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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


UM NOVO AMANHECER / Sandra Brown
UM NOVO AMANHECER / Sandra Brown

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio "SEBO"

 

 

 

   

O homem ficou de pé, inclinou-se flexionando o joelho e mantendo as costas reta, tirou com um gesto torpe seu revólver, martelou-o e apontou.

Suas coxas robustas se chocaram contra o canto da mesa e, com a sacudida, moveram-se os copos cheios de aguardente que se achavam sobre ela. Um dos copos se derrubou. Um charuto rodou de um cinzeiro e queimou o tabuleiro de feltro verde, deixando um pequeno buraco.

Jake Langston suspirou com ar de cansaço. Tinha entrado para jogar uma ou duas estimulantes partidas de pôquer, beber um copo ou dois de uísque lhe vivifiquem, e talvez desfrutar de um ou duas quedas em uma das camas do piso de acima; todo isso para encher as horas até a saída do trem.

E de repente se via envolto em uma discussão por uma mão de pôquer com um granjeiro chamado Kermit não sei o que, de quem esperava que tivesse mais capacidade para dirigir um arado que a que mostrava com um revólver.

 

 

 

 

   O homem ficou de pé, inclinou-se flexionando o joelho e mantendo as costas reta, tirou com um gesto torpe seu revólver, martelou-o e apontou.

   Suas coxas robustas se chocaram contra o canto da mesa e, com a sacudida, moveram-se os copos cheios de aguardente que se achavam sobre ela. Um dos copos se derrubou. Um charuto rodou de um cinzeiro e queimou o tabuleiro de feltro verde, deixando um pequeno buraco.

   Jake Langston suspirou com ar de cansaço. Tinha entrado para jogar uma ou duas estimulantes partidas de pôquer, beber um copo ou dois de uísque lhe vivifiquem, e talvez desfrutar de um ou duas quedas em uma das camas do piso de acima; todo isso para encher as horas até a saída do trem.

   E de repente se via envolto em uma discussão por uma mão de pôquer com um granjeiro chamado Kermit não sei o que, de quem esperava que tivesse mais capacidade para dirigir um arado que a que mostrava com um revólver.

   -Está me chamando trapaceiro? -inquiriu o granjeiro.

   Acostumado a beber só alguma que outra cerveja os sábados de noite, não se achava muito sóbrio, e embora tinha os pés bem plantados, balançava-se como um marinheiro em um mar turbulento. Seu rosto musculoso se via suarento e avermelhado. O revólver que apontava diretamente ao peito do Jake oscilava em uma mão instável.

   -Só hei dito que eu gostaria mais ver todos esses agarra que tem escondidos na manga de uma vez que vê-los aparecer uma mão sim, uma mão não.

   Com um sangue-frio irritante, Jake estendeu o braço até o copo de uísque que estava perto de sua mão direita, a mão do revólver e, sem perder a calma, bebeu um sorvo.

   O granjeiro, consciente de repente do espetáculo que estava dando, percorreu a cantina com um olhar nervoso. Ninguém mais se movia no cavernoso salão. A música tinha cessado ao primeiro signo de alvoroço. Outros jogadores da mesa se retiraram cautelosamente, como as ondas que forma uma pedra jogada nas quietas águas de um lago.

   O homem se esforçava por parecer ameaçador.

   -É um mentiroso. Não estava fazendo armadilha. Tira seu revólver.

   -Muito bem.

   Tudo aconteceu com tanta rapidez, que mais tarde, só aqueles que se achavam mais perto puderam dar fé do que realmente tinha ocorrido. Com um movimento ágil, Jake se levantou de sua cadeira de uma vez que tirava o revólver, e com a outra mão fez um gesto amplo que desviou o braço do granjeiro, cujo revólver caiu ao chão com um estrondo impotente.

   A noz do Kermit se estirou para dar capacidade a um nó rígido de terror. Olhou aqueles olhos frios e quebradiços como pedaços de gelo aderidos aos beirais depois de um vento frio do norte em um janeiro glacial e chuvoso. Assustavam muito mais que o canhão do revólver que apontava a seu nariz. Estava frente a um homem que pesava uns dezesseis quilogramas menos que ele, mas com um controle crispado ameaçador.

   -Recolhe a metade das lucros que amontoaste aí. Espero que as tenha ganho limpamente.

   As mãos do granjeiro revolveram torpemente as moedas e bilhetes enquanto os metia nos bolsos das calças. Exsudava o furor de uma raposa que luta para liberar sua pata de uma armadilha.

   -Agora recolhe tranqüilamente seu revólver e vete daqui.

   Kermit obedeceu. Só um milagre impediu que o revólver se disparasse em suas mãos trementes quando baixou o percussor e voltou a embainhado.

   -E te aconselho que não volte até que tenha aprendido a fazer armadilhas sem que lhe pilhem.

   O granjeiro se sentia humilhado, mas enormemente aliviado porque seu coração seguia pulsando, por não estar sangrando em abundância de uma ferida de bala e porque não ia se casa sem dinheiro para a arpía de sua esposa. partiu, jurando-se que nunca retornaria.

   O pianista reatou sua saltitanta e irritante melodia. Outros paroquianos da sala de jogos voltaram para suas mesas, sacudindo a cabeça divertidos. Os charutos abandonados nos cinzeiros reacenderam se. Imediatamente o garçom começou a encher novamente os copos.

   -Perdoem a interrupção -disse Jake com amabilidade a outros jogadores enquanto retirava da mesa seus próprias lucros-. Repartam o resto -indicou, refiriéndose ao dinheiro que, prudentemente, o granjeiro tinha deixado sobre a mesa.

   -Obrigado, Jake.

   -Não é nada.

   -Podia lhe haver matado por te apontar desse modo com um revólver.

   -Maldita seja, claro que podia fazê-lo. Nós lhe tivéssemos apoiado.

   -Malditos granjeiros.

   Jake se encolheu de ombros, voltou-se e os deixou falando. Tirou um puro magro do bolso de sua camisa; de uma dentada lhe tirou a ponta e a cuspiu ao chão. Raspando um fósforo contra a unha do polegar, acendeu o charuto enquanto avançava lhe ziguezagueie entre as mesas em direção à barra de carvalho que se estendia ao largo do salão. Segundo se rumoreaba, foi transportada em navio, peça por peça, desde São Luis até o Fort Worth, onde se procedeu a armá-la com grande cuidado. Estava vistosamente esculpida, adornada com espelhos, e cheia de garrafas e copos muito brunidos. A proprietária não tivesse tolerado o pó.

   As escarradeiras de latão se achavam estrategicamente colocadas ao longo do corrimão de cobre da barra. Não se permitia cuspir no chão no Jardim do Éden da Priscilla Watkins. Uns pôsteres escritos à mão dispostos ao longo da barra, a intervalos de um metro e médio, assim o indicavam.

   Jake sorriu. Esse chão, encerado até reluzir, tinha sido profanado pela bituca de seu charuto. Também sentiu um prazer perverso ao assegurar-se de que as esporas de suas botas deixavam marcas na superfície da que tanto se orgulhava a proprietária do prostíbulo.

   Um sorriso irônico elevou as comissuras de sua boca, ampla e de lábios finos. Priscilla. No momento em que sua mente evocou o nome da mulher, avistou-a parada com aprumo no último degrau da escada sinuosa, com um aspecto tão resplandecente como o da rainha de Saiba. Envolta em cetim púrpura brilhante guarnecido com encaixes negros, atrairia a atenção de qualquer homem. Sempre o conseguia. A primeira vez que Jake a viu, quase vinte anos atrás, levava um vestido de percal que tinha sofrida muitas lavagens. Mas mesmo assim se tornaram para olhá-la.

   Sua cabeleira de cor loira cinza estava recolhimento no cocuruto, adornada com uma única pluma de avestruz de cor púrpura que descendia por sua bochecha e paquerava com um brinco de azeviche. Mantinha a cabeça inclinada para um lado com um gesto majestoso.

   Em realidade, esse prostíbulo era seu território. Governava-o como uma déspota. Se aos clientes ou os empregados não gostavam do modo em que ela dirigia as coisas, eram expulsos de maneira sumária e escoltados até a saída. Mas todos no Texas sabiam que o Jardim do Éden do Fort Worth era, nesse ano de 1890, o melhor prostíbulo do estado.

   Priscilla adiantou um pé embainhado em uma pantufa e baixou o último degrau da escada. Com altivez, deixando a seu passado uma esteira de fragrância de almíscar importada de Paris, abriu-se caminho até a barra no momento em que Jake se levava aos lábios um copo de uísque.

   -Acaba de me fazer perder um cliente, senhor Langston.

   Jake nem sequer se voltou para olhá-la, mas com um movimento da cabeça indicou ao garçom que lhe servisse outro gole.

   -Acredito que pode te permitir perder um ou dois, Pris.

   Exasperava-lhe que a chamasse Pris, mas ele sentia prazer em fazê-lo, tanto como em raiar com suas esporas o chão da cantina. Só um velho amigo como Jake podia conseguir que se consentisse o que não se toleraria a nenhum outro.

   Eram amigos ou inimigos? Priscilla nunca estava muito segura.

   -Como é possível que as coisas vão estupendamente durante meses e no instante em que você entra comecem os problemas?

   -Há-os?

   -Sempre.

   -O granjeiro me apontou com um revólver. O que esperava que fizesse? Oferecer a outra bochecha?

   -Você lhe provocou.

   -Ele estava fazendo armadilha.

   -Não necessito mais problemas. O xerife já esteve aqui duas vezes esta semana.

   -Negócios ou prazer?

   -Falo a sério, Jake. A cidade volta a estar em pé de guerra e querem me fechar o local. Sempre há problemas.

   -Está bem, sinto muito.

   Ela levantou o queixo e riu.

   -Duvido-o. Você, ou cria problemas nas mesas de jogo, ou provoca um alvoroço entre minhas garotas.

   -Como é isso?

   -brigam por ti e sabe muito bem -disse, irritada.

   Priscilla valorou o bom aspecto do Jake e a atrativa arrogância que tinha adquirido com os anos. Já não era um moço, a não ser um homem ao que tanto homens como mulheres deviam ter em conta. Deu-lhe uns golpecitos no peito com seu leque de plumas.

   -Prejudica os negócios.

   Inclinando-se, Jake murmurou com tom confidencial:

   -Então como é que sempre te alegra tanto de lombriga?

   A boca da Priscilla se esticou pela irritação, mas a mulher sucumbiu ao sorriso lisonjeador do homem.

   -Tenho um uísque melhor que esse em meu escritório -disse, pondo uma mão sobre o braço do Jake-. Vamos.

   As cabeças se voltaram quando ambos cruzaram a sala. Não havia um só homem vivo que pudesse manter-se insensível a Priscilla. Era atrativa de um modo um pouco obsceno, sensual, e os rumores que corriam a respeito do que era capaz de fazer a um homem a tinham convertido em uma lenda. Até tendo em conta a propensão dos homens a exagerar na narração de suas proezas sexuais, as histórias sobre a Priscilla Watkins estavam muito estendidas como para não .alcançar certa credibilidade. Os homens não desejavam que suas algemas tivessem em seus olhos aquele fulgor voluptuoso e desavergonhado, mas sim queriam que o tivessem suas putas.

   A maior parte dos desejos desses homens não nasciam de lembranças, mas sim da curiosidade e a fantasia. Poucos tinham experiente pessoalmente com a Priscilla aquelas sessões de intensidade sexual. Ela era seletiva. Embora pudessem permitir-se pagar o preço que ela exigia, a maioria desses homens nunca seriam escolhidos para entrar nessa câmara interior que guardava segredos fascinantes e cuja porta se mantinha perpetuamente fechada. Todos os homens que se achavam no salão invejavam ao Jake Langston nesse momento.

   Mas se os homens dirigiam ao Jake olhadas ciúmas, as mulheres o observavam ofegantes. As prostitutas que se achavam pulverizadas pelo salão entretendo à multidão a essa hora temprana da noite eram mulheres trabalhadoras que sabiam o que valia um dólar. Tinham que ser práticas. Seu tempo era dinheiro. Por conseguinte, praticavam suas artes sedutoras com seus clientes, embora todas tivessem trocado os poucos dólares que pudessem ganhar por uma hora grátis a sós com o vaqueiro Jake Langston.

   Jake era magricela e de quadris estreitos, mas se movia com graça felina. Umas calças ajustadas se adaptavam a suas nádegas tensas e a suas largas coxas como uma segunda pele. A cartucheira com a pistolera que se atia a seu corpo à altura dos quadris não fazia mais que realçar sua virilidade. Os homens respeitavam sua habilidade com o revólver; para as mulheres, sua reputação com o revólver só aumentava seu desejo de estar junto a ele. Acrescentava um elemento de perigo que poucas mulheres respeitáveis se animariam a admitir que lhes resultava estimulante.

   Os ombros do Jake eram largos, igual a seu peito, mas não tanto como para desmerecer sua magreza geral. O seu não era caminhar, a não ser passear-se com tranqüilidade.

As garotas que tinham tido a sorte de lhe entreter em suas habitações juravam que era tão atrevido com tudo como o era com esse rebolado ao andar, e que o movimento ondulante de seus quadris não era uma habilidade restringida ao ato de caminhar.

   Priscilla tirou uma chave de seu sutiã de generoso decote e abriu a porta que conduzia a seus aposentos privados. logo que entrou, deixou cair seu leque sobre uma cadeira de respaldo alto e se aproximou de uma mesa pequena para servir ao Jake um gole de uma pesada garrafa de cristal. Jake fechou a porta detrás deles com um golpe seco. O olhar da Priscilla se levantou da mesa para encontrar-se com a dele. Incomodava-lhe pensar que o homem pudesse advertir os batimentos do coração acelerados de seu coração.

   Essa noite seria a noite?

   O saguão podia ter pertencido à casa de qualquer anfitriã elegante, exceto pelo nu da Priscilla pintado por um cliente que tinha pago seus serviços com o retrato.

Sem dúvida, o homem tinha sido seu amante e conseguiu plasmá-la no tecido em uma pose de saciedade indolente. Inexcusablemente decadente, o retrato com seu marco dourado decorava a parede que havia atrás do sofá estofado em cetim, sobre o que se amontoavam almofadas debruadas com franjas de seda. O cortinado das janelas era de muaré, com tantas dobras como os que podiam encontrar-se nas mansões mais refinadas da época. As mesas estavam cobertas com toalhas de mesa tão finos como telarañas.

Poderiam ter sido tecidos a agulha de crochê pela avó de qualquer.

Os abajures de petróleo tinham grandes globos redondos com flores pintadas. De algumas penduravam prismas que tilintavam brandamente quando as movia um sopro de ar. Uma grosa atapeta cobria a maior parte do chão. Em um rincão havia um vaso com plumas de pavão, que chegava à altura do peito de uma pessoa. Uma pastora do século XVII, em atitude descarada e com o torso nu e atrevida, mantinha em naufraga perpétua sobre sua superfície de porcelana a um pastor ardentemente admirativo.

   Jake examinou a habitação atentamente. Tinha estado aí muitas vezes. Nunca deixava de lhe fascinar. A filha rebelde de uma mãe ditatorial e de um pai amedrontado tinha progredido. Jake -então Bubba para todos- havia-a poseído em campos em aro e sobre o leito lamacento de riachos. Mas quando se chegava até esse ponto, o lugar não importava. Uma puta era uma puta, sem que importasse onde praticava seu comércio.

   Priscilla, ignorando os pensamentos pouco aduladores do Jake, aproximou-se dele e lhe ofereceu o uísque. Arrancou-lhe o charuto dos lábios, o levou a sua própria boca e deu uma larga imersão, deixando que a fumaça serpenteasse em seus pulmões antes de exalá-lo em um fluxo prolongado e lento.

   -Obrigado. Não permito a minhas garotas fumar, por isso não posso ser um mau exemplo. Vamos ao dormitório. Tenho que me trocar para o público da noite.

   Seguiu-a à habitação contigüa. Adornada com encaixes, resultava muito feminina e extrañamente inadequada para ela. Priscilla era uma mulher muito endurecida para sentir-se cômoda nesse quarto delicado e cheio de volantes, mas Jake supôs que formava parte da fantasia que oferecia a seus clientes.

   -Jake, por favor, me ajude.

   Priscilla lhe ofereceu suas costas. Ele voltou a levar o charuto à boca, sujeitando-o com uns dentes brancos e parecidos, entrecerró os olhos a causa da fumaça e deixou o copo. Com grande destreza desabotoou a fileira de colchetes que descendia pelas costas da mulher. Quando terminou, Priscilla olhou por cima de seu ombro nu e disse com voz rouca:

   -Obrigado, querido.

   E se apartou.

   Jake sorria ironicamente quando se deixou cair no divã estofado em brocado, pondo os pés sobre ele, sem preocupar-se com as esporas de suas botas, nem muito menos pelo barro seco aderido a estas.

   -O que estiveste fazendo ultimamente?

   Priscilla se tirou o vestido com um movimento muito natural para ser estudado.

   Jake soprou no ar um anel de fumaça perfeita e estendeu o braço em busca de seu uísque.

   -Trabalhando no Panhandle, tendendo um cercado de ali até o outro mundo.

   Priscilla arqueou uma sobrancelha de maneira eloqüente enquanto se tirava as pantufas de cor púrpura. Não se incomodava em recolher o que deixava atrás dela.

De algum modo, as roupas caindo no lugar em que as tirava se somavam à sensualidade do ato. Os homens preferiam que as mulheres a quem pagava não fossem muito escrupulosas respeito à ordem, em especial quando se foram à cama. Tal negligência fazia que o sexo pago parecesse mais espontâneo. Com um tom levemente zombador, Priscilla perguntou:

   -Converteste-te em um homem de alicate?

   Assim se denominava aos jeans a quem, depois da decadência das largas viagens, apressava a necessidade de ganhar algum dinheiro. Freqüentemente tinham que tender cercas de arame de pua que fechavam as pradarias abertas e os deixavam sem trabalho.

   -Bom, acostumei-me a comer e a coisas pelo estilo -disse Jake com tranqüilidade. Seus olhos não se perderam nenhum dos movimentos sedutores da mulher.

   O espartilho da Priscilla estava fortemente pacote com cintas. A mulher moveu seu peito acima e abaixo até que a camisa interior transparente logo que pôde contê-lo.

Sempre tinha estado bem dotada. Jake recordava esses seios grandes e firmes. Apartando as plumas de pavão, a mulher se sentou em um pequeno tamborete redondo frente a um penteadeira, cujo espelho central se unia a dois laterais por meio de dobradiças, de modo que ela podia ajustá-los e examinar-se desde todos os ângulos. Com uma borla de lã de cordeiro se deu suaves toques de pó no pescoço, os ombros e os seios.

   -Está de férias?

   Uma risada rouca saiu do peito do Jake.

   -Não. Pu-me doente de não ver mais que pó e novelo de amaranto. Parti-me.

   -Que planos tem?

   Que planos tinha? Ir sem rumo até que encontrasse um trabalho, como tinha feito durante a maior parte de sua vida adulta. Podia ganhar algum prêmio em metálico participando de rodeios, o suficiente para que ele e seu cavalo pudessem sobreviver, o suficiente para jogar uma partida de pôquer de vez em quando, o suficiente para desfrutar de da pulverização que proporcionavam lugares como o Jardim do Éden da Priscilla.

   -Quantos viagens fez, Jake? perdi a conta das vezes que retornou ao Fort Worth depois de ter partido para o norte.

   -Também eu. Fiz várias viagens a Kansas City. Uma vez cheguei até Avermelhado. Eu não gostei. Bonita região, mas muito fria.

   Cruzou os braços detrás da cabeça, desfrutando de do espetáculo que oferecia ela pintando-os mamilos. Lubrificava seu dedo no ungüento colorido que havia em um diminuto pote de vidro que se achava sobre o penteadeira e o levava até seus seios. Aplicava-o com suavidade, quase amorosamente.

   -E o que me conta de ti, Priscilla? Quanto faz que comprou este local?

   -Cinco anos.

   -Quanto te custou?

   Muitas horas na cama, esteve a ponto de dizer ela. Muitas horas com granjeiros gorduchos e suarentos que se queixavam de que suas algemas não queriam mais filhos e lhes negavam seus direitos de maridos, e com jeans toscos que cheiravam a ganho.

   Tinha trabalhado primeiro no Jefferson, o último parada na fronteira. Mas quando a ferrovia deixou de passar por essa cidade, arruinando-a comercialmente, Priscilla se transladou ao Fort Worth, onde convergiam as vias férreas de todo o estado. Era uma cidade estridente, cheia de jeans ansiosos por gastar o dinheiro que tinham obtido conduzindo ganho.

   Foi ali onde a reputação da Priscilla prosperou. Ela oferecia a seus clientes o valor de seu dinheiro naqueles tempos, e inclusive às vezes, mais do que pagavam.

Era popular. Economizava dinheiro. Quando conseguiu o suficiente, um de seus clientes mais leais, um banqueiro, respaldou-a na compra da cantina. Compraram a parte da anterior proprietária e o converteram em um palácio de prazer de categoria com a intenção de atrair não só aos jeans briguentos, mas também também aos boiadeiros que os contratavam. Não se regularam gastos e o investimento tinha sido sensata. Em dois anos saldou sua dívida com o banqueiro. Salvo pela indignação da comunidade decente, o estabelecimento, convocado na zona da cidade conhecida como Hell's Half Acre, tinha dado poucas preocupações financeiras a Priscilla.

   -Se necessitar um trabalho, sempre pode ter um aqui te ocupando das cartas ou te encarregando de jogar aos bagunceiros.

   Jack riu e depositou o copo vazio sobre a mesa junto ao divã.

   -Não, obrigado Priscilla. Sou um vaqueiro. Eu não gosto de estar encerrado entre quatro paredes. Além disso, conforme diz, se estivesse aqui continuamente suas garotas se excitariam muito e não podemos permiti-lo, verdade? -burlou-se Jack.

   Priscilla franziu o sobrecenho enquanto ficava um vestido de cetim negro. A pluma púrpura que adornava seu cabelo tinha sido substituída por outra de um negro reluzente, sujeita por um broche de pedras falsas. Ao Jake Langston lhe tinham ficado meninos as calças. Reprimiu um sorriso enquanto "corrigia" seu pensamento.

Ao Jake Langston sempre tinham ficado meninos as calças. Por certo, não andava escasso na hora de fazer valer seus dotes viris.

   Observou-o com dissimulação -enquanto se embainhava as largas luvas de encaixe negro, embutindo neles os dedos e os antebraços. Jack tinha maturado até converter-se em um homem condenadamente atrativo. Não assombrava que fosse presunçoso. Em sua juventude seu cabelo tinha sido da cor da estopa. Agora seus cabelos tinham escurecido, mas só um pouco. Esses fios de um loiro esbranquiçado eram como um farol que cativava às mulheres como a luz de um farol atraía às mariposas noturnas.

   Sua pele tinha sido curtida como o couro. As largas horas à intempérie tinham dado uma cor acobreada que intensificava o azul de seus olhos, ao redor dos quais, e nas comissuras de sua boca, destacavam umas linhas finas, como esculpidas com um cinzel. Mas mais que empanar seu aspecto, essa erosão acrescentava a seu encanto uma dimensão nova que não havia poseído em sua juventude.

   Era rude, tosco,de uma periculosidade latente. Parecia ocultar algo detrás de um sorriso indolente, que insinuava que o segredo era atrevido e que ele morria por compartilhado. E sua rabugice lhe convertia em uma provocação ao que nenhuma mulher podia resistir.

   Priscilla recordava ao moço a quem tinha iniciado sexualmente. Os quedas que tinham desfrutado eram ardorosos e freqüentes, impetuosos e intensos. Como seriam agora? Durante anos tinha querido sabê-lo.

   -Ficará por algum tempo no Fort Worth?

   -Esta noite estou de passagem para o leste do Texas. vou tomar o último trem. Recorda aos Coleman? Sua filha se casa amanhã.

   -Coleman? o da caravana de carromatos? Ross, não é assim?

   Priscilla sabia muito bem de quem estava falando Jake, mas queria lhe provocar, ao igual a ele sempre queria provocá-la a ela. Era um jogo que praticavam sempre que se viam.

   -E como se chamava essa mulher? Essa com a que se casou por caridade.

   -Lydia -respondeu secamente.

   -OH, sim, Lydia. Não tinha sobrenome, verdade? Sempre me perguntei o que ocultava; -Tirou o plugue de um frasco de perfume de cristal e o aplicou detrás das orelhas, no pescoço, as bonecas e os seios-. tive notícias de que vai muito bem com esse rancho de cavalos.

   -Assim é. Minha mãe vive em suas terras. E também meu irmão pequeno, Micah.

   -Esse menino que começava a andar?

   -Agora está crescido. É um dos melhores cavaleiros que vi.

   -O que lhe passou ao menino do senhor Coleman? que Luta criou antes de que se casassem.

   Jake meditou um momento. Finalmente respondeu:

   -Lê. Ele e Micah são duas da mesma classe. Sempre Armando alvoroço.

   Priscilla contemplou sua imagem no espelho e se arrumou o cabelo.

   -E têm uma filha em idade de casar-se?

   Jake sorriu com ternura.

   -Apenas. A última vez que a vi ainda levava tranças e perseguia a Lê e ao Micah, lhes rogando que a deixassem ir com eles a encerrar a um semental selvagem.

   -Um marimacho? -perguntou Priscilla, agradada.

   Recordava como Jake estava acostumado a olhar fixamente a Luta Coleman com olhos de bezerro. Todos os homens da caravana de carromatos se sentaram atraídos por ela, apesar da relutância de suas algemas a aceitá-la ao princípio. Se Lydia não se casou com o Ross Coleman, Priscilla se teria sentido locamente ciumenta dela.

Gostava de imaginar à filha da Lydia como uma moça larguirucha e desgracioso, ou como um marimacho de corpo magro e forte.

   -Suponho que se for casar-se deve ter trocado algo da última vez que a vi.

   Priscilla agarrou seu leque e deu uma volta diante do Jake, mostrando-se muito satisfeita de si mesmo.

   -Fica bem?

   O sutiã do vestido se ajustava a seu corpo, destacando sua cintura. O decote era amplo e baixo, cobrindo apenas seus seios com um encaixe tão fino como o de suas luvas, cujo desenho logo que ocultava os mamilos pintados de vermelho. A saia ocultava pela parte dianteira as pantufas de cetim negro da vampiresa e terminava por detrás formando uma cauda curta. Uma moderna almofadinha contribuía a dar forma de relógio de areia a sua figura.

   Os cínicos olhos azuis a examinaram com insolência.

   -Muito bonito; sempre disse que é a prostituta mais formosa que conheci.

   Jake viu flamejar a cólera nos olhos cinzas da mulher,

   Rendo brandamente, agarrou-lhe uma mão e com um movimento brusco a atraiu para o divã. O leque da Priscilla saltou de sua mão e caiu ao chão. A pluma que adornava seu cabelo ficou torcida, mas Priscilla não pôs objeções quando Jake a fez rodar até tê-la sob seu corpo. -estiveste te pavoneando diante de mim toda a noite, não é certo, Pris? Bom, considero que é hora de que te dê o que estava pedindo.

   Inclinou-se pondo sua boca muito perto da dela.

   Os lábios da mulher se abriram ofegantes para receber a língua do homem. Suas garotas não tinham exagerado. Ele sabia o que estava fazendo. Com esse beijo convidou a todas as zonas sensíveis de seu corpo e estas reagiram. O corpo do Jake era magro e forte. Ela arqueou as costas apertando-se a ele, e seus dedos se enredaram nos espessos cabelos loiros da nuca do homem.

   Com um movimento perito, a mão dele se abriu passo debaixo da saia e se deslizou pela coxa da mulher, mais acima da liga adornada com encaixe. Acariciou a carne, cálida e tremente. Ela levantou um joelho.

   -Sim, Jake, Jake -sussurrou enquanto sua boca se movia sobre a dele.

   Jake encaixou sua mão livre entre seus corpos. Ela pensou que estava arrumando-a roupa, mas ficou atônita quando Jake fez balançar diante de seus olhos um relógio de bolso e comprovou a hora.

   -Sinto muito, Pris -Jake riu entre dentes, com hipocrisia. Tenho que agarrar um trem.

   Priscilla o separou dela, furiosa.

   -Filho de puta!

   Rendo, Jake se levantou do divã.

   -É assim como se fala com um velho amigo?

   Priscilla fez algo que estranha vez fazia. Foi às nuvens.

   -Estúpido rústico! Tolo caipira! Realmente crie que quero fazer o amor contigo?

   -Sim, realmente acredito que o deseja. -Lhe piscou os olhos um olho e se encaminhou para o saguão-. Sinto te decepcionar.

   -Já não valho o bastante para ti?

   Ele se voltou.

   -Você vale muito. Muito. É a melhor. Por essa razão não te quero. Porque é a melhor puta desta cidade e seus arredores.

   -Você sempre te deita com putas. Só te deita com putas.

   -Mas se não as conheço, posso fingir que é outra coisa. Posso imaginar que sou o único que esteve ali. Você foste uma puta desde que te conheci. Dúzias de homens estiveram em sua cama. Isso lhe tira todo atrativo para mim.

   O rosto da mulher ficou lívido e Jake se deu conta de quão perigosa podia chegar a ser.

   -trata-se de seu irmão, não é verdade? Nunca superou o fato de que estivesse comigo o dia que morreu.

   -Te cale.

   Disse-o com tal brutalidade, que ela se aterrorizou. Retrocedeu um passo, mas não se apaziguou de tudo.

   -Segue sendo um estúpido rústico do Tennessee. OH, aprendeste a falar melhor. Seu mau gênio te tem feito ganhar uma reputação que os homens respeitam. Sabe como agradar às senhoras. Mas no fundo segue sendo Bubba Langston, um estúpido paletó.

   Jake se deteve na porta. Seus olhos já não estavam acesos de malícia, mas sim eram frios e duros. A pele de seu rosto se mostrava tensa e as linhas aos lados

de sua boca pareciam .cinzeladas mais profundamente.

   .-Não, Priscilla. Esse menino Bubba desapareceu faz muito tempo.

   A fúria da Priscilla se aplacou. Seus olhos se entrecerraron quando lhe olhou fixamente.

   -Demonstrarei-te que ainda me quer. É uma promessa. Um dia qualquer te permitirá recordar o que houve entre nós. Fomos uns moços sensuais, ardentes, morrendo de desejo. poderia voltar a ser assim. -Inclinando a cabeça para trás, pôs sua mão sobre o peito do homem-. Voltarei a te ter, Jake.

   Jake recordava muito bem a primeira vez que estiveram juntos. Aquela tarde ficou indelevelmente gravada em sua mente. Apartou-lhe a mão.

   -Não conte com isso, Priscilla.

   Fechou detrás dele a porta que conduzia aos aposentos privados e ficou junto a ela parado um momento, em atitude meditativa. A atividade se animou. As diversões da noite estavam em plena marcha. Garotas, escassamente vestidas perambulavam pelos pequenos salões e as salas de jogo, gastando brincadeiras; paquerando, exibindo sua mercadoria aos clientes. Várias delas olharam ao Jake espectadores, sem fôlego.

   Jake sorriu, mas sem as incitar. Não era que não sentisse desejo, pois levava várias semanas sem estar com uma mulher. Embora nunca se teria deitado com a Priscilla, tampouco era de pedra. A visão da mulher nua, a fragrância de carne feminina, tinha sido um forte estimulante.

   Outro copo de uísque? Outra partida de naipes? Uma hora em um dos dormitórios da planta baixa?

   -Olá, Jake.

   Uma das prostitutas lhe aproximou furtivamente.

   -Olá, Sugar. -Sugar Dalton estava empregada no estabelecimento da Priscilla desde que Jake freqüentava o lugar-. Que tal vão as coisas?

   -Não pôde me queixar -murmurou a moça, sonriendo fracamente.

   As linhas que sulcavam a espessa capa de maquiagem lhe disseram o mal que foram as coisas e o muito que ela odiava sua vida. Mas estava patéticamente resignada a ela e ansiosa por agradar. Jake sempre tinha sentido pena por essa moça.

   -Poderia te fazer sentir bem esta noite, Jake -disse a garota, esperançada.

   Por agradá-la, esteve tentado de levar a à planta alta. Entretanto, sacudiu a cabeça em um gesto de negação.

   -Mas pode ir me buscar o chapéu e as alforjas. Aqui está o comprovante.

   Jake o tirou de seu bolso, o entregou e a garota se afastou a toda pressa. Quando retornou, deu-lhe uma gorjeta de cinqüenta centavos, muito mais do que valia

o recado, que ele tivesse podido fazer facilmente.

   -Obrigado, Sugar.

   -Quando quiser, Jake.

   O olhar do Sugar era um convite declarado.

   Deveria ser benevolente com ela e de uma vez dar satisfação a seu corpo faminto? Não. antes de que pudesse trocar de idéia começou a abrir acontecer com través da multidão em direção à porta principal. Tinha que agarrar o último trem essa noite. Esperavam-lhe no Larsen a manhã seguinte.

   Banner Coleman ia casar se.

 

   Era o dia das bodas do Banner Coleman.

   A moça se sentia exatamente uma noiva enquanto se achava de pé na parte posterior da igreja, detrás de um biombo adornado com flores, olhando com curiosidade às pessoas que tinha renunciado a uma tarde de sábado para vê-la casar-se com o Grady Sheldon.

   Tinham sido convidados quase todos os habitantes do Larsen. E a julgar pela multidão que estava enchendo rapidamente os bancos da igreja, todos aqueles que receberam um convite se poliram e posto seus ornamentos de domingo para assistir à cerimônia.

   Banner moveu os pés ligeiramente e gostou do som rangente que fez o traje de seda contra suas pernas. A saia era estreita, seguindo a moda, e vincada, e cobria

os escarpines de cetim a jogo. O tecido restante se recolhia em uma almofadinha discreta na parte traseira, caindo em cascata em uma cauda curta. O corpete de tul, que se abria debaixo de seu queixo como as pétalas de um lírio, estava adornado com pérolas diminutas. Era transparente até onde se encontrava com a seda no suave declive de seus seios. Era um desenho provocador, em especial porque se atia à figura bem proporcionada do Banner, mas ao mesmo tempo resultava docemente virginal.

O véu de encaixe, que cobria recatadamente a escura cabeleira e o rosto, tinha sido encarregado a Nova Iorque pelas melhores costureiras do Larsen.

   Em geral, ao Banner ela gostava dos tons vivos, mas o traje de bodas de cor marfim contrastava perfeitamente com seus cabelos de um negro intenso. Sua tez era da cor dos damascos amadurecidos, não pálida como o soro do leite, conforme estava em voga, porque ela preferia expor-se ao sol sem o amparo de uma sombrinha, algo que as damas respeitáveis consideravam necessário.

   De sua mãe tinha herdado a propensão a ter sardas sobre o cavalete do nariz. Nos círculos de costura, as senhoras lamentavam essas manchas. "Uma garota tão bonita deveria cuidar-se mais de nosso sol."

   Fazia muito tempo que Banner se reconciliou com seu rosto. Não era uma beleza clássica, mas preferia a originalidade de seus rasgos. Não devia preocupar-se com um pouco tão corriqueiro como umas poucas sardas. Além disso, mamãe as tinha, e não por isso deixava de ser bela.

   A cor dos olhos o tinha herdado de seus progenitores. os de papai eram verdes; os de mamãe, da cor do uísque. Os seu estavam em um ponto intermédio: dourados, com uma mescla de verde. "Olhos de gato", diria alguém. Mas isso não era muito exato, pois não havia nada de cinza neles, a não ser só um intenso dourado formando redemoinhos-se no verde.

   A multidão se achava espectador e inquieta. O organista começou a tocar. O fole do órgão só deixou ouvir um pouco parecido a um ligeiro fôlego asmático. A felicidade bulia dentro do corpo do Banner e tingia suas bochechas de vermelhidões. Sabia que tinha um aspecto encantador. Sabia que era amada. sentia-se como uma noiva.

   Todos os bancos da igreja estavam ocupados. Da nave central, os assistentes do pastor pediam cortesmente às pessoas que se aproximassem mais uns aos outros para permitir que entrassem todos. Era de agradecer a brisa do sul que penetrava pelas altas e imponentes janelas, seis a cada lado da igreja, soprando brandamente sobre os convidados à bodas nessa calorosa tarde do verão. Os cavalheiros se revolviam e atiravam com força de seus pescoços incómodamente ajustados. As damas agitavam muito finos lenços e leques adornados de encaixe, fazendo bater as asas os volantes de organdi de seus vestidos.

   Impregnava o ar a fragrância das rosas, cortadas essa mesma manhã. As gotas de rocio ainda seguiam aderidas às pétalas aveludadas. Imparcial em relação às cores, Banner tinha eleito todas as tonalidades de flores disponíveis, do vermelho rubi até o branco níveo. Suas três damas de honra formavam uma pequena comitiva a escassa distância diante dela e vestiam trajes de cor bolo com largas bandagens ao redor da cintura. Pareciam tão frágeis como as flores que ornavam a igreja.

   Era as bodas mais perfeita que Banner Coleman podia imaginar.

   -Está preparada, princesa?

   Banner voltou a cabeça e contemplou a seu pai através do véu. Não o tinha ouvido aproximar-se.

   -Papai, está muito bonito!

   Ross Coleman lhe dedicou um sorriso que tivesse paralisado os corações de muitas mulheres. A maturidade não tinha feito mais que realçar seu atrativo. Agora havia fios chapeados em suas têmporas e em seu abundante bigode. Aos cinqüenta e dois anos era tão alto e largo de ombros como sempre. O trabalho duro lhe tinha mantido musculoso e magro. Vestido com traje escuro e camisa branca de pescoço alto, estava tão bonito como uma noiva podia desejar que estivesse seu pai.

   -Obrigado -disse Ross, com uma leve inclinação de cabeça.

   -Não me surpreende que mamãe se casasse contigo. Estava tão bonito o dia de suas bodas?

   Os olhos do Ross Coleman se separaram do Banner por um momento.

   -Conforme acredito recordar, não o estava.

   Tinha chovido aquele dia. Recordava a um grupo de emigrantes empapados reunidos fora de seu carromato, a uma Lydia tão assustada que parecia que ia sair correndo em qualquer momento, e a ele mesmo, ressentido e colérico. Tinha sido enganado para que se casasse com ela e estava furioso. achava-se muito longe de imaginar que seria o melhor que fazia em sua vida. Começou a trocar de opinião respeito dela quando o pastor disse: "Agora pode beijar à noiva", e ele a beijou pela primeira vez.

   -Casaram-lhes na caravana de carromatos.

   -Sim.

   -Suponho que a mamãe não importou que não estivesse muito bem vestido.

   -Suponho que não -disse Ross, com certa aspereza.

   Seu olhar esquadrinhou a parte dianteira da igreja até que se posou na mulher que tinha sido escoltada até a primeira fila uns minutos antes.

   -Está formosa hoje -disse Banner, seguindo a direção do olhar de seu pai.

   Lydia vestia um traje de seda de cor mel, adornado com contas. A luz do sol que penetrava através de uma das janelas acendia brilhos avermelhados em sua cabeleira.

   -Sim, está formosa.

   Em brincadeira, Banner lhe deu uma suave cotovelada.

   -Sempre pensa que está formosa.

   Os olhos do Ross voltaram a olhar a sua filha.

   -Também penso sempre o mesmo de ti.

   Examinou-a atentamente, observando o traje e o véu que de algum modo a fazia intocável. Logo pertenceria a outro e ele deixaria de ser o homem mais importante em sua vida.

   Lhe fez um nó na garganta ao admitir que a partir daquele dia a relação entre ele e sua filha trocaria para sempre, e él,deseaba que seguisse sendo uma menina pequena, sua princesa.

   -É uma noiva formosa, Banner. Sua mãe e eu lhe queremos. Não lhe entregamos com alegria, embora seja a um moço excelente como Grady.

   -Sei, papai. -As lágrimas empanaram os olhos do Banner. Ficando nas pontas dos pés, elevou-se o véu e beijou a seu pai na bochecha-. Eu também lhes quero. Sabe quanto devo amar ao Grady para lhes deixar a ti e a mamãe e me casar com ele.

   Dirigiu seu olhar à parte dianteira da igreja no momento em que se abria a porta que havia detrás da galeria do coro. O pastor, Grady e seus três padrinhos de bodas saíram em fila solenemente e ocuparam seus postos debaixo do arco de grinaldas e flores.

   As lágrimas do Banner desapareceram imediatamente, e sua boca desenhou um amplo sorriso de alegria. Grady estava muito arrumado com seu traje escuro. Seu cabelo castanho tinha sido escovado até ficar reluzente. mantinha-se erguido e firme, embora um pouco rígido. Assim estava a primeira .vez que Banner o viu. Foi no funeral de seu pai. Ela não tinha conhecido aos Sheldon. A mãe do Grady tinha morrido antes de que se mudassem ao Larsen e empreendessem seu negócio de madeiras. A morte do senhor Sheldon não significou para o Banner mais que uma moléstia quando seus pais lhe pediram que lhes acompanhasse ao funeral, pois isso significava passar um dia embelezada com saias, em lugar de com as calças que acostumava a levar no rancho, e ir à igreja em vez de observar aos jeans domar a uma égua brincalhona.

Tinha quatorze anos. Recordava com nitidez quanto lhe impressionou a atitude do Grady, quem então tinha vinte e tinha permanecido de pé estoicamente ante a sepultura.

Ficou-se sozinho no mundo. Para o Banner, que vivia rodeada de pessoas que a amavam, algo semelhante era impensável. Quão pior podia lhe acontecer a uma pessoa era estar sozinha e sem afeto. Evocando aquela cena, pensou que devia ter começado a amar ao Grady então por sua integridade.

   Cada vez que lhe apresentava a ocasião, acompanhava ao Ross ao armazém de madeira. Mas não foi até fazia quase um ano quando Grady pareceu reparar nela. Teve uma reação tardia o dia em que ela entrou em armazém de madeira com Lê e Micah. Ao princípio a confundiu com um moço, posto que como tal ia vestida, mas ficou boquiaberto de assombro quando Banner se tirou o chapéu e uma massa de cabelos negros caiu em torno de seus ombros e sobre seus seios, que davam forma a uma camisa de algodão de corte masculino.

   Logo Grady começou a visitá-la para dar passeios em seu tílburi, a tirá-la a dançar nas festas e a sentar-se junto a ela durante os serviços religiosos. Era um dos numerosos jovens que rivalizavam por cortejá-la, mas Banner chegou a ter a perturbadora certeza de que, fossem quem fosse seus outros pretendentes, ele era seu preferido.

   O dia em que Grady perguntou formalmente ao Ross se podia cortejar a sua filha, lhe seguiu da casa montando ao Dusty, apesar de que a égua nunca tinha sido montada antes.

   -Grady! -gritou Banner, saltando de suas arreios e correndo atrevidamente para ele quando deteve seu tílburi.

   Quando Grady baixou, Banner se jogou em seus braços com os olhos brilhantes e as bochechas acesas.

   -O que disse?

   -Disse que sim!

   -OH, Grady, Grady! -exclamou Banner, lhe abraçando com força.

   Logo, dando-se conta de que não se comportava como uma dama, e menos como uma dama recatada, pôs distância entre ambos e lhe olhou através de suas pestanas espessas e escuras.

   -Suponho que posto que agora me corteja oficialmente, pode me beijar se o desejar.

   -Eu... é correto? Está segura?

   Os cachos negros do Banner saltaram quando assentiu ansiosamente com a cabeça. Em realidade, acreditava que morreria se ele a beijava. Todo seu ser desejava sentir os lábios do Grady contra os seus.

   Grady baixou a cabeça e a beijou castamente na bochecha.

   -Isso é tudo?

   Grady se apartou e leu no rosto do Banner uma assombrada expressão de decepção. Como a moça não fez nenhum movimento para separar-se pudorosamente, que era o que Grady esperava, o jovem se decidiu a beijá-la na boca.

   Foi agradável, mas de algum modo seguia sendo decepcionante. Não era a classe de beijo da que tinha ouvido falar com Lê e Micah em ardentes sussurros quando não sabiam que ela andava rondando. Os beijos que eles descreviam com minuciosos detalhes eram muito mais íntimos. falava-se de línguas. Mamãe e papai não se beijavam com os lábios fortemente apertados e seus corpos nem sequer se tocavam.

   Banner, atuando por curiosidade e impulso, rodeou com seus braços o pescoço do Grady e arqueou seu corpo contra o do moço, quem emitiu um som de sobressalto antes de decidir-se a abraçá-la posesivamente. Mas ele seguia sem abrir a boca.

   Vários segundos mais tarde, separou-a dele.

   -Por Deus, Banner. Que tráficos de fazer?

   Banner se ruborizou. De fato, sentia que partes de seu corpo, nas que antes logo que tinha reparado, estavam acaloradas e febris. Desejava que pudessem casar-se essa mesma tarde, desejava que esse lento fogo seguisse ardendo dentro dela até... bom, até isso.

   -Lamento-o, Grady. Sei que não me comportei como uma dama. É que te quero muitíssimo.

   -Também eu te quero.

   O moço voltou a beijá-la antes de retornar ao tílburi e despedir-se.

   Embora Leia e Micah se burlavam dela de forma desumana, Banner começou a passar menos tempo fora da casa perambulando pelos currais e a permanecer mais horas dentro em companhia da Lydia e Mami. Mami Langston estava lhe ensinando a bordar. dedicou-se a trabalhar com concentração e esmero em capas de travesseiro e toalhas de mesa que engomava com grande cuidado, pregava e guardava no arca de seu enxoval.

   Sempre tinha detestado as tarefas domésticas e as evitava quando podia. Entretanto começou a ajudar a Lydia, sugiriendo incluso certas mudanças na distribuição dos móveis e que se renovassem as cortinas do salão.

   Os momentos que passava em companhia do Grady eram de fascinação e romantismo. achava-se felizmente apaixonada. Quando Grady pediu ao Ross que autorizasse seu matrimônio, Banner se sentiu arrastada por um torvelinho de felicidade, que ainda a mantinha cativa.

   Agora contemplava ao Grady com o amor que a tinha levado a altar. O coração lhe dava saltos no peito ao pensar na noite que se morava. Cada dia lhes havia flanco mais reprimir o desejo que os beijos despertavam em ambos. Fazia umas poucas noites, quando ela o tinha acompanhado até seu tílburi estacionado debaixo da nogueira do pátio dianteiro, o controle que Grady se impunha cedeu. Com os braços de um envolvendo o corpo do outro, tinham vibrado juntos. A bochecha da moça descansava sobre o coração do Grady, por isso pôde ouvir que pulsava tão rapidamente como o seu.

   -Só cinco dias mais e não teremos que nos dizer boa noite e separamos. Poderemos nos dizer boa noite em nossa própria cama.

   Grady gemeu.

   -Banner, carinho, não fale assim.

   -por que? -perguntou ela, elevando a cabeça para lhe olhar.

   Grady lhe separou da bochecha uma mecha de cabelo.

   -Porque faz que te deseje mais.

   -Deseja-me Grady?

   Não tinha nenhum sentido fingir que não sabia o que ele queria. Não tinha crescido em um rancho de cavalos sem adquirir um conhecimento suficiente do emparelhamento.

Além disso, a simulação era contrária ao caráter do Banner. Nunca lhe tivesse ocorrido aparentar ignorância.

   -Sim -suspirou ele-. Desejo-te.

   A boca do Grady se apertou contra a do Banner. Os lábios dela se abriram. O vacilou só um momento antes de tocar com sua língua os lábios abertos da moça.

   -OH, Grady.

   -Sinto muito, eu...

   -Não. Não te detenha. Volta a me beijar assim.

   Grady a introduziu em um modo novo de beijar, um modo que a aturdia, a fazia ofegar e a voltava mais ardente. Mas mais que aliviar o anseia de seu corpo, parecia intensificá-la. Banner se apertou contra ele.

   -Banner -gemeu o moço.

   A mão do moço se deslizou do ombro do Banner para sua cintura, mas em sua descida encontrou a plenitude de seu seio. deteve-se ali e logo apertou.

   A sensação que percorreu o corpo do Banner foi bastante mais intensa do que ela tivesse esperado. Assustada por essa força que bulia em seu interior, separou-se do Grady.

   Os olhos do moço se entrecerraron um instante, sua cabeça caiu para frente e ficou cabisbaixo, envergonhado de si mesmo.

   -Banner... -começou a dizer.

   -Por favor, não te desculpe, Grady. -O suave tom de voz da moça fez que levantasse a cabeça e a olhasse aos olhos-. Eu quis que me tocasse. E sigo querendo-o.

Mas sei que se supõe que as garotas não devem atuar como se desfrutassem com os... aspectos mais baixos da vida conjugal. Não quero que pense mal de mim. Essa é a razão pela qual te detive.

   Grady agarrou as mãos da moça entre as suas, as levou aos lábios e as beijou com ardor.

   -Não penso mal de ti. Amo-te.

   Banner riu, com essa risada rouca e áspera que tinha feito perder o sonho a mais de um vaqueiro empregado no rancho de seu pai, ocupado em pensar como seria tombar ao Banner Coleman.

   -Não terá uma noiva tímida em suas mãos, Grady. Não deverá me persuadir de que vá à cama contigo.

   Mais tarde, ao entrar na casa ouviu o Ross e Lydia falar tranqüilamente no salão.

   -Crie que está preparada para o matrimônio? Logo que tem dezoito anos -dizia Ross.

   Luta riu brandamente.

   -É nossa filha, Ross. Toda sua vida viu como nos amamos nós. Não acredito que o amor conjugal guarde nenhum secreto para ela. Está preparada. Quanto a sua idade,

a maioria de seus amigas estão casadas já. Algumas inclusive têm meninos.

   -Não são minhas filhas -resmungou Ross.

   -Vêem aqui e sente-se. vais gastar o tapete com tanto caminhar.

   Banner percebeu os movimentos de seu pai quando se sentou junto a sua mãe no sofá. Podia imaginá-lo rodeando com um braço a Lydia, que se acurrucaría contra ele.

   -É Grady quem se preocupa?

   -Não -respondeu Ross a contra gosto-. Suponho que é o que aparenta, resolvido e ambicioso. Parece amar ao Banner. Por Deus, convém-lhe comportar-se bem com ela, ou terá que as ver-se comigo.

   Banner quase podia ver os dedos tranqüilizadores de sua mãe acariciando os cabelos do Ross.

   -Possivelmente Banner dele faça um bom marido. É uma jovem teimosa. Ou não o advertiste?

   -Pergunto-me que vontade sendo assim -disse Ross carinhosamente.

   A essas palavras seguiu um silêncio. Banner sabia que estavam abraçando-se de um modo que teria assombrado à maioria de seus amigas, que nunca tinham visto seus pais tocar-se. Pôde ouvir o rangido de suas roupas quando se acomodaram depois do beijo.

   Ross foi o primeiro em falar.

   -Quero tanto para nossos filhos! Muito mais do que você e eu tivemos de meninos.

   -Não recordo nada anterior ao dia que te conheci.

   -Sim, sei -replicou Ross com doçura-. O mesmo me acontece . Não me preocupo tanto por Lê. Ele pode cuidar de si mesmo. Mas Banner... -Suspirou-. Mataria a qualquer homem que lhe fizesse mal. Suponho que me tranqüiliza saber que o pior de meus temores não se cumpriu.

   -Qual era?

   -Que algum vaqueiro inútil chegasse algum dia e lhe fizesse perder a cabeça.

   -Ao Banner não impressionam os jeans. criou-se com eles.

   -Tampouco teve nunca dezoito anos nem esse olhar em seus olhos. Leva-a quase dos dezesseis.

   -Que olhar?

   -A que tem você cada vez que começo a me desabotoar a camisa.

   -Ross Coleman, é um presunçoso.

