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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


VAGAS DE FOGO / Filipe Faria
VAGAS DE FOGO / Filipe Faria

 

 

                                                                                                                                                

  

 

 

 

 

 

A batalha por Allaryia começou.

No anterior volume das Crônicas foi relatada a viagem de Aewyre Thoryn e Kror rumo à Cidadela da Lâmina, local onde o jovem príncipe, a única esperança contra O Flagelo, procurou encontrar forma de se tornar um Lamelar sem ter que combater Kror. Não desejando deixar a sua vida nas mãos do caprichoso destino num incerto combate contra o drahreg — pois Ancalach não protege nenhum outro guerreiro em Allaryia dos poderes d’O Flagelo — Aewyre Thoryn estudou tomos ocultos e relatos ancianos em busca de uma alternativa. Embora as suas pesquisas tivessem sido em grande parte infrutíferas, a Cidadela provou ser um pródigo campo de treino para os dois guerreiros, que conseguiram obter um certo grau de domínio sobre a bravia Essência da Lâmina. Porém, quando a esperança começava a luzir no horizonte, O Bastardo jogou a sua carta, soltando em Allaryia um mal há muito aprisionado: Culpa, o seu próprio pai. Aewyre e Kror mal sobreviveram à passagem deste pela Cidadela, uma passagem que se saldou em custosas mortes, que deitaram as esperanças do jovem guerreiro por terra.

Por sua vez, a princesa Lhiannah, o seu mentor Worick de Taramon, e o burrik Taislin Mãosdelã, regressaram a Ul-Thoryn com o intuito de restituírem o corpo de Aezrel Thoryn à sua pátria, mas a sua recepção foi tudo menos esperada. Presos num ardil arquitetado por Dilet, servo d’O Anátema, Lhiannah e Worick viram-se acusados de alta traição e aprisionados. Já enclausurados, foram ainda acossados por Hepascar, haghral filho de Hazabel, a harahan morta por Aewyre Thoryn na batalha de Aemer-Anoth, e o thuragar foi gravemente ferido. Apenas o burrik continua a monte, completamente sozinho e desamparado, e dele possivelmente dependerão as vidas dos sem dois companheiros.

Quenestil Anthalos e Slayra haviam permanecido na Sirulia devido ao estado de gravidez da eahanoir, mas a fortaleza de Gul-Yrith, aquela que todos tomavam como o mais seguro local de Allaryia, provou ser uma armadilha mortal quando os exércitos de Tanarch atraiçoaram os seus opressores de longa data. Em grande parte peões inconscientes d’O Flagelo, os tanarchianos massacraram os sirulianos numa amarga e sangrenta contenda, e Quenestil e Slayra foram forçados a fugir com os Lasan, a nobre família eahlan. Encontrando a Sirulia a ferro e fogo, Quenestil optou por navegar rumo à Wolhynia, a terra onde no passado selara o seu destino como shura.

Allumno da Gema Vermelha, tutor de Aewyre Thoryn, separou-se do grupo e tenta presentemente deslindar as tramóias da Sombra, ocupando-se das insídias ocultas enquanto outros se propõem defrontar o inimigo em campo aberto.

As peças foram posicionadas, e os dados, lançados. O grupo de companheiros que dera início a uma quase inocente demanda acabou por desencadear uma série de eventos capazes de abalar os alicerces de Allaryia. Separados, cada um espera cumprir o seu papel nos preparativos para a vindoura guerra, mas o poder que a união dos seus esforços lhes conferia não mais os acompanha. Sucedeu por fim aquilo que todos mais temiam desde o fim da Guerra da Hecatombe: as hostes d’O Flagelo despertaram do seu torpor e foram uma vez mais soltas no continente. A esperança continua a residir em Aewyre Thoryn, um jovem com o peso do mundo sobre os ombros, mas a perfídia do inimigo aparenta não ter limites, revelando lentamente, camada após camada, toda uma série de diabólicos planos urdidos ao longo de duas décadas de clausura.

 

 

 

 

Devo cessar de momento a escrita do volume, pois detecto uma perturbação. Os eventos continuarão a ser registrados neste apêndice, passíveis de posterior inclusão no Livro Décimo, caso se revelem relevantes para a presente crônica.

Mediante uma pesquisa transitória pelos anais, constato não haver registro de semelhante perturbação no Cronoscópio Extemporâneo. Trata-se de uma sensação alienígena para mim, análoga à lenta instilação de infiltrações por recessos de pedra. As energias cronais que fluem há milênios, imperturbáveis, dão mostras de uma interferência momentânea, quase imperceptível, e que contudo destoa como um vagalhão no seu ininterrupto ciclo de serenidade. Sim, verifico que o Cronoscópio está efetivamente a ser infiltrado. As gavinhas de sombra que antes vira disseminarem-se pelo Pilar serpenteiam agora por entre os recantos da intemporal pedra, deslizando sinuosamente pelo metal dos escopos, rodas e eixos. Chegando ao chão, as sombras começam a serpear na direção umas das outras, e assim que colidem dão início a uma brusca e silenciosa cópula, aglutinando-se como partes de um todo separado. Não preciso de constatar a humanidade do vulto que começam a formar, nem tão-pouco o insidioso poder umbral que se faz sentir, pois a verdade encontra-se patente e evidente diante de mim.

O Flagelo chegou.

A penumbra dá lugar à forma humana d’O Bastardo, se é que se pode apelidar de «humano» tão desnaturalmente belo ser. Filho de sua mãe, Seltor é indubitavelmente uma potestade maligna encarnada num receptáculo humano à semelhança do seu pai, um mal tão antigo quanto o mais básico instinto de infligir malefícios a outrem em benefício próprio. As Entidades esvaneceram, mas Seltor permanece como um pernicioso legado de antanho, um anacronismo vivo de uma época que não pode nem se deve repetir, e que contudo teima em sobreviver e regressar, um visitante indesejado e uma persistente maldição que nem o tempo parece conseguir debelar,

Devo resistir ao meu costume de enveredar em extensas descrições, pois embora o ato de anotar as minhas percepções não me seja de forma alguma custoso ou minimamente moroso, esta é indubitavelmente uma situação que requer a minha total atenção. Não me é fácil focar a perspectiva num único ponto/espaço/tempo, pois o meu hábito, a minha função, é precisamente a de fazer uso da onisciência que me foi concedida. Observando, registrando, catalogando, correlacionando o presente com o passado, tudo numa miríade de ópticas... não, não me devo dispersar, O Cronoscópio foi infiltrado, e este é um assunto que me concerne diretamente. Posso recolher-me nos fragmentos de tempo anteriores à chegada de Seltor, refletir imerso nas frações cronais, alheio ao próprio tempo, mas antes de o fazer devo primeiro estudar a situação. Saber quais as intenções d’O Flagelo. Nessa altura poderei ponderar as opções e ramificações, e só então escolher o mais adequado procedimento a tomar.

Inconscientemente, acabei por o fazer. Retraí-me no tempo. Seltor ainda se encontra exatamente na mesma posição, prestes a erguer os olhos para me fitar. Está-me arraigado no corpo e na alma, mas devo evitar fazê-lo até ter ouvido o que ele tem para dizer. Esta situação não tem precedente, mas devo proceder com a minha função de a registrar, mesmo enquanto eu mesmo a vivo.

O tempo progride, então, e Seltor fita-me por fim. Os seus olhos negros e líquidos dispensam descrição pela mesma razão que a desafiam. Palavras são insuficientes, ou insuficientemente expressivas para o fazer. Mas de qualquer forma não me devo perder com descrições, pois retraio-me no tempo ao faze-las, e é a situação imediata a que de momento requer a minha atenção. Basta dizer que o esplendor da sua indumentária não é o mesmo do passado, apresentando-se esta negra como as sombras que são o seu domínio, dando mostras de uma certa despreocupação que é certa causa para inquietação para quem teme O Flagelo.

Mais grãos das areias do tempo escorrem, e os másculos do semblante de Seltor movem-se. Devo relaxar a minha contração temporal, de forma a poder focar-me no que presentemente decorre neste único ponto do tempo. O Flagelo sorri então, como se tivesse visto um amigo há muito ausente, e embora se note de fato uma certa satisfação na sua expressão, a única emoção que transmite é malícia.

O tempo torna a desacelerar, e sou forçado a reprimir os meus instintos uma vez mais, pois o único som que sai da boca de Seltor é arrastado e grave, e dessa forma não o consigo entender.

— Olá, Ankhamon.

Ouvindo essas duas palavras, é apenas com um esforço considerável que consigo prosseguir com este meu relato. Memórias nublam-me o discernimento. A minha praticada capacidade de observar situações dos mais diversos ângulos possíveis é tolhida pela revelação, e torna-se verdadeiramente difícil distanciar-me da presente situação.

Ele sabe.

E, contudo, não parece particularmente interessado em dar seguimento à revelação, limitando-se a olhar para os escopos e visores à sua volta com aquela que parece ser genuína curiosidade. Seltor aparenta perder momentaneamente o interesse em mim e começa a andar em redor, observando toda uma pletora de eventos que decorrem e decorreram em Allaryia: mortes, nascimentos, traições, encontros, toda uma cadeia de ocorrências indiscriminadas à espera de triagem. De mãos cruzadas atrás das costas, O Flagelo detém-se diante de um escopo que difunde a passagem da hoste de drahregs por ele solta, inclinando a cabeça para o lado enquanto o observa.

— Fascinante — diz, olhando uma vez mais em redor antes de me devolver a sua atenção. — Sempre soube da existência deste lugar, mas não foi fácil chegar aqui, sabes?

Pergunto-lhe como o conseguiu.

— O Cronoscópio pode estar segregado do mundo, mas a sua existência está inextrincavelmente ligada a Allaryia. Agora que difundi o meu sangue pelo Pilar, abriram-me vários caminhos...

Refiro que não é possível, que o Cronoscópio Extemporâneo está além do espaço e tempo convencionais, que foi propositadamente criado pelas Entidades como um repositório de conhecimento ao qual ninguém além delas e de mim teria acesso.

— Já chego a essa parte, Ankhamon. Luris, a minha mãe, fez umas quantas alusões a este lugar. Uma das pequenas maldades que ela nunca pôde deixar de engendrar, a de me deixar curioso e ansioso por saber algo que nunca me iria revelar. — Seltor estende a mão de palma virada para cima, e sobre ela forma-se uma pequena esfera umbral, que se dilata bruscamente numa forma alongada, assentando-lhe então na palma na forma de Dalshagnar, a Língua Negra. Empunhando a espada diante da face, Seltor parece momentaneamente perdido em pensamentos. — Todavia, quando a tentei matar, uma fração da sua alma ficou imbuída na minha espada. A sua voz... segredava-me coisas. Acabou por me revelar involuntariamente aquilo que eu queria saber.

Seltor torna a fitar-me, a sua expressão momentaneamente mais séria ao abrir a mão e fazer com que Dalshagnar se dissolva.

— Soube que o Escriba eras tu, que não morreras verdadeiramente, e que a tua função passaria a ser a de observar e relatar tudo o que de relevante sucedia em Allaryia, Só nunca soube porquê. Foram precisos vinte anos para perceber por fim.

O sorriso regressa à cara d’O Flagelo, uma espécie de alegria pueril de quem conhece um segredo que outros anseiam saber, mas que prefere brincar com expectativas. Tornando a cruzar as mãos atrás das costas, Seltor passa por mim num passo lento e ponderado, admirando o interior do Cronoscópio. Alheio a mim, sobe descontraidamente um lanço de escadas metálicas e observa um mostrador bojuda envolvido por três armilas com siglas numerais, que exibe a guerra dos ocarr com Thyr na Sétima Era.

— Vinte anos dentro da Ancalach... — rememora Seltor, tenteando a armila anual e inclinando a cabeça. — Como funciona isto? É só girar...? Ah... — Girando a armila até 4004 e as restantes duas até aos fatídicos dia e mês da sua derrota, o Anátema espera e revê o golpe fatal que lhe foi desferido por Aezrel Thoryn. — Vinte anos de dor, da mais insuportável agonia.

Desagradado pela memória, vira-se para mim do cimo da plataforma.

— A dada altura, a dor já fazia parte de mim. Permitiu-me um tipo diferente de introspecção. Deu-me tempo para pensar. Muito tempo.

Vendo que de momento não me encontro disposto a emitir qualquer comentário, O Flagelo prossegue o seu caminho pela plataforma, passando por uma série de eventos que naquele momento tomam parte em Allaryia.

— Compreendi muita coisa, Ankhamon. Percebi por que razão foste criado. Por que razão não morreste. O verdadeiro propósito que o Cronoscópio serve. E como poderia chegar aqui — explica, abrangendo o que o rodeia com um largo movimento em arco de ambos os braços. — Nunca o tentara antes. Não tinha motivos para tal, nem a capacidade para o fazer.

Detendo-se uma vez mais, Seltor observa um outro escopo, este exibindo a manifestação de um mago a singrar pelo Pilar, intrigado pelas gavinhas de sombra que o percorrem como uma extensa teia de aranha.

— Quando espalhei o meu sangue pelo Pilar, criei uma espécie de conduta para mim. A sombra que todos estes anos esteve alojada no Pilar, a que foi criada pelos sacrifícios dos Fadados, tenteou cada recanto seu em busca de uma via assim que lho ordenei — explica Seltor, ilustrando o que diz com meneios dos dedos de uma mão. — Mas há partes do Pilar que me estão vedadas, como os domínios divinos. E o Cronoscópio, como já referiste, está além do espaço e tempo convencionais. O Delta tomou as suas precauções, não fosse eu interferir com os seus verdadeiros planos.

Seltor vira então noutro lanço de escadas e desce-o com um vagar e descontração desconcertantes. Antes que disso me aperceba, o tempo desacelera novamente, a voz d’O Flagelo torna-se distorcida, e cada passo seu leva uma eternidade a pisar cada degrau. Por força de hábito, o meu instinto é o de aproveitar para retomar e registrar os eventos que negligenciei, mas não posso. Reitero que esta situação não tem precedente, e merece a minha total atenção.

— Porém, houve algo com o qual não contaram. Ou talvez a culpa tenha sido de Siris, um pequeno descuido cujas conseqüências eram de fato difíceis de prever...

Dirigindo-se a mim, Seltor dá por fim mostras da postura e tom que as lendas e relatos lhe atribuem, e aos quais eu estava habituado, o que é de certa forma tranqüilizador, na medida em que me permite prever aquilo com que posso contar.

— É que sabes, a Ancalach não foi concebida com o propósito de me matar. Quer dizer, supostamente era essa a sua finalidade, mas não o intuito da sua concepção... estou a fazer-me entender? — Aparentemente, algo na minha expressão dá-lhe a impressão contrária. — Não? Não interessa, é outro assunto totalmente diferente. O que importa é que, tendo estado aprisionado na Ancalach, atingi uma certa... sintonia. Uma empatia para com o poder que Siris usou para criar Ancalach; o mesmo poder que ajudou a criar este intrigante Cronoscópio.

Não compreendo as insinuações, mas tão-pouco deixarei que as insídias d’O Flagelo influenciem de alguma forma o meu relato.

— Não foi fácil, mas palmilhei o Pilar até aos limites circunscritos, e concentrei-me na divisa do poder de Siris, o que me abriu o caminho. As sombras permitiram-me percorrê-lo.

Detendo-se diante de mim, Seltor fita-me atentamente, como se fosse eu o objetivo da sua vinda, e a sua mão ergue-se para pousar no meu ombro. Não consigo evitar recolher-me no tempo, congelando O Flagelo na sua presente posição. Quais serão as suas intenções? Recuo no tempo, revendo toda a sua história, a sua herética concepção, o seu malfadado nascimento, os seus hediondos atos. Procuro um padrão, uma pista, uma resposta, mas falho em encontrar o que quer que seja. Não há nada que indicie semelhante comportamento, nada que aluda a uma qualquer intenção oculta a não ser a mais óbvia, a de me matar. Contudo, sei que não posso morrer. Sei que ele não me pode matar, e sei que não adquiriu forma alguma de o fazer. Porém, não posso esquecer que a perfídia d’O Flagelo não tem limites, e que a morte é apenas uma das suas muitas armas.

O tempo retoma o seu fluxo regular, e a mão de Seltor assenta sobre o meu ombro, firme sem ser autoritária, suave sem ser delicada. A mão de um sedutor.

— Sabes por que vim aqui, Ankhamon?

O Flagelo parece desconfiar de que sei mais do que aparento, mas a resposta que lhe dou é negativa.

— Vou matar os deuses. E, para isso, preciso da tua ajuda.

Repito a recapitulação da vida de Seltor. Causou a minha morte no passado, e dessa forma adquiriu os poderes que me haviam sido reservados. Quererá fazer o mesmo com os outros deuses? Tornar-se todo-poderoso? Impossível, e contudo não constitui qualquer surpresa.

Os meus pensamentos transparecem na minha expressão, pois Seltor parece lê-los.

— Estás muito enganado. Não é de todo essa a minha intenção, até porque é efetivamente impossível. Apenas o consegui contigo... sabes porquê? — O Flagelo aproxima a cara da minha, imergindo-me no negrume dos seus olhos. — Porque mo permitiram. Porque foi preordenado pelo Delta.

Não o acredito.

— Duvidas? — O lábio superior de Seltor quebra momentaneamente a seriedade da sua expressão, tremendo num trejeito jocoso, mas prontamente se realinha. — Queres dizer que nunca, por um instante sequer, te questionasse por que razão seria necessário um deus da morte, quando já existia o Guia?

O meu silêncio apenas incita Seltor a prosseguir.

— Por que não um deus da vida também, já agora? Afinal, não foi sempre esse o princípio pelo qual o Delta sempre se regeu: o equilíbrio? Ação e reação? Tu eras uma redundância, um ser supérfluo, e se reparares bem, não era sequer por ti que os mortos passavam, mas pelo Guia. Fiquei muito desapontado quando tomei o teu lugar, pois o poder não era nada do que eu esperara.

Seltor liberta-me momentaneamente do seu olhar, mas a mão permanece sobre o meu ombro. Parece olhar para o passado, ou então o escopo que exibe o bobo Dilet chamou a sua atenção.

— Não podia controlar os mortos, não detinha qualquer poder sobre as suas almas. Porém, pude ressuscitar aquele que de qualquer forma estava além do poder do Guia: o meu meio-irmão Wrallach. Ele só pereceu verdadeira e irrevogavelmente quando foi morto por Torun, sangue do sangue de ambos os seus pais. A Lança de Istegard fora insuficiente; podia ter o poder de Siris, mas era como um filho andrógino de um nascimento hermafrodita, faltava-lhe a vitalidade divina para poder verdadeiramente terminar a existência de... mas estou a divagar. Pude também pactuar com quem quisesse prolongar a sua vida após a morte, adquiri o poder para criar os Fadados e os moorul, mas isso tão-pouco é o verdadeiro papel de um deus da morte, não te parece? A sério que nunca pensaste nisso? Tanto tempo aqui encafuado, e sempre te limitaste apenas a escrever?

Não tenho resposta. O meu interesse está morbidamente cativado, e não recuo nem paro o tempo.

— Então eu ajudo-te. Foi precisamente essa a intenção do Delta. Tu foste especificamente criado para seres morto. Luris, a minha mãe, sabia que eu iria tentar tomar o teu lugar para recuperar o Wrallach. Porquê? Porque tanto ela como Sirul e Siris sabiam que o meu papel, o meu propósito, a razão pela qual sequer me foi permitido viver após ela ter aberto as pernas ao meu desgraçado pai, não era nada de pouca monta. Estava sozinho contra o mundo. Mas não me podiam ajudar diretamente, oh não, isso revelaria demasiado.

O Flagelo é insano. O aprisionamento em Ancalach quebrou a sua mente.

— Com a ajuda do meu meio-irmão Wrallach, o apoio oculto dos Fadados, e o ódio e repulsa adicionais que me foram dirigidos por ser o «deus da morte», tornou-se muito mais fácil cumprir o meu verdadeiro propósito. Não acreditas?

Acredito que ouço os devaneios de um louco. Os tendões da mão de Seltor retesam-se ligeiramente, não devido a qualquer raiva aparente, mas ao que eu apenas consigo decifrar como o desalento de alguém que não se está a fazer conseguir entender. Contudo, relaxa quase de imediato e larga-me o ombro, cruzando calmamente os braços diante do peito.

— Sabes por que é que foste eleito como Escriba?

Não tenho resposta para a pergunta, pois nunca pus sequer os motivos da minha função em causa. Após a minha morte, senti que sempre fora esse o meu destino.

— Porque, desculpa-me que to diga, o teu trabalho é uma maçada — diz Seltor, olhando para os lados de sobrolho erguido. — Achas que alguém se voluntariaria? Preso para toda a eternidade nesta... ampulheta gigante? Não, meu bom Ankhamon, o Delta reservou-te este lugar. Só um morto ê que se conformaria com semelhante função, embora eu desconfie que não estivesses verdadeiramente morto, apenas dormente. Mas essa última confesso que não passa de mera especulação. Resumindo e concluindo, armaram-te uma cilada.

Algo na minha expressão convence Seltor de que o culpo pelo que sucedeu.

— Sim, não estou a tentar isentar-me de culpas — confessa com um quase apologética gesto de mãos abertas. — Eu fui na cantiga que nem um patinho a patear atrás da mãe, não digo que não. Mas será mesmo a mim quem deves culpar? Escolhi-te como alvo, ê certo, pois eras tu o isco preparado pelo Delta. Mas apenas apelei aos teus instintos mais básicos; quem deu largas à sua ambição foste tu, e acabaste por pagar o preço por acreditares que verdadeiramente poderias ser mais poderoso que os teus pares. Podias ser um deus, mas no fundo eras apenas humano. Um humano que o Delta sacrificou como um cordeiro.

Lembro-me. A sua voz sedutora, as suas sugestões aliciantes, quais ganchos que se fincavam nos meus mais íntimos e reprimidos desejos, repuxando-os. Tal como o fazem agora, sinto-o. Cada palavra sua é uma amante que corteja os meus instintos, um íntimo cúmplice que me encoraja a ser verdadeiro para comigo mesmo. Mas não devo, não lhe posso dar ouvidos.

Seltor suspira,

— Diz-me uma coisa, Ankhamon: sabes para que serve o Cronoscópio? É um repositório de conhecimento, a biblioteca da história de Allaryia.

— Certo. Mas para quê? Para que tu tenhas que ler para toda a eternidade? Ou será que existem seres que eu desconheço e que têm acesso a ela?

Não.

— Qual a sua utilidade, então? As Entidades foram-se, e provavelmente contam-se pelos dedos de uma mão os mortais que têm conhecimento da existência do Cronoscópio, se é que os há. Um repositório para o conhecimento em benefício de quem?

Não tenho resposta. Nunca me pareceu necessária.

— Eu digo-te para quem — propõe-se Seltor, e os seus olhos adquirem uma renovada intensidade, como se algo tivesse por fim atiçado a sua fúria. — Para as próximas Entidades.

Não compreendo.

— O Cronoscópio existe para que Allaryia não seja esquecida. Para que, quando Allaryia for destruída, as próximas Entidades saibam o que fazer e o que não fazer. — Os punhos de Seltor cerram-se, e a sua cólera não ê encenada. — O Delta vetou Allaryia ao abandono, perdeu a esperança nela e deixou-a à sua sorte. E a sua sorte não lhe será nada favorável, Ankhamon, a menos que me ajudes. Allaryia encaminha-se lentamente para a sua destruição, e apenas eu o posso impedir.

Inconcebível.

— Ainda não acreditas? Então olha em redor — desafia ele, descrevendo um abrangente semicírculo com o braço livre. — Olha para cada um destes teus escopos e diz-me o que vês. Sim, olha para o presente e para o passado, para cada evento desde o final da Primeira Era até hoje, e diz-me o que vês.

Assim faço, não por aquiescência ou obediência, mas pela necessidade de me ver livre dos tentáculos que me envolvem a mente. O meu espírito está destreinado, estou desabituado de tantas memórias, tamanhas emoções, tais sensações. Cada palavra de Seltor ê um jorro de sensualidade que me banha como a um campo árido, rápido de mais, com demasiada intensidade, submergindo-me numa torrente que me arrebata o ar. Sinto que começo a perder a perspectiva. Seltor fica petrificado diante de mim enquanto viajo pelo passado de Allaryia, revendo a Primeira Era e todas as que se lhe seguiram, falhando em encontrar algo de novo e pronto a regressar ao presente. Contudo, o transbordar de emoções do passado levam-me a revisitar a minha própria morte e subseqüente renascimento, onde revejo a minha aniquilação às mãos dos outros deuses. Segue-se a incumbência de Escriba, e à luz das novas revelações não posso deixar de refletir. Revejo a evolução dos humanos. A vinda dos Filhos do Caos. A criação dos eahan. Dos thuragar. Dos drahregs. A Guerra da Hecatombe. O desagregar do Delta e o nascimento dos Novos Deuses. Vejo guerra e alianças, tréguas e traição, felicidade e infortúnio, união e dissensão. E por fim compreendo.

Ele tem razão.

Que os deuses estejam conosco, ele tem razão.

O tempo torna a fluir, e Seltor fita-me, tendo acabado de falar. Pergunto-lhe o que pretende fazer e, embora pareça ofendido por eu aparentemente não ter acatado a sua sugestão — pois não tem como saber que o fiz — acede a dar-me uma resposta.

— Nada. A única coisa que tenho que fazer é matar os deuses, pôr fim à corrupção que eles representam. Agora que pus as coisas em andamento, os eventos darão seguimento a si mesmos.

Não compreendo totalmente, mas Seltor parece interpretá-lo como o princípio de uma recusa e não me adianta mais pormenores, incentivando-me antes.

— O Delta armou-te uma cilada, Ankhamon. A eles não deves nada. Os deuses mataram-te. Deves-lhes isso. — Desta feita, pousa-me ambas as mãos sobre os ombros. — Não tens que continuar com esta existência, com este... tédio insuportável. Mereces descanso, e eu posso providenciar-to, se mo deixares. Isso, e conceder-te vingança pelo que te fizeram.

Mas se foi ele... não, os Novos Deuses... o Delta... eu... a minha escrita entaramela-se, noto-o, e nada faço para o corrigir. Não recuo no tempo, nem o abrando. Seltor, de que me convenceu, me induziu a... ele, a oferecer-me compaixão? Tramóias, truques, decerto. Mas e o Delta? Foi compaixão, o que me ofereceram? Os Novos Deuses, algum deles ma mostrou?

Pergunto de que forma pretende ele dar-me o descanso que me promete.

— Não podes ser morto, mas julgo que podes causar a tua morte — explica-me ele. — E, ao fazê-lo, ajudar-me-ás a alcançar o domínio dos deuses.

Pergunto como tal é possível.

— Consegui aceder aqui ao Cronoscópio por ter entrado em sintonia com o poder de Siris. Em princípio, dever-me-ia ser possível fazer o mesmo com os domínios dos deuses por ter tido acesso ao teu poder divino, mas quer-me parecer que o Delta previu isso.

As sobrancelhas de Seltor franzem-se, incomodadas.

— O acesso está-me bloqueado, e por mais que tente, não consigo, com ou sem sombras no Pilar. Preciso de uma via alternativa, e só tu ma podes providenciar,

Como?

— O Delta pode ter-te criado como isco, e a sintonia com esse poder é-me inútil, mas depois tornou-te algo mais. Algo diferente.

As mãos de Seltor sobem dos meus ombros para os lados da minha face, e O Flagelo aproxima as nossas uma da outra, levando-me numa nova viagem até ao âmago do meu ser através dos seus olhos negros.

— Allaryia e o Pilar não têm segredos para ti. Não tem segredos para o Cronoscópio, isso sim.

— Não ê o Cronoscópio o que me interessa, mas sim tu. Aquilo que eu absorvi de ti não passava de um engodo, não era poder divino. Mas tu estavas destinado a ser um Novo Deus, disso estou certo. O poder ainda está latente em ti, apesar de seres mais e menos que um deus.

Tudo especulações. Não tem como o saber.

— Como já disse, vinte anos de aprisionamento dão-nos muito tempo para pensar. Não imaginas a quantidade de cenários que me passaram pela cabeça nas vascas da agonia, a quantidade de vezes que vi e revi e repensei cada um. — Sinto um ligeiro tremor das mãos de Seltor, como que causado por uma memória desagradável. — Tudo o que te preciso é que te abras a mim, Ankhamon, que me sirvas como conduta. Isso destruir-te-á, mas permitir-te-á igualmente a paz pela qual há tanto tempo anseias.

Não compreendo como o posso fazer.

— Também não sei como, mas sei que o podes fazer. E posso ajudar-te. A des incorporação é uma... especialidade minha.

As suas mãos apertam-me ligeiramente a cabeça, soltando-ma de seguida e recolhendo-se atrás das costas de Seltor.

— Estou convicto de que é esta a solução, mas sem a tua ajuda será tudo em vão, Ankhamon. O que te fizeram passará impune, e Allaryia estará condenada. Pensa bem. Não te posso...

Recolho-me uma vez mais no tempo, deixando a frase de Seltor a meio. Passo uma eternidade recolhido num recanto do tempo, introspectivo como já não me recordava capaz de ser. E percebo que estou cansado. Muito cansado. Mais exausto do que alguma vez julgara possível, pois o cansaço nunca fora uma consideração no cumprimento do meu incessante dever. Não desejo continuar, só quero que tudo acabe. Desejo paz, e sabendo o que agora sei, nunca a terei caso continue a ser o Escriba. Pearnon não passa de uma máscara, de uma falsa identidade, uma mentira.

Basta de mentiras.

— ...forçar a nada. Aceito.

Seltor parece impressionado com a aparente rapidez da minha resolução, que para ele se deve assemelhar a uma certa leviandade.

— Tens a certeza? Não preferes refletir? Preciso que estejas empenhado nisto de alma e coração, Ankhamon,

Viro-lhe as costas, e dirijo-me lentamente a uma ampulheta próxima, cuja âmbula superior está prestes a vazar. Nela vejo a minha reflexão com outros olhos, os de um homem que quis ser um deus e que se perdeu no processo. Não reconheço o semblante ao puxar para trás o capuz, nem noto nele quaisquer características distintas que me associem a uma particular identidade. Sou uma carcaça vazia, uma alma extraviada, um mero joguete.

Não mais.

— Estás pronto, então? Estou.

— Consegues focar a tua perspectiva nos reinos divinos?

Ergo os braços, e todos os escopos e mostradores em redor exibem as mais variadas cenas decorrentes nos domínios dos Novos Deuses. Os meus nove assassinos.

— Excelente — diz Seltor, acercando-se de mim e fitando-me diretamente nos olhos. — Agora concentra-te, meu bom Ankhamon. O processo será indolor, garanto-te. Olha-me nos olhos, e recorda o dia da tua «morte».

Acabei de o fazer, e não me custa repeti-lo.

— Já não és quem eras. O Delta fez de ti um mero receptáculo das tuas energias, energias sobre as quais deténs total controlo. Solta-te, Ankhamon. Liberta-te. E eu vingar-te-ei.

Faço-o. A tarefa prova ser surpreendentemente fácil, mesmo enquanto fraciono por momentos a minha concentração no tempo para registrar os meus últimos pensamentos, mais por hábito que por genuína vontade. Sinto a minha essência desfiar-se como um novelo, e a sensação é estranhamente serena. Seltor acena curta e aprovadoramente com a cabeça, e então desagrega-se ele também, tornando-se um ente de pura sombra, e arroja-se contra mim. O contato tão-pouco é doloroso.

Recolho-me uma última vez no tempo, incapaz de ignorar totalmente o medo do oblívio. Porém, a voz de Seltor — momentaneamente parte daquilo que eu sou antes da minha total aniquilação — tranquiliza-me, assegurando-me de que me irá vingar e que eu posso partir para o meu merecido repouso. Pede apenas que eu me concentre, e eu acedo.

Está feito.

Por estranho que pareça, resta uma consciência residual minha no Cronoscópio, mesmo agora que ele se encontra vazio. Não restam quaisquer vestígios do meu corpo ou de Seltor. Estarei irreversivelmente ligado a ele? Não, os escopos e mostradores piscam e apagam-se um a um, as engrenagens deixam de rodar, e as ampulhetas não mais giram. Decerto não passa de um fragmento da minha consciência, ainda recolhido num qualquer recesso do tempo, e que fatalmente terá que o abandonar. Sim, sinto o Cronoscópio abrandar.

Paz. Por fim, paz...

 

O sol desaparecia atrás das montanhas da Cinta, e a noite descia lentamente sobre Pesoria na forma das sombras dos picos acidentados. Pesoria era uma aldeia situada nos baixos contrafortes da Cinta, entre a cidade-entreposto do Portão do Norte e a ponte na fronteira com os domínios de Vaul-Syrith, dois nexos comerciais de importância crítica. Tinha um moinho de vento, duas estalagens, e uma série de edifícios cúbicos com tetos cônicos característicos da região. Os seus ocupantes dedicavam-se sobretudo ao fabrico e reparo de rodas, bem como carroças e vagões em geral, e havia ainda dois tanoeiros e três correeiros. Em virtude da sua localização, era uma comunidade próspera, embora nos tempos correntes isso fosse visto mais como uma maldição que uma benesse, pois Vaul-Syrith declarara guerra, e Pesoria seria das primeiras a sofrer com uma eventual investida. A guarnição da ponte fora reforçada, e Ul-Thoryn destacara um corpo de soldados à aldeia, para prevenir uma debandada desorganizada e eventuais pilhagens. Contudo, as gentes de Pesoria tinham-se mantido maioritariamente calmas, e a chegada do Inverno parecia ter resfriado os ânimos de ambos os lados. Afinal, «guerra» era uma palavra que havia vinte anos não constava do vocabulário de Nolwyn; certamente não a iriam agora empreender dois vizinhos?

Fosse como fosse, lorde Aereth insistira na manutenção da guarnição provisória, e em poucas semanas os soldados tinham-se tornado parte da aldeia. As gentes de Pesoria eram calorosas e amigáveis, com grande tradição hospitaleira, e os homens de Ul-Thoryn nunca se sentiram mal recebidos, sendo regularmente convidados a jantares em casas de aldeões e com a garantia de pelo menos uma rodada semanal por conta da casa. Em compensação, nos dias mais calmos, também aproveitavam para ajudar os seus anfitriões na manutenção das cercas e na recolha de lenha. Amizades foram formadas, os jovens da aldeia mostravam interesse em juntar-se à milícia de Ul-Thoryn, e já se falava mesmo em possíveis casamentos, assim que chegasse a Primavera.

Um dos mais badalados era o de Bartilio, um jovem do Distrito do Porto de Ul-Thoryn, enviado para a província para «ganhar calo», e Oranela, filha do moleiro. Os pretendentes desta e os respectivos pais não viam o caso com bons olhos, pois Oranela era um bom partido, sendo filha única do enviuvado moleiro, mas este parecia satisfeito com a escolha de Assana para a sua filha, e tinha concedido a sua bênção ao jovem miliciano. Diziam as más-línguas que assim fora porque Oranela sempre infernizara a vida do pobre velho, queixando-se incessantemente do tédio que era viver em Pesoria, bem como do enfado que os trigueiros moços da aldeia lhe causavam, e que esta era a forma de se ver livre dela. Fosse como fosse, a rapariga parecia feliz com a sua sorte, e ao tímido Bartilio, que estava habituado a fazer aquilo que lhe mandavam, não lhe parecia desagradar a perspectiva de se casar com uma mulher bonita e mandona.

Era uma noite de Sirulan, no vigésimo quinto dia do mês de Balsaman, Dia da Toca, um feriado regional no qual as crianças da aldeia iam à caça de toupeiras. Tratava-se de uma tradição ancestral, bem como um resquício (e, alguns afirmavam, uma paródia) da antiga animosidade dos humanos para com os thuragar, quando estes últimos ainda teimavam em permanecer perto da superfície. A reviravolta da primeira grande guerra dos humanos contra os thuragar e drahregs, na qual os thuragar se haviam virado à última hora contra os seus aliados, nunca fora particularmente convincente, pois os humanos estavam então a vencer com a ajuda dos sirulianos. O evento ficara na história como uma simples manobra de traição de um dos lados perdedores, mas como a batalha fora ganha o assunto ficara por esclarecer. Ainda assim, houve periódicas caças aos thuragar nas comunidades mineiras, bem como fumigação de túneis e emboscadas aos forrageiros que ousavam vir à superfície. As raízes do feriado pareciam assentar nessa outrora dignificante ocupação, quase idêntica à caça a toupeiras. Não foi senão quando Istegard surgiu na Guerra da Hecatombe com a lança que matou o temível Wrallach, que os humanos por fim cessaram o vilipendio dos thuragar, passando então simplesmente a fazer pouco dos atarracados humanóides. Não mais os caçavam, mas tão-pouco partilhavam com eles sequer os ínfimos espaços na superfície que estes requeriam para sobreviver, e as minas continuaram a ser duramente contestadas até os thuragar retirarem definitivamente para as entranhas da terra. Como alternativas à expiação, havia sempre as toupeiras, que durante o Inverno irrompiam à superfície em busca de alimento adicional, e foram os buracos destas que as crianças a partir da Sétima Era passaram a encher de fumo, matando à cachaporrada as que encontravam.

O Inverno começara bastante frio, como que em represália pelo estuante Verão, mas isso não impediu os pesorianenses de se reunirem na praça da aldeia para a grande celebração do dia. Os festejos do Dia da Toca culminavam de noite, quando os aldeões cavavam um grande buraco na praça, onde cada um enterraria um qualquer bem perecível e simbólico, como uma espécie de desejo para o segundo semestre do ano. Enterrar uma toupeira era considerado um bom agouro, como se o cumprimento do desejo fosse uma espécie de resgate exigido à própria terra, à qual se tirava e subseqüentemente devolvia o seu filho dileto. Da terra para a terra, na esperança de uma boa colheita, sempre fora esse o espírito do último rito do Dia da Toca, e aquele dia não era exceção. As crianças não tinham conseguido apanhar muitas, e os pais das mais afortunadas tinham gabado as suas durante todo o festejo. Feitos os desejos, os aldeões celebraram o ato com uma salva de palmas, abraçando-se então todos e desejando boa sorte uns aos outros.

Uma pequena porção de terra adjacente às emaranhadas raízes de um velho carvalho cedia, e o repentino vazio engoliu pedras, pó e terra. A cabeça de uma pá irrompeu como um sufocado verme, girando em si e descendo e subindo repetidamente para fazer ruir os grossos pedaços de terra úmida.

Uma rotunda aldeã ergueu o braço e deu o mote com um grito, iniciando a verdadeira festa. Houve então uma verdadeira corrida às fogueiras, em volta das quais as pessoas começaram a dançar, ficando para trás apenas os mais calmos ou os menos sociáveis, aos quais ficou entregue a tarefa de repor a terra no buraco dos desejos. Os aldeões mais velhos encontravam-se entre esses, e limitavam-se a abanar as cabeças grisalhas ou carecas, pegando nas pás com o intuito de se aquecerem com um pouco de trabalho, pois a noite estava fria. Os soldados também se encontravam presentes, mas apenas os mais disciplinados envergavam as suas brigandinas, e a maior parte tinha o braço em redor da cintura de uma rapariga em vez da haste de uma lança. Havia quatro fogueiras à volta do buraco cavado, bem como mesas e pipas de vinho estendidas sobre cavaletes, estas últimas a pingarem das aberturas, uma das quais com o corpo inconsciente de um velho de nariz ruborizado estendido ao lado.

Havia agora um buraco com um dossel de raízes de árvore, e dele saiu um elmo com um protuberante visor cônico que lembrava um focinho de toupeira. Vapor jorrou dos respiradouros do visor quando este olhou para os dois lados, e as duas frestas horizontais para os olhos davam-lhe um ar distintamente doloso. O elmo olhou então para baixo e no seu interior metálico ressoou uma série de rudes palavras que lembravam passos em terra escabrosa. Dito isto, o seu braço brotou da terra de punho cerrado e crispado debaixo da cabeça de um martelo de guerra com um temível bico recurvo e um espeto no topo.

— Vamos dançar, Bartilio! — exigiu Oranela, puxando o seu noivo pelo braço.

A rapariga tinha uma cara perfeitamente redonda com melosos olhos aclarados, e usava os cabelos castanho-escuros presos atrás, com um aro de firme cordel entrançado a pender-lhe da nuca. Bartilio franziu o cenho moreno, parecendo pouco à vontade com a idéia, e abanou a cabeça de espessos cabelos encaracolados.

— Anda! Não me caso com um homem que não goste de dançar! — insistiu a rapariga, puxando o hirto soldado.

Porém, Bartilio parecia ter mais medo de dançar que de perder o seu casamento, e manteve-se firme como até então raras vezes o fizera.

— És um chato — acusou Oranela, fazendo beicinho e virando-lhe as costas, correndo sozinha para o círculo de dançarinos.

Saindo completamente do buraco, o elmo revelou fazer parte de um arnês pequeno, compato e robusto, constituído por uma série de peças articuladas, cujas frestas exalavam vapor na fria noite. As espaldeiras eram de tal dimensão que o elmo praticamente encaixava nelas, dando um ar atarracado à armadura. O pequeno guerreiro empunhou então o cabo do martelo com ambas as mãos e olhou em redor, roçando as placas do arnês para sacudir a terra. O seu braço esquerdo era pouco manobrável, pois o que lhe revestia a mão era uma tarja, uma manopla com um disco de metal perpendicular ao seu eixo a servir de escudo e com um espeto no punho. Um outro par de mãos revestidas de aço agarrou-se às raízes sobre o buraco.

Oranela foi muito bem recebida pelos homens e rapazes que dançavam, e estes cobriram-na de atenções assim que esta aterrou no meio deles, como se aquela fosse a sua última oportunidade. Agradada com a atenção, a rapariga borboleteava fugazmente de um pretendente para outro, rodopiando e rindo puerilmente. Os cantos da boca de Bartilio descaíram ligeiramente, e este olhou em redor, sentindo-se repentinamente deslocado no meio de toda aquela pândega, e distintamente desconfortável com estar simplesmente ali de braços estendidos a olhar com cara de bezerro. Alguns dos seus companheiros ajudavam a tapar o buraco dos desejos, e Bartilio dirigiu-se a eles.

Já eram vinte os pequenos guerreiros arnesados e munidos de martelos de guerra que se encontravam fora do buraco. Falavam silenciosamente entre si, de olhos fitos nas fogueiras a cerca de uma centena de passos de distância, e quem ouvisse a sua conversa atribuiria provavelmente os ruídos ao lento arrastar de um cadáver por cascalho. Os seus arneses eram uniformes na aparência, dando-lhes o aspecto de toupeiras metálicas, e todos exalavam vapor no ar frio da noite. Nova agitação no buraco chamou-lhes a atenção, e todos viraram os elmos para verem a enorme cabeça de maça que dele irrompeu, ostentando quatro temíveis rebordos afiados em forma de garras. Estes cravaram-se em solo e raízes, apoiando a mão que surgiu a agarrar a borda do buraco, e então o último dos guerreiros içou-se para o exterior. A lua incidia-lhe nas costas, ensombrando a sua cara desprovida de elmo, mas a sua voz tinha um tom ainda mais metálico e fragoso que as dos que usavam um. As suas palavras tiveram efeito imediato, e o grupo espalhou-se e foi em direção às fogueiras.

Bartilio pegou numa pá e começou a repor a terra no local do qual esta fora escavada, juntando-se aos seus companheiros. Um deles, Tiesoldo, chamou a atenção de um terceiro com um toque de cotovelo, e abeirou-se não tão discretamente de Bartilio.

— A Oranela parece estar a divertir-se — comentou, olhando de soslaio para o camarada cuja atenção chamara, mas este limitou-se a abanar a cabeça.

— Hum — respondeu Bartilio laconicamente ao recolher terra com a pá.

— E os seus companheiros de dança também — continuou o seu interlocutor.

— Não gosto de dançar.

— Ai, Bartilio, Bartilio — abanou Tiesoldo a cabeça, atirando um bocado de terra ao ar com um movimento teatral da pá. — Lindo sarilho em que te foste meter. Aquela rapariga vai-te sugar até ao tutano, e tu vais agradecer-lhe e perguntar-lhe o que podes fazer para que lhe saiba melhor. Conselho de amigo — disse, tocando na coxa de Bartilio com a ponta do cabo da pá. — Livra-te dela enquanto podes, ou ela planta-te chifres na testa antes que tu consigas dizer: «Mas é meu?»

— Já chega, Tiesoldo — advertiu Bartilio em voz baixa.

— Ah, isso antes de gastar cada cobre teu...

— Já chega! — vociferou o rapaz, cravando a pá no chão e achegando-se de Tiesoldo de peito enfunado, roçando o seu nariz no do seu mais alto companheiro. — Não te admito que fales assim da minha noiva!

O grupo de pequenos guerreiros arnesados caminhava tão furtivamente quanto as suas bem oleadas armaduras lhes permitiam. O ruído que os festejos dos aldeões causavam era mais do que suficiente para abafar o ranger do metal que os revestia, mas os guerreiros estavam habituados ao silêncio sepulcral dos seus túneis subterrâneos, onde um rangido indiscreto poderia significar a morte. Havia poucas nuvens no céu, e a lua luzia branca nos contornos dos seus arneses, fazendo brilhar as vaporosas exalações dos respiradouros dos seus visores. A linha não parava de se estender a partir do buraco, e bifurcava-se a cinqüenta passos da aldeia, começando a circundá-la. Dedos de aço estavam enclavinhados em cabos de martelos, e os elmos iam girando de lado a lado, verificando a distância à qual se encontravam uns dos outros.

Bartilio e Tiesoldo encaravam-se como dois galos, e tinham como audiência as restantes pessoas que ajudavam a tapar o buraco. Os que festejavam estavam alheios à iminente luta, mas os civis que se encontravam em redor cessaram o seu trabalho e observaram atentamente. Os soldados entre eles, porém, largaram as suas pás e dirigiram-se aos dois com o intuito de os separar. O seu capitão permitira-lhes tomar parte nos festejos, e se houvesse problemas ficariam certamente de patrulha todas as noites dos meses seguintes.

Vá lá, vocês os dois — disse o primeiro, enfiando as mãos entre os peitos de ambos com o intuito de os apartar. — O capitão deixa-nos todos de molho se houver problemas.

Tiesoldo sorriu e ergueu as mãos.

— Faz como quiseres, Bartilio. Era só um aviso de amigo. Nem todos conseguem encontrar uma divaroth como a minha Druela, e sinto-me na obrigação de ajudar os menos afortunados...

— Não falas assim dela, ouviste? — achou Bartilio por bem advertir, erguendo o indicador mesmo enquanto era afastado de Tiesoldo.

O soldado que os apartara aos dois deu-lhe uma palmada nas costas e virou-lhas, tentando criar a maior distância possível entre ambos. Como os ânimos pareciam ter serenado, os aldeões que se encontravam por perto recomeçaram a tapar o buraco, mas Tiesoldo ainda não dissera a sua última palavra.

— Já que não te importas, acho que vou dançar um pouco com a Oranela. Já que ela parece tão disposta a roçar-se àquele, pode ser que faça o mesmo comigo...

Bartilio virou-se bruscamente e lançou-se sobre Tiesoldo. Os dois rebolaram pelo chão, engalfinhados, e os aldeões em redor tornaram a largar as pás para ajudarem a separar os dois soldados.

A agitação aumentou na aldeia, e os pequenos guerreiros arnesados sentiram que chegara o momento. Cerca de quarenta tinham formado um espaçado círculo de aço em redor da povoação, e aguardavam apenas a ordem para atacar. O seu líder fazia parte do círculo, e empunhava a sua enorme maça de quatro rebordos curvos com ambas as mãos. Tanto a sua arma como a sua armadura estavam cinzeladas com motivos e runas telúricas, e o arnês era feito de inúmeras peças soberbamente articuladas, à semelhança dos que os outros usavam, e o seu aço brilhava de forma estranha ao luar, fruto das ligas metálicas usadas no seu fabrico. Ao contrário dos outros, não usava elmo, mas a sua cara era ensombrada pela lua nas suas costas e pelas espaldeiras que a ladeavam, deixando apenas antever uma robusta careca. Os visores estavam virados na sua direção. Todos aguardavam o seu comando. Os dedos da sua manopla rangeram ao crisparem-se no cabo da maça.

Bartilio e Tiesoldo trocavam socos, rebolando pelo chão, raspando as cabeças um do outro com os nós dos punhos. Havia gritos à sua volta, à medida que mais pessoas se iam apercebendo da luta, mas os dois estavam de tal forma engalfinhados que era difícil sequer tentar separá-los. Tiesoldo acabou por ficar por cima, esmurrando a testa de Bartilio enquanto este lhe percutia as costelas.

— Separem-nos! — gritou alguém, abafado por semelhantes imprecações.

— Tiesoldo! — chamou um camarada.

— Chega-lhe! — incentivou um qualquer fulano mais entusiasmado pela luta.

Um soldado corpulento ousou meter-se no meio da contenda, e pegou em Tiesoldo por debaixo das axilas, entrelaçando os dedos atrás da sua nuca e arrancando-o de cima de Bartilio. Ambos desferiram chutes nos pés e canelas um do outro, e Bartilio ainda se tentou levantar para ir atrás do seu adversário, mas foi rapidamente refreado por camaradas seus. Sangrava do nariz e tinha os olhos arregalados como os de um lunático enquanto rogava todo o tipo de pragas a Tiesoldo, continuava a lançar reptos e se agarrava ao flanco, no qual o pomo da sua espada se enterrara quando Bartilio lhe saltara em cima.

— Acabou! — bramiu o soldado corpulento que pegara em Tiesoldo, arrojando-o sobre as ancas e pondo-se entre os dois. — Ouviram? Acabou!

Contudo, o grito desumano que então se fez ouvir deu a entender que acabara de começar.

Um coro de vozes medonhas e metálicas seguiu-se, gelando o sangue a todos os presentes e dando início a uma desenfreada corrida. As vozes rudes persistiram, dando continuidade àquele que parecia ser um grito uníssono, e o estrupido de passos acerados aproximava-se como um vagalhão de aço. Pessoas começaram a gritar, outras a olhar em redor aparvalhadamente como ovelhas presas no curral, e outras pegaram instintivamente em crianças ao colo. O pânico instaurou-se entre a multidão quando se avistaram os contornos metálicos dos vultos iluminados pelo luar, e rebentou verdadeiramente quando a luz das fogueiras os revelou pelo que eram. De martelos empunhados, os thuragar arnesados abateram-se sobre os indefesos aldeões, esmagando carne e ossos com brutalidade desferrolhada. Os humanos gritavam e corriam, encurralados com os disformes monstros, cujas sombras espalhadas pelas fogueiras os faziam parecer maiores do que eram. Oscilando os martelos para a esquerda e para a direita, cada um dos guerreiros thuragar limitava-se a correr para o meio dos desnorteados e apavorados inimigos, distribuindo morte contundente por onde passava.

— Bartilio! — gritou Oranela estridulamente, correndo de saias empunhadas e sendo derrubada por um indivíduo que com ela colidiu.

Ainda a sangrar do nariz, o jovem despertou do seu torpor e desembainhou a espada, correndo na direção da sua noiva. Um thuragar saltou-lhe no caminho, e o arco que o seu martelo descrevia destinava-se à cabeça de Bartilio, que a desviou a tempo, ripostando com um corte que atingiu inofensivamente a espaldeira do oponente. Bartilio nunca estivera num verdadeiro combate. Tudo o que lhe fora ensinado esfumou-se repentinamente, e a espada pareceu-lhe um instrumento estranho na mão, pelo que a usou como se fosse uma das ferramentas de falquear que usara na oficina de carpintaria na qual trabalhara. O thuragar avançava sem medo, confiante na proteção do seu arnês, e apenas vacilou ligeiramente quando Bartilio o atingiu em cheio no elmo com uma desvairada espadeirada. O jovem batia com a lâmina como se de um pau se tratasse, e continuou a golpear o thuragar, esporeado pelos gritos em seu redor, pelos enojantes baques surdos, molhados e crocantes, pelo rufar cavernoso do seu coração nos seus ouvidos. O centro do seu mundo já não era Oranela, mas sim aquele medonho martelo com um bico recurvo, ao qual estava colada a sangue uma mancha de cabelo.

Tiesoldo acorreu então, empunhando uma pá que embateu violentamente de lado no visor afocinhado do elmo do thuragar. Os dois atacaram em conjunto, a sua rivalidade diluída no sangue quente do combate, fustigando o thuragar com pancadas que contudo pouco mais faziam além de barulho. Os gritos e as mortes à sua volta incitavam-nos ao mesmo tempo que os aterrorizavam, e a única coisa que importava era terminar com a ameaça imediata representada pelo thuragar que enfrentavam. Este conseguiu enganchar o cabo da pá de Tiesoldo com o bico recurvo do seu martelo, e puxou violentamente o humano, derrubando-o. A espadeirada de Bartilio no seu flanco mal o afetou, e o thuragar preparava-se para esmagar Tiesoldo, mas então foi atingido na cabeça por um inesperado martelo de guerra empunhado pelo corpulento soldado que separara os seus dois companheiros durante a luta. Atordoado, o thuragar caiu ao chão, e foi aniquilado com uma segunda martelada. Tiesoldo pegou no martelo do tombado thuragar e os três olharam para o caos em redor, momentaneamente incapazes de tomarem uma decisão.

— Aquele! — gritou o corpulento soldado, indicando com o martelo roubado um thuragar que vinha calmamente na sua direção, alheio à morte à sua volta, empunhando uma enorme maça de cabeça baixa, a sua cara coberta por jogos de sombras causados pela luz das fogueiras, que apenas deixavam entrever duas tranças negras de barba e uma brilhante careca.

Os três investiram contra o thuragar visado, mas Bartilio e Tiesoldo ficaram pelo meio, eles próprios atacados ou retardados pela desenfreada corrida de aldeões em pânico, e apenas o soldado corpulento conseguiu avançar. Empunhando o martelo com ambas as mãos, o jovem levou a arma atrás, aprestando-a para um possante altabaixo no final da sua carga. O thuragar recebeu-o com um desdenhoso golpe ascendente da sua maça, enterrando-lhe um rebordo pela barriga acima, e alçando-o sobre a sua cabeça com o ímpeto da investida e pura força muscular, descrevendo um arco que terminou com o violento baque de costas do humano no chão. Este emitiu um ruído rouco e sufocado, sentindo o aço recurvo do rebordo enterrar-se-lhe desde o estômago até ao pulmão, mas não teve sequer tempo de sofrer, pois o thuragar torceu o pulso da mão que empunhava a maça e pisou a garganta do soldado. Nessa posição, empurrou o cabo com força inumana, e o rebordo da sua maça irrompeu do peito do adversário num espirro de sangue, destroçando-lhe o esterno e as costelas e tudo o que ficava pelo meio com um nauseante estalido.

Os que viram ficaram retidos, apavorados, mas o thuragar não parou por aí e arrancou a maça do corpo destroçado do soldado. Quando trouxe a arma acima, proferiu um urro tal que todos em redor tiveram a sensação de que o próprio céu iria desabar.

— KARCR RKA!

As runas nos cruentos rebordos curvos da sua maça luziram antes de esta embater brutalmente no chão, enterrando-se parcialmente nele e desencadeando um pequeno sismo. Os alicerces das casas de tetos cônicos tremeram, e o chão rebelou-se debaixo dos pés de humanos e thuragar, causando a queda a todos numa área em redor do impacto da maça.

Bartilio praticamente já só agia por instinto. Esquecera-se mesmo de Oranela, e o mais importante naquele momento era simplesmente levantar-se, matar o que quer que o atacasse, e fugir dali o mais depressa possível, daquele impensável horror, daquele pesadelo de dias negros de um passado acerca do qual apenas ouvira histórias. Tiesoldo também se levantou, mas foi prontamente atacado por um thuragar que recuperara mais depressa, e apenas se conseguiu esquivar a um golpe antes que b espeto de uma tarja lhe atravessasse a garganta. Bartilio mal registrou o sucedido, tudo o que queria era fugir, mas então algo lhe explodiu nas costas, algo que fraturou a sua coluna com um estalo que se fez sentir pelo seu corpo inteiro, e que o fez cair dessensibilizado ao chão. A sua cabeça embateu de lado, mas mal sentiu o impacto. Pareceu-lhe ouvir Oranela gritar, mas era difícil dizer no meio de tamanha cacofonia, estava completamente desorientado, e não conseguiu virar o pescoço para ver. Não se conseguia mexer, mal conseguia respirar, o seu corpo estava hirto e arqueado para trás. A sua visão desfocada pouco mais via além de pés e pernas que corriam em redor. Um par de escarpins com três espetos nas pontas aproximava-se da sua cabeça, e Bartilio sentiu que a sua morte estava iminente. Naquele momento, deu consigo a desejar que fosse rápido, que ao menos pusesse fim àquela aflição, àquele pânico que lhe contraía os pulmões.

Mas a morte não veio. Os escarpins detiveram-se perto da sua cara, e o que ouviu foram mais gritos da voz rouca que mais parecia provir de baixo de um túmulo de pedra, cujas palavras não compreendia e que contudo ressoavam nos seus ossos como se estivesse a ser lapidado. Os olhos desfocados de Bartilio subiram lentamente para os seus cantos, e o que viu tê-lo-ia apavorado, não se sentisse já o jovem tão próximo da morte que esta não passava de uma questão de tempo.

O thuragar era careca, tinha uma cara grande e quadrada, com olhos injetados de sangue debaixo de grossas sobrancelhas unidas, e duas tranças negras provenientes de dois crescimentos pilosos separados no queixo, mas o mais perturbador no seu semblante era a ausência de um nariz, em cujo lugar restavam apenas duas cavidades nasais. O rubor das labaredas relevava as irregularidades na pele cicatrizada entre os seus olhos e os dentes expostos do maxilar superior, o que dava a entender que o seu nariz fora arrancado juntamente com parte do rosto. Ao abrir a boca para gritar, o thuragar expeliu saliva, e a falta de lábio superior conferia um esgar medonho à sua expressão. Bartilio não compreendia as palavras, mas de qualquer forma estava demasiado preso pelo grotesco espetáculo da cara do thuragar para lhes prestar atenção.

— Escorraçaram-nos para debaixo de terra como os vermes pelos quais nos têm! — berrou Othragon, o Aesh’alan, empunhando a maça ao alto para incitar os seus guerreiros thuragar. — Relegaram-nos ao frio e à escuridão das cavernas, ocultando-nos do seu belo mundo, escondendo a nossa fealdade da luz do sol!

Em resposta, os thuragar urraram do interior dos seus elmos, martelando e matando em fúria.

— Cuspiram-nos em cima, empurraram-nos para as entranhas da terra e deixaram-nos dejetos para comer! Mas tornamo-nos fortes por isso! — afirmou Othragon, batendo no peito com o punho acerado, e soltando um espumoso fio de saliva que lhe ficou a pender de uma das tranças. — Mostrem-lhes o poder dos thuragar! Mostrem-lhes o poder dos filhos das cavernas! Queimem as suas casas quentes, fruam das suas mulheres bonitas, e matem todos! Que o seu sangue regue a terra que nos protege e dá força!

Os seus guerreiros não precisavam de motivação adicional, mas as palavras do Aesh’alan lançaram-nos num frenesi de berros e aço sangrento. Satisfeito, Othragon baixou a maça e olhou à sua volta, para os cadáveres de cabeças arruinadas, homens, mulheres e crianças, para os gemebundos homens fracos que fugiam e eram mortos de costas, e para as jovens que gritavam desalmadamente enquanto thuragar lhes puxavam os cabelos e apartavam as pernas macias. Uns retiravam-se para o interior das casas, barricando as portas, mas os seus guerreiros pegavam em fachos das fogueiras e pegavam-lhes fogo, ou então arrombavam as portas com os bicos recurvos dos seus martelos. Outros contorciam-se no chão com ossos partidos, e eram prontamente mortos por thuragar armados de longas adagas com bases cuja espessura era de cinco dedos, ou então prolongadamente martirizados com os cruéis espetos das suas tarjas.

— Durante eras comemos vermes, morcegos e lagartos — disse Othragon para si mesmo, contemplando fogo, morte e destruição onde quer que olhasse. — Vivemos no escuro e no frio, caçados como animais sempre que erguíamos as cabeças.

Esfregou o queixo com as costas da manopla para limpar a saliva que sabia ter-se acumulado, e lamentou uma vez mais não poder sentir o cheiro a sangue no ar. Não podia sentir cheiro algum, nem tão-pouco o sabor; fora essa a sua Oblação antes de se tornar um Aesh’alan. Comer sempre fora o seu grande prazer, degustar os sabores de tudo o que os seus homens pilhavam na superfície, de tudo o que era inexistente nos insossos subterrâneos nos quais sempre vivera. Quando foi privado do seu nariz, tornou-se efetivamente cego na perpétua noite das cavernas, pois sem poder sentir os odores, o mundo no qual vivia tornou-se inodoro além de incolor, privando-o de todos os sentidos além da audição e do apurado tato dos thuragar. Por essa razão, Othragon deixou-se imergir naquela torrente de sons e imagens de violência, sentiu-se quase embriagado pela rara e preciosa luz do fogo que lhe permitia ver tudo aquilo.

— Para o abismo contigo, Seltor — murmurou o Aesh’alan de dentes arreganhados, pensando em voz alta como muitos thuragar o faziam no solitário mundo subterrâneo. — Não precisei de ti para preparar a queda de Nolwyn, e estou demasiado longe de ti para que sejas uma ameaça. Já não deténs o poder de outrora.

O thuragar passou os dedos acerados pela rugosa pele entre as suas cavidades nasais e os seus dentes, recordando a dor de ter a cara esfolada pela dádiva de poderes negros e para uma vida de servidão. E rosnou.

— Senti o teu regresso, todos o sentimos, mas não te dignaste sequer a falar-me. Esperavas certamente que a minha obediência cega continuasse — reiterou, como se O Flagelo estivesse a ouvir, e subsistia a possibilidade de que efetivamente estava, agora que regressara. — Fica com o adulador do Nishekan. Não preciso de ti. Tenho os meus thuragar, e não mais seremos usados. Nolwyn será nosso...

O rapaz aos seus pés chamou-lhe a atenção, pois fitava-o com olhos de um animal em pânico. A posição em que se encontrava era patética, e praticamente suplicava por um fim ao seu sofrimento. Othragon sorriu, e o seu sorriso era algo terrível e grotesco de se contemplar.

— Nunca quiseste saber como uma toupeira se sentia, humano? — indagou o Aesh’alan com um Glottik falado como se estivesse prestes a cuspir, tanto devido ao sotaque como pelo desagrado que a língua dos humanos lhe causava. Um passo de placas de metal a rasparem, e os espetos do seu escarpim direito ruborizado pelas labaredas das fogueiras ficaram a escassa distância dos olhos do jovem.

Os berros de morte em redor iam escasseando, substituídos pelos gritos desesperados das aldeãs que se encontravam às mãos dos thuragar. Othragon não lhes deu atenção.

— Diz-me: qual foi o teu desejo? — perguntou Othragon, inclinando-se ligeiramente. Não havia qualquer sarcasmo ou malícia na sua voz, apenas desprezo e ódio triunfante. — Não consegues falar? As toupeiras também não. Mas nós, os thuragar, falamos. E não merecíamos ser tratados como toupeiras, como vocês nos trataram. Agora é a vossa vez.

Othragon girou a enorme maça na sua mão e deixou-a de cabeça para baixo, empunhando-a como uma batedeira de manteiga. Ergueu ligeiramente o braço, e ficou desapontado quando o humano nem sequer fechou os olhos quando a sombra dos rebordos lhe cobriu a cara. Othragon baixou a arma e inclinou a cabeça para o lado, parecendo ponderar enquanto um fio de saliva lhe escorria pelo canto da boca.

A última coisa que Bartilio viu foi o escarpim munido de espetos vir contra a sua cara.

 

Graças à Mãe e a todos os deuses, a barcaça agüentara.

O Mar Norreno era implacável e impiedoso, com águas frias e cinzentas como aço que se pareciam unir com o céu plúmbeo na tênue linha do horizonte. As ondas encapelaram-se durante dias a fio, obrigando Quenestil, Deadan e os Eahlan a despejarem constantemente a água que entrava, e houve dias em que todos dormiram com os vertedouros nas mãos. Praticamente não houvera lugares secos na embarcação, e esses haviam sido reservados às mulheres, e sobretudo a Slayra, de todas a mais martirizada devido à sua condição. A barcaça nunca fora revirada, mas quatro eahlanas e duas crianças tinham-se perdido no mar, e mal houvera tempo de lamentar mais esses mortos, pois a sobrevivência de todos estivera em risco durante mais tempo do que qualquer um fora capaz de contar. Pareceram meses, mas não podia ter sido mais do que uma semana, caso contrário estariam todos certamente mortos, e as já quase inexistentes provisões de peixe seco, pão e cerveja de centeio há muito que se teriam esgotado.

Por fim, a interminável tempestade invernal amainara, a sua fúria exaurida, e todos puderam finalmente ceder à exaustão que havia muito lhes pesava nos membros e que apenas a força de vontade e os mais primários instintos de proteção tinham conseguido retardar. Quenestil deixara-se simplesmente cair quando o perigo passara, conseguindo ainda cobrir-se com uma manta, e a sua cabeça encontrava-se sobre o peito de um eahlan que labutara a seu lado. O seu pescoço estava torto, mas o shura estava muito para além da condição física que lhe permitiria sentir-se incomodado com a posição. Deadan, que entretanto removera o seu arnês, estava estendido sobre a carlinga, um dos pontos mais expostos da embarcação, e havia um eahlan em posição fetal debaixo dele, tendo-se aproveitado do enorme corpo do siruliano e da manta deste como um teto improvisado. A sua cabeça roçava o mastro que fora despido no início da tempestade, e um dos seus braços estava estendido de lado, revelando a palma da mão calejada e ferida pela incessante labuta. O que restava do interior do barco estava coberto pelo toldo improvisado com a vela da barcaça, que cobria uma série de corpos aglomerados e aninhados uns sobre os outros.

Anoitecera havia pouco tempo, mas todos a bordo dormiam desde a noite anterior, tendo passado o dia inteiro em profundo sono restabelecedor. As nuvens desapareciam lentamente do céu, e o luar ia irrompendo delas a custo, banhando o mar e a barcaça com a sua plácida brancura. As sobrancelhas ruivas de Quenestil mexeram-se ligeiramente, e as suas pálpebras tremeram, apartando-se então para revelarem desfocados olhos cinzentos que de início apenas captaram o esbatido luar no céu. Após alguns momentos a olhar distraidamente para o vazio, a mente de Quenestil começou a despertar, e o eahan mexeu ligeiramente a cabeça para olhar em redor. A dor que sentiu no pescoço foi o suficiente para que cerrasse os olhos, e os seus movimentos causaram um gemido que vibrou pelo sítio no qual tinha a nuca assente. Assentar os cotovelos nas úmidas pranchas e erguer o tronco foi um esforço quase sobre-humano, e os ossos do shura protestaram com aguda veemência.

Onde...?

Ah, a barcaça. Ainda subsistira o desejo subliminar de que tudo não passara de um pesadelo, a fugaz esperança que só um despertar podia trazer em semelhante situação, porém rapidamente esmagada pelo odor salino no ar e uma sensação opressiva de que estava fora do seu meio. Estava sempre presente, esse sentimento análogo ao que qualquer animal da montanha sentiria se fosse atirado para o meio do mar. Quenestil deu repetidas graças à sua experiência com o druida azul, pois caso contrário teria provavelmente passado a viagem inteira a vomitar, mas isso fora meses atrás, e continuava a sentir-se tão pouco à vontade como da primeira vez. Infelizmente, essa fora a menor das suas preocupações nas últimas semanas, e Quenestil surpreendeu-se pelo fato de conseguir sequer estar a pensar em algo tão mesquinho, atendendo às circunstâncias. Sacudiu a cabeça e acocorou-se, deixando os músculos queixarem-se à vontade e cerrando os olhos ao fazê-lo. As suas articulações estavam perras, o pescoço dolorosamente tenso, e cada fibra do seu corpo implorava por repouso. Quenestil não lhes deu ouvidos, apoiou as mãos sobre os joelhos, e ergueu-se esticando os seus braços trêmulos como um gato velho, passando de seguida para as costas.

«Dói-me tudo...», lamentou-se o shura num breve momento de autocomiseração, que rapidamente reprimiu ao olhar para Deadan.

A enorme silhueta do siruliano era palidamente iluminada pelo luar, dando à sua cara virada de lado uma serenidade como Quenestil nele nunca vira. O jovem fora um verdadeiro gigante durante os dias de tempestade, estivera em todo o lado, não parara um único instante. Ninguém podia ser acusado de não se ter esforçado, mas Deadan fora o exemplo que todos tinham seguido, embota Quenestil fosse o líder nominal do grupo. O shura teve o cuidado de não fazer barulho ao aproximar-se dos eahlan, mas como qualquer siruliano que se prezasse, Deadan tinha nervos tensos como um fio de aço, e a sua cabeça ergueu-se bruscamente, retendo Quenestil com um olhar que não parecia distinguir amigo de inimigo. Os dois fitaram-se durante alguns momentos até o jovem reconhecer por fim o eahan.

— Passa-se alguma coisa, Quenestil Anthalos? — indagou Deadan em voz baixa, sempre pronto.

— Não. Vou só ver como estão todos. Dorme — aplacou-o Quenestil com um gesto da mão, passando então com cuidado por cima de um eahlan estendido no chão. Não olhou para trás, mas ficou com a impressão de que Deadan o observava atentamente. Ainda estava para conhecer um siruliano que fosse capaz de se descontrair ou convencer de que não havia perigo. Não que o culpasse, atendendo ao que se passara nos últimos tempos.

Algo de primordial rugiu nas profundezas da sua mente, mas Quenestil reprimiu-o. Não. Não agora. Não se podia dar a esse luxo, não quando as suas energias eram necessárias para que os eahlan sobrevivessem àquela provação. A fúria que nele ardia por Tanarch teria que esperar, os vis traidores teriam que esperar. Mas não perdiam pela demora...

O tossido de uma criança despertou o shura dos seus vingativos pensamentos, e Quenestil ajoelhou-se perto daquele que pareceu ser o seu ponto de origem, pegando na borda da vela e erguendo-a ligeiramente para espreitar. Estava demasiado escuro para ver, mas distinguiu o vulto de uma criança que se mexia. Dizia coisas em Eridiaith que, embora o eahan não compreendesse as palavras, invocaram nele sentimentos de angústia e desconforto. A língua dos eahlan era mágica, sendo um dialeto abastardado d’A Palavra, e as suas palavras portavam um significado universal e empírico mesmo para quem não sabia a língua. A criança estava deitada sobre uma perna, talvez a da sua mãe ou irmã, ou possivelmente a de uma mera conhecida, pois a tempestade fizera ainda mais órfãos que os que já havia. Quenestil afagou a cabeça de cabelos brancos, o que pareceu sossegar a criança, e tornou a erguer-se, ignorando as queixas dos seus joelhos. Seis homens, doze mulheres, e seis crianças, era o que restava da família Lasan, a única que ousara permanecer perto de Asmodeon, na esperança de um dia poder regressar ao seu lar ancestral. Saíra-lhes cara a sua perseverança.

Quenestil estudou a vela e tentou estimar o local onde Slayra se poderia encontrar; provavelmente o mais abrigado, à proa. Não podia simplesmente caminhar por cima dos eahlan, e também não queria começar a acordar todos só para uma conversa desconfortável com Slayra e mais sentimentos contraditórios, mas... tinha que a ver. Saber se ela e o seu... se ela e o bebê estavam bem. Pelo menos isso. Antes que desse por si, sentou-se na borda da embarcação e começou a arrastar-se de lado, sem paciência nem força para um movimento mais rápido ou dignificante. Pareceu-lhe sentir o peso dos olhos de Deadan, mas não olhou na sua direção e arrastou-se até à proa da barcaça. Estendendo a mão, Quenestil ainda hesitou antes de por fim agarrar a ponta da vela e levantá-la, descobrindo Slayra. A eahanoir parecia ter conseguido encontrar a posição certa, o que fora facilitado pelas mantas adicionais oferecidas pelos eahlan, uma das quais a cobria dos pés à cabeça, mas os seus luzidios cabelos negros eram inconfundíveis, ainda que sujos e pesados como estavam. O jorro de luar despertou Slayra, o seu cocuruto mexeu-se, e quatro dedos pálidos surgiram da borda da manta, puxando-a para baixo e revelando um par de olhos que, mesmo semicerrados, não conseguiam ocultar a claridade do seu azul.

— Quenestil...? — disse a eahanoir fracamente com voz rouca.

— Estás bem? — quis o shura saber, o seu semblante desprovido de emoção.

— Eu... — Slayra esfregou os olhos e apertou o nariz antes de tornar a olhar para Quenestil. — Sim. Acho eu. As dores vão e vêm. Onde estamos?

— Descansa. O perigo já passou. — Não era necessariamente verdade, mas não lhe ocorreu nada mais para dizer. Os dois ficaram a fitar-se mutuamente durante o que pareceram ser longos momentos, até Quenestil baixar a vela sem mais uma palavra.

O eahan retrocedeu pela borda da barcaça mais depressa do que viera, assentou os pés no casco, virou-se para o mar e apoiou as mãos sobre a borda, baixando a cabeça. Como pudera ela trair a sua confiança de tal forma? Como...?

— Que fazemos agora, Quenestil Anthalos? — ouviu a voz de Deadan atrás de si.

Grato por uma desculpa para fugir aos pensamentos que o atormentavam, o eahan deu-lhe a sua total e imediata atenção. Após uns primeiros dias de verdadeira letargia e poucos ou nenhuns sinais de vida enquanto olhava desoladamente para Sul, para Gul-Yrith, para os seus irmãos e companheiros que fora forçado a abandonar, Deadan despertara para um novo propósito. Defender a família Lasan era agora a sua razão de ser, a única coisa que o apegava à vida. O jovem siruliano parecia envelhecido, e por muito difícil que fosse de acreditar, olhando para a dura disciplina patente nos seus olhos azuis, não podia ter mais do que dezoito anos. Na Sirulia tivera o estatuto de Ajuramentado, um mero recruta, algo evidenciado pelo corte do seu cabelo castanho penteado para a frente e aparado na nuca, mas em qualquer outra nação seria provavelmente um soldado de elite. Apesar de tudo, era bom tê-lo como companheiro, pois embora se limitasse a obedecer a ordens sem nunca nada alvitrar, assegurava-se de que estas eram cumpridas com a maior eficácia. Se não fosse por ele, muitos mais eahlan teriam morrido.

— Já só temos comida para um dia, mesmo que a racionemos ou que alguns de nós fiquem sem a sua porção. — Era bom fincá-lo, pois Deadan já por várias vezes passara sem comer, o que em última análise de nada servia. Precisavam da força dele. — Água, felizmente, não falta. Mas cedo ou tarde, teremos que ir para terra.

— Tem algum destino em mente?

Boa pergunta. Escolhera a Wolhynia por ter viajado por ela no passado durante a sua Batida, a demanda na qual um shura procura o animal ao qual se deve vincular segundo o seu caráter e o ditame da Mãe. Porém, nunca passara das regiões a Sul, em cujas montanhas encontrara um volverino, matando-o para se vincular a ele e partindo pouco depois. Ainda que escassa, a sua experiência com os wolhynos que encontrara fora positiva, sobretudo o seu contato com as gentes rupestres e de aldeias monteses. Aprendera um pouco da língua e tivera a distinta sensação de que os seus cabelos o tinham marcado mais como criatura exótica do que as suas orelhas pontudas, mas pouco mais além disso. Ficara contudo com a impressão de que não era uma nação hostil, e naquele momento era isso o mais importante. Todavia, aonde ir? Encontravam-se diante da costa norte da Wolhynia, provavelmente muito longe dos domínios que Quenestil conhecera, e as escabrosas falésias ao longo do litoral eram tudo menos convidativas, parecendo mesmo ameaçadoras ao luar, que iluminava as rochas diante das quais a calema espumava. Encontravam-se a meio do Inverno, estava frio e não tinham comida para mais que um dia. Se estivesse sozinho, essa não seria uma preocupação, mas ter que caçar para vinte e seis outras pessoas ser-lhe-ia difícil nas melhores condições, e quase impensável nas presentes,

Não, não devia pensar assim. Havia alces na Wolhynia, vira alguns nas florestas, bem como renas. Eram animais de grande porte. Bastaria caçar um deles, encontrar um local abrigado, e poderiam sobreviver. E depois?

«E depois logo vemos. Uma coisa de cada vez...»

— ... a ouvir-me?

— Enh? Desculpa, Deadan. Estava a pensar. Vamos para terra assim que virmos uma abertura. Depois procuramos abrigo e eu vou ver se caço alguma coisa para nós.

Deadan assentiu com um grunhido. Nunca precisava de grandes explicações, o jovem siruliano. Era uma qualidade, sem dúvida, sobretudo quando quem dava ordens não sabia ao certo o que raio estava a fazer. Procurar abrigo. Genial. Grande líder. Ir-se-iam todos refugiar gemebundos num qualquer buraco, escondendo-se dos perigos que os ameaçavam. O clima era o seu pior inimigo de momento, pois os eahlan não estavam devidamente agasalhados para o enfrentar, mas também não se podia esquecer de outra ameaça bem mais insidiosa.

Tannath.

O desgraçado regressara dos mortos — pior, em aparente conluio com O Flagelo — e queria vingança. Estivera prestes a consegui-la, mas ao ver Slayra optou por algo mais pérfido. Deixara-os viver, sabendo muito bem que a ominosa sombra da sua ameaça os iria perseguir aonde quer que fossem. Quenestil fechou o punho direito enfaixado e ergueu-o diante da sua cara. Tannath furara-lho com uma das suas próprias flechas, mas o involuntário tratamento diário de água salgada parecia ter impedido qualquer infecção, embora lhe tivesse igualmente deixado a pele dos dedos estalada e a sangrar. O eahanoir já antes fora um inimigo mortal, e o combate entre ambos durante a batalha de Aemer-Anoth podia perfeitamente ter acabado de outra forma, mas agora estava mais perigoso do que nunca, e Quenestil não tinha a certeza de o conseguir vencer uma segunda vez. Por cima de tudo isso, ainda jurara vingança contra Tanarch, mas não fazia idéia de como poderia sequer começar a levá-la a cabo, não com vinte e quatro refugiados, um siruliano apático, Slayra e... o bebê. Ambos podiam morrer se o parto se desse no ermo do Norte da Wolhynia, e a gravidez da eahanoir parecia mais avançada que o que seria de esperar, tendo em conta o tempo decorrido. Segundo as suas contas, não podiam ter passado mais do que sete meses desde que Slayra anunciara a gravidez. Mas ela ocultara-lhe a verdade. O que acontecera em Jazurrieh...

Não, agora não. Já era suficientemente mau o estar a agir quase por instinto, não se podia também distrair com considerações que apenas levavam a problemas que de momento não se encontrava apto a resolver. Tinha que...

Algo no oceano chamou a atenção do shura, que tirou a sua mão ferida da frente da cara. O luar incidia sobre a água, pavimentando uma trêmula estrada selênica que atravessava a barcaça e que ia até à irregular costa, recaindo naquilo que, debaixo de um olhar atento, revelou ser uma baía. Ter-lhe-ia passado despercebida noutras circunstâncias, pois a rocha das falésias e a areia eram escuras, e a baía era pequena, mas havia algo mais: fumo. Uma delgada gavinha branca serpenteava diante dos contornos das montanhas coroadas de branco, discretamente alumiada pelo luar.

— A lua ilumina o vosso caminho — pareceu-lhe ouvir a voz da nayana, a serva da Mãe que o abordara e a Slayra naquele entardecer na aldeia de Vau do Caar.

— Deadan? — disse em voz alta, desta vez sem se preocupar com os eahlan que dormiam.

— Sim, Quenestil Anthalos? — respondeu prontamente o siruliano.

— Pega nos remos e começa a acordar os outros. Vamos para ali. Deadan olhou para onde o shura apontava, semicerrando os olhos, e assentiu com um gesto afirmativo da cabeça. Desde que tivesse algo para fazer, o jovem parecia sentir que ocupava o seu devido espaço no mundo, o que aparentemente o fazia esquecer os seus tormentos. Quenestil foi buscar um remo ao mastro e acordou com menor delicadeza os eahlan que dormiam estendidos pelo seu caminho.

— Acordem. Vamos para terra — repetiu várias vezes enquanto Deadan erguia delicadamente a vela para despertar as mulheres e as crianças.

Os eahlan acordaram estremunhados, mas nenhum se queixou. Estavam habituados a uma vida calma e harmoniosa, mas todos davam mostras de uma notável adaptabilidade, ou então resoluta resignação. Quenestil posicionou o seu remo e foi buscar outro, concentrando-se na presente tarefa e dando palavras de encorajamento aos eahan brancos, tentando por sua vez esquecer as da nayana.

— ...e a minha bênção manterá os vossos corações resolutos e unidos...

