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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA / Robert Anson
UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA / Robert Anson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

UM ESTRANHO NUMA TERRA ESTRANHA

Primeira Parte

 

A SUA MACULADA ORIGEM

Era uma vez um marciano chamado Valentine Michael Smith.

A primeira expedição a Marte foi selecionada com base na teoria que considera que o maior perigo para o homem é o próprio homem. Nessa época, oito anos terrenos após a fundação da primeira colônia humana na Lua, resolveu-se realizar uma viagem interplanetária feita por humanos em órbitas de queda livre: da Terra a Marte, duzentos e cinqüenta e oito dias para a viagem de ida, o mesmo para o regresso, mais quatrocentos e cinqüenta e cinco dias de espera em Marte, enquanto os planetas reocupavam lentamente as posições para a órbita de regresso.

Só reabastecendo-se numa estação espacial é que a nave Envoy poderia fazer a viagem. Depois de chegada a Marte poderia voltar — se não se esmagasse no solo, se encontrasse água para reabastecer os seus tanques de reação, se um sem-número de coisas não corresse mal.

Oito humanos, convivendo juntamente durante quase três anos terrestres, tinham de se dar muito melhor do que aquilo que é habitual nos humanos. Uma tripulação constituída apenas por homens foi vetada, por ser considera­da pouco saudável e instável. Quatro casais casados foi considerado ótimo, se se conseguissem encontrar as especialidades requeridas em tal combinação.

A Universidade de Edimburgo, contratador principal, sub-contratou o Instituto de Estudos Sociais para selecionar a tripulação. Depois de pôr de lado numerosos voluntários, devido à sua idade, saúde, mentalidade, grau de instrução ou temperamento, o Instituto ficou com nove mil possíveis candidatos. As especialidades requeridas eram: astro navegador, médico de clínica geral, cozinheiro, maquinista, comandante de nave, semântico, engenheiro químico, engenheiro eletrônico, físico, geólogo, bioquímico, biólogo, engenheiro atômico, fotógrafo, técnico de culturas hidropônicas, engenheiro de foguetes. Havia centenas de possíveis combinações de oito voluntários possuindo estas especialidades; depois se transformaram em três combinações de casais — mas, em todos os três casos, os psicólogos que avaliavam os fatores de compatibilidade levaram as mãos à cabeça, horrorizados. O contratador principal sugeriu baixar o nível-padrão de compatibilidade; o Instituto ofereceu-se para devolver os seus parcos honorários.

Os computadores continuaram a rever os dados que se iam alterando devido a mortes, desistências, novos voluntários. O capitão Michael Brant, M. S., comodoro D. F. Reserve, piloto e veterano de trinta das viagens à Lua, levava uma certa vantagem no Instituto. Várias pessoas procuravam para ele nomes de mulheres solteiras que pudessem (juntamente com ele) completar uma tripulação, depois juntavam estes nomes ao dele e introduziam-nos nos computadores para determinar quando é que uma dessas combinações seria aceitável. Isto resultou no seu vôo para a Austrália para ir propor casamento à Dra. Winifred Cobum, uma solteirona nove anos mais velha do que ele.

Depois de se apagarem e acenderem muitas luzes e depois de muitos cartões emitidos pelas máquinas, encontrou-se uma tripulação:

Capitão Michael Brant, no comando: piloto, astro navegador, segundo-cozinheiro, segundo-fotógrafo, engenheiro de foguetes;

Dra. Winifred Cobum, quarenta e um anos, semântica, enfermeira, oficial de armazém, historiadora;

Sr. Francis X. Seeney, vinte e oito anos, oficial executivo, segundo-piloto, astro navegador, astrofísico, fotógrafo;

Dra. Olga Kovalic Seeney, vinte e nove anos, cozinheira, bioquímica, técnica de culturas hidropônicas;

Dr. Ward Smith, quarenta e cinco anos, físico e cirurgião, biólogo;

Dra. Mary Jane Lyle Smith, vinte e seis anos, engenheira atômica e eletrônica e técnica de energia;

Sr. Sergei Rimsky, trinta e cinco anos, engenheiro eletrônico, enge­nheiro químico, maquinista e operador dos instrumentos de bordo, criologista;

Sra. Eleanora Alvarez Rimsky, trinta e dois anos, geóloga e selenóloga, técnica de culturas hidropônicas.

A tripulação possuía todas as especialidades requeridas, tendo algumas delas sido adquiridas através de um intenso treino durante as semanas que antecederam a partida. Mas ainda mais importante que isso: eram mutua­mente compatíveis.

O Envoy partiu. Durante as primeiras semanas os seus relatórios eram recolhidos por radiouvintes privados. À medida que os sinais se iam tornando mais fracos, eram retransmitidos pelos satélites terrestres. A tripulação parecia saudável e bem disposta. As impigens eram a coisa mais grave que o Dr. Smith tinha de tratar: a tripulação estava habituada à queda livre e as drogas anti-náusea deixaram de ser necessárias a partir da primeira semana. Se o capitão Brant tinha problemas de disciplina, não os comunicava.

O Envoy atingiu uma órbita de estacionamento dentro da órbita de Fobos e passaram duas semanas em vigilância fotográfica. Então o capitão Brant radio difundiu: «Aterraremos amanhã a 1200 T. S. G. (Tempo sideral de Greenwich) ao sul do Lacus Soli.»

Não foi recebida mais nenhuma mensagem.

Passou um quarto de século terrestre até Marte ser de novo visitado por humanos. Seis anos depois de o Envoy silenciar, a sonda Zombie, patrocina­da por La Société Astronautique Internationale, atravessou o vazio e escolheu uma órbita para o período de espera, e em seguida regressou. Fotografias tiradas pelo veículo robô mostravam uma terra pouco atraente relativamente aos padrões humanos; os seus instrumentos confirmaram a leveza e a inadequabilidade da atmosfera marciana para a vida humana.

Mas as fotografias da Zombie mostravam que os «canais» eram obras de engenharia e outros pormenores foram interpretados como ruínas de cidades. Uma expedição tripulada teria sido preparada se a terceira guerra mundial não tivesse intervindo.

Mas a guerra e os atrasos resultaram numa expedição mais bem organizada do que a do Envoy. A nave Champion, da Federação, com uma tripulação composta apenas por homens, oito astronautas, e transportando vinte e três pioneiros, fez a travessia utilizando a propulsão Lyle em dezenove dias. A Champion aterrou ao sul de Lacus Soli, pois o capitão Van Tromp tencionava procurar o Envoy. A segunda expedição comunicava diariamente; três dessas comunicações tiveram um interesse especial. A primeira constou do seguinte:

«Nave foguete Envoy localizada. Não há sobreviventes.»

A segunda foi a seguinte: «Marte é habitado. »

A terceira: «Correção ao relatório 23-105: Localizado um sobrevivente do Envoy. »

O capitão Willem van Tromp era um homem cheio de humanidade. Radiodifundiu antes de chegar: «O meu passageiro não deve ser submetido a uma recepção pública. Providenciem um transporte de baixa gravidade, uma maca e uma ambulância, e guarda armada.»

Mandou o cirurgião da nave verificar se Valentine Michael Smith era instalado numa suíte no Centro Médico de Bethesda, se tinha sido transferido para uma cama hidráulica, e se estava protegido de qualquer contacto vindo do exterior. Van Tromp foi a uma sessão extraordinária do Conselho Supremo da Federação.

Ao saber que Smith tinha sido levado para a cama, o alto-ministro da Ciência disse, irritado:

— Aceito, capitão, que a sua autoridade como comandante daquilo que apesar de tudo era uma expedição científica lhe dê o direito de pedir serviço médico para proteger uma pessoa temporariamente ao seu cuidado. Não percebo como é que você tem agora a pretensão de interferir no meu departamento. Por que, se Smith é um tesouro redescoberto da informação científica?

— Suponho que é, senhor.

— Então por que... — O ministro da Ciência voltou-se para o alto-ministro para a Paz e Segurança. — David? Importas-te de dar instruções à tua gente? No fim de contas, não se pode fazer esperar o Prof. Tiergarten e o Dr. Okajima, para mencionar apenas estes dois.

O ministro da Paz lançou um olhar ao capitão Van Tromp. O capitão abanou a cabeça.

— Por quê? — perguntou o ministro da Ciência. — Você, Van Tromp, admite que ele não está doente.

— Dá uma oportunidade ao capitão, Pierre — aconselhou o ministro da Paz. — Bem, capitão?

— Smith não está doente, senhor — disse o capitão Van Tromp —, mas não está bem. Nunca tinha estado antes num campo de gravidade igual à nossa. Pesa duas vezes e meia mais do que aquilo a que está habituado e os seus músculos não estão aptos a suportá-lo. Não está habituado à pressão normal da Terra. Não está habituado a nada e a tensão é demasiada. Com os diabos, meus senhores, eu próprio estou exausto... e eu nasci neste planeta.

O ministro da Ciência olhou-o com desdém.

— Se a fadiga de aceleração o está a preocupar, deixe-me assegurar-lhe, meu caro capitão, que nós previmos isso. No fim de contas, também eu já estive no espaço. Sei aquilo que se sente. Este homem Smith deve...

O capitão Van Tromp achou que chegara a altura de se mostrar irritado. Podia desculpar-se com a sua real fadiga, sentia-se como se tivesse acabado de aterrar em Júpiter. Por isso interrompeu:

— Hum! «Este homem Smith»... Este «homem»! Não está a ver que ele não é?

— O quê?

— Smith... não... é... um... homem.

— O quê? Explique-se, capitão.

— Smith é uma criatura inteligente com a ancestralidade de um homem, mas é mais marciano do que homem. Até nós chegarmos ele nunca tinha posto a vista num homem. Pensa como um marciano, sente como um marciano. Foi educado por uma raça que não tem nada de comum conosco... e nem sequer têm sexo. Ele é um homem por origem, um marciano por ambiente. Se o querem enlouquecer e perder esse «tesouro redescoberto», chamem os vossos estúpidos professores. Não lhe dêem uma oportunidade de se habituar a este louco planeta. Isso não me diz respeito; fiz o meu trabalho!

O silêncio foi quebrado pelo secretário-geral Douglas.

— E um bom trabalho, capitão. Se este homem, ou homem-marciano, precisa de alguns dias para se adaptar, tenho a certeza de que a ciência pode esperar... por isso tem calma, Pete. O capitão Van Tromp está cansado.

— Há uma coisa que não pode esperar — disse o ministro para a Informação Pública.

— O quê, Jock?

— Se não mostrarmos o homem que veio de Marte nas câmaras estereofônicas, muito em breve teremos tumultos, Sr. Secretário.

— Hum... Estás a exagerar, Jock. Marte enche as notícias, claro. Eu a condecorar o capitão e a sua tripulação... — amanhã, suponho. O capitão Van Tromp a narrar as suas experiências... depois de uma noite de descanso, capitão.

O ministro abanou a cabeça.

— Não é suficiente, Jock?

— O público esperava que eles trouxessem um verdadeiro marciano vivo. Uma vez que não trouxeram, precisamos de Smith, e precisamos mesmo muito.

— Marcianos vivos? — o secretário-geral Douglas virou-se para o capitão Van Tromp. — Viu filmes de marcianos?

— Montes deles.

— Aqui tens a resposta, Jock. Quando as personagens reais escasseiam, exibem-se filmes. Agora, capitão, sobre extraterritorialidade: diz que os marcianos não se opuseram?

— Bem, eles não se opuseram, senhor... mas também não eram a favor.

— Não estou a compreender.

O capitão Van Tromp mordeu o lábio.

— Senhor, falar com um marciano é como falar com um eco. Não há discussões, mas também não há resultados.

— Talvez devesse ter trazido... qual é mesmo o nome? O seu semân­tico. Ou será que ele está à espera lá fora?

— Mahmoud, senhor. O Dr. Mahmoud não se sente bem. Uma... uma ligeira crise nervosa, senhor. — Van Tromp pensou que a cair de bêbado era a expressão mais apropriada.

— Angústia espacial?

— Talvez um pouco. — (Vejam só os espertalhões!)

— Bom, vá buscá-lo quando ele se sentir melhor. Suponho que o jovem Smith também deve precisar de ajuda.

— Talvez — disse Van Tromp duvidosamente.

O jovem Smith estava ocupado em manter-se vivo. O seu corpo, insuportavelmente comprimido e enfraquecido pela estranha forma de espaço neste inacreditável lugar, estava finalmente aliviado pela suavidade do ninho no qual os outros o tinham colocado. Deixou de fazer esforço para suster a respiração e voltou o seu terceiro nível para a observação dessa mesma respiração e para o pulsar do seu coração.

Viu que estava prestes a consumir-se. Os seus pulmões batiam tão fortemente como o faziam em casa, o seu coração esforçava-se por distribuir o influxo, tudo numa tentativa de cooperar com a pequenez do espaço — e isto ao mesmo tempo que quase asfixiava devido a uma atmosfera rica em veneno e perigosamente quente. Tomou providências.

Quando as pulsações do seu coração eram de vinte por minuto e a sua respiração quase imperceptível, vigiou o tempo suficiente para se assegurar de que não se desintegraria enquanto a sua atenção estava noutro lado. Quando se deu por satisfeito, pôs uma parte do seu segundo nível em guarda e descontraiu o resto do seu corpo. Era necessário rever as configurações destes muitos e novos acontecimentos de modo a que ele os entendesse, e depois congratular-se e sentir-se elogiado por eles — a menos que eles o engolissem.

Por onde é que havia de começar? Pelo momento em que saíra de casa rodeado por estes outros que eram agora os seus companheiros de ninho? Ou pela sua chegada a este reduzido espaço? Foi de repente assaltado pelos sons e luzes dessa chegada, que o encheram de terríveis dores de cabeça. Não, ainda não estava preparado para receber essa configuração — para trás, para trás! Para trás ainda da primeira visão que tivera destes outros que agora eram os seus. Para trás ainda da cura que se tinha seguido à primeira vez que grocara que ele não era igual aos seus companheiros de ninho... para trás até ao próprio ninho. (Nota do editor: O verbo grocar é o aportuguesamento do verbo to grok criado por R. A. Heinlein, com o sentido lato de «compreensão total, completa e profunda das coisas». Intraduzível, portanto).

Nenhum dos seus pensamentos era em símbolos terrestres. Tinha aprendido recentemente a falar inglês simples, menos facilmente do que um hindu habituado a comerciar com um turco. Smith usava o inglês como uma pessoa pode usar um livro de código, com uma tradução fastidiosa e imperfeita. Neste momento os seus pensamentos, abstrações de meio milhão de anos de estranha cultura, vagavam tão longe da experiência humana que quase não podiam ser traduzidos.

No quarto ao lado, o Dr. Thaddeus jogava às cartas com Tom Meechum, o enfermeiro particular de Smith. Thaddeus espreitava os seus mostradores e os seus aparelhos de medição. Quando uma luzinha tremente mudou de noventa e duas pulsações para menos de vinte pulsações por minuto, correu para o quarto de Smith, imediatamente seguido por Meechum.

O paciente flutuava na película flexível da cama hidráulica. Parecia estar morto. Thaddeus disse com brusquidão:

— Chama o Dr. Nelson!

— Sim, senhor! — disse Meechum, e acrescentou: — E se lhe aplicássemos um choque de velocidade, doutor?

— Chama o Dr. Nelson!

O enfermeiro saiu a correr. O médico examinou o paciente, não lhe tocou. Um médico mais velho entrou, caminhando com a dificuldade de um homem que permaneceu muito tempo no espaço e que ainda não se adaptou à maior gravidade.

— Então, doutor?

— A respiração, a temperatura e o pulso do doente desceram subita­mente há cerca de dois minutos atrás, senhor.

— Que é que você fez?

— Nada, doutor. As suas instruções...

— Ótimo. — Nelson observou Smith, estudou os instrumentos que estavam por detrás da cama, gêmeos dos outros que se encontravam no quarto de observações. — Avise-me se houver alguma alteração. — Preparou-se para sair.

Thaddeus estava abismado.

— Mas, doutor...

Nelson disse:

— Sim, doutor? Qual é o seu diagnóstico?

— Hum, não desejaria pronunciar-se sobre o seu doente, doutor?

— Perguntei qual era o seu diagnóstico.

— Muito bem. Choque... atípico, talvez — arriscou Thaddeus —, mas choque conduzindo a estado terminal.

Nelson acenou com a cabeça.

— Isso é bastante razoável. Mas este não é um caso razoável. Já viu o doente nesta situação uma dúzia de vezes. Observe. Nelson largou o braço do doente, deixando-o cair. Ficou onde o largara.

— Catalepsia? — perguntou Thaddeus.

— Chame-lhe o que quiser. Preocupe-se apenas para que não o aborreçam e chame-me se houver alguma alteração. — Tornou a pousar o braço de Smith.

Nelson saiu. Thaddeus olhou para o paciente, abanou a cabeça e voltou para a sala de observação. Meechum agarrou as cartas.

— Joga?

— Não. Meechum acrescentou:

— Doutor, se me perguntar, digo-lhe que este é um caso perdido antes do amanhecer.

— Ninguém te perguntou nada. Vai fumar um cigarro com os guardas. Quero pensar.

Meechum encolheu os ombros e juntou-se aos guardas do corredor. Estes endireitaram-se, depois viram quem era e descontraíram-se. O mais alto dos fuzileiros disse:

— A que se devia a excitação?

— O doente teve cinco gêmeos e estávamos a discutir os seus nomes. Qual de vocês, seus estúpidos, tem um cigarro e fogo?

O outro fuzileiro tirou um maço de cigarros.

— Quanto lhe pagam para se calar?

— O suficiente. — Meechum esmagou o cigarro na cara do outro. — Juro por Deus, meus senhores, que não sei absolutamente nada sobre este doente.

— Qual é a idéia de ordenarem «Estritamente proibida a entrada de mulheres»? Ele é tarado sexual?

— Tudo o que eu sei é que o trouxeram da Champion e disseram que ele precisava de repouso absoluto.

— A Champion? — disse o fuzileiro que tinha falado em primeiro lugar.

Tudo se conjuga.

— Conjuga-se para quê?

— Parece razoável. Não teve nenhuma, não viu nenhuma e não tocou em nenhuma... durante meses. E ele está doente, compreende? Eles receiam que, se ele pusesse as mãos nalguma, se suicidasse. — Pestanejou. — Aposto em como ele o faria.

Smith estivera de pé atrás em relação aos médicos, mas tinha grocado que as suas intenções eram benéficas; não era necessário repelir a maior parte deles.

De manhã, quando os enfermeiros humanos refrescavam as faces dos doentes com toalhas úmidas, Smith voltou a si. Aumentou a velocidade do seu coração, desenvolveu a sua respiração, e observou aquilo que o rodeava, com serenidade. Observou o quarto, notando com prazer todos os pormenores. Estava a vê-lo pela primeira vez, pois fora incapaz de o observar quando o tinham trazido para ali. Este quarto não era um lugar comum para ele; não havia nada parecido com aquilo em Marte, nem sequer se assemelhava com o espaço em forma de cunha dos compartimentos de metal da Champion. Depois de ter revivido os acontecimentos e de ter relacionado o seu ninho com este lugar, estava agora preparado para o aceitar, para o elogiar e até para o apreciar.

Apercebeu-se de outra criatura viva. Um homem de longas pernas descia do teto ao mesmo tempo que rodopiava. Smith olhou-o com prazer e pensou se seria um companheiro de ninho.

O Dr. Archer Frame, o interno que substituíra Thaddeus, caminhava para ele nesse momento.

— Bom dia — disse. —Como é que se sente?

Smith examinou a pergunta. A primeira frase reconheceu-a como um som formal, que não requeria resposta. A segunda era ouvida no seu espírito como possuindo diversas traduções. Se o Dr. Nelson a usava, queria dizer uma coisa; se era o capitão Van Tromp que a usava, era um som formal.

Experimentou aquela sensação de desmaio que tantas vezes o assaltava quando tentava comunicar com estas criaturas. Mas forçou o seu corpo a permanecer calmo e arriscou uma resposta.

— Sentir bem.

— Ótimo! — gritou a criatura. — O Dr. Nelson deve estar a chegar. Apetece-lhe tomar o café da manhã?

Todos os símbolos constavam do vocabulário de Smith, mas teve dificuldade em acreditar que tinha ouvido bem. Sabia que se tratava de comida, mas não lhe «apetecia» comida. Nem sequer tinha sido avisado que tinha sido escolhido para uma tal honra. Não soubera que o fornecimento de comida era tal que era necessário reduzir o grupo. Estava cheio de um brando pesar, pois havia ainda muito para grocar nos novos acontecimentos, mas não sentia relutância.

Mas foi poupado ao esforço de traduzir uma resposta pela entrada do Dr. Nelson. O médico da nave examinou Smith e a fila de mostradores, depois voltou-se para Smith.

— Os intestinos mexem-se?

Smith compreendeu isto; Nelson perguntava-o sempre.

— Não.

— Bom, tenha cuidado com isso. Mas primeiro a sua comida. Servente, traga aquele tabuleiro.

Nelson deu-lhe três colheradas, depois pediu-lhe para segurar na colher e para comer por si próprio. Era cansativo mas deu-lhe uma sensação de alegre triunfo, pois este era o primeiro ato em que não era assistido desde que tinha chegado a este estranho e distorcido espaço. Limpou a tigela e lembrou-se de perguntar: «Quem é isto?», de modo a que o seu benfeitor se sentisse lisonjeado.

— Que é isto, quer você dizer — respondeu Nelson. — É uma geléia sintética... e agora sabe tanto como sabia antes de perguntar. Acabou? Muito bem, desça da cama.

— Como? — Este era um símbolo atencioso que era útil quando a comunicação falhava.

— Eu disse para sair daí. Ponha-se de pé. Ande. É verdade que você está fraco como um gatinho, mas nunca porá um músculo a trabalhar aí nessa cama. — Nelson abriu uma válvula e a água começou a escoar-se. Smith experimentou um sentimento de insegurança, sabendo que Nelson o ani­mava. Passado pouco tempo estava já fora da cama com a cobertura hidráulica enrugada à sua volta. Nelson acrescentou: — Dr. Frame, agarre o outro cotovelo.

Com Nelson a encorajar e ambos a ajudar, Smith ultrapassou as grades da cama.

— Firme. Agora ponha-se de pé. — Nelson dirigia as operações. — Não tenha medo. Nós agarramo-lo, se for necessário.

Fez um esforço e pôs-se de pé sozinho — um jovem esbelto com músculos subdesenvolvidos e peito ultradesenvolvido. O seu cabelo fora cortado na Champion, assim como as suíças. A sua mais marcada feição era o seu doce e infantil rosto — guarnecido de uns olhos que pareciam os de um homem de noventa anos.

Estava de pé, sozinho, tremendo levemente, depois tentou andar. Conseguiu dar três passos arrastados e rebentou num sorriso luminoso e infantil.

— Muito bem! — aplaudiu Nelson.

Tentou um outro passo, começou a tremer e subitamente desmaiou. Mal conseguiram evitar a queda.

— Raios! — Nelson espumava. — Entrou noutra crise. Aqui, ajude-me a metê-lo na cama. Não... encha-a primeiro.

Frame cortou o fluxo quando a película flutuava a cerca de 15 cm do topo. Levaram-no dificilmente, porque ele imobilizara-se na posição fetal.

— Ponha-lhe uma almofada debaixo do pescoço — disse Nelson — e chame-me se precisar de mim. Esta tarde o pomos outra vez a andar. Dentro de três meses estará a balançar-se nas árvores, como um macaco. Na realidade não se passa nada de invulgar com ele.

— Sim, doutor — respondeu Frame duvidosamente.

— Ah, é verdade, quando sair da crise ensine-o a usar o banheiro. Chame o enfermeiro para o ajudar: não quero que ele caia.

— Está bem, doutor. Hum, algum método especial... quero dizer, como...

— O quê? Mostre-lhe! Ele não percebe grande coisa do que você diz, mas é esperto como um rato.

Smith almoçou com ajuda. Neste momento entrou um servente para retirar o tabuleiro. O homem inclinou-se.

— Ouça — disse em voz baixa —, tenho uma ótima proposta a fazer-lhe.

— Como?

— Um contrato, um meio de você ganhar dinheiro fácil e rapidamente.

— Dinheiro? Que é dinheiro?

— Deixemos a filosofia; toda a gente precisa de dinheiro. Vou falar depressa porque não posso ficar muito tempo... foi preciso muita perseverança para chegar até aqui. Represento a Editora Peerless. Pagamos-lhe seis mil pela sua história e não terá o mínimo de trabalho... temos os melhores escritores-fantasmas no assunto: Tem apenas de responder a perguntas; eles compilam-nas. Tirou um papel de dentro das roupas. — Basta assinar isto.

Smith aceitou o papel, olhou pasmado para ele, de pernas para o ar. O homem abafou uma exclamação.

— Deus! Não sabe ler inglês?

Smith compreendeu o suficiente para responder:

— Não.

— Bom... dê cá, eu leio-o, e depois você imprime o seu dedo no quadrado e eu sirvo de testemunha. «Eu, abaixo assinado, Valentine Michael Smith, por vezes conhecido como o Homem de Marte, concedo à Editora Peerless, Ltda., todos os direitos sobre a minha verdadeira história para ser intitulada, Em Marte Eu Era Um Prisioneiro em troca de... »

— Servente!

— O Dr. Frame estava à porta; o papel desapareceu dentro das roupas do homem.

— Vou já, senhor. Vim buscar este tabuleiro.

— Que é que estava a ler?

— Nada.

— Eu vi-o. Este doente não pode ser perturbado.

Saíram; o Dr. Frame fechou a porta atrás de si. Smith permaneceu sem se mexer durante cerca de uma hora; embora tentasse, não podia grocar tudo.

Gillian Boardman era uma enfermeira competente e o seu passatempo eram os homens. Nesse dia estava de serviço como supervisora do andar em que se encontrava Smith. Quando lhe chegou aos ouvidos que o paciente da suíte K-12 nunca tinha visto uma mulher, em toda a sua vida, não acreditou. Decidiu fazer uma visita ao estranho paciente.

Sabia da ordem de «Proibidas as visitas femininas» e, como não se considerava uma visita, foi em frente, sem tentar utilizar a porta guardada — os fuzileiros tinham o hábito de interpretar as ordens literalmente. Em vez disso dirigiu-se para a sala de observação ao lado.

O Dr. Thaddeus olhou para cima.

— Olha! Que é que traz por cá, querida?

— Isto faz parte da minha ronda. Que há de novo sobre o teu paciente?

— Não preocupes a tua cabecinha, querida; não é da tua responsabili­dade. Consulta o teu livro de serviço.

— Já o li. Quero vê-lo.

— Numa palavra: Não!

— Oh, Ted, não sejas tão respeitador do regulamento. Ele olhou para as suas unhas.

— Se eu te deixasse pôr um pé ali dentro voaria imediatamente para a Antártida. Não gostaria que o Dr. Nelson te apanhasse sequer aqui, nesta sala de observação.

Ela levantou-se.

— É provável que o Dr. Nelson entrasse subitamente?

— Não, a não ser que eu o chame. Está a dormir, devido à fadiga de aceleração.

— Então qual é a idéia de ser tão cumpridor do dever?

— Pode sair, enfermeira.

— Muito bem, doutor! — E acrescentou: — Ordinário.

— Jill!

— E presunçoso também. Ele suspirou.

— Continua de pé a nossa combinação para sábado à noite? Ela encolheu os ombros.

— Penso que sim. Uma rapariga não se pode preocupar com coisas insignificantes, nestes dias que correm.

Voltou para o seu posto, pegou na chave-mestra. Tinha perdido uma batalha, mas não perdera a guerra: a suíte K-12 tinha uma porta que dava para o quarto de trás, uma sala usada como sala de espera quando a suíte estava ocupada por um oficial importante. A sala não estava a ser utilizada. Entrou. Os guardas não prestaram atenção, não sabendo que tinham sido ultrapas­sados pelo flanco.

Hesitou em frente à porta que ligava os dois quartos, sentindo a excitação que costumava sentir quando se esgueirava para fora dos alojamentos das estudantes de enfermagem. Abriu-a e olhou lá para dentro.

O paciente estava na cama, olhou para ela assim que a porta se abriu. A sua primeira impressão foi que se encontrava perante um paciente demasiado doente para ser salvo. A sua falta de expressão parecia mostrar a apatia dos doentes desesperados. Depois reparou que os seus olhos estavam vivos de interesse: pensou se a sua face estaria paralisada.

Assumiu o seu ar profissional.

— Como é que está hoje? Sente-se melhor?

Smith traduziu as perguntas. A inclusão de ambas na forma interrogativa era confusa; decidiu que podia simbolizar um desejo de animação e de aproximação. A segunda parte condizia com as formas de discurso de Nelson.

— Sim — respondeu.

— Ótimo! — À parte a sua estranha falta de expressão, não viu nada de especial nele; e se para ele as mulheres eram seres desconhecidos, estava a conseguir escondê-lo muito bem. — Posso fazer alguma coisa por si? — Ela reparou que não havia copo na prateleira ao pé da cama. — Posso ir buscar-lhe água?

Smith apercebeu-se imediatamente que esta criatura era diferente da outra. Comparou o que estava a ver com as fotografias que Nelson lhe havia mostrado, durante a viagem desde casa até este local — as fotografias pretendiam mostrar uma confusa configuração deste grupo de pessoas. Este, então, era «mulher».

Sentiu-se ao mesmo tempo estranhamente excitado e desapontado. Suprimiu ambas as sensações de modo a que pudesse grocar profunda­mente, conseguindo-o com tal sucesso que o Dr. Thaddeus não notou nenhuma alteração nos mostradores da sala ao lado.                                      

Mas quando traduziu a última pergunta sentiu uma tal onda de emoção que quase deixou aumentar o bater do seu coração. Dominou-se e ralhou consigo próprio por ter sido indisciplinado. Depois verificou a sua tradução.

Não, não estava enganado. A criatura mulher tinha-lhe oferecido água. Portanto, desejava aproximar-se.

Com grande esforço, procurando meios adequados, tentou responder com a devida cerimônia.

— Agradeço-lhe pela água. Espero que possa sempre beber profundamente.

A enfermeira Boardman parecia surpreendida.

— Por que, que amor!

Encontrou um copo, encheu-o e entregou-lho. Ele disse:

— Você beber.

«Será que ele pensa que estou a tentar envenená-lo?», perguntou a si própria — mas existia algo de obrigatoriedade no seu pedido. Bebeu um pequeno gole, após o que ele fez o mesmo; a seguir a isto ele parecia pronto a refastelar-se, como se tivesse feito algo importante.

Jill disse para si própria que, como aventura, isto era um fiasco. Disse:

— Bom, se não precisa de nada, devo voltar para o meu trabalho. Dirigiu-se para a porta. Ele chamou:

— Não! Ela deteve-se.

— Como?

— Não se vá embora.

— Bom... tenho de ir dentro de pouco tempo. — Voltou. — Quer alguma coisa?

Ele olhou-a de alto a baixo.

— Você é... mulher?

A pergunta espantou Jill Boardman. O seu impulso era responder irreverentemente. Mas a face grave de Smith e os seus olhos estranhamente perturbadores examinavam-na. Apercebeu-se emocionalmente que o inverossímil fato acerca deste paciente era verdadeiro; não sabia o que era uma mulher. Respondeu, cuidadosamente:

— Sim, sou uma mulher.

Smith continuava a olhá-la. Jill começou a ficar embaraçada. Esperava ser mirada por um homem, mas isto era como se estivesse a ser examinada ao microscópio. Estremeceu.

— Bem, pareço uma mulher, não pareço?

— Não sei — respondeu Smith lentamente. — Como é que são as mulheres? Que é que a faz mulher?

— Por piedade! — Esta conversa era completamente diferente das que ela costumava ter com os homens desde que tinha feito doze anos. — Não está à espera que eu me dispa e lhe mostre!

Smith levou tempo a examinar estes símbolos e a tentar traduzi-los. Quanto ao primeiro grupo, não o podia grocar de maneira nenhuma. Podia ser que fosse um dos sons formais que aquela gente usava... contudo tinha sido proferido violentamente, como se fosse uma última comunicação antes da retirada. Talvez se tivesse enganado profundamente no modo de lidar com uma criatura mulher e ela estivesse prestes a desintegrar-se.

Ele não queria que a mulher morresse naquele momento, muito embora talvez fosse esse o seu direito e possivelmente a sua obrigação. A mudança abrupta de relações, do ritual da água para uma situação em que um recém-adquirido irmão de água estava pronto a retirar-se ou a desintegrar-se, poderia tê-lo feito entrar em pânico se ele não tivesse conscienciosamente suprimido tal perturbação. Mas ele decidiu que se ela morresse agora, ele teria também de morrer imediatamente — não a podia grocar de outra maneira, não depois da oferta da água.

A segunda metade continha símbolos que ele já encontrara antes. Não grocou muito bem a intenção, mas parecia que havia um meio de evitar esta crise — acedendo à sugestão feita. Talvez se a mulher tirasse as roupas nenhum deles desaparecesse. Sorriu alegremente.

— Sim, por favor.

Jill abriu a boca e tornou a fechá-la. Abriu-a de novo.

— Bem, com mil diabos!

Smith podia grocar a violência emocional e compreendeu que dera uma resposta errada. Começou a compor o seu espírito para a desintegração, saboreando e congratulando-se com tudo aquilo que vira e com tudo por que passara, com especial referência a esta criatura mulher. Depois apercebeu-se que a mulher estava curvada sobre ele e sabia, de algum modo, que ela não estava a morrer. Estava a olhar para ele.

— Corrija-me se estiver enganada — disse ela —, mas você estava a pedir-me que me despisse?

As inversões e as abstrações requeriam uma tradução cuidadosa, mas Smith conseguiu obtê-la.

— Sim — respondeu, esperando que ela não tivesse uma nova crise.

— Foi isso que eu pensei que você tivesse dito. Irmão, você não está doente.

Considerou a palavra «irmão» em primeiro lugar — a mulher estava a recordar-lhe que se tinham juntado na água. Pediu a ajuda dos seus companheiros de ninho para decifrar o que queria aquela mulher.

— Não estou doente — concordou.

— Macacos me mordam se sei o que é que se passa de errado consigo. Eu não me vou descascar e, além disso, tenho de me ir embora. — Voltou-se e dirigiu-se para a porta do lado, depois deteve-se e olhou para trás com um sorriso enigmático. — Pode voltar a pedir-me, muito gentilmente, noutras circunstâncias. Tenho curiosidade em saber o que é que posso fazer.

A mulher tinha saído. Smith descontraiu-se e deixou que a imagem do quarto desaparecesse. Sentia um certo triunfo, sabendo que se comportara de modo a que não tinha sido necessário morrerem ambos... mas havia ainda muito que grocar. O último discurso da mulher continha símbolos que eram novos para ele — e os que não o eram tinham sido compostos em formas que não eram de fácil compreensão. Mas sentia-se feliz por ter sabido conduzir a comunicação entre irmãos de água — embora sentindo algo perturbador e terrivelmente agradável. Pensou neste seu novo irmão, a criatura mulher, e sentiu uns estranhos formigueiros. Esta sensação recordou-lhe a primeira vez que fora autorizado a assistir a uma desintegração e sentiu-se feliz sem saber por quê.

Desejou que o seu irmão Dr. Mahmoud estivesse ali. Havia tanta coisa para grocar, e tão pouca coisa com que grocar.

Jill passou o resto do tempo completamente confundida. O rosto do homem de Marte permanecia no seu espírito e matutava sobre as loucas coisas que ele dissera. Não «loucas» não: ela trabalhara no bloco psiquiátrico e tinha a certeza de que os comentários dele não tinham sido psicopáticos. Decidiu que «ingênuos» era o termo — depois decidiu que a palavra não era adequada. A sua expressão era inocente, mas os seus olhos não o eram. Que espécie de criatura possuía uma tal face?

Trabalhara em tempos num hospital católico; subitamente viu o rosto do homem de Marte emoldurado pelo toucado de uma freira. A idéia pertur­bou-a; não havia nada de feminino no rosto de Smith.

Estava a trocar de roupa quando uma outra enfermeira meteu a cabeça no quarto.

— Telefone, Jill.

Jill recebeu a chamada, som sem imagem, enquanto se vestia.

— É a Florence Nightingale? — perguntou uma voz de barítono.

— A própria. És tu, Ben?

— O corajoso defensor da liberdade de imprensa em pessoa. Estás ocupada, pequenina?

— Que é que tens em mente?

— Tenho em mente comprar-te um bife, encher-te de bebida e fazer-te uma pergunta.

— A resposta continua a ser «Não».

— Não é essa pergunta.

— Ah, sabes mais alguma? Conta-me.

— Mais tarde. Primeiro quero acalmar-te.

— Um bife verdadeiro? Sem ser sintético?

— Garantido. Espeta-lhe um garfo que ele mugirá.

— Deves estar com muito dinheiro. Ben.

— Isso é irrelevante e ignóbil. Alinhas?

— Falaste-me ao coração.

— Telhado do Centro Médico. Dez minutos.

Pôs no seu cacifo o vestido que trazia e vestiu um fato (roupa) que estava aí guardado para as emergências. Era um fato sóbrio, quase transparente, e com um corpo tão apertado que quase recriava o efeito que ela teria produzido se não tivesse nada vestido. Jill olhou para si com satisfação e tomou o tubo ascensional até ao telhado.

Estava à procura de Ben Caxton quando o servente do telhado lhe tocou no braço.

— Está um carro à sua espera, Menina Boardman... aquele Talbot.

— Obrigado, Jack. Viu o táxi preparado para arrancar, já com a porta aberta. Subiu para o carro, prestes a cumprimentar Ben, quando viu que ele não estava lá dentro. O táxi era automático; a porta fechou-se e o carro levantou vôo, deu uma volta sob o círculo e partiu pela Potomac. Parou num andar de aterragem por cima de Alexandria e Caxton entrou; o táxi tornou a partir. Jill olhou para ele. — Meu Deus, como ele é importante! Desde quando é que mandas um robô buscar a tua mulher?

Ele deu uma palmadinha no joelho dela e disse gentilmente:

— Existem razões, minha pequenina. Não posso ser visto a ir-te buscar...

— Ora essa!

—... E tu não deves ser vista comigo. Portanto, acalma-te, foi necessário.

— Hum... qual de nós é que tem lepra?

— Os dois. Jill, eu sou um jornalista.

— Estava a pensar que eras outra coisa.

— E tu és uma enfermeira do hospital onde eles detêm o homem de Marte.

— Será que isso me torna imprópria para conhecer a tua mãe?

— Precisas que te faça um desenho, Jill? Existem mais de mil repórteres nesta área, mais uns quantos agentes da imprensa, gravadores, espiões e toda uma manada de gente que chegou quando a Champion aterrou. Todos eles têm tentado entrevistar o homem de Marte... e nenhum conseguiu. Achas que seria prudente sermos vistos a abandonar o hospital juntos?

— Não vejo o que é que isso tem. Eu não sou o homem de Marte. Ele olhou para ela.

— Com certeza que não. Mas vais ajudar-me a vê-lo... Razão pela qual eu não te fui buscar.

— O quê? Ben, tu andaste ao sol sem chapéu. Eles têm uma guarda de fuzileiros à sua volta.

— Portanto sempre têm. Falamos nisso mais tarde.

— Não sei o que é que há para falar.

— Mais tarde. Vamos comer.

— Agora estás a ser razoável. Terás dinheiro que chegue para o New Mayflower? Estás com bastante dinheiro, não estás?

Caxton franziu as sobrancelhas.

— Jill, não me vou arriscar a ir a um restaurante mais perto que em Louisville. Esta campana levaria quase duas horas a chegar lá. Que tal se jantássemos no meu apartamento?

—... disse a Aranha à Mosca. Ben, estou demasiado cansada para lutar.

— Ninguém te pediu para o fazeres. O King's X passou-me pela idéia, mas já cá não está quem falou.

— Para estar em segurança contigo devo passar despercebida. Isso também não me agrada muito. Bom, está bem, vamos lá para o King's X.

Caxton carregou nos botões; o táxi, que tinha estado a dar voltas aguardando instruções, despertou e dirigiu-se para o hotel de apartamentos onde Ben vivia. Marcou um número de telefone e disse a Jill:

— Quanto tempo é que queres para te fartares de beber, torrãozinho? Vou dizer à cozinha para ter os bifes prontos.

Jill considerou.

— Ben, a tua ratoeira tem uma cozinha privada.

— De todas as espécies. Posso grelhar um bife.

— Eu grelho o bife. Passa-me o telefone. — Deu as ordens, parando apenas para se assegurar de que Ben gostava de chicória.

O táxi deixou-os no telhado e desceram para o apartamento. Era antiquado, o seu único luxo era um relvado verdadeiro na sala de jantar. Jill deteve-se, descalçou os sapatos, dirigiu-se descalça para a sala de jantar e agitou os dedos dos pés por entre as folhas verdes. Suspirou.

— Meu Deus, isto sabe bem. Doem-me os pés desde que entrei ao serviço.

— Senta-te.

— Não, quero que os meus pés se lembrem disto amanhã.

— Serve-te à vontade. Foi até à dispensa e preparou as bebidas.

Nesse momento ela seguiu-o e transformou-se em dona de casa. O bife estava no elevador das encomendas; junto a ele encontravam-se batatas previamente cozinhadas. Ela preparou a salada, colocou-a no frigorífico, preparou uma combinação para grelhar o bife e aquecer as batatas, mas não pôs o ciclo em andamento.

— Ben, este fogão não tem controle remoto?

Ele estudou o painel de comandos, ligou um botão.

— Jill, que é que farias se tivesses de cozinhar diretamente sobre o fogo?

— Sair-me-ia muito bem. Fui escoteira. E tu, espertinho?

Foram para a sala; Jill sentou-se aos seus pés e dedicaram-se a beber martinis. Em frente à cadeira de Ben encontrava-se uma estereocabina televisiva disfarçada de aquário; ele ligou-a, os (peixes) guppis e tetras desapareceram para darem lugar à cara do conhecido jornalista Augustus Greaves.

—... isto pode ser considerado autoritarismo — dizia a imagem —, o fato de o homem de Marte estar sob o efeito de drogas para o impedirem de descobrir estes fatos. A Administração acharia isso extremamente...

Caxton desligou o aparelho.

— Gus, velho amigo — disse gentilmente —, não sabes nada a mais do que eu. — Franziu as sobrancelhas. — Contudo, pode ser que tenhas razão quanto ao fato de o Governo o manter sob o efeito de drogas.

— Não, não está — disse Jill subitamente.

— O quê? Que dizes, pequenina?

— O Homem de Marte não está sob o efeito de hipnóticos. — Tendo deixado escapar a verdade, acrescentou: — Tem um médico continuamente a observá-lo, mas não existem ordens para lhe dar sedativos.

— Tens a certeza? Tu não és uma das enfermeiras dele?

— Não. Hum... na realidade existe uma ordem para manter as mulheres afastadas dele e alguns enormes fuzileiros para assegurarem que a ordem é cumprida.

Caxton assentiu.

— Portanto, segundo eu entendi, não tens a certeza se o mantêm debaixo do efeito de drogas ou não.

Jill mordeu o lábio. Tinha de se denunciar para poder acabar aquilo que começara a dizer.

— Ben, tu não serias capaz de me entregar?

— O quê?

— Seja de que maneira for.

— Hum... Isso cobre um campo muito vasto, mas vou arriscar-me.

— Está bem. Dá-me outro martini. — Ele serviu-a, Jill prosseguiu: — Sei que eles não têm o Homem de Marte hipnotizado... porque falei com ele.

Caxton assobiou.

— Eu sabia. Quando me levantei, esta manhã, disse para comigo: «Vai ver a Jill. Ela é que te vai valer. » Meu cordeirinho, toma outra bebida. Toma seis. Toma, pega na garrafa.

— Não vás tão depressa!

— Como quiseres. Posso massagear os teus pobres pés? Minha senhora, estás prestes a ser entrevistada. Como...

— Não, Ben, tu prometeste. Tu citas-me e eu perco o emprego.

— Hum... E que tal «de uma fonte normalmente bem informada»?

— Ficaria assustada.

— Então? Vais deixar-me morrer de frustração e comer aquele bife por ti?

— Oh, eu falo. Mas não o podes utilizar.

Ben permaneceu em silêncio; Jill descreveu-lhe como tinha enganado os guardas. Ele interrompeu:

— Diz-me: podes fazê-lo outra vez?

— O quê? Acho que sim, mas não o farei; é arriscado.

— Bom, podes meter-me lá dentro do mesmo modo? Ouve, eu visto-me de eletricista: fato-macaco, emblema do sindicato, estojo de ferramentas. Dás-me a chave e...

— Não!

— O quê? Olha, menina, sê razoável. Esta é a história que mais interesse suscitou desde que Colombo levou Isabel a pôr as jóias no prego. A única coisa que me preocupa é que posso encontrar outro eletricista...

— A única coisa que a mim me preocupa sou eu — interrompeu Jill. — Para ti é uma história; para mim é a minha carreira. Tirar-me-iam a minha boina, o meu ordenado e corriam-me da cidade.

— Hum... então é isso.

— Claro que é.

— Minha senhora, está prestes a ser subornada.

— Quanto? Precisarei de bastante para andar à moda o resto da minha vida, no Rio.

— Bem... não podes esperar que eu cubra o lance da Associated Press ou da Reuter. Que tal cem?

— Quem é que pensas que eu sou?

— Já assentamos isso, estamos a negociar o preço. Cento e cinqüenta?

— Dá-me o número de telefone da Associated Press, isso é uma ninharia.

— Capitol 10-9000. Jill, queres casar comigo? É o máximo até onde posso ir.

Ela ficou atônita.

— Que é que disseste?

— Queres casar comigo? Assim, quando correrem contigo, estarei à espera na saída da cidade e levar-te-ei para longe da tua sórdida existência. Voltarás aqui e refrescarás os teus dedos dos pés na minha relva... nossa relva... e esquecerás a tua ignomínia. Mas primeiro tens de me introduzir no quarto.

— Ben, quase pareces estar a falar a sério. Se eu chamar uma testemunha repetes isso?

Caxton suspirou.

— Chama uma testemunha. Ela levantou-se.

— Ben — disse docemente —, não te obrigarei a fazê-lo. — Beijou-o. — Não brinques com o casamento ao pé de uma solteirona.

— Não estava a brincar.

— Imagino. Limpa o batom e eu conto-te tudo o que sei, depois pensaremos na forma como tu poderás utilizar o que te vou dizer, sem ser preciso correrem comigo da cidade. Está combinado?

— Está combinado.

Ela fez uma narração pormenorizada.

— Tenho a certeza de que ele não estava drogado. Tenho igualmente a certeza de que ele era racional... embora falasse da forma mais estranha possível e fizesse as perguntas mais esquisitas.

— Seria ainda mais estranho se ele não tivesse falado de modo estranho.

— Hã?

— Jill, não sabemos muito acerca de Marte, mas sabemos que os Marcianos não são humanos. Supõe que eras atirada para uma tribo no interior da selva que nem sequer sabia o que são sapatos. Saberias de que assunto é que havias de falar com eles? Esta é uma analogia moderada; a verdade é pelo menos quarenta milhões de milhas mais estranha.

Jill abanou a cabeça em sinal de assentimento.

— Pensei nisso. Foi por isso que eu dei desconto aos seus estranhos comentários. Não sou estúpida.

— Não, na verdade és mesmo muito esperta, para uma mulher.

— Estás com vontade que eu te deite este martini no cabelo?

— Peço desculpa. As mulheres são mais inteligentes do que os homens; é um fato provado por toda a nossa técnica. Gimme, deixa-me encher-te o copo.

Ela aceitou as ofertas de paz e prosseguiu:

— Ben, aquela ordem de não deixarem ver mulheres é estúpida. Ele não é maníaco sexual.

— Sem dúvida não querem confrontá-lo com muitos choques ao mesmo tempo.

— Ele não ficou chocado. Estava apenas... interessado. Não era como ter um homem a olhar para mim.

— Se tivesses acedido a esse pedido para dar uma olhadela, poderias não ter tido mãos a medir.

— Acho que não. Penso que lhe devem ter falado sobre macho e fêmea; ele apenas queria ver em que é que as mulheres eram diferentes.

— Vive la différence! — respondeu Caxton entusiasticamente.

— Não sejas vulgar.

— Eu? Estava a ser respeitador. Estava a dar graças por ter nascido humano e não marciano.

— Fala a sério.

— Nunca falei mais a sério.

— Então está calado. Ele nunca me teria dado qualquer problema. Tu não viste a cara dele: eu vi.

— Que é que se passa com a cara dele? Jill parecia confusa.

— Ben, já alguma vez viste um anjo?

— Tu, minha querida. De outro modo, não.

— Eu também não... mas era isso que ele parecia. Tinha uns olhos envelhecidos e sábios numa face completamente plácida, uma face de uma inocência extraterrena. — Ela estremeceu.

— Extraterrena é a palavra — respondeu Ben lentamente. — Gostaria de vê-lo.

— Ben, porque é que o mantêm isolado? Ele não faria mal a uma mosca. Caxton uniu as pontas dos dedos.

— Bem, querem protegê-lo. Cresceu na gravidade de Marte; provavel­mente está fraco como um gato.

— Mas a fraqueza muscular não é perigosa; miastenia gravis é muito pior e nós sabemos lidar bastante bem com ela.

— Querem também impedi-lo de apanhar coisas. Ele é como esses animais para experiências de Notre-Dame; nunca esteve exposto.

— Claro, claro: não tem anticorpos. Mas daquilo que eu ouvi no meio de toda a confusão, o Dr. Nelson, o cirurgião da Champion, tratou disso na viagem de regresso. Transfusões mútuas até metade do seu tecido sangüíneo ter sido substituído.

— Posso usar isso, Jill? Isso é novidade.

— Mas não me cites. Eles deram-lhe injeções contra tudo, até contra o higroma do joelho. Mas, Ben, para o proteger das infecções não é necessário uma guarda armada.

— Hum... Jill, recolhi algumas informações que se calhar não sabes. Não as posso usar porque tenho de proteger as minhas fontes. No entanto vou contar-te... mas não fales nada sobre isto.

— Não falarei.

— É uma longa história. Queres outra bebida?

— Não, vamos começar a comer o bife. Onde é que é o botão?

— Mesmo aqui.

— Bom, prime-o.

— Eu? Tu ofereceste-te para fazer o jantar.

— Ben Caxton, morrerei de fome até conseguir levantar-me para premir um botão a quinze centímetros do teu dedo.

— Como queiras. — Carregou no botão. — Mas não esqueças quem cozinhou o jantar. Agora sobre Valentine Michael Smith. Existe uma séria dúvida ao seu direito a usar o nome «Smith».

— Hã!?

— Querida, o teu cupincha é o primeiro bastardo interplanetário que se conhece.

— Ao diabo com o que tu dizes!

— Por favor, porta-te como uma senhora. Recordas-te de alguma coisa sobre a Envoy? Quatro casais. Dois desses casais eram o capitão e a Sra. Brant, o doutor e a Sra. Smith. O teu amigo de cara de anjo é o filho da Sra. Smith e do capitão Brant.

— Como é que eles sabem? E quem se rala com isso? É muito hipócrita escavar um escândalo depois de todo este tempo. Eles estão mortos... deixem-nos em paz!

— Quanto à maneira como o souberam, nunca houve provavelmente oito pessoas mais minuciosamente medidas e tipificadas. Tipo sangüíneo, fator Rh, cor de cabelo e de olhos, todas essas coisas da genética sobre as quais sabes mais do que eu. É certo que Mary Jane Lyle Smith era a sua mãe e que Michael Brant é o seu pai. Isso dá a Smith uma ótima hereditariedade; o seu pai tinha um Q. I. de 163, a sua mãe de 170, e ambos eram o máximo dentro dos seus campos.

»Quanto a quem isso importa — prosseguiu Ben —, pois muita gente se importa... e mais se importarão quando isto vier a lume. Já ouviste falar da Propulsão Lyle?

— Claro. Foi a que a Champion usou.

— E todas as outras naves, nos nossos dias. Quem a descobriu?

— Não... Espera um segundo! Queres dizer ela...

— Batam palmas à senhora! A Dra. Mary Jane Lyle Smith. Tinha trabalhado nela antes de partir, embora tivesse deixado alguns aperfeiçoa­mentos por fazer. Assim, fez um registro de patente e colocou-a num trust — não numa corporação sem fins lucrativos, lembra-te —, depois atribuiu o controle e o rendimento provisório à Fundação da Ciência. Assim, o Governo controlou-a temporariamente... mas o teu amigo é o seu dono. Vale milhões, talvez centenas de milhões; não posso imaginar.

Trouxeram o jantar. Caxton usava mesas suspensas no teto para proteger o seu relvado; baixou uma até à sua cadeira e outra de estilo japonês para que Jill pudesse estar sentada na relva.

— Tenro? — perguntou.

— Maravilhoso! — respondeu Jill.

— Obrigado. Lembra-te que fui eu que o fiz.

— Ben — disse ela depois de engolir —, e quanto a Smith ser um... quero dizer, ilegítimo? Ele pode herdar?

— Ele não é ilegítimo. A Dra. Mary Jane era de Berkeley; as leis da Califórnia negam o conceito de bastardia. O mesmo se passa com o capitão Brant, pois a Nova Zelândia possui leis civilizadas. Enquanto no Estado natal do Dr. Ward Smith, o marido de Mary Jane, uma criança nascida durante o matrimônio é legítima, aconteça o que acontecer. Temos aqui, Jill, um homem que é o filho legítimo de três pais.

— Hã? Agora espera, Ben; não pode ser. Não sou advogada, mas...

— Com certeza que não és. Tais ficções não preocupam um advogado. Smith é legítimo de diferentes maneiras em diferentes jurisdições... mesmo sendo um bastardo. Portanto herda. Além disso, ao mesmo tempo que a sua mãe era rica, os seus pais também não viviam nada mal. Brant enterrava grande parte do seu escandaloso salário como piloto na viagem à Lua na Empresa Lunar. Sabes como essa gente prosperou: declararam só mais um dividendo de fundos estatais. Brant tinha um vício, o jogo... mas o comandante ganhava regularmente e investia esse dinheiro também. Ward Smith possuía fortuna de família. Smith é herdeiro de ambos.

— Uau!

— E isto é só metade da história. Smith é o herdeiro de toda a tripulação.

— O quê?

— Todos os oito assinaram um contrato de «Cavalheiros Aventureiros», que os tornava mutuamente herdeiros uns dos outros... todos eles e também a sua descendência. Fizeram-no com cuidado, usando como modelo contratos do século XVI e XVII que se mantiveram através dos tempos, apesar de todos os esforços que foram feitos para os anularem. Todos eles eram pessoas muito poderosas. Entre todos possuíam um belo ganho. Aconteceu que incluíram nesse contrato consideráveis dividendos da Empresa Lunar, para além dos que Brant possuía. Smith pode possuir um controle dos lucros, ou pelo menos um bloco-chave.

Jill pensou na infantil criatura que tinha feito com ela uma tocante cerimônia do beber da água e sentiu pena dele. Caxton prosseguiu:

— Gostava de poder dar uma vista de olhos no diário de bordo da Envoy. Eles recuperaram-no... mas duvido que o divulguem.

— Porque é que não o fariam, Ben?

— É uma triste história. Soube estas coisas que te vou contar até o meu informador ficar sóbrio. O Dr. Ward Smith entregou a sua mulher à secção das cesarianas... e ela morreu na mesa de operações. O que ele fez em seguida mostra que ele estava a par dos acontecimentos; com o mesmo bisturi que tinha servido na operação, cortou a garganta do capitão Brant... e depois a sua. Desculpa, querida.

Jill estremeceu.

— Sou uma enfermeira. Estou imune a essas coisas.

— És uma mentirosa e adoro-te por isso. Fiz a ronda da polícia durante três anos, Jill; nunca consegui acostumar-me a isso.

— Que aconteceu aos outros?

— Se não tirarmos o diário de bordo aos burocratas, nunca o sabe­remos... e eu sou um jornalista muito idealista que acha que o devemos saber. O segredo gera a tirania.

— Ben, podia ser melhor se o despojassem da sua herança. Ele é muito... hum, desprendido das coisas deste mundo.

— É essa a expressão exata, tenho a certeza. Ele nem sequer precisa de dinheiro; o Homem de Marte nunca há de ficar sem jantar. Qualquer governo e milhares de bizarros universitários gostariam de o ter como hóspede permanente.

— Era preferível que ele assinasse tudo e o esquecesse.

— Isso não é assim tão fácil. Jill, conheces o famoso caso da General Atomics contra Larkin, et allii?

— Ah, queres dizer a Decisão Larkin. Dei-a na escola, como toda a gente. Que é que tem isso a ver com Smith?

— Recua um pouco no tempo. Os Russos mandaram a primeira nave à Lua, e explodiu. Os Estados Unidos e o Canadá combinaram enviar uma; regressou, mas não deixou ninguém na Lua. Assim, enquanto os Estados Unidos e a Commonwealth se preparavam para enviarem para lá uma nave colonizadora patrocinada pela Federação e a Rússia organizava a mesma coisa por sua conta própria, a General Atomics iniciava a marcha lançando uma nave duma ilha alugada ao Equador.

Quando a nave da Federação apareceu, logo seguida pela da Rússia, os homens da General Atomics já lá estavam, muito bem instalados e com um ar enfatuado.

Assim a General Atomics, uma corporação suíça controlada pela América, exigiu a Lua. A Federação não podia correr com eles e apoderar-se da Lua; os Russos não teriam ficado quietos. Assim, o Supremo Tribunal legislou que uma pessoa corporativa, uma mera ficção legal, não podia possuir um planeta; os possuidores reais eram os homens que mantinham a ocupação: Larkin e associados. Assim, eles reconheceram-nos como uma nação soberana e incorporaram-nos na Federação... atribuindo uma pequena fatia dos lucros àqueles que lá se encontravam, e as concessões à General Atomics e à sua corporação filha, a Empresa Lunar. Isto não agradou a ninguém nem ao Supremo Tribunal da Federação, que não era nessa altura todo-poderoso, mas era um compromisso que todos podiam suportar. Daí resultou uma legislação para os planetas colonizados, toda ela baseada na Decisão Larkin e que tentava evitar o derramamento de sangue. Elaborada, também: a terceira guerra mundial não resultou de nenhum conflito sobre a viagem no espaço ou coisa parecida. Portanto, a Decisão Larkin é lei e aplica-se a Smith.

Jill abanou a cabeça.

— Não vejo a ligação.

— Pensa, Jill. Segundo as nossas leis, Smith é uma nação soberana... e o único dono do planeta Marte.

Jill estava de olhos arregalados.

— Martinis a mais, Ben. Ia jurar que tinhas dito que o paciente era o dono de Marte.

— E é. Ocupou-o durante o período requerido. Smith é o... rei, presidente, único corpo cívico, ou o que tu quiseres... de Marte. Se a Champion não tivesse deixado colonos, a reivindicação de Smith poderia ter acabado. Mas deixou e por isso a ocupação continua, apesar de Smith ter vindo para a Terra. Mas Smith não tem de dividir com eles; eles são apenas imigrantes até ele lhes conceder cidadania.

— Fantástico!

— Mas legal. Querida, estás a perceber porque é que as pessoas estão interessadas em Smith? E porque é que a Administração o mantém escondido? O que eles estão a fazer não é legal. Smith também é um cidadão dos Estados Unidos e da Federação; é ilegal manter um cidadão, nem que seja um criminoso, incomunicável em qualquer sítio dentro da Federação. Igualmente, em toda a história sempre foi considerado um ato pouco amistoso o encerramento de um monarca visitante (o que ele é, de fato) e não o deixar ver gente, especialmente a imprensa, ou seja eu. Continuas a não querer introduzir-me lá dentro?

— O quê? Assustaste-me, pateta. Ben, se eles me tivessem apanhado, que é que me teriam feito?

— Hum... nada de especial. Encerravam-te numa cela acolchoada, com um certificado assinado por três médicos, e deixavam-te receber correio em anos bissextos alternados. Estou a pensar é no que é que eles lhe vão fazer.

— Que é que eles podem fazer?

— Bem, ele pode morrer... de fadiga de aceleração, digamos.

— Queres dizer, assassiná-lo?

