Biblio VT
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...
CONTINUA
6
O SOL BRILHANDO pela janela do ônibus me acorda na manhã seguinte. Ergo o corpo para ver melhor, me perguntando se a paisagem teria mudado, mas não mudou. E então noto a música explodindo dos fones de ouvido atrás de mim. Olho discretamente por cima do encosto, esperando vê-lo dormindo profundamente, mas ele me olha e sorri como quem diz: "Não falei?"
Reviro os olhos e volto a me sentar, puxando a mala para o meu colo e mexendo nela. Começo a me arrepender de não ter trazido alguma coisa para ocupar a mente. Um livro. Palavras cruzadas. Qualquer coisa. Suspiro fundo e começo literalmente a girar os polegares. Me pergunto em que parte dos Estados Unidos estamos, se ainda é o Kansas, e concluo que deve ser, porque todos os carros que passam pelo ônibus têm placas do Kansas.
Quando não acho nada interessante para olhar, começo a prestar mais atenção na música atrás de mim.
Isso é...? Ah, você tá de brincadeira.
Feel Like Makin' Love jorra dos fones do cara; consigo identificar a canção pelo solo de guitarra que todos conhecem, mesmo quem não gosta muito do Bad Company. Não odeio rock clássico, mas prefiro coisas mais recentes. Pode tocar Muse, Pink ou The Civil Wars que eu fico feliz.
Levo um baita susto com os fones deslizando pelo encosto da poltrona e praticamente encostando no meu ombro. Meu corpo estremece e faço um gesto como se estivesse espantando um inseto que pousou em cima de mim.
— Que porra...? - digo, olhando para o sujeito debruçado em cima de mim novamente.
— Você parece entediada - ele diz. - Te empresto, se quiser. Pode não ser teu tipo de música, mas vai acabar gostando. Garanto.
Olho para ele fazendo uma tremenda careta. Esse cara tá falando sério?
— Obrigada, mas não - digo, me virando.
— Por que não?
— Bem, pra começar - retruco -, você tá com esse negócio enfiado no ouvido há horas. Que nojo.
— E daí?
— Como assim, e daí? - Acho que estou fazendo uma careta até pior. - Isso não basta?
Ele abre aquele sorriso torto de novo, e à luz do dia noto que ele forma duas covinhas perto dos cantos dos lábios.
— Bom - ele responde, puxando os fones de volta -, você disse "pra começar"; só achei que podia haver algum outro motivo.
— Uau - exclamo, chocada -, você é inacreditável.
— Obrigado. - Ele sorri e eu vejo seus dentes perfeitos e brancos.
Não falei aquilo como um elogio, mas algo me diz que ele sabe disso.
Volto a fuçar na minha mala, já sabendo que não vou encontrar nada além de roupas, mas é melhor do que lidar com esse maluco.
Ele se joga na poltrona vazia ao meu lado assim que outro passageiro passa a caminho do banheiro.
Fico meio que congelada, com uma mão enfiada na mala, sem me mexer. Mesmo olhando para ele, preciso me recuperar do choque antes de decidir que tipo de esporro quero dar no cara.
Ele mexe em sua mochila e tira um envelope contendo um lenço antisséptico umedecido, abre e desdobra o lencinho. Ele limpa os fones cuidadosamente e os oferece para mim.
— Como novos - anuncia, esperando que eu os aceite.
Como ele realmente parece estar apenas tentando ser simpático, baixo a guarda só um pouco.
— Sério, tô legal. Mas obrigada. - Fico surpresa em ver como superei rápido o lance de ele se sentar ao meu lado sem pedir.
— É melhor não pegar mesmo - ele diz, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Tudo bem, já levantei a guarda de novo. Pode vir.
Rosno para ele, cruzando os braços.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber. E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - ele afirma, balançando a cabeça.
Pisco duas vezes, só porque estou confusa e não sei o que dizer.
Ele deixa a mochila no chão e afunda na poltrona, apoiando uma bota nas costas da poltrona da frente, mas as pernas dele são tão compridas que aquilo me parece desconfortável. Suas botas são aquelas estilosas, com jeito de sapatos de operário. Dr. Martens, acho. Droga. Ian sempre usava botas assim. Desvio o olhar, sem clima para continuar essa conversa tão estranha com essa pessoa tão estranha.
A velhinha que encontrei no Tennessee estava certa.
Ele olha para mim, com a cabeça confortavelmente encostada no tecido áspero da poltrona.
— Bom mesmo é rock clássico - ele continua, sério, e olha para a frente. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. - Ele joga a cabeça para o lado para me encarar de novo. - Conhece algum desses?
Eu bufo e reviro os olhos de novo.
— Não sou idiota - digo, mas mudo de tom quando me dou conta de que não me lembro de muitas bandas de rock clássico e não quero fazer papel de idiota depois de dizer tão eloquentemente que não sou. - Eu gosto de... Bad Company.
Um sorrisinho ergue um dos cantos de sua boca.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz.
Agora estou bem nervosa, tentando lembrar qualquer canção do Bad Company além daquela que ele estava ouvindo. Não vou olhar pra cara desse sujeito e dizer as palavras:
I Feel Like Makin' Love.{1}
Ele espera pacientemente, com seu sorrisão ainda intacto.
— Ready For Love{2} - exclamo, porque só consigo lembrar mais essa.
— Você tá mesmo? - ele pergunta.
— Hã?
O sorriso se abre mais no seu rosto.
— Nada - ele desconversa, desviando o olhar.
Fico vermelha. Não sei por que e não quero saber.
— Olha - digo -, dá licença? Eu meio que tava usando as duas poltronas.
Ele sorri, desta vez sem ar de zombaria nos olhos.
— Claro - ele responde, se levantando. - Mas se quiser meu MP3 emprestado, já sabe onde ele tá.
Sorrio discretamente, aliviada acima de tudo porque ele está voltando para o seu lugar sem protestar.
— Obrigada - digo, grata mesmo assim.
Antes de se sentar, ele se debruça em volta da outra poltrona e diz:
— Pra onde você tá indo mesmo?
— Idaho.
Seus olhos verdes e brilhantes parecem se iluminar quando ele sorri.
— Bom, eu tô indo pro Wyoming, então, pelo jeito, vamos tomar mais alguns ônibus juntos. - E seu rosto sorridente desaparece atrás de mim.
Ele é atraente, não vou negar. O cabelo curto e espetado, os braços musculosos e as maçãs do rosto esculpidas, as covinhas e o modo como aquela porra de sorriso idiota me faz ficar olhando pra ele mesmo quando não quero. Mas a verdade é que não estou a fim dele nem nada - é só um estranho qualquer num ônibus a caminho do nada. Nem por um decreto eu daria corda a um lance assim. E mesmo se ele não fosse um estranho, mesmo se o conhecesse há seis meses, eu não iria querer. De jeito nenhum. Nunca mais.
A viagem interminável pelo Kansas parece demorar mais do que devia. Acho que nunca pensei muito em como os estados são grandes. Você olha para um mapa, e é só um pedaço de papel com fronteiras de formatos estranhos e linhazinhas tortuosas. Até o Texas parece bem pequeno visto no mapa, e viajar sempre de avião ajuda a alimentar a ilusão de que o estado mais próximo fica só a uma hora de viagem. Mais uma hora e meia e minhas costas e a bunda já estão duras como carne velha. Fico me mexendo na poltrona, tentando achar algum jeito menos dolorido de sentar, mas isso faz espalhar a dor para o resto do corpo.
Estou começando a me arrepender da minha fuga, porque viajar de ônibus é um saco.
Ouço o sistema do som do ônibus apitando, e depois a voz do motorista:
— Vamos fazer uma parada daqui a cinco minutos - anuncia. - Vocês terão 15 minutos para comer alguma coisa antes de seguirmos viagem. Quinze minutos. Não vou esperar ninguém. Quem não estiver no ônibus no horário vai ficar para trás. - O alto- falante se cala.
O aviso faz todos se mexerem nas poltronas e pegarem suas bolsas e coisas - nada como a perspectiva de esticar as pernas depois de horas num ônibus para acordar todos.
Entramos num grande pátio onde várias carretas estão estacionadas, entre uma loja de conveniência, um lava-rápido e uma lanchonete. Os passageiros ficam de pé no corredor mesmo antes de o ônibus parar. Eu estou entre eles. Minhas costas doem muito.