Com seis homens cansados aos remos, a barcaça foi avançando lentamente na direção da baía. O mar estava calmo e não oferecia qualquer resistência, e os eahlan estavam todos acordados e aninhados à proa. Cercados pelos seus serventes, o Patriarca Hanal e a sua esposa Eluana abraçavam os seus filhos Talin, Lusia e Alisa, enquanto Slayra se encontrava protetoramente rodeada de eahlanas, incluindo a sempre complacente Sana. Estavam todos cansados, e muitas crianças tinham tornado a adormecer ao colo, mas seguiriam qualquer ordem de Quenestil enquanto tivessem forças para o fazer, e essa predisposição assustava o shura. Estava habituado a trabalhar sozinho, e quando em grupo tinha por hábito deixar as decisões a cargo de outros. Isto para não falar do que acontecera da última vez que assumira o comando, quando ele e Babaki se tinham aventurado em Jazurrieh...

Mas não havia nada a fazer. Hanal era um líder nato, mas fora da sua estância estava como um peixe fora de água, e apenas poderia ajudar a gerir o grupo. Deadan pouco mais fizera na sua vida até então além de obedecer a ordens, e essa postura não se parecia vir a alterar tão cedo. Restava ele, portanto. Para bem ou para mal.

— Vão já preparando os mantimentos que nos restam — pediu aos eahlan enquanto remava. — E façam uma trouxa para as armas. Podemos vir a precisar delas.

Quenestil e Deadan tinham trazido um espólio de armas após terem atacado e matado um grupo de tanarchianos na devassada herdade siruliana na qual haviam esperado encontrar refúgio e segurança. Duvidava que membro algum do séquito dos Lasan soubesse sequer usar uma arma, muito menos o Patriarca ou o seu filho Talin, mas teriam que estar prontos para tudo. Não sabia como eram os habitantes do Norte da Wolhynia, ou se esses eram sequer wolhynos e não bárbaros tribais, pelo que não podia pôr de parte uma eventual recepção hostil. O shura rezava à Mãe para que assim não fosse, para que não tivessem fugido de um perigo para outro, embora ao menos este fosse meramente hipotético.

A baía da qual se aproximavam era flanqueada por dois pequenos promontórios denteados com vigilantes leixões diante deles, e atrás destes agigantavam-se as montanhas, que pareciam cercar a área. Uma delas descia abruptamente, e era aos seus pés que a baía se aninhava, o que tornava impossível qualquer acesso a esta pela costa ao longo da terra. Estava demasiado escuro para ver, mas Quenestil ficou com a noção de que haveria um trilho ou vale entre as montanhas que serviria de saída, e ainda que assim não fosse, pelo menos poderiam passar a noite em terra firme e seca. Um regato que parecia vir das montanhas escorria por um dos lados do promontório e desembocava na pequena praia abrigada.

— Preparem-se. Vamos aterrar — avisou Quenestil, largando o seu remo e erguendo-se. — Deadan, vem ajudar-me.

— Fiquem sentados — tomou o siruliano a liberdade de avisar. — Senão podem cair.

Os dois dirigiram-se à proa da barcaça, e os olhares de Quenestil e Slayra não puderam deixar de se cruzar. Uma das suas acompanhantes eahlanas estava a dizer-lhe algo, mas a eahanoir não parecia estar a prestar-lhe atenção, e fitou Quenestil com um ar expectante. Porém, o shura nada fez ou disse, e não tardou a virar a cara para a praia, pousando a mão na borda da embarcação. O saibroso areal aproximava-se, e o eahan esperou que seguisse a tendência alcantilada da montanha e fosse suficientemente inclinado para que não tivesse necessidade de saltar para a água e puxar o barco. A água devia estar gelada, e após dias a fio de tempestade a última coisa que queria era ficar molhado outra vez. A Mãe ou um dos deuses atendeu às suas preces, pois o barco deslizou facilmente pelo saibro antes de encalhar com um brusco ruído raspante, e Quenestil e Deadan apenas tiveram que molhar os pés para puxar o suficiente para que os outros pudessem sair. O siruliano servia de elevador humano, transportando crianças aos braços e ombros com todo o cuidado de uma mãe, embora deixasse quase todas as mulheres a cargo de Quenestil e de quem mais quisesse ajudar, pois mantinha o pudor que os sirulianos reservavam às eahlanas. Parecia ter medo de as engravidar com um toque, um pejo que lhe fora incutido pelos seus superiores e pelos seus ensinamentos desde o dia em que nascera. A única mulher que ajudou foi Slayra, que a seus olhos estava uns meros escalões acima de escumalha d’O Flagelo, embora a assistência das eahlanas o fizesse sentir-se pouco à vontade. Quenestil também ajudou, apesar de a proximidade de Slayra lhe causar um evidente desconforto, e afastou-se prontamente assim que a eahanoir ficou com os dois pés bem assentes no saibro.

Porém, Slayra curvou-se de repente, grunhindo e levando as mãos à barriga, e Quenestil voltou para trás tão depressa que tropeçou no saibro escuro, levantando-se atabalhoadamente de seguida.

— O que é que foi? — perguntou com ambas as mãos erguidas, mantendo-as perto da eahanoir sem contudo lhe tocar.

— A minha barriga... — grunhiu Slayra de olhos cerrados, apoiando todo o seu peso nos braços das eahlanas que a agarravam.

Gerou-se um grande alvoroço em redor da eahanoir, e o efeito calmante que as palavras proferidas em Eridiaith poderiam ter foi cancelado pela cacofonia de vozes acompanhadas de excitadas exalações condensadas. Quenestil não sabia o que fazer e olhava alternadamente para as eahannas brancas à volta de Slayra, esperando que alguém lhe explicasse o que se estava a passar. Eluana veio então, caminhando com autoridade matriarcal e impondo a calma.

— Acalmem-se. Não fiquem todas em cima dela, agarrem-na só. E não falem todas ao mesmo tempo — disse a eahlana, pegando na cara de Slayra. — Slayra, querida, respira fundo. Ainda é demasiado cedo. Respira fundo.

— Dói... — queixou-se a eahanoir, tentando a custo fazer como Eluana lhe dissera.

Ainda a agarrar-lhe a cara, a eahlana começou a falar maviosamente em Eridiaith, e as suas palavras irradiaram como anéis de água no meio da agitação, evocando sensações de repouso, quase sonolência. Slayra começou a inspirar e expirar irregularmente, e os seus músculos foram lentamente relaxando de cima para baixo, aplacados pelas ondas propagadas pelas ternas festas de Eluana na sua cara.

— Pronto, minha querida, pronto. Já passou.

— Tem-me... doído... ultimamente — disse a eahanoir a meio de vaporosas exalações no frio ar da beira-mar.

— Ainda é cedo — assegurou-lhe Eluana com uma última festa. — Só precisas de descansar num sítio seco, calmo e quente. Todos nós precisamos.

Quenestil assentiu, tomando as palavras da matriarca como a sua deixa para se afastar. Estava de fato muito frio, e os trêmulos eahlan aconchegavam-se às mantas, que não eram feitas para caminhadas. Tinham que encontrar quanto antes um sítio onde pernoitar, mas também não se podiam aventurar desprecavidamente numa área desconhecida. Como se tivesse lido a sua mente, Deadan requisitou o auxílio de dois eahlan para vestir o seu arnês, e Quenestil foi buscar o seu arco. As armas tanarchianas estavam morbidamente envoltas nas capas dos homens às quais tinham sido pilhadas, mas o shura não pôde deixar de sentir que era errado pôr uma arma nas mãos dos eahlan. Pelo menos enquanto tal não fosse estritamente necessário, pois a seu ver era mais um sinal de que o mundo se estava a tornar um lugar negro — obrigar seres tão puros a empunharem aço cruel —, pelo que apenas pediu que as tivessem à mão, ainda que embrulhadas. Esperou até que Deadan estivesse pronto e de espadão às costas, e ajeitou o arco ao ombro, tomando a dianteira.

— Patriarca, eu vou à frente — disse a Hanal. — Tenha a bondade de orientar o grupo. Deadan, fica com eles.

Antes que os dois tivessem tempo de fazer outra coisa além de assentir, o shura foi em frente, adiantando-se consideravelmente ao grupo. Não soube dizer quanto da sua ação se deveu à pressa de bater o terreno em busca de um local seguro, e quanto à quase aflitiva premência que sentia de ficar um pouco sozinho. Quenestil era um guerreiro do ermo, sempre fora, e embora fosse perfeitamente capaz de agir em grupo, não era um eahan gregário, e as semanas enfiado num barco com tanta gente não tinham sido fáceis. Precisava de desanuviar, de ter tempo para os seus pensamentos, e assim que viu a extensão de terra firme à sua frente, o impulso foi mais forte do que ele, levando-o a percorrer a pequena praia saibrosa a apressados passos, deixando o grupo para trás. O areal estava cercado pelas altas paredes das falésias, mas havia uma saída na forma de um trilho entre dois barrancos, fendidos ao longo dos tempos pelo ribeiro que entre eles fluía. Antes que para lá se dirigisse, reparou num grande recesso numa das falésias, que não chegava a ser uma caverna, mas que serviria como abrigo. Porém, este encontrava-se ocupado por três barcos.

Era a confirmação de que a área estava habitada. Quenestil aproximou-se dos barcos para os estudar mais atentamente. Embora não se considerasse grande avaliador e tivesse muito poucos termos de comparação, não lhe pareceram obra de mãos barbáricas, ou pelo menos não foi essa a impressão que lhe deram. Estavam amarrados a pesadas pedras e eram de construção simples, mais pequenos que a barcaça siruliana e mais alongados, mas a olho nu não distinguiu neles nenhuma outra característica distinta. O grupo aproximava-se, talvez pensando que o shura já decidira onde iriam pernoitar, mas Quenestil afastou-se dos barcos e fez sinal de que iria continuar, dirigindo-se então para o trilho entre os dois barrancos. Estava escuro no meio das paredes rochosas, mas o luar providenciava suficiente luz ambiente para que o eahan se conseguisse orientar, e foi mesmo capaz de distinguir o que parecia ser um trilho calcado ao longo dos anos num dos flancos do ribeiro. Este fluía calmamente, e provavelmente a sua fonte congelara, pois embora não tivesse ar de ser muito grande sequer na Primavera, naquele momento era pouco mais que um fio de água. O trilho continuava, estendendo-se relativamente a direito, e começava a tornar-se ligeiramente mais acidentado, apresentando-se como um caminho verdadeiramente difícil mais à frente. Porém, graças a um truque das sombras, Quenestil apercebeu-se de que, atrás de um penedo, havia uma vereda secundária que subia para trás pela parede à sua esquerda, e sinalizou ao grupo que deveriam subir. Havia toros de madeira apodrecida cravados na terra batida nesse trilho, sinal de que estavam no caminho certo. Quenestil subiu-o a passos largos, alçando os joelhos doridos com sucessivos grunhidos condensados através do nariz.

Quando chegou ao topo, deparou com uma extensão de terra plana que não fora perceptível a partir do mar, pois vista de lá teria parecido um espaço ininterrupto entre a íngreme descida das montanhas até à costa. Era circunscrita pelo nivelamento dos pés da montanha a Norte, a extensa falésia ao longo do litoral a Sul, o ribeiro a Leste e um alcantil montanhoso a Oeste. Além da vereda que Quenestil acabara de usar, a única saída parecia ser um pequeno trilho montanhoso a Nordeste. Era uma área abrigada, e no meio dela encontrava-se uma grande habitação, da qual o fumo provinha, bem como um outro edifício, mais pequeno. Nada mais havia em seu redor além de vultos que pareciam pertencer a ovelhas, que dormiam deitadas no tapete de relva queimada pelo frio com algumas bolsas de neve espalhadas em redor. Não se tratava da aldeia de bárbaros que temera, mas sim de uma simples quinta. Graças à Mãe. Atrás de si, ouviam-se os ruídos do cansado grupo a subir pela íngreme vereda, e assim que a primeira cabeça surgiu, Quenestil ergueu a mão, sinalizando por silêncio. A sua mensagem foi rapidamente passada, e o grupo subiu o resto da distância sem trocar palavra e a passo cauteloso, deixando um trilho de respirações vaporíferas. Nem mesmo as crianças faziam barulho. Quando estavam por fim todos reunidos como ovelhas ao frio, Quenestil virou-se para Hanal e Deadan.

— Eu vou até àquela casa — explicou, indicando a habitação. — Ver se é seguro. Não deve haver problema, mas se alguma coisa me acontecer, fujam para o barco, depressa mas sem fazerem barulho. Ouviste, Deadan?

Já arnesado, o jovem siruliano fez que sim com o elmo de viseira virada para cima, e esse mero gesto fez o metal ranger. Apesar de todos os seus cuidados, era possível que as dobradiças tivessem enferrujado durante os dias de chuva.

— Mas não se preocupem — acrescentou ao ver a preocupação nos serenos e afadigados semblantes dos eahlan. — Os wolhynos são gente hospitaleira.

Não era propriamente uma mentira, mas também não podia garantir que fosse a verdade. Os wolhynos que conhecera haviam sido pacíficos e amigáveis, mas também se lembrava da corpulência de alguns dos homens que vira, bem como dos machados que estes alegadamente apenas usavam para cortar madeira. Além disso, não se podia esquecer das histórias que ouvira acerca da Floresta das Sombras, e do temeroso legado que os soldados da Wolhynia haviam deixado escrito com sangue de drahregs.

— Se tudo estiver bem, depois chamo-vos — disse, evitando propositadamente o olhar de Slayra e dirigindo-se então à quinta.

As lanosas ovelhas que estavam deitadas seguiram os seus passos com olhares pouco inteligentes, algumas balindo à laia de boas-noites, mas nenhuma se assustou com a sua presença. À medida que se ia aproximando da habitação, Quenestil ia distinguindo tênues e abafados ruídos domésticos. O edifício principal era baixo, estreito e oblongo, e três divisões adicionais estavam ligadas a ele, uma partindo diretamente de uma das pontas, e as outras duas perpendicularmente acopladas. Todas tinham um exterior de turfa de inclinados telhados de quatro águas, sobre um dos quais se encontrava uma ovelha a dormir. A entrada encontrava-se debaixo de uma empena perto de uma das pontas, ao pé da qual o solo estava pavimentado com pedras. O revestimento de turfa dava a impressão de que a estrutura crescia do próprio solo, um montículo no meio da extensão plana de piso acidentado. O seu comprimento total não devia exceder uns trinta passos, e Quenestil estimou que nela caberiam uns vinte habitantes. Mais próximo, constatou que na base dos telhados havia uma fila de buracos dos quais emanavam os ruídos caseiros, e que os alicerces eram de pedra, embora estivessem quase completamente tapados pela relva da turfa que cobria o edifício.

Encaminhando-se para a entrada, o eahan hesitou diante desta, incerto quanto ao que fazer. Olhou para o lado e viu o reflexo do luar no arnês de Deadan, que se destacava no meio dos vultos aglomerados dos eahlan. Todos dependiam dele. Maldição.

Quenestil vasculhou os cantos mais esquecidos da sua memória em busca do pouco Hjrutmalv que aprendera durante a sua estadia na Wolhynia, inspirou fundo e ergueu a cabeça.

— Goldid! — gritou aquilo que recordava ser uma saudação noturna.

Os ruídos não cessaram, e apenas as ovelhas lhe deram atenção, virando as orelhas na sua direção. O shura pigarreou e tentou uma segunda vez.

— Goldid!

A ovelha que dormia no telhado acordou e olhou para Quenestil com ar recriminador, mas do interior não se ouviu qualquer reação. Ligeiramente arreliado, o eahan ergueu o punho cerrado, que tremeu ao hesitar, antes de bater duas vezes à porta.

— Goldid!

Os fiapos de vapor jorrados pela sua palavra esfumaram-se no ar frio. Nada.

— Oh, que porra... — Quenestil esmurrou a porta três vezes com força. — GOLDID!

As vozes calaram-se então, e o shura arrependeu-se de imediato da sua impetuosidade, temendo que ainda pudesse causar problemas. Afastou-se um passo da porta, e questionou-se quanto ao quão ameaçador pareceria, com o arco ao ombro, o facalhão à anca, a mão ligada e os cabelos desgrenhados, que já estavam demasiado compridos para o seu gosto.

— Goldid — disse uma última vez, apenas alto o suficiente para que alguém do outro lado da porta o pudesse ouvir.

Ouviu passos e ruídos que se aproximavam, e passou a mão pelo cabelo de forma a parecer minimamente apresentável, o que ainda assim teve a distinta impressão de não conseguir. A voz de homem que passou através da madeira perguntou-lhe quem era, ou algo parecido. O seu Hjrutmalv estava bastante enferrujado, e de qualquer forma nunca fora grande coisa. Felizmente, havia uma coisa da qual se lembrava, que a língua dos wolhynos podia ser extremamente metafórica, embora as metáforas em questão fossem por norma usadas para dar cor e complexidade a termos simples, e não o contrário. Ainda assim, fazendo uso dos seus conhecimentos básicos, talvez conseguisse elaborar uma frase minimamente inteligível.

— Somos pessoas que vêm do... grande azul. Não metemos coisas na boca por dias e estamos com pernas pesadas. Podem ajudar?

A frase foi dolorosa até para Quenestil, que fechou os olhos e virou ligeiramente a cara, mas ninguém se riu do outro lado. Ouviu uma outra voz dizer algo, e outras tantas aproximarem-se. O seu tom parecia indeciso e desconfiado, embora não imediatamente hostil. O shura optou por nada mais dizer, com receio de ser mal entendido e, pronto para tudo, foi com um misto de ânsia e antecipação que viu a porta ser aberta.

A primeira cara que viu era longa e angulosa, com pele vermelha iluminada pela lamparina de pedra a óleo que o homem empunhava. Tinha cabelos e sobrancelhas brancos como os de um eahlan, mas o seu semblante estava muito longe de ser sequer minimamente bem-parecido. Os seus olhos azuis eram estreitos, os seus lábios finos tinham feridas rúbeas, e as pequenas orelhas avermelhadas afastavam-se da cara como se tivessem nojo desta. Envergava uma simples túnica castanha, e atrás dele via-se um outro homem, mais baixo, com cabelos e barba ruivos, lábios grossos e uma túnica preta. O dos cabelos brancos olhou Quenestil de cima a baixo, franzindo as pálidas sobrancelhas.

— Vitk veru tar? — perguntou, enquanto o ruivo olhava estupidamente por cima do seu ombro.

— Quenestil Antalos veri ehj — respondeu o shura, lembrando-se da primeira e mais básica apresentação que aprendera.

— Vonar haglu tar hjer?

De onde viera? Do outro lado das montanhas? Da Sirulia? De Tanarch? Preferiu optar pelo que já dissera.

— Venho do grande azul. Tenho outros homens com eu, e... fêmeas, e pequenos homens.

Quenestil teve a distinta impressão de que, gramaticalmente, as suas frases estavam a deixar muito a desejar, mas esperava que fossem minimamente inteligíveis. Era difícil avaliar o seu desempenho através da expressão do seu interlocutor, que parecia tão desconfiado quanto intrigado por aquele estranho visitante a meio da noite. Outras vozes perguntaram o que se passava, e ouviram-se passos na direção da entrada.

— Vor veran tair? — perguntou o homem dos cabelos brancos, abrindo ligeiramente mais a porta e revelando um facalhão ao cinto. A cabeça de uma mulher surgiu atrás do homem ruivo, mas não havia luz suficiente para distinguir as suas feições.

— Tadna — respondeu Quenestil, apontando para a sua esquerda e erguendo de seguida a mão, chamando o grupo com um gesto. — Podem vir! É seguro!

Não conhecia aquela gente, mas eram suficientemente parecidos com os wolhynos com os quais contatara para partir do pressuposto de que não lhes fariam mal. De qualquer forma, estava demasiado cansado para ser paranóico, e as tênues ondas de calor que emanavam da entrada eram no mínimo tentadoras.

O vulto acerado de Deadan foi o primeiro a mexer-se, e os eahlan foram-lhe atrás como um obediente rebanho. O homem dos cabelos brancos lançou um olhar de advertência a Quenestil, que ergueu ambas as mãos e recuou um passo, e espreitou para fora da porta. O homem ruivo perguntou-lhe algo em tom deferente, algo parecido com «quem vem aí», o que a mulher que entretanto surgira secundou. Não obtiveram resposta, pois o de cabelos brancos estudava atentamente o grupo que se aproximava, olhando de soslaio para Quenestil.

— Não queremos ser maus — achou o shura por bem assegurar. — Só precisamos de... quente.

Talvez fosse melhor ficar calado, até porque o homem parecia suficientemente impressionado com o grupo para dispensar palavras. Tentando pôr-se no lugar do wolhyno, Quenestil não teve dificuldades em imaginar a impressão que tão bizarro e heterogêneo grupo causaria. Um jovem alto como uma trave e envergando um arnês siruliano, uma exótica mulher grávida de cabelos negros, e um grupo de seres com uma aura e beleza quase desnaturais. A enigmática procissão avançou por entre as intrigadas ovelhas, e o luar refletia-se nos cabelos brancos dos eahlan que tinham descoberto as cabeças, cientes de que um grupo de pessoas envoltas em mantas não inspiraria grande confiança. Quanto mais se aproximavam, mais o queixo do homem com a lamparina descaía, levando a que a cabeça do ruivo também espreitasse e tivesse uma reação semelhante. Quenestil lembrou-se da primeira vez que vira os eahlan, e compreendeu-os, embora ele próprio já estivesse inoculado à presença dos feéricos eahan brancos. O contraste causado pela presença de Slayra e a imponência de Deadan também ajudavam à forte impressão, certamente. O arnês e o punho do espadão do siruliano poderiam ser interpretados como uma ameaça, bem como a súbita aparição de um grupo de vinte e seis vultos, mas havia algo nos olhares e nas posturas dos eahlan que, mesmo no escuro e com o seu aspecto cansado e emaciado, nada mais transmitia além de uma mensagem de paz. De um sentimento que mesmo Quenestil apenas conseguia descrever como profundamente não ameaçador.

A pressão exercida pela chegada de mais pessoas nas costas do homem de cabelos brancos levou a que este saísse porta fora, derramando um pouco de óleo da sua lamparina de pedra e ficando a olhar com a cara enevoada pela sua própria respiração. Com ele vieram uma mulher de cabelos louro-acastanhados soltos, o homem ruivo, e um quarto curioso, esse com uma apertada camisa castanha que revelava a sua corpulência, uma barba cor de areia e cabelos do mesmo tom, que mais pareciam uma posta de bacalhau desfiada.

— Rotsoyr... — praguejou por falta de algo melhor para dizer. Por sua vez, Quenestil limitou-se a cruzar as mãos atrás das costas, tentando afetar uma pose humilde que lhe era pouco característica, mas foi simplesmente ignorado em favor da quase fantasiosa encenação que caminhava lentamente para a entrada. Hanal tomou a dianteira, com o seu porte que conseguia ser nobre sem que nele alguma vez transparecesse o mínimo de altivez, e cumprimentou os wolhynos com uma cortês saudação em Eridiaith. Ninguém percebeu as palavras, mas o significado empírico destas era evidente, pois os sons pareciam viajar pelo corpo de quem os ouvia, suscitando pequenas reações e sensações que davam a entender o seu sentido, naquele caso paz e amizade. Os homens tartamudearam e gesticularam com as mãos como se não soubessem o que fazer com elas, entreolhando-se durante os breves instantes nos quais conseguiam tirar os olhos dos eahlan. A mulher à entrada estava absolutamente maravilhada, e ignorava por completo as vozes que pareciam estar a chamar por alguém.

— Podemos ir... aí? — perguntou Quenestil, indicando o interior do edifício.

O homem dos cabelos brancos despertou, olhou para o shura como se tivesse acabado de o ver, pareceu lembrar-se de algo e disse-o ao homem ruivo. Este não o ouviu, e foi necessário um puxão da sua manga para lhe chamar a atenção, após o qual este pareceu inalar ao dizer algo e se retirou relutantemente para o interior, deixando os dois grupos entregues um ao outro. Sempre protetor para com os eahlan, Deadan não se estava a sair muito bem ao tentar não parecer ameaçador, se é que o estava sequer a tentar, e a sua presença era o único fator que causava tensão no impasse que se instalara. Ninguém soube o que dizer enquanto esperavam ao frio, e o desconfortável silêncio prolongou-se enquanto o grupo de eahan brancos era observado como se de uma aparição noturna se tratasse. Quenestil não estava habituado a ser o porta-voz, mas era o único que tinha um mínimo conhecimento da língua, e não poderiam depender unicamente das qualidades empíricas do Eridiaith.

Finalmente, o homem ruivo regressou e acenou afirmativamente com a cabeça, fazendo gestos convidativos com a mão. O de cabelos brancos hesitou, lançou um último olhar a Deadan, recuou um passo, ficando ao lado da entrada, e emulou o gesto do outro, empunhando a lamparina ao alto. A mulher e o indivíduo de cabelos desfiados recuaram eles também, cruzando os braços e metendo as mãos debaixo das axilas devido ao frio e ao fato de não terem o que fazer com elas. Quenestil baixou a cabeça em sinal de agradecimento e olhou de soslaio para Deadan.

— Entra por ultimo — disse-lhe, avançando e estendendo o braço para trás, pedindo a Hanal e Eluana que viessem com ele.

Entraram numa larga sala de terra batida, em cujas paredes se encontravam tamancos sujos de lama alinhados em filas, debaixo de capas de lã penduradas ao lado de um grande armário. A divisão cheirava a peixe seco e estava escura, parcamente iluminada pela luz proveniente da porta aberta da partição de madeira que dava acesso àquela que aparentava ser a sala principal. Havia uma outra porta, mas o ensombrado homem ruivo avançou de lado com ademanes convidativos e Quenestil foi atrás dele, entrando então na longa sala onde parecia estar reunida a quinta inteira, menos os animais. O interior tinha postes e uma estrutura retangular de traves no teto, e paredes com painéis de madeira ao longo das quais estavam estendidas duas longas bancadas nas quais as pessoas se sentavam e deitavam. Além de umas quantas lamparinas, a única fonte de iluminação era uma fogueira que ardia num círculo de pedras no seu centro, enevoando o teto com fumo do qual a fumarola não estava a dar recado e que dava aos olhares dos habitantes um ar nublado. Quenestil olhou em redor, para as crianças de cabelos brancos e. bochechas grandes, para os homens e mulheres de cabelos com vários tons entre louro e castanho, bem como alguns ruivos, altos, baixos e com feições alongadas a arredondadas. Os homens envergavam túnicas de camponeses feitas de lã e calças, e as mulheres vestidos com aventais presos por broches, tudo em tonalidades de castanho, cinzento, preto e branco.

Quenestil deteve-se e procurou por armas ou um qualquer sinal de eventual perigo, mas além da ocasional faca ao cinto de alguns homens não viu nada. Os eahlan aguardavam ainda na sala de entrada, mas Hanal e Eluana encontravam-se atrás e aos lados do eahan, e a sua presença bastou para justificar o silêncio. O Patriarca envergava a sua túnica negra polvilhada com cintilantes fragmentos de mica, cingida a sua cintura por uma faixa branca, e conseguira conservar a tiara prateada embutida com um pedaço de hematite negra na sua testa, bem como as braceletes argênteas incrustadas com as mesmas pedras. Eluana trajava o mesmo vestido de mangas folgadas com o qual recebera os companheiros pela primeira vez, embora sendo este branco e azulado se notassem mais os estragos infligidos pela atribulada viagem. Quase todas as pedras-da-lua que o tinham pontilhado haviam caído, e os seus anteriormente lustrosos cabelos brancos pareciam ter perdido o brilho, mas conservava intactas a sua pose, dignidade e beleza sazonada. A bondade permanecia nos olhos azul-escuros de ambos, mas as suas expressões não conseguiam ocultar a profunda tristeza e cansaço que lhes iam nas almas.

— Dou o meu... dormir do sol — interpôs-se Quenestil, conseguindo com o seu desacerto o considerável feito de tirar a atenção de cima dos Lasan.

O escrutínio dos presentes foi mais contido enquanto o estudavam de cima a baixo, mas todos olhavam para ele em provável expectativa da próxima grande inanidade a sair da sua boca. Os ruivos que o olhavam pareciam sobremodo curiosos, e ninguém parecia ter reparado nas suas orelhas, provavelmente devido ao comprimento do seu cabelo.

«Bom, cá vai...» — encorajou-se o shura. — Fico contente com a vossa... os vossos braços abertos. De ser pessoa boa.

Os wolhynos piscaram os olhos, mas não esboçaram qualquer outra reação.

— Aturam, hjordukvel — disse o homem de barba ruiva, inalando estranhamente as palavras e continuando a gesticular para que avançassem.

Quenestil e os Lasan assim fizeram, permitindo então a lenta entrada aos restantes eahlan, Slayra e Deadan. As crianças ao colo das suas mães e irmãs olharam curiosamente para as suas análogas wolhynas, e tanto umas como as outras passaram as mãos pelos seus cabelos cor de linho, imitando os gestos umas das outras e parecendo ser as únicas que se sentiam minimamente à vontade naquela sala. Os adultos não conseguiam esconder o seu espanto mistificado, e tudo indicava que a contemplação iria continuar, quando por fim uma pessoa assumiu uma pose mais autoritária. Uma mulher baixa levantou-se, envergando um vestido vermelho com avental branco de orlas bordadas a azul e um toucado branco que estava retorcido nas suas têmporas na forma de cornos de carneiro. Tinha uma testa alta e larga, uma forma grácil, e os cabelos que o seu toucado deixava entrever na fronte eram castanhos, embora as serenas pestanas tivessem um tom mais claro. Os seus pequenos olhos azuis ligeiramente oblíquos fitavam os recém-chegados com ar avaliador, ao contrário dos do grande e felpudo gato que trazia ao colo, cujos preguiçosos orbes verdes olhavam com manifesta falta de interesse e cuja cauda pendia frouxamente. O animal tinha pêlo cinzento listado de preto, um rufo branco ao pescoço e grandes orelhas pontudas com tufos; mais parecia um lince.

— Paz, homens que andam — disse a mulher com uma voz régia, notando-se que estava a fazer um mínimo de esforço para que Quenestil a compreendesse. Apesar dos pés de corvo nos seus olhos, parecia mais madura do que propriamente velha. — Sou Oska, e abro os braços para vocês em Horavog, na casa do garding Hjlinar, meu filho.

O nome em questão foi proferido com um tom de voz desaprovador, e serviu de deixa para um borbulhento rapaz que se encontrava sentado numa cadeira ao fundo da sala e que se levantou com um ar embaraçado. Tinha uma cara pentagonal como a da mãe e os mesmos olhos, embora o seu nariz fosse maior e os seus cabelos descaídos de um louro arenoso. Era relativamente corpulento, mas o seu porte não denotava o mínimo de confiança, e não parecia nem pouco mais ou menos tão à vontade como Oska diante dos recém-chegados. Foi com certa relutância que se postou ao lado da sua mãe, ligeiramente mais adiantado, mas não por muito, e tartamudeou uma frase em Hjrutmalv.

— As pessoas de fora não sabem o barulho das nossas bocas, Hjlinar — relembrou a mãe, afagando o gato.

— Eu não fiz bem em vir durante o... dormir do sol — disse Quenestil, frustrado pelo fato de nem sequer se lembrar da palavra para «noite» —, mas já não temos Norte, e estamos com pernas pesadas. Sei que homens do Norte são amigos, e peço ajuda.

Oska acenou compreensivamente com a cabeça e virou-a para o lado, dizendo algo a um homem que se encontrava sentado e que se levantou prontamente. Tinha descaídos olhos azuis, barba castanha e recuados cabelos ralos listrados de prateado, e a sua expressão só podia ser descrita como solícita.

— Falam Leochlan? — questionou este com uma voz grave, agarrando as mãos e inclinando-se ligeiramente para a frente.

Quenestil foi surpreendido pelas súbitas palavras familiares, e levou alguns instantes a coordenar a cabeça com a boca. Embora não estivesse a olhar, deduziu que o ligeiro rangido de metal atrás de si só poderia ter sido Deadan a retesar-se.

— Sim... sim, falamos. Como é que...?

— Fui mercador, e estive algunos anos em Tanarch. Chamo-me Agtor. São viajores?

— Nós... hã, não. Viemos do mar. Estamos perdidos.

— Do... mar? — ergueu Agtor a sobrancelha.

— Sim, a água, o azul, o... rio, lago grande. — Quenestil começava a sentir-se cada vez menos à vontade. Como se não bastasse ter que ser ele a tomar a palavra, ainda por cima não percebiam o que dizia.

— Do pélago?

— Sim, do pélago — fosse lá isso o que fosse. — De barco.

O antigo mercador recolheu o tronco que inclinara para a frente e traduziu as palavras do shura, inclinando a cabeça ligeiramente para trás e adquirindo uma expressão mais cautelosa. As suas palavras suscitaram por fim uma reação dos presentes que ia além da simples admiração pelos eahlan. Pela primeira vez, Quenestil conseguiu ter a atenção exclusivamente sobre si. Olhando de uma cara para outra, o shura questionou-se se não teria de alguma forma dito a coisa errada. Os wolhynos começaram a segredar algo, mas a única coisa que Quenestil percebia era «fogo». Hjlinar olhava nervosamente, e mesmo Oska parecia surpresa, o que levou o eahan a tentar mudar de assunto.

— Tanarch está em guerra com a Sirulia. — Não, qual era a palavra que os tanarchianos usavam em Aemer-Anoth? — Há belona entre Tanarch e a Sirulia. Nós fugimos.

— Belona — repetiu Agtor, quase soletrando a palavra, traduzindo de seguida para Hjrutmalv. Os sussurros subiram de tom, e foi a vez de as crianças se sentirem pouco à vontade. Quenestil cruzou olhares com Hanal, que evidentemente não estava a compreender a situação, mas que não precisou de palavras para asseverar com o olhar que confiava no shura.

— Por favor — pediu o eahan, indicando o grupo atrás de si com a mão. — Temos mulheres e crianças conosco. Elas têm fome e frio, e muitas já morreram. Não temos dinheiro para pagar a vossa ajuda, mas eu farei o que for preciso para vos compensar. — Olhou para Oska, mas como já se esquecera do nome dela, preferiu não tentar adivinhar.

Agtor abriu a boca como para dizer algo, mas pareceu reconsiderar, e traduziu o que Quenestil dissera. Pelo menos assim este o esperava.

Seguiu-se um silêncio um pouco mais prolongado que os anteriores, durante o qual o shura se convenceu definitivamente de que não se adequava de todo ao cargo de diplomata. Doravante, seriam Hanal ou Eluana a falar, pois enfrentar uma nação inteira não podia ser mais difícil do que aturar aquele silêncio desconfortável e aqueles olhares intrusivos. Mesmo o gato refastelado ao colo de Oska achou por bem miar, tentando chamar a atenção ou simplesmente despachar o assunto para que a sua dona voltasse para perto da fogueira. A mulher disse então algo ao seu filho Hjlinar, falando demasiado depressa e com insuficiente vocabulário básico para que Quenestil a compreendesse. Parecendo incomodado, o rapaz fez um gesto aquietador tipicamente filial e dirigiu a palavra ao eahan com tom pouco resoluto.

— Podem passar a noite em Horavog — traduziu Agtor em serviço aos visitantes. — São nossos ostes. Dormirão no curral, e crás falaremos, pois hoje parecem demasiado aganados.

Embora não se manifestassem de forma efusiva, o alívio dos eahlan evidenciou-se claramente pela sua quase uníssona exalação. Sana afagou o braço de Slayra, que também já começava a atrair olhares, e Deadan limitava-se a olhar com ar quase desafiador para todos os presentes, caminhando em periclitante equilíbrio sobre a fronteira entre a advertência e a ameaça.

Oska disse algo mais.

— Têm fame? — traduziu Agtor, esfregando a barriga.

— Não queremos abusar da vossa hospitalidade — seria algo que o Aewyre ou o Allumno teriam dito. — Mas sim, temos fome.

— Vamos dar-vos prazer às bocas — disse Oska quando Agtor traduziu, fazendo novamente uso do caráter metafórico da sua língua.

— Muito obrigado, boa mulher — agradeceu Quenestil, olhando para os Lasan com um sorriso cansado, que estes retribuíram.

Incitadas por Oska, uma dúzia de mulheres levantaram-se para preparar algo, e o shura permitiu-se então baixar ligeiramente a guarda, embalado pelo calor da fogueira e pela sensação básica de segurança que os números e um teto sobre a cabeça providenciavam. Estavam a salvo. Conseguira ao menos isso, encontrar um lugar seco e seguro, e comida para todos. Mesmo assim, preferia que os wolhynos não estivessem a olhar para ele daquela forma, traídos pela sua prudente linguagem corporal sempre que Quenestil os fitava, ainda que afetassem ares desinteressados. Isso, e os não tão discretos sussurros, dos quais o eahan apenas percebia uma palavra.

Fogo.

 

O bradagà fora, e com ele boa parte das esperanças de Aewyre. Hirto e destacado do meio que o rodeava, o jovem deambulava pelo interior da Cidadela da Lâmina com a mão pousada sobre o pomo de Ancalach, passando por pessoas e mal registrando a presença ou mesmo a existência destas. O pouco de que se dava conta parecia-lhe vagamente onírico, como se de um sonho se tratasse: homens a passarem ao seu lado e à sua frente, feições indistintas, desconhecidas ou vagamente familiares, vozes distantes em várias línguas, ecos pelos corredores fora. Aewyre coxeava ligeiramente devido à ferida que Heldrada lhe infligira na coxa direita, que sofrera uma leve infecção antes de ser tratada. O seu único ferimento visível era o canto direito da boca rasgado, mas por baixo da sua camisa cinzenta, o seu torso estava completamente enfaixado em ligaduras para tapar o lanho diagonal que sofrera no tronco e que por pouco não o cortara ao meio, e o seu ombro esquerdo também estava ligado. Com barba por fazer e cortada no lado esquerdo pelas quatro cicatrizes da arranhadela que sofrera na face, o jovem guerreiro tinha um aspecto lastimoso, mas não eram as feridas o que o atormentavam. Assiòn fora morto, Kror e ele ainda não dominavam a Essência da Lâmina, e qualquer apoio da Cidadela que poderia ter obtido através do Alto Lamelar não passava de mais uma vã esperança do passado. Dependia agora exclusivamente da raiva, da fúria que fazia o seu sangue arder em chamas e que se tornava cada vez mais difícil de controlar. A sua vida tinha agora um único intento, um único propósito, uma única razão para acordar após mais uma noite plena de pesadelos de culpa e morte, em vez de se deitar em posição fetal e deixar-se afundar num oceano de pesar e amargura.

Seltor.

Mais do que nunca, Aewyre estava disposto a fazer o que fosse necessário para matar o maldito desgraçado e todos os que o servissem. Não haveria piedade nem misericórdia, nenhum perdão nem quartel para os vis servos d’O Flagelo, fossem eles quem fossem. Regressaria a Ul-Thoryn, e aí começaria a sua cruzada contra Seltor. Lhiannah certamente já teria chegado à cidade, e o seu irmão Aereth já devia saber o que acontecera ao seu pai, bem como quem fora o responsável. Não seria um exército a ajudá-lo a matar O Flagelo, mas ao menos teria com que se opor a todos os que se pusessem no seu caminho a mando de Seltor, e Aewyre não duvidava de que a negra influência d’O Bastardo estava naquele preciso momento a orientar mais peças contra ele, voluntárias ou não. O jovem apertou o punho de Ancalach com força, sentindo-se reconfortado pelo familiar toque do couro que o revestia, a sua única âncora no autêntico turbilhão de desespero em que a sua vida se tornara. A ausência dos seus amigos fora-lhe custosa em mais do que um aspecto, privando-lhe do apoio do qual tanto necessitara, nem que fosse uma única palmada reconfortante do Quenestil nas costas. Ou um raspanete do Allumno. Ou um olhar desaprovador da Lhiannah, com aquele seu particular trejeito como se estivesse a falar com um irritante irmão mais novo. Ou uma risadinha insolente de Taislin. Ou mesmo uma piada mal intencionada do Worick. Mais, tinha a certeza de que as coisas teriam decorrido de forma diferente se algum deles tivesse estado presente durante a fatídica noite em que Culpa viera à Cidadela. A noite em que morrera Assiòn, a pessoa mais próxima que tivera a um amigo nos últimos tempos, quase uma figura paternal interina na ausência do seu pai e de Allumno.

Mas esses eram os únicos pensamentos comiserados que Aewyre ocasionalmente se permitia. Tudo o resto era uma torrente de raiva vedada a custo por diques que estremeciam, ameaçando transbordar à mínima provocação. Era aí que entrava o seu breve mas intenso treino na Cidadela, que — mais ainda que todos os anos de repreensões de Allumno devido à sua impaciência — lhe ensinara a caminhar sobre o fio da lâmina que era a sua mente. Tinha um propósito que estabelecera como seu e que se encontrava ao fim do afiado caminho. Sabia que teria apenas que caminhar em frente sem se desviar, sabia que tinha os meios e a vontade para o fazer, e hoje sabia também que era capaz de percorrer o gume sem se cortar. Assiòn, Diacolo, Heldrada, todos lhe tinham ensinado alguma coisa, lições divergentes que Aewyre agora combinava num todo uno e rígido como uma espada acabada de mergulhar na tina de água após a forja.

Infelizmente, as coisas não dependiam apenas de si. Havia também Kror, e apesar do progresso de ambos na aprendizagem do domínio da Essência da Lâmina, esta continuava dividida entre os dois guerreiros, ora oscilando para um, ora para outro, consoante o fervor do combate e o pulsar da adrenalina. Aewyre e Assiòn tinham lido vários tomos da biblioteca particular deste último nos meses precedentes, mas pouco haviam encontrado além de umas poucas teorias espúrias e relatos fantasiados. Havia ainda um livro escrito por um Lamelar chamado Fèdac que Assiòn estivera a ler mais atentamente, e na noite em que Culpa viera, o laonês quisera falar com Aewyre. Nunca chegou a partilhar com o jovem o que descobrira, o que Aewyre achava que descobrira, pois por que outro motivo quereria falar com ele? O livro com páginas manchadas pelo sangue do Alto Lamelar encontrava-se agora entre as suas posses, segundo apenas a Ancalach em importância. Mas estava escrito em Lloranc, uma língua que nem após os meses de estadia na Cidadela Aewyre aprendera a dominar. Nunca tivera muito jeito para línguas, e Allumno sempre achara um milagre o fato de Quenestil o ter conseguido ensinar a ter uma conversa minimamente inteligível em Fialass, o peculiar dialeto dos eahan da montanha. Era um problema, mas seguramente que não seria difícil encontrar um intérprete adequado em Ul-Thoryn. Um dos diplomatas da corte do seu irmão, por exemplo. Certamente que alguém saberia falar Lloranc na sua cidade.

Sim, tudo fazia parte da senda do gume da lâmina, e a direção era uma e só uma: em frente. Sem hesitações, desvios ou mais atrasos. Iria chegar a Ul-Thoryn. Iria decifrar o livro. Iria encontrar forma de se apossar da Essência da Lâmina. Iria matar Seltor. Estava decidido a partir nesse mesmo dia, mas primeiro teria que saber qual o estado de Kror. O drahreg fora ferido numa zona perigosa do joelho durante o combate com Heldrada que, esporeada pelo poder de Culpa, fora levada a matar Assiòn, o homem que fizera dela o que era. A sua vida estivera por um fio nas vingativas mãos de Aewyre após um brutal combate, mas Kror evitara que matasse a mulher com a qual parecia ter uma relação no mínimo bizarra. Fora Heldrada quem seguidamente os salvara a todos de Culpa, fazendo com que este caísse do cimo da torre da Cidadela, mas ainda assim Aewyre sentira-se tentado a matá-la antes que conseguisse refletir e dirigir toda a sua fúria a Seltor, o verdadeiro culpado por tudo o que acontecera. Aewyre pensara em procurar o corpo de Culpa, mas este caíra na vertente sulcada da bizarra formação rochosa na qual a Cidadela se apoiava, por entre as enormes barbatanas de estratos verticais calcários. Seria necessária boa parte de um dia, ou talvez mesmo um dia inteiro, para fazer a viagem de ida e volta e vasculhar o escabroso e acidentado sopé. Não havia tempo para isso, a menos que Kror estivesse verdadeiramente incapacitado.

Antes que desse por si, Aewyre já se encontrava na enfermaria da Cidadela, onde ele e Kror haviam passado algumas tardes e noites em resultado dos treinos no círculo de guerreiros. Havia poucas camas vazias, e os feridos eram tratados por voluntários e por alguns Portadores mais altruístas. A Cidadela estava um caos, e o domínio desta não tardaria a ser contestado devido ao vazio na posição de Alto Lamelar, mas por enquanto toda a gente ainda estava demasiado atordoada para o fazer. Os feridos queixavam-se sobretudo de dores com as quais ninguém os podia ajudar, pois estas tinham sido infligidas pelas fantasmagóricas espadas dos ghèren, os espíritos aprisionados de ancianos guerreiros. Estes haviam sido libertos pelo seu custódio, que fora certamente influenciado por Culpa, vingando-se então daqueles que os tinham usado ao longo dos séculos. Havia alguns feridos ligeiros, vítimas de acidentes provocados pelo tumulto do ataque, e era possível que alguns tivessem sido propositadamente atacados pelos próprios companheiros, pois Culpa trouxera à tona todos os melindres que uma pessoa racional tentaria recalcar para não enlouquecer. Era impressionante, o caos e a morte que um único ser fora capaz de causar, sem sequer ter que erguer um dedo. Aewyre ouvira lendas acerca do pai de Seltor, mas nada que fosse muito além do reino do folclore e das histórias de enigmáticos velhos contadas à lareira, e certamente nada que lhe desse uma idéia do verdadeiro poder de Culpa, que por pouco não fizera com que pusesse termo à sua própria vida. Seltor enviara-o numa tentativa de eliminar Aewyre, pois apesar de tudo era o jovem o único capaz de empunhar a única arma que podia resguardar um mortal dos poderes d’O Flagelo, e a única que este temia. Havia ainda Aereth, mas o seu irmão não era um guerreiro, e só ter Ancalach em punho não seria o suficiente para vencer ou mesmo combater o Bastardo. Não, Aewyre teria que dominar a Essência da Lâmina, se quisesse ter a mínima hipótese de defrontar Seltor.

Infelizmente, como nunca deixava de se recordar, era algo que não dependia apenas de si. Havia ainda Kror, e o recente ferimento deste lançara mais um aos já muitos entraves que se entrepunham entre Aewyre e o domínio da Essência da Lâmina. O joelho do drahreg fora golpeado, sendo a conseqüência mais direta desse ferimento a necessidade de um suporte para ele, para que pudesse acompanhar Aewyre durante a viagem até Ul-Thoryn. A conseqüência indireta era o fato de, pelo menos de momento, não poderem combater um com o outro pela Essência da Lâmina. O combate não seria justo, e o «tendão» certamente desapareceria para sempre caso Aewyre matasse Kror, algo que não estivera tão distante da mente do guerreiro quanto isso nos últimos dias. Não odiava o drahreg, passara até por bastante com ele, e ambos já deviam as suas vidas um ao outro, mas também não teria hesitado em sacrificá-lo se dessa forma pudesse obter a Essência da Lâmina. Após o que acontecera a Assiòn, estivera quase disposto a arriscar um combate com o drahreg para pôr fim ao assunto de uma vez por todas, mas agora de nada serviria. A força que estava por detrás das habilidades dos Lamelares parecia exigir um combate justo entre dois Portadores antes que o vencedor adquirisse o poder, e um duelo com um adversário com uma perna praticamente inutilizada não seria propriamente equilibrado.

Aewyre procurou Kror e encontrou o drahreg ao fundo da enfermaria na companhia de Grwos, um dos três irmãos thuragar que Assiòn trouxera para a Cidadela. Os outros dois tinham sido mortos pelos ghèren, mas Grwos não parecia muito afetado por isso. Aewyre não conhecera muitos thuragar durante a sua vida, e nenhum tão bem como Worick, mas tinha a impressão de que o velho thuragar era uma exceção à regra da sua raça, essa caracterizada por uma quase total falta de sentimento. Grwos dava mostras disso, sendo uma ainda maior dedicação às tarefas incumbidas o único sinal que exteriorizava. O thuragar não parara quieto desde a morte dos seus irmãos, e parecia disposto a remodelar a Cidadela pelas suas próprias mãos, tal era o seu aferro. Bastara Aewyre perguntar-lhe se ele seria capaz de arranjar qualquer coisa que ajudasse Kror a andar, e Grwos resmungara algo acerca da inaptidão dos humanos, começando prontamente a mexer, partir e ajustar pregos, peças de madeira e dobradiças. O jovem aproximou-se e constatou que o thuragar preparara uma peça retrátil de couro, madeira e metal que devia ser uma tala, e empurrava esta pela perna de Kror acima.

— Ele vai conseguir andar bem com isso? — perguntou sem cumprimentar ninguém ao chegar perto da cama.

Kror e Grwos dispensaram-lhe a sua atenção, o drahreg mais que o thuragar, que se limitou a lançar-lhe um olhar de desprezo antes de o voltar para a sua tala.

— Humano estúpido. Sou sacerdote de Acquon? Como anda bem se tem joelho cortado? — resmoneou, e a sua pêra entrançada oscilou como uma serpente incomodada. — Vai ter que usar isto e paus.

— Muletas? — adivinhou Aewyre secamente.

— Sim, muletas. Não me chateies com a tua língua estúpida...

— Como te sentes, Kror?

O drahreg olhou-o com olhos negros de pupilas vermelhas. Um restolho de cabelos encrespados começava a despontar da sua acidentada careca, e as narinas do seu nariz adunco fremiram na presença de Aewyre, certamente devido ao «tendão». Mesmo após meses juntos, havia sempre um sentimento subconsciente semelhante ao de dois galos numa capoeira quando se encontravam próximos um do outro.

— É difícil andar. Mais difícil lutar. Aewyre acenou com a cabeça.

— Partimos hoje, por isso prepara-te. Vou tratar das coisas, e... Reparou que Kror não lhe estava a dar atenção, e que olhava por cima do seu ombro. Aewyre fez o mesmo, viu Heldrada deitada numa das camas, e todos os músculos do seu corpo retesaram-se para selar a brecha que se abriu brevemente no dique que represava a sua torrente de fúria. O jovem por pouco não a espancara até à morte, e a parte esquerda do rosto da namuriquana estava uma lástima, manchada de tons de castanho e amarelo e metade dos lábios intumescidos. A sua trança fora cortada por um golpe falhado de Ancalach, o olhar continuava atordoado e vazio após o brutal combate no topo da torre da Cidadela, e quem olhava para ela mal a reconhecia. Por sua vez, Heldrada parecia alheia a todos e fitava o vazio refletido pela sua alma. Aewyre não a conhecia, mas era evidente que a mulher tinha uma personalidade no mínimo complexa, e que matar Assiòn, o homem que fizera dela a pessoa que era, fora ao mesmo tempo uma expiação e um choque traumático. Aparentava ter como que perdido a sua identidade, mas Aewyre não queria saber. Nunca lhe perdoaria pelo que fizera, e não aceitava as afirmações de Kror de que a culpa não fora dela. A sua existência ou não era-lhe completamente indiferente, tal como a Grwos, que se limitou a fazer uns últimos ajustes na tala antes de se levantar.

— Pronto — afirmou com o orgulho de um criador. Não fizera aquilo por se preocupar com o bem-estar de Kror, mas sim como forma de testar as suas capacidades. Worick explicara a Aewyre que os thuragar como raça eram engenhosos e inventivos por não quererem depender de ninguém, e era assim que via a disponibilidade de Grwos.

Não passava de uma demonstração de desafogo, de criatividade que, mesmo quando usada em benefício de outros, em última análise apenas servia como prova de uma superioridade alcançada através de uma autonomia inerente. Não interessava. O importante era ter cumprido um objetivo, o de conceder um mínimo de mobilidade a Kror. Mais um passo em frente na senda da lâmina.

— Obrigado — agradeceu o jovem sem qualquer sentimento.

— Kror, vou preparar as coisas. Encontro-te depois aqui?

— Quê? — disse o drahreg distraidamente, tirando os olhos daquela que só podia ser Heldrada. — Sim. Eu fico aqui. — A sua expressão tornou-se então mais séria. — Mas temos que falar. Antes de irmos.

Grwos retirou-se sem mais uma palavra, e Aewyre optou por fazer o mesmo, limitando-se a acenar com a cabeça. A viagem para Ul-Thoryn iria provavelmente ser ainda mais desagradável que a que tinham empreendido até à Cidadela da Lâmina. Kror estava apreensivo, e talvez com razão, pois certamente que não se esquecera da entrada algo espalhafatosa na Cidadela, que ainda assim era conhecida como um local que não discriminava. Ul-Thoryn não seria certamente assim tão tolerante com um fruto do Primeiro Pecado. Kror estaria completamente à sua mercê, e a verdade era que esta luta não era dele. Aliás, não fosse pelo interesse pela Essência da Lâmina, esse provavelmente motivado pelo azigoth que habitava um dos seus alfanges, o drahreg nem o teria acompanhado. Fora mais um espectador até agora, talvez devido às três forças que o moviam — a sua, a da divaroth e a do azigoth — que por vezes interferiam com a sua capacidade de decisão, e Aewyre esperava que assim continuasse. Se Kror começasse a pensar demasiado ou a tomar decisões por si só, podia ser que chegasse à conclusão de que, fatalmente, o seu destino era a morte. Visto que pouco tinham descoberto na Cidadela, o drahreg fiava-se agora quase numa fé cega na capacidade de Aewyre de descobrir algum segredo oculto nos livros e apontamentos que consigo levava. Bendita a ignorância de quem não sabia ler, e que provavelmente atribuía o conhecimento contido em caracteres ilegíveis a algo de místico ou arcano...

— Vais embora, humano? — perguntou Grwos, interrompendo os seus pensamentos.

— Vou. Tu não? — redarguiu Aewyre sem grande interesse.

— Não. Vivo aqui, e humanos estúpidos precisam sempre de cabeça de thuragar para resolver problemas. Se vais embora, paga agora.

Os dois tinham acordado uma soma, que Aewyre prontamente saldou, contando atentamente as moedas de ouro que lhe restavam enquanto andava. Ainda deveria chegar para uma carroça, um burro e mantimentos, se conseguisse encontrar alguém particularmente bem-disposto e não muito ganancioso. Grwos fez o mesmo com o dinheiro que lhe foi entregue, afagando a pêra entrançada como se a estivesse a usar como um ábaco. Os dois não se falaram mais enquanto caminhavam pelos frios corredores e escadas iluminados por mortiças tochas. Nos pisos inferiores ficara um distinto e mofento odor a cinzas molhadas e verdete, deixado para trás pelas fantasmagóricas mortes dos ghèren, e que alguns Lamelares tentavam purgar, queimando molhos de ervas aromáticas em braseiros. Como sempre, Ancalach atraiu alguns olhares menos discretos, sobretudo agora que Aewyre já não ocupava o estatuto de «menino do Alto Lamelar», mas havia algo no olhar de singular propósito do jovem que dissuadiu qualquer eventual tentativa, pelo menos de momento. Os lobos ainda estavam desorientados, mas era melhor estar bem longe dali antes que alguém os unisse. Tinha um mau pressentimento em relação ao futuro da Cidadela, pois Assiòn fora um baluarte moral no meio de uma pandilha na qual se incluíam vários indivíduos bem menos escrupulosos. Aewyre não falara com muita gente durante a sua estadia, e não fizera o mínimo esforço por cultivar relações de qualquer tipo, tentando manter-se à parte e ignorado, mas o pouco que vira dos restantes Lamelares não o impressionara pela positiva. Não que fossem todos más pessoas, mas havia suficientes falhas de caráter que, mediante as circunstâncias certas, poderiam dar origem a um perigoso grupo de mercenários ou bandidos.

Porém, não era essa a sua preocupação nem a sua prioridade. Um ano atrás, se estivesse ali com os seus companheiros, provavelmente teriam tentado resolver tudo e salvar a situação, combatendo contra todas as probabilidades e talvez até vencendo com a sorte que parecia advir da inconsciência e da audácia. Mas não hoje, não agora. A senda da lâmina não permitia desvios, e não seria a sua consciência a demovê-lo. Além do mais, estava sozinho, e mais sozinho ficou quando Grwos tomou outro corredor sem uma única palavra de despedida; não que tivesse esperado mais do thuragar. Aewyre dirigiu-se então à saída, e contemplou do cimo da escadaria o cenário de desolação que o recinto agora apresentava. Onde antes se habituara a ver homens a treinar rigorosamente a quase todas as horas, viam-se agora apenas algumas almas penadas que caminhavam em redor sem rumo nem propósito. Aewyre passou por eles como tal, e desceu o íngreme trilho do recinto inferior da Cidadela. Apesar do seu estado de espírito que lhe inoculava o corpo a boa parte das sensações mundanas, sentiu que estava mal vestido para o frio que se fazia sentir, e estugou o passo. A sua pressa valeu-lhe um tropeção e uma ligeira escorregadela pela neve amolecida pelo sol e pela ausência do bafo gélido do bradagà, e por pouco não caiu devido à perna ferida. A avaliar pelo céu carregado, não deveria tardar a nevar outra vez, agora que o bradagà já não mantinha o horizonte limpo. Mais uma razão para partir quanto antes.

Num ápice, o guerreiro chegou à porta do Gènnepe, o bordei que freqüentara nos últimos tempos, sem contudo tomar parte nas atividades que seria de esperar. Conhecera Layaline, uma das jovens prostitutas que tinham vindo para a Cidadela em busca de segurança, e compadecera-se da história desta. Os dois tinham chegado a um tácito entendimento, no qual ambos procuravam conforto nos braços um do outro como as almas solitárias que eram, sem contudo irem além disso. Làriana, a filha que Layaline tivera com o proxeneta da Gènnepe, parecera entretanto ter eleito Aewyre como seu pai adotivo, um papel que o jovem nem desgostava de todo e que o ajudara a aplacar a sua conturbada mente nos últimos tempos. Passando por debaixo da insígnia com a silhueta de uma mulher de saias alçadas em baixo-relevo, Aewyre entrou no estabelecimento quase vazio, dentro do qual algumas mulheres aborrecidas e inquietas aguardavam. O proxeneta estava presente, mas desde a ameaça que o jovem lhe proferira nunca mais abrira a boca; somente a mão quando sequer se dignava a vir ele receber o pagamento. Havia um certo clima de incerteza quase palpável, pois a comunidade do recinto inferior vivia em função da Cidadela da Lâmina, e ninguém se incomodara a vir esclarecer os habitantes quanto ao que verdadeiramente acontecera. Os rumores abundavam, mas não havia muita gente disposta a abandonar as suas casas, cora ou sem guerras de sucessão na Cidadela. Boa parte daquela gente já tinha raízes bem assentes, e Layaline explicara-lhe que, para muitos, servir os Lamelares era uma espécie de tradição familiar.

Algumas das raparigas que já conheciam Aewyre sorriram-lhe fracamente, e o jovem retribuiu com um aceno da cabeça que não discriminava nem favorecia ninguém antes de subir as escadas. Muitos viam Layaline como a sua prostituta manteúda, pois Aewyre dera a entender ao proxeneta que a queria só para si, e já por várias vezes lhe enviara prendas e a Làriana, mas a rapariga não se parecia importar com os que os outros pensavam. Aewyre percorreu rapidamente o escuro corredor iluminado pela mortiça luz de uma janela de vidraças de chifre polido até chegar ao quarto de Layaline, à porta do qual bateu.

— Layaline? Sou eu.

Ouviu passos no interior, bem como uma voz de criança a perguntar algo. Làriana, a filha de Layaline, não tinha por hábito vir ao quarto da mãe, embora as visitas de Aewyre fossem freqüentemente um pretexto para o fazer. Foi a criança quem lhe abriu a porta, espreitando com os seus grandes olhos através da fresta e revelando um sorriso desprovido de incisivo superior.

— Gùn eller — cumprimentou Làriana com uma voz que denotava tanta timidez quanto afeto. Era óbvio que a rapariga não estava habituada a falar com adultos, e o proxeneta nunca a tratara bem, mas Aewyre já se mostrara merecedor da sua confiança.

Làriana abriu o resto da porta com uma pequena mão, segurando Ìve, a sua boneca de trapos, com a outra. Aewyre conseguiu rachar um sorriso e esfregou-lhe os cabelos castanhos, desarranjando-lhe a curta franja à testa e extraindo um deleitado guincho da criança, que se encolheu bruscamente, enxotando a manápula com uma palmada. Layaline estava de costas viradas para a arca, uma das poucas peças de mobília do seu quarto, e tinha as mãos cruzadas atrás, como se estivesse a esconder algo. Vestia um despretensioso e nada revelador vestido azul, e sorriu o seu sorriso de dentes pequenos, mas estava patente na sua cara o nervosismo ao qual nenhum dos habitantes do recinto inferior escapara.

— Olá, Aewyre — cumprimentou, ajeitando o vestido às roliças ancas com as mãos e alçando ligeiramente o peito. Os dois tinham chegado a um entendimento, e o jovem nunca fora nada além de cortês com ela, mas uma vida passada a agradar a homens deixava os seus tiques.

— Olá, Layaline. Vim buscar as minhas coisas.

Após o ataque e subseqüente confusão na Cidadela, Aewyre achara por bem deixar os seus bens mais preciosos ao cuidado de Layaline. Os seus apontamentos e o livro de Fèdac encontravam-se dentro da arca da rapariga, bem como boa parte do seu dinheiro e equipamento essencial. Confiava em Layaline, e sabia que ninguém além dela mexeria na sua arca, pois o bordel sempre as usara como repositório para as armas de Lamelares que vinham usufruir dos serviços do estabelecimento. E ninguém queria mostrar o mínimo de desconsideração para com um Lamelar, ou mesmo um mero Portador. Aewyre quis avançar, mas Làriana ainda não acabara, e pôs-se diante dele com pequenos braços estendidos, franzindo os lábios em sinal de quem queria um beijo. O jovem obsequiou-a com um fraco sorriso, ajoelhando-se e osculando-lhe ligeiramente a boca. Era um hábito laonês no mínimo estranho, mas a rapariga fazia-o sempre com a sua mãe e desde o início que insistira que Aewyre correspondesse. Porém, desta vez Làriana pareceu sentir que algo se passava, e virou-se para a sua mãe assim que Aewyre se ergueu para se dirigir à arca.

— Càdru, ès-tel? — perguntou com tom de quem estranhava algo. Layaline parecia ecoar esse sentimento, pois olhava Aewyre com ar de quem temia uma revelação iminente. Não sabia muito da sua história, apenas que o guerreiro era um Portador, e que viera à Cidadela em busca de uma forma de obter a Essência da Lâmina sem ter que combater. A rapariga desde sempre se habituara a não fazer demasiadas perguntas aos seus clientes, e Aewyre não era tratado de forma muito diferente. As conversas de ambos tratavam sobretudo do passado de Layaline e, ocasionalmente, de Lhiannah, o principal motivo pelo qual nunca tinham chegado a vias de fato. Não que Layaline não fosse atraente de uma forma rústica, mas Aewyre começara a vê-la mais como amiga e confidente, e esta via-o como uma espécie de protetor.

— Tu vais embora, Aewyre? — indagou com o seu sotaque laonês de us e erres exagerados. Melhorara ligeiramente o seu Glottik desde que Aewyre passara a visitá-la, e já era possível ter uma conversa minimamente coerente com ela, mas de momento não era essa a vontade do guerreiro. — Vais partir?

Aewyre interrompeu brevemente o seu caminho pela senda da lâmina, e pousou a mão sobre a cremosa bochecha branca de Layaline, afagando-lhe ligeiramente a maçã do rosto com o polegar.

— Tenho que ir. Já não me podem ajudar na Cidadela, e precisam de mim... em minha casa.

As escuras sobrancelhas de Layaline franziram-se, e esta agarrou a mão de Aewyre com as suas, apertando-a.

— Também precisamos, eu e a Làriana — disse. — Temos medo. A Cidadela...

— Desculpa, Layaline — pediu o jovem, recolhendo a sua mão. Já calculara que a rapariga lhe poderia pedir algo semelhante. — Não vos posso levar. Gostava, mas não posso.

— A Cidadela já não é... sùra. Não temos outro lugar para ir. Por favor...

— Não, Layaline — disse Aewyre, pegando-lhe delicadamente pelos ombros e deslocando-a para o lado para poder aceder à arca. — Desculpa, mas não vos posso levar.

— Aewyre...

— Não — disse este peremptoriamente. Um ano atrás, não teria hesitado em levar Layaline e Làriana. Talvez mesmo todas as outras prostitutas, que podiam bem vir a tornar-se presas fáceis para Lamelares menos escrupulosos; provavelmente até qualquer outro aldeão que se sentisse inseguro. Mas não agora. Não podia ter distrações, não podia fazer desvios. A altura dos heroísmos acabara.

Aewyre sentiu mãe e filha entreolharem-se nas suas costas, mas já se endurecera o suficiente para aquele momento, que soubera ser praticamente inevitável. Não que não fosse sentir falta de Layaline e da companhia desta, bem como da candura de Làriana, mas simplesmente... não podia. Ter duas pessoas a seu cargo, dependentes dele, era algo que não podia comportar. Não agora. Não com o que tinha que fazer. Já era suficientemente mau ter literalmente que levar um drahreg incapacitado às costas, já tinha demasiadas coisas na cabeça; não iria levar também uma mulher indefesa e uma criança consigo, por muito que gostasse das duas. A senda da lâmina era demasiado estreita para dois, quanto mais quatro.

— Desculpa — pediu com tom de finalidade, ajoelhando-se então diante da arca e preparando-se para a abrir.

— Não sabes ler Lloranc — disse Layaline. — Como lês o livro? Aewyre reteve as mãos e olhou sobre o seu ombro. A rapariga pareceu ligeiramente envergonhada, pois as suas bochechas brancas enrubesceram, mas tinha o ar de quem tomara uma decisão e iria ater-se a ela.

— Layaline, andaste a ver as minhas coisas?

Esta mexeu nervosamente no cabelo, e Làriana olhava com grandes olhos castanhos para Aewyre como se esperasse o castigo por um grande disparate.

— Não devias mexer nas minhas coisas, Layaline. Eu confiei em ti e deixei-as contigo porque pensava que ficariam seguras.

— Eu sei. Desculpa. Mas vi um livro sobre espadas, e...

— Não interessa. Tu... — Aewyre calou-se, franziu as sobrancelhas e ergueu-se, fitando Layaline de cima com tal seriedade que esta virou a embaraçada cara. — Como é que sabes que o livro é sobre espadas?

— Eu... sei ler — confessou a rapariga.

Pela primeira vez em dias, a testa de Aewyre enrugou-se de surpresa, aliviando ligeiramente a austeridade do seu rosto.

— Sabes ler? — perguntou o guerreiro, admirado. Pois claro, esquecera-se de que Layaline fora filha de um cônego de Gorfanna. Um homem religioso e instruído como o seu pai podia bem ter-lhe ensinado.

Layaline fez que sim com a cabeça, olhando Aewyre com olhos que pareciam ficar maiores e com o branco mais definido a cada instante que passava. Mãe e filha tinham o mesmo olhar de corça, e naquele momento concentravam-nos ambas em Aewyre numa tentativa de induzir compaixão.

— Precisas de saber uma coisa do livro, não precisas? — perguntou Layaline retoricamente, pois era óbvio o interesse de Aewyre pelo velho tomo. — Eu posso ler. Posso ler contigo. Posso ajudar-te a perceber. Tu não sabes Lloranc, mas eu posso falar com as pessoas durante a viagem. E posso cozinhar. Também sei cozinhar. E...

Aewyre pousou-lhe os dedos indicador e médio sobre os pequenos lábios carnudos, silenciando-a para poder pensar. Era uma questão de comparar a vantagem de se adiantar no estudo do livro de Fèdac contra a desvantagem de ter mais duas bocas a alimentar e duas vidas a proteger durante a viagem. Deveria levar pouco mais de um mês a chegar a Ul-Thoryn, e com a ajuda de Layaline podia até ser que descobrisse algo de importante ou relevante, podendo então chegar à cidade já com o conhecimento do que deveria ou não fazer. Não esperava deparar com perigos significantes pelo caminho, pois tanto Laone como Nolwyn eram regiões civilizadas e, ao contrário da sua partida um ano atrás, desta vez cingir-se-ia exclusivamente às estradas. Não tentaria salvar cidades desta feita, nem partir em busca de artefatos perdidos. Seltor era a única potencial ameaça, pois não sabia se O Flagelo tinha ou não a capacidade de o detectar, nem tinha como prever de que forma o poderia ameaçar. Presumia que Ancalach não mais serviria como chamariz para os servos do Bastardo, visto que este já não se encontrava alojado dentro dela, mas de alguma forma Culpa conseguira chegar a ele. Havia perigo, portanto, e nesse caso Layaline e Làriana seriam uma desvantagem, uma fraqueza. Um alvo.

Suspirando, Aewyre tornou a pegar na rapariga pelos seus braços roliços, fitando-a com franqueza,

— Layaline, é perigoso viajar comigo. Já houve pessoas que morreram só por estarem perto de mim. É isso que queres? Pensa na Làriana...

— Sim, Aewyre, sim — insistiu esta. — Queremos ir contigo. Aqui não estamos sùras.

— Seguras — corrigiu o jovem.

— Sim, não estamos seguras.

Aewyre refletiu mais um pouco. Estava quase certo de que Layaline não estava apaixonada por ele, mas aquela vontade irracional de o acompanhar rumo ao desconhecido, em vez de permanecer no seu lar, onde não havia sequer a certeza de que correria perigo... Sentiu um pequeno puxão na bainha da sua camisa, olhou para baixo e viu Làriana abraçar-se à sua perna. As duas estavam a virar-lhe todas as armas das quais dispunham, e a descarregar-lhas impiedosamente em cima. Ao ver que Aewyre estava a oferecer resistência à desapiedada saraivada, Layaline achegou-se dele, pressionando ligeiramente as suas macias formas contra o seu torso.

— Também posso...

Aewyre afastou-se, arrastando Làriana com a sua perna, e tornou a silenciar Layaline com um gesto da mão. Desde que se tornara órfã, a rapariga conhecera apenas uma moeda de troca, e habituara-se a assegurar uma vida minimamente confortável para si e para a sua filha fazendo uso do seu corpo.

— Não — disse peremptoriamente. — Já te disse que comigo não precisas de fazer isso.

Aewyre pegou na cara de Layaline com ambas as mãos, aproximando-a da sua, e talvez a tivesse agarrado com um pouco de força a mais, pois esta agarrou os seus pulsos.

— Podes correr perigo comigo também. Tens a certeza de que queres vir comigo, e trazer a tua filha? — repetiu, a sua voz mais séria do que nunca.

Layaline ainda o fitou momentaneamente nos olhos, considerando o peso das palavras do guerreiro, mas acabou por acenar a cabeça tão afirmativamente quanto o aperto das mãos de Aewyre lhe permitiram.

— Sim. Vamos contigo.

«Agora é que ela me apanhou...», pensou Aewyre. Precisava dela. De alguma forma, Layaline sabia que o livro era muito importante, e o ardil feminino que lhe armara dava-lhe um argumento de peso para que o jovem a levasse consigo. — Está bem. Podem vir as duas. Mas...

— Oh, marsià, marsià!— agradeceu Layaline, começando a tagarelar em Lloranc enquanto se dependurava do pescoço de Aewyre e lhe cobria a face e mesmo a boca de beijos.

— Mas... — tentou novamente o jovem completar a frase, mas Làriana soltou um guincho de deleite e apertou a perna do jovem como um pequeno torniquete, e os efusivos agradecimentos de Layaline tornaram a tarefa mais difícil ainda.

— Ouve! — Aewyre conseguiu desenlaçar os braços da rapariga do seu pescoço e afastou-a ligeiramente. — Não vão viajar só comigo. Eu trago a... pessoa com a qual vim para a Cidadela.

Layaline abanou a cabeça como para dar a entender que não importava, entaramelando o seu desajeitado Glottik com Lloranc e quase com lágrimas nos olhos.

— Vamos viajar muito, e descansamos pouco. — Não era bem verdade, tendo em conta que Kror não poderia esforçar muito a perna e teria que ir de carroça, mas Aewyre sentia que tinha obrigatoriamente de apresentar um último fator dissuasor. — Vamos dormir na floresta, e vai haver frio e neve, e a Làriana...

— Não temos frio. Levamos roupa — afirmou prontamente Layaline, que naquele momento estava num estado tal que, se Aewyre lhe dissesse que seriam perseguidos por harahan, diria que não fazia mal, que levariam velas.

— Pronto, pronto — tentou o jovem serenar os ânimos. — Partimos hoje. Preparem as vossas coisas, e eu venho buscar-vos quando formos embora.

— Vens mesmo? — quis Layaline saber num último assomo de incerteza.

— Venho — assegurou o jovem, aquietando-a com gestos das suas mãos, virando-lhe as costas e curvando-se sobre a arca. Abriu-a então por fim e tirou de cima das roupas de Layaline o livro, a sua mochila e a sua reserva de moedas de ouro. — Podes ajudar-me a comprar uma carroça e uma mula, depois.

— Sim, sim! — prontificou-se a rapariga de imediato, batendo com as mãos. — Marsià! Obrigada!

«Espero que não te arrependas.»

Aewyre não estava a ser capaz de sacudir o pensamento de que já se estava a desviar ligeiramente da senda da lâmina, tão pouco tempo após a sua resolução. Mas, por outro lado, com a ajuda de Layaline, poderia talvez descobrir o que Assiòn lhe quisera mostrar. Podia ser que encontrasse algo acerca da Essência da Lâmina que lhe encurtasse o caminho que tinha a percorrer. E, claro, as duas seriam uma companhia bem mais agradável que Kror, e podia até ser que tornassem a viagem menos penosa.

— Vou buscar o meu companheiro — disse, endireitando-se e pondo a mochila ao ombro. — Leva roupa e o dinheiro que tiveres. Depois venho buscar-te, está bem?

— Está bem — concordou Layaline, fazendo repetidamente que sim com a veemente cabeça, sorrindo em óbvia ignorância dos rigores da viagem que a esperava.

— Pronto. Não demoro — assegurou Aewyre, dirigindo-se à porta. — Làriana, larga-me a perna, por favor.

 

Na vasta cozinha de Allahn Anroth preparava-se o almoço para as cortes de Ul-Thoryn e Lennhau e, como já era habitual, dentro do local desenrolava-se uma autêntica batalha campal com gritos e o tinir de metal para melhor ajudar à impressão. Corria pelos altos escalões da cidade uma piada, segundo a qual a guarda de elite de lorde Aereth deveria ser constituída por cozinheiros e pelos seus ajudantes, pois após vinte anos de paz e complacência, estes estariam muito mais bem preparados para uma guerra do que qualquer soldado. Embora não fossem assim tão longe para defenderem os seus mesteres, todos os presentes, desde o mais requisitado trinchador ao mais reles soprador, não hesitariam em afirmar que tinham que tomar parte em duas verdadeiras pugnas por dia, empunhando os seus respectivos utensílios com cansado orgulho. Mestre Colmor, o arquimagiro, o mestre cozinheiro, era um rígido general cuja reputação o precedia e ainda assim não lhe fazia justiça. Como um dos mais solicitados cozinheiros de Nolwyn e nações circundantes, encarava cada refeição como a batalha que era. Uma batalha contra a inépcia dos seus ajudantes, contra a mundaneidade das especialidades vigentes, contra o banquete que anteriormente preparara, e ocasionalmente contra o azeite coagulado.

Os enormes candelabros de ferro que pendiam das abóbadas tinham as velas apagadas, e a cozinha era iluminada pela luz proveniente das janelas e das labaredas dos fornos, o que naquele frio Inverno tornava o local minimamente apetecível. Apetecível, não confortável, pois mestre Colmor era onipresente, e a catarata que tinha num olho não o impedia de descortinar qualquer tipo de lassidão. Era um homem rubicundo e grisalho, e todas as suas roupas pareciam ter manchas e nódoas das mais variadas cores e feitios, como se nunca as mandasse lavar. Uns diziam que era um motivo de orgulho, que mestre Colmor as ostentava como um guerreiro veterano o faria com as suas cicatrizes, e lorde Aereth parecia mais que disposto a perdoar-lhe essa pequena excentricidade em troca dos seus serviços. As suas feições rubras davam-lhe um ar eternamente enfurecido, e embora nunca tivesse batido em ninguém, nem levado a cabo uma das suas muitas grotescas ameaças, que envolviam espetos e orifícios reclusos dos corpos dos seus serventes, era temido e respeitado na cozinha, pois lá era rei e senhor. Ninguém estava isento da sua acerba língua, ninguém a não ser a desnaturada criança que a guilda de rateiros enviara, à qual fora concedida uma espécie de imunidade diplomática. Mestre Colmor tinha horror a ratos, não porque os temesse, mas pela possibilidade de uma das abomináveis criaturas mergulhar numa sopa sua ou mordiscar uma das suas delicadas obras de pastelaria. Ratos iam contra quase tudo em que mestre Colmor acreditava, e este predispusera-se a tolerar a presença de uma criança cujas roupas de mendigo e coifa branca imunda cheiravam a coisas malsãs, desde que esta erradicasse a sórdida ameaça.

Em poucos dias, Taislin conseguira estabelecer uma sólida reputação como rateiro, e a guilda não se arrependera de o ter destacado para Allahn Anroth. Os seus pares invejavam a sua capacidade felina de caçar ratos, e Nolario, o cabecilha da guilda, via um futuro promissor naquela que julgava ser mais uma criança órfã que aprendera a sobreviver pelos seus próprios meios. Como burrik, não lhe era particularmente difícil manter a fachada, desde que andasse cabisbaixo, mantivesse os cabelos diante da cara, e evitasse olhar para pessoas em áreas bem iluminadas, onde os seus olhos de gato o poderiam denunciar. O palácio tinha realmente um problema, embora não fosse tão sério quanto algumas pessoas julgavam. Contudo, bastava exibir um único rato e era louvado como um herói, como se tivesse acabado de tornar o mundo um lugar ligeiramente mais seguro. Graças às suas façanhas e à sua personalidade travessa, Taislin fora bem acolhido na cozinha, onde já conhecia bastantes pessoas pelo nome. Por estranho que parecesse, só por pensarem que de fato era uma criança, as pessoas tinham tendência a serem mais tolerantes para com o que dizia, algo que o burrik achava bizarro. Não percebia por que razão os humanos haveriam de querer crescer, se passavam a ser tratados de forma diferente.

— E o que aconteceu, então? — perguntou-lhe uma rapariga feia com touca e cabelos esgarçados enquanto espalmava massa com mãos farinhentas.

— O bicho escondeu-se. Via-lhe a cauda abanar como uma cobra, de tão grande que era — disse Taislin, ilustrando com movimentos serpenteantes do seu braço. Encontrava-se sentado sobre a mesa, e balançava as suas pequenas pernas. — Bati com a vassoura, mas não lhe conseguia acertar.

— Bem sei — confraternizou uma matrona de grandes braços flácidos e voz esganiçada. — Palavra, parece que os malditos bichos sabem onde vamos bater.

— Este era pior — assegurou o burrik. — Estava escuro, e juro que dava para ver o vermelho dos seus olhos a brilhar.

— Cala-te — disse a rapariga, agitando os ombros com um arrepio. — Estás a fazer-me impressão.

— Juro. Ouvia-o chiar e tudo, e quando tornei a bater com a vassoura... — Subitamente, Taislin arregalou os olhos e estendeu os braços de dedos curvados na direção da rapariga, chiando agudamente.

A rapariga cuincou e afastou-se com um pulo, resguardando-se instintivamente com os braços. Os outros presentes riram breve e contidamente, habituados como estavam à incessante vigília de Colmor, e Taislin saiu de cima da mesa com um golpe das pernas, rindo endiabradamente.

— Velhaco! — protestou a rapariga, pegando no seu avental e tentando vergastar Taislin. O burrik esquivou-se facilmente, e passou por debaixo da mesa para evitar uma nova investida. Os outros riram um pouco mais. — Eu devia...!

— Mas o que é que se está aqui a passar? — quis Colmor saber, e o som da sua voz pôs todos menos Taislin em sentido. — O que é que andam a fazer, suas sacripantas? Juro que vos amasso essas cabeças ocas com o rolo se me estragam a massa!

— Não se preocupe, mestre Colmor — saltou Taislin em defesa das mulheres. — Estava só a ensinar à Edemia o que ela deve fazer se por acaso vir um rato.

— Ai é, catraio? Então agora também se usam aventais para matar ratos?

— E por que não? Alguma coisa morreu com o avental do mestre cozinheiro... — comentou Taislin, apressando-se a retificar antes que alguém reagisse ao seu não tão inocente reparo. — Ou pelo menos alguém morreria por ele, para ter o avental do melhor cozinheiro de Allaryia.

Num raro momento de indecisão, mestre Colmor não soube se deveria sentir-se ofendido pela afirmação inicial ou ignorar a lisonja da segunda, como estava habituado a fazer. Os outros desviaram os olhares, temendo ser de alguma forma implicados caso o arquimagiro optasse pela primeira opção, mas tal não veio a acontecer. Colmor limitou-se a lançar um olhar de advertência a Taislin antes de se retirar para ir berrar com outras pessoas.