— Chiu, chiu! Não uses palavras feias. Acho que não o farão. Em primeiro lugar porque ele é uma mina de informações. Em segundo lugar, ele é uma ponte entre nós e a outra única raça que encontramos. Que tal estás nos clássicos? Já leste A Guerra dos Mundos de H. G. Wells?

— Há muito tempo, na escola.

— Supõe que os Marcianos se tornavam nossos inimigos. Isso é possível e não temos meio de adivinhar o perigo que eles podem representar. Smith pode ser o elo de ligação que poderia tornar desnecessária a primeira guerra interplanetária. Mesmo sendo isto improvável, a Administração não o pode ignorar. A descoberta de vida em Marte é uma coisa que, politicamente, eles ainda não calcularam.

— Achas que ele está a salvo?

— Por enquanto. O secretário-geral tem de pensar bem nas coisas. Como tu sabes, a Administração dele é fraca.

— Não ligo muito à política.

— Devias ligar. É pouco menos importante que o nosso bater de coração.

— Também não ligo a isso.

— Não fales enquanto estou a discursar. A incoerente maioria liderada por Douglas pode desmembrar-se de um dia para o outro: o Paquistão desapareceria com um ataque de tosse nervosa. Seria apresentado um voto de desconfiança e o Sr. Secretário-Geral Douglas voltaria a ser um reles advogado. O homem de Marte pode ajudá-lo ou destruí-lo. Vais introduzir-me lá dentro?

— Vou dar entrada num convento. Tens mais café?

— Vou ver.

Levantaram-se. Jill espreguiçou-se e disse:

— Ah, os meus velhos ossos! Deixa lá o café, Ben; espera-me um dia trabalhoso, amanhã. Levas-me a casa? Ou, melhor, manda-me para casa, é mais seguro.

— Está bem, embora a noite seja ainda uma criança. — Ele dirigiu-se para o quarto e voltou trazendo um objecto do tamanho de um pequeno isqueiro. — Não vais meter-me lá dentro?

— Ora, Ben, eu quero ajudar-te, mas...

— Deixa lá. É perigoso... e não é bom para a tua carreira. — Mostrou-lhe o objeto. — És capaz de lhe pôr um besouro?

— O quê? Que é isso?

— A maior dádiva para os espiões desde o Mickey Finn. Um microgravador. A gravação é acionada por mola, portanto não pode ser descoberto por um circuito espião. Os interiores são envolvidos em plástico: podes até deixá-lo cair de um táxi. A energia é tão radiativa como um mostrador de relógio, mas blindado. As fitas são para vinte e quatro horas. Depois basta tirar uma bobina e meter uma outra; a mola faz parte da bobina.

— Pode explodir? — perguntou ela nervosamente.

— É completamente inofensivo.

— Ben, assustaste-me de mais para entrar no quarto dele.

— Podes ir ao quarto ao lado, não podes?

— Acho que sim.

— Esta coisa tem orelhas de elefante. Prende o lado côncavo contra uma parede... fita adesiva serve... e ele regista tudo no quarto ao lado.

— Estou sujeita a que me vejam entrar e sair desse quarto. Ben, o quarto dele tem uma parede em comum com um quarto no outro corredor. Isso serve?

— Perfeito. Vais fazê-lo?

— Hum... dá-mo. Vou pensar nisso. Caxton limpou-o bem com o seu lenço.

— Calça as luvas.

— Porquê?

— A sua posse pode dar origem a umas fériazinhas atrás das grades. Usa sempre luvas e não te deixes apanhar com ele.

— Pensas nas coisas mais simpáticas!

— Queres desistir? Jill respirou fundo.

— Não.

— Menina bonita! — Uma luz apagou-se e acendeu-se, Ben foi ver o que era. — É o teu táxi. Chamei-o quando fui buscar isto.

— Oh. Procura os meus sapatos, procuras? Não venhas ao telhado. Quanto menos for vista contigo melhor.

— Como queiras.

Quando ele se ia a endireitar, depois de lhe ter calçado os sapatos, ela tomou a sua cabeça entre as mãos e beijou-o.

— Querido Ben! Não pode vir nenhum bem de tudo isto e não tinha percebido que eras um criminoso... mas és um bom cozinheiro, desde que eu escolha uma boa combinação... Sou capaz de casar contigo se te apanhar a fazer a proposta outra vez.

— A oferta continua de pé.

— Os gângsters casam com as suas companheiras? — E saiu apressa­damente.

Jill colocou o besouro facilmente. A paciente do quarto do corredor ao lado não podia sair da cama; Jill parava aí muitas vezes para conversar. Encostou-o à parede, debaixo de uma prateleira do armário, enquanto ia conversando sobre o fato de as criadas nunca limparem o pó às prateleiras.

Mudar as bobinas no dia seguinte foi fácil; a paciente estava a dormir. Acordou quando Jill estava empoleirada numa cadeira; Jill distraiu-a contando-lhe um boato picante que corria nos alojamentos das enfermeiras.

Jill enviou a figa gravada pelo correio, pois o sistema postal parecia mais seguro que o estratagema tradicional de capa e espada. Mas a tentativa de meter a terceira bobina falhou. Esperou que a doente adormecesse, mas, mal tinha acabado de subir para a cadeira, a paciente acordou.

— Oh! Olá, Menina Boardman. Jill ficou petrificada.

— Olá, Sra. Fritschlie — conseguiu responder. Fez uma boa sesta?

— Assim-assim — respondeu a mulher de mau humor. — Doem-me as costas.

— Eu dou-lhe uma massagem.

— Não vale a pena. Porque é que está sempre a remexer no meu armário? Passa-se alguma coisa?

Jill tentou acalmar o estômago.

— Ratos — respondeu.

— Ratos? Tenho de mudar de quarto!

Jill apanhou precipitadamente o instrumento solto e meteu-o no bolso, depois saltou para o chão.

— Ora, ora, Sra. Fritschlie... estava apenas a ver se havia buracos de ratos. Não há.

— Tem a certeza?

— Toda a certeza. Agora vamos dar uma massagem nas costas. Va­mos lá.

Jill decidiu arriscar o quarto vazio que fazia parte da suíte K-12, onde estava o homem de Marte. Foi buscar a chave-mestra.

No entanto encontrou o quarto sem estar fechado à chave e com mais dois fuzileiros; a guarda tinha sido dobrada. Um deles olhou assim que ela abriu a porta.

— Procura alguma coisa?

— Não. Não se sentem na cama, rapazes — disse rudemente. — Se Precisam de cadeiras, nós mandamos buscá-las.

O guarda levantou-se relutantemente; ela saiu, tentando esconder que tremia.

O besouro estava ainda no seu bolso quando largou o serviço; decidiu devolvê-lo a Caxton. Uma vez no ar e em direcção ao apartamento de Ben, conseguiu respirar mais facilmente. Telefonou-lhe durante o vôo.

— Fala Caxton.

— Ben? Daqui Jill. Quero ver-te. Ele respondeu lentamente:

— Não acho que isso seja prudente.

— Ben, tenho de te ver. Vou a caminho.

— Bom, está bem, se tem de ser.

— Que entusiasmo!

— Ora, querida, não é que eu...

— Adeus! — Ela desligou, acalmou-se e decidiu não descarregar sobre Ben; tinham de ir até ao fim da sua aliança. Pelo menos ela estava... ela devia era ter deixado a política em paz.

Sentiu-se melhor quando se aninhou nos braços de Ben. Ele era tão querido... talvez devesse casar com ele. Quando tentou falar, ele tapou-lhe a boca e murmurou:

— Não fales. Posso estar a ser gravado.

Ela acenou com a cabeça em sinal de assentimento, pegou no gravador e entregou-lho. As suas sobrancelhas ergueram-se mas não fez comentários. ' Em vez de o fazer, deu-lhe uma cópia da edição da tarde do jornal Post.

— Viste o jornal? — disse com uma voz natural. — Podes dar-lhe uma vista de olhos enquanto eu me lavo.

— Obrigado. — Assim que ela lhe pegou, ele apontou-lhe uma coluna, depois saiu, levando com ele o gravador. A coluna era a do próprio Ben.

 

O NINHO DE CORVOS por Ben Caxton

Toda a gente sabe que as cadeias e os hospitais têm uma coisa em comum: pode tornar-se muito difícil sair de lá. De certo modo, um prisioneiro é mais livre que um paciente; um prisioneiro pode mandar chamar o seu advogado, pedir uma testemunha, invocar o hábeas corpus e exigir que o seu carcereiro se justifique em tribunal aberto.

Mas um simples letreiro com os dizeres não são permitidas visitas, mandado afixar por um dos homens-medicina da nossa peculiar tribo, é suficiente para votar um doente de hospital ao esquecimento mais completamente do que aquilo que se passou com o Homem da Máscara de Ferro.

Para ser mais preciso, os parentes mais próximos do doente não podem ser afastados — mas o Homem de Marte parece não possuir parentes próximos. A tripulação da infortunada Envoy tinha poucos laços na Terra; se o Homem da Máscara de Ferro — perdoem-me; quero dizer, o Homem de Marte — tem qualquer parente zelando pelos seus interesses, alguns milhares de repórteres têm sido incapa­zes de o verificar.

Quem fala pelo Homem de Marte? Quem é que ordenou uma guarda armada à sua volta? Qual é a sua terrível doença para que ninguém o possa ver, nem sequer fazer-lhe uma pergunta? Dirijo-me a si, Sr. Secretário-Geral; a explicação sobre fadiga de aceleração e fraqueza física não chega; se isso fosse uma resposta, uma enfermeira vulgar serviria tão bem como uma guarda armada.

Será que essa doença é de natureza financeira? Ou (digamos mais suavemente) de natureza política?

O artigo continuava no mesmo estilo: Jill podia ver que Ben combatia a Administração, tentando forçá-la a uma abertura. Sentia que Caxton estava a arriscar-se seriamente ao hostilizar as autoridades, mas não tinha noção do alcance do perigo, nem quais as formas de que esse perigo se podia revestir.

 

Deu uma vista de olhos pelo jornal. Estava cheio de histórias sobre a Champion, de fotografias do secretário-geral a colocar medalhas, de entrevistas com o capitão Van Tromp e com a sua corajosa tripulação, de fotografias de marcianos e de cidades marcianas. Havia pouca coisa acerca de Smith, somente um boletim que dizia que ele estava a recuperar lentamente dos efeitos da viagem.

Bem entrou e deixou cair no seu colo algumas folhas de papel muito fino.

— Toma outro jornal. — Tornou a sair.

Jill viu que o «jornal» era uma transcrição daquilo que a sua primeira gravação tinha recolhido. Estava marcado Primeira Voz, Segunda Voz, etc., mas Ben escrevera nomes sempre que tinha sido capaz de identificar as vozes. Escrevera no cimo da folha: «Todas as vozes são masculinas.»

A maior parte das conversas apenas mostravam que Smith tinha sido alimentado, lavado, massageado, e que tinha feito exercício sob a vigilância de uma voz identificada como «Dr. Nelson» e de outra marcada com «Segundo Médico».

Mas uma das passagens não tinha nada a ver com o tratamento do paciente. Jill releu-a:

Dr. Nelson: Como é que se sente, rapaz? Suficientemente forte para falar?

Smith: Sim.

Dr. Nelson: Um homem quer falar consigo.

Smith: (pausa) Quem? [Caxton escrevera: Todas as falas de Smith são precedidas por pausas.]

Nelson: Este homem é o nosso grande (palavra gutural intradu­zível — marciano?). Ele é o nosso Velho mais Velho. Vai falar com ele?

Smith: (pausa muito longa) Estou muito feliz. O Velho falará e eu ouvirei e aprenderei.

Nelson: Não, não! Ele quer fazer-lhe perguntas.

Smith: Eu não posso ensinar um Velho.

Nelson: O Velho deseja-o. Deixa que ele lhe faça perguntas?

Smith: Sim.

(Vozes de fundo.)

Nelson: Por aqui, senhor. O Dr. Mahmoud traduz.

Jill leu «Nova voz». Caxton riscara isto e escrevera em seu lugar: «Secretário-geral Douglas!!!»

Secretário-geral: Não preciso dele. Você diz que Smith percebe inglês.

Nelson: Bem, percebe e não percebe, Excelência. Sabe umas quantas palavras, mas, como diz o Dr. Mahmoud, falta-lhe o contexto cultural para saber como usá-las. Pode ser confuso.

Secretário-geral: Oh, eu me desenvencilho, tenho a certeza. Quando eu era rapaz viajei à boleia por todo o Brasil sem saber uma palavra de português, quando comecei. Agora, se não se importa, apresente-nos... depois deixe-nos a sós.

Nelson: Senhor? É melhor eu ficar com o meu doente.

Secretário-geral: A sério, doutor? Receio que tenha de insistir. Desculpe.

Nelson: E eu receio que também tenha de insistir. Desculpe, senhor. Ética médica...

Secretário-geral: (interrompendo) Como advogado, conheço al­guma coisa da jurisprudência médica; portanto, não me venha ensinar essa disparatada «ética médica». Este paciente escolheu-o?

Nelson: Não exatamente, senhor, mas...

Secretário-geral: Ele teve oportunidade para escolher médicos? Duvido. O seu estado é da competência do Estado. Eu estou a atuar como parente mais próximo, de fato... e concordará que de direito também. Desejo falar com ele a sós.

Nelson: (longa pausa, depois com firmeza de voz) Se põe as coisas desse modo, Excelência, retiro-me do caso.

Secretário-geral: Não tome isto desse modo, doutor. Não estou a pôr em causa o seu tratamento. Mas você não tentaria impedir uma mãe de ver o seu filho a sós, tentaria? Tem medo que eu lhe faça mal?

Nelson: Não, mas...

Secretário-geral: Então qual é a sua objeção? Vamos, apresente-nos e vamos acabar com isto. Esta agitação pode prejudicar o seu doente.

Nelson: Excelência, eu apresento-o. Depois tem de escolher um outro médico para o seu... protegido.

Secretário-geral: Lamento, doutor. Realmente lamento-o. Não posso tomar isso como definitivo... discutiremos esse assunto mais tarde. Agora, se me dá licença...?

Nelson: Venha até aqui, senhor. Filho, é este o homem que o quer ver, o nosso Velho mais Velho.

Smith: (intraduzível).

Secretário-geral: Que é que ele disse?

Nelson: Uma saudação respeitosa. Mahmoud diz que a sua tradução é a seguinte: «Sou apenas um ovo.» Mais ou menos isso, de qualquer modo. É uma expressão amigável. Filho, fala a fala dos homens.

Smith: Sim.

Nelson: É melhor usar palavras simples, se lhe posso dar um último conselho.

Secretário-geral: Oh, usarei.

Nelson: Adeus, Excelência, Adeus, filho.

Secretário-geral: Obrigado, doutor. Até logo.

Secretário-geral: (continuou) Como é que te sentes?

Smith: Sinto-me bem.

Secretário-geral: Ótimo. Se quiseres qualquer coisa, basta pedir. Queremos que estejas feliz. Agora quero que faças uma coisa por mim. Sabes escrever?

Smith: «Escrever»? Que é «escrever»?

Secretário-geral: Bem, a tua impressão digital é suficiente. Quero ler-te um papel. Este papel contém muita linguagem judicial, mas, resumindo-o de um modo simples, o que diz é que tu concordas em que, a partir do momento em que deixaste Marte, concordas em abandonar... quero dizer, em desistir... de todo e qualquer direito que aí possas ter. Compreendes-me? Concedes esses direitos ao Governo em forma de trust.

Smith: (não responde).

Secretário-geral: Bem, vamos pôr as coisas deste modo. Tu não possuis Marte, pois não?

Smith: (longa pausa) Não compreendo.

Secretário-geral: Hum... vamos tentar outra vez. Queres ficar aqui, não queres?

Smith: Não sei. Fui enviado pelos Velhos. (Longo discurso intraduzível, sons que lembram uma rã a lutar com um gato.)

Secretário-geral: Com os diabos! Deviam ter-lhe ensinado mais inglês. Olha, filho, não precisas de te preocupar. Deixa-me apenas pôr o teu dedo no fim desta página. Dá-me a tua mão direita. Não, não te contorças dessa maneira. Está quieto! Não te vou magoar... Doutor! Doutor Nelson!

Segundo Médico: Diga, senhor?

Secretário-geral: Vá buscar o Dr. Nelson.

Segundo Médico: O Dr. Nelson? Mas ele foi-se embora, senhor. Disse que o tinha retirado do caso.

Secretário-geral: Nelson disse isso? Diabos o levem! Bem, faça alguma coisa. Dê-lhe respiração artificial. Dê-lhe uma injeção. Não fique aí parado... não vê que este homem está a morrer?

Segundo Médico: Acho que não se pode fazer nada, senhor. Apenas deixá-lo sozinho até ele sair da crise. Foi isso que o Dr. Nelson sempre fez.

Secretário-geral: Maldito Dr. Nelson!

A voz do secretário-geral não voltou a aparecer, nem a do Dr. Nelson. Jill pôde deduzir, daquilo que ouvira dizer, que Smith entrara num dos seus estados catalépticos. Havia mais dois registros. Num deles lia-se: «Escusa de falar baixo. Ele não o pode ouvir.» No outro lia-se: «Leve esse tabuleiro. Alimentamo-lo quando ele sair da crise.»

Jill relia o papel quando Ben entrou. Tinha mais folhas de papel mas não lhas deu; em vez de o fazer, disse:

— Estás com fome?

— Esfomeada!

— Vamos matar uma vaca!

Ben não disse uma palavra durante o caminho até ao telhado para irem apanhar um táxi, e continuou calado durante o vôo até à plataforma de Alexandria, onde mudaram de táxi. Ben escolheu um com a matricula de Baltimore. Uma vez no ar dirigiu-o para Hagerstown, em Maryland, depois relaxou-se.

— Agora podemos falar.

— Ben, porquê todo este mistério?

— Desculpa, pezinhos lindos. Não sei se o meu apartamento está sob escutas. Se eu o posso fazer a eles, eles podem fazer o mesmo a mim. Do mesmo modo, embora não seja provável que um táxi chamado do meu apartamento tenha um microfone dentro dele, apesar disso, pode ter; as brigadas do Serviço Especial são minuciosas. Mas este táxi... — Ben bateu com a mão nos estofos do carro. — Eles não podem pôr microfones em milhares de táxis. Um escolhido ao acaso deve ser seguro.

Jill tremeu.

— Ben, não pensas que eles... — Jill deixou morrer a frase.

— Ai não que não penso! Les-te a minha coluna. Registrei aquela cópia há nove horas. Achas que a Administração me deixava dar-lhe um pontapé no estômago sem ripostar?

— Mas tu estiveste sempre contra esta Administração.

— Está bem. Mas isto é diferente. Acusei-os de manterem detido um prisioneiro político. Jill, um governo é um organismo vivo. Como todas as coisas com vida, a sua primeira característica é o instinto de sobrevivência. Tu atinge-la, e ela responde. Desta vez, atingi-a de verdade. — Acres­centou: — Mas não te devia ter envolvido.

— Não tenho medo. Não tenho desde que te entreguei aquela engenhoca.

— Estás associada comigo. Se as coisas ficarem feias, isso é suficiente.

Jill calou-se. Para quem nunca experimentara nada pior que uma tareia enquanto criança, e ocasionalmente palavras desagradáveis depois de adulta, a noção de que podia estar em perigo era difícil de aceitar. Como enfermeira, tinha visto as conseqüências da violência — mas isso não podia acontecer com ela.

O táxi estava a dar voltas para aterrar quando ela quebrou o silêncio.

— Ben? Supõe que este doente morre. Que é que acontece?

— Hã? — Ele franziu o sobrolho. — É uma boa pergunta. Se não há mais perguntas, a aula está acabada.

— Não te armes em engraçado.

— Hum... Jill, passei noites em claro a tentar encontrar uma resposta para isso. Eis as melhores que encontrei: se Smith morrer, os seus direitos sobre Marte desaparecem. Provavelmente o grupo que a Champion deixou em Marte reivindicará novos direitos... e é quase certo que a Administração elaborou um contrato antes da sua partida da Terra. A Champion é uma nave da Federação, mas é possível que esse tal acordo deixe todas as decisões nas mãos do secretário-geral Douglas. Isso poderia mantê-lo no poder por muito tempo. Por outro lado, pode não significar absolutamente nada.

— Hã? Porquê?

— A Decisão Larkin pode não se aplicar. A Lua não era habitada, mas Marte é: pelos Marcianos. Neste momento os Marcianos são um zero legal. Mas o Supremo Tribunal pode ter em conta a situação política e decidir que a ocupação humana não significa nada num planeta habitado por não humanos. Então, os direitos sobre Marte teriam de ser atribuídos aos Marcianos.

— Mas, Ben, de qualquer modo seria esse o caso. Esta noção de que um único homem é dono de um planeta... é fantástica!

— Não uses essa palavra com um advogado; preocupar-se com ninharias e com casos fantásticos é um curso muito necessário nas escolas de Direito. Além disso existe um precedente. No século XV o papa decidiu doar por escritura o hemisfério ocidental à Espanha e a Portugal e ninguém se importou com o fato de o território real estar ocupado por índios com as suas próprias leis, costumes e direitos de propriedade. A sua concessão foi também efectiva. Olha para um mapa e observa onde é que se fala português e espanhol.

— Sim, mas... Ben, não estamos no século XV.

— Para um advogado, estamos. Jill, se o Supremo Tribunal decidir que a Decisão Larkin se aplica, Smith está em posição de conceder concessões que podem valer milhões, ou talvez bilhões. Se ele conceder os seus direitos à Administração, então o secretário-geral Douglas controla a parte de leão.

— Ben, porque é que alguém haveria de querer tanto poder?

— Porque é que uma borboleta noturna voa em direção à luz? Mas as possessões financeiras de Smith são quase tão importantes como a sua posição de rei-imperador de Marte. O Supremo Tribunal pode anular os seus direitos de usurpador, mas duvido que alguma coisa possa abalar a sua possessão da Propulsão Lyle e de uma grande parte da Empresa Lunar. Que acontece se ele morrer? Um milhar de possíveis primos apareceriam com certeza, mas a Fundação da Ciência tem afastado durante anos muitos desses parasitas ávidos de dinheiro.

Parece possível que, se Smith morrer sem deixar testamento, a sua fortuna reverta a favor do Estado.

— Queres dizer para a Federação ou para os Estados Unidos?

— Essa é outra pergunta para a qual não tenho resposta. Os seus pais são de dois países da Federação e ele nasceu fora de qualquer deles... e, para algumas pessoas, fará uma diferença crucial quem aprova esses valores e quem autoriza essas patentes. Não será Smith; ele não distinguiria uma procuração de um bilhete de trânsito. É provável que seja quem o agarrar primeiro e o mantiver junto de si. Duvido que a companhia de seguros Lloyd's segurasse a sua vida.

— Pobre bebê! Pobre, pobre criança!

O restaurante em Hagerstown tinha «ambiente»: mesas espalhadas num relvado que conduzia a um lago e mais mesas nos ramos de três enormes árvores. Jill queria comer numa árvore, mas Ben subornou o chefe de mesa para que este pusesse uma mesa perto da água, depois pediu que colocassem uma cabina estereofônica junto dela.

Jill ficou zangada.

— Ben, para quê pagar estes preços, se não podemos comer nas árvores e temos de suportar esta horrível caixa falante?

— Paciência, pequenina. As mesas nas árvores têm microfones; têm de os ter para o serviço. Esta mesa não está sob escuta, espero!, pois vi o criado tirá-la de uma pilha. Quanto à cabina, não só é anti-americano comer sem estéreo, como também o barulho interfere com um microfone direcional... se os investigadores do Sr. Douglas estiverem interessados na nossa conversa.

— Pensas realmente que eles nos andam a seguir, Ben? — Jill estremeceu. Não sou feita para uma vida de crime.

— Que impaciência! Quando estava a trabalhar no escândalo da General Sinthetics, nunca dormi duas vezes no mesmo lugar e apenas comi comida embalada. Habituas-te a gostar disso: estimula o metabolismo.

— O meu metabolismo não precisa disso. Tudo o que eu pretendo é um paciente de uma certa idade e rico.

— Não vais casar comigo, Jill?

— Depois de o meu futuro marido esticar o pernil, sim. Ou então talvez seja tão rica que te poderei manter como favorito.

— E que tal se começássemos esta noite?

— Depois de ele esticar o pernil.

Durante o jantar, o show musical que tinha estado a martelar nos seus ouvidos parou. A cabeça de um anunciante encheu a tela; sorriu e disse:

— NWNW. New World Network e o seu patrocinador, Pastilhas Malthusianas Wise Girl, têm a honra de ceder o seu tempo para uma história radiodifundida pelo Governo da Federação. Lembrem-se, amigos, toda a rapariga sensata usa Wise Girl. Fácil de transportar, agradável ao tacto, resultados garantidos, e aprovado para venda pela Lei 1312. Por quê arriscar métodos antiquados, inestéticos, perigosos e falíveis? Porquê arriscar-se a perder o seu amor e respeito? O atraente anunciante olhou para o lado e apressou o anúncio: — Dou-lhes Wise Girl, que em troca vos traz o secretário-geral!

A tela do canal 3-D mostrou então uma jovem, tão sensual, tão feminina, tão sedutora, que faria qualquer homem sentir-se insatisfeito com os talentos locais. Ela espreguiçou-se, meneou-se e disse com uma voz ensonada:

— Eu uso sempre Wise Girl.

A imagem desvaneceu-se para dar lugar a uma orquestra que tocava o Hino à Paz Soberana. Ben perguntou:

—   Usas Wise Girl?

— Não é da tua conta! — Jill ficou perturbada e acrescentou: — Isso não passa de banha de cobra. De qualquer maneira, que é que te faz pensar que preciso disso?

Caxton não respondeu; a cabina enchera-se com as feições paternais do secretário-geral Douglas.

— Amigos — começou —, cidadãos da Federação, tenho esta noite uma honra e um privilégio únicos. Desde a triunfante chegada na nossa pioneira Champion...

Ele continuou a congratular os cidadãos da Terra pelo seu triunfante contacto com outro planeta, com outra raça. Conseguiu dar a entender que o feito fora conseguido por cada cidadão, que qualquer deles podia ter comandado a expedição, se não estivesse ocupado com outro trabalho importante — e ele, secretário Douglas, tinha sido o seu humilde instru­mento para fazer cumprir a sua vontade. Tudo o que ele dizia era dito de uma maneira suave, querendo demonstrar que todo o homem comum era igual a qualquer outro e melhor que a maior parte deles — e o bom e velho Joe Douglas encarnava o homem comum. Até a sua gravata amarrotada e o seu corte de cabelo tinham características e a mesma qualidade do «homem vulgar».

Ben Caxton pensou em quem teria escrito o discurso. Provavelmente Jim Sanforth: Jim era, de todos os que trabalhavam para Douglas, aquele que possuía o toque mais habilidoso para selecionar adjetivos carregados de significado que acalmavam e agradavam; escrevera anúncios comerciais antes de enveredar pela carreira política e não tinha compunções. Sim, aquele excerto sobre «a mão que embala o berço» era trabalho de Jim: ele era o tipo de homem capaz de seduzir uma rapariginha com rebuçados.

— Desliga isso! — pediu Jill.

— Está calada, pezinhos delicados. Tenho de ouvir isto.

— ... e assim, amigos, tenho a honra de trazer até vós o nosso amigo cidadão Valentine Michael Smith, o Homem de Marte! Mike, sabemos que estás cansado e que não tens passado bem... mas és capaz de dizer algumas palavras aos nossos amigos?

A tela apresentou então um plano de um homem numa cadeira de rodas. Pairando sobre ele estava Douglas e do outro lado estava uma enfermeira, muito direita, empertigada e fotogênica.

Jill sobressaltou-se. Ben murmurou:

— Está calada!

O rosto infantil e calmo do homem da cadeira de rodas mostrou um tímido sorriso; olhou para a câmara e disse:

— Olá, amigos. Desculpem-me por estar sentado. Ainda estou fraco. — Parecia falar com dificuldade e logo a enfermeira lhe tomou o pulso.

Ao responder às perguntas de Douglas apresentou cumprimentos ao capitão Van Tromp e à sua tripulação, agradeceu a toda a gente o seu salvamento, e disse que todos em Marte estavam muito excitados com o contacto com a Terra, e que esperava poder ajudar no estabelecimento de relações amigáveis entre os dois planetas. A enfermeira interrompeu, mas Douglas disse gentilmente:

— Mike, sentes-te suficientemente forte para mais uma pergunta?

— Com certeza, Sr. Douglas... se for capaz de responder.

— Mike... que é que achas das raparigas aqui da Terra?

— Uau!

O rosto infantil pareceu aterrorizado e extático e ficou cor-de-rosa. A imagem mudou para a cabeça e os ombros do secretário-geral.

— Mike pediu-me para lhes dizer — prosseguiu no seu tom paternal — que voltaria aqui assim que pudesse. Ele tem de exercitar os seus músculos, sabem. Possivelmente na próxima semana, se os médicos disserem que ele está suficientemente forte.

A imagem tornou a apresentar as pastilhas Wise Girl e um pequeno filme tornou claro que uma rapariga que não as usasse era completamente louca; os homens atravessariam para o outro lado da rua para a evitar. Ben mudou de canal, depois voltou-se para Jill e disse de mau humor:

— Bem, posso rasgar o meu artigo de amanhã. Douglas o têm sob a sua alçada.

— Ben!

— Hã?

— Não é o Homem de Marte!

— O quê? Querida, tens a certeza?

— Oh, era parecido com ele. Mas não era o doente que eu vi naquele quarto guardado.

Ben apontou diversas pessoas que tinham visto Smith: guardas, internos, enfermeiros, o capitão e a tripulação da Champion, e provavelmente outros. Muitos deles deviam ter visto a transmissão: a Administração teria de contar com o fato de que alguns deles dariam pela substituição — um risco demasiado grande.

Jill simplesmente esticou o seu lábio inferior e insistiu: a pessoa da cabina não era o doente que ela conhecera. Finalmente disse, zangada:

— Seja como quiseres. Homens!

— Ora, Jill...

— Leva-me a casa, por favor.

Ben foi buscar um táxi. Não pediu um do restaurante: escolheu um da plataforma de aterragem de um hotel do outro lado da estrada. Jill permaneceu silenciosa no voo de regresso. Ben pegou nas transcrições e releu-as. Pensou durante um certo tempo e disse:

— Jill?

— Sim, Sr. Caxton?

— Vou passar a tratar-te por Sua Excelência! Ouve, Jill, peço desculpa. Estava enganado.

— E que é que te leva a essa conclusão? Bateu com as folhas contra a palma da mão.

— Isto. Smith não podia ter mostrado este comportamento ontem e depois ter dado tal entrevista esta noite. Ter-lhe-ia feito saltar os fusíveis... fá-lo-ia entrar num daqueles estados de transe.

— Estou agradecida por finalmente teres conseguido ver aquilo que era óbvio.

— Jill, queres fazer o favor de me dar um pontapé gentilmente para depois ficares de bem comigo? Sabes o que isto quer dizer?

— Quer dizer que eles usaram um ator para o imitar. Disse-te isso há uma hora atrás.

— Claro. Um ator e um dos bons, cuidadosamente caracterizado e treinado. Mas implica mais do que isso. Tal como eu o vejo, existem duas possibilidades. A primeira é que Smith está morto e...

— Morto! — Jill pensou subitamente naquela cerimônia do beber da água e sentiu a sensibilidade estranha, quente e pura da personalidade de Smith, e sentiu-a com uma pena insuportável.

— Talvez. Nesse caso o sósia permanecerá «vivo» enquanto precisarem dele. Depois o sósia «morrerá» e eles pô-lo-ão fora da cidade com uma ordem hipnótica tão forte que sufocaria de asma se tentasse revelar o segredo... ou talvez até uma lobotomia. Mas, se Smith estiver morto, podemos esquecer tudo; nunca conseguiremos provar a verdade. Portanto vamos supor que ele está vivo.

— Oh, espero que esteja!

— Que é Hécuba para ti, ou tu para Hécuba? — citou Caxton erradamente. — Se ele está vivo, pode não haver nada de sinistro em tudo isto. Afinal, as figuras públicas usam duplos. Talvez dentro de duas ou três semanas o nosso amigo Smith esteja em forma para agüentar a tensão de um aparecimento em público, então eles exibi-lo-ão. Mas duvido muito disso!

— Por quê?

— Usa a cabeça. Douglas já falhou uma tentativa para levar Smith a fazer o que ele quer. Mas Douglas não pode falhar. Portanto penso que ele enterrará Smith o mais fundo possível... e nós nunca veremos o verdadeiro Homem de Marte.

— Assassiná-lo? — disse Jill lentamente.

— Para quê ser violento? Encerra-o numa clínica privada e não o deixa aprender nada.

— Oh, coitado! Ben, que é que vais fazer? Caxton carregou o sobrolho.

— Eles têm a faca e o queijo na mão e são eles que fazem as leis. Mas vou entrar lá dentro com uma testemunha e um robusto advogado e pedir para ver Smith. Talvez possa fazer luz sobre o assunto.

— Estarei logo atrás de ti!

— Não vais estar em lado nenhum. Tal como tu o disseste, isso arruinar-te-ia profissionalmente.

— Mas tu precisas de mim para o identificar.

— Frente a frente, sou capaz de distinguir um homem que foi educado por não humanos de um ator pretendendo sê-lo. Mas se algo correr mal tu és o meu trunfo escondido: uma pessoa que sabe que eles estão a fazer trapaça e que tem acesso ao interior do Centro Médico de Bethesda. Querida, se não ouvires falar de mim, fazes o que achares melhor.

— Ben, eles não te fariam mal?

— Estou a lutar contra um gigante, rapariga.

— Ben, não gosto disto. Ouve, se conseguires vê-lo, que farás em seguida?

— Perguntar-lhe-ei se ele quer deixar o hospital. Se ele disser que sim, convido-o para vir comigo. Na presença de uma testemunha eles não se atreverão a detê-lo.

— Hum... e depois? Ele necessita de cuidados médicos, Ben; não é capaz de cuidar de si próprio.

Caxton tornou a carregar o sobrolho.

— Tenho andado a pensar nisso. Eu não posso servir de enfermeiro. Podemos pô-lo no meu apartamento...

—   ... e eu posso cuidar dele. Bom, faz isso, Ben!

— Mais devagar! Douglas ainda tiraria algum coelho do seu chapéu e Smith voltaria para o cubículo. E o mesmo se passaria conosco, provavel­mente. — Ben franziu as sobrancelhas. — Conheço um homem que pode consegui-lo.

— Quem?

— Já ouviste falar de Jubal Harshaw?

— Hã? Quem é que não ouviu?

— Essa é uma das vantagens dele; toda a gente sabe quem ele é. O que torna mais difícil afastá-lo. Sendo ao mesmo tempo médico e advogado é três vezes mais difícil afastá-lo. Mas, mais importante do que isso, ele é tão obstinado e individualista que lutaria contra a Federação inteira apenas com uma navalha no bolso, se isso lhe trouxesse algum proveito... e isso torna-o oito vezes mais difícil. Conheci-o durante os julgamentos de deslealdade; é um amigo, posso contar com isso. Se conseguir tirar Smith de Bethesda, levá-lo-ei para a casa de Harshaw, em Poconos... e então deixa só esses brutos tentarem apanhá-lo! Com a minha coluna e o amor de Harshaw por uma boa luta, vamos fazê-los passar um mau bocado.

Apesar de se ter deitado tarde, Jill tomou o seu lugar como enfermeira de bloco dez minutos mais cedo. Tencionava obedecer às ordens de Ben e não tentar ver o Homem de Marte, mas planejou ficar por perto. Ben podia precisar de reforços.

Não havia guardas no corredor. Tabuleiros, medicamentos e dois doentes para serem operados mantiveram-na ocupada durante duas horas; teve apenas tempo para verificar a porta da suíte K-12. Estava fechada, assim como a porta da sala de estar. Pensou em entrar através da porta da sala de estar, agora que os guardas se tinham ido embora, mas teve de adiar a visita: estava ocupada. Contudo manteve-se atenta a todas as pessoas que vinham ao seu andar.

Ben não apareceu e, através de perguntas discretas feitas à sua assistente no quadro de distribuição, obteve a certeza de que nem Ben nem qualquer outra pessoa tinha entrado na suíte K-12 enquanto Jill estivera noutro lado. Ficou confusa; Ben não marcara uma hora, mas tencionara atacar subita­mente a cidadela de manhã cedo.

No momento apenas lhe restava investigar. Durante um momento de descanso bateu à porta da sala de observações, meteu a cabeça por entre a porta e fingiu ficar surpreendida.

— Oh! Bom dia, doutor. Pensava que o Dr. Frame estivesse aqui;

O médico sentado na secretária de observação sorriu enquanto a mirava de alto a baixo.

— Não o vi, enfermeira. Sou o Dr. Brush. Posso ajudar? Ao ver a reação tipicamente masculina, Jill acalmou-se.

— Nada de especial. Que tal está o Homem de Marte?

— Hã? Ela sorriu.

— Não é segredo para o pessoal, doutor. O seu paciente... indicou a

porta interior.

— O quê? — Parecia surpreendido. — Eles têm-no aqui?

— Ele não está aqui agora?

— Claro que não. Quem ali está é a Sra. Rose Bankerson, a doente do Dr. Garner. Trouxemo-la esta manhã muito cedo.

— Verdade? Que aconteceu ao Homem de Marte?

— Não faço a menor idéia. Diga-me, foi realmente por um triz que eu não vi Valentine Smith?

— Ontem estava aqui.

— Há pessoas com muita sorte. Veja o que eu tenho aqui. — Ligou o receptor interno que estava por cima da sua secretária; Jill viu uma cama hidráulica; flutuando dentro dela estava uma minúscula mulher.

— Que é que ela tem?

— Hum... Enfermeira, se ela não tivesse dinheiro para queimar, poder-lhe-ia chamar demência senil. Como tem, está aqui para descansar e para um exame completo.

Jill conversou sobre banalidades, depois fingiu ver uma luz de chamada. Foi até à sua secretária, tirou para fora o livro de registos — sim, estava lá: V. M. Smith, K-12 — transferido. Por baixo estava: Rose S. Bankerson (Sra.) — K-12 (dieta prescrita pelo Dr. Garner— sem instruções).

Porque é que tinham transferido Smith de noite? Para evitar mirones, provavelmente. Mas para onde é que o teriam levado? Numa situação habitual, ela teria ligado para a Recepção, mas as opiniões de Ben mais a transmissão estereofônica tinham-na tornado insegura; decidiu esperar e ver o que podia saber através das conversas de corredor.

Mas, primeiro, Jill foi à cabina pública do seu andar e telefonou a Ben. Do seu escritório disseram-lhe que o Sr. Caxton tinha deixado a cidade. Ficou sem voz — depois acalmou-se e deixou recado para que Ben lhe telefonasse.

Telefonou para o seu apartamento. Não estava lá; deixou gravada a mesma mensagem.

Ben Caxton não perdera tempo. Assegurou os serviços de James Oliver Cavendish. Embora qualquer testemunha servisse, o prestígio de Cavendish era tal que um advogado quase não era necessário — o velho senhor testemunhara muitas vezes no Supremo Tribunal e dizia-se que os testa­mentos fechados dentro da sua cabeça representavam milhões. Cavendish tinha recebido a sua instrução do célebre Dr. Samuel Renshaw e a sua aprendizagem hipnótica como membro da Fundação Rhine. Os seus honorá­rios por um dia eram maiores que o ordenado de Ben numa semana, mas Ben esperava obter o dinheiro do Sindicato do Post — pois o melhor não era bom de mais para o seu trabalho.

Caxton foi buscar o Frisby júnior de Biddle, Frisby, Frisby, Biddle & Reed, depois telefonaram para a testemunha Cavendish. A magra figura do Sr. Cavendish, envolto na capa branca própria da sua profissão, recordou a Ben o Estatuto da Liberdade — e quase foi conspícuo. Ben explicara a Mark Frisby o que tencionava tentar (e Frisby sublinhara que ele não tinha direitos) antes de terem telefonado para Cavendish; uma vez na presença da testemunha conformaram-se com o protocolo e não discutiram aquilo que ele ia ver e ouvir.

O táxi deixou-os no Centro Bethesda; foram ao gabinete do diretor. Ben entregou o seu cartão e pediu para ver o diretor.

Uma mulher arrogante perguntou se ele tinha entrevista marcada. Ben admitiu que não tinha.

— Então as suas hipóteses de ver o Dr. Broemer são quase nulas. Quer dizer-me qual é o assunto?

— Diga-lhe — disse Caxton em voz alta, de modo a que as pessoas que passavam pudessem ouvir — que Caxton, do Ninho de Corvos, está aqui com um advogado e com uma testemunha para entrevistar Valentine Michael Smith, o Homem de Marte.

Ela ficou surpreendida, mas recompôs-se e disse glacialmente:

— Vou informá-lo. Queiram sentar-se, por favor.

— Obrigado, esperamos aqui.

Frisby tirou um cigarro, Cavendish esperava com a calma daqueles que já viram todas as formas do mal e do bem, Caxton estava nervoso. Finalmente a rainha de neve anunciou:

— O Sr. Berquist vai recebê-los.

— Berquist? Gil Berquist?

— Acho que o seu nome é Sr. Gilbert Berquist.

Caxton pensou nesse nome — Gil Berquist fazia parte do pelotão de «assistentes executivos» de Douglas.

— Eu não quero Berquist; quero o director.

Mas Berquist já vinha na sua direção, de mão estendida e com um grande sorriso de acolhimento no rosto.

— Benny Caxton! Como é que estás, pá? Ainda continuas a vender as mesmas tretas de sempre? — Olhou para a testemunha.

— As mesmas tretas. Que é que estás aqui a fazer, Gil?

— Se alguma vez conseguir sair do serviço público vou também arranjar uma coluna num jornal: telefono a minha crônica com um milhar de palavras acerca de boatos e descanso o resto do dia. Invejo-te, Ben.

— Eu perguntei: «Que é que estás aqui a fazer, Gil?» Quero ver o diretor, e depois ver o Homem de Marte. Não vim aqui para te ouvir a dizer baboseiras.

— Ora, Ben, não tomes essa atitude. Estou aqui porque o Dr. Broemer tem andado de cabeça perdida por causa da imprensa; assim, o secretário-geral mandou-me para carregar com o fardo.

— Está bem. Eu quero ver Smith.

— Ben, velho amigo, todos os repórteres, correspondentes, escritores, comentadores, jornalistas independentes e até aquelas mulheres que escre­vem histórias sentimentais para os jornais querem a mesma coisa que tu. Polly Peepers esteve aqui há vinte minutos atrás. Ela queria entrevistá-lo sobre a vida amorosa entre os Marcianos. — Berquist levantou ambas as mãos.

— Eu quero ver Smith. Posso ou não posso?

— Ben, vamos até um lugar onde possamos conversar com uma bebida à frente. Podes perguntar-me o que quiseres.

Não te quero perguntar nada; quero ver Smith. Este é o meu advogado, Mark Frisby. — Tal como era costume, Ben não apresentou a testemunha.

— Já nos conhecemos. — Berquist cumprimentou. — Como está o seu pai, Mark? Está melhor da sinusite?

— Mais ou menos na mesma.

— Este horrível clima. Vamos, Ben. Você também, Mark.

— Agüenta aí — disse Caxton. — Quero ver Valentine Michael Smith. Represento o Sindicato do Post e indiretamente represento duzentos milhões de leitores. Posso vê-lo? Se não posso, diz isso em voz alta e declara qual é a tua autoridade legal para o recusares.

Berquist suspirou.

— Mark, és capaz de dizer a este historiador de buraco de fechadura que ele não pode irromper no quarto de um homem doente? Smith apareceu publicamente ontem à noite... contra o conselho do seu médico. O homem quer é paz e sossego e uma oportunidade para refazer as suas forças.

— Correm por aí boatos — declarou Caxton — que dizem que o aparecimento de ontem à noite foi uma farsa.

Berquist parou de sorrir.

— Frisby — disse friamente — quer avisar o seu cliente no que diz respeito à difamação?

— Calma, Ben.

— Conheço a lei da difamação, Gil. Mas quem é que eu estou a difamar? O Homem de Marte? Ou outra pessoa qualquer? Menciona um nome. Repito — prosseguiu, levantando a voz — que eu ouvi dizer que o homem entrevistado ontem à noite no canal 3-D não era o Homem de Marte. Quero vê-lo e perguntar-lho.

A sala de recepção, cheia de gente, estava muito silenciosa. Berquist olhou para a testemunha, depois dominou a sua expressão e disse, sorrindo:

— Ben, é possível que estejas determinado a fazer uma entrevista... assim como um processo legal. Espera um momento.

Desapareceu e voltou dentro de pouco tempo.

— Consegui — disse com uma voz que demonstrava cansaço. — Contudo não o mereces, Ben. Vem. Só tu... Mark, peço desculpa, mas não podemos consentir numa multidão; Smith é um homem doente.

— Não — disse Caxton.

— O quê?

— Ou os três ou nenhum.

— Ben, não sejas pateta; estás a ter um privilégio muito especial. Olha... Mark pode vir e esperar cá fora. Mas não precisamos dele. — Berquist fez sinal com a cabeça em direção a Cavendish; a testemunha parecia não estar a ouvir.

— Talvez não precisemos. Mas a minha coluna frisará esta noite que a Administração recusou permissão a uma testemunha para ver o Homem de Marte.

Berquist encolheu os ombros.

— Vamos. Ben, espero que tenhas um processo por difamação.

Foram de elevador em deferência à idade de Cavendish, depois monta­ram numa prancha e deslizaram através de laboratórios, de salões de terapia, enfermaria após enfermaria. Foram detidos por um guarda que telefonou para avisar que iam a caminho e finalmente foram introduzidos numa sala de fisioterapia usada para observação de pacientes em estado crítico.

— Este é o Dr. Tanner— apresentou Berquist. — Doutor, o Sr. Caxton e o Sr. Frisby. — Claro que não apresentou Cavendish.

Tanner parecia preocupado.

— Meus senhores, preciso de os avisar de uma coisa. Não façam nem digam nada que possa excitar o paciente. Ele está numa condição extrema­mente neurótica e entra muito facilmente num estado de apatia patológica... em transe, se lhe quiserem chamar assim.

— Epilepsia? — perguntou Ben.

— Um leigo poderia confundi-lo com isso. É mais parecido com catalepsia.

— Doutor, o senhor é especialista em alguma coisa? Psiquiatria? Tanner olhou para Berquist.

— Sim — admitiu.

— Onde é que tirou a sua especialização? Berquist disse:

— Ben, vamos ver o doente. Podes espremer o Dr. Tanner depois.

— Está bem.

Tanner olhou para os seus mostradores, depois ligou um interruptor e olhou para o seu receptor interno. Depois abriu uma porta e conduziu-os para um quarto adjacente, pondo um dedo sobre os lábios.

O quarto estava escuro.

— Mantemos o quarto em semi-escuridão porque os olhos dele não estão acostumados aos nossos níveis de luz — explicou Tanner numa voz abafada. Foi até uma cama hidráulica colocada no centro do quarto. — Mike, trouxe alguns amigos para te verem.

Caxton aproximou-se. Flutuando, um corpo meio escondido afundava-se dentro da película de plástico e estava coberto até às pontas dos braços com um lençol; era o corpo de um jovem. Olhou para eles mas não disse nada; a sua face redonda e calma era inexpressiva.

Até onde Ben o podia afirmar, este era o homem da transmissão da noite anterior: Tinha uma desagradável sensação de que a pequena Jill lhe tinha atirado uma granada viva: um processo por difamação que o podia arruinar.

— Você é Valentine Michael Smith?

— Sim.

— O Homem de Marte?

— Sim.

— Foi à transmissão estereofônica ontem à noite? O homem não respondeu. Tanner disse:

— Acho que ele não percebeu. Mike, lembra-se do que fez com o Sr. Douglas ontem à noite?

A face adotou uma expressão petulante.

— Luzes brilhantes. Doem.

— Sim, as luzes magoam os seus olhos. O Sr. Douglas pediu-lhe que dissesse olá às pessoas.

O paciente sorriu levemente.

— Longo passeio na cadeira.

— Está bem — concordou Caxton. — Estou a perceber. Mike, eles tratam-no bem?

— Sim.

— Não tem de continuar aqui. Consegue andar? Tanner disse colericamente:

— Ora, Sr. Caxton...

Berquist pôs a mão no braço de Tanner.

— Posso andar um pouco... Cansado.

— Vejo que tem uma cadeira de rodas. Mike, se não quer continuar aqui, eu levo-o para qualquer sítio que você deseje.

Tanner sacudiu a mão de Berquist e disse:

— Não consinto que você interfira com o meu paciente.

— Ele é um homem livre, ou não é? — Caxton persistiu. — Ou será que é um prisioneiro?

Berquist respondeu:

— Claro que é livre! Mantenha-se calmo, doutor. Deixe este louco cavar a sua própria sepultura.

— Obrigado, Gil. Você ouviu-o, Mike. Pode ir para onde quiser. O paciente olhou receoso para Tanner.

— Não, não, não, não!

— Está bem, está bem. Tanner exaltou-se:

— Sr. Berquist, isto foi longe de mais!

— Está bem, doutor. Ben, já chega.

— Hum... mais uma pergunta. — Caxton pensava freneticamente, tentando descobrir uma maneira de descobrir a verdade. Aparentemente Jill tinha-se enganado... contudo não se tinha enganado!, ou pelo menos assim lhe parecera na noite passada.

— Mais uma pergunta — acedeu Berquist de má vontade.

— Obrigado. Hum... Mike, ontem à noite, o Sr. Douglas fez-lhe algumas perguntas. — O paciente não fez comentários. — Vejamos, ele perguntou-lhe o que é que você pensava das raparigas aqui na Terra, não perguntou?

A face do paciente abriu-se num grande sorriso.

— Uau!

— Sim, Mike... quando e onde é que você viu essas raparigas?

O sorriso desapareceu. O paciente olhou para Tanner, depois imobilizou-se; os seus olhos rolaram nas órbitas, e colocou-se na posição fetal, joelhos para cima, cabeça curvada, braços cruzados sobre o peito.

Tanner exaltou-se.

— Saiam! — Moveu-se rapidamente e tomou o pulso do doente. Berquist disse rudemente:

— Isto é de mais! Caxton, queres fazer o favor de sair? Ou terei de chamar os guardas?

— Oh, já estamos a caminho — concordou Caxton.

Todos menos Tanner saíram do quarto e Berquist fechou a porta.

— Só uma coisa, Gil — insistiu Caxton. — Vocês têm-no encaixota­do... portanto onde é que ele viu essas raparigas?

— Hã? Não sejas parvo. Ele viu montes de raparigas. Enfermeiras... empregadas do laboratório. Tu sabes.

— Mas isso é que não sei. Pelo que eu percebi, ele só tem enfermeiros e as visitas femininas são terminantemente proibidas.

— O quê? Não sejas ridículo. — Berquist parecia aborrecido, depois subitamente o seu rosto abriu-se num sorriso. — Tu viste uma enfermeira ao pé dele ontem à noite, no estéreo.

— Oh. Pois vi. — Caxton calou-se.

Não tornaram a discutir o assunto até estarem ao ar livre. Então, Frisby comentou:

— Ben, acho que o secretário-geral não te vai processar. Contudo, se tens alguma fonte para esses boatos, é preferível dar-nos a conhecer a prova.

— Esquece isso, Mark. Ele não vai processar ninguém. — Ben fitou o solo com um ar ameaçador. — Como é que sabemos que era o Homem de Marte?

— O quê? Deixa-te disso, Ben.

— Como é que sabemos? Vimos um homem com mais ou menos a mesma idade, numa cama de hospital. Temos a palavra de Berquist... e Berquist iniciou-se na política publicando desmentidos. Vimos um estranho que se pressupõe ser psiquiatra... e, quando tentei descobrir onde é que ele tinha estudado, fui corrido. Sr. Cavendish, viu alguma coisa que o convencesse de que aquele sujeito era o Homem de Marte?

Cavendish respondeu:

— Não é minha função formar opiniões. Vejo, ouço: é tudo.

— Desculpe.

— Já não precisa mais dos meus serviços profissionais?

— Como? Oh, claro, Sr. Cavendish. Obrigado.

— Eu é que agradeço. Uma observação interessante. — O velho senhor tirou a capa que o distinguia do comum dos mortais. Descontraiu-se e as suas feições suavizaram-se.

— Se eu tivesse conseguido trazer comigo um membro da tripulação da Champion — insistiu Caxton — podia ter descoberto tudo.

— Devo admitir — comentou Cavendish — que fiquei surpreendido com uma coisa que você não fez.

— Hã? Em que é que eu falhei?

— Calos.

— Calos?

— Claro. Pode ler-se a história de um homem através dos seus calos. Fiz, em tempos, uma monografia sobre isso para a Revista Trimestral das Testemunhas. Este jovem de Marte, uma vez que nunca usou sapatos como os nossos e como viveu numa gravidade cerca de um terço mais baixa que a nossa, deve apresentar calos em consonância com o seu ambiente anterior.

— Bolas! Sr. Cavendish, porque é que não sugeriu isso?

— Senhor? — O velho cavalheiro endireitou-se e as suas narinas dilataram-se. — Sou uma testemunha, senhor. Não um participante.

— Desculpe. — Caxton carregou o sobrolho. — Vamos voltar para trás. Observaremos os seus pés... ou deito aquilo tudo abaixo!

— Terá de encontrar outra testemunha... por causa da minha indiscrição em sugerir isso.

— Hum, sim, é verdade. — Caxton pareceu preocupado.

— Acalma-te, Ben — aconselhou Frisby. — Já estás metido em trabalhos. Pessoalmente estou convencido de que era o Homem de Marte.

Caxton deixou-os, depois mandou o táxi dar voltas enquanto pensava. Já lá estivera uma vez — com um advogado, com uma testemunha. Pedir para ver o Homem de Marte uma segunda vez na mesma manhã era pouco razoável e seria recusado.

Mas não conseguira uma coluna do Sindicato por desistir facilmente. Tencionava voltar a entrar.

Como? Bem, ele sabia onde é que o suposto «Homem de Marte» estava. Entrar disfarçado de eletricista? Demasiado fácil; nunca conseguiria ultra­passar o «Dr. Tanner».

«Tanner» era médico? Os médicos tinham tendência para evitar qualquer trapaça contrária aos seus códigos. Vejamos aquele cirurgião da nave, Nelson: tinha lavado as suas mãos do caso simplesmente por causa...

Esperem um segundo! O Dr. Nelson podia dizer se aquele jovem era ou não o Homem de Marte, sem examinar os seus calos ou qualquer outra coisa. Caxton tentou telefonar ao Dr. Nelson, fazendo primeiro uma ligação visual para o seu escritório, uma vez que não sabia onde é que o Dr. Nelson estava. 0 assistente de Ben, Osbert Kilgallen, também não o sabia, mas o Arquivo do Sindicato do Post localizou-o no New Mayflower. Alguns minutos depois, Caxton falava com ele.

O Dr. Nelson não tinha visto a transmissão. Sim, ouvira falar nela; não, não tinha razão para pensar que fosse uma farsa. O Dr. Nelson tinha conhecimento de que fora feita uma tentativa para obrigar Smith a desistir dos seus direitos atribuídos pela Decisão Larkin? Não, e não estaria interessado se isso fosse verdade; era ridículo dizer que alguém possuía Marte; Marte pertencia aos Marcianos. E então? Vamos pôr uma hipótese, doutor; se alguém estivesse a tentar...

O Dr. Nelson desligou. Quando Caxton quis refazer a ligação, uma voz de gravador falou: «O assinante suspendeu o serviço temporariamente. Se quiser gravar...»

Caxton fez um comentário idiota respeitante à família do Dr. Nelson. O que fez em seguida foi ainda mais idiota; telefonou para o Palácio Executivo e pediu para falar com o secretário-geral.

Em todos estes anos como bisbilhoteiro, Caxton aprendera que os segredos podiam ser descobertos indo até ao topo e tornando-se insuportavel­mente desagradável. Sabia que fazer cócegas nas unhas do tigre era extremamente perigoso; compreendia a psicopatologia do grande poder tão completamente quanto Jill Boardman não percebia nada disso — mas confiava, para a sua posição de negociador, numa outra espécie de poder quase universalmente apaziguado.

O que ele esqueceu foi que ao telefonar para o Palácio de um táxi não o estava a fazer publicamente.

Caxton falou com meia dúzia de subalternos e foi-se tornando mais agressivo com cada um deles. Estava tão ocupado que não notou que o seu      táxi cessara de pairar.

Quando deu por isso era já demasiado tarde; o táxi recusou-se a obedecer às suas ordens. Caxton apercebeu-se relutantemente de que se deixara apanhar numa armadilha em que nem um vagabundo teria caído: a sua chamada fora localizada, o seu táxi identificado, o seu piloto robô colocado sob ordens de uma freqüência policial — e o táxi estava a ser usado para o trazer, privadamente e sem confusão.

Tentou telefonar ao seu advogado.

Continuava ainda a tentar quando o táxi aterrou dentro de um pátio e o sinal foi cortado pelas paredes desse mesmo pátio. Tentou sair do táxi, viu que a porta não abria e ficou inteiramente surpreendido ao ver que estava rapidamente a perder a consciência.

Jill disse para consigo que Ben devia ter ido no encalço de outra pista e que se esquecera de a avisar. Mas não acreditou na hipótese. Ben devia o seu sucesso à atenção meticulosa que dedicava aos pormenores humanos. Lembrava-se sempre dos aniversários e mais facilmente fugiria para não pagar uma dívida de jogo do que se esqueceria de mandar um cartão de agradecimentos. Fosse lá para onde fosse e qualquer que fosse a urgência disso, poderia despender — tinha de despender — dois minutos para gravar uma mensagem para ela.

Ele tinha de ter deixado recado! Jill telefonou para o seu escritório durante o intervalo para almoço e falou com o investigador e chefe de escritório de Ben, Osbert Kilgallen. Este insistiu que Ben não deixara nenhuma mensagem para ela, nem lá voltara desde que ela tinha telefonado.

— Ele disse quando voltava?

— Não. Mas ele tem sempre colunas pendentes para inserir quando temos um assunto destes entre mãos.

— Bem... donde é que ele lhe telefonou? Ou estou a ser bisbilhoteira?

— De maneira nenhuma, Menina Boardman. Ele não telefonou; foi uma ligação por telex, enviada de Paoli Flat, em Filadélfia.

Jill tinha de se dar por satisfeita com aquilo. Almoçou no refeitório das enfermeiras e debicou a comida. Não era, disse para consigo, como se alguma coisa tivesse corrido mal... ou como se estivesse apaixonada por aquele casmurro.

— Hei! Boardman! Estás a pensar na morte da bezerra!

Jill levantou a cabeça para encontrar Molly Wheelwright, a chefe das dietistas, a olhar para ela.

— Desculpa.

— Eu disse: «Desde quando é que o teu andar põe doentes de caridade em suítes de luxo?»

— Não pomos.

— A K-12 não é no teu andar?

— K-12? Isso não é caridade; é uma velha rica, tão rica que pode pagar para ter um médico a observar a sua respiração.

— Hunf! Deve ter ficado rica muito rapidamente. Esteve na enfermaria do santuário dos geriátricos durante os últimos dezessete meses.

— Deve haver algum engano.

— Não meu: não permito erros na minha cozinha. Esse tabuleiro é complicado: dieta para engordar e uma longa lista de sensibilizadores, mais uns tantos medicamentos dissimulados. Acredita-me, querida, uma dieta pode ser tão individual como uma impressão digital. — A Menina Wheel­wright pôs-se de pé. — Temos de ir embora, meus pintainhos.

— Que é que a Molly estava a bisbilhotar? — perguntou uma enfermeira.

— Nada. Está confundida.

— Ocorreu a Jill que podia localizar o Homem de Marte examinando as dietas. Pôs a idéia de parte; levaria dias a visitar todas as cozinhas. O Centro de Bethesda tinha sido um hospital naval no tempo em que as guerras se travavam no meio dos oceanos e mesmo nesses tempos era enorme. Tinha sido transferido para a Saúde, Educação e Bem-Estar e tinham-no aumenta­do; agora pertencia à Federação e era uma pequena cidade.