   A reprimenda de sua mulher foi interrompida, e Banner não duvidava de que os lábios de seu pai eram os responsáveis.

   -Eu não tenho nenhuma aula de olhar especial -protestou Lydia fracamente uns instantes mais tarde.

   -OH, sim, claro que a tem. Em realidade -disse Ross baixando a voz- tinha-a faz um momento. Vêem aqui, mulher -sussurrou ele antes de que se produje outro profundo silêncio.

   Sonriendo, Banner apagou o abajur do vestíbulo e subiu pelas escadas em direção a seu quarto. contemplou-se no espelho que havia sobre o penteadeira, apertando

o nariz contra o vidro e fixando o olhar profundamente em seus olhos.

   Tinha "esse olhar"? Era essa a razão pela qual Grady se atreveu a tocá-la em um desses lugares proibidos dos que ela e seus amigas falavam às escondidas? Era malote por querer que a acariciassem? Era mau Grady porque quis tocá-la?

   Se lhe custava conter-se, como deveria ser para o pobre Grady, que era um homem e, portanto, tinha instintos físicos mais difíceis de controlar?

   Deitou-se com a intenção de dormir, mas sua mente estava tão desassossegada com as perguntas como o estava seu corpo com o desejo de experimentar o desconhecido.

   Bem, enquanto contemplava a suas donzelas de honra avançando em fila pela nave central da igreja como tinham ensaiado no dia anterior, pensou que já não tinha que esperar muito mais.

   -Agora nos toca , princesa -disse Ross-. Preparada?

   -Sim, papai.

   Estava preparada. Estava preparada para ser amada por um homem, para que o fogo oculto que se escondia em seu corpo se acendesse e fora extinto; estava preparada para pertencer a um homem, para ter a alguém em seus braços de noite, para que alguém a tivesse a ela nos seus; estava cansada de sentir-se culpado pelos beijos e os momentos roubados quando a paixão ameaçava transpassando os limites do decoro.

   Ross a ajudou a rodear o biombo. Começavam a caminhar pela nave quando a música do órgão se fez mais intensa depois de uma pausa efectista. Todos ficaram em pé e olharam à noiva quando iniciou sua lenta marcha. Banner foi saudada por muito rostos amigos, a maioria dos quais eram conhecidos de toda a vida. Banqueiros, lojistas, comerciantes, advogados, rancheiros e granjeiros vizinhos tinham acudido acompanhados de suas famílias o dia das bodas do Banner Coleman. Com um descaramento incomum para uma noiva, Banner lhes devolvia o sorriso.

   Os Langston estavam juntos na fila situada diretamente detrás da Lydia. Em primeiro lugar se achava Mami, quem pugnava por conter umas lágrimas sentimentais.

A seguir estava Anabeth, seu marido, Héctor Drummond, E seus filhos, junto com o Marynell. Micah se encontrava entre o Marynell e o meio irmão do Banner, Lê.

   Os atormentadores do Banner. Inclusive nesses momentos, enquanto lhes olhava de soslaio, a noiva podia adivinhar que se esforçavam por não prorromper em risadas impróprias para a ocasião. Mami e Ross lhes lançaram olhadas fulminantes.

   Os moços se converteram em cupinchas inseparáveis quando Micah se mudou ao River Bend com sua mãe. Ao princípio Banner tinha estado vengativamente ciumenta do Micah, que lhe tinha tirado a seu único companheiro de jogos. Micah ainda lhe recordava a ocasião em que ela colocou um cardo debaixo da arreios de seu cavalo. O animal o despediu violentamente, mas por fortuna se salvou de uma lesão grave ou da morte, pela que Banner com seus seis añitos tinha rezado.

   Banner sempre tinha seguido os passos dos moços, lhes rogando que a deixassem participar de qualquer travessura que estivessem tramando. Freqüentemente o permitiam, mas só para utilizá-la como cabrito expiatório quando fossem agarrados.

   Apesar das disputas que mantinha com eles, amava-os intensamente. Aquele dia, de pé um ao lado do outro, estavam muito bonitos; Lê, com seu cabelo escuro e seus cintilantes olhos marrons, que tinha herdado de sua mãe, Vitória Gentry Coleman, e Micah, tão belo como todos os Langston.

   O olhar do Banner alcançou ao último homem dessa fileira de bancos, quem recebeu a mais luminosa de seus sorrisos. Jake.

   Jake, a quem tinha adorado desde que tinha memória. Recordava vividamente cada uma de suas escassas visitas. Estava acostumado a levantá-la por cima de sua cabeça, mantendo-a ali, sonriéndole até que ela esperneava e pedia clemência, desejando entretanto que não a soltasse nunca.

   Ninguém era tão alto como Jake, nem tão forte, nem tão loiro, nem tão garboso. Ninguém podia empurrar mais alto o balanço. Ninguém relatava melhor que ele contos de fantasmas.

   Jake tinha sido seu herói, seu cavalheiro de armadura reluzente. Os dias mais felizes de sua vida tinham sido aqueles em que Jake chegava ao River Bend, porque sua presença ali também fazia felizes a todos outros. Mami, Lydia, Ross, Lê e Micah, o velho Moisés antes de morrer, todos esperavam com ânsias as visitas do Jake, cujo único aspecto negativo era que terminavam com muita rapidez e se realizavam com escassa freqüência.

   Quando Banner foi crescendo e se deu conta das poucas vezes que gozavam da companhia do Jake, a idéia de sua partida estava acostumada eclipsar a alegria de lhe ter ali. Não podia desfrutar por completo de sua visita porque sabia que ele partiria e passaria muitíssimo tempo até que pudesse voltar a lhe ver.

   Por essa razão se armou uma gritaria essa manhã quando Micah e Lê chegaram à casa para tomar o café da manhã e este anunciou:

   -Olhe a quem encontramos dormindo no estábulo esta manhã.

   Lê empurrou ao Jake através da porta traseira. Imediatamente foi rodeado por pessoas que puseram-se a rir e começaram a tagarelar todas ao mesmo tempo.

   -Jake!

   -Filho!

   -Bom, caramba!

   -Ross, vigia sua linguagem. Os meninos.

   -por que estava dormindo no estábulo?

   -A meu cavalo lhe colocou uma pedra na ferradura a noite passada quando descemos do trem.

   -Nós também viajamos no trem, tio Jake!

   -Sim, e ela estava assustada, mas eu não.

   -Eu não estava assustada!

   -A que hora chegou?

   -De onde? Do Fort Worth?

   -Sim, do Fort Worth.

   -Era tarde. Não queria incomodar a ninguém.

   -Como se alguma vez incomodasse.

   Mami lhe abraçou com força, apertando-o contra seu corpo pesado, enxugando-as lágrimas de emoção que umedeciam seus olhos. Logo, aturdida, iniciou uma reprimenda por quão magro estava.

   -Sente-se e te trarei algumas bolachas e molho. É que esse rancheiro do Panhandle não alimenta a seus trabalhadores? Vi cobras mais gordas que você. Lavaste-te as mãos? Marynell, tira seu nariz desse livro e serve um pouco de café a seu irmão maior. Anabeth, faz calar aos meninos. Estão fazendo mais alvoroço que um punhado de pedras em um cubo.

   Jake tinha a um pequeno Drummond atirando de cada perna como se ele fosse o huesecillo da sorte. Outro lhe tinha pego o chapéu e estava provando-lhe que ainda não podia caminhar tinha engatinhado até seus pés e estava golpeando a ponta de sua bota com uma colher. Anabeth se abriu passo entre seus filhos para beijar a bochecha de seu irmão e lhe sussurrou ao ouvido:

   -Mami esteve muito preocupada com ti.

   Depois de entregar essa mensagem fraternalmente privada, apartou aos meninos e lhes fez sair da casa, indicando ao maior que cuidasse do pequeno.

   Lydia se lançou aos braços abertos do Jake.

   -Alegra-me muito que tenha podido vir. Preocupava-nos que não pudesse fazê-lo.

   -Não tivesse deixado de vir -disse Jake, enquanto seus olhos azuis foram de um rosto querido a outro-. Olá, Ross -saudou, desprendendo-se da Lydia para estreitar a mão do Ross-. que tal vão as coisas?

   -Estupendamente, estupendamente. E a ti, Bubba?

   De vez em quando lhes escapava o velho apodo.

   -Bastante bem, suponho.

   -Que tal é o trabalho?

   -Deixei-o.

   -Deixou-o? -inquiriu Mami, voltando da cozinha com um prato de bolachas quentes em suas mãos.

   Jake franziu o sobrecenho, pois obviamente não queria danificar o ambiente festivo falado de sua ociosidade.

   -Tinha que dever ver à noiva, não é assim? Por certo, onde está?

   Seus olhos percorreram o grupo reunido ao redor, passando por cima ao Banner deliberadamente. Ela se tinha ficado atrasada a propósito, com o desejo de captar toda sua atenção quando ele a saudasse.

   -Jake Langston, você sabe que sou a noiva.

   Precipitou-se para frente e se jogou nos braços do homem, que rodearam sua cintura. Jake a levantou, fez-a dar duas ou três voltas completas antes de voltar

a deixá-la no chão, e logo, apartando-a, disse:

   -Não, não pode ser a noiva. A Banner Coleman que conheço tem tranças, acne e buracos nos joelhos dos calções. me deixe ver seus calções e saberei se for você.

   Jake se inclinou para lhe elevar a saia do vestido. Ela começou a chiar e a lhe pegar nas mãos.

   -Já não voltará a ver meus calções, nem meu acne. Agora sou uma mulher adulta, ou não o advertiste?

   Banner adotou uma pose arrogante que punha de manifesto sua maturidade. Colocou uma mão no quadril e a outra detrás de sua cabeça, que jogou energicamente para trás.

   Lê riu a gargalhadas. Micah assobiou lujuriosamente e aplaudiu. Jake estudou à filha dos Coleman, a quem tinha conhecido do berço.

   -Claro que o é -observou com seriedade-. Uma mulher adulta.

   Jake posou suas mãos nos ombros do Banner e se inclinou para lhe beijar a bochecha respetuosamente. Logo, para consternação da moça, sua mão aberta caiu em cima de seu traseiro com uma palmada sonora.

   -Mas para mim segue sendo uma mucosa. me traga uma cadeira para que possa comer estas bolachas antes de que se esfriem.

   Banner se sentia muito feliz de lhe ver para ofender-se, inclusive apesar de que todos se riram dela. Seu coração se alargou ainda mais quando se precaveu de

que Jake a olhava enquanto ela avançava pelo corredor. Estava orgulhosa dele, orgulhosa de que esse homem alto com o cabelo de um loiro esbranquiçado e brilhantes olhos azuis pertencesse a sua família. Bom, virtualmente.

   Jake tinha trocado suas roupas de vaqueiro por uma camisa branca e uma jaqueta de couro negro. O lenço de cores que usava sempre tinha sido substituído por um gravata-borboleta negro e estreito. Mas a cartucheira com as pistoleras seguia rodeando seus quadris. Banner supôs que resultava difícil eliminar alguns hábitos.

   Banner sabia que o comportamento do homem não resistiria um exame muito rigoroso. Provavelmente, fazia certas coisas que era melhor que a lei desconhecesse.

Estava segura de que se embebedava, jogava por dinheiro e perdia o tempo com a classe de mulheres cuja existência se dava por sentado que ela ignorava. O porte elegante e perigoso só o fazia mais atrativo. Sem dúvida, as garotas solteiras que assistissem à festa de bodas pediriam que Jake os fora apresentado.

   Um desses olhos de um azul cristalino rodeado por brilhos dourados se fechou, dirigindo ao Banner uma piscada rápida e clandestina. Ela o devolveu, recordando todas as ocasiões em que lhe tinha crédulo secretos que jurava que não tinha podido revelar nem a Lê nem ao Micah. Banner lhe tinha acreditado porque quis. A amizade entre eles ficava assim mezquinamente protegida. Cada palavra que lhe tinha murmurado era guardada porque Banner era muito ciumenta em tudo o que correspondia a aquele homem.

   Sabia que havia um vínculo entre o Jake e seus pais, em especial entre ele e sua mãe, que era reservado e sagrado. Entretanto, apesar de ser um tema do que nunca se falava, Banner sempre tinha intuído sua existência. Fora o que fosse, estava contente disso, porque mantinha ao Jake em suas vidas.

   Olhou a sua mãe quando ela e Ross passaram junto à primeira fileira de bancos.

   -Quero-te, mamãe -sussurrou.

   -Eu... nós também lhe queremos -disse Lydia, também em um sussurro e incluindo o Ross no carinho. As lágrimas apareciam em seus olhos, mas sorria.

   Banner sorriu a ambos antes de situar-se diante do pastor. Ross ocupou seu posto entre o Banner e Grady.

   -Quem entrega a esta mulher em matrimônio? -perguntou o pastor.

   -Sua mãe e eu.

   Ross dirigiu o olhar ao rosto do Banner. Os olhos verdes do homem estavam empanados. Estreitou a mão de sua filha e logo deslizou sua mão na do Grady. A seguir se uniu a Lydia na primeira fila.

   Banner ouviu ruído de pés arrastando-se pelo chão quando os congregados voltaram a tomar assento. Olhou fixamente o rosto de seu noivo, sabendo que nenhuma mulher no mundo tinha sido mais ditosa que ela nesse momento. Grady era o homem com quem tinha decidido passar sua vida. amariam-se como o faziam mamãe e papai. Lhe faria feliz cada dia, custasse o que custasse. sentia-se tão segura do amor do Grady como de que ele estava olhando-a.

   O pastor começou a cerimônia. As palavras poéticas adquiriram um significado novo para o Banner. Sim, as frases expressavam perfeitamente o que ela sentia.

   Nesse instante, soou um disparo.

   O estrondo destroçou a serena quietude da igreja e retumbou ao redor do Banner como partes agudas de vidro.

   Gritos.

   Um murmúrio nervoso surgiu dos assistentes. Banner voltou rapidamente a cabeça. Grady se desabou sobre ela.

   Uma ferida profunda se abriu no ombro do moço como uma flor vermelha, manchando seu traje escuro de bodas.

 

   -Grady!

   Sob o peso lhe esmaguem do corpo do Grady, Banner caiu ao chão. esforçou-se por incorporar-se e apoiar a cabeça do Grady em seu regaço. De maneira automática começou a lhe afrouxar a gravata e o pescoço. Leves sons que expressavam um terror absoluto brotaram da garganta da moça. Os olhos do Grady estavam abertos e com o olhar perdido, sem conseguir repor do impacto. Moveu os lábios inutilmente, pois de sua boca não surgiu nenhuma palavra.

   Mas ainda estava vivo. Banner choramingava preces de gratidão enquanto cobria a ferida com sua mão nua, tentando deter o fluxo de sangue.

   Na fração de segundo em que tudo aconteceu, Jake tirou seu revólver e se girou para o homem que se achava ao outro lado da janela mais próxima sustentando um revólver que apontava para a parte dianteira da igreja.

   -A noiva será a seguinte.

   A advertência, emitida com uma voz estridente e malévola, foi sublinhada por outro disparo dirigido ao altar.

   Não só Jake, mas também todos os peões do River Bend que assistiam à bodas tinham tirado seus revólveres e apontavam ao homem da janela. Aterrorizada-las mulheres afundaram a cabeça no regaço, cobrindo-se com os braços. Os homens se acurrucaron entre os bancos protegendo a seus filhos de uma ameaça que ainda não tinha sido determinada nem identificada.

   -Atirem todos os revólveres -gritou o homem, como um demente.

   -Ross? -disse Jake.

   -Obedece.

   Quando se produziu a primeira detonação, Ross se agachou em um movimento reflito jogando mão de seu Colt, só para descobrir que não o levava. Quem tivesse pensado que ia necessitar seu revólver de seis tiros nas bodas de sua filha? Amaldiçoou com fúria para seus adentros.

   Com pesar, Jake arrojou seu revólver ao chão, como também fizeram os peões do River Bend. Só então o homem que se achava na janela passou uma perna pelo batente e entrou na igreja. Atirava de uma jovem que ia detrás dele. Apoiando a palma de sua mão nas costas da moça, empurrou-a para frente.

   -Sou Doggie Burns e esta é minha querida filha, Wanda.

   Nenhum dos dois necessitava apresentação. Doggie Burns destilava o melhor licor ilegal na parte oriental do Texas. Tinha clientes que percorriam quilômetros para prover-se de sua fórmula da Virginia ocidental. Mas a maior parte deles limitava sua relação com o homem aos aspectos mercantis. Era ardiloso, matreiro, perigoso e absolutamente ruim, e qualquer que tivesse ouvido falar dele o conhecia.

   Ele e a garota foram sujos. O cabelo de cor pardusco da Wanda caía murcho e gordurento até seus ombros. As axilas da camisa do Doggie mostravam os cercos de gerações de manchas de suor. Suas roupas estavam desfiadas e mau remendadas. Ambos profanavam a antiga capela, especialmente ornada para a ocasião. Como uma greta em um diamante perfeito, eram o que todo mundo via e destruíam toda beleza ao redor.

   -Apesar de que ódio interromper as cerimônias -disse Burns sarcásticamente, saudando a Lydia com seu chapéu antes de voltar a ajustar-lhe sobre seu cabelo gordurento-,

é meu dever como pai impedir que se leve a cabo estas bodas.

   Grady gemeu de dor e se tocou a ferida que tinha no ombro.

   -Por favor, que venha alguém -gritou Banner-. Lhe ajudem.

   Banner se tinha jogado o véu para trás. Os olhos pareciam enormes em seu rosto. Lydia lhe entregou um lenço para tapar o buraco lhe sangrem no ombro do Grady.

   -Não vai morrer, jovencita -disse Burns, passando sua repulsiva bola de tabaco de um lado a outro da boca. Rios marrons do suco do tabaco mancharam as rugas ao redor de sua boca-. Se me tivesse proposto lhe matar, não haveria sentido a bala que lhe alcançou. Quão único fiz foi interromper as bodas por causa do que este bastardo fez a minha filha.

   Nesse momento os congregados se deram conta de que a situação não supunha nenhuma ameaça para eles. As cabeças se elevaram timidamente. A linguagem grosseira do Burns levantou um murmúrio de protestos virtuosos e uns quantos leques começaram a agitar-se.

   -O que quer? -perguntou o pastor-. Como se atreve a ofender ao Senhor em Sua própria casa?

   -Pare o carro, pastor. A eles poderá lhes recitar palavras altivas, mas eu vim a acabar com estes dois.

   Lydia se tinha posto em pé para ouvir a detonação da bala e logo Ross a tinha rodeado com um braço protetor. Agora ele se separou e avançou para o Burns.

   -Muito bem, Burns, conseguiu chamar a atenção de todos. O que quer?

   -Vê o ventre de minha moça? -disse, assinalando com o canhão de seu revólver o ventre volumoso da moça-. Está cheio do bode do Sheldon.

   -Isso não é verdade! -gritou Grady com voz rouca.

   -por que faz isto? Não o entendo! -exclamou Banner, quem de repente compreendia o que estava acontecendo. Até esse momento, Grady, em sua dor, tinha merecido toda sua atenção-. por que veio aqui para arruinar minhas bodas desta maneira? por que?

   Todos os pressente estavam pasmados pela cena. Essa classe de espetáculo nunca se produzia em uma cidade pequena como Larsen. Seria um relato para entreter aos círculos de intrigas durante décadas. O auditório estava pendente de cada palavra.

   -Justiça -disse Burns, exibindo um sorriso repugnante-. Não me parece nem correto nem decoroso que você se case com quando lhe tem feito um filho a meu Wanda, entende-o agora?

   Grady se incorporou e, apesar de que as mãos do Banner impediam seus movimentos, lutou por ficar em pé. Cambaleando-se, dirigiu-se aos Burns.

   -Ela não está grávida de mim.

   Essas palavras pronunciadas em voz alta provocaram outra quebra de onda de murmúrios entre quem presenciava a cena.

   Banner se levantou, agarrou o braço do Grady e, desafiante, enfrentou-se ao pai e à filha que estavam fazendo todo o possível por destroçar seu perfeito dia de bodas, sua vida perfeita, seu futuro perfeito. Nem sequer advertiu que a parte dianteira de seu traje estava manchada de sangue, nem emprestou atenção aos comentários especulativos que surgiam da concorrência.

   Vários dos homens convidados tinham baixado o olhar em um gesto de culpabilidade. Lê, incômodo, trocava o apoio de seu corpo de um pé ao outro, evitando os olhos furiosos do Doggie Burns e à áspera e taciturna Wanda. Micah tragava saliva convulsivamente enquanto Mami LangstOn lhe escrutinava com olhos coléricos e inquisidores, que teriam feito sentir culpado a um arcanjo.

   -Bom, Wanda diz que foi você, Sheldon -disse Doggie burlonamente-. Não tocou a Wanda?

   Deu uma suave cotovelada à moça empurrando-a para frente para que todos pudessem ver com claridade seu abdômen, inchado pelo embaraço.

   Não havia nada de vergonha nos olhos que maliciosamente observavam aos pressente. A boca da moça se apertou formando uma panela lambida. Aqueles homens que tinham contribuído a fomentar a má reputação da Wanda lamentavam o dia que a tocaram e agradeciam ao Senhor que o único acusado fosse Grady Sheldon. Numerosas promessas de abstinência se elevaram ao céu.

   -É dele, isso -disse Wanda ressentidamente-. Não me deixava em paz, acossava-me quando meu pai não estava em casa. Importunava-me. Ele... ele...

   -Adiante, Wanda, neném, lhes diga o que fez.

   Depois de uma pausa teatral, Wanda baixou o queixo, agarrou uma parte de fiapos de seu vestido e resmungou:

   -Fez o que quis comigo.

   -Isso é uma maldita mentira! -exclamou Grady, cuja voz se impôs à indignação que se manifestou nos bancos.

   Burns se adiantou, empunhando de novo o revólver.

   -Está chamando mentirosa a minha doce filha?

   -Se disser que a obriguei, sim.

   Grady empalideceu, mais que pela perda de sangue, pela comoção e a dor. Nesse instante se deu conta de que ele mesmo se delatou. Seu olhar se posou primeiro no Banner, que estava tão branca como seu vestido, e logo no Ross, que parecia tão sombrio como o mesmo diabo.

   -Eu... quero dizer...

   Ross arremeteu contra ele e o agarrou das lapelas, sacudindo-o até que ambos ficaram frente a frente.

   -estiveste cortejando a esta prostituta enquanto estava comprometido em matrimônio com minha filha? -rugiu.

   Jake se tinha deslocado como o mercúrio e se achava parado junto ao Ross. Quando Grady começou a gemer de dor e a balbuciar objeções ao rude comportamento do Ross, Jake se inclinou e voltou a desencapar seu revólver. Burns não disse nada nem fez gesto de lhe deter. A censura coletiva tinha trocado. A concorrência tinha deslocado seus olhares de menosprezo dos Burns para o Sheldon.

   Jake martelou o Colt e apoiou seu canhão comprido e letal contra o pescoço do Grady.

   -Bom, senhor, estamos esperando.

   Grady lançou a ambos os homens um olhar de absoluta aversão.

   -Possivelmente tenha estado com a garota umas poucas vezes.

   Os nódulos do Ross se voltaram brancos contra a jaqueta escura do Grady. Um rugido selvagem retumbou em seu peito. Grady gaguejou:

   -C-c-quase todos os homens da cidade se deitaram com ela. Poderia ter sido qualquer.

   -Todos os homens da cidade não foram casar se com minha filha -grunhiu Ross.

   Soltou ao Grady tão abruptamente que o moço quase voltou a cair ao chão de joelhos.

   -Como pôde? -perguntou Banner rompendo o silêncio tenso que seguiu às palavras de seu pai.

   Grady tragou saliva com dificuldade e avançou para ela cambaleando-se.

   -Banner -disse, estendendo os braços em um gesto implorante.

   -Não me toque. -Banner retrocedeu enojada-. Não posso suportar pensar que me toca com as mesmas mãos com que você...

   Banner se voltou para olhar a Wanda Burns, que estava parada com uma mão sobre seu quadril projetado para fora, mostrando uma expressão de regozijo triunfal.

   Banner girou sobre seus talões e começou a caminhar pela nave da igreja. Esta sua vez andar eram combativos, altivos e orgulhosos. Sua mãe saiu detrás dela, igualmente impertérrita. Os Langston se agruparam detrás ambas as mulheres. Os jeans do River Bend, como um pequeno exército, saíram um após o outro e fecharam filas em torno dos Langston na entrada da igreja enquanto estes montavam em seus cavalos e subiam a seus carros, uns veículos ligeiros arrastados por um só cavalo.

   Ainda no altar, Ross estava tão furioso que se balançava sobre as pontas de seus pés, tremendo de raiva. Seus olhos brilhavam de cólera. diante de toda a cidade, do pastor e de quantos pudessem lhe ouvir, lançou sua advertência:

   -Se voltar a te aproximar de minha filha, matarei-te. Entendido? E antes de que termine contigo, rogará estar morto.

   Dito isto, deu-se a volta e saiu da igreja com passo gracioso. Jake manteve ao Grady cativo de seu olhar glacial durante uma breve eternidade. De forma gradual foi baixando o revólver e voltou a guardá-lo na pistolera.

   -Tivesse-me gostado de te matar neste mesmo momento.

   O tinido de suas esporas foi o único som que se ouviu na igreja quando Jake avançou pela nave em direção à porta. Quando saiu, Banner estava sentada no carro, coberta nos braços confortantes de sua mãe, soluçando desconsoladamente. Seus defensores estavam abatidos. Ninguém se olhava aos olhos.

   Jake montou de um salto em seu cavalo emprestado. Posto que a preocupação fundamental do Ross era sua filha, Jake assumiu o papel de líder.

   -Micah, Lê, fica na retaguarda. Se alguém nos seguir, façam-me saber. Outros, lhes desdobre em leque. Mantenham os olhos abertos.

   Todos obedeceram suas ordens sem pigarrear, formando um escudo de lealdade feudal para proteger à família.

   Jake levou seu cavalo para o carro que conduzia a outros. Ross, com o rosto endurecido como se fosse de granito, agarrava as rédeas enquanto Banner e Lydia foram acurrucadas uma junto à outra, chorando em silêncio. Ross olhou ao Jake quando este pôs seu cavalo ao mesmo tempo do carro.

   -Obrigado.

   Jake fez um gesto lacônico com a cabeça. Sobravam as palavras.

 

   River Bend tinha sido engalanada para a festa de bodas que nunca se celebraria. O atalho que unia o caminho do rio com a casa principal foi a primeira ofensa para a suscetibilidade do Banner. Em cada poste da cerca caiada pendiam cintas e flores.

   Seu pesar se intensificou quando contemplou a casa. O corrimão que rodeava o alpendre frontal estava adornada com grinaldas de madressilvas em flor. Para decorar as novelo dos vasos de barro se utilizaram ramitos de campanitas amarelas. No pátio dianteiro se instalaram largas mesas para dar capacidade aos mantimentos e as bebidas preparados com antecipação para a multidão de convidados que nunca viria. Era como contemplar um quarto infantil amorosamente preparado para um bebê nascido morto.

   Ross desceu do carro e ajudou a descender a Lydia. Jake desmontou e estendeu o braço procurando a mão do Banner. A moça permanecia paralisada no assento, tão ensimismada que nem sequer advertiu a presença do Jake até que este lhe tocou o braço e pronunciou seu nome brandamente. Banner baixou o olhar e viu uma expressão compassiva no rosto do homem. Sorriu fracamente quando aceitou sua mão. Apoiando seu outra emano no ombro do Jake, deixou que ele a descesse do carro.

   Os jeans cavalgaram em direção ao barracão. O grupo, habitualmente jovial e desordeiro, mostrava-se pesaroso. Um dos filhos do Anabeth se queixava de que tinha sede. O bebê chorava contra o peito do Héctor, quem lhe dava tapinhas, um pouco fortes, nas costas. Silenciosos e sombrios como um cortejo fúnebre, entraram todos juntos na casa.

   Banner teve que suportar outra ofensa. Lydia tinha ornado o salão dianteiro com cestas de flores e os presentes de bodas, ainda sem abrir, amontoavam-se em uma das diversas mesas cobertas com toalhas de encaixe.

   Banner se estremeceu em um soluço. Ross se situou detrás dela e pôs suas mãos nos ombros de sua filha.

   -Princesa, eu...

   -Por favor, papai -disse ela rapidamente, procurando conter as lágrimas-, preciso estar sozinha.

   recolheu-se as saias de um modo que recordou a outros a marimacho de uns anos atrás, e subiu correndo pelas escadas. Uns segundos mais tarde, ouviram fechar-se de um golpe a porta do dormitório da moça.

   -Filho de puta -disse Ross em um sussurro. tirou-se súbitamente a jaqueta e lutou com a gravata-. Deveria ter matado a esse bastardo com minhas próprias mãos.

   Lydia nem sequer lhe admoestou por sua linguagem.

   -Não posso acreditá-lo, realmente não posso. OH, Ross, que tenha destroçado o coração do Banner desta maneira, eu... refugiou-se nos braços de seu marido e pôs-se a chorar, Ross a conduziu ao salão.

   Mami confrontou a situação de um modo prático.

 -Anabeth, vê com os meninos à cozinha e lhes dê uma parte desse bolo delicioso que trouxeram ontem. Não tem sentido desperdiçá-lo. Vós, Lê e Micah, levem o bolo ao barracão quando Anabeth tenha terminado e digam aos moços que o comam. E você, Marynell, pode começar a servir copos de ponche. Suponho que todos poderão beber um pouco. Héctor, nunca vi a ninguém que sue tanto como você. te tire a jaqueta e a gravata antes de que te derreta.

   As bodas do Banner tinha servido de desculpa para que os Langston se reunissem. A família tinha viajado do Tennessee até o Texas com o Ross e Lydia. Entre os Coleman e os Langston existia uma amizade que nem a distância nem o tempo tinham conseguido diminuir.

   Mami Langston cumpria o papel de avó de Lê e Banner. Ainda alta e decidida, era uma mulher notável, física e espiritualmente forte, mas amável. Suas reprimendas levantavam ampolas, mas sempre eram inspiradas pelo afeto.

   Zeke Langston tinha morrido fazia tanto tempo que Banner nem sequer se lembrava dele. Durante uns poucos anos depois da morte de seu marido, Mami tratou de trabalhar seu imóvel na região montanhosa da parte ocidental de Austin. Foi nessa época quando dois de seus filhos, Atlanta e Samuel, morreram em uma epidemia de escarlatina.

   De maneira imprevista, Anabeth, a filha maior dos Langston, casou-se com um latifundiário e rancheiro vizinho, Héctor Drummond, um viúvo com duas filhas jovens.

Agora tinha dois moços nascidos de seu matrimônio. Drummond se dedicava a administrar as terras dos Langston junto com as suas. Tinha um pequeno rebanho de gado vacino, que esperava aumentar.

   Marynell era em certo modo uma sabichona, pois tinha abandonado o lar para assistir à escola de Austin. Trabalhou como garçonete no Harvey House, servindo mesas no restaurante da estação de ferrovia da Santa Fé para costear-se seus estudos. Agora era professora. Não estava casada e se alguém perguntava a respeito, declarava que não tinha intenção de fazê-lo.

   Ross e Lydia tinham persuadido ao Mami de que fora a viver com eles ao River Bend quando Héctor se fez cargo da administração de seu imóvel. Mami esteve de acordo, mas pôs certas condições. negava-se a aceitar a caridade dos Coleman, de modo que trabalharia para sua manutenção, como também faria Micah, o menor dos Langston, que foi contratado como vaqueiro. Ross construiu para o Mami uma pequena cabana, detrás da qual, em um campo que ela mesma tinha limpo e cultivado, Mami plantava e compilava tudo os legumes e hortaliças que se comiam no River Band. Também se ocupava de costurar para a família e os peões do rancho, pois Lydia nunca tinha mostrado habilidade com a agulha.

   A relação entre os Langston e os Coleman era tão próxima como se fossem parentes. Mami não tinha nenhum escrúpulo na hora de ditar ordens quando as circunstâncias assim o requeriam. portanto, nesse momento a ninguém lhe ocorreu questionar seus mandatos e todos se dispersaram para obedecê-los.

   No salão, Jake estava servindo ao Ross um gole de uísque, que lhe ofereceu sem pronunciar palavra. Ross lhe deu as obrigado com o olhar. Quando desapareceram as primeiras lágrimas da Lydia, esta levantou a cabeça do ombro de seu marido.

   -Devo falar com ela, mas não sei o que dizer.

   -Tampouco eu saberia -grunhiu Ross, fazendo que se derramasse o uísque.

   Lydia ficou em pé e se alisou a saia. antes de abandonar a sala, aproximou-se do Jake e posou uma mão sobre sua bochecha. - como sempre, poderemos contar com seu apoio.

   Jake cobriu a mão da mulher com a sua, apertando-a com suavidade.

   -Sempre -disse de modo muito expressivo.

  

   Parecia apropriado que o vestido do Banner estivesse talher de sangue porque a moça se sentia como se lhe tivessem arrancado o coração. Com o olhar cravado na

imagem que lhe devolvia o espelho, não podia acreditar que só umas horas antes se viu si mesmo feliz, confiada e inocente.

   Já não podia agüentar o escárnio que implicava ter posto o traje de bodas. Pensou que gritaria se não conseguia tirar-lhe Não estando disposta a esperar a que alguém a ajudasse, lutou com a fileira de botões das costas, arrancando-os quando seus dedos enfurecidos não podiam desabotoá-los com rapidez. Por fim, deixou o vestido a um lado. Sua roupa interior também estava manchada de sangue. desprendeu-se dela até ficar nua. Logo se esfregou sem piedade em sua lavagem. Ao cabo de um momento se sentiu poda, enquanto as lágrimas escorregavam por suas bochechas. ficou uma bata e se tendeu na cama desfeita em lágrimas.

   Como tinha podido Grady lhe fazer isso? A dor que lhe tinha causado o descobrimento era secundário. Saber que tinha tomado a outra mulher era o golpe mortal.

Como tinha podido ir com aquela moça desprezível quando lhe tinha declarado seu amor a ela? Aquilo era uma traição cruel e degradante. Enquanto Grady proclamava sua paixão por ela, saciava-se com a Wanda Burns.

   Ao imaginar-lhe juntos lhe deu vontade de vomitar.

   Ouviu que a porta se abria e se fechava quase silenciosamente. Rodou na cama, ficando de flanco. Luta avançou para a cama. Sem pronunciar uma palavra se sentou no bordo e apertou ao Banner contra seu peito.

   Estiveram abraçadas um comprido momento, balançando-se levemente, até que as lágrimas do Banner se esgotaram. Baixou a cabeça procurando o refúgio do regaço da Lydia, quem enredou seus dedos nessa cabeleira tão escura como a do Ross, mas que ao mesmo tempo tinha uma textura volátil semelhante à sua. Era uma massa de ondas e cachos que gozavam de vida própria, e com freqüência não se rendiam às escovas e aos broches.

   -Sabe que seu pai e eu tivéssemos preferido sofrer qualquer dor com tal de te economizar este.

   -Sei mamãe.

   -E faremos algo, algo, para te ajudar a superá-lo.

   -Também sei. -Aspirou e se limpou o nariz com o dorso da mão-. por que o fez? Como pôde me ferir desse modo?

   -Ele não pretendia te ferir, Banner. É um homem Y...

   -isso acaso justifica o que fez?

   -Não, mas...

   -Não sou tão ingênua para esperar que os noivos sejam tão vírgenes como suas noivas. Mas ele declarou seu amor ao pedir a uma mulher que se convertesse em sua esposa, não é isso uma promessa de fidelidade?

   -Assim acredito, como a maioria das mulheres. Os homens? Suponho que quase nenhum deles pensa o mesmo.

   -Não pôde ter controlado seus instintos? Eu não merecia a espera?

   -É óbvio que Grady não fez nenhuma comparação entre você e essa moça, Banner.

   -Eu desejava essa parte do matrimônio tanto como ele! O disse -exclamou Banner.

   Muitas mães se deprimiram para ouvir suas filhas dizer algo semelhante. Lydia não se escandalizou, pois compreendia o desejo sexual e esperava que sua filha desfrutasse desse aspecto da vida como o tinha feito ela. Não considerava que terei que convertê-lo em um pouco reservado e vergonzante.

   -E o que teria ocorrido se eu o tivesse feito com outro homem? -perguntou Banner-. Como se tivesse sentido Grady? Tivesse-me perdoado?

   Lydia suspirou.

   -Não. Mas assim é o mundo. supõe-se que os homens devem ter seus... aventuras. Grady foi pilhado e pagará por isso. Mas o mais injusto é que o pagará você -disse

Lydia, acariciando a bochecha de sua filha.

   -Estou-me comportando de um modo intransigente e intolerante? Deveria lhe perdoar? você teve que perdoar a papai alguma de suas "aventuras"? -perguntou Banner, incorporando-se e olhando a sua mãe diretamente aos olhos-. Papai teve outra mulher antes de te conhecer?

   Lydia recordou a noite em que Ross tinha ajudado à proprietária de um bordel chamada LaRue e a suas prostitutas com seu carromato. ficou até tarde e retornou bêbado e emprestando ao perfume das putas. Então e sempre jurou que tinha ido ao carromato da proprietária do prostíbulo, mas que não tinha podido levar a cabo o ato. Lydia lhe acreditou.

   -Houve muitas mulheres na vida do Ross antes que eu, mas depois de nos conhecer, não. Compreendo que se sinta tão ferida.

   -Talvez Grady não me amava como papai ama a ti.

   -Mas alguém o fará, querida.

   -Duvido-o, mamãe.

   Estas palavras provocaram outra corrente de lágrimas.

   Quando Lydia finalmente a deixou sozinha, Banner se tombou na cama, olhando sem ver o teto. Tinha que enfrentar-se a suas verdadeiras emoções. Que sentimento era mais profundo, a dor ou a raiva? desintegrou-se seu amor pelo Grady no momento em que se inteirou de sua traição? Estava furiosa com ele por ter feito cair a desonra não só sobre seu nome, mas também também sobre o de sua família. Os habitantes do Larsen não esqueceriam aquele dia durante muito tempo. Formava parte da natureza humana enfurecer-se com a desgraça de outros. Não importava que todos os Coleman estivessem livres de culpa, pois Grady os tinha estigmatizado como o tinha feito consigo mesmo.

   A ira do Banner era tal que se anulava seu pesar. Entretanto, doía-lhe mais o sofrimento de seus pais que o seu próprio. Não queria que Grady voltasse, nem em um milhão de anos. O jovem estava recolhendo os frutos do que tinha semeado. Nunca o refrão tinha sido mais certo.

   Possivelmente não lhe tinha amado tanto como pensava. Contudo, se seu engano não se descoberto esse dia, revelando a debilidade de caráter de seu futuro, ela teria seguido estando cegamente apaixonada por ele. Estava segura de que teria sido seu amante algema para sempre. O fato de não ter chegado a essa situação aliviava sua ira.

   Esteve tendida comprido momento, sem advertir o transcorrer das horas até que a habitação ficou às escuras e se deu conta de que se pôs o sol. Saiu da cama, prometendo solenemente que não se esconderia como se ela fosse a parte culpado. Não permitiria que Grady Sheldon e as intrigas que circulariam pela cidade a destruyesen.

   Lavou-se a cara com água fria para aliviar o inchaço ao redor dos olhos; Embelezada com um singelo vestido de algodão e com o cabelo penteado para trás, desceu pelas escadas. Todos estavam reunidos na cozinha para o jantar. A conversação cessou abruptamente quando a viram parada no vão da porta. Todas as cabeças se voltaram para ela com deferência. Até os meninos do Anabeth estavam calados, algo que não era habitual. O que esperavam? Que se encerra-se em seu quarto para o resto de sua

vida? Que se convertesse em uma pessoa inútil? Que se ocultasse detrás de vestidos cinzas e sombrios? Que começasse a padecer acessos de hipocondria como uma velha solteirona murcha?

   -Estou faminta -anunciou Banner-. Fica algo?

   Todos se tinham ficado imóveis, como se fossem um quadro reproduzido em uma postal de Natal. Assim que falou, começaram a mover-se, trocando de lugar para lhe fazer espaço na mesa, lhe tendendo um prato e talheres, lhe passando terrinas com comida. Todos falavam em voz alta e de forma desordenada. Seus sorrisos eram muito amplos, e seus olhos, muito brilhantes.

   -Estava nos falando desses touros novos, Héctor -disse Ross com uma voz ressonante que fez chorar ao bebê do Anabeth.

   -Sim, bom, eu, bem, eu...

   "Pobre senhor Drummond", pensou Banner enquanto baixava o olhar. O homem já estava bastante nervoso sem necessidade de que o pusessem no aperto de cercar uma conversação normal. Banner não disse muito, nem apartou a vista do prato. Em realidade, não estava faminta, mas se obrigou a comer ao menos a metade do que se serve.

   Alguém, Mami provavelmente, ocupou-se de que se tirassem os adornos que decoravam a casa. Não podia encontrar-se nem um rastro da festa nupcial, à exceção do ponche de frutas que estavam bebendo. Lydia se tinha levado do dormitório do Banner o traje de bodas manchada, e esta esperava que o tivessem queimado; as cestas de flores tinham desaparecido, e o pátio tinha sido espaçoso. Lydia também havia dito a sua filha que não se preocupasse com devolver os presentes já que ela se ocuparia dessa tarefa dolorosa, que Banner supunha já tinha começado, pois as caixas com os presentes não se viam por nenhuma parte.

   Salvo pelo número inusual,de pessoas reunidas em torno da mesa, nada diferenciava essa noite primaveril de qualquer dia. Banner se precaveu de que realmente

ela estava mais tranqüila que outros, que freqüentemente a observavam inquietos, como se temessem que fosse atirar se dos cabelos em qualquer momento.

   Quando os meninos terminaram de comer, Marynell se ofereceu para levá-los a passear. Lê e Micah partiram assim que acabou o jantar, murmurando algo sobre uma partida de pôquer no barracão. Mami começou a recolher os pratos.

   -Você fica onde está -ordenou Mami com firmeza quando Luta se levantou de sua cadeira-.Eu o arrumarei em um momento.

   Anabeth se levantou para ajudá-la. Héctor e Ross estavam falando de questões relacionadas com o rancho. Lydia escutava, com o olhar fixo em seu marido. Jake sorvia em silêncio seu café, com os olhos cravados na Lydia. Ao Banner não sentiu saudades nada disso, porque era normal.

   -Acredito que sairei ao alpendre -disse Banner, apartando sua cadeira.

   -Vamos todos ali -apressou-se a dizer Lydia-. Estará-se mais fresco. Jake, Héctor, lhes leve o café se ainda fica.

   Quando Mami finalizou as tarefas da cozinha, Marynell a acompanhou a sua cabana. Anabeth e Héctor foram com elas para deitar aos bagunceiros meninos. Banner deixava que as conversações desconexas fluíram a seu redor. Finalmente desceu do alpendre para dirigir-se ao pátio.

   -Banner?

   -Só vou dar um passeio, papai -disse a moça por cima de seu ombro, ao advertir inquietação na voz de seu pai.

   Não chegou mais à frente do cerco que limitava um dos campos de pastoreio. Um potro e sua mãe jogavam a perseguir-se pela viçosa maleza da primavera.

   -Parece brincalhão.

   Banner se deu volta e viu lê e Micah que se aproximava dela.

   -Deveria sê-lo. Não foi Spartan o pai?

   -Sim. É um dos melhores. Não o crie, Micah?

   -É obvio. -viestes até aqui para falar da linhagem do gado? Pensava que havia uma lhe apaixonem partida de pôquer.

   -Limparam-nos -disse Micah, fazendo como se voltasse seus bolsos do reverso. A luz da lua fazia que seu cabelo parecesse quase tão claro como o do Jake, mas nem tanto.

   Banner apoiou as mãos nos quadris.

   -Quem se gabava o outro dia de poder ganhar em qualquer às cartas?

   Micah lhe deu uns carinhosos golpecitos debaixo do queixo.

   -Alguma vez esquece nada?

   Gastavam essas graças familiares para tratar de fazer mais suportável uma situação tão difícil. Manter uma conversação frívola não resultava fácil para nenhum desde que se partiram da igreja.

   -Para que viestes aqui em realidade? -perguntou-lhes Banner.

   Lê lançou um olhar ao Micah, quem lhe animou com um movimento da cabeça.

   -Bom, só queríamos há... falar contigo do que aconteceu na igreja.

   Banner apoiou seus braços cruzados no cerco e se inclinou.

   -O que acontece isso?

   -Bom, Banner, Grady poderia não ser o culpado.

   -O que quer dizer?

   Lê tragou saliva e olhou ao Micah em busca de ajuda, mas este estava tão absorto com o poni do campo de pastoreio que não a brindou absolutamente.

   -Nós, quero dizer que, um montão de tios, já sabe, estiveram com essa pequena buscona. Poderia dar o caso de que estivesse acusando ao homem equivocado.

   -Sim -atravessou súbitamente Micah-. Poderia ser qualquer dos cinqüenta tios que há na cidade. Mas Sheldon, vá, seria uma estupenda presa para ela, dado que é o dono do armazém de madeira e todo isso. Compreende?

   -Tão somente porque tenha estado com ela, isso não o converte em seu menino. É o que estamos tratando de dizer -concluiu Lê sem convicção-. Possivelmente saber isto fará que se sinta melhor.

   A emoção formou um nó na garganta do Banner.

   -O que me faz sentir melhor é saber que vós dois lhes preocupam comigo.

   Banner abraçou primeiro a Lê e logo ao Micah, quem lhe devolveu o abraço torpemente. Micah não era um vaqueiro mais, mas tampouco era da família. burlou-se do Banner desde que a moça foi o bastante major para levar as tranças emaranhadas, mas nos últimos anos tinha notado as mudanças operadas nela, embora seu irmão não os tivesse advertido.

   Micah não foi imune a essas transformações, mas era o bastante inteligente para manter-se a distância. Não estava disposto a provocar a ira do Mami, E muito

menos a do Ross, nem a renunciar a sua amizade com Lê por fazer proposições amorosas ao Banner.

   Ela estava fora do alcance dos jeans, o que incluía a ele. Era um fato indiscutível que tinha sabido durante muito tempo. Havia muitas moças no mundo. Banner

podia ser uma das mais belas, mas nenhuma mulher valia tanto como para sacrificar a amizade de um cupincha, e menos ainda para correr o risco de perder a vida.

   -Agradeço o que está tratando de fazer -disse Banner brandamente-. Grady poderia não ser o pai do menino. Entretanto, é culpado de ter estado com ela. Admitiu-o.

De um modo ou outro, traiu-me.

   -Sim, admito que assim é -concedeu Micah.

   Micah só sabia que se ele tivesse estado comprometido com o Banner Coleman teria tido a sensatez necessária para não arriscar-se a perdê-la por muito intensas que tivessem sido suas urgências sexuais. Tinha conhecido a muitíssimos parvos, mas esse Sheldon era com diferença o maior estúpido com o que tinha tropeçado.

   Lê afundou na terra a ponta de sua bota.

   -Sinto pena pelo tipo ao que apanharam só por fazer o que todos nós... Quero dizer, o que tantos outros fazem. Mas ao mesmo tempo, eu gostaria de lhe romper a cara.

   Banner posou uma mão sobre o braço de Lê.

   -Não o faça, mas obrigado por pensá-lo.

   Lê levantou a cabeça e sorriu a sua meia irmana.

   -Banner, têm aberto um armarinho novo no Tyler. Ao parecer é bastante importante. Micah e eu estávamos pensando em ir ali um destes sábados, logo que tenham parido as éguas. Você gostaria de nos acompanhar?

   Nesse momento Banner esteve em condições de apreciar o muito afeto que lhe professavam os moços. Sempre tinha ido detrás deles, lhes rogando que lhe permitissem lhes acompanhar, só para conseguir que a deixassem atrás, seguindo a esteira de pó que levantavam o partir.

   -Obrigado, sim gosta -disse Banner, dedicando a ambos seu sorriso.

   Os moços a deixaram sozinha, fundindo-se com a escuridão, mas sua conversação em voz baixa continuou sendo audível muito depois de que as sombras lhes envolvessem.

Com passo depravado, Banner caminhou para a casa. Apoiando suas costas contra o tronco de uma nogueira, contemplou o plácido quadro que se estendia ante ela.

   A brancura da casa de madeira destacava contra a escuridão. Os abajures de petróleo que iluminavam o interior faziam que as janelas irradiassem uma luz dourada, cálida e acolhedora. As trepadeiras de campainhas iniciavam sua ascensão pelas seis colunas, três a cada lado do alpendre. Os primeiros brotos de zinias e esporas de cavalheiro cobriam de verde os arriates. A fumaça que saía da chaminé da cozinha se elevava em espiral. Entretanto, a imagem era enganosa, pois não deixava traslucir a tragédia que tinha acontecido na família que ali vivia.

   Quando Ross e Lydia chegaram a essas terras, viveram ao princípio no carromato do Moisés. logo que foi possível, Ross construiu uma casa de duas asas separadas por um corredor aberto, em uma das quais se achavam a cozinha e a zona de estar e na outra, os dormitórios. Era pequena e tosca, mas a Lydia não tinha importado.

Compreendia que o prioritário era estabelecer o negócio. Banner tinha nascido naquela casa. Tinha dez anos quando se edificou a moradia nova que, inclusive para os patrões arquitetônicos da cidade, foi desenhada de um modo muito prático. Havia quatro dormitórios na planta superior, embora a maior parte das noites Lê dormia no barracão. Na planta baixa havia um grande salão na parte dianteira, um salão informal e um comilão, que se usava poucas vezes pois se preferia a zona para tal uso na grande cozinha. Na parte traseira da casa, adjacente ao alpendre coberto, achava-se o despacho do Ross.

   As lágrimas nublavam os olhos do Banner quando retornou à tranqüilidade de seu lar. Não tinha tido remorsos na hora de abandoná-lo para casar-se, porque estava segura de que o substituiria por outro, o seu e o do Grady, onde haveria ainda mais amor. Doía-lhe o coração ao pensar no que já nunca poderia ser.

   Ross e Lydia estavam sentados na cadeira de balanço de vime, e Jake, de pé na esquina do alpendre, com o ombro apoiado contra a coluna. Seu charuto era um resplandecente ponto vermelho cujo aroma Banner podia perceber do lugar em que se encontrava debaixo da árvore. Parecia muito solo ali, afastado do casal sentada na cadeira de balanço.

   Banner observou como Ross posava sua mão na bochecha da Lydia e girava a cabeça da mulher para seu ombro. Logo se inclinou e beijou meigamente a frente de sua esposa, quem deixou descansar sua mão sobre a coxa do homem.

   As lágrimas voltaram a brotar dos olhos da moça. Esse era o amor que ela tinha querido, que tanto tinha desejado: um amor reconfortante e aprazível, habitado por carícias e olhares eloqüentes que excluíam ao resto do mundo. Tinha desejado compartilhar essa classe de união com um homem. Sua desilusão era tão profunda que lhe doía pensar nisso.

   O desespero a encadeava, a desesperança a envolvia como uma mortalha. Precipitadamente saiu das sombras protetoras da árvore, subiu ao alpendre, deu as boa noite de uma maneira fugidia e correu escada acima para sua habitação.

   Procurou a mala em que tinha guardado parte de seu enxoval e tirou a camisola que tinha sido confeccionado especialmente para sua noite de bodas. Era um autocastigo, mas se tratava de algo que se sentia compelida a fazer. A camisola singela, elegante e sedutor, era de cambraia branca transparente, com largas mangas franzidas nos punhos e decote redondo adornado com rosas amarelas bordadas e uma estreita cinta de encaixe. Quando cobriu seu corpo nu, sua figura ficou desenhada debaixo das dobras transparentes.