— É bom que vás apanhando ratos, catraio — disse de costas para o burrik.

As ajudantes suspiraram de alívio e regressaram rapidamente às suas tarefas.

— Não faças isso, Mãosdelã — disse-lhe a matrona em voz contrita. Taislin dera apenas o seu apelido, “representando o papel de um órfão sem nome. — Ainda arranjas problemas, e a nós também.

— Não se preocupem. — Taislin ainda tinha dificuldades em ajustar o seu registo, achando que representar o papel de uma criança fazia com que perdesse muitas boas oportunidades para fazer comentários espirituosos. — Ele ladra, mas não morde.

— Vá, vai-te lá embora antes que te metas em sarilhos, seu malandro. Não tens ratos para apanhar?

— Sim, tenho. Hoje vou ver o quarto do prisioneiro, o thuragar.

— Ai já te deixam ver os quartos? Sim senhor, grande confiança... — comentou a rapariga da touca.

— Sou bom, o que é que queres? — disse Taislin, encolhendo os ombros.

— Vá, andor — enxotou-o a matrona. — Temos que trabalhar. Vê lá, não roubes nada.

— Vão sentir a minha falta — despediu-se Taislin, encaminhando-se então para o sopeiro.

Arpezo, era o seu nome, e as refeições de Lhiannah estavam a seu cargo. Como prisioneira nobre que era, a arinnir tinha direito a algo mais além de água e côdeas ensopadas em molho, embora Taislin tivesse ouvido dizer que isso se devia sobretudo a uns recados da princesa Iollina. Ao que parecia, Lhiannah e Aereth tinham tido um «desentendimento», e este relegara-a a um claustro que em Allahn Anroth era conhecido como o Ninho, e que aparentemente se situava no topo de uma das torres do palácio. Taislin não conseguira acesso ao local, mas tinha idéia de como lá chegar, e para isso a princesa teria que ser informada.

— Olá, Arpezo. O que é o almoço hoje?

— Olhó Mãosdelã — cumprimentou-o o sopeiro, um homem bonacheirão com cabelos cinzentos ralos e um nariz com poros deveras visíveis. — Hoje temos sopa de rato. Ha!

Taislin ainda não percebera se Arpezo estava simplesmente a falar como falaria com uma criança, ou se achava efetivamente que era engraçado. Não tinha grande sucesso em nenhuma das hipóteses, mas o burrik achava que, se passasse o dia a remexer os conteúdos de potes e a condimentar sopas e caldos, talvez também fosse assim.

— Vais usar os que apanhei? — perguntou o burrik candidamente, entrando na brincadeira.

— Só os que forem mesmo sujos — continuou o homem a divertir-se, erguendo as sobrancelhas e inclinando-se de forma cúmplice para Taislin. — E já sei que vão fazer patinhas de rato como entrada.

Embora não achasse grande piada, o burrik não teve grandes problemas em sorrir, pois era algo que vinha naturalmente aos da sua raça.

— Ha, ha! E a princesa, que come ela?

— Então e porquê todo esse interesse no que a princesa come, hã? — indagou Arpezo. — Já da outra vez me perguntaste...

— Estou só curioso. Gostava de saber a que sabe a comida de prisioneiros.

— Olha, esta sabe melhor que aquilo que tu e eu comemos — disse Arpezo, largando a colher de pau e passando para outro pote, este com um guisado que ainda fumegava. — Olha-me para esta delícia: carne de vaca, boa vaca, cebola, passas, vinagre... Tomara muito boa gente ter isto ao almoço.

— Também quero ser preso... — entrou Taislin no jogo.

— Vá, não faças essa cara de desgraçadinho — disse o sopeiro, pegando numas passas e oferecendo-as sub-repticiamente a Taislin.

— Toma estas para enganares a fome, antes que mestre Colmor nos veja a falar. Ele não gosta nada de tagarelas.

O burrik aceitou-as com a pequena mão suja, e sorriu o seu sorriso reto antes de enfiar uma na boca com um ar mais deliciado que o que esta merecia. O sopeiro virou-lhe então as costas, e Taislin sacou de um pequeno frasco, olhando rápida e furtivamente em redor antes de o atirar para dentro do guisado. Como este era espesso, o frasco ficou parcialmente à superfície, e o burrik teve de se certificar de que ninguém o via enquanto enfiava o resto com a ponta do dedo. Fê-lo mesmo a tempo, e improvisou de seguida quando Arpezo se virou para ver o que estava a fazer, afetando uns movimentos floreados com a mão, como se estivesse a apreciar o aroma do guisado.

— Então? Põe-te a andar, Mãosdelã. Mestre Colmor é capaz de encontrar um cabelo preto numa morcela, e se me sujas o guisado...

— Está bem, está bem — acedeu Taislin, fingindo amuo ao afastar-se e dirigir-se para a saída.

A sua boa prestação na caça aos ratos não passara despercebida aos serventes e camareiros, a espinha dorsal de qualquer palácio, e tinham-lhe sido concedidos privilégios de acesso a áreas mais reservadas. Por norma era sempre vigiado por um camareiro, para que não roubasse talheres ou afins preciosidades (não que isso tivesse ajudado muito), mas Taislin tivera o bom senso de repor tudo o que furtara. Por muito que lhe custasse, e por muito evidente que fosse que aquela gente não precisava realmente de tantas coisas, libertar os seus companheiros era mais importante, e não se podia dar ao luxo de cair em suspeita. Caminhando de cabeça intencionalmente baixa por uma floresta de pernas, o burrik saiu pela porta da cozinha que levava ao salão principal, percorrendo um longo corredor decorado com frescos de cenários bucólicos antes de lá chegar. Serventes e lavadeiras passavam por ele, atarefados com os seus afazeres e ignorando-o. Apesar do seu ar circunspecto, Taislin estava atento como um gato a cada passo, e já estudara bem o palácio. Faltava-lhe apenas examinar as suas entranhas, mas se tudo corresse bem, em breve teria acesso a elas também.

— Mãosdelã?

Fingindo-se surpreso, Taislin olhou para o lado e viu o camareiro, um homem baixo com uma túnica amarela que nunca lhe revelara o seu nome. Tinha papos debaixo dos olhos e grossos lábios com cantos descaídos, e um ar que só podia ser descrito como enfadado com tudo e todos. O seu gorro vermelho parecia uma versão alongada (e bem mais feia) do barrete do burrik, e trazia um molho de chaves ao cinto.

— Senhor...?

— Estás atrasado. O que foste fazer à cozinha?

— Ver ratos...

— Já viste os ratos. Por que é que voltaste lá? Disse que viessem trazer-te aqui ao salão.

— Estava com fome, senhor. Desculpe — mentiu o burrik com ar falsamente acabrunhado.

— Os da tua laia comem o que se lhes dá, quando se lhes dá. Entendes? — afirmou o camareiro petulantemente.

— Sim, senhor. Desculpe.

O homem fungou com desdém e virou as costas a Taislin.

— Segue-me. Hoje vais verificar o quarto do prisioneiro.

«Se eu tivesse que usar um gorro assim, talvez também fosse mal-encarado...», compadeceu-se o burrik, seguindo o camareiro pelos corredores fora.

Enquanto caminhava, ao invés de observar objetos bonitos e atreitos a serem levados, Taislin ia desenhando um mapa mental do palácio para eventual futura referência. Não era um bom local para fugir, demasiado amplo e iluminado, e parecia haver sempre alguém a andar pelos corredores. Era lindíssimo, com os seus pisos providos de ornados ladrilhos, frescos ao longo das paredes, e uma verdadeira galeria de cariátides de mármore com humanos bem vestidos e caras enfadadas em recessos ao longo das paredes, mas Taislin duvidava de que os guardas estariam perdidos em contemplação dessa beleza enquanto os prisioneiros escapavam. Como para ilustrar os seus receios, surgiram dois homens com arneses em forma de ampulheta e barbudas com aberturas em forma de Y, empunhando ameaçadoras partasanas. Podiam não estar tão organizados como os da fortaleza de Coilen em Alyun, mas também nessa altura Taislin tivera apenas que se infiltrar, não fugir com outras duas pessoas a atrapalharem. O burrik não estava habituado a fazer grandes planos e preferia agir segundo os seus impulsos, mas eram as vidas dos seus amigos que estavam em jogo, e não as iria perigar só por capricho. Aprendera o suficiente nas suas aventuras com os seus companheiros para perceber que, quando não estava a trabalhar sozinho, as coisas funcionavam melhor com um plano. Modéstia à parte, o que urdira até nem era nada mau, e mal podia esperar para o partilhar com Worick e Lhiannah e ver as suas caras surpresas. Gozavam sempre com ele de cada vez que tentava colher os merecidos louros das suas façanhas, mas desta vez não teriam nada a apontar. Até o Worick seria forçado a engolir as suas palavras, e Taislin teria todo o gosto em lhas temperar.

Sem uma palavra, o camareiro virou-se e deteve-se diante de uma porta, à frente da qual ficou a remexer no seu molhe de chaves, mantendo-o desconfiadamente perto da barriga e espremendo a papada do seu pescoço para fora ao baixar o queixo. O seu lábio inferior projetou-se para fora ao fazê-lo, e Taislin ficou a observar a grotesca careta do homem enquanto este procurava a chave, questionando-se como ele conseguiria sequer ver a olhar para baixo com tamanhos papos debaixo dos olhos. De alguma forma, o camareiro lá conseguiu encontrar a chave, e abriu a porta, lançando um último olhar papudo de advertência a Taislin antes de entrar.

— Não toques em nada, criança — reiterou, postando-se ao lado da porta e cruzando os braços, sem sequer olhar para o burrik.

— Sim, senhor — anuiu Taislin, entrando ele também e detendo-se apenas brevemente ao ver Worick deitado na cama. Não era uma posição na qual estivesse habituado a ver o thuragar, muito menos com tamanho palor na cara deste, envolto em mortiços lençóis brancos e com os cabelos e barba soltos. Parecia tão mais grisalho, tão mais... velho.

O camareiro pigarreou como para sinalizar que Taislin se devia despachar, e este recuperou rapidamente da sua surpresa inicial, fingindo então estar a tirar as medidas à sala. O quarto não tinha janelas, e as únicas peças de mobília além da cama eram uma mesa de artesão, um lavatório e uma arca. A luz provinha do fogo da lareira, bem como de umas candeias dependuradas das paredes, e era suficientemente difusa para que Taislin se permitisse levar mais tempo que o que seria de prever para um quarto daquelas dimensões.

— Já... viram ratos aqui?

Podia ser impressão sua, mas pareceu-lhe ver a cara feia e cheia de cicatrizes de Worick mexer-se ao som da sua voz. Quase imperceptível, uma mera contração de um músculo facial. Taislin continuou a fingir estudar a sala.

— Não — respondeu o camareiro secamente.

— Isso não quer dizer nada, senhor — afirmou Taislin, dirigindo-se à arca e espreitando por detrás dela. — Os ratos podem aparecer do nada. Às vezes, parece que voam. Ou que atravessam paredes.

O homem não pareceu interessado, nem tão-pouco motivado a dar continuidade à conversa, e Taislin prosseguiu com a sua busca fictícia. Não havia o mínimo indício de ratos, mas o burrik conseguira deixar o palácio em polvorosa com alguns visitantes indesejados que trouxera propositadamente das suas incursões noutros lugares. Os rumores de uma infestação não tardaram a fazer-se sentir, e os serviços da guilda foram ainda mais requisitados, sobretudo os de membros profícuos como o órfão Mãosdelã, e isto ao ponto de permitirem buscas mesmo nos cantos mais improváveis de Allahn Anroth, como o era aquele quarto.

— É que sabe... — O burrik calou-se repentinamente ao ver aberto o olho de Worick. O thuragar mantinha o outro fechado, e estava obviamente a tentar ser sutil, mas a surpresa de Taislin por pouco não lhe estragou os planos. — Hã... os ratos são espertos. Muito espertos.

Taislin caminhou ao longo das paredes, passando ocasionalmente o dedo pelo chão e levando-o ao nariz, fingindo-se de entendido enquanto aproveitava para olhar de soslaio para Worick. O thuragar estava acordado, disso não havia dúvida, e o camareiro não parecia ter reparado.

— Eles às vezes fazem-se de mortos, sabe? Conseguem desaparecer quase sem deixar rasto. Mas este deixou.

— Queres dizer que há um rato aqui, criança? — perguntou o camareiro, dando por fim sinal de que estivera a ouvir.

— Houve, houve, senhor. Ainda cheiro os cocozinhos que ele deixou — afirmou Taislin, erguendo o indicador que andara a passar pelo chão. Uma mentira, mas duvidava de que o homem fosse farejar os cantos do quarto só para se certificar. — Ele há de voltar.

— Tens a certeza?

— Oh, sim, senhor — asseverou o burrik, dirigindo-se então à cama de Worick, que seguia cada passo seu com um olho apenas. Felizmente, o thuragar tivera o bom senso de não desatar a barafustar, parecendo compreender que Taislin não estava ali propriamente de visita. — De certeza absoluta. Ratos voltam sempre quando não são encontrados, e adoram thuragar, sabe? Devem pensar que o cheiro é parecido, como também gostam de viver em túneis.

Taislin não resistira a esse pequeno chiste, e podia jurar que a barba de Worick se eriçara ligeiramente. O seu olho, pelo menos, arregalou-se, e nele liam-se todo o tipo de vitupérios que o thuragar certamente apenas a muito custo refreou. Para Taislin, resistir ao sorriso que ameaçava rachar-lhe a cara também não foi um esforço menor.

— Volta, sim senhor. E se alguém por acaso o vir, eu também terei de voltar. — O burrik enfatizou propositadamente as suas palavras, lançando a Worick um rápido e quase imperceptível olhar pleno de significado. — Não gosto quando ratos me escapam. Sabe como eles também ficam resistentes a veneno? Se um deles escapa a um certo rateiro, há outros que começam a escapar-lhe também, percebe?

— Já terminaste então, criança?

— Sim. Mas se alguém vir um rato outra vez, tem que me chamar, está bem?

— Anda. Já perdi demasiado tempo contigo — disse o camareiro secamente. Não saíra da mesma posição desde que Taislin entrara, e não fosse pela sua aparente pressa, parecia capaz de assim permanecer durante horas.

— Procurar ratos não é perda de tempo, senhor. Se um dia acordar na cama com um em cima do seu peito a olhar para si, logo me diz.

A imagem não pareceu perturbar o homem, que de qualquer forma não parecia ser particularmente perturbável. Era daquele tipo de pessoas que Taislin gostava de ajudar com os seus comentários espirituosos e reparos oportunos, pois tinha pena de pessoas sisudas, e achava que estas perdiam bastante na vida. Porém, tal como Worick, essas pessoas costumavam reagir mal ao seu altruísmo, e era importante estar nas boas graças do camareiro. Tanto quanto (ou mesmo se) era possível estar nas boas graças de alguém tão macambúzio.

— Anda, criança. Tenho mais que fazer.

— Sim, senhor — acedeu o burrik, esfregando os dedos nas calças sujas e lançando um último olhar a Worick antes de se dirigir à porta. Só podia esperar que o thuragar não estivesse demasiado embrutecido para perceber a sua mensagem. Não estava decididamente com bom aspecto, e não se lembrava de ver os seus cabelos tão cinzentos, nem a mecha branca na sua barba tão grande.

— O senhor chama-me a mim se alguém vir um rato aqui, não chama? — insistiu ainda, detendo-se à beira da porta. — Não quero que os ratos me comecem a escapar...

— Começo a perder a paciência, criança — avisou o camareiro, inclinando a velha cabeça para o lado para dar a entender que o burrik devia sair.

— Não a perca, senhor, não a perca — pediu Taislin, retirando-se por fim. — Pode ser que nunca mais a encontre...

Fungando desdenhosamente, o camareiro fechou a porta atrás de si, trancando-a com um girar da chave.

Como sempre, o Ninho estava frio e escuro, mas graças às oferendas de Iollina fora possível torná-lo minimamente habitável, cobrindo o bloco de pedra que servia de cama com uma colcha e tapando a estreita abertura na parede com mantas. O cubículo era agora iluminado por uma solitária candeia colocada na abertura, que de qualquer forma antes propiciara mais frio do que propriamente luz, e a pequena labareda banhava o cubículo com um sombrio lume amarelado. Lhiannah estava sentada sobre a cama, de costas para a parede e abraçada às pernas, cabisbaixa e com a cara tapada pelos cabelos louros, de cujas raízes se alastrava de forma cada vez mais evidente uma mancha mais escura. Envergava um vestido bege trazido pela aia a mando de Iollina, e tinha uma manta aos ombros para a resguardar do frio da parede, que se parecia querer infiltrar nos seus ossos. Ainda não sabia ao certo o que era pior no Ninho: o frio ou o silêncio. Lhiannah sentia-se destacada do resto do mundo, empurrada para um canto e esquecida, e o ter tapado a abertura na parede privava-a de qualquer ruído do exterior que pudesse ter passado através dela. Do outro lado da porta, o guarda raramente dava de si, a não ser quando vinha entregar-lhe as suas duas refeições diárias. Havia apenas um tênue e quase incessante ruído de fundo na forma de uma corrente de ar que uivava no exterior, ao qual a princesa já se habituara e que já mal registrava. Presa com os seus pensamentos, sozinha com o tédio, debaixo da pendente ameaça da criatura chamada Hepascar e sem saber se Worick estava bem ou não, Lhiannah quase enlouquecera. O seu couro cabeludo ainda lhe doía dos cabelos que arrancara de frustração, e os nós das suas mãos estavam cortados e inchados devido aos persistentes e desesperados murros na porta. Não dormira durante várias noites, temendo que Hepascar tornasse a surgir do nada, e não foi senão quando tombou de exaustão que conseguiu mergulhar num profundo sono cheio de pesadelos.

Porém, não tivera quaisquer visitantes inesperados nos últimos dias, nem sequer da aia ou da princesa Iollina, e o seu único contato humano continuava a ser o que obtinha através do guarda da sua porta. O homem não falava muito, apenas o estritamente necessário para lhe comunicar as horas de refeição, e nunca respondia às suas perguntas, mas a sua voz já começara a adquirir contornos balsâmicos para Lhiannah. Era a sua única companhia, por muito distante que fosse, o único indício de que não estava sozinha com os seus medos. Lhiannah passara por todo um espectro de emoções no Ninho, desde o desespero à autocomiseração, e naquele momento encontrava-se simplesmente num estado de letargia conformada. Já não tinha mais energias para se insurgir ou gritar, além de que sentia a garganta crua devido aos incessantes berros dos dias anteriores. Os seus amigos estavam longe, encontrava-se cercada por inimigos que até então desconhecera, e não via forma alguma de conseguir escapar dali. Pensara muito em Taislin, no ousado salvamento que este empreendera na fortaleza do tirano Coilen em Alyun, mas o tempo passara e o burrik parecia-lhe tão distante quanto Aewyre. E não estava numa masmorra, mas sim no topo de uma torre cuja porta dava para corredores com guardas arnesados e cuja janela era demasiado pequena para sequer ponderar arriscar uma queda que terminaria numa morte espatifada no pátio ladrilhado em baixo. Simplesmente, a princesa já não sabia o que fazer, e estava disposta a deixar o seu destino nas mãos dos deuses.

O ruído de uma mão revestida de aço a bater à porta ergueu-lhe a cabeça bruscamente, e por entre as madeixas de cabelos louros viam-se olhos azuis injetados de sangue e com olheiras.

— A vossa refeição, princesa — anunciou a familiar voz do outro lado da porta antes de abrir a pequena portinhola na base desta.

Lhiannah largou as pernas e deslizou os pés até ao chão, sentindo de imediato um intenso formigar descer-lhe pelos joelhos abaixo que fez com que coxeasse ligeiramente até à entrada. Da portinhola surgiram um pote com guisado fumegante e um jarro de vinho de cerâmica, ambos empurrados por um par de manoplas que Lhiannah já por várias vezes tentara agarrar na tentativa de extrair informações. Porém, naquele momento faltavam-lhe a vontade e a energia para o fazer, além de que ações daquelas só lhe tinham trazido mais problemas. Curvando-se para pegar resignadamente no seu almoço, Lhiannah retirou-se para a sua cama improvisada sem uma única palavra, e o guarda fechou a portinhola. O som dos seus passos acerados a descerem o curto lanço de escadas sinalizavam o reinicio do silêncio, e Lhiannah afogou-os com o som do vinho a ser tragado. Ainda que tivesse sabido distinguir uma boa colheita de uma qualquer zurrapa, não lhe teria feito diferença alguma, pois estava cheia de sede, e o vinho acalentou-lhe o corpo por dentro ao escorrer pela sua garganta abaixo. De qualquer forma, ultimamente nem a comida nem a bebida lhe sabiam a coisa alguma. Sentia-se atrofiar lentamente no Ninho, não havia nada que pudesse fazer a respeito, e não sabia quais as intenções finais de Aereth. Pretenderia o irmão de Aewyre mantê-la ali até que definhasse? Não ousaria, o seu pai Sunlar empreenderia uma guerra sem quartel contra Ul-Thoryn... Mas, e daí, por que haveria de o fazer? Não passava da inveterada filha bastarda, que ainda por cima fugira de casa e ao que parecia apenas arranjara problemas diplomáticos para o seu pai. A cabra da Alnara, a sua madrasta, estaria certamente a fazer e dizer das suas, e talvez achassem melhor deixá-la simplesmente naquela torre. Quem sabe, podia até ser que o seu pai e Aereth tivessem chegado a um entendimento, e que o motivo pelo qual ninguém lhe dizia nada se prendia com o fato de estar votada ao esquecimento no Ninho. Uma noção semelhante causara-lhe um ataque de pânico alguns dias atrás, mas naquele momento a arinnir não se sentia particularmente atreita a grandes emoções.

Lhiannah bebeu mais um trago de vinho, sentou-se e pousou o pote quente no seu regaço, ajeitando ligeiramente a manta sobre os ombros antes de começar a comer. Remexeu ligeiramente o guisado com a colher de pau que viera com o pote, batendo em algo duro no fundo, que tomou por um osso. Apesar da sua dessensibilização, o odor do guisado ainda assim fez-lhe água na boca, e Lhiannah soprou apenas levemente a primeira colherada, engolindo as seguintes com sofreguidão e queimando a língua ao fazê-lo. Ainda não a tinham feito passar fome, mas por vezes tinha a noção de que tão-pouco se esforçavam para lhe dar de comer a intervalos regulares. As refeições eram o ponto alto de cada um dos seus dias, pelo que aprendera a dar-lhes o devido valor. A aia de Iollina dissera-lhe que voltaria quando pudesse, mas aparentemente tal não lhe fora possível. O mais certo era Aereth ter sabido da visita, e talvez a pobre rapariga estivesse a ser castigada por isso mesmo. Não era justo, mas também, nada daquilo o era. Ainda assim, Lhiannah mal se achava capaz de reunir suficiente fel para sentir raiva para com o irmão de Aewyre. Estava demasiado cansada para o fazer, e só o resistir à tentação de simplesmente fechar os olhos e desistir de tudo já quase requeria mais energia de que Lhiannah julgava dispor.

A sua colher tornou a bater em algo duro no fundo do pote, e Lhiannah estranhou a vibração contra o metal. Não parecia ser um osso. Colhendo o estranho objeto, a princesa arrastou-o ao longo da concavidade do pote até à superfície, e ficou surpresa ao ver o guisado escorrer de um pequeno frasco de vidro. Por um breve instante, teve a noção de que estava ali para a envenenar, mas cedo se convenceu de que tal não faria sentido. Ainda assim, cuspiu o que tinha na boca para dentro do pote, e pegou no frasco com a ponta dos dedos. Era esguio e estava tapado com uma rolha, e parecia ter algo no interior. De sobrancelhas franzidas, Lhiannah sacudiu o frasco e deixou o resto do guisado escorrer, limpando-o então à ponta da manta que tinha aos ombros e chupando os dedos antes de o destapar.

— Mas que é isto? — murmurou Lhiannah para si mesma com uma voz rouca. Não costumava falar sozinha, mas ultimamente começara a tornar-se um hábito fazê-lo.

Era um pequeno rolo de papel, facilmente extraído, e que Lhiannah desenrolou com dedos hesitantes e de unhas carcomidas e mais compridas que as que costumava ter. Não reconhecia a letra da mensagem que nele estava escrita, ou melhor, gatafunhada a tinta, mas as palavras que os rabiscos formavam causaram-lhe um afloramento no peito mais quente que o do vinho.

Fax barulhu na tua latrina. Eu vô tirárte e au Uoric daí. Confia eim mim. Taislin

— Taislin? — disse Lhiannah em surdina, enrugando o papel com as pontas dos dedos ao apertá-lo com mais força. As palavras atordoaram-na, e a princesa piscou os olhos para as ler outra vez e certificar-se de que não estava a alucinar. Após a confirmação, Lhiannah esmagou a carta contra o peito, arquejando e olhando de boca aberta para o vazio.

— Oh, Taislin... — repetiu, deixando-se decair lentamente de costas contra a fria parede, fechando os olhos e enrugando a carta ao fazê-lo. Lhiannah começou a chorar, não de desespero, raiva ou frustração, mas por aquilo que já julgara ter perdido.

Esperança.

 

Em Allaryia, o sono nem sempre era algo restabelecedor, sobretudo para magos e todos aqueles que de alguma forma se relacionavam com a Essência de uma forma mais íntima que os demais restantes. Esses corriam o risco de se verem chamados pelo Pilar sempre que a sua consciência era deixada à deriva, o que sucedia quando meditavam e, por infeliz analogia, por vezes mesmo quando dormiam. Não era de todo infrequente um utente da Palavra encontrar-se inesperadamente em forma incorpórea nas águas do Pilar num misto de sonho e verdadeira manifestação.

Calhara a Allumno ver-se inconscientemente atraído naquela noite em particular, e a sua forma incorpórea andava à deriva no mar sidéreo do Pilar, emulando a sua postura adormecida. Não estando verdadeiramente alheio nem completamente ciente da sua presente condição, o mago continuava a dormir, mexendo-se apenas ocasionalmente a par dos movimentos do seu corpo. Porém, havia algo do qual se apercebia, ainda que inconscientemente: a sedutora voz masculina que lhe sussurrava aos ouvidos. Começara a ouvi-la mesmo no limiar do sono, durante a sempre imperceptível transição entre o estado desperto e o adormecido, e desde então esta não deixara de lhe falar. Se fazia ou não parte do seu sonho, Allumno não o soube dizer, mas não deixou de estranhar a nível visceral aquela que mesmo na sua presente condição se lhe afigurou como uma intrusão na sua psique. Embora a voz lhe fosse desconhecida, já não era a primeira vez que o mago a ouvia; esta sussurrara-lhe ocasionalmente durante as suas deambulações conscientes pelo Pilar, murmurando-lhe palavras que não faziam sentido imediato. Falava-lhe com a voz de um confidente, com o trato familiar de alguém que o conhecia, embora fosse difícil dizer se era ou não realmente com ele que estava a falar. Isto porque a voz nunca se lhe dirigia diretamente, além de nunca referir o seu nome e de se dirigir aos seus interlocutores no plural.

— Sim, havia a Sombra no Pilar — disse a voz, como se estivesse a dar seguimento a uma conversa cujo princípio Allumno não ouvira.

— Algum de vocês ficaram curiosos; é natural, está na vossa natureza. Acabaram por a descobrir, e foi mais forte do que vocês. Tiveram que a explorar.

Ainda posicionada como se estivesse a dormir, a manifestação incorpórea de Allumno mexeu-se, desconfortável por alguma razão.

— Exploraram-na, e descobriram as almas dos meus fiéis, os meus Fadados, sacrificados em meu nome. Viram-nos, e certamente perceberam que não era um destino que deveriam desejar para vós mesmos...

Bem fundo no seu subconsciente, Allumno sentiu que a sua mente estava a ser invadida, ainda que sutilmente, mas não se conseguia levar a fazer algo a respeito além de estrebuchar como se estivesse a ter um pesadelo.

— Não obstante, ouviram-me. Captaram as minhas impressões residuais na sombra. Sim, residuais. Eu nem sequer estava presente — explicou a voz.

— Durante a guerra estive ocupado, e depois desta, aprisionado. Ouviram, ou melhor, sentiram as minhas impressões residuais.

Flutuando à deriva, a manifestação de Allumno mexia-se, incomodada, sem contudo estar certo quanto ao que se estava a passar, se estava ou não a sonhar.

— Ninguém vos incitou ou incentivou. Ninguém vos obrigou a nada — continuou a voz. — Quando muito, enquanto chafurdavam na sombra como porcos em lama fresca, aperceberam-se das alternativas — enfatizou.

— Deixaram-se imergir na sombra porque esta vos agradou, porque vos mostrou outras possibilidades.

Insidiosa, a voz rodeou então a forma incorpórea de Allumno, não mais ciciando aos seus ouvidos, mas parecendo originar de todo o lado, como se soprada por um qualquer vento etéreo do Pilar. A sensação onírica foi o equivalente à impressão de estar a girar a par de um fantasma atrás do seu ombro, cujo tom se mantinha constante a despeito dos seus protestos.

— Aquilo que ouviram, aquilo que sentiram, encorajou-vos a serem verdadeiros para convosco mesmos, nada mais — persistiu a voz. — ‘Pelou as camadas que revestiam o verdadeiro âmago das vossas almas.

Mesmo adormecido e a sonhar, o mago contestou as palavras, estrebuchando e abanando a cabeça em negação.

— Vocês tinham poder, e eram temidos por isso pelos restantes. Justamente temidos. Daí até alguns se sentirem motivados a tirarem partido desse fato, foi um passo curto — afirmou a voz, pela primeira vez com um tom que só podia ser descrito como escárnio. — Um passo bastante curto.

— Não... — ouviu-se Allumno por fim dizer, mas a voz não pareceu fazer caso dele.

— Claro que o mais fácil foi culpar-me a mim quando as pessoas não gostaram do que viram — continuou, alheia aos seus protestos. — Tanto vocês como os outros. Há coisas que todos gostam de manter escondidas, mas que inevitavelmente vêm sempre ã tona. As minhas impressões residuais aceleraram esse processo.

— Não... — repetiu Allumno, tentando consciente ou inconscientemente bloquear a voz, parar de a ouvir, sem qualquer sucesso.

— Quando isso acontece, é sempre mais fácil culpar tudo o resto, exceto a nós mesmos, não ê? — indagou a voz retoricamente. — Os vossos pais. O vosso ambiente. A vossa sorte. O estranho, o desconhecido, o inefável. Eu sou todos esses três, logo, só podia ser eu o culpado.

— Não... — persistiu o mago, a sua forma etérea agora decididamente agitada, ciente de que se tratava de algo mais que um mero pesadelo.

— Dizem que sou o senhor das mentiras, mas a verdade é que aprecio... a verdade — disse a voz, fazendo então pela primeira vez uma pequena pausa. — E a verdade é que vocês não passam de animais.

Com isto, Allumno despertou, erguendo repentinamente o tronco, ofegando e abrindo os olhos para a escuridão do mundo desperto. O lençol que o tapara foi arrastado, o que originou um protesto da parte de um dos homens com os quais partilhava a cama da estalagem na qual estava alojado. As luzes estavam apagadas e as janelas fechadas, pelo que Allumno apenas ouviu os resmungos meio adormecidos do homem e sentiu o lençol ser puxado na direção oposta. O mago não fez caso e deixou-o ficar com o lençol, deixando-se ficar na mesma posição enquanto esperava que as batidas do seu coração abrandassem. A faixa que usava à testa para cobrir a gema nela incrustada estava ensopada de suor, bem como a camisa interior com a qual dormira, e os cabelos colavam-se às têmporas. Mexer os lençóis libertara o cheiro pouco agradável dos ocupantes que estes haviam retido, bem como o dos anteriores, e que se misturava com o do penico ao dispor de todos os presentes no quarto.

Suspirando longamente, Allumno descobriu-se completamente e saiu da cama, tendo a atenção de repor o lençol para não incomodar mais os outros ocupantes do leito. Dormira agarrado à sua bolsa e sacola, pois não confiava nos seus companheiros de quarto, e as suas mãos estremunhadas deixaram ambas cair, o que originou diversos protestos sonolentos na escuridão. Ainda com a mente em alvoroço, Allumno foi quase mecanicamente buscar as suas roupas, arrumadas de qualquer maneira a um canto da sala, vestindo-as apressadamente, pegando no cajado e encaminhando-se ao longo da parede para a direção na qual julgava encontrar-se a porta. Porém, mesmo assim, pisou e deu pontapés em homens deitados, que rosnaram ameaças com um tom de voz que contudo dava claramente a entender que não se iriam levantar. O alojamento não tinha as mínimas condições, era um autêntico tugúrio, mas Allumno não tivera escolha, apanhado por um temporal numa isolada estrada namuriquana. A proprietária, uma hedionda mulher chamada Wugga, recebera-o com toda a atenção que provavelmente era reservada aos seus restantes clientes: nenhuma. O seu dinheiro assegurara-lhe um caldo de galinha aguado com pão duro de centeio, e uma dormida num quarto partilhado com outros itinerantes. O mago reservara igualmente um banho para a manhã seguinte, e era por essa razão que se dirigia à porta, tanto para se libertar do cheiro como do sentimento opressivo que nele permanecera após o sonho.

Alguns sonolentos pontapés e pisadelas depois, Allumno chegou por fim à porta e abriu-a ao encontrar a maçaneta à terceira tateante tentativa. Uma vez no escuro corredor, o mago fechou a porta atrás de si e encostou-se a ela, inspirando brevemente fundo de olhos fechados, abraçado aos seus pertences. Ao fundo da serventia brilhava a mortiça luz da alvorada, oriunda do alçapão do qual descia a escada que dava para o rés-do-chão. Foi na direção deste que Allumno se encaminhou, alçando a sua sacola ao ombro e com demasiada pressa para se preocupar com o ruidoso ranger das tábuas velhas provocado pelos seus passos. Ouviu alguns ruídos abafados do outro lado das finas paredes de má qualidade, mas não lhes deu atenção. O pesadelo que sabia não o ter sido deixara-o abalado, e o mago queria afastar-se quanto antes do local onde o tivera. Afastar-se para poder pensar e nele refletir, coisas para as quais de momento não se sentia minimamente apto.

— E a verdade é que vocês não passam de animais — ecoou a voz na sua cabeça, a voz que sabia a quem pertencia, e em quem preferia não pensar. Em quem não ousava sequer pensar.

Aturdido, Allumno desceu a instável e carcomida escada de costas, assentando mal um pé e arquejando ao evitar por pouco não cair do primeiro andar. Conseguiu chegar ao rés-do-chão sem quaisquer acidentes de maior, e foi saudado por uma roufenha voz feminina. Ao virar-se viu Wugga, que se encontrava atrás do balcão com uma criança ao colo a ser amamentada e outras duas mais velhas agarradas à sua saia. Wugga era uma corpulenta mulher de formas redondas, baixa e atarracada, e mais parecia uma thuragar grande do que uma humana pequena. Trajava um vestido castanho com uma suja bata cinzenta, e tinha um grande e descaído seio de fora, ao qual a pequena criança consolada ao seu colo estava agarrada. Debaixo do peito tinha uma barriga que denotava tanto um grande apetite como uma descendência alargada, o que não era de admirar, visto que a mulher lhe perguntara se estaria interessado noutros serviços além do alojamento, naquele que parecia ser um procedimento algo comum no estabelecimento. A sua cara era perfeitamente redonda, rubicunda a um extremo quase inebriado, de maçãs do rosto bem salientes e com manchas e veias arroxeadas bem visíveis nestas e no pequeno nariz. Tinha cabelos grisalhos e despenteados que lhe davam um aspecto de quem passava o dia a sair da cama, uma pequena boca de cantos a tenderem ligeiramente para baixo e vivos e penetrantes olhos azuis.

— Bons dias — retribuiu Allumno em Glottik, conseguindo recompor-se o suficiente para ser educado. Entre uma série de dialetos, a língua da Namuriqua era o Usgagg, e esta não constava da lista de proficiências do mago.

A mulher perguntou-lhe algo que Allumno não percebeu, mas quando esta indicou a porta com a pequena mão de dedos rechonchudos, o mago deduziu que se estivesse a referir ao seu banho e fez que sim com a cabeça, esfregando ainda a barriga para dar a entender que desejava comer antes de se ir lavar. As crianças olhavam-no como a uma criatura exótica, e Allumno de fato parecia uma, com uma faixa sobre a testa e um cajado com a ponta igualmente enfaixada de forma a esconder o de outra forma certamente apetecível rubi nele encastoado. Segundo a impressão que tinha de si mesmo, devia ter o aspecto de alguém que aparentava normalidade, sem contudo deixar de ostentar uma série de pormenores que aludiam a segredos. Wugga não pareceu muito interessada, e resmungou qualquer coisa enquanto ia buscar comida, seguida pelas crianças como uma pata. Allumno não teve de ficar muito tempo sozinho com os seus pensamentos, pois a mulher regressou pouco depois com uma fumegante taça de madeira na mão, pousando-a no balcão com um trapo à laia de toalha e rosnando algo ao apontar para o recipiente e para. a porta, para a qual se dirigiu. Allumno anuiu e foi comer a sua insípida papa de centeio enquanto esperava que Wugga fosse preparar o que julgava ser o seu banho. Na verdade, talvez a papa nem fosse insípida, mas estava de tal forma enervado pelo que sucedera durante o seu sono que nem conseguia sentir o sabor. De qualquer forma, não tinha grande apetite, mas habituara-se entretanto a comer sem qualquer prazer, vendo a nutrição como uma necessidade para se continuar a mexer.

Wugga chegou pouco depois, deixando a porta aberta e indicando-a com o seu polegar, não mostrando grande interesse em saber se Allumno gostara do pequeno-almoço ou se já o acabara sequer. O mago não se importou e levantou-se, deixando a papa a meio, levando a toalha e agarrando as dobras da capa para cobrir com esta o torso ao sair porta fora, saudado pelo seco e estalante frio matinal da Namuriqua. A estalagem encontrava-se numa estrada isolada a meio de uma paisagem revestida por neve e pontilhada por bosquetes desbastados, um edifício em mau estado apetecível apenas para o mais desesperado dos viajantes. O estábulo do qual dispunha não passava de um alpendre na parte lateral da estalagem com anéis de ferro na parede aos quais as montarias podiam ser amarradas. Servia evidentemente apenas para resguardar a lenha debaixo dele empilhada, mas a mulher adaptara a estrutura às necessidades do seu estabelecimento. Allumno deduziu que Wugga tivera um marido ferreiro, pois havia ainda um toro de madeira com uma pequena bigorna nele espetada, e era ao lado desse que se encontrava a tina fumegante na qual iria tomar banho. Não era o ritual mais apetecível em semelhantes condições, mas o mago deu-se simplesmente por satisfeito por estar abrigado do vento e começou a despir-se diante dos cavalos, removendo a capa por último. Mal cabia dentro da tina, e mesmo em posição fetal quase não tinha espaço para enfiar os braços na água para a verter sobre a sua cabeça, mas abstraiu-se do desconforto da situação, permitindo-se por fim refletir acerca do que acontecera.

Seltor.

O Flagelo falara, se não com ele, pelo menos para ele. Ouvira-o tão claramente como se tivesse estado diante do próprio Anátema. A sua voz... ecoara pelo Pilar, conseguindo ainda assim dar-lhe a impressão de que se dirigia a ele diretamente. Já antes a ouvira, embora não tivessem passado de misteriosos murmúrios e sussurros enquanto vagueara pelo Pilar em busca de magos para continuar a tarefa da qual o seu mestre Zoryan o incumbira. Naturalmente que o haviam deixado apreensivo, pois revelavam no mínimo que a sombra do Pilar estava a exercer uma certa medida de influência sobre este desde o regresso d’O Flagelo, mas na altura Allumno achara apenas que esta dava razão ao desassossego do seu mestre. Porém, nunca antes ouvira um monólogo tão alongado e coerente da parte desta, nem tão assustadoramente... mundano. O Flagelo a pôr-se quase ao nível de quem o ouvia, a fazer confidências, quase como que a... justificar-se. Era caso para o mago duvidar da veracidade do que ouvira, ou mesmo daquilo que sabia acerca das divagações pelo Pilar durante o sono, e descartar tudo como um simples pesadelo motivado pelas suas próprias incertezas e reservas quanto àquilo que estava a fazer em nome do seu mestre.

A água quente escorreu pelos cabelos de Allumno abaixo quando este a despejou sobre a cabeça com as mãos em concha, esfregando-os então vigorosamente, como se com elas pudesse lavar a memória das palavras d’O Flagelo. Sentia a sua mente inquinada, como se tivesse conseguido acesso a segredos proibidos que os humanos não haviam sido concebidos para compreender. Mas Allumno compreendia. Compreendia muito bem. E era precisamente isso o que mais o assustava.

— ...nem sempre a culpa reside onde nós julgamos. Antes de olhar para outros devemos olhar para nós mesmos. Você também não é imune, Allumno da Gema Vermelha.

Assim o dissera Strelyanika, a Velha Avó, uma maga com a qual estivera muito perto de combater havia algumas semanas. As palavras dela tinham-no dissuadido então, e ainda agora exerciam sobre ele influência ao ponto de se conseguir recordar delas após ter ouvido o próprio Flagelo. Afinal, por que queria o seu mestre que Allumno desempenhasse o papel de juiz e executor? Segundo este, porque temia que Seltor conseguisse influenciar magos através do Pilar como alegadamente o fizera após a Guerra da Hecatombe, quando a sombra deste crescera, alimentada pelos sacrifícios dos Fadados. A voz aparentemente corroborava as suspeitas do seu mestre, mas Allumno duvidava cada vez mais da justiça de estar a cometer assassinatos de preempção. Além disso, a voz ia de acordo com as palavras de Strelyanika, e levantava uma importante consideração que duvidava de que Zoryan tivesse tido em conta. E se a culpa fosse verdadeiramente daqueles que haviam explorado a sombra do Pilar, daqueles cujas naturezas eram intrinsecamente malignas?

«Oh, Acquon me cure...», lamentou-se Allumno de olhos fechados, esfregando a cara com a mão molhada e pressionando com força a gema incrustada na sua testa com os frustrados dedos. «Em que estou eu a pensar? A legitimar as ações d’O Flagelo?»

Ouvira-o. O seu mestre tinha razão, não importava o quão persuasivas as palavras do Anátema tivessem soado, o quão convincentes os seus argumentos. Era a tal corrupção que Zoryan temera, as sedutoras sugestões sussurradas pela sombra do Pilar que o poderiam perverter se lhes desse ouvidos. Não podia baixar a guarda de forma alguma, nem mesmo enquanto dormia, aparentemente. Teria de falar com o seu mestre quanto antes, pois a presente situação urgia que...

O relinchar de um cavalo apanhou Allumno desprevenido, sobressaltando-o devido à placidez com a qual até então as montarias se tinham simplesmente deixado estar. Esfregando a água dos olhos e do nariz com os dedos, o mago olhou para trás, esperando ver dois garanhões a morderem-se um ao outro e temendo que o seu cavalo se pudesse magoar. Porém, as bestas pareciam todas agitadas, e não umas com as outras. Mexiam-se nervosamente, baixavam as cabeças e resfolegavam, e Allumno olhou em redor em busca de uma ameaça — um lobo ou um qualquer humanóide monstruoso — sem contudo nada ver. Enquanto olhava à volta, recapitulou rapidamente aquilo que sabia acerca da fauna natural e sobrenatural da Namuriqua, mas antes que pudesse especular demasiado, a terra começou a tremer.

Agarrando-se às bordas da tina, Allumno soergueu-se, olhando para o chão em inicial incredulidade, que cedo evoluiu para genuíno medo. Em pânico, os cavalos escoicearam e alçaram as cabeças, alguns arrancando mesmo os anéis de ferro aos quais as suas cordas estavam atadas e começando a fugir. Allumno saiu então da tina, queimando os pés descalços no chão gelado, cobrindo-se com a capa e seguindo o seu primeiro impulso de se acercar do edifício num impensado instinto de procura de resguardo. Porém, assim que este começou a ranger por todos os cantos, o mago afastou-se dele, cambaleando com a vertiginosa sensação de ter o normalmente estável chão a tremer de forma quase convulsiva debaixo dos seus pés. Totalmente apavorados, os cavalos quase arrancaram a parede juntamente com os anéis de ferro que os prendiam, e começaram a galopar sem rumo para longe da estalagem. Foi então que um abalo particularmente forte originou um ruidoso e prolongado estalido, que partiu dos alicerces do edifício e se prolongou até o teto, rachando e estalando pelo caminho. O alpendre debaixo do qual Allumno se estivera a banhar caiu sobre a tina e desmantelou a pilha de lenha com o impacto. Impotente, Allumno tropeçou e caiu ao chão, vendo a estalagem desmoronar-se com grande estrépito, espirrando por todos os lados a neve alojada no teto e nos recessos das janelas quando o edifício cedeu como um baralho de cartas mal montado. Caído sobre a sua capa roxa, nu e molhado, o mago nada pôde fazer ao ouvir os gritos abafados que provieram do interior da estalagem, estes prontamente calados pelo estrondo de madeira a partir-se e a tombar.

Tão depressa como surgira, o tremor cessou e o silêncio da alvorada regressou, perturbado apenas pelo distante tropel dos cavalos e pelo ocasional rangido dos escombros daquela que instantes atrás fora uma estalagem. Momentaneamente demasiado aturdido pelo que acontecera, Allumno deixou-se estar no chão com um braço sobre o torso e a olhar para a destruição por cima do ombro. Assim que conseguiu reunir suficiente presença de espírito para tal, levantou-se atabalhoadamente, nu mas com a pele ainda quente e demasiado alvoroçado para poder sentir frio, e foi buscar as suas roupas debaixo do alpendre caído para de seguida tentar ajudar quem ainda pudesse ser ajudado. Vestindo rapidamente as calças e murmurando incoerentemente para consigo mesmo, o mago procurava compreender aquilo que acabara de acontecer, aquilo em que não acreditaria se não o tivesse visto com os seus próprios olhos.

«Um terremoto...», pensou, preocupado. Terremotos eram fenômenos causados pelo Pilar, e a ocorrência de um significava distúrbios neste, o que, atendendo ao seu sonho e ao que o seu mestre lhe dissera, só podia vaticinar maus augúrios. «Deuses, o que se passa em Allaryia?»

 

Quenestil, Hanal e Deadan encontravam-se no salão com Oska, Hjlinar e Agtor, e eram observados por todos os outros presentes tal como no dia da sua chegada. A mulher concedera-lhes tempo suficiente para repousarem, mas evidentemente que havia bastante a ser discutido, e chegara a altura de o fazer. Tal como da primeira vez, o recinto estava escuro, fumarento e cheio, pois o dia passara depressa e na quinta pouco mais havia para fazer além de conviver era redor da fogueira do salão. Assim que o sol se pusera, Quenestil fora chamado à presença do garding, ou melhor, da mãe deste, pois era evidente quem realmente mandava na quinta. Trouxera Hanal consigo, para o caso de vir a ser necessário algum tato diplomático, e Deadan fizera questão de vir, embora isso implicasse deixar desguarnecidos todos os outros eahlan. Queria acompanhar em pessoa os desenvolvimentos, dissera, e certificar-se de que nada seria feito que pudesse de alguma forma perigar os Lasan. Quenestil compreendia-o, pois embora os wolhynos ainda não tivessem sido nada além de hospitaleiros, havia algo de estranho na forma como se comportavam e agiam.

A primeira noite decorrera sem quaisquer incidentes, embora Deadan a tivesse passado em branco, sempre atento a qualquer eventual ou hipotética ameaça. As três pequenas vacas castanho-avermelhadas e desprovidas de cornos que habitavam no celeiro tinham sido boas anfitriãs, bem como os cavalos que lhes faziam companhia, e à parte do ocasional mugido não tinham incomodado os exaustos visitantes enquanto estes dormiam com as suas mantas sobre camas de feno. Slayra queixara-se de dores ao longo da noite, e como a eahanoir nunca fora de se lamentar, Quenestil ficara algo preocupado. Porém, não conseguira aproximar-se dela para se assegurar de que estava tudo bem. Ainda não. Felizmente, as eahlanas pareciam mais do que capazes de tratar dela. Ao raiar do sol, foram-lhes trazidos baldes de uma especialidade da qual Quenestil se recordava dos seus tempos na Wolhynia, espesso leite coalhado com o coágulo de estômagos de vitelas, que todos sorveram com avidez. As mulheres ruivas que o trouxeram ficaram a observá-los atentamente enquanto bebiam sem qualquer pejo, concedendo igual medida de atenção aos feéricos eahlan e ao comparativamente mundano Quenestil.

Assim que os hóspedes acabaram de beber e os pequenos eahlan chupavam os dedos, as mulheres anunciaram que o garding desejava falar com eles. Quenestil não o soube dizer ao certo, pois havia muito tempo que não falava Hjrutmalv, mas ficara com a distinta impressão de que fora um pedido, e não uma ordem ou intimação. Fosse como fosse, o eahan acedera prontamente, e pudera por fim ver a baía à luz do dia durante o curto trajeto que separava o edifício principal do celeiro. O céu estivera revestido de disformes nuvens baixas, e o sol quase mal dera de si, incapaz de sequer criar reflexos no mar cinzento. Iria nevar em breve, e os wolhynos pareciam já resignadamente aninhados no salão em expectativa do mau tempo. Muitos tinham um ar cansado, como se não tivessem dormido bem na noite anterior, o que poderia facilmente ser atribuído ao alvoroço causado pelos estranhos e inesperados visitantes. Oska continuava com o seu toucado branco que lembrava os cornos de um carneiro, e não parecia ter saído da mesma posição desde o dia anterior. Coçava a cabeça do felpudo gato ao seu colo, que olhava em redor com lânguidos olhos semicerrados, que ainda assim tinham um ar mais astuto que os de Hjlinar. O rapaz parecia mais que disposto a deixar a sua mãe tomar conta das coisas, e era óbvio que estava sentado num lugar central diante da fogueira apenas para manter uma fachada. A sua cabeça apoiava-se sobre uma mão, achatando-lhe a bochecha de forma muito pouco digna e deixando-lhe os arenosos cabelos descaídos a penderem para o lado enquanto ouvia as palavras de Quenestil. Além da sua mãe, tinha a seu lado uma jovem wolhyna de feições longas, nariz longo e longos cabelos louros ligeiramente ondulados. Apesar da falta de parecenças, algo na forma dos seus olhos azuis dizia a Quenestil que era filha de Oska. Conservara a sua boca de lábios finos semicerrada desde que os três desconhecidos haviam entrado, exibindo sempre parte dos seus incisivos, e ao contrário de boa parte dos presentes, era para Deadan que olhava, sem que o siruliano disso se desse conta. Por sua vez, Quenestil continuava com as mesmas roupas de há semanas, e trazia o arco ao ombro, já não sabia bem porquê. Ainda nem se incomodara a mudar a velha ligadura da mão esquerda, que já nem lhe doía.

— ...e por isso vos agradeço, senhora Oska e Hjlinar — finalizou o shura, baixando a cabeça em sinal de profundo agradecimento. Não soubera o que fazer nem o que fora esperado dele ao entrar, pelo que se lançara numa tirada de graças que Agtor prontamente traduzira.

— Oska deseja que saibam a sua história — disse o antigo mercador assim que o eahan se caiou, coçando a barba castanha sarapintada de branco antes de cruzar os solícitos braços atrás das costas. A sua expressão também não se alterara desde o dia anterior, parecendo tão ou mais enfastiado que o gato de Oska.

— A sua... história? — gralhou Quenestil, temendo outro desafio diplomático.

Agtor não respondeu e Oska começou a falar, afagando o cachaço do seu gato e fitando Quenestil diretamente para que não restasse margem de dúvida quanto a quem se estava a dirigir.

— Saibam que Horavog é de Hjlinar apenas com muito adur, e que corre perigo — traduziu Agtor diretamente a partir da segunda frase da mulher. — Oska foi arlota de Dolr, um garding poderoso.

— Arlota? — interrompeu o eahan.

O antigo mercador pareceu ficar algo embaraçado, ou pelo menos sem saber o que dizer, e Oska parou de falar ao ver que havia uma falta de comunicação. Foi então que Quenestil se lembrou da Arlota Alegre, o estabelecimento em Val-Oryth no qual ele e Aewyre haviam emboscado Ruinen, um criminoso que tinham julgado responsável pelo ataque que quase matara Lhiannah. Lembrou-se igualmente da finalidade do estabelecimento em questão, e a conseguinte relação com o nome.

— Ah... — foi o melhor que lhe ocorreu, e o calor que sentiu na face não se deveu unicamente à proximidade da lareira. — Por favor, continue.

Agtor pigarreou, olhando de forma repreensiva para Quenestil e incitando Oska a prosseguir com um gesto serviçal da mão.

— Teve o seu sémel com Dolr — traduziu, indicando Hjlinar e a rapariga ao lado destes com a mão, confirmando as suspeitas de Quenestil —, mas Dolr tinha mulher e um filho, Drull. Dolr era um homem vedro, e quando morreu, foi Drull quem ficou com a sua plaga.

Oska parou de falar para dar tempo ao seu tradutor, o que Quenestil agradeceu em silêncio, pois acompanhar Leochlan com sotaque wolhyno era quase tão difícil como tentar ter uma conversa em Hjrutmalv. Não percebia por que razão lhe contava Oska aquilo, mas também não queria ser descortês ao ponto de interromper.

— Como Oska era arlota de Dolr, os seus familiares tiveram direito a certos privilégios. Odhar, o seu irmão, ficou com uma das quintas de Dolr a Oeste, e como filho noto de Dolr, Hjlinar ficou com uma outrossim, esta — prosseguiu Agtor. — É uma boa propriedade, mas encontra-se sufocada entre as montanhas e o pélago, e a única saída está barrada pela propriedade de Drull em Dal-unn-Soid. Drull não gosta de Oska, nem de Hjlinar, e acha que Horavog lhe devia pertencer. Foi ele quem deu a Horavog o seu nome, e assim ficou a quinta conhecida.

Quenestil acenou compreensivamente com a cabeça, embora continuasse sem perceber o porquê de semelhantes confidências. A seu lado, Hanal escutava respeitosamente e Deadan permanecia atento a qualquer ameaça, por muito improvável que esta fosse, atendendo à audiência de mulheres com crianças ao colo e homens intrigados.

— Drull tentou muitas vezes ficar com Horavog. Quis ser o guardião de Oska, como Oska não tinha marido, mas ela recusou. Quis que Hjlinar fosse o seu tyll, mas Oska outrossim recusou.

A palavra não era estranha a Quenestil, que se recordou dela como sendo o termo para vassalo ou subalterno, um termo que os wolhynos monteses com os quais contatara haviam empregado com freqüência.

— Vassalo — traduziu em surdina para benefício de Hanal e Deadan.

— Como não conseguiu nada, e como a Lei dos Fiordes não lhe permite tirar a quinta, Drull tenta agora obrigar Oska a ceder-lhe Horavog — continuou Agtor. — Quando vêm mercadores wolhynos, e estes têm de passar pelas suas propriedades antes de chegarem a Horavog, Drull paga-lhes para não venderem nada. As pastagens nas montanhas são importantes para as ovelhas, e Dal-unn-Soid outrossim as usa, mas Skolsvein, o seu fazendeiro, tirou todo o feno no Verão, sem deixar nada para nós. Tivemos de matar quase todo o gado, por isso o nosso celeiro está vazio.

Enquanto o antigo mercador traduzia, alguns dos presentes manifestaram a sua indignação, embora não fossem particularmente enfáticos ao fazê-lo, como se de alguma forma achassem que tal seria pouco apropriado na presença de um ser como Hanal.

— Oska tentou obter justiça na assembléia de Verão, mas Hjlinar não é um garding poderoso, e Drull é. Pior, o rabaz do Skolsvein distribuiu o feno das pastagens por outros que precisavam, e assim a assembléia não deu a razão a Oska, mas sim a ele. — Uma vez mais, alguns protestos e resmungos da parte dos presentes. — Saibam que Drull é immigo de Hjlinar, e immigo de todos os que puserem pé em Horavog.

Quenestil reparou que Agtor proferiu a última frase com bem mais ênfase do que Oska, que se limitara a constatá-la. Ainda assim, e embora os seus conhecimentos de Hjrutmalv não fossem suficientes para acompanhar a mulher, bastavam para que pudesse afirmar com um mínimo de certeza que o mercador não estava a tomar grandes liberdades de interpretação.

— Saibam outrossim que Drull não é o único immigo de Hjlinar e Horavog, e que os seus amigos são poucos e remotos. Skolsvein é immigo de Horavog, pois por causa dele perdemos o nosso gado. Odhar, o irmão de Oska, reside em Odharloihj a Oeste, e ainda que tivesse a força para se opor a Drull, encontra-se demasiado longe para ajudar. Yhtte, filha de Oska — Agtor apontou para a rapariga dos longos cabelos louros, que baixou a cabeça ao ser pela primeira vez fitada por Deadan —, casou com Andvar de Rostungflokt. Teve um filho dele, mas a criança nasceu morta. Andvar anulou o casamento e ficou com o dote, talvez a conselho de Drull, por isso Andvar é outrossim immigo de Horavog.

A cabeça de Quenestil começava a andar às voltas, e mesmo Hanal franzia educadamente a testa com o esforço de acompanhar todos os nomes e locais e os respectivos papéis na sucinta história que o mercador lhes relatava. Deadan permanecia sobretudo concentrado na linguagem corporal dos wolhynos, ao invés de atentar às suas palavras. Oska continuou, e Agtor prontamente traduziu.

— Infelizmente, nem todos os immigos de Horavog a querem. Existem outros que a desejam destruir. Outros como os skrimmen.

Uma criança de cabelos brancos como linho começou a chorar, sendo expeditamente silenciada pela mãe, que lhe beijou a cabeça. Deadan reagiu ao repentino nervosismo dos presentes, dando-lhes amplos motivos para ficarem mais nervosos com o seu olhar ameaçador.

— Os... skrimmen? — disse Quenestil, cada vez mais confuso, mas ciente de que ao menos aquilo era para ser levado a sério.

— Homens selvagens que vivem na neve e no friasco — explicou Agtor sem esperar por Oska, que afagou distraidamente o seu gato enquanto esperava que o mercador esclarecesse a dúvida. — Vêm das montanhas que sufocam Horavog a Norte, e levam o pouco gado que temos. O Inverno veio rigoroso este ano, e eles estão mais ousados. Pior, vêm com ulkatr.

«Oh, Mãe, mais nomes...», lamentou-se Quenestil, cada vez mais aflito. — Ulkatr?

Agtor apontou para o gato de Oska.

— Mas mais altos. Mais fortes. E mais ferozes. Parecidos com homens.

— Antroleos? — quase exclamou o eahan.

— Não conheço o nome. Nós chamamos-lhes ulkatr, e também eles são immigos de Hjlinar e Horavog, pois eles e os skrimmen já levaram muitas ovelhas nossas.

— Eles e o... Drull...? — tentou Quenestil interligar as coisas num esforço para melhor as compreender.

O mercador ia responder, mas pareceu julgar que tal não lhe cabia e preferiu remeter a questão para Oska, que não teve qualquer pejo em responder.

— Não sabemos, mas pensamos que não. Os skrimmen e os ulkatr são selvagens, animais, e nem Drull ousaria lidar com eles. Pensamos que não. Eles tão depressa escochariam um homem de Dal-unn-Soid como um de Horavog, e provavelmente gostariam de escochar os dois, para poderem ficar com as suas terras e o seu gado.

Quenestil e Hanal entreolharam-se uma vez mais, e ambos tiveram a distinta sensação de que cada movimento do shura era atentamente seguido, mais ainda que os do eahlan ou de Deadan.

— Então... Horavog corre perigo?

— Sim — redarguiu Agtor sucintamente, e antes que Quenestil pudesse dizer algo mais, Oska continuou: — Estamos cercados de immigos, e os nossos homens são poucos.

Era verdade. O eahan já antes ficara com a impressão de que havia significativamente mais mulheres que homens na quinta, e desses havia poucos que pareciam razoavelmente capazes de lutar.

— Tivemos que escochar o nosso gado por causa de Skolsvein, e a pesca não foi boa este ano. Temos comida para o Inverno para a nossa gente, mas não chegará para vocês outrossim.

Claro, eram vinte e sete, e praticamente duplicavam o número de habitantes da quinta. Era evidente que estavam a tentar expulsá-los de forma cortês, e a ver de Quenestil só isso já era mais do que desconhecidos que apareciam a meio da noite mereciam.

— Compreendemos — disse, não sem reservas, pois isso significava que voltava ao seu problema inicial: assegurar a sobrevivência dos Lasan e do seu séquito. — Partimos assim que...

— Não — interrompeu Agtor, palavreando algo rápido com Oska, que abanou a cabeça e prosseguiu num tom retificativo que o mercador emulou. — São nossos ostes. Uma das vossas mulheres está grávida, e Hjlinar ofereceu-vos o seu teto.

O rapaz ainda não proferira uma única palavra, aparentemente à vontade ou conformado com a flagrante usurpação da autoridade que deveria ser sua por direito. Limitava-se a olhar para Hanal e Quenestil como todos os outros, num misto de curiosidade e ligeira apreensão.

— Mas não têm comida que chegue. Nós... — Agtor interrompeu o eahan, erguendo a mão.

— São nossos ostes. Estão perdidos e precisam de ajuda. Vamos compartir a nossa comida convosco.

Oska hesitou então brevemente, parando mesmo de coçar a cabeça do seu felpudo gato, que ergueu a cabeça de olhos lânguidos em preguiçoso sinal de protesto. Agtor aguardou que a mulher tomasse uma decisão, e esta pareceu mais irresoluta do que Quenestil até então a vira. Por fim, acabou por proferir uma curta e enfática, frase que suscitou mais murmúrios por parte dos presentes. O tom era solene, e o próprio Agtor também hesitou ligeiramente antes de traduzir.

— Vamos abrir a... a...

O antigo mercador franziu o cenho, olhando para um ponto indeterminado do chão enquanto se tentava lembrar da palavra que lhe escapava.

— Kvalaker — disse Oska.

— lal, ial, ehj vas — redarguiu Agtor com um tom de frustração, erguendo então o olhar. — Vamos abrir a kvalaker para vocês. Assim todos poderemos comer durante o Inverno.

— A... kvalaker. — Quenestil começava a sentir-se um atrasado mental, a gralhar tudo o que o mercador lhe dizia, mas era o máximo que podia fazer para no mínimo dar a entender que estava a seguir a conversa e a compreender as implicações de tudo o que lhe diziam. O que não correspondia inteiramente à verdade.

— Sim — respondeu Agtor, como se de algo perfeitamente evidente se tratasse. Pelo menos para os wolhynos parecia sê-lo. — Onde guardamos a carne dos... peixes grandes.

— Peixes grandes. — Quenestil fitou Hanal, na esperança de que este fizesse alguma idéia do que se tratava, mas o eahlan parecia tão ou mais perdido que ele. — E onde está essa kvalaker?

Agtor remeteu a questão para Oska, que anuiu e sacudiu ligeiramente as pernas, oscilando o gato sobre o regaço da sua saia. O animal protestou com um miar incomodado, mas a mulher mostrou-se firme e disse-lhe algo em Hjrutmalv enquanto se erguia, que fez com que este meio escorregasse meio saltasse do seu colo, miando de indignação. Hjlinar levantou-se ele também, olhando para Yhtte em fraternal confusão, e alguns homens seguiram-lhes o exemplo, tais como o de cabelos brancos que abrira a porta a Quenestil na noite anterior. A esse juntaram-se o de barba ruiva e o de arenosos cabelos que mais pareciam uma posta de bacalhau desfiada, e os três afetaram um ar minimamente solene ao postarem-se ao lado de Oska, que indicou com um gesto a Quenestil e aos outros que a seguissem. Agtor juntou-se à procissão, e o grupo dirigiu-se a uma das partições que iam dar às divisões do edifício principal, passando por uma audiência em grande parte silenciosa e que se comportava como se algo de significativo estivesse prestes a acontecer.

— Não me agradam os olhares furtivos desta gente, Quenestil Anthalos — disse Deadan discretamente, as primeiras palavras por ele proferidas desde que entrara no edifício. Como para confirmar o que dissera, várias pessoas olharam para ele ao ouvirem as suas palavras.

— Somos estranhos aos seus olhos, Deadan, em todos os sentidos — desculpou-os Hanal. — Esta boa gente nunca viu eahlan, ou sequer eahan, e talvez nem mesmo um siruliano arnesado.

— Não é apenas isso, Patriarca. Há algo mais, algo que não nos estão a dizer. Algo que temem...

Agtor lançou-lhes um olhar desagradado. Evidentemente que os wolhynos não consideravam de bom-tom um hóspede estar a segredar coisas numa língua estrangeira, e Quenestil achou avisado silenciar os seus dois companheiros com uma mão erguida. Meses atrás, ou talvez mesmo semanas, não teria ousado fazer semelhante coisa a Hanal, mas já estava de fato inoculado à presença dos eahlan, e a posição na qual fora colocado obrigava-o a ser minimamente assertivo.

Oska cruzou as mãos diante da escura partição, e o homem de cabelos brancos pegou numa fumarenta candeia de pedra que emanava um odor rançoso e ofensivo aos desacostumados narizes dos três hóspedes, adiantando-se para iluminar o curto caminho até à porta que se encontrava ao fundo desta e abri-la. A divisão na qual entraram não dispunha de qualquer iluminação, e o homem caminhou até ao centro desta, erguendo o braço que empunhava a candeia. A divisão tinha o teto mais baixo ainda que o da sala principal, e dela emanava um odor azedo que fez com que Quenestil, Hanal e mesmo o inexpressivo Deadan fungassem. As paredes eram de turfa, desprovidas de painéis de madeira, e os únicos objetos que se encontravam à vista eram umas grandes conchas de madeira com cabos longos e baldes. No chão viam-se grandes tampas de madeira redondas com pegas e, colada à parede oposta à entrada, uma robusta tampa retangular. Os únicos presentes no interior eram Agtor, Oska, Hjlinar, Yhtte, o homem de cabelos brancos, o de barba ruiva e os três hóspedes; todos os restantes tinham permanecido na sala principal, ainda que se aglomerassem à entrada da partição. Quenestil e Hanal olharam em redor, e o gato passou por entre ambos, roçando-se à perna do eahan e esfregando-a com a sua felpuda cauda. Oska tornou então a falar.

— As kvalaker só são abertas quando é preciso — traduziu Agtor. — É difícil conseguir carne de kvala, porque são grandes e são precisos muitos homens para as apanhar.

— Baleias — disse Deadan, percebendo por fim. Quenestil e Hanal desconheciam semelhante animal, pelo que ficaram na mesma.

— Esta kvalaker ainda não foi aberta — disse o mercador, propositadamente enfático, mas o eahan falhou em apreender a significância do ato além da sua vertente mais óbvia, a de aparentemente estarem a disponibilizar as suas reservas a hóspedes.

Oska disse algo imperativo ao homem ruivo e este aquiesceu prontamente com uma palavra que pareceu ser inalada, acocorando-se diante da tampa retangular ao fundo da divisão e enfiando os dedos por baixo desta. Com um grunhido, o homem levantou a tampa bruscamente, encostando-a à parede de turfa, e o revoltante odor amoniacal que foi arrastado pelo deslocamento de ar inflamou as narinas de Quenestil, obrigando-o a exalar através delas de olhos cerrados. Hanal não reagiu muito melhor, e mesmo Deadan se viu em dificuldades para manter a compostura. A tampa tapava uma tina de madeira dentro da qual se encontravam o que pareciam ser nacos de carne rosada imersos num repulsivo caldo no qual se coagulavam disformes massas de gordura. Quenestil sentiu uma breve náusea, e mesmo o gato espirrou devido ao cheiro, afastando-se da tina. Os wolhynos, contudo, não pareceram particularmente afetados, e olharam para os visitantes como se tivessem esperado outro tipo de reação.

— Vamos compartir a nossa comida convosco — disse Agtor, traduzindo as palavras de Oska. — Com o que temos na kvalaker, poderemos todos comer durante o Inverno.

Quenestil quis dizer algo, mas a única coisa que lhe saiu foi um tossido engasgado, que esperou não ofender ninguém.

— Senhora Oska — arriscou em Hjrutmalv com uma voz mais contrita que o que talvez fosse considerado apropriado —, não ter que. Nós não ficamos...

— Uma das vossas mulheres vai dar vida — interrompeu a wolhyna, erguendo a mão e esforçando-se visivelmente para tornar o seu discurso inteligível. — Não pode andar por muitos dias. Vocês são nossos amigos de teto — acrescentou, apontando para o dito para que não houvesse dúvidas.

— Nossos ostes — traduziu Agtor, só para se certificar. Quenestil não soube o que dizer, e para seu grande alívio Hanal tomou a palavra.

— Muito obrigado, Oska — agradeceu, levando a mão à barriga e fazendo uma ligeira vênia. — Estamo-vos profundamente agradecidos pela vossa generosidade.

Agtor traduziu e a mulher reconheceu a gratidão do eahlan com um aceno da cabeça, mas pela forma como ela e os outros olhavam para Quenestil parecia ser do shura que aguardavam algo. Quenestil percebeu e respirou através da boca para recuperar o fôlego, refletindo ao fazê-lo. Horavog, de fato, não parecia uma propriedade próspera, e a ser verdade tudo o que Oska lhe dissera, o que não tinha razões para duvidar, estavam a passar por algumas dificuldades. O Inverno ainda não se encontrava a meio, e tinham acabado de acolher hóspedes que efetivamente duplicavam o número de habitantes na quinta. Hóspedes que não conheciam de lado algum. E agora ainda lhes disponibilizavam as suas reservas de comida, por muito repulsivas que fossem aos sentidos. Era de longe mais generosidade que a que Quenestil ousara esperar, pois o eahan não contara poder passar mais do que uma noite em Horavog. Afinal, quem em seu perfeito juízo acolheria um grupo que duplicava o número de bocas numa quinta empobrecida em pleno Inverno? E, contudo, era precisamente isso que Oska se propunha fazer.

Sem saber qual o gesto mais apropriado, o shura acercou-se da mulher, fitando-a diretamente nos olhos, e levou um joelho ao chão diante dela.

— Muito obrigado, Oska — agradeceu, e embora as suas palavras tivessem sido menos e mais enfáticas que as de Hanal, a reação que causaram foi bem mais evidente. Houve suspiros de alívio audíveis, e mesmo o sereno semblante da wolhyna deu a entender que esta estava bem mais satisfeita por Quenestil lhe estar agradecido do que o eahan por lhe estar a ser concedida tamanha caridade.

— Nos teus pés, Quenestil — pediu a mulher, e o shura aquiesceu, erguendo-se, algo reconfortado pela falta de formalidade dos wolhynos, da qual já se tivera esquecido. Foi surpreendido quando Oska lhe pegou por ambos os braços e lhe beijou a face duas vezes com solene lentidão.

— Está feito — traduziu Agtor. — São nossos ostes, e agora amigos outrossim.

Enquanto o mercador falava, Oska retinha a atenção de Quenestil com os seus oblíquos olhos azuis, fazendo com que se questionasse quanto ao que se estava realmente ali a passar. Não conseguia ignorar uma sutil sensação de que estava a ser de alguma forma induzido, mas antes que pudesse considerar o que fizera, Hjlinar pegou-lhe também pelos braços e repetiu o gesto da sua mãe, embora com bem menos convicção que esta. As palavras que proferiu tão-pouco pareciam suas, tanto pela falta de convicção com a qual as proferiu como pelo fato de mal olhar para o eahan enquanto falava.

— A casa de Hjlinar é vossa — continuou Agtor. — Comerão à sua mesa, e compartilharão do seu fogo. Está feito.

«Fogo...», lembrou-se Quenestil, e a sua curiosidade levou-lhe então a melhor. — Agtor... isto tem alguma coisa que ver com o fogo? E por que é que andam todos a olhar para mim dessa forma?

O mercador pareceu ter sido apanhado desprevenido pela questão do eahan, que o viu por fim hesitar no seu convicto discurso de vendedor. Por sua vez, Oska lançou um olhar de soslaio a Agtor que denotava... receio? Deadan reagiu como um animal atento, e as placas de aço do seu arnês roçaram umas nas outras quando se retesou. Sempre empático, Hanal sentiu com especial realce o repentino pico de tensão, e os seus amenos olhos azul-escuros viraram-se para Quenestil. Tal como um volverino que captara inesperadamente um rasto, o shura assumiu uma postura mais vivaz e abandonou a fachada de estrangeiro desnorteado, literalmente encostando Agtor à parede com a sua atenção. Porém, antes que este pudesse ou não responder, ouviu-se uma comoção vinda da partição e todos olharam para trás. O servente eahlan chamado Çeluan veio a correr, arquejante, e a oleosa luz da candeia iluminou-lhe a túnica roxa pintalgada de flocos de neve.

— Quenestil Anthalos! — esbofou com mais ansiedade que a que o shura alguma vez vira num eahlan. — O bebê... está a nascer!

A readquirida acuidade de Quenestil esfumou-se então, e os seus sentidos ficaram de súbito perfeitamente embrutecidos, como se a abrupta entrada de Çeluan tivesse portado consigo uma névoa narcótica. Todos os outros, porém, se exaltaram visivelmente, mesmo os que não compreenderam as palavras do eahan branco, pois o seu tom era urgente. Apenas o shura permanecia quieto, olhando para Çeluan com uma expressão pouco inteligente na cara, perfeitamente imóvel.

— Quenestil — disse Hanal, agarrando-lhe o braço e sacudindo-o ligeiramente. — O seu filho.

Chegara. O momento pelo qual mais ansiara e que mais temera estava aí, e como evitara a todo o custo pensar nele, este apanhara-o totalmente desprecavido. Os seus instintos mais primários diziam-lhe que se escondesse, que fugisse de todos aqueles olhares, de toda aquela atenção à qual não estava habituado e que não desejava de todo. Olhou para Agtor, para Oska, para os filhos desta, para o wolhyno de cabelos brancos que segurava a candeia de pedra. Olhou para Hanal, Deadan e Çeluan, e ocorreu-lhe que, de uma forma ou de outra, todos esperavam alguma coisa dele. Naquele momento, o mundo inteiro parecia centrado em Quenestil, e a pressão toldou-lhe o discernimento como poucas vezes lhe acontecera na vida.

— Quenestil? — instou o Patriarca.

— A Slayra...? — disse o eahan, estuporado à medida que a enormidade das implicações se começava a abater sobre ele. — Oh, Mãe... vamos!

Quenestil foi o primeiro a sair da divisão, quase a correr, e as pessoas que se encontravam à espera do outro lado da porta saíram-lhe prontamente do caminho, alguns parecendo mesmo espavoridos com a sua súbita explosão de movimentos. Deadan esperou que Hanal e Çeluan lhe fossem atrás para os seguir, e os wolhynos ficaram para trás. Antes de sair, o jovem siruliano ainda lançou um último olhar a Oska e Agtor antes de sair. Os dois trocavam olhares cúmplices, mas nas suas caras nada mais se via além de incerteza.

Por cima do trilho montanhoso que levava para fora de Horavog, parcialmente ocultado pelas sombras de uma lapa, um corpulento vulto observava. O enevoado luar conseguia apenas iluminar a grossa pele de urso branco que tinha aos ombros, deixando de resto apenas entrever umas vestes pesadas e uma cabeça redonda de cabelos castanho-escuros, bem como parte da bainha de couro de uma grossa espada. Flocos de neve borboleteavam em seu redor, e o seu semblante ensombrado expelia regulares baforadas de vapor enquanto parecia aguardar que alguém saísse do edifício principal da quinta.

A porta abriu-se por fim, e dela saiu um apressado homem que envergava peles e um estranho arco ao ombro, seguido por outros dois de túnicas roxas e cabelos brancos. Encaminharam-se para o celeiro, e atrás desses três vieram um enorme homem com armadura de aço e um grupo de habitantes da quinta, mas era o das peles quem lhe interessava. Fora a sua chegada que pressentira, a que de certa forma estivera prevista. Ou não? Seria mesmo ele? Seria sequer de um homem que estava à espera? Não havia como negar aquilo que sentira, embora pudesse bem tratar-se da força do seu desejo a toldar-lhe o discernimento. Seriam apenas as esperanças de um velho descontente, que se contentaria com o mínimo sinal para nele depositar as esperanças de quase toda uma vida? Um acesso de frustração que levaria a uma escolha errada, que poderia bem deitar tudo por terra, além de qualquer salvação? Talvez. De fato, de nada valeria julgar que lhe caíra uma dádiva do céu. Teria que o testar, teria que se certificar.

E então, se fosse de fato aquele o sinal, poderiam finalmente atear as Vagas de Fogo.

 

O Inverno laonês era conhecido como sendo rigoroso, e aquele não parecia disposto a set uma exceção, muito pelo contrário. O bradagà podia ter sido infernal, mas ao menos os fortes ventos tinham mantido o céu limpo, e o seu fim sinalizara o início de alguns fortes nevões que tinham revestido a paisagem com uma carpete nívea. O mau tempo cessara apenas alguns dias atrás, e embora as árvores já tivessem em grande parte sacudido os flocos, o solo continuava coberto de neve, o que criava uma imagem contrastante com a escura carpete de pinheiros ao longo dos contrafortes da Cinta ao entardecer. Nuvens tênues e dispersas eram coloridas de rosado à medida que o sol se punha, despejando as sombras das montanhas sobre o trilho que seguia os contornos dos seus pés, antecipando a vinda da fria noite. Os únicos sinais de vida na área verificavam-se em redor de uma carroça com cobertura de lona à qual estavam amarradas duas felpudas mulas castanhas. Fora feita uma fogueira ao lado desta, e Aewyre, Layaline e Làriana limpavam com neve os pratos da sua refeição. Kror já se encontrava de perna estendida dentro da carroça, o seu local de eleição onde passava mais tempo, tanto devido ao seu ferimento como à falta de vontade de conviver com mais humanos que o estritamente necessário. Aewyre começava a ponderar a sabedoria da decisão do drahreg, pois sentia-se fisicamente cansado das viagens devido à conclusão a que chegara, de que os seus pensamentos o apanhavam muito mais facilmente quando estava quieto. Por essa razão, optara por caminhar durante boa parte dos dias ao lado das mulas, evitando ao máximo sequer sentar-se no lugar do condutor, esse ocupado por Layaline, que freqüentemente levava Làriana ao colo. Os ferimentos causados por Heldrada tinham-no incomodado de início, mas o frio que se fazia sentir cedo lhe entorpecera as dores, permitindo-lhe continuar a estóica caminhada. Porém, um estranho e persistente puxar do «tendão» mantivera-o tenso ao longo dos dias, cansando-o mais do que as jornadas. Havia já algum tempo que não o incomodava, mas parecia ter despertado do seu torpor e ansiar por um novo combate entre Aewyre e Kror. Pelo menos era isso o que o jovem imaginava, pois por vezes sentia a tensão ranger-lhe na cabeça, embora não houvesse perigo algum por perto, e pouco ou nada visse Kror durante o dia.

Mais um dia passara, e tinham conseguido cobrir uma distância considerável durante as horas de sol, ao contrário dos primeiros dias, nos quais o seu avanço fora quase nulo devido aos nevões. Aewyre considerara mesmo a hipótese de caminharem a pé e deixarem a carroça para trás, mas decidira dar uma última oportunidade ao clima, e este felizmente não o desapontara. A viagem não estava a ser fácil, embora também não fosse o pesadelo que Aewyre esperara ao imaginar como seria misturar Kror com uma mulher e uma criança dentro de uma carroça. As duas evitavam e tinham um compreensível medo do drahreg, e este parecia perfeitamente satisfeito por ser deixado em paz. Não ficara nada contente ao saber que seriam acompanhados por duas humanas ao longo da viagem, mas Aewyre não o apresentara como opção e desde então a relação entre ambos recuperara um pouco da sua antiga tensão. Kror estava obviamente a sentir-se arrastado, que não tinha voto na matéria, e que o maior interessado na Essência da Lâmina começava a ser Aewyre. O jovem desconfiava de que Heldrada seria parcialmente responsável pelo estado de espírito do drahreg, e embora a namuriquana o tivesse praticamente ignorado antes e no momento da partida, Aewyre tivera a distinta impressão de que algo ficara por resolver entre os dois. Heldrada parecera defasada da realidade, perdida em pensamentos ou remorsos, e o seu fogo parecia ter-se extinguido após o que fizera a Assiòn, que, tal como para Aewyre, fora para ela uma figura paternal.