Mas havia algo de estranho sobre o caso da Sra. Bankerson. O hospital aceitava toda a espécie de doentes, privados, de caridade e do Governo; o andar de Jill tinha habitualmente pacientes do Governo e as suas suítes eram para senadores da Federação ou outras altas personalidades. Não era vulgar um doente privado estar no seu andar.

A Sra. Bankerson podia estar lá, se a parte do centro aberta aos doentes particulares não tivesse uma suíte disponível. Sim, provavelmente era isso.

Esteve muito ocupada depois do almoço para pensar nisso, ocupando-se das admissões. Passado pouco tempo precisou de uma cama energética. Normalmente teria telefonado a pedir uma — mas o armazém era no rés-do-chão, a cerca de meio quilometro, e ela precisava da cama imediata­mente. Recordou-se de ter visto a cama energética que pertencia à K-12 estacionada na sala de estar da suíte; lembrava-se de ter dito aos fuzileiros para não se sentarem em cima dela. Aparentemente devia ter sido tirada de lá quando a cama hidráulica fora instalada.

Provavelmente ainda lá estava; se assim fosse, ela poderia ir buscá-la imediatamente.

A porta da sala de estar estava fechada e Jill reparou que a sua chave-mestra não a abria. Depois de fazer uma nota de serviço para avisar os serviços de manutenção, dirigiu-se à sala de observação da suíte, tencio­nando saber se a cama ainda lá estava através do médico que estava a observar a Sra. Bankerson.

O médico era o mesmo que ela tinha conhecido, o Dr. Brush. Não era interno nem residente, mas tinha sido trazido para olhar por esta doente, segundo ele tinha dito, pelo Dr. Gamer. Brush olhou para cima assim que Jill abriu a porta.

— Menina Boardman! Você é mesmo a pessoa de que preciso!

— Porque é que não tocou? Como é que está a sua paciente?

— Ela está bem — respondeu, dando uma olhadela ao receptor in­terno —, mas eu não estou.

— Algum problema?

— Cerca de cinco minutos. Enfermeira, pode ceder-me cinco minutos do seu precioso tempo? E não dizer nada a ninguém?

— Acho que sim. Deixe-me usar o seu telefone para dizer à minha assistente onde me encontro.

— Não! — disse ele aflito. — Feche apenas essa porta depois de eu sair, não a abra até me ouvir bater Shave and a Haircut (N. da T.: Alusão ao ritmo de uma canção), e será uma menina bonita.

— Está bem — disse Jill desconfiadamente. — Quer que faça alguma coisa à sua doente?

— Não, não, apenas lhe peço para se sentar e vigiá-la através da tela. Não a perturbe.

— Bem, se acontecer alguma coisa onde é que está? No vestiário dos médicos?

— Vou ao banheiro dos homens ao fundo do corredor. Agora cale-se, por favor, isto é urgente.

Saiu e Jill fechou a porta. Depois olhou para a doente através do receptor e percorreu os mostradores com o olhar. A mulher estava adormecida e os mostradores indicavam que o seu pulso estava forte e a sua respiração quase normal; Jill pensou porque é que seria necessária uma «observação de mortos».

Em seguida decidiu ir ver se a cama estava na sala de espera. Embora não estivesse a cumprir as ordens do Dr. Brush, não ia perturbar a paciente — sabia como caminhar num quarto sem acordar um doente! — e tinha decidido há muitos anos que aquilo que os médicos não sabiam raramente a podia prejudicar. Abriu lentamente a porta e entrou.

Assegurou-se com um olhar que a Sra. Bankerson estava a dormir com o sono típico dos senis. Caminhando sem fazer barulho dirigiu-se para a sala de estar. A porta estava fechada à chave, mas graças à sua chave-mestra conseguiu entrar.

Viu que a cama energética estava lá. Depois apercebeu-se de que o quarto estava ocupado: sentado numa cadeira, com um livro de fotografias ao colo, estava o Homem de Marte.

Smith levantou o olhar e ofereceu-lhe o sorriso luminoso de um bebê feliz.

Jill sentiu vertigens. Valentine Smith, aqui? Não podia ser; tinha sido transferido; o livro de registros mostrava-o.

Depois pensamentos repugnantes começaram a surgir no seu espírito... o falso «Homem de Marte» no estéreo... a velha senhora, prestes a morrer, encobrindo o fato de estar ali outro paciente... a porta que não se abria com a sua chave-mestra — e o pesadelo de um «vagão de carne» saindo do hospital à noite, com um lençol cobrindo não apenas um cadáver, mas dois.

À medida que estes pensamentos lhe atravessavam o espírito, o seu medo ia aumentando, tomando consciência do perigo que corria ao penetrar neste segredo.

Smith levantou-se desajeitadamente da cadeira, ergueu ambas as mãos e disse:

— Irmão de água!

— Olá. Hum... como está?

— Estou bem. Estou feliz. — Acrescentou alguma coisa num estranho discurso sufocado, corrigiu-se e disse cuidadosamente: — Estás aqui, meu irmão. Estiveste longe. Agora estás aqui. Bebo profundamente de ti.

Jill sentiu-se desamparada, dividindo-se entre emoções, uma que despe­daçava o seu coração — e um medo glacial de ser apanhada. Smith não reparou. Em vez de o fazer, disse:

— Estás a ver? Eu ando! Estou a ficar forte. — Deu alguns passos, depois parou, triunfante, arquejando e sorrindo.

Ela forçou um sorriso.

— Estamos a fazer progressos, não estamos? Continue a recuperar, assim é que é! Mas tenho de me ir embora... passei por aqui apenas para dizer olá.

A expressão dele transformou-se em desolação.

— Não vás!

— Oh, tenho de ir!

Ele patenteou o seu desapontamento, em seguida acrescentou com uma trágica certeza:

— Magoei-te. Não sabia.

— Magoar-me? Oh, não, de maneira nenhuma! Mas tenho de ir... e depressa!

A face dele era inexpressiva. Disse, em tom mais afirmativo que interrogativo:

— Leva-me contigo, irmão.

— O quê? Oh, não posso. E tenho de ir, imediatamente. Ouça, não diga a ninguém que eu estive aqui, por favor!

— Não dizer que o meu irmão de água esteve aqui?

— Sim. Não diga a ninguém. Hum... Eu voltarei. Porte-se bem e espere. E não diga a ninguém.

Smith digeriu estas palavras, pareceu sereno.

— Eu espero. Não direi nada.

— Ótimo! — Jill pensou em como é que poderia manter a sua promessa. Compreendia agora que a fechadura «estragada» não estava estragada e deitou um olhar para a porta do corredor — e viu porque é que não fora capaz de a abrir. Tinham aparafusado uma tranca à porta. Era costume todas as portas dos armários, dos banheiros e todas as outras serem preparadas para abrirem com a chave-mestra, para que os pacientes não se pudessem fechar lá dentro. Neste caso, a fechadura mantinha Smith preso e uma tranca do gênero não permitido nos hospitais mantinha afastados mesmo aqueles que possuíam chaves-mestras.

Jill abriu a tranca.

— Espere. Eu volto.

— Esperarei.

Quando voltou à sala de observação ouviu o Toc! Toc! Ti-toc, toc!... Toc, Toc!, o sinal que Brush tinha dito que usaria; apressou-se a abrir-lhe a porta.

Ele irrompeu na sala dizendo rudemente:

— Onde é que estava, enfermeira? Bati três vezes. — Olhou descon­fiadamente para a porta interior.

— Vi a sua doente voltar-se — mentiu Jill rapidamente. — Estava a arranjar-lhe a almofada à volta do pescoço.

— Bolas, disse-lhe simplesmente para se sentar à minha secretária!

Jill percebeu subitamente que o homem estava assustado; contra-atacou.

— Doutor — disse friamente —, a sua doente não é da minha responsabilidade. Mas a partir do momento em que você me a confiou, fiz aquilo que me pareceu necessário. Já que o está a pôr em causa, vamos chamar o superintendente do sector.

— Hã? Não, não... esqueça isso.

— Não, senhor. Uma doente daquela idade pode asfixiar numa cama hidráulica. Algumas enfermeiras aceitariam toda e qualquer repreensão dos médicos... mas eu não. Vamos chamar o superintendente.

— O quê? Ouça, Menina Boardman, exaltei-me sem pensar. Peço desculpa.

— Muito bem, doutor — respondeu Jill secamente. — Precisa de mais alguma coisa?

— Hã? Não obrigado. Agradeço-lhe ter ficado aqui no meu lugar. Apenas... bem, posso ter a certeza que não mencionará o fato?

— Não o mencionarei. — (Pode apostar a sua querida vida em como não o vou mencionar! Mas o que é que eu vou fazer agora? Oh, quem me dera que Ben estivesse na cidade!) Foi até à sua secretária e fingiu examinar alguns papéis. Finalmente lembrou-se de telefonar a pedir a tal cama energética de que tinha andado à procura. Depois mandou a sua assistente dar uma volta pelos quartos e tentou pensar.

Onde é que estava Ben? Se ele estivesse comunicável, ela faria um intervalo de dez minutos, telefonar-lhe-ia, e passaria a sua preocupação para os ombros dele. Mas Ben, diabos o levassem, estava fora, passeando e deixando-a carregar com o fardo.

Estaria mesmo? A inquietação que fervilhava no seu subconsciente veio finalmente à superfície. Ben não teria deixado a cidade sem a avisar do resultado da sua tentativa para ver o Homem de Marte. Sendo ela sua companheira de conspiração tinha esse direito — e Ben jogava sempre jogo limpo.

Podia ouvir dentro da sua cabeça uma coisa que ele tinha dito: «... Se alguma coisa correr mal, tu és o meu trunfo escondido... querida, se não voltares a ouvir falar de mim, faz o que achares melhor.»

Não tinha pensado nisto no momento em que ele proferira estas palavras, do mesmo modo que não acreditara que pudesse acontecer alguma coisa a Ben. Mas agora estava a pensar nisso. Há sempre uma altura na vida de todo o ser humano em que ele ou ela tem de decidir arriscar «a sua vida, a sua fortuna e a sua honra» num empreendimento de resultado duvidoso. Jill Boardman viu que tinha chegado esse momento e aceitou o desafio às 3:47 h. da tarde.

O Homem de Marte voltou a sentar-se depois de Jill sair. Não pegou no livro de fotografias. Ficou simplesmente à espera, de um modo que poderia ser descrito como «resignado», isto porque a linguagem humana não é capaz de descrever as atitudes marcianas. Manteve-se sossegado com uma calma feliz porque o seu irmão tinha dito que voltaria. Estava preparado para esperar, sem se mover, sem fazer coisa alguma, durante vários anos.

Não fazia uma idéia clara do tempo que tinha decorrido desde que partilhara a água com o seu irmão; não só este lugar era curiosamente distorcido em forma e em tempo, apresentando seqüências de visões e de sons que ele ainda não tinha grocado, como também a cultura do seu anterior ninho apresentava uma maneira diferente de contar o tempo. A diferença não residia em durações de vida maiores, que na Terra eram contadas em anos, mas na atitude básica. «É mais tarde do que pensas» era uma expressão que não podia ser proferida em marciano — assim como a expressão «Não há pressa que não dê em vagar», embora por uma razão diferente: a primeira noção era inconcebível, enquanto que a última era uma expressão básica da língua marciana que não era proferida, tal como é desnecessário dizer a um peixe que tome banho. Mas «Aquilo que era no começo, é agora e assim continuará a ser» era uma expressão tão tipicamente marciana que podia ser mais facilmente traduzida que «Dois mais dois são quatro» — o que em Marte não era um truísmo.

Smith esperou.

Brush entrou e olhou para ele; Smith não se mexeu e Brush saiu.

Quando Smith ouviu uma chave na porta exterior, lembrou-se de que ouvira esse som pouco tempo antes da última visita do seu irmão de água; portanto, pôs o seu metabolismo em preparação, para o caso de a seqüência se processar novamente. Ficou atônito quando a porta exterior se abriu e Jill se esgueirou por ela, pois não tinha conhecimento de que aquilo fosse uma porta. Mas grocou-o imediatamente e entregou-se àquela plenitude de felicidade que só aparecia na presença dos seus companheiros de ninho, dos irmãos de água, e (nalgumas circunstâncias) na presença dos Velhos.

A sua alegria diminuiu ao aperceber-se de que o seu irmão não a partilhava: parecia mais assustado do que aquilo que era possível presenciar em alguém que estivesse prestes a desintegrar-se devido a ter cometido alguma falha ou algum erro vergonhoso. Mas Smith aprendera que estas criaturas podiam suportar terríveis emoções sem morrerem. O seu irmão Mahmoud sofria uma agonia espiritual cinco vezes por dia e não só não morria como também adotara a agonia como uma coisa necessária. O seu irmão capitão Van Tromp sofria de espasmos horríveis e imprevisíveis, cada um dos quais, segundo os padrões de Smith, teria produzido desintegração imediata para pôr termo ao conflito — contudo estava ainda íntegro, segundo ele sabia.

Portanto ignorou a agitação de Jill.

Jill entregou-lhe uma trouxa.

— Toma, veste isto. Depressa!

Smith aceitou a trouxa e esperou. Jill olhou para ele e disse:

— Oh, coitadinho! Está bem, despe-te. Eu ajudo.

Foi obrigada a despi-lo e a vesti-lo. Ele usava a camisa do hospital, o roupão e chinelos, não porque o quisesse, mas porque lhe tinham dito para o usar. Atualmente já era capaz de se vestir, mas não tão depressa como Jill queria; despiu-o rapidamente. Sendo Jill enfermeira e nunca tendo ele ouvido falar do tabu do pudor — mesmo que tivesse ouvido nunca o teria podido compreender —, não foram atrasados por coisas irrelevantes. Estava encantado com as falsas peles que Jill punha nas suas pernas. Ela não lhe deu tempo para as apreciar; atou-lhe as meias às pernas, em vez de lhe pôr um cinto de ligas. O uniforme de enfermeira, com que o estava a vestir, tinha sido pedido emprestado a uma mulher muito encorpada, com a desculpa de que um primo seu queria mascarar-se. Jill prendeu uma capa de enfermeira à volta do pescoço dele e refletiu que essa capa cobria a maior parte das diferenças de sexo — pelo menos ela assim o esperava. Os sapatos trouxeram dificuldades; não serviam bem e Smith achou que andar nesta gravidade implicava um esforço mesmo descalço.

Mas ela conseguiu vesti-lo e pôs-lhe na cabeça uma boina de enfermeira.

— O teu cabelo não é muito comprido — disse ansiosamente — mas é do tamanho que é usado por muitas raparigas e tem de servir.

Smith não respondeu, pois não tinha compreendido completamente o comentário. Tentou fazer com que o seu cabelo crescesse, mas compreendeu que isso levaria tempo.

— Agora — disse Jill —, ouve com atenção. Aconteça o que acontecer, não digas uma única palavra. Compreendes?

— Não falar. Não falarei.

— Segue-me apenas... eu seguro na tua mão. Se conheces algumas orações, reza!

— Reza?

— Deixa isso. Vem e não fales.

Abriu a porta que dava para o corredor, olhou lá para fora e conduziu-o para o corredor.

Smith achou as várias estranhas configurações extremamente perturba­doras; foi assaltado por imagens que não podia controlar. Foi caminhando aos tropeções, com os olhos e os sentidos quase adormecidos para se proteger contra o caos.

Ela conduziu-o até ao fim do corredor e subiram para uma prancha-deslizante que se movia transversalmente. Ele tropeçou e teria caído se Jill não o tivesse amparado. Uma criada de quarto olhou para eles e Jill praguejou em voz baixa — depois foi muito cuidadosa a ajudá-lo a descer. Tomaram um elevador até ao telhado, pois Jill tinha a certeza de que não seria capaz de o levar pelas escadas.

Aí encontraram um obstáculo, embora Smith não tivesse consciência disso. Ele estava a contemplar a penetrante beleza do céu; não voltara a ver o céu desde Marte. Este céu era brilhante e colorido e alegre — um dia enevoado, típico de Washington. Jill estava à procura de um táxi. O telhado estava deserto, tal como ela o esperava, pois as enfermeiras que tinham acabado o serviço ao mesmo tempo que ela estavam já a caminho de casa e as visitas da tarde já se tinham ido embora. Mas os táxis também tinham desaparecido. Não se arriscou a tomar um autocarro aéreo.

Continuava a tentar apanhar um táxi quando viu que um se dirigia para lá. Chamou pelo guarda do telhado.

— Jack! Este táxi está ocupado?

— Chamei-o para o Dr. Phipps.

— Oh! Jack, vê se me arranjas um depressa, está bem? Esta é a minha prima Madge... trabalha na Ala Sul; está com uma laringite e não pode apanhar este vento.

O guarda coçou a cabeça.

— Bem... visto que é para si, Menina Boardman, tome este e eu chamarei outro para o Dr. Phipps.

— Oh, Jack, você é um amor! Madge, não fales; eu agradeço-lhe. Ela está sem voz; vou tratá-la com rum quente.

— Isso deve fazer-lhe bem. A minha mãe costumava dizer que os remédios antiquados são os melhores.

Entrou no carro e ligou de memória a combinação para a casa de Jill. Depois ajudou-os a entrar. Jill entrou e encobriu a falta de familiaridade de Smith com este cerimonial.

— Obrigada, Jack. Muito obrigada.

O táxi levantou vôo e Jill respirou fundo.

— Podes falar agora.

— Que é que eu devo dizer?

— Hã? O que tu quiseres.

Smith pensou nisto. O alcance do convite pedia uma resposta importante, própria para irmãos. Pensou em várias, pô-las de lado por não poder traduzi-las, escolheu uma que transmitia, mesmo neste estranho discurso formal, uma sensação calorosa que deveria agradar a um irmão em vias de se aproximar.

— Deixemos os nossos ovos partilharem o mesmo ninho.

Jill ficou pasmada.

— Hã? Que é que disseste?

Smith sentiu-se desolado por não ter conseguido responder gentilmente e achou que a culpa era sua. Compreendia que, vez após vez, trazia agitação a estas criaturas, quando o seu objetivo era criar harmonia. Tentou nova­mente, ordenando o seu parco vocabulário para conseguir exprimir o pensamento de uma maneira diferente.

— O meu ninho é teu e o teu ninho é meu. Desta vez Jill sorriu.

— Mas que amor! Meu caro, não tenho a certeza de te compreender, mas acabei de receber a proposta mais bonita desde há muito tempo a esta parte. — Acrescentou: — Mas agora não temos mãos a medir com os nossos problemas... portanto vamos esperar, está bem?

Smith percebia tanto Jill como Jill o percebia a ele, mas apercebeu-se da agradável disposição do seu irmão de água e percebeu a sugestão para esperar. Esperar era coisa que fazia sem esforço; recostou-se, satisfeito por estar tudo bem entre ele e o seu irmão, e apreciou a paisagem. Era a primeira que via e por todos os lados havia novas coisas para tentar grocar. Ocorreu-lhe que o meio de transporte usado no seu antigo lar não permitia esta maravilhosa visão do que existia à sua volta. Isto quase o levou a fazer uma comparação entre os métodos marcianos e humanos, comparação essa que não era favorável aos Velhos, mas o seu espírito afastou-se da heresia.

Jill mantinha-se calada e tentava pensar. Subitamente apercebeu-se de que o táxi estava quase a chegar ao seu apartamento — e compreendeu que aquela casa era o último sítio para onde devia ir, sendo o primeiro lugar em que eles procurariam logo que calculassem quem tinha ajudado Smith a escapar. Embora não soubesse nada de métodos policiais, supôs que devia ter deixado impressões digitais no quarto de Smith, para não falar das pessoas que os tinham visto sair. Era até possível (segundo tinha ouvido dizer) um técnico ler a fita no piloto do táxi e dizer que viagem é que tinha feito, para onde e quando.

Carregou nos interruptores e apagou as instruções para se dirigir para sua casa. O táxi saiu da fila de trânsito e ficou a pairar. Para onde é que ela podia ir? Onde é que poderia esconder um homem adulto que é meio idiota e que nem sequer se consegue vestir sozinho — e que é a pessoa mais procurada do globo? «Oh, se Ben estivesse aqui! Ben... onde é que estás?»

Pegou no telefone e, sem esperança, ligou o número de Ben. O seu espírito animou-se quando ouviu a voz de um homem — depois, esmoreceu quando compreendeu que não era Ben, mas sim o seu mordomo.

— Oh. Desculpe, Sr. Kilgallen. Fala Jill Boardman. Pensei que tinha ligado para casa do Sr. Caxton.

— E ligou. Tenho as chamadas para ele ligadas para o escritório quando ele se ausenta por mais de vinte e quatro horas.

— Então ele ainda está fora?

— Está. Posso ajudá-la?

— Hum, não. Sr. Kilgallen, não é estranho Ben ter desaparecido da vista? Não está preocupado?

— Como? De maneira nenhuma. A mensagem que ele deixou dizia que não sabia quanto tempo estaria fora.

— Isso não é estranho?

— Não no trabalho do Sr. Caxton, Menina Boardman.

— Bem... Acho que existe algo de muito estranho acerca da sua ausência! Acho que devia comunicá-lo. Tem de espalhar isto em todos os serviços de notícias do país... do mundo!

Embora o telefone do táxi não possuísse circuito visual, Jill sentiu que Osber Kilgallen se tinha levantado.

— Receio, Menina Boardman, que seja eu que tenha de interpretar as instruções do meu empregador. Hum... se me permite dizê-lo, sempre que o Sr. Caxton se ausenta, há sempre algum «bom amigo» que lhe telefona freneticamente.

«Alguma amiguinha tentando apanhá-lo», interpretou Jill colericamente, «e este indivíduo pensa que eu sou uma dessas suas amiguinhas.» Isso fez desaparecer qualquer pensamento de pedir ajuda a Kilgallen; desligou.

Para onde é que ela podia ir? Uma solução iluminou o seu espírito. Se Ben tinha desaparecido — e se as autoridades tinham responsabilidade nisso — o último lugar onde eles esperariam encontrar Smith seria no apartamento de Ben... a menos que a relacionassem com Ben, o que parecia improvável.

Podiam tirar alguma coisa para comer da despensa de Ben e ela poderia arranjar algumas roupas para a sua idiota criança. Programou a combinação para o apartamento de Ben; o táxi escolheu a fila de trânsito e lançou-se nela.

À porta do apartamento de Ben, Jill encostou a cara ao intercomunicador e disse:

— Carthago delenda est!

Não aconteceu nada. «Oh, bolas!» disse para consigo, «ele mudou a senha." Ela permaneceu ali, com as pernas a tremer, e afastou o olhar de Smith. Depois tornou a falar pelo intercomunicador. O circuito que accionava a porta era o mesmo que servia para anunciar os visitantes; ela anunciou-se com a esperança remota de que Ben tivesse voltado.

— Ben, é a Jill. A porta deslizou.

Entraram e a porta tornou a fechar-se. Jill pensou que fora Ben que os fizera entrar, em seguida compreendeu que tinha acertado acidentalmente na nova combinação da porta... o que tinha, calculou Jill, a intenção de ser um cumprimento; teria dispensado bem o cumprimento, preferia evitar o horrível pânico que tinha sentido.

Smith estava de pé calmamente à beira do espesso tapete de relva e olhava pasmado. Aqui estava um lugar tão novo que não podia ser grocado imediatamente, mas sentiu-se imediatamente satisfeito. Era menos excitante que o «sítio-móvel» onde tinham estado, mas era mais confortável. Olhou com interesse para a janela panorâmica numa das paredes, mas não reconheceu nela uma janela, confundindo-a com um quadro vivo como aqueles que tinha em casa... a sua suíte de Bethesda não tinha janelas, por estar localizada numa nova ala; nunca tinha adquirido a ideia de «janela».

Notou com aprovação que a simulação da profundidade e do movimento no «quadro» era perfeita — devia ter sido criado por algum grande artista. Até esse momento ele não vira nada que o levasse a pensar que aquela gente possuía arte; as suas novas experiências aumentaram a sua compreensão dos costumes e da maneira de ser desta gente e sentiu-se animado.

Um movimento despertou-lhe a atenção; voltou-se e encontrou o seu irmão a tirar as falsas peles e os chinelos das pernas.

Jill suspirou e enterrou os seus dedos dos pés na relva.

— Deus, como me doem os pés! — Olhou para cima e viu Smith a observá-la com aquela curiosa e perturbadora cara de bebê. — Faz o mesmo. Vais adorar.

Ele pestanejou.

— Como fazer?

— Estou sempre a esquecer-me. Vem cá, eu ajudo. — Ela tirou-lhe os sapatos, desatou as meias e tirou-as. — Então? Não sabe bem?

Smith enterrou os dedos dos pés na relva, depois disse timidamente:

— Mas isto está vivo?

— Claro, está vivo, é relva verdadeira. Ben gastou muito dinheiro para ter esta relva. Só os circuitos de iluminação custam mais do que aquilo que eu ganho num mês. Portanto anda um pouco e deixa que os teus pés a apreciem.

Smith não entendeu a maior parte das coisas que Jill tinha dito, mas compreendeu que a relva era constituída por criaturas vivas e que tinha sido convidado para andar em cima delas.

— Caminhar em cima de coisas vivas? — perguntou com um horror incrédulo.

— Hã? Porque não? Isso não magoa a relva; foi criada especialmente para servir de tapetes para interiores.

Smith foi forçado a lembrar-se que um irmão de água não o podia induzir a cometer uma ação errada. Deixou-se encorajar a andar sobre a relva — e viu que gostava de o fazer e que as criaturas vivas não protestavam. Programou a sua capacidade de sentir para o máximo; o seu irmão tinha razão, era esta a sua finalidade: tinham sido criadas para que caminhassem em cima delas. Resolveu compreendê-lo e apreciá-lo, num esforço parecido com aquele que um ser humano faria para reconhecer os méritos do canibalismo — um costume que Smith achava normal.

Jill deixou escapar um suspiro.

— Tenho de parar de brincar. Não sei por quanto tempo estaremos seguros.

— Seguros?

— Não podemos ficar aqui. Podem estar a examinar todas as coisas que saíram do Centro.

Concentrou-se. A sua casa não servia, esta casa também não... e Ben tinha a intenção de o levar para casa de Jubal Harshaw. Mas ela não conhecia Harshaw nem sabia onde ele vivia — algures em Poconus, tinha dito Ben. Bom, teria de o descobrir; não se podia virar para mais lado nenhum.

— Porque é que não estás feliz, meu irmão?

Jill voltou a si e olhou para Smith. Porquê? A pobre criança pensava que estava tudo bem! Tentou pensar no assunto segundo o ponto de vista dele. Não conseguiu, mas compreendeu que ele não tinha noção de que eles estavam a fugir de... de quê? Dos chuis? Das autoridades do hospital? Ela não sabia bem o que tinha feito, quais as leis que tinha infringido; sabia simplesmente que entrara em confronto com os Grandes, os Patrões.

Como é que ela podia dizer ao Homem de Marte contra quem é que estavam a lutar, se ela própria não o sabia? Teriam eles polícias em Marte? Metade das ocasiões em que falava com ele era como se estivesse a gritar para uma barreira de chuva.

Deus, teriam eles barreiras de chuva em Marte? Ou chuva?

— Não ligues — disse ela seriamente. — Faz apenas aquilo que eu te mandar.

— Sim.

Era uma aceitação ilimitada, um acordo eterno. Jill apercebeu-se subitamente de que Smith saltaria da janela se ela lhe dissesse para o fazer — e tinha razão; ele teria saltado, apreciando cada segundo da queda, e teria aceito sem surpresa ou ressentimento a desintegração ou o impacto. Nem sequer desconhecia que tal queda o mataria; o medo da morte era uma idéia que estava para além da sua compreensão. Se um irmão de água escolhesse para ele uma tão estranha desintegração, ele apreciá-la-ia, e tentaria grocar.

— Bem, não podemos ficar aqui parados. Tenho de arranjar qualquer coisa para comermos, tenho de te vestir com outras roupas e temos de nos ir embora. Despe as roupas que tens vestidas. — Foi ver o que é que encontrava no guarda-fatos de Ben.

Escolheu um fato de viagem, uma boina, uma camisa, roupas interiores, sapatos e depois voltou à sala. Smith estava todo emaranhado como um gatinho brincando com um novelo de lã; tinha um braço preso e a cara envolta na camisa. Não tirara a capa antes de tentar despir o vestido.

Jill disse:

— Oh, coitado! — e correu a ajudá-lo.

Libertou-o das roupas, depois meteu-as num alçapão... mais tarde pagaria a Etta Schere, pois não queria que os chuis as encontrassem — só para o caso.

— Vais tomar um banho, meu bom homem, antes de te vestir com as roupas limpas de Ben. Têm sido descuidados contigo. Vem comigo.

Sendo enfermeira, estava acostumada aos maus cheiros, mas (sendo enfermeira) era fanática pela água e pelo sabão... e parecia que ninguém tinha dado banho a este doente nos últimos dias. Embora Smíth não tresandasse, lembrou-lhe, na verdade, um cavalo num dia quente.

Smith observou deliciado Jill a encher a banheira. Havia uma banheira no banheiro da suíte K-12, mas Smith desconhecia qual era a sua utilidade; os únicos banhos que tinha tomado tinham-lhe sido dados na cama, e não tinham sido muitos; os seus estados de transe tinham interferido.

Jill experimentou a temperatura.

— Está boa, salta lá para dentro. Smith estava atônito.

— Depressa! — disse Jill com firmeza. — Entra na água.

As palavras constavam do seu vocabulário humano e Smith fez o que lhe tinham ordenado, tremendo de emoção. Este irmão queria que ele colocasse todo o seu corpo na água da vida! Nunca tal honra lhe tinha sido concedida; e, segundo o que lhe era dado saber, nunca ninguém tivera tal privilégio. Contudo, tinha começado a compreender que esta gente tinha um maior relacionamento com a substância da vida... um fato ainda não grocado, mas que ele tinha de aceitar.

Meteu um pé a tremer dentro da água, depois o outro... e foi escorregando até a água o cobrir completamente.

— Hei! — gritou Jill, e puxou-lhe a cabeça para fora de água, sentindo-se chocada ao verificar que parecia que estava a mexer num cadáver. Bom Deus!, ele não podia afogar-se, não numa altura destas. Mas ficou assustada, abanou-o. — Smith! Acorda!

De muito longe Smith ouviu o seu irmão chamá-lo, e voltou. Os seus olhos ganharam brilho, o seu coração acelerou-se, voltou a respirar.

— Estás bem? — perguntou Jill.

— Estou bem. Estou muito feliz... meu irmão.

— Assustaste-me. Ouve, não te ponhas outra vez debaixo de água. Senta-te apenas, tal como estás agora.

— Sim, meu irmão. — Smith acrescentou algo num coaxar ininteli­gível, agarrou uma mancheia de água como se ela fosse um líquido precioso e levou-a aos lábios. Tocou-lhe com a boca e depois ofereceu-a a Jill.

— Hei, não bebas a água do teu banho! Ora, eu também não bebo.

— Não beber?

O seu sofrimento desprotegido era tal que Jill não sabia o que fazer. Hesitou, depois curvou a cabeça e tocou com os lábios na oferta.

— Obrigada.

— Que nunca tenhas sede!

— Espero que também tu nunca tenhas sede. Mas já chega. Se queres beber, eu vou buscar água. Não bebas mais desta água.

Smith pareceu satisfeito e sentou-se calmamente. Agora Jill sabia que ele nunca tinha tomado banho e como tal não sabia o que havia de fazer. Claro que lhe podia ensinar... mas estariam a perder tempo precioso.

Ora! Não era tão mau como cuidar de pacientes na enfermaria dos velhos. A blusa de Jill estava molhada até aos ombros por causa de ter tido de puxar Smith do fundo da banheira; tirou-a e pendurou-a. Usava roupas de sair, e tinha vestida uma pequena saia que flutuava por cima dos seus joelhos. Olhou para baixo. Embora as pregas não se desmanchassem, era idiota molhá-la. Encolheu os ombros e despiu-a; ficou em cuecas e sutien.

Smith observava, pasmado, com o olhar interessado de uma criança. Jill corou, o que a surpreendeu. Pensava que estava livre do pudor mórbido — lembrou-se subitamente de que tinha ido à sua primeira festa numa piscina para nudistas aos quinze anos. Mas este olhar infantil perturbava-a; decidiu que era preferível suportar a roupa interior molhada do que fazer o que era natural: despi-la.

Cobriu-se com vontade.

— Vamos despachar-nos e esfregar esta pele.

Ajoelhou-se ao pé da banheira, ensaboou-o e começou a transformá-lo em espuma.

Nesse momento, Smith esticou-se e tocou-lhe no seu seio direito. Jill endireitou-se imediatamente.

— Hei! Nada disso!

Ele ficou como se ela o tivesse esbofeteado.

— Não? — disse tragicamente.

— Não — disse ela com firmeza, depois olhou para o seu rosto e acrescentou suavemente: — Está bem. Mas não me distraias, estou ocupada.

Jill apressou o banho, deixando escorrer a água e mantendo-o de pé enquanto utilizava o chuveiro. Depois vestiu-se enquanto o ventilador o secava. O ar quente assustou-o e Smith começou a tremer; ela disse-lhe para não ter medo e o fez agarrar-se ao varão.

Jill ajudou-o a sair da banheira.

— Agora cheiras melhor e aposto como te sentes melhor.

— Sinto-me bem.

— Ótimo. Vamos vestir-te.

Conduziu-o ao quarto de Ben. Mas antes que ela pudesse explicar, demonstrar ou ajudá-lo a vestir os calções, uma voz de homem assustou-a quase a pontos de a fazer perder os sentidos:

— ABRAM VOCÊS AÍ DENTRO!

Jill deixou cair os calções. Saberiam que estava alguém lá dentro? Sim, deviam saber — de outro modo nunca teriam vindo ali. Aquele maldito taxi-robô devia ter-lhes dado a indicação!

Devia responder? Ou fingir-se doente?

O grito transmitido pelo intercomunicador repetiu-se. Murmurou a Smith: «Fica aqui!», depois dirigiu-se para a sala.

— Quem é? — gritou, tentando manter a sua voz normal.

— Abra em nome da lei!

— Abrir em nome de qual lei? Não seja idiota. Diga quem é antes que eu chame a polícia.

— Nós somos a polícia. Você é Gillian Boardman?

— Eu? Eu sou Phyllis O'Toole e estou à espera do Sr. Caxton. Vou chamar a polícia e comunicar uma invasão de privacidade.

— Menina Boardman, temos um mandato de prisão contra si. Abra ou será pior para si.

— Eu não sou «Menina Boardman» e vou chamar a polícia.

A voz não respondeu. Jill esperou, engolindo em seco. Dentro de pouco tempo sentiu um calor insuportável na sua face. A fechadura da porta estava a ficar vermelha, depois branca; houve qualquer coisa que estalou e a porta abriu-se. Dois homens entraram; um deles adiantou-se, sorriu e disse:

— É esta a queridinha! Johnson, vê se o descobres.

— Está bem, Sr. Berquist.

Jill tentou fazer-se forte. O homem chamado Johnson empurrou-a para o lado e dirigiu-se para o quarto. Jill disse, colérica:

— Onde é que está o seu mandato? Isto é uma afronta! Berquist disse suavemente:

— Não se faça difícil, querida. Comporte-se bem e eles tratá-la-ão com cuidado.

Ela deu-lhe um pontapé nas canelas. Ele esquivou-se agilmente.

— Mau. mau — censurou. —Johnson! Encontraste-o?

— Está aqui, Sr. Berquist. Nu como uma ostra... Sabe-se lá o que eles se estavam a preparar para fazer.

— Deixa-te disso. Traga-o.

Johnson reapareceu, empurrando Smith à sua frente, controlando-o, torcendo-lhe um braço.

— Ele não queria vir.

— Ele vem!

Jill esquivou-se a Berquist e atirou-se a Johnson. Este esbofeteou-a.

— Nada disso, sua cabrazinha!

Johnson não bateu em Jill com tanta força como costumava bater na sua mulher antes de ela o deixar. E nem nada que se parecesse com a força com que batia nos prisioneiros que não queriam falar. Até esse momento, Smith não mostrara qualquer expressão e não proferira palavra; tinha-se simples­mente deixado arrastar. Não percebia nada do que se estava a passar e não tentara fazer nada.

Quando viu o seu irmão de água ser agredido por este outro, ele girou, libertou-se e dirigiu-se para Johnson...

... e Johnson desapareceu.

Apenas as pequenas folhas de relva pisadas, onde o seu enorme pé tinha estado, mostravam que ele estivera ali. Jill olhou, pasmada, para a marca e sentiu que estava prestes a desmaiar.

Berquist fechou a boca, tornou a abri-la, e disse roucamente:

— Que é que você fez com ele? — Olhava para Jill.

— Eu ? Eu não fiz nada.

— Não me venha com histórias. Tem alguma porta disfarçada ou alguma coisa do gênero?

— Para onde é que ele foi? Berquist molhou os lábios.

— Não sei. — Tirou uma arma de debaixo do casaco. — Mas não tente os seus truques comigo. Você fique aí... estou a falar com ele.

Smith recaíra na sua passiva espera. Não percebendo o que se passava, ele fizera o mínimo que podia fazer. Mas já tinha visto armas, nas mãos dos homens, em Marte; e a expressão de Jill, ao ter uma apontada para ela, não lhe agradou. Ele grocou que este era um daqueles momentos críticos do crescimento de um ser, em que a contemplação devia dar lugar a uma ação justa de modo a permitir que o crescimento prosseguisse. Agiu.

Os Velhos tinham-no ensinado bem. Avançou para Berquist; a arma moveu-se na sua direção. Ele expandiu-se — e Berquist deixou de estar ali.

Jill gritou.

O rosto de Smith permanecera até então inexpressivo. Agora tornava-se tragicamente desolado à medida que compreendia que devia ter escolhido uma ação errada para o momento. Olhou, implorante, para Jill e começou a tremer. Os olhos rolaram-lhe nas órbitas; foi lentamente perdendo os sentidos, enrolou-se e ficou inanimado.

A histeria de Jill desapareceu. Um doente precisava dela; não tinha tempo para gastar com emoções, não tinha tempo para pensar como é que os homens tinham desaparecido. Caiu de joelhos e examinou Smith.

Não conseguia detectar respiração, nem pulso; encostou um ouvido às suas costelas. Pensou que a ação do coração tinha parado mas, depois de bastante tempo, ouviu um fraco lub-dub, seguido, depois de quatro ou cinco segundos, por outro.

A condição recordava-lhe a inanimação esquizofrênica, mas nunca vira um transe tão profundo, nem sequer nas aulas de demonstrações de anestesia hipnótica. Tinha ouvido falar desses estados de morte aparentes entre os faquires da índia Oriental, mas na verdade nunca acreditara nessas narrações.

Em circunstâncias vulgares ela não teria tentado acordar um paciente em tal estado, teria antes mandado chamar um médico. Mas estas não eram circunstâncias vulgares. Longe de abalarem a sua decisão, os últimos acontecimentos haviam-na ainda determinado mais a não deixar que Smith caísse de novo nas mãos das autoridades. Mas, depois de tentar durante dez minutos, ficou convencida que não era capaz de o despertar.

No quarto de Ben encontrou uma velha mala de viagem, muito grande para bagagem de mão, mas muito pequena para ser um baú. Abriu-a e viu que continha um gravador, um estojo de toalete, uma muda de roupa, tudo o que um repórter atarefado precisava se tivesse de sair à pressa da cidade — até uma ligação auditiva para improvisar um serviço telefônico. Jill pensou que este saco era mais uma prova de que a ausência de Ben não era o que Kilgallen pensava, mas não tinha tempo a perder com isso; esvaziou o saco e arrastou-o até à sala.

Smith era demasiado pesado para as suas forças, mas os seus músculos desenvolvidos por ter de manejar doentes duas vezes mais pesados do que ela tornaram-na capaz de meter Smith dentro do saco. Teve de o dobrar para conseguir fechar a grande mala. Os músculos dele resistiam à força, mas sob pressão suave podiam ser manejáveis, como se se tratasse de massa de moldar. Acolchoou os cantos com algumas das roupas de Ben. Tentou fazer uns furos para o ar entrar, mas o saco era de vidro laminado. Refletiu que ele não poderia sufocar com uma respiração tão reduzida e com uma taxa metabólica tão baixa como deveria ser a sua.

Mal podia levantar o saco, agarrando-o com ambas as mãos, e não o podia carregar. Mas a mala estava equipada com rodinhas. Deixaram uns feios sulcos na relva de Ben antes de Jill o conseguir levar até ao soalho da entrada.

Não foi para o telhado; outro táxi era a última coisa que ela queria. Saiu pela porta de serviço do rés-do-chão. Aí não estava ninguém, a não ser um rapaz encarregado de examinar as entregas da cozinha. Chegou-se para o lado para a deixar passar rolando o saco para o passeio.

— Hei, irmã. Que é que levas aí?

— Um corpo — disse Jill com brusquidão. Ele encolheu os ombros.

— Uma pergunta estúpida, uma resposta estúpida. Já devia ter aprendido.

 

A SUA HERANÇA IRRACIONAL

O terceiro planeta a contar do Sol abrigava nesse dia mais 230.000 humanos do que no dia anterior; entre cinco bilhões de terrestres, tal aumento não era relevante. O Reino do Sul de África, associado da Federação, foi mais uma vez citado perante o Supremo Tribunal por perseguição à minoria branca. Os ditadores da moda, reunidos no Rio, decretaram que as bainhas iam descer e que os umbigos seriam cobertos. As estações de defesa da Federação rondavam no céu, prometendo morte a quem perturbasse a paz do planeta; as estações espaciais de comércio perturbavam a paz com o barulho ilimitado que faziam anunciando marcas de produtos comerciais. Meio milhão de casas móveis a mais do que aquelas que tinham emigrado na mesma data do ano passado, tinham pousado nas praias da baía do Hudson; a cintura de arroz chinesa foi declarada zona de subalimentação de emergência pela Assembléia da Federação; Cynthia Duchess, conhecida como a Rapari­ga Mais Rica do Mundo, tinha corrido com o seu sexto marido.

O reverendo Dr. Daniel Digby, bispo supremo da Igreja da Nova Revelação (Fosterita), anunciou que tinha nomeado o anjo Azreel para guiar o senador Thomas Boone e que estava à espera da confirmação dos Céus durante esse dia; os serviços de notícias transmitiam-no como notícias de confiança, pois os Fosteritas tinham destruído no passado os escritórios dos jornais. O Sr. e a Sra. Harrison Campbel tiveram um filho e herdeiro de uma mãe-hospedeira no Hospital Pediátrico de Cincinnati, enquanto os felizes pais estavam de férias no Peru. O Dr. Horace Quackenbush, professor de artes de lazer na Escola de Divindade de Yale, apelava para um regresso à fé e à cultura dos valores espirituais; um escândalo envolvia metade dos profissionais da equipe de futebol de West Point; três químicos de guerra bacteriana estavam detidos em Toronto devido a instabilidade emocional; anunciaram que levariam os seus casos ao Supremo Tribunal Federal. O Supremo Tribunal Federal anulava as sentenças do Supremo Tribunal dos Estados Unidos no que dizia respeito às eleições primárias que envolviam deputados da Federação no caso de Reinsberg contra o Estado de Missuri.

Sua Excelência, o Muito Honorável Joseph E. Douglas, secretário-geral da Federação Mundial dos Estados Livres, debicava o seu café da manhã e pensava porque é que um homem não podia tomar uma xícara de café descansado. O seu matutino, preparado pelo turno da noite do pessoal de informação, ia passando à frente dos seus olhos, à sua velocidade ótima de leitura, num monitor. As palavras corriam sempre que ele olhava na sua direção e paravam quando ele deixava de olhar. Estava nesse momento a olhar para elas, mas simplesmente para evitar os olhos da sua patroa do outro lado da mesa. A Sra. Douglas não lia jornais, tinha outros meios de descobrir as coisas.

— Joseph...

Ele olhou para cima, a máquina parou.

— Sim, minha querida?

— Tens alguma coisa na idéia.

— Hã? O que é que te faz dizer isso, minha querida?

— Joseph! Há trinta e cinco anos que eu te acarinho, te coso as meias, e te livro de apuros: sei quando alguma coisa te preocupa.

«E o pior de tudo isto», admitiu ele, «é que ela sabe realmente.» Olhou para ela e pensou porque raio é que a tinha deixado arrastá-lo para um contrato sem termo. Ela tinha sido sua secretária, nos «Bons Velhos Tempos», quando ele era um legislador do Estado. O seu primeiro contrato tinha sido um acordo de noventa dias de co-habitação, para economizar os fundos da campanha poupando nas contas dos hotéis. Ambos tinham concordado que esse acordo era uma mera conveniência, e que «co-habi­tação» deveria ser simplesmente interpretada como viver debaixo do mesmo teto — e nem mesmo nesse tempo ela tinha cosido as suas meias!

Tentou recordar-se como é que essa situação se tinha alterado. A biografia da Sra. Douglas, Sombra da Grandeza: História de Uma Mulher, declarava que ele tinha afirmado, durante a contagem dos votos na sua primeira eleição — e isso era devido ao fato de querer mostrar o seu lado romântico —, que nada serviria a não ser o antiquado casamento «até-que-a-morte-nos-separe».

Bem, não ganhava nada em argumentar contra a versão oficial.

— Joseph! Responde-me!

— Hã? Nada minha querida. Passei uma noite horrível.

— Eu sei. Quando eles te acordam de noite, pensas que eu não o sei? Ele refletiu que a suíte dela distava da sua cerca de cinqüenta metros.

— Como é que podes saber, querida?

— Hã? Intuição feminina. Qual foi a mensagem que Bradley te trouxe?

— Por favor, querida... tenho de acabar de ler o noticiário antes da reunião do Conselho.

— Joseph Edgerton Douglas, não me evites. Ele suspirou.

— Perdemos de vista aquele miserável Smith.

— Smith? Queres dizer o Homem de Marte? Que é que queres dizer com «perdemos de vista»? Isso é ridículo!

— É assim, minha querida, ele desapareceu. Desapareceu do seu quarto no hospital, ontem.

— Ridículo! Como é que ele o poderia fazer?

— Disfarçado de enfermeira, segundo parece.

— Mas... Não interessa. Ele desapareceu, é isso que importa. Que esquema confuso é que estás a utilizar para o trazer de volta?

— Bem, temos pessoas a procurá-lo. Pessoas de confiança. Berquist...

— Essa cabeça cheia de lixo? Quando devias estar a usar todos os polícias da FDS, mandas o Berquist!

— Mas, minha querida, tu não estás a ver a situação. Nós não podemos. Oficialmente ele não desapareceu. Compreendes, existe... bem, o outro sujeito. O, hum, o Homem de Marte «oficial».

— Oh... — Ela tamborilou na mesa. — Eu disse-te que esse esquema de substituição nos ia meter em trabalhos.

— Mas, minha querida, foste tu que o sugeriste.

— Não sugeri nada. E não me contraries. Hum... manda chamar o Berquist.

— Ah, Berquist está fora, seguindo o rasto dele. Ainda não comunicou conosco.

— Hã? Berquist a esta hora está a caminho de Zanzibar. Vendeu-nos. Nunca confiei nesse homem. Eu avisei-te, quando o contrataste, que...

— Quando eu o contratei?

— Não me interrompas!, que um homem que rouba dinheiro duas vezes roubaria três vezes. — Concentrou-se no pensamento. — Joseph, a Aliança Oriental está por detrás disto. Podes contar com um voto de confiança na Assembléia.

— Hã? Não vejo porquê. Ninguém sabia de nada.

— Oh, por amor de Deus! Toda a gente ficará a saber; a Aliança Oriental tratará disso. Está calado e deixa-me pensar.

Douglas calou-se. Leu que o Conselho da Condado da Cidade de Los Angeles tinha pedido auxílio à Federação para o seu problema da poluição, pois o ministro da Saúde não fora capaz de o resolver — tinha de lhes ser concedida uma verba, pois Charlie ia passar um mau bocado recandidatando-se ao mesmo tempo que os Fosteritas apresentavam o seu próprio candidato. A cotação da Empresa Lunar tinha subido dois pontos...

— Joseph.

— Sim, minha querida?

— O nosso «Homem de Marte» é o único; aquele que a Aliança Oriental nos vai atirar à cara é falso. É assim que tem de ser.

Mas, minha querida, não podemos impô-lo.

— Que é que queres dizer com não podemos? Temos de o fazer.

— Mas não podemos. Os cientistas dariam pela substituição imediata­mente. Tenho tido um trabalho dos diabos para os manter afastados dele, todo este tempo.

— Cientistas!

— Mas eles podem, sabes.

— Não sei nada disso. Cientistas! Metade é adivinhação e metade superstição. Deviam ser todos presos; deviam ser proibidos por lei. Joseph,   estou farta de dizer e de repetir: a única ciência verdadeira é a astrologia.

— Bem, não sei, minha querida. Eu não sigo a astrologia...

— Acho bem que nunca o faças! No fim de contas, tudo é feito por ti.

— ... mas estes cientistas são muito espertos. Um deles dizia-me outro dia que havia uma estrela que pesava seis mil vezes mais do que chumbo. Ou era sessenta mil? Deixa-me ver...

— Disparates! Como é que eles podem saber uma coisa dessas? Está calado, Joseph. Nós não admitimos nada. O homem deles é falso. Entretanto vamos utilizar a máxima capacidade dos nossos esquadrões de Serviço Especial e trazê-lo de volta; se possível, antes de a Aliança Oriental fazer a sua apresentação. Se forem necessárias medidas duras e se esse tal Smith apanhar um tiro, ao tentar resistir à prisão ou a outra coisa qualquer, bem, tanto pior. Só nos tem dado chatices.

— Agnes, tens consciência do que estás a sugerir?

— Eu não estou a sugerir nada. Todos os dias há pessoas que são feridas. Este assunto tem de ser esclarecido, Joseph, por todos nós. A bem da maioria, como tu estás sempre a dizer.

— Não quero que o rapaz seja ferido.

— Quem é que falou em feri-lo? Tens de tomar medidas firmes, Joseph; é o teu dever. A história dar-te-á razão. Que é mais importante: manter as coisas como estão e poder até prejudicar cinco bilhões de pessoas, ou deixar-se levar por sentimentalismos acerca de um homem que nem sequer é propriamente um cidadão?

Douglas não respondeu. A Sra. Douglas levantou-se.

— Bom, não posso perder tempo a discutir coisas intangíveis; tenho de pedir a Madame Vesant que faça um novo horóscopo. Não perdi os melhores anos da minha vida a pôr-te onde tu estás, para te ver cair devido a falta de inteligência. Limpa o ovo do queixo.

Saiu.

O chefe executivo do planeta ficou para mais duas xícaras de café até se sentir à altura de enfrentar o Conselho. Pobre velha Agnes! Ele pressentia que tinha sido uma desilusão para ela... e não havia dúvida que a modificação da vida não tornava as coisas mais fáceis. Bom, pelo menos ela era leal, até às pontas dos pés... e todos nós temos defeitos; ela estava provavelmente tão farta dele como ele — sem dúvida alguma!

Endireitou-se. Havia uma coisa de que ele tinha a certeza: não os ia deixar ser violentos com Smith. É claro que ele era uma fonte de aborrecimentos, mas tinha um modo de pedir ajuda totalmente desprotegido e semi-deliberado. Agnes deveria ter visto como ele se assustava facilmente, e então não falaria deste modo. Smith apelaria para o seu instinto maternal.

Mas Agnes tem algum instinto maternal? Quando ela se punha a gritar era difícil ouvi-la. Oh, que interessava isso, todas as mulheres tinham instintos maternais; a ciência tinha provado isso. Bem, teriam mesmo?

De qualquer modo, ao Diabo com a sua coragem, não ia permitir que ela o manobrasse. Ela passava a vida a dizer-lhe que fora ela que o colocara no topo, mas ele sabia mais... e a responsabilidade era só dele. Levantou-se, endireitou os ombros, e foi para o Conselho.

Esperou durante todo o dia que aparecesse alguém com quem partilhar a sua preocupação. Mas ninguém apareceu. Foi forçado a concluir que o fato de Smith ter desaparecido era considerado, pelo seu próprio pessoal, tão inverossímil como parecia. O secretário-geral desejou poder fechar os olhos e esquecer toda aquela horrível confusão, mas os acontecimentos não lho permitiriam, nem a sua mulher.

Agnes Douglas não esperou que o marido atuasse no caso do Homem de Marte. O pessoal do marido recebia ordens tão prontamente dele como dela — ou ainda mais prontamente dela. Mandou chamar o secretário executivo para a informação civil, em seguida virou-se para a sua necessi­dade mais urgente, um horóscopo fresquinho. Havia um improvisado circuito televisivo interno da sua suíte para o estúdio de Madame Vesant; as feições roliças da astróloga surgiram imediatamente na tela.

— Agnes? Que é que se passa, querida? Estou com um cliente.

— O seu circuito não está sob escuta?

— Claro que não.

— Livre-se desse cliente.

Madame Vesant não mostrou qualquer aborrecimento.

— Só um momento.

As suas feições desapareceram e foram substituídas pelo sinal de «espera». Um homem entrou e aproximou-se da secretária da Sra. Douglas; ela viu que era James Sanforth, o agente da imprensa que mandara chamar.

— Sabe alguma coisa de Berquist? — perguntou.

— Hã? Eu não estava a tratar disso; isso é da competência de McCrary. Ela ignorou o que James dissera.

— Tem de o desacreditar antes que ele fale.

— Acha que Berquist nos vendeu?

— Não se faça de ingênuo. Devia ter falado comigo antes de o utilizar.

— Mas não falei. Era trabalho de McCrary.

— Você tem obrigação de saber o que se passa. Eu... — O rosto de Madame Vesant voltou a aparecer na tela. — Espere aí — disse a Sra. Douglas a Sanforth. Voltou-se para a tela. — Allie querida, quero novos horóscopos para mim e para o Joseph, imediatamente.

— Com certeza. — A astróloga hesitou. — Posso ser-lhe muito mais útil se me disser qual a natureza da emergência.

A Sra. Douglas tamborilou na secretária.

— Não precisa de saber, pois não?

— Claro que não. Todo aquele que possui os ensinamentos rigorosos necessários, a perícia matemática e o conhecimento das estrelas pode calcular um horóscopo, sabendo apenas a hora e o local de nascimento do indivíduo. Você podia aprender... se não estivesse sempre tão terrivelmente ocupada. Mas lembre-se: as estrelas dão somente tendências, não obrigam a nada. Se tenho de fazer uma análise pormenorizada para que a possa aconselhar numa crise, preciso saber em que sector devo procurar. Estará mais relacionado com a influencia de Vênus? Ou possivelmente com a de Marte? Ou...

A Sra. Douglas decidiu:

— Com Marte — interrompeu. — Allie, quero um terceiro horóscopo.

— Muito bem. De quem?

— Hum... Allie, posso confiar em si? Madame Vesant pareceu ofendida.

— Agnes, se não tem confiança em mim, é melhor não me consultar. Existem outras pessoas que lhe podem dar leituras científicas. Não sou a única estudiosa da sabedoria arcaica. O Prof. Von Krausemeyer é muito competente, muito embora esteja inclinado para... — Madame Vesant deixou a sua voz diminuir de intensidade.

— Por favor, por favor! Nunca pensaria em deixar outra pessoa fazer um cálculo para mim. Agora ouça. Ninguém a está a ouvir?

— Claro que não, querida.

— Quero um horóscopo para Valentine Michael Smith.

— Valentine Mich... O Homem de Marte?

— Sim, sim. Allie, ele foi raptado. Temos de o encontrar.

Duas horas mais tarde, Madame Alexandra Vesant afastou-se da sua cadeira e suspirou. Mandara a sua secretária cancelar todos os seus compromissos; folhas cobertas de diagramas e de figuras e um almanaque náutico com as folhas dobradas testemunhavam os seus esforços. Alexandra Vesant diferia dos outros astrólogos no aspecto de que ela tentava realmente calcular as «influências» dos corpos celestes, usando um livro cosido à mão intitulado A Arcana Ciência da Astrologia Judiciosa e Chave para a Pedra de Salomão, que pertencera ao seu último marido, o Prof. Simon Magus, mentalista, hipnotizador de palco, ilusionista e estudioso do arcano.

Confiava no livro como confiara nele; não havia ninguém que fosse capaz de fazer um horóscopo como Simon, quando estava sóbrio — em metade das vezes nem precisara do livro. Ela sabia que nunca conseguiria atingir esse grau de perícia; usava sempre tanto o almanaque como o manual. Os seus cálculos eram muitas vezes confusos; Becky Vesey (como tinha sido conhecida) nunca dominara realmente as tabelas de multiplicação e tinha uma tendência para confundir os setes com os noves.

Contudo os seus horóscopos eram eminentemente satisfatórios; a Sra. Douglas não era o seu único distinto cliente.

Fora tocada pelo pânico quando a Sra. Douglas tinha pedido um horóscopo para o Homem de Marte — sentira a mesma coisa que costumava sentir quando qualquer idiota da platéia lhe atava a venda à volta dos olhos, antes de o professor lhe começar a fazer perguntas. Mas descobrira nesses tempos em que era ainda rapariga, que possuía talento para responder acertadamente; tinha dominado o seu pânico e prosseguido com o show.

Assim, pedira a Agnes que lhe dissesse a hora exata, a data e o local de nascimento do Homem de Marte, tendo quase a certeza de que não eram conhecidos.

Mas tinham-lhe sido fornecidas informações precisas, depois de um pequeno atraso, tiradas do diário de bordo do Envoy. Nessa altura ela já não estava assustada, e tinha simplesmente aceitado os dados e prometido voltar a comunicar, já com os horóscopos prontos.

Mas, depois de duas horas de penosa aritmética, embora tivesse completado as pesquisas para o Sr. e Sra. Douglas, não tinha nada para Smith. O problema era simples — e insuperável. Smith não nascera na Terra.

A sua bíblia astrológica não incluía uma tal ideia; o seu autor anônimo morrera antes de o primeiro foguete chegar à Lua. Tentou encontrar uma solução para o dilema, pressupondo que os princípios eram imutáveis e que apenas tinha de corrigir os deslocamentos. Mas viu-se perdida num labirinto de relações desconhecidas; não tinha a certeza se os signos do Zodíaco eram os mesmos vistos de Marte... e que é que alguém podia fazer sem os signos do Zodíaco?

Podia muito facilmente ter extraído uma raiz cúbica, mas tinha sido esse o obstáculo que a fizera abandonar a escola.

Foi buscar um tônico que guardava para ocasiões difíceis. Apressou-se a tomar uma dose, deitou outra no copo e pensou no que Simon teria feito. Pôde então ouvir a sua voz firme: «Confiança, garota! Tem confiança e os rústicos terão confiança em ti. Deves-lhes isso.»

Sentiu-se muito melhor e começou a escrever os horóscopos para os Douglas. Tornou-se então fácil escrever um para Smith; viu que, como sempre, as palavras no papel autentificavam-se a si próprias — e eram tão maravilhosamente verdadeiras! Estava a acabar quando Agnes voltou a ligar.

— Allie, já acabou?

— Mesmo agora — respondeu Madame Vesant, com vivacidade. — Compreende que o horóscopo desse jovem Smith apresentou um problema invulgar e difícil para a ciência. Tendo nascido como ele nasceu, noutro planeta, todos os aspectos tiveram de ser recalculados. A influência do Sol é diminuta; a de Diana quase não existe. Júpiter tem uma enorme importância, deveria dizer, é o «único» aspecto, se eu tiver razão, compre­ende. Isto requeria computação de...

— Allie! Deixe isso. Sabe as respostas?

— Naturalmente.

— Oh, graças a Deus! Pensei que me estava a dizer que era de mais para si.

Madame Vesant mostrou-se ofendida na sua dignidade.

— Minha querida, a ciência nunca muda; o que muda são apenas as configurações. Os meios que predisseram o momento e o local do nasci­mento de Cristo, que disseram a Júlio César o momento e o modo da sua morte... como é que podia falhar? Verdade é Verdade, inalterável.

— Sim, claro.

— Está pronta?

— Deixe-me ligar o gravador... pode começar.

— Muito bem. Agnes, este é um período muito crítico na sua vida; nunca os céus se tinham juntado em tão forte configuração. Acima de tudo, tem de estar calma, não impaciente, e pensar bem nas coisas. No seu conjunto, os presságios são a seu favor... desde que você evite tomar decisões precipitadas. Não deixe que a sua mente seja perturbada pelas aparências superficiais...