Saímos do ônibus em fila indiana, e assim que piso lá fora, aprecio a sensação do concreto sob os meus pés e a brisa suave no meu rosto. Não me importa que esta parada fique no meio do nada, nem que as bombas de gasolina sejam tão antigas que me dão medo de imaginar os banheiros; fico feliz só de estar em qualquer lugar que não seja espremida dentro daquele ônibus. Praticamente deslizo (como uma gazela ferida e sem graça) pelo asfalto do estacionamento até o restaurante. Primeiro uso o banheiro, e depois, quando saio, há várias pessoas à minha frente na fila. Olho para o cardápio, tentando decidir entre uma porção grande de batata frita e um milk-shake de baunilha - nunca fui muito fã de fast-food. E, finalmente, quando saio do restaurante levando um milk-shake de baunilha, vejo o cara do ônibus sentado na grama entre os pátios. Seus joelhos estão dobrados e ele está comendo um hambúrguer. Não olho para ele quando passo perto, mas pelo jeito isso não basta para impedi-lo de me incomodar.
— Mais oito minutos e você vai ter que voltar praquela lata de sardinha - ele comenta. - Vai mesmo passar esse tempo precioso lá dentro?
Paro perto de uma arvorezinha ainda amarrada a uma vareta no chão com uma tira de tecido rosa.
— São só oito minutos - digo. - Não vai fazer tanta diferença.
Ele dá uma mordidona no hambúrguer, mastiga e engole.
— Imagina se você estivesse enterrada viva - ele insiste, tomando um gole de refrigerante. - Não ia levar muito tempo pra morrer sufocada. Se te achassem oito minutos antes, caramba, até um minuto, ainda estaria viva.
— Tá, entendi - admito.
— Não tenho nenhuma doença contagiosa - ele continua, dando outra mordida.
Acho que fui meio babaca mesmo. Claro que de certa forma ele mereceu, mas não está sendo desagradável nem nada, então não há motivo para manter a guarda toda erguida. Prefiro não fazer nenhum inimigo nesta viagem, se eu puder evitar.
— Tanto faz - digo, e me sento na grama na frente dele.
— Por que Idaho? - ele pergunta, embora esteja olhando mais para a sua comida e ao seu redor do que diretamente para mim.
— Vou visitar minha irmã - minto. - Ela acabou de ter um bebê.
Ele balança a cabeça e deglute.
— Por que Wyoming? - pergunto, tentando desviar o assunto de mim.
— Vou visitar meu pai - o cara me conta. - Ele tá morrendo. Tem um tumor inoperável no cérebro. - Ele dá mais uma mordida. O que acabou de me contar não parece perturbá-lo muito.
— Oh...
— Não se preocupe - ele me tranquiliza, desta vez me olhando por um momento. - Todo mundo precisa partir um dia. Meu velho não tá preocupado com isso e falou pra gente também não ficar. - Ele sorri e olha para mim de novo. - Na verdade, ele falou que tira do testamento quem começar com essa merda de chorar.
Tomo um pouco do meu shake de baunilha, só para ocupar a boca e não ter que responder ao que ele está dizendo. Nem sei se eu teria resposta, na verdade.
Ele toma mais um gole.
— Qual o seu nome? - pergunta, deixando o copo sobre a grama.
Fico pensando se devo dizer meu verdadeiro nome.
— Cam - digo, optando pela versão abreviada.
— Só Cam?
Isso eu não esperava.
Hesito, desviando os olhos.
— Camryn - admito. Penso que, com todas as mentiras que vou ter que lembrar, é melhor pelo menos dizer meu nome verdadeiro. É uma informação tão sem importância que não vou precisar ficar me lembrando de ocultar.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Balanço a cabeça e sorrio discretamente, nem um pouco a fim de dizer que meu sobrenome é Bennett. Ele vai ter que se contentar só com o primeiro nome.
Enquanto ele termina o hambúrguer e mastiga algumas batatas fritas, eu o estudo disfarçadamente e noto tatuagens aparecendo sob as duas mangas da camiseta. Ele não deve ter mais do que 25 anos, se tanto.
— Então, quantos anos você tem? - Mesmo assim, pareceu uma pergunta pessoal demais. Espero que ele não a interprete como algo que não existe.
— Vinte e cinco - ele diz. - E você?
— Vinte.
Ele me olha, pensativo, fica em silêncio e aperta um pouco os lábios.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, a caminho de Idaho pra ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Meus lábios sorriem, mas meu rosto não. Vai levar um tempo antes que eu consiga lhe dirigir um sorriso genuíno. Sorrisos genuínos às vezes passam a impressão errada. Ao menos desse jeito posso ser educada e gentil, mas não educada a ponto de ir parar no porta-malas de um carro com a garganta cortada depois de alguns sorrisões.
— Então você é do Wyoming? - pergunto, tomando mais um gole do meu shake.
Ele balança a cabeça uma vez.
— Sou, nasci lá, mas meus pais se divorciaram quando eu tinha 6 anos e a gente se mudou pro Texas.
Texas. Engraçado. Talvez eu esteja pagando a língua por toda a minha conversa fiada sobre as botas de caubói e a reputação dos texanos. E ele não parece texano, ao menos não do jeito estereotipado que todos imaginam quem vem do Texas.
— É pra lá que vou depois de visitar meu pai. E você?
E agora, mentir ou não mentir? Ah, dane-se. Afinal, ele não é nenhum detetive particular enviado pelo meu pai para obter informações. Contanto que eu evite dar 1) meu sobrenome, e 2) qualquer endereço ou telefone que possa levá-lo até minha casa - caso um dia eu volte para lá - e me fazer terminar no porta-malas do carro dele com a garganta cortada. Acho que dizer o máximo possível da verdade vai ser bem mais fácil do que tentar inventar mentiras plausíveis para quase toda pergunta que ele fizer, e depois ter que lembrar tudo mais tarde. Vai ser uma viagem muito longa, e como ele disse, vamos pegar vários ônibus juntos antes que cada um vá pro seu lado.
— Sou da Carolina do Norte - digo.
Ele me olha de alto a baixo.
— Bom, você não parece ser da Carolina do Norte.
Hã? Tá, isso foi esquisito.
— Certo, e como deve ser uma garota da Carolina do Norte?
— Você é muito literal - ele diz sorrindo.
— E você me deixa meio confusa.
— Nem - ele diz num rosnado inofensivo e bem-humorado -, é que eu falo o que penso, e às vezes as pessoas não aguentam uma parada assim. Tipo, se você perguntar praquele cara se esse jeans te deixa gorda, ele vai dizer que não. Se você me perguntar, vou dizer a verdade; tudo o que foge às expectativas normais deixa as pessoas desorientadas.
— É mesmo? - Não estou nem um pouco mais perto de entender a personalidade desse cara do que estava antes de saber o nome dele. Simplesmente continuo a olhá-lo como se ele fosse doido e eu estivesse meio intrigada por isso.
— Mesmo - ele responde, sério.
Espero que ele elabore o raciocínio, mas ele não continua.
— Você é muito bizarro - resmungo.
— Bom, você não vai perguntar?
— Perguntar o quê?
Ele ri.
— Se eu acho que esse jeans te deixa gorda.
Sinto meu rosto se contraindo.
— Prefiro não... eu... hãã... - Dane-se de novo. Se ele quer brincar, não vou ficar quieta e deixar que ele ganhe todas as rodadas. Abro um sorrisinho e digo: - Eu sei que este jeans não me deixa gorda, portanto, não preciso da tua opinião.
Um sorriso diabolicamente lindo surge nos cantos de sua boca. Ele toma mais um gole de refrigerante e fica de pé, estendendo a mão.
— Parece que nossos oito minutos acabaram.
Talvez seja por ainda estar completamente confusa com toda essa conversa, mas aceito sua mão e ele me ajuda a levantar.
— Viu? - ele diz, me olhando uma vez e soltando minha mão. - Olha só quanta coisa descobrimos um sobre o outro em apenas oito minutos, Camryn.
Ando ao lado dele, mas mantenho uma certa distância. Ainda não sei bem se suas respostas elaboradas e aquele ar autoconfiante me aborrecem, ou se estou achando tudo isso mais estimulante do que minha mente quer admitir.
Todos no ônibus estão voltando para os seus lugares. Deixei a revista que peguei na última rodoviária em cima do meu, esperando que ninguém aparecesse para ocupá-lo. Andrew também voltou a ocupar seu par de poltronas atrás das minhas. Fico feliz que ele não tenha confundido minha disposição de conversar com uma autorização para se aboletar na poltrona ao meu lado.
Horas se passam e não conversamos mais. Eu penso muito em Natalie e Ian.