O jovem não estava interessado nem minimamente comovido. Por sua vontade e não fosse por Kror, tê-la-ia morto, e no que a ele lhe tocava, Heldrada podia morrer sozinha que ele não lhe reservaria sequer um pensamento compadecido. Porém, separá-la de Kror deixara o drahreg num estado semelhante ao dela, e fora talvez apenas por isso que este ainda não se insurgira contra o caminho escolhido pelo jovem. Afinal, bem vistas as coisas, a maior esperança de ambos residira na Cidadela da Lâmina. O que estavam a fazer agora era pouco mais empreendedor do que deixar a sorte nas mãos dos deuses, uma esperança de que algo pudesse ser descoberto no livro de Fèdac no qual Assiòn dera a entender ter encontrado algo antes de ser morto. Além do mais, dirigiam-se a Ul-Thoryn, e o drahreg não guardava boas recordações das regiões mais civilizadas pelas quais viajara. Aewyre temia que a Essência da Lâmina estivesse a ser posta de parte na lista de prioridades do drahreg, pois sem a sua colaboração seria impossível conseguir obter o domínio sobre ela. Porém, não o podia forçar, e a sua única esperança era que Kror não pensasse demasiado, e que os seus alfanges não o influenciassem nesse sentido. A última coisa de que precisava agora era que o drahreg perdesse o ânimo que até então o movera para obter o domínio sobre a Essência da Lâmina, pois não depositava nem metade da fé de Aewyre no livro que o guerreiro estivera a ler atentamente.

Layaline fora uma ajuda preciosa nesse sentido, e tê-la trazido fora das poucas coisas que o jovem havia feito ultimamente e das quais não se arrependera. A rapariga parecia ler bem, a sua única dificuldade consistia em transmitir a Aewyre o significado das palavras, e era nessas alturas que o seu limitado vocabulário de Glottik se mostrava problemático. Os dois passavam os serões e boa parte das noites a ler à luz de lamparinas dentro da carroça, traduzindo, discutindo e comparando com as notas e apontamentos de Aewyre enquanto Làriana dormia ao colo da mãe e Kror se esforçava por ignorar o palavrear de ambos. Layaline dava mostras de um certo entusiasmo, de uma vontade de aprender que aparentemente fora estancada pela morte do seu pai, e devorava as estrofes do poema intitulado O Lai da Lâmina. Aewyre nunca chegara a dar uma vista de olhos à composição, mas Assiòn lera-lhe algumas estrofes que não o tinham de todo impressionado, pois Fèdac, o seu autor, fora um Lamelar laonês com propensão para o dramático e pretensões de alma poética, exagerando num e falhando redondamente no segundo. As únicas coisas que Aewyre se lembrava das leituras de Assiòn diziam respeito a extensas descrições da indumentária dos oponentes, retratos metafóricos das posturas dos mesmos (ainda não podia acreditar que o homem chamara «O Gato Abana a Cauda» a uma guarda recuada), e tentativas goradas de conferir tensão narrativa ao estabelecer paralelismos entre o fluir do combate e as acompanhantes alterações climatéricas. Para Aewyre, Fèdac não passava de um mau poeta que até podia ter sido um bom Lamelar, mas Assiòn dissera-lhe com as suas últimas palavras que lesse uma das estrofes do seu livro, que o jovem esperava ao menos encontrar-se na página sarapintada com as gotas de sangue do Alto Lamelar. Caso contrário, seria mais complicado ainda perceber o que o laonês lhe quisera mostrar...

— Vamos ler, Aewyre? — perguntou Layaline, interrompendo as suas reflexões.

— Sim, já a seguir — concordou o jovem, atirando um punhado de neve para cima da fogueira enquanto a rapariga e a sua filha acabavam de limpar os pratos. Aewyre ficava doente quando não se conseguia de alguma forma manter ocupado. Enquanto não estivesse a cobrir a distância que o separava de Ul-Thoryn, tinha obrigatoriamente de fazer algo de produtivo ou pelo menos útil, pois caso contrário estaria simplesmente a perder tempo precioso.

«Tempo...», pensou Aewyre enquanto ia verificar as duas lanosas mulas. Nunca lhe dera grande importância, e sempre dispusera dele em abundância, mas agora tinha a distinta sensação de que estava a passar demasiado depressa. Tudo adquirira um rumo tão frenético e acelerado desde a morte do seu pai, como se a sua vida lhe estivesse a passar diante dos olhos enquanto se encaminhava para a sua morte...

A sua robusta bota pisou a neve com força, como se estivesse a esmagar o pensamento. Apesar da raiva que o movia, havia momentos de fraqueza que freqüentemente o tentavam desviar da senda da lâmina, e era nesses instantes que o seu sangue começava a ferver como que em resposta.

— Aewyre? — ouviu a desdentada vozinha de Làriana, que pronunciava o seu nome com um erre exagerado. A criança estava como sempre agarrada a Ìve, a sua maltratada boneca, e olhava o jovem de baixo com olhos de corça. Tal como os adultos, envergava uma pequena capa com capuz forrada a peles, e as pouco práticas luvas obrigavam-na a pegar em Ìve à mão cheia.

— Praqà èst-o ròhe? — indagou a criança, pressionando a sua bochecha com uma mão enluvada.

Aewyre franziu o sobrolho, levando a mão sobre o crescimento de barba no rosto e olhando para Layaline, que limpou ao regaço da saia a neve da mão enrubescida pelo frio enquanto segurava os pratos com a outra.

— Por que estás vermelho? — traduziu esta.

Aewyre constatou então que a sua cara de fato ruborizara, e não devido ao frio. Soltou uma vaporosa baforada com um suspiro e forçou um sorriso, despenteando os cabelos castanhos de Làriana com a mão e fazendo com que esta guinchasse de deleite, encolhendo-se e afastando-se a correr. Layaline sorriu também quando a sua filha se foi esconder atrás dela em busca de proteção.

— Vamos? — sugeriu o jovem, mantendo uma cara simpática enquanto a amargura que lhe corria nas veias não lha carregava.

Os três dirigiram-se então para a carroça, e Aewyre espezinhou subitamente o chão para assustar Làriana, que tornou a guinchar e correu na direção do veículo, praticamente saltando para o seu interior. Layaline riu, e a boa disposição do jovem guerreiro durou até ajudar a rapariga a subir para dentro da carroça e ver Kror. O drahreg estava aninhado a um canto, com capa aos ombros, um recosto improvisado para as costas e a perna entalada estendida sobre a sua mochila, ambos os alfanges embainhados e cruzados sobre a barriga. Os seus olhos vermelhos estavam estranhamente visíveis no escuro interior do veículo, e Làriana acalmara de imediato ao vê-los, encolhendo-se ela também no canto oposto e tentando esconder-se atrás de Ìve. Mãe e filha pareciam ter igual medida de receio por Kror, e mantinham sempre uma distância e um silêncio respeitosos quando na presença deste. Por sua vez, Kror nunca se mostrara interessado em partilhar o que quer que fosse com as duas, apressando sempre as suas refeições e dando a entender que não queria ser incomodado após estas. Sem trocar palavra com o drahreg, Aewyre acendeu uma candeia, desfraldou e atou as duas dobras de lona à entrada para a tapar, e sentou-se ao lado de Layaline sobre os seus sacos-camas enquanto esta já pegava nos livros e nas notas. Se Kror ficava incomodado com as suas leituras, ainda não o dera a entender, embora Aewyre sentisse uma ligeira tensão adicional no «tendão» sempre que o fazia. Dava-lhe a estranha impressão de que o drahreg julgava que havia segredos acerca da Essência da Lâmina que não lhe estavam a ser transmitidos, que Aewyre estava a tentar ganhar uma espécie de vantagem, ou que simplesmente estavam a conspirar contra ele por não saber ler. Possivelmente a culpa seria do «tendão», que não perdia uma oportunidade para acirrar os dois Portadores. Já por várias vezes Aewyre ponderara fazer-lhe a vontade, arriscar e ver até que ponto seriam verdadeiras as suposições de que apenas se podia obter a Essência da Lâmina através de um combate justo, arrumar o assunto de uma vez por todas. Mas ainda não o ousara, acabava sempre por se convencer de que deveria conceder um dia adicional para Kror recuperar mais, e findo esse período de tempo acabava sempre por cair em si e a dar graças por não ter cedido diante dos seus impulsos. O drahreg era a sua última hipótese, pois enfrentar Seltor com a Essência da Lâmina só de si já era de loucos; combater O Flagelo como mero Portador seria suicídio.

Logo, o melhor a fazer era mesmo ignorar Kror até ter algo para lhe dizer, e foi precisamente isso que Aewyre fez. Ninguém tirou as capas, pois estava frio e iriam dormir com elas vestidas, e Aewyre cobriu as suas pernas e as de Layaline com uma manta já em preparação para dormirem. A rapariga pousou o livro entre as suas e deu duas palmadas na coxa, sinalizando a Làriana que se viesse deitar com ela, e a criança obedeceu prontamente, sempre de grandes olhos castanhos pregados a Kror, mesmo enquanto se aninhava sobre as pernas da mãe.

— Lemos outra vez onde paramos ontem? — indagou Layaline, que fizera um sério esforço para falar de forma mais correta desde que começaram a ler.

— Sim. Mas depois ainda devíamos reler o que vem antes — respondeu Aewyre, recapitulando mentalmente o que até então tinham aprendido.

Os dois Lamelares chamavam-se Blai e Tûmes, um sathmaro e um benelga. Ambos tinham a particularidade de, tal como Aewyre e Kror, se terem ligado às suas respectivas armas antes de se tornarem Lamelares, o que só por si os tornava diferentes de todos os outros casos que pesquisara. Havia também trechos do texto nos quais em certas ocasiões os dois partilhavam ativamente a Essência da Lâmina em entreajuda, e aí havia de fato semelhanças. Tanto Blai como Tûmes eram homens prudentes; ambos aparentavam ter resistido durante bastante tempo aos impulsos que os incitavam a matarem-se um ao outro, o livro descrevia as peripécias dos dois em busca de uma vantagem sobre o adversário. Foram vários os seus combates, cada um tediosamente descrito por Fèdac, mas havia sempre interrupções que os forçavam a adiar a derradeira resolução para outro dia. A dada altura, até mesmo a família de Blai se envolveu na contenda sem o conhecimento deste, contratando um bando de assassinos para matar Tûmes. À semelhança do que já acontecera entre Aewyre e Kror, Blai sentiu que o seu oponente corria perigo, e transferiu-lhe o domínio da Essência da Lâmina durante tempo o suficiente para que este rechaçasse o ataque dos assassinos. O sathmaro ficou furioso com a sua família, e Fèdac não perdeu a oportunidade de descrever e colorir o drama familiar que se seguiu, para grande desalento de Aewyre, que teve de ouvir Layaline traduzir os pífios versos.

Porém, fora necessário fazê-lo, pois a página que Assiòn aparentemente indicara não fazia grande sentido, e o jovem achara então por bem fazer uma leitura superficial do resto do texto. A página pintalgada de gotas de sangue descrevia o combate final entre Blai e Tûmes, e continha versos no mínimo enigmáticos, em parte talvez devido à tradução de Layaline. Aparentemente sem o saber, Tûmes foi seguido para o combate por um homem munido de besta, e Fèdac mal se deu ao trabalho de o descrever. Referia apenas que era um parente de Tûmes, e que a sua presença se devia aos eventos descritos anteriormente à contenda, nos quais Blai matara a amada do seu adversário, uma laonesa oriunda de Lasscou (cidade na qual, por coincidência, a espada de Blai fora forjada), e este aparentemente perdera a vontade de viver. Além do mais, Fèdac esforçara-se por transmitir aos leitores quais as conseqüências da prolongada querela entre os dois Lamelares para as suas respectivas famílias, e como muita gente já começava a sentir-se incomodada por ter dois homens tão perigosos à solta. Apesar do desalento de Tûmes, os dois encontraram-se num descampado, onde Blai teve direito a várias linhas de diálogo a proclamar a sua superioridade e a menosprezar Tûmes, enquanto este por sua vez se limitou a declarar que perdera a vontade de viver, e que chegara a altura de acabarem com aquilo de uma vez por todas. Tûmes morreu, aparentemente atingido por engano por um tiro de besta do seu parente, que de seguida abateu Blai.

— Bom, vamos lá, então — disse Aewyre, transpondo o seu indicador de uma linha escrita por si numa folha para o correspondente verso no livro. — Chegamos até aqui ontem, quando o Blai acaba de falar.

— Spèe Blai e trivè mans... a espada de Blai... — Layaline gesticulou alternadamente na sua direção e na do jovem. — Foi de uma mão... para outra.

— Trocou de mãos? — alvitrou Aewyre, começando a escrevinhar a tradução na sua folha de apontamentos. Ninguém reparara nas folhas de pergaminho e na aparada pena de escrever que trouxera do gabinete de Assiòn, pois poucos na Cidadela davam grande importância a livros.

— Sim. — A rapariga framiu as sobrancelhas para ler, afagando a cabeça desperta de Làriana enquanto o fazia. — Ehm... Tûmes caiu-se e morreu...

— «Caiu-se»?

Com a ajuda dos braços, Layaline deu a entender que se estava a arrojar para a frente. — Ah, lançou-se?

— Sim. Tûmes lançou-se e morreu... — A rapariga ergueu dois dedos e passou o indicador pelo meio deles. Aewyre ergueu a sobrancelha, habituado a semelhante gesto com conotações obscenas, mas cedo percebeu o que queria dizer.

— Atravessar? — sugeriu, e Layaline fez que sim com a cabeça.

— Tûmes lançou-se e morreu atravessar com...

— Morreu atravessado com o quê?

— Oh, isto é difícil... — disse a rapariga, mordiscando a unha do polegar enquanto pensava. — Champì... um homem sem pai...?

— Um bastardo?

— Sim, e o bastardo ê... qenòge... sabe quem ele é...

— Conhecido?

— Sim... não, é mais do que conhecido, é... da família.

— Ah, familiar? — Aewyre ia riscando e reescrevendo à medida que falava, conseguindo mesmo alhear-se de Kror, que observava a troca de palavras de ambos com incomodado interesse.

— Familiar, sim. Do... do... como se diz, a besta... — Layaline pegou numa invisível e fez um ruído oclusivo, gesticulando como se sacudida por um coice.

— Já não estou a perceber nada... do disparo?

— Não sei. É isso que sai da besta?

— Queres dizer um quadrelo?

— Um quadrelo? Pica?

Aewyre não pôde deixar de erguer o canto da boca no esboço de um sorriso. Layaline por vezes era cômica quando se esforçava por se fazer entender.

— Sim, pica. Se sai da besta, então é um quadrelo. Acaba aí, a frase? — indagou de pena aprestada, passando-a sobre as linhas escritas quando Layaline acenou afirmativamente com a cabeça. — «A espada trocou de mãos. Tûmes lançou-se e morreu atravessado pelo bastardo familiar do quadrelo»? Mas que raio quer isto dizer?

— Não... o familiar antes do bastardo.

— Atravessado pelo familiar bastardo do quadrelo... fico na mesma.

Fazia tanto sentido como no dia anterior, quando Layaline lhe lera as passagens por alto e Aewyre achara por bem interromper para retomarem uma tradução mais detalhada após uma boa noite de sono.

A frase era importante, pois descrevia a forma como Tûmes morrera, mas não parecia ser nada mais além de outro floreio excessivo de Fèdac, O que dava a entender era que o parente de Tûmes o abatera acidentalmente.

— Essa palavra... o xampi, é um insulto?

— Champì? Pode ser. Mas também pode ser só uma pessoa sem pai.

— Sim, sim, é como em Glottik. Então deve mesmo ser referente ao quadrelo... — achou Aewyre, começando a falar sozinho. — «Familiar» é porque foi uma pessoa da família de Tûmes que o disparou. Pois, se «morreu atravessado» por ele...

— Ah, há uma coisa — reparou Layaline. — O... quadrelo? Tem uma letra grande.

— Como assim? — Aewyre inclinou-se para o lado para ver a palavra para a qual a unha de Layaline apontava, e de fato esta tinha uma letra maiúscula. — Isso quer dizer alguma coisa?

— Pode ser uma palavra importante, um nome...

— Ou será que o Fèdac estava só a dar-lhe ênfase? Repara, ontem viste umas outras, como esta aqui, a «Honra». Também começam com letra maiúscula.

Layaline assentiu e ficou a olhar atentamente para o livro enquanto afagava a cabeça de Làriana. Notava-se que se estava a esforçar por ser útil, que queria genuinamente ajudar Aewyre, e o jovem estava-lhe grato por isso. Na verdade, a rapariga parecia mais concentrada que ele, o principal interessado em desvendar os versos de Fèdac, pois apesar das insistências de Allumno, o jovem nunca fora freqüentador assíduo da biblioteca de Allahn Anroth, e as sessões nela passadas contavam-se entre as piores memórias que tinha do palácio. A despeito da sua motivação e da raiva que o impelia, era ainda assim apenas a esforço que Aewyre conseguia ficar a olhar para folhas de pergaminho durante tanto tempo, concentrando-se em questões de semântica e de interpretação textual. Tinha que se esforçar para que a sua atenção não fosse desviada para outras coisas, como o pouco amistoso olhar escarlate de Kror que sentia atraí-lo de forma reptante na sua visão periférica. Aewyre ficou em silêncio a ler os seus apontamentos atentamente, e Layaline estudou os versos enquanto esperava por mais perguntas.

— Então vamos lá ver... — interrompeu Aewyre o sossego, erguendo a pena aparada. — O Blai mata a namorada laonesa do Tûmes, ele decide acabar com aquilo de uma vez por todas (depois temos de ler essa parte com mais atenção), e é seguido ao combate por um parente armado. Os dois lutam, Tûmes fica com a espada de Blai, mas antes que possa fazer algo, o seu parente abate-o por engano. Layaline acenou distraidamente com a cabeça enquanto lia, tremendo com um arrepio e aconchegando-se mais à sua capa. Ia ser uma noite fria.

— Mal combateram. O Fèdac gosta muito de falar de roupas, mas por norma descreve minimamente o combate. Será que o Tûmes o desarmou logo à primeira? Tu disseste que a espada do Blai era mais ou menos do tamanho da Ancalach, não?

— Sim... não sei. Mènpimè... Não conheço bem armas. Quer dizer que é maior para as mãos...

— Certo, deve ser. Mas a do Tûmes é só uma espada normal, não é? É assim que ele a descreve. É possível, mas não é fácil desarmar alguém que esteja a empunhar uma arma maior que a nossa. O Fèdac devia tê-lo descrito com mais pormenor... — Aewyre falava mais para si que para Layaline, e levou a pena ao lábio inferior em reflexão. — O Blai morre de seguida, não morre?

— Primeiro ele fala do que o Blai sente — corrigiu a rapariga. — Da... do... do sangue, que fica quente, e...

— Sim, isso deve querer dizer que ele adquiriu o domínio sobre a Essência da Lâmina. Mas morre logo a seguir, não é?

— Sim — confirmou a rapariga, indicando a passagem em questão. — Ele morre com um... quadrelo.

— O parente de Tûmes só acertou à segunda, e primeiro matou Tûmes acidentalmente. Então e por que é que o Blai sentiu... o que foi?

— O quadrelo. Aqui está escrito com letra pequena.

— Oh, raios partam o Fèdac... — lamuriou-se Aewyre, beliscando a pele na base da cana do seu nariz. — Temos que ver isso com mais atenção, mas agora... não, espera. Então e o...

O guerreiro deixou os braços cair em desalento, batendo com as folhas de apontamentos sobre as suas pernas e despertando Làriana com o ruído estralejante do pergaminho. A criança olhou em redor com grandes olhos sonolentos e fiapos castanhos diante da cara.

— Desculpa — pediu Aewyre, afagando-lhe os cabelos com uma mão quase maior que a sua cabeça e destapando as suas pernas. — Vou um pouco lá para fora. Pensar melhor.

Layaline limitou-se a acenar afirmativamente enquanto Aewyre se erguia, mantendo-se curvado para não arrastar a cabeça pela lona. Kror acompanhou a sua saída com o olhar, mas o jovem não lhe deu atenção e desatou rapidamente as duas dobras de lona, pulando então para o exterior e bufando ao fechá-las. Os enigmas que se iam formando na sua cabeça estavam a dar-lhe cabo dela, e Aewyre desejou intensamente que o livro de Fèdac fosse um oponente munido de espada que pudesse combater. O estupor do laonês não fora capaz de fazer uma descrição factual, e tivera que embelezar os eventos ao ponto de os tornar quase incompreensíveis.

— Quadrelos bastardos... para a fossa com esta porra! — praguejou Aewyre num sussurro abespinhado, chutando neve de frustração.

Havia várias coisas que não faziam sentido. Tûmes ficara bastante afetado pela morte da sua amada laonesa, mas Fèdac não fizera uma única menção de sentimentos de vingança, nem nada que se lhe parecesse. Verbalmente, Blai estivera em vantagem logo ao início do combate, mas logo de seguida Tûmes parece ficar com a espada dele, o que deixava supor que o sathmaro fora desarmado se não ao primeiro golpe, então pouco depois. Estaria Tûmes a ser movido por uma raiva fria semelhante à que corria nas veias de Aewyre? Fèdac também não o dera a entender. E quanto ao fato de Blai aparentemente adquirir o domínio da Essência da Lâmina quando da morte do benelga? Por muito que lesse o texto e por mais variadas que fossem as abordagens ao que os versos diziam, nada evidenciava uma vitória justa de Blai, ou mesmo que este tivesse sequer desferido um golpe. O que o texto aparentemente descrevia era como o parente de Tûmes o abatera por engano com um disparo da sua besta, e como o seu adversário gozou dos espólios da vitória por breves instantes antes de ser ele também abatido. Como era isso possível, se tudo, tudo o que Aewyre até então lera e ouvira afirmava peremptoriamente que um Portador apenas poderia obter a Essência da Lâmina se vencesse o seu oponente num combate justo? Ter-lhe-ia Layaline traduzido mal as palavras? Estaria a ver tudo da perspectiva errada? Não passaria aquilo de pura masturbação artística da parte de Fèdac? Ou seria precisamente por isso que Assiòn lhe indicara a página, por esta revelar algo de novo que até então não fora tentado?

«Outra pessoa a matar o adversário,.. a carga emocional, talvez? Será que, por Blai ter matado a rapariga laonesa por causa da Essência da Lâmina, e o tipo da besta ser parente dela...», refletiu Aewyre.

O «tendão» seria perfeitamente capaz de semelhante coisa. Uma vez considerada, o jovem não conseguiu descartar a hipótese de que o «tendão» vira mais uma forma de causar conflito e contenda, e talvez acabasse mesmo por envolver o parente de Tûmes em todo o imbróglio. Porém, não deixava de ser uma hipótese algo rebuscada, e que nada tinha que ver com todos os outros eventos e relatos que estudara.

«E daí, é precisamente disso que estou a procura, não é? De algo do qual nunca ninguém se tivesse apercebido antes...»

Um arrepio sacudiu as costas de Aewyre, apertando-lhe a bexiga, e o guerreiro apercebeu-se de que estava com vontade de urinar. Dirigiu-se a um arbusto nas redondezas, olhou para ambos os lados por força de hábito, e o seu alívio fez com que a planta desnuda começasse a fumegar de descontentamento. Aewyre estava de costas para um dos lados do vagão, atrás do qual as montanhas se assoberbavam, e tinha diante de si um belo panorama da noite laonesa. O céu estava mais limpo de noite do que estivera durante o dia, e as estrelas pontilhavam-no recatadamente, como se temessem provocar as nuvens. Uma estrela cadente caiu numa trajetória quase vertical, prendendo a atenção de Aewyre durante o breve momento da sua existência. A nuvem de vapor causada pelo seu alívio começou a ascender aos céus, obscurecendo-lhe o evanescente fulgor da estrela, mas não obstante esta evocou-lhe memórias de um passado não tão remoto assim, e que contudo parecia ter sucedido anos atrás. Ele e Worick, deitados na clareira após o esgotante ordálio de Moorenglade, a olharem para o cintilante céu enquanto os outros dormiam. Nessa noite também avistara uma estrela cadente.

— E lá foi mais uma faísca das pancadas do martelo de Tharobar na Bigorna Dourada... Faz um desejo e o deus ferreiro realizá-lo-á — pareceu-lhe ouvir a voz do thuragar dizer outra vez.

Sentia falta de Worick. Sentia falta deles todos. Da amizade de Quenestil para o apoiar, da sabedoria de Allumno para o ajudar a desvendar o maldito poema, dos olhos de Lhiannah para...

Pensar em Lhiannah despertou algo no guerreiro que fez com que se lembrasse da mulher na qual estivera a pensar naquela noite na clareira. O desejo de Aewyre fora precisamente o de poder trazer Nabella de volta, mas nunca chegara a fazê-lo. O que sentira pela rapariga entrara em conflito com a vontade de encontrar o seu pai, e hoje o jovem questionava-se quanto à forma como as coisas teriam decorrido se o tirano Coilen não tivesse ressurgido. Talvez nunca tivesse ido a Asmodeon. Talvez O Flagelo tivesse ficado aprisionado para sempre em Ancalach. Talvez o seu pai não tivesse morrido. Teria sido essa a forma de os deuses lhe dizerem que o melhor era não ir para Asmodeon? Naquela noite na clareira, Aewyre culpara-os pelo sucedido, mas hoje estava convicto de que Seltor fora provavelmente o responsável. Se Nabella fora um aviso dos deuses, então só podia ter sido pela vontade d’O Flagelo que Coilen regressara para a eliminar da equação e permitir-lhe prosseguir com a sua viagem. O tirano morrera, o que os atacara não fora mais que uma pilha de correntes animadas a manterem junta uma pilha de carne morta. Fora Seltor, fora o maldito...

Mas não era nisso que devia estar a pensar naquele momento, já passara a altura de atribuir culpas. Tamanha criatividade deveria ser aplicada para tentar deslindar os versos de Fèdac, o seu próximo passo na senda da lâmina, a solução que lhe providenciaria os meios para matar Seltor. Nada mais importava... nada?

Lembrando-se de algo, Aewyre remexeu na bolsa que trazia ao cinto e tirou dela a trança loura de Lhiannah. Lavara-a como pudera, mas a nesga de cabelo já passara por muito, e estava quebradiça, espigada e puída.

— O que eu quero ê que te agarres a isso, a seja o que for que sentes por ela. É isso que pode vir a ser importante para ti e para aquilo que vais tentar fazer. Tenta não o esquecer.

As palavras de Allumno não se referiam à trança, mas sim ao que o guerreiro confessara sentir por Lhiannah antes de partirem todos de Aemer-Anoth. Ainda hoje não sabia ao certo o que o mago quisera dizer; provavelmente para não se deixar afogar no seu oceano de amargura, para se ater à memória da princesa e não fazer nada de estúpido. Bom, pelo menos nada mais estúpido ainda que o que estava a fazer. A sua raiva não lhe permitia ver as coisas dessa forma, mas algo no seu subconsciente sabia que provavelmente estava a cometer suicídio só de se propor a enfrentar Seltor. Mas não importava. Fosse como fosse, era certo que pensar em Lhiannah lhe atenuava sempre a amargura, e recordava-lhe de fato que havia outras coisas à sua espera além do inevitável combate com O Flagelo e uma morte quase certa. Um motivo para não morrer, além da vingança.

«Bendito Allumno. Pensas sempre em tudo, não ê, velhote?» Aewyre entrelaçou a trança nos seus dedos e levou-a aos lábios para a beijar em seco, enfiando-a de seguida uma vez mais na bolsa e voltando para a carroça.

«Bom, de volta à leitura.»

Uma semana mais tarde, a carroça aproximava-se da cidade de Neveria. A paisagem em redor mantinha-se praticamente inalterada, pois continuavam com os contrafortes à esquerda e as ondulantes planícies brancas à direita, sem grandes características distintivas à vista. Nevara um pouco mais nos dias anteriores, mas não ao ponto de dificultar demasiado o passo das felpudas mulas. Eram animais robustos e resistentes, aquelas azémolas laonesas, e de porte quase equiparável ao de um cavalo, além de praticamente não precisarem de cuidados e atenções especiais. Já por várias vezes Aewyre dera por si a desejar que tivesse sido uma mula daquelas a partilhar a Essência da Lâmina com ele, por mais que não fosse pelo fato de ter quatro pernas ao dispor. O ferimento de Kror não dava grandes sinais de melhoras; não que o guerreiro esperasse ver algumas em tão pouco tempo, mas ainda assim não deixava de ser frustrante. E preocupante, também, pois significava que não poderia sequer combater Kror em desespero de causa, já que o combate continuaria a não ser justo. Como tal, estava ainda mais dependente do texto de Fèdac, e todos os dias rezava por um milagre que o ajudasse a ver o que aqueles versos de mau gosto escondiam. Continuava a não conseguir ver além do que o texto dava a entender que acontecera, mas parecia-lhe extremamente improvável que assim fosse. Um parente matar o adversário de um Portador a permitir a este adquirir o domínio da Essência da Lâmina? Não podia ser, tinha que haver algo mais, e por essa razão Aewyre e Layaline tinham relido o texto desde o início, descobrindo novos pormenores anteriormente pouco clarificados que obrigavam o jovem a novas considerações. Doía-lhe a cabeça de tantas voltas dar aos versos, e esperava que fosse apenas de Fèdac, que não estivesse a chocar uma gripe. Além disso, o «tendão» continuara a importuná-lo, embora Kror ultimamente nem estivesse à sua vista e o jovem praticamente apenas o visse durante as paragens e de noite. Porém, o «tendão» rangia-lhe insistentemente dentro da cabeça em dadas alturas, desconcentrando-o e deixando-o irritável ao ponto de mesmo Layaline evitar falar com ele.

A meio do dia, chegaram a um marco miliário na estrada perto de uma pequena ponte que atravessava um regato proveniente de uma nascente das montanhas. Aewyre esfregou a neve de cima da pedra com uma mão enluvada, revelando a marca de cinqüenta milhas até Neveria, Decidiram então parar para almoçar e, para se distrair, Aewyre predispôs-se a fazer a sua especialidade, pedaços de carne seca em queijo derretido com ervas. Era uma receita de viagem do seu pai que lhe fora transmitida por Allumno e que o jovem adotara nas suas jornadas. Làriana observava com interesse, tendo contudo o cuidado de não incomodar com uma pergunta impertinente. Aewyre ainda não sabia dizer se tal se devia a timidez devido à língua ou a simples bom senso, mas em todo o caso era verdade que a criança não estava a ser incômodo nenhum. Aewyre piscava-lhe o olho ocasionalmente, mas Làriana pouco mais fazia além de sorrir e esconder a cara com as pequenas mãos de seguida. Por sua vez, Layaline abastecia os cantis no regato gelado, transportando-os aos ombros. Também ela fora uma companheira de viagem irrepreensível até então, e não faltara de todo à sua palavra de que nem ela nem a sua filha seriam um incômodo.

— Prepara o fogo, Layaline, por favor — pediu-lhe o guerreiro quando esta voltou, apoiando-se sobre os joelhos para se erguer. — Vou chamar o Kror.

— Está bem. Hmm, isso parece... o que foi?

Aewyre fizera uma careta que não lhe passara despercebida, mas fez de conta que nada se passara e dirigiu-se rapidamente à carroça, esfregando as têmporas com as pontas dos dedos.

«O raio do tendão... deve estar desesperado por uma lata», pensou o guerreiro, puxando uma das dobras de lona nas traseiras da carroça. — Kror, vamos c... o que estás a fazer?

Como sempre, Kror estava encolhido no seu canto e com a capa sobre os ombros (o cheiro começava a ser um problema, pois o distinto odor dos drahregs era de difícil habituação, sobretudo num espaço fechado), parecendo simplesmente amuado. Porém, os seus dois alfanges estavam no chão na outra ponta da carroça, embainhados e de pontas viradas para Aewyre, uma posição que não lhe agradava em circunstância alguma, sobretudo com o tendão a rilhar-lhe no maxilar bem debaixo do ouvido como aço a raspar em pedra.

— O que é que estás a fazer? — indagou o guerreiro.

Kror não respondeu. Parecia intensamente concentrado nos seus dois alfanges, e o seu braço direito estava estendido entre as pernas, como se quisesse pegar em algo invisível. Aewyre Semicerrou então os olhos, principiando a ficar desconfiado, e a sua testa franziu-se quando sentiu o «tendão» a ranger.

— Mas que...?

Os dois alfanges começaram a tremer, chocalhando no piso de tábuas de madeira da carroça, e Aewyre retesou-se, levando instintivamente a mão ao punho de Ancalach. Kror ignorou-o, absolutamente concentrado nas suas armas, até que o alfange de adornos azuis deslizou para fora da bainha, voando até à mão de Kror, que nele se crispou em pleno ar.

O queixo de Aewyre descaiu ligeiramente, mas o drahreg continuou sem lhe prestar atenção, ficando exatamente na mesma posição de braço estendido, empunhando a sua arma e olhando para ela com um ar triunfante.

— Como...?

— A Heldrada mostrou-me — disse Kror laconicamente, torcendo ligeiramente o pulso como se estivesse a avaliar o alfange. — Com muita dor, consegui. Aprendi. E agora consigo sempre, mas é mais difícil sem dor. O... «tendão» não quer.

Os orbes vermelhos do drahreg viraram-se então para Aewyre, e ao jovem pareceu-lhe ver neles algo que até então nunca vira em Kror e que só conseguiu descrever como bazófia.

«Sacana... a tentar passar-me a perna enquanto leio...»

— Era o que o Diacolo fazia, lembras-te? — perguntou o drahreg de forma retórica, pois evidentemente que Aewyre se lembrava da técnica que o falecido sathmaro usara vezes sem conta para os humilhar, fingindo-se desarmado para de seguida os surpreender. Sim, só podia ser bazófia. Kror nunca pronunciaria tantas palavras seguidas só para fazer conversa.

— A Heldrada ensinou-te?

— Sim.

Silêncio. Era evidente o que Aewyre queria pedir, e Kror sabia-o, mas não parecia de todo disposto a facilitar. Os dois ficaram simplesmente a olhar um para o outro enquanto que, novamente desperto, o «tendão» rangia.

— Ensinas-me? — dignou-se o guerreiro por fim a verbalizar.

— Diz-me o que estão a ver nos livros. Se já sabem alguma coisa — contrapôs Kror.

Então era isso. O drahreg estava obviamente farto de ser mantido às escuras, e encontrara o pretexto perfeito para obrigar Aewyre a partilhar com ele as suas impressões.

«Espertalhão... e eu a peruar que já não passavas de mais um fardo na carroça...», pensou o guerreiro, reencontrando uma certa medida de respeito que já perdera por Kror. — É justo. Mas primeiro vamos almoçar, e depois...

O jovem foi interrompido pelo som de cascos, e partilhou a sua desconfiança com Kror, olhando para ele antes de fechar as duas dobras de lona da carroça com um brusco puxão. Aproximava-se um cavalo do outro lado da ponte, e o seu cavaleiro era um homem de capa e capuz, ostentando um brasão difícil de distinguir nas suas roupas a revolutearem ao vento. Quando a besta abrandou, Aewyre viu que o homem tinha todo o ar de um estafeta e aparentava estar desarmado, apenas com estojos cilíndricos de couro ao cinto. Layaline erguera-se, e Làriana aproximara-se instintivamente desta, escondendo-se atrás da saia da mãe. Aewyre acercou-se lentamente de ambas, olhando para o recém-chegado de mãos ao cinto numa postura patriarcal enquanto este atravessava a ponte a trote. Pela forma como o homem retribuía o olhar, não estava a abrandar por causa da travessia, mas porque queria falar com eles.

— Gùn eller — saudou o estafeta em cortês neutralidade enquanto o seu cavalo vaporava do focinho de cabeça baixa, obviamente necessitado de uma breve paragem. A sua fisionomia não tinha grandes traços distintivos além de um bigode negro que, por alguma razão, parecia inspirar pouca confiança.

Layaline retribuiu o cumprimento, olhando de soslaio para Aewyre, que se manteve calado. O homem estranhou mas nada disse, perguntando então à rapariga algo em Lloranc que o jovem nunca na vida compreenderia. O Glottik servira-lhe perfeitamente até então nas suas viagens, mas apenas porque tivera sorte com os interlocutores, pois em Tanarch falava-se Leochlan, uma forma arcaica de Glottik, e os sirulianos e os eahlan tinham outras formas de se fazerem entender. Ultimamente, porém, a sua inépcia para com línguas começava a provar ser uma séria desvantagem, e era mais uma das muitas razões para o jovem querer voltar quanto antes para casa. Layaline respondeu, o que pareceu surpreender o estafeta.

— O que é que ele perguntou? O que estás a dizer? — quis Aewyre saber.

— Perguntou se vamos da... se viemos da Cidadela.

— Ah... Glottik? — indagou o homem, parecendo agradavelmente surpreendido e satisfeito por não ter que falar com uma mulher. O seu sotaque era menos meloso que o de um puro laonês, mas ainda assim exagerava os des. — A menina diz-me que vindes da Cidadela da Lâmina?

Habituado como estava a subterfúgios, Aewyre ficou algo desagradado com Layaline por esta ter logo revelado a sua proveniência sem lhe perguntar, e lançou-lhe um olhar apropriadamente repreensivo de soslaio.

— Sim, vimos da Cidadela.

O homem não se deixou afetar pelos modos bruscos de Aewyre, e adotou uma postura para relaxar as costas, apoiando o seu cotovelo sobre a coxa e levando uma mão à anca oposta.

— Que novas há?

O jovem ainda hesitou antes de responder, mas depressa chegou à conclusão de que não havia motivo para tamanha relutância.

— O Alto Lamelar morreu. Muita gente morreu. A Cidadela foi atacada, e não recomendo que lá vá, se era essa a sua intenção. A menos que conheça lá alguém.

— Atacada...? — A perda de compostura do estafeta foi quase instantânea. — Como... quando? Por quem?

A última coisa que Aewyre queria fazer era tentar explicar a um completo desconhecido o que sucedera na noite em que os ghèren foram libertos, pelo que decidiu brincar um pouco com a verdade.

— Foram traidores. Foi atacada por dentro...

— E o príncipe? O príncipe Aewyre? Sabe o que lhe aconteceu? A surpresa do jovem ficou de tal forma patente na sua cara que não

pôde passar despercebida ao estafeta. Ciente de que já era tarde demais e que apenas se estava a delatar, Aewyre ainda assim disfarçou e tentou inverter as posições.

— O príncipe...? Mas quem quer saber? Quem é o senhor? O homem endireitou-se e ergueu ligeiramente o queixo.

— Sou Augiol, mensageiro de meu senhor, o barão Savincar de Arle.

O nome não dizia nada a Aewyre.

— Que quer o barão com o príncipe?

Augiol franziu o bigode, parecendo contudo estar a ler a resposta que desejava nas reações do guerreiro, para o punho de cuja espada olhou pela primeira vez.

— O meu senhor Savincar recebeu uma missiva de lorde Aereth Thoryn, regente de Ul-Thoryn, que procura com grande preocupação o seu irmão desaparecido. Foi informado de que lorde Aewyre se poderia encontrar na Cidadela da Lâmina, e o meu senhor Savincar predispôs-se a encontrá-lo.

— Aereth...? — balbuciou Aewyre, apanhado completamente desprevenido.

— Perdoai a minha ousadia, mas... porventura sois o príncipe?

— Eu... — O seu irmão... à sua procura? Isso só podia significar que Lhiannah chegara bem, que avisara Aereth, e que os preparativos para a guerra já tinham começado. — Sim.

Sem hesitar, o estafeta passou uma perna sobre a garupa do cavalo e desmontou habilmente, ajoelhando-se de seguida e puxando o capuz para trás.

— Perdoai a minha impertinência, príncipe. Não sabia.

— Não, não... — A notícia apanhara o jovem completamente desprevenido, e este continuava sem saber o que dizer. — O meu irmão...?

— Anseia por vos ver, e comunicou-nos o seu desassossego. Teme pela vossa segurança, o senhor vosso irmão, e requisitou ao meu senhor que vos procurasse.

Era provavelmente a melhor notícia que Aewyre recebera nos últimos meses, mas ainda assim estava a ser difícil de digerir, pois os ânimos do jovem estavam calejados.

— O... vosso senhor? O barão...?

— Savincar. O barão Savincar de bom grado vos receberá e hospedará no seu salão até que uma escolta apropriada vos possa levar para Nolwyn.

O nome de fato não lhe dizia nada, mas também poucos lhe diziam coisa alguma, pois nobiliarquia e heráldica nunca haviam sido especialidades do guerreiro.

— Devo avisar o meu senhor imediatamente da vossa iminente chegada — anunciou Augiol, erguendo-se briosamente. — Há preparações que devem ser efetuadas para a vossa devida recepção. Guardai isto por favor, príncipe.

O estafeta remexeu num dos alforjes do seu cavalo e tirou dele um sinete dourado. Aewyre estendeu a mão, de tão sugestionável que as novas do seu irmão o tinham deixado, e viu que a insígnia retratava a águia de Ul-Thoryn.

— Para que saibais que as intenções do meu senhor são honrosas, e que se devem ao consentimento do senhor vosso irmão. Com esse sinete podereis identificar-vos. Mostrai-o a qualquer posto de guarda ou soldado de Arle com o qual vos deparardes, e sereis conduzido em segurança.

— O barão Savincar reside em Arle?

— Sim, príncipe, e de bom grado vos acolherá. Se estiverdes cansado das vossas viagens, podereis igualmente aguardar em Arle por uma escolta do senhor vosso irmão.

Aewyre ficou simplesmente a olhar para o sinete. Assim de repente e vindo do nada, mais parecia uma bênção dos céus numa altura em que tudo parecia conspirar contra o guerreiro.

— Agora, se me dais licença, príncipe, devo partir para avisar o meu senhor Savincar antecipadamente da vossa chegada.

— Sim, sim... certamente. Assim sendo, enviai os meus agradecimentos ao vosso senhor.

— Serão entregues, príncipe — assegurou-lhe Augiol, pegando nas rédeas do cavalo e conduzindo-o até ao regato. — Viajai em segurança. As estradas laonesas são seguras perto das cidades, mas têm sido avistados vários grupos de drahregs ultimamente e, como costumamos dizer, com o Inverno vêm os lobos. Ah, a propósito de lobos...

O estafeta deixou a sua montaria a beber e dirigiu-se uma vez mais a Aewyre, achegando-se dele e baixando o tom de voz a um nível confidencial.

— Aconselho-vos a permanecerdes anônimo, a não partilhardes o vosso nome com ninguém a não ser soldados de Arle, e mesmo então apenas se tiverdes que mostrar o sinete.

O jovem franziu ligeiramente a testa.

— Por alguma razão em particular?

— Como disse, príncipe, com o Inverno vêm os lobos. É sabido que o vosso irmão vos procura, que estais em Laone, e há quem possa tentar aproveitar-se disso, se é que me entendeis.

— Entendo. Assim farei, Augiol — acedeu Aewyre, enfiando o sinete na sua bolsa e olhando para Layaline. — Íamos fazer o almoço agora; sois servido?

O estafeta pareceu momentaneamente confuso com a oferta, mas as poucas maneiras palacianas que Aewyre tinha já havia muito que não tinham ocasião de se manifestar, e este não compreendeu o que havia de mal com um mensageiro partilhar uns pedaços de carne com um príncipe à fogueira no meio do ermo.

— Eu... agradeço, príncipe — disse Augiol com uma perplexa vênia antes de tornar a cobrir a sua cabeça com o capuz. — Mas devo... partir quanto antes.

Com essas últimas palavras, o estafeta montou o cavalo e puxou-lhe as rédeas, fazendo com que o animal recuasse, e encaminhando-o para a ponte. Curvou-se ainda ligeiramente à laia de vênia e desferiu então um golpe de calcanhares nos flancos do animal, que começou a galopar e atravessou a ponte num ápice de cascos a ressoarem em madeira. Aewyre ficou a observá-lo até o ver desaparecer numa curva ladeada por árvores, posto o que acenou com a cabeça.

— O que foi? — indagou Layaline, pousando-lhe a mão sobre o ombro.

— Boas notícias, para variar — respondeu Aewyre, forçando os seus desabituados músculos faciais a sorrirem e apertando a mão da rapariga antes de se virar para ela. — Parece que, assim que chegarmos a Arle vamos ter uma viagem muito mais fácil.

Layaline ainda não fazia idéia de que o homem com o qual viajava era um príncipe nolwyno, e tão-pouco sabia da história de Ancalach. Aewyre pouco ou nada partilhara com ela acerca dos seus verdadeiros propósitos, apenas que era importante para ele e para os seus amigos que aprendesse a dominar a Essência da Lâmina.

— Anda, vamos comer — disse, puxando-a pela mão até à fogueira.

Por fim, uma boa notícia. Em nada adiantava os seus propósitos, mas sempre facilitava um pouco a vida do guerreiro, além de que significava que Lhiannah, Worick e Taislin tinham chegado bem a Ul-Thoryn. E que o seu irmão já estava de sobreaviso quanto ao perigo representado por Seltor. Sim, uma boa notícia, finalmente...

Algo de frio pousou na maçã do rosto de Aewyre, que levou a mão ao local e esfregou um floco de neve que se derretia sobre o couro da luva. Làriana olhou para cima e guinchou de mãos abertas na feliz ignorância da meninice.

«Parece de propósito...», pensou Aewyre, olhando agravadamente para os céus nublados sem inclinar a cabeça para trás.

 

Aereth Thoryn não era um homem feliz, e as notícias que lhe chegavam em nada contribuíam para o seu contentamento. Sentado no régio trono em forma de uma enorme águia dourada cujas patas o aninhavam e cujas possantes asas o resguardavam, o regente de Ul-Thoryn apoiava o queixo entre polegar e indicador enquanto escutava atentamente o que o seu senescal Tomenno lhe dizia. A coroa de Thoryn pesava-lhe na fronte, e as suas suntuosas vestes vermelhas e amarelas de mangas largas pareciam ficar mais incômodas a cada palavra de Tomenno. A sua esposa, a princesa Iollina, encontrava-se sentada num cadeirão na base do estrado à esquerda de Aereth, e não parecia particularmente interessada na conversa, de olhos postos no chão e parecendo estar a tentar cobrir a cara com o véu branco aprontado no seu cabelo. O único presente com ar minimamente alegre era o bobo Dilet, que executava repetidas tentativas de fazer um pino contra a parede, falhando e tilintando incessantemente com os seus guizos.

— Pesoria foi devassada, meu senhor, e como sabeis, não se trata da primeira incursão de semelhante natureza — disse Tomenno gravemente. Por norma, relatos militares ficavam a cargo de Daveanorn, mas o paladino de Aereth estava a tratar dos preparativos para a chegada de um contingente de Lennhau. — Duas outras comunidades fronteiriças perto da Cinta foram atacadas, ambas com conseqüências igualmente desastrosas.

— Sobreviventes? — perguntou Aereth com voz já conformada com a inevitável realidade.

— Poucos a nenhuns, meu senhor. Nenhum dos nossos soldados,

As pálpebras de Aereth fecharam-se e este suspirou, passando a mão pela cara e esfregando a barba, apoiando então o queixo sobre os dedos do punho cerrado.

— Certifica-te de que os parentes dos milicianos recebem as devidas pensões, Tomenno. Que nada lhes falte. E que vá um representante apresentar-lhes pessoalmente as condolências do seu regente.

— Um gesto justo e benevolente, meu senhor — aprovou o senescal.

— Novidades acerca do avanço?

— Lorde Sunlar mobilizou um considerável contingente, e os seus progressos têm sido lentos. Estamos em pleno Inverno, e ninguém esperava que fosse declarar guerra aberta antes da Primavera, além de que...

Aereth deixou momentaneamente de ouvir o que Tomenno dizia, lembrando-se do dia em que lhe fora comunicado que Jestiban Kilune, o paladino de Sunlar, percorrera as comunidades da região em redor de Vaul-Syrith ostentando uma espada manchada de sangue. O sangue do seu senhor. Sabia o suficiente acerca da história da vizinha cidade-estado para perceber as implicações de semelhante gesto. Não que Aereth tivesse esperado uma reação pacífica, mas Sunlar de fato excedera-se; a espada com o sangue do rei era o apelo às armas para uma guerra sem quartel. Seriam os ataques às aldeias um indício do que estaria disposto a fazer?

— Alguém faz idéia de quem perpetrou os ataques? Ou mesmo como? — indagou, interrompendo o senescal, que pigarreou e lançou um olhar discretamente incomodado ao bobo, que continuava obstinadamente a tentar fazer o pino contra a parede.

— Os guardas fronteiriços afirmam a pés juntos que ponte alguma foi atravessada, mas reconhecem que os vaus não foram vigiados com especial atenção. As devidas medidas disciplinares já foram tomadas. Infelizmente, pela altura em que foram enviados homens para fazer o reconhecimento do terreno, já a intempérie apagara todos os vestígios além dos mais óbvios. — Tomenno descruzou as mãos detrás das costas e remexeu nos rolos de pergaminho que com elas segurava. — Tratou-se de um ataque concertado e impiedosamente executado, tal como nas outras duas aldeias. Infantaria, ao que tudo indica.

— Alguém passou pela fronteira, então, e de alguma forma conseguiram-no três vezes no espaço de uma semana — concluiu Aereth. — Numa altura destas? Inaceitável. Tenho de falar com o Daveanorn, e adjudicar as devidas ações disciplinares.

— Certamente, meu senhor,

— Ah, em relação às pensões?

— Sim, meu senhor?

— Certifica-te de que as famílias não têm dúvidas quanto a quem matou os seus filhos, maridos e pais. Que fique perfeitamente claro que o homem que os mandou matar se dirige para Ul-Thoryn com um exército.

O velho senescal ainda hesitou antes de baixar a cabeça em aquiescência, pois sentia a intensificação dos eventos e o rumo que estes estavam a levar, o que lhe trazia demasiadas más memórias da Guerra da Hecatombe. O seu olhar cruzou-se com o da princesa Iollina que, sem estar inteiramente ao corrente da situação, parecia igualmente pouco à vontade.

— Algo mais que eu deva saber, Tomenno?

— O Ábaco continua a opor-se com veemência a qualquer tipo de contenda, e já se propuseram mediar o conflito. Naturalmente, contam com o apoio das guildas...

— Porcos gananciosos sem honra... — murmurou Aereth entredentes, revelando os dois incisivos que tinham ficado ligeiramente rachados após a agressão da princesa Lhiannah.

O Ábaco, o conselho de mercadores, era um poder a ter em conta na mercantil Ul-Thoryn, e a sua influência apenas crescera desde a cisão da nação em oito cidades-estado. Boa parte do ouro da Pérola do Sul passava numa altura ou noutra pelas mãos dos seus membros, constituídos por comerciantes e burgueses influentes, e já por várias vezes tinham esbarrado com o regente em questões de autoridade.

— E os bailios temem pelas colheitas deste ano, meu senhor. O tempo tem sido agreste, com demasiada chuva, e a recente conscrição que haveis ordenado dificulta a procura por mão-de-obra adicional nos campos.

— Não me digas, o templo de Gorfanna continua ofendido por eu ter aproveitado a safra do ano passado para o meu casamento? Ameaçaram proclamar alguma bula a afirmar que a sua deusa camponesa está irada e que Ul-Thoryn passará fome?

Dilet guinchou de triunfo ao executar um pino direito e caiu seguidamente de cabeça no chão. Tomenno calou-se e tornou a baixar a cabeça, embaraçado com as heresias proferidas pelo seu senhor, pois apesar de não ser um fiel de Gorfanna sabia que era pouco avisado ofender os deuses. Desde que mandara prender a princesa Lhiannah que Aereth andava demasiado impulsivo. Certamente que as circunstâncias haviam sido excepcionais, mas não era nada que se fizesse de ânimo leve, um método ao qual Aereth começava a recorrer com preocupante freqüência. Desde que soubera que o seu irmão o traíra que se passara a comportar mais e mais como um autocrata, ainda longe do caminho que levava à tirania, mas a tender de forma preocupante para esse rumo.

— Mais alguma coisa, Tomenno? — inquiriu Aereth, tornando a esfregar a barba com os seus dedos anelados.

— Infelizmente, sim, meu senhor — disse o senescal, pigarreando. — Há ainda a...

Um punho acerado bateu discretamente à grande porta da sala do trono, abrindo-a de seguida e revelando um dos membros da guarda pessoal de Aereth, armado de partasana, inteiramente arnesado com uma globular armadura nolwyna revestida com a libré de Ul-Thoryn e Lennhau, e uma barbuda com abertura em forma de Y.

— Meu senhor, o mestre de armas Daveanorn deseja...

O referido passou-lhe à frente, sendo o homem de poucas cerimônias que sempre fora, e fez uma curta vênia a Aereth e Iollina, reconhecendo a presença de Tomenno com um aceno da cabeça. Para não variar, Daveanorn envergava roupas puídas que não dignificavam o seu posto de paladino de lorde Aereth e mestre de armas de Allahn Anroth, mas havia poucos no palácio que não estivessem dispostos a perdoar esses defeitos ao velho veterano. A sua barba e cabelo estavam quase completamente brancos, e raramente era visto sem a sua fiel espada ao cinto, embora raras vezes a usasse nos últimos tempos.

— Lorde Aereth, os alquimistas de Lennhau e o respectivo contingente acabaram de chegar — anunciou sem grande alegria na voz. Daveanorn era dos poucos que ainda tentavam ser a voz da razão em Allahn Anroth, pois conhecia Aereth havia demasiado tempo para temer a sua régia fúria. Ainda assim, sabia qual o seu lugar e ainda não se excedera. Ainda não. — Lorde Tylon aguarda-vos aos portões.

— Com que então lorde Tylon aguarda-me aos portões... — disse Aereth para consigo. — Manda-me chamar sempre que lhe apraz, e espera que eu vá prontamente, sem dúvida...

— Requisitou que viésseis quanto antes — acrescentou o paladino, alheio ao que o seu senhor murmurara.

Aereth acabou por se erguer, deixando descair as suas exageradamente longas mangas.

— Foram rápidos, eles. Aprazer-me-ia se os nossos fronteiros igualassem os alquimistas de Lennhau em celeridade — disse o jovem regente, estendendo a sua mão de dedos anelados para o lado, indicando a Iollina que se levantasse com um gesto enquanto descia o estrado do trono.

A rapariga obsequiou-o sem nunca erguer os olhos do chão, pegando nas saias com uma pequena mão pálida enquanto pousava a outra entre os morenos dedos de Aereth.

— Obrigado, Tomenno. Estou certo de que transmitirás as minhas palavras com rigor — disse ao passar pelo senescal curvado numa vênia. — Vem comigo, Daveanorn. Fala-me dos alquimistas e do que trazem pelo caminho.

— Ides sair, meu senhor? — despertou o bobo, erguendo a cabeça pela primeira vez após ter caído sobre esta. — Em busca do sol, de um pouco de cor? Oh, que disparate, estamos no Inverno! Perdoai a estupidez deste vosso subalterno!

Dilet executou umas quantas cabriolas e afins acrobacias na direção de Aereth, sendo ignorado até se estatelar no chão após uma má execução, o que apenas lhe mereceu um abanar da cabeça de Tomenno. Assim que Aereth atravessou as portas abertas da sala do trono, os dois guardas que as vigiavam puseram-se em sentido e esperaram que o seu senhor avançasse dez passos antes de o começarem a acompanhar. O bobo antecipou-se-lhes, e correu alegremente entre os guardas e Aereth, pulando e batendo jovialmente com as solas uma na outra.

— Então vieram trazer-nos o suco das bagas do Teixo de Babhell? — indagou Aereth, praticamente arrastando Iollina à sua direita e tendo Daveanorn à sua esquerda, sem contudo olhar para nenhum.

— Quanto?

— Um barril, meu senhor.

— Só um? Então era preciso uma procissão inteira para trazerem um barril? — disse o regente, sem esconder um certo incômodo.

— Manda-me chamar por causa de um barril?

— Barril! Ardil! Vil! Hostil! — rimou Dilet alegremente.

— Esposa, podes explicar-nos por que motivo o teu pai se deu a tanto trabalho para nos trazer um barril? — perguntou Aereth, apertando ligeiramente a mão de Iollina para que esta percebesse que estavam a falar com ela. — E por que razão um barril seria digno de interromper a audiência de um regente com o seu senescal?

— Hum? — murmurejou a princesa, apanhada de surpresa e vendo-se forçada a levantar a cara. Eram raras as vezes que Aereth se dirigia a ela em público, pois costumava respeitar de bom grado a sua vontade de passar despercebida.

Em alturas como essa, Aereth reparava que a sua jovem esposa tinha lindos olhos exóticos, estreitos e azuis, denotando ascendentes thyranos, e devidamente realçados com esfumada tintura turquesa. Porém, era a única coisa que jogava a seu favor, pois tinha um corpo ainda ameninado, uma boca pequena, um queixo proeminente, e as suas feições pura e simplesmente não combinavam num todo nem remotamente elegante. Sobretudo quando a sua expressão embrutecia sempre que era abordada, tal como naquele momento, firmando-se numa desesperançada máscara de estupidez na qual quase dava vontade de bater. Daveanorn pareceu ler os pensamentos do seu senhor, pois fez uma careta desagradada. Sendo viúvo de um bom matrimônio do qual infelizmente não resultaram filhos, tinha as suas reservas para com casamentos de conveniência, e aquele não era exceção. Naturalmente que nunca se pronunciara, pois sabia qual o seu lugar e não tinha pretensões de compreender as vicissitudes da nobreza, mas não lhe agradava. E desconfiava de que Aereth sentia o mesmo, a avaliar pelo seu trato para com Iollina. No fundo, não passavam de duas vítimas das circunstâncias, a pobre criança mais do que o seu senhor.

— Por que tanta cerimônia por causa de um barril, esposa? Decerto o senhor teu pai sabe que não devia despender recursos numa altura destas, humanos ou não...

— O Teixo... — principiou Iollina num tom de voz quase inaudível.

— Os ouvidos do Daveanorn estão velhos, esposa. Obsequia-o com uma voz mais clara.

A princesa corou e baixou a cabeça, erguendo-a logo de seguida como se tivesse sido condicionada a não fazer semelhante gesto e pigarreando para se recompor. Daveanorn fez uma careta perante o que estava a observar, e manteve-a durante o desconfortável silêncio que se seguiu. Porém, embora os ouvidos do paladino estivessem de fato velhos, os seus sentidos permaneciam atentos como sempre, e não deixou de reparar que estavam a ser observados da galeria superior do corredor principal. Os dois culpados retraíram-se prontamente para trás da balaustrada como as antenas de um caracol, mas ainda assim Daveanorn reconhecera o vislumbre das jovens faces. Por alguma estranha razão, a visão reconfortou-o; talvez por confirmar que, pelo menos com alguns, as paixões juvenis ainda podiam seguir o seu rumo natural.

A aia arrastou o pajem pela mão, sentindo-se estúpida e infantil ao fazê-lo, mas o seu corpo reagira mais depressa que a sua mente. Os dois abrigaram-se na medida do possível numa das colunas que ladeavam uma das estátuas de mármore que vigiavam a galeria, a de um homem seminu com uma águia ao braço diante de um nicho que retratava uma paisagem casta e verdejante. Apertado contra a rapariga, o pajem tinha os grandes olhos castanhos bem abertos como sempre, dando a impressão que o mundo era para ele um sem-fim de surpresas, o que chegava a ser verdade sempre que se encontrava na companhia da aia. Por sua vez, esta olhava por cima do seu ombro com o ar culpado de uma criança apanhada em flagrante delito, inclinando ligeiramente a cabeça para o lado para melhor ouvir. Ao constatar que os passos prosseguiam pelo corredor abaixo, suspirou de alívio.

— Eu devia estar a tratar do vestido da princesa, não devia estar aqui contigo — explicou num sussurro, como se fosse o pajem o culpado pelo seu delito. Afinal, ele podia no mínimo ter tentado dissuadi-la quando a rapariga preferira acompanhá-lo numa qualquer tarefa, pois esta dissera-lhe claramente que o paladino Cortun regressaria de Lennhau naquela noite e que seria feita uma festa em sua honra. Explicara-lhe que não podia simplesmente passear com ele pelo palácio, que a sua tarefa era importante, mas, através dos seus adoráveis encolheres de ombros e acenos de cabeça, o pajem dera inequivocamente a entender que desejava a sua companhia mesmo assim.

A aia deixou os passos avançarem um pouco mais antes de empurrar ligeiramente o pajem, pegando-lhe então pela mão e arrastando-o pelo corredor fora.

— Anda, agora tens de me levar às lavadeiras — exigiu. — Espero que consigam tirar aquelas manchas de vinho. Lorde Aereth foi um pouco mal-educado ontem, não achas?

A rapariga referia-se ao incidente do jantar do dia anterior, no qual Aereth, ligeiramente inebriado, entornara parte do seu cálice sobre o regaço de Iollina. O pajem estivera presente, mas naturalmente não fazia idéia do que lhe estava a ser dito, e limitou-se a acenar com a cabeça. Felizmente, a linguagem corporal da aia era fácil de ler, e os seus olhos abonecados de grandes pestanas eram deveras expressivos. Aparentemente satisfeita com a resposta, esta seguiu então em frente, arrastando consigo o seu indefeso interlocutor que, olhando-a de cima a baixo tentava perceber o que diabos a rapariga queria. Trazia um vestido alaranjado de alças e corte folgado debaixo dos braços sobre uma justa túnica roxa, e tinha um comprido lenço de cassa preso por um filete dourado aos cabelos castanhos. Estar próximo dela não era de todo desagradável, sentia a maciez da pele da aia mesmo debaixo das roupas, e antes que desse por si, o passo de mãos dadas de ambos foi-se lentamente convertendo num andar de braços enlaçados. A rapariga reparou e fitou o pajem do canto dos seus olhos, incapaz de disfarçar um sorriso maroto que conseguiu trazer algum rubor mesmo às feições morenas deste. Ao ver o seu embaraço, decidiu mudar de inexistente assunto.

— Sabes o que eles trazem de Lennhau, não sabes?

Quase demasiado embaraçado para olhar a rapariga diretamente, o pajem limitou-se como sempre a acenar com a cabeça.

— Pois, suco do Teixo. Não gosto nada. Sabes o que faz? Deixa as pessoas violentas, raivosas. Já vi uma vez um homem que tinha bebido um pouco; foi horrível! Os olhos dele ficaram vermelhos de sangue, espumava da boca, e atirava-se de cabeça contra a parede. Ninguém se aproximava dele, e mordia as hastes das lanças que o empurravam. Estava preso com correntes, e sangrava dos pulsos e dos tornozelos. Parecia desesperado por matar, por partir alguma coisa, e corno não podia, matava-se a si mesmo.

A aia foi acometida de um arrepio e apertou o braço do pajem com mais força.

— Mas houve outros piores. Dizem que quem bebe uma caneca inteira fica com sangue venenoso, que a magia se inflama à sua presença, que são capazes de partir pedra com as mãos... é mesmo horrível. — Vendo a expressão consternada da rapariga, o pajem tentou combater o nervosismo para se mostrar minimamente compadecido.

— Sabes a história? — O pajem não sabia nem o perguntara, mas tais considerações não pareciam particularmente relevantes para a aia. — O Teixo de Babhell é antigo, muito antigo, mais antigo do que Lennhau, diz o meu avô cego. Lembras-te dele? Já te falei dele, não falei?

O pajem sinceramente não percebia por que razão as pessoas faziam perguntas a acenar com as cabeças, pois dessa forma davam logo a entender o tipo de resposta que esperavam.

— Foi ele que me contou a história do Teixo. Há quem diga que foi plantado por um azigoth, outros dizem que nasceu no local onde um monstro de tempos antigos morreu, outros que um homem muito cruel foi cravado a ele com estacas. Há muitas histórias, mas o que é verdade é que não é uma árvore como as outras. É grande, e velha, muito velha, deve ser a árvore mais velha que vi. E já vi muitas, porque em Lennhau temos muitas árvores, não é como aqui em Ul-Thoryn, que vocês só têm planícies e bosquetes. Havias de lá ir um destes dias... Mas estava a dizer, o Teixo não é uma árvore como as outras. É vigiado pela guarda de lorde Tylon que, como sabes, é o defensor do Teixo de Babhell, e nada cresce à sua volta; alguns dizem que foi por causa do muro que fizeram para o cercar, mas o meu avô diz que a terra é mesmo má.

Embora não estivesse a ouvir, o pajem já sabia que a rapariga tão cedo não se iria calar, pois já lhe desvendara o hábito de pegar numa prega do seu regaço e torcê-la nos seus dedos sempre que se lançava numa das suas tiradas.

— Desde sempre que se colheram as bagas do Teixo; ele é o símbolo de Lennhau, como sabes. Mesmo quando Nolwyn era uma só nação, os senhores de Lennhau sempre usaram o Teixo nos seus brasões, e não só. Sabes, os nolwynos em geral nunca gostaram muito dos lennheses, mas não é só por causa do que aconteceu na Guerra da Hecatombe, quando Lennhau se rendeu a’O Flagelo. Nunca gostaram de nós porque os nossos senhores por vezes usavam o suco do Teixo em batalhas, e houve tempos em que se vendeu bagas clandestinamente para fora. Como podes imaginar, foi um grande problema. As pessoas têm medo do suco, até as de Lennhau, acham-no perigoso e alguns dizem que se deve abater o Teixo, mas está claro que ninguém o faz... bom, mas o que eu quero dizer é que não me agrada nada que estejam a trazer suco para Ul-Thoryn. Isso não pode significar coisa boa, sabes, porque lorde Sunlar vai ver isso como mais uma ameaça, e as pessoas vão ficar assustadas de certeza. Espero que lorde Aereth não o use nos seus soldados, isso seria horrível...

Ao ver a testa enrugada da rapariga e o franzir das suas delicadas sobrancelhas, o pajem percebeu que estava a falar de um assunto desagradável, e a expressão da sua cara ajustou-se do devido modo.

— Espero bem que não. Ai, fico tão preocupada com isto. O meu pai é um dos cavaleiros de lorde Tylon, sabes, e se houver guerra ele vai ter que ir... por que é que não esclarecem este mal-entendido com a princesa Lhiannah? Eu não acho que ela tenha feito algo de mal; tu achas?

O pouco sutil abanar negativo da cabeça dava logo a entender a resposta desejada, e o pajem emulou o gesto.

— Pois, tu viste-a, não viste? E ouviste o que ela disse, que não faz parte de nenhuma conspiração contra lorde Aereth. Acreditas nela, não acreditas? Eu acredito, e espero mesmo que consigam dialogar com lorde Sunlar antes que alguém faça algo do qual todos nos vamos arrepender...

Uma porta abriu-se e dela saíram dois serventes carregados com vassouras e afins utensílios de limpeza. A súbita aparição destes fez com que a aia quase pulasse para se afastar do pajem, passando de seguida as mãos sobre as coxas para se recompor e alisar a saia, tossicando. Por sua vez, o rapaz assustou-se com a brusquidão do gesto e afastou-se ele também, meio espavorido. Os serventes fingiram não reparar e baixaram as cabeças, murmurando os seus bons-dias enquanto passavam humildemente de lado pelo jovem casal. A aia e o pajem mantiveram então uma recatada distância, entreolhando-se pelos cantos dos olhos enquanto caminhavam. A boca da rapariga torcia-se numa careta contida de riso, que acabou por lhe sair pelo nariz, forçando-a a tapar ambos com a mão. O pajem correspondeu com um sorriso que contudo não lhe chegou aos olhos, pois falhava em compreender o que sucedera de tão engraçado. A governanta Smerunda bem o avisara através de gestos que tivesse cuidado com a rapariga, não fosse ela levá-lo por maus caminhos...

Aereth e o seu séquito percorriam a escadaria que descia dos portões do palácio pela encosta da colina abaixo, pisando os ladrilhos representativos das antigas províncias de Nolwyn e passando pela série de estátuas marmóreas que a ladeavam, alheios ao inexpressivo escrutínio dos velhos monarcas. Perpendiculares às escadas, vários trilhos secundários estendiam-se até aos lanços de muralha, cortados por regatos que escorriam desde a fonte do pátio palaciano e acompanhados por fileiras de euónios de folhas carmesins. Havia uma certa agitação ao fundo da escadaria diante dos portões da muralha que circundava a colina, e os serventes que deviam estar ocupados com as lides invernais de limpeza dos regatos e ladrilhos apenas recomeçaram a trabalhar assim que avistaram o seu senhor. Aereth ia um passo à frente de Iollina, erguendo ligeiramente o braço desta pela mão para a ajudar a descer, e Daveanorn ia-lhes atrás, seguido de perto por Dilet e pelos dois átonos guardas. Lorde Tylon e Cortun Allark, o seu paladino, aguardavam na base da escadaria diante de uma das estátuas aquilinas com vaso de mármore cheio de água suja com folhas mortas que a flanqueavam. Atrás de ambos encontrava-se uma carroça puxada por dois imponentes garanhões castanhos e cercada por homens armados que não pertenciam à guarda de Ul-Thoryn. Envergavam barbudas de aberturas em forma de T com coifas escamosas ao pescoço, brigandinas verdes com tachas tingidas a vermelho, e empunhavam lanças e escudos ovais com o brasão de Lennhau. Lorde Tylon vestia-se nos mesmos tons com uma túnica ornada de ramagens e um capelo castanho cortado em forma de folhas aos ombros, cobrindo a sua habitual careca com um barrete devido ao frio que se fazia sentir naquela fresca manhã de Inverno de céu nublado. Por sua vez, o enorme Cortun vinha vestido a rigor e de fiel machado às costas, todo ele de castanho com botas de topo revirado sujas de lama, uma túnica de couro, espessa barba e cabelo desgrenhados.

— Bem-vindo, bom Cortun — saudou Aereth assim que se encontrava a uma distância que não requeria gritos para se fazer ouvir. O paladino agradeceu com uma vênia. — É este então o ponto de viragem na nossa contenda com Vaul-Syrith?

— Não iria tão longe, lorde Thoryn — retrucou Tylon com a sua voz de barítono, coçando a barba castanha que lhe crescia como raízes debaixo do queixo. — Mas que poderá vir a ser uma grande ajuda, disso não há dúvida.

— Pretendeis usá-lo como método de dissuasão, meu senhor? — indagou Daveanorn, cumprimentando Tylon e Cortun com duas vênias, uma claramente mais curta que a outra. Era evidente que não morria de amores pelo paladino do regente de Lennhau, e um certo desagrado pelo que via não passava despercebido no tom da sua voz.

— Usá-lo-emos seja de que forma necessário for até que lorde Sunlar perceba de que não se deve mexer no ninho da águia — proclamou Aereth com veemência, e o seu olhar deixou bem claro que não aceitaria insubordinações. — Podes ter as tuas reservas, Daveanorn, mas ao teu senhor não restam dúvidas de que se praticou um crime de lesa-majestade.

— Certamente, meu senhor, mas temos a princesa Lhiannah era nosso poder. Podemos e devemos usá-la como pretexto para, no mínimo, dialogar...

— Daveanorn... esqueces-te do teu lugar.

O paladino enrubesceu visivelmente, a sua postura marcialmente descontraída retesou-se e a sua barba e bigode grisalhos taparam-lhe parcialmente a boca quando os seus lábios se comprimiram. Lorde Tylon e Cortun fingiram-se alheios à pequena contenda que se desenrolava diante deles, e o senhor de Lennhau tomou a silenciosa liberdade de ordenar aos seus homens que descarregassem o barril com um gesto. Estes acederam prontamente e dois deles entraram na carroça, dentro da qual se começaram a ouvir ruídos que davam a entender que algo estava a ser desmontado.

— Deduzo que haveis ouvido histórias acerca do Teixo? — perguntou lorde Tylon, cruzando as mãos atrás das costas.

— Diversas — admitiu Aereth, recuperando a compostura. — Uma oferenda d’O Flagelo, o túmulo de um Filho do Caos, uma semente defecada por um tyarch...

— Tudo ótimas histórias de fogueira, mas o que sempre me interessou e aos meus predecessores foram os resultados — interrompeu Tylon, descartando-as com um gesto da mão. — Lennhau nunca foi das mais poderosas províncias de Nolwyn, e os frutos do Teixo sempre nos serviram bem...

— Mesmo a lorde Lygio? — interpelou Daveanorn sem grande sutileza, referindo-se ao malfadado barão de Lennhau que tivera uma guerra civil em suas mãos devido ao contrabando do suco do Teixo, isto nos tempos em que Nolwyn ainda fora uma nação.

— ...desde que judiciosamente usados — aditou lorde Tylon após uma breve pausa, pois não estava habituado a ser interrompido. O seu tom de voz causou uma reação em Iollina, que se encolheu instintivamente como se este lhe causasse más memórias.

— Daveanorn... — advertiu Aereth. — Se não te encontras capaz de te comportar diante da realeza, talvez o melhor seja retirares-te antes que digas algo do qual ambos nos possamos arrepender.

— Preocupo-me apenas com a vossa segurança, meu senhor — assegurou o paladino, como quem ignorava as ameaças de uma criança. Embora nunca fosse nada além de respeitoso, Daveanorn conhecia Aereth havia demasiado tempo para se deixar intimidar. Era-lhe difícil, visto que ele próprio açoitara o regencíal traseiro do seu senhor e do irmão deste quando ambos eram pequenos. O travo de insolência não passou despercebido a Aereth, que fitou Daveanorn em iminente fúria.

— Vejo que o nosso paladino regressou são e salvo — interrompeu-os uma voz de mulher, que revelou ser Lerhia assim que todos se viraram.

A esposa de Tylon descia graciosamente a escadaria, e trazia o pouco discreto vestido alaranjado que tantos olhares fizera voltar durante o casamento da sua filha, revelando ombros e uma generosa porção de peito, e realçando a cintura com uma cinta encastoada. Tinha os cabelos castanho-escuros presos em dois bandos e um diadema em forma de vinhas entrançadas sobre a testa, e a suas belas feições austeras ostentavam um raro meio sorriso.

— Minha senhora... — saudou Cortun, ajoelhando-se e beijando-lhe a mão de forma mais prolongada que o que a mera cortesia inculcava.

— Esperamos que aprecieis esta oferenda de Lennhau, lorde Aereth — disse Lethia. — Estou certa de que vos será muito útil na vossa contenda...

— Nossa contenda, esposa. Os dois tronos estão aliados — corrigiu Tylon, ao que Lethia anuiu com ar contrariado.

Os dois homens que tinham entrado na carroça entregaram então algo aos que aguardavam no exterior, um apetrecho de madeira constituído por duas pegas e um anel central no qual assentava um barril até ao bojo. Mal poderia ser chamado um barril, na verdade, era mais um pipo que nem por sombras conteria liquido suficiente para um dos banquetes de Aereth. Ainda assim, os homens carregaram-no aos ombros com toda a reverência e trouxeram-no aos seus superiores, assentando-o com todo o cuidado no chão e aguardando de braços cruzados atrás das costas.

— Lorde Aereth, desejais comprovar pelos vossos próprios meios aquilo de que o suco é capaz? — sugeriu Tylon, indicando o pipo com uma mão de dedos grossos.

Aereth olhou para o regente, para o pipo, para Daveanorn, e uma vez mais para o recipiente, hesitante. Ouvira as histórias, conhecia as lendas, e estas sobrepuseram-se momentaneamente ao seu bom senso e porte régio. Não pôde deixar de notar que a mão de Iollina começou a transpirar mais, e que a princesa parecia mais hirta do que antes enquanto olhava para o pipo.

— Certamente — disse o jovem regente, largando a suada mão da sua esposa e esfregando a sua à sua manga larga ao dar um passo em frente.

Uma terceira mão pousou sobre o seu ombro com certa firmeza, a de Daveanorn, obrigando Aereth a parar.

— Meu senhor, se me permitis...

Aereth olhou para o seu paladino com olhos quase arregalados e maxilar tenso.

— Daveanorn, excedes-te...

De fato, ultimamente andava a exceder-se, e tinha consciência disso, mas não mais poderia virar a cabeça e ignorar o que vira. Prender a princesa Lhiannah e o general Worick, praticamente incitar a guerra com lorde Sunlar... O rumo que as coisas estavam a tomar não lhe agraciava, e já há algum tempo que tinha a distinta impressão de que algo se estava a passar. Algo de insidioso.

— É o meu dever, meu senhor, o de velar pela vossa segurança e pôr a minha vida diante da vossa. Por favor, permiti a este vosso servo comprovar aquilo de que o suco é capaz.

Daveanorn olhou de soslaio para Tylon ao dizê-lo. Nunca lhe agradaram particularmente os modos sobranceiros do regente de Lennhau num palácio que não era o seu, e cada vez mais o via como uma má influência para Aereth.

— O servo fiel quer sacrificar-se pelo seu senhor! Ir-lhe-á o regente conceder tamanho favor? — perguntou Dilet ao ar, tinindo os guizos.

— Obsequiai o vosso paladino, lorde Aereth — aconselhou Tylon. — Como ele disse e bem, está apenas a cumprir o seu dever. Eu não esperaria menos do Cortun.

Relutantemente, Aereth acabou por aceder e autorizou Daveanorn a prosseguir com um aceno afirmativo da cabeça. O paladino agradeceu e acercou-se do barril, passando pelos olhares avaliadores de Tylon e Cortun. Iollina tremeu e esfregou os antebraços, mas quem viu atribuiu o gesto ao frio que se fazia sentir.

— Abram-no — ordenou o senhor de Lennhau, e os seus dois homens pousaram a trave no chão, erguendo o barril, virando-o e assentando-o de bojo sobre a abertura, na qual encaixou perfeita e solidamente.

Um dos soldados flectiu os dedos, agarrou o espiche de madeira que tapava o suspiro do barril e torceu-o com brusca força, fazendo estalar a cera que o revestira e puxando-o. Daveanorn fitou-os a ambos alternadamente, mas as feições rudes e inexpressivas destes não traíam qualquer emoção ou intenção.

— Cheirai apenas a abertura, lorde Daveanorn — recomendou Cortun de corpulentos braços cruzados, tocando no largo nariz bexigoso. — Os vapores do suco são suficientemente fortes para terdes uma idéia.

Desconfiado, o paladino assim fez, ajoelhando-se lentamente diante do barril para não abusar das suas rangedoras articulações e apoiando uma mão sobre o joelho. As suas narinas arrebitaram-se ao aproximar a cara do suspiro, mas não captou odor algum, pelo que olhou uma última vez para Tylon e decidiu encurtar a distância. Deu para sentir um tênue odor fermentado, mas ainda assim nada de particularmente revelador.

— Não convém deixá-lo exposto ao ar durante muito tempo, lorde Daveanorn — explicou Tylon com o intuito de o apressar.

Algo arreliado, o paladino então praticamente enfiou o nariz dentro do suspiro, inalando uma única vez. Foi quanto bastasse para que arredasse a cabeça de repelão e começasse a fungar de imediato, erguendo-se para se afastar mais ainda do barril.

Tylon, Lethia e Cortun sorriram descoordenadamente, e Aereth juntou-se aos três, cruzando o peito com um braço e apoiando o cotovelo do outro sobre este para pousar o queixo sobre a mão.

— Então, Daveanorn? — perguntou. — Estou seguro ou não? O paladino fungou um pouco mais, esfregando o nariz com o antebraço enquanto os dois guardas de Lennhau o observavam, imóveis e inexpressivos.

— Fechem isso — disse o veterano com um brusco gesto do braço, parecendo irritado. — Fechem isso, mas que porra!

O guarda com o espiche assim fez, e Daveanorn regressou para perto do seu senhor, ainda a esfregar o nariz com o incomodado antebraço.

— Coisa mais vil... pior que aquele uísque da Forlornya. — protestou o paladino, falando com ninguém em particular. — Não deveríeis usar semelhante coisa, meu senhor.

— Porquê, Daveanorn? Porque cheira mal?

— Porque é indigno de vós, e porque... oh, pela espada cruenta de Gilgethan, Aereth, porque é abjeto e ignóbil!

O súbito erguer do tom de voz de Daveanorn aturdiu Aereth, cujos olhos ficaram consideravelmente mais abertos e cujo sorriso divertido se evaporou.

— Sabes bem o que aquela coisa faz, o que já fez! — acusou o paladino, apontando na direção do barril. — O que se segue, Aereth? Pendurar a princesa Lhiannah nua nos portões da cidade? Violá-la? Venderes a tua alma a’O Flagelo? Achas que o teu pai aprovaria? Pois eu digo-te que não! Mais, teria vergonha se visse o seu filho agir assim!

Tylon, Lethia e Cortun mantiveram os seus sorrisos cúmplices, mas Aereth ficou lívido.

— Não sejais demasiado severo com o vosso paladino, lorde Aereth — recomendou Tylon. — O suco do Teixo deixa as pessoas algo... desgovernadas.

Daveanorn virou-se para o senhor de Lennhau, parecendo pronto a dizer-lhe a ele também o que pensava e não só, mas então pareceu cair em si. A sua boca abriu-se e fechou-se umas quantas vezes sem contudo nada dizer, enquanto o velho mestre de armas olhava alternadamente para os presentes, cada vez mais chocado com as suas próprias palavras à medida que os ecos surdos destas reverberavam dentro da sua cabeça.

Dilet deu dois pinotes tilintantes, passando por entre o paladino e o regencial grupo, e deitou-se de barriga para baixo no chão, apoiando o queixo sobre as costas das mãos cruzadas. Parecia estar a observar um inseto com interesse.

— Daveanorn... — disse Aereth com voz trêmula. — Podes retirar-te. Falarei contigo mais tarde.

