para lá com nenhuma intenção sexual, especialmente num momento como aquele. Mas Camryn, no tempo que passou sozinha naquela praia pensando em Ian, bem antes que eu chegasse, já tinha entendido tudo.
Não sei ao certo como ela fez, ou qual foi meu papel nisso, mas quando retornou da praia comigo naquela noite, ela já começava a ser como era antes.
Camryn estava voltando, e eu estava nas nuvens com ela.
Camryn
19
8 DE DEZEMBRO — meu vigésimo primeiro aniversário
Quando começou a esfriar, Andrew e eu rumamos mais para o Sul. Passamos só uma noite em Virginia Beach e de lá percorremos o litoral da Carolina do Norte, ficando alguns dias em Myrtle Beach, Carolina do Sul, onde arranjei meu primeiro emprego na estrada. Como arrumadeira. Com certeza não era a minha primeira escolha, especialmente depois que Andrew me lembrou das coisas nojentas que os hóspedes costumam deixar nos quartos. Mas era um emprego e não me incomodava tanto, a não ser quando queriam que eu lavasse cestos de lixo com catarradas nojentas grudadas no fundo. Desculpa, mas só de pensar nisso me dá vontade de vomitar. Eu ligava para Andrew e implorava que ele viesse limpar. Claro que eu o subornava com promessas de boquetes enlouquecedores em lugares públicos. Puxa, que maravilha. Não, quem eu tô tentando enganar? Adoro fazer isso por ele. Só finjo detestar às vezes, mas acho que ele gosta quando eu finjo, porque gosta de me ouvir reclamar.
De qualquer forma, pelo jeito, empregos de arrumadeira são como portas giratórias, as funcionárias vêm e vão tão rápido que seria melhor nem incluí-las oficialmente na folha de pagamento. Pensei em como isso poderia trabalhar a meu favor enquanto estivéssemos na estrada. Assim, em troca de metade do valor das diárias do quarto que estávamos ocupando, e como o quadro de funcionários do hotel estava desfalcado, eu perguntei se poderia ajudar e eles me contrataram na hora.
Mas o emprego era só temporário, pois Andrew e eu precisávamos partir de Myrtle Beach e seguir para o nosso destino, onde quer que fosse. Nunca planejamos nossos destinos antecipadamente. A nossa única regra é ficar no litoral. Pelo menos até a primavera. Mas ainda faltam alguns meses até lá e, no momento, estamos felizes instalados num hotel estilo chalé bem em frente à praia, na linda Savannah, Geórgia.
E hoje eu faço 21 anos.
Andrew me acorda de um sono profundo abrindo as cortinas da janela gigante do nosso quarto e deixando o sol invadir o ambiente.
— Levanta, aniversariante — exclama ele de algum lugar perto do pé da cama. Eu o ouço batendo várias vezes na mesinha perto da janela com a palma da mão.
Resmungo e viro para o lado, dando as costas para o sol brilhante e me enterrando nos lençóis. Uma lufada de ar frio me atinge quando Andrew me arranca os lençóis.
— Ah, vai! — gemo, encolhendo os joelhos para o peito e puxando o travesseiro para cima da minha cabeça. — Eu devia poder dormir até tarde no meu aniversário.
De repente, meu corpo está sendo arrastado da cama e eu estico os braços freneticamente, tentando me agarrar à borda do colchão. A mão de Andrew segura com firmeza o meu tornozelo. Eu chuto e esperneio, tentando me soltar, mas ele me arrasta pela cama tão rápido e sem esforço que eu simplesmente desisto. Minha bunda bate no chão e os lençóis caem ao meu redor.
— Você é tão babaca! — eu rio.
— Mas você me ama. Agora levanta.
Com o cabelo todo emaranhado, olho para Andrew e faço bico. Ele sorri para mim e estende a mão. Eu a seguro e ele me puxa de pé.
— Feliz aniversário, amor — ele diz, e me dá um selinho.
Eu me encolho um pouco, porque sei que meu bafo está podre, e já estou ficando acostumada com a mania de Andrew de aproveitar qualquer oportunidade de me lembrar disso.
Sem olhar para mim, Andrew enfia a mão no bolso do casaco e tira uma caixinha de veludo preto. Obviamente, ele já saiu hoje, mas eu estou mais interessada na caixa que ele pôs na minha mão. Olho para ele desconfiada, pronta para dar um esporro nele caso tenha gastado uma grana numa joia escondido de mim.
— Andrew? — digo, desconfiada.
— Abre de uma vez. Eu me comportei. Juro. — Ele ergue as duas mãos num gesto de rendição.
Ainda totalmente desconfiada de sua aparente sinceridade, abro a tampa da caixa e vejo um colar com pingente de diamante dentro e fico com um pouco de falta de ar. Então estreito os olhos para ele.
— Andrew, por favor. — Olho mais uma vez para o colar, me sentindo culpada só de tê-lo nas mãos. — De jeito nenhum isso foi...
— Juro — ele diz com um sorriso encantador. — Não foi caro.
Mordendo o lábio com ceticismo, eu pergunto:
— Quanto custou, então?
— Ah, uns 125 dólares. Nada mais do que isso. Juro por Deus. — Ele faz uma cruz sobre o coração com o dedo.
Então tira o colar da caixa, deixando-o pendurado na mão.
— Gostou? — pergunta, indo para trás de mim.
Instintivamente, levanto meu cabelo embaraçado enquanto ele põe o colar no meu pescoço.
— É perfeito, Andrew. Eu mais do que gostei. Eu amei. — Olho para baixo enquanto ele o fecha e seguro o pingente brilhante de prata.
Eu me viro para Andrew e fico na ponta dos pés descalços para beijá-lo apaixonadamente.
Nem imagino como uma joia dessas pode não ter custado um caminhão de dinheiro, mas ele está dizendo a verdade. Eu acho...
— Obrigada, amor — agradeço, radiante.
De repente, ele me dá um tapão na bunda e diz:
— A gente precisa sair daqui hoje. Tô de saco cheio de me esconder em quartos assim. De saco cheio do frio. Eu queria poder hibernar.
— Eu também. E o que a gente vai fazer, exatamente? — Pego uma roupa limpa da minha mochila perto da TV.
— Sei lá. Qualquer coisa. Mas põe uma roupa quente.
Ele não precisava me lembrar disso, na verdade. Nem mesmo a proximidade do litoral e a mudança de latitude ajudaram muito a nos aquecer nos últimos dias. Ambos sonhamos com a primavera e o verão, a ponto de ser a única coisa da qual falamos. Eu reclamo muito de não poder esticar os pés descalços para fora da janelinha do carro sem matar nós dois de frio, e ele reclama que ainda não conseguimos dormir num gramado sob as estrelas. Claro que não vou dizer em voz alta, senão ele vai querer ainda mais, mas não estou muito ansiosa para dormir sob as estrelas. Jamais. Não depois do que aconteceu na primeira vez que tentamos. Não. Acho que estou satisfeita com as camas de hotel. Elas não têm cobras.
O inverno é deprimente. Acho que é por isso que o índice de suicídios é tão alto no Alasca. É um estado lindo, mas ainda prefiro o calor de rachar de um deserto do Sul.
Eu visto roupas extraquentes para o meu aniversário: casaco grosso, cachecol, luvas, o que tiver eu tô vestindo. E mesmo assim tô morrendo de frio.
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Andrew meio que “esquenta” o inverno. Sempre achei que caras de gorro ficam sexy, mas o jeitão dele com sua jaqueta preta de grife e seu gorro de lã, suéter cinza-escuro, jeans preto e botas Doc Martens é tudo o que eu quero de presente de aniversário. Sorrio comigo mesma enquanto andamos de mãos dadas por uma pequena multidão, todos se acotovelando no farol para se proteger do frio, e então três garotas, provavelmente turistas como nós, devoram Andrew com os olhos quando passamos. Isso acontece muito, e eu já deveria estar acostumada. Me vanglorio em segredo, mas quem não faria isso, na minha situação? Ele é a coisa mais sexy que eu já vi. Não admira que já tenha trabalhado como modelo. Ele odeia falar disso, então, naturalmente, eu toco no assunto com frequência para vê-lo sofrer. Andrew também está se barbeando menos; está com aquela barba sexy por fazer.
Subimos a escada em caracol até o farol debruçado sobre o oceano e olhamos o panorama juntos. Porque é algo para se fazer. Estamos apenas improvisando, andando de carro pela cidade e escolhendo as coisas quando as vemos. Mas, nos meses frios, até isso é um processo de tentativa e erro. Estendemos os braços sobre o corrimão e ficamos perto um do outro para nos aquecer. O vento gelado nos fustiga, naquela altitude, e eu sei que meu nariz e minhas bochechas devem estar vermelhos.
Levamos exatamente cinco minutos para mandar aquilo à merda e praticamente correr de volta para o carro.
— A gente podia ir pro cinema — ele sugere, no banco do motorista. — Ou... tá, acho melhor a gente hibernar e pronto.
Ficamos sentados por muito tempo, só pensando em alguma coisa para fazer.
— Vamos andar de carro mais um pouco — eu digo, sem nenhuma ideia.
— Talvez seja melhor ir embora de uma vez.
Dou de ombros.
— Se você quiser. — Então vejo uma placa que diz Feira de Antiguidades das Pulgas & Carrapatos.
— Vamos fazer compras — sugiro.
Andrew não parece empolgado.
— Compras?
Balanço a cabeça e aponto para a placa.
— Não no shopping, nada disso — explico. — Dá pra achar umas coisas bem bacanas em feirinhas de coisas usadas.
Sua expressão continua neutra, mas acho que ele se dá conta de que com certeza é melhor do que andar na rua no frio, ou ficar parado no carro sem fazer nada.
Andrew acaba cedendo porque, francamente, ele não tem mesmo muita escolha, e em seguida tira o carro do estacionamento e seguimos as placas até a feira de antiguidades. Encontramos um pouco de tudo: chapéus idiotas, instrumentos odontológicos antigos, colchas de retalhos feitas à mão, fitas de vídeo e discos. Andrew não se empolgou com muita coisa, até ver a caixa de madeira cheia de discos.
— Não vejo um disco do Led Zeppelin há anos — ele comenta, segurando um. A capa está tão detonada e desbotada que parece ter ficado num sótão por trinta anos, mas ele o segura com tanto cuidado que poderia ser um exemplar em perfeito estado.
— Você não tá pensando em comprar isso, tá?
— Por que não? — ele pergunta, sem olhar para mim.
Ele vira o disco e olha para o verso da capa.
— Porque é um LP?
— Tá, mas é um LP do Led Zeppelin — ele argumenta, olhando rapidamente para mim.
— Tá, e?
Ele não responde.
Eu continuo:
— Andrew, onde é que você vai tocar isso?
Finalmente ele me dá atenção total.
— Eu não vou tocar.
— Então por que quer comprar? — pergunto, e então respondo por ele, sarcasticamente. — Ah, já sei, é um artigo de colecionador. Você pode pendurá-lo no banco de trás do carro. — Dou um sorrisinho para ele.
— Ou posso pôr você no banco de trás e pendurá-lo na frente.
Eu fico levemente boquiaberta.
Andrew sorri e devolve o disco à caixa.
— Eu não vou comprar — ele resolve, pegando a minha mão.
Minutos depois, entramos em outra barraca, lotada de roupas antigas. Enquanto examino meticulosamente tudo o que há nos cabides, Andrew fica na barraca ao lado, onde centenas de DVDs e Blu-rays estão expostos numa parede. Ele para diante dela de braços cruzados, praticamente imóvel, lendo cada um dos títulos. Posso ver sua nuca através da treliça de madeira que separa seu quiosque do meu. Volto a olhar as roupas, sentindo urgência e necessidade a cada peça que toco. Eu adoro roupas antigas. Não que eu chegue a usar, ou que tenha comprado alguma vez, mas são coisas que não dá para deixar de olhar com admiração e se imaginar nelas.
Empurro os cabides finos de arame, um por um, para conseguir ver tudo. Camisas com mangas bufantes e cadarços de couro, espartilhos, vestidos plissados e com mangas longas, botas vitorianas...
O que é isso?
Meu coração para por um segundo quando puxo um dos cabides e vejo o vestido. É um modelo vintage cor de marfim, com mangas curtas drapeadas. Tiro o cabide da arara e seguro o vestido junto ao corpo, virando para o espelho. O comprimento por pouco não chega ao chão. Segurando-o com uma mão na altura certa, estico o tecido com a outra mão. Então eu rodopio.
— Meu Deus, amei este vestido — digo em voz alta para mim mesma. — Preciso comprar.
— Hãã, devo dizer — Andrew intervém por trás, me assustando — que é um vestido lindo.
Um pouco sem jeito porque Andrew provavelmente me viu enquanto eu me admirava com o vestido e falava sozinha, não olho para ele. Em vez disso, olho a etiqueta para ver se é do meu tamanho. É! Claro que agora preciso comprá-lo, sem mais perguntas. Era pra ser meu!
Abraçando apertado o vestido, eu giro para ficar de frente para Andrew.
— Você gostou mesmo? — pergunto com voz culpada, minha maneira de implorar para que ele não jogue na minha cara aquela conversa sobre o disco.
— Eu acho que você deve comprar — ele confirma, com um sorrisão cheio de covinhas. — Já posso imaginar você vestida nele. Linda. Naturalmente.
Eu fico vermelha e olho para o vestido de novo.
— Você acha? — Não consigo parar de sorrir.
— Com certeza — ele diz. — E você fica mais acessível nele.
Típico!
Ignoro seu comentário pervertido, sobretudo porque estou apaixonada demais pelo vestido. Então me dou conta de que ainda não olhei o preço. Conhecendo os vestidos daquela marca, sei que eles não são caros. Mas quando o vendedor é alguém que acha que pode enganar um cliente, fazendo-o pagar três vezes o valor justo, não há como prever o preço na etiqueta. Prendo a respiração e olho o valor. Vinte contos! Perfeito.
Olho mais uma vez para Andrew e de repente me sinto uma vaca reclamona.
— Por que você não compra aquele disco do Led Zeppelin também? — digo timidamente.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Não, um LP antigo não serve pra nada mesmo. Mas um vestido como esse tem sua serventia. — Ele cruza os braços e me olha de cima a baixo.
Eu acho que ele está bancando o pervertido de novo, e dessa vez abro a boca para acusá-lo, quando ele acrescenta:
— Casar comigo vestida nele, por exemplo.
Seus olhos verdes parecem cruzar rapidamente os meus.
Meu sorriso se abranda e eu digo:
— É um vestido de noiva perfeito.
— Então tá combinado — ele diz, segurando a minha mão. — Quando a gente se casar, pelo menos você já vai ter o vestido.
— Só precisamos disso, na verdade — digo, saindo com ele da barraca com o vestido pendurado no braço.
Ele olha para mim.
— Alianças — ele diz, com um olhar estranho.
— Eu tenho aliança — digo, levantando a mão, achando que por algum motivo ele se esqueceu do anel que me comprou no Texas.
— Isso é um anel de noivado.
— É, mas basta.
— Bom, eu também preciso de uma. Ou você se esqueceu de mim? Casamento é pra dois, sabe.
Eu rio baixinho enquanto chegamos à pequena fila da caixa.
— Tá, tem razão, mas eu tô feliz com o meu anel. Além disso, eu sei que você gastou uma grana com este colar. Não pode fazer essas coisas.
— Vamos começar com isso de novo? — ele pergunta em tom brincalhão, tirando a carteira do bolso. — Não menti pra você sobre o preço do colar.
Talvez ele esteja mesmo dizendo a verdade.
— Acredito em você — digo finalmente.
Ele sorri e deixa por isso mesmo.
Andrew
20
SIM, SOU UM baita mentiroso. Aquele colar custou pouco mais de 600 dólares, mas sei que não posso contar pra ela. Ela acha que o que importa nas coisas caras é quantos zeros há antes da vírgula, mas nem sempre é isso. Francamente, acho que normalmente é pra mulher que o preço importa tanto. Porra, já ouvi garotas reclamando e choramingando porque o cara delas não gastou o suficiente. Eu queria saber se elas percebem como dificultam a nossa vida quando se juntam com as amigas e comparam pedras como nós, homens, comparamos nossas ferramentas. A propósito, a gente não faz isso, na verdade. Pelo menos eu nunca consegui encontrar um cara que quisesse abrir o zíper e competir comigo.
Eu queria comprar algo bem legal pra Camryn no aniversário dela. Por pura coincidência, aquilo de que eu mais gostei, entre as coisas que vi, era caro.
Aceite isso, amor.
Ela é capaz de desmaiar se descobrir quanto eu gastei nas nossas alianças, que comprei enquanto estávamos em Chicago. Está difícil evitar que Camryn as veja. Mas consegui enfiar a caixinha num bolso escondido da minha mochila.
Passamos o dia todo fazendo o que sempre fazemos, ficando juntos e aproveitando o tempo frio como dá. Quando voltamos para o hotel, pego o violão e toco para ela uma canção que compus e na qual estou trabalhando há uma semana. Eu esperava terminá-la até o dia do aniversário porque faz parte do presente dela. Compus só pra ela. Eu a chamo de “A Tulipa na Colina”, uma canção inspirada pelo primeiro dia que passamos juntos quando eu saí do hospital, depois da minha cirurgia.
— Eu acho que você deve pegar leve — Camryn disse naquele dia. — Nada de enfiar a cabeça nos motores de Billy Frank por uns tempos, nem bungee jumping, nem corridas de carros.
Eu ri um pouco, virando a cabeça para o lado para vê-la. Eu estava deitado de comprido numa mesa de piquenique de pedra. Camryn estava sentada no banco, perto da minha cabeça.
— Então sua definição de pegar leve é não fazer absolutamente nada? — perguntei, sorrindo para ela, com a cabeça apoiada nas mãos.
— O que tem de errado em passar um dia calmo no parque? — ela perguntou, passando os dedos na minha testa.
— Nada — respondi e beijei-lhe os dedos quando sua mão chegou à minha boca. — Eu gosto de ficar sozinho com você.
Ela virou a cabeça devagar para o lado e sua expressão ficou mais meiga. Depois olhou para o parque. As árvores estavam frondosas, e a grama, espessa e verdejante. Estava realmente um dia lindo. Fiquei me perguntando por que só nós dois, aparentemente, estávamos ali, aproveitando.
— Acho tulipas bonitas — ela disse com voz distante, olhando para a pequena colina coberta de grama do meu outro lado.
Olhei também e vi uma única tulipa brotando no alto daquela colina, sozinha. Não sei bem por quê, mas desde aquele dia, sempre que vejo uma tulipa em qualquer lugar, penso em Camryn.
Eu nunca vou esquecer o sorriso em seu rosto enquanto toco e canto a canção para ela. É tão terno, radiante e carinhoso, o tipo de sorriso que diz Amo Você Mais Do Que Tudo Neste Mundo sem precisar dizer essas palavras.
CONTINUA
14
QUANDO CHEGO AO banheiro, tem uma fila de mulheres esperando por cabines vazias. O ar está espesso com o bafo de álcool, perfume e roupas cheirando a cigarro. Uma porta de cabine se abre e fecha com uma batida violenta de poucos em poucos segundos quando alguém entra ou sai. Lavo as mãos primeiro, precisando me espremer entre duas garotas bêbadas sentadas no balcão da pia, uma de cada lado. Por sorte, elas são o tipo de bêbada supersimpática, porque não estou podendo com uma briguenta e grosseira hoje. Elas pedem desculpas por atrapalhar e se afastam para me dar espaço.
— Obrigada — digo, abrindo a torneira.
— Ei, você é a menina que tava cantando — a garota da esquerda diz, apontando para mim e sorrindo. Ela olha para a amiga do outro lado, depois para mim de novo.
— É, acho que sou eu.
Não estou nem um pouco a fim de conversa de banheiro. Quanto mais tempo passo num banheiro público, com mais nojo eu fico.
— Vocês dois são muito bons — ela diz com um sorrisão.
— É, sério — a amiga dela confirma. — Por que estão cantando em bares, afinal?
Eu dou de ombros e espremo mais sabão do reservatório na mão e tento evitá-las o mais gentilmente possível.
— De verdade — a da esquerda acrescenta. — Eu pagaria pra ver vocês tocarem.
Tudo bem, eu não sou totalmente imune a elogios. Sorrio e agradeço de novo.
Quando mais duas cabines ficam desocupadas, elas aproveitam a oportunidade e se trancam nelas. Logo depois, acenam em despedida e me desejam boa sorte na minha “carreira musical”. Quando estou quase sozinha, me viro para o espelho, mas não olho para mim. Em vez disso, enfio a mão no bolso e pego um comprimido, engolindo-o com água da pia.
É só pra tirar o nervoso.
Então eu me olho, empurrando o comprimido e o sentimento de culpa que vem cada vez que tomo um para o fundo da minha mente. Invento pretextos para justificar tomá-lo e quase engano a mim mesma. Mas eu sei que a culpa que sempre sinto tem um motivo.
Em menos de 11 minutos, não me importo mais com a culpa, os pretextos ou o nervoso, porque essa parte do meu cérebro foi adormecida.
Passo as pontas dos dedos embaixo dos olhos para limpar o rímel borrado, depois enxugo a oleosidade do meu rosto com papel higiênico. Preciso estar de cara boa quando voltar lá. Me sinto ótima, mas preciso parecer tão bem quanto me sinto.
Abrindo caminho em meio à multidão, encontro Aidan e Michelle de pé perto do enorme balcão do bar e me junto a eles. Então lembro que Andrew foi buscar uma bebida para mim, mas não quero atravessar aquele mar de gente de novo só para pegá-la.
— Vocês dois são fantásticos! — Michelle grita por cima da multidão barulhenta. Ela me abraça e eu retribuo, sentindo meu sorriso movido a comprimidos se alargando muito em meu rosto.
Eu me viro para Aidan.
— O que você achou?
— Concordo com Michelle! Vocês deveriam compor seu próprio repertório e tocar aqui mais vezes. Tem sempre caçadores de talentos aqui no bar. E celebridades. — Ele aponta para a parede do fundo, onde uma série de fotografias autografadas de vários músicos e astros do cinema formam uma linha reta. — Comecem a tocar material próprio — ele continua. — Aposto que vocês dois seriam contratados por uma gravadora em menos de um ano.
Estou tão chapada, no momento, que ele poderia me dizer que achou a gente uma bosta e sem futuro nenhum na música, e eu sorriria do mesmo jeito, deixando as palavras passarem por mim como uma brisa.
Olho para o outro lado do salão e vejo Andrew no palco com sua guitarra e a banda da casa, se preparando para a canção que é sua marca registrada, “Laugh, I Nearly Died”. Ele provavelmente não me vê no meio da multidão, mas sabe que estou assistindo. Adoro vê-lo no palco, no seu elemento. Sei que, por mais que sejamos bons juntos, musicalmente, ele sempre é mais dono do palco quando toca sozinho. Talvez seja impressão minha, mas gosto de pensar nele como na primeira vez que o vi tocar. Porque naquela noite em Nova Orleans, ele estava cantando para mim, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu faria qualquer coisa pra me sentir assim de novo. Qualquer coisa...
Segundos depois de começar a tocar, Andrew, como sempre, tem a atenção de todos os presentes. As duas garotas na mesa estão de pé agora, dançando juntas de um jeito provocante, mas eu sei que é tudo para Andrew. Já vi isso antes. Elas o querem, e Andrew deixa que acreditem, só por uma noite, que ele também as quer. É perfeitamente inofensivo. Andrew e eu encaramos isso como uma maneira de levantar a autoestima dos outros. Um pouco de paquera aqui e ali, tornar uma garota ou um cara de sorte o centro das atenções só pelo tempo suficiente para corar e sorrir. Nunca se sabe o que acontece na vida das pessoas a portas fechadas, e um pouco de energia positiva da paquera nunca atrapalha.
Quando voltamos para a casa de Aidan e Michelle pouco depois da meia-noite, vou para a cama antes de todos. Fico deitada por uma hora, ouvindo as vozes deles vindo do corredor e entrando no quarto. Andrew ia se deitar comigo, mas insisti para que ele ficasse com o irmão. Ele anda se preocupando demais comigo ultimamente. Vamos voltar para Raleigh amanhã, e quero que ele passe o maior tempo possível com Aidan.
Mais uma hora passa e eu continuo acordada.