— Boa noite, Camryn - ouço Andrew dizer da poltrona atrás de mim. - Talvez amanhã você me conte quem é Nat.
Eu me levanto bruscamente e olho por cima do alto da poltrona.
— Que história é essa?
— Calma, garota - ele diz, levantando a cabeça da mochila que apoiou na lateral do ônibus para usar de travesseiro. - Você fala dormindo. - Ele ri baixinho. - Te ouvi reclamando de alguém chamado Nat ontem à noite, falando de xampu ou alguma porra assim. - Noto que ele está de ombros encolhidos, mesmo com as pernas esticadas por cima da poltrona vazia e os braços cruzados no peito.
Que legal. Eu falo dormindo. Perfeito. Por que será que mamãe nunca me contou isso?
Penso um pouco no que eu podia estar sonhando, e me dou conta de que talvez eu tenha estado sonhando, enfim, e apenas não me lembro mais.
— Boa noite, Andrew - digo, e escorrego para baixo, também tentando achar uma posição confortável. Pondero rapidamente em como Andrew estava deitado, que parecia bem confortável, e decido tentar me deitar da mesma forma. Já tinha pensado em tentar dormir assim, mas não quis ser grosseira, esticando os pés no corredor. Acho que ninguém vai se importar, por isso afofo minha mala de roupas e a coloco debaixo da minha cabeça, estendendo o corpo sobre as duas poltronas, como Andrew. Já estou confortável. Queria ter feito isso há muito tempo.
O mototorista, anunciando que vamos chegar em Garden City daqui a dez minutos, me acorda na manhã seguinte.
— Verifiquem se pegaram todos os seus pertences - o motorista avisa pelo sistema de som - e não deixem lixo nas poltronas. Obrigado por viajar pelo grande estado do Kansas, e espero que nos encontremos novamente.
Parecia completamente ensaiado e sem emoção, mas aí pensei que provavelmente eu também falaria assim, se tivesse que dizer a mesma coisa para os passageiros todo santo dia.
Acabo de me levantar, pegando minha mala do banco e abrindo-a para procurar a passagem. Eu a encontro amassada entre um jeans e minha camiseta vintage dos Smurfs, desdobro-a e consulto minha próxima conexão. Parece que Denver fica a seis horas e meia daqui, com duas paradas na estrada. Cacete, por que fui escolher Idaho? Francamente. Com tantos lugares no mapa, escolhi meu destino baseada numa batata assada.
Estou indo pra tão longe e não tenho nada me esperando quando chegar lá. A não ser mais viagens. Caramba, eu podia usar o cartão de crédito de uma vez e comprar uma passagem de avião pra casa. Não, ainda não estou pronta pra isso. Não sei por que, mas sei que ainda não posso voltar.
Simplesmente não posso.
Surpresa com o silêncio de Andrew, me vejo tentando espiá-lo pela frestinha entre as poltronas, mas não consigo ver nada.
— Você tá acordado? - pergunto, levantando o queixo para que ele me ouça lá atrás. Ele não responde e me levanto para olhar. Claro que ele está usando o fone de ouvido.
Fico chocada por não ouvir a música escapando dos fones, desta vez.
Andrew me nota e sorri, erguendo a mão e balançando o indicador, como que para dizer bom-dia. Também mexo um dedo, apontando para a frente do ônibus para avisá-lo de que a chegada já foi anunciada. Ele tira os fones dos ouvidos e me olha, esperando que eu explique o gesto com palavras.
ANDREW
Alguns dias antes...
7
MEU IRMÃO ME ligou do Wyoming hoje. Ele disse que o velho não vai durar muito mais tempo. Já passou os últimos seis meses entrando e saindo do hospital.
— Se você quiser vê-lo - Aidan disse do outro lado da linha -, é melhor vir logo.
Eu ouço Aidan. Ouço, sim. Mas tudo o que consigo compreender, no momento, é que meu pai está pra morrer, caralho. "Vocês não se atrevam a chorar por mim", ele disse para mim e meus irmãos ano passado, quando recebeu o diagnóstico de uma forma rara de câncer no cérebro. "Eu tiro você do meu testamento, rapaz."
Eu o odiei por isso, por me dizer com essas palavras que, se chorasse por ele, o único homem pelo qual eu daria a minha vida, eu seria um frouxo. O testamento não me importa. Nem vou mexer no que ele me deixar. Talvez eu dê pra mamãe.
Papai sempre foi durão, desde criança. Era um sargento comigo e com meus irmãos, mas gosto de pensar que nos tornamos pessoas decentes (e esse provavelmente era o plano por trás do tratamento militar). Aidan, o mais velho, tem um bar e restaurante de sucesso em Chicago e é casado com uma pediatra. Asher, o mais novo, está na faculdade e pretende fazer carreira no Google.
E quanto a mim? Tenho vergonha de contar que fiz, em segredo, alguns trabalhos como modelo para várias agências importantes, mas só porque passei por dificuldades ano passado. Foi logo depois que fiquei sabendo do meu pai. Eu não podia chorar, então descarreguei tudo no meu Chevy Camaro 1969. Destruí o carro com um taco de beisebol. Papai e eu restauramos aquele carro do chassi pra cima. Era nosso projeto de "pai e filho", que começou antes que eu me formasse. Achei que, se meu pai não vai mais estar aqui, então o carro também não vai ficar.
Aí já viu, trabalho de modelo.
Não, cacete, não saí procurando esse lance. Não sou muito chegado nessas porras. Só que eu estava no bar de Aidan quando uns caçadores de talentos me encontraram enchendo a cara. Acho que não fez diferença eu estar... bem, de cara cheia, porque deixaram um cartão comigo, me ofereceram uma quantia generosa só pra visitar o escritório deles em Nova York, e depois de três semanas olhando aquele Camaro e lamentando o que eu tinha feito, pensei, por que não? Só aquele cheque pra aparecer lá já pagava uma parte da lanternagem. E eu fui. E, apesar de o dinheiro que ganhei com as poucas campanhas que fiz ter sido suficiente pra consertar o carro, recusei o contrato de 50 mil dólares que a LL Elite me ofereceu porque, como falei, ganhar a vida posando só de cueca não é a minha praia. Porra, eu já me sentia mal por ter aceito os poucos trabalhos que aceitei. Portanto, fiz o que qualquer cara que come carne vermelha e toma cerveja faria: tentei parecer mais homem e menos bicha fazendo umas tatuagens e indo trabalhar de mecânico.
Não era o tipo de futuro que meu velho queria pra mim, mas, diferente dos meus irmãos, aprendi há muito tempo que o futuro e a vida são meus, e não posso me forçar a viver do jeito que outra pessoa quer que eu viva. Larguei a faculdade quando percebi que estava estudando uma coisa para a qual eu estava cagando e andando.
Por que todo mundo está sempre tão disposto a seguir os outros?
Eu não. Eu quero só uma coisa na vida. Não é dinheiro, nem fama, nem meu pau retocado com Photoshop num outdoor na Times Square, nem um diploma universitário que pode ou não me beneficiar no futuro. Não sei bem o que eu quero, mas sinto no fundo do meu estômago. Está ali, dormente. Quando encontrar, vou saber o que é.
— De ônibus? - Aidan exclama, incrédulo.
— É - confirmo. - Vou de ônibus pra lá. Preciso pensar.
— Andrew, papai pode não durar tanto - ele avisa, e sinto em sua voz que ele está tentando se controlar. - É sério, mano.
— A hora que eu chegar, cheguei.
Passo o dedo na tela, encerrando a chamada.
Acho que uma pequena parte de mim torce para que ele morra antes que eu chegue. Porque eu sei que não vou conseguir segurar a onda se ele morrer enquanto eu estiver lá. É meu pai, o cara que me criou e que é meu exemplo. E agora ele me manda não chorar. Sempre fiz tudo que ele manda, e como o bom filho que sempre tentei ser, sei que vou engolir as lágrimas, porque ele mandou. Mas também sei que isso vai criar algo muito mais destrutivo em mim.
Não quero acabar como o meu carro.
Uma única mochila com roupas limpas, escova de dentes, celular e MP3 com minhas canções favoritas de rock clássico - outra marca que papai deixou em mim: "Essas coisas novas que a garotada ouve hoje em dia é música de merda, filho", ele dizia ao menos uma vez por ano. "Bota o Led aí, garoto!" Admito que não evito completamente a nova música só porque meu pai quer. Cacete, tenho ideias próprias, lembra? Mas cresci ouvindo uma dose saudável dos clássicos e disso tenho muito orgulho.
