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CAPITÃO TORMENTA / Emilio Salgari
CAPITÃO TORMENTA / Emilio Salgari

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

CAPITÃO TORMENTA

 

     - Sete!

     - Cinco!

     - Cuatro!

     - He ganhado!

     - Por trinta mil cimitarras turcas! Que sorte a vossa, senhor Perpignano! Em duas noites ganhastes-me oitenta cequins. Isto não pode seguir! Prefiro uma descarga de culebrina, ainda que a bala seja disparada por esses cães infiéis! Pelo menos, não me martirizarão quando conquistarem Famagusta!

     - Se conquistarem-na, capitão Laczinski!

     - Está pondo isso em dúvida, senhor Perpignano?

     - De momento, sim. Enquanto estejam a nosso lado os mercenários, não será conquistada. A República sabe eleger seus soldados.

     - Mas não são polacos.

     - Capitão, não ofendais os soldados dálmatas!

     - Nem pretendo fazer tal coisa. Mas se se encontrassem aqui meus compatriotas…

     Murmúrios ameaçadores, que começaram a se ouvir em torno dos dois jogadores, unidos ao entrechocar de espadas nervosamente brandidas, fizeram ao capitão Laczinski interromper suas palavras.

     -Oh! –exclamou mudando o tom de sua voz e esboçando um sorriso-. Já conheceis, bravos mercenários, que sou amigo das brincadeiras! Levamos já quatro meses lutando juntos contra esses cães descrentes, que juraram nos furar a pele, e sê o que valeis. De maneira, senhor Perpignano, que enquanto os turcos nos deixam em paz um momento, continuemos nossa partida. Ainda conservo uns vinte cequins que estão a ansiar para sair do bolso.

     Como para desmentir as palavras do capitão, naquele instante se ouviu o estampido do canhão.

     -Ah, bandidos! Nem pela noite deixam-nos tranqüilos! –exclamou o polaco enraivecido-. Bah! Ainda dar-nos-ão ocasião de perder ou ganhar uns quantos cequins! Não vos parece, senhor Perpignano?

     - A vossa disposição estou, capitão.

     - Atirais os dados então!

     - Nove! –disse Perpignano, lançando os dados em cima do banquinho que fazia as vezes de mesa de jogo.

     -Três!

     - Onze!

     -Sete!

     - Ganhei!

     Uma exclamação de contrariedade surgiu dos lábios do pouco afortunado capitão, enquanto em torno dele, brotavam algumas gargalhadas, rapidamente reprimidas.

     .- Pelas barbas de Maomé! – resmungou o polaco, atirando sobre o banquinho um par de cequins-. Pactuastes talvez com o diabo, senhor Perpignano?

     -Deus guarde-me! Sou bom cristão!

     -Em tal caso alguém deve vos ter ensinado a lançar os dados. Apostaria minha cabeça contra as barbas de um turco que esse que vos ensinou é o capitão Tormenta!

     -Jogo com freqüência com tão valente cavalheiro, mas não me deu a menor lição.

     -Cavalheiro? Bah! –disse o capitão, com alguma acidez.

     -Não lhe considerais assim?

     - Bah! Quem sabe em realidade de que pessoa se trata?

     -De qualquer jeito, é um jovem amável e extremamente valoroso.

     -Um jovem!

     -Que pretendeis dizer com isto, capitão?

     -E se não se tratasse de um jovem?

     -Provavelmente não tem ainda vinte anos.

     -Não me entendeis! Mas esqueçamos ao capitão Tormenta e dos turcos, e continuemos nosso jogo. Não desejo combater amanhã com a carteira vazia. De que forma ia pagar a Caronte o barqueiro (personagem mitológico) sem ter comigo um miserável cequim? Bem conheceis que para atravessar a Estigia há que pagar, amigo meu.

     -Tão verdadeiro estais de ir ao inferno? –perguntou, entre risos, o senhor Perpignano.

     -Pudesse ocorrer! –replicou o capitão, pegando quase com cólera o cubilete e movendo os dados-. Ainda ficam dois cequins!

     Esta cena desenvolvia-se numa grande tenda de campanha que servia ao mesmo tempo de quartel e de cantina, a julgar pelos numerosos colchões amontoados num extremo e os barris acumulados depois de um rústico banco, no que se achava sentado o proprietário da tenda, bebendo a tragos uma garrafa cheia de vinho de Chipre.

     Embaixo de um lustre das denominadas de Porco, que pendia do machón central da tenda, se encontravam ambos jogadores, e a seu arredor estavam reunidos uma quinzena de soldados dos que enviou a República de Veneza, recrutados de suas posses dálmatas para proteger as colônias de Levante, ameaçadas de contínuo pelas formidáveis cimitarras turcas.

     O capitão Laczinski era um homem gordo e de elevada estatura, forte musculatura, imponentes bigodes e áspero cabelo loiro. Seu nariz tinha a cor característica da de um bebedor empedernido e seus pequenos olhos moviam-se sem cessar. Tanto em seus rasgos faciais como em sua maneira de falar e seus gestos se adivinhava no ao capitão aventureiro e ao espadachim de oficio.

     O senhor Perpignano era tudo o contrário que seu rival. De bastante menos idade que o polaco, que já contava seguramente uns quarenta anos, se advertia no ao autêntico tipo do doge veneziano, alto e delgado, ainda que robusto, com o cabelo e os olhos negros, e a pele do semblante um pouco pálida.

     O capitão Laczinski levava uma pesada couraça de ferro, e de seu costado pendia uma enorme espada. O senhor Perpignano, em mudança, luzia o elegante trouxe veneziano da época: casaca suntuosamente recamada, que lhe chegava até meia perna, calções de malha de várias cores e escarpins. Sobre a cabeça levava um tolcado azul ornado com uma pluma de faisão.

     Em vez de um guerreiro parecia um pajem de Dux de Veneza, pese a seu armamento, que consistia numa espada ligeira e um punhal.

     O jogo tinha voltado a iniciar-se com entusiasmo, pelas duas partes e com crescente curiosidade dos soldados, que, como já indicamos, se achavam em círculo ao redor do banquinho que fazia as vezes de mesa, enquanto ao longe rugia de vez em quando o canhão, fazendo se agitar o fogo do lustre.

     Nenhum, não obstante, parecia se inquietar demasiado por aqueles estampidos; nem sequer o taberneiro, que prosseguia trasegando com toda tranqüilidade o doce e extraordinário veio de Chipre.

     O capitão tinha perdido já –não sem grandes maldições - outra meia dúzia de cequins, quando uma das cortinas da tenda se alçou e um novo personagem, tampado com um amplo tabardo negro, e cujo birrete se achava enfeitado por três plumas azuis, penetrou na tenda, exclamando com acento ligeiramente irônico e, no entanto, o bastante enérgico para ser obedecido:

     -Magnífico! Aqui está a jogar-se enquanto os turcos pretendem demolir o forte de São Marcos e minam-no sem descanso! Que meus homens tomem as armas e me acompanhem! Ali se encontra o perigo!

     Enquanto os soldados empunhavam suas alabardas, maças de ferro e espadas de duplo fio, que deixaram juntas num rincão da tenda, o polaco, que se encontrava com um terrível mal humor pela fuga interrompida de suas cequins, tinha alçado a cabeça, contemplando com hostilidade ao recém chegado.

     -Olá! O capitão Tormenta! –exclamou em tom de burla-. Já podias defender só o forte sem vir terminar com nossa partida! Famagusta não entregar-se-á esta noite.

     O jovem era arrogante, talvez atraente em excesso para ser um guerreiro; não demasiado alto, mas esbelto, de rasgos correctos, com olhos azuis que semejaban carbunclos, boca de mulher enfeitada com formosos dentes, cútis algo atesado, que indicava sua origem meridional, e cabelos longos e dourados. Parecia dantes bem uma encantadora jovem que um capitão de fortuna.

     Suas roupas eram elegantes e cuidadas, ainda que os contínuos ataques dos turcos não lhe deviam de dar demasiado tempo para se ocupar de seu tocado. Levava uma armadura totalmente de aço, com um pequeno escudo no meio do peto, no que se viam gravadas três estrelas sob uma coroa ducal; calçava espuelas douradas e do cinto pendia-lhe uma espada cincelada, com empunhadura de prata, semelhante à empregada pelos franceses daqueles tempos.

     -Que pretendeis dizer com tais palavras, capitão Laczinski? –inquiriu com voz bem timbrada, que contrastava de uma forma um tanto estranha com a rouca e forte do polaco, e sem abandonar a mão da empunhadura da espada.

     -Que os turcos podem aguardar até manhã! –contestou o aventurero, encolhendo-se de ombros-. Ainda somos o bastante fortes para os fazer retroceder até Constantinopla ou à metade do maldito grande deserto de Arabia!

     -Não altereis o sentido das palavras, senhor Laczinski –repôs o jovem-. Referíeis-vos a mim, não aos infiéis…

     -Vos ou os turcos, para mim é o mesmo –interrompeu em forma brutal o polaco, ainda de péssimo humor pela má sorte que com tal empenho lhe acossava.

     O senhor Perpignano, que era um grande admirador do capitão Tormenta e a cujas ordens combatia, empunhó a espada disposto a se precipitar sobre o polaco, mas foi interrompido pelo jovem, que tinha mantido uma absoluta serenidad, e lhe disse:

     -A vida dos defensores de Famagusta é em excesso valiosa para jogar-lha de semelhante maneira. O capitão Laczinski pretende renhir comigo para se desafogar das perdas sofridas ou talvez porque, como ouvi dizer, dúvida de meu valor.

     -Eu? –exclamou o polaco, incorporando-se. Pelas barbas de Maomé! Os que vos explicaram isso são uns canallas, a quem exterminaré como a cães rabiosos!...

     -Prossegui! –interrompeu o capitão Tormenta com imperturbável serenidad.

     -Ponho em dúvida vosso valor! –replicou o polaco-. Sois demasiado jovem para ter a reputação de famoso guerreiro e, por outra parte…

     -Acabai! –agregou o capitão, interrompendo com firmeza ao senhor Perpignano, que por segunda vez tinha voltado a desenvainar a espada-. Sois muito entremetido, capitão Laczinski!

     O polaco derrubou o banquinho que lhes servia de mesa.

     -Por san Estanislao, patrón de Polónia! –resmungou levantando com nervoso ademão seus lacios bigodes, que pendiam como os dos chineses-. Pretendeis burlar-vos de mim, capitão Tormenta? Dizei-mo claramente!

     -Já poderíeis o ter observado! –contestou o jovem, sempre com acento zombador.

     -Considerais-vos muito experiente espadachín quando tendes a ousadia de vos burlar de um velho urso polaco, rapaz! Se é que em realidade sois um rapaz, já que tenho minhas dúvidas!

     Ao escutar aquelas palavras, o jovem tornou-se lívido e um destello de ira brilhou em seus olhos negros.

     -Faz quatro meses –exclamou- que luto nas trincheras e nos fortes; conhecem-me e conhecemos-nos todos. Vos notificaré, ademais, que minha espada de rapaz conhece melhor aos turcos que a vossa de matón. Ouviste-lo, Capitão aventurero?

     Nesta ocasião foi o polaco quem tornou-se lívido.

     -Eu um aventurero? E diz-mo o capitão Tormenta?

     -O capitão Tormenta pode luzir em sua armadura uma coroa ducal!

     -Eu colocar-me-ei uma real na couraça! –contestou o polaco, rindo-. Seja o que seja, eu afirmo, duque ou… duquesa, que não tendes suficiente valor para vos enfrentar a minha espada!

     -Duque, já vo-lo disse! –exclamou o jovem e bizarro capitão-. Isto solucioná-lo-emos entre os dois!

     Os mercenários, que se tinham reunido à direita de seu capitão, pegaram as alabardas e deram um passo para adiante, em atitude de se precipitar sobre o polaco e o despedaçar.

     Inclusive o proprietário da tenda tinha-se levantado do banco e, tendo tomado um barrilito, dispunha-se a lançá-lo sobre o temerario aventurero. Mas um imperioso ademão do capitão Tormenta reteve-o.

     -Pondes em dúvida meu valor? –disse com acento irônico-. De acordo: todos os dias um jovem turco, sem dúvida muito valoroso, chega sob nossas muralhas para desafiar ao mais experiente espadachín e medir com ele suas armas. Amanhã não deixará de ir. Sois o suficientemente valoroso para enfrentar-vos a ele? Eu, si.

     -Engolir-mo-ei de um bocado! –repôs o polaco-. Não me amedrentan os turcos! Não sou veneziano nem dálmata! Não valem o que os tártaros russos!

     -Até manhã!

     -Belcebú leve-me consigo se falto!

     -Eu já estarei ali.

     -Quem será o primeiro em se bater?

     -O que gosteis!

     -Já que sou o de mas idade, eu serei o primeiro; logo tentá-lo-eis vos, capitão Tormenta.

     -Que seja assim, se é vosso gosto. Pelo menos não poder-se-á dizer que os defensores de Famagusta se matam entre eles.

     -E será mais prudente –conveio o polaco-. A espada de Laczinski matará desta forma a um guerreiro mais do exército de Mustafá!

     O capitão Tormenta pegou o tabardo que um de seus soldados lhe entregava e, lho pondo sobre os ombros, abandonou a tenda enquanto dizia a seus homens:

     -Ao forte de São Marcos! Nesse ponto é onde os turcos estão a minar e onde o perigo é maior!

     E saiu, sem olhar a seu adversário, acompanhado pelo senhor Perpignano e os soldados, quem, aparte das alabardas, levavam arcabuces.

     O polaco permaneceu na tenda e, não tendo como nem com quem desafogar seu mau humor, embistió contra o banquinho, o rompendo a golpes e puntapiés, entre grandes protestos do tabernero.

     A companhia dos soldados ao comando do capitão Tormenta, que tinha por tenente ao senhor Perpignano, se encaminhou para o forte, cruzando callejuelas estreitas flanqueadas por casas de dois andares.

     A noite era muito escura. Todas as janelas se achavam fechadas e os faroles apagados. Caía uma chuva menuda e contínua acompanhada de um vento caluroso, enervante, procedente do deserto de Líbia, que cruzava assobiando por entre os tejados das casas.

     O canhão retumbava mais com freqüência que dantes, e de vez em quando um proyectil de pedra, dos utilizados naquele tempo, cruzava assobiando pelos ares, deixando detrás uma estela de chispas e se abatia com surdo estrondo en o tejado de alguma casa, o afundando e fazendo cundir o espanto entre os moradores da casa.

     - Vá noite! –exclamou o senhor Perpignano, que marchava ao lado do capitão Tormenta-. Os turcos não podiam ter elegido outra mas apropriada para tentar o assalto ao forte de São Marcos.

     - Será trabalho inútil, ao menos por enquanto –replicou o capitão-. A hora trágica da queda de Famagusta não soou ainda.

     - Mas não demorará em soar, se a República não se apressa a mandar socorros.

     - Será melhor não contar senão com o valor de nossas espadas, senhor Perpignano. A Serenísima acha-se muito ocupada em proteger suas colônias de Dalmacia, e as galeras turcas navegam pelas águas do archipiélago e do Jónico, prestas a exterminar a quem fosse em nosso socorro.

     - En tal caso terá de chegar no dia em que devamos nos render.

     - Y também nos deixar assassinar, já que estou inteirado de que o sultão ordenou levar a luta a degolo a fim de castigar nossa prolongada resistência.

     - Miserável! Nós teremos talvez morrido já e não estaremos presentes em tal exterminio, capitão! –disse o senhor Perpignano, suspirando-. Azarados habitantes! Melhor seria para eles ficar sepultados totalmente!

     - Callad, tenente! –repôs o capitão-. Sinto um grande pesar ao pensar no instante em que essas feras procedentes do caluroso deserto de Arabia penetrem em Famagusta, anhelosas de sangue igual que tigres.

     A companhia tinha abandonado já o recinto da cidade, atingindo uma ampla explanada cerrado num lado pelas casas e no outro por uma longa muralha, na qual ardiam várias tochas.

     A luz das tochas bastava para ver aos guerreiros que se moviam em todas direcções, mas não para os reconhecer, já que o vento fazia oscilar os fogos de modo fantasmagórico. De vez em quando um relâmpago rasgava as trevas, acompanhado de um estampido.

     Por trás dos artilheiros, uma grande bicha de mulheres, algumas com suntuosas roupas, avançava em silêncio, portando a duras penas enormes sacos, cujo conteúdo arrojavam acima da muralha, enfrentando, impertérritas, os proyectiles dos sitiadores.

     Eram as valorosas mulheres de Famagusta, que reforçavam as muralhas, minadas sem cessar pelos inimigos, com as ruínas de suas moradas, abatidas pelo bombardeio dos infiéis. Um exemplo mais de que a valente actuação das mulheres pode decidir o final vitorioso de um assédio prolongado. Historicamente, foram muitas as heroínas de todas as 30

     raças que fizeram honra a seu sexo mantendo alto o ânimo dos sitiados sem contribuir ao desesMas geral.

    

                        O LUGAR DE FAMAGUSTA

     No ano 1570 começou de uma forma trágica para a República de Veneza, a maior e mais temível inimiga dos turcos. Já tinha certo tempo que o rugido do leão de São Marcos se tinha debilitado; em primeiro lugar o Negroponto, em Dalmacia, e depois as ilhas do archipiélago grego, tinham recebido as primeiras feridas, pese à heroica defesa que suas moradores opuseram aos assaltos iniciais do inimigo.

     Selim II, o formidável sultão de Constantinopla, dono do Bósforo, vencedor de húngaros e austriacos, dominador de Egipto, Trípoli, Tunes, Argélia, Marrocos e parte do Mediterrãoeo, só aguardava o momento adequado para tomar definitivamente as últimas colônias que em Levante possuía a República.

     Confiado na fiereza e o fanatismo de seus súbditos e contando com grandes forças navais, não lhe custou muito encontrar uma desculpa para iniciar a guerra contra os venezianos, quem, por outra parte, começavam a dar indícios de decadência.

     A concessão da ilha de Chipre por Catalina Cornaro à República foi a chispa que fez prender a pólvora.

     O sultão, considerando suas posses de Ásia Menor em perigo, e confiando em seu poderío, conminó, sem mais explicação, aos venezianos para que entregassem a ilha, os culpando de ajudar ao corsario Pomanteni, que armava seus galeras com dano para os súbditos da Meia Lua.

     Como era de imaginar, o Senado veneziano replicou depreciativamente à intimidação do bárbaro sucessor do profeta, e tinha juntado todas suas tropas, diseminadas por oriente e Dalmacia, se dispondo com grande entusiasmo para a campanha.

     A ilha de Chipre só tinha naquele tempo cinco cidades: Nicosia, Famagusta, Baffo, Arines e Lamisso. Mas somente as duas primeiras estavam em disposição de oferecer resistência, já que eram as únicas amuralladas.

     Deram-se instruções para fortificar os muros o mais possível e constituir um amplo campo atrincherado em Lamisso, para reunir as tropas venezanas, que já estavam em movimento, sob as ordens de Guillermo Zane, e fazer ir o mais rápidamente possível desde Candía à frota de Marcos Quirini, um dos melhores marinheiros com que naquela época contava a República.

     Nada mais declarada a guerra, as forças enviadas pelo Senado desembarcaram, sãs e salvas, em Lamisso, graças à protecção de Quirini.

     Compunham-se aqueles reforços de oito mil homens da pé, entre venezianos e mercenários, dois mil quinhentos da cavalo e bastantees peças de artilharia. A guarnición da ilha só era então de dez mil infantes, entre arcabuceros e alabarderos; quatrocentos mercenários dálmatas e quinhentos de caballería, mas a eles se tinham umido muitos habitantes, entre eles vários venezianos, quem, pese a sua linhagem, não desprezavam se dedicar ao comércio.

     Conhecedores de que os turcos, com muito poderosas forças, tinham desembarcado já sob o comando do grande visir Mustafá, que era considerado como o mais experiente e mais feroz general turco, os venezianos dividiram suas tropas em dois corpos, decidindo atrincherarse em Nicosia e Famagusta, determinados a resistir em suas posições o imponente assalto das hordas inimigas.

     Nicolás Dandolo e Francisco Contarini dispuseram a defesa da primeira cidade; Astorre Baglione, com Bragadino, Lorenzo Tiépolo e o capitão albano Manuel Spilotto, convieram resistir na segunda cidade até a chegada dos reforços, que a República prometeu de uma maneira solene.

     Mustafá, que contava com um exército sete ou oito vezes superior em número, chegou quase sem lutar, e em pouco tempo, ante as muralhas de Nicosia, praça que, por considerar a mas forte, desejava render dantes.

     Uma furiosa acometida, realizada a um tempo contra os fortes de Podacataro, Constanzo, Trípoli e Dávila, teve para os turcos um resultado desastroso, já que uma imprevista e acometida saída, levada a efeito pelo tenente César Provene, causou-lhes consideráveis estragos.

     O 9 de setembro de 1570 Mustafá retomou o ataque, e ao alborear no dia lançou seus numerosísimas tropas contra o forte de Constanzo, e conseguiu conquistá-lo depois de uma sangrenta luta.

     Ao verse vencidos, os venezianos renderam-se com a condição de que se lhes respeitasse a vida.

     O feroz visir aceitou e, em quanto a cidade foi invadida por suas forças, jogou ao esquecimento sua palavra, já que ordenou degolar a todos seus defensores e também ao povo, que colaborou na luta.

     O valoroso Dandolo foi o primeiro sacrificado e vinte mil pessoas foram morridas, convertendo-se a infortunada cidade num triste cemitério.

     Somente vinte nobres –dos que o sanguinario visir esperava um bom resgate- e as mulheres e meninas de Nicosia foram a excepção, conquanto estas últimas para ser enviadas como escravas a Constantinopla.

     As hostes islâmicas, enardecidas por tão fácil triunfo, marcharam sobre Famagusta, pensando rendê-la à primeira investida.

     Naquele espaço de tempo, Baglione e Bragadino não tinham permanecido inactivos: dedicavam-se a reforçar a defesa, enquanto esperavam a chegada dos reforços venezianos.

     O 19 de julho de 1571 as hostes turcas acamparam nas proximidades da cidade e iniciaram o lugar. Ao outro dia tentaram o assalto da população mas, ao igual que lhes ocorreu em Nicosia, foram recusados com grandes perdas.

     O 30 de julho, depois de um incesante bombardeio e de ininterrumpidos trabalhos para minar as torres e os fortes, Mustafá conduziu por segunda vez suas tropas ao assalto e de novo a valentia dos soldados de Veneza triunfou. Todos os habitantes colaboravam na defesa inclusive as mulheres, as quais tinham lutado valorosamente junto aos soldados da República, sem inmutarse ante a fiereza dos asaltantes nem em frente a seus cimitarras, e escutando impertérritas o contínuo retumbar dos canhões.

     Ao fim, em outubro, os sitiados, que com suas saídas, realizadas com muita frequência, conseguiram manter a raya ao adversário, receberam o reforço prometido pela República, e que consistia em mil quatrocentos infantes, às ordens de Luis Martinengo, e dezasseis peças de artilharia.

     Pouco era semelhante força para uma cidade sitiada por mas sessenta mil turcos, conquanto serviu para estimular a moral dos asediados, já em situação desesperada, e infundirles novos bríos e alentos.

     Desgraçadamente, os víveres e as munições iam minguando sem cessar e os otomanos, com seu pertinaz canhoneo, não deixavam um momento de descanso aos venezianos. A cidade tinha-se convertido num montão de escombros, sendo escassas as moradas que não foram derrubadas.

     Por se isto não resultasse bastante, nuns dias mas tarde chegava a Chipre Alí-Bajá, almirante da frota turca, com uma escuadra de cem galeras, que contavam quarenta mil infiéis.

     A partir de então, Famagusta converteu-se no centro de um cerco de ferro e de fogo que nenhuma força humana tivesse podido atravessar.

     Tal era a situação ao acontecer os factos descritos no capítulo anterior.

     Uma vez que os mercenários tiveram chegado ao forte, abandonaram seus alabardas que naquele momento resultavam inúteis, e, se colocando nas escassas aspilleras que ainda existiam, armaram seus pesados mosquetes e sopraram os estopins, enquanto os artilheiros, a maioria deles marinheiros das galeras venezanas, prosseguiam o canhoneo com as culebrinas.

     O capitão Tormenta, sem atender as prudentes advertências de seu tenente, tinha-se colocado no alto do forte, a meias protegido por um muro semiderrumbado e cheio de grietas.

     Pela tenebrosa planície que se estendia mas lá da população se viam relucir, em diversos lugares, pontos luminosos, seguidos de um fogonazo, ao qual acompanhava o surdo apito dos pesados proyectiles de pedra.

     Os turcos, cuja fiereza ia em aumento ante a resistência dos sitiados, minavam as trincheras com o objecto de aproximar-se ao meio derrubado forte, que ainda se mantinha em pé graças à imensa quantidade de materiais que nos fossos arrojavam as valorosas mulheres a fim do reforçar.

     Em ocasiões, ousados homens que, por sua própria vontade tinham feito o sacrifício de suas vidas para atingir o delicioso paraíso do Profeta, se amparando nas trevas danoch e, se aproximavam ao forte e preparavam minas para abater a firme muralha invulnerável aos proyectiles de pedra.

     Os mercenários, sempre vigilantes, em quanto os viam descargaban seus mosquetes. Mas outros fanáticos substituíam-nos e terríveis explosões, que destruíam umas vezes uma esquina, outras um espolón, ou bem um contrafuerte, se sucediam ininterruptamente.

     No entanto, as mulheres de Famagusta encontravam-se naqueles pontos, prestar a esvaziar seus sacos repletos de terra nos boquetes abertos pelas minas, sempre impertérritas, sempre decididas, obedientes à voz de comando, vendo tranquilamente passar assobiando os proyectiles, que ao cair se desfaziam em mil fragmentos.

     O capitão Tormenta, silencioso e impasible, observava os fogos que alumiavam o acampamento otomano. Que tentava descobrir? Somente ele o sabia. Ao cabo de um momento, uma sombra aproximou-se a ele, murmurando em malísimo dialecto napolitano.

     Aqui tens-me, senhora!

     O jovem deu-se a volta com rapidez, reprimindo com dificuldade um grito.

     És tu, O-Kadur?

     Si, senhora!

     Silêncio! Não me chames desta forma! Ninguém deve se inteirar de quem sou!

     Estás no verdadeiro, senhora…, digo senhor!

     Outra vez! Acerca-te!

     Pegou por um braço ao homem e, levando-o à parte exterior do forte, acompanhou-o a uma espécie de garita deserta alumbrada com uma tocha.

     Tratava-se de um tipo alto e delgado, de pele bronceada, facções duras, nariz afiado e olhos negros e pequenos. Se ataviaba ao estilo dos beduinos do deserto, levando sobre os ombros uma grande capa de escura lana, com capucha. Tampava sua cabeça com um turbante branco e verde. Ao cinto, pela faixa vermelha que levava à cintura, se viam sobresalir as culatas de duas enormes pistolas quase quadradas, ao igual que as utilizadas pelos moros de Marrocos, e a empunhadura de um yatagão.

     Que sucede? –inquiriu o capitão Tormenta.

     O vizconde Lhe Hussière acha-se com vida –contestou O-Kadur-. Informei-me por uns dos capitães do visir.

     Não ter-te-á mentido? –disse com trémula voz o jovem capitão.

     Não, senhora.

     Não me chames senhora! Já to tenho advertido.

     Não distingo a ninguém que nos possa ouvir.

     E a que lugar o levaram? Inteiraste-te, O-Kadur?

     O árabe fez um gesto de desolação.

     Não, senhor. Ainda não pude me inteirar. Mas confio em sabê-lo. Acabo de entablar amizade com um chefe, que conquanto é muçulmano, bebe o vinho de Chipre em barril, não lhe importando nada o Corão nem o Profeta, e esMas lhe arrancar a verdade em qualquer dia. Juro-to, senhor!

     O capitão Tormenta, ou, para ser mais exactos, a capitã, já que não se tratava de um homem, se deixou cair sobre a curenha de um canhão, cogiéndose a cabeça entre as mãos. Duas lágrimas escorregaram por seu belo semblante, que naquele momento estava muito pálido.

     O árabe, um pouco apartado e envolvido em sua capa, aguardava muito emocionado. Seu rosto, no duro e feroz, manifestava uma indecible angústia.

     Se eu pudesse, senhora, digo senhor, a mudança de meu sangue, te proporcionar a tranquilidade e a alegria!

     Já conheço tua fidelidade, O-Kadur! –replicou o capitão Tormenta.

     Até a morte, senhora, serei teu mais fiel escravo!

     Escravo, não: amigo!

     Os olhos do árabe despediram um destello, tornando-se quase fosforescentes.

     Reneguei para sempre de minha antiga religião –disse depois de uma curta pausa-, e não esqueço que o duque de Éboli, teu pai, me livrou, quando eu era menino, do poder de meu despiadado amo, que todo o dia me golpeava bestialmente. Que tenho de fazer agora?

     O capitão Tormenta não respondeu. Semejaba estar a recordar ideias que suscitavam nele penosas remembranzas, a julgar pela expressão de seu semblante.

     Melhor tivesse sido não ter visto nunca Veneza, a jóia do Adriático, e não ter deixado as azuis águas do golfo de Nápoles! –exclamou por último, falando consigo mesmo-. Meu coração não sofreria agora de uma maneira tão brutal! Ah, que noite tão maravilhosa junto ao Grande Canal, ao lado do palácio de mármol do nobre veneziano! Parece-me como se fosse ontem, e ao pensar nela noto em meus nervos um estremecimiento que nunca tinha sentido. Ele estava ali, junto a mim, tão aposto como o deus da guerra, sentado na proa da góndola, me sorrindo e dizendo belas frases que me faziam o efeito de um canto celestial! Por mim já não se lembrava das preocupações que dominavam os ânimos pelas novas terríveis recebidas naquele dia, que tinham comovido aos idosos senadores e ao sereno Dux! E isso que estava inteirado de que tinha sido destinado para combater aqui contra os infiéis; conhecia que talvez a morte lhe aguardava para acabar com sua preciosa vida e, não obstante, sonreía; sorria olhando-se em meus olhos. Que pensarão fazer dele esses monstros? Assassinar-lhe-ão pouco a pouco para tornar mais cruel seu castigo? Não é possível que se conformem com lhe ter nada mais que como prisioneiro, a ele que era o terror do bajá, que ocasionou tão graves feridas a essas hostes de bárbaros, a esses descrentes, lobos famintos dos áridos desertos de Arabia! Infortunado Lhe Hussière!

     Como lhe amas! –exclamou O-Kadur, que tinha estado escutando ao capitão sem apartar os olhos dele.

     Si, lhe amo! –exclamou a jovem duquesa, com vehemencia-. Amo-lhe igual que amam as mulheres de teu país!

     Talvez com maior paixão, senhora –repôs o árabe; reprimindo um suspiro-. Outra mulher não tivesse feito o que fazes tu. Não tivesse abandonado o magnífico palácio de Nápoles, não ter-se-ia disfarçado de homem, contratando a sua costa uma companhia de soldados, e não teria vindo a este lugar a se encerrar numa cidade sitiada por cem mil infiéis, para enfrentar a morte.

     Talvez poderia estar tranquila em meu palácio conhecendo que ele se encontrava aqui e estava em tão grande perigo?

     E não calculaste, senhora, que em qualquer dia os turcos conseguirão abater as muralhas e arrojar-se-ão sobre a cidade, anhelosos de sangue e de vingança? Quem pôr-te-á a salvo nesse momento?

     Deus ajudar-nos-á! –repôs a duquesa, com acento de resignação-. Por outra parte, se Lhe Hussière morresse, eu não seria capaz de lhe sobreviver, O-Kadur.

     Um tremor percorreu o corpo do árabe.

     Senhora –perguntou-, que tenho de fazer? Devo aproveitar a escuridão para regressar ao acampamento.

     Estar sempre atento, para te informar da que lugar o levaram –repôs a duquesa-. Onde se encontre, ali lhe iremos salvar.

     Amanhã pela noite estarei aqui de novo.

     Se ainda estou com vida! –contestou a jovem.

     Que dizes? –exclamou o árabe, com acento amedrentado.

     Comprometi-me a uma aventura que pudesse concluir de maus modos. Quem é esse jovem turco que em cada dia vem a retar aos capitães cristãos?

     Muley-o-Kadel, filho do bajá de Damasco. Por que razão me perguntas isso, senhora?

     Porque amanhã enfrentar-me-ei a ele.

     Tu! –exclamou o árabe, consternado-. Tu, senhora! Esta noite irei matar-lhe a sua tenda, para que não vá de novo a desafiar aos capitães de Famagusta!

     Oh! Não te inquietes, O-Kadur! Meu pai era o melhor espadachín de Nápoles e fez de mim uma grande esgrimista, que pode se enfrentar aos mais famosos capitães do grande Turco.

     Quem te incitou a retar a Muley-o-Kadel?

     O capitão Laczinski.

     Esse cão polaco, que parece sentir para ti um secreto ódio? À vista de um filho do deserto não há nada oculto, e eu adverti nele a um inimigo teu.

     Si, o é.

     O-Kadur lançou uma maldição, enquanto seu rosto adquiria uma selvagem expressão.

     - Onde se encontra agora esse homem? –inquiriu com surda voz.

     - Qué pretendes fazer, O-Kadur? –disse suavemente.

     - El árabe, com rápido ademão, desenvainó o yatagão e fez brilhar a acerada folha à luz da tocha.

     - Este aço provará esta noite sangue polaca! –disse-. Esse homem não verá amanhecer no novo dia! Assim não levar-se-á a cabo o desafio!

     - No farás tal coisa! –repôs a capitã, com acento firme-. Assegurar-se-ia que o capitão Tormenta sentia temor e fez assassinar ao polaco! Não, O-Kadur, não farás semelhante coisa!

     - Y tenho de permitir que minha senhora se enfrente na luta a morte contra o turco? Serei capaz de vê-la cair morrida sob os golpes de cimitarra do infiel? A vida de O-Kadur é tua até a última gota de seu sangue e os guerreiros de minha tribo são capazes de morrer em defesa de seu senhor!

     - El capitão Tormenta tem de demonstrar que não sente temor dos turcos –replicou a jovem-. É necessário que assim seja, para dissipar em todos a suspeita do que em realidade sou.

     - Le matarei, senhora! –exclamou o árabe.

     - Te proíbo-o!

     - No, senhora!

     - Te ordeno-o! Obedece! –contestou a duquesa.

     O árabe inclinou a cabeça sobre o peito e duas lágrimas escorregaram-lhe pelas bochechas.

     É verdadeiro! –disse-. Sou um escravo e devo acatar as ordens.

     O capitão Tormenta pôs-lhe uma mão no ombro e com seu mais suave acento respondeu-lhe:

     Escravo, não; és meu amigo!

     Obrigado, senhora! –repôs O-Kadur-. Farei o que tu ordenes. Mas juro-te que se resultas ferida pelo turco, saltar-lhe-ei a tampa dos sesos. Permite, pelo menos, que teu leal servidor te vingue se te ocorre alguma desgraça irremediável! Para que quero a vida sem ti?

     Faz o que te pareça mas oportuno, meu bom O-Kadur. Marcha-te dantes que amanheça. Se não te apressas não poderás regressar ao acampamento turco.

     Cumpro tuas ordens, senhora. Eu inteirar-me-ei em seguida a que lugar levaram ao senhor Lhe Hussière, to asseguro.

     Abandonaram a garita e chegaram ao forte, no que as culebrinas e a mosquetería seguiam retumbando com estrondo cada vez maior, as quais, ainda que contestadas pela artilharia turca com grande intensidade, tentavam impedir que minassem as muralhas, já meio destruídas, da cidade.

     O capitão Tormenta aproximou-se ao senhor Perpignano, que dirigia o fogo dos homens armados com mosquetes, e lhe disse:

     - Ordenai que se suspenda o tiroteio durante uns minutos. O-Kadur regressa ao campo inimigo.

     - Ningún outro, senhora? –inquiriu o veneziano.

     - Ninguno. Mas chamai-me capitão Tormenta. Somente três pessoas conheceis quem sou: vos, Erizzo e O-Kadur. Silêncio: poder-nos-iam ouvir!

     - Disculpadme, capitão!

     - Que interrompa-se o fogo um instante! Ainda não chegou o último momento de Famagusta!

     A duquesa não dava as ordens igual que uma mulher, senão como um veterano capitão, com palavras secas e incisivas que não admitiam réplica.

     O senhor Perpignano deu a ordem aos artilheiros e aos mosqueteros, enquanto o árabe, aproveitando a momentãoea interrupção do fogo, encaminhava-se ao reborde do forte; em companhia do capitão Tormenta.

     - Tem cuidado com os turcos, senhora! –aconselhou-lhe dantes de marchar-se-. De morrer tu, também morreria o azarado escravo, logo de te ter vingado!

     - No inquietes-te, amigo! –contestou a duquesa-. Conheço a temível escola da espada talvez melhor que muitos dos capitães sitiados em Famagusta. Adeus! Marcha-te, ordeno-to!

     Asiéndose aos salientes das pedras, o árabe desvaneceu-se na escuridão.

     - Quanto me aprecia este homem! –musitó o capitão Tormenta-. E talvez quanto amor escondido! Pobre O-Kadur! Tivesse sido melhor para ti permanecer sempre no deserto de tua pátria.

     Voltou com lentidão, resguardãodose depois de uma aspillera, sentasse num montão de escombros apoiando a barbilla e a mão na empunhadura da espada. Enquanto os estampidos sucediam-se sem cessar.

     Os artilheiros e arcabuceros varriam com chumbo e fogo a tenebrosa planície com o fim de deter o avanço dos turcos, que se adiantavam com um valor realmente estoico, enfrentando impasibles o tiroteio dos sitiados.

     Uma voz sacou-lhe de suas reflexões.

     - Há notícias, capitão?

     Era o senhor Perpignano, que se aproximava depois de ter dado a ordem aos mercenários de que não poupassem as munições.

     - Não –replicou o capitão Tormenta.

     - Conocéis, pelo menos, se encontra-se com vida?

     - El-Kadur tem-me notificado que Lhe Hussière continua prisioneiro.

     - De quem?

     - Lo desconheço ainda.

     - Me resulta estranho que esses terríveis guerreiros, tão pouco dispostos a dar trégua, lhe tenham respeitado a vida.

     - Eso mesmo penso eu –contestou o capitão- e é o que atormenta meu coração.

     - Qué é o que temeis, capitão?

     - No posso dizê-lo. E, não obstante, o coração de uma mulher, quando ama, não se equivoca jamais.

     - No entendo-vos –contestou Perpignano, encolhendo-se de ombros.

     Em vez de responder, o capitão Tormenta incorporou-se, dizendo:

     - Não vai demorar em amanhecer e o turco irá sob as muralhas para retarnos. Vamos dispor-nos para o combate. Ou regresso triunfadora, ou ficarei morrida, e acabarão meus sofrimentos.

     - Senhora –disse o tenente-, deixai-me que combata com o turco. Ainda que morresse, ninguém chorar-me-ia. Sou o último descendente dos condes de Perpignano.

     - No, tenente!

     - El turco matar-vos-á!

     Uma despectiva sorriso floresceu nos lábios da duquesa.

     - De não ser tão forte e decidida, Roberto Lhe Hussière não ter-me-ia amado –contestou-. Eu ensinarei aos turcos e aos chefes venezianos como luta o capitão Tormenta! Adeus, senhor Perpignano! Jamais esquecer-me-ei de O-Kadur nem de meu leal tenente!

     E afastou-se com a mão posta sobre a empunhadura da espada, enquanto os canhões de atacantes e atacados rugiam com crescente fúria, alumiando de vez em quando as trevas de uma maneira siniestra.

    

                        O LEON DE DAMASCO

      O alva começava a despuntar já, alumiando a planície de Famagusta, cheia de humeantes escombros. O canhão não tinha permanecido silencioso durante toda a noite nem um instante e ainda arrojava fogo, retumbando seu estrondo nas velhas casas da cidade sitiada e nas estreitas ruas, a maior parte delas obstruidas pelas ruínas dos edifícios.

     O grandioso acampamento das hordas turcas ia percebendo-se poucoa p oco. Milhares de tendas de campanha estendiam-se até o horizonte, culminadas por um hasta com uma meia lua em seu ponto mais alto e uma bicha de cavalo sobre outra mais pequena.

     No meio daquele desorden sobresalía a elevadísima e enorme tenda do grande visir, comandante supremo daquele imponente exército, toda de vermelha seda, com o estandarte verde do profeta flutuando na cúspide. Esse estandarte bastava para excitar aos infiéis e voltá-los temíveis e furiosos como os leões do deserto árabe.

     Milhares de homens da pé e da cavalo se afanaban no acampamento, fazendo brilhar armaduras e cimitarras aos primeiros raios do sol. Examinavam com ódio a Famagusta, surpreendendo-se de que aquele reduto de cristãos não se tivesse entregado ante o tremendo canhoneo da noite anterior.

     O capitão Tormenta, logo de ter advertido ao governador da praça do repto pendente com o árabe entre o polaco e ele, examinava os estragos causados pelos proyectiles turcos no forte, cheio de ruínas.

     A pouca distância, o polaco, auxiliado por seu escudero, colocava-se a couraça, amaldiçoando de contínuo, já que jamais lhe parecia bem posta. Encontrava-se algo pálido e poderia se dizer que um pouco intranqüilo, conquanto –há que deco ir em sua honra- não era aquela a primeira ocasião que lutava contra os infiéis.

     O senhor Perpignano, com ajuda de um mercenário, vigiava dois magníficos cavalos de raça cruzada italiana e árabe, e contemplava com grande atenção as cinchas susurrando para si:

     -Em algumas ocasiões uma cincha mau amarrada pode pôr em perigo a vida de um homem!

     O bombardeio tinha sido interrompido por ambos bandos. No campo otomano escutavam-se as palavras do muezzin (sacerdote mahometano), que concluíam sempre com uma intimidação a terminar com os guiaurri (cães cristãos). Em Famagusta estes efectuavam seu almoço com aceitunas e algum trozo de pan quase incomible, já que as provisões escaseaban de tal maneira que, para não perecer de fome, os habitantes se viam obrigados a comer erva cocida e couro.

     Uma vez que teve acabado a prece do muezzin, pôde verse a um guerreiro turco galopar em direcção a Famagusta, acompanhado de outro que levava um estandarte com a meia lua e a bicha de cavalo sobre um trapo branco.

     Era um aposto jovem de vinte e quatro a vinte e cinco anos, de branca pele, negros bigodes mirada vivaz e abrasadora e que ia ataviado com ricas roupas.

     Em torno do capacete levava uma banda de seda vermelha posta como um turbante, e na cume, uma grande pluma de avestruz.

     Cobria-se o peito com uma reluzente armadura recamada em prata, nas bonecas tinha brazaletes de aço e tampava seus ombros com um manto branco, com cenefa azul em seu extremidad.

     Calça-las, de autêntica seda, eram ao estilo turco, e nos pés levava babuchas marroquinos recubiertas de aço brunhido.

     Empunhava uma cimitarra e em sua faixa distinguia-se um yatagão de folha um pouco curvada.

     Quando se encontrou a trezentos passos do forte, fez uma indicação a sua escudero para que plantasse em terra o estandarte, como para dar a entender aos sitiados que se apresentava protegido pela bandeira branca e, depois de ter galopado uns minutos com extraordinária habilidade sobre seu branco corcel árabe, exclamou com poderosa voz:

     -Muley-o-Kadel, filho do bajá de Damasco, desafia por terceira vez aos capitães cristãos com armas brancas! Se não admitem o repto, tratá-los-ei de viles canallas, não merecedores de lutar com os grandes guerreiros da Meia Lua! Que vingam, por tanto, a se enfrentar comigo de um num se têm nas veias sangue de homens! Muley-o-Kadel está a aguardar-vos!

     O capitão Laczinski, que finalmente tinha podido se colocar a couraça, se encaminhou ao parapeto do forte e com voz que semejaba o mugido de um touro, e volteando ao mesmo tempo em forma terrível sua imponente espada respondeu:

     -Muley-o-Kadel não retará de novo aos capitães cristãos, já que de aqui a cinco minutos matar-lhe-ei sobre o cavalo igual que a uma pulga! Somos dois os que jurámos lhe arrancar a pele, cão infiel!

     O polaco, dirigindo-se ao capitão Tormenta, perguntou-lhe não sem certa ironía, que não passou inadvertida à jovem duquesa:

     -Para valer matar-lhe-emos?

    -Si! –repôs com frio acento a capitã.

     Vamos ver a qual lhe corresponde combater primeiro com esse bandido!

     Como vos plazca, capitão!

     Ainda tenho um cequim. Cara ou coroa?

     Escolhei vos.

     Prefiro cara. Será um magnífico augúrio para mim e desastroso para o turco. A quem corresponda-lhe a cruz será o que se enfrente a esse cão.

     Atirai ao ar o cequim.

     O polaco fazer assim e lançou uma exclamação.

     - Cruz! –disse–. Agora o atirai vos!

     O capitão Tormenta atirou, por sua vez, a moeda.

     - Cara! –disse com fria entonación–. Corresponde-vos a vos, capitão, ir ao combate o primeiro contra o filho do bajá de Damasco.

     - Passar-lhe-ei de parte a parte! –repôs o polaco–. Se caio, confio em que vingar-me-eis pela honra dos capitães de Famagusta e da cristiandad, ainda que tenho bastantees dúvidas com respeito a vosso valor e a força de vosso braço.

     - Para valer? –inquiriu o capitão Tormenta com acento de burla.

     - Não confio mais que em minha espada!

     - E eu na minha. Vamos!

     O polaco subiu a seu cavalo; a ponte levadizo do forte desceu a uma ordem do comandante e os dois valentes avançaram ao galope pela planície. Todos os moradores e defensores de Famagusta, conhecedores de que ambos capitães cristãos tinham aceitado o desafio do turco, habíanse congregado nos muros, anhelosos de presenciar aquele trágico duelo.

     As mulheres oravam baixinho, pedindo à Virgen o triunfo dos dois campeões cristãos, enquanto os guerreiros venezianos e os mercenários colocavam seus capacetes e cimeras nas pontas das espadas e alabardas, exclamando a grandes vozes:

     - Dai-lhe uma lição!

     - Ensinai ao infiel a bravura dos capitães venezianos!

     - Viva o capitão Tormenta!

     - Viva o capitão Laczinski!

     - Vinde com a cabeça do infiel! Viva Veneza! Vivam os filhos da República!

     A jovem duquesa e o polaco marchavam ao galope, um ao lado do outro, em direcção ao filho do bajá, que os aguardava contemplando seu cimitarra.

     A primeira mantinha uma serenidad e sangue frio completas. O capitão aventurero, em mudança, parecia mais nervoso que nunca e amaldiçoava de seu cavalo, ao que supunha mal enjaezado –ainda que o senhor Perpignano o tinha examinado com todo detalhe–, e pouco preparado para semelhante luta.

     - Tenho a certeza de que este néscio animal jogar-me-á alguma má passada no instante de ferir ao turco! Que vos parece, capitão Tormenta?

     - Acho que vosso corcel comporta-se como um cavalo de batalha –replicou a jovem.

     - Vos não sabeis absolutamente nada de cavalos! Não sois polaco!

     - É possível –respondeu a duquesa–; eu sei mais de golpes de espada.

     - Hum! Se eu não vos livrasse dessa cabeça de lenha, não sei de que forma arranjar-vo-las-íeis! Mas penso fazer quanto seja-me possível por enviar-lhe ao outro mundo, para salvar, de passagem que a vossa, minha pele, já que tenho muito interesse na conservar quanto me seja possível.

     - Ah! –contestou simplesmente a duquesa.

     - Ainda que se somente ferisse-me...

     - Em tal caso...?

     - Converter-me-ei em muçulmano e serei capitão turco. Para esses néscios é suficiente renegar da cruz, e eu, por minha parte, renegaria inclusive de minha pátria, com tal de ter comando e cequins.

     - Magnífico capitão cristão! –comentou o capitão Tormenta, examinando-lhe depreciativamente.

     - Sou um aventurero, e é-me indiferente combater pela cruz ou por Maomé. Minha consciência não padecerá por este motivo –contestou com cinismo o polaco–. Não pensais da mesma forma vos, não é verdadeiro, senhora?

     - Como dizeis? –inquiriu o capitão Tormenta, detendo seu cavalo, enquanto franzia o cenho.

     - Senhora! –insistiu o polaco–. Voto a sanes! Eu não sou um estúpido, igual que os outros, para não ter advertido que esse célebre capitão Tormenta é um suposto capitão. Se desejai-lo, ao instante livro um duelo com vos para abrir, de um simples golpe e sem ferir-vos, vossa couraça, e demonstrar a todos o que em realidade sois, senhora minha. Em tal caso si que rirei para valer!

     - Ou chorareis! –repôs com surda voz a duquesa–.Eu sei talvez matar homens melhor que vos!

     - Uma mulher!

     - De acordo; já que adivinhastes meu segredo, capitão Laczinski, se não sucumbís a mãos do turco, logo do desafio, ofereceremos aos moradores de Famagusta outro espectáculo.

     - Que espectáculo?

     - O de uns capitães cristãos lutando entre eles como mortais inimigos –respondeu com frio acento a duquesa.

     - Conforme. Mas prometo-vos que, já que sois mulher, fá-vos-ei o mínimo dano possível. Conformar-me-ei com rajar vossa armadura!

     - Pois eu farei quanto possa por vos atravessar a garganta com o objecto de que não vos seja possível propalar um segredo que a mim atanhe.

     - Já iniciaremos de novo a conversa mais tarde, senhora, já que o turco começa a se inquietar.

     E depois de uma pausa, agregou, lançando um suspiro:

     - Não obstante, sentir-me-ia feliz dando meu nome a uma mulher tão valorosa!

     A duquesa nem sequer contestou e prosseguiu em silêncio.

     Já se encontrava somente a dez passos do filho do bajá de Damasco, que contemplava aos dois capitães como ponderando sua força.

     - Quem vai ser o primeiro em se enfrentar com o leão de Damasco? –inquiriu.

     - O urso dos bosques de Polónia –replicou Laczinski–. Se tens longas e fortes garras como as feras que habitam os desertos de tua terra, eu tenho a imponente força dos plantígrados de meu país. Dividir-te-ei em duas partes com um singelo golpe de minha espada!

     Ao turco deveu de agradar-lhe a arenga, pois, estallando numa gargalhada e brandiendo sua cimitarra exclamou:

     Minhas armas aguardam-vos! Vamos ver se o velho urso de Polónia derrota ao jovem leão de Damasco!

     Mais de cem mil olhos achavam-se fincados em ambos combatentes, já que os dois exércitos adversários se tinham reunido em seus correspondentes acampamentos, deseosos de assistir ao fim de tão cavalheiroso duelo.

     O polaco asió com a mão esquerda as bridas de seu arreio, enquanto o turco as aferraba entre os dentes, por causa de que tinha as mãos ocupadas, permanecendo depois fixos os dois, como tentando hipnotizarse com a mirada.

     Já que o leão não embiste, fá-lo-á o urso! –exclamou o capitão Laczinski, efectuando um molinete com a espada–. Não me agrada aguardar!

     Espoleó com viveza ao corcel e precipitou-se sobre o turco que lhe esperava se cobrindo o peito com a cimitarra e o yatagão.

     Em quanto viu a seu lado ao aventurero, com uma ligeira pressão dos joelhos fez que seu cavalo desse um súbito salto de costado, e mirou ao polaco um tremendo golpe de cimitarra.

     Este, que não aguardava semelhante surpresa, deteve, no entanto, o tajo com extraordinária celeridad e contestou ao instante, se sucedendo sem descanso as estocadas.

     Ambos cavalheiros combatiam com igual denuedo, cobrindo ao mesmo tempo as cabeças de suas cabalgaduras para não ficar desmontados inopinadamente.

     O capitão aventurero atacava com ardor, com sanha, amaldiçoando de tudo, por não perder o costume, bem fosse para amedrentar ou para insultar ao turco, e afirmava que partir-lhe-ia em duas metades igual que se de um sapo se tratasse.

     Sua espada chocava com fúria contra a cimitarra, tentando partí-la, e em algumas ocasiões rebotaba sobre a couraça. Por sua vez, Muley-o-Kadel procurava sem cessar o peito de seu inimigo com o yatagão, fazendo saltar chispas da armadura do polaco.

     Os espectadores lançavam de vez em quando grandes gritos para estimular aos combatentes.

     Ânimo, capitão Laczinski! –exclamavam os guerreiros venezianos ao ver ao turco perder os estribos ante as tremendas estocadas do aventurero.

     Extermina ao guiaurro! –exclamava a tropa infiel quando Muley embestía fazendo dar a sua corcel saltos de gacela.

     O capitão Tormenta continuava mudo e imóvel em seu cavalo. Examinava com atenção a forma de lutar de cada adversário, em especial a do leão de Damasco, para poder surpreender-lhe no suposto de ter que se bater com ele.

     Como discípula de seu pai que era, o qual tinha fama de ser uma das melhores espadas de Nápoles, cidade que contava naquela época com os mais hábeis espadachines, e cuja escola era muito apreciada, se considerava os suficientemente forte para se enfrentar ao turco e lhe derrotar sem se arriscar em excesso.

     Enquanto, o duelo prosseguiu entre ambos campeões com maior denuedo. O polaco, que tinha mais confiança em sua fortaleza que em sua destreza, se deu conta de que o turco possuía músculos de aço, de extraordinária resistência, e tentou empregar uma de tantas estocadas secretas que então se ensinavam.

     Aquilo foi sua ruína. O turco, que quiçá não a desconhecia, parou o golpe com suma rapidez e replicou com outro de sua cimitarra com uma celeridad tal, que o aventurero foi incapaz do deter.

     O aço atingiu-lhe acima da armadura, tocando-lhe em parte-a direita do pescoço e ocasionando-lhe uma grande ferida.

     O leão derrotou ao urso! –exclamou, enquanto cem mil vozes acolhiam a súbita vitória com um atronador vocerío desde as muralhas.