Frustrada, enfio a mão na bolsa, procurando o frasco. Sem nem perceber, já estou nos últimos comprimidos.
Desmaio com três, desta vez.
Andrew
15
— CAMRYN? AMOR, acorda, por favor. — Eu a sacudo com força pelo ombro.
Minha emoção dominante, no momento, é o medo. Minhas emoções secundárias são raiva e mágoa. Mas, estranhamente, a sensação de incerteza está mantendo todas as outras a distância.
Eu a sacudo de novo.
— Levanta.
Não faço ideia de quantas dessas porras de comprimidos ela tomou, mas julgando pelo frasco quase vazio, a perspectiva de ter sido o suficiente para uma overdose faz uma onda de pânico percorrer todo o meu corpo. Mas ela está respirando normalmente e seu ritmo cardíaco parece normal. Se ela não acordar...
Seus olhos se abrem lentamente, e eu respiro mais aliviado.
— Camryn. Olha pra mim.
Finalmente, ela acorda o suficiente para me olhar nos olhos.
— Que que foi? — Ela geme suavemente e tenta fechar os olhos de novo, mas eu a seguro pelos ombros e a obrigo a se sentar.
— Acorda. Fica de olhos abertos.
Ela se senta, toda mole, mas não é nada tão fora do comum, depois de ter sido forçada a acordar e a se endireitar assim.
— Quantos você tomou?
Michelle está na porta do quarto, atrás de mim.
— Quer que eu chame uma ambulância?
De repente, Camryn fica completamente alerta. Não sei se minha pergunta finalmente a alcançou ou se foi a menção de uma ambulância, mas ela me encara com olhos arregalados e assustados.
— Quantas dessas porras de comprimidos você tomou?
Ela desvia o olhar do meu e vê o frasco de comprimidos sobre o criado-mudo. Quando decidi que dormir até depois das 14h não era típico dela e fui ver o que estava acontecendo, encontrei o frasco no chão.
— Camryn? — Eu a sacudo de novo e ela volta a prestar atenção em mim.
Ela só me olha. Vejo tanta coisa em seus olhos agora que não sei dizer se é mais humilhação, arrependimento, mágoa, raiva ou resignação. E então seus olhos começam a se encher de lágrimas. Sinto seu corpo se agitando sob o peso dos meus braços. Ela desata a chorar, caindo em meus braços, soluçando descontroladamente, e aquilo me despedaça.
— Andrew? — Michelle diz da porta.
Sem olhar para trás, eu digo:
— Não, ela vai ficar bem. — E engulo minhas próprias lágrimas e a raiva, sentindo meu peito se apertar.
A porta se fecha silenciosamente atrás de mim quando Michelle sai do quarto.
Abraço Camryn por muito tempo, deixando-a chorar no meu peito. Não digo uma palavra. Ainda não. Em parte porque sei que ela precisa disso, poder chorar e desabafar. Mas a outra parte de mim está tão puta da vida e magoada que sinto que vou precisar me afastar e me recompor para não dizer coisas erradas. Eu a abraço forte, apertando os braços em volta do seu corpo trêmulo. Beijo seu cabelo e tento não chorar também. A parte de mim que está puta da vida ajuda nisso.
— Eu sinto muito! — ela grita e, nessa fração de segundo, quando ouço a dor em sua voz, minha raiva se apaga quase completamente e eu a abraço ainda mais forte.
— Tá pedindo desculpas pra mim? — pergunto, incrédulo. Eu a afasto, segurando-a firme pelos antebraços. Balançando a cabeça furiosamente, volto a ficar como alguns minutos atrás. — Não, primeiro você precisa me dizer quantos você tomou. — Eu a encaro com firmeza.
— Ontem à noite. Só três.
— Quantos tinha no frasco no total?
— Não sei. Uns vinte.
— Então há quanto tempo você tá tomando?
Ela faz uma pausa e responde.
— Desde terça. São da minha mãe. Tomei um quando tava com dor de cabeça, mas aí comecei a tomar... — Seus olhos se enchem de água novamente.
Eu enxugo as lágrimas do seu rosto.
— Puta que pariu, Camryn! — exclamo, puxando-a para o meu peito por mais um breve momento. — O que você tava pensando, porra?
— Eu não pensei! — ela grita. — Não sei o que eu tenho!
Seguro seu rosto com as palmas das mãos.
— Você sabe o que você tem. Tá arrasada por perder a Lily e não sabe como lidar com isso. Só queria que você tivesse falado comigo.
Com o rosto dela ainda nas mãos, seus olhos desviam dos meus. O silêncio tenebroso entre nós me afeta da forma mais estranha.
— Camryn? — Tento fazê-la me olhar de novo, mas ela se recusa. — Fala comigo. Você precisa falar comigo. Escuta, você não fez nada errado, nem poderia ter evitado o que aconteceu. Precisa saber disso. Precisa enten...
Sua cabeça se desvencilha das minhas mãos, seus olhos penetrando os meus, cheios de dor e de... algo mais.
— É culpa minha! — ela diz, se afastando de mim na cama.
Ela se levanta do outro lado e cruza os braços, me dando as costas.
— Não é culpa sua, Camryn. — Ando até ela, mas assim que sente que vou me aproximar, ela se vira.
— É culpa minha sim, Andrew! — ela repete, com as lágrimas escorrendo dos olhos. — Eu não conseguia parar de pensar que minha gravidez ia ferrar com tudo! Detestava continuar morando em Galveston depois de quatro meses! Fiquei me perguntando como a gente ia fazer tudo o que queria com um bebê! Por isso, sim, é culpa minha que a perdemos e eu me odeio por isso, caralho! — Ela esconde o rosto nas mãos.
Atravesso a curta distância até ela, tomando-a em meus braços de novo.
— Meu Deus, Camryn, não foi culpa sua! — Acho que nunca falei nada para ninguém com tanta emoção. Meu peito tremia incontrolavelmente contra o dela.
— Olha pra mim! — imploro, afastando-a. — Isso é tão normal. E se você é culpada, então eu também sou. Tive esses pensamentos de vez em quando, mas, como você também, não teria desistido dela nem se pudesse.
Ela não precisa confirmar essa afirmação em voz alta, porque sei que ela também não teria desistido. Mas ela confirma assim mesmo: — Não lamentei nada engravidar dela. E eu... quero minha bebê de volta!
— Eu sei. Eu sei. — Eu a abraço apertado e ando com ela até o pé da cama, fazendo-a sentar. Eu me agacho entre as pernas dela, apoiando os braços em suas coxas e tomando suas mãos nas minhas. Olho para ela e digo mais uma vez: — Não foi culpa sua.
Ela enxuga algumas lágrimas e nós ficamos sentados assim pelo que parece uma eternidade. Acho que ela acredita em mim — ou isso ou está só evitando encarar a realidade. Então ela olha para a parede atrás da minha cabeça e diz baixinho: — Isso faz de mim uma viciada em drogas?
Quero rir, mas não rio. Em vez disso, apenas balanço a cabeça e sorrio suavemente para ela, apertando as pontas dos dedos em suas mãos.
— Foi um momento de fraqueza, e até a pessoa mais forte não é imune à fraqueza, Camryn. Quatro dias e um frasco de analgésicos não fazem de você uma viciada em drogas. É falta de juízo, mas não é vício.
Ela olha de novo para mim.
— Michelle e Aidan vão achar que é.
Balanço a cabeça.
— Não, não vão. E ninguém mais vai. — Eu me levanto e me sento ao lado dela. — Além disso, não é da conta de ninguém, porra. É uma coisa que só você e eu precisamos saber e enfrentar.
— Nunca fiz nada assim antes — ela continua, olhando para a frente. — Não acredito...
— Você estava diferente. Está diferente desde que Lily morreu.
O quarto fica estranhamente em silêncio de novo. Olho para ela de lado, mas a deixo em silêncio por um momento. Ela parece perdida em pensamentos.
E então ela diz:
— Andrew, talvez nós não devêssemos estar juntos. — E suas palavras me atingem tão rápido e com tanta força que sinto que falta ar nos meus pulmões.
Fico tão surpreso que é como se suas palavras tivessem roubado todas as minhas. Meu coração está disparado.
Finalmente, quando ela não elabora, consigo balbuciar:
— Por que tá dizendo isso? — E fico com medo de sua resposta.
Ela continua olhando para a frente, com as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto. E então ela olha para mim e vejo a mesma dor intensa em seus olhos que eu sei que ela vê nos meus.
— Porque todo mundo que eu amo acaba me abandonando ou morrendo.
O alívio me invade, mas é superado pela sua dor.
É nesse exato momento que percebo que essa é a primeira vez que Camryn se abriu a respeito disso tudo comigo, ou com qualquer outra pessoa. Penso nas coisas que Natalie me contou, e nas conversas que Camryn e eu tivemos na estrada, e sei que no momento Camryn está admitindo a dimensão de sua dor não só para outra pessoa, mas o mais importante, para si mesma.
— Eu me sinto tão egoísta dizendo isso — ela continua, e deixo que ela fale à vontade, sem interrupções. — Meu pai abandonou a gente. Minha mãe mudou. Minha avó, a única pessoa que continuou a mesma e sempre me apoiou quando precisei, morreu. Ian morreu. Cole foi pra prisão. Natalie me apunhalou pelas costas. Lily... — Ela olha para mim, finalmente, a dor intensificada em seu rosto. — E você.
— Eu? — Me agacho diante dela de novo. — Mas eu tô aqui, Camryn. Vou estar sempre aqui. — Tomo as mãos dela nas minhas. — Não importa o que você faça, ou o que aconteça entre a gente. Nunca vou te abandonar. Vou estar sempre com você. — Aperto as mãos dela. — Lembra quando eu disse que você era a coisa mais importante do mundo pra mim? Você pediu que eu te lembrasse disso, se um dia você esquecesse. Bom, eu tô te lembrando agora.
Soluços percorrem seu corpo.
— Mas você podia ter morrido — ela insiste, com choro na voz. — Cada dia que passei naquele hospital, pensei que seria o seu último. E aí quando não era e você resistia, eu continuava prevendo isso mesmo assim. Semanas, meses depois, porque uma parte de mim achava que eu precisava me acostumar com a ideia de perder você. Um dia. Porque eu sabia que você ia me deixar de um jeito ou de outro. Como todo mundo.
— Mas eu não deixei — digo com desespero, sorrindo um pouco ao mesmo tempo. Eu me sento no chão e a puxo para perto de mim. — Eu não morri. Não morri porque eu sabia que você tava lá comigo o tempo todo. Porque eu sabia que nosso destino era ficar juntos, e que se você vivesse, eu também viveria.
— Mas e se você morrer? — ela pergunta.
Isso eu não esperava.
— E se o tumor voltar?
— Não vai voltar — respondo. — E mesmo se voltar, vou vencê-lo de novo. Cacete, eu fiquei oito meses sem ir ao médico e venci assim mesmo. Com você na minha vida, me atormentando pra me fazer ir aos checkups regularmente, de jeito nenhum ele vai me matar.
Ela não parece totalmente convencida disso, mas vejo um pequeno raio de esperança em seu rosto, e era isso que eu queria ver.
— Eu sinto muito mesmo — ela diz, mas em vez de dizer que não precisa, também deixo que ela viva esse momento, porque parece mais que ela está se permitindo fechar um ciclo. — Aposto que você nunca pediu pra ter um fardo absurdo desses. — Ela passa os dedos sob os olhos.
Tentando aliviar um pouco o clima, esfrego as mãos em seus joelhos nus e digo: — Eu te amaria mesmo se você fosse uma daquelas garotas que correm pro banheiro pra vomitar depois de comer, ou se tivesse o fetiche secreto de transar com um palhaço.
Ela ri baixinho em meio às lágrimas, e isso me faz sorrir.
Levanto o queixo dela com um dedo e fico sério de novo, olhando bem em seus lindos olhos azuis e úmidos.
— Camryn, Lily não tava pronta, só isso. Não sei por que, mas você não pode se culpar por ela ou por qualquer um. E você precisa entender que estamos nisso juntos. Em tudo. Acredita nisso?
Ela balança a cabeça.
— Sim.
Eu me curvo e a beijo primeiro na testa, depois nos lábios.
Segue-se o silêncio, e a atmosfera no quarto parece diferente. Mais brilhante. Eu sei que Camryn não vai voltar a ficar 100% da noite pro dia, mas posso ver que ela já está melhor. Percebo só de olhar que ela se sente menos carregada, agora que tirou essas merdas da cabeça. Ela precisava disso. Precisava de alguém para fazê-la cair na real. Não alguém indiferente, ou que desse apenas respostas prontas para tudo.
Ela precisava de mim.
Eu me levanto e pego a mão dela.
— Vem cá.
Ela me segue, pego o frasco de comprimidos da mesa ao lado da cama e a puxo comigo para o banheiro da suíte. Levanto a tampa da privada e entrego o frasco a ela. E antes que eu diga qualquer coisa, Camryn vira o frasco sem hesitação e joga os últimos quatro ou cinco comprimidos na privada.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão fraca. — Ela olha para a água enquanto os comprimidos giram no vaso e são sugados pelo cano. Depois olha para mim. — Andrew, eu podia facilmente ter ficado viciada neles. Não consigo imaginar...
— Mas você não ficou — interrompo, antes que ela fique remoendo aquilo mais. — E você tem direito a um momento de fraqueza. E chega.
Eu saio do banheiro e ando pelo quarto. Ela me segue e fica parada no meio do quarto, me olhando.
— Andrew?
Eu paro, me viro para ela e digo:
— Me dá uma semana.
Ela parece meio confusa.
— Uma semana pra quê?
Sorrio fracamente.
— Só concorda. Fica aqui comigo uma semana.
Cada vez mais confusa, ela diz:
— Hãã, tá. Vou ficar aqui com você uma semana — embora esteja estampado em seu rosto que ela não sabe com o que está concordando.
Mas ela confia, e isso significa tudo para mim. Vou dar a nós dois o que ambos precisamos, querendo ela ou não.
Camryn
16
Dia Três
Nunca pensei nem por um minuto que seria capaz de fazer o que fiz. Andrew chama de um momento de fraqueza e talvez tenha razão, mas vai levar tempo pra cacete pra que eu consiga me perdoar por aquilo.
Michelle deixou claro que não vai me julgar, e embora isso me faça sentir melhor, me sinto humilhada sempre que estou na presença dela ou de Aidan. Talvez seja por isso que eu me sinta tão mal, por eles serem tão compreensivos.
Uma semana. Nem faço ideia do que Andrew quis dizer com isso, mas estou em dívida com ele, por isso não faço perguntas e deixo que ele faça o que está planejando. Ele andou bem misterioso nos últimos dias, muitas vezes atendendo ligações em outros quartos para que eu não pudesse ouvir. Só tentei escutar uma vez, simplesmente ficando bem quieta no sofá quando ele foi para a cozinha falar com Asher. Mas então bisbilhotar assim me fez sentir culpada, por isso aumentei o volume da TV para não conseguir ouvir.
E posso ter tomado os comprimidos só por uma semana, mas pelo jeito foi tempo suficiente para eu ainda me sentir zonza três dias depois dos últimos que tomei. Me sinto mal, até mais incapaz de dormir do que antes de começar a tomá-los, mas pelo menos as dorezinhas de cabeça finalmente estão começando a desaparecer. Não consigo imaginar ficar viciada neles por meses ou anos. Sinto pena de quem fica...
Dia Quatro
Aidan entra com um pequeno maço de correspondências na mão, olhando cada uma enquanto anda pela sala.
Ele para num envelope branco por um segundo, constrangido, e o levanta, olhando para mim primeiro, até que Andrew entra na sala.
— Parece que esta é pra você. — Ele me olha de novo, mas entrega o envelope a Andrew.
Isso me dá uma sensação muito estranha, então me levanto instintivamente da espreguiçadeira e me aproximo de Andrew para ver o que é.
Pouco antes que Andrew escondesse o envelope de mim, vejo o nome de Natalie escrito nele.
Ele também sabe que eu vi.
— Não — diz Andrew, balançando a cabeça. — Vou deixar você ver outro dia. — E então ele enfia o envelope no bolso de trás do jeans.
Confio totalmente nele, mas sou humana, e uma pequena parte de mim está nervosa com essa situação toda. Por que Natalie mandaria uma carta para Andrew? Confiando ou não, a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um é se perguntar se tem alguma coisa acontecendo entre os dois. Mas isso é absurdo, e afasto essa ideia da minha mente com a mesma rapidez que ela veio.
Eles estão conspirando contra mim.
Eu só queria saber o que está acontecendo.
Dia Cinco
Falei com Natalie, minha mãe e Marna por telefone hoje. Marna tenta agir como se nada tivesse acontecido com o bebê, e é tão boa nisso quanto Michelle foi no meu primeiro dia em Chicago. Ela é tão meiga e delicada. Minha mãe, por outro lado, parece não conseguir falar de outra coisa além do meu relacionamento com Andrew. Ela me persegue sempre que pode, perguntando quando vamos nos casar, e resolveu enfiar na cabeça que vamos fazer isso do jeito que todo mundo faz. Tento dizer a ela que não quero um vestido caro, uma capela ou milhares de dólares em flores que vão murchar na semana seguinte, mas é como se ela nem me escutasse. Ela só quer que a gente se case. Talvez assim se sinta melhor com ele dormindo no meu quarto. Não faço ideia do que passa pela cabeça da minha mãe, e metade do tempo acho que nem ela sabe.
Andrew foi a um médico aqui em Chicago fazer um checkup hoje. E como toda vez que ele vai, fico até com enjoo de preocupação até que acabe. Por sorte, ele voltou com boas notícias.
Dia Seis
Falo com Natalie por telefone de novo, mas novamente não menciono o envelope. Ela também não está agindo naturalmente. É óbvio que está se esforçando para não entregar nenhum dos segredos de Andrew, o que deixa as conversas cheias de momentos silenciosos e constrangidos. Quero rir dela por ser tão péssima em agir normalmente, quando só o que ela quer é me contar tudo e dar o assunto por encerrado.
Dia Sete
Esta semana foi uma das mais longas da minha vida. Fico na cama até mais tarde porque está começando a esfriar, mas também porque estou nervosa e não consigo fazer outra coisa. Andrew se levantou há uma hora, e só o vi voltar para o quarto uma vez, para calçar os sapatos. Ele me beijou e sorriu para mim como se estivesse secretamente empolgado, e então saiu de novo sem dizer uma palavra.
Eu viro para o lado, enrolada no cobertor, e olho pela janela. O sol está brilhando hoje, e o céu está azul e sem nuvens.
Ouço os três andando pela casa.
Os sapatos de Andrew rangem sobre o chão de madeira na porta do nosso quarto. Ele abre a porta e fica na entrada, olhando para mim.
— Levanta e se veste — ele diz, com a mão ainda na maçaneta.
Eu só o olho por um segundo, achando que talvez ele vá explicar o que vamos fazer, mas ele só aponta para os meus sapatos no chão, como que dizendo calce-os, depois fecha a porta e me deixa sozinha.
Faço exatamente o que ele manda. Me levanto e visto meu jeans favorito e uma blusa folgada de tricô de mangas compridas, depois um par de meias e meus mocassins. Quando saio do quarto para a sala, vejo Michelle encolhida no canto do sofá, com um cobertor sobre as pernas, vendo TV. Ela se vira para me ver, e está com um sorriso aberto, como se soubesse algo que não sei. E com certeza sabe.
— Ele tá lá fora com Aidan — ela diz, acenando na direção da porta.
Cada vez mais nervosa, ando lentamente até a porta e a abro.
Saindo na varanda de pedra, vejo Andrew e Aidan de pé do lado da estrada, em frente à casa, com Asher, e todos eles estão encostados na lateral do Chevelle.
Por um momento eu penso: Tá, então Asher veio nos visitar, é só isso que tá acontecendo? Não que eu não fique feliz em ver Asher, mas, francamente, não é algo que eu imaginaria que fosse justificar todos esses planos de Andrew em segredo.
É o carro, percebo, mas é só isso que consigo entender sozinha. Tenho uma teoria sobre o motivo de ele tê-lo trazido para cá, mas a esta altura vou só fazer o melhor que posso para não pensar nisso.
Desço rapidamente os degraus de pedra e dou um abraço apertado em Asher.
— Você tá ótima, garota — ele diz, com aquelas covinhas e os olhos verdes e brilhantes quase idênticos aos de Andrew. Então ele me aperta e me levanta um pouco do chão.
— É muito bom te ver — digo, sorrindo.
Fico correndo os olhos dele para Andrew, que está sorrindo tanto que duvido que consiga manter o mistério por muito mais tempo.
Olho para o Chevelle e então para Asher. Olho de novo.
— Então você veio dirigindo lá de... — Tudo bem, é um pouco mais intrigante do que eu imaginava. O carro estava no Texas, até onde eu sei, e Asher estava em Wyoming. Finalmente continuo: — O que tá acontecendo?
Asher olha para Andrew, e Andrew dá um passo à frente.
— Eu pedi que Asher trouxesse o carro pra cá — ele diz.
— Mas por quê?
Asher cruza os braços e se apoia na porta de trás do carro.
— Porque ele é doido — Asher diz, rindo baixinho. — E porque não confiou num serviço de entregas pra trazer o carro.
Eu me viro para Andrew de novo, esperando que ele desembuche. Uma brisa fria atravessa minha blusa de tricô e eu enfio as mãos nas mangas.
— Você tem cinco minutos pra botar todas as suas coisas na mala — ele diz, e meu coração começa a bater descompassado antes que ele termine a frase. Ele bate no pulso sem relógio. — Nem um segundo a mais.
— Andrew...
— Isso não tá em discussão — ele diz. — Vai pegar suas coisas.
Eu só olho para ele, sem expressão.
Minha teoria estava certa, mas eu não queria que estivesse. Não quero cair na estrada... Isto é, eu quero... mas não está certo. Isso não está certo.
— Agora você tem quatro minutos — Asher diz.
— Mas a gente não pode partir assim — eu argumento. — Seria grosseria. — Aponto para Asher. — E Asher acabou de chegar. Você não quer ver...?
— Posso ver meu irmão mais velho a hora que eu quiser — Asher rebate. — No momento, acho melhor você fazer o que ele mandou, ou vai acabar na estrada, usando a mesma calcinha por uma semana.
Mais alguns segundos se passam e eu ainda não me mexi. Estou num leve estado de choque, acho.
— Três minutos, amor — Andrew diz, e está me olhando com expressão séria. — Não tô brincando. Sobe lá, bota suas porras nas malas e entra nessa merda de carro.
Cacete, ele voltou a ser como era...
Quando começo a discutir de novo, os olhos de Andrew ficam ferozes e ele diz:
— Anda logo. O tempo tá acabando! — E aponta para a casa.
Finalmente, baixando a guarda e entrando no clima tanto quanto posso me permitir, olho para ele com raiva e digo:
— Tudo bem. — Só concordo porque sei que ele está tentando melhorar as coisas. Mas me sinto culpada pra caramba.
Desconsiderando seu prazo bem-humorado de cinco minutos, giro nos calcanhares e ando muito lentamente na direção da casa, demorando de propósito, em parte minha maneira silenciosa de discordar da situação.
— Você sabia disso, Michelle? — pergunto quando passo por ela e vou para o corredor.
— Com certeza! — ela grita em resposta. Posso ouvir o sorriso em sua voz.
Abro a porta do quarto, ponho a mochila sobre a cama e começo a enfiar tudo dentro dela. Depois vou para o banheiro, pego nossas escovas de dentes e vários artigos de toalete. Arranco nossos carregadores da parede, pego meu celular do criado-mudo e enfio tudo na minha bolsa. Ando pelo quarto, torcendo para não ter esquecido nada.
Parece que Andrew já tinha feito as malas e eu nem percebi.
Em seguida fico ali, vasculhando cada centímetro do quarto, mas sem ver nada, na verdade. Não quero fazer isso, mas talvez seja o certo.
Ouço a buzina tocar três vezes e isso me arranca dos devaneios. Levantando a mochila, eu a jogo no ombro e pego minha bolsa de cima da cama.
— A gente se vê por aí! — Michelle diz do sofá.
Eu paro ao passar por ela, me curvo sobre o encosto do sofá para lhe dar um abraço desajeitado, atrapalhada pelas alças nos ombros.
— Divirta-se — ela acrescenta.
— Obrigada por nos convidar — eu digo.