— Mãe, não vou precisar desse troço.
Ela está enchendo um saquinho com uma dúzia de pacotes de lenços antissépticos umedecidos para eu levar. Ela sempre teve fobia de germes.
Eu vivia indo e voltando entre o Texas e Wyoming desde os 6 anos de idade. No fim, percebi que me sentia melhor no Texas, porque gosto do Golfo e do calor. Já tenho um apartamento em Galveston há quatro anos, mas ontem minha mãe insistiu que eu dormisse na casa dela. Ela sabe o que sinto pelo meu pai, e sabe que às vezes me torno explosivo quando estou sofrendo ou estou emputecido. Passei uma noite na cadeia ano passado por encher Darren Ebbs de porrada depois que ele deu um soco na namorada na minha frente. E quando mandei sacrificar meu melhor amigo, Maximus, porque ele estava com insuficiência cardíaca congestiva, estourei bonito minhas mãos descontando as emoções na árvore atrás do meu prédio.
Normalmente, não sou violento, a não ser com canalhas e ocasionalmente comigo mesmo.
— Aqueles ônibus são nojentos - ela insiste, enfiando o saquinho na minha mochila.
— Andei num deles antes de conhecer seu pai e fiquei doente por uma semana.
Não discuto com ela; não adiantaria.
— Ainda não entendi por que você não vai de avião. Poderia chegar lá muito mais rápido.
— Mãe - digo, beijando a bochecha dela -, preciso fazer isso, tipo, como se fosse o meu destino. - Na verdade, não acredito nessa segunda parte, mas resolvi contentá-la com algo que tivesse significado, mesmo ela sabendo que estou só falando merda. Ando até o armário da cozinha, tiro dois bolinhos de açúcar mascavo e canela da caixa e ponho na mochila. - Vai ver que o avião ia cair.
— Isso não tem graça, Andrew. - Ela me dirige um olhar duro.
Eu sorrio e a abraço forte.
— Eu vou ficar bem, e vou chegar a tempo de ver papai antes que... - minha voz some.
Mamãe me abraça mais forte ainda.
Quando chego no Kansas, começo a me perguntar se ela não tinha razão. Achei que a longa viagem serviria para refletir, clarear as ideias e talvez pensar no que estou fazendo e no que vou fazer depois que meu pai morrer. Porque as coisas vão ser diferentes. As coisas sempre mudam quando alguém que você ama morre. Você não tem como se preparar para essas mudanças, não importa o que faça antecipadamente.
A única certeza é que você vai ficar se perguntando quem será o próximo.
Eu sei que nunca mais vou conseguir olhar pra minha mãe do mesmo jeito...
Acho que a viagem de ônibus está sendo mais uma provocação do que um momento de contemplação significativa. Eu deveria saber que ficar sozinho com meus pensamentos não ia me fazer bem. Já decidi que minha vida foi praticamente desperdiçada, e várias outras emoções estão me abrindo os olhos: Por que estou aqui? Qual o sentido da vida? Que diabos estou fazendo? Certamente não tive nenhuma revelação, nem minha vida de repente ficou clara para mim enquanto eu olhava a paisagem pela janela do ônibus, como numa cena dramática de filme. A única trilha sonora deste filme é Would?, do Alice In Chains, que não é exatamente uma canção para um momento de revelação.
O motorista está para fechar as portas do ônibus quando me vê chegando.
Graças a Deus, um ônibus onde talvez eu consiga dormir; tem vários lugares vazios.
Vou para o fundo, de olho em duas poltronas vazias logo atrás da loura lindinha que eu tenho certeza que é chave de cadeia. Meu detector de chave de cadeia está sempre ligado, especialmente depois que peguei uma menina que conheci na sorveteria. Ela disse ter 19 anos, mas depois descobri que tinha 16 e que o pai dela estava a caminho da piscina onde a gente tava nadando para me matar de pancada.
Meu pai falou certo uma vez: "Hoje em dia não dá pra diferenciar 12 anos de 20, filho. Deve ser alguma coisa que o governo tá pondo na água - toma bastante cuidado quando precisar pegar uma franguinha."
Quando me aproximo da garota do ônibus, noto que ela põe a mala na poltrona ao lado para que eu não me sente ali.
Que engraçado. Tudo bem, ela é lindinha e tudo, mas tem mais de dez lugares vazios neste ônibus, o que significa que vou pegar duas poltronas pra poder me esticar do jeito que eu quiser e recuperar o sono atrasado.
As coisas não acontecem conforme o planejado, e várias horas depois, quando anoitece, ainda estou acordadaço, olhando pela janela ao meu lado, com a música no último volume nos ouvidos. A garota da poltrona da frente capotou há mais ou menos uma hora e eu cansei de ouvi-la falando no sono; mesmo não conseguindo entender quase nada do que ela dizia, eu não queria mesmo saber. Parece que você está bisbilhotando quando ouve os pensamentos de alguém que nem imagina o que está dizendo. Prefiro ouvir minha playlist.
Quando finalmente consigo pegar no sono, abro os olhos vagarosamente ao sentir alguém batendo na minha perna. Uau, até que ela é bem linda, mesmo com o cabelo todo empaçocado de um lado só da cabeça e metade do rosto no escuro. Chave de cadeia, Andrew. Não é que eu fique lembrando que ela provavelmente é chave de cadeia para evitar de fazer qualquer coisa que sei que não devo fazer. Não, só fico me lembrando disso para evitar a decepção quando descobrir que estou certo.
Depois de um breve diálogo sobre a possibilidade da minha música tê-la acordado, abaixo o volume e ela desliza de volta para seu pequeno cubículo entre poltronas.
Quando me debruço por cima da poltrona dela para olhá-la, me pergunto o que deu em mim pra fazer isso. Mas eu sempre gostei de desafios, e sua atitude atrevida comigo numa conversa que durou menos de 45 segundos foi o suficiente para que eu topasse essa aposta metafórica com ela.
Sempre tive um fraco por garotas atrevidas.
E nunca recuso um desafio.
Na manhã seguinte, ofereço meu MP3 a ela, mas pelo jeito ela tem tanta fobia de germes quanto a minha mãe.
Um homem de uns 40 e poucos anos está sentado do outro lado do corredor, três poltronas à frente da garota. Notei o modo como ele a olhava assim que subi. Ela nem fazia ideia de que estava sendo observada, e é perturbador imaginar há quanto tempo ele já estava olhando quando entrei, ou o que ele ficou fazendo ali sozinho no escuro.
Estou meio que de olho nele desde então. Ele está tão apaixonado por ela, que eu duvido que tenha me percebido.
Seus olhos ficam indo do lugar dela para o banheiro do tamanho de uma caixa de fósforos no fundo do ônibus. Posso quase ouvir as engrenagens do cérebro dele girando.
Eu me pergunto quando é que o cara vai tentar alguma coisa.
Nesse momento, ele se levanta.
Saio do meu lugar e me sento na poltrona ao lado da menina. Faço de conta que não é nada. Posso sentir que ela está me olhando, se perguntando que porra eu acho que estou fazendo.
O homem passa, mas não deixo que ele me encare, porque isso iria entregar que estou de olho nele. No momento, ele deve pensar que também estou fazendo meu próprio joguinho com a garota; que vou fazer minha tentativa, então, por enquanto, vai se conformar e talvez tentar de novo mais tarde.
E é mais tarde que vou amassar a cara dele com meus punhos.
Procuro o saco de lenços umedecidos que minha mãe pôs na mochila. Abrindo um, limpo os fones de ouvido e ofereço para ela.
— Como novos - anuncio, esperando que ela os aceite, mas sei que não vai aceitar.
— Sério, tô legal. Mas obrigada.
— É melhor não pegar mesmo - digo, guardando o MP3 na mochila. - Não curto Justin Bieber nem aquela perua doida que se veste com bifes, então acho que você vai ter que ficar sem.
Julgando pela expressão irritada dela, acho que a deixei puta. Rio silenciosamente para mim mesmo, virando a cabeça um pouco para que ela não perceba.
— Primeiro, eu não curto Justin Bieber.
Graças a Deus.
— E segundo, Lady Gaga não é tão ruim. Admito que isso de ficar sempre tentando chocar tá cansando um pouco, mas tem umas coisas dela que eu gosto.
— É música de merda e você sabe - cito meu pai, balançando a cabeça.
