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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


The Edge of Never
The Edge of Never

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.


CONTINUA

 

 

10

DENVER FINALMENTE PASSA voando e estamos nos aproximando do destino final de Andrew, em Wyoming. Não posso mentir e dizer que isso não me incomoda. Andrew estava certo quando disse que é perigoso, para mim, viajar sozinha. Só estou tentando entender por que isso não me afetava muito antes que eu o conhecesse. Talvez eu simplesmente me sinta mais segura com ele me fazendo companhia porque ele parece capaz de quebrar algumas caras sem nem suar. Caramba, talvez eu não devesse nem ter começado a falar com ele; com certeza não deveria ter deixado que se sentasse ao meu lado, porque agora estou meio que acostumada com ele. Quando chegarmos em Wyoming e nos separarmos, voltarei a olhar o mundo correr pela janela, sem saber para onde vou em seguida.

— Então, você tem namorada? - pergunto, só para puxar conversa e ficar mais algumas horas sem pensar em ficar sozinha de novo.

As covinhas de Andrew aparecem.

— Por que quer saber?

Reviro os olhos.

— Não fica se achando, não; é só uma pergunta. Se não quiser falar...

— Não - ele responde -, sou solteiro e feliz.

Ele fica olhando para mim, sorrindo, aguardando, e levo um segundo para entender o que está esperando.

Aponto para mim mesma nervosamente, arrependida de ter entrado num assunto tão pessoal.

— Eu? Não, não tenho mais. - Me sentindo mais confiante, acrescento: - Também sou solteira e feliz e quero continuar assim. Tipo... pra sempre. - Eu devia ter parado em "solteira e feliz", em vez de matraquear até minha autoconfiança acabar e parecer obviamente forçando a barra.

Claro que Andrew nota na hora. Tenho a sensação de que ele é o tipo de cara que nunca deixa passar batido o momento em que alguém tropeça na própria língua. Ele vive para momentos assim.

— Vou manter isso em mente - ele comenta, sorrindo.

Por sorte, ele não investiga mais.

Andrew apoia a cabeça no encosto de novo, e por um momento tamborila distraidamente com o polegar e o mindinho em seu jeans. Discretamente, olho seus braços musculosos e bronzeados e tento descobrir de uma vez como são as tatuagens dele, mas, como sempre, a maior parte está escondida pelas mangas da camiseta. A do lado direito eu consegui ver um pouco mais quando ele esticou o braço para amarrar o cadarço da bota. Acho que é algum tipo de árvore. A do braço que está do meu lado agora, não sei dizer, mas seja o que for, tem penas. Até agora, só vi tatuagens sem cor.

— Curiosa? - ele pergunta, e eu estremeço. Pensava que ele não tinha me visto olhando as tatuagens.

— Pode ser.

Sim, estou muito curiosa, na verdade.

Andrew ergue o corpo da poltrona e puxa a manga do braço esquerdo para cima da tatuagem, revelando uma fênix com uma cauda linda e emplumada que serpenteia até alguns centímetros abaixo da borda da manga. Mas o resto do corpo emplumado é esquelético, dando-lhe uma aparência mais "máscula".

— Que demais.

— Obrigado. Eu fiz essa há mais ou menos um ano - ele conta, puxando a manga para baixo. - E esta - diz, virando a cintura e puxando a outra manga para cima (primeiro eu noto o contorno óbvio de seus músculos abdominais por baixo da camiseta)

— é minha árvore retorcida no estilo "lenda do cavaleiro sem cabeça", me amarro em árvores sinistras. Se você olhar bem de perto... - olho mais de perto a parte do tronco da árvore que ele está apontando - este é meu Chevy Camaro 1969. É do meu pai, na verdade, mas como ele tá morrendo, acho que vai ficar pra mim. - Ele olha para a frente.

Aí está, aquele pequeno rastro de dor que ele manteve escondido antes, quando falou do pai. Está sofrendo muito mais do que revela, e isso meio que parte meu coração. Não consigo imaginar minha mãe ou meu pai no leito de morte, e eu sentada num ônibus Greyhound indo vê-los pela última vez. Meus olhos examinam seu rosto de perfil e quero muito dizer alguma coisa para reconfortá-lo, mas acho que não posso. Sinto que não tenho esse direito, por alguma razão; ao menos não de tocar no assunto.

— Tenho mais algumas - ele continua, voltando a olhar para mim com a nuca encostada na poltrona. - Uma pequena aqui - ele vira o pulso direito para me mostrar uma simples estrela negra no meio dele, logo abaixo da mão; fico surpresa por não tê-la notado antes. - E uma maior do lado esquerdo das minhas costelas.

— O que é, essa do lado? É muito grande?

Seus olhos verdes brilham quando ele sorri com ternura, virando a cabeça para me olhar.

— É grande pra caramba. - Vejo suas mãos se mexerem como se fosse levantar a camiseta para me mostrar, mas ele decide não fazê-lo. - É só uma mulher. Não vale a pena ficar pelado dentro do ônibus pra mostrar.

Agora quero ver como é mais do que nunca, só porque ele não quer mostrar.

— Uma mulher que você conhece? - pergunto. Fico olhando para o lado do corpo dele, achando que talvez ele vá mudar de ideia e levantar a camiseta, mas ele não levanta.

Ele balança a cabeça.

— Não, nada disso. É Eurídice. - Ele agita a mão à sua frente, como se não quisesse explicar mais.

O nome parece antigo, talvez grego, e é vagamente familiar, mas não consigo lembrar quem é.

Balanço a cabeça.

— Doeu?

Ele sorri.

— Um pouco. Bem, na verdade, nas costelas é o lugar que mais dói, então doeu, sim.

— Você chorou? - Eu sorrio.

Ele dá uma risadinha.

— Não, não chorei, mas, porra, se eu tivesse mandado fazer só um pouquinho maior, ia até chorar. Levou umas 16 horas no total.

Eu pisco, chocada.

— Uau, você ficou lá 16 horas?

Com uma conversa tão detalhada sobre essa tatuagem, me pergunto por que ele não mostra de uma vez. Talvez não tenha ficado muito boa, o tatuador tenha feito merda ou algo assim.

— Não de uma vez só - ele explica -, fizemos em alguns dias. Eu ia perguntar se você tem alguma tatuagem, mas algo me diz que não. - Ele sorri, compreensivo.

— Tem razão - admito, corando um pouco. - Não que eu nunca tenha pensado em fazer. - Levanto o pulso e ponho o polegar e o dedo médio em volta dele. - Pensei em escrever algo aqui, tipo "liberdade" ou algo assim em latim. Obviamente, não pensei muito. - Sorrindo, solto um pequeno suspiro constrangido. Falar de tatuagens com um cara que obviamente entende disso mais do que eu me intimida um pouco.

Quando vou apoiar o pulso novamente no braço da poltrona, os dedos de Andrew se fecham ao redor dele. Isso me atordoa por um segundo, até provoca um estranho arrepio no meu corpo, mas que desaparece rapidamente quando ele começa a falar tão casualmente.

— Uma tatuagem no pulso, para uma garota, pode ser muito graciosa e feminina. - Ele passa a ponta do dedo no lado de dentro do meu pulso para indicar onde deveria ficar. Sinto um pequeno calafrio. - Alguma coisa em latim, bem sutil, mais ou menos aqui, ia ficar legal. - Então ele me solta delicadamente e eu apoio o braço.

— Eu achava que você ia dizer que não faria de jeito nenhum. - Ele ri e levanta a perna, apoiando o tornozelo no joelho. Ele cruza os dedos e afunda na poltrona para ficar mais confortável.

Está escurecendo rapidamente; o sol mal aparece no horizonte agora, deixando tudo banhado em tons de laranja, rosa e violeta.

— Acho que não sou uma pessoa previsível. - Eu sorrio para ele.

— Não, acho que não é - ele diz, retribuindo o sorriso e depois olhando para a frente, pensativo.

Andrew me acorda no dia seguinte depois das 14h, na rodoviária de Cheyenne, Wyoming. Sinto seus dedos cutucando minhas costelas.

— Chegamos - ele diz, e eu finalmente abro os olhos e desencosto a cabeça da janela.

Sei que meu hálito deve estar horroroso, porque o gosto na minha boca é seco e nojento, por isso viro a cabeça para longe dele para bocejar.

Os freios rangem quando o ônibus para no terminal e, como sempre, os passageiros se espreguiçam e começam a recolher suas bagagens dos compartimentos superiores. Fico sentada ali, um pouco em pânico, disfarço e olho para Andrew. Sinto literalmente que vou ter um miniataque de ansiedade. Tipo, eu sabia que essa hora ia chegar, que Andrew iria embora e eu ficaria sozinha de novo, mas não esperava me sentir como uma garotinha assustada, jogada no mundo para se virar sozinha sem ninguém que cuide dela.

Merda! Merda! Merda!

Mal posso acreditar que me deixei ficar à vontade com ele, e o resultado disso é que o medo recuperou totalmente as porras das garras.

Estou com medo de ficar sozinha.

— Você vem? - Andrew pergunta, olhando para mim do corredor e estendendo a mão. Ele me sorri delicadamente, deixando de lado os comentários irônicos e as piadinhas às minhas custas porque, afinal, este é o último momento que vamos passar juntos. Não que a gente esteja apaixonado, nada louco assim, mas alguma coisa esquisita acontece quando você passa vários dias com um estranho num ônibus, conhecendo-o e apreciando sua companhia. E quando ele não é muito diferente de você e os dois têm uma conexão, sem contar um para o outro por que estão sofrendo, isso só torna a inevitável partida ainda mais difícil.