     O polaco tinha deixado cair a espada de sua mão. Permaneceu um instante sobre seu cavalo, com as mãos na ferida, como se tentasse conter o sangue que brotava a rodo e, por último, caiu pesadamente a terra com grande fragor de ferro, ficando imóvel ao lado do corcel, que não se tinha movido.

     O capitão Tormenta não piscou nem tão sequer.

     Alçou a espada e, avançando para o vencedor, disse:

     Agora nos toca a nós dois, senhor!

     O turco contemplou à jovem duquesa, entre admirado e condescendiente.

     - Vos! –exclamou–. Se sois um rapaz!...

     - Que dar-vos-á trabalho! Quereis descansar um momento?

     - Não é necessário! Terminarei em seguida com vos! Sois em excesso flojo para combater contra o Leão de Damasco!

     - Não por isso pesará menos minha espada! Em guarda!

     - Talvez sereis um pequeno leão mais temível que o urso de Polónia?

     - É possível!

     - Dizei-me, pelo menos, dantes qual é vosso nome.

     - Conhecem-me pelo capitão Tormenta.

     - Não é esta a primeira ocasião que ouço mencionar esse nome –repôs Muley-o-Kadel.

     - Nem eu também não o vosso.

     - Já sei que sois um herói.

     - Não o imagineis! Em guarda, que vos ataco!

     - Já estou em guarda, conquanto me desagrada matar a um jovem tão leal e tão valoroso como vos.

     - Volto a repetir-vos que tenhais cuidado com a ponta de minha espada! Por São Marcos!

     - Pelo profeta!

     A duquesa, que além de ser uma expertísima esgrimista era também muito boa amazona, espoleó seu arreio, passando com a velocidade de uma seta e com a espada na linha, junto ao turco.

     No instante em que este se dispunha a se cobrir com a cimitarra, lhe lançou uma estocada para a gola onde a couraça não chegava.

     Muley-o-Kadel, que já se achava prevenido, deteve o golpe com rapidez. Ainda que não por completo, e a espada, ao ser recusada para acima, tocou a cimera, lha arrancando e a enviando a considerável distância.

     - Estupenda estocada! –exclamou o Leão de Damasco, surpreendido–. É melhor este rapaz que o urso de Polónia!

     O capitão Tormenta prosseguiu sua carreira durante uma veintena de metros e, obrigando a seu corcel a dar uma veloz volta, dirigiu-se de novo para o turco com a espada sempre em linha, presta a ferir.

     Passou pela esquerda, detendo um golpe de cimitarra, e começou a girar em torno do turco, espoleando com energia ao cavalo de contínuo.

     Muley-o-Kadel, surpreendido por semelhante manobra, não era capaz de enfrentar a um adversário tão ágil.

     Seu cavalo árabe, totalmente esgotado pelo cansaço, dava voltadas sobre seus patas traseras sem poder seguir ao do jovem capitão, que parecia estar endemoniado.

     Tantos turcos como cristãos lançavam grandes gritos, animando aos combatentes.

     - Valor, capitão Tormenta!

     - Viva o defensor da cruz!

     - Morra o guiaurro!

     - Por Alá! Por Alá!

     A duquesa, que continuava conservando toda sua serenidad, se ia aproximando cada vez mais ao turco. Seus olhos relampagueaban, seu cutis tinha adquirido uma cor rosado e seus vermelhos lábios tremiam.

     O círculo que ia encerrando ao turco se estrechaba mais a cada momento e o cavalo deste começava a perder força e agilidad.

     - Tem cuidado, Muley-o-Kadel! –exclamou ao cabo de uns segundos a duquesa.

     Quase não tinha terminado a frase, quando sua espada atingiu ao turco embaixo da axila esquerda, num ponto não protegido pelo peto.

     Muley-o-Kadel lançou uma exclamação de cólera e dor, ao mesmo tempo que nas hostes bárbaras se elevava um clamor semelhante ao da maré numa noite de furacão.

     Nos muros de Famagusta os guerreiros agitavam seus picas e alabardas, gritando com vozes desaforadas:

     - Viva nosso jovem capitão! Laczinski foi vingado!

     Em lugar de precipitar-se sobre o ferido e mirar-lhe o golpe definitivo, como era seu direito, a duquesa fez parar ao cavalo e examinou entre compassiva e orgulhosa ao jovem Leão de Damasco, que fazia extraordinários esforços para se sustentar na cadeira.

     - Declarais-vos derrotado? –inquiriu, fazendo avançar seu cavalo.

     Muley-o-Kadel tentou levantar a cimitarra para continuar o combate, mas falharam-lhe as forças.

     Se tambaleó, agarrou-se às crines do cavalo e se desplomó em terra, igual que o polaco, entre um grande fragor de ferro.

     - Matai-lhe! –gritavam os guerreiros de Famagusta–. Não vos compadezcáis desse cão infiel, capitão Tormenta!

    A duquesa baixou do corcel com a espada coberta de sangue na mão e aproximou-se ao turco, que tinha conseguido se pôr de joelhos.

     - Derrotei-vos! –disse-lhe.

     - Matai-me! –contestou Muley-o-Kadel–. Estais em vosso direito!

     - O capitão Tormenta não mata ao que não pode se defender! Sois um homem valoroso e perdoo-vos a vida!

     - Não supus que fora tanta a generosidad dos cristãos! –reconheceu Muley com voz débil–. Obrigado! Não esquecerei jamais a generosidad do capitão Tormenta!

     - Adeus e curáos cedo!

     A duquesa encaminhava-se a seu cavalo, quando os turcos, enfurecidos, a rodearam.

     Morte ao guiaurro! –exclamavam.

     Oito ou dez ginetes aproximavam-se enarbolando as cimitarras, decididos a vingar a derrota do Leão de Damasco.

     Um griterío enfurecido alçou-se entre os cristãos de Famagusta.

     - Viles traidores!

     Realizando um supremo esforço, Muley-o-Kadel tinha-se incorporado, pálido, mas com os olhos llameando em consequência da ira que lhe invadia.

     - Canallas! –gritou, dirigindo-se a seus compatriotas–. Que fazeis? Retirai-vos todos ou farei que vos empalen como indignos de estar entre os valorosos e nobres guerreiros!

     Os ginetes tinham interrompido seu avanço, confundidos e atemorizados.

     Naquele instante, dois disparos de culebrina surgiram do forte de São Marcos, seguidos de uma chuva de proyectiles que fez rodar por terra a sete dos infiéis. Os demais fizeram voltar grupas a seus cavalos fugindo a todo galope para o acampamento turco, entre as risotadas e burlas de suas camaradas, que não tinham estado de acordo com aquela inoportuna intervenção.

     - Essa é a lição que vos tínheis ganhada! –exclamou o Leão de Damasco, enquanto seu escudero ia em sua ajuda.

     A artilharia turca não tinha respondido aos disparos dos cristãos.

     O capitão Tormenta, que ainda levava a espada na mão, decidido a vender cara sua vida, fez um ademão se despedindo de Muley-o-Kadel com a mão esquerda, subiu sobre seu cavalo, e se afastou em direcção a Famagusta, enquanto a tropa cristã o acolhia com um verdadeiro furacão de aplausos e hurras.

     No instante em que se marchava, o polaco, que não tinha morrido, alçou com lentidão a cabeça e lhe seguiu com a mirada enquanto murmurava:

     - Confiou em que voltar-nos-emos a ver jovenzinha!

     A Muley-o-Kadel não lhe passou inadvertido o movimento do capitão Laczinski.

-Esse não está morrido! –advertiu a seu escudero–. O urso de Polónia terá o alma atornillada?

     - Devo matar-lhe? –indagó o escudero.

     - Leva-me junto a ele!

     Apoiando-se no guerreiro e contendo com a mão o sangue que manava em abundância, se aproximou ao capitão.

     - Pretendeis arrematar-me? –inquiriu este com voz lastimera–. Desde este momento sou correligionario vosso..., já que reneguei de minha religião. Matareis a um mahometano?

     - Farei que vos curem! –respondeu o Leão de Damasco.

     ??Isso é o que desejo!??, díjose para seus adentros o aventurero. ??Ah, capitão Tormenta: pagar-mas-ás! ??

    

                        A FIEREZA DE MUSTAFÁ

     Depois daquele caballeresco duelo, que tinha consolidado a bem cimentada fama do capitão Tormenta, considerado desde então como a melhor espada de Famagusta, os turcos prosseguiram o asedio, ainda que com bastante menos vigor do que os cristãos esperavam.

     Semejaba que a raiz da derrota do Leão de Damasco uma intensa desmoralización se tivesse aduenhado dos atacantes. O verdadeiro é que não se lançavam ao assalto com seu antigo arrojo e que o canhoneo decaía.

     Já não se distinguia, como dantes, ao chefe supremo das hostes bárbaras, Mustafá, revisar pela manhã, a seguir da oração, à coluna de assalto, nem aparecer junto às companhias de artilheiros para os animar.

     Inclusive o griterío selvagem, que sempre acabava num terrível alarido de SYMBOL ?Morte e exterminio aos inimigos da Meia Lua! ??, cessou no acampamento turco. Que mais ocorreria? As tropas enmudecieron e os timbales das forças da cavalo não fizeram soar de novo seu repique de assalto.

     Parecia como se alguém tivesse imposto ao exército o mutismo mais absoluto.

     Foi inútil que os capitães cristãos tentassem averiguar o segredo. Ainda não tinha chegado o tempo do Ramadã ou cuaresma muçulmana, durante a qual os adoradores do Profeta interrompem suas campanhas militares para orar e efectuar ao mesmo tempo grandes ayunos.

     Não podia ademais se admitir que o grande visir tivesse ordenado guardar silêncio para ajudar ao restávelcimiento do jovem Leão de Damasco, quem, afinal de contas, só era o filho de um bajá.

     O capitão Tormenta e seus tenentes aguardavam a justificativa a tão insólito proceder por meio de O-Kadur, único que talvez pudesse explicar algo ao respecto. Mas, desde a conversa já descrita, o árabe não tinha regressado a Famagusta.

     A inopinada tranquilidade do inimigo, em lugar de consolar aos cercados, desesperava-os, já que as provisões iam diminuindo com grande rapidez e a fome começava a cundir entre os moradores da população, cujos últimos alimentos (azeite e couro) começavam também a escasear.

     Desta maneira passaram em alguns dias, com disparos isolados de culebrina pelos dois bandos, quando certa noite que o capitão Tormenta e Perpignano se encontravam de guarda no forte de São Marcos observaram uma sombra escalar com a agilidad de um simio pelos salientes da muralha.

     - És O-Kadur? –interrogou o capitão Tormenta, tomando com cuidado um arcabuz arrimado ao parapeto e que tinha acendida o estopim.

     - Si, senhor; sou eu: O-Kadur! Não dispares! –replicou o árabe.

     Com um esforço final, o homem se asió a uma tronera, atingiu de um salto o parapeto e caiu junto ao capitão.

     - Estavas preocupado por minha longa ausência, não é verdadeiro? –perguntou o árabe.

     - Tinha medo de que te tivessem descoberto e dado morte –respondeu o capitão Tormenta.

     - Não recelan nada de mim: tranquiliza-te. Desde depois, no dia de teu desafio com Muley-o-Kadel viram-me carregar as pistolas com a intenção de matar-lhe, como o tivesse feito supondo que te tivesse matado.

     - Vai melhorando?

     - Muley-o-Kadel deve de ter a pele muito no duro e já se está a restabelecer. De aqui a dois dias já poderá montar de novo a cavalo. Ah! Devo comunicar-te outra nova muito importante que sem dúvida, estranhar-te-á.

     - Que notícia é?

     - Que também Laczinski, o polaco, se vai restabelecendo muito depressa.

     - Laczinski! –exclamaram ao mesmo tempo o capitão e Perpignano.

     - Si.

     - Não morreu em consequência do golpe de cimitarra?

     - Não, senhor. Pelo visto os ursos dos bosques polacos têm dura a osamenta!

     - E não lhe deram o golpe de graça?

     - Não, já que renegou da cruz e abraçou a fé do Profeta –replicou O-Kadur–. Esse aventurero tem uma consciência muito elástica e venera igual a cruz que à Meia Lua!

     - É um canalla! –resmungou encolerizado Perpignano– . Lutar contra nós, contra seus irmãos de armas!

     - E em quanto encontre-se restabelecido será nomeado capitão no exército turco –agregou o árabe–. Um dos bajás lhe assegurou que dar-lhe-á esse destino.

     - Esse homem deve sentir por mim um ódio mortal, sem que eu lhe tenha dado o menor motivo para isso. Se às vezes não me...

     - Que capitão? –indagó o veneziano, ao ver que interrompia suas palavras de improviso.

     Em lugar de responder, o capitão Tormenta perguntou ao árabe:

     - Ainda nada?

     - Nada! –repôs O-Kadur com gesto de desolação–. Não compreendo por que ocultam desta maneira o lugar onde foi levado o cavalheiro Lhe Hussière.

     - Não obstante resulta impossível que o desconheçam todos –alegou o capitão Tormenta, lançando um suspiro–. Ter-lhe-ão dado morte? Deus meu, que suspeita!

     - Não, senhora. Tenho a certeza de que está com vida. Imagino-me que lhe têm encerrado em algum castelo da costa, na ideia de que consenta em abraçar a religião islâmica. É um homem muito valoroso a quem os turcos desejariam ter entre seus guerreiros, já que ser-lhes-ia de muita utilidade para conduzir suas hordas, valentes mas indisciplinadas.

     O capitão Tormenta tinha-se deixado cair em cima de um montão de escombros, como acometido por uma imprevista debilidade.

     Perpignano e o árabe contemplavam-lhe, intensamente emocionados.

     - Não poderei averiguar nunca que foi de ele! –musitó a duquesa, estallando num apagado sollozo.

     - Não desesperes, senhora! –disse o árabe–. Não desisto de meus esforços até conhecer a onde lhe levaram! Estás inteirada de que vive, e já isto tem de ser um grande consolo para ti.

     - Mas não tens nada que demonstre quanto dizes, O-Kadur.

     - É verdade. Mas se tivessem-lhe matado, conhecer-se-ia no acampamento.

     - E por que escondem dessa forma o lugar onde lhe têm preso?

     - Isso não posso o saber.

     O capitão Tormenta tinha-se incorporado.

     - Si, é verdade! Não devo me desesperar!

     Naquele instante um tremendo clamor turbó o silêncio nocturno.

     No acampamento turco soavam as trompas e os timbales da caballería e um vocerío enfurecido, unido aos disparos de armas de fogo.

     Milhares de tochas tinham sido acendidas como de improviso e discurrían pela extensa planície, se indo reunir para o centro do acampamento, onde sobresalía acima das demais a grandiosa tenda do grande visir, general supremo das forças otomanas.

     O capitão, Perpignano e O-Kadur tinham-se aproximado imediatamente ao parapeto do forte, enquanto as trombetas dos sentinelas cristãos tocavam alarme e os guerreiros que tinham estado dormitando até então se armavam e corriam para as muralhas.

     - Dispõem-se para o ataque geral! –comentou o capitão Tormenta.

     - Não –contestou o árabe, com pausada voz–. É uma revolta que ocorreu no acampamento turco, a qual já estava prevista de antemão.

     - Contra quem?

     - Contra o grande visir Mustafá.

     - Por que razão? –inquiriu Perpignano.

     - Para forçar-lhe a continuar o assédio da cidade. Já faz oito dias que as forças se acham inactivas e começam a murmurar.

     - Todos o tínhamos observado –conveio Perpignano–. Por força o grande visir tem que se encontrar doente.

     - Ao que parece desfruta de uma magnífica saúde. Seu coração é o que se acha encadeado.

     - Que queres dar a entender, O-Kadur? –perguntou o capitão.

     - Que uma jovem cristã, de Canea, o enfeitiçou. O visir profundamente apaixonado e aceitando o conselho da bela jovem, concedeu-vos uma longa trégua.

     - Pode ser que os olhos de uma mulher possam influir de tal maneira em tão feroz capitão? –exclamou o tenente.

     - Assegura-se que é uma beleza extraordinária. No entanto, não agradar-me-ia me encontrar em seu lugar, já que todo o exército solicita sua morte, considerando que é um impedimento para prosseguir a campanha.

     - E pensas que o visir aceitará as exigências de seus guerreiros? –inquiriu o capitão.

     - Já comprovareis como não é capaz de se opor –respondeu o árabe–. O sultão dispõe de espiões no mesmo acampamento e, se soubesse que está cundiendo o descontentamento entre seus guerreiros, não vacilaria em obsequiar a seu comandante supremo com um laço de seda. E já sabeis o que semelhante presente quer dar a entender: ahorcarse ou deixar-se empalar.

     - Desgraçada jovem! –exclamou o capitão Tormenta com acento comovido–. E daí mais pode ocorrer?

     - Quando essa encantadora jovenzinha morra, podeis esperar um furioso assalto. As hostes islamitas encontram-se nervosas pelo prolongado do assédio e arrojar-se-ão sobre Famagusta como um mar tormentoso contra as penhas.

     - Acolhê-los-emos como se merecem! –repôs Perpignano–. Nossas espadas e couraças são fortes e não nos tremem os corações.

     O árabe inclinou a cabeça e, examinando com angústia à duquesa, agregou:

     São muito numerosos!

     Como não conquistem a cidade por surpresa...

     Sempre poderei te avisar com tempo. Tenho de regressar ao acampamento turco, senhora?

     O capitão Tormenta não respondeu.

    Apoiado contra o parapeto, prestava atenção às vociferaciones dos sitiadores e examinava com aspecto de preocupação os milhares de tochas que se moviam em torno da tenda do grande visir.

     Entre aquele griterío ensordecedor, que parecia o bramido do mar açoitado pelo vento, se escutavam em ocasiões milhares de vozes que exclamavam:

     - Morra a escrava! Queremos sua cabeça!

     E os timbales, as trompas e os disparos faziam enmudecer aquela fera gritería, e aquelas maldições que brotavam de cem mil peitos se convertiam num horrível rugido, como se o acampamento dos infiéis tivesse sido de improviso invadido por infinidad de animais selvagens chegados desde os desertos asiáticos e africanos.

     - Devo regressar, senhora? –insistiu O-Kadur.

     O capitão Tormenta repôs, com um estremecimiento:

     - Si, te marcha! Aproveita este momento de trégua e não abandones tuas averiguaciones se desejas me ver feliz!

     Os olhos do filho do deserto foram atravessados por uma sombra de infinita tristeza e contestou com tom resignado:

     - Farei o que desejas, senhora, com tal de ver teus belos lábios sorrir e tua frente tranquila.

     O capitão Tormenta fez a seu tenente uma indicação para que lhe aguardasse e se foi com o árabe até o parapeto do forte.

     - Disseste-me que o capitão Laczinski não tinha morrido? –perguntou.

     - Si, senhora. E, pelo momento, não parece ter muitos desejos de abandonar esta vida.

     - Espíale!

     - Teme algo desse renegado? –inquiriu o árabe, irguiéndose com aspecto ameaçador.

     - Pressinto nele a um inimigo.

     - Por que razão odiar-te-á?

     - Conseguiu descobrir que sou uma mulher.

     - Temes que esteja apaixonado de ti? –interrogou O-Kadur enquanto seu rosto se demudaba como consequência de um acesso de terrível cólera.

     - Quem sabe! –respondeu a duquesa–. Talvez me odeie porque a mulher derrotou ao Leão de Damasco e talvez, conquanto em segredo, me ame apaixonadamente. Não é singelo entender o coração humano!

     - O vizconde Lhe Hussière de acordo; mas o polaco, não! –disse o árabe com mal reprimido despecho.

     - Serias capaz de imaginar que amo a esse aventurero?

     - Jamais crê-lo-ia, senhora. Mas de ser assim... O-Kadur tem um yatagão no cinto e fincá-lo-ia até a empunhadura no peito desse renegado!

     - Advertia-se naquele instante no semblante do selvagem filho do deserto tão grande expressão de ira, que o capitão Tormenta não pôde menos de se sentir impressionado. Era um desesMas imenso, terrível.

     - Não te inquietes, meu bom O-Kadur! –disse a duquesa–. Ou Lhe Hussière, ou nenhum. Quero-o demasiado!

     - Adeus, senhora! –despediu-se o árabe, logo de uns breves instantes–. Espiaré a esse homem, em quem adivinho um inimigo de tua felicidade, igual que o leão vigia a presa que agoniza! Quando tu ordenes, o pobre escravo matá-lo-á!

     E sem aguardar a que a duquesa lhe respondesse, saltou o parapeto e, se deixando deslizar pela muralha, desapareceu apressadamente entre a escuridão.

     A jovem duquesa tinha permanecido quieta, tentando achar entre as sombras nocturnas o faub (amplo e longo manto que usavam os africanos) de seu leal escravo.

     - Como deve de sofrer seu coração! –murmurou–. Pobre O-Kadur! Mais tivesse-te valido permanecer em poder de teu antigo e feroz amo!

     Ao vê-la sozinha, Perpignano tinha-se dirigido para ela.

     - Ao que parece os turcos apaziguaram-se! –comentou–. Terão assassinado à cristã? Esses miserávels são capazes de qualquer coisa, e, quando se acham dominados peloc ólera, não respeitam a nada nem a ninguém, já sejam mulheres ou meninos!

     - Sei-o de sobra! –murmurou a duquesa.

     Enquanto, os gritos tinham-se interrompido no acampamento turco e já não se percebiam os timbales da caballería nem o som das trompas. Somente via-se como as tochas se congregaban em diferentes lugares ou bem como se estendiam em inacabável bicha, que formava uma caprichosa linha de fogo na escuridão da noite.

     Os capitães cristãos, seguros de que, pelo menos por enquanto, os infiéis não pensavam se lançar ao assalto da cidade, tinham ordenado a suas companhias retornar às tendas de campanha, deixando uma forte guarda junto aos fortes e as culebrinas.

     Como já antecipou O-Kadur a noite decorreu sem a mais mínima alarme, e os sitiados puderam descansar com toda tranquilidade.

     Quase não tinha começado a despuntar a aurora, quando quatro cavalheiros turcos que portavam nas alabardas banderines de seda branca, precedidos por um trompetero, chegaram até embaixo da muralha do forte de São Marcos –em cuja plataforma se reuniam pelo comum os capitães cristãos- com o objecto de solicitar uma breve trégua para lhes fazer presenciar um insólito espectáculo, que afirmavam tinha de influir em grande maneira na sorte da guerra.

     Imaginando que se tratava de algum novo repto, os capitães venezianos, que não desejavam excitar em demasía àquelas ferozes gentes de quem dependia seu destino, logo de um breve conselho, aceitaram prometendo não disparar até após meio dia.

     Dez minutos mais tarde, os sitiados, que não confiando demasiado nas promessas turcas, se tinham congregado nos fortes, viram se despregar na planície às numerosísimas hordas inimigas desfilando por batalhões como para uma revista.

     Em primeiro lugar passaram os artilheiros, de largos calzones e uniformes multicolores, por trás dos quais eram arrastadas duzentas culebrinas por magníficos cavalos árabes com penachos e cobertos com longas gualdrapas vermelhas; a seguir vinham as companhias de jenízaros, temíveis guerreiros que constituíam o mais selecto do ejército turco, homens a quem não arredraba a morte e que uma vez lançados ao ataque, nem espadas, nem culebrinas, nem mosquetes eram capazes de deter (o jenízaro era, pelo geral, um cristão que desde menino tinha sido educado nas crenças islâmicas)

     Seguiram os albanos, com seus raros vestidos de túnica branca e longa, e turbante, com as faixas repletas de pistolas; os guerreiros do Ásia Menor, provistos de larguísimos arcabuces, alabardas e ballestas das empregadas cem anos atrás e cobertos com reluzentes cotas de aço, que seguramente se remontavam à época das Cruzadas. Em último termo apareceu uma imensa coluna de ginetes árabes e egípcios cobertos por seus grandes mantos brancos, enfeitados com faixas rosadas.

     Ao som de as trompas e timbales, o poderoso exército dividiu-se em várias colunas, formando na planície um amplo semicírculo cujas asas desapareciam no horizonte.

     - Talvez quererão amedrentarnos nos mostrando suas forças? –perguntou Perpignano, voltando-se ao capitão Tormenta, que examinava com certo temor como desfilavam aquelas imensas hordas.

     - Ignoro-o –repôs a jovem duquesa–. Não obstante, algo pretendem.

     Acabava de pronunciar estas palavras, quando as trompas cessaram de soar de improviso e os timbales calaram.

     As colunas abriram-se e por entre elas apareceu o grande visir Mustafá, com armadura de ferro brunhido e um turbante enfeitado de enorme penacho que relucía igual que se estivesse cheio de brilhantes.

     Cavalgava sobre um cavalo tordo e enjaezado com insólito luxo; bridas longas, como as empregadas pelos marroquinos e berberiscos, uma enorme gualdrapa de terciopelo carmesí com faixa de ouro que lhe atingia até as corvas e fundas de terciopelo azul para as pistolas, com um par de grandes meias luas de prata.

     Ia depois dele um heraldo com uma grande trombeta e um estandarte de verde seda, e algo mais atrasada, em cima de uma mula branca, uma jovem envolvida num amplo o vai branco, enfeitado com diminutas estrelas de ouro, que a escondia às miradas. A seguir cavalgavam capitães e bajás, despedindo fulgores por causa de seus couraças plateadas, e cavalheiros em magníficos arreios.

     O grande visir, que marchava diante conduzindo com segura mão a sua brioso corcel, se deteve a uns trezentos passos do forte de São Marcos. Contemplando aos capitães cristãos, desenvainó seu cimitarra e, voltando-se para seus guerreiros, gritou:

     - Observai como vosso visir rompe suas correntes!

     Com um inopinado movimento fez dar a seu cavalo meia volta, pondo-o junto à mula, e, alçando-se sobre os estribos, com um seco e tremendo golpe de cimitarra cortou por completo o pescoço da jovem, fazendo rodar a enorme distancia a cabeça, que, efectivamente, era muito formosa.

     O corpo da jovem decapitada permaneceu por uns segundos sobre a cadeira, enquanto o alvo vai-o inundava-se de sangue e, por último, se desplomó em terra, acompanhado por um grito de indignação dos cristãos.

     O grande visir, logo de limpar seu cimitarra na gualdrapa de sua corcel, a envainó com frio ademão, e com o punho em direcção a Famagusta, exclamou com terrível acento, semelhante ao terrível retumbar do trovão:

     - E agora, guiaurri, pagareis o sangue que derramei! Esta noite ver-nos-emos!

    

                        O ATAQUE A FAMAGUSTA

     A ameaça do grande visir dos turcos causou profunda impressão entre os capitães, convencidos da audacia e energia do temível guerreiro, ao qual se deviam até aquele momento as vitórias conseguidas contra os venezianos.

     Na segurança de que à noite teriam de resistir um ataque encarnizado, mais formidável que os assaltos até então recusados, e conhecendo seu estado de inferioridad pelos estragos ocasionados nos fortes e muralhas pelas minas dos otomanos, por conselho do governador se tomaram as medidas necessárias para fazer frente ao tremendo perigo que se cernía sobre eles.

     Reforçaram-se as guardas, em especial as dos fortes de defesa dos fossos, conquanto estes já não podiam servir de nada em absoluto por se achar cheios de escombros, e se emplazaron as culebrinas em lugares de boa altura desde os quais se podia dominar a planície e varrer com os proyectiles aos atacantes.

     A população, já prevenida, apesar de sua extraordinária debilidade como consequência de prolongados ayunos, sabendo que se os turcos conseguiam rebasar as muralhas ia ser vítima das cimitarras infiéis, tentou em massa reforçar os pontos mais maltrechos com escombros e cascotes procedentes de suas próprias casas, já quase todas destruídas.

     Uma grande angústia tinha-se apoderado de todos. Adivinhavam que se aproximava o fim de Famagusta e que uma horrorosa matança o ia preceder.

     Podia-se presumir que o exército turco, vinte vezes superior em número ao veneziano e convencido de seu extraordinário poder e da enorme superioridad de sua artilharia, enervado pelo prolongado do lugar, tentaria levar a cabo um desses esforços impossíveis de conter por meio das armas nem pela fé surpreendente dos asediados. Em decorrência do dia os sitiadores reduziram toda sua actividade a efectuar de vez em quando algum disparo de culebrina, ainda que mais com o objecto de rectificar a puntería que para abater as obras de defesa dos venezianos. Mas em seu acampamento advertia-se um insólito movimento.

     Grupos de ginetes partiam da tenda do visir e do bajá levando instruções às duas asas do exército. Os artilheiros transladavam suas peças em direcção às trincheras e redutos, e pelotones de zapadores-minadores se diseminaban pela planicie para não ser atingidos pelos proyectiles dos cristãos.

     Os capitães cristãos Bragadino, Martinengo e Tiépolo, com o albano Manuel Spilotto, logo de ter-se reunido em conselho com o governador da praça, Astorre Baglione, tinham lembrado antecipar-se ao assalto turco com um intenso bombardeio, com o objecto de dispersar aos zapadores e evitar que a artilharia adversária tomasse posições.

     Assim se efectuou. Após o meio dia todas as peças que defendiam os fortes abriram um endiabrado fogo, encheram a planície de ferro e pedras, enquanto os mais experientes arcabuceros, protegidos depois dos parapetos, disparavam contra os minadores que tentavam se aproximar se amparando nas escabrosidades do terreno.

     O fogo prolongou-se até a posta do sol, ocasionando muitas baixas aos asaltantes, e uma vez que a noite teve caído, as trombetas tocaram a rebato, chamando a toda a população a defender as muralhas.

     O exército turco iniciava o despliegue pela planície em imponentes colunas, dispondo-se para o assalto geral.

     As trompas otomanas soavam ininterruptamente, os timbales redoblaban exaltando os ânimos, grandes alaridos alzábanse de vez em quando, soando de uma forma lúgubre nos ouvidos dos cristãos, e nos escassos momentos de silêncio ao muezzin, que estimulava aos fanáticos, exclamando:

     - Por Alá! Aniquilad! Matai! Não há mais Deus que Alá, e Maomé é seu profeta!

     A defesa de Famagusta centrava-se principalmente no forte de São Marcos, já que sabiam que o máximo esforço dos turcos ia dirigido para aquela parte, por ser a chave da praça.

     Melhore-los capitães –entre os quais estava Tormenta– tinham transladado a esse ponto suas companhias e vinte culebrinas das de maior calibre foram levadas ali. Os disparos de toda essa artilharia, manejada pelos mais diestros marinheiros venezianos, deveriam se concentrar sobre as fechadas colunas turcas, que prosseguiam seu avanço, impávidas, desafiando à morte.

     Quase não tinha voltado a se retomar o fogo, quando O-Kadur, que abandonou o acampamento turco dantes que os sitiadores se pusessem em movimento, trepou pela muralha, aparecendo ante o capitão Tormenta.

     - Senhor –exclamou com voz trémula–, chegou o momento definitivo para Famagusta! Como não aconteça um milagre, a cidade encontrar-se-á amanhã em mãos dos infiéis!

     - Todos estamos decididos a morrer! – contestou a duquesa, em tom de resignação.

     - E o senhor de Lhe Hussière?

     - Deus protegê-lo-á!

     - Ainda há ocasião de escapar! Tampada com meu faub podes passar inadvertida entre a horrorosa confusão que vai seguir ao ataque!

     - Sou um guerreiro da cruz, O-Kadur –replicou a duquesa com acento altivo–, e não deixarei a Famagusta sem uma espada que saberá cumprir com sua obrigação!

     - Pensa, senhora, que talvez amanhã não te encontres viva, pois estou inteirado que o grande visir ordenou despiadadamente o levar tudo a degolo!

     - Saberemos morrer! –insistiu a duquesa, reprimindo um suspiro –. Se o destino decidiu que nenhum de nós saia com vida deste cerco, que se cumpra nosso senão!

     - Então não vem, senhora? –inquiriu O-Kadur.

     - Não é possível! O capitão Tormenta não deve deshonrarse adiante da cristiandad!

     - Em tal caso, morrerei junto a ti! –decidiu o árabe, com vehemente acento.

     E acrescentou para si:

       A morte tudo o extingue e o desgraçado escravo descansará tranqüilo!

     Enquanto, o bombardeio era terrível. As duzentas culebrinas turcas, artilharia extraordinária para aquela época, tinham aberto fogo, tronando com inusitada potência contra os fortes e muros, meio destruídos.

     Proyectiles de ferro e pedra llovían em grande quantidade sobre as defesas, ocasionando numerosas baixas entre os sitiados, e os tiros de mosquete eram incesantes. A siniestra planície semejaba um mar de fogo e o estrondo era tão horrível que tanto forte como muralhas se estremeciam e se agrietaban cobrindo os fossos de ruínas.

     Os guerreiros venezianos aguardavam o assalto com aspecto tranqüilo, sem amedrentarse pelos alaridos nem pelo terrível estrondo daqueles milhares e milhares de homens, bárbara hoste que aullaba igual que manadas de lobos famintos.

     Todos os habitantes que estavam em condições de sustentar ainda um arma se achavam nos fortes, provistos de picas e alabardas, espadas e maças, dominados por uma louca fúria, enquanto suas mulheres e seus filhos se refugiavam entre sollozos e rezos na igreja principa o, no meio de uma ininterrumpida chuva de bombas que destruíam as últimas moradias.

     Um horripilante fragor cercava a Famagusta. As torres, desmanteladas pelo fogo dos canhões inimigos, vinham-se abaixo com grande estrépito, enquanto esquirlas de proyectiles de pedra saltavam por todas partes ferindo a guerreiros, mulheres e meninos.

     Astorre Baglione, governador da praça, contemplava impertérrito semelhante desastre, apoiado em suas costas e aguardando com o coração cheio de angústia o momento supremo do ataque.

     Tendo a seu arredor a seus capitães deu com acento sereno as ordens pertinentes, ciente já do que ia suceder.

     Tinha a certeza de que o visir não perdoar-lhe-ia ainda que saísse vivo do assalto geral e aguardava impasible o perigo que sobre ele se cernía. Magnífico exemplo de heroísmo!

     As hostes turcas, enquanto, resguardadas por sua artilharia, seguiam disparando sobre Famagusta e avançavam, indiferentes ao perigo, animadas pelas exclamações do muezzin:

     - Aniquilad! Matai! O Profeta e Alá ordenam-vo-lo!

     Os jenízaros tinham-se situado à cabeça do exército turco e despregavam-se pela planície, arrastando depois deles aos albanos e guerreiros do Ásia Menor.

     Os zapadores que os precediam não desaprovechaban o tempo. Protegidos pela confusão e a escuridão llegábanse com louca temeridad à parte baixa dos fortes e as torres, amontonando barris de pólvora para provocar brechas que dessem acesso à infantería.

     Seus esforços principais dirigiam-se ao forte de São Marcos, minando-o por todo os lados. Estruendosos estampidos sucediam-se sem cessar, agrietando o revestimiento e derrubando as aspilleras.

     No entanto, a reduzida força de venezianos e dálmatas que ainda combinava com vida não interrompia o fogo, diezmando de uma maneira cruel as bichas inimigas e cobrindo a planicie de mortos e feridos.

     O estrondo ia em aumento. Aos alaridos dos muçulmanos respondiam as preces e os lamentos das mulheres e meninos. No ar, saturado de fumaça e de pó, soavam entre o ruído do bronze os sinos que chamavam aos habitantes da cidade, por se ainda ficava algum com vida nas casas já incendiadas.

     A horda dos bárbaros avançava, lenta e pesadamente, diseminãodose pela planície. Dirigiam-se por milhares para a contraescarpa dos fortes, como uma maré irresistible, enquanto as minas estallaban com fragor enorme, alumbrando a planicie com lúgubres e rojizos resplendores.

     - Por Alá! Pelo Profeta! Morte e exterminio aos guiaurri! –aullaban cem mil vozes, sofocando o retumbar da artilharia.

     Os jenízaros atingiam já o forte de São Marcos, quando se provocou um inesperado relâmpago, acompanhado de um tremendo estampido. Uma mina, que não chegou a arder, atingida por alguma esquirla de pedra ardente ou qualquer seta incendiaria, acabava de estallar, destruindo a muralha quase por completo.

     Uma chuva de escombros alzóse pelos ares, ferindo ou matando a numerosos jenízaros, cuja coluna se tinha retirado atropelladamente, indo parar em parte contra a torre defendida pelos venezianos. O capitão Tormenta, que se achava junto a um dos redutos, dispostos a impedir o avanço dos inimigos à frente de sua companhia, recebeu o golpe de um bloco de pedra, que lhe veio a dar na parte direita da couraça.

     O-Kadur, que se encontrava próximo dele, vendo que a sua senhora se lhe caía o escudo e a espada e se desplomaba como atingida pelo raio, se dirigiu correndo para ela, enquanto lançava uma exclamação de angústia e espanto.

     - Mataram-na! Mataram-na!

     Sua voz foi afogada pelo horroroso estrondo, que sofocaba o estampido da artilharia. Os jenízaros precipitavam-se naquele instante ao assalto com incrível fúria e ninguém estava em condições de se ocupar da audaz e infortunada jovem e muito menos ainda o senhor Perpignano, que já combatia à frente dos mercenários.

     Com grande excitação, O-Kadur tomou entre seus braços à duquesa e, apertando-a contra seu peito, dirigiu-se à carreira para a cidade sem prestar atenção aos proyectiles e fragmentos de pedra que caíam por todos os lados em torno seu.

     Para que ponto fugia? Ele era o único no saber!

     Rodeou durante um momento a muralha por sua vez interior e deteve sua carreira em frente a uma velha torre da cidade, cuja base se achava já abatida pelas minas e em cuja plataforma continuavam disparando ainda um par de culebrinas.

     O-Kadur, agarrando-se aos escombros, meteu-se por uma estreita abertura, que devia de ser o acesso a um subterrâneo abandonado. Avançou às apalpadelas, com a jovem ainda entre seus braços, e a depositou suavemente em terra.

     - Ainda que Famagusta entregasse-se esta noite, não terá quem descubra o cadáver de minha senhora! –disse baixinho.

     Caminhou um momento entre a escuridão, até que extraiu de sua carteira eslabón e pedernal, com cujas chispas prendeu fogo ao estopim, conseguindo um débil fogo.

     - Não deixaram vazio o subterrâneo! –exclamou–. Acharei o que preciso!

     Encaminhou-se para um rincão, no que tinha um montão de caixas e barris, e procurando ali, sacou uma tocha à que prendeu fogo.

     Achavam-se num subterrâneo situado na base do torreón e que deveu de ter servido como depósito à guarnición do antigo forte. Aparte as caixas e barris, que continham armas e munições, se viam colchonetas, sábanas, alcuzas cheias de azeite e aceitunas, que era a única provisão alimenticia dos sitiados.

     Sem preocupar-se pelo estrondo das culebrinas que ressoava sobre sua cabeça, o árabe introduziu a tocha num oco do solo e pôs à duquesa em cima de um dos colchões.

     - Não é possível que tenha morrido! –exclamou com sollozos. Uma mulher tão formosa não pode morrer assim!

     Alçou o manto com que cobriu à duquesa e revisou a armadura. Em parte-a direita observava-se uma enorme abolladura com um buraco em seu centro, por onde o sangue manava; o fragmento de pedra ou de ferro fortemente despedido tinha destroçado o aço do peto.

     Com muito cuidado tirou-lhe a couraça e no costado, sob a última costilla, viu uma ferida que sangrada em abundância.

     Se não penetrou na carne nenhuma esquirla do proyectil, minha senhora não morrerá! –musitó o árabe–. Não obstante o golpe deve de ter sido muito   forte!

     Rasgou a capa da duquesa, que era de muito fina lana, e fazendo umas vendas, as quais empapó em azeite, vendó a ferida com o fim de restanhar o sangue e soprou várias vezes no semblante da jovem para lhe fazer recuperar o sentido.

     - És tu, meu leal O-Kadur? –inquiriu ao cabo de breves instantes a duquesa, abrindo os olhos e fincando-os no árabe.

     Sua voz era apagada e sua cara estava muito pálida, tão branca como a neve.

     - Está viva! Minha senhora está viva! –exclamou o árabe–. Ah, senhora; achei que tinhas morrido!

     - Que ocorreu, O-Kadur? –interrogou a duquesa–. Não me lembro de nada. Onde nos encontrámos? Quem dispara a nosso arredor? Não ouves os estampidos?

     - Achámos-nos nos subterrâneos, a resguardo dos proyectiles dos turcos.

     - Os turcos! –exclamou a jovem, pretendendo incorporar-se. Rendeu-se Famagusta?

     - Ainda não, senhora.

     - E eu me encontro neste lugar enquanto outros se matam?

     - Estás ferida!

     - É verdade, noto uma grande dor aqui! Feriram-me com uma bala ou com espada? Não me lembro de nada!

     - O que te rasgou a couraça foi um fragmento de pedra.

     - Deus meu, que fragor!

     - Os turcos precipitam-se ao assalto.

     A palidez do semblante da duquesa fez-se ainda mais intensa.

     Não tem salvação a cidade? –perguntou, com acento agoniado.

     Não posso o dizer, senhora. Mas parece-me que não. Ouço as culebrinas do forte de São Marcos que não deixam de retumbar.

     O-Kadur, vê a examinar o que ocorre!

     E tu, senhora... como te vou deixar sozinha?

     És mais necessário nas muralhas que neste lugar.

     Não me sinto capaz de te abandonar!

     Marcha-te! –exclamou a duquesa em tom enérgico–. Marcha-te ou levanto-me e, ainda que tenha que morrer no caminho abandonarei este refúgio! É o instante supremo em que todos os defensores da cruz lutam! Tu renegaste da fé do Profeta e agora és cristão, o mesmo que eu! Combate contra os inimigos de nossa religião!

     O árabe inclinou a cabeça, durante um momento permaneceu indeciso contemplando à duquesa, e, por último, desenvainando o yatagão, precipitou-se para o exterior, enquanto murmurava:

     - Que o Deus dos cristãos me proteja para poder defender a minha senhora!

    

                          NOITE DE SANGUE

             Enquanto o árabe encaminhava-se à carreira em direcção ao forte de São Marcos, arrimãodose às casas para eludir as balas e as pedras, que caíam sem interrupção, as hordas turcas, que apesar do intenso tiroteio dos cristãos tinham conseguido atravessar a planicie, se lançavam ao ataque geral.

     Famagusta achava-se rodeada por um cinto de ferro e fogo, que a cada instante ia estrechãodose mais, lenta mas inexoravelmente.

     Os maiores esforços centravam-se sobre o forte de São Marcos. De todas formas, imponentes massas de atacantes rodeavam também os restantes fortes e muralhas, enfrentando a morte.

    Os jenízaros, que tinham sofrido graves perdas e enchendo a planície com seus mortos, acabavam de congregarse sob o poderoso forte, já quase totalmente derrubado, e começavam a luta corpo a corpo, atacando com impetuoso denuedo às companhias de mercenários que o defendiam, enquanto a força de albanos e guerreiros do Ásia Menor pretendiam escalar as torres e se apoderar delas.

     Trepavam os infiéis com a fúria de lobos famintos, asiéndose aos salientes e escombros com o yatagão entre os dentes e a cimitarra na mão, resguardãodose com os escudos, nos que se viam a bicha de cavalo e a meia lua.

     Os proyectiles, que lhes caíam de cheio, quase a boca de jarro, diezmaban suas bichas. Mas eles passavam impertérritos sobres seus mortos e moribundos, exclamando:

     - Exterminad! Exterminad! Aniquilad a todos! O Profeta ordena-o!

     E os jenízaros, que eram todos veteranos e se tinham enfrentado já às espadas venezanas em Chipre e Negroponto, e na costa dálmatas, trepavam com o sorriso nos lábios –sorriso de fera–, anhelosos de sangue cristão, imaginando, em seu cego fanatismo, distinguir entre os aços dos inimigos os formosos rostos das huríes do Profeta. Como temer à morte, se as donzelas do paraíso aguardavam com os braços estendidos aos valorosos guerreiros que sucumbían defendendo a Meia Lua? Talvez Maomé não o tinha prometido assim? E prosseguiam seu furioso avanço, brandiendo com raiva a cimitarra, enquanto depois deles a planicie se cobria de mortos e os canhões tronaban sem cessar, envolvendo a Famagusta com ferro e balas de pedra incandescentes que llovían a centos.

     Os cristãos ofereciam a máxima resistência ao denuedo daquela imponente horda. Estimulados pela presença do governador, cuja voz retumbava sem que conseguisse sofocarla o estrondo da artilharia, lutavam com grande coragem.

     Reunidos no forte, constituíam uma muralha de ferro que as cimitarras turcas não conseguiam abater. Golpeavam rabiosamente com seus maças os escudos dos atacantes, destruindo cimeras e capacetes. Suas espadas, em contínuo movimento, umas vezes segaban uma cabeça mahometana, outras mutilavam um corpo, enquanto as culebrinas espalhavam a morte com um torrente de metralla.

     Era um combate grandioso, épico, que produzia espanto tanto nos asaltantes como nos sitiados.

     Enquanto, nos restantes fortes e em torno das torres lutava-se com desesMas e com grandes perdas por ambas partes. Os albanos e os do Ásia Menor, encolerizados pela tenaz resistência dos sitiados e pelos graves estragos ocasionados em sua bichas, pretendiam, com ataques desesperados, rebasar as muralhas, arrimando a elas infinidad de escalas, que não demoravam em desplomarse com todos os que tentavam subir por elas.

     Tão sangrento resultava o combate por aquela zona, que pelas muralhas corriam chorros de sangue, igual que se milhares de bois tivessem sido sacrificados. Os turcos caíam por companhias completas, rasgados por pica-las, espadas e moquetes. Mas outros os substituíam e seguiam a luta com cega tenacidad.

     Dirigiam-se, sobretudo, para as torres, em cujas plataformas as culebrinas venezanas disparavam sem trégua, lhes ocasionando os maiores estragos. Aqueles vetustos e elevados edifícios eram muito difíceis de tomar, já que ofereciam uma extraordinária resistência às minas e arietes. O revestimiento caía, mas parte-a interior não cedia com tanta facilidade, pela solidez daquelas construções, realizadas por engenheiros venezianos.

     Em ocasiões, os cristãos, não confiando já em suas forças, mas dispostos a morrer com as armas na mão dantes que se deixar matar depois impunemente, derrubavam com suas maças as troneras, arrojando desta maneira sobre os atacantes um torrente de escombros que inmovilizaban a grande número deles.

     Enquanto em todos os lugares da população tanto guerreiros como habitantes competiam em bravura, decididos a tudo com tal de ocasionar ao inimigo grandes estragos, entre aquele horrendo fragor de bronzes e aullidos de moribundos e combatentes, entre choque de espadas e maças rebotando nos escudos e armaduras, no meio do estallido das minas, os sinos das igrejas volteaban sem cessar no ar, cheio de fumaça, e nas estreitas callejuelas se escutavam as orações das mulheres, sollozantes, suplicando a São Marcos, protector de Veneza.

     Quando O-Kadur, milagrosamente ileso das balas de pedra que se abatiam sobre a cidade, deixando depois de si ráfagas de fogo que semejaban bólidos, atingiu o forte principal que era contra o que combatiam com maior sanha os jenízaros, a luta tinha adquirido tremendas proporções.

     A reduzida tropa cristã, arrinconada pelos incesantes assaltos dos infiéis, diezmada pelos disparos das culebrinas emplazadas na planicie, e esgotada por aquela desesperada batalha, que já durava três horas, começava a se retirar.

     Batiam-se entre montões de mortos que constituíam uma espécie de trinchera. Todo o forte se encontrava cheio de guerreiros moribundos a quem o yatagão dos infiéis se dispunha a arrematar, de escudos, elmos, picas, alabardas, espadas e culebrinas inservibles.

     O governador, muito pálido, com a cota de malha rasgada pelas armas turcas, rodeado por seus capitães, já muito escassos, pois a maioria tinham resultado mortos, tentava reorganizar as companhias de marinheiros venezianos e de mercenários para seguir mantendo aquela desesperada resistência.

     Na parte de atrás do forte tinha uma ampla plataforma circundada por uma pequena muralha, algo semelhante a uma rotonda, que se utilizava para as manobras dos guerreiros, e que aos lados contava com pequenos redutos.

     Ao observar o governador que o forte já não podia resistir, tinha ordenado transladar até aquele ponto as culebrinas que ainda estavam em condições de ser utilizadas e contener o ataque dos otomanos, que já salvavam a escarpa exterior.

     - Tentemos aguentar até amanhã, rapazs! –disse o audaz governador–. Sempre terá ocasião para se render!

     Os mercenários e marinheiros, ainda que já muito exiguos em número por causa da cruel batalha, tinham conseguido, apesar da chuva de balas, pôr a salvo oito ou dez culebrinas, enquanto os guerreiros tentavam conter durante certo tempo aos infiéis, batallando nas muralhas e nos pontos ainda não derrubados do forte.

     Naquele instante chegou O-Kadur. Ao ver ao senhor Perpignano, que reorganizaba a companhia do capitão Tormenta, reduzida a menos da metade, se dirigiu para ele.

     - Estamos perdidos, não é verdade? –inquiriu.

     Vendo-lhe só, o veneziano tinha experimentado um sobresalto.

     - E o capitão? –interrogou.

     - Está ferido, senhor!

     - Vi-te como lhe sacavas fora de aqui.

     - Não vos inquieteis. Encontra-se a salvo e, ainda que os turcos conquistem Famagusta, não conseguirão lhe encontrar.

     - Em que lugar está?

     - No subterrâneo da torre de Bragola, que já se acha derrubada. Se não vos dão morte, ide ali em sua procura.

     - Não faltarei! Tem cuidado, O-Kadur, não te arrisques muito! Tens de viver para salvar ao capitão!

     Os guerreiros venezianos e os mercenários, extenuados por causa da superioridad numérica do inimigo, se replegaban em desorden em direcção à rotonda, tentando salvar, se não a todos, à maioria de seus feridos.

     Felizmente, o governador de Famagusta teve o tempo suficiente para reorganizar as tropas, que eram algo mais numerosas, já que se tinham somado a elas alguns habitantes da população.

     Os jenízaros franqueavam já o parapeto, cheio de cadáveres, e exclamavam sem cessar:

     Morte aos guiaurri! Exterminad! Matai!

     Ao resplendor dos disparos da artilharia viam-se seus rostos contraídos pela fúria que os dominava e seus ferozes olhos, que semejaban ter fosforescencia.

     - Vocês, artilheiros! –ordenou o governador com voz que conseguiu se impor ao tronar dos canhões e ao vocerío dos asaltantes.

     As culebrinas dispararam todas ao mesmo tempo, fazendo retemblar o forte e cobrindo aos infiéis com abrasadora metralla.

     A primeira bicha de bárbaros guerreiros se desplomó sobre o parapeto abatida por aquele furacão de fogo. Mas outros homens ocuparam os postos dos mortos, lançando-se ao ataque com desenfrenada fúria, para não dar ocasião aos artilheiros a que voltassem a carregar as culebrinas.

     Os venezianos e mercenários, que tinham tido um instante de descanso, voltaram ao ónus.

     Protegendo-se com os escudos, precipitaram-se sobre os jenízaros e travaram um novo combate. Os capitães animavam-nos, incitando-os a resistir até o final.

     As cimitarras e as espadas caíam sobre as couraças, rompendo-as e atravessando-as. As pesadas maças golpeavam em capacetes e cimeras, destroçando cabeças, e as afiadas alabardas afundavam-se nas carnes, ocasionando horríveis e incurávels feridas.

     Mas já nada era capaz de conter às hordas exterminadoras que o grande visir e os bajás tinham lançado ao ataque contra Famagusta. Os robustos guerreiros venezianos, esgotados por tantos meses de padecimientos e de assédio, se desplomaban por grupos em terra, empapada já em seu sangue generoso, e morriam pronunciando o nome de São Marcos, enquanto os turcos se davam pressa nos fazer calar para sempre, lhes atravessando as gargantas.

     A agonia de Famagusta tinha começado, iniciando-se horríveis represálias, que teriam de levantar um clamor de indignação entre os países cristãos de Europa, que se achavam pendentes daquela batalha.

     Oriente aniquilaba a Occidente. Ásia retaba à cristiandad, fazendo flutuar triunfante ante sua vista a verde ensina do Profeta.

     Por todas partes venciam já os infiéis. Uma a uma eram tomadas as torres pelo bárbaros de Arabia e das estepas de Ásia e, derrotados, agonizantes ou mortos, os cristãos eram arrojados aos fossos, desde os torreones já conquistados.

     O forte de São Marcos oferecia muito escassa resistência.

     Os mercenários e venezianos, desbaratados pelos assaltos dos turcos, retiravam-se em desorden.

     Já ninguém acatava as ordens dos capitães nem do governador.

     Os mortos iam amontonãodose de contínuo. Às trincheras de terra, já destruídas, seguiam agora trincheras de carne humana e de ferro.

     Uma imponente nuvem, produzida pela fumaça da artilharia, se cernía igual que um o vai fúnebre sobre Famagusta, a rodeando por completo. Os sinos tinham deixado de soar e as orações das mulheres, congregadas na igreja, eram afogadas pelo atronador vocerío dos infiéis.

     A maré crescia, crescia; maré humana, mais perigosa que a do oceano, e que parecia ir acompanhada de um lúgubre mugido.

     Os guerreiros asiáticos já tinham trepado pelas muralhas e lançavam-se pela cidade igual que corvos famintos.

     Os venezianos, mercenários e moradores da cidade que tinham intervindo na defesa, se davam à fuga com rapidez e desesMas, cruzando as estreitas ruas de Famagusta, intentando se ocultar entre os escombros e ruínas e fazendo cundir o pânico com gritos de:

     - Salve-se quem possa! Os turcos!... Os turcos!

     Os soldados que ainda lutavam nos muros e torreones, ao escutar aquelas vozes, que notificaban a queda da fortaleza, por temor a ser atacados pela retaguarda, abandonavam por sua vez a defesa e corriam a se refugiar na cidade.