   Dirigiu-se à cama, desfrutando-se na perda do que deveria ter sido essa noite. tendeu-se, sentindo-se mais estranha e só que nunca. Todos tinham a alguém essa noite. Mami Langston tinha a seus filhos vivos e a seus netos reunidos sob seu teto; Ross e Lydia se tinham o um ao outro; Lê e Micah estavam unidos pela amizade, e até o Marynell gozava da companhia de seus livros. Só a noiva estava sozinha.

   Ouviu seus pais subir pela escada e dirigir-se para seu dormitório, fechando a porta detrás deles. O coração do Banner se retorceu dolorosamente. Não era justo!

Tinha sido enganada. por que Grady não tinha podido amá-la com a classe de amor que compartilhavam seus pais? Era Grady a exceção à regra, ou o eram seus pais?

   Seu corpo ansiava aquilo para o que se preparou mentalmente. Desejava o calor de outro corpo junto ao dele, o corpo de um homem, os braços de um homem rodeando seu corpo, acariciando-o com ternura. Desejava um homem que a amasse. Seu coração clamava por estar em comunhão com outro.

   Inquieta, retirou o lençol e se aproximou da janela. A brisa esfriou suas bochechas, mas não a raiva que bulia dentro dela. A noite era formosa, banhada pelo resplendor de prata da meia lua. As estrelas titilavam. O trevo do pasto exalava seu perfume. Todos os sentidos da moça se achavam em harmonia com os elementos da natureza.

   Percebeu movimento na quietude da noite. Um ponto vermelho descreveu um arco ao deslocar-se pelo alpendre e se desvaneceu como uma vaga-lume. Era o charuto do Jake. Segundos mais tarde, Jake desceu do alpendre, fazendo tilintar brandamente suas esporas quando cruzou o pátio em direção ao estábulo mais velho do rancho, onde se achava seu cavalo lesado.

   Jake.

   Banner não era a única que se encontrava sozinha. Jake também o estava. A moça pensou que a solidão era habitual nele. Inclusive quando era o centro de atenção dos Coleman e dos Langston, percebia-se uma espécie de distanciamento nele. Falava e ria como todos outros, mas seguia estando sozinho. Banner acreditava compreender a razão e sentiu uma enorme tristeza por ele.

   Viu-lhe entrar no estábulo. Momentos mais tarde, o resplendor de um farol brilhou através de uma das janelas poeirentas.

   Essa devia ter sido sua noite de bodas. Tinham-na abandonado. Tinha sofrido a ofensa mais cruel que pode infligir-se a uma mulher. Uma noiva, a ponto de empreender um futuro brilhante, tinha sido jogada em um abismo de aflição, humilhada publicamente.

   Tinha que recuperar a confiança em si mesmo como mulher essa mesma noite ou não a recuperaria jamais. Necessitava desesperadamente que alguém a abraçasse, que lhe dissesse que era formosa, que lhe assegurasse que era tão desejável como Wanda Burns. Necessitava amor, mas não o amor dos pais nem o amor fraternal. Precisava ser amada por um homem.

   O coração do Banner começou a pulsar com violência. A cabeça lhe bulia com o pensamento que tinhaenraizado nela. Como uma semente em terreno fértil, a idéia se afiançou em seu cérebro. Nada lhe impediria de germinar e crescer.

   Voltando-se rapidamente em direção ao penteadeira, contemplou sua imagem no espelho e tratou de imaginar-se como a veria um homem, um homem que essa noite se encontrava tão só e ansioso de companhia como ela.

   Antes de que pudesse arrepender-se, agarrou um xale grande e o jogou sobre os ombros. Ninguém a ouviu quando baixou sigilosamente as escadas e saiu pela porta principal.

 

   O estábulo cheirava a feno, a cavalo e a couro. Ao Banner gostava desses aromas familiares, dos que se impregnou enquanto se deslizava para o interior e fechava a porta detrás dela sem fazer ruído. O ar quente, almiscarado, envolveu-a como uma manta. Reinava a quietude, embora no ambiente se podia perceber a vida oculta.

As éguas, pesadas devido a seu preñez, descansavam junto aos pesebres, e os grilos cantavam em seus esconderijos. Estar no estábulo em camisola não era algo incomum para o Banner, pois freqüentemente lhe tinham permitido velar toda a noite quando uma égua sofria os dores de um parto difícil. Entretanto, sim o era achar-se no estábulo em camisola e só com um homem, mesmo que se tratasse de um homem que formava parte de suas lembranças desde que tinha memória.

   Sentiu as primeiras pontadas de apreensão. O que estava a ponto de fazer era ousado. Vinte e quatro horas antes teria sido impensável, mas vinte e quatro horas antes ela ignorava que a fortuna era capaz de proporcionar lances tão cruéis ou que o futuro podia alterar-se tão drasticamente sem o consentimento de um.

   A decisão estava tomada. Uma vez que se chegou a este ponto, já não podia haver marcha atrás.

   O feno se cravava em seus pés nus enquanto avançava nas pontas dos pés para o pequeno foco que iluminava um dos pesebres situados na parte traseira do estábulo.

Os cavalos estavam tão acostumados a sua fragrância que nem sequer relincharam quando Banner caminhou pela fileira de pesebres.

   O chapéu do Jake, de asa larga, taça baixa e cor negra, pendurava de um prego sobre um dos postes. Banner tocou a asa de feltro, sonriendo ao contemplar a linha escura que deixou seu dedo ao recolher o pó.

   Olhou por cima da parede, não mais alta que seu ombro, que separava os pesebres. Jake estava agachado junto às patas dianteiras de seu cavalo, com o casco da direita apoiado em seu joelho, examinando a ferida que lhe tinha provocado a pedra. Banner se alegrou de poder dispor desse momento para estudá-lo sem que ele o advertisse.

   Tinha crescido vendo-o de uma determinada perspectiva (seu herói, o amigo de confiança de seus pais, o ídolo de Lê e Micah, o filho do Mami), mas essa noite devia lhe considerar de uma maneira completamente nova. Desterrando de sua consciência seus julgamentos anteriores sobre ele, Jake Langston aparecia ante o Banner estritamente como um homem, como se o observasse através dos olhos de uma estranha.

   O que viu lhe agradou extremamente, e não acreditou que o fato de lhe haver amado toda sua vida de outro modo pudesse menosprezar a opinião que dele se estava formando agora, enquanto fixava seus olhos nele.

   Cada um dos finos cabelos do Jake, de um loiro esbranquiçado, resplandecia à luz do farol. Seu cabelo era tão vital como o resto de sua pessoa, rebelde, difícil de controlar e carente de disciplina. Formava um redemoinho no cocuruto e caía sobre sua cabeça em mechas rebeldes que pendiam sem ordem. Banner não podia imaginar aplicando-se ao cabelo aquele ungüento perfumado que às vezes utilizava Grady para dominar seus cachos marrons. Não, Jake nunca submeteria nenhuma parte de seu corpo a uma repressão semelhante.

   Levava-o comprido, por descuido ou por gosto, de tal modo que lhe roçava o pescoço da camisa quando se movia. Ligeiramente cacheado ao redor das bem formadas orelhas, o cabelo se encrespava nas costeletas de cor do trigo. A moça quis meio doido, sentir o contraste entre esses cachos e a tersura aveludada do lóbulo de sua orelha. Suas sobrancelhas, que agora estavam franzidas em um gesto de concentração, eram desse mesmo incrível loiro claro.

   Analisou o rosto que conhecia da infância, o que podia apreciar dele enquanto o homem permanecia inclinado. O arco das sobrancelhas me sobressaía ligeiramente sobre seus olhos, seus maçãs do rosto eram proeminentes e suas bochechas um tanto côncavas. Só a força que se percebia nele impedia que parecesse macilento.

   Sua mandíbula era firme e claramente cinzelada, sem nenhum contorno suavizado, o que lhe conferia um ar de homem resolvido, preparado para desafiar a qualquer, por temível que fosse. Se o deixasse crescer, sem dúvida seu pêlo facial também seria loiro, mas agora a barba enchente sombreava a parte inferior de seu rosto.

   Banner se perguntou que aspecto teria com um bigode espesso como o de papai, mas imediatamente desprezou a idéia. Sua boca era generosa. O lábio inferior era um pouco mais grosso que o superior, embora este estava muito bem desenhado. Ao lhe olhar fixamente a boca, experimentou uma sensação estranha no estômago. Decidiu que seria um crime cobrir uma boca tão sedutora com um bigode.

   A moça supôs que Jake se trocou a indumentária das bodas logo que retornaram à casa. Ainda vestia as mesmas roupas que tinha levado durante o jantar: uma camisa de algodão de cor azul pálida, calças de dril de algodão, umas velhas botas cheias de arranhões e um lenço vermelho descolorido atado ao pescoço. Não tinha a pistolera em que guardava seu Colt, nem um colete ou uma zamarra de couro que em ocasiões ficava.

   Arregaçado até o cotovelo, deixava ao descoberto os músculos flexíveis de seus braços intensamente bronzeados e talheres por um pêlo tão claro que parecia branco à luz do farol. As mãos do Jake se moviam com destreza, mas de um modo delicado, enquanto examinavam a ferida do cavalo. Os dedos eram magros e largos, mas sua força se manifestava quando os apertava e afrouxava alternativamente ao redor do casco. Observando essa massagem rítmica, o estômago do Banner sofreu outro tombo sem precedentes.

   Nunca tinha sido consciente de semelhante dignidade, tão cabal e amadurecida. Em realidade, a curiosidade do Banner resultava injustificada, porque toda sua vida tinha estado rodeada de homens: Ross, Lê, Micah e os peões do rancho. Entretanto, nunca os tinha observado com tanto parada nem tinha acreditado que lhe impressionaria tanto fazê-lo.

   Jake era varonil de um modo que a turvava. sentia-se amedrontada ante semelhante virilidade em bruto. Mas extrañamente, seus instintos femininos a impulsionavam para essa masculinidade, obrigando-a a falar em lugar de escapulir do estábulo sem ser vista para não ter que perguntar-se no futuro como teria sido essa noite para ela se tivesse tido o valor de levar a cabo seus desejos. Poderia lamentar muitas das coisas ocorridas esse dia, mas o não ter atuado quando se sentia compelida a fazê-lo não seria uma delas.

   -Como está seu cavalo?

   Jake elevou a cabeça, sobressaltado.

   -Céus, garota! Não te ocorre nada melhor que entrar às escondidas para assustar às pessoas? Quase nos espanta para mim e ao Stormy.

   Jake observou seus pés nus e a prega da camisola do Banner, quão único podia ver debaixo das franjas escuras do xale grande. Os braços da moça estavam cruzados sobre seu peito, agasalhada com o xale grande como uma Índia com sua manta.

   -O que faz pindongueando por aqui? Acreditava que todos se deitaram.

   Seus olhos eram incrivelmente azuis. Como era possível que alguma vez tivesse reparado neles antes? Se alguém lhe tivesse perguntado: "Ouça, de que cor são os olhos do Jake Langston?", sua resposta teria sido "azul". Mas essa noite pareceram brilhar de um modo especial quando. ele, ainda em cuclillas, olhou-a. As cores estavam bem definidas. Os brancos eram muito brancos. A íris azul de seus olhos era tão cerúleo como o céu a finais de outono. As pupilas eram um ébano que refletia a imagem da moça. Pela primeira vez advertiu que as pestanas do Jake eram escuras no nascimento e mais claras nas pontas frisadas.

   Seus olhos eram interessantes, e Banner desejava ter podido estudá-los e valorá-los sem que ele o advertisse. Mas não pôde, pois Jake a contemplava com espera, aguardando a que lhe explicasse por que não estava na cama.

   -Não podia dormir.

   Com um acanhamento repentino, Banner afundou a cabeça em seu peito.

   -Já -disse Jake, endireitando-se enquanto dava tapinhas na cabeça do Stormy. Inundou as mãos em um cubo de água, as lavou e as tirou as agitando, para secar-lhe logo com uma toalha-. Bom, isso é compreensível depois do acontecido.

   Banner levantou a cabeça e lhe olhou. Fosse o que fosse o que esteve a ponto de dizer Jake a seguir ficou posposto momentaneamente, como se lhe acabassem de costurar a boca.

   -Vá... -disse Jake para ganhar tempo. Seu olhar não se separava do rosto da moça. obrigou-se a desviá-la; piscou. Advertiu que estava em camisola-. Poderia te

criar um montão de problemas rondando por aqui vestida desse modo. -O tom da voz do homem deixou traslucir seu mau humor.

   -Você crie?

   Uma expressão de profunda perplexidade turvou o rosto enxuto do homem, cujos lábios se separaram ligeiramente. Um instante depois os apertou formando uma linha severo.

   -Sim, maldita seja, claro que lhe criaria isso. Vamos. Acompanharei a casa.

   Tentou agarrá-la do braço, mas Banner lhe esquivou e acariciou o lombo do Stormy.

   -Não me há dito como está Stormy.

   -Muito bem.

   -De verdade?

   -Esse casco estará sensível durante uns dias. Isso é tudo. Agora vamos...

   -O que aconteceu a Apple Jack?

   -Apple Jack? -repetiu Jake. Seu rosto se iluminou com um sorriso espontâneo-. Era um cavalo adestrado para encerrar ao gado, verdade? Adivinhava antes de que o tocasse com meus joelhos o que queria que fizesse. Estava acostumado a dizer que poderia dormir todo o dia em cima de minhas arreios sem que Apple Jack permitisse que escapasse um solo animal. O condenado era um cavalo estupendo. Mas colocou a pata em uma toca de marmota e a quebrou. Tive que rematá-lo. -Jake inclinou a cabeça.

por que te lembra agora da Apple Jack?

   -Simplesmente me acordei.

   Banner seguia deslizando sua mão pela brilhante pelagem castanha do Stormy. Como todos os jeans, Jake cuidava melhor de seus cavalos que de si mesmo.

   Por alguma razão, o homem não podia apartar seu olhar da mão da moça enquanto acariciava o largo lombo do Stormy. O xale grande se escorregou até a altura do cotovelo. A manga da camisola do Banner era transparente, de modo que se podia apreciar a forma de seu braço.

   -Lembrança que em uma ocasião, quando tinha uns doze anos, veio a nos visitar, em principio para passar uns dias, embora ao final te partiu aquela mesma tarde.

Mamãe tinha cozinhado feijões, torta de milho, frango frito e bolo de maçã para o jantar. Meus pratos favoritos. Mas não comi nada. Estava desesperada porque foi, inclusive apesar de que papai te tinha pedido que ficasse. Papai me ordenou que me sentasse direita à mesa e me comportasse corretamente, ou que me retirasse. Eu dirigi a minha habitação fazendo panelas e me neguei a me despedir. Da janela de meu dormitório te observei te afastar montado em seu cavalo.

   Então se voltou para o Jake, apoiando a cabeça contra o cavalo.

   -Mas não pude suportá-lo. Baixei as escadas como uma flecha e corri detrás de ti. Persegui-te pelo caminho do rio, gritando seu nome até que finalmente me ouviu.

Quando estive a seu lado, você me subiu à arreios da Apple Jack e me abraçou. Disse-me que não chorasse, que retornaria para Natal. -Os olhos que tinham o brilho quente do topázio e o fogo líqüido das esmeraldas lhe olhavam acusadoramente-. Mas não o fez.

   -Suponho que aconteceu algo, Banner.

   -Demorou dois anos em voltar.

   Só então a moça se deu conta da importância que esse dia tinha tido em sua adolescência. depois de que ele tivesse partido, ela se tendeu na cama e chorou amargamente.

Tinha intuído que teria que passar muito tempo antes de que voltasse a vê-lo, e seu jovem coração ficou destroçado por isso.

   Banner devia ter estado apaixonada por ele. Jake era alto e de aparência agradável; valente e excitante, e tinha numerosas histórias que contar. burlava-se dela, mas não de um modo tão lhe exasperem como o faziam Lê e Micah. Seus tomaduras de cabelo a faziam sentir-se adulta.

   Banner se levantou e deu um passo desafiante aproximando-se mais a ele, o bastante como para que a prega de sua camisola lhe roçasse a ponta das botas.

   -Permitiu-me cavalgar contigo sobre a Apple Jack até o portalón. Aquela foi uma despedida especial porque o resto da família não estava ao redor. Tinha-te tudo para mim. -Banner deixou que seu olhar se cruzasse com a do homem. Jogou a cabeça para trás, fazendo que uma escura nuvem de cabelo cobrisse seus ombros e seus seios.

Beijou-me.

   Não foi mais que um rápido beijo fraternal na bochecha, mas Banner não o tinha esquecido.

   Para ouvir as duas últimas palavras sussurradas, Jake deu um salto como se tivesse recebido um disparo. Com rudeza, rodeou o antebraço da moça com seus fortes dedos e a conduziu para a porta do estábulo.

   -É hora de que vá à cama. Precisa dormir.

   Banner arrastava deliberadamente os pés detrás dos passos apressados do Jake.

   -Onde dormirá? No barracão?

   -Não. Quero cuidar do Stormy uma noite mais. Dormirei onde o fiz ontem à noite. Aqui, no estábulo.

   -Não deveu ser muito cômodo -disse Banner, soltando seu braço do punho do Jake.

   -Foi estupendo, Banner, agora vamos...

   -Onde dormiu? Tinha algum colchão?

   -Colchão? -Foi quase um grito, mas não podia conter a irritação que sentia-. Está falando com um homem que aconteceu mais noites à intempérie convexo na terra que entre quatro paredes em uma cama.

   -Bom, isso não quer dizer que tenha que dormir desse modo quando não é necessário -replicou a moça, com uma aspereza que se igualava a de seu interlocutor.

   antes de que ele pudesse detê-la, Banner se deu volta e revisou cada pesebre até que encontrou aquele onde estavam seus alforjas e seu saco de dormir. Com as mãos apoiadas nos quadris, enfrentou-se ao Jake.

   -Jake Langston, o que pensaria a gente se soubesse que os Coleman do River Bend deixam que suas hóspedes durmam como vagabundos?

   A postura da moça permitia que o xale grande se abrisse sobre seu peito. Mostrava ao homem o decote redondo e bordado com rosas, de sua camisola, por não falar do que havia debaixo. Esteve a ponto de arredar-se, de cobrir-se com o xale grande para sair correndo, mas se manteve firme, fingindo estar zangada com ele.

   -Está bem, Banner -disse Jake, apertando os dentes. Os músculos de sua mandíbula pareciam travados e logo que podia movê-los-. Agora, se te largar daqui me deitarei neste saco.

   -Não, não o fará. Ao menos não antes de que o arrume melhor. Traz algumas dessas mantas para os cavalos. Estão podas. Ao menos posso as pôr debaixo de sua manta.

   Jake se mesó impacientemente o cabelo antes de agarrar as mantas. Quando as entregou, disse:

   -Date pressa. É tarde e não deveria estar aqui.

   Sem fazer caso de seu aspecto carrancudo e não querendo pensar no que isso significava, apartou a manta do Jake e com mais movimentos dos necessários, agitou no ar a primeira manta dos cavalos antes de depositá-la sobre o feno. Fez o mesmo com outras três antes de estender a manta do Jake sobre elas e de ajoelhar-se para alisar as rugas. Se tinha advertido que o xale grande se deslizou por um de seus ombros arrastando com ele a manga de sua camisola, não fez nenhum movimento para retificá-lo.

   Os peitos do Banner se balançavam debaixo da malha transparente de sua camisola. Podia sentir seu peso oscilante enquanto alargava seus braços para lhe preparar o jergón. Notou a suave carícia da cambraia em seus mamilos quando seus joelhos ficaram aprisionadas no tecido e a esticaram. A débil luz do farol embelezava o tom de sua pele. Criava uma sombra na linha que separava seus seios? deu-se conta Jake de que já não era uma garota de doze anos com o rosto banhado em lágrimas? Reunindo todo seu valor, incorporou-se, situando-se frente ao homem.

   -Já está, isto é muito melhor, não é certo?

   Jake se esfregou as mãos contra as pernas das calças das calças. As rugas das comissuras de sua boca se afundaram de maneira considerável. Uma veia palpitava em sua têmpora.

   -Sim, isso está melhor. Agora, boa noite, Banner.

   Apartou-se bruscamente e começou a colocar os objetos de seus alforjas sobre um fita de seda que servia de prateleira.

   -Mas eu não tenho sonho.

   -Vete à cama de todas formas.

   -Não quero.

   -Eu sim quero que o faça.

   -Por que?

   -Porque não deveria estar aqui assim... assim como está.

   -por que?

   -Porque...

   Jake encolheu os ombros em atitude defensiva. Seus movimentos eram nervosos e torpes. Custava-lhe conseguir que seu jarro de barbeado encaixasse na prateleira estreita.

   -Jake?

   Jake confirmou o recebimento com um grunhido.

   -Jake, me olhe.

   As mãos do homem cessaram sua atividade inútil, as apoiando por um momento contra a parede do pesebre. Banner viu que os ombros do Jake se elevavam e que sua caixa torácica se alargava com um fundo suspiro. Logo se deu volta.

   Não a olhava, mas tinha os olhos cravados em algum lugar por cima da cabeça da moça. As mãos do Banner se encontraram em sua cintura e se uniram como atraídas por potentes ímãs. Permanecia de pé, erguida e rígida, com as pernas fortemente apertadas das virilhas até os tornozelos. umedeceu-se os lábios com a ponta da língua.

   -Jake, me faça o amor.

   Transcorreram uns segundos silenciosos. O ar estava carregado de tensão, pensamentos não expressos e violentos batimentos do coração. Nenhum dos dois se movia.

Finalmente, quando um dos cavalos relinchou, Jake voltou a cabeça. A seguir baixou o olhar, apoiando um pé no talão e inspecionando a ponta de sua bota como se nunca a tivesse visto antes. Afundou as mãos nos bolsos da calça para as tirar imediatamente como se houvesse meio doido algo quente. Cruzou os braços sobre o peito. Passeou a vista pela fileira de pesebres, os caibros e o farol que despedia uma luz lhe pisquem. Por último, seus olhos voltaram para o Banner. Esta vez, olhou-a.

   -Acredito que é melhor que te parta agora mesmo e que esqueçamos o que há dito.

   Ela começou a negar com a cabeça antes de que ele terminasse a frase.

   -Não. Hei-o dito. É o que quero. Por essa razão vim aqui. Por favor, Jake. me faça o amor.

   Jake soltou uma gargalhada, relaxando-se um pouco e sacudindo a cabeça.

   -Banner, querida, encanto, não quero rir de ti, mas...

   -Não te atreva a rir de mim. -As palavras surgiram inseguras-. Deus sabe que isso é o que estarão fazendo todos na cidade esta noite.

   Jake apagou de seu rosto todo espionagem de animação por temor a que ela o confundisse com brincadeira.

   -Nunca me riria de ti, Banner, mas o que está sugiriendo é ridículo, e você sabe.

   -Por que?

   -Por que? -Jake deu um coice ao comprovar que seu grito tinha sobressaltado a vários dos cavalos. Guardou silêncio um instante para que se tranqüilizassem e logo baixou a voz até convertida em um sussurro bronco-. É ridículo. Eu sou... somos... você é... você é muito jovem.

   -Sou suficientemente major para contrair matrimônio.

   -Mas não para mim! Banner, dobro-te em idade.

   Ela rechaçou esse argumento.

   -supunha-se que esta noite ia ser uma desposada, Jake, que conheceria o amor de um homem. Extorquiram-me. me ajude. Necessito-te. Faz-o por mim.

   -Não posso -disse ele, irritado.

   -Você pode.

   -Não posso.

   -Faz-o continuamente!

   -Isso é algo muito vulgar para que o diga uma dama.

   -Mas é certo, não é assim? Ouço os homens falar de suas conquistas.

   Jake a apontou com um dedo firme.

   -Banner, termina esta suja conversação agora mesmo. Vete à cama ou te darei uma boa palmadas no traseiro...

   -Deixa de me falar como se fosse uma menina!

   -É o que é para mim.

   Com um movimento brusco, Banner se tirou o xale grande, que caiu sobre o feno com um suave sussurro.

   -Me olhe, Jake. Já não sou uma menina. Sou uma mulher.

   "0h, Meu deus", rugiu uma voz no interior do vaqueiro. Era uma mulher, certamente; uma mulher formosa e tentadora. e ele estava procurando com todas suas forças fazer ouvidos surdos a suas petições, mas seu corpo o punha difícil. Quando tinha deixado de ser a pequena e encantada Banner? Quando tinha deixado de ser a filha preciosa de seus melhores amigos? Quando tinha deixado de ser toda cotovelos e joelhos, largas extremidades torpes e tranças desalinhadas, para adquirir essa tenra femineidad? Quando tinha deixado atrás essa magreza brincalhona para exibir essa silhueta mórbida e esbelta, de curvas voluptuosas? A transformação se produziu gradualmente ao longo dos anos da última vez que a tinha visto, ou nos últimos noventa segundos?

   O cabelo do Banner era tão negro como a meia-noite, e uma suave coroa de cachos emoldurava seu rosto oval. As mãos de um homem podiam perder-se nessa cabeleira.

Jake podia imaginá-la enroscando-se em seus dedos, roçando seu rosto, seus lábios, seu ventre.

   Anos atrás tinha reconhecido que era uma menina formosa, mas não era uma menina quem agora lhe olhava intensamente com olhos chamejantes e boca entreabierta, a qual ele desejou de repente poder saborear.

   O rosto da moça era tão sensual e provocador que deveria ter pertencido a uma mulher sem moral, a uma mulher experimentada em homens, que soubesse como lhes fazer marcar o passo. Que esse rosto pertencesse a uma moça doce e inocente, a que conhecia do berço, era uma das brincadeiras mais cruéis de Deus.

   Seus olhos tinham muito fogo para proteger sua pureza dos merodeadores. Emoldurados como estavam por umas sobrancelhas arqueadas e escuras, e rodeados por umas pestanas negras e frisadas, resultavam muito atrevidos, muito intrigantes, muito incitantes para ser bons. Sua sinceridade e sua franqueza eram perigosas para ser consideradas como virtudes. Um simples olhar a essa boca sensual era suficiente para impulsionar a um homem reto a transpassar os limites da lealdade e da fidelidade.

Quem podia pensar em velhas amizades com uma tentação semelhante oferecendo-se para ser provada?

   As manchas das sardas sobre o cavalete de seu nariz eram impudicos. Sua pele parecia tão suave como o cetim e tão cálida como o leite fresca. Jake não ousava perguntar-se como seria seu sabor. Banner cheirava como se acabasse de lavar-se com um sabão com fragrância de flores. Ele queria afundar seu rosto em um ramo dessas flores.

   Estava nua debaixo da camisola transparente, virginal. Com toda segurança, o mero feito de pensar no Banner Coleman nua era um pecado. Não duvidava de que Ross mataria a qualquer homem que desse a impressão de estar imaginando ao Banner nua.

   Mas que homem com sangre nas veias não fantasiaria com esse corpo magro que se desenhava debaixo do tecido suave? Que homem não quereria entrelaçá-lo com o seu?

Que homem poderia permanecer indiferente ante a plenitude de seus seios que agitavam o suave tecido que os cobria cada vez que tomava fôlego? E, diabos, se pudesse ver os centros mais escuros desses peitos...? Maldita seja! Não devia pensar nem nas pernas esbeltas nem na sombra escura entre suas coxas ou se voltaria louco de atar e faria algo pelo que poderia ser pendurado.

   Mas o atrativo sexual do Banner procedia de algo mais que de um rosto provocador e um corpo sedutor. Era seu caráter o primeiro que estimulava a imaginação de um homem. Havia uma ferocidade nela que pedia ser domada por alguém que tivesse a coragem suficiente para tentá-lo. Seu temperamento apaixonado era um desafio ao que qualquer homem de valia adoraria enfrentar-se, para tratar de amansá-lo, e logo dobrá-lo a sua vontade.

   Esse diminuto molho de femineidad tinha vindo até ele, com umas guelra dignas de admiração, lhe rogando que tomasse sua virgindade. Mas por muito que o seduza a idéia, Jake não tocaria ao Banner por nada do mundo.

   Amava-a pelo que era. Não estava disposto a sacrificar vinte anos de amizade pelo prazer de vinte minutos. amaldiçoou-se por não haver-se deitado com uma das putas da Priscilla a noite anterior pois se assim tivesse sido seu corpo não estaria tão faminto e lhe resultaria mais fácil dizer não ao Banner. convenceu-se de que essa era a razão pela qual dava tantas voltas à idéia.

   Sua resposta nunca esteve em questão. Não tinha mais opção que decepcionar à moça, mas com amabilidade, sem pôr em perigo o afeto que existia entre eles, sem atirar outro golpe a seu orgulho.

   -Sei que é uma mulher, Banner. Francamente, surpreendeu-me comprovar que te converteste em uma mulher esplêndida.

   -Então me faça o amor.

   -Não. Isso só pioraria as coisas. Esta noite está doída, sente-se rechaçada em favor de outra mulher. Entendo-o. Está desesperada. Essa é uma reação natural ante o que Sheldon te fez. Está tratando de salvar seu orgulho ferido. Esse filho de puta te envergonhou e você tem que recuperar seu orgulho. Mas não é assim como deve fazê-lo.

   -Es-afirmou-o Banner, com decisão.

   Jake negou com a cabeça. Dando um passo para frente, pôs suas mãos sobre os ombros da moça. Era uma jogada arriscada, mas tinha que fazê-la para convencer-se de que ainda podia tocar ao Banner e pensar nela como o faria um familiar. E tinha que convencer a de que sua relação não podia ir mais à frente.

   -Banner, vamos deixar de falar disto. Por favor, volta para a casa. Pela manhã as coisas parecerão diferentes. Prometo-lhe isso. Iremos cavalgar juntos.

   -Jake, não me quer? -lamentou-se Banner brandamente-. Não sou uma mulher desejável?

   -Banner -gemeu Jake, fechando com força os olhos.

   -Se eu fosse qualquer outra mulher, quereria-me?

   -Mas não o é.

   -Tem muita isso importância?

   -Tem muchísima importância. Você é Banner, a menina pequena do Ross e Lydia. Por amor de Deus, lembrança quando nasceu.

   Com o coração lhe pulsando agitadamente, Banner pôs suas mãos sobre o peito do Jake e lhe olhou fixamente.

   -Eu não recordo todo isso.

   -Mas eu sim.

   Jake a apartou com um suave empurrão e lhe deu as costas. Inclinou a cabeça e se oprimiu as conchas dos olhos com o pulpejo das mãos. Oxalá não pudesse ver, cheirar, sentir. Oxalá todos seus sentidos se suspendessem. Entretanto, estavam clamando, funcionando furiosamente. Seu impulso sexual sempre tinha sido sua ruína, regendo suas decisões em lugar de fazê-lo seu cérebro.

   Dava-se asco. Não era possível que a muchachita a quem estava acostumado a elevar no ar balançando-a até que dava chiados de alegria pudesse lhe haver provocado uma ereção. Mas a tinha. Uma vulgar ereção. Como? Como podia seu corpo trair a sua consciência?

   -Você deseja um homem esta noite, Banner -disse brutalmente-. Muito bem, posso me comover e compreendê-lo, embora siga considerando que não é nenhuma solução para o desengano. -Fez uma pausa para tomar fôlego-. Mas te juro que eu não sou o que você procura. Eu sou um vagabundo a cavalo, um vaqueiro sem recursos de quem os granjeiros protegem a suas filhas. Fiz coisas, presenciei coisas que lhe amedrontariam. Evito a responsabilidade. Sou um nômade que quão único possui é o que pode carregar em seus alforjas. Quando tenho uns poucos dólares os gasto em uísque, naipes e putas. Sim, também tive muitas putas. Minhas mãos não estão o suficientemente limpa para te tocar. Não o esqueça.

   -Amo-te; não importa o que é nem o que tem feito. Carece de importância. Sempre te amei.

   -Eu também te amo, Banner. Mas estamos falando de um pouco totalmente diferente. -Deixou cair suas mãos a ambos os flancos do corpo de um modo concludente, que ela não podia interpretar mal-. Não sou o homem que você quer esta noite, Banner.

   -Tampouco eu sou a mulher que você quer, Jake -disse. Banner com aspereza-. Você quer a minha mãe.

   Jake se girou bruscamente.

   -O que há dito?

   A atitude de frustração cansada que antes tinha adotado Jake tinha desaparecido. A humildade e a autodesaprobación se desvaneceram. Seu semblante se mostrava sombrio. O arco de suas sobrancelhas caía sobre seus olhos, que estavam ocupados esquadrinhando o rosto da moça.

   -Hei dito que você quer a minha mãe -repetiu Banner. Jake a olhou fixamente, com dureza e raiva. O queixo dela se elevou um pouco-. Você a amas, Jake.

   -Não sabe do que está falando.

   -Suponho que no fundo sempre o suspeitei, embora faça pouco que me ocorreu. -Os olhos do Jake continuaram olhando-a, implacáveis e penetrantes-. Acredito que mamãe também sabe. Por essa razão alguma vez te insiste a permanecer aqui, verdade? Esse é o motivo pelo que você nunca fica muito tempo, porque não suporta ver mamãe e a papai juntos.

   A emoção contraiu os músculos do rosto do Jake, o qual desprendia um reflexo trêmulo, como as quebras de onda de calor que brotam das pradarias áridas no verão.

   -Ross é o homem mais nobre que conheci. É meu melhor amigo.

   Banner se enterneceu e sorriu.

   -Sei, Jake. Provavelmente ama a papai tanto como a ela, só que de um modo diferente. Mas não me ofenda negando que ama a mamãe. Eu sei que é assim.

   Jake voltou a girar-se, mas não de tudo, de modo que oferecia ao Banner seu perfil. Jake se mesó os cabelos, logo entrelaçou seus dedos e pressionou uns contra outros. Seu rosto estava devastado pelo sentimento de culpa e o remorso.

   O coração do Banner se encheu de compaixão. Tinha aproveitado bem sua melhor carta e gado a jogada, mas não lhe satisfazia sua vitória. Sempre tinha suspeitado a causa da solidão que se impunha Jake. Agora sua suspeita se via confirmada. aproximou-se do Jake e se apertou contra ele, lhe rodeando a cintura com os braços, como fazia quando era uma menina. Mas nesta ocasião era completamente diferente. Era assombroso comprovar o bem que se sentia seu corpo contra o do Jake. Era mais alto que Grady, mais forte, mais magro. Algo despertou dentro dela, algo maravilhoso e proibido, e precisamente por ser um pouco proibido resultava mais maravilhoso.

   -Está bem, Jake. Não o disse para que se sentisse mau. Sua mãe e eu somos provavelmente quão únicas o adivinhamos e não o diremos a ninguém. Não pode evitar amá-la.- Banner apartou a cabeça do peito do homem. Posto que não pode tê-la a ela esta noite, tome a mim.

   A cabeleira do Banner caía sobre seus ombros e suas costas, lhe deixando o rosto espaçoso. lnstintivamente os braços do Jake a rodearam. O homem ainda estava aturdido pelo fato de que Banner tivesse podido perceber os sentimentos que pela Lydia ele tinha albergado em seu coração durante todos esses anos, desde a primeira vez que a viu tendida, ao bordo da morte, em um bosque do Tennessee.

   -Está sozinho, Jake, suspirando por uma mulher a quem amaste durante anos. Mas ela ama a outro, pertence a ele e sempre lhe pertencerá. Eu devia me haver convertido em uma mulher esta noite. Duvido de que me arrisque a amar a um homem depois do modo em que Grady me humilhou. Mas preciso saber que sou capaz de ganhar o amor de um homem. Me devolva a confiança em mim mesma.

   Banner levantou suas mãos e lhe acariciou o rosto. As pontas de seus dedos se deslizaram por ele, familiarizando seu tato a cada contorno irregular, a cada osso proeminente. Cedeu a sua curiosidade e descobriu que as costeletas eram tão ásperas como tinha suspeitado, e os lóbulos de suas orelhas, tão suaves. Seguiu o sulco das linhas severas que se curvavam para baixo das comissuras de seus lábios.

   -Somos exatamente o que necessitamos. Vamos nos dar distração e amor esta noite, Jake.

   As tenras carícias da moça tinham tirado o homem de seu transe. Também serviram para dar credibilidade a suas palavras. As mãos do Jake se abriram sobre as costas do Banner atraindo-a para ele. Afundou seu rosto no cabelo dela, nesse cabelo com uma textura idêntica ao da Lydia. Gemeu quando o corpo dela se curvou naturalmente para adaptar-se ao dele.

   -Não podemos fazê-lo, Banner.

   -Podemos.

   -Eu sou quão último necessita.

   -Você é o único em quem pensaria para fazer isto.

   -É virgem.

   -Sim.

   -Farei-te mal.

   -Não poderia.

   -Mais tarde o lamentará.

   -Mais o lamentarei se não o faz.

   Os lábios do Banner roçaram o pescoço do Jake. Sua pele estava quente. Jake suspirou e mordiscou os ombros da moça ligeiramente.

   -Isto está mau.

   -Como poderia estar mau? Você estava acostumado a beijar meus arranhões e machucados para que se curassem. me beije agora, Jake. Elimina esta terrível dor que há dentro de mim. Embora tenha que imaginar que sou minha mãe.

   A boca do homem encontrou a da moça, até antes de que tivesse terminado de falar. Um tenro roce de lábios. Um intercâmbio de fôlego. Uma suave pétala. Outra vez. Mais comprido nesta ocasião. Logo Jake apertou sua boca contra a do Banner. e se atrasou.

   Os braços do Banner rodearam com acanhamento o pescoço do homem. Jake sentiu as pontas dos seios da moça contra seu peito e quase se esqueceu de ir mais devagar.

Sua boca se deslizava sobre a dela, agora ansiosamente, até que conseguiu que se abrisse. Percorreu a boca do Banner com sua língua.

   A moça reagiu com uma contenção assombrada do fôlego e um estremecimento que endireitou seu corpo e o impulsionou contra o dele, como se alguém tivesse atirado bruscamente de uma corda unida ao cocuruto de sua cabeça.

   Jake estava perdido, irreparavelmente perdido, no sabor, na fragrância e na morbidez do corpo dela.

   Momentos mais tarde, caíram no jergón sobre o feno.

   -Banner, Banner -a respiração do Jake era agitada-. Detenhamos isto. Agora não posso. E está mau.

   -Por favor, Jake. Me ame.

   Todas as objeções que ele tinha alinhado em sua mente foram derrubadas como objetivos dispostos sobre um corrimão quando lhe deslizou a camisola sobre um ombro e tocou a garganta da moça com sua boca aberta. Estendeu a mão entre seus corpos para retirar suas roupas.

   A pele nua do Banner acariciava a sua. Seu femineidad a embalava. Carne de mulher suave e complacente. O caminho do inferno estava atapetado de seda.

   "OH, Deus, OH, Deus, me ajude a evitá-lo", suplicou Jake.

   Mas Deus estava ocupado e não ouviu a fervente súplica do Jake Langston.

   Jake jazia de costas, olhando fixamente os fitas de seda e escutando o pranto sereno do Banner. Voltou a cabeça para ela, apoiando uma mão em seu ombro.

   -Banner. -O nome lhe rasgou a garganta.

   A moça estava tendida de lado, de costas a ele.

   Ao notar a mão do Jake em seu ombro, encolheu-se ainda mais e afundou o rosto no refúgio de seu braço.

   Jake se sentou, voltou a olhar à moça e se insultou com as palavras mais sujas que lhe ocorreram. ficou as calças e saiu do estábulo, lhe concedendo ao Banner o tempo que sabia que necessitava.

   Quando Banner advertiu que Jake tinha saído do estábulo, deu-se a volta e se esfregou os olhos até que lhe doeram. Começou a incorporar-se lentamente, apoiando-se primeiro nos cotovelos. Fez uma pausa para recuperar o ritmo de sua respiração e finalmente se sentou.

   Com mãos trementes se alisou o cabelo para tirá-las fibras de feno. Agarrou o xale grande, desdobrou-o e envolveu seu corpo nele. Logo se esforçou por ficar

em pé. Sua mão afogou outra série de soluços quando viu a mancha de sangue sobre a manta do Jake. A mortificação a fez sentir-se aturdida e por um momento se reclinou contra a parede do pesebre, em um intento por recuperar o equilíbrio antes de ficar olhando fixamente o comprido corredor até a porta do estábulo.

   O ar frio do exterior aliviou a febre de sua pele, mas o alívio foi breve. Percebeu um movimento nas sombras e ao olhar para averiguar o que o tinha produzido viu o Jake apoiado contra a parede do estábulo. Nesse instante o homem deu um passo vacilante para ela.

   -Banner?

   O olhar do Jake se cravou com desespero no rosto desencaixado da moça, cujos rasgos a tênue luz da lua não fazia mais que ressaltar. Advertiu a expressão obsessiva de seus olhos, as lágrimas que brotavam deles. O sulco úmido que descendia por suas pálidas bochechas testemunhava que não tinha sido capaz das conter. Tinha os lábios inchados e irritados pelo roce de sua barba. Suas mãos saqueadoras tinham feito estragos em seu cabelo. Com um aspecto lamentável, Banner se cobria com o xale grande como se temesse que ele fosse arrebatar-lhe para voltar a possui-la. Rapidamente se afastou dele e fugiu para a casa, desaparecendo nas sombras do alpendre.

   Jake se desabou Contra a parede do estábulo. Sua nuca golpeou com força os tablones caiados enquanto ele gesticulava grosseiramente para o céu.

   -Mierda!

 

   Banner tinha acreditado que no dia anterior tinha sido o pior de sua vida. Estava equivocada. O pior era esse mesmo dia, quando não só tinha que desprezar ao Grady Sheldon, mas também também a si mesmo pelo ato desonroso que tinha realizado a noite anterior.

   Abraçando-se como se sentisse uma dor muito aguda na cintura, tendeu-se na cama e levou os joelhos até o peito. O que se tinha dado procuração dela impulsionando-a a fazê-lo? Seus motivos foram puros. Tinha pensado que dando um passo tão drástico se liberaria de seu desespero. Jake esteve correto. Entretanto, todo aquilo só tinha conseguido agravar sua desonra.

   "Jake, Jake, Jake. O que pensará de mim?"

   Jake sempre tinha idolatrado a Lydia, pondo-a sobre um pedestal por cima das demais mulheres. Intuitivamente Banner sabia que por essa razão nunca se casou, nunca se tinha aproximado de uma mulher com a intenção de formar uma família. Não era infiel a seu amor pela Lydia quando se deitava com putas, porque seu coração não estava comprometido. Lhe podia perdoar por ter que satisfazer os desejos da carne, pois sua alma seguia estando entregue a Lydia.

   Jake tinha amado ao Banner porque ra filha da Lydia. Mas agora ele saberia que ela não era melhor que Wanda Burns. arrojou-se a seus braços, lhe rogando que lhe fizesse o amor. O assombro que mostrou seu rosto quando ela se aproximou dele ainda a perseguia. Ao Jake havia conmocionado, talvez inclusive repugnado, sua desfarçatez. Se não foi assim ao começo, com segurança o teria sido mais tarde quando ela havia...

   Não, não podia recordar como tinha atuado, pois a vergonha a corroía muito profundamente.

   Sua memória omitia esses instantes intensos e avançava até o momento em que se apartou dele para ocultar de sua vista seu rosto e seu corpo desleal. Seu comportamento

certamente tinha destruído todo o afeto e a admiração que até então lhe professava. Sua estimativa por ela não podia ser mais alta que a que sentia pelas prostitutas com quem tinha estado. Ela não seria mais que outro entalhe entre quão numerosas adornavam seu cinturão. Não merecia maior respeito, porque era assim como se comportou.

 -Banner?

   sentou-se de um salto e se esfregou os olhos inchados pelo pranto. Freneticamente se alisou o cabelo com uma mão, levando-a outra ao peito. Teria trocado? Seria sua mãe capaz de detectar o que tinha feito?

   Saiu com ímpeto da cama e ficou uma bata, como se a camisola pudesse revelar seu segredo.

   -Sim, mamãe?

   Lydia abriu a porta e entrou. esmerou-se muito na decoração da habitação de sua filha. Tinha disposto no dormitório todo aquilo que lhe tinha faltado a ela em

sua adolescência e que sempre tinha querido ter.

   A cama de ferro estava grafite de um branco imaculado, e Lydia e Mami tinham dedicado horas ao edredom de cores que servia de colcha. Brancas cortinas de tecido bordado adornavam as duas janelas, e sobre os assentos que havia junto a elas se amontoavam almofadas feitas com restos de tecido e cheios com plumas de ganso. Tapetes confeccionados com tiras de roupa trancadas cobriam o chão. Os toques de uma mão carinhosa se apreciavam aqui e lá, pois apesar do marimacho que tinha sido Banner, esses detalhes femininos abundavam no quarto.

   O sobrecenho da Lydia se enrugou em um gesto de preocupação. Banner se achava diante de uma das janelas, em atitude orgulhosa, mas era evidente que tinha passado a maior parte da noite chorando. Lydia fechou a porta detrás dela.

   -Estávamos começando a nos inquietar por ti. Posso compreender que não tenha baixado a tomar o café da manhã, mas já é quase meio-dia. Baixará a comer ou prefere que te traga uma bandeja?

   O solícito interesse da Lydia provocou outro turno de lágrimas, que Banner lutou por conter. O que pensariam dela seus pais se tivessem podido vê-la movendo-se debaixo do Jake? A vergonha a envolveu como uma onda escarlate.

   -Em realidade, não quero nada, mamãe, mas obrigado. Parece-me que hoje ficarei em minha habitação.

   Lydia lhe agarrou uma mão e a apertou brandamente.

   -Ontem de noite baixou. Foi tão terrível?

   Tinha esperado que Banner continuaria vivendo como antes, que voltaria a montar como faziam os jeans depois de que um potro teimoso os tivesse atirado ao chão.

   -Não é isso -disse Banner evasivamente-. Preciso dedicar o dia de hoje a refletir sobre meu futuro.

   Luta atraiu a sua filha para seus braços e lhe acariciou o cabelo.

   -Ontem não me tivesse atrevido a expressar o que vou dizer, pois as feridas eram muito recentes. Mas agora quero fazê-lo, e desejo que não o interprete de um modo equivocado. -Fez uma pausa por um momento, selecionando cuidadosamente suas palavras-. Tranqüiliza-me que não te tenha casado com o Grady.

   Banner se apartou para poder ver melhor a sua mãe.

   - por que? Pensei que você gostava.

   -Sim, certamente. Eu gostava muitíssimo. Sempre o considerei um bom moço. -Seus olhos de cor âmbar se escureceram-. Possivelmente era muito bom. Não confio em um homem a quem não lhe possa atribuir alguma imperfeição, algum defeito de pouca importância.

   Banner quase esqueceu sua aflição e riu.

   -Mamãe, é contraditória. Qualquer outra mãe se alegraria de que sua filha se casasse com um moço sem mancha como Grady.

   -Não era isso o que me preocupava. Acredito que não tinha muita energia, ou pelo menos não a suficiente para ti.

   A Lydia sempre tinha parecido que Grady era muito brando para sua filha, que lhe faltava determinação. Tinha temido que com o tempo Banner se aborrecesse com ele, e Lydia não podia imaginar nada mais ameaçador para um matrimônio. Ela e Ross brigavam, amavam-se, riam, mas certamente, o aborrecimento nunca tinha formado parte de suas vidas, e ela não tivesse querido essa classe de inexistência para sua filha.

   Acariciou carinhosamente a bochecha do Banner.

   -Encontrará a alguém muito melhor. Tenho a impressão de que há um homem absolutamente encantado te esperando. Eu não acreditava que minha vida estava terminada antes de conhecer o Ross. Ele sentiu o mesmo quando Vitória morreu, deixando-o com um recém-nascido. Nunca tivéssemos podido predizer a segunda oportunidade que nos ofereceu, e olhe que vida tão maravilhosa levamos juntos.

   A emoção formou um nó na garganta do Banner. Abraçou a sua mãe para que não pudesse advertir o sentimento de culpabilidade que sabia resultaria evidente se a examinava de perto. Se havia um homem esperando-a, já não tomaria, pois estava manchada, mas não pelo Jake, mas sim por ela mesma.

   Jake era um homem, um homem viril. Se ela tivesse albergado alguma dúvida a respeito, esta se tivesse espaçoso a noite anterior. Ela o tinha provocado além do que um santo poderia suportar. Jake não era responsável pelo que tinha acontecido. Desejava poder lhe imputar parte da culpa a ele, mas lhe resultava impossível.

Ao menos, era justa. Tinha recebido exatamente o que tinha pedido, e portanto era ela quem devia pagar o preço.

   -Ross e eu estivemos falando -disse Lydia-. Pensamos que talvez gostaria de te afastar por um tempo, viajar a algum lugar realmente excitante, como São Luis ou Nova Orleáns.

   -Não, mamãe -replicou Banner, negando com a cabeça-. Isso não é para mim. Nunca fugirei nem me ocultarei. A desonra é do Grady, não minha, e não consentirei que seu comportamento me afaste da gente e do lar que amo. -Respirou profundamente, estremecendo-se-. Quero tomar posse de minha terra e me mudar ao outro lado do rio para começar a trabalhar no rancho como tínhamos planejado.

   Atônita, Lydia olhou fixamente a sua filha.

   -Mas, querida, isso é o que estava previsto que fizessem Grady e você depois de lhes casar. Uma mulher solteira não pode fazê-lo.

   -Posso e quero fazê-lo.

   Sua voz transmitia convicção. Nas poucas horas que tinham transcorrido da manhã ao Banner lhe tinha ocorrido que sua única salvação residia em esgotar-se trabalhando, entregar-se plenamente a um projeto que lhe expor exigências físicas e mentais e que lhe fizesse recuperar o respeito a si mesmo.

   -Devo fazê-lo, mamãe. Compreende-o, verdade?

   Lydia suspirou enquanto estudava o rosto decidido do Banner.

   -Compreendo-o, mas não estou segura de que Ross o faça.

   Banner apertou as mãos da Lydia.

   -lhe convença, mamãe. Não posso ficar aqui sentada, esperando ociosamente outro pretendente para materializar meus planos. Já não tenho idade para fazê-lo e tampouco quero. Se não procurar deixar de ser a pobre e desventurada filha do Ross e Lydia Coleman cujas bodas se frustrou, murcharei-me e morrerei. Preciso fazê-lo.

   -Falarei com ele -assegurou Lydia tranqüilamente-. Você descansa. Está segura de que te encontra bem? Está pálida.

   -Sim, mamãe, estou muito bem. Mas fala a papai sobre a questão. Estou ansiosa por começar. quanto antes consiga estar ocupada, melhor.

   Lydia beijou a frente de sua filha.

   -Verei o que posso fazer. Mas não atue movimento por seus impulsos, Banner. Não tome decisões precipitadas.

   por que sua mãe não lhe tinha feito essas advertências antes da noite passada? Teria aceito seu conselho? Sinceramente, a moça o duvidava.

   -Sei o que faço, mamãe -disse Banner com suavidade; desejando que fosse certo.

   -Não quero que seja muito dura contigo mesma. Os corações destroçados demoram tempo em curar-se.

   Lydia se referia ao Grady, embora para o Banner, depois da noite, as lembranças do que tinha acontecido na igreja apareciam imprecisos. Acontecido-o entre o Jake e ela tinha reduzido a importância do engano do Grady.

   Quando Lydia partiu, Banner se dirigiu ao penteadeira, tirou-se a bata e deixou que sua camisola se deslizasse por seu corpo até o chão. Inundou um pano na água fria e se lavou a cara, pressionando seus olhos ardentes. Quando já não pôde evitá-lo, contemplou sua imagem no espelho. Assombrou-lhe que seu aspecto não tivesse trocado, embora sentia que se modificou de um modo irrevogável. Era como se a tivessem esvaziado de tudo o que havia em seu interior, reordenando-o e reagrupando-o, para voltar a pô-lo no mesmo molde. Mas nada era o mesmo.