Com um grande sorriso, Michelle gesticula para que eu vá, e eu saio da casa.
Quando desço os degraus, Andrew abre o porta-malas do Chevelle e eu jogo minha mochila lá dentro. Os cinco minutos que ele me deu passaram faz tempo, mas duvido que ele vá dizer alguma coisa.
— Tá pronta? — Andrew pergunta, fechando o porta-malas.
Eu respiro fundo, olho para Asher e Aidan, e antes de responder, vou abraçar os dois.
— Legal você ter vindo — diz Aidan.
— Vê se bota meu irmão na linha — Asher recomenda.
Sorrio para os dois, me sento no banco do passageiro e Andrew fecha a porta para mim.
Os três se despedem. Um minuto depois, Andrew se senta no banco do motorista, e uma lufada de ar frio entra no carro junto com ele.
Ele me olha.
— Então, vai ser assim — ele diz, apoiando os pulsos no volante. — A gente vai pro sudeste, pro litoral...
— Peraí — interrompo —, você planejou tudo? — Isso é tão fora do estilo dele. Me deixa cismada.
Andrew sorri suavemente e diz:
— Em parte. Mas é necessário.
— Que parte é necessária?
Ele me olha como que dizendo: Vai me deixar terminar?
Fico quieta e deixo que ele continue, enquanto ele se debruça e abre o porta-luvas.
— A gente vai pro sul, vamos ficar no litoral durante o inverno todo — ele diz, e agora só consigo me perguntar quanto tempo ele planeja ficar na estrada. O inverno todo? Não consigo entender que diabo de ideia é essa. Ele saca um mapa e o desdobra sobre o volante. Olho para ele, desconfiada. — Odeio o frio. Seguindo o litoral e indo mais pro sul na época certa, a gente vai evitar quase toda a neve e merdas assim.
Tá, o plano é bom, admito. Também não aguento o clima frio, portanto, sim, essa parte é necessária mesmo. Concordo com a cabeça e deixo que ele continue.
Andrew aponta para o mapa gigante e começa a correr o dedo pelo nosso itinerário.
— Vamos começar no litoral da Virgínia e ir pro sul, passando pelo seu estado, mas nada de parar pra visitar. — Ele aponta para mim. — A gente tá só de passagem, certo? — Ele espera a minha resposta.
Concordo com a cabeça novamente e digo:
— Certo — porque com certeza há um método em sua loucura, e sinto que devo concordar com ele.
Ele olha de novo para o mapa e volta a correr o dedo pelo papel.
— Depois, pela Carolina do Sul até a Geórgia, e aí vamos percorrer toda a costa da Flórida, da praia de Fernandina — seu dedo faz uma longa curva pelo papel — indo até Pensacola.
— Quanto tempo tudo isso vai levar?
Ele sorri e balança a cabeça para mim.
— Isso importa? — Então ele dobra o mapa desorganizadamente e o joga no banco, entre nós. — Eu decido a direção, desta vez. Sobretudo porque não quero morrer de frio. Mas... — Ele se vira de novo e olha para a frente, tirando os olhos de mim — Bom, é assim que precisa ser.
— Por que a gente tá fazendo isso, Andrew?
Seus olhos pousam em mim mais uma vez.
— Porque é o certo — ele responde, com um olhar profundo. — Porque você tá no carro.
Suas palavras me deixam confusa.
— Porque eu tô no carro?
Ele balança a cabeça discretamente.
— Sim.
— Mas... o que isso significa?
Seus olhos verdes se abrandam com o sorriso, ele estende a mão e segura o meu queixo. Ele beija meus lábios e diz:
— Você podia ter lutado com unhas e dentes. Podia ter me mandado à merda quando falei pra pegar nossas coisas. Mas você não fez nada disso. — Ele me beija devagar mais uma vez, e o gosto de hortelã do seu hálito fica em meus lábios. — Você não entrou correndo naquela casa porque eu mandei, foi porque era o que você queria. Você nunca fez nada só porque eu mandei, Camryn. Eu sou só um chute no seu traseiro, mais nada.
Tento disfarçar o sorriso que está se abrindo em meu rosto, mas não consigo. Ele se curva, aperta os lábios na minha testa e se endireita no assento. O motor ronrona agressivamente por um momento quando o pé dele aperta o acelerador.
Ele tem razão. Tudo o que ele já me mandou fazer, mesmo quando reclamei, eu jamais teria feito se uma parte de mim não quisesse. Fico intrigada em ver como ele sempre sabe coisas sobre mim antes que eu saiba.
Andrew
17
ACHO QUE ONTEM, em Chicago, foi a primeira vez que não consegui prever a reação de Camryn a uma das minhas exigências. Minha garota estava arrasada. Isso me deixava mais apavorado a cada dia, a pessoa que ela estava se tornando. Corri um risco ligando para Asher naquela noite e pedindo que ele dirigisse o Chevelle até Chicago. Eu não sabia o que Camryn ia fazer e, para dizer a verdade, temi que ela se recusasse a ir. Por causa da culpa. Ei, odeio termos perdido a nossa Lily. Daria um braço ou uma perna para tê-la de volta. Mas o que está feito está feito, e ficarmos parados nos afogando em sofrimento e nos recusando a fazer o que nos deixa felizes por qualquer motivo é uma puta duma bobagem. É assim que você se mata. Um suicídio lento e doloroso. Se Camryn recusasse, eu a carregaria sobre o ombro, esperneando e gritando, e a jogaria no banco de trás do carro. Porque essa é a nossa vida. Nós nos encontramos na estrada; nos conhecemos e aprendemos a nos amar na estrada. É onde devemos estar pelo tempo que for, e é o que vamos fazer até que fique claro que deveríamos fazer outra coisa.
As primeiras 14 longas horas de nossa viagem são calmas e silenciosas. Eu dirijo de Chicago até Virginia Beach ouvindo rádio, ou meus CDs quando não encontro uma estação decente. Camryn, embora sorria e fale sobre as coisas que vemos da estrada, ainda não voltou ao normal, mas vai chegar lá. Pode levar alguns dias, mas vai começar a cair na real.
As praias da Costa Leste são diferentes das do Texas. São mais limpas, e aqui a água parece água do oceano de verdade, e não a água barrenta e turva do Golfo em Galveston.
Já é quase noite. Vimos o sol se pôr no horizonte quando chegamos a Virginia Beach, e foi a primeira vez que vi aquela faísca nos olhos de Camryn, desde que ela perdeu o bebê. Se eu soubesse que um crepúsculo podia fazer isso, já a teria levado para ver um há muito tempo.
— Então, a gente vai pedir quartos separados? — ela pergunta quando saímos do carro no estacionamento do nosso primeiro hotel.
Percebo que ela está brincando, mas aposto que não espera que eu entre na brincadeira.
— É exatamente o que vamos fazer. — Eu abro o porta-malas e jogo nossas mochilas nos ombros.
— Tá falando sério? — Ela está chocada, e é engraçado.
Eu represento o melhor que posso. Nunca me passou pela cabeça pedir quartos separados, mas agora que ela mencionou isso, não acho tão má ideia.
Fecho o porta-malas e nós entramos no saguão do hotel.
— Andrew, acho que a gente já passou dessa fase.
— Dois quartos contíguos para não fumantes, por favor, se tiver.
A recepcionista digita o pedido em seu computador. Eu ignoro Camryn a maior parte do tempo, mexendo na minha carteira à procura do cartão de crédito.
— Andrew?
— Não tenho dois quartos contíguos — a mulher diz —, mas tenho dois que ficam um de frente pro outro no corredor.
— Pode ser — eu digo.
Camryn sussurra:
— Não acredito que você vai gastar dinheiro com dois quartos quando a gente já fez sexo milhares de vezes... — Camryn não para de falar, enquanto a recepcionista nos olha disfarçadamente como se fôssemos loucos. Adoro essa expressão no rosto das pessoas, esse ar surpreso de “não acredito que você disse isso”.
— Por favor, fique quieta — eu digo, me virando para Camryn. — Eu vou pro seu quarto e te como rapidinho, não se preocupe. Então para de dar espetáculo.
Camryn arregala os olhos tanto quanto a recepcionista.
Pego Camryn pela mão e a puxo para a saída do saguão.
— Espero que apreciem sua estada — a recepcionista diz em tom estupefato enquanto vamos para o elevador.
Camryn cai na gargalhada assim que as portas do elevador se fecham.
— O que foi aquilo?! — ela pergunta, incapaz de se conter. — Parecemos dois adolescentes imaturos!
— Mas você tá rindo — eu comento. — Portanto, a imaturidade valeu totalmente a pena.
O elevador para no segundo andar e nós saímos no corredor.
— Mas, sério, Andrew, por que quartos separados?
Provando mais ainda que a espontaneidade tem mesmo um propósito, eu penso no que pedi que Natalie enviasse a Chicago, enquanto andamos pelo corredor. Paramos no meio dele, diante dos nossos quartos, e eu jogo as mochilas no chão verde acarpetado.
— Só por esta noite — respondo, enfiando a mão na mochila para procurar o envelope.
Camryn fica perto de mim, assistindo a tudo em silêncio. Percebo que ela quer dizer alguma coisa, mas não tem certeza, nesse momento, do que poderia ser.
Eu endireito o corpo com o envelope na mão. Ela olha para ele, mas não sabe ao certo quais são as minhas intenções.
— Esta noite você vai ficar sozinha no seu quarto — eu digo e entrego o envelope a ela.
Ela parou de sorrir assim que tirei o envelope da mochila. Agora só consegue olhar para mim, confusa e intrigada.
Cuidadosamente, ela estende a mão e pega o envelope, ainda insegura com relação a tudo, talvez até quanto a querer ou não saber o que há dentro dele.
Eu passo o cartão na fechadura do quarto de Camryn e abro a porta, levando a mochila dela para dentro. Ela me segue, vários passos atrás, muda e desconfiada, com o envelope entre os dedos relutantes. Deixo a mochila dela sobre o balcão da TV e verifico o quarto, como sempre faço. Ligo e desligo as luzes e testo o aquecedor antes de puxar os lençóis para ver se estão limpos. Lembrando que Camryn tem fobia de colchas de hotel, eu a arranco completamente da cama e a jogo no chão, num canto do quarto.
Ela fica perto do pé da cama, imóvel.
Eu me aproximo e fico na frente dela. Olho-a nos olhos e observo o modo como ela retribui meu olhar. Passo o indicador por sua sobrancelha e pelo lado de seu rosto e sinto o calor de sua pele sob o meu toque. Eu a quero. Quando seus olhos baixaram para os meus lábios, isso desencadeou algo predador em mim. Mas eu controlo meus impulsos, pelo seu bem. Esta noite, se tudo der certo, um ciclo vai se fechar.
— Cam foi ao funeral — Natalie me disse pelo telefone no dia em que liguei para ela da casa de Aidan. — Mas chegou tarde, ficou bem no fundo, perto da porta, e foi embora antes que a cerimônia terminasse. Ela se recusou a ir até o caixão.
— Alguma vez ela falou com você a respeito disso? — perguntei.
— Nunca — Natalie disse. — E sempre que tentei abordar o assunto, o funeral, o acidente, qualquer coisa, ela não me deixou continuar.
Esta noite vai ser dura para Camryn, mas se ela não enfrentar isso, nunca vai melhorar.
— Você sabe onde estou — sussurro suavemente, deixando minhas mãos caírem dos seus braços. — Vou ficar acordado a noite toda. Comecei a compor outra canção ontem e quero muito trabalhar nela enquanto tá fresca na minha mente. — Aos poucos, mas sempre, estamos compondo material próprio, especialmente desde a viagem a Chicago; e depois da noite em que tocamos no bar de Aidan, Camryn mostrou interesse por isso, por algum motivo.
Camryn balança a cabeça e sorri fracamente por baixo da expressão de preocupação em seu rosto, preocupação com o que se esconde dentro do envelope.
— E se eu não quiser ficar neste quarto sozinha? — ela pergunta.
— Tô pedindo pra você ficar — insisto com firmeza. — Só por esta noite.
Não quero dizer mais do que isso, mas espero que a sinceridade no meu rosto faça o que palavras poderiam fazer.
— Tá bom — ela concorda.
Eu a beijo de leve nos lábios e a deixo sozinha no quarto.
Só espero que esse tiro não saia pela culatra.
Camryn
Andrew me deixa no quarto. Sozinha. Não gosto disso, mas aprendi a lhe dar ouvidos nos curtos cinco meses que passamos juntos. Cinco meses. Isso me espanta cada vez que lembro, porque parece mais que estamos juntos há cinco anos, depois de tudo o que enfrentamos. Às vezes penso no meu ex, Christian, o namorado infiel que arranjei para preencher o vazio deixado por Ian, e com quem fiquei por quatro meses. A gente mal se conhecia. Pensando bem, agora não consigo nem lembrar o dia do seu aniversário ou o nome de sua irmã, que morava a duas quadras da casa dele.
É totalmente outro mundo com Andrew.
Em cinco meses, me encontrei com ele, me apaixonei total, incondicional e loucamente, aprendi de verdade a viver, conheci praticamente toda a sua família e logo me senti parte dela, enfrentei uma jornada desafiando a morte com Andrew, fiquei grávida e noiva. Tudo em cinco meses. E agora aqui estamos, enfrentando mais uma dificuldade. E ele continua comigo a cada passo. Fui idiota e fraca e tomei comprimidos, e ele continua aqui. Eu me pergunto se existe alguma coisa que eu possa fazer que seria tão horrível a ponto de ele me abandonar. Algo no meu coração diz que não, não existe nada capaz disso. Nada mesmo.
Nunca vou entender, enquanto eu viver, como tive a sorte de ficar com ele.
Durante esse momento de reflexão, noto que meus olhos não desviaram da porta por onde ele saiu. Finalmente, olho para o envelope na minha mão, e não sei por quê, mas fico com medo de pensar no que há dentro dele. Pensei nisso muitas vezes esta semana. Uma carta? Se for, do que poderia falar? E para quem seria, e de quem? Por que Natalie me escreveria uma carta? Por que ela escreveria para Andrew?
Nada disso faz nenhum sentido.
Eu me sento no pé da cama, deixando minha bolsa cair no chão ao meu lado, e passo os dedos pelo contorno do que está dentro do envelope. Mas já fiz isso algumas vezes esta semana e continuo chegando às mesmas conclusões: é um papel, meio grosso, dobrado duas ou três vezes. Não tem nenhuma saliência, nem mesmo algum relevo dentro. É só papel.
Eu suspiro e faço menção de soltá-lo, mas continuo segurando. Não sei por que não abro essa droga de uma vez. Está me deixando meio maluca há uma semana, e aqui estou eu, finalmente capaz de desvendar o segredo de uma vez, abrindo-o, mas tenho medo demais.
Deixo o envelope na cama e me levanto, cruzando os braços e olhando para ele com o canto do olho enquanto começo a andar pelo quarto. Me sinto ameaçada por ele, como se fosse pular em mim e cravar as garras na minha perna quando passo perto. Como aquela gata psicótica que minha tia Brenda tem. Até começo a mexer na minha bolsa, procurando o celular para ligar para Andrew e fazê-lo contar por que tudo isso, até que me dou conta de como isso seria idiota.
Finalmente, eu pego o envelope e, depois de uma longa pausa, sentindo seu peso leve em minha mão, passo a ponta do dedo pela aba colada para soltá-la. Depois de tentar romper o lacre cuidadosamente e não conseguir, mando tudo à merda e rasgo o resto de alto a baixo. Jogo o envelope esfarrapado na cama e desdobro o papel de carta, vendo que a maior parte dele está em branco. Foi usado apenas para esconder a fotografia que tem dentro. Olhando para o verso da fotografia, primeiro me recuso a virá-la para ver o que há do outro lado. Em vez disso, leio a letra de Natalie no meio do último pedaço de papel:
Esta foi a melhor que eu achei.
Espero que ajude no que você está tentando fazer, seja o que for.
Sinceramente,
Natalie
Viro a fotografia e meu coração afunda como uma pedra quando vejo o rosto vibrante e sorridente de Ian me olhando. Minha bochecha está encostada na dele, olhando para a câmera. As luzes coloridas dos brinquedos do Parque Estadual da Carolina do Norte iluminam a noite ao fundo, atrás de nós. Como se eu tivesse caído num lago congelado, ver seu rosto me deixa totalmente sem fôlego. Lágrimas brotam instantaneamente dos meus olhos, e eu deixo a foto cair dos meus dedos sobre a cama. As duas mãos sobem ao meu rosto, onde os dedos cobrem meus lábios trêmulos.
Como posso me permitir chorar por ele?! Por que isso está acontecendo?!
Eu me desfiz de todas as fotos de Ian por um motivo. De todas. Deletei cada arquivo com fotos digitais nossas, tirei seu nome do meu celular. Até joguei fora o criado-mudo que eu tinha desde criança, porque Ian entalhara IAN AMA CAMRYN na madeira por baixo dele. Tentei tirar da minha vida cada coisa que me fizesse lembrar dele, o melhor que pude, porque doía demais saber que tudo o que me restava dele eram coisas materiais. Eu não podia fazer muita coisa com as lembranças, mas me esforcei ao máximo para esquecê-las também.
Por que Andrew faria isso comigo? Trazer toda essa dor de volta à minha vida, e ainda por cima tão pouco tempo depois de perdermos Lily?
Uma parte de mim quer berrar com Andrew, sair marchando pela porta, cruzar o corredor até seu quarto e lhe dizer o quanto isso dói. Mas minha razão me alcança rapidamente. Eu sei por que ele fez isso. Eu sei por que ele me colocou neste quarto, sozinha, com esta foto. Porque ele me ama tanto que está disposto a me devolver Ian só por uma noite, para que eu possa finalmente aceitar a perda dele.
Mas não consigo olhar essa droga de foto! Não consigo!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, pego meu suéter grosso da mochila e enfio os braços de qualquer jeito nas mangas. E então saio correndo do quarto e vou para o elevador.
Segundos depois, estou sentada na areia fria da praia, olhando para o oceano sem fim.
Andrew
18
EU ME PERGUNTO se ela vai abrir. Cacete, me pergunto se ela vai me odiar por fazer isso com ela, mas se isso vai ajudá-la, aceito a barganha.
Aperto o botão de ligar do controle remoto e uma velha reprise de Seinfeld preenche o silêncio do meu quarto. Tiro os sapatos e entro no chuveiro, deixando a água quente bater em mim até ela começar a sair morna. Só consigo pensar no que Camryn está fazendo, sozinha no seu quarto, se está olhando para aquela foto de seu ex-namorado morto, e se está se aguentando. Quero ir lá ajudá-la, mas sei que é algo que ela precisa fazer sozinha. Algo que ela deveria ter feito há muito tempo, antes que nos conhecêssemos.
Depois de me enxugar, enrolo a toalha na cintura e remexo na mochila sobre a cama, procurando uma cueca. Eu me sento, olho fixamente para a TV, depois para a parede, depois para a TV de novo, até que me dou conta de que estou só tentando fazer qualquer coisa para parar de pensar em Camryn.
Deixo meu MP3 tocar umas cinco músicas aleatórias em meus ouvidos antes de decidir que preciso ao menos ver como ela está. Tento seu celular primeiro, mas ela não atende. Então uso o telefone do hotel e tento ligar para o quarto dela. Ainda sem resposta. Talvez ela esteja apenas tomando banho. Tento me obrigar a acreditar nisso, até que meu instinto fala mais alto. Visto meu jeans e uma camisa de manga comprida e atravesso o corredor até seu quarto. Encosto o ouvido na porta, tentando ouvir o chuveiro ligado. Nada. Por isso passo o cartão extra na porta para destrancá-la.
Ela não está ali. Meu coração acelera enquanto entro no quarto. A primeira coisa que noto é a fotografia, que na verdade eu nem tinha visto ainda, sobre a cama. Eu a pego e a estudo por um instante. Camryn parece tão feliz nela. Essa é a Camryn que eu conheci, aquela com um sorriso lindo e cheio de energia. Me lembro desse sorriso. Eu o vi dezenas de vezes quando estávamos na estrada juntos.
Entrando em pânico, tiro os olhos da foto e vou para a janela. Olho para o oceano negro lá fora e vejo algumas pessoas andando pelo calçadão. Com a foto ainda na mão, volto rapidamente para o meu quarto e calço os sapatos, deixando-os desamarrados enquanto saio e vou para a praia. O ar frio não é insuportável, mas é suficiente para me fazer pensar que fiz bem em usar mangas compridas. Procuro qualquer sinal dela, olhando de um lado para o outro no calçadão e nas cadeiras de praia perto do hotel, mas ela não está em lugar nenhum. Enfiando a foto no bolso de trás da calça, começo a correr um pouco e rumo para a praia.
Eu a encontro sentada na areia, não muito longe.
— Porra, amor, você me deixou apavorado.
Eu me sento ao lado dela, passando um braço ao redor do seu corpo.
Ela olha para o oceano, o vento gelado atravessando seu cabelo louro. Não olha para mim.
— Desculpa. Eu só queria...
— Eu te amo, Andrew — ela interrompe, mas continua com o olhar fixo à sua frente. — Não sei como uma garota pode ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo.
Sem saber aonde ela quer chegar com isso, tenho medo de dizer alguma coisa porque não quero dizer a coisa errada. Eu a aperto mais para compartilhar o nosso calor. E não digo uma palavra.
— Não tô brava com você — ela continua. — Primeiro fiquei, mas quero que saiba que não tô mais.
— Me fala o que você tá pensando — peço baixinho.
Ela ainda não desviou o olhar da escuridão à sua frente. As ondas mal lambem a praia a alguns metros de nós. Um pontinho branco, a luz de um barco, se move no horizonte.
De repente, sinto que Camryn está me fitando e me viro para olhá-la também. A luz dos prédios atrás de nós e do luar é suficiente apenas para mostrar seus traços suaves, os cachos do seu cabelo soprados sobre sua face fria. Eu afasto alguns fios dos seus lábios. Seu olhar se abranda quando ela me encara e diz:
— Eu amava Ian, amava muito. Mas não quero que você pense...
Eu balanço a cabeça.
— Camryn, não faz isso. Não estamos aqui pra falar de mim, tá? — Eu enfio o dedo em outro cacho do seu cabelo e o afasto da sua boca. — Não fale de mim.
Ela para por um momento, e sinto sua mão no meu colo e meus dedos se entrelaçando com os seus.
Camryn volta a olhar o oceano.
— Eu não queria ir ao funeral de Ian — ela me conta. — Não queria vê-lo pela última vez daquele jeito. — Camryn me olha. — Lembra aquele dia, no seu apartamento, quando cheguei e você tava falando ao telefone com Aidan, quando ele tava tentando te convencer a ir ao funeral do seu pai?
Balanço a cabeça.
— Lembro, sim.
— Você disse uma coisa pra ele, disse que preferia que a última vez que você visse alguém, que ele estivesse vivo, não morto, deitado num caixão. Bem, era isso que eu pensava do funeral de Ian. Eu não queria ir. Foi por isso, também, que eu não quis ver Lily. Por isso escolhi a cremação.
— Mas você foi. Ao funeral de Ian. — Eu evito o assunto de Lily por enquanto. É um caso mais doloroso. Para nós dois. Eu a vi. Era tão pequena que caberia na palma da minha mão. Mas Camryn se recusou a olhar.
Ela balança a cabeça.
— Não exatamente — ela explica, a respeito do funeral de Ian. — Eu tava lá, mas não tava. Minha maneira de me desapegar dele foi tirá-lo da minha mente, cada palavra que ele já me disse, seu rosto; tudo o que eu podia apagar, eu apaguei. Só fui porque era o que todos esperavam de mim. Se eu não estivesse tão preocupada com o que todos fossem pensar de mim, teria ficado em casa naquele dia.
— Mas isso não fecha o ciclo — digo cautelosamente. — É a mesma coisa que varrer a sujeira pra baixo do tapete. Ela continua lá. Você sabe que tá lá. E aquilo vai ficar te incomodando até você fazer certo.
— Eu sei — ela diz.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, eu enfio a mão no bolso de trás e tiro a foto.
— Sabe, se ele ainda estivesse vivo, eu ficaria com um pouco de ciúme. Até que, pra um cara, ele é gato.
Camryn sorri para mim e noto que seu olhar mal pousa na foto.
Eu a deixo na areia perto dos nossos joelhos. Então fico sério de novo.