Madame Vesant prosseguiu, dando conselhos. Becky Vesey dava sempre bons conselhos e dava-os com convicção, pois acreditava neles. Aprendera com Simon que, mesmo quando as estrelas estavam sombrias, havia sempre um meio de suavizar o golpe, um aspecto que o cliente podia utilizar tendo em vista a felicidade...

O rosto tenso que se lhe opunha na tela ia acalmando e começou a acenar em sinal de assentimento à medida que ela ia apresentando os seus pontos de vista.

— Portanto, compreende — concluiu —, a ausência do jovem Smith é uma necessidade, sob as influências conjuntas de três horóscopos. Não se preocupe; ele voltará... ou ouvirá falar dele... muito em breve. O importante é não tomar nenhuma decisão drástica. Tenha calma.

— Sim, compreendo.

— Mais uma coisa. O aspecto de Vénus é mais favorável e potencial­mente dominante sobre o de Marte. Vênus simboliza-a a si, claro, mas Marte é ao mesmo tempo o seu marido e o jovem Smith... como resultado das circunstâncias únicas do seu nascimento. Isto atira para cima de si um duplo fardo e você tem de superar o desafio; tem de demonstrar aquelas qualidades que são peculiares às mulheres: calma, sensatez e autodomínio. Tem de apoiar o seu marido, guiá-lo através desta crise e acalmá-lo. Tem de substituir as nascentes de sabedoria da mãe-terra. Isto é o seu principal talento... tem de o utilizar.

A Sra. Douglas suspirou.

— Allie, você é simplesmente maravilhosa! Não sei como lhe agradecer.

— Agradeça aos Antigos Mestres, de que sou uma humilde estudiosa.

— Não lhes posso agradecer, portanto agradeço-lhe a si. Isto não está coberto pelos seus honorários, Allie. Haverá um presente.

— Não, Agnes. É um privilégio servi-la.

— E é meu privilégio apreciar o serviço. Allie, nem mais uma palavra. Madame Vesant deixou-se persuadir, em seguida desligou, sentindo-se radiosamente satisfeita por ter dado uma leitura que ela sabia que era correta. Pobre Agnes! Era um privilégio suavizar a sua vida, tornar os seus fardos um pouco mais leves. Ajudar Agnes fazia-a sentir-se bem.

Madame Vesant sentia-se bem pelo fato de ser tratada quase de igual para igual pela esposa do secretário-geral, embora não pensasse nisso desse modo, pois não era pedante. Mas a jovem Becky Vesey tinha sido tão insignificante que os porteiros dos recintos da feira nunca se conseguiam lembrar do nome dela, embora tivessem reparado no seu busto. Becky Vesey não lhes guardava ressentimento; Becky gostava das pessoas. Gostava de Agnes Douglas.

Becky Vesey gostava de toda a gente.

Sentou-se por uns momentos, apreciando o calor e apenas um pouco mais de tônico, enquanto o seu cérebro perspicaz juntava os bocadinhos que tinha ouvido aqui e ali. A seguir telefonou ao seu corretor da bolsa e deu-lhe instruções para vender as ações da Empresa Lunar dentro em breve.

Ele resmungou incrédulo:

— Allie, essa dieta para emagrecer está a enfraquecer o teu cérebro.

— Ouve, Ed. Quando elas descerem dez pontos, vende, mesmo que continuem a descer. Depois, quando recuperarem três pontos, compra outra vez... em seguida, quando voltarem a estar mais ou menos com a cotação de hoje, vende-as.

Houve um longo silêncio.

— Allie, tu sabes alguma coisa. Conta ao Tio Ed.

— As estrelas disseram-me, Ed.

Ed fez uma sugestão astronomicamente impossível.

— Está bem, se tu o queres, assim seja. Hum... Nunca tive juízo suficiente para me manter afastado de jogos duvidosos. Importas-te se eu fizer o mesmo?

— Claro que não Ed. Mas não dês muito nas vistas. Esta é uma situação muito delicada, com Saturno oscilando entre Virgem e Leão.

— Como queiras, Allie.

A Sra. Dougals dedicou-se imediatamente às suas atividades, feliz por Allie ter confirmado todas as suas opiniões. Deu ordens para a campanha para desacreditar a reputação do desaparecido Berquist, depois de ter mandado buscar o seu processo; convocou o comandante Twitchell dos Esquadrões do Serviço Especial — este último saiu parecendo descontente e tornou a vida insuportável ao seu secretário executivo. Deu instruções a Sanforth para transmitir outra notícia sobre o Homem de Marte, fazendo referência a um boato «de uma fonte próxima da Administração» que afirmava que Smith estava prestes a ir, ou possivelmente já tinha ido para um sanatório nos Andes, para lhe proporcionar um clima tanto quanto possível parecido com o de Marte. Depois a Sra. Douglas pensou qual seria a melhor forma de segurar os votos do Paquistão.

Em seguida chamou o seu marido e pressionou-o para que ele apoiasse a exigência do Paquistão, que reclamava a parte principal da exploração do tório em Caxemira. Ele não era difícil de persuadir, desde que tivesse a mesma opinião, embora ficasse irritado por ela pretender que ele se opunha a isso. Depois disto resolvido, ela saiu para falar às Filhas da Segunda Revolução sobre A Maternidade no Novo Mundo.

Enquanto a Sra. Douglas falava livremente sobre um assunto de que pouco sabia, Jubal E. Harshaw, bacharel de Direito, doutor em Medicina, cientista, bon vivant, gastrônomo, sibarita, extraordinário autor popular e filósofo do neopessimismo, estava sentado junto à piscina na sua casa de Poconos, coçando a penugem cinzenta do seu peito e observando as suas três secretárias chapinhando na água. Segundo a opinião de Harshaw, a lei do menor esforço requeria que a utilidade e a beleza fossem conjugadas.

Anne era loura, Miriam ruiva e Dorcas morena; possuíam, todas elas, desde curvas bem delineadas até uma deliciosa esbelteza. As suas idades eram superiores aos quinze anos, mas era difícil dizer qual delas era a mais velha.

Harshaw estava a trabalhar muito. Uma grande parte do seu pensamento estava a observar bonitas raparigas, a fazerem bonitas coisas com a água e com o sol; um pequeno compartimento do seu cérebro, fechado à prova de som, estava a compor mentalmente. Ele dizia que o seu método de escrever consistia em ligar as suas gônadas em paralelo com o seu tálamo e desligar o cérebro; os seus hábitos emprestavam credibilidade à teoria.

Sobre a mesa existia um microfone ligado a um gravador, mas ele apenas o usava para tomar notas. Quando estava preparado para escrever usava uma estenógrafa e observava as suas reações. Estava preparado neste momento.

— Quem é que está de serviço? — gritou.

— A Anne — respondeu Dorcas. — Mas deixe que eu faço. Aquele mergulho foi da Anne.

— Mergulha e vai buscá-la. — A morena cortou a água; momentos depois Anne saiu da piscina, vestiu um roupão e sentou-se à mesa. Não disse nada nem fez preparativos; Anne estava à sua inteira disposição.

Harshaw pegou num grande copo cheio de gelo e de Brandy, bebeu um gole. — Anne, tenho uma de fazer chorar as pedrinhas da calçada. É sobre um gatinho que ronda à volta de uma igreja na véspera de Natal para se aquecer. Além de estar esfomeado, gelado e perdido, o gatinho tem (só Deus sabe porquê) uma pata ferida. Está bem; começa: «A neve caía desde...»

— Que pseudônimo?

— Hum... usa «Molly Wadswoth»; esta é muito trágica. Põe-lhe o título A Outra Manjedoura. Começa de novo.

Continuou a ditar enquanto a observava. Quando as lágrimas começaram a brotar dos olhos dela, ele sorriu levemente e fechou os seus. Quando acabou, as lágrimas desciam-lhe pelas suas faces assim como pelas dela, ambos banhados em lágrimas purificadoras.

— Trinta — anunciou Jubal. — Assoa-te. Envia-a e por amor de Deus não me deixes vê-la.

— Jubal, nunca te sentes envergonhado?

— Não.

— Um dia destes dou-te um pontapé na tua enorme barriga por causa de uma destas.

— Eu sei. Leva os teus esquisitos rabiscos e trata deles antes que eu mude de ideias.

— Sim, patrão.

Ao passar por trás da cadeira dele, Anne beijou-lhe a careca. Harshaw gritou:

— Quem é que está de serviço?

Miriam dirigiu-se para ele. Um alto-falante montado na casa fez-se ouvir

— Patrão!

Harshaw proferiu um palavrão e Miriam gaguejou. Ele acrescentou:

— Sim, Larry? A voz respondeu:

— Está aqui uma senhora ao portão... e tem um cadáver com ela. Harshaw considerou isto.

— É bonita?

— Hum... é.

— Então de que é que estás à espera? Deixa-a entrar. — Harshaw recostou-se. — Começa — disse. — A filmagem da cidade dá lugar à filmagem de um interior. Um polícia está sentado numa cadeira direita, sem boina, colarinho aberto, face coberta de suor. Vimos as costas de outra personagem, que está entre nós e o polícia. Essa personagem levanta uma mão, fá-la recuar quase dando a sensação de que vai sair da tela. Esbofeteia o polícia com um ruído pesado de carne, abafado. — Harshaw olhou para cima e disse: — Refaz a partir daí. — Um carro subia a colina dirigindo-se para a casa.

Jill conduzia; um jovem estava ao seu lado. Assim que pararam, o homem saltou para fora, como se sentisse feliz por se separar de tudo aquilo.

— Cá está ela, Jubal.

— Bem vejo. Bom dia, minha menina. Larry, onde é que está o cadáver?

— No banco de trás, patrão. Debaixo de uma manta.

— Mas não é um cadáver — protestou Jill. — É... Ben disse que você... quero dizer... — Jill baixou a cabeça e começou a soluçar.

— Então, minha querida — disse Harshaw gentilmente. — Poucos cadáveres merecem as nossas lágrimas. Dorcas... Miriam... tomem conta dela. Dêem-lhe uma bebida e lavem-lhe a cara.

Foi até ao banco de trás, levantou o cobertor. Jill desembaraçou-se do braço de Miriam e disse, numa voz esganiçada:

—- Tem de me ouvir! Ele não está morto. Pelo menos, espero que não esteja. Ele é... oh coitado! Recomeçou a chorar. — Estou tão suja... e tão assustada!

— Parece ser um cadáver — meditou Harshaw. — Temperatura do corpo abaixo da temperatura do ar, rigidez anormal. Há quanto tempo é que ele morreu?

— Mas ele não está morto! Não o pode tirar dali? Tive um trabalho terrível para o meter lá dentro.

— Com certeza. Larry, ajuda-me... e parece bastante agoniada; se vomitar, tem de limpar. — Tiraram Valentine Michael Smith para fora e deitaram-no na relva: o seu corpo continuava completamente enrolado. Dorcas foi buscar o estetoscópio do Dr. Harshaw, colocou-o na relva, ligou-o e aumentou a corrente.

Harshaw colocou os auscultadores nos ouvidos e começou a procurar o pulsar do coração.

— Receio que esteja enganada — disse gentilmente a Jill. —Este já não precisa da minha ajuda. Quem era ele?

Jill suspirou. A sua face estava despojada de qualquer expressão e respondeu num tom monocórdico:

— Era o Homem de Marte. Tentei com tanto ardor.

— Tenho a certeza de que tentou... o Homem de Marte?

— Sim. Ben... Ben Caxton disse que você era a única pessoa a quem me podia dirigir.

— Ben Caxton, eh? Aprecio a confi... silêncio! — Harshaw gesticulou pedindo silêncio. Primeiro pareceu completamente confundido, depois a surpresa alastrou pela sua face. — Estou a ouvir o coração! Macacos me mordam. Dorcas... lá em cima, a clínica... terceira gaveta na parte fechada do frigorífico; o código é doces sonhos. Traz a gaveta e um centímetro cúbico de hipossulfito de soda.

— Vou imediatamente!

— Doutor, nada de estimulantes!

— Harshaw virou-se para Jill.

— Hã?

— Desculpe, senhor. Eu sou enfermeira... mas este caso é diferente. Eu sei.

— Hum... ele agora é meu doente, enfermeira. Mas há cerca de quarenta anos atrás eu descobri que não era Deus, e dez anos depois descobri que nem sequer era Esculápio. Que é que você quer tentar?

— Quero tentar acordá-lo. Se lhe fizer alguma coisa, ele mergulha ainda mais no estado de transe.

— Hum... vá em frente. Veja só se não usa um martelo. Depois tentaremos os meus métodos.

— Sim, senhor. — Jill ajoelhou-se e começou a tentar ativar os membros de Smith. Harshaw levantou as sobrancelhas quando viu que ela estava a obter sucesso. Jill colocou a cabeça de Smith no seu colo. — Por favor, acorda — disse com suavidade. — Sou o teu irmão de água.

Lentamente o peito começou a encher-se. Smith deixou escapar um grande suspiro e abriu os olhos. Olhou para Jill e sorriu com o seu sorriso infantil. Olhou em redor e o sorriso abandonou-o.

— Está tudo bem — apressou-se Jill a dizer. — Estes são amigos.

— Amigos?

— Todos eles são teus amigos. Não te preocupes... e não entres em transe outra vez. Está tudo bem.

Ele permaneceu imóvel, de olhos abertos, olhando espantado para tudo. Parecia tão contente como um gato ao colo.

Vinte e cinco minutos depois, ambos os pacientes estavam na cama. Jill contara a Harshaw o suficiente, antes de a pílula fazer efeito, para que este se apercebesse de que estava metido em trabalhos. Olhou para o carro em que Jill tinha chegado. Gravado atrás podia-se ler: reading rentals — Equipamento elétrico.

— Larry, a vedação de arame está ligada?

— Não.

— Liga-a. Depois limpa qualquer impressão digital daquele monte de sucata. Quando escurecer, conduz até ao outro lado de Reading... é melhor ir quase até Lancaster... e abandona-o numa vala. Depois segue até Filadélfia, apanha o comboio de Scranton e dá volta para casa.

— Entendido, Jubal. Diga-me: ele é realmente o Homem de Marte?

— Espero bem que não. Se for e eles te apanharem antes de abandonares o carro e te relacionarem com ele, interrogar-te-ão com a ajuda de um maçarico. Suponho que é o Homem de Marte.

— Compreendido. Acha que devo assaltar um banco no caminho de regresso?

— Provavelmente isso é a coisa mais segura que tens a fazer.

— O. K., patrão. — Larry hesitou. — Importa-se que eu passe a noite em Filadélfia?

— Está à vontade. Mas que é que um homem, em nome de Deus, pode fazer à noite em Filadélfia? — Harshaw deixou-o. — Quem está de serviço?

Jill dormiu até à hora de jantar, acordou refrescada e alerta. Aspirou o ar que vinha até ela através de uma janela por cima da sua cabeça e suspeitou que o médico misturara um estimulante com o sedativo. Enquanto dormira, alguém tinha levado as suas roupas sujas e rasgadas e deixara em seu lugar um vestido de jantar e umas sandálias. O vestido era de bom corte; Jill concluiu que devia pertencer à rapariga chamada Miriam. Tomou banho, pintou-se, penteou-se e desceu para a sala de jantar sentindo-se uma pessoa nova.

Dorcas estava enroscada numa cadeira, fazendo renda; acenou-lhe Como se Jiil fizesse parte da família e concentrou-se de novo no seu delicado trabalho. Harshaw preparava uma mistura num jarro cheio de gelo.

— Bebe? — perguntou.

— Ah, sim, obrigado.

Ele encheu uns enormes copos de coquetel até as bordas e entregou-lhe um. — Que é isto? — perguntou Jill.

— Uma receita minha. Um terço de vodka, um terço de ácido muriático e um terço de água destilada... duas pitadas de sal e um pouco de beterraba em vinagre.

— E melhor tomar um uísque com soda — aconselhou Dorcas.

— Mete-te na tua vida — respondeu-lhe Harshaw. O ácido hidroclórico ajuda a digestão; a beterraba tem vitaminas e proteínas. — Ergueu o copo e disse solenemente: — Às nossas nobres pessoas! Não existem muitos como nós. — E esvaziou-o de um trago.

Jill bebeu um pequeno gole, depois outro maior. Quaisquer que fossem os ingredientes daquela bebida, parecia ser mesmo o que ela precisava; uma sensação reconfortante espalhava-se desde o centro até às extremidades do seu corpo. Bebeu cerca de metade e deixou Harshaw voltar a enchê-lo.

— Foi ver o seu doente? — perguntou ele.

— Não, senhor. Não sabia onde ele estava.

— Fui vê-lo há alguns minutos. Dormia como uma criança... penso. Vou batizá-lo com o nome de Lázaro. Acha que ele gostaria de descer para jantar?

— Não sei, doutor — Jill parecia pensativa.

— Bem, se ele acordar eu sabê-lo-ei. Pode juntar-se a nós, ou então comer numa bandeja. Esta é a Galeria da Liberdade, minha querida. Toda a gente faz o que lhe apetece... se fizerem alguma coisa de que eu não goste, corro-os daqui para fora. A propósito: não gosto que me tratem por «doutor».

— Senhor?

— Oh, não estou ofendido. Mas, quando eles começaram a ir buscar os doutorados para se ocuparem da música folclórica e da pesca à linha, tornei-me demasiado orgulhoso para usar o título. Nunca seria capaz de tocar em uísque falsificado e não sinto orgulho em títulos igualmente falsificados. Trate-me por Jubal.

— Oh, mas os títulos na medicina não foram falsificados.

— Então chamem-lhe outra coisa para não se confundirem com supervi­sores de brincadeiras de crianças. Minha menina, qual é o seu interesse neste doente?

— Hã? Eu disse-lhe, dout... Jubal.

— Disse-me o que aconteceu; não me disse porquê. Jill, eu vi o modo como lhe falou. Está apaixonada por ele?

Jill engasgou-se.

— Como? Isso é ridículo!

— De maneira nenhuma. Você é uma rapariga; ele é um rapaz: é uma bela combinação.

— Mas... Não, Jubal, não é isso. Eu... bem, ele estava preso e eu pensei... ou Ben pensou... que estava em perigo. Queremos vê-lo recuperar os seus direitos.

— Hum... minha querida, duvido muito do interesse desinteressado. Você parece ter um equilíbrio glandular normal, portanto penso que ou é Ben ou este pobre rapaz de Marte. É melhor examinar primeiro os seus motivos, e depois pensar na direção a seguir. Entretanto, que quer que eu faça?

O alcance da pergunta tornou difícil encontrar uma resposta. Na altura em que Jill atravessara o seu Rubicão pensara apenas em escapar. Não tinha planos.

— Não sei.

— Era o que eu calculava. Supondo que você gostaria de proteger a sua licença, tomei a liberdade de enviar uma mensagem de Monreal para a sua enfermeira-chefe. Pedia autorização para se ausentar devido a doença na família. Fiz bem?

Jill sentiu-se subitamente aliviada. Pusera de lado toda e qualquer preocupação quanto ao seu próprio bem-estar; contudo, no seu íntimo existia uma certa preocupação causada pelo que fizera à sua situação profissional.

— Oh, Jubal, muito obrigado! — E acrescentou: — Por enquanto ainda não sou uma delinqüente; hoje era o meu dia de folga.

— Ótimo. Que quer fazer?

— Não tive tempo para pensar. Ah, deveria pôr-me em contacto com o meu banco e levantar algum dinheiro... — Fez uma pausa tentando recorda-se do seu saldo. Nunca era muito elevado e algumas vezes esquecia-se...

Jubal cortou-lhe o pensamento.

— Se o fizer terá imediatamente os polícias à perna. Não seria preferível ficar aqui até as coisas se acalmarem?

— Oh, Jubal, não quero abusar de si.

— Já abusou. Não se preocupe criança; existem sempre, por aqui, armas disponíveis. Ninguém abusa de mim contra a minha vontade, portanto descontraia-se. Agora tratemos do nosso doente: você disse que queria que ele recuperasse os seus direitos. Espera que eu a ajude?

— Bem... Ben disse... Ben pensava que você ajudaria.

— Ben não fala por mim. Não estou interessado nos ditos «direitos» deste rapaz. A sua reivindicação sobre Marte é aldrabice de advogados; sendo eu um advogado, não preciso de a respeitar. Quanto à fortuna que se supõe ser dele, a situação resulta das paixões de outras pessoas e dos nossos estranhos costumes tribais; ele não fez nada por a merecer. Ele teria sorte se o despojassem de tudo... mas não seria eu que iria esquadrinhar um jornal para o descobrir. Se Ben estava à espera que eu fosse lutar pelos «direitos» de Smith, veio bater à porta errada.

— Oh. — Jill sentiu-se perdida. — É melhor arranjar as coisas para me ir embora com ele.

— Oh, não. A não ser que o deseje.

— Mas você disse...

— Eu disse que não estava interessado em ficções legais. Mas um convidado debaixo do meu teto, é um outro assunto. Ele pode ficar, se quiser. Só quis esclarecer que não tenho intenção de me meter na política para servir as ideias românticas que você ou Ben podem acarinhar. Minha querida, eu costumava pensar que estava a servir a humanidade, e esse pensamento confortava-me. Então descobri que a humanidade não quer ser servida; antes pelo contrário, recusa qualquer tentativa para a servir. Portanto, agora faço aquilo que agrada a Jubal Harshaw. — Voltou-se. — Hora de jantar, não é Dorcas? Está alguém a fazer alguma coisa?

— Miriam. Ela pousou a renda e levantou-se.

— Nunca consegui descobrir como é que estas raparigas dividem o trabalho.

— Patrão, como é que havia de saber... Você nunca faz nada. — Dorcas deu-lhe uma palmadinha no estômago. — Mas nunca perde uma refeição.

Um gongo soou. E foram comer. Se Miriam fizera o jantar, devia tê-lo feito com a ajuda dos mais modernos aparelhos; estava sentada aos pés da mesa e parecia calma e bela. Além das secretárias havia um homem ligeiramente mais velho do que Larry, chamado «Duke», que tratou Jill como se esta tivesse vivido sempre ali. O serviço era executado por máquinas não andróides, comandadas do lado da mesa em que Miriam estava sentada. A comida era excelente e, tanto quanto Jill podia dizer, nada era sintético.

Mas Harshaw não ficou contente com a comida. Queixou-se de que a sua faca não cortava e que a carne era dura; acusou Miriam de servir restos. Ninguém parecia ouvi-lo, mas Jill estava a começar a sentir-se embaraçada por causa de Miriam quando Anne pousou o garfo.

— Ele voltou a falar nos cozinhados da mamã — afirmou ela.

— Está a começar a pensar que é do novo patrão — concordou Dorcas.

— Há quanto tempo é que isto dura?

— Há cerca de dez dias.

— Isso é muito tempo. — Anne reuniu Dorcas e Miriam com o olhar e elas levantaram-se. Duke continuou a comer.

Harshaw apressou-se a dizer:

— Raparigas, às refeições, não! Esperem até... Elas dirigiram-se para ele; uma das máquinas afastou-se do caminho. Anne pegou-lhe nos pés, cada uma das outras num braço; as portas francesas deslizaram para o lado; elas levaram-no lá para fora, aos guinchos.

Os guinchos acabaram num mergulho.

As mulheres regressaram, nada atrapalhadas com o que tinham acabado de fazer. Miriam sentou-se e voltou-se para Jill.

— Queres mais salada, Jill?

Harshaw voltou de pijama e robe em vez de jaquetão. Uma máquina cobrira o seu prato quando ele fora arrastado da sala; agora destapava-o e ele continuou a comer.

— Como eu ia dizendo — comentou —, uma mulher que não sabe cozinhar é um desperdício de pele. Se não começar a ter um serviço decente vou trocá-las por um cão e matar o cão. Qual é a sobremesa, Miriam?

— Bolo de morangos.

— Já soa melhor. Estão todas suspensas até quarta-feira.

Depois de jantar, Jill foi até a sala, com intenção de ver um noticiário, ansiosa por descobrir se tomava parte nele. Não encontrou nenhum receptor nem nada que pudesse esconder uma cabina. Pensando nisso, não conseguiu lembrar-se de ter visto algum, nem jornais, embora houvesse montes de livros e de revistas.

Ninguém foi ter com ela. Começou a pensar que horas seriam. Deixara o seu relógio lá em cima, portanto olhou em volta, procurando um. Não conseguiu encontrar nenhum, depois procurou na sua memória e não se recordou de ter visto algum relógio ou calendário em qualquer das salas em que tinha estado. Resolveu ir para a cama. Uma das paredes estava cheia de livros; encontrou uma cassette de Apenas Contos, de Kipling, e levou-a para cima.

A cama era ultramoderna, com automassagem, máquina de café, controle de temperatura, máquina de leitura, etc. — mas não havia despertador. Jill pensou que provavelmente não iria adormecer profunda­mente; enfiou-se na cama, introduziu a cassete na máquina de leitura, recostou-se e observou as palavras que se iam sucedendo através do teto. Passado pouco tempo, o controle escorregou-lhe dos dedos, as luzes apagaram-se e ela adormeceu.

Jubal Harshaw não conseguiu dormir tão facilmente; estava envergonha­do consigo próprio. O seu entusiasmo acalmara e a reação não se fez esperar. Há cinqüenta anos atrás fizera o juramento solene de não voltar a recolher um gato extraviado — e agora, pelas múltiplas facetas de Vênus Genetrix, recolhera dois de uma só vez... não, três, se contasse com Ben Caxton.

O fato de ter quebrado o seu juramento mais vezes do que o número de anos que desde então se tinham passado não perturbavam; não primava pela consistência. Nem mais dois pensionistas debaixo do seu teto o aborreciam; não era mesquinho. Em mais de um século de vida aventurosa, estivera falido muitas vezes. Mas também já tinha sido mais rico do que era agora; considerava estas duas situações como vicissitudes da vida e nunca contava os trocos.

Mas a confusão que de certeza se iria seguir, quando apanhassem estas crianças, punha-o de mau humor. Considerava como certo o fato de eles virem a ser apanhados; aquela ingênua Gillian deixaria uma pista como uma vaca aleijada!

Pouco tempo depois disso, as pessoas precipitar-se-iam para o seu santuário, fazendo perguntas, exigências... ele teria de tomar decisões e agir. Estando convencido de que toda a ação era inútil, essa perspectiva irritou-o.

Não esperava que os seres humanos tivessem uma conduta racional; havia mesmo muita gente que era candidata a internamento devido a insanidade mental. Desejava simplesmente que o deixassem em paz! — todos, menos aqueles que ele escolhera para seus companheiros de folguedos. Estava convencido de que, entregue a si próprio, teria ainda muito tempo de vida, desde que atingisse o nirvana... mergulharia no seu umbigo e desapareceria da vista, como os ilusionistas hindus. Porque é que não haviam de deixar um homem em paz?

Por volta da meia-noite atirou fora o seu vigésimo sétimo cigarro e sentou-se; as luzes acenderam-se.

— Quem é que está de serviço? — gritou através de um microfone. Dorcas entrou, de robe e chinelos. Bocejou e disse:

— Sim, patrão?

— Dorcas, durante os últimos vinte ou trinta anos tenho sido um parasita sem qualquer valor e que não presta para nada.

Ela tornou a bocejar.

— Toda a gente sabe isso.

— Deixa-te de graças. Existe uma altura na vida de todo o homem em que ele tem de deixar de ser sensato... uma altura em que uma pessoa deve levantar-se... lutar pela liberdade... combater os perversos.

— Ummm...

— Portanto, pára de bocejar, chegou essa altura.

Ela olhou para baixo.

— Talvez seja melhor vestir-me.

— Sim. Vai acordar as outras, também; vamos estar muito ocupados. Deita a Duke um balde de água pela cabeça abaixo e diz-lhe para limpar a máquina falante e para a colocar no estúdio. Quero ouvir as notícias.

Dorcas estava atônita.

— Você quer estereovisão?

— Ouviste o que eu disse. Diz ao Duke que, se ela estiver avariada, é melhor ele escolher um destino e começar a andar. Agora despacha-te. Vamos ter uma noite atarefada.

— Está bem — concordou Dorcas duvidosamente — mas primeiro tenho de lhe tirar a temperatura.

— Paz mulher!

Duke instalou o receptor a tempo de permitir que Jubal visse uma retransmissão da segunda falsa entrevista com o «Homem de Marte». O comentário incluía um boato sobre a mudança de Smith para os Andes. Jubal analisou esta notícia, depois do que começou a telefonar a várias pessoas até de manhã. Ao amanhecer, Dorcas trouxe-lhe o café da manhã, seis ovos batidos com Brandy. Ele sorveu-os enquanto refletia que uma das vantagens de uma vida longa era um homem conhecer quase toda a gente de importância — e poder apelar para eles em caso de necessidade.

Harshaw preparara uma bomba mas não queria despoletá-la antes de o poder instituído o forçar a isso. Compreendia que o Governo podia voltar a aprisionar Smith com base no fato de ele ser demente. Na sua opinião, Smith era legalmente demente e medicamente psicopata, de acordo com os padrões vulgares, e ainda vítima de uma psicose situacional duplamente bloqueada, de uma importância única e enorme, primeiro porque fora educado por não humanos, segundo por ter sido lançado numa sociedade estranha.

Mas ele considerava irrelevante, tanto a noção legal de sanidade como a noção médica de psicose. Este animal humano conseguira uma adaptação profunda, e aparentemente bem sucedida, a uma sociedade não humana — mas quando era uma maleável criança. Poderia, como adulto com hábitos já formados e pensamentos estabelecidos, fazer uma outra adaptação igual­mente radical e muito mais difícil para um adulto? O Dr. Harshaw tencionava descobri-lo; era a primeira vez, em várias décadas, que se interessava realmente pela medicina.

Além disso sentia-se excitado com a idéia de contrariar o poder instituído. Possuía mais do que o seu quinhão daquela quantidade de anarquia que era direito adquirido pelo nascimento de qualquer americano; e o fato de se opor ao Governo planetário enchia-o de um entusiasmo como já não sentia há muitos, muitos anos.

À volta de uma estrela de tipo G situada numa das bordas de uma galáxia de tamanho médio, os planetas giravam tal como o faziam desde há milhões de anos. Quatro deles eram suficientemente grandes para serem notados; o resto eram pequenas rochas, escondidos pelas auras incandescentes dos de grandeza primária ou perdidos na negra vastidão do espaço. Todos, como acontece sempre, estavam contaminados por essa coisa extravagante de distorcida entropia chamada vida; no terceiro e no quarto planeta, as temperaturas da superfície rondavam o ponto de congelamento do monóxido de hidrogênio; em conseqüência disto tinham desenvolvido formas de vida suficientemente similares para permitir um certo grau de contacto social.

No quarto planeta os antigos Marcianos não era perturbados pelo contacto com a Terra. Ninfas saltitavam alegremente pela superfície, aprendendo a viver, e oito entre nove morriam no decurso dessa aprendiza­gem. Os marcianos adultos, completamente diferentes das ninfas, tanto no corpo como no espírito, viviam em graciosas cidades e eram tão calmos quanto as ninfas eram irrequietas — contudo eram mais ativos e possuíam uma vida espiritual muito rica.

Os adultos não estavam dispensados do trabalho, no sentido que os humanos dão a esta palavra; tinham um planeta para vigiar; tinham de dizer às plantas onde e quando deviam crescer; as ninfas que tinham ultrapassado a aprendizagem e tinham sobrevivido tinham de ser reunidas, protegidas e fertilizadas; o ovo resultante tinha de ser protegido e contemplado para o encorajar a amadurecer da melhor maneira. As ninfas deviam ser persuadi­das a desistir das brincadeiras infantis e a metamorfosearem-se em adultos. Tudo isto tinha de ser feito — mas estas tarefas eram para os marcianos o mesmo que, para um homem que governa uma cooperação de um vasto planeta, levar o cão a passear duas vezes por dia... muito embora esses passeios, para os olhos de um ser da Arcturus III, possam parecer a atividade mais importante do magnata... como um escravo do cão.

Marcianos e humanos eram ambos formas de vida conscientes, mas haviam seguido direções completamente diferentes. Todo o comportamento humano, todas as motivações humanas, todos os receios e esperanças do homem, eram controlados pelos estranhamente belo e trágico padrão de reprodução da humanidade. O mesmo se passava em Marte, mas segundo um modelo corolário. Marte possuía o eficiente padrão bipolar tão comum nesta galáxia, mas os Marcianos possuíam-no numa forma tão diferente da forma terrena que apenas um biólogo a poderia considerar como «sexo», enquanto um psiquiatra afirmaria energicamente que isso não era «sexo». As ninfas marcianas eram femininas, e todos os adultos eram masculinos.

Mas em cada um deles essa diferenciação era apenas uma função, não uma psicologia. A polarização homem-mulher que controlava a vida humana não podia existir em Marte. Não havia possibilidade de «casamento». Os adultos eram enormes, lembrando, aos humanos que os observassem, barcos com as velas desfraldadas; eram fisicamente passivos e mentalmente ativos. As ninfas eram gordas, com o aspecto de esferas peludas, muito irrequietas, e possuíam pouca energia mental. Não se podia estabelecer um paralelo entre as instituições marcianas e humanas. A bipolarização humana era, ao mesmo tempo, força de união e energia propulsora para todo o comportamento humano, desde a composição de sonetos até à solução de equações nucleares. Se alguém pensar que isto é exagero dos psicólogos humanos, esse alguém que vá visitar as repartições de registro de patentes, as bibliotecas e as galerias de arte para criações de eunucos.

Marte, com mecanismos diferentes dos da Terra, prestou pouca atenção às naves Envoy e Champion. Os acontecimentos eram demasiado recentes para serem significativos: se os Marcianos usassem jornais, uma edição em cada século terrestre seria suficiente. O contacto com outras raças não representava nada de especial para os Marcianos; já acontecera antes, voltaria a acontecer. Quando uma outra nova raça era minuciosamente grocada (o que demorava mais ou menos mil anos terrestres), então seria a altura de agir, caso fosse necessário.

Em Marte o acontecimento atual de maior importância era de uma espécie diferente. Os Velhos incorpóreos tinham decidido, quase distraidamente, mandar este companheiro de ninho humano grocar aquilo que pudesse do terceiro planeta. Depois voltaram a sua atenção para assuntos importantes.

Pouco tempo antes, por volta da era do terreno César Augusto, um artista marciano estivera a compor uma obra de arte. Poder-se-lhe-ia ter chamado um poema, uma obra musical ou um tratado de filosofia; consistia numa série de emoções compostas numa necessidade lógica e trágica. Uma vez que só poderia ser compreendida por um humano no mesmo sentido em que se poderia explicar um pôr do Sol a um homem cego de nascença, não interessa em que categoria é que ela se poderia integrar. O importante era que o artista se desincorporara acidentalmente, antes de ter terminado a sua obra-prima.

A desincorporação imprevista era rara em Marte; o gosto dos marcianos em tais assuntos fazia com que a vida fosse um ciclo perfeito, com morte física no instante escolhido e apropriado. Contudo, este artista estava tão preocupado que se esqueceu de prestar atenção a isso; quando a sua ausência foi notada, o seu corpo mal servia para comer. Ele não notara a sua desincorporação e continuara a compor a sua seqüência.

A arte marciana estava dividida em duas categorias: a que era criada pelos adultos vivos — era vigorosa, frequentemente radical e primitiva; e a dos Velhos — habitualmente conservadora, extremamente complexa, da qual se esperava que mostrasse padrões mais elevados de técnica; as duas categorias eram julgadas separadamente.

Sob que padrões é que esta obra devia ser julgada? Estabelecia uma ligação entre o corpóreo e o incorpóreo; a sua forma final tinha sido totalmente composta por um Velho — contudo o artista, com a indiferença comum a todos os artistas em toda a parte, não notara a modificação do seu estado e continuara a trabalhar como se estivesse no estado corpóreo. Seria uma nova espécie de arte? Poderiam ser produzidas mais destas obras pela desincorporação imprevista dos artistas, enquanto estavam a trabalhar? Os Velhos vinham discutindo as excitantes possibilidades numa relação meditativa de séculos e todos os marcianos no estado corpóreo esperavam ardentemente o seu veredicto.

A questão era ainda de maior interesse porque se tratava de arte religiosa (no sentido terreno) e fortemente emocional: descrevia o contacto entre a raça marciana e o povo do quinto planeta, um acontecimento que ocorrera há muito tempo, mas que permanecia vivo e era importante para os marcianos, tal como uma morte por crucificação permanecia viva e era importante para os humanos, passados dois milênios. Os marcianos haviam encontrado o povo do quinto planeta, grocaram-no completamente, e tinham agido; ruínas de asteróides era tudo o que restava, embora os marcianos continuassem a apreciar e a elogiar o povo que tinham destruído. Esta nova obra de arte era uma das muitas tentativas para grocar numa só obra, em toda a sua complexidade todo o conjunto de uma bela experiência. Mas antes de ela poder ser julgada era necessário grocar como a deviam julgar.

Era um grande problema.

No terceiro planeta, Valentine Michael Smith não estava nada preo­cupado com este importante problema; nunca ouvira falar dele. Os marci­anos que o tinham protegido e os seus irmãos de água não o haviam maçado com coisas que ele não podia compreender. Smith tinha conhecimento da destruição do quinto planeta tal como qualquer estudante tem conhecimento de Tróia ou de Plymouth Rock, mas não fora exposto a um tipo de arte que não podia grocar. A sua educação tinha sido complexa, muito mais desenvolvida que a de qualquer dos seus companheiros de ninho e muito menor que a de um adulto; o seu protetor e os conselheiros do seu protetor entre os Velhos tinham mostrado um interesse passageiro em ver a quantidade e a espécie de conhecimentos que este estranho companheiro de ninho seria capaz de aprender. Os resultados tinham-lhes ensinado mais, acerca da raça humana, do que essa raça já aprendera sobre si própria, pois Smith grocara prontamente coisas que nenhum outro ser humano tinha alguma vez aprendido.

No presente momento, Smith divertia-se. Encontrara um outro irmão de água em Jubal, fizera muitos novos amigos e estava a apreciar novas e deliciosas experiências, numa tal quantidade que não tinha tempo para as grocar; podia apenas arquivá-las, para serem revistas mais tarde, nos períodos de lazer.

O seu irmão Jubal dissera-lhe que ele grocaria mais depressa este estranho e belo lugar se aprendesse a ler; assim, Smith reservou um dia para o fazer, enquanto Jill lhe apontava as palavras e as pronunciava. Isto significou ter de prescindir da piscina nesse dia, o que era para ele um grande sacrifício, pois nadar (uma vez que era permitido ter a água por cima da cabeça) era não só uma coisa maravilhosa mas também quase um êxtase religioso. Se Jill e Jubal não lhe tivessem dito para o fazer, não teria saído da piscina.

Uma vez que não era permitido nadar de noite. Smith aproveitava essa altura para ler. Estava a passar uma vista de olhos pela Enciclopédia Britânica e experimentava alguns livros das bibliotecas de Direito e de Medicina de Jubal, como sobremesa. O seu irmão Jubal viu-o folhear um dos livros, deteve-se e fez-lhe perguntas sobre aquilo que ele tinha lido. Smith respondeu cuidadosamente, pois recordou-se dos testes feitos pelos Velhos. O seu irmão não pareceu satisfeito com as respostas e Smith achou necessário entrar em meditação: tinha a certeza de que respondera com as palavras do livro, embora não as tivesse grocado completamente.

Mas preferia a piscina aos livros, especialmente quando Jill, Miriam e Larry e todos os outros estavam a tomar banho. Não aprendeu imediatamente a nadar, mas descobriu que era capaz de fazer uma coisa que os outros não podiam. Descia até ao fundo e aí ficava imerso em felicidade — mas, passado pouco tempo, os outros arrastavam-no para fora com tanta excitação que ele era quase obrigado a entrar em transe, se não tivesse a certeza de que eles estavam apenas preocupados com o seu bem-estar.

Mais tarde fez uma demonstração disto a Jubal, permanecendo no fundo da piscina um tempo delicioso, e tentou ensinar Jill a fazer o mesmo — mas ela ficou perturbada e ele desistiu. Era a primeira vez que se apercebia de que existiam coisas que ele era capaz de fazer e que estes seus novos amigos não eram. Smith pensou nisto durante muito tempo, tentando grocar este fato na sua totalidade.

Smith estava feliz; Harshaw não. Continuava na sua habitual indolência, apenas quebrada por observações casuais do seu «animal de laboratório». Não estabelecera nenhum plano de trabalho para Smith nem programa de estudo, nem exames físicos regulares, mas permitira-lhe que andasse livremente pelo rancho. As indicações que Smith recebia vinham de Jill e eram mais que suficientes, na opinião mal-humorada de Jubal; mostrava-se um tanto céptico em relação ao fato de homens serem educados por mulheres.

Contudo, Gillian fez pouco mais que iniciar Smith no comportamento perante a sociedade. Ele comia agora à mesa, vestia-se sozinho (Jubal assim pensava; tinha de perguntar a Jill se ela ainda o ajudava); Smith conformava-se com os costumes informais da casa e cooperava nas suas novas experiências na mesma base em que um macaco observa o que os outros macacos fazem. Na primeira vez em que Smith comeu à mesa, usou apenas uma colher e Jill cortou-lhe a carne. Mas no fim da refeição ele já tentava comer como os outros. Na refeição seguinte, os seus modos eram uma minuciosa imitação dos de Jill, incluindo os maneirismos supérfluos.

Nem mesmo a descoberta de que Smith aprendera a ler com a velocidade de uma máquina, e de que parecia apreender quase a totalidade daquilo que lia, tentou Jubal Harshaw a fazer um «projeto» de Smith, com controles, medições e curvas de progressos. Harshaw possuía a arrogante humildade de um homem que aprendeu tanto que por isso tem consciência da sua própria ignorância; não via qual a utilidade de fazer «medições» quando ele próprio não sabia o que estava a medir.

Mas, embora Harshaw gostasse de observar este espécime único, essa satisfação não lhe trazia felicidade.

Tal como o secretário-geral Douglas, Harshaw estava à espera de que a bomba rebentasse.

Tendo-se visto obrigado a agir, devido a estar na iminência de que agissem contra ele, o fato de não acontecer nada aborrecia Harshaw. Bolas! Os polícias da Federação seriam tão estúpidos que não conseguiam encontrar a pista de uma rapariga ingênua arrastando um homem inconsciente através do campo? Ou tê-la-iam seguido... e estavam agora a fazer um cerco à sua casa? Este pensamento enfurecia-o; o pensamento de que o Governo podia estar a espiar a sua casa, o seu castelo, repugnava-lhe tanto como se lhe abrissem o correio.

Também podiam estar a fazer isso! O Governo! Três quartos de parasitas e o resto uma cambada de estúpidos — oh, é claro que Harshaw admitia que o homem, sendo um animal social, não podia viver sem governo, tal como um indivíduo não pode deixar de se submeter aos seus intestinos. Mas o fato de uma coisa ser imprescindível não era razão para se qualificar isso de «bom». Ele queria que o Governo fosse passear!

Era possível, até mesmo provável, que a Administração soubesse onde estava o Homem de Marte, e preferisse que as coisas ficassem assim.

Se assim fosse, quanto tempo é que isso duraria? E quanto tempo é que ele poderia manter a sua «bomba» armada e pronta a detonar?

E onde é que diabo se tinha metido esse jovem idiota do Ben Caxton?

Jill Boardman forçou-o a sair do seu retiro espiritual.

— Jubal?

— Hã? Ah, é você, olhos brilhantes. Desculpe, estava preocupado. Sente-se. Quer uma bebida?

— Não, obrigada, Jubal, estou preocupada.

— É normal. Foi um bonito salto de anjo. Porque é que não vai mergulhar outra vez?

Jill mordeu o lábio e parecia ter mais vinte anos em cima.

— Jubal! Ouça, por favor! Estou terrivelmente preocupada. Ele suspirou.

— Sendo assim, limpe-se. A brisa está fresca.

— Estou com calor, Oh, Jubal, não se importaria que eu deixasse o Mike aqui?

Harshaw pestanejou.

— Claro que não. As raparigas olharão por ele, isso não é problema.

Vai-se embora?

Jill desviou o olhar.

— Vou.

— Hum... Você é bem-vinda aqui. Mas também tem toda a liberdade para se ir embora, se assim o desejar.

— Hum? Mas, Jubal... eu não quero!

— Então não vá.

— Mas tenho de ir!

— Não estou a perceber nada.

— Não compreende, Jubal? Gosto de estar aqui... você tem sido maravilhoso para nós! Mas não posso ficar. Não com Ben desaparecido. Tenho de o ir procurar.

Harshaw disse uma palavra grosseira e depois acrescentou:

— Como é que tenciona procurá-lo? Ela franziu o sobrolho.

— Não sei. Mas não posso andar por aqui, espreguiçando-me e nadando... sem saber onde está Ben.

— Gilliam, o Ben já é crescidinho. Você não é mãe dele... nem esposa. Não tem obrigação nenhuma de o procurar. Ou será que tem?

Jill enfiou um dedo do pé na relva.

— Não — admitiu. — Não tenho nenhum direito sobre Ben. Sei simplesmente... que se eu desaparecesse... Ben procurar-me-ia até me encontrar. Portanto tenho de o ir procurar!

Jubal praguejou contra todos os deuses que estavam envolvidos nas loucuras humanas e depois disse:

— De acordo, vamos introduzir um pouco de lógica nisso. Tenciona contratar detetives?

Ela pareceu infeliz.

— Suponho que é o melhor que tenho a fazer. Hum, nunca contratei um detetive. São careiros?

— Bastante.

Jill engolliu em seco.

— Deixar-me-iam pagar, hum, em prestações mensais?

— Pronto pagamento é a política deles. Não esteja com essa cara de enterro, criança: eu poupei o suficiente para poder dispor dessa quantia. Já contratei o melhor detetive nesses assuntos para tentar encontrar Ben... não há necessidade de empenhar o seu futuro para contratar o segundo melhor.

— Não me disse nada!

— Não vi necessidade.

— Mas... Jubal, que é que ele descobriu?

— Nada — admitiu ele. — Portanto não havia necessidade de a enervar, contando-lhe. — Jubal franziu o sobrolho. Pensava que você estava desnecessariamente preocupada com Ben... pensei o mesmo que o seu assistente, aquele sujeito, o Kilgallen: que Ben tinha ido atrás de alguma história e que aparecia quando a completasse. — Suspirou. — Agora não penso o mesmo. Aquele idiota do Kilgallen... tem realmente uma mensagem arquivada dizendo que Ben iria para fora da cidade; o meu homem viu-a, fotografou-a e verificou. A mensagem foi enviada.

— Porque é que Ben não mandou uma para mim? Isso não é dele... Ben é muito atencioso. — Jill parecia transtornada.

Jubal reprimiu um gemido.

— Use a cabeça, Gillian. Por um pacote dizer «Cigarros», não quer dizer que na verdade os contenha. Vocês chegaram aqui na sexta-feira; os algarismos de código desse telex mostram que a mensagem foi enviada de Filadélfia, da estação Paoli Flat, às dez e meia da manhã anterior: às dez e trinta e quatro de quinta-feira. Foi imediatamente transmitida e recebida; o escritório de Ben tem receptor próprio. Muito bem, é capaz de me dizer porque é que Ben mandou um telex para o seu próprio escritório, durante as horas de serviço, em vez de telefonar?

— Acho que ele não o faria. Pelo menos eu não o faria. Usar o telefone é o normal...

— Você não é Ben. Posso pensar numa dúzia de razões para um homem com o trabalho de Ben o fazer. Para evitar mensagens truncadas. Para introduzir um registro nos arquivos da I. T. & T. para fins legais. Para enviar uma mensagem de entrega retardada...

Pode haver montes de razões. Kilgallen não viu nisso nada estranho... e o fato de Ben ter feito a despesa para instalar um telex no seu escritório mostra que Ben o usa.

»Contudo — prosseguiu Jubal —, essa mensagem colocava Ben em Paoli Flat às dez e trinta e quatro de quinta-feira. No entanto Jill, ela não foi enviada dali.

— Mas...

— Um momento. As mensagens tanto podem ser entregues em mão como telefonadas. Se são ditadas ao balcão, o cliente tem transmissão fac-similada da escrita e da assinatura... mas se são transmitidas por telefone, têm de ser datilógrafas antes de poderem ser fotografadas.

— Sim, claro.

— Isto não lhe sugere nada?

— Hum... Jubal, estou tão preocupada que nem consigo pensar.

— Pare de arfar; também a mim não me sugeriu nada. Mas o profissional que está a trabalhar para mim possui um caráter muito sutil; foi até Paoli com uma mensagem falsificada a partir da fotografia tirada debaixo do nariz de Kilgallen... e com credenciais que o faziam parecer «Osbert Kilgallen», a quem a mensagem era dirigida. Em seguida, com os seus modos paternais e o seu rosto sincero convenceu uma jovem a dizer-lhe coisas que ela só deveria ter divulgado sob uma ordem do tribunal... é triste dizê-lo. Vulgarmente, ela não se lembraria de uma mensagem entre centenas: vão dos seus ouvidos diretamente para as pontas dos seus dedos, e desaparecem, salvo o caso das micromensagens. Mas esta senhora era uma das fãs de Ben; lê as suas colunas todas as noites... um vício odioso. — Jubal pestanejou. — Quem é que está de serviço? — Anne apareceu a pingar.

— Lembra-me — disse-lhe Jubal — para escrever um artigo sobre a leitura compulsiva de notícias. O tema será as muitas neuroses que podem ser motivadas pelo hábito pouco saudável de mergulhar nos problemas de cinco bilhões de estranhos. O título é «Bisbilhotice Ilimitada»... não põe antes «Bisbilhotice Selvagem».

— Patrão, está a ficar mórbido.

— Eu não. Toda a gente. Vê se eu o escrevo na próxima semana. Agora desaparece; estou ocupado. — Voltou-se para Jill. — Ela notou o nome de Ben... enervada por estar a falar com um dos seus heróis... mas ficou aborrecida porque Ben não pagou para ter visão nem voz. Oh, mas ela lembra-se... e lembra-se também que o serviço foi pago a pronto de uma cabina pública... em Washington.

— Em Washington? — repetiu Jill. — Porque é que Ben telefona­ria de...

— Claro! — concordou Jubal impertinentemente. — Se ele estivesse numa cabina, em Washington, podia ter voz e visão com o seu assistente, mais barato, mais fácil, e mais rapidamente do que teria se telefonasse uma mensagem para voltar a ser enviada para Washington de um local a centenas de quilômetros de distância. Não faz sentido. Ou poderá fazer, mas apenas de uma maneira: trapaça. Ben está tão acostumado à trapaça como uma noiva está a beijos.

Não conseguiu ser o melhor dentro da sua profissão mostrando o seu jogo.

Pode ter pensado que o seu telefone estava sob escuta, e que o seu telex não estava. Ou então suspeitado que ambos estavam sob escuta... e usou esta retransmissão para convencer quem quer que fosse que estivesse a escutá-lo de que estava fora e de que não voltaria em breve. — Jubal franziu o sobrolho. — Nesse caso não lhe faríamos favor nenhum se o encontrásse­mos. Podemos pôr em perigo a sua vida.

— Jubal! Não!

— Jubal, sim — respondeu penosamente. — Este rapaz anda à beira do precipício; foi assim que construiu a sua reputação. Jill, Ben nunca enfrentou uma situação tão perigosa. Se ele desapareceu voluntariamente... quer chamar a atenção para o fato? Kilgallen tem-no coberto, as colunas de Ben aparecem todos os dias. Ocupei-me eu próprio de o verificar.

— Colunas escritas antecipadamente, claro!

— Claro. Ou talvez seja Kilgallen quem as escreve. Em qualquer dos casos, Ben Caxton oficialmente ainda está no seu lugar. Talvez ele o tenha planejado, minha querida... porque corria um perigo tal que não se atreveu sequer a comunicar consigo. Então?

Gillian cobriu a face com as mãos.

— Jubal... não sei o que fazer!

— Não se preocupe — disse bruscamente. — O pior que lhe pode acontecer é a morte... e foi para isso que todos nós nascemos... dentro de dias, semanas, ou anos. Converse com Mike. Ele receia mais uma repreensão do que a «desincorporação». Se eu dissesse a Mike que o íamos assar para o jantar, ele agradecer-me-ia essa honra com a voz cheia de gratidão.

— Eu sei — concordou Jill em voz baixa —, mas eu não tenho a atitude filosófica dele.

— Nem eu — respondeu Jubal alegremente —, mas estou a começar a compreendê-la... e é consolador para um homem da minha idade. Uma capacidade para apreciar o inevitável... ora, durante toda a minha vida eu cultivei isso... mas esta criança, quase sem idade para votar e demasiado ingênuo para se afastar dos carros, convenceu-me que acabei de entrar no jardim infantil. Jill, você perguntou se Mike era bem-vindo. Criança, eu quero guardar esse rapaz até descobrir o que é que ele sabe que eu não sei! Essa coisa da «desincorporação... não é um freudiano «desejo-da-morte»... nem nada como «Até o rio mais lento»... é mais parecido com «Feliz vivi e feliz morri e aqui jazo de boa vontade!» de Stevenson. Suspeito que Stevenson estava a assobiar no escuro ou a apreciar a euforia da consumação, mas estou quase convencido de que Mike sabe aquilo que diz.

— Não sei — respondeu Jill tristemente. — Estou apenas preocupada com Ben.

     — Eu também — concordou Jubal. — Jill, não acho que Ben esteja escondido.

— Mas você disse...

— Desculpe. As minhas investigações não se limitaram ao escritório de Ben e a Paoli Flat. Na quinta-feira de manhã, Ben deslocou-se ao Centro Bethesda com um advogado e uma testemunha: James Cavendish, para o caso de você estar a par dessas coisas.

— Receio não estar.

— Não interessa. O fato de Ben ter procurado Cavendish mostra quanto ele estava preocupado; não se caçam coelhos com armas para elefantes. Foram levados à presença do «Homem de Marte»...

Gillian sobressaltou-se, depois disse:

— Isso é impossível!

— Jill, você está a contrariar a opinião de uma testemunha, e não é uma testemunha qualquer. Se Cavendish o diz, é sagrado.

— Quero lá saber se ele é um dos Doze Apóstolos! Ele não esteve no meu andar quinta-feira de manhã!

— Você não ouviu o que eu disse. Eu não disse que eles tinham sido levados a ver Mike: disse que eles foram levados a ver o «Homem de Marte», o falso, é óbvio... aquele que apareceu na estéreo visão.

— Ah. Claro. E Ben apanhou-os! Jubal mostrou-se triste.

— Menina, Ben não os apanhou, nem sequer Cavendish... pelo menos não o disse. Você sabe qual é o comportamento de uma testemunha.

— Bem... não, não sei. Nunca conheci nenhuma.

— Verdade? Anne!

Anne estava na prancha de saltos; voltou a cabeça. Jubal gritou-lhe:

— Aquela casa no cimo do monte: consegues ver de que cor é que a pintaram?

Anne olhou para ela e depois respondeu:

— É branca deste lado.

Jubal continuou a falar com Jill:

— Está a ver? Não passou pela cabeça da Anne deduzir que o outro lado também era branco. Nem Deus era capaz de a persuadir a comprometer-se... a não ser que ela fosse até lá e se certificasse... e mesmo assim não seria capaz de jurar que tinha continuado da mesma cor depois de ela se ter vindo embora.

— A Anne é uma testemunha?

— Graduada, com licença ilimitada, admitida a prestar provas perante o Supremo Tribunal. Um dia destes pergunte-lhe porque é que ela deixou de praticar a profissão. Mas não faça mais nada nesse dia: a rapariga recitará toda a verdade e nada mais do que a verdade, o que leva tempo. Mas voltemos ao Sr. Cavendish: Ben contratou-o para testemunhar, divulgar, sem lhe impor segredo. Portanto, quando Cavendish foi interrogado, respondeu com todos os pormenores. A parte interessante é o que ele não disse. Ele nunca diz que o homem que viu não era o Homem de Marte... mas nem uma só palavra indica que Cavendish aceitou que o sujeito exibido era o Homem de Marte. Se você conhecesse Cavendish, isto seria conclusivo. Se Caven­dish tivesse visto Mike, tê-lo-ia relatado com tal exatidão que tanto você como eu saberíamos que ele tinha visto o Mike. Por exemplo, Cavendish descreve as orelhas do sujeito... e não coincidem com a forma das orelhas de Mike. Q. E. D. (N. da T.: Abreviatura de quod erat demonstrandum: como queríamos demonstrar); eles exibiram uma falsificação. Cavendish sabe-o, embo­ra esteja profissionalmente proibido de dar opiniões.

— Eu bem lhe disse. Eles nunca foram ao meu andar.

— Mas isto diz-nos mais. Isto passou-se várias horas antes de você ter assaltado a prisão; Cavendish situou a sua chegada à presença do sósia às nove horas e catorze minutos da manhã de quinta-feira. Portanto, nesse momento o Governo ainda tinha Mike sob a sua alçada; poderiam ter exibido Mike. Apesar disso preferiram arriscar mostrar um sósia à testemunha mais conceituada do país. Porquê?

Jill respondeu:

— Está a perguntar-me? Não sei. Ben disse-me que tencionava pergun­tar a Mike se ele queria deixar o hospital... e ajudá-lo se ele dissesse «Sim».

— O que, de fato, Ben tentou com o sósia.

— Ah, sim? Mas, Jubal, eles não podiam ter sabido que Ben tenciona­va... e, de qualquer modo, Mike não se teria vindo embora com Ben.

— Mais tarde ele saiu consigo.

— É verdade... mas eu era o seu «irmão de água», tal como você o é agora. Ele tem essa louca mania de que pode confiar em qualquer pessoa que partilhe com ele um copo de água. Com um «irmão de água» ele é dócil... com qualquer outra pessoa, é teimoso como uma mula. Ben não o poderia ter arrastado. — Jill acrescentou: — Pelo menos era isto que ele pensava a semana passada... está a modificar-se extremamente depressa.

— Pois está. Talvez demasiado depressa. Nunca vi tecido muscular desenvolver-se tão rapidamente. Deixemos isso, voltemos a Ben. Cavendish relatou que Ben o tinha deixado, mais ao advogado, um sujeito chamado Frisby, às nove e trinta e um, e que tinha ficado com o táxi. Uma hora mais tarde ele... ou alguém que se fazia passar por ele... telefonou essa mensagem para Paoli Flat.

— Acha que não era Ben?

— Acho. Cavendish disse qual o número do táxi e os meus rapazes tentaram dar uma olhadela na sua fita diária de viagens. Se Ben tivesse usado o seu cartão de crédito, o número dele estaria gravado na fita; mas, mesmo que ele introduzisse moedas no taxímetro, a fita deveria mostrar onde o táxi tinha estado.

— Então?

Harshaw franziu o sobrolho.

— Os registros mostram que o táxi esteve a ser reparado e que não foi utilizado na quinta-feira de manhã. Portanto, ou a testemunha leu mal o número do táxi ou alguém falsificou o registro. — Jubal acrescentou: — Talvez um júri decidisse que mesmo uma testemunha pode enganar-se num número, especialmente se não lhe tivessem pedido para se lembrar dele... mas eu não acredito nisso: não quando a testemunha é James Oliver Cavendish. Ele ou teria a certeza... ou nunca o teria mencionado no seu relatório. — Harshaw encolheu os ombros. — Jill, você está a obrigar-me a pensar de mais e eu não gosto disso! É certo que Ben podia ter enviado aquela mensagem, mas é muito pouco provável que ele pudesse falsificar o registro do carro... e é ainda menos provável que ele tivesse razões para o fazer. Ben foi a qualquer lado... — e alguém que pode ter acesso aos registros de um transporte público meteu-se numa data de trabalhos para esconder onde ele tinha ido... e enviou uma mensagem falsa, para evitar que alguém pensasse que ele tinha desaparecido.

— Desaparecido! Raptado, quer você dizer!

— Devagar, Jill. «Raptado» é uma palavra muito dura.

— É a única palavra! Jubal, como é que você pode estar aqui sentado quando deveria era estar a gritar tudo isso que me disse do...

— Cale-se, Jill! Em vez de ter sido raptado, Ben pode estar morto. Gillian ficou pensativa.

— Sim — concordou penosamente.