     Não obstante, ainda depois das moradias derrubadas e nas esquinas das ruas, os venezianos pretendiam se defender para impedir que os otomanos atingissem a velha igreja, dedicada ao protector da República, e retardar a matança de mulheres e meninos, que se tinham refugiado dentro dela, aguardando com resignação que as cimitarras dos infiéis levassem a cabo seu horríveis cometido.

     Conquanto esgotados e feridos, a maioria dos valorosos filhos da rainha do Adriático faziam que a vitória lhe saísse cara ao poderoso inimigo.

     Sabendo-se já sentenciados a morte, combatiam com a fúria do desesMas, se precipitando sobre as frentes das colunas e ocasionando grande mortandad entre os jenízaros, albanos, tropas irregulares e forças árabes e quantos com eles se batiam.

     Mas por infortúnio para os defensores da cidade, a caballería penetrou em Famagusta, cruzando pelas brechas do forte de São Marcos, e lançou-se a todo galope entre ensordecedores alaridos, arrollãodolo tudo a seu passo.

     Eram doze regimientos, que carregavam com fúria e sem a menor compaixão. Não tivesse tido nenhum corpo de exército, por aguerrido que fosse, capaz e se enfrentar àqueles filhos do deserto.

     Sobre as quatro da madrugada, quando a escuridão começava a se desvanecer, os jenízaros, que com a colaboração da caballería tinham sofocado toda resistência, registando uma por uma, as casas não destruídas, e degolando a quantos encontravam em seu interior, chegaram ante a velha igreja de São Marcos.

     O valoroso governador de Famagusta achava-se de pé no último degrau, apoiado em sua espada e com um punhado de bravos a seu arredor, únicos que conseguiram escapar da matança.

     Estava sem cimera e por sua destroçada cota brotava o sangue. Mas nem uma simples arruga advertia-se na frente do condottiero e sua mirada aparecia tranquila.

     Os jenízaros, que se tinham dado conta de quem era, se detiveram e interromperam seu selvagem griterío.

     A surpreendente serenidad daquele homem, que durante tantos meses manteve a raya ao mais poderoso dos exércitos formados pelo sultão de Bizancio, e que com o valor de seu braço tinham enviado mais de vinte mil guerreiros ao paraíso do Profeta, parecia ter acalmado de súbito àqueles seres sedentos de sangue cristão.

     Um bajá, que enfeitava a cimera com três plumas verdes, e que levava uma longa cimitarra, anheloso de acabar com aquele punhado de guiaurri, se tinha aberto caminho entre os jenízaros, fazendo caracolear de uma forma insolente a sua corcel.

     - Apresentai vossas cabeças às cimitarras de meus guerreiros! Estais vencidos! –gritou.

     Uma despectiva sorriso desenhou-se nos lábios do governador, enquanto seus olhos despediam um destello de ira.

     - Já que tanto ou desejas, mata! –repôs, arrojando sua espada–, Mas lembra-te de que o Leão de São Marcos não fica exterminado em Famagusta e que em algum dia seu rugido retumbará sob as muralhas da antiga Bizancio.

     E alongando sua mão para a porta da igreja, que se achava aberta, acrescentou:

     - Ali encontram-se as mulheres e os meninos! Podeis assassiná-los! Não oferecerão resistência! Deshonrad, se parece-vos, a fama dos guerreiros orientais! A história julgar-vos-á!

     O bajá permaneceu silencioso. As altivas palavras do chefe dos venezianos tinham-lhe ofendido e não era capaz de achar uma resposta oportuna.

     Naquele momento ressoaram as trompas e redoblaron os timbales. As apertadas bichas de jenízaros abriram-se.

     Era o grande visir, que chegava com seus capitães e a guarda albanesa.

     Apareceu na praça com a espada desenvainada, erguido sobre seu cavalo empenachado e com a zelada alta. Passou por entre as bichas de jenízaros, sem dirigir-lhes nem sequer uma mirada, apesar de que graças a eles tinha podido conquistar Famagusta, e indicando com a cimitarra o punhado de guerreiros vencidos, ordenou a seu guarda:

     - Pegai-os a todos!

     Enquanto levavam a cabo sua ordem, sem que os vencidos oferecessem a mais mínima resistência, o grande visir subiu em seu cavalo os três degraus e penetrou na igreja, se detendo no centro, com aspecto majestuoso e altivo.

     As mulheres, que estavam em torno do altar maior, abraçadas a seus filhos, lançaram exclamações de espanto, enquanto um idoso sacerdote, talvez o único que tinha sobrevivido à tragédia, punha uma cruz em alto, como se com ela pretendesse impressionar ao sanguinario representante do grande sultão de Bizancio.

     Aquele momento era solene, horrível. Bastaria um sinal para que os jenízaros, que já tinham entrado na igreja, se arrojassem sobre aquelas infortunadas e a matassem a golpes de yatagão e cimitarra.

     O grande visir guardava um absoluto mutismo, fixando a mirada na cruz que o sacerdote sustentava em alto.

     As mulheres gemiam, os meninos choravam e os jenízaros murmuravam, deseosos de começar o saque.

     Todas ao mesmo tempo, e como se um impulso divino as tivesse inspirado ao unísono, aquelas mães alçaram em seus braços a seus meninos e os ensinaram ao grande visir, enquanto diziam entre sollozos:

     - Perdoa a nossos filhos, que são inocentes!

     O general do exército do Islão baixou seu cimitarra, que acabava de levantar para ordenar a matança, e se voltando para seus guerreiros gritou com voz atronadora:

     - Tudo o que há neste lugar pertence ao sultão! Ai de quem toque-o!

     Aquilo significava o perdão.

    

                     NO INTERIOR DO SUBTERRANEO

     Quando, a raiz da fugida dos mercenários e a desbandada dos venezianos, O-Kadur adivinhou que Famagusta tinha caído e que qualquer resistência era inútil, se dirigiu à carreira em direcção ao subterrâneo da torre de Bragola, onde se considerava mais seguro que em nenhum outro lugar.

     Os turcos tinham rebasado também por aquele ponto as muralhas. Mas dantes que os albaneses que a assaltavam penetrassem na população como fizeram já os jenízaros, O-Kadur, ágil a semelhança dos antílopes de seus desertos, se adentró no estreito pasadizo e o tampou depois com montões de pedras, para impedir que a luz da tocha, que estava ainda ardendo, o delatasse.

     O primeiro foi olhar à duquesa.

     A jovem, tumbada num colchón, achava-se dominada por um forte delírio. Movia os braços como para recusar ao inimigo, supondo ter ainda a espada na mão e combater contra os turcos e, de vez em quando, pronunciava frases incoherentes.

     - Aí, o tigre de Arabia !... Recordai o de Nicosia! Quanta sangue!... É ele, Mustafá!... Disparai sobre ele!... Lhe Hussi ère... na lagoa...; a lua riela sobre a Saúde!...Tranquila, bellísima... a noite de Veneza..., a góndola de negra cor..., noite serenísima..., a cúpula de São Marcos!... Que ruído ressoa em meu cérebro? Ah! Já!... Lou distingo!... O Leão de Damasco condú-lo!... Matam-no!...

     A duquesa emitiu um grito de espanto e de angústia, enquanto suas facções se demudaban por um pesar inexplicável. Sentada no colchón com as mãos juntas e os olhos com expressão aterrorizada e abertos de par em par, olhava em torno seu. Depois calou de novo e sentiu-se dominada pelo agotamiento, como resultado da excitação passada.

     Parecia estar sumida num sonho profundo. Seus lábios sorriam e seu semblante tinha recuperado de novo seu aspecto sereno.

     Sentado em cima de um cajón, ao lado da tocha que alumiava de uma forma lúgubre o subterrâneo, o árabe a contemplava com a cabeça entre as mãos. De vez em quando um suspiro sacudia seu peito e sua mirada, se apartando da duquesa, errava pelo vazio, como tentando encontrar alguma visão. Um estranho fulgor brilhava em seus olhos e duas lágrimas escorregavam por suas bochechas.

     - Nos anos passaram e com eles se me têm esquecido os amplos horizontes, as dunas de areia, a tenda da tribo nómada que sendo menino me raptou a minha mãe; as palmeras de grande altura, os galopantes meharis do deserto; mas jamais esqueci e até a lembrança em minha dourada escravatura, a minha encantadora Laglão –musitaba O-Kadur–. Infortunada jovem! Em que terra da nefanda Arabia encontrar-te-ás neste momento? Tinhas os olhos negros, igual que minha senhora, tão belos como ela os lábios e o rosto. Eu dormia ditoso quando tu tanhías a mirimba, esquecendo os crueis castigos de meu senhor. Lembro-me quando tu levavas ao desgraçado escravo, que se achava moribundo pelos golpes de corbac daquele canalla, água para mitigar sua ardorosa sede. Separamos-nos, e talvez tenhas morrido nas orlas do mar Vermelho, que arrullaba com o susurro de suas intermináveis ondas nosso amor, a esperança em nosso futuro, e meu coração foi dominado por outra mulher, mais fatal para mim que tu! Lembro-me de teus negros olhos, que eu contemplava extasiado quando terminava no dia e os camelos regressavam de os pastos. Mas ela possui a pele branca, enquanto eu a tenho escura, e não é uma escrava igual que tu. No entanto, é que não sou também homem? Não nasci livre? Não era meu pai um famoso guerreiro dos Amarzucki?

     Tinha-se incorporado e deixado cair o manto; mas sentou-se outra vez, ou mais bem, se deixou cair, como se suas forças lhe tivessem abandonado de improviso.

     - Sou um escravo! –exclamou com voz rouca–. Um fiel cão de minha senhora..., e unicamente a morte poder-me-á fazer ditoso! Melhor tivesse sido que uma bala ou uma cimitarra de meus antigos correligionarios me tivesse destroçado o coração! Meus pesares teriam assim acabado!

     E encaminhando-se para a entrada do subterrâneo, agregou em tom quase feroz:

     - Si! Irei em procura de Mustafá e lhe notificaré que, ainda que de pele morena e árabe, sou um crente da cruz, que traí em mil ocasiões aos turcos e assim fá-me-á decapitar! De aqui a uma hora dormirei o sonho eterno e tudo terá acabado ditosamente para mim!

     Um gemido que brotou dos lábios da duquesa lhe fez se deter.

     Dirigiu-se para ela, passando a mão pela frente.

     A tocha despedia seus últimos resplendores, dominando as trevas do subterrâneo. Aquela escuridão produziu no árabe uma amedrentadora impressão.

     - Que infamia pensava cometer indo em procura da morte? Miserável de mim, que a deixava sozinha, ferida e sem nenhuma classe de ajuda! Eu que sou seu escravo, seu leal O-Kadur! Estava louco; sou um canalla!

     Tinha-se aproximado à duquesa, que ainda se achava dormida, com os negros cabelos soltos em torno do rosto e os braços estendidos como se sustentassem ainda a poderosa espada do capitão Tormenta.

     Sua respiração era pausada, mas algum pesadelo atormentava seu cérebro, já que de vez em quando o semblante se lhe contraía de improviso.

     Um nome surgiu, por último, de seus lábios.

     - O-Kadur..., meu fiel amigo..., socorre-me!

     Um destello de profunda alegria relampagueó nos olhos do filho do deserto.

     - Está a sonhar comigo! –susurró com um sollozo–. Pede-me que a salve! E eu que pensava a deixar e permitir que morresse! Ah, senhora! Teu escravo morrerá, mas primeiro tem-te de livrar dos perigos que te rodeiam!

     Aquela explosão de alegria foi muito breve, já que outro nome brotou dos lábios da duquesa.

     - Lhe Hussière!... Onde te encontras? Quando voltar-te-ei a ver?

     Outro sollozo agitou o peito do árabe.

     - Sonha com ele! –disse sem que sua voz indicasse o menor ódio–. Ama-o!... A ele, que não é um escravo!... Estou louco!

     Pôs de novo em seu lugar as pedras, acendeu outra tocha e voltou a sentar-se ao lado da duquesa, com a frente entre as mãos.

     Semejaba não ouvir já nada, nem o fragor dos últimos canhonazos, nem o clamor furioso dos turcos nos fortes.

     Que lhe importava a ele que Famagusta tivesse sido conquistada e que a carnicería começasse, se sua senhora não se achava em perigo?

     Fincava a vista com firmeza, adiante de si, seguindo com ela talvez uma visão. Talvez seu pensamento percorria nos anos de sua primeira juventude, quando sendo menino galopaba pelos abrasadores desertos da Arabia nos velozes meharis, ainda em liberdade; quiçá pensasse na noite terrível em que uma tribo inimiga tinha assaltado a tenda de seu pai e, logo de ter matado aos guerreiros que a vigiavam, o tinham raptado num rápido corcel para o converter a ele, o filho de um chefe já poderoso, num mísero escravo martirizado por um despiadado amo.

     Talvez pensava na pequena Laglão, sua colega de fadigas e martírios, que pela primeira vez fizesse bater seu coração e a quem seu ardente imaginación comparava, exceptuando a cor da pele, com a duquesa de Éboli, sua senhora.

     As horas decorriam e O-Kadur seguia sem mover-se. A jovem, desvanecido já seu delírio, se achava sumida em profundo sonho.

     Desta maneira passaram algumas horas. Já não se escutava o tronar do canhão, nem o vocerío dos turcos. Somente de vez em quando soava algum disparo de arcabuz, acompanhado de vozes que se iam extinguindo paulatinamente.

     - Dá-lhe ao guiaurro! Dá-lhe! Dá-lhe!

     Aquele guiaurro seria com toda segurança algum azarado habitante ou um soldado descoberto entre os escombros da cidade a quem arcabuceaban como a um cão rabioso os jenízaros de Mustafá, ainda não saciados de sangue, pese à horrível matança levada a cabo.

     Um débil gemido fez de O-Kadur abandonasse seus pensamentos.

     Incorporou-se e foi para a jovem, que acabava de abrir os olhos e tentava se levantar.

     - És tu, O-Kadur? –inquiriu, pretendendo esboçar um sorriso.

     - Estou a velar por ti, senhora! –contestou o árabe–. Não te levantes! Não é necessário, e pelo momento não te achas em perigo! Como te encontras agora?

   - Bastante debilitada, O-Kadur! –repôs a duquesa, com um suspiro–. Quem sabe quando poderei voltar a usar a espada!

     - Neste instante não resultaria de nenhuma utilidade.

     - Assim que tudo se acabou? –perguntou a jovem, com o semblante demudado pela dor.

     - Tudo!

     - E os habitantes da cidade?

     - Foram exterminados, ao igual que o foram os de Nicosia! Mustafá não perdoa nos meses que lhe mantiveram a raya! Esse homem não é um guerreiro; é um tigre!

     - E daí passou com os capitães? –inquiriu de novo a jovem.

     - Não te posso informar, senhora.

     - Tê-los-ão exterminado também?

     O árabe baixou a cabeça, sem responder.

     - Dímelo, O-Kadur! –insistiu a duquesa–. Tomou vingança Mustafá em Baglione, Bragadino, Spilotto e os restantes valorosos capitães?

     - Parece-me que não deve dos ter perdoado, senhora.

     - Não poderias averiguarlo de alguma maneira? A cor de tua pele e teus vestidos dar-te-ão fácil acesso a Famagusta.

     - Não me atrevo a sair deste lugar em pleno dia, por medo a te expor a uma morte verdadeira. Talvez me vissem remover as pedras que obstruyen a entrada, supor que oculto algum tesouro e me obrigar ao descobrir. Aguardaremos à noite, senhora. A prudência nunca sobra, em especial com os turcos.

     - E veste se meu tenente caía morrido?

     - Ao afastar-me do forte de São Marcos, ainda estava com vida e lhe notifiqué que te encontravas escondida neste subterrâneo.

     - Em tal caso, confio em que possa vir a nos procurar.

     - Se salvou-se das cimitarras turcas, virá –replicou O-Kadur–. Deixas-me que examine tua ferida? Em minha terra sabemos curar melhor que em outros países.

     - Não faz falta, O-Kadur! –repôs a duquesa–. Deixa que se cicatrice por si mesma! Não é tão grave como imaginas! Só me encontro algo debilitada por causa do sangue perdido! Dá-me de beber; não posso aguentar a sede!

     - Não te posso proporcionar nem uma gota de água, senhora. Aqui não há mas que azeite e veio de Chipre.

     - Dá-me então veio de Chipre!

     O árabe alçou a tampa de pedra que cobria uma grande corambre cheia daquele doce vinho e, logo de encher um vaso de couro, o entregou à jovem, que o bebeu de um sozinho engolo.

     - Isto acalmará teu fiebre –disse o árabe–. Vale mais que o água corrompida da população.

     A duquesa se tumbó de novo e apoiou a cabeça na mão, enquanto o árabe fincava a tocha numa esquina, com o objecto de que seus raios não se projectassem para o exterior e, depois de um breve silêncio, lhe perguntou:

     - Que nos vai ocorrer, meu fiel amigo? Achas que conseguiremos abandonar Famagusta para ir em procura de Lhe Hussière?

     O árabe estremeceu-se e repôs com voz lenta:

     - Esquece por enquanto ao vizconde e pensemos em pôr-nos a salvo!

     - Achas que consegui-lo-emos?

     - Talvez com o auxilio de um homem, o único que, entre tantos milhares de turcos, possui um coração nobre e generoso.

     - E quem pode ser? –inquiriu a duquesa, examinando-lhe com firmeza.

     - O Leão de Damasco.

     - Muley-o-Kadel?

     - Exacto, senhora.

     - O homem a quem derrotei?

     - Mas ao que perdoaste a vida, lha podendo arrebatar nobremente sem que os mesmos turcos protestassem. Só este homem reprochará ao grande visir sua ânsia de sangue.

     - Se inteirasse-se de que foi uma mulher a que lhe feriu...

     - Maior motivo para admirá-la, senhora.

     - E daí decidiste fazer?

     - Ir em procura do Leão de Damasco e explicar-lhe o que nos ocorre. Tenho a certeza de que tão bravo guerreiro não trair-te-á. Por outra parte, pode dar-te alguma valiosa informação sobre o vizconde.

     - Podes imaginar tanta generosidad num turco?

     - Si, senhora –contestou com acento seguro o árabe.

     - Conheces a Muley-o-Kadel?

     - Pude falar-lhe certa noite que acompanhava a um capitão turco, com ideia de lhe sacar algum relatório com respeito à sorte do cavalheiro Lhe Hussière.

     - De maneira que confias em que te atenda?

     - Não me cabe a menor dúvida. Em caso preciso, empregaria uma estratagema.

     - Que estratagema?

     - Permite que, por enquanto, não ta diga.

     - E se matasse-te por traidor?

     O árabe fez um ademão incerto e disse-se para si: O azarado escravo teria deixado de padecer.

     E agregou em voz alta:

     - Descansa, senhora! Fica tempo até a noite!

     A duquesa seguiu o conselho o árabe. Mas decorreram várias horas dantes que pudesse se dormir.

     O-Kadur tinha-se tendido nos escombros e prestava grande atenção aos ruídos de fora.

     Ao longe ouvia-se, de vez em quando, som de trompas e se escutavam clamores.

     Os turcos, acampados ao redor das muralhas, deviam de estar a celebrar sua vitória, que assegurava a partir de então ao sultão o domínio de Chipre.

     No interior da cidade continuavam os arcabuzazos.

     - Estariam a fuzilar aos sobreviventes ou talvez se dedicavam a seus pasatiempos guerreiros? O-Kadur não sabia que pensar.

     Quando se incorporou era já de noite, e a duquesa, muito debilitada pela perda de sangue, seguia dormindo.

     O árabe aproximou-se à rústica cama da jovem e olhando-a exclamou com voz desconsolada:

     - Que formosa é! Azarado escravo! Menos tivesse padecido morrendo em consequência dos golpes de seu amo!

     Passou uma mão pela frente, avivou a tocha, revisou suas pistolas e dirigiu-se à entrada, enquanto murmurava:

     Vamos procurar ao Leão de Damasco!

     No entanto, deteve-se, contendo a respiração.

     Tinha-lhe parecido escutar um ruído próximo procedente do exterior.

       Terão descoberto nosso esconderijo? , disse-se.

     Preparou a pistola e acercou-se à entrada do subterrâneo, ocultando a suas costas o arma para que não se vissem as chispas.

     Percebeu o rodar das pedras e um ligeiro ruído semelhante ao de calcadas.

     Quem será? Se trata-se de um turco, não deixá-lo-ei penetrar. Um balazo na cabeça terminará com sua vida!

     O rumor seguia ouvindo-se. O que tentava penetrar no subterrâneo o fazia com muito cuidado. Pretenderia pegar desprevenido aos refugiados ou, talvez, em lugar de ser um turco era um infortunado cristão que tinha notícia também do subterrâneo?

     Aquela suspeita apoderou-se do árabe.

     - Esperarei dantes de abrir fogo –musitó–. Poderíamos matar a um amigo em lugar da um inimigo.

     Quem quer que fosse, continuava seu avanço. Ao cabo de pouco tempo atingiu a entrada do subterrâneo, sempre entre infinitas precauções.

     Finalmente apareceu uma cabeça.

     O-Kadur apontou ao instante, exclamando:

     - Quem és? Contesta ou disparo!

     - Alto, O-Kadur: sou Perpignano!

    

                        O-KADUR

     Um instante mais tarde o tenente do capitão Tormenta penetrava no subterrâneo, aparecendo ante a luz da tocha.

     O infortunado jovem achava-se num estado lamentável.

     Tinha a cabeça vendada com um trapo coberto por completo de sangue e de pó. A cota de malha, rasgada por todas partes, lhe pendurava por todos os lados. Levava os chapines destroçados e cingia por espada um trozo de aço que unicamente chegaría às três pulgadas, cheio de sangue até a mesma empunhadura.

     - Sois vos, senhor? –exclamou o árabe–. Em que situação vos volto a ver!

     - E o capitão? –inquiriu com acento atemorizado o tenente.

     - Dorme tranqüilo. Não o acordemos, senhor Perpignano! Precisa muito descanso! Cuidai-lhe!

     Dispunha-se o tenente a dirigir-se para a duquesa, quando esta, acordada pelo ruído, abriu os olhos.

     - Vos, Perpignano! –exclamou com tom alegre–. Como pudestes escapar dos turcos?

     - Por verdadeiro milagre, capitão. De ter-me descoberto não teríeis voltado a me ver, já que a quantos acharam escondidos ou entre as ruínas os mataram. Esse malvado de Mustafá não perdoou a ninguém!

     - A ninguém! –disse com voz de angústia a duquesa–. Nem sequer aos capitães?

     - Nem a eles tão sequer! O malvado visir cortou com sua própria mão a orelha direita e um braço ao heroico Bragadino e fez-lhe assassinar adiante dos jenízaros!

     A duquesa lançou um grito de espanto.

     - Canallas! Canallas!

     - Depois fez decapitar a Martinengo e a Astorre Baglione, despedaçar a Tiépolo e Spilotto e sua carne foi lançada aos cães.

     - Deus meu! –exclamou a duquesa, espantada e tampando-se a cara.

     - E os demais, senhor? –inquiriu O-Kadur.

     - Todos mortos! Mustafá unicamente perdoou às mulheres e aos meninos, para enviá-los como escravos a Constantinopla!

     - Tudo terminou então para o Leão de São Marcos? –perguntou a duquesa.

     - A bandeira da República do Adriático deixou para sempre de ondear em Chipre!

     - E não terá quem tente vingar tão horrorosa derrota?

     - Os navios da República darão em qualquer dia a estes tigres a lição que se têm merecida. A Serenísima limpará a ofensa e Selim II será quem pague as crueldades de seu grande visir.

     - Mas Famagusta é um cemitério!

     - Um horrível cemitério, capitão Tormenta! –contestou com acento comovido o tenente–. As ruas transbordam de cadáveres e os derrubados muros das casas estão coroados pelas cabeças de seus defensores.

     - E como pudestes vos eludir as cimitarras turcas?

     - Já vo-lo disse: por um autêntico milagre. Quando já não tinha salvação para ninguém e os jenízaros treparam pelos fortes já sem defender, acompanhei em sua fugida aos sobreviventes da rotonda de São Marcos. Corria a esmo, sem saber onde achar refúgio, notando que estava perdido quando de improviso uma voz saiu dentre as ruínas de uma casa meio destruída, derrubada.

     - Vêem aqui, rapaz, gritaram-me. Passei uma cancela obturada por cascotes e escombros e distingui a dois homens que me faziam desesperadas senhas. Aquilo significava a salvação! Entre ambos me conduziram a uma espécie de cantina muito escura quando, já por causa das feridas e a debilidade, não podia me sustentar direito.

     - Quem eram esses homens tão generosos? –inquiriu a duquesa.

     - Um par de marinheiros venezianos, das tropas de reforço do capitão Martinengo: um contramaestre e um gaviero.

     - Onde se encontram neste momento?

     - Ocultos na cantina, cuja entrada tamparam com escombros com objecto de que os turcos não os descubram.

     - E como sabíeis que eu me achava neste lugar? –indagó a jovem duquesa.

     - Disse-lho eu –notificó O-Kadur.

     - Por que não viestes com ambos marinheiros?

     - Não me atrevia, capitão, por temor a encontrar este esconderijo abarrotado de sectarios de Maomé.

     - Está muito distante essa cantina?

     - Escassamente a trezentos passos.

     - Esses homens podem ajudar-nos, senhor Perpignano.

     - Isso opino, duquesa –replicou o veneziano, a designando pela primeira vez por seu título nobiliario feminino.

     A jovem guardou silêncio durante um momento, e, voltando-se de improviso para o árabe, interrogou:

     - Estás ainda resolvido?

     - Si, senhora –respondeu–. Somente esse homem pode salvar-te.

     - E se estivesses equivocado?

     - O Leão de Damasco não chegaria até este lugar, senhora. O-Kadur possui uma pistola e um yatagão e saberá usá-los com mais habilidade que um jenízaro de Mustafá.

     A duquesa contemplou ao veneziano, que não chegava a entender como era capaz de confiar num turco que tinha sido derrotado.

     - Supondes, senhor Perpignano, que seja possível a fugida sem que os turcos nos descubram? –inquiriu.

     - Não, senhora –respondeu o tenente–. A cidade está abarrotada de jenízaros e cercada por mais de cinquenta mil turcos, que vigilan para que ninguém abandone a população.

     - Marcha-te, O-Kadur! –ordenou a duquesa–. A última esperança nossa depende do Leão de Damasco!

     O árabe assegurou-se de que suas pistolas e o yatagão estavam bem colocados na a faixa e, se cobrindo com sua capa, disse:

     - Parto a cumprir tuas ordens, senhora!

   Encaminhou-se para a entrada e, contemplando à duquesa, disse com imensa tristeza:

     - Se não regressasse e minha cabeça caísse em poder dos turcos, desejo, senhora, que aches em seguida ao vizconde Lhe Hussière, e que com ele recuperes a felicidade perdida!

     A duquesa tinha-se incorporado e tomou entre suas mãos a diestra de O-Kadur.

     O selvagem filho do deserto pôs um joelho em terra e besó com ardor a branca mão da duquesa, o que lhe produziu sobre a pele o efeito de um ferro candente.

     - Vai-te, meu leal O-Kadur! –disse com um suspiro.

     O árabe levantou-se.

     - Ou o Leão de Damasco põe-te a salvo, senhora, ou mato-o! –exclamou com firme acento.

     E saiu apressadamente, enquanto a duquesa murmurava:

     Pobre O-Kadur! Que fidelidade e daí sofrimento leva em seu coração!

     Em quanto encontrou-se no exterior, o árabe deslizou-se sobre a enorme massa de cascotes que cobria a base da torre e se encaminhou para as luzes que indicavam o acampamento turco estabelecido circunstancialmente no centro da população. Não conhecia o lugar em que tinha acampado o Leão de Damasco. Mas como era o filho de um bajá e um dos mais valorosos guerreiros das hostes otomanas, tinha a certeza de averiguarlo em seguida.

     As ruas de Famagusta achavam-se invadidas pela escuridão. Seus olhos, emMas, advertiam sem dificuldade numerosos cadáveres amontoados e ainda sem sepultar, que manadas de cães famintos despedazaban ferozmente para se recuperar do prolongado ayuno padecido em decorrência do assédio.

     Depois de ter eludido as acometidas dos cães mirando golpes com o yatagão, O-Kadur atingiu em pouco tempo a ampla praça lindante com a igreja de São Marcos, que reproduzia, conquanto com mais singeleza, a célebre de Veneza.

     Sentinelas jenízaros extraordinariamente bem armados vigiavam as esquinas da praça, enquanto suas camaradas conversavam e fumavam em torno do fogo. Um albano, que se achava sentado nas escadas da igreja, ao ver ao árabe, lhe apontou com seu mosquete, enquanto perguntava:

     - Quem és e onde te encaminhas?

     - Vês de sobra que sou árabe e não cristão! –respondeu O-Kadur–. Sou um guerreiro do bajá Hossein!

     - Que é o que vens a fazer a este lugar?

     - Tenho de notificar uma ordem que apremia ao Leão de Damasco. Sabes em que lugar se encontra atendado?

     - Quem te manda?

     - Meu bajá.

     - Não sei se Muley-o-Kadel estará já dormido.

     - Mal são as nove.

     - É que ainda está débil. Não obstante, acompanha-me. Hospeda-se numa destas casas.

     Pôs-se o arma sobre o ombro e encaminhou-se para uma moradia de mísera aparência, a cuja porta se achavam de guarda duas robustos e gigantescos negros e um par de cães árabes.

     - Acordai a vosso senhor se já se encontra em cama –disse o albano–. Este é um mensageiro do bajá Hossein.

     - O senhor ainda está acordo –contestou um dos negros, contemplando com desconfiança ao árabe.

     - Vê então a dar-lhe o recado –disse o albanês. Hossein é um bajá que tem amizade com o grande visir.

    O negro se adentró na casa, saiu ao pouco momento e anunciou ao árabe:

     - Acompanha-me: meu senhor aguarda-te.

     O-Kadur ocultou embaixo do manto o yatagão e penetrou decidido a tudo, inclusive a matar ao filho do poderoso bajá supondo que surgisse algum perigo.

     O turco aguardava-o num quarto a nível do solo, amueblado pobremente e alumbrado com uma singela tocha.

     Ainda estava pálido como resultado da ferida, que não se tinha cicatrizado, e, ainda que inválido, luzia magnífica cota de aço, cruzada por uma banda de azul seda e estava armado com um espléndido yatagão de empunhadura de ouro e turquesas.

     - Quem és tu? –interrogou ao árabe, logo de ter feito um ademão ao negro para que se marchasse.

     - Meu nome não te é conhecido –replicou o árabe–. Chamo-me O-Kadur.

     - Crio ter-te visto dantes que hoje.

     - É possível.

     - Envia-te o bajá Hossein?

     - Não! Isso foi uma mentira que disse!

     Muley-o-Kadel jogou-se dois passos para atrás, levando a mão até o yatagão.

     O-Kadur interrompeu-lhe, fazendo um ademão de protesto.

     - Não penses que vim a te matar!

     - Em tal caso, por que razão mentiste?

     - Porque de outra maneira não me tivesses recebido.

     - Que causa te obrigou a utilizar o nome de Hossein? Quem te manda?

     - Uma mulher a quem deves a vida –respondeu com seriedade O-Kadur.

     - Uma mulher! –exclamou surpreendido o turco.

     - Si. Uma mulher cristã que pertence à mais encumbrada nobreza de Itália.

     - Tu estás louco! Não conheci nunca a nenhuma mulher nobre italiana, nem existe mulher alguma que me tenha salvado a vida. O Leão de Damasco é capaz de salvar-se sem precisar ajuda!

     - Estás equivocado, Muley-o-Kadel –disse com repousado acento o árabe–. Sem a generosidad dessa mulher, não tivesses estado presente à tomada de Famagusta. Tua ferida não tem cicatrizado ainda.

     - Mas a quem te referes? A esse jovem capitão que me derrotou?

     - Si; falo do capitão Tormenta.

     - Fala com mais clareza.

     - Essa é a mulher que te deixou a vida, podendo te ter matado.

     - Que é o que dizes? –exclamou o turco, tornando-se pálido–. Aquele capitão que combatia igual que o deus da guerra era uma mulher? Não! Não é possível! Não tivesse podido derrotar ao Leão de Damasco!

     - Trata-se da duquesa de Éboli, conhecida entre os guerreiros com a denominación de capitão Tormenta –anunciou O-Kadur.

     O assombro de Muley-o-Kadel foi tão extraordinário que durante um momento não pôde pronunciar uma palavra.

     - Uma mulher! –exclamou, por último, em tom dolorido– O Leão de Damasco está agora deshonrado e o único que me resta por fazer é romper meu cimitarra!

   - Não! Um valente como tu não deve partir a mais formidável espada do exército turco! –disse o árabe–. A mulher que te venceu é a filha do melhor espadachín de Nápoles.

     - Não é ele quem me derrotou! –contestou o turco quase entre sollozos–. Eu, arrojado do cavalo por uma mulher! A honra do León dissipou-se para sempre!

     - Quem feriu-te é de nobre berço, Muley-o-Kadel.

     - Muito desprezo terá sentido por mim!

     - Não, já que é ela quem agora recorre a teu generosidad.

     Os olhos do turco relampaguearon.

     - Minha inimiga precisa que a ajude? Não morreu o capitão Tormenta?

     - Está com vida, ainda que ferido por uma bala de pedra.

     - Onde se encontra? Quero ver-lhe! –exclamou Muley-o-Kadel.

     - Para decretar sua morte? Minha senhora é cristã.

     - Tu quem és?

     - Seu fiel escravo.

     - E é a duquesa quem manda-te em procura minha? Para solicitar de mim que a ajude a escapar de Famagusta?

     - E talvez para alguma coisa mais.

     - Não achar-se-á em perigo durante tua ausência?

     - Acho que não. Seu esconderijo é seguro e ademais não está sozinha.

     - Quem cuida dela?

     - Seu tenente.

     Muley-o-Kadel recolheu seu manto, que estava em cima de uma cadeira, e um par de pistolas, e disse ao árabe:

     - Acompanha-me até onde se encontra tua senhora.

     O-Kadur olhou-o com recelo.

     - Quem me diz, Muley-o-Kadel, que não a pensas trair?

     As bochechas do turco enrojecieron vivamente.

     - Não confias em mim? –inquiriu com acento encolerizado. E acrescentou depois de um breve silêncio–: Estás no verdadeiro! Ela é cristã e eu turco e inimigo de sua raça! Mas eu tenho reprochado a ferocidad do visir, que fez perder a honra para sempre às armas otomanas. Não conheço se tu, como árabe, és cristão ou crês no Profeta. Mas saberás algo do Corão e não desconhecerás que um turco não jura em vão sobre esse livro sagrado. Acharemos em mãos de algum muezzin este livro, e sobre ele e ante ti jurarei solenemente pôr a salvo a tua senhora, à que devo a vida. Parece-te bem?

     - Não, senhor –contestou o árabe–. Creio em ti sem que o jures. Estava seguro de que o Lhe ónde Damasco seria generoso com minha senhora!

     - Onde se encontra?

     - Oculta num subterrâneo.

     - Ferida de gravidade?

     - Não.

     - Tendes alguma comida ali?

     - Veio de Chipre e aceitunas.

     Muley-o-Kadel deu uma palmada e na habitação entraram dois escravos negros.

     Falou com eles umas palavras numa língua não conhecida para O-Kadur e anunciou em voz alta:

     - Acompanha-me! Estes homens virão por trás de nós!

     Abandonaram a casa, cruzaram a praça sem que ninguém se atrevesse a se interpor em seu caminho, e se encaminharam à torre como se fossem dois guerreiros com a missão de efectuar a rodada pelos muros de circunvalación. Achar-se-iam a uns duzentos passos da cidade quando foram atingidos pelos dois negros, que transportavam enormes cestas e levavam sujeitos por correntes um par de cães árabes.

     Um pelotón de jenízaros que merodeaban pelas ruínas lhes fechou o passo.

     - Prossegui vosso caminho ou faço que vos açoitem igual que a cães! –resmungou Muley-o-Kadel–. Abri passo ao Leão de Damasco! Não estáis ainda hartos de sangue?

     Nenhum teve o valor de replicar ao filho do bajá e se marcharam, lhes deixando o passo livre.

     Muley-o-Kadel se cercioró de que já não tinha ninguém pelas cercanias e seguiu ao árabe por entre os escombros, sempre acompanhado de ambos escravos e os cães.

     Em quanto achou-se no interior do subterrâneo, que a tocha seguia alumiando, se tiro seu manto e, depois de mudar um cortês saúdo com Perpignano, se aproximou ao momento ao colchón onde jazia a duquesa de Éboli, que se encontrava acorda.

     - A mulher que me derrotou! –exclamou–. Admiro-vos, senhora!

     E dobrando o joelho, ao igual que um cortesano europeu, agregou:

     - Senhora, defronte não tendes um inimigo! É um amigo que pôde contemplar vosso surpreendente valor e que não vos odeia por ter sido vencido! Mandai o que vos plazca! O Leão de Damasco está disposto a salvar-vos e a saldar sua dívida!

    

                          A GENEROSIDAD DO LEON DE DAMASCO

     Ao ver que o turco entrava e se acercava a ela, a duquesa de Éboli se tinha incorporado, com a ajuda de Perpignano, e o saudou com um encantador sorriso.

     - Vos! –exclamou.

     - Não podíeis imaginar que um mahometano como eu fosse, não é verdade, valorosa senhora? –inquiriu Muley-o-Kadel.

     - É verdadeiro. E já estava disposta a resignarme e não voltar a ver a meu leal escravo.

     - O filho do bajá de Damasco não é tão feroz como Mustafá e seus jenízaros. Não sou um selvagem das estepas do Turquestão nem dos arenosos desertos. Habitei em outras terras. Vosso país, Itália, não me é desconhecido, senhora.

     - Tendes estado em meu país? –perguntou estranhada a duquesa.

     - Admirei Veneza e Nápoles –respondeu o turco–, e pude-me dar conta da cortesía e a civilização de vossos compatriotas, aos que aprecio em grande maneira.

     - Já me parecia que éreis um muçulmano diferente aos outros! –disse a duquesa.

     - Por que motivo, senhora?

     - Pelas ameaças dirigidas contra aqueles sete ou oito jenízaros que iam deslealmente a vos vingar depois de vos ter derrotado.

     A frente do turco se ensombreció por causa da tristeza e seus lábios afogaram um suspiro.

     - Venceu-me uma mulher! –exclamou em tom de amargura.

     - Não, Muley-o-Kadel; o capitão Tormenta, que pelos cristãos estava considerado como a mais diestra espada de Famagusta. O Leão de Damasco não perdeu nada de seu valor. Pelo contrário, deu uma mostra dele derrotando ao urso de Polónia, tão temível pela fortaleza de seu braço.

     A frente do turco voltou a adquirir seu aspecto sereno e comentou com um amplo sorriso:

     - Melhor é ser derrotado por uma mulher que por um homem, sempre que meus camaradas não se inteirem jamais de quem era o capitão Tormenta!

     - Asseguro-vos que ninguém sabê-lo-á, Muley-o-Kadel. Somente três ou quatro pessoas de todos os cristãos de Famagusta conheciam que eu era uma mulher e já terão sido exterminados, já que Mustafá não perdoou aos vencidos.

     - É um ser feroz, que tem deshonrado as armas turcas –exclamou o jovem–, e a quem Selim, nobre e generoso, reprenderá por semelhante acção! Os vencidos eram dignos de ser admirados pelos filhos do Islão. Senhora, estais precisada de alimento. Meus escravos trouxeram provisões e vinhos generosos, que me permito vos oferecer. Depois indicar-me-eis que posso fazer por vos. Estou a vossas ordens, e, ainda que devesse logo enfrentar a cólera de Mustafá, salvar-vos-ei em união de vossos camaradas.

     A uma indicação sua, ambos escravos se aproximaram ao leito, e depois de abrir as cestas sacaram polvorientas garrafas, carne fria, bizcochos, um recipiente com café que ainda conservava algo de calor e xícaras.

     - Isto é tudo o que por enquanto posso vos oferecer –disse Muley o-Kadel–. Não encontrar-se-á muito melhor surtida a mesa de Mustafá, já que as provisões escasean.

     - Não esperava tanto –contestou com um sorriso a duquesa–, e vos estou agradecida porque tenhais tido tão gentil ideia. Meus colegas devem com toda segurança se encontrar mais famintos que eu.

     Tomou uma xícara de café que Muley-o-Kadel lhe oferecia mojando nele uns bizcochos, enquanto o tenente e o árabe se lançavam sobre a carne fria, dando provas de voraz apetito, já que fazia vinte e quatro horas que se encontravam em ayunas.

     - Senhora –perguntou Muley-o-Kadel–, que me é possível fazer por vos?

     - Levar-me fora de Famagusta.

     - Quereis regressar a Itália?

     - Não.

     De novo ficou assombrado Muley-o-Kadel.

     - Desejais continuar em Chipre? –inquiriu com rara entonación.

     - Até que encontre ao homem ao qual amo e que é prisioneiro vosso.

     A frente do turco se ensombreció por um momento.

     - Quem é? –indagó.

     - O vizconde Lhe Hussière.

     - Lhe Hussière! –murmurou Muley-o-Kadel–. Aguardai um instante... Si, ele era o alma da resistência em Nicosia! Foi apresado por Mustafá.

     - Desejaria saber a que lugar o levaram e onde o têm detento.

     - Será fácil. Alguém poderá informar sobre isso.

     - Não o conduziram a Constantinopla?

     - Parece-me que não –respondeu o Leão de Damasco–. Crio ter ouvido que Mustafá tinha sobre este preso planos muito particulares. Quereis pôr-lhe a salvo dantes de abandonar Chipre?

     - Unicamente vim para livrar-lhe do poder de vossos compatriotas.

     - Imaginei que tinhas tomado as armas por ódio para os mahometanos.

     - Equivocastes-vos, Muley-o-Kadel.

     - E alegro-me disso –contestou o turco–. Hoje não me é possível vos informar com respeito ao lugar em que se encontra o vizconde. Mas amanhã prometo dar-vos alguma notícia. Cuãotos sois? Tenho de conseguir-vos roupas turcas, se desejais abandonar Famagusta sem expor-vos a nenhum risco. Somente três?

     - Cinco –interveio Perpignano–. Há outro par de azarados marinheiros que se salvaram dos turcos e que se acham refugiados numa lóbrega habitação em ruínas. Salvá-los-eis de uma morte verdadeira se protegei-los igual que a nós.

     - Eu luto contra os cristãos porque sou turco, mas não sinto ódio para eles –disse Muley-o-Kadel–. Tentai que se encontrem neste lugar amanhã.

     - Obrigado, senhor! Era verdade que o Leão de Damasco é tão generoso como valente!

     O turco fez uma inclinação ao mesmo tempo que sorria, besó a mão da duquesa e se encaminhou à saída, exclamando:

     - Juro pelo Corão que cumprirei minha promessa! Até amanhã, senhora!

     - Obrigado, Muley-o-Kadel! –repôs emocionada a jovem–. Quando regresse a minha terra, direi sempre que entre os muçulmanos encontrei um cavalheiro!

     - Será uma honra para o exército turco –contestou o filho do bajá–. Adeus, senhora. Ou melhor, até a vista.

     O-Kadur apartou as pedras da entrada para que o turco, os escravos e os cães pudessem sair, e depois as pôs de novo em seu lugar.

     - A ti, O-Kadur, é a quem devemos agradecer nossa salvação –disse a duquesa– e a quem deverei minha felicidade.

     - Senhora –disse Perpignano–, estais completamente segura da generosidad do Leão de Damasco?

     - Completamente, tenente –respondeu a duquesa–. Duvidaríeis vos algo?

     - Duvido de todos os turcos.

     - Dos demais, si. De Muley-o-Kadel, não. Que opinas, O-Kadur?

     - Jurou pelo Corão –repôs concisamente o árabe.

     - De todas formas, é a única esperança de salvação que temos. Vou agora mesmo em procura dos dois marinheiros –disse o tenente–. Amanhã talvez fora demasiado tarde. Os turcos registarão sem cessar entre as ruínas para cerciorarse de que não há nenhum cristão com vida.

     - Há sentinelas pelas ruas? –interrogou ao árabe a duquesa.

     - Os turcos estão a dormir, senhora –replicou O-Kadur–. Os miserávels encontram-se esgotados de tanto assassinar cristãos!

     - Deixa-me teu yatagão e tua pistola, O-Kadur –solicitou o tenente–. Minha espada já não serve para nada.

     O árabe alongou-lhe as armas e tampou seus ombros com o faub, que lhe fazia parecer um filho do deserto.

     - Adeus, senhora! –acrescentou Perpignano–. Se não regresso é que os infiéis me assassinaram!

     Avançou por entre os escombros e num minuto escasso atingiu o campo.

     A noite era escura e unicamente escutavam-se os aullidos dos cães, ahítos de carne humana.

     O tenente dispunha-se a cruzar uma das ruas médio obstruidas pelas ruínas, quando um homem que vestia o pintoresco trouxe de capitão de jenízaros lhe fechou o passo.

     - Eh, eh! –exclamou uma voz irónica–. Aonde se marcha O-Kadur? A noite é escura! No entanto, meus olhos vêem na escuridão!

     Estas palavras foram ditas em muito mal veneziano e com acento estrangeiro.

     - Quem és? –insistiu o tenente, jogando-se para atrás e empunhando o yatagão.

     - O-Kadur ameaça desta maneira a seus amigos? –perguntou o capitão em tom de burla–. Continuará sendo sempre tão selvagem?

     - Equivocas-te –respondeu o tenente– eu não sou O-Kadur. Sou egípcio.

     - Assim, pois, que renegastes da fé por salvar a pele, senhor Perpignano? Melhor! Desta forma poderemos seguir nossas partidas de dados!

     O tenente lançou uma exclamação.

     - O capitão Laczinski!

     - Não –repôs o polaco, já que era ele–. O capitão Laczinski já está morrido. Agora meu nome é Yussif Hammada.

     - Laczinski ou Hammada, sois um renegado! –resmungou com acento despectivo o tenente.

     Uma exclamação de cólera brotou dos lábios do polaco; mas voltando a recuperar seu tom suave, continuou:

     - É muito lastimoso perder a pele, meu estimado tenente, e, de não ter renegado da cruz, minha cabeça hoje não encontrar-se-ia em cima de meus ombros. Mas que é o que fazeis ocupando o posto de O-Kadur? Dou-vos minha palavra de honra de que dantes de escutar vossa voz vos tomei pelo árabe do capitão Tormenta!

     - Que é o que faço? –disse o veneziano, não sabendo que responder–. Pois nada: passeando pelas ruínas de Famagusta.

     - Falais em brincadeira?

     - Talvez!

     - Estais a passear às onze da noite por uma cidade abarrotada de turcos, que estariam muito satisfeitos se pudessem vos arrancar a pele? Vamos, tenente: não tenhais desconfiança de mim! Meu coração não é por completo mahometano ainda. Para mim, o Profeta é a quintaesencia da confusão, e não crio nem em seus milagres nem em seu Corão.

     - Baixai a voz, capitão! Podem-vos ouvir!

     - Encontrámos-nos a sozinhas. Os turcos descansam. Dizei-me que lhe passou ao capitão Tormenta.

     - Não o sei. Imagino-me que ter-se-á deixado matar como um herói no forte.

     - Não lutava a vosso lado?

     - Não –contestou cautamente Perpignano.

     - Em tal caso, por que veio até aqui o Leão de Damasco? Sei que O-Kadur lhe conduzia –afirmou o polaco–. Veis como desconfiais de mim?

     - Faço questão de que não sei nada de O-Kadur nem do capitão Tormenta.

     - A capitã Tormenta! –rectificou o polaco.

     - Como dizeis?

     - Vamos, vamos! Imaginais que eu não me tinha dado conta de que era uma mulher e não um homem? Corpo de cem lobos! Vá uma segurança e uma bravura as dessa moza! Sangue de Maomé! Gostaria de manejar a mim a espada como o faz ela! Quem tê-la-á ensinado?

     - Parece-me, capitão, que tendes pillado uma descomunal borrachera.

     - De acordo, já que não crieis o que vos asseguro. Posso-vos servir em algo?

     - Ninguém perturbará meu passo.

     - Deveis pensar que os turcos estão acampados em Famagusta. Se vos apresaran, não duvideis que vos empalarían.

     - Terei cuidado deles, capitão.

     - No suposto, em extremo provável, de que vos ocorresse algum infortunio, recordai que me chamo Yussif Hammada.

     - Não esquecerei esse nome.

     - Sorte, tenente!

     Alongou mano-a direita, mas o veneziano simulou não ver aquele gesto e, se tampando com seu manto, se afastou com o yatagão a meio desenvainar.

     O polaco tinha-se marchado também refunfunhando. Perpignano, que não deixou de lhe observar nem um instante, em quanto chegou à esquina de uma torre que servia como de apoio a uma humilde casucha, se ocultou por trás de uma porta.

     - Desejo comprovar se segue-me! –murmurou–. Um homem que renega de suas crenças não merece o menor aprecio. E, por outra parte, odiava à duquesa. É melhor não confiar em ele!

     Quase não tinha passado um par de minutos quando viu aparecer de novo ao capitão. Continuava refunfunhando e caminhava de puntillas, com o objecto de que o veneziano, que ele imaginava tinha prosseguido se caminho, não o ouvisse.

     Passou adiante da porta sem deter-se e desapareceu na escuridão.

     - Procura-me por aí, miserável! –masculló o tenente.

     Deu a volta rapidamente para a esquerda. Pouco depois detinha-se ante uma casa derrubada e, apoiando o rosto numa porta, exclamou várias vezes:

     - Tio Stake, tio Stake!

     Ao princípio ninguém lhe respondeu. Mas depois ouviu-se no fundo do cuartucho uma voz rouca, quase cavernosa.

     - Sois vos, tenente? Já vos imaginava degolado e empalado! Já era hora de que viésseis!

     - Alçai a barra, avô! E Simón, vive ainda?

     - A meias, tenente. Está a se morrer pouco a pouco de fome e de terror.

     - Saí em seguida. De aqui a pouco estareis em lugar mais seguro e podereis comer.

     - Tenho aqui um par de palavras que fazem circular o sangue! –masculló a voz rouca–. Acenderei uma veintena de cirios a São Marcos e quatro a san Nicolás! Tu, Simón, desentumece as pernas se queres provar algum bizcocho!

     Depois de ter sido levantada a barra, dois homens, um de idade e outro jovem, saíram com dificuldade.

     - Acompanhai-me, tio Stake! –disse o tenente–. Ninguém nos ameaça!

     - Por todos os croatas do Cátaro, meu tenente! Minhas pernas estão muito débis, e acho que Simón não se encontra bem mais forte!

     - Com tanto tempo de ayuno... acrescentou seu colega.

     - Bom marinho! –exclamou o velho sorrindo.

     - Vinga; segui-me dantes que nos vejam alguma rodada! –ordenou Perpignano.

     - Com os turcos, o melhor é fugir, meu tenente. Não agradar-me-ia em excesso provar as exquisiteces do pau!

     - Em tal caso, esticai quanto possais as pernas, tio Stake.

     Abandonaram a casucha e quase à carreira encaminharam-se para a torre, que se distinguia entre as sombras.

     Treparam rapidamente por entre os escombros e Perpignano apartou as pedras, deixando passo aos dois marinhos.

     - Somos nós, O-Kadur! –anunciou.

     O árabe tinha tomado a tocha e contemplava aos que acabavam de entrar.

     O tio Stake, dálmata, ou ao menos isso dava a entender seu nome, era um magnífico tipo de idoso, já sesentón, de rosto surcado pelas arrugas e muito moreno, orlado por uma longa barba branca. Seus olhos cinzas possuíam ainda grande vivacidad e animação; seu pescoço semejaba o de um touro e suas costas era de atleta. Apesar da idade, seus músculos deviam ainda de ser capazes de abater a um par de turcos se caíssem em seus callosas mãos.

     O outro, um rapaz de uns vinte anos, de alta estatura, olhos negros e uma sombra de bigode, parecia mais esgotado que o contramaestre, cuja fortaleza devia de ter oposto firme resistência à fome e à incesante zozobra de uma morte próxima e horrível.

     Depois de ter aguentado impasible o exame do árabe, distinguindo à duquesa, o idoso tirou-se a gorra e exclamou:

     - É o capitão Tormenta! Um bravo que fez muito bem em evitar as cimitarras turcas!

     - Calai, tio Stake, e preparai-vos a devorar estas viandas! –aconselhou o tenente, arrimãodoles as cestas deixadas pelos escravos de Muley-o-Kadel.

     - Comei com absoluta liberdade e bebei quanto vos plazca –disse a duquesa–. Os turcos renovarão as provisões.

     - Comida turca! –exclamou o pertinaz charlatão–. Comê-la-emos com prazer, senhor capitão! É um infortúnio que não veja asada a cabeça de Mustafá! Palavra de tio Stake que comê-la-ia num par de bocados, apesar de que com ela se me introduzisse no corpo o alma malvada desse pícaro de Maomé e de suas quatro mulheres! Não é verdadeiro, Simón, que tu me tivesses ajudado?

     O rapaz não podia perder tempo em contestar. Comia vorazmente, como se em sua vida tivesse provado bocado, combinando o alimento com razoáveis tragos de vinho de Chipre, que iam parar a seu estômago como num poço sem fundo.

     - Voto a Deus! Se segues por esse caminho, nem as migas vais deixar para tua contramaestre, marinheiro! –comentou o velho–. Reserva-me minha parte!

     A duquesa e o tenente contemplavam-nos sorrindo. Unicamente o árabe continuava imóvel, igual que uma estátua de bronze.

     - Senhor capitão –começou o contramaestre, uma vez que teve terminado de comer–, não acharei jamais palavras para vos dar as graças por vossa generosidad...

     Calou de improviso, fixando a mirada de seus pequenos olhos cinzas na duquesa.

     - Ter-se-á ficado cego o tio Stake ou a fumaça das culebrinas impedem-lhe a visão? –disse.

     - Que pretendes dizer, amigo? –inquiriu a jovem.

     - Conquanto é verdadeiro que conheço melhor os barcos que as mulheres, eu afirmaria por todos os peixes do Adriático que sois...