— Camryn, isso que tá acontecendo com você, os comprimidos e tudo mais, não é só por causa da perda da Lily. Você sabe disso, não sabe?
Ela não responde, mas percebo que está pensando muito no que eu falei.
— Você bloqueia tudo. Ian. Lily. De acordo com Natalie, até a morte da sua avó, o crime de Cole, e o fato do seu pai ter ido embora e parecer se importar mais com a nova namorada do que com você. — Digo as coisas como elas são porque é exatamente assim que precisam ser ditas. — Em vez de lidar com tudo isso, chorar, o que for, você só bloqueia essas merdas e espera que desapareçam sozinhas. Você já tava fazendo isso bem antes da gente se conhecer. Mas precisa saber que tudo se acumula, e um dia você desmorona e cai num abismo.
— Sei. Você tem razão, como sempre — ela concorda desconsoladamente.
— Você acredita nisso ou tá concordando só pra me fazer calar a boca? — Abro um sorriso para ela, esperando receber outro em troca.
E funciona.
Ela sorri e diz:
— Não, eu acredito mesmo. Só queria ter acreditado nisso antes.
— Por que acredita agora?
— Porque você é uma espécie de filósofo com tatuagens. — Ela ri, e isso espalha calor pelo meu sangue.
Não acredito que ela está rindo. De início, imaginei que fosse levar muito tempo para Camryn aceitar tudo isso, mas ela me surpreende a cada dia.
— Um filósofo? — digo. — Exagerada. Mas aceito o elogio.
Camryn se vira de lado e deita a cabeça no meu colo. Ela olha para mim com aqueles olhos azuis de corça, e não consigo deixar de tocar seu rosto macio.
— Quer saber a verdade? — ela pergunta.
— Claro — respondo, mas fico um pouco ansioso, de repente.
— É como te falei na casa de Aidan — ela continua. — Se um dia eu perdesse você, logo você, isso seria o fim pra mim. Quando tive o aborto, isso fez todos os meus medos voltarem. De perder você. Foi como se aquele instante de tragédia me fizesse lembrar de novo da morte, e com que rapidez ela pula em cima de uma pessoa. Se Deus, a natureza, ou sei lá quem ou que porra controla tudo, pode ser cruel e desalmado a ponto de matar o meu bebê, então Ele pode te matar também, sem pensar duas vezes. Isso me apavora, Andrew. A ideia de perder você me mata por dentro. E como já quase te perdi uma vez, o medo fica muito pior.
— Mas eu já te disse...
Ela se levanta do meu colo e fica sentada na minha frente, com os joelhos enterrados na areia.
— Eu sei o que você disse — ela interrompe. — Mas não importa o que você pensa, ou você saber dizer todas as coisas certas pra me fazer sentir melhor. Você não tem certeza do que vai acontecer, Andrew. O tumor pode muito bem voltar, e apesar de tudo o que fazemos, de todas as precauções que tomamos, ele pode te matar.
Eu começo a discordar, mas ela está tão empenhada em me dizer essas coisas que sei que preciso deixar.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu — ela continua — e agora posso te olhar nos olhos e dizer que, por mais que isto doa, consigo aceitar a morte de Ian. Consigo aceitar a morte de Lily. Consigo aceitar a morte de qualquer um, mesmo que essa morte seja insuportavelmente dolorosa. Mas a sua... — Ela se interrompe e nem pisca ao olhar no fundo dos meus olhos. — A sua eu jamais poderia aceitar. Jamais.
O silêncio entre nós só amplifica o som do oceano. Quero pegá-la nos braços, apertar meus lábios contra os dela, mas fico sentado ali, olhando para ela, porque as palavras que ela me disse são as mais poderosas que já ouvi, senti ou entendi.
Finalmente, eu a pego em meus braços e a ponho no meu colo. Passo os braços pelas suas costas, fito seus olhos e digo:
— Acredito em você e sinto a mesma coisa.
Ela inclina um pouco a cabeça para o lado.
— Mesmo?
— Sim. Camryn, não consigo viver sem você. Eu poderia tentar, mas ia ser uma existência péssima. Isso não vale só pra mim; você pode morrer amanhã tão facilmente quanto eu. Ninguém tá imune.
Ela não discute, mas desvia o olhar por um breve momento.
Eu seguro seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me olhar. Sua pele está gelada.
— A gente precisa viver no presente, lembra? — eu digo e ela volta a prestar atenção em mim. — Precisamos fazer um pacto, você e eu, agora mesmo. Topa fazer um pacto comigo? — Movo um pouco minhas mãos para aquecer suas orelhas geladas.
Ela concorda com a cabeça.
— Tá — diz, e fico feliz por ela confiar em mim o suficiente para não fazer perguntas antes de concordar.
Tirando uma mão de sua orelha, passo as pontas dos dedos na sua testa e pelos lados de suas bochechas.
— Não podemos controlar a morte. Nenhum dos dois pode fazer nada pra evitá-la ou adiá-la. Só o que podemos controlar é como vamos viver nossas vidas antes que ela nos alcance. Portanto, vamos prometer um pro outro coisas que possamos cumprir, haja o que houver.
Camryn concorda com a cabeça e sorri um pouco.
— Que tipo de coisas? — ela pergunta.
— Qualquer coisa. Tudo o que a gente quiser um do outro. Tipo... — Eu me levanto da areia e enfio as mãos nos bolsos. Olho para o oceano, vasculhando minha mente em busca da melhor promessa para começar. Só consigo pensar numa coisa no momento, por isso me viro novamente para ela, levanto o dedo indicador e digo: — Isto não tem nada a ver com o tumor, nem com nada específico, mas quero que você me prometa que, se algum dia estiverem me mantendo vivo por aparelhos, por qualquer motivo, e você sentir no fundo do coração que eu não vou melhorar, se você sentir que eu tô sofrendo, vai mandar desligar os aparelhos.
Seu sorriso desaparece, e ela me olha como se eu tivesse estragado o momento. Eu estendo os braços e a pego pela mão, fazendo-a levantar comigo.
— Não tô tentando ser mórbido. É só uma coisa que sempre me incomodou, sabe? Você vê isso na TV e nos filmes. O cara fica ligado a todo tipo de aparelho que a ciência já inventou pra se manter vivo porque a família tem esperança ou qualquer coisa assim. Nada contra ter esperança, mas, porra, aquilo me dá um puta medo. — Eu seguro seus braços delicadamente. — Nunca me deixe viver como um vegetal. Me prometa isso. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa, e confio que você vai saber quando tiver chegado a minha hora. Então prometa.
Aos poucos, ela começa a entender. Leva um segundo, mas ela começa a concordar com a cabeça.
— Me promete a mesma coisa — ela pede.
Eu sorrio e digo:
— Tá prometido.
Ela dá um passo para trás e enfia as mãos nas mangas. Apertando bem o suéter ao redor do corpo, ela começa a andar de um lado para o outro.
Ela para e me olha.
— Promete que se um dia eu tiver mal de Alzheimer ou ficar senil e não me lembrar de ninguém, você vai me visitar todo dia e ler pra mim, como Noah lia pra Allie.
— Quem? — eu pergunto, mas aí a ficha cai. — Aaaah, entendi. — Eu rio dela e concordo com a cabeça.
Seus olhos e seu sorriso aumentam e ela grita:
— Andrew! Não tem graça! Tô falando sério! — Ela ri e eu a agarro, puxando-a para os meus braços.
— Tudo bem, tudo bem! — eu me rendo, apertando seu corpo que se retorce contra o meu.
— A ideia foi sua — ela acusa —, então não faz piada.
— Eu sei. Você tem razão, mas... é sério? Precisa ser tão fã assim de Diário de uma paixão?
Sinto o cotovelo dela atingindo meu estômago e me curvo um pouco e exagero a dor que isso me causa, contorcendo o rosto com a agonia e o riso. Para me humilhar de vez, Camryn me dá um empurrão e me derruba na areia. Depois fica por cima de mim, com um pé de cada lado do meu peito e as mãos na cintura, toda autoritária. Mantenho uma mão na barriga, rindo e tentando ficar sério, embora eu saiba muito bem que não consigo enganá-la.
— Só você pra fazer piada num momento tão sério. — Ela reclama tão seriamente que isso só me faz rir mais, sobretudo pela dificuldade dela em ficar de cara fechada.
Ela começa a se sentar em cima de mim, e provavelmente vai tentar me bater com suas mãozinhas delicadas, mas eu a seguro antes que ela comece, meto a mão no meio das pernas dela e aperto com toda a força.
— Aaaaaii! — Camryn geme, e começa a desabar, mas eu a mantenho na posição. — Que ideia é essa de apertar minhas paaarrr... porra, Andrew! Apertar minhas partes?!
Faço mais pressão e levanto aos poucos as costas da areia, guiando-a para trás. Ela fica de joelhos olhando para mim.
— Porque eu gosto — sussurro sobre seus lábios. — Agora fica parada.
O clima entre nós muda em questão de segundos. Sua pele fria fica mais quente; seus olhos, arrebatados; seu corpo, conivente.
— Tem gente aqui... — ela tenta dizer baixinho, mas minha mão apertando-a no meio das pernas lhe rouba a voz.
— Não me importa — retruco, examinando seus olhos primeiro e então seus lábios úmidos e inchados. — Eles estão longe.
— Mas... o que você tá fazendo...
— Só fica parada. Quieta. — Eu passo a língua sobre seu lábio inferior e o chupo delicadamente. Sinto que ela tenta me beijar, mas não deixo. Eu puxo o tecido de sua calça e enfio a mão dentro da cintura folgada para achar o seu calor. Caramba, ela já tá molhada. Me curvando sobre o seu pescoço, fecho os olhos e inalo o cheiro de sua pele. Ela fica bem imóvel, mas posso sentir seu corpo tremendo e seu coração batendo forte sob o meu toque. Quero tanto comê-la. Mas não vou fazer isso ainda, porque gosto de me torturar. Adoro, porra.
Minha mão livre solta sua cintura e eu a ponho em sua coxa, forçando-a a abrir mais as pernas.
— Abre — eu instruo, com meus lábios roçando nela, e Camryn faz exatamente o que eu mando, afastando os joelhos na areia. Ela fica um pouco tensa quando percebo um homem andando não muito longe, mas eu a aperto de novo, enfiando dois dedos nela e obrigando-a a olhar só para mim. Ela geme e eu estremeço silenciosamente, sentindo suas entranhas se apertando em volta dos meus dedos. Encaro seus olhos, os meus de vez em quando se perdendo no estudo da curvatura de sua boca. — Não tira os olhos de mim — digo. — Não me importa se você sentir que precisa fechar os olhos. Não feche. Continue me olhando.
Ela balança um pouco a cabeça, como se temesse que eu vá parar se ela fizer errado.
Mexo os dedos para dentro e para fora dela, lentamente de início, tirando-os e usando seu gozo para manter seu clitóris úmido, esfregando meu dedo médio sobre ele num movimento circular. Cada vez que a toco, seus olhos começam a se fechar, mas eu paro assim que percebo, e ela volta a controlar o olhar. Mexo meus dedos dentro dela de novo, um pouco mais rápido, e com o polegar faço cada vez mais pressão no seu clitóris. Pequenos gemidos escapam de seus lábios abertos, chupando o ar gelado ao nosso redor e meu hálito quente à medida que fico mais ofegante em sua boca. Mas ela nunca tira os olhos dos meus e não fala, embora eu saiba que ela queira fazer tudo isso.
— Admite uma coisa — sussurro no ouvido dela. — Neste momento, você não estaria nem aí se alguém estivesse olhando. Não é verdade? Me deixaria foder você aqui, na frente de todo mundo, e se preocuparia com a vergonha só depois que eu terminasse.
Sinto sua cabeça balançando perto da minha.
— O que mais você me deixaria fazer? — pergunto e mantenho os lábios perto do ouvido dela. Continuo mexendo os dedos.
— Tudo o que você quisesse — ela diz, com um gemido na voz.
— Tudo o que eu quisesse? — Eu esfrego meu polegar com mais força no seu clitóris.
— Tudo... — ela diz e perde um pouco o fôlego. — Qualquer porra que você quisesse...
Suas palavras, sua voz carregada de desejo, me deixam louco de tesão por ela, e meu pau está tão duro que mal consigo aguentar. Enfio os dedos com mais força e mais rápido. Seu corpo começa a tremer, suas coxas balançam tentando levantar o corpo. Eu me afasto do ouvido dela e a fito de novo. Ela mantém o olhar fixo no meu o melhor que pode, suas pálpebras estão ficando mais pesadas; sua respiração, irregular e ofegante. Mas seus olhos ficam arregalados e imóveis quando atinjo aquele ponto especial, e tomo cuidado para não interromper o ritmo.
— Não tira os olhos de mim — digo e continuo a olhá-la ferozmente.
Quando ela começa a gozar, meu olhar só fica mais forte, perfurando o dela num momento de luxúria faminta. É como se eu conseguisse ver o prazer emanando de suas íris, o calor do seu orgasmo saindo da pele sensível dos seus lábios, que querem beijar os meus tão selvagemente, mas mesmo assim eu não deixo. Quando seu corpo trêmulo começa a se acalmar, enfio os dois dedos mais fundo, sentindo-a se estreitar ao redor deles, o tempo todo mantendo a pressão no seu clitóris.
Ela desaba sobre o meu peito.
Eu envolvo seu corpo trêmulo nos braços e beijo o alto da sua cabeça.
— O que você tá fazendo comigo, caralho? — ela diz.
Eu rio um pouco e a abraço mais forte.
— Qualquer porra que eu quiser — respondo astutamente.
Erguendo a cabeça do meu peito, ela olha para mim.
— Bom, pode dizer o que quiser, mas não vai me fazer gozar desta vez sem que eu retribua o favor.
— Ah, é?
— É isso mesmo, por isso nem tenta.
— O que você vai fazer comigo, então? — Eu sinto o meu sorriso aumentando.
— Qualquer porra que eu quiser — ela diz, com um sorriso ainda maior e mais malicioso que o meu.
Então ela fica de pé e, segurando minha mão, me faz levantar com ela.
— Mas não aqui fora — ela diz. — Tá esfriando demais.
— Você que manda — digo, deixando que ela me puxe.
Eu jamais tocaria no assunto, mas noto, quando nos afastamos da praia, que Camryn olha para trás uma vez, para a foto dela e de Ian na areia. Sua mão aperta a minha forte e ela olha para meu sorriso suave quando atravessamos o calçadão.
Sei que tive muito pouco a ver com ela finalmente fechar esse ciclo. Tudo bem, eu a forcei a fazer isso, mas foi Camryn que, naquele momento, enfrentou um dos seus maiores medos. Ela olhou no rosto de alguém que amou e perdeu, e finalmente aceitou isso. Admito que foi estranho como tudo aconteceu, e eu não fui para lá com nenhuma intenção sexual, especialmente num momento como aquele. Mas Camryn, no tempo que passou sozinha naquela praia pensando em Ian, bem antes que eu chegasse, já tinha entendido tudo.
Não sei ao certo como ela fez, ou qual foi meu papel nisso, mas quando retornou da praia comigo naquela noite, ela já começava a ser como era antes.
Camryn estava voltando, e eu estava nas nuvens com ela.
Camryn
19
8 DE DEZEMBRO — meu vigésimo primeiro aniversário
Quando começou a esfriar, Andrew e eu rumamos mais para o Sul. Passamos só uma noite em Virginia Beach e de lá percorremos o litoral da Carolina do Norte, ficando alguns dias em Myrtle Beach, Carolina do Sul, onde arranjei meu primeiro emprego na estrada. Como arrumadeira. Com certeza não era a minha primeira escolha, especialmente depois que Andrew me lembrou das coisas nojentas que os hóspedes costumam deixar nos quartos. Mas era um emprego e não me incomodava tanto, a não ser quando queriam que eu lavasse cestos de lixo com catarradas nojentas grudadas no fundo. Desculpa, mas só de pensar nisso me dá vontade de vomitar. Eu ligava para Andrew e implorava que ele viesse limpar. Claro que eu o subornava com promessas de boquetes enlouquecedores em lugares públicos. Puxa, que maravilha. Não, quem eu tô tentando enganar? Adoro fazer isso por ele. Só finjo detestar às vezes, mas acho que ele gosta quando eu finjo, porque gosta de me ouvir reclamar.
De qualquer forma, pelo jeito, empregos de arrumadeira são como portas giratórias, as funcionárias vêm e vão tão rápido que seria melhor nem incluí-las oficialmente na folha de pagamento. Pensei em como isso poderia trabalhar a meu favor enquanto estivéssemos na estrada. Assim, em troca de metade do valor das diárias do quarto que estávamos ocupando, e como o quadro de funcionários do hotel estava desfalcado, eu perguntei se poderia ajudar e eles me contrataram na hora.
Mas o emprego era só temporário, pois Andrew e eu precisávamos partir de Myrtle Beach e seguir para o nosso destino, onde quer que fosse. Nunca planejamos nossos destinos antecipadamente. A nossa única regra é ficar no litoral. Pelo menos até a primavera. Mas ainda faltam alguns meses até lá e, no momento, estamos felizes instalados num hotel estilo chalé bem em frente à praia, na linda Savannah, Geórgia.
E hoje eu faço 21 anos.
Andrew me acorda de um sono profundo abrindo as cortinas da janela gigante do nosso quarto e deixando o sol invadir o ambiente.
— Levanta, aniversariante — exclama ele de algum lugar perto do pé da cama. Eu o ouço batendo várias vezes na mesinha perto da janela com a palma da mão.
Resmungo e viro para o lado, dando as costas para o sol brilhante e me enterrando nos lençóis. Uma lufada de ar frio me atinge quando Andrew me arranca os lençóis.
— Ah, vai! — gemo, encolhendo os joelhos para o peito e puxando o travesseiro para cima da minha cabeça. — Eu devia poder dormir até tarde no meu aniversário.
De repente, meu corpo está sendo arrastado da cama e eu estico os braços freneticamente, tentando me agarrar à borda do colchão. A mão de Andrew segura com firmeza o meu tornozelo. Eu chuto e esperneio, tentando me soltar, mas ele me arrasta pela cama tão rápido e sem esforço que eu simplesmente desisto. Minha bunda bate no chão e os lençóis caem ao meu redor.
— Você é tão babaca! — eu rio.
— Mas você me ama. Agora levanta.
Com o cabelo todo emaranhado, olho para Andrew e faço bico. Ele sorri para mim e estende a mão. Eu a seguro e ele me puxa de pé.
— Feliz aniversário, amor — ele diz, e me dá um selinho.
Eu me encolho um pouco, porque sei que meu bafo está podre, e já estou ficando acostumada com a mania de Andrew de aproveitar qualquer oportunidade de me lembrar disso.
Sem olhar para mim, Andrew enfia a mão no bolso do casaco e tira uma caixinha de veludo preto. Obviamente, ele já saiu hoje, mas eu estou mais interessada na caixa que ele pôs na minha mão. Olho para ele desconfiada, pronta para dar um esporro nele caso tenha gastado uma grana numa joia escondido de mim.
— Andrew? — digo, desconfiada.
— Abre de uma vez. Eu me comportei. Juro. — Ele ergue as duas mãos num gesto de rendição.
Ainda totalmente desconfiada de sua aparente sinceridade, abro a tampa da caixa e vejo um colar com pingente de diamante dentro e fico com um pouco de falta de ar. Então estreito os olhos para ele.
— Andrew, por favor. — Olho mais uma vez para o colar, me sentindo culpada só de tê-lo nas mãos. — De jeito nenhum isso foi...
— Juro — ele diz com um sorriso encantador. — Não foi caro.
Mordendo o lábio com ceticismo, eu pergunto:
— Quanto custou, então?
— Ah, uns 125 dólares. Nada mais do que isso. Juro por Deus. — Ele faz uma cruz sobre o coração com o dedo.
Então tira o colar da caixa, deixando-o pendurado na mão.
— Gostou? — pergunta, indo para trás de mim.
Instintivamente, levanto meu cabelo embaraçado enquanto ele põe o colar no meu pescoço.
— É perfeito, Andrew. Eu mais do que gostei. Eu amei. — Olho para baixo enquanto ele o fecha e seguro o pingente brilhante de prata.
Eu me viro para Andrew e fico na ponta dos pés descalços para beijá-lo apaixonadamente.
Nem imagino como uma joia dessas pode não ter custado um caminhão de dinheiro, mas ele está dizendo a verdade. Eu acho...
— Obrigada, amor — agradeço, radiante.
De repente, ele me dá um tapão na bunda e diz:
— A gente precisa sair daqui hoje. Tô de saco cheio de me esconder em quartos assim. De saco cheio do frio. Eu queria poder hibernar.
— Eu também. E o que a gente vai fazer, exatamente? — Pego uma roupa limpa da minha mochila perto da TV.
— Sei lá. Qualquer coisa. Mas põe uma roupa quente.
Ele não precisava me lembrar disso, na verdade. Nem mesmo a proximidade do litoral e a mudança de latitude ajudaram muito a nos aquecer nos últimos dias. Ambos sonhamos com a primavera e o verão, a ponto de ser a única coisa da qual falamos. Eu reclamo muito de não poder esticar os pés descalços para fora da janelinha do carro sem matar nós dois de frio, e ele reclama que ainda não conseguimos dormir num gramado sob as estrelas. Claro que não vou dizer em voz alta, senão ele vai querer ainda mais, mas não estou muito ansiosa para dormir sob as estrelas. Jamais. Não depois do que aconteceu na primeira vez que tentamos. Não. Acho que estou satisfeita com as camas de hotel. Elas não têm cobras.
O inverno é deprimente. Acho que é por isso que o índice de suicídios é tão alto no Alasca. É um estado lindo, mas ainda prefiro o calor de rachar de um deserto do Sul.
Eu visto roupas extraquentes para o meu aniversário: casaco grosso, cachecol, luvas, o que tiver eu tô vestindo. E mesmo assim tô morrendo de frio.
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Andrew meio que “esquenta” o inverno. Sempre achei que caras de gorro ficam sexy, mas o jeitão dele com sua jaqueta preta de grife e seu gorro de lã, suéter cinza-escuro, jeans preto e botas Doc Martens é tudo o que eu quero de presente de aniversário. Sorrio comigo mesma enquanto andamos de mãos dadas por uma pequena multidão, todos se acotovelando no farol para se proteger do frio, e então três garotas, provavelmente turistas como nós, devoram Andrew com os olhos quando passamos. Isso acontece muito, e eu já deveria estar acostumada. Me vanglorio em segredo, mas quem não faria isso, na minha situação? Ele é a coisa mais sexy que eu já vi. Não admira que já tenha trabalhado como modelo. Ele odeia falar disso, então, naturalmente, eu toco no assunto com frequência para vê-lo sofrer. Andrew também está se barbeando menos; está com aquela barba sexy por fazer.
Subimos a escada em caracol até o farol debruçado sobre o oceano e olhamos o panorama juntos. Porque é algo para se fazer. Estamos apenas improvisando, andando de carro pela cidade e escolhendo as coisas quando as vemos. Mas, nos meses frios, até isso é um processo de tentativa e erro. Estendemos os braços sobre o corrimão e ficamos perto um do outro para nos aquecer. O vento gelado nos fustiga, naquela altitude, e eu sei que meu nariz e minhas bochechas devem estar vermelhos.
Levamos exatamente cinco minutos para mandar aquilo à merda e praticamente correr de volta para o carro.
— A gente podia ir pro cinema — ele sugere, no banco do motorista. — Ou... tá, acho melhor a gente hibernar e pronto.
Ficamos sentados por muito tempo, só pensando em alguma coisa para fazer.
— Vamos andar de carro mais um pouco — eu digo, sem nenhuma ideia.
— Talvez seja melhor ir embora de uma vez.
Dou de ombros.
— Se você quiser. — Então vejo uma placa que diz Feira de Antiguidades das Pulgas & Carrapatos.
— Vamos fazer compras — sugiro.
Andrew não parece empolgado.
— Compras?
Balanço a cabeça e aponto para a placa.
— Não no shopping, nada disso — explico. — Dá pra achar umas coisas bem bacanas em feirinhas de coisas usadas.
Sua expressão continua neutra, mas acho que ele se dá conta de que com certeza é melhor do que andar na rua no frio, ou ficar parado no carro sem fazer nada.