Deixo a mochila no chão e afundo na poltrona, apoiando um pé nas costas da poltrona da frente. Fico pensando por que ela ainda não me mandou embora. E isso também me preocupa. Será que ela seria "gentil demais" pra mandar aquele cara embora imediatamente, se ele se sentasse aqui antes de mim? Impossível uma garota como ela se interessar por alguém como ele, mas vamos combinar, às vezes as garotas deixam esse gene do excesso da simpatia tomar conta. E bastam alguns segundos, na verdade.
Olho para ela de novo, deixando minha cabeça cair de lado no encosto da poltrona.
— O negócio é rock clássico - afirmo. - Zeppelin, Stones, Journey, Foreigner. Conhece algum desses?
Ela revira os olhos para mim.
— Não sou idiota - retruca, e eu sorrio com o canto da boca, porque lá está aquela atitude atrevida de novo: - Eu gosto de... Bad Company.
— Me fala o nome de uma música do Bad Company que eu te deixo em paz - desafio.
Posso ver que está nervosa pelo seu jeito de morder um pouco o lábio inferior e, assim como falar dormindo e ser observada por gente que não presta, provavelmente é algo que ela nem percebe.
Espero pacientemente, sem conseguir tirar o sorrisão do meu rosto, porque é divertido vê-la sofrendo, tentando lembrar todas as vezes que andou de carro com seus pais ouvindo esse tipo de música, procurando alguma lembrança que possa ajudá-la neste momento crítico.
— Ready For Love - ela responde finalmente, e eu fico impressionado.
— Você tá mesmo? - pergunto, e alguma coisa bate em mim nesse momento. Não sei que diabos essa "coisa" é, mas está lá, acenando para mim do outro lado de um muro, como quando alguém está te observando, mas você não vê ninguém.
— Hã? - ela diz, pega tão desprevenida pela minha pergunta quanto eu fiquei depois.
Um sorriso se abre no meu rosto.
— Nada - digo, desviando o olhar.
O tarado do banheiro volta silenciosamente pelo corredor escuro e se senta no seu lugar, sem dúvida puto da vida por me ver onde ele gostaria de estar. Ainda bem que ela esperou que ele voltasse antes de finalmente me pedir para sair e deixar as duas poltronas para ela.
Depois de voltar para o meu lugar, me debruço em volta da poltrona dela e digo:
— Pra onde você tá indo mesmo?
Ela diz que está indo para Idaho, mas acho que tem mais alguma coisa nessa resposta. Não sei ao certo, mas tenho a sensação de que ela está mentindo, o que provavelmente é bom, porque eu sou um completo desconhecido; ou que ela está escondendo mais alguma coisa.
Deixo isso quieto por enquanto, digo aonde estou indo e volto a me acomodar na poltrona atrás dela.
O homem três poltronas à frente acabou de olhar pra ela de novo. Estou ficando com vontade de amassar o crânio dele agora mesmo, só por ficar olhando.
Horas depois, o ônibus faz uma parada e o motorista nos dá 15 minutos para sair, esticar as pernas e comer alguma coisa. Vejo a garota ir para o banheiro e sou o primeiro na fila dos pedidos no restaurante. Pego minha comida, saio e vou sentar na grama perto do estacionamento. O tarado passa por mim e volta para dentro do ônibus, sozinho.
Consigo convencê-la a se sentar comigo. Ela hesita no início, mas pelo jeito meu charme é suficiente. Minha mãe sempre falou que eu era o filho do meio charmoso. Acho que ela tinha razão.
Conversamos por um ou dois minutos sobre por que estou indo para Wyoming e ela para Idaho. Ainda estou tentando entendê-la, o que ela tem que não consigo identificar, mas ao mesmo tempo tento me obrigar a não me sentir atraído, porque é como se eu soubesse que ela vai confirmar que é chave de cadeia ou mentir a respeito.
Só que ela parece ter quase a minha idade, mais nova do que eu, mas a diferença não deve ser muito grande.
Cacete! Por que estou considerando se ela me atrai ou não? Meu pai está morrendo nesse momento, enquanto estou sentado na grama perto dela. Eu não deveria pensar em nada além do meu pai e do que vou dizer pra ele, se conseguir chegar em Wyoming antes que ele se vá.
— Qual o teu nome? - pergunto, deixando meu copo sobre a grama e tentando afastar a ideia da morte do meu pai para outro canto da minha mente.
Ela pensa por um minuto, provavelmente tentando decidir se deve ou não dizer a verdade.
— Cam - responde finalmente.
— Só Cam?
— Camryn.
— O meu é Andrew. Andrew Parrish.
Ela parece um pouco tímida.
— Então, quantos anos você tem? - ela pergunta, me pegando completamente de surpresa. Talvez não seja chave de cadeia, afinal, porque garotas menores, quando querem mentir a idade, costumam evitar esse assunto a qualquer custo.
Começo a ter esperanças de que ela seja maior de idade. Sim, quero muito que ela seja...
— Vinte e cinco anos - respondo. - E você? - De repente, não consigo respirar.
— Vinte - ela diz.
Penso na resposta dela por um momento, apertando um pouco os lábios. Ainda não sei ao certo se ela está mentindo, mas talvez, depois de passar mais tempo com ela nesta viagem que parece nos ter aproximado, vou acabar descobrindo a verdade.
— Bom, muito prazer, Camryn, apelido Cam, 20 anos, indo pra Idaho ver a irmã que acaba de ter um bebê.
Eu sorrio. Conversamos mais alguns minutos - oito, para ser mais exato - sobre qualquer coisa, e eu bagunço a cabecinha dela mais um pouco, porque aquela língua espevitada dela merece.
Na verdade, acho que ela gosta do jeito que eu a trato. Percebo que existe uma atração. Embora seja pequena, eu sinto. E não pode ser por causa da minha aparência, na verdade - cacete, meu hálito deve estar com cheiro de bunda a essa altura, e eu nem tomei banho hoje - se foi por causa da aparência, diferente da maioria das garotas que fica a fim de mim, ela já me dispensou. Não quis que eu me sentasse ao lado dela no ônibus. Não se intimidou ao pedir que eu abaixasse o volume da música, e toda nervosinha, ainda por cima. Ficou puta quando a acusei de ter "Bieber Fever"{3} (eu fico puto só de pensar que sei o que essa porra significa - culpo a sociedade por isso), e tenho a sensação de que ela não teria nenhuma dificuldade em me dar um chute no saco se eu a tocasse de forma imprópria. Não que eu vá fazer isso. Sem chance. Mas é bom saber que ela é desse tipo.
Porra, gostei dessa garota.
Subimos no ônibus e eu volto para o meu lugar, esticando as pernas no corredor, e em seguida vejo os tênis brancos dela despontando das poltronas dela, e sorrio ao pensar que ela me achou interessante o suficiente para adotar minhas ideias. Dou uma verificada depois de uns vinte minutos e, como imaginei, ela já capotou.
Volto a aumentar o volume e fico ouvindo música até adormecer também, e acordo na manhã seguinte bem antes dela.
Sua cabeça aparece por cima da poltrona e eu sorrio e balanço o dedo para ela.
A danada fica ainda mais linda de dia.
8
— MAIS DEZ MINUTOS - eu digo -, e vamos sair desta lata de sardinha.
Andrew sorri, ergue o corpo da poltrona e guarda seu MP3.
Não sei ao certo por que senti a necessidade de contar isso a ele.
— Dormiu melhor? - ele pergunta, fechando a mochila.
— É, até que dormi - admito, me esticando para apalpar minha nuca, onde não sinto nenhum músculo embolado desta vez. - Obrigada pela sugestão involuntária.
— Disponha sempre - ele diz com um sorrisão. - Denver? - pergunta, olhando para mim.
Presumo que ele esteja perguntando se essa é a minha próxima conexão.
— É, daqui a quase sete horas.
Andrew balança a cabeça, parecendo tão insatisfeito quanto eu com a duração da viagem.
Dez minutos depois, o ônibus encosta na rodoviária de Garden City. Tem três vezes mais gente ali do que na última rodoviária, e isso me preocupa. Abro caminho pelo terminal até o primeiro banco vazio que encontro, porque eles estão sendo ocupados rapidamente. Andrew desaparece num canto, passando por baixo da placa que indica as lanchonetes, e volta com um Mountain Dew e um saco de batata frita.
Ele se senta ao meu lado e abre a lata de refrigerante.
— Que foi? - pergunta, olhando para mim.
Não percebi que o estava observando tomar aquele refrigerante com uma expressão enojada.
— Nada - respondo, desviando o olhar -, só acho isso um nojo.