O mestre de armas ainda aparentou ponderar dizer algo, mas a sua boca fechou-se tão depressa quanto se abriu, ciente de que se excedera plenamente. Rígido e contrito, Daveanorn pôs-se em sentido, fez uma vênia ao seu senhor e aos senhores de Lennhau, e retirou-se com um passo esforçadamente digno na direção das escadas, puxando os atordoados cabelos para trás. Todos os serventes cuja atenção estivera presa até então lembraram-se subitamente de que tinham trabalho a fazer e recomeçaram a limpar ladrilhos com vassouras e a colher folhas mortas dos regatos. Aereth, Tylon, Lethia e Cortun viram o paladino retirar-se, embora os três últimos observassem o primeiro com mais atenção, atentos às suas reações, entreolhando-se ocasionalmente.

— Repito, lorde Aereth, o suco do Teixo causa invariavelmente este tipo de... reações — reiterou o regente de Lennhau. — Lembrai-vos disso quando falardes com o vosso mestre de armas.

Aereth nada disse, fitando as costas de Daveanorn durante mais alguns instantes antes de devolver a sua atenção ao seu par, ainda obviamente perturbado.

— Sugeris então que eu dê isso aos meus homens? — indagou com voz ligeiramente trêmula.

— O exército maior pertence-vos, lorde Aereth, e como tal a primazia no campo de batalha a vós caberá. Os meus homens, tal como os vossos, estarão às vossas ordens — afirmou Tylon, incluindo Cortun com um propositado olhar. — A decisão é vossa, e apenas vos ofereço conselhos.

— Então e... o que me aconselhais? — quis Aereth saber, fitando diretamente o senhor de Lennhau com uma expressão tal que este hesitou por momentos.

— Bom, considerai o barril uma oferenda de aliado, lorde Aereth. O que fareis com ela...

— Servido o suco, degustada a mixórdia; armai o trabuco, começai a discórdia! — disse Dilet, despertando repentinamente e chicoteando as suas pernas no ar para se erguer, torcendo o seu torso de uma forma que certamente deslocaria os ossos de outra pessoa. Aereth deu-lhe a sua imediata atenção. — A jovem potra no ninho aprisionada, o garanhão relincha, qual besta irada. O aliado traz uma oferenda (um gesto salutar), mas será o suficiente para os ânimos sedar?

Tylon, Lethia e Cortun não tiveram outra escolha que não olhar para o bobo, pois Aereth não escondia o interesse que tinha pelas palavras deste. Alheio aos regenciais olhos que o observavam, Dilet encaminhou-se para o barril debaixo do atento escrutínio dos dois guardas, chocalhando os guizos num passo jovial.

— A águia pousou no teixo, as folhas sussurram. A guerra virá a breve trecho, os corvos já se empanturram — disse o bobo, circundando o barril de dedo debaixo do lábio inferior. — Nidificado o ninho, debicada a baga, a real ave não vê a dissensão que se propaga. Nem todos têm asas, nem todos são capazes de voar; por alguma razão os usurários conseguem agiotar.

Praticamente diante dos guardas, Dilet curvou-se sobre o barril, estudando-o de mãos estendidas atrás das costas. Por sua vez, os guardas baixaram as suas para os seus lados, atentos a qualquer tentativa de tocar no recipiente do precioso líquido.

— O medo sussurra na noite, a pérola receia, assustada. Será necessário um açoite para proteger a cidade imaculada.

O bobo estendeu então o dedo na direção do suspiro selado do barril, como se quisesse limpar quaisquer restos de suco que pudessem ter escapado, mas o seu gesto apenas conseguiu que levasse um golpe com as costas de uma manopla de couro fervido de um dos guardas.

— Como ousas? — vociferou Aereth, dirigindo-se a este com encolerizados passos ainda o bobo não se estatelara no chão, agarrado à cara. — Seu imbecil, como te atreves a agredir o meu bobo? Pensas que estás em Lennhau, seu filho de carvoeiros?

— Lorde Aereth, por favor! — pediu Tylon, visivelmente surpreso com a reação causada pela agressão a um mero bobo. O senhor de Lennhau fez por acompanhar os passos de Aereth, embora a sua compostura o tornasse difícil. — Sede clemente para com o meu soldado. Vem de uma extenuante viagem, e a iminência da guerra faz-se sentir com força em Lennhau...

— Insolência! — acusou Aereth, erguendo um irredutível dedo diante da impassível cara do ofensor, cuja aparente indiferença apenas o irritou mais.

— Lorde Aereth... — instou Tylon, pegando com delicadeza no braço do jovem regente, que contudo o arrancou da mão do seu par, virando-se de forma a encarar o soldado e o seu senhor.

— Não penseis que a mão da vossa filha atenua tudo, lorde Tylon — disse Aereth ao apontar para a referida. — A vossa corte tem agido de forma sobranceira no meu palácio, e não tolerarei tamanhas faltas de respeito.

Tylon claramente não esperara tal reação, pois ficou a olhar para o jovem regente de boca entreaberta, sem saber o que dizer. As sobrancelhas de Cortun eram pouco mais que um hostil traço escuro sobre os seus olhos, e os de Lethia não estavam tão surpresos quanto indignados. Os dois guardas pessoais de Aereth crisparam os dedos nos cabos das partasanas, e os que se encontravam ao portão começaram a aproximar-se discretamente.

— Bom senhor, nobre senhor! Não castigueis o agressor deste bobo sem qualquer pudor! — disse Dilet do chão, sangrando das suas díspares narinas e agarrando o tornozelo de Aereth com ambas as mãos.

— Sede clemente, ouvi o vosso aliado! Mostrai porque sois um regente tão adorado!

Para surpresa de todos, Aereth deu mais valor às palavras de Dilet que às de Tylon, e embora o seu olhar permanecesse feroz, não concretizou a iminência de um ato drástico. O senhor de Lennhau olhou para o bobo como se não o estivesse a reconhecer, enquanto este se continuava a rebaixar pateticamente aos pés de Aereth de guizos descaídos como as orelhas de um cão açoitado.

— O suco causa dissensão, isso é evidente. Mas quem tiver visão pode usá-lo de forma conveniente — rimou Dilet, lambendo o sangue no seu lábio superior, abraçando-se à perna do seu senhor e baixando o tom da sua voz. — A usura está gorda, não prescinde da sua regalia. Quando um corpo está doente, há quem faça uma sangria.

Erguendo-se de forma tão súbita que pareceu não haver transição entre a posição deitada e ereta, Dilet escondeu-se atrás das costas de Aereth, olhando por debaixo do braço deste.

— Mas o meu bom senhor não é cruel, não flagela nem dá trabalho ao verdugo. Porém, com tanto mel, outros o poderão ver como um mero besugo.

— Lorde Thoryn, se me permitis... — predispôs-se Cortun, avançando um passo antes de Aereth o reter com um erguer da mão. Para grande surpresa de todos, o jovem regente não só estava efetivamente a ouvir o bobo com atenção, como parecia entendê-lo.

— Um besugo, peixe tão vulgar! Arraia-míúda entre os filhos do mar. E precisamente isso que o gordo polvo quer pensar — disse Dilet, mudando a cabeça para debaixo do outro braço de Aereth com ar afetadamente assustado, como se estivesse a esconder-se de alguém. — Os seus tentáculos enlaçam a pérola, apertando-a gananciosamente, guardando-a para si ciosamente. Talvez seja chegada a hora de o regalar com um presente... e olhai! Que oferenda tão conveniente!

O bobo referia-se evidentemente ao barril, e Aereth olhou-o com atenção, aparentando uma compreensão das palavras de Dilet que escapava aos restantes presentes. O cenho de Tylon ia-se franzindo progressivamente, e os seus guardas fitavam-no com as expressões átonas de quem vive para cumprir as suas ordens.

«O que pensas que estás a fazer, bobo? Qual é o teu jogo?», pensou, comprimindo os lábios e captando um olhar nervoso da sua esposa pelo canto do olho. «Levantas demasiadas perguntas e apresentas muito poucas respostas. Por que se mantém mestre Othragon em silêncio?»

Tylon tinha ordens do próprio Aesh’alan, e fora até então bem-sucedido a cumpri-las, mas Dilet desde o início que se lhe afigurara como um elemento caótico e imprevisível. Nem tinha quaisquer provas de que ambos serviam o mesmo senhor, além da sua palavra e da sua misteriosa presciência quanto aos eventos que haviam de fato sucedido. Fazia jus em todos aos aspectos ao seu homônimo no jogo da Demanda pelo Trono, e por enquanto Tylon podia apenas esperar que não fosse a peça traidora da partida...

O suor escorria da testa de Lhiannah até à ponta do seu nariz, pingando para o chão frio sobre o qual as suas mãos assentavam. Inspirando, a princesa aproximou o peito das lajes e, com um grunhido exalado e de olhos fechados, tornou a afastar-se com braços trêmulos. Conseguiu elevar o seu torso até ter os braços quase estendidos, mas então as forças faltaram-lhe e Lhiannah por pouco não se estatelou de nariz no chão, ficando nele estendida de mãos plantadas a ofegar com o suado lado da cara a roçar a pedra fria. Soprando os fiapos soltos do seu cabelo preso num rabo-de-cavalo que lhe pousaram sobre a boca, Lhiannah deixou os cotovelos caírem e rebolou sobre o ombro de forma a ficar de barriga para o ar, passando então as mãos pela cara e deixando os braços estendidos aos seus lados. A princesa estava descalça e trajava uma comprida túnica branca e plissada cuja falda arregaçara até às ancas, cingindo-a com um cinto, e cujas apertadas mangas arregaçara. O tecido estava escurecido e pesado com suor.

«Mole. Fraca», pensou, demasiado esbaforida para sequer falar sozinha. «Demasiado tempo num barco... e aqui deixei-me atrofiar. Já estava pronta a desistir... até o Taislin seria capaz de me pôr sobre o joelho para me açoitar.»

A mensagem do burrik reavivara-lhe a esperança que nunca deveria ter perdido, a fé que nutrira por cada um dos seus companheiros, a certeza de que por eles nunca seria abandonada. Passara por suficientes provações com todos eles para o saber, e sentia que ficara em falta para com o grupo por se ter sentido tão desesperançada. Após ter lido as palavras de Taislin, Lhiannah despertara do seu torpor e, além de fazer barulho na latrina como o burrik lhe pedira, começara a preparar-se física e mentalmente para quando este viesse. Ainda ninguém estranhara o fato de andar a bater regularmente com uma colher no rebordo de pedra da latrina, embora o indistinto eco do ruído provavelmente se fizesse ouvir nas dos pisos inferiores. Não conseguia imaginar como Taislin conseguira acesso à cozinha, nem como soubera qual o prato reservado ao Ninho, mas, a avaliar pela mensagem, sabia o que estava a fazer e pretendia comunicar através do cano da latrina.

«Bem, o Worick sempre disse que os burriks são capazes de roubar os olhos a uma pessoa sem que esta repare...», recordou Lhiannah, e pensar no seu mentor abriu-lhe os olhos e fez com que se erguesse, ainda de braços frementes do esforço.

A princesa cruzou as pernas e puxou as madeixas soltas de cabelo para trás, olhando absortamente para o chão de antebraços assentes sobre as coxas. A aia da princesa Iollina dissera-lhe que Worick já não corria perigo de vida, mas a visão do seu mentor, daquele velho thuragar duro que nem uma pedra, pálido e exangue numa banheira tingida de vermelho pelo seu próprio sangue... Nunca o iria esquecer, nem tão-pouco perdoar o responsável pelo sucedido. Ainda que não tivesse sido sua a mão que empunhara a partasana que trespassara Worick, o irmão de Aewyre era o principal culpado por toda a situação, pelo estúpido acesso de loucura que o levara a ver Lhiannah como co-conspiradora de uma intriga absurda. A ela, que viera propositadamente a Ul-Thoryn para lhe devolver o corpo do seu pai desaparecido e para o avisar do perigo que todos corriam... Os lábios de Lhiannah comprimiram-se ligeiramente, e a princesa arvorou um olhar feroz ao erguer o joelho de uma perna e apoiar a mão no chão para se levantar. Os seus olhos não mais estavam vermelhos, e as olheiras esvaneciam à medida que a princesa ia recuperando o sentido de um propósito na sua vida, que até poucos dias atrás mais parecera uma lastimosa espiral descendente.

— Vais pagar, Aereth — disse para consigo, pegando numa manta com a qual esfregou a cara suada e que usou para cobrir os ombros, servindo-se também de um pouco de água do jarro sobre a sua cama.

Estava bastante frio no cubículo, pois o óleo das candeias esgotara-se e Lhiannah fora forçada a destapar a abertura na parede para deixar entrar luz. Os seus confortos estavam a acabar, mas essa era a última das suas preocupações de momento. Não era de confortos que precisava de qualquer forma, mas sim de se meter nos eixos e de se preparar para o que desse e viesse. Bebendo sequiosamente, a princesa exalou de alívio ao pousar o copo de madeira, esfregando com as costas da mão a água que lhe escorrera pelo queixo abaixo.

— Sabes, linda, acho que exagerei... — disse uma voz doentia atrás dela.

Lhiannah virou-se bruscamente, deixando a manta cair e chicoteando o ar com o seu rabo-de-cavalo, e viu Hepascar comodamente recostado à parede de braços cruzados sobre a bojuda barriga irradiada de veias azuis, esta ainda mais realçada pela cinta com uma série de lancetas alojadas em patilhas. A sua cara sarapintada de máculas vermelhas estava enrugada por um sorriso malsão, e os seus olhos amarelados luziam de malícia.

— Sou capaz de te ter assustado de mais. Pensava que o teu fel nunca mais iria fermentar... — disse o haghral, descruzando os braços de mangas folgadas e avançando um descontraído passo. — Lembras-te do que te disse, não? De que a minha próxima visita seria a última?

Lhiannah cerrou os punhos e os dentes, lembrando-se muito bem das palavras de Hepascar, que contudo se limitou a erguer as mãos de palmas rubras num gesto de pretensa paz.

— Mas não te preocupes, que mudei de idéias. Não é hoje que o coração irá verter — disse o haghral, gesticulando com os dedos para dar ênfase à citação. — Tens andado demasiado assustada, escondida como um passarinho trêmulo no ninho. Não era bem isto que eu tinha em mente, não é de todo um tributo adequado para a minha progenitora. Sabes o sabor com que a carne de um animal aterrorizado fica, linda?

A língua amarelenta de Hepascar abanou como a de uma serpente, ilustrativa e repulsiva, e o haghral pareceu derivar particular prazer da revulsão patente na expressão desafiadora de Lhiannah.

— Pois, mas não é bem isso que quero. O que quero é que o teu sangue fique amargo, que o teu estômago ulcere de raiva, que o teu fel impregne cada fibra desse teu corpinho torneado...

Assim que Hepascar ficou ao seu alcance, o punho de Lhiannah disparou com tamanha força que o cotovelo da princesa se distendeu ao falhar o golpe, espetando-lhe adagas de dor pelo antebraço abaixo. Desequilibrada, a princesa foi alvo fácil para o contragolpe com as maculadas costas da mão de Hepascar, que a derrubou.

— Sim, é isso que eu quero ver! — regozijou-se o haghral, sorvendo deliciosamente em seco.

Lhiannah recuou de costas pelo chão como um caranguejo ferido, criando distância entre si e o seu adversário, mas Hepascar não parecia estar minimamente interessado numa luta e limitou-se a assentar o pé sobre a cama de pedra, apoiando o cotovelo sobre o joelho e o queixo sobre o punho. Ficou nessa posição a observar a princesa, levando ainda uma mão à anca numa pose meramente apreciadora.

— Bem sei que te assustei, mas também não queria que ficasses a choramingar em posição fetal. Isso de nada servirá a nenhum de nós — explicou enquanto a princesa se erguia a quatro passos de distância. — Sabes, eu nem conheci a minha progenitora, mas qualquer haghral que se preze esforça-se por assegurar um tributo adequado a quem o concebeu, embora deva confessar que os meus padrões são mais... primorosos que os da maioria.

— A tua progenitora era uma cabra doentia que mereceu morrer — praticamente rosnou Lhiannah, medindo o adversário com mais cuidado. Embora os seus músculos estivessem de fato cansados, a esquiva do haghral fora fluida e parecera-lhe preocupantemente fácil.

— Um tom de desafio? — surpreendeu-se Hepascar, erguendo as sobrancelhas e endireitando-se com renovado interesse. — Maravilhoso, minha linda! Conhecia-la, portanto?

As memórias do seu brutal espancamento às mãos de Hazabel tiveram um efeito oposto ao habitual, encolerizando Lhiannah ao invés de fazer com que se recolhesse.

— Fez alguma coisa ela, foi, linda? — compadeceu-se o haghral cinicamente. — Magoou-te muito?

Lhiannah investiu, lançando-se em frente como uma ave de rapina, oscilando selvaticamente com o punho e falhando o golpe quando Hepascar simplesmente inclinou o tronco para trás. Aproveitando a precária posição da princesa, o haghral agarrou-a pelo braço e pela túnica e, empurrando-se a si mesmo com a perna assente na cama de pedra, atirou Lhiannah de cara contra a parede. A princesa esbofou ao colidir com a pedra, na qual também embateu com o lado esquerdo da cara, ressaltando para cima da latrina.

— Delicioso — disse Hepascar, lambendo os lábios com feridas. — Tanta raiva... És magnífica, minha linda. Sabia que não me irias desapontar. Já começava a pensar que teria que matar o thuragar de vez para que tu acordasses...

— Tu não lhe tocas! — urrou Lhiannah, levantando-se e tornando a investir, só para Hepascar aparentemente antecipar o seu golpe uma vez mais, desviar-se e atingi-la nas costelas com um murro certeiro que a vergou, derrubando-a então com outro golpe das costas da mão.

— Isso, grita um pouco mais. Pode ser que o guarda ainda não esteja totalmente convencido de que perdeste o juízo... — sugeriu o haghral, chutando a cara de Lhiannah e deixando-a estendida no chão de barriga para o ar. — E um comportamento pouco digno de uma princesa, não achas?

Lhiannah não respondeu, ficando no chão agarrada às costelas, a grunhir de olhos e dentes cerrados.

— Isto não é nada pessoal, entendes? Como disse, nem conheci a minha progenitora, e tanto se me dá como se me deu que ela tenha morrido numa cama ou varada que nem uma porca.

Hepascar aproximou-se descontraidamente de Lhiannah, abrindo os braços numa pose pregadora.

— A única coisa que pretendo é fazer de ti um exemplo, linda, um bom exemplo — explicou, inclinando ligeiramente o torso para a frente e cobrindo a princesa com a sua sombra de braços abertos.

— E tu és perfeita para algo de memorável. Bela, selvagem, e tão, tão raivosa...

Lhiannah gritou, ergueu as ancas e projetou a perna para cima, plantando uma delicada sapatilha na cara de Hepascar, que recuou três passos e levou a mão à boca, sorrindo ao ver o sangue que lhe escorria do nariz e do lábio inferior aberto.

— Bem melhor que da primeira vez... — disse o haghral, agradavelmente surpreendido. — O que te aconteceu? Estás com o choro lunar?

— Canalha — rosnou Lhiannah, olhando-o de baixo enquanto se erguia, pronta a atacar.

— Que pretendes fazer? Matar-me com as tuas próprias mãos? — indagou Hepascar, arregalando as sobrancelhas em fingido terror.

— Que coisa tão feia para uma princesa fazer...

— Espera e vais ver, desgraçado... — ameaçou Lhiannah com um olho semicerrado devido à pulsante e intumescente dor na sua cabeça resultante do choque com a parede.

— Já vejo, e estou a gostar. Mas ainda temos algum trabalho pela frente, linda — sorriu Hepascar maliciosamente, passando uma mão pelo peito cavo desprovido de pêlos, espalhando um pouco de sangue pela sua pele macilenta. — Acho que da próxima vez já estarás pronta, se até lá não te puseres a choramingar. Se tudo o resto falhar, posso sempre acabar o que o guarda começou com o thuragar...

A princesa tornou a atacar com um grunhido feroz, e Hepascar evitou facilmente o seu primeiro golpe, bem como o segundo, esquivando-se dos oscilantes murros com golpes de rins. O terceiro falhanço tornou a desequilibrar Lhiannah, e o haghral pegou-lhe pelas costas, aproveitando o seu ímpeto para a atirar de barriga ao chão. Antes que Lhiannah pudesse recuperar o fôlego, Hepascar assentou-lhe o joelho sobre a ilharga, agarrou-lhe o rabo-de-cavalo e puxou-lhe a cabeça com força para trás.

— Odeias-me, não odeias? — sussurrou-lhe ao ouvido. O seu hálito era doce e amoniacal. — Tanto ou mais do que ao Aereth?

Com um joelho nos rins, as costas arqueadas e a cabeça forçosamente puxada para trás, Lhiannah conseguiu pouco mais que um grunhido.

— Pois pensa na família do guarda que mataste. Na sua esposa. Nos seus filhos. Na sua mãe viúva. Eles sabem que foste tu.

A princesa agarrou o braço que lhe puxava os cabelos com uma mão, o que apenas resultou num aumento da pressão nos seus rins e um esticar da cervical quase até ao limite. O lado da cara de Hepascar colou-se à sua, e algo frio e afiado encostou-se à palpitante veia da sua garganta exposta.

— Sabes qual foi a história que contaram? Que mataste um guarda ao tentar escapar. Estava o pobre desgraçado a vigiar-te enquanto tomavas banho, de costas cortesmente viradas... e tu atiraste-o de armadura para dentro do tanque, afogando-o. Foi mais ou menos assim, não foi?

Outro grunhido, e a mão de Lhiannah apertou futilmente o braço de Hepascar com mais força.

— Pensa nisso. Em como te devem odiar. Mas a culpa deve ser minha, não é? Pensa nisso. O medo já de nada te serve. Estão todos contra ti, e se ao menos me pudesses apanhar, espancar-me a sério até eu ficar às portas da morte, e mostrar-me aos outros... aí talvez acreditassem em ti, não achas?

— Canalha... — disse Lhiannah, sufocada.

— Mas que falta de originalidade, linda. De qualquer forma, não és capaz, pois não? Este teu corpinho bem feito não serve para lutar, mas sim para parir bebês. A minha progenitora também não deu à luz, e vê bem onde isso a levou. — O haghral riu guturalmente da sua própria piada, antes de fazer Lhiannah grunhir de dor com um novo puxão. — A próxima vez que me vires será mesmo a última. Podes encolher-te de medo a um canto que nem uma rapariguinha gemebunda e vedar-me o acesso a este cubículo, ou convidar-me a entrar com a tua raiva para tentares acabar comigo... ou eu acabar com o teu sofrimento. É só escolheres.

Sem qualquer aviso, Hepascar arrojou a cabeça de Lhiannah de lado contra o chão, contra o qual o seu crânio embateu surdamente. Um clarão negro apagou a visão da princesa, retraindo-se então para os cantos dos seus olhos e começando lentamente a cobri-los. Ensurdecida pelo baque do impacto, ouviu a voz do haghral chegar-lhe difusa ao ouvido bom antes de a escuridão apagar tudo o resto.

— Linda...

 

Dul-Goryn era a maior cidade de Tanarch, cercada por uma muralha de pedra calcária cor creme com uma série de torreões de topos cônicos e facetados pintados de verde. Era constituída por três distritos divididos por lanços de muralha interiores, cada um demarcado por uma alta torre coroada com um belver à moda nolwyna. Aninhada na curva de um rio congelado e isolada no meio de uma planície fértil nos meses de sol e gélida durante boa parte do ano, Dul-Goryn sempre se erguera orgulhosa e desafiante na indômita paisagem tanarchiana.

Porém, naquele dia granido por uma neve ligeira, a cidade encontrava-se à beira do mais abjeto terror, e estava iminente uma explosão de pânico nas lamacentas ruas, embora estas estivessem praticamente desertas. Portas e janelas estavam fechadas, algumas mesmo barricadas, e eram bastantes as chaminés que não exalavam fumo, como se os seus habitantes quisessem dar a entender que as suas casas não se encontravam ocupadas. Soldados de elmos em forma de cebola e armaduras lamelares andavam meio perdidos nas ruas de achas de armas empunhadas, vagueando sem rumo e seguindo ordens díspares e inseguras. Notava-se uma maior concentração perto das três torres que ao longo dos séculos haviam sido ocupadas por um Triunvirato, onde alguns guardas e soldados pareciam aguardar alguém que lhes assegurasse que tudo iria correr bem. Contudo, tal não iria acontecer, pois os Três estavam mortos, assassinados pelos malditos sirulianos, e a morte aguardava-os a todos do outro lado das muralhas.

A sua voz era rítmica, roufenha, percutida, e por mais que os habitantes de Dul-Goryn se escondessem, nunca deixavam de ouvir o seu mortífero pulsar mesmo no canto mais escuro da mais baixa adega, onde mães abraçavam crianças chorosas que, sem compreenderem o que se estava a passar, não podiam deixar de sentir o medo dos seus pais. Quem não tinha adega refugiava-se como podia na divisão mais reclusa da sua casa, quem não tinha casa fugia para os templos da cidade, onde as orações ofereciam esperança, e quem não tinha esperança limitava-se a deambular erraticamente pelas ruas pavimentadas de madeira, onde o surdo rufar vindo do exterior fazia vibrar os coloridos edifícios de madeira esculpida e insulada com barro. A cidade mais parecia um enorme redil, e a única coisa que separava as trêmulas ovelhas do iminente pesadelo eram as muralhas em cujos adarves os mais corajosos aguardavam ao lado dos mais desesperançados. Estes encontravam-se concentrados no lanço Leste da muralha, que tinha vista para a planície, enquanto que o lanço Oeste que dava para a ponte sobre o rio estava deserto. Milicianos, soldados e mesmo alguns monges de Gilgethan que sentiam o iminente chamamento da batalha, todos estavam retesados e imóveis de mãos pousadas sobre as ameias, ou agarrados aos arcos e cabos de lanças com dedos hirtos de frio e medo. Uma autêntica procissão de faces cansadas, pálidas e de barbas sarapintadas de neve estava de olhares fixos no exterior, com o mais puro terror patente nas suas expressões enevoadas pela sua própria respiração. Além das muralhas, além da aparente segurança oferecida pela pedra fria, espalhava-se pelos campos níveos uma fervilhante massa negra, cinzenta e castanha, e o rouco rumor que os habitantes tentavam ignorar, tapando os ouvidos, transformava-se do outro lado dos baluartes num tonitruante coro que fazia as pedras tremer.

Magotes de drahregs, centenas, milhares, talvez mesmo uma centena de milhar, apinhados, acirrados e salivantes, com boa parte deles de bocas escancaradas e a darem largas à sua selvajaria, urrando roucamente. O seu acampamento era-o apenas no nome, pois não passava de um desorganizado atear de fogos e assentar de posses sujas e mal-amanhadas na neve. A sua fúria dava a impressão de estar a ser dirigida contra a cidade, mas na verdade os drahregs urravam tanto uns contra os outros como na direção das muralhas. Disputas ateavam-se com uma facilidade mercurial, e boa parte do aço desnudo não era brandido somente para intimidar os humanos que observavam das muralhas. Um drahreg alto e corpulento brandiu um alfange serrilhado, interpondo-se no meio de uma altercação, e a sua boca de dentes amarelados expeliu vapor e saliva sobre a barba encrespada ao tentar impor a ordem com um urro, sacudindo as suas pesadas tranças. Um dos altercantes à sua direita pareceu discordar e berrou em resposta de dentes arreganhados, o que lhe valeu um olhar feroz de duas gotas de sangue nas poças escuras que eram os olhos do comandante, que para ele apontou o seu alfange em advertência. Um outro à sua frente juntou a sua voz à discórdia, e a ponta do alfange virou-se para ele, reforçada pelo autoritário estentor do comandante, o que bastou para o silenciar. Porém, o primeiro altercante manteve-se firme e de dentes arreganhados como um jovem macho disposto a pôr em causa a autoridade do líder, cuja resposta não se fez esperar. Com um brusco golpe de cotovelo, estilhaçou os dentes do drahreg com o gume do alfange, que resvalou com o impacto e trinchou o lábio superior do contestatório. Este urrou de dor, abafando o frêmito agonizado com ambas as mãos ao cair de costas ao chão, onde ficou a oscilar sobre os ombros de um lado para o outro, os seus olhos, duas frestas cerradas e agonizadas. O comandante pôs-se a seu lado com um passo, ergueu a perna e calcou a cabeça do impertinente drahreg com uma grossa bota forrada a pele. Diante dos olhares intimidados dos outros, pisou repetidas vezes a cabeça até partir os ossos das mãos que a tentavam resguardar e o crânio começar a ceder, e os subsequentes ruídos crocantes fizeram com que os outros engolissem em seco, perdendo toda a beligerância à medida que a neve no chão ia ficando tingida de vermelho.

Satisfeito com a ruína de sangue, cabelos empapados e osso exposto debaixo da sua bota, o comandante drahreg virou-se para os outros, desafiando-os com o olhar a questionarem a sua autoridade. Saliva espumosa e flocos de neve pendiam da sua barba debaixo de boca e narinas frementes a exalarem vapor, o que ajudava ao olhar intimidante, embora muitos começassem a adquirir mais interesse no corpo morto diante deles, o que significava que naquela noite iriam comer bem. O comandante drahreg apontou para a cidade com o alfange, dando a entender que era naquela direção que deveriam dirigir as suas hostilidades, e os seus inferiores aquiesceram, olhando para além da horda que se agigantava como um vagalhão prestes a abater-se sobre a tremula pedra. Porém, era um vagalhão desgovernado, refratário e não tão temível quanto poderia parecer, pois embora os tanarchianos não conseguissem ver, boa parte do exército era constituído por fêmeas e crianças drahregs, essas reunidas em grupos em redor dos mais dominantes guerreiros, o que por si só era causa para mais contendas. Vários jovens drahregs excitados davam largas aos seus impulsos mais primários, e uma vez que a horda cessara a marcha, a situação era propícia a violentos confrontos. A comida era um problema, pois o exército era-o apenas em aparência, tendo-lhe faltado todo e qualquer tipo de organização desde o início, desde o chamamento do seu regressado senhor que levara a um êxodo em massa de Asmodeon. Fora cada um por si, e embora os drahregs se tivessem ido aglomerando, faltara-lhes coesão e liderança, tendo sido a vontade de Seltor e não os urros dos seus comandantes o que os movera. Centenas de outros haviam-se juntado após a passagem pelo Istmo Negro, vindos dos cantos mais recônditos de Tanarch, mas outras centenas haviam morrido em rixas ou como resultado de doenças adquiridas ao longo da forçada marcha e da falta de higiene nos bivaques.

Todavia, tal não estava sequer perto de fazer com que a horda parecesse menos ameaçadora aos olhares ignorantes e aterrorizados dos tanarchianos. Desde que se ouvira que uma horda inumerável se aproximava de Leste, que um horror do passado estava a devastar campos e aldeias a caminho de Dul-Goryn, que o pânico tomara toda a população. Instigada pelo assassinato do Triunvirato e pelos gritos de vingança de Linsha, a antiga aprendiza de lorde Malagor, Tanarch dirigira-se em força para Gul-Yrith com o intuito de se vingar de anos de abusos e humilhações. O exército voltara a correr com os soldados em pânico, pois Gul-Yrith não era grande o suficiente para ser guarnecida por tão grande exército, além de que acabara de ser atacada. Num momento de caos que privara os comandantes de toda a sua autoridade, o exército batera em retirada, e os nobres e a cavalaria aproveitaram o fato de a horda ser constituída unicamente por infantaria para fugirem a galope. Centenas de cavalos haviam morrido de exaustão na debandada, e a nobreza de Tanarch chegara suja e desflorada a Dul-Goryn, trazendo consigo olhares espavoridos e ominosas premonições de morte e destruição. Mesmo antes da vinda da horda, o moral da cidade ficara prontamente abalado, sendo os receios alimentados pelo fumo que já se vislumbrara no horizonte, e fora completamente estilhaçado quando as sentinelas nas muralhas avistaram o negrume que se espalhava pelos campos brancos. Os drahregs nem se incomodaram em cercar a cidade nem em improvisar pontes para transporem o rio, o que lhes permitiria contornarem facilmente a cidade, limitando-se antes a aguardar. Ninguém sabia dizer porquê ou por quem. Não tinham quaisquer máquinas de cerco e estavam claramente equipados para uma batalha campal, uma batalha que ninguém na cidade sonhava sequer em lhes conceder, pelo que o Primeiro Pecado começava a dar indícios de que algo de destrutivo poderia acontecer entre as suas fileiras.

Todavia, todos estes pormenores passavam despercebidos aos aterrorizados tanarchianos nas muralhas de Dul-Goryn, que viam apenas um número até então inimaginável de sanguinários drahregs, dos infernais humanóides que os mais velhos recordavam com terror e que os mais jovens conheciam apenas de histórias para assustar crianças que preferiam esquecer. Fugir da cidade estava fora de questão, permanecer nela dava a sensação de apenas adiar o inevitável, e o aflitivo impasse aliado à ausência de um líder cedo carcomera os nervos dos sitiados. O Triunvirato deixara os seus responsáveis a cargo da cidade antes da fatídica partida para Val-Oryth, mas estes não passavam de magistrados mais acostumados a lidarem com pergaminho que com pessoas, e encontravam-se todos escondidos nas torres dos seus senhores. Havia também o antigo mensageiro de lorde Malagor, que acompanhara o exército até Gul-Yrith para servir de intermediário, tendo fugido com os nobres ao avistar a horda, e que conseguira impor um mínimo de ordem. Porém, a única coisa que dizia à população era que mantivesse a calma e fosse paciente. Como tal, ninguém soube ao certo o que fazer quando se ouviu uma trompa do outro lado do lanço Oeste da muralha. Poucos se aperceberam do ruído, e entre esses houve quem se encolhesse mais, tomando-a por um sinal de um ataque iminente. O toque repetiu-se uma segunda vez, e uma terceira, ambas espaçadas, e foi apenas à quarta que vultos tímidos começaram a subir a escada que dava ao adarve da muralha. Outros correram a avisar quem não tinha ouvido. A trompa tocou uma quinta vez antes que os vultos chegassem ao topo e espreitassem pelos merlões, surpresos por verem quatro indivíduos montados diante do portão.

Um deles era uma mulher com um casacão roxo de peles e um chapelete preto de abas forradas a pele reviradas para cima, que empunhava um bastão. Os outros três eram homens altos e corpulentos que debaixo de capas forradas envergavam cotas de malha reforçadas com placas de aço aos ombros e uma série de chapas retangulares dispostas sobre o torso. Usavam elmos em forma de cebola com um visor a servir de máscara e um gorjal de escamas, e todos empunhavam uma temível acha de armas. Os homens nas ameias reconheceram-nos como os Ignotos, os guardas pessoais do Triunvirato, mas ninguém soube quem a mulher era.

— Sou Linsha Akselban, aprendiza do falecido lorde Malagor! — anunciou esta, erguendo o bastão encimado por uma balança dourada com duas esmeraldas incrustadas nos seus pratos. — Abram os portões!

O tom autoritário na voz da jovem feiticeira teve o efeito de chuva em terra ressequida, e a hesitação dos homens foi mínima antes de correrem a obedecer. Os portões abriram-se, guinchando pelas enormes dobradiças, e os cascos dos cavalos ecoaram pelo arco de pedra que dava entrada à cidade. Os homens que abriram as portas olharam com ar maravilhado para a mulher de costas direitas que olhava em frente, e para os seus intimidantes acompanhantes.

— Fechem o portão. Onde está o mensageiro Khorgin? — perguntou Linsha a ninguém em particular.

— Na... na Torre Judicante, Senhora — respondeu um dos soldados.

Linsha fitou-o com os seus felinos olhos castanhos e apontou para ele com a ponta do bastão.

— Digam às pessoas que saíam das suas casas. Aos homens que peguem nas suas armas. — O bastão foi então apontado aos outros soldados, e a balança que o encimava pareceu pesar cada um deles. — Que todos vão às muralhas, às ameias a Leste. Que testemunhem o que vai acontecer.

Mudos, os Ignotos nada disseram, mas os olhares ocultos pelas suas máscaras antropomórficas auferiram mais peso, às palavras de Linsha que as achas de armas que empunhavam.

— Vão! — ordenou a jovem feiticeira, sobressaltando os soldados, que por pouco não tropeçaram ao correrem a acatar o seu comando.

Linsha fitou os Ignotos à vez, os sobreviventes do assassinato de lorde Malagor e os únicos que não ficaram incapacitados como resultado dos ferimentos. Os outros haviam perecido durante o combate ou como resultado das lesões sofridas, e por alguma razão estes tinham-na adotado como a sua nova protegida. Linsha não os desencorajara, e sempre preferia a companhia silenciosa dos três guerreiros aos constantes ganidos em busca de aprovação de Volgo Dokhan, o meirinho de Val-Oryth. Nunca fora particularmente forte de caráter, mas desde a noite em que Linsha fora tocada pel’O Flagelo que passara a comportar-se de forma excessivamente servil, e fora quase preciso bater-lhe para o convencer a permanecer na cidade enquanto Linsha ia a Dul-Goryn. Aliás, começara a desenvolver um estranho apreço pelas punições que a feiticeira lhe administrava através da Palavra, o que, aliado à sua dependência quase canina, tanto mais a enojava.

Sem nada dizer, a feiticeira deu dois toques de calcanhar ao seu palafrém, incitando-o a um trote, e os Ignotos vieram-lhe atrás. O animal era bem treinado, e facilitou-lhe o ato de manter as costas tão direitas quanto o bastão que empunhava durante o trote. Apossara-se da arma de lorde Malagor com o pretexto de continuar o seu legado, mas na verdade não o via como mais que um símbolo da latente autoridade que estava a descobrir em si. Era algo que lhe agradava, e tanto mais lhe aprazia o fato de outros estarem a aquiescer diante dela. Porém, fora mais fácil convencer as pessoas do que o bastão, pois este estivera ligado ao mais profundo nível a Malagor, que o construíra e imbuíra. Harmonizar aquele singelo pedaço de madeira com a sua aura fora das maiores provações arcanas da sua vida, mas servira-lhe para descobrir que os seus métodos intuitivos não eram tão falíveis quanto Malagor lhe dera a entender enquanto aprendiza. Atingira cedo um planalto no desenvolvimento das suas faculdades, e sempre se sentira mais à vontade a manusear pura Essência do que a tentar manipulá-la através da Palavra, mas desde que fora tocada pelo seu senhor que se sentia capaz de transpor todos os limites. Como aquilo a que se propusera fazer naquele dia, e que o seu senhor pessoalmente lhe requisitara.

O grupo de quatro trotou sobre as tábuas de madeira que pavimentavam as ruas da cidade, e pelos seus meandros já ecoavam gritos a passarem a informação que Linsha ordenara. Algumas janelas abriram-se timidamente, do outro lado das quais espreitaram caras assustadas e contudo intrigadas, e foi para essas que Linsha se endireitou ainda mais na sela, ostentando o bastão de Malagor.

— Para a Torre Judicante! — gritou à laia de comando de general, incitando o seu palafrém a um galope que as montarias dos Ignotos prontamente emularam.

O tropel dos quatro pareceu trazer vida às ruas desertas, e na sua esteira a cidade começou lentamente a despertar do aterrorizado torpor em que se encontrara adormecida. Algumas pessoas abriram as portas, e umas poucas ousaram mesmo sair das suas casas para terem um vislumbre dos quatro cavaleiros. As tábuas do pavimento estremeciam e algumas saltavam com espirros de neve suja, despreparadas para tão furiosa cavalgada em plena cidade. Linsha e os Ignotos atravessaram rapidamente uma série de distritos, chegando com grande alarido à Torre Judicante, onde um grupo de desorientados guardas parecia aguardar a sua chegada.

— O mensageiro Khorgin? — perguntou Linsha com o tom de voz imperioso que ultimamente adotara e que até então ninguém se atrevera a contestar.

Nenhum deles sequer perdeu tempo a questionar-se quanto à identidade daquela jovem mulher que aparecera do nada com porte de salvadora, pois a sua pose autoritária atraía para si os desalentados soldados como uma rocha sólida no meio de um turbilhão. Vários começaram a falar ao mesmo tempo, apontando para locais díspares e atropelando as palavras uns dos outros até serem silenciados pelo olhar conjunto de Linsha e dos Ignotos.

— Onde está o...? — começou a feiticeira a repetir antes de ser interrompida pelo apressado abrir da porta da torre.

Khorgin saiu do seu interior, envergando a sua habitual indumentária de mensageiro, um cafetão vermelho debruado a pele de marta, cravejado de botões de ouro e com borlas amarelas pendentes. Porém, a sua normalmente aparada barba estava desgrenhada, a sua capa verde estava suja, e parecia ter perdido o seu barrete verde, revelando uma antecalva no meio do cabelo castanho. O homem não escondeu um certo alívio por ver Linsha, tentando dessa forma ocultar o olhar cúmplice que com ela trocou.

— Linsha Akselban, folgo em ver-vos — disse o homem com uma vênia.

— Qual é a situação?

O homem endireitou-se e olhou para todos os curiosos guardas em redor, fitando Linsha novamente e perguntando-lhe em silêncio se a presença destes era ou não aceitável. A feiticeira pareceu achar que seria conveniente que os homens ouvissem o que tinha a dizer, e acenou com a cabeça.

— Como podeis constatar, a horda não cercou a cidade. Devem rondar os cem mil, e encontram-se acampados a Leste desde há três dias. Não tomaram qualquer ação desde então, nem se aproximaram a mais de quatrocentos pés das muralhas; não que tivessem algo a temer dos nossos arqueiros.

Khorgin olhou de forma repreensora para os homens, que baixaram a cara em sinal de embaraço.

— Temos um exército aterrorizado na cidade, vários esquadrões sem comandante, e um problema sério de aquartelamento. Além do mais...

— Gul-Yrith?

— Foi tomada — continuou Khorgin, mais que habituado a ser interrompido. — Os sirulianos que sobreviveram refugiaram-se nas entranhas da fortaleza, mas antes que tivéssemos tempo de os desenterrar, surgiu a horda, A debandada foi geral.

Linsha fez que sim com a cabeça, olhando à vez para os atemorizados guardas e para os tímidos vultos que observavam a cena, escondidos nas esquinas das casas aos pés da Torre Judicante.

— Quais são as vossas ordens? — indagou Khorgin. — Será difícil reunir os diversos comandantes para uma reunião, mas julgo que...

— Abram-me os portões — tornou Linsha a interromper, enfatizando a irrelevância das constatações do mensageiro com um gesto desinteressado da mão.

Khorgin pareceu aturdido.

— Perdão? Abrir os...?

— Ouviu-me bem. Abram os portões, e eu tratarei da horda.

A descrença foi partilhada por todos os presentes, e apenas os Ignotos não se manifestaram devido às suas máscaras, embora dessem a impressão de partilharem olhares incertos entre si. O mensageiro aproximou-se do cavalo de Linsha, pegou-lhe nas rédeas com uma mão enluvada e ergueu-se sub-repticiamente em bicos de pés.

— Alto Vulto... — disse, usando o título ao qual a feiticeira fora promovida numa negra cerimônia após a morte de lorde Malagor. — Tendes a certeza?

O olhar de Linsha foi convicto e indignado, mas Khorgin habituara-se demasiado à silenciosa ameaça da presença de lorde Malagor para se deixar assustar por uma mera aprendiza promovida.

— Tenho — sussurrou a feiticeira em resposta. — Assim o ditou o nosso senhor.

Algo mudou então no olhar de Linsha, algo que fez com que o mensageiro lhe largasse prontamente as rédeas do cavalo. A feiticeira puxou-as, fazendo com que o cavalo empinasse ligeiramente a cabeça e recuasse alguns passos, e os Ignotos fizeram o mesmo, embora as suas montarias bem treinadas não protestassem.

— Lorde Malagor teria dado a sua vida por Dul-Goryn, A das Três Torres, a jóia de Tanarch — proclamou Linsha em voz alta para que todos a ouvissem. — Em sua memória, era nome dos deuses, e pelos que deram a sua vida para quebrar o jugo dos sirulianos, irei fazer o mesmo. Os seus sacrifícios não terão sido em vão.

Com estas palavras, a jovem feiticeira incitou o seu cavalo a um novo galope que reboou pelas tábuas do pavimento das ruas. Khorgin viu-a desaparecer numa esquina, aturdido mas ao mesmo tempo incapaz de refrear um assomo de zelo. Dul-Goryn estava agora definitivamente desperta, e toda uma série de rumores começou a espalhar-se pela cidade como fogo num descampado seco. Linsha conhecia o caminho e ninguém se lhe opôs, pelo que a sua única dificuldade foi mesmo tentar manter-se distraída para não entrar era pânico. O retumbar que se ouvia no exterior, o cada vez mais distinto rumor semelhante a ondas do oceano que resvalavam e tornavam a investir contra a trêmula pedra das muralhas, tudo isso a aterrorizava tanto quanto ao comum cidadão. Agarrava-se com todas as forças às palavras do seu senhor, ao conforto e confiança que estas lhe haviam transmitido, e tentava convencer-se a si mesma de que realmente detinha toda a autoridade que seria de esperar do seu título. Os Ignotos reconheciam-lha, embora apenas devido a um desorientado sentido de dever e lealdade e desconhecendo a sua ligação com os Filhos do Flagelo. Os cidadãos de Val-Oryth haviam-lha reconhecido por necessidade de um líder. Outros como Volgo Dokhan reconheciam-lha por serem cobardes. Sabê-lo não era propriamente motivador.

Antes que pudesse refletir mais, chegaram aos portões, do cimo dos quais guardas e soldados admirados bateram nos ombros de colegas para que estes olhassem para trás. Linsha reassumiu o porte régio que achava que lhe devia ser inerente e empunhou o bastão com firmeza, embora o seu ombro começasse a ficar cansado. Os Ignotos dispuseram-se simetricamente na sua retaguarda e nos seus flancos, sendo reconhecidos por todos, e a sua presença trouxe alguma esperança aos desalentados tanarchianos.

— Sou Linsha Akselban, aprendiza do falecido lorde Malagor! — tornou a feiticeira a dizer, empunhando ao alto o bastão do seu antigo mestre. — Abram os portões!

Os guardas mostraram-se compreensivelmente bem mais hesitantes que os do portão Oeste, e Linsha soltou um irritado suspiro vaporoso. Cerrando os concentrados maxilares, crispou os dedos no cabo do bastão e trouxe-o abaixo num brusco arco, lançando um crepitante projétil esmeralda na direção do adarve da muralha. O projétil explodiu aos pés de uns soldados, lançando lascas de pedra e neve ao ar sem contudo causar grande estrépito além de dois homens que caíram com o susto e um que gritou ao ser atingido na face por um fragmento.

— Abram-nos, seus cobardes. Podem fechá-los depois, mas não será necessário. Eu vou livrar-vos da horda.

Um pouco menos formal e dramático que o que seria de esperar, mas Linsha não tinha mais tempo a perder, e queria despachar a situação quanto antes. Em todo o caso, foi eficaz, pois o subseqüente momento de hesitação dos homens foi curto antes que estes corressem aos mecanismos que abriam os portões. O rastrilho ergueu-se com o rude raspar de correntes, e as dobradiças dos portões rangeram em protesto, como se os próprios estivessem relutantes em abrir-se. Linsha engoliu em seco antes de dar toques de calcanhar nos flancos do cavalo, e ainda assim esperou que os portões ficassem completamente abertos antes de o incitar a avançar com um mínimo de resolução. O rumor da horda foi canalizado pelo túnel adentro, e a feiticeira sentiu as pedras tremerem com o ruído que lhe ressoava no próprio peito. Foi necessário algum esforço para não olhar para trás para os Ignotos, pois o ruído era tal que nem dava para dizer se estes lhe estavam a ir atrás ou não. Não o faria, pois o seu porte naquele momento seria vital, e teria que irradiar a confiança que dava a entender possuir. A neve continuava ligeira e o terreno além do portão Leste era plano, o que permitiu à feiticeira ver mais drahregs do que gostaria. Mais drahregs do que esperara. Mais drahregs do que pensava existirem em Asmodeon. Em toda Allaryia. Um acervo escuro de aço eriçado que se agitava em mal contida fúria, um vagalhão negro retido por cadeias que poderiam quebrar a qualquer momento.

Os portões fecharam-se atrás de Linsha, e a jovem feiticeira mal teve tempo de se repreender mentalmente antes de se encolher e olhar instintivamente para trás. Constatar que os Ignotos a haviam acompanhado serviu de algum consolo, mas duvidou de que o seu olhar assustado tivesse sido particularmente inspirador para os três homens. Linsha endireitou-se rapidamente, tornou a engolir em seco, repetiu mental e verbalmente as palavras do seu senhor e deu uma ligeira chicotada ao cavalo com as rédeas. Mesmo àquela distância, o animal mostrou-se algo hesitante, e Linsha teve de passar por alguns momentos embaraçosos, tentando da mais discreta forma possível forçar a montaria a avançar enquanto sentia os olhares dos Ignotos nas suas costas. Aproximar-se da horda foi das experiências mais lentas e agonizantes da sua vida, e os nós do seu punho direito ficaram brancos debaixo da luva ainda a meio caminho, tal era a força com que apertava o bastão. Linsha recitava as palavras do seu senhor num murmurejar incoerente, misturando-as com preces a deuses aos quais havia muito não havia dirigido quaisquer orações e encorajando-se a si mesma, mas a sua comparativamente débil voz era afogada pela torrente sonora que emanava das bocas de centenas de milhar de drahregs. Ainda estava demasiado longe para sequer distinguir feições, mas começava a ficar com a distinta sensação de que inúmeros olhos vermelhos se centravam em si.

Teve vontade de recuar, ou de pelo menos deixar os Ignotos irem à frente, e começou a suar friamente debaixo do seu pesado casaco de peles roxas pintalgado de flocos de neve. Ainda assim, a monstruosa cacofonia foi cessando nas fileiras centrais da horda, à medida que mais e mais drahregs se apercebiam de que quatro pessoas tinham efetivamente abandonado a proteção da cidade. A audácia de semelhante ato foi o suficiente para não precipitar uma investida desenfreada para estraçalhar os humanos pela sua ousadia, e o Primeiro Pecado observou os recém-chegados como cães intrigados por alguém que se mostrara alheio ao seu ladrar. Nada disso aquietou Linsha, que a cada passada do seu cavalo se viu forçada a combater o impulso de puxar violentamente as rédeas e retroceder a galope para os portões. À medida que se aproximava, os urros iam cessando, esvanecendo progressivamente pelos flancos da horda fora e sendo gradualmente substituídos por um pesado silêncio de cortar à faca. Não havia vento, nem árvores em redor cujos ramos secos este pudesse abanar ou cujos troncos pudessem ranger com o frio. Nada além do ocasional tilintar de metal rude ou o rangido de couro estalado, bem como o cada vez mais alto retumbar do coração de Linsha nos ouvidos desta, A dada altura, já estava suficientemente próxima para distinguir as feições dos drahregs, e o que viu horrorizou-a. Bocas e narinas vaporosas faziam pouco para nublar os vis semblantes do Primeiro Pecado, que reunidos tanto mais retratavam a torturada alma da raça como um todo. Cabelos e barbas encrespados, entrançados, rapados, vis olhos vermelhos úmidos de ódio sangrento, membros secos e musculados com escarificações rituais, intencionais e acidentais. Uma massa de negrume que ameaçava afogar tudo em redor, constituída por odiosos e destrutivos indivíduos ali reunidos por uma vontade que lhes era alheia e que contudo lhes dava uma razão de ser além da chacina insensata.

E Linsha estava cada vez mais próxima deles, uma mulher só contra cem mil drahregs. Os Ignotos não lhe poderiam valer, nem tão-pouco os aterrorizados soldados de Dul-Goryn. Não, a única coisa que lhe podia valer naquele momento era a sua inabalável fé no seu senhor, a confiança total que depositara nas Suas palavras. A confiança que Ele depositara nela. Não O iria desiludir.

Linsha puxou as rédeas ao cavalo, que de bom grado parou a cerca de trinta passos da fileira que entretanto se formara diante da horda.

Ouviu os cascos das montarias dos Ignotos fincarem-se na neve, sensivelmente na mesma formação que haviam adotado antes de saírem portões fora. Saber que não estava sozinha de pouco serviu para atenuar o nauseante nó de ansiedade no seu estômago que ameaçava rebentar numa explosão de pânico. Por sua vez, os drahregs estavam meramente intrigados, mas só de olhar para eles a feiticeira pôde dizer que um frenesi assassino não tardaria a substituir a curiosidade. Que bastaria um primeiro passo para ser morta, violada ou devorada, ou talvez os três ao mesmo tempo. Os Filhos do Flagelo não nutriam quaisquer ilusões a respeito do Primeiro Pecado, os únicos servos do seu senhor que o culto se recusava terminantemente a usar. Drahregs eram aberrações assassinas, úteis num campo de batalha quando sob o jugo de uma inabalável vontade como a de Seltor, e pouco mais. Eram viciosos, refratários e mutuamente destrutivos, impossíveis de seduzir com dinheiro ou ofertas de poder. Todos os que tentaram provar o contrário pagaram com as suas vidas.

Com a ajuda do seu senhor, Linsha esperava ser a exceção, e aquela era a sua prova de fogo.

Um drahreg particularmente grande avançou então, empunhando dois machados de lâminas com entalhes infectados com ferrugem e envergando pedaços de malha cosida a um gibanete de couro coberto por peles aos largos ombros. As suas tranças eram díspares, grossas e empasteladas, mas ostentava aquilo que para um drahreg devia ser uma mostra de sofisticação na forma de um anel no esborrachado nariz, ao qual estavam atadas duas pequenas tranças provenientes das patilhas. Tinha um crescimento irregular de barba aramada ao longo da face larga, e um dos seus olhos encontrava-se vazio, a cavidade já revestida por uma camada cutânea escura que lhe dava um ar morto e terrífico ao olhar. Outros drahregs vieram-lhe atrás, e Linsha soube que, ou agia naquele preciso momento, ou seria despedaçada juntamente com o seu cavalo.

Sem nada dizer, apontou para o drahreg alto com o bastão, deixou pura Essência fluir pelo seu corpo e canalizou-a através do artefato. As esmeraldas nos pratos da balança luziram e delas emanou uma brilhante rajada verde, que singrou contra o humanóide, alargando-se ligeiramente numa forma cônica e embatendo nele com uma relampejante chiadeira, projetando-o ao ar, pelo qual voou brevemente antes de cair de inanimadas costas e pesados braços ao chão. Os outros hesitaram, olhando para o fumegante buraco no torso daquele que devia ser o seu comandante, as pontas de suas costelas torradas estavam à mostra no meio de carne queimada. O suor de Linsha deixou de ser frio e começou a dever-se a genuína tensão física, pois os músculos do seu corpo ressentiram-se como se tivessem empreendido um esforço tremendo, embora tivesse canalizado a Essência através do bastão. Este servira como foco, o que só por si poupara ao corpo da feiticeira a tensão inerente à manipulação de Essência pura, mas para causar a impressão desejada tivera que despender uma. quantidade considerável de energia na forma da potente rajada esmeralda. Cair esfacelada da sela era uma possibilidade não muito longínqua se tivesse de repetir a demonstração, o que, a avaliar pelos olhares que se ergueram do cadáver fumegante, podia bem ser forçada a fazer. Além do mais, mantinha um fio de Essência a correr para que as esmeraldas do bastão luzissem a fim de manter uma pose impositiva. Os drahregs arreganharam os dentes, empunharam as armas, e um rosnido generalizado começou a espalhar-se pelas fileiras fora, pontuado pelo ocasional grito catarral. O corpo de Linsha retesou-se, os olhos do seu cavalo arregalaram-se, e o primeiro drahreg lançou-se de tronco inclinado para a frente e machado levado atrás, imediatamente seguido por outros com igual sede de sangue. O seu brado unissonante fez o ar tremer, e a feiticeira viu a sua morte aproximar-se com aço sujo e cruel.

E então os drahregs estacaram.

O coração de Linsha arrufava, e pareceu-lhe sentir nas pernas o do cavalo a retumbar, mas os drahregs estavam de fato parados, aparentemente confusos e olhando uns para os outros como em pedido de confirmação. A feiticeira permitiu-se uns breves momentos de alívio antes de se forçar a agir e aproveitar a abertura que sabia ter sido Ele a providenciar-lha.

«Obrigada, meu senhor...», agradeceu, erguendo a custo o tremulo braço e relaxando os seus músculos retesados como fios de bestas para que a Essência pudesse fluir até às gemas, irradiando um flamante fulgor esmeralda.

— Não tocarão nesta cidade! —: gritou em Olgur, a língua de Asmodeon, e a voz saiu-lhe mais histérica do que propriamente autoritária. Alguns drahregs escudaram os olhos com as mãos, mais incomodados do que propriamente assustados. — Vão para o frio, e daí para onde o sol cai, para além dos dois rios!

Os drahregs olharam para Linsha, e algo fez com que de fato recuassem, mas antes que a feiticeira se convencesse de que tal se devera àquilo que dissera, ouviu-se um sussurro arrastado por uma inexistente rajada de vento. Linsha não compreendeu as palavras, mas reconheceu o tom sedutor e sinuoso, e o Primeiro Pecado pareceu entendê-lo perfeitamente. Inicialmente confusos corno ovelhas desamparadas, os drahregs ainda olharam para Linsha uma última vez antes de começarem por fim a recuar de olhos fitos na feiticeira. A vontade de Linsha foi permanecer perfeitamente quieta até os monstruosos humanóides desaparecerem da sua vista, mas sabia que estava a ser observada das muralhas da cidade, e que teria de causar uma impressão duradoura.

— Vão! — ordenou com um grito, erguendo bruscamente o bastão, que luziu como um farol esmeralda. O seu ombro ardeu de esforço, o verdadeiro responsável pelos dentes arreganhados de Linsha. — Assim ordena o vosso senhor!

Os drahregs provavelmente nem a ouviram, mas o erguer do seu bastão coincidiu com um acelerar do passo do Primeiro Pecado, à medida que este retirava e cambaleava para trás, confuso como um animal que fora atraído e de seguida enxotado. Trôpega, desajeitada e lentamente, a horda recuou, arrancando e arrastando tendas como ervas daninhas, tropeçando em si mesma, e começando a escorrer para Norte, fazendo o chão tremer com as suas grosseiras passadas. Iriam tomar a rota dos exércitos invasores do Tanarch de antanho, contornando Dul-Goryn a Norte, vadeando o rio e daí descendo em diagonal pelas desabitadas campinas até à fronteira da Wolhynia. O que fariam depois disso já não era da conta de Linsha, que tremia na sua sela e orava preces de agradecimento ao seu senhor enquanto observava a horda a retirar. Levou uns bons momentos até engolir em seco e olhar para trás para os Ignotos, que nem detrás das suas máscaras conseguiam esconder o seu espanto. Linsha esperava que não reparassem no que lhe estava a escorrer pelas pernas abaixo, pois o palafrém começou a mexer-se, incomodado com o quente medo molhado que lhe corria pelos flancos. Teriam também ouvido as palavras d’Ele? Teriam reconhecido o Olgur? Ocorreu-lhe naquele momento que, apesar de terem sido vinculados desde o berço a protegerem lorde Malagor, talvez nunca tivessem sabido que este era o Alto Vulto...

Todavia, as suas considerações foram interrompidas por gritos vindos das ameias de Dul-Goryn. Linsha olhou nessa direção, para além dos Ignotos, e viu braços com armas empunhadas a erguerem-se, punhos cerrados a serem agitados no ar. Inicialmente hesitantes, outros cedo se lhes juntaram ao verem que a horda estava de fato a retirar, a fugir para Norte, e a incredulidade e o receio não tardaram a dar lugar ao alívio, que se converteu num crescendo de euforia. Os homens nas muralhas começaram então verdadeiramente a gritar em unissonante triunfo, a apuparem os drahregs e a abraçarem-se. Linsha julgou ouvir o seu nome ser gritado, mas foi-lhe difícil distingui-lo entre a cacofonia, pelo que ergueu o bastão para se certificar. Embora trêmulo e vacilante, o gesto precipitou uma nova vaga de aplausos, e o nome da feiticeira foi brotando de forma cada vez mais clara e inteligível no meio do dissonante júbilo.

— Linsha Akselban! Linsha Akselban!

Esteve indecisa entre sorrir ou cair do cavalo, e teve que se agarrar com as duas mãos ao arção da sela para poder sequer optar pela primeira. Vergou a exausta cabeça e tentou acalmar-se por dentro, mas não conseguia parar de tremer, e contudo nem assim a ovação das muralhas diminuiu de tom. Dos Ignotos não veio palavra alguma, evidentemente, mas Linsha estava demasiado ocupada a ouvir o retumbar do seu próprio coração de qualquer forma.

«Consegui... oh, deuses... meu senhor... consegui», disse para consigo mesma, à beira das lágrimas e acometida de soluços que felizmente não se viam da muralha. O seu nome continuou a ser ovacionado pelos soldados, e outras vozes se ergueram do interior da cidade, mas o surdo ribombar dos passos da horda ainda se fazia ouvir, e a feiticeira não ousou virar as costas. Não queria tornar a ver aquela massa de negrume enquanto ela não estivesse bem distante, não queria olhar para a fumegante carcaça do drahreg que jazia no chão, queria apenas esconder-se num sítio escuro, abraçar-se às pernas e enterrar a cabeça nos joelhos, como o fizera na cave do seu tio. Ou que o seu senhor lhe sussurrasse palavras reconfortantes ao ouvido, passasse o seu toque elétrico pela sua pele fria e arrepiada, lhe afagasse os.cabelos...

«.Não... haveis confiado em mim, meu senhor, e eu servi-Vos», convenceu-se a feiticeira, começando a inspirar fundo. «Acreditais em mim, e não Vos desapontarei.»

— Sei que não o farás, Linsha — foi-lhe segredado ao ouvido, arrepiando-lhe o lóbulo e parte do pescoço resguardado pela gola alta da sua túnica, fazendo com que Linsha se sobressaltas se com um arquejo. — Meu Alto Vulto...

Não havia sombras em redor, o céu estava cinzento e nublado, e a neve caía cada vez mais pesada. Os músculos da feiticeira estavam ressentidos, mas o jorro acalentado que o seu novamente palpitante coração bombeou pareceu purgá-los como um bálsamo restaurador. Linsha respirou fundo uma vez mais, endireitou-se e tornou a ostentar o cajado, apoiando a ponta sobre o estribo direito. Flocos gelados caíram-lhe sobre as bochechas úmidas, deslizando pelos trilhos demarcados pelas suas lágrimas, mas Linsha ignorou-os ao fazer uso da Essência para amplificar a sua voz, criando um canal de reverberação diante de si.

— Jurei ao meu falecido mestre e vosso senhor que Dul-Goryn lhe sobreviveria! — gritou num jorro de vapor que originou renovados clamores de alegria. — E juro-o agora a vós, os seus adorados súbditos!

O esforço foi tremendo, mas teve as repercussões desejadas à medida que o fogo do entusiasmo se ia espalhando pela cidade e à esperança eram abertas portas e janelas para lhe permitir a entrada nas casas escuras. Mais e mais homens acorriam às ameias do lanço leste da muralha, abraçando amigos e desconhecidos e aclamando a corajosa jovem feiticeira que os salvara a todos.

Dul-Goryn veria uma nova alvorada, e como tal ninguém estava disposto a fazer caso das sombras do vindouro crepúsculo.

 

A cara de Slayra era uma grotesca careta contorcida de dor, e o grunhido que lhe escapou por entre os dentes cerrados não pareceu sequer humanóide. A sua face estava alagada e com madeixas de cabelo coladas a ela, e o vestido negro de saias arregaçadas manchado de suor. A eahanoir encontrava-se numa posição acocorada sobre uma manta branca tingida de sangue e fluidos, com ambos os braços agarrados por duas eahlanas e uma parteira wolhyna nas suas costas com o queixo apoiado sobre o seu ombro esquerdo. As eahannas brancas sussurravam palavras aquietadoras em Eridiaith enquanto lhe massageavam os polegares, ao passo que a matrona lhe murmurava calma e autoritariamente ao ouvido. Era uma mulher larga e anafada, com papada debaixo do pequeno queixo e uma diminuta boca que parecia incapaz de se fechar. Slayra levou a cabeça atrás com uma contração, apoiando a nuca sobre o ombro largo da matrona e desferindo-lhe a meio do movimento uma cabeçada de raspão que lhe deixou a touca obliquamente assente sobre a testa. A mulher não pareceu senti-lo e disse-lhe outras tantas palavras em incompreensível Hjrutmalv, afagando a cabeça de Slayra com uma mão sapuda de unhas roídas. As quatro encontravam-se na baia mais afastada dos estábulos de Horavog, numa fútil tentativa de manter um mínimo de privacidade. Estivera desocupada e como tal razoavelmente limpa, mas ainda assim Quenestil estivera quase disposto a intervir fisicamente para que o parto não fosse efetuado num sítio onde vacas haviam dormido e defecado, e onde cheirava a feno ressequido e a óleo queimado nas candeias de pedra que mal iluminavam o celeiro. Porém, a aflição de Slayra e os rogos das eahlanas tinham-no demovido, e o shura limitava-se agora a andar nervosamente em redor da baia, passando as mãos pelos cabelos e com o coração a irrigar-lhe o ventre com quentes jorros de sangue a cada grito da eahanoir. Com ele estavam os Lasan e todo o seu séquito, pois os eahlan tinham uma reverência pelo ato de dar à luz que bordejava a religiosidade. Os únicos wolhynos eram a parteira e duas raparigas ruivas que se mantinham por perto, prontas a ajudar durante o parto, enquanto que Deadan se mantinha alheado de tudo, limitando-se a ficar de braços cruzados à porta. Empedernido como era em relação ao sofrimento de outros, o de Slayra parecia afetá-lo de uma forma nova, desconhecida e visceralmente perturbadora, e o jovem preferiu manter-se à parte. Afinal, a realidade siruliana não mais compreendia partos, que eram levados a cabo por mulheres de uma outra nação, longe do dia a dia de aço e disciplina e companheirismo fraternal das fortalezas da Sirulia. Embora tal não lhe fosse assim tão alheio, Quenestil não estava a reagir muito melhor, a sua alma rasgada por sentimentos em conflito, e esses por sua vez contrastantes com os seus instintos.

— Deuses, o que é que lhe está a acontecer? — perguntou a ninguém em particular. — Ninguém pode gritar assim sem... sem...

Eluana aproximou-se e tentou pousar a reconfortante mão sobre o ombro de Quenestil, mas este andava demasiado depressa de um lado para o outro para que conseguisse, e a eahlana recolheu a mão, pousando-a e à outra sobre o regaço.

— O bebê veio cedo, Quenestil Anthalos. É natural que...

— Mas foi no barco! — interrompeu Quenestil. — Quer dizer, ela disse que foi... ainda que tenha... oh, Mãe... ainda que tenha sido em Jazurrieh... Não passou tempo suficiente!

— Veio cedo — reiterou a eahlana calmamente. — Por vezes é o que sucede.

— E aquela wolhyna, quem é ela? — barafustou o shura. — Por que é que ela está ali? Que sabe ela?

Eluana manobrou-se inteligentemente de forma a interceptar um dos rodopios devaneantes de Quenestil, e conseguiu agarrá-lo com gentileza para o olhar nos olhos, prendendo-o com um firme olhar cor de safira.

— Não a conhecemos, Quenestil. Não conhecemos nenhuma desta gente, mas sabê-lo-íamos se as suas intenções fossem malignas, e não temos nenhuma iluminadora conosco.

— Mas ela...! Uma iluminadora?

Os outros eahlan acercaram-se lentamente dos dois, cercando o shura da forma mais natural e menos ameaçadora que conseguiram, suficientemente afastados para não se intrometerem no seu espaço, mas próximos quanto bastasse para que o shura não se lançasse noutra tresloucada tirada.

— Assim chamamos às nossas parteiras — explicou Eluana calmamente, deslizando as mãos pelos braços de Quenestil até às suas mãos, que agarrou com serena firmeza. — Toda essa excitação não a ajudará. Ela precisa da sua força, precisa que fique calmo e que lhe transmita essa calma. Compreende?

Outro grito de Slayra rasgou o ar, e a cabeça do shura chicoteou na direção da baia, mas Eluana apertou-lhe as mãos para reaver a sua atenção.

— Ouviu-me, Quenestil? A Slayra precisa da sua força, precisa...

As palavras da eahlana perderam-se no ruidoso tumulto que era a mente do shura, na qual ecoavam a sua voz, a de Slayra e, sobretudo, a de Tannath.

— Porque no barco?

— Quenestil, tu sabes que eu tive que fingir, sabes que estive com ele durante aqueles dias...

— Não te posso matar assim, Slayra, Não quando estás quase a dar à luz o meu filho...

O shura desvencilhou-se de Eluana com uma inusitada brusquidão que a ele próprio surpreendeu, e os eahlan saíram-lhe da frente para que não colidisse com eles. Apoiou uma mão nos batentes da porta do celeiro como para reter os seus impulsos de correr por ela fora, para longe de toda aquela agitação naquele espaço fechado e encafuado, daquele cheiro a pó mesclado a palha pisada, daquela angústia de sentimentos em conflito. Raios, mesmo que se conseguisse convencer a ir falar com Slayra, não saberia o que lhe dizer, ou mesmo se sequer quereria dizer-lhe algo. Não discutira sequer com a parteira quando esta o enxotara como se a sua presença masculina fosse sacrílega em semelhante momento, embora o sofrido olhar de Slayra por entre olhos semicerrados tivesse dado a entender que desejava a sua companhia. Quenestil não conseguira aproximar-se e ficara desde então a andar às angustiadas voltas, incapaz de evitar dar um passo em frente e dois atrás sempre que ponderava ir ter com a eahanoir. Por vezes vislumbrava de relance o interior da baia, vendo sempre mais vermelho na manta e na palha que o que desejaria antes de voltar atrás, sentindo-se impotente e até certo ponto culpado. Perdera a conta do tempo que passara desde então, mas já parecia demasiado, e os gritos de Slayra reforçavam essa impressão. Ninguém podia sobreviver a tanto tempo com tamanhas dores, era inconcebível, e cada grito lancinante retesava os músculos das pernas de Quenestil, incitando-o a correr para a baia. Porém, a sua mente fazia sempre com que hesitasse, atormentando-o com as dúvidas que haviam desabrochado das sementes plantadas por Tannath.

Outro grito, e a abafada voz da parteira subiu suficientemente de tom para que Quenestil a ouvisse. Qualquer coisa com mãos e chão, mas não conseguiu perceber o resto, o que o levou a aproximar-se novamente da baia, onde viu Slayra de mãos e joelhos no chão, cabeça baixa e cabelos pendentes. As duas eahlanas estavam aos seus lados, com os braços debaixo das suas axilas, prontas a suportá-la caso necessário. A parteira wolhyna encontrava-se ajoelhada atrás, olhando atentamente para baixo e acenando com a cabeça enquanto incitava Slayra com palavras de encorajamento. Porém, pareceu sentir a presença do shura, pois ergueu a rotunda cara repentinamente e enxotou-o com uma mão de ensangüentados dedos sapudos sem contudo mexer a outra, palavreando algo em Hjrutmalv que Quenestil não compreendeu. Slayra ergueu então também ela a cabeça, mas não o viu, pois os seus olhos estavam tão cerrados como os dentes através dos quais grunhiu de dor. As duas eahlanas também olharam para Quenestil, mas antes que pudessem dizer algo, a parteira grasnou-lhe agressivamente, respingando a divisória da baia com sangue ao agitar a mão. No seu presente estado de espírito, o shura não precisava de grandes razões para não estar ali, pelo que se retirou uma vez mais. Porém, não se afastou muito, apoiando o braço na divisória e puxando os cabelos para trás enquanto tentava abafar a regressiva escala de grunhidos e gritos, mas tentar fazê-lo apenas trouxe as vozes de volta.

— Porquê no barco?

— Quenestil, tu sabes que eu tive que fingir, sabes que estive com ele durante aqueles dias...

— Não te posso matar assim, Slayra. Não quando estás quase a dar à luz o meu filho...

Grunhindo de frustração, o eahan esmurrou a divisória, virando-lhe as costas de seguida e levando as mãos à cabeça diante dos olhares compadecidos dos Lasan. Estava a ficar com calor, e os aflitivos grunhidos de Slayra, o ar abafado e opressivo do celeiro, o cediço cheiro a suor humano e o confinado odor a sangue e fluidos começavam a afligir-lhe o coração, que bombeava quente e desconfortável.

Tornou a sentir o impulso de correr porta afora, e refreá-lo foi um pouco mais difícil que das outras vezes.

Um último grito de Slayra, seguido de um prolongado gemido e excitadas palavras das eahlanas e da parteira, e então ouviu-se um contrito vagido que ergueu a cabeça de Quenestil e a de todos os restantes presentes. O shura foi o primeiro a acercar-se da baia, e estacou ao ver uma coisinha feia e arroxeada envolta num pano ensangüentado, olhos cerrados e uma boca escancarada que mal lhe cabia na cara. Estava ao amplo colo da parteira, que o oscilava delicadamente sem contudo tirar os olhos de Slayra ou aliviar a enrugada expressão da sua testa. A eahanoir ofegava ajoelhada, enquanto as eahlanas a sustentavam debaixo das axilas e lhe afagavam os negros cabelos suados.

— O meu filho... pel’O Flagelo, eu não posso acreditar... — ecoou a voz de Tannath, insidiosa, insistente, como se o maldito estivesse mesmo nas sombras do celeiro para o atormentar, deixando Quenestil incapaz de decidir quanto à forma como se deveria sentir. O alívio e a dúvida contendiam, e antes que um ou outro pudesse prevalecer, percebeu-se o porquê da expressão da parteira.

Slayra retesou-se e emitiu outro agoniado grunhido, e a wolhyna disse rapidamente algo em Hjrutmalv, estendendo os braços para passar o bebê a alguém. Eluana reagiu prontamente, segurando o recém-nascido e começando a segredar-lhe suaves palavras na língua mágica dos eahlan, e a parteira devolveu novamente toda a sua atenção a Slayra, encorajando-a com o tom que se usaria com uma mula de carga.

— São gêmeos, Quenestil Anthalos! — disse-lhe excitadamente Lusia, surgindo do nada e apertando-lhe o braço com ambas as mãos ao achegar-se dele. — Por isso vieram tão cedo!

O eahan continuou sem nada dizer. Observando simplesmente a cena com um destacamento quase onírico enquanto os eventos se iam desdobrando, totalmente fora do seu controlo.

— É um menino, Quenestil — disse-lhe Eluana, conseguindo fazer com que o shura virasse a cara para ver aquele que todos pensavam ser a sua descendência. Todos menos ele.

Slayra ergueu novamente a cabeça tapada por cabelos suados, que uma das eahlanas puxou delicadamente para trás, e bufou de bochechas cheias a um ritmo irregular e com um som preocupante. A parteira disse algo acerca de ar, provavelmente respiração, e falava com um tom reprovador, mas então arregalou os olhos ao olhar para baixo, repetindo a mesma palavra uma série de encorajadoras vezes enquanto parecia estar a segurar algo entre as pernas da eahanoir. Slayra baixou a cabeça e grunhiu num derradeiro esforço, apertando palha com tanta força com as mãos que os nós dos seus punhos perderam a cor. A parteira ia acenando com a cabeça à medida que mais e mais sangue tingia a manta entre os joelhos de Slayra. Quenestil observou horrorizado toda a brutalidade do processo ao ver a parteira empunhar um qualquer objeto cortante que usou de forma metódica, desferindo de seguida uma palmada em algo molhado, o que juntou um novo vagido ao já mais calmo e oscilante choro do primeiro bebê. A mulher segurou então a criança ao colo com um pano ensangüentado, olhando para Quenestil com os desaprovadores cantos da boca baixos mas aparentemente reconhecendo o seu direito à presença naquele momento.

— Tehjlka — disse ela. Uma menina.

«Dois...», pensou o eahan de boca entreaberta, olhando à vez para ambos os recém-nascidos. «.Dois filhos...», olhou para Slayra, que se deitava numa manta sobre um monte de palha com ajuda das eahlanas. «Ou duas vezes traído?», ponderou, fechando os olhos. «Oh, Mãe...»

— Quenestil, sente-se bem? — ouviu Eluana perguntar, sentindo a mão da eahlana no seu ombro. — Às vezes há quem fique...

— Estou bem — afirmou o shura com pouca convicção. — Eu... Os dois foram interrompidos pela parteira que, no cumprimento de uma qualquer convenção, insistiu que a eahlana lhe entregasse o bebê no seu braço livre. Tal era a autoridade da qual naquele momento se achava revestida, que não deu o mínimo de mostra de reverência para com os eahlan como os seus conterrâneos o faziam. Eluana não a contestou e entregou-lhe o rapaz, após o que a mulher foi entregar a Slayra os seus filhos, dizendo-lhe algo em maternal Hjrutmalv enquanto Quenestil observava, ainda sem saber como se deveria sentir. Sabia que não se sentia de todo como o seu pai lhe dissera ter-se sentido quando do seu nascimento. Nenhuma alegria, nenhuma reação, e qualquer vontade de chorar que pudesse ter não se deveria certamente a semelhantes sentimentos. Por sua vez, suada e ofegante, Slayra olhou à vez para as duas cabeças vermelhas dos embrulhos que tinha aos braços. Não sorria, mas estavam patentes na sua cara um tremendo alívio e uma imensa satisfação, e procurou partilhá-los com Quenestil ao olhar para ele.

—- Gifeahn... e Kyrina? — perguntou, erguendo ligeiramente os recém-nascidos nos seus cansados braços. Contudo, embora não evitasse o seu olhar, o shura não foi capaz de retribuir o sentimento, e Slayra leu na sua expressão tudo aquilo que mais temia.

— Huln noyd varar y bystad — interrompeu a parteira, esfregando as sangrentas mãos ao avental branco com a satisfação de um trabalho bem feito.

Quenestil fitou-a, apático, e a mulher apontou para a porta com um suspiro.

— Hystad. Huln vera hjyra tadna.

«Mais quente?», ainda conseguiu Quenestil refletir, olhando a mulher com uma expressão pouco inteligente. — Ah. Ela ir para a casa? — redarguiu, apontando para Slayra e já acenando com a cabeça. — Jal.

— Que se passa, Quenestil? — perguntou Hanal, surgindo ao seu lado. Mantivera um silêncio quase reverencial durante o parto, mas aparentemente já se sentia mais à vontade.

— Querem... querem levar a Slayra para a casa... — explicou o shura, olhando à vez para os bebês, para a parteira, para Slayra e para os Lasan. «E eu quero que parem todos de olhar para mim!»

— Levá-la para a casa? — disse Eluana em raro tom de discórdia. — Quenestil, não acha que ela deveria ficar com pessoas que conhece? Com o pai das crianças...?

— Não — disse o eahan, baixando a cabeça. — É mais quente, lá. Mais... limpo. Eles tratam dela.

Obviamente espantados, Hanal e Eluana nada disseram, e a expressão de Slayra adquiriu contornos destroçados quando o shura acenou afirmativamente com a cabeça à parteira, que grasnou ordens a todos os eahlan que via, como que irritada por ver tantas mãos alheias. Enquanto falava, gesticulava com as mãos para cima e apontava para Slayra, dando a entender que esta deveria ser carregada. Deadan era o seu alvo preferencial, um rapaz tão alto e forte ali de braços cruzados, francamente! Desconcertada, de sobrancelhas invulgarmente franzidas e a soltar incrédulos arquejos, Eluana olhou para Hanal, como se esperasse que este dissesse algo contra, mas o Patriarca não parecia disposto a intervir. Não fosse esse um sentimento demasiado negativo para um eahlan, Quenestil juraria que Eluana parecia indignada ao ir ter com Slayra, e Hanal, embora deixasse bem claro que o assunto não lhe dizia respeito, mostrou-se incapaz de esconder um certo desapontamento.

— Eu... vou dormir lá fora — murmurou o shura a ninguém em particular.

Precisava de respirar. Precisava de se libertar daquela sensação opressiva, agora decuplicada por todos os olhares que nele incidiam. Dirigiu-se ao seu monte de feno e dele recolheu a sua manta e a sua mochila, evitando olhar para quem quer que fosse, sobretudo Slayra, sobretudo os seus... os bebes.

— Quenestil... — ouviu dizer Sana, a servente dos Lasan. — Os seus filhos... não...?

— Agora não, sana, por favor — pediu o shura, abanando a cabeça de olhos fechados enquanto afivelava a sua mochila e a alçava ao ombro. — Eu preciso... preciso de respirar.

Sem mais uma palavra e ignorando todas as outras que ouviu, Quenestil fixou os seus olhos na porta e para ela se dirigiu a apressados passos, tornando todos os eahlan em redor em meros vultos sombrios. Deadan interpôs-se à sua frente, erguendo ligeiramente a mão.

— Quenestil Anthalos, para onde...?

— Sai-me da frente, porra! — explodiu o eahan por fim, fitando raivosamente o jovem com faíscas nos olhos de um cinzento rocal. — Fica aí à porta a fazer de estátua como sempre fazes, e está descansado que ninguém entra!

Aturdido, Deadan não chegou a reagir quando Quenestil o empurrou para o lado e quase lhe escancarou a porta para cima, saindo de rompante por ela e deixando-a aberta. O siruliano ficou espantado a olhar para os Lasan, e Hanal pôs as mãos por cima dos ombros de Eluana, que por sua vez agarrava a mão de Slayra e lhe afagava, a cabeça. Demasiado exausta para se manifestar de que forma fosse, a eahanoir limitava-se a olhar para a porta aberta, que com as correntes de ar ia colidindo repetidamente contra os batentes.