Andrew acaba cedendo porque, francamente, ele não tem mesmo muita escolha, e em seguida tira o carro do estacionamento e seguimos as placas até a feira de antiguidades. Encontramos um pouco de tudo: chapéus idiotas, instrumentos odontológicos antigos, colchas de retalhos feitas à mão, fitas de vídeo e discos. Andrew não se empolgou com muita coisa, até ver a caixa de madeira cheia de discos.
— Não vejo um disco do Led Zeppelin há anos — ele comenta, segurando um. A capa está tão detonada e desbotada que parece ter ficado num sótão por trinta anos, mas ele o segura com tanto cuidado que poderia ser um exemplar em perfeito estado.
— Você não tá pensando em comprar isso, tá?
— Por que não? — ele pergunta, sem olhar para mim.
Ele vira o disco e olha para o verso da capa.
— Porque é um LP?
— Tá, mas é um LP do Led Zeppelin — ele argumenta, olhando rapidamente para mim.
— Tá, e?
Ele não responde.
Eu continuo:
— Andrew, onde é que você vai tocar isso?
Finalmente ele me dá atenção total.
— Eu não vou tocar.
— Então por que quer comprar? — pergunto, e então respondo por ele, sarcasticamente. — Ah, já sei, é um artigo de colecionador. Você pode pendurá-lo no banco de trás do carro. — Dou um sorrisinho para ele.
— Ou posso pôr você no banco de trás e pendurá-lo na frente.
Eu fico levemente boquiaberta.
Andrew sorri e devolve o disco à caixa.
— Eu não vou comprar — ele resolve, pegando a minha mão.
Minutos depois, entramos em outra barraca, lotada de roupas antigas. Enquanto examino meticulosamente tudo o que há nos cabides, Andrew fica na barraca ao lado, onde centenas de DVDs e Blu-rays estão expostos numa parede. Ele para diante dela de braços cruzados, praticamente imóvel, lendo cada um dos títulos. Posso ver sua nuca através da treliça de madeira que separa seu quiosque do meu. Volto a olhar as roupas, sentindo urgência e necessidade a cada peça que toco. Eu adoro roupas antigas. Não que eu chegue a usar, ou que tenha comprado alguma vez, mas são coisas que não dá para deixar de olhar com admiração e se imaginar nelas.
Empurro os cabides finos de arame, um por um, para conseguir ver tudo. Camisas com mangas bufantes e cadarços de couro, espartilhos, vestidos plissados e com mangas longas, botas vitorianas...
O que é isso?
Meu coração para por um segundo quando puxo um dos cabides e vejo o vestido. É um modelo vintage cor de marfim, com mangas curtas drapeadas. Tiro o cabide da arara e seguro o vestido junto ao corpo, virando para o espelho. O comprimento por pouco não chega ao chão. Segurando-o com uma mão na altura certa, estico o tecido com a outra mão. Então eu rodopio.
— Meu Deus, amei este vestido — digo em voz alta para mim mesma. — Preciso comprar.
— Hãã, devo dizer — Andrew intervém por trás, me assustando — que é um vestido lindo.
Um pouco sem jeito porque Andrew provavelmente me viu enquanto eu me admirava com o vestido e falava sozinha, não olho para ele. Em vez disso, olho a etiqueta para ver se é do meu tamanho. É! Claro que agora preciso comprá-lo, sem mais perguntas. Era pra ser meu!
Abraçando apertado o vestido, eu giro para ficar de frente para Andrew.
— Você gostou mesmo? — pergunto com voz culpada, minha maneira de implorar para que ele não jogue na minha cara aquela conversa sobre o disco.
— Eu acho que você deve comprar — ele confirma, com um sorrisão cheio de covinhas. — Já posso imaginar você vestida nele. Linda. Naturalmente.
Eu fico vermelha e olho para o vestido de novo.
— Você acha? — Não consigo parar de sorrir.
— Com certeza — ele diz. — E você fica mais acessível nele.
Típico!
Ignoro seu comentário pervertido, sobretudo porque estou apaixonada demais pelo vestido. Então me dou conta de que ainda não olhei o preço. Conhecendo os vestidos daquela marca, sei que eles não são caros. Mas quando o vendedor é alguém que acha que pode enganar um cliente, fazendo-o pagar três vezes o valor justo, não há como prever o preço na etiqueta. Prendo a respiração e olho o valor. Vinte contos! Perfeito.
Olho mais uma vez para Andrew e de repente me sinto uma vaca reclamona.
— Por que você não compra aquele disco do Led Zeppelin também? — digo timidamente.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Não, um LP antigo não serve pra nada mesmo. Mas um vestido como esse tem sua serventia. — Ele cruza os braços e me olha de cima a baixo.
Eu acho que ele está bancando o pervertido de novo, e dessa vez abro a boca para acusá-lo, quando ele acrescenta:
— Casar comigo vestida nele, por exemplo.
Seus olhos verdes parecem cruzar rapidamente os meus.
Meu sorriso se abranda e eu digo:
— É um vestido de noiva perfeito.
— Então tá combinado — ele diz, segurando a minha mão. — Quando a gente se casar, pelo menos você já vai ter o vestido.
— Só precisamos disso, na verdade — digo, saindo com ele da barraca com o vestido pendurado no braço.
Ele olha para mim.
— Alianças — ele diz, com um olhar estranho.
— Eu tenho aliança — digo, levantando a mão, achando que por algum motivo ele se esqueceu do anel que me comprou no Texas.
— Isso é um anel de noivado.
— É, mas basta.
— Bom, eu também preciso de uma. Ou você se esqueceu de mim? Casamento é pra dois, sabe.
Eu rio baixinho enquanto chegamos à pequena fila da caixa.
— Tá, tem razão, mas eu tô feliz com o meu anel. Além disso, eu sei que você gastou uma grana com este colar. Não pode fazer essas coisas.
— Vamos começar com isso de novo? — ele pergunta em tom brincalhão, tirando a carteira do bolso. — Não menti pra você sobre o preço do colar.
Talvez ele esteja mesmo dizendo a verdade.
— Acredito em você — digo finalmente.
Ele sorri e deixa por isso mesmo.
Andrew
20
SIM, SOU UM baita mentiroso. Aquele colar custou pouco mais de 600 dólares, mas sei que não posso contar pra ela. Ela acha que o que importa nas coisas caras é quantos zeros há antes da vírgula, mas nem sempre é isso. Francamente, acho que normalmente é pra mulher que o preço importa tanto. Porra, já ouvi garotas reclamando e choramingando porque o cara delas não gastou o suficiente. Eu queria saber se elas percebem como dificultam a nossa vida quando se juntam com as amigas e comparam pedras como nós, homens, comparamos nossas ferramentas. A propósito, a gente não faz isso, na verdade. Pelo menos eu nunca consegui encontrar um cara que quisesse abrir o zíper e competir comigo.
Eu queria comprar algo bem legal pra Camryn no aniversário dela. Por pura coincidência, aquilo de que eu mais gostei, entre as coisas que vi, era caro.
Aceite isso, amor.
Ela é capaz de desmaiar se descobrir quanto eu gastei nas nossas alianças, que comprei enquanto estávamos em Chicago. Está difícil evitar que Camryn as veja. Mas consegui enfiar a caixinha num bolso escondido da minha mochila.
Passamos o dia todo fazendo o que sempre fazemos, ficando juntos e aproveitando o tempo frio como dá. Quando voltamos para o hotel, pego o violão e toco para ela uma canção que compus e na qual estou trabalhando há uma semana. Eu esperava terminá-la até o dia do aniversário porque faz parte do presente dela. Compus só pra ela. Eu a chamo de “A Tulipa na Colina”, uma canção inspirada pelo primeiro dia que passamos juntos quando eu saí do hospital, depois da minha cirurgia.
— Eu acho que você deve pegar leve — Camryn disse naquele dia. — Nada de enfiar a cabeça nos motores de Billy Frank por uns tempos, nem bungee jumping, nem corridas de carros.
Eu ri um pouco, virando a cabeça para o lado para vê-la. Eu estava deitado de comprido numa mesa de piquenique de pedra. Camryn estava sentada no banco, perto da minha cabeça.
— Então sua definição de pegar leve é não fazer absolutamente nada? — perguntei, sorrindo para ela, com a cabeça apoiada nas mãos.
— O que tem de errado em passar um dia calmo no parque? — ela perguntou, passando os dedos na minha testa.
— Nada — respondi e beijei-lhe os dedos quando sua mão chegou à minha boca. — Eu gosto de ficar sozinho com você.
Ela virou a cabeça devagar para o lado e sua expressão ficou mais meiga. Depois olhou para o parque. As árvores estavam frondosas, e a grama, espessa e verdejante. Estava realmente um dia lindo. Fiquei me perguntando por que só nós dois, aparentemente, estávamos ali, aproveitando.
— Acho tulipas bonitas — ela disse com voz distante, olhando para a pequena colina coberta de grama do meu outro lado.
Olhei também e vi uma única tulipa brotando no alto daquela colina, sozinha. Não sei bem por quê, mas desde aquele dia, sempre que vejo uma tulipa em qualquer lugar, penso em Camryn.
Eu nunca vou esquecer o sorriso em seu rosto enquanto toco e canto a canção para ela. É tão terno, radiante e carinhoso, o tipo de sorriso que diz Amo Você Mais Do Que Tudo Neste Mundo sem precisar dizer essas palavras.
CONTINUA
14
QUANDO CHEGO AO banheiro, tem uma fila de mulheres esperando por cabines vazias. O ar está espesso com o bafo de álcool, perfume e roupas cheirando a cigarro. Uma porta de cabine se abre e fecha com uma batida violenta de poucos em poucos segundos quando alguém entra ou sai. Lavo as mãos primeiro, precisando me espremer entre duas garotas bêbadas sentadas no balcão da pia, uma de cada lado. Por sorte, elas são o tipo de bêbada supersimpática, porque não estou podendo com uma briguenta e grosseira hoje. Elas pedem desculpas por atrapalhar e se afastam para me dar espaço.
— Obrigada — digo, abrindo a torneira.
— Ei, você é a menina que tava cantando — a garota da esquerda diz, apontando para mim e sorrindo. Ela olha para a amiga do outro lado, depois para mim de novo.
— É, acho que sou eu.
Não estou nem um pouco a fim de conversa de banheiro. Quanto mais tempo passo num banheiro público, com mais nojo eu fico.
— Vocês dois são muito bons — ela diz com um sorrisão.
— É, sério — a amiga dela confirma. — Por que estão cantando em bares, afinal?
Eu dou de ombros e espremo mais sabão do reservatório na mão e tento evitá-las o mais gentilmente possível.
— De verdade — a da esquerda acrescenta. — Eu pagaria pra ver vocês tocarem.
Tudo bem, eu não sou totalmente imune a elogios. Sorrio e agradeço de novo.
Quando mais duas cabines ficam desocupadas, elas aproveitam a oportunidade e se trancam nelas. Logo depois, acenam em despedida e me desejam boa sorte na minha “carreira musical”. Quando estou quase sozinha, me viro para o espelho, mas não olho para mim. Em vez disso, enfio a mão no bolso e pego um comprimido, engolindo-o com água da pia.
É só pra tirar o nervoso.
Então eu me olho, empurrando o comprimido e o sentimento de culpa que vem cada vez que tomo um para o fundo da minha mente. Invento pretextos para justificar tomá-lo e quase engano a mim mesma. Mas eu sei que a culpa que sempre sinto tem um motivo.
Em menos de 11 minutos, não me importo mais com a culpa, os pretextos ou o nervoso, porque essa parte do meu cérebro foi adormecida.
Passo as pontas dos dedos embaixo dos olhos para limpar o rímel borrado, depois enxugo a oleosidade do meu rosto com papel higiênico. Preciso estar de cara boa quando voltar lá. Me sinto ótima, mas preciso parecer tão bem quanto me sinto.
Abrindo caminho em meio à multidão, encontro Aidan e Michelle de pé perto do enorme balcão do bar e me junto a eles. Então lembro que Andrew foi buscar uma bebida para mim, mas não quero atravessar aquele mar de gente de novo só para pegá-la.
— Vocês dois são fantásticos! — Michelle grita por cima da multidão barulhenta. Ela me abraça e eu retribuo, sentindo meu sorriso movido a comprimidos se alargando muito em meu rosto.
Eu me viro para Aidan.
— O que você achou?
— Concordo com Michelle! Vocês deveriam compor seu próprio repertório e tocar aqui mais vezes. Tem sempre caçadores de talentos aqui no bar. E celebridades. — Ele aponta para a parede do fundo, onde uma série de fotografias autografadas de vários músicos e astros do cinema formam uma linha reta. — Comecem a tocar material próprio — ele continua. — Aposto que vocês dois seriam contratados por uma gravadora em menos de um ano.
Estou tão chapada, no momento, que ele poderia me dizer que achou a gente uma bosta e sem futuro nenhum na música, e eu sorriria do mesmo jeito, deixando as palavras passarem por mim como uma brisa.
Olho para o outro lado do salão e vejo Andrew no palco com sua guitarra e a banda da casa, se preparando para a canção que é sua marca registrada, “Laugh, I Nearly Died”. Ele provavelmente não me vê no meio da multidão, mas sabe que estou assistindo. Adoro vê-lo no palco, no seu elemento. Sei que, por mais que sejamos bons juntos, musicalmente, ele sempre é mais dono do palco quando toca sozinho. Talvez seja impressão minha, mas gosto de pensar nele como na primeira vez que o vi tocar. Porque naquela noite em Nova Orleans, ele estava cantando para mim, e eu me senti a garota mais sortuda do mundo.
Eu faria qualquer coisa pra me sentir assim de novo. Qualquer coisa...
Segundos depois de começar a tocar, Andrew, como sempre, tem a atenção de todos os presentes. As duas garotas na mesa estão de pé agora, dançando juntas de um jeito provocante, mas eu sei que é tudo para Andrew. Já vi isso antes. Elas o querem, e Andrew deixa que acreditem, só por uma noite, que ele também as quer. É perfeitamente inofensivo. Andrew e eu encaramos isso como uma maneira de levantar a autoestima dos outros. Um pouco de paquera aqui e ali, tornar uma garota ou um cara de sorte o centro das atenções só pelo tempo suficiente para corar e sorrir. Nunca se sabe o que acontece na vida das pessoas a portas fechadas, e um pouco de energia positiva da paquera nunca atrapalha.
Quando voltamos para a casa de Aidan e Michelle pouco depois da meia-noite, vou para a cama antes de todos. Fico deitada por uma hora, ouvindo as vozes deles vindo do corredor e entrando no quarto. Andrew ia se deitar comigo, mas insisti para que ele ficasse com o irmão. Ele anda se preocupando demais comigo ultimamente. Vamos voltar para Raleigh amanhã, e quero que ele passe o maior tempo possível com Aidan.
Mais uma hora passa e eu continuo acordada.
Frustrada, enfio a mão na bolsa, procurando o frasco. Sem nem perceber, já estou nos últimos comprimidos.
Desmaio com três, desta vez.
Andrew
15
— CAMRYN? AMOR, acorda, por favor. — Eu a sacudo com força pelo ombro.
Minha emoção dominante, no momento, é o medo. Minhas emoções secundárias são raiva e mágoa. Mas, estranhamente, a sensação de incerteza está mantendo todas as outras a distância.
Eu a sacudo de novo.
— Levanta.
Não faço ideia de quantas dessas porras de comprimidos ela tomou, mas julgando pelo frasco quase vazio, a perspectiva de ter sido o suficiente para uma overdose faz uma onda de pânico percorrer todo o meu corpo. Mas ela está respirando normalmente e seu ritmo cardíaco parece normal. Se ela não acordar...
Seus olhos se abrem lentamente, e eu respiro mais aliviado.
— Camryn. Olha pra mim.
Finalmente, ela acorda o suficiente para me olhar nos olhos.
— Que que foi? — Ela geme suavemente e tenta fechar os olhos de novo, mas eu a seguro pelos ombros e a obrigo a se sentar.
— Acorda. Fica de olhos abertos.
Ela se senta, toda mole, mas não é nada tão fora do comum, depois de ter sido forçada a acordar e a se endireitar assim.
— Quantos você tomou?
Michelle está na porta do quarto, atrás de mim.
— Quer que eu chame uma ambulância?
De repente, Camryn fica completamente alerta. Não sei se minha pergunta finalmente a alcançou ou se foi a menção de uma ambulância, mas ela me encara com olhos arregalados e assustados.
— Quantas dessas porras de comprimidos você tomou?
Ela desvia o olhar do meu e vê o frasco de comprimidos sobre o criado-mudo. Quando decidi que dormir até depois das 14h não era típico dela e fui ver o que estava acontecendo, encontrei o frasco no chão.
— Camryn? — Eu a sacudo de novo e ela volta a prestar atenção em mim.
Ela só me olha. Vejo tanta coisa em seus olhos agora que não sei dizer se é mais humilhação, arrependimento, mágoa, raiva ou resignação. E então seus olhos começam a se encher de lágrimas. Sinto seu corpo se agitando sob o peso dos meus braços. Ela desata a chorar, caindo em meus braços, soluçando descontroladamente, e aquilo me despedaça.
— Andrew? — Michelle diz da porta.
Sem olhar para trás, eu digo:
— Não, ela vai ficar bem. — E engulo minhas próprias lágrimas e a raiva, sentindo meu peito se apertar.
A porta se fecha silenciosamente atrás de mim quando Michelle sai do quarto.
Abraço Camryn por muito tempo, deixando-a chorar no meu peito. Não digo uma palavra. Ainda não. Em parte porque sei que ela precisa disso, poder chorar e desabafar. Mas a outra parte de mim está tão puta da vida e magoada que sinto que vou precisar me afastar e me recompor para não dizer coisas erradas. Eu a abraço forte, apertando os braços em volta do seu corpo trêmulo. Beijo seu cabelo e tento não chorar também. A parte de mim que está puta da vida ajuda nisso.
— Eu sinto muito! — ela grita e, nessa fração de segundo, quando ouço a dor em sua voz, minha raiva se apaga quase completamente e eu a abraço ainda mais forte.
— Tá pedindo desculpas pra mim? — pergunto, incrédulo. Eu a afasto, segurando-a firme pelos antebraços. Balançando a cabeça furiosamente, volto a ficar como alguns minutos atrás. — Não, primeiro você precisa me dizer quantos você tomou. — Eu a encaro com firmeza.
— Ontem à noite. Só três.
— Quantos tinha no frasco no total?
— Não sei. Uns vinte.
— Então há quanto tempo você tá tomando?
Ela faz uma pausa e responde.
— Desde terça. São da minha mãe. Tomei um quando tava com dor de cabeça, mas aí comecei a tomar... — Seus olhos se enchem de água novamente.
Eu enxugo as lágrimas do seu rosto.
— Puta que pariu, Camryn! — exclamo, puxando-a para o meu peito por mais um breve momento. — O que você tava pensando, porra?
— Eu não pensei! — ela grita. — Não sei o que eu tenho!
Seguro seu rosto com as palmas das mãos.
— Você sabe o que você tem. Tá arrasada por perder a Lily e não sabe como lidar com isso. Só queria que você tivesse falado comigo.
Com o rosto dela ainda nas mãos, seus olhos desviam dos meus. O silêncio tenebroso entre nós me afeta da forma mais estranha.
— Camryn? — Tento fazê-la me olhar de novo, mas ela se recusa. — Fala comigo. Você precisa falar comigo. Escuta, você não fez nada errado, nem poderia ter evitado o que aconteceu. Precisa saber disso. Precisa enten...
Sua cabeça se desvencilha das minhas mãos, seus olhos penetrando os meus, cheios de dor e de... algo mais.
— É culpa minha! — ela diz, se afastando de mim na cama.
Ela se levanta do outro lado e cruza os braços, me dando as costas.
— Não é culpa sua, Camryn. — Ando até ela, mas assim que sente que vou me aproximar, ela se vira.
— É culpa minha sim, Andrew! — ela repete, com as lágrimas escorrendo dos olhos. — Eu não conseguia parar de pensar que minha gravidez ia ferrar com tudo! Detestava continuar morando em Galveston depois de quatro meses! Fiquei me perguntando como a gente ia fazer tudo o que queria com um bebê! Por isso, sim, é culpa minha que a perdemos e eu me odeio por isso, caralho! — Ela esconde o rosto nas mãos.
Atravesso a curta distância até ela, tomando-a em meus braços de novo.
— Meu Deus, Camryn, não foi culpa sua! — Acho que nunca falei nada para ninguém com tanta emoção. Meu peito tremia incontrolavelmente contra o dela.
— Olha pra mim! — imploro, afastando-a. — Isso é tão normal. E se você é culpada, então eu também sou. Tive esses pensamentos de vez em quando, mas, como você também, não teria desistido dela nem se pudesse.
Ela não precisa confirmar essa afirmação em voz alta, porque sei que ela também não teria desistido. Mas ela confirma assim mesmo: — Não lamentei nada engravidar dela. E eu... quero minha bebê de volta!
— Eu sei. Eu sei. — Eu a abraço apertado e ando com ela até o pé da cama, fazendo-a sentar. Eu me agacho entre as pernas dela, apoiando os braços em suas coxas e tomando suas mãos nas minhas. Olho para ela e digo mais uma vez: — Não foi culpa sua.
Ela enxuga algumas lágrimas e nós ficamos sentados assim pelo que parece uma eternidade. Acho que ela acredita em mim — ou isso ou está só evitando encarar a realidade. Então ela olha para a parede atrás da minha cabeça e diz baixinho: — Isso faz de mim uma viciada em drogas?
Quero rir, mas não rio. Em vez disso, apenas balanço a cabeça e sorrio suavemente para ela, apertando as pontas dos dedos em suas mãos.
— Foi um momento de fraqueza, e até a pessoa mais forte não é imune à fraqueza, Camryn. Quatro dias e um frasco de analgésicos não fazem de você uma viciada em drogas. É falta de juízo, mas não é vício.
Ela olha de novo para mim.
— Michelle e Aidan vão achar que é.
Balanço a cabeça.
— Não, não vão. E ninguém mais vai. — Eu me levanto e me sento ao lado dela. — Além disso, não é da conta de ninguém, porra. É uma coisa que só você e eu precisamos saber e enfrentar.
— Nunca fiz nada assim antes — ela continua, olhando para a frente. — Não acredito...
— Você estava diferente. Está diferente desde que Lily morreu.
O quarto fica estranhamente em silêncio de novo. Olho para ela de lado, mas a deixo em silêncio por um momento. Ela parece perdida em pensamentos.
E então ela diz:
— Andrew, talvez nós não devêssemos estar juntos. — E suas palavras me atingem tão rápido e com tanta força que sinto que falta ar nos meus pulmões.
Fico tão surpreso que é como se suas palavras tivessem roubado todas as minhas. Meu coração está disparado.
Finalmente, quando ela não elabora, consigo balbuciar:
— Por que tá dizendo isso? — E fico com medo de sua resposta.
Ela continua olhando para a frente, com as lágrimas descendo lentamente pelo seu rosto. E então ela olha para mim e vejo a mesma dor intensa em seus olhos que eu sei que ela vê nos meus.
— Porque todo mundo que eu amo acaba me abandonando ou morrendo.
O alívio me invade, mas é superado pela sua dor.
É nesse exato momento que percebo que essa é a primeira vez que Camryn se abriu a respeito disso tudo comigo, ou com qualquer outra pessoa. Penso nas coisas que Natalie me contou, e nas conversas que Camryn e eu tivemos na estrada, e sei que no momento Camryn está admitindo a dimensão de sua dor não só para outra pessoa, mas o mais importante, para si mesma.
— Eu me sinto tão egoísta dizendo isso — ela continua, e deixo que ela fale à vontade, sem interrupções. — Meu pai abandonou a gente. Minha mãe mudou. Minha avó, a única pessoa que continuou a mesma e sempre me apoiou quando precisei, morreu. Ian morreu. Cole foi pra prisão. Natalie me apunhalou pelas costas. Lily... — Ela olha para mim, finalmente, a dor intensificada em seu rosto. — E você.
— Eu? — Me agacho diante dela de novo. — Mas eu tô aqui, Camryn. Vou estar sempre aqui. — Tomo as mãos dela nas minhas. — Não importa o que você faça, ou o que aconteça entre a gente. Nunca vou te abandonar. Vou estar sempre com você. — Aperto as mãos dela. — Lembra quando eu disse que você era a coisa mais importante do mundo pra mim? Você pediu que eu te lembrasse disso, se um dia você esquecesse. Bom, eu tô te lembrando agora.