Eu o ouço rir baixinho ao meu lado, e então ele abre o saco de batata frita.
— Pelo jeito, você acha um monte de coisas um nojo.
Olho de novo para ele, ajeitando minha mala no colo.
— Quando foi a última vez que você comeu alguma coisa menos... causadora de infarto?
Ele mastiga mais uma batata e engole.
— Eu como o que eu estiver a fim de comer. Você é o quê, uma daquelas vegetarianazinhas metidas que reclamam que o fast-food tá fazendo o país todo engordar?
— Não sou uma dessas - respondo -, mas acho que as vegetarianazinhas metidas podem ter razão.
Ele mastiga mais algumas fritas e toma um gole de refrigerante, sorrindo para mim.
— Não é a fast-food que faz as pessoas engordarem - ele argumenta, sem parar de mastigar. - As pessoas fazem suas próprias escolhas. As redes de fast-food só tiram proveito da burrice dos americanos que decidem comer aquilo.
— Você tá se chamando de americano burro? - Eu retribuo o sorriso.
Ele dá de ombros.
— Acho que sou, quando minha escolha está limitada a máquinas de refrigerantes e lanchonetes pé-sujo.
— Ah, tá - eu exclamo, revirando os olhos. - Até parece que você ia escolher comer algo melhor, se tivesse escolha. Fala sério.
Acho que estou melhorando nessas alfinetadas.
Ele ri alto.
— Com certeza eu ia escolher algo melhor. Prefiro sempre um filé de cinquenta dólares em vez de um hambúrguer dormido, ou uma cerveja em vez de um refri.
Balanço a cabeça, mas não consigo parar de sorrir completamente.
— O que você come normalmente, afinal? - ele pergunta. - Saladas e tofu?
— Eca - reclamo, torcendo o nariz. - De jeito nenhum eu comeria tofu, e saladas são só um modismo pra quem quer emagrecer. - Fico em silêncio e sorrio para ele. - Sinceramente?
— Sim, claro, desembucha - ele diz.
Ele está me olhando como se eu fosse algo engraçado e bonitinho que precisa ser estudado.
— Gosto de macarrão enlatado com almôndegas e sushi.
— O que, tudo isso misturado? - Agora ele parece discretamente enojado.
Demoro alguns segundos para entender.
— Ah, não - digo, balançando a cabeça -, isso também seria um nojo, aliás.
Ele sorri, parecendo aliviado.
— Não sou muito fã de carne - continuo -, mas acho que comeria um filé, se alguém me oferecesse.
— Ah, então você tá me pedindo pra te convidar pra jantar? - Seu sorriso acaba de aumentar.
Eu arregalo os olhos e meu queixo cai.
— Não! - exclamo, praticamente corando de vergonha. - Eu só tava dizendo que...
Andrew ri e toma mais um gole.
— Eu sei, eu sei - ele diz -, não se preocupe. Eu jamais pensaria em te convidar pra um encontro.
Eu arregalo os olhos e abro a boca mais ainda e sinto meu rosto pegando fogo.
Ele ri mais alto.
— Caramba, garota - ele continua, ainda rindo enquanto fala -, você não é muito rápida pra sacar as coisas, é?
Eu franzo a testa.
Ele franze a testa também, mas de certa forma ainda está sorrindo ao mesmo tempo.
— Vamos fazer o seguinte - ele decide, parecendo um pouco mais sério -, se a gente tiver a sorte de encontrar, numa dessas paradas, um restaurante que consiga preparar um filé nos 15 minutos que temos antes de o ônibus deixar a gente pra trás, eu vou te convidar, e enquanto a gente come o filé no ônibus, você decide se isso será um encontro ou não.
— Bom, posso te dizer desde já que não vai ser.
Ele sorri obliquamente.
— Então não vai - diz. - Pra mim tá bom assim.
Acho que ele encerrou o assunto, mas aí de repente ele acrescenta:
— Mas então o que vai ser, se não for um encontro?
— Como assim? - digo. - Vai ser um lance de amizade, acho. Sabe, duas pessoas fazendo uma refeição juntas.
— Ah - ele diz, com um brilho nos olhos -, então agora somos amigos?
Isso me pega desprevenida. Ele é bom. Penso por um momento, franzindo os lábios contemplativamente.
— Claro - digo. - Acho que somos tipo amigos, pelo menos até Wyoming.
Ele estica o braço e me oferece sua mão. Relutantemente, eu a aperto. Seu aperto é delicado, mas firme, e seu sorriso é genuíno e gentil.
— Amigos até Wyoming, então - ele conclui, balançando minha mão uma vez e soltando.
Não sei ao certo o que acaba de acontecer, mas não sinto que fiz algo de que vá me arrepender mais tarde. Acho que não há nada errado em ter um "amigo" de viagem. Posso imaginar mil tipos diferentes de pessoa que Andrew poderia ser e que seriam piores. Mas ele parece inofensivo, e admito que é interessante conversar com ele. Não é uma velhinha querendo me contar histórias de quando tinha a minha idade, ou um homem mais velho e iludido que ainda se imagina tão gato quanto era aos 17 anos e acha que de alguma forma consigo ver o que ele era nessa época. Não, Andrew é o proverbial meio-termo virtuoso, a escolha de Cachinhos Dourados. Claro que seria melhor, por vários motivos, se ele fosse uma garota, mas pelo menos está na minha faixa etária e não é nem um pouco feio. Não, Andrew Parrish passou longe da fila da feiura.
Na verdade, ele entrou várias vezes na fila da gostosura, e acho que essa é a única coisa que me incomoda nessa situação toda.
Você sabe muito bem que não importa tanto o que esteja acontecendo na sua vida, quem você perdeu, quanto você odeia o mundo ou quão inadequado seja se sentir atraída por alguém antes que a fase de recuperação chegue a uma etapa aceitável. Você continua humana, e assim que vê alguém atraente, não tem como não notar. É da nossa natureza.
Por outro lado, agir motivada por isso é outra história, e é aí que eu ponho o meu limite.
Isso não vai acontecer, haja o que houver.
Mas, sim, o fato de ele ser gato me incomoda porque significa simplesmente que vou ter que me esforçar muito mais para garantir que nada que eu diga ou faça passe a impressão errada. Caras gatos sabem que são gatos. Sabem e pronto, até aqueles que não ficam se mostrando. E também é da natureza humana dos caras gatos achar automaticamente que um sorriso inocente ou uma conversa que continua por três minutos sem nenhum silêncio constrangedor são sinais de atração.
Portanto, essa "amizade" vai me dar muito trabalho. Eu quero ser legal, mas não legal demais. Quero sorrir quando for necessário, mas preciso tomar cuidado e medir o nível do sorriso. Quero rir quando ele disser algo engraçado, mas não quero que ele pense que é uma risada do tipo cara-tô-tão-parada-na-tua.
É, isso vai me dar trabalho mesmo. Talvez uma velhinha fosse melhor, no fim das contas...
Andrew e eu esperamos no terminal quase uma hora até que o próximo ônibus encosta na rodoviária. E, como era de se imaginar, parece que não vamos ter duas poltronas livres para cada um, desta vez. Pelo tamanho da fila de embarque, já estou vendo que talvez não tenha lugar sentado pra todo mundo. Dilema. Saco. Andrew e eu somos amigos temporários de repente, mas não consigo pedir que ele se sente comigo. Isso pode contar como uma daquelas coisas que dão a impressão errada. Portanto, enquanto a fila avança e ele vem logo atrás de mim, estou torcendo para que ele decida se sentar ao meu lado por conta própria. Antes ele do que alguma pessoa com quem nem conversei.
Vou para o meio do ônibus e acho duas poltronas vazias, passo a do corredor e me sento na janela.
Ele se senta ao meu lado e eu fico secretamente aliviada.
— Já que você é menina - diz, pondo a mala no chão entre os pés -, vou te deixar sentar na janelinha.
Ele sorri.
Depois que o ônibus enche e eu já consigo sentir o calor humano extra emanando de tanta gente apertada no mesmo espaço, ouço a porta ranger e o ônibus entrar em movimento.
A viagem não parece tão longa e tortuosa, agora que tenho alguém para conversar. Só levou uma hora de conversa constante sobre tudo, desde as bandas de rock clássico favoritas dele até o motivo de eu gostar da Pink e o quanto acho que as músicas dela são melhores do que Boston ou Foreigner, que para mim soam iguais. Discutimos isso durante vinte minutos dessa hora - ele é muito teimoso, mas diz o mesmo de mim, então acho que a culpa é dos dois. E eu conto quem é "Nat", mas não entro nos detalhes sanguinolentos do meu relacionamento com ela.