Mas não posso deixar que Andrew saiba que eu me sinto assim. É idiotice. Eu me coloquei nesta situação e pretendo continuar até o final. Não importa para que lugar do mundo ela acabe me levando.

Sorrio para ele e seguro sua mão. E no caminho todo pelo corredor, enquanto anda à minha frente, ele mantém meus dedos cuidadosamente apertados na sua mão, atrás de si. Encontro uma ternura em seu toque, me agarrando mentalmente a ele o máximo possível, para quem sabe poder ficar mais confiante quando estiver sozinha de novo.

— Bom, Camryn... - Ele me olha como se estivesse perguntando meu sobrenome.

— Bennett. - Eu sorrio e abro mão de minha própria regra.

— Bom, Camryn Bennett, foi um prazer te conhecer nesta viagem a caminho do nada.

— Ele ajeita a alça da mochila no ombro e enfia as mãos no fundo dos bolsos do jeans. -

Espero que você ache o que está procurando.

Tento sorrir e consigo, mas sei que parece uma mistura de sorriso com cenho franzido.

Ajeito a alça da bolsa num ombro e a da mala no outro e deixo os braços penderem dos lados do corpo.

— Também achei legal te conhecer, Andrew Parrish - digo, mesmo não querendo dizer. Queria que ele viajasse comigo só um pouco mais. - Você se importaria de me fazer um favor?

Despertei sua curiosidade, e ele inclina um pouco o queixo para o lado.

— Tá. Que tipo de favor? Sexual? - Suas covinhas se aprofundam quando seus lábios diabolicamente lindos começam a se curvar.

Rio um pouco e baixo o olhar sentindo meu rosto se aquecer, mas em seguida deixo o momento passar, porque este não é um pedido alegre. Em vez disso, suavizo a minha expressão e olho para ele com verdadeira compaixão.

— Se o seu pai não resistir - começo, e a expressão dele murcha -, se permita chorar, tá? Uma das piores sensações do mundo é ser incapaz de chorar, e ela acaba... deixando tudo mais sombrio.

Andrew olha para mim por um momento longo e silencioso, e então balança a cabeça, permitindo que um pequeno sorriso de gratidão apareça só no fundo dos seus olhos. Dou a mão para me despedir e ele faz o mesmo, mas segura a minha por um segundo a mais que o normal e então me puxa num abraço. Eu o abraço apertado, desejando poder confessar de uma vez que estou com medo de ficar sozinha, mas sei que não posso fazer isso.

Segura a onda, Camryn!

Ele se afasta, balança a cabeça uma última vez com aquele sorriso de que aprendi a gostar tão rapidamente e se afasta, saindo do terminal. Fico ali pelo que parece uma eternidade, incapaz de mover as pernas. Vejo-o entrar num táxi e continuo olhando até que o táxi se afasta e desaparece de vista.

Estou sozinha de novo. A mais de mil quilômetros de casa. Sem direção, sem propósito, sem outros objetivos além de tentar me encontrar nesta jornada que jamais imaginei que teria coragem de começar. E estou com medo. Mas preciso fazer isso. Preciso, porque preciso deste tempo sozinha, longe de tudo o que aconteceu em casa e que acabou me trazendo aqui.

Finalmente, me controlo e me afasto das vidraças altas para procurar um lugar para sentar. Tem uma espera de quatro horas até o próximo ônibus para Idaho, portanto, preciso encontrar um jeito de aproveitar o meu tempo.

Primeiro, vou para as máquinas de venda automática.

Enfiando moedas na abertura, quando estou quase apertando E4 para comprar uma barrinha de cereais - a coisa mais próxima de saudável em todo o estoque da máquina - meu dedo dá meia-volta e aperta D4, e uma barra de chocolate engordativa, nojenta, lotada de açúcar cai da espiral para a gaveta no fundo. Recolho alegremente minha porcaria e vou para a máquina de refrigerante, passando batido por uma com água mineral e sucos, e compro uma bebida gasosa e provocadora de gases e cáries.

Andrew ficaria orgulhoso.

Saco! Para de pensar em Andrew!

Pego minhas porcarias, encontro um banco vazio e me sento para esperar o dia passar.

A espera de quatro horas se transforma em seis. Avisaram pelo alto-falante alguma coisa sobre o meu ônibus atrasar devido a problemas mecânicos. Um coro de gemidos desesperados se eleva pela rodoviária.

Lindo. Maravilhoso. Estou largada numa rodoviária no meio do nada, e é bem provável que eu passe a noite aqui, tentando dormir em posição fetal nesta cadeira de plástico duro que não é confortável nem pra sentar.

Ou posso simplesmente comprar outra passagem de ônibus pra outro lugar.

É isso! Problema resolvido!

Só queria ter pensado nisso mais cedo e poupado as seis horas que já desperdicei aqui. É como se eu tivesse enganado o meu cérebro, de alguma forma, levando-o a pensar que sou obrigada a viajar até aquela porra de Idaho só porque já paguei a passagem.

Pego a mala e a bolsa do assento ao meu lado, ponho as alças no ombro, marcho através da rodoviária, passando por uma multidão de passageiros descontentes que claramente não têm a mesma opção que eu, e vou até a bilheteria.

— Moça, a bilheteria está fechando - diz a funcionária do outro lado do guichê.

— Espera, por favor - digo, estendendo os braços por cima do balcão exasperadamente -, só preciso comprar uma passagem pra outro lugar. Por favor, a senhora não imagina o quanto vai me ajudar!

A velha de cabelo ressecado franze o nariz para mim e parece morder a bochecha por dentro. Ela suspira e corre os dedos pelo teclado do computador.

— Oh, obrigada! - digo. - A senhora é demais! Obrigada!

Ela revira os olhos.

Puxo a bolsa para a frente, jogo-a no balcão e procuro rapidamente minha pequena carteira com zíper.

— Pra onde está indo? - ela pergunta.

Pronto, a pergunta de um milhão de dólares de novo. Corro os olhos pelo balcão à procura de algum "sinal" como a batata assada da outra rodoviária na Carolina do Norte, mas não vejo nada óbvio. A velhinha está começando a ficar ainda mais nervosa comigo, e isso me deixa mais ansiosa para andar logo e pensar em alguma coisa.

— Moça? - ela diz com um profundo suspiro, olhando para o relógio na parede. - Já deu minha hora há 15 minutos. Eu queria muito poder voltar pra casa e jantar.

— Claro, desculpa. - Puxo o cartão de crédito da carteira e entrego para ela. - Texas — digo, primeiro como um teste, mas aí percebo que gostei da sensação de dizer. - É, qualquer lugar no Texas tá ótimo.

A velhinha ergue uma sobrancelha ruiva e despenteada.

— Você não sabe pra onde vai?

Balanço a cabeça furiosamente.

— Sei, sim, só quis dizer que o próximo ônibus pro Texas serve. - Sorrio para ela, torcendo para que ela engula essa lorota ridícula e não ache que precisa pedir meus documentos para afastar qualquer suspeita. - Já tô esperando aqui há seis horas. A senhora entende.

Ela me olha por um momento longo e enervante, e então toma o cartão dos meus dedos e começa a teclar de novo.

— O próximo ônibus pro Texas sai daqui a uma hora.

— Ótimo! Vou nesse! - decido, antes mesmo que ela consiga me dizer exatamente para onde no Texas.

Não importa. E ela está com tanta pressa de ir para casa que também parece não se importar. Já que eu não ligo, ela com certeza também não.

Pego minha passagem novinha em folha e a enfio na bolsa, perto da antiga, enquanto o guichê se fecha atrás de mim às 21h05, e eu me sinto invadida por um breve alívio.

Voltando para o meu banco, procuro o celular na bolsa e verifico se perdi alguma ligação ou mensagem de texto. Minha mãe ligou duas vezes e deixou recado na caixa postal as duas vezes, mas ainda não há nenhuma resposta de Natalie.

— Querida, onde você está? - minha mãe pergunta do outro lado da linha quando ligo de volta. - Tentei ligar pra ver se você estava na casa da Natalie, mas não consegui falar com ela. Você está bem?

— Tô, mãe, tô bem. - Estou andando de um lado para outro na frente do meu banco, com o celular no ouvido direito. - Resolvi viajar pra ver minha amiga Anna na Virgínia. Vou ficar um pouco aqui com ela, mas tô bem.

— Mas, Camryn, e o novo emprego? - Ela parece decepcionada, especialmente por ter sido sua amiga quem me deu a chance e me contratou. - Maggie disse que você trabalhou uma semana e depois não apareceu mais, nem ligou, nem nada.

— Eu sei, mãe, e sinto muito, mas aquilo não era mesmo pra mim.

— Bem, o mínimo que você poderia ter feito era ser educada e avisar, cumprir as duas semanas de aviso prévio, qualquer coisa, Camryn.

Me sinto mal por ter agido assim, e normalmente não teria tido uma atitude tão sem consideração, mas a situação infelizmente exigiu que fosse assim.

— Tem razão - admito -, e quando eu voltar, vou ligar pra Sra. Phillips e pedir desculpas pessoalmente.

— Mas isso não é do seu feitio - minha mãe insiste, e começo a ficar preocupada, porque ela está se aproximando demais dos verdadeiros motivos de eu ter ido embora, e de todas as coisas que me recuso a discutir com ela. - E você pega e vai pra Virgínia sem me ligar, nem me deixar um bilhete. Tem certeza que você está bem?

— Tô, sim. Para de se preocupar. Por favor. Te ligo de novo depois, mas agora preciso ir.

Ela não quer, posso sentir pelo modo como suspira fundo ao telefone, mas desiste.

— Tá, toma cuidado, então, te amo.

— Também te amo, mãe.