Oculto nas sombras dos altos pinheiros, o volverino empanturrava-se com a carcaça congelada de uma cria de rena que desenterrara de uma fenda na neve. Mandíbulas poderosas estraçalhavam ossos e carniça congelada, e o animal emitia grunhidos sôfregos enquanto comia, olhos atentos a eventuais predadores oportunistas. Tinha uma constituição compacta e robusta, e pelagem escura mesclada de castanho nos flancos até à felpuda cauda e bege no crânio e orelhas redondas. Quem o visse poderia confundi-lo com um urso pequeno e com cauda, mas o jovem eahan ruivo que o observava sabia muito bem o que era. A endemoninhada criatura acerca da qual tantos mitos existiam, o astuto e esquivo predador que poucos viam, que fazia armadilhas para as suas presas e escondia tudo aquilo que não conseguia comer.

O eahan envergava uma simples camisa e calças de pele de gamo e com uma simples pelagem aos ombros para o resguardar do frio, armado apenas com o arco que fizera e uma faca de madeira queimada. Assim o ditava a Batida, que buscasse o seu igual no ermo, sobrevivendo pelos seus próprios meios com o que a Mãe lhe oferecia, ou que morresse a tentar. E agora encontrara-o, o seu irmão, aquele ao qual se deveria vincular. O jovem eahan nunca fora gregário como o lobo, nem ardiloso como o lince, nem dominador como o urso. Demorara mais tempo que os outros, mas por fim encontrara o seu animal naquelas longínquas terras norrenas, tão longe da sua casa. Solitário, astuto, feroz sem ser desvairado, forte sem ser sobrepujante, era em tudo o seu igual.

O focinho escuro do volverino ergueu-se de repente, como se tivesse por fim pressentido uma presença. O eahan ruivo tomara todos os cuidados, pelo que tal apenas poderia significar uma coisa.

Chegara a hora.

O eahan saiu do seu abrigo detrás das árvores e encaminhou-se agachado a passos lentos do volverino, que o fitou, perigosamente quieto. Segundo o que ouvira, o animal evitava contato com humanóides, mas este não parecia disposto a retirar. A Mãe assim o desejava, não restavam mais dúvidas.

O volverino começou a rosnar de focinho fechado, um rosnido áspero e ameaçador que contradizia o seu porte e que fazia jus à reputação de ferocidade do animal. O eahan ruivo ia-se agachando progressivamente à medida que se aproximava de faca de madeira empunhada em reverso. Afiara-a com pedras e queimara-a para a endurecer, e tinha os seus dedos crispados no punho enfaixado com tiras de pele, pois praticamente não os sentia devido ao frio. Passara um dia em forçado jejum, não se conseguira concentrar o suficiente para caçar enquanto procurara o seu igual, tendo sentido a sua presença. Estava com frio e fome, e a sua mente nadava num mundo borrado de percepções, ruídos e odores, do qual o volverino era o centro. Os dois ficaram à distância de um pulo um do outro, avaliando-se, estudando-se, olhos cinzentos e escuros inextricavelmente fitos num momento que também foi de união e derradeira compreensão.

Ambos pularam então, dois animais que rosnaram e embateram em pleno ar, baqueando na neve e rebolando por ela fora. O volverino cravou os dentes no trapézio esquerdo do eahan, rasgou-lhe as omoplatas com as garras das patas anteriores e esfarrapou-lhe a camisa de pele de veado com as posteriores, reduzindo-lha a tiras sangrentas. Grunhindo de forma animalesca, o eahan reverteu o punho da faca e trouxe-a com força contra as costelas do animal, atravessando-as e perfurando o coração com a ponta de madeira queimada. O volverino grunhiu-lhe roucamente ao ouvido, e o eahan enterrou a faca mais ainda, sentindo o quente sangue escorrer-lhe como um ardente bálsamo pela sua gelada mão abaixo. O animal debateu-se em desespero, escarpelando freneticamente o seu algoz, mas este não o largou nem aliviou o seu mortal abraço, unindo o seu sangue ao do animal. Já em cima do volverino e sentindo-o estremecer nas vascas da morte nos seus braços, o eahan começou a sussurrar-lhe pedidos de perdão e agradecimentos, jurando-lhe fidelidade eterna ao seu espírito. Quando parou de se mexer, abraçou-o com genuíno afeto e uma certa medida de arrependimento e tristeza, embora sentisse e soubesse que apenas lhe abrira as portas a outra forma de existência. Forçando-se a não pensar, começou então a apartar-lhe brutalmente a caixa torácica com bruscos movimentos e torções da faca, produzindo estalidos molhados e encharcando-se de mais sangue quente. De mente embotada, dentes ferrados e olhos possessos, o eahan enfiou a mão na sangrenta abertura e puxou o coração do volverino, enquanto o seu lhe martelava o peito e a respiração continuava tão ofegante como se ainda estivesse a combater. Cortando desajeitadamente as artérias, o eahan ostentou o cruento órgão diante da sua cara e, fechando os olhos e inspirando fundo, trincou-o, enterrando os dentes no rijo músculo e esguichando sangue cálido. A sua garganta rebelou-se, mas ainda assim conseguiu engolir a primeira dentada. Porém, quando o seu estômago se rebelou, o eahan pouco mais conseguiu fazer além de se dobrar para a frente e debater-se com iminentes vômitos, tossindo em seco e sarapintando a neve de pingos vermelhos com o sangue a gotejar-lhe do queixo.

Quenestil acordou com um rouco arquejo, virou-se para o lado e purgou-se. Comera pouco e mal durante o dia, e o parto de Slayra e os conflitos emocionais daí resultantes fizeram o resto. Não tinha muito para vomitar, pelo que se limitou a ficar de lado sobre o ombro a tossir e cuspir. Não costumava sonhar muito com o clímax da sua Batida, o rito iniciático que cumprira anos atrás antes de se tornar um shura, e não percebia por que razão sonhara com ele agora, embora hão pudesse negar certos paralelismos com a sua condição física em ambas as ocasiões. Estava a dormir num saco-cama no exterior, aninhado contra a base de pedra da parede de turfa do celeiro, e o frio era certamente comparável ao que estivera a sentir quando por fim encontrara o volverino. O seu estômago estivera igualmente vazio, e a acompanhante vontade de se purgar também fora...

Não estava sozinho.

Ainda com as pernas presas pelo saco-cama, o shura deu um golpe de rins e uma cambalhota para a frente na neve dura, chutando o invólucro, desembainhando o seu facalhão da bainha que nunca estivera longe da sua mão esquerda e virando-se para a presença que sentira, exalando condensada surpresa.

Um corpulento vulto sombreado pela lua observava da esquina do celeiro, com a forma arredondada de um escudo às costas e o grosso punho de uma espada projetado do seu ombro direito. A única cor que refletia era o branco da pelagem de urso que envergava sobre o que parecia ser uma cota de malha cintilante ao luar, e embora a sua pose não fosse ameaçadora, a sua presença repentina assim o pareceu aos olhos do estremunhado shura.

— Quem é aí? — perguntou em Hjrutmalv, acocorado.

— Boljr un yld — disse a figura numa voz bem timbrada, quase amigável que em nada condizia com a sua misteriosa aparência.

— Quê...? — tartamudeou Quenestil, a sua respiração condensada. «Fogo? Outra vez isto do fogo?»

O vulto fez que sim com a cabeça, e o eahan reparou que estava de braços cruzados. Ainda assim, não lhe inspirou qualquer confiança, e Quenestil aproximou-se, ainda acocorado e de facalhão empunhado.

— Não sei quem é tu — disse em Hjrutmalv. — Mas eu...

— Skrimmen noymurnr — avisou o vulto, descruzando o braço direito e apontando com o seu polegar nessa direção, além da esquina do celeiro na qual se encontrava.

«Skrimmen? Não eram esses os tais selvagens?», pensou Quenestil rapidamente, cessando o seu avanço ao ver que o vulto continuava despreocupadamente a apontar com o seu polegar para a direita.

— Skrimmen — repetiu com o tom de quem avisa alguém de que está prestes a chover.

O eahan hesitou uns momentos adicionais antes de retirar alguns passos para a esquina oposta à do desconhecido, mantendo-o debaixo de olho mesmo enquanto esticava o pescoço para espreitar. Um rápido olhar de relance nada revelou, pelo que Quenestil olhou uma última vez para o homem antes de olhar com mais atenção. De onde estava, tinha apenas vista para o nivelamento dos Des da montanha a Norte, estando o trilho a nordeste encoberto pela parede do celeiro. A noite estava fria mas calma, e tal como as anteriores estava a fazer tudo menos perpetuar a reputação do tempo inclemente das terras norrenas. A lua tinha poucas nuvens a obstruí-la, o que permitia uma boa visibilidade para quem tinha olhos de caçador. Uma estrela cadente distraiu-o momentaneamente, mas à medida que a estremunhada névoa do sono se dissipava dos seus olhos e estes se aguçavam, Quenestil foi-se lentamente apercebendo de formas, vultos que corriam ao longo dos pés da montanha com o passo rasgado de predadores.

O shura praguejou em surdina, olhando novamente para o vulto, que continuava de braços cruzados como se a situação nada lhe dissesse. Como o eahan não se conseguiu decidir rapidamente entre correr a agir e tentar descobrir a sua identidade, o vulto ergueu ambas as mãos em sinal de passividade, baixando a cabeça sombreada de forma a impossibilitar decisivamente qualquer identificação dos seus traços faciais.

Mordendo o indeciso lábio inferior, Quenestil retesou-se por fim e correu de cabeça baixa para a porta do celeiro, embainhando o facalhão e esperando não ser visto pelos skrimmen que se aproximavam. Escancarou-a sem qualquer cerimônia e correu no escuro na direção daquele que julgava ser o monte de palha onde até então dormira.

— Acordem, acordem! Deadan, pega na tua...! — o shura tropeçou num corpo sobressaltado, caindo de cara no feno e esgravatando no chão como um animal para se erguer apressadamente. — Fiquem todos aqui dentro! Deadan, pega na tua espada e põe-te à porta!

Ignorando as perguntas, balbuciares incoerentes e incipientes choros de crianças, Quenestil procurou às cegas pelo seu arco ocarr e conseguiu crispar os dedos no reconfortante punho enfaixado a tiras de couro, encontrando logo de seguida a aljava.

— Fiquem todos aqui dentro, e longe da porta! — repetiu. — Ninguém sai!

Apressando-se para a entrada, por pouco não colidiu com Deadan, que não o surpreendeu de todo pelo fato de já estar erguido, alerta e de espadão empunhado, embora sem o seu arnês.

— Que se passa, Quenestil Anthalos? — perguntou com a voz de quem quando muito estivera a dormitar, o que também não surpreendeu o eahan.

— Estamos a ser atacados. Skrimmen. Não perguntes, fica só à porta e não deixes ninguém entrar — disse o shura, passando ao lado de Deadan para evitar mais perguntas do jovem siruliano.

Novamente no exterior, Quenestil viu que os vultos já estavam praticamente a correr para o celeiro, talvez por o terem avistado e quererem efetuar a sua razia o mais depressa possível, antes que se pudesse montar qualquer resistência eficaz. O eahan esperou que talvez o tivessem confundido com uma das ovelhas que dormiam em redor, mas uma série de outras possibilidades singraram-lhe pela cabeça, todas de uma forma ou outra influenciadas pelas suas traumáticas memórias do massacre em Gul-Yrith, o que o impeliu a praticamente pular para o teto de turfa do celeiro, tocando no dente de volverino que lhe pendia do colar e começando a rosnar. Acocorado, tenso e com todos os seus sentidos alerta, Quenestil frechou o seu arco e esperou que os vultos cobrissem a distância, respirando pausada e profundamente para exalar menos vapor que pudesse denotar a sua presença.

Duzentos passos, mas preferiu não disparar naquele momento. Àquela distância pôde ver que alguns dos vultos, três dos cinco, não eram humanos.

Cem passos, e preferiu esperar um pouco mais. Os três animalescos vultos eram corpulentos, peludos, e pareciam ter garras desmedidas. Seriam os ulkatr?

Cinqüenta passos, e a primeira flecha singrou, sibilando pelo ar frio e seco e embatendo com um baque contra o peito de um dos vultos, que emitiu um grunhido de dor ao dar unia volta no ar e cair ao chão. Os outros quatro detiveram-se, surpresos e obviamente não cientes da presença de Quenestil até àquele momento. Aproveitando a sua hesitação, o shura disparou outra flecha que atingiu em cheio a cara de outro dos vultos, este um dos animalescos, chicoteando-a para trás. Os outros três recomeçaram então a correr, desta vez de forma errática e já com Quenestil debaixo de olho. O shura falhou o seu terceiro disparo, bem como o quarto, e então Deadan carregou porta fora, bradando e brandindo o seu espadão ao alto, o que espavoriu as ovelhas.

— Deadan, espera...! — berrou o shura em vão enquanto o siruliano quebrava a carga de dois com um possante golpe em arco do seu espadão.

O terceiro, porém, continuou a correr de cabeça baixa, passando por ovelhas que baliam e corriam em redor, e cobriu com impressionante velocidade a distância que o separava de Quenestil durante a breve distração deste. Com um pulo e um selvagem rugido, abateu-se então sobre o eahan, que perdeu o arco com o impacto e embateu de costas contra o teto de turfa, sentindo remos estalarem e vigas cederem. Um odor animal encheu-lhe as narinas, e a vibração de um rosnido num possante tronco foi o único aviso que teve antes de garras se enterrarem na sua carne. Foi apenas por instinto que impediu dentes afiados de se cravarem na sua garganta, fazendo uso do único objeto que tinha à mão, uma seta. A criatura meio cuincou, meio rosnou quando a ponta lhe espetou o focinho, rasgando-lhe o lábio direito e raspando-lhe um dente, e assim que recuou como reflexo da dor, Quenestil aproveitou para tentar reverter a posição. Porém, calculou mal a inclinação do teto, e o seu ímpeto acabou por fazer com que ambos caíssem. Foi o eahan quem caiu por cima, despejando as setas da sua aljava, mas, com uma força animal, o ulkatr arremessou-o de cima de si para o lado, deixando-o a rebolar pela neve como um boneco de trapos. Quenestil ergueu-se atabalhoadamente, desembainhando o facalhão e enfrentando o seu adversário, vendo que Deadan fazia o mesmo.

Os seus oponentes eram dois humanóides parecidos com antroleos e um humano alto, mas o shura mal reparou neste último, respeitosamente fascinado como estava pelos que só podiam ser os chamados ulkatr. Eram ambos mais baixos e compatos que Babaki, praticamente da altura do eahan, bem como mais felpudos e com pêlo amarelo-esbranquiçado riscado por listras escuras. Tinham orelhas com tufos e um rufo facial aberto como o de um lince, e urna juba curta que lhes descia pelo pescoço como uma cabeleira, bem como uma pelagem lanosa que lhes cobria a perna até aos pés como uma bota. Um deles, o mais próximo de Quenestil, usava um colar de dentes, mas ambos tinham um par de presas de morsa atadas às braceiras de pele de rena nos antebraços que lhes serviam de garras com maior alcance. Podiam ser mais pequenos que Babaki, mas não pareciam menos ferozes do que o seu amigo se mostrara capaz de ser, e as suas presas afiguravam-se brancas e ameaçadoras ao luar. Por sua vez, o humano envergava calças de lã escura e uma singela túnica debaixo de um casaco de pele de lobo sem mangas e uma capa de pele de rena. Era alto, mas pouco dava para distinguir das suas feições debaixo de uma gálea de couro, apenas que tinha um nariz grande e os dentes arreganhados em preparação de esmagar o crânio de alguém com a maça de cabeça de bronze que empunhava. Deadan tinha os três debaixo de olho, espadão ao alto e uma promessa de morte nos seus olhos. Naturalmente que não tivera tempo de vestir o seu arnês, pelo que as fíbulas e pedaços de malha do seu gibão de lona forrada a linho tilintavam com cada movimento seu.

Os ulkatr não perderam tempo e atacaram, rugindo em uníssono. O primeiro foi suficientemente inteligente para evitar a espadeirada de Deadan e recuar para reconsiderar, mas o outro não foi forçado a semelhantes considerações ao atacar Quenestil. Rasgou o ar com as presas de morsa, mas Quenestil desviou-se e ripostou, escoriando-lhe o flanco no que devia ter sido um profundo golpe nas vísceras, evitado pelos reflexos do ulkatr, que rasgou a bota de Quenestil com as garras do seu pé. O golpe não chegou à carne, mas desequilibrou o eahan, que teve que se deixar cair de costas ao chão para evitar um forte soco em arco que lhe teria arrancado o escalpe com as presas de morsa. Uma vez no chão, rebolou para o lado e o pé do ulkatr enterrou-se na neve, espirrando cristais de gelo.

Inicialmente, o adversário de Deadan mostrou-se relutante em expor-se à desmedida lâmina que este empunhava, limitando-se a circundá-lo e a recuar dos seus golpes de aviso à medida que procurava pô-lo entre si e o skrimmen. O siruliano reconheceu o maior perigo do selvagem humanóide, mas não deixou de acompanhar as manobras de ambos para que não fosse flanqueado. O ulkatr reuniu então coragem e investiu com um rugido, apenas para recuar perante uma forte oscilação do espadão. Porém, a sua intenção fora a de criar uma abertura, pois tivera a impressão de que a arma era demasiado pesada para que o humano pudesse reajustar a posição a tempo de evitar a sua nova investida. Ao ver que assim parecia ser, pulou com garras e dentes, mas Deadan surpreendeu-o ao executar um movimento de alavanca com o grande punho do espadão, revertendo a lâmina. Ao ver que ia ser empalado, o ulkatr torceu-se em pleno ar com um golpe de rins, mas não pôde evitar que o gume da lâmina lhe trinchasse um caminho ao longo do peito e do braço, caindo então ao chão com um trilho de sangue no ar. Deadan deixou a ponta da lâmina descair e empunhou a sua arma ao alto com o intento de cravar o ulkatr ao chão, mas antes que o pudesse fazer algo embateu contra a sua omoplata, abrasando-lha de dor e fazendo com que cambaleasse para o lado oposto ao golpe. Algo lhe bateu então na nádega e perna direitas, e o siruliano sentiu um doloroso puxar onde fora atingido. O skrimmen recuperava nesse preciso momento de uma posição que dava a entender que acabara de arremessar algo, e foi aí que Deadan viu os dardos que tinha no cinto às suas costas. O ulkatr aproveitou a momentânea distração e agarrou-se à perna de Deadan, mordendo-lha e forçando-o a deixar-se cair ao chão de forma a não deslocar o joelho.

Também no chão, Quenestil empurrava-se para trás com os pés enquanto caranguejava com as mãos, ainda com o facalhão empunhado e tentando criar um mínimo de distância entre si e o ulkatr que o atacava de quatro como um animal. O eahan chutou-lhe repetidamente o focinho ferido e sangrento, tentando desesperadamente não parar e cair de costas, o que o deixaria exposto à selvajaria do adversário. Contudo, foi o que acabou por acontecer quando torceu o polegar devido ao punho do facalhão, e o ulkatr caiu-lhe em cima quase de imediato, sendo repetidamente chutado no focinho mas ainda assim conseguindo fincar as garras nas pernas do eahan, dilacerando-lhas e esfarrapando-lhe as calças de couro. Com um brusco rasgão, a cabeça do humanóide projetou-se para a frente de boca escancarada, sedenta da garganta de Quenestil, mas este interceptou-a a tempo com a ponta do seu facalhão. O ulkatr rugiu de dor quando o seu olho foi puncionado e levou as mãos à cabeça com esta erguida. Quenestil passou o facalhão para a outra mão e, revirando o punho, desferiu um rápido corte na garganta do humanóide, bem debaixo da mandíbula inferior.

Também no chão e sem poder fazer uso da sua arma, Deadan debatia-se com o feroz ulkatr, que lhe sangrava do peito e do braço em cima e lhe ia esfarrapando o gibão de lona com garras e dentes. O siruliano esmurrava-o, grunhindo de dentes cerrados enquanto sentia a ponta farpada do dardo rasgar-lhe a pele sobre a omoplata, torcendo-a dolorosamente sempre que Deadan se mexia. O ulkatr rosnava, mordia e arranhava com uma força animal, e o jovem viu do canto do seu olho que o humano os circundava aos dois de dardo ao alto, esperando uma abertura para o varar como a um javali, o que não o deixava parar um segundo sequer para tentar encontrar uma posição que lhe permitisse tirar o humanóide de cima de si. A boca escancarada do ulkatr rugia e roncava do palato, pingando saliva espessa enquanto a mão de Deadan lhe empurrava a mandíbula superior para cima, embebendo os dentes na carnuda palma enquanto agarrava o braço esquerdo do adversário com a outra.

Ouviu-se então um ronquido gorgolejante, e Deadan reparou que a atenção do humano deixou momentaneamente de incidir sobre si. O siruliano aproveitou a deixa para, largando o braço do ulkatr, enfiar a mão na mandíbula inferior deste, grunhindo quando as garras libertas lhe trincharam quatro sulcos na sua cara e nariz, e apartando as mandíbulas do adversário com um possante movimento brusco. As maxilas estalaram de forma audível, e Deadan interrompeu o subseqüente rugido de agonia com uma segunda torção, partindo-lhe o pescoço com um crepitante estalido seco. O skrimmen devolveu a sua atenção ao jovem siruliano, mas viu então que Quenestil se erguia de sangrento facalhão empunhado, com o ulkatr a contorcer-se aos seus pés. Deadan seguiu-lhe rapidamente, tirando o corpo frouxo de cima de si e pondo-se de cambaleantes pés, gibão esfarrapado e a verter sangue dos sulcos na cara, que lhe desembocava na boca e lhe tingia de vermelho os dentes cerrados. Avisadamente, o skrimmen preferiu fugir, e embora tanto o. eahan como o siruliano se retesassem momentaneamente em preparação de uma corrida, nem um nem outro estava em condições de perseguir o atacante. As pernas de ambos estavam riscadas por sangrentos trilhos de dor, e Deadan tinha os gêmeos de uma mordidos, pelo que correrem estava fora de questão.

— Quem... — ofegou Deadan, pronto para matar quem quer que perigasse a vida dos eahlan. — Quem eram, Quenestil Anthalos?

— Skrimmen, e... — Quenestil esfregou cora o antebraço do facalhão algum sangue que o focinho do seu adversário lhe pingara sobre a cara. — Ulkatr.

O siruliano olhou para os dois cadáveres com distanciada curiosidade, pois a única coisa que verdadeiramente precisava de saber acerca deles era o fato de serem uma ameaça. Já se ouviam vozes e choros do interior do celeiro, bem como alguns indícios de ruídos vindos do salão de Horavog, mas ainda ninguém saíra.

— Olha... — apercebeu-se Quenestil. — Tens aí uma coisa nas...

Deadan cuspiu sangue para o lado e, parecendo lembrar-se de algo, tenteou as costas com a mão livre até crispar o punho no cabo do dardo que lhe pendia da pele e do gibão. Com um grunhido, puxou-o e atirou-o para o lado, rodando o ombro do lado ferido com uma careta.

— Isso... — disse Quenestil. — Atingi aqueles dois com flechas antes. É melhor irmos ver se estão mesmo...

O jovem siruliano nem esperou que o eahan acabasse de falar, encontrando-se já a trôpego caminho dos corpos caídos que distinguira à distância, mas um arquejo de Quenestil fez com que hesitasse um passo e olhasse para trás, empunhando o seu espadão ao alto com as duas mãos.

— Que foi? — vociferou, vendo que Quenestil mancava para as traseiras do celeiro com ar alarmado. O shura não respondeu e apoiou-se na esquina do edifício na qual o desconhecido estivera, olhando em redor com a respiração novamente acelerada.

Nada. Desaparecera.

— Quenestil Anthalos?

O visado esmurrou a parede de turfa com um bofejar de frustração, baixando a irritada cabeça.

— Chama-me só Quenestil, que raio — disse, erguendo a cabeça e puxando os cabelos para trás. — Estava aqui... outra pessoa. Mas desapareceu.

Parecendo pouco convencido, Deadan olhou em redor, sempre com os dedos de ambas as mãos quase a espremerem o punho do espadão. Quenestil acocorou-se diante das marcas que o homem deixara na neve, e viu que levavam ao alcantil montanhoso a Oeste.

— Vou... bater o perímetro — disse o shura, limpando o facalhão à neve e embainhando-o, trepando de seguida para o teto para ir reaver o seu arco.

— Como assim? Sozinho não...

— Queres deixar os Lasan sozinhos? — redarguiu Quenestil do teto com um olhar categórico sobre o ombro, desaparecendo então da vista e saltando para o chão do outro lado para pegar nas setas. Os ruídos que dessa forma fez pareceram assustar mais os eahlan, pois os choros intensificaram-se.

— Vês? — ouviu a voz de Quenestil dizer do outro lado. — Vai lá dizer-lhes que está tudo bem.

O jovem siruliano de fato não tinha resposta, e ao passar pelo shura na esquina limitou-se a acenar com a cabeça, sempre a olhar em redor. Quenestil retribuiu o aceno e começou então a seguir os rastos na neve, deixando para trás de si uma série de vozes de pessoas que provavelmente tinham acabado de sair do salão.

«Btfljr un yld...», ecoou as palavras que ouvira do homem. «Fogo... que me quer esta gente dizer com fogo.-3»

De arco ao ombro e ligeiramente agachado, Quenestil lançou-se na perseguição, ainda com o espírito do volverino a rosnar nas profundezas do seu ser.

 

Não costumava nevar no Sul de Laone, como Aewyre pudera constatar nos últimos dias de viagem após terem passado pela cidade de Neveria. Em contrapartida, começara a chover como se não houvesse amanhã, um verdadeiro dilúvio de bátegas com gotas que quase faziam buracos no chão, uma autêntica torrente que muitos consideraram mesmo um pranto dos deuses. A neve esburacada dera lugar a solo enlameado, e Aewyre achara por bem pararem no primeiro lugar com um teto que encontrassem, pois não estava com grande vontade de comer um jantar frio por ser impossível fazer uma fogueira, nem de passar outra noite a ouvir o incessante tamborilar das gotas de chuva sobre a lona da carroça.

Calhou ser uma isolada casa de camponeses a primeira habitação que avistaram, uma estrutura retangular de paredes de taipa com teto de colmo que fumegava convidativamente de um buraco. Durante a sua infância, Aewyre pernoitara por várias vezes nas quintas e fazendas das cercanias de Ul-Thoryn, para grande vergonha de Allumno e embaraço da governanta Smerunda, pelo que sentira uma certa nostalgia ao bater à porta debaixo da chuva. Nunca tivera grandes problemas em o fazer, embora o hábito tivesse perdido a sua mística a partir do momento em que passara a ser demasiado reconhecido e tratado como um príncipe nas quintas às quais ia. Evidentemente que aqueles laoneses não o conheciam, além de que a sua barba e cabelo crescidos faziam com que parecesse outra pessoa de qualquer forma, e bastaram algumas palavras de Layaline e um breve chocalhar da sua bolsa para lhes abrir as portas e garantir um local seco onde dormir, bem como um jantar quente e o calor de uma lareira. Dada a proximidade da fronteira com Nolwyn, na região falava-se um dialecto que era mais inteligível para Aewyre e menos para Layaline, como que uma mistura entre Glottik e Lloranc, mas ainda assim apenas a rapariga se conseguira faier entender com os seus anfitriões.

A família consistia de um fazendeiro, a sua mulher e quatro filhos de mãos calejadas, gente humilde e hospitaleira que não fizera perguntas impertinentes nem fora bisbilhoteira, e Aewyre fizera questão de lhes pagar em avanço, arrependendo-se de seguida ao aperceber-se de que, após um ano de viagem, os seus fundos começavam de fato a escassear. Làriana não tivera quaisquer problemas em meter conversa com as crianças, e Kror ficara num canto escuro com ligaduras na cara e a desculpa de horrendos ferimentos enquanto lhes fora servido um belo guisado ao jantar. A presença de Kror tivera um inegável efeito inquietante, e o olhar que Aewyre trocara com este quando Layaline lhe traduzira que aparentemente houvera ultimamente ataques e migrações de Drahregs na região não passara despercebido a ninguém, mas o ouro do jovem conseguira falar mais alto. Ainda assim, foram novas inquietantes para o jovem, que até então alimentara a ilusão de que a ameaça d’O Flagelo era algo distante, que ainda se encontrava a germinar, mas aparentemente o chamamento que Kror lhe confessara ter sentido na Cidadela da Lâmina era algo de bastante tangível e real. Talvez tivesse sido por isso também que a família aceitara acolher dois homens armados, pois uma habitação isolada como aquela estaria particularmente exposta a eventuais depredações.

A casa tinha apenas duas divisões, uma era a sala de terra batida com uma lareira de pedra no centro e a outra um pequeno estábulo para quatro ovelhas, uma cabra, três borregos e um porco. A sala tinha utensílios dependurados das paredes, o chão de terra batida revestido de feno, algumas arcas para roupa e esteiras de palha nas quais a família dormia. Havia também um pequeno celeiro sobre o estábulo, ao qual era apenas possível aceder através de uma escada de degraus retorcidos, e no qual Aewyre arranjara espaço para dormirem, alumiando-o com uma candeia no centro. Não era o sítio mais confortável da casa, rangia bastante, tinha algumas teias de aranha e fedia a colmo úmido devido à chuva, mas pelo menos era seco e mais quente que uma carroça coberta de lona e isolada no meio do ermo. Kror escolheu de imediato para si o mais recôndito canto e lá se recolheu, deixando a perna estendida e a cara tapada para não ser incomodado pelos olhares intrusivos de humanos. Layaline e Làriana justificavam semelhante cuidado, pois pareciam de fato quase morbidamente fascinadas pelo drahreg e ficavam sempre a observá-lo sub-repticiamente quando sabiam que não estava a olhar. Por sua vez, Aewyre fora forçado a dar-lhe mais atenção que a que desejaria nos últimos dias, pois a evidência de alguns dos progressos de Kror haviam-no alarmado. Ver o drahreg atrair o seu alfange da bainha para a mão servira-lhe de aviso, e o jovem mal o deixara sossegado desde então, partilhando com ele o pouco de útil que o poema de Fèdac lhe revelara. Kror não parecera satisfeito, talvez por continuar a pensar que lhe estavam a ser ocultadas informações, mas era todo o caso não se negara a partilhar com Aewyre aquilo que sabia. Porém, Aewyre cedo percebeu porquê, pois nada do que Kror aprendera era empírico, e boa parte do seu processo de aprendizagem passara pelos métodos peculiares de Heldrada. Por outras palavras, fora magoado e maltratado o suficiente para conseguir chegar a um ponto no qual lhe fora possível agarrar o «tendão» de forma figurativa, conseguindo então fazer uso parcial dele. Todavia, também lhe fora possível fazê-lo mesmo sem os estímulos de Heldrada, tal como Aewyre o vira na carroça, e fora a essa esperança que o jovem até então se agarrara.

Kror tivera uma certa dificuldade em descrevê-lo a Aewyre; o processo consistia em algo semelhante ao que o jovem já antes fizera, uma espécie de provocação ao «tendão», um esforço de o tentar com tensão ou mesmo combate iminente. No entanto, Kror parecera ter levado as coisas um passo à frente, pois aparentemente chegara mesmo a meditar para conseguir alcançar o «tendão» a um outro nível. De fato, Aewyre também o fizera até certo ponto, mas nunca a um domínio que fosse muito além do sensorial. Sem o consentimento de Kror, pura e simplesmente nunca conseguira fazer uso da Essência da Lâmina, mas fora precisamente isso o que o drahreg fizera ao atrair o alfange. Seguindo as instruções vagas deste e fazendo uso do que ele próprio aprendera na Cidadela, Aewyre por pouco não rebentara uma veia nas suas têmporas durante os últimos dias, além de que ficara deveras farto de olhar para Ancalach, ainda por cima sem grandes resultados. O seu maior feito fora fazer a lâmina tremer, chocalhando-a dentro da bainha no piso da carroça e assustando Làriana. Sempre fora alguma coisa, mas não eqüivalera ao esforço que Aewyre investira. O maldito «tendão» mostrava-se esquivo sempre que se procurava por ele numa situação não hostil, o que tornava tanto mais frustrante a situação, pois era como dispor de uma arma possante e não a poder usar por esta estar sempre escondida. Não admirava que, em todos os registos que lera, os Portadores acabassem fatalmente por resolver a situação em combate mortal. Não fosse por tudo o que do jovem dependia, e este provavelmente já teria mandado todas as cautelas para a fossa e acabado com o assunto de vez.

— ...ler? — ouviu Layaline dizer, e a luz aproximou-se.

— Hrmm? Ler? — a rapariga acenou com a solícita cabeça, levando o cabelo atrás da orelha com a mão livre e empunhando a candeia com a outra. Por vezes lembrava-lhe a Nabella... — Não. Hoje não. Já estou com demasiadas coisas para pensar, não preciso de mais. Acho que vou só reler uns apontamentos. Vai antes dormir.

Layaline pareceu desapontada, mas não protestou. Nunca o fizera, nem parecia ter inclinação para o fazer. Era de fato a companheira de viagem ideal, e fora-lhe imensamente útil até então. À laia de consolação, Aewyre pegou-lhe na cara cora ambas as mãos, um gesto que fez com que a rapariga se retesasse como um pássaro apanhado, mas o que dele resultou foi um singelo beijo na testa, seguido de algum a£a.gâr das maçãs do rosto de Layaline com os polegares.

— Ainda bem que te trouxe. Es uma ajuda preciosa.

— Pre... ciosa? — tartamudeou a rapariga, franzindo a testa.

— Oh, não me obrigues a ter que te explicar... Olha, não deixas que os meus dròldur me gnaquem, está bem?

Layaline riu, encolhendo a cabeça nos ombros num dos seus gestos ameninados, ainda nas mãos de Aewyre. Tivera que crescer depressa após o nascimento da sua filha, mas o guerreiro duvidava de que fosse mais velha do que ele. Pelo menos não parecia.

— Bom, vai-te deitar — disse, largando-lhe a cabeça. — Vou ficar a ler um pouco.

— Güna gillèda — disse a rapariga em tom de voz baixo, inclinando-se para a frente para beijar a bochecha de Aewyre e pousar a candeia perto das pernas deste.

— Desiste. Eu nunca vou aprender Lloranc — sorriu-lhe o guerreiro, deitando-se então com a candeia à cabeça ao seu lado enquanto Layaline ia aconchegar a sua filha.

Esperou até que ambas estivessem deitadas e aninhadas antes que permitisse que o seu semblante ficasse carregado, pois acabara de se lembrar de Assiòn. As palavras às quais Layaline tanta piada achara faziam parte de um ditado que o Alto Lamelar certa vez com ele partilhara, algo pertinente a os monstros na cabeça das pessoas lhes jnorderem sempre que se pensava neles. Aprendera muito com Assiòn durante o pouco tempo que o conhecera, e não só acerca de assuntos pertinentes a espadas e lutas. A sua memória era uma das forças que presentemente moviam o guerreiro, muito embora perigosamente mesclada com a ardente sede de vingança que lhe apertava a garganta com uma amarga secura.

Mas não era o momento de pensar em semelhantes coisas. A raiva podia ajudá-lo por vezes nos treinos e eventualmente para forçar o «tendão», mas com leitura e compreensão de texto de pouco lhe servia. Aewyre procurou uma posição minimamente confortável, tirando o rolo de pergaminho da sua mochila e ajeitando-a de seguida à laia de almofada. Enquanto abria o rolo e desencaracolava as folhas de apontamentos que tinha enroladas no seu interior, o jovem pensou no quanto Allumno riria se o visse em semelhante situação. Ele, que sempre fugira de bibliotecas como um animal de uma jaula, e cuja única reação ao abrir um livro sempre fora a de espirrar devido ao pó. Se o visse agora, a gastar os olhos em letras floreadas, a tentar interpretar versos de má poesia, a tomar e a rever apontamentos... nunca escrevera tanto na sua vida, e as suas anotações já davam para fazer um estudo detalhado acerca da Essência da Lâmina. Aewyre folheou-as brevemente à luz da candeia, examinando superficialmente algumas palavras-chave com as quais assinalara pontos importantes, mas não estava com cabeça para muitas delas. Porém, houve uma que lhe chamou a atenção e que na altura lhe parecera de fácil digestão mental, embora algo vaga.

Dizia respeito a uma afirmação interessante feita por um Lamelar da recôndita Taygatar chamado Ahgon: «Nós somos o nosso pior adversário.» Era um pensamento peculiar, que ninguém na Cidadela da Lâmina alguma vez partilhara com Aewyre durante os treinos. Pelo menos não por palavras, pois boa parte dos exercícios haviam sido também um teste à força de vontade, uma batalha entre a mente e o corpo, naquilo que Ahgon definia como «uma luta com o nosso ego». Quase parecia algo que o Allumno diria, mas ao menos era diferente do resto dos teóricos, pois abandonava por completo a dualidade do conflito entre dois Portadores e enfatizava a contenda interior que se verificava em semelhante situação. Infelizmente, por mais que o jovem acerca dela reflectisse, falhava em encontrar qualquer aplicação prática na afirmação. Quereria a frase sequer dizer algo, ou seria apenas pretensiosismo da parte de Ahgon? Era certo e sabido que os habitantes de Taygatar eram estranhos, conhecidos como uns dos últimos povos espirituais de Allaryia, mas Aewyre estava disposto a estudar outras perspectivas, por muitas voltas que lhe dessem à cabeça. Afinal, não podia ser pior do que interpretar um mau poema, mas após alguns momentos a folhear, franzir a testa e a passar a sua unha suja por linhas difíceis de ler à luz de uma candeia (quem copiara o manuscrito não quisera gastar muito pergaminho, evidentemente), Aewyre perdeu a paciência e bufou de frustração, pousando as folhas ao lado e olhando antes para o teto escuro.

Não, decididamente não estava com cabeça para aquilo. Talvez até estivesse a ser o seu pior inimigo e a dar razão a Ahgon, mas estava também demasiado cansado para se importar. Acelerara o ritmo de viagem, pois tinha uma certa pressa em chegar a Arle, e como continuava a fazer questão de caminhar a pé, estava fisicamente exausto. Como se isso não fosse suficiente, a sua mente desabituada a grandes considerações e abstrações também estava exaurida, e mesmo o seu sono (quando por fim se dignava a chegar) era preenchido ou por pesadelos ou por penosas recordações que lhe permitiam muito pouco repouso. Andava nervoso, irrequieto, e consequentemente maldisposto e com pouco apetite. Não podia continuar assim, se fazia realmente tenções de enfrentar Seltor, pois àquele passo acabaria por tombar de exaustão pelos seus próprios meios antes de sequer saber se era ou não possível obter o raio da Essência da Lâmina. Estar com um teto sobre a cabeça e um bom jantar no estômago era a oportunidade perfeita para relaxar, e duvidava de que o pudesse voltar a fazer tão cedo. Talvez as palavras de Ahgon lhe tivessem chamado a atenção por serem um aviso, uma advertência contra a aparente predisposição de alguns Portadores de atirarem todas as cautelas ao vento e a mergulharem de cabeça numa implacável perseguição do «tendão». Sim, isso fazia sentido, e foi um motivo perfeitamente legítimo para Aewyre enrolar os seus apontamentos, metê-los dentro do rolo e apagar a candeia para dormir.

E então as fundações da casa começaram a tremer.

Kror, Layaline e Làriana ergueram-se, estremunhados, e logo constataram que a estrutura estava de fato a vacilar, estalando com rachas que vertiam o pó de lama seca da taipa. Làriana começou a chorar e Aewyre correu instintivamente de gatas a abraçar mãe e filha, olhando em redor enquanto estas enterravam as cabeças debaixo dos seus braços. Kror arrastou-se até à beira do celeiro com os alfanges embainhados debaixo do braço, movido pelo seu afinado instinto de autopreservação, pronto a saltar dali mesmo com a sua perna ferida, mas antes que o pudesse fazer o tremor cessou, tão abruptamente como começara. As ovelhas e os borregos baliram, e do outro lado da divisória da casa ouviram-se os choros das crianças, que se juntaram a Làriana num coro plangente.

— Estão todos bem? — perguntou Aewyre em voz alta, esquecendo-se de que os camponeses não sabiam falar Glottik. — Layaline?

— Vè... sim — disse a laonesa, ainda a olhar em redor com olhos assustados e beijando a cabeça de Làriana,

Por sua vez, Kror permanecia à beira do celeiro, atento e de músculos retesados como um gato prestes a saltar. Trocou um breve olhar com Aewyre, e o lacônico momento de tensão afinou suficientemente o «tendão» para que ambos se fitassem como se a culpa do incidente se devesse a um deles. Foram interrompidos pelo camponês, que como bom anfitrião subiu metade das escadas para espreitar e ver se estavam todos bem, mas Aewyre não percebeu nem uma das palavras que trocou com Layaline. Erguendo-se de cabeça baixa e costas vergadas, o jovem dirigiu-se então às escadas e o camponês desceu para que também o pudesse fazer. Continuou a tagarelar era Lloranc, e Aewyre limitou-se a dar-lhe uma palmada no braço e a dizer que estava tudo bem, abrindo então a porta para dar uma vista de olhos pelo exterior.

A noite estava chuvosa, mas nada mais dramático ou fora do normal lhe saltou à vista na úmida penumbra. Só podia ter sido um terramoto. Embora Aewyre nunca tivesse passado por um, não eram uma ocorrência de todo desconhecida em Allaryia, embora raros e por vezes com conseqüências desastrosas. Felizmente, este não parecia ter sido um desses, embora tivesse certamente valido pelo susto.

— O que foi? — ouviu a rouca voz de Kror atrás de si.

— Um terramoto — respondeu o jovem secamente, virando apenas a cara ligeiramente para o lado.

— Um quê?

— Não interessa, já passou — Aewyre fechou a porta, pontuando o que dissera. — Vamos dormir.

O jovem virou-se e passou por Kror, raspando o ombro do drahreg com o seu num contato que fez com que os músculos de ambos se retesassem. O jovem olhou por cima do ombro e viu claramente os orbes vermelhos de Kror fitos nos seus, vermelhos como brasas que acalentaram o adormecido «tendão», entesando-o. Aewyre ainda cerrou os punhos, mas relaxou logo de seguida.

— Vamos dormir — repetiu, virando definitivamente as costas a Kror e subindo as escadas. Já nem para o «tendão» tinha paciência, nem para o terremoto e muito menos para as susceptibilidades de um drahreg malcheiroso. Só queria descansar.

Kror observou o guerreiro enquanto este subia, e a visão das costas dele era visceralmente tentadora, até porque tinha os alfanges embainhados numa mão. Porém, e embora a atitude sobranceira de Aewyre o incomodasse, nada chegou a fazer, pois o camponês acabara de acalmar os animais e fechou a porta baixa do estábulo. Assim que viu que Kror estava presente, abriu a boca para falar, mas algo no seu olhar e na sua figura de vulto de cara enfaixada no escuro fez com que reconsiderasse a idéia. Pigarreou, escusou-se e retirou-se para perto da sua família, deixando Kror a remoer no escuro. Por fim, o drahreg acabou por encolher os ombros e subir as escadas.

Na manhã seguinte, enquanto tomavam um frugal pequeno-almoço de pão e queijo de cabra, Aewyre reparou que Kror parecia mais distante ainda, introspectivamente sentado no canto mais escuro da casa, levando as mãos enfaixadas à boca e deixando-as lá enquanto mastigava distraidamente. Continuava a chover, embora a precipitação tivesse diminuído consideravelmente de intensidade, e o estado de espírito de todos os presentes não estava particularmente alto. O ligeiro terramoto na noite passada também não ajudara, e Aewyre percebera através de Layaline que marido e mulher já se haviam lançado em várias tiradas acerca dos deuses, questionando-se acerca da possibilidade de o tremor ter sido uma manifestação de descontentamento, ou se por outro lado tinham sido salvos de algo bem pior devido a intervenção divina. Em qualquer uma das hipóteses, dar graças a boa parte do panteão não poderia fazer mal algum, e foi precisamente isso que marido e mulher instruíram aos seus filhos e hóspedes. Como boa filha de cónego, Layaline acedeu prontamente e, tanto quanto o jovem entendeu, começou ela própria uma oração a Gorfanna, deusa da colheita, do lar e das terras domadas. Ainda a mastigar, Aewyre pousou as mãos de palmas coladas ao chão como era hábito dos fiéis da deusa e foi olhando em redor enquanto os outros oravam de olhos fechados. Viu que um dos rapazes — um diminuto catraio de espigados cabelos castanhos e com os dois incisivos superiores em falra — não estava a rezar, e os dois trocaram um olhar inadvertidamente cúmplice. Como o rapaz pareceu envergonhado, Aewyre piscou-lhe o olho e esboçou um sorriso com a boca cheia, o que fez com que o rapaz fechasse os enver-íonhados olhos.

Sem perder o sorriso, Aewyre continuou a olhar em redor. Apesar do terramoto, dormira bastante bem e sentia-se mais relaxado do que se sentira havia semanas. Talvez o fato de Layaline ter dormido abraçada a si tivesse ajudado; fora bom ter alguém a quem se agarrar, sentir um coração não endurecido a bater contra o seu peito. Apesar do que haviam feito na estalagem da Cidadela, a rapariga dormira compreensivelmente apenas com a filha durante a viagem, mas na noite passada as duas tinham ficado assustadas, e mãe e filha acabaram por gatinhar para perto de Aewyre durante a noite. Fora estranhamente reconfortante para o próprio também, pois sentira-se revitalizado por uma estranha energia ao ter as duas debaixo dos seus braços e de cabeças sobre o seu peito. Seria essa a sensação de ser pai... de ter uma família?

Cruzar o seu olhar errante com Kror focou-lhe a visão e interrompeu os seus devaneios antes que se pudesse lembrar e pensar naquela que a harahan Hazabel clamara ser a sua filha. Aewyre pensou que talvez tivesse sido o «tendão», mas não, o drahreg olhara intencionalmente para ele e gesticulava-lhe claramente para que se aproximasse. O jovem olhou em redor, viu que ainda estavam todos ocupados com as suas preces, e escusou-se ao levantar-se, contornando a lareira e indo ter com Kror. Se os camponeses ou Layaline repararam, nenhum deles se manifestou, e Aewyre postou-se diante de Kror com ar reservado.

— O que foi? — sussurrou, sem sequer se dignar a curvar-se.

— Senta-te — disse Kror secamente.

O jovem franziu o cenho, mas acabou por aceder, tendo o instintivo cuidado de levar o joelho ao chão a uma distância superior à necessária para Kror lhe poder degolar a garganta com um rápido desembainhar de um alfange. O drahreg tinha ambos embainhados debaixo do braço esquerdo, e as gemas vermelhas e azuis dos seus vistosos punhos cintilavam com o lume da lareira.

— O que foi? — repetiu, apoiando o cotovelo sobre o joelho e entrelaçando os dedos nos da mão do braço pendente.

— Alguém... — Kror interrompeu-se a si mesmo, baixando o tom de voz. — Alguém esteve conosco ontem à noite.

O cenho franzido de Aewyre aliviou-se quando este ergueu o sobrolho.

-— O quê? Achas que um dos miúdos...?

— Não. Não esteve... aqui. Foi diferente. Esteve aqui... de outra forma.

— Como assim, de outra forma? De que é que estás a falar? Explica-te.

Por norma, Aewyre já tinha pouca paciência para o drahreg, e falar em enigmas não ajudaria nada a melhorar a relação entre ambos. Kror pareceu sentir a animosidade que de qualquer forma não lhe era desconhecida, pois aquele que podia ter sido um grunhido de frustração para com a língua poderia igualmente ser interpretado como um rosnido de advertência.

— As minhas espadas... o Kerhex e a Sassirass sentiram-no. Esteve aqui uma pessoa... — Kror arreganhou os dentes, debatendo-se como sempre com as palavras.

— Mas esteve aqui uma pessoa como? Ou melhor, quem? — inquiriu Aewyre, olhando por cima do ombro e vendo que o camponês os observava enquanto rezava, apressando-se a fechar os olhos assim que descoberto.

— Foi como... o teu amigo fez, O da pedra na cabeça.

— O Allumno? — Aewyre ficou de imediato verdadeiramente interessado. — Como assim?

— Não, não foi ele. Mas foi como ele fez. Ele veio... esteve aqui, mas não esteve...

— Sim, sim, eu sei, uma manifestação espiritual. Mas como tens tanta certeza de que não era o Allumno? Se calhar ele está a...

— Não. Ele tocou nas minhas espadas. O Kerhex e a Sassirass viram-no, ouviram-no, e disseram-me que ele... não nos queria fazer bem.

— Mas... — A iminente desilusão tornou Aewyre insistente. — Tens a certeza de que não era mesmo ele? Como é que o Kerhex e a Sassiras’s...?

— O teu amigo tentou fazê-lo uma vez, lembras-te? Quando tu estavas à minha procura, ele encontrou-me e tocou nos meus alfanges, e o Kerhex e a Sassirass viram-no.

Maldição. Era verdade, as duas entidades nos alfanges de Kror conheciam Allumno, tinham-no tocado e sido por ele tocadas quando os companheiros haviam esquadrinhado a Latvonia era busca de Kror.

— Quando... quando é que foi? — perguntou Aewyre, baixando mais ainda o tom de voz e desta feita inclinando-se ligeiramente para a frente.

— Depois de a terra tremer. Estávamos todos a dormir.

— E como é que o Kerécs e a, ai, a Sassarissa sabem que essa pessoa... não nos queria fazer bem?

— Eles sabem — afirmou Kror peremptoriamente.

— Hmpf — suspirou Aewyre irritadamente, coçando o queixo com o cotovelo apoiado sobre o joelho. — E que mais sabem eles?

— Era um homem. Um humano. Poderoso e... estranho.

— Estranho?

— Não me sabem explicar. Só sabem que ele estava a olhar para nós, que se aproximou e que tocou nas minhas espadas. Depois... fizeram-no ir embora.

— Só isso? Ele não disse nada, não fez nada?

— O Kerhex e a Sassiras’s não percebiam a sua língua, e não fez mais nada. Ficou... surpreendido quando apareceu à frente deles.

«Um destes dias tenho que ver se consigo aprender mais sobre esses dois», pensou Aewyre. Às vezes pareciam saber mais coisas do que deveriam, embora nunca algo de jeito, como por exemplo uma forma de adquirir o domínio da Essência da Lâmina.

— Foi isso que aconteceu — disse Kror, resguardando instintivamente os alfanges, sobre os quais o olhar distraído de Aewyre acabara por incidir.

— Hmmm... — ponderou o guerreiro, retirando os olhos e fingindo-se absorto enquanto ponderava as implicações do que o drahreg lhe dissera.

Pondo completamente de parte a possibilidade de que poderia ter sido Allumno, tal podia apenas significar que estavam a ser perseguidos, ou no mínimo espiados por um mago desconhecido. Aewyre não se lembrava de nenhum. Vira Malagor morrer, e não podia ser a tal de Linsha, pois Kror dissera que fora um homem. Não tinham feito qualquer outro inimigo arcano de que tivesse conhecimento. Quem poderia ser, então, e por que os espiava?

Com todas as suas cautelas renovadas, Aewyre começou a ponderar uma série de hipóteses e arrependeu-se de não ter sido mais discreto desde que soubera que o seu irmão estava à sua procura. Desde que Augiol lhe dissera que...

Augiol.

O jovem levantou-se abruptamente e dirigiu-se ao círculo de pessoas em redor da lareira, interrompendo a sua oração com um ruidoso pigarrear. Não se considerava blasfemo nem desrespeitoso para com outras crenças, mas tinha pouco esguardo e ainda menos fé por deuses que não empunhavam uma espada.

— Layaline?

A referida e a família de camponeses abriram os olhos, piscando-os, e Aewyre acocorou-se diante da rapariga, pegando-lhe pelos braços.

— Layaline, pergunta-lhes se... pergunta-lhes se alguém lhes disse que estivessem atentos.

— Como...? — disse a laonesa, abanando a atarantada cabeça. — O quê?

— Pergunta-lhes se alguma pessoa lhes disse que... deviam ter atenção, se alguém lhes pediu para ser avisado se vissem alguma pessoa. — Ciente de que estava a complicar as coisas a Layaline, Aewyre abanou a cabeça. — Pergunta-lhes se alguém é procurado nesta terra, algum homem!

Ainda sem perceber muito bem, a rapariga traduziu as suas palavras aos camponeses, que contudo foram relativamente rápidos a responder, tanto marido como mulher.

— Sim, sim... um príncipe de Nolwyn, chamado... Èuaier? Espera, és...!

Aewyre apertou os braços de Layaline e lançou-lhe um olhar pleno de significado que não passou despercebido à rapariga, pois esta não pressionou o assunto.

— Pergunta-lhes quem o procura.

Layaline assim fez, e o jovem largou-lhe os braços e levantou-se, pois temia que os camponeses pudessem desconfiar da sua ansiedade mal disfarçada.

— É o barão Savincar de Arle. Dizem que ele... dá muito dinheiro à pessoa que... te levar a ele.

O semblante de Aewyre adquiriu um sombrio peso, e bastaram algumas gotas da torrente de raiva fria que lhe corria nas veias para lhe gelar os olhos. Felizmente que se encontrava de costas para a família, pois mesmo Layaline se assustou com a sua expressão.

— Eles... — A rapariga engoliu em seco. — Eles dizem que pensavam que éramos nós, que o príncipe está com uma mulher, uma criança, e tem uma carroça com mulas... — Aewyre cerrou os punhos reflexivamente, pensando logo no pior, mas então ouviu o camponês rir nervosamente atrás de si, e Layaline sorriu ela também. — Mas somos quatro, e tu... ele diz para não ficares zangado, mas não pareces nada um príncipe.

Aewyre relaxou então, suspirando e virando-se para a família com um sorriso forçado e coçando a barba de deprecantes olhos virados para cima. Marido e mulher riram, e mesmo os filhos e Làriana acharam graça à careta do jovem.

«Filho da mãe...», praguejou Aewyre mentalmente enquanto sorria por fora. «O Allumno bem me dizia... sou demasiado crédulo. O sacana e o barão dele queriam enganar-me.»

O mais certo era quererem aprisioná-lo e exigir um resgate ao seu irmão. Esse tal Savincar devia ter um mago ao seu serviço, e enviara-o para os procurar, ou talvez simplesmente para os vigiar, pois tanto quanto sabia estavam a dirigir-se alegremente para a boca do lobo: a sua.

— Diz-lhes que vamos embora. E que eles podem ficar com as mulas e a carroça.

— O quê?

— Diz-lhes. Vamos ter de viajar a pé a partir de agora.

— Mas... porquê?

— Depois explico-te. Não te preocupes, são só uns dois dias. Estamos perto de Arle.

Antes que Layaline pudesse fazer mais perguntas, o jovem indicou a Kror que se erguesse com um gesto, passando então pelos dois camponeses e agradecendo-lhes antecipadamente com um aceno da cabeça. Só de passar pela porta antes de subir pelas escadas, ouviu a chuva intensifícar-se, quase como uma advertência contra a sua decisão, mas o jovem não se deixou intimidar. Teria que passar por Arle de qualquer forma, pois era da cidade que originava a ponte mais próxima sobre o furioso rio Olyf, impossível de vadear no Inverno, pelo que teria de recorrer a alguns subterfúgios para não ser apanhado por Savincar.

Mais um inimigo, mais uma consideração, mais um obstáculo. Não importava. Caso se metesse no seu caminho, o barão não tardaria a descobrir que a senda da lâmina era impiedosamente afiada para quem ousava nela assentar o pé.

 

Taislin arrastava-se pelo tubo acima como uma lagarta a rastejar, cego e viscoso. O trapo ensopado em vinagre que usava como máscara ajudava, mas ainda assim o odor era tremendo e quase subjugante. O próprio burrik tinha uma certa dificuldade em acreditar que estava a subir pelos tubos das latrinas de Allahn Anroth acima, a impelir-se pela pedra úmida de urina e excremento acima enquanto seguia as batidas tênues que ecoavam de cima. Lhiannah estava a fazer ruído na sua latrina, tal como lhe pedira, embora Taislin duvidasse de que ela tivesse sequer posto a hipótese de ser salva através do tubo de dejetos. Treinara-se na medida do possível, passando tanto tempo quanto pudera nas fossas com a desculpa de estar à procura de ratos, e chegara mesmo a vomitar por duas vezes. Era de longe a coisa mais nojenta e repulsiva que Taislin alguma vez fizera, pior do que arrastar-se pelo vil lodo de Moorenglade, e o burrik tentava a todo o custo abstrair-se. Pensar em Lhiannah dava-lhe forças, contudo; era pela princesa que estava a fazer aquilo, pela sua amiga. Ela precisava dele, ela e Worick, e Taislin não os iria abandonar. Mesmo que assim não fosse, só a idéia de deixar Worick numa posição na qual teria de lhe agradecer era motivação suficiente, e o burrik fazia todas as tenções de explorar semelhante situação até ao tutano.

Com uma risadinha maliciosa abafada pelo trapo, Taislin prosseguiu então com a lenta subida. O tubo era escuro, esparsamente iluminado pela luz entrava pelos pequenos orifícios ao longo deste (felizmente calculara bem a posição do sol àquela hora), e suficientemente apertado para o burrik ascender de costas contra um lado e pés pressionados contra o outro. Era uma subida estafante, mas nada que não tivesse já antes feito, embora noutras circunstâncias e condições bem diferentes. A pedra estava úmida, escorregadia e malcheirosa, o que por um lado lhe facilitava o deslizar das costas e por outro lhe dificultava o trabalho de pés, mas Taislin fora suficientemente previdente para se equipar. As solas das suas botas estavam equipadas com pregos (tanto o ferreiro como o sapateiro tinham achado imensa piada à «criança» que aparentemente queria espezinhar os ratos), e estes encaixavam suficientemente bem nas frestas entre as cantadas para que a pedra escorregadia não fosse demasiado problemática. Encomendara também um arnês de correias e anéis de ferro, tendo tecido uma história de caçar ratos pelas profundezas dos esgotos e do subsolo fora, fazendo uso do que vira nas cavernas thuragar em Tanarch para melhor ilustrar a narrativa. O correeiro achara-lhe graça, e Nolario, o líder da guilda dos rateiros, não levantara quaisquer objeções ao financiamento dessa e das outras manufaturas que Taislin requisitara, tais como a robusta farda de apicultor em miniatura que o resguardava do mais nojento da subida, pois o burrik provara ser um verdadeiro algoz de roedores durante o seu curto serviço em nome da guilda. Mal desconfiavam eles de que semelhantes apetrechos não passavam de meios de infiltração destinados a ajudar Taislin a navegar os tubos das latrinas do palácio, e o burrik orgulhava-se da sua previdência até então.

Claro que havia outros problemas que nenhuma das suas precauções podiam prevenir, e foi precisamente um deles que lhe começou a pingar sobre a cabeça, esparramando-se quente sobre o seu barrete. Com um contrito grunhido de nojo, Taislin interrompeu a subida e baixou a cabeça, mas nesse preciso momento o jato de urina desceu-lhe para a pequena mochila que tinha sobre o torso, salpicando-lhe a cara de olhos cerrados, e escorrendo então em vários pequenos fios para os seus lados.

«Gab, que nojo!», pensou Taislin, grunhindo de forma gutural com os lábios apertados mesmo debaixo do pano avinagrado. Gostava de ter trazido a carapuça de apicultor que o correeiro lhe preparara, mas os tubos das latrinas eram demasiado escuros para andar com a cabeça coberta.

Quando o fluxo por fim parou, o burrik deu-se por feliz por ter sido urina e não outra coisa pior, e recomeçou a subir, apercebendo-se então de que os seus membros começavam a ficar cansados, sobretudo as pernas. Olhou para cima e, à esparsa luz de um orifício próximo, viu uma abertura que canalizava os dejetos de outra latrina para o tubo no qual se encontrava, o principal. Taislin subiu mais um pouco e posicionou-se então diretamente sobre ele, inspirando fundo antes de tentar a manobra necessária. Soltou o pé esquerdo e fez mais força com a perna direita, pressionando-se a si mesmo contra a parede oposta enquanto procurava uma fresta com os pregos do pé livre na parede à qual estava encostado. Assim que estes assentaram numa, Taislin fez uma rotação da bacia, girando o corpo com o eixo assente no pé direito e flutuando durante a fração de um instante antes de assentar ambas as mãos enluvadas na parede viscosa, contra a qual também encostou a cabeça. Cerrando os olhos e grunhindo de nojo, o burrik deixou-se estar na sua posição diagonal, de pernas estendidas e braços ligeiramente flectidos, e estudou a distância que o separava da abertura. Não era muita.

Taislin impulsionou-se ligeiramente para cima com as pernas, afastando-as da parede, e durante um breve momento teve a nauseante sensação de o seu coração estar a subir enquanto caía, deslizando pela parede oposta com as mãos. Porém, no momento certo, empurrou-se a si mesmo com os braços, e os seus calcanhares assentaram forçosamente na borda da abertura com um impacto que fez com que os seus dentes batessem uns contra os outros.

— Au — protestou Taislin, o seu queixume abafado pelo avinagrado trapo.

Novamente na sua posição diagonal, desembainhou os dois punhais que tinha nos antebraços, inspirou novamente fundo e empurrou-se com força para trás, flexionando as pernas e curvando as costas assim que o seu centro de gravidade ficou equilibrado, deixando-se então cair de costas para dentro da abertura e encalhando as duas pontas dos punhais em frestas como suporte. Após alguma tensão inicial, o burrik permitiu-se relaxar e aproveitou para repousar as pernas cansadas. Respirando fundo e esperando até que as batidas do seu coração entrassem em compasso com as que se ouviam no topo do tubo, Taislin foi-se mentalizando para continuar enquanto sacudia a tensão das suas pernas. Assim que se sentiu pronto, levantou a perna direita para encalhar os pregos numa das frestas da pedra sobre a sua cabeça, sustendo-se dessa forma enquanto embainhava os punhais. Feito isto, baixou a perna e deixou-se deslizar, rebolando para o lado quando metade do seu corpo já pendia no ar e ficando novamente estendido que nem uma aranha com nada entre si e uma queda considerável até uma fossa séptica. Subiu como uma, usando mãos e pés até passar pela abertura, após o que resumiu a sua posição de costas para um dos lados da parede e pés assentes no outro. «Bom, lavamos nós outra vez...»

Lhiannah estava ajoelhada diante da latrina numa posição que, vista da porta, daria a entender que estava a vomitar. Porém, estava com o lado da cara e ambos os braços amparados sobre a pedra, tendo removido o assento de madeira que a aia de Iollina lhe mandara trazer. Olhava para a direção oposta à do buraco, mas a sua mão pendia da borda, batendo repetidamente na pedra com a parte côncava de uma taça de madeira. Havia dias que não fazia outra coisa, e se alguém desconfiara de tão estranho ritual, provavelmente atribuíra-o aos boatos de que a princesa estava lentamente a enlouquecer no Ninho. A própria Lhiannah duvidava do sentido daquilo que estava a fazer, mas fora o que o burrik lhe pedira e a mensagem era a sua âncora no mar de raiva, frustração e desespero em que a sua vida se tornara. Estava mais que disposta a seguir as mal escritas indicações de Taislin à letra, pois tal era preferível aos odiosos pensamentos que lhe fermentavam o fígado e lhe ruborizavam a pele.

O maldito Hepascar tinha-a na mão, e sabia-o bem. Humilhara-a como nunca ninguém o havia feito, e Lhiannah queria matá-lo por isso. Todavia, era precisamente essa a intenção do haghral, pois o desgraçado dera a entender que a sua raiva lhe servia como porta, como uma conduta para chegar a ela. Por um lado, ansiava pela chegada do maldito desgraçado, pela ocasião de poder retribuir o sofrimento que lhe infligira e a Worick, mas por outro não tinha a certeza de ser capaz de o enfrentar. A vantagem era toda do haghral, estava a manipulá-la como a uma boneca, e Lhiannah não tinha forma de inverter os papéis. Ainda que tivesse, duvidava de que seria capaz de controlar a sua raiva, que era ao mesmo tempo aquilo que a movia e a porta de entrada para Hepascar na sua mente e consciência. Avisar os guardas estava fora de questão — já o tentara e apenas cimentara os boatos de que estava a perder a sanidade — e duvidava de que a aia de Iollina pudesse fazer o que quer que fosse, ainda que acreditasse na sua história. Daí que, mesmo com as suas esperanças renovadas pela carta de Taislin, Lhiannah se encontrava num perene vaivém de raiva e depressão, e era quando o seu estado de espírito pendia mais para a segunda que a princesa se ajoelhava diante da latrina, as suas energias exauridas e os seus dedos doridos de tanto cerrar os punhos. Já deixara cair uma taça por causa disso mesmo, mas nenhum dos guardas dera especial atenção a tal extravio.

Era uma altura dos seus monótonos e angustiantes dias que a princesa passara a apreciar, pois dava-lhe um sentido de propósito e não requeria grande empenho da sua parte. Sabia que estava a fazer algo de útil, por muito absurdo que parecesse, e tinha apenas que ficar perfeitamente quieta a oscilar o braço pendente e ir batendo com um qualquer objeto contra a pedra. Ao menos permitia-lhe abstrair-se e não a deixava irrequieta, pois atinha-se sempre à esperança de que Taislin estava algures lá em baixo, e que o ruído que estava a fazer de alguma forma o ajudaria. Não que alguma vez tivesse duvidado das capacidades do burrik, mas tão-pouco alguma vez esperara vir a depender tanto dele. Claro que também já a salvara e aos companheiros em Alyun, mas nem então a situação parecera tão aflitiva, a esperança tão longínqua e o desespero tão próximo. Por muito mal escrita que estivesse, a carta de Taislin afigurara-se como uma dádiva dos céus, e a princesa repetia freqüentemente cada palavra nela contida, em silêncio ou em voz alta. Quanto não daria por escutar essas palavras enunciadas pelo próprio, por ouvir por fim uma voz amiga, por...

— Lhiannah?

A princesa parou abruptamente de bater com a taça contra a pedra, e os olhos que até então haviam estado estuporadamente semicerrados arregalaram-se, análogos ao mecanismo de uma catapulta ao impulsionarem a cabeça de Lhiannah para cima. A voz viera do buraco da latrina.

— Taislin...? — atreveu-se a supor. A voz era inconfundível, mas o burrik não podia ter...

— Sou eu... mas se não me ajudares... não tarda nada... deixo de ser...

Lhiannah ergueu-se então, mancando de ambas as pernas dormentes de ter estado tanto tempo ajoelhada, e apoiou-se sobre a latrina com ambas as mãos, mexendo a cabeça em todas as direções numa tentativa de vislumbrar algo.

— Taislin, és mesmo tu? Não te vejo, não...

— Lhiannah, por favor, apanha esta corda que te vou atirar.

A princesa piscou repetidamente os olhos, como que estremunhada, pois o burrik não a poderia ter apanhado mais desprevenida nem em tão inesperadas circunstâncias. Por essa razão, recuou de susto da corda enrolada quando esta foi expelida pelo buraco da latrina em vez de a apanhar. A corda caiu então, e Lhiannah ouviu um grunhido abafado vindo da escuridão.

— Lhiannah... se não agarras a corda... não tarda nada eu caio.

— Desculpa, desculpa, eu... — tartamudeou a arinnir, ainda desorientada e a gesticular com as mãos, ora passando-as pela cara, ora agarrando os cabelos. — Manda-a. Manda-a outra vez.

— Um... dois... — aflautou então a voz de Taislin. — Três!

A corda enrolada tornou a saltar latrina fora, e desta feita Lhiannah agarrou-a, mas algo na sua textura úmida e viscosa e no cheiro que esta consigo trouxe fez com que a princesa grunhisse de nojo e a largasse, afastando a mão como se a tivesse queimado. Da escuridão ouviu-se outro grunhido, seguido de uma série de epítetos que lembravam uma criança a praguejar com medo que a mãe a ouvisse.

— Taislin! — conseguiu Lhiannah indignar-se a despeito da situação ao olhar para o inconfundível castanho que lhe manchara a mão. — Essa corda...!

— Eu sei, eu sei... — reconheceu o burrik de voz cansada, quase gemebunda. — Desculpa, Lhiannah, mas faz um esforço e agarra a corda. Ratos, as minhas pernas estão a explodir, e as costas doem-me que se fartam.

Engolindo em seco nojo e progressivamente menos estremunhada, a arinnir firmou os maxilares e deixou pendente a mão suja, mantendo-a tão afastada de si quanto possível.

— Está bem, manda. Eu... eu apanho-a.

— Tapa o nariz... se ajudar. Um... dois... três!

A corda enrolada surgiu uma terceira vez, e Lhiannah emitiu um enojado grunhido, como se estivesse a espalmar uma qualquer criatura repulsiva com a mão. Era uma quantidade considerável de corda, e parte desta estava manchada com repulsivos tons de castanho.

— Desenrola-a... e amarra-a a um sítio qualquer estável... depressa... por favor.

Com um esgar de nojo, Lhiannah pousou a corda sobre a pedra como um rato de esgoto morto e, afastando-se dela o mais possível, desenrolou-a de braços esticados, cara virada e respiração sustida. Do buraco da latrina ouviam-se os grunhidos e exalações de Taislin, entremeados com alguns resmungos. A princesa olhou em redor, ponderando atar a corda ao fecho da porta, mas não se fiou na solidez deste e continuou à procura, desesperando ligeiramente ao nada ver no seu austero quarto.

— Taislin, eu... ah, não, espera! — lembrou-se da barra de ferro da abertura que lhe servia de janela, e apressou-se a arrancar dela a manta com a qual a cobrira para evitar as frias correntes de ar. — Como queres que eu...?

— Não lhe des.... folga — mal ouviu a voz do burrik pedir. Sem mais nada dizer, Lhiannah quase conseguiu esquecer o nojo ao passar a corda pela sólida barra de ferro entre a abertura, puxando até a sentir retesar-se.

— Está bom... está bom... — disse Taislin, mas a princesa já fazia um rápido nó com parte do comprimento da corda, atando a extremidade folgada ao seu pulso como precaução adicional antes de se ajoelhar novamente diante da latrina.

— Estás bem, Taislin? Taislin?

A única resposta que a princesa obteve veio na forma de um prolongado gemido de alívio após duas inquietantes batidas do seu coração.

— Taislin?

— Estou bem... deixa-me só descansar um pouco — disse o burrik, que pendia sobre o vazio de cabeça baixa e braços e pernas lassos, tendo enfiado a corda pelos anéis do seu arnês. — Pela mão decepada de Kispryn, gostava de ficar assim para sempre...

Lhiannah quis dizer algo, mas o único som que lhe saiu da boca foi um soluço, que tentou instintivamente tapar com a mão, um gesto que por pouco não conseguiu impedir antes de esfregar excremento nos lábios.

— Lhiannah?

— Eu... eu... — balbuciou a princesa, acabando por encostar a testa às costas da mão que agarrava a corda. Os seus ombros começaram a tremer como as fundações de um edifício que se desmoronava, e as suas costas deslizaram pela latrina até assentar no chão.

— Lhiannah... o que foi?

— Oh, Taislin, tu não imaginas... tu não... ouvir a tua voz... — foi a arinnir dizendo a meio de convulsivos soluços. — Tu não... tu não imaginas como eu gostaria de te abraçar neste momento.

— Não gostarias não... acredita em mim — asseverou a voz do burrik vinda da latrina. — Estou cheio de cocô.

A cabeça de Lhiannah ergueu-se e esta riu a meio do seu choro, desviando o curso das suas lágrimas com os sulcos de um sorriso de boca aberta que havia muito não demarcavam a sua face.

— A sério. E levei com xixi... de meio palácio. Esta gente... anda a beber demasiada cerveja. Se calhar... algum até foi teu.

Lhiannah riu mais a meio do choro intermitente e, virando-se ligeiramente, pousou metade do braço direito sobre a latrina e deixou a outra pendente do buraco.

— Dá-me a tua mão, por favor,

— Não chego, Lhiannah. Por favor digo eu, não me faças subir mais. Ainda vou ter que descer isto tudo.

Fungando, a arinnir retirou o braço, inspirou fundo e acalmou-se, soltando ainda um último curto riso choroso ao esfregar o nariz com a manga.

— Taislin... — disse, já mais calma, virando-se completamente e ajoelhando-se para tornar a espreitar pelo buraco. — Que raio estás tu a fazer na latrina?

— Ainda bem que perguntas — enunciou o burrik, erguendo um didático indicador que Lhiannah não viu. — Vai ser assim que te vou salvar. Através da latrina.

Silêncio, durante o qual o burrik oscilou frouxamente da corda, flutuando sobre um abismo fecal.

— O quê — ouviu Lhiannah dizer, e o tom de voz da princesa readquiriu os contornos dos quais Taislin se recordava, os de uma certa petulância que nem a um tom de interrogação se dignava, uma pergunta que apenas dava a entender que a outra pessoa era estúpida.

— Eu sei que parece de doidos, mas ouve-me só — pediu Taislin, gesticulando enquanto falava e oscilando pelo tubo como um boneco pendente de cordéis. — Eu infiltrei-me aqui no palácio, todos pensam que sou um rateiro. Estudei bem o interior, e as latrinas são a única forma de escapares.

Novo silêncio.

— Lhiannah?

— As... latrinas, Taislin?

— Eu sei, eu sei. Mas eu tenho isto muito bem planeado, Lhiannah, vais ver. Assenta tudo que nem uma luva. Até o Worick se vai ver forçado a admitir...

— O Worick? Sabes do Worick?

— Por acaso até sei — afirmou o burrik, cruzando os vangloriosos braços e olhando para cima de sobrolho erguido. — Deixaram-me entrar no quarto dele. Normalmente não deixariam, mas eu sou tão bom a apanhar ratos que...

— Viste-o? Como é que ele está?

— Parecia mais velho ainda, mas a barba dele eriçou-se quando o insultei. Está bem.

— Mas bem como? O que é que ele disse? O que...

— Espera, espera! Eu não consegui falar com ele, estava a ser vigiado. — Embora não a visse, Taislin sentiu o desapontamento da arinnir e conseguiu mesmo visualizar o murchar dos ombros desta.

— Mas cruzamos os olhares, Lhiannah... quer dizer, ele abriu um dos olhos, e cruzou-o com os meus. E deixa-me que te diga, parecia um carvão a chispar. Aquele thuragar é demasiado ruim para ficar muito tempo em baixo.

A princesa riu.

— Eu vou tirar-te daqui, Lhiannah — asseverou Taislin, olhando para cima sem distinguir as feições da sua amiga. — A ti e ao Worick. Vou tirar-vos aos dois daqui. Juro.

Fungando, Lhiannah gesticulou futilmente com a mão pendente, como se quisesse por força agarrar a de Taislin, acabando por se contentar com a corda da qual o burrik pendia.

— Eu confio em ti, Taislin. Sabia que tu não me irias deixar.

— Claro que não — concordou o burrik com o seu sorriso reto, oscilando de um lado para o outro com o pescoço inclinado para trás.

— Diz-me uma coisa... tu não cabes nesse buraco, pois não?

— Hum... — A princesa afastou-se ligeiramente para o avaliar, embora tivesse a certeza de que nem com grandes contorcionismos nele caberia. — Não, é demasiado pequeno. Talvez tu conseguisses...

— Não, obrigado. Já tive mais próximo dessa parte da tua intimidade do que alguma vez gostaria...

As sobrancelhas de Lhiannah franziram-se de indignação e a sua boca descaiu, fechando-se de seguida de lábios franzidos quando o riso malicioso brotou do buraco, para o qual a arinnir olhou de esguelha.

— Eh, eh. De qualquer forma, a idéia é tirar-te daí — explicou o burrik, começando de seguida a remexer na mochila que trazia ao peito. — Mas não te preocupes, eu previ tudo. Apanhas?

— Apanho o quê?

— Vou-te atirar umas coisas. Não te armes em niquenta desta vez, que eu não as tenho amarradas.

— Eu apanho. Atira.

O buraco expeliu então um embrulho de lona limpo mas com dedadas de excremento que Lhiannah se forçou a ignorar. Continha um martelo, um cinzel, dois trapos rasgados e um odre de vinagre.

— Para que são estas coisas?

— Os trapos e o vinagre? Para que o cheiro não vos faça vomitar a meio da descida.

— Vai?

— Sim. Tu e o Worick. Ele virá ter contigo, e vocês os dois escapam juntos.

— Ele vem? Quando? Como é que...?

— Ainda não te sei dizer quando. Em breve. Só preciso de um pouco de tempo, e tudo se resolverá.

— Tempo? Quanto tempo, Taislin? Tempo para fazeres o quê? Eu estou aqui a...

— Confias em mim, Lhiannah?

— Eu... mas... tu... — A arinnir abanou a cabeça, levando a mão à testa e acabando por soltar um alegre suspiro. — Sim, Taislin, eu confio. De alguma forma, a tua idéia maluca há de funcionar, seja ela qual for.

— É o que eu digo... nunca me dão o meu real valor — lamentou-se o burrik com intencional dramatismo. — Nunca ligam ao que digo, até ser sempre preciso eu tirar-vos o couro da frigideira, e aí então sim, ah, grande Taislin! Sempre confiei em ti!

Lhiannah riu, abanando a cabeça.

— Ri-te, ri-te. Quando eu te tirar daqui, vais passar a lavar as minhas meias, ai vais pois.

— Acho que as tuas meias são a última coisa que precisa de ser lavada, Taislin.

— Não deixas de ter razão — concordou o burrik, fungando detrás da máscara de vinagre como se estivesse a cheirar-se. — Acho que vou dar um mergulho ao rio de seguida. O melhor é ir andando.

Lhiannah agarrou-se à borda da latrina com ambas as mãos, por pouco não enfiando a cabeça no buraco.

— Tens... tens mesmo que ir já?

Taislin hesitou, olhando para cima com uma expressão subitamente mais entristecida, e a sua vontade foi a de subir pela corda e abraçar a sua amiga. Porém, sabia que cada instante que ali permanecesse apenas tornaria a inevitável despedida mais custosa, e tinha medo de tomar alguma decisão precipitada para tirar Lhiannah dali quanto antes, uma idéia que de fato já lhe ocorrera.

— Tenho. Podem deixar-me andar relativamente à vontade por aqui, mas se lhes dou um único motivo de suspeita, posso estragar tudo — explicou Taislin. — Eu tenho um bom plano desta vez, Lhiannah. A sério. Não deixei nada ao acaso, e preciso que as coisas corram como espero para que funcione.

A princesa não estava habituada a ouvir Taislin falar assim, e foi sobretudo por essa razão que nada conseguiu dizer em resposta, surpresa como ficara.

— Tenho de ir, Lhiannah — reiterou Taislin, começando a libertar a corda que o cingia. — Ficas bem?

— Eu... Sim. Fico bem.

A acriançada expressão do burrik franziu-se com a óbvia hesitação da. princesa.

— Lhiannah...?

A princesa levou a mão limpa à cara, debatendo-se com as emoções e sentimentos que ameaçavam irromper-lhe do peito, o seu ódio para com Aereth, o medo de Hepascar, a cada vez mais insuportável solidão... Mas não podia, não iria partilhá-los com Taislin, não por orgulho, mas porque estava ciente de que teria de ser corajosa e agüentar mais algum tempo. O tempo que fosse preciso. O seu amigo estava convicto de que a poderia tirar dali, precisava apenas de algum tempo. E Lhiannah dar-lhe-ia, por muito que lhe custasse.

— Fico bem, Taislin — afirmou, pigarreando. — Eu confio em ti.

Taislin soltou então o resto da corda e desceu até à ponta, após o que se tornou a encostar à parede.

— Podes puxar a corda agora. Guarda-a como puderes. Tu e o Worick vão precisar dela depois.

A princesa assentiu com um concordante ruído gutural, começando a puxar a corda suja com as mãos envoltas na sua saia. Taislin esperou que a ponta se escapulisse pelo buraco acima como a cauda de uma ratazana antes de se despedir.

— Adeus, Lhiannah. Vemo-nos...

— Eu confio em ti — asseverou a princesa, e o burrik ouviu um ruído que podia bem ter sido o de uma mão a enviar um beijo.

— Não te vou deixar ficar mal, Lhiannah. Juro.

— Eu sei que não vais — sussurrou Lhiannah.

A princesa deixou-se estar na mesma posição, inclinando a cabeça sobre o buraco e virando-a para a esquerda para poder ouvir com o seu ouvido bom os sons que Taislin emitia ao descer. Ficou ali ajoelhada durante um considerável período de tempo, mesmo após ter deixado de ouvir quaisquer indícios de que o burrik ainda se encontrava no tubo. Assim que se fartou do ruído da sua própria respiração, abraçou-se aos objetos que Taislin lhe deixara e permitiu-se um momento de fraqueza, começando a chorar.