   Vacilante, tocou-se os lábios evocando a primeira vez que Jake os tinha roçado com os seus. tocou-se o pescoço. Um cardeal débil, tão leve que sua própria mãe não o tinha advertido, encheu sua mente de lembranças que acudiram precipitadamente sobre asas vibrantes, tão rápidas como as de um colibri.

   Não era possível. As lembranças eram errôneas. Jake não a havia meio doido, não a tinha beijado, não a havia poseído do modo que ela recordava. Não.

   Mas se estava mentindo. Seu corpo assim o dizia. Se fechava os olhos, ainda podia sentir a firme pressão do Jake dentro dela, o suave assobio de sua respiração sobre sua pele, a doce persuasão de seus lábios contra os seus. Por mais que se esforçasse em esquecer, não o obtinha; por muito que desejasse bloquear a lembrança em sua mente, a febre de seu sangue não o permitia.

  

   -Olá, Jake.

   Jake entrou no barracão dirigindo-se diretamente para o fogão, onde descansava uma enorme panela cheia de café quente.

   - O que há? -grunhiu enquanto se servia o café carregado em uma taça de porcelana.

   -Ross quer verte logo que termine de tomar o café da manhã -informou-lhe um dos jeans-. Pediu-me que lhe dissesse isso.

   A taça se deteve em seu caminho para os lábios do Jake.

   -Disse o que queria?

   -Não.

   -Obrigado.

   Ao Jake não tivesse surpreso ser saudado essa manhã pelo canhão do revólver do Ross. Com toda certeza, se Ross chegava a inteirar-se do que tinha acontecido no estábulo a noite passada, mataria-lhe, sem sequer ter nenhum escrúpulo ao lhe disparar pelas costas.

   Em uma ocasião, anos atrás, Lê ouviu um dos jeans fazer um comentário sobre a figura em maturação do Banner. Lê defendeu a honra de sua irmã e ambos os homens se encetaram em uma briga. Quando Ross apareceu, o vaqueiro foi obrigado a repetir a grosseria. Ross ficou tão furioso, que teria golpeado ao moço até lhe matar se Jake e outros peões não o tivessem impedido.

   Não se informou a nenhuma das mulheres do incidente, mas os homens próximos ao River Bend nunca o esqueceriam. Sempre tinham respeitado ao Ross como patrão e como homem, lhe evitando quando mostrava seu mau gênio. Mas depois desse dia, procuravam não olhar de soslaio ao Banner por tentadora que fosse a visão. Os que foram contratados a partir de então eram advertidos a tempo por seus companheiros de que a filha do chefe era terreno sagrado e proibido para eles.

   Jake se sentou à larga mesa de cavaletes e sorveu o café quente. Sacudiu a cabeça em um gesto de negação quando Cookie lhe ofereceu um prato de bolachas e panceta.

   Não, Ross não se teria informado do acontecido a noite passada, pois de ser assim, Jake já estaria morto. Nem sequer sua amizade lhe teria protegido de sua ira.

   Mas como diabos poderia olhar à cara a aquele homem? Como podia um olhar à cara de um amigo a cuja filha tinha violado? Sim, tinha violado a doce e pequena Banner.

   A repugnância que sentia quase o fez vomitar o café que tinha tragado.

   -ouvi que vinha do Fort Worth, Jake.

   -Sim -respondeu Jake lacónicamente.

   -Visitou Hell's Half Acre? -perguntou outro dos cândidos jeans.

   Lê e Micah tinham fomentado a reputação do Jake entre os peões do River Bend, quem lhe considerava uma lenda. A maioria era muito jovem para ter participado de trajetos largos. Os jeans que o tinham feito e seguiam ali para falar disso aos novatos eram reverenciados.

   -Eu estive ali durante uma temporada.

   -Como era?

   -Buliçoso.

   -Sim? Foi ao Jardim do Éden? Ao parecer a cantina da Priscilla tem as melhores putas do estado. Treinadas em Nova Orleáns. É certo?

   -Nova Orleáns, né? -disse Jake, rendo ironicamente ante a credulidade do moço. Que sentido tinha desiludi-los?-. Sim, admito que algumas o foram.

   -Deitaste-te com alguma delas?

   -Diabos, claro que o tem feito -atravessou outro, ridicularizando a seu amigo-. Sempre tem uma reservada. Jake é como um tônico para essas moças. ouvi que desde que partiu, Priscilla não foi capaz de apagar os sorrisos dos rostos das garotas. Parecem umas bobas de arremate, perambulando como sonâmbulas com um sorriso estúpido nos lábios.

   Os que estavam ao redor da mesa se gargalharam. Jake se limitou a encolher-se de ombros enquanto tomava outro gole de café. Não se sentia especialmente orgulhoso de sua fama de mulherengo, embora tinha feito todo o possível para ganhar a Estava acostumado a que lhe gastassem brincadeiras a respeito de suas proezas na cama.

   Essa manhã lhe preocupava muito seu iminente entrevista com o Ross para emprestar atenção às graças habituais. O sexo, ou a falta dele, estava acostumado a ser o tema de conversação entre os jeans solitários, que com freqüência deviam acontecer vários meses seguidos sem poder desfrutar da companhia feminina. Não havia conto vulgar que Jake não tivesse ouvido nem piada lasciva que ele mesmo não tivesse repetido em torno de qualquer fogueira de acampamento. Essas histórias já não lhe impressionavam como aos jovens, quem lhes atribuía caráter de autenticidade e as acreditavam.

   Os impropérios moderados e os cumpridos exagerados lhe entravam por um ouvido e lhe saíam pelo outro, até que um vaqueiro disse:

   -E como lhe arrumou isso em uma noite livre como a de ontem, Jake? Conseguiu penetrar a uma mulher no estábulo?

   Jake se levantou da cadeira desencapando o revólver com tal rapidez que as risadas morreram nas gargantas dos reunidos. Seu revólver estava a escassos centímetros do nariz do desafortunado vaqueiro quando Jake perguntou com os dentes apertados:

   -O que quer dizer com isso?

   O outro homem ficou mudo do susto. Tinham-lhe contado que o aprazível Jake Langston podia ter muito mau gênio quando lhe incomodavam, que sua cólera se equiparava a de uma serpente de cascavel, e que nenhum homem jogava com ele. Agora sabia que era certo e desejava haver-se cheio a boca com outra bolacha do Cookie em lugar de fazer a brincadeira que poderia lhe custar a vida.

   -N... nada, Jake, nada. Só estava brincando.

   Jake pensou que o que o homem havia dito era certo e de repente se sentiu envergonhado por ter perdido os estribos até o ponto de tirar o revólver. Mas se o vaqueiro tivesse mencionado que tinha visto o Banner entrar no estábulo, sem dúvida lhe teria disparado antes de permitir que se comprometesse a reputação da moça.

   Soltou o gatilho de seu revólver e voltou a embainhá-lo na pistolera.

   -Sinto muito. Suponho que não estou de humor para brincadeiras esta manhã. -Esboçou um sorriso enviesado, mas a anterior alegria ao redor da mesa não se restabeleceu.

   Os homens levaram seus pratos ao Cookie, que se encarregava da cozinha no barracão, e recolhendo seus chapéus, luvas e laços, partiram para empreender as tarefas do dia.

   Jake bebeu um sorvo mais de café. Quando já não pôde postergá-lo por mais tempo, dirigiu-se para a casa. Anabeth e Lydia estavam sentadas no alpendre, contemplando aos pequenos Drummond, que jogavam no pátio.

   -bom dia -disse Jake cautelosamente.

   -Olá, Bubba -saudou-lhe Anabeth.

   Lydia sorriu.

   -bom dia. Lhe sentimos falta de no café da manhã.

   -Tirei passear ao Stormy. Ainda não pode apoiar bem esse casco.

   -comeste?

   -No barracão -mentiu-. Onde estão todos?

   -Héctor está ajudando ao Mami a fazer um espantalho para pô-lo em seu maizal-respondeu Anabeth, sonriendo-. Assustava aos meninos, por isso os traje aqui. Marynell está estudando, como de costume.

   Jake sacudiu a cabeça sem fazer nenhum comentário. Seu olhar se posou nos meninos, que jogavam a peço-a.

   -Como... como está Banner? -Era uma pergunta perfeitamente normal. depois do ocorrido no dia anterior, todos estavam preocupados com ela. Nem a sua irmã nem a Lydia podia sentir saudades, a menos que notassem sua tensão quando a formulou.

   -Faz um momento fui ver como estava -disse Lydia-. Tem os olhos inchados. Deve ter chorado toda a noite. -Lydia estava observando os esforços do mais pequeno dos Drummond para escalar as costas de sua irmã, por isso não pôde captar o gesto de remorso que encolheu os lábios do Jake-. Estivemos falando. Suponho que lhe passará com o tempo.

   A culpa tinha pego ao Jake pela garganta e não o soltaria. Banner poderia haver-se recuperado da sacanagem do Sheldon, mas se recuperaria do que tinha acontecido de noite? Não. Não havia maneira de recuperar-se disso. O dano que lhe tinha infligido era permanente.

   -Está Ross na casa? Um dos homens disse que queria lombriga.

   -Sim -respondeu Lydia e de repente seus olhos cintilaram-. Está em seu escritório.

   Jake saudou as duas mulheres tocando-se ligeiramente a asa do chapéu, atravessou o alpendre e entrou pela porta principal.

   -Estou preocupada com ele -disse Anabeth depois de comprovar que seu irmão não poderia escutá-la.

   -Preocupada? por que?

   -Desde que Papai morreu e ele partiu para fechar esse contrato para conduzir ganho, foi como um estranho. Olhe como vive. Com uma mão atrás e outra diante, sem nenhuma perspectiva de melhora. Desejaria que sentasse cabeça e se casasse, que tivesse filhos e deixasse de vagabundear. É um homem adulto. Deveria comportar-se como tal.

   -Mami também está preocupada com él-observou Lydia-. E eu também.

   -Sabe? -continuou Anabeth-. Acredito que nunca superou o assassinato do Luke. Sei que parece absurdo, que aconteceram quase vinte anos, mas após o Jake deixou

de ser o mesmo. Possivelmente se tivéssemos descoberto quem foi o assassino e se feito justiça, não lhe teria afetado tanto.

   Lydia baixou o olhar. Jake sabia quem tinha matado a seu irmão: o meio-irmão dela, Clancey Russell. Tinha exigido o castigo e ditado uma sentença de morte. Tinha dezesseis anos quando se vingou do assassino do Luke. Nunca tinha superado o assassinato de seu irmão. Luta era a única pessoa no mundo que compartilhava esse segredo com ele. Era um vínculo entre eles que nunca se romperia.

   Jake avançou pelo corredor em sombras para a parte traseira da casa e bateu na porta. sentia-se tão torpe como a primeira vez que viu o Ross. O transcurso dos anos e a inevitável maturidade do Jake tinham estreitado a brecha entre suas idades. Mas a culpa o fazia sentir-se tão assustadiço como um moço a ponto de receber uma surra.

   -Ross.

   Sua cabeça escura se elevou. Estava examinando a pilha de papéis que tinha sobre o escritório.

   -Entra, Jake, e sente-se. Obrigado por vir. Estou te roubando o tempo?

   -Não. -Agarrou a cadeira que se achava frente ao escritório e tratou de aparentar um ar de normalidade ao apoiar um tornozelo sobre o joelho oposto. tirou-se

o chapéu e o jogou sobre o sofá de couro que havia junto à parede-. Tenho previsto passar a maior parte do dia com o Mami.

   -Estupendo -disse Ross solenemente-. Te tem saudades.

   -Sim, sei. -Jake suspirou.

   Sua apressada partida depois da morte de seu pai não tinha sido correta, mas então já não podia suportar a vida na granja. teria se tornado louco tratando de

obter uma colheita decente dessa terra pedregosa que, conforme tinha tratado de convencer a seus pais, era ideal para o gado vacino. Entretanto, quão único sabiam fazer seus pais era trabalhar de granjeiros, e não houve maneira de persuadi-los.

   Sentia remorsos por ter abandonado a sua mãe. Era o filho maior e, por conseguinte, o responsável pela família. Enviava dinheiro a casa cada vez que cobrava,

mas sabia que, mais que seu dinheiro, o que sua mãe precisava era o ter a seu lado. levou-se mal com ela. E agora se encontrava com os olhos do homem com quem se levou inclusive pior.

   - Para que queria lombriga, Ross?

   -Para o de costume. Pela mesma razão pela que quero falar contigo quase cada vez que vem ao River Bend. Um trabalho.

   -Minha resposta é a mesma. Não.

   -por que, Jake?

   Jake se reanimou inquieto em seu assento. Sempre em ocasiões anteriores seu motivo tinha sido Lydia. Banner tinha dado no prego. Não podia permanecer muito tempo no River Bend porque amava muito a Lydia. Acabaria sendo evidente cedo ou tarde, o que destruiria a amizade que mantinha com os Coleman. Não valia a pena correr tal risco. Mas agora havia uma nova razão. Nunca poderia voltar a enfrentar-se ao Banner.

   O era o único culpado. Sim, era certo que ela tinha ido até ele, que o tinha tentado. Sim. Mas ele tinha acessado, e de fato sem que ela tivesse que esforçar-se muito. O tinha acessado, firme, quente e ansioso.

   Ele era o amadurecido, que sabia mais. Ela tinha sido ferida, tinham-na decepcionado, necessitava distração e segurança. Banner tinha ido a ele em busca de uma coisa, embora pedindo outra. Entretanto, até sabendo todo isso, até sabendo que obrava mau, que estava sacrificando sua amizade com os Coleman, apesar de todo isso, ele a tinha tomado.

   Deus! Como devia desprezá-lo Banner! Quando tudo teve terminado, a moça se havia acurrucado, temerosa de seu contato. Apenas o tinha cuidadoso, e quando o fez foi com os olhos de um animal apanhado. Tanto a tinha ferido? Ainda estaria sofrendo? Não podia ter mostrado um pouco mais de delicadeza? OH, não, ele não. O príncipe dos palácios do prazer, não. Havia-a poseído grosseiramente. Uma vez dentro dela, esqueceu que era virgem e inexperiente.

   Maldita seja! Ela devia pensar que era um besta. O melhor era desaparecer da vida da moça o antes possível. Assim que tivesse passado algum tempo com o Mami, partiria. Esse mesmo dia, se Stormy era capaz de andar.

   -Não posso ficar - disse ao Ross bruscamente.

   -Eu gostaria de falá-lo antes de que me desse uma resposta definitiva.

   -Como quer. Estamos esbanjando seu tempo, não o meu.

   -Gosta de um pouco de café?

   -Não, obrigado.

   -Uísque?

   -Não. -Jake sorriu com ironia-. Que tráficos de fazer? me subornar?

   Ross lhe devolveu o sorriso.

   -Se assim consigo que fique... Sabe que quis que trabalhe comigo desde que nos separamos no Jefferson quando se dissolveu a caravana de carromatos.

   -Foi impossível então devido a meus pais. Segue sendo impossível agora.

   -Maldita seja! por que? -Ross golpeou o escritório com o punho-. Tem outro trabalho te esperando? Disse que tinha deixado um no Panhandle.

   -Assim é.

   -Então? Que planos tem?

   -Encontrar outro.

   -por que, quando estou te oferecendo um trabalho aqui? Um trabalho condenadamente bom.

   Ross se levantou da cadeira e rodeou o escritório. Exceto pelos fios chapeados que veteaban o cabelo escuro, seguia sendo o homem que Jake Langston sempre tinha admirado. Outro acesso de repugnância lhe retorceu o estômago. Se Ross soubesse o que tinha feito ao Banner, estaria lhe enterrando em lugar de lhe oferecer aquele trabalho.

   -Quero que seja o capataz do rancho do Banner ao outro lado do rio.

   Jake deu um coice ante a menção do nome da moça.

   -O rancho do Banner? Que rancho?

   Ross se sentiu animado pelo repentino interesse do Jake.

   -Faz uns anos que reservei algumas hectares para cada um de meus filhos, Banner e Lê. Adquiri as terras por pouco dinheiro, uma parcela aqui, uma parcela ali.

A maioria está sem cultivar. Ia dar ao Banner e Grady a parte dela como presente de bodas. -Seus olhos verdes se endureceram grandemente-. Não pode nem imaginar as vontades que tive de matar a esse bastardo ontem.

   -Sim, posso. Eu sinto o mesmo.

   Jake tinha visto o Ross enlouquecido. Ele conhecia bastante de seu passado para saber que podia ser aniquilador... literalmente. Não duvidava de que Ross fora capaz de matar, e só caberia agradecer à providência que tivesse intercedido e impedido o assassinato do Sheldon, o qual só teria conduzido maiores infortúnios à família.

   -Mataria a qualquer homem que fizesse mal ao Banner -disse Ross-. Sheldon não me entusiasmava particularmente como marido para ela, mas já sei que qualquer pai considera que não há homem vivo o bastante bom para sua filha. Sheldon não podia me falhar. Pensei que era uma eleição segura. Desde que Banner teve a idade suficiente para atrair a atenção de um homem, temi que aparecesse algum vaqueiro vagabundo que a fizesse perder a cabeça por ele.

   -Tinha todo o direito a temer que pudesse acontecer.

   -casou-se com ela e não lhe daria mais que filhos e miséria, enquanto gastava meu dinheiro em putas, partidas de pôquer e álcool. -Jake sorriu sombríamente.

Ao menos Sheldon dispunha de um negócio e desfrutava de uma boa posição na comunidade. Não me preocupei com sua moralidade. -Amaldiçoou abyectamente-. Suponho que isso demonstra que sou incapaz de julgar às pessoas como é devido.

   "Em todo caso -continuou Ross, mesándose o cabelo como se tratasse de apagar de sua mente ao Grady Sheldon-, construímos uma casa pequena nessas terras para que Banner e Grady vivessem ali. Minha filha já lhe tinha advertido que não tinha intenção de mudar-se à cidade. Agora Lydia me há dito que Banner quer transladar-se ali de todos os modos, pôr em marcha o rancho como se planejou. Sem o Grady, sem ninguém.

   Jack interrompeu a explicação do Ross para replicar sinceramente:

   -Isso é uma loucura. Ela não pode fazê-lo.

   Ross só grunhiu para dar a entender que era melhor não dizer ao Banner que não seria capaz.

   -Prometi-lhe um semental e um par de éguas para começar, mas também quer tentar a cria de gado vacino em um dos campos de pastoreio menos férteis.

   -Que diabos sabe ela de ganho vacino?

   -Nenhuma condenada costure. e tampouco sei nada eu, salvo indicar como eu gosto que esteja cozinhada minha chuleta. -Os olhos do Ross brocaram os do Jake. Mas você sim sabe. É uma parte de terra de primeira, Jake. Poderia fazer maravilhas ali.

   Em qualquer outro momento Jake tivesse saltado de alegria ante uma oportunidade como essa. Tivesse aceito encarregar do rancho. Poderia dirigi-lo como correspondia.

Deus, que tentação, que apetitosa maçã esperando ser agarrada. Entretanto, devia declinar a oferta, de modo que não havia nenhuma necessidade de meditar sobre isso.

   levantou-se e se dirigiu para a janela, deslizando suas mãos, com as Palmas para cima, nos bolsos traseiros de seu texano.

   -Sinto muito, Ross, não posso.

   -me dê uma condenada boa razão pela qual não pode.

   -Banner -disse Jake, girando-se. Banner armaria um alvoroço se pudesse ouvir essa conversação. Provavelmente a moça não desejava voltar a ver seu sedutor jamais, e muito menos o ter administrando seu rancho-. Ela quererá contratar a seu próprio capataz. Estou seguro de que tem idéias próprias.

   Ross riu entre dentes, com afeto.

   -Eu também estou seguro, mas o caso é que eu conservo o controle da propriedade. Não acredito que queira tontear com isso depois de tudo o que aconteceu. Mas Luta diz que está decidida a mudar-se ali. Entretanto -disse, levantando o dedo indicador e apontando ao teto-, ela terá o que merece se acreditar que vou permitir que viva ali sozinha. Em primeiro lugar, seria fisicamente impossível. Banner é uma moça forte, mas não está à altura do trabalho que é necessário realizar. Nenhuma mulher poderia.

   -Pode contratar outros peões.

   Ross lhe olhou arqueando uma sobrancelha.

   -Jeans desejando veementemente pôr suas mãos sobre minha filha? -Jake se voltou para a janela-. Quando todos se inteiraram do que aconteceu ontem, os rumores vão correr depressa. Já sabe como falam os homens das mulheres. Darão por sentado que Banner tinha ao Sheldon tão excitado que lhe impulsionou a procurar a alguém como essa puta do Burns.

   -Banner é uma mulher formosa, Ross -repôs Jake tranqüilamente-. Possivelmente tenham razão.

   -Talvez -grunhiu Ross-. Mas Lydia e eu a educamos corretamente. Juraria que ela não ultrapassou em nenhum caso os limites da decência. Além disso se ele tivesse alguma firmeza moral, reprimiu-se e resistido. De todos os modos, não quero um desfile de jeans luxuriosos solicitando trabalho só para jogar uma olhada ao Banner.

   "Isto a obcecará durante muito tempo. Lydia e eu estamos muito preocupados a respeito. É muito vulnerável agora. Estará desesperada procurando recuperar a confiança em si mesmo. Poderia aparecer algum vaqueiro miserável que se aproveitasse de seu coração destroçado. Mataria-lhe no ato, mas com toda segurança tal sucessão de feitos acabaria com o Banner.

   Seus pais conheciam bem à moça. As mãos do Jake se converteram em punhos sobre o parapeito da janela. Queria estelar os contra o vidro para provocar-se dor e aplicar-se assim o castigo que merecia. A culpa sabia tão amarga como a bílis em sua garganta. Não lhe abandonaria. Corroeria-lhe como um câncer. Estava doente de culpa. Sem sabê-lo, Ross piorava a situação.

   -Você é o único homem a quem a confiaríamos, Jake. Por favor, faz-o por nós. Aceita o trabalho. É o mais conveniente para o Banner e também para ti.

   Jake manteve os olhos fechados, desejando poder fechar seus ouvidos com a mesma eficácia. Finalmente se voltou devagar. Esteve com o olhar fixo no chão durante um comprido momento antes de dizer:

   -Não posso, Ross. Sinto muito.

   -Cento e cinqüenta dólares ao mês.

   Era uma fortuna.

   -Não é o dinheiro o que me preocupa.

   -Então o que?

   -Não posso ficar em um sítio. Sou uma pessoa sem rumo na vida.

   -Tolices.

   O sorriso do Jake foi lastimosa.

   -Reconheço-o. Reconheço que minha vida está cheia de tolices. Suponho que não quererá que um velho vaqueiro inútil como eu administre o rancho do Banner.

   -Claro que quero. Você é o melhor homem que vi escarranchado sobre um cavalo, depois de mim, é obvio. -Lançou uma risada jactanciosa antes de voltar a ficar sério-. Não posso te fazer trocar de idéia? -Jake negou com a cabeça-. Ao menos considera-o enquanto esteja aqui.

   Jake recolheu seu chapéu e se encaminhou para a porta. Já a tinha aberto quando Ross lhe chamou.

   -Jake?

   - Sim?

   -Mesmo que eu aceite sua resposta negativa, Luta não o fará. E você sabe como é quando decide algo.

  

   Essa tarde Lydia o encontrou na borda do rio pescando. Sem dizer uma palavra, deixou-se cair na erva junto a ele.

   -pescaste algo?

   Era evidente que não, e que tampouco lhe importava.

   -Passava por aqui? -perguntou ele sem soltar o charuto que sujeitava entre os dentes. Estavam a quase um quilômetro da casa.

   Ela sorriu, parecendo exatamente a jovem de vinte anos que tinha conquistado seu coração de adolescente.

   -Mami me disse onde estava.

   -E como sabia? Sua habilidade para me localizar quando não quero que me encontrem é realmente estranha. Uma vez me pilhou brincando em um riacho com a Priscilla Watkins. Pensei que ia equilibrar se sobre mim. Tinha dezesseis anos. -Enviou ao ar uma nuvem de fumaça-. Agora tenho trinta e seis, e segue entremetendo-se em meus assuntos.

   -Quer-te.

   -Sei -disse ele, causar pena-. Isso é o pior. Comi em sua cabana. Estávamos todos; Mami, Anabeth e sua prole, Marynell e Micah. Mas há muitos que se foram: meu pai, os bébés que nem sequer chegaram à infância, Atlanta e Samuel. Luke. -ficou olhando a água, meditabundo-. Ainda lhe sinto falta de, Lydia.

   Ela pôs uma mão sobre o braço do homem.

   -Sempre o terá saudades, Buba.

   Ele sacudiu a cabeça, com um débil sorriso.

   -Faz tanto tempo. Mas às vezes me parece lhe ouvir rir. Sabe? Surpreendo-me olhando ao redor, buscando-o.

   -Eu sinto falta da o Moisés desse modo.

   O homem negro tinha unido suas forças às deles quando se dissolveu a caravana de carromatos. Seu anterior patrão, Winston Hill, tinha sido assassinado. Não tinha nenhum lugar aonde ir.

   Moisés foi amigo e defensor da Lydia durante as horríveis primeiras semanas de seu matrimônio. Quando se instalaram em suas terras, Moisés emprestou uma ajuda inestimável, permitindo que Ross se dedicasse por completo à construção do primeiro estábulo e que ela atendesse a Lê. Ainda o considerava um de seus amigos mais queridos.

   -O dia que o enterramos recordei como levou o corpo do Luke ao círculo que formavam os carromatos e com quanta dignidade chorou quando mataram ao Winston. Era

um dos homens mais compassivos que conheci.

   Jake cobriu com a sua a mão da Lydia que descansava sobre seu braço.

   -Aquele verão todo trocou para nós, verdade?

   -Certamente para o Ross e para mim. -Lydia olhou fixamente o perfil do Jake. Seu rosto adulto era estranho para a Lydia e nunca cessava de surpreendê-la. Quando o olhava, esperava que ele fosse o moço de cabelos loiros, quase brancos, e redondos olhos azuis que a tinha encontrado no bosque-. E para ti, Jake. Acredito que te trocou mais a ti que a ninguém.

   Jake tinha que admiti-lo. Sua inocência se desvaneceu aquele verão. Durante aqueles meses na caravana de carromatos tinha sofrido mais adversidades que as que um homem devia confrontar em toda sua existência. Buba Langston maturou em pouco tempo, e ninguém crescia tão rapidamente sem que isso lhe afetasse.

   Lydia recolheu as pernas, envolveu-as com sua saia e apoiou o queixo nos joelhos.

   -falei com o Ross.

   -E ele te comunicou minha resposta.

   -vou fazer te trocar de idéia.

   -Não conte com isso, Lydia. Não conte comigo para nada.

   -Claro que conto. Conto com sua amizade.

   -Tem minha amizade, mas...

   -Necessitamos sua ajuda agora. nos ajude a que Banner supere esta calamidade.

   -Eu não sou o homem adequado.

   -É-o. Tem a experiência que o posto requer.

   -Não estou falando do trabalho. trata-se... trata-se do Banner.

   Lydia riu.

   -Reconheço que é difícil de tratar em ocasiões. É teimosa, impetuosa e volúvel. Embora já é uma mulher adulta, Ross e eu não podemos deixada solta para que cometa enganos dos que se arrependerá eternamente.

   -Não sou um policial.

   -Não espero que o seja. Espero que seja o que sempre foste para ela, um amigo, um aliado. Confiamo-lhe isso.

   Maldita seja, Jake desejava que não voltassem a repeti-lo! sentia-se como no inferno. Seguiriam lhe recordando sua traição?

   -Encontrará a algum outro mais capaz e provavelmente digno de maior confiança. Banner porá esse rancho em funcionamento em pouco tempo.

   -Não o compreende, Jake. Ross não lhe permitirá viver ali a menos que fique e administre esse rancho para ela.

   A loira cabeça negou com rapidez.

   -Não é justo. Isso supõe castigar ao Banner por minha decisão.

   -Ross tem uma opinião muito firme a respeito. Hoje, depois de sua conversação, disse-me que não a deixaria transladar-se a essas terras se você não ficava.

   "Maldição." Jake ficou em pé de um salto e começou a passear-se com passo irado. Seu charuto morreu chispando quando o jogou na lenta corrente do rio. Tirou a vara de pescar do lamaçal em que a tinha parecido e a atirou a um lado.

   -Isso é chantagem -disse Jake-. Banner tampouco o aceitará. Ross deve compreender quão importante isso é para ela, especialmente agora.

   -Compreende-o, mas é teimoso como uma mula. Se considerar que não é o mais conveniente para ela, nunca trocará de parecer por muito que Banner chore e esperneie.

   Jake caminhou até o bordo da água e ficou olhando fixamente as profundidades turvas do riacho. Seus ombros se moviam inquietos debaixo de uma camisa que de repente parecia ter encolhido. Estavam lhe pondo entre a espada e a parede, e não gostava absolutamente. Possivelmente podiam coagir ao Banner, mas a ele não. Odiava os grilhões. Não os toleraria. Que diabos! Ao fim e ao cabo, o que lhes devia?

   Então seus ombros se abateram e permaneceram imóveis. Devia-lhes tudo da noite passada. Não podia lhes devolver a castidade de sua filha, mas podia compensá-los cumprindo seus desejos.

   -De todas formas, deveria ficar, Jake -disse Lydia-. Mami está fazendo-se velha. Não quis preocupar-se, mas já não é tão forte como antes. Se esta vez te partir e está fora uns anos, possivelmente não volte a vê-la viva.

   Os saltos de suas botas se afundaram na terra úmida quando Jake se voltou e dirigiu um olhar recriminatório a Lydia, quem baixou a cabeça, sentindo-se culpado.

   -Mami é forte como um cavalo -disse Jake-. Também está me chantageando com isso, Lydia.

   Lydia se levantou com uma agilidade e uma graça que desmentiam sua idade. Aproximando-se do Jake, elevou a cabeça e o olhou.

   -Muito bem. Não estou jogando limpo, mas estou brigando pela vida de minha filha e me esquecimento do orgulho quando se trata dela. Banner te necessita. Todos lhe necessitamos. Peço-lhe isso por favor, Jake, fica esta vez. Não nos abandone.

   Jake contemplou o rosto que nunca acabava de desaparecer de sua mente. Tinha-o amado durante tantos anos que logo que recordava um tempo em que não tivesse sido assim. Sentia que suas defesas se debilitavam, desfiando-se como uma corda velha.

   Quando Lydia lhe pedia algo, era capaz de negar-lhe Em uma ocasião incluso tinha matado por ela, liberando-a do meio-irmão que não lhe tinha conduzido mais que desgraça e miséria. O fato de que Clancey tivesse sido o assassino do Luke resultou uma coincidência conveniente. Em qualquer caso, teria eliminado ao Clancey Russell da vida da Lydia com muito prazer.

   -Não me dê uma resposta agora -disse Lydia com suavidade, lhe agarrando uma mão e apertando-a entre as suas-. Consulta com o travesseiro esta noite e nos comunique a resposta amanhã.

   Lydia subiu a colina que descendia para o rio e desapareceu detrás de sua cúpula. Jake começou a caminhar lentamente ao longo da ribeira. A erva debaixo de suas botas era alta e verde; as árvores por cima de sua cabeça, frondosos, repletos de folhas novas. O ar cheirava a flores silvestres. Mas Jake não o notou.

   O que deveria fazer?

   O devia ao Ross e a Lydia por ter sido seus amigos mais fiéis durante tanto tempo, mas nem sequer trabalhando para eles todos os dias de sua vida a partir desse momento, conseguiria expiar o que tinha feito a noite anterior.

   Eles eram sinceros quando diziam que lhe consideravam o melhor qualificado para ocupar o posto. Diabos, ele podia realizar esse trabalho. Não tinha nenhuma dúvida a respeito. Mas poderia estar junto ao Banner dia detrás dia?

   Por outra parte, sua mãe lhe necessitava. Lhe tinha falhado. Sua mãe nunca lhe pediria que ficasse, mas adoraria que se assentasse em um lugar.

   E Banner. Sempre voltava para ela. A moça necessitaria apoio e amparo. O raciocínio do Ross era acertado. Qualquer paletó com um pênis impaciente estaria desejando-a agora. Jake faria o que fosse protegê-la. Nenhum homem a tocaria sem ter que matá-lo a ele primeiro.

   Surpreendeu-lhe a profundidade de seu ciúmes e a intensidade de seu caráter possessivo. Supôs que se devia ao feito de que Banner era a filha da Lydia e se persuadiu de que não tinha nada que ver com a facilidade com que respondeu sua boca, com a suavidade com que se moveu entre seus braços, maravilhoso que foi ser abraçado por ela. Um abraço apertado e quente Y...

   "Maldita seja. Apartará sua mente disso e te concentrará na questão?"

   Se não ficava, Banner não conseguiria suas terras. Ross podia ser muito teimoso e convencer-se de que atuava pensando no interesse de sua filha.

   Havendo-a despojado de sua virgindade, podia também despojada de suas terras? Ao final Ross trocaria de parecer, mas quando? Banner necessitava esse rancho agora para apagar de sua mente ao Sheldon.

   Teria tomado já uma decisão? ficaria até que Banner se recuperasse e a situação melhorasse.

   Ao Banner não gostaria. Suporia um duro castigo. Jake tinha presenciado várias de seus rabietas e sabia que tinha herdado o caráter de seus progenitores. É obvio, deixaria claro desde o começo que tinham que eliminar de suas mentes aquela noite, fingir que nunca tinha acontecido.

   Convenceria-a de que ficava por seu próprio bem. Queria ou não, seria seu capataz.

   A senhorita Banner Coleman deveria acostumar-se à idéia de ter perto dela ao Jake Langston.

   O que?

   Tal como tinha suposto Jake, ia ser um duro castigo.

   -O que há dito?

   -contratamos ao Jake para que seja seu capataz.

   Quando as palavras saíram dos lábios do Ross, as bochechas do Banner empalideceram e logo adquiriram um vibrante matiz rosado. As mãos se fecharam em punhos e as costas lhe pôs rígida. Seu cabelo parecia crepitar de indignação.

   Banner tinha sido convocada ao despacho de seu pai imediatamente depois do café da manhã. Em outras ocasiões sempre tinha sido capaz de meter-se no bolso ao Ross. Essa manhã, quando seu futuro dependia da decisão de seu pai, aproximou-se da porta de seu escritório com ansiedade.

   Tinha-lhe resultado ainda mais desconcertante descobrir que Jake também se achava ali, de costas à porta, olhando pela janela. A fumaça de seu charuto ondulava em torno de sua cabeça.

   Banner se assustou ao vê-lo. inteiraram-se seus pais? Jake tinha confessado? OH, Deus, por favor não. Seus pais que tanto a amavam se sentiriam muito decepcionados se soubessem o que ela tinha feito. Certamente, Jake não o tinha contado. Os semblantes de seus pais expressavam preocupação, não censura.

   Lydia tinha sorrido para lhe dar ânimos.

   -É uma de suas novas saias calça? Eu gosto. E a blusa combina muito bem.

   -bom dia, princesa. -Ross tinha avançado para ela para lhe beijar carinhosamente a bochecha-. Ainda está pálida. por que não sai para que te dê o ar? Assim Dusty fará um pouco de exercício.

   Ross a conduziu até o sofá de couro e a sentou como se fosse feita de um precioso cristal.

   -Por favor, deixem de me olhar -disse a seus pais, exibindo algo de seu gênio habitual-. Sobreviverei.

   Tinha-lhe aliviado tanto comprovar que seus pais não conheciam o acontecido com o Jake que se permitiu mostrar um poquito suscetível.

   Mas Jake seguia na habitação: uma presença melancólica.

   Ela estava compartilhando o espaço com ele, lutando por cada fôlego que tomava. Era a primeira vez que o tinha visto desde... então.

   Banner advertiu detalhes nos que nunca tinha reparado antes, tais como o modo em que as calças ajustadas lhe desenhavam as nádegas, marcadas e definidas. Tinham sido sempre seus ombros tão largos? Sua postura, tão indolente? Suas coxas, tão musculosos?

   A figura do Jake se recortava, alta e enxuta, contra a janela. Banner podia recordar cada centímetro duro e flexível do corpo do homem e como o sentiu contra

o seu. Recordava coisas que só um amante conhecia, e seus pensamentos lhe provocavam um intenso calor em todo o corpo, embora estava tremendo. Acreditava que se deprimiria se Jake olhava para onde ela estava.

   -Não é nossa intenção te mimar, Banner -disse Luta diplomáticamente-, mas acreditam que um passeio...

   -Hoje irei até o outro lado do rio -atalhou Banner ficando sem fôlego.

   Os largos dedos do Jake estavam fazendo girar o charuto perto de sua boca. Movia os primeiro dedos para um lado, logo para o outro. Banner apartou o olhar rapidamente, como se a tivessem surpreso observando um ato íntimo.

   -A respeito disso queria te falar esta manhã -disse Ross-. Sua mãe me explicou que quer te mudar a sua propriedade e começar a trabalhar no rancho.

   -Sim, papai, assim é.

   Ross olhou a Lydia e logo voltou a contemplar a sua filha. Esperava estar fazendo o correto. Banner parecia tão frágil, tão aturdida. Seus pensamentos para o Sheldon se voltaram assassinos. Não permitiria que esse filho de puta arruinasse a vida de sua filha. Possivelmente Lydia tivesse razão, e Banner necessitasse essa oportunidade para voltar a encarrilhar sua vida. Era uma jovem voluntariosa e enérgica. Nunca toleraria a ociosidade. Já lhe irritavam os cuidados exagerados de seus pais.

   -Muito bem. Tem nossa autorização.

   Os olhos do Banner se encheram de lágrimas de gratidão. Tinha acreditado que amava ao Grady por cima de tudo, mas agora sabia que com grande diferencia, tinha-o amado muito menos que a essas terras. Ver-se privada delas teria sido uma perda muito maior que a de perder ao Grady.

   -Obrigado, papai.

   -Jake aceitou ser seu capataz.

   Foi nesse momento quando Banner saltou do sofá como se algo nas almofadas a tivesse impulsionado. Pediu a seu pai que repetisse o que acabava de dizer.

   Quando as palavras odiosas surgiram da boca do Ross, Banner se girou rapidamente para o homem que seguia parado em silêncio frente à janela. Jake não se alterou e, a julgar pela nula reação que demonstrava ante o que estava acontecendo detrás dele, parecia estar cego e surdo.

   Banner voltou a enfrentar-se a seus pais.

   -Não necessito um capataz.

   -É obvio que o necessita -disse Ross razoavelmente-. Não pode governar esse lugar sozinha.

   -claro que sim!

   -Não pode. E embora pudesse, não te deixaria viver ali sozinha.

   -Está tão somente a uns poucos quilômetros.

   -Sei a que distância está -disse Ross, levantando um decibel a voz-. Agora, este assunto se acabou.

   -Não, não se acabou papai. -Banner igualou o volume de voz ao de seu pai-. Essa terra é minha. Você me deu isso . Serei eu quem toma as decisões.

   -A terra é tua com essa condição.

   -Não é justo!

   -Possivelmente não, mas é assim.

   -Por favor, lhes acalme -atalhou Lydia com firmeza-. Lhes escutar o um ao outro.

   Banner e Ross se tranqüilizaram, mas seus gênios idênticos seguiam a ponto de estalar. Banner se enfrentou aos cintilantes olhos verdes do Ross com a fúria dos seu e um queixo igualmente obstinado.

   Tratando de apaziguar a situação Lydia disse:

   -Banner, acreditávamos que te agradaria. Não é isso o que queria? Não pode pôr objeções ao Jake. Sempre lhe amaste e rogou que ficasse cada vez que devia partir.

   Banner dirigiu um olhar impaciente ao Jake, quem seguia olhando pela janela, alheio à conversação.

   -Não tenho nada contra Jake. É obvio, não é essa a razão. -Banner se umedeceu nervosamente os lábios e seguiu falando depressa-. Não necessito que ninguém me vigie. Não sou uma menina. Pensa que não sou capaz de fazer um bom trabalho?

   -Sua mãe e eu depositamos toda nossa confiança em ti -respondeu Ross.

   -Então, me deixem administrar o rancho como eu queira.

   -Jake não se oporá a nada do que você diga -insistiu Ross-. Jake, não ouvimos sua opinião. Planeja fazer algo que não seja do agrado do Banner?

   Jake se girou lentamente para encarar aos pressente, mas Banner não o viu, pois seu olhar se posou imediatamente no chão. Só um ato de vontade conseguiu lhe impedir de apertar fortemente suas mãos úmidas em um gesto de consternação.

   -Sei o que terá que fazer -disse Jake com voz entrecortada-, e Banner também sabe. Imagino que trabalharemos muito bem juntos. Mas não aceitarei o posto a menos que ela me queira como capataz. -Fez uma pausa significativa-. O que diz, Banner?

   Banner simplesmente não podia olhar esses olhos para perceber neles uma expressão de brincadeira. Mas não tinha opção. Seus pais a observavam, à espera de sua resposta. Levantou lentamente a cabeça e olhou ao Jake.

   O rosto do homem era implacável; seus olhos, frios, nem acusadores nem arrogantes. Pareciam ocos, tão vazios como se sentou ela durante os dois últimos dias.

Queria seguir olhando fixamente a cara do Jake para esquadrinhar os pensamentos que se escondiam detrás dessa máscara impenetrável. Mas estavam aguardando a que falasse.

   -É meu rancho -disse secamente-. Deveria permitir escolher a meu próprio capataz.

   Os lábios do Jake se crisparam e seus olhos piscaram nervosos, como se uma dor aguda lhe tivesse atravessado.

   -Considera que não estou capacitado?

   De repente Banner se sentiu furiosa com ele. Se ele não fora tão comodamente obsequioso com o Ross e Lydia, ela não teria tido que enfrentar-se a uma situação tão embaraçosa. Por outra parte, o tom defensivo do Jake não fazia mais que aumentar sua irritação.

   -Sim. Consta-me que o está. Mas lhe escolheram meus pais para que seja uma babá para mim. Não necessito um cão guardião!

   -Uma babá! -exclamou Jake, avançando em atitude beligerante, até aproximar-se tanto que seu rosto quase roçava o da moça-. Crie que vou passar meu tempo ali te dando de comer com a colher? Deveria refletir, jovencita. Sabe o duro que é construir currais, colocar arames de pua, conduzir feno? lhe pergunte ao Ross quão exaustivo é esse trabalho, que guelra se requerem em um lugar como esse. Você não recorda o sangue, o suor e o esforço que Ross e Lydia deixaram no River Bend, mas eu sim.

   Os olhos do Banner cintilavam perigosamente.

   -Não sou uma parva, Jake Langston, e te peço que não fale como se fosse.

   -De acordo, então deixa de sugerir que vou estar sentado todo o dia te entretendo, porque não é isso o que farei.

   -me entreter... você... -balbuciou Banner.

   Ross cruzou as pernas, pregou os braços sobre seu peito e se recostou contra o escritório. Estava gozando com o espetáculo. Jake tinha sido tão responsável por

malcriar ao Banner como outros. Tinha chegado a hora de que descobrisse a vertente negativa de seu caráter. Ross acreditava que a arrogância do Banner em lugar de lhe fazer pensar em rechaçar o trabalho, incitava-o a aceitá-lo.

   Lydia se acomodou no sofá e desdobrou sua saia em torno de seus pés, olhando a todos como se estivesse desfrutando de uma função vespertina em um teatro. A teimosia habitual do Banner estava manifestando-se. Já não era a noiva chorã a que tinham deixado plantada. A mudança encantava a sua mãe.

   -Não espero que ninguém me entretenha.

   -Bom, muito bem. Nem mais nem menos isso é o que entendi.

   -Estou disposta a realizar o trabalho que me corresponda.

   Banner jogou para trás o cabelo por cima do ombro com um movimento impaciente da mão.

   -Você fará o que te agrade. -Jake sublinhou suas palavras agitando o dedo indicador ante a ponta do nariz do Banner.

   A moça apartou o dedo.

   -Então, estamos de acordo nesse aspecto. E deixa de me gritar.

   -Simplesmente não quero que te acovarde uma vez que estejamos ali.

   -Nunca me acovardei em minha vida.

   -Porque não só terá que ocupar-se de organizar o rancho -continuou Jake como se Banner não tivesse falado-, terá que atender todas as tarefas domésticas, como cozinhar, bombear a água e conduzir lenha.

   -Eu me encarregarei da comida, senhor Langston, mas não pense que vou esbanjar meu tempo junto a um fogão quando poderei estar ao ar livre.

   -Mas, Banner, terá que preparar as comidas do Jake.

   O olhar do Banner procurou o rosto de sua mãe. Sua boca se abriu, mas não surgiram as palavras. Estava muito atônita.

   -Mas... mas, não comerá no barracão com todos outros peões?

   -Resultaria pouco prático -atravessou Ross-. Jake estará perto de casa durante a noite. Talvez poderá dormir no quarto anexo ao fundo do estábulo.

   Os olhos do Banner foram do rosto de seu pai ao de sua mãe, incrédulos. Por último, olhou ao Jake.

   -Você que opina respeito a dormir... a viver ali?

   Pergunta-a estava carregada de um grande significado para o Banner e Jake. Quase tinham chegado a um acordo a respeito de trabalhar juntos no rancho. Cada um cumpriria com umas tarefas específicas, de tal modo que não haveria muitas ocasiões em que se produjesen interferências. Mas que ele dormisse tão perto da casa cada noite em companhia dela era outra coisa.

   -Forma parte do trabalho.

   Parecia que às palavras havia flanco sair da boca do Jake, cujos lábios seguiam estando tensos.

   Banner se apartou. Possivelmente, possivelmente, teria aceito ter ao Jake dirigindo o rancho. Mas viver tão perto dele, sabendo que cada vez que a olhasse recordaria essa noite? Nunca.

   Olhou ao Ross e inclinou a cabeça com um ângulo orgulhoso.

   -Não aceito sua condição. Como pinjente antes, quero minha independência. Não gosta que me vigiem como a uma menina.

   -Então esta conversação foi uma perda de tempo -disse Ross com firmeza-, porque não viverá ali sozinha.

   Banner lhe dedicou o sorriso com a que sempre tinha conseguido lhe tirar outra barra de caramelo.

   -Trocará de parecer, papai.

   -Esta vez não, Banner. Se não aceitar ao Jake junto com o imóvel, terá que ficar sem ela por agora.

   Banner se estremeceu ante a determinação que transmitia o tom de voz de seu pai.

   -Você não quer dizer isso.

   -Sim, diz-o. -Jake falou com a ênfase suficiente como para que os olhos do Banner se voltassem para ele-. Ao princípio eu rechacei o trabalho. Já que eu gostava da idéia tão pouco como a ti. Mas sob nenhum conceito seu pai te dará esse lugar, a menos que se cumpram suas condições.

   Transcorreram uns segundos enquanto se olhavam fixamente o um ao outro. Banner foi primeira em apartar a vista.

   -Mamãe?

   -Não posso me opor aos argumentos do Ross, Banner. É por seu próprio bem. Necessitará o amparo do Jake.

   A ironia da situação resultou divertida ao Banner, mas não se atreveu a rir, pois temia que de começar a fazê-lo não poderia cessar. Não tinha direito a um ataque de histeria? Que luxo seria poder gritar e chorar. Mas não devia arriscar-se a perder o controle porque possivelmente não o recuperaria nunca.

   Os olhos do Jake estavam em branco. No que pensava? O que se ocultava nas profundidades de seus olhos? Piedade? Que o céu não o permitisse. Aceitava o trabalho por piedade? por que? Porque ela tinha ficado como uma idiota diante de toda a cidade ou porque se converteu em uma parva ao tratar de seduzi-lo? Tinha atuado como uma aficionada?

   O queixo do Banner se elevou. É obvio, não estava disposta a aceitar a generosidade de um vagabundo a cavalo como Jake Langston e se sentia amargamente ofendida por seu oferecimento.

   -Refletirei sobre isso e te farei saber minha decisão -disse Banner altivamente, e com a cabeça bem erguida saiu da habitação.

   logo que a porta se fechou detrás dela, Jake começou a amaldiçoar abertamente.

   -Maldita seja, vos pinjente que não gostaria da idéia. Esqueçamos tudo isto.

   Ross riu entre dentes.

   -Banner cederá, Jake. Quer muito a essas terras. Neste momento se mostra teimosa. O que precisa é uma boa palmadas para que aprenda um pouco de humildade. É uma malcriada acostumada a sair-se com a sua. Lydia não foi o bastante estrita com ela.

   -Eu? -Lydia olhou a seu marido com as mãos apoiadas em seus quadris-. Você é o menos indicado para falar, Ross Coleman. Sempre foste um boneco em mãos dela.

Além disso, herdou seu tozudez de ti, por não mencionar o mau gênio.

   Ross estendeu os braços e agarrou a Lydia pela cinturilla da saia atraindo-a para seu peito.

   -E a vivacidade de ti -resmungou, procurando a boca dela com a sua.

   -Ross, deténte. É quase a hora da comida e tenho que...

   Ross lhe fechou a boca com um beijo possessivo. Lydia não lutou mais que o tempo de um batimento do coração antes de rodear o pescoço do homem com seus braços e inclinar a cabeça para fazer mais intenso o beijo.

   -Tenho que conseguir que Stormy faça um pouco de exercício -murmurou Jake, que já agarrava seu chapéu do varal próximo à porta e o impregnava. Fechou a porta detrás dele com um golpe, mas Luta e Ross não o advertiram.

  

   Depois de que todos tiveram almoçado juntos, os Drummond empreenderam a viagem de volta a sua casa. Marynell iria com eles até Austin. Na confusão da despedida, disseram-se até logo e se intercambiaram abraços e beijos. Banner tratou de evitar olhar ao Jake, embora não com muito êxito. Mas se ao Jake preocupava a decisão que Banner tomaria, não o demonstrou. Jogou com seus sobrinhos e sobrinhas, falou seriamente com o Héctor sobre o preço da comida, e brincou com o Marynell a respeito

de seu celibato até que sua irmã lhe pegou na cabeça com uma diminuta taça de medir.

   logo que Banner se despediu das visitas, com a desculpa de que lhe doía a cabeça, retirou-se a sua habitação. A aparente indiferença do Jake a descorazonaba, especialmente desde que sua mente era um torvelinho em contínua agitação.

   Oxalá seu pai tivesse renomado capataz a qualquer outro, a qualquer menos ao Jake.

   Tal pensamento fez que sua mente deixasse de dar voltas. Quem outro que Jake? Se pudesse retroceder quarenta e oito horas no tempo e apagar de seu esse passado sessenta minutos no estábulo, estaria encantada de que Jake aceitasse ser seu capataz. Mas tal como estavam as coisas, sua própria culpa fazia que a situação resultasse insustentável.

   O que viu Jake quando a olhou? Viu-a em sua singela vestimenta composta de blusa e saia calça? Ou estava gravada em sua mente para sempre aquela camisola transparente, que não tinha sido freio para suas carícias? Recordava Jake o instante em que ela se recuperou do impacto de sentir a língua dele em sua boca e abriu mais seus lábios para recebê-la? Com toda segurança, ela nunca esqueceria os movimentos úmidos e rápidos de sua língua, nem os lentos e sensuais, que penetravam e acariciavam.

   "OH, Deus", gemeu Banner. Recordava Jake as mãos dela atuando por instinto e agarrando avidamente punhados de seu cabelo? E quando o corpo dele tinha começado a mover-se ritmicamente dentro do dele, recordava Jake que ela tinha repetido seu nome em uma lenta letanía, como uma prece ritual, suplicante?