Verifico a caixa de entrada do celular mais uma vez, esperando talvez que Natalie tenha me mandado alguma mensagem de texto que não vi. Olho as mensagens de vários dias atrás, mesmo sabendo muito bem que se houvesse alguma mensagem não lida, haveria uma bolinha vermelha no ícone avisando.

Acabo voltando tanto sem perceber que o nome de Ian aparece na tela, e meu coração gela no peito. Paro ali e começo a passar o dedo em seu nome para ler as mensagens que trocamos pouco antes que ele morresse, mas não consigo.

Jogo o celular de volta na bolsa com raiva.


11

AGORA LEMBREI O OUTRO motivo de eu não gostar de refrigerante: me dá vontade de fazer xixi. A ideia de ficar presa naquele ônibus só com um banheirinho do tamanho de uma caixa de fósforos nos fundos me força a seguir direto para a toalete da rodoviária. No caminho, jogo no lixo a lata de refrigerante pela metade.

Passando reto pelas três primeiras cabines, que estão nojentas, me fecho na quarta e penduro a bolsa e a mala no gancho da porta azul. Espalho uma boa camada de papel higiênico sobre a privada para não pegar nenhuma doença; faço o que tenho que fazer rapidinho, e aí vem a parte estratégica. Com um pé apoiado na privada para evitar que ela dê descarga sozinha por causa do sensor, fecho de qualquer jeito o botão do jeans, alcanço a bagagem pendurada no gancho e abro a porta, tudo isso com o pé ainda desajeitadamente levantado atrás de mim.

E aí pulo rápido para fora da cabine antes que a privada dê a descarga.

A culpa é dos Myth Busters; fiquei arrasada por meses depois de ver o episódio em que eles provam que a privada realmente borrifa germes invisíveis pra todo lado quando você dá a descarga.

As lâmpadas fluorescentes do banheiro são mais fracas que as de fora. Uma delas pisca acima de mim. Duas aranhas estão escondidas em teias cheias de bichos mortos no canto da parede. Fede aqui dentro. Paro diante de um espelho, procuro um lugar seco no balcão da pia para apoiar as bagagens e lavo as mãos. Maravilha, não tem toalhas de papel. O único jeito de secar as mãos é com aquele soprador nojento pendurado na parede, que nunca seca nada, só espalha a água pra todo lado. Começo a esfregar as mãos no jeans, mas aperto o botão prateado do secador e ele desperta com um rugido. Eu me encolho. Odeio aquele barulho.

Enquanto finjo que estou secando as mãos (porque sei que no final vou enxugar no jeans mesmo), uma sombra se move atrás de mim e chama minha atenção nos espelhos. Eu me viro e ao mesmo tempo o secador se desliga, enchendo o banheiro de silêncio novamente.

Um homem está na porta do banheiro, olhando para mim.

Meu coração dispara e minha garganta seca.

— Aqui é o banheiro feminino.

Olho para as minhas bagagens no balcão. Tenho alguma arma? Sim, eu trouxe pelo menos um canivete, mas ele não vai ajudar muito a alguns metros de mim, fechado dentro de um saquinho.

— Desculpa, achei que fosse o banheiro masculino.

Tá, desculpas aceitas, agora cai fora daqui, por favor.

O homem, usando tênis sujos e velhos e um jeans desbotado com manchas de tinta, fica parado ali. Isso não é bom. Se ele tivesse mesmo entrado aqui por engano, com certeza iria parecer mais constrangido e já teria botado o rabo entre as pernas e saído.

Marcho até minhas coisas no balcão e noto com o canto do olho que ele dá mais alguns passos na minha direção.

— Eu... não queria te assustar - ele diz.

Abro minha mala e procuro o canivete, enquanto tento ao mesmo tempo ficar de olho nele.

— Eu te vi no ônibus - ele fala, e continua a se aproximar. - Meu nome é Robert.

Eu me viro para encará-lo.

— Olha, você não devia estar aqui. Não é bem o lugar certo pra conversar; sugiro que você saia. Agora. - Finalmente sinto o cabo do canivete e o empunho, mantendo a mão escondida dentro da mala. Meu dedo aperta a pecinha de metal que abre a lâmina. Eu a ouço abrir e travar no lugar.

O homem para a uns 2 metros de mim e sorri. Seu cabelo preto é seboso e penteado para trás. Sim, agora lembrei; ele veio nos mesmos ônibus que eu desde o Tennessee.

Meu Deus, ele estava me olhando esse tempo todo?

Puxo o canivete de dentro da mala e o seguro erguido, pronta para usá-lo e mostrar para ele que não vou hesitar.

Ele apenas sorri. Isso me assusta também.

Meu coração está ricocheteando nas costelas.

— Sai de perto de mim - aviso, cerrando os dentes. - Juro por Deus que vou te sangrar feito um porco.

— Não vou te machucar - ele responde, ainda sorrindo perturbadoramente. - Eu vou pagar uma grana preta pra você chupar meu pau. Só quero isso. Você vai sair deste banheiro uns quinhentos dólares mais rica, e eu vou tirar essa ideia da cabeça. Nós dois vamos sair ganhando.

Começo a gritar a plenos pulmões, quando de repente outra sombra escura me chama a atenção. Andrew pula em cima do homem, jogando o corpo dele meio metro longe sobre o longo balcão. As costas do homem batem num dos espelhos. O vidro se parte e estilhaços chovem para todo lado. Eu salto para trás e grito, esbarrando no secador e acordando-o novamente. Deixei cair o canivete em algum momento. Vejo-o no chão, mas agora estou apavorada demais para me mexer e pegá-lo.

Sangue pinga do que sobrou do espelho quando Andrew levanta o homem de cima do balcão, puxando-o pela camisa. Ele põe a outra mão para trás e enterra o punho no rosto do homem. Ouço um barulho nojento de cartilagem esmigalhando e o sangue jorra do nariz dele. Mais e mais vezes, Andrew faz chover socos na cabeça dele, um golpe sangrento após o outro, até que o homem não consegue mais mantê-la erguida e ela começa a dançar feito bêbada sobre seus ombros. Mas Andrew não para, segurando o homem pelos ombros com as duas mãos, tirando seus pés do chão e batendo suas costas duas vezes na parede azulejada.

Ele o nocauteia completamente.

Andrew solta o corpo do homem, que desaba no chão. Ouço a cabeça dele bater no piso. Andrew fica de pé perto dele, talvez esperando para ver se ele vai se levantar de novo, mas há algo perturbadoramente indomado na sua postura e na expressão enfurecida com que olha para o homem desacordado.

Mal posso respirar, mas consigo dizer:

— Andrew? Você tá bem?

Ele sai do transe e se vira bruscamente para me olhar.

— Quê? - Andrew balança a cabeça e seus olhos se estreitam sob rugas incrédulas. Ele se aproxima. - Se eu tô bem? Que pergunta é essa? - Ele aperta meus antebraços e me olha intensamente nos olhos. - Você tá bem?

Tento virar a cabeça, porque a intensidade do seu olhar é avassaladora, mas ele segue meu movimento e me sacode uma vez para me forçar a olhá-lo.

— Tô... tô bem - digo finalmente -, graças a você.

Andrew me puxa para seu peito rijo como pedra e aperta os braços nas minhas costas, praticamente me matando esmagada.

— A gente precisa chamar a polícia - ele diz, se afastando.

Balanço a cabeça e ele me puxa pela mão para fora do banheiro e pelo corredor cinza e sombrio.

Quando a polícia chega, o homem já desapareceu.

Andrew e eu concluímos que ele deve ter saído de fininho depois que fomos embora. Deve ter fugido pelos fundos enquanto Andrew estava ao telefone. Nós o descrevemos para os policiais e damos nossos depoimentos. Eles parabenizam Andrew - sem muito entusiasmo - por intervir, mas ele parece querer apenas parar logo de falar com eles.

Meu novo ônibus para o Texas partiu há dez minutos, portanto, estou presa no Wyoming de novo.

— Pensei que você ia pra Idaho - Andrew diz.

Deixei escapar que meu "ônibus pro Texas" foi embora sem mim.

Mordo de leve a parte de dentro do lábio inferior e cruzo as pernas. Estamos sentados perto da entrada, dentro da rodoviária, olhando pelas vidraças altas o vaivém dos passageiros.

— Bom, agora tô indo pro Texas - é tudo o que digo, mesmo sabendo que fui "pega no flagra" e tendo a sensação de que muito em breve vou acabar contando uma parte da verdade. - Você não foi embora de táxi? - digo, tentando fugir do assunto.

— Fui - ele diz -, mas não começa a falar de mim, Camryn. Por que você não tá mais indo pra Idaho?

Eu suspiro. Sei que ele não vai parar de perguntar até me fazer falar, por isso jogo a toalha.

— Na verdade, não tenho uma irmã em Idaho - admito. - Só tô viajando. Nada além disso, sério.

Eu o ouço soltar um suspiro irritado.

— Sempre tem alguma coisa a mais... Você tá fugindo de casa?

Finalmente olho para ele.

— Não, não tô fugindo, ao menos não no sentido de fugir ilegalmente.

— Em que sentido, então?

Dou de ombros.

— Eu só precisava sair de casa por uns tempos.

— Então fugiu de casa?

Expiro bruscamente e olho em seus olhos verdes e intensos, que me penetram.

— Não fugi de casa, só precisava sair de casa.

— E aí você tomou um ônibus sozinha?

— É. - Estou ficando irritada com o interrogatório.

— Vai precisar me contar mais do que isso - ele afirma, resoluto.

— Olha, tô mais agradecida do que você pode imaginar pelo que você fez. De verdade. Mas acho que me salvar não te dá o direito de saber da minha vida.