Soluços percorrem seu corpo.
— Mas você podia ter morrido — ela insiste, com choro na voz. — Cada dia que passei naquele hospital, pensei que seria o seu último. E aí quando não era e você resistia, eu continuava prevendo isso mesmo assim. Semanas, meses depois, porque uma parte de mim achava que eu precisava me acostumar com a ideia de perder você. Um dia. Porque eu sabia que você ia me deixar de um jeito ou de outro. Como todo mundo.
— Mas eu não deixei — digo com desespero, sorrindo um pouco ao mesmo tempo. Eu me sento no chão e a puxo para perto de mim. — Eu não morri. Não morri porque eu sabia que você tava lá comigo o tempo todo. Porque eu sabia que nosso destino era ficar juntos, e que se você vivesse, eu também viveria.
— Mas e se você morrer? — ela pergunta.
Isso eu não esperava.
— E se o tumor voltar?
— Não vai voltar — respondo. — E mesmo se voltar, vou vencê-lo de novo. Cacete, eu fiquei oito meses sem ir ao médico e venci assim mesmo. Com você na minha vida, me atormentando pra me fazer ir aos checkups regularmente, de jeito nenhum ele vai me matar.
Ela não parece totalmente convencida disso, mas vejo um pequeno raio de esperança em seu rosto, e era isso que eu queria ver.
— Eu sinto muito mesmo — ela diz, mas em vez de dizer que não precisa, também deixo que ela viva esse momento, porque parece mais que ela está se permitindo fechar um ciclo. — Aposto que você nunca pediu pra ter um fardo absurdo desses. — Ela passa os dedos sob os olhos.
Tentando aliviar um pouco o clima, esfrego as mãos em seus joelhos nus e digo: — Eu te amaria mesmo se você fosse uma daquelas garotas que correm pro banheiro pra vomitar depois de comer, ou se tivesse o fetiche secreto de transar com um palhaço.
Ela ri baixinho em meio às lágrimas, e isso me faz sorrir.
Levanto o queixo dela com um dedo e fico sério de novo, olhando bem em seus lindos olhos azuis e úmidos.
— Camryn, Lily não tava pronta, só isso. Não sei por que, mas você não pode se culpar por ela ou por qualquer um. E você precisa entender que estamos nisso juntos. Em tudo. Acredita nisso?
Ela balança a cabeça.
— Sim.
Eu me curvo e a beijo primeiro na testa, depois nos lábios.
Segue-se o silêncio, e a atmosfera no quarto parece diferente. Mais brilhante. Eu sei que Camryn não vai voltar a ficar 100% da noite pro dia, mas posso ver que ela já está melhor. Percebo só de olhar que ela se sente menos carregada, agora que tirou essas merdas da cabeça. Ela precisava disso. Precisava de alguém para fazê-la cair na real. Não alguém indiferente, ou que desse apenas respostas prontas para tudo.
Ela precisava de mim.
Eu me levanto e pego a mão dela.
— Vem cá.
Ela me segue, pego o frasco de comprimidos da mesa ao lado da cama e a puxo comigo para o banheiro da suíte. Levanto a tampa da privada e entrego o frasco a ela. E antes que eu diga qualquer coisa, Camryn vira o frasco sem hesitação e joga os últimos quatro ou cinco comprimidos na privada.
— Ainda não consigo acreditar que fui tão fraca. — Ela olha para a água enquanto os comprimidos giram no vaso e são sugados pelo cano. Depois olha para mim. — Andrew, eu podia facilmente ter ficado viciada neles. Não consigo imaginar...
— Mas você não ficou — interrompo, antes que ela fique remoendo aquilo mais. — E você tem direito a um momento de fraqueza. E chega.
Eu saio do banheiro e ando pelo quarto. Ela me segue e fica parada no meio do quarto, me olhando.
— Andrew?
Eu paro, me viro para ela e digo:
— Me dá uma semana.
Ela parece meio confusa.
— Uma semana pra quê?
Sorrio fracamente.
— Só concorda. Fica aqui comigo uma semana.
Cada vez mais confusa, ela diz:
— Hãã, tá. Vou ficar aqui com você uma semana — embora esteja estampado em seu rosto que ela não sabe com o que está concordando.
Mas ela confia, e isso significa tudo para mim. Vou dar a nós dois o que ambos precisamos, querendo ela ou não.
Camryn
16
Dia Três
Nunca pensei nem por um minuto que seria capaz de fazer o que fiz. Andrew chama de um momento de fraqueza e talvez tenha razão, mas vai levar tempo pra cacete pra que eu consiga me perdoar por aquilo.
Michelle deixou claro que não vai me julgar, e embora isso me faça sentir melhor, me sinto humilhada sempre que estou na presença dela ou de Aidan. Talvez seja por isso que eu me sinta tão mal, por eles serem tão compreensivos.
Uma semana. Nem faço ideia do que Andrew quis dizer com isso, mas estou em dívida com ele, por isso não faço perguntas e deixo que ele faça o que está planejando. Ele andou bem misterioso nos últimos dias, muitas vezes atendendo ligações em outros quartos para que eu não pudesse ouvir. Só tentei escutar uma vez, simplesmente ficando bem quieta no sofá quando ele foi para a cozinha falar com Asher. Mas então bisbilhotar assim me fez sentir culpada, por isso aumentei o volume da TV para não conseguir ouvir.
E posso ter tomado os comprimidos só por uma semana, mas pelo jeito foi tempo suficiente para eu ainda me sentir zonza três dias depois dos últimos que tomei. Me sinto mal, até mais incapaz de dormir do que antes de começar a tomá-los, mas pelo menos as dorezinhas de cabeça finalmente estão começando a desaparecer. Não consigo imaginar ficar viciada neles por meses ou anos. Sinto pena de quem fica...
Dia Quatro
Aidan entra com um pequeno maço de correspondências na mão, olhando cada uma enquanto anda pela sala.
Ele para num envelope branco por um segundo, constrangido, e o levanta, olhando para mim primeiro, até que Andrew entra na sala.
— Parece que esta é pra você. — Ele me olha de novo, mas entrega o envelope a Andrew.
Isso me dá uma sensação muito estranha, então me levanto instintivamente da espreguiçadeira e me aproximo de Andrew para ver o que é.
Pouco antes que Andrew escondesse o envelope de mim, vejo o nome de Natalie escrito nele.
Ele também sabe que eu vi.
— Não — diz Andrew, balançando a cabeça. — Vou deixar você ver outro dia. — E então ele enfia o envelope no bolso de trás do jeans.
Confio totalmente nele, mas sou humana, e uma pequena parte de mim está nervosa com essa situação toda. Por que Natalie mandaria uma carta para Andrew? Confiando ou não, a primeira coisa que viria à cabeça de qualquer um é se perguntar se tem alguma coisa acontecendo entre os dois. Mas isso é absurdo, e afasto essa ideia da minha mente com a mesma rapidez que ela veio.
Eles estão conspirando contra mim.
Eu só queria saber o que está acontecendo.
Dia Cinco
Falei com Natalie, minha mãe e Marna por telefone hoje. Marna tenta agir como se nada tivesse acontecido com o bebê, e é tão boa nisso quanto Michelle foi no meu primeiro dia em Chicago. Ela é tão meiga e delicada. Minha mãe, por outro lado, parece não conseguir falar de outra coisa além do meu relacionamento com Andrew. Ela me persegue sempre que pode, perguntando quando vamos nos casar, e resolveu enfiar na cabeça que vamos fazer isso do jeito que todo mundo faz. Tento dizer a ela que não quero um vestido caro, uma capela ou milhares de dólares em flores que vão murchar na semana seguinte, mas é como se ela nem me escutasse. Ela só quer que a gente se case. Talvez assim se sinta melhor com ele dormindo no meu quarto. Não faço ideia do que passa pela cabeça da minha mãe, e metade do tempo acho que nem ela sabe.
Andrew foi a um médico aqui em Chicago fazer um checkup hoje. E como toda vez que ele vai, fico até com enjoo de preocupação até que acabe. Por sorte, ele voltou com boas notícias.
Dia Seis
Falo com Natalie por telefone de novo, mas novamente não menciono o envelope. Ela também não está agindo naturalmente. É óbvio que está se esforçando para não entregar nenhum dos segredos de Andrew, o que deixa as conversas cheias de momentos silenciosos e constrangidos. Quero rir dela por ser tão péssima em agir normalmente, quando só o que ela quer é me contar tudo e dar o assunto por encerrado.
Dia Sete
Esta semana foi uma das mais longas da minha vida. Fico na cama até mais tarde porque está começando a esfriar, mas também porque estou nervosa e não consigo fazer outra coisa. Andrew se levantou há uma hora, e só o vi voltar para o quarto uma vez, para calçar os sapatos. Ele me beijou e sorriu para mim como se estivesse secretamente empolgado, e então saiu de novo sem dizer uma palavra.
Eu viro para o lado, enrolada no cobertor, e olho pela janela. O sol está brilhando hoje, e o céu está azul e sem nuvens.
Ouço os três andando pela casa.
Os sapatos de Andrew rangem sobre o chão de madeira na porta do nosso quarto. Ele abre a porta e fica na entrada, olhando para mim.
— Levanta e se veste — ele diz, com a mão ainda na maçaneta.
Eu só o olho por um segundo, achando que talvez ele vá explicar o que vamos fazer, mas ele só aponta para os meus sapatos no chão, como que dizendo calce-os, depois fecha a porta e me deixa sozinha.
Faço exatamente o que ele manda. Me levanto e visto meu jeans favorito e uma blusa folgada de tricô de mangas compridas, depois um par de meias e meus mocassins. Quando saio do quarto para a sala, vejo Michelle encolhida no canto do sofá, com um cobertor sobre as pernas, vendo TV. Ela se vira para me ver, e está com um sorriso aberto, como se soubesse algo que não sei. E com certeza sabe.
— Ele tá lá fora com Aidan — ela diz, acenando na direção da porta.
Cada vez mais nervosa, ando lentamente até a porta e a abro.
Saindo na varanda de pedra, vejo Andrew e Aidan de pé do lado da estrada, em frente à casa, com Asher, e todos eles estão encostados na lateral do Chevelle.
Por um momento eu penso: Tá, então Asher veio nos visitar, é só isso que tá acontecendo? Não que eu não fique feliz em ver Asher, mas, francamente, não é algo que eu imaginaria que fosse justificar todos esses planos de Andrew em segredo.
É o carro, percebo, mas é só isso que consigo entender sozinha. Tenho uma teoria sobre o motivo de ele tê-lo trazido para cá, mas a esta altura vou só fazer o melhor que posso para não pensar nisso.
Desço rapidamente os degraus de pedra e dou um abraço apertado em Asher.
— Você tá ótima, garota — ele diz, com aquelas covinhas e os olhos verdes e brilhantes quase idênticos aos de Andrew. Então ele me aperta e me levanta um pouco do chão.
— É muito bom te ver — digo, sorrindo.
Fico correndo os olhos dele para Andrew, que está sorrindo tanto que duvido que consiga manter o mistério por muito mais tempo.
Olho para o Chevelle e então para Asher. Olho de novo.
— Então você veio dirigindo lá de... — Tudo bem, é um pouco mais intrigante do que eu imaginava. O carro estava no Texas, até onde eu sei, e Asher estava em Wyoming. Finalmente continuo: — O que tá acontecendo?
Asher olha para Andrew, e Andrew dá um passo à frente.
— Eu pedi que Asher trouxesse o carro pra cá — ele diz.
— Mas por quê?
Asher cruza os braços e se apoia na porta de trás do carro.
— Porque ele é doido — Asher diz, rindo baixinho. — E porque não confiou num serviço de entregas pra trazer o carro.
Eu me viro para Andrew de novo, esperando que ele desembuche. Uma brisa fria atravessa minha blusa de tricô e eu enfio as mãos nas mangas.
— Você tem cinco minutos pra botar todas as suas coisas na mala — ele diz, e meu coração começa a bater descompassado antes que ele termine a frase. Ele bate no pulso sem relógio. — Nem um segundo a mais.
— Andrew...
— Isso não tá em discussão — ele diz. — Vai pegar suas coisas.
Eu só olho para ele, sem expressão.
Minha teoria estava certa, mas eu não queria que estivesse. Não quero cair na estrada... Isto é, eu quero... mas não está certo. Isso não está certo.
— Agora você tem quatro minutos — Asher diz.
— Mas a gente não pode partir assim — eu argumento. — Seria grosseria. — Aponto para Asher. — E Asher acabou de chegar. Você não quer ver...?
— Posso ver meu irmão mais velho a hora que eu quiser — Asher rebate. — No momento, acho melhor você fazer o que ele mandou, ou vai acabar na estrada, usando a mesma calcinha por uma semana.
Mais alguns segundos se passam e eu ainda não me mexi. Estou num leve estado de choque, acho.
— Três minutos, amor — Andrew diz, e está me olhando com expressão séria. — Não tô brincando. Sobe lá, bota suas porras nas malas e entra nessa merda de carro.
Cacete, ele voltou a ser como era...
Quando começo a discutir de novo, os olhos de Andrew ficam ferozes e ele diz:
— Anda logo. O tempo tá acabando! — E aponta para a casa.
Finalmente, baixando a guarda e entrando no clima tanto quanto posso me permitir, olho para ele com raiva e digo:
— Tudo bem. — Só concordo porque sei que ele está tentando melhorar as coisas. Mas me sinto culpada pra caramba.
Desconsiderando seu prazo bem-humorado de cinco minutos, giro nos calcanhares e ando muito lentamente na direção da casa, demorando de propósito, em parte minha maneira silenciosa de discordar da situação.
— Você sabia disso, Michelle? — pergunto quando passo por ela e vou para o corredor.
— Com certeza! — ela grita em resposta. Posso ouvir o sorriso em sua voz.
Abro a porta do quarto, ponho a mochila sobre a cama e começo a enfiar tudo dentro dela. Depois vou para o banheiro, pego nossas escovas de dentes e vários artigos de toalete. Arranco nossos carregadores da parede, pego meu celular do criado-mudo e enfio tudo na minha bolsa. Ando pelo quarto, torcendo para não ter esquecido nada.
Parece que Andrew já tinha feito as malas e eu nem percebi.
Em seguida fico ali, vasculhando cada centímetro do quarto, mas sem ver nada, na verdade. Não quero fazer isso, mas talvez seja o certo.
Ouço a buzina tocar três vezes e isso me arranca dos devaneios. Levantando a mochila, eu a jogo no ombro e pego minha bolsa de cima da cama.
— A gente se vê por aí! — Michelle diz do sofá.
Eu paro ao passar por ela, me curvo sobre o encosto do sofá para lhe dar um abraço desajeitado, atrapalhada pelas alças nos ombros.
— Divirta-se — ela acrescenta.
— Obrigada por nos convidar — eu digo.
Com um grande sorriso, Michelle gesticula para que eu vá, e eu saio da casa.
Quando desço os degraus, Andrew abre o porta-malas do Chevelle e eu jogo minha mochila lá dentro. Os cinco minutos que ele me deu passaram faz tempo, mas duvido que ele vá dizer alguma coisa.
— Tá pronta? — Andrew pergunta, fechando o porta-malas.
Eu respiro fundo, olho para Asher e Aidan, e antes de responder, vou abraçar os dois.
— Legal você ter vindo — diz Aidan.
— Vê se bota meu irmão na linha — Asher recomenda.
Sorrio para os dois, me sento no banco do passageiro e Andrew fecha a porta para mim.
Os três se despedem. Um minuto depois, Andrew se senta no banco do motorista, e uma lufada de ar frio entra no carro junto com ele.
Ele me olha.
— Então, vai ser assim — ele diz, apoiando os pulsos no volante. — A gente vai pro sudeste, pro litoral...
— Peraí — interrompo —, você planejou tudo? — Isso é tão fora do estilo dele. Me deixa cismada.
Andrew sorri suavemente e diz:
— Em parte. Mas é necessário.
— Que parte é necessária?
Ele me olha como que dizendo: Vai me deixar terminar?
Fico quieta e deixo que ele continue, enquanto ele se debruça e abre o porta-luvas.
— A gente vai pro sul, vamos ficar no litoral durante o inverno todo — ele diz, e agora só consigo me perguntar quanto tempo ele planeja ficar na estrada. O inverno todo? Não consigo entender que diabo de ideia é essa. Ele saca um mapa e o desdobra sobre o volante. Olho para ele, desconfiada. — Odeio o frio. Seguindo o litoral e indo mais pro sul na época certa, a gente vai evitar quase toda a neve e merdas assim.
Tá, o plano é bom, admito. Também não aguento o clima frio, portanto, sim, essa parte é necessária mesmo. Concordo com a cabeça e deixo que ele continue.
Andrew aponta para o mapa gigante e começa a correr o dedo pelo nosso itinerário.
— Vamos começar no litoral da Virgínia e ir pro sul, passando pelo seu estado, mas nada de parar pra visitar. — Ele aponta para mim. — A gente tá só de passagem, certo? — Ele espera a minha resposta.
Concordo com a cabeça novamente e digo:
— Certo — porque com certeza há um método em sua loucura, e sinto que devo concordar com ele.
Ele olha de novo para o mapa e volta a correr o dedo pelo papel.
— Depois, pela Carolina do Sul até a Geórgia, e aí vamos percorrer toda a costa da Flórida, da praia de Fernandina — seu dedo faz uma longa curva pelo papel — indo até Pensacola.
— Quanto tempo tudo isso vai levar?
Ele sorri e balança a cabeça para mim.
— Isso importa? — Então ele dobra o mapa desorganizadamente e o joga no banco, entre nós. — Eu decido a direção, desta vez. Sobretudo porque não quero morrer de frio. Mas... — Ele se vira de novo e olha para a frente, tirando os olhos de mim — Bom, é assim que precisa ser.
— Por que a gente tá fazendo isso, Andrew?
Seus olhos pousam em mim mais uma vez.
— Porque é o certo — ele responde, com um olhar profundo. — Porque você tá no carro.
Suas palavras me deixam confusa.
— Porque eu tô no carro?
Ele balança a cabeça discretamente.
— Sim.
— Mas... o que isso significa?
Seus olhos verdes se abrandam com o sorriso, ele estende a mão e segura o meu queixo. Ele beija meus lábios e diz:
— Você podia ter lutado com unhas e dentes. Podia ter me mandado à merda quando falei pra pegar nossas coisas. Mas você não fez nada disso. — Ele me beija devagar mais uma vez, e o gosto de hortelã do seu hálito fica em meus lábios. — Você não entrou correndo naquela casa porque eu mandei, foi porque era o que você queria. Você nunca fez nada só porque eu mandei, Camryn. Eu sou só um chute no seu traseiro, mais nada.
Tento disfarçar o sorriso que está se abrindo em meu rosto, mas não consigo. Ele se curva, aperta os lábios na minha testa e se endireita no assento. O motor ronrona agressivamente por um momento quando o pé dele aperta o acelerador.
Ele tem razão. Tudo o que ele já me mandou fazer, mesmo quando reclamei, eu jamais teria feito se uma parte de mim não quisesse. Fico intrigada em ver como ele sempre sabe coisas sobre mim antes que eu saiba.
Andrew
17
ACHO QUE ONTEM, em Chicago, foi a primeira vez que não consegui prever a reação de Camryn a uma das minhas exigências. Minha garota estava arrasada. Isso me deixava mais apavorado a cada dia, a pessoa que ela estava se tornando. Corri um risco ligando para Asher naquela noite e pedindo que ele dirigisse o Chevelle até Chicago. Eu não sabia o que Camryn ia fazer e, para dizer a verdade, temi que ela se recusasse a ir. Por causa da culpa. Ei, odeio termos perdido a nossa Lily. Daria um braço ou uma perna para tê-la de volta. Mas o que está feito está feito, e ficarmos parados nos afogando em sofrimento e nos recusando a fazer o que nos deixa felizes por qualquer motivo é uma puta duma bobagem. É assim que você se mata. Um suicídio lento e doloroso. Se Camryn recusasse, eu a carregaria sobre o ombro, esperneando e gritando, e a jogaria no banco de trás do carro. Porque essa é a nossa vida. Nós nos encontramos na estrada; nos conhecemos e aprendemos a nos amar na estrada. É onde devemos estar pelo tempo que for, e é o que vamos fazer até que fique claro que deveríamos fazer outra coisa.
As primeiras 14 longas horas de nossa viagem são calmas e silenciosas. Eu dirijo de Chicago até Virginia Beach ouvindo rádio, ou meus CDs quando não encontro uma estação decente. Camryn, embora sorria e fale sobre as coisas que vemos da estrada, ainda não voltou ao normal, mas vai chegar lá. Pode levar alguns dias, mas vai começar a cair na real.
As praias da Costa Leste são diferentes das do Texas. São mais limpas, e aqui a água parece água do oceano de verdade, e não a água barrenta e turva do Golfo em Galveston.
Já é quase noite. Vimos o sol se pôr no horizonte quando chegamos a Virginia Beach, e foi a primeira vez que vi aquela faísca nos olhos de Camryn, desde que ela perdeu o bebê. Se eu soubesse que um crepúsculo podia fazer isso, já a teria levado para ver um há muito tempo.
— Então, a gente vai pedir quartos separados? — ela pergunta quando saímos do carro no estacionamento do nosso primeiro hotel.
Percebo que ela está brincando, mas aposto que não espera que eu entre na brincadeira.
— É exatamente o que vamos fazer. — Eu abro o porta-malas e jogo nossas mochilas nos ombros.
— Tá falando sério? — Ela está chocada, e é engraçado.
Eu represento o melhor que posso. Nunca me passou pela cabeça pedir quartos separados, mas agora que ela mencionou isso, não acho tão má ideia.
Fecho o porta-malas e nós entramos no saguão do hotel.
— Andrew, acho que a gente já passou dessa fase.
— Dois quartos contíguos para não fumantes, por favor, se tiver.
A recepcionista digita o pedido em seu computador. Eu ignoro Camryn a maior parte do tempo, mexendo na minha carteira à procura do cartão de crédito.
— Andrew?
— Não tenho dois quartos contíguos — a mulher diz —, mas tenho dois que ficam um de frente pro outro no corredor.
— Pode ser — eu digo.
Camryn sussurra:
— Não acredito que você vai gastar dinheiro com dois quartos quando a gente já fez sexo milhares de vezes... — Camryn não para de falar, enquanto a recepcionista nos olha disfarçadamente como se fôssemos loucos. Adoro essa expressão no rosto das pessoas, esse ar surpreso de “não acredito que você disse isso”.
— Por favor, fique quieta — eu digo, me virando para Camryn. — Eu vou pro seu quarto e te como rapidinho, não se preocupe. Então para de dar espetáculo.
Camryn arregala os olhos tanto quanto a recepcionista.
Pego Camryn pela mão e a puxo para a saída do saguão.
— Espero que apreciem sua estada — a recepcionista diz em tom estupefato enquanto vamos para o elevador.
Camryn cai na gargalhada assim que as portas do elevador se fecham.
— O que foi aquilo?! — ela pergunta, incapaz de se conter. — Parecemos dois adolescentes imaturos!
— Mas você tá rindo — eu comento. — Portanto, a imaturidade valeu totalmente a pena.
O elevador para no segundo andar e nós saímos no corredor.
— Mas, sério, Andrew, por que quartos separados?
Provando mais ainda que a espontaneidade tem mesmo um propósito, eu penso no que pedi que Natalie enviasse a Chicago, enquanto andamos pelo corredor. Paramos no meio dele, diante dos nossos quartos, e eu jogo as mochilas no chão verde acarpetado.
— Só por esta noite — respondo, enfiando a mão na mochila para procurar o envelope.
Camryn fica perto de mim, assistindo a tudo em silêncio. Percebo que ela quer dizer alguma coisa, mas não tem certeza, nesse momento, do que poderia ser.
Eu endireito o corpo com o envelope na mão. Ela olha para ele, mas não sabe ao certo quais são as minhas intenções.
— Esta noite você vai ficar sozinha no seu quarto — eu digo e entrego o envelope a ela.
Ela parou de sorrir assim que tirei o envelope da mochila. Agora só consegue olhar para mim, confusa e intrigada.
Cuidadosamente, ela estende a mão e pega o envelope, ainda insegura com relação a tudo, talvez até quanto a querer ou não saber o que há dentro dele.