     - Dormi, tio Stake! –interveio Perpignano–. Deixai repousar à duquesa de Éboli, ou se parece-vos melhor, ao capitão Tormenta.

     O velho lobo de mar fez uma cómica inclinação ante a duquesa e foi-se ao lado do jovem marinheiro, enquanto susurraba:

     - A contrasenha é dormir, e eu tenho de obedecer ao vencedor ou, para ser mais exacto, à valorosa vencedora da melhor espada turca!

     Depois que se teve cerciorado de que dormiam, Perpignano se aproximou à duquesa, advertindo:

     - Senhora, vigiam-nos.

     - Quem? Os jenízaros? –indagó a jovem, com acento de desconfiança.

     - Não, o capitão Laczinski.

     A duquesa lançou um grito.

     - Que! –exclamou–. Ainda está vivo esse homem? Não estareis equivocado, Perpignano?

     - Não, senhora. Converteu-se em muçulmano para conservar a vida.

     - Quem vos informou?

     - Ele mesmo.

     - Ele!

     - Vi-o faz pouco merodeando pelas cercanias, já que tinha distinguido a Muley-o-Kadel em companhia de O-Kadur.

     - Talvez queira descobrir nosso esconderijo para nos entregar a Mustafá.

     - Desse aventurero que renegou de suas crenças podemos aguardar qualquer coisa. Se em lugar de yatagão tivesse conservado minha espada, asseguro-vos que não teria tido a menor dúvida em lhe atacar. Seguiu-me discretamente.

     - Até aqui?

     - Oh, não! Consegui despistarle e desconhece nosso refúgio...

     - Por que odiar-me-á esse homem que era um cristão e que brigou valorosamente pelo Leão de São Marcos?

     - Porque vos, apesar de ser uma mulher, éreis mais apreciada e mais valente que ele e porque derrotastes ao Leão de Damasco,

     - Talvez conhece que sou uma mulher?

     - Não me cabe a menor dúvida –respondeu Perpignano.

     O árabe, que continuava erguido junto ao leito sem pronunciar uma palavra, interveio naquele instante.

     - Senhor Perpignano –inquiriu com fria e resolvida entonación–, supondes que o capitão encontrar-se-á ainda por estes arredores?

     - É possível –repôs o veneziano.

     - Está bem! Vou terminar com ele! Assim terá um inimigo e um turco menos!

     - O-Kadur! –exclamou a duquesa–. Desejas comprometer-nos a todos?

     - Quando eu disparo, não falha jamais, senhora! E acender um estopim é muito singelo! –contestou o selvagem filho de Arabia.

     - E o estampido poderia atrair a atenção de alguma rodada de jenízaros, que te apresarían.

     - Que importância tem minha vida, se posso conseguir a tranquilidade de minha senhora? Talvez não sou teu escravo?

     - Quiçá descobrissem nosso esconderijo.

     - Atacá-lo-ei com o yatagão e partirei sua espada –replicou O-Kadur–. Talvez não valho eu o mesmo que um cristão renegado? Meu pai era um grande guerreiro árabe e não serei menos que ele. Sou seu filho. Morreu valorosamente, com as armas na mão, por defender sua tribo. Por que razão não tenho de morrer eu em defesa de minha senhora, a filha do homem que me livrou da escravatura?

     O árabe tinha-se coberto com o manto que dantes se pôs Perpignano, e à vermelha luz da tocha adquiria descomunales proporções. Sua mão nervosa oprimia a empunhadura do yatagão, cuja folha despedia siniestros destellos.

     - Matá-lo-ei! –insistiu com vehemencia–. É um rival... do senhor Lhe Hussière!

     - Não abandonarás este lugar! –disse a duquesa, com acento enérgico–. Deves cuidar de mim!

     Ao escutar aquelas palavras, a feroz expressão que demudaba o semblante do árabe se dissipou como por arte de magia.

     - Si, senhora; estava louco! –respondeu, sentando-se sobre uma pedra–. Sou um insensato!

     No rincão mais escuro ouviu-se naquele instante a voz do tio Stake, que mascullaba:

     - Corpo de baleia! Não se vai poder dormir em nenhum lugar de Famagusta?... Esses cães turcos fazem um endemoniado estrépito com seus yataganes!

    

                          O URSO DOS BOSQUES POLACOS

      Ao dia seguinte, pela noite, passadas as dez, Muley-o-Kadel, tal como prometeu com toda solemnidad, penetrava no subterrâneo com as máximas precauções, seguido de quatro escravos armados até os dentes e cobertos com pesadas cotas de malha, levando cada um deles um enorme fardo.

     O-Kadur, que estava a esperar à entrada, deixou passo à expedição.

     - Aqui estou, senhora! –começou Muley–. Cumpri o juramento que fiz pelo Corão. Trago roupas turcas, armas, valiosos uniformes e seis cavalos escolhidos entre os de melhor raça do exército albano.

     - Não tinha a menor dúvida de que Muley-o-Kadel seria leal e generoso –respondeu a jovem–. O coração de uma mulher muito rara vez engana-se!

     O tio Stake, que se afanaba em esvaziar com seu camarada uma garrafa de vinho de Chipre, considerou conveniente acrescentar por parte sua:

     - Não o tivesse imaginado jamais, mas devo admitir que entre os turcos também há cavalheiros! É um autêntico milagre. É algo bem como se o vento de proa mudasse de improviso, soprando de popa.

     - Muley-o-Kadel –continuou a duquesa, sem preocupar-se das palavras do tio Stake–, não tínheis notado como se vos seguisse alguém?

     - Por que me fazeis essa pergunta, senhora? –inquiriu o turco, com acento inquieto.

     - Não achastes a ninguém em vosso caminho?

     - Si, a um capitão de jenízaros que ao que parece estava embriagado.

     - Ele! –exclamou Perpignano.

     - Quem é ele? –indagó o turco, examinando-o detenidamente.

     - O urso dos bosques polacos! –aclaró a duquesa.

     - O capitão a quem venci e depois renegou de sua fé?

     - Si –confirmou o veneziano.

     - Esse homem ousou espiarnos? –exclamou, arrugando o cenho, Muley-o-Kadel.

     - E talvez nos delate e nos entregue a Mustafá dantes que possamos escapar –disse Perpignano.

     O turco sorriu depreciativamente.

     - Muley-o-Kadel vale mais que um despreciável renegado! –comentou–. Que prove, se é capaz, a se interpor em meu caminho!

     Mudando de tom e voltando-se à duquesa, agregou:

     - Querias conhecer em que lugar meus compatriotas encerraram a Lhe Hussière, não é verdade?

     - Si –exclamou a duquesa se incorporando, com o rosto acendido pela emoção.

     - Sê onde se encontra.

     - Fora de Chipre?

     - Não. No castelo de Hussif, onde permanecerá encerrado até que termine a guerra.

     - Dissestes...? –inquiriu a duquesa.

     - No castelo de Hussif.

     - Onde se encontra esse castelo?

     - Na baía de Luda.

     - Vigiado?

     - Talvez. Não posso o dizer com precisão.

     - De que forma poderei chegar até ali?

     - Por mar, senhora.

     - Ser-nos-á possível achar alguma galeota? –perguntou a jovem.

     - Já pensei em isso, senhora. Sei a quem podeis vos dirigir –informou Muley-o-Kadel.

     - A turcos?

     - Si. Porão a vossa disposição um pequeno navio sempre que tenhais o cuidado de fazer-vos passar por muçulmanos. Em Luda achareis com facilidade renegados que não possuirão em seu coração nenhuma de nossas crenças –disse o turco com um sorriso– e que com gosto desejarão vos ajudar. Senhora, estareis em condições de montar a cavalo?

     - Parece-me que si –repôs a duquesa–. Minha ferida não é tão grave como aparentaba ser.

     - Meu conselho é que vos ponhais em marcha esta mesma noite. Os jenízaros ou o polaco poderiam descobrir vosso esconderijo e toda minha influência não bastaria para vos salvar.

     - E de que maneira atravessaremos a linha turca que perto a Famagusta?

     - Eu irei convosco até as linhas turcas de retaguarda –disse Muley-o-Kadel–, ninguém atrever-se-á a vos fechar o passo. Bastará meu nome para que nos deixem passar tranquilamente.

     - Vamos-nos em seguida, senhora –aconselhou O-Kadur–; esse maldito polaco produz-me temor.

     - Ajuda-me! –disse a duquesa.

     Depois de um instante de vacilação, o árabe pegou suavemente entre seus braços à jovem e levantou-a igual que se se tratasse de um menino.

     - Poderei sustentar-me na cadeira! –disse ela com um encantador sorriso–. Talvez não sou o capitão Tormenta?

     O turco guardou silêncio. Contemplava-a com uma espécie de muda veneração.

     - Onde se encontram os cavalos? –perguntou a jovem.

     - Ao pé da torre, senhora, vigiados por um escravo. Vesti-vos com o traje turco que vos trouxe. Com esta indumentaria não é fácil que sejais reconhecida –disse Muley-o-Kadel.

     E desatando um dos fardos, lhe mostrou um elegante traje albanês recamado em ouro.

     - É para vos, senhora –agregou–. O capitão Tormenta converter-se-á num capitão albano pelo que todas as mulheres do harén de Mustafá voltar-se-iam loucas.

     - Obrigado, Muley-o-Kadel! –contestou a duquesa, pondo-se a roupa com ajuda de O-Kadur.

     Enquanto, os escravos tinham sacado outras roupas egípcias e árabes para os marinheiros e Perpignano; soberbias pistolas e kadjars e yataganes, cujo fio devia de ser semelhante ao de navajas de barbear e que tinham adornos em ouro e pérolas.

     - Por Baco! –exclamou o incorregible Stake, que se tinha ataviado com roupas de mameluco egípcio–. Devo de ter uma arrogante estampa e parecer um jeque egípcio! É uma desgraça que não tenha sob minhas ordens uma tribo e que não possua cem mil camelos!...

     - E cem mil doblones! –acrescentou Perpignano que luzia um suntuoso trouxe árabe.

     - Não, senhor! Um cajón abarrotado de cequins como os têm esses afortunados ricachones no rincão mais escuro de sua tenda! Têm mais valor que os doblones!

     - Tornais-vos difícil de contentar, tio Stake! –comentou a duquesa, que acabava de se vestir.

     - Que lhe vamos fazer, senhora! Vendo-me vestido com tão belas roupas, eu que em toda minha vida não levei senão o capote de marinheiro, me sinto ambicioso! Algo tarde é, mas ainda não estou morrido!

     - Na cadeira de teu cavalo talvez não aches uma capa de marinheiro, mas alguns cequins talvez os encontres –disse Muley-o-Kadel, enquanto sorria.

     - Oh, senhor, em lugar de León de Damasco, com vossa permissão deverei chamar-vos León de Ouro!

     - Como prefiras! Mas vamos-nos já. Para meia-noite mudarão os sentinelas do forte Erizzo e não desejaria dar uma explicação a seu comandante.

     Colocaram-se as armas nos cintos e, precedidos pelos escravos, abandonaram o subterrâneo.

     O-Kadur e Perpignano ajudavam à duquesa, que ainda não tinha recuperado por completo as forças.

     Ao pé da torre aguardava um escravo negro que vigiava dez soberbios cavalos árabes enjaezados ao estilo turco, com largos e curtos estribos, ricas gualdrapas de cor vermelha e cadeiras ligeiras e cómodas.

     Muley-o-Kadel dirigiu-se para o a mais bela traça e, ajudando a subir a ele à duquesa, disse:

   - Correrá igual que o vento e ninguém será capaz do deter. Respondo dele. Na carteira encontrareis um par de pistolas e bastantees cequins.

     - E de que forma poderei pagar tanta gentileza? –repôs a duquesa.

     - Não deveis pensar em isso, senhora! –replicou o turco–. Meu pai é o bajá mais opulento de Ásia Menor, e sentir-se-á satisfeito ao saber que fui generoso com a pessoa que me perdoou a vida. Minha morte tivesse representado a sua, e com riqueza alguma tê-la-ia podido pagar. Aos cavalos! Não há tempo que perder! –exclamou, voltando-se para os outros.

     Todos montaram a cavalo dispostos a cumprir a ordem, até o mesmo tio Stake, que considerou aconselhável dizer:

     - Montemos e mantenhamos-nos direitos! Estes endiabrados animais fá-nos-ão rodar como quando sopra o vento do sudeste! Acorta os foques, Simón, se não queres dar com a cabeça em coberta!

     - Aparta! –exclamou Muley-o-Kadel.

     O negro que retinha os cavalos se apartou e os dez ginetes se lançaram a galope tendido.

     Os quatro escravos que levassem as roupas iam diante e os dois marinheiros os seguiam. Perpignano e o Leão de Damasco cavalgavam a ambos lados da duquesa, prestos a auxiliarla em quanto o precisasse.

     Em breves instantes cruzaram a zona meridional da cidade e chegaram adiante do forte Erizzo, que se achava vigiado por uma companhia de jenízaros.

     Um capitão adiantou-se de súbito, gritando:

     - Alto ou comando abrir fogo!

     Perpignano e a duquesa sentiram um escalofrío ao escutar aquela voz. O-Kadur, com ademão colérico, desenvainó o yatagão com um surdo grunhido.

     - Laczinski! –exclamaram os três a um tempo.

     Muley-o-Kadel fez à duquesa e aos demais acompanhantes uma indicação para que se detivessem e se dirigiu para o capitão. Três passos por trás deste se encontravam doze jenízaros que tinham os estopins dos arcabuces preparadas.

     - Quem és tu, que tens o atrevimiento de te interpor em meu caminho? –inquiriu Muley.

     - O comandante do forte, pelo menos durante esta noite –contestou com acento de burla Laczinski, já que dele se tratava.

     - Conheces quem sou?

     - Por Baco! –exclamou o aventurero num turco infame–. Para conhecer-vos seria suficiente a cicatriz que enfeita meu pescoço, senhor Muley-o-Kadel, filho do bajá de Damasco!

     - Que pretendes dar a entender?

     - Talvez vos tínheis esquecido do Urso dos bosques polacos?

     - Ah! O renegado! –repôs, com certo desdén, o Leão de Damasco.

     - Agora mais mahometano e melhor crente que vos! –contestou com insolência Laczinski.

     - Que desejas, já que já sabes quem sou eu? E explica-te depressa, pois me urge o tempo.

     - Impedir que sigais vosso caminho até o amanhecer, senhor Muley-o-Kadel. Tem-se-me ordenado não deixar que abandone ninguém Famagusta, e não por vossos formosos olhos arriscar-me-ei a executar a última dança na ponta de um pau.

     - Abre passo ao Leão de Damasco! –gritou com acento ameaçador Muley–. A ordem que te deram não conta para o filho do bajá de Damasco, cunhado de Selim, o grande sultão!

     - Ainda que fôsseis o mismísimo Maomé, faço questão de que sem uma carta assinada por Mustafá não seguireis adiante!

     E voltando-se aos jenízaros ordenou com atronadora voz:

     - Estrechad a bicha e estai prontos para abrir fogo!

     Os olhos de Muley-o-Kadel relampaguearon por causa da cólera que lhe invadia.

     - Disparareis sobre o Leão de Damasco? –exclamou com o punho dirigido para os jenízaros.

     E voltando-se a seus colegas, ordenou com voz tão enérgica como dantes:

     - Desenvainad as cimitarras e lancemos-nos ao ónus! Eu respondo de tudo!

     Espoleando seu cavalo fez-lhe dar tão imponente salto, que empurrando ao polaco, o arrojou ao solo dantes que tivesse ocasião de esquivar a acometida.

     - Bribón! –gritou o capitão, rodando por terra–. Disparai, jenízaros!

     - A galope! –exclamou Muley-o-Kadel.

     Os dez ginetes lançaram-se à carreira, com as cimitarras em alto. Mas não tiveram oportunidade das utilizar, já que os jenízaros, em lugar de abrir fogo, se apartaram com premura apresentando armas e gritando todos ao mesmo tempo:

     - Longa vida ao Leão de Damasco!

     A comitiva cruzou a ponte levadizo como um torbellino e se adentró à carreira pelo campo, enquanto o tio Stake, que se asía firmemente ao pescoço de seu arreio, murmurava, com satisfação:

     Parece mentira! Esse turco parece-me um magnífico rapaz! Não imaginei que se pudesse encontrar nem um bom entre esses miserávels!

     Muley-o-Kadel continuava galopando à frente do grupo, assinalando o caminho. Ao longe viam-se os fogos do acampamento turco e de vez em quando se ouvia o som de alguma trompa. Depois, a escuridão foi total.

     O turco evoluiu de forma que se ia distanciando do acampamento para não resultar de novo detentos, o que lhes tivesse ocasionado perda de tempo, e avançou decididamente em direcção a levante, para onde se observava uma lucecita que tivesse podido se confundir com uma estrela.

     - Esse é o faro de Luda? –inquiriu Perpignano.

     - Si –contestou Muley-o-Kadel.

     - Quando atingiremos a orla do mar?

     - Com estes corceles não demoraremos mais de hora e meia. É preciso que embarqueis dantes que amanheça, para evitar ter que dar explicações às autoridades turcas.

     - Ser-nos-á possível encontrar em seguida uma nave?

     - Pensei em tudo, senhora –repôs Muley–. Desde ontem encontram-se em Luda um par de homens para procurar uma galeota. Em quanto cheguemos, tudo achar-se-á disposto e podereis vos fazer à mar.

     - Quantas gentilezas conosco!

     - Pagamento a dívida que tenho contraída com vos, senhora, e ninguém poderá se sentir mais alegre que eu por ter salvado à mais formosa e audaz mulher que conheci.

     E depois de um breve silêncio, acrescentou, contemplando à duquesa com certa melancolia:

     - Tivesse-me agradado unir-me a vos para ajudar-vos em vossa empresa! Mas entre nós está o Profeta! Eu sou turco e vos cristã!

     - Muito fizestes por mim, Muley-o-Kadel, e jamais poderei esquecer a generosidad do Leão de Damasco.

     - Nem eu a vos! –respondeu com débil voz o turco.

     - A vosso regresso, tereis alguma dificuldade com Mustafá? –inquiriu a duquesa, que não sabia como prosseguir a conversa.

     - Mustafá não seria capaz de alçar um simples dedo contra o filho do bajá de Damasco. Não vos inquieteis por mim, senhora!

     Espoleó seu corcel, o mesmo fizeram seus acompanhantes, e todos se lançaram à carreira, por entre aquela desolada campinha, antanho tão fértil em doces vinhos e naquele momento transformada em campos incultos, em eriales.

     Sobre a uma da madrugada, a expedição, que não tinha feito nem sequer uma parada, chegava a um mísero e pequeno povo, formado por dois ou três dúzias de casuchas agrupadas, numa oquedad entre duas montanhas, e embaixo do qual bramaba surdamente o Mediterrãoeo.

     No extremo de um minúsculo promontório tinha um pequeno faro, em cuja cúspide brilhava um farol de luz fixa.

     Dois negros, que ao que parece aguardavam à comitiva, saíram de uma casa meio destruída, exclamando:

     - Alto!

     - Sou eu! –contestou Muley, detendo a seu cavalo–. Está disposta a galeota?

     - Si, senhor –informou um dos negros.

     - Quem são seus tripulantes?

     - Doze renegados gregos.

     - Estão já inteirados de que quem vão embarcar na galeota são vários cristãos?

     - Tenho-lho notificado a todos.

     - Estão conformes?

     - Oferecem-se a acatar suas ordens com gosto, senhor.

     - Conduz-nos!

     Ambos negros atravessaram o povo, que se achava em trevas, guiando à expedição até o faro. Bem perto se mecía uma nave de umas cem toneladas, com dois paus que levavam enormes velas latinas.

     Uma chalupa, que tripulaba seis homens, esperava varada na praia.

     - O amo! –anunciou um dos negros, indicando a Muley-o-Kadel, que tinha descabalgado e ajudava à duquesa a baixar do cavalo.

     Os seis homens saudaram cortesmente, fazendo uma reverência e tirando-se o fez.

     - Conduzi-nos a bordo –disse Muley-o-Kadel–. Eu sou o que tem fletado o navio.

    

                        NA GALEOTA

     A embarcação posta a disposição da duquesa de Éboli pelo generoso turco era uma soberbia galeota, nave empregada naquela época pelos navegantes do archipiélago grego, possivelmente apresada pelos turcos, que se dedicavam a uma autêntica piratería nos mares de levante.

     Como já indicámos, seu deslocamento não era superior às cem toneladas. No entanto devia de ser muito ligeira, pelo que se podia deduzir da amplitude de suas velas e de sua esbelto capacete. Ia armada fortemente, tendo em conta sua tamanho, já que levava duas culebrinas em coberta e mais quatro nos costados de babor e estribor.

     Todos os navios daquele tempo tinham armamento por causa de que o Mediterrãoeo se encontrava cheio de piratas turcos, cujas bases, desde onde se lançavam a suas correrias, eram os portos do Ásia Menor, Egipto, Trípoli, Tunes e Marrocos.

     Em quanto teve posto o pé em coberta, o tio Stake examinou detenidamente a arboladura e aos tripulantes da nave, ficando comprazido.

     - Cofas a prova de culebrinas: soberbio velamen; marinheiros do archipiélago, em cujo coração ainda não deve de ter penetrado a luz do bandido de Maomé; armamento magnífico! Podemos enfrentar-nos inclusive com as galeras de Alí-Bajá! Não opinas o mesmo, Simón?

     - Estupendo velero! –disse simplesmente o jovem marinheiro–. Faremos correr com ele a Alí!

     Muley-o-Kadel tinha-se dirigido à tripulação.

     - Quem é o chefe aqui?

     - Eu, senhor –repôs um marinho de longa barba e rosto de rasgos enérgicos–. O patrón confiou-me a meu o comando da nave.

     - Entregarás o comando a este homem –notificó o turco, indicando ao tio Stake–, e terás como recompensa cinquenta cequins.

     - Acho-me a vossas ordens, senhor. O patrón mandou-me pôr-me ao serviço de quem chama-se León de Damasco.

     - Sou eu.

     O grego fez uma profunda reverência.

     - Estas pessoas são cristãs –prosseguiu o turco–. Tens de obedecê-las igual que se minha boca fosse a que desse as ordens. Respondo de quanto possa suceder, tratando-se de uma expedição que pode resultar arriscada.

     - De acordo, senhor.

     - Ademais, advirto-te que responderás de tua lealdade com a cabeça, e se pretendesses fazer algum dano aos viajantes, saberei encontrar a forma de dar contigo e te castigar.

     - Sou cristão...

     - Por esta razão elegi-te, bem, como turco, não confio o mais mínimo em teu conversión. Qual é teu nome?

     - Nikola Stradiato.

     - Lembrar-me-ei!

     - Corpo de mil baleias! –musitó o tio Stake, que tinha ouvido a conversa–. Se eu fosse Mustafá, faria nomear a este turco almirante da frota mahometana! Manda igual que um capitão e se expressa como um livro! Sendo turco, resulta surpreendente! Pelo menos, este não tem o cérebro de corcho!

     Muley-o-Kadel voltou-se para a duquesa e, tomando-a por uma mão, conduziu-a até a parte de proa, dizendo-lhe:

     - Terminou meu cometido, senhora, e aqui abandono-vos. Eu sou outra vez o inimigo dos cristãos e vos o dos turcos.

     - Não faleis assim, Muley-o-Kadel! –interrompeu a jovem–. Se vos lembrastes-vos de que me devíeis a vida eu não esquecerei jamais de vossa generosidad!

     - Qualquer em meu lugar tivesse feito o mesmo.

     - Não. Mustafá não teria esquecido ser, primeiro que tudo, muçulmano.

     - O visir é um tigre, mas eu sou o Leão de Damasco! –respondeu com altivez o turco.

     E mudando de tom continuo:

     - Não sê como acabará vossa aventura, nem de que forma vos, uma mulher, podereis pôr em liberdade ao vizconde Lhe Hussière. Temo que vos vades enfrentar com muitos perigos, sozinha ante meus compatriotas, que sempre desconfiam dos estrangeiros, os supondo cristãos. A vosso lado fica meu escravo Ben-Tael, homem fiel e tão valoroso como O-Kadur. Se em alguma ocasião estais em perigo, mandai que vinga em meu procura. Pelo Corão juro-vos que farei quanto me seja possível em vosso favor!

     - Faz um momento assegurastes-me, Muley, que tornáveis a ser inimigo dos cristãos.

     - Não queirais averiguar meu pensamento, senhora! –repôs o jovem, enquanto suas bochechas acendiam-se vivamente–. Não esquecerei com facilidade ao capitão Tormenta!

     - Ou à duquesa de Éboli? –inquiriu com certa picardía a jovem.

     O filho do bajá não respondeu. Semejaba estar absorto em profundos pensamentos, até que, estendendo de improviso a mão para a duquesa, exclamou:

     - Adeus, senhora, mas não para sempre! Confio em que em algum dia, dantes que deixeis a ilha para regressar a vosso país, ver-nos-emos outra vez.

     Sem voltar a cabeça pegou com rapidez a mão da duquesa e, enquanto suspirava, acrescentou:

     - Assim o queira Alá!

     E sem pronunciar mais palavras, se aferró a escala-a de sensata e desceu à chalupa que aguardava a estribor da galeota.

     A duquesa ficou imóvel e pensativa.

     Ao voltar-se, a chalupa alcazaba já a costa.

     Encaminhou-se a popa, onde o tio Stake e Nikola Stradiato esperavam suas instruções, e se encontrou com O-Kadur que a contemplava com tristeza.

     - Que queres, O-Kadur? –perguntou-lhe.

     - Temos de levar âncoras? –inquiriu o árabe com a voz trémula.

     - Si, vamos a zarpar ao momento.

     - Melhor é assim!

     - Que pretendes dar a entender?

     - Que os turcos são mais perigosos que os cristãos e que devemos nos afastar de eles! E especialmente os mais perigosos resultam... os leões turcos!

     - Talvez estejas no verdadeiro! –conveio a duquesa, inclinando a cabeça.

     E voltando-se ao tio Stake, que conversava com o grego, ordenou:

     - Levad âncoras e despregai as velas! É aconselhável que quando despunte o alva nos encontremos a bastante distância de aqui!

      - Rápido, à manobra! –ordenou ao tio Stake com forte voz–. Preparados, filhos do archipiélago!

     Os marinheiros despregaram as velas, largaron as escotas e, asidos ao cabrestante, levaron âncoras.

     A manobra levou-se a efeito em breves minutos. A galeota, cujos foques começavam a tomar o vento, girou pouco a pouco sobre si mesma e, algo inclinada de babor, avançou para a saída da baía, eludindo os escollos cortados a bico.

     Ao cruzar em frente ao faro, a duquesa alçou a mirada e distinguiu, imóvel na cume, um homem a cavalo. A luz do farol refletia-se em sua cota, fazendo centellear o metal.

     - Muley-o-Kadel! –murmurou com um estremecimiento.

     Como se intuyese que a duquesa tinha advertido sua presença, o Leão de Damasco fez com a mão um ademão de despedida.

     Precisamente naquele momento ouviu-se gritar ao tio Stake:

     - Que vais fazer, árabe?

     - Matar ao turco! –repôs uma voz que a duquesa reconheceu ao instante.

     - O-Kadur! –exclamou ela–. Que loucura pensas fazer?

     - Mato-o, já que vos, senhora, já não lhe deveis nenhum agradecimiento!

     O árabe tinha na mão uma pistola de longo canhão e apontava ao Leão de Damasco que continuava imóvel ao pé do faro. O abismo achava-se embaixo dele, e, se uma bala lhe atingisse, ninguém tivesse podido lhe salvar.

     - Apaga o estopim da pistola! –exclamou a duquesa.

     O árabe teve um momento de incerteza. Uma horrível expressão de ódio e de fiereza demudaba seu semblante.

     - Permite que lhe mate, senhora! –disse–. É um inimigo da cruz!

     - Deixa essa arma! Obedece!

     O-Kadur baixou a cabeça e, arrojando ao mar a pistola, musitó:

     - Obedeço, senhora!

     E dirigiu-se lentamente para proa, sentando-se sobre um rollo de sensatas e escondendo o rosto entre os pliegues do manto.

     - Esse selvagem está demente, senhora! –comentou o velho Stake–. Matar a esse magnífico homem! Já esqueceu esse trozo de pan moreno que sem a ajuda do turco encontrar-nos-íamos agora na ponta de um pau? Que escassamente agradecidos são esses bandoleros árabes!

     - Não digais bobadas, Stake! –disse a duquesa–. O-Kadur sempre foi algo estranho. Pegai o timão e tende bem abertos os olhos. Talvez fosse do porto tenha alguma galera de Alí-Bajá.

     - Com este velero não devemos nos inquietar por essas pesadas naves, senhora. Respondo disso.

     E voltando-se para os gregos, ordenou:

     - Eh! Largad as escotas! Vinga, rápido! Quero que esta seja uma noite tranquila!

     A duquesa tinha voltado sua mirada para o faro, que se encontrava já a uns duzentos ou trezentos passos, a cuja luz se observava, ainda imóvel, a figura de Muley-o-Kadel.

    

     Naquele instante a galeota, cuja rapidez aumentava graças à corrente, deu a volta à última escollera, e a figura do Leão de Damasco se perdeu de vista. O mar era açoitado por uma fresca brisa de levante, que encrespava a superfície das águas.

     O tio Stake e Simón conduziam a ligeira nave, enquanto Perpignano revisava as culebrinas.

     Acodada em borda-a, a duquesa seguia olhando para o faro, cuja luz relucía como um ponto luminoso na escuridão.

     A galeota comportava-se como um bom velero e acrecía a velocidade a tenor que se ia afastando da costa. Apartou-se um par de milhas de terra para não chocar com as escolleras que rodeiam a ilha de Chipre e pôs rumo em direcção ao castelo de Hussif, que já não devia de se encontrar a muita distância.

     - Senhor –perguntou Nikola dirigindo-se em tom respetuoso à duquesa–, sois unicamente vos quem tendes de dar-me as ordens?

     - Si –contestou a jovem.

     - Quereis chegar ao castelo durante a noite ou pelo dia?

     - Quando chegaremos?

    - O vento é favorável. De aqui a dez horas ancoraremos na ensenada de Hussif.

     - Estais inteirados de si há ali cativos cristãos?

     - Isso asseguram.

     - E que entre eles há um cavalheiro francês?

     - É possível, senhor.

     - Chamai-me senhora, já que sou mulher.

     O grego não fez o menor gesto de assombro. Sem dúvida sabia-o já, bem pelo tio Stake, bem pelos escravos de Muley-o-Kadel que fletaron o velero.

     - Como vos plazca, senhora –contestou.

     - Conheceis o castelo?

     - Si, já que estive cativo nesse lugar.

     - Quem manda ali?

     - A sobrinha de Alí-Bajá.

     - Sobrinha do almirante turco?

     - Si, senhora.

     - Como é essa mulher?

     - Hermosísima, muito enérgica e despiadada com os presos cristãos. Castigou-me a não comer durante seis dias por lhe contestar de maus modos e me fez dar uma surra da que ainda conservo os sinais, ainda que passaram sete meses.

     - Infortunado Lhe Hussière! –murmurou a duquesa–. Como terá podido doblegarse, tão orgulhoso e tão intolerante?

     E depois de um breve silêncio, perguntou:

     - Poderemos penetrar no castelo simulando ser emissários de Muley-o-Kadel?

     - Tereis que enfrentar um grande risco, senhora –repôs o grego–. Não obstante, parece-me que não há outra forma de entrar nele.

     - Poderemos chegar sem ter molestos encontros?

     - É dudoso, senhora. É possível que na ensenada há alguma galera do bajá e que seu comandante nos detenha para averiguar quem somos, de onde chegamos, que pretendemos e muitas coisas mais.

     - Está muito distante do mar, o castelo?

     - Umas poucas milhas, senhora.

     - Se tropeçássemos com a nave que temeis, atacá-la-emos e afundá-la-emos –contestou com firme determinação a duquesa–. Estamos dispostos ao que seja, e me parece que vos não desaprovecharíais a oportunidade de vingar os sofrimentos que vos fizeram padecer os turcos –acrescentou a jovem.

     - Contai conosco – repôs o grego–. Ao renegado olha-se-lhe pior que ao escravo, já que os turcos lhe desprezam e é objecto de escarnio para os cristãos. Pessoalmente prefiro a morte a continuar nesta miserável vida! Desde o momento que para me salvar do pau e dos despiadados tratos dos turcos reneguei da cruz, ninguém me proporcionou a menor ajuda, e isso que me portei com valor em Negroponto e em Candía.

     Advertia-se na voz do grego tal tom de dor que a duquesa, comovida, lhe alongou a diestra, dizendo:

     - Estrechad a mão que vos oferece o capitão Tormenta!

     O renegado fez um gesto de assombro.

     - O capitão Tormenta! –exclamou–. Vos sois o herói que derrotou ao Leão de Damasco! Uma mulher!

     O grego tinha-lhe tomado a mão e lha besaba.

     - Outra vez sou cristão e homem livre! –disse–. Senhora, minha vida está a vossa disposição!

     - Farei o possível porque não a percais, Nikola –respondeu a duquesa–. Já são demasiados os cristãos mortos nesta infortunada guerra para que se sacrifiquem todavía outros mais.

     Naquele instante aproximou-se o tio Stake, movendo-se da mesma maneira que um urso.

     - Algum intrometido passeia-se pelo mar! –informou.

     - Que pretendes dizer? –inquiriu a duquesa.

     - Faz um momento descobri um par de pontos luminosos no horizonte.

     - Já nos encontrámos em águas de Hussif –disse o grego–. Terá talvez na baía alguma galera do bajá?

     E olhando para o horizonte acrescentou, logo de um momento de silêncio:

     - Si. É uma nave que vigia a baía. Terão advertido à sobrinha do bajá de nossas intenções?

     - Somente Muley-o-Kadel está informado delas e me parece que não é homem capaz de nos trair depois de ter dado mostras de tão grande generosidad –contestou a duquesa.

     - Pela altura das luzes, que sacais em claro? –inquiriu o grego, dirigindo-se ao tio Stake.

     - Ainda nos encontrámos a muita distância para poder opinar acertadamente –repôs o tio Stake–. Não obstante, considero que não se deve tratar de uma galera.

     - Que temos de fazer? –interrogou a duquesa.

     - Seguir nosso rumo. Nossa galeota é um bom velero e não deixar-se-á dar alcance. Se observamos qualquer perigo, viraremos de bordo e afastar-nos-emos da costa.

     - Por se talvez ordenarei carregar as culebrinas –interveio Perpignano, que se tinha acercado ao grupo–. Há na nave algum artilheiro que possa me ajudar?

     - Todos são soldados –repôs o grego– e conhecem o mesmo o manejo do arcabuz que o do canhão, já que combateram todos em Rodas e Candía com os venezianos.

     - Acompanhai-me à ponte: desde ali veremos melhor.

     - Eu enquanto farei que O-Kadur prepare as armas –disse a duquesa–. Temos que estar preparados!

     A galeota, destramente pilotada por Nikola, que se achava outra vez ante a barra do timão, prosseguiu seu rumo em direcção à rada, formada por uma península, semicircular, que avançava para o mar.

     No horizonte distinguiam-se confusamente elevadas montanhas.

     O tio Stake continuava contemplando os dois pontos luminosos, que permaneciam imóveis, como se a nave, logo de curto cruzeiro pelo mar, tivesse ancorado nas proximidades da costa.

     - Encontram-se muito baixas –disse por último–. Não pode se tratar de uma galera. Seria capaz de apostar um cequim contra uma cabeça turca! Nikola, que apaguem nossos fogos!

     - Estão aos tampar com um trozo de lona.

     - Introduzir-nos-emos na rada?

     - Observemos dantes com quem teremos de combater, senhora –repôs o grego.

     - Aproximai-vos com lentidão, tio Stake!

     Dispunha-se o contramaestre a mandar que recolhessem as as vai quando um relâmpago brotou desde a rada e a seguir se escutou um grande estampido.

     O tio Stake, Perpignano e Nikola escutaram atenciosamente, mas não perceberam o típico apito do proyectil.

     - Recomendam-nos que nos marchemos! –observou o tio Stake–. Já nos descobriram!

     - E eu distingui que tipo de nave é a que nos adverte! –informou o grego.

     - Uma galera?

     - Não. É uma carabela, que não contará com uma tripulação a mais de doze turcos.

     - Boa oportunidade para entrar! –exclamou o tio Stake–. Supondes, Nikola, que esses homens permitir-nos-ão desembarcar?

     - Hum! Tenho minhas dúvidas! Desejarão averiguar quem somos e interrogar-nos-ão longa e perigosamente.

     - Assim, que podemos fazer? –inquiriu a duquesa.

     - Lançar-nos ao abordaje com nossa chalupa e apresarlos –contestou com acento decidido o grego.

     - Seremos o bastante numerosos?

     - Vamos deixar aqui só dois homens, senhora. São suficientes para vigiar a galeota. Simularemos obedecer e sair a alta mar.

     A nave viró velozmente, enquanto os marinheiros punham ao descoberto por um momento os fanales, e avançou em direcção ao promontório para dar a entender aos turcos da carabela que não desejavam se expor aos disparos de seus canhões.

     No entanto, em quanto pôs-se fora do alcance deles, jogou âncoras e se lançaram duas chalupas ao mar. Todos se achavam já preparados. Iam armados com arcabuces, pistolas e armas brancas.

     - Vos, tio Stake, conduzi a primeira; comigo, Perpignano, O-Kadur e seis homens –disse a duquesa–. E vos, Nikola, dirigi a segunda com quatro homens. Abordaremos de improviso e não disparareis até que cheguemos ao costado da carabela!

     Desceram às chalupas e afastaram-se discretamente em direcção à ensenada, decididos a fazer-se com a nave inimiga.

    

                          O ASSALTO À CARABELA

     Depois do disparo de culebrina, a tripulação da carabela não tinha voltado a dar indícios de vida.

     Os homens que se achavam de guarda, seguros de que aquele disparo tinha sido suficiente para fazer variar o rumo da galeota, deviam de se ter deitado de novo nas lonas tendidas sobre coberta, continuando sua interrompida conversa.

     Ambas chalupas, distanciadas um par de brazas uma de outra e prestas a atacar pelos dois lados aos turcos, avançavam sempre em silêncio e remavam com extrema cautela.

     Posto em pé sobre o banco de popa, o tio Stake contemplava com toda atenção as trevas.

     É raro! –comentou–. Não observo os fanales da carabela!

     Efectivamente. Não distingo senão trevas em torno nosso –respondeu a duquesa.

     Senhor tenente, vos que vos encontrais a proa, veis os fanales?

     Não –repôs Perpignano.

     Não obstante, por aqui não há escolleras! –murmurou o tio Stake–. Talvez esses endiabrados turcos em lugar de se deixar pegar desprevenidos pretenderão nos surpreender? É mais singelo que nós vejamos a carabela, a que se fixem em nós os homem de guarda. Comprovemos se Nikola segue-nos!

     Voltou-se, forçando a vista em direcção à nada. Uma ténue linha escura observava-se a uma centena de metros.

     Ao redor brilhavam subtis pontos luminosos, igual que se os remos removessem água cheia de moluscos fosforescentes.

     - Delatar-nos-ão as noctilucas? –comentou, preocupado, o tio Stake–. Inclusive os moluscos do Mediterrãoeo aliaram-se com Maomé e seus devotos!

     E alçando algo a voz agregou:

     - Sempre adiante, rapazs! Quando nos encontremos na ensenada veremos se esses pajarracos nos estão a esperar ou se apagaram os fanales para dormir com maior tranquilidade!

     A chalupa, que interrompeu seu avanço para que o contramaestre pudesse fazer seu exame com precisão, continuou sua marcha discretamente em dirección à rada de Hussif.

     - Tio Stake –perguntou a duquesa–, não seria mais aconselhável que tentássemos desembarcar sem ser vistos?

     - Os turcos descobririam em seguida a galeota e, sendo mais numerosos, apoderar-se-iam dela. Que poderiam fazer o par de gregos que a vigiam?

     - É verdade.

     - Por outra parte, nós precisámos sempre ter uma nave. Se o golpe não saísse bem, ser-nos-ia impossível permanecer na costa de Chipre nem uma hora. Achámos-nos em perigo de ser empalados, e tal classe de morte garanto-vos que não me parece atraente. Vi a um pobre renegado suportá-la, e aqueles dois dias de horrível agonia fizeram-me tão grande impressão que não esquecê-la-ei nunca, apesar de que vivesse mil anos, igual que as baleias.

     - Assegura-se que é o mais cruel dos tormentos turcos.

     - Notar como o corpo é atravessado por um pau em ponta, como um pássaro a quem fincam no asador, não deve de ser coisa seductora, senhora! Agregai a isso que o torturado pode conservar a vida nesta situação até três dias e que esses cães turcos, para fazer maiores os sofrimentos, lhes untan o corpo com mel com o objecto de que as moscas e as abejas os atormentem.

     - Canallas!

     - São verdadeiros miserávels, senhora, dignos de Maomé.

     - Mas esse não era tão despiadado.

     - Não, mas era um cão sarnoso! –respondeu o contramaestre–. Alto, rapazs!

    - Que sucede, tio Stake? –inquiriu Perpignano, indo a popa.

     - A carabela não se encontra nem a duas codos de distância.

     - Abordámo-la?

     - Aguardemos a Nikola. Se o instante supremo falta-nos sua colaboração, podemos fracassar. Não deve se achar a muita distância.

     Abandonou a barra do timão e, olhando em torno seu, emitiu um apito flojo.

     Ao pouco momento ouviu-se outro muito parecido.

     - Aguardemos-lhe! –disse o tio Stake–. Nikola deu-se conta de que precisámos sua ajuda!

     A chalupa do grego, que marchava lentamente para que o rumor dos remos não fora percebido pelos turcos, se aproximou à do tio Stake ao pouco tempo.

     - Por que vos detivestes? –indagó Nikola.

     - Por cem mil tiburones! Os turcos apagaram as luzes e eu não possuo os olhos de um gato! –repôs o tio Stake.

     - Já o observei, e considero que assim é melhor para nós –alegou o grego–. Surpreendê-los-emos com mais facilidade. Distinguis a carabela?

     - Si, confusamente.

     - Prossigamos então o avanço para ela.

     - Desejo averiguar primeiro por onde pensais a abordar.

     - Pela parte de popa.

     - Em tal caso nós fá-lo-emos pela proa, sempre que a encontre. As trevas e as noctilucas uniram-se a favor desses cães muçulmanos!

     - Tende os olhos um pouco abertos, tio Stake!

     - Por mil diabos! Se tenho-os mais abertos que janelas!

     - Abri-os algo mais!

     - Ter-me-eis que dar em tal caso dois olhos de maior tamanho que a cúpula de santa Sofía!

     - Bem: pondes-vos em movimento?

     - Adiante!

     - Directo à proa, tio Stake!

     - E vos a popa! Pillaremos ao turco entre dois fogos!

     - Olho com a escollera!

     - Tentarei evitá-la! –contestou o tio Stake–. Deveis saber que tenho muito bom ouvido e distingo o romper da onda.

     - Adeus e tende prontas as armas! –concluiu Nikola.

     A chalupa viró de bordo, e desvaneceu-se nas trevas.

     - Esse é um grego com bom sangue nas veias! –comentou o tio Stake–. Se em alguma ocasião fazem-me almirante, nomear-lhe-ei capitão de galera! Adiante, rapazs!

     A chalupa continuou seu rumo, sempre avançando com cautela, em direcção à escura forma que se advertia na ensenada.

     Parecia como se depois do disparo de culebrina os turcos se tivessem dormido, já que não se escutava nem uma voz em coberta. Unicamente o timão da carabea, movida a impulsos da resaca, rechinaba em suas goznes, cheios de mofo pelo água do mar.

     O tio Stake, sempre alerta, prestava atenção ao ruído das ondas ao chocar contra as escolleras, tão agudas como lanças.

     Conduzir a embarcação por entre aqueles obstáculos que quase não se divisavam não resultava tarefa singela.

     De improviso, uma surda exclamação brotou dos lábios do contramaestre.

     - Que sucede, tio Stake? –inquiriu a duquesa.

     - Não distinguis aquele ponto luminoso que se mece sobre as águas?

     - É algum peixe fosforescente?

     - Não, senhora.

     - Que é, então?

     - Semeja uma tablilla ou um corcho, ou algo parecido, com um trozo de vela em cima!

     - Acendida por quem?

     - Pelos turcos, senhora, sem a menor dúvida!

     - E daí significa?

     - Que esses cães pretendem nos descobrir! Não serei eu tão néscio que me aproxime a essa luz para conseguir que vejam a chalupa e nos recebam com uma bala de culebrina! Os bribones estão a vigiar e seguramente imaginaram que tratámos de dar algum golpe de mão! Que Maomé os ajude! Mas nem pensá-lo! Esses haraganes são incapazes de nada! Rapazs, ao ataque! Rápido, ao abordaje!

     A duquesa, O-Kadur e Perpignano tinham desenvainado as cimitarras.

     Não distarían bem mais de dez passos da carabela e os turcos continuavam, ao que parece, sem perceber nada.

     O tio Stake fez avançar a chalupa com mais rapidez e com uma veloz mudança de rota precipitou-se contra o costado de estribor do barco turco. Aferrarse a borda-a, salvá-la de um salto e apresentar-se em coberta foi coisa de um instante.

     Um homem que se achava apoiado no pau maior, vendo surgir de súbito a um desconhecido, gritou alarmado:

     - Às armas!

     O punho de ferro do contramaestre abateu-se igual que uma maça, com surdo ruído, sobre a cabeça do turco, quem se derrubou como atingido pelo raio. Mas sua exclamação tinha sido escutada por seus colegas.

     - Cão infiel! –gritou com frio acento o contramaestre, apontando-lhe ao instante com uma pistola, cujo estopim se achava já acendida–. Te prevengo que, se ofereces resistência, te mato igual que a um leproso. Baixa essa arma!

     O turco, um jovem de uns vinte e cinco anos, que parecia assombrado ante aquela irrupción e semelhante ameaça, permaneceu silencioso.

     Enquanto o capitão Tormenta, Perpignano, O-Kadur e os gregos, abandonando os remos e empunhando os arcabuces, tinham aproveitado aquele instante de estupefacción geral para irromper na carabela e ameaçar aos tripulantes, que saíam naquele momento dos camarotes de proa. O capitão Tormenta precipitou-se para o capitão com a cimitarra alçada, presto a mirar um golpe mortal.

     - Ouvistes as palavras desse homem? –exclamou.

     - Quem sois? –inquiriu o turco.

     Em lugar de responder, o capitão Tormenta voltou-se a Perpignano, ordenando:

     - Enfrentai-vos à tripulação e, se não rendem as armas, disparai!

     E contemplando ao capitão da carabela acrescentou, com um saúdo zombador:

     - Sou um capitão cristão e vos conmino à rendición, se quereis pôr a salvo vossa vida e a dos tripulantes.

     - Cristãos! –resmungou o turco, tentando esquivar a pistola do tio Stake e jogando-se para atrás de um salto.

     O contramaestre o aferró por um braço, enquanto dizia:

     - Não, parceiro; nem Maomé pode escapar-se tendo-lhe eu apresado! Se voltas a tentá-lo, te obsequiaré com algo de muita dureza que enviar-te-á em procura das huríes de tua paraíso, se és capaz das encontrar!

     - Imaginais que um turco se entrega a um cristão? –rugiu o comandante–. Soltai-me, ou farei que vos açoitem como a cães!

     - Por quem? –inquiriu a duquesa.

     - Por Alí-Bajá.

     - Encontra-se a muita distância!

     - Amanhã pode estar aqui.

     - Basta, charlatão! –exclamou o tio Stake–. Não viemos para discutir contigo, cabeça de lenha! Temos outras coisas que levar a cabo. Entregas-te? Si ou não?

     Com um súbito esforço, o turco se zafó da mão do contramaestre e tentou desenvainar a cimitarra. Mas foi parar às mãos de O-Kadur, o qual o apertou de tal maneira que lhe fez lançar uma exclamação de dor.

     - Muito bem, árabe! –disse o tio Stake com um sorriso.

     - A mim, marinheiros! –gritou o turco–. Exterminad a estes cristãos! O Profeta ordena-o!

     Os dez turcos que constituíam a tripulação da carabela se dispunham a travar com os gregos, a cujo frente ia Perpignano, uma luta desesperada, quando escutaram por trás deles uma voz que alentava:

     - Valor, amigo! Aqui tendes-nos a nós, prontos para exterminar muçulmanos!

     Era Nikola, que saltava pelo bauprés em companhia de seus quatro homens.

     Ao ver em frente a eles aos gregos de Perpignano, que se dispunham a disparar a boca de jarro, e detrás novos inimigos, os turcos se detiveram.

     - Baixai as armas, miserávels! –exclamou o grego, acercando-se com a pistola em alto–. Se dais um passo mais, sois homens morridos! Avançai vocês e diponeos a atar a estes bandoleros!

     Enquanto o comandante encontrava-se no solo, aferrado por O-Kadur, quem pôs-lhe o yatagão sobre o peito.

     - Senhora –perguntou–, mato-o?

     - Os prisioneiros podem ser úteis em toda ocasião e valem mais vivos que mortos! –alegou o tio Stake–. Não é verdade, senhora, que devemos os conservar?

     - Estais no verdadeiro! –afirmou a duquesa.

     - Então, rendes-te? –perguntou o árabe ao turco.

     - Alí-Bajá vingar-me-á devidamente! –repôs o capitão, abandonando a cimitarra.

     - Se damos-te ocasião de avisar-lhe –opinou o tio Stake–, coisa que vejo um pouco difícil!

     - Já pagareis mais tarde semelhante atrevimiento!

     - Aguardámos-te no Adriático ou na lagoa venezana. O canal Orfano está a esperar precisamente turcos com uma pedra atada ao pescoço.

     - Em resumem: que quereis fazer comigo? –gritou o turco, com altivez.

     - Por enquanto, ter-vos detento –contestou a duquesa–. Se fôssemos mahometanos, agora já não estaríeis com vida. Agradecei a vosso protector que sejamos cristãos e vos turco. O-Kadur, amarra a esse homem e conduz-lhe à câmara de proa, onde o atendarás!

     - E vos, meu tenente –disse o tio Stake–, atai a esses infiéis com cem brazas de esparto!

     Vendo-se pegada entre dois fogos, a tripulação turca tinha rendido as armas, dando-se conta de que uma luta tão desigual resultaria um falhanço. Os gregos tinham-se precipitado sobre os prisioneiros, e estes talvez não tivessem conservado as orelhas de não se ter interposto a duquesa e Perpignano. Uma vez atados, foram levados à câmara de proa e deixaram à porta dois homens provistos de arcabuces.

   - Senhora –disse Nikola à duquesa–, a ensenada já está livre. Podemos desembarcar sem que ninguém nos moleste. Se desejai-lo, para o alva chegaremos ante o castelo de Hussif.

     - Por Baco! –exclamou o tio Stake–. Não imaginava eu que nossa primeira tentativa resultasse tão singelo! E sem efectuar um disparo! A tentativa mais difícil será a segunda!

     - Talvez menos do que supondes –respondeu a duquesa–. Aparentaremos ser emissários de Muley-o-Kadel, com qualquer encarrego para a sobrinha do bajá. Talvez não temos aparência de turcos?

     - Mas vos, senhora, não sabeis falar seu idioma.

     - Simularei ser árabe. Não são muito numerosos os árabes no exército de Mustafá? O-Kadur ensinou-me esta língua.

     - Esta é uma magnífica ideia, que jamais se me tivesse ocorrido! –conveio o tio Stake–. E um árabe muito belo, senhora! Não vi nunca um parecido nem tão formoso. Não sê que dizer, mas se não tivesse tanta idade, vos asseguro que minha cabeça neste momento encontrar-se-ia algo trastornada!

   O-Kadur olhou-o com ferocidad, ainda que sem produzir o menor efeito no velho marinho, enquanto a duquesa sorria ante a ocurrencia do lobo de mar.

     - Embarquemos! –disse Nikola.

     - E esta nave? –perguntou a duquesa.

     - Dois de nossos homens guiá-la-ão até a galeota, senhora. Será suficiente uma vela para unir-se a seus colegas, e desta maneira poderão vigiar melhor aos turcos. Vamos, senhora! Vos também, tio Stake!

     - Quem conduzir-nos-á até o castelo? –inquiriu o contramaestre.

     - Eu –respondeu Nikola–. O alva não demorará em despuntar.

     Deu algumas ordens aos gregos que se achavam vigiando no camarote de proa, e logo todos baixaram à chalupa.

     - Para a praia! –exclamou Nikola–. Já não há nada que temer; ainda que fosse em sua ajuda Alí-Bajá, seria demasiado tarde.

     Ambas chalupas se apartaram da carabela, que começava a se pôr em movimento, já que os dois marinheiros de guarda acabavam de izar uma vela, e avançaram em direcção à costa.

     A embarcação do tio Stake passou em último lugar, sem chocar em nenhum dos numerosos escollos que a amagaban, e encalló na arenosa terra da praia.

     Ao ruído ocasionado pelos remos, que rozaban o fundo, uma bandada de pássaros marinhos alçou o voo e se desvaneceu entre a escuridão.

     - Bom indício! –comentou o tio Stake, enquanto esfregava-se as mãos–. Se por estes lugares tivesse turcos, estes pássaros não ter-se-iam dormido sobre a areia!

     - Desembarcai! –ordenou Nikola, cuja chalupa tinha encallado também.

     A duquesa, Perpignano, O-Kadur e os gregos saltaram à praia, logo de ter pegado os arcabuces. Nikola, que os tinha precedido, se tinha subido a uma rocha e contemplava com tudo detenimiento a planície que se abria ante sua vista e que semejaba ser muito avariada.

     Não se advertia a menor luz entre as trevas, nem na planície, nem sobre as colinas rocosas que se achavam no extremo da ensenada. De vez em quando se ouvia ao longe o ladrido de um cão.

     - Não há nenhum vigilante por essa parte –anunciou o grego quando se encontrou outra vez na praia.