Um leve ar de insulto toma sutilmente o seu semblante.

Me sinto culpada na hora, mas é verdade: não sou obrigada a contar nada para ele.

Ele desiste e olha para a frente, apoiando um tornozelo sobre o joelho.

— Vi aquele pedaço de merda olhando pra você desde que subi no ônibus no Kansas — ele revela, obtendo toda a minha atenção. - Você não viu, mas eu vi, por isso eu comecei a vigiar o cara. - Ele ainda não me encarou de novo, mas estou olhando fixamente o seu perfil enquanto ele explica. - Vi o sujeito pegar um táxi e ir embora antes de mim, e só então achei que podia deixar você aqui sozinha. Mas a caminho do hospital, tive um mau pressentimento. Falei pro taxista me deixar num restaurante e fui comer. Mas não consegui tirar aquilo da cabeça.

— Peraí - interrompi -, você não foi pro hospital?

Ele olha para mim.

— Não, eu sabia que se fosse pra lá... - ele desvia o olhar novamente - ... não ia ter como prestar atenção no mau pressentimento que eu tava tendo enquanto visse meu pai morrendo.

Eu entendo e não digo mais nada.

— Então fui pra casa do meu pai, peguei o carro dele, dei umas voltas, e quando não consegui aguentar mais, voltei pra cá. Estacionei do outro lado da rua, esperei um pouco e não deu outra, um táxi parou e deixou o cara aqui de novo.

— Por que você não entrou, em vez de ficar esperando no carro?

Ele olha para baixo, pensativo.

— Não quis te assustar.

— Por que isso ia me assustar? - Percebo que estou sorrindo um pouco.

Andrew me olha nos olhos e vejo aquela expressão brincalhona e metida a esperta começando a tomar conta do seu rosto novamente.

Ele vira as duas mãos de palmas para cima.

— Hum, um desconhecido que você conheceu no ônibus volta horas depois pra ficar sentado ao teu lado? - Suas sobrancelhas se enrugam na testa. - Quase tão sinistro quanto o sr. Chupa-meu-pau-por-quinhentos-dólares, não acha?

Eu rio.

— Não, acho que é bem diferente.

Ele tenta disfarçar o sorriso, mas desiste.

— O que você vai fazer, Camryn? - Seu rosto fica sério de novo e eu também paro de sorrir.

Balanço a cabeça.

— Não sei; acho que vou esperar aqui até o próximo ônibus pro Texas chegar, e aí vou pro Texas.

— Por que o Texas?

— Por que não?

— Dá pra falar sério?

Eu bato com as mãos nas minhas coxas.

— Porque eu não vou voltar pra casa ainda!

O fato de eu gritar com ele não o abala.

— Por que ainda não quer voltar pra casa? - ele pergunta calma e metodicamente. - Melhor desembuchar de uma vez, porque eu não vou te deixar sozinha nesta rodoviária, especialmente depois do que aconteceu.

Cruzo os braços com força no peito e fico olhando para a frente.

— Bom, então acho que você vai ficar sentado aí bastante tempo, até eu tomar o ônibus.

— Não. Isso inclui não deixar você tomar mais nenhum ônibus sozinha pra canto nenhum. Texas, Idaho ou o caralho que o parta. Lugar nenhum. É perigoso e posso ver que você é inteligente, então nós vamos fazer o seguinte...

Pisco algumas vezes, atordoada por sua repentina arrogância autoritária.

Ele continua:

— Vou esperar com você aqui até amanhã de manhã. Isso vai te dar bastante tempo pra decidir se prefere me deixar pagar sua passagem de avião pra casa ou pedir pra alguém tomar um avião pra cá e vir te buscar. Você escolhe.

Eu o olho como se ele fosse louco.

Seus olhos me respondem: Sim, nunca falei tão sério.

— Eu não vou voltar pra Carolina do Norte.

Andrew se levanta bruscamente e fica de pé na minha frente.

— Tá, então eu vou com você.

Eu pisco, olhando para seus olhos intensos; suas maçãs do rosto perfeitamente esculpidas parecem mais pronunciadas, vistas por este ângulo, o que deixa seu olhar ainda mais feroz. Sinto um calafrio correr pela minha barriga.

— Isso é loucura. - Rio, mas sei que ele está falando sério, e então digo com mais severidade: - E o seu pai?

Andrew cerra os dentes e a intensidade dos seus olhos se torna mais desesperada.

Ele começa a desviar o olhar, mas uma ideia o traz de volta.

— Então vem comigo.

Quê? Sem chance...

Ele parece mais esperançoso do que determinado, agora. Volta a se sentar ao meu lado no banco de plástico azul.

— Vamos ficar aqui mesmo até amanhã de manhã - ele continua. - Porque é claro que você não vai sair da rodoviária com um estranho depois de escurecer. Certo?

Ele vira o queixo, me olhando de lado interrogativamente.

— Não, não vou - digo, embora sinta que posso realmente confiar nele; ele me salvou de ser estuprada, meu Deus! E nada nele me dá os mesmos medos que senti quando Damon fez praticamente a mesma coisa. Não, Damon tinha algo mais sombrio nos olhos quando me olhava, naquela noite no teto do galpão. Nos olhos de Andrew, só vejo preocupação.

Mesmo assim, não vou sair da rodoviária com ele agora.

— Boa resposta - ele diz, aparentemente contente por eu ser tão "inteligente" quanto ele esperava. - Vamos esperar amanhecer, e só pra você ficar mais tranquila, vou chamar um táxi pra levar a gente pro hospital, em vez de esperar que você entre no meu carro.

Balanço a cabeça, feliz por ele ter pensado nisso. Não vou dizer que eu ainda não tinha planejado essa parte. Tipo, já confio nele, mas é como se ele quisesse ter certeza de que não confio, como se estivesse me ensinando uma lição de forma discreta e indireta.

Fico até envergonhada em admitir que ele precisa "me ensinar" essas coisas.

— E depois do hospital, vamos voltar de táxi pra cá, e pra onde você quiser ir, eu vou com você.

Ele estende a mão.

— Combinado?

Penso um momento em tudo, confusa, mas ao mesmo tempo completamente fascinada com ele. Balanço a cabeça, relutante primeiro, depois de novo, com mais segurança.

— Combinado - digo, e aperto a mão dele.

Sinceramente, não sei se concordo com tudo. Por que ele está fazendo isso? Não tem que cuidar da sua própria vida? Com certeza ele não deve ter tantos problemas em casa quanto eu.

Isso é loucura! Quem é esse cara?

Ficamos sentados juntos por várias horas ali mesmo na rodoviária, falando de coisas nada importantes, mas eu adoro cada segundo das nossas conversas. Sobre como eu cedi e tomei um refrigerante, e como foi por causa do refrigerante que acabei indo parar no banheiro com o cara - ele ri e diz que eu tenho bexiga fraca, só isso. Fofocamos discretamente sobre os passageiros que vêm e vão; os esquisitos e aqueles que estão com cara de mortos, como se estivessem viajando de ônibus há uma semana sem conseguir dormir. E falamos mais um pouco sobre rock clássico, mas a discussão continua no mesmo impasse de quando tocamos no assunto pela primeira vez no ônibus.

Ele praticamente morreu quando falei que prefiro ouvir Pink em vez de Rolling Stones, sempre. Tipo, acho que literalmente o feri. Ele pôs aquela mão enorme no coração, jogou a cabeça para trás, arrasado, e tudo o mais. Foi muito dramático. E engraçado. Tentei não rir, mas era difícil me segurar, com ele fazendo aquela expressão endurecida, exagerada e praticamente sorrindo também.

E quando íamos sair, depois que amanheceu, parei para olhá-lo um momento. Uma brisa leve agitava o seu cabelo castanho e bem-cortado. Ele inclinou a cabeça para o lado, sorrindo para mim e me chamando para o táxi.

— Você vem comigo, não vem?

Sorri calorosamente para ele e fiz que sim com a cabeça.

— Claro. - Segurei sua mão e me sentei com ele no banco de trás.

Enquanto olhava para Andrew, eu percebi que não sorria nem ria tanto assim desde a morte de Ian. Nem mesmo Natalie conseguia me deixar genuinamente alegre, e ela se esforçava muito. Minha amiga fazia de tudo para me ajudar a sair da depressão, mas nenhuma das tentativas dela jamais chegou perto dos resultados que Andrew alcançou em tão pouco tempo, e sem querer.

 

 

12

MINHA GARGANTA SE FECHA assim que pisamos no hospital, como se uma muralha de escuridão surgisse do nada e me engolisse. Paro por um segundo na entrada e fico ali, com os braços pesadamente caídos. E então sinto a mão de Camryn tocar meu pulso.

Olho para ela. Está sorrindo com tanta ternura que me faz derreter um pouco. Seu cabelo louro está preso numa trança bagunçada de um lado, jogada sobre o ombro direito. Alguns fios que escaparam do elástico caem pelos lados do seu rosto. Sinto a necessidade de esticar a mão e afastá-los delicadamente com o dedo, mas não faço isso. Não posso fazer essas merdas. Preciso me livrar dessa atração. Mas ela é diferente das outras garotas, e acho que é exatamente por isso que estou tendo tanta dificuldade. Não preciso disso agora.

— Você vai ficar bem - ela diz.

Sua mão solta meu pulso quando ela nota que chamou minha atenção. Sorrio fracamente para ela.

Seguimos o corredor até o elevador e subimos para o terceiro andar. A cada passo do caminho, sinto que deveria dar meia-volta e sair daqui. Meu pai não quer que eu demonstre emoção lá dentro, e no momento estou prestes a explodir.