— Mas vamos supor que ele está vivo, pelo menos até vermos os seus ossos. Jill, qual é o maior perigo do rapto?... Uma perseguição aberta: um raptor assustado mata quase sempre a sua vítima.

Gillian estava horrorizada. Harshaw prosseguiu gentilmente:

— Sou forçado a dizer que é provável que Ben esteja morto. Ele foi longe de mais. Mas concordamos em supor que ele estava vivo. Agora você tenciona ir à procura dele. Jill, como é que você vai fazer isso? Como, sem aumentar o risco de Ben ser morto pelos indivíduos desconhecidos que o raptaram?

— Hã? — Mas nós sabemos quem eles são!

— Sabemos?

— Claro! As mesmas pessoas que prenderam Mike: o Governo! Harshaw abanou a cabeça.

— Isso é uma suposição. Ben fez muitos inimigos com a sua coluna e nem todos eles estão no Governo. Contudo... — Harshaw franziu o sobrolho. — A sua suposição é a única coisa que temos. Mas isso é muito vasto. «O Governo» são milhares de pessoas. Temos é de perguntar a nós próprios: quem é que foi prejudicado? Que indivíduos?

— Ora, Jubal, eu disse-lhe, tal como Ben me disse: o próprio secretário-geral.

— Não — negou Harshaw. — Seja quem for que tenha feito seja o que for, se isso foi violento e ilegal, nunca pode ter sido o secretário-geral, mesmo se ele beneficiar com isso. Ninguém pode provar que ele sabia. É provável que ele não soubesse... não acerca de procedimentos sujos. Jill, temos de descobrir que lugar-tenente do pessoal do secretário-geral comandou esta operação. Penso que isto não é tão desconsolador como pode parecer. Quando Ben foi levado a ver o sósia, um dos assistentes de Douglas estava com ele. Tentou convencer Ben a desistir, e em seguida foi com ele. Parece que, agora, esse mesmo indivíduo, também desapareceu desde quinta-feira. Acho que isto não é coincidência, pois parece que era ele quem estava encarregado do sósia do Homem de Marte. Se o encontrarmos poderemos também encontrar Ben. O seu nome é Gilbert Berquist e tenho razões...

— Berquist?

— É esse o nome. Tenho razões para... Jill, que é que tem? Não desmaie ou eu empurro-a para dentro da piscina!

— Jubal. Esse «Berquist»: existe mais de um Berquist?

— Hã? Parece que ele era um tanto corrupto; é capaz de haver só um. Quero dizer, no pessoal do Executivo. Conhece-o?

— Não sei. Mas se é o mesmo... Acho que não vale a pena procurá-lo.

— Hum... fale, rapariga.

— Jugal... estou terrivelmente arrependida... mas não lhe contei tudo.

— As pessoas raramente o fazem. Está bem, deite tudo cá para fora. Tremendo e gaguejando, Gillian contou-lhe tudo sobre o homem que tinha desaparecido.

— E é tudo — concluiu tristemente. — Eu gritei e assustei o Mike... e ele entrou naquele estado de transe... e em seguida tive um trabalho horrível para chegar aqui. Contei-lhe tudo sobre isso.

— Hum... é verdade. Gostava que também me tivesse contado isso. Ela corou.

— Pensei que ninguém me ia acreditar. E estava assustada. Jubal, eles podem fazer-nos alguma coisa?

— Hã? — Jubal pareceu surpreendido.

— Mandar-nos para a prisão, ou alguma coisa desse gênero?

— Oh. Minha querida, não é crime assistir a um milagre. Nem por fazer um. Mas este tem mais mistérios do que pêlos tem um gato. Deixe-me pensar.

Jubal permaneceu imóvel durante cerca de dez minutos. Em seguida abriu os olhos e disse:

— Não estou a ver a sua criança problema. Provavelmente está no fundo da piscina...

— Está.

— ... então mergulhe e vá buscá-lo. Traga-o ao meu estúdio. Quero ver se ele é capaz de repetir isso... e não queremos audiência. Não, precisamos de uma pessoa. Diga à Anne para pôr a sua túnica de testemunha: quero-a na sua capacidade oficial. Quero também o Duke.

— Sim, patrão.

— Você não tem o privilégio de me chamar «patrão»; não contribui em nada para baixar os meus impostos.

— Sim, Jubal.

— Hum... Quem me dera ter alguém que não fizesse falta. O Mike será capaz de fazer essa habilidade com objetos inanimados?

— Não sei.

— Descobriremos. Vá buscá-lo e acorde-o. Jubal pestanejou. — Que meio fantástico para uma pessoa se libertar de... Não, não me posso deixar tentar! Encontramo-nos lá em cima, rapariga.

Alguns minutos mais tarde, Jill foi até ao estúdio de Jubal; Anne já lá estava com a túnica branca própria do seu grêmio; olhou para Jill, mas não disse nada. Jill sentou-se numa cadeira e manteve-se calada, pois Jubal estava a ditar a Dorcas; ele não olhou para ela e prosseguiu:

— ... debaixo do corpo esmagado no chão, encharcando um canto do tapete e formando um lago vermelho escuro junto à lareira, onde estava a atrair a atenção de duas moscas desocupadas. Miss Simpson pôs as mãos na boca. «Meu-Deus!», disse, desolada, «o tapete favorito do papai!... e o papai também, segundo creio.» Fim do capítulo, Dorcas, e da primeira prestação. Manda-a pelo correio. Rápido.

Dorcas saiu levando a sua máquina de estenografar e sorriu para Jill. Jubal perguntou:

— Onde é que está o Mike?

— A vestir-se — respondeu Gillian. — Não demora.

— A vestir-se? — repetiu Jubal de mau humor. — Eu não disse que a festa era formal.

— Mas ele tem de se vestir.

— Por quê? Não faz diferença nenhuma que vocês usem pele ou sobretudos. Vá buscá-lo.

— Por favor, Jubal. Ele tem de aprender.

— Unf! Você está a impor-lhe as suas idéias curtas de classe média, moral de trazer por casa.

— Não estou nada! Estou simplesmente a ensinar-lhe costumes necessários.

— Costumes, moral... qual é a diferença? Mulher, aqui, pela graça de Deus e devido a uma moral interna, temos uma personalidade que não é tocada pelos tabus psicopáticos da nossa tribo... e você quer fazer dele uma cópia de todos os conformistas de quarta categoria que existem nesta terra assustada! Porque não ir até ao fim? Arranje-lhe uma pastinha.

— Não estou a fazer nada disso! Estou simplesmente a tentar livrá-lo de sarilhos. É para o seu próprio bem.

Jubal resfolegava.

— É essa a desculpa que eles dão ao gato antes de o caparem.

— Oh! — Jill parecia contar até dez. Depois disse friamente: — Esta casa é sua, Dr. Harshaw, e estamos em dívida para consigo. Vou buscar Mike imediatamente. — Levantou-se.

— Calma, Jill.

— Senhor?

— Sente-se... e deixe de tentar ser tão antipática como eu; você não tem os meus anos de experiência. Agora vamos esclarecer uma coisa: você não está em dívida para comigo. Isso é impossível... porque eu nunca faço nada que não queira. Nem ninguém faz; mas, no meu caso, eu sei-o. Portanto, por favor, não invente uma dívida que não existe, ou senão, em seguida começará a tentar sentir gratidão... e isso é o primeiro passo em direção à completa degradação moral. Está a grocar?

Jill mordeu o lábio e depois riu-se.

— Não sei muito bem o que quer dizer «grocar».

— Eu também não. Faço tenção de continuar a ter lições com Mike até saber. Mas eu estava a falar a sério. «Gratidão» é um eufemismo para ressentimento. Não me importo nada com o ressentimento de muita gente; mas, vindo de senhoras bonitas, é detestável.

— Ora, Jubal, eu não sinto ressentimento em relação a si... — isso é descabido.

— Espero bem que não sinta... mas se não fizer desaparecer da sua cabeça essa ilusão de que está em dívida para comigo, em breve começará a senti-lo. Os Japoneses têm cinco palavras para dizer «Obrigado»... e todas elas traduzem o ressentimento em vários graus. Era bom que o inglês tivesse a mesma honestidade! Em vez disso, o inglês define sentimentos que o sistema nervoso humano é incapaz de experimentar. «Gratidão» é um exemplo.

— Jubal, você é um velho cínico. Estou-lhe grata e vou continuar a sentir gratidão.

— E você é uma jovem sentimental. Isso torna-nos complementares um do outro. Vamos para Atlantic City passar um fim-de-semana de ilícita devassidão, só nós dois.

— Ora essa, Jubal!

— Está a ver até onde chega a sua gratidão?

— Oh. Estou pronta. Quando é que partimos?

— Humpf! Deveríamos ter partido há quarenta anos atrás. A segunda coisa é que você tem razão; Mike tem de aprender os costumes humanos. Tem de tirar os sapatos numa mesquita árabe, usar chapéu numa sinagoga, e cobrir a sua nudez quando os tabus o requerem, ou se não o fizer, os nossos xamãs queimá-lo-ão por desviacionismo. Mas, minha filha, pelos infinitos aspectos de Ahriman, não lhe faça uma lavagem ao cérebro. Assegure-se de que ele procede com cinismo, ao aceitar esses costumes.

— Hum, não tenho a certeza de ser capaz. Mike parece não ter nem uma ponta de cinismo na sua pessoa.

— Sim? Bem, eu empresto-lhe um pouco do meu. Ele não devia estar já vestido?

— Vou ver.

— Já vai. Jill, eu expliquei porque é que não estou ansioso por acusar quem quer que seja do rapto de Ben. Se Ben está ilegalmente detido (para não dizer coisa pior), não devemos obrigar ninguém a livrar-se da prova, livrando-se do Ben. Se está vivo, tem uma oportunidade de continuar vivo. Mas eu tomei outras medidas na primeira noite em que vocês chegaram. Conhece a Bíblia?

— Hum, não muito bem.

— Ela merece estudo, contém conselhos práticos para muitas emergên­cias. «...Todo aquele que pratica o mal, odeia a luz», de João qualquer coisa, Jesus para Nicodemus. Eu esperava uma tentativa para afastar Mike de nós, pois não parecia provável que você tivesse encoberto a sua pista. Esta casa fica num sítio isolado e não possuímos artilharia pesada. Mas existe uma arma que os pode deter. A luz. O clarão do holofote da publicidade. Portanto encetei esforços para que quaisquer desordens que aqui se passem tenham publicidade. Não se trata de uma coisa pequena, que pode ser abafada, mas sim de uma coisa em grande, transmitida imediatamente para todo o mundo. Os detalhes não interessam: onde estão montadas as câmaras e onde estão instalados os sistemas de ligação; mas, se acontecer aqui alguma batalha, ela será vista por três cadeias de televisão e serão captadas mensagens para serem retransmitidas para uma série de pessoas muito importantes... qualquer delas ansiosa por apanhar o nosso Honorável Secretário-Geral com a boca na botija. — Harshaw franziu o sobrolho. — Mas não posso manter isso indefinidamente. Quando instalei todo o equipamento, a minha única preocupação era fazê-lo depressa: estava à espera que os sarilhos começassem imediatamente. Agora, penso que temos de forçar a ação, pois não posso manter indefinidamente um holofote apontado para nós.

— Que espécie de ação, Jubal?

— Isso tem-me atormentado estes últimos três dias. Você deu-me uma idéia com essa história do que aconteceu no apartamento de Ben.

— Lamento não lhe ter contado mais cedo, Jubal. Pensei que ninguém me ia acreditar... e o fato de você acreditar faz-me sentir bem.

— Eu não disse que acreditava em si.

— Como? Mas você...

— Acho que você disse a verdade, Jill. Mas um sonho também é verdade, assim como uma ilusão hipnótica. Mas o que vai acontecer nesta sala durante a próxima hora será visto por uma testemunha e por câmaras que estão... — Jubal pressionou um botão — ... agora a filmar. Acho que Anne não pode ser hipnotizada quando está em serviço e aposto que as câmaras não o podem ser. Vamos descobrir com que espécie de verdade é que estamos a lidar... depois do que poderemos pensar em como forçar o poder instituído a agir... e talvez pensar numa maneira para ajudar Ben, também. Vá buscar o Mike.

A demora de Mike não era nenhum mistério. Atara o cordão do sapato do pé direito ao cordão do sapato do pé esquerdo — tinha-se levantado, tropeçado, estatelado no chão e tentado desapertar os nós quase irremediavelmente atados. Passou o resto do tempo a analisar a sua difícil situação e a desatar lentamente os cordões para depois os atar corretamente. Não sabia que tinha levado muito tempo, mas estava aborrecido por não ter conseguido fazer corretamente uma coisa que Jill lhe havia ensinado. Confessou o seu fiasco, embora, quando ela o foi buscar, já tivesse reparado o erro.

Ela acalmou-o, penteou-o e levou-o. Harshaw olhou para ele.

— Olá, filho. Senta-te.

— Olá, Jubal — respondeu Valentine Michael Smith gravemente, depois sentou-se e esperou.

Harshaw disse:

— Bem, meu rapaz, que é que aprendeste hoje?

Smith sorriu alegremente e depois respondeu — como sempre com uma pausa:

— Hoje aprendi a fazer um mortal e meio. Que é um salto, um mergulho, para entrar na nossa água com...

— Eu sei, vi-te. Tens de manter os dedos dos pés esticados, os joelhos direitos e os pés juntos.

Smith ficou com um ar infeliz.

— Eu fiz bem, não fiz?

— Fizeste-o muito bem, para uma primeira vez. Observa a Dorcas. Smith considerou isto.

— A água groca o Dorcas. A água protege-o.

— «A». Dorcas é «a», não é «o».

— «A» — corrigiu Smith. Então enganei-me? Eu li no dicionário da língua inglesa Webster New International, terceira edição, publicada em Springfield, Massachusetts, que o gênero masculino inclui o gênero femi­nino na linguagem. Na página 1012 da obra Lei de Contratos, de Hagworth, quinta edição, publicada em Ilinóis em 1978, diz...

— Espera aí — apressou-se Harshaw a dizer. — As formas masculinas incluem realmente as formas femininas quando se fala no geral... mas não quando se está a falar de uma pessoa em particular. Dorcas é sempre «ela» ou «a»: nunca «ele» ou «o».

— Lembar-me-ei.

— Acho bem que te lembres... ou podes provocar a Dorcas a provar-te que é mesmo mulher. — Harshaw pestanejou pensativamente. — Jill, este rapaz tem dormido consigo? Ou com alguma de vós?

Jill hesitou e depois respondeu distraidamente:

— Tanto quanto sei, o Mike não dorme.

— Você fugiu à minha pergunta.

— Então pode depreender que fiz de propósito. Apesar disso, sempre lhe digo que ele não dorme comigo.

— Hum... bolas!, o meu interesse é puramente científico. Mike, que é que aprendeste mais?

— Aprendi duas maneiras de atar os sapatos. Uma delas é só boa para estar deitado, a outra é boa para andar. E aprendi a conjugar os verbos. Eu sou, tu és, ele é, nós somos, vós sois, eles são, eu era, tu eras...

— Está bem, isso é suficiente. Que mais? Mike sorriu encantado.

— Desde ontem que estou a aprender a conduzir o tractor, brilhante­mente, brilhantemente, e com beleza.

— Hã? — Jubal voltou-se para Jill. — Quando é que isso foi?

— Ontem, enquanto você estava a dormir, Jubal. Não se preocupe: Duke teve muito cuidado para evitar que se magoasse.

— Hum... bem, é óbvio que não se magoou. Mike, estiveste a ler?

— Sim, Jubal.

— O quê?

— Eu li — recitou Mike — mais três volumes da Enciclopédia, «Maryb» a «Mushe», «Mushr» a «Ozon», «P» a «Planti». Disse-me para não ler muito da enciclopédia de uma só vez, portanto parei aí. Depois li a Tragédia de Romeu e Julieta, do Mestre William Shakespeare, de Londres; em seguida li As Memórias de Jacques Casanova, de Seingalt, traduzido para inglês por Arthur Machen. Em seguida li A Arte de Interrogar, por Francis Wellman. Depois tentei grocar o que tinha lido até à altura em que Jill me foi chamar para vir tomar o café da manhã.

— E grocaste-o? Smith pareceu perturbado.

— Jubal, não sei.

— Há alguma coisa que te preocupe?

— Não groquei a totalidade daquilo que li. Na história escrita pelo Mestre William Shakespeare dei comigo cheio de alegria com a morte de Romeu. Depois continuei a ler e aprendi que ele se tinha desincorporado demasiado cedo... ou pelo menos assim pensei. Porquê?

— Ele era um rapaz completamente idiota.

— Perdão?

— Não sei, Mike.

Smith considerou isto. Em seguida murmurou algumas palavras em marciano e acrescentou:

— Sou apenas um ovo.

— Hã? Tu costumas dizer isso quando queres pedir um favor, Mike. Que é?

Smith hesitou. Depois disse bruscamente:

— Jubal, meu irmão, seria capaz de fazer o favor de perguntar a Romeu porque é que ele se desincorporou? Eu não posso perguntar-lhe; sou apenas um ovo. Mas você pode... e depois poderá ensinar-me a grocá-lo.

Jubal compreendeu que Mike acreditava que Romeu tinha existido e pareceu perceber que Mike esperava que ele conjurasse o fantasma de Romeu para lhe pedir explicações sobre a sua conduta na Terra. Mas explicar a Mike que os Capuletos e os Montequios nunca tinham existido era um outro assunto. O conceito de ficção estava para além da experiência de Mike; não havia nada em que este conceito pudesse assentar. As tentativas de Jubal para tentar explicar isto eram tão perturbadoras para Mike que Jill receou que ele estivesse prestes a transformar-se outra vez numa bola.

Mike apercebeu-se que estava perigosamente perto dessa necessidade e já aprendera que não devia recorrer a este refúgio na presença de amigos, porque (com excepção do seu irmão Dr. Nelson) isso causava-lhes perturba­ções emocionais. Assim, fez um enorme esforço, abrandou a velocidade do seu coração, acalmou as suas emoções, e sorriu.

— Esperarei até conseguir grocá-lo naturalmente.

— Ótimo — concordou Jubal. — Até lá, antes de leres seja o que for, pergunta-me a mim ou a Jill ou a qualquer outra pessoa, se se trata ou não de ficção. Não quero que fiques confundido.

— Perguntarei, Jubal. — Mike decidiu que, quando conseguisse grocar esta estranha idéia, tinha de transmiti-la aos Velhos... e deu consigo a pensar se os Velhos tinham conhecimento da «ficção». A incrível idéia de que poderia existir algo que fosse tão estranho para ele como para os Velhos, era muito mais revolucionária que o estranho conceito de ficção, por isso Mike pô-la de parte para que assentasse, para que pudesse meditar nela mais tarde.

— ... Mas eu não — o seu irmão Jubal estava a dizer -— te chamei aqui para discutir formas literárias. Mike, lembras-te do dia em que Jill te levou daquele hospital?

— Hospital? — repetiu Mike.

— Não tenho a certeza, Jubal — interrompeu Jill —, se Mike sabia que era um hospital. Deixe-me tentar.

— Vá em frente.

— Mike, lembras-te onde estavas, onde viveste sozinho num quarto, antes de eu te vestir e te trazer?

— Sim, Jill.

— Em seguida fomos para um outro lugar e eu despi-te e dei-te um banho.

Smith sorriu, relembrando as imagens.

— Sim, foi uma grande felicidade.

— Depois sequei-te... e chegaram dois homens.

O sorriso de Smith desapareceu. Começou a tremer e a contorcer-se. Jill gritou:

— Mike! Pára! Não te atrevas a entrar em transe outra vez! Mike controlou o seu ser.

— Sim, Jill.

— Escuta, Mike. Quero que penses nessa ocasião... mas não deves perturbar-te. Estavam lá dois homens. Um deles empurrou-te para a sala.

— Aquela sala das alegres relvas — concordou.

— Isso mesmo. Ele empurrou-te para o quarto com o soalho de relva e eu tentei detê-lo. Ele bateu-me. Depois ele desapareceu. Lembras-te?

— Não estás zangada?

— O quê? Não, não de maneira nenhuma! Um homem desapareceu e em seguida o outro apontou-me uma arma... e depois desapareceu também. Eu fiquei assustada... mas não estava zangada.

— Não estás zangada comigo, agora?

— Mike, meu querido: eu nunca estive zangada contigo. Jubal e eu queremos saber o que se passou. Aqueles homens estavam ali; tu fizeste algo... e eles desapareceram. Que foi que fizeste? Podes contar-nos?

— Contarei. O homem, o homem grande, bateu-te... e eu assustei-me também. Portanto, eu... — Balbuciou algumas palavras em marciano, pareceu confundido. — Não sei as palavras.

Jubal disse:

— Mike, és capaz de explicar um bocadinho de cada vez?

— Vou tentar, Jubal. Existe algo à minha frente. É uma coisa má e não o deve ser. Portanto eu estico-me... — Pareceu perplexo. — É uma coisa fácil. Atar os cordões dos sapatos é muito mais difícil. Mas as palavras não são. Lamento muito. — Pensou um pouco. — Talvez as palavras estejam nos volumes «Plants» a «Raym», ou em «Rayn» a «Sarr», ou em «Sars» a «Sorc». Vou lê-los esta noite e digo-vos ao café da manhã.

— Talvez — admitiu Jubal. — Só um momento, Mike. — Foi até um dos cantos da sala e voltou com uma garrafa que tinha contido Brandy. — Podes fazer desaparecer isto?

— Isso é uma coisa má?

— Bem, pensa que é.

Mas... Jubal, eu tenho de saber que isso é uma coisa má. Isso é uma garrafa. Não groco que elas existam erradamente.

— Hum... Supõe que eu pego nela e a atiro a Jill...? Smith disse com tristeza gentil:

— Jubal, você não seria capaz de fazer isso a Jill.

— Hum... bolas. Acho que não. Jill, é capaz de me atirar com a garrafa? Com força: pelo menos ficarei com uma ferida na cabeça, se Mike não me proteger.

— Jubal, não gosto da ideia.

— Ora, deixe-se disso! No interesse da ciência e de... Ben Caxton.

— Mas...

Jill saltou, agarrou na garrafa e atirou-a à cabeça de Jubal. Jubal fazia tenção de não se afastar — mas os reflexos ganharam; esquivou-se.

— Não me acertou — disse — Bolas para isto, não estava a observar. Não queria tirar os olhos de cima dela. — Olhou para Smith. — Mike, foi isto... Que é que se passa, rapaz?

O Homem de Marte estava a tremer e parecia infeliz. Jill abraçou-o.

— Então, então, está tudo bem, querido! Fizeste-o maravilhosamente. Nunca atingiria Jubal. Desapareceu simplesmente.

— Acho que sim — admitiu Jubal, olhando em redor e chupando no dedo. — Anne, estavas a observar?

— Estava.

— Que é que viste?

— A garrafa não desapareceu simplesmente. O processo durou algumas frações de segundo. Do sítio onde estou sentada, deu a sensação de diminuir de tamanho, como se estivesse a desaparecer à distância. Mas não saiu do quarto; pude vê-la até ao momento em que desapareceu.

— Para onde é que ela foi?

— É tudo quanto posso dizer.

— Hum... passamos os filmes mais tarde; mas estou convencido.

Mike...

— Sim, Jubal?

— Onde é que está aquela garrafa?

— A caixa está... — Smith fez uma pausa. — Mais uma vez, não tenho palavras. Peço desculpa.

— Estou confuso. Filho, podes fazê-la voltar?

— Perdão?

— Fizeste-a desaparecer; agora, fá-la voltar.

— Como é que o posso fazer? A garrafa não está. Jubal ficou pensativo.

— Se este método se torna popular, modificará as regras para o «corpo do delito». Tenho uma pequena lista... eles nunca desaparecerão. Mike, a que distância é que tu tens de estar?

— Perdão?

— Se tu estivesses na entrada e eu estivesse ao pé da janela... oh, cerca de dez metros..., terias sido capaz de evitar que a garrafa me atingisse?

Smith parecia um pouco surpreendido.

— Sim.

— Hum... vem até à janela. Supõe que Jill e eu estávamos do outro lado da piscina e tu estavas aqui. Poderias ter detido a garrafa?

— Sim, Jubal.

— Bem... supõe que a Jill e eu estávamos lá em baixo no portão, a quinhentos metros de distância. Isso é demasiado longe?

Smith hesitou.

— Jubal, não se trata de distância. Não é ver. É saber.

— Hum... vamos lá a ver se groquei. Não interessa a distância. Nem sequer precisas de ver. Se souberes que está a acontecer uma coisa má, podes detê-la. Certo?

Smith parecia perturbado.

— Quase que está certo. Mas eu ainda não estou há tempo suficiente fora do ninho. Para saber, tenho de ver. Um Velho não precisa de olhos para saber. Ele sabe. Ele groca. Ele age. Peço desculpa.

— Não sei porque é que pedes desculpa — disse Jubal bruscamente. — O ministro da Paz ter-te-ia declarado Top Secret há dez minutos atrás.

— Perdão?

— Deixa para lá. — Jubal voltou para a sua secretária e pegou num pesado cinzeiro. — Jill, não esteja a olhar pasmada para mim. Está bem, Mike, vai para a entrada da porta.

— Jubal... meu irmão... não, por favor!

— Qual é o problema? Quero mais uma demonstração... e desta vez não vou tirar os olhos de cima disto.

— Jubal...

— Sim, Jill?

— Eu groco o que é que está a perturbar o Mike.

— Bem, então diga-me.

— Nós fizemos uma experiência em que eu estive prestes a magoá-lo com aquela garrafa. Mas nós somos os seus irmãos de água; portanto, Mike ficou aborrecido por eu ter tentado. Calculo que deve haver alguma coisa muito antimarciano nessa situação.

Harshaw franziu o sobrolho.

— Talvez devesse ser investigado pela Comissão de Atividades Antimarcianas.

— Não estou a brincar, Jubal.

— Nem eu. Está bem, Jill, vou tentar de outra maneira. — Harshaw entregou o cinzeiro a Mike. — Vê como ele é pesado, filho. Repara nessas arestas aguçadas. — Smith examinou-o cuidadosamente. Harshaw prosse­guiu: — Vou atirá-lo ao ar... e deixar que ele caia em cima da minha cabeça quando descer.

Mike estava atônico.

— Meu irmão... vai desincorporar-se agora?

— Hã? Não, não! Mas vai magoar-me... a menos que tu o detenhas. Cá vamos nós! — Harshaw lançou-o a direito até ficar a alguns centímetros do alto teto.

O cinzeiro atingiu o topo da sua trajetória e deteve-se. Harshaw olhou para ele, sentindo-se como se estivesse a ver uma cena dum filme. Balbuciou:

— Anne. Que é que vês?

Ela respondeu num tom de voz monocórdio:

— Aquele cinzeiro está a cerca de treze centímetros do teto. Não vejo nada a suspendê-lo. — Acrescentou: — Jubal, penso que é isto que vejo... mas se os filmes não mostrarem a mesma coisa, vou rasgar aos bocadinhos a minha licença.

— Hum, Jill?

— Está a flutuar...

Jubal foi até à sua secretária e sentou-se sem tirar os olhos do cinzeiro.

— Mike — disse ele — porque é que ele não desapareceu?

— Mas, Jubal — disse Mike, como que pedindo desculpa —, você disse para o deter; não disse para o fazer desaparecer. Quando eu fiz a garrafa desaparecer, você queria que ela voltasse. Fiz alguma coisa errada?

— Oh. Não, fizeste-o exatamente como devias. Passo a vida a esquecer-me que tu levas tudo à letra.

Harshaw recordou os insultos que costumava ouvir quando era novo e pensou que nunca os deveria dizer a Mike: se ele dissesse ao rapaz para se ir matar ou para ir passear, Harshaw tinha a certeza de que Mike os interpretaria no sentido literal.

— Estou contente — respondeu Mike sobriamente. — Lamento não ser capaz de fazer a garrafa voltar. Estou duplamente arrependido por ter desperdiçado comida. Mas era uma necessidade. Ou pelo menos assim o groquei.

— Hã? Que comida?

Jill apressou-se a responder:

— Ele está a falar daqueles dois homens, Jubal. De Berquist e do homem que estava com ele.

— Oh, é verdade. — Harshaw refletiu que Smith ainda conservava as marcianas noções de comida. — Mike, não te preocupes por teres desperdiçado aquela «comida». Tenho as minhas dúvidas se o delegado de saúde teria declarado aqueles dois em condições para consumo. De fato — acrescentou, recordando a convenção da Federação, sobre «carne fres­ca» —, eles teriam sido considerados como inaptos para consumo. Além disso foi uma necessidade. Tu grocaste na totalidade e agiste acertadamente.

— Estou muito reconfortado — respondeu Mike com alívio na voz.

— Somente um Velho pode ter sempre a certeza sobre a ação acertada numa situação crítica... e eu ainda tenho muito que aprender e que crescer, antes de me poder juntar aos Velhos. Jubal, posso movê-lo? Estou cansado.

— Queres fazê-lo desaparecer? Vai em frente.

— Mas não posso.

— Hã? Porquê?

— A sua cabeça já não está debaixo do cinzeiro. Não groco nada de mau no seu ser, onde ele está agora.

— Oh. Está bem. Tira-o de lá.

Harshaw continuou a observar, esperando que o cinzeiro flutuasse até onde a sua cabeça agora estava, para readquirir uma essência nefasta. Em vez disso o cinzeiro começou a descer lentamente, até estar quase em cima da sua secretária, depois pairou e em seguida aterrou.

— Obrigado, Jubal — disse Smith.

— Hã? Eu é que te agradeço, filho! — Jubal pegou no cinzeiro. Estava tão vulgar como sempre. — Sim, muito obrigado pela mais extraordinária experiência que eu tive desde que a criada me levou para o sótão. — Olhou para cima. — Anne, tu treinaste no Rhine?

— Sim.

— Já tinhas visto levitação antes? Ela hesitou.

— Vi aquilo que se chama telecinesia com dados... mas não sou matemática e não posso testemunhar que era telecinesia.

— Bolas! Tu nem sequer eras capaz de testemunhar que o Sol tinha nascido se o dia estivesse enevoado.

— Como é que eu podia fazê-lo? Alguém podia estar a fornecer luz artificial por cima da camada de nuvens. Um dos meus condiscípulos podia, aparentemente, fazer levitar objetos mais ou menos do tamanho de um clip... mas tinha de tomar três bebidas antes. Eu não estava em condições de o examinar suficientemente de perto para o testemunhar... porque também tinha bebido.

— Nunca viste nada parecido com isto?

— Não.

— Hum... Já não preciso mais de ti, profissionalmente. Se queres ficar, tira a tua túnica e vai buscar uma cadeira.

— Obrigado, eu vou. Mas, devido à sua opinião sobre as mesquitas e as sinagogas, vou mudar de roupa ao meu quarto.

— Está à vontade. Acorda o Duke e diz-lhe que eu quero os filmes revelados.

— Sim, patrão. Não deixe que nada aconteça até eu voltar. — Anne dirigiu-se para a porta.

— Não, prometo. Mike, senta-te à minha secretária. Podes levantar este cinzeiro? Mostra-me.

— Sim, Jubal. — Smith estendeu a mão e pegou-lhe.

— Não, não!

— Fiz mal?

— Não, o erro foi meu. Eu quero saber se és capaz de o levantar sem lhe tocar?

— Sim, Jubal.

— Então, estás cansado?

— Não, Jubal.

— Então que é que se passa? Tem de haver um «sentido errado»?

— Não, Jubal.

— Jubal — interrompeu Jill —, você não lhe disse para fazer... só lhe perguntou se era capaz.

— Oh. — Jubal parecia envergonhado. — Mike, fazes o favor de levantar esse cinzeiro a trinta centímetros da secretária sem tocar em nada?

— Sim, Jubal. — O cinzeiro elevou-se, flutuou por cima da secretária.

— Quer fazer o favor de medir, Jubal? — disse Mike ansiosamente. — Se estiver mal, eu corrijo.

— Está ótimo! Podes mantê-lo no ar? Se te cansares, diz-me.

— Direi.

— Podes levantar mais alguma coisa? Vês este lápis? Se és capaz, levanta-o.

— Sim, Jubal. — O lápis colocou-se ao lado do cinzeiro.

A pedido de Jubal, Mike acrescentou outros artigos aos objetos flutuantes. Anne regressou, puxou uma cadeira e observou em silêncio. Duke entrou trazendo um escadote, deu uma olhadela ao que se estava a passar, depois voltou a olhar com mais atenção, mas não disse nada e armou o escadote. Finalmente Mike disse com incerteza na voz:

— Não tenho a certeza, Jubal, eu... — pareceu procurar uma palavra.

— Eu sou idiota nestas coisas.

— Não te estafes.

— Posso pensar mais uma, espero. — Um pisa-papéis moveu-se e levitou... e todos os outros estranhos objetos caíram. Mike parecia prestes a desatar a chorar. — Jubal, peço imensa desculpa.

Harshaw deu-lhe umas palmadinhas no ombro.

— Devias estar orgulhoso. Filho, o que tu acabas de fazer é... — Jubal procurou uma comparação que estivesse dentro da experiência de Mike.

— O que tu fizeste é mais difícil que atar os sapatos, mais maravilhoso que dar um mortal e meio na perfeição. Tu fizeste-o, hum, brilhantemente, brilhantemente e com beleza. Grocas?

Mike pareceu surpreendido.

— Não devo sentir vergonha?

— Deves sentir-te orgulhoso.

— Sim, Jubal — respondeu alegremente. — Sinto-me orgulhoso.

— Ótimo. Mike, eu nem sequer sou capaz de levantar um cinzeiro sem lhe tocar.

Smith estava atônito.

— Não pode?

— Não. Podes ensinar-me?

— Sim, Jubal. Você... — Smith parou de falar, parecendo embaraçado.

— Mais uma vez, não tenho palavras. Vou ler, ler e ler, até encontrar as palavras. Depois ensinarei o meu irmão.

— Não te empenhes muito nisso.

— Perdão?

— Mike, não fiques desapontado se não encontrares as palavras. Podem não existir na língua inglesa.

Smith considerou isto.

— Então ensinarei ao meu irmão a língua do meu ninho.

— Chegaste cerca de cinqüenta anos tarde de mais.

— Agi erradamente?

— De maneira nenhuma. Podes começar por ensinar a tua língua a Jill.

— Arranha-me a garganta — protestou Jill.

— Tenta tomar uma aspirina. — Jubal olhou para ela. — Isso é uma fraca desculpa, enfermeira. Está contratada como assistente para a Lingüística Marciana... o que inclui deveres extras, se forem necessários. Anne, põe-na na folha de pagamentos... e assegura-te de que isso entra nos registros de impostos.

— Ela tem feito a sua parte na cozinha. Devo incluir isso também? Jubal encolheu os ombros.

— Não me maces com pormenores.

— Mas, Jubal — protestou Jill —, acho que não sou capaz de aprender marciano!

— Pode tentar.

— Mas...

— Que é que você disse sobre a «gratidão»? Aceita o emprego?

— Aceito. Sim... “patrão." — Jill mordeu o lábio. Smith tocou-lhe timidamente na mão.

— Jill... eu vou ensinar-te. Jill agarrou na dele.

— Obrigado Mike. — Olhou para Harshaw. — Vou aprender só para o vexar!

Ele sorriu para ela.

— Esse motivo, eu groco: vai aprender. Mike, que mais és tu capaz de fazer que nós não sejamos?

Smith pareceu confuso.

— Não sei.

— Como é que ele pode saber — protestou Jill —, se não sabe aquilo que podemos ou não fazer?

— Hum... é verdade. Anne, muda esse título para «assistente para a técnica, cultura e lingüística marcianas». Jill, ao aprender a língua deles, vai com certeza esbarrar com certas coisas que são diferentes, realmente diferentes... e, quando isso acontecer, diga-me. E, Mike, se notares alguma coisa que tu possas fazer e que nós não possamos, diz-me.

— Direi, Jubal. Que coisas serão essas?

— Não sei. Coisas como o que tu acabas de fazer... e ser capaz de ficar no fundo da piscina mais tempo que nós. Hum... Duke!

— Patrão, tenho as mãos cheias de filme.

— Podes falar, não podes? Reparei que a piscina estava turva.

— Vou deitar precipitado esta noite e esvaziá-la amanhã de manhã.

— Como é que está a água?

— Está boa, a água é suficientemente limpa para se poder beber à mesa. Apenas parece suja.

— Deixa-a estar. Eu dir-te-ei quando quiser que a limpes.

— Ora, patrão, ninguém gosta de nadar em água de lavar pratos.

— Se houver alguém que seja muito esquisito, pode ficar seco. Pára de tagarelar, Duke. Os filmes estão prontos?

— Dentro de cinco minutos.

— Ótimo. Mike, sabes o que é uma arma?

— Uma arma — respondeu Smith cuidadosamente — é uma peça de artilharia para atirar projéteis pela força de certos explosivos, tal como pólvora, que consiste num tubo ou cano fechado numa das extremidades onde o...

— Está bem, está bem, grocá-la?

— Não tenho a certeza.

— Já alguma vez viste uma arma?

— Não sei.

— Ora, claro que viste — interrompeu Jill. — Mike, pensa no que estivemos a falar há pouco, na sala com o chão de relva... mas não te deixes perturbar! Um dos homens bateu-me.

— Sim.

— O outro apontou-me uma coisa.

— Ele apontou-te uma coisa má.

— Isso era uma arma.

— Eu tinha pensado que a palavra para essa coisa má, podia ser «arma». O dicionário de língua inglesa Webster New International, terceira edição, publicado em...

— Ótimo — apressou-se Harshaw a dizer. — Agora ouve. Se alguém apontar uma arma a Jill, que é que tu farás? Smith fez uma pausa maior que as habituais.

— Você não ficará zangado se eu desperdiçar comida?

— Não. Nessas circunstâncias ninguém ficaria zangado contigo. Mas eu quero saber outra coisa. Podes fazer a arma desaparecer sem fazer desapare­cer o homem?

Smith considerou isto.

— Poupar a comida?

— Hum, não é isso que eu quero dizer. Podes fazer a arma desaparecer sem magoar o homem?

— Jubal, ele não se magoaria. Eu faria a arma desaparecer, ao homem apenas o detinha. Ele não sentiria dor. Simplesmente desincorporar-se-ia. A comida não seria danificada.

Harshaw suspirou.

— Sim, tenho a certeza de que seria assim. Mas podes fazer desaparecer apenas a arma? Sem «deter» o homem, sem o matar, para que ele continuasse a viver?

Smith considerou isto.

— Isso seria mais fácil do que fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Mas, Jubal, se eu o deixar corpóreo, ele poderia ainda magoar a Jill. Ou pelo menos assim o groco.

Harshaw calou-se por uns momentos para pensar que esta inocente criança não era nem inocente nem infantil — era, de fato, sofisticada para uma cultura que ele começava a compreender que devia ser muito mais avançada do que a cultura humana em vários misteriosos meios... e que estes ingênuos comentários vinham de um super-homem — ou daquilo que nós entendemos como «super-homem».

Respondeu a Smith, escolhendo cuidadosamente as palavras, pois tinha em mente fazer uma experiência perigosa.

— Mike... se tu atingires uma «situação crítica» em que tiveres de fazer algo para proteger Jill, não hesites, fá-lo.

— Sim? Jubal, fá-lo-ei.

— Não te preocupes por desperdiçar comida. Não te preocupes com nada. Protege Jill.

— Eu protegeria sempre a Jill.

— Ótimo. Mas supõe que um homem apontava uma arma... ou que simplesmente a tinha na mão. Supõe que não querias matá-lo... mas que precisavas de fazer desaparecer a arma. Poderias fazê-lo?

Mike fez uma breve pausa.

— Penso que estou a grocar. Uma arma é uma coisa má. Mas pode haver necessidade de o homem ficar corpóreo. — Pensou um pouco.

— Posso fazê-lo.

— Ótimo. Mike, vou mostrar-te uma arma. Uma arma é uma coisa má.

— Uma arma é uma coisa má. Fá-la-ei desaparecer.

— Não a faças desaparecer assim que a vires.

— Não?

— Não. Eu levantarei a arma e apontá-la-ei a ti. Antes de eu conseguir apontá-la a ti, faz com que ela desapareça. Mas não me detenhas, não me magoes, não me mates, não me faças nada. Também não me desperdices como comida.

— Oh, eu nunca seria capaz de o fazer — disse Mike, sinceramente.

— Quando você se desincorporar, meu irmão Jubal, espero que me seja permitido comer um pouco de si, apreciando-o e estimando-o em cada dentada... até o grocar na totalidade.

Harshaw controleu um reflexo e respondeu gravemente:

— Obrigado, Mike.

— Sou eu que tenho de lhe agradecer, meu irmão... e se acontecer que eu seja escolhido antes de si, espero que me ache digno de grocar. Reparta-me com Jill. Repartir-me-á com Jill? Por favor?

Harshaw deitou um olhar a Jill, e viu que o rosto dela se mantinha sereno — refletiu que ela era, provavelmente, uma enfermeira firme como uma rocha.

— Repartir-te-ei com Jill — disse solenemente. — Mas, Mike, nenhum de nós será comida nos próximos tempos. Vou mostrar-te essa arma... e tu esperas até eu dizer... e em seguida tem muito cuidado, porque ainda tenho muitas coisas para fazer antes de estar pronto para me desincorporar.

— Terei cuidado, meu irmão.

— Está bem. — Harshaw abriu uma gaveta. — Olha para aqui, Mike. Vês a arma? Vou pegar nela. Mas não faças nada até eu te dizer. — Harshaw esticou-se para pegar na arma, uma velha pistola da polícia, e tirou-a para fora. — Põe-te a postos, Mike. Agora! — Harshaw fez o melhor que pôde para apontar a arma a Smith.

A sua mão estava vazia.

Jubal viu que ele estava a tremer, por isso parou.

— Perfeito! — disse. — Fizeste-o antes de eu a conseguir apontar.

— Estou feliz.

— Eu também. Duke, isto entrou no filme?

— Sim.

— Ótimo. — Harshaw suspirou. — É tudo, meninos. Podem sair. Anne disse:

— Patrão, diz-me o que é que os filmes mostram?

— Queres ficar a vê-los?

— Oh, não! Não poderia, pelos menos as partes que eu testemunhei. Mas quero saber, mais tarde, se me enganei ou não.

— O. K.

Quando todos saíram, Harshaw começou a dar ordens a Duke — depois disse bruscamente:

— Porque é que estás com essa cara?

— Patrão, quando é que se livra desse vampiro?

— «Vampiro»? Por quê, seu tolo provinciano?

— Está bem, já sei que sou do Cansas. Nunca existiu canibalismo no Cansas. Passo a comer na cozinha até ele se ir embora.

Harshaw disse glacialmente:

— Ah, sim? A Anne pode ter o teu cheque pronto dentro de cinco minutos. E tu não precisas de mais de dez para embrulhar os teus livros aos quadradinhos e a tua outra camisa.

Duke tinha estado a preparar o projetor. Parou.

— Oh, eu não quis dizer que me ia despedir.

— A mim pareceu-me que era isso que estava a dizer, filho.

— Mas... Qual é o problema? Eu já comi na cozinha montes de vezes.

— Noutras circunstâncias. Ninguém debaixo do meu teto recusa comer à minha mesa por não querer comer com outros que aí se sentem. Eu pertenço a uma raça quase extinta, um cavalheiro antiquado... o que quer dizer que posso ser um filho da puta quando isso me convém. Convém-me mesmo agora... o que é o mesmo que dizer que não permito que nenhum ignorante, supersticioso ou idiota preconceituoso me diga quem é que deve comer à minha mesa. Eu janto com publicanos e com pecadores, porque isso faz parte do meu trabalho. Não partilho o pão com fariseus.

Duke disse lentamente:

— Eu devia dar-lhe um murro... e dava mesmo, se você fosse da minha idade.

— Não deixes que isso te detenha. Sou capaz de ser mais forte que o que tu pensas. E se não for, o barulho alertaria os outros. Achas que és capaz de lidar com o Homem de Marte?

— Esse? Podia parti-lo ao meio, só com uma mão!

— Talvez... se pudesses pôr uma mão em cima dele.

— Hã!

— Tu viste-me tentar apontar-lhe uma arma. Duke: onde é que está essa pistola? Encontra essa pistola. Depois diz-me se ainda achas que és capaz de o partir ao meio. Mas primeiro encontra a pistola.

Duke continuou a montar o projetor.

— Algum truque de prestidigitação. Os filmes irão mostrá-lo. Harshaw disse:

— Duke, pára de perder tempo com isso. Senta-te. Eu trato disso depois de tu saíres.

— Hã? Jubal, não quero que você toque neste projetor. Você acaba sempre por o estragar.

— Eu disse para te sentares.

— Mas...

— Duke, se me apetecer, rebento com essa coisa toda. Não aceito serviços de um homem, depois de ele se demitir.

— Bolas! Eu não me demiti! Você é que foi um patife e despediu-me... sem qualquer razão.

— Senta-te, Duke — disse Harshaw calmamente —, e deixa-me tentar salvar-te a vida... ou então desaparece deste lugar o mais depressa que puderes. Não percas tempo a fazer as malas. Podes não viver para isso.

— Que diabo é que você quer dizer?

— Exatamente o que disse. Duke, o fato de seres despedido ou de te demitires é irrelevante; acabaste as tuas funções quando disseste que não comerias à minha mesa. Contudo, eu acharia detestável que fosses morto dentro da minha propriedade. Portanto senta-te e eu farei o possível para o evitar.

Duke ficou atônito e sentou-se. Harshaw prosseguiu:

— És irmão de água do Mike?

— Hã? Claro que não. Oh, ouvi algumas conversas a esse respeito; acho que isso é um disparate, se mo pergunta.

— Não é nenhum disparate e ninguém te pediu a opinião; tu não és competente para exprimir uma opinião. — O semblante de Harshaw carregou-se. — Duke, eu não quero despedir-te; tu manténs a maquinaria a funcionar e poupas-me aborrecimentos com avarias mecânicas. Mas tenho de te fazer sair em segurança deste lugar... e depois descobrir quem é, e quem não é, irmão de água de Mike... e fazer com que eles se tornem seus irmãos... ou mandá-los embora, tal como te estou a mandar a ti. — Jubal mordeu o lábio. — Talvez fosse suficiente fazer com que Mike prometesse que não magoaria ninguém sem a minha autorização. Hum... não, anda por aqui muita gente e Mike é um ás em interpretar mal as coisas. Por exemplo, se tu... ou Larry, visto que tu não estarás aqui..., pegasses na Jill e a atirasses para dentro da piscina, Larry poderia ir parar ao mesmo lugar onde está aquela pistola, antes que eu pudesse explicar a Mike que Jill não corria perigo. Larry tem direito a viver a sua vida, sem que ela seja encurtada devido à minha falta de cuidado. Duke, eu acho que toda a gente tem o direito de fazer o que quer, mas isso não é razão para dar a um bebê um bastão de dinamite.

Duke disse lentamente:

— Patrão, você está a ficar velho. Mike nunca magoaria ninguém. Bolas, esta conversa sobre o canibalismo irritou-me, mas não me enganou; ele é um selvagem, não conhece nada melhor. Mas ele é gentil como um cordeirinho: nunca seria capaz de magoar ninguém.

— Pensas isso?

— Tenho a certeza.

— Bom. Tu tens armas no teu quarto, eu digo que ele é perigoso. A caça aos marcianos está aberta; pega numa arma, vai até à piscina e mata-o. Não te preocupes com a lei; eu garanto-te que nunca serás denunciado. Vai em frente, mata-o!

— Jubal... não está a falar a sério.

— Não, não estou. Porque tu não podes. Se tentasses, a tua pistola iria para onde foi a minha... e se o irritasses irias com ela. Duke, tu não sabes do que estás a falar. O Mike não é «gentil como um cordeirinho» e não é um «selvagem». Tenho a impressão de que nós é que somos os selvagens. Alguma vez amestraste cobras?

— Hum... não.

— Eu amestrei, quando era pequeno. Um certo Inverno, na Florida, apanhei uma que eu pensava ser uma cobra-escarlate. Sabes como é que elas são?

— Não gosto de cobras.

— Preconceitos, outra vez. A maior parte das cobras são inofensivas, úteis e fáceis de amestrar. A cobra-escarlate é uma beleza: vermelha, preta e amarela; é dócil e dá um excelente animal de estimação. Acho que essa amiguinha gostava de mim. Sabia como lidar com cobras, como não as assustar e como evitar que elas me mordessem: mesmo uma mordidela de uma cobra não venenosa é um aborrecimento. Aquela pequenina era o meu orgulho. Costumava trazê-la comigo e mostrá-la às pessoas, agarrando-a por detrás da cabeça e deixando que ela se enrolasse à volta do meu pulso.

»Tive uma oportunidade de mostrar a minha colecção ao herpetologista do jardim zoológico de Tampa. Em primeiro lugar mostrei-lhe a minha favorita. Ele quase ficou histérico. O meu animal de estimação não era uma cobra-escarlate: era uma jovem cobra-coral. A mais mortífera cobra da América do Norte. Duke, estás a perceber onde quero chegar?

— Que amestrar cobras é perigoso? Eu podia ter-lhe dito isso.

— Oh, por amor de Deus! Eu tinha cascavéis e cobras de água também. Uma serpente venenosa não é perigosa, ou é-o tanto como uma arma carregada: em cada um dos casos, tem de saber lidar com ela. O que fazia essa cobra perigosa era eu não saber o que ela podia fazer. Se, na minha ignorância, tivesse lidado com ela descuidadamente, ela ter-me-ia morto tão inocente e casualmente como um gatinho arranha. É isto que eu te quero fazer entender sobre Mike. Ele parece ser um homem vulgar, bastante subdesenvolvido, desajeitado, extremamente ignorante, mas esperto e dócil, e ávido por aprender. Mas, tal como a minha cobra, Mike é mais do que aquilo que aparenta ser. Se Mike não confiar em ti, pode ser muito mais mortífero do que essa cobra-coral. Especialmente se ele pensar que tu estás a fazer mal a um dos seus irmãos de água, tal como Jill... ou eu próprio. Harshaw abanou a cabeça.

— Duke, se tu tivesses seguido esse teu impulso e me tivesses dado um murro, e se Mike estivesse à entrada da porta, tu estarias morto antes de dar por isso, e tudo se passaria tão rapidamente que eu não o poderia deter. Ele, em seguida, teria pedido desculpa por ter desperdiçado comida... nomeada­mente a tua musculosa carcaça. Mas não se sentiria culpado por te ter morto; tu ter-lhe-ias imposto essa necessidade... e não acharia isso importante, nem mesmo para ti. Compreendes, Mike acredita na imortalidade da alma.

— Hã? Ora, isso também eu. Mas...

— Acreditas? — disse Harshaw ironicamente. — Posso imaginar.

— Ora essa, claro que acredito! Oh, eu não vou muitas vezes à igreja, mas fui educado como deve ser. Tenho fé.

— Ótimo. Embora nunca conseguisse compreender como é que Deus podia esperar que as suas criaturas escolhessem a única verdadeira religião através da fé... isso parece-me uma maneira um tanto descuidada de gerir um universo. Contudo, visto que tu acreditas na imortalidade, não precisamos de nos preocupar com o fato de os teus preconceitos poderem causar a tua morte. Queres ser cremado ou enterrado?

— Oh, por amor de Deus, Jubal, deixe de tentar irritar-me.

— De maneira nenhuma. Não posso garantir a tua segurança enquanto persistires em pensar que uma cobra-coral é tão inofensiva como uma cobra-escarlate: qualquer erro que cometas pode ser o último da tua vida. Mas eu prometo que não deixo que Mike te coma.

Duke deixou descair o queixo. Depois respondeu brusca, irreverente e incoerentemente. Harshaw escutou-o e depois disse irritado:

— Está bem, mete a viola no saco. Combina o que quiseres com Mike. — Harshaw curvou-se sobre o projector. — Quero ver estes filmes. Bolas! — acrescentou. — Esta maldita coisa mordeu-me.

— Tentou forçá-la. Veja... — Duke completou o ajustamento que Harshaw tinha falhado e em seguida introduziu uma bobina. Não voltou a falar-se se Duke continuava ou não a trabalhar para Jubal. O projetor era uma cabina de registro de som, com um adaptador para passar filmes sonoros de 4 mm. Passado pouco tempo, ambos estavam a observar os acontecimen­tos que conduziram ao desaparecimento da garrafa de Brandy.

Jubal viu a garrafa precipitar-se em direção à sua cabeça, e viu-a desaparecer no ar.

— A Anne ficará contente por saber que os filmes a apóiam. Duke, vamos repetir isto em câmara lenta.

— O.K. — Duke andou com o filme para trás, e em seguida anunciou: — Está a dez-para-um.

A cena era a mesma, mas era escusado abrandar o som; por isso, Jubal desligou-o. A garrafa flutuou das mãos de Jill em direção à cabeça de Harshaw, depois deixou de existir. Mas em câmara lenta podia vê-la diminuir de tamanho, ficando cada vez mais pequena até deixar de se ver.

— Duke, podes diminuir ainda mais a velocidade?

— Só um momento. Houve alguma coisa que obstruiu o estéreo.

— O quê?

— Diabos me levem se sei. Na primeira passagem parecia bom. Mas, quando o aBrandyi, o efeito de fundo inverteu-se. Aquela garrafa afastou-se de nós muito depressa... mas parecia estar sempre mais perto do que a parede. Erro de paralaxe, claro. Mas eu não tirei aquela video-cassette da máquina.

— Oh. Espera Duke. Passa o filme da outra câmara.

— Hum... estou a ver. Isso dar-nos-á um ângulo de noventa graus e veremos então se estraguei realmente este filme. — Duke mudou as videocassetes. — Aumento a velocidade da primeira parte. Depois abrando na última parte?

— Podes começar.

A cena era exatamente a mesma, salvo ser vista de um ângulo diferente. Quando apareceu a imagem de Jill a agarrar na garrafa, Duke diminuiu a velocidade e, mais uma vez, viram a caixa desaparecer.

Duke praguejou.

— Alguma coisa estragou também a segunda câmara.

— Ah, sim?

— Foi filmado de lado, portanto a garrafa devia ter saído da imagem para um dos lados. Em vez disso, tornou a afastar-se de nós a direito. Você viu.

— Sim — concordou Jubal —, «afastou-se de nós a direito».

— Mas isso não pode ser... não de ambos os ângulos.

— Que é que queres dizer com «isso não pode ser»? Ela afastou-se. — Harshaw acrescentou: — Se tivéssemos usado um radar doppler em vez de câmaras, que é que achas que ele teria mostrado?

— Como é que hei de saber? Vou pôr estas câmaras de lado.

— Não te maces com isso.

— Mas...

— Duke, estas câmaras estão perfeitamente bem. O que é que está a noventa graus de tudo o resto?

— Não sou bom em adivinhas.

— Isto não é uma adivinha. Podia-te recomendar ao Sr. A. Square de Flatland, mas vou responder-te. O que é que está perpendicular a tudo o resto? Resposta: dois corpos, uma pistola e uma garrafa vazia.

— Que diabo é que você quer dizer, patrão?

— Nunca falei mais claramente na minha vida. Tenta acreditar na evidência, em vez de continuares a insistir que as câmaras devem estar estragadas, apenas porque elas mostram aquilo que tu não esperavas. Vamos ver os outros filmes.

Estes filmes não acrescentaram nada ao que Harshaw já sabia. O cinzeiro, quando estava perto do tecto, tinha saído da câmara, mas a sua lenta descida fora filmada. A imagem da pistola na tela era pequena, mas podia ver-se que ela diminuíra de tamanho como se estivesse a desaparecer à distância, mas sem se mover. Uma vez que Harshaw a apertara fortemente quando ela tinha deixado a sua mão, ele estava satisfeito — se «satisfeito» era a palavra certa.

— Duke, quero cópias em duplicado de todos eles.

— Duke hesitou.

— Ainda estou a trabalhar aqui?

— quê? Oh, bolas! Tu não podes comer na cozinha, isso está esclarecido. Duke, tenta esquecer os teus preconceitos e ouve.

— Estou a ouvir.

— Quando Mike pediu que lhe concedesse o privilégio de comer a minha velha e dura carcaça, estava a prestar-me a maior honra que ele conhece... pelas únicas leis que ele conhece. O que ele aprendeu no «colo da mãe», por assim dizer. Estava a apresentar-me o seu mais alto cumprimen­to... e a pedir uma dádiva. Não te deixes influenciar pelo que se passa no Cansas; o Mike usa os valores que lhe foram ensinados em Marte.

— Eu prefiro o Cansas.

— Bem — admitiu Jubal —, eu também. Mas isso não é uma escolha livre, nem para mim, nem para ti, nem para Mike. É quase impossível modificar os primeiros ensinamentos de uma pessoa. Duke, és capaz de meter nessa cabeça dura que, se tivesses sido educado em Marte, terias a mesma atitude que o Mike em relação a comer e a ser comido?

Duke abanou a cabeça.

— Não vou nessa, Jubal. Concordo com muitas coisas, tais como Mike ter tido a pouca sorte de não ser educado por gente civilizada. Mas isto é diferente, isto é um instinto.

— «Instinto»! Ora!

— Mas é. Não foi necessário aprender «ao colo da minha mãe» a não ser um canibal. Com os diabos, eu sempre soube que isso era um pecado... e um pecado muito grande. Pois, só de pensar nisso, fico com o estômago às voltas. Isso é um instinto básico.

Jubal suspirou.

— Duke, como é que pudeste aprender tanto sobre maquinaria e não aprenderes nada sobre ti próprio? A tua mãe não teve de dizer «não deves comer os teus colegas, querido; isso não é bonito», pois tu já o tinhas absorvido da nossa cultura... e eu fiz o mesmo. Anedotas sobre canibais e missionários, desenhos animados, contos de fadas, histórias de terror e um sem-número de coisas. Bolas, meu filho, não podia ser um instinto; o canibalismo é, historicamente, um dos mais disseminados costumes em todos os ramos da raça humana. Os teus antepassados, os meus antepassa­dos, toda a gente.

— Os seus antepassados, talvez.

— Hum. Duke, não me disseste que tinhas sangue índio?

— Hã? Sim, em oitavo grau. Que é que isso tem?

— Então, enquanto nós os dois temos canibais nas nossas árvores genealógicas, tu tens muito mais probabilidades de os ter em gerações mais próximas, porque...

— Por quê, seu velho careca...!

— Acalma-te! Os ritos de canibalismo eram vulgares entre as culturas aborígines americanas: revê isso. Além disso, como norte-americanos, ainda possuímos uma maior hipótese de ter um toque de Congo sem o sabermos... e aqui vamos nós outra vez. Mas mesmo se fôssemos puros nórdicos... uma ideia pateta, pois a bastardia é muito maior do que alguma vez foi admitido... mas se o fôssemos, uma tal ascendência serviria apenas para nos dizer de que canibais é que nós descendemos... porque qualquer ramo da raça humana possui canibalismo. Duke, é idiota dizer que uma determinada prática é «contra o instinto», quando milhões de pessoas a seguiram.

— Mas... Está bem, eu já devia ter aprendido a não discutir consigo,

Jubal; você distorce as coisas. Mas suponhamos que na verdade descende­mos de selvagens que não conheciam nada melhor. E então? Nós somos civilizados, agora. Ou, pelo menos, eu sou.

Jubal sorriu.

— O que implica que eu não sou. Filho, à parte o meu reflexo condicionado contra comer uma perna assada de... bem, de ti, por exemplo; à parte eu ter sido educado no meio de preconceitos, acho que o nosso tabu contra o canibalismo é uma excelente idéia... porque nós não somos civilizados.

— Hã?

— Se não tivéssemos um tabu tão forte, ao ponto de te levar a pensar que se trata de um instinto, eu era capaz de pensar numa série de pessoas a quem eu não teria confiança de voltar as costas, ainda por cima, ao preço que está a carne para bife, nos dias de hoje. Então?

Duke esboçou um sorriso.

— Eu não arriscaria se se tratasse da minha ex-sogra.

— Eu se se tratasse do nosso encantador vizinho a sul, que é tão descuidado com a vida das outras pessoas durante a estação de caça? Queres apostar como eu acabaria no seu frigorífico? Mas no Mike eu confio... porque Mike é civilizado.

— Hã?