Thaddeo, o cirurgião, murmurava para consigo enquanto dispunha os seus instrumentos sobre o lavatório, uma das poucas peças de mobília no quarto do general Worick. Duvidava de que fosse usar algum deles, mas certos rituais eram de difícil desabituação, e o experiente médico ajeitou os escalpelos, sondas, ganchos de tração, agulhas, linha e afins numa série de perfeitas e ordeiras filas em redor da bacia. Vestia o seu habitual escapulário branco sobre uma túnica amarela, ambos quase tão apertados quanto os seus grisalhos e rebeldes caracóis debaixo da touca, pois Thaddeo era o melhor naquilo que fazia, e a sua reputação vinha com certos privilégios, como jantar freqüentemente à mesa de lorde Aereth. O seu mester era arriscado, pois uma intervenção menos feliz poderia significar uma imediata queda do estado de graça que a sua posição lhe auferia, mas Thaddeo ainda não falhara, e não fazia tenções de deixar que o velho general fosse o seu primeiro fracasso devido a uma qualquer recaída. Era essa a principal razão que fizera com que continuasse a visitar o general regularmente, pois apesar de lorde Aereth ter deixado de ser tão insistente e aparentar ter relegado o thuragar à sua sorte, não deixava de ser sua responsabilidade, e ficava sempre bem ser o próprio cirurgião a fazer questão de acompanhar o paciente durante a sua recuperação.

Satisfeito com a arrumação dos instrumentos, Thaddeo acendeu uma vela numa palmatória e dirigiu-se então à cama na qual o general estava deitado, não notando grandes diferenças nele à primeira vista e a olho nu. As suas feições estavam mais magras, como seria de esperar, tendo em conta o seu recente regime nutricional à base de água com mel, e o ter estado encafuado num quarto sem janela em muito contribuíra para o seu palor. O calor da lareira era sempre bom, mas Thaddeo era um firme crente nas virtudes do ar fresco, só que Aereth opusera-se vivamente a deslocar o general Worick para um quarto com janela. Algo relacionado com a intolerável conduta do thuragar antes do acidente, aparentemente.

— Acquon os cure. Sozinhos parecem não ser capazes... — suspirou.

Thaddeo pousou as mãos sobre a garganta de Worick para lhe sentir a pulsação, pegando numa pequena ampulheta que lhe pendia de um colar e com a qual comparou as batidas. Satisfeito, palpou a zona debaixo da maxila de Worick, e tudo parecia estar em ordem, nada inflamado.

— Já vocês, thuragar, convosco parece ser precisamente esse o caso — opinou ao abrir o olho de Worick e aproximar a vela dele. — Nunca vi uma recuperação assim após uma operação destas.

Pousando a palmatória na cadeira ao lado da cama, Thaddeo destapou ligeiramente Worick, expondo-lhe o seu embarrilado peito peludo, cujo viçoso tufo também já exibia alguns pêlos brancos.

O torso encontrava-se riscado por uma série de cicatrizes, algumas das quais se cruzavam, mas nenhumas tão recentes quanto as da face e do lábio cortado. A avaliar pelo conjunto, o thuragar já nem tinha direito de estar vivo, mas ainda assim Thaddeo sentiu-lhe o coração, olhando brevemente para o vazio enquanto o fazia e, satisfeito com as batidas, baixou mais ainda os lençóis para ver e mudar a garrafa de urina. Porém, assim que aproximou a mão da virilidade de Worick, os salsichosos dedos do thuragar cerraram-se com força no seu pulso, torcendo-lhe ligeiramente e fazendo Thaddeo inalar de dor e surpresa através dos dentes ao levar o joelho ao chão.

— Calma aí, doutor — disse Worick com uma voz rouca, de ambos os olhos bem abertos. — Devo muito a essas suas mãozinhas, mas há partes de mim nas quais só mulheres mexem, está bem?

— General... Worick? — admirou-se o cirurgião, demasiado surpreso para se sentir ameaçado, embora o thuragar continuasse a agarrar-lhe o pulso com força. — Eu ia apenas ver...

— Pois, é o que todas dizem, que querem apenas ver — zombou Worick. — Ouça, o único problema que tenho aí em baixo é ele ser demasiado grande, mas ainda ninguém se queixou, e se se queixou é porque era virgem. Fique-se só pela minha barriga, entendido?

Worick deu duas palmadas no local com a mão livre, largou o pulso de Thaddeo para pegar ele mesmo no frasco de urina e cobriu de seguida as suas partes íntimas com a manta, erguendo o frasco para melhor o ver à luz da vela.

— Que me diz, doutor? — indagou, agitando ligeiramente o conteúdo. — Está bem amarelinha. Por que será?

— Está com... boa cor — disse Thaddeo, erguendo-se e esfregando o pulso com a outra mão. — General Worick, sou cirurgião, deve compreender que eu não queria...

— Deixe lá estar isso — disse Worick com um despreocupado gesto da mão, pousando a sua urina na cadeira ao lado da vela. — Não foi o primeiro, mas será o primeiro cuja cabeça eu não esborracharei à martelada por tentar.

O riso rouco e rude do thuragar pouco fez para animar Thaddeo, mas Worick parecia particularmente satisfeito consigo mesmo e ergueu os braços para apoiar a nuca nas mãos.

— Ouça lá, doutor, não acha que eu já agüentava um caldozinho, um guisadinho, vá, uma papa de aveia?

Tossicando, o cirurgião cruzou as mãos atrás das costas para reassumir a sua pose.

— Não convém forçar demasiado os seus intestinos, mas sim, julgo que um caldo seria uma boa alternativa para já, se o general já se sente com...

Worick fungou ruidosamente, inclinando a cabeça para uma das farfalhudas axilas, e ergueu as apreciadoras sobrancelhas.

— Ui. Para quem ia morrendo numa banheira, estou aqui com um rico cheirinho. Que me diz de uma banhoca, doutor, ou acha que iria entrar água por algum buraco?

— Tenho particular confiança nas minhas capacidades com uma agulha, general — disse Thaddeo secamente, começando a sentir-se incomodado com os chistes do thuragar. — Poderá tomar banho se assim o desejar.

— Ainda bem. E que sabe, doutor, uma das raparigas que veio mudar a garrafa ontem? — meio sussurrou Worick, indicando o recipiente com as sobrancelhas, inclinando-se de forma cúmplice para Thaddeo e pedindo-lhe que se aproximasse com um gesto convidativo do indicador. — Acho que ela só não mo malhou por causa do cheiro...

— Vejo que está bem, general — interrompeu o cirurgião, recuando um passo. — Informarei lorde Aereth do vosso estado de saúde, e transmitirei os vossos desejos aos responsáveis na cozinha.

Quase bufando de indignação, o humano dirigiu-se ao lavatório e começou a arrumar os seus instrumentos com bem menos cuidado que aquele com o qual os dispusera. Aparentemente satisfeito consigo mesmo, Worick recostou-se na almofada, ainda com a nuca apoiada nas mãos.

— Ah, doutor?

— Sim? — disse Thaddeo, fechando a sua mala com força e olhando incomodado sobre o ombro.

— Ainda ontem vi um rato. Estava a andar sobre o meu peito, e parecia querer entrar na minha barba.

— Como? — A atenção do cirurgião era novamente sua, tal como o previra, e Thaddeo acercou-se da cama. — Um rato? Aqui?

— Diria mais, uma ratazana — enfatizou Worick, conseguindo encolher os ombros apesar de estar com as mãos cruzadas atrás da cabeça. — E eu que pensava que Allahn Anroth era mais limpo que o rabo de um eahan...

— Mas isso é... é inaceitável! No quarto de um paciente meu! — barafustou Thaddeo, obviamente atrapalhado. — O camareiro saberá imediatamente disto!

— Andou por cima do lavatório, também, mas eu estava demasiado fraco para me levantar.

A lividez e a expressão do mais puro horror na cara do cirurgião foram, a ver de Worick, impagáveis, sobretudo quando o homem levou ao peito a mala dos seus preciosos instrumentos, que agora julgava conspurcados, olhando alternadamente para ela e para o lavatório. Sem mais uma palavra, lançou-se a correr para fora do quarto, fechando a porta com força atrás de si. Por sua vez, Worick limitou-se a rir maliciosamente. Se tinha de fazer o que o maldito burrik lhe pedira, então ao menos iria divertir-se ao fazê-lo.

 

O Pilar de Allaryia era mais vasto do que mesmo muitos dos magos que dele estavam cientes o imaginavam, e incomensuravelmente mais extenso do que a mera noção que a maior parte das pessoas dele tinha. Isto porque, embora pudessem viajar por ele através das suas manifestações incorpóreas, mesmo aqueles que usavam a Palavra tinham apenas acesso àquela que era apelidada por estes de «a Fricção», literalmente a fricção causada pelo Pilar no espaço etéreo enquanto girava era si no movimento que acabara por ser medido através dos ciclos de noite e dia no mundo terreno. Por si só, a Fricção era um espaço amplo de energia descontrolada no qual os magos se sentiam à vontade para canalizar o poder da Essência, mas não passava de uma fração do Pilar, uma mera conseqüência da existência deste. Os magos de Allaryia tinham ainda assim apenas acesso à Fricção de umas quatro partes do Pilar, que se encontrava dividido em nove segmentos, quatro dos quais estavam em contato com o continente, ou pelo menos contíguos a este. Mesmo para magos não era fácil definir a relação do Pilar com o mundo terreno, pois embora fizesse parte deste, a sua existência causava confusão quanto à sua verdadeira consistência: como movia Allaryia, se fosse imaterial, e como era possível viajar nele, se fosse sólido?

Ainda que tivessem apenas acesso direto à Fricção, os magos de Allaryia haviam encontrado meios de transpor essa limitação, assim como eras atrás haviam arranjado forma de contornar a barreira imposta pelas Entidades no acesso à Essência. Não era feito de pouca monta, mas aqueles que sabiam e podiam eram capazes de entrar literalmente no Pilar e explorar os seus verdadeiros domínios, mas apenas uma parte destes, pois uma vez dentro do Pilar havia perigos e restrições adicionais. Cada um dos nove segmentos era o lar de um dos Novos Deuses, sendo que cada um se encontrava por sua vez dividido em três partes como um bolo afanado. Os segmentos ilustravam a natureza tripartida de cada divindade, retratando os dogmas da respectiva fé em variantes de bem, mal e neutralidade. No centro de cada um desses segmentos residia um deus, e nas três talhadas viviam populações de azigoth, uman e divaroth, cada qual no seu lugar e eternamente em guerra ou disputa com as duas talhadas que lhe eram adjacentes. Era no centro de cada um dos segmentos que o verdadeiro poder se encontrava, o eterno fluxo e refluxo de pura Essência que criara o mundo e alimentava os deuses. Nesse domínio, as três raças de serventes das Entidades eram forçadas a conviver, procurando reunir em seu favor as boas graças do deus do segmento no qual viviam numa eterna batalha pela predominância dos seus credos.

Com uma visão abrangente, o Pilar afigurar-se-ia a olho nu como uma estrutura que mais lembrava um qualquer quebra-cabeças, com talhadas negras, brancas e cinzentas em perpétuo desalinho, cada segmento a mexer-se independentemente do outro. Eram as batalhas entre os azigoth, os uman e os divaroth que faziam com que os segmentos se mexessem, dinamizando-os com o vigor das suas contendas numa eterna busca pelo alinhamento perfeito com os restantes oito. Porém, tratava-se de uma busca paradoxal, pois o alinhamento perfeito de uma talhada significaria o mesmo para as outras, o que era inadmissível para qualquer uma das partes, visto que a confirmação de uma ideologia excluía as outras duas. Era uma luta sem fim, mas as três raças tinham sido criadas para tal, três opostos que nada mais podiam fazer além de se repelirem ou antagonizarem mutuamente, tudo com a singular finalidade de manter o Pilar em movimento e permitir à Essência renovar-se. Os serventes de Sirul;, Luris e Siris estavam cientes disso, mas as suas existências tinham um único propósito, e dedicavam-se de corpo e alma à consecução do mesmo, enquanto os deuses residiam nos seus domínios, ora favorecendo um lado, ora outro, desempenhando o papel de mediadores na guerra sem fim do Pilar.

As três raças não favoreciam nenhum deus em particular, limitando-se a tentar conseguir o favorecimento daquele que residia no centro do respectivo segmento, mas a relação entre as divindades e os servos das Entidades estava longe de ser serena. Havia sempre dois lados desfavorecidos de cada vez que uma talhada caía nas boas graças de um deus — o que, dizia-se, podia mesmo influenciar os humanos que orassem ao deus em questão — e nenhuma delas confiava plenamente em qualquer um dos deuses. Muitos preferiam certamente eliminar as divindades pelo bem maior, a via mais fácil ou a solução mais conveniente, a fim de poderem levar a cabo a sua guerra sem limitações, mas tal não era possível. Tinham sido as Entidades a escolher os Novos Deuses e a criar as suas raças serventes, e cada um existia para um propósito complementar, pelo que as ancianas potestades haviam tomado as devidas precauções para que uma sublevação nunca pudesse pôr em risco o equilíbrio do Pilar. Nenhuma das raças podia levantar a mão contra um deus, pois tal estava profundamente enraizado na essência de cada uma das Entidades das quais eram compostas. No centro dos seus respectivos segmentos, os Novos Deuses reinavam supremos, imunes a qualquer ameaça. Tinham o inconveniente de tal lhes impossibilitar a capacidade de viajar, pois a cada deus fora-lhe designado um domínio que a ele lhe fora posteriormente vinculado, deixando-os para todos os efeitos aprisionados, mas os avatares haviam sido escolhidos a dedo pelas Entidades, e o poder divino provara ser ampla consolação para tal condição, bem como a quase ilimitada capacidade de moldarem os seus domínios à sua imagem e semelhança.

O sacrário de Assana era um bom exemplo disso, vistoso e opulento numa escala dificilmente igualável no mundo terreno, com um teto abobadado sustentado por enormes colunas com elegantes corpos humanos enleados nelas esculpidos, e decorado com garridas tapeçarias do tamanho de pavilhões que revestiam as paredes e pendiam do teto. Permeava-o uma doce e suave fragrância afrodisíaca, um quase palpável olor capaz de enlevar qualquer visitante incauto. Debaixo de cada abóbada havia uma fonte com diferentes esculturas temáticas relativas aos dogmas de Assana, e entre ambas escorria um fluxo de pequenas partículas luminosas de cor carmesim cuja luminescência iluminava o sacrário e que corriam mais devagar do que água, mas que de todas as restantes formas se portavam exatamente como um líquido. As partículas eram as almas dos fiéis de Assana, os suplicantes, aqueles que não haviam escolhido fundir-se ao Pilar quando das suas mortes nem caído durante a escalada das suas montanhas. Persistiam ali para servirem a sua deusa mesmo após o término da sua existência, sendo elas as que serviam os fiéis da sua deusa quando estes requisitavam a sua ajuda através de orações, caso fossem dignos das boas graças desta. Corações quebrados ou inflamados, juras de amor e mesmo casamentos, tudo isso era abrangido pelos suplicantes, que após as suas vidas terrenas conheciam apenas uma vida de amor nas suas mais variadas formas, imersos da crença que em vida tinham defendido e pela qual alguns tinham mesmo lutado. Os males do mundo diziam-lhes apenas respeito na medida em que os poderiam aliviar em benefício de outros, respondendo às suas preces, mas no domínio de Assana encontravam-se seguros e isolados deles.

Ou pelo menos assim o fora durante uma era inteira, antes de essa mesma segurança ser definitivamente quebrada pelo corpo projetado de uma divaroth, que foi impelida contra uma parede por uma turva onda de poder negro. O ser angélico embateu com um baque surdo contra o mármore revestido por uma bela tapeçaria bordada, espirrando penas das asas antes de cair ao chão junto dos seus outros congêneres que também tentaram desafiar quem acabara de entrar no sacrário de Assana. As tapeçarias junto da entrada estavam cortadas por golpes de espada, e sangue azul e prateado polvilhado de penas formava poças no chão marmóreo, o sangue de divaroth eviscerados e uman degolados. Os corpos formavam um rasto que ia de uma das entradas até perto do trono de Assana no centro do sacrário, diante do qual se encontrava Seltor de cabeça baixa, contemplando a sua obra enquanto a lâmina negra de Dalshagnar pingava o sangue daqueles que se lhe tinham oposto e que lhe manchava em igual medida a ebanizada armadura e a capa negra. Tal como esperara, o primeiro impulso dos divaroth fora o de o atacar, e após matar alguns fora logo afrontado pelos andróginos uman, esses certamente movidos pela falta de equilíbrio causada peia morte de divaroth com outros tantos azigoth na sala. As demoníacas criaturas tinham mantido a sua distância, sentindo uma óbvia afinidade com o filho de Luris, tanto mais pelo fato de estar a matar os seus inimigos declarados. As suas quitinosas garras estalavam em antecipação, e os desalmados olhos transmitiam alegria que de outra forma lhes seria impossível manifestar ao verem os divaroth caídos aos pés de Seltor. A divaroth que este projetara soergueu-se de braços trêmulos, apoiando uma mão sobre a moluscóide cabeça de um uman e franzindo as plúmeas sobrancelhas com sangue a manchar-lhe de azul os escorridos cabelos brancos.

— Shekelleh laban, Lany’isb...! — imprecou de olhos platinados cheios de justificada cólera antes de perder as forças e tombar.

— Digam o que disserem acerca dos servos de Luris, nenhum é mais obstinado que os de Sirul — comentou Seltor, erguendo a cabeça ligeiramente inclinada para o lado. — Não achas, Assana?

Espojada sobre o seu trono, e embora parecesse sedada, a deusa do amor não deixava de ser um festim para os olhos de qualquer ser, divino ou não, sobretudo por se encontrar na mais negra faceta da sua natureza tripartida, a da inconsiderada sedutora, a maliciosa tentadora caprichosa. Com longos e anelados cabelos ruivos, lânguidos olhos azuis, lábios cheios e rubros contrastantes com a tez branca da sua pele, e um ornadíssimo vestido vermelho generosamente colado às suas formas imaculadas, era a imagem da própria luxúria. Seltor ainda ponderou se a presente forma de Assana seria uma mera conseqüência da fruição dos seus planos ou um ato intencional, pois mesmo sentindo-se seguro e senhor de si, não deixou de experimentar uma sensação de desejo. Porém, a deusa não respondeu, reagindo com a liquidez de alguém embevecido, e não devido a um propositado langor dos movimentos para o seduzir ou induzir em erro.

— Seltor... — disse com voz liíbrica, uma voz capaz de levar um mortal ao êxtase apaixonado, mas que naquele momento o era apenas devido à languidez que lhe molificava os membros. — Por que... por que estás a fazer isto?

O Flagelo suspirou, abrindo a mão que empunhava a sangrenta Dalshagnar e deixando a Língua Negra dissolver-se nas sombras. Debaixo do intrigado olhar aleivoso dos azigoth escondidos atrás dos pilares e da indolente contemplação de Assana, subiu o estrado com passos metálicos a ecoarem no silencioso sacrário, detendo-se diante da deusa do amor e cobrindo-a com a sua sombra. O trono de Assana não era um sólio que transmitisse autoridade ou que intimidasse através da sua imponência, mas um acúbito de ouro acolchoado, feito para uma pessoa se deitar sobre ele, e fluía com graciosas formas humanas entre as quais um corpo se poderia alojar confortavelmente. A sua postura denotava uma certa lascívia subjacente, de pernas convidativamente abertas, com uma a pender para fora do assento, mas Seltor sabia que tal não passava de um engodo com o intuito de o demover do que quer que planeasse fazer. Sabia também que se devia em parte às conseqüências do seu plano, o que, apesar de já antes o ter visto comprovado, lhe deu uma medida adicional de satisfação.

— Por que... nos estás a matar? — indagou a deusa.

— Acredita, Assana — assegurou-lhe Seltor com um semblante inexpressivo e impassível —, não é nada pessoal. É simplesmente algo que... tem de ser feito.

Com uma careta desagradada de quem se estava a sentir bem e confortável e tinha que se mexer, Assana agarrou-se a um dos braços do recosto do seu acúbito e ergueu o corso com um gemido de protesto, pousando então a mão sobre a negra couraça ensangüentada d’O Flagelo e olhando-o de baixo com lúbricos olhos azuis.

— Não me mates. Eu faço qualquer coisa — disse, e Seltor teve que apelar a toda a sua determinação para lhe resistir, pois os seus membros formigaram de antecipação diante da mera sugestão da deusa do amor.

A faceta negra de Assana era perigosa à sua maneira, mas O Flagelo viera preparado, e pegou-lhe delicadamente na mão de toque entorpecedor cora a sua manopla e afastou-a.

— Não, Assana. Lamento, mas é algo que tem de ser feito.

Os sensuais olhos da divindade esmoreceram então, e esta desfaleceu, sendo segurada por Seltor, que se ajoelhou diante do acúbito para a apoiar e manter perto de si, espraiando parte da sua aveludada capa no chão.

— Acredita que não derivo qualquer prazer disto; não contigo. Porém, posso fazer com que seja... prazenteiro... e indolor para ti.

— Podes...? — indagou Assana, abrindo mais os olhos, desta vez de esperança.

— Posso — assegurou-lhe Seltor, passando-lhe os dedos revestidos de aço negro por trás da nuca, afagando-lhe os anelados cabelos ruivos.

A deusa do amor fitou o Anátema, a face da sua morte, olhando-o diretamente nos olhos negros, e abanou suavemente a cabeça.

— Nós... nunca pensamos... — admitiu. — Apesar do que aconteceu com o Ankhamon... nunca julgamos que fosses tão longe.

— Nem poderiam ter feito coisa alguma a respeito — disse Seltor com uma certa medida de sobranceria. — Foram criados com um único propósito.

— O Pilar... por que envenenaste a fonte?

Seltor sorriu, afagando-lhe os cabelos e deslizando a outra mão pelo braço de Assana para lhe agarrar a dela.

— O meu sangue... o sangue de Luris — explicou. — Sangrei na sombra do Pilar, embora seja um pouco exagerado dizer que «envenenei» a fonte. Como deves ter percebido, a minha intenção era sedar-vos, infundindo-vos com um fluxo adicional de uma das três essências que vos compõem, desequilibrando-vos e deixando-vos vulneráveis.

— Mas porquê...? Nunca interferimos diretamente em nenhuma das guerras... que causaste. Nunca tomamos uma ação concertada... contra ti.

Apesar de saber que tal não era inteiramente verdade, Seltor fechou os olhos e fez que sim com a cabeça, apertando a mão de Assana com um pouco de mais força.

— Eu sei, Assana, eu sei. Pela parte que me toca, lamento que isto tenha que ser assim, mas é um mal necessário, acredites ou não, pela sobrevivência da própria Allaryia.

— O quê...? Mas que dizes...?

Seltor abanou a cabeça e exalou através dos dentes de lábios franzidos para silenciar a deusa, continuando a afagar-lhe os cabelos enquanto o fazia.

— Não te preocupes, isso já não te diz respeito — disse, ache-gando a cara à de Assana e sussurrando-lhe: — Estás pronta?

— Não — admitiu a deusa do amor. — Mas a escolha também não é minha, pois não?

O Flagelo suspirou, fitando Assana durante largos e silenciosos momentos e começando então a aproximar os seus lábios dos dela. Por sua vez, a deusa recuou inicialmente um pouco, acabando contudo por inclinar simplesmente a cabeça para trás, fechar os olhos e deixar a boca entreaberta. O contato entre os dois foi vertiginoso para ambos, sendo que O Flagelo se viu repentinamente inebriado pela doçura e enlevado pelo formigueiro que lhe percorreu novamente os membros, desta feita com força decuplicada. Tal como esperara, Assana iria jogar a sua última cartada, e fá-lo-ia com todo o seu poder para o tentar encantar e dissuadir.

Sem interromper o beijo, que entretanto se tornara sôfrego, Seltor abriu os olhos negros e estes começaram a manar uma penumbra líquida, cujo percurso formou duas sombrias sobrancelhas arqueadas sobre os orbes d’O Flagelo. Assana arquejou e abriu os olhos totalmente pela primeira vez desde que Seltor a vira, obviamente surpresa, e a sombra de Luris jorrou-lhe então pelo corpo adentro, impregnando-a com a essência da própria tetra potestade. A deusa do amor começou a respirar apressadamente através do nariz, ofegando e emitindo arquejos através dos escassos espaços entre os seus lábios e os de Seltor, que os pressionava insistentemente de forma a não interromper o beijo, puxando para si a nuca de Assana. Docemente envenenada pela essência de Luris, a deusa do amor foi-se deixando levar pelo mortal êxtase por ela causado, começando lentamente a descair sobre o seu leito e sendo acompanhada pelos braços d’O Flagelo. A sua respiração começou então a amainar, e as mãos manchadas nas frestas da armadura de Seltor deslizaram por esta abaixo até uma cair sobre o acúbito e a outra para fora dele. Por fim, a nuca de Assana começou a pesar sobre a palma d’O Flagelo, e os lábios da deusa do amor tomaram-se lassos. Seltor apartou os seus com um quase inaudível estalido e a sombra líquida cessou de brotar dos seus olhos quando este os baixou para constatar que a deusa do amor estava morta.

Com um suspiro, Seltor pousou suavemente a cabeça de Assana sobre o acúbito e ergueu-se, sem contudo tirar os olhos da deusa, que mesmo na morte continuava a encantar com a sua impossível beleza. Os lábios d’O Flagelo ainda formigavam, e este passou por eles os dedos revestidos de aço negro da manopla, piscando os olhos e abanando a cabeça para se livrar da sensação de enlevo que nele perdurava. Enquanto o fazia, a pele de Assana começou a luzir como um rubi diante de uma chama, fulgindo de dentro com uma luz carmesim. Embora ainda desconhecesse as verdadeiras conseqüências da seqüela, Seltor já a vira suceder com os outros deuses que matara, e não recuou de surpresa como da primeira vez. A deusa do amor começou então a desincorporar-se diante dos seus olhos, reduzindo pele e roupa a meras partículas luminescentes semelhantes aos suplicantes, em direção dos quais estas subitamente jorraram, dividindo-se no ar em várias ramificações que penetraram nos vários fluxos de suplicantes pelo sacrário fora. Quando a sua fonte se exauriu, a deusa do amor desapareceu por completo, deixando o acúbito vazio, e o fluxo e refluxo de suplicantes foi subitamente interrompido. Quando retomou o seu curso, fê-lo a um ritmo muito mais acelerado, com cada uma das partículas a vibrar de energia divina enquanto fluíam, cada vez mais rápidas, até que, sem qualquer aviso, desapareceram com um estampido e um clarão, aos quais se seguiu a escuridão no sacrário.

O silêncio veio com o negrume, que era apenas amainado pelo fraco brilho das abóbadas e das estátuas, que luziam como pedras em mortiça brasa. Seltor não era estranho à escuridão, e deixou-se estar na mesma posição enquanto olhava para o acúbito vazio, de cabeça baixa e aparentemente meditabundo. Porém, não estava sozinho, e dúzias de olhos amarelados brilharam no escuro, cercando-o aos pés do estrado como uma matilha curiosa, raspando o chão com as suas protuberâncias e espículos quitinosos, e de dentes e garras estalidantes.

— Magnífico, filho de Luris — congratulou-o uma voz chiante, zumbindo de malícia. — Sempre nos questionamos se irias interferir, quando por fim auxiliadas os servos da tua mãe e nossa progenitora. Agora que aqui estás...

Seltor ergueu a cabeça, com a difusa luz vermelha do sacrário a sombrear-lhe os olhos e contornos da face e boca.

— Agora que aqui estás, o Pilar será nosso — continuou a voz, à qual outras anuíram com grunhidos de estalidos intermitentes. — Aniquilaremos de vez os malditos divaroth e uman, e...

— Desapareçam — disse Seltor secamente, virando a cabeça para olhar por cima do ombro. — Ou destruo-vos a todos.

O novo silêncio evidenciou a grande surpresa dos azigoth presentes, entre os quais mesmo os estalidos das suas quitinosas peles cessaram. Premindo os lábios, O Flagelo apartou a sua mão da sua anca, abrindo-a, e sombras começaram a redemoinhar na sua palma, assumindo lentamente a forma de Dalshagnar. Aviso mais claro não foi necessário, e os azigoth bateram prontamente em retirada, debandando para fora do sacrário e vociferando pragas e maldições. Seltor baixou então novamente a mão e as sombras desta jorrantes dissiparam-se, tornando-se porém mais prevalentes no sacrário à medida que o brilho residual do mármore ia esmorecendo. O Flagelo deixou-se ficar um pouco mais na mesma posição, ainda a olhar para o acúbito, até que, com um suspiro final, se desincorporou ele mesmo na penumbra, deixando para trás o pesado silêncio do deicídio e a certeza de que nada mais seria como dantes.

 

Quenestil encontrava-se acocorado no cimo de um barranco com vista para a extensão plana de terra na qual Horavog se situava. Imóvel e meditabundo, de dedos entrelaçados e cotovelos apoiados sobre os joelhos, o eahan mais parecia uma silenciosa gárgula empoleirada e esculpida do próprio basalto da montanha, com o arco a projetar-se do ombro direito e o punho do facalhão saliente da anca oposta, tendo como único sinal de vida a ligeira névoa que lhe manava regularmente das narinas. Semelhante impressão era tanto mais reforçada pelas brumas que revestiam metade da montanha naquele dia escuro e taciturno, unindo-se com o céu, deixando o mundo em redor em tons pretos e brancos e umedecendo os cabelos ruivos de Quenestil, que se lhe colavam à cara. A seu lado, sobre uma molhada rocha basáltica, estavam as placentas daqueles que todos criam ser os seus filhos. Todos menos o próprio alegado pai. Antes de se ter retirado da quinta, a parteira wolhyna viera ter com ele, empunhando ambas as placentas como troféus que o shura esquecera, e grasnando qualquer coisa acerca de filhos e saber. Agtor explicara-lhe que se tratava de uma tradição wolhyna, deixar as placentas dos recém-nascidos expostas à intempérie, para ver que animal se aproximava delas. Segundo os norrenos, o tipo de animal seria determinante para a formação da personalidade da criança, ou pelo menos um forte indicativo dos traços de caráter desta. Quenestil fizera a vontade à mulher, mas não estava particularmente interessado no resultado e já praticamente esquecera as placentas, perdido como estava nas suas conturbadas reflexões. Precisara de fugir da quinta, de encontrar um local silencioso onde pudesse meditar, longe dos olhares expectantes dos eahlan, das caras curiosas dos wolhynos, das insistências de Slayra, da presença dos seus... dos bebes. Ainda não sabia ao certo o que sentir em relação a eles, mal os vira sequer, e tão-pouco se permitira o tempo necessário para pensar muito no assunto, preferindo antes imergir-se na nova sensação que o distraía de outras considerações e que ao mesmo tempo o repugnava. Encontrava-se possuído por um sentimento que não se julgara capaz de nutrir, um sentimento que era de modo geral estranho, se não mesmo desconhecido aos da sua raça.

Sentia rancor. Sentia um furioso ódio para com aqueles que o haviam deixado em semelhante situação, perigando as pessoas com as quais se importava, causando a morte de várias outras e forçando-o a tantas custosas decisões. Os malditos tanarchianos, os traidores desgraçados que tinham vendido a alma a’O Flagelo, os imbecis humanos que se recusavam terminantemente a aprender com o passado, sempre obcecados com a noção de forjarem o seu próprio futuro, independentemente do custo. O seu melhor amigo era humano, havia sido e estava a ser acolhido por humanos na Wolhynia, e Idranil, a sua aldeia, sempre fora um exemplo das possíveis boas relações entre eahan e humanos. Porém, o seu pai sempre o advertira de que nem sempre assim era, que muitos dos seus congêneres eram depredados e explorados pelos Primogênitos, e que os eahan de Idranil se deviam dar por afortunados por terem caído nas boas graças de um seleto grupo de humanos de boa índole, cuja amizade deveriam valorizar e nunca tomar como um dado adquirido. Mais ainda que Alyun, Tanarch mostrara a Quenestil a face mais feia dos humanos, uma face que lhe merecia todo um espectro de emoções que teriam certamente aterrorizado os seus amigos e familiares em Idranil. Quenestil queria que Tanarch pagasse, e que pagasse bem caro pela sua traição e pelas atrocidades cometidas. O seu espírito não era feito de um molde que comportasse semelhantes sentimentos, mas não obstante o shura sentia-os, e sentia-os com uma intensidade tal que a sua postura imota era o perfeito oposto do que lhe ia na alma. Não só, sentia-se como uma forma com uma fratura recém-descoberta, prestes a quebrar devido à insustentável tensão que o fazia tremer por dentro.

A sensação acompanhara-o desde o ataque dos skrimmen, desde que se lançara numa perseguição infrutífera em busca do humano que vira antes do combate. O espírito do volverino rosnara, como sempre o fazia nas alturas em que Quenestil o deixava vir à tona, e o eahan estivera mais que disposto a atacar o desconhecido com unhas e dentes assim que o apanhasse. Tal não acontecera, pois o humano escolhera bem o seu trilho, retirando por uma vereda basáltica e desprovida de resquícios de neve, o que, aliado à escuridão da noite, acabara por desorientar Quenestil, deixando-o furioso e frustrado. O ataque dos skrimmen despertara definitivamente nele o rancor que até então suprimira, ou que pelo menos mal reconhecera, pois o mais semelhante que alguma vez sentira haviam sido os acessos de fúria do volverino. Contudo, nem mesmo esses se comparavam àquilo que sentia, ao ódio vingativo que o levara a meter o nome de Tanarch numa das suas flechas. Já antes sentira algo semelhante, ao combater a Guarda Marcial em Alyun, ao confrontar o druida negro, ao matar violentamente eahanoir para escapar de Jazurrieh, ao defrontar Tannath, mas nada se comparava ao ato de declarar guerra solitária contra toda uma nação. Não só isso, como também se sentia disposto a gastar todas as suas flechas com nomes de skrimmen, caso eles ousassem tocar num só eahlan, caso pusessem em perigo a gente que o acolhera e aos seus.

Fosse como fosse, Quenestil sentia que não devia ser tão rancoroso; ia contra aquilo que o seu pai lhe ensinara, contra a índole da sua raça. Era certo que o caminho que escolhera como shura já por várias vezes lhe permitira explorar os limites da sua raiva e de toda uma série de emoções negativas, embora semelhantes ocasiões nunca tivessem passado de momentos passageiros nos quais para todos os efeitos estivera possuído pelo espírito do seu irmão volverino. Não, aquilo que sentia era algo de novo, tanto mais exacerbado pelos conflitos emocionais causados por Slayra e pelo parto, e vinha acompanhado de um certo receio, receio daquilo que poderia vir a ser levado a fazer. Por sua vez, esse receio apenas alimentava mais a incipiente fúria do eahan, tal como a um animal que já fora demasiado assustado e cujo último recurso era simplesmente morder e espernear cegamente em redor...

O bater de asas despertou Quenestil, cuja cabeça se virou na direção da rocha sobre a qual jaziam as duas placentas, e sobre a qual pousou um corvo. A ave crocitou como se estivesse a cumprimentá-lo, piscando os olhos negros e inclinando a cabeça ora para um lado ora para outro em pequenos movimentos bruscos. Eahan e corvo fitaram-se, separados por duas escurecidas e mirradas placentas, e Quenestil emulou os gestos da ave num momento de empatia animal e de abstração dos seus nefastos pensamentos, inclinando a sua cabeça para o lado e deixando pendentes duas molhadas madeixas de cabelo. O corvo olhou alternadamente para as placentas e para o shura, dando a falsa impressão de estar a fazer cerimônia, e ergueu uma hesitante pata antes de avançar. Vendo que o eahan não se parecia opor, o corvo ainda assim crocitou à laia de pedido de permissão, ruflando as penas úmidas. Quenestil permaneceu imóvel, pingando algumas gotas das pontas das madeixas, e a ave achou então por bem servir-se, posicionando-se diante de uma das placentas com um pulo e debicando-a. Ao ver que nem mesmo esse gesto provocara qualquer reação, debicou a placenta duas outras vezes, fazendo-a saltar como se estivesse viva. Quenestil ainda considerou brevemente o que os seus congêneres diriam de tal aproveitamento daquele que no fundo era um símbolo do sacrifício de uma mãe, mas concluiu que as placentas acabavam enterradas ou atiradas fora de qualquer forma, e que aquela era apenas uma forma ritual de se ver livre delas. Pelo menos não sabia o que fora feito da sua, e o corvo parecia estar a tirar bom proveito daquela...

— Vai ser fiel aos pais e à família, e não terá medo da escuridão — disse uma voz de homem atrás de Quenestil.

O shura descaiu para o lado, tirando o arco do estojo durante o movimento, rebolando, e ergueu-se numa posição acocorada já com uma flecha plantada no fio. O corvo crocitou e espanejou o ar com as asas, afastando-se, mas o alvo de Quenestil deixou-se estar quieto. Era ele, o homem que o avisara do ataque dos skrimmen.

— Tu! — vociferou o eahan, sem baixar o arco.

O indivíduo assentiu, cruzando os tranqüilos braços e encostando o ombro a uma projeção basáltica. Sem a ajuda das sombras da noite e a lua às costas, parecia menos imponente que o que Quenestil se lembrava, e não devia ser mais alto que o eahan, embora tivesse um porte bem mais robusto. Envergava uma grossa pelagem de urso branco sobre uma camisa de cota de malha, com a enorme cabeça do animal sobre o ombro direito e a pata quase amigavelmente pousada sobre o esquerdo, entre as quais se via um grande broche ornado que prendia duas dobras de pele. Um grosso cinto com fíbula embelezada apertava-lhe a basta cintura, e sob esta ainda se via a bainha de uma túnica desbotada debaixo da orla da cota de malha. Usava grossas botas e luvas de pele enfaixadas com tiras de couro, e às costas viam-se o rebordo de um grande escudo redondo e o exótico punho de uma espada, com punho com o feitio de uma pata que terminava num pomo em forma de casco e copos à semelhança de uma cabeça de carneiro com chifres curvos.

— Eu — disse o wolhyno num Glottik falado às cautelas, como quem manejava uma arma à qual estava desabituado. A sua cara era redonda, meio achatada, tinha uma testa larga com a linha do seu liso e encanecido cabelo escuro a recuar, e a sua boca era pouco mais que uma linha horizontal debaixo de um nariz direito. A expressão que ostentava não era propriamente amigável, mas os seus olhos azuis sobre papos e debaixo de sobrancelhas de uni branco níveo possuíam naquele momento um peculiar brilho que não lhe conferia de todo um ar ameaçador.

— Falas... a minha língua? — indagou Quenestil, ainda com a flecha perfeitamente alinhada com a ligeira papada no grosso pescoço do wolhyno.

— Sim — respondeu o homem sucintamente, indiferente à seta. A sua voz era aberta, e não tinha o tom profundo que seria de esperar do seu porte. — Pensava que falavas Hjrutmalv, mas naquela noite vi que não. Há muito tempo que esperava por ti, e pensava que...

— Quem és tu? O que queres? — interrompeu o eahan, soerguendo-se de arco frechado. — Ficas já avisado, esta não é uma boa altura para me aparecer pelas costas e começar a falar em enigmas...

O wolhyno ergueu as mãos e baixou a cara.

— Calma. Não falo Glottik há muito tempo — pediu o homem. — Sou. Ihjseorn, o Urso Branco.

Sem mais nada adiantar, o homem baixou as mãos e fitou Quenestil, aparentemente à espera de uma resposta. O eahan hesitou, aproximando-se uns meros e quase imperceptíveis passos, sempre de arco empunhado, mas o olhar do homem conseguiu de alguma forma fazer com que se sentisse descortês.

— Sou Quenestil... Anthalos.

Ihjseorn emitiu um intrigado som gutural, franzindo as sobrancelhas brancas e inclinando de seguida a cabeça para o lado de olhos semicerrados, como se estivesse a observar o shura mais atentamente.

— Roiden... um eahan? — admirou-se o wolhyno. — Isto é... uma surpresa.

— Uma surpresa porquê? — quis Quenestil saber, fazendo um gesto brusco com o arco frechado. — Já estou farto de ouvir pessoas a falarem de mim como... como se eu representasse alguma coisa para elas!

— Bpljr un yld...

— E que conversa é essa do «fogo», afinal? Falam sempre do fogo quando eu estou por perto! O que é que isso tem que ver comigo?

Ihjseorn semicerrou os intrigados olhos, acenando com a cabeça como se algo lhe tivesse sido confirmado.

— Fala! — instou o eahan, hostil. — Faia, ou eu...!

— Os skrimmen não te... preocupam? — contrapôs o wolhyno.

— Que sabes tu dos skrimmen? Que têm eles a ver com o fogo? És um deles?

— Eu? Não, não... — negou Ihjseorn, abanando as mãos diante da cintura. — Mas conheço-os bem. Posso ajudar-te contra eles.

Foi a vez de Quenestil semicerrar os olhos, os seus plenos de desconfiança, mas o wolhyno não pareceu afetado.

— Eles são uma... ameaça para ti, não são? Para ti e para as pessoas que vieram contigo.

— E tu, não és?

O humano formou uma linha quase perfeitamente oblíqua com o seu sorriso.

— Tu não sabes muito sobre os Fiordes dos Piratas, pois não?

— É assim que se chama este lugar? Pensava que estávamos na Wolhynia...

— Ah, sabes um pouco — disse Ihjseorn de forma quase condescendente, cobrindo então a área em redor com um abrangente gesto do braço. — Estamos no extremo norte da Wolhynia, mas as pessoas não vêem os Fiordes como parte dela. Os Fiordes são mais... uma prisão para wolhynos. E os skrimmen que viviam aqui antes não gostam de nós.

Por mais que tentasse, Quenestil não se conseguia lembrar de qualquer referência a semelhante lugar. Não que se tivesse dedicado com particular afinco ao estudo da história da Wolhynia de qualquer forma...

— Os skrimmen tentaram sempre expulsar os wolhynos dos Fiordes, e Horavog não é uma quinta forte. A norte daqui — Ihjseorn apontou com o braço esquerdo na referida direção, além da montanha sobre as suas cabeças —, os skrimmen preparam-se para atacar.

— O quê?

— Um grupo de caça. Têm ulkatr e... a kuvamora deles vem... à cabeça.

«Mais nomes não...», gemeu Quenestil para dentro. — Quem?

— A kuvamora, a... mãe da manada. Da tribo.

Ihjseorn parecia dar grande importância ao título, mas Quenestil não fazia a mínima idéia de como se deveria sentir diante da sua menção, e o wolhyno pareceu reparar no seu alheamento.

— Significa que não vêm por ovelhas — explicou. — Vêm matar a alcatéia de lobos. Vêm matar os seus inimigos.

— Calma aí — pediu o shura, abanando a cabeça. — Estou farto que me venham contar as suas histórias e as das suas terras e depois olhem para mim como se fosse minha obrigação fazer algo a respeito. Isto...

— Podes baixar o arco — interrompeu Ihjseorn, indicando a arma com o dedo. — Não te vou fazer mal.

Quenestil não parecia estar com grande vontade de o fazer, embora o homem tivesse até então dado tudo menos mostras de qualquer hostilidade. Já as suas verdadeiras intenções eram um assunto totalmente diferente, e parte da razão pela qual o eahan hesitou em baixar o arco, embora acabasse por o fazer de qualquer forma. Ihjseorn era uma ameaça credível, mas o seu tom de voz fez com que o shura sentisse que talvez estivesse a exagerar um pouco, levando-o a enfiar a flecha novamente na aljava.

— O que é que queres de mim? — quis Quenestil saber, já com a voz menos agitada e com o arco na horizontal.

Ihjseorn ergueu uma sobrancelha branca.

— Por que pensas que eu quero alguma coisa de ti?

— Aqui, toda a gente parece querer.

O wolhyno não percebeu, mas captou o suficiente do tom de voz do eahan para ter uma idéia do que este quereria verdadeiramente dizer, e sorriu um novo sorriso oblíquo.

— Quando o sol se levantar amanhã, traz homens com armas. Sai da quinta e vai pela estrada para Oeste. Quando vires a... a... — Ihjseorn fez um V com ambas as mãos. — Quando vires isto na montanha, sobe pela direita. Depois desce até chegarem à água quente. Eu estou lá à vossa espera.

— O quê? Mas por que é que eu havia de...

— Não façam fogo, e tragam comida para dois dias. Ah, e não digas o meu nome. Diz só aos homens que sabes onde os skrimmen estão, e que queres proteger Horavog.

— Alto lá — disse Quenestil, avançando um passo e apontando um indicador da mão livre a Ihjseorn. — Eu não te conheço. Não sei quem és, não sei quem ninguém é aqui, e mal percebo o que se está a passar nesta terra. Agora queres que eu arranje homens armados e vá caçar esses skrimmen?

— O que eu disse é verdade — afirmou Ihjseorn despreocupadamente. — Os skrimmen vêm a Horavog, e querem matar todos na quinta. Tu e as pessoas que vieram contigo vão ficar na quinta, não vão? Nasceram duas crianças.

As duas placentas para as quais o wolhyno apontou reforçavam o que dizia, embora não com tanto peso quanto Ihjseorn esperara.

— Vão ter de ficar em Horavog — afirmou, alheio aos pensamentos do eahan. — E os skrimmen vão atacar Horavog. Não sou eu que quero uma coisa de ti. Tu é que deves querer alguma coisa de mim.

— Eu? — duvidou Quenestil.

— Sim. Deves querer que eu te ajude. E eu vou ajudar-te. Com a minha ajuda, os skrimmen não vão magoar as pessoas que vieram contigo, não vão magoar ninguém em Horavog.

— Porquê? — inquiriu o eahan prosaicamente.

Ihjseorn. sorriu, e então olhou para trás de Quenestil, erguendo o queixo redondo como para indicar que este devia fazer o mesmo. Hesitando de início, o shura acabou por olhar por cima do ombro, mantendo um olho no wolhyno.

— Não vejo nada.

Ihjseorn indicou-lhe que olhasse por cima do ombro direito, e ao fazê-lo, lobrigando mais atentamente através da névoa, Quenestil viu que três homens se aproximavam de Horavog vindos do trilho nordeste. Àquela distância e com tais condições de visibilidade era-lhe impossível distinguir detalhes, mas os três pareciam avançar com um propósito que não lhe transmitiu qualquer confiança.

— São homens de Dal-unn-Soid, da quinta de Skolsvein — informou o wolhyno. — Devias ver o que eles querem.

Quenestil virou-se novamente para Ihjseorn, dando mostras da sua frustração através dos dentes cerrados, aos quais o humano se mostrou indiferente.

— Ainda tens que me responder a algumas perguntas. Não penses que...

— Em dois dias posso dar-te respostas, mas agora deves ver o que os três querem. Pode ser importante para Horavog.

Indeciso, o shura olhou revezadamente para Ihjseorn e para os três homens, que naquele momento se detinham diante de uma das estacas que Oska mandara erguer com as cabeças dos ulkatr. Um deles parecia estar armado.

«Que os azigoth os levem a todos», praguejou. «Vou ser o joguete de toda a gente aqui?»

Enfiando o arco ocarr no estojo, Quenestil recuou alguns passos na direção da ladeira e apontou um acusador dedo da mão livre a Ihjseorn.

— Vais responder às minhas perguntas — enfatizou. — Eu não vou fazer nada sem saber o que se está verdadeiramente a passar.

— Dois dias — limitou-se Ihjseorn a dizer, erguendo um igual número de grossos dedos enluvados.

O eahan comprimiu os lábios, mas nada mais disse, e virou as costas ao wolhyno para começar a descer a ladeira na direção da quinta.

— Quenestil — ouviu atrás de si, virando-se de lado para olhar por cima do ombro.

Ao ver a placenta singrar contra a sua cara, deu o resto da volta e agarrou o visceral projétil com ambas as mãos, derrapando ligeiramente pelo escabroso basalto com a perna que levara atrás. Assim que recuperou do sobressalto, Quenestil fitou Ihjseorn como se este o tivesse atacado, mas o imperturbável wolhyno apenas sorriu o seu sorriso oblíquo.

— Não queres saber como o teu outro filho vai ser? — perguntou, indicando posteriormente com o polegar a placenta que ficara para trás. — É... menino ou menina?

Quenestil ainda fitou o humano durante alguns instantes adicionais com a boca entreaberta, recuando a passos lentos enquanto o fazia, mas nada mais disse e tornou a virar-lhe as costas, estugando o passo da sua descida sem olhar novamente para trás.

— Nem sei — disse, mais para si que para Ihjseorn.

Descida a superfície mais íngreme, Quenestil correu pelo nivelamento da montanha fora, pois a superfície rugosa dos pés desta obstruía-lhe a vista da quinta. Os do eahan trituravam aceleradamente o trilho basáltico que percorria, escorregando ocasionalmente numa mancha de neve seca ou sendo amortecidos por uma de musgo fofo. Quenestil já estava razoavelmente familiarizado com o terreno em redor, tendo tido ocasião de o estudar durante os seus retiros esporádicos de Horavog, e sabia qual a rota mais adequada a tomar para chegar o mais depressa possível à quinta. Enquanto descera a vertente observara os três homens a aproximarem-se, e vira alguém sair do edifício principal da quinta um pouco antes de a sua vista ser obstruída pelos pés da montanha. Ainda ponderara esperar e ficar a observar, mas rapidamente chegara à conclusão de que preferia estar por perto caso houvesse problemas em vez de ficar à espera que algo acontecesse à distância. Já descera abaixo do nível da neblina, mas os jorros de vapor que lhe saíam da boca enquanto corria ameaçavam criar outra, expelidos pela dor que lhe queimava as pernas ainda feridas. Ficara apenas apreensivo quando Ihjseorn lhe indicara os três desconhecidos, não os reconhecendo propriamente como uma ameaça, mas à medida que descera fora congeminando mais e mais negras possibilidades. Os eahlan encontravam-se lá em baixo, e Quenestil jurara protegê-los, jurara pela sua vida quando do nobre sacrifício do Castelão Aedreth. Os próprios habitantes da quinta... podia desconhecer os seus motivos, mas estava indubitavelmente em dívida para com eles. E Slayra, e os... bebês.

Sentindo-se preso e manipulado, Quenestil rosnou e conseguiu estugar mais ainda o passo, meio a fugir dos seus pensamentos, meio a correr para saber quais as verdadeiras intenções dos três desconhecidos. Ao chegar à beira do pequeno barranco além do qual se estendia o prado da quinta, Quenestil achou que talvez fosse avisado não se revelar logo de início e agachou-se, rastejando até à borda para observar. Os três homens que vira do cimo da montanha dialogavam com o indivíduo de cabelos brancos e o de barba ruiva que o costumava acompanhar, cujos nomes Quenestil não fixara ou simplesmente não chegara a saber. Os outros três eram altos, todos com longos cabelos louros e porte de guerreiros, ou pelo menos confiantes. Trajavam roupas simples, semelhantes às dos habitantes de Horavog, com algumas peles à mistura, dois deles tinham machados de lenhador ao cinto e o terceiro uma espada embainhada. Tanto o ruivo como o de cabelos brancos vinham desarmados, à exceção da faca ao cinto do segundo, e o ímpeto da discussão parecia provir sobretudo dos visitantes, como se as armas lhes dessem vantagem. A cara do indivíduo de cabelos brancos parecia mais ruborizada que o que era costume, e este apontou repetidas vezes para as cabeças de ulkatr nas estacas, indicando-se de seguida a si mesmo, por pouco não espetando o polegar no peito, e aludindo amiúde ao trilho do qual os três tinham vindo. O vento leve que soprava do mar trazia indistintas palavras exaltadas aos ouvidos do eahan, que não foi capaz de as compreender, mas que percebeu não se tratar de mera conversa de circunstância. Quando o homem dos cabelos de posta de bacalhau desfiada saiu do edifício principal para se juntar aos outros dois, trazendo a mão perto da faca do cinto, notou-se um certo escalar da tensão, esse tanto mais intensificado quando Agtor veio atrás, deixando à porta homens hesitantes que um grupo de mulheres procurava incentivar.

Quenestil rastejou um pouco mais para a frente, arrastando-se pelos cotovelos, e reparou que entretanto a porta do celeiro também se abrira. Era evidentemente Deadan quem espreitava, e o shura temeu que este carregasse porta fora de espadão desembainhado caso visse os três wolhynos como uma ameaça para os eahlan. Felizmente, não foi essa a sua reação, e o jovem limitava-se de momento a observar. Já os wolhynos não davam mostras de tanta moderação, e os ânimos começavam a exaltar-se na forma de gestos cada vez mais bruscos e com cada vez mais vozes a tentarem sobrepor-se umas às outras.

«Não estou a gostar disto», pensou o eahan. Dír-lhe-ia a situação respeito? Deveria ou não interferir?

Agtor tentou mediar a situação, interpondo-se entre os dois grupos, mas foi rudemente empurrado por um dos altos louros, que lhe apontou um dedo e às montanhas em redor, fincando de seguida o que quer que estivesse a dizer com um indicador repetidas vezes apontado ao chão. O homem de cabelos brancos e o da posta de bacalhau não gostaram, manifestando-se efusiva e agressivamente enquanto que o da barba ruiva preferiu manter-se atrás. Foi então que um dos louros puxou do seu machado para fora do cinto, empunhando o longo cabo com ambas as mãos e levando a cunha ligeiramente atrás num gesto claramente ameaçador. Os de Horavog recuaram uns passos e o homem do machado assumiu a dianteira, invectivando-os e pontuando quase cada palavra com um intimidador recuar do machado. Os outros dois mantiveram-se atrás, com as mãos a comicharem perto das suas armas mas aparentemente contentados com a demonstração de força do seu companheiro. Agtor tentou novamente ser a voz da razão, mas contra o machado não parecia haver grande argumento, pois este tornou a cortar qualquer hipótese de diálogo com uma nova simulação de golpe. Foi então que alguns dos homens à entrada do edifício principal ousaram sair, incentivados pelas mulheres, que puxavam e empurravam os mais hesitantes. Deadan deixou a porta do celeiro entreaberta, mas retirou-se para o seu interior com claras intenções. Os outros dois louros crisparam os dedos nos punhos das suas armas, sentindo a iminência de um conflito.

Foi então que uma flecha sibilou, embebendo-se no cabo do machado perto da cunha, e arrancando-o das surpresas mãos do wolhyno que o empunhara. O silêncio caiu sobre Horavog como se tivesse sido ele abatido, e todos olharam para a arma caída no chão, cravada na qual a seta ainda tremia. A reação instintiva da maioria foi olhar de seguida na direção da qual a flecha viera, e todos viram Quenestil à beira do barranco, de arco empunhado e com este numa neutra e relaxada posição horizontal, que contudo dava a entender que havia mais flechas de onde a primeira viera.

— Ekksf — vociferou em Hjrutmalv, lembrando-se da palavra que os seus anfitriões monteses haviam usado para porem as ovelhas a mexer. Porventura não passava de uma interjeição, e seria mais insultuosa que o que pretendia, mas naquele momento não se lembrou de nenhuma outra expressão.

A surpresa estava tão patente nas caras dos de Horavog como nas dos estranhos, e Quenestil achou que talvez devesse ser mais explícito, mas as poucas palavras que aprendera teimavam em ressurgir-lhe. Sem nada dizerem, Agtor e os outros recuaram alguns respeitosos passos com olhares plenos de significado dirigidos aos três, dando a entender que lhe entregavam a situação em mãos. O trio manteve-se surpreso e, para bem ou para mal, não esboçou qualquer reação. O eahan fisgou então outra flecha, aprestou o arco e puxou o fio bem para trás, o que fez com que os wolhynos se encolhessem reflexivamente, mas não disparou.

— Irem, ou matarem! — bradou, cerrando os olhos de seguida e inclinando a cabeça para o lado com um palavrão ao aperceber-se de que se enganara na palavra.

Porém, o verdadeiro significado da sua ameaça não se perdeu, e a reta pose de caçador que o shura mantinha com o arco frechado não deixava grande margem para dúvidas. Um dos louros baixou-se para pegar no seu machado, deixando a seta nele embebida, e foi o primeiro a recuar. Os outros dois não tardaram a segui-lo, conservando as mãos futilmente próximas das suas armas e lançando os ocasionais olhares de advertência aos homens de Horavog mama tentativa de manterem a face numa situação pouco digna. Estes por sua vez nada disseram, e notava-se que se estavam a coibir de se gabarem, por muito patente que neles estivesse uma gabarola satisfação com o desfecho. Os três louros apenas ousaram virar as costas quando passaram pela estaca com a cabeça do ulkatr, altura na qual apontaram para a quinta e disseram umas últimas palavras antes de se porem definitivamente a caminho. Quenestil manteve os wolhynos debaixo da sua mira mesmo quando estes ficaram fora de alcance, baixando apenas o arco a partir do momento em que os três se encontravam à distância de dois tiros. Vendo que as gentes de Horavog o fitavam, desceu pelo barranco e dirigiu-se a eles, reparando a meio caminho que os três louros se haviam detido e que observavam do trilho. Quenestil ainda ponderou a hipótese de os enxotar, mas como não sabia ao certo o que estava a acontecer achou por bem não interferir mais antes de esclarecer algumas coisas.

— Quenestil — saudou Agtor, erguendo a mão assim que o eahan chegou a uma distância que já não requeria um grito para se fazer ouvir. — Leino tiro. És um bom frecheiro.

— Eram homens de... Skoísvein? — inquiriu o eahan retoricamente.

— Eles? Sim — disse Agtor, admirado por Quenestil saber. — São os três sobrinhos de Skoísvein, Aggor, Hyrm e Hjolld, os piores rabazes de Dal-unn-Soid.

— O que queriam? — perguntou, ignorando os olhares estranhamente admirados dos restantes presentes enquanto enfiava o arco no estojo e constatava que os três louros continuavam a observar do trilho.

Agtor fungou de indignado desdém, coçando a barba castanha.

— Não passam de rifões. Vêm a Horavog rascar conosco, dizem que querem falar com a nossa «senhora arlota» ou com o «seu menino». O tio deles quer a quinta, ou pelo menos as nossas ovelhas, diz que temos tão poucos homens que mais parecemos um arame...

— Um arame?

— Sim, um... — Agtor gesticulou brevemente com as mãos, como se a palavra estivesse a esvoaçar em redor. — Um sítio cora adotas.

— Oh. Vieram pedir ovelhas, então?

— Não — disse Agtor com um gesto de desprezo acenado na direção dos três louros. — Dizem que Oggber Coxo viu kahrkar perto de Horavog. Dizem que Oska fala com eles.

Quenestil não percebeu, mas a palavra suscitou alguns comentários da parte do homem de cabelos brancos, que bufou e abanou a cabeça em sinal de desprezo para com os de Dal-unn-Soid. Os outros dois pareceram concordar, e o eahan suspirou de falta de paciência.

— Primeiro, quem é o Coxo? — exigiu saber, farto de lhe serem atirados nomes estranhos à cara na expectativa de que ainda assim acompanhasse a conversa. — Segundo, o que são kahrkar? ulkatr?

— Nae, nae, ehjken ulkatr — interveio o indivíduo de cabelos brancos, fazendo que não com a cabeça.

— Oggber Coxo é um pastor de uma quinta perto de Dal-unn-SOid. Ele é que diz que viu kahrkar perto de Horavog. Kahrkar são... é uma história longa, Quenestil.

O shura cruzou os braços em sinal de que dispunha de tempo e paciência, mas antes que Agtor pudesse aceder, surgiu Deadan, ainda a coxear dos ferimentos nas suas pernas. Desde o ataque dos skrimmen que retomara o hábito de usar o seu arnês a tempo inteiro, e as rangentes placas de metal eram motivo de grande atenção em Horavog.

— O que se passou aqui, Quenestil Anthalos? — inquiriu com as suas habituais rigidez e incapacidade de relaxar fosse em que situação fosse.

— Nada de grave, Deadan, mas o Agtor ia explicar-me agora os detalhes — disse o eahan, sem descruzar os braços.

O wolhyno olhou para humano e eahan com os seus descaídos olhos azuis, acabando por acenar com a cabeça e virá-la para os seus companheiros. Quenestil não percebeu na íntegra o que lhes disse, mas parecia estar a mandá-los para o interior para informarem Oska do sucedido. Os outros assim fizeram, olhando para o eahan antes de se retirarem, como era costume, e disseram aos que espreitavam da entrada que fizessem o mesmo. Nem todos acederam de imediato, mas Agtor ignorou-os de qualquer forma.

— Os kahrkar são homens perigosos — advertiu com olhos que pareceram crescer, baixando inclusive o tom de voz. — É proibido falar com um, e se uma pessoa for vista com um kahrkr, pode ser castigada.

— De que... — tentou Deadan falar.

— Mas o que são eles? — interrompeu-o Quenestil, fungando e tirando defronte da cara umas madeixas molhadas do seu cabelo.

Agtor puxou o que restava do seu para trás, olhando para o mar plúmbeo como quem buscava inspiração para falar, e abrindo de seguida os braços para açambarcar a área em redor.

— Somos prisioneiros em Horavog — disse, alargando mais os braços. — Em todos os Fiordes, somos prisioneiros. As pessoas que a Wolhynia não queria, expulsaram-nas para aqui, para esta plaga no friasco.

«Devia ter trazido o Allumno comigo...», lamentou-se Quenestil, esforçando-se ao máximo por acompanhar a explicação.

— De início eram só rabazes e assassinos, os que o rei da Wolhynia mandava para os Fiordes. Ficavam a viver aqui, com os lobos, ursos e skrimmen, e se fossem escochados, era esse o seu castigo. Se sobrevivessem, podiam ficar, mas nunca regressar. Depois houve a belona...

— Guerra?

— Sim, a belona. Alguns garáing tentaram ser reis. Não conseguiram, foram escochados, e as suas famílias enviadas para os Fiordes. Depois disso, todos os reis começaram a fazer isso, a enviar as pessoas que queriam para aqui. Algunos eram rabazes também, mas outros eram só pessoas que não tiveram sestro por o rei não gostar deles. Outros...

Como Agtor tardou em dar seguimento, Quenestil ergueu as sobrancelhas ruivas e acenou com a cabeça.

— Outros...?

O wolhyno fitou Quenestil com um olhar intensamente perscrutador, que o eahan não compreendeu mas que retribuiu de qualquer forma.

— Outros, como os kahrkar... eram guerreiros denodados. Serviam os garding, tinham a força de cinco homens, assassinos selvagens que ninguém conseguia controlar. Depois de séculos de terror, por ordem do rei, tiveram que exir da Wolhynia. Os que não quiseram foram escochados, e os outros vieram aqui, para os Fiordes.

— E esse... Coxo diz que viu um aqui?

— Podemos ser prisioneiros nos Fiordes, Quenestil, mas temos as nossas leis. Uma delas é que ninguém pode falar com um kahrkr.

— Kahrkr ou kahrkar? — duvidou o eahan.

— Um kahrkr — explicou Agtor, erguendo um dedo e de seguida todos —, muitos kabrkar.

— Entendo. E o Coxo diz que viu um perto de Horavog. O que é que isso tem de mais?

— Nada. Skolsvein é um chacim, e quer convencer outros garáing que Oska não devia ter Horavog. Ter um kahrkr como oste é um crime, falar com um também. Os kahrkar são como os skrimmen para nós.

Quenestil olhou para o mar e refletiu assim que Agtor se calou. Tudo indicava que Ihjseorn seria o kahrkr que o tal de Coxo vira, embora fisicamente não ostentasse quaisquer evidências de ser algo mais que um mero homem montes. De qualquer maneira, a breve explicação de Agtor não abonava nada a favor do homem, que apesar das suas alegadas boas intenções, aparentemente não passava de um criminoso cuja mera presença era causa para contendas entre vizinhos. Porém, o eahan não podia negar que o seu porte nele inspirara uma certa medida de confiança, uma empatia quase fraternal entre dois homens do ermo. Apesar de todos os segredos que evidentemente guardara, fora mais franco e direto com o shura do que qualquer um dos habitantes de Horavog.

— E de que forma nos diz isto respeito? — indagou Deadan, farto de ser ignorado.

— Skoísvein é um chacim — reiterou Agtor. — Crás todos ouvirão a história que um kahrkr andou em Horavog. Oggber Coxo obedece a Skoísvein, mas não é um tyll dele, por isso a sua palavra é boa. Falar com um kahrkr é um crime, e Aggor e os outros disseram que Oska quer mandar matar um garding com um, provavelmente Skoísvein. Dizem que os ulkatr que nos atacaram foram um castigo dos deuses por termos um kahrkr perto de casa.

— Que irão eles fazer, então? — quis Deadan saber.

— Não sei — admitiu Agtor, encolhendo os ombros. — Mas essa história pode ser má para Oska. Os outros garding não se importam com Horavog, mas se acharem que há kahrkr aqui, podem dar autorização a Skoísvein para... para um amago.

— Dar autorização? Como assim? — perguntou Quenestil, despertando das suas reflexões.

— Como disse, temos leis nos Fiordes. Skoísvein é um garding forte, e os seus homens têm armas, mas não pode atacar Horavog só porque quer. Há regras que devem ser respeitadas.

— Então se os outros garding ficarem convencidos, ele pode atacar Horavog?

— Talvez não atacar, mas pode mandar os seus homens com armas, como Aggor e os outros fizeram hoje. Mas eles vieram só avisar. Se os outros garding apoiarem Skoísvein... tudo pode acontecer.

Quenestil virou as costas a ambos e levou as mãos às ancas, inspirando fundo a brisa que vinha do mar e suspirando. Outro problema. E logo outro problema que, caso as suas suposições estivessem corretas, fora causado por si. Afinal, Ihjseorn aparentava estar em Horavog por sua causa, e se alguém o vira nas ocasiões às quais ele viera para falar, então de certa forma a culpa era do eahan.

«Ou seja, estamos presos nesta quinta, eu, os eahlan, e os... bebês», pensou, suspirando. «E ela não só corre perigo por causa dos skrimmen, se é que é verdade o que o Ihjseorn disse, como agora também há outros wolhynos que a podem atacar.»

O eahan tornou a suspirar, erguendo então o queixo e franzindo os lábios ao olhar para o céu nublado.

«Aewyre... meus amigos. Como gostava que estivessem comigo agora. Convosco aqui...» Abanando a resignada cabeça, Quenestil tornou a olhar para o chão. «Mãe... quando é que as coisas ficaram tão complicadas?»

— Ah — despertou-o Agtor. — Já me ia esquecendo, Quenestil.

— De quê?

— A vossa esposa, Slayra, disse-me que vos pedisse que a fosse ver. Que queria falar.

«Maldição, agora não», escusou-se o shura. — Mais tarde. Agora tenho que falar consigo, Agtor.

— Comigo? — duvidou o wolhyno, levando a interrogadora mão ao peito.

— Sim. Contigo também, Deadan. Tenho... — Quenestil lançou um olhar à montanha da qual descera, questionando-se se Ihjseorn o estaria ou não a observar. — Tenho umas coisas para vos dizer.

Deadan entrou no fumarento e bruxuleantemente iluminado lar de Oska, passando por wolhynos de várias idades que não lhe dirigiram o olhar e mal lhe dirigiram palavra, ocupando-se antes a tecer, coser e esculpir como haviam feito antes da entrada do siruliano. Atrás dele veio Agtor, que se dirigiu prontamente a Oska, sentada no seu lugar habitual com o indolente gato felpudo ao colo. Deadan passou a mancar ligeiramente pela senhora de Horavog, saudando-a com um minimamente cortês nuto da cabeça, e reparou que eram a mulher e a rapariga de longos cabelos louros acocorada aos seus pés as únicas que o olhavam de fato. O Ajuramentado retribuiu a atenção com outro nuto da cabeça, mas a rapariga baixou a dela em vergonha da qual Deadan mal se deu conta, concentrado como estava na iminente tarefa de ter de falar com eahlanas, Eluana e Alisa, mãe e filha encontravam-se num dos bancos elevados, flanqueando a eahanoir, essa deitada numa pilha de mantas e peles com um bebe debaixo de cada braço. O siruliano tossicou ao aproximar-se, embora as três já estivessem cientes da sua presença, o que nada fez para diminuir o seu desconforto.

— Honradas Lasan... — disse, contrito, dispensando apenas um olhar a Slayra para mostrar que reconhecia a sua existência. — Trago-vos notícias...

— O Quenestil? — perguntou Slayra. As exóticas feições da eahanoir estavam cansadas, e as manchas debaixo dos seus olhos davam a entender que não dormira bem nos últimos tempos. Os dois bebês mamavam sofregamente dos seus seios expostos, um ato que por alguma razão deixava o siruliano ainda menos à vontade.

— Não pode vir — disse Deadan a contragosto, sem esconder o seu incomodo por servir como moço de recados. Achava também desprezível o fato de terem que ser as eahlanas a acompanharem-na durante a sua estadia no edifício principal. Claro que estas haviam feito questão, mas apenas porque Quenestil Anthalos não a fora acompanhar por sua própria vontade.

A consternação estava patente na face de Slayra, e Eluana afagou-lhe os cabelos negros com carinho, olhando com ar triste para o siruliano. Era essa a única forma que teria de o repreender, pois o Ajuramentado não acreditava que eahlan fossem capazes de franzir os seus serenos semblantes em qualquer semelhança de ira ou mesmo indignação.

— Agtor falou com ele, Deadan? — perguntou a esposa do Patriarca na sua maviosa voz, amena como o pacato lamber da corrente de um rio numa curva suave.

— Sim, mas Quenestil Anthalos não pode vir. Não agora — explicou Deadan, contrariado. Já lhe era difícil falar com as eahlanas, quanto mais ter que se imiscuir naquela que não via como mais que uma disputa amorosa. Era-lhe algo estranho que não fazia parte das suas vivências e formação, e com o qual não se desejava envolver, mas não podia simplesmente ignorar as palavras de Eluana.

— Ele ainda mal viu os seus filhos... — disse Alisa, olhando com compadecida ternura para as pequenas cabeças avermelhadas que chuchavam de olhos fechados. A filha mais nova dos Lasan era de uma beleza quase, senão mesmo, desnatural, e Deadan nunca se sentira senhor de si na sua presença, razão pela qual evitava ainda mais olhar para ela que para a sua mãe.

— Por que é que ele não pode vir? — questionou Slayra. O fato de a eahanna negra conviver de igual para igual com as Lasan e ousar falar a par destas incomodava Deadan, mas também não lhe cabia a ele pôr a eahanoir no seu devido lugar, muito menos diante das eahlanas.

— Há algo que ele... que nós temos que fazer — explicou, desagradado com o fato de olhar para Slayra ser a alternativa mais viável naquele momento. O azul-claro dos olhos da eahanoir era infinitamente mais suportável que os serenamente intrusivos orbes azul-escuros das Lasan, mas a plangência patente nestes irritava o Ajuramentado.

— O quê, Deadan? — perguntou Eluana, tocando ao de leve a manopla do jovem com os seus dedos, o que precipitou uma reação de choque no jovem, que arrancou o braço da sua posição como se tivesse sido queimado.

— Perdão... — pediu Deadan, tão constrangido que julgava que o sangue lhe iria começar a escorrer pelos ouvidos fora, mas ainda assim conseguiu fitar a esposa do Patriarca para que o seu pedido de desculpas tivesse algum significado. — A quinta encontra-se ameaçada. Quenestil Anthalos e eu iremos com alguns homens assegurar-nos de que não mais correreis perigo.

— Ameaçada? — sobressaltou-se Alisa. — Por quem?

Algo no tom de voz da jovem eahlana despertou o siruliano para o seu verdadeiro propósito, permitindo-lhe pôr de parte os seus pudores e acanhamentos e mesmo olhar de frente para Alisa.

— Uma tribo local. Mas nada temeis. Enquanto eu for vivo, nada vos perigará.

Deadan falava mortalmente a sério, mas ainda assim sentiu-se algo tolo a proferir semelhante jura diante de seres tão pacíficos e avessos à violência como as eahlanas. Felizmente, a conversa que Agtor teve com Oska pareceu estimular um pequeno levantamento entre os presentes, o que providenciou ao siruliano a tão necessária distração para que se pudesse escapulir.

— Devo retirar-me agora, honradas Lasan — disse, olhando por cima de ambos os ombros antes de enfiar a mão pelo colarinho adentro e dele retirar um saquete preso ao seu pescoço por uma tira de couro. — Tenho... algo para vós.

As duas eahlanas tinham os olhos fixos no saquete do siruliano, que pousou um pé em cima do banco elevado e se curvou para se aproximar mais de ambas, por muito desconfortável que semelhante proximidade lhe fosse. De cotovelo apoiado sobre o joelho, Deadan sacudiu ligeiramente o saquete.

— Isto é... são folhas de teixo secas e pulverizadas. Veneno — disse Deadan, pigarreando e olhando novamente por cima dos ombros, constatando que os wolhynos estavam demasiado ocupados com o que Agtor lhes estava a dizer.

— Veneno, Deadan? — disse Eluana, franzindo as delicadas sobrancelhas prateadas.

— Eu... — tossicou Deadan, olhando para baixo e erguendo novamente a cabeça a custo, crispando os dedos no saquete. — Eu juro-vos, honradas Lasan, que lutarei até ao último fôlego, até à minha última gota de sangue. Juro-o pelos preceitos e pelos meus camaradas mortos. Mas...

Era evidente que as palavras saíam a custo do jovem Ajuramentado, e Eluana pousou uma compreensiva mão sobre a sua espaldeira, acenando lentamente com a cabeça. Nem mesmo o aço o pôde resguardar dos efeitos do toque da eahlana, e os músculos do braço de Deadan retesaram-se, embora este conseguisse não recuar como da outra vez.

— Caso o impensável aconteça, e eu não estiver aqui para vos proteger... — O siruliano tossicou, e a sua testa começava a reluzir. Cerrando os dentes e desviando o olhar, Deadan arrancou o saquete do seu pescoço, estendendo o braço em oferenda. — Peço-vos... peço-vos que tomeis isto... antes que algo vos possa acontecer.

A agitação era agora grande dentro do edifício, o que poupou o Ajuramentado ao desconfortável silêncio que se seguiu, durante o qual o seu braço ficou esticado com o saquete a pender-lhe do punho cerrado. Eluana e Alisa trocaram olhares uma com a outra e com Slayra, que estava tão surpresa quanto as duas, até que a velha eahlana fez a vontade ao siruliano e aceitou a sua oferta.

— Deadan, obrigada, mas nós...

— Não tenho o direito de vos exigir nada — interrompeu-a o jovem, surpreendendo-se a si mesmo ao voltar a fitá-la. — Nem a presunção de me achar sabedor do que deve ser feito, mas... peço-vos.

Deadan ergueu ambas as mãos, quase em súplica.

— Ficai com esse saquete. Usai-o se achardes necessário... Mais não posso fazer, nem exigir de vós.

— Mas... — disse Eluana, olhando para o veneno ensacado que tinha em mãos. — O que vão vocês...

— Perdoai-me, mas Quenestil Anthalos foi falar com o vosso esposo, o Patriarca, e esperam-me — escusou-se o Ajuramentado, endireitando-se e despedindo-se com uma curta vênia, após a qual virou as costas e deu um largo passo na direção da porta.

— Deadan.

Era a voz da eahanoir atrás de si, mas o jovem optou por ignorá-la.

— Deadan!

Contrafeito, Deadan deteve-se, e olhou por cima do ombro para não ter que fitar novamente Eluana e Alisa, em cujas mãos a eahanoir apoiava os cotovelos para erguer ligeiramente o torso.

— Diz ao Quenestil que eu preciso de falar com ele. Por favor.

— Dir-lhe-ei — afirmou o jovem, fazendo que sim com a cabeça. — Mas mais não posso fazer.

Retirando-se da sala a acerados passos marciais, Deadan deixou então as três eahannas para trás, abstraindo-se de tudo em seu redor até sair porta fora. Slayra estava inconsolável, e mal ouviu as palavras de conforto de Eluana e Alisa enquanto estas a ajudavam a deitar-se novamente, tendo o cuidado de não perturbarem os bebês. Estes, perfeitamente alheios à questão de paternidade que se lhes punha, continuavam a mamar descansados, dois focos de calmaria no buliçoso interior, duas almas pacíficas num ambiente que lentamente ameaçava tornar-se hostil.

 

Uma chuva torrencial abatia-se sobre o burgo fronteiriço de Arle, um autêntico dilúvio que sobrepujara as represas naturais de sedimentos causadas por cheias no furioso rio Olyf, testando quase até aos limites a força dos diques da cidade. Arle vivia em grande parte em função dos humores do rio, que lhe conferia o estatuto de porta de entrada e saída para Nolwyn, sobretudo durante o Inverno, quando o degelo e a chuva causavam furiosas e periódicas torrentes que o tornavam impossível de atravessar a não ser através da ponte que partia da cidade laonesa. Era uma altiva obra arquitetônica, com cinco arcos com um talha-mar em cada sustentáculo e três torres ao longo do seu comprimento, duas das quais com barbacãs imponentes o suficiente para barrarem a passagem de um exército. O pedágio requerido para a atravessar era uma importante fonte de rendimentos para o barão de Arle, bem como a pesca e a agricultura dos domínios da região, esta última nutrida pela rede de canais que originavam do sistema de diques da cidade. O Brejo dos Patos a Oeste era em grande parte responsável pela fertilidade das terras adjacentes à cidade, pois estas haviam-lhe sido ganhas através de um longo processo de drenagem ao longo dos anos através das famosas cócleas laonesas, instrumentos cilíndricos com parafusos de madeira no seu interior que drenavam água de forma particularmente eficiente.

Arle situava-se na zona mais plana de um extenso convale entre duas séries de colinas, subjacente a um outeiro com a vertente sul delineada pelo rio, sobre o qual residia o castelo do barão Savincar. O burgo espalhava-se em redor deste, delimitado a Sul pelo rio e de resto pela muralha com torres albarrãs de topos cônicos. Havia pouco tráfego nos três portões ao longo da muralha, tendo em conta o tempo, e os dois guardas de chapéus de ferro com abas e capotes de lona no portão norte observaram desinteressadamente a chegada de dois homens e uma mulher, segurando as alabardas perto dos seus corpos para não exporem demasiado os braços à chuva. Os três envergavam grossas capas com capuzes, mas estas estavam ensopadas e quem as vestia não devia estar muito melhor. Um deles parecia estar doente, pois andava de muletas e mantinha a cabeça baixa, e a mulher trazia ao colo algo com uma manta por cima, provavelmente uma criança, a julgar pela forma como a segurava. O da dianteira era o mais carregado, trazendo às costas uma pesada mochila, cobertores enrolados e uma série de outros objetos cobertos, mas mesmo a mulher e o das muletas vinham com carga às costas.

— Abàrraem, viaqueijom — gritou um dos guardas, e uma mão enluvada surgiu da fresta entre as duas dobras do seu capote, mandando-os parar. As duas sentinelas mantinham-se encostadas ao portão fechado e ao lado da porta lateral deste, mas a chuva caía na diagonal e o abrigo era escasso.

— Gim eller — saudou Aewyre, erguendo a cabeça e falando alto o suficiente para se sobrepor à chuva. Rapara a barba, caminhava curvado e esforçara-se genuinamente por aprender um mínimo de Lloranc de forma a não corresponder à descrição que o estafeta Augiol certamente dele fizera.

— Dond fotão? — questionou o guarda. Na fronteira entre Laone e Nolwyn falava-se um dialeto chamado Leriat, que era minimamente inteligível para os falantes de ambas as nações, mas ainda assim Aewyre preferiu deixar Layaline falar.

— Dâs draregs nt nonts garrai — disse a rapariga, relatando de seguida a história que Aewyre inventara, segundo a qual eram humildes camponeses que haviam sido atacados por drahregs, aproveitando-se dos rumores que os seus anfitriões lhe tinham relatado.

Os guardas ouviram-na impávidos, com pequenos rios a escorrerem pelas pregas dos seus capotes e os pingos a tamborilarem-lhes nas abas dos chapéus de ferro, deslizando pelas orlas até pingarem de um desnível ou de um entalhe. Não tinham caras particularmente inteligentes, especialmente o que os mandara parar, esse com olhos de pálpebras cansadas, restolho irregular de barba, um nariz grande e uma boca entreaberta e quase côncava sobre um queixo quase inexistente, o que dava a ilusão de um espaço uniforme entre o nariz e a garganta. O outro era mais baixo e tinha uma cara perfeitamente redonda, que ia inclinando de um lado para o outro enquanto ouvia o relato de Layaline. A rapariga entrou em detalhes, destapando Làriana ligeiramente para que esta exibisse a cara doente que andara a praticar nos últimos dias, e apontando para Kror, cujas ligaduras davam sempre azo às mais grotescas descrições de horrendas queimaduras sofridas, neste caso por ferros em brasa empunhados por drahregs sádicos, que além do mais lhe haviam surrado cruelmente a perna. Aewyre ia fazendo que sim com a cabeça, abanando-a ao olhar ocasionalmente para o céu de palmas viradas para este num gesto de consternação, piscando os olhos com os grossos pingos que o atingiam. Enquanto Layaline falava, o guarda baixo pareceu lembrar-se de algo, encostou a alabarda ao portão e remexeu no interior do seu capote, retirando um pergaminho que leu debaixo de uma prega erguida pelo braço, olhando revezadamente para os estranhos enquanto o fazia. Aewyre reparou e deduziu que se tratava de uma descrição sua, tentando fingir-se distraído e afetando a pose mais humilde que o seu porte lhe permitia.