Talvez seja melhor eu sair, esmurrar algumas árvores e descarregar tudo antes de entrar no quarto.

Paramos na sala de espera, onde algumas outras pessoas estão sentadas, lendo revistas.

— Vou te esperar aqui - Camryn diz, e eu olho para ela.

— Por que você não entra comigo?

Quero muito que ela entre. Não sei por quê.

Camryn começa a fazer que não com a cabeça.

— Não posso entrar lá - diz, parecendo pouco à vontade agora. - É sério, eu... eu não acho adequado.

Estendo a mão, pego delicadamente a mala do ombro dela e ponho no meu. Está leve, mas ela estava começando a parecer incomodada.

— Não tem problema - insisto. - Eu quero que você entre comigo.

Por que estou dizendo isso?

Ela baixa a cabeça e depois observa cautelosamente o resto da sala, antes que seus olhos azuis me encarem de novo.

— Tá - ela diz com um breve aceno.

Sinto meu rosto se abrir num sorrisinho e instintivamente seguro a mão dela. Ela não me impede.

Me sinto reconfortado por ela, nem é preciso dizer, e tenho a sensação de que ela está feliz em aceitar. Com certeza sabe o quanto algo assim deve ser difícil para qualquer um.

Andamos de mãos dadas até o quarto do meu pai.

Ela aperta minha mão uma vez, me olhando como que para me encorajar mais. E então eu empurro a porta do quarto de hospital. Uma enfermeira me olha quando entramos.

— Sou o filho do sr. Parrish.

Ela balança a cabeça solenemente e continua ajustando as máquinas e tubos conectados ao meu pai. O quarto é um espaço tipicamente neutro e estéril, com paredes brancas brilhantes e um chão de cerâmica tão lustroso que as lâmpadas dos painéis do forro são refletidas por ele. Ouço o bipe constante e regular do monitor de frequência cardíaca ao lado da cama do meu pai.

Ainda não olhei para ele, na verdade. Noto que estou olhando para tudo no quarto, menos para ele.

Os dedos de Camryn apertam os meus.

— Como ele está? - pergunto, mas sei que é uma pergunta idiota. Está morrendo; é assim que ele está. É que não consigo dizer mais nada.

A enfermeira me olha sem expressão.

— Ele não está consciente o tempo todo, como você já deve saber.

Não, na verdade eu não sabia.

— E não houve nenhuma mudança, nem para melhor, nem para pior. - Ela ajeita um tubo de soro preso nas costas da mão enrugada dele.

Então ela dá a volta na cama, pega uma prancheta da mesinha e enfia debaixo do braço.

— Mais alguém esteve aqui? - pergunto.

A enfermeira balança a cabeça.

— Parentes têm vindo nos últimos dias. Alguns saíram há mais ou menos uma hora, mas acho que devem voltar.

Provavelmente Aidan, meu irmão mais velho, e sua esposa, Michelle. E meu irmão mais novo, Asher.

A enfermeira sai discretamente do quarto.

Camryn olha para mim, apertando mais forte minha mão. Seus olhos sorriem cautelosamente.

— Vou sentar ali e deixar você visitar seu pai, tá?

Concordo com a cabeça, embora tudo que ela disse tenha sumido da minha mente como uma lembrança fugidia. Seus dedos soltam os meus devagar e ela se senta perto da parede, numa poltrona de vinil. Respiro fundo e passo a língua em meus lábios ressecados.

O rosto do meu pai está inchado. Tubos entram em suas narinas, levando oxigênio. Fico surpreso em ver que ele ainda não está sendo mantido por aparelhos, mas isso me dá uma pequena esperança. Bem pequena. Sei que ele não vai melhorar; isso já foi praticamente confirmado. O que sobrava do seu cabelo foi raspado. Falaram em tentar uma cirurgia, mas quando meu pai ficou sabendo que isso não iria salvá-lo, naturalmente reclamou:

— Vocês não vão mexer na minha cabeça, caralho - ele exclamou. - Querem que eu pague milhares de dólares pra um médico de meia-tigela rachar a minha cachola? Puta que pariu, rapaz! (Ele estava falando especificamente com Aidan.) Nem parece que você tem dois bagos no meio das pernas!

Meus irmãos e eu estávamos dispostos a fazer o que fosse preciso para salvá-lo, mas ele assinou escondido da gente algum tipo de "cláusula" que dizia que, quando a situação piorasse, ninguém teria o direito de tomar essas decisões por ele.

Foi minha mãe que alertou o hospital sobre os desejos do meu pai, dias antes que a cirurgia fosse realizada, e apresentou todos os papéis. Isso nos abalou, mas minha mãe é uma mulher inteligente e amorosa, e nenhum de nós jamais conseguiria ficar puto com ela por ter feito isso.

Eu me aproximo e olho para o corpo dele. Minha mão meio que tem vontade própria, e quando dou por mim, está deslizando ao lado da dele e segurando-a. Até isso parece estranho. Como se eu não devesse tê-lo feito. Se fosse qualquer outra pessoa, eu não teria problema em segurar a mão dela. Mas este é meu pai, e sinto que estou fazendo algo errado. Posso ouvir a voz dele na minha cabeça: "Homem não pega na mão de homem, rapaz. Qual é o teu problema?"

De repente, meu pai abre os olhos e instintivamente solto a mão dele.

— É você, Andrew?

Balanço a cabeça, olhando para ele.

— Cadê a Linda?

— Quem?

— Linda - ele diz, e seus olhos não conseguem decidir se querem ficar abertos. - Minha mulher, Linda. Cadê ela?

Engulo com dificuldade e olho rapidamente para Camryn, que está sentada quietinha, observando.

Eu me viro para o meu pai.

— Pai, você e Linda se divorciaram ano passado, lembra?

Seus olhos verde-claros estão molhados. Não são lágrimas. É só umidade. Ele parece zonzo por um momento e estala os lábios, passando a língua seca na boca.

— Quer um pouco d'água? - pergunto, e estico o braço para a longa mesa com rodinhas que foi afastada da cama. Uma jarra d'água cor-de-rosa e uma caneca grossa de plástico com tampa e um canudo no meio estão em cima dela.

Meu pai faz que não com a cabeça.

— Você ajeitou a sra. Nina? - ele pergunta.

Balanço a cabeça de novo.

— Sim, ela tá linda. Pintura e rodas especiais novas.

— Que bom, que bom - ele aprova, assentindo um pouco com a cabeça também.

A situação é meio constrangedora, e sei que isso está escrito na minha testa e na minha postura. Não sei o que dizer, se devia tentar forçá-lo a beber um pouco d'água ou apenas me sentar e esperar Aidan e Asher voltarem. Prefiro que eles cuidem dele. Não sou bom nessas coisas.

— Quem é aquela coisinha linda? - ele pergunta, olhando para a parede.

Eu me pergunto como meu pai consegue ver Camryn lá longe, e então noto que ele a vê pelo espelho alto do outro lado, que reflete aquela parte do quarto. Camryn fica imóvel por um instante, mas aquele sorriso lindo dela lhe ilumina o rosto. Ela levanta a mão e acena para ele pelo espelho.

Mesmo com todo o inchaço, vejo um sorriso nos lábios do meu pai.

— Aquela é a tua Eurídice? - ele pergunta, e eu arregalo os olhos. Espero que Camryn não tenha ouvido isso, mas não sei como ela poderia não ouvir. Meu pai levanta fracamente uma mão e acena para Camryn.

Ela se levanta e vem ficar ao meu lado. Sorri com tanta ternura para ele que fico até impressionado. Parece que ela nasceu pra isso. Sei que está nervosa e talvez se sinta menos à vontade do que nunca, neste quarto com este moribundo que ela nem conhece, mas segura a onda.

— Olá, sr. Parrish - ela diz. - Sou Camryn Bennett, amiga de Andrew.

Ele olha para mim. Conheço essa cara; está comparando a resposta dela com a minha expressão, tentando decifrar o significado de "amiga".

E então, de repente, meu pai faz algo que nunca o vi fazer: ele estica a mão... para mim.

O gesto me deixa atordoado.

Só quando noto Camryn disfarçadamente me alertando com os olhos para aceitar a mão dele é que caio em mim e a seguro, nervoso. Eu a seguro por um momento longo e embaraçoso e meu pai fecha os olhos e volta a dormir. Solto a mão dele quando sinto seu fraco aperto perder completamente a força.

A porta se abre e meus irmãos entram, junto com a esposa de Aidan, Michelle.

Me afasto do meu pai na hora, levando Camryn comigo, sem perceber que estou segurando a mão dela de novo até que os olhos de Aidan descem para nossos dedos entrelaçados.

— Que bom que você chegou - Aidan comenta, mas com uma pitada de desprezo na voz, sem dúvida.

Ainda está puto comigo por não ter tomado um avião e chegado mais rápido. Ele vai ter que se conformar; cada um lamenta à sua maneira.

Apesar disso, ele me puxa num abraço, apertando uma das mãos entre nós e batendo nas minhas costas com a outra.

— Esta é Camryn - apresento, olhando para ela.

Ela sorri para os três, já da poltrona perto da parede.

— Estes são meu irmão mais velho, Aidan, e sua esposa, Michelle. - Aponto delicadamente para eles. - E aquele é o mais pirralho, Asher.

— Babaca - Asher responde.

— Eu sei - concordo.

Aidan e Michelle se sentam nas outras duas cadeiras, perto de uma mesa, e começam a distribuir os hambúrgueres e fritas que acabaram de comprar.

— O velho ainda não acordou - Aidan diz, enfiando algumas batatas fritas na boca. - Detesto dizer isso, mas acho que nem vai.

Camryn olha para mim. Nós dois falamos com meu pai agora há pouco e sei que ela espera que eu conte isso.