   É obvio que o recordava. Se as lembranças dela eram tão vívidas para fazer que seu coração pulsasse com violência e seu corpo respondesse como se tudo estivesse acontecendo novamente, não era provável que os do Jake fossem os mesmos?

   Banner se cobriu o rosto com as mãos. Teria que sacrificar seus sonhos de ter seu próprio rancho devido à loucura de uma noite? Não estava pagando caro o orgulho?

   Tinha cometido um engano e devia confrontar as conseqüências, mas isso não significava ter que levar um cilício para o resto de sua vida. Obviamente, Jake estava disposto a deixar atrás o que tinha acontecido e continuar com sua vida. ela teria tanta valentia como ele? acovardaria-se em presença do vaqueiro para sempre? Maldita seja se lhe dava essa satisfação!

   deixou-se cair no assento que havia junto à janela e se afundou nas almofadas, com o rosto alterado pela emoção. Olhou através do vidro e pôde ver a esteira

de pó que deixava o carro que transportava à família do Anabeth e ao Marynell até a estação de ferrovia na cidade. Banner tinha estado tão aturdida durante sua visita que não tinha desfrutado plenamente de sua estadia no River Bend. Pensou neles com saudade e afeto. Eram da família, embora não fossem parentes.

   À medida que foi crescendo Banner se expôs por que não tinha nem primos nem avós. A primeira vez que foi à escola e descobriu através dos outros meninos essa carência em sua vida, formulou perguntas a seus pais a respeito. Onde estavam seus avós, tias, tios e primos? por que ela não os tinha como outros meninos?

As respostas que recebeu foram vagas e insatisfactorias. Quando teve a idade suficiente para compreender que Ross e Lydia se mostravam deliberadamente evasivos, deixou de perguntar. Seus pais pareciam não ter um passado anterior ao dia em que chegaram ao Texas. Até os detalhes da época em que viveram juntos na caravana de carromatos eram superficiais.

   Este vazio em sua genealogia sempre a tinha torturado. Ross e Lydia compartilhavam um segredo? Era essa a razão pela qual freqüentemente se sorriam de um modo que excluía a todos outros? Existia uma cumplicidade entre eles que nem sequer Lê e ela tinham sido capazes de violar.

   Banner não sabia por que se sentia compelida a encontrar resposta a suas interrogantes, mas estava obrigada a descobrir quem eram seus pais, de onde procediam, que capricho do destino os tinha unido. Se alguém podia lhe proporcionar esses dados era Jake. O contato diário no rancho contribuiria a criar um clima de confiança, de tal forma que possivelmente Jake se franquearia e lhe falaria. Sem dar-se conta, ele poderia lhe informar de alguns detalhes que completaria as peças que faltavam no quebra-cabeças. Valia a pena esclarecer o passado de seus pais.

   Os aspectos positivos pesavam mais que os negativos. Além de lhe resultar embaraçoso ter que ver o Jake dia detrás dia, todo o resto punha de relevo as vantagens que suporia o ter como capataz em seu rancho. Não seria fácil, mas nos dois últimos dias tinha aprendido a superar a adversidade. Não lhe tinha chegado essa lição com muito atraso? Durante os primeiros dezoito anos de sua vida tinha sido felizmente inconsciente de que o mundo era algo menos rosado e transbordante de amor.

A inocência não podia durar indefinidamente. Era hora de que conhecesse as duras realidades da vida.

  

Banner aguardou até a hora do jantar para baixar, com a perversa intenção de fazer padecer ao Jake enquanto esperava sua decisão. A cozinha parecia grande e vazia sem os Langston e os Drurnmond. Nem Lê que jantava no barracão, nem Jake, cujo paradeiro ninguém mencionou, achavam-se ali. Só Ross e Lydia estavam sentados à mesa com o Banner.

   Banner nem sequer tirou reluzir o tema do rancho até depois que se retiraram os pratos e deixado na pia. Ross, aparentemente sem ter nada interessante que dizer, sorvia seu acostumado café depois do jantar.

   -decidi me mudar a meu rancho logo que seja possível -anunciou Banner abruptamente. Ross arqueou uma sobrancelha inquisidora. A moça tragou quão último ficava de seu orgulho e acrescentou-: e levar ao Jake comigo como capataz.

   Não lhe passou por cima o olhar de satisfação que intercambiaram seus pais, embora não manifestaram seu regozijo.

   -Muito bem -disse Ross antes de beber outro sorvo de café com indiferença-. Para começar teremos dois lhes semeie e cinco éguas. Quer dizer, um cavalo mais que os que há aqui.

   -E um pouco de dinheiro como capital ativo -acrescentou Lydia. Estava junto à pia, secando-as mãos com um trapo de cozinha.

   Seu marido a olhou com dureza.

   -Capital ativo? -exclamou.

   Lydia se enfrentou diretamente a seu olhar carrancudo. Fazia muitos anos que tinha deixado de intimidá-la.

   -Sim, capital ativo.

   A boca do Ross se fez mais fina sob seu bigode enquanto seus olhos verdes olhavam com indignação. A seguir se produziu um silencioso combate de vontades.

   -E um pouco de capital ativo -lhe ouviu dizer entre dentes antes de voltar a beber café.

   -Obrigado, papai. dentro de um ano te devolverei todo ele dinheiro que me adiante, com interesses; -Banner ficou em pé, mantendo-se erguida majestuosamente como se fosse ele quem tinha cedido e não ela-. Por favor, dava ao Jake que...

   -Não, não. você diga-lhe. Ele é seu capataz. Você é a que insistiu em refletir durante um tempo. Do contrário, o assunto se arrumou esta manhã. Posto que você lhe impediste de fazer planos até conhecer sua decisão, penso que deveria ser você quem lhe desse as boas novas.

   -Mas... -Banner não formulou sua objeção, porque seus pais a olhavam com curiosidade. Não queria que se perguntassem por que se mostrava relutante a falar com o Jake a sós. Além disso, devia sair ao passo da situação e acostumar-se a enfrentar-se a ele com regularidade-. Muito bem.

   Saiu da cozinha sapateando com brio. Caminhava com as costas reta e a cabeça alta, embora se sentia fraco em seu interior.

   Deteve-se no corredor para comprovar sua imagem no espelho. Embora se tinha escovado o cabelo antes do jantar, a umidade da primavera o tinha encaracolado e ondulado a seu desejo. Estava pálida depois de ter acontecido os últimos dois dias dentro de casa. Um beliscão em cada bochecha remediou um pouco a palidez. alisou-se com as mãos a blusa de linho, que estava ligeiramente enrugada. Suspirou.

   -Bem, terei que fazê-lo.

   Abriu a porta principal e atravessou o alpendre com o entusiasmo de um sentenciado caminho da forca. O que esperavam que fizesse, que fosse até a porta do barracão e perguntasse por ele? burlariam-se dela sem piedade alguma. Além disso, o barracão era um dos lugares do rancho que lhe estavam proibidos.

   Deveria olhar primeiro no estábulo? Estaria Jake cuidando do Stormy? Seus passos vacilaram. Pensou que não poderia voltar a entrar ali. As lembranças do que tinha acontecido ainda estavam muito afrescos.

   Indecisa, ficou parada no pátio. Quando se voltou, a sorte lhe sorriu. Viu o Jake sentado sobre o corrimão superior da perto que limitava o campo de pastos mais

próximo à casa. Os saltos de suas botas estavam encaixados sobre o penúltimo fita de seda. Com as costas um pouco arqueada, tinha o olhar cravado no pasto, permanecendo perfeitamente imóvel. A luz do crepúsculo moldava sua silhueta. Sustentava um charuto entre os lábios.

   Banner se aproximou sem fazer ruído. Jake não a ouviu até que a moça esteve quase a seu lado. Então girou a cabeça bruscamente. Ela retrocedeu, levando uma mão ao peito como se queria conter o coração antes de que saltasse de seu corpo. amaldiçoou-se por atuar como uma estúpida.

   -Eu... eu preciso falar contigo, Jake.

   Jake descendeu da perto, sentou-se no chão e se tirou o chapéu com um movimento natural. Logo, como se compreendesse o ridículo que devia parecer, voltou a impregnar-lhe e o empurrou para trás com o polegar. Seus ombros se encontraram com o corrimão em que tinha estado sentado e se apoiou contra ela em uma atitude indolente. Se Banner tivesse sabido que o coração do Jake pulsava com tanta violência como o seu, teria se tranqüilizado. Entretanto tal como estava, o homem parecia impassível, inabordável, reservado e frio.

   A valentia do Banner se evaporou rapidamente e sua respiração se mesclou com o ar caloroso e úmido da noite. Voltou a cabeça para olhar na direção que os olhos do homem tinham seguido só momentos antes. O perfil da moça se recortava claramente contra a escuridão do céu violáceo. A brisa procedente do sul paquerava com seus cabelos, enviando os cachos de ébano contra sua bochecha para voltar a apartá-los a seguir.

   Banner se umedeceu os lábios com a língua. Os olhos do Jake captaram o movimento mecânico e inocente, embora tão provocador. O homem fechou os olhos para apartar a lança de desejo que lhe atravessava. Quando os abriu, encontrou o olhar do Banner fixa no.

   -Eu gostaria que fosse meu capataz.

   -Realmente você gostaria que fosse?

   Banner fez um gesto impaciente com as mãos.

   -Não tenho opção.

   -Sim, tem-na, Banner. me diga que agarre minhas coisas e vá e nunca voltará para ver-me.

   -Que opção é essa? -perguntou a moça-. Suporiam que haveríamos renhido. Saberiam que algo não vai bem entre nós se te impulsionasse a partir em lugar de te rogar que ficasse como sempre tenho feito antes. Então qual seria a situação? Você iria, e eu ficaria sozinha para dar explicações.

   Banner terminou de falar em um embate de emoção e rapidamente se apartou. Baixou a frente até suas mãos, que estavam apoiadas no último fita de seda da perto.

   Ouviu o tinido das esporas do Jake e soube que se aproximou. Mas não eram seus ouvidos os únicos detectores sensoriais que lhe faziam advertir sua presença.

Podia sentir o calor de seu corpo estendendo-se por suas costas quando o homem se aproximou mais a ela. Tinha atirado ao chão o charuto, mas o aroma do tabaco seguia aderido a ele, que também cheirava a couro, e a homem. Em seu interior, Banner se sentiu ingrávida e logo insoportablemente pesada quando essas fragrâncias pareceram fluir e concentrar-se no vale que separava suas coxas.

   -Banner? -perguntou Jake brandamente-. Está bem?

   Ela levantou a cabeça e o olhou.

   -O que quer dizer?

   Os olhos do homem esquadrinharam os dela, eliminando por fim todo fingimento, por doloroso que isso resultasse.

   -Quero dizer exatamente o que hei dito. Está bem? tiveste algum... mal-estar, alguma dor?

   De repente ela quis castigá-lo. Desejou jogar-se contra seu peito e golpeá-lo com seus punhos, decide que tinha sangrado e sofrido uma agonia extremamente dolorosa depois do que lhe tinha feito. Mas não pôde porque não tinha sido assim. Jake não tinha feito nada que não lhe tivesse suplicado. Fez um gesto de negação com a cabeça

antes de voltar a deixar vagar seu olhar.

   -Não.

   Notou como se relaxava o homem, aliviado. Não foi um movimento manifesto, a não ser uma diminuição imediata da tensão em seu corpo, como se tivesse estado contendo a respiração durante muito tempo.

   -Deus, a inquietação me atormentava. lhe quis perguntar isso esta manhã, mas... bom, realmente não tivemos oportunidade de falar. -O silêncio de lhe incitava.

Estava desesperado por fazer as coisas bem. Queria que lhe dissesse que não se preocupasse mais a respeito. Queria ouvi-la dizer que estava bem e que lhe tinha perdoado.

Adverti-te que doeria, Banner.

   -Esperava-o.

   -Doeu-te então?

   -um pouco.

   -Deveria ter sido mais delicado.

   -Está bem.

   -Não quis te fazer danifico.

   -Por favor, Jake -murmurou Banner.

   Banner afundou a bochecha em seu peito e se apertou os ouvidos com as mãos não só para deixar de ouvir o Jake lhe recordando aquela noite, mas também também para apagar as palavras que retumbavam em sua cabeça.

   "Não quero te fazer danifico, Banner."

   "Farei-te mal."

   "OH, Deus, que doce é."

   Logo todo seu corpo se estremeceu em um ofego que ressonava uma e outra vez. Inclusive agora revivia esse instante de dor deliciosa, esse momento em que tinha conhecido a posse plena.

   Jake a olhava fixamente, sentindo-se impotente e furioso consigo mesmo. Banner parecia diminuta e indefesa. A fileira de botões nas costas da blusa não fazia mais que realçar a graciosa curva de sua coluna vertebral. Queria posar suas mãos sobre ela, consolá-la mas não se atrevia a tocá-la.

   No passado, teria subtraído importância ao feito de estabelecer contato físico com o Banner. Havia-a meio doido com freqüência, lhe dando abraços de urso que

a faziam chiar de dor fingida, lhe atirando do cabelo. Não tinha sido a mesma manhã de suas bodas quando lhe tinha dado uma palmada no traseiro? Não podia imaginar-se fazendo algo semelhante agora. despojou-se dessa natureza brincalhona.

   -Não quero falar disso -disse Banner com aspereza, retirando as mãos de seus ouvidos.

   -Temos que fazê-lo, Banner. Não podemos vemos cada dia com algo semelhante gotejando entre nós. Voltaríamo-nos loucos em uma semana.

   Banner se enfrentou a ele com raiva.

   -por que não o pensou antes, Jake? por que me pôs na posição de escolher? por que não rechaçou o trabalho e te partiu?

   -Tratei de fazê-lo, mas não pude.

   -por que?

   Já não se sentia envergonhada, já não era dócil, agora estava enfurecida. Todo seu corpo vibrava de ira contida. Jake estava igualmente agitado.

   Como podia desejá-la de novo? Como, quando faria algo, daria o que fosse necessário, para apagar o que já tinha acontecido, como podia querer esmagar esse corpo delicado contra o seu e saborear sua doce boca uma vez mais? Só uma vez mais.

   As lembranças não abandonariam sua mente jamais. Permaneceriam ali em primeiro plano para atormentá-lo como bandeiras vermelhas ondulando diante de um touro.

Agora sabia quão vivo era seu cabelo quando se frisava ao redor de seus dedos. Conhecia o sabor de sua pele e a textura do lóbulo de sua orelha. Contra sua vontade,

seus olhos descenderam até seus seios, que estavam tremendo de fúria. Suas mãos os tinham acariciado, ou simplesmente queria recordá-lo assim?

   Apartou violentamente o olhar desviando-a para o rosto da moça, concentrando-se na boca que tinha profanado, explorado e violado com sua língua. Nem sequer certas putas de classe baixa lhe permitiriam que as beijasse com tal intimidade. odiou-se depois por fazê-lo e se perguntava por que Banner não o tinha detido então. Mas agora, no único no que podia pensar era em voltar a fazê-lo. Desejava saborear pela segunda vez a doçura que se escondia além dos lábios. E voltava a odiar-se.

   Jake se separou súbitamente e se acotovelou na última travessa da perto. Apertando os dedos com força se golpeou os dentes com as unhas dos polegares. As linhas que sulcavam suas bochechas estavam rígidas.

   -Acreditei que devia ficar porque estava em dívida contigo.

   -Em dívida comigo?

   -Sim, estou em dívida contigo. Este é meu modo de te ressarcir pelo que tomei.

   -Não me faça nenhum favor que suponha um autosacrificio. Não tomou nada que eu não te tivesse devotado.

   Os músculos dos braços do Jake se esticaram.

   -Você o ofereceu, mas eu deveria te haver dado uns tapinhas na cabeça e te enviar de retorno à segurança do lar. -Seu olhar percorreu o corpo da moça-. Não o fiz. Devo-te conseguir que esse rancho comece a funcionar bem. Então possivelmente possa partir com a consciência tranqüila.

   -Não quero sua piedade!

   Jake voltou a cabeça e ao Banner espantou a fria luz que resplandecia em seus olhos.

   -Não sentia piedade por ti a outra noite, não é certo? A compaixão não foi uma das razões pelas que fiz o que fiz. -adiantou-se um passo e a agarrou pelos ombros.

Desejava-te. Tão somente te desejava. Excitou-me intensamente, Banner, tão intensamente, que não pude me conter. Mas já que ia fazer o, por que não o fiz mais devagar, em lugar de me equilibrar sobre ti como um...?

   Mais tarde, nunca pôde explicar o que deteve o fluxo de suas palavras. De repente, sua boca emudeceu e sua mente ficou em branco. Banner tinha o olhar cravado nele. Seus olhos eram limpos. Seus lábios estavam ligeiramente entreabiertos. Lhe devolveu o olhar, hipnotizado pela tenra expressão de seu rosto.

   Nessa transferência de pensamentos, ambos reviveram aqueles momentos de feroz posse quando tinham sido um. A lembrança disso se negava a ficar selado nas criptas de suas mentes como algo morto. Estava muito vivo. Bulia entre eles, como uma coisa viva, quase tangível. formava redemoinhos se ao redor deles, como uma tempestade invisível, silenciosa, que sacudia os alicerces de suas almas tal como Jake tinha tremido no momento do clímax.

   Logo se acabou.

   Banner foi primeira em desviar o olhar. Jake deixou que suas mãos se separassem dos ombros da moça. O silêncio se abateu sobre eles, interminável. Ambos estavam turvados. Banner desejava fervientemente que Jake não soubesse que ainda tinha ânsia de um pouco desconhecido, de algo que estava fora de seu alcance. Jake se perguntava se Banner sabia com que intensidade desejava voltar a possui-la.

   -por que te ficaste?

   -Necessitava o trabalho.

   Falavam em um tom de voz apagado. Não se olhavam. Deviam falar disso, esclarecê-lo agora, antes de que fermentasse e azedasse mais a situação.

   -Não te teria resultado difícil encontrar trabalho como vaqueiro.

   -Sim, mas essa não é vida. Não para alguém de minha idade. Preciso fazer isto, Banner.

   -Já vejo. É essa a única razão?

   -Preciso estar perto do Mami. -Estava utilizando o mesmo argumento inaceitável que Lydia tinha usado com ele. Mas Mami era velha. Quem sabia quando chegaria sua hora?

   -Compreendo-o.

   -Mas ao princípio rechacei a primeira oferta do Ross. Quero que saiba.

   -por que?

   -Porque sabia como se sentiria ao me ter perto de ti depois... depois da outra noite.

   -O que te fez trocar de parecer?

   -A tozudez do Ross. Não ia conceder te o que você queria a menos que houvesse um acerto que me inclui-se .

   -Você e eu sabemos que finalmente tivesse podido lhe fazer trocar de opinião. -Banner voltou a lhe olhar. Odiava a pergunta que precisava voltar a formular, mas tinha que saber-. por que te ficaste, Jake?

   Sem desviar o olhar, respondeu com sinceridade.

   -Porque Lydia me pediu isso.

   Banner assentiu em silêncio. voltou-se e se encaminhou pela erva para a casa. Bem, tinha sido ela quem perguntou, e ele tinha respondido.

   Ao Banner surpreendia e assustava que lhe doesse tanto sabê-lo.

 

 -Isto é tudo?

   Wanda Burns, desalinhada como sempre, cravou os punhos nos quadris e atuou frente a seu flamejante marido. Tinha examinado com rapidez o conteúdo das caixas que Grady tinha levado a cabana que ela compartilhava com seu pai. Gosta muito de vestir, chapéus, sapatos e luvas estavam pulverizadas sobre a capa do colchão.

   -Tudo? -grunhiu Grady-. Não é suficiente? De todas formas não poderá usar isto até que nasça seu mucoso.

   Grady a olhou com evidente desgosto. Estava suja e seu rosto, inchado. Tinha as mãos e os tornozelos inflamados. O corpo levava a carga obscena de um menino

de cuja paternidade ainda não estava convencido. Não podia imaginar por que Wanda tinha insistido em que lhe comprasse um novo vestuário. A única razão que lhe ocorria era que desse modo lhe apanhava ainda mais, disparando assim qualquer dúvida que pudesse existir a respeito de que ela era a esposa do Grady Sheldon.

   -Quero ir vestida como uma dama respeitável quando for à cidade contigo -disse Wanda.

   Grady sabia que morreria de vergonha se tinha que ir a algum lugar em companhia da Wanda, sobre tudo à cidade, onde o murmúrio das brincadeiras lhe seguia como uma sombra cada vez que caminhava pelas ruas.

   riu-se ante sua demanda de roupas novas, mas o sorriso malicioso do Doggie enquanto acariciava o canhão do revólver lhe tinha feito trocar de parecer. Sumisamente, Grady tinha prometido levar consigo algumas costure a próxima vez que visitasse a cabana que se achava no bosque de pinheiros, embora não era só a distancia o que o fazia parecer afastada da civilização.

   Os Burns o tinham exposto ao ridículo e não gostava. Teria que fazer algo a respeito, logo. Mas o que? E quando?

   -As coisas parecem ir cojonudamente, Wanda -disse Doggie da porta. Entrou caminhando com passos pesados levando dois esquilos mortos que jogou sobre a mesa rústica, apesar de que ainda sangravam-. Comporta-se bem seu marido contigo, carinho?

   -Suponho que sim, papaíto -disse ela, mal-humorada-. Mas ainda não permite que mude a essa casa fantástica que tem na cidade.

   Wanda fazia panelas ante o Grady, quem se perguntou como demônios essa boca zangada lhe tinha resultado o bastante atrativa para beijá-la.

   A primeira noite que a viu lhe tinha parecido bastante bonita. Tinha ido até a cabana para comprar licor e se encontrou com que era Wanda, e não Doggie, quem se ocupava do negócio. A noite estava iluminada pela lua de outono suspensa sobre a taça das árvores. O ar era refrescante.

   Recém banhada no arroio próximo, Wanda estava poda, ao menos em comparação com seu aspecto atual. Seu vestido apertado e puído se pegava a sua pele úmida, lhe deixando ver distância que não levava nada debaixo. Wanda fazia todo o possível para que ele fora consciente de seu corpo exuberante, deslocando-se com movimentos sinuosos, roçando-o ao passar.

   Wanda tinha falado em sussurros, como se já compartilhassem um segredo delicioso. Grady se tinha visto obrigado a aproximar-se para poder ouvi-la, inclinando a cabeça até que ficasse à altura da dela. Mas o esforço havia valido a pena. Cada palavra pronunciada pela moça tinha adulado sua vaidade. Ele era tão alto. lhe encantava o cabelo cacheado.

   Wanda incluso tinha fingido debilidade quando teve que levantar um dos barris e lhe arrulhou com palavras de agradecimento quando. Grady o carregou sobre seus ombros e o transportou.

   Que lelé tinha sido! E tudo por culpa do Banner. Se ela não tivesse excitado tanto seu sangue, ele não teria estado briguento por uma fêmea. Se os beijos inocentes do Banner não tivessem prometido tanta paixão, ele não teria ansiado saborear a boca da Wanda. Uma vez que teve beijado a Wanda, sentindo a calorosa bem-vinda que lhe brindava seu corpo, nada lhe deteve. O corpo da moça era dócil e generoso.

   Depois Grady se sentiu maravilhosamente bem. Wanda tinha gritado de prazer como uma pantera. Havia-lhe dito que era bonito, que nenhum homem lhe igualava como amante. Disse quanto ele precisava ouvir.

   Ao Grady incomodava que um homem da importância do Ross Coleman se convertesse em seu sogro. Sentia ciúmes do Coleman, mas estava disposto a pagar o preço de viver à sombra do Coleman com tal de conseguir ao Banner e tudo o que obteria ao casar-se com ela. Aquela zona boscosa, por exemplo. Não obstante, cada vez que se afastava do River Bend, seu orgulho sofria uma derrota. Ele nunca seria tão respeitado como Ross Coleman, nem pela comunidade, nem pelo Banner.

   Wanda Burns lhe havia devolvido a confiança em si mesmo. A moça tinha servido seu corpo como em uma bandeja de prata. depois daquela primeira noite, Grady retornou com freqüência. Faziam o amor de um modo procaz, obsceno e desenfreado. Deixava-lhe fisicamente esgotado, mas ele se orgulhava de ser o bastante viril para satisfazer a uma mulher com o apetite sexual da Wanda.

   Grady tinha falado com alguns homens da cidade. Não ignorava a reputação da Wanda, mas era precisamente sua fama o que dava certa segurança a ele, pois ao fim e ao cabo estava fazendo o que muitos outros consideravam correto quando suas algemas se achavam indispostas. Diabos, não via por que não podia seguir vendo a Wanda incluso depois de casar-se com o Banner.

   Bem certo era que Banner gostava muitíssimo. Era uma mulher muito bonita, e sem dúvida seu corpo era tão ardente como dava a entender. O leito matrimonial de ambos não seria estéril. Mas Grady era muito pragmático para preocupar-se com questões como o amor, embora tinha aparentado amá-la.

 Banner lhe convinha. Melhoraria sua posição social na comunidade ao tê-la como esposa, porque os Coleman eram muito respeitados. O fato de que Banner fosse formosa e popular entre as anfitriãs da cidade eram vantagens acrescentadas, por não mencionar a propriedade que contribuiria ao matrimônio.

   Banner tinha compartilhado com ele seus sonhos de possuir um rancho.

   A moça se informou de todo o relativo à criação de cavalos e do gado vacino. Ele tinha escutado, fingindo interesse e entusiasmo, aborrecendo-se até o bocejo.

   As idéias do Grady da exploração de sortes terras eram diferentes às do Banner. Permitiria-lhe criar uns poucos cavalos, inclusive algumas vaga se isso a fazia

feliz, mas lhe interessavam porque limitavam com um dos bosques mais povoados do estado. Tinha planejado construir uma serraria ali, um anexo ao que tinha na cidade.

Poderia triplicar sua produção em um ano. É obvio, não o tinha mencionado ao Banner. depois da lua de mel, teria sido muito logo.

   Mas não tinha havido lua de mel, e tudo por culpa da mulher suja que agora estava de pé diante dele, pavoneando-se debaixo de uma das sombrinhas que lhe tinha comprado. Ela tinha insistido em ter uma.

   Grady passou a ocupar do tema que Wanda tinha tirado colação momentos antes.

   -Já te expliquei por que não pode te mudar à casa da cidade. Está em venda. Pu-la em venda quando Banner e eu nos comprometemos. Ela queria viver em seu rancho.

   Wanda riu a gargalhadas.

   -Nunca esquecerei o olhar que havia em seu rosto. A afetada senhorita Coleman -disse, simulando um andar melindroso-, caminhando pela cidade com afetação e enrugando o nariz.

   Apesar do ridícula que era a imitação, ao Grady produziu um deleite perverso. Durante muito tempo tinha considerado que os Coleman eram muito orgulhosos e que

necessitavam que lhes baixassem as fumaças. Em especial Ross. Amaldiçoava a esse homem que lhe tinha ridicularizado o dia das bodas.

   Como se atreveu a lhe ameaçar de morte! Grady nunca o esqueceria nem o perdoaria.

   -Tiveram seu castigo o dia das bodas, não é certo, carinho? -Wanda se aproximou até ele e descendeu sua mão pela parte dianteira das calças. Grady a apartou.

Todos os Coleman recordarão aos Burns, verdade, Grady, carinho? Eles e esse homem alto e loiro que te pôs o canhão do revólver no gogó. -A moça riu bobamente quando o rosto do Grady avermelhou de indignação-. Como diz que se chama?

   -Langston. Jake Langston.

   Grady se aproximou da mesa apesar dos nauseabundos esquilos, agarrou a jarra que estava junto a elas, a levou aos lábios e bebeu um comprido trago do licor abrasador do Doggie.

   -Jake Langston -repetiu Wanda como em sonhos. Lánguidamente se passou a língua pelos lábios, olhando ao Grady com os olhos entreabridos-. Humm. Embora seja um amigo dos Coleman, eu gostaria de saborear a esse vaqueiro.

   Doggie se equilibrou para ela e a esbofeteou com tanta força, que a cabeça da moça caiu para trás.

   -Deixa de dizer baixezas. Agora é uma mulher casada e terá que abandonar esses maneiras de puta que tem ou te desfigurarei essa cara da que tanto te orgulha.

   Assustada, Wanda se tocou o sangue que lhe emanava do lábio.

   -Não quis dizer nada, papaíto.

   -Tenho fome. Começa a preparar esses esquilos. Grady, você fica jantando.

   -Não posso, eu...

   -Pinjente que fica. -Doggie falou com suavidade, mas essa voz áspera prometia umas ameaças mais terríveis que um simples grito. Seus olhos eram pequenos e redondos como contas debaixo das sobrancelhas entupidas, e possuíam um brilho maníaco. Quando ria maliciosamente babava suco de tabaco. Empurrou a jarra para o Grady-. Toma

outro gole enquanto me explica por que Wanda não pode viver contigo na cidade.

   Grady se desabou na cadeira desvencilhada, furioso e frustrado.

   -Há uma família que quer comprá-la. Não posso levar a Wanda ali para tirá-la logo se a venda se concreta.

   -Não a ataduras -disse Doggie, limpando-a boca com um punho resolvido depois de beber a grandes goles da jarra.

   -Não é tão singelo.

   Doggie depositou com um golpe a jarra sobre a mesa em meio de um atoleiro de sangue viscoso e coagulado. Wanda estava esfolando os cadáveres dos esquilos no alpendre dianteiro em ruínas, e arrojando as vísceras a uma matilha de cães sarnentos que brigavam ferozmente pela comida.

   Grady conteve as náuseas. Resultava impossível viver com essa escória. Não tinha tido outra opção mais que casar-se com a Wanda. O pastor se achava ali, e o revólver do Doggie tinha estado metaforicamente, se não literalmente, lhe fazendo cócegas na coluna vertebral. Tinha demorado o assunto do traslado da Wanda a sua casa, mas as desculpas estavam esgotando-se.

   Devia atuar ante de que ambos lhe roubassem a prudência e todo o resto. Era um homem desesperado disposto a adotar medidas drásticas para liberar-se dessa desgraça.

  

Uma vez tomada a decisão, Banner começou a trabalhar. O dia que seguiu à conversação, ela e Lydia embalaram tudo o que consideraram necessário para instalar uma casa. As caixas se carregaram no carro para ser transportadas ao outro lado do rio.

   -Não acredito que tenha que me desfazer disto -disse Banner, deixando cair a pilha de capas de travesseiros e toalhas de mesa que tinha bordado com esmero e guardado no arca com o resto de seu enxoval-. Poderia me ser útil.

   -Banner, como se sente respeito ao Grady agora? -perguntou Lydia-. Sabe que lhe obrigaram a casar-se com essa garota do Burns. É o que se rumoreaba ontem na cidade quando Ross esteve ali.

   Banner suspirou e se sentou no chão junto a sua mãe, que estava introduzindo roupa branca perfumada com lavanda em uma caixa. Brincava com o cós bordado de uma capa de travesseiro enquanto falava:

   -Não sinto nada, mamãe. Não é estranho? Acreditei que lhe amava. Suponho que ainda lhe amo de algum modo. Lamento-o por ele, porque arruinou sua vida. Ao princípio estava furiosa. Agora, só sinto um vazio dentro de mim.

   Lydia beliscou a mão de sua filha.

   -Está fazendo o correto. Não deve te torturar com algo que absolutamente foi tua culpa. Estou orgulhosa de que seja minha filha.

   -OH, mamãe. -Banner olhou fixamente o rosto de sua mãe. Não resultava estranho que a amassem dois homens. Não era formosa no sentido clássico, mas sim possuía uma beleza peculiar. Seu aspecto era vistoso, e sua figura, provocadora. Muito antes de que Banner compreendesse a razão tinha visto jeans cessar em seu trabalho para cravar o olhar em sua mãe quando esta cruzava o pátio. Se Banner tivesse podido escolher, não teria eleito como mãe a uma das damas refinadas da cidade que pareciam exangues comparadas com a Lydia. Tivesse eleito a aquela com quem tinha sido benta.

   inclinou-se e beijou a bochecha de sua mãe.

   -Eu também me alegro de que você seja minha mãe. Sempre estive orgulhosa de ti.

   Lydia conteve a emoção, que começava a intensificar-se.

   -antes de que nos ponhamos sentimentais, é melhor que voltemos para nossa tarefa.

   Trabalharam com diligencia durante todo o dia e até o anoitecer, de modo que quando Banner subiu pelas escadas para ir-se à cama estava o bastante esgotada para ficar dormida sem que nenhuma lembrança obsessiva lhe impedisse de conciliar o sonho.

   À manhã seguinte despertou cedo, descansada e com ânimo renovador. Ross e Lydia já estavam na cozinha com Lê quando Banner se uniu a eles.

   -Bom, suponho que esta é nossa última manhã juntos -disse Lê.

   -Lê! -gemeu Lydia-. Não faça que pareça tão definitivo.

   -Por favor, não -resmungou Ross-. esteve chorando quase toda a noite.

   -Também chorou você -replicou Lydia.

   Ross lhe deu uma palmada nas nádegas quando passou junto a ele de caminho para a cozinha.

   -É certo, papai? -perguntou Banner, sonriendo.

   -Você é minha princesa, não?

   -Sempre.

   -Toma seu café da manhã. Hei dito a todos que se reúnan no pátio às oito.

   Uma hora mais tarde, os olhos do Banner percorreram por última vez sua habitação para comprovar se tinha esquecido algo importante. Ao lhe observá-la arremeteu a nostalgia, mas conseguiu afastá-la antes de que a embargasse por completo. Devia agora ocupar-se da organização de sua própria casa. Era o que desejava. Com decisão descendeu as escadas e atravessou a porta.

 Mami estava sentada no carro com as rédeas nas mãos.

   -vais vir conosco, Mami? -perguntou Banner, encantada.

   -Humm! -grunhiu ela-. Reconheço que gosta de ir fiscalizar que as coisas se façam bem.

   -Virá para ver-me freqüentemente, verdade?

   -Estou convidada?

   -É obvio.

   Mami sorriu.

   -Então irei.

   Lydia saiu apressadamente pela porta principal com uma cesta no braço.

   -Trago alguns sanduíches -disse, unindo-se ao Mami no assento do carro.

   Ross, Lê e Jake estavam no pátio, montados a cavalo. detrás deles se achavam três dos peões do River Bend. Ross apresentou os jeans ao Jake.

   -Pete, Jim e Randy. Bons homens. Eu mesmo os escolhi para ti. Moços, seu novo capataz, Jake Langston. Estou seguro de que já o conhecem.

   Os três homens assentiram com a cabeça e Jake se limitou a dizer:

   -Me alegro de lhes ter.

   A noite anterior Ross lhe tinha dado os nomes dos que trabalhariam com ele. Jake pediu informação ao Micah.

   -O que sabe deles?

   -Pete é o major, o de cabelo cinza. Não fala muito, mas é bom trabalhador, muito forte. Não quereria me pôr a malotes com ele, embora nunca o vi zangar-se.

   "Jim é o da cicatriz na cara. Diz que uma vez quando estava enrolando arame de pua, este se soltou e quase lhe arrancou a metade da boca. Suponho que é assim, mas ouvi outros assegurar que não é certo; ao parecer a ferida a fez um comanche mestiço com uma faca durante uma briga. É um tipo feio, mas bastante simpático.

O melhor que vi com o laço.

   "Randy leva poucos meses aqui, mas não causou problemas a ninguém. Gosta do uísque, mas o reserva para os sábados de noite, quando se embebeda. Faz armadilhas no pôquer, mas se limita a rir quando o pilham. Ahl Jake, eu o vigiaria quando estiver junto ao Banner.

   Jake tinha escutado todo o relato em silêncio. Entretanto, ante esse comentário voltou um pouco a cabeça, franzindo o sobrecenho.

   -por que?

   -Dizem que o nome Randy (1) vai como anel ao dedo.

   Jake refletiu durante um minuto.

   -E você o que opina? -Jake sabia que Micah não queria falar mal do vaqueiro a quem considerava um amigo, mas insistiu-: Bem?

   Micah se mordiscou o lábio inferior.

   -Eu diria que provavelmente tem razão -replicou a contra gosto-. É popular na cidade. Sorri continuamente. Alguma vez lhe há flanco muito conseguir uma mulher, entende a que me refiro?

   -Sim -havia dito Jake, baixando o olhar para seus pés e jogando a um lado a palha que estava mastigando-. Sei a que te refere.

   Agora Jake examinou aos homens lhes olhando por debaixo da asa larga de seu chapéu negro, concluindo que pareciam bons jeans. Sempre e quando trabalhassem durante a semana, não lhe preocupava que se embebedassem os sábados ou se encetassem em brigas com mestiços. Mas era melhor que se mantiveram afastados do Banner.

   -Estamos todos preparados? -gritou Ross. Quando todos responderam a coro "sim", conduziu seu cavalo para o portalón.

  

  1. Brincalhão. (N.delT.)

 

   Lê lhe seguiu. Mami fez estalar a língua e com a ponta das rédeas golpeou rápida e ligeiramente as garupas dos cavalos que atiravam do carro. Banner se dirigiu para o Dusty. O brioso cavalo castrado estava pacote a uma estaca, perto do alpendre.

   Jake não a tinha cuidadoso diretamente, embora tinha sido consciente de sua presença. Agora que estava de costas, permitiu-se o prazer de contemplá-la. O cabelo do Banner refletiu o sol da manhã como um espelho antes de que o cobrisse com seu chapéu de asa plaina. Sua camisa branca contrastava com a saia calça negra que vestia, rodeada por um cinturão de couro negro com adornos de prata, um presente que Ross havia lhe trazido do México, aonde tinha viajado vários anos atrás para comprar cavalos. Jake a recordava quando o ensinou em uma de suas visitas ao River Bend.

   Agora esse cinturão rodeava sua cintura em um abraço apertado, enfatizando a curva feminina de seus quadris. A saia calça se ajustava a suas nádegas antes de alargar-se e cair debaixo dos joelhos. As botas de montar de couro negro eram suaves e flexíveis e se aderiam aos músculos de suas pantorrilhas definindo seu contorno.

   Jake a observou enquanto punha o pé esquerdo no estribo e alargava o braço em busca da cavanhaque da cadeira de montar. Ao levantar o joelho se esticou o tecido de sua rodeada saia, exibindo assim o traseiro arredondado. Banner se afundou na arreios e se colocou como tinha aprendido quase antes de poder caminhar. Essa postura impecável era provocada em parte pela ostentação de seus peitos, que paralisavam o coração, secavam a boca, umedeciam as Palmas das mãos e importunavam à virilidade.

Mas não era só pela postura. Seus peitos não necessitavam muita ajuda. Jake sabia que eram altos, redondos Y...

   "Maldita seja", murmurou, e atirou das rédeas do Stormy para fazê-lo girar. Stormy se pegou ao cavalo do Randy, quem inclinado em suas arreios, não apartava a vista do Banner, como só momentos antes tinha feito Jake.

   -O que está olhando como um idiota?

   A pergunta do Jake se formulou com um tom tão ameaçador que era melhor que a resposta fosse de seu agrado.

   -N... nada. Nada. Jake, senhor.

   -Então, em marcha. Vós três levarão esses cavalos através da ponte.

   Randy fez um gesto de assentimento tocando-se ligeiramente o chapéu e esporeou a seu cavalo para alcançar aos outros. Banner conduziu ao Dusty junto ao cavalo do Jake.

   -Randy saiu disparado como se o diabo atirasse da cauda de seu cavalo. O que lhe passa?

   -Não tem nada mais que te pôr? -perguntou Jake, mal-humorado.

   Banner o olhou atônita.

   -O que?

   -O que te põe, já sabe, como te veste -disse Jake com impaciência.

   Ela se examinou com perplexidade, ignorando a que se referia Jake. A ele não deixavam de lhe surpreender suas próprias reações, e isso lhe enfurecia ainda mais.

   -OH, diabos, não importa. Francamente, neste momento só te digo uma coisa. Não quero que se produza nenhum problema com esses homens. Já terei bastante de que me ocupar para andar intercedendo em brigas. Manténte afastada deles.

   Os olhos do Banner relampejaram coléricos.

   -A única pessoa de quem vou tratar de me manter afastada é você.

   Com um ligeiro toque de seus joelhos, fez que Dusty se apartasse corcoveando. Os cascos golpearam estrepitosamente o pavimento de seixos do atalho, mas em lugar de sair pelo portalón, o cavalo do Banner saltou a perto.

   -Mucosa mau criada -disse Jake, sujeitando um charuto entre os dentes.

   Logo, com gesto turvo e franzindo o sobrecenho, esporeou ao Stormy para que se unisse à caravana.

   -Acredito que está tudo-disse Mami. Dobrou o pano de cozinha e o deixou cuidadosamente no escurridero.

   O olhar do Jake percorreu a cozinha.

   -Está tudo muito bem. Sei que Banner agradece que lhe ajude a desembalar.

   -Comecei a preparar o jantar -disse Mami, assinalando com um movimento da cabeça para a reluzente cozinha de ferro negro que havia em um rincão.

   -Cheira muito bem.

   Mami dirigiu a seu filho maior um olhar penetrante. De fato, mais que ver o que estava cozinhando, tinha cheirado as favas e a jarreta de presunto que estavam

no fogo. Algo preocupava a seu filho. Não lhe resultava difícil adivinhar quando estava inquieto. Jake ficava ensimismado e, como se isso lhe desassossegasse começava a brincar com alguma coisa, como fazia agora com sua luva.

   Inclusive quando era um muchachito estava acostumado a dar voltas ao redor de sua mãe até que conseguia chamar sua atenção. A seguir ela o animava a que lhe contasse o que lhe angustiava. O mais freqüente era a confissão de algum pequeno pecado que morria por cometer.

   Recordava nitidamente. uma ocasião em que Jake retornou a casa depois de ter conduzido ganho até Kansas. Depois do jantar, seu filho demorou para levantar-se da mesa. Ela tinha compreendido a situação e inventou motivos para que todos outros abandonassem a estadia e a deixassem a sós com o Jake. Perguntou-lhe sobre sua vida como vaqueiro. As respostas do Jake foram vagas. Por último, abordou-lhe diretamente:

   -Fez algo do que deva te envergonhar?

   Então os olhos do Jake se encontraram com os seus, e se deu conta de que seu Bubba já não era um moço, a não ser um homem que carregava o peso do mundo sobre seus ombros.

   -Fiz algo que era necessário, Mami.

   Mami o tinha apertado contra seu peito e ele tinha chorado como um menino. Nunca inquiriu o que foi esse algo "necessário", porque pensou que era melhor não sabê-lo.

   Mas chorou pelo moço que se converteu em um homem e cujo crescimento tinha sido tão doloroso.

   Agora Jake tinha o mesmo olhar; um olhar sombrio e desesperançado, que significava que queria lhe dizer algo que lhe custava expressar.

   É obvio, ela sempre tinha sabido que ele amava a Lydia Coleman. Também isso o fazia sofrer a ela. Suspeitava que Lydia também sabia. Ambos tinham compartilhado secretos e pensamentos íntimos durante os últimos anos, mas esse era um tema que nunca surgia na conversação. Era como se temessem que se o manifestassem em voz alta, as coisas nunca voltariam a ser como antes entre eles. E tinham razão.

   Jake levantou o olhar da luva com que tinha estado jogando. Mami lhe tinha servido uma taça de café, que se estava esfriando perto de sua mão, sem que ele o tivesse provado.

   -Não me há dito o que opina de minha decisão de ficar aqui.

   Mami se sentou em uma cadeira frente a seu filho.

   -Não me perguntaste isso.

   -Pergunto-lhe isso agora.

   Mami respirou fundo expandindo ainda mais seu peito imponente.

   -Alegra-me que te instale em algum lugar. Eu não gostava de ir à cama cada noite me perguntando onde estava. É egoísta, reconheço-o, mas eu gostaria de lhes ter a todos sempre junto a mim.

   Jake esboçou um sorriso triste.

   -tiveste que renunciar a muitos de nós.

   Mami fez um gesto como de rechaço de suas palavras.

   -Montões de mulheres enterraram a seu marido e seus filhos. Não sou diferente.

   Jake deixou a um lado a luva e tomou a taça em suas mãos fazendo-a girar com movimento contínuo. Mami sabia que ainda não tinha terminado de falar. Algo lhe remoía a consciência.

   -Pensa que funcionará isto, que Banner e eu poderemos trabalhar aqui juntos?

   A mente do Mami apanhou as palavras de seu filho como uma armadilha de aço sobre um animal atormentado. Banner. Banner? Podia ser? Observou atentamente ao Jake sem que ele o advertisse. O homem se reanimava em sua cadeira como se tivesse formigas nas calças; seus dedos se moviam incansavelmente ao redor da taça como se estivesse ardendo. Apresentava todos os sintomas. Sim, assim era. O que lhe atormentava estava relacionado com o Banner.

   A garota se parecia um pouco a sua mãe. Seu sensual atrativo não podia passar inadvertido aos homens. Mas Jake e Banner? Acostumar-se a isso levaria tempo. Em primeiro lugar, a diferença de idade... dezessete, não, dezoito anos. Jake sempre a tinha tratado como a uma irmã pequena. Entretanto, tinham acontecido coisas estranhas.

   -Acredito que sim -disse Mami de improviso-. Banner é uma pessoa difícil, não o esqueça. -aproximou-se até a cozinha para remover as favas que borbulhavam.

Essa garota sempre foi malcriada por todos no River Bend, me incluindo a mim. Sofreu uma decepção, a primeira importante de sua vida. Eu não gostava de muito esse moço Sheldon. Se me perguntar isso, direi-te que é o melhor que podia haver ocorrido ao Banner. cedo ou tarde tinha que aprender que a vida não vai agradar todos os desejos da senhorita Banner Coleman. Isto poderá parecer mesquinho, mas sabe que amo a essa moça como se fosse minha própria filha.

   "Entretanto, sei que é teimosa. É como um barril de dinamite preparado para estalar. E o homem que a consiga, ou lamentará o resto de seus dias ter aceso a mecha, ou será condenadamente feliz. Isso dependerá dele.

   Mami observou que a noz do Jake se afundava antes de voltar para sua posição correta. Quem lhe inquietava era Banner, era evidente. Mami se voltou de costas e salgou as favas.

   -Como sabe que será um homem quem a fará estalar?

   Mami riu.

   -Porque é filha de sua mãe, essa é a razão. E de seu papai. E porque cresceu sentindo esse calor entre seus pais. O comportamento dos homens e das mulheres não é algo estranho para ela. Sabe o que acredito?

   -O que? -perguntou Jake com uma voz que não parecia lhe pertencer.

   -Acredito que não estava tão impaciente por casar-se com esse Grady Sheldon como ansiosa por casar-se. Nada de hipóteses ou peros a respeito.

   -Não sei nada sobre isso.

   Jake ficou em pé súbitamente e levou sua taça de café até a pia, bombeou água sobre ela e logo a enxaguou. Olhou para fora da janela. Banner estava despedindo-se de sua família. Lê se inclinou e a beijou na bochecha. Lhe deu umas ligeiras palmadas na cara e lhe respondeu com um golpe no estômago. Ambos riram. Ross e Lydia, com os braços de um enlaçando a cintura do outro, sorriam carinhosamente.

   -Mas te direi uma coisa -disse Jake com firmeza, girando sobre seus talões surpreendendo a sua mãe com sua veemência-. Ross me encomendou um trabalho, mas deverei trabalhar duro. Não vou tolerar nenhuma sacanagem do Banner. Estou bem seguro de que não vou agüentar nenhuma de seus rabietas. E quanto antes o entenda, melhor.

   Dito isto, Jake se tornou para trás o chapéu e saiu empurrando a porta traseira.

   -Bem -soprou Mami. Logo sorriu e se reuniu com outros da casa.

   Era a hora de partir.

  

   -Estava bom o pão de milho?

   -Sim. Muito.

   -Bem, podia haver dito algo.

   -Fiz-o! Pinjente que estava muito bom.

   -Obrigado. -Banner tirou de um puxão o prato sobre o que Jake estava inclinado, arrebatando-lhe     Las manos de Jake se cerraron en puños sobre el borde de la mesa, mientras contaba para sus adentros lentamente hasta diez. Mantenía los ojos cerrados al tiempo que trataba de contener su irritación. Ésa era la primera vez que cenaban juntos. Los Coleman y Mami se habían marchado. Los vaqueros les siguieron poco después. No regresarían hasta que saliera el sol a la mañana siguiente.

Hasta entonces, él y Banner estarían solos.

   As mãos do Jake se fecharam em punhos sobre o bordo da mesa, enquanto contava para seus adentros lentamente até dez. Mantinha os olhos fechados ao tempo que tratava de conter sua irritação. Essa era a primeira vez que jantavam juntos. Os Coleman e Mami se partiram. Os jeans lhes seguiram pouco depois. Não retornariam até que saísse o sol à manhã seguinte. Até então, ele e Banner estariam sozinhos.

   O modo em que se desembrulhasse essa primeira noite poderia determinar a maneira em que o fariam as demais. Se sobreviviam a essa noite, possivelmente teriam uma oportunidade de cumprir com seu trabalho no rancho.

   Quando abriu os olhos, Banner estava de pé ante a pia lavando os pratos, de costas a ele. trocou-se de roupa em algum momento do dia. Em lugar da saia calça e a blusa, levava um vestido de percal estampado. Camuflava mais sua figura, mas era mais singelo e a fazia parecer mais suscetível de ser acariciada.

   Mas ele não podia acariciá-la. De modo que devia ir eliminando esse pensamento de sua mente. Empurrou a cadeira para trás e levou as fontes à pia.

   -Não é necessário que o faça -disse Banner, quando Jake deixou as fontes no escurridero.

   -Sei. Tampouco é necessário que me prepare o jantar, mas formava parte do trato. Quero te ajudar, assim não vamos discutir por isso.

   Jake empregou o tom lisonjeiro que estava acostumado a utilizar com ela quando era uma menina. Nunca tinha fracassado para obter que deixasse de estar zangada.

Mas não foi a cara de uma menina a que se elevou para a sua, a não ser a de uma mulher; suave à luz de abajur; úmida por ter as mãos na água quente; rosada e sardenta pelas horas que se passou ao ar livre esse dia.

   Os olhos do Banner eram extraordinários. Jake sempre tinha pensado em que os da Lydia o eram, mas os do Banner resultavam ainda mais excepcionais. Podia ver-se refletido nas profundidades verdes ou douradas desses olhos e esteve a ponto de rir ante o olhar de estupefação que apareceu em seu próprio rosto. Tinha a expressão panaca de um homem que deu que bruces contra uma parede invisível.

   Mas não tivesse podido fazer aparecer um sorriso em seu rosto embora sua vida dependesse disso. Muito menos podia fazer surgir nele a força de vontade necessária para apartar o olhar.

   As paredes da casa se fechavam em torno deles como um punho suave. Era uma casa pequena. Só havia um salão na parte dianteira e um dormitório situado frente à cozinha em que se encontravam. Tinha sido desenhada e construída com a idéia de acrescentar mais habitações com o tempo. Mas seu tamanho de miniatura parecia estreitá-los mais. O silêncio penetrante contribuía à intimidade.

   -É mais suscetível que uma serpente de cascavel -sussurrou. Temia romper o feitiço se falava em voz alta?

   -Você também.

   -Suponho que sim.

   -Ofende-te tudo o que te digo.

   -Não podemos deixar de nos chatear mutuamente?

   -Não -respondeu Banner.

   -Não posso voltar a te tratar como o fazia antes.

   Ela lançou um trêmulo suspiro.

   -Sei. As coisas nunca voltarão a ser como antes.

   -Entristece-te que assim seja?

   -Sim, a ti não? -Ele assentiu com a cabeça-. Devi ter repensado antes de te pedir que... -Ela se mordeu ellabio inferior e o manteve um instante entre seus dentes antes de continuar-. de agora em diante aquela noite será uma barreira entre nós. Sempre a recordaremos.