     - A que hora poderemos chegar ante o castelo? –inquiriu a duquesa.

     - De aqui a um par de horas –contestou Nikola.

     - Aguardaremos até o alva?

     - Não é necessário, senhora. Conheço o caminho, que percorri num milhar de ocasiões levando sobre minhas costas quintales de maíz como escravo, suportando os latigazos dos guardiães. Naquele tempo minha vida era horrível!

     - Pomos-nos em marcha?

     - Si; sempre que não estejais cansada.

     - Em marcha e em silêncio!

     A expedição pôs-se em caminho e, atravessando as dunas, se adentró na planície, precedida pelo grego, cujos olhos pareciam ser de gato.

     - Que diabo de homem! –murmurava o tio Stake–. Estes gregos são realmente extraordinários, quando se trata de se vingar dos turcos! E eu que os considerava macios como o merengue!

     - Si, são valentes –repôs o jovem marinheiro, que era qualquer coisa menos locuaz.

     Enquanto, a duquesa e Perpignano conversavam baixinho com Nikola para traçar seu plano e pôr-se totalmente de acordo com o objecto de não incurrir em alguma imprudencia que com toda segurança lhes tivesse costado a vida.

     - Para todos vocês eu sou Hamid filho do governador de Medina, já que conheço o árabe –terminou de explicar a duquesa–, grande amigo de Muley-o-Kadel. Ben-Tael, o escravo do generoso jovem, encarregar-se-á de demonstrar que, em realidade, sou mahometano e valoroso capitão.

     - Não poreis num compromisso ao Leão de Damasco? –inquiriu Nikola.

     - Disse-me que se fazia falta utilizasse seu nome –respondeu a duquesa–. Permiti-me que seja eu somente a que fale com a sobrinha do bajá!

     - Si, senhora –disseram a um tempo Nikola e Perpignano.

     - Adverti-lho a nossos homens. Temos de impedir a menor imprudencia!

     - Anda de por meio o pau! –exclamou o grego–. A sobrinha de Alí-Bajá é formosa. Mas, tal como vos disse, tem fama de ser não menos despiadada que seu tio no que se refere aos cristãos.

     - Tentarei amansar a esse tigre –disse a duquesa a que parecia lhe lhe ter ocorrido uma ideia–. Confio absolutamente no sucesso de nosso plano, precisamente por ser muito atrevido.

     O grego deteve-se um instante para orientar-se e prosseguiram a marcha pela planície através de um terreno avariado e pedregoso. O tio Stake, más que ninguém, amaldiçoava sem cessar.

     - Ainda há néscios que afirmam que se caminha bem sobre a corteza terrestre! –exclamava–. Bem se vê que não têm estado jamais na coberta de uma galera, nem gozaram as delícias do balanço! Podem ir-se ao diabo Chipre, os turcos e os sectarios de Maomé!

     Sobre as cinco da manhã começou a clarear.

     - Vei-lo, senhora? –perguntou Nikola, indicando um sólido edifício situado na cimeira de uma colina.

     - Trata-se do castelo de Hussif?

     - Si, senhora.

     - Infortunado Lhe Hussière! Achar-se-á nos subterrâneos de alguma dessas lúgubres torres!

     - E devidamente encadeado, ademais! A sobrinha de Alí não se mostra muito hospitalaria com seus cativos!

    

                          O CASTELO DE HUSSIF

     O castelo de Hussif era uma das fortalezas mais imponentes da rainha Catalina Cornaro a fim de guarecer uma considerável zona da costa ocidental de Chipre, para recusar as contínuas incursões dos corsarios egípcios e turcos, que dominavam em todo o Mediterrãoeo oriental.

     Tinha sido edificado sobre uma colina que dominava o mar, num lugar da rocha cortado a bico, e em suas torres se emplazaron numerosas bocas de fogo.

     Aquela fortaleza ofereceu uma obstinada resistência aos turcos de Mustafá, e não se pode saber o que tivesse aguentado ainda, a não ser pelo auxilio prestado àquele por Alí-Bajá e seus cem galeras.

     Atacada desde o mar pelo ininterrumpido bombardeio de oitocentas culebrinas, terminou sendo tomada pelos cinquenta mil guerreiros, que passaram faca a toda sua guarnición.

     Uma vez que foram restaurados o melhor possível os deterioros ocasionados pelos proyectiles, se pôs ao comando dela à sobrinha do bajá, mulher jovem e hermosísima, atrevida e valorosa, mas, em especial, acérrima inimiga dos cristãos, ao igual que o grande sultão Selim II.

     Ao distinguir o castelo às primeiras luzes da manhã, a duquesa sentiu-se assaltada pela angústia. Acharia ao cavalheiro Lhe Hussière ainda com vida, ou a cruel turca tê-lo-ia matado?

     O-Kadur, que parecia ter adivinhado a ideia que atormentava a sua senhora, se aproximou a ela, que se tinha detido para contemplar o castelo.

     - Pensas no vizconde, não é verdade? –perguntou.

     - Si, O-Kadur! –repôs a duquesa, com triste acento.

     - Temes que a sobrinha do bajá lhe tenha mandado dar morte?

     - Que fazes para adivinhar tudo o que penso?

     - O escravo habitua-se a prever o que sua senhora deseja –contestou o árabe, com certa amargura.

     - Supões que ainda está vivo?

     - Não tê-lo-iam perdoado após a conquista de Nicosia. Se trouxeram-lhe aqui, significa que os turcos se deram conta de que o vizconde representa um bom resgate. Em marcha, senhora; cedo divisar-nos-ão desde o castelo!

     Tinham-se adentrado por uma estreita senda, praticada na mesma rocha, que bordeaba o mar, tão estreita que uns poucos homens valentes e resolvidos tivessem podido se enfrentar ali a todo um exército.

     A seus pés achava-se o abismo, em cujo fundo bramaban com imenso fragor as águas do Mediterrãoeo.

     Nikola avançou com decisão, logo de ter suplicado à duquesa que se aferrara à muralha e não fixasse a mirada no mar, para eludir a sensação de vertigem.

     Um turco que se achava de guarda numa das torres, ao observar aquele grupo armado, gritou:

     - Às armas!

     Uma companhia de jenízaros, a cujo frente ia um capitão da marinha otomana, avançou pela ponte tendida sobre os amplos fossos que circundavam o castelo.

     - Somos amigos –advertiu Nikola, que falava à perfección o turco e o árabe, fazendo ademanes aos jenízaros para que lhes deixassem de apontar com os arcabuces.

     - De onde chegais? –inquiriu o capitão sem voltar a cimitarra a sua vaina.

     De Famagusta.

     Que quereis?

     - Temos a missão de escoltar ao capitão Hamid, filho do bajá de Medina.

     - Onde se encontra?

     - Aqui –disse a duquesa em língua árabe.

     O turco contemplou-a com assombro e, fazendo-lhe um saúdo com a cimitarra, disse:

     - O Profeta conceda mil anos de vida a ti e a teu pai! Haradja, a sobrinha de Alí-Bajá, estará muito satisfeita de poder-te oferecer hospitalidade. Acompanha-me, senhor.

     E, assinalando com um gesto aos acompanhantes da duquesa, inquiriu:

     - Todos são turcos?

     - Si.

     Fez um ademão aos jenízaros para que se marchassem e seguiu aos recém chegados até o pátio de honra do castelo, de estilo árabe, com enormes pilares de pedra, não demasiado deteriorados pelos proyectiles turcos.

     O turco fez sentar-se à duquesa num luxuoso tapete que ocupava todo um ângulo indicando à escolta que se diseminara à sombra de grandes palmeras para além da columnata.

     Quatro escravos negros serviram-lhe em xícaras de prata um magnífico e humeante moka, gelado e doces.

     A duquesa, que tinha aprendido os costumes orientais, bebeu uma xícara de café, tomou meio doce, e, cumprido aquele requisito, se sentou num cojín e perguntou ao turco, que aguardava com respetuoso aspecto:

     - Onde se encontra a sobrinha do bajá? Ainda está a dormir?

     - Haradja tem por norma levantar-se dantes que seus guerreiros.

     - Por que não ordenas que a chamem, já que sabes quem sou?

     - Não está aqui agora –repôs o capitão, que também falava o árabe–. Fará uma hora que saiu para vigiar aos cristãos que utiliza na pesca de sanguijuelas. Os numerosos doentes de Famagusta precisam-nas com grande urgência e o sangue cristão parece agradar em grande maneira a esses bichos.

     - Como dizes? –inquiriu a duquesa, ao mesmo tempo em que palidecía–. Haradja emprega aos cristãos em pesca-a de sanguijuelas?

     - Não há outros moradores nesta zona. Ia fazer que seus guerreiros se fossem desangrando lentamente? Quem protegeria em tal caso o castelo se os venezianos mandassem uma escuadra? É mais razoável que morram os cristãos, que, afinal de contas, são um impedimento e não chegarão jamais a pagar do todo seus pecados.

     - Fazeis que morram pouco a pouco! –exclamou a duquesa, que realizava um grande esforço de vontade para reprimir seu cólera.

     - Naturalmente que acabarão por deixar a pele! –replicou o turco em tom indiferente–. Haradja não lhes deixa ocasião para recuperar o sangue chupada pelas sanguijuelas.

     - A mim –agregou a duquesa–, conquanto sou implacável inimigo dos cristãos, me parece isso uma crueldade insólita que não honra em nada a uma mulher.

     - Que se lhe vai a fazer, senhor! A sobrinha do bajá assim o ordena, e como suas palavras são leis, ninguém é capaz de objetar nada, e eu menos que nenhum.

     - Quantos cativos tendes?

     - Uns vinte.

     - Todos de Nicosia?

     - Si, e inclusive acho que todos são nobres.

     - Conhecei-los por seus nomes?

     - A alguns, certamente.

     - Encontra-se entre eles um capitão chamado Lhe Hussière? –inquiriu com trémulo acento a duquesa.

     - Lhe Hussière... –murmurou o turco–. Ah, si! Não é um cavalheiro francês que estava ao serviço da República de Veneza? Sí; está a se dedicar a pesca-a de sanguijuelas.

     A duquesa mordeu-se os lábios para reprimir a exclamação que ia lançar. Depois de um breve silêncio, que lhe foi preciso para recuperar seu serenidad de costume, e se secando algumas gotas de frio suor que banhaban sua cara, acrescentou:

     - Por esse gentilhombre vim até aqui.

     - Desejam dar-lhe a liberdade?

     - Tenho a missão de conduzí-lo a Famagusta.

     - Quem to tem ordenado?

     - Muley-o-Kadel.

     - O Leão de Damasco! –exclamou o capitão com um gesto de extranheza–. Por que esse herói entre os heróis pode se interessar por Lhe Hussière?

     Não o sei.

     - Não sei se a sobrinha do bajá desejará entregar ao prisioneiro. Parece-me que está interessada pelo detento e, por outra parte, Muley-o-Kadel deverá pagar um importante resgate.

     - O Leão de Damasco é o bastante rico como para pagar a liberdade de um cativo.

     - Tenho entendido que seu pai é um dos mais notáveis personagens do Império, cunhado do sultão e dono de incalculávels riquezas.

     - Quando regressará a sobrinha de Alí? Não me é possível permanecer aqui demasiado tempo, já que tenho muito que fazer em Famagusta, e outro encarrego que cumprir em nome de Mustafá.

     Depois de uma breve pausa perguntou o turco:

     - Desejas que te leve até os estanques? Ali poderás ver a Haradja e aos prisioneiros.

     - Estão bem longe?

     - A uma meia hora de distância, a cavalo. Dispomos de bons corceles árabes, que estão a tua disposição e à de tua comitiva.

     - De acordo –repôs a duquesa.

     - Vou escolher melhore-los e farei que os ensillen –disse o turco–. Nuns minutos estarão preparados.

     Em quanto teve marchado para dar as pertinentes ordens, Nikola e Perpignano acercaram-se à duquesa.

     - Está o vizconde? –indagó o veneziano.

     - Si –respondeu a jovem–. Mas, quem sabe em que condições encontrá-lo-emos?

     - Por que causa, senhora?

     - Foi com os demais cativos a pesca-a de sanguijuelas em estanque-los.

     - Miserávels! –exclamou o grego, com acento ameaçador.

     - É muito difícil esta pesca? –perguntou Perpignano.

     - Dizei horrível, senhor! Eu conheço algo disso, já que estive nuns poucos dias nos estanques. Decorrido num mês, os homens encontram-se totalmente extenuados, febriles, sem poder nem manter-se de pé. Todo seu corpo é uma completa llaga.

     - Como é possível que a sobrinha do bajá tenha enviado a um cavalheiro como o vizconde a morrer entre as sanguijuelas? –exclamou, espantado, Perpignano.

     - O capitão turco tem-mo assegurado –disse com um sollozo a duquesa.

     - Nós sacá-lo-emos desta terrível vida! –exclamou o veneziano–. Estamos decididos a recorrer a todos os meios, inclusive a tomar a fortaleza! Não é assim, Nikola?

     O grego respondeu com um movimento de cabeça.

     - Os turcos devem de ser aqui muito numerosos. Não devemos de empregar a força ou nenhum de nós regressará com vida à ensenada de Hussif.

     Eu sê o que tenho de fazer –medió a duquesa, que tinha recuperado todo seu valor–. Brigarei com a sobrinha do bajá e veremos quem triunfa: a mulher turca ou a italiana.

     - O Leão de Damasco ajuda-nos, não há que o esquecer e cumprirá o prometido.

     Impacientes relinchos e o entrechocar de ferros interromperam suas palavras.

     O capitão turco acercava-se, seguido de numerosos escravos, que levavam pegados da brida soberbios cavalos de cabeça pequena, crines muito longas e remos esbeltos, mas vigorosos.

     - Estou a tua disposição, senhor –disse o turco à duquesa–. Para meio dia, no momento da prece, podemos achar-nos de volta para a comida. Mandei um mensageiro a Haradja para advertir-lhe tua visita de parte de Muley-o-Kadel e receber-se-te-á com as honras que correspondem a tua grande posição. Haradja acolherá com agrado a um emissário do Leão de Damasco.

     - Conhece-o?

     Um estranho sorriso passou momentaneamente pelos lábios do turco.

     - Que se o conhece! –comentou a meia voz–. Parece-me que por sua causa não dorme!

     - Talvez o ama?

     - Isso se diz.

     - E ele?

     - Ao que parece não presta atenção à sobrinha do bajá.

     - Ah! –exclamou a duquesa.

     A cavalo, senhor! Acharemos aos cristãos em pleno labor e será um espectáculo muito formoso contemplar como saltam esses miserávels no água por efeito das mordeduras das sanguijuelas. Haradja teve uma excelente ideia, que seguro que a mim não ter-se-me-ia ocorrido.

     - A mim se me está ocorrendo outra mais boa –grunhó baixinho o tio Stake, que entendia bastante a língua turca–: e é oprimir-te o pescuezo até fazer que te saiam cinco palmos de língua, besta de ónus!

     Um instante maist arde os emissários abandonavam o castelo precedidos pelo turco, e se adentraban pelo interior da ilha.

    

                   CRISTÃOS PESCANDO SANGUIJUELAS

     Quando a expedição desceu da cimeira sobre a qual estava o castelo e atingiram as ondulantes planícies nas que só cresciam palmeras e figos chumbos, o sol se encontrava já muito alto no horizonte.

     Inclusive aquela zona do território, a distância de Famagusta, apresentava impressões do passo dos turcos, que não deixavam em torno senão ruínas e cadáveres.

     As granjas, tempo atrás florecientes, encontravam-se destruídas; restava delas, como máximo, algum trozo ahumado de parede ou um tejado que se sustentava por um milagre de equilíbrio, e de vez em quando se observavam parcelas de terreno cultivado e vinhedos devastados.

     O capitão turco parecia não o advertir. Mas si se davam conta disso os cristãos e em especial o tio Stake. O bom homem não deixava de mascullar, sem se inquietar porque pudessem lhe ouvir.

     – Bandidos! Destruíram-no tudo, pessoas e casas! Quando chegará para esses criminosos a hora do castigo? A República venezana não deixará impunes estes crimes! Se assim fosse, converter-me-ia agora mesmo em turco!

     Ao cabo em media hora de avançar a tudo galope, a expedição desembocou numa espécie de plazoleta onde se viam estanques cobertos de folhas e tallos putrefactos, que descobriam a presença da fiebre, escondida entre as descompuestas raízes e o lodo do fundo.

     À orla de um deles, uns quantos homens médio nus, provistos de longas pértigas, se dedicavam a remover o água pantanosa.

     –Estes são os primeiros pescadores, senhor –anunciou o turco, fazendo deter seu arreio.

   – São os cativos de Nicosia? –inquiriu a duquesa, tentando ocultar a angústia que a dominava.

     –Não. São escravos de Épiro –respondeu o capitão. –Vêem a comprovar de que maneira trabalham esses escravos, e assim fá-te-ás uma ideia do que fazem os cristãos de Nicosia e do trato que recebem por parte da sobrinha do bajá. Não é uma profissão agradável, to garanto, e pessoalmente preferiria me ver empalado ou com um laço de seda negra em torno da garganta.

     O capitão dirigiu-se a uma tenda, na que quatro guerreiros estavam a preparar café, e lhes ordenou fazer trabalhar imediatamente aos escravos, para mostrar ao filho do governador de Medina como realizavam a pesca das sanguijuelas.

     Os jenízaros, logo de ter apresentado armas à notável personagem que se dignava fazer uma visita aos estanques, com um apito fizeram sair de uma tenda próxima uma dúzia e meia de homens, os quais ao aparecer os visitantes tinham abandonado a orla.

     Uma exclamação de espanto surgiu do peito de todos os cristãos, enquanto o capitão estallaba numa grande risotada, enquanto dizia com cínica crueldade:

     – Não estão muito gordos! Os cães não terão grande coisa para comer quando esses canallas tenham acabado de pescar sanguijuelas! Já se vê que não são mantidos com pechuga de frango os pescadores dos estanques!

     O espectáculo que ofereciam aqueles desgraçados era tão horroroso, que inclusive o tio Stake ficou espantado, apesar de que em sua longa vida de marinho tinha presenciado muitas coisas terríveis.

     Achavam-se delgados em extremo, até o ponto de que se lhes podiam contar todos os ossos. Suas pernas, sem outra coisa que a pele e o osso, se viam cheias de sangrentas llagas ocasionadas pelas mordeduras dos vermes.

     Seus olhos achavam-se velados como os de um moribundo, e as pálpebras, purulentos, pareciam se mover com grande dificuldade.

     Um contínuo tremor sacudia-lhes todo o corpo, como se uma fiebre muito elevada os dominasse.

   – Esses homens estão a ponto de morrer! –exclamou a duquesa.

     O turco fez um gesto de indiferença com os ombros.

     –São escravos cristãos –alegou. –Morridos não valem nada; vivos, podem ser úteis para isto. Considero que Haradja teve uma excelente ideia. Que ia fazer com eles? Mantê-los a costa sua? Pelo menos desta maneira produzem algo!

     – Uns mesquinhos cequins! –repôs Nikola, que fazia extraordinários esforços para não se precipitar contra o turco e lhe atravessar com o yatagão.

     –Quatro ou cinco ao dia –contestou o capitão. – Considera-lo pouco?

     –A sobrinha do bajá não deve de precisar essa quantidade e faria bem em se mostrar humanitária com esses azarados –disse a duquesa, com reprimida raiva.

     –Haradja aprecia muito o dinheiro, senhor Hamid. Vinga, jenízaros: fazei-os trabalhar! Não há que perder tempo!

     Os soldados pegaram nudosos vergajos e ameaçaram com eles aos escravos, que contemplavam estúpidamente aos recém chegados.

     – Ao água, picar-vos! Já descansastes o suficiente, e se não trabalhais bem, esta noite não proporcionar-se-vos-á aguardiente!

     Aqueles desgraçados inclinaram a cabeça com resignação, se adentraron no estanque, não sem ter titubeado um instante, e removeram o água com longas bengalas.

     Pesca-a de sanguijuelas leva-se a cabo da maneira rudimentaria usada pelos antigos gregos e persas, os quais são ainda os melhores pescadores e têm em seus países milhares de estanques habilitados para esses crueis ainda que utilísimos anélidos.

     São sempre os homens os que servem como isca, apresentando suas pernas às dolorosas mordeduras dos moradores dos pútridos estanques cenagosos, mordeduras que provocam as terríveis fiebres palúdicas.

     Actualmente, o método segue sendo o mesmo em Grécia, Persia e Chipre, lugares onde essa indústria é mais floreciente.

     Como pode se supor, já não são os escravos quem realizam tão arriscado oficio, que paulatinamente os vai convertendo em esqueletos, a quem nem o aguardiente nem as incesantes orgías bastam para os recuperar.

     Não são também não gregos nem persas. Os pescadores modernos pertencem a esse tipo de parias procedentes de todos os países de Europa que pouco a pouco invadiram as zonas levantinas, desempenhando todos os trabalhos imaginávels e vivendo como podem.

     São uns seres realmente despreciávels, viciosos cuja máxima aspiração é emborracharse e ganhar tudo o possível, ainda que seja em prejuízo da própria saúde.

     Ao começar a temporada de pesca-a se congregan em estanque-los, erigiendo míseras choças de palha, e entregam-se ardorosamente a seu trabalho. Os que têm recursos adquirem algum cavalo velho, que serve melhor como isca que suas pernas, exentas já por completo de gordura e carne.

     Os pobres animais não resistem acima de três ou quatro semanas, já que ninguém se preocupa de fazer que recuperem, as energias que perdem de contínuo!

     A golpes obriga-lhos a entrar no água. As sanguijuelas aderem-se em grande número a seus corpos e não os fazem sair das águas até que as patas, o ventre e os flancos estão cheios delas.

     Quando sua pele se transforma numa capa viscosa, negra, repulsiva, os fazem sair e lhes tiram os pequenos animais, que põem cuidadosamente em barris furados, cheios até a metade de limo, os deixando logo um momento em liberdade para que recuperem novas energias; e o tormento volta a retomar-se, até que os infortunados animais totalmente esgotados, se afogam no estanque ou se desploman em terra para não voltar a se levantar.

     Em ocasiões, tal como dissemos, são os homens os que fazem as vezes de isca. Continuam no água até ter as pernas cheias de sanguijuelas, aguentando heroicamente suas mordeduras, e quando se encontram na orla se livram delas para impedir que se desangren em excesso.

     À noite acham-se em tal estado de debilidade, que lhes resulta impossível se manter direitos nem se fazer a comida. O aguardiente ou qualquer outra bebida alcohólica tomada em incríveis quantidades proporciona-lhes uma energia momentãoea, bastante para voltar a iniciar à manhã seguinte seu perigoso trabalho.

     O dinheiro que ganham lhes permite se entregar a orgías alcohólicas, já que um bom pescador consegue em cada dia vinte ou vinte e cinco libras de ganho.

     Quando acaba a estação, que se prolonga pelo geral três meses, os azarados pescadores se encontram numa lastimosa situação. Não são homens: são sombras, com o nariz afiado, os olhos afundados nas órbitas, as pernas descarnadas, cheias de llagas, encorvados e como se se tivessem voltado transparentes. Sua voz tem muito pouco de humana: é um apito rouco, ininteligible. E ninguém sabe o tempo que a fiebre atormentará seu corpo.

     Não obstante, apesar de tantos padecimientos, de tantas calamidades, ao iniciar-se a nova estação voltam às riberas cenagosas de estanque-los e retomam o siniestro oficio que terminará com sua vida dantes de ter atingido os quarenta anos.

     Ao escutar o grito ameaçador dos jenízaros, e intimidados pelos nudosos bengalas, os escravos precipitaram-se ao estanque, sem atrever-se a protestar contra semelhante crueldade, tanto maior quanto que quase não conservavam sangue nas veias.

     Eram quinze e, não obstante, não tivessem podido oferecer a menor resistência àqueles quatro jenízaros, apesar de se achar armados de fortes bengalas, que com facilidade tivessem podido inutilizar as cimitarras e pistolas de dudoso tiro de seus vigilantes.

     Pelos alaridos e gemidos que lançavam aqueles infortunados, a duquesa e seus colegas adivinharam em seguida que as sanguijuelas começavam a lhes morder as pernas, chupando com avidez o escasso sangue que ainda conservavam.

     Um pescador que já devia de ter um considerável número aferrado a seu corpo tentou abandonar o estanque, não podendo suportar as crueis mordeduras, quando um jenízaro lhe mirou um empellón e, enquanto lhe apaleaba, disse:

     – Ainda não, cão! Aguarda a estar bem coberto! Tu não és da carne de Maomé!

     O tio Stake, que tinha desmontado do cavalo para contemplar melhor o espectáculo, sem pensar em que o que ia levar a cabo podia lhe trair, se lançou contra o cruel turco, exclamando:

     – Miserável! Não vês que não pode aguentar mais? Queres que te lance ao estanque? És um bandido que não te compadecerías nem de um cão!

     O mahometano, pouco habituado a tal linguagem, voltou-se surpreendido para aquele homem, que tinha o punho crispado como se pretendesse lhe castigar.

     – Para isso é um cristão! –contestou-lhe.

     – Pois eu, que sou mais turco que tu, te asseguro que, se não lhe deixas sair do água, te arrojo entre as sanguijuelas e não permitir-te-ei sair até que te tenhas desangrado por completo! –gritou o tio Stake, aferrãodole pelo pescoço. – Entendeste, bandido? Vais ser a deshonra de Maomé e de todos seus seguidores!

     – Que fazes? –exclamou o capitão, dirigindo-se para o contramaestre.

     – Estrangulo-lhe! –contestou o tio Stake, oprimindo-lhe o pescoço.

     – Aqui quem manda sou eu, em ausência de Haradja, a sobrinha do bajá!

     A duquesa tinha-se levantado sobre os estribos e contemplava com olhos de ira ao capitão.

     – Ordena que estes azarados se retirem! –gritou com voz imperiosa. – Sou o filho do bajá de Medina e valho mais que tu e que tua senhora! Entendeste-me? Derrotei ao Leão de Damasco e vencer-te a ti resultaria para mim um jogo de meninos! Cumpre minhas ordens!

     Ouvindo o tom decidido e enérgico do jovem, que acabava de desenvainar seu cimitarra, lhe dando a entender que se achava disposto a fazer uso dela, amedrentado pela resolvida aparência da numerosa escolta, o capitão ordenou imediatamente aos jenízaros:

     – Permiti que os pescadores regressem a suas choças! Hoje é dia de asueto para celebrar a chegada de Hamid, filho do bajá de Medina!

     Os quatro soldados, habituados a obedecer aos notáveis do Império, arrojaram seus vergajos e deixaram passar aos pescadores.

     A duquesa extraiu das carteiras da cadeira um punhado de cequins e, lançando-os ao solo, disse:

     – Que hoje se entregue a esses homens duplo ración de aguardiente e comida abundante, além de um cequim a cada um! Se não cumpris minhas ordens, a meu regresso fá-vos-ei cortar as orelhas! Entendestes-me? O restante, para vocês!

     E depois de ter feito um ademão de despedida aos pescadores, que a contemplavam como atontados, espoleó ao corcel, dizendo ao assombrado capitão:

     – Conduzi-me a presença da sobrinha do bajá! Desejo vê-la em seguida!

     – Mil diabos desencadeados! –murmurou o tio Stake. – Esta senhora é realmente um prodígio! Jamais tivesse conseguido eu me fazer obedecer desta maneira, nem inclusive sendo grande almirante da frota turca! Não chegarei a admirar o suficiente a serenidad desta mulher!

     Os ginetes tinham prosseguido sua carreira por entre grandes estanques cheios de tallos e folhas podres, que ainda não deviam de ter sido expurgados, a julgar pelos redemoinhos que agitavam as águas cenagosas.

     Numerosas legiones de sanguijuelas deviam de habitá-los, aguardando a que algum cavalo escuálido ou as flaquísimas pernas dos pescadores servissem de pasto a seu voracidad.

     Não tinham passado dez minutos, quando o capitão, que outra vez se tinha posto à frente da expedição, assinalou à duquesa uma soberbia e ampla tenda de seda rosa situada à orla de um amplo lago e em cuja cimeira flutuavam três bichas de cavalo, com uma meia lua que semejaba de prata.

     – Que é? –indagó a jovem.

     –A tenda da sobrinha de Alí-Bajá –respondeu o capitão.

     – Agrada-lhe passar no dia aqui?

     –Em algumas ocasiões, com o fim de vigiar o trabalho dos cristãos e deleitar-se com seus contorsiones.

     – E essa mulher pretende fazer-se amar pelo Leão de Damasco, que é o homem mais cavalheiroso e de maior generosidad do exército turco! –disse a duquesa, com acento despectivo.

     –Ao menos em isso confia.

     – Um leão não será jamais o esposo de uma tigresa!

     –Não tinha pensado em isso –repôs o turco, a quem parecia ter feito mella aquela observação. –Mas se afirma-lo tu, que és amigo de Muley-o-Kadel, me temo que Haradja perca o tempo de uma forma lastimosa. Já chegámos: dispõe-te a saudar à sobrinha de Alí-Bajá.

     Detiveram-se em frente à magnífica tenda, ao redor da qual se alçavam míseras choças vigiadas por uns trinta árabes e guerreiros do Ásia Menor, armados formidavelmente.

     –Acompanha-me, senhor –disse o capitão. –Haradja estará a beber o café e fumando um cibuc, já que está habituada a troçar-se desses edictos de Selim e não sente temor de que lhe cortem os narizes.

     –Apresenta-me –repôs a duquesa, desmontando do cavalo.

     O capitão fez um ademão aos quatro árabes que se achavam de sentinela ante a tenda com as cimitarras desenvainadas, e avançou para a entrada, dizendo:

     – Senhora, aqui há um mensageiro de Muley-o-Kadel!

     – Adiante! –respondeu uma voz que tinha certo timbre metálico e de dureza. – Seja proporcionada generosa hospitalidade aos amigos do nobre e invencible León de Damasco!

     O momento era de extremada emoção e dramatismo. A presença na tenda de Haradja, a sobrinha de Alí-Bajá, podia ser motivo de quem sabe que irremediávels consequências.

     Era o primeiro encontro directo entre as duas mulheres. A muçulmana rodeada de todas suas gentes, defensores do castelo de Hussif; e a cristã camuflados sua beleza e sexo sob o seudónimo e as guerreiras vestiduras do capitão Tormenta.

 

                             A SOBRINHA DE ALÍ-BAJÁ

     Conquanto muito emocionada, a duquesa entrou com decisão na suntuosa tenda, enquanto o capitão, que de improviso se tinha voltado muito solícito, alçava a cortina enquanto lhe fazia uma profunda reverência.

     Uma mulher jovem e bellísima achava-se de pé e com uma mão colocada no respaldo de um divã recamado de ouro.

     Era de alta figura, esbelta, com negros olhos que ressaltavam com viveza sob umas sobrancelhas perfeitamente delineadas, boca pequena com os lábios do vermelho das cerezas maduras, abundantes cabelos que despediam um reflito metálico semelhante ao asa de corvo e a pele suavemente bronceada.

     Seus rasgos faciais tinham em conjunto, apesar de sua pureza quase helénica, algo no duro e enérgico que denotaba à mulher cruel e inflexível, mais habituada a mandar que a acatar ordens.

     Luzia um soberbio vestido turco bordado em ouro, de branca seda calça-las e de cor verde o justillo, com bordes de prata, e cujos botões o constituíam grandes pérolas de um valor extraordinário. No costado levava uma faixa de cor vermelha, cujos flecos penduravam até tocar os escarpins de pele vermelha e enfeitados em ouro. Em seu atavío não mostrava alhajas de nenhuma classe; unicamente, cingida pela faixa de seda vermelha, uma pequena cimitarra de empunhadura de ouro com incrustaciones de zafiros e esmeraldas. A vaina era de prata e os pasadores de nácar.

     Ao ver entrar à duquesa luzindo o típico trouxe de albano, e cujo semblante muito pálido fazia ressaltar ainda mais seus bellísimos olhos e a magnificencia de sua cabellera, a sobrinha do grande almirante, admirada, lançou uma exclamación.

     – Que desejas, efendi? (senhor) –inquiriu.

     –Agora comunicar-to-ei, candindyic (damisela) –respondeu a duquesa, fazendo uma reverência.

     – Candindyic! –exclamou Haradja, sorrindo com ironía. – Este nome é apropriado para as mulheres que habitam nos temrenes dourados e perfumados, mas não para a sobrinha de Alí-Bajá!

     –Sou árabe e não turco –contestou a duquesa.

     – Ah! Assim que és árabe? –perguntou a turca. – São tão guapos como tu todos os jovens de tua terra, efendi? Eu supunha que os árabes eram menos atraentes. Os que pude contemplar nas galeras de meu tio, o grande almirante, não tinham a menor semelhança contigo. Quem és?

     –Sou o filho do bajá de Medina –repôs impasiblemente a duquesa.

     – Ah! –exclamou com um sorriso a sobrinha do bajá. – Continua em Arabia teu pai?

     – Talvez lhe conheces?

     –Não, apesar de que em vários anos de meu ninhez os passei às orlas do mar Vermelho. Já não navego mais que pelo Mediterrãoeo. Quem te envia, efendi?

     –Muley-o-Kadel.

     Um tremor quase imperceptible contraiu o semblante de Haradja.

     – Que deseja de mim? –inquiriu.

     –Manda-me para suplicarte que lhe entregues um de teus cativos cristãos de Nicosia.

     – Um cristão! –exclamou a turca, surpreendida. – A quem?

     –Ao vizconde Gastón Lhe Hussière –replicou a duquesa.

     – Esse francês que lutou pela República de Veneza?

     –Si, senhora.

     – Por que razão o Leão de Damasco tem interesse nesse maldito giaurro?

     –Desconheço-o.

     – Talvez ter-se-á quebrantado sua fé como bom seguidor de Maomé?

     –Parece-me que não.

     – Considero demasiado generoso ao Leão de Damasco!

     – Quererás dizer cavalheiroso!

     –Num turco esse nome não vai muito bem –contestou a sobrinha do bajá. – Que pretenderá fazer com esse homem?

     –Não saber-to-ia dizer. Não obstante, acho que deseja mandar-lhe como embaixador a Veneza.

     – Quem ordenou isso?

     –Mustafá, segundo tenho entendido.

     – Desconhece o grande visir que esse cristão pertence a meu tio?

     –Mustafá, senhora, é o almirante supremo da frota turca e todas suas ordens têm o beneplácito do sultão.

     – A mim que me importa o grande visir! –exclamou, encolhendo-se de ombros, a turca. – Aqui comando eu e não ele!

     – De maneira que te negas, senhora?

     Em lugar de responder, Haradja deu uma palmada. Um par de escravos negros entraram e ajoelharam-se ante ela.

     – Não tendes nada que apresentar a este efendi? –os interrogou, sem olhá-los sequer.

     –Yogur, senhora –contestou um dos escravos.

     – Trazei-o, despreciávels escravos!

     E voltando-se para a duquesa, disse sorrindo com afabilidad:

     –Aqui escasea tudo. Mas no castelo oferecer-te-ei melhor hospitalidade, belo capitão. Confio em que não deixar-nos-ás em seguida.

     E, sentando-se no divã, indagó, adoptando uma atrayente postura:

     – Que faz Muley-o-Kadel no acampamento de Famagusta?

     –Descansa e termina de repor-se de uma ferida que recebeu –informou a duquesa.

     Haradja incorporou-se, igual que uma leoa ferida, e fixou na jovem uma mirada furiosa.

     – Ferido! –exclamou. – Quem lhe feriu?

     –Um capitão cristão.

     – Quando?

     –Faz já dias.

     – Num ataque?

     –Não; num desafio.

     – A ele? Ao invencible León de Damasco! A primeira e mais perigosa espada do exército! Oh, não é possível!

     –O que te digo é verdade, senhora.

     – Por um cristão?

     –Por um jovem capitão.

     – Era talvez um deus da guerra?

     –Pode ser, senhora.

     – Ah! Tivesse-me agradado vê-lo!

     –Tratava-se de um cão cristão, senhora.

     – Já seja cristão ou turco, tem de ser um herói, quase um deus!

     A duquesa sorriu com ironía. As duas mulheres guardaram um breve silêncio.

     Haradja, detida no meio da tenda, manoseaba com nervosismo a empunhadura de sua cimitarra.

     – Vencido! –disse-se. – Ele, o invencible León de Damasco! Assim que há em Chipre um homem mais forte e valoroso que ele? O Leão! Unicamente um tigre poderá ter-lhe derrotado! Quem será? Agradar-me-ia conhecer-lhe!

     –Já te disse que quem feriu a Muley-o-Kadel era um cristão –insistiu a duquesa.

     Haradja fez um movimento de indiferença com os ombros num gesto de despecho.

     –A fé; a cruz ou o islamismo, que lhe interessam a uma mulher? Isso não representa nada para o coração!

     – Talvez estejas no verdadeiro! –conveio a duquesa.

     Haradja alçou a vista, fincando os olhos nela, e depois da ter examinado uns instantes inquiriu de improviso:

     –E tu também és um herói?

     A duquesa, pegada desprevenida por aquela pergunta, permaneceu silenciosa um momento e, ao cabo, repôs:

     –Se em teu castelo, senhora, contas com espadachines de categoria, podes dizer-lhes que se enfrentem contra mim duas contra um e vencê-los-ei quando te plazca.

     – Inclusive a Metiub?

     – Quem é?

     –O melhor espadachín da frota.

     – Que se apresente!

     – Desejas tu, effendi, competir com Muley-o-Kadel? –inquiriu Haradja, surpreendida.

     – Com todos!

     – Mas Muley é amigo teu!

     –É verdade, senhora.

     – Não te enfrentaste nunca a ele?

     –Não.

     –Esta tarde admirar-te-ei na demonstração, effendi. Somente amo aos bravos que sabem vencer e matar.

     –Quando o mandes, senhora, demonstrar-te-ei como combate o filho do bajá de Medina.

     Haradja examinou-lhe de novo dizendo-se para si:

     –« Guapo e audaz! Mais audaz ou mais guapo? Já comprová-lo-emos!»

     Naquele instante, ambos escravos penetraram na tenda portando numa bandeja de ouro dois recipientes de prata com yogur.

     –Por agora, aceita isto, effendi –disse a sobrinha do bajá, – em tanto que eu ordeno preparar meu cavalo. És meu convidado, e no hisar tratar-te-ei melhor. Resulta-me agradável tua companhia e ficarás em alguns dias comigo.

     – E Muley-o-Kadel?

     – Aguardará! –contestou Haradja depreciativamente.

     –Já te indiquei que me ordenou Mustafá levar a Famagusta ao vizconde.

     – Aguardará também! Não estou habituada a receber mandatos de ninguém e menos ainda do sultão! Chipre não pertence a Constantinopla e o Mediterrãoeo não é o Bósforo! Despreciávels escravos, preparai um corcel!

     – Uma pergunta mais, senhora! –interrompeu a duquesa.

     – Fala, efendi!

     – Não ser-me-á possível ver ao vizconde?

     –Não se encontra aqui –respondeu Haradja. –Enviei-lhe a um estanque um pouco afastado, onde me asseguraram que as sanguijuelas são muito abundantes.

     – Encarregaste-lhe a ele as pescar? –inquiriu a duquesa com um gesto de espanto.

     –Não. Somente é o encarregado de dirigir o labor. Mustafá e Muley-o-Kadel não achar-lhe-ão em muito más condições físicas. Esse cavalheiro pareceu-me mais interessante que os demais, ainda que seja um cão cristão. Por outra parte, está em situação de pagar um bom resgate, e para a gente acomodada a sobrinha do bajá guarda certas considerações. Acompanha-me, belo capitão. Está-se mais cómodo no castelo que nestes estanques pestilentes.

     A duquesa contemplou com verdadeira burla a Haradja e respondeu:

     –Quando gostes, senhora: estou preparado. Não há que fazer esperar às damas, como dizem os gentilhombres cristãos.

     A sobrinha do bajá pareceu interessar-se por aquela frase, perguntando:

     – Viajaste pelas nações cristãs?

     –Si, senhora. Meu pai desejou que conhecesse Espanha e a bela Itália.

     – Com que fim?

     –Queria que me perfeccionase no uso das armas.

     – De maneira que se se apresentasse a ocasião serias capaz de te bater com armas rectas?

     –A meu entender são mais práticas que as cimitarras turcas.

     – Bah! –comentou Haradja. –Metiub é um magnífico maestro de armas, e nem a espada italiana, nem a francesa, nem a cimitarra turca lhe atemorizan.

     – Quem sabe, senhora!

     – Confias muito em teu pulso, effendi? Pareces demasiado jovem!

     – E daí importância tem isso? –inquiriu a duquesa. –A maestría e o braço é o que importa e não a juventude.

     –Esta tarde contemplar-te-ei em frente a Metiub, effendi.

     – Não me arredra!

     – À primeira e melhor espada da escuadra não lhe temes?

     –Já mo disseste –respondeu com uma risita a duquesa. – Mediremos nossas armas, senhora, se isso gostas. Tenho desejos de conhecer ao mais experiente espadachín mahometano.

     – Senhora! –interrompeu naquele instante um dos escravos, penetrando na tenda.

     – Está já meu cavalo?

     –Já está preparado.

     –Capitão, a comida aguarda-nos no castelo de Hussif.

     –Tens-me a tuas ordens –contestou a duquesa, inclinando-se. – E o vizconde Lhe Hussière?

     –Amanhã reunir-se-á conosco –respondeu Haradja. – Estou interessada nas sanguijuelas de minhas estanques. É uma grande riqueza que se pode explodir e da que os cristãos não se tinham dado conta. Coisa rara! Qualquer diria que esses pequenos animais sentem preferencia pelo sangue cristão. Será melhor que a mahometana?

     –É possível –conveio a duquesa.

     – Ponhamos-nos em marcha, belo capitão!

     Abandonaram a tenda. Um escravo negro sustentava pelas bridas um corcel árabe alvo magnificamente empenachado.

     –Meu cavalo é de batalha –explicou Haradja. –Mandaram-mo de Gebel Schamar e parece-me mais raudo que nenhum outro dos que há em Chipre. Quero-o mais que pudesse o querer um árabe, e tu, já que o és, conheces melhor que eu que teus compatriotas põem em primeiro termo em seu coração ao cavalo e, em segundo, à mulher. Não é assim, capitão?

     –Si, senhora –concordou a duquesa.

     – Muito raros homens são os árabes! Assegura-se que as mulheres belas não escasean em tua terra. O Profeta devia de ter bom gosto. Ah! Qual é teu nome?

     –Hamid.

     – Que mais?

     –Leonor.

     – Leonor! –exclamou a sobrinha do grande almirante. – Que significado tem esse nome?

     –Não saberia to indicar.

     –Acho que não é árabe nem turco.

     –Igual que eu –contestou a duquesa, com subtil ironía.

     – Não será cristão?

     – Não losé!

     – Leonor! Que raro capricho ou que fantástica imaginación induziria a teu pai a te o pôr? É o mesmo! É formoso e soa bem! Sobe a cavalo, Hamid Leonor. Ao meio dia encontrar-nos-emos no castelo de Hussif.

     A sobrinha do bajá montou sobre a cadeira de seu cavalo de um salto com a agilidad de uma amazona e, soltando as bridas, exclamou:

     – Acompanha-me! Junto a mim, belo capitão, faremos correr a teu escolta!

 

                         OS CAPRICHOS DE HARADJA

     A comitiva iniciou uma desenfrenada carreira. Têm azuzaba a seu corcel com a mão e lançava selvagens gritos.

     Aquela surpreendente mulher parecia emborracharse a velocidade, que talvez lhe recordasse as bordadas de se nas galeras e o furioso assobiar do vento no Mediterrãoeo.

     Nem os movimentos sobresaltados do cavalo nem as sacudidas produziam nela a mais mínima impressão. Se erguida e impertérrita, como se seu corpo fizesse parte corcel.

     Com o semblante excitado, os olhos chispeantes e os cabelos soltos ao vento, espoleaba continuamente seu arreio, exclamando:

     – Azuza teu cavalo, capitão! Um árabe não deve rezagarse jamais!

     A duquesa, magnífica amazona, forçava a sua cabalgadura a realizar extraordinários esforços para seguir à altura de Haradja.

     A expedição ia-se rezagando a cada instante, apesar dos gritos e golpes de espuelas dos ginetes para excitar aos cansados cavalos.

     Somente o capitão turco e Perpignano conseguiam dar alcance em algumas ocasiões às mulheres.

     Aquele endemoniado galope prolongou-se durante vinte minutos, e não se interrompeu até que atingiram a plataforma do castelo.

     A duquesa deteve, com um firme tirón, a seu corcel, e desmontando aproximou-se até Haradja para ajudá-la. Mas esta a repelió com um enérgico ademão.

     – A sobrinha de Alí-Bajá –exclamou –baixa e sobe do cavalo de um salto sem precisar escuderos nem soldados!

     E, contemplando com incitante sorriso à duquesa, agregou, logo de ter baixado ao solo sem apoiar-se nos estribos:

     –És convidado de meu castelo, gentil capitão, e teus desejos vão ser para mim ordens.

     –Tentarei, senhora, não abusar de tua hospitalidade.

     –Pois ordeno-te que abuses –respondeu Haradja.

     –Em tal caso, já não serei eu quem mande –contestou com um sorriso a duquesa.

     A sobrinha do bajá permaneceu silenciosa durante uns segundos, como reflexionando na resposta e acrescentou, rindo:

     –Estás no verdadeiro, capitão; já começava eu a dar ordens. É um mau hábito. Mas que se lhe vai a fazer! Estou habituada a mandar sempre, não a ser mandada. Acompanha-me: a comida está preparada, já que ouço ao muezzin cantar a prece do meio dia.

     E, fazendo um ademão com mano-a direita e encolhendo-se imperceptivelmente de ombros, acrescentou a meia voz:

     – O Profeta conformar-se-á com a prece de seu sacerdote! Deus é grande e por hoje disculpará que não lhe oremos!

     « Que género de mulher é esta? –disse-se a duquesa. – Fera com os cristãos porque não são mahometanos, se rri de Alá e de seu profeta. Será um enigma? Está-te alerta, Capitão Tormenta!».

     Haradja deixou ao cuidado dos escravos os corceles, encarregou-lhes que atendessem à comitiva e, tomando com familiaridad da mão à duquesa, penetrou com ela num amplo salão, a cuja porta se achavam de guarda dois escravos.

     – Está preparada a comida? –inquiriu Haradja.

     –Si, senhora –responderam, fazendo uma profunda reverência.

     O salão encontrava-se amueblado com elegancia, mas também com singeleza, sem grandes muebles pesados, dos que naquele tempo se empregavam.

     Uns quantos divãs de seda, numerosos tapices e tapetes recamados em ouro e prata, mesitas pequenas nos rincões e artísticas panoplias de armas de todos os países: desde os arcabuces longos e pesados árabes até a liviana e reluzente espada francesa.

   No meio da estadia tinha uma mesa posta com elegancia, com mantel de seda floreada, platos de prata extraordinariamente cincelados e vasos e jarras de cristal de Murano.

     –Sinta-te, gentil capitão –indicou Haradja, colocando-se comodamente sobre uma poltrona de brocado. –Efectuaremos a sozinhas a colación e assim poderemos conversar sem que nos molestem. Não te inquietes, effendi, pelos de tua comitiva. Serão magnificamente atendidos e não poder-se-ão queixar da hospitalidade do castelo de Hussif. Disponho de muito bons cocineros e mandam-me o melhor de Constantinopla e das ilhas. Ah! Por verdadeiro: chegaste numa boa ocasião! Farei que disponham peixes milagrosos de Balouskla.

     – De Balouskla? –inquiriu a duquesa. – De que peixes se trata?

     – Como? Talvez não sabes nada com respeito à lenda?

     –Não conheço nem uma palavra, senhora.

     –Explicar-ta-ei enquanto os paladeemos, effendi.

     « Que estranha criatura!», disse para si a duquesa.

     Haradja tomou um platillo de prata e deu um golpe num sino de ouro. Quatro escravos negros foram levando platos de prata com pastelillos, doces perfumados com esencias, dos que tanto gostavam naquela época às mulheres mahometanas.

     –Servirão para abrir-te o apetito –indicou Haradja à duquesa. –Os célebres pescados virão depois.

     A jovem duquesa pegou alguns e os elogiou em extremo. Depois penetraram um par de escravos levando num plato de ouro uma dúzia de peixes de douradas escamas, que, coisa estranha!, tinham uma longa mancha negra no costado direito.

     –Tenho aqui um plato estranho que me agrada te oferecer, effendi. O mesmo Selim não deve do comer muito com freqüência, devido a seu elevado preço. Estes peixes resultam difíceis de pescar no meio do lodo dos lagos da abadia de Balouskla.

     –Uma abadia que desconheço, já que não combati jamais fosse de Arabia e do Ásia Menor.

     –Prova-os primeiro –disse Haradja.

     A duquesa tomou um.

     – Deliciosos, senhora! –comentou. – No mar Vermelho jamais vi pescado tão extraordinário!

   – Crio-o! Os monges não os vendem a todo mundo. Gostam mais comer-lhos deles mesmos –contestou Haradja, sorrindo. – Agora adivinho por que razão os vendem a tão alto preço. Não obstante não me importa o dinheiro gastado, já que se trata de te apresentar um plato digno do sultão de Constantinopla. Podes crer-me se asseguro-te que estes peixes saltaram sozinhos num dia dentro da sartén?

     – Estes peixes! –exclamou a duquesa.

     –Seus avôs –informou Haradja.

     – É possível o que me explicas, senhora?

     –Trata-se de uma história real, effendi. Afirma-se que Mohamed II, nosso grande sultão, tinha resolvido tomar Constantinopla num dia decidido de antemão.

     –O vinte e nove de maio de mil quatrocentos cinquenta e três –corroboró a duquesa.

     –Conheces muito bem a data. Tens muita instrução?

     –Muito pouca, senhora; te suplico que prossigas.

     –Bem. Já que conheces o que sucedeu em épocas passadas, não desconhecerás que os gregos de Constantino XVI, que tinha de ser o último dos Paleólogos, organizou uma vigorosa defesa depois de ter efectuado pública penitência na igreja de Santa Sofía.

     –Si. Ouvi-lho explicar aos velhos que tinham a missão de me instruir –disse a duquesa.

     –O exército de Mohamed, que tinha jurado tomar acima de todo a antiga Bizancio e converter a igreja de Santa Sofía na mais magnífica mesquita de Oriente, ao assomar o alva se precipitou ferozmente ao ataque, conquistando com valentia mais que sobrehumana os fortes, pese à desesperada resistência oposta pelos guerreiros do Paleólogo; por último, os gregos, aniquilados pelas armas de nossos invencibles soldados, que avançavam de contínuo, desprezando o furacão de setas que sobre eles se abatia, mandaram a um guerreiro para prevenir aos conventos a queda da cidade. Num daqueles, denominado o convento de Balouskla, estavam guisando uns pescados de uma classe especial, muito apreciados pela exquisitez de sua carne e que os monges criavam em determinada pecera. O cocinero, que se preparava a sacar uns quantos da sartén, cheia de azeite hirviendo, ao escutar a nova levada pelo guerreiro se encolheu de ombros, não lhe parecendo possível que os mahometanos tivessem conseguido conquistar a cidade, exclamando: « Se o que dizeis é verdade, desejaria ver estes peixes, já fritos, saltar ao solo e se mover! De outra maneira, não crerei nas palavras deste homem!». Nada mais tinha dito aquelas palavras, quando, entre a estupefacción de todos os presentes, se viu como aqueles peixes revivían e começavam a se mexer no solo. A notícia daquele milagre não demorou em ser notificada a Mohamed, quem, imaginando ver em isso um indício do poder do Profeta, mandou que se recolhessem aqueles pescados e os encontrando ainda com vida fez que os guardassem numa vitrina de seu palácio.

     – E estes descerão daqueles? –inquiriu a duquesa.

     –Si, effendi. Examina-os bem e comprovarás como têm uma mancha negra no costado esquerdo.

     –Virá a ser como sua marca de fábrica.

     – Pensas que o milagre tenha acontecido?

     –Tenho certas dúvidas, senhora.

     –Eu também não o crio –conveio Haradja, rindo alegremente. –O Profeta devia de ter naquele dia outras coisas que levar a cabo para se ocupar dos peixes do convento de Balouskla. De todas formas, não podes negar que são magníficos.

     – Deliciosos! –respondeu a duquesa, que contemplava cada vez com maior interesse àquela mulher, que, coisa rara numa turca, se permitia duvidar de algo relacionado com o Profeta.

     Àqueles pescados seguiram outros manjares, todos servidos em fontes de ouro ou prata, e frutas extraordinárias de Egipto e Trípoli. Depois um escravo levou-lhes autêntico moka, que a duquesa apreciou em grande maneira, já que o café naquele tempo só podiam o tomar os nobres e poderosos senhores turcos, o pagando quase a preço de ouro. Haradja, que não tinha deixado de conversar animadamente, depois que a mesa teve sido levantada, mandou trazer um magnífico e pequeno cofre de prata, e sacando dele um par de rollitos brancos, convidou com um deles à duquesa.

     – Que são? –inquiriu esta, os examinando com interesse.

     –Fumam-se, já que sob esta envoltura branca há fumo. Não os viste jamais em teu país, effendi?

     –Não, senhora.

     – Não fumam em Arabia?

     –Si. Há quem fumam em narguilé, mas a escondidas, para não se arriscar a que lhes cortem os lábios ou o nariz. Já estás inteirada de que Selim proibiu o uso do fumo e decretado muito severas ordens contra os que fumam.

     Haradja lançou uma gargalhada.

     – Imaginas que me atemoriza Selim? Ele se encontra em Constantinopla e eu aqui. Que envie a seus juízes a me condenar e verá de que forma os trato! Tenho paus colocados no alto das torres, e essa gente poderia servir-me magníficamente como veletas. Fuma tranquilamente, gentil capitão! Acharás grande satisfação em embriagarte com esta fumaça extraordinária e perfumado!