— Provavelmente não - digo, e vejo Camryn apertando os olhos, confusa.

— Quanto tempo você vai ficar? - Aidan pergunta.

— Não muito.

— Por que isso não me surpreende? - Ele dá uma mordida no seu hambúrguer.

— Não começa com essa merda, Aidan, não tô a fim disso, e aqui não é a hora nem o lugar, porra.

— Você que sabe - Aidan diz, balançando a cabeça e mastigando a comida. Ele mergulha algumas batatas fritas num montinho de ketchup que Michelle fez num guardanapo no meio da mesa. - Faz o que você quiser, mas esteja aqui pro enterro.

Não há emoção no seu rosto. Ele simplesmente continua a comer.

Eu fico completamente paralisado.

— Porra, Aidan - Asher diz atrás de mim. - Dá um tempo, cara! Fala sério, mano, o Andrew tem razão.

Asher sempre foi o mediador entre mim e Aidan. Sempre foi o mais equilibrado. Eu e Aidan pensamos melhor com os punhos. Meu irmão mais velho sempre ganhou de mim quando éramos mais novos, mas mal sabia ele que sempre que me enchia de porrada estava me treinando.

Agora estamos no mesmo nível. Evitamos as vias de fato a todo custo, mas sou o primeiro a admitir que não sei segurar minha onda tão bem quanto ele. E Aidan sabe disso. Por isso está ficando na dele, agora, e usando Michelle como uma distração. Ele limpa um pouco de ketchup da boca da esposa. Ela dá uma risadinha.

O olhar de Camryn cruza o meu; provavelmente ela está tentando chamar minha atenção há alguns minutos, e por um momento penso que quer me avisar que é hora de ir embora, mas ela só balança a cabeça, pedindo que eu me acalme.

Obedeço na hora.

— Então - Asher diz, para aliviar a tensão no ambiente -, há quanto tempo vocês estão saindo? - Ele se apoia na parede perto do aparelho de TV, cruzando os braços no peito.

Somos quase idênticos, com o mesmo cabelo castanho e as porras das covinhas. Aidan é o esquisito do trio; seu cabelo é bem mais escuro, e em vez de covinhas, ele tem uma pinta na bochecha esquerda.

— Oh, não, somos só amigos - digo.

Acho que Camryn ficou vermelha, mas não tenho certeza.

— Deve ser uma boa amiga, pra vir até o Wyoming com você - Aidan diz.

Por sorte, ele não está sendo babaca. Se decidisse descontar nela a raiva que sente de mim, eu ia ter que quebrar a cara dele.

— Pois é - Camryn diz, e sou instantaneamente absorvido pela doçura da sua voz -, eu moro perto de Galveston; achei que alguém devia viajar com o Andrew, já que ele vinha de ônibus.

Fico surpreso por ela lembrar a cidade onde falei que morava.

Aidan faz que sim com a cabeça para ela com simpatia; suas bochechas se movem enquanto ele mastiga.

— Maior gata, mano - ouço Asher cochichar atrás de mim.

Eu me viro e o silencio com o olhar. Ele sorri, mas cala a boca.

O velho se mexe quase imperceptivelmente e Asher se aproxima do lado da cama. Ele dá um soquinho amigável no nariz de papai.

— Acorda. A gente trouxe hambúrguer.

Aidan levanta seu sanduíche como se nosso pai pudesse vê-lo.

— Tá bem gostoso. Melhor acordar logo, senão a gente come tudo.

Papai continua imóvel.

Ele treinou muito bem os três filhos. A gente jamais pensaria em ficar em volta da cama dele, deprimidos e essas merdas todas. E, quando ele morrer, Aidan e Asher provavelmente vão pedir uma pizza e uma caixa de cerveja e ficar falando merda até amanhecer.

Eu não estarei aqui para participar disso.

Aliás, quanto mais tempo eu ficar, maior a chance de ele morrer antes que eu vá embora.

Falo com meus irmãos e com Michelle mais alguns minutos, e então me aproximo de Camryn.

— Você tá pronta?

Ela pega minha mão e fica de pé.

— Já vão embora? - Aidan diz.

Camryn fala antes de mim, dizendo com um sorriso:

— Ele volta; a gente só vai comer alguma coisa.

Ela está tentando desarmar a discussão antes que comece. Olha para mim e eu, concordando em fazer o mesmo, viro para Asher e digo:

— Me liga se alguma coisa mudar.

Asher concorda com a cabeça, mas não diz mais nada.

— Tchau, Andrew - Michelle diz. - Foi bom te ver de novo.

— Você também.

Asher nos acompanha até o corredor.

— Você não vai voltar, vai? - ele diz.

Camryn se afasta de nós e anda pelo corredor para nos deixar conversar.

Balanço a cabeça.

— Desculpa, Ash, mas não consigo lidar com isso. Não consigo.

— Eu sei, mano. - Ele faz que sim com a cabeça. - Papai não ia nem ligar, você sabe. Ia preferir que você fosse transar ou encher a cara em vez de ficar olhando pra ele naquela cama.

Meu irmão está dizendo a verdade, por mais estranha que ela seja.

Ele também olha de relance para Camryn, depois de dizer isso.

— Só amigos? Mesmo? - cochicha para mim com um sorriso malicioso.

— Sim, a gente é só amigo, então cala essa boca, porra.

Ele ri silenciosamente e bate no meu braço.

— Te ligo quando for preciso, tá?

Balanço a cabeça, concordando. Quando "for preciso" significa quando papai morrer.

Asher levanta a mão para acenar para Camryn.

— Prazer.

Ela sorri e ele volta para dentro do quarto.

— Acho que você devia ficar aqui, Andrew. Acho mesmo.

Começo a andar mais rapidamente pelo corredor e ela me acompanha. Enfio as mãos nos bolsos. Sempre faço isso quando estou nervoso.

— Sei que você deve me achar um babaca egoísta por estar indo embora, mas você não entende.

— Então me explica - ela insiste, me segurando pelo cotovelo enquanto continuamos andando. - Não acho que esteja sendo egoísta, só acho que você não sabe como lidar com esse tipo de dor.

Ela está tentando me olhar nos olhos, mas não consigo olhar para ela. Só quero sair de dentro desta sentença de morte feita de tijolos vermelhos.

Chegamos ao elevador e Camryn para de falar porque há duas outras pessoas dentro dele, mas assim que chegamos ao térreo e as portas de metal se abrem, ela continua.

— Andrew. Para. Por favor!

Paro ao ouvir a voz dela e ela me faz virar. Ela me olha com uma expressão tão atormentada que meu coração dói. Aquela longa trança loura continua sobre o ombro direito dela.

— Fala comigo - ela diz mais baixinho, agora que chamou minha atenção. - Falar não faz mal.

— Do mesmo jeito que não faz mal me contar por que o Texas?

Isso a atinge.


CAMRYN


13

AS PALAVRAS DELE me calam por uns cinco segundos. Minha mão solta o seu cotovelo.

— Acho que a sua situação é um pouco mais importante que a minha, agora - argumento.

— É mesmo? - ele diz. - E você querer viajar sozinha de ônibus por aí, sem saber aonde tá indo e correndo perigo; isso você não acha nem um pouco importante?

Ele parece furioso. Posso perceber que ele está, mas a maior parte da raiva, se não toda ela, é porque o pai dele está morrendo lá em cima, e Andrew não consegue aceitar isso. Eu lamento por ele, por ter sido criado acreditando que não se pode demonstrar o tipo de emoção necessária numa situação como essa sem se tornar menos homem por isso.

Também não consigo demonstrar emoção, mas não fui criada assim, fui forçada a isso.

— Você nunca chora? - pergunto. - Nem por outros motivos? Alguma vez você já chorou?

Ele bufa.

— Claro. Todo mundo chora, até caras fortões como eu.

— Tá, me diz uma vez.

Ele responde com facilidade:

— Um... um filme me fez chorar, uma vez - mas de repente parece constrangido, e talvez arrependido da resposta.

— Qual filme?

Ele não consegue me olhar nos olhos. Sinto o clima pesando menos entre nós, apesar do motivo por trás do peso.

— Que importa isso? - Andrew desconversa.

Sorrio e chego mais perto dele.

— Ah, conta logo, vai, que foi, acha que vou rir de você e te chamar de mulherzinha?

Ele abre um tênue sorriso por baixo do rubor constrangido do seu rosto.

— Diário de uma Paixão - ele diz, tão baixo que não consigo entender direito.

— Você disse Diário de uma Paixão?

— É! Chorei vendo Diário de uma Paixão, tá?

Andrew me dá as costas e eu uso todas as minhas forças para não cair na risada. Não acho nada engraçado ele ter chorado vendo Diário de uma Paixão; o que é engraçado é ele ficar tão humilhado por admitir.

Eu rio. Não consigo segurar, o riso simplesmente escapa.

Andrew se vira, com os olhos maiores do que pratos, e me fuzila com o olhar por um segundo. Dou um gritinho quando ele me agarra e me joga sobre o ombro, me carregando para fora do hospital.

Estou rindo tanto que meus olhos enchem de lágrimas. Lágrimas de alegria, não aquelas que parei de derramar depois que Ian morreu.

— Me bota no chão! - Eu bato os punhos nas costas dele.

— Você falou que não ia rir!

Dizendo isso, ele só me faz rir mais. Eu gargalho e faço uns barulhos estranhos que nem sabia que era capaz de fazer.

— Por favor, Andrew! Me bota no chão! - Meus dedos se enterram nas suas costas através do tecido da camisa.

Finalmente, sinto meus sapatos tocarem o chão. Olho para ele e paro de rir, porque quero que ele converse comigo. Não posso deixar que abandone o pai.