   Deus, ele não a tinha esquecido. Recordava-a com cada célula masculina de seu corpo. Seus olhos, desobedecendo flagrantemente as ordens de seu cérebro, atrasaram-se no desenho perfeito dos lábios da moça. Oxalá não pudesse recordar os ofegos vacilantes com que ela reagiu quando sua língua provou a boca da moça pela primeira vez. Oxalá não pudesse recordá-la despertando quando sua boca aprendeu a responder.

   Inconscientemente se inclinou para ela até que o calor de seu corpo se fundiu com o da moça. Descobriu o palpitar de seu pulso na base de sua garganta, onde seus lábios se perderam aquela vez. O sabor ainda persistia em sua língua.

   Os seios do Banner lhe incitaram a baixar o olhar. adivinhavam-se seus mamilos debaixo do tecido de seu vestido. Jake os viu e se acendeu de desejo.

   Um gemido involuntário vibrou através de seu peito e subiu a sua garganta. debaixo da braguilha estava ereto e duro. Levantando os olhos, examinou o rosto do Banner envolto em uma nuvem negra de cabelo indisciplinado e ansiou possui-la.

   -Banner...?

   -Sim?

   De repente Jake se deu conta que estava a ponto de voltar a beijá-la. E se o fazia... se o fazia, não se deteria aí. Afundaria a cabeça e lhe beijaria os seios

através do vestido. Provaria esses doces Montes com seus lábios. Cavaria suas mãos sobre os quadris dela e a atrairia para seu corpo, como tinha feito antes, elevando-a contra sua rígida virilidade. Voltaria a fazer o inconcebível.

   antes de ceder à tentação, Jake se separou do Banner.

   -Nada. Verei-te pela manhã. Se necessitar algo, grita.

   -Aonde vai? -Era muito cedo para ir-se à cama.

   -vou inspecionar esse curral provisório que construímos. Randy não é capaz de pôr um prego direito.

   -Pensei que tinha feito tudo bem por ser o primeiro dia.

   que Banner saísse em defesa do vaqueiro foi o incentivo que ele necessitava para dar rédea solta a sua ira.

   -Bom, não me deu a impressão de ser tão maravilhoso. Se não cumprir bem com seu trabalho, está hábil. -Dito isto, saiu da casa dando uma portada.

 

   A noite era incrivelmente escura. Banner não se deu conta de quão apartada estava sua pequena casa até que a escuridão se fechou em torno dela.

   Desde dia que nasceu sempre tinha dormido em uma casa com outras pessoas. Essa noite estava sozinha, completamente sozinha, pela primeira vez em sua vida.

   O sonho não ia para lhe fazer esquecer a solidão. Seus ouvidos eram sensíveis a qualquer som. Os ruídos de uma casa nunca lhe tinham alarmado. No River Bend, em seu dormitório da planta superior com assentos junto às janelas e cortinas bordadas, os sons eram familiares e tranqüilizadores. Reconhecia a silhueta de cada sombra ao outro lado da janela.

   Mas essa noite cada sussurro das folhas resultava sinistro; o rangido de madeira nova semelhava um lamento, e as sombras não se mostravam acolhedoras.

   Tinha cometido um engano abandonando seu lar e sua família? Nunca tinha entendido como Mami Langston podia viver sozinha em sua cabana. Freqüentemente Lydia e Ross lhe insistiam a mudar-se à casa deles para que se instalasse em um dos dormitórios da planta alta. Ela se tinha negado sempre com obstinação. Banner não podia imaginar que preferisse a solidão a estar rodeada de pessoas amadas.

   A solidão era horrível. Possivelmente se tinha precipitado em sua decisão. O que ocorreria se tivesse que passar a vida sem nenhuma companhia de noite? O que aconteceria se envelhecia vivendo aí sozinha? Qual seria a recompensa de convertê-lo em um rancho rentável se não tinha com quem compartilhá-lo?

   Irritada com ela mesma por albergar pensamentos tão deprimentes, apartou a colcha com a ponta dos pés e se dirigiu à janela. Ao menos a lua oferecia uma tênue iluminação. Seu olhar percorreu o estábulo, que de tão novo parecia artificial. Carecia do ar rústico do estábulo mais velho do River Bend, no qual ela tinha jogado esconderijo com Lê quando eram meninos. Este estábulo resultava estranho.

   Uma de suas janelas despedia uma débil luz que provinha de um farol depositado sobre o chão. Jake estava ali, não muito longe, à distância de um grito se a escuridão que a rodeava e a solidão absoluta chegavam a afligi-la.

   Constatar a presença do Jake perto a tranqüilizou e por fim conseguiu conciliar o sonho quando retornou à cama. logo que amanheceu se levantou e se vestiu com roupas de trabalho.

   A luz perlada do sol se filtrava através das janelas da cozinha quando Banner começou a preparar o café da manhã. A luminosidade conferia à estadia um aspecto mais caseiro e a animava depois do abatida que se sentou nas horas escuras e solitárias da noite. Começou inclusive a cantarolar enquanto cortava as fatias de panceta e as colocava em uma frigideira.

   Mas seu cantarolo cessou quando viu o Jake sair do estábulo. Em realidade, ficou completamente imóvel. Uma fatia de panceta pendia fláccida de seus dedos. Seus lábios se separaram ligeiramente.

   Jake saiu arranhando-a cabeça e penteando-se com os dedos os cabelos que pareciam fios de ouro emaranhados quando a rosada luz do sol caiu sobre eles. O homem bocejou, mostrando uma branca dentadura perfeita. Bom, não de tudo, pois os dentes frontais da fileira inferior estavam ligeiramente torcidos, mas a imperfeição era apenas perceptível.

   Entrelaçando os dedos e impulsionando-os para fora, levantou as mãos por cima da cabeça e se estirou com a lentidão sinuosa do gato montês.

   A fatia de panceta se deslizou descuidadamente dos dedos inertes do Banner.

   Jake se tinha posto as calças e as botas, mas... as calças ainda estavam sem abotoar. O que despertava a curiosidade do Banner não era tanto o que podia ver

como o que não podia ver.

   Quando Jake se desperezó com uma sensualidade desinhibida, com os pés muito separados e as costas arqueada, Banner se permitiu o luxo de contemplar sem restrições o torso musculoso do homem. notava-se a boca seca, mas outra parte de seu corpo reagiu de forma totalmente oposta. Seu interesse não se devia a que não tivesse visto antes a um homem sem camisa, pois o tinha feito muitas vezes; seu pai, Lê, Micah. Mas nunca tinha visto o Jake sem camisa. Até procurando ser o mais imparcial possível, pensou que Jake era um espetáculo digno de admirar. Seus ombros eram largos; os bíceps se contraíam e se esticavam levemente; ninhos de suave pêlo castanho se amontoavam em suas axilas; seu peito estava talher por uma malha de um encaracolado pêlo dourado, que destacava contra a cor acobreada de sua pele. Quase ocultas nessa pele formosa, apareciam uns bicos da mamadeira plainas e marrons ao beijo do frio ar matinal.

   Banner tragou saliva e apertou fortemente os joelhos.

   O peito do Jake podia ter sido esculpido por um escultor. Era magro, mas cada contorno ondulado de seus músculos se mostrava claramente definido. O estômago era tão plano e duro como o abdômen. Uma linha de pêlo liso e brilhante conectava o bosque de seu peito com o cabelo denso e mais escuro que se formava redemoinhos ao redor do umbigo. Os olhos do Banner lhe seguiram o rastro até que desapareceu na cintura aberta da calça. Sua curiosidade se voltou desenfreada. por que se tinha elevado tanto as calças?

   Resultava-lhe estranho ter jazido com esse homem, embora essa era a primeira vez que não o via completamente vestido. Banner se inflamou de orgulho. Jake era esplêndido, formoso e esbelto. Ao menos nunca lhe humilharia o fato de que seu primeiro amante, e provavelmente o único, tivesse sido alguém indesejável.

   Jake baixou os braços e os agitou para restabelecer a circulação. encaminhou-se para a bomba de água do pátio, situada entre a casa e o estábulo, inclinou-se e deixou que a água lhe empapasse a cabeça e o pescoço enquanto bombeava. Quando se ergueu, cobriu-se o rosto com as mãos e tiritou. Baixou as mãos e sacudiu a cabeça para desprender a água de seus cabelos. As gotas de água caíam a seu redor como uma chuva de diamantes, cada uma irisando a luz do sol.

   O homem retornou ao estábulo para recolher uma camisa. Quando voltou a sair, levava-a posta. Rodeou a parte traseira do estábulo até que desapareceu da vista do Banner.

   Durante vários minutos Banner ficou com o olhar cravado no ponto em que lhe tinha visto a última vez. Logo, como se saísse de um transe, piscou e aspirou fundo.

Um por um seus músculos se relaxaram e a tensão foi diminuindo em suas extremidades. surpreendeu-se ao comprovar que uma fatia de panceta tinha cansado pródigamenteal revisto.

   Seu equilíbrio não era muito estável, mas se obrigou a terminar de preparar o café da manhã. Em qualquer momento entraria Jake esperando encontrar café hirviente e comida quente.

   Estavam suas bochechas avermelhadas e acaloradas como lhe parecia com ela? Saberia ele que tinha estado lhe espiando? Mas, e o que se sabia? pensou, súbitamente furiosa. Não tinha por que exibir-se semidesnudo desse modo! Certamente, ela não tinha pretendido olhá-lo; tinha sido um acidente. Nem havia sentido o desejo veemente de tocar... nada. e essa vaga pontada de decepção que experimentava na boca do estômago não se devia a que ele tivesse levado posta a camisa a noite que fizeram o amor. Certamente não! Não tivesse sido uma sensação agradável notar seu torso nu, com tudo esse cabelo e esses músculos duros contra seus seios.

   Tossiu para aliviar a sua garganta de uma repentina congestão.

   Quando Jake bateu na porta traseira, Banner saltou como um coelho assustado e se voltou bem a tempo para vê-lo entrar. Ele advertiu sua agitação imediatamente e perguntou:

   -Ocorre algo?

   -Nada -respondeu ela com extrema rapidez.

   -Está segura?

   -Sim. É obvio. O que poderia ocorrer?

   -Não sei, por isso pergunto.

   Lhe deu as costas.

   -Sente-se. O café da manhã está preparado.

   Jake o. dirigiu um olhar curioso, mas obedeceu, apartando uma cadeira da mesa e deixando cair nela. Banner se aproximou rapidamente à mesa levando a cafeteira.

Estendeu o braço por cima do ombro do Jake para lhe servir a taça.

   -dormiste bem? -perguntou ele.

   Jake voltou a cabeça para olhá-la. Ambos ficaram imóveis.

   Inclinada como estava, com os braços estendidos, o seio do Banner ficava ao nível do rosto do homem. Estavam tão perto que sim ele tivesse movido os lábios a haveria meio doido. A moça incluso sentia a respiração do homem contra seu mamilo, que estava rígido, de modo inexplicável, posto que na cozinha não fazia frio.

Em realidade, Banner nunca tinha estado tão incómodamente cálida em sua vida.

   Verteu o café na taça e se apartou.

   -Sim, dormi muito bem. E você?

   -Bem, muito bem. -Seus dentes chiavam enquanto se balançava ligeiramente na cadeira. Mas agora olhava por volta de diante e parecia que se propunha permanecer assim para sempre. "Lição número um: nunca, nunca voltar a cabeça quando Banner está te servindo." esclareceu-se garganta-. Essa habitação é bastante acolhedora.

   Mentira. Não tinha dormido mais que uns minutos seguidos. Tinha dado voltas na cama, pensando nela, preocupando-se se por acaso se teria acordado de travar as portas, se teria frio, se teria calor, se teria fome, se teria medo. Milhares de vezes tinha tratado de convencer-se de que tinha que ir à casa para comprovar que tudo estava em ordem, sabendo muito bem que não devia fazê-lo.

   -Fará muito calor ali este verão, não te parece?

   Banner considerou que era necessário manter uma conversação superficial para ocultar seu próprio nervosismo enquanto levava as fontes à mesa.

   -Se for assim, dormirei ao ar livre. Tenho-o feito muito freqüentemente.

   Recordou que aquela noite no estábulo também tinha mencionado que não lhe importava dormir à intempérie. por que diabos o tinha repetido agora? Possivelmente ela não se lembraria. Mas quando Jake elevou o olhar para encontrar a dela, soube que sim o recordava. A sombra rosada em suas bochechas se fez mais intensa e a moça se retirou precipitadamente.

   Foi então quando reparou nas calças. Banner ia vestida com calças. Ou os tinha agradável Lê porque lhe ficavam pequenos, ou tinham sido confeccionados a medida, porque se ajustavam como uma luva a essas formosas nádegas de um modo que punha em perigo a prudência.

   Diabo! Como esperava que comesse os ovos mexidos -por certo, cozinhados como lhe gostavam quando ela se passeava pela cozinha, transportando, com essas condenados calças tão rodeadas?

   Deveriam estar proibidos, porque se antes tinha especulado sobre a forma das coxas, agora não guardavam nenhum secreto para ele. Eram largos e apertados, modelados para que a um homem lhe fizesse água a boca. Jake tinha visto atuar garotas em salões de baile com as coxas embutidas em meias escandalosamente transparentes, e nenhuma lhe tinha resultado tão provocadora como Banner vestindo um dril de algodão descolorido adaptado a suas formas. Só uns dias atrás, lhe tinha dado brincando, umas palmadas nas nádegas sem pensar nada a respeito. Bem, pensava-o agora, e o que pensava ao respeito era tão forte que começou a sentir um formigamento nas Palmas das mãos. Se sua mão voltava a aterrissar sobre essa carne brandamente arredondada, não seria para uma surra em brincadeira, a não ser para uma carícia.

   Quando tudo esteve disposto sobre a mesa, Banner se sentou frente a ele. Jake suspirou de alívio, alívio que durou pouco. A parte dianteira do corpo do Banner

atraía a seus olhos tanto como um ímã. A moça vestia uma singela camisa de algodão, nada fina, como a que poderia ficar qualquer vaqueiro. Mas Banner modificava sua forma grandemente. Não teria podido guardar nada nos bolsos se tivesse querido; já estavam cheios com seus seios.

   -Molho?

   -O que? -Jake apartou o olhar do peito do Banner e a dirigiu para seu rosto inquisidor.

   -Ainda não provaste meu molho. Dá-te medo? -Banner inclinou a cabeça.

   O comentário sarcástico era um intento valente por restabelecer o equilíbrio. Jake se estava comportando de um modo tão estranho como ela. Provavelmente, ainda estava irritada pela discussão que mantiveram a noite anterior, o que explicava a tensão em torno de sua boca.

   Banner teve saudades os dias em que tinham sido bons amigos e confidentes. Acaso em uma ocasião ele não a tinha apertado contra seu peito quando ela chorava por um gatinho? Então não tinha sentido no estômago essa rajada cálida e palpitante por que não podiam recuperar essa classe de camaradagem?

   O que pergunta tão estúpida! Sabia a razão. Nada poderia ser como antes para eles. Mas possivelmente podiam fingir que aquela noite no estábulo não tinha acontecido nunca. Ao menos, ela ia tentar o.

   -Não crie que saiba cozinhar?

   Jake riu entre dentes e com um concha de sopa se serve uma generosa quantidade de molho fumegante e espesso sobre a bolacha que tinha partido.

   -Tenho um estômago de ferro. De outro modo, jamais tivesse sobrevivido comendo o que saía das carretas de provisões. Suponho que poderei comer seus guisados.

-Deu uma dentada, fechou os olhos e saboreou enquanto mastigava lentamente. Só os abriu depois de ter tragado com exagero cômico. passou-se a língua pelos lábios e disse-: Deliciosa.

   Ela sorriu e se sentiu muito mais cômoda.

   -estive pensando em pôr um nome ao rancho.

   -Acreditei que já o tinha.

   Banner sorveu seu café e negou com a cabeça.

   -Não quero que seja simplesmente uma extensão do River Bend. Quero que tenha um nome próprio. Alguma sugestão?

   -Não pensei nisso.

   Banner deixou o garfo no prato, entrelaçou os dedos e se inclinou apoiando-se nos cotovelos.

   -O que te parece Plum Creek?

   -Plum Creek?

   -É o nome do arroio que corre através do limite boscoso da propriedade, o arroio que desemboca no rio.

   -Rancho Plum Creek? -Jake meditou em voz alta, com o sobrecenho franzido-. Parece um pouco... um pouco... -Procurou a palavra exata-. Feminino.

   Ela esperava que o rosto do Jake se iluminasse de entusiasmo para ouvir o nome, e lhe incomodou que não fosse assim.

   -Bom, eu sou feminina.

   O olhar do homem se elevou rapidamente para observar à moça, e logo imediatamente descendeu para seus peitos. Esta vez a indignação os agitava um pouco. Suas mãos desejavam ardentemente apalpar essa agitação tremente. Com toda segurança não podia discutir o fato de que era feminina.

   Frustrado até o limite, depois de voltar a levantar o olhar para o rosto do Banner disse secamente:

   -É seu rancho, chama-o como você gosta.

   -Muito obrigado por sua autorização. -A voz do Banner gotejava um sarcasmo tão espesso como o mel. Arrastou a cadeira para trás e se levantou, fazendo ruído com os pratos quando os empilhou.

   Jake também se levantou.

   -Não acredito que aos peões goste de trabalhar em um rancho com um nome tão afetado.

   -Só foi uma sugestão. Ainda não me decidi. Uma faca se deslizou de um dos pratos que Banner estava levando a pia. Ela se inclinou e o recolheu, exibindo sua nádegas. "OH, demônios", gemeu Jake. Estava enlouquecendo-o a propósito? dirigiu-se para a porta.

   -Logo estariam aqui os peões. Tenho que me pôr a trabalhar.

   -O que vai fazer hoje?

   -Começar a construir o curral definitivo.

   -Eu sairei para fiscalizar as coisas mais tarde.

   Com essas calças e o cabelo desordenado e solto, seríauna distração até para um eunuco. Isso era o único que lhe faltava, um punhado de jeans briguentos que não dariam golpe por comer-se com os olhos ao Banner.

   -Bem, antes de fazê-lo te tire essas calças.

   -O que?

   -Já me ouviste.

   -por que?

   -Porque forma parte de meu trabalho te proteger, e me resultará mais fácil se não andar te pavoneando com essas calças ajustadas.

   -me pavoneando!

   -São... são indecentes.

   Banner deixou cair um prato no escurridero.

   -Indecentes! -gritou, furiosa.

   Mas Jake já se afastava pelo pátio.

 

   -OH... Priscilla... carinho.

   Os olhos do Dub Abernathy estavam nublados de desejo. O suor lhe umedecia a frente. O cabelo cinza e espaçado, cada fio do qual valorava intensamente, condensava-se sobre o gordurento couro cabeludo. Seus dedos se trabalhavam em excesso com frenesi nos botões do colete. A jaqueta a tinha tirado logo que entrou, como sempre fazia antes de aceitar um copo do melhor uísque da madama.

   As mulheres e o uísque eram prazeres proibidos que se permitia tudas as terças-feiras e quinta-feira pela tarde, e em ocasiões os sábados pela manhã se Priscilla estava disponível e ele podia arrumar seus horários.

   -Hummm -gemeu enquanto se tirava a jaqueta e a jogava no chão. Logo agarrou o copo da pequena mesa de três patas e bebeu-. Continua, termina.

   Priscilla estava de pé frente a ele, vestida com espartilho e regata, meias e sapatos de salto alto. O espartilho elevava e ressaltava seus seios, ajustava sua cintura até reduzi-la a uma estreiteza drástica, e exagerava a elegância natural de seus quadris. As ligas que adornavam suas coxas sustentavam umas meias transparentes de cor negra, que contrastavam de um modo escandaloso com a brancura marfileña de sua pele.

   A Priscilla adorava chatear ao Dub até o limite. O desejo do homem por ela era muito óbvio. Dub era desvergonzadamente licencioso e carecia de moral na cama.

Por essa razão gostava a Priscilla. A paixão do homem era incontrolável, e fazia muito tempo que tinha aprendido e admitido que nada tinha que ver com o amor. Dub não se deixava enganar por ideais artificiales,y sabia que os seres humanos eram incapazes de amar a alguém além de si mesmos. Entretanto, podiam dar-se agradar.

Isso é o que faziam Priscilla e Dub. Esse lento striptease era um dos jogos eróticos com que se divertiam.

   Durante os últimos anos Dub Abernathy tinha sido um dos clientes mais regulares da Priscilla, e se contava entre os poucos dos que se ocupava ela mesma. Nunca tinha cancelado nenhuma de suas entrevistas fixas. Priscilla desfrutava com seus jogos brincalhões, porque Dub era audaz e dava prazer a ela com generosidade. Valia a pena o ter como amigo por várias razões, sendo uma das mais importantes sua posição na comunidade.

   Abernathy poderia ser um dos defensores mais leais do Jardim do Éden, mas também era um homem de negócios respeitado no Fort Worth. Era membro do conselho de direção de um dos bancos da cidade, presidente dos diáconos e integrante do conselho municipal.

   Era um impostor; outra razão pela que gostava a Priscilla. Dub levava a vida de um cidadão de excelentes qualidades, mas era decadente. lhe encantava corromper a semelhantes pilares da comunidade.

   Lentamente Priscilla levantou os braços e desprendeu os broches que lhe sujeitavam o cabelo. Um cacho de cabelo comprido e reluzente, como se tivesse sido adestrado para fazê-lo, deslizou-se por seu ombro para frisar-se seductoramente sobre seu seio.

   Os mesmos lábios que invocavam o nome do Senhor na oração matinal do domingo chamaram o homem de um modo blasfemo. Priscilla sorria com presunção felina. Jogou a cabeça atrás, fazendo-a oscilar de um lado a outro, sabendo que ao Dub gostava de contemplar seu cabelo roçando a pele nua de suas costas.

   -te toque -sussurrou Dub com voz áspera.

   Priscilla se levou as mãos ao peito e as deslizou para baixo até que cada uma delas cobriu um seio.

   -OH Deus! OH Deus! -disse Dub, ofegante.

   desabotoou-se os botões das calças. Debaixo do tradicional traje de raias finas do banqueiro se achava

enraizado um desejo desenfreado. Priscilla sentia um prazer malicioso.

   Apertou as mãos sobre seus seios, esfregou-os lentamente em um movimento circular, fechou os olhos yempezó a balançar-se sensualmente. A respiração do Dub se acelerou. Para recompensá-lo por querê-la tanto, Priscilla se tirou a regata e despiu seus seios.

   -Faz que se endureçam para mim -disse Dub com voz rouca.

   Isto também era uma rotina, mas nunca falhava quando se tratava de excitar a Priscilla, quem tinha a esse homem virtualmente ao bordo da apoplexia devido ao desejo que sentia por ela. Dub podia influir nos votos do conselho municipal e expor os terrores do inferno na classe que repartia na escola dominical, mas quando entrava nesse quarto, ela o tinha em seu poder. E o poder era o afrodisíaco mais potente.

   Os dedos da Priscilla se abriram em abano sobre seus mamilos, lentamente ao princípio e logo mais rápido, seguindo o ritmo da respiração irregular do Dub. apertou-se os mamilos entre o polegar e o índice de cada mão, desfrutando com os suspiros e gemidos do homem, quem, por fim, disse:

   -Agora, traz-me isso     La boca de Dub pasaba febrilmente de un seno exuberante a otro, mientras ella se balanceaba sobre él con movimientos expertos. Dub castigaba los pezones de Priscilla con su lengua y se los mordía hasta hacerle daño. La mujer deslizó sus manos hacia el cuello del hombre para clavar salvajemente las uñas mientras sus movimientos arriba y abajo se tornaban más frenéticos.

   Priscilla se aproximou com um rebolado que o hipnotizava. Quando ela estava ainda a vários centímetros dele, Dub saltou da cadeira, agarrou-a pela cintura e a atraiu contra seu corpo quando caía para trás. A boca do homem cobriu um seio, avidamente. Priscilla rodeou com suas mãos a cabeça do homem, como sabia que lhe gostava. As gemas de seus polegares pressionaram as têmporas do Dub. sentou-se escarranchado sobre o regaço do homem e se empalou nele.

   A boca do Dub passava febrilmente de um seio exuberante a outro, enquanto ela se balançava sobre ele com movimentos peritos. Dub castigava os mamilos da Priscilla com sua língua e os mordia até lhe fazer danifico. A mulher deslizou suas mãos para o pescoço do homem para cravar grosseiramente as unhas enquanto seus movimentos acima e abaixo se tornavam mais frenéticos.

   Logo o homem de negócios que possuía ações preferenciais em numerosas empresas, que presidia com eloqüência as reuniões do conselho de administração, que nunca pensaria em ofender a sua esposa, chiou como um animal na agonia da morte e se colocou entre as coxas da puta mais conhecido do Texas.

   Porque ele também a tinha levado a clímax, Priscilla lhe perdoava a boca frouxa que agora babava sobre seus seios.

   Com movimentos garbosos, a mulher se incorporou e se retirou detrás de um biombo para lavar-se e arrumar-se. Quando voltou, encontrou ao Dub nu sobre sua cama, esperando as abluções que sempre vinham a seguir. Priscilla banhou o corpo agora nu com uma toalha quente.

   -Outro gole? -perguntou Priscilla com tom conciliador.

   O homem jogava com seu seio.

   -Não. Melhor não. Tenho reunião esta tarde.

   Priscilla deixou a um lado a toalha, Unindo-se a ele na cama, deixou-se cair sobre uma pilha de almofadas e como parte do ritual, atraiu a cabeça do homem até

seus seios. Este era o momento mais valioso dessas relações. Ela desfrutava com o sexo, mas a informação que colhia na conseqüências não podia obter-se em nenhum outro lugar.

   -Como vão minhas ações na ferrovia?

   -Já duplicaste seu investimento -resmungou Dub enquanto lhe beijava o pescoço-. Tal como te disse. A companhia de aço também vai bem. Você gostaria de investir em um cavalo de carreiras?

   -Parece divertido.

   -Eu vigiarei seu treinamento e te informarei. -Dub se incorporou ligeiramente para vê-la melhor. Seu dedo grosso e romo descreveu círculos ao redor de seu seio.

Falando de cavalos, não me disse uma vez que conhecia os Coleman do River Bend no condado do Larsen?

   Os dedos da mulher, que tinham estado lhe arranhando brandamente as costas, paralisaram-se.

   -Sim. O que ocorre com eles?

   -Ouvi uma intriga o outro dia. Parece que têm uma filha.

   -Sei. ia casar se.

   Dub riu entre dentes.

   -supunha-se que ia fazer o, mas as bodas foi interrompida por um destilador ilegal de licores, um pobre desgraçado. Arrastou a sua filha grávida à igreja e declarou que o noivo era o pai da criatura.

   Os olhos da Priscilla se acenderam, enquanto sua mente imaginou a desagradável cena.

   -Não!

   -Juro-te que é o que se rumorea. Um de meus clientes foi convidado à bodas. Ele me contou isso e não tem nenhum motivo para mentir.

   -O que aconteceu?

   Dub a pôs à corrente dos fatos, tal como os conhecia.

   -O noivo, Grady ou Brady Sheldon acredito que era seu nome, foi obrigado a casar-se com a filha do destilador de licores, em lugar de fazê-lo com a garota dos Coleman.

   -Como reagiram os Coleman?

   -largaram-se para sua casa rodeados por todos seus amigos aliados.

   Jake Langston, pensou Priscilla. Detestava imaginar o refugiado no lar dos Coleman, mas Dub lhe deu a satisfação de lhe fazer saber que a filha da Lydia não

tinha sido capaz de reter a seu homem.

   -Obrigado por me contar isso disse, acariciando ao Dub. Para recompensá-lo, deslizou uma mão entre seus corpos.

   -Ostras, garota, está tratando de me matar? -perguntou Dub com respiração ofegante quando os dedos da Priscilla o rodearam.

   -Você não gosta? -A língua de lhe lambeu a orelha.

   lhe gostava muitíssimo, e a mulher não demoraria muito tempo em reacender seu desejo. Esta vez Dub foi mais forte e mais potente que antes. desabou-se sobre ela, mas se sentia alegre. A auto imagem do Dub se revalorizava enormemente cada vez que possuía a Priscilla. Sua esposa, tão fraca e decente, não tinha a menor idéia de que os seres humanos podiam executar os atos aos que ele e Priscilla se entregavam. A senhora Abernathy nunca lhe tinha satisfeito e ele só tinha procriado com ela uma filha, nada agraciada, por certo.

   Acaso um homem que trabalhava tão duramente como ele não merecia os prazeres que Priscilla proporcionava? Dub justificava seu esporte, e isso servia para apaziguar a pouca consciência que ficava.

   Priscilla estava lhe ajudando a ficá-la jaqueta quando Dub tirou colação um tema que a ambos interessava.

   -Carinho, devo te acautelar que tome cuidado.

   -Do que?

   -A Sociedade de Mulheres está organizando um novo movimento para apagar do mapa ao Hell's Half Acre.

   Priscilla agarrou uma escova e começou a passar-lhe pelo cabelo.

   -Tentaram-no antes -disse ela, sem lhe conceder muita importância-. Sempre fracassam.

   Dub parecia preocupado.

   -Possivelmente esta vez não. conseguiram o respaldo de nosso novo pastor, que continuamente ameaça com o fogo e o enxofre do inferno.

   Priscilla deixou a um lado a escova e se girou.

   -Pensei que você foste impedir que viesse aqui.

   Ele se encolheu de ombros.

   -Tentei-o, mas perdi na votação. -Apoiou suas mãos nos ombros da mulher-. Ele significa negócios, Priscilla, é um fanático e está obtendo muitíssimo apoio. A gente está ficando de seu lado.

   -Possivelmente granjeiros e estúpidos.

   -Não, homens de negócios.

   Priscilla escapou das mãos do homem e começou a caminhar de um lado a outro.

   -Mas, maldita seja!, somos proveitosas para a atividade empresarial do Fort Worth. O fechamento do bordel afetaria à economia da comunidade. Os jeans deixariam de vir aqui para gastar seu dinheiro. Já sabe, as cantinas não são os únicos lugares que se beneficiam de sua clientela. Todos os negócios da cidade se aproveitam do pessoal que vem aqui atraído por nós.

   Agarrou um leque, passeou os dedos pela seda e o jogou com desenvoltura cedendo a sua vaidade. Estava irritada.

   -Rezam, destrambelham e se enfurecem conosco, mas durante anos se deu é obvio que seus protestos são só para a galeria. Gostam de nos ter aqui.

   Dub se impacientava ante a negativa da Priscilla a aceitar os fatos tal como eram.

   -Isso era antes, mas os negócios vão bem sem os jeans. cada vez mais famílias se instalam aqui. Querem converter a esta cidade em um lugar seguro para gente respeitável.-Priscilla emitiu um som grosseiro, mas Dub se apressou a arrebitar o prego-. Fort Worth já não é o pátio de recreio de um vaqueiro, um lugar criado para que jogue seu dinheiro, embebede-se e pilhe sua dose de gonorréia.

   -Faz algo, Dub. Tranqüiliza-os. Pensa em alguma ação espetacular que lhes satisfaça como fazia antes. Recorda os piquetes do ano passado? Quase todos os que levavam pancartas eram meus clientes. Organizaram esse protesto para aplacar a suas algemas, e funcionou. Voltará a funcionar.

   Dub não se proposto zangá-la tanto. Ele podia ver o presságio da catástrofe, visse-a ou não ela. Os dias do Jardim do Éden estavam contados. Priscilla seguiria

sendo uma mulher rica. Seus interesses empresariais lhe proporcionavam bons dividendos que lhe permitiriam ser uma pessoa enriquecida durante o resto de seus dias.

Mas Dub sabia que adorava ser a madama mais famosa do estado. Para ela era uma questão de orgulho. Ninguém lhe tiraria esse título sem briga.

   Dub abraçou a Priscilla e lhe acariciou as costas.

   -Não pretendia preocupar-se, mas deve ser consciente do que acontece. As coisas poderiam piorar.

   -Mas ao final, sempre se arrumam. -Priscilla deslizou suas mãos debaixo da jaqueta do homem e o atraiu para ela-. Enquanto continue tendo amigos como você a meu lado, estarei protegida. De acordo?

   -De acordo.

   Dub se apressou a beijá-la antes de que ela advertisse que tinha mentido.

   Muito depois de que Dub se partiu, Priscilla seguia sentada considerando seu futuro. Detestava não controlar a situação.

 

   Tinham sobrevivido as duas primeiras semanas sem cometer um assassinato. Dado o caráter de ambos e as inumeráveis e acaloradas discussões em que se encetaram, essa era uma façanha importante. Banner se felicitou mentalmente por esse lucro, fazendo extensiva a felicitação ao Jake, enquanto conduzia o carro pelo acidentado terreno.

 Era meio-dia. O calor do sol era intenso. Jake e os três peões estavam tendendo uma perto de arame espinhoso para delimitar parte da terra destinada a pastoreio.

Banner, inquieta e aborrecida na casa, tinha preparado uma jarra de limonada e a levava aonde estavam trabalhando junto com uma cesta de sanduíches e bolachas.

   O que tinha feito com tanto amor não receberia mais que um olhar severo do Jake. Assim era como estava acostumado a olhá-la com freqüência. De fato, sempre que a olhava suas sobrancelhas estavam contraídas em um gesto de desaprovação. Desde aquela primeira manhã em que lhe tinha ordenado que se trocasse as calças por outro objeto, ela o tinha desafiado ficando os todos os dias, inclusive pelas noites quando ele ia à casa para jantar.

   Algum demônio rebelde no interior da moça a incitava a provocá-lo, embora ignorava a razão. Ele era como uma trovejada a ponto de estalar. Ela desejava que o fizesse logo, pois não podia suportar mais esse ambiente sombrio, turbulento e lhe exasperem que reinava entre eles. Era preferível que a tormenta estalasse e limpasse o ar a contribuir a que seguisse formando-se.

   Banner golpeou brandamente a garupa do cavalo com as rédeas. A viagem pelo terreno cheio de buracos não podia ser mais duro para o animal que para ela. O cavalo fazia chiar os dentes cada vez que as rodas do carro passavam sobre uma pedra. Banner tivesse preferido ir montada em um dos cavalos que criavam. Tivesse demorado menos da metade de tempo em chegar ao lugar de trabalho. Entretanto, necessitava a limonada, as bolachas e os sanduíches como desculpa para transgredir os limites que lhe tinha imposto Jake, e só podia transportá-los no carro.

   Banner quis trabalhar no tendido da perto, ou ao menos fiscalizá-lo. Jake se tinha negado a que o fizesse, sacudindo a cabeça inflexiblemente.

   -É um trabalho duro.

   -Estou acostumada ao trabalho duro.

   -Mas não a esta classe de trabalho.

   -A toda classe de trabalho.

   -É perigoso. Poderia te fazer danifico.

   -Não me farei isso.

   -Está bem, não te fará mal porque não irá a nenhuma parte. te ocupe das tarefas domésticas e me deixe levar o rancho.

   Essas palavras lhe valeram uma postura desafiante e um olhar de olhos de gato.

   -colaborei nos trabalhos do rancho toda minha vida. Aborreço-me com a casa. Não há nada a fazer ali. Tenho-a arrumada como quero. Termino com as tarefas ao redor das dez da manhã e não tenho nada que fazer o resto do dia.

   -Monta ao Dusty.

   -Por onde? Ao redor do pátio? Ordenou-me que não me afastasse.

   -Então, busca algum entretenimento. Mas manténte se separada de mim e dos homens!

   Como na maioria de seus enfrentamentos, Jake se tinha partido murmurando.

   Bem, esse dia não estava disposta a permanecer na casa. Era o primeiro dia verdadeiramente veraniego e queria desfrutá-lo ao ar livre.

   Deteve o carro debaixo de uma árvore frondosa, no lugar onde o prado começava a confundir-se com o bosque. Ao vê-la, os três peões deixaram de enxugá-las sobrancelhas com o envés das mangas de suas camisas. Umas poucas palabrasde Jake, que Banner não pôde ouvir, conseguiram que os homens voltassem a ocupar-se da perto.

   Banner desceu do carro de um salto, agarrou a jarra e a cesta da parte traseira e começou a cobrir a pé a distância restante.

   -Pensei que merecia um descanso -disse alegremente. Seu entusiasmo era uma provocação deliberada ao olhar cintilante que lhe dedicou Jake. Mas não lhe fez caso e se dirigiu aos outros três homens.

   -Limonada, sanduíches e bolachas.

   -Isto é um pic-nic completo -disse Randy, arrastando as palavras, enquanto se tirava o chapéu e se inclinava galantemente.

   A risada falsa do Banner atravessou as vísceras do Jake como uma cuchilla dentada. "Não aparta a vista dela -pensou-, que não deixa de pavonear-se com essas malditas calças." Odiava-os.

   Não, gostava, muitíssimo. Mas o mesmo ocorria a outros homens, e isso era o que não podia tolerar. Sabia que Banner os punha só para exasperá-lo. O modo em que os homens olhavam ao Banner quando levava as calças lhe dava dentera.

   -Muito amável de sua parte. -A boca. do Jim, o da cicatriz, esboçou algo semelhante a um sorriso.

   Pete não disse nada, mas contemplou a cesta com agradecimento.

   Sem sequer consultar ao Jake, os homens começaram a examinar o almoço que havia trazido Banner e se passaram a jarra de limonada. lntercambiaron ocorrências graciosas com o Banner como se estivessem em uma reunião de domingo e não em um dia de trabalho. A nenhum deles lhe ocorreu perguntar se podiam tomar-se esse descanso.

Ao fim e ao cabo Jake era o capataz, não? Mas Miss Coleman era a proprietária do rancho. Por muito que desejasse repreendê-la como amigo da família por paquerar perigosamente com homens famintos de mulheres, e como capataz por pôr em interdição sua autoridade, não disse uma palavra. Em troca, deu-se a volta e começou a tender o cabo ao redor do poste que acabavam de afundar na terra.

   -Jake, não quer nada? -perguntou Banner.

   O cabelo do Banner, tão negro e lustroso como as asas de um corvo, era iridescente sob o brilho da luz do sol. Parecia gozar de vida com seu alvoroço de ondas e cachos que ela não tinha a decência de recolher em um coque ou ocultar debaixo de um chapéu discreto. Suas bochechas transbordavam de cor. Logo que pôde ver seus olhos através do bosque de pestanas escuras quando ela elevou o olhar para ele, mas intuía que seriam zombadores. Jake só desejava apagar de seus lábios esse sorriso presunçoso com um beijo.

   -Não, obrigado.

   -Fique cômoda.

   Banner deu as costas ao Jake e dedicou toda sua atenção ao Randy, cuja voz se tornou melosa e lambida. O vaqueiro tinha um verdadeiro dom para fazê-la rir, para conseguir que jogasse a cabeça para trás, fazendo descender por suas costas essa abundante cabeleira de ébano. Quando o fazia, sua garganta ficava exposta, por não falar desse triângulo no peito que deixava ao descoberto o pescoço aberto da singela blusa de trabalho. Era imaginação do Jake ou se ajustava mais a seus peitos esta manhã?

   Jake agarrou um martelo, pôs um prego no poste da perto e quão único conseguiu foi agarrá-la unha do polegar entre a ferramenta e a cabeça do prego. Depurada a blasfêmia que proferiu deteve momentaneamente a jovialidade que se desenvolvia a poucos metros dele e que prosseguiu quando Banner pediu ao Randy que lhe falasse do último rodeio em que tinha participado.

   Jake tinha ganho numerosos prêmios em rodeios. Tinha-lhe perguntado alguma vez Banner por seus prêmios? Não.

   LuegoBanner entreteve aos homens com uma competição espontânea em que deviam mostrar sua habilidade com o lazo.Cuando Randy conseguiu enlaçar o poste da perto pela terceira vez e Banner posou sua mão sobre o braço do peão em um gesto de admiração, a paciência do Jake se encheu.

   -A festa terminou -ladrou. Arrojou o martelo ao chão e se situou frente a eles como desafiando-os a lhe contradizer. Ameaçou-os com o olhar glacial que tinha

intimidado a muitos jeans musculosos e fortes.

   Jim e Pete deram as graças ao Banner e reataram humildemente suas tarefas. Era mais sensato que meter-se em confusões com o Jake, a quem consideravam um capataz justo que jamais lhes exigia mais do que ele mesmo fazia. Mas tinham pressentido que no concernente à garota era tão briguento como uma mamãe ouso. Em troca, Randy não foi tão perspicaz.

   -me deixe lhe levar as coisas até o carro, Banner.

   -É obvio, obrigado, Randy.

   "Desde quando se chamavam pelo nome de pilha?", perguntou-se Jake. Não podia pôr objeções ao oferecimento do Randy sem parecer um canalha. portanto, limitou-se a fazer chiar seus dentes.

   -Está levando a cabo um excelente trabalho aqui, Jake -disse Banner, sorridente, como se ele não fosse para ela mais que um humilde peão contratado.

   Jake a contemplou enquanto se afastava em companhia do Randy, inclinando o rosto para o peão com paquera. Apertou a mandíbula. Ross lhe tinha encomendado proteger a dessa classe de presunçosos. Mas como diabos ia fazer o quando ela olhava do modo em que o fazia e empregava todas as argúcias femininas para inflamar o sangue desses jeans?

   A atenção do Banner não estava na conversação jovial que mantinha com o Randy. Contemplava a cara do Randy com seu sorriso indolente, mas estava vendo os olhos frios do Jake e o modo odioso em que a olhava. Tanto a desprezava?

   Banner e Randy chegaram ao carro e o homem depositou a cesta e a jarra na parte traseira. Estava a ponto de subir ao assento quando Randy a deteve.

   -Né!, Banner. Fica aquieta, carinho -disse, agarrando-a pela cintura.

   -O que ocorre?

   -Há uma larva no pescoço de sua blusa. Deve ter cansado desde uma das árvores.

   A imagem de algo arrastando-se por seu corpo fez que a invadisse um pânico tipicamente feminino.

   -Onde? Onde? tire-me isso Date pressa!

   -te acalme, te acalme. Ai, maldita seja. meteu-se dentro de sua blusa.

   Banner gritou e começou a dar voltas freneticamente.

   -tire-me isso Randy. OH, sinto-a. tire-me isso     -Oh, Randy, no.

   -Bem, farei-o, mas terá que te serenar e ficar aquieta.

   Finalmente Randy conseguiu sujeitar as costas do Banner contra seu corpo lhe passando um braço pela cintura. A outra mão se afundou na parte traseira da blusa em busca da larva.

   -OH, Randy, não.

-Aquieta agora. Não te mova.

   -Randy, por favor.

   -Solta-a!

   As palavras foram tão duras e frite como o canhão de aço do revólver que apontava ao Randy. O casal que estava travada nesse estranho abraço ficou paralisada.

Quatro olhos se cravaram no Jake, quem tinha posto-se a correr assim que ouviu o primeiro grito do Banner e agora estava parado a menos de três metros deles, com o braço armado estendido.

   -Hei dito que lhe tire as mãos de cima. -Jake empurrou as palavras através dos dentes apertados.

   Randy se umedeceu os lábios, mas continuou imóvel.

   -Tranqüilo com esse revólver, Jake.

   -te aparte dela -rugiu Jake.

   Randy se moveu lentamente, não querendo que o homem dos olhos glaciais interpretasse mal seus gestos. Primeiro, retirou seu braço da cintura do Banner; logo tirou a mão que estava debaixo da blusa da moça, e por último se apartou. Banner aumentou a distância entre eles, e ficou olhando fixamente ao Jake sem dizer uma palavra.

   Randy abriu o punho. A larva peluda se arrastou pela palma de sua mão.

   -Só estava lhe tirando isto das costas. -Randy sacudiu a mão e a larva caiu ao chão.

   Jake cravou o olhar na mão do Randy. Em qualquer outro momento se riu, burlando-se de si mesmo por ter feito o ridículo. Mas ainda estava muito impressionado

por ter visto as mãos de outro homem sobre o Banner para encontrar graciosa a situação. Embainhou o revólver e indicou com a cabeça o lugar em que se achavam Jim e Pete. Os dois peões se hallabanjunto ao poste da perto, sacudindo tristemente a cabeça ao comprovar quão bobamente podiam comportá-los homens quando aparecia em cena uma mulher.

   -Tem trabalho que fazer. -Não precisou dizer nada mais. Imediatamente Randy saudou o Banner tocando-se ligeiramente a asa do chapéu e se afastou com passo rápido, contente de escapar com vida-. Sobe ao carro -ordenou Jake à moça.

   Banner se sentia muito humilhada e furiosa para empreender uma discussão. Subiu de um salto e se instalou no assento. Logo agarrou as rédeas e as fez estalar sobre a garupa do cavalo. Jake assobiou e Stormy apareceu desde uma das árvores onde tinha estado pastando à sombra.

   Jake cavalgou ao lado do Banner enquanto ela mantinha os olhos fixos à frente, sem dignar-se olhá-lo e muito menos lhe falar.

   Banner deteve o carro diante da casa, apeou-se e, com o corpo erguido e direito, encaminhou-se para o alpendre. Jake desmontou com assombrosa agilidade e a seguiu, alcançando-a no momento em que levava a mão para o pomo da porta principal. O homem afundou sua mão na cintura das calças da moça e a deteve dando um puxão.

   -Quero falar contigo.

   Banner se deu volta e ficou frente a ele, enfurecida como nunca o tinha estado em sua vida.

   -Bem, eu não quero falar contigo. Ao menos não até que me serene, pois se não, temo-me que direi algo que seria melhor calar.

   -Como o que? -perguntou Jake, em atitude desafiante.

   -Como que é um mandão, um briguento, e que tem muito mau gênio.

   -Eu? Mau gênio?

   -Sim, você.

   -Seu gênio não é algo do que possa alardear, senhorita Coleman.

   -Bem, tive motivos suficientes para perder a paciência; de fato em muitas ocasiões por causa de ter que viver contigo durante estas duas últimas semanas. Nada do que faço te agrada. Critica minhas roupas, meu cabelo, tudo o que faço. Está mal-humorado e grunhe sem cessar quando deves toma o café da manhã e jantar. Estou cansada de que resmungue sem levantar a cabeça do prato, fazendo-o passar como conversação na hora de comer.

   -Algo mais? -perguntou Jake, falando com o mesmo tom que ela.

   -Sim. Peço-te amavelmente que te mantenha à margem de meus assuntos pessoais, que não são de sua incumbência!

   -Banner girou sobre seus talões e entrou na casa com gesto altivo.

   Jake entrou detrás dela, abrindo de um chute a porta que ela tratou de lhe fechar na cara e que agora se estrelou contra a parede, sem que a nenhum dos dois lhe importasse.

   -Não duvide de que é assunto meu quando um vaqueiro como Randy te manuseia. Prometi ao Ross que...

   -me manusear? Estava me tirando uma larva da blusa.

   -E demorando bastante em fazê-lo! -prorrompeu ele-. por que gritava?

   -Estava assustada.

   -Bem, você me assustou muito mais . Não sabia o que estava te fazendo. O que se supõe que devia pensar?

   -Essa é a questão. Não se supõe que deva pensar nada.

   -Então, se começar a gritar em metade da noite, eu me dou volta e sigo dormindo, não? Dou por sentado que não necessita ajuda.

   O olhar do Banner foi de pura condescendência para sua estupidez.

   -Tinha uma larva me baixando pelas costas.

   -Mas por que gritou? Lembrança quando estava acostumado a jogar com larvas, ratos e vermes, e Deus sabe que mais.

   Banner lutava com todas suas forças para não perder a paciência. Fez uma pausa para tomar fôlego. Isso pôde havê-la renovado a ela, mas não fez nada para acalmar ao Jake, quem olhava fixamente o peitilho dilatado da blusa da moça.

   -troquei desde que jogava com larvas.

   Com os olhos ainda absortos em seus seios, devia admitir que era certo. Mas ainda estava muito furioso para ser razoável.

   -Bem, a próxima vez que tenha alguma larva nas costas, me chame e eu lhe tirarei isso.

   -E que diferença há entre que o você faça e não Randy ou qualquer dos outros?

   -Eu não vou de um lado a outro com a língua fora cada vez que te vejo, essa é a diferença.

   Banner o olhou como se tivesse enlouquecido.

   -Isso é absurdo -disse, incrédula-. Eles não fazem isso.

   -Que não o fazem? -Jake a apontou com um dedo imperioso-. Chamei-te a atenção por usar essas calças ajustadas e te pavonear diante dos homens.

   -me pavonear! -Banner apartou seu dedo acusador.

   -Sim, te pavonear. -Jake se tirou as luvas de couro e os atirou ao estou acostumado a seguindo a tradição medieval de arrojar uma manopla em sinal de desafio.

Seu chapéu seguiu o caminho das luvas-. Caminha te pavoneando como uma rainha, incitando-os até que...

   -Eu não me pavoneio. -Pronunciou cada palavra com claridade-. E não incito a ninguém.

   -Demônios, se não o fizer.

   -Levo calças porque são o objeto mais prática e cômoda para fazer o trabalho do rancho, e essa é a única razão.

   Jake se inclinou para ela e sussurrou:

   -Mas não te produz prazer saber que todos os homens dos arredores lhe desejam?

   Banner, com o rosto mudado, retrocedeu como se Jake lhe tivesse pego. Era isso o que ele pensava? Pensava que posto que ela, tão impúdicamente, tinha-lhe pedido

que lhe fizesse o amor voltaria a fazê-lo com outro homem?

   -Não! -exclamou com voz débil, ao bordo do pranto.

   -Não?

   -Não.

   -Bem, então, faria melhor em te emendar e começar a te comportar como uma dama. A próxima vez eu poderia não estar perto para impedir que Randy te dê o que estava pedindo.

   -E o que era isso, Jake Langston? O que estava pedindo?

   -Isto.

   Jake a rodeou com seus braços e a apertou contra ele com um ímpeto que desalojou o ar de seus pulmões quando seus corpos chocaram. A boca do homem se apertou com força sobre a da moça, de uma maneira cruel, castigadora.

   As emoções que tinham estado pulsando sob a superfície surgiram a borbulhas, mas não como ira, mas sim como paixão. Jake inundou suas mãos na cabeleira do Banner.

Seus dedos se enredaram na massa de cachos. Com brutalidade, inclinou a cabeça da moça e cobriu com sua boca a dela. Sua língua violou a barreira dos lábios do Banner e iniciou seu saque.

   Ao princípio, a moça empalideceu de ira; logo depois de confusão entristecedora. Como deveria reagir? Lutando contra ele? Desse modo lhe convenceria de que não estava faminta das carícias de um homem, como a tinha acusado ele. Rendendo-se? Render-se a doce violação de sua língua; isso era o que desejava fazer. Queria perder-se na posse inflexível de seu abraço, saborear o gosto de seus beijos, saborear as sensações que alagavam seu corpo como arroios crescidos depois das chuvas primaveris.

   Ao fim se decidiu. Inconscientemente, limitou-se a responder. Os braços do Banner rodearam a cintura do homem e as mãos se desdobraram sobre suas costas. Os dez dedos dela se afundaram na carne musculosa debaixo do colete e da camisa.

   Jake gemeu, e sua língua, temperada pela ternura agora, afundou mais profundamente na boca do Banner. Uma mão se deslocou desde seu cabelo até suas costas, deslizando-se e descendendo por sua esbelta elasticidade até escorregar por debaixo de sua cintura. A mão do homem cobriu a curva de suas nádegas, que o tinham provocado durante dias. Apertou-as, atraindo à mulher para ele.