Quando anoitece, me dou conta de que não houve um só momento de silêncio constrangedor entre nós desde que subimos no ônibus e ele decidiu se sentar ao meu lado.
— Quanto tempo vai ficar em Idaho?
— Uns dias.
— E aí vai voltar de ônibus? - Estranhamente, o rosto de Andrew perdeu todo o bom humor.
— Vou - respondo, sem querer me aprofundar muito nesse assunto porque ainda não sei as respostas.
Eu o ouço suspirar.
— Não é da minha conta - ele diz me olhando, e sinto o espaço entre nós diminuindo, porque ele está sentado tão perto -, mas você não deveria viajar sozinha assim.
Não olho para ele.
— Bom, eu meio que preciso.
— Por quê? - ele pergunta. - Não tô te paquerando nem nada, mas é perigoso para uma garota jovem e diabolicamente linda como você viajar sozinha pelas bibocas de rodoviárias dos Estados Unidos.
Sinto meu rosto se abrindo num sorriso, mas tento futilmente escondê-lo.
Olho para ele.
— Você não tá me paquerando - retruco -, mas me chama de "diabolicamente linda" e praticamente usa a velha cantada do "o que uma garota como você faz num lugar assim" na mesma frase.
Ele parece um pouco ofendido.
— Tô falando sério, Camryn - ele insiste, e o meu sorriso brincalhão se dissolve. - Você pode se machucar de verdade.
Tentando mudar o assunto constrangedor, sorrio e digo:
— Não se preocupe. Confio na minha capacidade de gritar bem alto se eu for atacada.
Ele balança a cabeça e respira fundo, cedendo aos poucos às minhas tentativas de aliviar o clima.
— Então, me fala do seu pai - digo.
O quase sorriso desaparece do rosto de Andrew e ele desvia o olhar. Não foi por acaso que toquei nesse assunto assim. Não sei, mas tenho a estranha sensação de que ele está escondendo alguma coisa. No Kansas, quando ele falou rapidamente que seu pai estava morrendo, exteriormente isso não pareceu afetá-lo. Mas se está indo tão longe, de ônibus, ainda por cima, para ver o pai antes que morra, então deve amá-lo. Sinto muito, mas você nunca fica indiferente quando alguém que você ama morre ou está morrendo.
Isso parece estranho vindo de mim, que não consigo mais chorar.
— Ele é um bom homem - Andrew diz, ainda olhando para a frente. Sinto que está imaginando o pai agora, que não está vendo nada diante de si a não ser suas lembranças.
Ele, então, olha para mim sorrindo, mas não é um sorriso que tenta acobertar alguma dor, mas sim motivado por uma boa lembrança.
— Em vez de me levar pra ver um jogo de beisebol, meu pai me levou pra ver uma luta de boxe.
— É mesmo? - Sinto meu sorriso se iluminando. - E como foi?
Ele volta a olhar para a frente, mas a ternura não deixa mais seu rosto neste momento.
— Papai queria que fôssemos lutadores... - Ele olha para mim. - Não lutadores de boxe ou de verdade, embora ele também não se incomodasse se a gente fosse. Mas tô dizendo lutadores no geral, sabe, na vida. Metaforicamente.
Balanço a cabeça para mostrar que entendi.
— Fiquei sentado perto do ringue, com 8 anos de idade, hipnotizado por aqueles dois homens batendo um no outro, e o tempo todo ouvia meu pai falando por cima do barulho do público, ao meu lado: "Eles não têm medo de nada, filho", ele dizia. "E todos os movimentos deles são calculados. Cada movimento que fazem pode funcionar ou não, mas eles aprendem alguma coisa a cada movimento, a cada decisão."
Andrew me olha nos olhos por um momento e seu sorriso se dissolve, deixando sua expressão neutra.
— Ele me contou que um lutador de verdade nunca chora, nunca deixa o peso de um golpe derrubá-lo. A não ser aquele golpe final, o inevitável, mas até nessa hora, eles sempre caem como homens.
Também não estou mais sorrindo. Não sei exatamente o que se passa pela cabeça de Andrew agora, mas compartilhamos o mesmo humor sóbrio. Quero perguntar se ele está bem, porque é óbvio que não está, mas o momento não parece adequado. É esquisito, porque não o conheço o suficiente para ficar cavoucando em suas emoções.
Não digo nada.
— Você deve me achar um babaca - Andrew comenta.
Eu pisco, surpresa.
— Não - respondo. - Por que você diz isso?
Ele recua imediatamente e minimiza a seriedade de sua pergunta, deixando aquele sorriso devastador aflorar à superfície novamente.
— Vou ver o velho antes que ele bata as botas - Andrew explica, e suas palavras me chocam um pouco -, porque é isso que a gente faz, certo? É um costume, como dizer "saúde" quando alguém espirra, ou perguntar pra alguém como foi seu fim de semana quando na verdade você tá pouco se fodendo.
Cacete, de onde está vindo tudo isso?
— É preciso viver no presente - ele continua, e eu fico discretamente atordoada. - Não acha? - Sua cabeça pende para o lado e ele me olha novamente.
Levo um momento para organizar as ideias, mas mesmo assim não sei ao certo o que dizer.
— Viver no presente - repito, mas ao mesmo tempo pensando na minha própria crença de amar no presente. - Acho que você tem razão. - Mas fico imaginando exatamente qual a visão dele dessa crença.
Endireito as costas na poltrona e levanto a cabeça um pouco para examiná-lo mais de perto. É como se de repente eu tivesse um enorme desejo de saber tudo sobre a crença dele. Saber tudo sobre ele.
— O que viver no presente significa pra você? - pergunto.
Noto que uma das suas sobrancelhas treme por um segundo e ele muda sua expressão, surpreso com a seriedade da minha pergunta ou o nível do meu interesse. Com as duas coisas, talvez.
Ele endireita as costas e levanta a cabeça também.
— Apenas que ficar se prendendo e planejando é besteira - ele diz. - Se você fica se prendendo no passado, não consegue seguir em frente. Se passa muito tempo planejando o futuro, você se empurra pra trás ou fica estagnada no mesmo lugar a vida toda. - Seus olhos encontram os meus. - Viva o momento - ele diz, como se estivesse dizendo algo sério - aqui, onde tudo está certo, vá com calma e limite suas más lembranças e você chegará ao seu destino, seja qual for, muito mais rápido e com menos acidentes de percurso.
O silêncio entre nós é apenas o de duas mentes pensando no que ele acabou de dizer. Me pergunto se os pensamentos dele são iguais aos meus. Também me pergunto, mais do que quero admitir, por que tantos pensamentos dele já me fazem sentir que estou me olhando no espelho quando olho para ele.
O ônibus corre pesadamente pela estrada, sempre barulhento, raramente com suavidade. Mas depois de tanto tempo, é fácil esquecer o quanto a viagem de ônibus é desagradável, comparada ao luxo de um carro. E quando você pensa mais nos aspectos positivos de uma viagem de ônibus do que nos negativos, é fácil esquecer que há qualquer coisa negativa nela. Tem um cara ao meu lado com lindos olhos verdes e um lindo rosto esculpido e uma linda maneira de pensar. Não existe viagem de ônibus ruim quando você está na companhia de uma coisa linda.
Eu não deveria estar aqui...
ANDREW
9
NÃO ACREDITO QUE ela mencionou meu pai. Não que eu esteja puto, mas fico surpreso por ela parecer realmente querer saber. Até por ela lembrar. Ela não começou a fazer perguntas sobre qual o meu trabalho para calcular quanto eu ganho, nem deu risadinha e ficou vermelha e fez cara de idiota enquanto tocava minhas tatuagens, usando-as como uma desculpa para me tocar. Broxante demais. Quer dizer, claro, é excitante quando tudo o que você quer é transar - facilita as coisas -, mas por alguma razão fiquei muito feliz por Camryn não ter feito isso.
Quem é essa garota, caramba?
E por que é que estou pensando nessas coisas?
Ela pega no sono na minha frente com a cabeça encostada na janela. Resisto ao desejo de ficar olhando para ela, notando como parece delicada e inocente, o que me deixa muito mais primitivo, mais protetor.