— Drrõuldurr vorr gnágã ouan vorr hã dlapã — disse a ninguém em particular, indicando a cabeça com o indicador e cometendo atrocidades com a língua que felizmente passaram despercebidas a meio da chuva.

Ainda assim, Layaline forçou-se a tossir para disfarçar a sua risada, tapando Làriana um pouco melhor à medida que ia explicando que a única pessoa na sua aldeia capaz de prestar cuidados médicos era uma parteira, e que por isso pretendiam visitar um boticário na cidade para tratar dos ferimentos do seu «irmão» ferido. Aewyre tartamudeou algo com ar consternado, conseguindo mesmo pousar a mão no ombro de Kror sem que o «tendão» disparasse. O músculo do drahreg entesou-se, mas a sua reação não foi além disso e este manteve a cabeça baixa, oscilando de um lado para o outro, pendurado nas muletas improvisadas à machadada pelo camponês que os alojara. Layaline continuou o seu choradinho e o guarda alto olhou para o seu companheiro, que tornou a enrolar o pergaminho e o recolheu para dentro do capote, fazendo que não com a cabeça.

— Trai moneds d!búrsk — disse o alto, erguendo novamente a mão das profundezas do seu capote para silenciar Layaline e mostrando três dedos.

Aewyre desembolsou prontamente uma moeda de prata e avançou para a pôr na mão da sentinela, fazendo-se exageradamente agradecido e indicando-lhe que deveria ficar com o troco. O homem olhou para Aewyre e para a moeda, e acabou por baixar aprovadoramente os cantos da boca.

— Dérriengum — disse, sinalizando-lhes que avançassem.

— Mania — agradeceu Layaline, baixando a cabeça e tomando a dianteira, segurando a nuca coberta de Làriana com a mão enquanto avançava.

Aewyre pegou em Kror pelo braço e conduziu-o contra a vontade deste até ao portão lateral, agraciando ambos os guardas com um largo sorriso. Assim que se encontraram debaixo do arco, o drahreg desvencilhou-se com uma rosnadela da qual o jovem não fez caso, limitando-se a suspirar interiormente de alívio. Estava a arriscar bastante ao vir para Arle, mas não tinha grandes alternativas a não ser ir para Oeste e seguir pela Sathmara e pela Benelgia, o que levaria demasiado tempo, ou atravessar o Brejo dos Patos, uma idéia rapidamente descartada pelas memórias de Moorenglade. Estava simplesmente fora de questão lançar-se em aventuras de maior com uma mulher, uma criança e um drahreg coxo sob a sua alçada.

— E agora, Aewyre? — perguntou Layaline à beira do arco, parecendo pouco disposta a expor-se novamente às bátegas que se abatiam no piso além deste.

— Não digas o meu nome! — sibilou o guerreiro, arregalando os olhos e falando de dentes cerrados.

Layaline encolheu-se, enterrando a boca na lona que cobria a sua filha, e fitou Aewyre com grandes olhos apologéticos.

— Desculpa. Esqueci-me.

— Então? Por onde vamos? — perguntou também Kror, indicando com a muleta as várias vias que se lhes apresentavam entre o primeiro lanço de habitações.

— Não sei, mas não podemos ficar aqui — disse o guerreiro, empinando ligeiramente a cabeça como para indicar os guardas nas suas costas. — Ainda desconfiam de nós.

Os três ouviram a vozinha de Làriana que, abafada pela manta que a tapava, fez uma pergunta. Layaline pegou na protuberância que devia ser a cabeça e beijou-lha, sussurrando-lhe palavras aquietadoras. Aewyre afagou arrependidamente o braço da rapariga e olhou para as ruas escuras e enevoadas pela aspersão da chuva.

— Temos de ir. Uma daquelas ruas há de dar à ponte. Assim que a atravessarmos, estamos seguros. Depois prometo que dormimos numa estalagem fora da cidade, está bem?

Layaline acenou com a cabeça e Kror encostou-se e às muletas à parede para sacudir os braços, lembrando-se inclusive de se apoiar sobretudo na perna boa. Aewyre viu-se forçado a admitir que o drahreg tinha um certo jeito para o subterfúgio, com olho para os pormenores, o que até nem era grande surpresa, tendo em conta as suas aventuras pela Latvonia afora.

— Vamos — disse, puxando o ensopado capuz para a frente e tomando novamente a dianteira do díspar grupo.

Não havia vivalma nas ruas, e as adufas das janelas que as tinham estavam invariavelmente cerradas. Os bueiros das paredes choravam, o adobe das empenas inclinadas dos tetos plangia, e o torrencial pranto escorria em pequenos rios pelas calhas do pavimento fora. Aewyre não iria guardar grandes impressões da sua primeira visita a Arle, pois manteve a cabeça baixa enquanto caminhavam pelas ruas e travessas, erguendo-a apenas ocasionalmente numa fútil tentativa de se orientar. Kror arrastava-se ritmicamente com as muletas, e tudo o que se via da sua cara era o seu nariz adunco enfaixado a pingar e a boca a arreganhar os lábios, expondo dentes afiados. Os últimos dois dias haviam-lhe sido custosos, pois a sua perna estava desabituada de tanto esforço, ainda que com muletas, mas pesava em seu favor o fato de não se ter queixado uma única vez. Layaline não fora menos valente, tanto ela como a sua filha, e apesar das horrendas condições nas quais tinham viajado, Aewyre não ouvira um único queixume da sua parte. Era certo que as advertira e desaconselhara, mas ainda assim o guerreiro não pôde deixar de se sentir algo culpado por estar a sujeitar mãe e filha a tamanha provação. A força da chuva era tal que fazia as insígnias dos estabelecimentos oscilar, e Aewyre enfiou a cabeça pela porta de vários adentro, perguntando pela ponte aos proprietários. As direções providenciadas eram relativamente consistentes assim que decifradas, e os quatro foram progredindo pelos alagados arruamentos de Arle, alguns dos quais provaram ser autênticas cataratas à mínima inclinação. Estas tornaram-se uma constante a partir do momento em que o grupo começou a descer para a baixa, onde Aewyre deduziu que a ponte certamente se encontraria. Layaline escorregou uma vez, caindo com Làriana ao chão e sujando-se mais do que se molhou, pois já estava encharcada de qualquer forma. Aewyre também caiu e apenas Kror evitou sujar-se, usando as muletas como suporte sem se fiar completamente nelas para se equilibrar.

— Onde é a ponte, Ae... eh... — virou Layaline a cara para lhe perguntar.

— Chama-me Aeren. Aeren. Já não deve estar longe — respondeu o jovem, constatando que o piso começava a nivelar.

— A Làriana...

— Eu sei, eu sei. — Aewyre estendeu a mão para afagar a protuberância na manta que devia ser a cabeça da criança. — Paramos num sítio seco fora da cidade, prometo. Eu também estou cansado, acredita.

Era verdade. Os dois últimos dois dias não tinham sido fáceis para nenhum dos quatro, fisicamente extenuantes e animicamente desgastantes, com a chuva a fustigar os seus corpos e a erodir-lhes a determinação. Mesmo Aewyre, que não tinha a perna magoada nem uma criança a levar ao colo, sentia os próprios ossos cansados, doridos e molhados. As duas noites passadas numa tenda tão-pouco os haviam restabelecido, e era evidente que precisavam de repouso, mas não se podiam dar ao luxo de o obter em Arle, era demasiado perigoso. Só o estarem ali era arriscado, e Aewyre queria atravessar a ponte quanto antes. Depois disso, até estaria disposto a partilhar uma cama de estalagem com Kror para dormir num local enxuto.

Como se estivesse a atender às necessidades do guerreiro, a ponte surgiu ao passar de uma esquina, borrada e enevoada pela precipitação que se abatia sobre uma grande praça. À primeira vista, em semelhantes condições, mais parecia uma torre com uma barbacã de fazer inveja a algumas fortalezas, mas além dela distinguia-se a escura linha do Olyf a correr furiosamente, bem como os traços indistintos da ponte que o atravessava. A estrutura era antecedida por uma praça calcetada cuja circunferência consistia numa série de lanços de edifícios com estabelecimentos no rés-do-chão, boa parte dos quais tinha as portadas horizontais fechadas, sendo que as abertas serviam de alpendres para o surpreendente número de pessoas que ali se viam. Homens, mulheres e animais de carga encontravam-se apinhados junto aos edifícios, tentando abrigar-se da chuva, mas havia um longo toldo improvisado que partia da barbacã e cujas dimensões permitiam uma curta fila de carroças e vagões diante desta. Entre as pessoas viam-se guardas de alabardas, capotes e chapéus de ferro, com um ar minimamente atento e ao mesmo tempo tão miserável quanto o dos restantes transeuntes na praça.

— Vamos... Aeren? — incitou Layaline, refugiada entre Aewyre e a parede de pedra de um edifício.

O jovem não respondeu de imediato, olhando em redor de boca entreaberta e olhos semicerrados, lambendo as gotas que lhe pingavam para os lábios.

— Não gosto disto — disse Kror, parecendo partilhar das mesmas reservas do guerreiro.

— Eu também não — concordou Aewyre, baixando-se ligeiramente e inclinando a cabeça para o lado, como se estivesse a tentar ver algo. — Conseguem perceber o que se passa ali no fim da fila?

No meio dos toldos, carroças e chuva, viam-se guardas a remexerem nos vagões e nos pertences de homens e mulheres de mãos nas ancas, alguns dos quais a gesticularem em aparente protesto.

— Porra — praguejou Aewyre, borrifando o ar com os lábios molhados. — Estão a revistar quem sai da cidade.

— O quê? — disse Layaline.

Aewyre puxou-a para trás da esquina, indicando a Kror que fizesse o mesmo, e encostou a nuca à parede molhada, bufando e fechando os olhos.

— Estão à nossa procura — constatou Kror com o prosaísmo de quem estava habituado a ser acossado, deixando-se descair sobre as muletas com um suspiro resignado.

O guerreiro nada acrescentou, passando uma mão enluvada pela cara molhada e deixando-a sobre a boca enquanto pensava, e nem Layaline nem Kror o interromperam, como se temessem quebrar a sua concentração, uma noção que mesmo em tal momento ainda conseguiu parecer divertida a Aewyre. Talvez estivessem à espera de outro plano genial seu, algo engenhoso como ir visitar o barão Savincar no seu castelo e pedir-lhe licença para atravessar a ponte...

A vozinha abafada de Làriana tornou a interromper o silêncio que coexistia com o bater da chuva, e Layaline destapou-a novamente para lhe beijar a testa e permitir-lhe respirar um pouco de ar puro. A criança disse algo com tom dengoso e abraçou o pescoço da mãe, parecendo cansada, o que não passou despercebido a Aewyre, que lhe afagou uma vez mais a cabeça.

— Anda — disse, erguendo a manta para tapar Làriana com uma mão enquanto olhava em redor e além da esquina. — Vamos para um sítio seco... olha, ali.

O guerreiro apontou para uma porta entreaberta que se via no início de uma rua diagonalmente oposta àquela na qual se encontravam. A abertura jorrava uma quente luz amarela em forma de cone para o exterior, dourando as grossas gotas de chuva e a água que escorria no chão, e encontrava-se debaixo de uma insígnia na qual estava esculpido aquilo que parecia ser uma caneca de cerveja. A chuva manchara e escurecera demasiado a madeira para que Aewyre pudesse ler o nome, mas tudo indicava que se tratava de uma taberna.

— Vamos. Bebemos uma coisa quente e secamos um pouco as roupas — disse Aewyre, puxando o capuz para a frente e baixando a cabeça para enfrentar novamente a chuva.

Os três circundaram a praça, aproveitando o abrigo providenciado pelas poucas portadas abertas debaixo das quais não se encontrava um grupo demasiado compacto de pessoas. Havia autênticos bivaques nesses locais, com carroças e vagões estacionados ao lado das portadas, providenciando abrigo adicional contra a chuva. Ninguém lhes deu particular atenção e todos se limitaram a olhar para os desconhecidos com cara de gatos molhados, alguns com uma expressão mais irritada, com ar de serem de fora da cidade e provavelmente à espera de um lugar na fila debaixo do toldo. Havia também animais de carga, cavalos na sua maioria, alguns com mantas que os resguardavam do pior da intempérie, outros encharcados quase até aos ossos e com um ar tristonho e deplorável. Perto deles amontoavam-se pilhas de estrume que se desintegravam a olhos vistos, originando pequenos regatos castanhos que, com sorte, escorriam até às calhas da praça. Aewyre, Kror e Layaline evitaram-nos e percorreram o resto da chuvosa distância até à porta, que o jovem prontamente escancarou para permitir a entrada dos outros dois.

Era de fato uma taberna, e como seria de prever estava praticamente cheia. A única coisa que nela destoava dos estabelecimentos habituais era o ambiente sóbrio, quase soturno que nela imperava, e o contraste era tão gritante com o chuvoso exterior que Làriana pareceu algo atordoada quando a mãe a destapou, olhando em redor com a pequena cabeça despenteada. Aewyre também se sentiu algo aturdido ao puxar o capuz para trás com um suspiro de alívio, algo que apenas Kror se absteve de fazer. Os presentes tanto sentados como apinhados trocavam poucas palavras entre si, a maior parte suficientemente entretida pelas canecas debaixo dos seus queixos. Havia uma notória falta de mesas e cavaletes, e nem mesmo os balcões quadrangulares incorporados nas colunas de madeira que sustinham a sobreloja pareciam dar conta do excesso de clientela. O local mais concorrido era naturalmente a área próxima da convidativa lareira, que crepitava com um apetecível fogo e para perto da qual parte das mesas de clientes encharcados fora arrastada. Havia mesmo quem bebesse no chão, só para poder estar sentado diante das acalentadoras labaredas. O estabelecimento era bem iluminado pela lareira e pelos brandões que pendiam de castiçais em redor e que infundiam todo o interior com um reconfortante lume amarelado. Ao lado da entrada havia uma escadaria de madeira que dava para a sobreloja em cima, essa a ranger e vibrar com os passos que se ouviam por cima das cabeças dos presentes, ruídos que de resto eram mais prevalentes que os discretos murmúrios trocados entre as pessoas enfadadas pela interminável chuva e pelo ocasional tinir de canecas e talheres. Ninguém dispensou mais que um olhar casual aos recém-chegados, mas ainda assim Kror sentiu-se manifestamente pouco à vontade pelo espaço confinado e bem iluminado, e esforçou-se por se manter nas sombras. Havia duas empregadas à vista, mas essas estavam demasiado atarefadas com os fregueses já presentes para irem receber os novos, e Aewyre olhou em redor em busca de um lugar. Ao ver que não havia nenhum à vista, pegou no braço de Layaline com uma mão e tocou no de Kror com a outra, apontando era frente com o indicador e de seguida para o lado com o polegar.

— Vamos pôr as nossas capas ali à fogueira. Depois procuramos um lugar lá em cima.

Algo contrafeito, o drahreg ainda assim seguiu o guerreiro e a rapariga por entre as mesas e costas de cadeiras, ignorando os olhares que lhes foram dirigidos. Por muito inócuos que estes parecessem, a atenção também não agradou a Aewyre, que fez por não se esquecer de manter uma postura pouco digna, andando curvado e esfregando nervosamente as mãos, que nunca mantinha muito longe do corpo. Os três cruzaram-se com uma atarefada empregada quase a fazer malabarismos com duas bandejas repletas de canecas, e que por pouco não colidiu com eles.

— Naltre bam sizes — disse a roliça jovem morena com ar apologético, cobrindo as suas redondezas com um gesto da cabeça entrançada e encolhendo os ombros revelados pelo decote. — Sontos tuds encavallads.

— Não faz mal, vamos ver lá em cima já de seguida — retrucou Aewyre amigavelmente, sem se deter e esperando ter compreendido bem o que a criada dissera.

Por fim, chegaram à lareira, cujas cercanias se encontravam ocupadas por duas filas de homens sentados e acocorados no chão — a única parte deste que não estava molhada e apenas levemente enlameada — e uma terceira de indivíduos dispostos a ficarem de pé. Havia também uma série de capas e botas úmidas no chão, deixadas ali a secar, e Aewyre constatou que apenas havia espaço para as suas capas. Até mesmo a prateleira sobre a lareira se encontrava repleta das mais variadas peças de calçado. Porém, a idéia de deixar as suas capas no meio de semelhante confusão não lhe agradava, sendo roupa perdida a última coisa de que precisava em tal altura, e teve uma idéia que o levou a pousar ambas as mãos nos ombros de Kror. A tensão nos músculos do drahreg não surpreendeu o jovem, que ignorou o olhar encapuzado e se inclinou ligeiramente para a frente para se dirigir aos homens sentados no chão.

— Com licença — chamou, conseguindo que alguns olhassem por cima dos seus lânguidos ombros. — Os meus amigos não se importavam de arranjar um espacinho aqui ao meu irmão, pois não? Ele tem a perna magoada, e está doente. Viajamos dois dias à chuva. — O guerreiro falou então pelo lado da boca: — Tosse.

Parecendo perceber mais cedo do que mesmo Aewyre esperara, o drahreg assim fez, curvando-se inclusive para adicional verossimilhança.

— Vêem? — disse Aewyre, indicando o peito de Kror com a mão e fingindo-se muito compadecido. — Não arranjavam aí um espacinho, não?

Após uns breves instantes de olhares trocados que deixaram o jovem a duvidar de que o haviam compreendido, um dos laoneses acabou por aceder, resmungando enquanto se deslocava para o lado e para cima de outro, que protestou antes de conceder de má vontade parte do seu espaço.

— Obrigadinho, sim? — agradeceu o guerreiro, ajudando Kror a assentar nas tábuas do chão ao mesmo tempo que lhe pegava nas muletas, que seguidamente pousou ao seu lado para tirar a sua capa e a pousar na pilha adjacente. — Guarda as nossas capas, está bem? Eu e a Layaline vamos ali para cima, e eu mando vir alguma coisa para tu comeres.

Para grande surpresa do jovem, Kror concordou sem sequer o questionar. Talvez a chuva o tivesse deixado demasiado cansado para ser paranóico, ou talvez simplesmente quisesse chamar o mínimo de atenção possível, agora que se encontrava cercado de humanos. Ainda assim, algo no estoicismo do drahreg fez com que Aewyre sentisse a necessidade de lhe dizer algo mais, e ajoelhou-se ao lado de Kror, mais próximo do que era confortável para qualquer um dos dois, e, com a mão surpreendentemente ainda assente no ombro deste, segredou-lhe ao ouvido.

— Eu não te vou deixar. Preciso de ti, compreendes? — disse, indiscutivelmente sério. — Não posso deixar que te aconteça nada, por isso tenta confiar em mim, está bem?

Kror virou e ergueu a cabeça o suficiente para que o capuz não lhe sombreasse completamente as feições, e Aewyre distinguiu os seus olhos vermelhos no meio das sombras e ligaduras. Sem nada dizer, o drahreg acenou com a cabeça e Aewyre retribuiu o gesto, reforçando-o com uma palmada no ombro e erguendo-se antes que a tensão exercida pelo «tendão» se tornasse insuportável, deixando que um sorriso voltasse à sua cara para benefício de quem ainda olhava para ele.

— Obrigadinho — reiterou, retirando-se então com Layaline e Làriana para subirem as escadas em busca de um lugar na sobreloja.

Quase por milagre, havia de fato lugar, dois pipos vazios diante de uma grossa tábua pregada ao corrimão no mais afastado canto da sobreloja, claramente improvisados para alturas de sobrelotação e nos quais Aewyre e Layaline se sentaram como se de tronos se tratassem. A rapariga pousou por fim Làriana com um grunhido cansado, deixando a língua de fora antes de fazer um comentário provavelmente pertinente ao peso da sua filha. Por sua vez, Aewyre exalou de alívio, encostando-se ao corrimão e esticando as pernas, reparando então que um homem os seguira do piso inferior. Tinha uma caneca na mão, e Aewyre pensou que aquele talvez tivesse sido o seu lugar. Não estava particularmente disposto a cedê-lo, mas ainda assim indicou educadamente o pipo sobre o qual se sentara, erguendo as interrogadoras sobrancelhas, ao qual o indivíduo fez um gesto negativo com a mão, pousando de seguida os cotovelos sobre o corrimão para desfrutar da sua bebida.

«Também, era só o que faltava. Lugares marcados...», pensou, começando a tirar as botas. — E melhor tirares as tuas também, Layaline. Para secarem um pouco. Talvez as meias também.

— Sim, tenho os pés... molhados?

Aewyre fez que sim com a cabeça e sorriu. Apesar da situação, nunca podia deixar de o fazer sempre que via os seus ensinamentos darem frutos. Layaline era tão mais dotada que ele para as línguas, que por vezes chegava a ser embaraçoso. Apesar do cansaço patente na sua cara, a rapariga também sorriu e curvou-se para tirar as botas, sendo assistida na tarefa pela filha, que de seguida se convidou a si mesma para o colo de Aewyre, tendo mesmo o descaramento de afirmar que a sua mãe estava cansada. Aewyre nada pôde fazer contra, e deixou a criança aninhar-se. Uma criada surgiu entretanto, e o jovem olhou em redor para ver o que todos estavam a comer. Em quase todas as mesas via-se pão com toucinho e vinho quente, e foi isso que o jovem pediu para eles e para Kror, que indicou do cimo do parapeito, do qual pendiam as suas meias sujas. O serviço foi surpreendentemente rápido, e os três refastelaram-se com a frugal refeição, ambos de pernas estendidas e pés esbranquiçados e engelhados a secarem.

— O que fazemos agora... Aeren? — quis Layaline saber uma vez mais, soprando para dentro da caneca de vinho quente que segurava com ambas as mãos.

— Sinceramente, não sei — respondeu Aewyre com a boca cheia, suspirando pelo nariz. — Não podemos passar por ali; ainda somos revistados, e ainda vêem a... — O jovem calou-se e continuou a mastigar, olhando em redor e cruzando olhares com o indivíduo da caneca, que a ergueu em saudação antes de virar a cara para a beber. — De certeza que vão ser mais atentos do que à entrada.

— Então... como vamos para Nolwyn?

Aewyre ajudou o pão seco e o toucinho a deslizarem pela sua garganta abaixo com um bom trago de vinho quente e ergueu a mão para pedir mais ao aperceber-se do quão faminto estava.

— Tenho que pensar. Se calhar vamos mesmo ter de ir pela Sathmara... — Aewyre esfregou os olhos com o cotovelo apoiado sobre a tábua, pousando de seguida a mão sobre a boca. — Ou então... bom, o melhor é arranjarmos um quarto aqui por perto. Depois eu logo vejo o que podemos fazer.

— Mas tu querias chegar a Nolwyn depressa, não é?

— Sim, sim... — disse o jovem através dos dedos, acenando com a cabeça. — Quanto antes. Mas é preferível chegar tarde a não chegar...

Layaline não compreendeu bem a expressão, mas concordou mesmo assim e escondeu metade da cara atrás da caneca, deixando-se inebriar pelos quentes vapores do vinho quente. Làriana olhou para cima e viu o quão desanimado o guerreiro parecia, tomando então a iniciativa de lhe abraçar o pescoço com os pequenos braços. Aewyre sorriu e afagou a cabeça da criança com a mão livre, e pouco depois veio uma outra criada servir-lhe uma segunda dose de pão e vinho quente, que o jovem prontamente atacou.

— Uma idéia era tu ires primeiro com a Làriana... — ocorreu-lhe entre mastigadelas. — Podias levar a... as coisas. Duvido que te revistem a ti de qualquer forma.

— E o Kror? Aewyre tornou a bufar.

— Se ele for convosco... devem revistá-lo e a vocês. Devem revistar todos os homens e as mulheres que os acompanham — assim pensava o jovem, pois Augiol vira-o a ele acompanhado por Layaline e Làriana, pelo que os guardas deviam estar atentos a semelhante grupo.

— Talvez... eu e a Làriana íamos primeiro... depois ia o Kror... Aewyre abanou a cabeça, mas ainda conseguiu esboçar um sorriso fraco diante da honesta vontade da rapariga de ajudar.

— O Kror, sozinho? Esquece isso. Se alguém o vê com mais atenção... Além disso, não é que não confie minimamente nele, mas não o acho capaz de...

— Desculpem — interrompeu-o uma voz, e Aewyre virou a sobressaltada cara para o homem da caneca, que estava mais próximo deles do que antes e com a mão apoiada no corrimão. — Não pude deixar de ouvir a vossa conversa...

Ao ver a expressão de Aewyre endurecer, o homem apressou-se a erguer as mãos, entornando um pouco da sua cerveja ao fazê-lo.

— Não tenho nada a ver com isso — assegurou, falando um Glottik perfeito e olhando por cima de ambos os ombros antes de se inclinar um pouco mais para a frente, murmurando num tom de voz mais baixo e cúmplice. — Mas talvez seja capaz de ajudar um camarada nolwyno, eh?

Aewyre permaneceu impassível, embora as suas sobrancelhas franzidas denotassem um mínimo de curiosidade da sua parte. O homem tornou a olhar por cima do ombro e manteve o tom de voz baixo, cobrindo Layaline com a sua sombra enquanto falava inclinado sobre esta, ignorando-a. Era de estatura mediana, com uma constituição robusta a tender para o rotundo, e tinha uma cara redonda sustentada por uma papada, com uma sorridente boca cercada por barba e bigode e dois atentos olhos castanhos.

— O meu nome é Iginasco — apresentou-se. — Moro aqui em Arle, mas tenho família em Nolwyn. Você precisa de atravessar o rio, mas não quer passar pelos guardas, hum?

Aewyre ainda hesitou, mas era evidente que não valeria a pena tentar negar o que o homem ouvira, e retesou os músculos do seu corpo para a eventualidade de as intenções de Iginasco não serem as melhores.

— Sim... — admitiu, mantendo o olhar do homem firmemente preso com o seu e ignorando o de Layaline, que na sua visão periférica se lhe afigurava como dois grandes pontos brancos.

Iginasco sorriu, um sorriso oportunista que procurava parecer franco e que falhava redondamente na tentativa. Por sua vez, alheia ao nervosismo da sua mãe e à desconfiança de Aewyre, Làriana olhava para o homem com interesse que não passou despercebido a este.

— Bonita menina — disse, sorrindo e reconhecendo por fim uma outra presença além da do guerreiro. — É sua filha? — Aewyre não respondeu, mas Iginasco não se deixou afetar. — Olhe que até ela vai ser revistada pelos guardas, acredite.

— O que quer? — inquiriu o guerreiro sem o mínimo de esforço para disfarçar uma certa aspereza, que fez com que o seu conterrâneo tornasse a erguer as mãos, embora desta vez sem entornar cerveja.

— Ajudar um patrício, só isso. Por um preço, claro.

De alguma forma, a menção de dinheiro deixou Aewyre mais descontraído, tomando mais credível a atitude do homem.

— Como?

Iginasco curvou-se para ambos os lados, olhando para o chão em busca de um qualquer assento, e virando-se então para Layaline pela primeira vez, reservando mais atenção ao pipo no qual esta se sentava que à própria antes de fitar Aewyre sugestivamente. Porém, deduzindo que o homem se queria sentar no lugar de Layaline, Aewyre não esboçou qualquer reação e continuou a olhá-lo de forma tão impassível quanto antes. Sorrindo um pouco mais, Iginasco olhou uma última vez por cima de ambos os ombros e posicionou-se de forma a resguardar o melhor possível o jovem de olhares alheios com as costas.

— Tenho uma balsa — confidenciou, falando mais baixo ainda e vendo-se forçado a curvar-se mais para repetir, pois Aewyre virou-lhe ligeiramente a cara para ouvir melhor. — Tenho uma balsa. O Olyf está bravo, mas é uma travessia segura, juro-lhe pela alma da minha mãe. Eu e um primo meu do outro lado já passamos centenas de pessoas que não queriam atravessar a ponte.

— Uma balsa... — disse Aewyre, baixando o tom de voz a par do seu interlocutor. Layaline limitava-se a olhar alternadamente de um para o outro, tal como a sua filha.

— Sim. Tem sido bastante requisitada agora, mas mesmo quando não são tão rigorosos na ponte, há sempre quem não quer que vejam as mercadorias que leva, entende? Já agora, sabe por que é que os guardas estão tão atentos?

— Não.

— Parece que andam à procura do príncipe Aewyre.

Aewyre achou que fazer-se desentendido seria a melhor alternativa, mas teria de representar minimamente o papel de nolwyno comum que tentava veicular.

— O príncipe? Porquê?

— Ele desapareceu, como sabe, e dizem que o seu irmão, o nosso senhor Aereth, sabe que ele está em Laone, e que o barão Savincar espera que ele passe por Arle. Mas seja como for, era lá motivo para incomodar mercadores honestos, hã? O meu amigo é mercador? — Ao ver a expressão pouco confidenciosa do jovem, Iginasco apressou-se a abanar ambas as mãos, como se fosse um assunto para esquecer. — Mas deixe estar, não tenho nada a ver com isso. Estaria então... interessado na minha balsa?

Aewyre não quis responder de imediato, mas, a ser verdadeira, aquela parecia de fato a alternativa ideal e a solução para o problema que se lhe havia deparado.

— Quanto? — perguntou.

— Quantos são?

— Nós os três — disse o guerreiro, indicando também a lareira com o polegar —, e um outro.

Iginasco esticou o pescoço e mexeu-o em busca da quarta pessoa, mas Aewyre nada mais adiantou. Desde que fora intrujado por Augiol que jurara a si mesmo não mais dar a sua total confiança a quem quer que fosse, e preferia manter uma carta na manga, ainda que a carta fosse um drahreg coxo.

— Quatro, é? — conformou-se o homem, aparentemente habituado a receber pouca confiança. — Cabem todos na balsa, então. Têm muita carga?

— Não.

— Então posso transportar-vos por uma moeda de ouro. Aewyre franziu as desagradadas sobrancelhas, sentindo a sua inteligência insultada. Era caríssimo, e Iginasco pareceu ciente disso, pois ergueu uma vez mais as mãos com a caneca.

— Bem sei que é caro, bem sei. A ponte é bastante mais barata. Mas este... negócio é perigoso, amigo. Se a guarda me apanha, vou parar às masmorras, ou mesmo ao cadafalso — confessou, abanando a cabeça. — Uma moeda de ouro, não posso fazer por menos.

O guerreiro baixou os olhos, cruzando-os com os de Layaline, e ponderou silenciosamente. Por sua vez, Iginasco limitou-se a bebericar da sua caneca e a olhar novamente em redor.

— Quando? — perguntou Aewyre, sem levantar a cabeça.

— Quando quiser, desde que seja de noite.

— Esta noite? — reforçou, erguendo os olhos.

Iginasco franziu os lábios, olhando para cima, mas acabou por abrir os braços e concordar afirmativamente com a cabeça.

— Esta noite, sim senhor.

Uns derradeiros momentos de deliberação, que Iginasco sentiu serem o inevitável prelúdio de um negócio fechado. Era evidente que o jovem precisava da sua oferta, e que apenas estava a adiar o inevitável por uma qualquer razão.

— Muito bem — concordou Aewyre por fim. — Onde?

— Antes de lhe dizer, vai ter que me desculpar, mas... — indicou a bolsa de Aewyre com um gesto das sobrancelhas. — Tem como pagar?

O guerreiro acenou com a cabeça e tirou a bolsa do cinto, desatando os cordões e despejando os seus reduzidos conteúdos para cima da mesa com a mão aberta na borda para que nada caísse. As sobreviventes de prata e cobre tilintaram sobre madeira, os derradeiros resistentes da longa depredação à qual nem mesmo a principesca bolsa de Aewyre escapara ilesa. Aewyre remexeu na exígua pilha com dois dedos em busca de tons dourados, e arregalou os olhos ao ver o sinete que Savincar lhe dera no meio das moedas. Guardara-o pela possibilidade de o poder vir a vender mais tarde em caso de necessidade, mas mostrá-lo a quem quer que fosse em Arle era a última coisa que quereria fazer. Traindo a sua própria surpresa, resguardou uma mão com a outra enquanto recolhia o anel com a primeira, olhando para Iginasco para se certificar de que este não vira nada. O homem não escondia o seu interesse para com o dinheiro, mas a sua expressão não revelava nada além de espanto pela estranha reação do jovem, e virou o olhar ao ver que Aewyre não estava a apreciar a atenção. Os seus gestos acabaram por revelar uma moeda de ouro oculta que o jovem prontamente ostentou, desviando para ela as atenções enquanto enfiava o anel o mais discretamente possível na bolsa.

— Aqui tem — disse.

— Oh, não, não, só me paga na altura — recusou-se Iginasco, abanando ambas as mãos. — Em relação ao sítio... você vira à direita na ponte, segue a borda do rio, passa pelo castelo, e a partir daí vai contando os moinhos de água. Eu estou à vossa espera no quinto.

Aewyre deixou alguns instantes silenciosos passarem enquanto perscrutava Iginasco, e quando este lhe estendeu a mão, ficou a olhar para ela.

— Temos acordo, então? — perguntou o nolwyno com sorriso de mercador.

«Enfim, com ganância posso eu bem», conformou-se Aewyre, acabando Dor apertar a mão do homem.

— Ótimo. Vai ver, ponho-o no outro lado num instante — afirmou, executando um brusco gesto horizontal com a mão livre enquanto continuava a sacudir a de Aewyre com a outra.

— Esta noite... quando?

— Assim que o sol se puser... — Iginasco deteve-se, olhando para a janela fechada, contra cujas adufas a chuva batia furiosamente. — Olhe, apareça quando quiser. Tome um jantarzinho, deixe as suas roupas secarem, e vá-se preparando. Eu vou já começar a tratar das coisas.

Aewyre fez que sim com a ainda algo relutante cabeça, e Iginasco retirou-se com uma curta vênia dirigida unicamente ao jovem, pousando a sua caneca no corrimão e descendo apressadamente as escadas. Aewyre seguiu-o com o olhar até o perder de vista, e manteve os olhos fixos no ponto das escadas no qual Iginasco desaparecera.

— Ès-tel mavè? — chamou-o a vozinha de Làriana, ajudada pela mão desta que lhe apertou o tenso antebraço.

— Hmmm? — guturalizou Aewyre, olhando para baixo e de seguida para Layaline. — Se ele é o quê?

— Mau — traduziu esta, mexendo na caneca e olhando pelos cantos dos olhos para o lado, obviamente desagradada com a forma como fora ostensivamente ignorada.

— Mau — gralhou Làriana, acenando com a cabeça.

A expressão séria de Aewyre esvaneceu com um sorriso, e o guerreiro afagou a cabeça da criança com um suspiro.

— Não sei. Acho que toda a gente me vai parecer «má» enquanto eu não chegar a Ul-Thoryn.

— Então... que vamos fazer? — perguntou Layaline.

— Vamos acabar o nosso vinho — disse Aewyre, bebendo mais um trago. — Depois, descansamos aqui até anoitecer, que há dias que não paramos de andar e bem o merecemos. Esperamos que as nossas capas e botas fiquem secas, comemos mais uns pães, e depois vamos à procura do Iginasco. Se tudo correr bem, amanhã estaremos em Nolwyn, e tudo será mais fácil.

Semelhante perspectiva pareceu animar Layaline, que sorriu e estendeu o braço sobre a tábua para apertar a mão de Aewyre. O jovem reciprocou, mas não conseguiu partilhar do sincero entusiasmo da rapariga. Enquanto não estivesse em Ul-Thoryn, cada esquina virada era uma potencial emboscada, cada encruzilhada um motivo para desconfiança. Estar a depender de terceiros era algo que naquele momento lhe desagradava, mas Aewyre estava igualmente determinado a desviar-se o menos possível da senda da lâmina, e a balsa de Iginasco era a melhor e mais direta alternativa à ponte.

Algo interrompeu as suas considerações, e fez com que o jovem olhasse por cima do corrimão para Kror, cuja cabeça encapuzada espreitava por cima do ombro na sua direção. Sem largar a mão de Layaline, Aewyre retribuiu com um olhar calmo na tentativa de transmitir esse mesmo sentimento, certo de que o «tendão» estava a fazer as suas.

«O Kror foi de barco a Asmodeon, não foi? Bom, espero que não tenha medo da água. Às vezes parece, com aquele cheiro...»

Após uma restabelecedora tarde na estalagem, Aewyre e os outros aventuraram-se novamente pelas chuvosas ruas fora, encharcando rapidamente as suas roupas acabadas de secar. Seguindo as instruções de Iginasco, viraram à direita na ponte — mantendo-se respeitosamente distantes dos guardas que continuavam- a revistar pessoas — e foram descendo o rio à beira deste., separados da furiosa torrente que escorria para Oeste por um simples parapeito de pedra ao longo do qual cresciam alguns salgueiros desnudos e tristonhos. Estava escuro, e as esporádicas lanternas de óleo de baleia à porta de casas e estabelecimentos eram pouco mais que oscilantes poças douradas no meio da opacidade à beira-rio. Foi perto de uma dessas e debaixo de uma ombreira que Layaline ajudou Aewyre a vestir a sua couraça, ombreiras e caneleiras, com o guerreiro a justificar a súbita necessidade com a falta de espaço na sua mochila. Porém, a forma como Kror o olhou enquanto se equipava deu perfeitamente a entender que o drahreg partilhava das suas reservas e achava a precaução justificada. Seguiram caminho assim que a última fivela foi atada, e com Aewyre a fazer de mula arnesada, Layaline a levar Làriana ao colo e Kror praticamente a galopar de muletas para os acompanhar, os três retratavam uma cena algo caricata para quem os pudesse estar a ver, mas não havia ninguém nas ruas. Caminhavam junto aos edifícios numa fútil tentativa de se abrigarem da chuva, mas também para se resguardarem de quem quer que pudesse estar nas ameias do castelo do barão, que se elevava jactancioso do outeiro que sobranceava o burgo. Era pura paranóia, e Aewyre sabia-o, mas nem isso o impediu de pedir a Kror e Layaline que apressassem o passo sempre que tinham de atravessar a exposta ponte de um canal no qual invariavelmente se encontrava um moinho de água. Estes estavam razoavelmente espaçados, e cedo dispersaram a ilusão de que, avaliando pela descrição de Iginasco, o quinto moinho se encontrava a uma curta distância da taberna.

— Aquele não era um moinho, Aeren? — perguntou Layaline, falando alto para se sobrepor ao ruído da chuva e apertando o corpo envolto de Làriana contra si.

— Não, era um açude — respondeu o guerreiro por cima do ombro. Tinham passado por um edifício que a rapariga julgara ser o quinto moinho, mas não passavam de mecanismos para um dique.

— Tens... a certeza?

— Sim... — respondeu o guerreiro sem grande paciência e com um grunhido de seguida ao impelir o torso para a frente para alçar a pesada mochila, um gesto que lhe derramou mais água ainda para as costas do capuz.

Os três atravessaram outra ponte sobre um canal, com as muletas de Kror a ressoarem de tal forma sobre as tábuas de madeira que Aewyre esteve quase para lhe dizer que não fizesse tanto barulho, mas antes que o fizesse viu à distância uma lanterna que luzia a espaços, como se quem a manejasse se estivesse a mexer.

— Olhem, é capaz de ser ele — disse, apontando na direção da lucilante lanterna.

Layaline e Kror nada disseram, limitando-se a seguir o guerreiro e a acompanhar a custo o seu passo pernilongo. A zona na qual se encontravam tinha uma série de canais, alguns a separarem edifícios atrás dos quais a lanterna desaparecia, desorientando os três e forçando-os a atravessarem uma série de pontes até avistarem uma vez mais a luz. O edifício do qual provinha tinha paredes de tabique, teto de ardósia e um alpendre lateral debaixo do qual a lanterna luzia, e era sem dúvida um moinho de água, pois via-se atrás dele parte da roda a girar languidamente, visto que a água na qual estava imersa era proveniente de um açude. Agora que se encontrava mais próximo e com um ângulo de visão mais aberto, Aewyre distinguiu uma silhueta a empunhar a lanterna e ergueu a mão para que Kror e Layaline parassem. Mais por precaução que pela probabilidade de conseguir efetivamente ver fosse o que fosse, a sua cabeça encapuzada olhou em redor à chuva sem nada avistar. Os três encontravam-se num escuro e apertado armamento entrecruzado por canais, e a queda da chuva criava uma ruidosa cascalheira e uma ligeira névoa ao esparramar-se no chão, nos tetos inclinados e na água.

— Vamos — acabou Aewyre por dizer, avançando sem puxar o capuz mais para a frente, recusando-se a baixar por completo a sua guarda.

Os três percorreram então o resto da distância que os separava do moinho, até que a silhueta debaixo do alpendre os avistou e lhes acenou com a mão, erguendo a lanterna sobre a cabeça para melhor se identificar na medida do possível à distância que se encontrava. O sorriso de mercador de Iginasco foi inconfundivelmente iluminado, tendo o capuz da capa puxado para trás, e o nolwyno continuou, a gesticular com o intento de que os três se aproximassem.

— Venham, venham, não fiquem aí à chuva! — instigou, gesticulando convidativamente. — Já se vão molhar bastante só de atravessarem o rio!

Sem ouvirem verdadeiramente as suas palavras, os três praticamente correram de cabeças baixas para o abrigo do alpendre, e Kror por pouco não caiu ao encalhar uma muleta entre duas pedras mal calcetadas, deixando-se antes embater de ombro contra a parede para se estabilizar.

— Ei, amigo, não se aleije! — disse Iginasco, sempre sorridente, inclinando a cabeça para se dirigir a Aewyre sem tirar os olhos do drahreg. — Então é este o seu quarto companheiro?

— Onde está a balsa? — perguntou o guerreiro, puxando o ensopado capuz para trás e olhando em redor. Estava despenteado, com a. cara molhada e evidentemente com muito pouca vontade de fazer conversa.

Imperturbável, o nolwyno acenou com a cabeça e fez-lhes sinal para que o seguissem, levando-os com a lanterna erguida até à ponta do alpendre, onde crescia um velho salgueiro de longos e chorosos ramos descaídos. Layaline destapou entretanto Làriana, que se manteve comportadamente silenciosa ao ver-se num sítio estranho e escuro, limitando-se a abraçar o pescoço da mãe enquanto olhava em redor com os grandes olhos castanhos. Iginasco piscou-lhe o seu e, mantendo-se à beira do alpendre de forma a não apanhar chuva, indicou a Aewyre que este deveria espreitar além da esquina, para montante. Olhando-o num misto de desconfiança e estranheza, o jovem acabou por aceder, e expôs a cabeça à chuva para espreitar para trás da parede. A balsa encontrava-se atrás desta, aninhada entre a roda do moinho e um dos dois muros de pedra que flanqueavam a semicerrada porta de retenção do açude que impelia a roda. Na embarcação aguardava um homem de capote, que não se apercebeu da presença de Aewyre e manteve baixa a cabeça de feições ocultas pelo capuz e pela chuva. Os ramos do salgueiro ocultavam-no de um lado quem pudesse eventualmente estar a espreitar de uma posição privilegiada da cidade, enquanto a roda do moinho e o próprio edifício o resguardavam de outros ângulos. Uma grossa corda partia da porta de retenção e atravessava todo o rio rumo a um destino oculto pela penumbra na outra margem, e a balsa estava presa a ela por dois ferros com aros. Iginasco tinha o esquema evidentemente montado, e semelhante constatação aliviou um pouco algumas das reservas de Aewyre, que se retraiu para dentro do alpendre com os cabelos molhados pela breve exposição à chuva.

— Muito bem — disse, tirando a moeda de ouro que guardara entre uma das fíbulas da sua braceira e ostentando-a diante de Iginasco. — Mas quem é aquele homem?

— Ele? Trabalha no moinho. Não é fácil ir com a balsa com o tempo assim, por isso disse-lhe que vos ajudasse — explicou o nolwyno, inclinando-se de forma cúmplice para Aewyre e piscando-lhe o olho. — Esteja descansado, que não lhe vou cobrar mais por isso.

Incapaz de sorrir, Aewyre limitou-se a soltar uma fungadela que tanto podia ser de divertimento como de saturação, e entregou a moeda a Iginasco, que nela cerrou a mão num gesto quase floreado com o qual também lhes indicou que o deveriam seguir. Aewyre julgou que os levaria através da porta por cima da qual o alpendre nascia, mas o homem deteve-se diante desta, puxou o capuz para a frente e arrojou o braço da lanterna como se com ela pretendesse enfrentar a chuva.

— Vamos — disse, quase gritando e baixando o tom de voz de seguida. — Só dá para aceder à balsa por fora, infelizmente.

Sem lhes dar tempo para uma resposta, Iginasco lançou-se à chuva, percorrendo a passo apressado a parede do moinho de cabeça baixa mas com a lanterna bem empunhada. Aewyre trocou breves olhares com Kror e Layaline, mas acenou com a cabeça e os três foram atrás do nolwyno, contornando com ele a esquina do moinho e passando pela diminuta ponte diante da roda, chegando então a um dos muros. O homem da balsa aguardava-os lá, o seu semblante oculto pela sombra do capuz e apenas com a inexpressiva boca e queixo iluminados pela luz da lanterna. O muro era estreito, com espaço para não muito mais que um homem, e os cinco estavam algo apertados, sendo que Iginasco aproveitou para os arrebanhar, recomendando cautela com os passos e piso escorregadio e escusando-se à medida que se ia deslocando para a retaguarda. Aewyre ignorou-o e fez tenções de avançar para descer para a balsa, mas o indivíduo encapuzado não se mexeu. O guerreiro deteve-se a meio passo e olhou na direção daqueles que julgava serem os olhos do homem, mas este continuou sem esboçar qualquer reação.

— Eh... tire primeiro a mochila, amigo — vociferou Iginasco da outra ponta do muro.

Aewyre manteve o olhar fixo no homem, que não pareceu mexer um músculo, e deixou uma das alças da mochila escorregar-lhe pelo ombro abaixo, sustendo-a com o braço esquerdo e estendendo-a àquele que julgava ser o balseiro. Este continuou sem se mexer e sem nada dizer.

— Fala Glottik? — perguntou o guerreiro em voz alta para que Iginasco também o ouvisse, começando a ficar algo agravado.

— Aeren... — ouviu a voz de Layaline atrás de si quando esta lhe puxou a manga.

— O que...

— Príncipe Aewyre, mas que prazer!

O jovem virou-se de forma tão abrupta que por pouco não perdeu o equilíbrio, usando a mochila como contrapeso para não cair para cima da roda e pousando-a de seguida. A nova e jovial voz proviera de um recém-chegado acompanhado por quatro guardas de capote e chapéus de ferro, dois dos quais o resguardavam minimamente da chuva com um pálio. Estava excessivamente bem vestido para tais condições climatéricas, com uma debruada túnica talar verde de ombros bojudos e decotada para melhor exibir o vistoso colar sobre a sua subjacente camisa vermelha, tudo enfatizado por um andar jactancioso em sapatos de cordovão. Os detalhes do homem eram distinguíveis não só graças ao lume da lanterna de Iginasco, mas também devido às multicoloridas luzes que emanavam do indivíduo que vinha ao lado de um dos guardas. Esse tinha um andar trôpego, aparentemente nervoso, e apesar de estar completamente encharcado não se parecia importar muito, pois sorria. As luzes provinham dos dez anéis que usava, um para cada dedo, e cada um de uma cor e tamanho diferentes, todos luzentes como grandes pirilampos matizados a tingirem-no e às suas redondezas em vários tons. Aewyre reconheceu a familiar luminescência de gemas através das quais a Essência era canalizada. Um mago. Envergava um puído gibão amarelo aberto de gola alta e compridas mangas orladas, com uma despretensiosa camisa verde por baixo, calças de couro folgadas, botas de argempel e uma capa roxa e rasgada em partes. Era magro, usava lunetas ao nariz, precisava de um cinto para prender as calças largas os seus cabelos negros pendiam-lhe diante da cara numa série de farripas molhadas. A sua boca contorcia-se num sorriso demente enquanto olhava em frente.

— Finalmente nos encontramos! — disse o homem debaixo do pálio, chamando novamente a atenção para si de braços graciosamente abertos enquanto se aproximava mais. Tal como Layaline, exagerava nos erres e nos eles a falar Glottik. — Sois um homem difícil de encontrar, príncipe. Não admira que o senhor vosso irmão esteja tão preocupado.

Aewyre não reagiu nem disse nada, ligeiramente curvado e olhando para cada um dos desconhecidos como um animal encurralado a avaliar a ameaça. Kror fazia o mesmo, embora de forma menos visível, e Layaline apertava Làriana contra si, olhando em redor e acercando-se de Aewyre.

— Oh, mas que falta de educação da minha parte — repreendeu-se o homem debaixo do pálio ao parar, fazendo uma cortês vênia sem se inclinar demasiado, de forma a não apanhar chuva na cabeça. — Gaiard Savincar, barão de Arle, ao vosso dispor, príncipe Aewyre.

— Não sou o príncipe — disse o jovem, fitando Savincar tão diretamente quanto possível à chuva e à distância à qual se encontravam, um do outro.

O barão sorriu. Tinha uma peculiar cara alongada, metade da qual parecia ser composta pela sua enorme testa, estando as suas feições concentradas na parte inferior. Os seus olhos eram convencidos, com uma sobrancelha naturalmente mais erguida que a outra, o nariz comprido com septo descaído e uma boca de lábios cheios entre dois regos causados por um sorriso sardônico demasiado freqüente.

— Convenhamos, príncipe... — disse, alisando para trás os seus cabelos negros que usava pouco acima dos ombros. — Numa altura destas podemos deixar-nos desse tipo de jogos, não?

— Eh — limitou-se o indivíduo dos anéis a dizer, coçando o pescoço.

Agora que se encontrava mais próximo, Aewyre viu que era um jovem cuja única marca de virilidade era uma pequena estria de barba que lhe partia do lábio inferior até ao queixo, mas havia algo de estranho na sua aparência. Parecia de alguma forma... velho. Mais velho que o que deveria ser. Algo na sua postura, na forma como andava, nos aleatórios gestos gastos que fazia, aparentando estar quase alheado da situação enquanto sorria com a dentição superior bem exposta. Mais reveladoras e estranhas ainda eram as estrias de cabelos brancos no negrume da sua cabeleira.

— O que quer de nós? — perguntou Aewyre, ainda na mesma posição ligeiramente agachada.

— De vós, príncipe? Rigorosamente nada, além de um mínimo de cooperação. É o senhor vosso irmão quem me oferece algo que cobiço, e a moeda de troca sois, com todo o respeito, vós.

— Não sou o príncipe Aewyre. Está enganado — insistiu o próprio enquanto a sua mente turbilhonava furiosamente por alternativas.

Savincar limitou-se a rir, e mais indivíduos de capote e capacete surgiram da esquina do moinho, postando-se atrás do seu senhor.

— Sinceramente, não sei o que vos levou a suspeitar das minhas intenções — confessou —, embora desconfie que talvez tenha sido a peculiar experiência que o Vascarò aqui teve quando vos visitou umas noites atrás, hum?

— Com a vossa licença, barão... — pediu Iginasco, fazendo tenções de se retirar.

— Certamente, meu bom homem — acedeu Savincar com um gracioso gesto da mão, cujos dedos estalou.

Um dos guardas acabados de surgir avançou e pegou na lanterna do nolwyno, trocando-a por uma pequena bolsa que Iginasco balouçou na mão, tilintando-a. Aewyre fitou-o com ódio quando se despediu com uma vênia.

— Desculpe qualquer coisinha, sim? — pediu sem grande sinceridade antes de se escapulir por entre os guardas de Savincar.

— Um suserano deve certificar-se de que as fontes de rendimento mais importantes do seu domínio não são prejudicadas por indivíduos menos escrupulosos, não achais, príncipe? — perguntou o barão retoricamente. — Os balseiros clandestinos sempre foram um problema, mas homens como o Iginasco ajudam-me a controlá-lo. Ele e vários outros foram notificados de que poderíeis precisar dos seus serviços, pois calculei que não desejásseis atravessar a ponte debaixo do escrutínio dos meus homens.

Savincar ergueu mais ainda a sobrancelha, como se estivesse à espera que Aewyre negasse novamente a sua identidade, mas como o jovem nada fez, sorriu e continuou.

— Soube da vossa presença assim que entrastes em Arle, graças aos talentos do Vascarò — gabou-se, indicando o jovem com um gesto da cabeça, que este reconheceu, fazendo que sim com a sua —, mas não seria benéfico para ninguém se fósseis abordado em público pelos meus homens, pois a vossa reputação precede-vos mesmo em Laone, príncipe. O que fizestes em Alyun foi, no mínimo, notável...

«Continua a falar, cretino...», pensou Aewyre, analisando todas as possíveis rotas para escapar.

— Seja como for, o senhor vosso irmão de alguma forma soube que estáveis em Laone, e requisitou os meus serviços para vos encontrar e entregar. Não sei o que haveis feito, nem me diz respeito, mas lorde Aereth estava... determinado em que fósseis apreendido quanto antes.

Uma série de perguntas atravessaram a mente de Aewyre, mas o guerreiro estava demasiado ocupado a pensar em formas de se evadir à cilada para fazer qualquer coisa a respeito. Kror fazia o mesmo, com a vantagem de o capuz puxado e as muletas lhe merecerem menos atenção que a que era dirigida ao alto e corpulento jovem. Làriana estava demasiado assustada para falar, e Layaline apertava-a protetoramente contra si.

— Agora, príncipe, peço-vos que depondes as vossas armas —-requisitou Savincar, estendendo uma obsequiosa mão e recolhendo-a bruscamente assim que sentiu uma gota de chuva. — É evidente que não mais vos posso convencer das minhas de qualquer forma inexistentes nobres intenções, mas tal não impede que coexistamos pacificamente durante o breve período de tempo que aguardareis pela escolta do senhor vosso irmão, não concordais? Podereis aproveitar a vossa menagem para me contar a vossa certamente fascinante história, bem como a razão pela qual vos encontrais em tão... peculiar companhia.

Confrontado com a falta de reação de Aewyre e a pose continuamente hostil deste, o barão suspirou, deixando a cabeça descair pesarosamente e erguendo uma enfadada mão para indicar o jovem dos anéis.

— Príncipe, considero-me um homem paciente, mas o Vascarò aqui não prima pela sua longanimidade — disse, e o jovem sacudiu alguma água dos seus cabelos ensopados ao inclinar a cabeça bruscamente para o lado assim que se apercebeu de que falavam dele. Parecia ter a capacidade de concentração de uma criança. — Trouxe-o como mera precaução, e como provavelmente já deduzistes, os seus talentos são de uma natureza arcana, com a particularidade adicional de serem peculiarmente... instáveis.

Vascarò fez que sim com a cabeça e ergueu um punho cerrado de multicoloridos anéis luzentes, fitando-os com fingido interesse meramente para se exibir.

— Não queremos que ninguém se magoe, pois não, príncipe? — indagou Savincar, indicando Layaline com o queixo. — Sobretudo essa jovem e a criança. O Vascarò por vezes tem dificuldades em controlar o seu poder, e seria lamentável se alguém se ferisse apenas por sermos incapazes de levar esta situação a bom termo como pessoas civilizadas. Entregai a vossa espada, por favor, bem como os dois objetos que tanto intrigaram o Vascarò na noite em que vos visitou.

Aewyre avaliou as suas opções, trocando olhares circunspectos com Kror enquanto lobrigava as possíveis vias de fuga. Eram inexistentes. Teria que lutar, mas Layaline e Làriana ficariam encurraladas no meio de uma apertada e furiosa contenda caso desembainhasse Ancalach e começasse simplesmente a espadeirar em redor. Teria de ser rápido, fulminante, e acima de tudo inesperado. Notava-se que Kror partilhava da sua vontade, que a última coisa que estava disposto a fazer era render-se, nem que tivesse de lutar de muletas.

«Posso contar contigo, então», pensou o guerreiro, baixando-se para pegar em Ancalach, que envolvera com um pedaço de lona e atara à sua mochila como uma vulgar peça de equipamento.

— Não sou o príncipe Aewyre — reiterou, atirando Ancalach para os pés de Savincar, que baixou a cabeça para olhar para a espada envolta. — O príncipe porta Ancalach, a espada do grande Aezrel Thoryn. Essa lâmina não é Ancalach, e o vosso mago pode comprová-lo.

Aparentemente intrigado e divertido, o barão optou por fazer a vontade a Aewyre, indicando a Vascarò que pegasse na espada com um curto gesto da mão. O mago pareceu feliz em aquiescer, acocorando-se prontamente para agarrar a espada com ambas as mãos, contemplando-a de seguida como uma prenda por abrir. Aewyre lambeu a chuva dos lábios, lançou a Layaline um olhar pleno de significado para lhe dar a entender que algo se iria passar, e de seguida cruzou brevemente os olhos com os de Kror. Foi uma troca de olhares rápida ao ponto de passar despercebida, mas nela trocaram-se uma série de silenciosas palavras que deixaram em perfeita sintonia os dois homens já tão familiarizados com a linguagem corporal um do outro. Notou-se uma certa dúvida, sentiu-se uma medida de reticência, mas não havia tempo para discutir. Um erguer da sobrancelha, um singelo gesto a puxar os ensopados cabelos para trás, um leve inclinar do capuz, um erguer deste para o lado, seguido de um ligeiro inclinar para ambos os lados que parecia destinar-se apenas a despejar a água que escorria das pregas do capuz. Foi quanto bastou para que ambos se retesassem, prontos para o combate.

Vascarò desembrulhou Ancalach, estreitando os lábios num O de admiração ao contemplar os vistosos copos, e assim que fechou os dedos anelados no punho, Aewyre esticou bruscamente o braço para a frente ao mesmo tempo que Kror contraiu os músculos do seu corpo inteiro, com ambos os guerreiros a grunhirem como em esforço. Ancalach deslizou para fora da bainha com um silvo agudo, arrastando o braço do jovem mago com um grande sacão que o desequilibrou, causando a sua queda ao singrar a caminho da mão estendida e aberta de Aewyre. Vascarò estatelou-se no chão molhado e o jovem apanhou Ancalach em pleno ar, dando seguimento ao ímpeto com um altabaixo na diagonal para trás, encalhando a lâmina entre o ombro e o maxilar do soldado que aguardara na balsa, espirrando chuva com o impacto. O homem grunhiu de surpresa, levando as mãos ao golpe e caindo nas revoltas águas diante da roda do moinho com um rasto de sangue a trilhar do seu pescoço. Kror apoiou-se era ambas as muletas e impeliu a sua bacia para a frente, chutando um soldado no esterno e fazendo com que este também caísse à água. O companheiro deste reagiu com os reflexos afinados de um lutador e desembainhou a espada, mas a última coisa que esperara ver foi Kror apoiar-se sobre a perna boa e a muleta direita para aparar a sua espadeirada com a esquerda, que descaiu, arrastando consigo a lâmina e deixando a sua guarda aberta. Kror urrou e, girando no eixo que era a muleta esquerda, espetou violentamente a ponta da muleta direita na garganta do humano, esmagando-lhe a laringe com um enojante estalido e fazendo com que o seu chapéu de ferro lhe saltasse da cabeça.

— Aràtient-teh! — gritou Savincar, recuando e sinalizando aos seus homens que avançassem.

Os dois soldados que seguravam o pálio deixaram-no cair e desembainharam as espadas, seguidos pelos outros que haviam chegado posteriormente. Ouvia-se o tilintar de cota de malha e o silvar de aço em couro atrás do moinho, pelo que mais deveriam estar a caminho.

— Kror! Layaline! Vão! — berrou Aewyre, chutando a sua mochila para trás e para dentro da balsa.

Como a rapariga tardou a reagir, o jovem pegou nela pelo braço e atirou-a sem qualquer cerimônia para dentro da embarcação, tendo o cuidado de a atirar de costas para que Làriana não corresse o risco de se magoar ainda mais. Kror não precisou de tal incentivo, executando um salto de muletas e aterrando desajeitadamente dentro da balsa para evitar esforçar a perna ferida. Enquanto o drahreg pulava numa direção, Aewyre investia na outra para contender com os soldados, urrando e brandindo Ancalach. O muro sobre o qual caminhavam não permitia espaço a dois homens lado a lado, e o primeiro soldado não era páreo para a fúria do jovem, que praticamente o varreu para a água com um possante golpe de Ancalach, que colheu tanto a espada como quem a empunhava. Cada músculo do corpo de Aewyre formigava com o acesso à Essência da Lâmina que o «tendão» lhe concedera brevemente, e a resultante vontade de lutar era tremenda. Abateu-se com abandono sobre o subseqüente, espadeirando selvaticamente com ele, com Ancalach a estridular agudamente na lâmina adversária e a espirrar água da chuva com cada embate, e forçando um recuo aos que se encontravam atrás antes de lhe decepar os dedos da mão que empunhava a espada e o chutar no peito para cima dos seus companheiros.

— Kror, agarra-a! — gritou, aproveitando a abertura para retroceder, cortando a corda da balsa com um golpe que por pouco não encalhou Ancalach na porta de retenção do açude e pulando para apanhar a embarcação que começou de imediato a correr rio fora.

E então parou em pleno ar.

Demasiado surpreso para qualquer som, preso como se o ar tivesse repentinamente congelado em seu redor, o guerreiro limitou-se a ver Kror, Layaline e Làriana serem arrastados pelo rio num movimento pendular cada vez mais rápido enquanto Kror agarrava a corda com uma mão e a vara de ferro com outra. Se o drahreg se agüentasse, iriam seguramente dar à margem oposta, embora longe do destino pretendido. Layaline gritou de mão estendida como se pretendesse agarrar o guerreiro àquela distância, mas nada podia fazer. Estavam separados, e Aewyre estava preso em Arle, mas não se podia dar ao luxo de se preocupar em tal momento e concentrou-se na situação que tinha em mãos. Foi necessário algum esforço para conseguir olhar para trás, era como se uma força exterior lhe estivesse a entesar os músculos e a sustê-lo era pleno ar. Vascarò estava de braços estendidos e luzentes mãos abertas, e sorria como uma criança cuja partida acabara de surtir o efeito desejado.

— Heh. Heh. Heh — riu.

— Isso foi desnecessário e, em última análise, inútil, príncipe — disse Savincar, satisfeito por ter a situação novamente controlada, embora visivelmente contrariado por estar exposto à chuva. — Eu não queria nada dos vossos companheiros, e de qualquer forma escusáveis de ter morto três dos meus homens.

O soldado que Kror atingira na laringe rebolava no chão, sufocando olhos bem abertos e com as mãos desesperadamente fechadas na garganta enquanto um companheiro seu gesticulava e falava com ele sem saber o que fazer. Os outros dois haviam desaparecido debaixo de água, arrastados ao fundo pelo peso dos seus capotes e cotas de malha, e o quarto segurava o pulso e contemplava com crescente palor o horror dos três cotos vermelhos e sangrentos da sua mão mutilada.

— Estou deveras desagradado, príncipe, e começo a pensar que a torre de menagem talvez seja demasiado boa para alguém tão descortês...

Aewyre ignorou Savincar e concentrou-se exclusivamente em Vascarò, lembrando-se das sessões de treino de combate com magos que tivera com Allumno e Daveanorn. O jovem estava a fazer duas coisas ao mesmo tempo: a suster Aewyre no ar e a paralisar os seus músculos, e o fulgurante brilho dos seus anéis denotava o esforço que não se mostrava na tresloucada cara sorridente do mago. Se bem se lembrava, o primeiro efeito ainda era compreendido por aquilo que Allumno chamara uma «esfera de influência exterior», que, embora interagisse diretamente com o corpo e Aewyre, não era muito diferente de uma bola de fogo arremessada na sua direção. O segundo já estava fora da dita esfera, e envolvia um conflito de vontades para controlar o corpo do guerreiro através de Essência, algo que Allumno também por várias vezes lhe fizera. Só que Vascarò não era Allumno, estava a fazer duas coisas ao mesmo tempo, dividindo a sua concentração, e vontade era algo que não faltava a Aewyre naquele preciso momento.

— Homens, prendam-no — disse Savincar, e dois guardas avançaram cuidadosamente na direção de Aewyre, que ficou de olhos postos em Vascarò sem estar verdadeiramente a vê-lo.

Tão depressa quanto se enfurecera, o guerreiro recolheu-se para o seu âmago, encontrando a calma interior que a senda da lâmina requeria e com a qual aprendera a conviver. Focando-se na retidão do seu propósito, na intransigência da sua caminhada e na implacável natureza do caminho que escolhera, os olhos do guerreiro pareceram aceirados pela sua determinação quando os focou novamente no mago. Este persistiu no seu sorriso demente, que contudo se desvaneceu quando sentiu os fios de Essência que usava para cingir os músculos de Aewyre soltarem-se um por um como se cortados por uma lâmina afiada. Franzindo as sobrancelhas e erguendo as lunetas no seu nariz ao fazê-lo, Vascarò mexeu os dedos como um fantocheiro frustrado, mas sentiu claramente o seu controlo ser minado e experimentou uma sensação rara: contrariedade.

— Heh? — admirou-se o jovem mago, cujo queixo descaiu quando Aewyre fez o mesmo.

Novamente senhor dos seus movimentos, Aewyre compensou com os braços a momentânea falta de equilíbrio quando a força invisível o libertou e os seus pés tornaram a assentar no chão. Os soldados que se aproximavam para o prender foram apanhados de surpresa, e o guerreiro colheu um deles com uma cutilada diagonalmente ascendente de Ancalach que lhe separou a mandíbula inferior do resto da face.

— Dèfante! — berrou Vascarò, estendendo ambos os braços com os anéis a fulgirem furiosamente.

— Vascarò, na! — tentou Savincar impedi-lo, demasiado lento para as duas rajadas irisadas que jorraram das mãos abertas do jovem.

Assim que ouvira o grito do mago, Aewyre pegara no colarinho do capote de um dos soldados após ter aparado o seu golpe, e o seu instinto foi metê-lo expeditamente à sua frente. O homem fazia tenções de estocar o jovem, mas então a rajada explodiu-lhe nas costas, queimando-lhe o capote e o brial por baixo e abrasando-lhe a cota de malha que, apesar de o resguardar do pior da rajada, não pôde amortecer suficientemente o impacto para o impedir de ser projetado para a água. O homem voou a abanar os braços e a gritar, caindo com grande estrépito ao rio e desequilibrando Aewyre, que escorregou e tombou de lado sobre o muro, raspando a sua couraça e espaldeiras contra a pedra molhada. Encontrando-se de bruços, o jovem viu que um soldado se preparava para lhe desferir um pontapé na cara e que Vascarò fermentava de energias arcanas em antecipação de uma outra descarga. Sem nenhuma outra alternativa à vista, rebolou para a esquerda, deixando-se cair para dentro de água.

— Não! — tornou Savincar a gritar, levando as mãos à cabeça. — Idiotas, tirem-no da água! Ele está de armadura!

Sem saberem o que fazer, os soldados aglomeraram-se como ovelhas no muro, gesticulando na direção da água e olhando em redor em busca de um qualquer objeto que lhes pudesse valer. Um deles pegou no que restava da corda cortada por Aewyre por falta de uma alternativa melhor, mas antes que alguém lhe pudesse dizer o quão ridícula a noção era, o jovem emergiu, agarrado com uma mão a uma das pás da roda do moinho, que o alçou para fora do rio. Surpresos, os guardas não reagiram de imediato ao verem o jovem a escorrer água ser elevado diante dos seus narizes, e este não se fez de rogado, chutando um deles, que se desequilibrou e agarrou o capote de um dos seus companheiros, arrastando ambos para o rio. Só então é que os outros tentaram reagir, mas por essa altura já Aewyre estava fora do alcance das suas mãos e espadas. O guerreiro agia por instinto, e o que este lhe ditou assim que alcançou o ápice da roda e avistou uma janela fechada foi encalhar Ancalach entre esta e a adufa que a resguardava, entesando o braço e deixando a força motriz da roda arrancar o resguardo. Em baixo, Vascarò já o vira e, a mando de Savincar, que apontava na sua direção, projetou uma mão anelada para a frente, da qual emanou uma rajada em vários tons de verde. Aewyre firmou o pé numa das pás da roda e pulou pela janela adentro, evitando a rajada, que fez um buraco na parede de tabique do moinho.

— Para trás, idiotas, voltem para trás! — berrava Savincar, histérico ao enxotar os homens que vinham da sua retaguarda, incluindo também os do muro. O seu cabelo ficara entretanto ensopado, revelando uma considerável calva na sua nuca. — Entrem pela porta! Ele está lá dentro!

Os soldados acederam prontamente às ordens do seu senhor, correndo de espadas desembainhadas para a entrada do moinho enquanto Vascarò os via passar, confuso e com a mão ainda estendida na direção do buraco na parede de tabique. Savincar pegou nele pelos colarinhos, por pouco não esborrachando os narizes de ambos, e apontou para os seus homens.

— Vai com eles, mas controla-te, seu imbecil! — ladrou. — Eu quero o príncipe vivo, entendeste? Vivo!

Sem dar verdadeiras mostras de o ter feito, e com olhos impossíveis de ler devido ao fato de as suas lunetas estarem molhadas e embaciadas, o jovem mago acenou com a cabeça e foi prontamente atrás dos soldados.

A porta do moinho foi arrombada sem qualquer cerimônia por um pontapé, e os homens de Savincar entraram de espadas desembainhadas. O interior estava iluminado pelas lanternas acesas, pois o barão aguardara ali pelo sinal de Iginasco, mas as engrenagens e traves sobre o teto e em redor do engenho providenciavam inúmeras sombras e recessos escondidos. O eixo da roda girava, chiando e rodando uma roda vertical dentada que por sua vez se engranzava num lanternim horizontal, este com uma haste que partia para as mós que torneavam numa plataforma em cima. Uma calha diagonal partia da dita plataforma, desembocando sobre um compartimento circunscrito por canas entrelaçadas das quais pendiam vários sacos de serapilheira. Os soldados correram prontamente para as escadas que davam para a plataforma superior enquanto outros caminhavam de lado e olhavam para cima, atentos as traves sobre as quais o príncipe também se podia encontrar. O soldado que ia à frente subiu de espada em riste, mas assim que a sua cabeça ultrapassou o limiar da plataforma, recebeu um forte pontapé na nuca que lhe arrancou o chapéu de ferro e o impeliu de cara contra o último degrau, triturando-lhe o nariz com o impacto. O homem abafou o grito de dor com ambas as mãos que levou à cara, bloqueando a escada, e Aewyre pulou então para cima de uma das traves, deixando a sua capa para trás. Dois soldados apontaram na sua direção e gritaram, alertando os outros, e o jovem saltou para cima da calha com o intuito de a usar como plataforma para pular para o piso terreno, mas esta não suportou o seu peso e quebrou-se com um poeirento estalido. Aewyre caiu com grande estrépito sobre o compartimento de canas entrelaçadas numa confusão de membros, madeira partida, sacos e pó de cereais, largando Ancalach ao tentar amparar a queda com as mãos. O jovem grunhiu com o tombo, mas a adrenalina sobrepôs-se aos impulsos de dor que originaram de várias partes do seu corpo e não se permitiu ficar um instante sequer no chão. Porém, antes que se pudesse mexer muito, dois guardas caíram-lhe em cima com pontapés, e Aewyre apenas conseguiu erguer os antebraços protegidos por braceiras para resguardar a cabeça. Os dois praguejaram em Leriat enquanto chutavam o príncipe, mas Aewyre escudou-se do pior dos golpes e boa parte dos restantes embateram nas suas peças de armadura. Um deles permitiu-lhe agarrar um pé ofensor com ambas as mãos, que Aewyre torceu bruscamente, partindo o tornozelo ao homem, que se deixou cair de lado para cima do seu companheiro. O jovem aproveitou a abertura para pegar em Ancalach e erguer-se atabalhoadamente com um golpe de pernas, girando em si e desferindo um corte no joelho do soldado que ainda estava de pé, partindo-lhe a rótula em dois. O homem uivou de dor e Aewyre pôs-se de costas contra a parede e de Ancalach enristada, pronto a enfrentar os soldados que se aproximavam. Estava encharcado e parcialmente coberto de farinha e grumos, alguns dos quais deslizavam pastosamente pela lisa superfície da sua couraça molhada. Esquadrinhando a área em redor de um único relance, o guerreiro constatou que não se prestava de todo a um combate de espadas, sobretudo uma do tamanho de Ancalach, tendo em conta todas as vigas em redor e a curta altura que separava o piso da plataforma em cima, mas não teve grande escolha.

Os soldados investiram com um grito em uníssono, não mais dispostos a darem tréguas ao homem que já matara ou ferira gravemente vários dos seus companheiros, e Aewyre lançou-se sobre o que vinha na dianteira. A contenda foi rápida e furiosa, com. os contornos das silhuetas dos quatro combatentes a serem realçados pelo lume das lanternas, ao qual o aço das espadas brilhava. Aewyre e os seus adversários dançaram por entre as traves, com as lâminas a dardejarem, lambendo aço e mordendo madeira até Aewyre se encontrar na posição que almejara. Um, dois aparos de espada, e a guarda de um soldado abriu-se o suficiente para o guerreiro lhe rebentar os lábios com um forte murro de esquerda, deixando-se descair propositadamente com a impulsão do golpe para se baixar e evitar a espadeirada do homem que veio detrás do primeiro e que se embebeu numa viga. Cambaleando, Aewyre pegou num saco de serapilheira do chão e arrojou-o para trás de si antes de se recompor numa pose defensiva, lançando uma nuvem de farinha para cima do terceiro soldado, que se preparara para o atacar. O seu oponente tossiu e engasgou-se, espanando com a sua espada e mão livre e tornando-se um alvo fácil para Aewyre, que o abateu com um golpe descendente de duas mãos impelido por um feroz grunhido. O homem caiu e o seu sangue respingou a farinha no chão num mórbido padrão cuja consistência a brancura granulada manteve. Aewyre ouviu mais barulhos à entrada do moinho, mas correu primeiro a aniquilar o soldado que embebera a sua espada numa viga. O homem ainda tentava arrancar a lâmina da madeira, mas assim que viu o irado guerreiro vir na sua direção, recuou, tropeçando e caindo de costas ao chão. Lançando-se sobre o homem como um predador, Aewyre enterrou Ancalach no seu peito e arrancou-a seguidamente, virando-se para a entrada. Foi então que uma rajada escarlate singrou pelo ar, atingindo-o em cheio na couraça e projetando-o contra o lantemim, no qual o guerreiro ressaltou antes de cair ao chão.

— Heh — riu Vascarò à entrada. Os seus cabelos ensopados pendiam como patas de aranha negras entrecruzadas diante da sua cara, e as suas lunetas embaciadas davam um ar tanto mais alienígena à sua destravada expressão.

Aewyre sacudiu a cabeça e ergueu-se com uma careta, pois embora estivesse protegido pela sua couraça, o impacto não deixara de o magoar. Havia quatro outros soldados, à entrada, mas estes pareciam dispostos a deixar o jovem mago fazer o seu trabalho.

— Tu... vensou...? — indagou Vascarò com uma voz meia indistinta, alternando entre palavras arrastadas e encadeadas. Aliada ao seu sotaque laonês, a sua fala era bastante difícil de decifrar. — Heh.

— Vem buscar-me — desafiou o guerreiro entredentes, erguendo-se numa posição meio agachada e de Ancalach empunhada por ambas as mãos.

O jovem mago riu, inclinando a cabeça para trás e abanando-a como em regozijo, e Aewyre preparou-se para a ofensiva arcana, que veio na forma de duas descargas projetadas pelas mãos de Vascarò quando este se inclinou repentinamente para a frente, esticando os braços. Aprendera uma coisa muito importante nos seus treinos com Allumno: quando em combate com magos, devia prestar atenção aos corpos destes, e não às luzes bonitas e mortíferas que deles emanavam. Assim que a linguagem corporal de Vascarò lhe denunciou o movimento, Aewyre antecipou as duas descargas, posicionando Ancalach numa guarda transversal com. a qual as deflectiu a ambas. O mago recuou a intrigada cabeça, colando o queixo ao pescoço e de sobrancelhas erguidas sobre as lunetas embaciadas.

— Heh — riu, aparentemente divertido enquanto coçava o braço. — Tu... és rápido és. Acho... sim... acho... quetevoumagoar!

Dito isto, desferiu uma série de golpes direitos no ar, arremessando um igual número de discos elipsoidais que crepitavam em colorida fúria e que Aewyre interceptou com cutiladas e reveses de Ancalach. Os discos estralejaram ao estourar, queimando o jovem com faíscas e ofuscando-lhe os olhos, embora não ao ponto de não conseguir ver os brilhantes projéteis virem na sua direção. Incólume, Aewyre pôs-se novamente em guarda, erguendo a cabeça em repto tanto ao mago como aos soldados que aguardavam de espadas desembainhadas. Vascarò parecia lidar com a Essência de forma diferente de Allumno, mais selvagem, mais descontrolado. Ainda não o vira usar os seus poderes para nada mais elaborado que emitir rajadas de pura Essência, mas em contrapartida não se parecia cansar tanto quanto o seu tutor ao fazê-lo.

— Ai... euvou... vou... voumezangar! — intimidou, retirando contudo toda e qualquer força à sua ameaça ao pôr-se a olhar distraidamente em redor, como se outra coisa tivesse capturado o seu interesse.

O guerreiro pensava freneticamente em formas de escapar do moinho e fugir daquela labiríntica área, imaginando todas as possibilidades, incluindo pular da janela caso conseguisse distrair Vascarò. Todavia, não teria onde ir a partir daí, e saltar para o rio estava fora de questão.

«Espera... e daí, o rio... se conseguisse atirar-me lá para dentro com algo a que me agarrar...», pensou Aewyre, sem contudo tirar os olhos de Vascarò.

— Apanhaisto! — berrou o mago, tentando novamente surpreender o guerreiro ao atirar bruscamente os braços para a frente com os anéis a fulgurarem de forma quase cegante.

A descarga que emitiu foi considerável, mas Aewyre aprestara Ancalach assim que vira o recuar de antecipação dos ombros de Vascarò, e enfrentou a possante rajada com um altabaixo que a fendeu em duas. A fissão essencial causou um repentino arrepio que subiu pelos braços de Aewyre e se espalhou pelo seu corpo fora, e as duas partes da rajada rebentaram atrás de si. Vascarò exalou de incredulidade, deixando as mãos caírem para os seus lados e baterem nas suas ancas, claramente pouco habituado a ser desafiado de tal forma. Lá fora, alguém berrava e tocava um sino qualquer. Deviam estar a chamar a guarda citadina.

— Heh — riu o mago sem verdadeiro humor, levando um braço atrás das costas para coçar a ilharga e olhando para os soldados atrás de si. — Ele... é... é... émesmorápido. Heh... vocês... dequeestãoà... à... espera?

Os quatro soldados entreolharam-se, claramente receosos de se exporem aos excessos de Vascarò, mas acabaram por avançar cuidadosamente e de espadas desembainhadas. Aewyre deu uma rápida olhadela em redor para reavaliar as suas opções, e constatou que as duas partes da rajada fendida tinham danificado uma viga e a ponta do eixo da roda, cujo suporte de ferro com pregos rangia. Olhando para a parede de frágil tabique, teve então uma idéia louca, que naquele momento se sentiu perfeitamente capaz de tentar levar a cabo. Os soldados investiram então, e Aewyre de bom grado correspondeu ao seu ímpeto, rilhando Ancalach por duas lâminas com um só golpe e escudando-se de seguida atrás de uma viga, pois não tirara os olhos de Vascarò e reparara como o jovem mago se preparara para o apanhar desprevenido. O faiscante raio amarelado que crepitou contra a viga estivera destinado a Aewyre, mas ainda assim os quatro soldados hesitaram, encolhendo-se todos instintivamente e baixando as cabeças. O guerreiro aproveitou a hesitação para tentar acutilar o ombro do braço da espada de um deles, mas o homem ainda reagiu a tempo de aparar o golpe.

— Vamosváapanhem-nooo! — gritou Vascarò de dedos curvados e anéis fulgentes.

Os quatro soldados aquiesceram, mais por estarem a ser atacados do que por vontade própria, pois todos pareciam temer estar na linha de fogo do jovem mago. Aewyre escaramuçava mais do que propriamente lutava, pois não queria ficar mais que um mero instante na mesma posição e tinha de lidar com quatro espadas além da pendente ameaça de Vascarò. Teria de resolver a situação depressa, pois não lhe era de todo favorável.

— Parecesumcoelho! — berrou o mago, esticando um braço e recuando o outro numa pose quase teatral ao emitir um feixe faiscante.

Aewyre deslizava pelo chão com passadas laterais, tentando entrepor-se entre vigas e os seus adversários sempre que possível, executando parada após parada. Ao ir de costas contra uma, foi logo prontamente atacado por dois soldados. Aparou o golpe do que vinha à frente com uma guarda apertada e deslizou rapidamente a lâmina de Ancalach pela do adversário, encalhando-a nos seus copos. O feixe de Vascarò atingiu a viga nesse momento, arrancando um naco de madeira e cuspindo puas chispantes para o ar e para cima do cabelo do jovem. Ferrando os dentes, Aewyre torceu o pulso para tirar a espada do caminho e esmurrou o soldado em cheio no queixo, recolhendo-se de imediato e levando Ancalach atrás para estocar o segundo, que se preparava para fazer o mesmo, empunhando a espada com ambas as mãos.