   Banner sentiu o intenso desejo do homem e murmurou com voz rouca. Mais que repelir, movia-se contra o corpo do Jake. Agora era imune à vergonha; o esplendor do beijo a tinha apagado de seu ser, erradicando-a, como se nunca a tivesse conhecido. Entrelaçou os braços com os dele até que suas mãos se cavaram sobre os ombros, aproximando-o mais a ela.

   Jake estava igualmente perdido. A bruma vermelha de raiva que se acendeu nele momentos antes tinha dado passo a doce neblina dourada do desejo. Obcecava-lhe o desejo; seus poros exsudavam desejo.

   A boca do Banner. OH, Deus, sua boca! Sabia ainda melhor do que recordava. Uma e outra vez a língua do homem se inundou em seu delicioso mistério, mas por mais incursões que fizesse para recolher seu mel, não conseguia saciar-se.

   Sentia os seios generosos e amadurecidos da moça contra seu peito. Sim, sim, recordava como os sentiu debaixo de suas mãos. Inclusive em repouso tinham cheio sua Palmas, as transbordando. O tecido suave de sua camisola nupcial se deslizou sobre a pele dela quando ele a acariciou. Seus polegares lhe tinham roçado os mamilos, que tinham respondido, doces, duros e pequenos.

   Mas não se atreveu a lhe tirar a camisola. Não tinha visto seus seios como tivesse querido, não os tinha saboreado. Só podia pensar nisso agora, enquanto sua língua se enroscava na ponta da dela. Como era nua? A que sabia? Como seria senti-la contra sua língua?

   Um murmúrio surdo se iniciou na boca do estômago do Jake e se abriu passo para sua garganta. Apoiou os quadris contra o talhe do Banner em um vão esforço por aproximá-la mais. Deus, que não daria de voltar a internar-se nesse canal sedoso que o tinha embainhado tão apertadamente, com tanta precisão.

   Gemendo, separou-se da boca do Banner e acurrucó o rosto no terreno baixo do pescoço da moça, abraçando-a com força. Rogou que a lembrança se desvanecesse, que pudesse encontrar a força de vontade para soltar ao Banner e não voltar a ter nunca os pensamentos pelos que seu corpo queria que se guiasse.

   Recordou vividamente o instante em que o escudo virginal do Banner tinha cedido. Lamentava a dor que lhe tinha causado, mas isso não tinha diminuído a maravilha e a sensação de debilidade total que se deu procuração dele no momento em que o corpo dela envolveu ao dele. Tinha-lhe embargado uma sensação de fatalidade, de ter alcançado uma meta que se mostrou evasiva durante muito tempo.

   Banner tinha sido moldada para o amor, ao menos para o seu. Nunca uma mulher se adaptou melhor a ele. Tinha duvidado antes de fazê-lo. A teria satisfeito igualmente se a tivesse deixado então. Ela não teria conhecido a diferença, e ele não tivesse tido que viver com a culpa não só de fazer o que tinha feito, mas também de desfrutá-lo tanto.

   Tal como estavam as coisas, nenhum poder celestial ou terrestre tivesse podido obrigá-lo a deixá-la então. Tinha começado a mover-se, lentamente, consciente do corpo da moça, rígido pelo impacto, debaixo do dele. Mas logo ela se relaxou, voltando-se mais complacente. Jake tinha empurrado e acariciado até que aquele muro que o reprimia tinha estalado mais explosivamente que nunca.

 apartou-se dela, débil, vazio. Mas o fato de recordá-lo agora o fazia sentir o desejo de voltar a experimentar essa doce morte. O suor banhava seu corpo. Fez chiar os dentes em um esforço por dominar o desejo que percorria seu corpo e se centrava dolorosamente em sua virilidade.

   Finalmente, apartou ao Banner e lhe deu as costas. Respirou profundamente, mas lhe serve de pouco. estremeceu-se. lhe lançando um rápido olhar por cima do ombro e obtendo só uma vaga impressão de seu rosto pálido -Deus, provavelmente agora estava aterrorizada dele- encaminhou-se para a porta e se voltou para lhe dizer:

   -Esta tarde irei à cidade a procurar provisões. Não me espere para jantar.

  

   Banner levantou o olhar para as folhas frondosas da nogueira. Sempre tinha sido uma campeã subindo à árvore. arranhou-se as acne com a casca áspera em seus esforços por avantajar a Lê e Micah mais vezes das que podia contar. Não tinha abandonado com o tempo sua afeição a subir tão alto como podia, procurando o distração de estar

suspensa entre o céu e a terra. Ali acima podia pensar com claridade, como se os problemas ligados à terra já não pudessem alcançá-la.

   A tarde tinha transcorrido lenta e tediosamente. A casa lhe tinha resultado muito opressiva. sentia-se desolada, desanimada e inquieta. Todos seus problemas brotavam de uma fonte. Jake Langston.

   O que ia fazer com o Jake?

   O era um problema em sua vida e não havia maneira de evitá-lo. Era um fato que aquela noite no estábulo tinha acontecido. Desejar que não tivesse acontecido ou lamentá-lo eram exercícios inúteis. Aquela noite trocou para sempre sua relação com o Jake. Não havia modo de conseguir que as coisas voltassem a ser como antes. resignou-se a isso.

   Ao que não podia resignar-se, entretanto, era à presente. Ela e Jake não podiam continuar vivendo como o faziam, brigando como aves carroñeras famintas que se disputam um animal morto. Ambos eram muito teimosos, muito teimosos, muito temperamentais e se sentiam muito culpados para evitar destruir-se mutuamente. E com eles destruiriam as perspectivas de futuro do Plum Creek.

   ia chamar a seu rancho Plum Creek, gostasse ou não a ele!

   Quase sorriu. Discutia com ele em sua mente incluso quando não estava perto. Mas o sorriso não chegou a desenhar-se por completo. Depois do beijo dessa tarde, aos problemas anteriores se acrescentavam muitas preocupações novas que apagaram o sorriso de seu rosto.

   Tinha-lhe gostado. mais do que deveria; mais do que era decente. Muito para esperar que o esquecesse logo.

   O que o tinha provocado? Um minuto antes lhe tinha gritado, olhando-a como se desejasse lhe retorcer o cuello.A continuação a tinha atraído para ele cativando-a em um abraço do qual não havia maneira de fugir. A boca do Jake se esmagou posesivamente sobre a seu de um modo tão avassalador que simplesmente sua lembrança fazia estremecer suas vísceras com emoções cálidas.

   O que aconteceu com ela quando Jake a tocou? Que química entre eles acendeu sensações que alguma vez tinha experiente e que a assombravam a ela mesma? por que desejava voltar a viver essas sensações?

   Trocou de posição sobre o ramo da árvore e apoiou a bochecha contra a casca. Com indolência, esmiuçou uma folha, deixou cair os restos ao chão e arrancou outra.

   A idéia que se afiançou em sua mente não se dissiparia. Era temerária e inconcebível, mas ela tinha atuado de forma temerária e inconcebível no passado e sabia que as ações temerárias e inconcebíveis nunca a tinham refreado antes. A idéia dava voltas sem cessar em sua mente como os sinais de multiplicação de um moinho de vento.

   Ela e Jake podiam casar-se. Tinha expresso a idéia para si mesmo e o mundo não se acabou. Não tinha sofrido o impacto de um raio. A terra não se aberto para tragá-la.

   Então por que resultava uma idéia tão descabelada?

   Tinha sentido. Ela o necessitava para dirigir seu rancho, e ele necessitava o rancho. Plum Creek lhe oferecia um futuro seguro.Durante anos Jake tinha estado vagando, desperdiçando sua capacidade e consumindo sua juventude em empregos sem estímulo. Não voltaria a apresentar-se o uma oportunidade como essa. por que não ia aceitar a?

   Aparentemente, Jake não tinha a nenhuma outra em memore para casar-se. Banner sabia a quem amava realmente. Mas não podia conseguir a Lydia nem nunca poderia.

Entretanto, Jake era um homem e, como tal, necessitava a uma mulher freqüentemente, e se o beijo dessa tarde e aquela noite no estábulo representavam algum indício provavelmente significavam que não encontrava ao Banner carente de atrativo.

   Não teriam nenhum problema em compartilhar uma cama matrimonial, em compartilhá-la intimamente. Não havia nenhuma dúvida a respeito. Além disso, ambos quereriam meninos.

   Todo seu corpo se acendeu com o pensamento de dormir com o Jake noite detrás noite. Muito bem. Não se reprovava o fato de sentir paixão. Era algo do que terei que envergonhar-se? Seus pais lhe tinham ensinado que não, mas também lhe tinham ensinado que a paixão deveria estar limitada aos limites do matrimônio".

   Seria parvo fingir que não tinha desfrutado com o beijo do Jake. Em realidade, algo mais que desfrutado. Tinha querido que ele não se detivesse. Se a tivesse

levado a dormitório, ela se haveria sentido ditosa, e não tinha nenhum sentido tratar de convencer-se do contrário, apesar das lições de moralidade que tinha recebido do berço.

   lnstintivamente, sabia que algo tinha ficado além de seu aquela alcance primeira vez. Resultava te frustre perguntar-se o que tinha provocado que o corpo do

Jake tremesse violentamente antes de voltar-se tão fraco de satisfação que logo que podia mover-se. Ela se havia sentido excitada, desassossegada e ansiosa por algo ao que nem sequer podia nomear. Embora fosse só por essa razão, hoje teria seguido ao Jake à cama para descobrir o que era esse algo.

   Não estava apaixonada por ele. Estava-o? Não era o que ela teria eleito em um princípio para marido, mas sempre o tinha amado de outro modo. A transferência

de um tipo de sentimentos a outro era o que estava tratando de resolver.

   Isso e a solidão de sua vida. Não se adaptava bem à solidão. Cada noite quando Jake se retirava ao estábulo deixando-a só na casa, o desespero se apoderava dela.

Tinha imaginado que Jake compartilharia o salão com ela, que fumaria seus charutos enquanto ela cerzia as camisas. Admitia que o quadro era ridiculamente caseiro, mas ilustrava a classe de proximidade que reclamava deun homem.

   Sabia que era vulnerável no concernente a outros homens. Se Randy não estivesse tratando de seduzir ela sabia, embora o tinha negado ao Jake, que o vaqueiro tinha paquerado com ela antes do incidente da larva- seria outro.

   Entretanto, nenhum homem se preocuparia tanto de sua reputação como Jake. Qualquer outro se estaria gabando de sua relação até que Ross conseguisse inteirar-se e acabasse por matá-lo. Culpariam-na a ela de.haber miserável a toda sua família à desonra.

   Por outro lado, não podia casar-se com nenhum outro. Se fosse o bastante afortunada para encontrar a alguém que a amasse o suficiente para casar-se, descobriria que ela não tinha chegado a ele pura. Tal desilusão seria um modo desastroso de iniciar um matrimônio.

   Por último, temia que qualquer dia algumas dessas disputas tão habituais entre ambos culminaria com a partida do Jake. Isso desenhava em sua mente um quadro espantosamente desolador. Não queria preocupar-se muito por eso,pero o fazia. imaginava correndo pelo caminho detrás dele como estava acostumado a fazer de menina, com o rosto banhado em lágrimas, lhe rogando que não partisse.

   Não suportava pensar nisso.

   Por conseguinte, se não queria exclui-lo completamente de sua vida e se não podia seguir vivendo com ele como até agora, lutando contra os remorsos e o desejo que ressurgia, qual era a única alternativa?

   balançou-se para descender ao ramo mais baixa da árvore e saltou de ali ao chão. limpou-se as mãos nos fondillos da calça enquanto a resposta se gravava em sua mente."Conseguirei que Jake se case comigo."

   Não podia lhe dar um ultimato ou Jake sairia correndo. Tinha que parecer que era idéia dele. Se ela começava a comportar-se mais como uma esposa, ele poderia chegar a considerá-la como tal. Devia deixar de zangar-se e mostrar-se suave e próxima, do modo que aos homens gostava que fossem as mulheres. Ao menos as mulheres com quem se casava.

   E para não deixar as coisas em mãos do azar, Banner fez seus planos. Não acreditava no destino. Se se queria algo, terei que persegui-lo. Cada um construía seu futuro como o desejava.

   Uma vez vencida a melancolia, começou a cozinhar uma comida apetitosa. asseou-se no lavabo de seu dormitório para não perder tempo esquentando água e enchendo a banheira. Tudo devia estar preparado quando Jake retornasse à casa. Tinha tempo até pôr-do-sol. Não a deixaria sozinha depois de que os jeans partissem para o River Bend.

   Quando Jake deteve o carro no pátio, Banner saiu pela porta principal. A luz do abajur que se difundia através das janelas formava um halo ao redor de seus cabelos, que levava sujeitos em um nó frouxo no cocuruto, deixando que umas mechas sedutoras caíssem por seu pescoço e suas bochechas.

   -Olá, Jake -disse, com suavidade.

   -Olá.

   -Conseguiu fazer suas diligências? Comprou tudo o que necessita?

   -Sim. Carreguei-o na conta.

   De um salto desembarcou do carro. Evitava olhá-la aos olhos, por isso ela avançou um pouco mais até situar-se no bordo do alpendre. Se ele advertiu que levava um vestido em lugar dos odiadas calças, não fez nenhum comentário.

   -Não tem que descarregar esta noite, verdade?

   -Deveria. -Ao final, olhou para o alpendre.

   Banner pôde ter jurado que seus olhos expressaram uma surpresa satisfeita, mas poderia ter sido uma ilusão provocada pela débil luz do entardecer. Entrelaçou as mãos.

   -Mais tarde então. Guardei-te comida quente.

   -Disse-te que não me esperasse -disse ele, mal-humorado.

   Nesse ponto, o gênio do Banner quase apareceu. Mas o manteve a raia, apanhando-o fisicamente em seu interior ao morder o lábio inferior. Quando esteve certamente reprimido, perguntou:

   -comeste na cidade?

   Ele se encolheu de ombros.

   -Algo.

   -Mas não poderia comer algo mais? Um bife e batatas?

   Jake levantou os ombros, coibido, e enganchou os polegares no cinturão.

   -Admito que poderia comer um pouco mais.

   -Entremos então.

   Banner lhe deu as costas e caminhou com passos largos e angustiantes em direção à porta principal. Só quando ouviu as pisadas de suas botas e o tinido de suas esporas sobre o alpendre detrás dela, deixou que sua respiração saísse de seu corpo em um comprido suspiro de alívio.

 

   Jake seguiu ao Banner ao salão. Ia com tato, como um sentenciado cuja execução acaba de suspender-se. A moça se mostrava bastante tranqüila, mas ele não se confiava em seu gênio. Ele se tinha intrometido nos assuntos dela, quem lhe havia dito de forma categórica que sua intromissão em sua vida pessoal era inoportuna. Se queria paquerar com o Randy, quem era ele para detê-la?

   Logo a tinha beijado. Que força o havia poseído essa tarde e impulsionado a beijá-la como o tinha feito? Estava o bastante enfurecido para estrangulá-la, mas procurou outra saída, inclusive mais prejudicial, para suas emoções. Não lhe teria surpreso que Banner tivesse aberto fogo contra ele no instante em que se apeou no patio. En troco, tratava-o como a um rei que retorna ao castelo.

   -Pendura seu chapéu no perchero, Jake -disse Banner-. e não pense que vais necessitar essa cartucheira esta noite.

   -Banner, em relação a esta tarde...

   -Esquece-o.

   -me deixe me desculpar.

   -Se dever hacedo, te desculpe com o Randy. Não tinha feito nada que justificasse que lhe apontasse com um revólver.

   -Farei-o amanhã. Não sei o que me ocorreu. -Estendeu as mãos abertas em um gesto de desamparo-. É que Ross me disse que te protegesse, e quando te ouvi gritar...

   -Compreendo-o.

   -E em relação ao outro...

   -Arrepende-te de me haver beijado, Jake?

   O rosto do Banner merecia toda sua atenção. Destacava pálido e cremoso à luz do abajur, rodeado pela nuvem escura de seu cabelo. Seus olhos inquisidores estavam bem abertos, como se o modo em que ele respondesse a sua pergunta fosse de máxima importância. Seus lábios estavam tão trementes e úmidos como se ele tivesse acabado de beijá-los.

   Não, Jake não estava arrependido, mas não podia admiti-lo em voz alta, de modo que guardou silêncio.

   Banner foi capaz de superar a embaraçosa situação.

   -Vamos à cozinha.

   -Não me lavei ainda.

   -Pode te lavar aqui. Tenho água quente esperando.

   Ao girar-se pareceu como se se deslizasse pela habitação, com sua saia ampla rangendo detrás dela. Levava um simples vestido de tecido de algodão, firme e suave, mas nada parecia simples sobre o corpo do Banner. Era verde, com adornos de encaixe de cor nata. Ambas as cores faziam ressaltar sua tez. O avental franzido parecia mais para ser exibido que utilizado. As cintas da cintura se uniam no centro das costas em um laço alegre que saltava ligeiramente cada vez que seus saltos golpeavam

o chão. Esse laço era uma visão sedutora.

   Banner se voltou para ele e seus olhares se encontraram.

   -Pode te lavar na pia enquanto eu sirvo o jantar.

   Ele assentiu em silêncio.

   Havia um vaso com flores silvestres no centro da mesa, que já estava posta. Ao Jake, que tantas vezes tinha comido ao ar livre em um prato de lata detrás de

uma carreta de provisões, a mesa lhe parecia tão seleta como o salão comilão do hotel Ellis no Fort Worth com suas toalhas de linho e seus guardanapos pregados em triângulos perfeitos. Os aromas que brotavam da cozinha eram deliciosos. A luz dos abajures se reduziu, por isso apenas uma chama titilava nas mechas empapadas de petróleo.

   Se não fosse tão tolo, teria se dado conta de que Banner Coleman não tramava nada bom.

   -estive cozinhando este filete a fogo lento todo o dia com cebolas para lhe dar sabor - disse Banner da cozinha.

   Parado na pia, Jake se desabotoou as mangas da camisa e as arregaçou até o cotovelo.

   -Cheira muito bem. -Como lhe tinha prometido, havia uma bacia com água quente lhe esperando. Afundou as mãos na água e começou a ensaboar-lhe com a pastilha de sabão-. Comi presunto e ovos na cidade, mas não estavam nada bons.

   Banner fez um som zombador.

   -Essa não é comida para um homem que trabalha duro.

   A moça lhe sorriu por cima do ombro e a ele lhe fez um nó nas vísceras. esfregou-se as mãos sem piedade, como se estivesse lavando sua consciência. Estava as sacudindo para que se secassem quando Banner disse:

   -Já está preparado. Sente-se, Jake.

 Jake se baixou as mangas e voltou a abotoá-los punhos enquanto se dirigia para a mesa e tomava assento. Contemplou as fumegantes fontes de comida, o jarro de café quente colocado em seu lugar, as flores. Tudo era muito bom. Podia chegar a acostumar-se a esse tipo de tratamento régio muito rapidamente. Essa classe de pensamento resultava perigosa. Era melhor pôr as coisas em sua justa perspectiva agora mesmo.

   -Como te esmeraste, mucosa.

   Os olhos do Banner cintilaram de irritação. Não era o que desejava ouvir, e Jake se alegrou de havê-lo dito ao adverti-lo. Se Banner lhe reservava alguma sacanagem, precisava estar prevenido.

   A moça recuperou rapidamente o sorriso.

   -Se não pôr mãos à obra, é provável que o devore todo eu sozinha. Estou morta de fome.

   Enquanto ela enchia seu prato, perguntou-lhe pelas provisões que tinha comprado. Conversaram sobre os assuntos do rancho enquanto comiam. Os guisados eram deliciosos.

Banner não deixava que o prato do Jake estivesse vazio e o atendia constantemente. A moça seguia sendo descarada, mostrando-se de bom humor e fazendo brincadeiras, mas havia um elemento novo nela que intrigava ao homem. Era mais doce e, obviamente, mais feminina.

   Jake tirou o chapéu hipnotizado pela boca do Banner enquanto a via comer. Movia as mãos com graça quando se levava o guardanapo aos lábios e os limpava, para voltar a deixá-la sobre seu regaço. Uns reflexos verdes e dourados refulgiam nos olhos da moça com cada piscada das mechas dos abajures. Um cacho negro e brilhante caía coquetamente sobre um lado de seu pescoço.

   O amplo corpete de seu vestido se estendia de uma ponta à outra de cada ombro sobre as curvas de seus seios. A costura que unia o corpete ao vestido estava coberta por uma cinta de algodão de dois centímetros de largura, que ondulava cada vez que Banner se movia.

   Jake não podia apartar a vista da cinta, nem da forma de seus lábios, nem da cor de seus olhos, nem de suas bochechas nem da textura de seu cabelo. Banner estava absolutamente fascinante.

   Foi a comida mais agradável que tinham compartilhado, quase uma das mais agradáveis da vida do Jake. Lamentava que logo chegasse a seu fim. Contemplar ao Banner era algo condenadamente bom. Supôs que desfrutava tanto observando-a porque recordava a Lydia. Não obstante...

   -terminaste, Jake?

   Jake se levou as mãos ao estômago.

   -Não poderia comer outro bocado.

   -Outra taça de café, possivelmente?

   O homem sorriu:

   -Só medeia.

   Banner levou os pratos à pia e logo retornou com a cafeteira. Encheu a taça do Jake e lhe sorriu quando exclamou:

   -Alto! Poderia estar mais sedento do que crie.

   Jake rompeu sua própria regra cardeal e dirigiu os olhos para o Banner, quem estava olhando-o. Era sua imaginação, ou mantinha os braços em alto nessa postura provocadora mais tempo do habitual? Essa posição lhe brindava uma visão completa de seus seios, que enchiam o sutiã do vestido.

   Maldita seja! Seu sexo começava a despertar e a crescer debaixo da braguilha. Jake baixou os olhos rapidamente.

   Quando Banner voltou a sentar-se à mesa frente a ele e sorveu seu café, o homem manteve os olhos resolutamente se separados dela. Tomaram o café em silêncio.

Continuando, Banner se acotovelou na mesa e apoiou o queixo em suas mãos de um modo que emoldurava seu rosto como se estivesse oferecendo-lhe     -Lo sé. -Banner suspiró y esbozó una sonrisa triste-. Mami me ha contado historias sobre cada uno de ellos, las travesuras que solían cometer en la caravana de carromatos. Fue allí donde conocieron a mis padres.

   -Você é muito afortunado, Jake, por ter uma família tão grande.

   Jake se mostrou surpreso pelo tema de conversação, mas também aliviado. Esse silêncio embaraçoso lhe afetava, mas não queria que falassem deles mesmos nem de todas as moléstias que ela se tomou para lhe preparar o jantar.

   -Sim, sou-o. Mas você sabe que perdi a vários irmãos e irmãs, e também a meu pai.

   -Sei. -Banner suspirou e esboçou um sorriso triste-. Mami me contou histórias sobre cada um deles, as travessuras que estavam acostumados a cometer na caravana de carromatos. Foi ali onde conheceram meus pais.

   -Sim. -Jake sorvia seu café.

   -me fale sobre isso.

   O homem depositou a taça na mesa.

   -Sobre o que?

   -Sobre como você e meus pais chegaram a ser tão amigos.

   -Bem, Ross me contratou para que lhe ajudasse a cuidar de seus cavalos. Tinha cinco éguas e esse semental, Lucky, o cavalo mais formoso que vi.

   -Recordo-o. Terá que rematá-lo quando eu tinha cinco anos. Mamãe chorou durante vários dias. A maioria dos cavalos do River Bend são descendentes do Lucky. -A

Moça dobrava e desdobrava o guardanapo, ajustando-a ao bordo da mesa-. E mamãe? Quando a conheceu?

   O que perseguia Banner?, perguntou-se Jake. por que esse interesse repentino pelo passado? Sabia que Ross e Lydia tinham oculto a seus filhos alguns aspectos de seu passado, e estava seguro de que não ia ser ele quem revelasse algum secreto.

   Respondeu com palavras cuidadosamente escolhidas.

   -Meu irmão Luke e eu a encontramos no bosque. Estava perdida. Levamo-la com mamãe. naquela época, a esposa do Ross tinha morrido ao dar a luz a Lê. Mamãe levou a Lydia ao carro do Ross para... que...

   Sabia Banner que Lydia tinha amamentado a Lê? Sabia que sua mãe acabava de dar a luz a um menino que nasceu morto quando ele e Luke a encontraram? Não acreditava que soubesse, e não estava disposto a contar-lhe     Banner consideró sus palabras y lo miró con suspicacia, como si intuyese que estaba mintiendo.

   -...para que lhe ajudasse a cuidar de Lê -terminou de dizer.

   -Mas como é que se perdeu no bosque? De onde vinha? Não tinha família?

   Clancey Russell, pensou Jake e seu rosto se endureceu e seus punhos se apertaram ao recordar ao homem que tinha assassinado a seu irmão sem motivo nem provocação, movido por pura maldade.

   -Não -disse lacónicamente-. Nenhuma família, que eu saiba.

   Banner considerou suas palavras e o olhou com suspicacia, como se intui-se que estava mentindo.

   -Tivesse-me gostado de ter uma família maior, com avós e primos com quem poder jogar.

   -Está rodeada pelos Langston -disse ele, jovialmente, em um esforço por desviar a conversação.

   -Sim, e me alegro de que assim seja. Mas não é o mesmo que ter parentes de sangue. Ninguém há dito alguma vez: "Banner me recorda à tia tal e tal", nem "Se recuperou

sua primo, fulanito, de seu problema de gota?"

   -Não acredito que Ross ou Lydia tenham tido uma família da que falar.

   -Precisamente, é isso. Nunca falam do tema -exclamou Banner-. Jamais mencionaram a parentes mortos. É como se não tivessem existido até que se conheceram. Isso sempre me inquietou.

   -por que?

   -Não sei -respondeu, agitando as mãos em um gesto de frustração-. Pressinto que há algum segredo terrível que sairá à luz algum dia, fazendo desgraçados a todos.

   Jake tinha seus próprios secretos que ocultar. Não sabia se era melhor que a moça ignorasse e se sentisse frustrada, ou que se inteirasse e tivesse que fazer frente aos fantasmas do passado.

   -Não tem importância, Banner.

   Lhe dirigiu um olhar zombador.

   -Isso é o que estava acostumado a me dizer o velho Moisés.

   Jake sorriu.

   -Moisés dedicou sua vida a seus pais. Deveria ter sabido que não podia lhe arrancar secretos.

   -Amava-lhe muitíssimo -disse ela, voltando a ficar sentimental-. Foi um de meus melhores amigos. Cuidava-me quando mamãe e papai estavam ocupados e Lê não me

fazia caso. Estava acostumado a me levar a pescar com ele. Ensinou-me a esculpir a madeira. Nunca pude alcançar sua destreza, mas alguns dos primeiros brinquedos que tive me fiz isso eu misma.Yo fui uma das pessoas que o encontrou o dia quemurió. -Seus olhos se nublaram de lágrimas.

   Instintivamente Jake alargou o braço e cobriu a mão da moça com a sua.

   -Não sabia.

   Banner assentiu com a cabeça.

   -Uma manhã fui a sua cabana cedo. Tínhamos decidido agarrar bagos esse dia. Estava sentado no alpendre. -De repente, Banner se ergueu mais na cadeira e seu tom trocou. Sei que nunca permitiu que papai lhe ajudasse. Estava acostumado a dizer que em um tempo tinha sido escravo e que não ia voltar a depender de ninguém para que se fizesse cargo dele. Construiu sua própria cabana junto ao arroio.

   Jake assentiu com um movimento da cabeça.

   -Bem -continuou Banner-, pois estava sentado no alpendre. Quando me aproximei mais, observei que sua cabeça se sustentava de um modo estranho. Chamei-o por seu nome, mas não se moveu. Soube que devia estar morto. Pus-se a chorar e retornei correndo a casa.

   O polegar do Jake esfregava círculos de comiseração no dorso de sua mão.

   -Conheceu o Winston Hill, o homem com quem Moisés veio do Texas? -perguntou Banner finalmente, secando-os olhos com o guardanapo.

   -Sim. Era um cavalheiro sulino, muito educado. Estava algo delicado.

   -Moisés me disse que morreu no caminho.

   Mas não como morreu, pensou Jake. Ao Hill tinham disparado no peito enquanto protegia a Lydia de seu meio-irmão. Ninguém mais que Jake sabia. Tinha ouvido o Clancey gabar-se ante a Lydia de ter assassinado ao Winston Hill e Luke. Clancey não viveu muito tempo depois daquilo.

   Jake tinha só dezesseis anos, mas se iria à tumba recordando esse olhar fixo e vazio no rosto do Clancey Russell no instante em que a faca do Luke se afundou

em seu ventre e soube que ia morrer.

   Jake se deu conta de que sua mão estava apertando a do Banner e a retirou imediatamente. Quando elevou a vista, descobriu que Banner o olhava de uma maneira estranha. Não queria que se desse conta de que ele guardava seus próprios secretos, de modo que se obrigou a beber um sorvo de café com gesto imperturbável.

   -Nada do que lembrança desse verão merece ser explicado -disse Jake com acritud.

   Luke. Luke. adoraria lhe falar do Luke, mas nunca pôde descarregar sua alma daquele peso. Inclusive depois de tantos anos, a dor seguia estando em carne viva.

   -tratei que conseguir que mamãe e papai me contassem histórias sobre a caravana de carromatos, mas nunca o têm feito. Se alguma vez o tentaram, deixam de falar assim que começo a formular perguntas.

   -Foi faz muito tempo. Possivelmente não possam remontar-se tão atrás na lembrança. -Banner lhe dirigiu um olhar lacerante e ele riu nervosamente-. Me ocorre que possivelmente quando você nasceu estavam tão deslumbrados por ter uma filha assim, que esqueceram tudo o que lhes tinha ocorrido até então. -inclinou-se sobre a mesa e sussurrou-: Sabe?, parece-me que você começou a existir nessa caravana de carromatos.

   Banner se cravou os dentes superiores sobre o lábio inferior e afundou os ombros enquanto sorria maliciosamente.

   -O mesmo acredito -disse ela, devolvendo o sussurro-. Nasci apenas nove meses depois de que chegassem ao Texas.

   Jake riu e se recostou contra o respaldo da cadeira.

   -Uma senhorita decente não deveria falar destas coisas com um homem. Nem sequer deveria as saber.

   Os olhos do Banner se tomaram brumosos. Vagaram lentamente pelo rosto do Jake, descenderam por seu peito e voltaram a encontrar-se com os dele.

   -Sei-as, Jake.

   Essas palavras puseram o dedo na chaga. Tudo o que sabia a respeito do que faziam os homens e as mulheres o tinha aprendido sobre uma manta de cavalos estendida sobre um montão de feno em um estábulo, e as tinha ensinado um homem que não tinha nenhum direito a fazê-lo.

   Jake se levou uma mão ao bolso, tirou um charuto e voltou a guardá-lo.

   -Perdão.

   -por que?

   -Pelo charuto. A maioria das senhoras não querem que suas casas emprestem a aroma de charuto.

   -Eu gosto de como cheira o charuto. Fuma se quiser.

   Até sabendo que deveria partir agora antes de que a conversação derivasse para o pessoal, tirou o charuto do bolso e mordeu a ponta, que depositou cuidadosamente no prato da taça de café. Sustentando o charuto entre os dentes, pinçou nos bolsos procurando infructuosamente um fósforo.

   -Espera, trarei-te fogo.

   antes de que ele pudesse fazer objeções, Banner se tinha levantado da cadeira dirigindo-se para a cozinha, onde agarrou uma caixa de fósforos. Quando retornou,

ele alargou a mão para agarrá-la mas ela fez um gesto negativo com a cabeça e procedeu a abri-la. Acendeu o fósforo e a aproximou da ponta do charuto até que se prendeu. Jake soprou e uma nuvem de fumaça se formou entre eles.

   Através desse vapor de um cinza azulado, Jake a olhou. Banner, sem apartar a vista, enrugou os lábios delicadamente e soprou o fósforo até que se apagou.

   A reação do Jake foi profunda. Quase se engasga com a fumaça que estava aspirando. Uma flecha de desejo percorreu seu corpo e encontrou seu objetivo. Os flancos lhe doeram ante a precisão do impacto. Apartou os olhos, temeroso de que se contemplava um segundo mais esse rosto provocador arrojaria o charuto ao chão e, quebrantando todas as promessas que se feito enquanto viajava por volta da cidade essa tarde, atrairia-a para seu regaço palpitante.

   Banner voltou para sua cadeira. Apoiou de novo o queixo nas mãos enquanto lhe observava descaradamente.

   -Sabe tão bem como cheira?

   -Às vezes, como agora, sim.

   -me deixe provar. -Com o peito transbordante de ar, ergueu-se atrevidamente na cadeira e fez estremecer a cinta que pendia sobre seus seios.

   -Não!

   -Por favor.

   -O que te acreditaste, neném?

   -Quero prová-lo.

   -Não. Seus pais me matariam.

   -Por favor, Jake. Não se inteirariam.

   -Poderiam inteirar-se.

   -Você o diria?

   -Não.

   -Tampouco eu. Por favor. O que tem de mau?

   -As damas não fumam.

   -Algumas damas o fazem.

   -Essas não são damas.

   -Conhece algumas mulheres que fumam? -perguntou Banner, com os olhos bem abertos. Não tinha sido mais que uma hipótese amalucada dizer que tal coisa era possível.

   -Umas poucas.

   -Quem?

   -Ninguém que você conheça.

   -Putas?

   Jake tossiu e os olhos lhe lacrimejaram.

   -Onde ouviu essa palavra?

   -Está na Bíblia. -Quando os olhos dele se entrecerraron escépticamente, admitiu-: a Lê e Micah.

   -Falam-lhe de putas? -perguntou Jake, pasmado.

   -Não exatamente -respondeu Banner, à defensiva-. Mas às vezes não posso evitar ouvi-los por acaso.

   Jake se gargalhou estrepitosamente.

   -Porque escutas às escondidas. Seria melhor que tomasse cuidado com isso -disse, apontando-a com o charuto-. Poderia ouvir algo que seria melhor que não soubesse.

   -Não sou uma menina. Não só conheço a palavra; sei o que significa. Agora, me fale de uma mulher que fume. Será uma puta, suponho. Priscilla Watkins?

   Pela segunda vez em sessenta segundos Banner o tinha sobressaltado.

   -Onde ouviu esse nome?

   -Lê Y...

   -Micah -terminou ele-. Meu deus, são fontes de informação, não é assim?

   As pálpebras do Banner abanicaron para baixo.

   -Dizem que você conhece essa tal Watkins que é tão famosa.

   Jake se precaveu de como o observava por debaixo dessa sedutora tela de pestanas. Por sua vida, que nesse momento não pôde recordar o rosto da Priscilla nem o rosto de qualquer outra mulher como ela. Só via o Banner, mas se cuidou muito de manter uma expressão impassível.

   -Sim, conheço-a.

   -Eles dizem que é amiga tua.

   Jake se encolheu de ombros.

   -Possivelmente poderia perguntar-lhe a ela.

   -Mas é uma puta.

   Jake riu entre dentes e fez girar a ponta do charuto sobre o bordo do prato até que caiu parte da cinza.

   -Exatamente, uma puta.

   -Você a visitas?

   -Às vezes.

   -Em seu bordel?

   -Sim.

   -Você... -Banner baixou a voz até que se converteu em um sussurro rouco-. Você compartilha sua cama? -perguntou, olhando-o fixamente, com olhos insolentes e abrasadores, que o desafiavam a lhe mentir.

   -Não. -Assegurou-o com tanta tranqüilidade, de maneira tão terminante e sincera, que Banner soube que dizia laverdad.

   -OH! -disse ela com voz apagada.

   Jake a observou atentamente. Podia ter jurado que estava ciumenta. Sua vaidade masculina se perguntava como teria reagido se tivesse confessado que era amante da Priscilla. Ele se tinha comportado como um homem demente essa tarde quando viu as mãos do Randy sobre o Banner. Ela obviamente estava ciumenta da Priscilla. Pelo visto, o ciúmes entre eles eram algo perigoso. Sabia. quanto antes pusesse fim a essa noite íntima, melhor. Empurrou a cadeira para trás e ficou em pé.

   -Tenho que ir A...

   -Não, espera. -Banner se levantou de sua cadeira como uma mola e deu dois rápidos passos para frente. Quando ele a olhou como se tivesse perdido a razão, retrocedeu.

Levando-as mãos à cintura, disse rapidamente-: Tenho que te pedir um favor. Se... se tiver tempo.

   -O que é?

   -No salão. Tenho que pendurar um quadro e pensei que podia me ajudar.

   Jake olhou por cima do ombro para o salão. Um pequeno abajur ardia em um rincão. O quarto estava sumido em sombras, tão íntimas como o tinham sido as do estábulo.

O salão também tinha sido o cenário do beijo dessa tarde. Jake pensou que era melhor que nada o recordasse.

   -Não sou muito bom pendurando quadros.

   -Bem. -Banner fez um movimento com a mão, como desprezando a idéia-. Já trabalhaste bastante todo o dia, e pendurar quadros não é tarefa do capataz, suponho.

   Diabos. Agora acreditava que ele não queria ajudá-la. Parecia abatida, decepcionada por não poder pendurar o quadro e envergonhada por lhe haver pedido ajuda e ser rechaçada.

   -Suponho que demorarei muito, verdade?

   -Não, não -disse Banner, levantando a mão, ansiosa-. Tenho tudo preparado. -Roçou-o ao passar junto a ele caminho do salão-. Agarrei o martelo e um prego do estábulo esta tarde enquanto estava fora. Tratei de pendurá-lo eu mesma, mas não estava segura de se o punha no sítio correto.

   Banner ofegava. Jake pensou que retornar a esse quarto a inquietava tanto como a ele. Entretanto, a moça não se preocupou de aumentar a luz do abajur nem de acender outra, mas sim se dirigiu diretamente para a parede oposta.

   Era esse seu modo de lhe demonstrar que tinha perdoado seu comportamento dessa tarde, que não lhe dava medo estar em uma casa vazia com ele muito depois da queda do sol? Tudo o que tinha feito essa noite era um gesto de reconciliação? Se assim era, estava-lhe agradecido. Não podiam ter seguido muito mais tempo sem matar-se

O... Seria melhor não pensar no "ou", especialmente agora que Banner estava de novo frente a ele.

   -Pensava pendurá-lo nesta parede, aqui -disse, assinalando com o dedo e inclinando a cabeça.

   -Ficaria bem. -Jake se considerava tão qualificado para aconselhar a respeito da decoração de uma casa para escolher um chapéu.

   -Quase ao nível dos olhos?

   -Dos olhos de quem? Dos teus ou de meus?

   Banner riu.

   -Entendo o que quer dizer. -roçou-se o cocuruto com a palma da mão e a deslizou horizontalmente até dar com o esterno do Jake-. Só te chego até aqui, não é certo?

   Quando ela elevou o olhar, a respiração do homem se deteve em algum ponto entre os pulmões e a garganta. Como pôde ter considerado uma menina a esta criatura com olhos cativantes e sorriso provocador? Tinha estado com putas que se orgulhavam de saber todo o necessário para fazer bulir o sangue de um homem. Entretanto, nenhuma mulher o tinha impactado como o fazia esta, exceto talvez Lydia durante aqueles meses que passaram juntos na caravana de carromatos.

   Seu amor pela Lydia tinha maturado após. Já não experimentava ataques de desejo apaixonado cada vez que a via. Aquele verão em que viajou do Tennessee ao Texas tinha estado continuamente briguento; desejou a Lydia, a Priscilla, a qualquer mulher. Tinha dezesseis anos e a seiva da juventude fluía doce, mas dolorosamente, através de seu corpo. Assim era como se sentia cada vez que olhava ao Banner, como se tivesse dezesseis anos, sem maior controle de seu corpo que o que havia poseído então.

   A camisa do Banner rangia contra suas calças. Os seios da moça se achavam dolorosamente perto de seu peito. Cheirava muito bem para que aquilo fosse lícito.

Quase podia saborear o fôlego do Banner que lhe acariciava brandamente o queixo. antes de afogar-se nos profundos redemoinhos de seus olhos, disse:

   -Possivelmente seria melhor que...

   -OH, sim -atalhou ela bruscamente. Agarrou um tamborete de três patas que estava diante de uma poltrona, colocou-o perto da parede e, recolhendo-a saia por cima dos tornozelos, subiu a ele-. O quadro está ali, sobre a mesa. alcance-me isso por favor. Logo, te aparte um pouco e me avise quando te parecer que fica bem.

   Jake agarrou o quadro emoldurado.

   -É formoso.

   Era uma cena bucólica de cavalos pastando em um verde pasto.

   -parece-se com o Plum Creek.

   Banner o olhou, desafiando-o a dizer algo depreciativo sobre o nome que tinha eleito.

   -Não hei dito nada.

   -Já, mas sei o que está pensando -replicou ela, com tom acusador.

   Jake se limitou a sorrir bondosamente e lhe alcançou o quadro. A moça lhe deu as costas, elevou os braços e apoiou o quadro contra a parede.

   -Que tal fica aqui?

   -um pouco mais abaixo possivelmente.

   -Aqui?

   -Assim está bem.

   Mantendo o quadro contra a parede, estirou o pescoço e voltou a cabeça.

   -Realmente o crie assim ou só trata de acabar quanto antes com isto?

   -Estou fazendo tudo o que posso -respondeu ele, como se a pergunta lhe tivesse ofendido-. Se não valorar minha ajuda, sempre pode procurar a de outro.

   -Como Randy?

   Tão somente pretendia ser uma piada, mas Jake não lhe encontrou a graça. Franziu o sobrecenho quando contemplou o quadro que formava ela sobre o tamborete, inclinando-se para a parede com os braços levantados. Uns centímetros de anáguas de encaixe apareciam por cima de seus finos tornozelos. As nádegas se sobressaíam. O laço do avental, coroando esse macaco traseiro arredondado, era uma incitação que nenhum homem podia resistir. O modo em que os seios do Banner se projetavam para fora definia claramente sua forma. Não, Randy não. Nem ninguém se Jake podia evitá-lo.

   Esta vez considerou a colocação do quadro com mais atenção.

   -um pouco mais à esquerda se o quer centrado. -Ela o moveu seguindo suas instruções-. Aí. Perfeito.

   -Muito bem. O prego terá que estar uns quinze centímetros mais alto para que a corda pendure. Traz-o, e também o martelo. Pode cravá-lo enquanto eu sustento o quadro.

   Jake obedeceu, situando-se detrás dela com as pernas separadas a causa do tamborete. Tratava de evitar o contato colocando os braços em várias posições, nenhuma delas satisfatória.

   -Ponha uma mão entre meus braços e passa a outra ao outro lado.

   Jake tragou saliva e conteve a respiração, procurando não emprestar atenção aos seios da moça quando sua mão ascendeu sinuosamente entre eles. Com a outra mão sustentava o prego em seu sítio, apesar de que não era uma tarefa nada fácil, pois não cessava de tremer.

   Isso era ridículo! Com quantas mulheres se deitou? "Deixa de te comportar como um maldito menino e termina com este trabalho para que possa sair deste condenado inferno!", gritou-lhe uma voz interior.

   Retirou a mão que sustentava o martelo, com cuidado, mas não com o suficiente porque seu cotovelo se chocou com o flanco do corpo do Banner. Um de seus joelhos deu contra a curva dela. Seus nódulos se afundaram nas carnes de seus seios.

   -me perdoe -murmurou Jake.

   -Não é nada.

   Jake martelou o prego, rogando que se metesse na parede com um só golpe. Não foi assim. Apartou a mão e voltou a golpear, uma e outra vez até que apreciou certos progressos. Depois, em rápida sucessão, golpeou-o ferozmente várias vezes.

   -Já é suficiente -disse Jake com rudeza, e retirou os braços.

   -Sim, acredito que sim. -A voz da moça soou tão insegura como a sua.

   Banner envolveu a corda de seda ao redor da cabeça do prego e se inclinou para trás tanto como pôde enquanto seguia mantendo-se em equilíbrio em cima do tamborete.

   -Como fica?

   -Bem, muito bem.

   Jake deixou o martelo sobre a mesa mais próxima e passou a manga de sua camisa por sua frente banhada em suor.

   -Está direito?

   -um pouco mais desço para a esquerda.

   -Aqui?

   -Nem tanto.

   -Aqui?

   "Maldita seja!", blasfemou em silêncio. Tinha que sair daí ou ia estalar. Deu umas pernadas para frente, querendo endireitar o quadro em seguida para poder partir e receber um pouco do ar que necessitava para limpar sua cabeça. Mas em sua pressa, a ponta de sua bota tropeçou com uma das três patas do tamborete e este se balançou perigosamente.

   Banner chiou alarmada e agitou os braços.

   A vida de vaqueiro lhe tinha feito desenvolver uns reflexos tão rápidos como o raio do verão. Seus braços rodearam o corpo da moça imediatamente, assegurando-o contra ele. Quando o tamborete caiu para um lado com grande estrondo, Banner já era sustentada no ar a vários centímetros do chão.

   Um dos braços do Jake enlaçava sua cintura, em tanto que a outra mão se esmagava contra seu peito. Mais que deixá-la deslizar-se para o chão, Jake a baixou, com as costas ligeiramente encurvada enquanto seguia sua descida, inclinando-se sobre a moça.

   Entretanto, uma vez que os pés do Banner estiveram em terra firme não a soltou. Jake tinha separado bastante as pernas para amortecer a queda da moça. Agora os quadris do Banner estavam comodamente encaixadas no desfiladeiro que ficava entre as coxas dele. A bochecha do Banner se achava pega a dele e quando lhe resultou difícil resistir a cercania, o calor e a fragrância da moça, voltou a cabeça e seu nariz lhe roçou a orelha. Automaticamente, os braços do Jake se fecharam em torno do corpo do Banner. Então pronunciou o nome dela com um gemido.

   Como podia estar mal um pouco tão maravilhoso? Deus, ele a desejava. Consciente de que o que tinha acontecido aquela outra vez tinha sido uma abominação contra a decência, voltava a desejá-la. De nada servia mentir-se dizendo-se que não era assim. Tinha-a ofendido em uma ocasião, e jurado que nunca voltaria a fazê-lo; tinha traído uma amizade que para ele significava mais que nada no mundo.

   Entretanto, tais argumentos se desvaneceram como a bruma sob o sol do meio-dia quando seus lábios se posaram nos dela e seu nariz respirou a fragrância da colônia que emanavam os pontos mais tenros detrás de sua orelha.

   -Banner, me peça que te deixe sozinha.

   -Não posso.

   Banner inclinou a cabeça, complacente. Os lábios do homem roçaram seu pescoço.

   -Não permita que volte a acontecer.

   -Quero que me abrace.

   -Eu também o quero, eu também.

   Jake levou sua mão do peito até o pescoço do Banner, logo para seu queixo, até que sua mão lhe cobriu a cara. Através dos lábios separados, o fôlego dela era quente e penetrante sobre a palma de sua mão.

   Como um homem cego, Jake desenhou cada rasgo de seu rosto com as pontas calejadas dos dedos, súbitamente sensibilizadas para capturar cada matiz. Alisou-lhe as sobrancelhas, que sabia eram negras, brilhantes e belamente arqueadas. Os dedos percorreram seus maçãs do rosto sardentos. Tinha chegado a adorar cada uma de suas sardas. Seu nariz era perfeito, embora um pouco atrevida. Sua boca.

   Os dedos do Jake roçaram uma e outra vez os lábios do Banner. Eram incrivelmente suaves. O fôlego quente que se filtrava através deles lhe umedecia os dedos.

   Jake apertou a boca contra a bochecha da moça, contra sua orelha, sobre seu cabelo.

   A mão que sustentava à moça pela cintura se abriu sobre seu diafragma. Fez redemoinhar seus dedos na carne tensa. Banner choramingava. Jake discutiu consigo mesmo, mas não houve maneira de impedir que sua mão se deslizasse subindo até a perfeição acanalada de suas costelas e cobrisse seus seios. Os gemidos de ambos se complementavam.

   A amadurecida plenitude do Banner encheu sua mão, e uma vez mais seu polegar fez girar o centro de seu seio esticado em um botão pela excitação.

   -Jake...

   -Dulce,tan doce.

   -Isto me acontece às vezes.

   -O que?

   -Isto -respondeu ela com uma baforada de ar quando os dedos dele se fecharam ao redor de seu mamilo-. ficam assim às vezes... quando lhe Miro.

   -Por Deus, Banner, não me diga isso.

   -O que significa?

   -Significa que nunca devi haver ficado.

   -E não voltam a afundar-se. Não durante bastante tempo. mantêm-se assim, com essa espécie de formigamento e comichão...

   -OH, te cale.

   -...e isso acontece quando desejo...

   -O que?

   -...que voltemos a encontramos no estábulo e você esteja...

   -Não o diga.

   -...dentro de mim.

   Jake formou um berço com a palma de sua mão e a pôs junto à bochecha do Banner, fazendo que voltasse gradualmente a cabeça até ficar frente a ele, e quando a cabeça da moça se voltou, também o fez seu corpo. O tecido de seu vestido se arrastava por volta dele como a onda por volta da borda do mar, separada, embora unida.

   Quando seus olhos se encontraram e se entrelaçaram avidamente, Jake baixou os lábios para os dela. Introduziu sua língua dentro da boca do Banner enquanto lhe apertava os quadris contra sua dilatada parte dianteira. Ela embalou a dureza do homem entre suas coxas.

   Jake se separou de sua boca.

   -Não, Banner. Fiz-te mal antes, recorda?

   -Sim, mas não chorei por isso.

   -Então por que?

   -Porque comecei a me sentir bem Y... e pensei que me detestaria por elmodo em que estava atuando.

   -Não, não -sussurrou ele fervientemente com a boca em seu cabelo.

   -Você estava tão... grande.

   -Sinto muito.

   -Eu não esperava que fosse tão... Y... e portanto...

   -Também você gostou, Banner?

   -Sim, sim. Mas se acabou muito logo.

   Jake pôs sua bochecha contra a dela. A respiração do homem era fatigante.

   -Muito logo?

   -Senti como que algo estava a ponto de acontecer, mas não aconteceu.

   Jake estava atônito. Podia ser? Conhecia putas que o fingiam. Não tinha tido nenhuma experiência com mulheres decentes. Certamente, não com vírgenes. Nunca com uma virgem. Nunca tinha tomado a uma mulher pela que pudesse sentir ternura.

   Mas agora a ternura que sentia pelo Barnier o envolvia. Tomou a cara da moça entre suas mãos e seguiu procurando a verdade em seus olhos. Não descobriu medo neles, a não ser só um desejo vívido que igualava ao dele. Com um grunhido surto do mais profundo da garganta, voltou a baixar a cabeça.

   -Olá! -gritou uma voz jovial-. Há alguém em casa?

   Só então foram conscientes do tinido de arnês e dos inconfundíveis sons de um carro ao deter-se no pátio.

   -Banner? Onde está?

   Era Lydia.

 

   Banner, deitada, com a bochecha afundada no travesseiro, contemplou como a luz do alvorada passava do rosa ao ouro ao filtrar-se fracamente através da janela do dormitório. Freqüentemente alguma lágrima transbordava sua pálpebra inferior para deslizar-se por sua bochecha e ser absorvida logo pela suave capa do travesseiro.

   Seus pensamentos voltaram de noite anterior. Não podia acreditar o giro que tinham tomado os acontecimentos. antes da inoportuna chegada da Lydia, as coisas se desenvolveram de acordo com o plano; Jake se tinha deixado arrastar pelo ambiente romântico que ela tinha criado.

   Como nunca antes tinha seduzido a um homem -aquela noite no estábulo não contava- tinha procurado recordar os ardis e chamarizes que seus amigas juravam eram úteis para fazer cair no laço a um marido. Uma boa comida, luz tênue, flores, um vestido bonito e um caráter doce serviam para atrair os sentimentos de um homem e lhe fazer pensar que seria maravilhoso desfrutar dessas cuidados amorosas e tenras para sempre.