O tarado parece ter parado de espiá-la quando nos viu sentar juntos na última rodoviária. Na sua visão masculina, ele provavelmente a vê como meu "território" agora, minha propriedade. E isso é bom, porque significa que vai deixá-la em paz enquanto eu estiver por perto. Mas o lance é que só vamos viajar juntos até Wyoming, e isso me deixa preocupado pra caralho. Espero que o homem tome outro ônibus antes que Camryn e eu precisemos nos separar. Mais duas paradas daqui até Denver - torço muito para Denver ser o destino final dele, e se não for, vou ficar de olho nele o resto da viagem até Wyoming.
Ele não vai para Idaho. Eu mato o filho da puta primeiro.
Olho através da escuridão e do silêncio do ônibus. O homem está dormindo, com a cabeça encostada na poltrona do corredor. Uma mulher está sentada ao lado dele na janela, mas é velha demais para chamar a atenção desse cara. Ele gosta das novinhas, provavelmente muito novinhas. Dá vontade de vomitar só de pensar no que ele já pode ter feito com alguma outra garota.
Apesar de o ônibus normalmente ser barulhento, com o assobio do vento contra o metal, o barulho da borracha girando sobre o asfalto, o motorzão roncando enquanto empurra a enorme carcaça pela estrada, está tudo quieto. Quase tranquilo. Tão tranquilo quanto uma viagem de ônibus pode ser.
Enfio os fones nos ouvidos e ligo o MP3, pondo no modo aleatório. O que vai ser? O que vai ser? Sempre deixo a primeira música determinar o clima. Tenho mais de trezentas faixas neste troço. Trezentos climas diferentes. Mas acho que meu MP3 é viciado, porque a primeira música quase sempre é Dust in the Wind, do Kansas, Going to California, do Zeppelin, ou alguma do Eagles.
Espero pela primeira música sem olhar o aparelho, como se fosse um jogo de adivinhação e eu não quisesse trapacear. Ah, boa escolha. Dream On, do Aerosmith. Apoio a cabeça no encosto e fecho os olhos, sem perceber, até tê-lo feito, que meu dedo está apertando o botão para abaixar o volume. Porque não quero acordar Camryn.
Abro os olhos e me viro para ela, vendo como Cam segura a mala tão apertado que deve ter consciência da bagagem mesmo no sono profundo. Me pergunto o que tem ali dentro, quem sabe alguma coisa que possa me revelar mais a respeito dela. Quem sabe alguma coisa que possa me revelar a verdade a respeito dela.
Mas não importa. Não vou mais conhecê-la depois do Wyoming, e ela provavelmente não vai lembrar mais nem meu nome. Mas sei que é melhor assim. Tenho bagagem demais, e mesmo como amigo não seria bom descarregá-la no colo dela. Eu não desejaria isso pra ninguém.
A voz suave e melodiosa de Steven Tyler me embala até que eu fico meio adormecido. Menos naquela parte, quando ele dá um grito agudo, aí espero até ele soltar tudo e depois eu apago de verdade.
— Cara, fala sério - ouço uma voz dizer.
Algo está fazendo força contra meu ombro. Acordo e vejo Camryn me empurrando com seus bracinhos. Na verdade é meio engraçado, aquela cara amassada dela de manhã, e por mais força que ela faça, meu corpo é pesado demais para ela conseguir me tirar do lugar.
— Foi mal - respondo, ainda tentando acordar. Me endireito, desorientado, e sinto minha nuca dura como um pedaço de pau. Eu não queria que minha cabeça fosse parar em cima do braço dela, mas não estou tão constrangido com isso quanto ela finge estar. Bem, tenho quase certeza que ela está fingindo. Está fazendo muita força para não sorrir.
Vou ajudá-la um pouco.
Abro um sorrisão para ela.
— Você acha isso engraçado? - ela reclama, com a boca semiaberta e o cenho franzido naquela testa lindinha.
— Sim, eu acho mesmo. - Meu sorriso aumenta e finalmente o dela também se abre suavemente em seu rosto. - Mas foi mal, desculpa. Sério. - E estou falando sério mesmo.
Ela aperta um olho e me olha de lado, avaliando minha sinceridade, o que também é uma graça.
Viro a cabeça e estico os braços para me espreguiçar, e isso me faz bocejar.
— Que nojo! - ela diz, e essa palavra não me surpreende nem um pouco. - Teu bafo tá com cheiro de bunda.
Uma risada curta e volúvel acompanha minhas palavras:
— Cacete, mulher, como é que você sabe qual é o cheiro de bunda, hein?
Isso cala a sua boca. Rio de novo e mexo na minha mochila, depois de jogar o MP3 dentro dela. Abro o meu tubo de pasta de dentes, ponho um pouco de pasta na ponta da língua, bochecho bem e depois engulo. Claro que Camryn está me olhando com cara de nojo enquanto faço tudo isso, mas era o que eu queria.
O resto do ônibus parece ter acordado antes de mim. Fico surpreso por ter dormido tanto e sem acordar pelo menos três vezes para procurar outra posição confortável, que nunca encontro.
Meu relógio diz que são 9h02.
— Onde a gente tá, afinal? - pergunto, olhando pela grande janela ao lado de Camryn, procurando alguma placa na estrada.
— A umas quatro horas de Denver - ela responde. - O motorista acabou de anunciar outra parada daqui a dez minutos.
— Que bom - comento, esticando uma perna no corredor. - Preciso andar um pouco. Tô todo duro.
Vejo que ela sorri, mas vira o rosto para a janela. Todo duro. Certo, então ela também tem mente poluída. Rio só de pensar nisso.
O lugar da próxima parada não é muito diferente das últimas, com uma série de postos de gasolina dos dois lados da estrada e duas lanchonetes. Não acredito que essa garota realmente me fez considerar se devo comer numa delas ou não, quando normalmente eu faria isso sem pensar duas vezes. Não sei dizer se é porque quero provar a ela que sou capaz de escolher coisa melhor para comer quando tenho opção, ou porque sei que ela vai me dar bronca.
Peraí, cacete. Quem está no controle da situação aqui?
Claro que ela está. Droga.
Saímos do ônibus em fila, Camryn na minha frente, e depois de contornar a frente do ônibus, ela para e se vira, cruzando os braços e me olhando, apertando os lábios.
— Bom, se você é tão esperta - digo, parecendo um moleque do primário, admito -, então vamos ver se consegue achar alguma coisa saudável pra comer, e que não tenha gosto de borracha com molho de merda, num lugar como este.
Um sorriso ergue um lado de sua boca.
— Combinado - diz, aceitando o desafio.
Entro atrás dela na gigantesca loja de conveniência, e ela vai primeiro para as geladeiras de bebidas. Como aquela loura daquele game show (não sei qual deles porque não vejo nenhum game show, mas todo mundo conhece essa loura), Camryn gesticula diante das portas de vidro da geladeira, como se estivesse me revelando o mundo dos sucos de fruta e água mineral pela primeira vez.
— Começamos com uma variedade de sucos, como você pode ver - ela anuncia, com voz de apresentadora. - Qualquer um destes é melhor do que refrigerante. Pode escolher.
— Detesto suco.
— Deixa de ser criança. Tem um monte pra escolher. Com certeza deve ter algum que você aguenta tomar.
Ela recua dois passos para que eu veja as dezenas de garrafas de água mineral com sabor na porta seguinte.
— E também tem água - ela sugere -, mas não imagino alguém como você tomando uma água mineral chique.
— Não, é babaca demais. - Na verdade, não tenho problema nenhum com água mineral, mas estou gostando desse joguinho.
Ela sorri, mas tenta se manter séria.
Franzo o nariz para ela e aperto os lábios enquanto meu olhar vai e vem entre ela e a geladeira de sucos.
Suspiro profundamente e me aproximo, correndo os olhos pelas várias marcas e sabores e misturas de frutas, e fico pensando por que tantos sabores têm morango ou kiwi, ou morango e kiwi. Detesto os dois.
Finalmente, abro a porta de vidro e me contento com o bom e velho suco de laranja.
Ela torce um pouco o nariz.
— Que foi? - pergunto, ainda segurando a porta aberta.
— Suco de laranja não é tão bom pra acompanhar comida.
Eu bufo e fico olhando para ela sem piscar.
— Quando escolho alguma coisa, você diz que não serve. - Quero rir, mas estou tentando fazê-la se sentir culpada.
E acho que está funcionando.
Ela franze a testa.
— Bom, é que... bom, isso aí é mais uma dose de vitamina C pra viagem, na verdade. Só vai te deixar com mais sede.
Ela parece mesmo preocupada por ter me ofendido, e isso me afeta da forma mais estranha. Eu sorrio só para vê-la sorrir de novo.
Ela abre um sorriso diabólico.
Ah, ela é boa...