Mas ele fala primeiro:

— Só não posso ficar chorando por ele, como já te falei.

Toco o braço dele delicadamente.

— Bom, então não chora, mas pelo menos fica.

— Não vou ficar, Camryn. - Ele me olha intensamente nos olhos, e eu sei, só pelo modo como está me olhando, que não vou conseguir fazê-lo mudar de ideia. - Agradeço você tentar ajudar, mas isso é algo que não posso fazer.

Com relutância, balanço a cabeça.

— Talvez, em algum momento desta viagem com a qual você concordou, vamos conseguir contar um pro outro as coisas que não queremos contar - ele concede, e meu coração, por algum motivo, reage à sua voz.

Há uma palpitação no meu peito, por baixo dos meus seios, atrás das costelas.

Andrew sorri luminosamente, seus olhos verdes perfeitos como o centro de seu rosto esculpido.

Ele é lindo mesmo...

— Então, o que você decidiu? - ele pergunta, cruzando os braços e parecendo curioso.

— Vou te comprar uma passagem de avião pra casa ou quer mesmo ir pra Lugar Nenhum, Texas?

— Você quer mesmo ir comigo? - Simplesmente não consigo acreditar nisso, e ao mesmo tempo, quero mais do que tudo que seja verdade.

Prendo a respiração esperando a resposta.

Ele sorri.

— Sim, quero mesmo.

A palpitação se transforma num calor e eu abro um sorriso tão grande que por um longo momento pareço não conseguir relaxar o rosto.

— Mas só tenho uma queixa sobre essa ideia - ele diz, levantando um dedo.

— Qual?

— Viajar naqueles ônibus - ele diz. - Odeio aquela porra.

Rio baixinho e sou obrigada a concordar com ele.

— E de que outro jeito podemos viajar?

Ele ergue um lado da boca num sorriso esperto.

— A gente pode ir de carro - sugere. - Eu dirijo.

Eu não hesito.

— Tá.

— Tá? - ele exclama, fazendo uma pausa. - Fácil assim? Vai entrar no carro de um cara que você mal conhece, e confiar que ele não vai te estuprar em alguma estrada deserta? A gente já não conversou sobre isso?

Eu inclino a cabeça para um lado, cruzando os braços.

— Faria alguma diferença se eu tivesse te conhecido numa biblioteca, e depois saísse com você, sozinha no seu carro? - Inclino a cabeça para o outro lado. - Todo mundo é desconhecido no começo, Andrew, mas nem toda mulher encontra um desconhecido que a salva de um estuprador e a leva pra conhecer o pai, que está morrendo, praticamente na mesma noite. Eu diria que você já passou no teste da confiança faz algum tempo.

O lado esquerdo de sua boca se ergue num sorriso, perturbando a seriedade das minhas palavras sinceras.

— Então esta viagem é um encontro?

— Hein? - Eu rio. - Não! Foi só uma analogia.

Sei que ele sabe disso, mas preciso dizer alguma coisa para que ele não note minhas bochechas, que estão ficando vermelhas.

— Você entendeu.

Ele sorri.

— É, entendi, mas você me deve um jantar "amigável" na companhia de um filé. - Ele faz aspas com os dedos quando diz "amigável". O sorriso nunca deixa o seu rosto.

— Devo, sim, não nego.

— Então tá combinado - ele decide, me dando o braço e me levando para o táxi que espera perto do estacionamento. - Vamos buscar o carro do meu pai na rodoviária, passar pela casa dele pra pegar umas coisas e depois cair na estrada.

Ele abre a porta de trás do táxi para que eu entre primeiro e a fecha depois de se sentar ao meu lado.

O táxi começa a rodar.

— Ah, acho que preciso estabelecer algumas regras básicas antes de a gente fazer isso.

— Ah, é? - Me viro e olho para ele, curiosa. - Que tipo de regras básicas?

Ele sorri.

— Bom, primeira: meu carro, meu som; sei que não preciso explicar mais.

Eu reviro os olhos.

— Então você tá me dizendo, basicamente, que vou ser obrigada a ouvir só rock clássico nessa viagem?

— Ah, você vai acabar gostando.

— Não acabei gostando nem quando era criança e tinha que aguentar meus pais ouvindo o dia todo.

— Segunda - ele continua, erguendo dois dedos e ignorando completamente o meu protesto -, você tem que fazer tudo que eu mandar.

Viro a cabeça bruscamente e franzo a testa.

— Hã? Que história é essa?

Seu sorriso fica ainda maior, maquiavélico até.

— Você disse que confia em mim, então confie nisso também.

— Bom, vai ter que me explicar melhor. Sério, sem brincadeira.

Ele afunda no banco e cruza os dedos entre suas longas pernas abertas.

— Prometo que não vou te pedir pra fazer nada doloroso, degradante, perigoso ou inaceitável.

— Então, basicamente, não vai me pedir pra chupar teu pau por quinhentos dólares, nem nada do tipo?

Andrew joga a cabeça para trás e ri alto. O taxista se mexe no banco da frente. Noto que seus olhos desviam do retrovisor quando olho para ele.

— Não, nada disso, com certeza, juro. - Ele ainda está rindo um pouco.

— Tá, mas o que vai me pedir pra fazer, então?

Estou completamente desconfiada dessa conversa. Ainda confio nele, admito, mas também estou um pouco apavorada agora, temendo algo como acordar com um bigode desenhado com canetinha.

Ele dá uns tapinhas na minha coxa.

— Se isso te faz sentir melhor, você pode me mandar catar coquinho se não quiser fazer alguma coisa, mas espero que não faça isso, porque quero muito te mostrar como viver a vida.

Uau, isso me pega completamente desprevenida. Ele está falando sério; não há nada de engraçado nessas palavras, e mais uma vez fico fascinada por ele.

— Como viver a vida?

— Você faz perguntas demais. - Ele dá mais um tapinha na minha coxa e põe a mão novamente no próprio colo.

— Bom, se você estivesse sentado deste lado do carro, também faria um monte de perguntas.

— Talvez.

Meus lábios se abrem um pouco.

— Você é uma pessoa muito estranha, Andrew Parrish, mas tá, confio em você.

Seu sorriso fica mais terno quando ele apoia a cabeça no banco, olhando para mim.

— Mais alguma regra básica? - pergunto.

Ele olha para cima, pensativo, e morde a bochecha por dentro por um momento.

— Não. - Sua cabeça cai para o lado. - Só isso.

É a minha vez.

— Bom, também tenho algumas regras básicas.

Ele levanta a cabeça, curioso, mas deixa as mãos sobre a barriga, com os dedos fortes cruzados.

— Tá, manda - ele responde, sorrindo, com certeza preparado para qualquer coisa que eu inventar.

— Número um: em nenhuma circunstância você vai me comer. Só porque sou simpática com você e tô concordando com... bem, com a coisa mais doida que já fiz, tô te avisando logo que não vou ser sua próxima transa, nem vou me apaixonar por você (ele está sorrindo de orelha a orelha agora, e isso tira a minha concentração), nem qualquer coisa do tipo. Entendido? - Estou tentando falar bem sério. Estou mesmo. E acredito no que falei. Mas aquele sorriso idiota dele está meio que me forçando a sorrir, e eu o odeio por isso.

Ele faz um bico, pensativo.

— Completamente entendido - concorda, embora eu ache que exista um significado oculto nas suas palavras.

Eu concordo com a cabeça.

— Ótimo. - Me sinto melhor por ter deixado isso claro.

— O que mais? - ele pergunta.

Por um segundo, esqueci a outra regra básica.

— Tá, a número dois é: nada de Bad Company.

Ele parece levemente arrasado.

— Que raio de regra é essa?

— É minha regra e pronto - digo com um sorrisinho. - Algum problema? Você pode ouvir todas as outras bandas de rock clássico e eu não posso ouvir nada que eu quero, então não vejo nada de errado na minha condiçãozinha minúscula. - Abro meu polegar e indicador um centímetro para mostrar quão minúscula.

— Bom, não gostei dessa regra - ele resmunga. - Bad Company é uma ótima banda, por que tanto ódio?

Ele parece magoado. Acho isso bonitinho.

Estufo os lábios.

— Sinceridade? - Acho que vou me arrepender disto.

— Sinceridade, claro - ele diz, cruzando os braços. - Desembucha.

— Eles cantam demais sobre o amor. É piegas.

Andrew ri alto de novo e eu começo a achar que o taxista está ficando com os ouvidos cheios, com a gente no carro.

— Parece que alguém aqui está amarrga - Andrew diz, e um sorriso se espalha pelos seus lábios.

É, me arrependi.

Desvio o olhar porque não posso deixar que ele perceba nada em meu rosto que confirme que ele acertou na mosca sua avaliação a meu respeito. Ao menos no tocante ao meu ex infiel, Christian. Com ele, é amargura. Com Ian, é uma dor cruel e inalterada.

— Bom, a gente vai consertar isso também - ele comenta casualmente.

Volto a olhar para ele.

— Hãã, obrigada, dr. Phil, mas não preciso de ajuda com isso.

Peraí, cacete! Quem foi que falou que eu preciso ser "consertada"?

— É? - ele vira o queixo, parecendo curioso.

— É - digo. - Sem falar que isso meio que infringiria minha regra básica número um.

Ele pisca e sorri.

— Ah, você automaticamente presumiu que eu ia me oferecer como cobaia? - Seus ombros se agitam com uma risada discreta.

Ai!

Tento não parecer ofendida. Não sei se está funcionando, então uso outra tática.

— Bom, espero que não - comento, piscando. - Você não faz meu tipo.