Eu passo o cartão na fechadura do quarto de Camryn e abro a porta, levando a mochila dela para dentro. Ela me segue, vários passos atrás, muda e desconfiada, com o envelope entre os dedos relutantes. Deixo a mochila dela sobre o balcão da TV e verifico o quarto, como sempre faço. Ligo e desligo as luzes e testo o aquecedor antes de puxar os lençóis para ver se estão limpos. Lembrando que Camryn tem fobia de colchas de hotel, eu a arranco completamente da cama e a jogo no chão, num canto do quarto.
Ela fica perto do pé da cama, imóvel.
Eu me aproximo e fico na frente dela. Olho-a nos olhos e observo o modo como ela retribui meu olhar. Passo o indicador por sua sobrancelha e pelo lado de seu rosto e sinto o calor de sua pele sob o meu toque. Eu a quero. Quando seus olhos baixaram para os meus lábios, isso desencadeou algo predador em mim. Mas eu controlo meus impulsos, pelo seu bem. Esta noite, se tudo der certo, um ciclo vai se fechar.
— Cam foi ao funeral — Natalie me disse pelo telefone no dia em que liguei para ela da casa de Aidan. — Mas chegou tarde, ficou bem no fundo, perto da porta, e foi embora antes que a cerimônia terminasse. Ela se recusou a ir até o caixão.
— Alguma vez ela falou com você a respeito disso? — perguntei.
— Nunca — Natalie disse. — E sempre que tentei abordar o assunto, o funeral, o acidente, qualquer coisa, ela não me deixou continuar.
Esta noite vai ser dura para Camryn, mas se ela não enfrentar isso, nunca vai melhorar.
— Você sabe onde estou — sussurro suavemente, deixando minhas mãos caírem dos seus braços. — Vou ficar acordado a noite toda. Comecei a compor outra canção ontem e quero muito trabalhar nela enquanto tá fresca na minha mente. — Aos poucos, mas sempre, estamos compondo material próprio, especialmente desde a viagem a Chicago; e depois da noite em que tocamos no bar de Aidan, Camryn mostrou interesse por isso, por algum motivo.
Camryn balança a cabeça e sorri fracamente por baixo da expressão de preocupação em seu rosto, preocupação com o que se esconde dentro do envelope.
— E se eu não quiser ficar neste quarto sozinha? — ela pergunta.
— Tô pedindo pra você ficar — insisto com firmeza. — Só por esta noite.
Não quero dizer mais do que isso, mas espero que a sinceridade no meu rosto faça o que palavras poderiam fazer.
— Tá bom — ela concorda.
Eu a beijo de leve nos lábios e a deixo sozinha no quarto.
Só espero que esse tiro não saia pela culatra.
Camryn
Andrew me deixa no quarto. Sozinha. Não gosto disso, mas aprendi a lhe dar ouvidos nos curtos cinco meses que passamos juntos. Cinco meses. Isso me espanta cada vez que lembro, porque parece mais que estamos juntos há cinco anos, depois de tudo o que enfrentamos. Às vezes penso no meu ex, Christian, o namorado infiel que arranjei para preencher o vazio deixado por Ian, e com quem fiquei por quatro meses. A gente mal se conhecia. Pensando bem, agora não consigo nem lembrar o dia do seu aniversário ou o nome de sua irmã, que morava a duas quadras da casa dele.
É totalmente outro mundo com Andrew.
Em cinco meses, me encontrei com ele, me apaixonei total, incondicional e loucamente, aprendi de verdade a viver, conheci praticamente toda a sua família e logo me senti parte dela, enfrentei uma jornada desafiando a morte com Andrew, fiquei grávida e noiva. Tudo em cinco meses. E agora aqui estamos, enfrentando mais uma dificuldade. E ele continua comigo a cada passo. Fui idiota e fraca e tomei comprimidos, e ele continua aqui. Eu me pergunto se existe alguma coisa que eu possa fazer que seria tão horrível a ponto de ele me abandonar. Algo no meu coração diz que não, não existe nada capaz disso. Nada mesmo.
Nunca vou entender, enquanto eu viver, como tive a sorte de ficar com ele.
Durante esse momento de reflexão, noto que meus olhos não desviaram da porta por onde ele saiu. Finalmente, olho para o envelope na minha mão, e não sei por quê, mas fico com medo de pensar no que há dentro dele. Pensei nisso muitas vezes esta semana. Uma carta? Se for, do que poderia falar? E para quem seria, e de quem? Por que Natalie me escreveria uma carta? Por que ela escreveria para Andrew?
Nada disso faz nenhum sentido.
Eu me sento no pé da cama, deixando minha bolsa cair no chão ao meu lado, e passo os dedos pelo contorno do que está dentro do envelope. Mas já fiz isso algumas vezes esta semana e continuo chegando às mesmas conclusões: é um papel, meio grosso, dobrado duas ou três vezes. Não tem nenhuma saliência, nem mesmo algum relevo dentro. É só papel.
Eu suspiro e faço menção de soltá-lo, mas continuo segurando. Não sei por que não abro essa droga de uma vez. Está me deixando meio maluca há uma semana, e aqui estou eu, finalmente capaz de desvendar o segredo de uma vez, abrindo-o, mas tenho medo demais.
Deixo o envelope na cama e me levanto, cruzando os braços e olhando para ele com o canto do olho enquanto começo a andar pelo quarto. Me sinto ameaçada por ele, como se fosse pular em mim e cravar as garras na minha perna quando passo perto. Como aquela gata psicótica que minha tia Brenda tem. Até começo a mexer na minha bolsa, procurando o celular para ligar para Andrew e fazê-lo contar por que tudo isso, até que me dou conta de como isso seria idiota.
Finalmente, eu pego o envelope e, depois de uma longa pausa, sentindo seu peso leve em minha mão, passo a ponta do dedo pela aba colada para soltá-la. Depois de tentar romper o lacre cuidadosamente e não conseguir, mando tudo à merda e rasgo o resto de alto a baixo. Jogo o envelope esfarrapado na cama e desdobro o papel de carta, vendo que a maior parte dele está em branco. Foi usado apenas para esconder a fotografia que tem dentro. Olhando para o verso da fotografia, primeiro me recuso a virá-la para ver o que há do outro lado. Em vez disso, leio a letra de Natalie no meio do último pedaço de papel:
Esta foi a melhor que eu achei.
Espero que ajude no que você está tentando fazer, seja o que for.
Sinceramente,
Natalie
Viro a fotografia e meu coração afunda como uma pedra quando vejo o rosto vibrante e sorridente de Ian me olhando. Minha bochecha está encostada na dele, olhando para a câmera. As luzes coloridas dos brinquedos do Parque Estadual da Carolina do Norte iluminam a noite ao fundo, atrás de nós. Como se eu tivesse caído num lago congelado, ver seu rosto me deixa totalmente sem fôlego. Lágrimas brotam instantaneamente dos meus olhos, e eu deixo a foto cair dos meus dedos sobre a cama. As duas mãos sobem ao meu rosto, onde os dedos cobrem meus lábios trêmulos.
Como posso me permitir chorar por ele?! Por que isso está acontecendo?!
Eu me desfiz de todas as fotos de Ian por um motivo. De todas. Deletei cada arquivo com fotos digitais nossas, tirei seu nome do meu celular. Até joguei fora o criado-mudo que eu tinha desde criança, porque Ian entalhara IAN AMA CAMRYN na madeira por baixo dele. Tentei tirar da minha vida cada coisa que me fizesse lembrar dele, o melhor que pude, porque doía demais saber que tudo o que me restava dele eram coisas materiais. Eu não podia fazer muita coisa com as lembranças, mas me esforcei ao máximo para esquecê-las também.
Por que Andrew faria isso comigo? Trazer toda essa dor de volta à minha vida, e ainda por cima tão pouco tempo depois de perdermos Lily?
Uma parte de mim quer berrar com Andrew, sair marchando pela porta, cruzar o corredor até seu quarto e lhe dizer o quanto isso dói. Mas minha razão me alcança rapidamente. Eu sei por que ele fez isso. Eu sei por que ele me colocou neste quarto, sozinha, com esta foto. Porque ele me ama tanto que está disposto a me devolver Ian só por uma noite, para que eu possa finalmente aceitar a perda dele.
Mas não consigo olhar essa droga de foto! Não consigo!
Com lágrimas escorrendo pelo rosto, pego meu suéter grosso da mochila e enfio os braços de qualquer jeito nas mangas. E então saio correndo do quarto e vou para o elevador.
Segundos depois, estou sentada na areia fria da praia, olhando para o oceano sem fim.
Andrew
18
EU ME PERGUNTO se ela vai abrir. Cacete, me pergunto se ela vai me odiar por fazer isso com ela, mas se isso vai ajudá-la, aceito a barganha.
Aperto o botão de ligar do controle remoto e uma velha reprise de Seinfeld preenche o silêncio do meu quarto. Tiro os sapatos e entro no chuveiro, deixando a água quente bater em mim até ela começar a sair morna. Só consigo pensar no que Camryn está fazendo, sozinha no seu quarto, se está olhando para aquela foto de seu ex-namorado morto, e se está se aguentando. Quero ir lá ajudá-la, mas sei que é algo que ela precisa fazer sozinha. Algo que ela deveria ter feito há muito tempo, antes que nos conhecêssemos.
Depois de me enxugar, enrolo a toalha na cintura e remexo na mochila sobre a cama, procurando uma cueca. Eu me sento, olho fixamente para a TV, depois para a parede, depois para a TV de novo, até que me dou conta de que estou só tentando fazer qualquer coisa para parar de pensar em Camryn.
Deixo meu MP3 tocar umas cinco músicas aleatórias em meus ouvidos antes de decidir que preciso ao menos ver como ela está. Tento seu celular primeiro, mas ela não atende. Então uso o telefone do hotel e tento ligar para o quarto dela. Ainda sem resposta. Talvez ela esteja apenas tomando banho. Tento me obrigar a acreditar nisso, até que meu instinto fala mais alto. Visto meu jeans e uma camisa de manga comprida e atravesso o corredor até seu quarto. Encosto o ouvido na porta, tentando ouvir o chuveiro ligado. Nada. Por isso passo o cartão extra na porta para destrancá-la.
Ela não está ali. Meu coração acelera enquanto entro no quarto. A primeira coisa que noto é a fotografia, que na verdade eu nem tinha visto ainda, sobre a cama. Eu a pego e a estudo por um instante. Camryn parece tão feliz nela. Essa é a Camryn que eu conheci, aquela com um sorriso lindo e cheio de energia. Me lembro desse sorriso. Eu o vi dezenas de vezes quando estávamos na estrada juntos.
Entrando em pânico, tiro os olhos da foto e vou para a janela. Olho para o oceano negro lá fora e vejo algumas pessoas andando pelo calçadão. Com a foto ainda na mão, volto rapidamente para o meu quarto e calço os sapatos, deixando-os desamarrados enquanto saio e vou para a praia. O ar frio não é insuportável, mas é suficiente para me fazer pensar que fiz bem em usar mangas compridas. Procuro qualquer sinal dela, olhando de um lado para o outro no calçadão e nas cadeiras de praia perto do hotel, mas ela não está em lugar nenhum. Enfiando a foto no bolso de trás da calça, começo a correr um pouco e rumo para a praia.
Eu a encontro sentada na areia, não muito longe.
— Porra, amor, você me deixou apavorado.
Eu me sento ao lado dela, passando um braço ao redor do seu corpo.
Ela olha para o oceano, o vento gelado atravessando seu cabelo louro. Não olha para mim.
— Desculpa. Eu só queria...
— Eu te amo, Andrew — ela interrompe, mas continua com o olhar fixo à sua frente. — Não sei como uma garota pode ser tão sortuda e tão azarada ao mesmo tempo.
Sem saber aonde ela quer chegar com isso, tenho medo de dizer alguma coisa porque não quero dizer a coisa errada. Eu a aperto mais para compartilhar o nosso calor. E não digo uma palavra.
— Não tô brava com você — ela continua. — Primeiro fiquei, mas quero que saiba que não tô mais.
— Me fala o que você tá pensando — peço baixinho.
Ela ainda não desviou o olhar da escuridão à sua frente. As ondas mal lambem a praia a alguns metros de nós. Um pontinho branco, a luz de um barco, se move no horizonte.
De repente, sinto que Camryn está me fitando e me viro para olhá-la também. A luz dos prédios atrás de nós e do luar é suficiente apenas para mostrar seus traços suaves, os cachos do seu cabelo soprados sobre sua face fria. Eu afasto alguns fios dos seus lábios. Seu olhar se abranda quando ela me encara e diz:
— Eu amava Ian, amava muito. Mas não quero que você pense...
Eu balanço a cabeça.
— Camryn, não faz isso. Não estamos aqui pra falar de mim, tá? — Eu enfio o dedo em outro cacho do seu cabelo e o afasto da sua boca. — Não fale de mim.
Ela para por um momento, e sinto sua mão no meu colo e meus dedos se entrelaçando com os seus.
Camryn volta a olhar o oceano.
— Eu não queria ir ao funeral de Ian — ela me conta. — Não queria vê-lo pela última vez daquele jeito. — Camryn me olha. — Lembra aquele dia, no seu apartamento, quando cheguei e você tava falando ao telefone com Aidan, quando ele tava tentando te convencer a ir ao funeral do seu pai?
Balanço a cabeça.
— Lembro, sim.
— Você disse uma coisa pra ele, disse que preferia que a última vez que você visse alguém, que ele estivesse vivo, não morto, deitado num caixão. Bem, era isso que eu pensava do funeral de Ian. Eu não queria ir. Foi por isso, também, que eu não quis ver Lily. Por isso escolhi a cremação.
— Mas você foi. Ao funeral de Ian. — Eu evito o assunto de Lily por enquanto. É um caso mais doloroso. Para nós dois. Eu a vi. Era tão pequena que caberia na palma da minha mão. Mas Camryn se recusou a olhar.
Ela balança a cabeça.
— Não exatamente — ela explica, a respeito do funeral de Ian. — Eu tava lá, mas não tava. Minha maneira de me desapegar dele foi tirá-lo da minha mente, cada palavra que ele já me disse, seu rosto; tudo o que eu podia apagar, eu apaguei. Só fui porque era o que todos esperavam de mim. Se eu não estivesse tão preocupada com o que todos fossem pensar de mim, teria ficado em casa naquele dia.
— Mas isso não fecha o ciclo — digo cautelosamente. — É a mesma coisa que varrer a sujeira pra baixo do tapete. Ela continua lá. Você sabe que tá lá. E aquilo vai ficar te incomodando até você fazer certo.
— Eu sei — ela diz.
Depois de alguns longos segundos de silêncio, eu enfio a mão no bolso de trás e tiro a foto.
— Sabe, se ele ainda estivesse vivo, eu ficaria com um pouco de ciúme. Até que, pra um cara, ele é gato.
Camryn sorri para mim e noto que seu olhar mal pousa na foto.
Eu a deixo na areia perto dos nossos joelhos. Então fico sério de novo.
— Camryn, isso que tá acontecendo com você, os comprimidos e tudo mais, não é só por causa da perda da Lily. Você sabe disso, não sabe?
Ela não responde, mas percebo que está pensando muito no que eu falei.
— Você bloqueia tudo. Ian. Lily. De acordo com Natalie, até a morte da sua avó, o crime de Cole, e o fato do seu pai ter ido embora e parecer se importar mais com a nova namorada do que com você. — Digo as coisas como elas são porque é exatamente assim que precisam ser ditas. — Em vez de lidar com tudo isso, chorar, o que for, você só bloqueia essas merdas e espera que desapareçam sozinhas. Você já tava fazendo isso bem antes da gente se conhecer. Mas precisa saber que tudo se acumula, e um dia você desmorona e cai num abismo.
— Sei. Você tem razão, como sempre — ela concorda desconsoladamente.
— Você acredita nisso ou tá concordando só pra me fazer calar a boca? — Abro um sorriso para ela, esperando receber outro em troca.
E funciona.
Ela sorri e diz:
— Não, eu acredito mesmo. Só queria ter acreditado nisso antes.
— Por que acredita agora?
— Porque você é uma espécie de filósofo com tatuagens. — Ela ri, e isso espalha calor pelo meu sangue.
Não acredito que ela está rindo. De início, imaginei que fosse levar muito tempo para Camryn aceitar tudo isso, mas ela me surpreende a cada dia.
— Um filósofo? — digo. — Exagerada. Mas aceito o elogio.
Camryn se vira de lado e deita a cabeça no meu colo. Ela olha para mim com aqueles olhos azuis de corça, e não consigo deixar de tocar seu rosto macio.
— Quer saber a verdade? — ela pergunta.
— Claro — respondo, mas fico um pouco ansioso, de repente.
— É como te falei na casa de Aidan — ela continua. — Se um dia eu perdesse você, logo você, isso seria o fim pra mim. Quando tive o aborto, isso fez todos os meus medos voltarem. De perder você. Foi como se aquele instante de tragédia me fizesse lembrar de novo da morte, e com que rapidez ela pula em cima de uma pessoa. Se Deus, a natureza, ou sei lá quem ou que porra controla tudo, pode ser cruel e desalmado a ponto de matar o meu bebê, então Ele pode te matar também, sem pensar duas vezes. Isso me apavora, Andrew. A ideia de perder você me mata por dentro. E como já quase te perdi uma vez, o medo fica muito pior.
— Mas eu já te disse...
Ela se levanta do meu colo e fica sentada na minha frente, com os joelhos enterrados na areia.
— Eu sei o que você disse — ela interrompe. — Mas não importa o que você pensa, ou você saber dizer todas as coisas certas pra me fazer sentir melhor. Você não tem certeza do que vai acontecer, Andrew. O tumor pode muito bem voltar, e apesar de tudo o que fazemos, de todas as precauções que tomamos, ele pode te matar.
Eu começo a discordar, mas ela está tão empenhada em me dizer essas coisas que sei que preciso deixar.
— Você é a melhor coisa que já me aconteceu — ela continua — e agora posso te olhar nos olhos e dizer que, por mais que isto doa, consigo aceitar a morte de Ian. Consigo aceitar a morte de Lily. Consigo aceitar a morte de qualquer um, mesmo que essa morte seja insuportavelmente dolorosa. Mas a sua... — Ela se interrompe e nem pisca ao olhar no fundo dos meus olhos. — A sua eu jamais poderia aceitar. Jamais.
O silêncio entre nós só amplifica o som do oceano. Quero pegá-la nos braços, apertar meus lábios contra os dela, mas fico sentado ali, olhando para ela, porque as palavras que ela me disse são as mais poderosas que já ouvi, senti ou entendi.
Finalmente, eu a pego em meus braços e a ponho no meu colo. Passo os braços pelas suas costas, fito seus olhos e digo:
— Acredito em você e sinto a mesma coisa.
Ela inclina um pouco a cabeça para o lado.
— Mesmo?
— Sim. Camryn, não consigo viver sem você. Eu poderia tentar, mas ia ser uma existência péssima. Isso não vale só pra mim; você pode morrer amanhã tão facilmente quanto eu. Ninguém tá imune.
Ela não discute, mas desvia o olhar por um breve momento.
Eu seguro seu rosto com as duas mãos, forçando-a a me olhar. Sua pele está gelada.
— A gente precisa viver no presente, lembra? — eu digo e ela volta a prestar atenção em mim. — Precisamos fazer um pacto, você e eu, agora mesmo. Topa fazer um pacto comigo? — Movo um pouco minhas mãos para aquecer suas orelhas geladas.
Ela concorda com a cabeça.
— Tá — diz, e fico feliz por ela confiar em mim o suficiente para não fazer perguntas antes de concordar.
Tirando uma mão de sua orelha, passo as pontas dos dedos na sua testa e pelos lados de suas bochechas.
— Não podemos controlar a morte. Nenhum dos dois pode fazer nada pra evitá-la ou adiá-la. Só o que podemos controlar é como vamos viver nossas vidas antes que ela nos alcance. Portanto, vamos prometer um pro outro coisas que possamos cumprir, haja o que houver.
Camryn concorda com a cabeça e sorri um pouco.
— Que tipo de coisas? — ela pergunta.
— Qualquer coisa. Tudo o que a gente quiser um do outro. Tipo... — Eu me levanto da areia e enfio as mãos nos bolsos. Olho para o oceano, vasculhando minha mente em busca da melhor promessa para começar. Só consigo pensar numa coisa no momento, por isso me viro novamente para ela, levanto o dedo indicador e digo: — Isto não tem nada a ver com o tumor, nem com nada específico, mas quero que você me prometa que, se algum dia estiverem me mantendo vivo por aparelhos, por qualquer motivo, e você sentir no fundo do coração que eu não vou melhorar, se você sentir que eu tô sofrendo, vai mandar desligar os aparelhos.
Seu sorriso desaparece, e ela me olha como se eu tivesse estragado o momento. Eu estendo os braços e a pego pela mão, fazendo-a levantar comigo.
— Não tô tentando ser mórbido. É só uma coisa que sempre me incomodou, sabe? Você vê isso na TV e nos filmes. O cara fica ligado a todo tipo de aparelho que a ciência já inventou pra se manter vivo porque a família tem esperança ou qualquer coisa assim. Nada contra ter esperança, mas, porra, aquilo me dá um puta medo. — Eu seguro seus braços delicadamente. — Nunca me deixe viver como um vegetal. Me prometa isso. Você me conhece melhor do que qualquer pessoa, e confio que você vai saber quando tiver chegado a minha hora. Então prometa.
Aos poucos, ela começa a entender. Leva um segundo, mas ela começa a concordar com a cabeça.
— Me promete a mesma coisa — ela pede.
Eu sorrio e digo:
— Tá prometido.
Ela dá um passo para trás e enfia as mãos nas mangas. Apertando bem o suéter ao redor do corpo, ela começa a andar de um lado para o outro.
Ela para e me olha.
— Promete que se um dia eu tiver mal de Alzheimer ou ficar senil e não me lembrar de ninguém, você vai me visitar todo dia e ler pra mim, como Noah lia pra Allie.
— Quem? — eu pergunto, mas aí a ficha cai. — Aaaah, entendi. — Eu rio dela e concordo com a cabeça.
Seus olhos e seu sorriso aumentam e ela grita:
— Andrew! Não tem graça! Tô falando sério! — Ela ri e eu a agarro, puxando-a para os meus braços.
— Tudo bem, tudo bem! — eu me rendo, apertando seu corpo que se retorce contra o meu.
— A ideia foi sua — ela acusa —, então não faz piada.
— Eu sei. Você tem razão, mas... é sério? Precisa ser tão fã assim de Diário de uma paixão?
Sinto o cotovelo dela atingindo meu estômago e me curvo um pouco e exagero a dor que isso me causa, contorcendo o rosto com a agonia e o riso. Para me humilhar de vez, Camryn me dá um empurrão e me derruba na areia. Depois fica por cima de mim, com um pé de cada lado do meu peito e as mãos na cintura, toda autoritária. Mantenho uma mão na barriga, rindo e tentando ficar sério, embora eu saiba muito bem que não consigo enganá-la.
— Só você pra fazer piada num momento tão sério. — Ela reclama tão seriamente que isso só me faz rir mais, sobretudo pela dificuldade dela em ficar de cara fechada.
Ela começa a se sentar em cima de mim, e provavelmente vai tentar me bater com suas mãozinhas delicadas, mas eu a seguro antes que ela comece, meto a mão no meio das pernas dela e aperto com toda a força.
— Aaaaaii! — Camryn geme, e começa a desabar, mas eu a mantenho na posição. — Que ideia é essa de apertar minhas paaarrr... porra, Andrew! Apertar minhas partes?!
Faço mais pressão e levanto aos poucos as costas da areia, guiando-a para trás. Ela fica de joelhos olhando para mim.
— Porque eu gosto — sussurro sobre seus lábios. — Agora fica parada.
O clima entre nós muda em questão de segundos. Sua pele fria fica mais quente; seus olhos, arrebatados; seu corpo, conivente.
— Tem gente aqui... — ela tenta dizer baixinho, mas minha mão apertando-a no meio das pernas lhe rouba a voz.
— Não me importa — retruco, examinando seus olhos primeiro e então seus lábios úmidos e inchados. — Eles estão longe.
— Mas... o que você tá fazendo...