— Mike é extremamente civilizado, no estilo marciano. Duke, eu já conversei o suficiente com Mike para saber que esta prática, em Marte, não é do estilo «cão come cão»... ou marciano come marciano. Eles comem o seu morto em vez de o enterrar ou de o queimar, ou de o expor aos abutres; o costume é formalizado e profundamente religioso. Um marciano nunca é morto contra a sua vontade. De fato, o assassínio não parece ser um conceito marciano. Um marciano morre quando o decide, depois de ter discutido o assunto com amigos e recebido o consentimento dos fantasmas dos seus antepassados para se lhes juntar. Depois de ter decidido morrer, o faz tão facilmente como tu fechas os olhos: sem violência, sem doença, sem sequer uma dose excessiva de comprimidos para dormir. Num segundo está vivo e bem, no segundo seguinte é um fantasma. Em seguida os seus amigos comem aquilo que deixou de ter qualquer utilidade, «grocando-o», como Mike diria, e elogiando as suas virtudes ao mesmo tempo que espalham a mostarda. O fantasma assiste ao festim; é um bar mitzvah ou um serviço de confirmação através do qual o fantasma atinge o estado de «Velho»: um idoso homem de estado, tal como eu o entendo. Duke fez uma careta.

— Deus, que superstição disparatada!

— Para Mike é uma cerimônia religiosa solene... mas alegre. Duke resfolegou.

— Jubal, você não acredita nessa história dos fantasmas. É apenas canibalismo combinado com alta superstição.

— Bem, eu não iria tão longe. Acho que estes «Velhos» são difíceis de engolir... mas Mike fala deles como nós falamos da passada quarta-feira. Quanto ao resto... Duke, em que religião foste educado? — Duke disse-lhe; Jubal prosseguiu: — Já calculava; no Cansas, a maior parte das pessoas pertencem à tua ou a outra bastante parecida, a pontos de se ter de olhar para o símbolo para as distinguir. Diz-me: que é que sentiste quando participaste no canibalismo simbólico que tem um papel eminentemente importante nos ritos da tua religião? Duke estava perplexo.

— Que diabo é que você quer dizer? Jubal recostou-se solenemente

— Eras um membro ativo? Ou simplesmente freqüentaste a catequese?

— Hã? Ora, claro que era um membro, continuo a ser... embora não vá muito à igreja.

— Pensei que talvez não fosses digno de o receber. Bem, saberás de que é que eu estou a falar se parares para pensar um pouco. — Jubal levantou-se. — Não vou discutir as diferenças entre uma e outra forma de canibalismo ritual. Duke, não posso perder mais tempo a tentar livrar-te dos teus preconceitos. Vais-te embora? Se vais, é melhor eu escoltar-te até fora da minha casa. Ou preferes ficar? Ficar e comer com o resto dos canibais?

Duke franziu o sobrolho.

— Parece-me que vou ficar.

— Eu lavo daí as minhas mãos. Tu viste estes filmes; se és suficiente­mente esperto, deves ter calculado que esse Homem-Marciano pode ser perigoso.

Duke acenou com a cabeça.

— Não sou tão estúpido como você pensa, Jubal. Mas não vou permitir que Mike me ponha fora daqui. — Acrescentou: — Você diz que ele é perigoso. Mas não tenciono provocá-lo. Bolas, Jubal, eu gosto daquele patetinha, de muitas maneiras.

— Hum... diabos te levem, continuas a subestimá-lo, Duke. Ouve, se sentes amizade por ele, o melhor que tens a fazer é oferecer-lhe um copo de água. Compreendes-me? Torna-te seu «irmão de água».

— Hum... vou pensar nisso.

— Mas, Duke, não o faças só por fazer. Se Mike aceitar a tua oferta, ele fá-lo-á muito a sério. Passará a confiar completamente em ti: por isso, não o faças, a menos que estejas disposto a confiar nele e a ajudá-lo, mesmo se as coisas ficarem feias. Fá-lo do coração.. ou então não o faças.

— Compreendo. Foi por isso que eu disse «vou pensar nisso».

— Está bem. Mas não leves muito tempo a resolver-te... estou à espera que as coisas fiquem feias muito em breve.

Em Laputa, segundo Gulliver, ninguém importante ouvia ou falava sem a ajuda de um climenole — ou flapper, na tradução inglesa: como tal, o dever dos criados era bater levemente a boca e as orelhas do seu amo com uma bexiga sempre que, na opinião do servo, era conveniente para o seu amo falar ou ouvir. Sem o consentimento do seu flapper era impossível conversar com qualquer laputiano da classe dominante.

O sistema flapper era desconhecido em Marte. Os Velhos marcianos precisariam tanto de flappers como as cobras precisam de sapatos. Os marcianos que ainda habitavam um corpo podiam ter usado flappers, mas não o fizeram; esse conceito era contrário à sua maneira de viver.

Se um marciano precisava de cinco minutos ou de anos de meditação, fazia-o simplesmente; se um amigo queria falar com ele, o amigo esperaria. Com toda uma eternidade à sua frente, não podia existir razão para pressas: «pressa» não existia como conceito na língua marciana. Rapidez, velocida­de, simultaneidade, aceleração e outras abstrações do padrão de eternidade faziam parte das matemáticas marcianas, mas não da emoção marciana.

Pelo contrário, a pressa incessante da existência humana provém não das necessidades matemáticas de tempo mas sim da urgência frenética que está implícita na bipolaridade sexual humana.

No planeta Terra o sistema flapper desenvolveu-se lentamente. Em tempos idos, qualquer soberano terrestre aparecia em tribunal aberto, de modo que mesmo os mais humildes podiam comparecer perante o rei sem necessidade de intermediário. Algumas reminiscências disto permaneceram até bastante tempo depois de os reis começarem a rarear: um inglês podia gritar «Harold!» (contudo nenhum o fez) e os espertos governantes da cidade abriam-lhe as portas, isto em pleno século XX. Um resto deste princípio estava preservado na 1ª e 9ª Emendas à Constituição dos Estados Unidos, embora isso fosse substituído pelos Artigos da Federação Mundial.

 

Na época em que a Champion voltou de Marte, o princípio de acesso ao soberano estava, de fato, morto, fosse qual fosse a forma de governo nominal, e a importância de uma personagem podia ser medida pelas camadas de flappers que impediam a multidão de chegar até ele. Eram conhecidos como assistentes executivos, secretárias particulares, secretárias das secretárias particulares, secretários de imprensa, recepcionistas, marca­dores de entrevistas, etc. — mas todos eles eram flappers, pois cada um deles podia vetar arbitrariamente a comunicação com o exterior.

Estas redes de oficiais resultavam em redes de não oficiais que serviam o Grande Homem sem a permissão dos flappers oficiais, usando reuniões sociais ou portas dos fundos, ou números de telefones que não constavam da lista. Estes não oficiais eram denominados: «companheiros de golfe», «governo da cozinha», «intriguistas de corredor», «estadistas», «cinco por cento» e assim por diante. Os não oficiais transformavam-se também em autênticas teias, a ponto de serem quase tão difíceis de localizar como o Grande Homem, e apareciam não oficiais secundários para rodearem os flappers dos não oficiais de primeira. Para uma personagem de primeira importância, o labirinto de não oficiais era tão complexo como as falanges oficiais que rodeavam uma pessoa meramente importante.

 

O Dr. Jubal Harshaw, palhaço profissional, amador subversivo, e parasita por opção, mantinha uma atitude quase marciana em relação à «pressa». Tendo conhecimento de que lhe restava pouco tempo de vida e não possuindo a fé marciana ou do Cansas na imortalidade, decidira viver cada momento dourado como se fosse uma eternidade: sem medos, sem esperan­ças, com um prazer sibarítico. Para este objetivo ele requeria algo maior que o tonel de Diógenes, mas mais pequeno do que o agradável palácio de Kublai; vivia numa casa simples, alguns acres que mantinha privados graças a uma cerca de arame eletrificado, uma casa com cerca de catorze quartos, secretárias permanentes e outros confortos modernos. Para suportar o seu austero retiro e o seu pessoal, despendia um esforço mínimo para a máxima compensação, porque era mais fácil ser-se rico que pobre: Harshaw desejava viver num luxuoso lazer, fazendo aquilo que o divertia.

Sentiu-se aborrecido quando as circunstâncias o forçaram a ter necessida­de de se «apressar» e nunca seria capaz de admitir que isso lhe agradava.

Nessa manhã precisava de falar com o chefe executivo do planeta. Sabia que o sistema flapper tornava tal contacto quase totalmente impossível. Harshaw não quisera rodear-se de flappers próprios da sua categoria: atendia ele próprio o seu telefone quando acontecia passar por perto, pois isso quase sempre lhe dava oportunidade de ser rude para algum estranho que se atrevera a invadir sem qualquer causa a sua privacidade — «causa» na definição de Harshaw. Sabia que não encontraria tais condições no Palácio Executivo; o Sr. Secretário-Geral não atenderia o seu telefone. Mas Harshaw tinha anos de prática em vencer pela astúcia os costumes humanos; entregou-se alegremente à resolução desse assunto, depois do café da manhã.

O seu nome levou-o lentamente através de várias camadas de flappers. Era um VIP suficientemente conhecido para que não lhe desligassem a chamada. Foi passando de uma secretária para outra e acabou a falar com um jovem muito delicado que parecia disposto a ouvi-lo indefinidamente, dissesse Harshaw o que dissesse — mas que não o poria em contacto com o Honorável Sr. Douglas.

Harshaw sabia que algo se passaria se proclamasse que tinha o Homem de Marte com ele, mas pensou que o resultado disso não lhe conviria. Calculava que qualquer menção a Smith faria desaparecer qualquer hipótese de falar com Douglas, ao passo que produziria reações da parte dos subordinados — coisa que ele não queria. Com a vida de Caxton em jogo, Harshaw não podia arriscar-se a falhar devido a qualquer subordinado com falta de autoridade ou excesso de ambição.

Mas esta maneira delicada de o despachar esgotou a sua paciência.

Finalmente vociferou:

— Meu caro jovem, se você não tem autoridade, deixe-me falar com alguém que a tenha! Passe-me o Sr. Berquist. O sujeito perdeu subitamente o sorriso e Jubal pensou alegremente que pelo menos o fizera corar. Por isso prosseguiu: Então? Não fique aí sentado! Chame Gil através da sua linha interna e diga-lhe que fez esperar Jubal Harshaw.

O rosto disse estupidamente:

— O Sr. Berquist não está aqui.

— Não me interessa onde ele está. Procure-o! Se não conhece Gil Berquist pergunte ao seu chefe. Sr. Gilbert Berquist, assistente pessoal do Sr. Douglas. Se trabalha no palácio deve ter visto o Sr. Berquist: trinta e cinco anos, um metro e oitenta de altura e cerca de noventa quilos, cabelo louro, já a escassear, um grande sorriso e uma dentadura perfeita. Se não se atreve a perturbá-lo, peça ao seu chefe para o fazer. Deixe de roer as unhas e mexa-se!

O jovem disse:

— Espere um pouco, por favor. Eu vou perguntar.

— Claro que vou esperar. Encontre Gil.

A imagem foi substituída por um desenho abstrato; uma voz disse: «Por favor, espere até a sua chamada estar completa. Este atraso não é lançado na sua conta. Por favor, descontraia-se enquanto...»; ouviu-se música gravada; Jubal recostou-se e olhou em redor. A Anne estava a ler, fora do ângulo de visão do telefone. Do outro lado estava o Homem de Marte, também fora do alcance do aparelho; estava a ver estereovisão, ouvindo através de auscultadores.

Jubal reflectiu que ele devia ter aquela coisa obscena e palradora ligada para o canal principal.

— Que é que estás a ver, filho? — perguntou, ao mesmo tempo que se esticava e ligava o alto-falante. Mike respondeu:

— Não sei, Jubal.

O som confirmou o que Jubal receara: Smith estava a ouvir um serviço religioso dos fosteritas; o pastor estava a ler um noticiário religioso: — ... a equipe de juniores Spirit-in-Action vai fazer uma demonstração, portanto venha cedo para ver o que se vai passar! O treinador da nossa equipe, o irmão Hornsby, pediu-me para vos dizer, a vocês rapazes, para trazerem apenas os vossos capacetes, luvas e sticks: desta vez não vamos atrás dos pecadores. Apesar disso, o Little Cherubim estará por perto com os seus estojos de primeiros socorros, para o caso de zelo excessivo. — O pastor fez uma pausa e o seu rosto abriu-se num largo sorriso. — E agora, notícias maravilhosas, meus filhos! Uma mensagem do Anjo Ramzai para o irmão Arthur Renwick e para a sua boa esposa, Dorothy. A vossa prece foi ouvida e vós ireis para o céu na madrugada de quinta-feira! Levanta-se Art! Levanta-te, Dottie! Agradeçam!

A câmara mudou de plano, mostrando a congregação e focando ao centro o irmão e a irmã Renwick. Aos entusiásticos aplausos e aos gritos de Aleluia!, o irmão Renwick respondia apertando as mãos sobre a cabeça, como um pugilista, enquanto atrás dele a sua mulher corava, sorria e limpava levemente os olhos.

A câmara recuou quando o pastor levantou a mão pedindo silêncio. Prosseguiu com vivacidade:

— A festa de Bon Voyage começará à meia-noite e as portas serão fechadas nessa altura: portanto, venham cedo para fazermos desta festa a maior a que o nosso rebanho já assistiu; todos temos orgulho no Art e na Dottie. Os funerais terão lugar trinta minutos depois do nascer do Sol, seguindo-se imediatamente o café da manhã para aqueles que têm de ir trabalhar cedo. — O rosto do pastor adotou subitamente uma expressão severa e a câmara foi-se aproximando até a sua cabeça encher por completo a tela. — Depois da nossa última festa de Bon Voyage, o sacristão encontrou, num dos quartos da Felicidade, uma garrafa de quarto de litro vazia: contivera Brandy destilado por pecadores. Isso são águas passadas; o irmão que tinha escorregado, confessou e pagou sete vezes o valor da penitência, chegando mesmo a recusar o habitual desconto: tenho a certeza de que não voltará a fazê-lo. Mas parem e pensem, meus filhos: valerá a pena arriscar a felicidade eterna, para poupar alguns tostões numa mercado­ria mundana? Procurem sempre aquele alegre e sagrado selo de garantia que tem a face sorridente do bispo Digby gravada. Não deixem que um pecador vos impinja uma coisa «igualmente boa». Os nossos patrocinadores os apoiam; eles merecem o vosso apoio. Irmão Art, lamento ter de trazer aqui tal assunto...

— Não tem importância nenhuma, pastor! Diga tudo o que tem a dizer!

— ... numa ocasião de tal felicidade, mas nunca devemos esquecer que...

Jubal desligou o circuito de som.

— Mike, isto não é nada do que tu precisas.

— Não?

— Hum... — Bolas, o rapaz tinha de aprender coisas como estas. — Está bem, continua. Mas fala comigo mais tarde.

— Sim, Jubal.

Harshaw ia começar a dar conselhos para equilibrar a tendência que Mike tinha para levar à letra tudo o que ouvia. Mas a música de espera do telefone começou a diminuir e deixou de se ouvir. A tela encheu-se com uma imagem: um homem dos seus quarenta anos, que Jubal rotulou de «chui». Jubal disse agressivamente:

— Você não é Gil Berquist.

— Qual é o seu interesse em Gil Berquist? Jubal respondeu, contendo a impaciência:

— Desejo falar com ele. Ouça, bom homem, você é funcionário público?

O homem hesitou.

— Sim. Você deve...

— Eu não «devo» nada! Sou um cidadão e os meus impostos ajudam a pagar os seus salários. Durante toda a manhã tenho estado a querer fazer um simples telefonema... e tenho sido passado de uma estúpida borboleta para outra, sendo todas elas alimentadas pelo erário público. E agora aparece-me você. Diga-me o seu nome, posto e número de contribuinte. Depois falarei com o Sr. Berquist.

— Não respondeu à minha pergunta.

— Então, então! Eu não tenho de responder; sou um cidadão privado. Você não é... e a pergunta que eu fiz pode ser feita por qualquer cidadão a um funcionário público. O'Kelly contra o Estado da Califórnia, 1972. Exijo que você se identifique: nome, posto, número.

O homem respondeu monocordicamente:

— O senhor é o Dr. Jubal Harshaw. Está a falar de...

— Ah, foi por isso que demorou tanto tempo? Isso é estúpido. A minha morada pode ser obtida em qualquer biblioteca, posto de correios, ou nas informações telefônicas. Quanto à minha identificação, toda a gente sabe quem eu sou. Todas as pessoas que sabem ler. Você sabe ler?

— Dr. Harshaw, eu sou um agente da polícia e estou a pedir a sua colaboração. Qual é a razão...

— Pobre homem! Eu sou advogado. Um cidadão é obrigado a colaborar com a polícia apenas em determinadas circunstâncias. Por exemplo, durante uma perseguição... caso este em que o polícia pode ser na mesma obrigado a mostrar as suas credenciais. Isto trata-se de «perseguição», senhor? Não me diga que está a preparar-se para mergulhar neste maldito instrumento? Em segundo lugar, um cidadão pode ser obrigado a cooperar dentro dos limites legais durante uma investigação policial...

— Isto é uma investigação.

— De quê, senhor? Antes de pedir a minha colaboração, tem de se identificar, assegurar-me da sua boa-fé, declarar o seu objetivo, e, se eu o exigir, citar o código e demonstrar que realmente existe essa «necessidade». Você não fez nada disto. Desejo falar com o Sr. Berquist.

Os músculos de tubarão do homem latejavam, mas respondeu:

— Sou o capitão Heinrich, do Departamento dos Serviços Secretos da Federação. O fato de estar a falar comigo depois de ter ligado para o Palácio Executivo deveria ser prova suficiente de que eu sou quem digo que sou. Contudo... — tirou uma carteira abriu-a rapidamente, e mostrou-a através do seu receptor. Harshaw olhou de relance para a identificação.

— Muito bem capitão — murmurou. Quer agora explicar-me por que é que me está a impedir de falar com o Sr. Berquist?

— O Sr. Berquist não está disponível.

— Então por que é que não disse logo? Transfira a minha chamada para alguém da categoria de Berquist. Quero dizer, uma das pessoas que trabalham diretamente com o secretário-geral, tal como Gil trabalha. Não estou interessado em que me impinjam um reles assistente que nem sequer tenha autoridade para se assoar a si próprio! Se Gil não está aí, então, por amor de Deus, ponha-me em contacto com alguém da categoria dele!

— O senhor tem estado a tentar falar com o secretário-geral.

— Precisamente.

— Muito bem, pode explicar que assunto é que tem a tratar com o secretário-geral?

— Não, não posso. Você é assistente confidencial do secretário-geral? Tem acesso aos seus segredos?

— Isso está fora de questão.

— É exatamente essa a questão. Como agente da polícia, devia sabê-lo melhor do que eu. Explicarei o que quero a uma pessoa que me pareça capaz de o perceber, e que seja da confiança do Sr. Douglas, para que eu possa ter a certeza de que o secretário-geral falará comigo. Tem a certeza de que não pode contatar com o Sr. Berquist?

— Certeza absoluta.

— Então terá de ser outra pessoa... da categoria dele.

— Se isso é um segredo tão grande, não devia dizê-lo pelo telefone.

— Meu bom capitão! Visto que tem a minha chamada localizada, sabe que o meu telefone está equipedo para receber com a máxima segurança uma chamada feita para cá.

O agente dos S. S. ignorou isto. Em vez disso, respondeu:

— Doutor, vou ser rude. Até explicar qual é o seu assunto, não vai chegar a lado nenhum. Se tornar a telefonar, a sua chamada será ligada para este escritório. Telefone cem vezes... ou daqui a um mês. Será a mesma coisa. Até se resolver a cooperar.

Jubal sorriu alegremente.

— Não será necessário agora, pois você deixou escapar... inconsciente­mente, ou terá sido intencionalmente?..., o único dado de que necessito antes de agir. Se tiver necessidade disso. Posso mantê-los afastados o resto do dia... mas a palavra de código já não é «Berquist».

— Que diabo é que você quer dizer?

— Meu caro capitão, por favor! Não falemos nisso num circuito vigiado! Mas você sabe, ou devia saber, que eu sou um filosofunculista profissional em atividade.

— Repita?

— Não estudou anfigur? Com a breca, o que eles ensinam nas escolas hoje em dia? Volte para o seu jogo de cartas; não preciso de si. — Jubal desligou, preparou o telefone para não receber chamadas durante dez minutos, e disse: — Vamos embora, meus filhos.

Voltou para o seu lugar de lazer perto da piscina. Aconselhou Anne a ter a sua túnica de testemunha à mão, disse a Mike para estar à escuta, e deu instruções a Miriam respeitantes ao telefone. Depois descontraiu-se.

Não se sentia desiludido. Não esperava conseguir falar com o secretário-geral imediatamente. A sua tentativa abrira uma pequena brecha na muralha que rodeava o secretário e esperava que a sua discussão com o capitão Heinrich desse origem a um telefonema da parte de alguém de nível superior. Se isso não acontecesse, a troca de cumprimentos com o chui dos S. S. tinha sido compensadora e tinha-o deixado em brasa. Harshaw pensava que certos pés tinham sido feitos para serem pisados, de modo a melhorar a raça, promover o bem-estar geral e a minimizar a antiga insolência da função pública; tinha visto imediatamente que Heinrich possuía esse tipo de pés.

Mas quanto tempo é que ele podia esperar? Além do possível fiasco da sua «bomba» e do fato de ter prometido a Jill tomar medidas em nome de Caxton, havia outra coisa que o preocupava: Duke desaparecera.

Tinha desaparecido somente por um dia ou para sempre? Jubal não o sabia. Duke jantara com ele, mas não aparecera para o café da manhã. Nenhuma das pessoas que viviam com Harshaw o tinham visto, nem qualquer outra pessoa.

Jubal olhou para a piscina, observou Mike tentando dar um mergulho exatamente igual ao que Dorcas acabara de dar, e admitiu para si próprio que não tinha perguntado por Duke nessa manhã, conscientemente. A verdade é que não queria perguntar ao Lobo o que era feito dos Três porquinhos. O Lobo podia responder.

Bem, havia uma única maneira de pôr cobro a esta fraqueza.

— Mike! Vem cá.

— Sim, Jubal. — O Homem de Marte saiu da piscina e trotou na sua direção como um impaciente cachorrinho. Harshaw olhou-o de alto a baixo, e pensou que ele devia estar a pesar mais uns dez quilos do que pesava quando chegara... e tudo em músculo.

— Mike, sabes onde está o Duke?

— Não, Jubal.

Bem, isto resolvia o assunto; o rapaz não sabia mentir... espera, calma! Jubal lembrou-se do hábito tipo-computador que Mike tinha de responder apenas ao que lhe perguntavam... e Mike dera a sensação de não saber onde estava aquela maldita garrafa, depois de ela ter desaparecido.

— Mike, quando é que o viste pela última vez?

— Vi o Duke subir as escadas quando eu e a Jill vínhamos a descer, esta manhã, na altura de preparar o café da manhã. — Mike acrescentou orgulhosamente: — Eu ajudei a cozinhar.

— Foi essa a última vez que viste o Duke?

— Não tornei a ver o Duke desde essa altura, Jubal. Queimei orgulhosa­mente as torradas.

— Aposto em como as queimaste. Darás um belo marido, se não tiveres cuidado.

— Oh. Vou queimá-las mais cuidadosamente.

— Jubal...

— Hã? Sim, Anne?

— Duke comeu qualquer coisa ao café da manhã e foi para a cidade. Pensei que sabia.

— Bom — contemporizou Jubal —, pensei que ele fazia tenção de partir depois de almoço.

Jubal suspirou, sentindo desaparecer-lhe um peso de cima dos ombros. Não que Duke significasse alguma coisa para ele — claro que não! Desde há muitos anos que evitava deixar que algum ser humano fosse importante para si — mas isso tê-lo-ia perturbado. Pelo menos um pouco...

Que lei é que era violada pelo fato de girar um homem a noventa graus de tudo o resto?

Não assassínio, pois o rapaz usava-o apenas em legítima defesa, ou em defesa de outra pessoa, Jill, por exemplo. As leis da Pensilvânia contra a bruxaria poderiam ser aplicadas... mas seria interessante ver quais os termos em que a acusação seria redigida.

Poderia admitir-se um processo civil. Dar abrigo ao Homem de Marte poderia ser considerado como «ofensa ou incômodo à moral pública»? Era provável que as novas leis do Direito tivessem evoluído, Mike já revolu­cionara os fundamentos da Medicina e da Física, embora aqueles que as praticavam não tivessem conhecimento disso. Harshaw recordou a tragédia que a relatividade tinha sido para muitos cientistas. Incapazes de a compreenderem, tinham encontrado refúgio na ira contra Einstein. O seu refúgio tinha sido um beco sem saída; tudo o que restava àquela velha-guarda era morrer e deixar que novos cérebros tomassem conta das coisas.

O seu avô contara-lhe que a mesma coisa se tinha passado na Medicina quando apareceu a teoria dos germes; os médicos dessa época tinham ido para a sepultura chamando a Pasteur mentiroso, louco, e outras coisas ainda piores — sem examinarem as provas de que o seu «senso comum» lhes dizia ser impossível.

Bem, era visível que Mike iria causar um sururu muito maior do que Pasteur e Einstein juntos. O que lhe recordou...

— Larry! Onde é que está o Larry?

— Aqui, patrão — anunciou o alto-falante que estava atrás dele. — Cá em baixo, no armazém.

— Tens o botão de pânico?

— Claro. Disse-me para dormir com ele. Foi o que eu fiz.

— Corre até cá acima e dá-o a Anne. Anne, guarda-o com a tua túnica. Ela acenou em sinal de assentimento. Larry respondeu:

— Vou imediatamente, patrão.

Jubal reparou que o Homem de Marte ainda estava à sua frente, imóvel como uma escultura. Escultura? Hum... Jubal procurou na sua memória, David, de Miguel Angelo! Sim, as mãos e os pés esguios, a face serenamente sensual, o cabelo demasiado comprido, despenteado.

— É tudo, Mike.

— Sim, Jubal.

Mas Mike continuava à espera. Jubal disse:

— Tens alguma coisa em mente, meu filho?

— Era sobre o que eu estava a ver naquela maldita-caixa-barulhenta. Você disse: «Mas fala comigo mais tarde».

— Oh. — Harshaw recordou a transmissão televisiva dos fosteritas e estremeceu. — Sim, mas não chames a essa coisa uma «maldita-caixa-barulhenta». É um receptor de estereovisão.

Mike parecia confuso.

— Não é uma «maldita-caixa-barulhenta»? Então não percebi bem o que você disse?

— Na verdade é uma maldita caixa barulhenta. Mas deves chamar-lhe receptor de estereovisão.

— Chamar-lhe-ei «receptor-de-estereovisão». Porquê, Jubal? Não groco.

Harshaw suspirou; já passara por isto muitas vezes. Qualquer conversa com Smith que dissesse respeito a reações do comportamento humano que não pudessem ser explicadas logicamente, e as tentativas para o explicar, eram extremamente consumidoras de tempo.

— Eu também não groco. Mike — admitiu Jubal, mas Jill quer que tu lhe chames assim.

— Fá-lo-ei, Jubal. Jill assim o quer.

— Agora conta-me o que viste e ouviste... e o que é que tu grocaste disso.

Mike recordava todas as palavras e ações da estereovisão, incluindo os anúncios. Dado que tinha quase acabado de ler a Enciclopédia, já lera artigos sobre «Religião», «Cristianismo», «Islamismo», «Confucionismo», «Budis­mo» , e assuntos correlacionados. Não tinha grocado nada disto.

Jubal aprendeu que: a) Mike não sabia que a reunião dos fosteritas era religiosa; b) Mike lembrava-se do que lera sobre religiões, mas tinha arquivado isso para meditação futura, pois não compreendera; c) Mike tinha uma noção muito confusa daquilo que significava «religião», embora fosse capaz de citar nove definições de dicionário; d) a língua marciana não continha nenhuma palavra que fosse equivalente a nenhuma destas defini­ções; e) os costumes que Jubal descrevera a Duke como sendo «cerimônias religiosas» marcianas não o eram. Para Mike, tais assuntos, eram, de fato, a mesma coisa que mercearias para Jubal; f) na língua marciana não era possível separar os conceitos humanos «religião», «filosofia» e «ciência» — e, visto que Mike pensava em marciano, não lhe era possível separá-los. Todos esses assuntos eram «ensinamentos» dos Velhos. Provavelmente nunca ouvira falar deles, nem de pesquisa (também não existia uma palavra em marciano para isto); as respostas a quaisquer perguntas vinham dos Velhos, os quais eram oniscientes e infalíveis, quer se tratasse de prever o tempo que ia fazer no dia seguinte, quer de teologia cósmica. Mike tinha assistido a um boletim meteorológico, e supusera que se tratava de uma mensagem dos «Velhos humanos» para aqueles que ainda possuíam corpo. Supunha mais ou menos a mesma coisa acerca dos autores da Enciclopédia Britânica.

Mas o pior de tudo, na opinião de Jubal, era que Mike tinha grocado que o serviço religioso dos fosteritas estava a anunciar as desincorporações iminentes de dois humanos para se juntarem aos «Velhos humanos» — e Mike estava tremendamente excitado. Tinha grocado bem? Mike sabia que o seu inglês não era perfeito; cometia erros devido à sua ignorância de «ser apenas um ovo». Mas tinha grocado isto corretamente? Ele gostaria de conhecer um «Velho humano», tinha muitas perguntas para lhe fazer. Seria esta uma oportunidade? Ou teria de aprender mais antes de estar pronto?

Jubal foi salvo pela campainha; Dorcas chegou trazendo sanduíches e café. Jubal comeu em silêncio, o que Mike compreendeu, pois a sua educação tinha-lhe ensinado que comer era uma altura para meditação. Jubal debicava a comida enquanto ponderava — e se amaldiçoava por ter deixado Mike ver a estereovisão. Oh, o rapaz tinha de ter conhecimento das religiões — isso não podia ser evitado, se ele ia passar o resto da sua vida neste planeta confuso. Mas, caramba, teria sido melhor esperar até que Mike estivesse habituado ao distorcido padrão do comportamento humano... e nunca os fosteritas como primeira experiência!

Agnóstico devoto, Jubal considerava todas as religiões iguais desde o animismo dos Boximanes do Kalahari à fé mais intelectualizada. Mas, emocionalmente, gostava menos dumas que de outras, e a Igreja da Nova Revelação arrepiava-o. A arrogante pretensão dos fosteritas à gnose através de uma linha direta para o Céu, a sua arrogante intolerância, os seus comícios de futebol e os serviços de convenção de vendas — tudo isto o deprimia. Se a maior parte das pessoas gostam de ir à igreja, porque diabo é que elas não podiam ser dignas, tal como os católicos, os cientistas cristãos ou os quacres?

Se Deus existia (conceito em relação ao qual Jubal se mantinha neutral) e se Ele queria ser adorado (uma coisa que Jubal considerava improvável, mas apesar disso possível, à luz da sua própria ignorância), então parecia extremamente improvável que um Deus tão poderoso que podia criar galáxias fosse influenciado pela série de disparates que os fosteritas ofereciam como «adoração».

Mas, pensando friamente, Jubal admitia que os fosteritas podiam possuir a Verdade, apenas a Verdade, e nada mais que a Verdade. O universo era, na melhor das hipóteses, um lugar absurdo... mas a explicação mais disparatada que se podia dar sobre ele era a antiexplicação do «acaso», o conceito de que as coisas abstratas «só por acaso» eram átomos, de que «só por acaso» se juntavam de maneira que «só por acaso» constituíam formas que «só por acaso» eram racionais, e que aqueles dois «só por acaso» eram o Homem de Marte e um velho tonto e careca com Jubal lá dentro.

Não, não podia engolir a teoria do «só por acaso», teoria essa que era popular entre homens que se autodenominavam cientistas. O acaso não era uma explicação convincente do universo — o acaso não era suficiente para explicar o acaso; não se conseguia explicar a si próprio.

Então que fazer? «A teoria das hipóteses» não merecia preferência; a rasoira de Occan não podia cortar às fatias o principal problema, a Natureza do Espírito de Deus (também lhe podes chamar isso, seu velho patife; é um monossílabo anglo-saxónico com quatro letras que ainda é usado — e um provérbio, tão bom como qualquer outro, para aquilo que não percebes).

Havia alguma razão para preferir uma hipótese a outra? Não! Jubal admitia que, embora tivesse vivido uma longa vida, isso não lhe permitira compreender os problemas básicos do universo. Os fosteritas podiam ter razão.

Mas lembrou a si próprio que lhe restavam duas coisas: o seu gosto e o seu orgulho. Se os fosteritas tivessem o monopólio da Verdade, se o Céu estivesse unicamente aberto aos fosteritas, então ele, Jubal Harshaw, cavalheiro, preferia a eternidade de condenação dolorosa que era prometida aos pecadores que recusavam a Nova Revelação. Podia não ver a face de Deus... mas a sua visão era suficientemente boa para distinguir entre os que lhe eram socialmente iguais — e aqueles fosteritas nem de longe se comparavam com ele!

Mas podia ver como Mike fora enganado: o fosterita, «indo para o céu» num momento escolhido, parecia realmente ser a mesma coisa que a «desincorporação» voluntária que, Jubal estava certo disso, era a prática habitual em Marte. Jubal desconfiava que a palavra mais adequada à prática dos fosteritas era «assassínio» — mas isso nunca fora provado e raramente insinuado. Foster tinha sido o primeiro a «ir para o Céu» com data marcada, morrendo num instante profetizado; desde aí, isso tinha sido uma graça especial da religião fosterita... e tinham-se passado anos sem que nenhum magistrado tivesse tido a coragem de investigar essas mortes.

Não que Jubal se importasse — um fosterita bom era um fosterita morto.

Mas ia ser difícil de explicar.

De nada servia ganhar tempo, e outra xícara de café não iria torná-lo mais fácil.

— Mike, quem fez o mundo?

— Perdão?

— Olha à tua volta. Tudo isto. Marte, também. As estrelas. Tudo. Eu, tu e toda a gente. Os Velhos disseram-te quem o fez?

Mike parecia confuso.

— Não, Jubal.

— Bem, já pensaste nisso? De onde é que veio o Sol? Quem é que pôs as estrelas no céu? Quem começou tudo? Tudo, todas as coisas, o mundo inteiro, o universo.... para que fosse possível que eu e tu estivéssemos aqui a conversar. — Jubal fez uma pausa, admirado consigo próprio. Tencionara fazer a habitual aproximação agnóstica... e deu consigo a seguir compulsivamente a sua educação legal, comportando-se como um honesto advogado, e apesar do que ele próprio pensava, tentando apoiar uma crença religiosa que ele não partilhava, mas que era aceite pela maior parte dos seres humanos. Quer ele quisesse quer não, era representante da ortodoxia da sua própria raça contra... não tinha bem a certeza de quê. Um ponto de vista tão humano. — Como é que os vossos Velhos respondem a estas perguntas?

— Jubal, eu não groco... que essas sejam «perguntas». Peço desculpa.

— Hã? Não groco a tua resposta. Mike hesitou.

— Eu vou tentar. Mas as palavras não... não são... corretas. Não é «por». Não é «fazer». É um agora. O mundo é. O mundo era. O mundo será. Agora.

— Tal como era no começo, é agora e será sempre assim, mundo sem fim.

Mike sorriu alegremente.

— Tu grocas!

— Eu não groco — respondeu Jubal bruscamente. Estava a citar uma coisa, hum, que um «Velho» disse.

Decidiu tentar uma outra forma de aproximação; Deus, o Criador, não era o aspecto mais aconselhável da Divindade para usar como abertura: Mike não entendia a idéia da Criação. Bem, Jubal, também não tinha a certeza de o compreender; há muito tempo, fizera um pacto consigo próprio: tomar como postulado um universo criado sobre dias numerados, um universo eterno e espontâneo baseado em dias estranhamente numerados: pois cada hipótese, completamente paradoxal, evitava os paradoxos de ou­tra — marcando um dia de cada ano bissexto para pura devassidão solipsista. E tendo arrumado essa pergunta, para a qual não havia resposta, ele nunca mais pensara nisso.

Jubal decidiu explicar a religião no seu sentido mais amplo e resolver mais tarde a questão da noção da Divindade e dos Seus aspectos.

Mike concordou que os conhecimentos variavam de tamanho, desde os pequenos ensinamentos que um ovo podia grocar, até aos grandes ensina­mentos que apenas um Velho podia grocar na sua totalidade. Mas a tentativa de Jubal para traçar uma linha entre os pequenos ensinamentos e os grandes, a fim de que os «grandes ensinamentos» tivessem o significado de «questões religiosas», não obteve êxito; algumas questões religiosas, para Mike; não pareciam ser questões (tal como a «Criação») e outras pareciam-lhe ser «pequenas» questões, pois possuíam respostas que eram óbvias para os ovos — tal como a vida após a morte.

Jubal deixou este assunto e passou para a multiplicidade das religiões humanas. Explicou que os humanos possuíam centenas de maneiras, através das quais os «grandes ensinamentos» eram ensinados, cada qual com as suas próprias respostas e pretendendo, todas elas, serem a verdade.

— Que é «verdade»? — perguntou Mike.

(«Que é a Verdade?», perguntou um juiz romano, e lavou as suas mãos. Jubal desejou poder fazer o mesmo.)

— Uma resposta é verdadeira quando tu falas corretamente, Mike.

Quantas mãos é que eu tenho?

— Duas mãos. Eu vejo duas mãos — emendou Mike. Anne levantou o olhar do livro.

— Em seis semanas, podia fazer dele uma testemunha.

— Está calada, Anne. Isto já é bastante difícil. Mike, tu falaste corretamente; eu tenho duas mãos. A tua resposta é verdadeira. Supõe que dizias que eu tinha sete mãos?

Mike pareceu perturbado.

— Eu não groco que pudesse dizer uma coisa dessas.

— Não, também acho que não podias. Não falarias corretamente se o fizesses; a tua resposta não seria verdadeira. Mas, Mike... ouve com atenção: cada uma das religiões pretende ser a verdadeira, pretende falar corretamente. Contudo as suas respostas são tão diferentes como duas mãos são diferentes de sete. Os fosteritas dizem uma coisa, os budistas dizem outra, os muçulmanos dizem ainda outra... muitas respostas, todas diferentes umas das outras.

Mike parecia estar a fazer um enorme esforço.

— Todos falam corretamente? Jubal, eu não groco.

— Eu também não.

O Homem de Marte parecia perturbado: depois, subitamente, sorriu.

— Vou pedir aos fosteritas para perguntarem aos vossos Velhos e depois sabermos, meu irmão. Como é que hei - de fazer isto?

Alguns minutos mais tarde, Jubal apercebeu-se, para seu desgosto, de que tinha prometido a Mike uma entrevista com um daqueles fosteritas linguareiros. Também não tinha sido capaz de abalar a suposição de Mike, segundo a qual os fosteritas estavam em contacto com os «Velhos humanos». A dificuldade de Mike era que ele não sabia o que era uma mentira — definições de «mentira» e de «falsidade» tinham sido arquivadas no seu espírito sem vestígios alguns de terem sido grocadas. Uma pessoa só podia «falar erradamente» por mero acaso. Portanto ele tomara o serviço religioso dos fosteritas pelo seu valor aparente.                                                          

Jubal tentou explicar que todas as religiões humanas tinham a pretensão de estarem em contacto com os Velhos de uma maneira ou de outra; contudo, as suas respostas eram todas diferentes.

Mike parecia pacientemente perturbado.

— Jubal, meu irmão, eu tento... mas não groco como é que isso pode ser verdade. Com o meu povo, os Velhos falam sempre corretamente. O vosso povo...

— Espera aí, Mike.

— Perdão?

— Quando disseste «o meu povo» estavas a falar dos Marcianos. Mike, tu não és marciano; tu és um homem.

— Que é um «homem»?

Jubal suspirou. Mike era capaz, ele tinha a certeza, de citar as definições dos dicionários. Contudo, o rapaz nunca fazia uma pergunta apenas para aborrecer; ele perguntava sempre com o fim de se informar — e esperava que Jubal fosse capaz de lhe responder.

— Eu sou um homem, tu és um homem, Larry é um homem.

— Mas a Anne não é homem?

— Hum... A Anne é um homem, um homem fêmea. Uma mulher. («Obrigado, Jubal» — «Cala-te, Anne.»)

— Um bebê é um homem? Eu vi fotografias e na maldita-cai... na estereovisão. Um bebê não tem a mesma forma de Anne... e Anne não tem a mesma forma que você... e você não tem a mesma forma que eu. Mas um bebê é um homem pequeno?

— Hum... sim, um bebê é um homem.

— Jubal... penso grocar que o meu povo... os «Marcianos»... são homens. Não em forma. Forma não é homem. Homem é grocar. Estou a falar corretamente?

Jubal decidiu demitir-se da Sociedade Filosófica e começar a fazer renda! Que era «grocar»? Há uma semana que vinha usando a palavra — e não a grocava. Mas, afinal, que era «homem»? Um bípede sem penas? A imagem de Deus? Ou um resultado fortuito de «sobrevivência dos mais aptos» numa definição circular? O herdeiro da morte e dos impostos? Os Marcianos pareciam ter derrotado a morte, e pareciam não possuir dinheiro, proprieda­de, ou governo em qualquer dos sentidos humanos — portanto, como é que eles podiam ter impostos?

Contudo, o rapaz tinha razão: ao definir o «homem» a forma era tão irrelevante como a garrafa que contém o vinho. Até se podia tirar um homem da sua garrafa, como aquele pobre sujeito, cuja vida foi «salva» pelos russos colocando o seu cérebro numa redoma de vidro e ligando-o como se fosse uma central telefônica. Caramba, que piada de mau gosto! Perguntou a si próprio se o pobre diabo apreciaria o humor.

Mas em quê, do ponto de vista de um marciano, os homens diferiam dos outros animais? Uma raça que podia levitar (e sabe Deus que mais) poderia impressionar-se com a engenharia? Se assim fosse quem ganharia o primeiro prêmio... a Barragem de Assuão ou os mil e quinhentos quilômetros do recife de coral? A racionalidade do homem? Puro conceito, não existia maneira de provar que os cachalotes ou as sequóias não era melhores filósofos e poetas que os humanos.

Existia um campo em que o homem era invencível; mostrava uma ingenuidade ilimitada ao inventar as maneiras cada vez mais eficazes de matar, de escravizar, de perseguir, e em todas elas acabava por se prejudicar a si próprio. O homem era a piada mais sinistra sobre si próprio. A autêntica pedra-chave do humor era...

— O homem é o animal que ri — respondeu Jubal. Mike considerou isto.

— Então eu não sou um homem.

— Hã?

— Eu não rio. Ouvi rir e isso assustou-me. Em seguida groquei que isso não fazia doer. Tentei aprender...

Mike lançou a cabeça para trás e deixou escapar um áspero cacarejo. Jubal tapou os ouvidos.

— Pára!

— Você ouviu — concordou Mike, tristemente. — Não sou capaz de o fazer corretamente. Portanto não sou um homem.

— Espera um segundo, meu filho. Simplesmente ainda não o aprendeste... nunca aprenderás a tentar. Mas hás-de saber rir, prometo-te. Se viveres entre nós o tempo suficiente, um dia descobrirás como somos engraçados... e rir-te-ás.

— Sério?

— Sério. Não te preocupes, deixa que isso aconteça naturalmente. Pois, meu filho, até mesmo um marciano se riria depois de nos ter grocado.

— Esperarei — concordou Smith placidamente.

— E, enquanto esperas, não duvides que és um homem, és, sim. Um homem nascido de uma mulher, e nascido para se preocupar... e um dia grocarás toda a sua complexidade e nesse dia rir-te-ás: porque o homem é o animal que ri de si próprio. Quanto aos teus amigos marcianos, não sei. Mas groco que é possível que eles sejam «homens».

— Sim, Jubal.

Harshaw pensou que a entrevista tinha acabado e sentiu-se aliviado. Não tornara a sentir-se assim tão embaraçado desde aquele longínquo dia em que o seu pai lhe tinha explicado a história dos passarinhos, das abelhas e das flores — demasiado tarde.

Mas o Homem de Marte ainda não estava satisfeito.

— Jubal, meu irmão, perguntou-me: «Quem fez o Mundo?» E eu não tive palavras, porque não groquei que isso fosse uma pergunta. Estive a pensar em palavras.

— Ah, sim?

— Você disse-me: «Deus fez o Mundo.»

— Não, não! — disse Harshaw. — Eu disse-te isso porque as religiões dizem muitas coisas e a maior parte delas dizem que «Deus fez o Mundo.» Eu disse-te que não grocava isso na sua totalidade, mas que «Deus» era a palavra usada.

— Sim, Jubal — concordou Mike. A palavra é «Deus» — E acrescen­tou: — Você groca.

— Devo admitir que não groco.

— Você groca — repetiu Smith firmemente — Eu explico. Eu não tinha a palavra. Você groca. A Anne groca. Eu groco. As relvas debaixo dos meus pés grocam em perfeita felicidade. Mas eu precisava da palavra. A palavra é Deus.

— Continua.

Mike apontou triunfantemente para Jubal.

— Tu és Deus!

Jubal bateu com a mão na cara.

— Oh, Jesus... Que é que eu fiz?! Ouve, Mike, tem calma! Tu não me compreendeste. Lamento, lamento muito! Esquece o que eu disse e tornaremos a falar disto um outro dia. Mas...

— Tu és Deus — repetiu Mike serenamente. — Aquele que groca. A Anne é Deus. Eu sou Deus. As alegres relvas são Deus. Jill groca sempre com beleza. Jill é Deus. Todos criando, formando e construindo juntos... — Balbuciou algumas palavras em marciano e sorriu.

— Está bem, Mike. Mas não penses nisso. Anne! Estiveste a prestar atenção a isto?

— Claro, patrão!

— Toma nota. Tenho de escrever sobre isto. Não posso deixá-lo escapar. Tenho... — Jubal olhou para cima e disse: — Oh, meu Deus! O quartel-general, toda a gente! Anne! Programa o botão de pânico para «homem morto»... e, por amor de Deus, não tires o dedo de cima dele: talvez não se dirijam para cá. — Olhou de novo para o ar, para dois carros aéreos que se aproximavam vindos do sul. — Receio que venham. Mike! Esconde-te na piscina! Lembra-te do que eu te vou dizer: lá em baixo, na parte mais funda da piscina, fica lá, quieto... não venhas para cima até eu mandar a Jill chamar-te.

— Sim, Jubal.

— Vai já. Despacha-te!

— Sim, Jubal. — Mike subiu os degraus, entrou na água e desapareceu. Conservou os joelhos direitos, pés juntos e dedos esticados.

— Jill! — chamou Jubal. — Mergulhe e suba outra vez. Tu também, Larry. Se alguém viu isto, quero que eles fiquem confundidos com o número de pessoas que usaram a piscina. Dorcas! Sobe outra vez, depressa, minha filha, e mergulha outra vez. Anne... não, tu tens o botão de pânico.

— Posso levar a minha capa e ir para a borda da piscina. Patrão, quer que suspenda a programação de «homem morto»?

— Hum, trinta segundos. Se eles aterrarem, veste a tua túnica de testemunha e volta a pôr o dedo no botão. Depois esperas; e só largas o botão se eu te chamar para vires ao pé de mim. Não me atrevo a gritar «Lobo!», a menos... — Jubal protegeu os olhos. — Um deles vai aterrar... e tem aspecto de quem não vem com boas intenções. Oh, com os diabos! Pensei que eles iam negociar.

O primeiro carro deu umas voltas no ar e desceu para aterrar no jardim à volta da piscina; o segundo começou a circular a baixa altitude. Os carros eram pequenos e ostentavam uma pequena insígnia: o estilizado globo da Federação.

Anne pousou o retransmissor de rádio, vestiu rapidamente a sua túnica, tornou a pegar no retransmissor e colocou o dedo em cima do botão. A porta do primeiro carro abriu-se assim que tocou no solo e Jubal carregou na sua direção com a agressividade de um pequinês. Assim que o homem saiu, Jubal gritou-lhe:

— Tire essa maldita sucata de cima das minhas roseiras!

O homem disse:

— Jubal Harshaw?

— Diga àquele imbecil para levantar aquela lata e recuar para cima da relva! Anne!

— Vou já, patrão.

— Jubal Harshaw, tenho um mandato para...

— Não me interessa se você tem um mandato do rei de Inglaterra; tire aquele monte de sucata de cima das minhas flores! Depois vou processá-lo por... — Jubal olhou para o homem, pareceu-lhe ser a primeira vez que o via. — Oh, então é você — disse com azedume. — Você já nasceu estúpido, Heinrich, ou teve de estudar? Onde é que aquele burro fardado aprendeu a voar?

— Por favor, examine este mandato — disse o capitão Heinrich, cautelosamente. — Depois...

— Tire a sua cadeirinha com rodas de cima dos meus canteiros de flores ou eu levantarei um processo de direitos civis que lhe custará a sua reforma!

Heinrich hesitou.

— Imediatamente! — gritou Jubal. — E diga àqueles brutamontes que escolham o sítio onde põem os pés! Aquele idiota com dentes de coelho está em cima de uma Elisabeth M. Hewit premiada!

Heinrich voltou a cabeça.

— Vocês aí... cuidado com essas flores. Paskin, estás em cima duma. Rogers! Levanta o carro e sai do jardim. — Voltou-se para Harshaw. — Está satisfeito?

— Desde que ele saia dali... mas você terá de pagar os estragos. Vamos lá a ver as suas credenciais... e mostre-as à testemunha e diga em voz alta e claramente o seu nome, posto, organização e número de contribuinte.

— O senhor sabe quem eu sou. Tenho um mandato para...

— E eu tenho um mandato para lhe fazer risco ao meio com um tiro se você não fizer as coisas legalmente e com ordem! Eu não sei quem você é. Você parece ser um indivíduo presunçoso, verifiquei isso pelo telefone... mas eu não o identifico. Você é que tem de se identificar, de modo específico, Código Mundial, parágrafo 1602, segunda parte, antes de apresentar um mandato. E o mesmo se aplica aos outros gorilas e àquele piteco parasita que pilota o seu carro.

— São agentes da polícia agindo sob as minhas ordens.

— Eu não sei quem eles são. Podem muito bem ter alugado estes uniformes de palhaços num guarda-roupa. Lei é lei, senhor! Você invadiu o meu castelo. Diz que é um agente da polícia... e alega que tem um mandato que justifica esta intrusão. Mas eu afirmo que os senhores são invasores de propriedade privada até que você me prove outra coisa... o que me faz recordar do meu direito soberano que me permite usar a força para vos expulsar, o que eu vou começar a fazer dentro de três segundos.

— Eu não lhe o aconselhava.

— E quem é você para aconselhar? Se eu for ferido ao pôr em vigor este meu direito, a vossa ação transforma-se em «assalto construtivo»... com armas mortais, se é que as coisas que aqueles estúpidos empunham são armas, como parecem ser. Civil e criminal, ao mesmo tempo; razão pela qual eu aproveitarei a sua pele para fazer um capacho para a entrada! — Jubal recuou o seu braço franzino e cerrou o punho. — Fora da minha propriedade!

— Calma, doutor. Façamo-lo à sua maneira.

Heinrich estava vermelho, mas controlou a voz. Mostrou a sua identificação, para a qual Jubal olhou de relance, tirando-a depois da mão de Heinrich para a mostrar a Anne. Em seguida recitou o seu nome, disse que era um capitão da polícia do Departamento dos Serviços Especiais da Federação, e soletrou o seu número de contribuinte. Um por um, todos os outros soldados e o condutor recitaram a algaraviada, sob as ordens ditadas pelo rosto glacial de Heinrich.

Quando acabaram, Jubal disse docemente:

— E agora, capitão, em que é que lhe posso ser útil?

— Tenho um mandato de captura para Gilbert Berquist, mandato esse que cita esta propriedade, os seus edifícios e terrenos.

— Mostre-me e depois mostre-o à testemunha.

— Assim farei. Tenho um outro mandato, similar ao primeiro, para Gillian Boardman.

— Quem?

— Gillian Boardman. A acusação é rapto.

— Meu Deus!

— E outro para Hector C. Johnson... outro para Valentine Michael Smith... e outro para si, Jubal Harshaw.

— Eu? Outra vez os impostos?

— Não. Umas coisas e outras... e cúmplice entre outras coisas... e eu próprio o deteria por obstrução à justiça, se este mandato não o tornasse desnecessário.

— Ora, então, capitão! Tenho cooperado muito mais, desde que você se identificou e começou a atuar dentro da lei. E continuarei a fazê-lo. Claro, não deixarei por isto de o processar a si, ao seu superior e ao Governo, pelos vossos atos ilegais cometidos antes desta altura... e não ponho de parte a idéia de recorrer de novo aos meus direitos para me proteger daquilo que qualquer de vós possa fazer daqui em diante. Hum... realmente é uma grande lista de vítimas. Estou a ver porque é que trouxeram aquele carro extra. Mas... valha-me Deus!, há aqui algo de esquisito. Esta, hum, Sra. Barkmann?, vejo que ela é acusada de raptar este sujeito, o Smith... mas neste outro mandato parece que ele é acusado de fuga. Estou muito confuso.

— É ambas as coisas. Ele fugiu... e ela raptou-o.

— Não lhe parece que isso é difícil de conseguir? Quer dizer, ambas as coisas ao mesmo tempo? E sob que acusação é que ele estava detido? O mandato parece não o dizer!

— Como é que eu hei - de saber? Ele fugiu, é tudo. É um fugitivo.

— Deus meu! Parece-me que vou ter de oferecer os meus maus serviços como conselheiro a todos eles. Caso interessante. Se foi cometido um erro... ou erros... isso poderá conduzir a outros assuntos.

Heinrich sorriu friamente.

— Isso não será fácil. Você também estará na prisão.

— Oh, não por muito tempo, tenho confiança. — Jubal levantou a voz e virou a cabeça na direção da casa. — Acho que, se o juiz Holland estiver a ouvir, os processos de habeas corpus, para todos nós, estarão prontos extremamente depressa. E se a Associated Press tiver por acaso um carro de exteriores aqui perto, não se perderia tempo em saber qual a razão desses mandatos.

— Sempre o mesmo jogo baixo, hem, Harshaw?

— Difamação, meu caro senhor. Vou tomar nota.

— Isso há-de servir-lhe para uma grande coisa. Estamos sós.

— Estamos?

Valentine Michael Smith nadou através da água turva para a parte mais funda da piscina, por baixo da prancha de saltos, e imobilizou-se no fundo. Não sabia porque é que o seu irmão lhe dissera para se esconder; não sabia que estava escondido. Jubal dissera-lhe para fazer isto e permanecer lá até a Jill o ir buscar; era suficiente.

Enroscou-se, deixou sair o ar dos pulmões, engoliu a língua, rolou os olhos, abrandou o coração, e ficou efetivamente «morto», só que não estava desincorporado. Alongou o seu sentido de tempo para que os segundos parecessem horas, pois tinha muito em que meditar.

Falhara outra vez ao querer atingir a compreensão perfeita, a completa relação mútua — o groque — que devia existir entre irmãos de água. Sabia que o erro era seu, causado pelo uso errado que ele fazia com a estranha e variável linguagem humana, pois Jubal ficara perturbado.

Sabia que estes irmãos humanos podiam sofrer intensa emoção sem danos. Apesar disso, Smith estava extremamente arrependido por ter causado perturbação a Jubal. Tinha-lhe parecido que finalmente percebera uma palavra humana muito difícil. Devia ter percebido ainda melhor, pois logo ao princípio da sua aprendizagem, sob a orientação do seu irmão Mahmoud, descobrira que as palavras humanas mais longas raramente alteravam os seus significados, enquanto as palavras curtas eram enganado­ras, alterando-se sistematicamente. Ou, pelo menos, ele assim julgava ter grocado. As palavras curtas da linguagem humana eram como tentar levantar água com uma faca.

Esta era uma palavra muito curta.

Smith continuava a sentir que grocara bem a palavra humana «Deus» — a confusão tinha sido originada pelo seu fiasco ao tentar escolher outra palavra. O conceito era tão simples, tão básico, tão necessário, que até um ovo o podia explicar — em marciano. O problema era encontrar palavras humanas que o deixassem falar corretamente, e ter a certeza de que as tinha escolhido de forma a coincidirem na sua totalidade com a expressão usada na língua do seu povo.

Ficou confundido com o fato de ter dificuldade em o dizer, mesmo em inglês, pois era uma coisa que toda a gente sabia... de outro modo não poderiam grocar vivos. Possivelmente devia perguntar aos Velhos humanos como é que havia de dizer, pois isso era preferível a ter de lutar com significados incertos. Assim, teria de esperar até que Jubal arranjasse essa entrevista, pois ele era apenas um ovo.

Sentiu uma certa pena por não ter o privilégio de assistir à desincorporação do irmão Art e do irmão Dottie.

Depois acalmou-se para rever o dicionário da língua inglesa Webster New International, terceira edição, publicado em Springfield, Massachusetts.

De uma grande distância, Smith foi assaltado por uma estranha sensação de que os seus irmãos de água estavam em perigo. Fez uma pausa entre «sherbacha» e «sherbet» para ponderar isto. Devia deixar a água da vida para se lhes juntar e partilhar os seus problemas? Em casa não teria hesitado; os problemas eram para ser partilhados, em alegre proximidade.

Mas Jubal dissera-lhe para esperar.

Reviu as palavras de Jubal, comparando-as com outras, assegurando-se de que as grocara. Não, ele tinha grocado corretamente; tinha de esperar até que Jill viesse.

Apesar disso, estava tão preocupado que não foi capaz de voltar para a sua caça às palavras. Finalmente teve uma idéia tão cheia de alegre atrevimento que teria começado a tremer se o seu corpo estivesse ativo.

Jubal dissera-lhe para colocar o seu corpo debaixo de água e para o deixar aí até que Jill chegasse... Mas Jubal dissera que ele, ele próprio, tinha de esperar com o corpo?

Smith levou um certo tempo a pensar nisto, sabendo que as enganadoras palavras inglesas o podiam induzir em erro. Concluiu que Jubal não lhe ordenara que ficasse com o seu corpo... e isso deixava-lhe uma saída para escapar à maldade de não partilhar os problemas dos seus irmãos.

Assim pensando, Smith decidiu dar um passeio.

Estava atônito com a sua própria audácia, pois, embora já o tivesse feito antes, nunca o tinha feito «sozinho». Tinha estado sempre junto de si um Velho, observando-o, assegurando-se de que o seu corpo estava seguro, evitando que ele se desorientasse, permanecendo com ele até Smith voltar novamente para o seu corpo.

Agora não havia nenhum Velho para o ajudar. Mas Smith estava confiante em ser capaz de o fazer sozinho, de um modo que encheria de orgulho o seu professor. Assim, examinou cada uma das partes do seu corpo, assegurou-se de que ele não sofreria danos enquanto estivesse fora, e em seguida saiu cuidadosamente de dentro dele, deixando atrás de si aquela coisa insignificante que o protegia.

Elevou-se e pôs-se de pé na borda da piscina, procurando comportar-se como se o seu corpo estivesse com ele, isto para o proteger contra a desorientação — para que ele não perdesse o rasto da piscina, do corpo, de tudo, e para que não começasse a vaguear por lugares desconhecidos onde não poderia encontrar o caminho de regresso. Smith olhou em redor.

Um carro estava a aterrar no jardim, e os seres por baixo dele queixavam-se de injúrias e insultos. Era este o problema que ele tinha sentido? As relvas eram feitas para que andassem em cima delas, mas as flores e os arbustos não eram — isto era uma maldade.

Não, havia mais maldade. Um homem saía do carro, com um pé prestes a tocar no chão, e Jubal corria na sua direção. Smith podia ver a fúria que Jubal sentia contra o homem, uma explosão tão furiosa que, se um marciano a tivesse experimentado contra outro, ambos se teriam desincorporado.

Smith anotou isto como algo para ponderar e, se se tratasse de uma «situação crítica», decidir o que é que devia fazer para ajudar o seu irmão. Em seguida olhou para os outros.