     Uma vez acendido o cigarro, dos primeiros que naquele tempo se elaboravam, aspirou uma bocanada de fumaça, e prosseguiu:

     – Selim! Um sultão indolente que para eludir o cansaço se faz levar em liteira por entre os jardins de seu serrallo e que não tem mais fortaleza que a precisa para ordenar de contínuo crueldades, com as que satisfaz às formosas do harén! Oh! Possivelmente não se parece a Mohamed II nem a Solimão. Se não contasse com dois grandes comandantes como Mustafá e meu tio Alí, Chipre continuaria ainda em poder dos venezianos, e as galeras da República ameaçariam talvez de novo Constantinopla.

     –Não obstante, ouvi explicar, senhora, que a ti também não te desagrada te mostrar cruel.

     –Eu sou uma mulher, effendi.

     –Não te entendo –respondeu a duquesa.

     – Que é o que fazem em Arabia vossas mulheres?

     –Preocupam-se de preparar a comida para o marido e em cuidar da tenda e dos camelos.

     – Si que têm entretenimentos! –comentou Haradja, que continuava fumando com parcimónia.

     –Não obstante, assim é, senhora.

     –E as mulheres turcas, que entretenimentos têm?

     Encerradas em seus harenes, apartadas do rumor da cidade, como se estivessem enterradas vivas, não demoram em hastiarse dos perfumes, dos dances, das escravas e dos contos das velhas. Uma intensa tristeza invade-as, ao mesmo tempo que se apodera delas um vivísimo anseio de profundas emoções apesar de que sejam crueis. Experimentam então a necessidade de ver padecer a seres humanos, sonham com sangue e destrozos e voltam-se pensativas. Minha juventude decorreu no harén de meu tio. Poderia ser diferente às outras mulheres turcas? Afinal de contas todas as mulheres são parecidas, já sejam turcas ou cristãs.

     – Oh! –exclamou a duquesa, fazendo um ademão de protesto.

     –Ouve-me, effendi. Certa tarde uma jovem e formosa cristã que mal tinha cumprido dezasseis anos jugaba numa praia do Mediterrãoeo, em união de uma de suas ayas. Pouco momento depois surgiram da escollera próxima, com a rapidez de gacelas, uns piratas turcos, quem, enfrentando as setas dos sentinelas do próximo castelo, mataram ao aya e raptaron à jovem. Esta não era turca, senão cristã e de nobre família italiana. Sem atender a seus lágrimas e súplicas, conduziram-na a Constantinopla, oferecendo-a em qualidade de escrava aos provedores do sultão. Solimão encontrou-a muito bela e converteu-a em sua esposa favorita. A jovem abandonou sua religião, esqueceu a sua pátria e a seu pai, que talvez a chorava ainda, e cedo se apoderou dela esse aburrimiento profundo, que não é uma doença única nas mulheres turcas. Aquela cristã transformou-se num monstro de perversión. As favoritas de seu marido, amo e senhor ao mesmo tempo, resultaram estranguladas por mandato seu e arrojadas de noite ao Bósforo; os próprios filhos de Solimão tiveram de sofrer seu cólera, já que ordenou que fossem lanzados ao mar Negro no interior de um saco de pele e em união de um gato e um galo, com o fim de que sua agonia fora mais trágica. Que mais? Sorrindo mandou descuartizar à filha maior do sultão e rindo pretendeu assassinar ao jovem herdeiro do trono apresentando-lhe um plato de fruta envenenada. Que era aquela mulher? Turca ou cristã? Contesta-me, effendi.

     – Qual era seu nome?

     –Kourremsultana.

     –Que quer dizer Roxelana.

   –Si. Também a denominavam desta maneira –concordou Haradja.

     –Talvez o ar que se respira no Bósforo a tinha tornado louca –repôs a duquesa.

     –É possível. Mas... ah...!

     – Que sucede, senhora?

     –Recordei uma coisa bastante interessante.

     – Qual?

     –Tu és amigo do Leão de Damasco.

     –Já to disse.

     –E agregaste que esse soberbio guerreiro não te tivesse espantado. Não é verdade, effendi?

     –Isso considero –contestou a duquesa, que estava alerta, não acabando de entender onde pensava ir parar aquela surpreendente criatura.

     –Escuta, effendi. Em algumas ocasiões, logo de ter comido, invade-me esse incomodo sanguinario que sofria Kourremsultana. Eu sou turca e, portanto, é mais lógico em mim que naquela sultana.

     –Não te entendo, senhora –disse a duquesa.

     –Desejo ver-te, effendi, combater com o capitão Metiub, que se aprecia de ser a melhor espada da escuadra de meu tío.

     –Se assim o desejas, senhora... –respondeu a duquesa, arrugando o entrecejo. E para seu fuero interno disse-se: « Algo cara me faz pagar a comida esta mulher! Talvez precisará um morto para lhe abrir o apetito para a hora do jantar?»

     Haradja tinha-se incorporado e, aproximando-se a uma panoplia cheia de armas, disse:

     –Fixa-te, effendi: aqui encontram-se todas as armas que um guerreiro pode almejar: cimitarras, yataganes, kangiars persas, folhas rectas de França e de Itália e punhales. Meu capitão sabe-as utilizar todas. De maneira que podes escolher a que mais te convenha.

     –Para provar a habilidade de um espadachín, a melhor espada é a que tem a folha recta –alegou a duquesa.

     –Metiub usa igual a cimitarra que a espada –disse Haradja.

     Mas como se se sentisse arrependida do combate que ia suscitar, se dirigiu para a duquesa e, a examinando com firmeza, acrescentou:

     –Gentil capitão, responde-me lealmente: confias em ti? Desagradar-me-ia muito ver-te cair a meus pés moribundo, sendo tão guapo e tão jovem!

     – Hamid Leonor não se assusta de ninguém! –repôs a duquesa, com arrogância. – Faz vir a teu capitão de armas!

     Haradja deu um golpe no gong de bronze com seu martelo de prata e, voltando-se para o escravo que apareceu, lhe disse com frio acento:

     –Anuncia ao capitão Metiub que lhe aguardo aqui para lhe ver se jogar a vida.

 

                         CRISTÃ EM FRENTE A TURCO

     Ao pouco momento o capitão turco, que era o mesmo que guiou à duquesa e a seus acompanhantes até os estanques, penetrava no salão com certo aspecto de despreocupación, perguntando:

     – Chamavas-me, senhora?

     –Si, te preciso –repôs Haradja, acendendo um segundo cigarro e recostãodose com indolencia num divã, – Estou aburrida!

     – Inclusive na companhia deste jovem guerreiro? –inquiriu o turco, com gesto irônico. – Que posso fazer para entretenerte, senhora? Desejas que equipe uma chalupa para realizar uma excursión pelo mar?

     – Não!

     – Desejas que faça dançar a fustazos a teus escravos?

     – Já não me agrada isso!

     – Desejas que os luchadores índios se rasguem a pele a golpes de nuki-kokusti?

     –Talvez depois.

     –Em tal caso, explica-te, senhora.

     –Quero cerciorarme de que continuas sendo o melhor espadachín da frota.

     –Seria preciso que me fizesses enfrentar ao Leão de Damasco, que asseguram é a mais formidável espada do exército. Desejas que lhe faça chamar, senhora?

     – Acha-se a muita distância e não iria por mim!

     – Pelo Profeta! Queres que combata contra as muralhas? Se isso pode te divertir, de acordo! Partirei uma veintena de aços elegidos entre melhore-los.

     –Aqui há algum que dar-te-á trabalho, Metiub –indicou Haradja.

     – Quem? –inquiriu o turco olhando em torno seu, surpreendido.

     Com um ademão assinalou Haradja à duquesa, que seguia sentada, como se o assunto não se referisse a ela.

     O turco fez um gesto colérico.

     – É a esse rapaz a quem queres enfrentar-me? –inquiriu, iracundo.

     – Eu «um rapaz»? –exclamou a duquesa, com acento irônico. – Ao que parece, capitão, não recordas que sou filho do bajá de Medina!

     – É verdade, effendi! –disse o turco. –Mas considero que Haradja devesse ter escolhido outro rival mais forte para se enfrentar a mim.

     –Ainda não o comprovaste, capitão.

     O turco voltou-se para Haradja, a qual seguia fumando.

     – Desejas sua morte? –inquiriu. –Tens de pensar que, já que se trata do filho de uma personagem notável, pudesses ter algum desgosto com Mustafá.

     –Não te solicitei conselho de nenhum género –repôs a sobrinha do almirante. – Faz o que te mando e nada mais.

     –Matarei ao effendi ao primeiro assalto.

     –Não te exijo tanto –contestou Haradja. – A ti te corresponde, capitão, eleger o arma que mais te convenha.

     Enquanto a duquesa dirigia-se a uma das panoplias que enfeitavam o salão, Haradja chamou com acento enérgico ao turco.

     – Que desejas, senhora? –inquiriu Metiub, que parecia muito enojado.

     – Tem cuidado! Somente uma gota de sangue! Se matas-lhe, não verás de novo a luz amanhã!

     Metiub inclinou a cabeça e, reprimindo a ira, apartou a mesa para ter mais espaço.

     Enquanto a duquesa tinha escolhido três espadas italianas, longas e rectas, com sólida guarda, e dedicava-se a prová-las, dobrando-as. Não parecia inquieta e pensava com um sorriso:

     « Isto talvez fará fracassar a liberdade de Lhe Hussière! Um bom golpe e tudo ficará solucionado! Não pode ser que este turco conheça aquela estocada secreta da escola napolitana que me ensinou meu pai! Apesar de que se cubra atingir-lhe-ei de abaixo para acima!»

     Ao voltar ao centro da habitação, o turco tinha também espadas italianas, conquanto tivesse preferido pegar a cimitarra.

     –Estranha-me, effendi –disse-lhe, –que tu, sendo árabe, saibas utilizar estas armas que somente sabem usar os cristãos.

     –Comunicar-te-ei, capitão, que meu maestro de esgrima era um renegado cristão –repôs a duquesa. – Com estas armas, melhor que com as cimitarras, se demonstra a maestría dos espadachines. Por outra parte, um capitão valoroso deve saber utilizar qualquer tipo de armas, inclusive as dos giaurri.

     – Expressas-te melhor que o Profeta, effendi! –comentou Haradja. – De ser eu Selim, nomear-te-ia maestro de armas do serrallo!

     A duquesa, a quem a turca parecia-lhe um tanto exigente e antojadiza, esboçou um ligeiro sorriso.

     – Estás preparado, Metiub? –inquiriu a sobrinha do bajá.

     –Si –repôs este, provando sua espada. – Aqui há um aço que tem sede de sangue! Quando te plazca, effendi!

     A duquesa pôs-se no meio do salão, exclamando com tom zombador:

     – Também a espada do filho do bajá de Medina se lamenta de ter estado demasiado tempo inactiva!

     – Quererias algumas gotas de meu sangue? –inquiriu, com acento zombador, Metiub.

     – É possível!

     –Confio em que por enquanto não conseguirás teu desejo e que tua espada se enmohecerá na panoplia. Estás já preparado, effendi?

     Em lugar de responder, a duquesa pôs-se em guarda, pondo ao descoberto o corpo com uma parada em segunda.

     – Ah! Ah! –exclamou o turco. – Assegurar-se-ia, effendi, que estás muito seguro de teu maestría! Tenho aqui uma guarda que eu, mestre, não empregaria jamais com um adversário cuja força não conheço! Descobres-te em excesso!

     – Não te inquietes por mim! –respondeu a duquesa. – Não tenho por norma conversar com o que me faz frente!

     – Em tal caso, para esta, effendi! –disse encolerizado o turco, lançando-se a fundo.

     Sem recuar nem um passo, a duquesa deteve com não menor celeridad, sem chegar à pele.

     Metiub lançou uma exclamação de surpresa.

     – Pelo Profeta! –exclamou, – Este rapaz será algo excepcional!

     Haradja, com não menos assombro, se incorporou e arrojou o cigarro.

     – Metiub! –disse. – Acho que achaste quem pode competir contigo! Faz pouco tempo afirmavas que teu rival era um menino!

     O turco lançou um bramido.

     – Matar-lhe-ei de aqui a pouco! –contestou com voz encolerizada. – Se me...!

     Um gesto ameaçador de Haradja interrompeu-lhe.

     – Lembra-te do dito! –advertiu-lhe. – Adiante, gentil capitão! Vales tanto como o Leão de Damasco!

     A duquesa pôs-se em guarda, atacando ao turco com um assalto em tercia. Ficou imóvel por um instante e atacou ao invés com tal energia que lhe fez retroceder.

     – Muito bem, effendi! –exclamou Haradja, examinando com olhos excitados à duquesa. – Muito bem, gentil capitão!

     Metiub, no entanto, não era homem que se deixasse derrotar com singeleza e retomou o ataque com feroz violência.

     Por espaço de dois ou três minutos combateram os dois demonstrando seu maestría, até que finalmente a duquesa teve de retroceder.

     – Ah! Já estás vencido, effendi! –exclamou o turco, dispondo-se a atacá-la.

     Haradja tinha-se voltado pálida e já alçava a mão para conter ao turco, quando observou como a duquesa se dobrava com rapidez para o solo enquanto afirmava o pé esquerdo.

     Metiub atirava-se naquele instante a fundo, lançando uma furiosa exclamação.

     A espada da duquesa brilhou embaixo do peito de seu rival, enquanto todo o corpo da experiente tiradora tomava uma posição quase horizontal, apoiando a mão esquerda no solo.

     – Cuidado, Metiub! Detém esse golpe! –gritou a jovem.

     Metiub lançou uma exclamação de dor. A ponta do arma tinha-lhe penetrado no peito, conquanto não profundamente, já que a duquesa tinha medido adequadamente a espada.

     – Atingido, Metiub! –exclamou Haradja, dando palmadas. – Como luta este gentil capitão!

     O turco alongou sua espada para tomar imediata represália, mas a duquesa já se tinha incorporado. Por meio de uma parada em quarta baixou a espada de Metiub, fazendo-lhe que a soltasse.

     – Pede perdão! –disse a jovem, colocando-lhe a ponta do arma no pescoço.

     – Não! Mata-me!

     – Mata-lhe, effendi! –indicou Haradja. –A vida desse homem é tua.

     Em lugar de avançar, a duquesa jogou-se uns passos para atrás e, arrojando a espada, disse:

     – Não! Hamid Leonor não tem costume de matar aos vencidos!

     –Não estou ferido de gravidade, effendi –disse o turco. –Se consentes-mo, poderei tomar represália.

     – Não o consento! –exclamou Haradja. – Já está bem!

     E, logo de ter examinado à duquesa, musitó:

     – Guapo, forte e generoso! Esse jovem vale mais que o Leão de Damasco!

     E, aproximando-se a Metiub, disse-lhe, indicando a porta:

     – Vê a que te curem!

     – Faz que me matem, senhora!

     –Continuas sendo um valente –repôs Haradja. –Continuarás sendo o melhor espadachín da frota e homens como tu nos são muito necessários.

     O turco baixou a cabeça e abandonou a estadia, tentando restanhar o sangue com a mão, que já manchava suas roupas.

     – Quem te ensinou a empregar a espada com tanta habilidade? –indagó Haradja à duquesa, quando se encontraram a sozinhas.

     –Já te disse: um renegado cristão que servia a meu pai.

     – Que deveste pensar de meu estrafalaria ideia de te fazer combater com Metiub? –interrogou Haradja.

     – Bah, nada! Um singelo capricho de mulher turca! –repôs concisamente a duquesa.

     –Um capricho de mulher aburrida, mas que talvez te tivesse costado a vida. Poder-me-ás disculpar, effendi?

     – Quatro estocadas! Não valem a pena, senhora!

     Depois de um instante de silêncio comentou Haradja:

     –Meu incomodo desvaneceu-se; agora me corresponde a mim entretenerte. Desçamos ao pátio de armas. Meus luchadores índios encontram-se já dispostos, e aguardam.

     – Tens escravos índios?

     –Entregou-mos meu tio para que não me aburriera em excesso em Hussif. Acompanhas-me, bravo capitão?

     Desceram pela escada e atingiram o pátio de armas, em cujos pórticos tinham-se improvisado uns estrados. Neles tinham ocupado já seu correspondente lugar os acompanhantes da duquesa e alguns oficiais da guarnición, enquanto as terrazas superiores se enchiam de escravos, deseosos de ser testemunhas daquele espectáculo.

     No meio do pátio, cujas pedras se achavam cobertas de areia, um par de homens de bronceada pele, com a cabeça barbeada por completo, constituição hercúlea e cobertos com um singelo sayal de seda branca, estavam detidos um adiante do outro e em arrogante posição.

     Em mano-a direita tinham firmemente apertados raros objectos que cobriam seus dedos e que se achavam provistos de pontas de ferro.

     Haradja levou à duquesa para dois cómodos divãs situados sobre um soberbio tapete persa, e extraindo de uma bolsita uma sarta de pérolas de muito valor, lançou-a a uns passos adiante de si, comentando:

     –Este é o obsequio que aguarda ao que triunfe.

     Ambos luchadores tinham esticado o pescoço, fincando uma mirada naquela jóia, que para eles representava uma fortuna.

     – Como brigarão esses homens? –inquiriu a duquesa, que não acertava ao compreender.

     – Não distingues, effendi, o que têm na mão?

     –Pontas de ferro.

     –O nuki-kokusti dos luchadores índios –repôs Haradja. – São armas horríveis, que rasgam as carnes e em ocasiões produzem a morte.

     –E tu, senhora, os pensas deixar morrer?

     – Talvez não lhes pago para que me entretengan? –respondeu Haradja. – Meu tio não mos tem entregado para que os tenha sem fazer nada! – Considero-o uma crueldade!

     A sobrinha do grande almirante fez um gesto de indiferença com os ombros, alegando:

     – São infiéis!

     E sem aguardar mais observações, deu uma palmada, enquanto os espectadores deixavam instantaneamente de falar.

     Os dois índios, que se tinham situado em frente a frente, prorrumpieron num grito agudísimo, selvagem. Possivelmente era seu grito de guerra.

     Haradja inclinou-se para não perder nem um detalhe daquela sangrenta cena. Seu semblante achava-se acendido e seus olhos despediam intenso brilho.

     Depois de ter lançado aquele grito, os dois índios apartaram-se uns quantos passos e se arrojaram um sobre outro se protegendo o peito com o braço esquerdo, para defender ao menos o coração contra os golpes de seu contrincante.

     Aquilo, não obstante, não era senão uma finta para provar sua força e agilidad.

     Apartaram-se de novo, executaram um par ou três de saltos para proporcionar elasticidad a seus músculos e, por último, iniciaram um terrível combate.

     Eram, emMas, dignos adversários, a julgar pela celeridad com que evitavam os golpes.

     Haradja estimulava-os com suas exclamações:

     – Assim! Muito bem! Mais! De firme, valentes!

     Os dois índios eludiam o ser atingidos pelas pontas de ferro. Brincaban a direita e esquerda, ou bem para atrás, rehuyendo os golpes e se dobravam de improviso e se levantavam depois igual que se fossem de borracha.

     Os espectadores contemplavam com atenção os movimentos de ambos combatentes.

     Inclusive a duquesa, a sua pesar, achava-se interessada naquele estranho duelo, não conhecido por ela.

     Por um quarto de hora os dois índios estiveram à recíproca até que começaram a se golpear furiosamente.

     Não tinham decorrido cinco segundos, quando um deles se veio pesadamente a terra. O punho de ferro de seu contrincante tinha-lhe atingido no meio do crãoeo e as pontas penetraram profundamente na cabeça, matando-lhe ao instante.

     O triunfador colocou-se em pé sobre o caído e prorrumpió por terceira vez num grito de guerra. Não obstante não tinha saído indemne daquele feroz combate.

     A pele da frente pendurava-lhe feita jirones, seu braço esquerdo achava-se coberto de sangue e tinha uma grande ferida no peito.

     – Pega as pérolas! –indicou Haradja. – Ganhaste-as, e proclamo-te valente!

     O índio, sorrindo, tomou a jóia e, depois de contemplar durante um bom momento ao morto, contra quem não tinha sentido nenhum ódio, se afastou com lento passo, deixando depois de de si um reguero de sangue.

     – Passaste-o bem, efendi? –interrogou Haradja, dirigindo-se à duquesa.

     Leonor guardou silêncio durante um instante.

     –Agrada-me mais a guerra –contestou, mexendo a cabeça. –Pelo menos ali enfrentam-se pessoas de outra raça, diferente religião e que não se conheceram jamais.

     –Sou uma mulher, e por agora não posso o fazer –respondeu Haradja. –Também a mim me agrada mais ser testemunha de um abordaje. Mas aqui, encerrada neste castelo, que quierês que faça, effendi?

     – Estás no verdadeiro! –conveio a duquesa, que não sabia nunca que responder.

     –Vêem, effendi, não quero te apresentar outros espectáculos, já que não gostas. Passearemos pela terraza do castelo e assim fá-te-ás uma ideia de como é a fortaleza e a rocha, cuja conquista resultou longa e difícil.

     –Estou a tuas ordens, senhora.

     A turca fez um ademão de impaciência.

     – Senhora, continuamente senhora! –exclamou quase com ira. –Não és, effendi, um singelo soldado, senão o filho de um bajá. Chama-me simplesmente Haradja!

     –Como desejes –respondeu a duquesa, com um sorriso enigmático.

     – Acompanha-me!

     Abandonaram o pátio de armas e subiram de novo a escalinata até a terraza que se estendia depois de de o castelo. A turca penetrou numa das torres, convidando à duquesa a que a acompanhasse.

     –Desde este ponto –anunciou –desfrutaremos de um magnífico panorama e poderemos conversar sem que nos ouçam.

     Iniciaram a subida por uma estreita escada, pela que deviam ir uma por trás de outra, e depois de uma fatigosa ascensión atingiram a terraza superior, cercada por sólidas aspilleras, nas quais estavam emplazadas duas culebrinas que tinham gravado o Leão de São Marcos.

     –Fixa-te, effendi –disse Haradja. –Domina-se tanto o campo como o mar. Desde as torres do harén do sultão não se distingue tanta terra.

 

                         HISTÓRIA SANGRENTA

     Um soberbio panorama apresentou-se aos olhos da duquesa desde aquela torre, que era a mais elevada do castelo.

     Em direcção a poente via-se o Mediterrãoeo, azul e límpido como um espelho; para levante e septentrión, a escabrosa e pintoresca costa da ilha, com pequenhísimos promontórios e longas fileiras de escollos que recordavam os célebres fiordos de Noruega; por oriente estendia-se a verde planície limitada ao horizonte, por uma corrente montanhosa de alta elevação. Numa das baías, a duquesa viu a goleta e a carabela ancoradas a breve distância uma de outra.

     – É aquele teu navio, effendi? –inquiriu Haradja ao distinguí-las.

     –Si, senhora.

     – Já te disse que Haradja!

     –Si, Haradja.

     – Que bem soa este nome! –exclamou a turca, passando a mão pela frente, como se pretendesse afugentar uma ideia impertinente.

     Contemplou à duquesa com firmeza e agregou:

     – Te urge muito marchar?

     –Desejo levar em seguida a Lhe Hussière ante o Leão de Damasco. Mustafá poderia enojar-se com meu atraso.

     – Ah! É verdade! Vieste pelo cristão! –repôs a turca. –Já quase nem lhe recordava. E se enviássemos-lhe vigiado por Metiub? Penso que viria a ser o mesmo.

     –Já conheces, Haradja, que Mustafá deseja ser obedecido. E se não conduzisse eu ao vizconde, poderia provocar seu cólera e cair em desgraça.

     – Tu não és um simples capitão! És o filho de um bajá!

     –Meu pai deu-me ordem de obedecer ao grande visir, o qual me outorgou sua protecção.

     Haradja se acodó no parapeto e contemplou com firmeza a grande extensão do mar.

     Também a duquesa permanecia em silêncio, tentando adivinhar o pensamento daquela estranha mulher.

     Decorrido um momento, a turca voltou-se de improviso para a duquesa. Seus olhos estavam brilhantes por causa da cólera e seu cenho franzido.

     – Te amedrentaría, Hamid, enfrentar-te ao Leão de Damasco? –inquiriu em tom selvagem, que denotaba um ataque intenso de ira.

     – Que pretendes dar a entender, Haradja? –disse a duquesa com estupor.

     – Contesta a minha pergunta! Serias capaz de enfrentar-te num duelo ao Leão de Damasco?

     – Parece-me que si!

     – É muito amigo teu?

     –Si, Haradja.

     – Que importância tem isso! As mais firmes amizades rompem-se e não seria a primeira ocasião em que dois colegas, bem por uma coisa insignificante ou por assuntos amorosos, se convertessem em mortais inimigos!

     –Não te entendo, Haradja –respondeu a duquesa, impressionada pelo acento iracundo da turca.

     –Compreender-me-ás melhor esta noite, quando tenhamos cenado, gentil capitão. A liberdade do cristão encontra-se em minhas mãos. E se Mustafá deseja privar-me dos cativos de meu tio, terá de combater comigo. Que vinga a me atacar se tem valor! O bajá talvez valha mais que o grande visir e a frota mais que o exército! Que o tente!

     Haradja achava-se erguida com os braços cruzados sobre o peito, com os olhos llameantes e estremecendo-se por causa da ira.

     – Que o tente! –insistiu com voz silbante.

     E variando de improviso de tom acrescentou, sorrindo de novo com alegria:

     – Vêem, gentil capitão! Falaremos outra vez após o jantar! Minhas tormentas são semelhantes às do Mediterrãoeo! Curtas mas tremendas, e apaziguam-se ao momento! Dêmos uma vuelta pela terraza. Mostrar-te-ei em que lugar as galeras de meu tio abordaram a costa.

     Todo indício de cólera se tinha desvanecido do semblante da turca. Jogou uma última olhadela ao mar, que começava a adquirir uma tonalidad rojiza sob o efeito dos raios do sol de poente e bajou a escalerilla da torre, chegando às terrazas que rodeavam o castelo, protegidas por sólidas almenas, a maior parte deles deterioradas.

     Numerosas culebrinas, quase todas venezanas, se encontravam ainda com a boca enfocada em direcção ao mar e outras para a planície, e a tudo o longo do parapeto se viam altos montículos de proyectiles de ferro e de pedra.

     Haradja fez percorrer à duquesa a maior parte da terraza e ficou imóvel adiante de uma torre quadrada, que semejaba ter sido hendida em toda sua altura pela colosal maça de algum titão.

     –Por este lado os marinheiros do grande almirante penetraram no castelo –comentou. – Eu me encontrava na galera e pude contemplar a luta.

     – Ah! –exclamou a duquesa. – Também tu estavas ali, Haradja?

     –A sobrinha do grande almirante não podia estar imóvel entre os muros de um harén. Eu era quem estava à frente daquela galera.

     – Tu?

     – Surpreendes-te, effendi?

     – Sabes conduzir um navio?

     –Igual que qualquer outro piloto do bajá –repôs a turca. – Pensas que não realizei correrias pelo Mediterrãoeo? Tenho apresado não poucas naves cristãs e me precipitei ao abordaje com meus guerreiros. Não há dúvida de que desconheces, effendi, que meu pai era um corsario do mar Vermelho. Possivelmente ter-lhe-ás ouvido mencionar.

     – Qual era seu nome?

     –Ramaib.

     –Parece-me ter ouvido esse nome.

     –Morreu de forma trágica.

     – Isso não mo podes explicar, Haradja?

     –Já explicar-to-ei esta noite. Não o fazem desta maneira os árabes?

     –Passam toda a noite escutando aos idosos do país –replicou a duquesa.

     Prosseguiram seu passeio pela terraza, e quando o sol se punha no horizonte voltaram ao salão onde dantes comeram, que se achava alumbrado por quatro magníficos lustres de cristal das fábricas de Murano, com numerosos candelabros.

     A mesa já estava posta e enfeitada com enormes ramilletes de flores que despediam um perfume profundo e penetrante.

     Ao igual que pela manhã, não tinha nem um convidado. À altiva sobrinha do grande bajá não lhe agradava, sem dúvida, dar a menor confiança a seus capitães. O jantar foi extraordinário e regada com grandes garrafas de vinho de Chipre, apesar da severa proibição do Profeta, que não permitia o uso do fermentado líquido.

     –Se o sultão, que é o chefe dos crentes, o bebe, também poderei o fazer eu –tinha respondido a turca a um gesto da duquesa, que aparentaba ser uma grande crente mahometana por temor a se delatar. – O Profeta devia ter o gosto péssimo para contentar-se com leite de camella desleída em água!

     E continuou bebendo o dulcísimo veio, troçando-se de Maomé e de sua proibição.

     Não obstante parecia que com aquele vinho tentava achar a excitação, já que uma vez terminado o vaso o enchia de novo, alentando ao "gentil capitão" a que a imitasse.

     – O Profeta não tem tempo para se preocupar de nós! –comentava rindo. – Bebe, Hamid! Este vinho reconforta e proporciona ao sangue um intenso fogo que o água não pode extinguir! É melhor que o hachís!

     Quando, uma vez acabada o jantar, acenderam, a seguir do café, os cigarros, Haradja adquiriu de novo uma expressão de seriedade. Parecia que uma grande preocupação invadia seu ânimo.

     Tinha-se posto em pé e passeava pelo salão com nervosismo, parando-se de vez em quando ante as panoplias.

     A duquesa temeu por um momento que se lhe ocorresse outra vez algum desafio com outro capitão para entretenerse. Mas se serenó ao ver como se tumbaba num divã, lhe fazendo ademão de que se aproximasse e se sentasse a seus pés, sobre um cojín de seda colocado em cima de um tapete persa.

     –Meu pai –disse –era um notável corsario, e foi a personagem ideal da gente de seu género, já que não tinha nenhum que pudesse competir com ele nem em crueldade nem em generosidad. Eu naquele tempo era uma menina, mas ainda me parece lhe estar a ver saltando de sua nave com o rosto hosco, a longa barba flotante ao vento e a cintura repleta de armas. Experimentava por meu irmão e por mim um grande carinho. Mas pobres de nós se lhe tivéssemos desobedecido! Teria sido capaz de matar-nos, igual que matava aos marinheiros que se atreviam a lhe fazer frente. Podia afirmar-se que o mar Vermelho era domínio seu, já que nem as galeras do sultão se tivessem atrevido a lhe disputar a soberania daquele amplo mar encerrado entre África e Arabia. Era um homem feroz, que inclusive a mim me causava espanto quando cada vez que embarcava para suas correrias ou regressava delas me abraçava e me besaba. Seus marinheiros não se amedrentaban pelo Profeta, nem por Alá nem pelo diabo, e em companhia deles devastava a costa que se estendem desde Suez ao estreito de Bab-o-Mandeb. Seu ferocidad era legendaria. Nenhum marinho que tivesse sido apresado podia esperar compaixão dele. Todos eram arrojados ao mar, com as pernas e os braços amarrados, para que não pudessem se salvar.

     »Jamais falava com seus homens nem lhes consentia a mais mínima familiaridad. Era, não obstante, generoso e repartia equitativamente entre todos sua parte no botim. O segredo da atracción que exercia sobre sua gente se devia a seu surpreendente valor, que lhe fazia parecer quase um deus do mar, e a uma bárbara eloquência que lhe sugeria nos mais horríveis momentos do abordaje palavras sonoras e imperiosas que exaltaban a sua tripulação em maior forma que o acre cheiro da pólvora.

     »Meu irmão, que era a mais idade que eu, lhe acompanhava em algumas de suas correrias. Desgraçado dele se nos momentos de máximo perigo mostrava o menor titubeio! Meu pai não tivesse sido capaz de perdoar nem a quem levasse seu próprio sangue nas veias. Em certo dia meu irmão, ainda quase um adolescente, depois de uma cruenta batalha com uma galera portuguesa, se viu forçado a se retirar a um porto de Arabia para não arriscar em vão a sua gente. Quando se apresentou ante meu pai com as roupas destroçadas e a cimitarra cheia de sangue, mas sem feridas, em lugar de palavras de alento lhe disse o seguinte:

     »– Cão! Villano! Ursas apresentar-te ante mim sem uma simples mancha de sangue sobre o peito? Atirai ao mar a este miserável!

     »Meu pai era despiadado com todos e, apesar de minhas lágrimas, lhe mandou embarcar e deu ordem de que lhe arrojassem ao mar, bem longe da costa. Por fortuna, os que tinham o encarrego de executar aquela ordem não se decidiram a amarrarle os braços e as pernas. De maneira que aquele valoroso jovem, que era um magnífico nadador, pôde chegar à costa e se salvar. Decorreram em vários anos sem que tivéssemos a menor notícia de meu irmão. Quando meu pai se inteirou de que estava com vida, lhe fez regressar ao castelo e se reconcilió com ele. Numas semanas mais tarde, Osmão, que tal era o nome do jovem, morria como um bravo sobre a ponte de sua nave, recusando vitoriosamente ao adversário.

     – E daí passou com teu pai? –inquiriu a duquesa.

     –Nuns poucos meses depois seguir-lhe-ia à tumba de uma forma trágica. Tinha atacado uma aldeia onde habitava um grego muito opulento, que possuía numerosas manadas de camelos. Meu pai asaltou sua morada e penetrou na estadia em que o grego, sua mulher, uma jovem hermosísima e os criados lutavam com desesMas. O grego foi morrido, e meu pai, com a cimitarra levantada, precipitou-se sobre a jovem. Mas ao vê-la tão bela e llorosa titubeou por um instante. Esse momento resultou fatal para ele, já que a mulher lhe descargó uma pistola que tinha na mão. Meu pai se desplomó, e quando lhe levantaram estava morrido. A bala tinha-lhe atravessado o coração.

     –E a mulher, foi perdoada? –inquiriu a duquesa.

     –Ignoro-o.

     Acendeu um cigarro, bebeu-se outra copa de vinho de Chipre e continuou:

     –Recolheu-me e adoptou-me meu tio o bajá, que por aquele tempo efectuava heroicas incursões marítimas pelo Mediterrãoeo lutando contra venezianos e genoveses. Ao princípio me confinaron num harén; mas, observando meu tio que me achava dominada pela tristeza, me embarcou com ele em sua nave. Deu-se conta de que eu era uma mulher de acção e me ensinou a governar o navio. Tinham surgido em mim os mesmos instintos de meu pai. Em minhas veias corria o sangue pirata e, apesar de que era mulher, experimentava ferozes sentimentos. Em pouco tempo fui o braço direito de meu tio, ao que acompanhei pelo Mediterrãoeo, competindo com ele em crueldade e audacia. Eu fui a que num dia, tendo apresado uma galera de Malta, ordenei amarrar aos infiéis às ãocoras e os arrojar ao mar; também fiz exterminar a todos os habitantes de Scio, que se tinham sublevado. Scio! Melhor tivesse sido que jamais calcasse aquela terra!

     Haradja incorporou-se com violência. Seu rosto estava demudado e tinha os olhos llameantes e a respiração agitada.

     Aspirou profundamente o azeite perfumado do salão, apertou-se as sienes com as mãos e, jogando para atrás com um movimento violento seus longos cabelos, continuou com voz surda:

     –Batallaba entre as forças de terra que apoiavam aos homens da frota. Jamais tinha visto um homem tão atraente, tão forte e tão valoroso! Era semelhante a um deus da guerra! Nos pontos onde o risco era maior se viam brilhar seu cimitarra e seu cimera, e não tinha arcabuz nem culebrina que pudessem deter seu avanço. Ria-se da morte e enfrentava-a sereno e impasible, igual que se o Profeta lhe tivesse entregado algum talismão mágico que lhe voltasse invulnerável. Amei-lhe! Amei-lhe com paixão e ele não me compreendeu ou, melhor dito, não quis me compreender! O amor representava para ele uma palavra inútil; não tinha senão sede de glória! Não obstante, que de insónias, que desesMass tive de suportar por causa de ele! Não lhe vi de novo até muito tempo mais tarde, sob as muralhas de Famagusta. Nem as tormentas do Mediterrãoeo nem a longa ausência tinham extinguido o fogo que devorava meu coração. Falei-lhe e ficou impasible; contemplei-lhe profundamente, fixando em seus olhos os meus, e nem um simples tremor percorreu seu corpo. Sabe que lhe quero, ou melhor seria dizer que lhe queria, e não se ocupou nem se ocupa o mais mínimo de mim. Parece que para ele sou uma mulher que nem vale a pena olhar! Eu, Haradja, a sobrinha do grande almirante! Lhe aborrezco, lhe aborrezco! Agora desejo sua vida!

     De seus olhos tinham saído um par de ardentes lágrimas. A orgulhosa Haradja, a mulher feroz e cruel, chorava.

     Surpreendida a duquesa por aquele inopinado ataque de desesMas, observava-a sem chegar a compreender quem podia ter sido o homem que lhe tinha ferido o coração.

     –Haradja –indagó, algo emocionada pelo profundo desesMas que se manifestava no semblante da turca, – a quem te referes? Quem é esse guerreiro que não soube compreender teu amor?

     – Quem? –exclamou Haradja. – Matar-lhe-ás?

     –Mas a quem?

     – A ele!

     – A ele? Não sei de quem se trata!

     Haradja aproximou-se à duquesa e, pondo uma mão no ombro da jovem, contestou com selvagem entonación:

     – Quem derrotou a Metiub, que é o melhor espadachín do bajá, poderá também vencer à mais soberbia cimitarra do exército turco!

     –Ainda não te entendi, Haradja.

     –Effendi, desejas ao cristão?

     –Si; já que mandaram-me para que lhe leve ante Mustafá.

     –Eu to entrego a ti, sob duas condições.

     – Que condições? –inquiriu a duquesa, em cujos olhos se lia a suspeita.

     – Que desafies ao Leão de Damasco e lhe mates!

     Uma exclamação de estupor brotou dos lábios da duquesa.

     – Matar a Muley-o-Kadel! –disse.

     – Si, isso desejo!

     –Já sabes, Haradja, que é amigo meu.

     A turca encolheu-se de ombros, perguntando depreciativamente:

     – Assustar-te-ias, effendi?

     – Hamid Leonor não se assusta ante nenhuma espada nem cimitarra mahometana!

     – Em tal caso matar-lhe-ás! –urgió a turca.

     – Que pretexto poderei procurar para romper nossa antiga amizade?

     – Que? A um homem não lhe faltam jamais razões e menos ainda a um guerreiro! –respondeu Haradja com um riso chillona.

     –Tenho muito que agradecer a Muley-o-Kadel.

     – De que? Estou disposta a pagar-te!

     –Nenhuma riqueza seria suficiente.

   – Agradecimiento! –exclamou Haradja com acento de burla. – Palavra huera que meu pai não admitia! 0 a liberdade do cristão a mudança da morte de Muley-o-Kadel, ou nada! Escolhe, effendi! Haradja é inexorável!

     –Indicaste-me que impunhas duas condições. De que se trata a outra? –perguntou a duquesa.

     –Que regresses depois de ter entregado ao cristão.

     – Estás muito interessada em isso, Haradja?

     – Si, te dou um minuto para que me respondas!

     A duquesa guardou silêncio. A turca, depois de ter tomado outro vaso de Chipre, voltou a recostarse no divã e continuava com a mirada fincada na jovem.

     – Dúvidas? –inquiriu.

     –Não –respondeu com decisão a duquesa.

     – Matar-lhe-ás?

     –Farei o que possa; a não ser que o Leão de Damasco me mate a mim.

     Uma intensa ansiedade parecia invadir à turca.

     – Não desejo que morras! –exclamou. – Pretendes que com tua vida se extingam os batidos de meu coração? Todos os homens sois ferozes leões!

     De não ter sido por medo a se delatar, em especial em frente a uma mulher capaz das mais crueis represálias, a duquesa não tivesse reprimido o riso que estava a ponto de soltar.

     Mas resultava muito exposto caçoar com a sobrinha do bajá, e a duquesa guardou-se muito de expressar seu pensamento e dar rienda solta a sua hilaridad.

     –Estou de acordo com tuas condições, Haradja –repôs, logo de meditar durante um momento.

     – Regressarás? –perguntou a turca, com impetuosidad.

     –Si.

     – Depois de ter acabado com o Leão de Damasco?

     –Matar-lhe-ei, já que assim o desejas –respondeu a duquesa.

     – Si, o desejo! Não existe nada tão belo e tão digno de aprecio para as mulheres turcas como a vingança!

     Uma ligerísima sorriso foi a resposta da duquesa.

     Haradja tinha-se incorporado outra vez.

     –Amanhã –anunciou –o vizconde cristão estará neste lugar.

     A duquesa experimentou um estremecimiento e suas bochechas acenderam-se.

     –Faz um momento mandei um mensageiro a estanque-los com objecto de que tragam até aqui ao cativo em companhia de uma forte escolta.

     – Obrigado, Haradja! –contestou Leonor, reprimindo um suspiro.

     –Marcha a descansar, effendi. Já é tarde e abusei demasiado de ti. Deves encontrar-te esgotado com tantas emoções. Vê, gentil capitão! Haradja sonhará contigo esta noite!

     Tomando o martelo de prata, fez soar com ele o gong.

     Dois escravos penetraram na estadia.

     –Levai ao effendi até a habitação que destinei para ele –ordenou a turca. – Até manhana, Hamid!

     A duquesa besó galantemente a mão que a turca lhe apresentava e abandonou o salão precedida por dois escravos que sustentavam na mano tochas acendidas.

 

                         O VIZCONDE LHE HUSSIERE

     Desceram a escada e, detendo-se em frente a uma das habitações do térreo, convidaram a entrar à duquesa.

     No instante em que a jovem ia cruzar a ombreira da porta percebeu depois de de ela uma voz que exclamava:

     – Effendi!

     A duquesa deu-se a volta, enquanto os dois escravos empunhavam seus yataganes, já que tinham recebido instruções de sua senhora para cuidar da segurança do convidado.

     – Ah! És tu, O-Kadur? –inquiriu Leonor ao divisar ao árabe.

     E dirigindo-se aos dois escravos disse-lhes:

     –Marchai-vos. Este homem é meu fiel escravo e tem por norma dormir ante minha porta. Retirai-vos; não tenho nada que temer.

     –Haradja mandou-nos que velemos por ti –contestou com timidez um dos escravos.

     –Não vos preciso –repôs a duquesa. –Eu responderei por vocês. Deixai-me a sozinhas!

     Ambos escravos fizeram uma reverência e se afastaram.

     – Que desejas, O-Kadur? –inquiriu Leonor, quando já não se ouviam os passos dos escravos.

     –Venho para receber tuas instruções, senhora –disse o árabe. –Nikola Stradiato encontra-se impaciente e quer saber que há que fazer.

     –Nada por enquanto –replicou a duquesa. –Não obstante seria aconselhável mandar a alguém até a galeota para advertir aos marinheiros que estejam dispostos a zarpar amanhã.

     – Para que lugar? –inquiriu com ansiedade o árabe.

     –Para Itália.

     – Abandonaremos Chipre?

     –Amanhã o vizconde Lhe Hussière estará em liberdade e minha missão ter-se-á acabado.

     – O amo em liberdade?

   –Si, O-Kadur.

     O árabe se demudó como se uma saeta lhe tivesse ferido e inclinou a cabeça sobre o peito.

     – O amo em liberdade! –susurró. – Livre!

     Um extraordinário espasmo alterou por completo seu rosto.

     « Tudo se acabou! –disse-se. – O-Kadur não estará presente à dita de sua senhora!»

     Tinha desenvainado com celeridad seu yatagão, colocando-se a ponta no peito.

     Leonor, que lhe contemplava atenciosamente, lhe perguntou em tom enérgico:

     – Que vais fazer, O-Kadur?

     – Examinava, senhora, se o arma achava-se bem temperada para matar a um turco! –repôs o árabe.

     – A que turco?

     – Ele! Dantes de abandonar Chipre desejo levar-me a pele de um infiel! –respondeu o árabe, com riso sardónica. – Servirá para cobrir meu escudo de combate!

     –Não me contestaste a verdade, O-Kadur –disse a duquesa. –Noto-o em teus olhos.

     –Desejo matar a um homem, senhora. Logo Mustafá fá-me-á matar. Mas que mais dá? Terminará com um simples escravo!

     Tinha tal acento de amargura nas palavras de O-Kadur, que a duquesa experimentou um estremecimiento.

     – É uma loucura o que pensas? –inquiriu.

     –É possível.

     –Dime o nome da pessoa a quem queres matar.

     – Não me é possível, senhora!

   – Ordeno-to!

     – Muley-o-Kadel!

     – O generoso turco que me salvou a vida! Desta maneira os árabes recompensais aos que vos salvam de uma morte verdadeira? Sois igual que hienas ou chacales, e não como leões!

     O-Kadur inclinou a cabeça sem responder. Um surdo sollozo brotou de seu peito.

     – Explica-te! –disse a duquesa.

     O árabe jogou para atrás seu branco manto e contestou com acento de intensa amargura:

     –Em certo dia teu pai prometeu-me a liberdade. Morreu, e eu continuei a semelhança de um cão fiel em tua casa. Devia cuidar de sua filha, e nem risco algum, nem a morte mais horrível, me detiveram para a acompanhar a esta maldita ilha. Minha missão cumpriu-se; amanhã tu e o senhor vizconde, livres e ditosos, despregareis as velas para marchar a vossa terra e já não precisareis de mim. Senhora, permite que o azarado escravo siga seu destino! O Profeta não me criou para que fora feliz! Somente tenho um desejo: encontrar a morte por cruel que seja, já que o despreciável muçulmano não é generoso. Permite que mate a esse homem que se fixou em ti, que és cristã, e que te ama em segredo. A vida do desgraçado escravo terá servido ao menos para algo: para eliminar a um rival de seu senhor.

     A duquesa aproximou-se rapidamente ao árabe:

     – Então tu imaginas...? –perguntou-lhe.

     –O-Kadur vê, observa e não se equivoca. De Haradja não me preocupo. Essa mulher está louca, ao igual que todas as mulheres turcas. É o Leão de Damasco o que me preocupa!

     – Por que razão, O-Kadur?

     –Porque o escravo leu no coração de sua ama.

     – Que! Uma cristã que está apaixonada de um cristão não poderá amar jamais a um turco, a um inimigo de nossa raça!

     O árabe fez um gesto e continuou:

     –O destino dos humanos encontra-se nas mãos de Alá; tens de crê-lo, senhora.

     –Deus não é Maomé. Seu poder é infinitamente superior ao do Profeta. Estás num erro, O-Kadur!

     –Não, senhora. Os olhos do mahometano atravessaram-te o coração.

     –Mais não o feriram. Como podes achar que eu, uma mulher, possa renunciar a Itália e a lvos prazeres da vida para luzir roupas masculinas e me enfrentar a um inimigo cruel e inexorável que não perdoa aos cristãos, se meu coração não pertencesse por completo ao vizconde? Que outra mulher tivesse feito coisa semelhante? Dímelo, O-Kadur! Amei muito a Lhe Hussière, e não vão ser os olhos do Leão de Damasco os que me obriguem a lhe esquecer.

     –Não obstante –contestou o árabe, –fechando os olhos vejo interpor-se em teu caminho a um homem que não é o vizconde.

     – Fantasías!

     – Não, senhora! Leva um turbante em torno da cimera e sua espada é curva.

     – Loucuras! –exclamou a duquesa, que aparentaba estar muito inquieta.

     – O árabe não equivocar-se-á, senhora! Já comprová-lo-ás! O turco derrotará ao cristão!

     – Estás louco, O-Kadur! Leonor não trairá ao homem que a amou primeiro!

     – Distingo um vazio a teu arredor!

     – Já está bem, O-Kadur!

     – Como prefiras, senhora!

     A duquesa passeava-se pela habitação, dominada por uma grande emoção. O árabe, imóvel ao igual que uma estátua de bronze, parecia estudar detenidamente o demudado semblante da duquesa.

     – Onde se encontram o senhor Perpignano e Nikola Stradiato? –inquiriu, por último, Leonor, deixando de passear.

     –Acham-se atendados numa sala do pátio de armas, com os marinheiros e o escravo de Muley-o-Kadel.

     –É preciso que os previnas com respeito a que amanhã embarcaremos. Conheces o que decidiu Haradja?

     –Não, senhora.

     –Será conveniente mandar a alguém à galeota para que os dois gregos redoblen a vigilância. Como algum turco pudesse fugarse não teria um só de nós que saísse com vida das mãos de Haradja. Conheço muito bem a crueldade dessa mulher. Ah!...

     – Que te sucede, senhora?

     – E a carabela?

     –Em isso mesmo pensava eu neste instante. Se a sobrinha do bajá acompanhasse-nos até a praia, como poderíamos justificar o misterioso desaparecimento da tripulação turca?

     – Todos perder-nos-íamos! –conveio Leonor, que se tinha tornado muito pálida. –Tenho a certeza de que Haradja acompanhar-nos-á, e é possível que com uma boa escolta. Há guardia nos pátios?

     –Não, senhora.

     –Vê a avisar a Nikola. É preciso que esta noite alguém abandone o castelo e se encaminhe sem ser visto à ensenada. A carabela deverá desaparecer, supondo que desejemos pôr-nos a salvo.

     O-Kadur saiu e examinou os arredores.

     –Ao que parece todos se retiraram –anunciou. –Não vejo nem um sentinela. Afinal de contas, nada têm que temer já, agora que o leão de São Marcos não roge.

     –Vêem com Nikola.

     O árabe desapareceu com sigilo entre as arcadas.

     Um momento depois o renegado penetrava na habitação.

     – Conheceis já de que se trata? –inquiriu a duquesa.

     –Si; vosso escravo tem-no-lo explicado.

     – Qual é vossa opinião?

     –Que a carabela tem de desaparecer –respondeu o grego. –A remolcaremos até alta mar e afundá-la-emos. Desta maneira poder-se-á fazer crer à sobrinha do bajá que tem levado âncoras para alguma exploração.

     – Quem prevenirá a nossos homens?

     –Tenho um marinheiro ágil como um corzo –repôs Nikola. –Ele irá à ensenada.

     – E como poderá abandonar o castelo? Com toda segurança terá jenízaros de sentinela na ponte levadizo.

     –Não sairá por esse lugar, senhora. Pela parte dos fossos há aspilleras, pelas que Olao poderá se deslizar com facilidade. Eu respondo desse homem.

     – Ordenareis afundar a carabela?

     –Não é possível fazer outra coisa. Por outra parte, esse velero não nos é de nenhuma utilidade. Repousai tranquila, senhora, e não vos inquieteis. De aqui a cinco minutos meu marinheiro encontrar-se-á fora do castelo. Boas noites!

     Em quanto teve saído o grego, a duquesa fechou a porta e se tumbó na cama sem despir-se, murmurando:

     – Amanhã, ao fim, ver-lhe-ei, se Deus ajuda-nos!

     Nada perturbou o sonho da guarnición do castelo. Olao devia de tê-lo abandonado já sem chamar a atenção dos sentinelas, já que não se escutou o mais mínimo grito de alarme.

    Quando ao despuntar a manhã a duquesa abandonou a estadia, dois escravos a aguardavam, enquanto no pátio seu escolta bebia café, conversando com animação sob uma das tendas.

     –A senhora aguarda-te, effendi –anunciou um dos escravos.

     – Já chegou o cristão? –interrogou com voz trémula a jovem.

     –Não o sei, effendi. Alguém, não obstante, deve de ter penetrado esta noite no castelo, já que pude ouvir o rechinar das correntes da ponte levadizo.

     –Esperai-me um instante. Quero dar algumas instruções a meus homens.

     Cruzou o pátio e foi ao encontro dos renegados. Nikola e Perpignano, ao vê-la aproximar-se, tinham-se incorporado e saíram a seu encontro.

     – Partiu vosso marinheiro? –inquiriu baixinho, dirigindo-se ao grego.

     –Neste momento a carabela achar-se-á nas profundidades do mar –respondeu Nikola.

     – E o vizconde? –inquiriu Perpignano.

     –Ao que parece já deve de estar aqui –replicou a duquesa.

     – De maneira que de aqui a pouco podereis lhe ver?

     –Verdadeiro.

     – E não calculastes, senhora, o risco a que vos ides expor?

     – Que risco, Perpignano?

     –Que vos reconheça e que algum grito involuntario vos delate.

     A duquesa palideció, adquirindo a cor da cera. A observação do veneziano tinha-a enchido de espanto.

     Talvez o francês, a vendo de improviso depois de tantos meses de separação, não pudesse reprimir uma exclamação, um gesto involuntario. Que sucederia então?

     – Estou assustada! –exclamou a duquesa. – Se pudesse-se-lhe advertir!...

     –Deixa-me pensar, senhora –contestou o grego. – Sou de vossa escolta e, portanto, posso ver ao preso. Tratam-nos com muita consideração e respeito. É-me possível aproveitar-me das boas disposições desses cães turcos. Marchai-vos, por tanto, com a sobrinha do bajá e permiti-me que actue. Conheço aos muçulmanos.

     – Prevenir-lhe-eis, Nikola?

     –Pôr-lhe-ei sobre aviso, senhora.

     – Conto com vossa ajuda! Esse perigo é pior que a presença da carabela.

     –Já o sei, senhora. Há aqui demasiada gente para poder combater. Pude-me inteirar de que ao todo são uns quatrocentos homens, entre marinheiros e jenízaros.

     –Disponde-vos a partir.

     –Em quanto mandei-lo, duquesa –contestou Perpignano, –estaremos preparados para o que seja. Não é verdade, Nikola?

     – Si, sempre que nossas espadas bebam sangue mahometana! –confirmou o grego.

     Leonor fez-lhes um ademão de despedida e acercou-se aos escravos que a aguardavam.

     – Acompanho-vos! –disse.

   Precedida por eles penetrou, não sem grande recelo, na sala onde esteve cenando a noite anterior.

     Haradja, mais formosa que nunca, vestida de seda vermelha, a esperava adiante da mesa, sobre a que humeaba o café.

     Levava entrelazadas em seus cabelos magníficas pérolas e nas orelhas luzia pendentes de diamantes e zafiros, do tamanho de cerezas.

     –O cristão chegou esta noite –anunciou, em quanto viu à duquesa, –e está a esperar-vos na parte exterior do castelo.