— Só fica parada. Quieta. — Eu passo a língua sobre seu lábio inferior e o chupo delicadamente. Sinto que ela tenta me beijar, mas não deixo. Eu puxo o tecido de sua calça e enfio a mão dentro da cintura folgada para achar o seu calor. Caramba, ela já tá molhada. Me curvando sobre o seu pescoço, fecho os olhos e inalo o cheiro de sua pele. Ela fica bem imóvel, mas posso sentir seu corpo tremendo e seu coração batendo forte sob o meu toque. Quero tanto comê-la. Mas não vou fazer isso ainda, porque gosto de me torturar. Adoro, porra.
Minha mão livre solta sua cintura e eu a ponho em sua coxa, forçando-a a abrir mais as pernas.
— Abre — eu instruo, com meus lábios roçando nela, e Camryn faz exatamente o que eu mando, afastando os joelhos na areia. Ela fica um pouco tensa quando percebo um homem andando não muito longe, mas eu a aperto de novo, enfiando dois dedos nela e obrigando-a a olhar só para mim. Ela geme e eu estremeço silenciosamente, sentindo suas entranhas se apertando em volta dos meus dedos. Encaro seus olhos, os meus de vez em quando se perdendo no estudo da curvatura de sua boca. — Não tira os olhos de mim — digo. — Não me importa se você sentir que precisa fechar os olhos. Não feche. Continue me olhando.
Ela balança um pouco a cabeça, como se temesse que eu vá parar se ela fizer errado.
Mexo os dedos para dentro e para fora dela, lentamente de início, tirando-os e usando seu gozo para manter seu clitóris úmido, esfregando meu dedo médio sobre ele num movimento circular. Cada vez que a toco, seus olhos começam a se fechar, mas eu paro assim que percebo, e ela volta a controlar o olhar. Mexo meus dedos dentro dela de novo, um pouco mais rápido, e com o polegar faço cada vez mais pressão no seu clitóris. Pequenos gemidos escapam de seus lábios abertos, chupando o ar gelado ao nosso redor e meu hálito quente à medida que fico mais ofegante em sua boca. Mas ela nunca tira os olhos dos meus e não fala, embora eu saiba que ela queira fazer tudo isso.
— Admite uma coisa — sussurro no ouvido dela. — Neste momento, você não estaria nem aí se alguém estivesse olhando. Não é verdade? Me deixaria foder você aqui, na frente de todo mundo, e se preocuparia com a vergonha só depois que eu terminasse.
Sinto sua cabeça balançando perto da minha.
— O que mais você me deixaria fazer? — pergunto e mantenho os lábios perto do ouvido dela. Continuo mexendo os dedos.
— Tudo o que você quisesse — ela diz, com um gemido na voz.
— Tudo o que eu quisesse? — Eu esfrego meu polegar com mais força no seu clitóris.
— Tudo... — ela diz e perde um pouco o fôlego. — Qualquer porra que você quisesse...
Suas palavras, sua voz carregada de desejo, me deixam louco de tesão por ela, e meu pau está tão duro que mal consigo aguentar. Enfio os dedos com mais força e mais rápido. Seu corpo começa a tremer, suas coxas balançam tentando levantar o corpo. Eu me afasto do ouvido dela e a fito de novo. Ela mantém o olhar fixo no meu o melhor que pode, suas pálpebras estão ficando mais pesadas; sua respiração, irregular e ofegante. Mas seus olhos ficam arregalados e imóveis quando atinjo aquele ponto especial, e tomo cuidado para não interromper o ritmo.
— Não tira os olhos de mim — digo e continuo a olhá-la ferozmente.
Quando ela começa a gozar, meu olhar só fica mais forte, perfurando o dela num momento de luxúria faminta. É como se eu conseguisse ver o prazer emanando de suas íris, o calor do seu orgasmo saindo da pele sensível dos seus lábios, que querem beijar os meus tão selvagemente, mas mesmo assim eu não deixo. Quando seu corpo trêmulo começa a se acalmar, enfio os dois dedos mais fundo, sentindo-a se estreitar ao redor deles, o tempo todo mantendo a pressão no seu clitóris.
Ela desaba sobre o meu peito.
Eu envolvo seu corpo trêmulo nos braços e beijo o alto da sua cabeça.
— O que você tá fazendo comigo, caralho? — ela diz.
Eu rio um pouco e a abraço mais forte.
— Qualquer porra que eu quiser — respondo astutamente.
Erguendo a cabeça do meu peito, ela olha para mim.
— Bom, pode dizer o que quiser, mas não vai me fazer gozar desta vez sem que eu retribua o favor.
— Ah, é?
— É isso mesmo, por isso nem tenta.
— O que você vai fazer comigo, então? — Eu sinto o meu sorriso aumentando.
— Qualquer porra que eu quiser — ela diz, com um sorriso ainda maior e mais malicioso que o meu.
Então ela fica de pé e, segurando minha mão, me faz levantar com ela.
— Mas não aqui fora — ela diz. — Tá esfriando demais.
— Você que manda — digo, deixando que ela me puxe.
Eu jamais tocaria no assunto, mas noto, quando nos afastamos da praia, que Camryn olha para trás uma vez, para a foto dela e de Ian na areia. Sua mão aperta a minha forte e ela olha para meu sorriso suave quando atravessamos o calçadão.
Sei que tive muito pouco a ver com ela finalmente fechar esse ciclo. Tudo bem, eu a forcei a fazer isso, mas foi Camryn que, naquele momento, enfrentou um dos seus maiores medos. Ela olhou no rosto de alguém que amou e perdeu, e finalmente aceitou isso. Admito que foi estranho como tudo aconteceu, e eu não fui para lá com nenhuma intenção sexual, especialmente num momento como aquele. Mas Camryn, no tempo que passou sozinha naquela praia pensando em Ian, bem antes que eu chegasse, já tinha entendido tudo.
Não sei ao certo como ela fez, ou qual foi meu papel nisso, mas quando retornou da praia comigo naquela noite, ela já começava a ser como era antes.
Camryn estava voltando, e eu estava nas nuvens com ela.
Camryn
19
8 DE DEZEMBRO — meu vigésimo primeiro aniversário
Quando começou a esfriar, Andrew e eu rumamos mais para o Sul. Passamos só uma noite em Virginia Beach e de lá percorremos o litoral da Carolina do Norte, ficando alguns dias em Myrtle Beach, Carolina do Sul, onde arranjei meu primeiro emprego na estrada. Como arrumadeira. Com certeza não era a minha primeira escolha, especialmente depois que Andrew me lembrou das coisas nojentas que os hóspedes costumam deixar nos quartos. Mas era um emprego e não me incomodava tanto, a não ser quando queriam que eu lavasse cestos de lixo com catarradas nojentas grudadas no fundo. Desculpa, mas só de pensar nisso me dá vontade de vomitar. Eu ligava para Andrew e implorava que ele viesse limpar. Claro que eu o subornava com promessas de boquetes enlouquecedores em lugares públicos. Puxa, que maravilha. Não, quem eu tô tentando enganar? Adoro fazer isso por ele. Só finjo detestar às vezes, mas acho que ele gosta quando eu finjo, porque gosta de me ouvir reclamar.
De qualquer forma, pelo jeito, empregos de arrumadeira são como portas giratórias, as funcionárias vêm e vão tão rápido que seria melhor nem incluí-las oficialmente na folha de pagamento. Pensei em como isso poderia trabalhar a meu favor enquanto estivéssemos na estrada. Assim, em troca de metade do valor das diárias do quarto que estávamos ocupando, e como o quadro de funcionários do hotel estava desfalcado, eu perguntei se poderia ajudar e eles me contrataram na hora.
Mas o emprego era só temporário, pois Andrew e eu precisávamos partir de Myrtle Beach e seguir para o nosso destino, onde quer que fosse. Nunca planejamos nossos destinos antecipadamente. A nossa única regra é ficar no litoral. Pelo menos até a primavera. Mas ainda faltam alguns meses até lá e, no momento, estamos felizes instalados num hotel estilo chalé bem em frente à praia, na linda Savannah, Geórgia.
E hoje eu faço 21 anos.
Andrew me acorda de um sono profundo abrindo as cortinas da janela gigante do nosso quarto e deixando o sol invadir o ambiente.
— Levanta, aniversariante — exclama ele de algum lugar perto do pé da cama. Eu o ouço batendo várias vezes na mesinha perto da janela com a palma da mão.
Resmungo e viro para o lado, dando as costas para o sol brilhante e me enterrando nos lençóis. Uma lufada de ar frio me atinge quando Andrew me arranca os lençóis.
— Ah, vai! — gemo, encolhendo os joelhos para o peito e puxando o travesseiro para cima da minha cabeça. — Eu devia poder dormir até tarde no meu aniversário.
De repente, meu corpo está sendo arrastado da cama e eu estico os braços freneticamente, tentando me agarrar à borda do colchão. A mão de Andrew segura com firmeza o meu tornozelo. Eu chuto e esperneio, tentando me soltar, mas ele me arrasta pela cama tão rápido e sem esforço que eu simplesmente desisto. Minha bunda bate no chão e os lençóis caem ao meu redor.
— Você é tão babaca! — eu rio.
— Mas você me ama. Agora levanta.
Com o cabelo todo emaranhado, olho para Andrew e faço bico. Ele sorri para mim e estende a mão. Eu a seguro e ele me puxa de pé.
— Feliz aniversário, amor — ele diz, e me dá um selinho.
Eu me encolho um pouco, porque sei que meu bafo está podre, e já estou ficando acostumada com a mania de Andrew de aproveitar qualquer oportunidade de me lembrar disso.
Sem olhar para mim, Andrew enfia a mão no bolso do casaco e tira uma caixinha de veludo preto. Obviamente, ele já saiu hoje, mas eu estou mais interessada na caixa que ele pôs na minha mão. Olho para ele desconfiada, pronta para dar um esporro nele caso tenha gastado uma grana numa joia escondido de mim.
— Andrew? — digo, desconfiada.
— Abre de uma vez. Eu me comportei. Juro. — Ele ergue as duas mãos num gesto de rendição.
Ainda totalmente desconfiada de sua aparente sinceridade, abro a tampa da caixa e vejo um colar com pingente de diamante dentro e fico com um pouco de falta de ar. Então estreito os olhos para ele.
— Andrew, por favor. — Olho mais uma vez para o colar, me sentindo culpada só de tê-lo nas mãos. — De jeito nenhum isso foi...
— Juro — ele diz com um sorriso encantador. — Não foi caro.
Mordendo o lábio com ceticismo, eu pergunto:
— Quanto custou, então?
— Ah, uns 125 dólares. Nada mais do que isso. Juro por Deus. — Ele faz uma cruz sobre o coração com o dedo.
Então tira o colar da caixa, deixando-o pendurado na mão.
— Gostou? — pergunta, indo para trás de mim.
Instintivamente, levanto meu cabelo embaraçado enquanto ele põe o colar no meu pescoço.
— É perfeito, Andrew. Eu mais do que gostei. Eu amei. — Olho para baixo enquanto ele o fecha e seguro o pingente brilhante de prata.
Eu me viro para Andrew e fico na ponta dos pés descalços para beijá-lo apaixonadamente.
Nem imagino como uma joia dessas pode não ter custado um caminhão de dinheiro, mas ele está dizendo a verdade. Eu acho...
— Obrigada, amor — agradeço, radiante.
De repente, ele me dá um tapão na bunda e diz:
— A gente precisa sair daqui hoje. Tô de saco cheio de me esconder em quartos assim. De saco cheio do frio. Eu queria poder hibernar.
— Eu também. E o que a gente vai fazer, exatamente? — Pego uma roupa limpa da minha mochila perto da TV.
— Sei lá. Qualquer coisa. Mas põe uma roupa quente.
Ele não precisava me lembrar disso, na verdade. Nem mesmo a proximidade do litoral e a mudança de latitude ajudaram muito a nos aquecer nos últimos dias. Ambos sonhamos com a primavera e o verão, a ponto de ser a única coisa da qual falamos. Eu reclamo muito de não poder esticar os pés descalços para fora da janelinha do carro sem matar nós dois de frio, e ele reclama que ainda não conseguimos dormir num gramado sob as estrelas. Claro que não vou dizer em voz alta, senão ele vai querer ainda mais, mas não estou muito ansiosa para dormir sob as estrelas. Jamais. Não depois do que aconteceu na primeira vez que tentamos. Não. Acho que estou satisfeita com as camas de hotel. Elas não têm cobras.
O inverno é deprimente. Acho que é por isso que o índice de suicídios é tão alto no Alasca. É um estado lindo, mas ainda prefiro o calor de rachar de um deserto do Sul.
Eu visto roupas extraquentes para o meu aniversário: casaco grosso, cachecol, luvas, o que tiver eu tô vestindo. E mesmo assim tô morrendo de frio.
~~~
Andrew meio que “esquenta” o inverno. Sempre achei que caras de gorro ficam sexy, mas o jeitão dele com sua jaqueta preta de grife e seu gorro de lã, suéter cinza-escuro, jeans preto e botas Doc Martens é tudo o que eu quero de presente de aniversário. Sorrio comigo mesma enquanto andamos de mãos dadas por uma pequena multidão, todos se acotovelando no farol para se proteger do frio, e então três garotas, provavelmente turistas como nós, devoram Andrew com os olhos quando passamos. Isso acontece muito, e eu já deveria estar acostumada. Me vanglorio em segredo, mas quem não faria isso, na minha situação? Ele é a coisa mais sexy que eu já vi. Não admira que já tenha trabalhado como modelo. Ele odeia falar disso, então, naturalmente, eu toco no assunto com frequência para vê-lo sofrer. Andrew também está se barbeando menos; está com aquela barba sexy por fazer.
Subimos a escada em caracol até o farol debruçado sobre o oceano e olhamos o panorama juntos. Porque é algo para se fazer. Estamos apenas improvisando, andando de carro pela cidade e escolhendo as coisas quando as vemos. Mas, nos meses frios, até isso é um processo de tentativa e erro. Estendemos os braços sobre o corrimão e ficamos perto um do outro para nos aquecer. O vento gelado nos fustiga, naquela altitude, e eu sei que meu nariz e minhas bochechas devem estar vermelhos.
Levamos exatamente cinco minutos para mandar aquilo à merda e praticamente correr de volta para o carro.
— A gente podia ir pro cinema — ele sugere, no banco do motorista. — Ou... tá, acho melhor a gente hibernar e pronto.
Ficamos sentados por muito tempo, só pensando em alguma coisa para fazer.
— Vamos andar de carro mais um pouco — eu digo, sem nenhuma ideia.
— Talvez seja melhor ir embora de uma vez.
Dou de ombros.
— Se você quiser. — Então vejo uma placa que diz Feira de Antiguidades das Pulgas & Carrapatos.
— Vamos fazer compras — sugiro.
Andrew não parece empolgado.
— Compras?
Balanço a cabeça e aponto para a placa.
— Não no shopping, nada disso — explico. — Dá pra achar umas coisas bem bacanas em feirinhas de coisas usadas.
Sua expressão continua neutra, mas acho que ele se dá conta de que com certeza é melhor do que andar na rua no frio, ou ficar parado no carro sem fazer nada.
Andrew acaba cedendo porque, francamente, ele não tem mesmo muita escolha, e em seguida tira o carro do estacionamento e seguimos as placas até a feira de antiguidades. Encontramos um pouco de tudo: chapéus idiotas, instrumentos odontológicos antigos, colchas de retalhos feitas à mão, fitas de vídeo e discos. Andrew não se empolgou com muita coisa, até ver a caixa de madeira cheia de discos.
— Não vejo um disco do Led Zeppelin há anos — ele comenta, segurando um. A capa está tão detonada e desbotada que parece ter ficado num sótão por trinta anos, mas ele o segura com tanto cuidado que poderia ser um exemplar em perfeito estado.
— Você não tá pensando em comprar isso, tá?
— Por que não? — ele pergunta, sem olhar para mim.
Ele vira o disco e olha para o verso da capa.
— Porque é um LP?
— Tá, mas é um LP do Led Zeppelin — ele argumenta, olhando rapidamente para mim.
— Tá, e?
Ele não responde.
Eu continuo:
— Andrew, onde é que você vai tocar isso?
Finalmente ele me dá atenção total.
— Eu não vou tocar.
— Então por que quer comprar? — pergunto, e então respondo por ele, sarcasticamente. — Ah, já sei, é um artigo de colecionador. Você pode pendurá-lo no banco de trás do carro. — Dou um sorrisinho para ele.
— Ou posso pôr você no banco de trás e pendurá-lo na frente.
Eu fico levemente boquiaberta.
Andrew sorri e devolve o disco à caixa.
— Eu não vou comprar — ele resolve, pegando a minha mão.
Minutos depois, entramos em outra barraca, lotada de roupas antigas. Enquanto examino meticulosamente tudo o que há nos cabides, Andrew fica na barraca ao lado, onde centenas de DVDs e Blu-rays estão expostos numa parede. Ele para diante dela de braços cruzados, praticamente imóvel, lendo cada um dos títulos. Posso ver sua nuca através da treliça de madeira que separa seu quiosque do meu. Volto a olhar as roupas, sentindo urgência e necessidade a cada peça que toco. Eu adoro roupas antigas. Não que eu chegue a usar, ou que tenha comprado alguma vez, mas são coisas que não dá para deixar de olhar com admiração e se imaginar nelas.
Empurro os cabides finos de arame, um por um, para conseguir ver tudo. Camisas com mangas bufantes e cadarços de couro, espartilhos, vestidos plissados e com mangas longas, botas vitorianas...
O que é isso?
Meu coração para por um segundo quando puxo um dos cabides e vejo o vestido. É um modelo vintage cor de marfim, com mangas curtas drapeadas. Tiro o cabide da arara e seguro o vestido junto ao corpo, virando para o espelho. O comprimento por pouco não chega ao chão. Segurando-o com uma mão na altura certa, estico o tecido com a outra mão. Então eu rodopio.
— Meu Deus, amei este vestido — digo em voz alta para mim mesma. — Preciso comprar.
— Hãã, devo dizer — Andrew intervém por trás, me assustando — que é um vestido lindo.
Um pouco sem jeito porque Andrew provavelmente me viu enquanto eu me admirava com o vestido e falava sozinha, não olho para ele. Em vez disso, olho a etiqueta para ver se é do meu tamanho. É! Claro que agora preciso comprá-lo, sem mais perguntas. Era pra ser meu!
Abraçando apertado o vestido, eu giro para ficar de frente para Andrew.
— Você gostou mesmo? — pergunto com voz culpada, minha maneira de implorar para que ele não jogue na minha cara aquela conversa sobre o disco.
— Eu acho que você deve comprar — ele confirma, com um sorrisão cheio de covinhas. — Já posso imaginar você vestida nele. Linda. Naturalmente.
Eu fico vermelha e olho para o vestido de novo.
— Você acha? — Não consigo parar de sorrir.
— Com certeza — ele diz. — E você fica mais acessível nele.
Típico!
Ignoro seu comentário pervertido, sobretudo porque estou apaixonada demais pelo vestido. Então me dou conta de que ainda não olhei o preço. Conhecendo os vestidos daquela marca, sei que eles não são caros. Mas quando o vendedor é alguém que acha que pode enganar um cliente, fazendo-o pagar três vezes o valor justo, não há como prever o preço na etiqueta. Prendo a respiração e olho o valor. Vinte contos! Perfeito.
Olho mais uma vez para Andrew e de repente me sinto uma vaca reclamona.
— Por que você não compra aquele disco do Led Zeppelin também? — digo timidamente.
Andrew balança a cabeça, sorrindo.
— Não, um LP antigo não serve pra nada mesmo. Mas um vestido como esse tem sua serventia. — Ele cruza os braços e me olha de cima a baixo.
Eu acho que ele está bancando o pervertido de novo, e dessa vez abro a boca para acusá-lo, quando ele acrescenta:
— Casar comigo vestida nele, por exemplo.
Seus olhos verdes parecem cruzar rapidamente os meus.
Meu sorriso se abranda e eu digo:
— É um vestido de noiva perfeito.
— Então tá combinado — ele diz, segurando a minha mão. — Quando a gente se casar, pelo menos você já vai ter o vestido.
— Só precisamos disso, na verdade — digo, saindo com ele da barraca com o vestido pendurado no braço.
Ele olha para mim.
— Alianças — ele diz, com um olhar estranho.
— Eu tenho aliança — digo, levantando a mão, achando que por algum motivo ele se esqueceu do anel que me comprou no Texas.
— Isso é um anel de noivado.
— É, mas basta.
— Bom, eu também preciso de uma. Ou você se esqueceu de mim? Casamento é pra dois, sabe.
Eu rio baixinho enquanto chegamos à pequena fila da caixa.
— Tá, tem razão, mas eu tô feliz com o meu anel. Além disso, eu sei que você gastou uma grana com este colar. Não pode fazer essas coisas.
— Vamos começar com isso de novo? — ele pergunta em tom brincalhão, tirando a carteira do bolso. — Não menti pra você sobre o preço do colar.
Talvez ele esteja mesmo dizendo a verdade.
— Acredito em você — digo finalmente.
Ele sorri e deixa por isso mesmo.
Andrew
20
SIM, SOU UM baita mentiroso. Aquele colar custou pouco mais de 600 dólares, mas sei que não posso contar pra ela. Ela acha que o que importa nas coisas caras é quantos zeros há antes da vírgula, mas nem sempre é isso. Francamente, acho que normalmente é pra mulher que o preço importa tanto. Porra, já ouvi garotas reclamando e choramingando porque o cara delas não gastou o suficiente. Eu queria saber se elas percebem como dificultam a nossa vida quando se juntam com as amigas e comparam pedras como nós, homens, comparamos nossas ferramentas. A propósito, a gente não faz isso, na verdade. Pelo menos eu nunca consegui encontrar um cara que quisesse abrir o zíper e competir comigo.
Eu queria comprar algo bem legal pra Camryn no aniversário dela. Por pura coincidência, aquilo de que eu mais gostei, entre as coisas que vi, era caro.
Aceite isso, amor.
Ela é capaz de desmaiar se descobrir quanto eu gastei nas nossas alianças, que comprei enquanto estávamos em Chicago. Está difícil evitar que Camryn as veja. Mas consegui enfiar a caixinha num bolso escondido da minha mochila.
Passamos o dia todo fazendo o que sempre fazemos, ficando juntos e aproveitando o tempo frio como dá. Quando voltamos para o hotel, pego o violão e toco para ela uma canção que compus e na qual estou trabalhando há uma semana. Eu esperava terminá-la até o dia do aniversário porque faz parte do presente dela. Compus só pra ela. Eu a chamo de “A Tulipa na Colina”, uma canção inspirada pelo primeiro dia que passamos juntos quando eu saí do hospital, depois da minha cirurgia.
— Eu acho que você deve pegar leve — Camryn disse naquele dia. — Nada de enfiar a cabeça nos motores de Billy Frank por uns tempos, nem bungee jumping, nem corridas de carros.
Eu ri um pouco, virando a cabeça para o lado para vê-la. Eu estava deitado de comprido numa mesa de piquenique de pedra. Camryn estava sentada no banco, perto da minha cabeça.
— Então sua definição de pegar leve é não fazer absolutamente nada? — perguntei, sorrindo para ela, com a cabeça apoiada nas mãos.
— O que tem de errado em passar um dia calmo no parque? — ela perguntou, passando os dedos na minha testa.
— Nada — respondi e beijei-lhe os dedos quando sua mão chegou à minha boca. — Eu gosto de ficar sozinho com você.
Ela virou a cabeça devagar para o lado e sua expressão ficou mais meiga. Depois olhou para o parque. As árvores estavam frondosas, e a grama, espessa e verdejante. Estava realmente um dia lindo. Fiquei me perguntando por que só nós dois, aparentemente, estávamos ali, aproveitando.
— Acho tulipas bonitas — ela disse com voz distante, olhando para a pequena colina coberta de grama do meu outro lado.
Olhei também e vi uma única tulipa brotando no alto daquela colina, sozinha. Não sei bem por quê, mas desde aquele dia, sempre que vejo uma tulipa em qualquer lugar, penso em Camryn.
Eu nunca vou esquecer o sorriso em seu rosto enquanto toco e canto a canção para ela. É tão terno, radiante e carinhoso, o tipo de sorriso que diz Amo Você Mais Do Que Tudo Neste Mundo sem precisar dizer essas palavras.