Dorcas estava a sair da piscina; estava preocupada, mas não em demasia; Smith podia sentir a confiança que ela depositava em Jubal. Larry estava na borda e tinha acabado de sair da piscina; gotas de água que caíam do seu corpo flutuavam no ar. Larry estava excitado e satisfeito; a sua confiança em Jubal era absoluta. Miriam estava perto dele; o seu estado de espírito estava a meio caminho entre o de Dorcas e o de Larry. Anne estava de pé, perto deles, vestindo a longa túnica branca que tinha guardado com ela todo o dia. Smith não podia grocar completamente o seu estado de espírito; sentia nela a fria e inflexível disciplina de um Velho. Isso surpreendeu-o, pois Anne era sempre delicada, gentil e calorosa.

Viu que ela observava Jubal com atenção e que estava pronta a ajudá-lo. E Larry também!... e Dorcas!... e Miriam! Com uma explosão de empatia, Smith apercebeu-se de que todos estes amigos eram irmãos de água de Ju­bal — e, consequentemente seus. Esta descoberta chocou-o a tal ponto que quase o fez perder a estabilidade. Acalmando-se, deteve-se para apreciar e proteger todos eles, um por um e todos juntos.

Jill estava agarrada à borda da piscina e Smith sabia que ela estivera debaixo de água, assegurando-se de que ele estava em segurança. Apercebera-se da sua presença quando ela o tinha feito... mas agora sabia que ela não estava apenas preocupada com a sua segurança; Jill sentia uma outra e maior preocupação, preocupação essa que não era aliviada por saber que o seu corpo estava a salvo sob a água da vida. Isto perturbou-o muito, e Smith considerou a hipótese de ir até junto dela e dar-lhe a conhecer que ele estava com ela e partilhava o seu problema.

Teria feito isso se não tivesse uma leve sensação de culpa: não tinha a certeza se Jubal gostaria que ele andasse a passear enquanto o seu corpo estava na piscina. Comprometeu-se a não partilhar os seus problemas — e a dar-lhes a conhecer que estava presente se isso se tornasse necessário.

Smith concentrou então a sua atenção no homem que estava a sair do carro aéreo, sentiu as suas emoções e recuou perante elas, forçado a examiná-lo cuidadosamente, por dentro e por fora.

Dentro de uma coisa com a forma de bolso preso à sua cintura, o homem transportava uma arma.

Smith tinha quase a certeza de que se tratava de uma arma. Examinou-a em pormenor, comparando-a com as outras armas que tinha visto e vendo se ela coincidia com a definição do dicionário Webster da língua inglesa terceira edição, publicado em Springfield, Massachusetts.

Sim, era uma arma — não só na forma, mas também na maldade que a rodeava e a penetrava. Smith deu uma vista de olhos pelo cano da arma, viu como ela devia funcionar, e toda aquela maldade surpreendeu-o.

Devia transformá-la e fazê-la desaparecer, levando com ela a sua maldade? Fazê-lo antes de o homem acabar de sair do carro? Smith sentiu que devia... mas Jubal dissera-lhe certa vez que não fizesse isso a uma arma antes de Jubal lhe comunicar que chegara a altura.

Apercebia-se agora de que esta era realmente uma «situação crítica». mas Smith decidiu pensar nesta situação até grocar tudo — pois era possível que Jubal, sabendo que «uma situação crítica» se aproximava, o mandasse buscar debaixo de água para evitar que agisse erradamente.

Esperaria... mas continuaria a observar esta arma. Não estando limitado apenas aos olhos, pois estava apto a ver tudo o que se passava em redor, se isso fosse necessário, continuou a observar a arma e o homem enquanto este foi dentro do carro.

Mais maldade do que ele julgara possível! Outros homens estavam ali, todos eles amontoando-se ao pé da porta. Os seus espíritos cheiravam como um bando de Khaugha que farejassem o rasto de uma ninfa imprevidente... e todos eles seguravam nas mãos uma coisa possuindo maldade.

Tal como dissera Jubal, Smith sabia que a forma nunca era uma característica determinante; era necessário ir além da forma até à essência, para poder grocar completamente. O seu próprio povo passava por cinco importantes formas: ovo, ninfa, companheiro de ninho, adulto... e Velho, que não possuía forma. Contudo a essência de um Velho estava presente no ovo.

Estas coisas pareciam armas. Mas Smith não as assumiu como tal; examinou uma delas mais cuidadosamente. Era maior que qualquer das armas que ele tinha visto, a sua forma era diferente, e os seus pormenores eram bastante diferentes.

Mas era uma arma.

Examinou cada uma das outras com idêntica atenção. Eram armas.

O único homem que ainda estava sentado tinha, presa a si, uma pequena arma. O carro possuía duas enormes armas — mais umas outras coisas que Smith não podia grocar, mas nas quais sentia maldade.

Considerou a hipótese de fazer desaparecer o carro, o seu conteúdo e tudo. Mas, além da sua inibição em relação a desperdiçar comida, sabia que não tinha grocado o que estava a acontecer. Era preferível mover-se lentamente, observar cuidadosamente, e ajudar e partilhar a situação crítica seguindo as indicações de Jubal... e, se a ação acertada fosse permanecer passivo, então voltar para o seu corpo quando a agitação tivesse passado e discutir isto com Jubal mais tarde.

Foi para junto do carro e observou, ouviu e esperou. O primeiro homem a sair falou com Jubal a respeito de coisas que Smith apenas podia arquivar, pois não as grocava; estavam para além da sua experiência. O outro homem saiu e afastou-se; Smith desdobrou a sua atenção para os observar a todos. O carro levantou, recuou e tomou a parar, aliviando os seres sobre os quais tinha estado pousado; Smith grocou com eles, tentando diminuir os seus ferimentos.

O primeiro homem entregou uns papéis a Jubal; passaram para a mão de Anne. Smith leu-os com ela. Reconheceu a forma das suas palavras como sendo relacionadas com rituais humanos de cura e de equilíbrio; mas, como tinha apenas encontrado esses rituais na biblioteca de Jubal, não tentou grocar os papéis, especialmente porque Jubal parecia não lhes ligar impor­tância — a maldade estava noutro lado. Ficou maravilhado por encontrar o seu nome humano em dois papéis; sentia sempre uma estranha sensação ao lê-lo, como se estivesse em dois lugares ao mesmo tempo — ora isso era impossível para toda a gente, menos para um Velho.

Jubal e o primeiro homem caminharam em direção à piscina, Anne seguindo-os de perto. Smith relaxou o seu sentido de tempo para os deixar moverem-se mais depressa, mantendo-o alongado apenas o suficiente para poder observar confortavelmente todos os homens ao mesmo tempo. Dois homens aproximaram-se e ladearam o grupo.

O primeiro homem parou junto dos amigos de Smith ao pé da piscina, olhou para eles, tirou uma fotografia do bolso, olhou para ela e depois olhou para Jill. Smith sentiu o seu medo aumentar e pôs-se alerta. Jubal dissera-lhe: «Protege a Jill. Não te preocupes com desperdiçar comida. Não te preocupes com nada. Protege Jill.»

Teria protegido Jill em qualquer caso, mesmo correndo o risco de agir erradamente. Mas era bom ter o consentimento de Jubal; isso deixava o seu espírito livre e despreocupado.

Quando o homem apontou para Jill e os outros dois homens que o ladeavam correram para ela com as suas armas de grande maldade, Smith alongou-se através do seu Doppelgänger e deu a ambos aquele leve impulso que fazia desaparecer.

O primeiro homem olhou pasmado para o sítio onde eles tinham estado e procurou a sua arma — e também desapareceu.

Os outros quatro começaram a aproximar-se. Smith não os queria distorcer. Sentiu que Jubal ficaria satisfeito se ele apenas os detivesse. Mas deter uma coisa, mesmo que fosse um cinzeiro, é trabalho — e Smith não tinha o seu corpo. Um Velho tê-lo-ia conseguido, mas Smith fazia o que podia, o que devia fazer.

Quatro levíssimos toques — eles desapareceram.

Sentiu uma intensa maldade vinda do carro e dirigiu-se para ele — grocou uma rápida decisão, piloto e carro desapareceram.

Quase viu o carro levantar para cobrir a patrulha. Smith começou a descontrair-se — quando subitamente viu a maldade aumentar e olhou para cima.

O segundo carro preparava-se para aterrar.

Smith esticou o tempo até ao seu limite e subiu até ao carro, inspecio­nou-o cuidadosamente, grocou que estava repleto de maldade... trans­formou-o em nada. Em seguida regressou para junto do grupo ao pé da piscina.

Os seus amigos pareciam excitados. Dorcas estava a soluçar e Jill segurava-a e acalmava-a. Apenas Anne parecia intocada pelas emoções que Smith sentia à sua volta. Toda a maldade desaparecera, e juntamente com ela a preocupação que perturbara as suas meditações. Dorcas, ele sabia-o, curar-se-ia mais depressa com o auxílio de Jill do que com o de qualquer outra pessoa — pois Jill grocava sempre completa e imediatamente uma dor. Perturbado pelas emoções à sua volta, preocupado por poder não ter agido bem numa situação critica — ou por Jubal assim o poder grocar —, Smith decidiu que podia retirar-se agora. Tornou a entrar na piscina, encontrou o seu corpo, grocou que estava tal como o tinha deixado — e enfiou-se dentro dele novamente.

Considerou a hipótese de contemplar os acontecimentos da situação crítica. Mas eram demasiado recentes; não estava pronto para os com­preender, não estava pronto para apreciar intimamente os homens que forçara a desaparecer. Em vez disso, voltou alegremente para a tarefa que tinha começado. «Sherbet»... «Sherbetlee»... «Sherbetzide»...

Tinha chegado à palavra «Tinwork» e estava prestes a considerar «Tiny», quando sentiu Jill a aproximar-se. Desenrolou a língua e retomou a atividade, sabendo que o seu irmão Jill não podia permanecer muito tempo debaixo de água sem problemas.

Assim que ela lhe tocou, tomou o seu rosto entre as mãos e beijou-a. Isso era uma coisa que ele tinha aprendido bastante tarde e que ainda não grocara perfeitamente. Tinha algo da «aproximação» da cerimônia da água. Mas tinha algo mais, também... uma coisa que ele queria grocar na totalidade.

Harshaw não esperou que Jill tirasse a sua criança problema de dentro da piscina; deixou ordens para que dessem um sedativo a Dorcas e correu para o seu estúdio, deixando a Anne a função de explicar (ou não) os acontecimentos dos últimos dez minutos.

— Quem é que está de serviço! — chamou. Miriam foi ter com ele.

— Tenho de ser eu — disse ela recuperando o fôlego. — Mas, patrão, o que é que...

— Rapariga, nem uma palavra.

— Mas, patrão...

— Eu disse para não falares. Miriam, daqui a uma semana, sentar-nos-emos e pediremos à Anne que nos conte aquilo que aconteceu. Mas, neste momento, toda a gente e mais alguém vai começar a telefonar e os repórteres vão cair das árvores... e eu tenho de fazer uns telefonemas primeiro. Pertences àquela espécie de mulheres que são capazes de sofrer quando isso é necessário? A propósito: faz uma nota para que seja descontado do ordenado de Dorcas o tempo que ela passou com um ataque de histeria.

Miriam arfou.

— Patrão! Experimente só fazer isso e cada uma de nós apresentará a sua demissão!

— Disparates.

— Deixe de perseguir a Dorcas. Eu própria teria entrado em histeria se ela não o tivesse feito antes. — Miriam acrescentou: — Acho que vou ter um ataque de histeria agora.

Harshaw sorriu.

— Se o fizeres, dou-te uma surra. De acordo, assenta o nome de Dorcas para que lhe seja atribuído um bônus por «dever perigoso». Assenta o nome de todos vós para um bônus. Eu especialmente. Mereci-o.

— Está bem. Quem é que paga o seu bônus?

— Os contribuintes. Encontraremos uma maneira de o conseguir. Bo­las! — Tinham chegado ao estúdio; o telefone estava já a pedir atenção. Deixou-se cair no assento e atendeu. — Harshaw. Quem diabo é você?

— Calma, doutor — respondeu um rosto. — Há anos que não consegue assustar-me. Como é que está tudo por aí?

Harshaw reconheceu Thomas Mackenzie, diretor de produção da New World Networks; adoçou um pouco a voz.

— Bastante bem, Tom. Mas eu estou muito ocupado, portanto...

— Está ocupado? E eu, que trabalho quarenta e oito horas por dia? Ainda pensa que vai ter alguma coisa para nós? Não me importo com o equipamento; posso arranjar isso. Mas tenho de pagar a três equipes para esperarem pelo seu sinal. Quero fazer-lhe todos os favores que estiverem ao meu alcance. Temos usado vários dos seus argumentos e esperamos usar mais no futuro; mas não sei o que hei - de dizer ao nosso administrador.

Harshaw ficou pasmado.

— Não acha que esta filmagem foi suficiente?

— Que filmagem?

Passado pouco tempo, Harshaw apercebeu-se de que a New World Networks não tinha visto nada dos recentes acontecimentos ocorridos em sua casa. Deu respostas evasivas às perguntas de Mackenzie, pois tinha a certeza de que as respostas verdadeiras apenas serviriam para convencer Mackenzie de que o pobre Harshaw tinha dado em doido.

Concordaram que, se não acontecesse nada digno de nota nas próximas vinte e quatro horas, a New World poderia retirar as câmaras e o equipamento.

Assim que a imagem desapareceu da tela, Harshaw ordenou:

— Vai buscar o Larry. Manda-o buscar o botão de pânico... a Anne é que o tem. Fez mais dois telefonemas. Na altura em que Larry chegou, Harshaw já sabia que nenhuma rede de televisão estivera a observar quando os esquadrões dos Serviços Especiais tentaram assaltar a sua casa. Não era necessário examinar as mensagens «gravadas»; a sua entrega dependia do mesmo sinal que não conseguira atingir a rede de televisão.

Larry entregou-lhe o «botão de pânico», um rádio transmissor portátil.

— Queria isto, patrão?

— Quero gozar com isso. Larry, que isto seja uma lição: nunca devemos confiar em maquinaria que seja mais complicada que uma faca ou um garfo.

— O.K. Mais alguma coisa?

— Existe alguma maneira de examinar essa engenhoca? Sem fazer levantar da cama três redes de televisão?

— Claro. O transmissor que eles instalaram lá em baixo, no armazém, tem um interruptor para isso. Liga-se o interruptor, carrega-se no botão de pânico: aparece uma luz. Para testar o aparelho, chama-se a televisão através do transmissor e se lhes diz que, se quer um teste completo às câmaras feito a partir da estação.

— Supõe que o teste mostra que o defeito é nosso? És capaz de descobrir o que é que se passa?

— Talvez — disse Larry mostrando uma certa dúvida —, se fosse apenas uma ligação solta. Mas Duke que é o especialista em eletrônica... eu sou mais o tipo intelectual.

— Eu sei, filho... eu também não sou lá muito bom em assuntos de ordem prática.

Bem, faz o melhor que puderes.

— Mais alguma coisa, Jubal?

— Se vires por aí o homem que inventou a roda, manda-o subir. Intrometido!

Jubal considerou a possibilidade de Duke ter sabotado o «botão de pânico», mas rejeitou o pensamento. Permitiu-se pensar no que tinha realmente ocorrido no seu jardim e em como é que o rapaz o tinha feito — de três metros debaixo de água. Não tinha dúvida nenhuma de que Mike estivera por detrás daqueles truques impossíveis.

O que vira no dia anterior, no seu estúdio, era apenas um estupefaciente intelectual — mas o impacto emocional não era. Um rato era tanto um milagre biológico como o era um elefante; contudo existia uma diferença: um elefante era maior.

Ver uma garrafa vazia, que não passava de lixo, desaparecer no ar, implicava que um carro-patrulha cheio de homens podia desaparecer. Mas, um acontecimento podia-se aceitar, o outro não.

Bem, não iria desperdiçar lágrimas com cossacos. Jubal admitia que polícias na qualidade de polícias estava bem; tinha conhecido polícias honestos... e até mesmo um polícia de uma repartição de finanças não merecia ir desta para melhor. A Guarda Costeira era um exemplo do que os polícias deviam ser e eram-no frequentemente.

Mas para pertencer aos S. S., um homem precisava de ter espírito de ladrão no seu coração e sadismo na sua alma. Gestapo. Tropas de choque para qualquer político que estivesse no poder. Jubal recordava com saudade aqueles dias em que um advogado podia citar a Carta dos Direitos sem ter uma fraude da Federação que a anulasse.

Deixemos isso. Que iria acontecer agora? A patrulha de Heinrich devia ter contatado pela rádio com a sua base; portanto, a sua perda seria notada. Viriam mais tropas S. S. ver o que se passara — possivelmente já viriam a caminho, se o segundo carro tivesse sido interrompido no meio de uma comunicação.

— Miriam...

— Sim, patrão.

— Quero o Mike, a Jill e a Anne, imediatamente. Em seguida encontra o Larry, provavelmente no armazém, e voltem os dois para aqui, fechem todas as portas e as janelas do rés-do-chão.

— Mais sarilhos?

— Despacha-te, rapariga.

Se os gorilas aparecerem — não, quando eles aparecerem — e se o seu chefe escolher irromper numa casa fechada, bem, teria de lhes lançar o Mike. Mas este estado de guerra tinha de acabar — o que queria dizer que Jubal tinha de se pôr em contacto com o secretário-geral.

Como?

Telefonar para o palácio? Heinrich estaria provavelmente a dizer a verdade quando afirmara que uma nova tentativa seria simplesmente ligada para Heinrich — ou qualquer outro chefe dos S. S. que estivesse sentado naquela cadeira. Então? Surpreendê-los-ia ter calmamente ao telefone — frente a frente — um homem que deveria ter sido preso por uma patrulha... talvez fosse capaz de chegar até ao topo, até ao comandante, como é que ele se chama?, um indivíduo com uma cara de furão bem alimentado. Twitchell. O comandante dos S. S. teria acesso ao patrão.

Nada feito. Seria uma perda de tempo dizer a um homem que acreditava em armas que tinha algo melhor do que isso. Twitchell continuaria a mandar homens e armas enquanto as tivesse — mas nunca admitiria que não era capaz de prender um homem cuja localização era conhecida.

Bem, quando não se pode entrar pela porta da frente, entra-se pela de trás — política elementar. Bolas, ele necessitava de Ben Caxton: Ben saberia quem é que tinha as chaves da porta das traseiras.

Mas a ausência de Ben era a razão desta louca corrida. E uma vez que não podia perguntar a Ben, quem é que ele conhecia que soubesse?

Céus! Que idiota! Tinha estado a falar com um! Jubal voltou-se para o telefone e tentou contatar Tom Mackenzie, passando através de três camadas de interferência; todas elas o conheciam e foram-no passando de umas para as outras. Enquanto fazia isto, o seu pessoal e o Homem de Marte entraram; sentaram-se e Miriam parou para escrever num pedaço de papel: «Portas e janelas fechadas.»

Jubal acenou com a cabeça em sinal de assentimento e escreveu por baixo: «Larry — o botão de pânico?», depois dirigiu-se à tela:

— Tom, desculpa incomodar-te outra vez.

— É um prazer, Jubal.

— Tom, se quisesses falar com o secretário-geral Douglas, como é que o farias?

— Hã? Telefonaria para o seu secretário para a Imprensa, Jim Sanforth. Não falaria com o secretário-geral; Jim trataria do assunto.

— Mas supõe que querias falar com Douglas em pessoa.

— Ora, deixaria que Jim arranjasse isso. Contudo, diria a Jim qual o meu problema. Ouve, Jubal, a estação é muito útil à Administração... e eles sabem-no. Mas não tiramos partido disso.

— Tom, supõe que tinhas mesmo de falar com Douglas. Nos próximos dez minutos.

As sobrancelhas de Mackenzie levantaram-se.

— Bem... se tivesse mesmo, explicaria a Jim a razão...

— Não.

— Sê razoável.

— Isso é o que eu não posso ser. Supõe que tinhas apanhado o Sanforth a roubar os talheres, portanto não lhe poderias dizer qual era a emergência. Mas tinhas de falar com Douglas imediatamente.

Mackenzie suspirou.

— Diria a Jim que tinha de falar com o patrão... e que, se ele não me pusesse imediatamente em contacto, a Administração nunca mais teria qualquer vestígio de apoio por parte da estação.

— O. K., Tom, fá-lo.

— Hem?

— Fala para o palácio de um outro aparelho... e prepara-te para me pôr em linha instantaneamente. Tenho de falar com o secretário-geral imediatamente!

Mackenzie parecia pesaroso.

— Jubal, velho amigo...

— Queres dizer que não o farás.

— Quero dizer que não posso. Tu sonhaste uma situação hipotética na qual um, - perdoa-me!- , chefe executivo de uma rede mundial poderia falar com o secretário-geral. Mas eu não posso fazer isto a outra pessoa. Ouve, Jubal, eu respeito-te. A estação detestaria perder-te e temos conhecimento de que tu não permitirias que nós te atássemos a um contrato. Mas eu não posso fazer o que me pedes. Ninguém telefona ao chefe do Governo mundial, a menos que ele queira falar com essa pessoa.

— Supõe que eu assino um contrato exclusivo de sete anos? Mackenzie parecia estar com dores de dentes.

— Continuava a não poder. Perderia o meu emprego... e tu terias de cumprir esse contrato.

Jubal considerou a hipótese de chamar Mike para junto do telefone e apresentá-lo. Mas os programas do próprio Mackenzie tinham transmitido as entrevistas do falso Homem de Marte — e ou Mackenzie estava por dentro da farsa ou era honesto, tal como Jubal pensava, e não acreditaria que tinha sido enganado.

— Está bem, Tom. Mas tu conheces o meio do Governo. Quem é que telefona a Douglas sempre que lhe apetece... e consegue falar com ele? Sem falar do Sanforth.

— Ninguém.

— Caramba! Um homem não pode viver num vácuo! Têm de existir pessoas que lhe possam telefonar sem serem despachadas por uma secretária.

— Algumas pessoas do seu gabinete, acho eu. Nem todos eles.

— Eu também não os conheço. Não falo em políticos. Quem é que lhe pode telefonar, através de uma linha privada, e convidá-lo para jogar pôquer?

— Hum... realmente não és nada exagerado, pois não? Bem, há o Jake Allenby.

— Conheci-o. Ele não gosta de mim. Eu não gosto dele, e ele sabe-o.

— Douglas não tem muitos amigos íntimos. A mulher dele não é lá muito encorajadora. Diz-me, Jubal... que é que achas da astrologia?

— Nunca toquei nessa coisa. Prefiro Brandy.

— Bem, é uma questão de gostos. Mas... ouve bem, Jubal, se tu alguma vez revelares isto que te vou dizer, corto-te essa garganta mentirosa.

— Escutado. Compreendido. Prossegue.

— Bem, Agnes Douglas gosta realmente dessa droga... E eu sei onde é que ela a obtém. O seu astrólogo pode telefonar à Sra. Douglas em qualquer altura... e, acredita-me, a Sra. Douglas tem o ouvido do secretário-geral. Podes telefonar ao seu astrólogo... e o resto é contigo.

— Não me recordo de ter algum astrólogo na lista de pessoas a quem mandar cartões de boas-festas — respondeu Harshaw, hesitando. — Qual é o nome dele?

— Dela. O nome dela é Madame Alexandra Vesant. Central telefônica de Washington. Escreve-se V,E,S,A,N,T.

— Certo — disse Jubal alegremente. — Tom, fizeste-me um favor enorme!

— Assim espero. Alguma coisa para a estação?

— Espera um segundo. — Jubal olhou de relance para uma nota que Miriam tinha posto ao pé do seu cotovelo. Leu: «Larry diz que o transmissor não trabalha; não sabe porquê.» Jubal prosseguiu: — Aquela filmagem falhou devido a uma avaria no transmissor.

— Vou mandar alguém.

— Obrigado. Duas vezes obrigado.

Jubal desligou, pediu a chamada e instruiu a telefonista para usar o circuito privado se o número estivesse equipado para isso. Estava, o que não o surpreendeu. Dentro em breve as finas feições da Madame Vesant apareceram na tela. Sorriu para ela e disse:

— Olá, Rube!

Primeiro ela ficou atônita, depois abriu os olhos.

— Ora, o Dr. Harshaw, seu velho patife! Que Deus o acompanhe, é bom vê-lo. Onde é que esteve escondido?

— É isso mesmo, Becky: escondido. Os palhaços andam atrás de mim. Becky Vesey respondeu instantaneamente:

— Em que é que eu o posso ajudar? Precisa de dinheiro?

— Tenho montes de dinheiro, Becky. O meu problema é muito maior que isso... e ninguém me pode ajudar, a não ser o secretário-geral. Preciso de falar com ele... imediatamente.

Ela ficou branca.

— Isso é pedir muito, doutor.

— Eu sei, Becky. Tenho estado a tentar pôr-me em contacto com ele... e não consigo. Mas não te envolvas nisto... Rapariga, sou mais perigoso que um vulcão em erupção. Pensei que tu me pudesses aconselhar... talvez um número de telefone através do qual eu pudesse falar com ele. Mas não quero que o faças pessoalmente. Magoar-te-ias... e eu nunca seria capaz de olhar nos olhos o professor... Paz à sua alma.

— Eu sei o que é que o professor quereria que eu fizesse! — disse incisivamente. — Não diga disparates, doutor. O professor jurava sempre que o senhor era o único cirurgião que sabia trinchar as pessoas. Ele nunca esqueceu aquela ocasião em Elkton.

— Ora, Becky, não devíamos dar tanta importância a isso. Pagaram-me.

— Salvou a vida dele.

— Não fiz tal coisa. Foi a sua vontade de viver... e a tua ajuda.

— Hum... Doutor, estamos a perder tempo. Diga-me só: até que ponto é que você é perigoso?

— Eles aplicaram-me a pena máxima... e toda a pessoa que estiver do meu lado será esmagada. Existe um mandato, um mandato da Federação, e eles sabem onde é que eu estou e não posso fugir. Será apresentado dentro de qualquer minuto... e o Sr. Douglas é a única pessoa que o pode impedir.

— Serás absolvido. Garanto isso.

— Becky... tenho a certeza de que o farias. Mas isso pode levar algumas horas. Este é um caso para o «quarto das traseiras», Becky. Estou demasiado velho para uma sessão no «quarto das traseiras».

— Mas... Oh, meu Deus! Doutor, não me pode dar mais pormenores? Tenho de fazer um horóscopo, depois saberia o que fazer. O senhor é Mercúrio, claro, visto que é médico. Mas se soubesse em que casa havia de procurar, podia fazer melhor.

— Rapariga, não há tempo. — Jubal pensou rapidamente. Em quem é que havia de confiar? — Becky, apenas o fato de saberes poderia colocar-te na mesma situação em que eu estou.

— Conte-me, doutor. Nunca fugi de uma dificuldade... e o senhor sabe-o.

— De acordo. Portanto eu sou «Mercúrio». Mas o problema reside em Marte.

Ela olhou-o penetrantemente.

— Como?

— Viste as notícias. Supõe-se que o Homem de Marte está nos Andes. Bem, não está. Isso é só para iludir os rústicos.

Becky não parecia tão surpreendida como Jubal julgara.

— Onde é que foi desencantar essa idéia, doutor?

— Becky, existem pessoas em toda a parte deste lastimável planeta que querem pôr as mãos em cima deste rapaz. Ele é meu cliente e por isso eu não poderia ficar inativo. Mas a minha única hipótese é falar com o Sr. Douglas.

— O Homem de Marte é seu cliente? Pode mostrá-lo?

— Só ao Sr. Douglas. Tu sabes como é, Becky: o presidente pode ser uma excelente pessoa, bom para as crianças e para os cães. Mas ele não sabe tudo o que os seus palhaços da cidade fazem... especialmente se eles prendem um homem e o levam para o tal «quarto das traseiras».

— Chuis! — Ela acenou com a cabeça em sinal de assentimento.

— Portanto, preciso de negociar com o Sr. Douglas antes que eles me apanhem.

— Tudo o que quer é falar com ele?

— É. Vou dar-te o meu número... e ficarei aqui sentado, esperando receber uma chamada... até que eles me apanhem. Se não fores capaz de o conseguir... agradeço-te na mesma. Becky. Saberei que tentaste.

— Não desligue!

— Hã?

— Mantenha o circuito, doutor. Se tiver sorte, eles poderão passar para este telefone e poupar tempo. Portanto, não desligue.

   Madame Vesant deixou a tela e ligou para Agnes Douglas. Falou com uma confiança calma, dizendo que isto era o desenvolvimento profetizado pelas estrelas — exatamente como tinha sido estipulado. Chegara agora o momento crítico em que Agnes devia guiar o marido usando a sua inteligência feminina e a sua sabedoria, a fim de que ele atuasse sabiamente e sem demora.

— Agnes, querida, esta configuração não se repetirá nos próximos mil anos: Marte, Vênus e Mercúrio em perfeito trígono, exatamente na altura em que Vênus atinge o meridiano, que torna Vênus dominante. Portanto está a ver...

— Allie, o que é que as estrelas me dizem para fazer? Sabe que eu não percebo a parte científica.

Isto era uma belíssima surpresa, pois a relação descrita não se verificava. Madame Vesant não tivera tempo para fazer um horóscopo e estava a improvisar. Não estava nada preocupada com isso; estava a dizer uma «grande verdade», dando bons conselhos e ajudando os seus amigos. Ajudar dois amigos ao mesmo tempo tornava Becky Vesey especialmente feliz.

— Querida, percebe: sim, você nasceu com talento. Você é Vênus, como sempre, e Marte está reforçado, sendo ao mesmo tempo o seu marido e esse jovem Smith durante a duração desta crise. Mercúrio é o Dr. Harshaw. Para compensar o desequilíbrio causado pelo reforço de Marte, Vênus deve suster Mercúrio até passar a crise. Mas tem muito pouco tempo; Vênus aumenta de influência até atingir o meridiano, o que acontece daqui a apenas sete minutos... a seguir a isso a sua influência diminuirá. Tem de agir rapidamente.

— Devia ter-me avisado.

— Minha querida, tenho estado à espera ao pé deste telefone o dia inteiro, preparada para agir instantaneamente. As estrelas apenas nos informam da natureza de dada crise; nunca nos contam os pormenores. Mas ainda há tempo. Tenho o Dr. Harshaw ao telefone; tudo o que é necessário é pô-los frente a frente, antes de Vênus atingir o meridiano.

— Bem... Está bem, Allie. Tenho de ir tirar o Joseph de uma daquelas conferências idiotas. Dê-me o número do telefone em que tem esse Dr. Rackshaw... ou prefere transferir a chamada?

— Posso ligá-la para aqui. Chame apenas o Sr. Douglas. Depressa, querida.

— Eu vou chamar.

Quando Agnes Douglas deixou a tela, Becky dirigiu-se para outro telefone. A sua profissão requeria um amplo serviço telefônico; era a sua maior despesa com a profissão que desempenhava. Cantarolando alegre­mente telefonou ao seu corretor.

Assim que Becky deixou a tela, Jubal inclinou-se para trás.

— Quem é que está de serviço? — perguntou.

— O. K., patrão — respondeu Miriam.

— Isto é para o grupo das «Experiências Verdadeiras». Especifica que o narrador deve ter uma sexy voz de contralto...

— Talvez eu possa tentar.

— Não assim tão sexy. Descobre a lista de apelidos que arranjamos através do Departamento de Censos, escolhe e usa um primeiro nome feminino e inocente. Um nome de rapariga que acabe num «a».

— Hum! E nenhuma de nós tem um nome acabado em «a». Seu piolho!

— «Ângela». O nome dela é «Ângela». Título: Casei com Um Mar­ciano. Começa: Toda a minha vida desejei ser astronauta. Parágrafo. Quando não passava de uma coisa pequenina, com sardas no nariz e estrelas nos olhos, fiz coleção de caricas, tal como os meus irmãos — e gritava quando a mamãe não me deixava levar para a cama o meu capacete espacial Parágrafo. Nesses dias despreocupados da infância, nunca me passou pela cabeça o estranho e agridoce destino que a minha ambição de maria-rapaz me...

— Patrão!

— Sim, Dorcas?

— Aí vêm mais dois carregamentos.

— Guarda para continuarmos depois. Miriam, senta-te ao telefone. — Jubal foi até à janela, e viu dois carros aéreos prestes a aterrar. — Larry, tranca esta porta. Anne, a tua túnica. Jill, fica perto de Mike. Mike, faz o que a Jill te disser para fazeres.

— Sim, Jubal. Assim farei.

— Jill, não o deixe à vontade a não ser que seja absolutamente necessário. E eu preferiria muito mais que ele fizesse desaparecer apenas as armas e não os homens.

— Sim, Jubal.

— Esta liquidação indiscriminada de polícias tem de acabar.

— Telefone, patrão!

— Afastem-se todos do telefone. Miriam, anota um outro título: Casei com Um Humano — Jubal sentou-se e disse: — Sim?

Um rosto de feições suaves olhava-o.

— Dr. Harshaw?

— Sim.

— O secretário-geral vai falar consigo.

— O. K.

A tela mostrou então a face amorfa de S. Exa., o Honorável Joseph Edgerton Douglas, secretário-geral da Federação Mundial das Nações Livres.

— Dr. Harshaw? Parece-me que precisa de falar comigo.

— Não, senhor.

— Hã?

— Deixe que eu o corrija, Sr. Secretário. O senhor precisa de falar comigo.

Douglas ficou surpreendido e depois sorriu.

— Doutor, tem dez segundos para provar isso.

— Muito bem, senhor. Sou procurador do Homem de Marte. Douglas deixou de se mostrar amorfo.

— Repita?

— Sou procurador de Valentine Michael Smith. Poderá ajudar se pensar em mim como embaixador de Marte, de fato... no espírito da Decisão Larkin.

— Você deve estar louco!

— Mesmo assim estou a agir em nome do Homem de Marte. E ele está preparado para negociar.

— O Homem de Marte está no Equador.

— Por favor, Sr. Secretário, Smith... o verdadeiro Valentine Michael Smith, não aquele que apareceu na estéreo visão... escapou do Centro Médico de Bethesda na quinta-feira passada, em companhia da enfermeira Gillian Boardman. Conservou a sua liberdade... e continuará a conservá-la. Se o seu pessoal lhe disse uma coisa diferente, então alguém mentiu.

Douglas parecia pensativo. Alguém falou com ele por detrás da tela. Finalmente disse:

— Mesmo se o que diz fosse verdade, doutor, o senhor não pode falar pelo jovem Smith. Ele está sob a tutela do Estado.

Jubal abanou a cabeça.

— Impossível. A Decisão Larkin.

— Ouça, como advogado, asseguro-lhe...

— Eu próprio, como advogado, tenho de seguir a minha opinião... e proteger o meu cliente.

— Você é advogado? Pensei que reclamava ser procurador de fato e não conselheiro.

— Ambas as coisas. Sou procurador, admitido a praticar perante o Supremo Tribunal. — Jubal ouviu um estrondo vindo de baixo e olhou para o lado. Larry murmurou: «Acho que é a porta da frente, patrão... vou ver? Jubal abanou a cabeça. — Sr. Secretário, o tempo está a esgotar-se. Os seus homens, os seus rufias dos S. S., estão a assaltar a minha casa. É capaz de pôr termo a este incômodo? De forma a que possamos negociar? Ou devemos debatê-lo no Supremo Tribunal, com toda a barafunda que se seguiria?

O secretário pareceu consultar de novo a pessoa por detrás da tela.

— Doutor, se os polícias dos Serviços Especiais estão a tentar prendê-lo, isso é novidade para mim. Eu...

— Se escutar, ouvi-los-á a correr subindo pela minha escada, senhor! Mike! Anne! Venham aqui. — Jubal puxou a sua cadeira para trás, de forma a permitir que eles fossem apanhados pelo visor do telefone. — Sr. Secretário-Geral: o Homem de Marte! — Não podia apresentar Anne, mas ela e a sua capa branca, símbolo da sua integridade, estava à vista.

Douglas olhou pasmado para Smith; Smith olhou para trás e pareceu preocupado.

— Jubal...

— Só um momento, Mike. Então, Sr. Secretário? Os seus homens irromperam na minha casa... ouço-os a esmurrarem a porta do meu estú­dio. — Jubal virou a cabeça. — Larry, abre aquela porta. — Pôs uma mão em cima de Mike. — Não te excites, rapaz.

— Sim, Jubal. Aquele homem. Eu conheci-o.

— E ele conhece-te. — Jubal gritou. — Entre, sargento.

Um sargento dos S. S. estava de pé à porta, os outros tinham as armas apontadas. Chamou:

— Major! Eles estão aqui! Douglas disse:

— Deixe-me falar com o oficial que os comanda, doutor.

Jubal ficou aliviado ao ver que o major se aproximava com a arma metida no coldre: Mike estivera a tremer desde que a arma do sargento se mostrara. Jubal não tinha qualquer amor por estes soldados, mas não queria que Smith revelasse os seus poderes. O major olhou em redor.

— Você é Jubal Harshaw?

— Sou. Chegue aqui. O seu patrão quer falar consigo.

— Nada disso. Venha comigo. Também procuro...

— Venha aqui! O secretário-geral quer dizer-lhe uma palavra.

O major dos S. S. estava atônito; entrou no estúdio e, ao ver a tela, olhou para ele e fez a saudação. Douglas assentiu com a cabeça.

— Nome, posto e unidade.

— Senhor, major C. D. Bloch, esquadrão Cheerio dos Serviços Espe­ciais, Quartel Enclave.

— Diga-me o que é que está a fazer.

— Senhor, isso é muito complicado. Eu...

— Então esclareça-o. Fale, major.

— Sim, senhor. Vim aqui cumprindo ordens. Compreende...

— Não compreendo.

— Bem, senhor, há uma hora e meia um esquadrão aéreo foi aqui enviado para fazer várias prisões. Como não os pudemos contatar através da rádio, fui enviado para os procurar e prestar assistência.

— Ordens de quem?

— Hum, do comandante, senhor.

— E encontrou-os?

— Não, senhor, nem vestígios. Douglas olhou para Harshaw.

— Conselheiro, viu o outro esquadrão?

— Não me cabe a mim vigiar os seus servos, Sr. Secretário.

— Isso não se parece nada com uma resposta à minha pergunta.

— Tem razão, senhor. Eu não estou a ser interrogado. Nem o serei, a não ser através do devido processo legal. Estou a agir pelo meu cliente; não sou ama destes, hum, destas pessoas fardadas. Mas tenho a impressão, baseado naquilo que vi, de que eles nem eram capazes de encontrar um porco dentro de uma banheira.

— Hum... é possível. Major, reúna os seus homens e regresse.

— Sim, senhor! — O major fez a saudação.

— Só um momento! — interrompeu Harshaw. — Estes homens assaltaram a minha casa. Exijo ver os seus mandatos.

— Oh. Major, mostre-lhe o seu mandato. O major Bloch corou.

— Senhor, o oficial que veio à minha frente é que tinha os mandatos. Douglas ficou pasmado.

— Jovem... está a dizer-me que irrompeu pela casa dentro de um cidadão sem um mandato?

— Mas... senhor, não compreendeu! Existem mandatos. Estão na posse do capitão Heinrich, senhor.

Douglas parecia desgostoso.

— Regresse. Considere-se sob prisão. Falo consigo mais tarde.

— Sim, senhor.

— Calma aí — exigiu Harshaw. — Apelo para o meu direito de prender um cidadão. Colocá-lo-ei na nossa prisão local. «Entrada e assalto armado.»

Douglas pestanejou.

— Isso é necessário?

— Acho que é. Estes sujeitos parecem ser extremamente difíceis de encontrar... não quero que este deixe a nossa jurisdição local. Além dos assuntos criminais, ainda não tive oportunidade para avaliar os danos da minha propriedade.

— Tem a minha palavra, senhor, de que será totalmente compensado.

— Obrigado, senhor. Mas que é que impede que apareça outro brinca­lhão de uniforme daqui a bocado? Nem sequer teria de ter o trabalho de deitar abaixo a porta! As defesas do meu castelo estão violadas, abertas a qualquer intruso. Sr. Secretário, apenas os momentos de atraso devido à resistência oferecida pela minha ex-porta, impediram este patife de me levar com ele antes de eu conseguir falar consigo... e ouviu-o dizer que anda por aí outro como ele... com, segundo ele diz, mandatos.

— Doutor, não sei nada sobre tal mandato.

— Mandatos, senhor. Ele falou em «mandatos para várias prisões». Talvez um melhor termo para os designar fosse lettres de cachet (N. da T.: Ordens de prisão arbitrárias).

— Isso é uma séria acusação.

— Isto é um assunto sério.

— Doutor, eu não sei nada desses mandatos, se é que eles existem. Mas dou-lhe a minha palavra pessoal de que vou imediatamente procurá-los, descobrir porque é que foram emitidos, e agirem conformidade. Posso dizer mais do que isto?

— Pode dizer muito mais, senhor. Posso reconstituir as condições em que esses mandatos foram emitidos. Alguém do seu pessoal, num momento de excesso de zelo, fez com que um juiz influenciável os emitisse... com o objetivo de apanhar a minha pessoa e os meus convidados a fim de nos interrogar fora da vossa vista. Fora da vista de quem quer que fosse, senhor! Discutiremos esses mandatos consigo... mas não seremos interrogados por indivíduos como este... — Jubal apontou com o dedo para o major — ... num desses quartos de traseiras sem janelas! Senhor, espero que faça justiça por suas próprias mãos... mas se esses mandatos não são cancelados imediatamente, se não for assegurado claramente que tanto eu como a enfermeira Boardman e o Homem de Marte não seremos perturbados, e que poderemos ir para onde nos apetecer, então... — Jubal encolheu os ombros desoladamente — ... tenho de procurar um defensor. Existem pessoas e poderes fora da Administração que têm um profundo interesse nos assuntos do Homem de Marte.

— Está a ameaçar-me.

— Não, senhor. Defendo-me na qualidade de advogado. Queremos negociar. Mas não o podemos fazer enquanto nos lançam os cães. Rogo-lhe, senhor: chame os seus cães!

Douglas olhou para o lado.

— Esses mandatos, se existem, não serão apresentados. Assim que os encontrar, mandá-los-ei cancelar.

— Obrigado, senhor.

Douglas olhou para o major Bloch.

— Insiste em prendê-lo?

— A ele? Oh, ele não passa de um louco de uniforme. Vamos esquecer os danos também. O senhor e eu temos sérios assuntos a discutir.

— Pode ir, major. — O oficial dos S. S. fez a saudação e saiu bruscamente. Douglas continuou: — Conselheiro, os assuntos que levantou não podem ser resolvidos pelo telefone.

— Concordo.

— O senhor e o, hum, o seu cliente serão meus convidados no Palácio. Mandarei o meu iate. Podem estar prontos daqui a uma hora?

Harshaw abanou a cabeça.

— Obrigado, Sr. Secretário. Dormiremos aqui... e, quando chegar a altura devida, encontrarei um trenó, ou qualquer coisa do gênero. Não necessita de enviar o seu iate.

O semblante de Douglas carregou-se.

— Então, doutor! Tal como o senhor sublinhou, as conversações serão quase diplomáticas. Respeitando o protocolo, concedi isto. Consequentemente deve ser-me permitido fornecer-vos hospitalidade oficial.

— Bem, senhor, o meu cliente já desfrutou demais de hospitalidade oficial... teve um trabalho dos diabos para se ver livre dela.

O rosto de Douglas tornou-se rígido.

— Senhor, está a insinuar...

— Não estou a insinuar nada. Smith passou por muita coisa e não está habituado a cerimônias de alto nível. Dormirá melhor aqui. E eu também. Eu sou um velho, senhor; prefiro a minha própria cama. Permita-me salientar que as conversações podem falhar e o meu cliente ver-se-ia forçado a procurar outro local... caso esse em que nos sentiríamos embaraçados por sermos convidados sob o vosso teto.

O secretário-geral mostrou uma expressão sombria. — Ameaças de novo. Pensei que confiava em mim, senhor. Ouvi distintamente o senhor dizer que estavam prontos para negociar.

— Confio realmente em si, senhor. — (Enquanto puder lançar um ataque!) — E estamos prontos a negociar. Mas eu uso o termo «negociar» no seu sentido original, e não nesse novo significado de «desanuviamento». Contudo seremos razoáveis. Mas não podemos começar as conversações imediatamente; estamos dependentes de um fato e temos de esperar. Quanto tempo, não sei.

— Que é que quer dizer?

— Esperamos que a Administração seja representada por qualquer delegação que escolha... e nós temos o mesmo privilégio.

— Com certeza. Mas vamos mantê-las pequenas. Tratarei disto eu próprio, com um ou dois assistentes. O solicitador-geral... os nossos peritos em lei espacial. Tratar de negócios requer um pequeno grupo; quanto mais pequeno, melhor.

— Tem toda a razão. O nosso grupo será pequeno. Smith, eu e levarei uma testemunha...

— Oh, então!

— Uma testemunha não dificulta. Levaremos mais uma ou duas pessoas; mas falta-nos um homem. Tenho instruções para que um certo indivíduo chamado Caxton esteja presente... e não consigo encontrar o sujeito.

Jubal, depois de ter passado horas a pensar em como é que havia de dizer isto, esperou. Douglas ficou pasmado.

— Ben Caxton? Com certeza que não se está a referir àquele jornalista barato?

— O Caxton a que me refiro tem uma coluna de um dos sindicatos.

— Isso está fora de discussão! Harshaw abanou a cabeça.

— Então, é tudo, Sr. Secretário. As minhas instruções não me deixam outra saída. Peço desculpa por o ter feito perder o seu precioso tempo. Peço-lhe que me desculpe. — Jubal esticou-se como se fosse desligar.

— Espere!

— Senhor?

— Ainda não acabei de falar consigo!

— Peço perdão ao secretário-geral. Esperaremos até que ele nos desculpe.

— Sim, sim, deixe isso para lá. Doutor, costuma ler os disparates que saem nas notícias desse sujeito?

— Valha-me Deus, claro que não!

— Quem me dera também não as ler. É ridículo falar em ter jornalistas presentes. Falaremos com eles depois de estar tudo resolvido. Mas mesmo se lhes permitíssemos estarem presentes, Caxton não seria um deles. O homem é venenoso... um bisbilhoteiro da pior espécie.

— Sr. Secretário, nós não pomos qualquer objeção a publicidade. De fato, até insistimos nela.

— Ridículo!

— É possível. Mas eu sirvo o meu cliente da maneira que acho melhor. Se chegarmos a um acordo sobre o Homem de Marte e sobre o planeta que é o seu lar, quero que todas as pessoas deste planeta saibam como é que isso foi feito e o que é que ficou estabelecido. Pelo contrário, se falharmos, as pessoas devem saber porque é que as conversações se deterioram. Não haverá star chamber (N. do T.: Antigo tribunal, abolido em 1640, conhecido pelas suas decisões arbitrárias e ligado, sobretudo, a crimes contra os interesses da coroa.), Sr. Secretário.

— Bolas, eu não estava a falar de star chamber e você sabe-o! Estou a falar em conversações calmas e ordeiras, sem acotovelamentos!

— Então deixe a imprensa entrar, através de câmaras e microfones... mas com os cotovelos lá fora. O que me faz lembrar que seremos entrevistados, eu e o meu cliente, ainda hoje, nos canais de estereovisão... e eu anunciarei que queremos conversações públicas.

— O quê? Você não deve dar entrevistas agora... isso é contrário a todo o espírito desta discussão.

— Não percebo porquê. Estará a sugerir que um cidadão tem de ter a sua permissão para falar à imprensa?

— Não, claro que não, mas...

— Receio que seja demasiado tarde. Já foram feitos os preparativos e a única maneira que tem para o deter é enviar mais carros carregados de tugues. O que me levou a mencionar estas entrevistas foi o fato de o senhor poder desejar fazer transmitir um noticiário, antes de mim, informando o público de que o Homem de Marte voltou e de que está a passar férias em Poconos. De modo a evitar dar a impressão de que o Governo foi apanhado de surpresa. Está a entender-me?

— Estou a entendê-lo. — O secretário-geral olhou pensativo para Harshaw. — Espere um momento, por favor. — Abandonou a tela.

Harshaw chamou Larry junto de si enquanto a sua outra mão tapava o captador de som.

— Ouve, filho — murmurou —, com esse transmissor avariado estou a fazer blefe sobre uma granada explosiva. Não sei se ele foi tratar da transmissão desse noticiário ou se foi outra vez lançar-nos os cães. Como o teu mestre não está cá, telefona para o Tom Mackenzie, de outro telefone, e diz-lhe que, se ele não puser aquela aparelhagem a trabalhar, vai perder a maior história desde a queda de Tróia. Depois tem cuidado ao regressares a casa... pode haver chuis.

— Como é que eu telefono a Mackenzie?

— Hum... — Douglas estava de novo na tela. — Fala com Miriam.

— Dr. Harshaw, aceitei a sua sugestão. Uma transmissão tal como o senhor sugeriu... com mais alguns pormenores substanciais. — Douglas sorriu ingenuamente. — Acrescentei que a Administração discutirá as relações interplanetárias com o Homem de Marte... assim que ele descansar da sua viagem... e fá-lo-á publicamente... bastante publicamente. — O seu sorriso tornou-se frio e ele deixou de parecer o bom velho Joe Douglas.

Harshaw sorriu de admiração: pois, o velho ladrão dera volta ao golpe e transformara uma derrota numa vitória para a Administração.

— Isso é perfeito, Sr. Secretário! Confirmaremos tudo o que disse!

— Obrigado. Agora, sobre esse Caxton: deixar entrar a imprensa não se aplica a ele. Ele pode observar os acontecimentos através da estereovisão e constituir as suas mentiras a partir daí. Mas não estará presente.

— Então não haverá conversações, Sr. Secretário, não importa o que disse à imprensa.

— Acho que não me compreendeu, conselheiro. Este homem é-me ofensivo. Privilégio pessoal.

— O que diz é correto, senhor. É um assunto de privilégio pessoal.

— Então não falaremos mais disso.

.— Interpretou-me mal. Trata-se realmente de «privilégio pessoal». Mas não seu. De Smith.

— Hã?

— O senhor tem o privilégio de escolher os seus conselheiros... e pode levar o próprio Diabo, que nós não nos queixaremos. Smith tem o privilégio de escolher os conselheiros dele e de os ter presentes. Se Caxton não estiver presente, não estaremos lá. Estaremos numa conferência bastante diferente. Uma daquelas em que o senhor não seria bem-vindo. Mesmo se falasse hindi.

Harshaw pensou clinicamente que um homem da idade de Douglas não se devia entregar à cólera. Finalmente Douglas falou — para o Homem de Marte.

Mike permanecera dentro do alcance da tela, tão silenciosa e paciente­mente como a testemunha. Douglas disse:

— Smith, porque é que insiste nesta ridícula condição? Harshaw disse instantaneamente:

— Não respondas, Mike! — Depois dirigiu-se a Douglas: — Então, então, Sr. Secretário! Os cânones! Não pode interrogar, porque o meu cliente instruiu-me. E os cânones são violados com uma gravidade especial, pois o meu cliente não sabe falar inglês corretamente e, portanto, não pode exprimir a sua posição contra si. Se aprender marciano, posso permitir-lhe que lhe ponha a questão... na própria língua dele. Mas hoje não.

Douglas franziu o sobrolho.

— Poderia perguntar-lhe em que cânones se baseou para atuar com tanta desconsideração... mas não tenho tempo; tenho um governo para dirigir. Cedo. Mas não espere que eu aperte a mão a esse Caxton!

— Como queira, senhor. Agora voltemos ao primeiro ponto. Não consegui encontrar Caxton.

Douglas riu.

— O senhor insiste num privilégio... que eu acho ofensivo. Traga quem quiser. Mas encontre-os você.

— Isso é bastante razoável, senhor. Mas será capaz de fazer um favor ao Homem de Marte?

— Hã? Que favor?

— As conversações não começarão até que Caxton seja localizado, quanto a isso não há discussão. Mas eu não tenho sido capaz de o encontrar. Sou apenas um cidadão privado.

— Que é que quer dizer?

— Falei depreciativamente dos esquadrões dos Serviços Especiais... o que é natural num homem que tem a sua porta arrombada. Mas reconheço que eles podem ser extremamente eficientes... e têm a cooperação da polícia em toda a parte. Sr. Secretário, se fizesse o favor de chamar o seu comandante dos S. S. e lhe dissesse que queria que localizassem um homem imediatamente... bem, senhor, isso produziria mais atividade numa hora do que aquilo que eu poderia desencadear num século.

— Por que diabo é que eu alertaria as forças da polícia de toda a parte para encontrarem um repórter amador de escândalos?

— Não se trata de «diabo», meu caro senhor: trata-se de Marte. Eu peço-lhe isto como um favor ao Homem de Marte.

— Bem... isto e ridículo, mas vou fazê-lo. — Douglas olhou para Mike. — Como um favor a Smith. Espero cooperação similar quando começarmos as conversações.

— Tem a minha palavra de que isso facilitará enormemente a situação.

— Bem, não lhe posso prometer nada. Diz que o homem desapareceu. Pode ter sido atropelado por um caminhão, e pode estar morto.

Harshaw mostrou uma expressão grave.

— Esperemos que não, para bem de todos nós.

— Que é que quer dizer?

— Tentei convencer o meu cliente dessa possibilidade... mas ele não deu ouvidos à idéia. — Harshaw suspirou. — Uma carnificina, senhor. Se não conseguirmos encontrar este Caxton, é isso que teremos: uma carnificina.

— Bem... Tentarei. Não espere milagres, doutor.

— Eu não, senhor. O meu cliente. Ele possui o ponto de vista marciano... e espera, realmente, milagres. Vamos rezar para que acon­teça um.

— Comunicarei consigo. É tudo o que posso dizer. Harshaw fez uma vênia sem se levantar.

— Um seu criado, senhor.

Assim que a imagem de Douglas desapareceu, Jubal levantou-se — encontrou os braços de Gillian à volta do seu pescoço.

— Oh, Jubal, você foi maravilhoso!

— Não estamos livres de perigo, criança.

— Mas se alguma coisa pode ainda salvar Ben, você acabou de o fa­zer. — Jill beijou-o.

— Hei, nada disso! Renunciei a isso antes de tu nasceres. Mostra respeito pelos meus anos. — Beijou-a cuidadosa e delicadamente. — Isto é para fazer desaparecer o gosto de Douglas: de tanto o desafiar e beijar estava a começar a sentir-me agoniado. Vai beijar o Mike. Ele merece-o... por permanecer silencioso perante as minhas mentiras.

— Oh, pois vou! — Jill desprendeu-se de Harshaw, pôs os braços à volta do Homem de Marte. — Que maravilhosas mentiras, Jubal! — Beijou Mike.

Jubal observou a forma como Mike iniciou uma segunda parte do beijo, fazendo-o solenemente, mas não exatamente como um inexperiente. Jubal concedeu-lhe um vinte pelo esforço.

— Filho — disse —, tu espantas-me. Esperava que tivesses um dos teus desmaios.

— E tive — respondeu Mike seriamente, sem se descontrair —, na primeira vez.

— Ora! Parabéns, Jill. Corrente alternada ou corrente contínua?

— Jubal, você é um arreliador, mas eu gosto de si de qualquer maneira e não permito que me irrite. Mike ficou um pouco perturbado da primeira vez... mas agora já não fica, como pode ver.

— Sim — concordou Mike —, é uma coisa boa. Para irmãos de água é uma aproximação. Eu mostro-lhe — Jill desprendeu-se.

Jubal levantou a mão.

— Não.

— Não?

— Ficarias desapontado, meu filho. É uma forma de aproximação para irmãos de água, mas só se eles forem jovens e bonitas raparigas... tal como Jill.

— Meu irmão Jubal, está a falar corretamente?

— Estou a falar muito corretamente. Beija todas as raparigas que quiseres: é muito melhor do que jogar às cartas.

— Perdão?

— É um ótimo método de aproximação... com raparigas. Hum... — Jubal olhou em redor. — Estava a pensar se esse fenômeno da primeira vez se repetiria. Dorcas, quero a tua ajuda para uma experiência científica.

— Patrão, eu não sou um porquinho-da-índia! Vá para o Inferno!

— Na altura devida, irei. Não te faças difícil, rapariga; Mike não tem doenças contagiosas, se tivesse, não o deixaria usar a piscina... a propósito: Miriam, quando Larry voltar, diz-lhe que eu quero que ele limpe a piscina: já não precisamos da água turva. Bem, Dorcas?

— Como é que sabe que esta seria a nossa primeira vez?

— Hum, é muito simples. Mike, já alguma vez beijaste a Dorcas?

— Não, Jubal. Só hoje aprendi que Dorcas é meu irmão de água.

— Ela é?

— Sim. Dorcas, Miriam e Larry. Eles são seus irmãos de água, Jubal, meu irmão.

— Hum, sim. Correto na essência.

— Sim. Grocar é essência, não partilhar a água. Estou a falar corretamente?

— Muito corretamente, Mike.

— Eles são seus irmãos de água. — Mike fez uma pausa para pensar nas palavras. — Por associação, eles são meus irmãos. — Mike olhou para Dorcas. — Quatro irmãos aproximando-se é bom.

Jubal disse:

— Então, Dorcas?

— Há? Oh, céus! Patrão, você é o maior arreliador do mundo. Mas Mike não é trocista. Ele é gentil. — Dorcas dirigiu-se para Mike, pôs-se em pontas dos pés, ergueu os braços. — Beija-me, Mike.

Mike beijou. Durante alguns segundos «aproximaram-se».

Dorcas desmaiou.

Jubal não deixou que ela caísse. Jill teve de falar com rudeza a Mike para evitar que ele entrasse em transe. Dorcas recuperou a consciência e assegurou a Mike que estava perfeitamente bem e que se «aproximaria» de boa vontade outra vez — mas precisava de retomar a respiração.

— Uau!

Miriam tinha estado a observar, de olhos arregalados.

— Pergunto a mim própria se me atreverei a correr o risco! Anne disse:

— Por antiguidade, se faz favor. Patrão, já não precisa de mim como testemunha?

— Por agora não.

— Então segure na minha túnica. Quer apostar?

— Como?

— Sete contra dois em como não desmaio... mas não me importava de perder.

— Combinado.

— Dólares, não centenas de dólares. Mike querido... vamos aproximar-nos muito.

Anne foi forçada a desistir devido a hipoxia; Mike, com o seu treino marciano, podia ter continuado sem oxigênio muito mais tempo. Respirou fundo e disse:

— Não estava concentrada. Patrão, vou dar-lhe outra oportunidade. Preparou-se para oferecer de novo o rosto a Mike, mas Miriam deu-lhe umas palmadinhas no ombro.

— Fora.

— Não sejas tão impaciente.

— Fora, disse eu. Acabou-se o tempo, rapariga.

— Oh, bem! — Anne afastou-se. Miriam aproximou-se, sorriu e não disse nada. Eles «aproximaram-se» e continuaram a «aproximar-se».

— Quem é que está de serviço? Miriam olhou em redor.

— Patrão, não vê que estou ocupada?

— Está bem! Tira-te da frente... eu próprio vou atender o telefone.

— Não o ouvi, verdade.

— Claro. Mas temos de fingir que aqui há um pouco de dignidade: pode ser o secretário-geral.

Era Mackenzie.

— Jubal, que diabo é que se passa?

— Algum problema?

— Recebi uma chamada de um homem que me pediu insistentemente para largar tudo, porque tu tinhas uma coisa para mim. Enviei uma unidade móvel para a tua casa...

— Não chegaram cá.

— Eu sei. Telefonaram para cá, depois de terem andado à tua procura. O nosso expedidor pô-los na boa direção e devem estar a chegar aí a qualquer momento. Tentei telefonar-te, o teu circuito estava impedido. Falhei alguma coisa?

— Por enquanto nada. — Caramba, devia ter mandado alguém verificar a aparelhagem. Estaria Douglas realmente empenhado? Ou iria aparecer uma nova vaga de polícias? Entretanto, os rapazes brincavam aos correios! Jubal, tu estás senil. — Houve algum flash noticioso na última hora?

— Por quê, não... oh, uma informação: o Palácio anunciou que o Homem de Marte tinha voltado e que estava a passar férias em... Jubal! Tens alguma coisa a ver com isto?

— Espera um segundo. Mike, chega cá. Anne veste a tua túnica.

— Compreendido, patrão.

— Sr. Mackenzie: apresento-lhe o Homem de Marte. Mackenzie deixou cair o queixo.