     Leonor sentiu um estremecimiento, mas disimuló sua emoção e perguntou, simulando indiferença:

     – Vem de estanque-los?

     –Si.

     – Acha-se muito doente?

     –O pestilente ambiente das águas estancadas não beneficia a ninguém –repôs Haradja. – Bebe, capitão, e não te preocupes desse infiel! O suave clima de Veneza, se é verdade que Mustafá lhe envia em qualidade de embaixador, fá-lhe-á recuperar a saúde. Desejas marchar-te em seguida?

     –Si, Haradja; se não decides o contrário.

     –Não é do cristão pelo que me inquieto –disse a turca, a examinando. –É tua companhia a que não terei esta noite. Bela tarde a de ontem, que jamais esquecerei! Cria não me encontrar já no lóbrego castelo de Hussif! Mas regressarás muito cedo, não é verdade, effendi? –inquiriu com vehemencia. – Prometeste-mo!

     –Si, supondo que o Leão de Damasco não me mate.

     – Matar-te! É impossível! –disse, excitãodose, Haradja.

     E depois de um instante de silêncio acrescentou, como se falasse consigo mesma:

     – Talvez a vingança poder-me-ia resultar fatal?

     Moveu a cabeça com um gesto brusco e agregou:

     – Não; o Leão de Damasco não poderá jamais te derrotar, effendi! O braço que eu vi na demonstração e que venceu à melhor espada da escuadra vencerá igualmente a Muley-o-Kadel! Tu, que és o mais jovem de todos, serás o mais terrível espadachín do exército mahometano. Eu ocupar-me-ei de que o sultão se inteire.

     E quase com um leve acento de tristeza perguntou, suspirando:

     –Não esquecer-te-ás de mim, não é verdadeiro, effendi? Regressarás cedo?

     –Confio em que assim seja –respondeu Leonor.

     – Prometeste-mo!

     –Mas já sabes, Haradja, que a vida dos humanos se encontra em mãos de Alá.

     – Alá e Maomé não serão tão crueis como para segar tão lozana vida! As huríes do paraíso esperar-te-ão um pouco mais. Desejas que partamos? Observo que estás impaciente por me abandonar.

     –Não; por cumprir com minha obrigação, Haradja. Sou um soldado de Mustafá, que é meu máximo chefe.

     –É verdade, Hamid. Dantes que nada deves obedecer. Ponhamos-nos em marcha. Os cavalos e minha comitiva devem de estar já preparados.

     Cobriu-se com um amplo manto de lana muito fina e desceu a escalinata seguida pela duquesa e precedida pelos dois escravos que tinham permanecido até então de guardiães ante a porta do saiaón.

 

                         A TRAIÇÃO DO POLACO

     Na plazoleta do castelo, passado a ponte levadizo, dois grupos de ginetes aguardavam a chegada da sobrinha do almirante e do filho do bajá de Medina.

     Um dos grupos estava formado pelos renegados gregos, Perpignano, O-Kadur, o tio Stake e um marinheiro. O outro o constituíam vinte e quatro jenízaros armados de uma forma extraordinária.

     Entre ambos grupos, ainda por cima de um cavalo negro, se via a um homem de uns trinta anos, de alta estatura, rosto delgado e pálido, longos bigodes negros e olhos muito grandes afundados nas órbitas.

     Em lugar dos rutilantes uniformes que tinham por norma usar os turcos daquele tempo, luzia uma raída casaca escura e um pantalón de idêntica cor, e sobre a cabeça um fez, sujo e de desvaído cor.

     Sua mirada tinha-se fincado na duquesa, enquanto um tremor convulsivo sacudia seus membros. Não obstante não lançou uma simples exclamação e se mordeu os lábios por medo a deixar escapar alguma palavra inoportuna.

     Leonor, que se tinha fixado nele ao instante, ao princípio se tornou muito pálida e depois o sangue foi a seu semblante.

     –Este é o cristão –disse Haradja, lhe assinalando. – Tinhas-lhe visto em alguma outra ocasião?

     –Não –repôs a duquesa, reprimindo sua emoção.

     –Acha-se algo excitado por causa da fiebre, segundo me têm notificado –agregou com aspecto de indiferença Haradja. –Mas com o ar do mar recuperar-se-á e chegará em boas condições a Famagusta. Tenta, effendi, tratar-lhe bem para que não digam que me comporto demasiado cruelmente com meus cativos.

     –Asseguro-te que assim será –contestou com voz surda Leonor.

     Dois cavalos magnificamente enjaezados foram levados pelos escravos até o lugar onde se encontravam ambas mulheres, as quais se prepararam a partir.

     – Vigiai ao cristão! –exclamou Haradja aos jenízaros. – Responde vossa cabeça de ele!

     Oito turcos situaram-se ao redor do vizconde e toda a expedição iniciou o galope em direcção à ensenada.

     A comitiva da duquesa fechava a marcha, deixando um espaço de uma cincuentena de metros entre ela e a vanguardia jenízara.

     Perpignano e Nikola marchavam à cabeça do segundo grupo.

     – Terminará tudo bem? –disse o veneziano, dirigindo-se ao grego. – Não me parece possível que vamos ter tanta sorte!

     –Se Belcebú não introduz um de seus cornos, confio em que a jogada saia perfeita –repôs o grego. – A carabela já se encontra nas profundidades do mar.

     – Não suscitará suspeitas em Haradja o desaparecimento da nave?

     –Penso que não. Nós não temos nada que ver com o que façam os turcos. De aqui a um par de horas encontrar-nos-emos em alta mar, e em tal caso que nos pegue a sobrinha do bajá! Por estes lugares não parece que tenha veleros e a frota turca deve de estar em Nicosia. Que vos parece o senhor Lhe Hussière?

     –Tem-me maravillado seu sangue frio. Temia que ao contemplar à duquesa não pudesse reprimir uma exclamação de alegria, que, afinal de contas, tivesse sido muito natural.

     –O-Kadur tinha-lhe prevenido.

     – Bem se aproveitou Haradja do vizconde! Deveu-lhe de fazer servir de isca às sanguijuelas, como a todos os outros.

     –Haradja sempre foi implacável. Sei-o por própria experiência –disse Nikola. –E de não ter vindo em companhia dos jenízaros, vos garanto que não a tivesse deixado regressar ao castelo sem uma bala no corpo, para vingar a esses azarados cristãos, aos que trata com tanta crueldade.

     – Não cometais erros, Nikola! –advertiu Perpignano. –Os jenízaros são mais numerosos que nós e poderíamos o jogar tudo a perder.

     –Já o sei, e por isso evito qualquer violência, ainda que sinto umas vontades ferozes de me lançar sobre esses cães e acuchillarlos com o yatagão.

     – Acha-se a duquesa de por meio!

     – Uma espada que é melhor que todas as nossas reunidas! Inteirei-me de que derrotou e desarmado a Metiub.

     –E ao Leão de Damasco, Nikola. Não obstante devemos permanecer tranqüilos.

     –Si, por se talvez. Não é aconselhável ainda lhes dar a conhecer quem somos.

     Ambas escoltas seguiam marchando ao galope, não já pelo estreito caminho que bordeaba o mar, senão por um amplo caminho praticado entre rochas e escolleras.

     Tanto Haradja como Leonor permaneciam silenciosas. As duas pareciam inquietas e pensativas. Unicamente a última, de vez em quando, e cerciorada de não ser observada pelos turcos, voltava para atrás a cabeça, para examinar com uma rápida olhadela ao vizconde, como para lhe tranquilizar e lhe pedir que fora prudente.

     O francês, que não deixava da contemplar, contestava com um sorriso.

     Sobre as sete da manhã ambas comitivas atingiram a praia.

     –Essa é minha nave –disse a duquesa, indicando a galeota.

     – Ah! –exclamou Haradja. – Como é que não distingo meu carabela?... Seguramente viste-a ao desembarcar.

     –Si, aqui se encontrava –repôs a duquesa. – Não se tratava de um pequeno velero tripulado por uma dúzia de turcos?

     –Estava ancorado na ensenada.

     –Si, e seus homens pretenderam me impedir que desembarcasse.

     – Néscios! Não são capazes de distinguir aos amigos dos inimigos!

     –É muito aconselhável em toda ocasião ser desconfiado, Haradja.

     – Quantos homens deixaste cuidando tua nave?

     –Três.

     –A ausência da carabela preocupa-me –comentou Haradja. – Terá sucedido algo grave?

     – Que temes, Haradja?

     –Os venezianos possuem ainda galeras...

     – Que iam tentar neste momento em que a bandeira do Profeta domina em toda a costa?

     –Teus homens poderão informar-me de algo.

     –Confio que assim seja, Haradja.

     A turca desmontó e o mesmo fez a duquesa.

     Todos fizeram outro tanto, enquanto da goleta partia uma chalupa tripulada por Olao e o par de marinheiros que custodiavam a nave.

     –Neste lugar tinha uma carabela –disse Haradja quando chegaram a terra.

     –Si, senhora –repôs Olao. – Despregou vai-as esta amanhã, alegando que ia reconhecer a costa.

     – Distinguistes alguma galera inimiga no horizonte?

     –Ontem pela tarde, dantes que anocheciera, uma nave surgiu em direcção sul com rumo à ilha. É possível que a carabela tenha posto proa para alta mar para comprovar se era turca ou cristã.

     –Em tal caso, regressará em seguida –disse Haradja. –Embarcai em primeiro lugar ao cristão e atai-lhe no entrepuente ou encerrai-lhe num dos camarotes com guardiães.

     –Eu respondo dele, senhora –contestou rápido Nikola.

     O vizconde saltou à chalupa acompanhado do tio Stake, Simón e quatro gregos.

     –Hamid –começou a turca aproximando-se a Leonor, que olhava em direcção à chalupa, – chegou o instante de nos separar. Recorda, effendi, que te aguardo com impaciência e que conto com teu braço para matar ao Leão de Damasco. Se deseja-lo, fá-te-ei designar governador do castelo de Hussif, e com a ajuda de meu tio conseguirei para ti do sultão quantos honras queiras. Em algum dia converter-te-ás no bajá mais poderoso do império otomano. Entendeste-me, gentil capitão? Haradja aguarda teu regresso pensando sempre em ti!

     – És muito generosa, senhora! –respondeu a duquesa.

     – Nada de senhora! Haradja! –disse a turca.

     –É verdade. O tinha esquecido.

     – Adeus, Hamid! –continuou a turca, estrechãodole a mão. – Meus olhos acompanhar-te-ão pelo mar!

     – E meu coração baterá por ti, Haradja! –contestou a duquesa, com ironía, – Uma vez que tenha matado ao Leão de Damasco, regressarei!

     A chalupa, que já tinha transladado ao vizconde até a nave, voltou seguida de um bote.

     A primeira em saltar foi Leonor, com Perpignano, O-Kadur, Ben-Tael e uns quantos gregos, e se adentró no mar, enquanto os restantes homens ocupavam a segunda lancha.

     Apoiada em seu corcel, Haradja seguia-a com a vista. Um vai-o de tristeza ensombrecía o semblante daquela mulher despiadada.

     Os renegados que tinha a bordo da goleta despregavam já as velas e subiam o âncora.

     Em quanto encontrou-se sobre coberta, o tio Stake tomou o comando, gritando:

     – Preparados, rapazs! A brisa procede do noroeste e avançaremos igual que peixes! Já nos podem seguir com seus pencos árabes, se assim o desejam! Soberbia chanza! Durante toda minha vida rir-me-ei quando a recorde!

     A galeota, cujas vai-as latinas inchavam-se graças ao vento, começou a girar com lentidão sobre si mesma e avançou para a saída da rada.

     A duquesa fez um último ademão de despedida, agitando o lenço, enquanto a rouca voz do tio Stake exclamava:

     – Fechai as escotas, rapazs! Como lha temos jogado ao turco!

     Haradja aguardou a que a galeota desse a volta ao promontório e, subindo sobre seu cavalo, empreendeu o regresso ao castelo, acompanhada de seus jenízaros.

     De vez em quando olhava para o mar, e quando a nave desapareceu ante sua vista espoleó rabiosamente a sua corcel, avançando a tudo galope.

     Meia hora mais tarde atingia a plataforma do castelo. Dispunha-se a cruzar a ponte levadizo quando, pelo caminho que levava até os estanques, apareceu um capitão de jenízaros, de elevada estatura, corpulento, de grandes bigodes e que montava um soberbio cavalo tordo coberto de espuma.

     Haradja tinha-se detido, enquanto os jenízaros, ao escutar o galope daquele cavalo, preparavam seus arcabuces.

     – Alto, senhora! –gritou o capitão, detendo de súbito seu arreio. – Sois a sobrinha do grande almirante Alí-Bajá?

     – Quem és? –indagó Haradja, pouco deseosa de travar conversa com ninguém.

     –Como podeis ver, um capitão de jenízaros –replicou o homem. – E chego desde Famagusta. Depois de ter desembarcado nesta, fiz efectuar a meu bravo Kaeser tão furiosa carreira, que tem de estar esgotado!

     –Eu sou a sobrinha de Alí-Bajá –contestou Haradja.

     –Isto me compraze. Tinha o temor de que não te achasses no castelo. Encontram-se aqui ainda os cristãos?

     – Eh, capitão, parece que me estás a interrogar! –exclamou com verdadeiro enojo Haradja, – Eu não sou nenhum dos oficiais de Mustafá!

     –Disculpadme, senhora, mas tenho pressa –repôs o ginete. – Nós somos desta maneira!

     – Nós! Quem és tu?

     –Em outra época fui capitão cristão; neste momento sou turco, seguidor do Profeta.

     – Ah! Um renegado? –exclamou Haradja em tom algo despectivo.

     –É possível ser renegado e fazer favores, senhora. Venho a fazer-vos um extraordinário –respondeu o capitão, com rudo acento.

     – De que género?

     –Perguntei-vos se os cristãos encontravam-se ainda aqui.

     – Quem?

     –Os que vieram para salvar ao vizconde.

     – Cristãos? –exclamou Haradja, palideciendo.

     – Já me imaginava que ter-se-iam feito passar por turcos!

     –Mas quem és tu?

     –Enquanto fui cristão chamava-me Laczinski. Agora tenho um nome turco, que resultar-vos-á desconhecido entre os de todos os capitães mahometanos. Estão ainda aqui? Respondei, senhora!

     – Ter-se-ão rido de mim? –gritou Haradja, exaltada e furiosa. –Hamid...

     – Ah, si! Hamid! Este é o nome que vos deu o capitão Tormenta?

     – O capitão Tormenta?

     –Senhora –disse o polaco indicando aos jenízaros de escolta-a, –acho que este lugar não é adequado pára...

     – Estás no verdadeiro! –conveio Haradja, que a cada instante que passava estava mais pálida. – Acompanha-me.

     Cruzaram o pátio e penetraram numa estadia do térreo.

     – Explica-te! –disse Haradja, muito nervosa, enquanto fechava a porta com brusquedad. – Dizias que Hamid é um cristão?

     –É o famoso capitão Tormenta, que em frente aos muros de Famagusta sustentou um extraordinário duelo com o Leão de Damasco e lhe venceu.

     – Hamid venceu ao Leão de Damasco! –exclamou Haradja.

     –E feriu-lhe, senhora –contestou o polaco. –Pôde-lhe ter matado, mas preferiu perdoar-lhe a vida.

     – De maneira que não é verdade que esse jovem é amigo de Muley? Mentiu?

     –Pelo contrário, senhora. O turco e o cristão já não são inimigos. Muley salvou ao cristão ao conquistar Mustafá Famagusta.

     – Hamid é um cristão! –murmurou a turca, com gesto pensativo.

     E encolhendo-se de ombros, agregou:

     – É o mesmo! Turco ou sectario da cruz, é belo, altivo e generoso, e o Profeta não deve penetrar no coração dos uns e dos outros!

     O polaco esboçou um sorriso sardónica.

     – Belo ou talvez bela, senhora? –inquiriu.

     A sobrinha do grande almirante contemplou ao polaco quase com espanto.

     – Que pretendes dar a entender, capitão? –interrogou-lhe em tom encolerizado.

     –Pergunto-vos que se belo ou bela, altivo ou altiva, generoso ou generosa, senhora. Talvez vos tenhais equivocado com respeito ao verdadeiro sexo do capitão Tormenta! –alegou sarcasticamente o polaco.

     – Que dizes? –resmungou Haradja, vermelha de ira, agarrando a Laczinski por um braço. – Que dizes?

     –Que o atractivo Hamid, ou o belo capitão Tormenta, se chama Leonor ou duquesa de Éboli.

     – É uma mulher!

     –Si, uma mulher.

     Haradja soltou um rugido semelhante ao de uma fera encadeada. Quedóse imóvel um momento e depois gritou iracunda:

     – Burlaram-se de mim! Enganaram-me!

     E, abrindo a porta, gritou:

     – Metiub!

     O turco, que se achava no pátio fumando, se dirigiu correndo para a habitação. Ao ver a Haradja, cujos olhos despediam chispas de cólera e o semblante vermelho, imaginou que o polaco a había ofendido e desenvainó o yatagão.

     – Não, não é este homem! –interrompeu Haradja. – Onde se encontra teu galera?

     –Ancorada na ensenada de Doz.

     – Põe-te em marcha no melhor cavalo, despliega as velas e atinge à galeota desse Hamid! São cristãos e enganaram-nos! Corre, marcha e traz-me a Hamid com vida! Compreendes-me, Metiub? Quero-lhe com vida!

     – Muito bem, senhora! –respondeu o turco. – Dantes que o sol se ponha, meu Namaz terá apresado à galeota e eu terei tido ocasião de vingar a ferida que me ocasionou esse inoportuno cristão!

 

                       "VIVA A CAPITÃ!"

     Enquanto o capitão turco e o renegado polaco marchavam a galope tendido em direcção à praia com objecto de apresar aos fugitivos, a galeota, impulsionada por uma fresca brisa, navegava velozmente para o sul para recalar na baía de Luda.

     A duquesa tinha resolvido ver por última vez ao Leão de Damasco, ao qual devia a vida e a liberdade do vizconde, lhe entregar seu velero e fletar outro, ainda que os gregos lhe tinham anunciado seu desejo de marchar com ela a Itália, onde teriam oportunidade de alistarse em qualquer navio.

     Em quanto a galeota teve dobrado o promontório, pondo-se a resguardo da vista dos jenízaros e da turca, a duquesa baixou con premura ao camarote, onde o vizconde a aguardava com a ansiedade que é de supor.

     Duas exclamações brotaram ao unísono de seus lábios.

     – Leonor!

     – Gastón!

     O vizconde tomou entre suas mãos as brancas e suaves da duquesa e contemplou-a com olhos ardentes e que brilhavam por efeito da fiebre.

     –Inteirei-me de que estáveis em Chipre –disse o vizconde, –e a ideia de vos ver em algum dia me permitiu suportar as horríveis torturas que me faziam padecer os mahometanos.

     – Já o sabeis, Gastón? –inquiriu a duquesa.

     –Si. As façanhas do capitão Tormenta chegaram até Hussif ou, para ser mais exactos, até estanque-los.

     –Mas de que forma?

     –Falou-me do capitão Tormenta um cristão capturado pelos turcos e que era parceiro meu na pesca de sanguijuelas. Pelos detalhes que me deu sobre vosso rosto e, em especial, pela presença de O-Kadur, imaginei ao momento que aquele capitão a quem os cristãos de Famagusta admiravam éreis vos. Nesse dia pouco faltou-me para enloquecer de alegria! Vos em Famagusta! Tratava-se da melhor notícia que me podiam ter dado para reconfortar meu ânimo, decaído por tão numerosas humillaciones e padecimientos.

     – Ver-vos finalmente em liberdade, em frente a mim, logo de tão terríveis coisas! Não vos parece estar a sonhar, vizconde?

     – Si, e me sinto orgulhoso de ser a vos a quem devo a liberdade, a vossa ousadia e ao valor de vosso braço!

     –Fiz o que qualquer outra mulher tivesse podido e devido tentar fazer, querido Gastón.

     – Não! –exclamou com vehemencia o vizconde. – Unicamente uma duquesa de Éboli podia ter semelhante valor! Outra não se tivesse atrevido a chegar até aqui, a esta guarida de tigres e leões, que produzem espanto entre os mais valorosos guerreiros cristãos! Supondes que não me inteirei de que vencestes à melhor espada do exército mahometano?

     – Como vos informastes, Gastón?

     –O guerreiro que me notificó vossa presença e a de O-Kadur me explicou também vosso desafio.

     – Uma coisa sem importância! –repôs a duquesa, com um sorriso.

     – Que amedrentaba aos capitães cristãos! –objetó o vizconde.

     –Os quais não tiveram a fortuna de ter como maestro de armas ao melhor tirador de Nápoles –alegou a duquesa. –Esse sucesso devo-lho a meu pai.

     – E a vossa valentia, Leonor!

     – Bah: deixemos isto, Gastón! De aqui a pouco conhecereis a meu contrincante.

     – Ao Leão de Damasco? –inquiriu Lhe Hussière, assombrado.

     –Vamos em procura sua, já que a nave é dele. Devo-lhe a vida, pois graças a ele pude sair viva de Famagusta.

     – Não trair-nos-á? –perguntou o vizconde, que parecia inquieto.

     –Não. É muito generoso e, por outra parte, se eu lhe devo minha salvação, também ele me deve a vida.

     –Já o sei. Perdoastes-lhe, quando lhe podíeis ter matado. Não obstante não confio nesse turco.

     –Não vos inquieteis, Gastón. É um muçulmano diferente aos demais.

     – E empreenderemos cedo o rumo para Itália?

     –Si, Gastón. Nada nos fica por fazer em Chipre. Dirigir-nos-emos a Nápoles e ali viveremos felizes, esquecendo todos os horrores passados. O suave clima do golfo repor-vos-á em seguida das innobles torturas que vos fez sofrer a implacável Haradja. Vamos à ponte, Gastón. Não achar-me-ei tranquila por completo até que avistemos a costa de Itália.

     – Que novo perigo nos pode ameaçar, Leonor? –perguntou o vizconde.

     – Estou intranquila, Gastón! Temo alguma represália de Haradja! Essa mulher é enérgica e despiadada e tem ademais a sua disposição as galeras de seu tio.

     –Asseguraram-me que a frota mahometana continua ancorada em Nicosia –disse o vizconde. – Dantes que se fizesse à mar, já estaríamos a muita distância.

     –Não deter-nos-emos senão o tempo justo para fletar um navio e tomaremos rumo para ocidente.

   –Vamos fora, Leonor. O ar do mar sentar-me-á melhor que o dos estanques.

     Pegou-a da mão e levou-a até a toldilla.

     A galeota achava-se muito distante da ensenada e avançava rapidamente pelo Mediterrãoeo, em direcção sul.

     A costa de Chipre se perfilaban a sete ou oito milhas de distância.

     – Tudo bom vamos, tio Stake? –perguntou a duquesa ao velho marinheiro, que se acercava com a gorra na mão.

     –Magnificamente, senhora. A galeota avança com maior rapidez que uma galera. Está contente o senhor vizconde de vossa façanha?

     –Estrechad essa mão, marinheiro –repôs o vizconde.

     – É uma grande honra para mim, senhor Lhe Hussière! –exclamou o tio Stake, turbado.

     – Apertai sem medo! São um par de mãos cristãs que se encontram!

    – E leais, senhor! –repôs estrechando a mão que o vizconde lhe alongava. – Sempre prestas a cair em cima desses porcos mahometanos!

     – Não compreendo por que Deus terá posto no mundo a essas bestas ferozes!

     – Desejaria afogá-los a todos –continuou o marinheiro, rascãodose com energia a ponta do nariz –e que lhos engolissem os peixes espada!

     Uma voz interrompeu suas palavras:

     – Bons dias, senhor!

     – Vá, o pedaço de pão moreno! –susurró o tio Stake, ao distinguir a O-Kadur. – Hum! Que aspecto de funeral traz este bárbaro!

     O árabe tinha-se aproximado discretamente ao vizconde.

     Seu semblante achava-se realmente triste e seus olhos húmidos.

     – És tu, meu bravo O-Kadur? –exclamou o vizconde. – Que alegria sinto ao te ver de novo!

     –E eu, senhor vizconde –respondeu o árabe. –Encontro-me mais seguro desde que conseguimos fugir da cautividad. Agora já és ditoso, senhor!

     – Si, enormemente ditoso! EsMas que os mahometanos não me apartem jamais da mulher a quem amo!

     Uma grande contracção demudó o semblante do árabe, conquanto foi da rapidez do relâmpago. Não obstante foi advertida pela duquesa.

     –Senhor –disse O-Kadur, –já não precisais de mim. Minha missão terminou e desejo pedir-vos um favor que a duquesa me negou.

     – Que favor? –inquiriu o vizconde, com extranheza.

     –Que não me leveis a Itália.

     – O-Kadur! –exclamou a duquesa entoo enérgico.

     –O azarado escravo deseja regressar a sua terra –prosseguiu O-Kadur, simulando não ter ouvido à jovem. –Minha vida está a ponto de acabar e desejo voltar ali. Cada noite sonho com os desertos de Arabia, com as palmeras verdes e com a choça abrasada pelos raios do sol, e também com as formosas planícies banhadas pelo mar Vermelho. Nós, os naturais das terras calurosas, vivemos muito pouco, e quando sentimos que a morte se nos aproxima não experimentámos mais que dois desejos: um leito de areia e a sombra de alguma de nossas plantas. Suplica à mulher que amas que devolva a liberdade ao azarado escravo.

     – De maneira que desejas me abandonar? –inquiriu a duquesa.

     –Se permites-mo, si.

     – Por que razão tu, que te criaste junto a Leonor e foste seu protector e sua guia, desejas agora a abandonar, O-Kadur? –perguntou o vizconde. –Nápoles é melhor que Arabia. O palácio do duque de Éboli vale mais que a choça. Explica-te.

     O árabe tinha os olhos fechados. A duquesa, que tinha compreendido o fogo secreto que devorava o coração do árabe, lhe examinava com firmeza.

     – Asilo desejas, O-Kadur? –interrogou-lhe.

     – Si, senhora! –repôs o árabe, com voz surda.

     – E não sentirás a ausência de tua senhora, que foi tua colega desde a ninhez?

     – Deus é grande!

     –Quando abandonemos Chipre ficarás em liberdade, meu fiel O-Kadur.

     – Obrigado, senhora!

     Sem pronunciar uma palavra mais, o árabe cobriu-se por completo com seu manto e foi sentar-se na parte de proa. Por sua vez, o vizconde e a duquesa respondiam aos marinheiros que os saudavam ao passar.

     O tio Stake e Nikola acercavam-se outra vez aos jovens.

     –Senhora –alegou o primeiro, – tendes esquecidos já aos tripulantes da carabela?

     – Alos marinheiros turcos? –disse Leonor.

     –Si. Esses cães rabiosos continuam confinados na sentina da galeota. E como para nós poderiam representar um grande perigo, vimos a averiguar que temos de fazer com eles.

     – Qual é vosso conselho? –inquiriu a duquesa.

     – Eu afogá-los-ia depois de lhes ter amarrado bem as pernas e os braços! –repôs o tio Stake.

     – E eu os ahorcaría! –agregou o grego.

     –Esses não lutaram contra nós. Não nos fizeram o menor dano.

     – Mas são turcos, senhora!

     –É verdade, tio Stake, mas nós somos cristãos e devemos ser generosos. Não é verdadeiro, Gastón?

     O vizconde fez um gesto de asentimiento.

     –Em tal caso, devemos desembarcar a esses bribones? –indagó o veterano marinho, algo contrariado por aquela generosidad que considerava pouco adequada. – De ter ido parar a suas mãos, aposto a gorra minha contra a cabeça de um deles a que neste momento já seríamos pasto dos peixes!

     –Talvez estejas no verdadeiro –conveio a duquesa. –Mas eu, como mulher, não posso admitir que se assassine a sangue frio a esses azarados.

     –Já não me lembrava de vos dizer outra coisa –disse o tio Stake. –Os marinheiros que afundaram a carabela acharam em sua estiba enormes caixas, que seguramente estavam destinadas a Haradja.

     – Abriste-las?

     –Si. Encontrámos magníficas roupas de mulher turca. Devo mandá-las levar ao camarote? Acho que já não é preciso que vistais de homem, agora que o senhor vizconde está aqui para vos defender. A nós nos toca vos proteger.

     –Agrada-me a ideia de transformar-me numa mulher mahometana –disse a duquesa. –O capitão Tormenta e Hamid não têm por que seguir existindo.

     –Estareis mais formosa, Leonor –opinou o vizconde, – e não fareis voltar mais a cabeça às damas. Já estou inteirado de que Haradja se apaixonou perdidamente de vos, imaginando para valer que éreis um príncipe árabe.

     –Idilio que me tivesse feito rir de não vos ter encontrado em seu poder –respondeu a duquesa. – De ter-se inteirado Haradja do engano, ter-me-ia feito pagar cara a mentira!

     –Não teríeis saído com vida das zarpas dessa hiena.

     –EsMas que não volte a me ver, não sendo que se translade a Nápoles ou Veneza.

     –E isso resultaria difícil, senhora –disse o tio Stake, que regressava de dar algumas instruções. – Ainda que de todas formas ainda não estamos bastante longe como para poder evitar seus ataques.

     –Ninguém lhe pode ter dito que sou uma mulher.

    – Como! Qualquer sabe, senhora! Os traidores não faltam jamais!

     – Voltais-vos pessimista, tio Stake?

     – Oh, não, senhora! Não obstante desejaria achar-me em frente à costa de Itália ou Sicília, já que os caprichos do vento preocupam-me. Muito temo-me que vinga uma acalma chicha.

     –Já nos encontrámos a muita distância de Hussif –disse o vizconde.

     –A umas vinte milhas; não é grande coisa, senhor.

     –Não nos ameaça nenhum risco.

     –Por enquanto, não.

     –Em tal caso, ordenai que preparem a comida, tio Stake.

     –Enquanto eu encarregar-me-ei de entrar a saco nas caixas que estavam destinadas a minha «noiva» –exclamou, rindo, a duquesa.

     Gastón aguardou a que a duquesa se afastasse pela escotilla e, asiendo ao tio Stake por um braço, inquiriu:

     –Dizei-me: temeis que aconteça algo?

     –Não, senhor vizconde. Não é provável, ao menos por enquanto, que nos persigam os turcos. Mas o desaparecimento da carabela poderia suscitar recelos no ânimo de Haradja.

     –Talvez imagine que se foi a pique.

     – Hum! Com o tranqüilo que está o mar, o duvido!

     – Tendes a certeza de não ter divisado nenhuma nave pelas proximidades de Hussif?

     –Não vi mais que por muito breve tempo a costa, senhor, e não ser-me-ia possível assegurar que em qualquer ensenada não se encontrasse algum navio.

     – Contámos com bom armamento?

     –No entrepuente há quatro culebrinas. E no armero abundan os arcabuces, as espadas e lança-las. As munições também não faltam. Por outra parte, a galeota é sólida e pode lutar contra qualquer carabela. Muito custar-lhe-ia abordar-nos! –opinou o tio Stake. –Esta galeota somente poderia ser vencida por uma galera.

     –Não me parece que as tenha por esta zona –disse o vizconde.

     –Se não chega de alta mar, e em tal caso não ficar-nos-ia outra solução que varar na costa.

     – Ah! Aqui temos à senhora! Por todos os leões da República! Esta é uma turca que enloquecería a todos os baixas, e inclusive ao sultão!

     A duquesa tinha aparecido sobre coberta, mais formosa que nunca. Nenhum até então a viu vestida de mulher com excepção de Lhe Hussière e Perpignano.

     Das roupas destinadas para Haradja tinha escolhido um vestido, mais georgiano que muçulmano, que realzaba sua beleza e fazia ressaltar seus olhos negros.

     Luzia uma elegantísima culidjé (espécie de casaca empregada pelas mulheres persas e georgianas) aberta pela parte delantera e que permitia ver a piraheu (t-shirt de seda branca que se colocava embaixo da anterior prenda). Levava também calzones de branca seda, recamados em ouro, e, na cintura, uma faixa de seda azul. Seus pés calçavam babuchas de vermelha pele recamadas em prata e com a ponta muito torcida para acima, quase atingindo aos flecos da faixa. Seu cabellera, partida em trenzas, caía a ambos lados do rosto, tampado por um o vai branco.

     Lhe Hussière deteve-se em frente a ela, a olhando admirado; o tio Stake, que, de improviso, parecia ter enloquecido, lançou ao alto a gorra, exclamando com todas suas forças:

     – Viva a capitã!

     E um grito, surgido de todos os peitos, repetiu:

     – Viva! Viva!

     Quase não se tinham extinguido os vivas!, quando soou uma violenta imprecación.

     Todos se voltaram para popa.

     Nikola Stradiato achava-se quase tumbado em cima de borda-a, com o semblante desfigurado, olhando para o norte e com o punho estendido.

     – Eh, Nikola! –exclamou o tio Stake. – Voltaste-te imbecil de improviso? Que mosca te picou para vir a interromper nossa alegria?

     – Pela cruz! –gritou o grego com surda voz. – Três vai-as dobram para alta mar o promontório de Hussif! Como não seja uma galera da Serenísima, terá que ser turca a maldita! Tende cuidado com essas aves de presa!

 

                         O ABORDAJE DE UMA GALERA

     O grito do renegado extinguiu de improviso a alegría suscitada pelo aparecimento da hermosísima capitã.

     – Nem cem cubos de água gelada! –masculló entre dentes o tio Stake. – Menuda novidade!

     O vizconde, que tinha palidecido, contemplava com angústia à duquesa.

     – Três vai-as! –exclamou dirigindo-se a Nikola. – Não estareis num erro?

     –Não, senhor vizconde. Tenho boa vista e posso distinguir uma galera de uma carabela ou de uma galeota. Deu neste momento a volta à altura de Hussif e asseguraria que tenta nos dar caça.

     – Corpo de... âncora rompida! –resmungou o tio Stake. – Já se inteirou essa endemoniada bruxa de que não temos a menor relação com o bandido de Maomé! Vamos: ainda tenho boa vista!

     Cruzou com quanta rapidez foi-lhe possível a toldilla e desceu à ponte em companhia de Lhe Hussière, Perpignano, a duquesa e O-Kadur.

     – Vejamos se não sonhaste, Nikola! –comentou, dirigindo-se para borda-a. – Não posso achar que esses bandidos estejam já advertidos! Como é possível que tenham podido husmear aos cristãos a tanta distância?

     Amaldiçoando de contínuo, segundo sua norma, acercou-se ao grego.

     – Para onde estão essas velas? –inquiriu.

     – Fixa-te! –contestou-lhe o grego, indicando para o horizonte.

     – Valha-me san... não sê quem! –resmungou o velho marinheiro. – Não parece possível! Três vai-as! Por força tem que ser uma galera!

     – É venezana ou turca? –inquiriu o vizconde.

     –Não possuo lentes, senhor vizconde –repôs o idoso. –Mas, apesar de que os possuísse, a tanta distância não ser-me-ia possível comprovar a bandeira que ondea sobre o pau.

     – Não achas que talvez seja venezana?

     – Hum! Que vai procurar por aqui uma galera da República, agora que Chipre se encontra já em poder dos turcos?

     – Assim que será turca?

     –É o mais provável, senhor.

     – E vamos deixar que se lancem ao abordaje e nos afundem? –perguntou o vizconde.

     –Não terá outro meio do evitar que atingir a costa –opinou Nikola. –Desgraçadamente, a brisa já não sopra.

     –E a costa acha-se muito distante –alegou o tio Stake. –Para percorrer as quinze milhas que nos separam dela, requereríamos no mínimo oito horas, se continua a acalma.

     –Dizei, Stake –indagó Lhe Hussière: – por que causa esse navio tem a seu favor o vento?

     –Devido a que está a navegar por alta mar, senhor e, tendo em conta a cor escura do água, por essa zona deve de soprar ainda a brisa.

     –Em tal caso avancemos em direcção a poente.

     –Assim afastar-nos-emos da praia.

     –Contámos com culebrinas e arcabuces. Somos bastante numerosos e gente resolvida, segundo crio.

     – Decididos a morrer dantes de tornar à escravatura! –disse Nikola. – Contai para o que seja com meus homens, senhor! – Qual é vossa questão de honra? –perguntou o vizconde. –O capitão Tormenta pode aconselhar-nos magnificamente.

     – Ponhamos rumo para alta mar, tio Stake! –repôs a duquesa. –Ainda não temos a certeza de se essa nave é amiga ou inimiga. E se comprovámos que é mahometana, podemos nos dirigir de novo para a costa. Não opinais assim, tio Stake?

     – Voto a Deus! –exclamou o contramaestre. – Sempre disse que mereceis que vos nomeiem grande almirante! Um marinho veterano não tivesse falado melhor que vos, senhora! A brisa por essa zona é magnífica e esta galeota não é uma tortuga! Ainda não nos deu caça e podemos obsequiarlos com alguns proyectiles! À manobra! Todas as armas brancas e de fogo preparadas sobre a coberta! Enquanto Perpignano, em união de alguns gregos, se afanaba em isto último, logo de ter carregado as culebrinas, os restantes homens tentavam maniobrar de maneira que a galeota atingisse a zona açoitada pelo vento. Não era tarefa singela o o conseguir, já que a nave se achava já muito próxima à costa, em lugar resguardado pelos promontórios próximos. Não obstante, por meio de velas e remos conseguiu-se fazê-la avançar até o lugar desejado e que desta forma aproveitasse o vento, que soprava com certas intermitencias.

     Já não cabia dúvida com respeito à intenção do navio suspeito, cuja proa avançava directamente para a galeota.

     – Dar-nos-ão caça? –perguntou a duquesa ao vizconde.

     – Temo-me que si!

     – Podemos aguentar um abordaje?

     –Uma galeota não pode se enfrentar a uma galera, Leonor.

     –Em tal caso, nos apresarão? –inquiriu a jovem, com ansiedade.

     –Ainda não nos atingiram. Acho que o tio Stake é um magnífico marinho e não deixará que nos apresen com facilidade.

     Naquele instante ouviram uma voz a suas costas que perguntava:

     –Senhora, já não vos lembrais de que tenho ordem de cuidar de vos?

     A duquesa voltou-se ao momento. Ben-Tael, o escravo de Muley-o-Kadel, encontrava-se adiante dela.

     – Que desejas? –inquiriu.

     –Meu senhor indicou-me que supondo que vos encontrásseis em perigo lhe fosse advertir, e acho que neste momento o perigo é iminente.

     – Consideras que esse navio é muçulmano?

     –Baixei agora mesmo das crucetas do maior e estou seguro de que sobre essas vêas frota a bandeira verde do Profeta. As cofas são muito altas e totalmente diferentes às que levam as galeras venezanas.

     – E daí pretendes fazer?

     –Pedir vosso consentimento para atingir a costa e advertir a meu senhor dantes que me apresen convosco.

     –Encontrámos-nos a sete ou oito milhas.

     O escravo sorriu.

     –Ben-Tael é um nadador que não tem contrincantes e a quem não amedrentan os tiburones.

     –Não obstante, ainda não estamos em tão crítica situação como para cair em poder da galera –objetó a duquesa. –Fixa-te: a galeota corre neste instante.

     –É verdade, senhora. Mas é aconselhável tomar precauções.

     A duquesa pediu com a mirada a opinião do vizconde.

     – Podemos confiar na ajuda do Leão de Damasco? –inquiriu Gastón.

     –Estou absolutamente segura –respondeu a jovem. –Está agradecido para mim porque lhe perdoei a vida.

     –Em tal caso, se deseja-lo, marcha-te –disse Lhe Hussière ao escravo. –Supondo que não possamos escapar à perseguição da galera, dirigir-nos-emos à costa e em qualquer parte achar-nos-eis.

     –Em direcção a Luda –disse a duquesa. –Já sabes que essa é precisamente a ensenada onde procuramos refúgio.

     –Si, senhora. Ali aguardar-vos-ei –contestou o escravo.

     Ajustou-se a faixa que lhe cingia a cintura e, afirmando nela o yatagão, se despojou do manto e se arrojou ao água.

     – Por cem mil tiburones! Homem ao água! –exclamou o tio Stake. – Vira!

     –Deixai-lhe, Stake –interveio a duquesa. –Trata-se do escravo de Muley-o-Kadel que se marcha.

     – Lhe atemorizan seus compatriotas a esse bribón? No momento em que volte a lhe ver lhe abraso de um tiro!

     –Vai-se com meu consentimento. Não vos preocupeis por ele. E a galera?

     – O inferno carregue com ela e Maomé reviente! –gritou o contramaestre, que parecia se achar encolerizado. – Qualquer diria que tem reserva de vento!

     – Vai ganhando terreno? –insistiu o vizconde.

     –Si, senhor. Pelo jeito a brisa sopra com maior força para essa parte.

     – São turcos! São turcos! –exclamou naquele instante uma voz desde as cofas.

     – São Marcos e seu leão amparem-nos! –disse o tio Stake, tirando-se a gorra de um manotazo.

     – Que pensais fazer? –perguntou-lhe o vizconde.

     –Dobrar para a costa e tentar desembarcar em Luda –repôs o marinho.

     –É o único que se pode tentar –comentou Nikola, que se tinha aproximado para eles. – De todas formas, tenho minhas dúvidas com respeito a que a galera nos deixe tempo de chegar. Lança-se sobre nós demasiado a pressa, e de aqui a dez minutos encontrar-nos-emos ao alcance de seus canhões.

     – Solta as escotas e prestos para virar! –gritou o tio Stake. – Muda os foques!

     A galeota, que avançava em direcção a poente, viró para levante. Desgraçadamente, o vento era muito flojo e não favorável.

     Pelo contrário, a galera seguia acercando-se velozmente.

     Não demorou nem dez minutos em atingir à galeota e disparou seu primeiro canhonazo com pólvora somente, conminãodolos a que se detivessem.

     – Estamos prontos! –exclamou o tio Stake, arrancando-se um mechón de cabelos. – No mínimo até dentro de três quartos de hora não atingiremos a praia! Senhor vizconde e vos, senhora, preparai-vos para a defesa!

     –Leonor, colocai-vos na batería com Perpignano –indicou Gastón. –Ali encontrar-vos-eis mais a coberto.

     – E vos? –inquiriu a duquesa, contemplando-lhe com angústia.

     –Meu posto está sobre coberta, junto a Nikola, O-Kadur e o tio Stake. Por enquanto os turcos não lançar-se-ão ao abordaje e vossa extraordinária espada não é precisa. Rápido, Leonor! Dispõem-se a disparar de novo! Tenhamos confiança em Deus e em nosso valor.

     Ao ver que a jovem titubeava, a pegou pela mão e a levou com suave energia à batería, na que Perpignano e sete dos renegados se preparavam a disparar as culebrinas.

     – Não vos exponhais, Gastón! –suplicó a duquesa. – Pensai que vos amo!

     –Terei bom cuidado das balas turcas –respondeu o vizconde com um sorriso. –Já somos antigos conhecidos, e quando em Nicosia me respeitaram, com maior motivo fá-lo-ão aqui. Não vos inquieteis, Leonor!

     – Tenho tristes presságios!

     – Todas as pessoas, inclusive as mais valorosas, os têm dantes de começar a batalha! Vos conhecei-lo melhor que eu, já que tendes estado presente ao lugar de Famagusta.

     Um segundo disparo de culebrina, acompanhado de uma exclamação de Nikola, fez-lhe interromper suas palavras.

     – Meu posto está sobre coberta! –exclamou o vizconde, enquanto afastava-se. – Requer-se ali minha presença!

     – Então vê, querido Gastón!

     Lhe Hussière desenvainó a espada e subiu com rapidez a coberta, enquanto Perpignano ordenava aos renegados:

     – Dispostos para uma andanada!

     Quando Lhe Hussière chegou acima, a galera se encontrava a oitocentos metros e tentava fechar o passo à galeota, avançando paralelamente à costa.

     O primeiro proyectil disparado pelos turcos tinha provocado grande destroço a bordo.

     Apontada para a arboladura, destroçou a entena do trinquete, a qual ao desplomarse sobre coberta esteve a ponto de aplastar a Nikola.

     Depois daquela advertência, a galera tinha-se cruzado ao vento, mostrando seus dez aspilleras de babor, nas que relucían as bocas de outras tantas culebrinas.

     A galera era uma nave de enorme tamanho, de tonelaje seis vezes superior ao da galeota, e cuja mista arboladura portava as vai latinas até as cofas e quadradas a partir destas até as pontas. Numerosos guerreiros magnificamente armados aguardavam o instante de precipitar-se ao abordaje.

     –Contramaestre –perguntou o vizconde, acercando-se ao tio Stake, que governava o timão, – ser-nos-á possível atingir a costa dantes que a artilharia turca nos afunde?

     –Isso deveríamos lho perguntar a Maomé, senhor vizconde. Mas é possível que esse cão sarnoso se tenha voltado sordomudo neste instante. O diabo meta-lhe num tonel cheio de peixe hirviendo!

     Outro canhonazo tronó naquele momento e a parte de acima do pau maior, partida por uma das crucetas, se desplomó com grande fragor. Nesse instante ouviu-se a Perpignano que exclamava:

     – Fogo!

     As quatro culebrinas dispararam ao mesmo tempo, perforando as velas da galera, destruindo parte de borda-a e ferindo a bom número de arcabuceros.

     – Diabos! –exclamou o tio Stake. – Essa andanada vale não uma garrafa de vinho de Chipre, senão um tonel! Bebei o sangue de vossos colegas, cães!

     Os mahometanos responderam com suas dez peças de artilharia. Os estragos causados na galeota resultaram horríveis. Borda-a de estribor foi desgajada, destroçado o castelo de proa e alguns proyectiles traspassaram a estiba da infortunada galeota, a graça dos disparos devido à escassez de vento.

     – Isto se chama uma tormenta de fogo! –comentou o tio Stake, que tinha escapado por verdadeiro milagre daquela bordada. – Outra como esta e nos podemos despedir!

     O vizconde tinha-se dirigido a toda pressa para a batería perguntando:

     – Algum ferido?

     – Não! –contestou Perpignano. – Disparai, rapazs!

     A galera, que se tinha aproximado, recebeu os quatro canhonazos e se ladeó para estribor, enquanto um dos quatro proyectiles perforaba o capacete, deixando depois de de si um reguero de sangue.

     Um feroz clamor surgiu dentre os mahometanos, acompanhado de violentas descargas de arcabucería.

     Lhe Hussière, O-Kadur e os gregos que se achavam na toldilla se tinham armado de arcabuces, e depois de se ter protegido depois de de um parapeto praticado apressadamente com a árvore do trinquete e o maior, caixas, barris e cordajes, dispararam a sua vez contra o castelo de proa e o capacete da galera.

     Foi inútil que o tio Stake e Nikola pretendessem conduzir a galeota até a costa, já que o vento era a cada momento mais flojo e a galera lhes fechava o passo, tentando os abordar.

     Esta última nave, cujos tripulantes eram sete ou mais oito vezes numerosos que os da galeota, não teria de demorar em se impor.

     Enquanto, os canhonazos sucediam-se sem cessar. Os artilheiros da galeota, sob o comando de Perpignano, realizavam autênticos prodígios de puntería. Mas isto não bastava contra as vinte peças com que contavam os turcos.

     Um quarto de hora mais tarde a árvore do trinquete da galeota, segado pela cofa, vinha-se abaixo com estrépito sobre coberta, e obstaculizando o passo com as velas e cordajes, cobriu entre elas o parapeto.

     Quase não tinha conseguido o vizconde se livrar do cordaje e as velas que lhe rodeavam, quando um disparo de arcabuz lhe atingiu no peito.

     – Leonor! –exclamou, enquanto se desplomaba.

     O-Kadur e Nikola, que lhe viram cair, foram ao instante a lhe socorrer, enquanto o tio Stake gritava enfurecido:

     – Feriram ao vizconde!

     O grito foi ouvido na batería. Perpignano e a duquesa precipitaram-se angustiados pela escalerilla, enquanto os renegados, advertindo que era inútil opor resistência, deixavam de disparar.

     A duquesa tinha-se inclinado sobre o vizconde.

     – Gastón meu! –exclamou, enquanto as lágrimas brotavam de seus olhos.

     O senhor Lhe Hussière, sustentado por O-Kadur e Nikola, disse com um sorriso:

     – Não é nada mais que uma simples ferida! Não vos inquieteis, Leonor! Uma bala... no peito!... Não será nada!

     Não lhe foi possível continuar. Um estremecimiento convulsivo agitou seus membros. Palideció de uma forma horrível e se desplomó nos braços dos que lhe sujeitavam.

     Leonor lançou um grito horrível e, voltando-se para a galera com o punho estendido, exclamou:

     – Canallas! Matastes-lhe!

     Pegou do solo a espada do vizconde e, precipitando-se a coberta, gritou:

     – A mim, meus valentes! Acabemos com esses miserávels! Sucumbamos todos!

     O-Kadur, que confiou a Nikola o cuidado do vizconde, se dirigiu a ela.

     –Senhora –disse, – que fazes? A que ir em procura da morte? É possível que o senhor vizconde se cure.

     – Marcha-te e deixa-me morrer!

     – Não, tenho a missão de cuidar de ti, senhora! Teu pai confiou-te a mim! Tem cuidado! Os turcos deixaram de disparar e Metiub nos conmina à rendición!

     – Metiub! –exclamou a duquesa, encolerizada. – É o capitão de Haradja! Não temos salvação!

    Dominada por um súbito decaimiento deixou cair a espada e, sentando-se sobre um rollo de sensatas, ocultou a cara entre as mãos. Surdos sollozos surgiam de seu peito.

     Enquanto a galera abordou à galeota pela parte de popa. Os marinheiros mahometanos lançaram os rezones de abordaje, aferrãodolos rapidamente ao pau maior.

     Luzindo uma reluzente armadura, Metiub foi o primeiro em apresentar-se de um salto sobre a cubierta da galeota, seguido de uma dúzia de turcos cobertos totalmente de ferro e provistos de enormes pistolas e cimitarras.

     – Alegra-me ver-te de novo, senhora! –manifestou com acento zombador o turco, avançando para a duquesa. – És uma mulher maravilhosa e agradas-me mais desta maneira que como te apresentaste no castelo! És a filha do bajá de Medina, não o filho. Lamento-o por Haradja!

     Ao escutar estas sarcásticas palavras, a duquesa incorporou-se e pegou a espada que deixou cair.

     – Cala! –gritou. – Feri-te uma vez ante a sobrinha do bajá e agora te vou matar! Enfrenta-te a esta mulher cristã, tu que te jactas de ser o melhor espadachín do exército mahometano! Luta comigo se és capaz!

     O turco deu um passo atrás e pegou das mãos de um de seus marinheiros uma pistola.

     – Tens medo e pretendes assassinar-me a balazos? –gritou a duquesa, com extraordinária vehemencia. – Eu me enfrento a ti com minha espada! Dá provas de tua cavalheirosidad, turco! Eu sou uma mulher e tu um homem!

     Um surdo cochicho surgiu entre os marinheiros que se achavam ao redor do capitão, e o murmúrio não era, em verdade, aprovando o comportamento do lugarteniente de Haradja.

     A hermosura e o valor da duquesa tinham produzido admiração entre os ferozes seguidores do Profeta.

     Um oficial asió pela boneca a Metiub, impedindo-lhe disparar e disse:

     – Esta cristã é de Haradja e não te está permitido a matar!

     O capitão não ofereceu resistência e se deixou desarmar.

     – Em Hussif liquidaremos nossas contas, senhora! –exclamou. – Esta não é ocasião propícia para iniciar um duelo de esgrima!

     –E, em especial, contra quem derrotou ao Leão de Damasco e a ti –alegou a duquesa.

     – Uma mulher! –exclamaram surpreendidos alguns turcos.

     – Si, eu, uma mulher, venci a ambos! –disse Leonor.

     E, arrojando a espada com gesto despectivo, agregou:

     – Fazei comigo o que vos plazca!

     O turco ficou titubeando entre a admiração que lhe produzia a mulher e o ridículo em que se achava ante seus homens, até que, por último, anunciou:

     –Sois minha prisioneira e minha obrigação é levar-vos ao castelo de Hussif.

     – Então ata-me! –contestou com acento irônico a duquesa.

     –Não se me tem dado tal ordem. Meu galera dispõe de camarotes.

     –Com meus amigos que pensais fazer?

     –Haradja decidi-lo-á.

     – E eu! –exclamou naquele instante um homem que luzia as roupas de capitão de jenízaros, se fazendo passo por entre os marinheiros.

 

                           O TRATO DO POLACO

     Ao escutar aquela voz, Perpignano, que lutava contra sete ou oito turcos, energicamente vapuleados pelo tio Stake, que fornecia punhetazos com surpreendente celeridad e abundância, muito pouco satisfatórias para os inimigos da cruz, se abriu passo entre eles, se precipitando contra o recém chegado.

     – Renegado! –resmungou. – Toma isto!

     Sua mão aberta abateu-se sobre o semblante do capitão, produzindo um chasquido semelhante ao de um latigazo.

     Uma espécie de rugido surgiu dos lábios do polaco.

     – Ah! Reconheceste-me? Alegro-me! Mas esta bofetada vais pagá-la, amigo! E agora não serão cequins, ao igual que em Famagusta, os que liquidarão a conta!

     – Laczinski! –exclamou a duquesa, com um gesto de desprezo.

     –Si, o «Urso dos bosques polacos» –repôs o capitão. – O cristão que se fez ferviente muçulmano!

     – Despreciável renegado! –gritou Leonor. – És a deshonra de toda a cristiandad!

     –Mas, em mudança, captei-me as simpatias das hermosísimas huríes do paraíso de Maomé –respondeu em tom zombador o polaco.

     – Acabemos! –interveio Metiub, que já começava a experimentar impaciência. – Transladai a esta mulher a um camarote, ao ferido à enfermaria e aos outros à sentina! Não é esta a ocasião de perder o tempo com palavras vãs. Cumpri-as ordens, marinheiros!

     – Esta é a forma de recompensar que os turcos têm a quem perdoam a vida de seus prisioneiros de guerra? –inquiriu o tio Stake, que ao fim tinha podido ser dominado. – Bem dizia eu que melhor tivesse sido obsequiar com eles aos tiburones!