   Banner sempre tinha considerado que tais maquinações eram indignas de sua pessoa, punham em interdição sua integridade e resultavam absolutamente ridículas.

Inclusive tinha declarado ante suas incrédulas amigas que não amaria a um homem que pudesse ser manipulado com tal facilidade.

   Mas algo de verdade devia haver em semelhantes mutretas femininas, porque tudo tinha saído à perfeição. Até que Lydia bateu na porta. Então Jake saltou como se lhe tivessem disparado, precipitando-se a levantar o tamborete que ainda se achava cansado no chão. Só um milagre e um hábil jogo de pés tinham evitado a queda.

   Enquanto isso, Banner se tinha alisado o cabelo e, pressionando com as mãos suas bochechas acesas, tinha apoiado sua frente palpitante contra o gonzo da porta durante uns preciosos segundos antes de abri-la e dizer:

   -Mamãe! Que bonita surpresa.

   -Olá, querida.

   Lydia entrou, alegre e vivaz, envolta nos sugerentes aromas da noite, que pareciam haver-se aceso a seu cabelo e a suas roupas do mesmo modo que o aroma de um ramito de madressilva faz que toda uma casa cheire bem.

   O coração do Banner deu um tombo. Sua mãe estava formosa com uma singela blusa de cor crua e uma saia marrom. Ainda era capaz de fazer voltar a cabeça a um homem com aqueles olhos de cor uísque e o cabelo castanho com matizes de canela. Apesar da magreza de sua figura, os seios e os quadris eram generosamente femininos. Que homem não desejaria repousar a cabeça sobre seu peito maternal e permanecer assim durante o resto da noite? Além disso parecia proprietária da tranqüilidade que possuem aquelas que sabem que podem dar tudo o que um homem necessita para sentir-se feliz e vaidoso.

   -Olá, Jake.

   Quando Lydia sorriu ao Jake, o coração do Banner descendeu um pouco mais para o abismo em que se sumiu sua alma. ele podia evitar enternecer-se sob o influxo desse sorriso cândido, aberta e afável?

   Jake dava a impressão de ter tragado algo repugnante e estar a ponto de vomitar.

   -Lydia.

   Uma brusca inclinação da cabeça do homem foi a única saudação que a recém chegada recebeu, e Banner adivinhou que se devia a que carecia da suficiente confiança em si mesmo para falar. Tinha estado a ponto de beijar a uma mulher, quando de repente entrou a que realmente desejava, e isso era bastante para confundir ao mais firme dos homens.

   Reinou um silêncio embaraçoso até que Banner se recuperou e deu uns passos assinalando o quadro com a mão.

   -O que te parece mamãe? Jake estava me ajudando a pendurá-lo quando ouvimos deter-se seu carro.

   -Pergunto-me por que demorou tanto em abrir a porta -replicou Lydia, absorta, enquanto observava o quadro-. Eu gosto. -Girou lentamente sobre seus talões, examinando todo o salão-. Fez maravilhas com o quarto, Banner. criaste um ambiente tão apropriado E... íntimo.

   -Obrigado.

   -Possivelmente necessitaria outro abajur -disse, acariciando com um dedo a bochecha do Banner de um modo algo inquisitivo-. Isto está um pouco escuro.

   Banner desejou que a terra se abrisse e a tragasse, mas como não foi assim, perguntou:

   -Gosta de um pouco de café? -Necessitava desesperadamente fazer algo mais com suas úmidas mãos que retorcer-lhe com nervosismo.

   -Não. Faz muito calor.

   -Alguma outra coisa?

   -Que tal um assento? -brincou Lydia.

   Banner se levou uma mão ao peito.

   -Sinto muito, mamãe. É obvio, sente-se. Jake...? -voltou-se para ele, lhe indicando outra cadeira.

   -Tenho que descarregar esse carro -aduziu torpemente, e se encaminhou para o perchero que havia junto à porta, onde estavam pendurados seu chapéu e sua cartucheira com o revólver.

   -Sente-se, Jake, por favor -rogou Lydia, ligeiramente exasperada-. Esta não é uma visita de compromisso. O que ocorre com vós dois?

   -Nada. -A palavra surgiu pressurosa dos lábios do Banner. Olhou ao Jake em busca de apoio, mas ele se deixou cair em uma cadeira, com o olhar perdido no chão.

Jake está mal-humorado. Ao parecer, não lhe gostou que lhe tenha pedido que pendure o quadro.

   -Ross é igual. Detesta fazer "as coisas insignificantes da casa", como as denomina ele.

   O sorriso íntimo de sua mãe animou ao Banner.

   -Alegra-me que tenha vindo para ver-me, mamãe.

   -Como deixastes que aparecer pelo River Bend, perguntávamo-nos se tínhamos feito algo que lhes ofendesse. -Seguia sonriendo, mas havia um pingo de recriminação em seus olhos.

   -Não -disse Banner, com uma risada falsa-. estivemos muito ocupados. Não pode imaginar todo o trabalho que levamos a cabo neste lugar.

   -Isso é o que nos hão dito os peões -replicou Lydia-. Estão trabalhando bem, Jake?

   O homem elevou seu olhar e se ergueu mais na cadeira. Parecia um moço ao que perguntam a lição na escola.

   -Sim, trabalham muito bem.

   -Sinceramente, preocupava-me o mais jovem, Randy -disse Lydia.

   Os olhos do Jake cintilaram em direção ao Banner durante uma fração de segundo.

   -É briguento, não se pode negar, mas soube mantê-lo a raia. Como está Mami?

   -Muito bem. Algo molesta contigo porque não vais ver a.

   -Tenho que encontrar algum momento para visitá-la logo.

   -Por essa razão vim aqui a estas horas -disse Lydia-. ia esperar até manhã, mas Ross e Lê estavam tão abstraídos em uma de suas intermináveis partidas de damas e fazia uma noite tão estupenda que me decidi a vir. -Fez uma pausa e respirou fundo-. Celebraremos uma festa na sábado de noite.

   -Uma festa? -perguntou sua filha, surpreendida-. Qual é o motivo?

   -Demonstrar às pessoas que nossas vidas, e especialmente a tua, não estão destroçadas devido ao que aconteceu em suas bodas.

   Banner sentiu um calafrio. Durante um comprido espaço de tempo permaneceu imóvel. Logo ficou em pé e começou a dar voltas pelo salão, ordenando isto, acomodando aquilo, limpando imaginárias bolinhas de pó.

   -Isso é o que pensam todos? -perguntou com acritud-. Acreditam que minha vida está destroçada, que estou me consumindo?

   -Por favor, não te deve afetar tanto, Banner. A seu pai e nos importa um nada o que pense ou diga a gente. Faz já muito tempo que aprendemos que resulta impossível impedir que pense ou diga o que lhe agrade. Mas sabemos quão dolorosas podem ser as etiquetas. Uma vez que lhe põem uma, já não lhe pode tirar isso.

   -O que quer dizer?

   Lydia olhou ao Jake, cujo rosto permanecia imperturbável, mas não disse nada.

   -Quero dizer que não desejamos que a gente tenha uma impressão errônea de ti, porque essa impressão poderia durar muito tempo. Ross foi à cidade faz uns dias.

Disse que a gente lhe perguntava por ti como se tivesse padecido uma fatal enfermidade capaz de te levar a tumba em qualquer momento. Lê e Micah comentaram que circula por aí a intriga de que te mudaste aqui para passar uma espécie de letargia.

   -Isso não é verdade! -gritou Banner. Suas bochechas continuavam acesas, mas agora por uma razão totalmente diferente. Irritava-lhe que sua decisão de mudar-se ao rancho fosse interpretada como um enclaustramiento em uma jaula de ouro-. Sinto-me mais animada e com mais vitalidade agora que estou trabalhando em um lugar de minha propriedade que nunca antes em minha vida.

   -Por isso ofereceremos a festa. Queremos que a gente te veja como uma mulher amadurecida e que esses rumores se extingam antes de que sejam incontroláveis.

   -Mas uma festa... -Desalentada, Banner voltou a sentar-se em sua cadeira. Imaginava que todos ficariam olhando-a como parvos na festa-. É necessário? Não estive na cidade das bodas. Não seria melhor começar precisamente por isso...? Poderia ir à cidade para que a gente me veja.

   Lydia fez um gesto de negação.

   -Já sabemos como é a gente; nem lhe aproximariam. Murmurariam detrás de seus leques e tirariam suas próprias conclusões. Em troca, em uma festa se verão obrigados a te falar e não ficará nenhuma dúvida a respeito de seu estupendo estado de ânimo. Não será algo muito formal, a não ser um simples andaime ao ar livre. O que te parece?

   -Suponho que tem razão -respondeu Banner.

   Os olhos da moça procuraram o Jake, mas este se negou a lhe devolver o olhar, o que a ofendeu. Só a tinha abraçado para acalmar as ânsias naturais de possuir uma mulher? Tivesse-lhe dado igual qualquer outra? Tinha sido só uma companheira útil essa noite? Seria possível que Jake a odiasse a ela e se odiasse a si mesmo detrás ter profanado seus sentimentos pela Lydia?

   Banner tinha planejado seduzi-lo com a idéia de fazê-lo seu marido. Que estúpida tinha sido! Outros homens poderiam cair ante essas argúcias femininas, mas nunca Jake. Tinha adivinhado suas intenções e se limitou tão somente a lhe seguir o jogo para divertir-se? Em qualquer caso, ela tinha tido sua oportunidade e a tinha desperdiçado desastrosamente.

   -Suponho que preciso voltar a ver gente. -Ao dizer "gente" Banner se referia aos homens, pois ao parecer esse era o objetivo que se escondia detrás da festa.

   Lydia se levantou bruscamente, como dando por cumprida sua missão.

   -Maravilhoso. É obvio, você também virá, Jake. -Sem esperar resposta ao que, mais que um convite, parecia uma ordem, dirigiu-se para sua filha e a estreitou em um forte abraço-. Ross e eu jogamos muito de menos, mas nos orgulha o que está fazendo aqui. Vai tudo bem?

   -Sim, mamãe, muito bem. irei verte mais freqüentemente. -Banner beijou a bochecha da Lydia-. É preciso que te parta tão logo?

   -Sim. Prometi ao Ross que não demoraria muito. boa noite -disse, beijando a sua filha na têmpora-. Veremo-lhe na sábado.

   -Sairei contigo -disse Jake, agarrando o chapéu e a cartucheira do perchero-. Estava a ponto de ir quando chegou. Obrigado pelo jantar, Banner.

   E a moça ficou ali, parada na soleira da porta, sozinha, enquanto eles cruzavam o alpendre e baixavam juntos os degraus, a mão do Jake sustentando solícitamente o braço da Lydia. Suas cabeças estavam muito perto.

   -encontra-se Banner verdadeiramente bem, Jake? Estamos muito preocupados com ela. -As palavras de sua mãe chegaram a ela como um sussurro.

   -Está muito bem.

   -Ao Ross e nos voltaria loucos a inquietação se não lhe tivéssemos para cuidar dela.

   -Faço tudo o que posso. -Ajudou-a a subir ao carro-. Como é que Ross te permite que venha sozinha até aqui de noite?

   -por que não, Jake Langston? Posso cuidar de mim mesma, graças-respondió Lydia com altivez, lhe golpeando juguetonamente o braço.

   -Leva revólver?

   -Sim -respondeu com um gesto de cansaço-. Ross não me deixaria ir a nenhuma parte sem ele. Vós dois são iguais. Criem que sou uma mulher indefesa e que devem me proteger.

   -Tome cuidado ao cruzar a ponte. Está um pouco desmantelado. logo que o trabalho do rancho me permita isso, encarregarei-me de escorá-lo.

   -Não se preocupe por mim. Não me passará nada. boa noite. Espero-te na sábado, ao redor das sete. Hei- dito a hora ao Banner?

   -Eu o farei. Volta para casa antes de que se faça mais tarde.

   -boa noite, Jake -disse Lydia, e logo estalou a língua, e o cavalo ficou em marcha.

   -boa noite, Lydia.

   Quando Lydia partiu, Jake permaneceu um momento no pátio, seguindo-a com o olhar. Banner observou como contemplava a sua mãe, enviando a de volta com seu marido, amando-a.

   Agora, ao recordá-lo, as lágrimas alagaram seus olhos como o tinham feito, intermitentemente, ao longo da noite. Que parva tinha sido! Como tinha podido chegar a acreditar que poderia tentar ao Jake para que a amasse, embora só fora um pouco, quando os olhos, a cabeça e o coração do homem estavam tão cheios da Lydia? Lhe tinha esmigalhado a alma ao vê-lo retornar ao estábulo, triste, com os ombros afundados.

   Como poderia voltar a ficar diante do Jake depois de lhe haver assediado a noite anterior? depois de lhe haver falado de... Deus!, tinha revelado verdadeiramente como se sentiu aquela outra vez, expresso em voz alta os pensamentos que tinha albergado durante semanas, pensamentos que inclusive lhe dava vergonha considerar?

Havia-lhe devolvido seus beijos apaixonados pela mesma intensidade? Em qualquer caso, de muito pouco lhe tinha servido, salvo para fazê-la mais desdenhável a seus olhos.

   Tinha fracassado em duas frentes. Primeiro, tinha assediado ao Jake e sido rechaçada por ele. Depois da marcha da Lydia, Jake não retornou para continuar o que tinham iniciado. E em segundo lugar, quando ela o interrogou, ele não proporcionou nenhuma informação sobre o passado de seus pais. Como todos outros, negou-se a falar quando ela o açulou.

   Havia algo que não encaixava. A que se devia o comentário da Lydia a respeito das etiquetas que se colocam às pessoas? Acaso alguém a tinha tachado de outra coisa que não fosse uma esposa e mãe ideal? Existia algo no passado de seus pais que estes não queriam que Lê e ela soubessem, e todos quantos lhes amavam guardavam celosamente seu segredo.

   À humilhação sofrida ante o Jake e ao desejo que tinha por conhecer a história de sua família, acrescentava-se um medo terrível à festa da noite do sábado. Se ela fosse a única implicada, burlaria-se de todos os vizinhos do condado do Larsen; deixaria que pensassem e dissessem o que quisessem.

   Mas estavam por meio seus pais, a quem se devia, pois sempre tinham querido o melhor para ela. A imagem que os Coleman ofereciam a outros era importante para eles. Papai se relacionava por questões de negócios com os homens da cidade, que estavam casados com mulheres fofoqueiras. Mamãe tinha razão. Seus pais precisavam demonstrar a todos que os Coleman estavam muito longe de ser derrotados pelo Grady Sheldon.

   Mas ignorava como ia sobreviver a essa semana com aquela festa pendendo sobre sua cabeça.

  

   Apesar de que a água da banheira estava já morna, Banner seguia inundada nela. Essa mesma tarde, mais cedo, lavou-se a cabeça com água de chuva recolhimento em um barril que havia perto da porta traseira. antes de começar o banho se recolheu o cabelo, sujeitando-o com um broche. Tinha cheio a banheira, que se achava colocada no centro da cozinha, com a água da bomba da pia e panelas de água aquecida na cozinha.

   Em outros tempos teria passado toda a semana esperando o dia da festa, mas nesses momentos não sentia alegria alguma ao preparar-se para ir a ela. Jake tinha estado tão irritável como um lobo faminto. Não tinham intercambiado nenhuma só palavra que não fosse estritamente necessária, deixando de lado os temas pessoais.

Em realidade, Jake a evitava sempre que podia. Na hora de comer tinha engolido os mantimentos como se lhe apressasse o diabo. Nem sequer ficava a tomar uma taça de café ou a fumar um charuto, mas sim partia pela porta traseira depois de dar parcamente as obrigado.

   A maior parte do tempo, Banner permanecia dentro da casa depois de passear aos cavalos cada manhã. A perto de arame de pua ao redor do campo dos pastos estava terminada. Banner tinha caiado as pranchas do curral, trabalhando sempre uma vez que os homens se partiram ao terminar os trabalhos do dia.

   Tinha sido uma semana muito tensa, e os peões tinham advertido o estado de ânimo predominante. Atribuindo-o ao incidente da larva, foram com muito tato quando Jake se achava presente. Durante os últimos dias Plum Creek tinha sido um lugar tranqüilo.

   Banner tinha recorrido ao banho quente para moderar seus nervos e aliviar a tensão muscular que sentia, mas se queria dispor de tempo de sobra para vestir-se, deveria interrompê-lo já. Saiu da banheira no preciso instante em que alguém batia na porta traseira.

   -Banner?

   Era Jake!

   -Espera um minuto.

   ficou a bata e, envolta nela, dirigiu-se para a porta, deixando um reguero de água. Quando a teve aberto, o rosto do Jake empalideceu ao vê-la.

   -O que está fazendo?

   -Tomando um banho -replicou ela com ingenuidade.

   -meu deus! -Jake falou vaiando, de uma vez que lançava um olhar em direção aos três jeans que, montados em seus cavalos, esperavam no pátio suas instruções.

Só vim a te dizer que não vou a essa festa esta noite. Tenho que partir com os moços agora. Enviarei a Lê para que te acompanhe. E pelo amor de Deus, ponha um pouco de roupa.

   -Não.

   -Não? -perguntou ele em um sussurro.

   -Não, não vai a escaquearte da festa.

   -Faço o que me dá a vontade os sábados de noite.

   Banner podia ouvir o bufo dos cavalos além da porta e por isso também falava em voz baixa e tensa.

   -Não me importa o que faça as demais noites de sábado, mas esta vai à festa.

   -por que deveria fazê-lo?

   -Porque resultará estranho que não esteja ali e não desejo que ninguém pense que algo anda mal entre nós. Esta é a razão.

   Jake a olhou fixamente, com dureza e irritação, apertando os lábios até que sua boca se converteu em uma linha reta. por cima do ombro disse:

   -Vós sigam adiante. Banner tem que falar comigo de algumas costure.

   Os três homens se despediram com um murmúrio. Jake esperou a que se afastaram bastante antes de voltar a dirigir-se ao Banner.

   -De fato, algo anda mal entre nós.

   O olhar do Banner percorreu o rosto do homem até que se deteve no lenço que tinha pacote ao pescoço. Nunca ia sem ele, algo habitual em todos os jeans, mas a Jake ficava especialmente bem, inclusive talher de pó tal e como estava nesses momentos.

   -Está-te refiriendo à outra noite -disse ela brandamente.

   -Estou-me refiriendo a tudo. A aquela primeira vez no estábulo e à outra noite e também a todas as demais ocasione em que nós...

   interrompeu-se, e Banner voltou a lhe olhar aos olhos.

   -Em que nós o que?

   Esta vez foi Jake quem apartou o olhar. Durante dias se amaldiçoou de novo por estar jogando com fogo. Sabia que estava dançando em cima de um barril de pólvora com tochas acesas nas mãos, arriscando-se a voar pelos ares.

   O que teria pensado Lydia se lhe tivesse encontrado com sua filha entre os braços, a boca do Banner pega à sua? Essa questão lhe tinha obcecado durante toda

a semana. Não duvidava de que teria elevado os braços horrorizada. OH. sim. é obvio! Lydia lhe amava como a um irmão, daria-lhe tudo o que pedisse se estava em sua mão; faria-o por qualquer dos Langston. Mas não o queria como genro. Como amigo dele e do Ross estava bem, mas como casal de sua filha? Jake sabia que não devia enganar-se. Banner era uma princesa para seus pais, mas ele estava muito longe de ser um príncipe.

   Se Ross lhe tivesse visto beijar a sua filha, a indignação da Lydia teria sido nada comparada com a de seu marido. Ross lhe teria matado no ato. Conhecia a fama de mulherengo do Jake. Diabos. se inclusive ele mesmo tinha contado ao pai do Banner algumas de suas proezas mais desenfreadas, e se tinham rido de suas aventuras com o sexo oposto enquanto bebiam uísque e fumavam charutos em meio da noite. quanto mais ébrios estavam, mais obscenos se voltavam os relatos.

   "Esse magnífico pássaro do que tão orgulhoso está perderá força se não lhe der descanso", havia dito uma noite Ross, enxugando-as lágrimas que a hilaridade fazia brotar.

   -Deus me conceda a graça de morrer por esgotamento -tinha replicado Jake, com um tolo sorriso.

   Então Ross tinha encontrado todo aquilo extremamente divertido, mas sua opinião trocaria drasticamente se a reputação deJake chegava a alcançar ao Banner. Acaso suportaria que umas mãos poluídas pelo contato com as putas se posassem sobre sua filha? Diabos, não. Seria um louco ou um estúpido se não matasse ao Jake.

   Em conseqüência, o mais inteligente seria empreender uma discreta retirada, despedir-se como era devido, montar ao Stormy e partir para não retornar até que soubesse que Banner estava casada. Entretanto, não era capaz de resignar-se a fazê-lo.

   Esse lugar já formava parte dele, e o amava por cada gota de suor que lhe havia flanco. Às vezes tinha visões nas que esse rancho aparecia tão grande como River Bend. Queria participar desse progresso, fazer que sua vida servisse para algo. Não desejava deixar o trabalho inconcluso.

   Desde que matou ao Clancey Russell, tinha fugido toda responsabilidade, mas sabia que evitar as obrigações e manter-se afastado de algo significativo não era maneira de viver. Tinham-lhe dado uma oportunidade, talvez a última, para poder demonstrar-se que algo podia lhe sair bem em sua vida. Simplesmente, tinha que continuar com a tarefa.

   Mas como podia manter-se afastado da garota? Sobre tudo quando ela o olhava, como agora, com esses olhos que lançavam caprichosamente brilhos verde e ouro. A pele do Banner estava úmida e fragrante devido ao banho. Não se dava conta a moça de que a bata molhada se pegava a seu corpo, revelando a forma firme e altiva de seus seios com as pontas arrepiadas, sugiriendo as turgentes colunas de suas coxas e o delta que palpitava entre eles, insinuando, enfim, todo aquilo que deveria ser escondido a toda costa? Tinha idéia de quão fascinante resultava seu cabelo, recolhido com descuido, com mais mechas soltas que sujeitos? Sabia o condenadamente apetitosa que era sua boca?

   -Jake onde está? No que está pensando? Há dito "todas as demais ocasione em que nós", e então te calaste. Quero saber no que está pensando.

   O homem saiu de seu ensimismamiento e respondeu com aspereza.

   -Pensamos muito mais do necessário no que aconteceu entre nós.

   -Fala por ti -prorrompeu Banner-. Por minha parte, obtive o que desejava aquela noite e não o lamento.

   -Bom, muito bem! -exclamou Jake furioso. Tivesse-lhe servido qualquer outro que tivesse encontrado no estábulo? Alguém mais jovem possivelmente? Mais boa moço?

Randy talvez?-. Então deve estar ansiosa esperando a festa de esta noite -continuou dizendo com voz zombadora-. Dará-te a oportunidade de dançar e paquerar com todos os jovens petimetres da cidade a quem gostaria de dar um queda com o Banner Coleman.

   -OH, pode chegar a ser tão grosseiro...

   -Bom, as festas são para isso, não é certo?

   -Para que?

   -Para que as garotas lhes emperiquitem e presumam diante de todas as boas partidas; para paquerar, rir bobamente e comparar carnês de baile com as outras jovencitas solteiras dos arredores.

   Banner fechou os olhos e contou lentamente até dez, em um vão intento por conter a raiva.

   -vamos voltar para isso?

   -Voltar para que?

   -A que me fale como se fosse uma menina.

   -Comparada comigo, é-o.

   Banner se levou as mãos aos quadris, um movimento imprudente que esticou ainda mais o tecido úmido sobre seus peitos. E seguiu cometendo mais imprudências ao inclinar a cabeça para trás, fazendo que o cabelo se soltasse e expondo sua nua garganta. Mas ela era inconsciente de todo isso, tão absorta estava na discussão.

   -OH, sim. O velho e pobrecito Jake Langston. O decrépito, o ancião. Arrumado a que mamãe quer que vá a sua festa para que possa atuar como carabina de todas as jovens.

   Jake apertou tanto os dentes que os fez chiar.

   -Não irei. -Alargou cada uma de suas palavras como se estivesse aprendendo às pronunciar pela primeira vez. Quando se inclinou para enfatizar o que estava dizendo, a ponta de seu nariz esteve perigosamente a ponto de tocar a do Banner.

   -Então, eu tampouco vou -repôs ela, irada.

   E girando sobre seus talões, fechou a porta de um golpe. Mas só permaneceu fechada durante uma fração de segundo, pois Jake a abriu de novo arrancando-a quase das dobradiças, entrou a toda velocidade, agarrou à moça por um braço e a fez dar-se volta.

   -O que se supõe que quer dizer?

   -Simplesmente o que hei dito. Se você não for, tampouco irei eu. -Lhe dava golpes em el.pecho com o dedo indicador-. E apresentará você nossas desculpas.

   Soltou-a e fez voar seu chapéu para o perchero, mas não acertou, de modo que o chapéu caiu em um dos atoleiros de água que tinham deixado os pés molhados do Banner. Jake amaldiçoou profundamente, se mesó os cabelos e resmungou comentários críticos sobre as mucosas malcriadas que faziam que a vida fosse um inferno para todos quantos as rodeavam.

   -Muito bem, Banner -disse finalmente, assinalando-a com o dedo-. Mas esta é a última vez que te sai com a tua. E ali procura te manter afastada de mim, ouve-me?

Se tiver que assistir a essa maldita festa, me penso passar isso bem, entendido?

   Ela agitou suas pestanas.

   -É obvio, Jake -disse com um tom adoçado-. Isso é também o que eu pretendo. Não disse que as festas eram para isso?

   Jake conteve o poderoso impulso de pô-la sobre seus joelhos e lhe pegar com força pois isso teria significado tocá-la, e ele não podia fazê-lo. Não, certamente, se não havia por meio mais barreira que essa bata de algodão. Estava nua debaixo; não era necessária uma enciclopédia para sabê-lo. Sua pele era rosada, e sem dúvida cálida Y...

   Maldita seja! deu-se rapidamente a volta para sair pela porta.

   -Passarei a te recolher A...

   -Não gostaria de um banho?

   Jake se deteve em seco e se voltou lentamente.

   -O que?

   -Um banho. Esquentarei água.

   -Ia ao arroio.

   Banner enrugou o nariz, fazendo destacar suas sardas.

   -Não seria quão mesmo um bom e relaxante banho quente.

   Sem esperar seu consentimento, a moça começou a prepará-lo tudo. Comprovou as panelas que se achavam sobre a cozinha e descobriu que ainda havia água fervendo em seu interior. Fazendo ornamento de uma esplêndida energia, derrubou parte da água da banheira em um cubo que esvaziou no pátio traseiro. Dessa maneira fez espaço suficiente para a água fumegante que verteu nela. Fez serpentear seus dedos na água para comprovar a temperatura.

   -Já está a ponto. -girou-se para enfrentar-se ao Jake, depois de não havê-lo tido em conta enquanto transportava preparando o banho-. vais usar a, verdade?

   Jake se mordiscava os lábios. Tinha permanecido ali parado como um maldito idiota enquanto ela ia metendo no bolso. Tinha-lhe fascinado tanto a contemplação da moça envolta na úmida bata pega a seu corpo, que foi incapaz de mover-se. Não pôde apartar a vista de seus quadris quando Banner se inclinou sobre a banheira, permitindo que se marcassem as suaves curva para alimentar seu ávido olhar. ficou boquiaberto quando, ao esvaziar ela o cubo, proporcionou-lhe uma visão fugaz da carne cremosa de seus seios.

   Por outra parte, o resto da moça parecia vulnerável. Seu cabelo de ébano caía em mechas sobre suas bochechas úmidas. Os pés nus pareciam muito pequenos para uma mulher adulta. Jake sentia desejos de examiná-los atentamente. Quando passou junto a ele, pareceu-lhe incrivelmente pequena e necessitada de amparo.

   Consciente de que devia atuar com o major cuidado possível, ouviu-se dizer:

   -Suponho que tomarei o banho, já que te incomodaste em prepará-lo.

   -Trarei-te uma toalha enquanto vais procurar roupa limpa ao estábulo.

   Quando Banner voltou para a cozinha ele não tinha retornado ainda. Esquadrinhou pela janela com ansiedade e só respirou satisfeita ao vê-lo sair do estábulo levando suas roupas. No momento em que Jake entrou pela porta traseira, Banner estava dispondo minuciosamente uma toalha, um pano para lavar-se e sabão sobre uma mesa próxima à banheira.

   -Agora te concederei um pouco de intimidade -disse ela com suavidade.

   -Obrigado.

   -De nada.

   Banner fechou a porta que comunicava a cozinha com o salão e o deixou sozinho. Entrou em seu dormitório, mas não fechou a porta detrás de si. Algo em seu interior, uma malícia desconhecida para ela, lhe impedia de fazê-lo. Quando se tirou a bata, situou-se frente à porta que dava à cozinha, desejando que Jake a abrisse e pudesse vê-la.

   Mas ele não o fez. A moça ouvia o chapinho da água. Jake estava na banheira. junto a aqueles pensamentos lhe chegaram cálidas e turbulentas sensações que subiram pelas coxas, pela entrepierna, subindo por seu talhe até alcançar o peito. Os mamilos se projetaram, duros, para fora.

   Trémulamente, levou-se a mão até seu seio. Estava rememorando vividamente as mãos do Jake acariciando-o, lhe ensinando reações de seu corpo feminino que desconhecia.

Sua carne respondia receptiva. estremeceu-se. Sentia como se ia formando um calor úmido entre suas coxas.

   Apartou a mão rapidamente, temerosa de receber o castigo da ira de Deus por sua perversidade.

   Mas a imagem do corpo do Jake na banheira não se desvaneceu. Dado que tinha crescido junto a um irmão, não ignorava por completo a anatomia masculina como a maioria das garotas de sua idade. Entretanto, jamais tinha visto um homem adulto nu, embora devido aos comentários de umas poucas amigas casadas que se atreveram a abordar um tema tão proibido, tinha chegado a ter a impressão de que isso era uma visão terrível de contemplar.

   Agora era incapaz de acreditar que fosse outra coisa mais que belo. O resto do Jake era formoso, por que não ia ser o isso? Não se impressionaria. Tinha crescido em uma granja de cavalos e sabia muito bem o que acontecia aos animais machos quando estavam excitados.

   Além disso, tinha-o experiente. O primeiro embate enérgico do Jake dentro de seu corpo tinha sido alarmante, mas a dor foi só momentâneo. Sentiu aquela longitude sedosa e sua dureza de aço. Mas nunca o tinha visto e morria de curiosidade por saber como era.

   Possivelmente poderia oferecer-se a lhe ensaboar as costas. Mas embora avançou em direção à porta, rechaçou a idéia por muito evidente.

   sentiu-se terrivelmente impudica, mas não por isso deixou de desejar que um dia ela e Jake voltassem a fazê-lo, e que essa vez ambos estivessem nus. Enquanto se vestia era consciente de cada centímetro de pele, do suave sussurro do tecido fresca acariciando o corpo enfebrecido.

   Escolheu um vestido de cor verde intensa, decotado, apertado pelo talhe. A saia era só o bastante ampla para balançar-se brandamente ao caminhar. O vestido se abotoava pelas costas, e aí residia o problema. Não podia chegar aos botões superiores devido a que o sutiã era muito ajustado.

   Jogou uma olhada à porta da cozinha, que continuava fechada. Entretanto, fazia uns minutos que não se ouvia o chapinho. Atravessou a habitação e chamou brandamente.

   -Jake?

   -Sim?

   -Posso entrar?

   -Está em sua casa.

   Banner abriu a porta. Jake estava arrastando a banheira pelo chão da cozinha. Ao chegar à porta traseira, inclinou-a para frente e derramou a água pelos degraus.

   A moça o contemplava extasiada. Jake só levava postos umas calças negras. Ia descalço e sem camisa. Os músculos do peito, os braços e as costas cativaram a atenção da moça quando levantou a banheira vazia e a guardou no armário. Ao voltar-se para ela, Banner ficou sem fôlego.

   Desde perto, seu peito varonil se mostrava ainda mais magnífico. Os discos de bronze de seus bicos da mamadeira, afundados em ninhos de encaracolado cabelo dourado, intrigavam-na. Se os tocava, se os acariciava, reagiriam como os seus?

   Seguiu com o olhar a franja acetinada de pêlo que descendia pelo centro de seu torso até encontrar-se com a encrespada espiral que envolvia seu umbigo, justo em cima do botão das calças. O tecido negro se cavava para conter seu sexo. A roupa ajustada ao corpo logo que deixava espaço para a imaginação. Retornaram úmidos pensamentos recentes, envoltos em uma abrasadora marejada que a deixou aturdida. Seus olhos procuraram o olhar do Jake.

   -Necessito que me ajude com os botões. -Sua voz soou algo rouca, ligeiramente íntima.

   Avançou para ele e lhe ofereceu as costas, apartando com uma mão o cabelo do pescoço.

   Ele se ocupou dos botões com mais presteza da que ela esperava. Quantos vestidos tinha abotoado ou desabotoado? Seus pensamentos eram perturbadores. A teria comparado com as outras mulheres que tinha conhecido? Bom, pois se ele não o tinha feito, ela o faria! Nenhuma seria tão boa para o Jake como ela. Já se encarregaria ela de que assim fosse. Não podia renunciar agora.

   Mantendo o cabelo afastado para um lado, Banner se voltou e o olhou.

   -Compartilhamos a água do banho, grampeia-me botões... É como se estivéssemos casados, não te parece?

   O rosto do Jake estava rígido. A cor quase tinha desaparecido de seus olhos azuis.

   -Dificilmente, Banner. Se estivéssemos casados e você me recebesse na porta coberta só com uma bata úmida, já te teria tendido na cama com as saias por cima da cabeça e te haveria follado até que tivesse ouvido soar sinos.

   A moça ficou com a boca aberta. Não podia acreditar o que estava ouvindo. Retrocedeu um passo e se levou uma mão ao peito, atuando como se ele a tivesse golpeado.

Seu rosto se tornou pálido e tenso. Logo girou sobre seus talões e fugiu da cozinha. Ele ouviu o golpe da porta do dormitório ao fechar-se bruscamente.

   Jake se apoiou contra o gonzo da porta. Com os braços pendurando aos lados do corpo, apertou os punhos até que os nódulos lhe puseram brancos. "Sinto muito,

Banner, sinto muito", murmurou com a vista perdida no teto.

   Não estava seguro de quando lhe sobreveio a revelação. Possivelmente tinha estado escondida em sua mente durante toda a semana ou talvez tinha aparecido de um modo repentino. Mas em algum momento do trajeto entre a casa e o estábulo quando partiu para procurar roupas podas, chegou ou seja o; Banner estava tratando de seduzi-lo, não para levá-lo a cama, a não ser para conduzi-lo ao matrimônio.

   Essa tinha sido a intenção da outra noite. Só assim se explicava a amabilidade, o jantar perfeito, a atenção esmerada e a promessa tácita de que se ele tivesse

desejado compartilhar seu leito, teria podido. Que idiota! Que cego tinha estado!

   E o certo era que a ponto esteve de conseguido. Se Lydia não tivesse eleito essa hora para visitá-los, ele se teria deixado arrastar pelos apetites de seu corpo

e teria feito o amor ao Banner. Uma vez, e a pedido dela, poderia, só poderia, ser perdoável. Mas dois? Nunca. Teria tido que casar-se com ela.

   Não culpava ao Banner. Ainda era uma menina, uma muchachita muito sensível cujo orgulho tinha recebido um golpe fatal. E considerando-o de um ponto de vista prático, o matrimônio entre ambos não era uma idéia descabelada. Acaso não bulia tal idéia em algum rincão oculto de sua própria mente?

   Se não era assim, por que quando se despediu da Lydia a outra noite não a tinha desejado com veemência, como sempre? por que tinha ansiado muito mais retornar à casa e continuar o que ele e Banner tinham iniciado? Tinha-lhe entristecido comprovar que não havia aquele sentido conhecido rasgão em seu peito quando Lydia o deixou para voltar com o Ross. Lydia estava tão formosa como sempre, mas já não era a mais bela. Quanto fazia que Banner se converteu no patrão pelo qual julgava às demais mulheres? Ele acreditava que amava a Lydia. Então que diabos lhe estava ocorrendo?

   Possivelmente Banner e ele tinham chegado a familiarizar-se em excesso, a intimar muito. Estavam muito isolados, e como fazem as pessoas solitárias, aferravam-se a aquele que estivesse disponível. Pois bem, terei que acabar com tudo isso, pôr fim a essas intimidades antes de que ela albergasse tolas ilusões a respeito de que eram mais do que em realidade eram.

   Tinha chegado à conclusão de que não ficava mais opção que feri-la. Por isso quando retornou para tomar o banho e advertiu o olhar ofegante que lhe dirigia, quando sentiu que seu próprio corpo traía suas boas intenções, tinha proferido palavras tão grosseiras.

   Tinha-a ferido, e continuaria fazendo-o. Não havia outra alternativa. Era necessário lhe fazer ver que uma relação dessa classe entre eles era simplesmente impossível.

   E enquanto procurava chegar a convencer a desse modo, esperava que Deus pudesse convencê-lo a ele.

 

   Grady Sheldon ouviu os gritos muito antes de desmontar no claro do bosque e atar a seu cavalo aos ramos baixas de um melancólico pinheiro.

   Ao princípio supôs que Doggie Burns estava golpeando a Wanda e se achava a ponto de matá-la. Mas quando desmontou, observou que Doggie estava sentado no desvencilhado alpendre dianteiro com um sabujo estirado sobre seu regaço, e outros dois tendidos a seus pés. O contrabandista de licores se levou a seus fláccidos lábios uma jarra cheia de sua própria beberagem, balbuciando incoerências. Grady se figurou que esse não era o primeiro gole do dia para o Doggie.

   Da cabana surgiu de novo outro gemido agudo, que parecia saído das vísceras do inferno. Grady, sem nenhuma pressa, encaminhou-se para a cabana, que demonstrava um manifesto estado de abandono. Um dos sabujos sarnentos se aproximou correndo para ele, grunhindo e lançando batidas os dentes aos talões. Grady o propinó uma patada na cabeça e o enviou debaixo do alpendre.

   Os olhos turvos do Doggie se posaram em seu genro.

   -O que passa aí dentro? -perguntou Grady.

   -Seu filho está a ponto de nascer, isso é o que acontece.

   Outro grito rasgou o ar, esta vez seguido de estranhos sons e broncos ofegos que ao Grady revolveram o estômago.

   -Isso -disse Doggie, assinalando com a cabeça a porta e limpando-a boca com a manga detrás ter dado um comprido gole da jarra- esteve acontecendo todo o dia, e me dá náuseas. Não faz mais que gritar, uivar e perturbar a paz de um homem como se fosse a única mulher que dá a luz um menino. Maldita puta.

   A idéia do nascimento fez que Grady se sentisse nervoso. Olhou para o oco fracamente iluminado da porta que, aberta como estava, permitia que toda classe de insetos, bestas e insetos se aventurasse a entrar.

   -Ela já há... tratou você de chamar o médico?

   Doggie o olhou com uns olhos nublados pelo consumo de álcool.

   -Diabos, homem, acredita que estou louco? por que vai necessitar um médico para parir um mucoso? Condenados médico ruim. Para o único que servem é para roubar o dinheiro que um homem ganhou com sacrifício. Nanay. A mãe da Wanda a pariu em uma cama não melhor que esta, e tudo foi bem. Todos esses gemidos e alaridos não são mais que puro teatro, moço. Não permita que tirem o sarro.

 O seguinte lamento terminou. em um gemido prolongado que gelou o sangue do jovem.

   -Ela... bom... parece que realmente está sofrendo.

   Seu sogro se gargalhou.

   -claro que sim, claro que sim. É um castigo de Deus por ser uma puta. Ele castiga a todas as putas desde que Eva apareceu no Paraíso por sua perversidade. Silêncio aí dentro! -vociferou Doggie, assustando a quão sabujos o rodeavam. Os cães, depois de cuidadoso com olhos lânguidos, tornaram-se de novo a dormitar-. Entra -ordenou Doggie-. Ao fim e ao cabo é sua esposa. e pelo amor de Deus, faz-a calar; não posso suportar mais esses gemidos.

   Grady entrou na habitação fracamente iluminada, cheia de fumaça e má ventilada. Os aromas eram nauseabundos, uma ofensa para o olfato humano. Procurou conter a respiração durante um comprido momento, mas quando respirou, tragou de novo uma baforada de ar espesso e adocicado pela imundície e a imundície.

   Wanda jazia no leito. Grady tragou a bílis amarga que lhe subia pela garganta. Os lençóis ásperos estavam manchados de rosa a causa da água que tinha fluido do útero da mulher.

   Wanda tinha as pernas levantadas e flexionadas, e muito abertas. Seu rosto se via cinzento e enrugado. Os lábios, através dos quais surgiam os terríveis ofegos, estavam gretados e ulcerados ali onde ela os tinha mordido em um desesperado esforço por sufocar seus gritos. Tinha os olhos fechados, e o cabelo emaranhado e úmido pelo suor. Vestia uma camisa ligeira que tinha sido levantada a altura de seus peitos, deixando nua a metade inferior de seu corpo.

   Grady se sentiu absolutamente enojado ao vê-la; tanto que esteve a ponto de vomitar. Os seios que em um tempo o tinham excitado estavam agora inchados de leite, e os mamilos destacavam enormes e escuros. O estado da mulher não lhe suscitava piedade alguma, mesmo que podia ver seu corpo retorcendo-se, tratando de reunir a energia suficiente para suportar o próximo ataque da dor. Os ombros da mulher se saíam do colchão enquanto se sujeitava os joelhos, as atraindo com força para seu peito, de uma vez que grunhia e apertava até que o rosto lhe congestionou pelo esforço. Quando levantou a cabeça e abriu os olhos, viu que Grady estava observando-a.

   -Por fim aparece -disse Wanda, com a respiração entrecortada-. Olhe o que me tem feito, filho de puta. Você me tem feito isto.

   -Está segura de que fui eu, Wanda? -disse Grady com voz zombadora.

   -Você ou qualquer outro bastardo que acreditava valer muito para me falar na rua, mas que logo vinha aqui às escondidas quando gostava de um bom queda.

   cravou-se os dentes nos lábios e gemeu em meio de uma dor insuportável. Incapaz de conter seu sofrimento, surgiu de seu interior outro grito que atravessou as paredes desmanteladas da cabana.

   -Está incomodando a seu papaíto. Enviou-me para te fazer calar.

   -Malditos sejam os dois!

   -Tão encantada como sempre, Wanda. É a verdadeira encarnação da maternidade.

   Os olhos do Grady percorreram o corpo inchado da mulher. Por entre suas coxas abertas se via emergir a cabeça do bebê. Voltou a sentir náuseas.

   Wanda, gritando, apoiou-se nos cotovelos e apertou com todas suas forças. Reclinou o queixo sobre o peito enquanto emitia sons não humanos, guturais e roucos, que resultavam repulsivos aos ouvidos do jovem. Logo a mulher jogou bruscamente a cabeça para trás e gritou até que lhe quebrou a voz.

   -Disse-te que deixasse de gritar -exclamou Doggie do alpendre-. Malditas mulheres -resmungou enquanto caminhava cambaleando-se, diante da casa, fazendo fugir aos sabujos em distintas direções-. vou servir me outra jarra -disse, afastando-se tranqüilamente sob a luz do crepúsculo.

   Quando Grady voltou a olhar a Wanda, a mulher se retorcia no sofrimento de outra contração.

   -me ajude, Grady, me ajude. -Agora suplicava; toda arrogância tinha desaparecido. A dor a tinha convertido em um ser patético-. O menino não vai nascer. Não vai nascer. me ajude. Faz algo! -gritou quando ele se aproximou.

   -Seu papaíto me pediu que te fizesse calar. -Sua voz, ao igual a seu rosto, não mostrava nenhuma expressão.

   -Não posso deixar de gritar. Dói.

   Uma vez mais se desmoronou sobre o travesseiro empapado em suor. Logo o corpo se convulsionou com outro acesso de dor e sua garganta liberou um gemido intenso e prolongado.

   Os ombros do menino tinham conseguido abrir-se passo. Em um instante nasceria, e Grady Sheldon, um homem de negócios jovem e atrativo, receberia a carga de outro Burns. Só pensar que ele podia ser quem tinha engendrado um filho na Wanda Burns o fazia sentir mais náuseas que tudo o que via e cheirava ao redor. E a idéia de ter que manter a esse clã de gentinha durante toda sua vida lhe resultava inconcebível.

   Durante semanas se debateu em relação ao que deveria fazer. Tinha chegado a uma conclusão, mas também resultava inconcebível. Entretanto, estava desesperado, e o desespero impulsionava aos homens a realizar coisas que em outras circunstâncias seriam impensáveis.

   -Doggie me disse que te impedisse de gritar. Parece-me que deveria lhe obedecer. -Agarrou um travesseiro da cama-. Não grite mais, Wanda.

   Ela o olhou com seus olhos frágeis, agora não só cheios de dor, mas também também de pânico.

   -O que faz? Né? OH, Deus! -Wanda apertou os dentes quando a surpreendeu um novo espasmo-. OH, Deus! OH, Jesus! -repetia enquanto seu corpo se esforçava por expulsar a vida que havia em suas vísceras.

   -Não grite -advertiu Grady com tom ameaçador.

   -Não posso... não posso evitar...

   Abriu a boca e deixou escapar um alarido que superou a todos os precedentes. Lhe quebrou a garganta tal como lhe tinha quebrado o corpo ao expelir a criatura.

   Então Grady atuou.

   Pôs o travesseiro sobre a cara desencaixada da mulher, pressionou-lhe as costas contra o colchão e a manteve assim sujeita. Wanda lutou, mas por pouco tempo.

As horas sofrendo os dolorosos afãs do parto a tinham debilitado. Grady não apartou o travesseiro até que as extremidades de sua esposa ficaram imóveis. Quando por fim a levantou, o suor percorria seu corpo em finos rios gelados. Não olhou a Wanda, mas baixou os olhos para o bebê que choramingava tendido entre suas coxas. Nem sequer se incomodou em averiguar se era um menino ou uma menina. Não valia a pena esbanjar energia nisso. Não viveria muito se seu plano funcionava e tinha que funcionar.

   deu-se rapidamente a volta para ouvir os passos vacilantes do Doggie. aproximou-se nas pontas dos pés à porta, espionou para o exterior e viu o homem dirigir-se fazendo esses para a cabana. Cada três passos, levava-se a jarra ao ombro, jogava a cabeça para trás e tomava um comprido trago do uísque clandestino.

   Quando Doggie chegou à cabana, seu cérebro aturdido pelo álcool intuiu que algo ia mau.

   -O que acontece? -balbuciou. Caminhou cambaleando-se e esteve a ponto de cair sobre um de seus sabujos. Amaldiçoou ao animal, subiu ao alpendre com passo inseguro,

ajudando-se em um dos postes de cedro rugoso para evitar a queda e gritou-: O que passa aí, né? Wanda? Sheldon? Já nasceu o bebê? -Avançou torpemente um pouco mais, por que não se ouça nenhum ruído? Né? por que?

   Não chegou a ver a estaca de carvalho que lhe esmagou o crânio no momento em que atravessou a porta. Caiu pesadamente ao chão.

   depois de ter contido a respiração durante os últimos minutos, Grady saiu das sombras e se inclinou sobre o Doggie. Quando comprovou que não se movia, enxugou-se o suor do rosto com a manga.

   convenceu-se de que estavam predestinados a morrer daquele modo. Eram lixo, indignos de compartilhar o planeta com a gente decente. Quem sentiria falta da o Doggie Burns e à meretriz de sua filha? Acabava de lhe fazer um favor ao mundo ao liberar o dessa gentinha. Só tinha ajudado ao destino um pouco; isso era tudo.

   dirigiu-se à caixa de fruta que fazia as funções de mesinha de noite e com total indiferença derrubou o abajur de querosene, assegurando-se de que o globo de vidro se rompia contra o chão e de que o combustível se esparramava formando um grande atoleiro.

   Ninguém poderia culpar o disso. A sorte não tinha sido muito amável com ele ultimamente. Tinha perdido ao Banner, uma propriedade de considerável extensão, e o favor e apoio dos Coleman. Tinha sido humilhado publicamente e na cidade lhe fugiam pessoas que antes se mostravam servis com ele. burlaram-se dele; tinham-lhe despojado de tudo o que se pode arrebatar a um homem, não era assim? de agora em diante se propunha modificar os fatos de modo que a sorte decidisse em seu benefício.

   Acendeu a ponta de um charuto que a fortuna tinha querido que levasse consigo. Estupendo. A sorte já estava trocando seu curso. Saiu da cabana e aspirou a fumaça do tabaco, enchendo seus pulmões e liberando-o logo em uma exalação larga e lenta.

   Ninguém ignorava que os Burns viviam como porcos, e que Doggie estava sempre bêbado, ao igual a Wanda. Ninguém tinha visto o Grady abandonar a cidade, e embora assim tivesse sido, quem poderia pensar que tinha ido à cabana? Daria um comprido rodeio para retornar à cidade da direção contrária, procurando saudar com a mão a várias pessoas que o recordariam mais tarde se ao xerife lhe ocorria suspeitar algo sobre o incêndio na cabana dos Burns.

   Grady arrojou o charuto pela porta aberta da choça, e se foi. Nem sequer esperou a ver se o fogo prendia.

   Agora a sorte estava de seu lado.

 

 

                                                                    CONTINUA

 

 

A festa já estava muito animada quando Banner e Jake chegaram. atrasaram-se.

   Era um fato indiscutível que os Coleman sabiam como organizar uma festa. Havia abajures cobertas com vistosos papéis de cores penduradas dos ramos mais baixas das árvores e mesas, alinhadas de um extremo ao outro do pátio, repletas de comida e abundantes jarras de cerveja. Dos andaimes brotava o aroma delicioso da carne.

Mami se encarregava de manter os recipientes de ponche transbordantes de limonada para as damas.

 

 

 

 

 

   A música soava forte e convidava ao baile. Dois violinos, um banjo, uma gaita e um acordeão tocavam melodias vivazes sem cessar. O repertório dos músicos era tão limitado como suas aptidões, mas compensavam ambas as coisas com seu entusiasmo.

   Quando Lydia e Ross viram que o carro familiar se detinha no pátio, precipitaram-se para ele para saudar sua filha e ao Jake. Ross baixou ao Banner do veículo

levantando-a no ar e fazendo-a girar.

   -Quase tinha esquecido quão formosa é, princesa. As tarefas do rancho não lhe hão afeado absolutamente.

   -Papai.

   Banner o abraçou com força quando a deixou no chão. Até esse momento não se deu conta do muito que o tinha sentido falta de. Parecia tão seguro e forte que desejava permanecer entre seus braços protetores durante muito tempo. Mas, é obvio, isso seria algo fora do comum e ela tinha que fazer que tudo parecesse normal, mesmo que seu coração estivesse destroçado e preferisse achar-se em qualquer outro lugar e não em meio de uma festa.

   Ela e Jake não haviam tornado a dirigi-la palavra desde que lhe havia dito aquelas coisas terríveis. Certamente, ela não estava familiarizada com a palavra, mas no contexto em que apareceu e tendo em conta o brilho dos olhos do Jake quando a pronunciou, podia imaginar o incalificablemente suja que era.

   Depois, quando teve terminado de vestir-se, Banner tinha saído ao alpendre dianteiro. O homem estava sentado no carro, fumando um charuto. Apenas a olhou, mas descendeu do carro e se aproximou para ajudada a subir. Ela desdenhou sua mão estendida e subiu por seus próprios meios. Ele simplesmente se encolheu de ombros, voltou para seu lugar, agarrou as rédeas e conduziu em silencio até o outro lado do rio...

 

 

                      

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