Ah, sim, roubei a bola; acho que ele se assustou agora!

— E o que eu tenho de errado? - Andrew pergunta, mas já não acredito nem um pouco que meu comentário tenha sido ofensivo. Normalmente, as pessoas não sorriem quando estão chateadas.

Viro o corpo completamente, apoiando as costas na porta do táxi, e o olho de alto a baixo. Estaria mentindo descaradamente se dissesse que não gosto do que vejo. Ainda não encontrei nada nele que não faça meu tipo. Aliás, se não fosse pelo fato de que não tô a fim de nada dessas coisas de sexo, de sair, de namorar nem de amor, Andrew Parrish seria o tipo de cara no qual com certeza eu investiria, e pelo qual Natalie babaria descaradamente.

Ela iria colocá-lo no meio dos peitos.

— Não tem nada de "errado" em você - admito. - Mas é que eu acabo ficando com... caras mais mansos.

Pela terceira vez, Andrew joga a cabeça para trás e ri.

— Mansos? - Andrew repete, ainda rindo. Ele balança a cabeça algumas vezes e acrescenta: - É, acho que você tem razão em dizer que não sou lá do tipo mais manso.

— Ele levanta um dedo, como se fosse apresentar um argumento. - Mas a coisa mais interessante é você dizer que "acaba ficando" com eles. O que você acha que isso significa?

Como é que ele roubou a bola de mim? Eu nem vi.

Espero que Andrew dê a resposta, mesmo a pergunta tendo partido dele. Ele ainda está sorrindo, mas há algo muito mais meigo e perspicaz em seu sorriso agora, em vez da zombaria de sempre.

Ele não diz nada.

— Eu-eu não sei - digo distraidamente, e então olho para ele. - Por que isso precisa ter algum significado, afinal?

Ele balança a cabeça de leve, mas se limita a olhar para a frente enquanto o táxi entra no estacionamento perto da rodoviária. O Chevy Chevelle 1969 do pai de Andrew é o único carro no pátio. Acho que eles curtem mesmo carros antigos.

Andrew paga a corrida e nós saímos.

— Boa noite pra você, cara - ele diz, acenando, quando o taxista vai embora.

Acabo caindo num silêncio pensativo depois que partimos no Chevelle, pensando no que ele disse, mas esqueço o assunto quando paramos na frente da casa imaculada do pai dele.

— Uau - exclamo, boquiaberta, enquanto saio do carro. - É muita casa.

Ele fecha a porta do seu lado.

— É, meu pai tem uma empresa grande de construção e projetos - ele explica casualmente. - Vem, não quero ficar muito tempo aqui, Aidan pode aparecer.

Ando com ele pelo caminho paisagístico cheio de curvas que leva para a porta da casa de três andares. É um lugar tão luxuoso e impecável que não posso imaginar o pai dele morando ali. O pai de Andrew parece um homem simples, não alguém tão materialista quanto a minha mãe.

Mamãe desmaiaria numa casa assim.

Andrew procura uma chave e a enfia na fechadura.

Ela estala e se abre.

— Não quero ser enxerida, mas por que teu pai ia querer morar numa casa desse tamanho?

O saguão cheira a potpourri de canela.

— Que nada, isso é coisa da ex-mulher, não foi lance dele não. - Eu o sigo até a escadaria forrada de carpete branco. - Ela é legal; Linda, aquela que ele mencionou no hospital; mas não conseguiu conviver com o meu pai, e eu não posso culpá-la.

— Achei que você ia dizer que ela casou com o seu pai por dinheiro.

Andrew balança a cabeça enquanto subimos a escada.

— Não, não foi assim. Simplesmente é difícil conviver com o meu pai. - Ele enfia o chaveiro no bolso direito da frente do jeans.

Dou uma olhadinha na bunda de Andrew naquele jeans enquanto ele sobe a escada na minha frente. Mordo o lábio inferior e em seguida me estapeio mentalmente.

— Este é o meu quarto. - Entramos no primeiro quarto à esquerda. Está bem vazio; parece mais um depósito com algumas caixas bem empilhadas contra uma parede bege, alguns equipamentos de musculação e uma estátua indígena esquisita no canto, parcialmente embrulhada em plástico. Andrew vai até o amplo closet e aperta o interruptor da luz. Fico no meio do quarto, de braços cruzados, olhando ao redor e tentando não parecer curiosa demais.

— Você disse que "é" o teu quarto?

— É - ele diz de dentro do closet -, pra quando venho visitar, ou se um dia eu quiser vir morar aqui.

Chego mais perto do closet e o vejo mexendo em roupas penduradas como penduro as minhas.

— Vejo que você também tem TOC.

Ele me olha interrogativamente.

Aponto para as roupas organizadas por cor em cabides iguais de plástico preto.

— Ah, não, não mesmo - ele explica. - A faxineira do papai entra aqui e faz essa porra. Eu tô me lixando se minha roupa tá no cabide, muito menos arrumada pela cor, é muita... peraí... - Ele se afasta das camisas e me olha de lado. - Você faz isso com a tua roupa? - Ele corre o dedo horizontalmente pelas camisas.

— Faço - confesso, mas me sinto esquisita admitindo isso para ele -, gosto das minhas coisas organizadinhas, e tudo tem que ter um lugar.

Andrew ri e volta a mexer nas camisas. Sem olhar muito para elas, puxa algumas e alguns jeans dos cabides e joga tudo sobre o braço.

— Não é estressante? - ele indaga.

— O quê? Deixar minha roupa organizadinha?

Andrew sorri e joga o pequeno monte de roupas nos meus braços.

Olho para elas, sem graça, e novamente para ele.

— Deixa pra lá - ele desconversa, e aponta para trás de mim. - Pode guardar isso na mochila pendurada no banco de exercícios?

— Claro - digo, e as levo para lá.

Primeiro ponho tudo sobre um banco de vinil preto, depois pego a mochila que está pendurada no apoio dos halteres.

— Então, pra onde a gente vai primeiro? - pergunto, dobrando a primeira camisa da pilha.

Ele ainda está fuçando no closet.

— Não, não - ele diz lá de dentro; sua voz chega meio abafada -, nada de planejamento, Camryn. Vamos só pegar o carro e rodar. Nada de mapas, nem planos, nem... - Ele pôs a cabeça para fora do closet e sua voz está mais clara. - O que você tá fazendo?

Ergo o olhar, com a segunda camisa da pilha já meio dobrada.

— Dobrando suas camisas.

Ouço um tum-tum quando ele deixa cair um par de tênis pretos e vem do closet na minha direção. Quando chega, me olha como se eu tivesse feito algo errado e tira a camisa dobrada das minhas mãos.

— Não seja tão perfeitinha, gata; só enfia tudo na mochila.

Ele faz isso para mim, como se quisesse me mostrar como é fácil.

Não sei o que chama mais minha atenção: sua aula de desorganização ou o frio na minha barriga quando ele me chamou de "gata".

Dou de ombros e deixo que ele guarde as roupas do jeito dele.

— A roupa que você usa não importa muito, na verdade - ele continua, voltando para o closet. - Só o que importa é aonde você vai e o que está fazendo enquanto a usa.

Ele joga o par de tênis preto para mim, um de cada vez, e eu pego.

— Enfia isso também, se não se importa.

Faço exatamente o que ele diz, literalmente socando o tênis na mochila, e fico horrorizada ao fazê-lo. Ainda bem que, pelo estado das solas, o tênis não parecia ter sido usado, senão eu ia ser obrigada a protestar.

— Sabe o que eu acho sexy numa garota?

Ele está de pé, com um braço musculoso bem acima da cabeça, mexendo numas caixas na prateleira mais alta do closet. Consigo ver a parte de baixo daquela tatuagem do lado esquerdo do corpo dele, saindo da barra da camisa.

— Hum, não sei - digo. - Garotas que vestem roupas amarrotadas? - Torço o nariz.

— Garotas que acordam e vestem qualquer coisa - ele responde, pegando uma caixa de sapatos.

Ele sai do closet carregando a caixa na palma da mão.

— Aquele look acabei-de-acordar-e-tô-pouco-me-lixando é sexy.

— Entendi - digo. - Você é um desses caras que desprezam maquiagem, perfume, todas essas coisas que fazem as garotas serem garotas.

Ele me entrega a caixa de sapatos e, como fiz com as roupas, olho para ela com ar de interrogação.

Andrew sorri.

— Não, não odeio, só acho que o simples é sexy.

— O que você quer que eu faça com isso?

Bato na tampa da caixa com o dedo.

— Abra.

Olho para a caixa, indecisa, depois para ele. Ele balança a cabeça para me motivar.

Levanto a tampa vermelha e vejo um monte de CDs nas capas originais de plástico.

— Meu pai era preguiçoso demais pra instalar um MP3 no carro - ele começa - e na estrada nem sempre o rádio pega bem; às vezes não dá pra achar nenhuma estação decente.

Ele tira a caixa de sapatos das minhas mãos.

— Esta vai ser nossa playlist oficial. - Ele abre um sorrisão, revelando todos os seus dentes perfeitos e brancos.

Eu, nem tanto. Faço uma careta e torço um canto da boca amargamente.

Está tudo lá, todas as bandas que ele mencionou quando o conheci no ônibus, e várias outras de que nunca ouvi falar. Tenho quase certeza de que ouvi 99% daquelas músicas vez ou outra por causa dos meus pais. Mas se alguém me perguntasse o nome desta ou daquela canção, ou de que disco é, ou que banda está cantando, eu provavelmente não saberia.

— Que legal - comento sarcasticamente, sorrindo e enrugando o nariz para ele.

Seu sorriso só aumenta. Acho que ele adora me torturar.

 


CONTINUA