— Espera! Deixa-me arrastar uma câmara! Filmaremos através do telefone... e repetiremos em estéreo assim que os meus brincalhões chegarem aí. Jubal... Posso confiar nisto? Tu não estarás...

— Achas que eu te ia intrujar com uma testemunha atrás de mim? Não te estou a impor isto. Podemos esperar e entrar em ligação com a Argus e com a Trans-Planet.

— Jubal! Não me podes fazer isso.

— Não farei. O acordo que fiz convosco era porem as câmaras a trabalhar quando eu o dissesse. E usá-lo se as notícias valessem a pena. Não prometi dar entrevistas além disso. Jubal acrescentou: — Tu não só emprestaste o equipamento como também me ajudaste pessoalmente, Tom. Não tenho palavras para exprimir quanto me ajudaste.

— Estás a falar, hum, naquele número de telefone?

— Exatamente! Mas nada de perguntas acerca disso, Tom. Pergunta-me em privado... no próximo ano.

— Oh, nem pensaria nisso. Mantém a tua boca fechada que eu manterei também a minha. Agora não te vás embora...

— Mais uma coisa. Essas mensagens que tu estás a guardar, envia-mas de novo para mim.

— Hã? Está bem: tenho-as guardadas na minha secretária, estavas muito agitado. Jubal, tenho uma câmara apontada para ti. Podemos começar?

— Começa.

— Vou fazer isto eu próprio! — Mackenzie voltou o rosto e aparente­mente olhou para a câmara. — Notícias de última hora! Este é o vosso repórter da NWNW, sempre em cima do acontecimento! O Homem de Marte acaba de nos telefonar e quer falar convosco! Corta. Operador, insere imagens de agradecimento ao patrocinador. Jubal, devo perguntar alguma coisa de especial?

— Não faças perguntas sobre a América do Sul. Natação é o teu assunto preferencial. Podes interrogar-me sobre os seus planos.

— Fim de corte. Amigos, estais agora frente a frente e voz a voz com Valentine Michael Smith, o Homem de Marte! Tal como a NWNW, sempre a primeira a informar, vos disse há pouco, o Sr. Smith acaba de regressar dos Andes... e nós damos-lhe as boas-vindas! Acene para os seus amigos, Sr. Smith...

(«Acena para o telefone, filho. Sorri e acena.»)

— Obrigado, Valentine Michael Smith. Ficamos contentes por o ver tão saudável e bronzeado. Soube que tinha estado a recuperar forças, praticando natação?

— Patrão! Visitas. Ou coisa do gênero.

— Corta!... a seguir à palavra «natação». Que é que se passa, Jubal?

— Vou ver. Jill, não te afastes do Mike: pode ser do quartel-general. Mas era a unidade da NWNW a aterrar — e mais uma vez, as roseiras sofreram danos —, Larry que regressava de telefonar a Mackenzie, e Duke que voltavam. Mackenzie decidiu acabar a entrevista por telefone, rapida­mente, pois estava agora servido de cor e de profundidade através da sua unidade móvel. Entretanto os seus homens examinariam o equipamento que tinha sido emprestado a Jubal. Larry e Duke foram com eles.

A entrevista acabou com inanidades, Jubal respondendo apressadamente a perguntas que Mike não conseguia compreender; Mackenzie despediu-se com a promessa de que se seguiria uma entrevista com cor e profundidade.

— Fiquem em sintonia com esta estação! — Depois esperou que os seus técnicos comunicassem.

O que o chefe da unidade fez prontamente:

— Não há nada de errado com este equipamento, Sr. Mackenzie.

— Então que é que se passava?

O técnico olhou de relance para Duke e para Larry.

— Trabalha melhor se tiver energia. O interruptor estava desligado do quadro de distribuição.

Harshaw pôs de lado a questão de saber se Duke tinha ou não tinha dito a Larry que um interruptor de circuito tinha de ser ligado se se quisesse usar o equipamento. Jubal não queria saber de quem era a culpa — tudo isto confirmava a sua convicção de que a tecnologia tinha atingido o seu zênite com o modelo Ford-T e que tinha vindo a decair desde aí. Começaram com a entrevista a cores e com profundidade. Mike enviou saudações para os seus amigos da Champion, incluindo uma em marciano para o Dr. Mahmoud.

Por fim Jubal preparou o telefone para não receber chamadas durante duas horas, espreguiçou-se e sentiu-se muito fatigado, perguntando a si próprio se estaria a ficar velho.

— Quando é que se janta? Qual de vocês, raparigas, é que devia cozinhar esta noite? Bolas, o pessoal desta casa está a decair!

— Era a minha vez, esta noite — respondeu Jill, mas...

— Desculpas, sempre desculpas!

— Patrão — interrompeu Anne rudemente —, como é que queria que nós cozinhássemos se nos encurralou aqui toda a tarde?

— Se o estado de guerra está declarado nesta casa, espero ter refeições quentes e servidas a horas, até soar a Trombeta do Juízo Final. Além disso...

— Além disso — completou Anne —, ainda são só sete e quarenta e ainda há muito tempo para aprontar o jantar para as oito horas. Portanto pare de resmungar. Bebê-chorão.

— Só vinte minutos para as oito? Parece que passou uma semana desde o almoço. Vocês não deixaram um período de tempo civilizado para uma bebida antes de jantar.

— Coitado!

— Que alguém me arranje uma bebida. Arranjem bebidas para toda a gente. Vamos dispensar o jantar; apetece-me ficar bêbado que nem um cacho. Anne, como é que estamos de smorgasbord?

— Cheios.

— Por que é que não se há-de descongelar dezoito ou dezenove espécies e deixar que toda a gente coma quando lhe apetecer? Para quê tanta discussão?

— Imediatamente — concordou Jill. Anne deteve-se para o beijar na careca.

— Patrão, o senhor portou-se nobremente. Vamos alimentá-lo e embebedá-lo e levá-lo para a cama. Espera, Jill, eu ajudo-te.

— Também posso ajudar? — perguntou Smith ansiosamente.

— Claro, Mike. Podes levar os tabuleiros. Patrão, o jantar será na piscina. Está uma noite agradável.

— Onde é que havia de ser? — Quando eles saíram, Jubal disse a Duke: — Onde diabo é que estiveste?

— A pensar.

— Isso não compensa. Torna as pessoas aborrecidas. E tiveste alguns resultados?

— Sim — disse Duke. — Decidi que aquilo que Mike come é problema dele.

— Parabéns! Oitenta por cento de sensatez humana é constituída por um desejo de não se intrometer nos assuntos das outras pessoas.

— Você mete-se nos assuntos das outras pessoas.

— Quem disse que eu era sensato?

— Jubal, se eu oferecesse um copo de água a Mike, acha que ele aceitaria?

— Acho que sim. Duke, a única característica humana que Mike possui é um enorme desejo de que gostem dele. Mas quero assegurar-me de que tu tens consciência de quão sério isso é. Eu aceitei ser irmão de Mike, antes de compreender o que isso era... e tenho-me sentido deveras embaraçado com as responsabilidades dessa relação. Ao fazeres isso estarás a comprometer-te a nunca lhe mentir, a nunca o enganares, e a ficares junto dele aconteça o que acontecer. É melhor pensares nisso melhor.

— Estive a pensar nisso. Jubal, na verdade, existe qualquer coisa em Mike que faz com que uma pessoa queira olhar por ele.

— Eu sei. Provavelmente nunca tinhas encontrado honestidade antes. Inocência. Mike nunca provou o fruto da Árvore da Sabedoria do Bem e do Mal... por isso nós não compreendemos o que o faz viver. Bem, espero que nunca te arrependas. — Jubal olhou para cima. — Pensei que tinhas parado de destilar essa droga. Larry respondeu:

— Não conseguia encontrar um saca-rolhas.

— Outra vez a maquinaria. Duke, encontrarás copos atrás da Anatomia da Melancolia, aí em cima...

— Eu sei onde é que os esconde.

— ... e tomaremos uma rápida antes de começarmos a beber a sério. — Duke trouxe os copos; Jubal encheu-os e ergueu o seu. — À irmandade alcoólica... mais adequada à frágil alma humana do que a qualquer outra.

— Saúde.

— Viva.

Jubal verteu-o de uma só vez pela garganta.

— Ah! — disse alegremente, e arrotou. — Duke, oferece um pouco a Mike e deixa-o aprender como é bom ser humano. Isto faz-me sentir criativo. Quem é que está de serviço? Porque é que estas raparigas nunca estão quando preciso delas? Quem é que está de serviço?

— Estou eu — respondeu Miriam metendo a cabeça na ombreira da porta — mas...

— Estava eu dizendo: «... o estranho e agridoce destino que a minha ambição de maria-rapaz...»

— Acabei essa história enquanto você estava a conversar com o secretário-geral.

— Então já não preciso de ti. Podes enviá-la.

— Não quer lê-la? De qualquer maneira, tenho de a rever... e o beijo de Mike deu-me uma nova inspiração.

Jubal estremeceu.

— Lê-la? Valha-me Deus! Já é bastante mau ter de escrever uma coisa dessas. E não penses em revê-la, para ajustar os fatos. Minha filha, uma história verdadeira nunca deve ser embaciada por alguma mancha de verdade.

— Está bem, patrão. A Anne diz para vir até à piscina e tomar uns aperitivos antes de comer.

— Não podia ter tido uma idéia melhor. Vamos, cavalheiros?

A festa foi avançando, bem regada, e com os bocadinhos de peixe seco e outros produtos comestíveis escandinavos agradáveis ao paladar. A convite de Jubal, Mike provou Brandy. Achou o resultado inquietante, por isso analisou a sua perturbação, juntou oxigênio a etanol, num processo interno de inversão da fermentação, e converteu o Brandy em glicose e água.

Jubal estivera a observar o efeito do álcool no Homem de Marte — viu-o ficar bêbado e viu-o ficar sóbrio ainda mais rapidamente. Numa tentativa para compreender, Jubal deu mais Brandy a Mike — o que ele aceitou, visto que era o seu irmão de água que lho oferecia. Mike absorveu uma extravagante quantidade antes de Jubal se aperceber de que era impossível embebedá-lo.

Não era esse o caso de Jubal, apesar de anos de habituação; acompanhan­do civilizadamente Mike durante a experiência, Jubal ficou com as suas faculdades mentais entorpecidas. Por isso, quando perguntou a Mike o que é que tinha feito, Mike pensou que ele estava a interrogá-lo sobre o assalto dos S. S., assunto em relação ao qual Mike tinha um leve sentimento de culpa. Tentou explicar e, se fosse necessário, receber o perdão de Jubal.

Quando Jubal percebeu sobre o que o rapaz estava a falar, interrom­peu-o.

— Filho, eu não quero saber. Fizeste o que era necessário... na perfeição. Mas... — Jubal pestanejou sonolentamente — ... não me contes. Nunca contes a ninguém.

— Não?

— Não. Foi a coisa mais estranha que eu vi desde que o meu tio com duas cabeças defendeu o preço livre da prata e em seguida negou-se a si próprio. Uma explicação estragaria tudo.

— Não groco?

— Nem eu. Por isso vamos tomar outra bebida.

Os repórteres começaram a chegar; Jubal recebeu-os com cortesia, convidando-os a comer, a beber e a descontraírem-se — mas não permitiu que o importunassem ou ao Homem de Marte.

Aqueles que não cumpriam isto eram atirados à piscina.

Jubal ladeou-se de Duke e de Larry para administrarem o batismo. Enquanto alguns ficavam zangados, outros aderiam ao pelotão encarregado dos mergulhos com o entusiasmo fanático dos recém-convertidos — e Jubal teve de os impedir de atirarem pela terceira vez à água o decano repórter do New York Times.

Já tarde, Dorcas procurou Jubal e murmurou-lhe ao ouvido:

— Telefone, patrão.

— Aceita o recado.

— Tem de responder, patrão.

— Vou responder com um machado! Há muito tempo que penso em me livrar dessa Criada de Ferro; hoje estou com essa disposição. Duke, arranja-me um machado.

— Patrão! É o homem com quem esteve a falar durante muito tempo, esta tarde.

— Oh. Por que é que não o disseste logo? — Jubal apressou-se a subir as escadas, trancou a porta e dirigiu-se para o telefone. Outro dos acólitos de Douglas estava na tela, mas foi rapidamente substituído por Douglas.

— Levou bastante tempo para atender o telefone.

— É o meu telefone, Sr. Secretário. Por vezes nem sequer atendo.

— Assim parece. Por que é que não me disse que Caxton era um alcoólico?

— É?

— Claro que é! Esteve numa das suas farras. Estava a curar a bebedeira numa cama em Sonora.

— Fico contente por saber que foi encontrado. Obrigado, senhor.

— Foi detido por «vagabundagem». A acusação não será registrada; vamos enviá-lo à sua responsabilidade.

— Devo-lhe um favor, senhor.

— Oh, não é propriamente um favor! Mandei-o entregar tal como ele foi encontrado: imundo, com a barba por fazer, e, segundo ouvi, tresandando a cerveja. Quero que o senhor veja a porcaria que ele é.

— Muito bem, senhor. Quando é que o posso esperar?

— Um correio deixou Nogales já há algum tempo. Deve estar a chegar aí. O piloto entregá-lo-á e pedirá um recibo.

— Tê-lo-á.

— Agora, conselheiro, lavo daí as minhas mãos. Espero que o senhor e o seu cliente apareçam, quer tragam ou não esse caluniador bêbado.

— Concordo. Quando?

— Amanhã às dez?

— Quanto mais depressa melhor. Concordo. Jubal desceu as escadas e foi lá para fora.

— Jill! Vem cá, minha filha.

— Sim, Jubal.

Ela correu para ele. Um repórter veio logo atrás dela. Jubal mandou-o para trás. — Privado — disse firmemente. — Assunto de família.

— Família de quem?

— A sua. Bisbilhoteiro! — O jornalista sorriu e afastou-se. Jubal inclinou-se e disse suavemente: — Ele está salvo.

— Ben?

— Sim. Estará aqui dentro de pouco tempo.

— Oh, Jubal! — Jill desatou a soluçar. Jubal agarrou-a pelos ombros.

— Pára com isso. Vai lá para dentro até te controlares.

— Sim, patrão.

— Vai chorar em cima da tua almofada, depois lava a cara. — Dirigiu-se para a piscina. — Silêncio! Tenho uma declaração a fazer. Tivemos muito prazer em vos ter aqui... mas a festa acabou.

— Huh!

— Atirem esse para a piscina. Sou uma pessoa de idade e preciso de descansar. Assim como a minha família. Duke, fecha essas garrafas. Raparigas, levem a comida.

Houve burburinho, mas os mais responsáveis acalmaram os seus colegas. Passados dez minutos estavam sós.

Vinte minutos depois chegou Caxton. O oficial dos S. S. que comandava o carro aceitou a assinatura e a impressão digital de Harshaw impressas num recibo previamente preparado e foi-se embora, enquanto Jill soluçava no ombro de Ben.

Jubal olhou-o de alto a baixo.

— Ben, ouvi dizer que tinhas estado bêbado durante uma semana. Ben praguejou enquanto continuava a consolar Jill.

— Bêbado em último grau... mas sem ter tomado uma única bebida.

— Que é que aconteceu?

— Não sei. Não sei!

Uma hora depois, o estômago de Ben tinha sido limpo; Jubal dera-lhe injeções para acabar com o efeito do álcool e dos barbitúricos; tomara banho, fizera a barba, vestira roupas emprestadas, conhecera o Homem de Marte, e estava a ser posto a par dos acontecimentos, enquanto ingeria leite e comida.

Mas ele não era capaz de os pôr a par do que lhe acontecera. Para Ben, a semana não tinha decorrido: ficara inconsciente em Washington; tinha sido despertado no México.

— Claro que sei o que aconteceu. Drogaram-me e meteram-me num quarto escuro... e extorquiram de mim o que puderam. Mas não posso provar nada. E há o Jefe da vila e a dona daquela tasca... mais, tenho a certeza, algumas testemunhas... prontas a jurar como é que este gringo passou o seu tempo. E não posso fazer nada para o evitar.

— Então não faças — aconselhou Jubal. — Descontrai-te e dá-te por muito satisfeito.

— Uma ova, isso é que eu não faço! Vou buscar aquele...

— Chiu, chiu! Ben, estás vivo... uma coisa que eu considerava haver muito poucas probabilidades de acontecer. E Douglas vai fazer exatamente aquilo que nós queremos que ele faça... e vai gostar de o fazer.

— Quero falar sobre isso. Eu acho...

— Eu acho que tu vais para a cama. Com um copo de leite morno para dissimular o Ingrediente Secreto do Velho Dr. Harshaw para bêbados secretos.

Dentro em pouco, Caxton ressonava. Jubal ia para a cama quando encontrou Anne no hall do andar de cima. Abanou a cabeça, mostrando cansaço.

— Que dia, rapariga.

— Sim. Não o teria perdido por nada deste mundo e não quero repeti-lo. Vá para a cama, patrão.

— Vou já. Anne, que é que há de tão especial na maneira de beijar daquele rapaz?

Anne ficou sonhadora, depois sorriu.

— Devia ter experimentado.

— Sou demasiado velho para mudar. Mas tenho interesse por tudo o que diz respeito a este rapaz. Tem alguma coisa de diferente?

Anne ponderou na pergunta.

— Tem.

— O quê?

— Mike dá a um beijo toda a sua atenção.

— Oh, bolas! Isso também eu faço. Ou fiz. Anne abanou a cabeça.

— Não. Já fui beijada por homens que o faziam bem. Mas nenhum deles dava a um beijo toda a sua atenção. Não podem. Mesmo que o tentem com toda a boa vontade, partes do seu espírito estão concentradas em outras coisas. Perderam o último autocarro... as hipóteses que têm de conquistar a rapariga... ou nas suas próprias técnicas de beijar... ou, por vezes, preocupados com o emprego, ou com dinheiro, ou com o pai ou com os vizinhos que o podem apanhar. Mike não tem técnica... mas quando dá um beijo não está a fazer mais nada. É-se o seu universo completo... e o momento é eterno, porque ele não tem planos e não vai a lado nenhum. Apenas nos está a beijar. — Ela arrepiou-se. — É irresistível.

— Hum...

— Não olhe para mim com essa cara, seu velho devasso! Você não compreende.

— Não. E tenho pena por ter de dizer que nunca compreenderei. Bem, boa noite. A propósito... disse a Mike para trancar a porta do quarto.

Ane fez-lhe uma careta.

— Desmancha-prazeres!

— Ele está a aprender muito depressa. Não o devemos apressar.

A conferência foi adiada vinte e quatro horas, o que deu a Caxton tempo para se recuperar, para se pôr a par dos acontecimentos durante a semana em que estivera «ausente», e para se «aproximar» do Homem de Marte — pois Mike grocou que Jill e Ben eram «irmãos de água»; consultou Jill e ofereceu solenemente água a Ben.

Jill tinha dado instruções a Ben. Precisou de pensar muito nisso. Ben estava perturbado por uma desagradável sensação: sentia-se aborrecido pela amizade entre Jill e Mike. Os seus pensamentos de solteirão tinham-se alterado devido a uma semana de esquecimento solitário; declarou-se outra vez a Jill assim que a apanhou a sós.

Jill pareceu distante.

— Por favor, Ben.

— Porque não? Tenho um emprego estável, estou de boa saúde... ou estarei, assim que expelir as drogas da «verdade» do meu sistema... e como ainda não as expeli, sinto um impulso para dizer a verdade. Amo-te. Quero casar contigo e massagear os teus pobres e cansados pezinhos. Sou muito velho? Ou tencionas casar com outro?

— Não, claro que não! Ben, querido... Ben, eu amo-te. Mas não me peças isso agora, eu tenho... responsabilidades.

Não conseguiu convencê-la.

Finalmente compreendeu que o Homem de Marte não era um rival: era doente da Jill — e um homem que casa com uma enfermeira tem de aceitar o fato de as enfermeiras terem um sentimento maternal em relação aos seus doentes; tem de o aceitar e apreciar, pois se Jill não possuísse o caráter que fizera dela uma enfermeira ele não a amaria. Não se tratava da maneira como o seu atrevido traseiro se movia quando ela andava, nem da paisagem exuberante que se oferecia do lado oposto — não pertencia ao tipo infantil dos homens apenas interessados no tamanho das glândulas mamarias! Não, era a própria Jill que ele amava.

Uma vez que a profissão tornava necessário que ele ocupasse o segundo lugar a seguir aos pacientes que precisavam dela, então ele estava decidido a não ter ciúmes! Mike era um ótimo rapaz... tão inocente e sincero como Jill o descrevera.

E ele não estava a oferecer a Jill um mar de rosas; a mulher de um jornalista tinha de suportar muitas coisas. Ele poderia ter de se ausentar por semanas, e os seus horários eram sempre irregulares. Não gostaria que Jill o enganasse. Mas Jill não o faria.

Depois de ter chegado a estas conclusões, Ben aceitou de todo o coração a oferta de água de Mike.

Jubal aproveitou o dia para fazer planos.

— Ben, quando atiraste este assunto para as minhas costas, eu disse a Gillian que não mexeria um dedo para lutar pelos supostos «direitos» deste rapaz. Mudei de opinião. Não vamos deixar que o Governo fique com tudo.

— Principalmente esta Administração!

— Nem nenhuma, a próxima será ainda pior. Ben, não dás o devido valor a Joe Douglas.

— Ele é um político barato, com moral a condizer!

— Sim. E ignorante até à décima casa. Mas é também um chefe mundial bastante consciencioso, melhor do que nós merecemos. Gostaria de jogar pôquer com ele... ele não faria batota e pagaria com um sorriso nos lábios. Oh, ele é um cavalheiro da velha guarda. É razoavelmente decente.

— Jubal, diabos me levem se o percebo. Disse-me que tinha quase a certeza de que Douglas me mandara matar... e não esteve longe disso. Fez mil e um malabarismos para me tirar das mãos deles vivo e Deus sabe como lhe estou agradecido! Mas espera que eu esqueça que Douglas esteve por detrás disto? Não foi por causa dele que eu ainda estou vivo: ele preferiria ver-me morto.

— Acho que preferiria, realmente. Mas faz apenas isto: esquece.

— Diabos me levem se vou esquecer!

— Serás muito idiota se não o fizeres. Não podes provar nada. E não tens razão para me estares agradecido e eu não deixarei que atires esse fardo para cima de mim. Eu não o fiz por ti.

— Hã?

— Fi-lo por uma rapariguinha que estava prestes a ir à tua procura e que talvez morresse. Fi-lo porque ela era minha hóspede e eu compartilho as preocupações dos meus convidados. Fi-lo porque toda ela era coragem e valentia mas demasiado ignorante para lidar com uma tal serra circular. Mas tu, meu cínico e manchado pelo pecado, sabes tudo sobre serras circulares. Se a tua falta de cuidado te fizer cair numa, quem sou eu para interferir com o teu carma?

— Hum... O. K., Jubal, podes ir para o Inferno... por gozares com o meu carma. Se é que tenho um.

— Isso é um ponto discutível. Os profetas e os livres pensadores estão entravados no quarto bairro, pelas últimas notícias que ouvi. De qualquer maneira não tenho desejo nenhum de perturbar um homem que dorme numa vala. Fazer o bem é como tratar a hemofilia: a cura real consiste em deixar os hemofílicos esvaírem-se em sangue... antes que possam gerar mais hemofílicos.

— Podias esterilizá-los.

— Achas-me com cara de andar a brincar de Deus? Mas estamos a fugir ao nosso assunto. Douglas não tentou assassinar-te.

— Quem é que diz isso?

— Diz o infalível Jubal Harshaw, falando ex cátedra do alto da sua importância. Meu filho, se um ajudante de um xerife bate num prisioneiro até à morte, podes apostar em como as autoridades do condado não o teriam permitido se tivessem tido conhecimento. Na pior das hipóteses fecham os olhos... depois. O assassínio nunca foi uma política neste país.

— Hei-de mostrar-te os antecedentes de um certo número de mortes que eu investiguei.

Jubal não ligou a isto.

— Eu disse que não era uma política. Sempre tivemos casos de assassínio: desde casos de pessoas proeminentes, como por exemplo o Huey Long, até espancamentos mortais de homens que não mereceram mais que uma pequena notícia no jornal. Mas isso nunca foi uma política e o fato de tu estares vivo prova que não é essa a política de Joe Douglas. Eles apanharam-te sem ninguém ver, espremeram-te e podiam ter disposto de ti tão facilmente como se deita um rato morto na latrina e se puxa o autoclismo. Mas o patrão deles não gosta que eles sejam tão rudes e, se soubesse que o tinham sido, isso custar-lhes-ia os seus empregos, se não mesmo os seus pescoços. — Jubal fez uma pausa para beber um gole. — Esses tugues são apenas uma ferramenta, não são uma guarda pretoriana que controla o César. Portanto, quem é que tu querias para César? O cortês Joe Douglas, cuja doutrina remonta ao tempo em que este país era uma nação e não uma satrapia num império poliglota... Douglas, que não pode suportar o assassínio? Ou queres correr com ele (podemos fazê-lo, basta intrujá-lo), correr com ele e pôr no seu lugar num secretário-geral vindo de uma terra onde a vida é mais barata e o assassínio uma tradição? Se o fizeres, Ben... que é que irá acontecer ao próximo jornalista bisbilhoteiro que passeie numa rua escura?

Caxton não respondeu.

— Tal como eu disse, os S. S. são apenas uma ferramenta. Existem sempre homens, disponíveis para serem contratados, que gostam de fazer trabalho sujo. Se tirares a Douglas a sua maioria, quão sujo se tomará esse trabalho?

— Jubal, estás a dizer que eu não devia criticar a Administração?

— Não. As críticas são sempre necessárias. Mas é bom olhar para os novos patifes antes de correres com os atuais. A democracia é um sistema pobre; a única coisa que pode ser dita a seu favor é que é tão boa como qualquer outro método. A sua pior falha é que os seus chefes refletem os seus constituintes: um baixo nível, mas que é que se pode esperar? Portanto, olha para Douglas e pensa que, a sua ignorância, estupidez, e egoísmo, ele se parece com os seus amigos americanos, mas está um ou dois furos acima da média. Em seguida, olha para o homem que o substituirá se o seu Governo cair.

— A diferença é muito pequena.

— Existe sempre uma diferença! Esta é entre «mau» e «pior»... o que é muito diferente do que entre «bom» e «melhor».

— E então? Que é que queres que eu faça?

— Nada — respondeu Harshaw. — Eu próprio dirigirei este espetáculo. Espero que te abstenhas de criticar Douglas na combinação que se fizer... e talvez elogiá-lo pelo seu comedimento no seu comportamento como estadista.

— Estás a fazer-me vomitar!

— Apara com o teu chapéu. Vou dizer-te o que vou fazer. A primeira regra para montar um tigre é agarrar-se bem às suas orelhas.

— Deixa de ser pomposo. Qual é o negócio?

— Deixa de ser obtuso e ouve. Mike tem o infortúnio de ser herdeiro de uma fortuna muito maior do que aquela com que Creso sonhou... mais uma pretensão de poder político baseado num precedente político-judicial de uma burrice como já não se via desde que o secretário Fali foi acusado de ter recebido um suborno que Doheny tinha sido condenado a pagar. Não tenho interesse nenhum no disparate do «Príncipe Herdeiro». Do mesmo modo que não considero esta riqueza como «sua»; ele não a produziu. Mesmo se a tivesse ganho, «propriedade» não é o conceito natural e óbvio que a maior parte das pessoas pensa que é.

— Outra vez?

— A propriedade é uma abstração sofisticada, uma relação mística. Só Deus sabe como os nossos teóricos complicaram este mistério... mas eu nem sonhava o quanto ele era subtil até ter compreendido o ponto de vista marciano. Os Marcianos não possuem nada... nem sequer os seus corpos.

— Espera um segundo, Jubal. Até os animais têm propriedade. E os Marcianos não são animais; são uma civilização, com cidades e toda a espécie de outras coisas.

— Sim. «As raposas têm tocas e os pássaros do ar têm ninhos.» Ninguém compreende meus-et-tuus melhor que um cão de guarda. Mas os Marcianos não. A menos que consideres a posse conjunta de tudo por milhões ou bilhões de cidadãos seniores... «fantasmas» para ti, meu amigo... como «propriedade».

— Diz-me, Jubal, que é isso dos «Velhos»?

— Queres a versão oficial?

— Não. A tua opinião.

— Acho que se trata de mentiras piedosas, convenientes para enriquecer os relvados... uma superstição metida no espírito dos rapazes tão cedo que é impossível convencê-los de outra coisa.

— Jill fala como se acreditasse nisso.

— Hás-de ouvir-me falar como se também eu acreditasse nisso. Vulgar delicadeza. Um dos meus amigos mais importantes, acredita na astrologia; e eu nunca seria capaz de a ofender dizendo-lhe o que é que eu penso. A capacidade dos humanos para acreditarem naquilo que a mim me parece extremamente improvável... desde o espiritismo até à superioridade dos seus filhos... nunca foi compreendida. A fé, para mim, é preguiça mental, mas a fé de Mike nos Velhos não é mais irracional do que a convicção de que a dinâmica do universo pode ser anulada através de preces pedindo chuva.

— Hum, Jubal, confesso que acho que a imortalidade é um fato... mas estou contente por o fantasma do meu avô não mandar em mim. Ele era um velho diabo excêntrico.

— E o meu também, assim como eu. Mas existe alguma razão para que os direitos de um cidadão sejam anulados simplesmente porque esse cidadão está morto? A circunscrição eleitoral em que nasci tinha um grande número de eleitores... quase como os Marcianos. De qualquer modo, o nosso Mike não pode possuir nada porque os Velhos são possuidores de tudo. Portanto terei muita dificuldade em explicar-lhe que ele possui mais de um milhão de ações da Empresa Lunar, mais a Propulsão Lyle, mais uns tantos bens móveis e títulos. O fato de os possuidores originais estarem mortos não ajuda; isso faz deles Velhos... e Mike nunca meteria o nariz em assuntos de Velhos.

— Hum... bolas, ele é incompetente.

— Claro. Não pode dirigir propriedade nenhuma porque não acredita na sua mística... tal como eu não acredito nos seus fantasmas. Ben, tudo o que Mike possui é uma escova de dentes... e não sabe que a possui. Se lha tirares, ele pensará que os Velhos autorizaram a troca. — Jubal encolheu os ombros. — Ele é incompetente. Portanto, não vou deixar que a sua competência seja verificada: qual seria o tutor que eles indicariam?

— Ora! Douglas. Ou algum dos seus acólitos.

— Tens a certeza, Ben? Pensa na constituição do Supremo Tribunal. A pessoa indicada não poderia chamar-se Savvonavong? Ou Nadi? Ou Kee?

— Hum... és capaz de ter razão.

— Caso esse em que o rapaz era capaz de não viver muito tempo. Ou poderia atingir uma bonita idade em algum agradável jardim, do qual seria mais difícil fugir do que do Hospital de Bethesda.

— Que é que tencionas fazer?

— O poder que o rapaz possui nominalmente é demasiado perigoso. Portanto vamos deitá-lo fora.

— Como é que se deita fora tanto dinheiro?

— Não se deita. Entregá-lo seria alterar o equilíbrio de poder: qualquer tentativa nesse sentido faria com que a competência do rapaz fosse examinada. Portanto, em vez disso, vamos deixar o tigre correr enquanto nos agarramos às suas orelhas para salvar a nossa própria vida. Ben, deixa-me fazer-te um esboço daquilo que tenciono fazer... depois fazes tudo o que estiver ao teu alcance para lhe descobrires defeitos. Não na parte legal; o pessoal legal de Douglas escreverá os resultados e eu verificarei. Quero que investigues a praticabilidade política. Agora ouve o que eu vou fazer...

A delegação diplomática de Marte dirigiu-se para o Palácio na manhã seguinte. O despretensioso pretendente ao trono de Marte, Mike Smith, não se preocupou com o objetivo da viagem; apreciou-a simplesmente. Foram num transporte voador da Greyhound alugado; Mike sentou-se ao pé do motor, com Jill de um lado e Dorcas do outro, e arregalava os olhos à medida que as raparigas lhe apontavam as paisagens e conversavam com ele. O assento fora previsto para duas pessoas; um resultado muito «aproximador». Mike estava sentado com um braço por cima de cada uma, e observava, ouvia e tentava grocar, e não estaria mais feliz se estivesse três metros debaixo de água.

Era a sua primeira observação da civilização terrena. Ao ser removido da Champion não vira nada; tinha passado dez minutos num táxi há dez dias atrás, mas não grocara nada do que vira. Desde aí o seu mundo tinha-se limitado à casa, à piscina, ao jardim, à relva e às árvores — não passara do portão da propriedade de Jubal.

Mas agora era mais sofisticado; compreendia as janelas, percebia que aquilo que o rodeava era para observar e que as paisagens que ele via eram cidades. Apontou, com a ajuda das raparigas, onde elas se situavam no mapa que estava num quadro. Só há pouco tempo descobrira que os humanos percebiam de mapas. A primeira vez que grocara um mapa, sentira uma ponta de saudades do seu lar. Era estático e morto comparado com os mapas usados pelo seu povo — mas era um mapa. Mesmo os mapas humanos eram marcianos em essência; gostou deles.

Viu quase quatrocentos quilômetros de terras, a maior parte delas abrigando metrópoles mundiais, e saboreou cada centímetro, tentando grocá-las. Estava admirado com o tamanho das cidades humanas e com a sua fervilhante atividade, tão diferente das cidades-mosteiros do seu povo. Pareceu-lhe que uma cidade humana devia estar quase a desaparecer, por isso ficou chocado com aquela experiência que apenas os Velhos mais fortes podiam suportar ao visitar as suas ruas desertas e grocar em contemplação acontecimentos e emoções amontoados em infinitas camadas. Ele visitara cidades abandonadas no seu planeta, em algumas maravilhosas e terríveis ocasiões. Depois, os seus professores tinham parado com essa experiência, grocando que ele não era bastante forte.

Perguntas feitas a Dorcas e a Jill permitiram-lhe grocar a idade da cidade; tinha sido fundada há cerca de dois séculos terrenos atrás. Uma vez que as unidades de tempo terrestres não tinham significado para ele, converteu-as em anos e números marcianos: três-anos-completos-mais-três-anos de espera (34 + 33 = 108 anos marcianos).

Aterrorizador e maravilhoso! Assim, estas pessoas deviam estar a preparar-se para abandonar a cidade aos seus pensamentos, antes que ela se destruísse perante a tensão e deixasse de existir... contudo, e apenas pelo tempo, a cidade era apenas-um-ovo.

Mike pensou voltar a Washington no futuro, daí a um ou dois séculos, para passear pelas ruas vazias e tentar aproximar-se da sua infinita dor e beleza, grocando avidamente até que ele fosse Washington e a cidade fosse ele próprio — se já estivesse suficientemente forte nessa altura. Arquivou o pensamento, pois tinha de crescer, crescer e crescer antes de ser capaz de apreciar e guardar a poderosa angústia da cidade.

O condutor do transporte virou para leste, devido ao intenso tráfico (causado, sem que Mike soubesse, pela sua presença), e Mike viu o mar.

Jill teve de lhe dizer que aquilo era água; Dorcas acrescentou que se tratava do oceano Atlântico e apontou para ele no mapa. Mike tinha aprendido, desde que passara para o ninho, que o planeta seguinte mais próximo do Sol era quase totalmente coberto pela água da vida, e mais tarde aprendera que os seus habitantes aceitavam esta riqueza casualmente. Tinha ultrapassado a mais difícil barreira do groque da ortodoxia marciana, ao aprender que a cerimônia da água não requeria água; a água era o símbolo da essência: bela, mas não indispensável.

Mas Mike descobriu que saber em abstrato não era a mesma coisa que a realidade física; o Atlântico encheu-o de um tal temor respeitoso que Jill teve de dizer, rudemente: — Mike! Não te atrevas!

Mike cortou a sua emoção e arquivou-a. Depois pasmou ao ver a água estender-se até ao horizonte, e tentou medi-la até a sua cabeça ficar a zumbir com potências de três e superpotências de potências.

Assim que aterraram no Palácio, Jubal disse:

— Lembrem-se, raparigas, formem um quadrado à volta dele e não receiem dar uma canelada ou uma cotovelada. Anne, tu estarás de capa vestida, mas isso não é razão para não pores um pé para trás se te empurrarem. Ou é?

— Pare de se afligir, patrão; ninguém empurra uma testemunha; os meus sapatos têm uns saltos bastante pontiagudos e eu peso mais do que você.

— O.K. Duke, manda o Larry levar o veículo assim que for possível.

— Grocado, patrão. Pare de se enervar.

— Eu enervo-me como me apetece. Vamos embora.

Harshaw, as quatro raparigas com Mike, e Caxton saíram; o carro decolou. A plataforma de aterragem não estava pejada de gente, mas estava longe de estar vazia. Um homem adiantou-se e disse cordialmente:

— Dr. Harshaw? Sou Tom Bradley, principal assistente executivo do secretário-geral. Tem de ir ao escritório do Sr. Douglas. Ele recebê-lo-á antes de a conferência começar.

— Não.

Bradley pestanejou.

— Acho que não compreendeu. São instruções do secretário-geral. Oh, ele disse que o Sr. Smith podia ir consigo... o Homem de Marte, quero dizer.

— Não. Nós vamos para a sala de conferências. Diga a alguém que me indique o caminho. Entretanto tenho uma incumbência para si. Miriam, a carta.

— Mas, Dr. Harshaw...

— Eu disse «Não!» Você vai entregar esta carta ao Sr. Douglas, imediatamente, e trazer-me o recibo. — Harshaw assinou nas costas de um envelope, que Miriam lhe tinha entregado, colocou a sua impressão digital por cima da assinatura, e deu-a a Bradley. — Diga-lhe que ele tem de ler isto imediatamente... antes da reunião.

— Mas o secretário-geral deseja...

— O secretário-geral deseja ver essa carta. Meu caro jovem, eu sou dotado de segunda visão. Profetizo que você não estará aqui amanhã, se demorar muito tempo a levar-lhe essa carta.

Bradley disse;

— Jim, toma o meu lugar. — E saiu, com a carta.

Jubal suspirou. Tinha suado para escrever aquela carta; Anne e ele tinham estado a pé a maior parte da noite, preparando rascunho atrás de rascunho. Jubal tencionava chegar a uma combinação aberta — mas não fazia tenção de apanhar Douglas de surpresa.

Um homem adiantou-se, em resposta à ordem de Bradley; Jubal classificou-o como um daqueles jovens ávidos por dinheiro que gravitam em torno dos que estão no poder e fazem o trabalho sujo. O homem sorriu e disse:

— O meu nome é Jim Sanforth, doutor; sou o chefe da Secretaria de Imprensa. Trabalharei para si, a partir de agora... arranjando entrevistas à imprensa e por aí adiante. Lamento dizer que a conferência ainda não está pronta; no último minuto tivemos de mudar para uma sala maior. Penso que...

— E eu penso que iremos para a sala de conferências imediatamente.

— Doutor, o senhor não compreendeu. Estão a esticar fios e a fazer outras coisas, a sala está pejada de repórteres e...

— Muito bem. Conversaremos com eles.

— Não, doutor. Tenho instruções...

— Rapaz, pode pegar nas suas instruções, dobrá-las muito bem dobradi­nhas... e atirá-las para as suas masmorras. Viemos aqui com um fim: uma conferência pública. Se a conferência não está pronta, veremos os represen­tantes da imprensa... na sala de conferências.

— Mas...

— Você está a fazer o Homem de Marte estar de pé num telhado ventoso. — Harshaw levantou a voz. — Há por aí alguém suficientemente esperto para nos conduzir à sala de conferências?

Sanforth engoliu em seco e disse:

— Siga-me, doutor.

A sala de conferências estava cheia de jornalistas e de técnicos e existia uma grande mesa oval, cadeiras e várias mesas mais pequenas. Mike foi descoberto e os protestos de Sanforth não afastaram a multidão. A formação em cunha das amazonas que protegia Mike levou-o até à mesa grande; Jubal sentou-o encostado a ela, com Jill e Dorcas a ladearem-no e Miriam e a testemunha atrás dele. Em seguida Jubal não fez qualquer tentativa para desviar as perguntas ou as fotografias. Tinham dito a Mike que as pessoas fariam coisas estranhas e Jubal tinha-o avisado para não agir subitamente (tal como fazer as pessoas ou as coisas desaparecerem ou levitarem) a menos que Jill lhe dissesse para o fazer.

Mike aceitou a confusão solenemente; Jill segurava-lhe a mão e o seu toque acalmava-o.

Jubal queria fotografias, quantas mais melhor; quanto a perguntas, não as receava. Uma semana de conversas com Mike tinha-o convencido de que nenhum repórter podia tirar alguma coisa dele sem a ajuda de um perito. O hábito de Mike de responder literalmente e parar anularia as tentativas para o sondar.

À maior parte das perguntas, Mike respondeu com «Não sei» ou «Perdão?».

Um correspondente da Reuter, prevendo uma discussão sobre o estatuto de Mike como herdeiro, tentou fazer o seu próprio teste à competência de Mike:

— Sr. Smith? Que é que sabe sobre as leis da herança?

Mike sabia que estava a ter problemas ao tentar grocar o conceito humano de propriedade e, em particular, as idéias de legado e de herança. Por isso agarrou-se ao livro — que Jubal reconheceu como Ensaio sobre Herança e Legado, capítulo I.

Mike recitou o que tinha lido, com precisão e sem expressão, página após página, enquanto a sala caía em silêncio e o seu interlocutor engolia em seco.

Jubal deixou-o continuar até que todos os jornalistas ali presentes soubessem mais do que ele queria saber sobre legados, consangüíneos e uterinos, per stirpes e per capita. Por fim, Jubal disse:

— Já chega, Mike. Mike pareceu confuso.

— Há mais.

— Mais tarde. Alguém tem qualquer pergunta sobre outro assunto?

Um repórter de um jornal dominical de Londres levantou-se apresentan­do uma pergunta que devia ter saído do livrinho de apontamentos do seu patrão:

— Sr. Smith, parece-nos compreender que gosta de raparigas. Já alguma vez beijou uma rapariga?

— Já.

— Gostou?

— Sim.

— Como é que gostou?

Mike quase não hesitou.

— Beijar raparigas é uma coisa boa — explicou. — É muito melhor do que jogar cartas.

Os aplausos assustaram-no. Mas pôde sentir que Jill e Dorcas não estavam assustadas; estavam a tentar conter aquela ruidosa expressão de prazer que ele não podia apreender. Por isso acalmou o seu receio e esperou.

Foi salvo de mais perguntas e foi-lhe concedida uma grande alegria; viu uma figura familiar a entrar por uma das portas laterais.

— Meu irmão Dr. Mahmoud! — Mike continuou a demonstrar a sua excitação... em marciano.

O semântico da Champion acenou e sorriu, respondendo na mesma estridente linguagem enquanto corria para Mike. Os dois continuaram a falar por meio de símbolos não humanos, Mike numa torrente apressada, Mahmoud não tão rapidamente, com sons que pareciam um rinoceronte a ruminar uma casca de aço.

Os jornalistas ouviram-nos durante algum tempo, aqueles que tinham gravadores gravando e os que não tinham anotando. Por fim, um deles interrompeu.

— Dr. Mahmoud! Que é que está a dizer? Mahmoud respondeu em oxoniano cerrado:

— Durante a maior parte do tempo estive a dizer: «Mais devagar, meu querido rapaz, por favor.»

— E o que é que ele diz?

— O resto é pessoal, privado, de nenhum interesse. Saudações, compreendem. Amigos de longa data. — Continuou a conversar... em marciano.

Mike contava ao seu irmão tudo o que tinha acontecido desde a última vez que o tinha visto, para que pudessem aproximar-se; mas a abstração de Mike do que havia que contar era um conceito marciano, dizendo primeira­mente respeito aos novos irmãos de água e ao sabor de cada um deles... a água gentil que era Jill... a profundidade de Anne... o estranho fato, ainda-não-inteiramente-grocado, de que Jubal tanto parecia um «ovo» como logo a seguir parecia um «Velho», mas não era nem uma coisa nem outra... a ingrocável vastidão do oceano...

Mahmoud tinha menos para contar, pois tinham-lhe acontecido menos coisas, segundo os padrões marcianos: um excesso dionisíaco do qual não tinha orgulho, um longo dia passado de cara para baixo na Mesquita Suleiman de Washington, cujos resultados ainda não tinha grocado e que não discutiria. Nada de novos irmãos de água.

Nesse momento deteve Mike e ofereceu a mão a Jubal.

— O senhor é o Dr. Harshaw. Valentine Michael pensa que me apresentou... e apresentou, segundo as suas regras.

Harshaw mediu-o de alto a baixo enquanto lhe apertava a mão. O sujeito parecia um típico caçador desportivo britânico, desde as caras roupas de tweed que trazia vestidas até ao bigode grisalho enrolado nas pontas... mas a sua pele era escura, e os genes daquele nariz provinham de algum lugar próximo do Levante. Harshaw não gostava de imitações e teria preferido uma broa de milho ao mais perfeito «lombo de vaca» sintético.

Mas Mike tratava-o como um amigo, portanto era «amigo», até prova em contrário.

Para Mahmoud, Harshaw parecia um exemplar de museu daquilo que ele pensava que era um «ianque»: vulgar, vestido demasiado informalmente para a ocasião, com a mania de dar nas vistas, provavelmente ignorante, e quase de certeza provinciano. Um indivíduo que tinha uma profissão liberal, o que tornava as coisas ainda piores, pois, segundo a experiência do Dr. Mahmoud, os americanos que desempenhavam uma profissão liberal eram mal-educados e de vistas curtas, meros técnicos. Ele tinha uma grande aversão por todas as coisas americanas. A incrível confusão politeísta de religiões, a cozinha (cozinha!!!), as maneiras, a arquitetura corrompida e as artes repugnantes — e a crença cega e arrogante na sua superioridade muito depois de o seu sol se ter apagado. As mulheres. As mulheres, na sua maior parte, as imodestas e presunçosas mulheres, possuindo corpos magros e doentios, mas que apesar de tudo lhe lembravam as huris. Quatro delas rodeavam Valentine Michael Smith — numa reunião que devia ser somente composta por homens.

Mas Valentine Michael Smith apresentava essas pessoas — incluindo aquelas ubíquas criaturas fêmeas —; apresentava-as com orgulho e com alegria como seus irmãos de água, ficando deste modo, Mahmoud com uma obrigação, que tinha mais de convite que de ordem, para com os filhos de um irmão do pai — pois Mahmoud apreendera o sentido do termo marciano para tais relações orgânicas através da observação dos próprios Marcianos e não precisava de o traduzir inadequadamente como «reunião catenária», nem por «coisas iguais a uma mesma coisa são iguais entre si». Tinha visto marcianos no seu lar; conhecia a sua pobreza (segundo os padrões da Terra); tinha mergulhado na — e tinha adivinhado muito mais da — sua riqueza cultural; e grocara o imenso valor que os marcianos davam às relações interpessoais.

Bem, não havia mais nada a fazer — ele partilhara água com Valentine Michael e agora tinha de justificar a confiança que o seu amigo depositava nele... esperava que estes ianques não fossem completamente pretensiosos.

Portanto sorriu acolhedoramente.

— Sim. Valentine Michael explicou-me, muito orgulhosamente, que todos vocês estão em... — (Mahmoud usou uma palavra em marciano) — para ele.

— Hã?

— Irmandade de água. Compreende?

— Eu groco.

Mahmoud duvidou de que Harshaw realmente grocasse, mas prosseguiu calmamente:

— Visto que estou nessa relação para com ele, devo pedir para ser considerado um membro da família. Sei o seu nome, Dr. Harshaw, e penso que este deve ser o Sr. Caxton... vi o seu rosto numa fotografia no topo da sua coluna, Sr. Caxton... mas deixe-me ver se sei os nomes das senhoras. Esta deve ser a Anne.

— É. Mas está disfarçada.

— Claro. Apresentar-lhe-ei os meus respeitos mais tarde.

Harshaw apresentou-os aos outros... e Jill surpreendeu-o ao dirigir-se-lhe com a correta expressão honorífica devida a um irmão de água, pronunciando-a três oitavas mais acima do que um marciano a teria dito, mas com a mais pura e gutural pronúncia. Era uma da dúzia de palavras que ela era capaz de pronunciar, no meio de uma centena de estranhas palavras que estava a começar a compreender — mas, esta, sabia-a na ponta da língua porque era usada para ela e por ela muitas vezes por dia.

O Dr. Mahmoud abriu os olhos: talvez estas pessoas não fossem apenas bárbaros não circuncidados... esta jovem tinha uma forte intuição. Instanta­neamente ofereceu a Jill a correta expressão honorífica de resposta e curvou-se perante a sua mão.

Jill viu que Mike estava encantado; ela conseguira articular a mais pequena das nove formas pelas quais um irmão de água podia dar a resposta — embora não a grocasse e não tivesse considerado a hipótese de dizer (em inglês) o equivalente biológico humano mais aproximado... principalmente a um homem que mal acabara de conhecer!

Mahmoud, que a compreendia, tomou o seu significado simbólico em vez do seu significado literal (humanamente impossível), e articulou corretamente a resposta. Jill ultrapassara o seu limite; não compreendeu a resposta dele e não pôde retorquir, nem mesmo em inglês.

Mas teve uma inspiração. Em cima da mesa havia jarros de água, cada um deles com o seu conjunto de copos. Pegou no jarro e no copo e encheu este último.

Olhou Mahmoud nos olhos, e disse sinceramente.

— Água. O nosso ninho é seu. — Levou-o aos lábios e deu-o a Mahmoud.

Ele respondeu em marciano, viu que ela não compreendera e traduziu:

— Quem partilha água, partilha tudo. — Bebeu um gole e ia devolvê-lo... corrigiu o gesto e ofereceu o copo a Harshaw.

Jubal disse:

— Eu não sei falar marciano, meu filho... mas obrigado pela água. Que nunca tenhas sede. — Bebeu cerca de um terço da água. — Ah! — Passou o copo a Ben.

Caxton olhou para Mahmoud e disse gravemente.

— Aproximação. Com a água da vida nós aproximamo-nos. — Bebeu e passou-o a Dorcas.

Apesar dos que se lhe tinham precedido, Dorcas hesitou.

— Dr. Mahmoud, sabe quão sério isto é para Mike?

— Sei, menina.

— Bem.. é igualmente sério para nós. Compreende?... Groca?

— Groco toda a sua complexidade... ou ter-me-ia recusado a beber.

— Está bem. Que possa sempre beber profundamente. Que os nossos ovos possam partilhar um ninho. — Lágrimas começaram a cair dos seus olhos; bebeu e passou apressadamente o copo a Miriam.

Miriam murmurou:

— Vê se te recompões, rapariga. — Em seguida falou para Mike: — Com água damos as boas-vindas ao nosso irmão. — Depois acrescentou para Mahmoud: — Ninho, água, vida. — Bebeu. — Nosso irmão. — Miriam ofereceu-lhe o copo.

Mahmoud bebeu o que restava e falou, mas em árabe: —«E se vós misturardes os vossos assuntos com os deles, então eles são vossos irmãos.»

— Amem — concordou Jubal.

O Dr. Mahmoud apressou-se a olhar para ele, e decidiu-se a não inquirir se Harshaw percebera; este não era o local apropriado para dizer qualquer coisa que pudesse conduzir à revelação das suas próprias dúvidas, dos seus próprios problemas. Contudo sentiu a sua alma reconfortada — como sempre acontecia — pelo ritual da água... embora cheirasse um pouco a heresia.

Os seus pensamentos foram cortados pelo aparecimento do chefe de protocolo.

— O senhor é o Dr. Mahmoud. Pertence ao lado mais afastado, doutor. Siga-me.

Mahmoud sorriu.

— Não, eu pertenço aqui. Dorcas, posso puxar uma cadeira e sentar-me entre você e Valentine Michael?

— Claro, doutor. Eu afasto-me.

O assistente chefe do protocolo estava prestes a bater o pé.

— Dr. Mahmoud, por favor! O mapa coloca-o do outro lado da sala! O secretário-geral deve estar a chegar a qualquer momento... e este sítio ainda está simplesmente pejado de repórteres e sabe Deus que mais... e eu não sei o que vou fazer!

— Então vá chatear para outro lado — disse Jubal.

— O quê? Quem é você? Está na lista? — Começou preocupadamente a consultar um mapa.

— Quem é você? — respondeu Jubal. — O chefe dos criados? Eu sou Jubal Harshaw. Se o meu nome não está na lista, pode rasgá-la. Escute, seu brutamontes, se o Homem de Marte quer que o Dr. Mahmoud esteja ao pé dele, isso resolve a questão.

— Mas ele não pode sentar-se aqui! Os lugares na mesa da conferência estão reservados para os ministros, chefes de delegação, juizes do Supremo Tribunal, e pessoas de igual categoria, e eu não sei como é que os vou sentar se aparecer mais alguém... e para o Homem de Marte, claro.

— Claro — concordou Jubal.

— E é evidente que o Dr. Mahmoud tem de estar ao pé do secretário-geral... mesmo atrás dele, para que possa interpretar sempre que for necessário. Devo dizer que o senhor não está a ser prestável.

— Eu vou ajudar. — Jubal arrancou o papel da mão do funcionário. — Hum... deixe-me ver. O Homem de Marte sentar-se-á em frente do secretário-geral, perto do local onde ele está agora. Então... — Jubal pegou num lápis e atacou o mapa — ... esta metade, daqui aqui, pertence ao Homem de Marte. — Jubal rabiscou umas cruzinhas e uniu-as com um grosso traço a negro. Em seguida começou a escrever nomes corresponden­tes àquele lado da mesa. — Isto poupa-lhe metade do seu trabalho... porque eu não aceitarei mais ninguém do nosso lado da mesa.

O oficial do protocolo estava demasiado chocado para falar. A sua boca abriu-se, mas apenas alguns ruídos ininteligíveis se fizeram ouvir. Jubal olhou calmamente para ele.

— Passa-se alguma coisa? Oh... esqueci-me de o tornar oficial. — Escreveu por baixo das emendas que tinha feito: «J. Harshaw, por V. M. Smith.» Vá a correr até ao seu chefe e mostre-lhe isto. Diga-lhe para passar uma vista de olhos pelo seu livro de regras sobre visitantes oficiais de planetas amigos.

O homem abriu a boca... e saiu sem a conseguir fechar. Voltou atrás de um homem mais velho. O recém-chegado disse num tom de quem não admitia disparates:

— Dr. Harshaw, sou La Rue, chefe do protocolo. Precisa realmente de metade da mesa principal? Pareceu-me compreender que a sua delegação era bastante pequena.

— Isso não interessa. La Rue sorriu levemente.

— Receio que interesse. Estou muito atrapalhado com falta de espaço. Quase todos os oficiais de primeira categoria foram selecionados para estar presentes. Se está à espera de mais alguém (devia ter-me dito), mandarei colocar uma mesa atrás destes dois lugares reservados para o Sr. Smith e para si.

— Não.

— Receio que tenha de ser assim. Lamento.

— Eu também lamento... por si. Porque, se metade da mesa não está reservada para Marte, nós vamos embora. Diga ao secretário-geral que fez com que esta conferência falhasse devido a ter sido rude para com o Homem de Marte.

— Com certeza que não está a falar a sério.

— Não percebeu o que eu disse?

— Hum... bem, tomei-o como uma brincadeira.

— Não me posso dar ao luxo de brincar, meu filho. Ou Smith é um chefe de um outro planeta retribuindo uma visita oficial ao chefe deste planeta — caso em que tem direito a todos os criados e dançarinos que você for capaz de descobrir — ou é apenas um turista e não tem direito a qualquer cortesia. Não pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Olhe à sua volta e conte os «oficiais de primeira categoria», como você lhes chamou, e pense se eles estariam aqui se Smith fosse apenas um turista.

La Rue lentamente:

— Não existe precedente. Jubal arfou.

— Vi o chefe da delegação da República Lunar entrar: vá dizer-lhe, a ele, que não há precedente. Depois esconda-se! Ouvi dizer que ele tinha um temperamento irascível. Mas, meu filho, sou uma pessoa de idade, passei mal a noite e não me cabe a mim ensinar-lhe o seu trabalho. Diga ao Sr. Douglas que o veremos outro dia... quando estiver pronto para nos receber como deve ser. Anda, Mike. — Jubal começou a tentar levantar-se penosamente da cadeira.

La Rue apressou-se a dizer:

— Não, não, Dr. Harshaw! Vamos deixar livre este lado da mesa. Vou... Bem, vou fazer alguma coisa. Está à vossa disposição.

— Assim é melhor. — Harshaw continuou em posição de se levantar.

— Mas, onde é que está a bandeira de Marte? E que é que se passa com as honras?

— Parece-me que não estou a perceber.

— Nunca tive um dia em que tivesse mais problemas com o meu inglês, que penso ser bastante claro. Ouça: vê aquela bandeira da Federação atrás do lugar onde o secretário-geral se vai sentar? Onde é que está a que devia estar aqui? A de Marte?

La Rue pestanejou.

— Devo admitir que me apanhou de surpresa, não sabia que os Marcianos usavam bandeiras.

— Não usam. Mas possivelmente você não poderia saber o que é que eles usam nas ocasiões oficiais. (Nem eu, meu rapaz, mas isso não interessa!) Por isso vamos livrá-lo de trabalhos e tentar fazer uma coisa apropriada para a situação. Papel, Miriam... agora, assim. — Harshaw desenhou um retângulo, fez um esboço do tradicional símbolo humano de Marte, um círculo com uma flecha dirigindo-se para o canto superior direito.

— Faça o fundo em branco e a sigla de Marte em vermelho; devia ser em seda, claro, mas, com um lençol e um pouco de tinta vermelha, qualquer escoteiro podia improvisar uma. Você foi escoteiro?

— Hum, há algum tempo atrás.

— Ótimo. Conhece a divisa dos escoteiros. Agora, quanto às honras: faz tenção de tocar o Hino para a Paz Soberana quando o secretário entrar?

— Oh, temos de tocar.

— Então, quer com certeza tocar a seguir o hino de Marte.

— Não sei como é que o posso fazer. Mesmo que exista um... não o temos. Dr. Harshaw, seja razoável!

— Escute, meu filho. Estou a ser razoável. Viemos aqui para uma pequena e informal reunião. Vimos que a tinham transformado num circo. Bem, se vamos ter um circo, tem de arranjar elefantes. Ora, nós com­preendemos que você não pode tocar música marciana, tal como um rapaz com um assobio não pode tocar uma sinfonia. Mas você pode tocar uma sinfonia: a Sinfonia dos Nove Planetas. Groca, quero dizer, está a perceber? Comece a tocar a sinfonia na altura da abertura do andamento de Marte; ponha isso a tocar... ou pelo menos os compassos suficientes para que o tema seja reconhecido.

La Rue parecia pensativo.

— Sim, suponho que podemos... mas, Dr. Harshaw, não estou a ver como é que posso prometer honras reais mesmo a esta improvisada escala. Eu... eu acho que não tenho autoridade.

— Nem coragem — disse Harshaw rudemente. — Bem, nós não queríamos um circo; por isso diga ao Sr. Douglas que voltaremos quando ele não estiver tão ocupado. Foi agradável conversar consigo, meu filho. Quando voltarmos, havemos de passar pelo escritório do secretário para dizer olá... se você ainda estiver aqui. — Começou outra vez o ato lento e aparentemente doloroso, para um homem demasiado velho e fraco, de se levantar de uma cadeira.

La Rue, disse:

— Dr. Harshaw, por favor, não se vá embora! Hum... O secretário não entrará até eu mandar dizer que está tudo pronto; portanto, deixe-me ver o que posso fazer, sim?

Harshaw descontraiu-se e deu um gemido.

— Esteja à vontade. Mas só mais uma coisa, já que está aqui. Ouvi uma zaragata há um momento atrás... e, pelo que pude ouvir, alguns membros da tripulação da Champion queriam entrar. São amigos de Smith, portanto deixe-os entrar. Nós acomodá-los-emos. Ajuda a encher este lado da mesa. — Harshaw suspirou e massageou um rim.

— Muito bem, senhor. — La Rue concordou constrangido e afastou-se. Miriam murmurou:

— Patrão, entortou as costas a fazer essas flexões anteontem à noite?

— Silêncio, rapariga, ou tenh