     – Que falas, velho? –perguntou Metiub. – A que prisioneiros te referes?

     –Aos que se encontram na cala da galeota e aos que fiz mal em perdoar.

     – Talvez são os tripulantes da carabela?

     –Si.

   –Em tal caso, para demonstrar-te que também sabemos ser generosos, não meter-vos-ão nos cepos –disse o turco.

     E, dirigindo-se a seus homens, acrescentou:

     – Vamos, rápido: começa a levantar-se brisa favorável!

     – Permiti que ao ferido o transladem meus homens! –disse com voz enérgica a duquesa.

     – De acordo! –conveio o turco. – Deixai passo vocês!

     Ao senhor Lhe Hussière tinha-se-lhe posto sobre uma tabela coberta com uma lona e quatro gregos levantaram-lhe uma vez que Nikola teve restanhado o melhor possível o sangue que brotava da ferida.

     O infortunado vizconde, já quase desangrado por causa das sanguijuelas dos estanques, e em extremo debilitado como consequência dos maus tratos recebidos de Haradja, não tinha recobrado ainda o conhecimento.

     Lívido igual que um cadáver e com os olhos fechados, não dava o menor indício de vida.

     A duquesa tinha-se aproximado. Não se achava menos pálida que seu noivo, ainda que de seus olhos já não brotavam, lágrimas.

     Ante os mahometanos, que a contemplavam atenciosamente, queria ser digna do nome que levasse em Famagusta pois o capitão Tormenta, homem ou mulher, não podia mostrar debilidade.

     Pegou com as duas mãos a frente do ferido e, besãodola longamente, musitó:

     – Não te preocupes, Gastón meu! Leonor saberá vingar-te!

     E fez um ademão aos que transportavam aquela espécie de camilla.

     A bicha de turcos abriu-se com respeito.

     Os quatro gregos, acompanhados de Leonor, O-Kadur e quantos constituíam a tripulação da galeota, penetraram no castelo de proa da galera.

     Metiub e o polaco reuniram-se no acto com eles, enquanto alguns de seus homens punham em liberdade aos tripulantes da carabela.

     – Transladai-lhe à enfermaria! –ordenou o lugarteniente de Haradja. – E tu, senhora, me acompanha!

     – Por que não me permites estar a seu lado? –inquiriu Leonor. – Trata-se de meu noivo!

     –Não recebi nenhuma ordem a este respecto –repôs Metiub. –Haradja decidirá.

     – Permite ao menos que lhe faça uma visita dantes que o sol se ponha e que tua nave atinja a baía!

     –Se isso te pode comprazer, senhora, to permito. Ainda que tenhas-me insultado em grande maneira ante meus homens e derrotado ante a sobrinha do bajá, desvanecendo a suposição de que somente o Leão de Damasco poder-me-ia vencer, te admiro.

     A duquesa contemplou-lhe com estupor, não podendo imaginar que num muçulmano de sua classe pudesse ter o menor assomo de generosidad.

     – Si, senhora, te admiro! –disse de novo o turco. – Em primeiro lugar, porque sou um guerreiro e, já seja meu inimigo homem ou mulher, turco ou cristão, aprecio seu bravura talvez mais que Haradja, e me sinto orgulhoso de ter lutado contra quem venceu ao Leão de Damasco. – Então deixar-me-ás ver ao vizconde? –Si. Esta tarde. – E farás que lhe curem?

     –Igual que se de meu irmão se tratasse, mas com uma condição. – Que condição?

     –Que me ensines esta extraordinária estocada que eu não conhecia, com a que me feriste. Voto ao Profeta! De tê-lo desejado, neste momento não encontrar-me-ia aqui! Eu, em lugar teu!, não ter-me-ia mostrado tão generoso e menos ante Haradja.

     – Que supões que pensará fazer comigo a sobrinha do bajá?

     –Não o sei, senhora –respondeu o turco. –É impossível conhecê-la a fundo e menos imaginar seu pensamento. É tão voluble como o vento do Mediterrãoeo. Vêem! Tenho que dar ordem de que remolquen a galeota.

     A duquesa acompanhou ao turco até a câmara de proa.

     Atravessaram o comedor e Metiub deteve-se em frente a um camarote, cuja porta era muito sólida.

     –Entra, senhora, e permanece tranquila –disse o turco. –Enquanto estejas em minha nave, não tens que temer nada.

     –Estou preocupada pelo vizconde.

     –O médico da bordo encontra-se junto a ele e curar-lhe-á igual que se fosse eu o ferido.

     Abriu a porta e fazer passar a um cómodo camarote, com muebles de estilo oriental. Depois saiu, fechando depois de de si a porta e deixando nela dois homens de guarda provistos de pistolas e cimitarras.

     – Que ninguém entre aqui! –advertiu. –Somente uma pessoa acha-se exenta desta proibição: o capitão de jenízaros.

     Ao subir à ponte a galeota já tinha sido tomada a remolque e a galera avançava com lentidão em direcção ao norte.

     Achava-se dando instruções, quando se lhe acercou o polaco, que se dirigia à enfermaria.

     –O ferido encontra-se num estado de extrema gravidade –anunciou. –Não é possível lhe extrair a bala e o chumbo tem danhado órgãos vitais.

     – Talvez o pulmão? –inquiriu Metiub.

     –Si. Tem perforado o esquerdo.

     – Morrerá?

     – Qualquer sabe! –repôs o polaco. –Tivesse sido melhor uma ferida de espada.

     – Isso me preocupa! –disse o turco. –Tinha assegurado a Haradja que Leva-los-ia a todos com vida.

     – Bah! Um estorvo menos! –respondeu o polaco.

     – Por que falas assim?

     – Eu tenho meu plano! Responde a uma coisa: que imaginas que fará Haradja com a jovem?

     –Idêntica pergunta fez-me ela. Qualquer sabe!... Com a maneira de ser dessa mulher! Resultar-me-ia difícil responder-te.

     – Matá-la-á?

     –Muito enfurecida está contra ela.

     – Não consenti-lo-ei jamais!

     O turco sorriu levemente com aspecto quase conmiserativo.

     – Tu! –exclamou. – Talvez não sabes que Haradja, confiando na protecção de seu tio, se burla de Mustafá e até do sultão?

     – Voto a Deus! –exclamou o polaco.

     – Recorda que és muçulmano! –disse o turco, rindo.

     – Em tal caso pelas barbas de Maomé!

     – Que é o que pretendes?

     –Considero que, sendo eu o que delatou a essa mulher como cristã, me pertence a mim.

     –Não estou seguro de que Haradja opine assim.

     – Ai dela se a matasse! –exclamou em tom ameaçador o polaco.

     – Eh? –disse maliciosamente o turco. – Em tão grande maneira interessa-te a vida dessa cristã?

     –Não considero oportuno te dar explicações, Metiub.

     –Não são precisas, capitão.

     – Onde se encontra essa mulher?

     –No terceiro camarote de estribor.

     –É-me necessário vê-la.

     –Não se me tem ordenado to impedir –respondeu Metiub. –

     Unicamente previno-te com respeito a que não podes a tocar.

     – O diabo carregue contigo! –disse entre dentes o polaco enquanto afastava-se. – Todos estais malditos, incluindo ao mesmo Maomé!

     Desceu com um humor bastante péssimo a escalerilla, ordenou aos dois guardiães que se marchassem e, abrindo a porta do camarote, penetrou neste dizendo:

     – Com licença, senhora!

     A duquesa achava-se sentada num pequeno divã ante o tragaluz com a vista fixa no mar e, a julgar pela expressão de seu rosto, dominada por muito tristes pensamentos.

     –Senhora... –insistiu o polaco, supondo que não tinha sido ouvido como consequência do fragor do timão.

     A duquesa não fez o menor gesto.

     – Voto a Maomé! –resmungou o capitão, com ira. – Falei-vos repetidas vezes e eu não sou um vil escravo!

     A duquesa levantou-se, irguiéndose ante Laczinski com os olhos despedindo fogos.

     – Não, não sois um escravo! –disse com voz que a cólera fazia vibrante. – Sois um renegado! Um escravo não tivesse prescindido de sua religião como vos o fizestes!

     – Maomé é semelhante a Cristo, o Islão parecido ao cristianismo! Pelo menos para um capitão aventurero! –respondeu o polaco. –Por outra parte, vos desconheceis o que penso equ é fé alenta meu coração. Melhor é a pele que uma crença!

     – E chegastes a Chipre para deshonrar vossa espada? A quem pretendíeis defender? Ao leão rugiente de São Marcos ou à Meia Lua?

     –Para mim era suficiente utilizar a espada como os capitães aventureros. A fé! A pátria! Palavras hueras para nós! Lutar contra o turco, o chinês, o cristão ou o budista, que mais dá? Mais não vim a discutir, senhora. Fá-lo-emos em outro instante mais propício.

     – Que viestes a fazer aqui, senhor Laczinski?

     Em lugar de responder, o polaco saiu ao corredor, se cercioró de que não tinha ninguém e, voltando junto à duquesa, disse, fechando a porta cautelosamente:

     – Sabeis a que lugar vos leva Metiub?

     –Ao castelo de Hussif –contestou Leonor.

     –Ou, para ser mais exactos, de Haradja.

     – E daí?

     – Que acolhida fá-vos-á essa mulher cruel, que tem fama de ser despiadada?

     –Possivelmente, muito pouco cortês.

     –Posso assegurar-vos que está enfurecida contra vos e que não vos perdoa o que vos tenhais troçado dela.

     A duquesa fixou no capitão uma mirada aguda como uma lança.

     – Ah! De maneira que a vistes? –inquiriu com voz surda.

     –Não o nego.

     – Para comunicar-lhe que eu não era um homem, senão uma mulher?

     –Eu não disse tal coisa –respondeu o polaco, cujo turbado aspecto lhe delatava.

     – Mentis como um autêntico renegado! –exclamou, encolerizada, a duquesa. – Somente vos e alguns amigos meus, que não são capazes de me trair, o sabiam.

     –Não tendes a menor prova para me acusar.

     – Observo-as em vossos olhos!

     –Os olhos talvez mintam, e... Já está bem, voto a Deus! Permiti que fale! Cheguei, não como inimigo, senão em qualidade de amigo e estou decidido a vos salvar.

     – Vos?

     –Si, senhora. Conquanto sou renegado, estou melhor considerado entre os mahometanos que entre os cristãos. Tendes a demonstração em minha graduación.

     – E viestes para ajudar-me?

     –A vos e aos outros.

     – Inclusive ao vizconde?

     O polaco titubeou durante um instante e repôs:

     –Si, se o desejais e consegue se curar.

     – Deus meu! –exclamou a duquesa enquanto palidecía. – Está ferido de morte?

     –De morte, não. Mas está muito grave, já que a bala não se pode extrair. Esses endemoniados turcos empregam um chumbo que em quanto tropeça com osso se aplasta!

    A duquesa tinha-se desplomado no divã, sollozando.

     –Vamos –disse o polaco: –me entristece ver chorar a tão formosos olhos. E, ademais, o capitão Tormenta não deve desalentarse jamais! Vi curar-se a outros feridos em condições piores quando lutava contra os tártaros russos. O médico da bordo confia ainda em poder lhe salvar.

     – Estais no verdadeiro! – repôs a duquesa incorporando-se. –Falai: que desejais?

     –Pôr-vos a salvo a todos, já vo-lo disse.

     – Talvez sentis ter renegado da cruz?

    –Pode ser que si e pode ser que não –respondeu o polaco, fazendo um movimento com a cabeça.

     – E de que maneira podereis nos salvar?

     –Em primeiro lugar é necessário impedir que a galera chegue a Hussif. Se caísseis outra vez em poder de Haradja, tudo teria terminado, e não desejo que essa mulher vos mate.

     – E daí pode-vos interessar isso a vos?

     – Mais do que imaginais, senhora! –repôs o polaco, fincando sua vista nela.

     –Falai com maior clareza.

     – Não me entendestes?

     –Não.

     –Ao salvar-vos arrisco-me a muito grandes perigos, já que se descobrem-me, tendo em conta que sou um renegado, não poderia evitar ser empalado.

     –É verdade –conveio a duquesa, que prestava suma atenção.

     –E considero que tenho direito a uma recompensa pelo perigo a que me exponho.

     – Dinheiro? Tenho as suficientes riquezas como para vos entregar o que soliciteis!

     O polaco fez um gesto negativo.

     –Ao capitão polaco sobram-lhe seu paga e sua soldada para viver –contestou, –e isso lhe compraze. Se precisa alguns cequins, lhos agência nos saques.

     – Que desejais em tal caso? –inquiriu com acento angustiado a duquesa.

     – Que desejo? –disse, titubeando, o polaco. – Vossa... vossa mão!

     –Meu... – Mão!

     O assombro da duquesa foi tão extraordinário, que por um momento não pôde pronunciar uma palavra.

     – Estais de brincadeira!, capitão: –disse, por último, reprimindo sua ira. – E o vizconde de Lhe Hussière?

     – Deixai-o!

     – Amais-me?

     – Diabos! Amei-vos e aborrecido ao mesmo tempo! Amado por causa de vossa hermosura, vossa ousadia, e aborrecido porque vossa espada venceu-me! Se aceitais, esta noite a galera estará a arder e não regressará a Hussif.

     A duquesa guardou silêncio, mas seus olhos brilhavam enigmáticamente.

     – Aceitais o trato? –inquiriu o polaco.

     – Si! –respondeu a duquesa. – O vizconde pode considerar-se que já está morrido. Mas tendes que nos salvar a todos. Jurai que fá-lo-eis assim!

     – Pela cruz e pela Meia Lua! –disse o polaco. – Dai-me a mão!

     A duquesa deixou que as callosas mãos do aventurero estrecharan seu diestra.

     – Esta noite toda a galera será devorada pelos fogos! –afirmou o polaco. – Adeus, doce noiva! Não tereis queixa de mim!

     Abriu a porta e saiu sem produzir o menor ruído.

     A duquesa quedóse em pé, imóvel, com os olhos brilhando-lhe com um siniestro destejió.

     – Renegado maldito! –exclamou ao cabo. – Igual que me burlei de Haradja, burlar-me-ei de ti! Eu não fiz juramento algum pela cruz!

 

                         O INCÊNDIO DA GALERA

     Enquanto no camarote acontecia a cena já descrita, o tio Stake, confinado na sentina da galera, se dedicava a enviar ao diabo a Maomé e a todos seus sectarios.

     O iracundo lobo de mar lançava insultos de contínuo.

     – Apresado! –clamava, golpeando-se na cabeça e mesãodose as barbas. – Ter-nos-á abandonado a cruz de Jesucristo? É excessivo! Já vai sendo hora de que a sorte mude para os turcos! Isto é impossível que siga assim, ou acabarei me voltando turco! Que opinais, senhor Perpignano?

     O tenente, que se achava sentado ao lado de O-Kadur, não considerou adequado lhe responder.

     – Por mil baleias, reventadas, comidas e asadas! Estais todos mortos? Permitireis que vos conduzam a Hussif e que vos empalen naquelas pontas de ferro que há nas torres? Eu, desde depois que não, por cem mil bombas! Não me apetece o mais mínimo terminar em meus dias empalado!

     – E daí pensais fazer, tio Stake? –indagó o tenente, abandonando o decaimiento que lhe dominava.

     – Eu! –resmungou com fera entonación o tio Stake. – Fazer voar a galera com todos os bribones que a tripulan e nos pôr a salvo nós!

     – Pois fazei-o! –repôs O-Kadur com acento irônico.

     – Talvez, pedaço de alquitrão, consideras que não sou capaz de prender fogo ao polvorín? Tu não és veneziano, nem dálmata, e te tenho lástima!

     –Sou um homem que vale tanto como outro, e em Famagusta dei provas disso.

     – E eu não? –inquiriu o tio Stake. – Eu fiz voar uma torre que estava a ponto de ser tomada pelos turcos e os mandei a todos ao outro mundo! Uns foram directos ao paraíso, outros ao inferno e os demais a ver a suas formosas huríes! Imaginas, trozo de pão moreno, que um marinheiro vale menos que um soldado de terra como, por exemplo, tu?

     O-Kadur estava a ponto de responder de bastante maus modos, quando Perpignano cortou a discussão perguntando ao irascible contramaestre:

     –Falai, tio Stake: que quereis tentar?

     –Enviar ao diabo esta galera dantes que chegue a Hussif –repôs o velho marinho.

     –Isso também quisesse o fazer eu, mas não vejo a forma.

     – Há que a procurar!

     – Tendes algum projecto?

     –Si; mas não tenho as ferramentas.

     – Quais?

     –Algum escalpelo, umas pinzas... Qualquer coisa, em soma, que sirva para praticar um buraco na cala por onde penetre o água.

     –Não dispomos sequer de facas.

     – Desgraçadamente, senhor Perpignano!

     –Eu tenho uma ideia talvez mais boa –interveio naquele momento Nikola, que os tinha estado escutando sem pronunciar uma palavra.

     – Solta-a já, grego! –exclamou o tio Stake. – Teus compatriotas têm fama de ser os mais ingeniosos dos levantinos e inclusive de aventajar aos de É mima!

     –Os turcos tiraram-me as armas, mas não a yesca e o eslabón.

     – Magnífica coisa para acender a pipa, se tivesse fumo! –comentou o velho.

     – E para fazer arder uma nave! –repôs o grego, com grande serenidad.

     O tio Stake deu um respingo.

     – Bem assegurava eu que os gregos são os mais ingeniosos de todos! –exclamou o tio Stake, mirando-se um punhetazo na frente. – Meu cérebro é semelhante ao de um coelho!

     – Desejais prender fogo à galera? –inquiriu Perpignano.

     –Si, senhor –respondeu Nikola. – Seria a única maneira de inutilizarla.

     Sem figurar-lho, o grego tinha tido o mesmo pensamento que o polaco. E era o único que podia ter certas possibilidades de sucesso, já que um combate entre os presos, sem armas, e os tripulantes da galera tivesse resultado um desastre para os primeiros.

     – Que vos parece? –interrogou Nikola, ao observar que todos permaneciam tão silenciosos como mortos.

     –Que abrasar-nos-emos todos –alegou Perpignano.

     –Não é na cala onde tenho meditado iniciar o fogo –disse o grego. –Penetraremos no entrepuente e faremos arder o depósito de cabos e vai-as de reposto.

     – E se tivesse algum guardião? –aventurou o tenente.

     –Retorce-se-lhe o pescoço –arguyó o tio Stake.

     – Quando opinais que chegaremos a Hussif? –inquiriu Perpignano.

     –Pelo menos para meia-noite –repôs Nikola. –A brisa não tornar-se-á mais forte até a queda do sol.

     – E a duquesa? E o vizconde? Ser-nos-á possível pô-los a salvo?

     –A costa não se acha a muita distância. Na nave há chalupas e não será difícil a atingir. Ali encontraremos ao Leão de Damasco. Seu escravo ter-lhe-á prevenido já.

     – Que homem tão surpreendente! –exclamou o tio Stake. –Efectuemos um reconhecimento, para averiguar se é-nos possível forçar a porta do almacén de repostos.

     O tio Stake aproximou-se à porta do depósito, a qual se abriu sem necessidade de ser forçada.

     – Não se encontra fechada! –disse surpreendido.

     –Não, porque tirei eu a barra de ferro –anunciou uma voz.

     Três exclamações foram lançadas ao unísono:

     – É o renegado!

     – Si, o renegado –contestou o polaco, com ironía, –que vem a vos pôr a salvo de parte da duquesa!

     Avançou para os três homens, os quais mais bem pareciam ter a intenção de se precipitar sobre ele e lhe estrangular, que de considerar verdadeiras suas palavras.

     – Vindes a salvar-nos? –inquiriu o tio Stake. – Vos? Vamos: estais de brincadeira, senhor meu! A chanza pudesse custar-vos cara. Advirto-vos que o digo a título de advertência.

     O polaco encolheu-se de ombros e, dirigindo-se ao tenente, disse:

     –Ordenai a um de vossos homens que vigie junto à entrada. O que vos vou dizer devem o desconhecer os turcos. Com isso me jogo a pele.

     – Estupenda para um tambor! –masculló o tio Stake. – Seria mais resistente que a de burro!

     O tenente fez uma indicação a O-Kadur para que se apostasse na escotilla, lhe dizendo:

     –Se aproxima-se alguém, avisa ao instante.

     O árabe desapareceu discretamente.

     –Dizei o que seja, capitão –instou Perpignano.

     –Faz um momento tramabais um complô, verdade?

     – Nós? –inquiriu o tio Stake, começando a subir-se as mangas.

     –Ouvi-vos conversar.

     –É verdade. Disputávamos com respeito à lua ou, para ser mais exactos, perguntávamos-nos se será verdadeiro que possui olhos, nariz e boca.

     –Não te guasees, marinheiro –respondeu o polaco. –Não é esta a ocasião apropriada. Vossa ideia era prender fogo à galera.

     – Sois adivinho? –inquiriu Perpignano.

     –Não. Ouvi-vos falar pelo tabique. Mas não deveis ter medo: vosso projecto concorda precisamente com o meu.

     – Que! Vos...?

     –Eu tinha pensado incendiar a nave, e já estava em combinação com a duquesa para isso.

     – Eh! –exclamou o tio Stake. – Este facto parece incrível e extraordinário! Como podem estar de acordo o cérebro de um renegado e o de um grego cristão?

     O polaco simulou não ter escutado aquelas palavras e prosseguiu:

     –Estou inteirado de que dispondes de yesca e eslabón, não é assim?

     –Si –contestou Nikola.

     –Tentáveis ir ao almacén de velas e cabos.

     –É verdade –conveio Perpignano.

     –Estou de acordo com vosso plano. Esta noite baixarei a fim de levantar a barra de ferro da porta...

     – Pouco a pouco, senhor! –interrompeu o contramaestre, que ainda sentia desconfiança. – Quem nos assegura que sois realmente leal? Não tratar-se-á tudo isto de uma argucia para que os turcos nos fuzilem?

     –Não teria vindo –repôs o polaco, – e, por outra parte, tivesse sido para mim muito singelo envenenar a comida que vos servem e vos enviar em derechura ao outro mundo. Tendes minha palavra de honra!

     – Hum! –masculló o idoso, arrugando o nariz. – Essa honra cheira-me mal!

     Por segunda vez o polaco simulou não ter ouvido a terrível ofensa.

     –De maneira que... –disse, olhando a Perpignano.

     –Já que dais vossa palavra de honra de não nos trair, estamos resolvidos, com o fim de salvar à duquesa e ao senhor Lhe Hussière.

     –Então, conformes?

     –Si.

     – Um instante, senhor! –exclamou Nikola Stradiato, intervindo. – A brisa que sopra é forte?

     –Não. Segue acalma-a e avançámos com grande lentidão.

     –De forma que chegaremos a Hussif...

     –Amanhã pela manhã, supondo que o vento não aumente.

     – A que distancia nos encontrámos?

     –A quarenta milhas, aproximadamente –respondeu o polaco.

     –Sobra-me com esses dados.

     –A ti, si. Não a mim –interveio o velho Stake. –Desejo saber se há vigilantes no sobrepuente.

     –Não há nem um –disse Laczinski.

     – E onde se encontra o depósito de velas e objectos de reposto?

     –Embaixo das câmaras.

     – Não abrasaremos à duquesa, que está numa delas? –perguntou, sobresaltado, o contramaestre.

     –Sobre essa hora o capitão Tormenta estará ao lado do senhor Lhe Hussière. Tudo o previ e calculado. Podeis prender fogo com inteira liberdade. Tentai passar o tempo o melhor possível e tende a certeza de que no instante oportuno a porta achar-se-á aberta. Até depois, nas chalupas da nave!

     O renegado voltou as costas ao grupo e ascendeu com lentidão a escalerilla, correndo depois pela porta o hasta de ferro.

     –Senhor tenente –perguntou Stake, – confiais nesse homem?

     –Acho que nesta ocasião é leal –repôs Perpignano. – Qualquer sabe se o arrepentimiento não terá feito mella em seu coração!

     – Negro, muito negro! –disse o marinheiro, haciende um gesto com a cabeça. – Já ver-se-á! Afinal de contas, morrer por causa das cimitarras turcas ou no ventre dos tiburones, dá-me o mesmo. Crac!, e tudo se acabou, e boas noites à companhia, como costumamos dizer nós.

     Meia hora mais tarde um par de criados acompanhados de quatro marinheiros armados com cimitarras e arcabuces levaram aos cativos dois cestos com aceitunas, pan moreno e carne salada.

     Nem os gregos nem os colegas da duquesa conversaram com aqueles homens, que os contemplavam com hostilidade.

     Quando, acabada a comida, se tiveram marchado, o tenente propôs a seus amigos dormir um pouco, já que aquela noite não teriam oportunidade de dormir nem um instante, por causa do plano que meditavam.

     Asilo fizeram.

     O tio Stake foi quem primeiro acordou. Uma intensa escuridão imperaba em cala-a.

     – Diabos! –exclamou. – Dormimos igual que marmotas! Claro que é verdadeiro que passámos uma noite sem colar um olho a raiz de nossa fugida! Eh! Vinga, dormilones!

   Perpignano, O-Kadur e o grego incorporaram-se, dando bostezos.

     – Já é de noite? –inquiriu o tenente.

     –O sol deveu de pôr-se faz um par de horas –respondeu o tio Stake. –Assim que não percamos tempo e tentemos asar três ou quatro dúzias de turcos.

     – Estais preparados? –perguntou Perpignano.

     – Si! –contestaram todos ao mesmo tempo.

     – Em marcha!

     Às apalpadelas e pegados uns a outros puderam dar com a escalerilla e subiram por ela. O tio Stake ia em primeiro lugar, já que tinha afirmado que via «divinamente», apesar de não ter linterna.

     Quando atingiram a porta, a empurraram e cedeu sem necessidade de fazer a menor violência.

     – Eh! –murmurou o velho. – Verdadeiramente estará arrependido o polaco? O diabo ficou-se sem um alma!

     Penetrou o primeiro e pôs-se a escutar atenciosamente na profunda escuridão. No entrepuente parecia não ter ninguém.

     – Não há ninguém? –inquiriu Perpignano a meia voz.

     – Permiti-me escutar, senhor!

     Sobre a toldilla percebiam-se os pesados passos dos sentinelas, nos entrepuentes; os puntales crujían e pelas bandas oíase como escorregava o água.

     –Acho que ninguém se preocupa de nós –opinou. – Silêncio e mistério, tal como dizem nas tragédias! Agarrai-vos da mão e preparai-vos a estrangular ao primeiro turco que tente nos fechar o passo. Mas de um forte apretón, para que não possa gritar!

     – Em marcha! –disse Perpignano. – Talvez não se encontre muito distante a ensenada de Hussif!

     – Não hagáis que se nos ponha a carne de gallina, senhor! –contestou o velho. –Não acho que seja o momento oportuno para recordar isso.

     Avançou em direcção a babor e todos caminharam com extrema precaução. Perpignano ia por trás do contramaestre, pegado a seu casaca, e depois dele marchavam Nikola e os outros, agarrados da mão.

     O tio Stake parecia ter a vista como os gatos, a julgar pela maneira que eludia o chocar contra as culebrinas nem se rasgar nada.

     Junto ao extremo de popa do entrepuente seguiu o corredor que se achava sob as câmaras, tentando encontrar a porta do depósito de cordajes e de velas de troca.

     Encontrou uma falleba de ferro e fazer girar. Uma porta abriu-se facilmente.

     – O renegado cumpriu o prometido! –anunciou, respirando satisfeito.

     E, dirigindo-se a seus amigos, acrescentou: – Ficai-vos aqui vocês e me entregai a yesca e o eslabón!

     – Aqui estão! –repôs Nikola.

     – Está completamente seca a yesca?

     –Arderá ao instante.

     – Magnífico! Em médio minuto levar-se-á a cabo tudo. Que não se mova nenhum e, em especial, que a nenhum se lhe ocorra falar!

     Pegou ambos objectos e penetrou no depósito, que se achava abarrotado de velas, cabos, caixas e correntes. Uma vez no interior, acendeu a yesca.

     – Encontra-se tudo cheio de alquitrão! De que forma se vai queimar! Inclusive abrasar-se-á a Meia Lua! –exclamou o tio Stake.

     Achavam-se junto a uma barrica cheia de peixe. Pegou um montão de esparto, prendeu-lhe fogo e o diseminó por no meio das velas e a peixe.

     Ao ver alçar-se primeiro uma coluna de fumaça e depois brilhar os fogos, precipitou-se fora do depósito, chocando contra Nikola e os outros, que lhe aguardavam fora.

     – Rápido! –disse. – Vamos a cala-a! De aqui a meia hora toda a galera estará incendiada!

 

                         "FOGO! FOGO!"

     Depois de ocultar-se o sol no horizonte, Metiub, fazendo honra ao que prometeu, baixou ao camarote da duquesa com o objecto da levar até a enfermaria, onde o vizconde gemia como consequência das dolorosas curas do médico, que tentava lhe sacar a bala.

     Dominada por um intenso pesar, já que em todo o dia ninguém a tinha informado sobre o ferido, a jovem esperava a Metiub. Parecia que, finalmente, seu indomável energia se tinha quebrantado com tantas emoções.

     Ao ver entrar ao turco, pôs-se em pé e perguntou-lhe com anheloso acento:

     – Que ocorre?

     –Ainda não estamos à vista de Hussif –repôs Metiub, que parecia se achar de péssimo humor. – Segue a mesma acalma, e não atingiremos a ensenada até manhã pela manhã ou talvez mais tarde.

     – Não me refiro a Hussif! –contestou a duquesa. – A saúde do vizconde é o único que me inquieta!

     –O médico não pode ainda assegurar nada, senhora. A bala continua incrustada na carne e não é possível a extrair.

     – Em tal caso, morrerá! –exclamou a duquesa, em tom de espanto.

     – Que dizes, senhora? Eu também em Nicosia fui atingido por uma bala, que se me incrustó no costado direito. Ninguém ma tem sacado e estou ainda com vida. Quando se canse de percorrer meu corpo, aparecerá a flor de pele e dar-lhe-ei passo ao exterior com um singelo corte.

     – Reconfortais-me com estas palavras!

     –Não afirmo, de todas formas, que o estado do vizconde seja bom. A ferida é grave, senhora, e nou cicatrizará com facilidade.

     – Posso-lhe ver?

     –Prometi-to. No entanto, dantes que cheguemos a Hussif me tens que ensinar essa famosa estocada. Estou interessado em saber pará-la.

     –Si; mas neste momento, não. Amanhã, dantes que cheguemos a Hussif, ou bem em presença de Haradja.

     – Ah, não! Adiante da sobrinha do bajá, não! –respondeu com viveza o mahometano. – Poderia não ter ocasião!

     – Esc significa que Haradja talvez matar-me-á dantes que te possa ensinar a estocada? –inquiriu a duquesa, com amarga ironía.

     –Eu não sou capaz de adivinhar as ideias dessa estranha mulher –repôs Metiub. – Acompanha-me, senhora! Já é de noite!

     Abandonaram o camarote e chegaram a coberta. Tinha muito poucos homens de guarda, espalhados por babor e estribor. Imperaba naquele instante no Mediterrãoeo uma acalma semelhante às que inmovilizan durante várias semanas aos navios que percorrem as zonas intertropicales.

     Apesar da escuridão que remava, a duquesa pôde ver a um homem coberto por uma capa de lana escura, apoiado na borda de popa, que lhe fez com a mão um ademão de adeus. Tratava-se do polaco.

     Conduzida por Metiub, cruzou toda a toldilla da galera, sob a batería, alumbrada por um par de linternas e passou à câmara destinada aos feridos.

     Nela se encontravam duas dúzias de redes sujeitas às paredes, com o objecto de que os feridos não notassem demasiado as sacudidas da galera em decorrência das tempestades.

     Sobre uma delas se encontrava inclinado um idoso turco de longa barba e arrugado semblante, de cor parecida ao dos árabes.

     –Aqui é –indicou Metiub, voltando-se para a duquesa. –Aguardo-te em coberta, senhora.

     A duquesa dirigiu-se para a rede, em cima da qual ardia um farol suspendido do teto.

     O vizconde semejaba estar aletargado e estava muito pálido. Um viscoso suor surcaba sua frente e duas semicírculos morados viam-se sob seus olhos.

     Sua respiração era jadeante e de seu peito surgia um surdo rumor.

     – Está a se morrer? –inquiriu a duquesa, contemplando ao médico, que a examinava com grande interesse.

     A pergunta, que tinha sido feita em árabe, foi entendida pelo homem, que replicou:

     –Não, senhora. Estai tranquila; por enquanto não há que temer nada.

     – Curar-se-á?

     –Encontra-se nas mãos de Alá.

     –Se em realidade és um tobib (médico), deves sabê-lo.

     – Maomé é grande! –repôs escuetamente o árabe.

     – Gastón! – murmurou a duquesa, com doce voz. – Querido Gastón!

     O ferido abriu os olhos e um destello de alegria alumiou suas pupilas.

     – Sois vos, Leonor! –murmurou com débil voz. – Esta... bala..., esta... bala!

     – Não faleis! –ordenou o médico em tom enérgico. – A ferida é de gravidade!

     –Salvar-lhe-ás, não é verdadeiro? –perguntou a duquesa. – Seguramente és um bom tobib.

     – Oh, si! –contestou o turco, atusãodose nervosamente a branca barba. – Este senhor não morrerá!

     Um débil sorriso assomou aos lábios do vizconde, que se mordeu os lábios para reprimir um gemido.

     – Calai! –disse o tobib ao ver que estava a ponto de falar. – Estais a matar-vos!

     – Não, Gastón; não faleis! –suplicó Leonor. – Disso depende vossa cura!

     – Não!... –disse o vizconde. – Não quero!

     – Que desejais, Gastón? –inquiriu a duquesa.

     – Amai-me! –suspirou o vizconde. – Que a morte me chegue vos contemplando... assim..., igual que aquela noite... em Veneza!...

     – Não faleis! –insistiu por terceira vez o médico. – Devo responder com minha cabeça de vossa cura!

     Naquele instante lançaram uma tremenda exclamação os sentinelas que passeavam sobre coberta.

     – Fogo! Fogo!

     O tobib atingiu de um salto a porta, enquanto a duquesa dirigia-se para a batería, gritando:

     – Socorro! A galera incendeia-se!

     O polaco surgiu naquele preciso momento.

     – Não vos espanteis, senhora! –disse concisamente. – No momento em que o perigo seja maior, pôr-vos-ei a salvo a vos e ao senhor vizconde! Ficai-vos aqui e confiai em mim por completo! Vou libertar a vossos marinheiros!

   – O vizconde dantes que nenhum: lembrai-vos! –repôs a duquesa.

     – Jurei-o –disse o polaco –e jogo-me demasiado em isso para não cumprir o prometido! Ficai tranquila! Tudo terminará bem!

     – Não poderão extinguir o fogo?

     O polaco esboçou um sorriso sardónica.

     – Com que bombas? –inquiriu. – Tudo o calculei!

     E dirigiu-se presurosamente para coberta, onde imperaba uma horrível confusão.

     Toda a guarda franca saía correndo da câmara geral de proa para colaborar nos trabalhos de extinção do fogo, que devia de ser fortísimo, a julgar pelo espesso e maloliente fumaça que surgia da escotilla de popa.

     O polaco acercou-se a Metiub, que amaldiçoava enquanto dava ordens a direita e esquerda.

     – Em que lugar começou o fogo? –inquiriu.

     –No depósito de objectos de reposto, ao que parece –respondeu-lhe o turco, que se achava enfurecido.

     – Quem pode ter preso fogo a esse lugar?

     – Seguro que foram esses cães cristãos!

     – Estás a perder a cabeça, capitão! Estão confinados em cala-a, que se acha a proa, enquanto o incêndio começou a popa. Permite que os vá deixar em liberdade para que trabalhem nas bombas; em casos semelhantes nunca sobram braços.

     –Tens razão, capitão –conveio Metiub. –Vê a libertá-los e pôr a trabalhar.

     Isto era o que pretendia o polaco, que estava temeroso de que os turcos pudessem advertir a falta da barra de ferro.

     Enquanto os tripulantes dispunham-se a lutar energicamente contra o incêndio, o polaco desceu ao entrepuente e passou a cala-a.

     Os gregos, Perpignano, O-Kadur e o tio Stake achavam-se congregados no meio da escalerilla prestando atenção ao fragor que procedia da toldilla.

     – Saí! –exclamou o polaco.

     – O fogo...? –inquiriu Perpignano, que se achava o primeiro.

     – Progride espantosamente! –respondeu o polaco.

     – E minha senhora? –perguntou O-Kadur, com acento anheloso.

     – Não corre o menor perigo! Não te inquietes por ela...

     – Desejo vê-la! –disse o árabe em tom enérgico.

     –Se queres, vê em seu procura e vai-a por ela. Encontra-se na enfermaria. Vocês subi e tentai não vos trair.

     Subiram a coberta, a qual estava já totalmente invadida por uma fumaça espesísimo impregnado de alquitrão.

     – A trabalhar nas bombas, cristãos! –ordenou Metiub, nada mais os ver.

     – Excepto eu! –exclamou Nikola, aproximando-se ao polaco.

     – Por que motivo tu não?

     – Não vos lembrais da galeota, senhor?

     – Que pretendes fazer? –inquiriu Perpignano, que tinha ouvido suas palavras.

     –Confio em que as chispas atinjam até ela e a incendeiem, com o fim de evitar que os turcos se salvem e nos conduzam a Hussif.

     – És um bravo! –repôs o polaco.

     –Não vos inquieteis por mim. Na costa ver-nos-emos. Não me espanta nadar cinco milhas. No momento adequado desaparecerei.

     – A trabalhar nas bombas, cristãos! –ordenou por segunda vez Metiub. – Desejais que vos dê de latigazos?

     Os gregos, com Perpignano, o tio Stake e Simón, deram-se pressa em acatar aquela ordem.

     Enquanto Nikola, aproveitando a algarabía que imperaba na galera, regressou ao entrepuente, com a ideia, seguramente, de se arrojar ao água e chegar a nado até a galeota.

     O fogo, que encontrou um magnífico alimento nas sensatas embreadas e nas velas de reposto, em breves minutos adquiriu imensas proporções.

     Os turcos, que pareciam enloquecidos, corriam de um lugar a outro, chamando a Alá e ao Profeta, em vez de lutar contra o incêndio. Os gregos, conduzidos pelo tio Stake, precipitaram-se para as bombas. Mas quando tentaram as fazer funcionar observaram com horror que não soltavam nem uma gota de água.

     –Capitão –disse o tio Stake, detendo a Metiub, que passava junto a ele, –vossas bombas são inúteis.

     – Que é o que falas, cão cristão? –resmungou o turco.

     –Que conquanto não sou um cão, vossas bombas não soltam água, e vo-lo assegura um contramaestre da frota venezana.

   – Mas se fiz-as provar no outro dia!

     –Não sê que vos contestar. Mas o verdadeiro é que com isto não extinguireis o incêndio.

     Metiub lançou uma palabrota que não deveu de ser muito do agrado de Maomé.

     – Olhai as manivelas! –exclamou, voltando-se para seus oficiais.

     Dois ou três homens levaram a cabo o que se lhes ordenava e a seguir lançaram gritos de espanto:

     – As manivelas estão destroçadas! Não temos salvação!

     O tio Stake contemplou ao polaco, que era o único que no meio daquela confusão conservava sua serenidad, e advertiu nele um sorriso sardónica.

     «Compreendo –pensou o velho. – Foi ele quem efectuou o golpe! Imaginava que quem possuíam maior astúcia eram os gregos, mas pelo que vejo agora seus maestros são os polacos. A galera vai-se, e o melhor é afundá-la.»

     Quando se propagou a notícia de que as bombas estavam inservibles, os tripulantes, que ainda não tinham perdido as esperanças, formaram uma corrente para que os cubos passassem mais de pressa, e o água começou a correr em abundância no ponto onde o incêndio progredia de uma maneira terrível, devido aos barris de peixe amontoados no almacén.

     Com objecto de enganar melhor aos turcos e dissipar neles qualquer suspeita, os gregos e o tio Stake trabalhavam com energia, lançando água sobre aquela fogueira e arrostrando com bravura aquele torrente de chispas e fumaça que quase os afogava.

     Mas todos os esforços eram em vão, já que os fogos continuavam ampliando sua rádio de acção e ameaçavam consumir toda a popa do velero.

     Já saíam por entre as tabelas a meio carbonizar do capacete, passando pelos camarotes e derritiendo o alquitrão do revestimiento.

     O entrepuente e a batería achavam-se também invadidos pela fumaça. Os puntales se desplomaban um a um e o pau de mesana estava a arder.

     Metiub não desesperava ainda de poder salvar seu galera. Muito prudentemente tinha feito que inundassem a santabárbara, para impedir que ardesse a pólvora e, como medida de precaução, mandou lançar ao água as chalupas, com o objecto de que, em caso extremo, pudessem procurar refúgio na galeota.

     Toda a popa estava dominada pelo fogo e as chispas arrastadas pela brisa iam cair em grande número sobre a galeota, ameaçando com incendiar a arboladura.

     Isto era o que Nikola estava a aguardar. Nenhum podia suspeitar dele, já que, entre a confusão que imperaba a bordo da galera, não se tinha observado sua ausência.

     Tudo o tinha preparado para começar o incêndio ao instante, estendendo sobre coberta alquitrão, peixe e pólvora.

     Metiub, que se tinha dado conta de que já era inútil lutar contra o fogo, se dispunha a ordenar que se abandonasse a galera para procurar refúgio na galeota, quando gritos de espanto chegaram a seus ouvidos.

     – Incendiou-se! Incendiou-se!

     – Que? –exclamou Metiub, precipitando-se fosse da zona invadida pela fumaça.

     – A galeota! A galeota está a queimar-se!

     – Este é o final! –disse Metiub, encolerizado. – Assim o queria Alá! Estava escrito!

     No entanto não quis se dar por vencido.

     – Água, marinheiros, mais água! Não deve se deixar afundar a galera que me confiou a sobrinha do bajá! –gritó com grande energia. – Ainda há esperanças!

     Não obstante era necessário algo mais que cubos de água para extinguir o imponente incêndio que ameaçava com consumir a nave.

     Os fogos tinham penetrado através do solo da coberta, e incrementadas pela forte brisa que naquele momento soprava se ampliavam em cortina horizontal acima da toldilla.

     Um torrente de chispas e cinzas envolvia a galera e as explosões que se sucediam, provocadas pelos barris de peixe e alquitrão, arrojavam uma autêntica granizada de ardentes tizones contra turcos e cristãos.

     – Terminou-se! –exclamou o tio Stake, lançando fosse de si o cubo. – Se não escapámos em seguida, transformar-nos-emos em chuletas à brasa!

     – Estás seguro? –perguntou-lhe o polaco.

     – Chegou o momento, capitão! Se atrasámos-nos um instante mais afundar-se-á a toldilla sob nós, e em tal caso..., boas noites a todos!

     – Onde se encontra O-Kadur?

     –Junto ao vizconde.

     –Vou velar pela duquesa e o ferido.

     – Apressai-vos, senhor! O alquitrão invadi-lo-á tudo em seguida!

     Naquele instante chegava Metiub, seguido por vários tripulantes.

     – Assim que nos afundámos? –inquiriu o polaco, detendo-se.

     – A galera não tem salvação! –respondeu o turco, com um gesto desesperado.

     – Todos nos damos conta!

     –Atingiremos a costa com as chalupas.

     – Caberemos todos?

     –Parece-me que si. Ide salvar à senhora.

     – Agora vou! –respondeu o polaco.

     Cruzou à carreira a toldilla e dirigiu-se para a enfermaria enquanto os turcos lançavam-se sfaça as chalupas. O-Kadur preparava-se a tomar em seus braços ao vizconde ferido, quando surgiu o polaco.

     – Tem cuidado de tua senhora! –disse Laczinski. –Eu porei a salvo ao vizconde. Ajuda-me, tobib.

     – Abandonamos a galera? –inquiriu a duquesa, que parecia abatida pela dor.

     –Si, senhora. A toldilla está a ponto de desplomarse e os paus não resistirão muito tempo.

     – Que há de Perpignano, o tio Stake...?

     –Não sê onde se encontram. Em coberta há uma imensa confusão. Dêmos-nos pressa, senhora, se desejamos ter um posto nas chalupas!

     Cobriu com uma manta ao vizconde, que de novo se tinha desmaiado, lhe pegou entre seus fortes braços e foi por trás da duquesa, a quem O-Kadur conduzia em direcção ao entrepuente. O idoso médico seguia-os com o fim de preparar para o ferido um lugar numa das chalupas.

 

                   O ASSASSINO DO VIZCONDE LHE HUSSIÉRE

     Uma horrorosa confusão reinava na toldilla da galera. Em quanto Metiub deu ordem de pôr-se a salvo, os marinheiros tinham-se precipitado para borda-las para baixar as chalupas, livrando-se entre eles um terrível forcejeo para ocupar um lugar.

     Inutilmente Metiub e seus oficiais pretenderam normalizar a ocupação das chalupas. Já ninguém lhes escutava: a disciplina não imperaba na galera.

     O tio Stake, que já tinha suposto o que ia suceder e desejava guardar uma chalupa para a duquesa e o vizconde, estava asido a um rebenque e, firmemente ajudado por Perpignano, Leonor e os gregos, oferecia enérgica resistência.

     – Deixai esta embarcação para a senhora, bribones! –gritava. – Ninguém apoderar-se-á de ela! Ajudai-me, senhor Perpignano! Parti o morro a esses porcos!

     Um numeroso grupo de muçulmanos tinha-se precipitado sobre eles para se fazer com a chalupa, clamando:

     – Fora os giaurri! Lancemo-los ao água!

     Um turco arrojou-se sobre o tio Stake, tentando tirar-lhe o rebenque, mas o contramaestre mirou-lhe tão tremendo golpe no ventre, que o homem se desplomó meio morrido.

     Os gregos também descargaban ferozes golpes contra os turcos, anhelosos de poder resarcirse das humillaciones padecidas, até que Metiub, que estava interessado em proteger à duquesa, se precipitou sobre eles, fazendo assobiar a cimitarra acima da cabeça de seus marinheiros.

     – Fora de aqui, canallas! –exclamou. – Tenho de levar à jovem e aos cristãos a presença de Haradja e quero cumprir minha promessa! Apartai-vos ou meu cimitarra terá que verter sangue muçulmano!

     Naquele instante chegava a duquesa com O-Kadur e com eles o polaco e o médico, que transportavam ao vizconde.

   – Deixai passo! –gritou o árabe. – A senhora primeiro!

     Enquanto os gregos e Perpignano, com ajuda de Metiub, faziam retroceder aos turcos para deixar passo à duquesa, vários marinheiros que pretendiam eludir as chispas que se abatiam sobre eles se arrojaram sobre os cristãos, os separando.

     O polaco, que ainda não tinha atingido a borda, foi rodeado por eles e empurrado para estribor.

     – Esta é a ocasião! –murmurou. – Que Maomé ou o diabo me protejam!

     Ao não distinguir à duquesa nem aos venezianos, se voltou para o médico e lhe disse:

     – Põe-te a salvo e não te preocupes de mim! Eu cuidarei do ferido! Vê de pressa ou não acharás posto nas chalupas!

     E convencido de que não podia ser observado por causa da densa fumaça que o envolvia tudo, saltou pela borda de estribor com o vizconde entre seus braços e foi cair ao mar.

     Afundou-se, ocasionando um redemoinho, e quando voltou a surgir a flutue estava sozinho.

     – Que te pesquem agora! –susurró o miserável. – Afinal de contas era um homem perdido a quem esse néscio de tobib não tivesse podido curar!

     Pese a sua armadura e a sua espada, começou a nadar energicamente, passando sob a proa da galera.

     Tentava chegar até as chalupas, que naquele instante se dispunham a partir.

     Uma embarcação tripulada por uma meia dúzia de muçulmanos achava-se cerca dele.

     – Ajudai-me, marinheiros! –exclamou. – Não permitais que morra um capitão de jenízaros!

     –Já vamos demasiados –respondeu uma voz.

     – Detende-vos, miserávels, ou arrancarei vossas orelhas! Ainda tenho minha espada!

     – Ainda fica lugar! –disse outra voz. – Acerca-te, capitão!

     O polaco dirigiu-se para a embarcação e com a ajuda dos marinheiros subiu a ela.

     – Directos à costa! –indicou-lhes. – Tereis cinquenta cequins de recompensa!

     Pôs-se a popa, pegou a barra do timão e a ligeira embarcação avançou velozmente em direcção à ilha, que se encontrava a umas cinco ou seis milhas de distância.

     Transladando-se depois a proa, o polaco viu como a duquesa descia à chalupa ajudada por O-Kadur.

     – Os outros podem se abrasar! –comentou. – Eu tenho suficiente com que ela se salve! Rema! Não nos deixemos atingir ou afundar-nos-ão.

     A galera e a galeota queimavam-se igual que teas. O fogo chegava já até as arboladuras e as velas e os mastros ardiam, enchendo a toldilla de candentes restos.

     O forcejeo prosseguia entre os muçulmanos, que lutavam encarnizadamente por ocupar as chalupas. De vez em quando um homem caía ao água e surgiam horríveis alaridos no meio da fumaça e os fogos.

     Quando o vento dissipava por um momento a llameante cortina, se viam correr a tudo o longo das bordas bichas de marinheiros com as roupas ardendo.

     Um contramaestre de idade, de pé sobre a cruceta do pau maior e com o rosto tão pálido como o de um cadáver e os olhos dilatados pela demência, fazia gestos e repetia as famosas palavras de Selim I:

     – Este é o ardente sopro de minhas vítimas! Pressinto que destruirá ao Islão, a meu serrallo e a mim!

     A galera e a galeota ardiam já por completo. Arboladura, coberta e inclusive capacete tinham-se convertido em enormes e tétricas tochas.

     Com surdo fragor derrubavam-se os mastros, matando ou ferindo a numerosos guerreiros.

     Os canhões e as culebrinas eram engolidos pelo mar, alçando torbellinos de espuma, e o horroroso daquele espectáculo tornava-se maior ao escutar os lamentos dos feridos por causa dos abrasadores tizones.

     Todas as chalupas, cheias até as bordas, se tinham adentrado no mar, sem se ocupar dos marinheiros que seguiam a bordo da galera e que caíam em grande número, asfixiados como consequência do fogo ou feridos pelos golpes. O polaco, que observava detenidamente, distinguiu que a embarcação tripulada pela duquesa e os cristãos não era a mesma que a que ocupava Metiub.

     – Ter-me-ia agradado mais que esse maldito turco não tivesse podido abandonar os fogos! –masculló para sí. – Este homem pode fazer fracassar todos meus projectos! É o mesmo! Uma punhalada a traição no meio das costas pode desembarazarme desse impertinente! E, por outra parte, qualquer sabe! –agregou. –Posso encontrarem ele um aliado e...

     Interrompeu-lhe uma horrorosa explosão que repercutiu por longo tempo no mar.

     O polvorín da galeota acabava-se de incendiar e tinha estallado, afundando a nave, que se foi a pique com a popa para acima, mostrando ainda o bauprés e os foques.

     –Não demorará em ocorrer o mesmo com a outra –murmurou o polaco. – Valor, marinheiros! De aqui a meia hora encontrar-nos-emos na costa!

     Os turcos não precisavam que os alentassem.

     Por temor a ser atingidos por seus camaradas, muitos dos quais continuavam a nado, remavam com desesMas, avançando com extraordinária rapidez e passando a todas as chalupas, inclusive à da duquesa.

     Sobre as três da manhã o polaco e seus marinheiros atingiam a costa, num lugar onde se viam a escassa distância altas rochas que semejaban infranqueávels por causa de se achar quase cortadas a bico.

     – Disponhamos-nos a manter uma tremenda luta! –comentou o aventurero. – Como receberá a duquesa a nova com respeito à morte do vizconde? Crerá minhas palavras?

     Apesar de sua feroz ousadia, Laczinski tinha-se tornado lívido.

     As restantes chalupas iam atingindo a praia uma depois de outra. A da duquesa era a primeira. Detrás chegava a de Metiub, na que iam, ademais, dezoito marinheiros, e outras quatro, cheias por completo, vinham depois.

     – Se todas se tivessem afundado, menos a da duquesa, ter-me-ia comprazido grandemente! –disse Laczinski. – Não sei de que forma nem quando poderei me livrar desses cães turcos!

     A embarcação dos cristãos ficou varada a vinte passos. O aventurero aproximou-se com desconsolado aspecto e escurriéndose as roupas, que chorreaban água por todas partes.

     Leonor, que foi quem primeiro tocou terra, intuyó algum desastre.

     – Onde está o vizconde? –inquiriu.

     – Como! –exclamou o polaco, simulando achar-se surpreendido. – Não o temn transladado a vossa chalupa?

     – Quem?

     –Os turcos e o médico, a quem entreguei-o a seu cuidado quando se lançaram sobre mim quatro ou cinco marinheiros para lhe arrojar ao mar.

     – Deus meu! –exclamou titubeando a duquesa. – Não se encontrava com vos?

     –Si, senhora. Mas tive de lutar com o fim de impedir que aqueles canallas lhe matassem, e, como podereis ver pelo deplorável estado de minhas roupas, puderam comigo e me lançaram ao mar.

     – Então morreu! –gritou a infortunada mulher, desplomãodose nos braços de Perpignano, que se tinha aproximado em união do tio Stake.

     –Aguardemos às restantes chalupas, senhora –aconselhou o polaco. –Talvez chegue com Metiub.

     A duquesa não prestava atenção a suas palavras; a horrível notícia parecia ter-lhe ocasionado a morte.

     – A senhora vai morrer-se! –exclamou, assustado, Perpignano.

     – Não será mais que um desmaio! –disse o tio Stake.

     – Conduzi-a à chalupa! Rápido, tenente! Ajudai-a vos, O-Kadur!

     O árabe pegou à duquesa e dirigiu-se correndo para a chalupa, seguido pelo veneziano.

     O tio Stake ficou